Catolicismo Negro no Brasil: Santos e Minkisi, uma reflexão sobre miscigenação

Marina de Mello e Souza

(Professora do Departamento de História FFLCH/USP)

Os estudos sobre a inserção dos africanos escravizados e seus descendentes nas Américas têm sido um campo fértil para a reflexão acerca dos processos de sincretismo, aculturação, transculturação, encontro de culturas, miscigenação cultural, entre várias outras noções que buscam dar conta de situações nas quais novas culturas surgem a partir do contato entre povos diferentes. Desde Nina Rodrigues, pesquisador pioneiro dessa área, e principalmente a partir de Melville Herskovits, que muito contribuiu para a reflexão teórica acerca dos processos de aculturação, tem sido destacada a importância de se conhecer as sociedades e culturas de onde vieram os africanos traficados para as Américas, para uma melhor compreensão das chamadas culturas afro-americanas.1 Herskovits é peça central no debate sobre a existência de “africanismos” nas sociedades americanas. Seu livro The myth of the negro past é de 1941, mas nos Estados Unidos seus trabalhos só foram valorizados a partir da década de 1960. No Brasil, depois do pioneirismo de Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Edison Carneiro, Roger Bastide e Pierre Verger foram autores que pensaram sobre o negro na sociedade brasileira.2

Nos anos 1970 Sidney Mintz e Richard Price, fundamentados em suas pesquisas de campo no Caribe e no Suriname, escreveram juntos um ensaio que influenciou toda uma geração de estudiosos da cultura afro-americana.3 A idéia de crioulização é o pano de fundo de suas reflexões, nas quais ocupa primeiro plano a preocupação com a chegada do africano no Novo Mundo, com a formação de novas comunidades e novas culturas. Mesmo priorizando os processos de transformação, os autores aceitam que eles se dão a partir de bases pré-existentes e retomam uma idéia esboçada por Herskovits, de que as culturas têm uma gramática própria que serve de elemento organizador das novas construções, sociais e culturais. Nas Américas, estas construções resultaram da interação entre grupos de escravos pertencentes a etnias diversas, unidos pelos mecanismos do tráfico e pela escravização, e grupos de colonizadores europeus, detentores dos instrumentos de poder.

Do final dos anos 1970 para cá, os sistemas sociais e religiosos criados pelas comunidades negras nas Américas têm atraído a atenção dos pesquisadores e são cada vez mais analisados de uma perspectiva que busca fazer conexões entre as culturas de origem dos escravos trazidos para as Américas e as culturas produzidas nas novas situações. A reflexão aqui proposta se enquadra nessa perspectiva de abordagem da religiosidade das comunidades afrodescendentes, tomando como foco não os chamados cultos afro-brasileiros e sim o catolicismo exercido por algumas dessas comunidades.

Um dos muitos resultados da diáspora africana é a presença de reis negros nas Américas, representantes de grupos étnicos específicos, presentes no interior de quilombos e de irmandades católicas. O estudo das situações em que existiram esses reis ilumina a compreensão de como africanos e europeus interagiram no contexto da colonização americana, sob um regime escravista. Em trabalho anterior sugeri algumas interpretações sobre esses reis, voltando atenção especial para a adoção do catolicismo, ou de alguns de seus elementos, por parte tanto de comunidades na África como de afrodescendentes nas Américas.4 Foram os estudos de John Thornton que me abriram os olhos para a importância do catolicismo na África Centro-ocidental nos séculos XVI, XVII e XVIII, e a partir deles pude perceber o lugar nada desprezível do catolicismo na relação que os africanos e afrodescendentes brasileiros mantinham com as terras de seus antepassados.5 Segundo a análise desenvolvida em meu trabalho, seguindo pistas por ele indicadas, no Brasil em algumas ocasiões o catolicismo, por estar presente na região do antigo reino do Congo desde o final do século XV, serviu de ligação com um passado africano que era importante elemento na composição das novas identidades das comunidades afrodescendentes no contexto da diáspora. Ao estudar os festejos em torno da coroação de reis do Congo que aconteciam no Brasil desde o século XVII, entendi que estas eram manifestações percebidas de formas diferentes pelos que as realizavam, membros da comunidade negra, e por aqueles identificados com a sociedade senhorial, de origem lusitana, que viam aquelas festas acontecerem mantendo atitudes ora condescendentes, ora repressoras. Enquanto para uns as festas em torno de reis remetiam a chefias africanas, a ritos de entronização, à prestação de fidelidades, para outros elas se associavam à noção de um império, que se estendia pelos quatro cantos do mundo: Europa, África, América e Ásia, e que tinha a experiência da catequese na região do antigo reino do Congo como um dos momentos emblemáticos do empenho evangelizador de Portugal.6 No meu entender, a penetração dessa festa entre muitas comunidades negras do Brasil, principalmente do final do século XVIII a meados do XIX, deu-se devido a uma combinação de fatores que fizeram com que as comemorações em torno de um rei congo tivessem significados importantes tanto para a comunidade negra como para o grupo senhorial, que detinha o poder de permitir ou reprimir as manifestações dos negros.7

Ao serem arrancados de seus lugares de origem e escravizados, ao deixarem de pertencer a um grupo social no qual construíam suas identidades, ao viverem experiências de grande potencial traumático, tanto físico como psicológico, ao transporem a grande água e terem que se dobrar ao jugo dos senhores americanos, os africanos eram compelidos a se integrarem, de uma forma ou de outra, às terras às quais chegavam. Novas alianças eram feitas, novas identificações eram percebidas, novas identidades eram construídas sobre bases diversas: de aproximação étnica, religiosa, da esfera do trabalho, da moradia. Assim, reagrupamentos étnicos compuseram “nações”, pescadores e carregadores se organizaram em torno das atividades que exerciam, vizinhos consolidaram laços de compadrio e se juntaram cultuadores dos orixás, os que faziam oferendas aos antepassados e recebiam entidades sobrenaturais sob o toque de tambores. Nesse contexto, os reis negros, presentes em quilombos e grupos de trabalho, mas principalmente em irmandades católicas, serviram de importantes catalisadores de algumas comunidades e foram centrais na construção de suas novas identidades.

Enquanto algumas atividades exercidas por comunidades negras eram proibidas e perseguidas pela administração senhorial e demonizadas pelo discurso cristão (mesmo que delas participassem também brancos católicos e às vezes até mesmo padres), outras eram em grande parte aceitas pelos agentes da administração colonial, pois adotavam formas ibéricas e católicas, ou que por estes eram assim percebidas. No primeiro caso estão os calundus, nos quais ritos eram realizados em torno de altares que abrigavam objetos mágico-religiosos, havendo a oferenda de sangue de animais, bebida e comida, ao som de tambores e com a possessão de algumas pessoas por entidades sobrenaturais.8 No segundo caso estão os cortejos e danças que acompanhavam a coroação de um rei negro pelo padre, por ocasião de festas em torno dos santos padroeiros de irmandades nas quais a comunidade negra se agrupava. Enquanto os primeiros eram no geral seriamente perseguidos, assim como os quilombos e as tentativas de rebelião, os segundos eram quase sempre aceitos e muitas vezes estimulados, uma vez que eram vistos como formas de integração do negro na sociedade colonial escravista. Entretanto, a repressão ou permissão de uns ou outros desses ritos variava em função das posições de cada agente colonial, assim como em função da conjuntura do momento.9

Danças que podem ser associadas aos calundus são descritas pelo conde de Povolide em carta de 1780, na qual explica a diferença entre as “danças supersticiosas” e as “danças que ainda que não sejam as mais santas” não eram por ele consideradas “dignas de uma total reprovação”. Essas últimas eram danças que no século XIX e início do XX eram chamadas de batuques e que ainda existem no seio de algumas comunidades negras, muitas vezes conhecidas como jongos. Nos conta o conde de Povolide que nessa ocasião “os pretos se dividiam em nações e com instrumentos próprios de cada uma, dançam e fazem voltas como arlequins, e outros dançam com diversos movimentos do corpo, que ainda que não sejam as mais inocentes são como fandangos de Castela, e fofas de Portugal, e os lundus dos brancos e pardos daquele país”. Quanto às primeiras, que chamou de “supersticiosas”, deveriam ser proibidas. Explicando a diferença entre as duas danças ele escreve:

Os bailes que entendo serem de uma total reprovação são aqueles que os pretos da costa da Mina fazem às escondidas, ou em casas ou roças, com uma preta mestra com altar de ídolos, adorando bodes vivos e outros feitos de barro, untando seus corpos com diversos óleos, sangue de galo, dando a comer bolos de milho depois de diversas bênçãos supersticiosas, fazendo crer aos rústicos que naquelas unções de pão dão fortuna, fazem querer bem mulheres a homens e homens a mulheres.10

Antes do conde de Povolide, Antonil, jesuíta italiano que viveu no Brasil de 1681 até sua morte em 1716, já havia defendido uma posição de tolerância com relação a certas festas das comunidades negras. Escrevendo para os senhores sobre os escravos diz que:

Negar-lhes totalmente os seus folguedos, que são o único alívio do seu cativeiro, é querê-los desconsolados e melancólicos, de pouca vida e saúde. Portanto, não lhes estranhem os senhores o criarem seus reis, cantar e bailar por algumas horas honestamente, em alguns dias do ano, e o alegrarem-se inocentemente à tarde depois de terem feito pela manhã suas festas de Nossa Senhora do Rosário, de São Benedito e do orago da capela do engenho.11

Essas posições de administradores e pensadores ligados ao governo colonial português na América mostram que havia uma tolerância com relação a manifestações de origem africana quando estas se aproximavam ou se combinavam com elementos da comunidade senhorial, de origem lusitana. Mas muitas das motivações que levavam as pessoas a se envolverem em certas festividades, a se unirem em torno de um rei simbólico, de festa, não eram percebidas por aqueles que não partilhavam as mesmas estruturas culturais. Dessa forma, era desprezada a autoridade que o rei tinha sobre o grupo e a união deste não era vista como ameaçadora, principalmente porque se dava no interior de irmandades de culto a determinados santos, aprovadas pela Igreja e vigiadas pelos senhores e pelo pároco local. O mesmo não se dava com os ritos religiosos de origem africana que mantiveram maior grau de autonomia cultural e organizacional e só deixaram de ser abertamente perseguidos no século XX.

Mas mesmo em celebrações católicas as comunidades negras produziam elementos que chocavam e incomodavam o grupo senhorial e principalmente alguns observadores estrangeiros, que não estavam acostumados com as mestiçagens que se iniciaram com os primeiros contatos, ainda na África, e se intensificaram na sociedade colonial americana. Esse é o caso, por exemplo, das imagens religiosas que madame Otille Coudreau encontrou num povoado de negros, à beira do rio Pacoval, no Pará, na região da floresta amazônica brasileira.

Ao registrar o levantamento hidrográfico que fez no interior da Amazônia no início do século XX, a cientista francesa expressou os mais estereotipados preconceitos contra as populações afrodescendentes, imputando-lhes um estado de selvageria e barbárie, acusando-os de mentirosos e preguiçosos, achando-os fisicamente degenerados. Desaprovou como a vila era construída, com as cabanas jogadas aqui e ali à beira do rio, sem alinhamento e delimitações, uns plantando na porta dos outros. Nessa aldeia de cerca de 15 casas cobertas de palha, que não conhecia a propriedade privada da terra, a qual era usada coletivamente pela comunidade, havia uma pequena igreja, de chão de terra batida e paredes de barro, coberta de telha e com uma cruz de madeira à frente.

O que chamou a atenção da francesa foram os santos multicoloridos dispostos ao redor da igreja, ela não diz se em altares ou não, mas sim que alguns eram brancos, outros morenos e muitos negros, “todos de figura abominável”, que lhe evocaram uma reunião de Quasímodos. Segundo ela, estavam vestidos com restos de saiotes velhos, pedaços de tecidos de cores vistosas, e tinham ao redor do pescoço colares de contas de vidro ou de sementes. Na sua opinião, era um sacrilégio que cada uma dessas criaturas tivesse o nome de um santo, São Pedro, São Benedito, Santa Luzia, Santa Rosa, Santa Sebastiana e uma Nossa Senhora negra. Coudreau conta ainda que teve vontade de destruir todos “aqueles horrores tão pouco artísticos”, estátuas que refletiam os costumes daquela gente, “rebaixada ao menor nível na escala social”.12

Contribuindo ainda mais para a alteração de tradições católicas e sensibilidades estéticas européias, os mocambeiros acompanhavam sempre suas rezas e festas religiosas com danças realizadas em uma construção ao lado da igreja – presente em todos os mocambos que a pesquisadora francesa conheceu na região.13 Essa combinação de ritos religiosos e danças ditas profanas é o padrão da maioria das festas religiosas populares brasileiras, formadas a partir da colonização portuguesa do território, onde os colonos encontraram indígenas e para onde trouxeram africanos. Nesse encontro de povos, culturas, religiões, formas de lidar com as coisas deste e do outro mundo, uma variedade enorme de combinações ocorreram. As festas em torno de reis negros, entre as quais estão as realizadas no Pacoval, são fruto dessas combinações, presentes também na confecção de objetos mágico-religiosos, como as imagens de santos que Coudreau achou um sacrilégio serem assim chamadas.

Assim como elegiam reis no seio de irmandades católicas e realizavam calundus e candomblés em recintos afastados do universo senhorial, comunidades negras também confeccionaram objetos, usados em uns e outros ritos, nos quais incorporaram elementos de suas culturas tradicionais. Os santos, comparados a Quasímodos, certamente foram esculpidos a partir de técnicas e escolhas estéticas próprias dos mocambeiros, que Eurípedes Funes nos ensinou serem descendentes de escravos vindos da África Centro-Ocidental, da região próxima do antigo reino do Congo e de Angola.14 As imagens descritas por Coudreau e chamadas de santos pelos mocambeiros eram componentes de um catolicismo negro e podem ser associadas aos minkisi, objetos usados em cerimônias mágico-religiosas de povos dessa mesma região de onde veio a maioria dos antepassados dos habitantes das margens do rio Curuá.

No mocambo do Pacoval, em que Otille Coudreau encontrou as imagens que a fizeram lembrar de uma figura monstruosa de sua própria cultura, Eurípedes Funes, 95 anos depois, assistiu e documentou uma festa realizada em homenagem a São Benedito, na qual danças, chamadas de Cordão do Marambiré, seguiam as cerimônias realizadas no interior da igreja. Seus constituintes formam uma corte em torno do rei do Congo, composta por rainhas auxiliares, valsares e contramestres, que desempenham papéis específicos na condução das coreografias que regem as danças. A autoridade máxima é a do rei do Congo, podendo essa dança ser associada às congadas. Sua roupa se distingue das outras e ele traz uma coroa na cabeça, feita de papelão, fibra natural ou lata, e uma vara, símbolo do seu poder. As rainhas e valsares têm capacetes feitos dos mesmos materiais e enfeitados com flores de papel colorido. Penas de arara também enfeitam a coroa do rei e os capacetes dos valsares. Uma fotografia tirada por Eurípedes Funes nos mostra uma imagem de São Benedito paramentada com um capacete semelhante ao dos valsares, encimado por penas.

Enfeites de penas em adereços de cabeça também são apontados por observadores das congadas feitas no século XIX em vários lugares do Brasil, principalmente em Minas Gerais. Veja-se, por exemplo, parte da descrição feita por Francis de Castelnau de uma congada que assistiu em Minas Gerais, em 1843:

A corte, em cujo traje se misturam todas as cores e os enfeites mais extravagantes, senta-se de cada lado do casal de reis; vem depois uma infinidade de outros personagens, os mais consideráveis dos quais eram sem dúvida grandes capitães, guerreiros famosos ou embaixadores de potências longínquas, todos paramentados à moda dos selvagens do Brasil, com grandes topetes de penas, sabres de cavalaria ao lado, e escudo no braço.15

Imagem de madeira de São Benedito fotografada por Eurípedes Antônio Funes, em “Nasci nas matas, nunca tive Senhor. História e memória dos mocambos do Baixo Amazonas”, tese de doutoramento apresentada ao departamento de História – FFLCH/USP, 1995, vol 1, Fig 9.

Mesmo que o cônsul francês tivesse percebido corretamente e “os selvagens do Brasil” tenham dado sua contribuição à festa negra, é muito mais plausível acreditar que a presença de penas na cabeça fosse contribuição dos africanos, considerando-se as informações a seguir.

Uma fotografia tirada em Angola ou no Congo belga antes de 1922 nos mostra um nganga, ou sacerdote, com uma imponente coroa de penas. Minkisi, objetos mágico-religiosos utilizados em amplas áreas da África Central, onde recebem nomes diversos dependendo da região, também freqüentemente traziam penas na cabeça. Como nos ensina Zdenka Volavkova, a confecção de um nkisi passava por dois momentos: aquele em que a madeira era esculpida, feita por um artesão, e um outro, no qual o nganga, especialista religioso, tornava a escultura portadora de forças sobrenaturais, nela inserindo, conforme ritos específicos, uma série de substâncias do mundo vegetal, animal e mineral, por meio das quais as forças sobrenaturais agiam.16 Era nesse momento, no qual a um objeto eram atribuídos poderes mágico-religiosos, que as penas eram colocadas nas cabeças das esculturas. Théophile Obenga diz que as penas ornamentando o penteado de algumas figuras com funções religiosas significavam que o objeto havia sido consagrado por um nganga.17 Segundo John Janzen, o uso de penas no alto da cabeça ou saindo fora de uma cabaça ou vasilha (muitos minkisi não eram figuras esculpidas mas recipientes que continham as substâncias que lhes davam os poderes sobrenaturais) é o indicador mais comum de uma aproximação com o mundo dos espíritos. Ainda segundo ele, muitos médiuns usam adereços de penas na cabeça para representar sua ligação com os espíritos.18 Também Wyatt MacGaffey informa que algumas vezes os minkisi eram equipados com penas que formavam um adereço de cabeça semelhante ao que o nganga podia usar, pois forças espirituais eram associadas a pássaros.19 Dessa forma, é evidente o lugar de destaque que as penas têm na confecção de objetos que ajudam a comunicação deste com o outro mundo no âmbito do universo cultural de povos bantos da África CentroOcidental, que engloba também o atual Camarões, já no limite com a região habitada por povos iorubás. Daí uma requintada veste usada em ritos religiosos divinatórios, composta de tecido azul anil arrematado com fios de fibra e enfeitada com conchas e búzios, à qual acompanha uma máscara de crocodilo encimada por uma tiara de penas.20

no130 (1988), p. 3.

Nganga, Angola ou Congo Belga, antes de 1922, em Wyatt Mac Gaffey “The eyes of understanding, Kongo minkisi”, Astonishment and Power (Washington, National Museum of African Art, The Smithsonian Intitution Press, 1993), p. 56.

Uma figura usada em ritos divinatórios entre os senufos, da atual Costa do Marfim, “coroada com uma carreira de penas”, indica que não só na área cultural banto as penas compõem objetos mágico-religiosos. As penas são, em muitas regiões da África, presença constante em ritos que permitem que o mundo dos homens e o dos espíritos se comuniquem. Nessa relação os chefes têm lugar importante, sendo a idéia de realeza sagrada disseminada por toda África sub-saariana. No golfo do Benim, em áreas nas quais predominavam grupos iorubás, como os chamamos agora, pássaros são insígnias de poder bastante freqüentes, estando presentes em telhados de moradias de chefes, em bastões de mando, em adereços de cabeça usados pelos chefes.21

Se lembrarmos ainda a presença constante de penas em cocares e outros adereços ameríndios, também associados a posições de poder temporal e religioso, e ainda a presença de plumas em chapéus de nobres e reis europeus (objetos altamente apreciados pelos chefes africanos e com lugar quase obrigatório nas negociações comerciais entre estes e os europeus), podemos pensar que estas penas, por estarem presentes em lugares equivalentes em diferentes culturas, tendem a manter um espaço na nova cultura que se forma a partir dos contatos encetados.22 Mas como a análise aqui proposta busca apenas fazer conexões entre a comunidade do Pacoval com os povos aos quais pertenceram seus antepassados, fixo meus olhos no mundo banto centro-ocidental, de onde veio, segundo Eurípedes Funes, a maioria dos africanos escravizados que ali se aquilombaram.

Nkisi Mbumba Maza, coletado em Cabinda antes de 1933, acervo do Museu do Homem de Paris. A escultura de madeira contém ingredientes ocultos na barriga e na cabeça, e outros ingredientes nela pendurados, como cabaça, pele de cobra, tiras de tecido, conchas, sementes, garras, chifre, fibra trançada. Cada um desses ingredientes tem uma função mágica que atribui ao nkisi sua força sobrenatural. Em Astonishment and Power, p. 70.

Nksi Nduda, coletado na área bacongo antes de 1893, acervo do Staatliches Museum für Völkerkunde, Munique, Alemanha. A escultura de madeira está coberta por tiras de peles de diversos animais, traz no pescoço uma fieira de pequenas bolsas de pano contendo ingredientes específicos e um adereço de penas atado à cabeça por uma tira de tecido. In Astonishment and Power, p. 72.

Pieu, amuleto da região dos Yakas, em Angola. In Sculpture Angolaise. Mémorial de cultures, Lisboa, Museu Nacional de Etnologia, Electa, 1994, p. 104.

Depois desse passeio por algumas regiões da África percebemos nos panos, cordões, contas e penas adicionadas às imagens encontradas no Pacoval por Otille Coudreau no início do século XX, e por Eurípedes Funes no fim do mesmo século, a expressão do encontro entre o catolicismo e as religiões bantos tradicionais. Se em 1901 as imagens da igreja do Pacoval foram comparadas a Quasímodos pela cientista francesa, o que a fotografia tirada no final do século XX nos mostra é um santo entalhado em madeira por mãos de artistas populares, como uma infini-ade de outros o foram, tendo como traço diferenciador o tufo de penas que enfeita seu capacete, semelhante ao dos valsares. Certamente ao longo dos anos novecentos a comunidade do Pacoval assumiu mais e mais feições brasileiras, distanciando-se de um passado africano que fora mais preservado enquanto o grupo evitou contatos muito intensos com a sociedade circundante, para a qual eram descendentes de escravos fugidos. Hoje em dia o que se destaca na religiosidade afro-católica dos moradores do Pacoval são as danças que acompanham as celebrações dos santos, e que não se restringem às comunidades negras, pois são característica marcante do catolicismo colonial conforme vivido na América portuguesa. Mas específicos das danças realizadas pelas comunidades afrodescendentes são os elementos africanos nelas presentes, como os ritmos, os passos, as letras das músicas, permeadas de palavras de origem africana, e símbolos que mesmo transformados remetem às suas raízes, como as penas na cabeça indicando uma ligação com o mundo do além.

O tema da dominação não pode deixar de estar presente quando falamos de sociedades afrodescendentes nas Américas, e certamente as atitudes dos representantes da sociedade senhorial, entre eles os agentes da Igreja, tiveram um papel fundamental nos processos de constituição de novas identidades e novas formas culturais a partir da diáspora africana. Mas foram os ajustes e opções empreendidos pelos africanos recém-chegados e pelos seus descendentes que definiram as feições das novas culturas que se criaram nas Américas. Nesse processo os santos, imagens do culto católico, absorveram sentidos e papéis das imagens e objetos usados nas religiões bantos tradicionais, o que já havia ocorrido na própria África, a partir da ação de missionários católicos romanos e da conversão ao catolicismo da elite dirigente do antigo reino do Congo, no final do século XV. Com a ocupação portuguesa de algumas áreas do território que ficou conhecido como Angola, missionários continuaram a agir naquelas regiões, sendo alguns dos elementos por eles introduzidos, com destaque para objetos usados em cultos religiosos, incorporados pelas populações nativas, que a eles acoplaram significados pertinentes às suas próprias tradições.

Kafigeledjo, oráculo usado em ritos divinatórios da etnia senufo, Costa do Marfim, final do século XIX, início do XX, acervo do Metropolitan Museum of Art, New York. A escultura de madeira é coberta por um tecido, alguns ingredientes pendem amarrados na altura do pescoço, um gancho de ferro e um osso de pássaro pendurados em parte do pano fazem as vezes de braços e mãos e a cabeça está coroada por penas e espinhos de porco-espinho. In Alisa LaGamma, Art and Oracle. African Art and Rituals of Divination, New York, Metropolitan Museum of Art, 2000, p. 27.

Se em territórios africanos, nos quais era pequeno o espaço ocupado pelos portugueses e seus agentes (entre eles os missionários), o catolicismo deixou discretos vestígios no período pré-colonial, na América portuguesa os africanos muitas vezes a ele se renderam, não sem recheá-lo de contribuições de suas religiões tradicionais. Na América eles eram obrigados pela violência, pela condição de escravos e de estrangeiros, a se sujeitarem às normas dos que mandavam – a administração colonial portuguesa, para a qual a religião católica era importante meio de dominação. Várias foram as formas pelas quais o catolicismo foi adotado por comunidades afrodescendentes, mas essa área de estudos recebeu, no geral, menos atenção do que os cultos religiosos derivados de tradições africanas. Nina Rodrigues e Arthur Ramos tratam com mais vagar das religiões afro-brasileiras e do conjunto cultural iorubano; Roger Bastide, quando aborda o catolicismo negro, é de maneira superficial, ignorando as motivações das comunidades negras e tomando o catolicismo apenas como uma imposição do universo senhorial, incorporada geralmente para servir de disfarce a ritos de origem africana. Também Pierre Verger, por focar apenas a Bahia e a África Ocidental, na qual a penetração das religiões cristãs só se deu após o término do tráfico de escravos, não aborda o cristianismo negro e suas relações com o catolicismo africano dos bantos da África Centro-Ocidental. Só Robert Slenes, mais recentemente, tem se aprofundado no estudo dos povos desta região e chamado a atenção para o fato de que muitos escravos que de lá vieram já tinham incorporado elementos de um catolicismo africano, termo cunhado por John Thornton.23 Eu mesma, seguindo as trilhas abertas principalmente por esses dois autores, venho pensando acerca de alguns aspectos do catolicismo africano e do catolicismo afro-brasileiro.24

É essa preocupação que me faz prestar atenção no espanto e repulsa de Otille Coudreau diante das imagens que viu na igreja do mocambo à beira do rio Curuá, associadas a Quasímodos, aberrações que feriam sua sensibilidade estética educada na Europa, com a qual se orientava no mundo. Bem antes de ela viver essa experiência na Amazônia brasileira, outros europeus tinham tido reações muito parecidas diante dos minkisi, que chamavam de “fetiches”, ou de “imagens demoníacas”, como a essas figuras se referiu Olfer Dapper (cujo livro foi publicado em 1676), “rudemente esculpidas em madeira e cobertas de trapos sujos”, como disse J. K. Tuckey em 1816, e com aparência feroz, no entender de H. M. Stanley, em 1895. O tenente Tuckey comparou essas imagens com espantalhos, e missionários católicos e batistas do final do século XIX chamaram-nas de indecentes e francamente obscenas.25

Um século depois de Coudreau, no Brasil, e de alguns missionários que viveram na África Centro-Ocidental terem tomado conhecimento dessas imagens, podemos tentar nos despir do etnocentrismo existente em todas as culturas e tempos e buscar entender as motivações prováveis por trás das opções feitas pelos grupos e pelas pessoas. Nesse sentido, os estudos sobre os minkisi centro-africanos lançam novas luzes sobre os santos envoltos em panos gastos, com colares de contas e sementes e adereços de penas na cabeça. À maneira das penas colocadas na cabeça dos baganga (plural de nganga) e dos minkisi, o adereço de cabeça do São Benedito fotografado no mocambo do Pacoval reforça a conexão entre este mundo e o outro, a relação dos homens com o além, permitida pelo objeto mágico-religioso, seja ele um santo católico, um nkisi, ou um produto mestiço do encontro entre as diferentes culturas. Na virada do século XIX para o XX, as imagens dos santos católicos cultuados por comunidades afrodescendentes que viviam num grau significativo de isolamento, mantendo tradições e maneiras de pensar e sentir próximas das de suas culturas de origem, deviam guardar mais proximidade dos minkisi do que hoje em dia.

Considerando que desde o século XVI missionários católicos viviam entre povos da região do antigo reino do Congo e de Angola, onde se desenvolveram formas africanas de catolicismo e houve a incorporação de objetos do culto cristão às religiões tradicionais, percebemos que as mestiçagens culturais nas quais o catolicismo é o elemento dominante podiam estar em curso antes da escravização e da travessia do Atlântico. Com isso em mente, não é difícil aceitar que os panos e colares que envolviam os santos dispostos ao redor da igreja do mocambo visitado por Coudreau estavam mais próximos dos elementos equivalentes que compunham os minkisi, atribuindo-lhes certos poderes, do que das vestes e jóias que envolviam os santos que habitavam os altares dos senhores, que por sua vez também se inseriam no pensamento mágico que permeava a vida cotidiana da Europa pré-iluminista. Santos e minkisi eram objetos de ligação com o mundo do além, de onde vinha a solução para os problemas deste mundo.

Enquanto na cultura popular ibérica, na qual o catolicismo se misturou a tradições pagãs, os santos eram invocados para afastar epidemias de peste e pragas das plantações, trazer chuva e curar as pessoas, os minkisi, divididos em várias categorias e com especializações próprias, eram chamados a identificar malfeitores, curar ou provocar doenças, garantir a fertilidade da terra e das mulheres. Constituídos por esculturas, vasilhames ou amarrações, recebiam em ritos conduzidos pelos baganga ingredientes que os tornavam portadores de poderes próprios dos espíritos da natureza ou dos antepassados. A eles os santos católicos levados para a África pelos missionários foram associados. Na América, ao reconstituir suas formas de organização e relação com as coisas do mundo terreno e sobrenatural, os africanos e seus descendentes recorreram aos santos católicos para neles imprimir elementos de suas crenças tradicionais, utilizando-se dos espaços permitidos pela sociedade escravista, tal como fizeram com os festejos em torno de um rei negro.

Ao terem que construir novas instituições, os grupos heterogêneos de africanos escravizados recorreram não apenas aos saberes trazidos por determinados indivíduos, mas também ao que havia de comum aos sistemas cognitivos das pessoas pertencentes a grupos étnicos diversos. Nessa dinâmica entre uma “gramática da cultura” que serviu de base às novas formações e à ação de pessoas particulares, portadoras de conhecimentos adquiridos em suas terras natais, as penas muitas vezes foram mantidas como veículos de ligação entre este mundo e o além. Por outro lado, ao terem que se inserir numa sociedade dominada pelo colonizador cristão, que impunha sua religião, traduziram-na para seus próprios termos, atribuindo aos santos significados inacessíveis àqueles que não partilhavam seus códigos culturais. Dessa forma, os elementos da cultura dominante de origem européia, ao serem incorporados pelas comunidades afrodescendentes, receberam sentidos por elas criados. O caso aqui analisado é exemplo de como o estranhamento pode ser uma boa pista para se alcançar significados não evidentes, como nos ensinou Carlo Ginzburg.

Notas:

1 Nina Rodrigues, Os africanos no Brasil, 3a ed., São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1945; Melville Herskovits, The myth of the negro past, Boston, Beacon Press, 1990.

2   Roger Bastide, Les réligions africaines au Brésil, Paris, Presses Universitaires de France, 1960; e As Américas negras, as civilizações africanas no Novo Mundo, São Paulo, Difel, Editora da Universidade de São Paulo, 1974; Artur Ramos, Introdução à Antropologia Brasileira, Rio de Janeiro, Edição da Casa do Estudante do Brasil, 1943, e As culturas negras no Novo Mundo, 4a ed., São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1979; Edison Carneiro, Antologia do negro brasileiro, Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1962; Pierre Verger, Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo de Benin e a Bahia de Todos os Santos, São Paulo, Corrupio, 1987.

3 Sidney Mintz e Richard Price, The birth of African-American culture, an anthropological perspective, Boston, Beacon Press, 1992.

 

4   Marina de Mello e Souza, Reis negros no Brasil escravista, história da festa de coroação de rei congo, Belo Horizonte, Editora UFMG, 2002.

5 John Thornton é um pesquisador que tem dado contribuição decisiva para o estudo do catolicismo na África Centro-Ocidental. Suas posições, freqüentemente iluminadoras, podem ser conhecidas em diversos artigos e livros sobre o tema como “The development of an African Catholic Church in the Kingdom of Kongo, 1491-1750”, Journal of African History, no 25 (1984), pp. 147-167; “Early Kongo-Portuguese relations: a new interpretation”, in David Henige (org.), History in Africa, a journal of method, nº 8 (1981), pp. 183-204; e Africa and Africans in the Making of the Atlantic World, 1400-1680, Cambridge, Cambridge University Press, 1992.

6 Silvia Lara, em “Significados cruzados: as embaixadas de congos na Bahia setecentista”, in Maria Clementina P. Cunha (org.), Carnavais e outras f(r)estas, (Campinas, Cecult/Editora Unicamp, 2001), pp. 71-100, faz uma análise nessa direção, servindo de guia em alguns aspectos da minha interpretação das festas de reis congos em geral.

7 No livro mencionado eu utilizo a noção de “rei congo” como de um elemento aglutinador de diferentes grupos africanos e afrodescendentes no âmbito do processo de constituição de novas identidades. Manifestação que ganha vigor entre os grupos bantos, os festejos de reis do Congo traziam para os africanos a memória da terra natal, mitificada, e para os colonizadores a lembrança de um império que dominou os mares, o comércio, e que se empenhou em disseminar a palavra de Cristo.

8   Ver entre outros textos, de João José Reis, “Magia jeje na Bahia: a invasão do Calundu do Pasto de Cachoeira, 1785”, Revista Brasileira de História, v. 8, no16 (1988), pp. 57-81, e “Nas malhas do poder escravista: a invasão do candomblé do Accu”, in João José Reis e Eduardo Silva, Negociação e conflito, a resistência negra no Brasil escravista, São Paulo, Companhia das Letras, 1989, pp 32-61; de Luis Mott, “Acotundá: raízes setecentistas do sincretismo afro-brasileiro”, in Escravidão, homossexualidade e demonologia, São Paulo, Ícone Editora, 1988, pp. 87-114; “O calundu-angola de Luzia Pinta: Sabará, 1739”, Revista IAC, no1 (1994), pp.73-82; de Laura de Mello e Souza, “Revisitando o calundu”, in Lina Gorenstein e Maria Luiza Tucci Carneiro (orgs.), Ensaios sobre a intolerância, inquisição, marranismo e anti-semitismo (homenagem a Anita Novinski) (São Paulo, Humanitas, Fapesp, 2002), pp. 293-317.

9 João José Reis é autor que tem pensado sobre o tema da tensão existente entre a permissão e a repressão de práticas das comunidades negras no Brasil em momentos diferentes e sob o mando de administradores com posições diversas, como por exemplo em “Nas malhas do poder escravista”.

10 A carta do conde de Povolide, José da Cunha Grã Ataíde e Mello (1734-1792), está transcrita em nota do artigo de Robert C. Smith, “Décadas do Rosário dos Pretos. Documentos da irmandade”, Arquivos, no 1-2 (1945-1951), sendo que o autor o confunde com Martinho de Mello e Castro (1716-1795), estadista português que sucedeu a Pombal e nunca foi governador de Pernambuco. Atualizei a grafia e pontuação da carta.

11 João Antonio Andreoni (André João Antonil), Cultura e opulência do Brasil, 2a ed., São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1966, p. 164.

12 Otille Coudreau, Voyage au Rio Curua, 20 nov. 1900 7 mars 1901, Paris, A. Lahure ImprimeurEditeur, 1903, p. 19.

13 Aqui mocambo é uma aldeia de negros, geralmente remanescente de quilombos, que também eram conhecidos como mocambos. Para o caso específico do mocambo do Pacoval ver o estudo de Eurípedes Antonio Funes, “‘Nasci nas matas nunca tive senhor’. História dos mocambos do baixo Amazonas” (Tese de Doutorado, Universidade de São Paulo, 1995); e artigo com o mesmo título in João José Reis e Flávio dos Santos Gomes (orgs.), Liberdade por um fio, história dos quilombos no Brasil (São Paulo, Companhia das Letras, 1966), pp. 467-497.

14 Conforme Funes, “‘Nasci nas matas nunca tive senhor’”, p. 34.

15 Francis de Castelnau, Expedição às regiões centrais da América do Sul, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1949, p. 172.

16 Ver Zdenka Volavkova, “Nkisi figures of the Lower Congo”, African Arts, no 5 (2) (1972), p. 56. Para uma explicação sobre os minkisi, ver Wyatt MacGaffey, “The eyes of understanding Kongo minkisi”, in Astonishment and Power (Washington, National Museum of African Art, The Smithsonian Institution Press, 1993), p. 56, e An Anthology of Kongo Religion: primary texts from lower Zaire, Lawrence, University of Kansas, 1974.

17 Théophile Obenga, “Sculpture et société dans l’ancien Congo”, Dossiers Histoire et Arqueologie

18 John M. Janzen, “14 Figure (nkisi)”, in Expressions of Belief, New York, Rizzoli, 1988.

19 Wyatt MacGaffey, “Complexity, astonishment and power: the visual vocabulary of Kongo minkisi”, Journal of Southern African Studies, vol. 14, no 2 (1988), p.193.

20 A roupa está num museu em Dresden e pode ser vista no livro de Alisa LaGamma, Art and Oracle. African Art and Rituals of Divination, New York, Metropolitan Museum of Art, 2000, p. 57.

21 Ver Suzanne Preston Blier, Royal Arts of Africa. The majesty of form, London, Laurence King Publishing, Calman & King, 1998.

 

22 Um dos muitos pontos para os quais o parecerista anônimo da Afro-Ásia abriu meus olhos foi este, relativo à abrangência da presença de penas e pássaros em insígnias de poder.

23 Principalmente em Africa and Africans in the making of the Atlantic World.

24 Em Reis negros no Brasil escravista. História da festa de coroação de rei congo; “Santo Antonio de nó-de-pinho e o catolicismo afro-brasileiro”, Tempo, vol. 6, no 11, (2001) pp. 171188; e “História, mito e identidade nas festas de reis negros no Brasil séculos XVIII e XIX”, in István Jancsó e Iris Kantor (orgs.) Festa. Cultura a sociabilidade na América portuguesa (São Paulo, Hucitec / Edusp, 2001), pp. 249-260.

25 Conforme Volavkova, “Nkisi figures of the Lower Congo”, p. 52.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/catolicismo-negro-no-brasil-santos-e-minkisi-uma-reflexao-sobre-miscigenacao-cultural/

Filosofem, Burzum

Até hoje fica difícil entender a filosofia do norueguês Varg Vikernes. Não faltam satanistas que o odeiem ou o idolatrem. Por trás de sua música e de seu comportamento, ninguém ainda foi capaz de decifrar a mente as vezes genial as vezes medíocre deste cara. Para alguns ele é um gênio, para outros um doente mental.  Qualquer que seja sua opinião caso admitirmos que Vargs é um satanista temos que admitir que é um satanista bem dificil de classificar.

Ele nunca dispensou críticas ferozes até para bichos papãos como LaVey e Crowley. Sua visão de mundo enxerga uma decadência tão completa na sociedade moderna que não vê outra escolha senão destruir tudo e recomeçar do zero. Segundo ele não é possível um satanista viver na atual organização de mundo assim como um leão não conseguiria viver em uma aquário.

Sua palavra de ordem é a completa inversão de valores e o desmantelamento de todo o sistema atual dominado pelos pilares da religião, do estado e do capitalismo, cada um a seu modo promovendo a “moralidade-escrava” que ele publicamente odeia. Vikernes pode ser chamado de tudo, menos de hipócrita, em 1993, foi condenado pelo assassinato a machadadas de Euronymous.  Por suas idéias Vargs hoje enfrenta o cárcere.

Que fique bem entendido, Vargs está se lixando para “seus seguidores” e não está interessado em esclarecer ninguém, por isso muito de seus depoimentos são contraditórios e incompletos. As vezes ele rasga elogios a opressão da igreja, as vezes se diz um convicto pagão. Segundo ele isso gera o confusão e tudo o que causa confusão colabora para o caos geral rumo a  destruição que almeja.

A verdade é que a luta de Vikernes tem a ver com o cristianismo grotesco que nos foi empurrado goela abaixo, contra a vontade de tudo e de todos. Para o povo escandinavo que ainda tem nas veias a sangria pagã aberta por séculos e séculos de crenças imaculadas, é de se compreender o sarcasmo inteligente de Vikernes nesta letra, em que trata Cristo como o verdadeiro mal:

Burzum ( Jesu Dod )

En skikkelse lå der på bakken
så vond at de blomster rundt visnet
en dyster sjel lå der på bakken
så kald at alt vann ble til is
En skygge da falt over skogen

da skikkelsens sjel visnet bort
for skikkelsens sjel var en skygge
en skygge av vondskapens makt

Tradução de Jesus Töd
(A Morte de Jesus)

Uma figura deitada no chão
Tão maliciosa, que as flores ao seu redor murcharam
Uma alma sombria deitada no chão
Tão fria, que a água tornou-se gelo
Uma sombra caiu nas floresta
Enquanto a alma da figura murchava
Porque a alma da figura era a sombra
Uma sombra das forças do mal

 

Nº 86 – Os 100 álbuns satânicos mais importantes da história

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/musica-e-ocultismo/filosofem-burzum/

Movimentos Messiânicos: Os Messias Judeus

O trabalho de Messias não é nada fácil. Nunca foi. Claro que se formos totalmente honestos sobre o assunto, o currículo requerido de alguém que deseja assumir para si este papel não é lá muito exigente, de acordo com a tradição ele deve cumprir cinco requisitos:

1- Ele deve descender do Rei Davi;
2- Deve se tornar soberano sobre o povo de Israel;
3- Deve conseguir reunir os judeus dos quatro cantos do mundo;
4- Uma vez reunidos, deve restaurar sobre eles a total observância da lei da Torah;

e por último, mas não menos importante:

5-Deve trazer a paz para o mundo!

E com isto em mente surge a questão: por que diabos alguém desejaria se tornar um Messias? Se olharmos o exemplo mais famoso isso significava, de forma resumida, fazer afirmações que deixariam o seu povo puto e desconfiado, então sair vagando e conversando com desconhecidos, e nem todos seriam gentis. Eventualmente teria convencido muita gente que você falava sério, e teria deixado muita gente importante puta com você, isso significa que se fosse muito longe se tornaria uma pedra no sapato de gente poderosa, e se isso acontecesse esses poderosos iriam atrás de você e não apenas para te jogar na cadeia ou te matar. Eles te usariam de exemplo, te desmembrariam ou crucificariam depois de um circo público e então iriam atrás de sua família, filhos e herdeiros. Algo nada agradável como você pode supor.

Então porque alguém desejaria se tornar um Messias?

Antes de mais nada um pouco de história. A palavra Messias tem origem judaica, Messias ou מָשִׁיַח ‎[mâshıyach] deriva de משׁח [mâshach], מָשַׁח [maw-shakh] uma raiz linguística primitiva que significa: esfregar com óleo, ungir, pintar. מָשִׁיַח, Mashíach por extenção significa o ungido, aquele é esfregado com óleos. Para compreender o que realmente isso significa devemos procurar no livro do Êxodo as conversas que “EU SOU O DEUS DE ABRAHÃO” tinha com Moisés. Quando Moisés libertou o povo Judeu da escravidão do Egito, além de finalmente dar sossego para o Faraó e o povo dele, que haviam caído vítimas das brincadeiras do Divino que “endurecia o coração de Faraó” apenas para continuar com o desfile de pragas e finalizando com a morte por afogamento de grande parte do exército dele com o objetivo de se exibir para Seu povo [1], também recebeu de Deus as novas leis e regras que deveriam ser observadas e seguidas. No capítulo 30 do livro Êxodo, nos versículos 23 a 25, encontramos uma receita, passada por Deus diretamente a seu servo de como fazer um “um óleo sagrado para unções, um perfume composto segundo a arte do perfumista; este será o óleo sagrado para unções.” (Ex. 30:25). Este óleo tinha uma função muito especial, era o óleo utilizado para se ungir aquilo que era sagrado, as coisas apontadas por Deus. Este óleo então era utilizado pelos sacerdotes, também apontados por Deus, para consagrar algo, ou seja dedicar, tornar sagrado. Como isto é interessante, vamos repetir: algo que era ungido era algo que havia sido escolhido e apontado pelo próprio Deus. A seriedade disso era tanta que O Próprio afirma que “O homem que compuser um perfume como este, ou que com ele ungir a um estranho, será extirpado do seu povo.” (Ex. 30:30), e por extirpado do seu povo podemos ler: “se tornará seu inimigo” – você iria descobrir o que a expressão “estar no sal” significa.

Ser o Ungido, como vimos, simplesmente queria dizer que a pessoa, no caso um líder Judeu, havia recebido a atenção especial de Deus. Aarão foi ungido (Ex. 29:4-8), Salomão (1 Cr 29:22), etc. Mas ao contrário do que pode parecer o ritual da unção não foi criado pelos judeus, esse costume já era muito antigo no Oriente Médio. Na Babilônia e na Assíria, óleo de gergelim era derramado sobre a cabeça de noivas, de pessoas que realizavam certas negociações comerciais e de escravos que haviam sido liberdados. Havia os pašîšû, que eram sacerdotes ungidos, e mesmo a arca no épico Gilgamesh é ungida antes do dilúvio chegar. Mas aparentemente o costume de ungir reis era títipo dos judeus. Um detalhe interessante, que vale a pena ser notado, é que nunca houve uma distinção clara entre sacerdotes, reis e profetas; lembre-se que na antiguidade não havia pessoas votando no próximo rei, muito pelo contrário: a realeza era ligada à religião. Por isso não é surpresa lermos sobre o rei Davi agindo como sacerdote em 2Samuel 6:12-19 ou prevendo o futuro em 2Samuel 23:1-7. Da mesma forma os sumo-sacerdotes podiam se comportar como reis, o exemplo mais famoso é Melquisedeque, que preparou a ceia para Abrahão e lhe serviu pão e vinho em Gênesis 14:18, e a partir de 152 a.C. quando os sumo-sacerdotes eram a mais alta autoridade, combinando autoridade real e sacerdotal.

Mas isso não responde nossa pergunta do porquê alguém gostaria de vestir essa carapuça e para respondê-la nós temos que olhar para dois fatos reais e inegáveis:

1- Embora grande parte dos textos sagrados comentem sobre reis e profetas que foram Ungidos (receberam a atenção do Divino), haviam passagens que falavam de um governante diferente, idealizado, com uma missão maior do que todos os outros goverantes. Por exemplo o Salmo 2:2-9:

“Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o Senhor e contra seu Ungido, dizendo: Rompamos os seus laços e sacudamos de nós suas algemas. Ri-se aquele que habita os céus; o Senhor zomba deles. Na sua ira, a seu tempo, lhes há de falar e no seu furor os confundirá. Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião. Proclamei o decreto do Senhor: Ele me disse ‘Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão. Com vara de ferro as regerás e as despedaçarás como um vaso de oleiro’”

Outras passagens também se referem a um ungido idealizado que destruiria os inimigos de Israel em nome da justiça e em várias passagens, como no Salmo 2, ele é chamado de “filho de Deus”, apesar de textos deste tipo não serem raros naquela região (os faraós egípcios afirmavam descender do Deus Ra e se gabavam de ser capazes de destruir qualquer inimigo com a ajuda dos deuses; os persas possuem a história de como Darius I foi escolhido pelo deus Ahuramazda para destronar o usurpador Gaumâta em 522 a.C).

2- O mundo chegava cada vez mais perto de seu fim. Deus havia criado tudo, e tudo terminaria. A contagem começara com Adão e Eva, e a idéia é que acabaria 6000 anos depois disso. E no século VI a.C. quando o mundo tinha já aproximadamente 4.400 anos, começam as especulações de que o governante especial, aquele que seria conhecido como filho de Deus deveria estar chegando.

E como chegaram a estas conclusões? Simples!

De acordo com o que se acreditava nos séculos I a.C. e I d.C o mundo havia chegado à idade de 5000 anos. O judaismo sempre acreditou que a Tanak era muito mais do um livro resgistrando a história dos judeus e as crenças de seus antepassados, eles “sabiam” que aqueles livros eram o registro feito por Deus sobre a sua criação (o universo, os anjos, o mundo e tudo o que existe nele, incluindo a raça humana) e a Sua relação com o povo escolhido (os próprios judeus). Os livros não apenas são um registro, mas está permeado de informações e “dicas” escondidas no próprio texto, por isso desenvolveram métodos de extrair as informações que não estavam explicitas, com técnicas de gematria, Notaricon e Temurá era possível ao estudar o texto sagrado, palavra por palavra, encontrar relações, significados ocultos e indicações da vontade do Criador. Era como viver em um prédio e estudando a composição de suas paredes, as fiações e encanamentos conseguir recriar a planta usada para construí-lo e com isso não apenas compreender sua estrutura mas prever seu comportamento e descobrir o destino que lhe aguardava, por exemplo ao descobrir que ele era feito de concreto e gesso avaliar sua vida útil, saber que se os encanamentos fossem de metal prever quando eles deveriam ser substituídos e desta forma quando as águas que saíssem das tornerias se tornassem turvas deveriam chamar um encanador para trocar os canos por novos.

Assim, Gematria é uma metatesis da palavra grega Grammateia. É baseada no relativo valor numérico das palavras. As palavras de valores numéricos similares supostamente são interpretadas mutuamente, e esta teoria se estende às orações e frases completas. Notaricon é uma palavra derivada do latim que significa Notario. Do Notaricon derivam duas formas. Na primeira, cada letra de uma palavra é tomada como abreviação de outra palavra, assim, com as letras de uma palavra é construída uma frase, A segunda forma do Notaricon é exatamente o contrário da primeira. Qualquer das letras que formam uma frase podem dar origem a uma palavra ou a outra frase. E a Temurá é a permutação. De acordo com certas regras uma letra pode ser substituída por outra que a anteceda ou que a preceda no alfabeto, e desta maneira dar forma a uma nova palavra.

Um exemplo de exercício para isso é o seguinte: pode-se destacar que as três primeiras letras das primeira palavra da Bíblia, BRAShITH – no princípio -, ou seja, BRA, são as iniciais dos nomes que constituem a Trindade: BN, Ben, o Filho; RVCh, Ruach, o Espírito e AB, Ab, o Pai. Mas ainda, a primeira letra do Antigo Testamento é B, inicial de BRKH, Berakhah, bendição, e não A, que é a inicial de ARR, Arar, condena. O valor numérico da palavra Berashith, em sua máxima expressão, nos indica os anos de medida entre a Criação e o Nascimento de Cristo: B=2000, R=200, A=1000, Sh=300, I=10, Th=400, total=3910 anos em números redondos. Picus de Mirandola fez o seguinte trabalho com Berashith: unindo a terceira letra A, com a primeira B, obteve AB, Ab, o Pai. A primeira letra repetida B, mais a segunda R, dão BBR, Bebar, Através do Filho. Tomando-se todas as letras, tirando a primeira, temos RAShITH, Rashith, o Princípio. Conectando a lera Sh com a primeira B e a última Th, temos ShBTh, Shebeth, o Fim ou o Resto.

Com as três primeiras obtemos BRA, Bera, Criado. Omitindo a primeira e pegando as três seguintes temos RASh, Rash, Cabeça. Se omitimos as duas primeiras e tomamos apenas as duas seguintes temos Ash, Ash, Fogo. Tomando a quarta e a última temos ShTh, Sheth, fundação. Pegando a segunda e colocando-a anteposta a primeira temos RB, Rab, Grande. Colocando antes da terceira colocamos a quinta e a quarta, temos AISh, Aish, Homem. Juntando as duas primeiras com as duas últimas temos ThB, Theb, que comumente é utilizada como TVB, Thob, Bom. [2]

Desta forma ao analisar o livro da Gênesis utilizando estas ferramentas, ficou claro para os estudiosos que se Deus havia criado o mundo em 6 dias, consagrando o último a Si Mesmo, então o mundo duraria 6.000 anos, um período equivalente a 1000 anos para cada dia que levou para ser criado. Isso lhes deixava com apenas mais mil anos de existência. Além disso a crença era de que surgiria um Messias que reinaria por mil anos antes que o mundo acabasse. A matemática era simples, o Messias deveria estar batendo à porta a qualquer instante.

Mas de onde surgiu essa crença? Como vimos, existem algumas menções a um salvador nos textos bíblicos, era tudo uma questão de saber quando ele surgiria.

Uma das tentativas mais intrigantes de datar a vinda exata do prometido pode ser encontrada no Primeiro Livro de Enoque, um texto complexo, organizado em cinco livros que foi composto entre o terceiro século a.C. de  a primeira metade do primeiro século d.C. A primeira parte, conhecida como O Livro das Sentinelas (os anjos que observam), foi escrita no século III a.C. e relata uma descrição da visão que o Patriarca Enoque teve dos céus. No capítulo 10 o autor escreve:

“Quando todos [os anjos caídos e] seus filhos se tiverem matado uns aos outros, e quando eles virem a destruição de seus queridos, aprisiona-os por setenta gerações, sob os montes da terra, até o dia de seu julgamento e de seu fim, até que o julgamento, que é por toda a eternidade, seja consumado.” [1 Enoque 10.12]

Isto implica que existiriam setenta gerações desde Enoque até o Dia do Julgamento (ou setenta e sete gerações desde a criação, já que Enoque é um membro da sexta geração desde Adão). O Primeiro Livro de Enoque era bem conhecido dos judeus, chegando a ser aludido na Epístola de Judas 14: “E destes profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos;”

Acredita-se hoje que o texto que serviu de modelo para esta passagem foi o texto de Daniel 9:24-27, que menciona a vinda do Messias, do príncipe (nasi), sete “semanas” (de sete anos cada) após a ordem de Deus de restaurar Jerusalém. De acordo com Jeremias 30:18, esta ordem foi dada em 586 a.C. e como consequência disso podemos identificar o Messias com Ciro, o rei da Pérsia.

“24 Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa cidade, para cessar a transgressão, e para dar fim aos pecados, e para expiar a iniquidade, e trazer a justiça eterna, e selar a visão e a profecia, e para ungir o Santíssimo. 25 Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém, até ao Messias, o Príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; as ruas e o muro se reedificarão, mas em tempos angustiosos. 26 E depois das sessenta e duas semanas será cortado o Messias, mas não para si mesmo; e o povo do príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será com uma inundação; e até ao fim haverá guerra; estão determinadas as assolações. 27 E ele firmará aliança com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador.” Daniel 9:24-27

O restante da profecia permanece ainda mais difícil de ser interpretada, mas vários estudiosos chegaram a identificar o segundo Messias com Onias, um sumo sacerdote que foi morto em 171 a.C., isso nos mostra um aspecto constante em uma caça de Messias, textos proféticos confusos sendo combinado com fatos históricos, mas de uma forma que contorne alguns “detalhes”, já que se Onias fosse o segundo Messias a destruição do segundo santuário teria que ser associada com a perseguição liderada por Antíoco IV Epifânio, que de fato durou “meia semana” (três anos e meio), mas que tem que ignorar o fato de que entre o retorno do exílio babilônico e a morte de Onias não se passaram “sessenta e duas semanas”.

Então a reposta para a pergunta: “por que diabos alguém desejaria se tornar um Messias?” se torna simples, criou-se a espectativa de um salvador, um enviado. A cada dia que passavam todos se encontravam a um dia mais próximos do fim e por isso a um dia mais próximos da chegada do salvador. E essa espera começou a gerar uma enorme expectativa, e isso começou a pirar muita gente. Era um cargo aberto esperando que algúem o reclamasse, o Messianismo se tornou então, para várias pessoas uma questão de oportunidade, “por que não eu?”. Logo, por que alguém desejaria se tornar um Messias? Simples, porque com alguma ginástica matemática e genealógica qualquer um poderia ser um messias, a resposta se torna: “porque eu posso!”

O povo Judeu sempre teve aqueles que o reunia e o libertava e que restauravam a todos a observância da Torah. Podemos inclusive resumir, sem nenhuma pretensão ou falta de respeito, o Antigo Testamento da seguinte forma: o povo está espalhado. Surge um Patriarca que os une, tem filhos e estabelece a observação das leis, ele é seguido e consegue terras e prosperidade pra seu povo. O tempo passa e o povo se torna desregrado e adota novos deuses, vem a miséria e a servidão. Surge um novo líder que os reúne, lhes mostra que devem seguir ao Senhor, restaura a observância da Lei, todos prosperam e ganham uma terra. O tempo passa, eles deixam os costumes e práticas religiosas de lado e ai se tornam escravos de alguém assumindo as crenças dos captores que os maltratam de forma abusiva; o povo se lamenta, surge um novo líder que o reúne, lhe restitui a observação, o liberta, e uma vez que todos voltam às práticas antigas são guiados para uma nova terra onde prosperam. Esse “loop” é a constante que move os judeus do Antigo Testamento. Mas o tempo está passando e o povo está inquieto. Desde o nascimento de Abrahão os judeus foram cativos no Egito, foram levados para a Babilônia, caíram sob o domínio dos Persas, dos macedônios, dos ptolomeus, dos selêucidas. Conforme os ponteiros do Grande Relógio se aproximam do momento do Grande Fim, o povo clama por sossego, por poder voltar para a terra santa e viver em paz até o fim dos dias, afinal eles são os escolhidos, ou não?

E assim torna-se claro como passagens sobre alguém que seria filho de Deus, seria enviado por Ele para liberar a todos e conquistar os inimigos começam a se tornar populares.

Um reflexo disso fica claro quando nos atentamos para o uso do termo “ungido” aplicado a várias pessoas como os Reis de Israel, os Juízes e mesmo o Sumo Sacerdote, até os patriarcas eram considerados “ungidos” – mesmo antes de Moisés receber a receita o Óleo Sagrado e o ritual de unção. Este termo era bem próximo do termo Messias, mas não era exatamente a mesma coisa. Apesar de “ungido” surgir várias vezes e ser atribuído a várias pessoas (inclusive àlgumas que viveram antes do ritual de unção) o termo específico “Messias” aparece apenas duas vezes no Antigo Testamento, no livro de Daniel, capítulo 9 versículos 25 e 26:

“25 Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém, até ao Messias, o Príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; as ruas e o muro se reedificarão, mas em tempos angustiosos. 26 E depois das sessenta e duas semanas será abatido o Messias, mas não para si mesmo; e o povo do príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será com uma inundação; e até ao fim haverá guerra; estão determinadas as assolações.”

Diferente do que muitos possam imaginar o conceito do Messias não faz parte do judaísmo bíblico e se desenvolveu como um folclore informal que possui muitas variantes e pode ser compreendido de diferentes formas. O Messias é personagem de inúmeros contos folclóricos e músicas hassídicas (Hassídico ou Chassídico é um dos movimentos dentro do Judaísmo que existiu praticamente desde sempre na história judaica). Um dos conceitos do Messias pode ser encontrado nos comentários de Maimonides, como era conhecido o Rabi Moshe ben Maimon, escritos no século XII sobre o Talmude Babilônico:

“A era Messiânica será quando os judeus ganharem novamente sua independência e todos retornarem à terra de Israel. O Messias será um grande rei, ele alcançará grande fama e sua reputação entre as nações gentis será ainda maior do que a do Rei Salomão. Sua bondade, sobriedade e as maravilhas que realizará farão com que todas as pessoas estabeleçam a paz com ele, e todas as terras o servirão… Entretanto nada mudará na era Messiânica, a não ser os judeus que ganharão novamente sua independência. Ricos e pobres, fortes e fracos ainda existirão. Entretanto será muito fácil para as pessoas ganharem a vida e com muito pouco esforço serão capazes de realizar muito… será um tempo quando o número de homens sábios crescerá… não haverá mais guerras e as nações não erguerão mais suas espadas umas contra as outras… A era Messiânica será marcada por uma comunidade formada pelos corretos e dominada pela bondade e sabedoria. Ela será governada pelo Messias, um rei correto e honesto, que se sobressairá através de sua sabedoria e será muito próximo a Deus. Não pense que o mundo ou as leis da natureza mudarão, isto não é verdade. O mundo continuará como é. O profeta Isaias predisse: “o lobo viverá com a ovelha, o leopardo se acomodará aos pés das crianças”. Isto, é claro, não passa de uma alegoria que mostra que os judeus viverão em segurança, mesmo convivendo com nações que outrora foram cruéis. Todas as nações se voltarão para a religião verdadeira (o monoteísmo, mas não necessariamente o judaísmo) e não mais roubarão ou oprimirão. Note que todas as profecias a respeito do Messias são alegóricas – Apenas na era Messiânica nós compreenderemos o significado de cada alegoria e o que virá nos ensinar. Nossos sábios e profetas não esperam pela era Messiânica para reinar sobre o mundo ou dominar os gentis… a única coisa que desejavam era que os judeus fossem livres para se envolver com a Torah e a sabedoria que ela traz.”

É claro que esse não é o consenso geral dentro do judaísmo, um século mais tarde, Maimonides foi contestado por Nachmanides, que rejeitava o nacionalismo do primeiro e afirmava que Isaias estava sendo literal: que quando chegasse a Era Messiânica até mesmo os animais selvagens se tornariam criaturas domésticas de temperamento doce. Outro Judeu, nosso contemporâneo, Woody Allen, complementou essa visão dizendo que: “as ovelhas e os lobos viverão juntos, mas as ovelhas não conseguirão pregar os olhos à noite.”

Agora, nos tempos bíblicos a idéia da restauração de Israel e o fim dos problemas por que passavam ganhava muitos adeptos sempre que a situação ficava preta, e se lembrarmos o nosso resumo do Antigo Testamento podemos ver que o povo hebreu poderia ser comparado a um cardume que sempre nadou dentro de um balde de piche. Quando se tornaram cativos da Babilônia (séc VI a.C.), dos Romanos (séc II a.C.), quando houve o reinado de Hadrianus (séc. I e II), durante a conquista árabe (séc. VII d.C.) e durante mais ou menos toda a Idade Média (séc V ao XV), para citar alguns momentos. E com um agravante, conforme o prazo de validade estipulado para as velhas profecias vencia, surgiam novas idéias para explicar porque o Salvador não havia surgido ainda e para adaptar a influência do Messias e suas características aos novos tempos. Lembre-se que já no século VI a.C. o Filho de Deus era esperado, um erro de alguns séculos poderia ser esperado, afinal não haviam indicações precisas de quando ele viria, mas conforme os séculos passavam a aflição pela espera e a grandiosidade dos seus atos cresciam. Muitos começaram a crer que com o seu surgimento os mortos ressuscitariam, que ele marcaria o início dos Fins dos Tempos e tudo resultaria na supremacia do judaísmo. Com o tempo surgem diferentes categorias de Messias, como o Messias Efraínico, descendente de Efraim que surgiria antes do Messias Davídico, descendente de Davi, para anunciar sua chegada.

Desta forma, criou-se visão sobre-humana daquele que assumiria o papel de Messias no Judaísmo dando-lhe características quase divinas. Lhe atribuíram milagres e maravilhas, a capacidade de converter todos a uma única religião, a criação de paz mundial – esses feitos, ironicamente, posteriormente foram associados ao Anti-Cristo no texto canônico da Revelação de São João, conhecida também como o Apocalipse.

Isso fez com que muitos judeus se tornassem cautelosos em relação ao advento Messiânico e mesmo céticos e cínicos em relação àqueles que o anunciam. O sábio Rabban Yochanan ben Zakkai chegou a dizer no primeiro século: “Se por acaso você estiver com uma muda de planta em sua mão e lhe disserem que o Messias chegou, primeiro plante a muda e então vá para as ruas e saúde o Messias”. Uma velha história judaica também fala de um Judeu russo que recebia um rublo por mês do conselho municipal para aguardar do lado de fora da cidade para que fosse a primeira pessoa a saudar o Messias quando este chegasse. Quando um amigo lhe perguntou por que fazia aquilo já que “o salário era tão baixo” o homem respondeu: “é verdade, mas o trabalho é permanente”.

E com isso chegamos a um grande problema, na verdade um impasse: mesmo com a ironia, as anedotas e o ceticismo, a crença no Messias e na era Messiânica está entranhada no judaísmo. Como então reagir diante destas crenças? O Messias de fato virá? Como reconhecê-lo? Como agir?

A resposta mais simples é: todos os atos atribuídos ao Messias podem apenas ser julgados depois de realizados, não podemos afirmar hoje, diante da presença de alguém que tenha esse status, que ele trará a paz e reunirá o povo de Israel, é apenas com o tempo que veremos se essas coisas de fato aconteceram graças a ele e ai sim afirmar que o papel foi cumprido. No momento presente as pessoas tem apenas a própria crença, ou seja isso se torna uma questão de fé. E é essa crença pessoal, esta fé,  que pode levar uma pessoa a acreditar que alguém, em determinado momento é o Messias fazendo-a seguir essa pessoa, mas não pode servir como afirmação de que aquela pessoa de fato é o prometido. É como dizer que o Messias, por exemplo, será seguido por multidões, mas nem todo aquele que de fato conseguir se seguido por multidões será o Messias, a reação do povo e as ações que ele realizar podem ser um termômetro, mas nunca uma prova final de sua natureza.

O maior exemplo disso tiramos da própria história, nos últimos quatro mil anos o nome “Israel” foi usado para designar não apenas a Terra de Israel como toda a nação judaica. O artefato arqueológico mais antigo a mencionar Israel não como um simples nome vem de uma estela egípcia documentando campanhas militares em Canaã, datada do XIII século a.C. onde se refere a um povo, às pessoas que habitavam aquela terra. A Terra de Israel, Eretz Yisrael, é um local sagrado para os judeus desde a época bíblica, já que foi prometida aos três patriarcas por Deus, para se tornar seu lar. Durante o período dos reinados israelitas e o século das conquistas muçulmanas, séc VII d.C., a Terra de Israel foi conquistada e dominada pelos Assírios, Babilônios, Persas, Gregos, Romanos, Sassânios e Bizantinos. A presença judaica na região diminuiu drasticamente após o fracasso da revolta de Bar Kokhba contra o império romano em 132 d.C. e do massacre conduzido pelo imperador Heraclitus em 628 e 629. Depois de perder a terra para os Muçulmanos em 636 d.C. o domínio da região mudou de mão em mão entre os Omíadas, os Abássidas, os cruzados, os Cosméricos e os Mongóis por mais de seis séculos, até cair nas mãos do sultanato Mameluco em 1260. Em 1516 a Terra de Israel se torna parte do império Otomano que dominou a região até o século XX.

Durante todo este tempo os judeus da diáspora desejavam retornar ao Sião e à Terra Prometida, mas a primeira grande onda de imigração, conhecida como a primeira Aliyah só teve início em 1881. Três anos depois, em 1884 o governo Turco-Otomano emite o documento que ficou conhecido como Édito de Tolerância, permitindo que os judeus retornassem à Terra Santa. A segunda Aliyah ocorreu entre 1904 e 1914 quando mais de 40.000 judeus ocuparam a Palestina e entre 1919 e 1929 ocorreram a terceira e quarta Aliyah, levando mais de 100.000 imigrantes para a região; esta época coincide com o mandato concedido sobre a região da Palestina pela Liga das Nações à Inglaterra, a partir de 1921 a Inglaterra cria cotas de imigração para os judeus. Em 1930 o surgimento do Nazismo acabou criando a quinta Aliyah e um influxo de mais de 250.000 judeus para a Terra Prometida, o que causou a revolta árabe de 1936 a 1939 e fez com que a Inglaterra proibisse as imigrações. Como países ao redor do mundo começaram a não aceitar e a denunciar fugitivos do holocausto teve início um movimento conhecido como Aliyah Bet para levar clandestinamente judeus para a Palestina, com o fim da Segunda Guerra os judeus formavam mais de 33% da população da Palestina. Nesta mesma época o Reino Unido entrou em um conflito violento com os judeus, e chegou à conclusão, em 1947, de que era incapaz de criar uma solução aceitável tanto para os árabes quanto para os judeus, foi então que a recém criada Nações Unidas estabelece em novembro de 1947 a divisão do país em dois estados um para cada povo que habitava a região. A comunidade judaica aceitou a idéia, mas os árabes não. Dois dias após a criação dos estados, os árabes começam a realizar ataques a alvos judeus, e assim teve início uma guerra civil na região. Na década de 1950 começam os conflitos na Faixa de Gaza e a batalha pela conquista do Canal de Suez. Em 1967 o Egito, a Síria e a Jordânia enviaram tropas para fechar todas as fronteiras Israelitas. No período de 1969 a 1970 Israel esteve em guerra contra o Egito. Seguindo esses eventos podemos destacar ainda o ataque Egípcio/Sírio no Yom Kippur em 1973. Em 1981 e 1982 Israel interveio na guerra civil Libanesa. Em 1987 surge a primeira Intifada, um levante Palestino contra Israel; com a guerra do golfo em 1991 muitos Palestinos apoiaram Saddam Hussein e o Iraque fez vários ataques com mísseis a Israel. Em 2006 um grupo de artilharia do Hezbollah realizou ataques contra israelitas.

… e durante toda esta bagunça surgiram várias pessoas que se proclamaram ou foram proclamados Ungidas, as Escolhidas por Deus e que chegaram a atrair multidões.

Com isso podemos ver que mesmo que muitos dos Messias que surgiram tenham afirmado descender do Rei David, embora muitos tenham sido reconhecidos como líderes do povo de Israel, ao menos por parcelas dele, e ainda tenham conseguido, em certos momentos, causar uma imigração de judeus para se reunirem e tenham também afirmado a importância da total observância da lei da Torah, até hoje não temos um que tenha conseguido trazer a paz ao mundo, seja ela uma paz mundial ou simplesmente um sossego para o Povo Escolhido, nem mesmo um consenso entre os vários ramos surgidos dentro do judaísmo, e assim a própria história mostra que nenhum dos Messias conseguiu levar o cargo até o fim, cumprindo os 5 requisitos.

É por esta dificuldade, a de apenas observar e julgar um ato depois dele ter acontecido, aliada à ansiedade que o povo judeu teve por vezes acreditando que o Messias estava a um passo de suas portas, que encontramos inúmeros Messias na história, pessoas que, por um motivo ou por outro, ganhavam a simpatia e confiança de inúmeros seguidores que acreditavam nele e tinham esperanças de estar diante daquele que surgiu para cumprir as profecias, lendas e contos folclóricos.

Como vimos, durante o séc. VI a.C. os judeus exilados na babilônia criaram expectativas sobre um Ungido que os libertariam e os lideraria de volta para seu lar, inúmeras profecias se realizaram quando o rei Persa Ciro o Grande permitiu que eles retornassem a sua terra de origem. No séc. II a.C. os judeus novamente sofreram repressão e as antigas profecias se tornaram relevantes novamente. Algumas pessoas esperavam por um líder militar que derrotaria os inimigos romanos e criaria o reino judaico, outros, como os autores dos Salmos de Salomão, diziam que o Messias seria um professor carismático que ensinaria a todos a interpretação correta da Lei Mosaica, restauraria Israel e julgaria a humanidade.

Graças aos pergaminhos e textos encontrados nas cavernas de Qumran, conhecidos como os manuscritos do Mar Morto, chegou até nós uma cultura messiânica muito rica, nos mostrando inúmeras teorias sobre quem seria o Messias vindouro. No Manuscrito da Guerra o Messias é um profeta e não toma parte na guerra entre “os filhos da luz” contra “os filhos das trevas”, ele seria identificado como “o príndipe da comunidade”. Em outros textos o Messias surge como um senhor da guerra. Isto por si já deixa claro que haviam muita confusão quanto a natureza do Messias esperado.

Ainda existem vários textos atribuídos hoje aos membros da seita de Qumran como, por exemplo, o Documento de Damasco e a Regra Messiânica. Os textos da seita são interessantes porque nos mostram que seus membros não esperavam a vinda de um Messias, mas de dois. Isto pode ser o reflexo de um povo tentando compreender todas as divergências sobre a figura que viria libertá-los.

A origem desta idéia é possivelmente o texto deixado em Zacarias 6:12-13:

“12 E fala-lhe, dizendo: Assim fala e diz o SENHOR dos Exércitos: Eis aqui o homem cujo nome é Renovo; ele brotará do seu lugar e edificará o templo do SENHOR. 13 Mesmo edificará o templo do SENHOR, e levará a glória, e assentar-se-á, e dominará no seu trono, e será sacerdote no seu trono, e conselho de paz haverá entre ambos.”

Apesar deste texto se referir ao príncipe Zerubbabel e ao alto-sacerdote Joshua ele poderia ser compreendido como uma profecia Messiânica no início do período Hasmoneu, como vemos nas passagens do texto Testamentos dos doze patriarcas:

“Minhas crianças, sejam obedientes a Levi e a Judá. Não se exaltem acima destas duas tribos, pois dentra elas surgirá o Salvador enviado por Deus. Pois o Senhor irá erguer de Levi um sumo sacerdote e de Judá um rei. Ele salvará todos os gentis e a tribo de Israel.” (Testamento de Simeão 7:1-2)

“A mim [Judá] Deus entregou um reinado, e para ele [Levi] um sacerdócio. E ele sujeitou o reinado ao sacerdócio. A mim Ele entregou os assuntos terrenos e para Levi os assuntos celestiais. Assim como o céu está acima da terra, o sacerdócio de Deus está acima do reino da terra. (Testamento de Judá 21:2-4a)

Apesar da palavra “Messias” não ser usada, os membros da seita esperavam por um Messias de Israel e um Messias de Davi, que cumprissem a descendência real e sacerdotal de Judá e Levi.

O primeiro texto ao qual daremos atenção é o documento de Damasco, que como acontece com a maioria dos achados de Qumran, é uma combinação de textos. A primeira parte é uma história teológica que prova que a seita, identificada por muitos como os Essênios, é o povo verdadeiro de Israel e que Deus recompensará o fiel; então segue um trecho de lei com uma código penal adicionado como apêndice. A primeira parte não menciona o Messias, mas pode ser interpretada como um texto de tradição Messiânica, já que faz alusão à profecia de Balaão:

“E a estrela é aquele que busca a lei, que veio para Damasco; como está escrito A estrela partiu de sua jornada de Jacó e um cetro de ergue de Israel. O cetro é o Príncipe de toda a congregação, e com sua chegada ele porá por terra todos os filhos de Set.” (Documento de Damasco 7:18-21)

E assim temos a crença em dois Messias vindouros, um o líder militar o outro um sábio, se nos atentarmos ao termo “aquele que busca a lei” encontramos similaridades com o Mestre da Retidão (título dado ao fundador da seita de Qumran), o fato deste título ser usado para apontar o Messias indica a crença da seita de que seu fundador retornaria um dia.

Na primeira citação a palavra “Messias” não é utilizada, mas o documento de Damasco às vezes se mostra mais explícito:

“[…] e durante o período de trevas até o surgimento do Messias de Aarão e Israel […]”(Documento de Damasco 12:23-13:1)

“Este é a afirmação exata das ordenanças que serão seguidas por eles até o Messias de Aarão e Israel apareça e expie sua iniquidade.” (Documento de Damasco 14:18-19)

“Aqueles que atentarem a Ele serão os humildes do rebanho; eles serão salvos no tempo de Sua visitação. Mas os outros serão entregues à espada quando vier o Messias de Aarão e Israel.” (Documento de Damasco 19:33-20.1)

E em pelo menos um texto encontramos um terceiro personagem na Era Messiânica: o profeta. Ele é mencionado no Manual de disciplina. Este texto é curioso por usar o termo plural “os Messias de Aarão e Israel” ao invés de “o Messias de Aarão e Israel” como no Documento de Damasco, com isso temos a crença em pelo menos dois e talvez três Messias:

“E eles não partirão de nenhum concelho da lei para caminhar com teimosia em seus corações, mas serão governados pelas primeiras ordenanças nas quais os membros da comunidade iniciaram suas instruções, até a vinda do profeta e dos ungidos de Aarão e Israel.” (Manual de disciplina 9:9b-11)

Assim como o Messias rei de Israel e o Messias sacerdote de Aarão, o profeta é um personagem Messiânico e não é difícil imaginar que a biblioteca de Qumran possuísse textos de cunho messiânico que defendessem a vinda de três Messias. Afinal de contas reis, sacerdotes e profetas eram os únicos que podiam ser ungidos.

Mas o texto mais interessante de todos pode ser encontrado na Regra Messiânica, também chamada de Regra da congregação. Ele descreve a arrumação da mesa durante uma refeição messiânica sagrada. Uma das particularidades do texto é a hierarquia entre os dois Messias. Esta é a posição dos homens de renome chamados para a assembléia do conselho da comunidade quando Deus lhes enviar o Messias.

“O Sacerdote entra liderando toda a congregação de Israel, então entram todos os líderes dos filhos de Aarão, os sacerdotes, chamados para a assembleia e homens de renome. E eles deverão se sentar diante dele, cada um de acordo com sua posição.”

“Então o Messias de Israel deve entrar, os chefes das tribos de Israel devem se sentar diante dele, cada um de acordo com sua posição nos campos e durante suas marchas, e então todos os líderes das famílias da congregação, juntamente com os sábios, devem se sentar diante deles, todos de acordo com sua posição.”

“E eles devem se reunir na mesa comunal ou para beber o vinho e preparar a mesa e misturar o vinho para o consumo, que ninguém toque o pão ou o vinho antes do Sacerdote. pois é ele que deve abençoar o pão e o vinho. E então o Messias de Israel deve tocar o pão. E então toda a congregação deve abençoar cada um de acordo com sua posição.” (1Q28a 2.11-21)

Vale ressaltar que a idéia de múltiplos Messias não desapareceu com a seita (que teve seu fim durante a guerra entre os judeus e os Romanos entre 66 e 70).

Flávio Joséfo, o historiador e apologista judaico-romano que registrou in loco a destruição de Jerusalém, em 70 d.C., relata em seu Antiguidades Judaicas que no primeiro século antes da destruição do Templo, alguns Messias surgiram, prometendo o alívio da opressão romana e tendo encontrado seguidores:

“Outro corpo de homens malvados também se levantou, mais limpos nas suas mãos, mas mais malvados nas suas intenções, que destruíram a paz da cidade, não menos do que o fizeram estes assassinos os Sicarii. Porque eles eram impostores e enganadores do povo, e, sob a pretensa iluminação divina, eram pela inovação e por mudanças, e conseguiram convencer a multidão a agir como loucos, e caminharam em frente deles pelo descampado, afirmando que Deus lhes iria ali mostrar sinais de liberdade”.

Vamos ver então quem foram esses outros Messias que durante a história do Judaísmo tentaram vestir as sandálias do Salvador.

Judas o Galileu

Um deles foi Judas, o Galileu. Surgiu nos dias do recenseamento, pregando contra a dominação de Roma, criticando a subserviência dos governantes ao Império Romano e incitando o povo a se rebelar, se recusando a pagar tributos, dizendo que a carga tributária cobrada pelo Império era o mesmo que a escravidão, ele conquistou milhares de seguidores. Percorria os vilarejos da Galiléia denunciando as arbitrariedades (e atrocidades) praticadas pelo exército romano contra homens, mulheres e crianças, pressionando todos a lutar pela liberdade política, econômica e administrativa.

Sobre ele Josefo escreve: “[tratava-se de um revolucionário], pois, censurava a população por esta pagar impostos aos romanos e a incitava ao levante, à luta armada”.

Citado pelo rabino Gamaliel I, neto do grande educador judeu Hillel, o Ancião, líder dentre as autoridades do Sinédrio no meio do século I, reconhecido mestre e Doutor da Lei, em um discurso enquanto defendia Pedro, o Pescador e Paulo de Tarso disse: “(…) levantou-se Judas, o Galileu, [contra o Império Romano] nos dias do alistamento, e levou muito povo após si”.

Judas e um fariseu chamado Saduc lideraram várias ações contra o Império, inclusive executando os publicanos, judeus contratados por Roma para cobrar os impostos, que eram chamados de infiéis e traidores. Criaram um grupo que ficou conhecido como Zelotes (significa literalmente alguém que é ciumento em nome de Deus, ou seja, alguém que demonstra excesso de zelo) e os Sicários (por causa de um punhal, chamado “sica”, que usavam), e realizaram inúmeros ataques de sucesso, que só fizeram aumentar a simpatia popular com a sua causa. Foram talvez os pioneiros em táticas de terrorismo e guerrilha na Palestina.

Um dos recursos do qual faziam uso como forma de intimidação era o graffiti. Em vários lugares, em especial nas muralhas e nos arcos das pontes sobre o Tiropeon, grafitavam frases provocadoras contra os romanos. A mais comum delas era “Poncio cattivo” (Pôncio o mau), parodiando o insulto que os habitantes de Cápri dirigiam ao maligno imperador então reinante: Tibério. Outras frases comuns eram “Pôncio, o escravo de Segano”; “Soldado, tua vida vale dez asses?” se referindo ao salário diário de um legionário, fixada por Júlio César de 225 denários anuais ou o equivalente a dez asses por dia.

Ná no séc. V d.C. os Zelotes assumiam o porte de um exército de guerrilheiros contando inclusive com uma facção encarregada de execuções de autoridades romanas e judeus ricos simpatizantes dos romanos. Mas a revolução mudou quando pessoas comuns, comerciantes donas de casas e até crianças se tornaram vítimas desses assassinos tendo inicio assim uma época de medo e terror nas ruas da Palestina, especialmente na região leste.

Os romanos por fim conseguiram sufocar a revolta e crucificaram Judas, os membros de sua família, seus seguidores conservaram vivo o espírito de resistência aos Romanos. Dois de seus filhos foram crucificados pelo procurador Alexandre (c. 46 d.C.), enquanto que um terceiro filho, Manaém, foi o líder da Primeira Rebelião Judaica (66-70 d.C.). O último baluarte Zelote, Massada, caiu em Maio de 73 d.C., mas, mesmo depois, o seu espírito não foi extinto. Os zelotes continuaram a opor-se aos romanos, argumentando que Israel pertencia apenas a um rei judaico descendente do Rei Davi.

Simão, filho de José

Foi um ex escravo de Herodes o Grande se rebelou, e foi morto no ano 4 a.C. Ele foi identificado como o Messias da Revelação de Gabriel, um tablete de pedra de um metro de comprimento contendo uma coleção de profecias curtas, escritas na primeira pessoa e datada do século I a.C.

Conta a história, que Simão de Paraea se corou como rei, afirmando ser o redentor de Israel, o Messias. Ele comandou uma rebelião contra Roma no ano 4 a.C., antes da Páscoa, e ateou fogo a um dos palácios de Herodes e a várias de suas residências reais. Logo após este episódio, Simão foi capturado em um desfiladeiro e então decaptado. Seu corpo foi abandonado para apodrecer entre as pedras, já que para os judeus da época não ter o corpo queimado era uma das maiores humilhações pela qual alguém poderia passar. Depois de sua morte, inúmeros seguidores foram caçados e crucificados.

A seu respeito Flavius Josefus escreveu:

“Também houve Simão, que foi escravo do Rei Herodes, mas que de outra forma era uma pessoa de feições atraentes de corpo alto e robusto; ele era uma pessoa muito superior em relação às outras de sua classe, e tinha muitas responsabilidades. Este homem foi levado a um turbilhão de coisas e foi corajoso o suficiente para colocar em sua própria cabeça um diadema, quando um certo número de pessoas estava em sua presença e por elas foi declarado rei, e ele se considerou mais merecedor daquela dignidade do que qualquer outro.

Ele queimou até a sfundações o palácio de Jericó, e saqueou o que restou nele. Ele ateou fogo também a muitas outras casas do rei em vários lugares do país, as destruindo totalmente, e permitiu que aquilo que sobrasse fosse feito presa por aqueles que o seguiam. Ele teria feito muitas coisas grandiosas, mas foram tomadas medidas para o reprimir imediatamente. (O comandante da infantaria de Herodes) Gratus, se uniu a alguns soldados romanos, e reunindo suas forças foi de encontro a Simão. E após uma longa e grandiosa luta, um grande número daqueles que vieram de Perasea (um grupo desordenado de homens, brigando mais com coragem do que com técnica) foi destruído. E apesar de Simão ter se salvado, fugindo por um vale, foi encontrado por Gratus e então decaptado.”

Athronges

Foi o lider de uma rebelião, seguido por seus quatro irmãos, contra Herodes Arquelaus e os romanos, depois de se proclamar o Messias. Ele e seus irmãos foram eventualmente vencidos.

Assim como Simão, filho de José, Athronges não era uma pessoa eminente, não possuía nenhum antepassado importante nem tinha posses, era um simples pastor desconhecido, mas por ser um homem alto e mais forte do que todos que conhecia ele decidiu se declarar rei. Também se dedicou, com a ajuda de seus irmãos, a atacar os romanos, e os relatos dizem que embora a princípio ele fosse um homem gentil e justo, começou a se tornar violento, não apenas com os romanos, mas com todos.

E assim como Simão acabou tendo seu fim nas mãos de Gratus.

Theudas

Por volta de 44 d.C., surge um homem chamado Theudas, ou Teudas, que afirmava ser um profeta, encorajando que as pessoas o seguissem até o Jordão, que seria dividido por ele para seus seguidores.

Isto é digno de nota, pois apesar de não se declarar o Messias a idéia de profetas também é importante. Um profeta ou profetisa é uma pessoa capaz de predizer o futuro. Antes de receberem o nome de profetas essas pessoas eram chamadas de videntes, como nos mostra o livro I Samuel 9:9. Os profetas eram aqueles que falavam por inspiração divina ou em nome de Deus, e é sempre bom ter em mente que isso acontecia em uma comunidade que levava Deus muito a sério, tanto que de acordo com a Lei Mosaica uma pessoa acusada de ser um falso profeta recebia a pena de morte, e  naquela época não havia câmaras de gás, injeções letais nem nada que transformasse a morte em algo rápido e indolor.

Enquanto o Messias era alguém sagrado por Deus e enviado, o profeta era alguém escolhido por Deus para ser seu porta voz, como vemos na história, assim como onde há fumaça há fogo, Messias e Profetas nunca estiveram muito longe um do outro como veremos adiante.

Com o tempo Theudas conseguiu arrebanhar para si mais de 400 pessoas, todas perseguidas por Cuspius Fadus, que enviou homens a cavalo em perseguição ao  bando e a seu líder. Muitos deles foram mortos e outros foram tomados como cativos, juntamente com o seu líder, que foi decapitado.

Messias Egípcio

Ainda de acordo com Josefo, no séc. I surge um Messias egípcio que supostamente conseguiu agregar mais de 30 000 seguidores. Segundo Flávio Josefo, esse personagem se proclamava um “enviado de Deus”, e apareceu na Judéia no tempo do governador Marco Antônio Félix, arrebanhando um grande número de pessoas, e as levando para o Monte das Oliveiras, onde haveriam de presenciar um milagre: as muralhas de Jerusalém se desmantelariam, abrindo um caminho para a entrada triunfal de Yahweh, que viria para estabelecer seu reino na Terra. Isso, se de fato acontecesse, realizaria a profecia do profeta Zacarias, sobre a proximidade do Dia do Senhor: “Nesse dia, os seus pés [de Yahweh] pousarão sobre o Monte das Oliveiras, que fica em frente e a leste de Jerusalém; e o Monte das Oliveiras vai rachar-se ao meio, formando um vale enorme no sentido do nascente para o poente (…) Então virá Yahweh e todos os santos com ele” (Zc 14,4). Ele também é citado em Atos, no episódio em que Paulo se encontra com um tribuno, nos degraus da Fortaleza Antônia, e este lhe pergunta: “Por acaso você não é o egípcio que, dias atrás, subverteu e arrastou ao deserto quatro mil sicários?” (At 21,38). O governador Félix mandou uma tropa atacar a multidão e muitos foram mortos pelos legionários, mas o egípcio escapou durante a luta e nunca mais foi visto.

Dois outros Messias

Josefo ainda nos fala do surgimento de mais dois Messias naquela época: Um que prometeu ao povo “a libertação das suas misérias” se eles o seguissem até ao descampado. O líder e seus seguidores foram mortos pelas tropas de Festus, o procurador romano.

E outro surgido quando Jerusalém já estava sendo destruída pelos Romanos, um profeta subornado pelos defensores em uma tentativa para evitar que as pessoas desertassem, anunciou que Deus os comandava para virem ao Templo, onde receberiam sinais milagrosos da sua libertação. Ao invés de libertação os seguidores encontraram a a própria morte nas chamas.

Menahem ben Judah

Ao contrário daqueles Messias, que esperavam conseguir a libertação do seu povo através de intervenção divina, surge Menahem ben Judah, o filho de Judas da Galileia, e neto de Hezequiel, o líder dos Zelotes, que tinham irritado o Rei Herodes. Ele era um guerreiro e quando começou a guerra, atacou Masada com o seu grupo, armou os seus seguidores com as armas ali armazenadas, e partiu para Jerusalém, onde capturou a fortaleza Antónia, derrotando as tropas de Agripa II. Encorajado por este sucesso, ele comportou-se como Rei e clamou a liderança de todas as tropas. Espoletou por isso a oposição de Eleazar, outro líder Zelota que alguns historiadores acreditam ser irmão de Menahem, tendo sido assassinado como resultado de uma conspiração. Ele será provavelmente a mesma pessoa mencionada como Menahem ben Hezekiah no Talmud e ali chamado de “provedor de conforto que deverá aliviar”.

Nos Pergaminhos do Mar Morto lemos sobre um Messias que teria existido antes do primeiro século chamado Menahem, o essênio, que morreu em circunstâncias semelhantes às atribuídas a Jesus.

Bar Kochba

Com a destruição do Segundo Templo de Jerusalém em 70 d.C., temos uma pausa com a aparição de Messias. Foi uma época em que os judeus começaram a se espalhar pelo globo em busca de um lugar para viver. Mas sessenta anos mais tarde, um movimento político-messiânico de grandes proporções teve lugar, com Shimeon Bar Kochba (também Bar Kosiba) como líder. Este líder da revolta contra Roma foi saudado como o Rei-Messias pelo Rabi Aquiva, que se referiu a ele, como: “Uma quarta estrela de Jacob virá e o ceptro irá erguer-se fora de Israel, e irá golpear pelos cantos do Reino de Moab,”, e Hag. ii. 21, 22; “Eu irei sacudir os céus e a terra e destronar reinados…”. Apesar de alguns terem duvidado que fosse o Messias, ele parece ter conseguido o apoio generalizado na nação.

A revolta de Bar Kochba , de 133 a 135 d.C., que fez frente ao poder de Roma foi a terceira maior rebelião dos judeus que habitavam a província Iudaea (Judéia) e a última das guerras contra os romanos. A revolta estabeleceu um Estado Judeu sobre algumas regiões da Judéia por dois anos e meio. A função de administrador público foi assumida por Shimeon Bar Kochba, que assumiu o título de Nasi Israel (Governante, ou Príncipe de Israel). A “Era da redenção de Israel” foi anunciada, se criaram contratos e se cunharam moedas. O Rabi Akiva presidia a Sanhedrin e os rituais religiosos eram observados e os sacrifícios (korbanot) era realizados no altar.

Shimeon foi morto perto das muralhas de Bethar. O seu movimento messiânico acabou em derrota e na miséria dos sobreviventes. Em 135, a revolta foi esmagada pelo imperador romano Adriano. De acordo com Cassius Dio, 580,000 judeus foram mortos e 50 cidades fortificadas e mais de 980 vilas foram massacradas. Os sobreviventes dispersaram-se pela diáspora ou foram feitos escravos. Adriano decretou a expulsão de todos os judeus de Jerusalém, autorizando o seu retorno apenas por um dia ao ano, em Tisha Be’av, para demonstrar luto pela destruição do Templo. Após esta tremenda derrota dos judeus, a cidade de Jerusalém seria reconstruída pelos Romanos, tendo o imperador Adriano ordenado a mudança do nome de Jerusalém para Aelia Capitolina, e o nome da Judéia para Síria Palestina, para evitar qualquer associação judaica e com a terra de Israel.

O ocorrido marcou também uma nova etapa do cristianismo. Até então, os cristãos eram sobretudo judeus. A partir de aqui foram obrigados a dispersar-se para outras zonas. Se até então a psicologia dos líderes cristãos tinha uma perspectiva judaica, depois do ano 135 a maioria dos cristãos seriam gentios, e adquiririam uma perspectiva diferente, de pessoas que vivem na Grécia, ou então romanos e que mais facilmente adotariam posições antijudaicas.

Com a derrota de Bar Kochba passam-se alguns séculos em que não temos o registro de novos Messias.

A derrota da guerra de Bar Kochba foi um desastre que afetou negativamente o surgimento de Messias nos séculos seguintes, mas a esperança é a última que morre e de acordo com cálculos baseados no Talmude, o Messias seria esperado no ano 440. Esta expectativa, em ligação com os distúrbios no Império Romano em face das invasões, podem ter levado a incentivar o Messias que apareceu nesta época em Creta e que angariou o apoio da população judaica para o seu movimento.

Moisés de Creta

Em 448 eis que surge o autodenominado Moisés, prometendo liderar o seu povo, como o antigo Moisés, de volta à Palestina. Ele percorreu as comunidades judaicas da ilha anunciando que iria repetir “seu” feito de séculos passados – fazer o mar se abrir para dar passagem aos israelitas -, de maneira a conduzir os judeus cretenses de volta à Terra Prometida. Conseguiu arrebanhar muitos seguidores e os levou até o mar. Os seguidores, que haviam sido convencidos por ele a deixaram para trás suas possessões, aguardavam ansiosos pelo dia prometido, e quando este chegou, sob o  comando do Messias, muitos se lançaram ao mar. Alguns morreram, outros foram salvos. O “Salvador” desapareceu sem deixar rastros.

Após o afogamento em massa de centenas de judeus os Messias que se seguiram surgiram todos no Oriente e eram por vezes reformadores religiosos cujo trabalho influenciaria o Caraismo, uma das ramificações do Judaísmo que defende unicamente a autoridade das Escrituras Hebraicas como fonte de Revelação Divina, defendem a Crença Única e Absoluta em Deus e que sua Revelação Única foi dada através de Moshê (Moisés) na Torá (que não admite adições ou subtrações) e nos profetas da Tanakh. Confiam na Providência divina e esperam a vinda do Messias e a Ressureição dos Mortos. Seguem um calendário baseado no Abib e com ínicio de mês na lua nova vísivel, rejeitam o judaísmo rabínico como por exemplo o Talmud e a Mishná. Não seguem costumes judaicos rabínicos como o uso de kipá, peiot, tefilin e afins.

Ishak da Pérsia

No final do século VII, surgiu na Pérsia Ishak ben Ya’kub Obadiah Abu ‘Isa al-Isfahani de Ispahan. Ele viveu no reino do Califa Omíada Abd al-Malik ibn Marwan (684-705). Afirmou ser o último dos cinco precursores do Messias e ter sido nomeado por Deus para libertar Israel. De acordo com alguns, ele era o próprio Messias. Tendo reunido um grande número de seguidores, ele revoltou-se contra o califa, mas foi derrotado e assassinado em Rai. Os seus seguidores disseram que ele fora inspirado por Deus e mostraram como prova o fato de ter escrito livros apesar de ser analfabeto. Ele fundou a primeira seita a ter surgido do Judaísmo após a destruição do Templo.

O seu discípulo Yudghan, chamado Al-Ra’i (o pastor do rebanho do seu povo), que viveu na primeira metade do século VIII, declarou ser um profeta e foi visto pelos seus discípulos como um Messias. Ele era de Hamadã e ensinava doutrinas que afirmava ter recebido através da profecia. De acordo com Shahristani, ele opôs-se à crença do antropomorfismo, ensinou a doutrina da vontade livre, e sustentou que a Torah tinha um sentido alegórico em adição ao sentido literal. Ele preconizava que os seus seguidores levassem uma vida ascética, se abstivessem de carne e de vinho, e que rezassem e jejuassem frequentemente, seguindo nisto o seu mestre Abu ‘Isa. Ele afirmava que a observância do Shabat e de festividades era meramente uma questão de memorial. Após a sua morte, os seus seguidores formaram uma seita, os Iudghanitas, que acreditavam que o seu Messias não tinha morrido, mas sim que iria regressar.

Serene

Entre 720 e 723 um Sírio conhecido como Serene (o seu nome aparece em várias fontes como Sherini, Sheria, Serenus, Zonoria, Saüra) apareceu como o Messias, no reinado de Yazid II. Seu nome é uma forma latina (Serenus) de Shaáre Zedek; aparece também como Severus na obra Chronicon Syriacum de Gregorius bar Hebraeus.

A ocasião imediata para a sua aparição pode ter sido a restrição das liberdades dos judeus pelo Califa Omar II (717-720) e seus esforços de proselitismo. De uma perspectiva política, este Messias prometia a expulsão dos Muçulmanos e a restauração dos judeus na Terra Santa, de acordo com Isidoro Pacensis, muitos judeus na espanha abandonaram bens e propriedades para se juntarem a Serene. Como Abu ‘Isa e Yudghan, Serene foi também um reformador religioso. Ele era hostil ao Judaísmo Rabínico. Os seus seguidores não observavam as leis da alimentação, as preces instituídas por rabinos e a proibição contra o “vinho de libação”. Eles trabalhavam no segundo dia das festividades, não escreviam documentos para registrar casamentos e divórcios tal como as prescrições do Talmud, e não aceitaram as proibições do Talmud em relação ao incesto.

Serene foi preso e questionado pelo Califa Yazid II sobre suas qualidades messiânicas, não conseguindo responder às questões declarou que nunca teve nenhum plano real contra o Califa e que apenas desejava tirar um sarro dos judeus, aos quais foi entregue posteriormente para ser castigo. Os seus seguidores foram recebidos de volta a suas comunidades religiosas, graças a Natronai Gaon, após terem renunciado à heresia.

Inflamados com as chamas de Allah, após a morte de Maomé em 632 d.C., o exército árabe lançou-se com renovado fervor contra os povos que os dominavam. Após a vitória sobre os bizantinos e os persas, os muçulmanos recebem uma parte da Síria, a Palestina, o Egito e o norte da África, e então seguem para a Índia, ilhas mediterrâneas o sul da Itália e a Penísnula Ibérica. Os muçulmanos criam então um império gigante, marcado pelo desenvolvimento intelectual e artístico que entre em declínio durante o século IX. O domínio dos turcos sobre a Terra Santa já incomodava os cristãos do ocidente como uma ameaça que reprimia as peregrinações e os cristãos que viviam no oriente. Então em 1095, no concílio de Clermont, o papa Urbano II declara que um dos novos objetivos da Cristandade, como forma de penitência para ter deixado a Terra Santa cair nas mãos de muçulmanos, é tomá-la de volta. A multidão presente aceita a tarefa e inflamada pelo fogo do espírito santo monta um pequeno exército, identificado pela cruz vermelha pintada sobre suas roupas, o que lhes deu o nome de cruzados.

Um dos efeitos colaterais das cruzadas foi o aumento do números de Messias que surgiram. Maiomonides em suas cartas aos judeus Iemenitas (Iggeret Teman – אגרת תימן – ou epístola ao Iemen) cita três deles. Em 1087 surge um na França para ser assassinado pelos franceses, outro em 1117 na Província de Córdova e mais um em Fez em 1127.

Menahem

Em 1160 surge um novo movimento Messiânico na Pérsia, liderado por David Alroy.

Nascido em Amadia, no Curdistão, Alroy (também citado como Alrui) se tornou um estudioso da Bíblia e do Talmud, estudando os livros com Hisdai, o Príncipe do Exílio e Ali, o acadêmico chefe em Bagda. Ele era versado em literatura muçulmana e era conhecido por praticar magia.

Graças às cruzadas, o poder do Sultão da Ásia Menor e da Pérsia foi minado, e Alroy aproveitou as condições do Califado para assumir o nome “Menahem” e se declara o Messias enviado por Deus para libertar os judeus da opressão islâmica e levá-los de volta para Jerusalém, onde se tornaria Rei e todos viveriam em liberdade. Em todas as partes da região surgiam líderes muçulmanos criando novos estados independentes, desafiando a liderança do Califa. O surgimento de novas taxas abusivas criadas para serem pagas por todos os judeus homens com mais de 15 anos também foi um fator decisivo, usado por Alroy para fomentar a revolta. Agitando um grupo de judeus guerreiros que viviam nas montanhas de Chaftan no distrito vizinho de Adherbaijan, começou a formar seu grupo, conseguiu o apoio de seus correligionários em Mosul e Bagdá. Seu primeiro alvo foi um forte que existia em sua cidade natal.  A partir deste momento as lendas falam mais alto do que a história. Os pesquisadores da vida de Alroy dão, cada um, uma versão diferente do ocorrido, mas o resultado do ataque foi a derrota dele e de seus seguidores. O seu movimento falhou, e diz-se que teria sido assassinado, enquanto dormia, pelo seu próprio sogro. Mas a sua morte não chegou a destruir a crença em sua missão divina de redenção para o povo Judeu.

Logo após a morte de Alroy surgiram dois impostores, vindo de Bagdá, anunciando que traziam notícias do falecido Messias, que ele havia dito que em determinada noite seus seguidores deveriam se erguer nos ares e voar de Bagdá até Jerusalém e que no meio tempo deveriam entregar aos dois mensageiros suas propriedades. Esta fraude obteve um certo sucesso, mas podemos imaginar como terminou, e mesmo assim muitos seguidores continuaram surgindo em Khof, Salmas, Tauris, e Maragha, dando origem a uma seita conhecida como Menahemistas, para continuar reverenciando a memória do Messias de Amadia.

Doze anos após o surgimento e morte de David Alroy, em 1172, surge um suposto precursor do Messias apareceu no Iêmen. Nesta época os Muçulmanos estavam realizando certos esforços para converter os judeus que ali viviam. Ele declarou que as desgraças deste tempo eram um prognóstico da vinda do Reino Messiânico, e ordenava aos judeus que dividissem a sua propriedade com os pobres. Este pseudo-Messias foi tematizado pelo “Iggeret Teman” de Maimónides. Ele continuou com suas atividades por um ano, tendo depois sido preso pelas autoridades muçulmanas e decapitado após a sua própria sugestão, diz-se, de forma a poder provar a verdade da sua missão ao retornar à vida.

Abraão ben Samuel Abulafia

Com a chegada do século XIII os movimentos Messiânicos ganham uma nova ferramenta que antes não era muito utilizada, a Cabala. Em 1240 nasce na Espanha Abraão ben Samuel Abulafia, cabalista estudioso que, graças aos próprios estudos, acaba acreditando que é um profeta, e, em um livro profético publicado em Urbino em 1279, declara que Deus havia falado com ele. Foi para Messina, na ilha da Sicília, onde foi bem recebido e ganhou discípulos e em um trabalho que publicou em novembro de 1284 se declara o Messias, e anuncia 1290 como o ano do início da Era Messiânica. As pessoas, confusas apelam a Solomon ben Adret para analisar as afirmações de Abulafia, e tem como veredito a condenação do Messias, que passa a ser perseguido na Sicília por algumas congregações tendo que fugir para a ilha de Comino, próxima a Malta, em 1288, ainda convencido por seus estudos que estava em uma missão Messiânica. Dois dos seus discípulos, José Gikatilla e Samuel, ambos de Medinaceli, declararam mais tarde serem profetas e milagreiros. Samuel ficou famoso por profetizar em linguagem mística em Ayllon em Segóvia o advento do Messias.

Nissim bem Abraham

Um outro pretenso profeta foi Nissim ben Abraham, que viveu em Ávila, ele não chegou a se declarar o Messias, mas previu sua chegada. Seus seguidores diziam a seu respeito que apesar de ignorante e analfabeto, tinha sido iluminado subitamente por um anjo, e com o poder que recebeu, escreveu um livro místico “A maravilha da Sabedoria”. Novamente Solomon ben Adret é chamado para dar seu parecer sobre o novo profeta e novamente seu parecer é desfavorável e ele aconselha uma investigação cuidadosa. Nissim continuou com suas atividades e fixou até o último dia do quarto mês, Tammuz, 1295, como a data da vinda do Messias. Os crentes prepararam-se para o evento jejuando e dando para a caridade, e reuniram-se no dia designado. Mas em vez de encontrarem o Messias, encontraram pequenas cruzes presas aos seus vestimentos, talvez colocadas por descrentes para ridicularizar o movimento. Na sua decepção, alguns dos seguidores de Nissim ter-se-iam convertido ao Cristianismo. Não se sabe o que aconteceu ao profeta.

Moisés Botarel

Após o lapso de um século aparece um novo Messias. De acordo com Grätz o nome dele era Moisés Botarel de Cisneros, que teve como um de seus simpatizantes Hascai Crescas. A relação dos dois é discutida por Jerónimo da Santa Fé, o rabino Joshua Harloqui convertido por São Vicente Ferrer e que foi responsável pela Disputa de Tortosa em 1413 onde converteu muitos de seus correligionários.

Asher Lemmlein

Em 1502 surge um novo profeta predizendo a vinda do Messias, desta vez um profeta alemão. Asher Lemmlein (Lämmlein) apareceu em Ístria, perto de Veneza e anunciou a vinda do Messias para aquele mesmo ano, desde que os judeus fossem penitentes e praticassem a caridade, e então um pilar de nuvens e fumaça iria preceder os judeus no seu regresso a Jerusalém. Ele conquistou a simpatia e credibilidade de muitos seguidores, existem inclusive registro de muitos cristãos que acreditaram em suas profecias messiânicas. O cronista Ganz nos deixa o relato de seu avô destruindo um forno que era utilizado para se cozer o Matsá, pão ázimo sem levedura, o único que os judeus podem comer durante os oito dias de Pessah, por acreditar que na próxima celebração ele estaria em companhia do Messias na Palestina. Asher conseguiu reunir muitos seguidores na Itália e na Alemanha, vários deles cristãos. Por onde quer que ele passasse as pessoas jejuavam, rezavam e faziam caridade, aquele ficou conhecido como o “ano da penitência”. E então ele simplesmente desapareceu, e a agitação chegou a um fim.

David Reuveni e Salomão Molko

Em nossa lista de candidatos a Messias não podemos deixar de fora David Reuveni e Salomão Molko. O primeiro afirmou ser o embaixador e irmão do Rei de Khaibar. Khaibar era uma cidade no distrito de Hejaz, se encontrava a quatro dias de caminhada de Medina. Na época de Maomé o nome Khaibar era usado por toda a província e era habitada por inúmeras tribos judaicas, onde os descendentes das “tribos perdidas” de Rubem e Gad supostamente viviam.

Existem inúmeras tradições sobre a fundação da cidade pelos judeus, uma delas afirma que eles chegaram no local na época de Moisés (o patriarca, não o Messias grego), outra afirma que foi na époce de Saulo, que foi enviado para exterminar os Amalekitas), na época de Davi, quando ele fugiou diante de seu filho Absalon, mas a suposiçõa mais provável é a de Rapoport, que os judeus de Haibar são os descendentes de Jonadab b. Rachab, que os fez viver uma vida nômade.

David Reuvani ainda fez um apelo ao Papa e aos países europeus que lhe enviassem canhões e armas de fogo para iniciar uma guerra contra os muçulmanos, que impediam que os judeus que viviam em margens opostas do mar vermelho se reunissem. É interessante frisar que ele mesmo sempre negou veementemente ser um profeta ou um Messias, afirmava a todos que era apenas um guerreiro, mas a boa vontade com que foi acolhido pelo Papa em 1524 e a audiência que lhe foi concedida nas cortes portuguesas em 1525 (a convite do Rei D. João III), onde recebeu pela primeira vez a promessa de ajuda e a pausa temporária na perseguição aos Marranos, fez com que os Marranos Portugueses e Espanhóis acreditassem era aquele que anunciaria a vinda do Messias. Isso fez com que Selaya, o inquiridor de Badajoz, se queixasse ao Rei de Portugal que um Judeu vindo do Oriente vinha suscitando aos Marranos espanhóis a esperança de que o Messias chegaria e iria liderar os filhos de Israel de todas as suas terras de volta à Palestina, e que tinha mesmo encorajado que realizassem manifestações públicas. Um espírito de expectativa cresceu durante a estadia de Reuveni em Portugal. Uma mulher marrana da região de Herara, em Puebla de Alcocer declarou ser uma profeta, teve visões, e prometeu liderar os seus correligionários para a Terra Santa. Como era o costume na época, ela recebeu o tratamento que mulheres que diziam ter visões e causavam agitação recebiam: foi queimada viva, juntamente com quem acreditava nela.

Apesar disso o evento mais importante causado pela presença de Reuvani foi a conversão de Marano Diogo Pires (b. c. 1501; d. 1532) ao judaísmo. Marano nasceu cristão e Portugal, e recebeu o nome de batismo de Diogo Pires. Ele tinha o cargo de secretário em uma das cortes mais importantes em seu pais natal. Quando David Reuvani surgiu, vindo da África para Portugal, em sua missão política, Marano decidiu se unir a ele, e foi rejeitado. Ele então se circuncisou, o que não o fez cair nas graças de Reuvani, e emigrou para a Turquia, com um patrocínio farto. Adotou o nome de Salomão Molko. Era um visionário e acreditava em sonhos, estudou cabala com Joseph Taytazak e conheceu Joseph Caro. Ele então vagou como pregador através da Palestina onde conseguiu uma grande reputação e anunciou que o reino Messiânico chegaria em 1540. Em 1529 Molko publicou alguns de seus sermões sob o título e Derashot – ou Sefer ha-Mefo’ar. Quando rumou para a Itália encontrou a oposição de vários judeus proeminentes que temiam que ele confundisse seus correligionários, mas ele consegue o apoio do Papa Clemente VII, e de alguns cardeais anti-semitas em Roma. Muitos afirmam que ele previu para o Papa uma inundação que atingiu Roma e vários outros lugares.

Graças a seus estudos que envolviam a Cabala e outros tópicos estranhos, Molko sentiu que nada seria mais justo do que se proclamar o Messias, ou ao menos seu precursor. Acompanhado por David Reubeni, que ele conheceu na Itália, rumou para Ratisbon, em 1532 onde o imperador Charles V se encontrava realizando uma dieta. Nesta ocasião Molko carregou uma bandeira com a inscrição מכבי, uma abreviação do versículo 11 do décimo quinto capítulo do livro do Êxodo: O SENHOR, quem é como tu entre os deuses? (em hebraico a tradução desta passagem seria: Quem dentre os poderosos é como Deus?). O imperador aprisionou Molko e Reubeni, e os levou consigo de volta para a Itália. Em Mantua, uma corte eclesiástica sentenciou Molko à morte na fogueira. Quando estava amarrado no tronco o emperador ofereceu o perdão a ele, com a condição de retornar para a igreja, mas Molko recusou, pedindo pela morte de um Mártir.

Isaac Luria,  Hayyim Vital Calabrese e Abraão Shalom

Isaac Luria (Isaac ben Solomon Ashkenazi Luria), juntamente com Ḥayyim Vital Calabrese, seu maior discípulo e sucessor) foi o fundador da escola moderna da Cabala. Luria ensinava em seu sistema místico a transmigração e superfetação (Concepção de novo feto, quando já existe outro no útero) das almas, e acreditava ele próprio possuir a alma do Messias da casa de José e ter como missão apressar a vinda do Messias da linha de David através da evolução mística das almas. Tendo desenvolvido o seu sistema Cabalístico no Egito, sem no entanto conseguir ali muitos seguidores, ele foi para Safed, Israel, por volta de 1569. Foi ali que conheceu Hayyim Vital Calabrese, a quem revelou os seus segredos e através de quem assegurou muitos seguidores. A estes ensinou secretamente o seu messianismo, acreditando que a era messiânica teria início no princípio da segunda metade do segundo dia (do ano 1000) após a destruição do templo de Jerusalém, ou seja, em 1568.

Com a morte de Luria em 1572, Hayyim Vital Calabrese reivindicou ser o Messias Efraíta e pregou o breve advento da era Messiânica. Em 1574, Abraão Shalom, um pretendente a Messias Davídico, enviou um comunicado a Vital, dizendo que ele (Shalom) era o Messias da casa de Davi, enquanto que Vital era o Messias da casa de José. Ele pediu a Vital que fosse a Jerusalém e que ali ficasse pelo menos dois anos, com o que o espírito divino iria chegar-lhe. Shalom ainda disse a Vital, por fim, que não receasse a morte, o destino do Messias Efraíta, já que ele iria tentar salvá-lo dessa perdição.

Após quatro décadas encontramos um registro no “De Pseudo-Messiis”, no capítulo iv, parágrafo 15, outro Messias que teria aparecido em Coromandel em 1615.

Sabbatai Zevi e os Messias Cabalísticos

Um dos movimentos Messiânicos mais importantes surgiu na metade do século VII e em alguns lugares chegou a persistir por mais de 100 anos. Sabbatai Zevi nasceu no nono dia de Ab (dia 23 de julho de 1626), descendente de espanhóis, em Smyrna, e morreu dia trinta de setembro de 1676 em Duleigno, uma pequena cidade da Albânia.

De acordo com os costumes dos judeus orientais da época, Sabbatai deveria se tornar um estudioso do Talmude, quando jovem atendeu o yeshibah sob o tutelado do rabi veterano Joseph Escapa, mas ele nunca demonstrou muito interesse por esses estudos. Ele era fascinado pela Cabala e o sistema desenvolvido por Isaac Luria, especialmente pela Cabala prática com seu ascetismo e mortificação do corpo, práticas que, de acordo com seus praticantes, tornavam possível um contato com Deus e com os anjos, predizer o futuro e realizar todo o tipo de milagre. Ele teve uma infância solitária e de acordo com o costume da época se casou muito jovem, mas se recusou a realizar o ato sexual com sua esposa, de forma que ela pediu um divórcio e ele de boa vontade o garantiu. O mesmo aconteceu com sua segunda mulher. Quando começou a estudar mais profundamente a Cabala começou a se mortificar, a jejuar dia após dia e a viver em um constante estado de êxtase.

Paralelamente um outro fenônemo estava surgindo, desta vez graças aos cristãos. Durante a primeira metade do século XVII teve início a crença sobre a aproximação da Era Messiânica e a da redenção dos judeus e seu retorno a Jerusalém. Essa crença era difundida cada vez mais não apenas por judeus, mas por cristãos também, que acreditavam que o ano do apocalipse seria o de 1666. A crença era tão difundida e aceita que Manasseh ben Israel escreveu uma carta para Cromwell e para o Parlamento Inglês urgindo a readmissão dos judeus na Inglaterra, afirmando que “a opinião de muitos cristãos assim como a minha concordam aqui que ambos acreditamos que o tempo de restauração de nossa nação em seu pais nativo está muito próxima e à mão”. Além disso existe uma passagem muito popular entre os judeus no Zohar, que quando interpolada da maneira correta afirma que o ano da redenção de Israel pelo Messias seria o de 1648.

Esse conjunto de fatos e crenças teve um efeito muito forte na mente extasiada de Sabbatai e o levou à conclusão mais lógica que ele poderia chegar: ele era o Messias esperado por todos. E então com apenas 22 anos, em 1648, ele se revelou em Smyrna para aqueles que, impressionados com seus trabalhos com Cabala, carisma e atos fora do comum, o seguiam como o Redentor Messiânico enviado por Deus para acabar com os governos das nações e liderar Israel de volta para Jerusalém. O método que escolheu para se revelar foi pronunciar o Tetragrammaton em hebreu, um ato que só podia ser realizado pelo sumo sacerdote na Santuário no dia do Yom Kippur, o dia mais sagrado para os judeus. Apesar de sua ousadia a sua pouca idade não lhe garantiu muitos seguidores, mas dentre os primeiros que simpatizaram com sua empreitada estavam Isaac Silveyra and Moses Pinheiro. Sabbatai continuou em Smyrna por alguns anos, levando uma vida pia, mística e com certos atritos com a comunidade, mas quando suas pretensões messiânicas se tornaram muito evidentes o colégio dos Rabinos o baniu junto com seus seguidores.

O que se seguiu não é muito claro, em 1653 ou 1658 ele esteve em Constantinopla, onde conheceu Abraham ha-Yakini (um discípulo de Joseph di Trani, um homem de grande inteligência e reputação), que confirmou as declarações de Sabbatai. Neste época surgiu um documento entitulado “A Grande Sabedoria de Salomão”, que atestava o messianismo de Sabbatai, dizendo:

“Eu, Abrahão, fui confinado em uma caverna por quarenta anos, e ponderei muito sobre o tempo dos milagres, que não havia chegado ainda. Então uma voz se fez ouvir, proclamando: ‘Um filho nascerá no ano de 5386 (1626) para Mordecai Zevi; e ele será chamado de Shabbatai. Ele vencerá o grande dragão;… ele, o verdadeiro Messias, se sentará sobre o trono (de meu Deus).”

Munido deste documento, tido por muitos como uma revelação real, Shabbatai escolheu Salonica, na época um ponto de encontro de Cabalistas, como o seu campo de operações. Ali ele se proclamou novamente como o Messias, e ganhou muitos seguidores. Como consequência os Rabinos de Salonica o baniram da cidade, e ele segue seu caminho passando por Alexandria, Atenas, Constantinopla, Jerusalém, Smyrna e outros lugares, finalmente após uma longa jornada ele chega ao Cairo onde viveu por dois anos. Mas aparentemente Shabbatai não achava que o Egito era o local ideal para os acontecimentos que previa, o ano apocalíptico 1666 se aproximava e algo definitivo deveria ser feito para estabelecer que ele era o Messias sem deixar quaisquer sombras de dúvidas. Ele então deixa o Egito e ruma para Jerusalém, esperando que na cidade santa algum milagre acontecesse e confirmasse seu destino para todos. Chegando lá ele começa a meditar, jejuar, realizar atos de caridade para crianças e passa as noites cantando Salmos, isso faz com que ganhe a simpatia de muitas pessoas. Neste ponto um incidente inesperado o leva de volta ao Cairo, com a missão de arrecadar uma grande soma em dinheiro para reparar uma calamidade engendrada contra  Jerusalém por oficiais turcos. Shabbatai consegue arrecadar o dinheiro, o que lhe garantiu um prestígio ainda maior.

Carregado com o dinheiro e com uma esposa que encontrou no caminho (e um número crescente de seguidores) ele volta triunfante para a Palestina, atravessando a cidade de Gaza ele encontra Nathan Ghazzati, que se torna seu o braço direito e afirmava ser o Elijah, aquele que tomaria o lugar do Messias. Em 1665 Ghazzati proferiu que a Era Messiânica teria inicio no ano seguinte. Essa revelação surgiu com grandes detalhes, ele afirmava que o mundo seria conquistado por ele, O Elijah, sem derramamento de sangue, que então o Messias lideraria para a Terra Santa as dez tribos, “montado em um leão com sete cabeças de dragão em suas mandíbulas”. Tudo isso, é claro, foi aceito por todos. Finalmente no outono de 1665 Shabbatai ele é aclamado como Messias por todos.

No início de 1666 ele se dirige novamente para Constantinopla, esperando pelo milagre que realizasse a profecia de Ghazzati que dizia que Shabbatai colocaria a coroa do Sultão em sua própria cabeça. Tão logo colocou o pé na cidade foi preso ao comando do Grão Vizir, Ahmad Koprilli e foi jogado, acorrentado, na prisão. Seu aprisionamento, entretanto, não teve nenhum efeito negativo, nem para ele, nem para seus seguidores. Ao contrário o tratamento tolerante que recebeu apenas confirmou a fé de todos de que ele era o Messias. Após dois meses de encarceramento em Constantinopla, Shabbadai foi levado à prisão estadual no castelo de Abydos, onde recebeu um tratamento ainda mais condescendente e alguns de seus amigos ainda puderam acompanhá-lo. Em consequência disso os Shabbateanos deram à fortaleza o nome de Migdal ‘Oz (Torre da Força). No dia que foi levado para Abydos abateu um cordeiro para si e seus amigos, já que era o dia antes do Páscoa e o comeu com a gordura, o que era uma violação da Lei, e antes de comer o animal ele pronunciou: “Bendito seja Deus, que fez limpo o que era abominação”. Nesta época acontece um incidente que contribuiria com a queda de Shabbatai, que até o momento estava vivendo como um príncipe na fortaleza.

Dois estudiosos do Talmud, poloneses de Lemberg, que estiveram entre os visitantes de Shabbatai em Abydos, o informaram sobre um profeta originário de Lemberg, Nehemia ha-Kohen, que havia anunciado a vinda do Messias. Shabbatai ordenou que trouxessem o profeta à sua presença. Nehemia obedeceu, e chegou a Abydos em setembro de 1666 e a conferência entre ambos terminou com a insatisfação mútua e dizem que os Shabbateanos fizeram planos de assassinar o profeta rival.

Nehemiah, entretanto, escapou para Constantinopla, onde se converteu, tornando-se maometano e traiu Shabbatai. O Sultão Mohammed IV, foi tirado de Abydos e levado a Adrianopla, onde o médico do Sultão informou a Shabbatai que ele deveria abraçar o Islã como única maneira de se salvar. No dia 16 de Setembro de 1666 ele foi levado diante do sultão onde se desfez de suas vestes judaicas e colocou na cabeça um turbante, se convertendo. O sultão ficou muito satisfeito, e deu a Shabbatai o cargo de Effendi, e o contratou pagando um alto salário. A esposa de Shabbatai e alguns de seus seguidores também se converteram, e alguns dias após sua conversão ele escreveu para Smyrna: “Deus me tornou um ismaelita, Ele comandou e foi feito. O nono dia da minha regeneração”.

Os efeitos da conversão do Messias foram devastadores na comunidade judaica, rabinos proeminentes que era seguidores de Shabbatai se prostravam em vergonha. Entre as massas uma grande confusão reinou.

Por um tempo Shabbatai permaneceu fazendo um jogo duplo, em março afirmando ter sido tomado pelo Espirito Santo disse ter recebido uma revelação. Ele, ou um de seus seguidores, publicou um trabalho místico endereçado para os judeus afirmando entre outras coisas que ele era o Redentor, apesar de sua conversão, cujo objetivo real era converter para o judaísmo milhares de muçulmanos. Para o sultão ele dizia que suas atividades com os judeus eram para convertê-los ao islamismo. Esse jogo duplo entre judeus e muçulmanos não poderia durar muito e pouco tempo depois ele foi deprivado de seu salário e banido. Terminou seus dias em obscuridade em Dulcigno, um lugarejo na Albânia.

Após a morte de Shabbatai seguiu-se uma linha hereditária de Messias. Jacob Querido, filho de Joseph Filosof, e irmão da quarta mulher de Sabbatai, tornou-se líder dos Shabbatheanos em Salônica, sendo visto como a encarnação de Shabbethai. Ele afirmava-se filho de Sabbatai e adotou o nome Jacob Tzvi. Com 400 seguidores converteu-se ao Islã por volta de 1687, formando uma seita chamada Dönmeh. Ele próprio chegou mesmo a peregrinar a Meca (c. 1690). Após a sua morte, o seu filho Berechiah ou Berokia sucedeu-o (c. 1695-1740).

Vários seguidores de Shabbatai declararam-se eles próprios Messias. Miguel Abraham Cardoso (1630 – 1706), nascido de pais marranos, pode ter sido iniciado no movimento Shabbatheano por Moisés Pinheiro em Livorno. Ele tornou-se um profeta do Messias, e quando o último se converteu ao Islão, ele chamou-o de traidor, dizendo que é necessário que o Messias se conte entre os pecadores por forma a expiar a idolatria de Israel.

Ele aplicou a passagem de Isaías LIII a Sabbatai, e enviou epístolas que provariam que ele era o verdadeiro Messias, chegando mesmo a sofrer a perseguição por defender a sua causa. Mais tarde, considerou-se um Messias Efraíta, argumentando com alegadas marcas no seu corpo que o provariam. Pregou e escreveu sobre vinda em breve do Messias, marcando datas diferentes, até que acabou por morrer.

Outro seguidor de Shabbatai que lhe permaneceu fiel, Mordecai Mokia, ou Mordekay Mokiah (“o admoestador”) de Eisenstadt, que também afirmou ser um Messias. O seu período de atividade foi de 1678 a 1682 ou 1683.

Defendeu inicialmente que Shabbatai era o verdadeiro Messias e que a sua conversão tinha sido necessária por motivos místicos. Pregava que este não morrera mas que se iria revelar dentro de três anos após a sua suposta morte, e apontou para as perseguições de judeus em Oran (Espanha), na Áustria, e em França, e a pestilência na Alemanha como presságios da sua vinda.

Encontrou seguidores entre judeus da Hungria, Morávia e da Bohemia. Dando ainda um passo a mais, ele se declarou como o Messias Davídico. Shabbatai, de acordo com ele, passou apenas a ser o Messias Efraíta. Como tinha sido rico, significava que não poderia executar a redenção de Israel. Ele, Mordecai, sendo pobre, era o Messias verdadeiro e ao mesmo tempo a encarnação da alma do Messias Efraíta.

Judeus italianos, ouvindo falar dele, convidaram-no a ir até Itália. Viajou para lá por volta de 1680, tendo sido bem recebido em Reggio e Modena. Falou das preparações messiânicas que teria que fazer em Roma e deu a entender que talvez adotasse o Cristianismo exteriormente. Denunciado à Inquisição ou aconselhado a deixar a Itália, ele regressou à Bohemia, onde se diz que se tornou demente. A partir deste tempo, uma seita começou a tomar forma ali, e persistiu até à era Mendelsoniana.

Judas Leib (Leibele) (Löbele) Prossnitz foi um cabalista nascido no fim do século XVII em Brodi, na Galícia. Ele deixou sua cidade natal e seguiu para Prossnitz, na Morávia, onde se casou. Ele era extremamente pobre, vivendo em uma cabana abandonada, tida como mal assombrada por muitos e em uma noite ele afirmou que iria evocar Shekiná e fazê-la aparecer diante de uma multidão.

Shekiná, שכינה em hebraico, é no judaísmo a faceta da revelação divina aos homens, a “Divina Presença”, sendo também considerada a face “feminina” e “materna” dela. O vocábulo “shechiná” não aparece na Bíblia Judaica nem no Novo Testamento, de acordo com a concepção cabalística e do ramo hassidísmo do judaísmo, a Shechiná é uma energia cósmica poderosíssima em si mesma, que habita no “interior” do Universo e vivifíca-o, sendo a sua “alma” ou “espírito”. Apesar de não constar nas escrituras a Shekiná é uma idéia concreta na literatura rabínica. E para se entender a grandiosidade da promessa de Judas, esta faceta da divindade é o meio comunicativo entre o homem e Deus.

Para realizar o feito, Judas colocou uma cortina, atravessando seu quarto de ponta a ponta, atrás dela ele acendeu uma mistura de de álcool e querosene. Então, vestindo um manto branco ele ficou atrás da cortina e a luz atrás dele fazia a imagem das letras do tetragrammaton, que ele havia dependurado no peito, brilharem. Os espectadores se agitaram, estando na presença de um milagre, até que um dos presentes arrancou a cortina do lugar e revelou a fraude. Judas foi excomungado pelos rabinos da Morávia.

Apesar de tudo, Judas encontrou muitos seguidores dentre os Shabbateanos, ele se autoproclamou o Messias ben Joseph (Messias filho de José) e assinava seu nome como Joseph ben Jacob (José, filho de Jacó) e pregava que desde o surgimento de Shabbatai Zevi, Deus havia dado a ele a missão de guiar o mundo, quando ascendeu aos céus a missão foi passada a Jonathan Eybeschütz e finalmente caia nas mãos de Judas. Perambulou de cidade a cidade na Austria e Alemanha, onde arrecadava dinheiro de muitas pessoas. Em 1725 sua excomunhão foi renovada e ele se mudou para a Hungria. A história registra que ele morreu lá entre os não judeus.

Outro, Isaías Hasid (um cunhado do Shabbatheano Judah Hasid), que vivia em Mannheim, afirmou secretamente ser o Messias ressuscitado apesar de ter publicamente abjurado de quaisquer crenças Shabbatheanas.

Jacob Frank, fundador dos Franquistas, também afirmou ser o Messias. Na sua juventude tinha tido contato com o Dönmeh. Ele ensinava que era uma reencarnação de Shabbatai e do Rei Davi. Tendo conseguido alguns seguidores entre os judeus da Turquia e de Valáquia (na atual Romênia), ele veio em 1755 até a Podolia, onde os Shabbatheanos necessitavam de um líder, e revelou-se como a reencarnação da alma de Berechiah.

Enfatizou a ideia do “rei sagrado” que seria ao mesmo tempo Messias, tendo-se denominado apropriadamente de “santo señor”. Os seus seguidores afirmam que realizou milagres, tendo chegado mesmo a rezar para ele.

O seu objetivo (e o da sua seita) era o de acabar com uma vez por todas com o judaísmo rabínico. Foi forçado a deixar Podolia; e seus seguidores foram perseguidos.

Regressando em 1759, aconselhou os seus seguidores a converterem-se ao cristianismo. Cerca de 1000 deles converteram-se, tornando-se polacos gentios com origens judaicas. Ele próprio converteu-se em Varsóvia em Novembro de 1759.

Mais tarde a sua falta de sinceridade foi exposta e foi emprisionado por heresia, permanecendo no entanto, mesmo encarcerado, o líder de sua seita.

Moises Hayyim Luzzatto, o poeta, também acreditou ser o Messias. Ele havia sido iniciado na Cabala e, desiludido com a sua ocupação com o Zohar e influenciado pela atmosfera Cabalista em que vivia, ele acreditava que um espírito divino lhe havia dado uma iluminação nos mistérios e terminou acreditando que estaria destinado a redimir Israel graças ao “Segundo Zohar” que ele mesmo escreveu. Sua Cabala foi mantida, num primeiro momento, em um círculo fechado de discípulos, mas quando o segredo foi revelado Luzzato fez um juramento de que ele não escreveria, publicaria ou ensinaria mais suas doutrinas a não ser que fosse para a Palestina. Ele retornou com suas atividades Cabalistas e foi excomungado várias vezes. Mais ou menos em 1744 ele foi para a Palestina, onde poderia seguir com seus estudos sem ser incomodado, ou para realizar seu destino de Messias. Ele morreu lá.

Shukr Kuhayl

Shukr ben Salim Kuhayl I também conhecido como Mari (Mestre) foi um Messias do Iemem. Ele se revelou primeiro em San’a em 1861, como um mensageiro do Messias, em uma época que havia uma grande expectativa por parte do povo do surgimento do Prometido. Se divorciando de sua esposa ele deu início a uma vida de pregador intinerante para ter uma vida de pobreza e exortar a todos que se arrependessem. ENo Sabbath de maio de 1861 ele declarou que “Eu venho para avisar a todos e lembrá-los do arrependimento e da redenção”.

Ele aparentemente era um indivíduo pio, asceta e humilde, que se trajava com retalhos e vivia em solidão no Monte Tiyal, mas em algum momento ele começou a dar a entender que não era mais o mensageiro do Messias e sim o próprio. Ele escrevia fórmulas messiânicas em suas mãos e corrigia os textos sagrados, inserindo a si mesmo nas narrativas bíblicas. Um viajante judeu chamado Jacob Saphir registrou que quase todos os judeus do Iemem naquela época acreditavam nas proclamações messiânicas de Shur Kuhayl I.

Kuhayl morreu pouco depois disso, morto por árabes em 1865, supostamente a mando do imã que controlava a capital de San’a e que enxergava uma ameaça em Kuhayl, mas mesmo assim muitos de seus seguidores não aceitaram o seu fim e esperavam que ele retornasse em breve. E essa espera foi recompensada em pouco tempo com o surgimento de Judah ben Shalom, que afirmou a todos ser o mesmo Shur Kuhayl que havia sido morto e estava retornando.

Judah ben Shalom era um artesão de San’a e como seus antecessores era um cabalista. Em março de 1868 ele anunciou que era de fato Shukr Kuhayl I, que havia sido morto e decapitado por árabes três anos antes e ressuscitado por Elias.

O novo Shur Kuhayl continuou pregando as mensagens de arrependimento com que todos já estavam acostumados. Para os Judeus ele proclamava ser o Messias enviado para libertá-los, para os árabes ele anunciava ser um muçulmano enviado para anunciar a chegada do Mahdi. Realizar milagres não fazia parte de seu repertório, e ele chegou a notar isso em algumas de suas correspondências, mas acreditava que a principal causa para isso era que Deus ainda não havia liberado a permissão para a realização de milagres porque aguardava o momento em que todos os judeus se unissem e o aceitassem como seu Messias.

Diferente de sua primeira encarnação, Judah ben Shalom não era um pregador intinerante, ele chegou a desenvolver uma estrutura muito bem organizada que incluia centenas de funcionários, de seu quartel general ele mantinha vasta correspondência com líderes judeus em várias comunidades, principalmente com o propósito de angariar fundos.

Apesar de sua aceitação, Shukr Kuhayl II encontrou resistência de certas pessoas, especialmente aquelas que conhecial o primeiro Shukr e afirmavam que o seu novo estilo de vida cheio de luxos era incompatível com sua vida prévia.

Eventualmente foi Jacob Saphir, que refutou as alegações messiânicas de Judah e contou com apoio de vários rabinos de jerusalem para acabarem com o status de Kuhayl II perante os líderes das comunidades judias que o mantinham financeiramente. Quano o dinheiro parou de chegar ele foi obrigado a fazer empréstimos com os árabes e, por não conseguir pagar esses empréstimos, terminou na cadeia. Liberado depois de um tempo nunca mais foi capaz de reunir seguidores e morreu em estado de pobreza em 1878.

Uma das principais consequências desses movimentos messiânicos causados por Shabbatai e seus seguidores foi o da marginalização da Cabala. Aparente qualquer um que desejasse provar que era um profeta ou mesmo o Messias, com algum conhecimento desta ferramenta, poderia chegar a “provas” de que era legítimo. Depois desta época os estudos da Cabala foram ridicularizados pela maioria das pessoas e ela até hoje é tida como superstição dentre a maioria das comunidades judaicas.

Menachem Mendel Schneerson

Dentro do movimento Chabad Lubavitch do Judaísmo chassídico houve um crescente fervor messiânico nos finais da década de 1980 e princípios da década de 1990, devido à crença que o seu líder, Menachem Mendel Schneerson estaria prestes a revelar-se como o Messias.

Menachem Mendel Schneersohn, nascido em 1902, ficou conhecido por seus seguidores como O Rebe , foi um rabino ortodoxo, o sétimo e último Rebe do movimento Chabad Lubavitch. Em 1950, com a morte de seu sogro, o Rabbi Yosef Yitzchok Schneersohn,  ele recebe a visita de uma delegação de chassidim idosos com uma petição aceitando-o como seu Rebe, ele então colocou a cabeça entre as mãos e começou a chorar. “Por favor, me deixem” – suplicou ele. “Isso nada tem a ver comigo.” Após um ano de episódios como esse, finalmente aceitou o cargo. Assim mesmo, havia uma condição. “Eu ajudarei” – anunciou o Rebe – “mas cada um de vocês terá de cumprir sua própria missão. Não esperem ficar pendurados nas franjas de meu talit.” Desta forma ele assume a liderança do movimento Lubavitchiano até sua morte em 1994.

Em 1991 ele declarou a seus seguidores que: “Eu fiz tudo o que podia (para trazer o Messias), e agora estou passando para vocês (esta missão, façam tudo o que puderem para trazer o Messias.” Tem início então a uma campanha para que a era Messiânica tivesse início através de “atos de bondade e gentileza”.

Pouco antes de sua morte um número considerável de Chabad Hasidim acreditavam que ele logo se manifestaria como o Messias. Segundo seus seguidores, Rav. Menachem Mendel Schneersohn era dotado de grande sensibilidade, o que fazia com que fosse consultado por milhares de pessoas todos os anos, em busca de conselhos para suas vidas pessoais. Muitos destes conselhos e suas consequências acabaram por serem vistos como “milagres” por aqueles que os buscavam.

Surge então um movimento que acreditava ter a missão de convencer o mundo de que o Rebe era de fato o Messias e que assim que todos aceitassem isso ele seria levado à revelação de seu papel. Aqueles que aderiam a esse movimento eram chamados de Meshichistas, e era comum cantarem: “Yechi Adoneinu Moreinu v’Rabbeinu Melech haMoshiach l’olom vo’ed!” (“Vida longa a nosso mestre, professor e Rabi, o Rei Ungido, para sempre e sempre) quando estavam na sua presença.

A morte de Schneerson em 1994 abateu um pouco este sentimento, apesar de muitos seguidores de Schneerson ainda acreditarem que ele é o Messias e que irá regressar em devido tempo.

 

Notas:

[1] Êxodo capítulo 14

Versículo 4 – E eu endurecerei o coração de Faraó, para que os persiga, e serei glorificado em Faraó e em todo o seu exército, e saberão os egípcios que eu sou o SENHOR. E eles fizeram assim.

Versículo 8 – Porque o SENHOR endureceu o coração de Faraó, rei do Egito, para que perseguisse aos filhos de Israel; porém os filhos de Israel saíram com alta mão.

Versículo 17 – E eis que endurecerei o coração dos egípcios, e estes entrarão atrás deles; e eu serei glorificado em Faraó e em todo o seu exército, nos seus carros e nos seus cavaleiros,

Versículo 18 – E os egípcios saberão que eu sou o SENHOR, quando for glorificado em Faraó, nos seus carros e nos seus cavaleiros.

Versículo 26 – E disse o SENHOR a Moisés: Estende a tua mão sobre o mar, para que as águas tornem sobre os egípcios, sobre os seus carros e sobre os seus cavaleiros.

Versículo 28 – Porque as águas, tornando, cobriram os carros e os cavaleiros de todo o exército de Faraó, que os haviam seguido no mar; nenhum deles ficou.

Versículo 29 -Mas os filhos de Israel foram pelo meio do mar seco; e as águas foram-lhes como muro à sua mão direita e à sua esquerda.

Versículo 30 -Assim o SENHOR salvou Israel naquele dia da mão dos egípcios; e Israel viu os egípcios mortos na praia do mar.

Versículo 31 -E viu Israel a grande mão que o SENHOR mostrara aos egípcios; e temeu o povo ao SENHOR, e creu no SENHOR e em Moisés, seu servo.

E nós podemos ouvir as vozes perguntando: Por que, Senhor? Eles já estavam livres? Afogar aquela gente toda a troco de que?

[2] Aleister Crowley LIBER LVIII, GEMATRIA UM ARTIGO SOBRE QABALAH – THE EQUINOX I(5)

por Rev. Obito

Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/movimentos-messianicos-os-messias-judeus/

Como não dormir na missa

Só existe uma forma de uma pessoa normal não pegar no sono durante uma missa soleme: mudá-la completamente.

O movimento Jesus Freak alegra-se em trabalhar incansavelmente na ruptura da lógica centralizadora que tem regido o cristianismo desde a Idade Média.  Esta centralização é reforçada diariamente em diversos templos de diversas dominações nos quais os rituais são dirigidos por uma elite sacerdotal com diferentes graus de interação com o público, mas ainda assim, dividido sempre entre leigos e sacerdotes. Talvez essa divisão possuísse certa coerência na época de Arão no antigo testamento (Números 3:10). Porém, torna-se uma ideia completamente estapafúrdia para a nova aliança, onde segundo I Pedro 4:16 todo aquele que se chama cristão é honrado como sacerdote.

Uma vez que os morcegos das tradições humanas eclipsam o Sol da verdade é necessário que algumas dessas tradições sejam revisadas ou mesmo abolidas. Caso contrário o cristianismo estará fadado ao sono profundo e aos jogos de poder que podemos ver hoje em seus templos. É por este motivo  os Jesus Freaks incentivam a retomada dos verdadeiros valores cristãos de fraternidade deixando para  trás o centralismo e o fanatismo que não apenas foram condenados por Jesus Cristo em sua época como agem hoje como ervas daninhas sufocando o crescimento de um espírito espontâneo de conhecimento e adoração.

Nós propomos que o culto cristão seja revolucionário:

Roteiro Rápido

1 – Ação de graças
2 – Leitura
3 – Comentários
4 – Oração
5 – Comunhão
6 – Bençãos

Roteiro Detalhado

0 – Preparação

Um momento musical pode preceder o culto (ver artigo ‘Transliturgia: Todas as músicas são sagradas’). Deve-se evitar uma disposição no formato altar ou palco. Todos os participantes são absolutamente iguais. Recomenda-se uma mesa ou um circulo no chão. Não é preciso uma grande congregação ou mesmo um templo físico para organizar uma reunião. Um grupo com pelo menos 2 corações sinceros é tão digna da presença de Deus quanto um showmissa em uma catedral. Não recomendamos grupos com mais de 12 pessoas para preservar a organização do culto. Em casos de é comum que entre os Freaks uma divisão em dois novos grupos, estimulando assim o crescimento do movimento.

1 – Ação de Graças

Cientes da presença divina, o grupo inicia a missa com as ações de graças. Uma pessoa de cada vez deve esforçar-se em divulgar aos irmãos presentes algo em sua vida pelo que sinta-se grata. Saúde, amor,prosperidade, sexo com a vizinha, não importa o que for, deve ser compartilhado nesse momento com a comunidade em sincera alegria. Todos os presentes podem expressar-se, mas quem quiser se calar agora também pode fazer isso. Lembre-se, são todos irmãos, não há do que se envergonhar.

2 – Leitura

Esse é o momento em que se inicia a leitura das escrituras sagradas. Esse momento exige um cuidado especial, para evitar a manipulação política e ideológica dos muitos pelos poucos. Desta forma, o aleatório é muito bem vindo. Recomendamos alguns mecanismos de sorteio como dados ou papéis fechados em sacolas que possam decidir o texto e livro a ser lido e quem o lerá. É sensato não prolongar muito a leitura, portanto devem ser lidas apenas porções pequenas mas coesas dos textos que contemplem um ou mais ensinamentos. O Movimento Jesus Freak não faz diferenças entre Livros Canônicos ou Apócrifos deixando o coração de cada um ser o filtro da verdade.

3 – Observações

Após a leitura todos terão a oportunidade de deixar seu testemunho sobre o texto em questão. Os interessados devem manifestar-se levantando uma das mãos ou emitindo algum outro sinal durante a leitura. Este é o belo momento de compartilhar e deixar de lado a contenda. Ninguém deve ser criticado ou julgado pelo que disser, por isso não haverá réplica sobre comentários. Exemplificando: Se um ateu achar que um versículo lido é um indício da inexistência de Deus e expressar-se assim, os demais deverão exercitar a tolerância e o amor cristão em silêncio.

4 – Oração

Para criar uma harmonia no grupo após eventuais tensões nos comentários todos devem fazer uma oração ou no se preferir aguardar em silêncio. Alguns grupos podem optar por um Pai Nosso em unissono, outros podem escolher que esta é a hora de um fervor multi-línguas no qual, ao mesmo tempo, todos farão suas próprias orações outro grupo ainda pode achar mais apropriado que cada um faça sua oração em voz baixa ou apenas com os pensamentos.  Mesmo queo grupo tenha uma prática definida para esta hora, a liberdade de cada um deve ser honrada e cada um pode honrar, pedir reclamar conforme suas próprias crenças ou permanecer em silêncio. Todos devem aguardar até a última oração terminar. Um momento musical pode estar presente nessa etapa e recomendamos que não pare antes do último participante parar de falar.

5 – Comunhão

Tira-se a sorte agora para a decisão de quem presidirá a comunhão. Ela pode ser feita com qualquer alimento e bebida que agradar. O sortudo exibe ambos para os presentes e anuncia que a bebida é o sangue derramado por Cristo e que o alimento é a carne entregue em sacrifício. Após isso todos devem saborear com alegria a eucaristia, fazendo isso em memória D’ELE.

6 – Bençãos

A última etapa é iniciada com um minuto de silêncio que segue a comunhão. Após o término do silêncio, outro participante é escolhido randomicamente para fazer abençoar todos os demais. Não importa a forma, mas sim que seja feita em nome de Jesus. Quem não quiser receber benção nenhuma, porque por exemplo não acredita em nada da Bíblia, pode cruzar os braços em sinal de negação se desejar. Estas pessoas devem sempre ser convidadas mas nunca coagidas a nada. As pessoas que desejarem uma benção específica (saúde, vida pessoal, etc…) deverão dizer o motivo em voz alta e em seguida a receberão.

Conclusão

 

Uso de escolhas randomicas, embora não seja incomum não é uma novidade moderna. Quando Judas morreu ous apóstolos tiveram que escolher uma nova pessoa para ficar em seu lugar entre os 12. Veja em Atos 1:26 como eles decidiram isso. Eles sabiam que Deus conhece o coração de todos e pediu que indicasse o escolhido, lançando a sorte em seguida.  Toda aleatoridade é guiada por Deus. Mesmo no antigo testamento, Exodo 28:30, lemos sobre o Urim e Tumim, que embora de natureza misteriosa indicam ter uma funcão semelhante a uma moeda de cara e coroa.

Sabemos que nossa proposta de missa pode desagradar a muitas pessoas, especialmente aquelas doutrinadas pelas antigas tradições e as interessadas em manter seu rebanho sob controle. De fato, muitas pessoas acreditam que não estão prontas para o tipo de liberdade que o evangelho oferece. Mas caso estas diretrizes lhe causem estranhamento não se incomode, continue no seu culto. Não somos o tipo de cristãos que obrigam as pessoas a fazerem o que elas não querem.


Sentindo-se freak? Conheça Jesus Freak: o Guia de Campo para o Pecador Pós-Moderno


 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/como-nao-dormir-na-missa/

Nefilin

Num diálogo retirado do capítulo “Serafim” da popular série de TV, Arquivo X, a investigadora do FBI Dana Scully, depois de deparar-se com um serafim, consulta um padre para que lhe esclareça a respeito do que viu:

Dana Scully: Eu vi um homem com roupa negra. Ele tinha 4 faces, não eram humanas.

Padre: (…) É um Serafim um anjo de 4 faces. Uma de anjo, 1 de leão, 1 de águia e uma de touro. Na história o anjo desce do céu e gera 4 filhos em uma, mortal. Os filhos são os Nefelin , os caídos, tem almas de anjos mas não deveriam existir, são deformados atormentados. Então Deus envia o Serafim à Terra para levar de volta as almas dos Nefelin, para evitar que o demônio as reinvindique.

Dana Scully: Como foram levadas?

Padre: Elas foram levadas pelo brilho de sua face. Olhar para um Serafim em toda sua glória é entregar a alma ao céu.

Dana Scully: Acha que foi isso o que vi?

Padre: Não, acho que o que viu foi uma fantasia de sua imaginação. (…) Nephelin é uma história. O texto no qual parece nem é reconhecido pela igreja.

Essa é uma das poucas vezes em que a incrédula agente Scully – e não Fox Mulder – toma a iniciativa em afirmar a existência de algo ainda não provado pela ciência, o que da um destaque maior desse capítulo, em relação ao restante da série. Também em nome de sua fé católica ela deixa que a última das 4 crianças (que possuíam deformações como estrutura óssea para suporte de asas, seis dedos nos pés e nãos, etc.) tenha o mesmo destino das outras, que ao olhar para o serafim morreram com seus olhos queimados. De qualquer forma a lenda dos Nefilin faz parte da antiga mitologia judaica.

O livro da Gênese assinala a união fecunda dos Benei-ha-Elohim ou filhos dos deuses, com as filhas dos homens: Misterioso casamento do qual nasceu a grande raça dos gibborim, ou dos nephilim:

«6. Filhos de Deus e filhas dos homens – Quando os homens começaram a ser numerosos sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram belas e tomaram como mulheres todas as que lhes agradaram. Iahweh disse: “Meu espírito não se responsabilizará indefinidamente pelo homem, pois ele é carne; não viverá mais que cento e vinte anos.” Ora, naquele tempo (e também depois), quando os filhos de Deus se uniam às filhas dos homens e estas lhes davam filhos, os Nefilim habitavam sobre a terra; estes homens famosos foram os heróis dos tempos antigos.»

O episódio dos “filhos de Deus”, que se casaram com as “filhas dos homens”, é de tradição javista. O capítulo 6 é provavelmente um fragmento que se adicionou para fornecer uma motivação moral à história do dilúvio, derivada de versões mesopotâmicas nas quais essa motivação inexiste. Embora no Gênesis não esteja claro que os nefilins fossem maus, assim eles foram considerados nos livros apócrifos da época do Segundo Templo. O livro apocalíptico dos Jubileus conta que os Sentinelas (anjos) vieram para a Terra e depois pecaram, mas que seu príncipe, Samael, teria tido a permissão de Yaveh para atormentar a humanidade. Entretanto, o judaísmo posterior e quase todos os primeiros escritores eclesiásticos viram nesses “filhos de Deus” anjos culpados. Nos Livros de Enoch, esse episódio aparece como tendo sido uma desobediência à Deus. Os últimos compiladores do capítulo 6 provavelmente conheciam a história completa relatada em Enoch, com detalhes sobre os filhos nascidos da união entre anjos e mulheres, “que são chamados espíritos sobre a terra” pois a citação Bíblica foi obviamente influenciada por este livro, do qual temos um fragmento de sua forma mais antiga, em aramaico, o manuscrito de Damasco, descoberto no inverno de 1896-97 numa genizah ou esconderijo secreto de uma comunidade hebraica do Cairo e publicada, pela primeira vez, sob o título de Documento de Damasco, em 1910. O texto completo, em português, aparece no apêndice de “Os Documentos do Mar Morto”, de Burrows, de onde tiramos a citação que se segue:

«III – E, agora, ouvi-me, meus filhos, que eu descerrarei os vossos olhos para que possais escolher aquilo que Ele ama e desprezar tudo aquilo que odeia, para poderdes caminhar perfeitamente em todos os Seus caminhos e não errardes seguindo impulsos culposos ou deitando olhares de fornicação. Porque muitos foram os que se desviaram e homens fortes e valorosos aí escorregaram, tanto outrora como hoje. Caminhando com a rebelião nos corações, caíram os próprios guardas dos céus, a tal chegados porque não observavam os mandamentos de Deus, tendo caído também os seus filhos, cuja estatura atingia também a altura dos cedros e cujos corpos se assemelhavam a montanhas. Todo o ser vivo que se encontrava em terra firme, caiu, sim, e morreu, e foram como se não tivessem sido, porque procediam conforme a sua vontade e não observavam os mandamentos do seu Criador, de maneira que a cólera de Deus se inflamou contra eles.

IV – assim se perderam os filhos de Noé e as suas tribos e assim foram aniquilados.»

Ainda nos textos de Qumram, do século II a.C., vamos encontrar outro documento antigo, o pergaminho de Lameque, contando uma história semelhante. Como o rolo só se conservou em fragmentos, faltam agora no texto frases e sentenças inteiras. O que restou, entretanto, é suficiente singular para ser relatado. Diz ele, que certo dia Lameque, pai de Noé, voltando para casa de uma viagem de mais de nove meses, foi surpreendido pela presença de um menino pequenino que, por seu aspecto físico externo em absoluto não se enquadraria na família. Lameque levantou pesadas acusações contra sua mulher Bat-Enosh e afirmou que aquela criança não se originara dele. Bat-Enosh se defendeu, jurando por tudo que lhe era sagrado que o sêmem só poderia ser dele, do pai Lameque, pois na ausência do marido ela não teve o menor contato com nenhum soldado, nem de um estranho nem de um dos “filhos do céu”. E ela implorou:

«Ó meu senhor… juro… esse sêmem proveio de ti, de ti proveio a concepção, de ti a plantação do fruto que não é de um forasteiro, nem de um guarda, tampouco de um filho do céu…»

Não obstante, Lameque não acreditou nas juras de sua mulher e, desassossegado até o fundo de sua alma, partiu para pedir conselho a seu pai Matusalém, a quem relatou o caso familiar que tanto o deprimia. Matusalém ouviu, meditou e como não chegou a tirar conclusão alguma, por sua vez, pôs-se a caminho para consultar o sábio Enoque. Aquele assunto de família estava causando tal alvoroço que o velho enfrentou os incômodos de uma longa viagem a fim de por a limpo a origem do garoto. Enoque ouviu o relato de Matusalém, contando como, de um céu cem nuvens, de repente caiu um menino, de aspecto físico externo menos parecido com o dos mortais comuns, e mais semelhante a um filho de pai celeste, cujos olhos, cabelos, pele, em nada se enquadrava na família.

O sábio Enoque escutou o relato e mandou o velho Matusalém de volta, com a notícia alarmante de que um grande juízo punitivo sobreviria, atingindo a Terra e a humanidade; toda a “carne” seria aniquilada, por ser suja e perversa. No entanto, falou Enoque, ele, Matusalém, deveria ordenar ao seu filho Lameque que ficasse com o menino e lhe desse o nome de Noé, pois o pequeno Noé teria sido escolhido para ser o progenitor daqueles que sobreviveriam ao grande juízo universal. Matusalém viajou de volta, informou seu filho sobre tudo o que estaria para vir e Lameque finalmente aceitou a criança como sua.

A Biblioteca de Enoch:

O “Livro de Enoch” é um texto apócrifo escrito por volta de 200 a.C. [Os livros apócrifos judaicos circulavam entre os judeus durante os séculos imediatamente anteriores e posteriores ao início da era cristã. Os mais importante de todos estes era os Livros de Enoch.]

Na verdade, o Livro de Enoch era uma coletânea de diversas obras literárias, que apareciam todas sob o nome de Enoch mas que teriam sido escritas por diferentes autores. Tudo indica que o livro era bastante conhecido até o século XVIII, mas não sabemos quantos deles existem. O livro das Similitudes (ou segredos) de Enoch menciona um total de 360 livros. Uma verdadeira biblioteca cuja existência dificilmente poderá algum dia ser comprovada. Sabemos que com certeza existem três: O Enoque I ou Enoque Etíope; o Enoque Eslavo ou Livro dos Segredos de Enoque e o Enoque Hebreu. Há uma vaga referência a um Enoque IV, feita numa epístola a Barnabás, datada do século II da nossa Era. [Talvez queira-se considerar também o pergaminho de Lameque como uma seqüência das histórias contadas pelo patriarca Enoch]. Infelizmente, esses textos ficaram perdidos durante séculos, só sendo redescobertos em épocas recentes, a maior parte em fragmentos.

Alguns fragmentos do Livro de Enoque, já conhecido, mas escrito em aramaico, foram descobertos nas célebres grutas de Quamram, no Mar Morto [ver o Manuscrito de Damasco]. Por isso há quem especule a existência de uma versão original mais antiga, escrita em hebraico. Uma outra versão conhecida como Os Segredos de Enoch ou II Enoch, foi descoberta na Rússia, em um texto eslavo, e traduzida para o inglês no século XIX; Esta foi provavelmente escrita no Egito no princípio da era cristã e fala da viagem de Enoch através das diferentes cortes do Paraíso.

Uma de sua versões foi encontrada na Abissínia. Havia sido escrita no idioma etíope, por isso ficou conhecido como Enoch Etíope ou I Enoch. O Enoque Etíope é conhecido de forma completa na Europa desde 1773, quando o explorador inglês James Bruce trouxe três cópias, que foram rapidamente difundidas; mas a primeira publicação de excertos do texto etíope de Enoque, o qual, é o único integral remanescente, só ocorreu em 1800. A primeira tradução completa foi publicada por Richard Laurence em Oxford no ano de 1821, gerando novos debates em torno da velha questão: Se os “filhos de Deus” que tiveram relações sexual com mulheres eram de fato anjos. O estudo filológico mostrou que estes originais foram escritos por volta do ano 400 da nossa Era e em grego. A queda dos anjos é contada no texto da seguinte forma:

VI – 1. Quando outrora aumentou o número dos filhos dos homens, nasceram-lhes filhas bonitas e amoráveis. Os Anjos, filhos do céu, ao verem-nas, desejaram-nas e disseram entre si: “Vamos tomar mulheres dentre as filhas dos homens e gerar filhos!” 2. Disse-lhes então o seu chefe Semjaza: “Eu receio não queiras realizar isso, deixando-me no dever de pagar sozinho o castigo de um grande pecado”. Eles responderam-lhe em coro: “Nós todos estamos dispostos a fazer um juramento, comprometendo-nos a uma maldição comum mas não abrir mão do plano, e sim executa-lo”. 3. Então eles juraram conjuntamente, obrigando-se a maldições que a todos atingiram. Eram ao todo duzentos os que, nos dias de Jared, haviam descido sobre o cume do monte Hermon. Chamaram-no Hermon porque sobre ele juraram e se comprometeram a maldições comuns. 4. Assim se chamavam os seus chefes: Semjaza, o superior de todoseles, Arakiba, Rameel, Kokabiel, Tamiel, Ramiel, Danel, Ezekeel, Narakijal, Azael, Armaros, Batarel, Ananel, Sakeil, Samsapeel, Satarel, Turel, Jomjael e Sariel. Eram esses os chefes de cada grupo de dez.

VII – 1. Todos os demais que estavam com eles tomaram mulheres, e cada um escolheu uma para si. Então começaram a freqüentá-las e a profanar-se com elas. E eles ensinavam-lhes bruxarias, exorcismos e feitiços, e familiarizavam-nas com ervas e raizes. 2. Entrementes elas engravidaram e deram à luz a gigantes de 3.000 côvados de altura. Estes consumiram todas as provisões de alimentos dos demais homens. E quando as pessoas nada mais tinham para dar-lhes os gigantes voltaram-se contra elas e começaram a devorá-las. 3. Também começaram a atacar os pássaros, os animais selvagens, os repteis e os peixes, rasgando com os dentes as suas carnes e bebendo o seu sangue. Então a terra chamou contra os monstros.

VIII – 1. Azazel ensinou aos homens a confecção de espadas, facas escudos e armaduras, abrindo os seus olhos para os metais e para a maneira de trabalha-los. Vieram depois os braceletes, os adornos diversos, o uso dos cosméticos, o embelezamento das pálpebras, toda sorte de pedras preciosas e a arte das tintas. 2. Eassim grassava uma grande impiedade; eles promoviam a prostituição, conduziam aos exessos e eram corruptos em todos os sentidos. Semjaza ensinava os esconjuros e as poções de feitiços, Armaros a dissipação dos esconjuros, Barakijal a astrologia, Kokabel a ciência das constelações, Ezekeel a observação das nuve3ns, Arakiel os sinais da terra, Samsiel os sinais do sol e Sariel as fases da lua. 3. Quando os homens se sentiram prestes a serem aniquilados levantaram um grande clamor, e seus gritos chegaram ao céu.

IX – 1. Então Michael, Uriel, Raphael e Gabriel olharam do alto do céu e viram a quantidade de sangue derramado sobre a terra e todas as desgraças que sobrevieram (…) 2. Então eles falaram ao Senhor dos mundos: “(…) 4. Tu vês o que foi perpetrado por Azazel, como ele ensinou sobre a terra toda espécie de transgressões, revelando os segredos eternos do céu, forçando os homens ao seu conhecimento; assim procedeu Semjaza, a quem conferiste o comando sobre os seus subalternos. 5. “Eles procuraram as filhas dos homens sobre a terra, deitaram-se com elas e tornaram-se impuros; familiarizaram-nas com toda sorte de pecados. As mulheres pariram gigantes e, em conseqüência, toda a terra encheu-se de sangue e de calamidades.” 6. “Agora clamam as almas dos que morreram, e o seu lamento chega às portas do céu. Os seus clamores se levantam ao alto, e em face de toda a impiedade que se espalhou sobre a terra não podem cessar os seus queixumes.” 7. “E Tu sabes de tudo, antes mesmo que aconteça. Tu vês tudo isso e consentes. Não nos dizes o que devemos fazer.”

X – 1. Então o Altíssimo, o Santo, o Grande, tomou a palavra e enviou Uriel ao filho de Lamech, com a ordem seguinte: “Dize-lhe, em meu nome: ‘Esconde-te’, e anuncia-lhe o fim próximo! Pois o mundo inteiro será destruído; um dilúvio cobrirá toda a terra e aniquilará tudo o que sobre ela existe.” 2. “Comunica-lhe que ele poderá salvar-se, e que seus descendentes serão mantidos por todas as gerações do mundo!” 3. E a Raphael disse o senhor: “Amarra Azazel de mãos e pés e lança-o nas trevas! Cava um buraco no deserto de Dudael e atira-o ao fundo! Deposita pedras ásperas e pontiagudas por baixo dele e cobre-o de escuridão! Deixa-o permanecer lá para sempre e veda-lhe o rosto, para que não veja a luz!” 4. “No dia do grande Juízo ele deverá ser arremessado ao tremendal de fogo! Purifica a terra, corrompida pelos Anjos, e anuncia-lhe a Salvação, para que terminem seus sofrimentos e não se percam todos os filhos dos homens, em virtude das coisas secretas que os Guardiões revelaram e ensinaram aos seus filhos! Toda a terra está corrompida por causa das obras transmitidas por Azazel. A ele atribui todos os pecados!” 5. E a Gabriel disse o Senhor: “Levanta a guerra entre os bastardos, os monstros, os filhos das prostitutas e extirpa-os do meio dos homens, juntamente com todos os filhos dos Guardiões! Instiga-os uns contra os outros, para que na batalha se eliminem mutuamente! Não se prolongue por mais tempo a sua vida! Nenhum rogo dos pais em favor dos seus filhos deverás ser atendido; eles esperam ter vida para sempre, e que cada um viva quinhentos anos.” 6. A Michael disse o Senhor: “Vai e põe a ferros Semjaza e os seus sequazes, que se misturam com as mulheres e com elas se contaminaram de todas as suas impurezas!” 7. “Quando os seus filhos se tiverem eliminado mutuamente, e quando os pais tiverem presenciado o extermínio dos seus amados filhos, amarra-os por sete gerações nos vales da terra, até o dia do seu julgamento, até o dia do juízo final!” 8. “Nesse dia, eles serão atirados ao abismo de fogo, na reclusão e no tormento, onde ficarão encerrados para todo o sempre. E todo aquele que for sentenciado à condenação eterna seja juntado a eles, e seja com eles mantido em correntes, até o fim de todas as gerações.” 9. “Extermina os espíritos de todos os monstros, juntamente com todos os filhos dos Guardiões, porque eles maltrataram os homens! Purga a terra de todo ato de violência! Toda obra má deve ser eliminada! Que floresça a árvore da Verdade e da Justiça. (…)”

VII – 1. Enoch (…) havia estado junto dos Guardiões e transcorreu os seus dias na companhia dos Santos. 2. (…) Então os [Santos] Guardiões me chamaram, a mim Enoch, o Escriba, e disseram-me: “Enoch, tu, o Escriba da Justiça, vai e anuncia aos Guardiões do céu que perderam as alturas do paraíso e os lugares santos e eternos, que se corromperam com mulheres à moda dos homens, que se casaram com elas, produzindo assim grande desgraça sobre a terra; anuncia-lhes: ‘Não encontrareis nem paz nem perdão’. Da mesma forma como se alegram com seus filhos, presenciarão também o massacre dos seus queridos, e suspirarão com a desgraça. Eles suplicarão sem cessar, mas não obterão nem clemência nem paz!”

Alguns estudiosos tem certeza de que esse livro foi escrito originalmente em hebraico, outros julgam que a língua original foi o aramaico e outros tantos acreditam que algumas partes foram escritas em hebraico e outras em aramaico. A primeira parte do Enoch etíope (caps. 1-36) tem uma importância imensa, pois remonta provavelmente a c. 300 a.C. e aos primeiros livros da Bíblia. Uma das fontes antigas usadas pelos últimos revisores do Gênesis era semelhante a fonte utilizada mais integralmente em I Enoch.

A queda dos anjos vista pelos cristãos:

A tradição da queda dos anjos estava espalhada e existia na época do nascimento do cristianismo no Egito. Ainda hoje persiste na Síria, no Egito e na Etiópia, onde existem igrejas cristãs muito diferentes das nossas. Atualmente, a Igreja Cristã da Etiópia, ou Igreja Copta, mantém o Livro de Enoque em sua Bíblia, como documento oficial. Entre demais cristãos atuais é considerado apócrifo, o que não é de estranhar. Os primeiros padres da Igreja, e os principais pensadores cristãos dos três primeiros séculos conheciam Enoch. Também a Bíblia não era a que conhecemos. Até o século IV, Enoch fazia parte do ainda mal definido cânone. Familiar aos judeus e primeiros cristãos, Enoch foi um texto sagrado autêntico para Judas, Clemente, Barnabé, Tertuliano e outros primeiros padres (embora Jerônimo e Orígenes fizessem ressalvas). A influência desse livro foi tamanha que ele chegou citado até mesmo por críticos pagãos, como Celso, que estudou as Escrituras.

Como já visto anteriormente, na mais antiga tradição judaico-cristã, o pecado dos Anjos-caídos foi a luxúria e não o orgulho. Os Nefilins foram criação da união sexual entre anjos lúbricos e mulheres. Essa interpretação influente apresentada por muitos dos primeiros padres da Igreja é uma razão para Enoch ter sido posteriormente excluído do cânone. Eis o que os primeiros padres escreveram: Justino, martirizado em Roma em 165 d.C., explicou que alguns anjos violaram a ordem apropriada das coisas, cederam a impulsos sexuais e tiveram relações com mulheres, cujos filhos agora chamamos de demônios. [26] Esses demônios são a causa de assassinatos, adultérios e todos os outros males. Atenágoras, outro apologista cristão grego, escreveu (em 177) que o Diabo foi criado por Deus exatamente como Ele criara os demais anjos. O homem possui o livre-arbítrio para escolher entre bem e mal, e o mesmo vale para os anjos. O homem possui o livre-arbítrio para escolher entre bem e mal, e o mesmo vale para os anjos. Mas no passado alguns anjos sentiram desejo por virgens, tornaram-se escravos da carne, tiveram relações sexuais com elas e nasceram-lhes filhos que eram gigantes. Junto com as almas desses gigantes, os anjos que caíram do Céu assombram o ar e a terra; são os demônios que vagam pelo mundo. [27] Clemente de Alexandria, outro apologista importante, foi um pensador flexível e sutil na virada do século II. Condenado no século IX como herege pelo patriarca ilegalmente consagrado Fócio, Clemente foi eliminado do martirológio romano. Ele supôs que as verdades da filosofia grega haviam sido roubadas pelos gregos dos hebreus. Tanto os textos gregos como os hebreus misturam verdade e erro, sendo o Diabo a origem da confusão. Em última análise, argumentou clemente, todas as verdades da filosofia provêm dos anjos caídos; essa idéia deriva de Enoch. Um dos mais extraordinários apologistas cristãos foi o grande polemista Tertuliano (155-220 d.C.) Como a maioria dos criativos primeiros padres, Tertuliano converteu-se na meia-idade. “Pode alguém ser mais douto, mais perspicaz do que Tertuliano?”, perguntou Jerônimo. Muitos termos “técnicos” cristãos usados hoje em latim foram cunhados por Tertuliano; pecado original, vitium originis, é um exemplo. Nada do que ele escreveu é inexpressivo, e a maior parte de seus textos conserva uma influência considerável. Esse vigoroso líder da Igreja norte-africana juntou-se aos montanistas, um rígido grupo de ascetas que acreditava na revelação progressiva, ensinamento condenado pela Igreja. Tertuliano, como Clemente, acreditava que os anjos celestes que tinham mantido relações sexuais com as filhas dos homens, tal como descrito em Enoch, revelaram muitas artes secretas, inclusive o mistério do kohl. Em prosa evocativa, Tertuliano serve-se de uma sentença de Enoch (cap. 8) e a expande para explicar que os anjos caídos ensinaram às mulheres:

«A radiância de pedras preciosas que com que se ornam colares em cores várias, os braceletes de ouro que envolvem seus braços, as preparações coloridas que se usam para tingir lã, e o pó negro […] para realçar a beleza de seus olhos.»

Tertuliano fez inúmeras referências a Enoque. Em sua célebre Apologia, por exemplo, ele interpreta o Gênesis à luz de Enoch. Interpretaram o texto ao pé da letra e julgaram que o pecado do Diabo foi o desejo sexual. Apesar de tudo, no século V santo Agostinho afirmou, confiante: “Não há dúvida quanto ao fato de esses ‘anjos’ serem homens, e não, como crêem alguns, criaturas diferentes de homens”. Em nossa época, assim como na de santo Agostinho, quando as pessoas dizem “não há dúvida”, geralmente há… Santo Agostinho argumenta que os “filhos de Deus” eram anjos apenas no espírito, por isso se permitiram a perda da graça. Antes da queda, essas pessoas potencialmente superiores tiveram filhos não em conseqüência de seu arrebatamento sexual, mas com o intuito de “povoar de cidadão a cidade de Deus”:

«Seja como for, eu nem sonharia em crer que foram os santos anjos de Deus a sofrer tal queda no presente caso […] e não é preciso apelar para os textos que se apresentam sob o nome de Henoch e contêm as fábulas sobre gigantes [nem] a alguns textos sob os nomes de vários profetas e apóstolos que são divulgados por hereges.»

Enoch tornou-se um instrumento de hereges. Mas o que santo Agostinho não nos diz – e que de fato apenas estudos recentes revelaram – é que algumas seções desse livro, nos quais se mencionam gigantes, haviam sido “apropriadas” ou “tomadas antecipadamente” pelos mesmos maniqueístas que haviam ensinado santo Agostinho e a quem este depois repudiou. Bastou que santo Agostinho estigmatizasse esse livro como herético para que ele ficasse eficazmente enterrado por um milênio.

Mas o problema não estava inteiramente resolvido. Havia ainda um fragmento da queda dos anjos no Gênese que desde então passou a ser considerado pelos exegetas, como de difícil compreenção. As questões perturbadoras levantadas pelos leitores eram evidentes… Que grandes atrativos poderia ter o próprio paraíso se um expressivo grupo de 200 anjos preferiu deixa-lo – conscientes de que sem dúvida sofreriam uma horrível punição futura – só para fazer sexo com fêmeas humanas? O espírito racionalista dos teólogos que elaboraram as versões definitivas da Bíblia não podiam admitir algo assim. Era necessário dar uma explicação simples e compreensível, adequada ao povo… Por isso, a partir do século IV, em função de uma noção mais espiritual da natureza angélica, a literatura patrística começou a ver os “filhos de Deus” como a linhagem piedosa de Set, (que são espiritualmente os filhos de Deus) e as “filhas dos homens” como a descendência depravada de Caim. Também, posteriormente, os autores judeus interpretaram os “filhos de Deus” como filhos de príncipes e nobres. Assim, tanto os autores judeus como os cristãos evitaram o significado obvio: Que alguma barreira entre os filhos de Deus e os filhos dos homens foi rompida, não por orgulho ou inveja, mas por desejo sexual…

Entretanto, a queda dos anjos não é o único tema tratado nestes livros, muitos conceitos cristãos tem sua primeira ocorrência em Enoque, particularmente o do Filho do Homem que se torna O Eleito e atua como juiz escatológico. O Juízo Final – um desdobramento de Mateus (25,31-3), que inclui a separação de bodes e ovelhas e o julgamento por Deus – parece derivar das Similitudes de Enoch. O abismo de Fogo, um reino infernal governado por Satanail e os anjos rebeldes, aparece primeiro em II Enoch. Apesar de sua comprovada influência, e de Enoch ter sido considerado um texto sagrado por teólogos importantes durante centenas de anos, quando o cânone foi definido com rigor, os teólogos responsáveis pela definição julgaram inaceitáveis algumas seções de Enoch, de modo que este foi deixado de fora.

Por Shirley Massapust

Postagem original feita no https://mortesubita.net/criptozoologia/nefilin/

Espiritismo e Consciência de Krishna

Um Estudo Comparativo em Transmigração da Alma, Posição dos Espíritos (Bhutas), Epistemologia e Objeto de Culto.

Lembro-me como se fosse hoje. Em minhas mãos, aquele livro que comprei sob a propaganda de que desdobraria os temas da palestra que eu havia acabado de ouvir com grande interesse. Na capa da obra, ao fundo, o topo de vários templos no que parecia ser o amanhecer ou o entardecer. Quando cheguei em casa, deitei em minha cama ainda com a roupa do corpo e li novamente na capa o título do livro, o qual me dizia muito, pois era o que eu vivia. Seu título: Em Busca da Verdade. Seu autor: A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, fundador da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna

Devorei cada página como se estivesse com muita fome. Tanto aprendi que mentalmente agradecia a Deus por aquele livro. Fui introduzido a temas como a impossibilidade de ser obediente a Deus sem uma descrição clara de Seus desejos e ordens, a necessidade fundamental de conhecermos em detalhes a personalidade de Deus para podermos amá-lO, a compreensão derradeira da ordenação do universo com base nos três modos da natureza material, a inutilidade de tentar ser honesto sem ter o conhecimento de que Deus é o proprietário de tudo e vários outros temas que, tamanha sua profundidade, sequer sabia de sua existência, menos ainda que haveria alguém capaz de apresentá-los de maneira tão acessível como o autor que agora eu lia.

Nem tudo me foi alegria ao término da leitura, no entanto. Em meu coração, além do contínuo agradecimento a Deus, estava o desejo de divulgar esse livro tanto quanto eu pudesse, a tantos amigos quanto eu tivesse. Porém, uma única página desta obra me desmotivava. Pensei então em comprar vários desse livro e presenteá-lo a amigos sem essa página que me incomodava, porém veriam que uma folha havia sido arrancada. Uma segunda ideia: Fotocopiá-lo tirando essa página e apagando os números das páginas, de modo que ninguém saberia do excerto. Por fim, não tomei nenhuma de minhas medidas cogitadas, pois minha ocupação em distribuir esse conhecimento teria de aguardar um pouco mais meu amadurecimento.

A referida passagem, enfim, era esta: “Como espíritos puros, todas as almas são iguais, inclusive nos animais”*. (p. 34) Ai de mim, como dizem os poetas. Por que a vida não pode ser mais fácil? Por que um autor que julguei conhecer tudo perfeitamente tinha essa “mácula” de tamanho contrassenso de afirmar que a alma que anima os animais e os homens é a mesma, com o agravante que descobri mais tarde, de que é a mesma alma também que pode passar inclusive por corpos vegetais?

*PRABHUPADA, A.C. Bhaktivedanta Svami. Perguntas Perfeitas Respostas Perfeitas. São Paulo: BBT, 2012, p. 34. Perguntas Perfeitas Respostas Perfeitas é o novo título que em português que se deu ao então Em Busca da Verdade, esta edição agora com tradução literal do título original da obra, Perfect Questions Perfect Answers.

Minha dificuldade se dava por minha formação espírita, a qual, embora me tenha conduzido a buscar a reunião que assisti sobre a consciência de Krishna, em virtude de utilizar termos da mesma, como karma e chakra*, tinha diferentes concepções acerca destes conceitos e outros, e, como foi o espiritismo a religião que me convenceu da existência de Deus, livre-arbítrio, transmigração da alma e outros tópicos, era-me difícil lidar com os conflitos entre ela e meu novo achado da consciência de Krishna.

*Karma e chakra não são, a rigor, conceitos doutrinários do espiritismo. Seu uso entre os espíritas é considerado fruto de hibridismo com religiões orientais. Tais termos não se encontram na obra kardeciana, sendo encontrados apenas em obras subsidiárias.

Hoje, passados oito anos desde este meu primeiro contato com a consciência de Krishna, graduei-me em Bhakti-sastri* após residência no Seminário de Filosofia e Teologia Hare Krishna de Campina Grande e traduzi para a ISKCON mais de dez livros, cem artigos e outros materiais, além de ter-me dado a leituras diversas sobre o assunto da consciência de Krishna. Esse acúmulo de conhecimento de minha parte tanto da doutrina espírita quanto da consciência de Krishna faz-me sentir obrigado a produzir este material de estudo comparado, para o benefício tanto dos espíritas quanto dos adeptos da consciência de Krishna. Para os primeiros, uma oportunidade de diálogo inter-religioso não muito explorada. Embora os espíritas promovam sua religião em conflito com religiões que duvidam do contato com os espíritos; a consciência de Krishna é um desafio inteiramente novo, dado que acredita plenamente nesta comunicação, mas a tem como irrelevante para investigações acerca de Deus, da alma e da matéria inerte. Aos adeptos da consciência de Krishna, este tenta esclarecer algumas das zonas de conflito entre as duas religiões para fortalecimento da fé de tais adeptos com argumentos científicos, lógicos e teológicos. As zonas de conflito a serem analisadas são reencarnação em oposição a metempsicose, conhecimento descendente em oposição a conhecimento ascendente, equivalência de espíritos de luz e almas espirituais semipiedosas identificadas com o corpo, e culto a tais indivíduos e adoração exclusiva a Deus.

*Título obtido pelo sucesso em uma prova internacional a que se submetem os membros do Movimento Hare Krishna e outros interessados após estudo básico de sânscrito e estudo profundo das obras O Bhagavad-gita Como Ele É, Isopanisad, Néctar da Devoção (Bhakti-rasamrta-sindhu) e Néctar da Instrução (Upadesamrta).

Transmigração da Alma: Reencarnação e Metempsicose

Ambas as religiões em análise têm como princípio básico que a alma espiritual indestrutível tem a faculdade de transmigrar para um corpo novo ante a destruição do corpo em que se encontrava anteriormente. Em O Livro dos Espíritos*, encontramos: “Chamamos alma ao ser imaterial e individual que em nós reside e sobrevive ao corpo” (Introdução, p. 15), “A alma passa então por muitas existências corporais? ‘Sim, todos contamos muitas existências’” (2.4.166b), e, em seguida, afirma-se que “vivemo-las em diferentes mundos” (2.4.172).

*KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1995

Todos estes três pontos são comuns à consciência de Krishna, como evidenciamos por estes versos introdutórios do Bhagavad-gita*. No atinente à continuidade da alma após a morte do corpo: “Para a alma, em tempo algum existe nascimento ou morte. Ela não passou a existir, não passa a existir e nem passará a existir. Ela é não nascida, eterna, sempre existente e primordial. Ela não morre quando o corpo morre”. (2.20) No atinente às múltiplas existências: “Assim como alguém veste roupas novas, abandonando as antigas, a alma aceita novos corpos materiais, abandonando os velhos e inúteis” (2.22), e também “Assim como, neste corpo, a alma corporificada seguidamente passa da infância à juventude e à velhice; do mesmo modo, chegando a morte, a alma passa para outro corpo. Uma pessoa ponderada não fica confusa com tal mudança”. (2.13) No atinente à existência em diferentes planetas: “Aqueles situados no modo da bondade gradualmente elevam-se aos planetas superiores; aqueles no modo da paixão vivem nos planetas terrestres; e aqueles no abominável modo da ignorância descem para os mundos infernais”. (14.18)

*Todas as citações do Bhagavad-gita aqui contidas são as traduções de O Bhagavad-gita Como Ele É, disponível gratuitamente e em português em vedabase.com/pt-br/bg.

Os pontos de conflito entre o espiritismo e a consciência de Krishna, como analisaremos aqui, estão no fato de que o espiritismo advoga, ou parece advogar, que a alma que ocupa os corpos humanos jamais habitou corpos animais ou então que, uma vez que tenha deixado os corpos animais em sua evolução a partir de sua criação por Deus “simples e ignorantes” (Livro dos Espíritos 2.1.115), jamais poderia retornar a um corpo animal dado que isto contradiz a lei do progresso, lei esta que dá título ao capítulo sexto da obra O Livro dos Espíritos. Tal ensinamento é chamado “reencarnação”, em oposição a “metempsicose”, cuja transmigração de uma mesma categoria de alma – categoria única, distinta apenas de Deus e da matéria inerte – se dá por todos os corpos.

Nesta passagem de O Livro dos Espíritos, nega-se a transmigração de uma mesma espécie de alma por corpos humanos e animais, atribuindo a eles “almas diferentes”:

Pois que os animais possuem uma inteligência que lhes faculta certa liberdade de ação, haverá neles algum princípio independente da matéria?

“Há e que sobrevive ao corpo”.

Será esse princípio uma alma semelhante à do homem?

“É também uma alma, se quiserdes, dependendo isto do sentido que se der a esta palavra. É, porém, inferior à do homem. Há entre a alma dos animais e a do homem distância equivalente à que medeia entre a alma do homem e Deus”. (2.11.597 e 597a)

A alma animal, ainda segundo a mesma obra (2.11.601), evolui por diferentes corpos animais, tal como a alma humana:

Os animais estão sujeitos, como o homem, a uma lei progressiva?

“Sim; e daí vem que nos mundos superiores, onde os homens são mais adiantados, os animais também o são, dispondo de meios mais amplos de comunicação. São sempre, porém, inferiores ao homem e se lhe acham submetidos, tendo neles o homem servidores inteligentes.”

A consciência de Krishna, baseada nos Vedas, declara, no entanto, que existe uma só alma que habita por diferentes corpos, passando por todas as formas inferiores até atingir a forma humana. No Brahma Vaivarta Purana, por exemplo, figura os seguintes versos: “Atinge-se a forma humana de vida após a transmigração por milhões de espécies ao longo do processo gradual de evolução, e essa vida humana é arruinada pelos tolos orgulhosos que não se refugiam nos pés de lótus de Govinda [Deus]”*. O Padma Purana descreve esse número de formas antecedentes à forma humana pelas quais passa a alma: “Em todo o universo, existem 900.000 espécies aquáticas; 2.000.000 de entidades vivas imóveis, como árvores e plantas; 1.100.000 espécies de insetos e répteis, e 1.000.000 de espécies voadoras. No que diz respeito aos animais terrestres, existem em número de 3.000.000, e as espécies humanas existem em número de 400.000”**.

*VedaBase: 25. Song, Prayer and Verse Books / Srila Prabhupada Slokas / Selected Verses From the Puranas / Brahma Vaivarta Purana. info.vedabase.com. O verso original diz: asitim caturas caiva laksams tan jiva-jatisu/ bhramadbhih purusaih prapyam manusyam janma-paryayat/ tad apy abhalatam jatah tesam atmabhimaninam/ varakanam anasritya govinda-carana-dvayam.

**VedaBase: 25. Song, Prayer and Verse Books / Srila Prabhupada Slokas / Selected Verses From the Puranas / Padma Purana. O verso original diz: jalaja nava-laksani sthavara laksa-vimsati/ krmayo rudra-sankhyakah paksinam dasa-laksanam/ trimsal-laksani pasavah catur-laksani manusah.

No Srimad-Bhagavatam* (3.29.28-32), encontramos uma descrição ainda mais detalhada, a qual nos informa que o tato é o primeiro sentido que se experimenta, o qual se desenvolve ao se ter um corpo de árvore. Em seguida, experimenta-se paladar ao se obter um corpo de peixe. Após o corpo de peixe, pode-se obter um corpo como de abelha e desenvolver olfato. A audição então se faz presente rudimentarmente em um corpo de cobra, e, mais adiante, pode-se ter um corpo que tem todos os sentidos e ainda é capaz de distinguir formas, como os corpos de algumas aves e, por fim, de quadrupedes. Finalmente, tem-se o corpo humano. Os seres humanos ainda são divididos entre diferentes níveis de estruturação social e rendição a Deus, partindo dos seres humanos incivilizados e indo até “o devoto puro de Deus, que Lhe presta serviço devocional sem nenhuma expectativa”.

*As citações do Srimad-Bhagavatam são traduções minhas da tradução inglesa de Srila Prabhupada, disponível em vedabase.com/en/sb.

O leitor mais arguto deve ter atentado que, na ocasião em que eu disse que o espiritismo advoga que a alma que ocupa os corpos humanos jamais habitou corpos animais ou então que, uma vez que tenha deixado os corpos animais em sua evolução a partir de sua criação, jamais poderia retornar a um corpo animal, eu intercalei o seguimento “ou parece advogar”. A explicação para isto é que, como veremos em discussões acerca de epistemologia, a revelação dos espíritos não é um sistema fechado e concluído como o da consciência de Krishna, isto porque seus reveladores são investigadores no modelo de investigação científico-filosófico, isto é, baseado respectivamente na percepção dos sentidos e da mente, motivo pelo qual certamente terão conflitos entre si como têm os cientistas e filósofos encarnados. Assim é que um mesmo espírito pode ter diferentes opiniões em diferentes momentos ou variados espíritos terem diferentes opiniões contemporâneas, e encontramos no Livro dos Espíritos (p. 303) que isso de fato se dá com a dicotomia reencarnação e metempsicose e acerca da relação entre os homens e os animais:

O ponto inicial do espírito é uma dessas questões que se prendem à origem das coisas e de que Deus guarda o segredo. Dado não é ao homem conhecê-las de modo absoluto, nada mais lhe sendo possível a tal respeito do que fazer suposições, criar sistemas mais ou menos prováveis. Os próprios espíritos longe estão de tudo saberem e, acerca do que não sabem, também podem ter opiniões pessoais mais ou menos sensatas. É assim, por exemplo, que nem todos pensam da mesma forma quanto às relações existentes entre o homem e os animais. Segundo uns, o espírito não chega ao período humano senão depois de se haver elaborado e individualizado nos diversos graus dos seres inferiores da Criação*. Segundo outros, o espírito do homem teria pertencido sempre à raça humana, sem passar pela fieira animal. O primeiro desses sistemas apresenta a vantagem de assinar um alvo ao futuro dos animais, que formariam então os primeiros elos da cadeia dos seres pensantes. O segundo é mais conforme à dignidade do homem. (grifo nosso)

*Emmanuel, por exemplo, em várias psicografias de Chico Xavier, defende esta primeira teoria contra a opinião daqueles que compuseram O Livro dos Espíritos: “O animal caminha para a condição do homem tanto quanto o homem evolui no encalço do anjo”. (Alvorada do Reino, Na Senda da Ascensão) Em sua obra Emmanuel: Dissertações Mediúnicas sobre Importantes Questões que Preocupam a Humanidade, encontramos:

“Como o objetivo desta palestra é o estudo dos animais, nossos irmãos inferiores, sinto-me à vontade para declarar que todos nós já nos debatemos no seu acanhado círculo evolutivo. São eles os nossos parentes próximos, apesar da teimosia de quantos persistem em o não reconhecer. Considera-se, às vezes, como afronta ao gênero humano a aceitação dessas verdades. E pergunta-se como poderíamos admitir um princípio espiritual nas arremetidas furiosas das feras indomesticadas, ou como poderíamos crer na existência de um rio de luz divina na serpente venenosa ou na astúcia traiçoeira dos carnívoros. Semelhantes inquirições, contudo, são filhas de entendimento pouco atilado”. (XAVIER, Chico. FEB. p. 119)

Interessante notar que o espiritismo diz que sua validade está em não haver contradição entre os espíritos: “Uma só garantia séria existe para o ensino dos espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares”. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, p. 31)

Assim, não há uma base sólida acerca do posicionamento dos espíritos em relação a se a alma anima primeiramente corpos animais ou começa já em corpos humanos, logo não há um posicionamento absoluto acerca de se a alma animal progride unicamente por corpos animais ou se é a mesma sorte de alma que anima agora corpos humanos. Contudo, como a obra O Livro dos Espíritos mostra predileção pela teoria de que existem dois tipos de almas, humanas e animais, ou mais precisamente, três, uma também apenas a animar vegetais*, tomaremos isso como o fundamento espírita e o iremos expor aos ensinos conscientes de Krishna.

A primeira dificuldade para sustentar a teoria espírita de que os animais sempre serão animais e sempre foram animais é que ela é contraditória com o senso de justiça vinculado a que alguém sofre por mau uso de seu livre-arbítrio e que alguém tem conforto por bom uso de seu livre-arbítrio, o que é aceito por ambas as religiões em estudo. No entanto, como os animais não têm livre-arbítrio (Livro dos Espíritos 2.11.599), o que ambas as religiões concordam, Deus Se torna injusto na teoria espírita, pois todo o sofrimento excruciante pelo qual passam, por exemplo, as vacas, porcos, galinhas e outros animais em fazendas-fábricas e abatedouros* é um sofrimento desmerecido, não decorrente de nenhuma escolha ruim, tampouco há justiça ou justificativa em uma vaca viver livremente e outra não. Deste modo, Deus torna-Se alguém horrendo que criou almas animais apenas para animarem corpos animais inferiores e irem progredindo por corpos animais superiores sempre sofrendo as dores do nascimento, da morte, da velhice e da doença mesmo não tendo feito nenhuma má escolha ou ato contrário à vontade de Deus. Tais almas animais são submetidas a um processo automático (idem. 2.11.602) de evolução por diferentes corpos – reitero, dolorosíssimo – e evoluem sem nenhum mérito para chegarem ao estágio máximo delas, estágio máximo este no qual não conhecem Deus (idem. 2.11.603)**.

*Aqueles que não estão inteirados deste “avanço” da civilização podem se inteirar do mesmo assistindo ao documentário Terráqueos [Earthlings] ou similares. O referido documentário está disponível neste weblink: terraqueos.org. Outros documentários similares se encontram na mesma página.

**Desenvolvi, a princípio, estar argumentação sob o norteamento de Santo Anselmo, que diz que o conceito perfeito de Deus é, entre outras coisas, de um ser absolutamente justo e infinitamente bom, e que o conceito em que se tenha uma justiça e uma bondade insuperáveis é o conceito verdadeiro. Semelhante argumentação que apresento, no entanto, parece também estar inteiramente em A Gênese (3.12), onde se diz: “Se os animais são dotados apenas de instinto, não tem solução o destino deles e nenhuma compensação os seus sofrimentos, o que não estaria de acordo nem com a justiça, nem com a bondade de Deus”.

A única maneira de se conciliar existir sofrimento no mundo e Deus ser onipotente e bom é a exigência do amor ser precedido por livre-arbítrio, haja vista que um amor forçado não é amor, dado que amar exige a espontaneidade de ter o direito de não amar. Agora, se os animais jamais conhecerão Deus para amá-lO e não têm livre-arbítrio, por que os criar e os submeter a uma evolução dolorosa e sem sentido até o estágio de perfeição em que não conhecem seu criador? Certamente é absurdo atribuir a Deus tamanho capricho, em virtude do que o Livro dos Espíritos só pode dizer sobre isso as palavras com que encerra o capítulo nono da parte segunda: “Quanto às relações misteriosas que existem entre o homem e os animais, isso, repetimos, está nos segredos de Deus”.

O conhecimento da consciência de Krishna, no entanto, mantém Deus como justo ao colocar que os animais sofrem porque as almas que habitam tais animais que estão sofrendo com nascimento, morte, doenças e velhice fizeram mau uso de seu livre arbítrio, isto é, não procederam de acordo com a vontade de Deus, quando possuíam corpos humanos ou no ato de se desconectarem de Deus. Assim é que um açougueiro ou aqueles que comem carne terão de nascer, pelas reações de seus pecados, em corpos de animais que serão brutalmente criados e abatidos. Os corpos animais para as almas também têm um propósito muito amável, que é que uma alma em condição pecaminosa pode dar vazão a suas tendências pecaminosas sem criar novo mau karma. Deste modo, alguém afeito a dormir excessivamente pode ter um corpo de urso; alguém afeito a comer carne, um corpo de tigre; alguém afeito à promiscuidade, um corpo de macaco e assim por diante. Caso se fizesse tais atos no corpo humano, incorreria em grandes reações pecaminosas. Porém, com a oportunidade de fazer tais coisas em corpos animais, o indivíduo dá vazão a seus pecados e pode, quando Deus considerar apropriado, habitar novamente um corpo humano já esgotado desse hábito. Assim é que o Garuda Purana (2.46.9-10) afirma sobre as almas pecaminosas que estão deixando os planetas infernais: “Quando as torturas expiatórias e restringentes cessam, as entidades vivas nascem novamente na forma humana ou em uma forma animal com os traços característicos de seus pecados”. Por traços característicos dos pecados, entende-se uma pessoa incestuosa nascer cão ou alguém que não discrimina o que comer e o que não comer nascer como porco.

Com a metempsicose, a justiça de Deus é preservada, pois o sofrimento da alma no corpo animal tem um porquê imediato, isto é, suas ações passadas, e tem um propósito futuro: uma vez que atinja a perfeição em um dos 400.000 tipos de corpos humanos que propiciam o livre-arbítrio de poder render-se a Deus, conhecerá Deus e se relacionará com Ele em serviço devocional e bem-aventurança eterna.

Embora o espiritismo diga, como citado anteriormente, que talvez as almas que hoje habitam os corpos humanos tenham sim habitado corpos animais, o espiritismo em momento algum assume que a alma possa involuir, o que eles acreditam acontecer na metempsicose. Isto é um erro, no entanto; ao menos na metempsicose mais antiga que se conhece – a metempsicose consciente de Krishna. No Bhagavad-gita (2.40), Krishna diz: “Neste caminho [o caminho da gradual rendição a Deus] não há perda nem diminuição, e um pequeno esforço neste caminho pode proteger a pessoa do mais perigoso tipo de medo”. Em outras palavras, como explica Prabhupada em seu comentário, qualquer avanço que uma alma tenha feito em se render a Deus está eternamente no crédito dela, e ela sempre continuará daquele ponto, e Krishna diz que, desde que ela continue fazendo o mínimo progresso (pequeno esforço) ela estará livre do mais perigoso tipo de medo (cair em uma forma sub-humana). Aqui pode parecer haver uma contradição: Não há perda nem diminuição, ou involução, mas, se ela parar de progredir, cairá em corpos animais. Isso não é uma contradição assim como os espíritas aceitam que alguém que foi doutor em Letras pode, caso aja pecaminosamente, nascer como alguém cego, surdo, mudo e paralítico. Tal aparente involução, isto é, alguém antes pesquisador acadêmico sequer ter sentidos e consciência o bastante para interagir ou se movimentar, é um estado temporário de “inferioridade” à vida passada, o qual, quando superado e terminado, terá sido um grande aprendizado para o doutor, que poderá então continuar seu progresso novamente em um corpo com inteligência, mas temeroso de pecar e reconsiderando se o mero conhecimento acadêmico realmente constitui progresso.

Assim é que, quando alguém cai em um corpo animal após ter tido um corpo humano, ao deixar o corpo animal – ou os vários corpos animais, a depender de seus atos –, retoma sua vida com livre-arbítrio do ponto de rendição a Deus em que estava, e sua experiência em determinado corpo animal serve-lhe de lição ou de esgotamento de alguma tendência animalesca que tinha mesmo no corpo humano.

A história do rei Bharata, por exemplo, relatada no Quinto Canto do Srimad-Bhagavatam – para o qual já fornecemos um weblink – relata a história de um rei que renunciou seu reino quando mais velho e se recolheu para a floresta para se dedicar a práticas espirituais. Contudo, porque negligenciou sua vida espiritual tendo-se atraído por um veadinho na floresta, adquiriu um corpo de veado na vida seguinte. No corpo de veado, intuitivamente rumou para a casa de grandes devotos de Deus e lá ficou até morrer. Uma vez de volta ao corpo humano, na vida seguinte, ele retomou sua vida espiritual com muito mais seriedade e cuidado. Assim, é evidente que, embora tenha adquirido um corpo sub-humano após ter tido um corpo humano, não houve involução da consciência, mas uma experiência chocante tal qual alguém que alguma vez enxergou porém teve um nascimento cego. Assim, negar a metempsicose porque a mesma pressupõe a involução da consciência é ignorância de todos os sistemas de metempsicose*, visto que a metempsicose dos Vedas, escrituras estas que formam a base do movimento Hare Krishna, conciliam perfeitamente a transmigração por diferentes corpos sem aceitar a involução da consciência. Tal aparente “involução” pode ser comparada a alguém que estava caminhando para frente e, ao se deparar com um buraco à sua frente, recua um pouco para saltá-lo. Tal recuo não é um retrocesso em seu caminhar para frente, mas parte de seu progresso.

*Parece que o espírito que se posiciona contra a metempsicose se informou insuficientemente, apenas em fontes semelhantes àquelas consultadas por Jung, que também possuía conhecimento incompleto da metempsicose: “O conceito de renascimento é multifacetado. Em primeiro lugar destaco a metempsicose, a transmigração da alma. Trata-se da ideia de uma vida que se estende no tempo, passando por vários corpos, ou da sequência de uma vida interrompida por diversas reencarnações. O budismo especialmente centrado nessa doutrina – o próprio Buda vivenciou uma longa série de renascimentos – não tem certeza se a continuidade da personalidade é assegurada ou não; em outras palavras, pode tratar-se apenas de uma continuidade do karma. Os discípulos perguntaram ao mestre, quando ele ainda era vivo, acerca desta questão, mas Buda nunca deu uma resposta definitiva sobre a existência ou não da continuidade da personalidade”. (JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 119). Quando tal afirmação de Jung, que não conseguiu estender-se para a psicose mais antiga que se conhece, a metempsicose védica ou pré-budista, foi apresentada a Srila Prabhupada, este comentou:

“Srila Prabhupada: Uma personalidade está sempre presente, e mudanças corpóreas não mudam isso. A pessoa, entretanto, identifica-se de acordo com o seu corpo. Quando, por exemplo, a alma está dentro do corpo de um cachorro, ela pensa de acordo com aquela construção corpórea particular. Ela pensa: “Sou um cachorro, e tenho minhas atividades particulares”. Na sociedade humana, a mesma concepção está presente. Por exemplo, quando alguém nasce na América, ele pensa: “Sou americano, e tenho meu dever”. De acordo com o corpo, a personalidade se manifesta, mas, em todos os casos, a personalidade está presente. Discípulo: Mas essa personalidade é contínua? Srila Prabhupada: Certamente a personalidade é contínua. À morte, a alma passa para outro corpo grosseiro juntamente com suas identificações mentais e intelectuais. O sujeito obtém diferentes tipos de corpos, mas a pessoa é a mesma”. (Beyond Illusion and Doubt. Cap. 15. vedabase.com/en/bid/15)

Então, porque o espiritismo não possui uma resposta clara sobre se a alma que atualmente ocupa corpos humanos já ocupou corpos animais, e porque seu argumento de que a metempsicose não pode ser real porque implica a involução da consciência é produto de ignorância da metempsicose consciente de Krishna, temos aqui, acredito, bastante espaço para reflexão.

Algo muito interessante é que Krishna deixou-nos já uma fórmula no Bhagavad-gita, cinco mil anos atrás, que nos informa que a opinião de quem reside onde residem aqueles que conversaram com Allan Kardec é, em geral, de que existem diferentes tipos de almas. Tal fórmula é dada no Bhagavad-gita (18.20-22):

Você deve compreender que está no modo da bondade aquele conhecimento com o qual se percebe uma só natureza espiritual indivisa em todas as entidades vivas, embora elas se apresentem sob inúmeras formas. O conhecimento com o qual se vê que em cada corpo diferente há um tipo diferente de entidade viva, você deve entender que está no modo da paixão. E o conhecimento pelo qual alguém se apega a um tipo específico de trabalho como se fosse tudo o que existe, sem conhecimento da verdade, e que é muito escasso, diz-se que está no modo da ignorância.

O universo, segundo os Vedas, é regido por três cordas, ou modos da natureza material, os quais se chamam bondade, paixão e ignorância. Assim, classifica-se tudo nos três modos, como alimentação, caridade etc. Pode-se ler sobre os mesmos nos capítulos 14, 17 e 18 do Bhagavad-gita. Aqui Krishna está dizendo que, quando alguém está no modo da ignorância, esse alguém quer apenas trabalhar, sendo indiferente a discussões se a alma existe ou não existe, se ela é a mesma tramitando por diferentes corpos ou se cada tipo de corpo comporta um tipo de alma. Em seguida, superiores são as pessoas controladas pelo modo da paixão, as quais já aceitam a existência da alma, embora, por seus sentidos imperfeitos e por seu desejo de explorar os outros, digam que a alma da mulher, do índio, do negro ou dos animais é inferior. Por fim, existem aqueles no modo da bondade, o melhor de todos, os quais percebem que é a mesma alma que aparece em diferentes corpos, assim como a mesma luz branca às vezes parece azul, vermelha ou amarela a depender da cor do invólucro que recebe.

Assim, as escrituras conscientes de Krishna dizem que onde residem aqueles que conversaram com Allan Kardec é uma morada no modo da paixão (Srimad-Bhagavatam 4.29.28, significado), a qual se chama, em sânscrito, Antariksa, daí a opinião deles. A tese espírita ser prevista milênios antes do surgimento do espiritismo e ainda propor uma tese superior é certamente algo que deve promover buscadores sinceros a considerarem se não há livros na Terra mais avançados do que os cinco livros codificados por Kardec e similares. A leitura do Bhagavad-gita Como Ele É, na companhia daqueles que já o estudam há mais tempo, é um começo recomendável. Acerca da localização das colônias espíritas e sua identificação com o modo da paixão, falaremos mais adiante, na seção denominada “Uma análise da posição dos espíritos segundo a consciência de Krishna”.

Ainda nos argumentos na dicotomia reencarnação e metempsicose, além dos argumentos da questão do sofrimento a quem nunca teve livre-arbítrio para fazer algo que merecesse sofrimento e de que Krishna previu esse argumento para aqueles que habitam Antariksa, há o argumento moral, possivelmente o mais forte, de que perceber outras entidades vivas como ontologicamente inferiores é a inconsciência fundamental para se explorar o outro. Só me é possível explorar o negro, a mulher, o judeu ou o índio, por exemplo, depois que eu me convencer de que são menos importantes para Deus ou inferiores a mim, pois, se são iguais a mim, dou o direito de que façam comigo o mesmo que faço com eles, e se são tão importantes para Deus quanto eu sou, Deus me punirá de alguma forma. Assim, vê-se rotineiramente que, conquanto os espíritas se apiedem de seres humanos em sofrimento, são promotores do sofrimento dos animais em seus hábitos alimentares, de vestes etc., hábitos estes tendo em vista o gozo dos sentidos. No Movimento Hare Krishna, todo membro faz o voto vitalício de não comer carne, peixe ou ovos, e as verduras e outros alimentos também são ingeridos apenas após serem consagrados a Deus. Assim, é visível a superioridade moral e caridosa naqueles possuidores da visão de que a alma que anima os animais e plantas não é por natureza inferior ou sem o propósito de um dia alcançar Deus, mas uma alma tal como nós que agora estamos em corpos humanos*.

*Esta questão de que o fundamento para não explorarmos os animais ou humanos de diferentes categorias se encontra na necessidade de os vermos como indivíduos na mesma categoria que nós, uma categoria única abaixo de Deus, fica evidente caso contrastemos, por exemplo, espíritos que acreditam que os animais possuem almas constitucionalmente inferiores e aqueles que pensam diferente. Vemos, por exemplo, que os reveladores do Livro dos Espíritos, partidários da ideia de que a alma em um corpo animal é distinta, e eternamente distinta, da alma em um corpo humano, não promovem o vegetarianismo e o consequente bem-estar dos animais: “Dada a vossa constituição física, a carne alimenta a carne, do contrário o homem perece. A lei de conservação lhe prescreve, como um dever, que mantenha suas forças e sua saúde, para cumprir a lei do trabalho. Ele, pois, tem que se alimentar conforme o reclame a sua organização” (O Livro dos Espíritos 3.5.723). O já mencionado espírito Emmanuel, partidário da ideia de que as almas que ocupam corpos animais e humanos são as mesmas, defende o vegetarianismo: “A ingestão das vísceras dos animais é um erro de enormes consequências, do qual derivaram numerosos vícios da nutrição humana. É de lastimar semelhante situação, mesmo porque, se o estado de materialidade da criatura exige a cooperação de determinadas vitaminas, esses valores nutritivos podem ser encontrados nos produtos de origem vegetal, sem nenhuma necessidade dos matadouros e frigoríficos… Consolemo-nos com a visão do porvir, sendo justo trabalharmos, dedicadamente, pelo advento dos tempos novos em que os homens terrestres poderão dispensar da alimentação os despojos sangrentos de seus irmãos inferiores”. (O Consolador, questão 129) Assim fica aparente que, por trás do empenho em categorizar o outro como ontologicamente inferior, está o desejo e o ato degradado de explorá-lo.

Deste modo, apresentado o sistema de metempsicose do Movimento Hare Krishna, que remonta mais de 50 séculos na história registrada, sistema este que não nega a evolução permanente da consciência e que a evolução da alma pelos animais é progressiva, a metempsicose passa a ser verdadeira segundo estes dizeres da página 303 do Livro dos Espíritos: “Seria verdadeira a metempsicose se indicasse a progressão da alma, passando de um estado a outro superior, onde adquirisse desenvolvimentos que lhe transformassem a natureza”.

Uma análise da posição dos espíritos segundo o espiritismo

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo*, o espiritismo promove-se como sucessor de Jesus em ensinamentos, valendo-se das passagens bíblicas que se referem ao “Espírito de verdade”, a saber, João 14:17, 15:26 e 16:13: “O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós. Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito de verdade, que procede do Pai, ele testificará de mim. Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir”**.

*KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 1996
**bibliahabil.com.br

Podemos identificar quatro atributos (mais do que isso tornaria este muito longo) para análise do Espírito de Verdade segundo os referidos versos bíblicos: O Espírito de Verdade procede do Pai; não ensinará algo diferente do que Jesus disse; guiará as pessoas em toda a verdade; e não falará de si mesmo, mas antes do que houver ouvido.

O Consolador é identificado nas obras canônicas do espiritismo como o próprio espiritismo, como em A Gênese* (1.42): “O espiritismo realiza todas as promessas do Cristo a respeito do Consolador anunciado”, e o Espírito de Verdade é aquele que inspira (1.39) e preside (1.40) essa doutrina. Em termos práticos, podem-se analisar os quatro atributos no espiritismo como uma análise paralela do Espírito de Verdade, pois, uma vez que o espiritismo, o Consolador, é “inspirado” e “presidido” pelo Espírito de Verdade, não pode haver diferença ou contradição doutrinária entre os dois.

*KARDEC, Allan. A Gênese. Brasília: FEB, 1995

Então, um estudo esmerado do espiritismo mostra os quatros atributos que selecionamos acima? Analisemos cada um.

O Espírito de Verdade “procede do Pai” significa que ele já esteve com o Pai, isto é, já O viu e O conhece, o que é possível segundo o Livro dos Espíritos (1.1.11): “Será dado um dia ao homem compreender o mistério da Divindade? ‘Quando não mais tiver o espírito obscurecido pela matéria. Quando, pela sua perfeição, se houver aproximado de Deus, ele O verá e compreenderá’”. Assim, o Espírito de Verdade, que procede do Pai, deve ser alguém que viu Deus e O conhece, o que nenhum espírito que se comunicou conosco disse ter feito. Dizer que “vem do Pai” significa que os espíritos são partes de Deus e criados por Ele, daí “virem do Pai”, seria algo sem sentido, pois os espíritos em estado encarnado também veem do pai, de modo que “vir do Pai” não pode ser uma questão ontológica.

O Espírito de Verdade não ensinará algo diferente do que Jesus ensinou. No velho testamento, aceito por Jesus, visto que não veio negar a lei, mas cumpri-la (Mateus 5:17), encontramos: “Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro. Nem encantador, nem quem consulte a um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos. Pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao SENHOR; e por estas abominações o SENHOR teu Deus os lança fora de diante de ti”. (Deuteronômio 18:10-14)

Jesus também ensinou que o mandamento maior é Amar a Deus, e o segundo mandamento é amar o próximo: “Mestre, qual é o grande mandamento na lei? E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:36-39). O capítulo do Evangelho Segundo o Espiritismo que trata deste assunto, curiosamente, traz o título do segundo mandamento mais importante, Amar o Próximo como a Si Mesmo. Embora seja citada toda a passagem bíblica que aqui citei, quando os espíritos a comentam, eles não dizem absolutamente nada sobre o primeiro mandamento, que Jesus disse ser o mais importante, mas comentam apenas o segundo. Seu comentário completo a estes dois mandamentos é este:

“Amar o próximo como a si mesmo: fazer pelos outros o que quereríamos que os outros fizessem por nós” é a expressão mais completa da caridade, porque resume todos os deveres do homem para com o próximo. Não podemos encontrar guia mais seguro, a tal respeito, que tomar para padrão, do que devemos fazer aos outros aquilo que para nós desejamos. Com que direito exigiríamos dos nossos semelhantes melhor proceder, mais indulgência, mais benevolência e devotamento para conosco, do que os temos para com eles? A prática dessas máximas tende à destruição do egoísmo. Quando as adotarem para regra de conduta e para base de suas instituições, os homens compreenderão a verdadeira fraternidade e farão que entre eles reinem a paz e a justiça. Não mais haverá ódios, nem dissensões, mas, tão-somente, união, concórdia e benevolência mútua. (Evangelho Segundo o Espiritismo 11.4)

Assim, fica claro que o espiritismo estabelece a comunicação com os mortos, tida pelo velho testamento como “abominação ao Senhor”, e coloca o segundo mandamento de Jesus como o primeiro, alteração esta facilmente assimilável à primeira constatação de não conhecerem Deus, prerrogativa para amá-lO. A adoração a Deus é irrelevante em uma religião cuja lei de ação e reação é soberana, haja vista que um ateu caridoso tem o mesmo destino de um teísta caridoso que louva a Deus em oração e cânticos. Deus é mero dador das reações, quer boas, quer ruins, o que O torna mecânico ou impessoal e, logo, irrelevante*.

*As primeiras perguntas de Allan Kardec são sobre Deus, e as respostas são descrições meramente mecânicas: “Que é Deus? ‘Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas’. Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus? ‘Num axioma que aplicais às vossas ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá’”. (Livro dos Espíritos 1.1.1 e 4)

O Espírito de Verdade também guiará as pessoas em toda a verdade. Contudo, se os espíritos não conhecem tudo, como já citamos – “Os próprios espíritos longe estão de tudo saberem e, acerca do que não sabem, também podem ter opiniões pessoais* mais ou menos sensatas” (Livro dos Espíritos p. 303) – como poderão ensinar tudo? O Espírito de Verdade tem mesmo de ser alguém que vem do Pai, pois apenas semelhante pessoa pode tudo saber, ou então ser o próprio Pai, como defendem os Católicos, que afirmam o Espírito de Verdade ser o Espírito Santo, termo este equivalente na consciência de Krishna a Paramatma**.

*Não haveria problema algum nessa divisão de opiniões caso o espiritismo se reduzisse à posição de pesquisa científica e filosófica, como por vezes faz. Contudo, ao se atribuir valor divino, como ter vindo do Pai e só dizer o que ouve, a existência de diversas opiniões lança-lhe descrédito. Os mestres do Movimento Hare Krishna também atribuem a si o valor divino de só dizerem o que ouviram de Deus – como registradas Suas palavras pelo avatara Vyasadeva no Bhagavad-gita – porém, em coerência, jamais se vê que tenham opiniões diferentes, pois todos respondem as perguntas pelo que ouviram do Bhagavad-gita; no caso da transmigração da alma, que a alma que habita corpos humanos atualmente pode e passa por corpos animais. Sobre isso, Srila Prabhupada comenta:

“Mediante avanço especulativo, ninguém é capaz de chegar à plataforma real de conhecimento. No presente momento, muitíssimos filósofos, cientistas, estão tentando avançar em conhecimento através da especulação: ‘Eu acho’, ‘Na minha opinião’, ‘Talvez’ e assim por diante. Isso continua. Grandessíssimos filósofos, cientistas, eles dão sua opinião. Todos estão achando. ‘Eu acho…’. E isso está sendo apoiado. Conhecimento tornou-se sinônimo de poder pensar de qualquer maneira, e, no momento atual, isso está sendo aceito”. (palestra em 19 de abril de 1974, Hyderabad)

Sobre o guru, ou mestre, fidedigno, diz:

“O guru [mestre] é um. Embora centenas e milhares de acaryas [mestres exemplares] tenham ido e vindo, a mensagem é a mesma. Portanto, o guru não pode ser dois. O verdadeiro guru não falará algo diferente. Alguns gurus dizem: ‘Na minha opinião, você deve ser assim’, e alguns gurus dirão: ‘Na minha opinião, faça assim’ – eles não são gurus; são todos velhacos. O guru não tem opinião pessoal. O guru tem apenas uma opinião: a opinião que foi expressa por Krishna [Deus]”. (Palestra em 22 de agosto de 1973, Londres)

**Palestra de Srila Prabhupada em Londres sobre o Bhagavad-gita 1.15, em 15 de julho de 1973

Outro atributo do Espírito de Verdade é que “não falará de si mesmo, mas antes do que houver ouvido”. Este é o atributo essencial de um mestre espiritual segundo a consciência de Krishna, que ele tem de ter ouvido de uma autoridade, que ouviu de outra autoridade e assim por diante até que a primeira autoridade tenha sido alguém que ouviu do próprio Deus, como descrito no já citado Livro dos Espíritos 1.1.11. Para maior credibilidade, é importante também que essa ordem de Deus que é transmitida adiante também possa ser uma fonte primária para quem a recebe, isto é, deve-se poder consultar tanto o mestre que traz o conhecimento acerca de Deus como Deus diretamente na obra que registra as palavras de Deus, ou, caso contrário, a relação com o mestre será de mera fé em alguém cuja autenticidade não se pode determinar. Vemos que os espíritos, no entanto, não têm essa posição de que receberam instruções superiores e assim por diante até alguém que está em contato com Deus, supostamente o Espírito de Verdade, senão que têm opiniões e investigam o universo, Deus etc. através de suas experiências. Por exemplo, o estudo da origem do Universo e dos mundos se dá pela disciplina da Ciência, e não por revelação de uma autoridade infalível:

A história da origem de quase todos os povos antigos se confunde com a da religião deles, donde o terem sido religiosos os seus primeiros livros. E como todas as religiões se ligam ao princípio das coisas, que é também o da Humanidade, elas deram, sobre a formação e o arranjo do Universo, explicações em concordância com o estado dos conhecimentos da época e de seus fundadores. Daí resultou que os primeiros livros sagrados foram ao mesmo tempo os primeiros livros de ciência, como foram, durante largo período, o código único das leis civis.

Nas eras primitivas, sendo necessariamente muito imperfeitos os meios de observação, muito eivadas de erros grosseiros haviam de ser as primeiras teorias sobre o sistema do mundo. Mas, ainda quando esses meios fossem tão completos quanto o são hoje, os homens não teriam sabido utilizá-los. Aliás, tais meios não podiam ser senão fruto do desenvolvimento da inteligência e do consequente conhecimento das leis da Natureza. À medida que o homem se foi adiantando no conhecimento dessas leis, também foi penetrando os mistérios da criação e retificando as ideias que formara acerca da origem das coisas.

Impotente se mostrou ele para resolver o problema da criação, até ao momento em que a Ciência lhe forneceu para isso a chave. Teve de esperar que a Astronomia lhe abrisse as portas do espaço infinito e lhe permitisse mergulhar aí o olhar; que, pelo poder do cálculo, possível se lhe tornasse determinar com rigorosa exatidão o movimento, a posição, o volume, a natureza e o papel dos corpos celestes; que a Física lhe revelasse as leis da gravitação, do calor, da luz e da eletricidade; que a Química lhe mostrasse as transformações da matéria e a Mineralogia os materiais que formam a superfície do globo; que a Geologia lhe ensinasse a ler, nas camadas terrestres, a formação gradual desse mesmo globo. À Botânica, à Zoologia, à Paleontologia, à Antropologia coube iniciá-lo na filiação e sucessão dos seres organizados. Com a Arqueologia pode ele acompanhar os traços que a Humanidade deixou através das idades. Numa palavra, completando-se umas às outras, todas as ciências houveram de contribuir com o que era indispensável para o conhecimento da história do mundo. Em falta dessas contribuições, teve o homem como guia as suas primeiras hipóteses.

Por isso, antes que ele entrasse na posse daqueles elementos de apreciação, todos os comentadores da Gênese, cuja razão esbarrava em impossibilidades materiais, giravam dentro de um círculo, sem conseguirem dele sair. Só o lograram, quando a Ciência abriu caminho, fendendo o velho edifício das crenças. Tudo então mudou de aspecto. Uma vez achado o fio condutor, as dificuldades prontamente se aplanaram. Em vez de uma Gênese imaginária, surgiu uma Gênese positiva e, de certo modo, experimental. O campo do Universo se distendeu ao infinito. Acompanhou-se a formação gradual da Terra e dos astros, segundo leis eternas e imutáveis, que demonstram muito melhor a grandeza e a sabedoria de Deus, do que uma criação miraculosa, tirada repentinamente do nada, qual mutação à vista, por efeito de súbita ideia da Divindade, após uma eternidade de inação.

Pois que é impossível se conceba a Gênese sem os dados que a Ciência fornece, pode dizer-se com inteira verdade que: a Ciência é chamada a constituir a verdadeira Gênese, segundo a lei da Natureza. (A Gênese 4.1-3)

É claro que, assim como os atuais cientistas acreditam que, embora todos os cientistas antes deles estivessem errados, eles agora não o estarão pelo aprimoramento de suas ferramentas; serão muitos aqueles, na mentalidade cientificista da contemporaneidade, a acreditarem que as ferramentas dos espíritos desencarnados serão suficientes para esse exame. Em todo caso, não é possível atribuir a tais espíritos o caráter de “falam o que ouvem”.

Assim, parece evidente que o espiritismo não tem todos ou nenhum dos atributos que se espera no que Jesus descreveu como Espírito de Verdade e Consolador, fazendo parecer, destarte, que o uso bíblico é apenas um artifício de autopromoção com a atitude de aproveitar de um corpo textual bem estruturado e famoso para isso, tal qual fez Gandhi em relação ao Bhagavad-gita. Contudo, façamos outra reflexão. Se o espiritismo veio para adicionar aos ensinamentos de Jesus a explicação de como as pessoas sofrem por reações a atos de vida passada*, o que não podia ser explicado 2.000 anos atrás onde Jesus pregou, o que podemos esperar dos ensinamentos da Índia, onde se falou o Bhagavad-gita 5.000 anos atrás, no qual se fala claramente de tudo o que o espiritismo fala apenas hoje? No Bhagavad-gita, temos instruções claras sobre caridade, reencarnação, amor a Deus e assim por diante. Se 5.000 anos atrás, 3.000 anos antes de Jesus poder falar limitadamente, e quase 5.000 anos antes do espiritismo poder falar o que fala hoje, o povo da Índia estava pronto para esse conhecimento, o que será que podemos aprender com a Índia hoje, especialmente em uma sucessão ininterrupta de mestres e discípulos desde o Bhagavad-gita 5.000 anos atrás, sucessão esta representada, entre outros, por Prabhupada, o fundador do Movimento Hare Krishna?

*“[O espiritismo] vem, finalmente, trazer a consolação suprema aos deserdados da Terra e a todos os que sofrem, atribuindo causa justa e fim útil a todas as dores”. (Evangelho Segundo o Espiritismo 6.4)

Sobre caridade, entre outros versos, Krishna, ou Deus, diz no Bhagavad-gita (17.20-22, 18.22,68):

A caridade dada por dever, sem expectativa de recompensa, no local e hora apropriados e dada a alguém digno, está no modo da bondade. Mas a caridade executada com expectativa de alguma recompensa, ou com desejo de resultados fruitivos, ou com má vontade, diz-se que é caridade no modo da paixão. E a caridade executada em lugar impuro, em hora imprópria e feita a pessoas indignas ou sem a devida atenção e respeito diz-se que está no modo da ignorância. Os atos de sacrifício, caridade e penitência não devem ser abandonados, mas sim executados. Na verdade, sacrifício, caridade e penitência purificam até as grandes almas. Para aquele que explica aos devotos este segredo supremo, o serviço devocional puro está garantido, e, no final, ele voltará a Mim. Não há neste mundo servo que Me seja mais querido do que ele, tampouco jamais haverá alguém mais querido.

Sobre reencarnação, diz (22.12-17, 20-25 e 28-30):

Nunca houve um tempo em que Eu não existisse, nem você, nem todos esses reis, e, no futuro, nenhum de nós deixará de existir. Assim como a alma encarnada passa seguidamente, neste corpo, da infância à juventude e à velhice, da mesma maneira, a alma passa para outro corpo após a morte. Uma pessoa sóbria não se confunde com tal mudança. Ó filho de Kunti, o aparecimento temporário da felicidade e da aflição, e o seu desaparecimento no devido tempo, são como o aparecimento e o desaparecimento das estações de inverno e verão. Eles surgem da percepção sensorial, ó descendente de Bharata, e precisa-se aprender a tolerá-los sem se perturbar. Ó melhor entre os homens [Arjuna], quem não se deixa perturbar pela felicidade ou aflição e permanece estável em ambas as circunstâncias, está certamente qualificado para a liberação. Aqueles que são videntes da verdade concluíram que não há continuidade para o inexistente [o corpo material] e que não há interrupção para o existente [a alma]. Eles concluíram isto estudando a natureza de ambos. Saiba que aquilo que penetra o corpo inteiro é indestrutível. Ninguém é capaz de destruir a alma imperecível. Para a alma, em tempo algum existe nascimento ou morte. Ela não passou a existir, não passa a existir e nem passará a existir. Ela é não nascida, eterna, sempre existente e primordial. Ela não morre quando o corpo morre. Assim como alguém veste roupas novas, abandonando as antigas, a alma aceita novos corpos materiais, abandonando os velhos e inúteis. A alma nunca pode ser cortada em pedaços por arma alguma, nem pode ser queimada pelo fogo, ou umedecida pela água ou definhada pelo vento. Esta alma individual é inquebrável e indissolúvel, e não pode ser queimada nem seca. Ela é permanente, está presente em toda a parte, é imutável, imóvel e eternamente a mesma. Diz-se que a alma é invisível, inconcebível e imutável. Sabendo disto, você não deve se afligir por causa do corpo. Todos os seres criados são imanifestos no seu começo, manifestos no seu estado intermediário, e de novo imanifestos quando aniquilados. Então, qual a necessidade de lamentação? Alguns consideram a alma como surpreendente, outros descrevem-na como surpreendente, e alguns ouvem dizer que ela é surpreendente, enquanto outros, mesmo após ouvir sobre ela, não podem absolutamente compreendê-la. Ó descendente de Bharata, aquele que mora no corpo nunca pode ser morto. Portanto, você não precisa afligir-se por nenhum ser vivo.

Sobre o amor a Deus, diferentemente do espiritismo, a consciência de Krishna sabe conciliá-la com a lei do karma, sem retirar o panorama de misericórdia e a importância do louvor exclusivo a Deus. Na consciência de Krishna, não se alcança Deus através do acúmulo de bom karma, senão que este conduz a alma apenas a dimensões superiores de conforto, conhecimento e bondade. Contudo, a lei do karma é a resposta de Deus às almas que não quiseram morar no reino dEle, onde Ele controla tudo. Assim, rebeldes do controle de Deus, Deus cria-lhes o mundo material – que inclui a morada dos espíritos –, onde elas mesmas são as controladoras e Ele nada faz, isto é, os atos das almas condicionadas determinam sua ventura ou desventura, não Deus. Querer chegar a Deus pelo acúmulo de bom karma é manter a mentalidade de ser o controlador e autossuficiente: “Sou alguém que pode sair do mundo material por meu próprio esforço e mérito”. Quando alguém se rende a Deus, ele se livra tanto do bom karma quanto do mau karma, tornando-se akarma*, isto é, tornando-se alguém que não terá mais nenhuma existência promovida por seus próprios atos, mas existirá no reino de Deus, onde Deus é o controlador direto. Estas e outras instruções estão no Bhagavad-gita claramente.

*“Aquele ocupado em serviço devocional se livra tanto das boas quanto das más reações, mesmo nesta vida. Esforça-te, portanto, pelo yoga, que é a arte de todo trabalho”. (Bhagavad-gita 2.50)

Em resumo, pode-se ver o espiritismo como uma revelação inválida porquanto não sustenta os atributos que diz ter, lembrando, proceder do Pai; não ensinar algo diferente do que Jesus disse; guiar as pessoas em toda verdade; e não falar de si mesmo, mas antes do que houver ouvido.

Neste ponto, algumas perguntas interessantes podem estar visitando a inteligência do leitor. Por exemplo, o Bhagavad-gita não descreve com toda a lucidez de detalhes as colônias e planetas superiores, como faz o espiritismo. Isto não faria do espiritismo superior? O Bhagavad-gita possui uma justificativa para não fazer semelhante descrição. Os Vedas o fizeram profusamente, e a crítica de Krishna, no Bhagavad-gita (2.27), é esta: “Os homens de pouco conhecimento estão muitíssimo apegados às palavras floridas dos Vedas, que recomendam várias atividades fruitivas àqueles que desejam elevar-se aos planetas celestiais, com o consequente bom nascimento, poder e assim por diante. Por estarem ávidos por gozo dos sentidos e vida opulenta, eles dizem que isto é tudo o que existe”. E completa, em Bhagavad-gita 8.16, dizendo que mesmo a morada de Brahma, a morada mais elevada que existe, em seis camadas superiores à residência dos espíritos, ou bhutas, é miserável. Assim, ouvir as descrições de tais lugares apenas aumenta o nosso desejo de tentarmos ser felizes longe de Deus: “Aqui está ruim, mas lá, apesar de Deus não residir lá pessoalmente, vai ser bom”. Contudo, na opinião de Krishna, lá também é ruim, até a residência de Brahma, sendo bom apenas onde Ele mora em Seu aspecto pessoal*, morada esta chamada Vaikuntha. Krishna chama as descrições de tais lugares de “linguagem florida” porque aqueles que os descrevem não os descrevem de modo justo, senão que descrevem impressionados em ter um local onde têm mais conforto do que tinham na superfície da Terra ou em outros lugares.

*“Transcendentalistas doutos, os quais conhecem a Verdade Absoluta, chamam essa substância não dual de Brahman [a refulgência de luz que emana do aspecto pessoal de Deus], Paramatma [Deus como a testemunha e o mestre espiritual residente no coração do corpo sutil] ou Bhagavan [Deus em Si, em Seu aspecto pessoal com o qual interage sobretudo com as almas liberadas de todo condicionamento grosseiro e sutil]”. (Srimad-Bhagavatam 1.2.11)

No filme Nosso Lar, por exemplo, encontramos:

“Aos poucos, tudo começava a fazer sentido. Nosso Lar era a vida real, e a Terra apenas uma passagem”. (36:00) Se o espírito progride por várias moradas, por que o Nosso Lar não é tratado apenas como passagem, tal como se chamou de passageira a Terra? Em outra cena, André Luiz diz: “Eu ainda era o mesmo homem, preso aos meus próprios erros, ao meu egoísmo, ao meu passado”. (36:40) Diante disso, não é possível ter os moradores de tal local como autoridades, o que dizer de autoridades livres de todo erro, embora eles se vejam assim, com na cena em 1:04:00, onde uma servidora da colônia Nosso Lar leva para André Luiz o registro de orações feitas a ele, gravadas em uma espécie de pen drive, e diz que ali não há erros:

– Nossa, demorei a achar. Faz tempo não é? Só tem dois arquivos.

– Como assim?

– O registro de duas pessoas.

– Só duas? Você colocou meu nome correto? “André Luiz”.

– Não há erros aqui, senhor.

Como pode não haver erros em um local onde trabalha pessoas presas em seus próprios erros, egoísmo e passado? Se ela teve dificuldade em encontrar – como aponta com os dizeres “Nossa, demorei a achar” – as duas pessoas que oraram a André Luiz, como pode não haver possibilidade de erros ou de não encontrar? Isto é o que define linguagem florida: Descrever um local temporário, com sofrimento e pessoas imperfeitas como sendo “Nosso Lar, a vida real, um local onde não há erros, etc.”; é precisamente o que Krishna diz ser produto de pessoas que estão ávidas por conforto e gozo dos sentidos.

O Bhagavad-gita e as escrituras que o sucedem, no entanto, após condenarem semelhante audição ou leitura, descrevem com minúcias o mundo onde Deus reside com as almas puras e toda a interação que se dá entre os mesmos. Destacamos a obra Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, de Srila Prabhupada, a leitura da qual se recomenda após a leitura de O Bhagavad-gita Como Ele É, do mesmo autor.

Uma análise da posição dos espíritos segundo a consciência de Krishna

Hare krishna hare RamaAntes de colocarmos a posição dos espíritos na consciência de Krishna, esclareçamos questões conceituais. A consciência de Krishna chama de espiritual aquilo que é eterno, pleno de conhecimento e pleno de bem-aventurança, de modo que jamais chamará a colônia Nosso Lar, por exemplo, de espiritual, haja vista que, segundo a obra homônima, foi fundada no século XVI, é a residência de pessoas egoístas que precisam renascer etc. e é um local onde há variados sofrimentos. Temporariedade: “‘Nosso Lar’ é antiga fundação de portugueses distintos, desencarnados no Brasil, no século XVI”. (p. 48) Ignorância: “Notando-me a dificuldade para apreender todo o conteúdo do ensinamento, com vistas à minha quase total ignorância dos princípios espirituais, Lísias procurou tornar a lição mais clara”. (p. 66) Tristeza: “Notando que a senhora Laura entristecera subitamente ao recordar o marido, modifiquei o rumo da palestra” (p. 116).

*XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Brasília: FEB, 1996.

Assim, as colônias também são chamadas de materiais por nós. A morada de Deus, Krishna, sim é chamada espiritual, haja vista que não possui data de fundação nem se a deixa uma vez que se a tenha alcançado, todos lá possuem conhecimento perfeito acerca de tudo simplesmente por lá estarem e desconhecem qualquer espécie de sofrimento. Residência eterna para os que a alcançam: “Essa Minha morada suprema não é iluminada pelo Sol ou pela Lua, nem pelo fogo ou pela eletricidade. Aqueles que a alcançam jamais retornam a este mundo material”. (Bhagavad-gita 15.6) A morada em si: “Quando todo este mundo é aniquilado, aquela região [a morada de Deus] permanece inalterada. Aquilo que os vedantistas descrevem como imanifesto e infalível, aquilo que é conhecido como o destino supremo, aquele lugar do qual jamais se retorna após alcançá-lo – essa é Minha morada suprema”. (idem. 8.20-21)

Aqueles que se comunicam com os médiuns não são chamados de espíritos, pois eles não estão na morada espiritual de Deus, de modo que seus corpos têm que ser feitos da mesma substância da morada deles. Aqueles que moram na morada de Deus, que é eterna, plena de conhecimento e de bem-aventurança, têm um corpo dessa natureza, chamado em sânscrito de siddha-deha, ao passo que aqueles que residem na parte sutil do mundo material possuem corpos sutis materiais. Para se entrar no reino de Deus, é preciso abandonar também o corpo sutil, o que se chama liberação, ou moksha. Caso se abandone o corpo sutil sem o desejo de servir Deus, mas apenas por se atingir um estágio de não possuir nenhum desejo egoísta, a alma, sem nenhum corpo, funde-se na refulgência do corpo de Deus (Brahman). Caso abandone o corpo sutil, tendo atingido a perfeição de não ter nenhum desejo egoísta, mas possuindo o desejo de servir Deus, recebe um corpo da mesma natureza do corpo de Deus, lembrando, um corpo eterno, pleno de conhecimento e de bem-aventurança.

Aqueles chamados pelo espiritismo de espíritos de luz e espíritos de pouca luz são chamados ambos de bhutas, que significa “apegados ao passado”. Quando errantes, ficam nesta condição:

Aqueles que são muito pecaminosos e apegados à sua família, casa, vila ou país não recebem um corpo grosseiro feitos dos elementos materiais, senão que permanecem em um corpo sutil, composto de mente, ego e inteligência. Aqueles que vivem em tais corpos sutis são chamados de fantasmas (ghosts*). Essa posição fantasmagórica é muito dolorosa, porque um fantasma tem o corpo sutil e quer desfrutar da vida material, mas, porque ele não tem um corpo material grosseiro, tudo o que ele pode fazer é criar perturbações** devido à falta de satisfação material. (Srimad-Bhagavatam 4.18.18, significado)

*A palavra que Prabhupada usa em inglês é ghost, a qual parece ser cognato com a palavra sânscrita guha. Guha significa literalmente tanto “conhecido por poucos” como “residente no coração”. A palavra que atualmente traduz ghost nos livros de Prabhupada em português, no entanto, é bastante infeliz, porque a raiz de fantasma é fantasia, isto é, algo que não existe fatualmente. Por ora, utilizaremos “fantasma”, embora um termo mais apropriado em português esteja em debate pelos responsáveis pelas traduções em português das obras de Prabhupada e outras.

**Algumas de tais perturbações são descritas no Garuda Purana (2.9.57-62): “Falar-te-ei agora acerca dos tormentos ocasionados pelos fantasmas contra as pessoas na Terra. Quando uma mulher menstrua em vez de engravidar, não havendo crescimento da família apesar de vida sexual saudável, isso é influência de fantasmas. Também é influência de fantasmas quando alguém morre jovem, perde repentinamente seu emprego, é objeto de insultos, quando há repentino incêndio em uma casa, vê-se que em uma casa há constante desunião e brigas, falsos elogios, sofrimento devido à ganância, e doenças que suscitam vergonha. Quando o dinheiro investido da maneira correta não rende, mas se perde, isso se deve à perseguição de um fantasma. Quando safras se perdem mesmo após chuva apropriada, quando atividades comerciais fracassam, quando a esposa ou o esposo se mostra irritado, isso se deve à influência de fantasmas”.

Quando se enfartam de causar perturbações, caso tenham algum mérito piedoso, podem ir para Antariksa, ou podem ir diretamente para lá caso sejam semipiedosos, como descreve o Srimad-Bhagavatam (5.24.5): “Abaixo de Vidyadhara-loka, Caranaloka e Siddhaloka, no céu conhecido como Antariksa, estão os locais de desfrute dos yaksas, raksasas, pisacas, bhutas e assim por diante”. Estes são diferentes nomes para designar aqueles que não têm corpos grosseiros. O mais comum é bhuta. Parece-me seguro dizer que essa morada descrita como Antariksa é a mesma descrita pelos espíritas, tanto por ser a morada paradisíaca dos bhutas, aqueles apegados à família e com algum envolvimento mais ou menos recente com pecados, e por sua descrição espacial mais adiante no mesmo verso: “Antariksa se estende até onde o vento sopra e as nuvens flutuam no céu. Acima de Antariksa, não há mais ar”, o que coincide com a maior parte das descrições espíritas.

Assim, a condição de não ter um corpo grosseiro é tida como algo negativo, e embora tenham uma morada confortável destinada para eles, essa morada continua sendo a morada de pessoas identificadas com o corpo, apegadas à família, sujeitas aos defeitos das almas condicionadas – a saber, a tendência a enganar os outros, a enganar a si mesmos, possuir sentidos imperfeitos e cometer erros*. Logo não é uma posição desejável estar com eles, tampouco suas instruções devem ser tidas como de pessoas abalizadas nos entendimentos acerca de Deus e de Sua vontade. O conhecimento consciente de Krishna então divide as moradas acima de Antariksa, todas também materiais na definição consciente de Krishna, em seis agrupamentos: Bhuvarloka, Svargaloka, Maharloka, Janaloka, Tapoloka e Satyaloka.

*Cf. Sri Caitanya-caritamrta Adi-lila 7.107 e 2.86. (vedabase.com/en/cc)

Há aqui, no entanto, duas divergências entre a consciência de Krishna e o espiritismo. Primeiramente, não se chega a essas moradas apenas com o corpo sutil, corpo de bhuta, no sentido de que das colônias, ou de Antariksa, evolui-se mais e se continua sutilizando o corpo até as moradas superiores. Tais moradas possuem corpos grosseiros refinadíssimos para seus residentes, os quais lhe dão mais oportunidades do que possui o corpo sutil sozinho*. Em Satyaloka reside Brahma, que é a entidade viva mais poderosa e pura do mundo material, o qual preside todos os planetas, e Brahma possui um corpo grosseiro. Outra divergência é que nenhum dos moradores destes planetas, para não falar dos residentes de Antariksa, com seu peculiar apego aos laços familiares, pode estabelecer o caminho religioso para os terrestres ou qualquer outra pessoa. Isso é declarado no Srimad-Bhagavatam (6.3.19): “Os verdadeiros princípios religiosos são enunciados pela Suprema Personalidade de Deus. Embora completamente situados no modo da bondade, nem mesmo grandes sábios que ocupam os planetas mais elevados podem determinar os princípios religiosos verdadeiros, tampouco o podem os devas [residentes de Svargaloka] ou os líderes de Siddhaloka [um planeta da esfera Bhuvarloka], isso para não falar dos asuras [literalmente, pessoas sem (a-) luz (sura)], dos seres humanos comuns, os Vidyadharas e Caranas [outros residentes de outros dois planetas de Bhuvarloka]”.

*Uma vez que não obter um corpo grosseiro é prerrogativa dos pecadores, não é possível aceitar que Brahma, por exemplo, a entidade que preside a morada material [material na acepção daqueles conscientes de Krishna] mais elevada não tenha um corpo grosseiro dado que, apenas para residir em seu planeta, para não falar de ter o seu cargo, exige-se que, ao longo de 100 vidas, o indivíduo aspirante não se desvie de nenhum dever prescrito (Brhad-bhagavatamrta 1.2.49, dig-darsini). Além disso, vê-se que personalidades como Indra, de Svargaloka; Hanuman, de Bhuvarloka, e Manu e outros interagem com os seres humanos sem qualquer dificuldade ou necessidade de um médium ou algo similar. Em 28 de dezembro de 1972, em Bombaim, transcorreu a seguinte conversa entre Prabhupada e seus discípulos:

“Devota: Na Lua, há corpos de uma natureza mais sutil de modo que, se fôssemos lá, não seríamos capazes de vê-los? Prabhupada: Não. Você pode vê-los. Eles têm corpo material. Devota: Poderíamos vê-lo com nossos olhos? Prabhupada: Sim. Por que não? Na água, por exemplo, os corpos dos aquáticos são diferentes, mas você pode vê-los. Por que não? Se não fosse visível, como você está vendo a Lua? Se você está vendo a Lua, então não é invisível. A Lua é uma morada celestial [Svargaloka]; os semideuses [devas] vivem lá. Temos essas informações. Eles também são inteligentes: ‘Essas pessoas [os astronautas] estão vindo do planeta terrestre desautorizadamente. Então, divirjamo-los para a porção desértica’. Se a Lua é celestial, seus habitantes são mais inteligentes do que vocês; logo, se vocês têm uma máquina para chegar lá, eles têm uma máquina para divergi-los. ‘Esses sujeitos infames estão vindo aqui sem nenhuma licença de imigração. Que eles sejam divergidos para a porção desértica e, desapontados, irão embora’. Devoto: Há terra nos corpos deles ou seus corpos são feitos de ar? Prabhupada: Não. Estes corpos têm cinco elementos: terra, ar, água, fogo e éter. O corpo sutil: mente, inteligência e ego. Em algum planeta, a porção de terra pode ser maior ou a porção de fogo ou a porção de éter, mas são todos corpos materiais; não são corpos espirituais. O corpo espiritual está dentro. A qualquer lugar que você vá dentro do universo, você obtém o corpo material, e, segundo o corpo, a duração de vida é diferente”.

Assim fica evidente que ter apenas o corpo sutil é desprivilegio, não sintoma de estado de consciência superior. Segundo citado anteriormente, a não obtenção de um corpo grosseiro decorre de apego familiar, ou do passado de modo geral, e acúmulo de pecados, e não de sintoma de “evolução da consciência”.

Enquanto as escrituras descrevem os residentes de Antariksa como bhutas, “pecadores apegados à família imediata ou estendida”, as escrituras descrevem os residentes de planetas superiores, por exemplo, como indivíduos com o seguinte mérito: “Vosso mundo [Brahmaloka] pode ser auferido somente por pessoas santas que observam sem nenhum pecado seus deveres sociais prescritos, livres de orgulho e outros vícios, ao longo de cem vidas”. (Brhad-bhagavatamrta 1.2.49, dig-darsini) Se mesmo tais pessoas muito superiores não podem estabelecer códigos de religião, certamente não o podem os bhutas.

Neste ponto talvez já tenha surgido um questionamento muito interessante no leitor. “Você, um membro da Sociedade Internacional para a consciência de Krishna, está negando a autoridade dos espíritos, ou bhutas, bem como de personalidades mais elevadas do que eles em dimensões superiores, mas, acaso, você também não é alguém falível, tanto você quanto Srila Prabhupada? O verso supracitado do Srimad-Bhagavatam diz que os devas, siddhas etc. não podem estabelecer os princípios religiosos, mas também menciona que não o podem os ‘seres humanos comuns’”.

Certamente Prabhupada, como apenas uma centelha de Deus, e não Deus em pessoa, é falível. Contudo, diferentemente dos bhutas, ou espíritos, ele assume sua condição de não poder chegar a algum conhecimento perfeito através de seus sentidos e deduções, isto é, através de ciência e filosofia. Algumas vezes, acredita-se que os espíritos que ditam estão em contato com outro espírito mais elevado que está em contato com outro espírito mais elevado e assim por diante até alguém perfeito em contato com Deus. Contudo, analisando as obras, sabemos que não é isso o que acontece. Em A Gênese (17.32), por exemplo, encontramos a ideia de que o espiritismo se tornará a religião mundial de todos por meio da razão e da ciência:

Entretanto, a unidade se fará em religião, como já tende a fazer-se socialmente, politicamente, comercialmente, pela queda das barreiras que separam os povos, pela assimilação dos costumes, dos usos, da linguagem. Os povos do mundo inteiro já confraternizam, como os das províncias de um mesmo império. Pressente-se essa unidade e todos a desejam. Ela se fará pela força das coisas, porque há de tornar-se uma necessidade, para que se estreitem os laços da fraternidade entre as nações; far-se-á pelo desenvolvimento da razão humana, que se tornará apta a compreender a puerilidade de todas as dissidências; pelo progresso das ciências, a demonstrar cada dia mais os erros materiais sobre que tais dissidências assentam e a destacar pouco a pouco das suas fiadas as pedras estragadas. Demolindo nas religiões o que é obra dos homens e fruto de sua ignorância das leis da Natureza, a Ciência não poderá destruir, malgrado a opinião de alguns, o que é obra de Deus e eterna verdade. Afastando os acessórios, ela prepara as vias para a unidade.

Interessante notar a analogia de que haverá uma só religião pela força da ciência e da razão humana assim como os povos estão se unindo social e politicamente. Algumas décadas após esses dizeres, irrompeu-se a primeira guerra mundial, e algumas décadas mais à frente, com a ciência e a dita razão em seu auge, a segunda guerra mundial, na qual se conseguiu matar muito mais do que na primeira. Hoje a globalização comercial se mostra um evento que tornou o mundo um grande supermercado de futilidades e artigos degradantes – com a grandiosa internet tendo como dois terços de seu conteúdo pornografia – e o sucesso em reproduzir a alimentação e o entretenimento americanos é o parâmetro de se um país é desenvolvido ou não. Se o espírito for tão feliz em sua previsão do espiritismo como a religião que unirá todos os religiosos do mundo quanto foi feliz em dizer que o mundo caminhava para uma união social, política e comercial, então certamente a ciência e a razão não são meios para se conhecer os desígnios de Deus e unificar as crenças. A razão e a ciência da pós-modernidade mostram como algo percebido com os sentidos, a mente e a inteligência sempre será subjetivo e, logo, jamais unificador, mas produtor das mais diferentes teorias, todas necessariamente falhas.

Que os espíritos usam de seus sentidos e inteligência falíveis para suas conclusões já foi exposto em suas conclusões permeadas de dúvidas, e que se valem de ciência e especulação é algo que expressam com frequência e vaidade, sobretudo em A Gênese. É interessante notar que Allan Kardec se opõe à razão e à percepção direta como meios válidos, mas falhou em perceber que, embora os espíritos tenham melhores recursos – supostamente – para poderem perceber a reencarnação como fato, têm recursos insuficientes para dizerem tudo o que dizem, como falar sobre Deus ou a origem e o propósito do Universo.

O homem que julga infalível a sua razão está bem perto do erro. Mesmo aqueles, cujas ideias são as mais falsas, se apoiam na sua própria razão e é por isso que rejeitam tudo o que lhes parece impossível. Os que outrora repeliram as admiráveis descobertas de que a Humanidade se honra, todos endereçavam seus apelos a esse juiz, para repeli-las. O que se chama razão não é muitas vezes senão orgulho disfarçado e quem quer que se considere infalível apresenta-se como igual a Deus. Dirigimo-nos, pois, aos ponderados, que duvidam do que não viram, mas que, julgando do futuro pelo passado, não creem que o homem haja chegado ao apogeu nem que a Natureza lhe tenha facultado ler a última página do seu livro. (Livro dos Espíritos, p. 30)

Soube muito bem Allan Kardec determinar os percalços da razão e da vaidade, mas não os soube identificar nesses mesmos homens esses defeitos depois de mortos – algo bastante próprio para alguém deslumbrado ante o conhecimento da reencarnação, o que jamais aconteceria se fosse nascido na Índia e estudioso da consciência de Krishna. Neste caso, poderia analisar tudo sem deslumbramento, haja vista a popularidade do conhecimento das existências múltiplas – mero pressuposto.

Sobre a questão epistemológica, os Vedas dizem que a ciência e a filosofia, ou o conhecimento ascendente, sempre será imperfeito, em especial no que diz respeito a Deus, uma vez que Deus é inalcançável pelos esforços das almas em corpos materiais*, o que inclui os bhutas, em virtude dos já mencionados quatro defeitos das almas condicionadas. No entanto, os Vedas falam de uma terceira epistemologia, chamada sabda-pramana, ou o conhecimento revelado – revelado necessariamente por Deus, é claro. Assim é que, embora Prabhupada e eu sejamos seres humanos comuns, superamos toda a nossa condição precária ao não expressarmos nenhuma opinião reunida de pesquisas, reflexões pessoais ou revelações de pessoas falíveis. Srila Prabhupada diz:

*“Adoro Govinda, o Senhor primordial, aquele além da concepção material, aquele cuja ponta dos dedos dos pés de lótus é tudo o que abordam os yogis que aspiram ao transcendente e recorrem a pranayama exercitando a respiração, ou o que abordam os jnanis que tentam encontrar o Brahman não-diferenciado por meio do processo de eliminação do mundano, alongando-se nisso por milhares de milhões de anos”. (Brahma-samhita 5.34)

Porque eles são todos infames e néscios, o que eles [aqueles que adotam o método científico como epistemologia] podem descobrir? Eles simplesmente teorizam com base em sua necedade – isto é tudo. Esse é o afazer deles. Não há fatos. E aqueles que são infames acreditam neles – isto é tudo. Então, não somos semelhantes sujeitos, porque o nosso conhecimento é recebido a partir do maior cientista, Krishna [Deus]. Eu, pessoalmente, posso ser um patife, mas, porque sigo o maior cientista, minha proposição é científica.

Prabhupada aceita que ele, pessoalmente, possa ser um “patife”, mas, diferentemente dos espíritos reveladores, ele não dá vazão à sua “patifaria” ao tentar produzir algum conhecimento por suas reflexões e observações, senão que aceita Krishna, Deus, o cientista supremo e infalível, e repete apenas o que Ele diz. Eu, do mesmo modo, repito o que Prabhupada diz.

O Movimento Hare Krishna, no entanto, não é uma religião de algum “velhinho indiano” que recebeu uma revelação magnífica de Deus e passou a liderar as pessoas. A revelação de Deus, ou do cientista supremo, a que se refere Prabhupada está inteiramente registrada no Bhagavad-gita e outras obras similares, às quais todos têm acesso direto para constatar como Prabhupada e seus seguidores estão ensinando e fazendo apenas o que Deus falou. Por que aceitar que esse livro é infalível e realmente revelado por Deus? Quanto a isso, Krishna diz que a religião se dá por experiência direta (Bhagavad-gita 9.2), ou seja, cada leitor deste terá de tirar sua conclusão após ler o Bhagavad-gita como o próprio Gita diz que ele deve ser lido: Na companhia dos devotos de Deus e com os esclarecimentos de um devoto de Deus entendido. Não tenho interesse no “eu acredito que seja realmente revelada”, tampouco podemos agrupar o Bhagavad-gita em “todas as outras obras ditas reveladas que li sei que não eram”, pois seria um preconceito.

Em resumo, analisando as obras canônicas do espiritismo, encontramos que parece que os espíritos não são quem dizem ser, e, segundo a consciência de Krishna, apenas Deus pode revelar a religião à humanidade, e quem quiser ensinar às pessoas o caminho da religião deverá conhecê-lo diretamente com Deus ou, mais possivelmente, com alguém que esteja em uma sucessão que comece com o próprio Deus e não subordine a revelação de Deus ao que se pode entender com os sentidos e a mente, independente de quão refinado seja o corpo que reveste a alma pura. As almas que atualmente se encontram no estado de bhutas não possuem nenhuma qualificação especial que lhes permita esclarecer outros acerca de vedanta, a conclusão de todo conhecimento, salvo caso digam apenas o que Deus falou ou o que disse alguém que ouviu diretamente de Deus. Não se vê isso nos reveladores do espiritismo.

No Srimad-Bhagavatam e, mais sinteticamente, na introdução do Bhagavad-gita Como Ele É, de Srila Prabhupada, encontramos como o conhecimento perfeito da consciência de Krishna chegou à Terra, tendo sido ensinado por Deus a Brahma, que o ensinou a Narada, que, com seu corpo especial, veio à Terra e o ensinou a Vyasadeva, que o escreveu sobretudo no Srimad-Bhagavatam, cuja introdução é o Bhagavad-gita*.

*Embora o Bhagavad-gita e o Srimad-Bhagavatam abordem os mesmos temas, o Srimad-Bhagavatam é considerado superior porque seus ouvintes eram sábios autocontrolados e santos, com tempo disponível para desdobramento de muitos assuntos, ao passo que o Bhagavad-gita foi falado a um guerreiro pouco tempo antes do começo de uma guerra.

Entre os espíritas às vezes se acredita que desencarnados piedosos são em geral superiores a piedosos encarnados. Contudo, isso pode ser mera crença, pois, afinal, não era Jesus, encarnado, mais elevado do que todos os Espíritos*? Assim, não há fundamento para dizer que os mestres encarnados que seguem a sucessão discipular que começa com o próprio Krishna, Deus, sejam inferiores por terem misericordiosamente vindo a este mundo. Além disso, há a vantagem de que não é possível ser alguém passando por outrem, como frequentemente acontece em psicografias. Insisto no ponto anterior. Se os cristãos apenas agora estão prontos para a temática da reencarnação, por que um buscador sincero não beberia do Bhagavad-gita e do Srimad-Bhagavatam, falado a um povo que, 3.000 anos antes do nascimento de Jesus, já estava pronto para esse conhecimento, analisado a fundo, bem como prontos para tópicos jamais explorados pelos espíritas, como as dinâmicas da vida junto a Deus, a Personalidade de Deus, os três modos da natureza material, uma descrição completa do Universo de uma perspectiva revelada, desde o planeta mais baixo ao mais elevado?

*À pergunta de se Jesus seria médium, isto é, alguém cujas palavras e obras decorrem de inspiração de Espíritos, é dada a seguinte resposta, que atesta que a visão espírita é que alguém encarnado pode ser superior a todos os Espíritos e unicamente prestar-lhes serviço, sem receber deles nenhum: “Não, porquanto o médium é um intermediário, um instrumento de que se servem os Espíritos desencarnados, e o Cristo não precisava de assistência, pois que era ele quem assistia os outros. Agia por si mesmo, em virtude do seu poder pessoal… Que Espírito, ao demais, ousaria insuflar-lhe seus próprios pensamentos e encarregá-lo de os transmitir? Se algum influxo estranho recebia, esse só de Deus lhe poderia vir. Segundo definição dada por um Espírito, ele era médium de Deus”. (A Gênese 15.2)

Caso alguém insista que a consciência de Krishna não descreve as colônias e outras residências materiais tão bem quanto o espiritismo, julgo válido citar este verso do Bhagavad-gita (8.6): “Qualquer que seja o estado de existência de que alguém se lembre ao deixar o corpo, ó filho de Kunti, esse mesmo estado ele alcançará impreterivelmente”. Deste modo, caso Krishna Se detivesse a descrever a fundo moradas que não são o verdadeiro lar eterno das almas, nem um local onde elas finalmente encontrarão o néctar pelo qual sempre ansiaram, de ter uma existência contínua, plena de conhecimento e plena de bem-aventurança junto a Deus, Ele estaria encaminhando as almas para uma nova situação material pós-morte. Ele diz: “Aqueles que adoram os semideuses nascerão entre os semideuses, aqueles que adoram os ancestrais irão ter com os ancestrais, aqueles que adoram espíritos [bhutani] nascerão entre tais seres, e aqueles que Me adoram viverão coMigo”.

Quanto à inferioridade de nascer entre os bhutas, Krishna sequer se detém em fazê-lo, senão que o faz apenas em relação aos semideuses, pois, sendo muito mais elevados e residentes de planetas muito superiores*, dizer que ir ter com eles após a morte não é uma atitude inteligente basta para que entendamos que o destino junto aos bhutas é igualmente ruim. “Homens de pouca inteligência adoram os semideuses, e seus frutos são limitados e temporários. Aqueles que adoram os semideuses vão para os planetas dos semideuses, mas Meus devotos acabam alcançando Meu planeta supremo”. (Bhagavad-gita 7.23) Planeta este sobre o qual já citamos ser um planeta do qual jamais se retornará após ter sido alcançado e ser um planeta livre de qualquer sofrimento e permissor de contato direto com Deus.

*”Abaixo de Vidyadhara-loka, Caranaloka e Siddhaloka, no céu conhecido como Antariksa, estão os locais de desfrute dos Yaksas, Raksasas, Pisacas, Bhutas e assim por diante”. (Srimad-Bhagavatam 5.24.5) (grifo nosso)

Que não se pode morar eternamente nos planetas dos semideuses, para não falar da dimensão dos bhutas, é confirmado por este verso, também do Bhagavad-gita: “Após desfrutarem desse imenso prazer celestial dos sentidos e terem esgotado os resultados de suas atividades piedosas, eles regressam a este planeta mortal” (9.21). Aqui é preciso mais um esclarecimento aos espíritas, que, ao confundirem a evolução da consciência em rendição a Deus com o acúmulo de bom karma, acreditam que o acúmulo de bom karma jamais se perde. É verdade que o progresso da consciência jamais se perde, mas esse nada tem a ver com onde se reside – não era Jesus superior a todos os atuais desencarnados residentes das melhores colônias? –, daí que o bom karma, o grande fator a determinar onde se reside, ser algo que se esvai, como explicado por Krishna neste verso. Krishna conclui Seu parecer sobre aqueles que buscam comprar residência em tais moradas temporárias, portanto, dizendo que são “homens de pouca inteligência”. (7.23)

Como apenas a residência de Deus, ou Krishna, pode nos satisfazer, e onde quer que esteja a nossa consciência na hora da morte, para lá iremos, Krishna recomenda: “Ocupa tua mente em pensar sempre em Mim, torna-te Meu devoto, oferece-Me reverências e Me adora. Estando absorto por completo em Mim, com certeza virás a Mim”. (9.34) É o mesmo mandamento maior, como ensinado por Jesus, “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento”, o qual os espíritas caprichosamente colocam em segundo plano, absorvem seu pensamento, seu coração e sua alma em bhutas, superestimam a morada celestial dos mesmos e consideram que chegarão a Deus acumulando méritos cármicos, comprando Deus assim como se compra uma morada material.

Esse caminho de ascensão pelo bom karma é chamado em sânscrito de karma-kandha, sobre o qual Bhaktivinoda, um mestre da sucessão discipular a que pertence a Sociedade Internacional para a consciência de Krishna, comenta: “Não é possível utilizar a causa de uma doença para curar essa mesma doença. O processo karma-kandha é a causa da doença material das entidades vivas. Tal processo jamais produzirá o fruto de destruir a existência material das entidades vivas”. (Sri Manah-Siksa, capítulo 10) A causa da doença das entidades vivas não estarem mais morando com Deus, de onde vieram, é que desejaram ser independentes dEle, para o que Ele lhes deu a lei do karma, uma lei automática, ou seja, que não depende de Sua presença ou intervenção pessoal. As entidades vivas quererem se elevar por meio de seus atos e pelas instruções de outras almas falíveis, e não se rendendo a Deus, é apenas um sintoma de que preservam sua doença de quererem ser independentes do controle de Deus.

Objeto de Culto

Alguém talvez diga: “Mas os seguidores de karma-kandha também adoram a Deus”. No concernente a isso, Bhaktivinoda comenta: “Karma não é nada senão atividades egoístas. Os karmis [seguidores do caminho karma-kandha] não buscam exclusivamente a misericórdia de Krishna. Embora respeitem Krishna, seu propósito principal é obter alguma sorte de felicidade”. (Sajjana Tosani 11.11)

Certamente os seguidores de karma-kandha nunca buscam exclusivamente a misericórdia de Krishna, ou Deus, mas é possível inclusive que indivíduos desenvolvam até mesmo o pensamento ateísta conhecido como karma-mimamsa, o qual, já mencionado antes, diz que, se alguém adora Deus, mas não age piedosamente, ele é castigado pela lei do karma, ao passo que alguém que não adora a Deus, mas age piedosamente, é elevado pela lei do karma. Diante desta fórmula, adorar ou não a Deus se torna irrelevante, logo a existência ou inexistência de Deus também se torna irrelevante. Seria este o pensamento que conduziu os espíritos a promoverem o “fazer ao próximo o que desejaria para si” acima do “adorar a Deus de toda sua alma”?

Neste ponto, o amigo leitor talvez tenha três possíveis questionamentos, os quais responderemos antes de chegarmos às considerações finais. “O espiritismo, ao menos, não aprimorou o conhecimento católico? Não é injusto categorizar os trabalhadores das colônias com os obsessores ambos sob o mesmo título de bhutas? Krishna diz que aqueles que adoram os bhutas vão ter com os bhutas, mas os espíritas não adoram os bhutas”.

O espiritismo teria aprimorado o catolicismo caso houvesse apenas adicionado a lei do karma a este e houvesse mantido a salvação por misericórdia de Deus por render-se inteiramente a Ele. Contudo, deslumbrados com a lei do karma, ofuscaram a adoração a Deus por esta. Além do mais, se o progresso se faz por conduta moral, e não por inteligência, de que adianta os espíritas terem mais conhecimento do que os católicos, supostamente, mas não terem projetos de caridade ou princípios morais superiores aos primeiros? Embora desconhecedores da lei do karma, os católicos nem se dão à prática proibida no velho testamento, de interrogar os mortos, nem querem alcançar Deus por seus próprios méritos, salvo o mérito de se renderem. Onde está o aprimoramento do espiritismo, então, que não soube conciliar lei do karma e rendição a Deus?

Krishna exemplifica de maneira simples que aqueles que adoram os bhutas irão ter com os bhutas, mas disse mais amplamente também que onde quer que esteja nosso estado de consciência, para lá iremos. Assim, aqueles que se absorvem em pensar e servir bhutas que tomam corpos para beber e fumar irão ter com tais bhutas, ao passo que aqueles que pensam e servem os bhutas que residem em Antariksa, irão para Antariksa. Há diferentes nomenclaturas sim em sânscrito para designar diferentes bhutas. Pode-se chamar alguns de yaksas, traduzidos no Srimad-Bhagavatam da BBT, a editora do Movimento Hare Krishna, como “superprotetores” (3.10.28) e “espíritos semipiedosos” (10.85.41), e outros de raksasas, “aqueles contra quem temos de nos proteger”. Contudo, dentro da dicotomia ir para Deus ou ir para os bhutas; diante de Deus, tanto os bhutas de mais luz quanto os de menos luz são apenas bhutas: Quem compararia o prazer de estar com eles com o prazer de estar com Deus?

Quanto ao espiritismo não adorar bhutas, teremos de analisar qual acepção da palavra adorar comportaria essa negação. A etimologia de adorar, “oferecer ouro”, certamente é algo mais peculiar a escolas de herança africana; contudo, se entendermos adorar como ensinam a Bíblia e o Bhagavad-gita, respectivamente “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu pensamento” e “Ocupa tua mente em pensar sempre em Mim”, os espíritas sim adoram os bhutas, conferindo-lhes parte do pensamento que Deus exige inteiramente para Si.

Considerações Finais

Enfim, aqueles adeptos da consciência de Krishna não devem se confundir nem se dar a sincretismos ou duplas pertenças com o espiritismo, haja vista que a consciência de Krishna explica-o inteiramente e vai além. Alguém consciente de Krishna deve estar convicto desta declaração de modo a não desejar elevação a moradas superiores dentro do mundo material:

O nascimento como um ser humano é o melhor de todos. Mesmo o nascimento entre os semideuses nos planetas celestiais não é tão glorioso quanto o nascimento como um ser humano na Terra. Qual é a utilidade da posição de um semideus? Nos planetas celestiais, devido a profusos confortos materiais, não há possibilidade de associação com os devotos. (Srimad-Bhagavatam 5.13.21)

Assim, é aqui na Terra, na companhia dos devotos que adoram exclusivamente Deus em completo esclarecimento pelas escrituras reveladas por Deus, companhia esta facilitada pela Sociedade Internacional para a consciência de Krishna, que nos valeremos dos meios para, no momento da morte, estarmos inteiramente absortos em Deus para com Ele irmos estar. Assim como alguém que acumula mau karma é obrigado a sofrer, aquele que acumula bom karma é obrigado a experimentar felicidade, saúde e bem-estar aqui neste mundo material, o que o faz achar que é feliz e que pode obter felicidade por seu próprio esforço, mesmo desconectado de Deus – certamente necedade.

Não há dúvidas que obter o estado de consciência de Krishna é difícil*, porém devemos dar o nosso melhor certos de que, onde o nosso melhor não chegue, chega a misericórdia de Krishna**. É válido lembrar que caso, neste esforço de estarmos absortos em Krishna, ou Deus, no momento de nossa morte, não sejamos bem-sucedidos, Krishna diz que não há perda, porque Ele próprio nos coloca nos planetas superiores, para terminarmos nossos desejos de tentarmos ser felizes mesmo morando em um local onde Ele não está pessoalmente presente, e, após essa residência, faz o arranjo para que nasçamos novamente na Terra em uma família que facilitará nossas práticas religiosas da consciência de Krishna*** quer provendo-nos as necessidades materiais sem que precisemos trabalhar arduamente, quer dando-nos diretamente o conhecimento espiritual.

*“Dentre muitos milhares de homens, talvez haja um que se esforce por obter a perfeição, e, dentre aqueles que alcançaram a perfeição, é difícil encontrar um que Me conheça de verdade”. (Bhagavad-gita 7.3) Certamente quase todas as pessoas se tornarão bhutas no momento da morte com a formação que se possui atualmente no mundo, salvo as pessoas deveras religiosas. Quase todos se tornarem bhutas à hora da morte, quer errantes (com muito pecado), quer residentes de Antariksa (semipiedosos), certamente reforçará a convicção dos residentes de Antariksa de que esse é o estado normal que se alcança à hora da morte, e aqueles que acreditavam diferente, que acreditavam que se pode alcançar a morada de Deus a partir desta vida na Terra; por não terem a conduta capaz de lhes dar esse resultado de ir ter com Deus, serão doutrinados a acreditarem que tal evento de tornar-se fantasma é normal, e não produto de iniquidade. Vejamos como são praticamente universais na atualidade as condições que tornam alguém bhuta à hora da morte, segundo o Garuda Purana (2.22.68-74):

“Se um homem come alimento oferecido por um homem caído e morre com esse alimento dentro de seu estômago antes de ter sido digerido, ele se torna fantasma. Um sacerdote que preside o sacrifício de uma pessoa indigna e negligencia aquele de um sacrificante digno, e um homem que vive na companhia de pessoas desprezíveis, ambos se tornam fantasmas. Aquele que se dá à companhia de bêbados e tem relação com uma mulher viciada em vinho ou que come carne sem qualquer culpa torna-se um fantasma. Aquele que rouba a propriedade de um brahmana [intelectual religioso] ou de um templo ou de seu preceptor se torna fantasma. Aquele que abandona sua mãe, sua irmã, sua esposa, sua filha ou sua cunhada, apesar de serem inocentes, torna-se um fantasma. Todos estes certamente se tornam fantasmas: Um homem que toma posse de algo ilegitimamente, um homem traiçoeiro para com seus amigos, alguém que se atrai pela mulher de outrem, um homem infiel e um canalha mentiroso. Um homem que odeia seus irmãos, o assassino de um brahmana, aqueles que matam vacas, alguém viciado em bebidas alcoólicas, alguém que deprava a cama de seu preceptor, alguém que negligencia ritos tradicionais, alguém afeito a contar mentiras, aqueles que roubam dinheiro e indivíduos que roubam terra – todos estes tornam-se fantasmas”.

Perguntas e Respostas

As perguntas aqui apresentadas são paráfrases de questões apresentadas por diferentes leitores e respondidas pelo autor do artigo.

O artigo completo, juntamente com esta seção de perguntas e respostas, pode ser acessado online clicando aqui e obtido em formato pdf clicando aqui. (links corrigidos e em funcionamento)

PERGUNTAS DE ADEPTOS DO ESPIRITISMO

1. Será que o senhor comparar reencarnação e metempsicose não é sinal de que o senhor tem pouca convicção pessoal no que diz acreditar, a metempsicose?

Quanto a compararmos nossa crença com o que não acreditamos, o espiritismo faz bastante isso, sobretudo com o catolicismo. O senhor deve estar ciente disso, mas cito apenas duas passagens que exemplifiquem. O espiritismo não acredita nem no diabo nem em milagres, e assim fala dessas crenças católicas:

“Cumpre também colocar entre as causas da loucura o pavor, sendo que o do diabo já desequilibrou mais de um cérebro. Quantas vítimas não têm feito os que abalam imaginações fracas com esse quadro, que cada vez mais pavoroso se esforçam por tornar, mediante horríveis pormenores? O diabo, dizem, só mete medo a crianças, é um freio para fazê-las ajuizadas. Sim, é do mesmo modo que o papão e o lobisomem”. (Livro dos Espíritos, Introdução 15)

“O que, para a Igreja, dá valor aos milagres é, precisamente, a origem sobrenatural deles e a impossibilidade de serem explicados. Ela se firmou tão bem sobre esse ponto que assimilarem-se os milagres aos fenômenos da Natureza constitui para ela uma heresia, um atentado contra a fé, tanto assim que excomungou e até queimou muita gente por não ter querido crer em certos milagres. Daí vem a Igreja distinguir os bons milagres, que procedem de Deus, dos maus milagres, que procedem de Satanás. Mas, como diferençá-los? Seja satânico ou divino um milagre, haverá sempre uma derrogação de leis emanadas unicamente de Deus. Se um indivíduo é curado por suposto milagre, quer seja Deus quem o opere, quer Satanás, não deixará por isso de ter havido a cura. Forçoso se torna fazer pobríssima ideia da inteligência humana para se pretender que semelhantes doutrinas possam ser aceitas nos dias de hoje”. (A Gênese 13.16)

Assim, o contraste pode ser falta de convicção pessoal, como o senhor colocou. No meu caso específico, acho que não é o caso. Acho que é mesmo como fazem os espíritas com a igreja católica: comparação com fim de argumentação lógica para quem tiver interesse nessa modalidade de estudo comparado. O senhor deve ter notado no meu texto, no entanto, que não uso tratamentos como nos livros espíritas, que chamam uma crença central do catolicismo de “bicho papão”, uma invenção que “só mete medo a crianças”, e sua crença em milagres de uma tentativa de “fazer pobríssima ideia da inteligência”.

2. Deus é castigador? É um castigo de Deus alguém que come carne nascer como tigre?

O senhor perguntou se seria um castigo alguém nascer como tigre. A resposta depende do entendimento que o senhor tenha da palavra castigo. Se castigo é uma maldade, então não. Não é possível entender que Deus faça alguma maldade com as almas, pois, no conceito védico de Deus, como Ele próprio Se apresenta no Bhagavad-gita (5.29), Deus é “o melhor amigo de todas as entidades vivas”. Se castigo é entendido no valor verdadeiro da palavra, que é “tornar casto”, quer dizer, “tornar puro”, então sim: é um castigo. A alma se torna mais casta ou pura ao esgotar uma tendência animalesca em corpos animais em vez de o fazer em corpos humanos, e, uma vez em corpos humanos, pode prosseguir em seu empenho de render-se exclusivamente a Deus. Mesmo em termos de saúde é algo melhor para ela, pois o consumo de carne no corpo humano acarreta, além de reações pecaminosas sutis, várias doenças imediatas, como câncer, ao passo que o corpo de tigre é uma máquina bastante poderosa para digerir esse tipo de alimento.

Em relação à alma vir em condições materialmente inferiores, encontramos vários espíritos cogitando isso. Em Exilados de Capela, encontramos que os residentes dessa morada superior foram enviados de volta para a Terra, não por castigo, mas porque chegaram àquele planeta e não tiveram a condição moral de ficar nele, tal como uma alma que chega a um corpo humano porém é “exilada” dele por não corresponder ao que se espera de um humano civilizado. Isso é um castigo? Não, tais pessoas apenas não mantiveram a consciência que as levou para aquele estado, assim como alguém que foi aprovado no vestibular de Medicina pode ser jubilado do curso por excesso de faltas ou sucessivas reprovações. Quando um ser humano desenvolve todos os sentidos plenamente, não é possível que nasça surdo, mudo e tetraplégico? Isto é um castigo de Deus? Não, é um castigo do próprio homem não ter usado o corpo humano apropriadamente. Assim, por analogia a isso e contando que os espíritos “longe estão de tudo saberem”, por que não considerar a possibilidade da opinião védica estar certa? Esta é a reflexão que proponho.

3. Se o Tigre tem espírito, ele não poderia se alimentar de algum outro alimento, sem ter de fazer tantas crueldades? Por que tantas maldades e crueldades?

Salvo engano, entendo que o argumento do senhor é que onde está o espírito não há maldades e crueldades; logo, maldades e crueldades estarem presentes em animais selvagens, como o tigre, é um indício da não presença do espírito, é isso? Se crueldades e maldades são indício de ausência do espírito, então o que dizer de Hitler, muito mais cruel do que milhares de tigres? O que dizer do prolongado sofrimento aos animais que os homens promovem nas fazendas fábricas, muito mais cruel do que a morte rápida que promove o tigre às suas presas? O homem moderno é muito mais cruel do que o tigre. O tigre, por exemplo, jamais promove o aborto de seus filhos, ao passo que o homem é responsável por 126.000 abortos por dia. O tigre mata o que ele vai comer, ao passo que o homem mata seus próprios filhos apenas para, segundo a maioria dos abortistas entrevistados, “ter mais dinheiro” e “não atrapalhar minha carreira”. Não haver maldade e crueldade, portanto, não é distinção entre o homem e o tigre em favor do homem, mas em favor do tigre. O tigre é muito menos cruel do que o homem; e não estamos falando de tribos canibais, mas dos países mais desenvolvidos, haja vista que o total de aborto do mundo se concentra 78 por cento nos países de primeiro mundo e 22 por cento nos países de terceiro mundo. Vamos comparar o índice de estupro entre os humanos e entre os animais? Armas de destruição em massa? Escravidão? O já mencionado antisemitismo? O homem é muito mais cruel e maldoso do que o instintivo tigre. Assim como não negamos a presença do espírito nos escravistas, antisemitas, abortistas, estrupadores etc., esse argumento de que o tigre não pode ter um espírito porque se alimenta de carne não faz sentido, ao meu entender.

4. Em relação a Emmanuel ensinar algo diferente do que os primeiros espíritos ensinaram, os espíritos do pentateuco espírita, pode ser entendido como algo análogo a Jesus não ter ensinado tudo, mas deixado para esclarecimento posterior. Assim, Emmanuel dá mais um passo na revelação espírita.

Jesus pode não ter ensinado tudo, mas tampouco ensinou algo errado, senão que apenas ensinou algo que precisa de esclarecimento para entendermos como é certo. Se o começo do espiritismo ensinou que “o espírito da ostra não se torna sucessivamente o do peixe” (O Livro dos Espíritos 2.11.613), e Emmanuel e outros espíritos mais atuais estão certos em dizer que se tornam sucessivamente sim, então o espiritismo ensinou algo errado, e não algo certo porém velado, como fez Jesus, pois não é possível interpretar os dizeres sublinhados como uma parábola que quer dizer o contrário do que claramente dizem. Assim, todo ensino espírita é duvidoso, ao meu entender, tanto por contradições como pelos espíritos dizerem o que observam, e não o que ouvem de uma fonte infalível, como disse Jesus que faria o seu sucessor Espírito de Verdade: “Não falará de si, mas do que houver ouvido”. Se todos os espíritos ouvissem de uma mesma autoridade infalível, supostamente o Espírito de Verdade, então não haveria opiniões diferentes.

No meu entendimento, não haveria problema caso o espiritismo mudasse de opinião caso fosse apenas ciência e filosofia, mas, como se atribui valor infalível ao se dizer “vindo do Pai”, “ensinará todas as coisas” e os outros atributos analisados no artigo, essas contradições e revisões dos textos primários do espiritismo lançam-lhe descrédito, a meu ver.

5. Por que irmãos devotados ao amor a Deus, entendidos no espiritismo como espíritos de luz, não são igualmente estimados na consciência de Krsna, mas tratados pelo pejorativo termo bhuta?

A etimologia da palavra que designa aqueles que têm apenas o corpo sutil vem da raiz bheu/bhu, que é o verbo ser do sânscrito, que aparece em várias línguas, como irlandês (bha), inglês (be), letão (but) e persa (budan). Bhuta é ser no passado, daí a tradução de bhuta como “ligados ao passado”. Tais pessoas são assim entendidas porque, mesmo após a morte, preservam as impressões que tinham durante a vida – forma, nome, identificação familiar etc. – o que, para os Vedas, é uma condição anormal. O normal é que a alma, ao ter um corpo humano, deve desenvolver inteiramente sua consciência de Krsna, o que tem por consequência que ela vai para o Reino de Deus, onde obtém sua forma eterna, seu nome eterno, não tem nenhuma identificação familiar material etc. e de onde nunca mais renasce (Bhagavad-gita 8.16). Aqueles que são mal sucedidos em desenvolver amor puro por Deus, mas morrem após terem feito bom progresso no caminho, nascem, isto é, obtêm um corpo grosseiro, nos planetas superiores, chamados svarga (Bhagavad-gita 6.41), e de lá nascem na Terra, e não de antariksa, as colônias, que são inferiores a svarga.

Aqueles que antes de novamente nascerem ficam apenas no corpo sutil são tidos como pessoas que fizeram pouco desenvolvimento no amor a Deus, ao menos no amor a Deus entendido não como sentimento, mas como observação de Suas leis. As leis que foram quebradas para a pessoa ficar apenas no corpo sutil são estas, segundo o Garuda Purana: “Se um homem come alimento oferecido por um homem caído e morre com esse alimento dentro de seu estômago antes de ter sido digerido, ele se torna fantasma. Um sacerdote que preside o sacrifício de uma pessoa indigna e negligencia aquele de um sacrificante digno, e um homem que vive na companhia de pessoas desprezíveis, ambos se tornam fantasmas. Aquele que se dá à companhia de bêbados e tem relação com uma mulher viciada em vinho ou que come carne sem qualquer culpa torna-se um fantasma. Aquele que rouba a propriedade de um brahmana [intelectual religioso] ou de um templo ou de seu preceptor se torna fantasma. Aquele que abandona sua mãe, sua irmã, sua esposa, sua filha ou sua cunhada, apesar de serem inocentes, torna-se um fantasma. Todos estes certamente se tornam fantasmas: Um homem que toma posse de algo ilegitimamente, um homem traiçoeiro para com seus amigos, alguém que se atrai pela mulher de outrem, um homem infiel e um canalha mentiroso. Um homem que odeia seus irmãos, o assassino de um brahmana, aqueles que matam vacas, alguém viciado em bebidas alcoólicas, alguém que deprava a cama de seu preceptor, alguém que negligencia ritos tradicionais, alguém afeito a contar mentiras, aqueles que roubam dinheiro e indivíduos que roubam terra – todos estes tornam-se fantasmas”.

Assim, pode-se entender muitos espíritos como amantes de Deus no sentido sentimental, mas todos eles, segundo o Garuda Purana, infringiram alguma das leis de Deus acima relatadas. Com efeito, quantas pessoas, enquanto encarnadas, conhecemos que seguem todas estas regras? Assim, é tão frequente a quebra dessas leis de Deus que praticamente todos ficam em corpos sutis após a morte, daí o espiritismo entender que é uma condição normal. Segundo os Vedas, os espíritos, ou aqueles que têm apenas o corpo sutil, podem ser classificados entre ímpios e semipiedosos, porém, até onde estudo, nunca encontrei a descrição de um espírito santo (sadhu). São ímpios porque, por má conduta, não receberam a oportunidade de nascer novamente, quer na Terra, quer em planetas superiores, e são semipiedosos porque, apesar de terem tido alguma má conduta, são bem-intencionados, tementes a Deus, esperançosos em Jesus etc. Contudo, segundo os Vedas, se alguém é verdadeiramente santo, ele vai para o Reino de Deus ou, se quase santo, nasce em planetas superiores para esgotar seus desejos por conforto, saúde etc. e então termina sua purificação na Terra.

O espiritismo preza mais a distinção entre bhutas de luz e bhutas de pouca luz, no meu entender, porque entende que os bhutas de luz, até onde entendo o espiritismo, são os indivíduos mais esclarecidos que os humanos têm para contato e, logo, para esclarecimento. Na consciência de Krsna, diferentemente, entende-se que Deus veio à Terra como Vyasadeva e deixou todo o conhecimento conclusivo, logo qualquer um que se proponha rever os Vedas será mal visto, o que em geral fazem os espíritos.

Por exemplo:

Sobre a metempsicose, dogma que percorre todas as tradições ortodoxas da Índia, encontramos:

Entre a metempsicose dos antigos e a moderna doutrina da reencarnação, há, como também se sabe, profunda diferença, assinalada pelo fato de os Espíritos rejeitarem, de maneira absoluta, a transmigração da alma do homem para os animais e reciprocamente. Ensinando o dogma da pluralidade das existências corporais, os Espíritos renovam uma doutrina que teve origem nas primeiras idades do mundo e que se conservou no íntimo de muitas pessoas, até aos nossos dias. Simplesmente, eles a apresentam de um ponto de vista mais racional, mais acorde com as leis progressivas da Natureza e mais de conformidade com a sabedoria do Criador, despindo-a de todos os acessórios da superstição. (Livro dos Espíritos 5.222)

Sobre astrologia, encontramos:

Donde vem a expressão: Nascer sob uma boa estrela? “Antiga superstição, que prendia às estrelas os destinos dos homens. Alegoria que algumas pessoas fazem a tolice de tomar ao pé da letra.” (Livro dos Espíritos 3.10.867)

Sobre a cosmologia védica, que divide as moradas celestiais em sete (antariksa, bhuvarloka, svargaloka, maharloka, janaloka, tapoloka, satyaloka), e coloca a morada de Deus para além delas, na transcendência, encontramos:

Segundo a opinião mais comum, havia sete céus e daí a expressão – estar no sétimo céu – para exprimir perfeita felicidade. As diferentes doutrinas relativamente ao paraíso repousam todas no duplo erro de considerar a Terra centro do Universo, e limitada à região dos astros. É além desse limite imaginário que todas têm colocado a residência afortunada e a morada do Todo-Poderoso. Singular anomalia que coloca o Autor de todas as coisas, Aquele que as governa a todas, nos confins da criação, em vez de no centro, donde o seu pensamento poderia, irradiante, abranger tudo! A Ciência, com a lógica inexorável da observação e dos fatos, levou o seu archote às profundezas do Espaço e mostrou a nulidade de todas essas teorias. (O Céu e o Inferno 3.1-2)

Sobre os deuses, ou devas, encontramos:

A mitologia dos antigos se fundava inteiramente em ideias espíritas, com a única diferença de que consideravam os Espíritos como divindades. Representavam esses deuses ou esses Espíritos com atribuições especiais. Assim, uns eram encarregados dos ventos, outros do raio, outros de presidir ao fenômeno da vegetação, etc. Semelhante crença é totalmente destituída de fundamento? “Tão pouco destituída é de fundamento, que ainda está muito aquém da verdade”. (Livro dos Espíritos 2.9.537)

Assim, não me parece possível a alguém que tenha os Vedas como revelados por Deus aceitar que ao menos estes espíritos que foram aceitos por Kardec como de luz, tendo passado pelo CUEE (Controle Universal do Ensino dos Espíritos) aplicado por Kardec, sejam-no, ao menos não no nível que o Evangelho Segundo o Espiritismo coloca: “Ensinarão tudo”, “veem do Pai” (6.3), “concluirão o que Moisés e Jesus começaram” (1.9). Contudo, se um Espírito se submete à autoridade dos Vedas e encaminha alguém ao estudo dos mesmos tal como os próprios Vedas ensinam, então esse espírito deve ser prezado como um vartma-pradarshaka-guru autêntico, isto é, o guru que mostra o caminho correto, em virtude do que ofereço meus respeitos aos espíritos que a encaminham seus interrogadores para o estudo da consciência de Krsna.

Parece-me que o valor que Jesus deu às escrituras submete todos à infalível autoridade escritural, e não o contrário, isto é, que os espíritos podem dizer o que nas escrituras é certo e o que não é, segundo suas experiências sensoriais e mentais.

No novo testamento, por exemplo, encontramos: “À lei [de Moisés] e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles”. (Isaías 8.20)

Contudo, os espíritos no espiritismo se libertam da revelação mosaica, aceita por Jesus, e colocam-na como humana:

“Em face dos progressos da Física e da Astronomia, é insustentável semelhante doutrina. Entretanto, Moisés atribui ao próprio Deus aquelas palavras. Ora, visto que elas exprimem um fato notoriamente falso, uma de duas: ou Deus se enganou em a narrativa que fez da sua obra, ou essa narrativa não é de origem divina. Não sendo admissível a primeira hipótese, forçoso é concluir que Moisés apenas exprimiu suas próprias ideias”. (A Gênese 12.10)

Assim, o espiritismo coloca Moisés como duplamente ruim: Ruim por ter inventado algo insustentável, e, o que acho ainda pior, ter atribuído sua história inventada a Deus. O espiritismo faz o mesmo com a revelação védica.

Outra hipótese que tenho de por que o espiritismo trabalha mais com a dicotomia espírito bom e espírito de pouca luz do que o vaisnavismo é que o leque de indivíduos com os quais o primeiro trabalha é menor do que na consciência de Krsna. A consciência de Krsna hierarquiza as entidades vivas até Brahma, que é a entidade viva mais elevada dentro do mundo material, e entendemos que podemos ter contato com Brahma pelas obras que são atribuídas a ele, como o Brahma-samhita. Assim, se temos acesso a Brahma, a entidade viva mais elevada, para esclarecimentos doutrinários, bem como a Deus, os residentes da parte sutil de nosso planeta não são nada além de “impiedosos” e “semipiedosos”. O espiritismo, em contrapartida, tende a duvidar, até onde entendo, que Deus tenha feito realmente alguma revelação pessoalmente, e tampouco que uma alma tão elevada como Brahma possa vir à Terra tão simplesmente e falar um conhecimento perfeito, daí o espiritismo, em seu primórdio lidando com encarnados que não sabiam nem que existe vida após a morte, terem os espíritos como autoridades dignas de reverências.

Outra hipótese que tenho para os espíritas prezarem mais os bhutas de luz, ou yaksas semipiedosos, do que os vaisnavas é que o espiritismo tende a acreditar que os anjos da Bíblia e os deuses (devas) dos Vedas são espíritos de luz, o que os vaisnavas não aceitam. Para os vaisnavas, os anjos, entendidos como análogos aos gandharvas da literatura védica, e os devas, dirigentes de vários departamentos do universo, são indivíduos que residem em outros planetas e têm corpo grosseiro próprio, corpo grosseiro este que lhes permite se comunicarem sem a necessidade de um médium, necessidade esta própria daqueles que têm apenas o corpo sutil, isto é, uma instrumentária incompleta. Assim, a grandiosa personalidade que falou com Maria que ela teria um filho, por exemplo, não é entendida por nós como alguém que só tem o corpo sutil, um espírito, mas alguém que possui um corpo grosseiro com poderes especiais para vir à Terra e ficar invisível e inaudível ou não à sua vontade. O mesmo para os devas.

Outra hipótese para por que a tradição védica tende a atribuir impiedade, ou, no máximo, semipiedade, a todos aqueles que têm apenas o corpo sutil, é o fato de que, no tempo em que os Vedas foram escritos, segundo eles próprios e aparentemente pela longevidade que a Bíblia atribui a pessoas antigas (vivendo quase 1000 anos), os humanos no passado eram mais avançados e esclarecidos espiritualmente. Assim, os humanos, orientados pelos Vedas, aprendiam em vida que não eram o corpo, que existe a reencarnação, que Deus é assim e assado, que devemos nos desapegar do que é temporário à hora da morte etc. Então, se alguém morre em tal condição que está identificado com seu estado material passado ou tem algum dos desvios morais enumerados acima, no Garuda Purana, ela é vista como caída por assumir a posição de bhuta. Na atualidade, os homens mais bondosos que conhecemos no mínimo comem alguma carne, comem alimento preparado sem consciência espiritual entre outras coisas que deixam a pessoa apenas no corpo sutil na hora da morte. Assim, quando alguém, apenas no corpo sutil, conhece pelo menos a reencarnação, o que não exige nenhuma piedade, mas apenas a observação, se comunica com os encarnados ignorantes dos Vedas e praticamente de qualquer conhecimento, tal pessoa parece uma autoridade ilustre, sobretudo se, junto do conceito de reencarnação, traz consigo alguma integridade herdada dos ensinamentos morais de Jesus, para colocá-la na posição semipiedosa de ter comido pouca carne, por exemplo na semana santa, ter bebido apenas socialmente, ter tentado perdoar de vez enquanto etc. Vale apontar, no entanto, que os ensinamentos morais de Jesus foram todos comunicados por Jesus encarnado, e não é mérito de espíritos. Ao contrário, haver espíritos piedosos o bastante para estruturarem o espiritismo é mérito do mestre encarnado Jesus – o que a senhora certamente sabe. Assim, se somarmos os ensinamentos de Jesus com os de Vyasadeva, parece mesmo que os encarnados ensinam mais do que os desencarnados, o que adiciona ao conceito védico de que nascer na Terra é melhor do que estar em sua dimensão sutil em um corpo apenas sutil.

Bem. A pergunta da senhora é muito difícil: Por que os Vedas não estimam os espíritos, isto é, as entidades vivas que estão apenas no corpo sutil. Minhas hipóteses para isso, em resumo, são estas: (1) O Espiritismo parece aceitar a possibilidade de espíritos serem superiores às escrituras (mosaicas e védicas), podendo dizer qual parte delas é fidedigna e qual não é e revelar coisas novas, logo são indivíduos de grande interesse para os encarnados. O vaisnavismo, em contrapartida, tem as escrituras como perfeitas e revelas por Deus, logo todos, mesmo o espírito mais elevado, tem de se submeter a elas, daí preferirmos ler as escrituras a ouvi-los, sobretudo caso sejam espíritos, como os do pentateuco espírita, que criticam os ensinamentos védicos sob vários adjetivos pejorativos, como apontado acima. (2) No espiritismo, analisam-se os indivíduos com os quais podemos ter contato entre espíritos de luz e de pouca luz, e, obviamente, preza-se os espíritos de luz como guias, os quais são entendidos como os anjos, arcanjos, deuses etc. em tradições variadas. No vaisnavismo, entretanto, anjos, arcanjos e deuses não são espíritos, isto é, não são residentes do plano sutil, mas de planetas superiores e indivíduos que não podem ser incorporados, pois têm corpo grosseiro próprio. Assim, o vaisnavismo, ao considerar possível a comunicação com indivíduos entendidos como superiores aos espíritos de luz, e a comunicação até mesmo direta com Deus através das escrituras que são entendidas como as exatas palavras dEle próprio, mostra desinteresse nos contatos mediúnicos.

6. Há muitos casos provados cientificamente de que tratamentos com espíritos curam pessoas de doenças, e os romances espíritas estão cheios de relatos de pessoas que foram promovidas para as superiores colônias à hora da morte por terem seguido as instruções dos espíritos.

Krsna não diz que é mentira que o refúgio em tais indivíduos pode trazer resultados como saúde e promoção a planetas superiores; na verdade, diz até mesmo que tais indivíduos – semideuses, espíritos de luz etc. – dão resultados muito rapidamente (Bhagavad-gita 4.12). A crítica de Krsna é que tais personalidades, diferentemente dEle, dão coisas limitadas e temporárias (Bhagavad-gita 7.23); por exemplo, são limitadas as respostas dos espíritos de luz, pois dão respostas incompletas, imperfeitas e contraditórias, pois “longe estão de tudo saberem”, como coloca o Livro dos Espíritos, e promovem seus discípulos a moradas onde não se pode permanecer eternamente feliz.

7. Por que os Hare Krsnas não podem seguir os ensinamentos do Bhagavad-gita, e os cristãos, os ensinamentos da Bíblia? A Bíblia traz várias descrições de comunicações mediúnicas, como os anjos em Gênese 16.7-10 e o anjo que anuncia a Maria que terá um filho e deverá chamá-lo Jesus.

Prabhupada aceita Jesus como um mestre inteiramente qualificado para guiar as pessoas, e certamente julgo bem encaminhados aqueles que o seguem. Contudo, tenho minhas dúvidas quanto a se todos os espíritas são fundamentalmente cristãos. Um espírita que conheci recentemente, empolgadíssimo com a leitura de Exilados de Capela, me dizia que os egípcios foi uma das civilizações mais avançadas que já esteve na Terra. Fiquei me perguntando como alguém pode ser cristão e, ao mesmo tempo, considerar que os egípcios sejam avançados espiritualmente. Segundo a religião de Jesus, o judaísmo, cuja escritura Jesus aceitava como revelada por Deus, até onde entendo, os egípcios eram tão degradados que Deus os puniu pessoalmente. Os egípcios foram um povo politeísta, idólatra e construíram grandes edificações para tal idolatria politeísta com o sangue de 400 anos de escravidão aos hebreus, cujo objeto de culto Jesus aceitou como o Pai, o Deus único e supremo. Prabhupada não ensina que seja necessário seguir os Vedas para seguir Deus, mas disse que se pode seguir sim seguir o cristianismo e o judaísmo. Um de meus questionamentos é precisamente este: O espiritismo é realmente o que Jesus idealizou para a continuação de seus ensinos na Terra ou o espiritismo não se encaixa no que Jesus chamou de Espírito de Verdade e Consolador?

A senhora apresentou exemplos bíblicos falando de aparição de anjos, mas esse conceito, até onde entendo, não se confunde com “mortos” e “espíritos” na Bíblia. Encontro na Bíblia que há casos em que pessoas são possuídas por espíritos, mas nunca por anjos. Podemos ver também que o anjo aparece para Maria e fala com ela, mas Maria nunca viu ninguém mais, de modo que não é possível aceitá-la como médium vidente e auditiva. Se fosse médium vidente e auditiva, veria e ouviria espíritos frequentemente, e não apenas o anjo. Prabhupada explica que anjos são indivíduos chamados gandharvas, e os gandharvas podem aparecer para quem quiserem quando quiserem pelos poderes místicos que têm, siddhis, e não dependentes de que quem os veja seja médium vidente e menos ainda “entrando” em um corpo alheio para que se psicografem ou ouçam sua mensagem.

8. O espiritismo não adora os espíritos.

No final do Gita, Krsna diz que devemos abandonar tudo (sarva-dharma parityajya) e buscar unicamente (eka) a Ele como refúgio (saranam). Essa rendição, ou sarana, é entendida como variadas práticas: Contar que Deus nos levará para Seu reino na hora da morte, tê-lO como aquele que nos esclarece em momentos de dúvidas e assim por diante. Assim, se alguém, à hora da morte, fica na expectativa de que um semideus o levará para o seu planeta, ou que um espírito de luz o levará para uma colônia, isso pode ser entendido como adoração a semideuses ou a espíritos de luz, nesta definição de adoração. Se, quando alguém quer entender algo, busca por um filósofo, cientista, doutor em direito – encarnado ou desencarnado –, em vez de buscar pela revelação de Deus, isso é entendido como adoração a tais indivíduos: a busca deles por refúgio doutrinário. Certamente os espíritas não adoram espíritos no sentido etimológico de “adorar”, isto é, “oferecer ouro”, e um espírita que busque o refúgio de espíritos de luz por acreditar plenamente que eles são dotados de poder por Deus para dar refúgio, e a morada deles e as instruções deles são, respectivamente, a máxima morada que Deus reservou para alguém que morrerá agora na Terra e a revelação máxima à humanidade, então não posso dizer que são espíritas que não adoram a Deus, mas apenas discordar de que o máximo que Deus permite à humanidade, a partir do estado encarnado da Terra, seja o alcance dessas moradas e dessas revelações. Entendo que só poderia ser justo dizer que algum espírita adora os espíritos caso esse espírita acreditasse que a revelação de Moisés é perfeita, que é possível, a partir da Terra, alcançar a morada perfeita de Deus, onde Deus mora pessoalmente, e ainda assim preferir as revelações dos espíritos e ainda assim querer ir para a morada deles.

9. Os espíritos e a Bíblia ensinam que nossa evolução é gradual, em virtude do que é impossível ir da Terra para onde Deus mora pessoalmente.

Os espíritos certamente ensinam que a evolução é gradual, pois, pela experiência deles, não chegaram ao Reino de Deus após a morte. Na Bíblia, entretanto, é fundamentável a possibilidade de irmos da Terra para o Reino de Deus, assim como é fundamentável pelos Vedas. Na Bíblia (João 8.29), encontramos que quem enviou Jesus para a Terra foi o Pai, Deus: “Aquele que me enviou está comigo. O Pai não me tem deixado só, porque eu faço sempre o que Lhe agrada”. Assim, não é aceitável dizer que Jesus foi enviado por outrem senão diretamente por Deus. Em João (7.33), encontramos: “Disse-lhes, pois, Jesus: Ainda um pouco de tempo estou convosco, e depois vou para aquele que me enviou”. Assim, pela autoridade da Bíblia, Jesus não voltará para nenhuma morada, sutilíssima ou grosseira, mas para aquele que o enviou, o qual – já colocamos com a citação de João (8.29) – é Deus, o Pai. Por fim, em Lucas (23.43), encontramos que Jesus se dirige ao ladrão que estava ao seu lado, também sendo crucificado, com estas palavras: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso”. Não é possível deturpar esse “Paraíso” dizendo que é outro lugar senão onde Deus mora, pois, relembrando, Jesus disse que, quando fosse embora da Terra, iria para aquele que o enviou, e “hoje” não permite nenhuma interpretação para fundamentar “evolução gradual”.

PERGUNTAS DE PESSOAS SEM VÍNCULOS RELIGIOSOS

10. É fácil entender que alguém que fica no corpo sutil, ou em condição de fantasma, na casa onde viveu é alguém bhuta, “ligado ao passado”. Contudo, os espíritos que ficam vagando ou fazendo travessuras pela Terra também carregam consigo essa marca de serem ligados ao passado?

A etimologia da palavra que designa aqueles que têm apenas o corpo sutil é bhuta. Bhu vem da raiz bheu/bhu, que é o verbo ser do sânscrito, que aparece em várias línguas, como irlandês (bha), inglês (be), letão (but) e persa (budan). Bhuta é ser no passado, daí a tradução de bhuta como “ligados ao passado”.

Krsna diz que onde quer que esteja nosso estado de consciência na hora da morte, para lá iremos (Bhagavad-gita 8.6). Assim, o devoto não tem nenhuma absorção em seu passado no sentido de se identificar com “este é o meu corpo, esta é a minha família, esta é a minha casa, este é o meu país, este é o meu planeta, esta é a minha vida” etc. O devoto pensa: “Eu não sou este corpo, e o senso de posse a esta família, casa, país e planeta tem ligação apenas com este corpo, e minha vida não é estar aqui, mas estar no mundo espiritual com Krsna”. Assim, quando o devoto morre, ele não se torna bhuta, isto é, alguém que fica no corpo sutil com a mesma mentalidade que tinha em vida – “este é o planeta onde moro, este sou eu, este é o meu nome” – senão que ele está pronto para o futuro que construiu segundo as instruções de Krsna: “Deixei de ser o Thiago de Alcântara, brasileiro, branco, o que nunca fui, e agora sou o que sou eternamente: uma gopi aos pés de Krsna”, ou “deixei de ser a Joana e agora sou um vaqueirinho amigo de Krsna, o que eu havia me esquecido”. O devoto também não ficará vagando pelo “seu” planeta atormentando as pessoas, pois já abandonou a ideia de que ele é deste planeta, senão que estará colhendo no mundo espiritual os frutos de sua consciência de Krsna, a consciência de que ele não é deste mundo.

Assim, embora menos evidente do que alguém que fica em sua casa após a morte, alguém que está no corpo sutil errando por vários lugares “fazendo travessuras” também exibe o sintoma de apego ao passado por carregar consigo o mesmo nome que tinha antes, em geral a mesma forma, residir no mesmo planeta e, sobretudo, ter o desejo de interagir com os mesmos objetos materiais.

O devoto está pronto para o futuro, isto é, pronto para deixar seu corpo material porque mesmo enquanto no corpo material se treinou a interagir com objetos espirituais: os nomes de Deus, as escrituras reveladas, como o Bhagavad-gita e o Srimad-Bhagavatam, os templos, as almas liberadas, como Prabhupada, e assim por diante. Aqueles que se tornam bhutas, entretanto, embora estejam sendo punidos na forma de não ter um corpo grosseiro, ainda estão mentalmente com a impressão passada de que precisam e querem interagir com os objetos materiais. “Precisam” porque sentem fome – segundo o Garuda Purana, eles sentem tanta fome que quando os antepassados oferecem alimento santificado (prasada) para a purificação deles, eles veem muito rapidamente –, e “querem” porque gostam de bebidas alcoólicas e outras atividades desconectadas da manutenção do corpo grosseiro.

Prabhupada explica assim o que é fantasma: “O fantasma também é um indivíduo. Contudo, porque os fantasmas não obtêm este corpo material, eles são invisíveis. Eles criam perturbações por falta deste corpo. Aqueles que têm experiência de algum fantasma em alguma casa, o fantasma está lá, ele é uma alma individual, mas, porque ele não tem esta cobertura material, isso é uma punição. Para a pessoa mais pecaminosa, essa é a punição, que ele não obtém este corpo, embora ele queira este corpo, porque, para o desfrute, queremos este corpo. O corpo é a combinação dos sentidos, o instrumento. Se quero tocar você, preciso da mão, e, através desta mão, sentirei o prazer de tocá-lo. Assim, o fantasma quer tocar, mas ele não tem o instrumento. Isso é fantasma… Enquanto estivermos contaminados materialmente, precisamos deste corpo material para desfrutarmos dos sentidos. E, no mundo espiritual, obtemos nosso corpo espiritual”. (12/12/76, Hyderabad, Bhagavad-gita 2.12)

Assim, acho que podemos entender que o fantasma é apegado à sua passada atividade de interagir com os objetos materiais do planeta grosseiro onde viveu. O devoto, por outro lado, como coloquei, é apegado ao desfrute de objetos espirituais, e, quando sua consciência se absorve por inteiro nesses objetos – Deus na forma de Seu nome, Deus na forma de Sua escritura – ele deixa de bom grado seu passado de ter um corpo grosseiro para interagir com o gozo material e obtém seu corpo espiritual para interagir com Deus.

Sobre eles ficarem, como o senhor disse, “vagando e fazendo travessuras pela Terra”, eles os fazem, como também explicam os espíritas, para poderem interagir com os objetos materiais através daqueles que têm corpos materiais, o que os espíritas chamam de obsessão e nós de “graha-grasto” ou “preta-dosa”. Assim, quando vagam pelos bares, bordéis, churrascarias e cassinos, eles mantêm as pessoas nesses locais e hábitos para poderem interagir com tais coisas através dessas pessoas que têm corpos materiais. Prabhupada explica:

Prabhupada: …Algumas vezes, o fantasma ataca um homem. Porque ele não tem corpo material, ele quer agir através do corpo de outrem… Devoto: Srila Prabhupada, a alma, o fantasma, entre no corpo de outra pessoa? A alma está ocupando um corpo, e o fantasma, como outra alma, entra verdadeiramente naquele corpo? Há duas almas em um corpo? Prabhupada: Não exatamente entra, mas ele pega o corpo. Mas porque o fantasma não tem corpo grosseiro – ele tem seu corpo sutil: mente, inteligência e ego –, você não o pode ver, como ele atacou aquele corpo. Você não pode ver o corpo da mente, da inteligência. Você sabe que eu tenho minha mente; eu sei que você tem sua mente. Mas você não vê a minha mente; eu não vejo sua mente. Assim, o fantasma está dentro do corpo sutil: mente, inteligência e ego. Então, com esse corpo sutil, ele ataca o homem, mas você não pode ver. Ele não entra nele. Quem está dentro é a alma dentro do corpo. (12 de maio de 1975)

Em conclusão, os espíritos que vagueiam fazendo travessuras querem interagir com os hábitos pecaminosos que tinham no passado, porém, não o podendo fazer por não terem um corpo grosseiro, fazem suas “travessuras” pela Terra através de pessoas que estão usando seus corpos nessas mesmas atividades pecaminosas. Esta classe de bhutas errantes talvez não esteja apegada à sua família ou casa, mas estão apegados ao hábito que desenvolveram no passado, enquanto vivos, de gozar da interação com objetos materiais.

11. Na lógica de não fazer ao outro o que não gostaria que fosse feito a você, não seria prudente o senhor não sugerir que os espíritas devem buscar outra fonte de conhecimento senão sua própria revelação? O senhor gostaria caso eles dissessem para o senhor buscar outro guru em vez de Prabhupada?

A minha sugestão aos espíritas de que estudem outro guru tem valor apenas caso a pessoa aceite que o guru dela não é o que ele dizia ser, isto é, se um espírita se convencer de que os espíritos não são organizados pelo Espírito de Verdade, enviado por Jesus, e os outros atributos discutidos no artigo. Caso se convençam disso, eles naturalmente quererão buscar outro guru. Eu buscaria outro guru caso fosse convencido de que Prabhupada não é quem diz ser, isto é, não é um devoto exemplar de Krsna, não é alguém que não mudou nada dos ensinamentos de Krsna etc. Coloco-me inteiramente aberto a semelhante discussão da posição de Prabhupada porque sei que posso fundamentar toda a vida e todos os ensinamentos de Prabhupada nos ensinamentos de Krsna. Se um espírita, da mesma maneira, consegue colocar todos os atributos do Consolador bíblico no espiritismo, então ele não precisa se perturbar com meu artigo. Meu artigo será, neste caso, um fortalecimento da fé dos espíritas, que, ao defenderem a posição do espiritismo contra os argumentos que apresentei, terão uma base sólida para sua crença.

12. Gostei do conteúdo de seu artigo, mas não sei se a linguagem foi a mais adequada. Acho que há um tom depreciativo que poderia ser evitado.

Muito embora eu discorde da possibilidade do Espiritismo ter o caráter de infalível que se atribuiu ao se colocar como “ensinará tudo” – para o que é necessário onisciência (Krsna diz no Gita que ensina tudo e, coerentemente, diz-Se onisciente) – entre outros atributos que reivindica para si, sobretudo em virtude de usar essa prerrogativa para fazer análises categóricas de ensinamentos védicos e de outras tradições, como o catolicismo e o judaísmo, análises estas muito questionáveis, a meu ver, é muito importante que eu diga algo da importância do Espiritismo também.

Aqueles que se propõem a cantar o santo nome de Krsna deve fazê-lo evitando dez ofensas, entre as quais figura a ofensa de número quatro, que é sruti-sastra-ninda. Esta ofensa consiste em ter predileção fanática pelas escrituras smrtis, como o Srimad-Bhagavatam e o Ramayana, em virtude destes terem um conceito teísta claro, com claras instruções da vontade e da personalidade de Deus, bem como por colocarem a supremacia do serviço devocional sobre o processo de atividades fruitivas com vista à ascensão a planetas superiores (karma) e sobre o processo de especulação filosófica (jnana), entre outros. É sabido que nas escrituras srutis, como os Vedas e Upanisads, o aspecto pessoal de Deus é pouco discutido e se prima karma e jnana. Apesar de haver a predileção pelos smrtis nos ensinamentos do vaisnavismo gaudiya (dentro do que está o Movimento Hare Krsna) – Caitanya e Seus discípulos primam o Srimad-Bhagavatam acima de qualquer sruti – é uma ofensa, também segundo os ensinamentos deles, não reconhecer o valor das outras revelações, o que é uma ofensa porque, segundo Visvanatha Cakravarti, essas obras que “propõem o processo do conhecimento empírico e da ação fruitiva […] muito misericordiosamente ajudam as pessoas mais desqualificadas, que não estão seguindo nenhuma regra ou regulação védica e que estão cegas pelos desejos materiais, a se elevarem ao caminho do serviço devocional seguindo suas leis divinas”. (Madhurya Kadambini, capítulo 3)

Assim, embora eu entenda o espiritismo como uma religião que adicionou à bhakti, ou devoção, de Jesus o conhecimento empírico, isto é, submetem a revelação à mental análise científica, e promovam a ação fruitiva, isto é, a caridade com vista à ascensão pessoal, tenho de reconhecer aqui que ajudam pessoas que as escrituras védicas entendem como desqualificadas – a saber, pessoas com fé na ciência humana e na faculdade especulativa da mente, e pessoas com o desejo de terem nascimentos mais confortáveis em moradas mais confortáveis – a seguirem normas de conduta próprias de santos, como a propensão a perdoar, o autocontrole sexual, a abstinência de drogas e outras, e mesmo a adorarem a Deus, embora, no meu entender, sem um entendimento claro do que é bhakti pura, a saber, bhakti livre de karma e jnana.

Enfim, aproveito esta oportunidade para reconhecer que os espíritas são pessoas compassivas e interessadas no bem-estar daqueles que estão confusos por estarem no estado de possuírem apenas o corpo sutil, e são pessoas que, tanto quanto entendem, promovem a bondade entre as criaturas e projetos sociais de beleza ímpar.

Peço desculpas a todos a quem levei mal-estar com a linguagem do meu texto e peço que saibam que isso é uma deficiência minha em obedecer às ordens de Krsna, e não algo que Krsna promova, pois Krsna ensina que as falas de Seus servos devem ter os seguintes atributos: “A austeridade da fala consiste em proferir palavras verazes, agradáveis, benéficas e que não perturbam os outros”. (Bhagavad-gita 17.15) Tanto quanto possível, tentarei reescrever o presente artigo em uma segunda edição de forma a me conformar às diretrizes cobradas por Krsna e por alguns leitores do meu artigo. Conto com as bênçãos de todos.

PERGUNTAS DE ADEPTOS DO MOVIMENTO HARE KRSNA

13. Conheço um devoto Hare Krsna que se descobriu médium vidente e auditivo. O que ele deve fazer?

A principal característica do devoto Hare Krsna é que ele tem o Srimad-Bhagavatam como a autoridade suprema, autoridade esta apontada cientificamente pela primeira vez por Jiva Gosvami em seu Tattva-sandarbha e aceita, desde então, por todo devoto Hare Krsna. Assim, o devoto Hare Krsna tem como autoridade unicamente aquela pessoa que ensina o que o Srimad-Bhagavatam ensina, logo um devoto médium jamais se submeterá a indivíduos desencarnados que queiram ensinar algo a mais do que o Srimad-Bhagavatam ou esclarecê-lo melhor do que o próprio avatara de Krsna na atualidade, Sri Caitanya, e seus discípulos diretos, os Seis Gosvamis, esclareceram. Se o indivíduo desencarnado fizer o papel de guru autêntico de dizer que o Srimad-Bhagavatam é perfeito e nada nele precisa ser revisto, basta ao devoto continuar estudando o Bhagavatam como o Bhagavatam ensina, isto é, através da sucessão discipular que começa com o próprio Krsna e atualmente termina, entre outras bifurcações, em Prabhupada e em seu Movimento Hare Krsna.

Deste modo, parece-me inimaginável que um devoto utilize sua mediunidade para ser esclarecido por espíritos. Por outro lado, a mediunidade de um devoto pode ser utilizada para esclarecer os espíritos que querem conhecer a consciência de Krsna ou ocupar em serviço devocional aqueles que já a conhecem e a aceitam. No Padma Purana, por exemplo, na seção das glórias do Srimad-Bhagavatam, encontramos um devoto médium vidente e auditivo, Gokarna, que utilizou essas faculdades mediúnicas para purificar seu irmão, Dhundhukari, perdido em um corpo de fantasma, através da audição do Srimad-Bhagavatam. Encontramos no Padma Purana que eles conversaram:

O fantasma Dhundhukari observou Gokarna retornar [para casa], em razão do que assumiu formas muito violentas e apareceu perante ele… Com coragem e paciência, ele falou: “Quem é você? Por que você está exibindo todas essas formas assustadoras? Como você caiu nessa condição?”… Quando Gokarna o questionou, o fantasma chorou sonoramente. Ele não conseguia falar [havia sido morto sendo incendiado a partir da boca], em virtude do que gesticulava com suas mãos. Gokarna chuviscou um pouco de água sagrada no fantasma. Isto o aliviou de reações pecaminosas o suficiente para ser capaz de falar. “Sou seu irmão, Dhundhukari”, disse o fantasma. “Por causa de meus erros, caí de meu nascimento respeitável como um brahmana. Em decorrência de completa ignorância, matei muitas pessoas. Não é possível contar meus pecados. Eu era viciado ao convívio com cinco prostitutas, as quais, por fim, mataram-me, e, como resultado, estou sofrendo as reações de minhas atividades perversas e assim obtive esta forma de fantasma… Meu querido irmão, você é um oceano de misericórdia. Por favor, de uma maneira ou outra, livre-me desta forma fantasmagórica”.

Esse devoto médium vidente e auditivo salvou seu irmão da condição em que estava recitando para ele, por sete dias, o Srimad-Bhagavatam. Ao término da leitura, descreve-se que “o céu ficou refulgente, e um aeroplano de Vaikuntha apareceu transportando associados do Senhor. Diante de toda a assembleia, Dhundhukari embarcou no aeroplano”.

Assim, as escrituras védicas não deixam os devotos médiuns desamparados, senão que têm, entre outros, este Gokarna como exemplo. O exemplo de Gokarna nos ensina que um devoto que tem contato com desencarnados deve organizar recitações do Srimad-Bhagavatam em locais sagrados e com devotos puros e convidar aqueles que têm interesse em serem ajudados pela consciência de Krsna a ouvirem o Srimad-Bhagavatam e seguir as práticas gerais da consciência de Krsna, como ouvir os santos nomes, reverenciar os templos de Krsna, oferecer orações a Krsna sentindo-se caído etc.

Quanto aos espíritos que não têm interesse na consciência de Krsna, há práticas para os evitarmos, assim como evitamos os encarnados que não têm fé, a condição preliminar para aproximação da consciência de Krsna. A prática mais fundamental que Prabhupada ensinou para evitar tais desencarnados impiedosos é cantar puramente os santos nomes:

Se você vai a uma casa mal-assombrada, se você canta o mantra Hare Krsna, eles vão embora… Na minha vida, houve vários casos assim. Na minha vida como chefe de família, eu estava fazendo negócios em Lucknow. Assim, havia uma casa, uma casa muito grande, cujo aluguel custaria milhares de rúpias, mas era mal-assombrada. Então, ninguém morava naquela casa. Eu passei a morar nela pagando duzentas rúpias (risos), e era uma casa muito grande… Todos os criados se queixavam: “Senhor, há um fantasma”. Então, eu estava cantando. Ele estava vivendo em vários locais, especialmente perto do portão. Então, eu pude entender que ele estava ali, mas eu cantava Hare Krsna, e fui salvo. Todos foram salvos. (Havaí, 03/02/75, aula do Bhagavad-gita 16.7)

Estas são instruções que apuro das escrituras, mas, obviamente, um devoto que se descubra médium deve, antes de qualquer coisa, consultar seu mestre espiritual iniciador ou um mestre espiritual instrutor que ele entenda ser um mestre fidedigno e esclarecido.

14. Prabhupada tem uma postura bem mais cortês com as outras religiões do que o seu texto. Não lhe seria apropriado, como seguidor de Prabhupada, apontar as qualidades do espiritismo?

Certamente algo que aprendi com as repostas que recebi a este artigo é que, infelizmente, não tenho essa virtude de Prabhupada de buscar pelas qualidades. Tentarei, na medida do possível, reescrever o artigo de forma a não ser ofensivo. Os espíritas que entraram em contato comigo, apesar de questionados em sua doutrina, mostraram-se pessoas educadíssimas e estudiosas de sua própria tradição religiosa, duas qualidades dos espíritas que posso começar por apontar. Independente de o espiritismo ser ou não coordenado pelo Espírito de Verdade, é notável que seus adeptos têm um amor muito grande por Jesus, que Prabhupada disse ser um devoto completamente puro, logo é inaceitável que algum seguidor de Prabhupada diga que os espíritas não têm, ao menos da parte de que aceitam Jesus, um princípio de norteamento infalível. Também são dignos de menção os projetos sociais dos espíritas, desde atendimento a famílias carentes, auxílio a deficientes, pessoas com depressão e toda sorte de indivíduos, encarnados ou não, que buscam por ajuda. Peço desculpas pelo meu texto não ter enfatizado estas qualidades, mas faço-o agora oportunamente e peço em troca as bênçãos de todos os meus leitores para que eu desenvolva a visão apropriada, com as bênçãos de Krsna, de Seus planos, muitas vezes insondáveis, na pluralidade religiosa. Hare Krsna!

Fonte: Amigos de Krishna

Quem, senão Srila Prabhupada e outros propagadores da consciência de Krishna, ensina a evitação de tudo isto, desde o não consumo de carne e a não alimentação em estabelecimentos mundanos até a castidade e a abstinência de todo intoxicante, quer lícito, quer ilícito nas diferentes constituições dos diferentes países do mundo? E ainda, quem, senão a consciência de Krishna, fornece gosto superior suficiente nas práticas espirituais para que tais atos não sejam meramente reprimidos?

**“Embora ocupado em todas as espécies de atividades, Meu devoto puro, sob Minha proteção, alcança, por Minha graça, a morada eterna e imperecível”. (Bhagavad-gita 18.56)

***“Após muitos e muitos anos de gozo nos planetas habitados por entidades vivas piedosas, o yogi [aquele que está tentando se reconectar com Deus] malogrado nasce em uma família de pessoas virtuosas ou em uma família aristocrata e rica. Ou [se fracassa após longa prática] ele nasce numa família de transcendentalistas que com certeza têm muita sabedoria. É claro que semelhante nascimento é raro neste mundo”. (Bhagavad-gita 6.41-42)

Os irmãos adeptos do espiritismo, por sua vez, valendo-se de sua qualidade de aceitar ouvir de autoridades e de aceitar a possibilidade de sempre progredir estão convidados a conhecerem a fundo a consciência de Krishna, e, quer com a ajuda da consciência de Krishna, quer por outro recurso que achem sensato, analisar se não há na Terra ensinamentos superiores aos trabalhos psicografados dentro da doutrina espírita. O que há de se perder?

Sobre o Autor

Bhagavan Dasa Adhikari (Thiago Costa Braga) é mestrando em Letras pela PUC-Minas e graduando em Filosofia pela UFJF. Possui a titulação internacional Bhakti-sastri, adquirida após residência no Seminário de Filosofia e Teologia Hare Krishna de Campina Grande, onde foi iniciado por Sua Santidade Dhanvantari Swami. Ministra palestras regulares sobre a consciência de Krishna desde 2005. Já traduziu mais de 10 livros e mais de 100 artigos sobre filosofia e teologia gaudiya-vaishnava e atualmente é chefe do departamento de tradução e revisão da BBT Brasil, a maior editora no Ocidente de livros sobre o pensamento indiano.

Contato

Aqueles interessados em conversar com o autor acerca da temática deste podem se corresponder pelo e-mail bgdasa@hotmail.com. Pede-se a cortesia da leitura prévia das obras O Bhagavad-gita Como Ele É e Krsna, a Suprema Personalidade de Deus .

por Thiago Costa Braga (Bhagavan Dasa Adhikari Bhakti-sastri)

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/espiritismo-e-consciencia-de-krishna/

O Martinismo e o Movimento Gnóstico

Jules-Stanislas Doinel nasceu em 1842 em Moulins, no Allier. Doinel surge ligado a este assunto por ter sido um personagem essencial de um movimento neocátaro que surgiu no final do século passado em França. A sua carreira de arquivista e paleógrafo iniciou-se nos Archives du Cantal, e posteriormente na Biblioteca de Loiret. Foi nesta última que ele encontrou algo que aparentemente mudou a sua vida: uma carta com a assinatura de um chanceler episcopal, de nome Etienne, que fora queimado em 1022, por heresia.

Talvez se inicie aqui a história da Igreja Gnóstica, pois foi através desta carta que Doinel tomou conhecimento do grupo sectário do qual Etienne fazia parte. Tratava-se de uma seita de popelicanos, da qual faziam parte homens e mulheres de forma indistinta, e que se estabeleceu na diocese de Orleães, no século XI, durante o reinado de Roberto II. Os membros desta seita eram dualistas, ou seja, acreditavam na luta eterna entre as forças do Bem e do Mal.

As reuniões da seita tinham lugar em Orleães. Doinel descobriu que uma mulher Eslava tinha vindo da península itálica para participar nos encontros, o que indica se tratar de alguém com importância para os membros da seita. Possivelmente, a mulher seria uma bogomil, o nome pelo qual são conhecidos os cátaros Eslavos. Doinel conseguiu obter várias informações sobre o que se passava nas reuniões dos popelicanos, possivelmente lendo os documentos relativos ao processo do herético Etienne. As reuniões principiavam com todos os participantes entoando litanias com uma vela acesa na mão.

Doinel filiou-se a diversas Ordens ocultistas no intuito de obter informações e respostas as suas perguntas e percebeu que as pessoas que tinham uma espiritualidade mais avançada participavam secretamente de sessões do espiritismo kardecista. Começou então a freqüentar o kardecismo e ficou muito surpreso, quando viu figuras conhecidas do ocultismo participando das chamadas “mesas falantes”. Começa então a se dedicar em seu desenvolvimento mediúnico, sempre com o objetivo de obter respostas para o seu intrigante manuscrito.

Foi então que, numa determinada sessão, na presença de vários espíritas conhecidíssimos sete Entidades espirituais manifestaram-se na seção. Um deles incorporou em Jules Doinel e os demais seis se materializaram na presença de todos os presentes. Era a resposta que Doinel procurava! Tratava-se dos mártires cátaros que foram queimados na fogueira da inquisição, e que teriam manifestado naquele dia para consagrar Jules Doinel como Bispo Gnóstico e outorgar-lhe a missão de restaurar a Igreja Gnóstica no mundo.

Doinel, sentindo-se extremamente realizado, voltou aos grupos ocultistas que participava, e com o aval dos altos dignitários das Ordens mais respeitadas da França, e que outrora presenciaram secretamente o fenômeno, instituiu a Igreja Gnóstica.

Logo em seguida Doinel fez uma aliança com Papus – Grão Mestre e um dos membros fundadores da ordem Martinista, consagrando-o Bispo. Papus em retribuição, e sentindo a força da Iniciação recebida de Doinel, decretou que a Igreja Gnóstica seria a Igreja oficial dos Martinistas.

Não demorou muito para a Igreja crescer. Pessoas de várias partes do mundo vinham ver o que era aquilo que todos chamavam de “a nova revelação”.

Anos se passaram; Doinel, extremamente instável e assustado com o crescimento da Igreja, e que tinha formação católica, viu-se num dilema entre a fé e a razão, e guiado pela fé, arrependeu-se de sua obra, renunciando ao patriarcado da Igreja e nomeando o Bispo Jean Bricaud como novo patriarca.

Jean Bricaud, agora patriarca, transformou a Igreja Gnóstica em uma organização sólida, tão sólida que recebeu a sucessão apostólica original de um Bispo ortodoxo (da Igreja Sirio-Jacobita), que tinha se convertido ao gnosticismo.

Assim, a Igreja Gnóstica, além de sua sucessão cátara, agora possuía a sucessão apostólica, o que a colocaria numa posição confortável perante Roma.

A grandeza da Igreja Gnóstica, agora reconhecida por Roma provocou um enorme arrependimento em Jules Doinel, que se sentiu traidor de sua missão. Pediu um encontro com Jean Bricaud para voltar a Igreja. Nesse encontro, Jean Bricaud fez questão de reunir todo o Sínodo para testemunhar a conversa, onde Doinel, após explicar sua situação para Bricaud, insistiu em ser recebido de volta à Igreja Gnóstica como Patriarca.

Bricaud, explicou a Doinel as razões legais e espirituais para recusar a oferta. Então, por decisão do Sínodo da Igreja, Doinel voltou, não como patriarca, mas sim como Bispo. Era a primeira vez na história que um patriarca vivo voltava a condição de Bispo.

Em seu leito de morte havia um crucifixo e uma medalha de Abraxas (divindade Gnóstica). Sua vida, cercada de excentricidade, foi marcada pela solidão e pelo arrependimento. Suas últimas palavras foram de agradecimento aos mártires cátaros. Testemunhas documentaram que ao último suspiro de Doinel, uma névoa branca tomou conta do aposento e, na presença de todos, Doinel aparece em pé, em forma etérea acima de seu corpo que estava deitado na cama, com uma coroa e um cetro patriarcal, e ao seu lado, três anciãos o escoltavam em direção aos céus.

Originalmente, a Igreja Gnóstica recebeu uma doutrina essencialmente cátara, dando ênfase à pureza e a castidade. Tinha apenas 4 graus: Acólito, Diácono, Sacerdote e Bispo. Este foi o modelo original, criado por Jules Doinel e que ainda existe em algumas organizações.

Posteriormente, o Patriarca Jean Bricaud acrescenta mais 4 graus: Tonsurado (ou Clérigo), Leitor, Exorcista e sub-Diácono, totalizando 8 graus. Assim iniciava dentro da Igreja Gnóstica um caminho operativo, tornando-a uma Ordem Iniciática, diferente da proposta de Doinel, que seguia a via da contemplação.

A doutrina pregada por Jean Bricaud tinha por base o catarismo, mas com fortes influências maçônicas e ocultistas.

Essa doutrina durou alguns anos, até que Jean Bricaud introduziu elementos do cristianismo ortodoxo na Igreja, chegando até a consagrar alguns Arquimandritas, que caracterizava os cleros branco (sem celibato) e negro (celibatário) da Igreja Ortodoxa.

A doutrina ortodoxa foi logo retirada da Igreja, pois Jean Bricaud sentiu que estava fugindo das origens de Doinel, ficando somente as influências Maçônicas e ocultistas.

Com a rápida expansão da Igreja e, devido a autoridade e independência dos Bispos, a Igreja Gnóstica ganha cada vez mais ramificações.

Assim, existem várias ramificações da Igreja Gnóstica, que recebem os nomes de seus idealizadores:

-O ramo de Jules Doinel

-O ramo de Jean Bricaud;

-O ramo de Aleister Crowley

-O ramo de Krum Heller

-O ramo de Samael Aum Weor

-O ramo Lucien Jean Maine

Estes ramos citados são os mais antigos e conhecidos, mas existem dezenas de outras linhagens.

Algumas destas Escolas praticam uma Gnose mais pura, baseada nas culturas pré-cristãs, com forte influência oriental.

Outras Escolas praticam uma Gnose com fortes influências judaico-cristã-islâmica.

Mas ainda existe uma terceira manifestação da Gnose, baseada nos ensinamentos de Carl Gustav Yung. Esta Escola baseia sua Gnose na psicologia, dando ênfase na interpretação das reações psicológicas do homem e sua relação com o universo. Nesse ramo não existe clero nem sistema de graus, sendo apenas uma metodologia de trabalho interior.

Um ponto em comum a todas estas Escolas é a Grande Virgem da Gnose, Sofia, que é de fato a grande manifestação egregórica da Gnose. Representa a base da doutrina e mãe de todas as organizações gnósticas, inspirando a Igreja do invisível. Abaixo dela está São Miguel Arcanjo (ou Mikael), que é o guardião da Igreja, agindo de forma disciplinadora. Sua influência estende-se tanto a clérigos quanto a fiéis da Igreja Gnóstica. E completando a Trindade de comando espiritual da Igreja está o Mestre Desconhecido, um Ser Espiritual que comanda a Igreja como um Patriarca invisível, sendo o responsável pela administração e transmissão da Gnose no mundo.

Do excelente site Hermanubis

#Gnose #Martinismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-martinismo-e-o-movimento-gn%C3%B3stico

Último dia para apoiar o Financiamento Coletivo da História da Magia Ocidental !

O projeto

Dos mesmos editores de Kabbalah Hermética, da Enciclopédia de Mitologia, dos Livros Sagrados de Thelema, do Tarot Hermético, do Equinox e dos Livros Essenciais da Cabalá.

Apoie Já! https://www.catarse.me/historiadamagia

Reunimos neste projeto livros essenciais em várias áreas do Hermetismo, Thelema e Filosofia para definir a Magia no século XX e XXI. Este nosso vigésimo quinto projeto traz os livros que editaremos no segundo semestre de 2022, com previsão de entrega para Novembro. A grande vantagem de participar de um Financiamento Coletivo é que pretendemos publicar grimórios extras que serão entregues como presentes para os apoiadores conforme as metas estipuladas forem sendo batidas, como fizemos nos últimos dez projetos.

A HISTÓRIA DA MAGIA
A compreensão histórica da Tradição Esotérica Ocidental é o ponto de partida fundamental para todos aqueles que pretendem estudá-la e praticá-la, bem como a rota que deve nortear a nossa caminhada no seio da Tradição. Se não sabemos de onde viemos e onde se encontra cada um dos pensadores e movimentos que constituem o arcabouço do Esoterismo Ocidental, iremos correr o risco de, à moda New Age, colocar todos esses pensadores e movimentos em um único plano e compará-los como que se fizessem parte de um mesmo momento e, deste modo, incorrendo em erros primários. Um destes erros é olhar o passado como se ele fosse glorioso e o presente como um estado decadente; no outro extremo, faltar alinhamento, consonância ou correspondência com o momento histórico que iremos nos debruçar também é problemático. Compreendendo as raízes do movimento no qual decidimos trilhar a Senda da Iniciação, podemos segui-lo com mais segurança, consciência e mesmo como continuadores e perpetuadores da Tradição, nos tornarmos células vivas dela, acrescentando os nossos passos. Com tal objetivo, a obra História do Esoterismo Ocidental foi construída como uma introdução e roteiro a esse assunto tão importante ao Esoterismo Ocidental, mas, infelizmente, negligenciado. Originalmente concebida para ser um curso para os postulantes à Iniciação no seio da Irmandade dos Filósofos Desconhecidos, essa obra tomou proporções maiores e entendeu-se que ela precisaria ser disponibilizada para o benefício de todos os buscadores.

TREINAMENTO MÁGICO
Ao contrário do pensamento cada vez mais difundo na contemporaneidade, temos insistido de maneira muito categórica em que a Ordem Martinista, uma expressão da Escola Francesa da Tradição Esotérica Ocidental, é completa em si mesma. Com isso, queremos dizer que um buscador realmente implicado em sua busca encontrará tudo o que é necessário para seu crescimento espiritual dentro da Ordem Martinista. A respeito da obra que o leitor tem em mãos, ela nasceu no transcurso da pandemia de 2020. Nesse período, os conventículos martinistas das diferentes Heptadas espalhadas pelo Brasil foram suspensos e, ao contrário do que se poderia imaginar, tal situação proporcionou uma grande aproximação entre todos membros desses diversos corpos martinistas. Sob essa particular circunstância, atravessada pelo isolamento social e pela sensação de vulnerabilidade que proporcionaram uma busca mais intensa e urgente pelo aprofundamento no conhecimento e no desenvolvimento espiritual, o Treinamento Mágico que ora publicamos foi aplicado em âmbito nacional, entre estudantes de diferentes vocações e estágios no treinamento tradicional. Evidentemente, um treinamento como o que é aqui proposto exige do praticante disciplina e constância. Dentre os disciplinados que mantiveram a constância no Treinamento, destacou-se a compreensão de que um dos grandes méritos dele foi o de propor algo realmente possível de ser introduzido e realizado no cotidiano independentemente da agenda de cada qual, pois implica no máximo 15 minutos diários. Estamos enormemente satisfeitos por saber que, por meio desta publicação, muitos buscadores terão acesso ao nosso Treinamento Mágico e que poderão comprovar, por eles mesmos, a eficácia e a grandeza do que aqui é proposto. Por fim, frisamos que o nosso Treinamento Mágico não traz práticas restritas a iniciados martinistas, nem tampouco se limita ao “espírito” da Escola Francesa da Tradição Esotérica Ocidental.

THEOSOPHIA PERENNIS
Nestes artigos, ensaios e exposições, o autor Daniel Placido guiará o leitor por um passeio através de assuntos como mito, imaginário, Santo Graal, sufismo, gnosticismo, neoplatonismo, teosofia, prisca theologia, Vedanta, filosofia da natureza, esoterologia, antroposofia, Nova Era, acompanhados por expoentes ocidentais e orientais clássicos da sabedoria perene como Fílon, Plotino, Shankara, Sohravardî, Ibn ‘Arabî, Marsílio Ficino, Jacob Boehme, Emanuel Swedenborg, William Blake, Ramana Maharshi, sem falar de pensadores mais contemporâneos como N. Berdiaev, Henry Corbin, M. Eliade, F. G. Bazán, entre outros.

Subjacente à diversidade de temas e autores, existe a concepção de Theosophia Perennis (Teosofia Perene): uma sabedoria divina pertinente às diferentes tradições filosófico-esotéricas do Ocidente e do Oriente, sem negar a pluralidade e dissonância dentro dela, como uma árvore cheia de galhos e ramificações.

GNOSTICISMO THELÊMICO
Poucas palavras foram tão combatidas e incompreendidas através dos séculos do que Gnose e Gnosticismo. Sua história é longa e remonta aos primeiros anos da Era Comum, ou da Era Cristã, quando as mensagens ainda eram transmitidas majoritariamente de forma oral, através dos viajantes e comerciantes que circulavam pelo Império Romano, em uma época em que sequer o Cristianismo, como nós o conhecemos hoje existia, ele ainda engatinhava para tomar forma nos séculos seguintes, através de tratados e concílios.

No século XX o gnosticismo (ou neo gnosticismo) se aproximou de Thelema, uma lei ou filosofia que ganhava as luzes do mundo graças ao trabalho daquele que seria considerado o “O homem mais ímpio do mundo”, Aleister Crowley. A espiritualidade, porém, não para, e tanto o Gnosticismo quanto Thelema continuaram a caminhar e a se desenvolver, dentro daquilo que hoje, no século XXI, reconhecimentos como Gnosticismo Thelemico.

AUTO-INICIAÇÃO NA MAGIA ENOCHIANA
A magia enochiana é, sem duvida, um dos sistemas mágicos mais cobiçados pelos praticantes de magia cerimonial desde a Ordem Hermetica da Aurora Dourada, sendo considerada por muitos como um dos sistemas mágicos mais poderosos do mundo, rivalizando com os mais populares sistemas de magia Salomônica.

APROXIMANDO-SE DE BABALON
Aproximando-se de Babalon apresenta uma série de ensaios explorando a Deusa Babalon, o Divino Feminino, a Madona Negra e o circuito sempre revolvente do Sexo e da Morte, que se encontra no centro dos Mistérios.
Uma visão geral e uma introdução à Deusa Babalon que toma um caminho diferente daquele de Crowley e seus seguidores, Aproximando-se da Babalon se baseia nos insights de Thelema, Magia Cerimonial, Teoria Crítica, Teologia da Libertação e dos Decadentes para tecer sua poética magico-teológica.

Centralizando o corpo e a experiência corporal, a autora rejeita os misticismos patriarcais que buscam fugir do corpo e do mundo e se deslizar na pura luz branca do tédio racionalista celestial. Inspirador, erótico e profundamente poético, o texto atinge dimensões extasiantes ao oferecer uma visão caleidoscópica de magia, sexualidade, espiritualidade, ritual e do corpo no tempo do apocalipse.

A FADA DO DENTE
Dente é uma palavra que, entre outras coisas, é tradução para o português da letra hebraica שׂ (Shin). Nos tarôs tradicionais, essa letra é relacionada ao Arcano do Louco, mas no Tarô de Thoth é ligada ao arcano do Aeon, uma das mais belas lâminas pintadas por Lady Frieda Harris e um dos maiores rompimentos deste para com as cartas de tarô criadas anteriormente. E aqui temos uma chave interessante, porque o Louco e o Aeon seriam uma forma apropriada para o tarô descrever o livro que você está prestes a ler.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/%C3%BAltimo-dia-para-apoiar-o-financiamento-coletivo-da-hist%C3%B3ria-da-magia-ocidental

Como a religião mata Deus

“A pergunta diante de tudo e de todas as coisas, ‘Você quer isto mais uma vez e incontáveis vezes?’”
– Nietzsche

“Em geral, chamamos de destino as asneiras que cometemos.“
– Schopenhauer

E somos todos crianças do Iluminismo, netos, bisnetos e tataranetos do Século das Luzes, um nome que deixa claro que a idade das trevas, da ignorância – a Idade Média – não apenas ficou para trás mas foi Iluminada, deixando de existir. E com ela toda a ignorância e superstição, a mitologia que se contrapunha a razão foram, ou começaram a ser, erradicadas.

A filosofia de fins do século XIX pareceu pregar o último prego no caixão do cristianismo na figura do – tão propriamente apelidado – Martelo de Bigodes, que deu sentença última ao cristianismo escrevendo em seu O Anticristo que “O Evangelho morreu na cruz”.

A biologia não ficou para trás neste apedrejamento digno da Bíblia, afirmou que o homem não havia sido criado mas sim evoluído, como todos os outros animais. Em Dawkins Darwin encontrou a pedra sobre a qual sua igreja foi edificada, o papa transviado do ateísmo.

Cada nova década trazia evidências observadas em microscópios eletrônicos e confirmadas por cálculos matemáticos que os mitos primitivos de nossos antepassados não passavam de coisas vãs, tentativas simplórias de pessoas rústicas para explicar o desconhecido mundo que as continha. E hoje religião, especialmente a cristã e a islâmica, se tornam sinônimos de crenças desesperadas de se acreditar no inacreditável, no invisível e no impossível com o objetivo de fazer o crente se sentir, ao menos, importante – já que um ser onipotente se preocupa em lhe ouvir as preces (e quiçá realizá-las).

Mas qualquer pessoa que deixe este novo orgulho cientifista, tão grande e amargo quanto o orgulho religioso, logo percebe que o Iluminismo não foi o remédio contra a doença da beatitude e sim o resultado inevitável dela.

Por anos a Igreja não apenas coletou e guardou o conhecimento como o distribuiu de maneira cada vez mais eficiente pela europa. Todos os astros do Iluminismo foram educados pela igreja e todo ícone pop da época era devoto – mesmo que tentemos fingir não se passar de um teatro para não atrair a fúria romana. A ciência e filosofia, assim como a matemática e a música existem hoje por causa da igreja e do catolicismo e seus cismas.

E para aqueles que acreditam que caminhamos a um futuro onde a ciência prove que Deus não existe, nos livrando de um onipresente e severo Juiz que a cada ato nosso está atento, pensem novamente. Esta época que vivemos não é a primeira – e provavelmente nem será a última – a tentar sepultar um ou vários Deuses. Como pragas eles sempre voltam a nos atormentar.

Toda a cultura ocidental que existe hoje nasceu na Grécia antiga, e então – como um vírus – chegou a Roma e então se espalhou pela europa como uma praga.

Na Grécia antiga o mito não era visto como uma mera representação, uma fábula ou parábola. Mitos tinham o peso da lei, da moral e dos costumes. Os gregos caminhavam lentamente para fora de sua pré-história e esse mitos eram passados de geração a geração, de povoado a povoado de forma oral graças a poetas ou bardos.

Quando o mito era reduzido a uma obra de arte (uma canção ou poesia, por exemplo) ocorre uma cristalização: o que antes vivia em variantes começa a se tornar um cânon, sua diversidade e seus nuances começam a se transmutar em uma versão oficial aceita por todos. Claro que esse cânon não surgia apenas da mente do poeta, a variante apresentada por um vate de prestígio impunha-se à consciência pública e se tornava, com o devido tempo, o mito canônico que atravessava e educava gerações.

E desta forma poetas e artistas recolhiam várias crenças espalhadas por ilhas e continentes e as compilavam, destilavam e usavam de sua arte e engenho para criar algo mais próximo do real – sempre inspirado por musas que lhe faziam cantar a Verdade.

Mas essas não foram as únicas alterações que essas verdades coletivas sofreram, por mais que poetas e artistas reduzissem e recriassem os mitos de acordo com as novas exigências estéticas e artísticas, eles as aceitavam e as mantinham.

O pensamento racional, ao contrário do que muitos pensam, não é um modismo atual e contemporâneo. Na época pré-Socrática muitos pensadores tentaram encarar com visão crítica os mitos e por consequência os desmitizar e dessacralizar em nome do lógos – a razão.

Mircea Eliade afirmou que: “Em nenhuma outra parte vemos, como na Grécia, o mito inspirar e guiar não só a poesia épica, a tragédia e a comédia, mas também as artes plásticas; por outro lado, a cultura grega foi a única a submeter o mito a uma longa e penetrante análise, da qual ele saiu radicalmente ‘desmitizado’. A ascensão do racionalismo jônico coincide com uma crítica cada vez mais corrosiva da mitologia ‘clássica’, tal qual é expressa nas obras de Homero e Hesíodo. Se em todas as línguas européias o vocábulo ‘mito’ denota uma ‘ficção’, é porque os gregos o proclamaram há vinte e cinco séculos”.

O que primeiro despertou a atenção dos pensadores Jônicos não foi a essência do mito em si, mas as atitudes e a moral dos Deuses. Xenófanes (576-480 a.C.) já dizia que um Deus verdadeiro jamais poderia ser concebido como injusto, vingativo, adúltero e ciumento.

“No dizer de Homero e de Hesíodo os deuses fazem tudo quanto os homens considerariam vergonhoso: adultério, roubo, trapaças mútuas” (Frgs. B11, B12). Repele a concepção de que os deuses tenham tido um princípio e se assemelhem aos homens: “Mas os mortais acreditam que os deuses nasceram, que usam indumentária e que, como eles, têm uma linguagem e um corpo” (Frg. B14). O antropomorfismo, iniciado com Homero e aperfeiçoado por Hesíodo, é violentamente censurado: “Se os bois, os cavalos e os leões tivessem mãos e pudessem, com suas mãos, pintar e produzir as obras que os homens realizam, os cavalos pintariam figuras de deuses semelhantes a cavalos, os bois semelhantes a bois e a eles atribuiriam os corpos que eles próprios têm” (Frg. B15).

E isso não era afirmar que Xenófanes fosse algum tipo de primeiro ateu, seus pensamentos eram muito mais sérios – e sacros:

“Há um deus acima de todos os deuses e homens: nem sua forma nem seu pensamento se assemelham aos dos mortais” (Frg. B23).

As críticas dos nacionalistas cresciam e se tornavam mais poderosas e Demócrito (520-440a.C.) acertou no caixão dos Mitos um prego talvez mais poderoso que o de Nietzsche mais de dois mil anos depois. O filósofo de Abdera afirma que tudo o que existe é a manifestação do choque entre partículas indivisíveis: os átomos.

“Por necessidade da natureza, os átomos movem-se no vácuo infinito com movimento retilíneo de cima para baixo e com desigual velocidade. Daí entrechoques atômicos e formação de imensos vórtices ou turbilhões de que se originam os mundos”

Assim tudo o que existia, fosse o objeto mais concreto – como uma rocha – ou o mais sútil – o ar, a alma, os deuses – está inevitavelmente sujeito à Lei da Morte.

E quanta gente não acha que a ciência de hoje é que foi a responsável pelo funeral dos deuses.

Demócrito pôs em xeque não a moralidade ou a humanização dos deuses, mas algo mais fundamental: por um lado afirmava que os deuses vulgares e a mitologia nasceram da fantasia popular e por outro, embora não descartando a existência de deuses reais, “Superiores”, os sujeitava à Lei funesta: “Deus verdadeiro e natureza imortal não existem”. Era a imortalidade que ele matava.

Na esteira de Demócrito outros vieram.

Píndaro (521-441a.C.) – um dos maiores e mais religiosos poetas de Helade – começou a filtrar o mito. Para ele todas as variantes de um mitologema tem como origem um único mito verdadeiro, todo o resto são devaneios estéticos criação de poetas.

“O mundo está repleto de maravilhas e, não raro, as afirmativas dos mortais vão além da verdade; mitos, ornamentados de hábeis ficções, nos iludem. .. As Graças, a quem os mortais devem tudo quanto os seduz, tributam-lhes honras e, as mais das vezes, fazem-nos crer no incrível!” … “O homem não deve atribuir aos deuses a não ser belas ações. Este é o caminho mais seguro”.

Os deuses deveriam apenas nos mostrar o correto, e para isso o maior dos líricos da Grécia truncou, moldou, cortou, e alterou mitos para que se tornassem espelhos de suas exigências morais.

E não foi o único grande nome a fazer isso. Esquilo (525-456 a.C.) destilou do mito apenas seus aspectos sadio. Junito Brandão de Souza, em seu Teatro Grego, Origem e Evolução, afirma “O dever do poeta, diz Ésquilo a respeito do mito de Fedra, é ocultar o vício, não propagá-lo e trazê-lo à cena. Com efeito, se para as crianças o educador modelo é o professor, para os jovens o são os poetas. Temos o dever imperioso de dizer somente coisas honestas”.

Eurípides (480-406 a.C.) foi outro gigante que trilhou pela senda de Xenófanes.

Outro ponto interessante que serviu como ir minguando o poder dos antigos deuses foi a politização! Veja, Atenas, a acrópole, se tornou o centro do mundo que era a Grécia e logo os mitos, quase todos, passam a sofrer de uma deslocação fazendo com que acabassem passando, em um momento ou outro, pela cidade. As peregrinações dos heróis os levam a Atenas, o desejo de defender a hegemonia política ateniense faz com que seus poetas começam a tomar certas liberdades criativas com certos mitos, incluindo neles genealogias duvidosas, dando à cidadela importantes fatos históricos que deformavam a cronologia de acontecimentos míticos ao mesmo tempo que denegriam heróis e feitos das cidades vizinhas e concorrentes. Admeto da Tessália, Édipo de Tebas, Adrasto de Sicione, Orestes de Argos… a lista dos que desfilaram pelas ruas atenienses é enorme.

O século V a.C. viu o desabrochar de ilustres discípulos da crítica racionalista. Tucidides (460-395 a.C.) – ao contrário de Heródoto (480-425 a.C.) – o pai dos historiadores – expulsa os deuses de sua História da Guerra do Peloponeso, foi ele o responsável por transformar o adjetivo mythôdes, que tem por significado aquilo que é “semelhante ao mito”, em sinônimo de “fabuloso”.

Assim os sofistas, tomando partido das condições políticas e sociais, abalaram os nervos da pólis, tirando vantagem da senda aberta a golpes de machete pela ceticismo, varrendo todo o conceito de mito da mente de seus jovens discípulos.

E assim ao chegarmos ao século IV a.C. os deuses e deusas do passado não passam a ser compreendidos como alegorias ou tentativas de explicar o processo de apoteose de homens ilustres. Eles não eram mais verdadeiros mas sim suposições com significações ocultas. Outrora deuses passam a ser meros fenômenos naturais e suas leis e histórias mera poesia e entretenimento.

Mas os deuses não permanecem mortos novamente, com o império romano voltaram, e novamente foram enterrados pelo ceticismo até que o império ruísse e um novo Deus surgisse, tão real e palpável quanto as catedrais que erigiam em sua homenagem.

O que muitos não percebem ao chegar a este ponto é que não era a razão científica que atirava pedras nas divindades, rotulando-as de superstições, era homens de religião que tentavam se aproximar de uma Divindade insondável que tentavam se livrar das alegorias humanas, criadas por humanos para tentar compreendê-los. Ao questionar que Deus não podia ser onipotente e onipresente, não levantavam dúvidas a respeito de sua existência, mas o despiam de conceitos humanos, tentando enxergar mais longe além do véu.

Não pense agora que nossa ciência e inteligência hodiernas serão o fim daquilo que tão orgulhosamente consideramos ser apenas mitos, estórias e metáforas. Ela apenas se apoia de forma capenga e não criativa em questionamentos filosóficos que os papagaios que os repetem sequer compreendem. Estamos, enquanto sociedade iluminada, apenas usando o conhecimento que recebemos dos sacerdotes e crentes de uma divindade para solapar seu Deus. Tal qual Cronos fez com seu pai Urano e Zeus fez com seu pai Cronos. Da mesma maneira que incontáveis “homens da razão” fizeram antes de nós com a mesma convicção que os mais notórios biólogos que a mídia nos trazem tem.

E encerro apenas com o lembrete quase profético que o poeta John Donne escreveu, inspirado talvez pelas mesmas musas que inspiraram Hesíodo e Homero, em 1609 e que talvez a muitos fãs de Howard Phillips Lovecraft pareça familiar:

“Após curto sono, acorda eterno o que jaz,
E a morte já não é; morte, tu morrerás.”

 

 

 

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/como-a-religiao-mata-deus/

Carta a um Maçom

Rio de Janeiro, 9 de julho de 1963.

Caro Dr. G.:

Faze o que tu queres há de saer tudo da Lei.

Li, com maior prazer, a entrevista concedida ao Diário de Notícias, através da qual o Grande Oriente do Brasil manifesta à nação a sua intenção de, finalmente, fazer com que a Maçonaria venha a ocupar na vida brasileira o papel que lhe cabe e sempre lhe coube desde a Independência – que, como todos sabemos, foi feita por maçons.

Relembrei nessa ocasião minha conversa com o senhor, e as nossas palavras de despedida, nas quais buscou o senhor gentilmente trazer à minha atenção o fato de que (na sua opinião) a Igreja Católica Romana é uma boa introdução à vida adulta para crianças. Eu lhe disse então: “Mas a Maçonaria é infinitamente melhor”, e aproveito esta oportunidade para repetir e ampliar estas palavras.

Eu não quis discutir a validade ou falta de validade da Igreja Romana como campo de treino para crianças, porque não é assunto que se possa, propriamente, discutir. É assunto que deve — repito, deve – – ser pesquisado por todo homem consciencioso e responsável, principalmente por maçon de alto grau e no Brasil, onde essa Igreja teve tanta influência na formação psíquica do povo — com os resultados que estamos vendo no presente.

Para esta pesquisa, vitalmente necessária a todos os maçons neste momento de transição, é necessário uma análise cuidadosa da evidência espalhada pelas obras de muitos pesquisadores imparciais e fidedignos; e isto não pode ser resumido numa breve discussão. Eu estou a par dos fatos; o senhor não estava, na ocasião; e afirmativas de minha parte teriam forçosamente de parecer ao senhor opiniões arbitrárias e caprichosas, principalmente por o senhor, com certeza, suspeitar de mim e de minhas intenções. Thelemitas não são mais benquistos no momento do que o foram os gnósticos e os essênios em seu tempo! A finalidade desta carta é expor, de maneira mais ordeira e clara, minhas conclusões, e citar as obras nas quais me baseio; de forma que o senhor possa, se quiser, consulta-las e tirar suas próprias conclusões, que podem ou não virem a coincidir com as minhas. Peço-lhe apenas que, tendo lido a minha carta; examinado, se lhe aprouver, as fontes nela citadas; e chegado, porventura, à conclusão de que são ambas de valor a seus irmãos maçons, transmita-lhes a carta assim como as fontes, para que, por sua vez, tenham a oportunidade de examinar, ponderar, e julgar.

Devo começar por repetir-lhe o que lhe disse por ocasião de nossa conversa, e que tanto chocou seus bons sentimentos e sua honesta devoção: que o homem chamado “Jesus Cristo” nos Evangelhos nunca existiu. Suas peripécias são fictícias; não padeceu sob nenhum Pôncio Pilatos; não foi nem poderia jamais ser a única Encarnação do Verbo; e qualquer Igreja, seita ou pessoa que diga o contrário ou está enganada ou enganando. Não quero dizer com isto que um homem assim não pudesse ter nascido, pregado, e padecido. Pelo contrário: tais homens nascem continuamente, e continuarão a nascer por todos os tempos: Encarnações do Logos, Templos do Espírito Santo, Cruzes de Matéria coroadas pela chama do Espírito.

Direi mais: houve, em certa ocasião, um homem que alcançou no mais alto grau a consciência de sua própria Divindade; e este homem morreu em circunstâncias análogas (porém não idênticas!) àquelas narradas nos Evangelhos. Seu nascimento perdeu-se na noite dos tempos: ele foi o original do “Enforcado” ou “sacrificado” no Taro, e os egípcios o conheciam pelo nome de Osiris. Foi esse Iniciado quem formulou na carne a fórmula do Deus Sacrificado. Esta é a fórmula da Cerimônia da Morte de Asar na Pirâmide, que foi reproduzida nos mistérios de fraternidades maçônicas da tradição de Hiram, das quais o exemplo mais perfeito foi o Antigo e Aceito Rito Escocês. O Graus 33º desse rito indicava uma Encarnação do Logos; a descida do espírito Santo; a manifestação, na carne, de um Cristo; a presença do Deus Vivo.

Para os fatos que servem de base às asserções acima, indico ao senhor as seguintes obras, de maçons ilustres e merecedores:

LA MISA Y SUS MISTERIOS, de J.M. Ragón.

THE ARCANE SCHOOLS, de John Yarker.

DO SEXO À DIVINDADE, do Dr. Jorge Adoum.

CURSO FILOSÓFICO DE LAS INICIACIONES ANTIGUAS Y MODERNAS, de J.M.Ragón.

ISIS DESVELADA, de Helena Blavatsky, seção sobre o Cristianismo. Mme Blavatsky não era dos vossos, mas era dos Nossos…

Na minha opinião, Dr. G., um maçon de alto grau, com tempo a seu dispor, faria um grande benefício a seus irmãos ao traduzir para o português as obras acima citadas, principalmente as duas primeiras.

Os documentos incluídos no assim-chamado “Novo Testamento” (a saber, os Quatro Evangelhos, os Atos, as Cartas e o Apocalipse) são falsificações perpetradas pelos patriarcas da Igreja Romana na época de Constantino, por eles chamado “o Grande” porque permitiu esta contrafação, colaborando com ela. Constantino não teve sonho algum de “In Hoc Signo Vinces”. Tais lendas são mentiras desavergonhadas inventadas pelos patriarcas romanos dos três séculos que se seguiram, durante os quais todos os documentos dos primórdios da assim- chamada “Era Cristã” existentes nos arquivos do Império Romano foram completamente alterados.

O que realmente aconteceu na época de Constantino foi que, aliados, os presbíteros de Roma e Alexandria, com a cumplicidade dos patriarcas das igrejas locais, dirigiram-se ao Imperador, fizeram-lhe ver que a religião oficial era seguida apenas por uma minoria de patrícios, que a quase totalidade da população do Império era cristão ( pertencendo às várias seitas e congregações das províncias ); que o Império se estava desintegrando devido à discrepância entre a fé do povo e a dos patrícios; que as investidas constantes das seitas guerreiras essênias da Palestina incitavam as províncias contra a autoridade de Roma; e que, resumindo, a única forma de Constantino conservar o Império seria aceitar a versão Romano-Alexandrina do Cristianismo. Então os bispos aconselhariam o povo a cooperar com ele; em troca, Constantino ajudaria os bispos a destruírem a influência de todas as outras seitas cristãs! Constantino aceitou este pacto político, tornando a versão romano- alexandrina de Cristianismo na religião oficial do Império.

Conseqüentemente, a liderança religiosa passou às mãos dos patriarcas romano-alexandrinos, que, auxiliados pelo exército do Imperador, começaram uma “purgação” bem nos moldes daquelas da Rússia moderna. Os cabeças das seitas cristãs independentes foram aprisionados; seus templos, interditados; e congregações inteiras foram sacrificadas nas arenas das províncias de Roma e Alexandria. Os gnósticos gregos, herdeiros dos Mistérios de Eleusis, foram acusados de práticas infames por padres castrados como Orígenes e Irineu (a castração era um método singular de preservar a castidade, derivado do culto de Atis, do qual se originou a psicologia romano-alexandrina). Os essênios foram condenados através do hábil truque de fazer dos judeus os vilões do Mistério da Paixão; e com a derrota e dispersão finais dos judeus pelos quatro cantos do Império, a Igreja Romano- Alexandrina respirou desafogada e pode dedicar-se completamente ao que tem sido sua especialidade desde então: ajudar os tiranos do mundo a escravizarem os homens livres.

Para o escrito acima, indico ao senhor os seguintes livros:

ISIS DESVELADA, de Blavatsky, seção sobre o Cristianismo OUTLINES ON THE ORIGIN OF DOGMA, de Adolf von Harnack.

DECLINE AND FALL OF THE ROMAN EMPIRE, de Gibbon.

THE AGE OF CONSTANTINE THE GREAT, de Burckhardt.

Quanto às falsificações da Igreja Romano-Alexandrina, indico ao senhor as palavras do grande erudito americano Moses Hadas, em suas notas à tradução do livro de Burckhardt, à página 367, que passo a traduzir:

“A História Augusta apresenta biografias de imperadores, cézares e usurpadores, de Afriano a Numério (117-284), com uma lacuna no período de 244 a 253. Pretende ser o trabalho de seis autores (Aelius Spartianus, Vulcacius Gallicanus, Aelius Lampridius, Julius Capitolinus, trebellius Pollius e Flavius Vopiscus), e ter sido escrita entre os reinados de Diocleciano e Constantino, ou cerca de 330. Alguns estudiosos creêm tais asserções verdadeiras, mas outros mantêm que a obra foi escrita um século mais tarde, e por uma só pessoa. Em tal caso o nome dos seis autores terá sido adicionado para tornar mais convincente o que foi escrito.

Trocando em miúdos, o que ele quer dizer é o seguinte: os patriarcas romanos, ansiosos por esconder seus crimes (especialmente a perseguição a cristãos de outras seitas ou igrejas) e por se declararem os únicos cristãos verdadeiros, destruíram todos os documentos autênticos nos quais conseguiram por as mãos. (Isto lhes era particularmente fácil já que, desde a era de Constantino, eles foram os guardiães de tais manuscritos.) Feito isto, substituíram os destruídos por outros, forjados, que descreviam a sua clique como oprimida pelos imperadores e outras seitas cristãs como inexistentes ou obscenas. (Na realidade, ela bajulara os imperadores desde o começo: o culto de Átis era o único em Roma ao qual os patrícios podiam ir legalmente.) Um pouco mais tarde, Romanos e Alexandrinos brigaram. Isto porque cada facção queria fazer de sua cidade o centro político e religioso do Império. Foi então que um dos poucos historiadores pagãos que escaparam à atenção dos Patriarcas escreveu: “As atrocidades dos cristãos uns contra o outros ultrapassa a fúria das bestas selvagens contra o homem.”(Ammianus Marcellinus) O capítulo final da disputa foi a divisão do Império em Romano e Bizantino. Desde então, a Igreja Romana tem se chamado “Católica”, e a Bizantina, “Ortodoxa”.

Ambas, é claro, um amontoado de mentiras.

Qual o motivo, o senhor perguntará, para essa perseguição impiedosa às seitas gnósticas e essênias? No caso dos essênios, as razões foram políticas e dogmáticas.

Aproximadamente um século antes do assim-chamado “Ano Um” nascera na Palestina um rabi, cujo nome é desconhecido (embora alguns estudiosos presumam ter sido Ionas, ou Jonas). Ele criou um novo sistema de Essenismo, fundando muitos ramos dessa fraternidade judeo-cóptica, e adquirindo um grande número de seguidores na Ásia Menor. Muitos documentos foram escritos acerca dos incidentes de sua vida e doutrina. Foi um Adepto Cristão, ou seja, defendeu a tese de que todo homem é um Templo do Deus Vivo; deu testemunho do Logos e do Espírito Santo, e tal foi seu impacto no pensamento religioso de sua época que os patriarcas romano-alexandrinos, ao escreverem a “história de Jesús Cristo”, foram forçados a incluí-lo, para evitar suspeitas. Chamaram-no de “João Batista”…

Acerca deste: THE DEAD SEA SCROLLS, AN INTRODUCTION, de R.K.Harrison.

Também este livro deveria ser traduzido para o português por um maçon! Abaixo, cito uma passagem atribuída a esse iniciado, extraída de um manuscrito cóptico intitulado “Evangelho de Maria”, apócrifo, desde 1896 no Museu de Berlim. Depois de haver explicado vários pontos de sua doutrina, ele se despede de seus discípulos:

“… Quando o Abençoado havia dito isto, ele saudou a todos, dizendo: ‘Paz seja convosco. Recebei minha paz para vós mesmos. Cuidai-vos de que nenhum vos desvie com as palavras “olha alí” ou “olha lá”, pois o Filho do Homem está dentro de vós. Seguí-o: aqueles que o buscam o encontrarão. Ide, pois, e pregai a Boa Nova do Reino. Eu não vos deixo nenhuma regra, salvo o que vos recomendei (Amai-vos uns aos outros), e eu não vos dei nenhuma lei, qual fez o legislador (Moisés), para evitar que vos sentísseis obrigados por ela.’ E quando acabou de dizer isto, ele foi embora.” (Gnosticism, An Anthology, ed. Robert M. Grant, Collins, London, pp.65-66, “The Gospel of Mary”)

Esta passagem pode ser comparada a muitas outras nos Evangelhos nas quais, quando interrogado, “Jesús” diz explicitamente: “O Reino de Deus está dentro de vós.” E que razão tinham os Romanos e Alexandrinos para perseguir e exterminar os gnósticos gregos? Desta feita o motivo era puramente dogmático. Na época posteriormente atribuída pelos patriarcas ao “nascimento de Jesús Cristo”, um iniciado grego deu vida nova aos mistérios de Apolo e Diôniso, restabeleceu o culto ao Sol Espiritual e ao Logos, praticou maravilhas taumatúrgicas e, em suma, causou tal impressão que os Romano-Alexandrinos foram forçados a incorporar diversos “milagres” em sua miscelânia evangélica, de forma que o seu “Jesus” pudesse igualar os prodígios atribuídos a Apolônio de Tyana. Ao mesmo tempo, afirmaram que Apolônio de Tyana havia sido enviado por “Satã” para reproduzir os milagres de “Jesús” e assim desviar as pessoas do “verdadeiro Cristo”. destruíram também, sistematicamente, todos os documentos autênticos da vida de Apolônio, salvo um, a fantástica e inacreditável Vita, atribuída a um pretenso “discípulo” desse grande Adepto.

Novamente lhe indico ISIS DESVELADA, e o artigo “Apollonius” na Enciclopédia Britânica.

Devo aqui, Dr. Gastão, apender um parêntese um pouco prolongado, de forma a estabelecer a maneira pela qual o Catoliscismo Romano difere do verdadeiro Cristianismo. Para este fim, começarei por apresentar um dos poucos textos que nos chegaram quase sem alterações cometidas pelos patriarcas de Roma e Alexandria. As modificações relevantes vão comentadas entre parênteses, e o texto, apresento o original, intacto. É o Intróito do Evangelho de “São João”:

“No princípio era o Verbo. E o verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

“Ele estava no princípio com Deus.

“Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez.

“A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens.

“A luz resplandece nas trevas, e as trevas não o escondem ( isto é, não escondem o fato que a luz brilha nelas!).

“Houve um homem enviado por Deus, cujo nome foi Jonas (Johannes no original em grego).

“Ele veio como testemunha da luz, a fim de todos virem a crer por intermédio dele.

“Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz: a saber, a verdadeira luz que, vinda ao mundo, ilumina todo homem.

“Estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dela, mas o mundo não a conheceu ( no masculino na Vulgata, para sugerir “Jesús”).

“Veio para o que era seu, e os seus não a receberam ( idem).

“Mas, a todos quanto a (idem) receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus ( e aqui os Romanos-Alexandrinos acrescentaram: a saber, os que crêem no seu nome, isto é, no “Jesús” que eles inventaram para servir aos seus propósitos), os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.

“E o Verbo se fez carne, e habitou em nós ( a Vulgata aqui põe “entre”, o que muda totalmente o sentido da passagem) cheio de graça e verdade, e vimos a sua glória, glória como a do primogênito do Pai ( o primogênito do Pai é, claro, Chokmah, o Verbo Espiritual, a Primeira Emanação do Ancião dos Dias, Kether. “Primogênito” também traz à lembrança o “mais velho dos filhos de Deus”, Lúcifer ou Satã.” Na versão acima, original, desse documento cristão, e nas interpolações introduzidas pelos romanos-alexandrinos, Dr. G., tem o senhor o sumário e a base do dógma católico romano.

Jonas, Apolônio, Simão ( Simão Pedro e Simão o Mago; a isto aludiremos depois), Adeptos cristãos, ensinaram todos os três: “Vós sois o Templo do Deus Vivo. Contemplai a Luz dentro de vós, e sabei que sois Filhos da Luz!” Repetidamente esta mensagem é encontrada nos Evangelhos; mas sempre deformada, condicionada ou “explicada” pelas interpolações e teologismos romano- alexandrinos. O resultado é que, algumas vezes, “Jesús” fala como um santo, como uma verdadeira Encarnação do Verbo; o mais das vezes, porém, como fanático e sectarista.

Contradições deste tipo abundam.

Este é o resultado das alterações a interpolações dos romanos e alexandrinos. Copiaram, adaptando-os às suas necessidades político- financeiras, os documentos essênios que descreviam as pregações de Jonas ( entre outros, o “Sermão da Montanha”). Inseriram “milagres” do tipo atribuído a Apolônio de Tyana. Arranjaram um Mistério da Paixão em drama nos moldes dos cultos de Mitras, de Adonis, de Átis, de Diôniso e de Oannes — o que era necessário para tornar o seu “Jesús” numa Encarnação do Logos do Aeon de Osiris, o Deus Sacrificado. Tão cuidadosamente misturaram a verdade e mentira que durante quase mil e seiscentos anos todo cristão que procurou encontrar o Verbo em si mesmo — o único lugar onde pode ser encontrado — deparou, nos portais de sua alma, com este fantasma insidioso, esta blásfema quimera, este pesadelo teológico: “Nosso Senhor Jesus Cristo”.

“Adora-me!” — diz o Egrégora — “Eu sou o filho de Deus. Tu não és nada mais que uma criatura sem valor e pecadora, condenada desde o nascimento e destinada ao inferno não fosse por meu sacrifício; e sem mim nunca alcançarás o céu.” Talvez o senhor comece a compreender agora, Dr. G., a natureza daquilo a que nós chamamos a Grande feitiçaria? Após mil e seiscentos anos de vitalização por multidões de adorantes, e a absorção das cascas vazias de padres, freiras e fanáticos que se deixaram vampirizar por ele, o Egrégora existe no assim-chamado plano astral; e é um demônio, quer dizer, uma entidade ilusória. Não é um verdadeiro Microcosmo, mas uma gestalt de cascões vitalizados, um foco para tudo que há de negativo, derrotista, piegas, preconceituoso e introvertido na natureza dos cristãos: um lodaçal completamente hostíl ao progresso e á evolução espiritual deles.

E, no entanto, nada há mais sagrado ou puro do que está oculto neste nome, “Jesus Cristo”… É um híbrido dos títulos pelos quais os cabalistas essênios e os gnósticos gregos, respectivamente, chamavam o Iniciado que alcançasse a esfera de Tiphareth, o Filho — ou seja, a “sephira”, ou “plano” de consciência que em Nosso sistema corresponde ao grau de Adeptus Minor, e, no Rito Escocês, ao 33º grau.

Cristo, Chrestos, significa “Bom” e “ungido”. Este era um título nobre nos Mistérios de Eleusis. O Iniciado tem sempre sido um sacerdote-rei desde a antiguidade; a superstição absurda do “direito divino hereditário” dos reis foi outra adulteração dos romanos- alexandrinos para ajudar aos tiranos que os apoiavam. Seria realmente fácil se a verdadeira realeza, dura recompensa da Iniciação, pudesse ser transmitida por métodos dinásticos, ou conferida por um papa! Para fazer justiça a este tema um volume inteiro seria necessário; diremos apenas que os símbolos tradicionais da realeza são os símbolos da completa iniciação. O Cetro representa o Falo, a imagem material do Verbo; o Globo e a Cruz são formas da Cruz Ansata, o símbolo da imortalidade conferida pela Iniciação ( mostra a mulher “dominada” pelo homem, ou seja, satisfeita pelo homem….); a Coroa é Kether, o Sahashara Cakkram em completo funcionamento, a Primeira Sephira, o Ancião dos Dias, o Pai; o Manto Púrpura ornado de estrelas ou flores representa o Céu Noturno, a Aura do Sacerdote de Nuit; e finalmente, as roupagens rubro-douradas são o símbolo do Corpo Solar, o Corpo de Glória do Iniciado — vermelho e ouro sendo as cores heraldicas do sol.

Quanto ao nome “Jesús”, é escrito em hebraico IHShVH ( pronuncia- se Jehêshua). Note que isto é IHVH ( Tetragrammaton ) com Shin (Sh) intercalada. Shin é a letra que representa a um só tempo os elementos Fogo e Espírito, e, estando no centro de IHVH, equilibra as Quatro Forças Elementais Cegas do Demiurgo. Jeová — a Palavra de Moisés — torna-se Jeheshua — a Palavra de Jonas. Nesta Palavra o senhor tem o Deus Crucificado, Dr. G.: nela o Pentagrama, o Sinal do Homem, a Estrela Flamejante do Santuário; nela a chave cabalistica do Tetragrammaton Cristão, INRI, que significa, entre outras coisas, Igne Natura Renovatur Integra, ou seja: Pelo Fogo (do Espírito Santo) a natureza se Renova Inteiramente…

A diferença básica entre o Cristianismo e as religiões que o precederam é que o Mistério de Osíris, até então revelado apenas a aspirantes cuidadosamente selecionados nos mais profundos recônditos dos mais remotos santuários, foi abertamente oferecido ao mundo.

Antes do Aeon de Osíris, no Aeon de Isis, os homens adoravam a Deus em uma de Suas múltiplas imagens (adaptadas à visão espiritual de indivíduos diversos em nações diversas) da mesma forma que uma criança ama e adora sua mãe: como Alguém que protege, alimenta, conforta e ocasionalmente corrige e castiga, mas sempre como alguém exterior a si mesmos.

Foi a revelação do Mistério da Morte de Osíris que acordou os homens para a consciência de que eles, em si mesmos, são a divindade encarnada. Tampouco podemos ir muito longe neste assunto, pois é matéria para outro volume. O Aeon de Virgo-Pisces, com suas vibrações, adaptava-se às idéias de devoção e auto-sacrifício, tornando a Iniciação Racial possível em larga escala; mas é necessário que o senhor compreenda, Dr.G., que o Mistério de Osíris data da mais remota antiguidade. O Deus Sacrificado é fórmula anterior à destruição da Atlântida, quando o verdadeiro significado dos símbolos, até então geralmente conhecido, tornou-se o privilégio de alguns poucos iniciados. Um sacrifício humano anual, para ajudar a colheita, era um rito genérico entre todas as tribos agricultoras da Europa e da Ásia Menor há cinco mil anos atrás; e mesmo nos primórdios do Romanismo ainda era praticado por tribos indo- européias. O sacrificado era, originalmente, o rei da tribo; reinava durante o ano, e era executado nos Ritos da Primavera, ou Páscoa (em ingles Easter, corruptela de Ishtar). Era tratado como encarnação do deus tribal, e adorado até o momento de sua morte. Com seu sangue os campos de cultivo eram salpicados; sua carne era comida por nobres e sacerdotes; e o povo tinha de contentar-se em respirar a fumaça de certas partes queimadas e oferecidas à divindade que ele havia encarnado (estas partes variavam: algumas tribos queimavam os órgãos sexuais, outras o coração).

Eventualmente, com o desenvolvimento da inteligência, a fórmula tornou-se mais conveniente para os reis: algum gênio tribal concebeu a idéia de um vicário; e desde então, um rei substituto era simbolicamente ungido para a ocasião, para ser sacrificado no lugar do rei verdadeiro. Primeiro usaram voluntários, depois velhos e doentes ou criancinhas, a seguir inimigos, e por último animais.

Em muitas tribos os pais, em vez de se sacrificarem, sacrificavam seus primogênitos (neste caso eram os pais os chefes ou patriarcas das tribos). Na Bíblia, a história do primogênito de Abraão é uma hábil fábula que marca a transição, entre os primeiros judeus, do sacrifício dos primogênitos a Jeová para aquele dos bodes expiatórios.

Sacrifícios humanos, acompanhados de antropofagia ritual, eram costume no continente indoeuropeu, na Austrália, no continente africano e no Novo Mundo. A presença universal de tal rito, numa época em que a arte da navegação era praticamente nula, indica uma origem comum na Antiguidade, Esta foi a Atlantida, se bem que o senhor deva notar que seus habitantes não praticavam sacrifícios humanos. Foi precisamente a destruição desta civilização (devida não a “castigo divino”, mas a um dos grandes movimentos periódicos da crosta terrestre a intervalos de vinte mil anos) que, havendo deixado apenas algumas colônias em outras terras, resultou na volta à barbárie que ali ocorreu quando o símbolos passaram a ser interpretados da forma mais grosseira. Alguns mais avançados da cultura atlante mantiveram o verdadeiro significado. Entre eles, o Egípto, onde os Mistérios Menores ( de Isis e Osíris ) eram celebrados com pleno conhecimento de seu significado verdadeiro (é suficiente que o senhor recorde que no Livro dos Mortos a alma do morto ou da morta é sempre chamada Osíris), e os Mistérios Maiores ( de Nuit-Hadit-Hoor ) preservados com o máximo segredo.

Foi do Egito que veio a Corrente de Osíris, a qual, devido à diversidade de povos e línguas, e às dificuldades de comunicação no plano material, manifestou-se em pontos diferentes do continente indoeuropeu sob formas diversas, embora seguindo sempre a fórmula do Deus sacrificado. A corrente começou aproximadamente no ano 500 A.C.

Um estático da Ásia Menor, cujas aventuras tornaram-se lendárias, e que eventualmente ficou conhecido pelo nome de Diôniso, viajou pela Grécia, Ásia Menor e India, ensinando a nova fórmula de Iniciação Racial. Este iniciado, o original verdadeiro do “Jesús Cristo” evangélico, foi um filho espiritual de Krishna, ou antes, de Vishnu, de quem foi Krishna o principal avatar; e sua Palavra era INRI, que é uma modificação da Palavra de Krishna, AUM. Citamos aqui o Capítulo 71 de LIBER ALEPH, um dos mais profundos trabalhos do Mestre Therion: “Krishna tem inumeráveis nomes e formas, e não conheço seu verdadeiro Nascimento humano. Pois sua Fórmula é de alta Antiguidade. Mas Sua Palavra espalhou- se por muitas terras, e hoje a conhecemos como INRI com o IAO secreto aí oculto. E o significado desta Palavra é a Maneira de Trabalho da Natureza em Suas Mutações: isto é, é a Fórmula de Magia pela qual todas as Coisas se reproduzem e recriam a si mesmas. Porém, esta Extensão e Especialização foi antes a Palavra de Diôniso; pois a verdadeira Palavra de Krishna era AUM(OM), implicando antes numa asserção da Verdade da Natureza do que numa Instrução prática sobre Operações Detalhadas de Magia. Mas Diôniso, pela palavra INRI, estabeleceu a fundação de toda Ciência, da forma como hoje entendemos a palavra Ciência em seu senso particular, ou seja, o de causar a Natureza externa a mudar em Harmonia com nossas Vontades.” Este Iniciado, cujo nome carnal é hoje desconhecido, mas que conhecemos por Diôniso (o qual pode ter sido seu nome, pois se tornou bastante comum na Ásia e na Grécia depois de sua morte), viveu e trabalhou aproximadamente quinhentos anos antes da assim-chamada “era cristã”. Foi mencionado por um dos profetas judeus — Isaias — em várias passagens do Livro de Isaías. Estas eram estudadas com veneração profunda pelos velhos Essênios, que sabiam do seu sentido oculto. A passagem principal é citada aqui (parênteses meus):

“Quem acreditou em nossa pregação? A quem foi mostrado o braço de Adonai? (braço é um eufemismo para o falo, o órgão material do Verbo.

Coxa, braço, quafril, chifre, etc., são eufemismos para penis, usados tanto no Novo quanto no Velho Testamento para apaziguar as mentes prurientes dos tradutores que, projetando seus próprios traumas psíquicos, acharam que o povo ficaria chocado ao ouvir uma pica chamada de pica. Este tipo de “censura bem intencionada” ainda hoje é praticado: os cristãos todos parecem achar-se capazes de “proteger a virtude” de seus semelhantes!) . Porque foi subindo como um rebento novo ( ou seja, como uma Palavra nova, necessariamente mal-entendida e temida a princípio) perante Ele, e sua raiz em uma terra seca; não tinha presença nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza tinha ele que nos agradasse.

“Foi desprezado, o mais rejeitado entre os homens; homem que sofrera, e sabia o que é padecer; como um de quem os homens se desviam, foi desprezado, e dele não fizemos caso.

“Em verdade ele tomou sobre si nossas mazelas; as nossas dores carregou sobre si; e por isto o considerávamos, aflito, ferido de Deus, e opresso; “Ele foi golpeado, mas por nossas transgressões; moído, mas por nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe a paz caíu sobre ele, e pelas suas pisaduras nós fomos sarados.

“Andávamos todos desgarrados, como ovelhas; cada um se desviava do caminho, mas Adonai fez caír sobre ele a iniquidade de nós todos”.

“Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e como ovelha, muda perante seus tosquiadores, manteve silêncio.

“Por decreto tirânico nos foi arrebatado, e sua linhagem, quem dela cogitou? Pois ele foi cortado da terra dos vivos; por causa da transgressão do meu povo foi ele ferido.

“Deram-lhe sepultura com os perversos, mas com o rico habitou em sua morte; pois nunca fez injustiça, nem dolo algum se achou em sua boca.

“Todavia, a Adonai agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando ele deu a sua alma (a Vulgata tem der , para sugerir que isto é uma profecia sobre — claro — “Jesús Cristo”) como oferta pelo pecado, viu a sua posteridade ( isto é, seus filhos mágicos ) e prolongará seus dias; a vontade de Adonai prosperará em sua mãos.

“Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma, e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com a sua compreensão ( isto é, Binah; a “entrega da alma” corresponde à Passagem do Abismo ) justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si.

“Por isso eu lhe darei muitos como a sua parte ( isto é, como seus discípulos ), e com os poderosos (isto é, os Reis ou Potestades — uma das hierarquias celestiais ) repartirá ele os despojos; porquanto derramou a sua alma ( isto é, o seu sangue — vinho de IAO — na Taça de BABALON, que contém o sangue dos santos ) na morte; foi contado com os transgressores ( isto é, considerado malígno ); contudo levou sobre si os pecados de muitos, e pelos transgressores ( isto é, os malígnos entre os quais foi contado, os quais eram na realidade os que o condenavam ) intercedeu.”

LIVRO DE ISAÍAS, III, vv. 1 – 12.

Talvez o senhor compreenda melhor o acima se eu citar aqui alguns raros versos de um dos Livros Santos de Télema:

“46. Ó meu Deus, mas o amor em Me rebenta sobre os laços de Espaço e Tempo; meu amor é derramado entre aqueles que não amam o amor.

“47. Meu vinho é servido àqueles que nunca provaram vinho.

“48. Os fumos dele os intoxicarão, e o vigor do meu amor engendrará bebês pujantes em suas virgens.”

LIBER VII, vii, vv. 46 – 48.

Há certos segredos iniciáticos, Dr. G., que não podem ser revelados pela simples razão que apenas aqueles que os experimentaram em si mesmos são capazes de compreender referências a eles feitas.

Portanto limitar-me-ei a dizer que a história simples contada nos versos de Isaías descreve a carreira de todo Adepto Cristão. Isto, em teoria, seria também a história de todo maçon do grau 33º; mas na prática, embora não tenham os srs. perdido a Palavra, mantêm a letra mas não o espírito. Os senhores maçons caíram bem aquém do que era intencionado por seu sistema — isto principalmente devido ao constante ataque da Igreja de Roma.

Os patriarcas romanos-alexandrinos que escreveram o Novo Testamento copiaram palavras de verdadeiros Iniciados; resulta que, encerradas em seus evangelhos adulterados, ainda há várias chaves que aqueles que “tiverem ouvidos de ouvir” (isto é, percepção espiritual: o sentido da audição corresponde ao Akasha hindu, o Elemento do Espírito) podem usar para encontrar a Medicina Universal e o Elixir da Vida …

No entanto, os romanos-alexandrinos erraram tristemente ao tentar usar de métodos profanos para expandir um cristianismo viciado por interpretações dogmáticas e ambições temporais de poder político e financeiro. Falharam por não fazerem o preconizado por Jonas aos essênios: “Dar a Cesar o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Invariavelmente, quando quer que na história da humanidade um sistema de teurgia é conspurcado e se torna uma religião organizada, sofrem os elos entre o sistema e sua fonte espiritual. Os planos não podem ser misturados, e acreditando-se movidos pelas melhores intenções, os romanos-alexandrinos foram na verdade impelidos por vaidade e orgulho — sentimentos enraizados no ego, precisamente a faculdade que o homem deve destruir na passagem do Abismo.

O resultado foi que, perdendo contato com o Logos do Aeon de Osíris, a igreja romano-alexandrina tornou-se instrumento de forças demoníacas — isto é, de forças ilusórias, egóicas — e deu-se desde então a erros espantosos, a crueldades indizíveis.

Consequentemente, os verdadeiros cristãos retiraram-se daquela igreja no momento mesmo em que ela triunfava sobre suas “rivais” gnósticas e essênias, e aliava-se aos príncipes do mal deste mundo.

Retiraram-se, e silenciosamente continuaram seu trabalho através de todo o abuso e perseguição que se seguiram; e eventualmente, para contrafazer mais eficientemente os efeitos da Grande Feitiçaria, criaram a Maçonaria.

O senhor sabe, é claro, que o Rito Antigo, ou melhor, a Grande Loja da Inglaterra, foi organizada ( e o Rito inteiro reformado ) por um certo Elias Ashmole, judeu, e Irmão da R.C. A R.C. (que só existe neste mundo com este nome desde que o grande iniciado que se ocultou sob o nome de “Cristian Rosenkreutz” começou o movimento que resultou na Renascença, na Reforma e nas revoluções Francesa e Americana ) é responsável pelo Mistério do Logos — o Mistério do cristo. É tarefa dela zelar para que este Mistério jamais seja perdido pela humanidade. Quando quer que, por erros humanos, por oscilações do karma terrestre, ou pelas leis do acaso, a transmissão da Palavra e do Sinal (isto é, a sucessão apostólica) é ameaçada, é a R.C., sob um de seus muitos véus (ela nunca usa abertamente o nome de R.C.!), através de um ou mais de seus Irmãos, que lembra a humanidade o significado espiritual da Encarnação; da promessa da Ressurreição; da Grande Obra, isto é: o estabelecimento do Reino de Deus sobre a Terra.

A R.C. nunca interfere de forma alguma com a organização ou direção de ritos maçônicos; nem seus Adeptos, necessáriamente, ingressam em tais ritos. Apenas, informação em quantidades suficientes é outorgada, e fontes de pesquisa são sugeridas ao exame dos maçons, para que o significado espiritual dos ritos seja reestabelecido pelos próprios maçons.

A R.C. está abaixo do Abismo: a Grande Ordem que não tem nome é simbolizada pelo Olho no Triângulo, e este é o Collegium Summum, ou a S.S., da A.•.A.•.

A A.•.A.•. é apenas uma das Fraternidades Iniciáticas, e abaixo do Abismo é das mais novas. Foi organizada em sua forma presente na primeira década deste século.

Quanto à S.S., é a mesma para todas as fraternidades iniciáticas.

Isto é fonte de surpresa, às vezes, para iniciados de graus mais baixos, pois, chegando a certas consecuções, verificam que Mestres que pareceram pregar doutrinas completamente opostas ( como, por exemplo, Maomé e Jonas ) estão sentados lado a lado no Areópago dos Adeptos.

Recapitulando: Quem é “São João Batista”? É Jonas, Ionas, Jon, Johannes, João, o Mestre de retidão dos essênios, cujos sermões são postos nos Evangelhos na boca de “Jesús”.

Quem é “Jesús”? É qualquer indivíduo que tenha atingido o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião, o Paracleto.

Quem é “Jesús Cristo”? É o nome dado pelos Romano-Alexandrinos à sua versão fictícia do Logos do Aeon de Osíris, cuja Palavra foi INRI, e a quem Nós conhecemos por Diôniso.

Quem é o “Pai” a quem “Jesús” sempre se refere nos Evangelhos? É o Logos, a LVX, o Verbo, cuja Sephira é Chokmah, o Primogênito de Kether.

Quem é o Cristo? Tecnicamente é todo e qualquer Adepto, desde que, no simbolismo grego, o nome corresponde ao essênio Jeheshua; mas na prática o título é usado para designar o LOGOS AIONOS.

Do ponto de vista místico, “ninguém atinge o Pai a não ser pelo Filho”; consequentemente, desde que todo Adepto Cristão é uma Encarnação do Verbo, a distinção entre o Cristo Solar e o Cristo Interno é mera ilusão do profano. Ego sum qui sum, diz o Iniciado: AHIH, EU SOU O QUE SOU.

Quando Aleister Crowley estava sendo “julgado” (foi nesta ocasião que o juiz presidindo o chamou de “o pior homem do mundo”), o promotor lhe perguntou: “Não é verdade que o senhor se chama a si mesmo de A Besta do Apocalipse?” Crowley, que já estava acostumado a esperar o pior de seus semelhantes, respondeu com a paciência e agudeza de humor que lhe eram característicos: “Esse nome significa apenas O Sol. O senhor pode me chamar de Raio-de-Sol, se quizer.” Isto é: chamá-lo de Adepto, ou seja, Jeheshua, ou seja, Maçon 33º, Dr. G.: Sol em miniatura, isto é, Tiphareth…

Esta confusão entre o Adepto e seu Pai aparece até em “João Batista”, quando ele diz: “Eu sou a Voz (ou seja, o Verbo) que clama no Deserto ( isto é, no Abismo).” O mais antigo símbolo conhecido para o Logos é o Olho dos Egípcios; e o Olho está no Abismo; este é o Olho no triângulo, e este é o verdadeiro Baphomet, o Chefe Secreto de todos os maçons.

Abaixo do Abismo, Ele é representado por dois Adeptos, um do Pilar Branco, o outro do Pilar Negro. O do Pilar Branco é o Adepto Exempto, e ele promulga a Lei; o do Pilar Negro é o Adepto Maior, e ele faz com que as promulgações do Adepto Exempto sejam cumpridas.

Os judeus, depois que pararam de sacrificar primogênitos, tinham dois bodes sagrados para os festivais, um branco e outro negro. O branco era sacrificado a IAO ( o nome mais antigo de Jeová); o negro, carregado com as maldições dos sacerdotes, era impelido para o deserto…

Compreende o senhor melhor agora, Dr. G., por que razão a Sala dos Maçons é chamada a Sala do Bode Preto? O Olho no Abismo é o Olho do Sol, o Olho de Hoor, que, por certas razões ocultas, é identificado com o anus. É por isto que se dizia, dos iniciados de Satã, que eles “beijavam o anus de um bode preto”…. No Egito antigo, em certo ritual onde cada parte do corpo do Iniciado era colocada em relação com cada parte correspondente de algum ser divino, o Iniciado dizia em dado momento: “Minhas nádegas são as Nádegas do Olho de Hoor.” Mas quem diabo — perdoe o trocadilho — é na verdade este notório Satã que os padres romanos nos acusam de adorar, e a quem eles culpam por seus fracassos (ao invés de culparem a sua estupidez preconceituosa)? Quando a Igreja Romana começou a “catequização” das províncias, encontrou continuamente deuses locais. Aprendendo as peripécias lendárias de tais deuses, os engenhosos padres romanos fabricavam um “santo” com as mesmas proezas, e diziam aos ignorantes pagãos: “Esse seu deus não é mais que um demônio que tenta lhes desviar de Nosso Senhor Jesús Cristo, e para este fim imita as façanhas de nosso amado mártir Fulano. E se vocês não me acreditam, ouçam a história da vida de nosso santo mártir…” Desta forma, a Igreja Romana assimilou em sua liturgia um panteão inteiro de deuses pagãos que eram transformados em santos e santas e mártires imaginários — os únicos mártires cristãos do início do cristianismo foram os essênios e os gnósticos, a quem os romanos- alexandrinos acusaram, caluniaram, e denunciaram aos imperadores.

Exemplos: aqueles que adoravam o Cristo sob a forma de um asno ( Príapus ), os que adoravam o Cristo sob a forma de um peixe ( Oannes ); os que adoravam o Cristo sob seu nome de Baco ou Diôniso…

Mas houve um deus pagão que os romanos não conseguiram absorver, porque suas peripécias eram por demais virís para serem atribuídas a um “santo romano”, que era necessariamente um castrado, no corpo ou no espírito. Por outro lado, seus ritos eram tão vitais, tão universalmente populares nas províncias, que era impossível esperar que o povo o esquecesse: depois de seis séculos de tirania romano- alexandrina, ele ainda era conhecido e adorado: o deus PÃ, o deus de chifres e de cascos de bode…

Portanto, não podendo fazer dele um santo, Dr.G.’fizeram dele o diabo.

Uma profusão de dados sobre tudo o que foi escrito acima pode ser encontrado nos seguintes livros:

THE GOD OF THE WITCHES, de Margaret Murray O LIVRO DOS MORTOS, trauzido do egípcio por Sir Wallis Budge.

THE GOLDEN BOUGH, de Sir James Frazer, na edição completa em vários volumes. Neste trabalho monumental o senhor encontrará um estudo detalhado dos deuses pagãos tornados em “santos” e “mártires” do calendário romano…

Mas voltando ao deus PÃ: a igreja Romana lutou contra os ritos deste deus durante vários séculos. Os festivais de Pã eram orgiásticos — daí sua popularidade — e celebrados nos Equinócios e Solstícios. Eventualmente, a Igreja Romana foi forçada a incorporar estes rituais em sua liturgia, visto ser impossível eliminá-los; e sabiamente fez deles os festivais mais importantes do culto a “Nosso Senhor Jesus Cristo”: a Páscoa ( com Corpus Christi ), o “Natal”, o dia de “São João Batista” e o dia de “São João Apóstolo”.

Eventualmente, a reforma gregoriana mudou o “Natal”, que a princípio era oscilável como a Páscoa e Corpus Christi, e caía no Solstício; e tendo finalmente absorvido o rito orgiástico que então tinha lugar, os padres fixaram a data de 25 de dezembro (dava muito na vista, um aniversário oscilante…). Então os católicos romanos, seus derivados posteriores e muitas ordens ocultistas espúreas celebram nessa data a “ressurreição” ou “nascimento” do Sol: isto porque o solstício de inverno é o momento em que o Sol, tendo alcançado seu máximo declínio meridional na eclítica, começa sua volta para o Norte, levando o calor que renovará a vida da vegetação na Primavera.

Mas, do ponto de vista iniciático, quem era este Pã? Como qualquer deus de toda e qualquer terra em todo e qualquer período da história do mundo, era uma das formas pelas quais ou o Sol espiritual, que é o Pai verdadeiro, ou o seu primogênito, que é a “Bêsta”, são adorados. Esta Besta varia segundo a precessão dos equinócios, pois o Equinócio de Primavera se move ( devido ao deslocamento de ponto vernal ) de signo para signo no Zodíaco aproximadamente em cada dois mil e quinhentos anos; e no Zodíaco os signos são alternadamente representados sob a forma humana e animal.

No Aeon Passado, os pontos vernais caíam respectivamente em Virgo e Pisces, a Virgem e o Peixe; no que lhe antecedeu, caíam em Áries e Libra, o Carneiro e a Justiça (a mulher com a espada e a balança dos romanos antigos); no presente os pontos vernais caem em Aquarius, ou seja, a Mulher com a Taça (BABALON) e em Leo, ou seja, a Grande Besta Selvagem (THERION).

O deus Pã é simplesmente a fórmula do Logos que data do Aeon de Câncer- Capricórneo. Aí está o “diabo” dos padres romanos reduzido a suas verdadeiras proporções. Reduzido?… Bem, é uma questão de ponto de vista…

Não podemos nos aprofundar nesta questão do deus Pã, nem no simbolismo dos chifres, nem mesmo na história completa da luta da Igreja Romana contra o culto do “Diabo”; um culto que, diga-se de passagem, Roma jamais conseguiu destruir, a despeito de seus esforços sinistros. O senhor encontrará os dados fundamentais para tal estudo num livro precioso, publicado pela primeira vez no Século XVIII, mas recentemente republicado nos Estados Unidos e Inglaterra:

TWO ESSAYS ON THE WORSHIP OF PRIAPUS, de Payne Knight.

Limitar-nos-emos a dizer aqui que este era o deus adorado por “bruxos” e “feiticeiros”, que preservaram seus ritos orgiásticos apesar de toda a perseguição implacável, das calúnias absurdas e do terrível risco de tortura e morte na fogueira, alem de outras punições impostas pela Igreja de Roma não só na Idade Média como até ao Século XVIII — e que só não são impostas até hoje devido ao trabalho paciente e silencioso dos maçons, representantes dos verdadeiros cristãos…

Depois que Romanos e Alexandrinos estabeleceram seu domínio teológico no Concílio de Nicéia (disto falaremos depois) e instituiram o dógma de “Jesus Cristo” como personagem histórico e “única” encarnação do Verbo, os poucos essênios e gnósticos que sobreviveram à “purgação” continuaram, sob o maior segredo, a tradição pura e original dos Mistérios Menores do Egito e da Fórmula de Diôniso.

Várias vezes, no curso destes mil e quinhentos anos, os Iniciados tentaram reconstituir abertamente os ensinamentos essênios e gnósticos. Em toda ocasião em que isto aconteceu, a Igreja Romana interveio com fúria demoníaca, assassinando homens, mulheres, velhos e até criancinhas, sem a mínima compunção; ao ponto mesmo ( como no caso dos Albigenses ) de capitães medievais, homens supostamente embrutecidos pela violência das batalhas selvagens da época, terem ficado tão fartos da chacina que foram perguntar ao papa se, por ventura, não estariam exterminando inocentes com os culpados (essa gente morria tão virtuosamente, o senhor compreende!). E foi em tal ocasião que o Bispo de Roma honrou a tradição cristã de sua igreja com as seguintes palavras: “Matai a todos; Deus distinguirá os seus.”

A matança, Dr. G.. incluía até recém-nascidos.

E não é que se tratasse de fé cega, por parte do Bispo de Roma, na crassa teologia do seu credo. Não é que ele acreditasse realmente na existência de um “salvador” chamado “Jesus”, e no fato dos Albigenses serem “criaturas do Diabo”. Não, DR. G., não havia sequer a justificativa do fanatismo – se de justificativa podemos chamá-la – pois os papas romanos sabem, e sempre souberam, que nunca houve nenhum “Jesus Cristo!”.

Talvez lhe seja difícil crer no que digo? Pois lembre-se das palavras históricas, proferidas num momento de descuido por um dos mais cínicos e mais prósperos dos papas, Leão X:

“Quantum nobis prodeste haec fabula Christi!”.

Ou seja: “Quanto nos ajuda esta fábula de Cristo!”.

O senhor deve se lembrar de que os documentos originais daquilo que os Romanos chamavam de “Cristianismo” estão preservados na Biblioteca Secreta, do Vaticano. É bastante simples para os pouquíssimos prelados a quem a Cúria dá acesso aos documentos mais antigos, verificarem onde acabam os fatos e começa a ficção.

Creio que já falamos suficientemente da história passada da Igreja de Roma. Não deve ser necessário que eu lhe lembre Joana D’Arc, nem Gilles de Rais (contra o qual foram feitas as acusações mais horrendas, mas contra o qual jamais apresentaram evidências – nem sequer um ossinho! – das centenas de crianças que ele havia, supostamente, sacrificado; e seus acusadores, e juizes, dividiram entre si, seus consideráveis bens), nem os Templários, nem o Imperador Frederico Hohenstaufen, nem João Huss, nem Michel Servent, nem Henrique IV (assassinado por ordem dos Jesuítas), nem os Cátaros, nem os Albigenses, nem os Huguenotes, nem os Judeus e Árabes de Portugal e Espanha, nem os Gnósticos franceses, alemães, escoceses, irlandeses e ingleses que foram chamados de “feiticeiros” e forçados a confessar obscenidades sob torturas diabólicas, nem Cagliostro, nem uma quantidade imensa de Maçons cujos ossos branquejam a estrada que leva à Roma. Creio que, a um Maçon, não deve ser necessário falar mais do passado dessa igreja infame.

Falemos então do presente – desta época de “reforma” e do “Papa da Paz”. Mudou a Igreja de Roma? Dr. G., o senhor acha, certamente que essa propalada reforma romana, que esse muito propagandizado concílio ecumênico, que as duas bulas de João XXIII (na realidade João XXIV: houve uma época, entre outras da história do papado, em que havia três papas. Um deles chamou-se João XXIII, foi forçado a renunciar ao papado quando os dois outros fizeram um pacto contra ele, e pouco após morreu envenenado – por quem, deixamos ao senhor ponderar) – o senhor acha que tudo isso fará da Igreja de Roma algo mais humano, mais próximo de Deus e do Seu Logos? Muito bem; tenho diante de mim, neste instante em que lhe escrevo, um catecismo católico romano chamado “Doutrina Cristã”. É publicado pelas Edições Paulinas e leva o nº. 1; é destinado, portanto, ao condicionamento das mais tenras criancinhas. O senhor me disse que, na sua opinião, a Igreja Romana era uma boa introdução à vida adulta para crianças. Se assim é. Considere as seguintes passagens que transcreverei desse livreto infame (os parênteses são meus):

“Eu gosto do meu catecismo.” (Auto-sugestão inconsciente).

“O catecismo me ensina o caminho do céu.”(Do outro lado, o inferno).

“O caminho do céu é: conhecer a Deus”(pela boca dos padres), “amar a Deus” (de acordo com a definição de “amor” por parte dos homens que evitam todas as manifestações sadias desse sentimento), “e obedecer a Deus”(pela boca dos padres, seus únicos representantes legítimos; os demais são servos do diabo, e se alguém tentar definir por si mesmo a obediência a Deus, esse alguém na Idade Média era queimado vivo, e hoje em dia é culpado de orgulho, um dos pecados mortais).

“Eu irei sempre ao catecismo para conhecer o caminho do céu” (a ameaça velada é que, se a criança não for ao catecismo para aprender o caminho do céu, acabará no inferno).

“Estudarei sempre direitinho o meu catecismo”(e há quem diga que os comunistas inventaram a lavagem cerebral!).

Isto, apenas como introdução. Seguem-se as seguintes notáveis “verdades”: “Jesus morreu na cruz para nos salvar” (falsidade histórica; mas a implicação dogmática é que, desde que somos criaturas condenadas ao inferno desde o nascimento não fosse por “Jesus”, precisamos, mesmo na infância, de salvação. Que distância entre isto e “Deixai virem a mim as criancinhas, pois delas é o reino dos céus…”.

“As criancinhas gostam muito de Nossa Senhora” (se isto fosse uma cartilha usa, e em vez de “Nossa Senhora” estivesse Lênin, nós chamaríamos este tipo de propaganda de atentado contra a mente humana; no entanto, Lênin, pelo menos, realmente existiu!…) “Nossa Senhora é a mãe de Jesus”. (De fato, BABALON é a Mãe de Adepto; mas não é assim que eles interpretam!…) Mais adiante, o “Credo”, com a nota: “O Credo é o resumo da religião que Jesus nos ensinou.” Isto é uma mentira deslavada, pois nem Jon nem Dioniso, os originais de “Jesus Cristo” evangélico, ensinaram religiões. Buda não pregou o Budismo, nem Lao-Tsé o Taoísmo, nem Maomé o Islamismo; nenhum guia espiritual de vulto estabeleceu qualquer dogma formal, com exceção de Moisés; e ele, ao menos, tinha a desculpa de precisar criar uma cultura do nada, de fazer uma nação daquela multidão de ex- escravos superticiosos e rebeldes que o seguia. São sempre os sucessores dos Magos (diga-se de passagem, os falsos sucessores) que organizam religiões e dissociam o Espírito da Letra, mais cedo mais tarde comportando-se de forma completamente oposta àquela recomendada pelo Instrutor.

No entanto, no caso presente, a mentira é dupla; pois além do fato de que Jon não deixou “religião” a ser seguida, o Credo de Nicéia, que é o credo a que o catecismo em questão se refere, não era sequer um sumário da religião que começava a se cristalizar em redor dos ensinamentos de Jon. Este credo era antes um códice dos dogmas que os Romano- Alexandrinos consideravam essenciais ao estabelecimento de sua dominação política, material, temporal, sobre as muitas congregações – igrejas – fundadas na Ásia Menor e na península romana por seguidores e discípulos de Jon, cada qual com variações de doutrina e temperamento determinadas por condições locais e idiossincrasias do discípulo fundador. Estes discípulos foram os originais dos “apóstolos” dos “Atos” (os “Atos” são uma antologia cuidadosamente censurada; e deturpada pela introdução de incidentes e nomes altamente imaginários, de alguns dos discípulos de Jon. As mais gritantes falsidades lá se encontram misturadas a fatos históricos. O propósito de tais falsificações foi a afirmação da autoridade da Igreja Romana, a qual, longe de ser a mais velha das igrejas Cristãs, era a mais nova e certamente a menos Cristã, de todas. Um exemplo interessante é “Simão Pedro”, que é o mesmo “Simão o Mago” que a ele se opõe nos Atos… Era um Gnóstico a quem a Igreja Romana teve que atribuir a sua fundação, pois ele pregara em Roma e era universalmente respeitado por todas as congregações; mas ao mesmo tempo, teve que ser atacado devido as doutrinas que tinha em comum com os Gnósticos Gregos e os Essênios Hebreus. “Pedro” e “Paulo” são, possivelmente a mesma pessoa, mas só pesquisas futuras, empreendidas por investigadores sem preconceitos que tenham acesso a verdadeira documentação, poderão esclarecer tal ponto). A história da maneira pela qual os Romano-Alexandrinos forçaram o Concílio de Nicéia a votar neste Credo é um pântano de horrores. Tal era a situação que os patriarcas visitantes não ousavam andar pelas ruas de Nicéia, Roma ou Alexandria, sem terem ao menos uma dúzia de guarda-costas, por medo de serem assassinados por ordem dos patriarcas Romano-Alexandrinos.

(Vide OUTLINES ON THE ORIGIN OF DOGMA, DECLINE AND FALL OF THE ROMAN EMPIRE e LA MESSE ET SES MYSTERES para uma discussão detalhada deste assunto).

Mas examinemos esse “resumo da religião que Jesus nos ensinou”! “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra…” (Já começa deturpado, pois o “Pai” a quem Jon se refere em seus sermões era Dionísio, o Logos do Aeon, o pai espiritual de Jon. O Criador do Céu e da Terra” era, na verdade, “Criadores”, no plural. A Gênese, um trabalho cabalístico, é sempre mal traduzida. Os “Elohim”, criadores do céu e da terra, eram literalmente “deuses macho-fêmea”, ou seja, uma hoste divina andrógina. Então, o senhor talvez perguntará, quem era Jeová? Era o Pai de Moisés, da mesma forma que Dionísio era o Pai de Jon!…) Mas continuemos: “…e em Jesus Cristo, um só seu filho, Nosso Senhor…” (Estas dez palavras causaram mais mortes no Concílio de Nicéia do que quaisquer outras. Houve ocasiões em que patriarcas Romano- Alexandrinos provocaram com insultos pessoais outros patriarcas que se opunham a este “um só seu filho” ou a este “Nosso Senhor” até que os ofendidos reagissem – e fossem imediatamente apunhalados por assassinos previamente instruídos. Quanto a parte de “Jesus Cristo” ninguém a ela se opôs seriamente, visto que os verdadeiros Iniciadores Cristãos nem sequer se deram ao trabalho de ir ao Concílio, sabendo tratar-se de caso fraudulento, como quaisquer outros concílios convocados pelos Romano-Alexandrinos antes ou depois deste. Os Iniciados Cristãos já começavam a organizar (prevendo a necessidade premente que para eles haveria) as irmandades secretas que apareceriam abertamente na Idade Média, como Franco-Maçonaria – o grêmio maçon que construiu as grandes catedrais Góticas. Esses franco- maçons formavam uma classe social a parte, pois, não sendo nobres nem padres, nem militares, não eram camponeses ou vassalos, tampouco. A Igreja Romana os protegia porque deles precisava para a construção – sendo ela, até hoje, incapaz de construir coisa alguma… E foi através dessas associações de pedreiros que o verdadeiro Cristianismo foi transmitido de reino a reino, de cidade a cidade, e isto, ironicamente, sob a proteção dos romanos… Veja-se THE ARCANE SCHOOLS, ou qualquer bom compêndio de história da maçonaria para maiores detalhes).

“…o qual foi concebido do Espírito Santo…” (Outra fonte de muitos assassinatos foi este dogma. Sobre ele não faremos comentários: padres romanos certamente lerão esta carta, e não temos qualquer intenção de dar a eles quaisquer dados sobre a natureza do Espírito Santo. Já que eles o invocam tanto, devem saber o que Ele é!…) “…nasceu da Virgem Maria…” (esta Virgem Maria é também a Grande Puta do Apocalipse. É a Grande puta porque Ela se dá a tudo o que vive; e é a Virgem porque permanece intocada por tudo a que se entrega. Quem é Ela? É a Casa de Deus, a Natureza, a Grande Mãe, e as leis naturais são as únicas leis realmente divinas… Ísis-Urânia, NUIT, Nossa Senhora das Estrelas, é a concepção dessa Mãe Grande e Eterna, copulando desavergonhadamente e avidamente com todas as suas criaturas, pois em cada uma delas Seu Senhor se manifesta e A ocupa.

É também a mais alta e mais verdadeira forma de PÃ. A Ísis eternamente inviolada e esta Virgem Imaculada, e as imagens de Virgem com o Menino Jesus nas Igrejas Romanas são cópias das múltiplas imagens de Ísis com o Menino Hoor, que podem ser examinadas na seção de Egiptologia de qualquer museu).

“…padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos…”(pessoa altamente questionável esse Pôncio Pilatos, do ponto de vista histórico.

Recentemente foram “descobertas” e “reveladas” nos E.U.A umas “cartas da mulher de Pilatos a uma amiga”. Estas relatam como a vida do casal tornou-se puro melodrama depois de haverem lavado as mãos no caso “Cristo Jesus”. Mais conversa fiada jesuítica, sem dúvida…) “…foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos, ao terceiro dia ressurgiu dos mortos, está sentado a mão de Deus Pai Todo Poderoso donde há de vir julgar os vivos e os mortos” (Tudo isto tem um significado esotérico, e é verdade de todo Cristo, de todo Adepto; mas os padres de Roma profanam estes símbolos quando os interpretam da forma mais crassa).

“Creio no Espírito Santo… (eles nem sabem o que Ele é, não tendo merecido Sua presença sequer uma vez, ao longo de mil e seiscentos anos!) “…na Santa Igreja Católica… ” (esta é a única e verdadeira Igreja acima do Abismo, e inclui todos os cultos dos homens; mas os padres romanos querem aludir, naturalmente a igreja de Roma).

“…na remissão dos pecados…”(esta “remissão dos pecados”, que faz da humanidade uma raça suja e maldita é, de todas as blasfêmias deste credo, a menos perdoável. Esta é precisamente a razão pela qual a Igreja de Roma nunca mereceu a manifestação do Espírito Santo!) “…na ressurreição da carne…” (isto se refere a doutrina da regeneração, isto é, da Medicina Universal; mas tendo este e outros segredos do Cristianismo primitivo sido perdido pelos romanos, eles interpretam esta frase da forma mais grosseira. Veja-se o RITUAL DA MAÇONARIA EGÍPCIA de Cagliostro para maiores detalhes.) “…na vida Eterna…”(isto se refere ao Elixir da Vida, novamente mal interpretado).

“…Amém”.

Agora, por favor, atente bem para esta passagem que se segue: “Um dia, alguns anjos fizeram pecado.” (Mais adiante explicam o que é pecado.) “Os anjos maus são chamados demônios.” “Os anjos maus foram para o inferno.” (É necessário que haja inferno. Pondere como essas criancinhas eram felizes, sem saberem que havia inferno antes de entrarem em contacto com a Igreja de Roma!…) “Para que Deus nos criou? Deus nos criou para conhecê-Lo… (na versão de Roma) “…para amá-lo e serví-lo neste mundo… (os pais têm filhos porque precisam de admiradores e escravos, nenhum ser sobrehumano poderia ter outra motivação…) “… e depois ir com Ele ao Céu.” (todo cachorro bem treinado merece uma recompensa) Convenhamos: a versão romana do Criador mostra bem pouca imaginação criadora! Mas a insensatez continua:

“Adão e Eva eram felizes no Paraíso.

“Um dia, porém, fizeram pecado.

“Que é pecado? “O pecado é uma desobediência voluntária à lei de Deus ou LEI DA IGREJA.” (a ênfase é nossa. Note, por gentileza, que os astuciosos roupetas estão duplamente assegurados: primeiro, porque foram eles que escreveram “a lei de Deus”; segundo, porque são eles que escrevem a lei da igreja!) “Jesus morreu na cruz para nos salvar do pecado.” (eles nem sabem mais o que é “Jesus”, e nunca souberam o que é a Cruz) “Deus dá o prêmio aos bons e o castigo aos maus.

“O prêmio para os bons é o céu.

“O castigo para os maus é o inferno.

“O céu e o inferno NÃO TERÃO FIM. (a ênfase é nossa. Deus não é apenas destituído de imaginação, é também destituído de misericórdia, para não falar em senso de humor. Este “Deus” é um demônio — feito à imagem daqueles que o promovem!) “Quem vai para o céu? “Vai para o céu quem morre sem pecado grave.” Note que não é necessário ser virtuoso, alegre, corajoso, honrado, para ir para o céu. As virtudes positivas não têm sentido para as criancinhas “cristãs” à moda romana: é suficiente “morrer sem pecado grave”. Veja o senhor, no Apocalípse, o que o Amém tem a dizer à Igreja em Laodicéia, Cap. III, vv. 14-22.

“Quem vai para o inferno? “Vai para o inferno quem morre em pecado grave.” Desta forma, os cavaleiros de Roma podem manter seu bolo e comê-lo ao mesmo tempo. Se o senhor não é batizado ( por eles ) ao nascer, está destinado ao menos ao purgatório (favor lembrar que o purgatório é uma invenção relativamente recente, promulgada quando o povo começou a reclamar que Roma mostrava pouca caridade para com os homens: no começo, o inferno era a única alternativa para o céu). A vida do senhor, do nascimento à morte, é completamente subordinada a eles: comunhão, sacramento, confirmação, casamento, confissão….

Lembre-se, dr. G., que toda esta teologia que ameaça de tormento eterno aos que não a aceitam, toda esta síndrome de repressão, de escravidão psíquica e social, toda esta maquinação, está baseada nas mentiras deliberadas e conscientes dos patriarcas de Roma e Alexandria! Verdadeiramente, eles podem se gabar: “Quantum nobis prodest haec fabula Christi!” Mas, infelizmente para eles, Dr. G., o Cristo não é uma fábula.

E o Verbo se fez carne, e habitou em nós.

Tu que és eu mesmo, além de tudo meu; Sem natureza, inominado, ateu; Que quando o mais se esfuma, ficas no crisol; Tu que és o segredo e o coração do Sol; Tu que és a escondida fonte do universo; Tu solitário, real fogo no bastão imerso, Sempre abrasando; tu que és a só semente; De liberdade, vida, amor e luz, eternamente; Tu, além da visão e da palavra; Tu eu invoco, e assim meu fogo lavra! Tu eu invoco, minha vida, meu farol, Tu que és o segredo e o coração do Sol E aquele arcano dos arcanos santo Do qual eu sou veículo e sou manto Demonstra teu terrível, doce brilho: Aparece, como é lei, neste teu filho!

Os versos acima, Dr. G., foram escritos por Aleister Crowley, o “pior homem do mundo” de acordo com a opinião dos padres que organizaram a campanha difamatória que o seguiu por toda a vida.

Estes versos deveriam ser cantados com orgulho por todo Filho da Luz, ou seja, por cada ser humano, cada Filho de Deus! O senhor ainda acha que a Igreja Romana pode ser encarregada, por homens responsáveis, honrados e ajuizados, da educação de crianças? Dr. G., enquanto esta igreja não reconhecer publicamente seus crimes contra Deus e a humanidade; enquanto não renunciar para sempre a essa ameaça de inferno e a esse dógma de pecado com os quais forças negativas, que se opõem à evolução da humanidade, tentam impedir ao homem e à mulher que se tornem Deus por meio do ato sexual (veja o Evangelho de “João”, Cap. IV, vv. 13-16); enquanto ela for a causadora de masturbação e autismo entre os seus assim-chamados monges e freiras, em vez de permitir que se expressem livremente como homossexuais (qual são frequentemente) ou como heterosexuais (qual são algumas vezes); enquanto o Bispo de Roma não admitir que ele é um entre muitos, e herdeiros de uma história acumulada de erros; em suma, enquanto a Igreja de Romana existir (pois no dia em que renunciar a todas as suas infâmias não será mais “Romana”, mas finalmente parte da verdadeira Igreja Católica, a Humanidade), a ela se aplicam as palavras de Jon, o filho da Luz, copiadas por ela em seus assim-chamados “Evangelhos”: “Cuidado com os falsos profetas, que a vós se mostram como cordeiros, mas que internamente são lobos vorazes.

“Pelos seus frutos os conhecereis.

“Nem todo aquele que me diz Senhor! Senhor! entrará no reino dos céus, mas só aqueles que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus.

“Muitos, naquele dia, me dirão: Senhor! Senhor! Não temos nós profetizado em Teu nome, não temos expelido demônios em Teu nome, e em teu nome não realizamos muitos milagres? “Então eu lhes direi claramente: nunca vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais a iniquiade.” – Mateus”, VIII, vv. 15-23.

Francamente, Dr.G., não posso entender como um maçon, como um homem sensato e honrado pode, por um momento, defender uma instituição que é uma nódoa na história da humanidade. Nós, verdadeiros herdeiros do Cristo, temos sido acusados de odiar a Igreja de Roma. Sabe Deus que não a odiamos: nós a abominamos e desprezamos com a intensidade devida àquilo que não só é vil em si mesmo, como aviltante para tudo que é sagrado e valoroso no homem.

Dizem que o diabo corre da Igreja de Roma, e é verdade. Mas não é que nós a temamos: ela nos enoja. É inútil proclamar o efeito maravilhoso que o Romanismo tem exercido sobre a civilização ocidental. A verdade é precisamente o oposto. Roma tem combatido toda reforma e todo progresso a cada passo, aceitando-os apenas no último minuto, e então fingindo — aos incautos — tê-los inventado. A renovação das artes, das ciências, da liberdade humana, jamais veio de Roma; veio dos maçons, dos árabes, dos judeus, da herança pagã redescoberta na Renascença, dos protestantes alemães, franceses e ingleses, das invasões dos piratas normandos e até das hordas de tártaros e turcos: nunca de Roma.

Considere a evidência histórica, Dr. G.! Durante mil anos, o sistema feudal, tornado odioso justamente pelos abusos decorridos da aliança da igreja com os senhores feudais, oprimiu a população da Europa. Veio a reforma — e em um século o sistema havia praticamente desaparecido. A Inglaterra católica romana era uma ilhota insignificante perdida no mapa da Europa: veio Henrique VIII, expulsou os jesuítas, criou o Anglicanismo — e em duas gerações a Inglaterra derrotava a Espanha católica romana, tornava-se o maior poder naval do mundo e estava prestes a construir um império mais poderoso do que o dos Césares. A França decaíu com os Valois católicos romanos: veio Henrique IV, protegeu os huguenotes, foi assassinado por isto, mas em um século a França de Luis XIV deslumbraria o mundo. Os protestantes colonizaram a América do Norte; compare o progresso da civilização da América do Norte com a situação das Américas Central e do Sul, colonizadas por padres jesuítas! Os países onde, no momento, prevalece o dógma romano, estão atrasados de cinquenta a cem anos em progresso material, e moralmente, em certa áreas, o atraso é de quinhentos a mil anos. Os países protestantes têm sina muito melhor. Mas infelizmente, mesmo os protestantes não estão livres da mancha do “pecado original” e do complexo de culpa, como tampouco de crença na necessidade de “salvação”, já que usam os textos evangélicos fabricados pelos romano-alexandrinos; e não foi à toa que Ambrose Bierce, por muitos considerado um dos maiores iniciados americanos, escreveu, como parte da definição da palavra “cristão” em seu impagável e realista “O Dicionário do Diabo”:

“Sonhei-me no alto dum morro, e vejam só: Em baixo, pias multidões, com ar de dó

Triste e devoto, andavam de cá para lá, Domingadas em suas roupas de sabá, Enquanto na igreja os sinos gemiam Solenes, alertando os que em falta viviam.

Foi então que pessoa alta e magra eu vi Vestida de branco, a olhar para ali Com a face tranquila, suave, simbólica, E os olhos repletos de luz melancólica.

‘Deus te abençoe, estranho!’ — exclamei.

‘Inda que, por teu diverso traje, bem sei Que vens sem dúvida de longínquo cantão, Espero sejas, como essa gente, cristão.’ Ele os olhos ergueu, com tão severo ardor Que senti meu rosto a queimar de rubor, E respondeu com desdém: ‘Como! O que é isto?! Eu um cristão? Na verdade não! Eu sou cristo.’”

Se o senhor quiser ler um magnífico estudo psicológico do Romanismo, leia “O Anticristo” de Nietzsche, e quando quer que o senhor encontre escrita a palavra “cristão”, substitua-a por “católico romano”. O senhor terá a Igreja de Roma exatamente como é.

Resumindo o conteúdo desta carta: Todos os homens são filhos de Deus. Todos os homens são capazes de realizar sobre a terra o Reino dos Céus, que está dentro de nós.

Somos todos membros do Corpo de Deus, todos Templos do Espírito Santo, e basta limpar o Templo — o que não significa castrar- se física ou psicologicamente! — para que a Presença se manifeste.

Não há nenhum “Jesús, Filho Único de Deus” para ser adorado; e quaisquer pessoas que afirmem o contrário ou estão enganadas ou estão enganando.

Está escrito nos “Evangelhos”: Vós conhecereis a verdade, e a verdade vos fará livres.

E também está escrito, nos originais santos, blasfemados e traídos pelas perpetrações romano-alexandrinas, que Jon olhou sorridente para a multidão e, abrindo os braços, lhes bradou:

“Vós sois o Caminho, a Ressurreição e a Vida!

Pois é eternamente verdade que o Verbo se faz carne; e neste exato momento, habita em nós.

Amor é a lei, amor sob vontade.

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NOTA BIBLIOGRÁFICA E ADDENDUM

Esta carta foi originalmente escrita no dia 9 de julho de 1963 e.v., endereçada a um maçom osiriano, médico, o Dr. Luiz Gastão da Costa e Souza, clinicando em Petrópolis, RJ. Foi-nos posteriormente dito, por outro maçom osiriano e ex-aspirante, Euclydes Lacerda de Almeida, que o Dr. Gastão cuidadosamente guardou a carta, mas se absteve por completo de mostrá-la a outros maçons.

Após o Primeiro de Abril de 1964 e.v., a carta foi copiada a carbono pelo autor, e distribuída livremente nas ruas do Rio de Janeiro a pessoas a quem ele se sentia impulsionado a entregá-la. A segunda versão foi consideravelmente ampliada na parte bibliográfica e histórica. O presente documento representa a terceira, e, esperamos, final versão.

A carta original terminava com os seguintes dizeres: “Doutor Gastão, este momento é dos mais graves da história da humanidade. Dos quatro cantos do mundo, forças das mais hediondas, das mais diabólicas, forças desalmadas se concentram em um ataque ao Homem, a Deus, à Justiça e à Verdade. Os comunistas encarnam um dos aspectos destas forças; as religiões organizadas do Aeon passado encarnam outros. No momento presente, são pouquíssimos os homens que conservam contacto com os planos espirituais; e no entanto eu levanto a minha voz em profecia e lhe digo:

Esta é a escuridão da Passagem dos Aeons.

No Novo Aeon, serão os bodes que organizarão a Igreja.

A maçonaria é a chave do Templo de Deus.

Eu avisei o senhor quando nos vimos: se os maçons brasileiros tentarem honestamente limpar a maçonaria das forças malignas que tentam infiltrar-se nela; se eles se despertarem novamente para a luta espiritual e para a luta cívica, eles terão todo o auxílio que for necessário. O Olho ainda está no Triângulo. MAS SE VÓS FIZERDES PACTOS COM DEMÔNIOS O OLHO SE FECHARÁ SOBRE VÓS.

Não é possível ser maçon e ser católico romano.

Não é possível ser marxista e ser maçon.

Não é possível ser maçon sem ser cristão.

Limpai as Lojas! Ou o Olho se fechará sobre vós.

Calafatai as Lojas! Ou a energia espiritual que nelas se acumula se escoará (esta é a razão pela qual o vosso segredo é a vossa força).

Serví o Brasil antes de mais nada; acima de toda outra nação; sois brasileiros, e o progresso como a caridade começa em casa.

Daí aos pobres do vosso excesso, mas não da vossa substância.

Sede verdadeiros maçons: maçons dignos dos que vos precederam, maçons dignos dos que fizeram a Independência, o Segundo Império e a República.

Nunca tenhais medo de lutar pela Verdade e pela Justiça, e perdoai os vossos adversários mas vencei-os, antes! Não agradeçais à Igreja de Roma as concessões que ela vos “faz”. Ó meus Irmãos pois como homens, somos todos Irmãos essas “concessões”, vós já as conquistastes: não ouvis os gemidos de dor? Não vedes os oceanos de sangue, não percebeis a legião de mártires maçônicos, não sentis ainda o cheiro e o clarão das fogueiras? A Igreja de Roma nunca fez concessões de ordem teológica a não ser por razões econômicas e políticas; ela sempre se aliou aos tiranos contra os oprimidos, e aliar-se-á aos marxistas, se necessário, para combater-vos; mas sede fiéis ao olho e o olho vos servirá.

Todo o progresso humano; toda lei humanitária; toda proteção à ciência pura; toda tolerância religiosa que existe no mundo presente foi o resultado do trabalho dos maçons! Nunca vos esqueçais disto! Não deveis agradecer ao inimigo oculto aquilo que ele nunca te concedeu, mas que vós conquistastes pelo sacrifício de muitos e pelo paciente trabalho de incontáveis outros.

Repito-vos: sede dignos do Olho, ou o Olho se fechará sobre vós.” O Primeiro de Abril de 1964 e.v. não teria ocorrido se os maçons tivessem cumprido as condições desta profecia. Em vez de fazer isto, a maçonaria brasileira deu os seguintes passos para trás nos anos que se seguiram a esta carta:

1) – Dividiu a sua direção em duas facções antagônicas.

2) – Permitiu a publicação em jornais de fotografias do interior das Lojas, inclusive em funcionamento.

3) – Promoveu declarações públicas de aliança com a Igreja de Roma.

4) – Espionou-nos e cooperou em armar-nos ciladas e na busca por desvendar os nossos “segredos”. Infelizmente, não temos segredos.

Ponde um tratado sobre o cálculo tensorial nas

mãos de um estudante primário e deixai-o ler o livro a vontade: de nada lhe adiantará.

O “esoterismo” é uma farsa: verdadeiros segredos NÃO PODEM ser revelados, pela simples razão que sem vivência é impossível compreende-los, mesmo quando são explicados da forma mais simples e mais franca.

Devido ao desleixo ou a inércia dos maçons, a profecia da carta se cumpriu e continua se cumprindo. Como consequência, a maçonaria brasileira só está viva agora na O.T.O. e na Ordem de Télema. Nós não reconhecemos nenhum movimento maçônico do Velho Aeon.

A bom entendedor, meia palavra basta; aos maus entendedores, milhares de discursos não surtirão efeito.

Não existe Lei além de faze o que tu queres.

Fraternalmente

Marcelo Motta

#Maçonaria #Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/carta-a-um-ma%C3%A7om