Carta de Pedro a Felipe

A carta de Pedro que ele enviou a Felipe

“De Pedro, o apóstolo de Jesus Cristo, para Felipe, nosso irmão querido e nosso companheiro apóstolo, e aos irmãos que estão contigo: saudações!

Agora eu quero que você saiba, nosso irmão, que nós recebemos solicitações do nosso Senhor e Salvador de todo o mundo, que nós devemos nos unir para passar instruções e proclamar a salvação que nos foi prometida pelo nosso Senhor Jesus Cristo. Mas quanto a você, você estava separado de nós, e você não quis que nós nos uníssemos para saber como devemos nos organizar para que possamos contar a boa nova. Portanto, seria agradável da sua parte, nosso irmão, vir segundo as solicitações do nosso Deus Jesus?”

Quando Felipe havia recebido estas palavras, e quando ele as tinha lido, ele foi até Pedro regozijando-se de alegria. Então Pedro juntou os outros também. Eles subiram a montanha chamada “o monte das oliveiras,” o lugar onde eles costumavam se reunir com Cristo o abençoado quando ele estava no corpo.

Então, quando os apóstolos haviam se reunido, e haviam se colocado de joelhos, eles rezaram deste modo dizendo, “Pai, Pai, Pai da luz, que possui as integridades, ouça-nos com a mesma satisfação que você teve com tua criança sagrada Jesus Cristo. Porque ele se tornou para nós um iluminador na escuridão. Sim, ouça-nos.”

E eles rezaram novamente, dizendo, “Filho de vida, Filho de imortalidade, que é a luz, Filho, Cristo de imortalidade, nosso redentor, dê-nos poder, pois eles querem nos matar!”

Então uma grande luz apareceu, e as montanhas brilharam pela visão daquele que surgiu. E uma voz os chamou dizendo, “Escutem as minhas palavras para que eu possa dizer a vocês. Por que vocês estão me indagando? Eu sou Jesus Cristo, que está com vocês para sempre.”

Então os apóstolos responderam e disseram, “Senhor, nós queremos saber a respeito da deficiência dos aeons e o pleroma.” E: “De que modo nós estamos detidos nesta habitação?” Ademais: “Como nós viemos parar neste lugar?” E: “De que maneira nós devemos partir?” Além disso: “Como nós possuímos a força da coragem?” E: “Por que os poderes lutam contra nós?”

Então uma voz veio a eles através da luz dizendo, “São vocês as testemunhas de que eu falei todas estas coisas para vocês. Mas devido a sua descrença eu falarei novamente. Em primeiro lugar, a respeito da deficiência dos aeons, é esta a deficiência, quando a desobediência e a tolice da mãe apareceram sem o requerimento da majestade do Pai. Ela queria criar aeons. E quando ela falou, O Arrogante veio. E quando ela deixou para trás uma parte, O Arrogante se apropriou dela, e se tornou uma deficiência. Esta é a deficiência dos aeons. Agora, quando O Arrogante havia se apropriado de uma parte, ele a semeou. E ele estabeleceu poderes sobre ela, e autoridades. E ele a confinou nos domínios mortais. E todos os poderes do universo se alegraram por terem sido gerados. Mas eles não conhecem o Pai preexistente, já que eles são estranhos a ele. Mas para este eles deram poder, e serviram o louvando. E ele, O Arrogante, se orgulhou por conta do louvor dos poderes. Ele se tornou um invejoso, e quis fazer uma imagem no lugar de uma imagem, e uma forma no lugar de uma forma. E ele encarregou os poderes sob sua autoridade a modelarem corpos mortais. E eles vieram como imitações toscas da aparência que havia sido revelada.”

“Seguinte, sobre o pleroma: Eu sou aquele que foi enviado para baixo em um corpo por causa da semente que caiu afora. E eu desci no molde mortal deles. Mas eles não me reconheceram; eles estavam achando que eu era um homem mortal. E eu falei com aquele que pertence a mim, e ele me escutou atentamente, do mesmo jeito que vocês também escutaram hoje. E eu dei autoridade a ele, para que ele possa entrar na herança de sua paternidade. E eu o levei […] eles foram realizados […] na salvação dele. E já que ele se curou de sua deficiência ele conseguiu retornar ao pleroma.”

“É por isso que vocês estão sendo detidos, porque vocês pertencem a mim. Quando vocês se despirem daquilo que é depravado, então vocês se tornarão iluminadores no meio de homens mortais.”

“E é esta a razão pela qual vocês lutarão contra os poderes, porque eles não têm descanso como vocês têm, já que eles não desejam que vocês sejam salvos.”

Então os apóstolos veneraram novamente dizendo, “Senhor, diga-nos: De que modo deveremos lutar contra os arcontes, já que os arcontes estão acima de nós?”

Então uma voz os chamou através da aparição dizendo, “Agora vocês lutarão contra eles deste modo, pois os arcontes estão lutando contra o homem interno. E vocês devem lutar contra eles assim: Se reúnam e ensinem no mundo a salvação como uma promessa aos que forem santos. E vocês, fortifiquem-se com o poder do meu Pai, e o deixem ciente de sua oração. E ele, o Pai, irá ajudá-los como ele os ajudou me enviando. Não tenham medo, eu estou com vocês eternamente, como eu lhes disse antes quando eu estava no corpo.” Então veio um relâmpago e um trovão do céu, e o que apareceu para eles naquele lugar foi levado acima dos céus.

Então os apóstolos agradeceram ao Senhor com cada bênção. E eles retornaram à Jerusalém. E enquanto caminhavam pela estrada eles conversaram uns com os outros a respeito da luz que havia vindo. E um comentário foi feito a respeito do Senhor. Foi dito, “Se ele, nosso Senhor, sofreu, então quanto deveremos sofrer?”

Pedro respondeu dizendo, “Ele sofreu em nosso favor, e é necessário que nós também soframos por causa de nossa pequenez.” Então uma voz veio a eles dizendo, “Eu lhes disse várias vezes: É necessário que vocês sofram. É necessário que eles os tragam para as sinagogas e para os governadores, para que vocês sofram. Mas aquele que não sofre e não […] o Pai […] para que ele possa […].”

Explicação sobre este assunto extraída do Apócrifo de Tiago, Codex I da Biblioteca de Nag Hammadi:

“Então você não irá parar de amar a carne e de temer os sofrimentos? Ou você não sabe que você ainda terá de ser abusado e acusado injustamente; e ainda terá de ser trancado numa prisão, e condenado ilegitimamente, e crucificado sem razão, e enterrado como eu, pelo maligno? Você ousa poupar a carne, você quem, para o Espírito, é uma muralha circundante? Se você considerar quanto tempo o mundo existiu antes de ti, e quanto tempo ele existirá depois de ti, você descobrirá que a sua vida é apenas um dia, e seus sofrimentos uma única hora. Porque o bem não irá permanecer no mundo. Despreze a morte, portanto, e anseie pela vida eterna! Lembre-se da minha vitória sobre a cruz da morte e você viverá!”

E os apóstolos se alegraram enormemente e subiram até Jerusalém. E eles subiram ao templo, e deram instruções sobre a salvação em nome do Senhor Jesus Cristo. E eles curaram uma multidão.

E Pedro abriu sua boca, ele disse a seus companheiros discípulos, “Quando nosso Senhor Jesus esteve no corpo, ele nos revelou tudo. Pois ele desceu. Meus irmãos, escutem a minha voz.” E ele estava preenchido com um espírito sagrado. Ele falou deste modo: “Nosso iluminador, Jesus, desceu e foi crucificado. E ele carregou uma coroa de espinhos. E ele colocou uma vestimenta púrpura. E ele foi crucificado numa árvore, e ele foi enterrado em uma tumba. Ele se ergueu dos mortos. Meus irmãos, Jesus é alheio à esse sofrimento. Mas nós somos os que sofremos através da transgressão da mãe. E por causa disso, ele fez tudo como nós. Pois o Senhor Jesus, o Filho da glória imensurável do Pai, ele é o autor da nossa vida. Meus irmãos, portanto, não obedeçamos a estes indisciplinados, e andemos em […].”

[…] Então Pedro reuniu os outros também, dizendo, “Ó, Senhor Jesus Cristo, autor do nosso descanso, dê-nos um espírito de compreensão para que também possamos realizar maravilhas.”

Então Pedro e os outros apóstolos o viram, e eles foram preenchidos com um espírito sagrado, e cada um realizou curas. E eles partiram para proclamar o Senhor Jesus. E eles se uniram e se saudaram dizendo, “Amém.”

Então Jesus apareceu dizendo a eles, “Que a paz esteja com todos vocês e com cada um que acredita neste ensinamento. E quando vocês partirem, que a felicidade e a graça e o poder estejam com vocês. E não temam; vejam, eu estou com vocês eternamente.”

Então os apóstolos se dividiram em quatro palavras para proclamar. E eles caminharam com um poder de Jesus, em paz.

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Fonte:

Carta de Pedro a Felipe. Biblioteca de Nag Hammadi. Tradução por: http://misteriosantigos.50webs.com. Mistérios Antigos, 2018. Disponível em:<https://web.archive.org/web/20200225002014/http://misteriosantigos.50webs.com/carta-de-pedro-a-felipe.html>. Acesso em 16 de março de 2022.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

 

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Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/carta-de-pedro-a-felipe/

Carta de Barnabé

CAPÍTULO 1:

Saudação:

Filhos e filhas, eu vos saúdo na paz, em nome do Senhor que nos amou.

A fé dos destinatários Grandes e ricos são os decretos de Deus a vosso respeito. Acima de tudo, eu me alegro imensamente pelos vossos espíritos felizes e gloriosos, pois dele recebestes a semente plantada em vós mesmos, a graça do dom espiritual. Por isso, eu me alegro mais na esperança de me salvar, porque verdadeiramente vejo em vós que o Espírito da fonte abundante do Senhor foi derramado sobre vós. Em vosso caso, foi isso que me chamou a atenção ao vê-los, o que eu tanto desejava.

Intenções do autor:

Estou convencido e intimamente persuadido disso, porque conversei muito convosco. O Senhor caminhou comigo no caminho da justiça e eu também me sinto impulsionado a amar-vos mais do que à minha própria vida, pois a fé e o amor que habitam em vós são grandes e fundados sobre a esperança da vida dele. Pensei que, se eu me preocupasse em participar-vos aquilo que recebi, eu teria recompensa por ter servido a espíritos como os vossos. Esforcei-me então para vos enviar estas poucas linhas, para que, além de vossa fé, tenhais também o conhecimento perfeito. Os ensinamentos do Senhor são três: a esperança da vida, começo e fim da nossa fé; a justiça, começo e fim do julgamento; o amor, testemunho pleno da alegria e contentamento das obras realizadas na justiça. Com efeito, por meio dos profetas, o Senhor nos fez conhecer o passado e o presente, e nos fez saborear antecipadamente o futuro. Vendo que uma e outra coisa se realizam conforme ele falou, devemos progredir no seu temor, de maneira mais rica e mais elevada. Quanto a mim, não é como mestre, mas como um de vós, que vos preparei umas poucas coisas. Através delas, vocês se alegrarão nas circunstâncias presentes.

CAPÍTULO 2:

O culto que Deus quer:

Introdução:

Como os dias são maus e é aquele que exerce o poder, devemos, para o nosso próprio bem, procurar as decisões do Senhor. Os auxiliares da nossa fé são o temor e a perseverança, e nossos companheiros de luta são a paciência e o autocontrole. Se essas virtudes permanecem puras diante do Senhor, a sabedoria, a inteligência, a ciência e o conhecimento virão regozijar-se com elas.

Os sacrifícios:

De fato, foi-nos mostrado, mediante todos os profetas, que Deus não tem necessidade de sacrifícios, nem de holocaustos, e nem de ofertas. Em certa ocasião, ele diz: “Que me importa a multidão de vossos sacrifícios?” diz o Senhor. “Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de cordeiros não sangue de touros e de bodes, e nem que venhais vos apresentar diante de mim. Quem pediu essas coisas de vossas mãos? Não continueis a pisar em meu átrio. Se ofereceis flor de farinha, é em vão; vosso incenso para mim é abominação. Não suporto vossas neomênias e vossos sábados.” Ele rejeitou essas coisas, para que a lei nova de nosso Senhor Jesus Cristo, que é sem o jugo da necessidade, não precise de oferta preparada por homens. Ele ainda lhes disse: “Por acaso, ordenei a vossos pais, ao saírem do Egito, que me oferecessem holocaustos? Pelo contrário, eis o que lhes ordenei: Que nenhum de vós guarde em seu coração rancor contra o próximo e que não ame o juramento falso.” Devemos, portanto, compreender, pois não somos sem inteligência, o desígnio de nosso Pai em sua bondade, pois ele se dirige a nós, desejando que procuremos o modo de nos aproximar dele, sem nos extraviar, como aqueles homens. Eis, portanto, o que ele nos diz: “O sacrifício para Deus é um coração contrito; o perfume de suave odor para o Senhor é o coração que glorifica o seu Criador.” Irmãos, devemos, portanto, cuidar de nossa salvação, para que o maligno não introduza em nós o erro, e nos atire, como pedra de funda, para longe da nossa vida.

CAPÍTULO 3:

O jejum:

A respeito disso, falou-lhes ainda, “Com que finalidade jejuais para mim”, diz o Senhor, “como se ouve hoje aos gritos a vossa voz? Não é esse jejum que escolhi”, diz o Senhor, “não o homem que humilha a si mesmo. Nem quando dobrais vosso pescoço como um círculo, nem quando vos cobris de pano de saco e cinza, não chameis isso de jejum agradável.” Para nós, porém, ele diz: “Eis o jejum que eu escolhi”, diz o Senhor: “Desata todas as amarras da injustiça; desfaz as cordas dos contratos iníquos; envia os oprimidos em liberdade; rasga toda escritura injusta; reparte teu pão com os famintos; se vês alguém nu, veste-o; conduz para a tua casa os desabrigados; se vês algum pobre, não o desprezes; não te afastes dos membros de tua família. Então tua luz romperá pela manhã, tuas vestes rapidamente resplandecerão, a justiça irá à tua frente e a glória de Deus te envolverá. Então outra vez gritarás, e Deus te ouvirá. Ao falar, ele te dirá: Eis-me aqui! Isso, se renunciares a tecer amarras, a levantar a mão, a murmurar, e se deres de coração o teu pão ao faminto e tiveres compaixão da pessoa necessitada.” Por isso, irmãos, o paciente (Deus), prevendo que o povo, que ele preparou através do seu Amado, acreditaria com simplicidade, nos antecipou todas essas coisas, para que nós, como prosélitos, não nos arrebentássemos contra a lei deles.

CAPÍTULO 4:

Vigilância:

Exortação geral:

É preciso, portanto, que examinemos com grande atenção a situação presente, para procurar o que nos pode salvar. Fujamos, pois, radicalmente de todas as obras iníquas, para que as obras iníquas jamais se apoderem de nós. Odiemos o erro do mundo presente, para que sejamos amados no mundo futuro. Não demos à nossa alma a liberdade, de modo que ela não tenha poder de correr com os maus e pecadores, a fim de que não nos tornemos semelhantes a eles.

Iminência do fim:

O máximo do escândalo se aproxima, conforme está escrito, como diz Enoque. Com efeito, é por isso que o Senhor abreviou os tempos e os dias, a fim de que seu Amado chegue mais depressa à herança. Assim diz o profeta: “Dez reis reinarão sobre a terra e, depois disso, surgirá um pequeno rei que humilhará três reis de uma só vez.” Sobre isso, Daniel diz algo semelhante: “Vi a quarta besta, maligna, forte e mais terrível do que todas as bestas do mar. Dela brotaram dez chifres, e desses saiu um pequeno chifre, como broto. Este, de uma só vez, humilhou três dos chifres grandes.” Deveis, portanto, compreender.

A Aliança tem exigências:

Além disso, peço-vos insistentemente, eu que sou um e vós e vos amo a todos e a cada um em particular mais do que a mim mesmo: tomai cuidado para não ficardes como certas pessoas, que acumulam pecados, dizendo que a Aliança está garantida para nós. Claro que era é nossa. Eles (os judeus) a perderam definitivamente, embora Moisés já a tivesse recebido. De fato, a Escritura diz: “Moisés jejuou na montanha durante quarenta dias e quarenta noites, e depois recebeu do Senhor a Aliança, as tábuas de pedra escritas pelo dedo da mão do Senhor”. Eles, porém, a perderam, por se terem voltado para os ídolos. Com efeito, assim disse o Senhor: “Moisés, Moisés, desce depressa, pois teu povo pecou, aqueles que fizeste sair da terra do Egito”. Moisés compreendeu, e jogou as duas tábuas de suas mãos. A Aliança deles foi rompida, para que a de Jesus, o Amado, fosse selada em nossos corações pela esperança da fé que nele temos. Querendo escrever muitas coisas, não como mestre, mas como convém a quem ama, não deixando perder nada do que possuímos, apliquei-me a escrever, como vosso humilde servidor. Estejamos atentos nestes últimos dias! Nada adiantará todo o tempo de nossa vida e de nossa fé, se agora, neste tempo de impiedade e na iminência dos escândalos, não resistirmos, como convém a filhos de Deus. A fim de que as Trevas não se infiltrem em nós e às escondidas, fujamos de toda vaidade e odiemos completamente as obras do mau caminho. Não vos isoleis, dobrando-vos sobre vós mesmos, como se já estivésseis justificados, mas reuni-vos, para procurar juntos o vosso bem comum. De fato, a Escritura diz: “Ai daqueles que se crêem inteligentes e que são sábios diante de si mesmos!” Tornemo-nos espirituais, tornemo-nos um templo perfeito para Deus. Quanto nos for possível, apliquemo-nos ao temor de Deus e combatamos para observar seus mandamentos, a fim de nos alegrarmos em suas disposições. O Senhor julgará o mundo com imparcialidade; cada um receberá segundo o que fez. Se for bom, sua justiça o precederá; se for mau, diante dele irá o salário do mal. Tomemos cuidado para não ficarmos tranqüilos como chamados, adormecendo sobre nossos pecados, de modo que o príncipe do mal se apodere de nós e nos afaste do reino do Senhor. Meus irmãos, compreendei ainda o seguinte: quando vedes que, depois de tantos sinais e prodígios acontecidos em Israel, assim mesmo eles foram abandonados, tomemos cuidado, como está escrito, para que não sejamos encontrados “muitos chamados, mas poucos escolhidos.”

CAPÍTULO 5:

Sofrimento do Senhor:

O Senhor sofreu para purificar-nos de nossos pecados
O Senhor suportou entregar sua própria carne à destruição, para que fôssemos purificados pelo perdão dos pecados, isto é, pela aspersão feita com seu sangue. A respeito dele, a Escritura diz o seguinte sobre Israel e sobre nós: “Ele foi ferido por causa de nossas iniqüidades e maltratado por causa de nossos pecados, e nós fomos curados por sua chaga. Foi conduzido como ovelha ao matadouro e, como cordeiro, ficou mudo diante do tosquiador.”

Responsabilidade do homem:

Precisamos, portanto, multiplicar nossos agradecimentos ao Senhor, porque ele nos fez conhecer as coisas passadas, tornou-nos sábios no presente e não estamos sem inteligência para as coisas futuras. A Escritura diz: “Não se estendem injustamente as redes para os pássaros”. Isso quer dizer que, com razão, se perderá o homem que, tendo conhecimento do caminho da justiça, toma entretanto o caminho das trevas.

O Senhor sofreu para cumprir a promessa:

Ainda o seguinte, meus irmãos: “Se o Senhor suportou sofrer por nós, embora fosse o Senhor do mundo inteiro, a quem Deus disse desde a criação do mundo: ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança’, como pode ele suportar sofrer pela mão dos homens? Aprendei. Os profetas, que tinham a graça dele, profetizaram a seu respeito. E ele afim de destruir a morte e mostrar a ressurreição dos mortos, teve que se encarnar e sofrer, afim de cumprir a promessa feita aos pais e preparar para si o povo novo e demonstrar, durante sua estada na terra, que era ele mesmo que julgaria, depois de ter realizado a ressurreição.

O Senhor sofreu na carne para que os pecadores pudessem vê-lo
Por fim, embora ele tivesse ensinado a Israel e realizado tão grandes prodígios e sinais, eles não foram levados por sua pregação a amá-lo acima de tudo. Porém, quando ele escolheu seus próprios apóstolos, que iriam anunciar o seu Evangelho, homens cujo pecado ultrapassava a medida, foi para mostrar que ele não tinha vindo chamar os justos, e sim os pecadores. Então ele manifestou que era Filho de Deus. Com efeito, se não se tivesse encarnado, como os homens poderiam ter sido salvos ao vê-lo, uma vez que eles não podem levantar os olhos para olhar de frente os raios do sol, que todavia um dia deixará de existir e que é tão-somente obra de suas mãos?

O Senhor sofreu para levar ao máximo o pecado de Israel:

Se o Filho de Deus se encarnou, foi para levar ao máximo os pecados daqueles que tinham perseguido mortalmente os profetas dele. E por isso que ele suportou. De fato, Deus diz que é deles que vem a ferida de sua carne: “Quando ferirem o seu pastor, então as ovelhas do rebanho perecerão”. Foi ele, porém, que quis sofrer desse modo. Com efeito, era preciso que ele sofresse sobre o madeiro, pois o profeta diz a seu respeito: “Poupa à minha vida à espada”. E “transpassa com cravo a minha carne, porque uma assembléia de malfeitores se levantou contra mim”. E diz ainda: “Eis que ofereci minhas costas aos açoites e minha face para as bofetadas. Contudo, mantive o meu rosto como pedra dura”.

CAPÍTULO 6:

Vitória pascal:

O que diz ele, quando cumpriu o mandamento? “Quem é que me julga? Coloque-se diante de mim. Ou quem quer ser declarado justo diante de mim? Que se aproxime do servo do Senhor. Ai de vós! Porque todos vós envelhecereis como veste e a traça vos roerá”. E o profeta continua, uma vez que ele foi colocado como sólida pedra para esmagar: “Eis que colocarei nos alicerces de Sião uma pedra de grande valor, escolhida, angular e preciosa”. O que diz em seguida? “Aquele que nela crer, viverá para sempre”. Será que a nossa esperança está numa pedra? De modo nenhum. Mas foi o Senhor que tornou forte a sua carne. Com efeito, ele diz: “Ele me tornou como pedra dura”. O profeta continua: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a cabeça de ângulo”. E diz ainda: “Este é o dia grande e maravilhoso que o Senhor fez”.

A paixão:

Eu, humilde servo do amor, vos escrevo com simplicidade, para que compreendais. O que diz ainda o profeta? “Uma assembléia de malfeitores me rodeou. Eles me cercaram como abelhas ao favo”. E “sobre minhas vestes tiraram sortes”. E como era na sua carne que ele devia revelar-se e sofrer, sua paixão foi revelada de antemão. De fato, o profeta diz a respeito de Israel: “Ai da vida deles! Pois conceberam um desejo mau contra si mesmos, dizendo: Amarremos o justo, porque ele nos incomoda”.

Nova criação:

Que lhes diz Moisés, outro profeta? “Eis o que diz o Senhor Deus: Entrai na terra boa, que o Senhor prometeu a Abraão, Isaque e Jacó. Tomai posse dessa terra, onde correm leite e mel.” O que diz a sabedoria? Aprendei: “Ponde vossa esperança em Jesus, que deve revelar-se a vós na carne”. Com efeito, o homem é terra que sofre, pois é da terra que Adão foi plasmado. Que significa: “Na terra boa, terra onde correm leite e mel”? Bendito seja nosso Senhor, irmãos, pois ele pôs em nós a sabedoria e o entendimento de seus segredos. Pois o profeta diz: “Quem poderá compreender uma parábola do Senhor, a não ser o sábio que conhece e ama o seu Senhor?” Depois de nos ter renovado com o perdão dos pecados, ele fez de nós um novo ser, de modo que tenhamos alma de criança, como se ele nos tivesse plasmado novamente. De fato, a Escritura fala a nosso respeito, quando ele diz ao Filho: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que eles dominem sobre os animais da terra, as aves do céu e os peixes do mar”. E, vendo que nós éramos boa criação, o Senhor disse: “Crescei, multiplicai-vos e enchei a terra”. Foi isso que ele disse ao Filho. Vou agora te mostrar como ele fala de nós. Ele realizou segunda criação nos últimos tempos. O Senhor diz: “Eis que faço as últimas coisas como as primeiras.” Nesse sentido, assim falou o profeta: “Entrai na terra onde correm leite e mel, e dominai-a”. Eis-nos, portanto, criados de novo, conforme o que ele diz ainda por outro profeta: “Eis”, diz o Senhor, “que arrancarei deles” – isto é, daqueles que o Espírito do Senhor via de antemão – “os corações de pedra, e implantarei neles corações de carne”. De fato, é na carne que ele devia manifestar-se e habitar em nós. Com efeito, meus irmãos, nossos corações assim habitados formam um templo santo para o Senhor. E o Senhor diz ainda: “Como me apresentarei diante do Senhor e serei glorificado”? Ele diz: “Celebrar-te-ei na assembléia de meus irmãos e cantarei teus louvores em meio à assembléia dos santos”. Portanto, somos nós que ele fez entrar na terra boa. E o que significam o “leite” e o “mel”? E porque a criança é nutrida primeiro com o mel e depois com o leite. Igualmente nós, alimentados pela fé na promessa e na palavra, vivemos dominando a terra. Ora, ele tinha dito antes: “Que eles cresçam, se multipliquem e dominem os peixes”. E quem pode hoje dominar as feras, ou os peixes, ou os pássaros do céu? Devemos compreender que dominar implica poder, a fim de que aquele que ordena possa dominar. Se hoje não é assim, ele nos disse o tempo: Quando formos perfeitos para sermos herdeiros da aliança do Senhor.

CAPÍTULO 7:

Jejum e o bode expiatório:

Compreendei, portanto, filhos da alegria, que o bom Senhor nos revelou tudo de antemão, para que saibamos a quem constantemente celebrar com ação de graças. Se o Filho de Deus, que é Senhor e julgará os vivos e os mortos, sofreu para nos dar a vida por meio de seus ferimentos, acreditamos que o Filho de Deus não podia sofrer, a não ser por causa de nós. Além disso, já crucificado, deram-lhe a beber vinagre e fel. Escutai como os sacerdotes do templo se expressaram sobre isso. O mandamento escrito dizia: “Quem não jejuar no dia do jejum, será condenado à morte”. O Senhor deu esse mandamento, porque também ele devia oferecer a si próprio pelos nossos pecados, como receptáculo do Espírito, em sacrifício, a fim de que fosse cumprida a prefiguração manifestada em Isaque, oferecido sobre o altar. O que diz ele por meio do profeta? “Que comam, durante o jejum, do bode oferecido por todos os pecados”. Notai bem: “E que todos os sacerdotes, e somente eles, comam as vísceras não lavadas com vinagre”. Por que isso? “Porque vós me fareis beber fel com vinagre, a mim que ofereci minha carne pelos pecados do meu novo povo. Somente vós comereis, enquanto o povo jejuará e se flagelará com pano de saco e cinza”. Isso era para mostrar que ele deveria sofrer na mão deles. Como ele ordenou? Prestai atenção: “Tomai dois bodes bonitos e iguais, e oferecei-os em sacrifício. Que o sacerdote tome o primeiro como holocausto pelos pecados.” E o que farão com o outro? Ele diz: “O outro é maldito.” Notai como a figura de Jesus é manifestada. “Cuspi todos nele, transpassai-o, coroai sua cabeça com lã escarlate e, desse modo, seja expulso para o deserto”. Feito isso, aquele que leva o bode o conduz ao deserto, tira-lhe a lã e a coloca sobre um arbusto chamado sarça, cujos frutos costumamos comer quando nos encontramos no campo. Somente os frutos da sarça são doces. O que significa isso? Prestai atenção: “O primeiro bode sobre o altar, o outro é maldito”. Justamente o maldito é que é coroado. É que eles o verão, naquele dia, trazendo sobre sua carne o manto escarlate, e dirão: “Não é este que outrora crucificamos, depois de o ter desprezado, transpassado e cuspido? Na verdade, era este que então se dizia Filho de Deus”. Qual a sua semelhança com aquele? São bodes “semelhantes”, “belos”, iguais, para que quando o virem então vir, fiquem espantados com a semelhança do bode. Eis, portanto, a figura de Jesus que devia sofrer. E por que se coloca a lã no meio dos espinhos? É uma figura de Jesus proposta para a Igreja: porque os espinhos são terríveis, aquele que quer pegar a lã escarlate deve sofrer muito, e deve apossar-se dela através da dor. Ele diz: “Dessa forma, aqueles que desejam ver-me e alcançar o meu Reino devem passar por tribulações e sofrimentos, para se apossar de mim”.

CAPÍTULO 8:

Sacrifício da novilha:

E que figura pensais que representa o mandamento dado a Israel: os homens que têm pecados consumados ofereçam a novilha, a imolem e, depois queimem? Além disso, as crianças deviam recolher as cinzas, colocá-las nos vasos, enrolar a lã escarlate num pedaço de madeira – de novo aqui a imagem da cruz e a lã escarlate – e o hissopo. E assim, as crianças deviam aspergir todos os membros do povo, para que ficassem purificados dos pecados. Reconhecei como ele vos fala com simplicidade: a novilha é Jesus; os pecadores que a oferecem são aqueles que o conduziram para ser imolado. Basta com esses homens! Basta com a glória dos pecadores! As crianças que fazem a aspersão são aqueles que nos anunciaram a remissão dos pecados e a purificação do coração. A eles foi conferida a autoridade de anunciar o Evangelho, e são doze para testemunhar às tribos, pois as tribos de Israel eram doze. E por que são três crianças que fazem a aspersão? Para testemunhar Abraão, Isaque e Jacó, que são grandes diante de Deus. E a lã sobre o madeiro? Ela significa que o Reino de Jesus está sobre o madeiro e os que nele esperam viverão para sempre. Contudo, por que se põem juntos a lã e o hissopo? Porque no seu Reino haverá dias maus e poluídos, durante os quais seremos salvos. Com efeito, é pelo respingo poluído do hissopo que se cura aquele cuja carne está doente. E por isso que esses acontecimentos são tão claros para nós, mas para eles tão obscuros, pois eles não ouviram a voz do Senhor.

CAPÍTULO 9:

A verdadeira circuncisão:

Circuncisão do ouvido:

De fato, é dos ouvidos que ele fala ainda, quando diz que circuncidou nossos ouvidos e nossos corações. O Senhor diz por meio do profeta: “Obedeceram-me com os ouvidos.” E diz ainda: “Os que estão longe escutarão com o ouvido e conhecerão o que eu fiz”. E mais: “Circuncidai vossos ouvidos, diz o Senhor.” E diz também: “Escuta, Israel, eis o que diz o Senhor teu Deus: Quem deseja viver para sempre? Que ele escute com o ouvido a voz do meu servo”. E diz ainda: “Escuta, ó céu; dá ouvidos, ó terra, pois o Senhor falou isso como testemunho”. E diz mais: “Escutai a palavra do Senhor, príncipes deste povo”. E diz ainda: “Filhos, escutai a voz que grita no deserto”. Ele, portanto, circuncidou nossos ouvidos, para que escutemos a palavra e creiamos.

Circuncisão do coração:

Contudo, a circuncisão, na qual eles depositavam confiança, foi rejeitada. De fato, ele dissera que a circuncisão não devia ser da carne, mas eles transgrediram, porque um anjo mau os enganou. Todavia, ele lhes diz: “Assim fala o Senhor vosso Deus” – é aí que encontro o mandamento – “Não semeeis entre os espinhos, mas circuncidai-vos para o vosso Senhor”. E o que diz ele? “Circuncidai a maldade do vosso coração”. E diz ainda: “Eis, diz o Senhor, que todas as nações têm o prepúcio incircunciso, mas este povo tem o coração incircunciso”.

Circuncisão de Abraão:

Vós, porém, direis: “O povo recebeu a circuncisão como selo”. Contudo, todos os sírios, os árabes e todos os sacerdotes dos ídolos também têm a circuncisão. Pertencem também eles à sua aliança? Até os egípcios praticam a circuncisão! Filhos do amor, aprendei mais particularmente estas coisas: Abraão, praticando por primeiro a circuncisão, circuncidava porque o Espírito dirigia profeticamente seu olhar para Jesus, dando-lhe o conhecimento das três letras. Com efeito, ele diz: “E Abraão circuncidou entre os homens de sua casa trezentos e dezoito homens”. Qual é, portanto, o conhecimento que lhe foi dado? Notai que ele menciona em primeiro lugar os dezoito e depois, fazendo distinção, os trezentos. Dezoito se escreve: I, que vale dez, e H, que representa oito. Tens aí: IH(sous) = Jesus. E como a cruz em forma de T devia trazer a graça, ele menciona também trezentos (= T). Portanto, ele designa claramente Jesus pelas duas primeiras letras e a cruz pela terceira. Quem depositou em nós o dom do seu ensinamento sabe bem disto: Ninguém recebeu de mim ensinamento mais digno de fé. Sei, porém, que vós sois dignos.

CAPÍTULO 10:

Significado espiritual das prescrições alimentares:

Primeira formulação:

Moisés disse: “Não comereis porco, nem águia, nem gavião, nem corvo, nem peixe algum que não tenha escamas”. Porque ele tinha em mente três ensinamentos. Por fim, ele diz a eles no Deuteronômio: “Exporei a esse povo as minhas decisões”. A proibição de comer não é, portanto, mandamento de Deus, pois Moisés falava simbolicamente. Eis o significado do que ele diz sobre o “porco”. Não te ligarás a esses homens que se assemelham aos porcos; isto é, que quando vivem na abundância, se esquecem do Senhor; mas na necessidade reconhecem o Senhor. Assim é o porco: enquanto está comendo, ele não conhece seu dono; mas quando está com fome, ele grunhe e, uma vez tendo comido, volta a se calar. Ele diz: “Também não comerás a águia, nem o gavião, nem o milhafre, nem o corvo.” Isto é: não te ligarás, imitando-os, a esses homens que não sabem ganhar o alimento por meio do trabalho e do suor, mas que, em sua injustiça, arrebatam o bem alheio. Andam com ar inocente, mas espionam e observam a quem vão despojar por ambição. Eles são como essas aves, as únicas que não providenciam o alimento por si próprias, mas se empoleiram ociosamente, procurando a ocasião de se alimentar da carne dos outros. São verdadeiros flagelos por sua crueldade. Ele continua: “Não comerás moréia, nem polvo, nem molusco.” Isto é: não te assemelharás, ligando-te a esses homens que são radicalmente ímpios e já estão condenados à morte. O mesmo acontece com esses peixes: são os únicos amaldiçoados, que nadam nas profundezas, sem subirem como os outros; permanecem no fundo da terra, habitando o abismo.

Segunda formulação:

Também “não comerás a lebre.” Por que razão? Isso quer dizer: não serás pederasta, nem imitarás aqueles que são assim. Porque a lebre, a cada ano, multiplica seu ânus. Ela tem tantos orifícios quanto o número de seus anos. Também “não comerás a hiena”. Isso quer dizer: não serás nem adúltero, nem homossexual, e não te assemelharás àqueles que são assim. Por que razão? Porque esse animal muda de sexo todos os anos e torna se ora macho, ora fêmea. Ele odiou também “a doninha”. Muito bem! Não serás como aqueles que cometem, como se diz, iniqüidade com a boca por depravação, nem te ligarás a esses depravados que cometem iniqüidade com sua boca. De fato, esse mal se concebe pela boca. Moisés, tendo recebido tríplice ensinamento sobre os alimentos, usou linguagem simbólica. Eles, porém, o entenderam sobre os alimentos materiais, por causa do desejo carnal.

Davi confirma o ensinamento:

Davi recebeu o conhecimento desse mesmo ensinamento tríplice. Ele fala de forma semelhante: “Feliz o homem que não vai ao conselho dos ímpios”, como os peixes que se movem nas trevas para o fundo; “e que não pára no caminho dos pecadores”, como aqueles que aparentam temer ao Senhor, mas pecam como o porco; “e que não se assentou na cátedra da pestilência”, como as aves que se postam para a rapina. Aí tendes perfeitamente o que se refere à comida.

Conclusão:

Moisés, porém, disse: “Comei de todo animal que tem o casco fendido e que rumina.” O que ele quer dizer? Que (tal animal), quando recebe a comida, conhece aquele que o alimenta, e quando repousa, parece que se alegra com ele. Disse-o bem, considerando o mandamento. Que quer ele dizer? Vinculai-vos àqueles que temem o Senhor, que meditam no coração sobre o sentido exato da palavra que receberam, que ensinam e observam as decisões do Senhor, que sabem que a meditação é alegre exercício e que ruminam a palavra do Senhor. O que significa o “casco fendido”? É que o justo caminha neste mundo e espera o mundo santo. Vede como Moisés legislou bem! Mas, para eles, como é possível compreenderem ou entenderem essas coisas? Nós, tendo compreendido exatamente os mandamentos, os exprimimos como o Senhor desejou. Por isso, ele circuncidou nossos ouvi dos e nossos corações, para compreendermos essas coisas.

CAPÍTULO 11:

Profecias do Batismo e da Cruz:

A água:

Pesquisemos se o Senhor teve intenção de falar antecipadamente sobre a água e sobre a cruz. Quanto à água, está escrito que Israel não teria recebido o batismo que leva à remissão dos pecados, mas que eles próprios teriam constituído um. Com efeito, diz o profeta: “Pasma, ó céu, e que a terra trema ainda mais! Pois este povo cometeu mal duplo: eles me abandonaram, a mim que sou a fonte viva da água, e cavaram para si mesmos uma cisterna de morte. Por acaso, o Sinai, minha montanha santa, é rocha deserta? Vós sereis como os passarinhos que voam, quando se lhes tira o ninho”. E o profeta diz ainda: “Eu marcharei à tua frente, aplainarei as montanhas, quebrarei as portas de bronze, despedaçarei as trancas de ferro, e te darei tesouros secretos, escondidos, invisíveis, a fim de que saibam que eu sou o Senhor Deus. Tu habitarás numa caverna alta de rocha sólida, onde a água não falta nunca. Vereis o rei em sua glória e vossa alma meditará no temor do Senhor”.

A água e o madeiro:

Ele diz ainda por meio de outro profeta: “Quem assim age, será como a árvore plantada junto à corrente d’água, e que dá seu fruto no tempo certo. Sua folhagem não cairá; e tudo o que ele fizer terá sucesso. Não são assim os ímpios, não são assim. Eles são, antes, como a poeira que o vento espalha na face da terra. E por isso que os ímpios não se levantarão no julgamento, nem os pecadores no conselho dos justos. Pois o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá”. Notai que ele designa ao mesmo tempo a água e a cruz. Com efeito, ele quer dizer: “Felizes aqueles que, tendo lançado sua esperança na cruz, desceram para a água. Pois ele diz que o salário vem “no tempo certo”. Então, diz ele, eu retribuirei. Mas para hoje, ele diz: “Sua folhagem não cairá”. Isso significa que toda palavra de fé e amor que sair da vossa boca será para muitos causa de conversão e de esperança. E outro profeta diz ainda: “E a terra de Jacó era celebrada mais do que qualquer outra terra”. Isso quer dizer que ele glorifica o vaso do seu Espírito. O que diz ele a seguir? “Havia um rio que corria, vindo da direita, e árvores esplêndidas hauriam dele seu crescimento. Qualquer pessoa que delas comer, viverá eternamente”. Isso significa que descemos para a água carregados de pecados e poluição, mas subimos dela para dar frutos em nosso coração, tendo no Espírito o temor e a esperança em Jesus. “Quem comer deles viverá eternamente”, quer dizer: quem escutar, quando tais palavras são ditas, e crer nelas, viverá eternamente.

CAPÍTULO 12:

O madeiro:

Da mesma forma, é sobre a cruz que ele fala por meio de outro profeta: “Quando tais coisas se cumprirão? Diz o Senhor: Quando um madeiro for estendido no chão e depois novamente levantado, e quando o sangue gotejar do madeiro.” Eis que se fala de novo da cruz e daquele que seria crucificado. Ele ainda fala a Moisés, quando Israel é atacado pelos povos estrangeiros, para lembrar-lhes, nesse combate, que era pelos pecados deles que estavam sendo entregues à morte. Falando ao coração de Moisés, o Espírito lhe fez representar a figura da cruz e de quem sofreria, pois, diz ele, se não esperarem nele, serão eternamente atacados. Então Moisés amontoou as armas no meio do combate e, de pé, no lugar mais alto de todos, estendeu os braços, e assim Israel venceu novamente. Em seguida, cada vez. que os abaixava, os israelitas sucumbiam outra vez. Por quê? Para que soubessem que não podiam ser salvos, se não confiassem nele. Por meio de outro profeta, ele diz ainda: “O dia inteiro estendi meus braços para um povo desobediente e que se opõe ao meu justo caminho”. Outra vez ainda, no momento em que Israel sucumbia, Moisés fez prefiguração de Jesus, mostrando que ele devia sofrer, e justamente aquele que acreditavam estar morto na cruz, haveria de dar a vida. De fato, o Senhor fez com que todo tipo de serpentes os mordessem, e eles morriam, embora a serpente tenha sido para Eva o instrumento da desobediência. Ele queria assim convencê-los de que era por causa da desobediência deles que seriam entregues à tortura da morte. Finalmente, o próprio Moisés tinha ordenado: “Não tereis, como vosso deus, nenhuma imagem fundida ou esculpida.” Mas ele próprio fez uma serpente de bronze, colocou-a diante de todos, e convocou o povo. Quando se reuniram naquele lugar, suplicaram a Moisés que intercedesse pela cura deles. Moisés porém, lhes respondeu: “Quando alguém de vós for mordido, venha até à serpente fixada ao madeiro e creia com confiança. Crendo que essa serpente, embora morta, possa dar a vida, no mesmo instante será salvo”. Assim fizeram eles. Eis aqui de novo a glória de Jesus, porque tudo está nele e tudo é para ele.

Jesus, Filho de Deus:

Que diz ainda Moisés a respeito do profeta Josué, filho de Num, dando-lhe esse nome, somente para que todo o povo ouvisse que o Pai revela todas as coisas em torno de seu Filho Jesus? Enviando-o para explorar o país, depois de lhe ter dado esse nome, Moisés disse a Josué, filho de Num: “Toma em tuas mãos um livro e escreve o que diz o Senhor: Nos últimos dias, o Filho de Deus arrancará pelas raízes a casa de Amaleque”. Mais uma vez, eis que Jesus, manifestado em prefiguração carnal, não filho de homem, mas Filho de Deus. Porque diriam que o Cristo é filho de Davi, o próprio Davi, temendo e prevendo o erro dos pecadores, profetiza: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos como estrado para teus pés”. Isaías também diz: “O Senhor disse ao Cristo, meu Senhor: Eu o tomei pela mão direita, para que as nações lhe obedeçam, e eu romperei a força dos reis”. Vede como Davi o chama Senhor, e não filho!

CAPÍTULO 13:

A Aliança:

Qual povo é o herdeiro?:

Vejamos agora qual é o povo que recebe a herança. Se este, ou se o primeiro. E a Aliança, é para nós, ou para aqueles? Escutai, então, o que diz a Escritura a respeito do povo: “Isaque rezava pela sua mulher Rebeca, que era estéril, e ela concebeu”. Depois: “Rebeca saiu para consultar o Senhor, e o Senhor lhe disse: Há duas nações em teu seio e dois povos em tuas entranhas. Um povo dominará o outro, e o mais velho servirá ao mais jovem”. Deveis compreender quem é Isaque e quem é Rebeca, e a quem se referia ao mostrar que este povo é maior do que aquele. Em outra profecia, Jacó se dirige mais claramente ainda a seu filho José, dizendo: “Eis que o Senhor não me privou de tua presença. Traze-me teus filhos, para que eu os abençoe”. Ele levou Efraim e Manasses, querendo que Manassés, o mais velho, recebesse a bênção. José o conduziu para a mão direita de seu pai Jacó. No entanto, Jacó viu em espírito a prefiguração do povo futuro. E o que disse ele? “E Jacó cruzou as mãos, e colocou a direita sobre a cabeça de Efraim, o segundo e o mais novo, e o abençoou. Então José disse a Jacó: ‘Desvia tua mão direita e coloca-a sobre a cabeça de Manassés, pois ele é o meu filho primogênito’. Então Jacó disse a José: ‘Eu sei, meu filho, eu sei. O mais velho servirá ao mais jovem, e é este que será abençoado’”. Vede a quem ele se referia ao decidir que este povo seria o primeiro e o herdeiro da Aliança. Se isso ainda nos é lembrado no caso de Abraão, então nosso conhecimento torna-se completo. O que é que ele diz então a Abraão, pelo fato de que somente ele tinha acreditado, e foi estabelecido na justiça? “Abraão, eis que eu te estabeleci como pai de nações que, embora incircuncisas, acreditam em Deus”.

CAPÍTULO 14:

A quem Deus dá sua Aliança?:

Muito bem. Porém vejamos: Pesquisemos, para ver se ele deu ao povo a Aliança que prometera – juramento a seus antepassados. Certamente ele a deu, mas eles não foram dignos de recebê-la, por causa de seus pecados. De fato, o profeta diz: “Moisés jejuou quarenta dias e quarenta noites no monte Sinai, para receber a Aliança do Senhor com o povo. E Moisés recebeu do Senhor as duas tábuas escritas em espírito pelo dedo da mão do Senhor. Moisés as tomou, e começou a descer, para levá-las ao povo. Então disse a Moisés o Senhor: ‘Moisés, Moisés, apressa-te a descer, pois teu povo, que fizeste sair da terra do Egito, pecou’. Moisés compreendeu que eles ainda tinham feito para si imagens de metal fundido. Então ele atirou de suas mãos as tábuas, e as tábuas da Aliança do Senhor se quebraram”. Moisés, portanto, a recebeu, mas eles não foram dignos dela. Aprendei como nós a recebemos. Moisés a recebeu como servo, mas o próprio Senhor, depois de sofrer por nós, no-la entregou como povo da herança. Ele apareceu, para que aqueles levassem ao máximo a medida dos pecados e nós recebêssemos a Aliança mediante o Senhor Jesus, o herdeiro. Jesus foi preparado por ocasião de sua manifestação, para libertar das trevas nossos corações já consumidos pela morte e entregues aos desvios da iniqüidade, e para estabelecer conosco uma Aliança com a palavra. De fato, está escrito que o Pai lhe ordenou libertar-nos das trevas, a fim de preparar para si um povo santo. Diz, portanto, o profeta: “Eu, o Senhor teu Deus, te chamei na justiça, e te tomarei pela mão e te fortificarei. Eu te coloquei como Aliança de um povo, como luz das nações, para abrir os olhos dos cegos, para libertar das cadeias os prisioneiros e da prisão aqueles que estão nas trevas”. Sabei, portanto, de onde fomos libertos! O profeta diz ainda: “Eis que eu te coloquei como luz das nações, a fim de que sirvas para a salvação, até os confins da terra. Assim diz o Senhor, o Deus que te libertou”. E o profeta diz ainda: “O Espírito do Senhor está sobre mim e, por isso, me ungiu para anunciar aos pobres o evangelho da graça. Ele me enviou para curar os corações quebrantados, para proclamar aos prisioneiros a liberdade e aos cegos a vista, para anunciar o ano favorável do Senhor e o dia da retribuição, para consolar todos os que choram.”

CAPÍTULO 15:

O Sábado de Deus:

Ainda, sobre o sábado, está escrito no Decálogo que Deus o entregou pessoalmente a Moisés sobre o monte Sinai: “Santificai o sábado do Senhor com mãos puras e coração puro”. Em outro lugar, ele diz: “Se meus filhos guardarem o sábado, então estenderei sobre eles a minha misericórdia”. Ele menciona o sábado no princípio da criação: “Em seis dias, Deus fez as obras de suas mãos e as terminou no sétimo dia, e nele descansou e o santificou”. Prestai atenção, filhos, sobre o que significa: “terminou no sétimo dia”. Isso significa que o Senhor consumará o universo em seis mil anos, pois um dia para ele significa mil anos. Ele próprio o atesta, dizendo: “Eis que um dia do Senhor será como mil anos.” Portanto, filhos, em “seis dias”, que são seis mil anos, o universo será consumado. “E ele descansou no sétimo dia”. Isso quer dizer que seu Filho, quando vier para pôr fim ao tempo do Iníquo, para julgar os ímpios e mudar o sol, a lua e as estrelas, então ele, de fato, repousará no sétimo dia. Por fim, ele diz: “Tu o santificarás com mãos puras e coração puro”. Contudo, se alguém atualmente pudesse santificar, de coração puro, esse dia que Deus santificou, então nós nos teríamos enganado completamente. Porém, se este agora não é o caso, ele o santificará verdadeiramente no repouso, quando nós formos capazes disso, isto é, quando tivermos sido justificados e tivermos recebido o objeto da promessa, quando não houver mais iniqüidade, e o Senhor tiver renovado tudo. Então, poderemos santificá-lo, tendo sido primeiro nós mesmos santificados. Ele finalmente lhes disse: “Não suporto vossas neomênias e vossos sábados”. Vede como ele diz: não são os sábados atuais que me agradam, mas aquele que eu fiz e no qual, depois de ter levado todas as coisas ao repouso, farei o início do oitavo dia, isto é, o começo de outro mundo. Eis por que celebramos como festa alegre o oitavo dia, no qual Jesus ressuscitou dos mortos e, depois de se manifestar, subiu aos céus.

CAPÍTULO 16:

O Templo:

No que se refere ao templo, eu vos direi ainda como esses infelizes extraviados puseram sua esperança num edifício, como se fosse a casa de Deus, e não no Deus deles, que os criou. Com efeito, quase como os pagãos, eles o consagraram no templo. Mas, como fala o Senhor, abolindo-o? Aprendei: “Quem mediu o céu com o palmo e a terra com a mão? Não fui eu? diz o Senhor: O céu é o meu trono e a terra é o estrado dos meus pés. Que casa construireis para mim, ou qual será o lugar do meu repouso”? Vede como era vã a esperança deles. Por fim, ele diz ainda: “Eis! aqueles que destruíram esse templo, eles mesmos o edificarão.” E o que está acontecendo. De fato, por causa da guerra deles, o templo foi destruído pelos inimigos. E agora, os mesmos servos dos inimigos o reconstruirão. Ele tinha igualmente revelado que a cidade, o templo e o povo de Israel seriam entregues. Com efeito, a Escritura diz: “Acontecerá no fim dos dias que o Senhor entregará à destruição as ovelhas do pasto, o aprisco e a sua torre”. E aconteceu conforme o Senhor tinha dito. Indaguemos se existe um templo de Deus. Sim, existe onde ele mesmo diz que o há de construir e aperfeiçoar. De fato, está escrito: “Quando a semana estiver terminada, será construído um templo de Deus, com esplendor, sobre o nome do Senhor”. Acho pois que existe um templo. E como ele “será construído sobre o nome do Senhor”? Aprendei: antes que acreditássemos em Deus, nossos corações eram uma habitação corruptível e frágil, exatamente como um templo construído por mão humana. Com efeito, estava cheio de idolatria e era casa de demônios pois todas as nossas ações se opunham a Deus. Contudo, “ele será construído sobre o nome do Senhor”. Estai atentos, para que o templo do Senhor seja construído “com esplendor”. De que modo? Aprendei: recebendo o perdão dos pecados e pondo nossa esperança no Nome, nós nos tornamos novos, recriados desde o princípio. É por isso que Deus habita verdadeiramente em nós, tornando-nos sua morada. Como? Pela sua palavra de fé, pelo chamado da sua promessa, pela sabedoria das suas leis, pelos mandamentos da doutrina, e ele próprio profetizando em nós, habitando em nós, abrindo para nós a porta do templo, que é a nossa boca, e dando-nos o arrependimento, ele nos introduz no templo incorruptível. De fato, quem deseja ser salvo não olha para o homem, mas para aquele que habita nele e fala por meio dele, maravilhado “Neomênias” é o primeiro dia do mês (lunar), a “lua nova” ou “neomênia”, era uma festa celebrada tanto entre os israelitas como entre os cananeus (cf. Lv 23,24; 1Sm 20,5.24; Is 13; Am 8,5). Como o sábado, a lua nova (neoménia) interrompia as transações comerciais de não ter ouvido as palavras daquele que fala através de uma boca humana, nem de ter desejado ouvi-las. Esse é o templo espiritual construído pelo Senhor.

CAPÍTULO 17:

Conclusão:

Eu vos expliquei essas coisas com a maior simplicidade possível, e espero não ter deixado nada de lado. Com efeito, se vos escrevesse sobre o presente ou o futuro, não compreenderíeis, pois isso permanece em parábolas.

PARTE MORAL:

CAPÍTULO 18:

Os Dois Caminhos:

Introdução:

Sobre esse assunto, chega. Passemos para outro tipo de conhecimento e ensinamento. Existem dois caminhos de ensinamento e autoridade: o da luz e o das trevas. A diferença entre os dois é grande. De fato, sobre um estão postados os anjos de Deus, portadores da luz; e sobre o outro, os anjos de satanás. Um é Senhor de eternidade em eternidade, o outro é príncipe do presente tempo da iniqüidade.

CAPÍTULO 19:

O caminho da luz:

Este é o caminho da luz: se alguém quer andar no caminho e chegar ao lugar determinado, que se esforce em suas obras. Eis, portanto, o conhecimento que nos foi dado para andar nesse caminho.

Ama aquele que te criou. Teme aquele que te formou. Glorifica aquele que te resgatou da morte. Sê simples de coração e rico de espírito. Não te ligues àqueles que andam no caminho da morte. Odeia tudo o que não é agradável a Deus. Odeia toda hipocrisia.

Não abandones os mandamentos do Senhor. Não te engrandeças a ti mesmo, mas sê humilde em todas as circunstâncias. Não te arrogues glória. Não planejes o mal contra o teu próximo. Não te entregues à insolência.

Não pratiques a prostituição, nem o adultério, nem a pederastia. Não divulgues a palavra de Deus entre pessoas impuras. Não faças diferença entre as pessoas, ao corrigir alguém por sua falta. Sê manso, tranquilo, respeitando as palavras que ouviste. Não sejas vingativo para com teu irmão.

Não fiques hesitando sobre o que vai ou não acontecer. Não tomes em vão o nome do Senhor. Ama o teu próximo mais do que a ti mesmo. Não mates a criança no seio da mãe, nem logo que ela tiver nascido. Não te descuides de teu filho ou de tua filha. Pelo contrário, dá-lhes instrução desde a infância no temor do Senhor.

Não cobices os bens do teu próximo. Não sejas avarento, não te juntes de coração com os grandes, mas conversa com os justos e pobres. Aceita como boas as coisas que te acontecem, sabendo que nada acontece sem o consentimento de Deus.

Não sejas dúplice no pensar e no falar, porque a duplicidade é armadilha mortal. Sê submisso a teus senhores, com respeito e reverência, como à imagem de Deus. Não dês ordens com rudeza ao teu servo ou à tua serva, pois eles esperam no mesmo Deus que tu, para que não percam o temor de Deus, que está acima de uns e de outros; com efeito, ele não vem chamar a pessoa pela aparência, mas aqueles que o Espírito preparou.

Compartilha tudo com o teu próximo, e não digas que são coisas tuas. Se estais unidos nas coisas incorruptíveis, tanto mais nas coisas corruptíveis. Não sejas loquaz, porque a boca é armadilha mortal. O quanto podes, sê puro com a tua alma.

Não sejas como os que estendem a mão na hora de receber, e a retiram na hora de dar. Ama, como a pupila do teu olho, todo aquele que te anuncia a palavra de Deus.

Lembra-te noite e dia, do dia do julgamento. A cada dia, procura a companhia dos santos. Empenha-te com a pregação, exortando e preocupando-te em salvar uma alma pela palavra, ou então em trabalhar com tuas mãos, para resgatar teus pecados.

Não hesites em dar, nem dês reclamando, pois sabes quem é o verdadeiro remunerador da tua recompensa. Guarda o que recebeste, sem nada acrescentar ou tirar. Odeia totalmente o mal. Julga de modo justo.

Não provoques divisão. Pelo contrário, reconcilia aqueles que brigam entre si. Confessa os teus pecados. Não te apresentes em má consciência para a oração.

CAPÍTULO 20:

O caminho das trevas:

O caminho das trevas é tortuoso e cheio de maldições. De fato, em sua totalidade, ele é o caminho da morte eterna nos tormentos. Nele se encontram as coisas que arruínam a alma dos homens: idolatria, insolência, altivez do poder, hipocrisia, duplicidade de coração, adultério, homicídio, rapina, orgulho, transgressão, fraude, maldade, arrogância, feitiçaria, magia, avareza e ausência do temor de Deus. (São) os que perseguem os bons, odeiam a verdade, amam a mentira, ignoram a recompensa da justiça, não se ligam ao bem nem ao julgamento justo, não cuidam da viúva e do órfão, não vigiam para o temor de Deus, mas para o mal, afastam-se da mansidão e da paciência, amam as vaidades, correm atrás da recompensa, não têm misericórdia para com o pobre, recusam ajudar o oprimido, difamam facilmente, ignoram o seu Criador, matam crianças, corrompem a imagem de Deus, não se compadecem do necessitado, não se importam com os atribulados, defendem os ricos, são juízes injustos com os pobres, e, por fim, são pecadores consumados.

CAPÍTULO 21:

Conclusão:

É bom, portanto, aprender as sentenças do Senhor, que estão escritas, e a elas conformar o comportamento. Com efeito, aquele que as pratica será glorificado no Reino de Deus, mas aquele que escolher o outro (Caminho) perecerá com suas obras. Por isso, existe ressurreição, e por isso existe retribuição. A vós, que sois superiores, peço que aceitem um conselho da minha benevolência: Tendes no meio de vós pessoas para com as quais praticar o bem. Não deixem de o fazer. Está próximo o dia, no qual todas as coisas perecerão com o Maligno. Está próximo o Senhor, justo com a sua retribuição. Peço-vos ainda: sede bons legisladores para vós mesmos, permanecei fiéis conselheiros para vós mesmos, afastai de vós toda hipocrisia. O Deus, que reina sobre o mundo inteiro, vos dê sabedoria, inteligência, ciência, conhecimento de suas decisões, e perseverança. Deixai-vos instruir por Deus, procurando o que o Senhor quer de vós, e praticai-o, para que vos encontreis no dia do julgamento. Se vos recordais do bem, lembrai-vos de mim ao meditar sobre essas coisas. Desse modo, meu desejo e minha vigilância levarão a realizar algum bem. Peço-vos com insistência, como uma graça: enquanto o belo vaso ainda está convosco, não negligencieis nada das vossas coisas, mas buscai-as constantemente e cumpri todos os mandamentos, pois eles são dignos. Eis por que me esforcei em vos escrever, segundo minhas possibilidades. Eu vos saúdo, filhos do amor e da paz. Que o Senhor da glória e de toda graça esteja com vosso espírito.

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Fonte: http://agnusdei.50webs.com/barnabe1.htm

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/carta-de-barnabe/

Breves Considerações sobre a Orixá Pombagira

Na Umbanda, a Orixá Pombagira está assentada no Trono do Estímulo, do Desejo e também se manifesta como entidade espiritual incorporada em suas médiuns.  Com o passar do tempo, a Pombagira atingiu um grau análogo ao de Exu e muitos passaram a chamá-la de Exu Feminino.

Mas a Pombagira foi logo no início, desde suas primeiras incorporações, construindo um arquétipo forte, poderoso e subjugador do machismo. O arquétipo da mulher livre das convenções sociais, liberal, provocante e insinuante vai além da própria figura, nos ensinando a força e firmeza de propósitos, do desejo resoluto pela vida e por nossos objetivos, que devem ser buscados sempre com entusiasmo e energia.

E a todos Ela ouve com compreensão e a ninguém nega seus conselhos e sua ajuda num campo que domina como ninguém mais é capaz. Sua desenvoltura e seu poder fascinam até os mais introvertidos que, diante dela, se abrem e confessam suas necessidades. Pombagira é um dos mistérios do nosso Divino Criador que rege sobre a sexualidade feminina.

Segundo Rubens Saraceni:

“Amem-na e respeitem-na os que entendem que o arquétipo é liberador da feminilidade tão reprimida na nossa sociedade patriarcal onde a mulher [ainda] é vista e tida para a cama e a mesa.”

A espiritualidade superior que arquitetou a Umbanda sinalizou a todos que não estava fechada para ninguém e que, tal como Cristo havia feito, também acolheria as mulheres e não encobriria com uma suposta religiosidade a hipocrisia das pessoas que, “por baixo dos panos”, o que gostam mesmo é de tudo o que a Pombagira representa com seu poderoso arquétipo.

Este arquétipo forte e poderoso já pôs por terra muito falso moralismo, libertando os seres da hipocrisia reinante e mostrando que a vontade é mãe da realização. Na Umbanda, será sempre a orientadora, aconselhadora e motivadora da vida, de suas belezas e delícias, além, é claro, da imensa vontade de viver!

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Fonte: Umbanda, eu curto.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/breves-consideracoes-sobre-a-orixa-pombagira/

Breve Introdução aos Manuscritos do Mar Morto

Em 1947 na Palestina, nos arredores do vilarejo de Khirbet Qumran, perto do lado ocidental do Mar Morto, foram encontrados por acaso uns antigos manuscritos que revelaram-se uma extraordinária descoberta arqueológica, cujas consequências ainda não estão completamente esclarecidas.

Infelizmente, por mais de 30 anos, os encontrados desta descoberta foram estritamente monopolizados, através de um verdadeiro sequestro, a fim de impedir o acesso ao mundo acadêmico internacional.

Serão preciso muitos anos, apesar do elogiável trabalho de pesquisadores independentes, para limpar nossos conhecimentos do material qumraniano das parcialidades interpretativas que ainda inundam o assunto.

Em 1947 quando o Estado de Israel ainda não tinha nascido, o lado leste do Mar Morto ficava em território jordaniano, e o lado ocidental sob o protetorado inglês.

Naquela época as ruas que levavam à lagoa eram poucas e muito ruins, e a região ao redor a pátria dos Beduínos, os quais mudavam para cá e para lá seus acampamentos e seu gado. Naquela altura, um jovem pastor árabe, Mohammed adh-Dhib, que estava iscando sua cabra, descobriu por acaso uma série de ingressos de grutas no flanco de uma perigosa escarpa, próxima da aldeia de Khibet Qumran.

O beduíno entrou e encontrou no interno muitos jarros abandonados. Voltou novamente com um amigo para recuperar os jarros (podiam ser usados para a água) quando os dois descobriram que nos jarros encontravam-se alguns rolos de pele embrulhados em tecidos consumidos.

A história da descoberta é obscura, não bem esclarecida, até que nunca poderemos saber quantos manuscritos foram originariamente encontrados pelos beduínos, nem se alguém tem ainda alguns manuscritos escondidos.

Em 1954 alguns manuscritos acabaram no cofre do hotel Waldorf Astoria de New York, de onde saíram quando o governo israelita os comprou por 250.000 dólares (ajudado por um rico benfeitor).

Outros manuscritos chegaram no Museu Rockfeller, na parte leste de Jerusalém, na época em mão jordaniana. Nasceram assim duas diferentes comissões independentes: uma chefiada por Yigael Yadin, em Israel, a outra, controlada por Padre de Vaux, um sacerdote católico, na Jordânia. Hoje, os manuscritos são conservados no Museu de Israel, no assim chamado Shrine of the Book (Trono do Livro).

Por causa do péssimo relacionamento entre os dois países, as comissões trabalharam sobre os manuscritos de forma completamente independente, sem possibilidade nenhuma de comunicação, com todos as desvantagens da situação. É claro que o resultado de cada comissão precisava ser confrontado com o da outra, mas isso era impossível.

O problema foi resolvido em 1967 quando, seguida a guerra dos seis dias, a parte leste de Jerusalém passou para as mãos israelitas e tudo o que aí se encontrava se tornou de propriedade do governo de Israel como despojos de guerra, inclusive os rolos de Qumran conservados no Rockfeller Museum. É engraçada e significativa a reação a este acontecimento do Padre de Vaux.

Se conta que, até o material permaneceu em mão jordaniana e que havia sido impedido que os hebreus tivessem acesso aos manuscritos, e que, quando eles passaram sob a autoridade israelita, de Vaux ficou literalmente enfurecido e aterrorizado pela ideia de perder o controle do material qumraniano.

Algum motivo estava pressionado-o a manter o material sob seu controle. Baigent, Leigh e Lincoln narram que de Vaux era um dominicano que tinha sido enviado, em 1929, à École Biblique de Jerusalém onde primeiro foi professor e depois diretor. Era um homem carismático, enérgico, autoritário e carola.

O governo israelita, que em 1967 estava ocupado em assuntos muitos diferentes que os manuscritos do Mar Morto, deixou a de Vaux a responsabilidade de supervisionar o trabalho de análise e lhe deu o encargo de formar e dirigir uma equipe internacional, com o compromisso de publicar o mais rápido possível os resultados das pesquisas.

Claramente, a expressão “equipe internacional” faz pensar numa precisa intenção de criar um grupo amplo, caraterizado pela presença de diferentes componentes que pudessem dar garantia de uma gestão não parcial do trabalho. Mas as coisas não andaram assim.

Os israelitas não foram convidados a fazer parte do grupo, e todos os componentes selecionados eram todos católicos, não laicos, e com uma ideologia com uma forte conotação: Franck Cross, do McCormick Theological Seminary. Chicago; monsenhor Patrick Skehan, diretor do Albright Institute; Padre Jean Starcky, da École Biblique; Padre Maurice Baillet, francês; Padre Josef Milik, polonês; apenas um tal John Allegro não era um personagem tão claramente enquadrado com os outros.

Mas a sua presença não foi tolerada por muito tempo. Logo foi extraditado e substituído por John Strugnell, que oferecia maiores garantias de alinhamento. Em prática se pode dizer que Padre de Vaux, expoente da asa mais tradicionalista e conservadora da igreja romana, criou um restrito grupo de católicos.

Os manuscritos encontrados a Khirbet Qumran abriram a porta de uma longa série de incômodas perguntas sobre os primeiros cristãos.? De fato, nos rolos se encontram elementos que, além de mostrar evidentes ligações com o cristianismo das origens, põem em seria discussão alguns fundamentos da mesma doutrina e da interpretação histórica da figura de Jesus Cristo.

Em 1992, depois de 25 anos de monopólio absoluto da equipe, a situação começou a mudar. Sobretudo pela enorme quantidade de críticas internacionais contra o absurdo de um pequeno grupo de pesquisadores, tratar como propriedade privada materiais arqueológicos daquela extraordinária importância, e muitos daqueles rolos acabaram sendo publicados.

Mas ainda assim fica a suspeita que parte dos documentos continuem ficando desconhecidos à coletividade. Para não falar da profunda influência cultural, que continua a condicionar o endereço interpretativo, causado por esses 25 anos de monopólio.

Serão precisos muitos anos para a situação se ajeitar até o ponto de poder avaliar o material de maneira objetiva baseada sobre posições realmente desinteressadas.. . .

OS MANUSCRITOS DE QUMRAN:

Entre os primeiros documentos publicados dos manuscritos do mar morto, é preciso lembrar o Manual de Disciplina (ou Regra da Comunidade), a Regra da Assembleia, o Documento de Damasco, a Regra da Guerra dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas, o Comentário de Habacuque.

Neles aprendemos que o ritual do batizado, o eucarístico e a confissão dos pecados, eram parte integrante e essencial das práticas religiosas, é possível reconhecer muitos elementos que, nos textos evangélicos, são próprios do pensamento cristão: a iminência do reino, a exortação a converter-se nesta mesma prospectiva, a proibição de jurar, os conceitos expressos por Jesus no sermão da montanha, a terminologia usada etc….

Confrontamos, por exemplo, as seguintes palavras dos manuscritos :

“…Pelo sábio para que ele ensine os Filhos da Luz… Numa fonte de Luz está a origem da verdade, e numa fonte de Escuridão a origem da injustiça…”

“…na hora que os Filhos da Luz atacarem o partido dos Filhos das Trevas…” (Regra da Guerra)

com as palavras do Quarto Evangelho:

“…Andai enquanto tendes a Luz, para as Trevas vos não apanhem; pois quem anda nas Trevas não sabe para onde vai. Enquanto tendes a Luz, credes na Luz, para que sejais Filhos da Luz…” (Jo 12, 35-36)

“…a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Porque todo aquele que faz o mal aborrece a luz, e não vem para luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas quem pratica o verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestadas, porque são feitas em Deus…” (Jo 3, 19-21)

“…Eu sou a luz que vim ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas…” (Jo 12, 46)

Observe-se este trecho, que pertence ao manuscrito qumraniano “Regra da Comunidade”: “Do Deus muito sábio vem tudo o que é e será… dispus para o homem dois espíritos para que caminhe com eles até o tempo estabelecido da sua visita… concedeu um tempo determinado à existência da injustiça: no tempo estabelecido pela visita, ele a exterminará para sempre…”

E vamos a confrontá-lo com estas palavras do Evangelho de Lucas: “…Bendito o Senhor Deus de Israel, porque visitou e remiu o seu povo…” (Lc 1, 68)

“…se tu [Jerusalém] conhecesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz pertence! Mas agora isto está encoberto aos teus olhos. Porque dias virão sobre ti, em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todas as bandas; E te derribarão, a ti e aos teus filhos que dentro de ti estiverem; e não deixarão em ti pedra sobre pedra, pois que não conheceste o tempo da tua visitação…” (Lc 19, 41-44)

Os mesmos tons de ameaça apocalíptica se encontram no manuscrito qumraniano “Rolo da Guerra”:

“…Ouça, Israel! Hoje vós vos aprestais a combater contra vossos inimigos… não temeis e não vos alarmais na frente deles. Pois vosso Deus caminha convosco para combater vossos inimigos e para salvar-vos… Na hora que, no vosso país chegar uma guerra contra o opressor que vos oprime, tocareis as trombetas e vosso Deus lembrará de vós e estareis salvos dos vossos inimigos…”

Que podemos comparar a estas palavras do Evangelho de Lucas:

“…[o Senhor Deus de Israel] nos levantou uma salvação poderosa na casa de Davi seu servo. Como falou pela boca dos seus santos profetas, desde o princípio do mundo; para nos salvar dos nossos inimigos e da mão de todos os que nos aborrecem; para manifestar misericórdia a nossos pais, e lembrar-se do seu santo concerto, e do juramento que jurou a Abraão nosso pai, de conceder-nos que, libertados da mão dos nossos inimigos, o serviríamos sem temor, em santidade e justiça perante ele, todos os dias da nossa vida…” (Lc 1, 68-75)

E ainda, sempre no manuscrito qumraniano “Regra da Guerra”:

“…Alegra-te muito, Sião! [Jerusalém] Exultais vós todos, cidades de Judá! Abre para sempre tuas portas, para fazer entrar em ti a riqueza das nações… Filhas do meu povo, gritais de felicidade, enfeitai de glória… até quando resplandecerá o rei de Israel para reinar pela eternidade…”

Para se confrontar com o episódio evangélico do ingresso messiânico de Jesus a Jerusalém:

“…no dia seguinte, uma grande multidão que viera à festa, ouvindo que Jesus vinha a Jerusalém, tomaram ramos de palmeiras, e saíram-lhe ao encontro, e clamavam: Hosana! Bendito o rei de Israel que vem em nome do Senhor, e achou Jesus um jumentinho, e assentou-se sobre ele, como está escrito: não temas, ó filha de Sião [Jerusalém]; eis que o teu Rei vem assentado sobre o filho de uma jumenta…” (Jo 12, 12-15)

Uma importante consideração a fazer é relativa ao nome que a seita qumraniana dava a si mesma e ao lugar onde estava instalada. Logicamente a denominação de Khirbet Qumran é moderna e pertence à língua árabe. Para conhecer como os qumranianos indicavam seu próprio lugar de auto – exílio, podemos utilizar as palavras do Documento de Damasco [imagem a direita]:

“…o poço é a lei, e aqueles que o escavaram são os convertidos de Israel, aquele que saíram da terra de Judá e se exilaram na terra de Damasco…” (Documento de Damasco VI, 4-5)

“…segundo a disposição daqueles que entraram no novo pacto na terra de Damasco…” (Doc. Damasco VI, 19)

“…a estrela é a intérprete da lei que verá a Damasco, como está escrito: uma estrela tem feito muita estrada desde Giacobbe, e um cetro se levanta de Israel…” (Doc. Damasco VI, 18-20)

É importante observar, neste último versículo, a citação de uma profecia messiânica [Num. 24,17], que o Novo Testamento afirma estar referida a Cristo (Mt 2, 1-12 e Ap. 22, 16), também em relação a imagem da “estrela” como astro nascente que anuncia a chegada do Messias. Isso torna ainda maior a ligação do movimento cristão originário com o qumraniano. E ainda:

“…Todos os homens que entraram no novo pacto na terra de Damasco, mas depois se foram, traíram e se afastaram do poço da viva água…” (Doc. Damasco VIII, 21)

Neste versículo também encontra-se uma correspondência com o Novo Testamento. A imagem do poço da viva água corresponde perfeitamente às palavras usadas por Jesus no diálogo com a samaritana, no Evangelho de João. E ainda:

“…o pacto com o qual se comprometeram com o país de Damasco, ou seja, o novo pacto…” (Doc. Damasco XX, 12)

Tudo isso leva a acreditar que expressões como Damasco e a terra de Damasco, eram utilizadas pelos qumranianos para indicar ora a si mesmos e a sua comunidade, ora o lugar ou os lugares dos seus rituais. Muitos estudiosos concordam com esta opinião, inclusive o mesmo Padre de Vaux (L’archeologie et les manuscrits de la Mer Morte, London 1961), além de J. Barthelemy, A. Jaubert, G. Vermes, N. Wieder e outros. Qual o motivo de os qumranianos adotarem esta denominação? Eles trouxeram inspiração num texto bíblico, Amos 5, 26-27, que de fato vem citado no mesmo Documento de Damasco (VII, 14-15), onde se fala da teologia da deportação e do exílio (veja também Jeremias e Ezequiel).

Em prática, Damasco é visto como um lugar de exílio, um lugar onde os homens pio e puros encontram um abrigo em frente a cólera de Deus. Jeremias e Ezequiel falam dos exilados em Damasco como a parte melhor do povo de Israel.

Os qumranianos, que se separaram autoexilando-se no deserto do Mar Morto para protesto contra a corrupção da classe sacerdotal de Jerusalém, explorando a similitude com os versos bíblicos, comparam a si mesmos aos “deportados na terra de Damasco”, e nomearam Damasco o próprio ritual.

Tudo isso tem um papel fundamental na leitura e interpretação do Novo Testamento. O Professor R. Eisenman (California State University), que acredita na identidade, ou pelo menos numa estrita parentela, entre a comunidade de Qumran e o movimento judeu-cristão primitivo, afirma que o famoso trecho dos Atos dos Apóstolos no qual Paulo é enviado a Damasco pelo sumo sacerdote em busca de cristãos para prendê-los, tenha que ser completamente reinterpretada, entendendo com Damasco não a célebre cidade da Síria, mas este sitio de Qumran.

De fato, é importante observar que na Síria, nem Paulo nem o sumo sacerdote de Jerusalém tinham alguma autoridade. A cidade de Damasco pertencia a outra administração e as autoridades de Jerusalém não tinham nenhum direito de efetuar ações de polícia na Síria. Tudo isso mostra claramente a quantidade de questões que podem nascer de uma atenta análise da origem cristã. E de quanto tenha sido manipulada a memória histórica.

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Fonte: http://mucheroni.br.tripod.com/mar_morto

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/breve-introducao-aos-manuscritos-do-mar-morto/

Bispados errantes: nem todos os caminhos levam a Roma

por Stephan A. Hoeller
(Gnosis: A Journal of Western Inner Traditions, Vol. 12, 1989)

O BISPADO é tão antigo quanto o próprio cristianismo. Já na década de 90 d.C., São Clemente de Roma, em uma carta dirigida à comunidade feudal de Corinto, lembrava seus companheiros cristãos que os apóstolos haviam nomeado e ungido os bispos como seus sucessores válidos, e que seria contra a vontade de Deus para o povo substituí-los. No início da cristandade, homens (e, ao que parece, mulheres) chamados episkopoi receberam autoridade de seus predecessores pela imposição de mãos para exercer a plenitude do poder espiritual concedido por Jesus a seus apóstolos. Os bispos então delegavam funções especiais, como ensinar, perdoar pecados, curar e aconselhar os ministros que atuavam como seus auxiliares. O ofício de bispo é, portanto, mais antigo do que o de sacerdote, diácono ou outras ordens eclesiásticas menores, todas estabelecidas no segundo século DC, consideravelmente mais tarde do que a ordem apostólica do bispado.

Os apóstolos e seus sucessores funcionavam de duas maneiras: alguns estavam permanentemente ligados a uma determinada cidade e área geográfica onde cuidavam do bem-estar espiritual de uma comunidade de cristãos, enquanto outros, inspirados pelas palavras de seu fundador, mandando-os ensinar todos os povos e nações, viajaram para terras distantes espalhando a mensagem de sua fé. Esses líderes vagaram longe do berço do cristianismo no Oriente Médio, penetrando até mesmo em países remotos como a Índia, como fez o apóstolo Tomé. Estes apóstolos de Jesus, como Tomé, Bartolomeu e André, que não permaneceram em residências fixas cuidando de uma comunidade estabelecida, podem assim ser considerados os primeiros bispos viajantes ou “errantes”.

Mais tarde, outras categorias de bispos errantes entraram em cena. O imperador Constantino estabeleceu o cristianismo como a religião estatal de seu reino e passou a impor uma unidade artificial nas comunidades cristãs. Antes dessa época, havia uma forte orientação pluralista de tais comunidades e de seus líderes. Reconhecendo uma devoção comum a Cristo e seus ensinamentos, eles diferiam amplamente em doutrina e prática. Com Constantino as condições mudaram; a “ortodoxia” foi declarada como obrigatória para todos. Aqueles que não se conformavam eram obrigados a deixar a comunidade e muitas vezes seus locais de residência. Tornaram-se andarilhos. Gnósticos, arianos, nestorianos, monofisitas e outros líderes cristãos não conformistas tornaram-se bispos errantes. Uma nova tendência foi criada. Aqueles que concordaram com imperador e bispo eram autorizados a permanecer no cargo e desfrutar do apoio do estado, enquanto aqueles que discordaram eram convidados a partir e se tornaram andarilhos. No entanto, esses andarilhos não iam sem seguidores, pois clérigos e congregantes dissidentes e parentes se reuniam onde quer que fossem, muitas vezes impelindo as autoridades ortodoxas a atos de perseguição. O resto da história é familiar e triste para todos.

Desde os primeiros tempos, a transmissão da autoridade apostólica existiu fora da corrente principal das igrejas de Roma, Constantinopla, Antioquia e outras. Muitas dessas transmissões foram condenadas por seus “irmãos mais velhos” como heréticas. Curiosamente, a validade de suas ordens apostólicas foi sempre reconhecida por seus críticos. Devido a uma tradição primitiva, articulada mas não inventada por Santo Agostinho, a ortodoxia e validade da sucessão apostólica não eram consideradas a mesma coisa. Mesmo os bispos considerados hereges, podem exercer seu ofício como administradores dos sacramentos de maneira válida. Esta doutrina (conhecida como a doutrina agostiniana das ordens) é mantida até hoje pela Igreja Católica Romana. Desde que os “errantes” mantivessem as mesmas intenções ao ordenar seus sucessores que as tradicionalmente mantidas pela cristandade sacramental ao longo dos tempos, eles poderiam transmitir seus poderes sagrados e administrar os sacramentos de uma maneira que os papas reconheceriam como válidas. Esse é o caráter e o status dos chamados bispos errantes tal como existem hoje.

O Episcopado Errante Moderno

Bispos errantes existiram ao longo da história. Na Idade Média, os bispos locais frequentemente reclamavam com o papa sobre os prelados itinerantes que se deslocavam pelo campo desempenhando funções reservadas aos bispos, como confirmar jovens e ordenar padres e diáconos. Nos tempos modernos, após a Reforma, tais atividades às vezes se tornaram as responsáveis por fazer grandes comunidades se afastarem da Igreja de Roma. Uma desses casos célebres envolveu o bispo francês Varlet, que, viajando pela Holanda, começou a ministrar a um grupo isolado dentro da minoria católica que permanecia naquela terra calvinista. O bispo Varlet foi finalmente persuadido a conceder o episcopado ao líder desse grupo de católicos holandeses e, em 1724, nasceu a Antiga Igreja Católica Holandesa. Esta comunidade fiel e devota manteve sua identidade como uma igreja católica separada de Roma, mas ainda assim foi relutantemente reconhecida como um corpo católico válido pelo papa, e ainda mantém esse status até hoje. Nos registros do último concílio da Igreja Católica Romana (conhecido como Vaticano II), a pequena Igreja Católica Antiga da Holanda está listada no topo da lista de observadores, muito à frente de grandes corpos protestantes como as igrejas anglicanas ou presbiterianas. , devido a esta sua validade inquestionável.

Consagração do Bispo J.I. Wedgwood (segundo da esquerda), fevereiro de 1916, Londres.

Outro lugar onde abundavam os bispos errantes era o antigo território missionário cristão do sul da Índia, onde, segundo a tradição local, o maior e mais vigoroso de todos os bispos errantes, o apóstolo Tomé, jaz em um túmulo não muito longe da cidade de Madras. Os cristãos de São Tomás, originalmente brâmanes da costa do Malabar, continuaram por séculos como uma série de comunidades ferozmente independentes, sempre afirmando seus direitos contra papas e patriarcas que reivindicavam jurisdição sobre eles. E assim aconteceu que os obstinados velhos católicos holandeses e os facciosos cristãos do sul da Índia tornaram-se os progenitores não premeditados de bispos independentes ou errantes, que agora são contados aos milhares e estão espalhados por todos os continentes do globo. Os iniciadores dessa proliferação sem precedentes foram dois padres, um inglês e outro franco-americano, que, no final do século XIX e início do século XX, receberam a consagração das mãos de representantes dos bispos católicos holandeses e do sul da Índia.

Eles foram Arnold Harris Matthew (1852-1919) e Joseph René Vilatte (1854-1929) respectivamente. Mateus tornou-se o principal prelado da Antiga Igreja Católica na Grã-Bretanha, enquanto Vilatte trouxe o fluxo da sucessão originalmente  igreja síria do sul da Índia para os Estados Unidos. Não vinculados às regras e restrições tradicionais em relação às consagrações de outros bispos, esses dois prelados autônomos passaram a impor suas mãos ungidas sobre um bom número de homens em ambos os lados do Atlântico, e assim iniciaram uma nova era na história da peregrinação.

A Entrada na Conexão Oculta

Em 1913, o líder envelhecido e rabugento do ramo inglês bastante malsucedido do antigo catolicismo holandês, Matthew, recebeu um visitante. O homem de trinta anos, bonito, culto e entusiasmado que bateu à porta do bispo Matthew era James Wedgwood, descendente da famosa família da porcelana inglesa Wedgwood. Ele era um teosofista, um ávido seguidor do sistema espiritual neognóstico divulgado desde 1875 pela nobre e prolífica escritora russa H.P. Blavatsky. Outros teosofistas (e muitos de seus homólogos da Nova Era de hoje), Wedgwood valorizavam as tradições espirituais ao contrário do Ocidente, como a magia cerimonial, a maçonaria esotérica e o mistério e a magia sagrada dos sacramentos cristãos. Wedgwood juntou-se ao pequeno movimento católico antigo na Inglaterra e, depois de algum tempo e vicissitudes, tornou-se bispo em 1916. Muitos de seus colegas teosofistas também se sentiram atraídos pela majestosa beleza e misticismo da missa e dos outros sacramentos administrados por Wedgwood e seus associados. Entre estes estava o “grande velho” leonino da Sociedade Teosófica, o notável professor, escritor e clarividente, Charles Webster Leadbeater. Logo Wedgwood e Leadbeater se estabeleceram na Austrália para um período prolongado de planejamento e trabalho. O resultado foi um novo corpo eclesiástico possuindo sua liturgia, filosofia e costumes distintos. Ela veio a ser chamada de Igreja Católica Liberal, e com ela nasceu um novo misticismo oculto que teria influência e consequências muito superiores à força numérica da nova igreja ou mesmo de sua aliada mais antiga, a Sociedade Teosófica.

Bispo James Ingall Wedgwood.

Dizer que poderia haver um catolicismo oculto não é tão absurdo quanto alguns podem pensar. A história está repleta de prelados, padres e freiras da Igreja Católica que eram ocultistas dedicados e habilidosos. Cabala, hermetismo, astrologia e magia foram todos patrocinados por numerosos papas e defendidos por clérigos. (Dependendo das pessoas envolvidas, bem como do período histórico, os praticantes dessas mesmas disciplinas também foram às vezes queimados na fogueira pela Inquisição); apesar de seu conflito frequente, estes grupos pertencem um ao outro e dependem um do outro de muitas maneiras. O maior afastamento do catolicismo de seu gêmeo esotérico sombrio ocorreu após o Iluminismo, quando considerações racionalistas fizeram incursões na Igreja. Ainda hoje, pode-se descobrir que pessoas de interesses gnósticos-herméticos têm mais em comum com os católicos tradicionalistas do que com os católicos modernistas do Vaticano II ou com os protestantes. Sem articular esses pensamentos conscientemente, os católicos teosóficos do tipo de Wedgwood e Leadbeater parecem ter intuído essas relações e compatibilidades arquetípicas entre o catolicismo e ocultismo básico. Com essas intuições, eles podem ter se tornado pioneiros de uma abordagem ao cristianismo sacramental que tem uma implicações significativas para o futuro da religião ocidental.

Uma nova visão mágica do poder sacramental

O campeão-em-chefe do catolicismo oculto foi, sem dúvida, C.W. Leadbeater. Um ex-padre anglicano que deixou a igreja, a família e o país para seguir Madame Blavatsky na Índia e no mundo da teosofia no final do século XIX, ele permaneceu uma figura misteriosa e convincente até sua morte no final da década de 1930. Totalmente dedicado aos ensinamentos da teosofia, Leadbeater estava, no entanto, ciente de que a magia dos sacramentos cristãos ainda era muito necessária para a humanidade contemporânea. Já em abril de 1917, ele escreveu em The Theosophist:

“Quando o grande Instrutor do Mundo esteve pela última vez na terra, Ele fez um arranjo especial com o que podemos entender como um compartimento de um reservatório de poder espiritual disponível para o uso da nova religião que ele fundou, e que seus oficiais deveriam ser autorizados, pelo uso de certas cerimônias, palavras e sinais de poder, para aproveitá-lo para o benefício espiritual de seu povo.”

Bispo Charles W. Leadbeater

O bispo Leadbeater sentiu que, por meio de suas faculdades extra-sensoriais, ele era capaz de descrever com alguma precisão o mecanismo pelo qual os sacramentos eram capazes de funcionar efetivamente. Em obras como The Science of the Sacraments, The Inner Side of Christian Festivals, e seu recente e postumamente publicado “The Christian Gnosis”, ele deixou um legado impressionante em que demonstrou para a satisfação de muitos que a Missa e outros sacramentos da fé apostólica cristã é capaz de auxiliar o bem-estar espiritual e o crescimento transformador das pessoas em nossa época, bem como no passado. A pequena, mas disciplinada igreja que Leadbeater e Wedgwood fundaram ainda existe nos cinco continentes, em países como Holanda, Austrália e Nova Zelândia, e possui numerosos edifícios impressionantes com grandes congregações. Um sério golpe foi dado à Igreja Católica Liberal, no entanto, na década de 1930, quando Jiddu Krishnamurti, que foi anunciado pelos principais teosofistas como o veículo do Mestre do Mundo (Cristo), abandonou a causa de seu messianismo e criticou todos os ritos e cerimônias com particular veemência.

Leadbeater e seu novo tipo de catolicismo oculto atuaram como influências seminais para muitos dos bispos errantes que o seguiram e que frequentemente funcionavam fora do corpo eclesiástico formal fundado pelos bispos teosóficos. Um desses clérigos foi Lowell Paul Wadle, principal representante nos Estados Unidos das sucessões trazidas a este continente pelo errante francês Vilatte. O bispo Wadle era um teosofista e um conferencista popular em círculos de espiritualidade alternativa, particularmente na Califórnia. Um homem encantador e gentil, sua influência sobre o catolicismo oculto talvez tenha ficado atrás apenas de Leadbeater. Mantendo-se em sua igreja primorosamente decorada de St Francis em Laguna Beach, Califórnia, ele era um homem a quem clérigos e leigos de muitas denominações procuravam por conselho e companhia.

Não é exagero dizer que a visão ocultista e teosófica introduzida no culto sacramental da igreja por esses pioneiros teve implicações de maior alcance e exerceu uma influência maior que é discernível superficialmente. Numerosas pessoas criativas ficaram profundamente impressionadas com a possibilidade de uma separação efetiva dos sacramentos do peso do dogma e da moralização ultrapassada com a qual as igrejas dominantes inevitavelmente tenderam a combiná-los. Uma pessoa podia agora participar dos benefícios da graça sacramental sem ser forçada a sistemas de crença e comando que pudessem ser contrários às suas convicções mais profundas. Mais de meio século antes, tendências teológicas liberais e permissivas fizeram incursões nos principais bastiões da cristandade sacramental; uma abertura foi assim criada para a liberdade, criatividade e, mais importante, para tipos não convencionais de pensamento mágico-místico dentro da graça e beleza majestosa do cerimonial consagrado pelo tempo na Igreja.

Bispos gnósticos entram na briga

O país ostensivamente católico romano da França abrigou hereges, cismáticos e bispos errantes por vários séculos. Os gnósticos de Lyon aborreceram tanto o padre da Igreja Irineu que ele dedicou volumes de diatribes para combatê-los. Grupos gnósticos de vários tipos existiram nas províncias francesas ao longo da história, sendo o mais conhecido e mais numeroso a igreja cátara no século XIII. É interessante notar que toda vez que o domínio da Igreja de Roma enfraqueceu sobre o governo da França, corpos religiosos gnósticos emergiram de seus esconderijos, geralmente apenas para serem suprimidos logo depois por outro governo clerical. Assim, na época da Revolução Francesa, a Ordem dos Templários, outrora suprimida, foi reorganizada em linhas vagamente gnósticas de seu grão-mestre, o ex-sacerdote católico romano e esoterista Bernard Fabré-Palaprat, que no início de 1800 foi consagrado Patriarca da Igreja Joanita de Cristãos Primitivos aliados à Ordem dos Templários. Essa consagração estabeleceu um padrão para muitas criações subsequentes de bispos errantes franceses de persuasão gnóstica e afins, pois o prelado consagrante, Monsenhor Mauviel, era um chamado bispo constitucional, isto é, membro de uma hierarquia de bispos católicos franceses validamente consagrados pelo governo revolucionário em oposição ao papado. Gnósticos, Templários, Cátaros e outros grupos secretos geralmente possuíam suas próprias sucessões esotéricas, mas, a partir de então, acharam útil receber a consagração das mãos de prelados católicos válidos, mas irregulares, que não eram difíceis de encontrar na esteira da guerra, da revolução e sua confusão eclesiástica.

No final do século XIX e início do século XX, pelo menos uma grande igreja gnóstica pública, a Eglise Gnostique Universalle, estava moderadamente ativa na França, liderada por esoteristas ilustres como Jules Doinel, Jean Bricaud e, eventualmente, o líder da ordem Martinista revivida, conhecido como Papus (Dr. G. Encausse). O renascimento de um movimento público católico gnóstico (ou gnóstico católico) foi assim realizado.

Como no caso do catolicismo ocultista teosófico, aqui surge a pergunta: por que pessoas ocultistas ou gnósticas devem aspirar ao ofício de bispo no sentido católico, e por que devem praticar os sacramentos da Igreja Católica Romana? A resposta não é difícil. Movimentos gnósticos de vários tipos que sobreviveram secretamente na Europa eram originalmente parte da Igreja Católica Romana. Embora diferissem de seu parente maior e fossem frequentemente perseguidos por ela, ainda a consideravam o modelo de vida eclesiástica. Eles podem considerar o conteúdo de sua religião completamente em desacordo com os ensinamentos de Roma, mas a forma de sua adoração ainda é aquela que a cristandade antiga e universal sempre praticou. O tipo de pluralismo religioso inovador que se desenvolveu na América do Norte era desconhecido para eles, e com toda a probabilidade teriam sido repelidos por ele se o conhecessem. Um gnóstico, embora herege, ainda era membro da Santa Igreja Católica e Apostólica, e tinha o direito e a obrigação de praticar os sete sacramentos históricos da maneira tradicional.

O gnosticismo francês estabeleceu assim sua própria vida eclesiástica, seguindo o exemplo da prática católica romana. O movimento nunca faltou em vicissitudes. Ainda em 22 de março de 1944, o chefe do principal corpo religioso gnóstico na França, Monsenhor Constant Chevillon (Tau Harmonius), foi cruelmente executado depois que o governo colaboracionista de Vichy suprimiu a Igreja Gnóstica. Ainda assim, o movimento se espalhou para a Alemanha, Espanha, Portugal, América Latina e países de língua francesa como o Haiti e assim permaneceram até anos após a Segunda Guerra Mundial.

A tradição gnóstica, que originalmente tinha sua casa na França, veio a se estabelecer na Inglaterra e depois nos Estados Unidos, inicialmente como resultado dos esforços de um bispo de ascendência francesa que foi criado na Austrália. Nascido Ronald Powell, ele assumiu o nome de Richard Jean Chretien Duc de Palatine. Um homem erudito e carismático, de Palatine (que recebeu suas sucessões do conhecido prelado independente britânico Hugh de Wilmott-Newman) que pode ser considerado o pioneiro do gnosticismo sacramental na Inglaterra e nos Estados Unidos. Sua tradição sobrevive principalmente na Ecclesia Gnostica, sediada em Los Angeles e chefiada pelo atual escritor, que foi consagrado em 1967 pelo bispo de Palatine. Outras igrejas gnósticas de orientação muito semelhante surgiram nos últimos anos em números crescentes. Hoje, existem descendentes vigorosos e estáveis ​​do movimento gnóstico francês funcionando em Nova York, Chicago (liderado pelo Monsenhor Robert Conikis) e Barbados (liderado por Tau Thomas). A primeira mulher bispa na tradição gnóstica nos tempos modernos é Dom Rosamonde Miller, que fundou a Ecclesia Gnostica Mysteriorum em Palo Alto, Califórnia.

Rumo a uma nova gnose cristã

Os nomes e movimentos mencionados acima não esgotam o número de bispos errantes e os movimentos que eles fundaram. A mais populosa e estável dessas organizações é a Igreja Independente das Filipinas, cujas origens remontam à separação das Filipinas da Espanha; e a Igreja Católica Brasileira, fundada décadas atrás por um descontente bispo católico romano brasileiro. Ambas mantêm teorias vagamente definidas de caráter ortodoxo, embora existam interações positivas ocasionais entre elas e os corpos gnósticos ocultos. Existe um potencial para uma grande igreja católica cismática na China continental, onde uma Igreja Católica Romana não papal passou a existir sob as ordens de Mao Tse-tung. Este movimento com bispos validamente consagrados ainda funciona, e curiosamente conduz seus serviços sem nenhuma das mudanças introduzidas pelo Concílio Vaticano II.

Só o tempo dirá qual será o papel dos bispos errantes dentro das estruturas em desenvolvimento da cristandade sacramental. Desde o Concílio Vaticano II na década de 1960, confusão e dissensão aberta apareceram até mesmo dentro do monólito católico romano. As “reformas” litúrgicas combinadas com frouxidão e pura trivialidade mudaram tanto a natureza dos cultos da Igreja Católica Romana em muitos países que muitos dos bispos errantes podem reivindicar uma maior autenticidade tradicional hoje do que seus homólogos e muito mais ricos e poderosos, os católicos romanos. Além disso, enquanto as mulheres ainda travam uma batalha aparentemente sem esperança pelo sacerdócio com Roma, muitos dos bispos errantes podem alegar com justiça não apenas ter concedido ordens sagradas às mulheres, mas também ter defendido um certo feminismo espiritual já a um tempo considerável. O patriarca gnóstico, Tau Synesius, assim escreveu a um congresso religioso em 1908:

“Há entre nossos princípios um para o qual chamarei atenção especial: o princípio da salvação feminina. A obra do Pai foi cumprida, a do Filho também. Resta a do Espírito, que é o único capaz de realizar a salvação final da humanidade na terra e, assim, preparar o caminho para a reconstituição do Espírito. Ora, o Espírito, o Paráclito, corresponde ao divino de  natureza feminina, e nossos ensinamentos afirmam explicitamente que esta é a única faceta da divindade que é verdadeiramente acessível à nossa mente. Qual será de fato a natureza desse novo e não muito distante Messias?”

A aparente promessa que reside nos bispos errantes é obscurecida e às vezes negada pelas excentricidades pessoais e caráter desagradável de um grande número desses bispos. Como a consagração ao episcopado é muitas vezes obtida com tanta facilidade na subcultura dos errantes, pessoas venais, instáveis ​​e lamentavelmente mal educadas abundam nas fileiras do episcopado “independente”. Um grande número desses bispos são simplesmente pessoas que não se gostaria de convidar para jantar. O “fator desprezível” é muito óbvio e onipresente, e esse fator provavelmente continuará sendo o maior obstáculo para o trabalho positivo que os bispos errantes poderiam realizar nesta época.

A indignidade de muitos não deve nos cegar para o potencial que reside nos poucos. A massa de bispos errantes assemelha-se muito a uma espécie de prima matéria alquímica de onde ainda pode emergir uma verdadeira pedra dos filósofos. O cristianismo começou como uma heresia judaica de má reputação, tendo como fundador um criminoso executado. Cismas e heresias cristãs que hoje são tidas em descrédito também podem levar a grandes e transformadores desenvolvimentos espirituais. As pedras angulares do futuro são frequentemente feitas de pedras antes rejeitadas pelos construtores. O estranho e paradoxal fenômeno dos bispos errantes pode revelar-se como um ingrediente vital na alquimia histórico-espiritual da era vindoura. Alguns de nós esperam que esse seja o caso, enquanto outros zombam ou se afastam de tais preocupações. A última palavra, porém, pertence a Poderes que transcendem tanto os defensores quanto os críticos. E a palavra deles, podemos ter certeza, será final e direta.

Fonte:http://gnosis.org/wandering_bishops.htm

Tradução: Tamosauskas

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/bispos-errantes-nem-todos-os-caminhos-levam-a-roma/

Bíblia para Bêbados: O Jogo de Bar

No esforço de encorajar a leitura da Bíblia o movimento Jesus Freak decidiu uní-la com uma das práticas mais populares de todos os tempos: encher a cara. As Escrituras Sagradas por si só são repletas de eventos surpreendentes, engraçados e espantosos, mas os grupos de estudos e as escolas dominicais conseguiram fazer ela parecer uma chatice. Confira agora como algumas artimanhas podem tornar a leitura conjunta da Bíblia tão divertida quanto um porre.

Junte alguns amigos, leve uma ou mais Bíblias e comece a ler um capítulo em voz alta e siga as regras abaixo. Recomendamos o Novo Testamento para começar. Sem dúvida, qualquer bebida alcoólica pode ser usada, mas o vinho certamente trará uma ambientação mais bíblica ao jogo.

As Regras Básicas

O Jogo Bíblia para Bêbados tem apenas 4 regras simples:

 

1 – Regra do Gole

Os jogadores devem dar um gole sempre que um destes eventos acontecer:

  • Um nome próprio (lugar ou pessoa) for citado pela primeira vez
  • Alguém ou alguma coisa for abençoada
  • Alguém ou alguma coisa for amaldiçoada
  • Acontecer um Milagre.
  • Episódios de Morte.
  • Episódios de Volta da Morte
  • Episódios de Sexo.

 

2 – Combo da Trindade

Sempre que as palavras ‘Jesus’, ‘SENHOR’ ou ‘Espírito Santo’ aparecer três goles grandes devem ser dados.


3- Desafio do Léxico

Sempre que uma palavra difícil aparecer (basílisco, iniquidade, etc…)  um jogador pode desafiar o outro. Se o desafiado não souber o significado deve terminar seu copo. Se souber, o desafiador deve fazer isso. Dica: algumas versões, como a Tradução Almeida, possue mais palavras difíceis do que outras.

4 – Eventos Bônus

Termine o copo sempre que um destes eventos acontecer:

  • Jesus der uma resposta legendária aos Fariseus.
  • Davi matar alguém
  • Um Profeta fugir ou chorar
  • Ocorrer um terremoto ou sinais no céu
  • Paulo ficar falando em círculos depois de ter terminado o assunto
  • Pedro fizer merda.
  • Alguém fizer pouco de Deus e suas obras.

Encerramento: Desafio do Pai Nosso

A Bíblia é grande demais, então é provável que  a noite termine antes dela. A qualquer momento o  jogo pode ser encerrado com o desafio do Pai Nosso. Nele a oração ensinada por Jesus em ‘Lucas 11.2-4’ deve ser dita de cabeça sem ajuda da leitura por cada um dos jogadores. Cada vez que alguém errar, todos os demais devem beber um novo copo.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/biblia-para-bebados-o-jogo-de-bar/

Barbelo: A Deusa no Gnosticismo

Barbēlō (grego: Βαρβηλώ) refere-se à primeira emanação de Deus em várias formas de cosmogonia gnóstica. Barbēlō é frequentemente descrita como um princípio feminino supremo, a único antecedente passivo da criação em sua multiplicidade. Esta figura também é chamada de ‘Mãe-Pai’ (sugerindo sua aparente androginia), o ‘Primeiro Ser Humano’, ‘O Triplo Nome Andrógino’, ou o ‘Aeon Eterno’. Tão proeminente era seu lugar entre alguns gnósticos que algumas escolas foram designadas como os Barbeliotae, os adoradores de Barbēlō ou os gnósticos de Barbēlō.

NA BIBLIOTECA DE NAG HAMMADI:

No Apócrifo de João, um tratado da Biblioteca de Nag Hammadi contendo o relato mais extenso do mito da criação setiana, a Barbēlō é descrita como “o primeiro poder, a glória, Barbēlō, a glória perfeita nas eras, a glória da revelação”. Todos os atos subsequentes de criação dentro da esfera divina (exceto, crucialmente, o de Sophia, no aeon mais baixo Sophia) ocorrem através de sua coação com Deus. O texto a descreve assim:

“Este é o primeiro pensamento, sua imagem; ela se tornou o ventre de tudo, pois é ela que é anterior a todos eles, a Mãe-Pai, o primeiro homem (Anthropos), o Espírito Santo, o três vezes masculino, o três vezes poderoso, o andrógino três vezes nomeado, e o aeon eterno entre os invisíveis, e o primeiro a surgir.”

Barbēlō é encontrada em outros escritos de Nag Hammadi:

– O Alógenes faz referência a um Espírito Duplo Poderoso Invisível, uma virgem masculina, que é a Barbēlō.

– O Livro Sagrado do Grande Espírito Invisível refere-se a uma emanação divina chamada ‘Mãe’, que também é identificada como Barbēlō.

– Em Marsanes — vários lugares.

– Em Melquisedeque – duas vezes, a segunda vez em uma oração de Melquisedeque:

“Santa és tu, Santa és tu, Santa és tu, Mãe dos aeons, Barbelo, para todo o sempre, Amém.”

– As Três Estelas de Seth oferecem uma descrição do “primeiro aeon, a virginal masculina Barbelo, a primeira glória do Pai invisível, aquela que é chamada ‘perfeita’”.

– A Protenoia Trimórfica (o ‘Primeiro Pensamento em Três Formas’), mesmo na primeira pessoa:

“Ele perpetuou o Pai de todos os Aeons, que sou Eu, o Pensamento do Pai, Protennoia, isto é, Barbelo, a Glória perfeita, e o Invisível imensurável que está oculto. Eu sou a Imagem do Espírito Invisível, e é através de mim que o Todo tomou forma, e (eu sou) a Mãe (assim como) a Luz que ela designou como Virgem, ela que é chamada ‘Meirothea’, o Ventre incompreensível, a Voz irrefreável e imensurável.”

– No Zostrianos— o aeon Barbēlō é referido em muitos lugares. Em Zostrianos, Barbelo possui três subníveis ou subaeons que representam três fases distintas:

– Kalyptos (a “Oculta”), o primeiro e mais alto subaeon dentro do Aeon de Barbelo, representando a latência inicial ou existência potencial do Aeon de Barbelo.

– Protophanes (o “Primeiro Aparecimento”), o segundo maior subaeon, é chamado de grande Mente masculina perfeita e representa a manifestação inicial do Barbelo Aeon.

– Autogenes (“Autogerado”), a atualização autogerada do Aeon Barbelo, é o mais baixo dos três subaeons.

NA PISTIS SOPHIA:

Na Pistis Sophia, Barbēlō é nomeada com frequência, mas seu lugar não é claramente definido. Ela é um dos deuses, “um grande poder do Deus Invisível” (373), unido a Ele e às três “divindades três vezes poderosas” (379), a mãe da luz Pistis Sophia” ou corpo celestial (13, 128; cf. 116, 121); a terra aparentemente é a “matéria criativa de Barbēlō” (128) ou o “lugar de Barbēlō” (373).

NOS TEXTOS PATRÍSTICOS:

Ela é obscuramente descrita por Irineu como “um aeon que nunca envelhece em um espírito virginal”, a quem, segundo certos “Gnósticos”, o Pai Inominável quis se manifestar, e que, quando quatro seres sucessivos, cujos nomes expressam pensamento e vida, havia saído Dele, foi vivificada com alegria com a visão, e ela mesma deu à luz a três (ou quatro) outros seres semelhantes.

Ela é notada em várias passagens vizinhas de Epifânio, que em parte deve estar seguindo o Compêndio de Hipólito, como mostra a comparação com Filastro (c. 33), mas também fala por conhecimento pessoal das seitas ofíticas especialmente chamadas de “Gnósticos” ( i. 100 f.). A primeira passagem está no artigo sobre os nicolaítas (i. 77 f.), mas aparentemente é uma referência antecipatória aos seus supostos descendentes, os “gnósticos” (77 a; Philast.). De acordo com a opinião deles, Barbēlō vive “acima do oitavo céu”; ela havia sido ‘produzida’ (προβεβλῆσθαι) “do Pai”; ela era mãe de Yaldabaoth (alguns diziam, de Sabaoth), que insolentemente tomou posse do sétimo céu e se proclamou o único Deus; e quando ela ouviu esta palavra, ela lamentou. Ela estava sempre aparecendo para os Arcontes em uma bela forma, para que, ao seduzi-los, ela pudesse reunir seu próprio poder disperso.

Outros, Epifânio parece dizer (78 f.), contaram uma história semelhante de Prunikos, substituindo Caulacau por Yaldabaoth. Em seu próximo artigo, sobre os “gnósticos”, ou borboritas (83 d.C.), a ideia da recuperação dos poderes dispersos de Barbēlō se repete conforme estabelecido em um livro apócrifo de Noria (ou Norea), a lendária esposa de Noé.

“Pois Noé era obediente ao arconte, dizem eles, mas Noria revelou os poderes no alto e Barbelo, a descendente ou herdeira dos poderes – a oposta do arconte, como os outros poderes são. E ela deu a entender que o que foi tirado da Mãe nas Alturas pelo arconte que fez o mundo, e outros com ele – deuses, demônios e anjos – deve ser obtido do poder nos corpos, através das emissões masculinas e femininas.”

Em ambos os lugares, Epifânio representa a doutrina como dando origem à libertinagem sexual. Mircea Eliade comparou essas crenças e práticas borboritas envolvendo Barbēlō com rituais e crenças tântricas, observando que ambos os sistemas têm um objetivo comum de alcançar a unidade espiritual primordial através da felicidade erótica e do consumo de menstruação e sêmen.

Em uma terceira passagem (91 ss.), enumerando os Arcontes que dizem ter seu assento em cada céu, Epifânio menciona como os habitantes do oitavo ou mais alto céu “aquela que é chamada Barbēlō”, e o auto-gênero Pai e Senhor de todas as coisas, e o Cristo nascido de virgem (αὐτολόχευτον) (evidentemente como seu filho, pois de acordo com Irineu sua primeira progênie, “a Luz”, foi chamada de Cristo); e da mesma forma ele conta como a ascensão das almas através dos diferentes céus terminava na região superior, “onde está Barbēro ou Barbēlō, a Mãe dos Vivos” (Gênesis 3:20).

Teodoreto (H. F. f. 13) apenas parafraseia Irineu, com algumas palavras de Epifânio. Jerônimo várias vezes inclui Barbēlō em listas de nomes portentosos correntes na heresia espanhola, isto é, entre os priscilianistas; Bálsamo e Leusibora sendo três vezes associados a ele (Ep. 75 c. 3, p. 453 c. Vall.; c. Vigil. p. 393 A; em Esai. lxvi. 4 p. 361 c; em Amos iii. 9 pág. 257 E).

BARBELO E BABEL:

Babel, no livro de “Baruque” de Justino,o  Gnóstico, é o nome do primeiro dos doze “anjos maternos” nascidos de Elohim e Edem (Hipp. Haer. v. 26, p. 151). Ela é idêntica a Afrodite, e é ordenada por sua mãe a causar adultérios e deserções entre os homens, em vingança pela deserção de Edem por Elohim (p. 154). Quando Herácles é enviado por Elohim como “um profeta da incircuncisão” para vencer “os doze anjos maus da criação”, i. e. os anjos maternos, Babel, agora idênticos a Ômfale, o seduzem e o enfraquecem (p. 156; x. 15, p. 323). Ela pode possivelmente ser a Baalti ou Baal feminina de várias nações semíticas, embora o β (beta) intrusivo não seja facilmente explicado. Mas em geral é possível tomar Babel, “confusão” (Joseph. Ant. i. 4, § 3), como uma forma de Barbēlō, que pode ter o mesmo significado. O ecletismo de Justino explicaria sua deposição de Barbēlō do primeiro ao segundo lugar, onde ela ainda está acima de Hachamoth.

SIGNIFICADO DE BARBELO:

Nos relatos gnósticos de Deus, as noções de impenetrabilidade, estase e inefabilidade são de importância central. Pode-se dizer que a emanação de Barbēlō funciona como um aspecto generativo intermediário do Divino, ou como uma abstração do aspecto generativo do Divino através de sua Plenitude. O Espírito invisível oculto mais transcendente não é retratado como participando ativamente da criação. Esse significado é refletido tanto em sua aparente androginia (reforçada por vários de seus epítetos) quanto no próprio nome Barbēlō. Várias etimologias plausíveis do nome (Βαρβηλώ, Βαρβηρώ, Βαρβηλ, Βαρβηλώθ) foram propostas.

– William Wigan Harvey (On Irineu) e Richard Adelbert Lipsius (Gnosticismus, p. 115; Ofit. Syst. in Hilgenfeld’s Zeitschrift for 1863, p. 445) propuseram Barba-Elo, ‘A Deidade-em-Quatro’, com referência à Tétrade, que pelo relato de Irineu procede dela. Sua relação com esta Tétrade, porém, não tem nenhuma analogia verdadeira com a Col-Arba de Marcos; forma apenas o grupo mais antigo de sua progênie; e é mencionado apenas uma vez.

– ‘O limite supremo’, “paravela”, do indiano, “vela”, ‘limite’ – uma sugestão feita por Julius Grill (Untersuchungen über die Entstehung des vierten Evangeliums, Tübingen, 1902, pp. 396-397), que o conecta com o Horos Valentiniano , sendo o Barbēlō chamado de ‘o limite supremo’ em relação ao Patēr akatonomastos de um lado e às sizígias inferiores do outro.

– Wilhelm Bousset (Hauptprobleme der Gnosis, Göttingen, 1907, p. 14 f.) sugere que a palavra é uma mutilação de parthenos — a forma intermediária, Barthenōs, que realmente ocorre em Epifânio (Haer. xxvi. 1) como o nome da esposa de Noé.

– Fenton John Anthony Hort (DCB i. 235, 249) afirma que a “raiz balbel muito usada nos Targums (Buxtorf, Lex, Rabb. 309), em hebraico bíblico balal, significando mistura ou confusão, sugere uma melhor derivação para Barbelo, como denotando o germe caótico da existência variada e discreta: a mudança de ל para ר é bastante comum e pode ser vista na forma alternativa Βαρβηρώ. Se a Babel de Justino (Hipp. Haer. v. 26; x. 15) é idêntica a Barbelo, como é pelo menos possível, esta derivação torna-se ainda mais provável.”

– Pode ser uma construção copta ad hoc significando tanto ‘Grande Emissão’ (de acordo com The Gnostic Scriptures de Bentley Layton) quanto ‘Semente’ de acordo com F.C. Burkitt (em Church and Gnosis).

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Fontes:

– Eliade, Mircea (1978). Occultism, Witchcraft, and Cultural Fashions: Essays in Comparative Religion. University of Chicago Press. ISBN 0-226-20392-1.

– Meyer, Marvin (2007). The Nag Hammadi scriptures. New York: HarperOne. ISBN 978-0-06-162600-5. OCLC 124538398.

– Hoeller, Stephan A. (1989). Jung and the Lost Gospels. Quest Books. ISBN 0-8356-0646-5.

– Jonas, Hans (2001). The Gnostic Religion (3rd ed.). Beacon Press. ISBN 0-8070-5801-7.

– Layton, Bentley (1987). The Gnostic Scriptures. SCM Press. ISBN 0-334-02022-0.

– Rudolph, Kurt (1987). Gnosis: The Nature & History of Gnosticism. Harper & Row. ISBN 0-06-067018-5.

– Williams, Frank (1987). The Panarion of Epiphanius of Salamis. Vol. 2 volumes. Leiden; New York; København; Köln: E.J. Brill.

– Herbermann, Charles, ed. (1913). “Gnosticism”. Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company.

– Hort, Fenton John Anthony (1877). “Babel”. In Smith, William; Wace, Henry (eds.). A Dictionary of Christian Biography, Literature, Sects and Doctrines. Vol. I. London: John Murray. p. 235.

– Hort, Fenton John Anthony (1877). “Barbelo”. In Smith, William; Wace, Henry (eds.). A Dictionary of Christian Biography, Literature, Sects and Doctrines. Vol. I. London: John Murray. pp. 248–49.

– Moffatt, James (1919). “Pistis Sophia”. In James, William (ed.). Encyclopædia of Religion and Ethics. Vol. X. New York: Charles Scribner’s Sons. p. 46. ISBN 9780567065100.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/barbelo-a-deusa-no-gnosticismo/

Atos de João

Atos de João faziam parte das obras usadas pelos maniqueus no fim do século IV. Há indícios de terem sido compostos em Edessa, no final do século II d.C., em conjunto com Atos de Pedro, Paulo, André e Tomé, por um autor de nome Leucius Charinus, que viveu na Síria e teria sido discípulo de João. O Texto obedece às linhas mestras do Gnosticismo, nele encontramos uma passagem de rara beleza, trata-se do Hino anterior à Paixão.

É interessante antes de ler esse texto que você pegue um exemplar da Bíblia cristã, em Mateus 26, comece a lendo os versículos 26, 27,28,29, ao iniciar a leitura do versículo 30, você notará a falta de referencias aos salmos cantados pelos apóstolos. Pois bem, Atos de João nos revela esta fabulosa canção.

Este escrito, que você verá a seguir, foi duplamente condenado, tanto pelo papa Leão I(440-461 d.C.) quanto pelo Concílio de Bispo de Nicéia (787 d.C.). Foi proibida sua reprodução e determinada sua destruição pelo fogo.

A tradução do evangelho de João foi baseada na Evangiles Apocryphes, páginas 157 à 179 de F.Amiort. E da obra de Mario Erbetta, in Gli Apocrifi del Nouvo Testamento.

 

 

EVANGELHO DE JOÃO

 Evangelho Cristão

 

(ver Bíblia; MATEUS, 26: versículos 26 a 29)

 

26 Enquanto comiam, tomou Jesus o pão e depois de pronunciar a benção, partiu-o e deu a Seus discípulos, dizendo: 27 “Tomai e comei: Isto é o Meu corpo”. Tomou em seguida um cálice em Suas mãos, deu graças e o entregou dizendo: “Bebei dele todos. 28 Porque este é Meu sangue, sangue da aliança, que vai ser derramado por muitos para a remissão dos pecados. 29 Eu vos digo: Não beberei mais deste produto da videira até ao dia em que o hei-de beber de novo convosco no reino de Meu pai.

 

 

 


EVANGELHO GNÓSTICO DE JOÃO


Atos de João – Complemento de Mateus 26, versículos 29A até 30.

 

 

Antes que fosse preso pelo julgamento dos Judeus, O Mestre nos reuniu a todos e disse:

 

“Antes que eu seja entregues a eles, cantaremos um hino ao Pai e, em seguida, iremos ao encontro daquilo que nos espera”.

 

Ele pediu que nos déssemos as mãos em roda e colocando-se no meio, disse:”Respondei-me Amém.”

Começou, então a cantar um hino que dizia: “Gloria ao Pai”. E nós ao redor lhe respondíamos: “Amém”.

“Glória á Graça; glória ao Espírito; glória ao Santo; glória a sua glória”.- Amém.

“Nós o louvamos, ó Pai; nós lhe damos graças, ó Luz em que não habita as trevas”.- Amém.

“Agora direi porque damos graças:”

“Devo ser salvo e salvarei.” – Amém.

“Devo ser liberto e libertarei.”-Amém.

“Devo ser gerado e gerarei.”-Amém.

“Devo ouvir e serei ouvido.”-Amém.

“Devo ser lembrado e sempre lembrarei.”-Amém.

“Devo ser lavado e lavarei.”-Amém.

“A Graça dança em conjunto, eu devo tocar a flauta, dançai todos.”-Amém.

“O reino dos anjos cantam louvores conosco.”-Amém

“Ao universo pertence àquele que participa da dança.”-Amém.

“Quem participa da dança, não sabe o que vai acontecer.”-Amém.

“Devo ir mas vou ficar.”-Amém.

“Devo honrar e devo ser honrado.”-Amém.

“Não tenho morada mas estou em todas os lugares.”-Amém.

“Não tenho templo mas estou em todos os templos.”-Amém.

“Sou um espelho para aquele que me contempla.”-Amém.

“Sou uma porta para aquele que bate.”Amém.

“Sou um caminho para ti que passa.”Amém.

“Se seguires minha dança, compreendes o que falo, guarda silêncio sobre meus mistérios.”

“Tu, que participa da dança, compreende o que faço, pois a ti pertence esse sofrimento.!

“Tu não poderia de maneira alguma compreender o que sofre, se Eu não tivesse sido enviado como Logos do Pai.”

“Viste o que sofro, me viste sofrendo, e não ficaste insensível, mas sim profundamente perturbado.”

“Tu, que pela perturbação alcançaste a sabedoria, tens em mim um leito: repousa em mim.”

“Saberás quem sou quando Eu tiver partido. O que pareço ser agora, não sou. Tu verás quando vieres.”

“Se soubesse como sofrer, seria capaz de não sofrer mais. Aprende a sofrer e tornar-te-ás capaz de não mais sofrer.”

“O que não sabes, eu mesmo vou ensinar. Sou teu Deus. Quero andar no mesmo ritmo das almas santas. Aprende comigo a palavra da sabedoria.”

“Dize-me de novo: Glória ao Pai; glória ao Logo; glória ao Espírito Santo.

“Tu queres saber o que sou? Com a palavra revelei tudo, e não fui de modo algum revelado.”

“Compreende bem: Eu estarei aqui. Quando tiveres compreendido, diz: Glória ao Pai !”-Amém.

 

EVANGELHO CRISTÃO, MATEUS 26 versículo 30:

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/atos-de-joao/

Resultados da Hospitalaria – Fev/Mar/Abril 2019

Neste primeiro trimestre foram feitos ao todo 80 Mapas, 42 Sigilos Pessoais e 30 Mapas Sephiroticos

Principais entidades assistidas:

– MSF – Médicos sem fronteiras

– GACC – Grupo de Assistência à Criança com Câncer

– LBV (Legião da Boa Vontade)

– APAE

– Casa menino Jesus

– GOAs

– UNICEF

– Casas André Luiz

Tivemos 38 doações de sangue 🙂

E continuamos com o projeto de Hospitalaria. Quem estiver a fim de participar, é só seguir as instruções e pegar seu Mapa Astral ou Sigilo Pessoal via o TdC. Também é possível conseguir os Mapas através do . Quem quiser se aprofundar nos estudos de Astrologia Hermética, pode fazer o curso de EAD (Ensino a Distância) de Astrologia no EADeptus.

#Hospitalaria

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/resultados-da-hospitalaria-fev-mar-abril-2019

Asclépio (da biblioteca de Nag Hamadhi)

“E se você (Asclépio) deseja ver a realidade deste mistério, então você deve ver a maravilhosa representação da relação sexual que ocorre entre o homem e a mulher. Pois quando o sêmen atinge o clímax, ele salta para fora. Nesse momento, a fêmea recebe a força do macho; o macho, por sua vez, recebe a força da fêmea, enquanto o sêmen o faz.

“Portanto, o mistério da relação sexual é realizado em segredo, para que os dois sexos não se desgracem diante de muitos que não vivenciam essa realidade”. Para cada um deles (os sexos) contribui com sua (própria parte na) iniciação. Pois se isso acontece na presença daqueles que não compreendem a realidade, (é) risível e inacreditável. E, além disso, são mistérios sagrados, tanto de palavras quanto de obras, porque não só não são ouvidos, mas também não são vistos.

“Portanto, tais pessoas (os incrédulos) são blasfemadores. Eles são ateus e impiedosos. Mas os outros não são muitos; ao contrário, os piedosos que são contados são poucos. Portanto, a maldade permanece entre (os) muitos, já que o aprendizado a respeito das coisas que são ordenadas não existe entre eles. Pois o conhecimento das coisas que são ordenadas é verdadeiramente a cura das paixões da matéria. Portanto, o aprendizado é algo derivado do conhecimento.

“Mas se há ignorância, e o aprendizado não existe na alma do homem, (então) as paixões incuráveis persistem nela (a alma)”. E um mal adicional vem com elas (as paixões), sob a forma de uma ferida incurável. E a ferida rói constantemente a alma, e através dela a alma produz vermes do mal, e fede. Mas Deus não é a causa destas coisas, pois Ele enviou aos homens o conhecimento e o aprendizado.

“Trismegisto, Ele as enviou aos homens sozinho?”
“Sim, Asclépio, Ele os enviou a eles sozinho. E é justo que lhe digamos por que ele concedeu aos homens sozinhos o conhecimento e a aprendizagem, a distribuição de seu bem.

“E agora escutem! Deus e o Pai, mesmo o Senhor, criou o homem depois dos deuses, e ele o tirou da região da matéria. Como a matéria está envolvida na criação do homem, de […], as paixões estão nela. Portanto, elas fluem continuamente sobre seu corpo, pois esta criatura viva não teria existido de outra forma, a não ser que ele tivesse tomado este alimento, pois ele é mortal. É também inevitável que desejos inoportunos, que são prejudiciais, habitem nele. Pois os deuses, desde que nasceram de uma matéria pura, não precisam de aprendizagem e conhecimento. Pois a imortalidade dos deuses é aprendizado e conhecimento, já que eles surgiram de uma matéria pura. Ela (imortalidade) assumiu para eles a posição de conhecimento e de aprendizagem. Por necessidade, ele (Deus) estabeleceu um limite para o homem; ele o colocou no aprendizado e no conhecimento.

“A respeito destas coisas (aprendizagem e conhecimento) que mencionamos desde o início, ele (Deus) as aperfeiçoou para que por meio destas coisas pudesse conter as paixões e os males, de acordo com sua vontade. Ele trouxe sua existência (do homem) mortal à imortalidade; ele (homem) se tornou bom (e) imortal, assim como eu disse. Pois ele (Deus) criou (a) uma natureza dupla para ele: o imortal e o mortal.

“E aconteceu assim por causa da vontade de Deus de que os homens sejam melhores que os deuses, já que, de fato, os deuses são imortais, mas os homens sozinhos são tanto imortais quanto mortais”. Portanto, o homem se tornou semelhante aos deuses, e eles conhecem os assuntos um do outro com certeza”. Os deuses conhecem as coisas dos homens, e os homens conhecem as coisas dos deuses. E estou falando dos homens, Asclépio, que alcançaram o aprendizado e o conhecimento. Mas (sobre) aqueles que são mais vaidosos do que estes, não é apropriado que digamos nada de base, pois somos divinos e estamos introduzindo assuntos sagrados.

“Já que entramos na questão da comunhão entre os deuses e os homens, saiba, Asclépio, aquilo em que o homem pode ser forte! Pois assim como o Pai, o Senhor do universo, cria deuses, assim também o homem, este ser vivo, mortal, terreno, aquele que não é como Deus, também ele mesmo cria deuses”. Ele não só se fortalece, mas também se fortalece. Ele não só é deus, mas também cria deuses. Você está surpreso, Asclépio? Você mesmo é outro incrédulo como muitos?”.

“Trismegisto, eu concordo com as palavras (faladas) para mim. E eu acredito em você enquanto fala. Mas também fiquei surpreso com o discurso sobre isso. E decidi que o homem é abençoado, já que ele desfrutou deste grande poder”.

“E o que é maior que todas essas coisas, Asclépio, é digno de admiração. Agora está claro para nós a respeito da raça dos deuses, e nós a confessamos juntamente com todos os outros, que ela (a raça dos deuses) surgiu de uma matéria pura. E seus corpos são apenas cabeças. Mas o que os homens criam é a semelhança dos deuses. Eles (os deuses) são da parte mais distante da matéria, e ela (o objeto criado pelos homens) é do exterior (parte) do ser dos homens. Não somente eles (o que os homens criaram) são cabeças, mas (eles são) também todos os outros membros do corpo, e de acordo com sua semelhança. Assim como Deus quis que o homem interior fosse criado de acordo com sua imagem, da mesma forma, o homem na Terra cria deuses de acordo com sua semelhança”.

“Trismegisto, você não está falando de ídolos, está?”.
“Asclépio, você mesmo está falando de ídolos”. Você mesmo, Asclépio, é também um descrente do discurso. Você diz sobre aqueles que têm alma e amplitude, que são ídolos – estes que trazem estes grandes eventos. Vós dizeis daqueles que dão profecias de que são ídolos – daqueles que dão doenças e cura aos homens que […] eles.

“Ou você é ignorante, Asclépio, que o Egito é (a) imagem do céu? Além disso, ele é a morada do céu e de todas as forças que estão no céu. Se é próprio para nós falar a verdade, nossa terra é (o) templo do mundo. E é próprio de vocês não ignorarem que um tempo virá (nossa terra, quando) os egípcios parecerão ter servido à divindade em vão, e toda sua atividade em sua religião será desprezada. Pois toda divindade deixará o Egito, e fugirá para o céu. E o Egito ficará viúvo; será abandonado pelos deuses. Pois os estrangeiros entrarão no Egito, e eles o governarão. Egito! Além disso, os egípcios serão proibidos de adorar a Deus. Além disso, eles entrarão no castigo final, especialmente quem entre eles for encontrado adorando (e) honrando a Deus.

“E naquele dia, o país que era mais piedoso do que todos os países se tornará impiedoso”. Não estará mais cheio de templos, mas estará cheio de túmulos”. Tampouco estará cheio de deuses, mas (estará cheio de) cadáveres. Egito! O Egito se tornará como as fábulas. E seus objetos religiosos serão […] as coisas maravilhosas, e […], e se suas palavras forem pedras e forem maravilhosas. E o bárbaro será melhor que você, egípcio, em sua religião, seja (ele é) um cita, ou os hindus, ou algum outro deste tipo.

“E o que é isto que eu digo sobre o egípcio? Pois eles (os egípcios) não vão abandonar o Egito. Pois (no) tempo (quando) os deuses abandonaram a terra do Egito, e fugiram para o céu, então todos os egípcios morrerão. E o Egito será feito um deserto pelos deuses e pelos egípcios. E quanto a você, River, haverá um dia em que você fluirá com mais sangue do que água. E os cadáveres serão (empilhados) mais altos do que as represas. E aquele que está morto não será lamentado tanto quanto aquele que está vivo. De fato, este último será conhecido como egípcio por causa de sua língua no segundo período (de tempo). – Asclépio, por que você está chorando? – Ele parecerá como (a) estrangeiro em relação aos seus costumes. O Egito divino sofrerá males maiores do que estes. O Egito – amante de Deus, e morada dos deuses, escola de religião – se tornará um exemplo de impiedade.

“E naquele dia, o mundo não será maravilhado […] e imortalidade, nem será adorado […], pois dizemos que não é bom […]. Não se tornou nem uma única coisa nem uma visão. Mas está em perigo de se tornar um fardo para todos os homens. Portanto, será desprezada – o belo mundo de Deus, o trabalho incomparável, a energia que possui a bondade, a visão formada pelo homem. A escuridão será preferida à luz, e a morte será preferida à vida. Ninguém olhará para o céu. E o homem piedoso será considerado louco, e o homem ímpio será homenageado como sábio. O homem que tiver medo será considerado como forte. E o homem bom será punido como um criminoso.

“E quanto à alma, e às coisas da alma, e às coisas da imortalidade, juntamente com o resto do que eu vos disse, Tat, Asclépio e Ammon – não só serão considerados ridículos, mas também serão considerados como vaidade. Mas acreditem (quando eu digo) que pessoas deste tipo estarão em perigo pelo perigo final para sua alma. E uma nova lei será estabelecida … (faltando 2 linhas) … eles … (falta uma linha) …. boas. Os anjos maus permanecerão entre os homens, (e) estarão com eles, (e) os conduzirão a coisas más imprudentemente, bem como ao ateísmo, guerras e saques, ensinando-lhes coisas contrárias à natureza.

“Naqueles dias, a terra não será estável e os homens não navegarão pelo mar, nem conhecerão as estrelas no céu”. Toda voz sagrada da palavra de Deus será silenciada, e o ar ficará doente”. Tal é a senilidade do mundo: o ateísmo, a desonra e o desprezo pelas palavras nobres.

“E quando estas coisas aconteceram, Asclépio, então o Senhor, o Pai e Deus do único primeiro deus, o criador, quando olhou para as coisas que aconteceram, estabeleceu seu desígnio, que é bom, contra a desordem. Ele tirou o erro, e cortou o mal. Às vezes, ele o submergiu em uma grande enchente; outras vezes, ele o queimou em um fogo abrasador; e outras vezes ainda, ele o esmagou em guerras e pragas, até que ele trouxe … (faltando 4 linhas) … do trabalho. E este é o nascimento do mundo.

“A restauração da natureza dos piedosos que são bons acontecerá em um período de tempo que nunca teve início. Pois a vontade de Deus não tem começo, mesmo como sua natureza, que é sua vontade (não tem começo). Pois a natureza de Deus é a vontade. E a sua vontade é o bem”.

“Trismegisto, é propósito, então, (o mesmo que) vontade?”.
“Sim, Asclépio, já que a vontade está (incluída) no conselho”. Pois <ele> (Deus) não quer o que tem de deficiente”. Já que ele está completo em cada parte, ele quer o que (já) tem plenamente. E ele tem todo bem. E o que ele quer, ele quer. E ele tem o bem que quer. Portanto, ele tem tudo. E Deus quer o que ele quer. E o mundo bom é uma imagem do Bem”.

“Trismegisto, o mundo é bom?”
“Asclépio, é bom, como eu vos ensinarei”. Pois assim como … (faltam 2 linhas) … da alma e da vida […] do mundo […] surgem na matéria, os que são bons, a mudança do clima, a beleza, a maturação dos frutos, e as coisas semelhantes a tudo isso. Por causa disso, Deus tem o controle sobre as alturas do céu. Ele está em todos os lugares, e ele olha por todos os lugares. E (em) seu lugar não há nem céu nem estrela. E Ele está livre do (o) corpo.

“Agora o criador tem o controle no lugar que está entre a terra e o céu”. Ele é chamado de ‘Zeus’, ou seja, ‘Vida’. Zeus Plutônio é senhor da terra e do mar. E ele não possui o alimento para todos os seres vivos mortais, pois (é) a Coroa que dá o fruto. Estas forças são sempre poderosas no círculo da terra, mas as dos outros são sempre d’Ele-quem-é.

“E os senhores da terra se retirarão”. E se estabelecerão em uma cidade que está em um canto do Egito e que será construída em direção ao pôr-do-sol”. Todos os homens entrarão nela, quer venham no mar ou na costa”.

“Trismegisto, onde serão instalados agora?”
“Asclépio, na grande cidade que está na montanha líbia… (faltam 2 linhas) … assusta […] como um grande mal, na ignorância do assunto. Pois a morte ocorre, que é a dissolução do trabalho do corpo, e o número (do corpo), quando ela (morte) completa o número do corpo. Pois o número é a união do corpo. Agora o corpo morre quando não é capaz de sustentar o homem. E isto é a morte: a dissolução do corpo e a destruição da sensação do corpo. E não é necessário ter medo disso, nem por causa disso, mas por causa do que não se sabe, e não se acredita (é um medo)”.

“Mas o que não se sabe, ou se não se acredita”.
“Escute, Asclépio! Existe um grande demônio. O grande Deus o designou para ser supervisor ou juiz sobre as almas dos homens. E Deus o colocou no meio do ar, entre a terra e o céu. Agora, quando a alma sai do (do) corpo, é necessário que ela se encontre com este daimon. Imediatamente, ele (o daimon) cercará este (masc.), e o examinará em relação ao caráter que ele desenvolveu em sua vida. E se ele descobrir que realizou piedosamente todas as suas ações pelas quais veio ao mundo, este (o daimon) lhe permitirá … (falta uma linha) … transformá-lo […]. Mas se ele vê […] neste […] ele trouxe sua vida em más ações, ele o agarra, ao fugir para cima, e o joga para baixo, de modo que ele fica suspenso entre o céu e a terra, e é punido com um grande castigo. E ele será privado de sua esperança, e estará em grande sofrimento.

“E essa alma não foi colocada nem na terra nem no céu, mas entrou no mar aberto do ar do mundo, o lugar onde há um grande fogo, e água cristalina, e sulcos de fogo, e um grande tumulto. Os corpos são atormentados (em) vários (modos). Às vezes são lançados no fogo, a fim de que ele possa destruí-los. Agora, não vou dizer que esta é a morte da alma, pois ela foi libertada do mal, mas é uma sentença de morte.

“Asclépio, é necessário acreditar nestas coisas e temê-las, para que não as encontremos. Pois os incrédulos são impiedosos e cometem pecados. Depois, eles serão obrigados a acreditar, e não ouvirão somente de boca em boca, mas experimentarão a própria realidade. Pois eles continuam acreditando que não suportariam estas coisas. Nem apenas … (falta uma linha). Primeiro, Asclépio, todos os da terra morrem, e aqueles que são do corpo cessam […] do mal […] com estes do gênero. Pois aqueles que estão aqui não são como aqueles que estão lá. Assim, com os daimons que […] homens, eles apesar de […] estarem lá. Portanto, não é a mesma coisa. Mas, na verdade, os deuses que estão aqui punirão mais quem quer que o tenha escondido aqui todos os dias”.

“Trismegisto, qual é o caráter da iniquidade que existe?”
“Agora você pensa, Asclépio, que quando alguém leva algo em um templo, ele é impiedoso. Pois esse tipo de pessoa é um ladrão e um bandido. E este assunto diz respeito aos deuses e aos homens. Mas não compare aqueles aqui com aqueles do outro lugar. Agora quero falar-lhes este discurso confidencialmente; nenhuma parte dele será acreditada. Pois as almas que estão cheias de muito mal não virão e irão no ar, mas serão colocadas nos lugares dos daimons, que estão cheios de dor, (e) que estão sempre cheios de sangue e abate, e sua comida, que é chorar, lamentar e gemer”.

“Trismegisto, quem são estes (daimons)?”.
“Asclépio, são aqueles que são chamados de ‘estranguladores’, e aqueles que rolam almas sobre a terra, e aqueles que os açoitam, e aqueles que lançam na água, e aqueles que lançam no fogo, e aqueles que provocam as dores e calamidades dos homens. Pois estes não são de uma alma divina, nem de uma alma racional do homem. Ao contrário, eles são do mal terrível”.

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Fonte:

<http://gnosis.org/naghamm/asclep.html>.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares

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Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/asclepio/