Um elogio a reflexão

É sempre muito proveitoso ler boa filosofia, a despeito das inúmeras lendas acerca de sua complexidade e aparente inutilidade prática. Ademais, nunca é tarde para começar a pensar sobre si, a se aventurar nos reinos da própria alma, a se conhecer. Ou, como bem resumiu Epicuro:

Na juventude, não devemos hesitar em filosofar; na velhice, não devemos deixar de filosofar. Nunca é cedo nem tarde demais para cuidar da própria alma. Quem diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de filosofar, parece-se ao que diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de ser feliz.

Obviamente há que se ter em mente para que serve propriamente a filosofia. Em minha adolescência ela não foi ensinada no colégio, e portanto não servia para passar nas provas e tampouco no vestibular. Da mesma forma, o fato de alguém haver estudado filosofia não parece ser uma das prioridades das empresas na hora de analisar um currículo. Nesse sentido, é melhor aprender a programar, gerenciar ou até mesmo cozinhar. De fato, a filosofia não serve para passar em provas nem para se ter um bom salário.

No entanto, ela serve para se ter uma boa vida, uma vida com muito mais felicidades do que angústias, o que é fruto direto do contato e conhecimento de nossa própria alma. Não se deveria estudar filosofia somente para ter assuntos para conversar com este ou aquele intelectual de linguagem rebuscada, melhor seria evitar amizades deste tipo. A verdadeira filosofia não cria barreiras de linguagem entre as pessoas, todo verdadeiro filósofo é um apreciador da alma humana, pois é somente de lá que advém a sabedoria.

O Chefe Seattle, por exemplo, não sabia nada de física ou química, nem nunca leu nenhum clássico da literatura alemã ou russa. Mas todo filósofo saberá apreciar o seu quinhão de sabedoria, pois reconhecerá nela um pouco da água que flui da mesma fonte, na essência das almas, de todas as almas:

O Presidente em Washington diz que deseja comprar a nossa terra. Mas como pode comprar ou vender o céu, a terra? Essa ideia é estranha para nós. Cada parte dessa terra é sagrada para o meu povo. Cada agulha de pinheiro brilhante. Cada grão de areia da praia, cada névoa na floresta escura. Cada característica é sagrada na memória e na experiência do meu povo.

Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores são nossas irmãs. O urso, o veado, a grande águia são nossos irmãos. Cada reflexo na água cristalina dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. Sabemos que a terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida – ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo.

E foi necessário bem mais de um século para que o restante da humanidade se desse conta destas verdades. Ora, Epicuro e o Chefe Seattle nunca ouviram falar um do outro, mas certamente dariam excelentes amigos, pois ambos conheciam suas próprias almas de uma forma bem mais profunda do que a maioria de nós. A sabedoria, nesse sentido, é um dos nossos maiores tesouros, bem mais valiosa do que terras, petróleo, ou um cargo na diretoria de uma multinacional.

Amar a sabedoria, ser um filósofo, nesse sentido, é antes se preocupar em ser do que em ter. Antes se preocupar com as coisas naturais do que com as coisas superficiais. Mas no que exatamente a mera leitura dos clássicos poderá nos auxiliar? Em quase nada, se nos mantivermos apenas na leitura dos manuais de natação, sempre nos resguardando do mergulho. Por que deixar para amanhã a aventura que pode se iniciar neste momento?

Uma das máximas do estoicismo, por exemplo, é uma frase supreendentemente simples: “Preocupe-se apenas com aquilo que pode mudar”. Mas qual a utilidade em se ler e decorar tal máxima, quem sabe para passar nalguma prova estranha, ou talvez para recitá-la em meio a uma reunião de negócios, querendo passar a ideia de que é um intelectual?

Pois é, de nada adianta haver lido Epicteto ou Sêneca se você nunca exercitou esse amor a sabedoria, esse olhar para si, enfim, a reflexão. Somente pela reflexão em cima de tais palavras é que poderemos nos desligar um pouco das crises nos noticiários, e tratar de resolver as crises de nossa própria existência. Somente pela reflexão em cima de tais palavras é que podemos, quem sabe, sair de casa para dirigir nosso carro numa metrópole engarrafada tendo em mente que o trânsito estará lá, como sempre esteve, e não é xingando o motorista ao lado ou algum deus da fortuna que iremos chegar mais rapidamente ao nosso destino.

O nosso destino, afinal, sempre foi nossa própria alma. Viaje até a Índia, visite um vulcão na Islândia ou um cassino em Las Vegas, e não terá dado sequer um passo para além de sua alma, de sua essência. Há todo um mundo por lá – de fato, o único mundo que há.

E somos bombardeados constantemente por informações, anúncios, equações de lucros e perdas, número de mortos e feridos, placares de partidas e resultados de provas, e nada disso existe por si só, ou tem significado por si só: somos nós, em nós mesmos, quem interpretamos o mundo. Por que, então, se abster de mergulhar, por que viver a margem de nossa própria alma?

Seja na filosofia, na ciência, na religião ou até mesmo na poesia, a primeira coisa que o mergulhador aprende é que os manuais só nos servem para dar a coragem do primeiro mergulho, dos primeiros cem metros na trilha da floresta íntima, pois que o restante da aventura caberá somente a nós.

Neste caminho, entretanto, não temos somente a ajuda do relato daqueles que caminharam há séculos ou milênios atrás por essas mesmas trilhas, temos também a possibilidade de sermos auxiliados pelos que caminham ao mesmo tempo que nós. E a única coisa que eles lhe pedirão é que ajudem também aos que vêm atrás.

E é assim, é somente assim, de mãos dadas nesta jornada, que poderemos um dia alcançar a eternidade. Esta região onde residem todas as utopias e todas as promessas de um novo amanhã, de onde cintila a luz que não gera nem é gerada, e que existe e sempre existiu para ser refletida – um pensamento de cada vez.

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Crédito da imagem: Google Image Search (Epicuro)

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#epicuro #Filosofia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/um-elogio-a-reflex%C3%A3o

A Confraria dos Espelhos

Somente a visão da entrada da gruta lhe causava arrepios. Fazia anos, ou talvez vidas e eras, que ele não retornava aquele lugar, e no entanto a relva em seu entorno e até mesmo as pequenas pedras ainda lhe pareciam estranhamente familiares. A verdade é que nunca seria capaz de realmente esquecer, pois que foi naquela pequena fenda de montanha que ele finalmente abandonou as sombras da Caverna, e conheceu o Sol. O mesmo local ainda lhe trazia, ao mesmo tempo, toda a tristeza e toda a alegria do mundo.

“Não importa, eu vim aqui realizar a minha missão” – pensou, e logo após penetrou na escuridão…

Como seus olhos já não estavam mais habituados a enxergar nas sombras, empunhava a sua espada, a mesma com a qual desferiu o golpe mortal no Guardião da Passagem, e alcançou a liberdade. Hoje ela não era mais um instrumento de morte, mas um artefato mágico – uma espada que gerava a sua própria luz. Apesar de tênue e azulada, era esta a luz que permitia que ele pudesse se guiar terra adentro, rumo ao coração das sombras, há muito abandonado, mas que hoje era novamente o seu destino.

De vez em quando encontrava um ou outro andarilho escalador, desgastado e solitário, a gemer e choramingar pelo caminho. Isso lhe trazia de volta as emoções de outrora, todas as dúvidas e sofrimentos, todos os temores e descompassos da alma, que acreditara terem se aniquilado, mas que em verdade sempre estiveram ainda lá, nos porões do inconsciente.

“Anjo! Anjo! Me diga quanto falta, por favor!” – gritou um coitado desesperado a tatear, quase cego, o chão da caverna.

“Tenha perseverança, confie em si mesmo… Não há nada a temer nem a duvidar, há luz e amor em todo lugar, sempre houve e sempre haverá. Mesmo eu consegui chegar ao Alto, tenho certeza de que um dia também conseguirá.” – lhe respondeu, tentando escolher as melhores palavras que lhe vinham a mente naquele momento.

“Mas quanto falta? Quanto falta? Ora, me ajude, me ajude! Me disseram que vocês nos ajudariam ao final da subida…”

“Exato meu amigo, e é esta a minha missão atual. Mas de nada adiantaria eu lhe carregar para o Alto se você ainda não tem olhos para enxergar na Claridade. Eu apenas lhe tornaria cego. Confie em mim, em breve sua jornada se tornará mais fácil e menos sofrida, e todos os paradoxos serão reconciliados!”

E abandonou, com o coração doído, aquele ser que mais parecia um reflexo dele mesmo, há muito tempo atrás… “E, de certa forma, talvez todos sejamos reflexos uns dos outros” – pensou consigo mesmo enquanto a escuridão o abraçava cada vez mais…

Foi quando o ar já estava denso e úmido, e quando as paredes de pedra não mais lhe permitiam descer, que ele encontrou o sinal na parede rochosa. Era ali que ele deveria esperar o sinal das trombetas. Era quase insuportável permanecer naquela escuridão abafada, e a cada respiração seus pulmões ardiam com o ar fétido de desejos desenfreados, como espectros que pairavam por todos os recantos daquele mundo subterrâneo. Mas devia esperar, iria esperar – era esta a sua grande missão!

No cinto trazia uma pequena bolsa de pano contendo a relíquia que os seus irmãos da Confraria lhe haviam confiado. Ao sinal das trombetas, tudo o que deveria fazer era retirar o objeto da bolsa e apontá-lo em direção ao pequeno facho de luz que ainda insistia em penetrar o subterrâneo e vencer toda aquela escuridão. Não era uma luz qualquer, mas de uma frequência que somente os olhos mais treinados conseguiam perceber. Todos os longos anos que passou aprendendo com seus mestres na Confraria talvez pudessem mesmo se resumir a uma espécie de “educação dos olhos” para enxergar aquela luz…

Então, repentinamente as trombetas ecoaram fundo por toda a Caverna, e enquanto os andarilhos perdidos tapavam os ouvidos para se protegerem daquele som ensurdecedor, ele soube que era o momento: retirou o pequeno espelho do cinto e, o colocando ante o facho solar, pôde enfim vislumbrar a todos os seus outros irmãos da Confraria dos Espelhos posicionados noutras partes da Caverna, cada um refletindo a luz um do outro, de modo a iluminar toda aquela escuridão – como há muitas eras não se via!

E, ainda que por um breve momento, todos os andarilhos e todos os escravos de Abaixo puderam vislumbrar todas as matizes de cor das pinturas ancestrais que salpicavam por todos os cantos e paredes, mas que antes lhes passavam desapercebidas. E assim todas as grandes histórias, todos os grandes heróis de outrora e todos os mitos eternos foram uma vez mais vislumbrados.

Era assim, exatamente assim, que os seus irmãos faziam para trazer mais agentes para a Confraria. Muitos eram convocados e muitos ouviam as trombetas e vislumbravam as antigas pinturas e os símbolos das rochas, mas somente alguns tomavam coragem para prosseguir até o Alto. Não importa: passo a passo, eles ainda tinham todo o tempo do mundo…

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Crédito da foto: Stephen Alvarez/National Geographic Stock/Caters News

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#Contos #Espiritualidade

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Filhos do Sol

Linda C. Barlow

The Theosophical Forum – January 1936

Os pensadores sérios deste mundo me parecem homens pescando em um vasto tanque repleto de inúmeras variedades de peixes. Todo que consegue uma captura pensa que pegou a maior e sai para contar a todos sobre isso. O fato é que cada pescador na Piscina da Verdade usa uma isca diferente e pega um peixe diferente, e embora nenhum espécime seja representativo do todo, todas ainda tem um valor próprio e não deve ser desconsiderado. É esse pensamento, na mente de uma iniciante muito ignorante ainda pescando nas águas rasas, que é oferecida essa captura – um mero esgana-gata – para inspeção

Para começar, seria interessante saber quantos dos milhões de seres humanos vivos hoje acreditam verdadeiramente em qualquer existência consciente além desta vida na Terra. A maioria de nós não, até nos encontrarmos com a Teosofia. Seja o que for que professamos acreditar, agimos na maioria das vezes de acordo com o credo predominante da época, que é que esta vida é tudo. É um caso de ‘cada um por si, o tempo todo’. Diz Everyman: “Tudo termina com a morte de qualquer maneira, então o que importa?” Acreditamos no que podemos ver com os olhos, tinir nas palmas das mãos e bater os dedos dos pés. Acreditamos em agarrar tudo o que pudermos enquanto estamos aqui, pois depois da morte não há nada.

Essa doutrina leva à mesquinhez, à febre, ao zumbido perpétuo e à correria. É a doutrina do chamado ‘homem prático’, que ensina seus filhos a considerar todo o tempo perdido que não é gasto em atender com uma carranca de concentração ao negócio de ganhar dinheiro. À medida que saímos da infância, todos somos infectados por essa atitude em maior ou menor grau. Muitas pessoas estão perfeitamente satisfeitas com isso, e essas por enquanto se imaginam mais felizes – mas completamente drogadas com drogas materialistas – do que aquelas que se agitam inquietas durante o sono, perturbadas por vislumbres do infinito.

Gosto de pensar que estes últimos são a maioria: que são poucos os que não param em algum momento, sentindo-se abalados com a visão inesperada de algo belo. Pode ser qualquer coisa – o sol, a lua, o mar, uma árvore ou uma flor, ou mesmo um organismo tão microscópico quanto uma diatomácea. A beleza da Natureza é perturbadora porque é misteriosa. Ela sugere forças, leis e planos fora do alcance do ‘homem prático’ e o enche momentaneamente de dúvidas e apreensões quanto à adequação de sua doutrina. Ela puxa sua alma porque é semelhante à beleza escondida e inimaginável dentro de si mesmo: porque semelhante chama semelhante, e essa essência divina que alguns chamam de Centelha Divina, mas que eu prefiro chamar de Beleza Absoluta, flui através dos seres humanos em comum com tudo mais na Natureza. Há esperança de crescimento em um homem enquanto ele pode seja assim perturbado. Se ele não puder, ele está na melhor das hipóteses parado. Sua ganancia não tem tempo para considerar os lírios; o que equivale a dizer que ele não tem tempo para considerar a possibilidade de ter uma alma. Resta ao poeta muitas vezes desprezado dar expressão a esse sentimento avassalador de “algo além”, que é tudo o que as massas ignorantes conhecem de sua própria natureza interior divina.

Então, para os poucos afortunados, vem a Teosofia, como uma torrente de luz, como uma porta que se abre de repente para alguém que está espiando dolorosamente pelo buraco da fechadura. Somos ensinados que esta vida, longe de ser tudo, é apenas uma etapa muito pequena na peregrinação do homem interior em direção à perfeição. E que diferença isso faz! Os limites desaparecem; montanhas tornam-se montículos; o horizonte se alarga ao infinito. Começamos a adquirir um senso de proporção e somos capazes de parar e pensar, porque sabemos que, se todo o infinito é nosso, podemos nos dar ao luxo de fazê-lo. Temos tempo para relaxar – não pretendo, é claro, fugir de nossos deveres, mas relaxar da tensão do físico para a calma do espiritual, abrir as janelas da alma e deixar o ar mais fresco entrar. Sabemos que a morte não é o fim e, portanto, podemos nos dar ao luxo de parecer que estamos morrendo. Sabemos que, em última análise, não há injustiça e, portanto, podemos nos dar ao luxo de parecer enganados. Podemos ter pena do sono drogado dos materialistas e lutar pela paz interior daqueles Grandes Seres que ousaram tornar-se eles mesmos.

A dificuldade é lembrar o que somos. Somos príncipes disfarçados de camponeses; deuses em peles de animais; peregrinos com uma elevada responsabilidade de que nos devemos orgulhar. Estamos tão envolvidos com as coisas materiais que elas tendem a assumir uma importância muito grande. Poderíamos ter sempre em mente nossa grande herança; pudéssemos nos lembrar a cada minuto de cada dia que somos Filhos do Sol, trazendo dentro de nós a luz que é a verdade absoluta, então, embora Karman possa decretar que gastemos nosso tempo lubrificando motores ou descascando batatas, devemos automaticamente pensar e agir com aquela dignidade e sanidade que só são dignas do Eu Superior.

E como devemos lembrar? Devo dizer que mantendo a imaginação no viver, recusando-se a ficar obscuros, mantendo aquela amplitude triunfante de visão em que nos regozijávamos quando, como crianças, esperando todas as coisas e acreditando em todas as coisas, éramos capazes de ver beleza onde nossos mais velhos nada viam.

É essa consciência, esse tipo de clarividência domesticada, que estou pedindo: um senso perpétuo da grandeza das coisas; uma imaginação suficientemente ampla para atravessar o abismo entre ela e o invisível; amplo o suficiente para aceitar deuses e fadas, mistérios e milagres e magia; uma convicção inabalável de que a vida é, em última análise, bela e boa; e uma percepção de que, embora esta terra seja temporariamente nossa escola, o verdadeiro lar do espírito exilado está no coração do Infinito.

E se nos agarrarmos a isso com bastante firmeza, o que acontece com a morte? Torna-se tão simples como passar por uma porta. As lições escolares por enquanto acabaram, e o homem superior está destinado a férias e felicidade inimaginável

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/filhos-do-sol/

Para ser feliz (parte 3)

« continuando da parte 2 | ler do início

Quando um rio é muito jovem, de modo que ainda corre por rochas sólidas, pouco desgastadas por sua passagem, em seu rumo ao mar há muitos trechos que, antes córregos pacatos, logo viram excitantes corredeiras, de água turbulenta, ideais para serem descidas por aventureiros em seus botes!

Imagine que você é um deles, em seu bote magnífico, quicando pela superfície enquanto mal há tempo de desviar dos pedregulhos maiores com seu remo. Enquanto tudo vai bem, o caminho é deveras divertido e cheio de adrenalina, e decerto não há muito tempo para se pensar e refletir sobre outra coisa que não aquela corredeira serpenteando morro abaixo. Mas, e se o seu bote é finalmente vencido pelas pedras pontiagudas no leito do rio? E se ele simplesmente fura, e você é obrigado a encostar na margem?

Há muitos que, nos dias atuais, correm para fazer pequenos remendos nos furos que, exatamente por terem sido feitos as pressas, logo logo estouram de novo, de modo que a tão sonhada descida até o mar, que era para ser uma grande brincadeira, logo se torna algo cruel e dolorido, e as pedras pontiagudas do rio passam a furar não somente o bote, como o próprio navegante desavisado.

Para prosseguir nessa corredeira que serpenteia pela vida, é preciso conhecer a arte de se remendar botes. Ou, como bem explicou meu amigo Caciano Camilo Compostela, um monge rosacruz:

Cuidado, a tristeza é uma esfinge estranha… Se você lhe decifra os enigmas ela te abençoa, caso não, lhe arranca a cabeça! Não tema, seu objetivo é lhe apontar o vazio, conduzir a reflexão e ao aprofundamento. Se no lugar do questionamento, meditação e reencontro, optar por tapar o buraco em romances imaginários, compras desnecessárias, diversões frívolas ou vícios alucinantes em vã tentativa de fugir de si mesmo, cuidado, pois ela lhe penetra mais fundo, se alastra, domina e consome.

Desnecessário dizer que a arte de se remendar botes também tem muito do estoicismo do qual vínhamos falando: ora, aqueles que não consertam seus botes são ainda mais afetados pelas corredeiras, de modo que, além de não conseguirem se guiar da melhor forma pelas águas turbulentas, geralmente são dilacerados por muitas das pedras pontiagudas no caminho.

Já aqueles que passam, quem sabe, a noitinha remendando seus botes, têm a divina oportunidade de contemplar as estrelas, e ver a neblina passar, e ouvir os primeiros pássaros a cantarolar para a manhã, e assim, observando ao mundo a sua volta, e percebendo a si mesmos como parte dele, acabam por reconhecer esta verdade: que o mundo inteiro, assim como os botes e seus navegantes, corre morro abaixo, rumo ao mar.

E assim, aquele que compreende e aceita tamanho fluxo incomensurável de vidas e seres, aceita também que há diversas formas de descer o rio, e diversos formatos de botes e remos, e inúmeras técnicas de remendo, e é impossível saber ao certo qual caminho é o mais rápido, em qual nos machucaremos menos, em qual seremos mais felizes…

Dizem os ocultistas que é nosso dever encontrar nossa verdadeira vontade, e alcançar a grande realização da vida. Mas para ser feliz não faz sentido pensar nesta vontade como algo extremamente oculto, precioso e único, que uma vez desvelado, nos conduzirá a alguma espécie de “iluminação instantânea”.

Não, meus irmãos, para ser feliz é preciso reconhecer que a verdadeira vontade é mais como esta corredeira que temos descido há tanto custo. Pode ser que as águas tenham sido turbulentas no início da queda, mas é certo que em algum momento mesmo este rio raivoso irá encontrar as grandes vias que rumam para o oceano há milênios, onde os pedregulhos já se verteram em areia, e onde o curso segue mais como uma procissão sagrada do que uma aventura esportiva.

Assim, é bem provável que nós todos já estejamos a navegar por tal vontade, embora muitos a contra gosto, seja porque não se dedicaram a arte de se remendar botes, seja porque um dia acreditaram piamente que o rio poderia ser parado, represado com dogmas e ideias fossilizadas, para que então pudessem subir no alto de alguma pedra e bradar:

É aqui, chegamos ao Paraíso, podem abandonar seus botes!

Mas a ânsia da vida por si mesma é como a corredeira que vence qualquer represa. Quando pensamos que enfim havíamos descoberto um paraíso, quando optamos por encostar nas margens e simplesmente descansar, logo ficou claro que aquele charco não era o mar, não era o oceano, mas tão somente um pântano de vontades que se dissociaram da verdade.

É por isso que os grandes profetas não são como viajantes cansados que já desistiram de brincar em seus botes, mas antes como aqueles que caminham sobre as águas, rompem todas as represas, fendem os maiores pedregulhos, e sorridentes, ainda nos dizem:

Dia virá em que farão tudo o que tenho feito, e ainda muito mais, pois sois navegantes divinos!

No fim, só há uma vontade, e todas as demais se tornam verdadeiras na medida em que a espelham, a refratam e refletem adiante: há esta corredeira morro abaixo, e há o mar para onde tudo corre – um está a buscar o outro, e não há nada que possa realmente ficar por muito tempo em seu caminho.

» Em seguida encerramos com quatro poetas convidados…

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Crédito da imagem: ki-rafting.com

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#Felicidade #Ocultismo #VerdadeiraVontade

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/para-ser-feliz-parte-3

Karma e Linearidade

Um dos problemas centrais na busca espiritualista é a conciliação entre a crença intuitiva em uma Criação perfeita e o oceano de dúvida e dor que existe em nossa realidade cotidiana. Filosoficamente isso resulta em dezenas de especulações e interpretações que chegam até mesmo a negar a relação direta entre Criador e Criação (supondo que exista tal diferenciação) através de um personagem intermediário, o demiurgo gnóstico, que teria gerado o mundo corrupto que observamos.

Outra maneira de tentar conciliar essas percepções opostas é a concepção de um processo de causa e efeito tão natural e impessoal quanto a gravidade, que ajusta essas realidades aparentemente díspares. Enquanto a tradição ocidental, de raízes egípcias, fala em um julgamento final da alma humana, o oriente imagina um processo dinâmico e cotidiano, que dispensa júri e juiz (embora algumas linhas, como a teosofia, citem a figura dos Senhores do carma, essa personificação da lei não é a mais comum, mantendo seu caráter natural).

O quanto desse conceito é útil e o quanto é apenas uma fantasia egóica? Dando um passo atrás, pensemos a reencarnação e veremos o mesmo comportamento. De uma hipótese sistêmica muito interessante, ela passa a ser uma simples maneira de afagar o ego. Quantas princesas e generais não se redescobrem em centros espíritas e terapias de vidas passadas? Nunca a humanidade foi tão nobre quanto em suas pretensões…

Em sua interpretação tradicional, todo o mecanismo reencarnatório/cármico é tradicionalmente respaldado por um interpretação linear do tempo. Mas essa interpretação faz sentido de um ponto de vista do Self (vamos chamar assim uma possível dimensão maior do Ser) ou é apenas um ponto de vista raso do ego? A argentina Zulma Reyo, em seu livro Karma e Sexualidade faz uma representação interessante entre o que ela chama de tempo linear e o tempo concêntrico, a realidade vivida pelo Self. Ela considera a existência egóica, linear, como uma experiência do Self projetado na tridimensionalidade, a partir de condições absolutamente aleatórias. O mecanismo cármico existe apenas como elemento de aprendizagem dentro dessa única existência linear, não atuando como elemento de ajuste entre consecutivas experiências lineares. Do ponto de vista de uma Criação una, essa visão é absolutamente harmônica. Mas do ponto de vista do ego individualizado, a perspectiva de uma vida iniciada em condições aleatórias não difere em nada de uma visão absolutamente materialista.

A autora também define como elemento chave para entender o processo cármico aquilo que chamamos de forma-pensamento. É através dessas estruturas mentais/emocionais geradas e mantidas por nossos pensamentos e ações que se dá a atração das condições externas que caracterizam a relação de causa e efeito. E essas formas-pensamento seriam visíveis a médiuns treinados como aderências no campo causal. É praticamente a mesma interpretação, dita em termos atuais, do processo cármico tal como compreendido no Jainismo, uma das religiões mais antigas da India. Os janistas crêem que o carma é uma substância que se adere à alma, e essa quantidade e qualidade de substância aderida que define as condições atuais da vida do individuo. Essa substância pode ser eliminada através de jejuns e meditações.

Fica então a questão. É possível conciliar reencarnação, causa e efeito e uma existência não linear?

Texto fantástico do Andrei, do Anoitan.

#Budismo #Espiritismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/karma-e-linearidade

Fantasmas segundo o Espiritismo

Nas tradições das culturas primitivas e, contemporaneamente, para os teósofos, as aparições de fantasmas são, em geral, consideradas manifestações de seres atormentados; um evento nocivo para os vivos. A doutrina Espírita, porém, afirma que qualquer tipo de espírito, dos mais elevados aos mais grosseiros,  pode fazer-se visível ou presente através de ruídos, vozes ou movimentação de objetos. Os espíritos “do bem”, quando aparecem, têm objetivos nobres ou, no mínimo, justificáveis: consolar entes queridos que sofrem com a separação e com a dúvida sobre a continuidade da existência post-mortem; dar conselhos ou, ainda, pedir assistência para si mesmos, o que pode ser feito através de orações e boas ações, no sentido de corrigir ou compensar os malfeitos do morto. Mas os espíritos malvados também aparecem e estes, sim, têm o intuito de “assombrar” os encarnados movidos por sentimentos negativos.

Existem, ainda, assombrações que não se fazem visíveis; não pretendem perturbar ninguém mas são percebidas pelos sentidos das pessoas dotadas de mediunidade, consciente ou inconsciente. Estes mediuns involuntários, que fornecem ser perceber seu próprio ectoplasma para densificar a assombração, acabam vendo os espectros nos lugares ditos assombrados, onde tais espíritos vagueiam durante dias, meses, séculos, milênios até, psicologicamente aprisionados por não conseguirem superar o trauma de suas mortes violentas [magoados] ou apegados aos afetos, paixões e vícios cultivados em vida. São as sombras que habitam os famosos castelos europeus e os cemitérios; que conduzem os navios-fantasma, almas penadas das estradas e edificações, em ruínas ou não, que foram cenário de acidentes trágicos.

O Espiritismo Kardecista surgiu na Europa no século XIX proclamando-se como Terceira Revelação [a primeira, foi o judaísmo de Abraão e Moisés, a Segunda o Cristianismo], realização da promessa de Cristo de enviar o “Espírito da Verdade”; e a “Verdade” Espírita mostrou-se repleta de fantasmas numa época em que as aparições e os fenômenos das “mesas girantes” eram moda na Europa e a evocação dos mortos, brincadeira de salão. Em 1851, na França, Alan Kardec [1804-1869] publicou o Livro dos Espíritos sistematizando uma doutrina que buscava explicar o destino do indivíduo após a morte:

Durante a vida, o Espírito está ligado ao corpo pelo seu envoltório material, o perispírito… que se separa do corpo quando cessa a vida orgânica. …No instante da morte o desprendimento do Espírito não se completa subitamente; ele se opera gradualmente… Para uns é bastante rápido… Noutros, porém, sobretudo naqueles cuja vida foi toda material e sensual, o desprendimento é muito mais demorado, e dura às vezes alguns dias, semanas e até meses e anos. …É lógico admitir que quanto mais o Espírito estiver identificado com a matéria, mais sofrerá ao separar-se dela. …Nas mortes violentas, por suicídio, suplício, acidente, apoplexia, ferimentos etc., o Espírito é surpreendido, espanta-se, não acredita que esteja morto e sustenta teimosamente que não morreu” [KARDEC, 2006].

Os Espíritas acreditam que o mundo está cheio de fantasmas que tudo vêem sem serem vistos: “pois estais incessantemente rodeados por eles… e quando vos julgais bem escondidos, tendes muitas vezes ao vosso lado uma multidão de espíritos…” ─ o que é muito constrangedor em termos de privacidade.

O “medo de fantasma é uma atitude irracional produzida pela ignorância, desconhecimento sobre a natureza dos espíritos. Sobre as aparições, consta no Livro dos Mediuns que “são muito mais freqüentes do que se pensa” e a preferência dos fantasmas pelas horas noturnas é um mito e um engano. Ocorre, simplesmente, que a substância dos fantasmas é mais perceptível, a olho nu, à noite, tal como acontece com as estrelas.A claridade ofusca a luminescência sutil que caracteriza todos os espíritos. [Porque, objetivamente, os espíritos são feitos de uma energia semelhante à luz e o perispírito não é fosco, ao contrário, é dotado de suficiente transparência para deixar passar essa verdade ontológica de que, em última instância, o espírito é luz].

As assombrações são espíritos que não conseguiram se desligar de certas pessoas, coisas ou lugares. a regularidade das manifestações torna esses espíritos conhecidos [dos vivos] e até famosos, enquanto a maioria circula anônima e invisível. Existem assombrações completamente inocentes, que não pretendem assustar ninguém. As vezes trata-se apenas de uma afeição um tanto piegas por um lugar. Outras, porém, são espíritos realmente “carregados”. Não conseguem sair de uma casa, uma estrada, um cemitério, ou e”encontram em uma pessoa, ou seguem para onde quer que vá, um retrato, uma jóia, uma canastra de moedas: “Os avarentos, por exemplo, que viveram escondendo e viveram escondendo suas riquezas, podem ainda espreitá-las e guardá-las. Rancorosas, tais assombrações remoem lembranças, vinganças, ódio e remorsos.

São espíritos que tem sempre as tragédias da vida e da morte diante dos olhos. Uma assombração, no âmago de sua essência, é a manifestação de uma péssima “idéia fixa”. E para “expulsar” as assombrações, os espíritas desaconselham o espetáculo dantesco que qualquer ritual e recomendam fazer o bem, ser bom, ser zen, porque no universo subjetivo e subatômico da realidade metafísica, não são os opostos que se atraem; ao contrário, os semelhantes se aproximam. O bem atrai o bem, o mal atrai o mal. [Observemos a unidade da substância pura: é constituída de átomos de um só elemento. Meditemos…]

por Ligia Cabús

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/fantasmas-segundo-o-espiritismo/

Dois Caminhos

Por Gilberto Antônio Silva

Ao entrarmos em uma seção de “filosofia oriental”, ou como geralmente se encontra, “esoterismo” e “auto-ajuda”, seja em uma biblioteca, livraria ou sebo, nos deparamos com uma infinidade de obras que mostram caminhos para o ser humano se conhecer e viver melhor, com mais “espiritualidade”. Isto causa uma certa confusão na pessoa que busca este tipo de conhecimento. Afinal, qual caminho devo escolher dentre esta miríade de escolas, linhas, culturas, filosofias, religiões?

Para ajudar a selecionar o que é melhor para você mesmo, mostrarei que praticamente todo este conhecimento se divide em dois caminhos principais que levam à “Iluminação”: a sabedoria e a devoção.

Estes dois caminhos são tratados por todas as grandes culturas do mundo, seja de modo claro, seja de modo disfarçado. Para os indianos os dois caminhos principais são o Jnana, sabedoria, e o Bhakti, devoção. No Taoismo temos o Daojia (taoismo filosófico) e o Daojiao (taoismo religioso). Qualquer um destes dois caminhos pode ser a escolha principal de cada pessoa, de acordo com sua constituição e necessidade espiritual. Existe um debate dentro do Taoismo, onde muitos afirmam que não existe essa separação, religião e filosofia são uma coisa só. Eu concordo, em parte. Filosofia e religião não são uma mesma coisa, simplesmente, mas ênfases diferentes em um mesmo caminho. Uma pessoa que siga um dos ramos não é melhor nem pior que outra que se sinta amparado pela outra via, pois ambas levam ao mesmo destino. Mas é inegável que existe uma atitude diferente às duas trilhas.

A sabedoria é o caminho dos filósofos, daqueles que não abrem mão do raciocínio lógico. Para estes um bom livro e uma boa reflexão são as melhores ferramentas para a evolução espiritual. Compreender como o Universo funciona é seu principal estímulo. Santos e deuses são secundários em sua busca, pelo menos até um determinado nível de compreensão. Não é necessário participar de alguma linha específica de pensamento.

A devoção é o caminho dos crentes, daqueles que procuram a experiência arrebatadora da fé como princípio de espiritualidade. Para estes, acender uma vela e fazer uma oração são as melhores ferramentas para evoluir. Sentir a presença de um Ser Superior e estar integrado às forças do Universo é seu principal estímulo. A mera abstração lógica carece de interesse em contraste com o colorido dos estados alterados de consciência causados pela experiência religiosa, até um certo nível de compreensão. Aqui também não é necessário participar de alguma religião estabelecida.

Quando corretamente orientados, ambos os caminhos conduzem ao mesmo destino, pois se encontram em um dado momento. Portanto não existe necessariamente um correto e outro errado, mas sim o mais adequado a cada pessoa. Ela possui grande fé ou descrença nas Forças Superiores? Possui um raciocínio afiado e grande intelectualidade ou prefere experimentar sensações? Veja que optar por um dos caminhos é questão de escolha pessoal, com base em suas aptidões naturais. E essa opção pode ser reconsiderada a qualquer momento. Pode, inclusive, optar por estabelecer um equilíbrio entre ambas, ciente de que são partes integrantes da mesma Verdade.

No Taoismo, propriamente dito, existe uma convergência de interesses. Várias práticas são utilizadas por ambas as vias, como meditação e qigong, além de manterem profundo respeito pelo Universo e suas manifestações, sejam do mundo visível ou do invisível. A diferença, noto novamente, fica apenas na ênfase. Isso deixa o praticante bastante à vontade para perambular pelos meandros do Tao, da maneira como for melhor para sua compreensão. Sempre me refiro ao Taoismo como “a filosofia espiritualista da liberdade”.

Note que possuir um raciocínio lógico não significa ser um cético incurável, nem possuir um profundo sentimento religioso significa ser um místico fanático. Ambos são extremos que devem ser evitados, pois não conduzem a nada que seja útil. Apenas distorcem sua percepção, envenenam seu espírito e o direcionam contra outras pessoas.

E você? Procure descobrir suas características pessoais e se aprofunde no seu próprio caminho. Sem medo e sem culpa.

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Gilberto Antônio Silva é Parapsicólogo, Terapeuta e Jornalista. Como Taoista, atua amplamente na pesquisa e divulgação desta fantástica cultura chinesa através de cursos, palestras e artigos. É autor de 14 livros, a maioria sobre cultura oriental e Taoismo. Sites: www.taoismo.org e www.laoshan.com.br

#Tao

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Fantasmas segundo a Bíblia

A crença nos fantasmas remonta a épocas muito recuadas porém foi o advento da escrita que produziu os documentos mais consistentes. A Bíblia se refere à conjuração de fantasmas no Livro dos Reis: Saul, primeiro rei de Israel, recorreu à bruxa de Endor, quando desejou consultar o espírito do profeta Samuel a respeito da conveniência de uma guerra:

“Por aqueles tempos, os filisteus mobilizaram suas tropas em um só exército para combater contra Israel… Samuel tinha falecido… E Saul expulsara da terra os necromantes, feiticeiros e adivinhos… Ao ver o acampamento dos filisteus, Saul inquietou-se e teve grande medo. E consultou o Senhor, o qual não lhe respondeu nem por sonhos, nem pelo urim*, nem pelos profetas. O rei disse a seus servos: “Procurai-me uma necromante para que eu a consulte” ─ Há uma em Endor”, responderam-lhe. Saul disfarçou-se, tomou outras vestes e pôs-se a caminho com dois homens.

Chegaram à noite na casa da mulher. Saul disse-lhe: “Predize-me o futuro, evocando um morto; faze-me vir aquele que eu te designar”… Disse-lhe então a mulher: “A quem evocarei?” ─ “Evoca-me Samuel”. E a mulher, tendo visto Samuel, soltou um grande grito… disse ela ao rei: “Tu és Saul!” E o rei: “Não temas! Que vês? ─ A mulher: “Vejo um deus que sobe à terra” ─ Qual é o seu aspecto?” ─ “É um ancião, envolto em um manto”. Saul compreendeu que era Samuel, e prostrou-se com o rosto por terra. Samuel disse ao rei: “Por quê me incomodaste, fazendo-me subir até aqui?” [BÍBLIA SAGRADA ─ Reis: Samuel I, 28]

* Urim e Tumim [do hebraico אורים ותמים luzes e perfeições] é o nome dado ao processo [pelo Urim e Tumim] e aos instrumentos de adivinhação utilizados pelos antigos israelitas para descobrir a vontade de Deus sobre determinado evento [WIKIPEDIA].

Como se vê, a evocação dos mortos na Antiguidade, foi condenada. Era a sessão espírita daqueles tempos. Ainda assim, o rei apelou para este expediente, sair disfarçado, sendo que ele mesmo havia proscrito seus praticantes. Note-se, também, que o fantasma não gostou de ser evocado, considerando-se incomodado e refere-se ao fato de “subir até aqui”, indicando que não veio do céu, mas de algum lugar abaixo da terra. Onde, afinal, estava o fantasma de Samuel? Meditemos…

por Ligia Cabús

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/fantasmas-segundo-a-biblia/

As lições da ciência

Quando eu debatia em comunidades online onde haviam embates homéricos entre céticos e espiritualistas, acabava por confundir a ambos quando tocava em assuntos científicos. Para os últimos, a ciência geralmente não despertava muito interesse, pois raramente a analisavam sob o ponto de vista espiritual; Para os primeiros, era tão estranho que um espiritualista estivesse citando Carl Sagan e Richard Feynman, que alguns pensavam se tratar de um cientista “brincando” de ser espiritualista – um “místico fake”. Obviamente, eles estavam mesmo confusos…

Podem nunca haver lhe contado na escola, mas nem sempre a espiritualidade esteve dissociada da ciência. Porém, nesta ciência de hoje, interpretada apenas como um conhecimento estritamente objetivo da realidade detectável, apenas um método sem nenhuma relação com qualquer espécie de ideologia ou filosofia, restou muito pouco da ciência antiga, a filosofia da Natureza, o conhecimento da physis.

Os sábios antigos chamavam Natureza à realidade primeira e fundamental de todas as coisas, a essência em torno da qual gira tudo o que é transitório: “A noite segue o dia. As estações do ano sucedem-se uma à outra. As plantas e os animais nascem, crescem e morrem. Diante desse espetáculo cotidiano da natureza, o homem manifesta sentimentos variados – medo, resignação, incompreensão, admiração e perplexidade. E são precisamente esses sentimentos que acabam por levá-lo à filosofia. O espanto inicial traduz-se em perguntas intrigantes: O que é essa physis, que apresenta tantas variações? Ela possui uma ordem ou é um caos sem nexo?”.

Eis que os cientistas nem sempre foram chamados de doutores. Também já atenderam por naturalistas, filósofos, sábios, alquimistas, astrólogos, druidas, ocultistas, etc. Portanto, imaginar que a vivência da ciência moderna deveria estar totalmente desconexa da espiritualidade é, antes de tudo, uma ignorância da história do pensamento humano. Uma ignorância de tantos e tantos que vieram antes de nós, e fizeram as mesmas perguntas ao céu noturno salpicado de estrelas. E, como o Cosmos não respondeu de volta tal qual um deus lendário, foram obrigados a arregaçar suas mangas e buscar pelas respostas eles mesmos. É precisamente da atitude desses cientistas – os de outrora e os de hoje – que podemos tirar preciosas lições:

A Natureza fala por si

Talvez a qualidade mais notável de todo verdadeiro cientista seja esse tal contentamento, esta real aceitação, este estoicismo perante o que a physis realmente é, e não o que gostaríamos que fosse. Feynman dizia que a imaginação da Natureza é muito, muito maior do que a nossa: ela jamais nos deixará relaxar. Sempre haverá, para o real buscador, mais uma galáxia oculta atrás de um grande conglomerado, mais uma partícula oculta nalgum nível de energia ainda indetectável pelo nosso mais avançado instrumento, mais uma lei natural oculta de nossa mais simples e elegante equação, mais um tanto do Cosmos que jamais alcançamos com nossa luz: não fomos capazes de ver sua escuridão antes que a luz fosse acesa.

Nós podemos estar errados

Outra lição é esta, tão simples, e tão essencial: podemos, sim, estar errados, e geralmente estamos. Os atomistas acreditavam que a matéria era feita de pequenas partes dos elementos que sustentavam todo o Cosmos – Hoje sabemos que átomos e quarks não são formados pelo fogo, ou a água, ou a terra, ou o ar [1]… Mas foram dos erros passados que vieram novos acertos; acertos esses que podem também se comprovar como erros no futuro. O que importa, portanto, é que hoje conhecemos um pouco mais da physis do que ontem, e amanhã conheceremos ainda um pouco mais do que hoje. Mas, decerto não existe um conhecimento infalível, uma verdade derradeira, ou pelo menos ainda estamos num nível de consciência muito distante dela. Admitir que podemos estar errados é o melhor caminho para que prossigamos adiante no fluxo deste rio sagrado, sem jamais ficarmos uma vez mais aprisionados, represados pelo dogma.

O conhecimento é uma conquista

Ainda que a Verdade pudesse realmente nos ser revelada em antigos livros escritos sob inspiração divina, não significa que tivemos a capacidade de interpretá-la. Ainda que a inspiração tenha sido uma ponte direta para os segredos mais ocultos do Cosmos, e ainda que a informação escrita tenha passada ilesa por séculos de guerras de interesses e traduções de cada época, ainda assim tudo o que temos são palavras, linguagem, símbolos de gramática que já provaram serem incapazes de traduzir tudo o que é sentido e experimentado em uma verdadeira experiência mística – por isso muitos grandes sábios jamais escreveram coisa alguma, pois eles sabiam que cascas de sentimento não fariam jus à sacralidade da experiência.

O conhecimento, portanto, é e sempre foi uma conquista. E muitos cientistas têm nos auxiliado em conhecer a physis de fora, mas nenhum, absolutamente nenhum deles, poderá realizar por nós uma conquista que foi profetizada e ofertada pelo próprio Deus: mergulhar em si mesma, isto apenas a própria alma poderá realizar.

De pé sobre o ombro de gigantes

Foi o próprio Isaac Newton quem confessou que se havia visto mais longe do que os demais, foi por ter estado em pé sobre o ombro dos gigantes de outrora. A beleza da ciência é que, desde que não tenha sido queimado por bárbaros ou eclesiásticos coléricos, seu conhecimento armazenado, em livros e outros artefatos, por toda a história da humanidade, está ainda situado nos alicerces da torre pela qual podemos observar o Cosmos cada vez mais de perto… Ao contrário do que disseram os supersticiosos, nenhum deus raivoso desceu dos céus para nos punir por nossa ousadia: continuaremos a construir torres de Babel e abrir tantas quantas foram às caixas de Pandora encontradas. Foi graças a Prometeu, que roubou o fogo dos deuses, que chegamos onde chegamos: ele foi apenas o primeiro gigante, o primeiro titã.

Mas, ao contrário do que o mito possa te levar a pensar, os deuses não se chatearam conosco – aquilo foi pura encenação. Puro teatro, para que pudéssemos assim, uns auxiliando aos outros, numa colaboração digna dos maiores exércitos do Céu, marchar para cada vez mais perto da montanha sagrada… E, quando lá chegarmos, quem sabe não possamos acender a pira do salão de Zeus, e realizarmos por lá uma grande festa – na qual mesmo os gigantes estarão convidados.

Não há elite

Na ciência genuína, todos tem a oportunidade de colaborar: não importa onde nasceram, sua cor de pele, seu sexo – desde que possam pensar, podem auxiliar nossa ciência.

Apesar de ainda haverem os “donos da verdade”, aqueles ignorantes que pensam poder determinar quem pode ou não pode falar em nome da ciência, a verdade é que não há elite na physis: assim como somente os peixes podem nos falar do mar profundo, somente os pássaros podem nos falar do céu, e os morcegos da escuridão das cavernas. Apenas assim, juntos, podemos ter alguma esperança de conhecer a Natureza sob todos os pontos de vista.

Até onde a luz pode chegar

Muitas das ideias mais místicas que fomos capazes de um dia conceber hoje estão sendo melhor desenvolvidas, e comprovadas, na cosmologia, e não mais na religião. Sabemos hoje que tudo o que há neste universo surgiu de uma singularidade, um ponto, um grão de milho que, nos primeiros momentos, englobava todo o espaço-tempo – e não havia nada “do lado de fora”, pois o tecido do espaço-tempo é tudo o que há. Sabemos também que a velocidade da luz tem um limite, e que provavelmente nada no universo o possa ultrapassar… Há não ser o próprio tecido espaço-temporal, em seu berço de crescimento inflacionário, quando venceu a própria luz. Eis que, dessa forma, existem espaços deste universo que jamais poderão ser conhecidos, espaços onde nenhuma luz poderá um dia sair, ou chegar. Essa ideia de Infinito é suficientemente mística para você?

Poeira de estrelas

Ao observar o pequenino e pálido ponto azul, flutuando numa nuvem de gás sideral, parte de uma das fotos da sonda espacial Voyager I, Carl Sagan prontamente identificou: aquele ponto era a Terra, toda a Terra! Mas, a despeito da beleza de suas reflexões acerca desta imagem, há ainda algo mais belo e profundo sobre o que pensar: não apenas nosso planeta é apenas um grão de poeira na Via Láctea, nós mesmos somos formados por elementos pesados que só podem ser gerados nas fornalhas estelares. Nós somos, realmente, não somente os filhos das estrelas – nós somos formados por partes delas.

Atomicamente, somos formados pela mesma divina poeira que forma todas as outras substâncias cósmicas. Mergulhada no oceano, toda poeira é também uma parte do mar…

Conhecer a si mesmo

E foi exatamente aqui, este pequeno ponto azul em meio a escuridão infindável do oceano da noite, que despertamos pela primeira vez e dissemos: “nós aqui também existimos, também somos da raça dos deuses!”.

Não se sabe se existem outros como nós, mas provavelmente existem, e aos montes… Seja neste pequeno planeta, ou na infinidade de moradas da casa cósmica, nós parecemos ser um espécie de imagem espelhada, de semelhança, uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo.

E, nesta tal aventura do conhecimento, nesta tal jornada para sondarmos a inconcebível natureza da Natureza, podemos navegar tanto acima quanto abaixo – tanto faz, uma parte é apenas o espelho da outra.

raph’12

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[1] Pelo menos não da forma literal como tais elementos são compreendidos. Como símbolos, no entanto, foram, e ainda são, poderosos aliados para nossa compreensão da physis.

Crédito das imagens: [topo] APOD (telescópios em Atacama/Chile); [ao longo] APOD (lua cheia em Paris/França)

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

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#Ciência #Espiritualidade #natureza

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Fantasmas no Estados Unidos da América

Os norte-americanos são, quantitativamente, ainda mais assombrados que os ingleses e todos os países da Europa ocidental juntos. No vasto território dos Estados Unidos, do Texas ao Alaska, no continente, do México ao Canadá, em toda essa região são milhares de histórias de fantasmas, tanto nas grandes metrópoles quanto nas cidade mais remotas do interior. Na América do norte, desde o período da colonização e exploração das fronteiras do Novo Mundo, reuniram-se crenças tradicionais de três culturas; anglo-saxões, indígenas nativos, negros e, ainda, o traço ibérico nos territórios que um dia foram dos espanhóis.

A conquista do oeste, a febre do ouro, a epopéia das caravanas de colonizadores e dos aventureiros solitários, deixaram inúmeras almas penadas, muitos das quais, protagonistas de sangrentos confrontos e outros episódios dramáticos. Na América, não faltam fantasmas de todas as épocas assombrando casas, apartamentos, monumentos, cemitérios, presídios, desertos, estradas, vales sinistros, cidades inteiras e, naturalmente, nos Estados Unidos, os Hotéis e mansões de Hollywood. Porque aquele país, com seu histórico de grandeza, tem também grandiosos fantasmas, verdadeiras lendas da cultura popular mundial. São VIP-ghosts…

O Fantasma de Abraham Lincoln:
fantasmas de presidentes dos Estados Unidos assombram a Casa Branca. O mais notável deles é Abraham Lincoln [1809-1865], que morreu assassinado. Outros ocupantes da Casa Branca, como Theodore Roosevelt, Herbert Hoover e Harry Truman, que disseram ter escutado pancadas inexplicáveis nas portas de seus quartos, atribuíram o fenômeno ao espectro do lendário presidente. Ele também faz aparições na janela do Salão Oval. Franklin Delano Roosevelt afirmava ter encontrado o fantasma várias vezes e sua esposa declarou que se sentia observada quando trabalhava no quarto que pertenceu ao presidente; ela usava o aposento como escritório. Uma empregada disse que viu Lincoln sentado na cama. Visitantes ilustres também encontraram o fantasma, como Winston Chruchil, durante a Segunda Guerra Mundial. Maureen Regan, filha de Ronald Regan declarou ter visto Lincoln várias vezes e o cachorro de Regan se recusava entrar a entrar no quarto dele. Lincoln também apareceu no balcão do Teatro Ford junto com o fantasma do homem que atirou nele, Jonh Wilkes Booth e costuma freqüentar o local onde está enterrado.

Nova Iorque: quase um sinônimo de modernidade, a Meca da civilização, é assombrada. Segundo o pesquisador de fenômenos paranormais Loyd Auerbach, a metrópole tem mais fantasmas que qualquer outra cidade norte-americana; espíritos habitam os velhos edifícios e lugares históricos. A Poe House, localizada na West Third Street, 83, onde morou Edgar Alan Poe, é assombrada por pelo espectro de uma mulher insana; na mesma rua, o Quantum Leap Café, abriga a alma penada de Aaron Burr, que vivia metido em duelos e morreu baleado; e no posto dos Bombeiros nº 2, existe um bombeiro suicida: traído pela mulher, não teve descanso post mortem e ocupa o quarto andar da construção centenária.

Na Water Street, 279, o Bridge Cafe, que existe desde 1794, considerado o mais antigo bar de Nova Iorque, é assombrado por piratas. No Belasco Theatre, David Belasco, que construiu o prédio, que morava em um apartamento no último andar e morreu em 1931 ainda está lá. O Manhattan Bistro [129, spring Street] abriga o espírito de Elma Sands, assassinada em 1799. No cemitério da capela de St. Paul o espírito do ator inglês George Frederick Cooke, morto em 1811, é a estrela do local: ele foi enterrado sem a cabeça, doada para pagar a conta do médico e o crânio foi usado em inúmeras montagens de Hamlet. No Central Park, nas proximidades do edifício Dakota, o fantasma de John Lennon permanece errante desde o seu assassinato, em 1980. Mark Tawain, escritor norte-americano [autor do clássico Tom Sawyer], morou um ano em Nova Iorque, entre 1900 e 1901, na 14 West 10th Street, próximo à Quinta Avenida. Hoje, assombra as escadarias do velho edifício.

Marilyn Monroe: diva do cinema dos anos de 1950 que se tornou um arquétipo global do sex appeal, morreu de forma trágica, daquelas que chocam o mundo. Morte do tipo que até hoje anda envolta naquela atmosfera de conspiração, típica do imaginário norte-americano. Teria Marilyn morrido por acidente ou o “acidente” foi providenciado por “forças ocultas” de Washington preocupadas com o rumo do romance secreto, ou mesmo triângulo amoroso, envolvendo a loura, o presidente dos Estados Unidos, John Kennedy e seu irmão, senador Robert Kennedy. Na noite de 04 de agosto de 1962, Marilyn entrou em coma por overdose de pílulas para dormir. No dia seguinte, estava morta.

Este espírito reúne todas as qualidades e circunstâncias para ter se tornado um fantasma. Morte por suicídio, involuntário ou não; ou mesmo morte por assassinato, pior ainda [ou melhor ainda para esta reflexão]. Para completar, o estado de ânimo deprimido da estrela, ou seja, Marylin era, já em vida, um espírito atormentado. Morreu antes da hora e, em qualquer caso, morreu do tipo de morte que gera uma alma penada.

E assim foi e é: o fantasma de Marilyn já tem uma literatura de registro. Ela assombra, por exemplo, o Hollywood Roosevelt Hotel, no Holywood Boulevard. Ali começou sua escalada para o sucesso nacional e mundial. Ali ela encontra outro fantasma famoso, Montgomery Cliff. Também é vista flutuando sobre a própria sepultura, no Westwood Memorial Cemetery, em Los Angeles, Califórnia. Porém, o fantasma é mais “ativo” no lugar onde ela morreu, em Brentwood, Califórnia.

Elvis Presley [1935-1977]: este é outro que assombra os lugares onde viveu seus dias de glória e de crise, como a crise existencial que o levou à morte, também entupido de bolinhas [como Marilyn]. Aparece em sua casa de Memphis, no Tennesse, e suas lantejoulas brancas são vistas no Las Vegas Hilton onde se apresentou muitas vezes no começo dos anos de 1970. Assombra o prédio onde ficava o estúdio da RCA. O lugar hoje abriga um estúdio de produção de TV que produz programas relacionados à música. Diz a lenda que, nesse estúdio,  toda vez que se pronuncia o nome de Elvis, coisas estranhas acontecem: escadas caem, lâmpadas estouram e aparecem ruídos nos sistemas de som.

Rodolfo Valentino [1895-1926]: o maior ídolo romântico da época do cinema mudo, morreu aos 31 anos de complicações em uma úlcera. Logo, começou sua carreira de assombração: é um dos fantasmas mais ativos de Hollywood. Aparece muito em sua mansão, a
Falcons’ Lair, onde é visto nos corredores, em sua cama, na janela do quarto no segundo andar e no estábulo. Uma empregado, depois de ver o fantasma acariciando o cavalo que fora seu favorito, demitiu-se do emprego. Ele também visita sua casa de praia em Oxnard: ali bate nas portas ou relembra os velhos tempos reclinado na cama. Na seção de figurinos dos estúdios da Paramount, ele flutua, cintilante, usando a roupa do Sheik, seu personagem de maior sucesso [em The Sheik, 1921] e como boa assombração, freqüenta, também, o próprio túmulo, no Cathedral Mausoleum, no Hollywood Forever Memorial Park.

por Ligia Cabús

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