As Palavras de Set

MICHAEL AQUINO

As Palavras de Set são a tradução feita por Michael Aquino do sentido oculto das Chaves Enoquianas para uso dentro do Temple of Set. Comparar esta obra com as outras traduções disponíves certamente levará o leitor a um entendimento mais profundo das chaves. 

LaVey oferece ao leitor o que chama de versão não-expurgada das chaves enoquianas com uma tradução satânica bastante poderosa livre de interpretações angelicais. Da mesma forma antes dele Aleister Crowley traduziu às chaves com uma leitura thelêmica e MacGregor Mathers com uma interpretação hermética e cabalista tal como usada na Golden Dawn. A Tradução de Michael Aquino nas Palavras de Set trazem portanto uma tradução setiana da essência de cada chave. Nenhuma tradução é mais verdadeira do que outra. 

Mesmo a própria tradução inicial feita por John Dee  para o inglês é feita segundo às influências e a visão judaico-cristã elizabetana na qual estava imerso. Seja como for nos diários de Dee os “anjos” são enfáticos em dizer que aquilo não era para eles e que não poderiam nem deveriam usar este tipo de magia que estava destinada a um outro momento da humanidade. De fato nos três anos de diários registrados após o recebimento não há nenhuma menção que nem Dee nem seu companheiro Kelly tenham feito qualquer uso deste sistema.  ~Morbitvs Vividvs

 As Palavras de Set

A PRIMEIRA PALAVRA DE SET

Ol sonf vorsg, goho Iad balt lansh calz vonpho Sobra zol ror i ta Nazpsad Graa ta Malprg Ds hol q Qaa nothoa zimz od commah ta nobloh zien Soba thil gnonp prge aldi Ds urbs oboleh grsam. Casarm ohorela caba pir Ds zonrensg cab erm Iadnah Pilah farzm u znrza adna gono Iadpil Ds hom toh Soba Ipam lu Ipamis Ds loholo vep zomd Poamal od bogpa aai ta piap piamol od vooan ZACARe ca od ZAMRAN odo cicle qaa zorge, lap zirdo noco MAD Hoath Iaida.  

Eu sou dentro e além de você, o Ápice da Vida, em majestade maior do que as forças do universo; cujos olhos são como a Face do Sol e o Fogo Escuro de Set; que criou vossa inteligência como sua própria e avançou para exaltá-lo; que lhe confiou a dignidade da consciência; que abriu os olhos para que você pudesse ver a beleza; que trouxe a chave do conhecimento de todas as coisas menores; e que infundiu em você a Vontade de Vir a Ser. Levantem suas vozes e reconheçam o Ápice de Vida que proclama vosso triunfo; cujo ser é além da vida e morte naturais; que como uma flama em seu mundo ilumina vosso desejo por perfeição e verdade. Eleve então e vossa glória, contemple o gênio de sua criação, e orgulhe-se, pois Eu sou o mesmo – Eu que sou o Ápice da Vida. 

A SEGUNDA PALAVRA DE SET

 Adgt upaah zongom faaip sald, viiv L Sobam Ialprg Izazaz piadph Casarma abramg ta talho paracleda qta lorslq turbs ooge Baltoh. Giui chis lusd orri Od micalp chis bia ozongon Lap noan trof cors tage, oq manin Iaidon. Torzu gohel ZACAR ca, Cnoqod, ZAMRAN micalzo od ozazm urelp lap zir Ioiad.  

 

Podem as asas do vento entender suas vozes maravilhosas? O iluminados que brilham como fogo nas presas do caos, a quem Eu preparei como taças para um casamento, ou como flores em sua beleza para uma câmara de retidão. Mais forte são seus pés do que a rocha sólida, e mais poderosas são vossas vozes do que multidões de ventanias, pois tornaram-se um Templo como não há senão na mente de Set. Eleve-se, diz o Primeiro de vosso tipo, movam-se portanto ao Eleito, mostre a eles o fogo dentro de vós, e os despertem para que possam ganhar força para viver para sempre. 

 A TERCEIRA PALAVRA DE SET

 Micma goho Piad zir Comselh azien biab Os Londoh Norz chis othil Gigipah undl chis tapuim qmospleh teloch quiin toltorg chis i chis ge m ozien dst brgda od torzul ili Eol balzarg, od aala Thiln os netaab, dluga vomsarg lonsa Capmiali vors Cla homil cocasb fafen izizop od miinoag de gnetaab vaun nanaeel panpir Malpirgi caosg Pild noan unalah balt od vooan dooiap MAD Goholor gohus amiran Micma Iehusoz cacacom od dooain noar micaolz aaiom Casarmg gohia ZACAR uniglag od Imuamar pugo plapli ananael qaan. 

Conceba o cosmos como um círculo de doze divisões alternando entre a vida e morte, cobrindo todas as criaturas salvo aqueles que Eu toquei. Vocês receberam poderes maiores do que aqueles ordenando estas divisões estendendo-se pelas eras do tempo, que com vossa visão e vossa vós podem exercer os Poderes das Trevas, avançando a Flama Negra pela Terra e a expandindo pelo tempo. Assim vós sois os Guardiões da perfeição e da verdade. Elevem-se e testemunhem as criações de sua sabedoria, assim como  Eu estou próximo e a essência do meu ser brilha em vós. 

 A QUARTA PALAVRA DE SET

 Othil lasdi babage od dorpha Gohol Gchisge auauago cormp pd dsonf vivdiv Casarmi Oali Mapm Sobam ag cormpo crpl Casarmg croodzi chis od vgeG dst capimali chis Capimaon od lonshin chis talo cla Torgu Norquasahi od Fcaosga Bagle zirenaiad Dsi od Apila Dooaip qaal ZACAR od ZAMRAN Obelisong restel aaf Normolap.  

 Dos confins do sul Eu vi os selvagens da segunda ordenação da vida aos milhares, e Eu avistei um a quem Eu preparei para eles para uma existência mais elevada e para empunhar um grande poder para o tempo que está por vir. E agora eu tenho toda Terra para desfrutar, e para desfrutar daqueles a quem eu acordei o Dom do meu consciência, em meu nome, por todas as gerações. 

 A QUINTA PALAVRA DE SET

Sapah zimii dugv od noas toquams adroh dorphal caosg od faonts peripsol tablior Casarm amipzi nazarth af od dlugar zizop zlida caosgi toltorgi od zchis esiasch L taviu od iaod thild ds hubar Peoal Soba cormfa chis ta la vls od qeocasb Ca niis od Darbs qaas Fetharzi od bliora iaial ednas cicles Bagle Geiad iL. 

 Minha Palavra para a terceira ordem da vida trás os frutos das delícias para a terra, reflete o brilho das estrelas e as dezenove partes desta Palavra. Ao compreendê-la eles vêm a saber de sua relação com a primeira e a segunda ordem, assim como a inspiração de sua própria criação e aquele fogo imortal que queima pelo passado, presente e futuro. Eu trago este conhecimento para vossa criação; Eu estou com vocês em paz e conforto. e Eu confio a vocês minha essência, porque assim nós somos o mesmo. 

 A SEXTA PALAVRA DE SET

Gah sdiu chis em micalzo pilzin sobam El harg mir babalon od obloc samvelg dlugar malprg arcaosgi od Acam canal sobolzar tbliard caosgi odchis anetab od miam taviv od d Darsar Solpeth bien Brita od zacam gmicalzo sobhaath trian Luiahe odecrin MAD qaaon.  

Além de vós que estão na terceira ordem serão os da quarta, poderosos no Universo, que devem novamente vir a ser por um Primeiro, para recordar os altas ordens do passado e testemunhar os de ordens inferiores em seu trabalho e auto-aniquilação irracional, e para continuar a tradição exaltada da segunda e terceira ordens. Lembre-se da minha Palavra, porque é para você e do poder dentro de você e por meio delas você deve criar obras de glória para você e para mim. 

A SÉTIMA PALAVRA DE SET

Raas isalman paradizod oecrimi aao ialpirgah quiin enay butmon od inoas ni paradial Casarmg vgear chirlan od zonac Luciftian corsta vaulzirn tolhami Sobalondoh od miam chis tad odes vmadea od pibliar Othilrit od miam C noquol Rit ZACAR ZAMRAN Oecrimi qadah od Omicaolzod aaiom Bagle papnor idlugam lonshi od umplif ugegi Bigliad.  

O amanhecer do Sol, sempre constante e glorioso ao longo do ciclo da Lua, preserva e embeleza todas as criaturas; veja-o também como o amanhecer da terceira e quarta ordens do ser, aqueles que guardam e encorajam sabedoria e iluminação. Ó Guardiões, levantem-se no meu nome, pois por ele e através de seu vínculo comigo a você é dado o poder e a força e um entendimento do que você faz. 

 A OITAVA PALAVRA DE SET

Bazmelo ita piripson oln Nazavabh ox casarmg vran chis ugeg dsa bramg baltoha gohoiad Solamian trian talolcis Abaiuonin Od aziagier rior Irgilchisda dspaaox bufd Caosgo dschis odipuran teloah cacrg oisalman loncho od Vouina carbaf Niiso Bagle auauago gohon Niiso bagle momao siaion od mabza Iadoiasmomar poilp Niis ZAMRAN ciaofi caosgo od bliors od corsi ta abramig.  

 No zênite de seu poder, a terceira ordem habitará dentro do meu Templo, cuja resistência significará minha própria moradia em suas terras e um santuário da adoração da morte. Pois os Eleitos não morrerão a menos que meu Templo pereça e eu parta. Cuidado, pois a aniquilação ameaça; cuidado, pois a majestade da minha existência está dividida contra si mesma. Manifeste sua força na terra para sua preservação e para aqueles que podem procurar sua compania. 

 A NONA PALAVRA DE SET

 Micaoli bransg prgel napta ialpor ds brin efafafe P vonpho olani od obza sobca vpaah chis tatan od tranan balye alar lusda soboln od chisholq Cnoquodi cial vnal aldon mom caosgo ta lasollor gnay limlal Amma chiis Sobca madrid zchis, ooanoan chis auiny drilpi caosgin, od butmoni parm zumvi Cnila Daziz cthamz a childao od mirc ozol chis pidiai Collal Ulcinin asobam vcim Bagle Iadbaltoh chirlan par Niiso od ip ofafafe Bagle acocasb icorsca unig blior. 

 E no crepúsculo do seu tempo, você enfrentará os sacerdotes e exércitos da morte, enfurecidos pelos intoxicantes da destruição, que se matam mesmo como fariam com você e cuja piedade é a de decadência e dissolução. Eles apreciam os frutos da decadência terrena como os mais ricos dos tesouros. Amaldiçoados são eles por esta falta! Você deve conhecê-los pelo tédio de seus olhos e pela selvageria de seu discurso, apesar das joias com as quais eles se enfeitam e o mármore que podem ter. Olhe para eles e tenha orgulho de não adorar seu deus da morte. Cuidado com eles e com seu intoxicante! Sua resistência depende de sua essência. 

A DÉCIMA PALAVRA DE SET

 Coraxo chis cormp od blans Lucal aziazor paeb Soba Lilonon chis virq op cophan od raclir maasi bagle caosgi ds ialpon dosig od basgim od ox ex dazis siatris od salbrox cynxir faboan Vnal chis Const ds daox cocasg ol Oanio yor vohim ol gizyax od eors cocasg plosi molui ds pageip larag om droln matorb cocasb emna Lpatralx yolci matb nomig monons olora gnay angelard Ohio ohio ohio ohio ohio ohio noib Ohio Caosgon Bagle madrid i zirop chiso drilpa Niiso crip ip nidali.  

 A ameaça de sua destruição cresce como uma árvore no norte; seus ramos alcançam para cobrir a Terra com miséria e desespero; consome seres noite e dia; mata como o escorpião; envenena o ar com seu fedor. Esta é a desgraça cujo triunfo destruiria você, assim como a ruptura da própria Terra. Então esse crescimento alimentaria milhares, assim como uma falta do coração perverte a mente. E então dor, dor, dor, dor, dor, dor, sim, dor da Terra, pois sua falta será grande. Preste atenção ao aviso desta Palavra. 

A DÉCIMA PRIMEIRA PALAVRA DE SET

 Oxiayal holdo od zirom O coraxo ds zildar raasy od vabzir camliax od bahal Niiso Salman teloch Casarman holq od ti ta zchis soba cormf iga Niisa Bagle abramg Noncp ZACARe ca od ZAMRAN odo cicle qaa zorge Lap zirdo Noco Mad Hoath Iaida.  

 O Templo cai, o pentagrama desaparece para aguardar um novo amanhecer, e meu Outro Rosto alertou alto. Pois a terceira ordem confronta o perigo da morte, assim como aqueles que a adoram. Cuidado, pois sou eu quem avisa. Levante-se assim em sua glória, contemple a genialidade de sua criação e tenha orgulho de ser, pois eu sou o mesmo – eu que sou o Ápice Vida. 

A DÉCIMA SEGUNDA PALAVRA DE SET

 Nonci dsonf Babage od chis ob hubaio tibibp allar atraah od ef drix fafen Mian ar Enay ovof Soba dooain aai iVONPH ZACAR gohus od ZAMRAN odo cicle qaa, zorge, Lap zirdo Noco MAD Hoath Iaida.  

 Ó Guardiões do sul, que esta Palavra o fortaleça e, portanto, nosso vínculo. Fale com o seu pedido, para que eu possa ser conhecido por eles como Set. Peço-lhe que se levante em sua glória, contemple o gênio de sua criação e tenha orgulho de ser, pois sou o mesmo – eu que sou o Ápice da Vida. 

 A DÉCIMA TERCEIRA PALAVRA DE SET

Napeai Babagen dsbrin vx ooaona lring vonph doalim eolis ollog orsba ds chis affa Micma isro MAD od Lonshitox ds ivmd aai GROSB ZACAR od ZAMRAN odo cicle qaa, zorge Lap zirdo Noco MAD Hoath Iaida.  

 Ó guerreiros do sul, não relaxe sua vigilância nem sua determinação, para que no esquecimento você fique intoxicado pelas promessas e pelas ameaças do deus da morte, a quem você agora conhece como uma picada amarga. Levante-se em sua glória, veja o gênio de sua criação e tenha orgulho de ser, pois eu sou o mesmo – eu que sou Ápice da Vida. 

A DÉCIMA QUARTA PALAVRA DE SET

 Noromi bagie pasbs oiad ds trint mirc ob thil dods tolham caosgo Homin ds brin oroch quar Micma bial oiad aisro tox dsivm aai Baltim ZACAR od ZAMRAN odo cicle qaa, zorge, Lap zirdo Noco MAD, hoath Iaida.  

 Ó filhos da fúria e filhas da perfeição que não têm idade entre as criaturas da Terra, ouçam minha Palavra que é uma promessa daquele que te trouxe o conhecimento de toda perfeição. Levante-se em sua glória, veja o gênio de sua criação e tenha orgulho de ser, pois eu sou o mesmo – eu que sou o Ápice da Vida. 

A DÉCIMA QUINTA PALAVRA DE SET

Ils Tabaan Lialprt casarman vpaahi chis darg dsocido caosgi orscor ds omax monasci Baeouib od emetgis iaiadix ZACAR od ZAMRAN, odo cicle qaa zorge Lap zirdo Noco MAD, hoath Iaida.  

 Ó seres sagrados que vivem e têm sido protetores da Chama sagrada, que cumprem minha Palavra e o Selo da minha promessa, e que olham para a Terra com clareza de visão: Levantem-se em sua glória, contemplem o gênio de sua criação, e tenha orgulho de ser, pois sou o mesmo – eu que sou Ápice da Vida. 

 A DÉCIMA SEXTA PALAVRA DE SET

 Ils viuialprt Salman balt ds acroodzi busd od bliorax balit dsinsi caosg lusdan Emod dsom od tliob drilpa geh yls Madzilodarp ZACAR od ZAMRAN odo cicle qaa zorge Lap zirdo Noco MAD hoath Iaida. 

 Ó iniciados que agora entram neste Templo da perfeição, que nascerão em glória e que proclamarão a perfeição, que olharam para a Terra e compreenderão suas criaturas: Vocês serão como eu, que sou o Poder Supremo. Levante-se em sua glória, veja o gênio de sua criação e tenha orgulho de ser, pois eu sou o mesmo – eu que sou o Ápice da Vida. 

 A DÉCIMA SÉTIMA PALAVRA DE SET

 Ils dialprt soba vpaah chis nanba zixlay dodsih odbrint Taxs hubaro tastax ylsi, sobaiad Ivonpovnph Aldon daxil od toatar: ZACAR od ZAMRAN odo cicle qaa, zorge lap zirdo Noco MAD hoath Iaida.  

Ó aspirantes que virão, que arcarão com a Chama e exercerão os Poderes das Trevas em nome da minha vingança, despertem e ouçam: Levante-se em sua glória, contemple a genialidade de sua criação e tenha orgulho de ser, pois eu sou o mesmo – Eu quem sou o Ápice da Vida. 

  A DÉCIMA OITAVA PALAVRA DE SET

Ils Micaolz Olpirt ialprg Bliors ds odo Busdir oiad ouoars caosgo Casarmg Laiad eran brints cafafam ds ivmd aqlo adohi MOZ od maoffas Bolp Comobliort pambt ZACAR od ZAMRAN odo cicle qaa, zorge Lap zirdo Noco MAD Hoath Iaida.  

Ó tu poderosa luz e chama ardente de conforto que traz a Majestade de Set à Terra; em que residem os segredos dos princípios da perfeição; cujo nome é o de uma pedra sempre procurada, nunca encontrada, salvo através do Portão das Trevas: Levante-se em sua glória, observe a genialidade de sua criação e tenha orgulho de ser, pois eu sou o mesmo – eu que sou o Ápice da Vida. 

  A DÉCIMA NONA PALAVRA DE SET

  Madriax dspraf [# AEthyr] chis Micaolz Saanir Caosgo odfisis balzizras Iaida nonca gohulim Micma adoian MAD Iaod bliorb Sabaooaona chis Luciftias peripsol ds abraasa noncf netaaib Caosgi od tilb adphaht damploz tooat noncf gmicalzoma lrasd tofglo marb yarry IDOIGO od torzulp iaodaf gohol Caosga tabaord saanir od Christeos yrpoil tiobl Busdirtilb noaln paid orsba od dodrmni zylna Elzaptilb parmgi peripsax od ta Qurlst booapiS Lnibm ov cho symp, od Christeos Agtoltorn mirc Q tiobl Lel Ton paombd dilzmo aspian, Od Christeos Agltortorn parach asymp, Cordziz dodpal fifalz lsmnad, Od fargt bams omaoas, Conisbra od auauox tonug Orscatbl noafmi tabges Leuithmong vnchi omptilb ors Bagle Moooah olcordziz Lcapimao ixomaxip odcacocasb gosaa Baglen pii tianta ababalond odfaorgt telocvovim Madriiax torzu Oadriax orocha aboapri Tabaori priaz artabas Adrpan corsta dobix. Yolcam priazi arcoazior Odquasbqting Ripir paaoxt sagacor Vml od prdzar cacrg Aoiveae cormpt TORZU ZACAR od ZAMRAN aspt sibsi butmona ds Surzas tia baltan: Odo cicle qaa: od Ozazma plapli Iadnamad.  

Ó visão do [# AEthyr], cujo poder está sobre a Terra e reflete uma perfeição da Mais Elevada da Vida: convoco você para que eu possa ver com os olhos de Set seu criador, os Olhos da Luz das Estrelas. Ele foi quem o concebeu para uma compreensão do universo, para tornar inteligíveis todas as coisas das quais você participa; contra a falta de objetivo da natureza da existência inferior. A Terra é apenas uma parte dessa natureza: seu curso é sem propósito; suas criaturas sempre mudam. Mesmo aqueles da segunda ordem da natureza são confusos e sem rumo; eles esqueceram seu passado e suas maiores obras são desfiguradas e destruídas, para finalmente se tornarem moradias dos animais da primeira ordem. Por quê? A segunda ordem foi um mero acidente de sorte. Por um momento, a Terra se torna consciente, depois se torna esquecida e selvagem, e finalmente será uma terra de morte. Ó visão, apareça! Manifeste a existência que participa de você. Crie o que é novo em você; abandona o que te afasta; fortaleça aquilo que lhe aumenta; e destrua o que não conhece em você. Não deixe nada da natureza escapar do seu toque; entre e parta pelos confins do Universo. Levante-se em sua glória e honre a Palavra de Set, que ele nos falou em sua perfeição. Veja o gênio da sua criação e participemos da sabedoria imaculada.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/as-palavras-de-set/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/as-palavras-de-set/

Taliesin

“Bom Elffin, cesse o seu lamento!

Falar em vão não faz bem a ninguém.

Não faz mal ter esperanças,

Nem nenhum homem vê o que lhe suporta,

A prece de Cynllo não é um tesouro vazio,

Nem Deus quebra suas promessas.

Nenhuma pescaria na rede de Gwyddno

Foi tão boa quanto a de hoje.

Bom Elffin, seque suas bochechas!

Tal tristeza não lhe faz bem,

Apesar de se sentir traído,

Tristeza em excesso não traz bem algum,

Muito menos duvidar dos milagres de Deus.

Apesar de ser pequeno, sou habilidoso.

Do mar e da montanha,

Das profundezas do rio,

Deus dá seus dons aos abençoados.

Elffin do espírito generoso,

Seu propósito é covarde,

Não deves ficar tão triste.

Bons agouros são melhores que maus.

Apesar de ser fraco e pequeno,

Nas ondas do mar revolto,

Serei melhor para você

Que trezentas cargas de salmão.

Elffin de nobre generosidade,

Não entristeça ante seu pescado.

Apesar de ser fraco no fundo da cesta,

Há maravilhas na minha língua.

Equanto eu estiver cuidando de você,

Nenhuma grande necessidade há de ter.

Lembre-se do nome da Trindade

E nada te vencerá.”

“Flutuando como um barco nas águas,

Fui jogado numa bolsa escura,

E num mar infinito, fiquei à deriva.

Logo quando estava sufocando, tive um bom agouro,

E o mestre dos céus me libertou.”

#Poemas

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/taliesin

A importância do Catimbó na Umbanda

A  Umbanda,  religião  genuinamente  brasileira,  é  um  misto  de  Cristianismo, Espiritismo,    Catolicismo,    culto aos orixás   e Catimbó. A Umbanda tem seu edifício solidificado nas bases principais do evangelho cristão, e sua maior lei é Amar a Deus sobre todas as coisas e o amar ao próximo como a si mesmo. A Umbanda é uma religião, espírita – magista, trabalhando com os espíritos desencarnados, de diversas faixas vibratórias, a Umbanda, tem seu catecismo em simbologias enigmáticas (Pontos riscados, cantados, velas coloridas, etc.)

A Umbanda é voltada para a prática da caridade (fora da caridade não há salvação), tanto espiritual quanto material (Ajuda entre irmãos), propagando que o respeito ao ser humano, é a base fundamental para o progresso de qualquer sociedade.

Hoje o culto do catimbó começa a ser difundido numa rapidez tão grande, como no começo. O Catimbó, ainda hoje cultuado nas terras do Norte e em algumas casas tradicionais de Umbanda, tem significativa importância no processo de entendimento e decodificação da Umbanda Brasileira.

Pajelança, Torés, Rituais de Fogo entre outros, fazem parte desta linha de trabalhadores da Umbanda, que erroneamente são confundidos com Exus ou com espíritos maléficos. O ritual do Catimbó, ainda hoje pouco estudado mais muito difundido, emprega a magia das fumaças dos cachimbos virados,  dos toques dos antigos atabaques, chocalhos e maracás. A presença desses mestres e mestras é constante já há muito tempo, mais de forma errada e por se apresentarem junto com os Exus, passaram a ter ser culto difundido de forma errada. Trabalham em uma faixa de energia vibratória muito parecida com a dos Exus, ou seja o preto começando a clarear para o vermelho.

Daí a necessidade da incorporação nas giras de Exu. Como o culto do Catimbó foi esquecido e eles precisavam trabalhar e prestar a caridade, encontraram na gira de Exu a faixa vibratória perfeita para realização dos trabalhos.

São entidades presentes desde o começo da Umbanda, conhecendo todas as magias e feitiços. Não tem compromisso com qualquer orixá ou entidade, respeitando somente a força de uma árvore conhecida como Jurema. Segundo os mestres do Catimbó, é da jurema que foi feito a cruz para crucificação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Trabalham com fogo, fumaça, pontos de fogo, caldeirões com feitiços, punhais e ossos. Trazem na sua origem os sertões do nordeste onde a fome era predominante, e o sol maltratava a todos.

Muitos foram vaqueiros, tocadores de boi e andarilhos sempre a procura de alguma diversão ou amores com mulheres da vida (algumas hoje também são grandes mestras do Catimbó). Hoje o culto do catimbó, começa a tomar força novamente e algumas casas já dão suas giras separadamente das giras de Exu. Suas bebidas vão desde a cachaça, passando pelas cervejas e chegando até os misturados das terras do norte, tipo Aluá.. Não são assentados e tem por obrigação a sua casa na entrada dos barracões. São cultuados junto com as almas das segundas-feiras, recebem suas oferendas em portas de bar e em subidas de morro. Tem predileção pelo peixe frito e pelos petiscos em geral. Suas guias são de preto, vermelho e  branco. Se vestem com roupas claras e alguns com roupas típicas das regiões onde viveram.

A UMBANDA DE ZÉ PELINTRA

Fica difícil falar em Catimbó sem citar o mais conhecido de todos os malandros e chefe dessa magnífica falange, Seu Zé Pelintra.

Tem sua importância hoje difundida ao ponto de ser sinônimo de catimbó e de culto da Jurema. Ogã de Xangô e morto pelas costas pelo amor de uma velha malandra, hoje Zé Pelintra é difundido e falado em toda as linhas do santo, como grande malandro e boêmio.

Grande mestre do Catimbó, comanda a falange dos mestres e mestras juremeiras e no plano espiritual continua ensinando e difundindo o culto.

Dentre os Mestres e Mestras mais conhecidas, podemos citar Zé pelintra, Mestre Junqueiro, Mestre Chico, Mestre Antônio, Mestre Bira, Carioquinha, Mestra Maria Tereza, Mestra Maria da Luz, Mestra Josefa de Alagoas entre outras. Hoje a saudação usada pala louvar os mestres do Catimbó é A COSTA!!!

A UMBANDA DE SEU MARTIM PESCADOR

São também grandes Mestres da jurema e possuidores de um grande ensinamento. São em geral marinheiros, marujos, navegadores e pescadores que na maioria tiveram seu desencarne nas águas profundas do mar. São comandados e chefiados pelo Mestre Martim, grande catimbozeiro e que trabalha com as energias das águas do mar.

Em comum não são possuidores de giras próprias e se fazem presentes nas giras do Catimbó. Em algumas regiões são conhecidos como baianos ou marujeiros. Quase sempre se apresentam bêbados, e tem em suas danças o balanço das ondas do mar. Suas cores são o branco e azul, vem quase sempre vestidos de marujos, tem no peixe o seu símbolo máximo, comem todos os tipos de frutos do mar e bebem também a cerveja e a cachaça. Sua saudação é TRUNFÊ, TRUNFÁ TRUNFÁ REÁ, A COSTA MARUJADA!!!

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/a-importancia-do-catimbo-na-umbanda/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/a-importancia-do-catimbo-na-umbanda/

A Disciplina no Estudo da Magia – Frater Magog

Bate-Papo Mayhem 180 – gravado dia 31/05/2021 (segunda) Com Frater Magog – A Disciplina no Estudo da Magia

Os bate-Papos são gravados ao vivo todas as 3as, 5as e sábados com a participação dos membros do Projeto Mayhem, que assistem ao vivo e fazem perguntas aos entrevistados. Além disto, temos grupos fechados no Facebook e Telegram para debater os assuntos tratados aqui.

Faça parte do Projeto Mayhem aqui:

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Livros de Hermetismo: https://daemoneditora.com.br/

#Batepapo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-disciplina-no-estudo-da-magia-frater-magog

A Cabala e a fábrica de cadeiras de Jeová

Rabi Baruch Habas

A origem e objetivo da Cabala é voltar ao mundo real. Partimos do princípio que nossa vida cotidiana cheia de leis de trânsito, bolachas de chocolate e amores de verão não é tudo a única que temos para viver. Não que vivamos em um mundo completamente falso, mas ele é longe de ser completamente verdadeiro.

Os cabalistas ensinam que entre as causas originais e nossa experiência regular existem cinco fases, cincos camadas, cinco véus, ou se quiser, cinco mundos. É como se cada mundo superior deixasse sua marca no mundo inferior. Desta forma não podemos dizer que o mundo dos nossos cinco sentidos sejam falsos, assim como uma marca de papel carbono da nota fiscal não é falsa, mas é uma impressão de algo anterior.

Uma forma de entender isso é imaginar que o mundo das causas é uma festa de aniversário. Só quem está lá pode interagir e experenciar a festa. Mas ess afesta é tão legal que alguém resolve gravar com uma câmera do celular; o vídeo não é a festa em si, mas não existiria sem ela. Esse vídeo vai para alguma rede social e viraliza, até que alguém dá um print em uma parte do vídeo e posta como uma foto. A foto não é nem o vídeo, nem a festa mas não existiria sem ela.

  • Atzilu, Mundo da Emanação
  • Beriá, Mundo da Criação
  • Ietzirá, Mundo da Formação
  • Assiá, Mundo da Ação

O Rabino Lamed Ben Clifford em seu livro ‘The Chicken Qabalah’, descreve uma forma muito boa de entender estes quatro mundo. Uma forma boa mas que eu mudarei um pouco para atender meus propósitos aqui. Imagine que estamos entrando na fábrica de cadeiras: “Cadeiras JHVH”, um edifício de quatro andares que faz cadeiras de todos os tipos além de ser uma ótima metáfora para o que chamamos de mundo real.

Assiá: O Chão de Fábrica

O primeiro andar é o chão da fábrica. Assiá, o Mundo da Ação. Quando entramos vemos inúmeras linhas de montagem quase completamente automatizadas cuspindo a mais recente criação da ‘Cadeiras JHVH ltda’: uma série de cadeiras de balanço ultra-confortáveis. Este andar é o que a maioria das pessoas conhece como “Natureza” e integra em si a logística de distribuição sendo responsável por responder duas perguntas muito importantes: “Onde?” e “Quando?”. Somente Assiá pode responder estas questões por uma razão muito simples: nos andares superiores o espaço-tempo não existe.  Os peões recebem instruções via malote e email do departamento logo acima e sua equipe projeta tudo segundo os padrões que recebeu.

Ietzirá: Departamento de TI

O andar de cima Ietzirá está repleto de nerds (também chamados por alguns de anjos) que fazem os projetos das cadeiras que são enviadas para baixo. Em vez de chão de fábrica temos aqui cubiculos e salas de reuniões. Estes engenheiros abastecidos de café usam o AutoCAD e o pacote Office para criar novas cadeiras segundo seus elevados padrões de qualidade. Aqui eles respondem uma pergunta valiosa: “Como?” e para isso isso eles usam não só o alfabeto hebraico, mas muitas outras linguagens de programação além de muita, muita matemática. Mas eles só projetam aquilo que recebem do andar de cima, geralmente de modo vago por telefone.

Beriá: O Departamento de Criação

O andar acima é Beriá, onde está a equipe de criação. A pergunta respondida em Beriá é “O que?” Os cubiculos são substituidos por uma ambiente mais criativo e os funcionários parecem estar eternamente fazendo brainstorm. Muitas idéias morrem aqui mesmo sendo descartadas por alguns dos funcionários mais realistas, mas eventualmente uma ideia parece tão boa que é enviada para os andares de baixo. Recentemente o pessoal se divertiu muito imaginando uma cadeira com amarras e circuito elétrico capaz de matar um ser humano. Mas porque eles, neste caso, gostariam de matar um ser humano? A ideia é deles, mas todas as vontades vem do andar de cima.

Atzilu: A Diretoria

Atzilu é o nome do andar onde está o poderoso chefão, o dono da empresa, cujo nome é Adam Kadmon. Foi ele que decidiu que ‘morte’ e disse as 17:50 da sexta feira que a equipe de Criação teria que varar a noite até terem uma ideia de cadeira apropriada. Mas ele não quer só morte. Foi graças a ele que temos hoje as cadeiras de rodas também. Embora tenha fama de mal, ele não é nem bom nem mal, mas quando quer algo, esse algo acontece e ponto final. A pergunta que Atzilu responde é “Por que?” e ao contrário dos departamentos abaixo geralmente a resposta é uma só: “Porque Eu Quero.”

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/cabala/cadeiras-cabala/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cabala/cadeiras-cabala/

Alan Moore

Pesquisa de Jose Carlos Neves

Confira abaixo um resumo dos principais fatos na vida e bibliografia do escritor e mago inglês Alan Moore. Trata-se de excertos do livro Alan Moore: Portrait of an Extraordinary Gentleman, um livro-tributo dedicado aos 50 anos do artista. São páginas recheadas de ensaios, ilustrações, artigos, fotografias, entrevistas, e opiniões sobre o mago-escritor de Northampton. Escritores, desenhistas e pessoas relacionadas aos quadrinhos comentam sua relação com Moore.

Alguns nomes presentes no livro: Michael Moorcock, Ian Sinclair, Darren Shan, Brad Meltzer, John Coulthart, Neil Gaiman, Dave Gibbons, Bryan Talbot, David Lloyd, J. H. Williams III, Kevin O’Neill, Will Eisner, Howard Cruse, James Kochalka, Adam Hughes, Peter Kuper, Jose Villarubia, Jimmy Palmiotti, Rick Veitch, Michael T. Gilbert, Steve Parkhouse, Nabiel Kanan, Bill Koeb, Rich Koslowski, Trina Robbins, Michael Avon Oeming, Sean Phillips, Jeff Smith, Sergio Toppi, Giorgio Cavazzano, Claudio Villa, Daniel Acuna, Willy Linthout, Jean-Marc Lofficier, Eduardo Risso, Dave Sim, Ben Templesmith e outros tantos.

O lançamento da editora Abiogenesis Press, do artista britanico Gary Spencer Millidge, tem caráter beneficente. Toda sua renda está destinada para o Fundos de Combate ao Mal de Alzheimer. Para mais informações, acesse www.millidge.com

Linha da Vida de Alan Moore

– Alan nasceu com pouca visão na vista esquerda e surdo do ouvido direito. Mesmo assim, ele evitou usar óculos até quinze anos. Já adulto, abandonou os óculos chegando a cogitar a possibilidade de usar um monóculo, acabando por achar essa alternativa muito kistch.

– A primeira casa do jovem escritor não tinha banheiro nem gás em sua rua.

– Em 1961, aos 7 anos, Moore descobriu os quadrinhos americanos da DC Comics.

– Moore atribui sua formação moral graças as histórias do Super-Homem.

– Padecendo de uma gripe comum, o jovem Alan Moore pediu para a mãe lhe comprar uma BlackHawk. Ao invés de trazer a HQ pedida, sua mãe o presenteou com a edição número 3 de Fantastic Four (Quarteto Fantástico). Essa revista foi o primeiro contato do escritor com os trabalhos de Jack Kirby, de quem se tornou fã imediato.

– Moore matava aulas no colegial para andar de motocicleta no pátio de um hospital para doentes mentais.

– Em 1968, Moore se tornou fã dos personagens da Charlton Comics, que mais tarde seriam os arquétipos dos personagens da maxi-saga Watchmen.

– Em 1969, ele começou a colaborar com vários fanzines, sempre como desenhista

– Aos 17, em 1970, Moore foi expulso da escola por uso de LSD. O diretor escreveu uma carta para todas as outras escolas e universidades da região, para que ele jamais fosse aceito em outro estabelecimento de ensino.

– Sem poder estudar, Alan trabalhou em um matadouro e limpou latrinas em um hotel de Northampton.

– Nessa época, ele deixou o cabelo crescer, ajudou a publicar o fanzine Embryo e conquistou sua futura esposa Phyllis lendo poesias em um cemitério. Em 1974, aos vinte anos, Moore e Phyllis se casaram.

– Em 1977, nasceu Leah, a primeira filha de Moore. Nessa época, Moore percebeu que tinha que fazer alguma coisa que gostasse logo ou então passaria a vida frustrado. O escritor começou a colaborar com jornais e revistas locais, escrevendo e desenhando tiras de humor. A mais conhecida delas foi Maxwell, the Magic Cat, uma espécie de Garfield inglês. Anos depois, Moore declarou que odiava escrever as historias de Maxwell e que se sentia envergonhado de receber dinheiro por elas. Mesmo assim, ele passou 7 anos escrevendo estas tiras. Detalhe: Moore assinava as tiras com o pseudônimo de Jill de Ray (uma alusão ao francês acusado de ter assassinado dezenas de crianças).

– A experiência com Maxwell mostrou que ele não servia como desenhista. Moore passou a dedicar “apenas” a escrever.

– Moore comecou a trabalhar com a Marvel UK (divisão anglo-saxônica da Casa das Idéias) em 1981. Aos 27 anos, Moore escrevia pequenas tramas nas revistas Star Wars e Dr. Who. Na mesma época, ele fez alguns trabalhos para a 2000AD e teve sua segunda filha: Amber.

– Em 1982, Alan recebeu sua primeira grande chance ao escrever para a recém-criada revista Warrior. Para quem não sabe, a Warrior publicava 4 a 6 histórias por edição, cada história com 6 a 8 páginas. Moore escreveu 3 sagas para a Warrior simultaneamente: The Bojeffrie’s Saga (uma família de monstros muito engraçada), Marvelman (Miracleman) e V de Vingança.

– Naquele mesmo ano, Moore começou a escrever as histórias do Capitão Bretanha. Já no primeiro capítulo, ele se livrou dos conceitos criados pelo escritor anterior e no capitulo seguinte matou o próprio protagonista da série, recriando-o totalmente reformulado na edição de número 3.

– Enquanto a fama de Moore crescia nos quadrinhos, ele encontrava tempo para se envolver em outros projetos. Ele formou uma banda chamada The Sinister Ducks, gravando um single em 1983.

– Na 2000 AD, Moore escreveu D.R. & Quinch, uma hilária saga de dois alienígenas delinqüentes. E ainda escreveu A Balada de Halo Jones e Skizz.

– Todos esses trabalhos renderam a Moore o prêmio Eagle Award de melhor escritor de 1982 e 1983. Foi quando os Estados Unidos começou a se interessar pelos trabalhos do autor.

– Em novembro de 1983, Lein Wein, criador do Monstro do Pântano, ligou para a casa de Alan perguntando se ele queria trabalhar para a DC e escrever as historias do monstro. Alan achou que era um trote e desligou na cara do escritor. É claro que depois ele viu que não era mentira e aceitou trabalhar com o personagem.

– Sob ao comando de Alan Moore, Swamp Thing passou das 17.000 cópias/mês para mais de 100.000 cópias!!!

– No período em que escreveu o Monstro do Pântano, Moore fez outros trabalhos pouco divulgados na DC, como “Tales of the Green Lantern Corps”, “Vigilante”(uma historia sobre abuso sexual de crianças) e uma historia do Batman onde ele enfrenta o Cara de Barro (publicada no Brasil na extinta SuperAmigos). Moore ainda escreveu 2 histórias memoráveis com o Homem de Aço (ambas relançadas no Brasil pela Opera Graphica). Uma delas, “For the Man who has Everything” é possivelmente uma das melhores histórias do Super-Homem.

– O próximo trabalho de Moore seria A Piada Mortal. A história foi escrita em 1985, mas devido a atrasos do desenhista Brian Bolland, a revista só foi terminada e publicada em 1988.

WATCHMEN

Ainda em 1986, a DC concordou em deixa-lo produzir sua própria série. Com o artista britânico Dave Gibbons, Moore sugeriu o projeto de uma série chamada WATCHMEN. A história, como Weaveworld de Clive Barker, é uma epopéia sobre um mundo fictício – embora o mundo que Moore inventou seja de várias maneiras igual ao mundo real de hoje.

Começando em uma Nova Iorque durante os anos 80, Watchmen descreve uma América como poderia ter sido se realmente tivesse testemunhado o surgimento de fato dos “super-heróis” – isto é, seres que possuem habilidades super-normais ou que se apresentam como vigilantes idealistas. Assim como a América nunca teria sofrido uma divergencia política progressiva dos Anos sessenta, imagina Moore, também nunca teria perdido a Guerra de Vietnã, e teria achado um modo para manter Richard Nixon como Presidente. Já no início de Watchmen, dificilmente as coisas são sublimes: alguém decidiu eliminar ou desacreditar os poucos super-heróis remanescentes enquanto que, em uma série de eventos aparentemente não relacionados, os Estados Unidos e a União soviética desenham um crescente conflito nuclear por causa de uma disputa na Ásia.

No centro da consciência desta história, de olho na (e tentando desafiar a) maneira de como o mundo está desmoronando, está um incomum herói criado por Moore: um mascarado, horrendo e transtornado vigilante direitista conhecido como Rorschach. Rorschach fala para o psiquiatra sobre a noite em que ele cruzou a linha da brutalidade:

“Me senti limpo. Senti o sombrio planeta girando sob os meus pés e descobri o que faz os gatos gritarem como bebês durante a noite. Olhado para o céu através da espessa fumaça de gordura humana, e Deus não estava lá. A escuridão fria e sufocante, continua para sempre, e nós estamos sós. Vamos viver nossas vidas na falta de qualquer coisa melhor para fazer. Deixemos a razão para depois.

Nascemos para o esquecimento; agüentando crianças destinadas para o inferno, nós mesmos; caminhando para o esquecimento. Não há nada mais. A existência é fortuita. Nenhum padrão seguro imaginado por nós depois de encarar isto por muito mais tempo. Nenhum significado seguro além do que nós escolhemos impor. Este mundo sem direção não é moldado por vagas forças metafísicas. Não é Deus que mata as crianças. Não é o destino que as abate ou que as dá de alimento para os cachorros. Somos nós. Somente nós… Estava renascido então, livre para rabiscar meu próprio desígnio neste mundo moralmente vazio..”

O assustador Rorschach

“Aquela foi uma história terrivelmente depressiva para se escrever,” disse Moore, “em parte porque Rorschach em nada se parece comigo: Eu não compartilho a sua política, e nem compartilho a sua filosofia. Ele é um homem aterrorizado e, em minha visão, ele acaba se rendendo ao horror do mundo.

Mas eu penso que o fundo do poço dos medos e ansiedades de muitas pessoas pode ser igual ao do Rorschach. As coisas que uma vez usamos para nos abrigarmos da escuridão – como Deus, a rainha, o país, e a família – foram se distanciando de nós. Em muitos casos, temos esmagados a nós mesmos, e agora nos deixamos tremendo na chuva, olhando para o mundo e vendo um obstáculo preto que não tem nenhum significado moral, afinal”.

Até que alcance seu devastador mas reafirmado fim, é evidente que, acima de tudo o mais, Watchmen é uma história de como as pessoas encaram a perplexidade do mundo de hoje: como alguns se movem furiosamente e de maneira fatal contra ele e de como outros, heroicamente, reúnem forças até mesmo em face ao Armageddon.

“Enquanto estava trabalhando em Watchmen,” conta Moore, “eu tive que me perguntar, O que é que mais me assusta? E percebi que a verdade é que quando o mundo acabar, não haverá nenhum aviso de quatro minutos, não haverá nenhum conflito nuclear de baixa escala. A verdade é que os mísseis poderiam estar no ar em cinco minutos. E se houver um Armageddon nuclear, não iremos retirar o pó de nós mesmos e nem reinventar os valores humanos. Não poderia haver nenhum valor humano após uma guerra nuclear porque não haveria nenhum humano.

Nosso passado seria erradicado. Nosso futuro seria erradicado. Nosso presente seria erradicado. E eu me achei pensando, Quando as crianças foram para escola esta manhã, eu gritei com elas ou lhes falei que eu as amo?”.

Os roteiros de Moore para essa saga viraram uma lenda pela riqueza de detalhes. O primeiro capítulo, por exemplo, tinha mais de 100 páginas e foi entregue ao desenhista Dave Gibbons sem parágrafos.

Com Watchmen, Moore virou uma celebridade do mundo dos quadrinhos, mas não estava feliz com isso. Certo dia, em uma convenção sobre HQ´s em San Diego, ele foi cercado por dezenas de fãs que o imprensaram contra uma escadaria na tentativa de agarrá-lo e conseguir um autógrafo. Moore decidiu que jamais participaria de convenções novamente.

A Casa do Trovão, em Twilight of the Superheroes

O próximo projeto de Moore na DC seria Twilight of the Superheroes, mas por razões desconhecidas, esse projeto não foi adiante. Anos depois, muitas das idéias de Moore para essa série seriam reaproveitadas na aclamada saga “Kingdon Come”(Reino do Amanhã) de Mark Waid e Alex Ross. A dupla nega qualquer reciclagem dos conceitos de Twilight.

Moore, que já não trabalhava para a Marvel desde a época de Capitão Bretanha, tambem passou a não trabalhar mais para a DC, pois discordava sobre os royalties de Watchmen e principalmente com o fato da DC adotar o código “for mature readers” (própria para leitores maduros/adultos) nas suas revistas.

A última colaboração de Moore para a DC foi o final de V de Vingança, que havia ficado incompleta apos a falência da Warrior. A série foi reeditada nos EUA e se tornou outro best-seller.

 

Miracleman

Na mesma época, ele voltou a escrever Miracleman (agora para a editora Eclipse). Além de tudo o que já havia sido escrito para a Warrior, Moore criou novas historias, entre elas a maravilhosa saga Olympus. Depois disso, ele passou os direitos autorais do personagem para Neil Gaiman (que mais tarde resultou naquele pega ´pra capar entre Gaiman e a cria do inferno, Todd McFarlane. O embate jurídico dura até os dias de hoje).

Moore recusou varios trabalhos nessa época, inclusive o roteiro de Robocop 2 (que assumiu a criança foi Frank DKR Miller). Seus próximos trabalhos foram o livro “Brought to Light”, com ilustrações de Bill Sienkieckz e a graphic novel “A Small Killing”.

Em 1989, Moore decidiu colaborar com a recém-criada revista “Taboo” de Stephen Bissete (parceiro de Moore em Swamp Thing). Para a Taboo, ele escreveu a espetacular “From Hell” – fruto de mais de 8 anos de pesquisa, e “Lost Girls”.

Ainda naquele ano, Moore passou a viver um triângulo amoroso com sua esposa e sua namorada Deborah Delano. Irritado com a intolerância do governo de Margareth Tatcher com os homosexuais, Moore colaborou com entidades GLS, publicando a história “Mirror of Love”, pela editora Mad Love, propriedade do próprio autor e de sua esposa.

Big Numbers

O próximo projeto era a serie Big Numbers, projetada para 12 capítulos e mais de 500 páginas. Somente 3 edições foram lançadas, 2 com desenhos de Sienckwiecz e uma com os traços de Al Columbia. Ninguém sabe ao certo porque o projeto nao foi adiante, mas especula-se que a complexidade do texto de Moore foi demais para os desenhistas que nao conseguiram dar conta do recado.

Nessa época teve início o inferno astral de Alan Moore: a Mad Love faliu e seu casamento terminou. A Taboo também chegou ao fim, deixando sagas como From Hell para serem completadas anos depois.

Em 1993, Moore tomou uma decisão que desapontou muitos de seus fãs. Aceitou trabalhar para a Image Comics escrevendo títulos como Spawn, Supreme, Glory, Youngblood, Wild C.a.t.s. Moore desabafou que aquilo não era um retrocesso ou que ele estava vendendo sua alma para os demônios Rob Liefeld e Jim Lee, e sim um desejo de escrever histórias mais simples, para garotos de 14 anos e não para adultos de 30. Ainda pela Image, ele participou do projeto 1963. Este ultimo projeto acabou gerando uma briga entre ele e Stephen Bissette. Até hoje eles não se falam.

Moore passou a morar com uma nova companheira: Melinda Gebbie. No dia em que completou 40 anos, Moore decidiu se tornar um mago. Ainda em 1993, ele praticou performances teatrais como “Snakes and Ladders” e “BirthCaul”. Mais tarde essas performances foram adaptadas para HQ´s por Eddie Campbell, seu companheiro de trabalho em From Hell.

Algumas conclusões de Moore em relação à magia foram adaptadas para histórias como Supreme, Glory e mais tarde Promethea. Em Supreme, Moore explorou o conceito do IDEASPACE, um mundo de arquétipos, semelhante ao Mundo das Idéias de Platão. Supreme vai investigar uma estranha cidade no alto do Tibet, encontrando uma paisagem desnorteante, formada por um grande número de paisagens diferentes fundidas numa só. Há partes dela que parecem como um bairro decadente durante a Depressão de 1930, onde ele conhece uma gangue de crianças e um herói fantasiado.

O Grande Criador

Supreme continua a vagar pela estranha paisagem até encontrar uma trincheira de um campo de batalha, onde há uma infinidade de soldados de várias etnias: Um irlandês, um judeu, um negro, tudo muito parecido com o Sgt. Fury e toda uma enorme linha de heróis patrióticos.

Isto continua até Supreme conhecer o criador supremo deste mundo, que se mostra ser Jack Kirby. Isto é muito difícil de explicar porque leva uma história inteira para ser contada, mas é basicamente uma gigantesca cabeça flutuante, que se altera sob uma fotomontagem da cabeça de Kirby em transmutação; ela sempre é apresentada no estilo dos desenhos de Jack Kirby. Esta entidade gigantesca explica a Supreme que ele foi um artista de carne e osso e sangue, mas agora ele está completamente no reino das idéias, que é muito melhor porque a carne e os ossos e o sangue tem suas limitações, já que ele podia fazer somente quatro ou cinco páginas em um dia de trabalho; mas agora ele existe puramente no mundo das idéias. As idéias só podem fluir sem interrupções. Ele fala sobre todo um conceito de um espaço onde idéias são reais, que é o tipo de lugar onde, de algum modo, todos os criadores de quadrinhos trabalham durante toda a sua vida, talvez Jack Kirby mais do que a maioria. É como se uma idéia se tornasse livre do corpo físico, e este artista pode então explorar os mundos infinitos da imaginação e das idéias.

Em 1996, Moore escreveu seu primeiro romance, intitulado A Voz do Fogo. Foram 5 anos para escrever este livro, um tratado de 5 mil anos da sua cidade natal, Northampton. O primeiro capítulo é narrado em primeira pessoa (de forma muito singular) por um personagem que vive numa Northampton paleolítica, quando a cidade tinha duas a três cabanas de barro e uma ponte. O segundo é narrado em primeira pessoa por um personagem totalmente desligado do primeiro que vive em Northampton durante a Idade de Bronze, em uma comunidade que começou a crescer, se desenvolvendo através das eras. Lentamente, nós movemos através dos séculos, até o décimo primeiro capítulo, que é narrado pelo próprio autor na Northampton do presente.

Trabalhando para a editora Wildstorm (que acabou sendo posteriormente vendida para a DC) Moore criou uma nova linha de HQ´s, a America’s Best Coomics (ou ABC), onde surgiram as aclamadas séries: Top Ten, Tom Strong, League of Extraordinary Gentlemen, Promethea e Tomorrow Stories.

Aos 50 anos, Moore anunciou que pretende se aposentar dos quadrinhos. Será?

Liga dos Cavalheiros Extraordinários

Se você assistiu LXG, a dica de leitura é um antídoto para a pataquada que você viu na telona. Leia a edição especial A Liga Extraordinária da Devir. Apesar do preço salgado (R$ 45,00), você pode encontrar esse lançamento na FNAC por R$ 36,00. Preço justificado pela luxuosa edição de 192 páginas repleta de material inédito, incluindo o tão aguardado conto “Allan e o Véu Rasgado”, no melhor estilo das obras de H.P. Lovecraft.A Liga de Moore não tem nada a ver com aquela versão X-Men Vitorianos. As Aventuras da Liga dos Cavalheiros Extraordinários é o fanfict definitivo: Imagine uma força-tarefa formada por personagens da literatura inglesa, mas com uma pitadinha do tempero de Alan Moore: Então o Capitão Nemo é uma figura intrigante, um fanático cheio de equipamentos misteriosos. Hyde é de uma complexidade assustadora. Mina Murray não é uma vampira anabolizada e o decadente Alan Quatermain passa longe da interpretação impecável de Sir Connery. Só para você ter uma idéia, o Quatermain da HQ é viciado em ópio! Leia o mais rápido possível e fique aguardando ansiosamente o volume dois, ainda “inédito” aqui no Brasil.

Entrevista com Alan Moore

Apresento-vos uma entrevista com o escriba, realizada por Alan David Doane. A tradução é de David Soares (Portugal)

Eu soube que este “Quiz de 5 perguntas” seria um esforço maior que os anteriores, excedendo certamente esse número de questões, quando o homem que eu considero ser o melhor escritor de banda desenhada de sempre deteu-se, pensativamente, durante oito minutos para responder à minha primeira interrogação (envisionando e esclarecendo, em conjunto, as seguintes). Olhando a isso, abandonei a fórmula inicial; que outra escolha tinha? Durante a década de 80, Alan Moore recriou a banda desenhada por imprevisto, como irão ler adiante, e, desde a sua estréia, uma engenhosidade e paixão superlativas constantes são as características reconhecidas no seu trabalho. Conversar com Alan Moore, mais que uma honra, foi uma aventura e é meu dever agradecer ao autor a sua disponibilidade, mas, também, a Chris Staros, da Top Shelf Productions, por apadrinhar este encontro. Esta editora publica muitos dos melhores trabalhos de Moore, como o seu romance “Voice of the Fire”.

Alan David Doane – O que te inspirou a escrever um romance com a profundeza de “Voice of the Fire”?

Alan Moore – Sempre vivi em Northampton, como os meus pais, talvez tenha sido isso. Somos todos descendentes uns dos outros nesta única grande família que são os seus cidadãos. “Nascidos de fresco com sangue em segunda-mão”, como gostamos de dizer por cá. Esta cidade fascina-me e saber que a sua história, tão singularmente rica, é completamente ignorada sempre se me apresentou contra-sensual. A maioria dos ingleses é capaz de identificar Northampton apenas como uma mancha indistinta a meio da M-1, entre Birmingham e Londres, mas quando comecei a investigar as suas origens na altura em que me lembrei de escrever este livro encontrei matéria convincente o bastante para concluir que Northampton é, mesmo, o centro do universo. No mínimo, eu fiquei convencido.

Penso que a sua é uma história esplêndida que remonta desde a Idade da Pedra quando caçadores de mamutes, e os próprios mamutes obviamente, ainda caminhavam sobre estas ruas, atravessando a Idade do Bronze e as migrações dos povos Celtas, prosseguindo pela Idade do Ferro e as invasões romanas e, ainda, parece-me ser uma cidade que assumiu sempre uma importãncia central, de um modo mais complexo que a sua simples localização geográfica. Lembro-me, se me encontro sem erro, que os avós de George Washington, e de Benjamin Franklin, habitavam duas pequenas aldeotas vizinhas durante os anos da Guerra Civil Inglesa. Os pais de Washington moravam aqui, os pais de Franklin moravam em Ekton e ambos os casais abandonaram Northampton após a guerra civil que terminou nesta cidade (provavelmente, o local mais desconfortável para comprar uma casa durante o séc. XVII) e emigraram para a América. De acordo com aquilo que sei, a própria bandeira norte-americana é baseada no seu, agora esquecido, brasão de família, tradicional de Northampton.

O tipo que descobriu o ADN, Francis Crick, viveu aqui e foi aluno na mesma escola que eu frequentei com apenas algumas décadas de intervalo entre os seus anos lectivos e os meus e ia semanalmente à catequese na igreja que ainda se encontra no fim da minha rua. Muitos episódios da história inglesa também circulam Northampton, como a Guerra das Rosas que também conheceu o seu fim neste lugar, simetricamente à nossa Guerra Civil, como já te contei, e a Conspiração da Pólvora que foi urdida nesta cidade e pretendia rebentar a sede do parlamento, em Londres, em 1605. Pensamos, inclusive, que o empreendimento foi um fracasso e é por essa razão que o tornámos numa festa anual, mas os conspiradores não se saíram, realmente, mal.

Também foi nesta cidade que a rainha Mary, da Escócia, foi decapitada e é avaliando esse conjunto de acontecimentos que te digo que existe muita história aqui, nem sempre agradável, admito, mas está presente uma força nuclear para a vida humana e que influenciou de certeza a evolução do modo de vida inglês, e, em última análise, possivelmente outros modos de vida em outros lugares.

A génese do livro nasceu dessa fé que me diz que, sim, Northampton é, na verdade, o centro do universo. Acredito nisso, assim como acredito que é esta é uma cidade despida de características especiais. Posso dizer-te que qualquer pessoa, habitante de qualquer lugar sobre o globo, pode desenterrar uma mão-cheia de maravilhas da terra do seu próprio quintal, se tiver feito uma pesquisa paciente sobre esse local e se for engenhosa o bastante para as encontrar. Demasiadas vezes caminhamos pelas nossas ruas, a pé ou de automóvel, e não compreendemos que sob as fachadas descaracterizadas se pode esconder o antigo cárcere de algum poeta ou um sítio reservado ao homicídio, o sepulcro oculto de alguma rainha lendária e é o somatório destas pequenas histórias que enriquecem um lugar: de repente, não te encontras simplesmente a passear numa cidade comum, aborrecida e homogénea, mas numa aventura em avenidas prodigiosas recheadas de histórias fantásticas. Na minha opinião, viver é uma experiência muito mais recompensadora se conhecermos intimamente a parte do mundo que nos foi destinada como casa e esta é a melhor resposta que te posso dar sobre a tua pergunta.

ADD – Bom, na verdade já respondeste às primeiras quatro perguntas.

AM – A sério? (Risos) Estou em forma.

ADD – (Risos) Sendo assim, vamos à última. Imagino que durante a criação das histórias deste livro, à medida que ias desenvolvendo a tua pesquisa e estruturando a narrativa, foste apanhado de surpresa por algumas coisas acidentais que não estavam previstas quando iniciaste o empreendimento.

AM – Fui surpreendido por uma grande quantidade de coisas. Repara que uma das minhas premissas iniciais era a de não querer escrever um trabalho histórico, por que não queria abdicar da liberdade que um trabalho de ficção me oferece, como, por exemplo, entrar na personalidade das pessoas sobre quem eu pretendo escrever e o sentido dessas vidas, pois acredito que dessa forma o resultado final é mais verdadeiro, mais humano. Contudo, mesmo conjurando todas estas vozes fictícias do passado queria que o seu discurso se baseasse em fatos reais e circunstâncias possíveis e comecei com esse objetivo em mente para, em seguida, compreender que determinados temas, determinadas imagens, estavam a emergir da minha narrativa.

Aparentemente, a maioria dos episódios ocorrem em Novembro, no dia do meu aniversário,e, paralelamente a isso, outros elementos estavam a manifestar-se repetidamente em diferentes histórias e indicavam-me uma espécie de padrão: pessoas com membros amputados; matilhas de cães pretos espectrais; cabeças decepadas e outros ícones de natureza igualmente inquietante.

O desafio de “Voice of the Fire”, se eu queria realizar esse livro de acordo com a minha ideia original, era ter um narrador diferente para cada uma das doze histórias, alguém que pertencesse a esse espaço-tempo e que relatasse na primeira pessoa. Para o último capítulo, que tem lugar nos dias de hoje, o único narrador possível só poderia ser mesmo eu próprio. Contar essa história com a minha voz, debruçando-me sobre os meus assuntos particulares sem inventar pormenores sobre o que estaria a acontecer durante essa altura e, coincidentemente, quando finalmente comecei a fazê-lo, descobri que já me encontrava em Novembro, mais uma vez… Iniciei a escrita desse capítulo com a esperança que a própria cidade me sugerisse um final que amarrasse todas as pontas e todas as hipóteses que fui deixando por rematar ao longo dos capítulos anteriores sem saber se isso iria acontecer ou se, pelo contrário, os últimos cinco anos da minha vida tinham sido um logro e que não deveria ter começado o livro, em primeiro lugar.

Sempre acreditei que existem momentos na vida de um escritor em que ele, ou ela, é confrontado com a noção de que as fronteiras entre a ficção e a vida real são, muitas vezes, inexistentes e isso é frequente em trabalhos nos quais optamos por um registro auto-referencial. Esses dois universos inclinam-se para um maior cruzamento à medida que te aproximas de casa o que pode ser desconfortável, no mínimo. Por isso não foi surpreendente, mas ainda assim bizarro, quando sucessivas ocorrências se conjugaram para satisfazer as necessidades do meu texto. Coisas sobre e com cabeças cortadas e enormes cães pretos que me mostraram que enquanto ações mirabolantes têm lugar na ficção, outros movimentos igualmente mirabolantes, e perigosos, acontecem na vida real; experiências que são simétricas. Por mais que as esperes, são sempre perturbantes.

ADD – Esse capítulo final, acredita, foi uma das coisas mais perturbantes que já li.

AM – Pois. Obrigado.

ADD – Existe uma frase nesse capítulo… Tu sabes qual: “O Homem escreve.”, “O Homem escreve.”…

AM – Sim.

ADD – Essa tua frase que aparece repetidas vezes e que parece tão absurda consegue reunir toda a informação do livro e fazer sentido no final, quando todas as centenas de páginas e todas as centenas de anos que assimilaste acabam por nos conduzir à tua casa, ao teu quarto, não é verdade?

AM – É quase isso. Não és conduzido ao meu quarto, felizmente para ti, mas à minha mente. Até esse ponto exato, ainda poderias pensar que “Voice of the Fire” é composto por uma série arbitrária de histórias suavemente associadas em órbita da minha cidade e nesse capítulo quis fundir tudo isso: as histórias, a minha vida, a minha mente e as vidas e as mentes dos leitores. Aparentemente, para surpresa de todos, o livro acaba mesmo por ser sobre mim. Pode ser sobre mim, sentado a escrever o próprio livro. Ou ser sobre o processo criativo de se escrever outro livro. Ou sobre outro assunto qualquer. É isso. E fico contente que tenhas reagido bem à frasezinha, por que ela arrepiou-me um bocadinho quando a escrevi. Lembro-me que pensei: “-Isto está a ficar sinistro, por isso devo estar a criar algo interessante”.

ADD – A frase não é sinistra, em si, mas consegue impressionar-te dessa forma.

AM – Obrigado.

ADD – É perturbante, como já te disse. Aliás, já li o teu “From Hell” e senti em algumas passagens dessa história que ultrapassaste a barreira entre autor e leitor. Uma barreira que não tinha sido ultrapassada em nada que já tivesse lido.

AM – Isso é maravilhoso…

ADD – Não tenho a certeza de qual dos livros foi editado em primeiro lugar, mas o efeito que “Voice of the Fire” me provocou pareceu-me uma ampliação do que senti em segmentos de “From Hell”, naqueles momentos em que tu, como acabaste de explicar, penetras, e nós contigo, na mente da personagem, que neste caso és tu. Não tinha pensado nisso, mas o leitor acaba por se transformar em Alan Moore.

AM – Pois… é possível. Penso, inclusive, que um ingrediente que pode ajudar a cozinhar esse efeito é o facto de que no último capítulo de “Voice of the Fire” não possuo um conhecimento “in loco” do meu consciente não-autónomo, ou seja: o meu “eu” pensante. Falando nisso, nunca utilizo a palavra “eu”, entendes? Acaba por funcionar como uma narração na primeira pessoa do singular, mas sem uma pessoa. Não sei se era a isto que fazias referência, mas eu também não compreendo muito bem o que me leva a escolher uma determinada forma de fazer as coisas. Na altura, pareceu-me que funcionava.

Pareceu-me que deixava o leitor respirar, sem estar constantemente a ser confrontado com a noção de que é um… deixa-me pensar… um ego de outra ordem que fala com ele. Fico satisfeito pela tua reacção a esta experiência.”Voice of the Fire” e “From Hell” nasceram mais ou menos na mesma altura, talvez com um ano de diferença, e isso acaba por estabelecer uma comunicação entre os dois, por que têm algumas afinidades, como, por exemplo, o facto de partilharem um momento da minha vida em que decidi tornar-me um ocultista e estudar a fundo matérias que estão imersas num mundo à parte às quais, vulgarmente, chamamos magia. No “From Hell” isso está explícito nos diálogos de William Gull quando ele nos descreve as suas crenças e que os deuses existem realmente, em majestade e monstruosidade, na nossa mente. Escrevi isso quase por acidente e compreendi depois que tinha escrito algo mais profundo, algo significante que, eventualmente, acabou por introduzir o meu interesse pela magia.

Certamente, esta inclinação coloriu com outros tons o final de “From Hell”, e a conclusão de “Voice of the Fire”. Este título reservou-me outra surpresa: comecei o livro contando a história de um xamã que procura um código de palavras, uma ladainha, um conjunto mnemónico para aglutinar o seu povo e na última história, eu sou esse xamã, inconscientemente, milénios depois, realizando a mesma rotina. Não a mesma, claro, pois os meus métodos não envolveram nenhum sacrifício humano. Podes dormir sossegado.

ADD – A mensagem de “From Hell, bom, pelo menos a que eu retirei da minha leitura e que, infelizmente, não é expressa pela sua adaptação cinematográfica…

AM – Tens de compreender que estás em vantagem sobre mim nesse tópico, por que não vi o filme.

ADD – Tudo bem. Penso que na melhor das hipóteses representar todas as preocupações do teu trabalho, já por si bastante extenso, num filme de duas horas é uma tarefa impossível de concretizar. Mas falava-te do que retirei do livro, a tal mensagem que é a de que a arte tem o poder de transformar o artista, até divinizá-lo, e no decurso da minha leitura percebi que ambos os livros, “From Hell” e “Voice of the Fire”, partilham essa preocupação. Não sei se foi intencional, mas a verdade é que quando se chega ao fim desses livros essa mensagem é, de facto, sugerida.

AM – A magia tem o poder de mudar a relação que tens com o mundo que te rodeia e isso aconteceu comigo. Comecei a olhar as coisas de outra forma, com um sentido, felizmente, mais útil, até, e considerando tudo isso, o que dizes sobre os dois livros pode ser verdade. Através deles, apresento uma visão alternativa da nossa história e das nossas experiências, mesmo que em “From Hell” a minha intenção principal fosse contar uma história sobre um crime, um homicídio. Nessa altura, nem pensei nos crimes de Jack, o estripador. Era, apenas, o uso de um crime como uma experiência avassaladora que me norteava. Felizmente, um homicídio, no contexto de uma vida, é uma experiência bastante improvável. Repara que o número de pessoas que acabam por morrer dessa forma é, ainda assim, muito reduzido.

Essa raridade sugeriu-me a idéia de falar sobre o homicídio de uma forma particular. Porquê abordar apenas a identidade do autor, que parece ser o motor constante de tantos romances policiais? Essa é uma alusão quase tão redutora como um vulgar jogo de salão. Como o CLUEDO, por exemplo, onde só precisas de descobrir quem foi o assassino, a arma que usou e em que local a vítima foi abatida. Com “From Hell” quis esclarecer, também, as variáveis sociais e culturais que permitiram a práctica desse crime, muito mais que, somente, especular sobre a identidade do homicida. Queria ver como um crime poderia agir sobre a sociedade e estudar todas as hipóteses de desenvolvimento que poderiam florescer posteriores a essa ação.

Prosseguindo nessa óptica, se estás a falar sobre um crime, essa experiência avassaladora que pode acontecer na nossa vida, tomas consciência que és capaz, inclusive, de ir mais longe e ter alguma coisa a dizer sobre a grandiosidade da própria condição humana. Podes dirigir este ponto de vista para “Voice of the Fire”, claro, mas desviado suavemente, já que a intenção desse livro não é provar-te que Northampton é o núcleo do universo, mesmo tendo fé absoluta na verdade dessa afirmação, como já te disse, mas mostrar-te que qualquer local, onde quer que te encontres, é muito mais rico, muito mais exótico e prodigioso do que parece à primeira olhadela, entendes? No primeiro livro, procurei mostrar um ponto de vista crítico sobre a condição humana e a cultura, neste caso a cultura e a sociedade inglesas, usando um crime como casa de partida, mas com “Voice of the Fire”, as minhas ambições estavam à solta, a pensar em outras paisagens e para onde a nossa evolução nos conduz. Penso que o que estabelece a comunicação entre os dois livros é mesmo o meu interesse pela magia, que influencia o meu modo de olhar as coisas e de as contar.

ADD – Gostaria  que falasses do modo como vê a tua carreira na banda desenhada e a forma como as obras que tu escreveste, como “From Hell”, mas também “Watchmen” e “The League of Extraordinary Gentlemen”, mudaram o comportamento da indústria da publicação de comics.

AM – Posso dizer-te que a minha ambição foi sempre ganhar a vida como cartunista e nem pretendia ser famoso. O problema foi quando descobri que nunca seria um artista bom e rápido o suficiente para aguentar uma carreira nessa atividade.

Lembrei-me, então, da hipótese de me concentrar na escrita, por que senti que poderia fazer um trabalho melhor como escritor e que desenhando os storyboards para as histórias a minha ligação com o desenho continuaria. Investi com essas premissas e compreendi logo no início que seria incapaz de escrever uma história de encomenda. Se uma idéia sugerida não fosse aquilo que eu tinha em mente, invertia-a para a transformar em algo que me desse prazer escrever ou que fosse, no mínimo, um desafio. Penso que o método que desenvolvi me salvou de muitos compromissos e sempre me providenciou com a motivação necessária para realizar um bom trabalho.

Comecei a ser requisitado aos poucos, para ali e para acolá, em resultado dele e apliquei-o, concisamente, quando a DC me engajou para escrever o “Swamp Thing”. Na minha lógica, o leitor nunca se irá interessar em ler uma história escrita por mim, se eu próprio não estiver interessado em escrevê-la. Isso pressente-se, não te parece? Penso que os leitores são muito bons em descobrir se o autor gostou realmente de fazer o seu trabalho.

Tive de tornar o material mais arrojado, mais destemido, para o forçar a ser interessante. Pensei que fosse arranjar uma porção de problemas por causa disso, mas não. Os leitores compreenderam as minhas escolhas e eu, encorajado por eles, inovei mais ainda, sempre com o apoio da Karen Berger, claro, a minha editora da DC na altura, e, também, por outras pessoas que apreciaram muito a subida das vendas do título, sempre maiores a cada mês. Todo esse conjunto de situações fez nascer uma relação de confiança mútua na qual os editores perceberam que se eu tivesse controlo sobre as minhas decisões criativas nunca lhes iria apresentar um trabalho inteiramente despropositado e foi essa credibilidade que me permitiu ir sempre mais longe, por vezes a locais perturbadores ou tétricos, mas sempre interessantes. De que forma é que isso influenciou a indústria? Não te posso oferecer uma explicação clara. Depende da minha disposição, se queres
mesmo saber. Se eu me sentir deprimido penso que a minha influência foi terrível e que os autores que cresceram a ler o “Swamp Thing” ou “Watchmen” só foram capazes de imitar a violência desses trabalhos, e a sua pose intelectualista, sem a suportarem com a ingenuidade e a aventura que também lá se encontram. Sinto que ignoraram completamente a minha vontade de romper os limites da própria fórmula de contar histórias em BD e contentaram-se em produzir uma série de livros tristes e penosos. Como te disse, esta visão desconsolada da realidade depende muito da minha má-disposição e hoje tiveste azar.

A sério que gostava mesmo de acreditar que, em vez de tudo isto que contei, consegui realmente mostrar com o meu trabalho que a banda desenhada permite inúmeras possibilidades aos seus autores e que estão para nascer livros fabulosos com contornos que somos incapazes de imaginar neste momento. Que podes fazer tudo com algo tão simples como palavras e imagens se as abordares sensivelmente e se fores inteligente, diligente e virtuoso no teu esforço. Talvez esteja a ser brusco, lamento, mas queres afirmar que existe uma influência minha na indústria? Então, por favor, coloca-a aqui em vez de encorajares a minha percepção de que a minha herança será invariavelmente composta por psicopatia e sarcasmo.

ADD – Sou capaz de regressar mais longe que os anos oitenta, quando o teu “Watchmen” e o “The Dark Knight Returns”, do Frank Miller, foram publicados. Na minha opinião, o que poderá ter iniciado a redefinição das personagens, dos super-heróis, poderá muito bem ter sido aquela história que escreveste no “Swamp Thing” na qual representaste os membros da Liga da Justiça, o Batman, o Super-Homem e os outros, como se fossem novos deuses, curiosos em relação à humanidade. É um segmento de quantas páginas? Duas? Contudo, penso que a mudança começou nesse momento.

AM – Quem sabe se a razão está do teu lado… Lembro-me que foi a primeira vez que escrevi sobre super-heróis, no mínimo, os americanos. O Swamp Thing não conta, por que, na altura, era refugo. Para mim, escrever essa história foi voltar a divertir-me com os brinquedos da minha infância, o Flash, o Super-Homem e sentá-los todos no seu grande gabinete cósmico e devolver-lhes o carisma que eles costumavam ter para mim e que, infelizmente, se tinha transformado num sentimento mais próximo de casa. Fi-lo usando pequenos ardis, como nunca os chamar pelo nome verdadeiro e ocultá-los na penumbra. Podes ver uma insígnia pelo canto do olho ou uma silhueta, mas isso é tudo. Sobretudo, quis fazer poesia com estas personagens.

Dizer que uma personagem consegue ver o que acontece no outro lado do globo ou que é capaz de aquecer a antracite o suficiente para a transformar em diamante, como fiz para o Super-Homem, ou que se move a uma velocidade tão intensa que a sua vida se assemelha a uma visita numa galeria de estátuas, como escrevi para o Flash. Falei em poesia e isto, de fato, não é um exemplo de boa poesia, mas constitui um novo olhar sobre estas personagens que temos inclinação a desdenhar, ou a esquecer, por que se tornaram, com o passar dos anos, demasiado familiares e a aproximação que nos liga às coisas e aos assuntos tende, por vezes, a criar essa desilusão. Só pintei uma maquilagem nova sobre o encanto que já existia. O Frank Miller fez a mesma coisa nas páginas do “Daredevil”, não? Quando introduziu outras personagens da Marvel nessa cronologia.

ADD – Tens razão, mas repara que ele não se desviou dos padrões instituídos e nunca nos fez olhar uma personagem conhecida de um modo singular. A mesma acusação é válida para a maioria dos criadores posteriores. É mesmo como dizes: se tivessem considerado a face mais experimental dos vossos trabalhos em vez de se concentrarem no sensacionalismo as coisas poderiam, certamente, ter conhecido outra evolução.

AM – Não duvides e essa face mais arriscada é o que existe de atraente no trabalho do Frank, essa sua mestria narrativa e a inovação constante que ele introduziu no género através das histórias do Demolidor e do Batman, muito mais que o desalento e a testosterona. Seria tão bom se a sua influência penetrasse mais fundo que a camada superficial feita de sexo e violência.

Não vamos dizer, todavia, que tudo o que apareceu depois de “Watchmen” e “The Dark Knight Returns” se encaixa nessa pobre categoria e posso dizer-te que na periferia do mainstream encontras grandes trabalhos que não são clones de nenhum destes títulos, mas ainda assim penso que a nossa herança é maldita e uma péssima desculpa para oportunidades perdidas, o que não desvirtua a qualidade do trabalho do Frank e do meu, obviamente.

ADD – Esta conversa sobre herança vem mesmo a propósito. O teu amigo Neil Gaiman já tornou público o que ele diz ser “a conclusão, ou o fim eminente, de um episódio interminável com um editor desonesto, desleal até ao limite do imaginável”, aludindo ao desfecho do processo que levantou contra Todd McFarlane pela posse dos direitos que envolvem parte do franchise do personagem Miracleman, que tu próprio resgataste e ressuscitaste nos anos oitenta. Passados todos estes anos, o que é que tu gostaria de ver feito com essas histórias que escreveste e qual é a tua opinião sobre o processo-crime?

AM – Estou muito contente pelo Neil, como podes imaginar. Ainda bem que acabou, por que deve ter sido um pesadelo moroso. É sempre ridículo que alguém que não seja o criador venha exigir direitos sobre um trabalho e custa-me a entender essa falta de ética, ou melhor, compreendo-a, mas não posso pronunciar-me sobre ela sem dizer um ou dois palavrões. É algo embaraçoso, seboso até, que acaba por nos sujar a todos e que não oferece uma boa imagem da indústria da banda desenhada, por culpa dela própria, também, já que, infelizmente, casos semelhantes a este são frequentes. Penso que o Neil, chegando impoluto à outra margem desse lodaçal para onde irrefletidamente o quiseram arrastar, comportou-se como um verdadeiro super-herói.

Seria divertido ver reimpressões do Miracleman, para que os leitores não estivessem a pagar preços proibitivos por edições raras guardadas religiosamente desde a sua publicação original. Algum do material apresentado nessas histórias era realmente fantástico, como o escrito pelo Neil, por exemplo, e era bom que ele, em algum momento, tivesse oportunidade para lhe dar continuidade. Ele já me propôs há uns tempos uma parceria com vista à realização de uma conta em que todos os royalties derivados das vendas das reimpressões fossem guardados para serem distribuídos com justiça aos autores que trabalharam na série, como nós ou como o Mark Buckingham.

Parte desse dinheiro podia ir, também, para o Comic Book Legal Defense Fund e se houvesse a infelicidade de um ou outro filme aparecer o dinheiro, os meus royalties pelo menos, poderiam ir diretamente para esse fundo ou ficar no estúdio para serem partilhados pelos criadores envolvidos no projeto, por que eu não quero receber um único centavo de mais um filme adaptado de um dos meus livros, nem desejo ver o meu nome associado a um empreendimento desse género. O ideal era que não se fizessem mais filmes inspirados em livros do Alan Moore. Em vez disso, era mais agradável ver bons trabalhos serem reimpressos por um bom editor, sob uma boa política editorial.
Isso seria uma excelente premissa para o futuro e não digo isto motivado pela ganância de ganhar mais uns tostões com o meu material antigo, mas com a intenção de garantir que criadores como eu e como o Neil não tenham de atravessar campos minados no percurso das suas carreiras, por que, na verdade, temos assuntos muito mais importantes com que nos preocupar.

1953 –

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/alan-moore/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/alan-moore/

Magia do Caos: a Jornada – Com Luis Z Siqueira

Bate-Papo Mayhem 151 – Com Luis Z Siqueira – Magia do Caos: a Jornada

O vídeo desta conversa está disponível em: https://youtu.be/pWihFXKKNxM

Bate Papo Mayhem é um projeto extra desloqueado nas Metas do Projeto Mayhem.

Todas as 3as, 5as e Sabados as 21h os coordenadores do Projeto Mayhem batem papo com algum convidado sobre Temas escolhidos pelos membros, que participam ao vivo da conversa, podendo fazer perguntas e colocações. Os vídeos ficam disponíveis para os membros e são liberados para o público em geral três vezes por semana, às terças, quartas e quintas feiras e os áudios são editados na forma de podcast e liberados duas vezes por semana.

Faça parte do projeto Mayhem:

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/magia-do-caos-a-jornada-com-luis-z-siqueira

Cartas na manga do diabo

Morbitvs Vividvs

Baixa magia pode se beneficiar em muito de psicologia aplicada. A seguir está um verdadeiro arsenal de cartas na manga do diabo que pode ser usados cotidianamente para atingir resultados mágicos. Não tente decorar a lista, escolha um e tente usar de verdade em alguém. Esta é a melhor forma de atingir a maestria em baixa magia.  É incrível para mim a quantidade de pessoas que aparentemente sabem tudo sobre psicologia aplicada exceto como aplicá-la.  

Invariavelmente as pessoas irão lhe rotular. Certifique-se portanto em você mesmo definir qual será o rótulo. Seu comportamento influencia a forma como as pessoas tratam você. Haja como um amigo íntimo e as pessoas se abrirão. Haja como um amante e as pessoas o amarão. Haja como um servo e logo estará servindo café. Shakespeare disse que o mundo é um palco e ele estava certo. O que ele não disse é que você pode escolher o papel que vai interpretar. 

   

Macaco vê, macaco faz. Agir em grupo é outra forma típica de comportamento humano. Supomos que a maioria das outras pessoas está sempre mais bem informada que a minoria e desta forma sentimos uma compulsão de agir em conjunto sempre que o grupo em que estamos age. Além disso a maior parte das pessoas tem horror em ser considerada diferente. Coloque um ateu em uma roda de oração e ele provavelmente fechará os olhos e abaixará a cabeça, mesmo que seja só para não se sentir constrangido. Notícias sobre suicídio aumentam a taxa de suicídio, pesquisas eleitorais podem mudar o rumo de uma eleição e programas de auditório usam risadas gravadas para fazer a audiência rir. Além disso a  prova social é como uma bola de neve. Quantos mais pessoas fazem algo, mais pessoas repetem o padrão. Suas ideias não devem portanto parecer exclusivamente suas, mas um consenso geral que naturalmente precisa ser replicado.  

As pessoas lembram mais claramente do começo e do fim de algo (por exemplo, sequência numérica, lista de compras etc.). O meio, no entanto, é onde as coisas tendem a ser esquecidas. Se você for para uma entrevista de emprego por exemplo certifique-se de  ser o primeiro ou o último entrevistado. Se você estiver indo para um encontro romântico escolha o começo ou o fim do dia. E no dia do encontro deixe a melhor parte e cause a maior impressão no começo e no fim. 

    Por falar em encontros, procure para eles atividades que envolvam alguma adrenalina. Isso ajudará a estimular a excitação no cérebro e fará com que a outra pessoa acredite que realmente está aproveitando seu tempo com você. Eles atribuirão à causa o pico emocional a você. 

    Controle o tamanho de suas pupilas. Olhe para algum detalhe no olho da pessoa para fazer sua pupila crescer e lhe dar um olhar sedutor. Olhe como se mirasse algum ponto atrás da cabeça da pessoa deixando entrar bastante luz para construir um olhar ameaçador. 

    Use espelhamento para ganhar mais rapidamente a confiança de alguém. Ao iniciar uma conversa imite sutilmente sua linguagem corporal. O espelhamento sutil faz com que elas pensem que você estão em sintonia. 

    Avance aos poucos. Por orgulho ou preguiça mental temos é a de continuar fazendo o que já fazemos. Para usar isso ao seu favor faça as pessoas se comprometerem aos poucos com o seu lado. Pense no exemplo de Mefistofeles, ele inicialmente não foca na alma, mas na assinatura do contrato. Se possível procure no passado dela alguma situação semelhante em que ela agiu como você quer agora e comece por aí. Faça com que seu alvo se comprometa primeiro com coisas pequenas e então aos poucos expanda as implicações do seu comprometimento, mas sempre de maneira suave e de preferência imperceptível. Existe uma razão para as pessoas convidarem umas às outras para jantar mesmo quando a sobremesa será servida na cama. 

    Quando precisar se estabelecer como figura de controle, chegue mais cedo. Pode parecer chato, mas se você ajudar o anfitrião a se preparar você pode receber cada recém chegado com frases como: “Nós decidimos”, “Nós estávamos falando…” e você pode fazer a agenda da noite. 

    Quando quiser descobrir o verdadeiro líder de um grupo, chegue tarde. Pergunte a algumas pessoas o que você perdeu.  Eles dirão não somente com suas palavras mas também com sua maneira e linguagem corporal. Isso também mostrará seus sentimentos sobre os tópicos. 

    Falar mais baixo faz as pessoas prestarem mais atenção. As pessoas acham muito difícil ficar neutras quando alguém sussurra para elas e age como ovelha desgarrada. Este modo de interação automaticamente os coloca em posição de conspiração. 

    Quando precisar convencer uma plateia marque reunião para depois do almoço em uma sala quente com leve iluminação fluorescente se você falar clara e levemente pessoas absorverão suas sugestões como se os tivessem hipnotizados. Se quiser intensificar isso pratique o modo de falar do Drácula de filme de Bela Lugosi, mas sem o sotaque. 

    Se você acha que alguém não gosta de você, peça um pequeno favor, como emprestar a caneta. Mesmo que eles estejam inclinados a dizer não, pedir emprestado uma caneta é um favor tão pequeno que é incrivelmente difícil para alguém recusar. Depois de aceitar seu pequeno pedido ele chegará à conclusão incosnciente de que vocês estão bem. Isso costuma ser chamado de Efeito Benjamin Franklin, pois ele o usava sempre que preciso. 

    Se você tem um amigo que se recusa a se abrir com você, pergunte o que ele está sentindo. Se ele não responder ou parecer que está escondendo algo basta manter o contato visual e permanecer em silêncio por alguns segundos. isto criará uma tensão que o deixará desconfortável. Ele continuará falando para quebrar a tensão, mesmo que isso signifique fornecer as informações que estava escondendo. 

    Mulheres que sorriem são mais atraentes. Homens que parecem sérios são mais atraentes. 

    Para descobrir se uma pessoa gosta de você, escolha uma palavra e toda vez que ela usar essa palavra ou frases com palavras sinônimas, acene e sorria. Se a pessoa tiver sentimentos por você ela começara a usar a palavra o tempo todo. 

    Quer que as pessoas levem suas palavras a sério? Quando você lhes contar algo, diga que seu pai lhe ensinou isso. As pessoas tendem a acreditar nos conselhos dos pais por natureza. 

    Quer que as pessoas concordem com você? Basta mexer a cabeça concordando e mantenha o contato visual enquanto estiver falando. A ação de assentir faz com que a pessoa comece a acreditar que o que você está dizendo é realmente verdade e, portanto, provavelmente também começará a concordar com você. Além disso, seguindo padrões de comportamento social, as pessoas tendem a concordar com o que outras pessoas já concordam. 

    Quer afastar multidões? Em lugares lotados, olhe bem na sua frente, na direção em que você está indo. Você ficará impressionado vendo a multidão literalmente ceder lugar a você. Esse truque é muito fácil de explicar: em lugares lotados, tendemos a olhar nos olhos de outras pessoas para saber em que direção alguém está indo. Tomamos o caminho oposto para não batermos nela. 

    Se sentir que alguém está olhando para você, apenas boceje. Bocejo é altamente contagioso e a pessoa se entregará. Olhar para o relógio costuma ter o mesmo efeito. 

    Use seu corpo para dar ordens enquanto distrai com sua fala. Você pode fazer alguém carregar algo para você entregando algo para ela enquanto diz algo vago que a distraia. A maioria das pessoas nem percebe que você está entregando alguma coisa e a aceita. 

    Que parecer um bom ouvinte? Repita o que a pessoa acabou de dizer com outras palavras. O exagero desta prática pode resultar em estranhamento. 

    Encontre pontos de afinidade. Agora, vocês dois fazem parte de um “grupo”. É da natureza humana procurar indivíduos com ideias semelhantes e aos os vermos como nós automaticamente confiamos mais neles. Isso cria uma mentalidade nós-contra-eles. 

       Não crie inimigos à toa. Elogie em público e critique em particular. 

      Diferencie seu discurso. Elogie o charme dos feios inteligentes e a sagacidade dos burros e belos. 

    O cheiro mais afrodisíaco que existe é o do seu próprio suor. Este é um assunto  quase tabu principalmente entre mulheres. Lembre-se que a cultura francesa do perfume surgiu na época em que os banhos não eram tão comuns. As melhores notas são aquelas que melhor combinam com seu cheiro natural. 

    Use a predisposição do sim. Consiga vários sins fáceis antes de chegar no que você quer: “Está frio né? Essa chuva veio do nada não é mesmo? Parece que não vai acabar tão cedo, concorda? Quer comprar um guarda-chuva?” 

    Chame às pessoas pelo nome. Não há palavra mais doce em nenhum idioma que o próprio nome. Quanto mais difícil lembrar maior será o impacto. 

    Um inimigo em comum é uma das forma mais rápidas de unir as pessoas. 

    Nunca cumprimente alguém com as mãos frias. Se você sabe que vai apertar a mão de alguém, verifique se ela está quente. Mãos quentes mostram que você está confortável com a situação enquanto o aperto de mão frio desencadeia o efeito oposto. 

    Para deixar alguém feliz deixe a pessoas falar de si mesmas. As regiões cerebrais associadas a motivação e recompensa são ativadas quando compartilhamos informações publicamente. Esse é um conselho clássico e funciona mesmo quando a outra pessoa está ciente desse efeito. 

    Seja generoso. Ao menos que a pessoa seja um psicopata, sentimos uma obrigação orgânica de agradecer as boas ações. É por isso que naturalmente sorrimos de volta quando alguém sorri para nós. Para usar isso ao seu favor tudo o que você precisa fazer é cuidar para que as pessoas sintam sempre que estão em dívida com você. Como Don Corleone não permita que elas retribuam imediatamente. Bons pagadores em especial devem sempre ser mantidos em dívida. 

Morbitvs Vividvs é autor de Lex Satanicus: O Manual do Satanista e outros livros sobre satanismo.

Muito bom, é isso aí!👿

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/cartas-na-manga-do-diabo/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/cartas-na-manga-do-diabo/

O tempo em nossas mãos

» Parte 2 da série “Reflexões sobre o tempo” ver parte 1

“Existe este gigantesco híper-momento onde tudo ocorre, apenas nossa mente está ordenando tudo em passado, presente e futuro.” – Alan Moore.

Agostinho de Hipona talvez tenha sido o primeiro homem a se aprofundar na reflexão filosófica sobre o tempo. O grande pensador do cristianismo abriu caminho para sua análise com um comentário bastante peculiar:

“Que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. [1]”

Então, logo após, colocou em xeque a própria noção da divisão do tempo em passado, presente e futuro:

“Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo claro e brevemente? […] e de que modo existem aqueles dois tempos – o passado e o futuro – se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, como poderíamos afirmar que ele existe, se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir? [2]”

Para tentar resolver tal paradoxo, Agostinho foi se aprofundando cada vez mais no problema do tempo, até que seu caminho puramente lógico lhe levou a uma intrigante conclusão, talvez uma das conclusões mais importantes da história da filosofia – e que até hoje não foi superada por nenhum pensador que lhe precedeu:

“O que agora transparece é que, não há tempos futuros nem pretéritos. É impróprio afirmar: Os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer: os tempos são três: presente das coisas passadas, presente dos presentes, presente dos futuros. Existem pois estes três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras. Se me é lícito empregar tais expressões, vejo então três tempos e confesso que são três. [3]”

Mas a solução de Agostinho não era propriamente uma solução, ela apenas deslocava o problema do tempo para nossa percepção subjetiva do mesmo. Isso significava, é claro, que o tempo não poderia realmente ser medido de forma objetiva, e tampouco era uma medida absoluta. Agostinho havia precedido Einstein em muitos séculos, o ex-boêmio havia se embriagado, desta vez, não de vinho, mas do conhecimento do Cosmos… Ele já sabia que o tempo não poderia ser o mero movimento dos corpos:

“Ninguém me diga, portanto, que o tempo é o movimento dos corpos celestes. Quando, com a oração de Josué, o Sol parou, a fim de ele concluir vitoriosamente o combate, o Sol estava parado, mas o tempo caminhava. [4]”

Podemos ser céticos com relação ao fato do Sol ter realmente parado, mas a essência lógica do pensamento agostiniano estava tão correta na época quanto nos dias atuais…

Atualmente, o tempo é um tema especialmente quente na física. A procura por uma teoria unificada (das quatro grandes forças da natureza) força os físicos a reexaminar diversas suposições básicas, e poucas coisas são mais básicas que o tempo. Alguns físicos argumentam que não existe algo como o tempo. Outros acham que o tempo deveria ser promovido em vez de rebaixado. Entre essas duas posições há a fascinante ideia de que o tempo existe, mas não é fundamental. Um mundo estático dá, de certa forma, origem ao tempo que percebemos. Essas ideias vêm sendo debatidas desde a época dos filósofos pré-socráticos, mas só agora os físicos as estão levando mais a sério como genuínas possibilidades para teorias científicas consistentes… De acordo com uma delas, o tempo pode resultar da maneira como o universo está dividido; ou seja, o que percebemos como tempo reflete a relação entre as partes.

O que normalmente chamamos de tempo é tão somente uma maneira de descrever o ritmo de um movimento ou mudança, tal como a velocidade em que pulsa o coração, ou ainda a velocidade de giro de um planeta. O curioso é que tais processos podem ser relacionados diretamente um ao outro, sem fazer referência ao tempo em si. Por exemplo, tanto podemos afirmar que a luz viaja a 300 mil km/s, que o coração dá 75 batimentos por minuto ou que a Terra faz uma rotação por dia quanto, igualmente, poderíamos dizer que enquanto o coração humano dá 108 mil batidas, a Terra gira em torno de seu eixo uma vez; ou que, por exemplo, a luz viaja a 240 mil km por batimento cardíaco.

Assim, alguns físicos dizem que o tempo é uma moeda comum, tornando o mundo mais fácil de descrever, mas não tendo existência independente. Medir os processos em termos de tempo poderia ser como usar o dinheiro em vez da troca direta de bens e serviços, em nossas relações comerciais. Por exemplo, se uma xícara da café custa US$ 2, um par de tênis custa US$ 100, e um carro usado sai por US$ 2 mil, poderíamos simplesmente esquecer do dólar e concluir de uma forma mais simples, talvez, que um par de tênis vale 50 xícaras de café, enquanto que um carro usado sairia por mil xícaras. Nós usamos moedas para facilitar a vida, pois ninguém vai querer comprar um carro com mil xícaras de café. No entanto, cédulas monetárias nada mais são do que folhas de papel com curiosas gravuras impressas, é a nossa crença em seu valor que as fazem valer isto ou aquilo. Não seria o tempo, portanto, apenas o resultado de nossa crença de que existe um tempo?

O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty argumenta que o próprio tempo não flui realmente e seu fluxo aparente é produto de nossa atitude de “colocar secretamente dentro de um rio uma testemunha de seu curso”. Ou seja, a tendência de acreditar que o tempo flui é resultado de esquecer de colocarmos a nós mesmos – e nossas conexões com o mundo – no quadro geral. Merleau-Ponty estava falando de nossa experiência subjetiva de tempo e, até recentemente, ninguém imaginou que o tempo objetivo pode, ele mesmo, ser explicado como resultado dessas conexões. O tempo pode existir apenas ao quebrar o mundo em subsistemas e olhando para o que os une. Nesse cenário, o tempo físico surge pelo mérito de pensarmos sobre nós mesmos como separados de todo o resto [5].

Se optarmos por nos arriscar a realmente encarar o problema do tempo face a face, precisamos retornar a origem de tudo o que há, ao Big Bang, pois que Einstein também nos provou que tempo e espaço são ambos constituintes, fios tecedores do tecido do espaço-tempo. Não é possível falar de um sem falar do outro, e não é possível falar de ambos sem falar do todo, de todo o Cosmos.

O grande Espinosa, em sua genial análise do primeiro capítulo de sua “Ética”, já havia chegado a conclusão de que “uma substância não pode criar a si mesma”. Como a história cósmica é uma sucessão de transformações e danças de matéria e energia, pela lógica somos obrigados a concluir que tudo o que há é fruto de uma única substância.

Talvez o Cosmos seja como a roda da carroça do velho Lao Tsé, sempre a percorrer os velhos sulcos… Talvez o eixo seja a essência, através da qual a substância se irradia para o aro, que parece-nos girar… Supomos que ele realmente gira, principalmente porque vivemos neste aro, porque estamos todos conectados – somos poeira de estrelas, fagulhas divinas das fornalhas solares, enfim, somos também parte da mesma substância…

Enquanto o aro gira, sustentado pelo eixo, parece-nos que os eventos realmente se sucedem. Mas, e se o aro for o espaço-tempo, sendo constantemente sustentado e mantido pela irradiação que parte do eixo, temos que o tempo, assim como o espaço, nada mais é do que fruto da dança cósmica que a substância de Espinosa têm nos agraciado observar desde o início das eras.

Se for este o caso, não devemos nos angustiar com a profundidade do infinito, tampouco com a ansiedade do futuro ou a saudade dolorida do passado. Se tudo o que há é a substância, tudo o que há é também este momento, o momento em que temos o tempo nas mãos e a vontade, a sagrada vontade, para o esculpir a nosso bel-prazer. Talvez o paradoxo de Agostinho nem precise ser resolvido, não enquanto ainda temos coisas mais urgentes para resolver. Se o passado já não existe, e o futuro não chegou, agarremos ao presente com toda nossa alma, e façamos dele um hino em homenagem à substância, um hino para toda eternidade.

» Na continuação, o final dos tempos…

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[1] Confissões, livro XI (14).
[2] Confissões, livro XI (14).
[3] Confissões, livro XI (20).
[4] Confissões, livro XI (23).
[5] As referências científicas dos 4 últimos parágrafos foram retiradas do excelente artigo “O tempo é uma ilusão?”, do filósofo da ciência Craig Callender, para a Scientific American (edição especial #41, “A longa história do universo”).

#Espinosa #Filosofia #Tao #Tempo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-tempo-em-nossas-m%C3%A3os

Bonecos Vampiros Gigantes

Shirlei Massapust

Muito se discute se BJD de tamanho 1/1 é algo para além de um mero boneco. A Fonte (1917) de Marcel Duchamp é um urinol, todavia se expõe como obra de arte. BJD de tamanho 1/1 é boneco, mas raramente é tratado como tal. Aparece mais como representação artística daquilo que de fato é.[1] Estes sobrebonecos são sofregamente achados em galerias de arte ou leilões onde as vezes se paga até para dar lances perdidos. Seus produtores são bonequeiros conhecidos. A Geração Y viveu para ver Marmite Sue, Bleuacide (Taissia Abdoullina) e Marina Bychkova deixando o comércio de colecionáveis para mergulhar nas brumas do mundo invisível da alta sociedade.

O tamanho máximo para um BJD que o homem médio asiático planeja ter em casa varia de 55 a 75 cm, muito raramente obtendo também algum de 80 ou 90cm. A maioria dos colecionadores não chega a consumir figuras humanas em escala 1/1 por não terem onde guardá-las e porque nem tudo convém levar para casa. É mais cômodo adquirir periódicos, livros de arte e outros materiais impressos, donde vem o costume entre os escultores-bonequeiros de trabalhar em dupla com fotógrafos.

No século XIX já existia isto que nos países de língua inglesa é chamado de “ball jointed doll” (BJD), nos de língua francesa de “sujet de la jointure à boules”, nos de língua alemã de “das kugelgelenk”, etc. Porém eram brinquedos infantis, bonecos ocos articulados com juntas esferoides e esqueleto de elástico. Quem primeiro os julgou impróprios para menores de oito anos e teve a ideia de produzir BJD em escala 1/1, para apreciação do público adulto, foi o alemão Hans Bellmer (1902-1975).[2]

A junta universal – que gira para todos os lados – surgiu na época transitória da substituição do astrolábio geocêntrico pelos globos terrestres. Graças a ela a caneta tinteiro deu lugar à esferográfica e a mobilidade dos bonecos foi ampliada ao ponto da imitação fidedigna dos movimentos humanos. Por este motivo Hans Bellmer imaginou que o manejo do BJD pode estimular o engendramento de novas aplicações da junta universal na elaboração de teorias científicas, criação de máquinas e artesanato.

Isto nos permite identificar precisamente a função da boneca, que é o “estimulador poético”. Não importa se mais ou menos realista ou confusa — flutuando, como costuma fazer, entre os papeis de animado ou inanimado — nós sempre estaremos olhando para uma coisa móvel, passiva e incompleta que pode ser personificada. Em última análise, no quadro geral cujo princípio do objeto articulado parece atender à demanda, nós devemos estar tratando do fator mecânico por trás da mobilidade: A junta universal. [3]

Hans Bellmer definia os jogos de interpretação como uma categoria de poesia experimental. Por isso chamava a projeção do humano em relação ao boneco de “das Du”, na segunda pessoa singular, repudiando termos usados em psicologia (ego e id são Ich ou self e Es em idioma alemão). Ficção não se mistura com realidade; logo, a réplica guarda sua própria natureza enquanto objeto de abstração e espelhamento.

1) Antiga fotografia anônima duma boneca de Hans Bellmer em exibição temporária no Art Institute of Chicago.[4]

 2) Antiga fotografia de La Poupée (1935) de Hans Bellmer.[5]

 

O gênero de bonecos Iki-ningyō (生人形) retrata fielmente a imagem humana e, não raro, critica a realidade em que vivemos. Sua tipologia assimilou o hiper-realismo difundido nos EUA e na Europa desde 1969, porém uma forma primária já existia no Japão desde o século XIX permeando a confecção de bonecos de todos os tamanhos.

O Museu Nacional do Japão possui uma ala inteira destinada à exposição permanente 球体関節人形展・Dolls of Innocence, onde são exibidos vários bonecos com juntas esféricas em escala 1/1 ou maiores. A peça mais antiga é La Poupée (1935), criada por Hans Bellmer; um corpo feminino com dois sexos, quatro pernas e nenhum busto, notoriamente uma mulher em mitose. Essa é a boneca autorreplicante que se desdobra em dois corpos inteiros na introdução de três minutos e vinte e nove segundos que fez do filme Innocence (イノセンス, 2004) o produto da franquia Ghost in the Shell (攻殻機動隊) mais ovacionado pela crítica filosófica.

Depois desta amostragem da arte de Hans Bellmer, as bonecas mais antigas da referida exposição são peças datadas de 1986 produzidas pelo chinês Ryo Yoshida (吉田 良) e pelo japonês Jin Yamamoto (山本仁), os quais trabalharam com temas mórbidos, eróticos e infantis. Outros vieram depois, inclusive a japonesa Koitsukihime (恋月姫) que esculpiu quatro bonecas adquiridas pela curadoria do museu. Uma delas é uma graciosa menina deitada num caixão, produzida em 2003.

1) Criança no caixão, esculpida por Koitsukihime e fotografada por Mario Ambrosius na exposição 球体関節人形展・Dolls of Innocence do Museu Nacional do Japão.[6]

2) Vampiro da série Kamitsukitai (咬みつきたい) esculpido por Katan Amano e fotografado por Ryo Yoshida.[7]

 

Esta última pode ser uma vampira pois Koitsukihime[8] exibiu sua especialidade, em parceria com o fotógrafo Hiroshi Nonami (野波浩), na coleção de cartões postais Misericordia (恋月姫展 ミゼリコルディア; 2008), editada pelo Studio Parabolica. Nela vemos dezoito fotografias de treze bonecas esculpidas entre 1980 e 2006. Isso foi anunciado como matéria de capa do número especial sobre vampiros de revista de artes Yaso 夜想 ヴァンパイア (2007), também impressa pelo Studio Parabolica.

Posteriormente a escultora-bonequeira Mari Shimizu (清水真理) também publicou o livreto Ashes to Ashes, Dust to Dust (2014) contendo cinco fotos duma série de bonecas com temática vampírica, todas esculpidas por ela, junto a um conto bilingue (inglês/nihongo) escrito por Mari Ishigami (石神茉莉). Foi um projeto tão bem sucedido que, no ano seguinte, Mari Shimizu fez mais seis BJDs e uma escultura na série Kyūketsuki gensō (吸血鬼幻想), “Fantasia de Vampiro”, divulgada pelo Twitter.[9]

BJD vampiros em tamanho 1/1:

1) Escultura Harukanaru nemuri 「遥かなる眠り」 (sono distante), esculpida por Koitsukihime e fotografada por Hiroshi Nonami, reproduzida na capa da revista Yaso 夜想 ヴァンパイア (2007).

2) Capa do livreto bilingue Ashes to Ashes, Dust to Dust (2014) com fotografias de esculturas de Mari Shimizu e texto de Mari Ishigami.

 

Jovens vampiras estão na ponta dum iceberg que se avoluma numa profusão de outras coisas impressionantes que os apreciadores de horror e arte obscura podem encontrar no Japão do século XXI. A própria Koitsukihime esculpiu gêmeas siamesas. Entre as bonecas que se destacam há mulheres-violino, mulheres de ventre aberto e outros temas macabros esculpidos pelo bonequeiro Miura Etsuko (三浦悦子).[10] A bonequeira Tari Nakagawa (中川多理)[11] frequentemente esculpe cadáveres putrefatos. Uma cabeça enfaixada aparece na capa do livro Emmurée (アンミュレ, 1993) onde o fotografo Masaaki Toyoura (豊浦正明) expõe a arte de Yuriko Yamayoshi (山吉由利子).

Escultura Inside Vampire, da série Kyūketsuki gensō (吸血鬼幻想; 2005). Arte de Mari Shimizu. Fotos de Yukio Yoshinari.

O escultor-bonequeiro Katan Amano (天野可淡; 1953-1990) produziu alguns croquis aquarelados de arte conceitual e pelo menos quatro bonecos – três vampiros masculinos e uma vítima feminina – destinados à montagem de cenas vampirescas na série Kamitsukitai (咬みつきたい), “Eu Quero Morder”, fotografada por seu parceiro e biógrafo Ryo Yoshida (吉田 良).[12] A inspiração foram os filmes clássicos do cinema ocidental, com Bela Lugosi e Christopher Lee. Os bonecos estão vestidos como o Conde Drácula, com smoking e capa de ópera, e posando à semelhança dos atores. Também dormem no caixão e, num croqui, o vampiro voa como homem-morcego.

Outras esculturas de humanoides com asas de morcego, que nos lembram vampiros, podem ser representações de animais comuns que se tornaram bakemono, como os tsukumogami transformados aos noventa e nove anos. A mulher-morcego com relógio no ventre (腹時計蝙蝠婦人), de Kai Akemi, é metáfora da vida noturna.

1) Mulher-Morcego (腹時計蝙蝠婦人). Arte e foto © 1995, Kai Akemi. 2) Fotografia de Ryo Yoshida duma escultura de Katan Amano (天野可淡, 1953-1990), no livro Katan Doll (1989).

Quando alguém tão celebre quanto Katan Amano sai da vida para entrar para a História tendo deixado cópias fieis do mitologema e da iconografia padronizada pelos filmes ocidentais, ao esculpir vampiros articulados, é porque falta um toque original, regional, no projeto… Seu bebê morcego é muito melhor que seus Dráculas.

Notas:

[1] Exceto casos excepcionais como o da coleção trinity doll da Dollmere, composta de bonecas de 1,05 m de altura, reproduzidas em série e vendidas junto com outros bonecos de tamanho pequeno, da mesma marca.

[2] Hans Bellmer (1902-1975) foi um fotógrafo, escultor, escritor e pintor associado ao movimento surrealista.

[3] BELLMER, Hans. The Doll. Trad. Malcolm Green. London, Atlas Press, 2005, p 60.

[4] BUNYAN, Marcus. Exhibition: ‘shatter rupture break’ at the Art Institute of Chicago: Exhibition dates: 15th February – 3rd May 2015. Publicado em Art Blart, 19/03/2015. URL: <https://artblart.com/2015/03/19/exhibition-shatter-rupture-break-at-the-art-institute-of-chicago/>.

[5] EQUIPE EDITORIAL. Hans Bellmer e suas bonecas perturbadoras: Seu polêmico trabalho destacava temas do subconsciente, sonhos, sexualidade e morte. Em: Arte Ref, 02/05//2022. URL: <https://arteref.com/escultura/hans-bellmer/>.

[6] AMBROSIUS, Mario. 球体関節人形展・Dolls of Innocence. Tokyo, Nippon Television Network Corporation, 2004, p 46.

[7] YOSHIDA, Ryo. Katan’s Vampire. 「吸血鬼人形に込められた思い」 Em: YASO 夜想 ヴァンパイア. Japão, Studio Parabolica, 2007, p 53.

[8] Para obter bonecas em tamanho 1/1 de Koitsukihime o colecionador de arte deve preencher um cadastro em nihongo no portal Chateau de Lune <http://koitsukihime.jp>, verificar a disponibilidade do artesanato na área reservada, pagar o preço combinado e viajar ao Japão para buscar sua escultura em terracota de boneca gigante.

[9] 清水真理 作品集発売中。@shimizumari. Publicado no Twitter em 09/06/2016 5:34 AM. URL: <https://twitter.com/shimizumari/status/740824451298758656>.

[10] MIURI ETSUKO. Site oficial: <http://www.miuraetsuko.com/>.

[11] KOSTNICE: Tari Nakagawa Doll Site. <https://www.kostnice.net/>.

[12] YOSHIDA, Ryo. Katan’s Vampire. 「吸血鬼人形に込められた思い」 Em: YASO 夜想 ヴァンパイア. Japão, Studio Parabolica, 2007, p 47-53.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/bonecos-vampiros-gigantes/