A História Suprimida do Planeta Terra

Parte 1 – Introdução

Eu me chamo  “Morning Sky” ( Estrela da Manhã).  Cresci ouvindo as histórias que meu avô contava sobre um Ser do Espaço que ele ajudou a resgatar. Meu avô era um dos seis jovens Nativos Americanos que testemunharam o acidente com uma espaçonave em 1947, pouco depois do agora famoso incidente de Roswell.

Quando eles chegaram ao local, acharam um dos seres ainda vivo. Eles o tomaram consigo para seu acampamento, esconderam-no e cuidaram dele para que se restabelecesse. Chamaram-no “Ancião Estelar” (“Star Elder”), por respeito; mas com o passar do tempo ele revelou seu nome. Chamava-se Bek’Ti. Revelou a eles a história da Raça Humana e do Planeta Terra.

No final dos anos 60, quando eu comecei a faculdade, me entretia com a possibilidade de que estas histórias pudessem não ser verdadeiras. Assim, envolvi-me em Estudos Religiosos, um programa de estudos independente que poderia me permitir ter a oportunidade de pesquisar antigos arquivos para provar ou negar as muitas histórias do Ancião Estelar.

Submeti ao meu Professor de Estudos Religiosos uma tese que era uma síntese dos meus três anos de pesquisa. Chamava-se “Terra, a História Oculta do Planeta Terra”. Em poucos dias ele o rotulou como “um trabalho de blasfêmia e ultraje!”. Isto quase me fez ser expulso da escola.

Não tendo tido sucesso no campo acadêmico, decidi contactar organizações e pesquisadores sobre UFO então existentes. A resposta geral foi rotular o trabalho como “um material mitológico e de lendas dos Nativos Americanos, não adequado para estudos sérios de fenômenos científicos”.

A rejeição total fez com que eu ficasse muito irritado. Por aproximadamente trinta anos eu me recusei até mesmo a pegar um livro sobre UFO ou Fenômenos da Nova Era. Eu religiosamente me recusava a ler ou ouvir o que havia lá fora.

As circunstâncias mudaram. Meu avô se foi, mas não sem antes me arrancar a promessa de tentar contar a história mais uma vez.

A História da Humanidade e da Terra, como revelada por Bek’Ti é tanto excitante quando apavorante. A Criação do Homem e seu lugar na galáxia é tornado claro, mas no processo tanto a nobreza quanto o orgulho do Homem ficam feridos. O fenômeno da abdução e seres cinzentos observadores são partes integrais da história da Raça Humana, e explicadas contra o que é dito dos propósitos dos Seres das Estrelas para a Raça Humana.

As fontes das religiões dos Homens e as origens de figuras legendárias como Zeus, Osíris, Ísis, o Minotauro e um número de outros seres “mitológicos” são explicados e também colocados no referencial da História da Terra.

Parte 2 – A História da Criação do Homem

Em nossa galáxia existem bilhões de Seres das Estrelas. As raças humanóides são a regra, não a exceção. Estas raças descendem de muitas formas de vida: répteis, insetos, dinossauros, pássaros e outras formas de vida que a humanidade nem consegue começar a imaginar.

Uma das mais antigas Raças das Estrelas neste setor do Universo é a reptiliana Ari-An, a qual descende dos ancestrais dinossauros no sistema de estrelas de Órion. Governados por rainhas, criaram o mais poderoso império da galáxia. Os guerreiros Ari-An eram inigualáveis em ferocidade e bravura, e o Império Ari-An insuperável em poder e tamanho.

Milhões de anos de incontáveis batalhas tinham permitido a esse Império desenvolver estratégias avançadas de guerra. Entre estas, os Ari-An praticavam “condicionamento” ou “reprogramação” para controlar populações conquistadas e fazer delas propriedades em vez de responsabilidades. Os inimigos tornavam-se servos obedientes do trono das rainhas reptilianas. Desta forma os Ari-Ans eliminavam a resistência.

Uma evolução inesperada de outra raça no Sistema Estelar de Sírius tornou-se uma ameaça ao Império Ari-An. Mesmo não tão antiga ou evoluída como a dos reptilianos, os guerreiros do Império Kanus, uma raça canina (similar aos lobos) preencheram suas  falhas com sua ferocidade. Mesmo o mais disciplinado dos guerreiros Ari-An temia estes cruéis e bárbaros guerreiros Sirianos, que paravam para devorar a carne de seus inimigos no campo de batalha.

Um rápido avanço dos guerreiros Sirianos ameaçou a existência do Império Ari-An. Como resultado as rainhas procuraram os reis de Sírius para oferecer uma aliança. Um tratado foi acordado, de acordo com o qual ficou delineado quais setores da Galáxia deveriam ser regidos por cada império, e por algum tempo, os guerreiros de ambos os impérios lutaram lado a lado.

Com o nascimento de um novo sistema o Rei de Sírius foi rápido em reclamá-lo. Assim que os sirianos começaram a explorar seus recursos, este novo sistema tornou-se um posto avançado tanto para o Império Ari-An como para o Império Siriano, e o poder e a riqueza de ambos continuou a crescer. Mas eventualmente a guerra começou novamente, dessa vez entre Reis Sirianos rivais. No final, as forças Ari-An se juntaram ao Rei An. Mundos inteiros mantidos pela oposição foram totalmente destruídos, incluindo suas luas e colônias.

Muito mais tarde, o Rei An mandou seu filho, o Príncipe Ea e sua filha, a Princesa Nin-Hur-Sag (ambos cientistas geneticistas) para reconstruir o mundo destruído de Eridu, e mais uma vez explorar os recursos necessários e valiosos achados lá. Eles restauraram com sucesso a atmosfera; colocaram vida nos mares; recriaram plantas, árvores e flores; e hibridizaram diferentes tipos de seres. O planeta Eridu (Terra) renasceu.

Novas criaturas foram produzidas para habitar o planeta. Uma destas criaturas, Apa-Mus, era um híbrido macaco-besta cujo único propósito era o de servir e ser escravo nos campos e minas. Mas este animal era diferente dos outros, Ele podia entender ordens e podia se comunicar. A Princesa Nin-Hur-Sag tinha construído geneticamente o macaco-besta híbrido usando seu próprio DNA.  A inteligência das bestas aumentou e começaram a se multiplicar rapidamente e a ensinar sua própria prole.

Quando outra espécie de trabalhadores criados geneticamente, os intraterrenos Sheti Lizards (Lagartos), revoltaram-se e tomaram o poder, os governantes dos Seres da Estrelas debandaram do planeta. Com a oposição fora do caminho, os Sheti usaram controle da mente e técnicas de programação que aprenderam de seus mestres para alterar as memórias dos descendentes remanescentes dos Seres das Estrelas. O conhecimento da raça humana sobre Seres das Estrelas foi substituído por mitos e lendas.

A dominância Sheti foi e continua a ser desafiada por muitas outras raças das estrelas tentando reconquistar o controle da Terra – e da raça Humana – para seus próprios propósitos. A luta pelo poder continua.

Parte 3 – Tentativas de Golpe – Passado, Presente e Futuro

A raça reptiliana Ari-An tem feito várias tentativas para derrubar o atual poder na Terra. No começo do século 20, o movimento global Ariano quase teve sucesso na conquista de um mundo “dócil”. Se, como o autor sugere, eles estão continuando com seus esforços, novos movimentos irão aparecer nos grupos de supremacia. Répteis aparecerão em todos os setores da mídia como seres amigáveis ou heróicos, lutando em favor do homem. Super-heróis reptilianos se tornarão modelos para crianças.

Levantes religiosos têm vindo à cena através da História da Terra pelos sirianos. A Inquisição, as Guerras Papais, os numerosos “Messias” e “visões milagrosas” têm sido fabricados para trazer a raça humana de volta à sua influência. Se eles também estão tentando assumir o controle da Terra, como o autor sugere, então um retorno ao fundamentalismo também ocorrerá, assim como um aparecimento crescente de anjos e ocorrências milagrosas.

Padrões mostram esforços contínuos para direcionar o povo do Planeta Terra e também para predizer eventos vindouros: A Raça Humana será logo rodeada com imagens de asteróides e de cometas ardentes caindo. Porcos negros serão vistos em todas as partes do mundo, assim como figuras angelicais e milagres. Dinossauros irão tornar-se os heróis das crianças e a violência será a base de suas brincadeiras. Aparecerão novas doenças transmitidas através do ar, imunes aos tratamentos existentes. A NASA tornar-se-á fraca e impotente ou terminará.

Uma guerra galáctica de conquista acontece violentamente sobre nossas cabeças. A Terra – e o Homem – são o prêmio.

Círculos nas Plantações – Comunicações Visuais

Em uma tentativa de se comunicar com os descendentes dos Seres das Estrelas – especialmente aqueles que são capazes de se lembrar das “pistas” – sinais visuais estão sendo enviados na forma de círculos em plantações. Sinais para os descendentes de Sírius usualmente têm uma forte semelhança com os antigos glifos egípcios, designes em formato de bola de futebol, formas de círculos com cruzes ou círculos com um ponto no centro. Podem também aparecer como fórmulas matemáticas.

Os círculos dos Ari-Ans frequentemente têm forma de cobra, ou a criaturas semelhantes a insetos. Qualquer que seja a forma, estes círculos nas plantações são sinais para os descendentes que eles não foram esquecidos.

Como um sinal de que uma nave estelar foi mandada para o sistema solar e para a Terra, imagens de enormes naves planetárias e tripulações compostas de heróis “salvadores” da humanidade estarão em toda parte. Para neutralizar esta imagem de “bons” corpos celestiais, imagens de asteróides caindo e cometas em colisão serão usadas como justificativa de se possuir mísseis anti-asteróides apontados para o céu com propósitos defensivos.


Parte 4  – Formas de Controle

Enquanto isso, para manter o controle da raça humana, os Sheti introduziram novos dispositivos para continuar a nos bomtardear com uma cobertura eletrônica controladora e entorpecente. Muitos destes instrumentos eletrônicos são portados pessoalmente: aparelhos de CD e fitas com fones de ouvido, equipamentos de realidade virtual, pagers, jogos eletrônicos, celulares, bips, etc., são usuais atualmente.

Drogas de todos os tipos, legais e ilegais (incluindo álcool, tabaco e narcóticos) são parte do programa de controle para manter a raça humana dócil.

Modificação comportamental para prevenir que sejamos motivados a lutar por nós mesmos irá requerer que a nenhum homem seja dado o status de herói. Aqueles que não se defendem, mas suportam grandes sofrimentos, serão os novos “heróis” e modelos: vítimas, mártires, prisioneiros de guerra torturados e pessoas que morrem a serviço de seus países.

O controle populacional aumentará e apenas os selecionados serão autorizados a continuar. Desaparecimentos e abducções aumentarão, especialmente de mulheres e crianças novas. Novas doenças trazidas pelo ar aparecerão. A obesidade aumentará, a disfunção sexual aumentará nos homens, e os ciclos menstruais na mulheres cairão de 28 para 25 dias.

Para manter o controle da raça humana e nos manter desamparados na Terra, a NASA será eliminada ou fortemente restringida em seu trabalho. Qualquer evidência de vida extraterrestre será estritamente suprimida e negada.

A Esperança da Humanidade: Sangue real

As linhas de batalha foram delimitadas para uma vindoura guerra galáctica de dominação do planeta Terra. Enquanto a raça humana buscar salvação “lá fora”, ela estará pavimentando o caminho para os seres que estão competindo para se tornarem seus Senhores. Mas a raça humana tem uma outra opção.

Embora nascida de bestas e criada para servir, a raça humana foi criada por cientistas geneticistas, o Príncipe EA e a Princesa Nin-Hur-Sag, usando seu próprio DNA e seu próprio sangue real. A linha real de Sangue Siriano confere à humanidade o direito de reivindicar a Terra como sua. Esta é a História que tem sido suprimida, a verdade que foi mantida escondida.

Enquanto a raça humana aceitar Senhores e Deuses, nós estaremos aceitando uma existência da servidão. Quando nós finalmente lembrarmos que nosso próprio reino foi tomado, quando finalmente olharmos para nós mesmos como nosso próprio Mestre ou Deus, então e só então estaremos livres de extraterrestres.

O autor pede ao leitor para investigar por si mesmo as informações apresentadas aqui. Não aceite nenhuma, desafie todas elas. Decida por si mesmo se as palavras de Bek’Ti são verdadeiras. Você é seu próprio deus, você é o mestre de seu destino – se você puder lembrar A Verdade.

Esta versão de “Terra Papers: Hidden History of Planet Earth”, de Robert Morning Sky, foi condensada especialmente para Percepções, por Betty Bland, que mora e trabalha em Seattle. Ela é a diretora executiva da Light House Promotions, e está envolvida na produção anual da “Ocean Shores Convergente Psychic Fair on Memorial Weekend”, em Ocean Shores, Washington.

Traduzido  por:

Mariana – mariana@umanovaera.com e

Izabel da Costa – isabel@umanovaera.com

Condensado do trabalho de Robert Morning Sky: “Documentos da Terra: A História Secreta do Planeta Terra”

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/a-historia-suprimida-do-planeta-terra/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/a-historia-suprimida-do-planeta-terra/

Diamantes são eternos?

Diamantes são eternos!

Quem nunca ouviu essa frase antes? Ela se tornou ainda mais popular graças ao filme homônimo de 1971, onde James Bond – a última interpretação do herói feita por Dean Connery – se faz passar por um traficante de diamantes.

É claro que o significado da frase está relacionado com a vida útil do diamante, certo? Afinal diamantes estão entre as substâncias mais duras deste planeta! Inclusive, na escala de Mohs – criada em 1812 pelo mineralogista alemão Friedrich Vilar Mohs com dez minerais de diferentes durezas existentes na crosta terrestre – o diamante é o indicador extremo de dureza. A escala possui valores de 1 a 10. O valor de dureza 1 foi dado ao material menos duro da escala, que é o talco, e o valor 10 dado ao diamante que é a substância mais dura conhecida na natureza. E acredite, se você pensar que a escala é relativa, que eventualmente vão encontrar algo mais duro do que o diamente e a escala não vai valer nada, não está tão enganado: de fato encontraram uma substância mais dura do que o diamante, o diamante nanocristalino (também conhecido como hiperdiamante ou fulerita ultradura) – assim o diamante ainda é rei!

A lógica é simples, até uma criança pode entender. Escala de Mohs quantifica  a resistência que um determinado mineral oferece ao risco, ou seja, à retirada de partículas da sua superfície. Quartzo risca o vidro, então é mais duro que o vidro. Topázio risca o quartzo, então é mais duro. Uma safira risca o topázio. Um diamante risca tudo!

E isso tudo porque o diamante é um alótropo do carbono. Mas não se assuste com o nome. Alotropia (do grego allos, outro, e tropos, maneira) foi um nome criado por Jöns Jacob Berzelius e que hoje designa o fenômeno em que um mesmo elemento químico pode originar substâncias simples diferentes. As substâncias simples distintas são conhecidas como alótropos. Assim, apesar de grafite ser feito de carbono e diamantes serem feitos de carbono, são diferentes. No caso do diamante o que o torna um, bem, um diamante, é que seus átomos estão alinhados em estruturas de cubo, o que cria uma configuração “metaestável”. A estrutura molecular de um diamante é incrivelmente robusta e, a não ser que o diamante seja submetido a quantidades incrivelmente altas de calor – e com isso quero dizer INCRIVELMENTE ALTAS PRA CARALHO – sua estrutura permanece inalterada indefinidamente.

É por isso que diamantes são eternos, correto?

Na verdade essa frase não foi criada se pensando nisso. Até a primeira metade dos anos 1800, diamantes eram muito raros. Para se ter uma idéia, até então a produção mundial de diamantes não passava de poucos quilos por ano. Naquela época os diamantes eram encontrados nas selvas brasileiras e em alguns leitos de rios da Índia. Nada que sustentasse uma operação de mineração em grande escala – na verdade nem uma operação em média escala. Mas então tudo mudou!

Em 1867 depósitos massivos desse mineral foram encontrados na África do Sul. Não cabe aqui culpar essas pequenas pedras por coisas como o Apartheid, a miséria e exploração predatória das pessoas e dos recursos da região. Na verdade agora e o momento de dizer que a partir daquele momento, a produção de diamantes aumentou exponencialmente. Ai então operações de mineração de grande escala passaram a se tornar interessantes.

Uma das pessoas que também percebeu isso foi o negociante inglês Cecil Rhodes, que em 1888 fundou, juntamente com o magnata dos diamantes Alfred Beit e com a bênção do banco londrino N M Rothschild & Sons, a De Beers. A De Beers teve o monopólio da industria de diamantes até 1957, ano em que Cecil morreu.

Bem, se antes de 1867 diamantes eram raros, e depois dessa data começaram a surgir quase às toneladas, o que você acha que aconteceu com o preço das pedras? Antes de responder imagine novamente o negociante Cecil Rhodes. Ele não era burro, e pensou na mesma coisa que você está pensando agora. O problema de começar a trabalhar com algo que é raro e caro e se torna abundante é que ele deixa de ser tão caro. Cecil não queria que isso acontecesse, não é a toa que ele foi acusado, entre outras coisas, de manipular o preço de diamantes, inclusive mantendo cofres cheios de pedras, controlando sua distribuição, para que não inundassem o mercado, se tornando objetos mais comuns e mais baratos.

Só que o problema não era apenas a De Beers inundar o mercado com diamantes, cada vez mais pessoas compravam as pedras, principalmente as existentes em jóias como colares, brincos, tiaras e anéis. Como as pedras eram um bom investimento, seria interessante que elas também não começassem a aparecer no mercado quando seus donos, ou donas, se encontrassem em uma situação de perrengue, assim a De Beers teve uma sacada de gênio!

Para evitar que as pessoas saíssem revendendo diamantes, dez anos antes de Cecil morrer, a De Beers conseguiu associar as pedras a uma instituição que era reverenciada por todos. Uma instituição atrelada até mesmo ao próprio Deus: o amor, o matrimônio, o casamento!

Na época, a crença geral era de que os diamantes eram um artigo de luxo existentes apenas para os ultra-ricos. A maioria das mulheres preferiam que seus futuros maridos investissem seu dinheiro em coisas mais práticas como um carro para a família, uma casa para a família, qualquer coisa para a família – não jóias. Ai entra uma agência de publicidade contratada pela De Beer, a N.W. Ayer & Son, e tem início uma campanha massiva para mudar a mente sã dessas pessoas preocupadas com o futuro de suas famílias.

A estratégia era simples, eles começaram a convencer as pessoas de que se você estivesse prestes a se casar, que melhor símbolo para uma união eterna do que uma aliança com um diamante.

Coincidência o musical da Brodway, “Gentlemen Prefer Blondes” – Os Homens Preferem as Loiras – de 1949 ter se tornado tamanho success que virou um filme em 1953 estrelado por Marilyn Monroe, trazendo a cena clássica em que a protagonista canta “Diamonds Are a Girl’s Best Friend” – os diamantes são os melhores amigos das mulheres?

Para se ted uma idéia do success da campanula de Ayer & Son, em 1951, 80% das novas apenas now Estados Unidos, tin ham uma aliança de diamantes, e essa porcentagem se mantém constante até os dias de hoje.

Um cavalheiro de nome Frances Gerety foi o pai da frase “diamantes são eternos”. A frase foi criada e usada para deixar claro que o diamante representava o seu amor eterno, pela sua afeição e carinhos eternos pela sua pessoa amada. Os diamantes se tornaram a manifestação física do seu compromisso com aquela pessoa que você diz ser o amor da sua vida. E isso tudo, claro, acabava impedindo que uma pessoa sequer pensasse em revender o seu diamante. E isso impedia que a nova quantidade de pedras invadisse o mercado, fazendo com que – Deus me perdoe – o preço delas começasse a diminuir.

Algo que poucas pessoas sabem, é que por causa da Grande Depressão americana, as alianças de casamento eram algo que estavam saindo de moda. Um luxo para pessoas que mal podiam comprar pão. A campanha do diamante as fez voltar com tudo! E você pensando em todo o simbolismo esotérico de uma aliança. Tsc tsc…

Mas isso quer dizer então que diamantes não duram para sempre?

O que você quer dizer com sempre?

O universo é a putinha da Entropia, você não pode se esquecer nunca disso. Ao longo do tempo – talvez tempo seja a palavra errada aqui, já que estou falando de uma quantidade além de qualquer compreensão que você tenha do termo – as coisas mudam. Elas não podem evitar. Eventualmente todas as coisas decaem e se degradam e diamantes não são imunes a isso. Em uma quantidade de tempo longa o suficiente os diamantes se transformam em grafite, exatamente igual àquele encontrado dentro do seu lápis 6B! Mas quanto tempo levaria para isso?

Bilhões e bilhões de anos, talvez mais. Para você ter uma idéia o nosso sol levou aproximadamente 50 milhões de anos para passar de uma nuvem gasosa para uma estrela de verdade. Muita gente fala do dia em que o sol vai entrar em colapso e fritar tudo ao redor. Estima-se que isso vá ocorrer em aproximadamente 6.5 bilhões de anos. Ou seja para um diamante talvez quase nada! Imagine que um diamante precise de 15 bilhões de anos para se transformar em carbono, agora imagine que nosso universo tem apenas 14 bilhões de anos. Começou a entender a dimensão da coisa?

Assim, mesmo que um diamante não seja para sempre, ele provavelmente vai viver muito mais tempo do que nós, do que nossa estrela, e do que parte do universo antes de deixar de ser um diamante. Você consegue imaginar algo que consiga resistir tanto tempo assim? Algo que permaneça inalterado e puro por tanto tempo?

Só uma coisa me vem à cabeça! Um triângulo retângulo.

Veja, diamantes podem ser quase eternos, podem existir por tanto tempo quando o nosso universo, mas eventualmente eles vão virar algo tão comum e ordinário quanto um pedaço de grafite. Um triângulo retângulo não.

Onde quer que dois catetos se encontrem com uma hipotenusa, a soma de seus quadrados será igual ao quadrado da dita hipotenusa. Não importa que não existam mais seres conscientes, não importa que o universo seja um campo de grafites sem uma folha sulfite onde se escrever isso. O teorema de Pitágoras existirá.

E não apenas ele.

O teorema de Euclides de que existem infinitos números primos também existirá exatamente como é mesmo depois que o universo tenha apagado suas luzes e colocado as cadeiras em cima das mesas.

Euler já não existe mais, seu corpo morreu em 18 de setembro de 1783, em sua eulogia para a Academia Francesa, o filósofo e matemático francês marquês de Condorcet, escreveu:

il cessa de calculer et de vivre

ou em bom português: “ele terminou de calcular e de viver”.

Mas seus teoremas – o Teorema de Euler sobre as Diferenciais Exatas, O Teorema do Deslocamento de Euler, O Teorema da Distribuição de Euler, o Teorema de Fermat-Euler, e muitos outros – poderão ser recitados, mesmo que com outros nomes, no fim do tempo, e estarão lá intocados, verdadeiros e eternos, como nenhum diamante, ou nenhuma substância estará.

Mesmo quando a Entropia terminar de consumir a si mesma, o Teorema de Liouville, que diz que uma função complexa inteira e limitada é constante, estará. Inalterado.

Isso não quer dizer que a Matemática exista independente do cérebro humano, ou que o cérebro humano crie a matemática. Isso só quer dizer que se você quer mesmo algo que simbolize algo eterno – REALMENTE ETERNO – para associar a seu amor, a seu compromisso. Esqueça diamantes. Dê um teorema.

Um Fuckerupper de LöN Plo

Eu tava com saudades do site de volta, principalmente por causa desse texto.

LoN Plo, você explodiu minha mente de um jeito belo e poético.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/diamantes-sao-eternos/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/diamantes-sao-eternos/

As 10 estratégias de manipulação midiática

1. A estratégia da distração.

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir que o público se interesse pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado; sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja com outros animais (citação do texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).

2. Criar problemas e depois oferecer soluções.

Esse método também é denominado “problema-ração-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” previsa para causar certa reação no público a fim de que este seja o mandante das medidas que desejam sejam aceitas. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o demandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para forçar a aceitação, como um mal menor, do retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços púbicos.

3. A estratégia da gradualidade.

Para fazer com que uma medida inaceitável passe a ser aceita basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira, condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4. A estratégia de diferir.

Outra maneira de forçar a aceitação de uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e desnecessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrificio imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Logo, porque o público, a massa tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isso dá mais tempo ao público para acostumar-se à ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5. Dirigir-se ao público como se fossem menores de idade.

A maior parte da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade mental, como se o espectador fosse uma pessoa menor de idade ou portador de distúrbios mentais. Quanto mais tentem enganar o espectador, mais tendem a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Ae alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, em razão da sugestionabilidade, então, provavelmente, ela terá uma resposta ou ração também desprovida de um sentido crítico (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”)”.

6. Utilizar o aspecto emocional mais do que a reflexão.

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional e, finalmente, ao sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de aceeso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos…

7. Manter o público na ignorância e na mediocridade.

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais menos favorecidas deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que planeja entre as classes menos favorecidas e as classes mais favorecidas seja e permaneça impossível de alcançar (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).

8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade.

Levar o público a crer que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.

9. Reforçar a autoculpabilidade.

Fazer as pessoas acreditarem que são culpadas por sua própria desgraça, devido à pouca inteligência, por falta de capacidade ou de esforços. Assim, em vez de rebelar-se contra o sistema econômico, o indivíduo se autodesvalida e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de sua ação. E sem ação, não há revolução!

10. Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem.

No transcurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência gerou uma brecha crescente entre os conhecimentos do público e os possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem disfrutado de um conhecimento e avançado do ser humano, tanto no aspecto físico quanto no psicológico. O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que ele a si mesmo. Isso significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior do que o dos indivíduos sobre si mesmos.

Noam Chomsky é linguista, filósofo e ativista político estadunidense. Professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts

Por Noam Chomsky

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/as-10-estrategias-de-manipulacao-midiatica/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/as-10-estrategias-de-manipulacao-midiatica/

Alquimia e Harry Potter, parte II

Arianhrod.

Nota: Esta é a segunda parte da série de artigos, confira a primeira aqui.

Nota do Tradutor: O presente artigo foi escrito antes da publicação de Harry Potter e as Relíquias Morte, motivo pelo qual o autor não se refere ao mesmo.

Nicolau Flamel, a quem é atribuída à criação da Pedra Filosofal, nasceu em 1330 e morreu em 1418, tornando-se um dos maiores alquimistas do mundo. A Bibliotheque Nationale em Paris contém obras copiadas de sua própria mão e obras originais escritas por ele. Sua esposa, Perenelle, era realmente uma pessoa rara. Ela se tornou sua companheira e confidente ao longo da vida, guardando seus segredos e ajudando-o em seus estudos até o dia de sua morte. Ela nunca revelou os segredos do marido a ninguém. Seu segredo causou muitas dores de cabeça para pesquisadores posteriores, porque exatamente o que Flamel descobriu permanece um mistério até hoje.

O que parece claro, no entanto, é que Flamel devia seu conhecimento de alquimia e outras coisas esotéricas a uma única fonte: O Livro de Abraão, o Judeu, que ele recebeu de um estranho que entrou em sua livraria um dia. O livro estava cheio de palavras cabalísticas em grego e hebraico, e Flamel teve muita dificuldade em traduzi-las.

De acordo com Merton:

“Um dia, quando Nicolas Flamel estava sozinho em sua loja, um homem desconhecido que precisava de dinheiro apareceu com um manuscrito para vender. Flamel sem dúvida se sentiu tentado a recebê-lo com desdenhosa arrogância, como fazem os livreiros de nossos dias quando algum pobre estudante se oferece para lhes vender parte de sua biblioteca. Mas no momento em que viu o livro, reconheceu-o como o livro que o anjo lhe oferecera e pagou dois florins por ele sem barganhar. O livro parecia-lhe realmente resplandecente e instintivo de virtude divina. Tinha uma encadernação muito antiga de cobre trabalhado, na qual estavam gravados curiosos diagramas e alguns caracteres, alguns gregos e outros numa língua que ele não conseguia decifrar. As folhas do livro não eram de pergaminho, como as que ele costumava copiar e encadernar. Eles eram feitos de casca de árvores jovens e cobertos com uma escrita muito clara feita com uma ponta de ferro. Essas folhas foram divididas em grupos de sete e consistiam em três partes separadas por uma página sem escrita, mas contendo um diagrama que era bastante ininteligível para Flamel. Na primeira página estavam escritas palavras no sentido de que o autor do manuscrito era Abraão, o judeu – príncipe, sacerdote, levita, astrólogo e filósofo. [minha nota: Abraão da Bíblia] Seguiram-se então grandes maldições e ameaças contra qualquer um que pusesse os olhos nele, a menos que fosse um sacerdote ou um escriba. A misteriosa palavra maranatha, repetida muitas vezes em cada página, intensificou o caráter inspirador do texto e dos diagramas. Mas o mais impressionante de tudo era o ouro patinado das bordas do livro e a atmosfera de antiguidade sagrada que havia nele.” 17

Flamel fez o trabalho de sua vida para entender o texto desses segredos perdidos. Ele havia adquirido amplo conhecimento das artes alquímicas antes de obter o livro; no século 14, a sabedoria dos árabes e judeus encontrou seu caminho para a Europa cristã, e como livreiro e copista Flamel certamente teve acesso a eles. Então ele procurou os árabes e judeus para decifrar o livro. Ele viajou para universidades na Andaluzia para consultar autoridades judaicas e muçulmanas. Na Espanha, conheceu um mestre misterioso que lhe ensinou a arte de entender seu manuscrito, mas ainda levou 21 anos para desvendar o mistério do livro. Se ele conseguiu ou não realmente encontrar a Pedra Filosofal é uma questão ainda muito debatida.

De qualquer forma, após seu retorno à França, Flamel de repente se tornou fabulosamente rico. Ele estabeleceu moradias de baixa renda para os pobres, fundou hospitais e dotou igrejas, nunca vivendo de forma extravagante. Segundo o historiador Louis Figuier: “Marido e mulher socorreram os pobres, fundaram hospitais, construíram ou reformaram cemitérios, restauraram a fachada de Saint Genevieve des Ardents e dotaram a instituição dos Quinze-Vingts, cujos internos cegos, em memória deste fato, vinha todos os anos à igreja de Saint Jacques la Boucherie para rezar por seu benfeitor, uma prática que continuou até 1789.” 18

Em sua morte em 1418, Flamel foi supostamente enterrado em uma igreja e sua lápide decorada com os mais incríveis símbolos alquímicos imagináveis. Alguns anos depois, seu túmulo foi aberto e, surpreendentemente, o túmulo estava vazio. Foi o mesmo com o de Perenelle. Muitas fontes permitem a possibilidade de que talvez ele realmente tenha encontrado o Elixir da Vida. Cientistas modernos recriaram seus experimentos em um laboratório moderno e, embora fossem necessárias 700 destilações, eles conseguiram reproduzir parte de seu experimento. 19

O que aconteceu com O Livro de Abraão, o Judeu, após a morte de Flamel? Ninguém sabe ao certo, mas de alguma forma, o Cardeal Richelieu (da fama dos Três Mosqueteiros) conseguiu adquirir O Livro de Abraão, o Judeu, para sua própria coleção. A biblioteca pessoal de Richelieu estava, de fato, cheia de livros sobre esoterismo, ocultismo e vários textos gnósticos. Como ele conseguiu encontrar um dos mais famosos de todos os livros de ocultismo é um mistério, mas o livro desapareceu após sua morte, para nunca mais ser visto.

Então Flamel realmente morreu? Alguns pensam que não, por causa de uma figura curiosa que continuou surgindo ao longo dos séculos XVIII, XIX e início do XX na pessoa do Conde de St. Germain. Diz-se que St. Germain era um aristocrata francês que detinha os segredos do Elixir da Vida e o compartilhava com vários nobres e membros da realeza francesa, incluindo Madame Pompadour.

A história sabe bastante sobre St. Germain – exceto quando ele nasceu. A primeira vez que ouvimos falar dele é em Londres e em 1745 em Edimburgo, onde foi preso por espionagem, presumivelmente pelos jacobitas que travavam guerra no trono da Inglaterra na época. Ele desapareceu em 1746 e não foi visto novamente até 1758 em Versalhes. Durante este tempo em Paris, ele deu diamantes como presentes e supostamente deu a entender que ele tinha séculos de idade. Em 1760 partiu para a Inglaterra pela Holanda quando o ministro de Estado, o duque de Choiseul, tentou prendê-lo. Depois disso, o conde passou pela Holanda para a Rússia e aparentemente estava em São Petersburgo quando o exército russo colocou Catarina, a Grande, no trono. Teorias da conspiração posteriores creditam-no por causá-lo. Mais tarde esteve na Bélgica, oferecendo seus tratamentos de madeira, óleo e metais. Enquanto estava lá, ele insinuou um nascimento real para o ministro belga e realmente transformou o ferro em algo parecido com ouro.

Em 1763 ele desapareceu por mais 11 anos, e a próxima vez que ouvimos falar dele é na Baviera em 1774, depois na Alemanha em 1776, onde ele mais uma vez ofereceu suas receitas aparentemente alquímicas. Ele alienou os emissários do rei Frederico por suas alegações de transmutação de ouro e, em alguns relatos, comparou-se a Deus e afirmou ser maçom. Ele se estabeleceu em uma casa do príncipe Karl de Hesse-Kassel, governador de Schleswig-Holstein e estudou remédios de ervas e química para dar aos pobres, alegando que era um Francisco Rakoczy II, príncipe da Transilvânia.

Segundo a Wikipedia, St. Germain morreu em 1784 de pneumonia. No entanto, houve relatos de avistamentos dele vivo em Paris em 1835 (quando ele teria pelo menos 100 anos), Milão em 1867 e no Egito durante as Guerras Napoleônicas. Os relatos dele continuam até 1926, que é, curiosamente, o mesmo ano em que Tom Servolo Riddle nasceu em 31 de dezembro.

A ideia de St. Germain e Flamel como uma e a mesma pessoa parece absurda; no entanto, não se pode deixar de perguntar: onde St. Germain adquiriu o Elixir? Ele por acaso tropeçou no Livro de Abraão, o Judeu, que desapareceu após a morte do Cardeal Richelieu? Ou foi tudo uma farsa? Não importa a explicação, tanto Nicolas Flamel quanto o Conde de St. Germain continuam sendo dois dos personagens mais intrigantes de toda a alquimia.

Independentemente do status de Flamel, sua invenção desempenha o papel central no livro. A busca de Harry pela verdade por trás do misterioso arrombamento de Gringotes e a percepção de que o alvo é a Pedra Filosofal coloca ele e seus amigos constantemente no caminho de Severo Snape. Desde o início, Snape e Harry se detestam; A condescendência arrogante e a natureza ácida de Snape são um espinho constante no lado de Harry. Harry está convencido de que Snape está tentando roubar a Pedra, apenas para provar que está errado, como faria uma e outra vez.

Como mencionado anteriormente, Snape representa o vitríolo, o catalisador do processo de transformação. Está presente em todos os sete estágios (como Snape esteve presente em todos os seis livros, e seu retorno no Livro 7 é garantido). O catalisador não é destruído na reação; na verdade, ela não é alterada pela transformação. Isso se tornará crucial quando discutirmos o Livro 7.

O arqui-inimigo de Harry, Draco Malfoy, representa todo o primeiro estágio da Grande Obra. Seu nome, Draco, significa “dragão”, e o dragão representa a prima materia antes de começar sua transformação. É significativo, então, que encontremos Draco no Beco Diagonal, antes da viagem de trem para Hogwarts. Neville representa o sapo, ou matéria terrena, a Primeira Matéria, que é o primeiro estágio antes mesmo da prima materia ser obtida. Em muitos contos de fadas, o sapo é um símbolo de fracasso, e Neville pode ser visto assim até o quinto livro. Na alquimia, o sapo é uma criatura humilde até encontrar a águia ou cisne branco no quinto estágio, e isso é exatamente o que acontece com Neville quando ele começa a se destacar em Ordem da Fênix.

A introdução do Quadribol no mundo de Harry Potter está impregnada de simbolismo alquímico e arquetípico. Como apanhador do time da Grifinória, o trabalho de Harry é encontrar e pegar o pomo de ouro. No entanto, a palavra Apanhador (em inglês “Seeker”, o buscador) descreve Harry maravilhosamente – ele realmente é um buscador, um buscador da verdade e da iluminação. Os balaços representam os obstáculos ao longo do caminho, enquanto ele tenta se abaixar e se esquivar dos eventos que conspiram para mantê-lo longe de seu objetivo. O Pomo de Ouro, no entanto, é o objeto mais importante do jogo. Uma pequena bola de ouro com asas, o pomo representa os planos superiores de consciência” a Pedra Filosofal. O Harry Potter Lexicon (O Léxico de Harry Potter) descreve Bowman Wright, o homem que inventou o Pomo de Ouro, como um “encantador de metal”, que é outro nome para um metalúrgico ou alquimista. Curiosamente, uma bola dourada com asas estava no topo do caduceu de Hermes; de acordo com para o Dicionário Eletrônico Alquímico, o caduceu simboliza a “conjunção dos princípios alquímicos e sua prole, se vive, é a Pedra. Esta Pedra é representada como uma bola dourada com asas no topo do caduceu.”

Eventualmente, Harry, Ron e Hermione encontram o caminho pelo alçapão e Fofo, o cão de três cabeças inspirado no Cérbero da mitologia grega. As provações que eles enfrentam antes que Harry possa finalmente entrar na sala onde o Espelho de Ojesed é guardado são um rito de passagem em si; eles devem provar que são dignos antes que possam continuar.

A batalha final com o Professor Quirrell antes do Espelho também tem ligações alquímicas muito fortes. Embora o próprio Espelho seja uma invenção de Rowling, a maneira como ele funciona é fiel à tradição alquímica. Dumbledore, ele próprio um alquimista, está bem ciente do princípio do amor e da iluminação, e esconde a Pedra em um lugar onde apenas os puros de coração seriam capazes de obtê-la. O professor Quirrell pode se ver com a Pedra Filosofal, mas não a entende. Por quê? Porque ele queria isso para ganho material e poder” para devolver seu mestre à força. Harry, por outro lado, queria que a Pedra a mantivesse segura; de forma alguma ele pretendia usá-lo para si mesmo. É por isso que ele conseguiu pegar a Pedra do Espelho e Quirrell não.

Este é o caminho no qual Harry se encontra – o caminho para a iluminação. Somente buscando aquela parte de si mesmo “sua bondade e amor” ele encontrará os meios para destruir Voldemort de uma vez por todas. Ele deve se tornar a personificação física da Pedra Filosofal, alcançando a perfeição espiritual e a imortalidade, antes de finalmente se libertar do vínculo entre ele e Tom Riddle.

Ano 2: A Câmara Secreta:

O segundo estágio da operação, ou dissolução, representa o colapso adicional do ego. Inconscientemente, a mente começa a permitir que memórias enterradas e pensamentos reprimidos venham à tona. De acordo com Adam McLean, a dissolução pode ser descrita como um “fluxo” da felicidade de ser bem usado e ativamente engajado em atos criativos sem preconceitos tradicionais, bloqueios pessoais ou hierarquia estabelecida atrapalhando. 20

Câmara Secreta nos apresenta os conceitos bruxos de sangue e herança, e leva aos preconceitos inerentes de alguns “sangues puros” em relação aos nascidos trouxas (“sangues-ruins”) e mestiços. Harry deve aprender a navegar dentro dessa estrutura enquanto tenta desvendar o enigma da lendária Câmara Secreta.

Neste livro, somos apresentados a alguns personagens muito interessantes: Dobby, o Elfo Doméstico, Fawkes, o basilisco, Aragogue, a Acromântula, e Tom Riddle, monitor, aluno modelo e menino de ouro de Hogwarts. A partir do momento em que Harry encontra o diário de Tom, Tom Riddle captura nosso interesse assim como o de Harry. Harry sente uma curiosidade instantânea e, apesar dos avisos de Ron e Hermione, investiga ainda mais os segredos do diário.

Em uma passagem que suscitou discussões e debates fantásticos, Harry não pode jogar o diário fora:

“Harry não conseguia explicar, nem para si mesmo, por que não jogou o diário de Riddle fora. O fato é que, mesmo sabendo que o diário estava em branco, ele o pegava distraidamente e virava as páginas, como se fosse uma história que ele quisesse terminar. E enquanto Harry tinha certeza de que nunca tinha ouvido o nome T.M. Riddle antes, ainda parecia significar algo para ele, quase como se Riddle fosse um amigo que ele tinha quando era muito pequeno, e meio esquecido.” (A Câmara Secreta, página 235).

Harry está se lembrando de uma memória há muito enterrada do passado? A conexão de Harry com Lord Voldemort nunca foi adequadamente explicada, um fato que sem dúvida é intencional por parte de Rowling. Embora provavelmente não saibamos a resposta para o significado desta passagem até o Livro 7, se mesmo assim, parece que Harry tem uma conexão com Tom Riddle, bem como com Lord Voldemort, que pode ser explicada alquimicamente. Harry confia em Tom, e mesmo ele não sabe por quê. Ele não questiona, não duvida. É apenas um sentimento que ele tem de que pode depender de Tom, mesmo que ele seja apenas uma memória e não de forma alguma real.

Harry descobre através do diário (ou pensa que sabe) que Hagrid abriu a Câmara Secreta cinquenta anos antes, uma reviravolta que ele tem medo de perguntar a Hagrid. Quando a Câmara é aberta novamente e vários estudantes são atacados, Hagrid é enviado para Azkaban. Antes de ser levado, no entanto, Hagrid dá uma última ordem a Harry e Ron, dizendo-lhes para “seguir as aranhas”. Isso nos leva a Aragogue, a acromântula que Hagrid criou de um ovo.

As aranhas surgem não apenas na alquimia, mas também no Tarô. A aranha é considerada a Mestra Tecelã da Roda da Fortuna e aquela que prediz o destino. Além disso, as aranhas simbolizam as conexões entre passado, presente e futuro. Aragogue, então, representa o equilíbrio entre destino e fortuna, e realmente representa o passado como a única testemunha restante, além de Hagrid, da primeira abertura da Câmara. Ele simboliza os fios da delicada teia que tece o passado, presente e futuro juntos. Isso é exatamente o que Harry aprende neste livro – que ele e Tom Riddle estão inextricavelmente ligados pela Roda do Tempo.

Quando Harry fica cara a cara com Tom na Câmara Secreta, ele ainda confia nele, mas as coisas rapidamente ficam feias quando as motivações de Tom ficam claras. Memória Tom representa para Harry o que ele poderia se tornar, dependendo das escolhas que fizer, assim como Dumbledore representa para Tom o que ele poderia ter se tornado; Harry e Tom são dois lados da mesma moeda, reflexos sombrios um do outro. Na verdade, pode-se dizer que Tom é o alter ego de Harry. Para crédito de Harry, ele nunca vacila do Caminho Verdadeiro, e ao fazê-lo é recompensado por sua lealdade com a chegada oportuna de Fawkes, sem o qual Harry certamente teria morrido.

Rowling enfatiza fortemente ao longo da série a importância das escolhas em nossas vidas. Como Dumbledore diz: “São nossas escolhas, Harry, que mostram o que realmente somos, muito mais do que nossas habilidades”. (Prisioneiro de Azkaban, p. 333) Esse tema reverberará pelo resto dos livros e destaca a principal diferença entre Harry e Tom Riddle.

Muitos de nós nos perguntamos se Tom também era um alquimista; se ele era um, ele era um Alquimista Negro em oposição ao Alquimista Branco de Dumbledore. Como mencionado anteriormente, o alquimista deve iniciar seus estudos com um coração puro, o que Tom não fez. Cheio de raiva e raiva, ele escolheu o poder e o ganho material sobre o amor e a pureza e, ao fazê-lo, selou seu próprio destino. Ele nunca alcançará a imortalidade, apesar de suas melhores tentativas.

A própria Câmara representa o Abaixo, o reino da matéria e do mundano. Este motivo está presente em A Pedra Filosofal, na Sala dos Espelhos; em Prisioneiro de Azkaban, na Casa dos Gritos; em Cálice de Fogo, onde o confronto ocorre em um cemitério; e em Ordem da Fênix, onde a batalha acontece no subsolo do Ministério da Magia. Estes são todos símbolos do estágio Negro, que termina com a Ordem da Fênix.

Nas profundezas da Câmara, o basilisco e a fênix desempenham papéis importantes no resultado. Ambos são símbolos alquímicos; o basilisco é uma criatura alquímica simbólica que se diz ter a cabeça de um pássaro e o corpo de um dragão. Este animal serpentino sem asas nasceu de um ovo de galo hermafrodita após 900 anos e foi amamentado por uma serpente. Claramente, no entanto, o basilisco neste caso é uma serpente ou cobra. É o inimigo mortal da fênix, que representa a morte e a ressurreição. Isso é simbolizado pelas lágrimas de Fawkes, que têm poderes curativos e curam Harry do veneno do basilisco.

Curiosamente, segundo The Medieval Bestiary (O Bestiário Medieval), o nome latino do basilisco é regulus; era chamado de Rei das Serpentes porque seu nome grego basilicus significa “pequeno rei”. Regulus é latim para rei. De acordo com Plínio, o Velho [século I d.C.]:

Qualquer um que veja os olhos de uma serpente basilisco (basilisci serpentis) morre imediatamente. Não tem mais de trinta centímetros de comprimento e tem marcas brancas na cabeça que parecem um diadema. Ao contrário de outras cobras, que fogem de seu silvo, ela avança com o meio erguido. Seu toque e até mesmo seu hálito queimam a grama, matam arbustos e explodem pedras. Seu veneno é tão mortal que, uma vez, quando um homem em um cavalo espetou um basilisco, o veneno subiu pela lança e matou não apenas o homem, mas também o cavalo. Uma doninha pode matar um basilisco; a serpente é jogada em um buraco onde vive uma doninha, e o fedor da doninha mata o basilisco ao mesmo tempo em que o basilisco mata a doninha. 21

A jornada de Harry continua. Seu segundo ano em Hogwarts lhe deu muito em que pensar; algumas coisas no mundo bruxo não são o que parecem. Ele questiona seu lugar nele e o papel que ele deve desempenhar para derrotar Voldemort. Acima de tudo, ele aprende que suas escolhas o definem e, inconscientemente, decide permanecer no caminho certo, escolher o que é certo sobre o que é fácil, uma decisão que lhe servirá bem em Prisioneiro de Azkaban.

Ano 3: Prisioneiro de Azkaban:

Prisioneiro de Azkaban nos apresenta personagens ainda mais fascinantes: o pobre mas gentil Professor Lupin, o Mapa dos Marotos, Pedro Pettigrew, Bicuço o Hipogrifo, Bichento o Amassador e o malandro Sirius Black. Nós também encontramos os dementadores pela primeira vez, assim como os conceitos de mudança de tempo e patrono, que finalmente salvam tanto a vida de Harry quanto a de Sirius.

Neste livro encontramos o terceiro estágio de transformação, chamado separação, que representa a recuperação da parte de nós mesmos onde estão nossas esperanças e sonhos. A separação é um processo consciente de arrumação mental, onde decidimos o que manter e o que jogar fora, mantendo apenas as partes que se encaixam com nossa nova visão da vida. Significa abrir mão de velhas restrições impostas por professores, pais e outros, para que possamos finalmente começar a ser nós mesmos e alcançar todo o nosso potencial. 22

Sirius Black rouba a cena em Prisioneiro de Azkaban. Um homem inocente condenado injustamente à prisão perpétua em Azkaban, Sirius representa o sal no processo alquímico. Como mencionado anteriormente, o sal era uma das três substâncias mais importantes na alquimia, junto com o mercúrio e o enxofre. A Tábua de Esmeralda chama isso de “a Glória de Todo o Universo” e “o início e o fim da grande obra.” Sua importância no trabalho alquímico será discutida em maiores detalhes no Ano 5: Ordem da Fênix. basta dizer que o papel de Sirius na história é crucial, e que temos uma boa introdução ao seu personagem em Prisioneiro de Azkaban.

Antes de Harry partir para Hogwarts, ele entra em contato com um grande cachorro preto enquanto espera pelo Nôitibus depois de explodir sua tia Marge. Mal sabe ele que o cachorro é na verdade o assassino em massa Sirius Black; no entanto, o próprio cão tem conotações alquímicas. Na alquimia, os cães significam matéria primitiva ou enxofre natural. Um cachorro sendo devorado por um lobo simboliza o processo de purificação do ouro usando antimônio, e vemos esse processo perto do final do livro durante a luta entre Sirius e Lupin. Não surpreendentemente, então, o Professor Lupin representa o antimônio ou estribita, também conhecido como o Lobo Cinzento. O alquimista Basílio Valentim nomeou o metal depois de alimentá-lo a alguns monges em um mosteiro beneditino. Os monges adoeceram violentamente e alguns até morreram, daí o nome latino que significa “anti-monge”. Espiritualmente também, muitas pessoas se sentem mais ameaçadas por sua própria natureza animal. Como um lobisomem, Lupin simboliza os impulsos animais que todos nós temos em forma monstruosa, que são elementos que precisamos aprender a controlar se quisermos avançar espiritualmente.

Não é por acaso que Lupin toma o lugar de uma figura paterna na vida de Harry. Através de Lupin, ele aprende a expulsar os dementadores (a expressão de depressão de Rowling) ao perceber que não pode viver no passado. Isso se encaixa no modelo do terceiro estágio da alquimia, a separação. Harry começa a se separar de seus pais e a formar sua própria identidade. Uma vez que ele aprende a “desligar” os gritos de sua mãe quando os dementadores estão por perto, Harry pode então produzir um patrono, ou guardião. Ele recupera uma parte de si mesmo que sabe que seus pais o amaram e se sacrificaram por ele, mas que ele não pode viver no passado a ponto de esquecer-se de viver. O tremoço é crucial para este processo.

O patrono de Harry assume a forma de um cervo branco, que não só tem conotações religiosas, mas também simbolismo alquímico. Os alquimistas chamavam isso de Veado Fugitivo e representa a energia feminina (água) da Grande Obra, ou o elemento protetor e nutridor da transformação. A armação de chifres do veado representa as constelações e o zodíaco – o Acima e os reinos superiores da consciência. Este é o Acteón da mitologia grega, o caçador que foi transformado em veado por admirar a Ártemis nua enquanto ela se banhava em um lago.

Nós conhecemos Bicuço, o Hipogrifo, na primeira aula cheia de ação de Hagrid como professor de Hogwarts. Na alquimia, o Vaso de Hermes (outro nome para o Cálice de Salomão ou o Santo Graal) era chamado de Ovo do Grifo. De acordo com Legends of Charlesmagne (As Lendas de Carlos Magno) de Thomas Bulfinch:

“Como um grifo, tem cabeça de águia, garras armadas de garras e asas cobertas de penas, sendo o resto do corpo de cavalo. Este estranho animal é chamado de Hipogrifo.

A razão de sua grande raridade é que os grifos desprezam os cavalos, que consideram com os mesmos sentimentos que um cão tem por um gato. Nos tempos medievais havia uma expressão, “Para acasalar grifos com cavalos”, que significava quase o mesmo que a expressão moderna, “Quando os porcos voam”. O hipogrifo era, portanto, um símbolo de impossibilidade e amor. Isso teria sido inspirado nas Éclogas de Virgílio: … cruze Grifos com éguas, e na próxima idade veados e cães tímidos vêm beber juntos.

Entre os temas de combate animal em adornos de ouro citas podem ser encontrados grifos atacando cavalos.

O hipogrifo parecia mais fácil de domar do que um grifo. Nas poucas lendas medievais em que essa criatura fantástica aparece, geralmente é o animal de estimação de um cavaleiro ou de um feiticeiro. Faz um excelente corcel, sendo capaz de voar tão rápido quanto um relâmpago. Diz-se que o hipogrifo é um onívoro, comendo plantas ou carne.” 23

Na “execução” de Bicuço, perto do final da história, encontramos um dos símbolos da separação: o machado; embora no livro seja um machado, o simbolismo é o mesmo. MacNair afia sua lâmina em uma pedra em preparação para o evento e a usa para executar Bicuço. Outros símbolos para esta fase incluem espadas, flechas, foices e facas.

Outros simbolismos animais também aparecem em Prisioneiro de Azkaban. O apelido de Pedro Pettigrew é “Rabicho”, e com razão. Na alquimia, o verme é outra representação do Ouroboros, ou a cobra segurando sua própria cauda. O Ouroboros simboliza um grande círculo e a ideia de que “tudo é um” e que o tempo é um ciclo de destruição e regeneração. Pedro inclinou a balança em Prisioneiro de Azkaban, escapando e voltando para Voldemort. No entanto, ele se arrependerá do que fez e, no livro final, expiará seus erros contribuindo para a queda de Voldemort, redimindo-se assim. Quando isso acontecer, os eventos terão completado o círculo, assim como a cobra segurando sua cauda está completa.

Mais uma vez, os eventos na Casa dos Gritos (o Abaixo neste caso) provam de que material forte Harry é feito. Em vez de permitir que Sirius e Lupin matem Pedro, Harry o poupa, preferindo mandá-lo para os dementadores, algo que nem Sirius nem Lupin entendem completamente. A superioridade moral e o coração por excelência de Harry realmente se mostram aqui. Ele não quer que os dois melhores amigos de seu pai se tornem assassinos, e involuntariamente liga Rabicho a ele na forma de uma dívida de vida. Nisso, Harry está se destacando; ele está saindo da sombra de seu pai e se tornando sua própria pessoa. Este processo está longe de terminar, no entanto; está apenas começando.

Ano 4: Cálice de Fogo:

O quarto estágio da transformação alquímica é chamado de conjunção. A conjunção representa a união do masculino e feminino (yin e yang) em um novo sistema de crenças ou um estado intuitivo de consciência. Foi chamado de “A Pedra Menor” porque quando foi alcançado o Apanhador, ou o Buscador, sabia exatamente o que precisava ser feito. 24

Cálice de Fogo está cheio de imagens alquímicas; no entanto, vou me concentrar nas três tarefas Tribruxo nesta análise. Essas quatro tarefas juntas são preparatórias para as provações que Harry enfrentará na Ordem da Fênix. Mas primeiro, ele deve passar pelo Torneio Tribruxo.

O Cálice de Fogo em si é mais uma representação do Santo Graal e da Pedra Filosofal. Um objeto mágico muito poderoso, o Cálice sela o destino dos competidores em um contrato obrigatório do qual não há como escapar. Eles devem competir ou enfrentar as consequências. Como o Graal, o Cálice sabe quais participantes são dignos e verdadeiros o suficiente para enfrentar os difíceis desafios à frente.

A primeira tarefa é o dragão e representa o fogo. Como observado anteriormente, os dragões simbolizam a matéria no início do trabalho ou calcinação, cujo símbolo é o fogo; nesse sentido, Harry está voltando ao primeiro estágio da Grande Obra. Desta vez, no entanto, ele sabe exatamente o que fazer e consegue obter seu ovo notavelmente rápido. Em algumas interpretações, o dragão é o guardião do submundo, assim como Fofo era em A Pedra Filosofal. O tesouro mais importante que um dragão possui é sua pérola mágica, que o dragão sempre manteve perto, seja na boca ou sob o queixo. A pérola emite uma luz radiante que nunca se apaga e é o símbolo da sabedoria, iluminação, auto-realização e riqueza espiritual. Os dragões ficam impotentes se suas pérolas forem roubadas. Neste caso, os ovos dos dragões substituem as pérolas. Curiosamente, os alquimistas estavam interessados ​​em dragões por uma pedra curiosa chamada draconita, que dizia detectar e curar venenos. No entanto, a única maneira de obter essa gema era removê-la antes que o dragão morresse, ou então a criatura, ao morrer, arruinaria propositalmente a pedra.

Os dragões também representam o inconsciente e funcionam como uma porta de entrada para outras dimensões. Na alquimia indiana, chamada Nagayuna, o objetivo era unificar as energias do corpo preservando o Elixir da Vida. O símbolo de duas serpentes entrelaçadas, chamadas Naga, representa a ligação entre o céu e a terra, bem como a transição entre o Abaixo e o Acima, que é o que o Cálice de Fogo faz. Como o livro do meio da série, é o último volume a ocorrer no Abaixo; as que se seguem ocorrem no Alto, ou nos reinos mais elevados da consciência. Esse simbolismo aparece novamente na cena do cemitério na forma de Nagini, a enorme cobra de estimação de Voldemort. Em muitas culturas, os termos “serpente” e “dragão” eram intercambiáveis; na verdade, os dragões eram frequentemente chamados de “serpentes aladas”.

Depois que Harry adquire seu ovo, vence a tarefa no processo, e é aconselhado por Cedrico a abri-lo debaixo d’água para a próxima pista. Ele vai ao banheiro dos monitores e passa uma hora agradável na companhia da Murta Que Geme  e das sereias descobrindo sua pista. Como tenho certeza que você já deve ter adivinhado, mesmo algo tão inofensivo quanto um banho também tem conotações alquímicas! Os banhos na alquimia simbolizam o processo de dissolução (segunda etapa) em que os metais são limpos e purificados.

A segunda tarefa representa, obviamente, a água. O mergulho de Harry no lago é cheio de perigos. Ele tem que resgatar Ron das garras das sereias dentro do prazo. No entanto, Harry não percebe que Dumbledore não deixaria Ron, Hermione e Gabrielle se afogarem; como resultado, ele acaba salvando todos os reféns. Ao fazer isso, ele confirma que é nobre de espírito e puro de coração; ele se importava mais com a vida dos outros do que consigo mesmo. Isso também faz parte do estágio de conjunção; confirma que Harry está no caminho certo em seu caminho para a iluminação.

Há alguma confusão sobre a natureza da terceira tarefa e a diferença entre um labirinto (labyrinth) e um labirinto (maze). Ao contrário da crença popular, labirintos (labyrinths) e labirintos (mazes) não são a mesma coisa. Labirintos (labyrinths) têm um caminho bem definido que nos leva ao centro e volta para fora. Não há truques para um labirinto; oferece uma escolha: entrar ou não. Uma vez dentro, você encontrará o caminho para fora novamente. Um labirinto (maze), por outro lado, oferece várias opções, algumas com muitas entradas e saídas. Becos sem saída e curvas fechadas representam os enigmas e dificuldades da vida, que vemos na Esfinge e seu enigma da aranha. Labirintos (mazes) nos desafiam a tomar decisões corretas com base na lógica e na intuição. Em um labirinto (maze), o objetivo é encontrar o caminho através de caminhos elaborados e tortuosos para alcançar um objetivo específico; neste caso, a Taça Tribruxo. O objetivo de um labirinto (labyrinths) é encontrar o caminho para o centro de si mesmo. Intencionalmente ou não, Rowling incorporou o simbolismo de ambos os quebra-cabeças à tarefa, para que possamos ver melhor os caminhos e escolhas que Harry deve fazer em sua jornada para a iluminação.

O labirinto (labyrinth) é um antigo símbolo da jornada de vida pela qual encontramos o verdadeiro propósito de nossa vida. Ao percorrer o caminho, criamos um lugar sagrado dentro de nós mesmos e deixamos nosso ego de lado. Os celtas chamavam isso de “Coração do Coração” e é isso que Harry faz durante sua jornada pelo labirinto (maze). Os obstáculos que ele encontra ao longo do caminho o guiam pelo caminho até o centro. O aspecto do labirinto (maze) representa os enigmas e os diferentes caminhos que se pode escolher ao longo da vida para atingir nossos objetivos. No labirinto (maze), “reina a ilusão e a confusão e o alquimista corre o risco de perder toda a conexão e clareza”. 25 O Feitiço de Quatro Pontos de Harry permite que ele permaneça no caminho certo e alcance o centro do labirinto (maze) relativamente ileso.

O cemitério, na alquimia, é um símbolo para o “recipiente do alquimista”, no qual os produtos químicos que foram fermentados por três estágios atingem o ponto de ebulição, produzindo explosões tão violentas que muitas vezes o alquimista foi gravemente ferido ou morto no processo. O objetivo disso era produzir um “fluido” ou essência dentro do recipiente, algo que os alquimistas chamavam de “asa de corvo” por causa de sua cor azul-preta.26 Harry está quase morto nesta cena e está, de fato, ferido. Os eventos o ultrapassam até que ele e Voldemort duelam até a morte em uma explosão de frustração e hostilidade reprimidas. Harry mal consegue segurar Voldemort; no entanto, por causa das essências de seus pais e de Cedrico produzidas por sua varinha, ele é salvo mais uma vez por pura força de vontade e não por coragem.

Os corvos representam o estágio negro ou nigredo; neste caso, a vinda de Ordem da Fênix. O Corvo Negro ou Corvo Negro é frequentemente retratado como um processo de morte em vez de um pássaro real, como no caput mortuum, a cabeça da morte, ou como algumas ilustrações alquímicas mostram, o alquimista morrendo dentro de um frasco. (Veremos o caput mortuum novamente em Ordem da Fênix.) Assim, no símbolo do Corvo Negro temos a saída em consciência do mundo dos sentidos físicos, as restrições que nos prendem ao corpo físico. 27 É por isso que Cedrico teve que morrer, na minha opinião. Ele representa a cabeça da morte e o início da ascensão do Abaixo para o Acima.

Pouco depois de seu renascimento, Voldemort menciona alegremente a poção que ele instruiu Pedro a preparar para que ele pudesse habitar um corpo rudimentar até sua Festa de Renascimento e até lista os ingredientes:

“O corpo de Rabicho, é claro, estava mal adaptado para possessão, já que todos supunham que ele estava morto, e atrairia muita atenção se notado. No entanto, ele era o servo de que eu precisava, e, pobre bruxo como ele é, Rabicho foi capaz de seguir as instruções que lhe dei, o que me devolveria a um corpo rudimentar e fraco, um corpo que eu poderia habitar enquanto esperava os ingredientes essenciais para o verdadeiro renascimento… um feitiço ou dois de minha própria invenção… com uma pequena ajuda de minha querida Nagini’ Os olhos vermelhos de Voldemort caíram sobre a cobra que circulava continuamente, “uma poção preparada com sangue de unicórnio, e o veneno de cobra que Nagini forneceu… Eu logo voltei a uma forma quase humana e forte o suficiente para viajar”. (Cálice de Fogo, p. 656)

Sangue de unicórnio é outro nome para mercúrio ou mercúrio, e veneno de cobra é mencionado por Valentim em suas Doze Chaves como um dos componentes do Elixir da Vida. Voldemort estava tentando fazer sua própria Pedra Filosofal? Parece possível. Ele falhou em roubar a Pedra no primeiro livro, mas certamente sabia o suficiente sobre alquimia para inventar tal poção (ou dar instruções explícitas a Pedro sobre sua preparação), e assim como ele sabia que o sangue de unicórnio em A Pedra Filosofal mantê-lo vivo, ele sabia que essa poção em particular ajudaria a fortalecê-lo por tempo suficiente para adquirir um corpo. Parece estranho que Rowling escolhesse esses ingredientes em particular a menos que ela conhecesse a conexão entre eles e o Elixir. Além disso, quando lembramos do objetivo de Geber de takwin ou vida artificial, vemos como ele poderia ter instruído Pedro a realizar a magia necessária para que ele adquirisse um corpo rudimentar até que seus planos atingissem a maturidade.

É interessante notar que muitas pessoas se perguntaram o que era o corpo infantil de Voldemort e do que era feito. Logo no início, mencionei a busca de Geber pela criação da vida e que Paracelso afirmou ter criado um homúnculo – e o corpo rudimentar de Voldemort pode ter sido exatamente isso.

Homúnculo (alt: homonculus) significa “homenzinho” e na alquimia se refere a falsos seres humanos criados a partir de uma variedade de ingredientes. De acordo com a Wikipédia, um método envolvia raízes de mandrágora, que vemos na Câmara Secreta como o antídoto para petrificação. Diz a lenda que a mandrágora, cujas raízes lembravam vagamente um ser humano, cresceu onde o sêmen ejaculado por homens enforcados durante os últimos espasmos convulsivos antes da morte cair no chão. A raiz deveria ser colhida antes do amanhecer de uma sexta-feira de manhã por um cão preto, depois lavada e “alimentada” com leite e mel e, em algumas receitas, sangue, após o que se desenvolveria completamente em um humano em miniatura que guardaria e protegeria seu proprietário. Outro método era pegar um ovo posto por uma galinha preta, fazer um pequeno buraco na casca, substituir uma porção do branco do tamanho de um feijão por esperma humano, selar a abertura com pergaminho virgem e enterrar o ovo no esterco na primeira dia do ciclo lunar de março. Um humanoide em miniatura emergiria do ovo após trinta dias, o que ajudaria e protegeria seu criador em troca de uma dieta constante de sementes de lavanda e minhocas. Ainda outra receita, a usada supostamente por Paracelso, prescrevia o uso de um saco de ossos, fragmentos de pele e pelos de qualquer animal. Curiosamente, o homúnculo seria um híbrido do animal escolhido – então, se uma cobra fosse escolhida, a criação se pareceria com uma cobra.

O homúnculo é mencionado no Ato II do Fausto de Goethe como uma criação alquímica do aluno de Fausto, Wagner. Na verdade, é uma inteligência artificial e talvez o primeiro bebê de proveta do mundo. O homúnculo naquela obra se assemelhava a um ser de fogo, um ser de alma e espírito puros que vive completamente dentro de seu frasco e não tem um corpo real. (Soa familiar?) Seu maior desejo é se tornar um humano completo, e ele leva Fausto e Mefisto ao reino da Grécia antiga para tentar isso. Homúnculo aprende que deve se unificar com o elemento água para ver seus sonhos realizados. Com o incentivo de Proteu, Homúnculo entra nas ondas em seu frasco para encontrar Galatea, a deusa do oceano. Disto vem uma celebração dos quatro elementos. Mais tarde, porém, Fausto tenta quase a mesma coisa, e sua tentativa pode ser caracterizada como o estupro da ordem natural, uma perversão da natureza que sela seu destino como instrumento de sua própria queda.

Já comentamos sobre a presença de Nagini no livro, mas e a aparência medonha de Voldemort após seu renascimento? A descrição que Rowling nos dá é decididamente a de uma cobra: fendas vermelhas para os olhos, narinas achatadas e pele escamosa. Por que uma cobra? Na minha opinião, Rowling usa essa analogia para descrever a alma interior de Voldemort – esfarrapada e serpentina. A cobra representa o primeiro estágio da transformação; ao torná-lo parecido com uma cobra, Rowling nos diz que Tom Riddle nunca saiu do primeiro estágio de transformação simplesmente porque seu coração não era puro. Ele é um lembrete horrível dos perigos da ganância, brutalidade e orgulho. Outra possibilidade é que Tom começou “iluminado” e retrocedeu pelos estágios de transformação, começando com um belo rapaz e jovem e terminando com uma serpente. Isso também explicaria como Tom conseguiu adquirir uma varinha com um núcleo de penas de cauda de fênix, quando de todas as aparências ele certamente não merece. Aos 11 anos, ele pode ter sido digno da pena de Fawkes de uma maneira que nunca poderá ser agora.

Harry emerge de seu confronto com Voldemort espancado e ferido, mas vivo. Os eventos da noite abalaram suas crenças sobre o mundo bruxo; ele alcançou a Pedra Menor em virtude de sua sobrevivência e seu conhecimento de que Voldemort está de volta, com seus antigos seguidores ao seu lado, e pronto para lutar pelo destino do mundo bruxo. Ele começa a perceber que “esta é sua luta e só dele” que, eventualmente, ele e Voldemort se confrontarão novamente, e apenas um deles sobreviverá.

Ano 5: Ordem da Fênix:

A fermentação, também conhecida como Estágio Negro, é também a primeira a ocorrer no “Acima”, ou nos planos superiores de consciência. A fermentação era um processo de duas etapas, a primeira das quais envolvia a “morte” do precipitado inerte nascido no estágio de conjunção. Isso foi chamado de “putrefação” e simbolizava a morte e a ressurreição para um nível superior de ser. Uma vez concluído, iniciava-se o processo de fermentação com a nova vida “nascendo” dessa ressurreição, visando fortalecê-la e garantir sua sobrevivência. A alma se livra das coisas que a estão desgastando; isso ocorre em um lampejo de cor iridescente chamado Cauda Pavonis, isto é, a Cauda do Pavão. 28

Ordem da Fênix prepara o cenário para os dois últimos livros da série. Embora os quatro primeiros livros também façam parte do estágio negro, é este que configura os eventos posteriores.

Ordem da Fênix começa com um ataque de dementadores a Harry e Duda. Em seu julgamento, Harry sente pela primeira vez o que o próximo ano reserva para ele na pessoa de Dolores Umbridge. Ela é um trabalho desagradável, e é justo que seu próprio nome (Black, isto é, Negro) represente o estágio Negro; umbra significa sombra ou escuridão. Também representativo disso é o sobrenome de Sirius, Black, assim como a presença de Kingsley Shacklebolt, o Rei Negro. Os próprios dementadores representam a depressão e a escuridão da mente, mas desta vez Harry é capaz de lidar com eles.

Encontramos Sirius em sua casa no Largo Grimmauld, 12. Ele está mal-humorado e deprimido, confinado a uma casa que odeia para seu próprio bem. Uma das imagens mais estranhas que vemos na casa são as cabeças dos elfos-domésticos mortos que revestem as paredes. Este é outro exemplo do caput mortuum mencionado em Cálice de Fogo, representando o início do estágio negro.

Ordem da Fênix apresenta mais novos personagens: Ninfadora Tonks, a Metamorfomaga, Luna Lovegood, Monstro e o irmão mais novo de Sirius, Regulus. Como mencionado anteriormente, regulus também é o nome do basilisco, que vimos em Câmara Secreta, e vemos uma conexão entre os negros e o basilisco no capítulo 4: “Tanto o lustre quanto o candelabro em uma mesa frágil nas proximidades foram em forma de serpentes.” No entanto, essa não é a única conexão que o nome tem com a alquimia. Regulus também é um termo alquímico geralmente associado a Isaac Newton e Nicolas Flamel. Na alquimia de Newton, um metal era anteriormente chamado de regulus do minério do qual era reduzido; regulus (sem especificação adicional) significava regulus de antimônio (ou seja, antimônio na nomenclatura moderna). Um regulus era a substância pesada que afundava no fundo do cadinho durante a reação. Em outras palavras, o regulus é o metal puro derivado do minério.

Mencionei anteriormente que Sirius representava o sal ou corpo (corpus) do trabalho alquímico, assim como Hagrid representa a alma e Dumbledore a mente ou intelecto. Sirius é absolutamente crucial neste estágio e no estágio vermelho, que seguirá no Livro 7. De acordo com Hauck, em The Sorcerer’s Stone: A Beginner’s Guide to Alchemy (A Pedra Filosofal: Um Guia para Iniciantes à Alquimia), o sal é a chave para a alquimia, o início e o fim da Grande Obra. De acordo com isso, e para encurtar a história, o estágio negro é encerrado pela alma deixando o corpo. A morte de Sirius, em outras palavras.

O sal é uma das três substâncias mais importantes da alquimia (as outras são o mercúrio e o enxofre) e representa a manifestação final da Pedra. Qualquer substância que fosse resistente ao fogo era chamada de sal. A Tábua de Esmeralda chama isso de “a Glória de Todo o Universo”. 29 No entanto, Harry ainda não está pronto para a perfeição da Pedra. Ele acabou de adquirir a Pedra Menor, e há muitas outras lições a serem aprendidas antes que ele alcance a iluminação. A manifestação final virá no Livro 7, onde veremos Sirius novamente.

Em geral, o Sal representa a ação do pensamento sobre a matéria, e é isso que Sirius representa. Sirius é um homem ativo e espirituoso que está enjaulado em sua casa; como um homem de ação, isso é decididamente desagradável para ele e deixa Harry sem fim de preocupação. No final, Sirius faz exatamente o que Harry teme que faça: deixa o Largo Grimmauld, recusando-se a ser deixado para trás mais uma vez. É essa imprudência que leva à sua morte; se ele tivesse ficado parado, ele teria vivido. Mas Rowling afirma que Sirius teve que morrer, e é por isso. Harry não pode ir para o estágio de purificação enquanto os estágios negros ainda estiverem vivos.

A relação de Sirius com Snape também é curiosa. Sozinho e confinado a uma casa que ele odeia, Sirius sofre insultos contra sua bravura e utilidade ao longo do livro. Harry fica do lado de Sirius contra Snape, a quem ele sempre odiou. Quando lembramos que Snape é o vitríolo ou o catalisador da série, esse comportamento faz todo o sentido. É trabalho de Snape irritar e irritar, perturbar e difamar; em outras palavras, tornar a vida de Harry a mais miserável possível. Quando combinado com a personalidade sinistra de Umbridge, o ano de Harry em Hogwarts não é nada pacífico.

De todos os personagens dos livros, Luna é um dos mais interessantes. Com o nome da deusa romana da lua, Luna simboliza a feminilidade e a intuição, que era frequentemente retratada como um sol de sete raios em desenhos alquímicos. Um dos símbolos do sexto estágio, que discutiremos no Ano 6: O Enigma do Príncipe, Luna ajuda Harry a ver o outro lado das coisas “as coisas que não são baseadas em fatos ou razões, mas na intuição e fé. Esses traços são tradicionalmente considerados femininos e naturais. A visão de mundo singular de Luna ajuda Harry a lidar com a morte de Sirius; ninguém mais é capaz de consolá-lo, mas Luna o faz se sentir melhor e ele começa a se curar.

Neste livro, conhecemos o irmão de Dumbledore, Aberforth, que tem uma queda por cabras e copos sujos enquanto cuida de seu bar na Pousada Cabeça de Javali. As cabras, que são mencionadas repetidamente em conexão com Aberforth, simbolizavam a quimera da mitologia grega. A alquimia em si é uma quimera, que compreende muitas disciplinas diferentes provenientes de muitas fontes diferentes. De acordo com o Musaeum Hermeticum Reformatum et Amplificatum:

“Os alquimistas costumavam simbolizar seus metais por meio de uma árvore, para indicar que todos os sete eram ramos dependentes do único tronco da vida solar. Assim como os Sete Espíritos dependem de Deus e são ramos de uma árvore da qual Ele é a raiz, o tronco e a terra espiritual da qual a raiz deriva seu alimento, assim o único tronco da vida e do poder divinos nutre todas as múltiplas formas das quais o universo é composto.”

Aberforth e suas cabras são mais conhecidas como o Bode de Mendes, ou Baphomet das tradições dos Templários. De acordo com a Magia Transcendental de Levi, “A prática da magia “branca ou negra” depende da capacidade do adepto de controlar a força vital universal, aquilo que Eliphas Levi chama de grande agente mágico ou luz astral. essência fluídica são produzidos os fenômenos do transcendentalismo. O famoso e hermafrodita Bode de Mendes era uma criatura composta formulada para simbolizar essa luz astral. É idêntico a Baphomet, o panteão místico daqueles discípulos da magia cerimonial, os Templários, que provavelmente a obtiveram de os árabes”. 30

Gostaria de mencionar aqui a proeminência que os pássaros têm na alquimia. Como vimos em Cálice de Fogo, o aparecimento do Corvo Negro anuncia o início do estágio negro. Daqui em diante, os pássaros simbolizam cada etapa da transformação. Depois do Corvo Negro vem o Cisne Branco ou a Águia, depois o Pavão, o Pelicano e finalmente a Fênix, que representa a transformação final e a manifestação final da Pedra. Em Ordem da Fênix, vemos dois desses pássaros enquanto Harry passa rapidamente pelo estágio negro. Vemos o Cisne Branco na figura do patrono de Cho Chang, que representa as primeiras incursões de Harry em seu eu interior e sua crescente conexão com sua alma:

“Oh, não seja tão desmancha-prazeres”, disse Cho brilhantemente, observando seu Patrono prateado em forma de cisne voar pela sala durante a última aula antes da Páscoa. (Ordem da Fênix, p. 606)

A Cauda Pavonis, isto é, a Cauda do Pavão é uma das imagens mais curiosas de toda a alquimia. Como observado anteriormente, a Cauda do Pavão ocorre de repente em um lampejo brilhante de cor iridescente. Isso ocorre perto do final do livro, com Harry viajando de chave de portal do Ministério de volta ao escritório de Dumbledore:

“Harry sentiu a sensação familiar de um gancho sendo puxado atrás de seu umbigo. O piso de madeira polida havia sumido sob seus pés; o Átrio, Fudge e Dumbledore haviam desaparecido, e ele estava voando para frente em um turbilhão de cores e sons…” (Ordem da Fênix, p 819)

No entanto, o estágio da Cauda do Pavão também é marcado por visões estranhas e sonhos significativos. 31 Vemos isso consistentemente ao longo do livro. Não é por acaso que a conexão de Harry com Voldemort é mais forte neste livro. Inconscientemente, o poder de Harry nesta área está crescendo rapidamente com a força de sua conexão com Voldemort, e isso é mostrado em vários sonhos muito poderosos, incluindo aquele em que Harry, como Nagini, ataca Arthur Weasley:

“O sonho mudou…

Seu corpo parecia suave, poderoso e flexível. Ele estava deslizando entre barras de metal brilhantes, através de pedra escura e fria… Ele estava deitado contra o chão, deslizando sobre sua barriga… Estava escuro, mas ele podia ver objetos ao seu redor brilhando em cores estranhas e vibrantes… Ele estava virando a cabeça… À primeira vista, o corredor estava vazio… mas não… um homem estava sentado no chão à frente, seu queixo caído sobre o peito, seu contorno brilhando no escuro…

Harry colocou a língua para fora… Ele sentiu o cheiro do homem no ar… Ele estava vivo, mas cochilando… sentado na frente de uma porta no final do corredor…

Harry desejava morder o homem… mas precisava dominar o impulso… Ele tinha um trabalho mais importante a fazer…

Mas o homem estava se mexendo… um manto prateado caiu de suas pernas enquanto ele se levantava de um salto; e Harry viu seu contorno vibrante e borrado elevando-se acima dele, viu uma varinha retirada de um cinto… Ele não teve escolha… Ele se ergueu do chão e golpeou uma, duas, três vezes, mergulhando suas presas profundamente no a carne do homem, sentindo suas costelas se partirem sob suas mandíbulas, sentindo o jorro quente de sangue…

O homem estava gritando de dor… então ele ficou em silêncio… Ele caiu para trás contra a parede… O sangue estava espirrando no chão…

Sua testa doía terrivelmente… Estava a ponto de explodir…” (Ordem da Fênix, pgs. 462-63)

Não apenas Harry se torna Nagini, ele também se torna o próprio Voldemort:

O dormitório estava vazio quando ele chegou… Ele rolou de lado, fechou os olhos e adormeceu quase imediatamente… Ele estava parado em um quarto escuro com cortinas, iluminado por um único ramo de velas. Suas mãos estavam apertadas nas costas de uma cadeira na frente dele. Eram dedos longos e brancos como se não tivessem visto a luz do sol há anos e pareciam aranhas grandes e pálidas contra o veludo escuro da cadeira. Além da cadeira, em uma poça de luz projetada no chão pelas velas, ajoelhou-se um homem de túnica preta.

“Eu fui mal aconselhado, ao que parece”, disse Harry em uma voz alta e fria que pulsava com raiva.

“Mestre, eu imploro seu perdão…” resmungou o homem ajoelhado no chão. A parte de trás de sua cabeça brilhou à luz de velas. Ele parecia estar tremendo.

Eu não culpo você, Rookwood’ disse Harry naquela voz alta, fria e cruel. Ele soltou a cadeira e caminhou ao redor dela, mais perto do homem encolhido no chão, até que ele parou diretamente sobre ele na escuridão, olhando para baixo de uma altura muito maior do que o normal…

Deixado sozinho no quarto escuro, Harry virou-se para a parede. Um espelho rachado e manchado de idade estava pendurado na parede nas sombras. Harry se moveu em direção a ela. Seu reflexo ficou maior e mais claro na escuridão… Um rosto mais branco que uma caveira… olhos vermelhos com fendas para pupilas… (Ordem da Fênix, págs. 585-86)

Ano 6: O Príncipe Mestiço:

De acordo com The Seven Stages of Alchemical Transformation (Os Sete Estágios da Transformação Alquímica), o sexto estágio é chamado de destilação ou leucose. Também chamada de Estágio Branco, a destilação é:

“… a agitação e a sublimação das forças psíquicas são necessárias para garantir que nenhuma impureza do ego inflado ou do id profundamente submerso seja incorporada ao próximo e último estágio. A destilação pessoal consiste em uma variedade de técnicas introspectivas que elevam o conteúdo da psique ao mais alto nível possível, livre de sentimentalismo e emoções, desvinculado até da identidade pessoal. A destilação é a purificação do Eu não nascido – tudo o que realmente somos e podemos ser.”

Fisiologicamente, a Destilação está elevando a força vital repetidamente das regiões inferiores do caldeirão do corpo para o cérebro (o que os alquimistas orientais chamavam de Circulação da Luz), onde eventualmente se torna uma maravilhosa luz solidificante cheia de poder. Diz-se que a destilação culmina na área do Terceiro Olho da testa, ao nível das glândulas pituitária e pineal, no Chakra Frontal ou Prata. 32

Curiosamente, a cicatriz de Harry aparece na região do Terceiro Olho ou Chakra Frontal: no meio de sua testa. Além disso, o Terceiro Olho é controlado pela glândula pineal, que os antigos egípcios consideravam um bezoar.

O Pulvis Solaris Negro é uma mistura de antimônio metálico e enxofre purificado. Esses dois se combinam para formar uma substância dura como pedra chamada bezoar (parece familiar?), que na verdade são bolas duras de comida não digerida encontradas nos intestinos; eles foram descobertos pelos antigos egípcios enquanto trabalhavam em suas múmias e acreditavam ser uma pílula mágica formada pela “serpente” no homem; ou seja, os intestinos. A mistura de óxido de mercúrio vermelho com enxofre formou um bezoar vermelho. Como sabemos desde a primeira aula de poções de Snape, acreditava-se amplamente que os bezoares eram um antídoto para a maioria dos venenos e na verdade eram prescritos pelos médicos como cura para muitas doenças. Os egípcios também procuraram uma “pílula” semelhante na “pequena serpente” do homem “o cérebro” e podem tê-la encontrado na glândula pineal. Da mesma forma que os egípcios acreditavam que os bezoares eram formados nos intestinos, eles acreditavam que o ouro era formado nas entranhas da terra. Isso deu origem à crença de que o ouro era um bezoar mineral.

Ao longo do livro vemos referências a bezoares. Ron, por exemplo, tem um encontro com um em seu aniversário:

Harry saltou sobre uma mesa baixa e correu em direção ao kit de Poções aberto de Slughorn, tirando potes e bolsas, enquanto o som terrível da respiração gargarejada de Ron enchia a sala. Então ele a encontrou – a pedra enrugada parecida com um rim que Slughorn havia tirado dele em Poções.

Ele se jogou de volta para o lado de Ron, abriu sua mandíbula e enfiou o bezoar em sua boca. Rony deu um grande estremecimento, um suspiro ruidoso, e seu corpo ficou flácido e imóvel. (Harry Potter e o Enigma do Príncipe – EDP, p. 397-98)

Psicologicamente, a destilação é a purificação das forças necessárias para garantir que nenhuma imperfeição do id e do ego sobreviva até o estágio final. 33  Através de Dumbledore, Harry se torna imune à emoção, sentimentalismo e até identidade pessoal, elevando-se ao nível espiritual mais alto possível para que possa completar sua transformação. Este é o propósito das aulas de Harry com Dumbledore. Em um nível pessoal, Harry pode se livrar de qualquer emoção ou pena em relação a Voldemort vendo até onde ele foi para alcançar seu objetivo final. Ao assumir o manto do Escolhido, Harry abandonou sua identidade pessoal (assim como Voldemort fez, mas por um motivo diferente!) e se dedicou a derrotar Voldemort para o bem de todos.

Os símbolos do estágio branco são o lírio, a lua e o pelicano. Slughorn fala sobre Lílian Potter quase incessantemente, elogiando suas habilidades como fabricante de poções e sua beleza como pessoa” e possivelmente preparando-a para um papel ainda maior no Livro 7. A lua também aparece na pessoa de Luna Lovegood, a quem Harry convida para a festa de Natal de Slughorn. Ainda outra possível conexão com o estágio branco é Gina. Em celta, seu nome completo, Ginevra, significa “espuma branca” e ela desempenha um grande papel nos acontecimentos do livro, especialmente perto do final. Mencionei no início deste artigo que a única coisa que pode emitir um fogo ácido é espuma ou um agente de terra seca; Snape representa o ácido ou vitríolo, e seu papel no assassinato de Dumbledore choca e entristece a todos. No entanto, é Gina quem faz Harry se sentir melhor e começar a aceitar sua perda. Ela o conforta e pergunta. nada dele em troca. Ela é igual a ele em todos os sentidos, e a única que pode aliviar sua raiva de Snape.

Mas a pessoa que realmente representa esse estágio é o próprio Dumbledore. Seu nome, Alvo, significa “branco”, e encontramos a palavra “alvo” espalhada pelas obras de pesos pesados ​​alquímicos como Agripa e Paracelso. Através dele, Harry aprenderá os segredos de Voldemort enquanto Dumbledore transmite seu vasto conhecimento como se estivesse passando a tocha. Este é o Pelicano, que nutre seus filhotes do próprio peito para garantir sua sobrevivência:

“O Pelicano é mostrado apunhalando seu peito com o bico e nutrindo seus filhotes com seu próprio sangue. O alquimista deve entrar em uma espécie de relação sacrificial com seu ser interior. Ele deve nutrir com suas próprias forças da alma, o embrião espiritual em desenvolvimento interior. Qualquer um que tenha feito um verdadeiro desenvolvimento espiritual conhecerá bem esta experiência. A imagem de si mesmo deve ser mudada, transformada, sacrificada ao eu espiritual em desenvolvimento. Esta é quase invariavelmente uma experiência profundamente dolorosa, que testa os recursos internos da pessoa. A partir disso, eventualmente emergirá o eu espiritual, transformado pela experiência do Pelicano.” 34

Vemos que isso é exatamente o que Harry faz. Ele deixa Gina por causa da causa, sacrificando-se ao que ele sente ser um final inevitável. E isso machuca. A traição de Snape, a morte de Dumbledore e o conhecimento de que ele é o Escolhido o forçam a deixar de lado seus desejos pessoais pelo bem do mundo bruxo. Ele não tem certeza de que sairá vivo da experiência, mas pelo menos morrerá lutando.

O assassinato de Dumbledore é o momento mais chocante do livro e talvez até de toda a série. O papel de Snape como vitríolo está chegando ao auge; ele agora é responsável por mais do que poderia levar crédito. Ele inclinou a balança do destino por suas ações, mas quando lembramos que o vitríolo é um catalisador, isso dá esperança de que ele não seja mau, afinal. Sem Snape, não há razão para Harry passar para a próxima fase, nenhum fator motivador para ele continuar a batalha. Existe a possibilidade de que ele realmente estivesse do lado de Dumbledore e que ele foi forçado a matar Dumbledore pelo Voto Inquebrável. De qualquer forma, seu papel no livro final será crucial” o final da série dependerá das ações e lealdade de Snape.

Perto do final do livro temos a sensação de que a fase branca está acabando e a fase vermelha está amanhecendo. Várias coisas apontam para isso, entre elas a morte de Dumbledore. Em Ordem da Fênix, o estágio negro, o nigredo, terminou com a morte de Sirius e o estágio branco, o albedo, começou com a bomba de Dumbledore sobre a profecia. Em O Enigma do Príncipe, o estágio branco termina com a morte de Dumbledore e o estágio vermelho, o rubedo, começa com a pessoa que será a mais importante na transformação final: Hagrid.

Após a morte de Dumbledore, Harry escorrega em sangue enquanto corre atrás de Snape e Malfoy. (EDP, p. 600). Quando ele chega ao hall de entrada, ele vê os rubis da ampulheta da Grifinória espalhados por todo o chão. (EDP, p. 601) Harry aponta um jato de luz vermelha para Snape para impedi-lo de escapar. (EDP, p. 602) Ele persegue Snape e Malfoy até a cabana de Hagrid, onde ele eventualmente ajuda Hagrid a apagar o fogo feito pelos Comensais da Morte. (EDP, p. 606) A aparição de Hagrid em si anuncia o fim do estágio branco e o início do vermelho; O nome de Hagrid, Rúbeo, significa “vermelho”. Harry permanece com Hagrid durante todo o caminho até o castelo, e é Gina (uma ruiva) que o leva para longe do corpo de Dumbledore.

Após a presença constante de Hagrid ao longo da série, em O Enigma do Príncipe ele se destaca apenas por sua ausência. E, no entanto, daqui em diante ele está em quase todas as cenas pelo restante do livro. Rowling se esforça para nos mostrar sua importância; durante a reunião com Slughorn, Sprout e os outros professores restantes, McGonagall pede especificamente a opinião de Hagrid. O que ele pensa e sente tem um grande peso, e continuará a sê-lo durante o livro final.

Havia alguns sinais de que Dumbledore morreria neste livro. Em memória de Bob Ogden, Ogden se aproxima da casa de Gaunt e vê uma cobra pregada na porta. Na alquimia, a morte de um rei era anunciada exatamente por uma imagem assim: uma cobra pregada a uma porta ou a uma cruz. Embora saibamos por Lupin que não existe realeza no mundo bruxo, Dumbledore é sem dúvida a coisa mais próxima da realeza na série. Sua graça e nobreza de espírito o diferenciavam de outros bruxos e, de fato, de outros seres humanos, bruxos ou trouxas. E Dumbledore frequentemente usa roxo; isso ocorre não apenas em O Enigma do Príncipe, mas também nos outros livros. Roxo é a cor da realeza.

A Morte do Rei simboliza a sublimação da matéria. Dependendo do seu ponto de vista, a Morte do Rei pode ser tomada como a crucificação de Cristo, quando Cristo teve que se sacrificar antes de se tornar um com Deus. No entanto, tradicionalmente o Rei é uma metáfora para o ego; ao matar o rei, o ego morre também, e qualquer sentimentalismo em relação à tarefa em mãos desaparece. Harry fará o que deve; ele tem que fazê-lo, ou tudo o que ele conhece e ama desaparecerá.

Em um obscuro texto alquímico chamado Lexicon alchemiæ sive dictionarium alchemisticum, cum obscuriorum verborum, et rerum Hermeticarum, tum Theophrast-Paracelsicarum phrasium, planam explicationem continens (Alchemical Lexicon, o Léxico Alquímico), Ruland diz sobre a prima materia: de Deus que se chama Matéria Primordial, especialmente quanto à sua eficácia e mistério, que lhe deram muitos nomes e quase todas as descrições possíveis, pois não souberam louvá-lo suficientemente”. 35 Ele continua mencionando que um dos nomes dados à matéria prima é “veneno, veneno, chambar, porque mata e destrói o Rei, e não há veneno mais forte no mundo”. Isso possivelmente alude à poção que Dumbledore bebeu na caverna. Se aceitarmos que Dumbledore é um rei, podemos ver que a pedra é tão capaz de matar quanto de curar, uma propriedade geralmente atribuída ao Santo Graal. Ruland continua dizendo que também é chamada de “Água da Vida, pois faz com que o Rei, que está morto, desperte para um modo melhor de ser e viver. É o melhor e mais excelente remédio para a vida da humanidade.” Ele também o chama de espírito, “porque voa para o céu, ilumina os corpos do Rei e dos metais e lhes dá vida”. Após a morte de Dumbledore, sua alma se eleva de seu corpo na forma de uma fênix; ele encontrou seu ouro e atravessou para o outro lado – um modo de vida melhor, de acordo com os textos religiosos. Ele também aparece como um retrato, então ele não se foi completamente, embora ele não possa mais ajudar Harry da maneira que fazia antes.

Estágio 7: Coagulação (Harry Potter e o …):

Como obviamente ainda não sabemos o que o Livro 7 contém, é hora de fazer um pouco de teorização e tentar prever o que pode acontecer. Mas primeiro, vamos definir o sétimo estágio e as transformações que precisam ocorrer antes que Harry possa alcançar a iluminação.

O Estágio Vermelho, o último e último estágio da transformação alquímica, é chamado de coagulação, quando os elementos dos seis primeiros estágios se unem no mais alto estágio de perfeição. Ela libera a Ultima materia da alma – o Corpo Astral, que é a Pedra Filosofal. Com a Pedra, os alquimistas acreditavam que poderiam existir em todos os planos da realidade.

A maioria das pessoas geralmente experimenta este estágio pela primeira vez como uma nova confiança em si mesmo, a sensação de que você pode fazer qualquer coisa, embora muitos o experimentem – como um Segundo Corpo de luz dourada coalescida, um veículo permanente de consciência que incorpora as mais altas aspirações e evolução da mente.” 36

A coagulação é representada pelo Pulvis Solaris Vermelho, que na verdade era um bezoar vermelho ou uma mistura de enxofre puro e óxido de mercúrio. Pulvis solaris significa “Pó do Sol”, e os alquimistas acreditavam que aperfeiçoaria instantaneamente qualquer composto. A fênix, que simboliza a vida, ressurreição e reencarnação, também representa esta etapa. Os primeiros cristãos consideravam a fênix uma criatura real e equiparavam sua canção com o Espírito Santo.

Então, que coisas DEVEM ocorrer alquimicamente no último livro?

  1. A fênix de alguma forma deve aparecer no livro final.

Convenientemente, já temos uma fênix na forma de Fawkes, embora não tenha certeza de qual papel ele desempenhará no livro final. No final de O Enigma do Príncipe, Harry ouve o Lamento da Fênix e se sente renovado quando sua dor começa a se dissipar:

“Em algum lugar na escuridão, uma fênix estava cantando de uma forma que Harry nunca tinha ouvido antes: um lamento ferido de terrível beleza. E ele sentiu, como havia sentido sobre a canção da fênix antes, que a música estava dentro dele, não fora. Foi sua própria dor que se transformou magicamente em música que ecoou pelos jardins e pelas janelas do castelo.” (EDP, págs. 614-15)

No entanto, Harry sente que Fawkes deixou Hogwarts para sempre.

Deitado ali, percebeu que o terreno estava silencioso. Fawkes tinha parado de cantar.

E ele sabia, sem saber como ele sabia, que a fênix tinha ido embora, tinha deixado Hogwarts para sempre, assim como Dumbledore tinha deixado a escola… tinha deixado Harry. (EDP, págs. 631-32)

Recentemente, uma teoria interessante surgiu em torno do Leaky. Essa teoria diz que o patrono de Harry mudará de um veado para uma fênix no decorrer do livro final. Isso faz muito sentido. Vimos que o patroni pode mudar quando o mago está sob grande tensão ou recebe um forte choque emocional. Por que não pode mudar quando uma pessoa endurece sua determinação de lutar até a morte? Ele não está mudado por dentro, assim como um bruxo deprimido ou chocado? Não acho que essa ideia seja muito absurda e pode muito bem acontecer. Outra ideia sobre Fawkes é o fato de que em Câmara Secreta e Ordem da Fênix, Fawkes chegou em cima da hora para salvar o dia de Voldemort. Talvez ele faça isso de novo. Fawkes é atraído pela lealdade a Dumbledore, e Harry afirmou em várias ocasiões que ele é leal a Dumbledore, chegando ao ponto de dizer a Rufus Scrimgeour que ele é “o homem de Dumbledore por completo”. Essa lealdade vai nos dois sentidos, no entanto. Dumbledore era tão ferozmente leal a Harry quanto Harry é a ele. Em O Enigma do Príncipe, quando Dumbledore pede a Harry para obter a memória Horcrux de Slughorn, Fineus Nigellus pergunta por que ele acha que Harry seria capaz de fazer melhor. Dumbledore responde: “Eu não esperava que você entendesse, Fineus”. (Ordem da Fênix, p. 372) Mais tarde, após a cena da caverna, Harry diz a Dumbledore para não se preocupar e que tudo ficará bem. Dumbledore se vira para Harry e diz: “Não estou preocupado, Harry, porque estou com você”. (EDP, p. 578) Fawkes pode pegar esse vínculo entre diretor e aluno e decidir ir para Harry.

  1. O Grande Casamento – a união do Rei Vermelho e da Rainha Branca.

É o casamento de mercúrio e enxofre, sol e lua, masculino e feminino, ouro e prata. E temos um casamento desses chegando: Gui Weasley, o Rei Vermelho, e Fleur Delacour, a bruxa parte-Veela da Escola de Beauxbatons, a Rainha Branca. Na mitologia grega, o deus do sol Apolo era chamado de “quebrador de maldições” ou “quebrador de juramentos”. Que apropriado que Gui fosse um quebrador de maldições para o Banco Gringotes e tivesse o cabelo da cor do fogo. Prata é a cor da lua, e Fleur é descrita como tendo cabelos loiros prateados, devido a sua ascendência Veela. Da união do rei e da rainha surge a Criança Simbólica, a Criança Hermafrodita do Sol e da Lua. Uma criança coroada ou vestida com mantos roxos significa Sal ou Pedra Filosofal. O nascimento de tal criança representaria uma nova ordem mundial, de paz e harmonia. Procure essa possibilidade no último livro!

Mas há outros Reis Vermelhos e Rainhas Brancas: Rony e Hermione e Tiago e Lílian. Ron e Hermione representam o Casal Brigante, da notória relutância do mercúrio e do enxofre em combinar quimicamente. Procure por Ron e Hermione para deixar suas diferenças de lado e finalmente se tornar um casal depois de seis livros de guerra e ciúmes quase constantes. No entanto, eu não acho que Ron e Hermione terão um filho, pelo menos não ainda. O filho de sua união será Harry como a quintessência, assim como ele é literalmente o filho simbólico de Tiago e Lílian. Harry, para o mundo bruxo, representa aquele que colocará o mundo em ordem e inaugurará a paz e a prosperidade que ele buscou por tanto tempo.

  1. A unidade das quatro casas.

Se Harry é a quintessência, então ele tem o poder de juntar todos os elementos em um. Uma vez unificados, eles terão uma chance muito maior de derrotar Voldemort. No entanto, os Sonserinos são um problema. A única maneira de eles se unirem sob uma bandeira é se Draco de alguma forma conseguir convencê-los; ele é seu líder de fato e eles o seguirão. O outro candidato é Slughorn. Ele pode ser um sonserino, mas é um homem decente que realmente lamenta sua parte na criação de Lord Voldemort. De qualquer forma, a Sonserina deve se juntar às outras casas. Só então o poder de Harry será suficiente para derrotar Voldemort.

  1. A iluminação de Harry.

Este é todo o propósito da série; isso tem que acontecer. Acredito que isso não acontecerá até perto do final do livro, e ocorrerá de uma só vez. Os alquimistas sempre afirmaram que a iluminação, se e quando vier, aconteceu de repente e rapidamente. Eles ficaram surpresos com a simplicidade da resposta a todas as suas perguntas. O mesmo será verdade com Harry. Quando finalmente chegar, ele ficará surpreso ao saber que este é o poder que ele tinha dentro dele o tempo todo, e ele o usará para derrotar Voldemort de uma vez por todas. Como citado anteriormente, a iluminação às vezes era experimentada como “como um segundo corpo de luz dourada coalescida, um veículo permanente de consciência que incorpora as mais altas aspirações e evolução da mente”.

Então, o que acontece após a transformação final? A resposta pode ser resumida em um pequeno parágrafo do The Chemical Arcana (O Arcano Químico):

Depois que a reação final termina, a única coisa que resta é uma solução fraca de ácido sulfúrico e uma variedade de compostos de sódio. Os alquimistas acreditavam que a Quintessência era um desses compostos de sódio, um “segundo corpo” de Natron, ou Natrão, formado durante o experimento. Esta quinta essência estava além dos Quatro Elementos e exibia uma durabilidade e permanência que faltavam aos outros elementos. Para os alquimistas, esses sais inertes representavam um corpo ressuscitado e incorruptível.

Infelizmente, isso parece implicar que Hagrid não viverá. Eu tenho procurado alto e baixo por evidências que digam sem dúvida que ele vai conseguir, mas até agora não encontrei nenhuma. Eu realmente espero estar errado, mas acredito que Hagrid vai morrer. Snape, por outro lado, vai conseguir, e por algumas razões:

  1. “A única coisa que resta é uma solução fraca de ácido sulfúrico…” Snape, como mencionado várias vezes, representa ácido sulfúrico e vitríolo.
  1. Snape é o catalisador. Em uma reação química, um catalisador é definido como:

* Substância, geralmente presente em pequenas quantidades em relação aos reagentes, que modifica e principalmente aumenta a velocidade de uma reação química sem ser consumida no processo;

* Aquele que precipita um processo ou evento, especialmente sem ser envolvido ou alterado pelas consequências. 37

O catalisador não é alterado nem destruído pela reação, embora os reagentes ao seu redor sejam. Acredito que Snape sobreviverá, mas sua personalidade não sofrerá nenhuma alteração drástica. Ele ainda será maldoso, amargo, mordaz e mesquinho com Harry, mas eles podem chegar a um entendimento e pelo menos não se odiarem. Dadas as circunstâncias, acredito que é o melhor que se pode esperar.

E os outros? Neste momento é difícil dizer sem mais pesquisas. Há alguma evidência de que Ron/Hermione ou Gui/Fleur não viverão, embora eu acredite que um dos Weasleys morrerá. Harry é outro assunto. Acredito que ele pode ter que se sacrificar para conseguir o ouro; no entanto, esse sacrifício pode ser simbólico e não literal. Se, como suspeito, o véu está envolvido, então isso é inteiramente possível. Lembre-se, também, que devemos ver Sirius novamente, porque o sal é o começo e o fim da Grande Obra. Acredito que Harry verá Sirius do outro lado do véu, e Sirius o ajudará a decidir se continua ou se volta. Se tivermos em mente, no entanto, que os sais inertes permanecem na solução de ácido sulfúrico como a quintessência, então Harry será “ressuscitado”; ele pode morrer simbolicamente e renascer em um estado iluminado de consciência.

O que Voldemort fará neste livro? Podemos apenas adivinhar, mas suspeito que entre tentar matar Harry ele pode estar ocupado tentando fazer sua própria Pedra Filosofal. A série começou com a Pedra e terminará com ela, na minha opinião, e pode ser aí que Lílian finalmente entra. Acredito que há muito mais nela do que nos disseram, e sua aptidão em Poções sugere seu possível conhecimento de alquimia. Há muitas evidências para sugerir que Voldemort também está familiarizado com tradições e princípios alquímicos, então teoricamente não há nada que o impeça de fazer uma Pedra Filosofal por conta própria. Se ele suspeitar que suas Horcruxes estão sendo destruídas, ele pode decidir pela Pedra como um plano alternativo.

Em Cálice de Fogo, Voldemort nos conta que a poção que o manteve vivo consistia em sangue de unicórnio e veneno de cobra. Esses dois ingredientes são, segundo Valentine, componentes da Pedra Filosofal. Mas faltam ingredientes-chave: sangue de dragão e algo da fênix. O leitor se lembrará da Parte II que sangue de dragão é outro nome para cinábrio ou sulfeto de mercúrio; é a matéria prima para criar a Pedra. Mas onde está? Em seis livros, ainda temos que ver, além de uma menção no primeiro livro sobre o cartão Sapo de Chocolate de Dumbledore. Parece que para Harry completar sua transformação, o sangue de dragão deveria estar envolvido no último livro. Isso pode acontecer de várias maneiras: de Slughorn, que tem um frasco empoeirado; ou de Charlie Weasley, que trabalha com dragões na Romênia. Seria fantástico, na minha opinião, se Harry adquirisse o sangue do dragão de ninguém menos que Norbert, o animal de estimação de Hagrid.

Na 12ª Chave de Valentim, ele menciona a fênix como sendo crucial para a conclusão do Elixir da Vida, mas não especifica exatamente qual parte da fênix é tão importante. Além disso, ele é bastante explícito sobre os perigos da 12ª Chave se for feito incorretamente. Em poucas palavras, o alquimista selou seu próprio destino. Mas como a fênix afetaria o desfecho da história? Há a questão das varinhas de Harry e Voldemort: ambas têm penas de cauda do próprio Fawkes. Assim, os destinos de Harry e Voldemort podem estar de alguma forma ligados à relação entre suas varinhas e Fawkes. Por outro lado, vimos na Câmara Secreta que as lágrimas de fênix têm poderes curativos; sem elas, Harry teria morrido então.

Então Voldemort estará muito ocupado neste livro! No entanto, todas as suas intrigas e planejamentos não darão em nada; Voldemort vai morrer. É a única conclusão lógica da série, e ele morrerá de tal forma que impossibilitará seu retorno. Vou deixar para a imaginação de Rowling como isso vai acontecer, mas não ficaria surpreso se uma combinação do poder de Harry como a quintessência e a música de Fawkes tivesse algo a ver com isso. Como a quintessência, Harry é incorruptível e puro de espírito; ele poderia invadir a mente e a alma de Voldemort e não sofrer nenhum dano a si mesmo. A canção da Fênix, como mencionado anteriormente, foi considerada como o Espírito Santo pelos primeiros cristãos, e infunde medo e terror nos corações dos indignos. Uma combinação dessas duas coisas pode causar a queda de Voldemort, e somente no final ele perceberá sua perda de humanidade e alma. Eu sinceramente espero que Tom Riddle, se não Lord Voldemort, tenha a chance de redenção, mesmo que ele escolha não aproveitá-la. Acredito que seria um final adequado para uma série que valoriza o amor, a amizade, a lealdade e o perdão.

JK Rowling deu a Harry uma tarefa aparentemente impossível. Para finalmente derrotar Voldemort, Harry deve embarcar em uma jornada de autodescoberta e autorrealização para alcançar uma perfeição que poucos alcançam. Seu sucesso depende de seu contínuo crescimento espiritual, emocional e psicológico; ele deve lembrar que precisa de seus amigos e, como quintessência, ele é o único que pode finalmente unir as quatro casas de Hogwarts em uma única frente na luta. Usando suas consideráveis ​​habilidades como bruxo e nutrindo seu poder interior de amor e perdão, Harry continuará a crescer e finalmente alcançará o ouro. No final, ele será a personificação viva da Pedra Filosofal, exatamente como Dumbledore pretendia. Ao tecer os fios da alquimia através dos romances, Rowling cria um mundo rico cheio de alegorias e simbolismos enquanto planta dicas de eventos futuros com tanta habilidade que não é de admirar que mal podemos esperar para colocar as mãos no próximo.

Figura 2: As Etapas da Alquimia e seus Símbolos, Planetas Regentes e Metais.

ESTÁGIO COR ELEMENTO SUBSTÂNCIA SÍMBOLOS PLANETA REGENTE METAL
Calcinação Magenta, vermelho-púrpura Fogo Dragão, sapo Saturno Chumbo
Dissolução Azul-claro Água Banheiras, fontes Júpiter Estanho
Separação Vermelho-alaranjado Ar Lobo, cachorro Marte Ferro
Conjunção Verde Terra Corvo negro, o Ovo de Griffin Vênus Cobre
Fermentação Turquesa Sal Pavão, Rei, esqueletos Mercúrio Mercúrio
Destilação Azul-escuro Mercúrio Lírio, Lua-Luna, Rainha, Pelicano, bezoar, fontes Lua Prata
Coagulação Violeta, púrpura Enxofre Fênix, Pulivs Solaris Vermelho, coroas Sol Ouro

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/alquimia-e-harry-potter-parte-ii/

A Fraternidade Rosacruz

A FRATERINIDADE ROSACRUZ – FRC (inglês, The Rosicrucian Fellowship)  foi fundada por Max Heindel entre 1909 e 1911, sua sede internacional está localizada em Mount Ecclesia, Oceanside, Califórnia (EUA); tem uma sede central e centros de estudo no Brasil e centros em Portugal. No Brasil, na cidade de São Paulo, além de uma Sede Central da Fraternidade Rosacruz, funciona também desde 1929 a Fraternidade Rosacruciana São Paulo, instituição independente, mas seguindo o modelo da escola de Max Heindel, destinada à exposição da mesma doutrina, fundada por Lourival Camargo Pereira. Não é uma dissidência, por ser mais antiga do que a filial brasileira da escola de Max Heindel, e também não mantém vínculos administrativos.

Não reivindica o título de “Ordem Rosacruz”. Considera-se apenas uma escola de exposição de suas doutrinas e de preparação para o indivíduo para ingresso em caminhos mais profundos na Ordem espiritual, sendo que a verdadeira Ordem Rosacruz funciona apenas nos mundos espirituais. Ao contrário da maioria das demais organizações rosacruzes, as escolas de Max Heindel se consideram indissociáveis do Cristianismo considerando-o como a única verdadeira religião universal e Cristo como o único salvador, daí ser mais propriamente chamada de Cristianismo Rosacruz, ou, por vezes, Cristianismo Esotérico. Outras organizações rosacruzes também se consideram cristãs, mas não com este ênfase.

A Fraternidade, edificada por Max Heindel como (suposto) arauto da Era de Aquário, realiza Serviço de Cura Espiritual e proporciona gratuitamente cursos por correspondência em Cristianismo Esotérico e Filosofia, Astrologia Espiritual e Interpretação da Bíblia; e os seus estudantes encontram-se por todo o mundo organizados em Centros e Grupos de Estudo.

Max Heindel

Diz-se que em 1908 o seu fundador, Max Heindel, teria sido escolhido e preparado pelos Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz, com o objetivo de revelar publicamente os preceitos da doutrina rosacruciana. Em Novembro de 1909, Max Heindel publicou o “Conceito Rosacruz do Cosmos” (que tem como subtítulo: “Tratado elementar sobre a evolução passada do homem, sua constituição atual e seu futuro desenvolvimento”), uma exposição da doutrina originalmente escrita em alemão e posteriormente traduzida para outros idiomas. Algum tempo depois, foram desenvolvidos em outros livros, conferências e lições.

A Fraternidade recomenda a seus membros sobriedade na comida, abstinência de carne, de bebidas alcoólicas, pratica de jejum, meditação, etc. Essa instituição funciona de forma gratuita, segundo o preceito: “dái de graça o que de graça recebeste”. Todas as suas despesas são custeadas com as dádivas voluntárias dos seus membros, que o possam e queiram fazer, e pelas daquelas pessoas que, não sendo membros, simpatizam com ela. Lema da missão R+C: Mente pura, coração nobre, corpo são.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/a-fraternidade-rosacruz/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/a-fraternidade-rosacruz/

7 dicas para reconquistar seu poder de atenção

Tamosauskas

Muitos cientistas modernos defendem que a atenção é algo que pode ser exercitados, entre eles Susan Blackmore, Albert Wojciech Adamkiewicz, Herman Boerhaave, Charles-Édouard Brown-Séquard, Johann Nepomuk Czermakh Wilhelm, Joganna Kintee, Octavio Stevaux, Heinrich Wilhelm Gottfried von Waldeyer-Hartz, Ryuta Kawashima, János Szentágothai, Louis Sokoloff, Samuel Thomas von Sömmerring, Félix Vicq-d’Azyr, Terrence J. Sejnowski e Heinrich Obersteiner.

Se você pulou a lista de nomes acima, por preguiça ou praticidade não se preocupe, você é um ser humano normal. A todo tempo tentamos otimizar nossos recursos cognitivos e isso é ótimo. O problema é que o excesso de atalhos do mundo moderno está causando um dano em nossa espécie. De acordo com testes em massa feitos pela Microsoft em 2015 o tempo médio de atenção do ser humano é hoje de oito segundos, enquanto que o de um peixinho dourado é de nove segundos. Esse valor é ainda menor que o de pesquisas nos anos 90, que ja eram menores do que o de pesquisas anteriores. A conclusão da gigante de tecnologia é que é uma redução do nosso poder de concentração é um dos efeitos da revolução da internet móvel.

O poder de atenção pode ser um diferencial no mundo moderno. Confira abaixo algumas praticas tradicionais e/ou científicas que poderão fazer de você o peixinho mais poderoso do aquário.

1. Use sua rotina para aumentar seu foco

Se você leu até aqui, parabéns! Seu foco não é tão horrível quanto poderia ser. No entanto, o caminho para recuperar o controle de sua atenção é longo. Estudos demonstraram que, para reconstruir o músculo da atenção, é melhor dividir o dia de trabalho em partes administráveis, com intervalos regulares entre elas.

Depois de analisar 5,5 milhões de registros diários de como os funcionários de escritório estão usando seus computadores (com base no que os usuários identificaram como trabalho “produtivo”), a equipe da DeskTime descobriu que os 10 por cento dos trabalhadores produtivos trabalharam em média 52 minutos antes de fazer uma pausa de 17 minutos. Se 52 minutos soa como uma maratona para você tente a Técnica Pomodoro, comece devagar com 20 minutos focados, cinco minutos desligados e vá aumentando.

2. Crie uma lista de “não-fazer”

As distrações estão por toda parte em nosso mundo. Na rua, no trabalho ou em casa. Os pesquisadores descobriram que depois de perder o foco levamos até 25 minutos para recupera-lo. Uma solução fácil é criar uma lista de “não-fazer”: sempre que sentir vontade de verificar o Facebook ou o Twitter ou seguir qualquer outro pensamento aleatório que vier à sua cabeça, escreva-o. O ato de simplesmente transferir esse pensamento da mente para o papel permite que você mantenha o foco na tarefa em questão.

3. Leia livros longos sem pressa

De acordo com uma pesquisa do Pew Research Center , a leitura de conteúdo online aumentou quase 40%. Mesmo assim, 26% dos americanos não leram um único livro no ano passado. Ler apenas  conteúdos curtos está acabando com nossa capacidade de enfocar e treinar nossas mentes para buscar apenas respostas rápidas, em vez de explorar conceitos complexos. Não leve sua ânsia de produtividade para sua leitura de lazer. Pegue um clássico e experimente.

4. Como nossos pais

Não se engane, o declínio da capacidade de atenção é apenas um problema dos dias modernos. Em 1959, Mouni Sadhu, abismado com a desvantagem dos ocidentais em termos de atenção, escreveu um poderoso livro chamado Concentration com várias práticas para recuperar esse talento perdido. (Os poderes ocultos que essas práticas dizem despertar são um bônus). Cinquenta anos antes, em 1900, Theron Q. Dumont publicou um livro chamado The Power of Concentration também destacou uma série de práticas para desenvolver sua capacidade de atenção. Aqui estão algumas delas :

  • Sente-se quieto em uma cadeira por 15 minutos

  • Concentre-se em abrir e fechar lentamente os punhos por cinco minutos

  • Siga o ponteiro dos segundos de um relógio por cinco minutos

Eles podem parecer um pouco malucos, e desafiadores, mas são uma boa forma de medir a evolução de seu poder de foco.

5. Traga mais atenção ao seu dia

Atenção Plena (Mindfullness) está na moda e por um bom motivo: Pesquisadores da Universidade de Washington mostraram que apenas 10 a 20 minutos de meditação por dia podem ajudar a melhorar seu foco e estender sua capacidade de atenção. Além do mais, você verá melhorias em sua atenção após apenas quatro dias. Existem muitos apps hoje que se propõem a dar a mão os iniciantes e ajudá-los a dar seus primeiros passos.

6. Adicione exercícios físicos à sua rotina de exercícios de atenção

Malhar não é bom apenas para o corpo. Os pesquisadores descobriram que adicionar exercícios físicos à sua rotina ajuda a desenvolver a capacidade do cérebro de ignorar distrações. Em um estudo, os alunos que se envolveram apenas em exercícios físicos moderados antes de fazer um teste que mediu sua capacidade de atenção tiveram um desempenho melhor do que os alunos que não se exercitaram.

7. Pratique a escuta ativa

Se há um lugar em que nossa atenção limitada é incrivelmente perceptível, é quando estamos conversando com outras pessoas. Em vez de deixar a mente divagar enquanto o outro fale, pratique a escuta atenta , não interrompendo, recapitulando o que a outra pessoa disse regularmente e usando palavras de ligação como “OK”, “Entendi” e “Sim” para permanecer envolvido e mostrar que você está ouvindo. Essa prática não apenas fará bem para sua capacidade de atenção, mas também para seus relacionamentos.

* Conheça também o Principia Alchimica, um manual simples e prático dos principais conceitos da alquimia.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/7-dicas-para-reconquistar-seu-poder-de-atencao/

A Evolução da Bíblia: da boca de Deus até as cabeceiras dos motéis

Nota desta segunda edição, corrigida e ampliada.

O objetivo desta revisão foi o de deixar o texto mais completo. Corrigir erros. Deixar a leitura mais fluída. O texto que você tem em mãos nasceu de um projeto desenvolvido pela Morte Súbita Inc. em parceria com o Jesus Freak para se criar um texto que desenvolvesse não apenas a história da Bíblia de sua origem aos dias de hoje, mas uma pesquisa com bases em achados arqueológicos e estudos modernos sobre como ela se desenvolveu através da história.

Para dar corpo a este texto resolvemos criar uma forma diferente de organizar os tópicos a serem pesquisados e desenvolvidos. No ano de 2008 pegamos crianças de escolas religiosas e deixamos que elas fizessem perguntas sobre a Bíblia, que pudessem matar a curiosidade que tivessem sobre determinados assuntos. Então organizamos as perguntas e fomos respondendo.

O texto acabou ficando longo e foi colocado no ar assim que as perguntas haviam sido respondidas, mas algumas informações acabaram ficando de fora, então o organizador deste texto resolveu acrescentar alguns dados. Além disso por ter sido originado de perguntas feitas por pessoas diferentes, num processo aleatório o texto acabou ficando meio “truncado” quando se passava de um tópico para o outro, surgiu então a idéia de tentar, mudando a ordem de algumas perguntas e rearrumando a informação das respostas, dar um pouco mais de ritmo para sua leitura.

Depois de algumas reuniões os membros do projeto acharam interessante também expor a forma como o texto foi formado nem que fosse apenas como um adendo divertido, mas com o tempo perceberam que as curiosidades das crianças eram interessantes pois mostravam que muitas questões que pessoas podem ter já em idade adulta são as mesmas que surgem em suas mentes quando ainda são crianças e seja por falta de material de pesquisa, de liberdade em casa, na escola ou no templo/igreja que frequenta, seja por pura preguiça de ir atrás de uma resposta permanecem por anos. É engraçado notar como a “inocência” da infância vira a “ignorância” adulta. Assim as perguntas, que no dia em que foram sendo feitas já eram respondidas, foram aqui reorganizadas e o texto adaptado a elas de forma a não ficar repetitivo ou com assuntos parecendo apenas soltos. Assim a entrevista original foi, com alguma liberdade, refeita aqui mas mantendo o espírito das questões originais.

E por fim, o texto foi montado em blocos separados e reunidos alguns foram revisados, outros não, então aproveitamos para revisar e corrigir vários dos erros que passaram desapercebidos na primeira edição deste texto. Se você já o leu e desejar relê-lo encontrará novas informações e um formato um pouco diferente das que já existiam. Se está lendo a primeira vez então tem a sorte de já ter em mãos um texto melhorado e mais amplo em suas respostas.

Introdução

Por séculos, a Bíblia tem sido, no ocidente, a autoridade máxima sobre diversos assuntos. A Palavra Divina capturada em papel, a vontade de Deus nua e crua. Argumente com algum religioso abrahâmico[1] que a Bíblia pode ter sido um bom livro, mas que mexeram tanto nela que do original só resta o nome e você consegue presenciar uma experiência em miniatura da formação de tornados bem na sua frente.

De fato, argumentar qualquer coisa sobre o que foi feito ou não com a Bíblia acaba se tornando um exercício de especulação ou simplesmente do bom e velho cinismo. De um lado uns a defendem com unhas e dentes, de outro atiram paus e pedras sem mirar nem ver onde acertam. Para ambos os lados a conversa se torna um simples ato de gritar e se fazer ouvir e ambos saem tão convencidos de suas certezas quanto quando começaram.

Então ao invés de assumir qualquer um dos lados – “sim, é possível uma entidade supra humana inspirar outros de forma que registrem suas impressões em papel” ou “grande parte do que existe na Bíblia não passava de folclore, poesia e leis de uma época, que foram divinizadas como forma de se controlar um povo” – vamos simplesmente fazer uma listagem de fatos sobre ela para nos entreter e nos ajudar a tirar nossas conclusões.

Antes de mais nada é importante deixar claro que a própria Bíblia, historicamente, teve um propósito muito diferente do que tem hoje em dia. Quando foi criada, seu objetivo era o de garantir que o povo fosse fiel a Deus e a si mesmo. Nos primórdios das formações de nações ou sociedades era muito dificil que um mesmo povo tivesse um mesmo consenso sobre um único assunto e a inexistência de “universidades” ou centros de estudo oficiais sobre um determinado assunto acabava criando muito disse que disse e visões pessoais sobre este assunto. E dai surge a vontade desse povo espalhado de ter a certeza não apenas de estar adorando ou sendo gratos a Deus da maneira correta, mas de também terem a mesma visão sobre Deus. Deus teria sido o responsável por tudo o que existia? Havia algo antes de Deus? Deus era Pai, Mãe ou ambos ou nenhum? Se aquele era o povo escolhido porque tanta perseguição e miséria? Deus era o responsável pelas coisas boas e más? O que esperar d’Ele? Para responder a isso começaram a ser reunidos pedaços de textos, tradições orais, histórias sobre o povo e então foram organizados e colocados em pergaminhos e tábuas, não como forma de instituir uma palavra de Deus, mas apenas como uma tentativa individual de estarem sendo fiéis à própria crença. E assim ocorre o nascimento deste livro que até hoje tem grande influência sobre o mundo, seja positivo ou negativo, não como uma rótulo mas como uma preocupação de que essa fidelidade fosse transmitida a outros e a futuras gerações. Apenas eras após seu surgimento o povo encontrou nela a expressão da vontade e a presença real de uma Palavra Santa.

Não podemos negar a influência que esse poder descoberto com o tempo deu para aqueles que foram proclamados ou se proclamaram a si mesmos os herdeiros do direito de interpretar o seu conteúdo. Mas o objetivo deste texto não é apontar dedos ou simplesmente mostrar como um registro de uma vontade se tornou uma ferramenta e sim acompanhar o desenvolvimento do livro baseado em fatos concretos que temos à disposição hoje em mãos.

Como este texto foi organizado? Foram reunidas 17 crianças com idades entre 8 e 14 anos, frequentadoras de colégios religiosos, católicos e protestantes, e a cada uma foi dada a oportunidade de escrever em uma folha de papel 3 perguntas que teriam sobre a Bíblia. Estas perguntas então foram organizadas de forma cronológica, algumas foram mudadas levemente de forma a terem uma resposta mais ampla e outras ainda foram fundidas pois eram perguntas semelhantes feitas apenas utilizandon-se palavras diferentes. O resultado desta entrevista é o texto que se segue.

1- O que é a Bíblia

Bíblia (do grego βίβλια, plural de βίβλιον, transl. bíblion, “rolo” ou “livro”) é o texto religioso central do judaísmo e do cristianismo.

2- A Bíblia sempre foi a Bíblia? Ela é o livro mais antigo do mundo?

Respondendo a primeira questão:

Na verdade não. No início era conhecida como Tanakh ou Tanach (em hebraico תנ״ך), pelos Judeus. O seu conteúdo é equivalente ao do Antigo Testamento, mas seus textos estão organizados de forma diferente e são apresentados em outra ordem.

O nome Tanakh é formado pelas sílabas iniciais dos três livros que a formam:

– A Torá (תורה), também chamado חומש (Chumash, isto é “Os cinco”) refere-se aos cinco livros conhecidos como Pentateuco, o mais importante dos livros do judaísmo.

– Neviim (נביאים) “Profetas”

– Kethuvim (כתובים) “os Escritos”

O Tanach é às vezes chamado de Mikrá (מקרא)

É importante ter em mente que a Bíblia como existe hoje é um livro cristão, ou seja, surgiu como algo que avoluiu do judaísmo. O ponto mais importante disso é que para o judaísmo os textos sagrados são aqueles que ficaram conhecidos para os não judeus como o Antigo Testamento. O Novo Testamento é uma coleção de textos, ou livros, exclusivamente cristãos, surgiram depois do advento do cristianismo. Muitos estudiosos e religiosos hoje inclusive estão trocando os termos Antigo e Novo Testamento por Primeiro e Segundo Testamento para não tornar irrelevante ou ultrapassado os textos judaicos, que fazem parte da primeira parte da Bíblia. Com o tempo o cristianismo, na sua vontade de se tornar uma religião independente do judaísmo, acabou atacando suas raízes se tornando muitas vezes anti-semita e este é um sentimento que aos poucos alguns cristãos vem tentando corrigir.

Quanto à segunda questão podemos dividí-la em duas para responder melhor:

2.1 A Bíblia é o livro mais antigo existente?

e

2.2 A Bíblia é o livro religioso mais antigo existente?

Em ambos os casos a resposta é não. O livro mais antigo que se tem notícias hoje é o I-Ching. Apesar das várias lendas que circulam a respeito de sua criação em algum momento da antiguidade os trigramas e hexagramas que formaram o seu conteúdo foram compilados tábuas de bambu entre os anos 3000 e 2000 antes da era Cristã (a.C. ou a.e.C.).

No caso de o livro religioso mais antigo ou mesmo o texto religioso mais antigo temos que ter em mente que o Judaísmo, a religião que começou a compilar e escrever os primeiros textos da Bíblia, não é a religião mais antiga, desde os primóridos da raça humana as pessoas tinham religiões, as mais antigas sendo classificadas como xamanismo, mas mesmo as mais modernas como o zoroastrismo ou o hinduísmo são bem mais antigas e já tinham seus textos sagrados respectivos.

3- E a Tanakh sempre foi a Tanakh? Ela é a versão mais antiga da Bíblia?

O nome Tanakh, ou seja a divisão refletida pelo acrônimo Tanakh está registrada em documentos do período do Segundo Templo (515 a.C. a 70 depois da era Cristã, ou d.C.) e na literatura rabínica (A Mishná e a Tosefta – compiladas a partir de materiais anteriores ao ano 200 d.C. – são as primeiras obras existentes da literatura rabínica, e a literatura rabínica já era desenvolvida por rabinos, ou seja por líderes religiosos, portanto o judaísmo já existia como religião estabelecida nesta época). Durante aquele período, entretando, o acrônimo Tanakh não era usado, sendo que o termo apropriado era Mikra (“Leitura”). Este termo continua sendo usado em nossos dias, junto com Tanakh, em referência as escrituras hebraicas.

No hebraico moderno, o uso do termo Mikra dá um tom mais formal do que o termo Tanakh.

De acordo com a tradição judaica, o Tanakh consiste de vinte e quatro livros. A Torah possui cinco livros, o Nevi’im oito livros e o Ketuvim onze.

Então o registro mais antigo dos textos já organizados na forma que temos hoje no Antigo Testamento data do século VI a.C.

4 – Mas espere ai. A Bíblia não vem desde a antiguidade? Mesmo não sendo o livro mais antigo ela não tem milhares e milhares de anos de idade?

Então, ai as coisas começam a ficam interessantes. Quando falamos da Bíblia temos que separar a tradição oral e o documento escrito. A tradição oral judaica é muito antiga, mas no que diz respeito a material sólido existente, letras registradas no papel (ou pergaminho ou papiro ou metal) o que temos é um pouco mais recente.

Para entender vamos recorrer à tradição que cerca a Bíblia. A primeira pessoa que supostamente começou a colocar o texto no papel. De acordo com a própria Bíblia, foi Moisés. Mas muita coisa que está escrita nela aconteceu muito antes de Moisés, e ai já temos o primeiro impacto que a tradição oral tem no texto. Muita coisa lá foi passada de pessoa para pessoa, algumas provavelmente já escritas e registradas, mas tudo foi juntado e compilado depois de Moisés.

O primeiro registro bíblico da passagem de uma tradição oral para uma escrita, ou seja a primeira vez que a própria Bíblia cita a escrita da tradição do povo, surge no livro do Êxodo quando Deus diz para Moisés que se prepare para receber “as tábuas de pedra, a lei e os mandamentos que escrevi para os ensinar” (Ex 24:12). Então antes da lei e dos mandamentos de Deus não havia um livro religioso oficial dos Judeus. E mesmo assim na Torá fica claro que não estão presentes todos os comandos e leis de Deus, ou seja muito da tradiçào oral não foi registrada como um texto sagrado. Um exemplo claro é o Shabat. Apesar de estar presente nos Dez Mandamento – tradição escrita – não existem detalhes de como fazer isso. Deus fala a Moisés que guarde o Shabat: “Santificai o dia de sábado, como ordenei a vossos pais” (Jeremias 17:22), mas não existe um relato dessas ordenanças, pelos textos contidos na Bíblia não existem as instruções de como guardar o sábado, mais para frente no texto existem amostras do que se podia fazer ou não, mas quando o texto foi registrado apenas se guardou o “santificar o sábado”. Outro exemplo está em Deuteronômio quando Deus diz para Moisés que “poderás degolar do teu gado e do teu rebanho … como te ordenei” (Deuteronomio 12:21) mas não existe um registro escrito na própria Bíblia que explique de que maneira isto deveria ser feito.

Assim vamos que mesmo que tenha surgido um registro escrito das leis muita coisa ficou de fora dele ainda, era uma tradição oral que foi mantida até muito depois.

E essa ausência de registros faz parte da cultura religiosa, como já afirmou o Rabino Aryeh Kaplan, “Visto que a Torá Escrita mostra-se primariamente incompleta a menos que complementada pela tradição oral…”.

Assim vemos que mesmo com a escrita a tradição oral sempre foi muito forte, e permanece assim até hoje.

5 – Mas não foi Moisés que escreveu a Torá? Essa parte não é tão antiga quanto ele? Qual o texto mais antigo da Tanakh?

De acordo com os cálculos de Jerónimo de Stridon, Moisés teria vivido entre 1592 a.C. e 1472 a.C., então se foi ele mesmo que escreveu a Torá ela teria que datar desta época. Mas embora a tradição reze que o pentateuco, os cinco livros de Moisés (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) sejam os livros mais antigos, como evidência, o pedaço de documento mais antigo encontrado até hoje datam de 100 a.C.

Em 1947 foram encontrados em uma caverna de Q’umran os textos bíblicos mais antigos. O livro bíblico mais antigo que se tem notícias hoje de existir é o Livro de Isaías, um rolo de pergaminho de 7 metros datado do ano 100 a.C.. O Livro de Isaías, com mais de dois mil anos de idade, é uma prova única da autenticidade da tradição da Sagrada Escritura, pois o seu texto concorda com a redação das Bíblias atuais.

Ou trocando a ordem, o Livro de Isaías que temos hoje nas Bíblias é o mesmo que usavam em 100 a.C.

Antes desta descoberta os manuscritos mais antigos existentes datavam principalmente do século III e IV.

Além deste, o documento mais antigo com um trecho apenas da Bíblia é uma passagem de um dos livros de Samuel, escrito em torno de 225 a.C. então como evidência real o trecho bíblico mais antigo nos chegou direto do século III a.C. e o livro bíblico mais antigo do século I a.C.

Agora isso não significa que esses textos tenham surgido nessa época. As descobertas de Q’umran mostram bem que um documento existente não prova que tenha sido o primeiro, graças ao manuscritos encontrados vimos que documentos com mais de 700 anos de idade surgiram daqueles que eram os textos mais antigos. Pergaminhos podem ser resistentes mas eles se perdem e assim evidências valiosas dos txtos se perdem com eles. E isto pode ser um problema.

Já que os textos em parte se baseavam em uma tradição oral, como podemos ter certeza de que o que foi registrado era ainda uma descrição fiel dos ocorridos, ou uma cópia exata dos fatos?

Antes de mais nada vamos imaginar que os escritores originais acreditavam em Deus e acreditavam que estavam registrando a Sua Vontade e a história de Seu povo. Imaginem o zelo de uma pessoa que deseja registrar um texto que está chegando a ela diretamente do criador. E mais, ela ainda tem o peso de ter que passar isso de forma que não existam erros ou dúvidas para as gerações presentes e futuras. Voltando para a Torá esse zelo aparece na passagem em que antes de morrer Moisés revisa a tradição passada por Deus que não havia sido registrada para esclarecer qualquer ponto que pudesse dar margens à dúvida ou interpretação: “Além do Jordão, na terra de Moab, começou Moisés a explicar esta Lei” (Deuteronômio 1:5). Mas veja que não existem registros ainda destas explicações, a preocupação não era registrar, mas passar adiante.

Ainda existe outro ponto interessante que é a resistência do próprio Deus de se registrar tudo o que se passasse. Sem querer ser leviano, era algo como: Passei os registros que impostavam ser registrados, agora obedeçam, não percam tempo escrevendo qualquer coisa que Eu diga!

Em Eclesiastes 12:12 lemos: “Escuta ainda, filho meu: escrever livros é tarefa sem fim, e muito estudo esgota a carne”. Ou em Oséias 8:12: “Se tivesse escrito a maioria de minha Torá, [Israel] seria contado igual a estranhos”, onde vemos a tradição como algo que deveria permanecer dentre o povo e não ser acessível ou passada para estranhos.

Assim temos uma relutância entre começar um registro da Vontade Divina, gravando-a para o futuro. Mas esse registro aconteceu, ao menos em parte. Para ver qual o impacto disso na acuidade do registro vamos fazer um exercício: imagine que Deus passou uma importante lei para o seu bisavô, que por sua vez a passou para seu pai, seu pai para você e você decide registrá-la para que não se perca. Você tem como saber que está registrando exatamente o que foi passado para seu antepassado não tão distante?

Claro que podemos afirmar que se algo é repetido diariamente ele permanece íntegro. Mas temos casos quotidianos que mostram que não é bem assim que a coisa funciona. Uma expressão muito conhecida hoje é “cor de burro quando foge”, mas ela acaba sendo aplicada em inúmeras situações que implicariam significados diversos. Estudando a origem da frase vemos que ela não se referia a uma mudança na coloração do asinino quando ele bate em retirada, e sim a um ditado que originalmente era: “corro de burro quando foge”. Um burro é um animal dócil, quando ele se irrita e sai correndo se torna um animal perigoso, a expressão significaria algo como: “quando a situação fica preta eu não perco tempo: dou no pé!”.

Vemos ai um caso de tradição oral que perde o sentido com o tempo e o uso. Um exemplo de outra tradição oral que não perde o sentido simplesmente mas muda de sentido completamente quando registrada é a famosa: “Quem tem boca, vai a Roma”. Se consultarmos o Dicionário de Máximas, Adágios e Provérbios, de Jayme Rebelo Hespanha (1936), a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (1948), o Grande Dicionário da Língua Portuguesa de António de Morais Silva (1949 a 1959), o Livro dos Provérbios Portugueses, da Editorial Presença (1999) e Dicionário de Provérbios, Adágios, Ditados, Máximas, Aforismos e Frases Feitas, da Porto Editora (2000) podemos atestar que este provérbio está registrado há muito tempo já, desde 1936 pelo menos, e que ainda existem variantes dele: «Quem tem língua vai a Roma»; «Quem língua tem a Roma vai e de Roma vem»; «Quem tem língua a Roma vai e vem».

Em cima disso existem estudos sobre o significado dele, como por exemplo:

” A frase «Quem tem boca vai a Roma» traduz a notoriedade da Cidade Eterna, mas também a verdade de que quem sabe perguntar consegue chegar seja onde for (literal e figuradamente), consegue obter os conhecimentos de que precisa para se orientar. As palavras-chave aqui são três: boca, vai e Roma. A boca significa a capacidade de falar, de perguntar, de comunicar; o verbo ir tem que ver com o percurso, a caminhada, significando passar de um lugar a outro, deslocar-se, mas também evoluir, progredir; Roma fora, aquando do Império Romano, a capital, a cidade mais importante do mundo conhecido dos europeus, mas uma cidade que ficava longe, sob o ponto de vista dos mais remotos territórios que constituíam o vasto império, e, por outro lado, esta é a cidade cabeça da Igreja Católica, traduz a própria Igreja, o seu governo, o papado, significando para os católicos o que de melhor existe e que se procura alcançar. Chegar a Roma poderá ser difícil, mas quem tem a capacidade de falar ultrapassará os obstáculos e alcançará o que pretende: conseguirá chegar longe, até conseguirá chegar a Roma.

Roma entrou no adagiário por causa da sua importância, do seu valor, do seu mérito, e não por aspectos negativos: «Roma locuta est» (= «Roma falou»: se Roma falou, o que ela disse deve ser seguido pelos católicos); «Roma locuta, causa finita» (= «Roma falou, a causa acabou»); «Roma e Pavia não se fizeram num dia»; «Em Roma, sê romano»; «Todos os caminhos vão dar a Roma», «O que vai aqui não vai em Roma».”

Agora se passarmos algum tempo lendo livros protestantes encontramos uma versão diferente deste adágio dizendo: Quem tem boca vaia (do verbo vaiar) Roma. Vamos nos lembrar agora que os protestantes se tornaram protestantes por protestar contra a Santa Sé Católica, personificada por Roma, como vimos no estudo acima. A origem do adágio não tinha como objetivo mostrar que com vontade chegamos ou conseguimos o que quisermos mas como crítica contra a corrupção do Clero.

Existe algum debate sobre qual o adágio original, mas isso serve apenas para mostrar como a tradição oral pode sofrer mutações nos significados de seus ensinamentos e como depois de registrados eles se tornam uma base que pode ser falha. Imagine que existisse no Novo Testamento uma passagem dizendo como Jesus, durante a Santa Ceia havia dito aos apóstolos que quem tem boca vai a Roma. E imagine que recentemente se encontrasse um pergaminho datado do século I com a mesma passagem contendo a variante “vaia Roma”. Como poderíamos ter certeza do que o Messias disse naquela noite?

Claro que nesses dois casos podemos dizer que são expressões populares que não podem ser comparadas a um ensinamento religioso passado por Deus aos Homens, mas podemos ver um outro caso onde algo semelhante ocorre.

Elvis Aaron Presley foi um homem admirado por muitos, em alguns casos essa admiração beirava a histeria e a mania. Ele nasceu em 1935 e morreu em 1977, mas se tornou febre só após os anos 1950 quando começa a sua carreira profissional.

O interessante de pensarmos em Elvis, é que este período em que virou uma febra cheio de fãs é bem recente, dos anos 1950 para os dias de hoje não transcorreram nem 60 anos. E em parte deste período ele esteve vivo ainda. No auge de sua carreira as pessoas desejavam por cada detalhe sobre sua vida que pudessem por as mãos e assim a mídia supria essas pessoas com tudo que pudesse imaginar, relatos de conhecidos e do próprio Elvis, entrevistas registradas, filmes, etc… Uma das manias de Elvis que ficou registrada era seu gosto por um sanduíche que ficou conhecido como Sanduíche de Elvis. É raro encontrar um fã que não tenha ouvido falar dele e muitos já o experimentaram, mas ai existe um problema interessante: não existe uma receita oficial aceita. As maiores biografias do Rei registram essa iguaria, dando também a receita, mas as receitas são diferentes.

O sanduíche era simples, Elvis morreu há pouco mais de 30 anos, três décadas, haviam cozinheiros, amigos, familiares, mas parece que cada um se lembra do sanduíche de maneira diferente. Alguns diziam que consistia de pão de forma, bananas fritas, manteiga de amendoim e bacon. Outros que não havia bacon, existem aqueles que dizem que havia sorvete, outros geléia.

Isto pode parecer uma comparação boba, mas não é. Se em três décadas uma simples receita de sanduíche se perde, por ficar apenas no boca a boca, imagine textos passados por Deus que ficaram no boca a boca por séculos antes de serem registrados?

Um último exemplo é talvez mais simples. Pare agora para cantar o hino nacional do Brasil. Então escreva numa folha de papel. Depois pare 5 pessoas na rua, de forma aleatória e peça para elas cantarem, anote a letra ou grave, e depois compare com a sua, veja se o hino que é cantado em escolas, jogos de futebol e pronunciamentos da república é passado oralmente da mesma forma por todas as pessoas.

Então embora a tradição oral seja tão antiga quanto um povo, essa tradição pode muitas vezes mudar desde quando foi formulada e repassada a primeira vez até finalmente ser registrada.

Portanto mesmo que Moisés tenha começado a registrar os textos da Bíblia não temos como saber o quanto eles se aproximam da tradição original que os criou. Assim temos que nos ater ainda aos textos mais antigos encontrados e compará-los com os textos que temos hoje para se ter uma idéia de a quanto tempo um texto como o que temos hoje é usado.

6 – Deixando a tradição oral de lado então, quando foi que os textos que compõe a Tanakh foram escritos originalmente?

Como vimos, a Tanakh é composta por três divisões: Torá, Neviim e Kethuvim.

A tradição judaica mais antiga defende que a Torá existe desde antes da criação do mundo e foi usada como um plano mestre do Criador para construir o mundo a humanidade e principalmente o povo judeu. No entanto, a Torá como conhecemos teria sido entregue por Deus a Moisés (que como vimos teria vivido entre 1592 a.C. e 1472 a.C.), quando o povo de Israel, após sair do cativeiro no Egito, peregrinou em direção à terra de Canaã.

Então aqui, culturalmente, teríamos uma primeira data. Apesar do mundo – de acordo com a Bíblia – ter sido criado milênios antes do cativeiro – precisamente 6000 antes de Cristo, de acordo com a tradição da época – ela teria sida recebida pelos humanos através de Moisés. Então – culturalmente – até o livro do Êxodo a Tanakh não circulava por ai. Portanto a Bíblia mais antiga, ainda culturalmente falando, deveria datar do séc. XVI a.C. A ênfase no culturalmente é: de acordo com o senso comum esta seria uma data, apesar da falta de evidências físicas para provar ou desmentir essa data.

Então, existem os que defendem que , ainda que a essência da Torá tenha sido trazida por Moisés, a compilação do texto final foi executada por outras pessoas, já que os textos tratam de assuntos que incluem a morte do próprio Moisés, tornando difícil para ele escrever sobre isso.

De acordo com Jan Astruc, pioneiro na sistematização do estudo do desenvolvimento da Torá, a mesma é constituída por três fontes básicas, denominadas jeovista, eloísta e código sacerdotal, e mais algumas outras fontes além destas três. Deixando claro que, quando se fala destas fontes, ele não se refere a autores isolados mas sim a escolas literárias.

Um estudo sobre a história do antigo povo de Israel mostra que, apesar de tudo, não havia uma unidade de doutrina e desconhecia-se uma lei escrita até os dias de Josias (16º rei de Judá, reinou durante o período de 640 a.C. a 609 a.C.). As fontes jeovista e eloísta teriam sua forma plenamente desenvolvida no período dos reinos divididos entre Judá e Israel (onde surgiria também a versão conhecida como Pentateuco Samaritano). O livro de Deuteronômio só viria a surgir no reinado de Josias (621 a.C.). A Torá como conhecemos viria a ser terminada nos tempos de Esdras, onde as diversas versões seriam finalmente fundidas. Vemos então o início de práticas que eram desconhecidas da maioria dos antigos israelitas, e que só seriam aceitas como mandamentos na época do Segundo Templo (de 515 a.C. a 70 d.C.) como a Brit milá, Pessach e Sucót por exemplo.

Então datar a Tanakh se torna complicado, pois apesar de ter condições de existir desde o século XVI a.C. – a época de Moisés – culturalmente o povo Judeu só teria condições de ter o livro nas mãos da forma que temos hoje depois do século VI a.C.

7 – E quando juntaram todos esses textos em um único volume?

Aproximadamente no século VI d.C. um grupo de escribas judeus recebeu a missão de reunir os textos inspirados por Deus que eram utilizados pela comunidade hebraica em um único escrito. Este grupo foi batizado de Escola de Massorá – o termo “massorá” provém do hebraico “mesorah” (מסורה ou מסורת) e indica “tradição”.

Os “massoretas” escreveram a Bíblia de Massorá, examinando e comparando todos os manuscritos bíblicos conhecidos à época. O resultado deste trabalho ficou conhecido posteriormente como o “Texto Massorético”.

Então na nossa linha do tempo a versão original do texto do Antigo Testamento da Bíblia, a Tanakh, se conclui finalmente no século VI d.C. 2200 anos depois de Moisés, aproximadamente.

8 – E então a Tanakh virou a Bíblia? O Antigo Testamento só ficou pronto depois de Cristo, depois do Novo Testamento?

Não, nada disso. O Texto Massorético foi extremamente importante porque deu uma unidade que não existia ainda nos textos judaicos. Apesar de ter sido escrito e compilado apenas no século VI, haviam já outras versões do Antigo Testamento circulando e muitas pessoas dão a elas mais importância do que a do Texto Massorético.

As outras versões existentes antes eram o Pentateuco Samaritano, que vimos lá atrás, e a Septuaginta.

9 – Preciso perguntar?

Não, não precisa.

O Pentateuco samaritano ou Torá samaritana é o nome que se dá à Torá usada pelos judeus samaritanos.

Os Samaritanos são um pequeno grupo étnico-religioso aparentado aos judeus que habita nas cidades de Holon e Nablus situadas em Israel e na Cisjordânia respectivamente. Designam-se a si próprios como Shamerim o que significa “os observantes” (da Lei). Os samaritanos recusam o restante dos livros do Tanakh, aceitando apenas sua Torá como livro inspirado.

O Pentateuco samaritano está escrito no alfabeto Samaritano, que é diferente do hebraico e era a forma de escrita usada antes do cativeiro babilônico (cerca de 597-586 a.C). Além da linguagem diferente existem outras discrepâncias entre o Texto Massorético e a Torá Samaritana. Um exemplo é que na versão Samaritanda dos 10 mandamentos Deus comanda o povo que construa o altar no Monte Gerizim.

Agora temos que ter em mente que o Pentateuco Samaritano ficou conhecido mundialmente quando Pietro della Valle trouxe de Damasco em 1616 uma cópia do texto.

Mesmo assim essa versão do Texto Samaritano não é absoluta. Em Q’umran foram encontrados fragmentos de textos da Torá que combinam com o Texto Massorético e são diferentes do texto samaritano, como por exemplo não trazer nenhuma referência ao Monte Gerizim. Ou seja existem diferentes versões deste texto.

Já a Versão dos Setenta, ou Septuaginta Grega, é como ficou conhecida a tradução grega do Antigo Testamento, elaborada entre os séculos IV e II a.C., feita em Alexandria, no Egito. O seu nome surgiu da lenda que dizia que essa tradução foi o resultado milagroso do trabalho de 70 (em alguns casos se citam 72) eruditos judeus que pretende exprimir que não só o texto, mas também a tradução, havia sido inspirada por Deus. De acordo com a dita lenda, cada sábio foi confinado a um aposento e não poderia ter contato com nenhum dos outros, para que não influenciassem um na tradução do outro, no final todas as traduções eram idênticas – vale notar que não existe hoje registro ou evidências arqueológicas dessas 70 ou 72 traduções originais. A Septuaginta Grega é a mais antiga versão do Antigo Testamento que conhecemos. A sua grande importância provém também do fato de ter sido essa a versão da Bíblia utilizada entre os cristãos desde que surgiram e a que é citada em grande parte do Novo Testamento. Então é importante ter em mente que grande parte das menções que o Novo Testamento faz do Antigo Testamento são tiradas não do texto original, mas da tradução que fizeram do original para o grego.

Da Septuaginta Grega fazem parte, além da Bíblia Hebraica, a Tanakh, os Livros Deuterocanônicos (aceitos como canônicos apenas pela Igreja Católica) e alguns escritos apócrifos (não aceitos como inspirados por Deus por nenhuma das religiões cristãs ocidentais).

10 – E finalmente temos a Bíblia…

Ainda não.

Preste atenção que até o momento todas essas versões que vimos do Texto da Lei, dos livros dos Profetas e dos Escritos eram usadas por Judeus. Não haviam cristãos ainda no mundo, mesmo o texto massorético do século VI d.C. ainda diz respeito aos judeus, foi compilado por judeus para os judeus. E para entender o surgimento do que os cristãos chamam de Bíblia temos que entender o que era o cristianismo, e não estamos falando de Jesus.

Os Judeus sempre se dividiram em vários grupos e todos eles, em um determinado momento, esperavam a vinda do Messias para unir o povo sob a Lei de Deus e trazer consigo um período de paz. O advento do Cristianismo foi a divulgação que de esse Messias teria finalmente chegado, na figura de Jesus, e então através de Cristo o povo teria uma nova aliança com Deus.

Mas a importância histórica disso não foi a maneira como o povo enxergava Cristo – se era ou não o messias judeu – e sim a mudança que ele trouxe para a fé judaica. Os primeiros cristãos, ou seja, as primeiras pessoas que pregavam a filosofia de Cristo e que a seguiam, eram todos judeus, a briga começou quando alguns deles começaram a defender que, como a mensagem de Cristo era para todos, os gentios – não judeus – poderiam compartilhar a mesma fé, deixando de lado alguns costumes judaicos, como por exemplo a circuncisão. Veja que a circuncisão foi usada por Abrahão para mostrar que estava a serviço de Deus, desde então todo Judeu deveria ser circuncidado; imagine o que era então para muitos dos cristãos judeus, terem que aceitar que pessoas que não faziam parte da crença judaica e que não obedeciam a certos costumes judeus fossem aceitas em seu grupo, um grupo formado por judeus que seguiam o messias do judaismo.

Isso criou a necessidade de um material para divulgar a crença judaica – não havia novo testamento ainda – para os novos convertidos, que não eram judeus, para eles se familiarizarem com as leis e a vontade divina, com o seu Deus, etc. Apesar do Judaísmo não ser a religião mais antiga, até hoje muitos afirmam que ela foi a religião monoteísta mais antiga, então os novos convertidos ao judaísmo cristão tinham que conhecer essa filosofia e essa religião antes de qualquer coisa já que Jesus não pregava uma nova religião, Jesus pregava o judaísmo, com algumas mudanças.

Quando o cristianismo começou a se espalhar pelo Império Romano, ou seja, quando o judaísmo começou a crescer e a divuldar a mensagem de que o Messias havia chegado e trazido com ele novas Leis de Deus, surgiu um novo público para a fé, não apenas os gentios que viviam na região do oriente médio, mas também os romanos, e assim nasceu uma nova necessidade de se traduzir os escritos sagrados para os cristãos que não liam nem grego nem hebraico.

Essa tradução surgiu no século I e foram realizadas por tradutores informais. Ficou conhecida como a Vetus Latina. Podemos dizer que ela foi a primeira versão da Tanakh para cristãos e mesmo assim não era carregada debaixo do braço para cima e para baixo; era usada como forma de catequese, para se criar uma base comum para todos: “se querem se beneficiar da salvação e das boas novas trazidas pelo Messias, estes textos são o mínimo que vocês tem que conhecer!” foi nesta época que a Tanakh começou a ser compartilhada com não judeus e deixou de ser um texto exclusivo da religião judaica. Um ponto importante para se ter em mente aqui é grande parte dos novos convertidos eram analfabetos, os textos eram lidos para eles, que absorviam a mensagem e tentavam viver de acordo com ela, em encontros grupais a mensagem era repetida e dúvidas tiradas. Ninguém levava para casa a cópia de um texto para ficar lendo.

11 – Então a primeira Bíblia Cristã surgiu no século I?

Não da forma como temos a Bíblia hoje. A Vetus Latina não era uma bíblia ainda. Como dissemos ela foi feita por tradutores informais, isso significa que pedaços dos textos antigos, tanto os judaicos quanto os gregos eram traduzidos de acordo com a necessidade. Assim ela não era uma Bíblia Latina. Ela era mais uma gambiarra para poder mostrar ao povo que não estava familiarizado com os textos Judeus a religião e então ter um texto que eles pudessem compreender e usar como base quando se convertessem. E mesmo assim suas primeiras versões não traziam os textos conhecidos como o Novo Testamento. Eles só surgiram nos séculos seguintes. E ainda não era um livro fechado, eram traduções avulsas de pedaços separados da Tanakh, muitas vezes nem eram os livros inteiros, mas os fragmentos que pareciam ser importantes, que foram sendo distribuídos e usados e só com o tempo foi crescendo e recebendo os livros que temos hoje do Novo Testamento.

Os textos da Vetus Latina chegaram até nós através de vários códices.

Os códices (ou codex, da palavra em latim que significa “livro”, “bloco de madeira”) eram os manuscritos gravados em madeira, em geral do período da era antiga tardia até a Idade Média. Manuscritos do Novo Mundo foram escritos por volta do século XVI.

O códice é um avanço do rolo de pergaminho e gradativamente substituiu este último como suporte da escrita. O códice, por sua vez, foi substituído pelo livro impresso.

Os códices mais conhecidos da Vetus Latina são:

Códice Bobienus (K) – séc. IV. É um manuscrito africano em Unçais. Contém fragmentos dos Evangelhos de Marcos e Mateus;

Códice Vercellensis (a) – Séc. IV. Texto em Unçais. Contém todos os quatro Evangelhos;

Códice Bezae (q) – Séc. V. É um manuscrito bilingüe, com o Grego no verso e o Latim na frente. Contém os quatro Evangelhos, Atos e 3 João;

Códice Monacensis 13 (q) – Séc. VI-VII. Texto em Unçais. Contém os quatro Evangelhos;

Palimpsest 53 (s) – Séc. VI. Conhecido também como Bobiensis ou Vindobonensis. Texto em meio unçal. Contém fragmentos dos Atos e as 14 Cartas Católicas.

Os textos da Vetus Latina organizados como um único livro foram encontrados em manuscritos tardios, datados do séc. XIII. Muitas das versões nem chegaram a ser  consideradas autorizadas como traduções bíblicas que poderiam ser usadas por toda igreja – veja que nesta época já havia uma igreja cristã regulamentando que textos podiam e não podiam ser usados. A estas traduções precedentes, muitos estudiosos adicionam freqüentemente citações das passagens bíblicas que aparecem nos escritos dos Pais da igreja Latina.

Mas para se ter uma idéia da bagunça que era, mesmo com a boa vontade dos primeiros tradutores era inevitável que diferentes traduções acabassem ficando diferentes entre si. Depois de comparar a leitura de Lucas 24,4-5 nos manuscritos da Vetus Latina, Bruce Metzger contou “não menos que 27 variações!”. Agora imaginem os pais da igreja com esses textos uns diferentes dos outros pregando o cristianismo sem uma base ainda para qual era a versão correta do texto.

Os livros bíblicos reunidos no conjunto de manuscritos disponíveis da Vetus Latina são:

VETUS TESTAMENTUM
Genesis
Exodus
Leviticus
Numeri
Deuteronomium
Josue
Judicum (Juízes)
Ruth
1-4 Regum (1 e 2 Reis (1 e 2 Samuel) e 3 e 4 Reis (1 e 2 Reis))
1-2 Paralipomenon (Paralipômenos ou Crônicas)
Esdras
Nehemias
3-4 Esdras
Tobit
Judith
Hester
Job
Psalmi (Salmos)
Proverbia
Ecclesiastes
Canticum Canticorum
Sapientia (Sabedoria de Salomão)
Sirach, Ecclesiasticus (Sabedoria de Sirac ou Eclesiástico).
Esaias (Isaías)
Jeremias (Lamentationes, Baruch)
Daniel
XII Prophetae (Doze Profetas)
I-II Macchabaeorum (1 e 2 Macabeus).

NOVUM TESTAMENTUM
Matthaeus
Marcus
Lucas
Johannes
Actus Apostolorum
Ad Romanos
Ad Corinthios I
Ad Corinthios II
Galatas
Ad Ephesios
Ad Philippenses
Colossenses
Ad Thessalonicenses
Timotheum
Ad Titum
Philemonem
Hebraeos
Epistulae Catholicae (1 e 2 Pedro; 1, 2 e 3 João; Tiago e Judas)
Apocalypsis Johannes

Mas esses livros foram surgindo com o tempo assim no século I a maioria destes textos ainda não existia e eles ainda não estavam juntos em um único livros. Muitas comunidades usavam apenas alguns deles. Se você pegar uma bíblia moderna vai ver que alguns desses textos antigos nem constam mais hoje como livros canônicos.

12 – E a Bíblia que existe hoje veio da Vetus Latina?

Não.

Como vimos, o texto “definitivo” – entre aspas porque ainda não é aceito por todo como unânime – do judaísmo, surgiu no século VI d.C., a versão destinada para cristãos ainda levou mais algum tempo para surgir.

No século IV d.C. Dâmaso (hoje conhecido como São Dâmaso ou ainda como Papa Dâmaso I) pediu que Jerônimo (conhecido como São Jerônimo, o padroeiro dos bibliotecários e das secretárias), criasse uma versão autorizada da Bíblia na língua latina. A idéia era parar com a enormidade de textos avulsos que surgiam, traduzidos por pessoas diferentes conforme a necessidade individual e criassem um texto padrão, que pudesse ser usado por todos, e assim eles saberiam que um cristão da África havia recebido exatamente a mesma doutrina de um cristão da Espanha, por exemplo, acabando assim com variações de um mesmo texto.

Jerônimo então reviu a Septuaginta grega e os textos da Vetus Latina e decidiu que a melhor coisa a fazer era jogar tudo for a e começar a criar o texto oficial da Bíblia Cristã a partir do zero. Este trabalho ele batiza de Vulgata. O nome vem da frase “versio vulgata”, isto é “versão dos vulgares”, e foi escrito em um latim cotidiano, que era a forma antiga de se dizer: “escrito em um latim atual e popular”.

Até então a igreja[2] usava textos na língua grega, foi inclusive nesta língua que se escreveu todo o Novo Testamento, incluindo a Carta aos Romanos, de Paulo, bem como muitos escritos cristãos nos séculos seguintes.

A Vulgata foi produzida para ser mais exata e mais fácil de compreender do que suas predecessoras. Foi a primeira, e por séculos a única, versão da Bíblia que possuiu os textos do Velho Testamento traduzidos diretamente do hebraico e não da versão grega (a Septuaginta). No Novo Testamento, Jerônimo selecionou e revisou textos. Ele inicialmente não considerou canônicos os sete livros, chamados por católicos e ortodoxos, de deuterocanônicos. Porém, trabalhos posteriores mostram sua mudança de conceito, pelo menos a respeito dos livros de Judite, Sabedoria de Salomão e o Eclesiástico (ou Sabedoria de Sirac), conforme atestamos em suas últimas cartas a Rufino.

13 – Perai, Jerônimo não considerou como canônico alguns livros? Mas quem decidia o que era canônico ou não? E o que é canônico?

Vamos começar de trás para frente.

Um cânone ou cânon normalmente se caracteriza como um conjunto de regras (ou, frequentemente, como um conjunto de modelos) sobre um determinado assunto, em geral ligado ao mundo das artes e da arquitetura. A canonização é a sistematização deste conjunto de modelos. Cânone, em hebraico é qenéh e no grego kanóni, têm o significado de “régua” ou “cana (de medir)”, no sentido de um catálogo.

O Cânone Bíblico designa o inventário ou lista de escritos ou livros considerados pelas religiões cristãs como tendo evidências de Inspiração Divina.

Quanto a quem decidia se um livro era canônico ou não é uma história interessante. Vamos responder juntamente com as próximas questões.

14 – Bom, então com a criação da Vulgata nós temos uma Bíblia, ou ainda não?

Glória aos Céus! Agora sim.

A Vulgata se tornou a primeira versão fechada da Bíblia, com todos os textos que temos hoje. Mesmo assim ela ainda passou por alguns ajustes que levaram mais alguns séculos. Finalmente entre os anos de 1545 e 1563 a igreja católica realizou seu 19º concílio ecumênico, também conhecido como o Concílio de Trento. Ele foi convocado pelo Papa Paulo III para assegurar a unidade da fé (sagrada escritura histórica) e a disciplina eclesiástica. O concílio tem este nome em referência à cidade de Trento, onde transcorreu, e nele foi estabelecido um texto único para a Vulgata, a partir de vários manuscritos existentes, e oficializado como a Bíblia oficial da Igreja. Esta Bíblia ficou conhecida como Vulgata Clementina.

Após o Concílio Vaticano II, por determinação de Paulo VI, foi realizada uma revisão da Vulgata, sobretudo para uso litúrgico. Esta revisão, terminada em 1975, e promulgada pelo Papa João Paulo II em 25 de abril de 1979, é denominada Nova Vulgata, estabelecendo esta como a nova Bíblia oficial da Igreja Católica.

15 – Mas a Bíblia só passou a existir desta forma no século XVI, ou no século XX?

Não extamente. Existem alguns fatos que devem ser levados em consideração quando falamos de o texto final e definitivo da Bíblia. Existe um processo por trás que durou séculos e que está em andamento até hoje.

Por exemplo, se levarmos em conta os textos sagrados em si, a Bíblia levou 1600 anos para ser escrita. Já que teoricamente ela começou a ser registrada na época de Moisés (cerca de 1500 a.C.) e terminou com o evangelho de João (cerca de 96 d.C.). Essa é a datação cultural dos textos.

Mesmo assim na época do evangelho de João, no final do século I d.C.,  não havia unidade nos textos. Para se ter idéia, os textos só passaram a ser conhecidos como Bíblia com Jerônimo (cerca de 347d.C. – 419/420 d.C.), que chamou pela primeira vez ao conjunto dos livros do Antigo Testamento e Novo Testamento de “Biblioteca Divina”. “Bíblia”, inclusive, é uma palavra que não aparece na Bíblia. Ela vem do termo grego biblos, por causa da cidade fenícia de Biblos, um importante centro produtor de rolos de papiro usados para fazer livros. Com o tempo, a palavra biblos passou a significar “livro”. Biblia é a forma plural (“livros”).

Então a primeira Bíblia oficial foi organizada, compilada e preparada pela igreja católica nos séculos IV e V d.C. como já vimos.

Mas antes de Jerônimo por a mão na massa tiveram que decidir quais dos textos existentes fariam parte da Bíblia, afinal além dos textos que temos hoje haviam dezenas, mesmo centenas de outros que circulavam na época.

E agora voltamos à pergunta 13: quem decidia que livros fariam parte da Bíblia?

Sempre houve uma preocupação muito grande de se ter as informações corretas sobre Deus e sobre as maneiras corretas de seguir suas leis e mandamentos, de honrá-lo e adorá-lo. Como dissemos lá na introdução, a Bíblia nasceu de uma necessidade dos povos de se manterem fiéis à fé, não como livro de regras a ser instituído a todos os povos. No início queriam apenas juntar os textos que julgavam pertinentes e sinceros em relação à fé. Assim durante a história muitos estudiosos, religiosos se reuniram e estudaram para analisar que textos eram de fato textos enviados por Deus ou eram textos sérios e quais seriam invenções ou simplesmente opiniões de outros religiosos e escritores.

Hoje muitas pessoas acreditam que o primeiro trabalho sério de se decidir quais seriam os textos aceitos pelos cristãos e que fariam parte da Bíblia foi o Concilio de Nicéia, realizado em 325 d.C., vinte e dois anos antes de Jerônimos começar seu trabalho. Embora algumas obras afirmem que no Concílio de Nicéia discutiu-se quais evangelhos fariam parte da Bíblia, quando pegamos os documentos que existem hoje sobre esta reunião não há menção de que esse assunto estivesse em pauta, nem nas informações dos historiadores do Concílio, nem nas Atas do Concílio que chegaram a nós em três fragmentos: o Símbolo dos apóstolos, os cânones, e o decreto senoidal.

No ano de 150 d.C. Marcião, um cristão muito influente na época, propôs uma lista dos livros que deveriam fazer parte do conjunto de livros religiosos do cristianismo. Nesta lista ele considerou apenas o Evangelho de Lucas e as cartas paulinas como textos inspirados. Essa lista ficou conhecida como o Cânone de Marcião.

No ano de 1740 foi publicado o Cânone Muratori – também conhecido por fragmento muratoriano ou fragmento de Muratori – descoberto na Biblioteca Ambrosiana de Milão por Ludovico Antonio Muratori (1672 – 1750). Apesar de ser consensual datar o manuscrito como sendo do século VII, ele é cópia de um texto mais antigo, datado como tendo sido escrito por volta do ano 170, já que nele existem menções ao Pastor de Hermas e ao papado de Pio I, morto em 157.

Na lista figuram os nomes dos livros que o autor, desconhecido até os dias de hoje, considerava admissíveis junto com alguns comentários. A lista está escrita em latim e encontra-se incompleta, daí ser chamada de fragmento.

Os livros canônicos mencionados no Cânone Muratori são aproximadamente os mesmos que se encontram hoje na Bíblia com algumas variações. O Cânone de Muraori aceita quatro evangelhos, dos quais dois são o Evangelho de Lucas e o Evangelho de João, não se conhecendo os outros dois, pois falta o princípio do manuscrito, onde estariam os nomes dos dois primeiros. A lista segue com os Atos dos Apóstolos e com 13 epístolas de Paulo de Tarso (não menciona a Epístola aos Hebreus). O autor considera falsificações as epístolas supostamente escritas por Paulo aos laodiceanos e a escrita aos alexandrinos. Nele só se mencionam duas epístolas de João, sem as descrever. Figura também no fragmento o Apocalipse de Pedro, ainda que com certas reservas (“o qual alguns dos nossos não permitem que seja lido na Igreja”).

O Livro da Sabedoria do Antigo Testamento também é citado como sendo canônico.

No Cânone de Muratori está escrito:

“…aos quais esteve presente e assim o fez. O terceiro livro do Evangelho é o de Lucas. Este Lucas ‘médico que depois da ascensão de Cristo foi levado por Paulo em suas viagens’ escreveu sob seu nome as coisas que ouviu, uma vez que não chegou a conhecer o Senhor pessoalmente, e assim, a medida que tomava conhecimento, começou sua narrativa a partir do nascimento de João. O quarto Evangelho é o de João, um dos discípulos.

Questionado por seus condiscípulos e bispos, disse: ‘Andai comigo durante três dias a partir de hoje e que cada um de nós conte aos demais aquilo que lhe for revelado’. Naquela mesma noite foi revelado a André, um dos apóstolos, que, de conformidade com todos, João escrevera em seu nome.

Assim, ainda que pareça que ensinem coisas distintas nestes distintos Evangelhos, a fé dos fiéis não difere, já que o mesmo Espírito inspira para que todos se contentem sobre o nascimento, paixão e ressurreição [de Cristo], assim como sua permanência com os discípulos e sobre suas duas vindas ´ depreciada e humilde na primeira (que já ocorreu) e gloriosa, com magnífico poder, na segunda (que ainda ocorrerá).

Portanto, o que há de estranho que João freqüentemente afirme cada coisa em suas epístolas dizendo: ‘O que vimos com nossos olhos e ouvimos com nossos ouvidos e nossas mãos tocaram, isto o escrevemos’? Com isso, professa ser testemunha, não apenas do que viu e ouviu, mas também escritor de todas as maravilhas do Senhor.

Os Atos foram escritos em um só livro. Lucas narra ao bom Teófilo aquilo que se sucedeu em sua presença, ainda que fale bem por alto da paixão de Pedro e da viagem que Paulo realizou de Roma até a Espanha.

Quanto às epístolas de Paulo, por causa do lugar ou pela ocasião em que foram escritas elas mesmas o dizem àqueles que querem entender: em primeiro lugar, a dos Coríntios, proibindo a heresia do cisma; depois, a dos Gálatas, que trata da circuncisão; aos Romanos escreveu mais extensamente, demonstrando que as Escrituras têm como princípio o próprio Cristo.

Não precisamos discutir sobre cada uma delas, já que o mesmo bem – aventurado apóstolo Paulo escreveu somente a sete igrejas, como fizera o seu predecessor João, nesta ordem: a primeira, aos Coríntios; a segunda, aos Efésios; a terceira, aos Filipenses; a quarta, aos Colossenses; a quinta, aos Gálatas; a sexta, aos Tessalonicenses; e a sétima, aos Romanos.

E, ainda que escreva duas vezes aos Coríntios e aos Tessalonicenses, para sua correção, reconhece – se que existe apenas uma Igreja difundida por toda a terra, pois da mesma forma João, no Apocalipse, ainda que escreva a sete igrejas, está falando para todas. Além disso, são tidas como sagradas uma [epístola] a Filemon, uma a Tito e duas a Timóteo; ainda que sejam filhas de um afeto e amor pessoal, servem à honra da Igreja Católica e à ordenação da disciplina eclesiástica. Correm também uma carta aos Laodicenses e outra aos Alexandrinos, atribuídas [falsamente] a Paulo, mas que servem para favorecer a heresia de Marcião, e muitos outros escritos que não podem ser recebidos pela Igreja Católica porque não convém misturar o fel com o mel.

Entre os escritos católicos, se contam uma epístola de Judas e duas do referido João, além da Sabedoria escrita por amigos de Salomão em honra do mesmo. Quanto aos apocalipses, recebemos dois: o de João e o de Pedro; mas, quanto a este último, alguns dos nossos não querem que seja lido na Igreja. Recentemente, em nossos dias, Hermas escreveu em Roma ‘O Pastor’, sendo que o seu irmão, Pio, ocupa a cátedra de Bispo da Igreja de Roma.

É, então, conveniente que seja lido, ainda que não publicamente ao povo da Igreja, nem aos Profetas ´ cujo número já está completo , nem aos Apóstolos ´ por ter terminado o seu tempo. De Arsênio, Valentino e Melcíades não recebemos absolutamente nada; estes também escreveram um novo livro de Salmos para Marcião, juntamente com Basíledes da Ásia…”

Então já na época haviam dúvidas a que textos eram de fato inspirados pelo Espírito de Deus e quais eram criações – sinceras ou não – de homens.

E como faziam para decidir?

Até hoje existem pessoas que tem um certo recentimento desses primeiros cristãos, que dizem que uma pessoa não teria como decidir que texto seria inspirado por Deus, diretamente ou via Espirito Santo, ainda mais porque os textos já existiam e estavam circulando, não haveria um modo seguro de se saber se o autor estava cumprindo a Vontade Deus ou simplesmente escrevendo o que achava ser correto. E assim se cria uma visão de que o caso foi resolvido através de puro dogmatismo e abuso de autoridade.

Existem estudiosos que citam Irineu (205 d.C.) afirmando que:

“O evangelho é a coluna da igreja, a igreja está espalhada por todo o mundo, o mundo tem quatro regiões, e convém, portanto, que haja também quatro Evangelhos… O Evangelho é o sopro do vento divino da vida para os homens, e pois, como há quatro ventos cardiais, daí a necessidade de quatro Evangelhos… O Verbo criador do Universo reina e brilha sobre os querubins, os querubins têm quatro formas, e eis porque o Verbo nos obsequiou com quatro Evangelhos.”

Ainda existem outras lendas e histórias de como se escolheram os textos como conta a obra Libelus Synddicus, de um autor anônimo: “estando os bispos em oração, os Evangelhos inspirados foram por si colocar-se em um altar…”

Outras lendas contam como todos os textos existentes foram colocados sobre um altar e aqueles que não eram inspirados caíram ou como uma pomba atravessou o vitral da igreja, durante o concilio de Nicéia e pousou no ombro de cada bispo e cochichou ao seu ouvido quais eram os livros inspirados.

Bem, como vimos o Concilio de Nicéia tem uma fama enorme em relação à escolha de que livros eram ou não inspirados, mas não existe um registro do evento que fale sobre o assunto, e já haviam listas, como o cânone Muratori onde os livros já eram escolhidos.

Isso sem contar que muitas destas afirmações mostram um certo descontentamento com a Instituição da Igreja Católica mas deixa de lado um pequeno detalhe: os livros sagrados judaicos da Bíblia, o Antigo Testamento, também foram criados a partir de livros aceitos e não aceitos, eles também foram peneirados. O mesmo trabalho de catalogação de um cânone oficial foi realizado pelos judeus, então este processo de identificar quais livros eram sagrados para fazer parte ou não da Bíblia não foi um trabalho unicamente cristão.

Em relação à Bíblia sabemos hoje que o bispo de Alexandria Anastásio, no ano de 367, propôs uma lista de livros inspirados. Essa lista foi posteriormente defendida no Concilio de Hipona, em 398, e a lista de Anastásio acabou sendo aprovada pelos bispos. Isso 50 anos depois de Jerônimo ter começado seu trabalho de criar a Vulgata.

E para se criar o concenso de que livros seriam aceitos foram criados uma série de critérios que deveriam ser observados, não apenas em ralação a textos cristãos mas a textos judaicos também. Nesta época a igreja já começava a se organizar e mesmo havendo vários grupos que possuíam textos próprios a idéia era começar a criar um corpo oficial de textos, literalmente um cânon. Assim os critérios adotados foram:

a) O livro deveria conferir identidade religiosa ao povo judeu e cristão.
b) O livro não poderia ser escrito em grego – isso em relação aos livros do Antigo Testamento.
c) Ainda em relação ao Antigo Testamento, o livro deveria ter sido escrito durante a época que vai de Moisés a Esdras.
d) Deveria ter sido catalogado na lista de Flávio Josefo, o historiador judeu.
e) O livro não deveria “manchar a mão”.

E finalmente dois critérios que refletiam muito bem o período histórico onde já haviam sinais do surgimento da igreja:

f) O livro não poderia ter origem em grupos de oposição ao pensamento dominante.
g) Deveria ser usado por muitas comunidades. Quanto maior fosse a aceitação de um livro, maior era a indicação que era um livro inspirado.

Se um texto passasse por esse crivo ele finalmente deveria ser reconhecido como

h) inspirado pelo Espírito Santo.

Assim para um texto passar pelo crivo religioso e ser aceito ele deveria primar pela consciência de que o povo judeu era o povo eleito, mantendo vivo essa fé como símbolo da indentidade nacional, também deveria professar a fé em Jesus crucificado, morto e principalmente ressuscitado. Se o texto fazia parte do Antigo Testamento deveria ter sido escrito originalmente em hebraico (com pequenas excessões onde o original se apresentava em aramaico) e deveria ter sido compilado até o século V a.C. na época de Esdras. Ele teria que ter estado presente nos escritos de Flávio Josefo e não poderia ter origem em grupos considerados subversivos. Por exemplo no Antigo Testamento temos o caso dos dois livros dos Macabeus, que era um dos grupos de judeus que lutava contra o império romano e desejava reestabelecer o judaísmo, eles eram inimigos dos Fariseus, que eram aqueles judeus que formavam o grupo religioso judaico que conduzia a religião judaica e que foi responsável pela criação do cânone judaico de Jâmnia. Assim os textos sobre os Macabeus não foram considerados inspirados pelos Judeus. Já no Novo Testamento os textos de origens gnósticas, que iam contra os grupos cristãos que estavam se tornando dominantes, foram descartados como fraudes. Deveria ser considerado um Best-Seller da época e aprovado por aquelas que eram consideradas as pessoas mais religiosas e ligadas a Deus.

Uma curiosidade sobre o critério e) é que nunca ficou muito claro o que os judeus queriam dizer com “manchar as mãos”. Se acreditavam que um livro impuro fosse uma aberração tão grande que mancharia aquele que o tocasse ou se havia o costume de algumas pessoas alterarem textos antigos escrevendo passagens novas e a tinta fresca seria a responsável pela mácula na mão daquele que o lesse.

Assim com o tempo os livros foram sendo aceitos e descartados da compilação final que existe hoje.

Além disso a Bíblia sempre foi apresentada como um longo texto corrido, ela foi dividida em capítulos apenas no século XIII d.C. (entre 1234 e 1242), pelo teólogo Stephen Langhton, então Bispo de Canterbury, na Inglaterra, e professor da Universidade de Paris, na França. Foi apenas nos séculos IX e X d.C. que estudiosos Judeus dividiram o Antigo Testamento em versículos. O Novo Testamento recebeu a divisão em versículos no ano de 1551, o responsável foi  um impressor francês chamado Robert d´Etiénne.

Até boa parte do século XVI, as Bíblias eram publicadas somente com os capítulos. Foi assim, por exemplo, com a Bíblia que Lutero traduziu para o Alemão, por volta de 1530. A primeira Bíblia a ser publicada incluindo integralmente a divisão de capítulos e versículos foi a Bíblia de Genebra, lançada em 1560, na Suíça.

E mesmo assim nem todas as Bíblias traziam os mesmos textos.

16 – Como assim? Com todo esse trabalho de escolher textos que eram ou não inspirados existiam Bíblias diferentes?

Sim.

Apesar da antiguidade dos livros bíblicos, os manuscritos mais antigos que possuímos datam a maior parte dos séculos III e IV d.C.. Tais manuscritos são o resultado do trabalho de copistas (escribas) que, durante séculos, foram fazendo cópias dos textos, de modo a serem transmitidos às gerações seguintes. Por causa desse processo manual e artesanal o texto bíblico, obviamente, está sujeito a erros e modificações, involuntários ou voluntários, dos copistas. E isso acaba se traduzindo na coexistência, para um mesmo trecho bíblico, de várias versões que, embora não afetem grandemente o conteúdo, suscitam diversas leituras e interpretações dum mesmo texto.

Por causa disso criou-se o que ficou conhecido como Crítica Textual, que é o trabalho desenvolvido por especialistas que se dedicam a comparar as diversas versões e a selecioná-las. O resultado deste trabalho são os Textos-Padrão.

Ou seja, existe um esforço para se descobrir quais as formas originais dos textos que temos hoje, e quais deles estariam mais próximos da forma como foram concebidos originalmente.

A grande fonte hebraica para o Antigo Testamento é o Texto Massorético, que como já vimos, foi fechada no século VI d.C.

Esses processos de cópia e produções de Bíblias combinados com as várias igrejas que se formaram depois do surgimento do cristianismo serviram para que várias versões da Bíblia sobrevivessem até os dias de hoje, cada uma com características próprias.

17 – Mas com o estabelecimento do cristianismo não houve um consenso sobre que textos fariam parte da Bíblia e que versões de cada texto era aceita?

Infelizmente não.

E para isso vamos voltar ao conceito de Cânone Bíblico e um pouco antes para o conceito de “cânone” judaico.

Segundo a literatura judaica Esdras, na qualidade de escriba e sacerdote, presidiu um conselho formado por 120 membros chamado Grande Sinagoga, que teria selecionado e preservado os rolos sagrados. Alguns acreditam que foi ai que o Cânone das Escrituras do Antigo Testamento foi fixado (Esdras 7:10,14). Entretanto esta tese é desacreditada pela crítica moderna. Os estudiosos concordam que foi essa mesma entidade que reorganizou a vida religiosa nacional dos repatriados e, mais tarde, deu origem ao Supremo Tribunal Judaico, denominado Sinédrio.

Curiosamente os Saduceus e os Samaritanos só aceitavam como canônicos os cinco livros de Moisés. Por esta razão, os especialistas especulam que Esdras tenha reunido apenas o Pentateuco, isto é, os cinco livros de Moisés.

O prólogo da versão grega do Eclesiástico, datado em 130 a.C. parece já confirmar a suspeita dos estudiosos modernos. Com efeito nele lemos: “Pela Lei, pelos Profetas e por outros escritores que os sucederam, recebemos inúmeros ensinamentos importantes (…) Foi assim que após entregar-se particularmente ao estudo atento da Lei, dos Profetas e dos outros Escritos, transmitidos por nossos antepassados […]”.

Nota-se que o cânon indicado neste escrito considera canônicos livros posteriores ao tempo dos profetas.

O Cânone Hebraico de 39 livros, só foi realmente fixado no Concílio de Jâmnia – criado para procurar um rumo para o judaísmo, após a destruição do Templo de Jerusalém, no ano 70 d.C – em 90 d.C.. Mesmo assim estudiosos como Leonard Rost garantem que tais decisões demoraram muito para serem aceitas e até hoje não tiveram aceitação em algumas comunidades judaicas como é o caso dos judeus do Egito.

Neste concílio os participantes decidiram considerar como textos canônicos do judaísmo apenas os que existiam em língua hebraica e que remontassem ao tempo do profeta Esdras, rejeitando todos os outros livros e demais escritos, considerando-os como apócrifos, ou seja, não tendo evidências de inspiração por Deus e fonte de fé. Houve muitos debates acerca da aprovação de certos livros, como Ester e Cântico dos Cânticos, conforme registro da Mishiná.

Apesar da crítica moderna afirmar que vários livros que constam no Cânon Hebraico são posteriores ao tempo de Esdras (como é o caso do Livro de Daniel), os estudiosos explicam que os Fariseus não dispunham do método científico que existe hoje para se datar uma obra, ou mesmo para se atribuir a ela um autor. De qualquer forma, os critérios por eles adotados excluíram os livros deuterocanônicos do Cânon Hebraico.

Para não confundir: o Concilio de Jâmnia (ano 90 d.C.) decidiu quais os livros que fariam parte do cânon. Os Massoretas, século VI, decidiram qual a forma correta dos textos que haviam sido selecionados.

Já do lado dos cristãos, temos que ter em mente que no início não havia uma igreja organizada como hoje e desde o tempo de Jesus, entre seus discípulos, sempre existiram controvérsias doutrinárias e disciplinares, como se vê em At 15, 1-5. Havia grupos em Roma, no Oriente e norte da África que, sob influência helenística, zoroastrista e de convicções pessoais, queriam adaptar a doutrina de Jesus às suas idéias. Tais foram os grupos dissidentes ou heréticos fundados por Donato, a gnose de Marcião (o “Primogênito de Satanás”), Montanus, Nestório, Paulo de Samósata e Valentinus entre outros. Os escritos de Tertuliano contra os heréticos e o “Contra as heresias” de Ireneu foram respostas às heresias. O Concílio de Nicéia foi convocado pelo imperador Constantino devido a disputas em torno da natureza de Jesus “não criado, consubstancial ao Pai”. Na Santíssima Trindade, as três pessoas têm a mesma natureza, ou seja, a divina.

Então apesar do Antigo Testamento já ter uma aceitação mais ou menos geral de que textos eram inspirados e quais não eram, o Novo Testamento ainda não possuía unidade. Mesmo com tentativas como a do Cânone Muratori, 170 d.C., o Novo Testamento ainda era um Deus nos Acuda, já que as pessoas ainda não tinham nem muita certeza sobre o que era o Cristianismo.

A partir de 325, algumas verdades do Cristianismo foram estabelecidas como dogma através de cânones promulgados por vários concílios, como o de Nicéia.

Desde Jesus Cristo (Jo 17,21) passando por todos os apóstolos, especialmente Paulo, existe um impulso para estabelecer unidade no cristianismo. A primeira forma de demonstração desse impulso foi a manutenção da unidade em torno de Pedro. Se há um só Deus, que se revelou em Jesus Cristo, que fundou Sua única Igreja (Mt 16,18) e se Jesus Cristo mesmo diz que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida, não podem existir outras verdades verdadeiras. Uma das linhas que foi condenada como heresia eram as que divergiam da afirmação de que Cristo era totalmente divino e totalmente humano e que as três pessoas da Trindade são iguais e eternas. Este dogma (Um só Deus em Três Pessoas = Três pessoas e uma só natureza divina assim como existem bilhões de pessoas e uma só natureza humana) só foi estabelecido depois que Ário, um celebrado professor do cristianismo – e também mártir – o desafiou.

E assim, muitos textos que poderiam fazer parte da Bíblia foram banidos, por serem considerados heréticos.

Assim não apenas os textos finais foram escolhidos, mas também a forma que o cristianismo dominante teria também. Escolhendo-se textos que mostrassem certos aspectos de jesus e descartassem outros.

E ai voltamos ao cíclo vicioso da falta de gráficas, porque uma vez definidos os textos que fariam parte da Bíblia Cristã, eles estavam sujeitos à manipulação por parte dos copistas (seja essa manipulação causada por erro sincero ou pela maldade no coração do homem).

E como vimos, mesmo com a tentativa de Jerônimo de criar um texto único, muitos textos e livros ainda não haviam sido aprovados mesmo cinco décadas depois que ele começou o trabalho. Assim haviam algumas variantes dos mesmos textos.

Haviam também grupos que não estando ligados à igreja continuavam a usar textos próprios ou versões próprias de textos existentes, assim quando era o momento de se apontar que versão era a original não haviam uma base para se ter certeza.

18 – Então além do Antigos Testamento, e dos livros do Novo Testamento, haviam outros livros e textos religiosos circulando por ai?

Sim, tecnicamente esses livros receberam dois nomes: Deuterocanônicos e Apócrifos.

O termo “deuterocanônico” é formado pela raiz grega deutero (segundo) e canônico (que faz parte do Cânon, isto é do conjunto de livros considerados inspirados e normativos por uma religião ou igreja). Assim, o termo é aplicado a livros e partes de livros bíblicos que só num segundo tempo foram considerados como canônicos.

O adjetivo “deuterocanônico” é originalmente aplicado a estes textos pelos cristãos, que depois de um tempo passaram a encará-los como inspirados e fazendo parte integrante da Bíblia.

O fato de muitas pessoas, cristãs ou não, não os considerarem inspirados, eles ainda são obras muito importantes tanto para a fé cristã quanto para historiadores. Hoje eles são considerados patrimônios históricos da fé, pois refletem e fizeram parte das crenças cristãs ao longo da história.

São deuterocanônicos os seguintes livros bíblicos:

– Tobias
– Judite
– I Macabeus e II Macabeus
– Sabedoria
– Eclesiástico (também chamado Sirácide ou Ben Sirá )
– Baruc

Fora os livros deuterocanônicos podemos também encontrar fragmentos deuterocanônicas dentro de livros canônicos como:

– adições em Ester.
– adições em Daniel – especificamente os episódios da Casta Susana e de Bel e o dragão.

Estes livros eram já conhecidos pelos cristãos, que os citavam e utilizavam. Os estudiosos encontraram citações destes livros nas obras de Ireneu, Justino, Agostinho, Jerônimo, Basílio Magno, Ambrósio e muitos outros. E ainda haviam aqueles que julgavam esses textos como sendo somente eclesiásticos, isto é, não eram canônicos porém também não eram contrários à Fé. Foi o caso de Melitão, Rufino, Atanásio e outros. Como podemos ver o assunto não era pacífico, e houve bastante discórdia sobre o tema.

Jerônimo inicialmente negou a canonicidade dos deuterocanônicos. Porém, os estudiosos encontraram uma mudança posterior de sua opinião em suas cartas escritas a Rufino e a Paulino, Bispo de Nola.

Mas no fim das contas esta discórdia parece ter sido resolvida ou então não influenciou o parecer comum da igreja antiga.

Nenhum Concílio da igreja primitiva recusou a canonicidade destes livros, muito pelo contrário. Foram declarados canônicos nos Concílios regionais de Roma (382 d.C, dando origem ao Cânon Damaseno), Hipona I (cânon 36, 393 d.C), Cartago III (cânon 47, 397 d.C), IV (cânon 24, 417 d.C), Trullo (cânon 2, 692).

Um documento conhecido como Decreto Gelasiano (496 d.C) também confirma a canonicidade dos deuterocanônicos.

Mas isso não significa que todos os cristãos, fossem apenas seguidores da fé ou os sacerdotes de comunidades, aceitassem isso. Com a formação de uma igreja se destacando de outros grupos menores essa aceitação acontecia entre os cristãos católicos apostólicos romanos.

A aceitação comum dos deuterocanônicos como livros sagrados fica ainda mais clara ao encontrarmos os textos presentes nas primeiras versões Bíblicas, como a Vetus Latina e a Vulgata. Na época, no Oriente, a Septuaginta foi adotada como a versão oficial do Antigo Testamento.

Os livros deuterocanônicos foram escritos entre Malaquias e Mateus, ou seja, numa época em que segundo o historiador judeu Flávio Josefo, cessara por completo a revelação divina. Entretanto segundo os Evangelhos a revelação do Antigo Testamento durou até João Batista (cf. Mt 11,12-13 e Lc 16,16). Essa já começava a se mostrar a futura divisão que aconteceria entre o judaismo e o recém criado cristianismo.

Os textos deuterocanônicos chegaram até nós apenas em grego (alguns escritos originalmente nessa língua, outros traduzidos duma versão hebraica, que se perdeu), fazendo parte da Septuaginta. Tais textos não se encontram na Tanakh.

É importante dizer que também no Novo Testamento existem livros deuterocanônicos. São eles:

– Tiago
– Hebreus
– Apocalipse
– 2 Pedro
– 2 e 3 João.

Assim como os livros deuterocanônicos do Antigo Testamento, estes também tiveram sua canonicidade contestada por muitos séculos.

E mesmo depois deste tempo todo ainda não havia consenso. Martinho Lutero, o reformista da Igreja Católica e pai do Protestantismo, chegou até mesmo não considerar canônicos Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse, que na sua tradução da Bíblia para o Alemão deixou-os num apêndice sem numeração de páginas. Depois os demais reformadores decidiram que estes livros deveriam voltar à Bíblia, pela larga utilização nas comunidades cristãs, mas não fizeram o mesmo com os deuterocanônicos do AT.

No início do séc. XV, um grupo dissidente da Igreja Copta (também chamados de Monofisistas), conhecidos como Jacobitas questionaram muitos dos concensos cristãos da época, inclusive o Cânon Alexandrino. Em 1441, O Concílio Ecumênico de Florença, através da Bula Cantate Domino (4/2/1442) reafirma o caráter canônico do Cânon Alexandrino.

Com a Reforma Protestante, Lutero volta a questionar o caráter canônico dos Deuterocanônicos negando inclusive seu caráter eclesiástico, pois para ele estes livros eram contrários à Fé. Em 1545, é convocado o Concílio de Trento, que novamente afirma o caráter canônico do Cânon Alexandrino.

No início não houve consenso entre os Protestantes sobre o Cânon do Antigo Testamento. O Rei Jaime I da Inglaterra, responsável pela famosa tradução KJV (King James Version), defendia que os Deuterocanônicos deveriam continuar constando nas Bíblias Protestantes. Praticamente na mesma época surgiu uma tradução conhecida como Bíblia de Geneva ou Genebra, que caracterizava os Deuterocanônicos como apócrifos.

Somente após a “Confissão de fé de Westminster” (séc. XVII), protestantes ingleses que eram influenciados pelo calvinismo e puritanismo removeram das suas listas os livros deuterocanônicos, passando a adotar como lista de composição do Antigo Testamento o Cânon Hebraico conforme instituído no Concílio de Jâmnia. Princípios desta confissão foram espalhando-se por várias denominações e seu conteúdo funcionou como resposta ao concílio de Trento. Então novamente os textos do Antigo Testamento que não eram aprovados pelos Judeus foram retirados da Sagrada Escritura.

Até hoje existem muitos cristãos protestantes que chamam os deuterocanônicos de apócrifod, alegando que os textos trazem muitos erros, como por exemplo erros geográficos, e por acreditar que muitos fatos narrados neles não se concretizaram, eles chegam mesmo e remover os textos de suas Bíblias e dizem que não são textos inspirados. Outro argumento apontado é de que foram escritos no período intertestamentário (período de 400 anos compreendidos entre o novo e o velho testamento), ou seja em um período que segundo os teólogos reformadores Deus não teria levantado nenhum profeta. Este período também ficou conhecido como “silêncio profético”, e isso faz com que não reconheçam estes livros como fazendo parte da palavra de Deus.

Então se formos tentar colocar ordem nesta bagunça:

Os deuterocanônicos já faziam parte da vida dos judeus através Septuaginta, dos judeus cristãos através da Vetus Latina e da Vulgata. A primeira Bíblia impressa da história, conhecida como a Bíblia de Gutenberg (1450-1455) também já continha os livros deuterocanônicos do Antigo Testamento. Eles estavam presentes mesmo nas primeiras versões protestantes como a KJV (King James Version).

Já os Apócrifos, do grego Apokruphoi, secreto, separado ou excluído, eram conhecidos como Livros Pseudo-canônicos. O termo “apócrifo” foi cunhado por Jerônimo, no quinto século, para designar basicamente antigos documentos judaicos escritos no período entre o último livro das escrituras judaicas, Malaquias, e a vinda de Jesus Cristo. São livros considerados não  inspirados e portanto não entraram no Cânon.

No cristianismo ocidental atual existem vários livros considerados apócrifos; nos sínodos realizados ao longo da história esses livros foram banidos do canon, outros obtiveram uma reconsideração e retornaram à condição de Sagrados.

O número dos livros apócrifos é maior que o da Bíblia canônica. É possível contabilizar 113 deles, 52 em relação ao Antigo Testamento e 61 em relação ao Novo. A tradição conservou outras listas dos livros apócrifos, nas quais constam um número maior ou menor de livros. A seguir, alguns desses escritos segundo suas categorias.

Evangelhos:

– de Maria Madalena
– de Tomé
– Filipe
– Árabe da Infância de Jesus
– do Pseudo-Tomé
– de Tiago
– Morte e Assunção de Maria
– Judas Iscariotes

Atos:

– de Pedro
– Tecla e Paulo
– Dos doze apóstolos
– de Pilatos

Epístolas:

– de Pilatos a Herodes
– de Pilatos a Tibério
– dos apóstolos
– de Pedro a Filipe
– Paulo aos Laodicenses
– Terceira epístola aos Coríntios
– de Aristeu

Apocalipses:

– de Tiago
– de João
– de Estevão
– de Pedro
– de Elias
– de Esdras
– de Baruc
– de Sofonias

Testamentos:

– de Abraão
– de Isaac
– de Jacó
– dos 12 Patriarcas
– de Moisés
– de Salomão
– de Jó

Outros:

– A filha de Pedro
– Descida de Cristo aos Infernos
– Declaração de José de Arimatéia
– Vida de Adão e Eva
– Jubileus
– 1,2 e 3 Henoque
– Salmos de Salomão
– Oráculos Sibilinos

E isso para citar alguns. E todos esses textos de uma forma ou de outra passaram por aquele crivo do qual falamos anteriormente sendo banidos para sempre ou então ficando em cima do muro, aparecendo e sendo retirados e voltando a aparecer nas escrituras.

19 – Mas a Bíblia é uma zona!

Sim, mas só se você parar para pensar a respeito.

Vamos tentar criar aqui duas linhas do tempo, a primeira a cultural que representa como a Bíblia teria sido desenvolvida de acordo com a história que ela mesma conta:

A Bíblia como a que você compra hoje em uma loja foi escrita por um período de 1500/1600 anos, por cerca de 40 pessoas diferentes com profissões, origens culturais e classes sociais diferentes. Para quase todos os Judeus e Cristãos ela é a Palavra de Deus, ou seja, muito mais do que simplesmente um livro.

Ela teria sido escrita da época de Moisés entre 1592 a.C. e 1472 a.C. aproximadamente, até o último livro, o Apocalipse de São João, datado de cerca de 96 d.C., tendo passado por um período sem registros inspirados por Deus, o “silêncio profético”, que separou a época do Antigo Testamento (Judeus) do Novo Testamento (Cristãos), esse período foi de aproximadamente 400 anos.

Então lá pelo ano de 96 d.C. a Bíblia com textos de mais de 1600 anos de tradição estaria, em tese, pronta para circular e ser reproduzida integralmente até os dias de hoje para se chegar na sua mão.

Agora uma pausa para os cínicos de plantãos ou aqueles simplesmente confusos até agora antes de nos aventurarmos a montar nossa segunda linha do tempo, a criada a partir de registros e evidências históricas, arqueológicas e culturais. Nós estamos passando por uma revisão ortográfica que está definindo a nova regra da escrita da língua portuguesa. Um exemplo é a palavra Bem-Vindo sendo atualizada para Benvindo.

Se no ano de 2500 fossem realizar um estudo de capachos de portas para se publicar um desses livros de mesa de centro que algumas pessoas gostam tanto, eles teriam várias fotos de capachos dizendo SEJA BEM-VINDO anteriores a 2009 e várias fotos com capachos dizendo SEJA BENVINDO posteriores a esta data. Mesmo hoje em dia com a midia que temos e a pressão social de aceitar mudanças, podemos apostar que pelos próximos anos ainda serão produzidos muitos capachos com os dizeres BEM-VINDO, ou seja a forma que o texto foi escrito no capacho não é indicativo de que ele date de antes de 2009 ou depois de 2009.

Vamos dizer que lá pelo ano de 2050 surjam os puristas que defendem que se as pessoas cultas se reunem e decidem que BENVINDO é a melhor forma de se escrever algo então é porque deve ser seguido, pode ser que surja uma lei do INMETRO que defina que os capachos só poderão chegar no mercado caso tenham a grafia correta do termo. Ai podemos chamar esta manifestação de o primeiro Concílio de BENVINDO.

Acontece que isso acaba influenciando os maiores centros comerciais, cidades afastadas ou fabricantes de capacho que não ligam para a lei podem continuar com a sua grafia errada e assim teríamos os primeiros hereges – sejam conscientes (eu não vou comprar uma máquina nova que imprima a palavra nova), sejam os inocentes (mudou a palavra? eu não sabia).

Agora temos que levar em conta também outro fator, os capachos que tinham a grafia BENVINDO antes da mudança da norma ortográfica, ou seja, aqueles que já estavam errados antes do errado virar certo.

Só ai já teríamos problemas, 400 anos depois, de datar um capacho, simplesmente pela grafia de uma palavra, ele poderia ser anterior à data do Concílio de BENVINDO, poderia ser posterior, poderia ser um erro mais antigo ou poderia ser um capacho com a escrita antiga “gambiarrado” para apresentar a nova sem ter que mudar as máquinas, com um M deformado e o espaço entre as palavras coberto por um desenhinho qualquer.

Como isso se aplica à Bíblia?

Só porque um texto foi tomado como correto no século VI d.C. não significa que ele já não existisse 1600 anos antes, assim como um texto que começou a aparecer em determinado século não existisse com uma circulação muito mais restrita antes. Da mesma forma dois textos diferentes não querem dizer automaticamente manipulação maldosa. O fato de não termos hoje em mãos um original não significa que ele nunca tenha existido, e um texto que só se tornou oficial em um ano X não era sem valor antes. Pense que a palavra e o conceito Bem-Vindo existiam antes da correção ortográfica e provavelmente antes de inventarem a escrita e a registrarem pela primeira vez.

Vamos ver então como fica a história da Bíblia em termos de registros históricos:

640 a.C – Data em que se criou uma unidade doutrinária necessária para o reconhecimento da lei escrita.

287 – 247 a.C. – Criação da Septuaginta

225 a.C. – Trecho bíblico mais antigo: passagem de um dos livros de Samuel.

100 a.C. – O texto mais antigo conhecido da Bíblia: Livro de Isaías

0-100 d.C. – Vetus Latina & suposta época da composição do Novo Testamento

90 d.C. – Concilio de Jâmnia decidiu quais os livros que fariam parte do cânon judaico (Antigo Testamento)

125 d.C. – Texto mais antigo do Novo Testamento: fragmentos do evangelho de João, incluindo a pergunta de Pilatos a Jesus: “Você é o rei dos judeus?”

325 d.C. – Canonização do Novo Testamento

404 d.C. – Jerônimo completa a Vulgata.

500-600 d.C. – Texto Massorético (Antigo Testamento)

500 d.C. – A Bíblia começa a ser traduzida para mais de 500 línguas diferentes.

600 d.C. – Cria-se a Lei que determina que a Bíblia apenas pode ser copiada e distribuída em Latim.

995 d.C. – Surgem novas traduções anglo saxônicas da Bíblia do Novo Testamento.

1384 d.C. – Wycliffe se torna a primeira pessoa a se criar uma versão completa da Bíblia em Inglês (era uma versão manuscrita).

1455 d.C. – Gutenberg cria a primeira Máquina de Impressão e a partir de então as bíblias podem ser produzidas em massa. Até então todas as versões eram manuscritas.

1560 d.C. – Bíblia de Genebra

1611 d.C. – Surgimento da versão da Bíblia do Rei James.

1753 d.C. – Primeira publicação de uma Bíblia em Português.

1844 d.C. – Sociedade Bíblica Internacional traduz a Bíblia para os últimos idiomas vivos que restavam.

1885 d.C. – Os livros considerados apócrifos são removidos das versões impressas das Bíblias Protestantes.

1898 d.C. – Os Gideões Internacionais levam a Bíblia para as prisões, escolas e favelas, hoje qualquer quarto de hotel ou motel americano possui uma versão desta Bíblia.

1993 d.C. – Biblegateway.com é o primeiro site a colocar a Bíblia na internet com ferramenta de busca e diversas traduções sincronisadas.

20 – Mas existem muitas diferenças entre as Bíblias que circulam por ai hoje?

Novamente a resposta é positiva, e não apenas entre as Bíblias mas entre as Bíblias e os textos originais.

Tenha em mente que este texto não tem como objetivo julgar se a Bíblia é um livro sagrado ou uma arma de manipulação popular e sim estudar fatos que estejam relacionados com ela.

Como já vimos, mesmo os textos em hebraico da Tanakh possuem algumas diferenças, como no caso do pentateuco samaritano e outros que existiam. A que se devem estas diferenças? Não há como dizer.

Um grande ressentimento moderno contra a Igreja Católica afirma que todos foram causados como forma de garantir que a igreja tivesse poder e riquezas, e mesmo que este seja o caso em alguns momentos, não existe como provar isso – não que houve ou não manipulação, mas que ela foi realizada com este ou aquele objetivo específico. Muitas pessoas dizem que a igreja adotou o celibato dos padres, por exemplo, como forma de impedir que eles tivessem família e assim suas posses acumuladas em vida retornassem à igreja. Mas será que isto é verdade? Se pensarmos que tanto o judaísmo quanto o cristianismo sempre possuíram grupos ascetas, que renunciavam a existência mundana em prol da vida espiritual, chegando a casos extremos como monges que se flagelavam, castrações e outras, podemos ver que muitos dos primeiros cristãos eram adeptos do celibato, assim como vários grupos dentro do judaísmo como os Essênios, por exemplo, e que quando a igreja foi fundada e o cristianismo foi adotado como religião oficial de Roma o celibato já era um costume que mesmo que não obrigatório, era muito comum, não apenas para aqueles que pregavam o cristianismo mas também para aqueles que o tinham como religião pessoal. Então mesmo que afirmemos que a igreja tomou proveito disto não podemos afirmar com certeza que ela oficializou e incentivou este hábito motivada simplesmente pela cobiça assim como não temos como negar que este hábito também foi muito lucrativo para ela.

Assim, não vamos apontar dedos tentando imaginar que diferenças bíblicas foram criadas por quem e por que motivos, mas vamos apontar algumas delas para mostrar que mesmo que a Bíblia seja tomada como um livro absoluto, os textos impressos em suas páginas não o são.

Vamos começar levantando algumas mudanças que já ocorreram nas origens de seus textos.

Originalmente foram utilizados três idiomas diferentes na escrita dos diversos livros da Bíblia: o hebraico, o grego e o aramaico. Em hebraico foi escrito todo o Antigo Testamento, com excepção dos livros chamados deuterocanônicos e de alguns capítulos do livro de Daniel, que foram redigidos em aramaico. Em grego, além dos já referidos livros deuterocanônicos do Antigo Testamento, foram escritos praticamente todos os livros do Novo Testamento. Segundo a tradição cristã, o Evangelho de Mateus teria sido primeiramente escrito em hebraico, visto que a forma de escrever tinha como objetivo alcançar os judeus.

O hebraico utilizado na Bíblia não é todo igual. Encontramos em alguns livros o hebraico clássico (por ex. livros de Samuel e Reis), em outros um hebraico mais rudimentar e em outros ainda, nomeadamente os últimos a serem escritos, um hebraico elaborado, com termos novos e influência de outras línguas circunvizinhas. O grego do Novo Testamento, apesar das diferenças de estilo entre os livros, corresponde ao chamado grego koiné (isto é, o grego “comum” ou “vulgar”, por oposição ao grego clássico), o segundo idioma mais falado no Império Romano.

Precisamos então nos lembrar de que a Tanakh foi traduzida do hebraico (as diferentes formas de hebraico que foram compiladas por séculos) para o grego na criação da Septuaginta, termos primitivos, rebuscados, simples e de uso diário foram passados para uma forma corrente de grego, um mesmo estilo de grego do princípio ao fim e então essa versão assim como a hebraica foram traduzidas para o latim da Vetus Latina. Com Jerônimo a Septuaginta é deixada de lado e ele pega todos os textos antigos – com suas variantes linguísticas – e são novamentes traduzidos para um latim de um único estilo, mas isso não fez com que as versões da Vetus Latina fossem recolhidas do mercado, elas existiam de forma paralela e quando o cristianismo se espalha surgem novas traduções para línguas locais, essas traduções não vinham de um único documento oficial, mas dos textos que cada um tinha em mãos. Então enquanto uma versão Romena pudesse vir do Latim de Jerônimo, uma versão alemã poderia vir do grego da Septuaginta e um texto espanhol ter vindo de um dos muitos livros da Vetus.

Embora a mensagem geral destes textos fossem a mesma muitas coisas surgiam, eram adaptadas ou simplesmente mudavam.

Vejam um exemplo: pegando-se o texto da Tanakh de Oséias que usamos na questão quatro:

Oséias 8:12: “Se tivesse escrito a maioria de minha Torá, [Israel] seria contado igual a estranhos”

Vamos comparar com uma tradução atual da versão Almeida da Bíblia Corrigida e Revisada Fiel de 1994:

Oséias 8:12: “Escrevi-lhe as grandezas da minha lei, porém essas são estimadas como coisa estranha”

Com a versão da Sociedade Bíblica Britânica:

Oséias 8:12: “Embora eu lhe escreva a minha lei em miríades de preceitos, estes são tidos como coisa estranha”

Dentre as versões cristãs não existe muita diferença no significado, mas veja a diferença entre a passagem judaica e a passagem cristã. Numa o recado é para o povo escolhido, na outra o recado é para todos os não cristãos, independentes da origem do cristão em questão. Não há porque segregar o conhecimento apenas aos judeus, mas ele deve ser aberto aos que acreditam e aos que não acreditam.

Qual das duas versões você acha que deve ser mantida hoje? E quando for pensar nisso, pense que esta é a Palavra de Deus, e por isso deveria ser passada adiante de forma mais fiel o possível.

Outro caso que acontece não é apenas mudar o público alvo de determinada passagem, mas de se criar novas figuras na história. Vamos prestar atenção em uma que talvez tenha se tornado a mais célebre de todas: o diabo!

O Diabo se tornou, acidentalmente ou não, uma das figuras centrais da religião hoje em dia, mas ele não esteve sempre presente na Bíblia.

Um dos nomes atribuídos ao diabo é Lúcifer, mas este nome não existe nos textos originais. A primeira vez que este nome é citado é no livro de Isaías quando Deus protege seu povo destruindo o orgulho de seu inimigo. Em Isaías 14:13 surge a frase: “Como caíste do céu, ó Lúcifer, filho da alva!”. No original a expressão utilizada não era o nome Lúcifer e sim helel bem shahar, que significa aquele que brilha. Quando traduziram esta passagem para o grego o termo foi traduzido por um que era conhecido dos gregos: eosphorus; e então para o latim Lucifer. Agora Lucifer era a tradução literal para “aquele que brilha” – lux, lucis = luz; ferre = carregar; Lucifer = o portador da luz. Ao mesmo tempo este era o título dado ao planeta Vênus, a estrela da manhã, que brilhava em pleno dia. Desta forma, apenas por causa de traduções o termo helel – aquele que brilha – se torna eosphorus grego – o portador do archote – pois era o termo mais próximo de aquele que brilha, e então para Lucifer em latim que era o termo mais próximo nesta linguagem, só que lúcifer é o nome da estrela da manhã, Vênus, a estrela da alvorada.

Entretanto o nome de “Estrela d’alva”, ou Lúcifer, foi interpretado como sendo o nome de Satanás antes de sua queda do Paraíso. Segundo esta interpretação Lúcifer e seus anjos caíram por sua própria escolha, o motivo teria sido o orgulho, representado pela tentativa de se equipararem a Deus. Desejavam colocar sua própria vontade no lugar da vontade de Deus. E isto era considerado como a base do pecado em todos os níveis. Aos poucos, estas idéias começaram a se transformar na base dos ensinamentos tradicionais sobre o Diabo.

Mas se este trecho não fala do Diabo, fala do que? De acordo com os textos originais podemos supor que trata-se de uma interpretação errônea do seguinte trecho de Isaías que fala da “morte do rei da Babilônia” Nabucodonosor (Nebukadneççar em hebraico), que recebeu a maldição suprema da privação da sepultura:

«Como caíste do céu,
ó estrela dálva, filho da aurora!
Como foste atirado à terra,
vencedor da nações!
E, no entanto, dizias no teu coração:
‘Hei de subir até o céu,
acima das estrelas de Deus colocarei o meu trono,
estabelecer-me-ei na montanha da Assembléia,
nos confins do norte.
Subirei acima das nuvens, tornar-me-ei semelhante ao Altíssimo.’
E, contudo foste precipitado ao Xeol,
nas profundezas do abismo”.
Os que te vêem fitam os olhos em ti,
e te observam com toda atenção, perguntando:
“Porventura é este o homem que fazia tremer a terra,
que abalava reinos?”»
(Isaías 14, 12-15)

Isaías compara a queda do rei Nabucodonosor à Lúcifer! A queda do rei seria semelhante à queda da estrela da manhã – planeta Vênus no céu – ou seja, uma queda muito rápida.

E assim o diabo ganha o nome de Estrela da Manhã e Lúcifer, o que é irônico se pensarmos que este nome também é dado para Jesus no Apocalipse de São João 22:16: ” Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos testificar estas coisas a favor das igrejas. Eu sou a raiz e a geração de Davi, a resplandecente estrela da manhã.”

O mesmo podemos dizer sobre o nome Satã. Satã surge nos textos hebraicos originais como um adjetivo e não como um nome. Satã significa Adversário, mas não necessariamente o Adversário de Deus. Por exemplo a passagem 1Samuel 29:4, sobre o que pedem os príncipes filisteus a Davi, surge em algumas versões da Bíblia como: “Não se volte contra nós no combate”, mas no texto hebraico original está “Não se torne satã (inimigo) nosso no combate”. Davi aplica o termo satã aos homens que se opõem à vontade de Deus tentando o rei para que mate o benjaminita que o injuriou. Satã significa a oposição humana a Deus.

Outro exemplo é o livro de Jó 1:6, que se refere a um dos filhos de Deus que se apresenta diante do trono. O nome que lhe é dado é Satã. O nome comum representa o cargo de acusar e também a adversidade, a inimizade, a oposição que é permitida ou sancionada por Deus.

O próprio termo Diabo surge de uma tradução. O Livro da Sabedoria foi escrito em grego e não temos como saber qual seria a palavra escolhida pelo autor se o tivesse escrito em hebraico. O autor utiliza a palavra grega diábolos, termo usado na Septuaginta como tradução da palavra hebraica Satã: “É por inveja do Diabo que a morte entrou no mundo” (Sb 2,24).

Assim, no Antigo Testamento Satã não representa um ser que possamos considerar um demônio no sentido cultural cristão de um ser sobre-humano e perverso. O nome Satã, ou Satanás, no Antigo Testamento personifica a inimizade, dificuldade, contradição. A palavra satã, na sua forma verbal, stn em hebraico, aparece seis vezes no Antigo Testamento (Zc 3,1; Sl 38,21; Sl 71,13; Sl 109,4; Sl 120,29). Poderia ser traduzida por “satanizar”. A Septuaginta geralmente traduz o verbo stn por endiabállo, em grego; caluniar nas línguas vernáculas (e o substantivo satã, a Septuaginta geralmente o traduz por diábolos, que significa caluniador). A Bíblia de Jerusalém geralmente traduz por acusar.

E por causa dessas traduções se cria uma figura Mitológica do demônio.

Hoje é praticamente impossível se separar o Maligno do cristianismo, os protestantes são a prova viva disso. E agora essas traduções ajudam a incorporar novas culturas e hoje não apenas demônios, mas também encostos atormentam aqueles que escolhem trilhar o caminho apontado por Cristo.

Para não nos estendermos muito mais neste assunto vamos dar mais dois exemplos rápidos de como uma tradução pode mudar um texto original, seja de maneira sutil e inofensiva ou de uma forma mais agressiva.

Em Mateus 3:4 lemos que Jesus afirmou que: “E, outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.”

Apenas neste trecho encontramos dois problemas com tradutores do grego para outras línguas.

Apesar de ser uma mensagem clara de que a humildade, e não a cobiça, é o caminho que leva a Deus esta passagem ficou muito exagerada.

Por um lado temos a palavra camelo. Além do animal existia outro camelo que os gregos conheciam, que era uma corda muito grossa utilizada por pescadores. Assim poderíamos entender que é mais fácil se passar uma corda grossa por um buraco de agulha do que um rico entrar nos céus. Apesar de ser uma idéia que de cara exclui automaticamente os ricos, sejam quem forem ou seja lá qual foi o método de se conseguir suas riquezas entrar no céu, fica uma metáfora menos exagerada. Agora temos que ter em mente que muitos patriarcas tiveram muitos bens, assim como reis e juízes, e eles com certeza devem ter entrado no céu, um exemplo é Abrahão. Mesmo das pessoas que conviviam com Cristo haviam aquelas ricas, o próprio José de Arimatéia, que cedeu a tumba onde Cristo ressuscitou, era rico; apenas se imaginarmos que mesmo tendo vivido com Cristo, respeitado tanto o Homem quanto sua mensagem, ele tenha sido deixado de fora do reino dos céus, temos que concluir que essa passagem é muito extrema. Jesus estaria dizendo que a riqueza é um grande mal, não importa de onde ela veio?

Podemos responder isso com o segundo problema de tradução, a palavra agulha. A agulha além do utensilho de costura é o nome dado às pequenas portas das cidades fortificadas para passagem dos animais das caravanas, utilizadas à noite depois que é dado o toque de recolher. Eram também utilizadas nos tempos de guerra, através das quais podia-se fazer o transporte de armas e comida. Essas agulhas são muito presentes ainda hoje nas muralhas da cidade antiga de Jerusalém.

Camelos com carga eram proibidos de passar por essas portinholas para evitar o comercio e o barulho durante o sono dos cidadãos. Além disso existe outro costume interessante, pelas portas principais das cidades eram comum que se passassem em sua maioria os mais bem quistos, ilustres e visitantes nobres. Pela agulha passavam os trabalhadores, o proletariado e os mercadores. Era como o elevador social e o elevador de serviço nos prédios hoje em dia. Além disso, mesmo durante o dia era realmente difícil se passar um camelo por elas. Era necessário bater no camelo e fazê-lo abaixar e na maioria dos casos, tirar a carga dele para passá-lo. Os camelos de grande porte, raramente passavam. Mas mesmo assim alguns passavam.

Desta forma temos dois fatores culturais, a corda dos pescadores – camelo – e as portinholas nos muros – agulhas – que deveriam ser levadas em conta no momento de se traduzir um texto como este.

A idéia de um animal passando por um buraco de agulha nos mostra que Jesus disse que ninguém rico entraria no reinos dos Céus. Isso poderia ser usado para mostrar que uma pessoa que aceite Deus deve se livrar de seus bens materiais. Já uma tradução que levasse em conta os costumes gregos e judaicos poderia levar em conta que a riqueza não é o que impede alguém de entrar no reino dos céus, mas aquilo que foi o motivo da riqueza – o trabalho ou a cobiça?

Por si só, a tradução deste trecho tem uma interpretação que muda de forma sutil um conceito que pode, por um efeito de bola de neve mudar a mensagem original.

Outro caso interessante de tradução é a famosa passagem da crucificação em que Jesus pergunta a Deus porque foi abandonado.

Em Mateus 27:45 e em Marcos 15:34 está registrado que depois de crucificado, Jesus, quando se aproximava a nona hora bradou/exclamou em voz alta: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”

Esta é uma exclamação curiosa que confunde várias pessoas. Como Jesus na cruz poderia ter sido abandonado por Deus.

Algumas pessoas dizem que neste momento Cristo não estava perguntando a Deus porque havia sido abandonado e sim estava recitando os salmos, já que o Salmo 22:1 – Salmo de Davi para o músico-mor, sobre Aijelete Hashahar – se inicia com a frase: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”

Este é um caso interessante da Bíblia, já que o Novo Testamento foi escrito quase todo em grego, mas contém palavras e frases que foram transliteradas do hebraico diretamente para o grego. Então a palavra יקתנב שé transliterada para σαβαχθανι. Assim em Mateus temos: “Eli! Eli! lamma sabachthani” e em Marcos: “Eloi! Eloi! lamma sabachthani”. Em ambos os casos a palavra sabachthani tem o significado de abandonastes.

Agora eis o caso que surge quando olhamos para algumas outras bíblias, como a versão espanhola de Casiodoro de Reina, de 1569 impressa na América onde a palavra que Jesus usa é sabachtani e não sabachthani. Antes de prosseguir vamos nos lembrar do Texto Massorético e sua importância.

O alfabeto hebraico não possiu vogais. Por isso a letra Beth pode ter as cinco pronúncias Ba, Be, Bi, Bo e Bu dependendo da palavra em que encontra. É como se em português a palavra “Belo” fosse escrita Bl, apenas o B e o L. Se a pessoa está escrevendo sobre uma pessoa e lemos que a achavam Bl podemos deduzir que ela era considerada bela, mas e se pegamos apenas Bl e deixamos escrita no meio de uma folha de papel? Está escrito ali Belo, Bela, Bala, Balé, Bolo, Bula, etc? Não temos como saber. Por isso foram criados os sinais massoréricos, eram sinais utilizados pelos massoretas para saber se a letra B tinha som de Ba ou de Be. Os sinais massoréticos são uma série de pontos e traços que podem estar embaixo, no meio ou em cima de cada letra e o objetivo era registrar uma palavra da forma que havia sido pronunciada. Só ai temos um problema novamente, isso faz com que tradições antigas dependam da tradição oral.

Imagine agora a seguinte cena, um patriarca recebe de Deus a mensagem de que devemos nos amar uns aos outros. Essa tradição vai sendo transmitida oralmente, até o momento em que a colocam no papel, usando um alfabeto onde não existem diferenças claras entre a pronúncia das palavras. Agora imagine que dois judeus, um que conhece a tradição e outro que não conhece recebam a tarefa de pintar nos muros a mensagem de Deus, e dão para cada um uma parte da cidade para que espalhem o recado.

Um deles pega seu balde e tinta e sai escrevendo nos muros: Deus mandou que nos amássemos uns aos outros. O outro escreve nos muros: Deus mandou que nos amassemos uns aos outros. Você percebe a diferença que as duas mensagens possuem? De um lado da cidade as pessoas declarariam o amor, do outro sairiam se amassando.

E ai voltamos ao trecho da crucificação. Jesus dá o seu brado, estava cercado por Judeus, eles levam o recado adiante e o transmitem. Apesar dos evangelhos terem sido escritos originalmente em grego os termos eram judeus, tanto que as palavras de Cristo vem escritas no original e então lhe oferecem a tradução. Acontece que os manuscritos gregos trazem a transcrição: “Li’Li LMH ShBHhTh-NI”, ou seja “sabachthani”, que tem como tradução “glorificas”, e não “abandonastes”. E assim por um erro mínimo, a compreensão da pronuncia de uma palavra ao invés do brado “Deus! Deus! O quanto me glorificas!” temos “Deus! Deus! Por que me abandonastes?”.

Pensando nos dois brados, qual parece o mais lógico por ter sido dado por Jesus, que sabia que seria crucificado, que sabia que Judas o delataria, que pediu para Judas na última ceia para ir fazer o que devia, que quando surgiram os soldados romanos procurando por Cristo se adiantou a todos e disse “Sou eu!” mesmo antes de ter sido apontado por Judas, que quando teve várias chances de evitar seu destino na frente de cada juiz e governante romano que o interrogou permaneceu calado? Bem a realidade nem sempre segue o que julgamos ser lógico, mas temos ai outro exemplo de como uma simples tradução pode influenciar um texto que deveria ser um registro exato criando sentidos tão diferentes para uma mesma passagem.

Assim cada nova versão que surgia e era usada como base para novas cópias, sejam manuais ou impressas geravam bíblias com textos trazendo algumas diferenças, em uma Jesus se lamenta em outra exalta Deus. E muitas dessas diferenças estão presentes até hoje.

21 – Mas não existe hoje uma Bíblia que seja aceita como a mais fiel aos textos originais, tipo uma Bíblia aceita por todos como a mais correta?

Não, a palavra de Deus recebeu várias versões durante a sua publicação e não apenas isso, diferentes grupos cristãos tem diferentes Bíblias oficiais.

Para se ter uma idéia a igreja primitiva, formada pelos primeiros seguidores da mensagem de Cristo começou a apresentar mudanças na crença original desde o século V. Nos dias de hoje existem dezenas, se não centenas, de variações do cristianismo e cada um com diferenças fundamentais entre si.

Vamos olhar uma breve linha do tempo da igreja para entender um pouco essas variantes.

Com o Concílio de Efeso em 431 uma vertente se solidifica, os Noestorianos, que entre outras coisas acreditavam que Cristo era formado por duas pessoas distintas, uma humana e outra divina, dois entes completos e independentes. Essa doutrina surgiu na Antióquia e influenciou a Síria, ela foi proposta pelo monge Nestório por causa das disputas cristológicas que surgiram nos séculos III, IV e V. No Concílio de Éfeso criou-se uma disputa centrada fundamentalmente em torno do título com o qual se devia referir a Maria, se somente cristotokos (mãe de Cristo, a dizer, de Jesus humano e mortal), como defendiam os nestorianos, ou de theotokos (mãe de Deus, ou seja, também do Logos divino), como defendiam os partidários de Cirilo. Resolveu-se adotar como verdade de fé a doutrina proposta por Cirilo, concedendo a Maria o título de Mãe de Deus e os nestorianos foram considerados hereges.

Até hoje é possível encontrar nestorianos, que se propagaram pela Ásia Central, chegando até a China e que durante algum tempo influenciaram os mongóis. Atualmente subsistem as igrejas nestorianas (conhecidas, de uma forma geral, como Igreja Assíria do Oriente) na Índia e no Iraque, Irã, China e nos Estados Unidos, além de alguns outros lugares onde haja migrado comunidades cristãs dos países citados. A Igreja Assíria do Oriente teve um papel fundamental na conservação de antigos textos gregos que foram traduzidos para o siríaco (um ramo do arameu). Mais tarde foram traduzidos para o árabe e no século XIII para o latim. Além da Igreja Assíria do Oriente, existem atualmente várias denominações cristãs que são também fortemente influenciadas pelo nestorianismo. Exemplos destas denominações, que foram fundadas muito após a igreja Assíria, são os anabatistas, os cristadelfianos e os rosacrucianos.

Em 451 com o Concílio de Calcedônia surgiram as igrejas não-calcedonianas – também conhecidas como antigas igrejas orientais. Elas surgiram por se recusarar a aceitar a doutrina das “duas naturezas de Cristo” (ou união hipostática), decretada pelo Concílio de Calcedônia e aceitada pelos católicos e ortodoxos. São acusadas de serem monofisita apesar de se recusarem a aceitar esta classificação se descrevendo como miafisitas. Isto porque as Igrejas não-calcedonianas também acham que o monofisismo é herético.

Para equilibrar as doutrinas antitéticas do monofisismo e da união hipostática (ambas também não aceitas pelos ortodoxos orientais), estas Igrejas defendem que em Jesus há a parte humana e a parte divina, mas que estas duas partes se unem para formar uma única e unificada Natureza de Cristo. Eles acreditam que uma união completa e natural das Naturezas Divina e Humana em uma só Natureza é autoevidente, de maneira a alcançar a salvação divina da humanidade, em oposição à crença na união hipostática (onde as Naturezas Humana e Divina não estão misturadas, porém também não estão separadas) promovida pelas atuais Igrejas Católica e Ortodoxa, esta crença defendida pelos não-calcedonianos chama-se miafisismo.

Atualmente, existem cerca de 79 milhões de ortodoxos não-calcedonianos que são organizados em seis Igrejas nacionais autocéfalas e em várias Igrejas autônomas associadas às Igrejas autocéfalas:

– Igreja Apostólica Armênia;
– Igreja Ortodoxa Síria;
– Igreja Ortodoxa Copta ou Alexandrina (egípcia ou etíope);
– Igreja Ortodoxa Etíope;
– Igreja Ortodoxa Indiana;
– Igreja Ortodoxa Eritréia

Apesar de serem autocéfalas, isto é, independentes umas das outras, estas Igrejas estão ainda em comunhão total entre si, partilhando as mesmas crenças e doutrinas cristãs.

No século XI acontece aquilo que ficou conhecido como o Grande Cisma do Oriente, que causou a separação entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Católica Ortodoxa.

As tensões entre as duas igrejas datam no mínimo da divisão do Império Romano em oriental e ocidental e a transferência da capital da cidade de Roma para Constantinopla no século IV.

Uma diferença crescente de pontos de vista entre as duas igrejas foi causada pela ocupação do oeste pelos invasores bárbaros, enquanto o leste permaneceu herdeiro do mundo clássico. Enquanto a cultura ocidental se foi paulatinamente transformada pela influência de povos como os germanos, o Oriente permaneceu ligado à tradição da cristandade helenística. Era a chamada Igreja de tradição e rito grego. Isto foi exacerbado quando os papas passaram a apoiar o Sacro Império Romano no oeste, em detrimento do Império Bizantino no leste, especialmente no tempo de Carlos Magno. Havia também disputas doutrinárias e acordos sobre a natureza da autoridade papal.

A igreja de Constantinopla respeitou a posição de Roma como a capital original do império, além disso existia a oposição do Ocidente em relação ao cesaropapismo bizantino, isto é, a subordinação da igreja oriental a um chefe secular, como acontecia na igreja de Bizâncio.

Uma ruptura grave ocorreu de 456 a 867, tocada pelo patriarca Fócio que sabia que contribuía para aumentar o distanciamento entre gregos e latinos e usou a questão do filioque – uma expressão latina que significa “e do Filho”, que foi acrescentada pela igreja Católica Romana ao credo para explicitar que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho enquanto a Igreja Ortodoxa entende que o Espírito Santo procedeu apenas do Pai – como ponto de discórdia, condenando a sua inclusão no Credo da Cristandade ocidental e lançou contra ela a acusação de heresia. Além disso ela desconsidera a liderança papal.

Aqui vai uma lista das jurisdições que formam a igreja Ortodoxa:

– Patriarcado de Constantinopla
– Patriarcado de Alexandria
– Patriarcado de Antioquia
– Patriarcado de Jerusalém
– Patriarcado de Moscou
– Patriarcado da Geórgia
– Patriarcado da Sérvia
– Patriarcado da Roménia
– Patriarcado da Bulgária
– Igreja Ortodoxa de Chipre
– Igreja Ortodoxa Grega
– Igreja da Albânia
– Igreja da Sérvia
– Igreja Ortodoxa da Polónia
– Igreja das terras Checo-eslovacas
– Igreja Ortodoxa na América
– Igreja do Sinai
– Igreja da Finlândia
– Igreja da Ucrânia
– Igreja do Japão
– Igreja da China
– Igreja de Portugal

Já no século XVI acontece a Reforma Protestante, um movimento reformista cristão iniciado no século XVI por Martinho Lutero, que, através da publicação de suas 95 teses, protestou contra diversos pontos da doutrina da Igreja Católica, propondo uma reforma no catolicismo. Os princípios fundamentais da Reforma Protestante são conhecidos como os Cinco Solas:

1 – Sola fide: conhecida como Doutrina da justificação pela Fé, que afirma que é exclusivamente baseado na Graça de Deus, através somente da fé daquele que crê, por causa da obra redentora do Senhor Jesus Cristo, que são perdoadas as transgressões da Lei de Deus.

2 – Sola scriptura: significa “somente a escritura”, é o principio no qual a Bíblia tem primazia ante a Tradição legada pelo magistério quando os princípios doutrinários entre estas e aquelas forem conflitantes. Na Reforma, não se rejeita a Tradição, ela continua a ser usada como legitimadora para qualquer assunto omitido pela Bíblia.

3 – Solus Christus: a “salvação somente por Cristo”. Os protestantes caracterizavam os dogmas relativos ao Papa como representante de Cristo e chefe da Igreja sobre a terra, o conceito de mérito por obras e a idéia católica de um tesouro vindouro por causa das boas obras, como uma negação de que Cristo é o único mediador entre Deus e os homens.

4 – Sola gratia: “Somente a Graça”. A doutrina da salvação da Igreja Católica Romana seria uma mistura de confiança na graça de Deus e confiança no mérito de suas próprias obras, já a posição reformada é a de que a salvação é inteiramente condicionada a ação da graça de Deus, ou seja, só a graça através da regeneração unicamente promovida pelo Espírito Santo, em conjuto com a obra redentora de Jesus Cristo.

5 – Soli Deo gloria: “Glória somente a Deus”, é o princípio segundo o qual toda a glória é devida a Deus por si só, uma vez que salvação é efetuada exclusivamente através de sua vontade e ação. Não só o dom da expiação de Jesus na cruz, mas também o dom da fé, criada no coração do crente pelo Espírito Santo. Os reformadores acreditavam que os seres humanos – mesmo santos canonizados pela Igreja Católica Romana, os papas, e as autoridades eclesiástica – não eram dignos da glória que lhes foi atribuída.

Lutero foi apoiado por vários religiosos e governantes europeus provocando uma revolução religiosa, iniciada na Alemanha, e estendendo-se pela Suíça, França, Países Baixos, Reino Unido, Escandinávia e algumas partes do Leste europeu, principalmente os Países Bálticos e a Hungria. A resposta da Igreja Católica Romana foi o movimento conhecido como Contra-Reforma ou Reforma Católica, iniciada no Concílio de Trento.

O resultado da Reforma Protestante foi a divisão da chamada Igreja do Ocidente entre os católicos romanos e os reformados ou protestantes, originando o Protestantismo.

Foi por causa da reforma que surgiram outros grupos como:

– Os Anabatistas
– Pentecostais
– Adventistas
– Batistas
– Calvinistas
– Presbiterianos
– Congregacionalistas
– Puritanos Separatistas
– Metodistas
– Luteranos
– Pietistas
– Anglicanos

E cada uma com uma visão próprio da Mensagem de Deus e a meneira de utilizá-la. Por exemplo para os católicos a Bíblia é a fonte de fé, mas devia ser interpretada pelos padres da Igreja, a tradição Católica também é uma fonte de fé, assim como o Magistério da Igreja. Para os Calvinistas a Bíblia é a única fonte de fé e deve ser examinada por qualquer um livremente. Já para os Anglicanos a Bíblia é a fonte principal de fé mas deve ser interpretada pela Igreja (tradição) e então ela pode ser examinada livremente.

Além desses grupos principais cristãos durante a história surgiram outros grupos cristãos também:

Os Restauracionistas: que usam doutrinas surgidas após a Reforma Protestante cujas bases derrogam as de todas as outras tradições cristãs, basicamente tendo como ponto em comum apenas a crença em Jesus Cristo. A maioria deles não se considera propriamente “protestante” ou “evangélico” por possuirem grandes divergências teológicas. Nesta categoria estão enquadradas a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a Igreja Adventista do Sétimo Dia e as Testemunhas de Jeová, entre outras denominações. Quanto às Testemunhas de Jeová, embora afirmem ser cristãs, também não se consideram parte do protestantismo. As Testemunhas aceitam a Jesus como criatura, de natureza divina, seu líder e resgatador, rejeitando, no entanto a crença na Trindade e ensinando que Cristo é o filho do único Deus, Jeová, não crendo que Jesus é Deus.

O Cristianismo esotérico: que é a parte mística do cristianismo, e compreende as escolas cristãs de mistérios e sincretismo religioso. A este ramo pertence o Gnosticismo que é uma crença com raízes anteriores ao próprio cristianismo e que tem características da ciência egípcia e da filosofia grega. O Rosacrucianismo também se enquadra nessa vertente sendo uma ciência oculta cristã que ressalta as boas ações por meio da fraternidade.

O Espiritismo: que algumas vezes é contestado como sendo uma vertente do cristianismo. Os espíritas não acreditam que uma pessoa ou ser, como Jesus Cristo, pode redimir “os pecados” de uma outra, contudo para a maior parte dos adeptos do espiritismo a obra de Allan Kardec constitui uma nova forma de cristianismo, ou então um resgate do cristianismo primitivo, que não inclui os dogmas adicionados pela Igreja Católica em seus diversos Concílios. Inclusive, um dos seus livros fundantes é denominado de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Esse livro apresenta uma reinterpretação de aspectos da filosofia e moral cristã, crendo em parte na Bíblia Sagrada.

O Rastafarianismo: também conhecido como movimento rastafári ou Rastafar-I (rastafarai) é um movimento religioso que surgiu na Jamaica entre a classe trabalhadora e camponeses negros em meados dos anos 20, iniciado por uma interpretação da profecia bíblica.

Como vimos cada um desses grupos, apesar de terem crenças cristãs em comum, possuem muitas divergências em crenças fundamentais, como a natureza de Cristo, o poder dado por Cristo a seus apóstolos, a fundação de uma igreja, etc… e isso acaba afetando a maneira como interpretam a Bíblia, os livros da Bíblia que são aceitos como realmente inspirados por Deus e a maneira como passam a Bíblia adiante.

E isso chega a afetar inclusive os textos de livros da Bíblia que são aceitos por todos. Para se ter idéia, alguns grupos acreditam que a Bíblia deveria ser não apenas passada a diante, mas ser atualizada com termos novos e atuais, um bom exemplo disso é a Bíblia Viva, editada no Brasil pela Editora Mundo Cristão. Ela foi considerada uma das traduções mais bem sucedidas do século XX pela revista Christianity Today. Kenneth N. Taylor ao invés de traduzir palavra por palavra resolveu traduzir “conceito por conceito”. Para ele não fazia sentido um texto como: “A criança de peito brincará sobre a toca da áspide e o já desmamado meterá a mão na cova do basilisco” e assim temos o trecho nesta Bíblia hoje como: “Criancinhas brincarão perto de cobras e não serão picadas, mesmo que enfiem a mão nas suas covas”.

Assim, mesmo a Vulgata de Jerônimo, que já buscava unificar os textos sagrados, acaba sendo traduzida e adaptada para termos correntes e locais, assim em 500 d.C. já haviam mais de 500 traduções diferentes. E lembre-se ainda das versões da Vetus Latina e da Septuaginta que surgiam e eram usadas.

Assim cada grupo novo que surgia não apenas encorajava mudanças nos textos aceitos – os católicos tem em sua versão da Bíblia os Deuterocanônicos, os protestantes não, os gnósticos usam os textos apócrifos, alguns grupos, mesmo Cristãos, rejeitam o Novo Testamento, outros rejeitam o antigo Testamento já que Cristo veio trazer uma nova aliança e a antiga não era mais necessária.

Para se ter uma idéia do quanto essas traduções afetaram a Bíblia, Thomas Linacre depois de ler os evangelhos em grego e os comparar com a versão da Vulgata em 1490, disse: “Ou isto (o texto grego original) não é o Evangelho… ou nós não somos cristãos”. Mostrando a corrupção das traduções para o Latim. De novo, isso não se devia exatamente a um plano da igreja de manipular a Bíblia, mas à maneira com que a Bíblia atravessava as eras. Quando os antigos copistas reproduziam os livros, reescreveendo-os integralmente à mão eles deixavam notas de rodapé sempre que percebiam que haviam cometido algum erro, principalmente no caso de terem omitido uma palavra ou mesmo uma linha do texto original. Quando escribas de um período posterior começavam a copiar essas cópias muitas vezes deixavam essas notas de rodapé de lado, não corrigiam o texto do livro (seria um pecado enorme um mero copista incluir em uma reprodução algum texto que não estivesse no original) e também deixavam de lado as notas que apontavam os erros que eram percebidos durante o processo de reprodução.

A primeira versão em inglês da Bíblia foi feita por John Wycliffe em 1380, ele era um professor de Oxford, um estudioso e teólogo. Wycliffe era conhecido também por se opor aos ensinamentos da igreja, os quais ele acreditava serem exatamente o oposto daqueles pregados pela Bíblia. Com a ajuda de seus seguidores, chamados de Lollardes, e de seu assitente Purvey, associados a inúmeros copistas ele conseguiu produzir dúzias do manuscrito em inglês. Eles foram traduzidos direto das Vulgatas em latim, que eram as únicas fontes da Bíblia disponíveis na época. O Papa ficou tão furioso com essa ousadia que 44 anos após a morte de Wycliffe mandou desenterrar seus ossos, esmagá-los, então moê-los para atirar o que restasse deles no rio.

Ainda no século XV surge uma versão Hussita da Bíblia e em 1478 uma versão em catalã escrita com o dialeto de Valência. Todas elas versões proibidas pela igreja católica.

Em 1496 John Colet decide traduzir partes do Novo Testamento do Grego para o inglês para repassá-las a seus alunos e mais tarde para os freqüentadores da Catedral de São Paulo em Londres. Nesta época as pessoas tinham tamanha ânsia em ouvir a Palavra do Senhor em sua língua nativa – já que eram muito poucos os que entendiam Latim – que em seis meses o público que entrava na Igreja para ouvir a missa ultrapassava as 20.000 pessoas e um número igual se acotovelava do lado de fora tentando entrar, comparando com os dias de hoje apenas 200 pessoas costumam estar na igreja presente para o culto e a grande maioria é composta por turistas.

Em 1516 a Froben Press publicou uma versão em grego do Novo Testamento editado por Desiderius Erasmus, que reconstruiu o texto grego recombinando vários manuscritos bizantinos com traduções do texto da Vulgata, do latim para o grego novamente, quando os textos que tinha em mãos não estavam completos. Essa sua versão da Bíblia possuiu 4 edições posteriores. A publicação de Erasmus foi a primeira versão das escrituras que não derivava da Vulgata que surgia em mil anos e a primeira tradução dos originais a ser impressa. Além disso o alerta dado por sua versão do Novo Testamento era o de o quanto a Vulgata havia se afastado dos textos originais e daí a importância de uma versão da Bíblia que fosse traduzida do hebraico original e do grego original.

Em 1530 surge a primeira versão francesa, traduzida por Lefèvre d´Étaples e publicada na Antuérpia. Em 1531 aparece a Bíblia Froschauer, conhecida também como a Bíblia de Zurique, traduzida por Huldrych Zwingli, contendo mais de 200 ilustrações (as traduções de porções de textos Bíblicos traduzidos para o alemão mais antigas existentes hoje datam dos anos 311 a 380, e foram feitas direto do grego).

Com a reforma protestante começaram a surgir as principais diferenças de tradução e de apresentação da Bíblia. Lutero e companhia já defendiam a livre consulta há pelo menos 60 anos. Mas vale uma ressalva aqui. Inicialmente a proposta não era que qualquer pessoa pegasse o livro e fundasse sua própria igreja, mas sim tirar o poder da interpretação como sendo uma exclusividade do sacerdócio católico e passá-la também ao clero alemão. A idéia era que a Bíblia poderia ser compreendida por qualquer pessoa com estudo e não apenas pelos membros do clero romano. Seis décadas foram mais do que o suficiente para o primado de Pedro se organizar na chamada Contra Reforma.

O jogo de poder agora estava entre o Papa e as monarquias nacionais. Cada país possuía seu próprio intelectual protestante que fazia a parte de autoridade erudita enquanto os seus respectivos reis acumulavam o poder político. A sociedade passou por grandes mudanças e o mesmo aconteceu com nosso livro sagrado. Em 1560 muitos destes líderes protestantes estavam refugiados na Suíça se escondendo dos olhares severos dos inquisidores. Juntos, criaram a primeira “Bíblia de Estudos” que serviria de modelo para quase todas as bíblias impressas posteriormente.

Bíblia de Genebra foi a primeira edição onde a hoje consagrada divisão em versículos foi usada. Foi um salto de gigante na evolução pedagógica da Bíblia pois permitiu uma notação de referências precisas de onde encontrar esta ou aquela passagem. A partir dai o sermão da montanha não estaria “em algum lugar do livro de Matheus” mas sim precisamente em Mt 5:1 ~ 7:29. Além disso a Bíblia de Genebra trouxe outras inovações importantes como suas incontáveis notas de rodapé contendo a visão protestante dos textos antigos e a primeira lista de referências cruzadas de que se tem notícia. Com estas ferramenta novas relações puderam ser feitas entre os vários livros já pertencentes ao Canon, e isso fortaleceu o protestantismo como movimento social. O resultado disso foram Bíblias onde a tradução fidedigna deu lugar a uma cristalização do cristianismo dominante de hoje. Diversas palavras que sequer poderiam ter sido usadas na época em que os livros foram escritos foram adicionadas ao livro sagrado: homossexualismo, espiritismo e médiuns são alguns dos exemplos.

Este novo movimento de reformulações da Bíblia, não apenas traduzindo-as para as línguas nativas dos diferentes países, mas também de buscar traduções mais coerentes e fiéis aos textos originais deu origem a inúmeras novos livros. Uma versão polonesa conhecida como Bíblia Brzeska é publicada em 1563.

Após a Bíblia de Genebra houve a necessidade de uma nova versão da Bíblia, que não atacasse de maneira tão veemente a igreja enquanto instituição e assim publicaram a Bíblia dos Bispos (Bishop’s Bible), que apesar de ter tido alguma aceitação, nunca foi páreo para a Bíblia de Geneva em termos de aceitação popular.

Em 1584 tanto o Novo quanto o Antigo Testamento foram traduzidos para o Esloveno pelo teólogo protestante Jurij Dalmatin, tornando os Eslovenos a décima segunda nação a ter uma Bíblia completa em sua própria língua.

Com essas versões em inglês da Bíblia, a própria Igreja Católica desistiu, em 1582, da regra de só haverem Bíblias em latim e assim deram início à preparação de uma versão oficial da Bíblia aprovada pela igreja católica em Inglês – a primeira tradução oficial das Escrituras Sagradas, um projeto compatível com a criação da Vulgata por Jerônimo mais de mil anos antes. Assim, tendo como base o texto corrupto em latim, eles criaram a versão que ficou conhecida como O Novo Testamento de Rhemes. Seguido pela Publicação do Antigo Testamento de Douay. A Bíblia resultante ficou conhecida como a versão Doway/Rhemes.

Em 1589 o Dr. William Fulke, de Cambridge, publicou o livro conhecido como a Refutação de Fulke, no qual colocava em colunas paralelas passagens da Bíblia dos Bispos e da Versão Rhemes, para mostrar como a Bíblia Católica continha textos cujas traduções estavam erradas, baseadas num latim que por si só já continha muitos erros.

Neste período morre a Rainha Elizabeth da Inglaterra e James I ocupa seu lugar no trono. O clero protestante então declara ao rei o seu desejo de uma nova tradução da Bíblia para substituir a Bíblia dos Bispos, impressa em 1568. Eles sabiam que a Bíblia de Geneva havia consquistado o povo inglês, mas queriam uma versão da Bíblia que fosse tão bem construida, com o mesmo cuidado e esmero, mas sem as notas de rodapé controversas – como as que afirmavam que o papa era o anticristo e outras semelhantes – ou seja, queriam uma bíblia para o povo com referências para as escrituras mas apenas com significados de palavras e um guia de referências cruzadas, nada que atacasse a igreja e seus membros.

Assim surge a Bíblia do Rei James, impressa pela primeira vez em 1611, que ficou conhecida como “a tradução para acabar com todas as traduções”. A Bíblia do Rei James levou mais de duas décadas para se tornar mais popular do que a versão da Bíblia de Genebra e isso se tornou algo que pode ser visto como uma das grandes ironias da história, já que muitas igrejas protestantes de hoje fazem uso da Bíblia do Rei James afirmando que ela é a única tradução dos textos sagrados para inglês considerada legítima, mas ela nem é uma tradução protestante! Ela foi impressa para competir com a Bíblia protestante, a Bíblia de Geneva, e foi encomendada e desenvolvida por autoridades que não gostavam dos Protestantes, que os perseguiam e matavam-nos, a Igreja Anglicana.

E a partir do século XVII os jesuítas se tornam responsáveis pela tradução da Palavra em inúmeras línguas do Novo Mundo.

Agora voltando os olhos para nossa língua, os primeiros registros de trechos da Bíblia para o portugês remontam ao final do século XIII, um trabalho creditado a Dom Dinis. Mas o principal responsável pela tradução de toda a Bíblia para o português foi João Ferreira de Almeida que iniciou o trabalho em 1644, quando contava com 16 anos, e prosseguiu até sua morte, em 1691, tendo traduzido todo o Novo Testamento e grande parte do Antigo Testamento, as partes que faltaram foram posteriormente traduzidas pelo pastor presbiteriano Jacob Akker, tendo sido publicada pela primeira vez em 1753 depois de alguns tropeços. Já no ano 2000 a Sociedade Bíblica Internacional editou O Livro, uma tradução dos dialetos europeus e foi concluída a Nova Versão Internacional.

Estes três trabalhos de tradução para o português ilustram bem como a revisão e constante tradução, mesmo que de uma fonte original podem criar diferenças básicas num texto, vejamos o exemplo do trecho João 3:16:

Tradução João Ferreira de Almeida
Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

Tradução O Livro
Deus amou tanto o mundo que deu o seu único Filho para que todo aquele que nele crê não se perca espiritualmente, mas tenha a vida eterna.

Tradução NVI
Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.

Vale notar que tanto a tradução d’O Livro e da NVI foram realizadas pela mesma editora, a International Bible Society.

Outro exemplo é a versão da Bíblia das Testemunhas de Jeová, onde quase todas as palavras que se referem a Deus como Senhor, Deus, Criador, Pai, etc, foram substituídas pelo nome Jeová, foram mais de 7000 alterações no texto. A idéia é mostrar que se existem 7000 menções ao nome Jeová este é realmente o nome de Deus. O problema é que nos textos originais da Bíblia esse nome não aparece uma única vez, ele seria uma adaptação da palavra JHVH que surge na Tanakh, essa mesma palavra que quando provida de vogais também orgina outros nomes como Javé, Iavé, etc. Nem é preciso dizer que essa mudança é considerada por muitos como uma mutilação da Palavra de Deus, mas para os Testemunhas essa mudança é o texto correto e o aceito.

Assim podemos ver que de fato não existe uma versão aceita universal, uma tradução “correta” ou um concenso geral. Em determinadas épocas surgiam aqueles que pegavam para si o trabalho de traduzir, adaptar ou reorganizar os textos, e muitos desses trabalhos eram clandestinos e depois aceitos pelo público geral, por esse motivo acabaram se criando versões muito sólidas e muito difundidas, mas diferentes entre si.

22 – Mas então a Palavra de Deus é um samba do crioulo doido! Não é mais simples voltarem aos textos mais antigos e originais e tentarem chegar a um concenso, para que a Palavra seja universal e haja uma única Bíblia como os judeus e os cristãos originais queriam?

Veja, ai esbarramos no problema da Fé e da Crença. É indiscutível que todas essas pessoas citadas acima acreditavam e acreditam em Deus. Desde Judeus até Rastafaris, passando por Mórmons, Espíritas e muitos outros. E por mais cínicos que tentemos ser não podemos afirmar que todos os que se envolvem com a Bíblia apenas querem enriquecer e controlar as massas. Mas a coisa complica quando uma crença específica acha que a maneira dela é a única correta, a única verdade que leva a este Deus.

Hoje achamos que as inquisições caçavam bruxos e feiticeiras e que as guerras religiosas buscavam os pagãos e pessoas que cuspiam na cruz. Mas isto não é verdade, não completamente. Essa máquina de busca, apreensão e destruição era o resultado de diferentes grupos cristãos brigando entre si. Se um grupo achava que Cristo era um profeta, mas não era Deus encarnado, o pessoal que acreditava na história do Deus encarnado se ofendia e ia tirar satisfações. Invariavelmente o grupo mais forte falava mais alto e para se manter no caminho daquilo que julgavam ser a verdade estavam dispostos a exterminar quem julgassem estar trazendo a discórdia e a mentira para o próprio meio. Grupos Cristãos que tinham uma visão diferente do grupo principal e eram mais fracos (tinham menor número de seguidores e menos recursos para atacar ou se defender) eram chamados de hereges, recebiam a chance de abrir mão da própria crença e adotar uma nova. A maioria nem sonhava com isso, já que o Cristianismo ainda tem o diferencial de atrair pessoas com um gosto para se tornarem mártires, acreditando que morrer pela própria fé apenas consolida esta fé como sendo a mais real de todas. E assim grupos cristãos inteiros foram erradicados por outros grupos cristãos. Este é mais ou menos o resumo da história para a formação do que na Idade Média se tornou o Cristianismo aceito, ou heterogêneo e que depois com a reforma e as divisões da igreja voltou a ser um cristianismo plural.

E até hoje existe uma rixa acirrada entre os grupos existentes. Protestantes chutam santas católicas. Anglicanos criticam protestantes mas dizem que os católicos exageram na sua vontade de dominar o mundo. Católicos dizem que todos tem boa vontade mas estão errados. E no fundo o que parece é que se esquecem do Deus em que acreditam para discutir quem tem o melhor carro e o mapa correto para chegar no Paraíso.

E isso cria um impasse. Um grupo já com tradição não vai ceder sua crença para aceitar uma nova corrigida é o mesmo que assumir que por tanto tempo ele esteve meio que no caminho errado. E um católico dificilmente aceitaria se colocar no mesmo nível de um Testemunha de Jeová (seja lá qual for esse nível, se é que ele existe) e um protestante diria que só aceitaria uma mesma crença se os católicos parassem com essa besteira de Papa e de Santos e Nossa Senhora.

Assim dificilmente surgiria uma versão nova e original aceita por todos, ironicamente, talvez, uma versão assim seria aceita mais por céticos, estudiosos e simpatizantes do que pelos religiosos.

E isso porque não falamos de outro ponto interessante que dificulta a criação de uma versão única do texto.

Quando falamos em Jesuítas desbravando o mundo e levando a palavra de Cristo, muitos imaginam caravelas, índios e negros contrabandeados, fogueiras e colonizadores. Mas a verdade é que o processo de cristianização está a pleno vapor hoje em dia e parece que cada grupo cristão aceitou o desafio não apenas de levar a Palavra de Deus para todos, mas de levar a sua própria versão da Palavra de Deus.

Vejamos três exemplo que fogem da imagem que temos dos principais grupos cristãos – católicos e protestantes.

As Testemunhas de Jeová possuem adeptos em mais de 236 países e territórios autônomos, com mais de sete milhões e trezentos mil participantes. Segundo o anuário das Testemunhas de jeová de 2010 nos últimos dez anos mais de dois milhões e setecentos mil pessoas foram batizadas nesta crença em particular, uma média de cinco mil pessoas por dia. Além dessas pessoas, atire a primeira pedra aquele que nunca acordou num domingo de manhã com uma dupla de terno tocando a campainha com uma bíblia debaixo do braço, ou pelo menos que não conhece alguém que passou por isso.

E todas essas pessoas, junto com os simpatizantes da crença – que em 2009 foram contabilizados na casa dos dezoito milhões de pessoas – acabam aceitando a versão das Testemunhas da Bíblia.

Além deles existe uma organização, formada em 1899, conhecida como Gideons International (os Gideões Internacionais) que decidiram distribuir a Palavra para o mundo todo, para que todos tivessem acesso, a ideia original foi a de traduzir a bíblia para 80 línguas e atingir pelo menos 190 países, muitos deles já possuíam a bíblia em sua língua nativa, mas mesmo assim se fizeram novas traduções para se distribuir. Assim os Gideões começaram a distribuir bíblias de graça e com isso conseguiram, por exemplo, que nos Estados Unidos cada quarto de hotel ou motel tivesse uma bíblia em seu criado mudo – as pessoas que já assistiram Missão Impossível com Tom Cruise devem se lembrar do momento em que ele precisa de uma bíblia e simplesmente abre uma gaveta e lá está ela. Além disso eles tem o trabalho de distribuir suas versões da Bíblia em hospitais, asilos, prisões, exército e em escolas – que ironicamente são lugares onde as pessoas em sua maioria preferiam não estar.

Até o ano de 2007 mais de um bilhão e quintentos milhões de Biblías haviam sido distribuídas por eles. Cada uma, a versão dos Gideões do texto sagrado, antigamente a tradução da Bíblia do Rei James e hoje em dia a tradução da Nova Bíblia do Rei James.

Outro grupo são os Mórmons, também cohecidos como a Igreja de Jesus Cristo dos Últimos Dias, que surgiram na década de 1830. Em 2007 a igreja registrou o número de treze milhões e quinhentos mil de mebros ao redor do mundo, com mais de um milhão aqui no Brasil. Os Mórmons além da Bíblia seguem o livro conhecido como “O Livro de Mórmon, um outro testamento de Jesus Cristo”, que segundo a igreja, é um volume de escrituras sagradas com um propósito semelhante ao da Bíblia e da teologia e é considerado por seus membros como a pedra fundamental de sua religião. É uma história de comunicação de Deus com os antigos habitantes das Américas. A história começa 600 anos a.C, quando Deus ordenou que um profeta chamado Leí deixasse Jerusalém com sua família e rumassem todos para uma terra da Promessa: As Américas. Depois de Leí, o Senhor chamou outros profetas, como Néfi, Mosias, Helamã, entre outros. Mórmon foi um desses profetas.

A religião cresce e também há pregação, como os Testemunhas de Jeová.

Assim temos grupos espalhando milhões de versões da Palavra por ano, e isso cria um quadro onde de um lado existem pessoas já familiarizadas com a Bíblia – ou ao menos a versão aceita por sua crença – e de outro pessoas que não estão tão familiarizadas com a bíblia. E a base que a grande maioria das pessoas que entram em contato com todos esses evangelistas e catequisadores tem é de que:

1- Existe um Deus.

2- Essas pessoas estão distribuindo a Bíblia, que é a Palavra de Deus.

Dificilmente saberiam que aquela é uma das versões e que existem outras, muitas vezes com textos muito diferentes e significados que chegam a ser opostos uns aos outros.

Desta forma não só é dificil a aceitação de uma Biblia única como a cada dia mais e mais versões diferentes são divulgadas e com a sinceridade daquele que a distribui de ser a única Palavra correta.

E ainda existe uma questão interessante aqui: e quem pode julgar que versão está correta ou não? Da mesma forma que Deus e o Espírito Santo divulgaram a Palavra a primeira vez, como julgar que diferentes versões não foram inspiradas pela mesma fonte? Deus descansou no sétimo dia ou se aposentou da empresa que Ele criou e caiu fora dela? É difícil afirmar, se é que não é impossível. Assim se acreditamos que a Bíblia é de fato a Palavra, como podemos julgar qual delas é a correta ou mesmo se alguma delas pode ser apontada como uma versão errada?

23 – E essa loucura não vai acabar?

Vejamos. Por um lado temos cada dia mais acesso a informações que deveriam servir como base para corrigir erros históricos das coisas, a Bíblia seria uma delas. Com o material que existe hoje, desde os famosos textos do Mar Morto a grupos de arqueologia bíblica, deveriam haver meios de tornar a Bíblia em si mais factível, mais alinhada com fatos que já foram comprovados. Mas de novo isso provavelmente interessaria apenas a estudiosos e curiosos. Existem hoje cristãos que apresentam uma curiosidade digna da afirmação de Cristo: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” Mesmo assim são indivíduos e grupos pequenos, não tem o tamanho ou a influência necessária para se cria ruma nova versão das Escrituras ou talvez nem tenham a vontade de mudar as escrituras, apenas aprender os novos fatos.

Por outro lado cristãos e judeus tem um histórico de quando mais apanharem em nome da própria crença parece que mais certeza eles tem de estarem no caminho certo, então negar mesmo as evidências pode dar um ar de “não importam o que digam, minha crença é tão correta que eu não abro mão dela nem para o que aparenta ser o bom senso”.

Então não dá para dizer exatamente se essa zona vai continuar ou se a tendência é que todas essas pessoas comecem a buscar não apenas um livro impresso, mas a verdade comprovada por trás deste livro. Como dissemos no começo deste texto, originalmente o objetivo da Bíblia era que as pessoas se mantivessem fieis a Deus e seus Mandamentos e Leis, mas com o tempo a Bíblia se tornou um rótulo e hoje esse rótulo é defendido com unhas e dentes.

Mas acreditamos ser possível supor algumas probabilidades sobre o que seria o futuro da Bíblia.

Como vimos os grupos principais de Cristãos ainda esperam a segunda vinda de Cristo, alguns grupos não tão famosos acreditam que ele já voltou e existem aqueles que não acreditam que ele voltará. Assim, mesmo que existam por ai livros de novos profetas e novas palavras da segunda vinda de Cristo, no mainstream os profetas estão quietos há milênios e o Messias não retornou.

Umas das possibilidades é que surjam novos grupos cristãos e novas versões da Bíblia. Existem sempre aqueles que buscam os textos o mais próximos do original o possível. Bíblias multilingues com os originais em hebraico e grego são populares, o problema óbvio disso é que dificilmente a grande parte dos religiosos tem acesso a essas línguas e isso torna essas bíblias curiosidades. Existem versões ainda com quatro linguas e cinco linguas. Hebraico, Grego, Latim (inglês) e português. Mas de novo a grande maioria acaba contando apenas com a coluna em português (ou na sua língua natal) para ler o texto, já que hebraico e grego não possuem nem mesmo as mesmas letras que o alfabeto latino.

A tendência é que essas Bíblias acabem se aperfeiçoando trazendo pequenos glossários para tirar a dúvida de termos ambiguos ou mesmo apontando a direção certa em termos culturais e históricos de quando os textos foram escritos. Mas essas edições costumam ser caras, não dá para apostar que se tornem populares comparadas as bíblias distribuídas de graça.

Então a questão não se foca tanto na acuidade do texto em si, mas na popularidade daqueles que divulgam tais textos e na acessibilidade que eles tem, quanto mais baratos melhor, se estiverem disponíveis de graça, Amém. Existe a chance de surgirem grupos cristãos que tentem se aproximar mais das formas primitivas e originais dos textos e então trazê-los para o presente, mas eles só se tornariam maioria caso sua popularidade fosse maior do que a dos cristãos “concorrentes”. Então o futuro da Bíblia estaria ligado de novo a mensageiros e não à Palavra em si.

A internet talvez ajude a popularizar para um grupo grande novas versões e uma outra possibilidade é o surgimento de “meta” bíblias, ou seja, textos que sejam interpretados por indivíduos não ligados à igreja e assim vários interessados podem julgar que textos teriam mais coerência, mas de novo isso fugiria a uma unidade e acabaria estando preso à erudição de cada pessoa que poderia julgar que mesmo que tal versão fosse de alguém famoso ela tem passagens estranhas que são melhores ser deixadas de lado.

Talvez uma resposta que apontasse a uma direção certa seria a que o movimento Jesus Freak prega em seu manifesto, uma forma de cristianismo não presa em palavras, mas no exemplo deixado por Cristo, claro que isso não afetaria muito a Bíblia e suas variantes, apenas a relação de cada um com o texto.

Manifesto Jesus Freak

1 – Nós propomos que, seguindo o exemplo de Jesus Cristo, não nos deixemos limitar pela religião. Os primeiros inimigos de Cristo foram os altos sacerdotes do Templo. O primeiro amigo de Cristo foi um louco que gritava no deserto.

2 – Nós propomos que as Escrituras são a mais alta autoridade cristã. Portanto devemos nos esforçar para compreendê-las muito mais do que nos esforçamos para aceitar a forma que nossos ancestrais a compreenderam. O mundo dos homens muda a cada instante. O mundo de Deus permanece o mesmo para sempre.

3 – Nós propomos que cada cristão tenha o mesmo credo essencial de Paulo de Tarso, Francisco de Assis, Martinho Lutero, William J. Seymour, Martin Luther King e ainda assim sejam livres para expressar sua fé de sua própria maneira especial, assim como o fez cada um destes cinco homens.

4 – Nós propomos que ninguém tem o direito de dizer quem que uma pessoa não será salva em Cristo, uma vez que a hora cabe ao Pai e a salvação cabe ao Filho. Assim, ainda que o próximo viva em escândalo você não deve se escandalizar.

5 – Nós propomos que os livros de orações sejam deixados de lado por um tempo. Talvez seja difícil usufruir de nossa liberdade de expressão em um primeiro momento, mas seremos recompensados com uma relação mais intima e próxima com Deus. Por muito tempo temos usado de maneira pobre o nosso missal. É hora de orarmos mais e irmos menos à missa.

6 – Nós propomos que devemos nos preservar um pouco dos hinários e livros de salmos. Eles são lindíssimos, mas nossa mente precisa respirar e perceber que está vivendo em uma época nova e radiante. Devemos compor novas músicas com novas letras, que sejam atuais e de acordo com nossa época. Não existe nenhum problema em cantar as glórias antigas, mas há uma infinidade de glórias novas aguardando e clamando para serem cantadas.

7 – Nós propomos nos libertarmos da arquitetura do passado criando novos espaços para nossos cultos. Derrubemos as igrejas e templos para não haver mais a separação entre irmãs e irmãos, entre crentes e ateus, entre humanos e resto da criação. Chamemos de volta a todo aquele que expulsamos de nossas igrejas: os infieis e os piores pecadores! A Casa de Deus não é uma casa de desespero. Chamemos todos de volta, ainda que continuem pecando para sempre.

8 – Nós propomos que descubramos como os avanços tecnológicos de nossa época podem ser usados para a glória de Deus. “Frutificai e multiplicai-vos” nunca foi um desejo ligado única e exclusivamente ao sexo. “Eis que saiu o semeador a semear” nunca foi restrito as praças públicas. Deus nos presenteou com tecnologias que nossos antepassados sequer sonharam poder existir. Está na hora de aceitarmos essa graça e fazer bom uso dela. Vamos organizar oficinas e mostrar como a arte e a ciência podem fazer parte de nossas festas e nossos exercicios de contemplação.

9 – Nós propomos o uso do intercâmbio cultural para enriquecer nossa literatura litúrgica com materiais até então ignorados por nossos cultos tradicionais. Há uma abundância de sabedoria e beleza nos textos considerados apócrifos pela igreja medieval, nas escrituras sagradas de outras crenças e mesmo na poesia secular que podem e devem ser usados em nossa liturgia para atingirmos um propósito estético superior ao atual.

10 – Nós propomos que em um mundo dominado pela mídia onde o uso da imagem supera o do texto, os cristãos devam fazer uso das figuras mais fortes, corajosas e chocantes possíveis. O cinema, a televisão e mesmo intervenções urbanas devem ser usados. Não há lógica em mostrar o caminho, a verdade e a vida usando imagens piegas, meia luz e baixa resolução.

Notas:

[1] Abrahâmico faz referência a crenças que se originaram da revelação divina de Abrahão como o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo.
[2] Aqui Igreja tem a conotação de igreja primitiva, uma igreja não organizada, eram grupos de pessoas que seguiam a mesma crença mas sem uma instituição formada ainda.

Por Rev. Obito para o movimento Jesus Freak


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Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-evolucao-da-biblia-da-boca-de-deus-ate-as-cabeceiras-dos-moteis/

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14/12 – Tarot (Arcanos Maiores)

15/12 – Tarot (Arcanos Menores)

No curso de Arcanos Maiores, utilizamos 18 tarots diferentes. Estudamos cada um dos 22 Caminhos da Árvore da Vida e sua correlação simbólica e imagética com cada Arcano do Tarot.

Começamos pelo Visconti-Sforza, do século XIII, que une a simbologia dos Trionfi renascentistas à estrutura da Árvore da Vida. Em seguida, o tradicional Tarot de Marselha (1560), o Tarocchi Bolognese (1780) e o Ancient Italian (século XIX) para conhecermos as variações das escolas de tarot renascentistas; o tarot de Papus (Boêmios, 1889), Oswald Wirth (1889) que trazem as primeiras interações do tarot com a Maçonaria e o rosacrucianismo; o tarot de Rider Waite (1909), Golden Dawn (1978), e Tarot de Thoth (Crowley) usados dentro de Ordens herméticas. Isto nos dá uma noção muito clara de como os Arcanos se desenvolveram ao longo da história da magia e quais são as principais escolas; suas diferenças e semelhanças.

Também estudamos o Tarot Mitológico, Sephiroth Tarot (cabalístico) e o Tarot Egípcio e mais quatro ou cinco tarots modernos que eu vario de curso para curso para exemplificar a visão de outras culturas (celta, africano, dos orixás, etc). Somente com esta visão de conjunto é possível compreender a magnitude do tarot e as maneiras como ele pode ser utilizado em rituais e no seu altar pessoal.

Informações e inscrições: marcelo@daemon.com.br

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/curso-de-tarot-hermetismo-e-hist%C3%B3ria-da-arte

Boitatá

“Há também outros (fantasmas), máxime nas praias, que vivem a maior parte do tempo junto ao mar e dos rios, e são chamados de Baetatá (Boitatá), que quer dizer “coisa de fogo”, que é o mesmo como se se dissesse “o que é todo fogo”. Não se vê outra coisa senão um facho cintilante correndo para ali; acomete rapidamente os índios e mata-os, como os curupiras: o que seja isso, ainda não se sabe com certeza.” – Joseph de Anchieta – Carta de São Vicente (X)

E assim, em 31 de maio de 1560 o Mboi-tatá é registrado em carta pelo jesuíta. Mbai, cousa, e tatá, fogo. Um fogo vivo que se desloca, deixando apenas um “facho cintilante”, que, seguindo a narrativa, atacava as pessoas. A imagem de um faixo serpenteando, da marcha ondulada pode ter sido responsável em associar a criatura a uma serpente.

No tupi existe uma palavra com a pronúncia levemente diferente de mba, que tem um significado diferente de “cousa”, que é mbói, que significa cobra. E assim, a Coisa-deFogo (mbai-tata) se torna a cobra de fogo mboi-tatá. Foi essa a imagem que se popularizou, o rastro ondulante feito de fogo que como uma serpente vai de um lado a outro. E é difícil encontrar registros sobre a criatura que, mesmo aludindo a ambas as origens (mbai e mboi) deixem de lado sua natureza e aparência ofídia.

Da linguagem nativa para o português o mboi virou boi (bos, bovis do latim), e como não existe diferença sensível na pronúncia das duas palavras surgiram descrições do Mboitatá como um touro, no livro terra catarinense temos a descrição de um animal “grande como um touro, com patas e um olho enorme no meio da testa, como um Cíclope”, e ainda ganhou de Lindolfo Xavier chifres, patas cuneformes e o olho flamejante. A figura do boi ainda se mescla com muitas outras crenças, o próprio lobisomem, em alguns estados, é descrito da seguinte forma: “Sai de casa à procura de algum recanto de estrada onde se deite. Espoja-se, requebra-se, faz trejeitos, até virar um bezerro negro de longas orelhas.” “……é bezerro negro . . . .. ostenta couro cabeludo de fazer cachos, além de cascos pequeninos, olhar fuzilante e; depois, dotado de força e agilidade extraordinárias.”, ainda existem relatos de criaturas que de dia são homens e de noite se tornam algo muito semelhante à descrição do centauro, metade boi ou cavalo e metade homem desfigurado.

Séculos depois de Anchieta o Mbai-tatá foi associado por outros folcloristas a outras criaturas de fogo em outros países e também não demorou para a associarem com o fogo-fátuo, que é tema universal no folclore, todos os países possuem em seu folclore explicação para a chama noturna que aparece e depois desaparece sem deixar vestígios

Boitatá e Fogo-Fátuo

 


O fogo-fátuo (ignis fatuus em latim), também chamado de fogo tolo ou, no interior do Brasil, fogo corredor ou joão-galafoice, é uma luz azulada que pode ser avistada em cemitérios, pântanos, brejos, etc. É a inflamação espontânea do gás dos pântanos (metano), resultante da decomposição de seres vivos: plantas e animais típicos do ambiente.). O metano, em condições especiais de pressão e temperatura, em local não ventilado, começa a sair do solo e se misturar com o oxigênio do ar. Em uma porcentagem de aproximadamente 28%, o metano se inflama espontaneamente, sem necessidade de uma faísca. Forma uma chama azulada, de curta duração, gerando um pequeno ruído.

Muitos que avistam o fenômeno tendem a evacuar o local rapidamente, o que, devido ao deslocamento do ar, faz com que o fogo fátuo mova-se na mesma direção da pessoa. Os fogos fátuos dão origem a muitas superstições populares. Se acredita que são espíritos malignos que molestam ou fazem se extraviar os viajantes ou afastar alguém que tenta se aproximar. Há quem os consideram como presságios de morte ou desgraças.

Assim se torna como o feu-follet francês, Inlicht alemã, os pequenos anões sul-americanos Yakãundys (que quiere decir cabeza encendida), o fogo dos druidas, o fogo de Helena, de Santa Helena (antepassados do Sant’Elmo). É o Jack with a Lantern dos ingleses. Nesses casos associada às luzes loucas, que iludem viajantes atraindo-os para lamaçais e charcos ou os persegue na noite.

Em Portugal e em países americanos que passaram pela colonização portuguesa/espanhola como Argentina e Uruguai a conotação do fogo é outra, as chamam de as “alminhas”, ou “almas dos meninos pagãos” e ainda a “alma que deixou dinheiro enterrado”. Aqui fica claro que a figura luminosa é uma alma que por algum motivo não conseguirá descansar, seja a alma atormentada por não receber o batismo, ou a alma ainda tomada pela ganância que não consegue abandonar o tesouro enterrado, ainda existem relatos que a chamam de luz mala e vibora-de-fuego, e a associam com a alma de comadres e compadres que se apaixonaram, novamente o tormento que impede a alma de descansar. Em alguns registros assim que o ouro é desenterrado ou encontrado a criatura desaparece, a alma pode finalmente descansar.

Essa interpretação chegou a influenciar muitos relatos modernos do Boi-tatá, que afirmam que ele surge em locais onde existem tesouros ou ouro escondido, protegendo as riquezas de pessoas que tentem roubá-las.

Variações do Boitatá

No Brasil os nomes do Mboi tatá variam muito, no norte e nordeste é Batatão no sul Boitatá, Bitatá, Batatá e Baitatá. Biatatá na Bahia e em sergipe chega a ter o nome de Jean Delafosse ou ainda Jean de la foice.

Em um traço que se torna comum quando lidando com crenças e animais fantásticos (os monstros) é a mudança de personalidade ou função com o tempo. Uma característica da evolução do indivíduo é a de, quando confrontado por uma situação adversa, ou um inimigo, através da batalha o vence e se torna então superior a ele. Esse é um processo que aparece claro na metáfora do canibalismo, onde o vencedor devorava não apenas a carne, mas o sangue/alma/qualidades de seus inimigos que ele mesmo não teria, como forma de compensação de uma deficiência, ou para reforçar e incrementar uma qualidade que já tenha e seja fundamental para sua vida, se tornar mais forte, corajoso, etc. Essa característica é muitas vezes substituída por uma talvez menos brava ou mais prática onde ao invés de confrontar o monstro o tornamos algo menos aterrador, não através do desapego daquilo que nos causava temor, mas sim atribuindo a ele características que o tornem querido e mesmo necessário, ao invés de irmos ao ambiente dele e o vencermos o trazemos para o nosso habitat e lhe damos um cargo, um emprego. Monstros de gravata são menos assustadores e mesmo até bonitinhos. E assim com a ajuda de Couto de Magalhães, o M’boi Tata, a criatura que ataca e mata, cremando ou ferindo seriamente se torna o protetor das florestas:

“Mboitatá é o gênio que protege os campos contra aqueles que os incendeiam; como a palavra diz, Mboitatá é: “cobra de fogo”; as tradições figuram-na como uma pequena serpente de fogo que de ordinário reside nágua. Às vezes tranforma-se em um grosso madeiro em brasa denominado méuan, que faz morrer por combustão aquele que incendeia inutilmente os campos.”
– o selvagem, 1876 p.138

O consenso atual sobre o Boitatá

Um exemplo claro do que se tornou a imagem atual do Boitatá é o seguinte texto da Terra Brasileira:

“Antigo mito brasileiro cujo nome significa “coisa de fogo”, em tupi. Já referido por José de Anchieta em 1560, o boitatá é um gênio protetor dos campos: mata quem os destrói, pelo fogo ou pelo medo. como contam os tupis: “Quando manso isso brilha e não queima. Quando bravo isso queima e não brilha.” Aparece sob a forma de enorme serpente de fogo, na realidade o fogo-fátuo, ou santelmo, do qual emana fosfato de hidrogênio pela decomposição de substâncias animais.

“O Boitatá é o gênio que protege as campinas e sempre castiga os que põem fogo no mato. Quase sempre ele aparece sob a forma de uma cobra muito grande, com dois olhos enormes, que parecem faróis. Às vezes, surge também com a aparência de um boi gigantesco, brilhante.”

Nada mais longe do que os relatos indígenas originais como resgistrados por Anchieta. Ainda existem contos e lendas no sul que falam sobre uma enorme cobra que vivia junto ao rio, e que em épocas de chuva ou enchente saia para matar a comer animais, com o tempo os relatos mudaram, dando a ela a predileção apenas pelos olhos daqueles que encontrava. Olavo Bilac escreve em seu Últimas Conferências e Discursos, 1924:

“Uma das mais belas fábulas do Rio Grande do Sul é a da Boitatá. Boitatá, cobra de fogo, foi a princípio Boi-guassu, cobra grande, jibóia ou boa. […] quando houve o dilúvio, e sempre que há inundações, a Boiguaçu acordava pela enchente, entra a comer todos os outros animais. No sul a tradição complicou-se; a Boi-guassu mata todos os animais, não os come inteiramente: come somente os olhos da carniça; tantos olhos devora, que fica cheia de luz de todos oesses olhos: o seu corpo tranforma-se em ajuntadas pupilas rutilantes, bola de chamas, clarão vivo, boitatá, cobra de fogo.”

Mas esse Boitatá se tornou uma criatura completamente diferente daquela descrita pelos índios. O Mboi tatá tupi-guarani está atualmente despersonalizado. O Batatão, Batatal ou Batatá é um mito inteiramente europeu. Em São Paulo se chama Bitatá: “espírito dos não batizados”, crença que existe na ilha de Creta, na França e na Holanda. Como alma penada surge em todos os países europeus. Como diz Câmara Cascudo: “Não pensavam os indígenas brasileiros nessa direção.”

Ao considerarmos o fogo fátuo, não podemos deixar de lado os relatos indígenas sobre mortes, ou posteriormente a corpos carbonizados resultando do embate com a criatura. A única coisa que podemos afirmar com certeza sobre o Mboi tatá é o que Anchieta afirmou há mais de quatro séculos atrás:

“o que seja isso, ainda não se sabe com certeza.”

Dossiê de Criptozoologia de Herman Flegenheimer Jr.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/criptozoologia/boitata/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/criptozoologia/boitata/

Artha Sutra (O Livro da Riqueza)

De acordo com a cosmovisão indiana, um ser humano para ser considerado bem sucedido em todos os aspectos da vida deve dominar três grandes áreas da atuação humana: Dharma, Artha, Kama. (Espiritualidade, Riquezas, Prazeres). Da mesma forma que temos o Kama Sutra como um guia para a maestria do Kama, e  obras como o Bhagavad Gita que nos orientam sobre o Dharma, a civilização hindu também nos legou o Artha Sutra, um valioso tesouro literário sobre a arte de ficar  e se manter rico.

Mas como veremos, estas três áreas não vivem isoladas.O Dharma é a mais conhecido e se refere ao mérito religioso, ao sentido de propósito espiritual, ou seja, a realização de nossa vinda na terra com sabedoria. Kama, é o segundo termos mais conhecido e refere a saber satisfazer os desejos pela maestria dos prazeres, em particular do sexo. O terceiro termo, Artha é menos conhecido. Se refere mais especificamente a administração dos bem terrenos, a aquisição das riquezas e bens materiais com os quais tanto a caridade como hedonismo são impossíveis.

Artha Sutra (O Livro da Riqueza) nos veio pelas mãos de Chanakya, também chamado Kauitilya ou Vishnugupta, um antigo guru, filósofo, economista e jurista do subcontinente indiano. Em muitos sentidos suas ideias foram as responsáveis pela prosperidade do Império Mauria entre os séculos IV e II antes de cristo. De acordo com seu autor, suas lições são capazes de prover prosperidade material e consequentemente sucesso em todos os aspectos da vida.

Chanakya nos legou duas obras principais. A primeira Arthashastra voltada para os governantes e considerado uma obra pioneira no campo da ciência política. A segunda, voltada a população em geral e posteriormente batizada como Artha Sutra, é um tratado composto de mais de quatrocentos aforismos com o objetivo de ensinar as leis que regem as conquistas materiais. É este o texto que você encontra abaixo e cuja ordenação por subtítulos é uma inclusão ocidental tardia para facilitar a leitura.

Artha sutra de Chanakya

A base do Artha (meios de vida materiais)

  • O objetivo da vida humana é a busca da felicidade.
  • A felicidade reside na adesão ao Dharma.
  • A base do Dharma é a relação entre as pessoas.
  • A base da relação entre as pessoas é a economia da nação.
  • Nações são melhor administradas por pessoas que conquistaram a si mesmas.
  • As pessoas conquistam a si mesmas pela humildade.
  • A humildade é conquistada servindo aos mais sábios e experientes.
  • Ao servir os sábios e experientes, o conhecimento é obtido.
  • Por meio do conhecimento, você entende o mundo ao seu redor.
  • Por meio do conhecimento, você também obtém sabedoria.
  • Por meio da sabedoria, você atinge os objetivos.

Benefícios da Riqueza

  • Perseverar no caminho da prosperidade é uma jornada deliciosa.
  • A aspiração por riqueza é a causa de todas as profissões.
  • Todos os objetos materiais podem ser obtidos por meio da riqueza.
  • Até a feiura pode ser escondida por meio de jóias.
  • Os ricos podem alcançar muito com o mínimo esforço devido à sua riqueza.
  • O conhecimento de uma pessoa sem um tostão é considerado sem valor.
  • Mesmo a voz sensata de um pobre raramente é ouvida.
  • Com a riqueza do seu lado, até um homem vergonhoso é considerado gracioso.
  • Se até mesmo o rei dos deuses fosse um pobre, ele também seria visto com desprezo.
  • Uma pessoa sem um tostão é insultada até mesmo por sua própria esposa.
  • Uma planta sem flor raramente é visitada por abelhas.
  • Homens ricos são respeitados pelas massas.
  • Um homem rico é considerado bonito pelas massas.
  • Mesmo que um homem rico não dê esmolas, os mendigos não param de persegui-lo.
  • Uma pessoa em busca de flores raramente rega uma planta morta.
  • A riqueza de recursos leva à riqueza de pessoas.
  • Por meio da riqueza de pessoas, uma nação se torna próspera mesmo na ausência de um líder.

O Caminho da Riqueza

  • Conquistar riqueza, proteger o que foi conquistado e construir sobre o que foi conquistado são os três objetivos fundamentais de qualquer organização.
  • Rejeitar o que foi ganho ao acaso é considerado uma perda.
  • Se for o momento certo, a prosperidade pode simplesmente chegar à sua porta.
  • Mas aquele que se apóia totalmente no destino é estúpido e não consegue nada.
  • A prosperidade e a pobreza são devidas à ação de alguém.
  • Trabalhando de forma adequada, os lucros podem ser aumentados.
  • Deve-se acumular riqueza como se fosse viver para sempre.
  • É preciso sempre economizar dinheiro para amanhã.
  • É preciso salvar sua riqueza de ladrões e políticos.
  • Empréstimos, inimigos e doenças devem ser mantidos à distância.
  • A riqueza é freqüentemente alcançada assumindo riscos.
  • Quando esses sutras são seguidos, as fontes de renda aumentam.

Conhecimento é a primeira riqueza

  • Para uma pessoa sem riqueza, o conhecimento é sua riqueza
  • Aqueles destinados à destruição raramente ouvem palavras de sabedoria.
  • O envelhecimento não garante sabedoria.
  • Quando cheio de sabedoria, até mesmo as palavras de um ignorante devem ser ouvidas.
  • Nenhum ladrão pode roubar conhecimento.
  • Somente o conhecimento pode levar ao verdadeiro prazer.
  • O respeito conquistado pelo conhecimento de uma pessoa é verdadeiro e duradouro.
  • Quando uma pessoa experiente sai do caminho, seu próprio conhecimento é capaz de colocá-la de volta nos trilhos.
  • Pessoas más nunca devem receber conhecimento.
  • Homens sem conhecimento não valem nada.
  • As pessoas de saber não têm medo do mundo.
  • O conselho deve ser buscado exclusivamente com especialistas.
  • A capacidade de compreender o mundo é sabedoria.
  • Uma pessoa com conhecimento que não consegue entender o mundo é tola.
  • A utilidade da leitura é entender o mundo.
  • É apenas na aplicação que a utilidade do conhecimento é compreendida.
  • O conhecimento é um ornamento dos homens.
  • A obediência ao sábio é um ornamento para todos.
  • O ornamento entre os ornamentos é aquele conhecimento que transmite humildade.

Escolhendo subordinados

  • Depois de se equipar com conhecimento e sabedoria, um líder deve encontrar subordinados.
  • Sem subordinados competentes, os líderes nada alcançam.
  • Nunca se deve caminhar sozinho por um caminho deserto.
  • Uma carroça não vai a lugar nenhum com apenas uma roda.
  • O subordinados devem ser aqueles que entendem o bem-estar dos líderes.
  • Os líderes devem indicar como subordinados apenas as pessoas para quem tenha respeito e credibilidade.
  • O nepotismo e o favoritismo devem ser evitados durante a nomeação de subordinados.
  • Até mesmo um trapaceiro parece um cavalheiro no início.
  • Uma única vaca é melhor do que mil cães.
  • O pavão de amanhã não é melhor do que o pombo de hoje.
  • Os subordinados não devem apenas ser bem informados e informativos, eles devem ser igualmente sábios.
  • Pessoas imorais nunca devem ser consideradas, mesmo que tenham conhecimento.
  • Nunca confie em um indivíduo que ultrapassou seu limite.

Lidando com subordinados

  • Nunca insulte as pessoas, mesmo que sejam fracas.
  • Um rei observa seus súditos por meio de espiões.
  • A sobrecarga faz com que os gerentes fiquem exaustos e desanimados.
  • Aquele que anuncia as faltas dos outros em uma assembleia, declara as suas.
  • A raiva causada pelo ego pode destruir o eu.
  • Aquele que não desiste ou se opõe raramente deve ser desrespeitado.
  • Aqueles que mantêm seu compromisso geralmente são bem-sucedidos.
  • Líderes que não estão em contato com seus seguidores geralmente são fracassados ​​por seus súditos.
  • A opinião de uma pessoa verdadeira raramente deve ser minada.
  • Por estarem em contato, os líderes dão felicidade a seus seguidores.
  • Líderes tímidos raramente são obedecidos por subordinados.
  • Líderes rudes costumam ser tratados com desprezo pelas costas.
  • A punição deve ser dada como se merece.
  • A má conduta de seu pessoal deve ser corrigida.
  • Mesmo uma pequena doença do corpo humano pode causar destruição.
  • O líder nunca deve menosprezar ou insultar as pessoas.
  • Os líderes nunca devem ser vingativos.
  • A obediência excessiva daqueles que são familiares de muito tempo deve ser posta em dúvida.
  • A proximidade excessiva gera desrespeito.
  • É preciso conhecer seus limites, mesmo com seu próprio povo.
  • É preciso sempre fazer feliz uma pessoa prestativa.
  • Aqueles que ajudaram nunca devem ser traídos.
  • O pagamento é um dever.
  • A ira do povo é catastrófica.

Lidando com autoridades

  • Uma autoridade é como uma divindade.
  • Mesmo enfrentando uma fome terrível, um leão raramente come grama.
  • Servindo sob um líder capaz, até mesmo uma pessoa incapaz se torna capaz.
  • A água, depois de entrar no leite, torna-se o próprio leite.
  • Ao servir a um líder ganancioso, uma pessoa não faz bem a si mesma.
  • É bom servir a um líder sábio.
  • Ao se curvar, até mesmo uma tampa de panela esvazia um poço.
  • Nunca se deve visitar um rei ou seu guru com as mãos vazias.
  • Nunca se deve estar muito próximo da classe principesca.
  • Nunca se deve olhar diretamente nos olhos do rei.
  • Aqueles que mandam raramente são privados de dores e ganhos, felicidade e infelicidade.
  • Nunca se deve fofocar sobre grandes homens.
  • Sempre se refugie com um líder forte como uma fogueira no inverno.
  • Não é sensato agir contra seu próprio líder.
  • Não se vista mais suntuosamente do que seu líder.
  • Nunca se comporte com pompa na frente de seu líder.
  • Os trabalhadores raramente devem se gabar de seu mestre.
  • A ordem de um rei raramente deve ser desobedecida.
  • Um bom líder é como uma mãe para seus seguidores.
  • Se um mestre está zangado, o servo deve ser paciente.
  • Mesmo que seja punida, a criança deve buscar refúgio em sua mãe.
  • Os grandes homens nunca devem ser ridicularizados
  • Nunca se deve insultar grandes homens.
  • Nem uma vez se deve transgredir seu limite.
  • É melhor estar sem um líder do que sem moralidade.
  • A ira dos reis pode ser devastadora.

O Desejo

  • A riqueza raramente pode residir em uma pessoa desprovida de desejo.
  • Cada pessoa é limitada pelos limites de seu desejo.
  • Aqueles sem desejo nem a coragem é útil.
  • Por meio de esforços adequados, todos os desejos humanos são alcançados.
  • Desejo bom é aquele que não afasta ninguém de seus deveres.
  • O desejo de ser antiético indica autodestruição.
  • Os maus desejos podem sequestrar a dignidade.
  • Aqueles com uma mentalidade cada vez menor certamente enfrentarão fracassos.
  • Autoridade  respeitada é seguida por seu povo.
  • Na falta de coragem, o homem nada alcança.

O Planejamento

  • O trabalho não pode ser realizado exclusivamente com coragem.
  • O sucesso geralmente é melhor alcançado com planejamento.
  • Todos os esforços devem ser feitos para fazer o melhor uso dos recursos disponíveis para ganhar riqueza.
  • A riqueza permanece por mais tempo com aqueles que são cautelosos e calculistas.
  • Todos os esforços, com planejamento adequado, podem alcançar o sucesso.
  • Sem um planejamento adequado, todos os esforços estão fadados ao fracasso.
  • As políticas bem definidas para os subordinados são como lanternas para os homens caminhando no escuro.
  • Políticas e estratégias devem ser adotadas somente após reflexão e discussão substanciais.
  • É apenas mantendo boas políticas que os líderes podem cumprir seus objetivos.
  • Ao diminuir o comprometimento, os líderes certamente sofrerão o fracasso.
  • Por não ser vigilante e por descuido, um líder certamente será subjugado por seus adversários.
  • Por meio de todos os métodos e recursos, os líderes devem corrigir todas as lacunas em suas políticas.
  • Ao trabalhar em políticas corretas, uma nação está destinada a florescer.
  • O compromisso de uma organização com as políticas desempenha um papel fundamental em seu sucesso.
  • Ao proteger as políticas certas, as organizações e as nações se protegem da vulnerabilidade.
  • Deve-se evitar o ciúme pessoal e o ego ao trabalhar nas políticas.
  • Se todo mundo apoiar algo, deve-se desconfiar.
  • No interesse de um país, uma aldeia pode ser abandonada.
  • No interesse de uma aldeia, uma família pode ser abandonada.
  • Somente subordinados com sabedoria devem se envolver na formulação de políticas.
  • Políticas estruturadas por ouvir muitos estão fadadas ao fracasso.
  • Tarefas importantes nunca devem ser realizadas consultando astrólogos.

O Trabalho

  • A felicidade colhida sem esforços dura pouco.
  • Pessoas pacientes são capazes de realizar grandes feitos.
  • Deve-se empreender apenas aquele trabalho que, segundo ele, pode corresponder às suas capacidades.
  • Deve-se receber uma tarefa em que seja proficiente.
  • Se uma pessoa sem conhecimento e habilidade adequados realiza uma tarefa específica, ela deve ser considerada indigna.
  • Raramente se pode desviar de sua verdadeira natureza.
  • Aquele que desfruta do restante depois de satisfazer os dependentes desfruta da bem-aventurança.
  • A riqueza abandona aquele que trabalha sem pensar muito.
  • O trabalho que pode levar a consequências graves não deve ser procurado.
  • Quem está em sintonia com o tempo, com certeza cumprirá sua tarefa.
  • Perder tempo tem suas próprias consequências.
  • Ao perder tempo, surgem obstáculos.
  • Mesmo um segundo desperdiçado pode ter consequências.
  • Nenhum trabalho deve ser procurado sem considerar os fatores de tempo e lugar.
  • Às vezes, na falta de sorte, mesmo um trabalho / tarefa de aparência simples se torna difícil de realizar.
  • Homens sábios costumam monitorar os campos e o tempo.
  • Homens sábios e espertos podem tornar mais fácil até mesmo uma tarefa difícil de realizar.
  • Deve-se regozijar somente depois que uma tarefa específica for realizada.
  • Devido à má sorte, até mesmo pessoas habilidosas e instruídas podem falhar.
  • O trabalho de amanhã deve ser feito hoje.
  • O trabalho da tarde deve ser feito pela manhã.
  • É preciso se esforçar para cumprir seu dever.
  • O trabalho é mais importante do que a adoração.
  • É preciso pensar bem antes de embarcar em uma tarefa específica.
  • Uma vez decidida, uma tarefa não deve ser atrasada.

Superando adversidades

  • Trabalhar sem desafios é raro.
  • Como um bezerro atrás de uma vaca, o prazer e a dor seguem a vida.
  • Qualquer tarefa pode ser analisada a partir de três perspectivas: a própria perspectiva, a perspectiva dos outros e a perspectiva lógica.
  • As dificuldades podem ser resolvidas por meio de um exame adequado.
  • O destino adverso pode ser domado aderindo aos rituais védicos.
  • Todos os obstáculos criados pelo homem podem ser eliminados.
  • Quando surgem desafios ou quando se depara com fracassos, uma pessoa imatura recorre ao jogo da culpa.
  • Alguém com limitações procura limitações nos outros.
  • A falta de esforços aumenta a dificuldade em atingir os objetivos.
  • Os empreendedores, às vezes, precisam ser implacáveis.
  • Assim como um bezerro desejando o leite materno bate no peito de sua mãe.
  • Até mesmo uma poção pode ser derivada de veneno.
  • Melhor eliminar as dúvidas do que se empenhar em controlá-las.
  • Quando há várias tarefas, a tarefa com maior potencial deve ter prioridade.
  • As falhas devem ser admitidas no consolo e nunca por antecipação.
  • O medo eclipsa o senso de julgamento.
  • Com o julgamento correto, qualquer objetivo é alcançável.

Objetividade

  • Uma pessoa completamente direta por natureza é a mais rara entre as pessoas.
  • É preciso ser objetivo, mesmo com aqueles que o traíram no passado.
  • Não há riqueza sem responsabilidade.
  • Com o veículo certo, os esforços para viajar são limitados.
  • Não há maior vantagem do que ter a habilidade de meditar durante a angústia.
  • É preciso contemplar ao amanhecer.
  • Não é recomendado contemplar ao entardecer.
  • Não há penitência maior do que ser honesto com seus deveres.
  • A riqueza acumulada pelos pecadores é desfrutada por outros pecadores.
  • Um cisne raramente pode morar em um crematório.
  • As circunstâncias podem mudar os homens.
  • O ouro deve ser proporcional à riqueza de cada um.
  • O crime deve ser punido de forma adequada.
  • Uma resposta deve estar de acordo com a pergunta.
  • Deve-se agir de acordo com seu status.
  • Os esforços devem ser proporcionais ao trabalho.
  • A doação deve ser de acordo com a necessidade.
  • Deve-se vestir de acordo com sua idade.
  • Um servo deve atender às necessidades de seu mestre.
  • A esposa deve estar de acordo com o marido.
  • Um aluno deve estar de acordo com seu professor.
  • Um filho deve estar de acordo com os desejos de seu pai.
  • Nunca se deve mostrar parcialidade ao fazer justiça.
  • Uma árvore de nim raramente pode ser uma mangueira.
  • Aquele que é fiel a seu dever é feliz.
  • Como a semente, a colheita
  • Como o conhecimento, o intelecto.
  • Como a educação, a conduta.

Evitando empréstimos

  • Um favor deve ser devolvido.
  • Esperar a riqueza dos outros pode levar uma pessoa à ruína.
  • Não se deve esperar nem mesmo uma pequena soma de ninguém.
  • Mesmo um bom conhecimento de pessoas más não os ajudará a evitar seus maus hábitos.
  • Nunca se deve ter ciúme de pessoas generosas.
  • Aquele que cobiça a riqueza alheia é egoísta.
  • A prosperidade das pessoas que conhecemos pode causar dor pior do que a que sentimos durante a nossa pobreza.
  • Ao alimentar uma cobra com leite, não se pode esperar que a serpente evite seu veneno.
  • Não é uma virtude esperar a riqueza dos outros.
  • Qualquer coisa que impeça alguém de cumprir compromissos é um convite ao desastre.
  • Os traidores não têm culpa.

Evitando doenças

  • Comer uma dieta balanceada e regular leva ao ganho de saúde.
  • As doenças causadas por alimentos não saudáveis ​​não podem ser curadas comendo alimentos saudáveis.
  • Com uma digestão adequada, um corpo nunca é afetado por doenças.
  • É uma dor comer durante a indigestão.
  • Doença e enfermidade são piores do que um inimigo.
  • A penitência é uma virtude que acompanha a pessoa mesmo depois da morte.
  • Mesmo um bocado de comida pode salvar uma vida.
  • Mas mesmo o melhor remédio é incapaz de trazer os mortos de volta.
  • O vegetarianismo é bom para todos.

Evitando Inimigos

  • Nunca se deve insultar um inimigo, especialmente em uma assembléia.
  • É um prazer ouvir a dor de um inimigo.
  • Somente aqueles que são leais devem ser considerados amigos.
  • Ganhando amigos, ganha-se influência.
  • Homens fortes procuram ganhar o que não têm.
  • A arte da gestão faz parte da ciência política.
  • Os assuntos internos e externos de qualquer organização dependem do ambiente político.
  • Assuntos internos constituem aquilo que governa os recursos dentro de uma organização.
  • Os assuntos externos constituem a relação das organizações com o mundo exterior.
  • Os líderes devem compreender esses fatos com firmeza.
  • O vizinho imediato de um país costuma ser seu inimigo.
  • O outro vizinho de um inimigo geralmente é seu amigo.
  • Os inimigos e amigos são assim por suas necessidades e conveniências.
  • Pessoas inteligentes não têm inimigos.
  • Se um indivíduo tem muitos inimigos, ele não deve ser seguido.
  • Uma pessoa deve guardar seus segredos de todos, especialmente daqueles sem caráter e moral.
  • Nunca se deve revelar sua vulnerabilidade.
  • Aqueles que atingem pontos vulneráveis ​​são de fato inimigos.
  • A indignidade deve ser evitada.
  • Pessoas indignas não têm amigos.
  • As pessoas encontrarão falhas até mesmo em quem não conhecem.
  • As falhas podem ser facilmente encontradas, mesmo entre os sábios.
  • Nenhuma pedra preciosa é encontrada sem uma rachadura.
  • A parceria não deve ser feita com pessoas más.
  • Uma pessoa gentil não deve ter relacionamento com pessoas desagradáveis.
  • Muitas vezes, um inimigo pode ser confundido com um amigo.
  • Um estrangeiro benevolente é um irmão e amigo.
  • Raramente se deve ter ciúme da virtude de um inimigo.
  • Não reclame de um inimigo em uma assembléia.
  • As boas qualidades dos inimigos devem ser absorvidas.

Lidando com conflitos

  • O forte vencerá o fraco na guerra.
  • Um fraco deve fazer as pazes com o forte.
  • O forte não deve buscar amizade do fraco.
  • A necessidade é a única razão para os fortes e fracos buscarem colaboração e tratados.
  • Um ferro não aquecido nunca pode ser unido a um ferro aquecido.
  • Quando estiver sem energia, procure a ajuda de alguém que seja forte.
  • Ao refugiar-se nos fracos, certamente enfrentará a desgraça.
  • A paz e a guerra muitas vezes são devidas às condições econômicas e ambientais.
  • É estúpido lutar com alguém poderoso.
  • Lutar com os poderosos é inútil; como um indivíduo desarmado diante de um poderoso elefante, a condenação dos fracos é freqüentemente predestinada.
  • Quando dois potes de barro com qualidades semelhantes colidem, ambos são destruídos.
  • Os esforços e ações de um adversário devem ser monitorados e examinados de perto.
  • Depois de discordar de um inimigo, tome providências para se proteger.
  • A não violência é um sinal de grandes homens.

Perigo dos vícios

  • Aqueles com vícios muitas vezes enfrentam fracassos.
  • O preguiçoso, sem ambições, nada busca.
  • Os ociosos, mesmo com força substancial, nunca reterão o que possuem por muito tempo.
  • Os ociosos não conseguirão nem proteger sua herança.
  • Os ociosos nunca podem cuidar daqueles que dependem deles.
  • Homens preguiçosos raramente se beneficiam da sabedoria das escrituras.
  • Gastar dinheiro sem consideração não serve nem a si mesmo nem à sociedade.
  • Ao renunciar à raiva, o homem está no caminho certo para o sucesso.
  • Pessoas sob a influência da luxúria e das drogas certamente perderão tudo o que possuem.
  • Para uma pessoa viciada em jogos de azar, nenhum trabalho parece justo.
  • Os viciados em violência costumam evitar a ética.
  • O desejo de riqueza não deve ser considerado um vício.
  • A falta de vontade de trabalhar deve ser considerada um vício.
  • Um mulherengo é uma desgraça; ele raramente é respeitado.
  • Um mulherengo é desrespeitado até pelas mulheres com quem dorme.
  • Capacidade de controlar a si mesmo é uma marca registrada da meditação.
  • É muito difícil se livrar da luxúria.
  • A luxúria leva à desgraça do homem.
  • Um oceano raramente consegue matar a sede.

Perigos da estupidez

  • Uma pessoa gananciosa, mesmo que competente, pode ser facilmente enganada.
  • Pela ganância, a consciência é enganada.
  • Quando seu trabalho está corrompido, a pessoa deve se consertar.
  • Pessoas estúpidas costumam ser teimosas.
  • É estúpido ter conflito com amigos, professores e mestres inteligentes.
  • Vale mais ser inimigo dos sábios do que amigo dos estúpidos.
  • É preciso falar a linguagem dos estúpidos com pessoas estúpidas.
  • É estúpido discutir com pessoas estúpidas.
  • Somente o ferro pode cortar o ferro.
  • Pessoas estúpidas não têm amigos verdadeiros.

Palavras e discurso

  • Palavras ásperas podem causar dores piores do que queimaduras de fogo.
  • Os líderes serão odiados se usarem palavras ásperas com frequência.
  • Qualquer inimigo pode ser contido empregando-se habilmente tato e diplomacia.
  • Palavrões nunca devem ser praticados.
  • Não há mérito maior que a verdade.
  • A verdade é o caminho para a bem-aventurança.
  • A existência do mundo é verdade.
  • A verdade é a essência da vida.
  • Não há pecado maior do que a mentira.
  • Poção e veneno emanam de sua língua.
  • Aqueles com palavras doces não têm inimigos.
  • Com palavras doces, até os deuses ficam satisfeitos.
  • Palavrões, mesmo que em brincadeiras, vivem para a eternidade.
  • Nunca fale nada que não seja apreciado pelos reis.
  • Pessoas más nunca podem falar com o coração.
  • Nunca se deve falar de seus medos.
  • Nunca se deve dar falso testemunho.
  • O falso testemunho é um caminho para o inferno.
  • O corpo pode desafiar as palavras de alguém.
  • O inacreditável, mesmo se verdadeiro, não deve ser falado.
  • Homens ricos geralmente desprezam falatório.

Carisma e Prestígio

  • Para os líderes, seu carisma é riqueza.
  • Esforços para tornar gracioso um homem vergonhoso são uma tarefa assustadora.
  • A falta de entusiasmo pode levar ao fracasso.
  • Para os entusiastas, até os inimigos se tornam favoráveis.
  • Se algo bom é feito por alguém que se não gosta, isso não é apreciado.
  • Por uma falha menor, uma pessoa com muitas boas qualidades não deve ser sacrificada ou abandonada.
  • Muitas virtudes em um homem podem ser eclipsadas por uma única falha.
  • Até uma mãe é abandonada se for considerada vil, cruel ou corrompida.
  • Assim como um membro que enfrenta gangrena é amputado.
  • Uma pessoa pode ser adorada simplesmente por causa de sua posição.
  • Uma pessoa boa é respeitada mesmo quando perde sua posição.
  • O carisma de uma pessoa respeitável raramente é esquecido.
  • Ele é uma boa pessoa que trabalha para o interesse dos outros.
  • Quando o respeito não combina com o status de alguém, é um bom motivo para suspeitar.
  • A autoconfiança deve sempre ser preservada.
  • Mas o ego é o pior inimigo do homem.
  • Uma pessoa vergonhosa não tem medo de insultos.
  • Os homens sábios não têm medo da morte.
  • Para santos e sábios, não existem medos.
  • O mesmo é para qualquer pessoa que aprendeu a controlar seus sentidos.
  • Ele é uma pessoa generosa que considera os problemas dos outros como seus.
  • Não se deve vangloriar-se de si mesmo.
  • Um grande homem é inestimável.
  • Uma mulher elegante é incomparável.
  • O medo do desrespeito está entre os piores temores.
  • Não há dor maior do que cair em desgraça.

Respeito à Família

  • Uma pessoa que salva seus pais da miséria é um filho verdadeiro.
  • Ele é um filho que traz glória para sua família.
  • Para um chefe de família, um filho virtuoso é uma bênção.
  • É preciso garantir que seu filho seja excelente em educação.
  • Nunca se deve vangloriar-se do filho.
  • É impossível esconder suas limitações entre parentes.
  • Um líder maligno é insultado até mesmo por sua própria esposa e filhos.
  • A Mãe é a maior professora.
  • É preciso sempre cuidar da mãe.
  • O sábio não deve se casar com imprudente.
  • Ao se casar com uma mulher imprudente, o homem certamente perderá seu respeito, longevidade e carisma.
  • Nunca se deve engravidar uma mulher desconhecida.
  • As mulheres procuram companheirismo.
  • Quando um homem respeitado se casa com uma mulher sem personalidade, ele com certeza sofrerá uma vida de agonia.
  • Mesmo as pessoas com amor têm raiva.
  • Deve-se morar em um lugar pacífico.
  • Onde se pode viver em paz é um lugar onde se deve viver.
  • As pessoas que vivem ao redor devem ser boas.
  • Eles devem cumprir a lei.

Respeito às Leis

  • Ao roubar a riqueza de outra pessoa, uma pessoa corre o risco de colocar a sua própria em risco.
  • Não há pior armadilha mortal do que roubar.
  • Ao cumprir a lei, um líder é respeitado por seu povo.
  • A lei é bem governada durante a prosperidade.
  • Sem lei, a própria estrutura da sociedade certamente perecerá.
  • Por medo da punição, as pessoas evitam a violência e seguem a lei.
  • Ao proteger a lei, as pessoas se protegem.
  • Ao proteger a si mesmo, tudo está protegido.
  • O crescimento e a destruição são causados ​​pelas pessoas.
  • A aplicação da lei deve ser feita aplicando sabedoria.
  • Até mesmo o emprego de pessoas é protegido pela aplicação da lei.

Respeito ao Dharma

  • O mundo é ordenado por meio do Dharma.
  • A riqueza somente deve ser conquistada com justiça.
  • Riquezas ganhas com a perda de respeito próprio são humilhação
  • Tudo o que é ganho de forma injusta não deve ser considerado riqueza.
  • Empatia é a mãe da ética.
  • A verdade e a penitência estão enraizadas na ética.
  • Não existe inimigo igual ao egoísmo.
  • Homens bons raramente podem desfrutar da companhia dos ímpios.
  • Os líderes imorais destroem não apenas a si mesmos, mas também seus seguidores.
  • Os líderes éticos se protegem, como seus seguidores.
  • Um líder ético é o protetor das massas.
  • Um líder que gera felicidade para seus seguidores é feliz em todos os lugares.
  • Não é sensato se associar com pessoas más.
  • O mais valente é aquele que é caridoso.
  • A fidelidade aos deuses, homens eruditos e professores é uma virtude.
  • A bondade em qualquer pessoa é uma virtude.
  • Com bondade, uma pessoa de nascimento humilde também pode ser considerada digna.
  • Mesmo que seja agradável, uma má ação nunca deve ser cometida.
  • Para pessoas altruístas, a vida não é um negócio.
  • Bons presságios significam sucesso.
  • Os presságios têm maior valor do que as estrelas.
  • As escrituras devem ser seguidas.
  • Mas a boa conduta não está só nas escrituras.
  • Deve-se aprender e seguir as características graciosas de homens excelentes.
  • Quando as escrituras estão ausentes, os homens sábios devem ser seguidos.
  • O perdão leva à penitência e à divindade na pessoa.
  • Por penitência, grandes feitos se tornam possíveis.
  • Somente nossa consciência dá testemunho de nosso trabalho.
  • A consciência é a testemunha eterna de todas as nossas ações.
  • Aqueles que pecam em segredo, sua consciência ainda dá testemunho.
  • É preciso sofrer seus pecados mais cedo ou mais tarde.
  • Sob nenhuma circunstância um indivíduo deve violar seus limites.
  • Escrituras más são freqüentemente suportadas por pessoas más.
  • Pessoas compassivas se veem em todos.
  • A personalidade reflete o caráter de uma pessoa.
  • Homens excelentes consideram a dor dos outros como sua.
  • Uma pessoa necessitada nunca deve ser rejeitada.
  • Um favor feito àquele que é gracioso raramente é esquecido. Ele está sempre agradecido.
  • Pessoas ingratas não têm retorno do inferno.
  • A companhia de bons homens é como a do céu.
  • Por meio do bom comportamento, um indivíduo aumenta não apenas seu respeito, mas também sua riqueza.
  • Sem a apoio dos deuses mesmo os melhores esforços estão destinados ao fracasso.
  • A bênção dos deuses é importante.

Malefícios da pobreza

  • Quando a desgraça está predestinada, uma pessoa fará tudo contra seus próprio interesse.
  • Um desempregado raramente pode cuidar de seus dependentes.
  • Aquele que não consegue encontrar trabalho para si mesmo é pior do que um cego.
  • Uma pessoa sem trabalho certamente enfrentará a fome.
  • Não há inimigo como a fome.
  • Um homem faminto pode comer qualquer coisa por fome.
  • Ao sucumbir à fome, um homem pode perder o controle de si mesmo
  • Pessoas empobrecidas frequentemente sofrem obstáculos.
  • Os mendigos carecem de respeito.
  • A pobreza é pior do que a morte.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/artha-sutra-o-livro-da-riqueza/