A Lei da Kimbanda

A Lei da Kimbanda vem dos bantos, dos povos Angola-Congo. A “misturança”, ou ainda podemos dizer “sincretismo” entre o Exu-iorubá, os Ngangas e Tatás (almas de chefes kimbandeiros das nações bantas) foi o que deixou esse ar de confusão no povo, que muitos até mesmo sendo “feitos na kimbanda”, não entendem, ou o que é pior, tratam-no de diabo. Na verdade, o Exu da kimbanda não é o Exu-Iorubá (Orixá ou Imalé dessa cultura). Os Espíritos que chegam na linha da kimbanda são espíritos de Ngangas ou Tatás, aqueles que quando encarnados na terra eram sacerdotes bantos adoradores de algum Nkisi ou Npungu.

No Brasil, o culto aos Npungus e Nkisis através dos seus mensageiros – os Ngangas – foi misturado na escravidão com o culto aos Encantados e aos pajés (da cultura tupi-guarani) e também com o dos Iorubás, surgindo os seguintes novos cultos, fruto da miscelânea: Makumba – que vem de “ma-kiumba” (espíritos da noite). Foi assim chamado o mais primitivo culto sincretista no sul do Brasil (e o primeiro originado no Brasil), dada sua maior preponderância banto; é dela que descendem os outros cultos afro-brasileiros com influência das nações Angola-Congo, Tupi-guarani, Nagô e a Igreja, nessa ordem. A razão de se chamar makiumba (logo após por deturpação da palavra ficaria makumba ou macumba) foi justamente, porque é um culto que se faz na noite, onde se deveriam chamar necessariamente os espíritos da noite (almas de outros sacerdotes do culto – Eguns ou Ancestrais). No culto iorubano-nagô conhece-se e rende-se culto aos Ancestrais-Egun, porém eles são afastados dos rituais aos Orixás, tentando ter um contato com outro tipo de energia. Isto contribuiu para que os rituais onde se chamavam os eguns fossem menosprezados, tratados pejorativamente e mal interpretados.

Por outro lado, a Igreja também condenava os cultos com influência índio-banto onde se fazia beberagem e supostamente “orgias”.

Na verdade, as danças bantús eram no Brasil e ainda são na África, bastante eróticas, e também é verdade que os Guias bebem e fumam, porém é muito distante de ser uma orgia ou uma bebedeira. Depois, quando os grupos de nações começaram a procurar sua identidade, dividiram-se os principais componentes da makumba, aparecendo: Candomblé de Angola; Candomblé de Congo; Candomblé de Caboclo ou dos Encantados; Catimbó; – todos eles à procura de uma raiz cultural – e também, ao final do século XIX surgem da macumba urbana, (onde se tinha muita participação dos brancos pobres e os descendentes de escravos) a Umbanda e a Kimbanda com influências para o Espiritismo e com muito sincretismo. Na Kimbanda, permaneceu grande parte do culto aos Ngangas da nação Angola-Congo, porém misturado com o diabo (pelas influências dos mitos e tabus dos próprios integrantes – que não tinham conhecimento das origens) e também embaixo do pé do Orixá Iorubá Exu.

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Confissões de um metamorfo

Soror Ísis

Eu sou um metamorfo. É um dom, um talento que tenho. Pense em mim não como uma criatura nascida do folclore, nem como um produto das teias de aranha da superstição e do pensamento arcano desmascarado. Eu mudo minha aparência à vontade, e outros me verão em diferentes peles em noites diferentes. Você não conhece meu verdadeiro gênero, minha verdadeira raça e cor. Isso é um segredo só meu.

A senhora Antoinette, durante um jantar na casa do embaixador em Washington D.C., apresentou-se a mim quando eu era um homem de boa educação e reputação. Passamos a noite conversando furiosamente sobre nossas atividades e nossos passatempos. Deliciei-me em tocá-la suave e brevemente durante toda a noite, sua respeitabilidade sendo o véu de suas frias reações aos meus avanços. Recebi o número dela e a agraciei com um beijo suave na varanda. Essa mesma senhora, ao ver-me no dia seguinte, velha e abatida senhora de saco, com a pele áspera como uma lixa, empurrando um carrinho de compras cheio de coisas sujas e sujas, me jogou na esquina da rua ao lado do Morro tão rapidamente quanto ela piscou os olhos para mim na noite anterior. Não vejo isso como um teste de preferência ou caráter. Tenho razões muito mais sutis para minhas escolhas.

A mudança de forma é uma reencarnação menor. O segredo para mudar de forma é que você não muda sua forma, mas convence os outros a vê-lo de forma diferente. A hipnose é uma ferramenta fundamental. É uma ferramenta que aprendi enquanto sob a orientação do meu mentor, enquanto nas montanhas em um país que eu não tenho liberdade para divulgar.

O sigilo da linhagem dessa habilidade é primordial para minha sobrevivência, minha existência. No entanto, ao contar alguns segredos não entrego tudo. Pois, uma coisa é dizer e outra é fazer. Um estranho não pode entender o que significa mudar de forma, a menos que eles próprios possuam o talento e a compreensão de tal.

Sem dúvida, minha habilidade me deu força para fazer coisas que apenas homens comuns podem sonhar. Você pode me perguntar: “O que uma pessoa como você faria com tal presente? Como você pasaria seus momentos de vigília em busca? Existem poucos como eu. Posso contá-los em uma mão. E, no entanto, possivelmente ainda alguns sem o meu conhecimento, por razões fora do meu alcance de habilidade. Se seus motivos são nobres ou vis, cabe a eles decidir. Não pense em nós como uma organização secreta; um Illuminati, por assim dizer, de homens e mulheres que se reúnem nas profundezas de uma caverna, decidindo o destino da humanidade.

Manter o controle das massas, na minha humilde opinião, seria uma perda de tempo. A maioria, se não todos os homens da terra, trabalham e vivem dentro de seu próprio alcance limitado. Eles não podem ver o que está além deles, então por que devo gastar meu tempo executando as mesmas ações repetitivas neles? Se o objetivo da minha vida fosse riqueza material e poder, eu poderia facilmente fazer de mim um império. Eu poderia facilmente brincar com as massas, os governos, os príncipes e reis do poder. Mas, isso faz um desserviço ao meu talento. Há riquezas muito maiores que o estranho não pode ver. Então, para responder à pergunta que me foi imposta, meu talento é o meu fim. O ato em si é o fim;

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A Cabala Luriânica

A Cabala Luriânica é uma escola de Cabala com o nome de Isaac Luria (1534-1572), o rabino judeu que a desenvolveu. A Cabala Luriânica deu um novo registro seminal do pensamento cabalístico que seus seguidores sintetizaram e leram na Cabala anterior do Zohar que se disseminava nos círculos medievais.

A Cabala Luriânica descreve novas doutrinas das origens da Criação, e os conceitos de Olam HaTohu (hebraico: עולם התהו “O Mundo de Tohu-Caos”) e Olam HaTikun (hebraico: עולם התיקון “O Mundo de Tikun-Retificação”), que representam dois estados espirituais arquetípicos de ser e consciência. Esses conceitos derivam da interpretação de Isaac Luria e das especulações míticas sobre referências no Zohar. O principal divulgador das idéias de Luria foi o rabino Hayyim ben Joseph Vital da Calábria, que afirmou ser o intérprete oficial do sistema luriânico, embora alguns contestassem essa afirmação. Juntos, os ensinamentos compilados escritos pela escola de Luria após sua morte são metaforicamente chamados de “Kitvei HaARI” (Escritos do ARI), embora diferissem em algumas interpretações centrais nas primeiras gerações.

As interpretações anteriores do Zohar culminaram no esquema racionalmente influenciado de Moisés ben Jacó Cordovero em Safed, imediatamente antes da chegada de Luria. Os sistemas de Cordovero e Luria deram à Cabala uma sistematização teológica para rivalizar com a eminência anterior da filosofia judaica medieval. Sob a influência do renascimento místico em Safed do século XVI, o lurianismo tornou-se a teologia judaica dominante quase universal no início da era moderna, tanto nos círculos acadêmicos quanto na imaginação popular. O esquema luriânico, lido por seus seguidores como harmonioso e sucessivamente mais avançado que o cordoveriano, em grande parte o deslocou, tornando-se a base dos desenvolvimentos subsequentes do misticismo judaico. Após o Ari, o Zohar foi interpretado em termos luriânicos e, posteriormente, os cabalistas esotéricos expandiram a teoria mística dentro do sistema luriânico. Os movimentos hassídicos e mitnágdicos posteriores divergiram sobre as implicações da Cabala Luriânica e seu papel social no misticismo popular. A tradição mística sabática também derivaria sua fonte do messianismo luriânico, mas tinha uma compreensão diferente da interdependência cabalística do misticismo com a observância judaica halakha.

A NATUREZA DO PENSAMENTO LURIÂNICO

A característica do sistema teórico e meditativo de Luria é sua reformulação da hierarquia estática anterior de desdobramento dos níveis Divinos, em um drama espiritual cósmico dinâmico de exílio e redenção. Através disso, essencialmente, tornaram-se duas versões históricas da tradição teórico-teosófica na Cabala:

  1. A Cabala Medieval e o Zohar como foi inicialmente entendido (às vezes chamado de Cabala “clássica/zoharica”), que recebeu sua sistematização por Moshe Cordovero imediatamente antes de Luria no período da Modernidade
  1. A Cabala Luriânica, a base do misticismo judaico moderno, embora Luria e os cabalistas subsequentes vejam o lurianismo como nada mais do que uma explicação do verdadeiro significado do Zohar.

A Cabala Primitiva

As doutrinas místicas da Cabala apareceram em círculos esotéricos no século 12 no sul da França (Provence-Languedoc), espalhando-se para o norte da Espanha do século 13 (Catalunha e outras regiões). O desenvolvimento místico culminou com a disseminação do Zohar a partir de 1305, o principal texto da Cabala. A Cabala Medieval incorporou motivos descritos como “Neoplatônico” (reinos linearmente descendentes entre o Infinito e o finito), “Gnóstico” (no sentido de vários poderes se manifestando da Divindade singular, em vez de deuses plurais) e “Místico” (em contraste com racional, como as primeiras doutrinas de reencarnação do judaísmo). Comentários subsequentes sobre o Zohar tentaram fornecer uma estrutura conceitual na qual suas imagens altamente simbólicas, ideias vagamente associadas e ensinamentos aparentemente contraditórios pudessem ser unificados, compreendidos e organizados sistematicamente. Meir ben Ezekiel ibn Gabbai (nascido em 1480) foi um precursor disso, mas as obras enciclopédicas de Moisés Cordovero (1522-1570) sistematizaram de maneira influente o esquema da Cabala Medieval, embora não explicassem algumas crenças clássicas importantes, como a reencarnação. O esquema Medieval-Cordoveriano descreve em detalhes um processo linear e hierárquico onde a Criação finita evolui (“Hishtalshelut“) sequencialmente do Ser Infinito de Deus. As sefirot (atributos Divinos) na Cabala, agem como forças discretas e autônomas no desdobramento funcional de cada nível da Criação, do potencial ao atual. O bem-estar do Reino Divino Superior, onde as Sephirot se manifestam supremamente, está mutuamente ligado ao bem-estar do Reino Humano Inferior. Os atos do Homem, no final da cadeia, afetam a harmonia entre as Sephirot nos mundos espirituais superiores. Mitzvot (observâncias judaicas) e atos virtuosos trazem unidade Acima, permitindo a unidade entre Deus e a Shekhinah (Presença Divina) Abaixo, abrindo o Fluxo da vitalidade Divina em toda a Criação. O pecado e os atos egoístas introduzem ruptura e separação em toda a Criação. O mal, causado por ações humanas, é um transbordamento mal direcionado Abaixo de Gevurah (Gravidade/Severidade) não controlada no Alto.

A Comunidade Moderna de Safed

O renascimento da Cabala no século XVI na comunidade galileana de Safed, que incluía Joseph Karo, Moshe Alshich, Cordovero, Luria e outros, foi moldado por sua perspectiva espiritual e histórica particular. Após a expulsão da Espanha em 1492, eles sentiram uma urgência e responsabilidade pessoal em nome do povo judeu para apressar a redenção messiânica. Isso envolvia uma ênfase em parentesco próximo e práticas ascéticas, e o desenvolvimento de rituais com um foco messiânico-comunal. Os novos desenvolvimentos de Cordovero e Luria na sistematização da Cabala anterior buscavam a disseminação mística além dos círculos acadêmicos próximos aos quais a Cabala anteriormente estava restrita. Eles sustentavam que a ampla publicação desses ensinamentos e práticas meditativas baseadas neles aceleraria a redenção para todo o povo judeu.

A CABALA LURIÂNICA

Onde o objetivo messiânico permaneceu apenas periférico no esquema linear de Cordovero, o esquema teórico mais abrangente e as práticas meditativas de Luria explicaram o messianismo como sua dinâmica central, incorporando toda a diversidade de conceitos cabalísticos anteriores como resultados de seus processos. Luria conceitua os Mundos Espirituais através de sua dimensão interna de exílio e redenção divina. O mito luriânico trouxe à tona noções cabalísticas mais profundas: teodicéia (origem primordial do mal) e exílio da Shekhinah (Presença Divina), redenção escatológica, o papel cósmico de cada indivíduo e os assuntos históricos de Israel, simbolismo da sexualidade no mundo celestial Manifestações divinas e a dinâmica inconsciente na alma. Luria deu articulações teosóficas esotéricas às questões mais fundamentais e teologicamente ousadas da existência.

Pontos de Vistas Cabalísticos

Os cabalistas religiosos vêem a abrangência mais profunda da teoria luriânica devido à sua descrição e exploração de aspectos da Divindade, enraizados no Ein Sof, que transcendem o misticismo revelado e racionalmente apreendido descrito por Cordovero. O sistema da Cabala Medieval é incorporado como parte de sua dinâmica mais ampla. Onde Cordovero descreveu as Sefirot (atributos divinos) e os Quatro Reinos espirituais, precedidos por Adam Kadmon, desdobrando-se sequencialmente a partir do Ein Sof, Luria sondou a origem supra-racional desses Cinco Mundos dentro do Infinito. Isso revelou novas doutrinas do Tzimtzum Primordial (contração) e do Shevira (quebra) e reconfiguração das Sephirot. Na Cabala, o que precedeu mais profundamente nas origens, também se reflete nas dimensões internas da Criação subsequente, de modo que Luria foi capaz de explicar o messianismo, os aspectos divinos e a reencarnação, crenças cabalísticas que permaneceram dessistemas de antemão.

As tentativas de sistematização cabalística de Cordovero e Medieval, influenciadas pela filosofia judaica medieval, abordam a teoria cabalística através do paradigma racionalmente concebido de “Hishtalshelut” (“Evolução” sequencial de níveis espirituais entre o Infinito e o Finito – os vasos/molduras externas de cada mundo espiritual ). Luria sistematiza a Cabala como um processo dinâmico de “Hitlabshut” (“Revestimento” de almas superiores dentro de vasos inferiores – as dimensões interiores/alma de cada mundo espiritual). Isso vê dimensões internas dentro de qualquer nível da Criação, cuja origem transcende o nível em que estão revestidas. O paradigma espiritual da Criação é transformado em um processo dinâmico de interação na Divindade. As manifestações divinas envolvem-se umas nas outras e estão sujeitas ao exílio e à redenção:

“O conceito de hitlabshut (“vestimenta”) implica uma mudança radical de foco ao considerar a natureza da Criação. De acordo com essa perspectiva, a principal dinâmica da Criação não é evolutiva, mas interacional. Os estratos superiores da realidade estão constantemente se revestindo dentro dos estratos inferiores, como a alma dentro de um corpo, infundindo assim cada elemento da Criação com uma força interna que transcende sua própria posição dentro da hierarquia universal. Hitlabshut é muito mais uma dinâmica “biológica”, responsável pela força vital que reside na Criação; hishtalshelut, por outro lado, é “físico”, preocupado com a energia condensada da “matéria” (vasos espirituais) em vez da força vital da alma.”

Devido a este paradigma mais profundo e interno, as novas doutrinas introduzidas por Luria explicam os ensinamentos e passagens cabalísticas do Zohar que permaneceram superficialmente compreendidos e descritos externamente antes. Conceitos aparentemente não relacionados tornam-se unificados como parte de um quadro abrangente e mais profundo. Os sistematizadores cabalísticos antes de Luria, culminando com Cordovero, foram influenciados pelo Guia filosófico de Maimônides, em sua busca para decifrar o Zohar intelectualmente e unificar a sabedoria esotérica com a filosofia judaica. Na Cabala isso incorpora o nível mental Neshamá (Compreensão) da alma. Os ensinamentos de Luria desafiam a alma a ir além das limitações mentais. Embora apresentada em termos intelectuais, continua sendo uma doutrina revelada e supra-racional, dando uma sensação de estar além do alcance intelectual. Isso corresponde ao nível da alma de Haya (insight de Sabedoria), descrito como apreensão de “tocar/não tocar”.

Pontos de Vista Acadêmicos

No estudo acadêmico da Cabala, Gershom Scholem viu o lurianismo como uma resposta historicamente localizada ao trauma do exílio espanhol, uma mitificação plenamente expressa do judaísmo e um misticismo messiânico paradoxalmente paradoxal, pois o misticismo fenomenologicamente geralmente envolve a retirada da comunidade. Na academia mais recente, Moshe Idel desafiou a influência histórica de Scholem no lurianismo, vendo-o como um desenvolvimento em evolução dentro dos fatores inerentes ao misticismo judaico por si só. Em sua monografia Physician of the Soul, Healer of the Cosmos: Isaac Luria and His Kabbalistic Fellowship (O Médico da Alma, o Curador do Cosmos: Isaac Luria e Sua Irmandade Cabalística), Stanford University Press, 2003, Lawrence Fine explora o mundo de Isaac Luria do ponto de vista da experiência vivida por Luria e seus discípulos.

OS PRINCIPAIS CONCEITOS DA CABALA LURIÂNICA:

O Tzimtzum Primordial – A Contração da Divindade:

Isaac Luria propôs a doutrina do Tzimtzum, (significando alternativamente: “Contração/Ocultação/Condensação/Concentração”), a Auto-Retirada primordial da Divindade para “dar espaço” para a Criação subsequente.

A Cabala anterior ensinou que antes da criação dos reinos espirituais ou físicos, a simplicidade divina de Ein Sof (“Sem Fim”) preenchia toda a realidade. Em uma forma mística de auto-revelação Divina, a Ohr Ein Sof (“Luz do Ein Sof/Luz Infinita”) brilhou dentro do Ein Sof, antes de qualquer criação. Na Unidade absoluta do Ein Sof, “nenhuma coisa” (nenhuma limitação/fim) poderia existir, pois tudo seria anulado. Sobre o Ein Sof, nada pode ser postulado, pois transcende toda apreensão/definição. A Cabala Medieval sustentava que no início da Criação, do Ein Sof emergiram da ocultação os 10 atributos Divinos Sephirot para emanar a existência. A vitalidade brilhou primeiro para Adam Kadmon (“Homem Primordial”), o reino da Vontade Divina), nomeado metaforicamente em relação ao Homem que está enraizado no plano Divino inicial. De Adam Kadmon emergiram sequencialmente os Quatro Reinos Espirituais descendentes: Atziluth (“Emanação” – o nível da Sabedoria Divina), Beriah (“Criação” – Intelecto Divino), Yetzirah (“Formação” – Emoções Divinas), Assiah (“Ação” – Realização Divina). Na Cabala Medieval, o problema da criação finita emergindo do Infinito foi parcialmente resolvido por inumeráveis ​​e sucessivas ocultações/contrações/encobrimentos de tzimtzumim da abundância Divina através dos Mundos, reduzindo-a sucessivamente a intensidades apropriadas. Em cada estágio, o fluxo absorvido criava reinos, transmitindo resíduos para níveis mais baixos.

Para Luria, essa cadeia causal não resolveu a dificuldade, pois a qualidade infinita da Ohr Ein Sof, mesmo sujeita a inúmeros véus/contrações, ainda impediria a existência independente. Ele avançou um salto Tzimtzum primordial inicial e radical antes da Criação, a auto-retirada da Divindade. No centro do Ein Sof, a retirada formou um metafórico (não espacial) Khalal/Makom Ponui (“Vácuo/Espaço Vazio”) no qual a Criação ocorreria. O vácuo não estava totalmente vazio, pois restava uma leve Reshima (“Impressão”) da Realidade anterior, semelhante à água que se agarra a um recipiente vazio.

No vácuo então brilhou uma nova luz, o Kav (“Raio/Linha”), uma “fina” extensão diminuída da Luz Infinita original, que se tornou a fonte de toda a Criação subsequente. Embora ainda infinita, essa nova vitalidade era radicalmente diferente da Luz Infinita original, pois agora estava potencialmente adaptada à perspectiva limitada da Criação. Assim como a perfeição de Ein Sof abarcava tanto a infinitude quanto a finitude, a Luz Infinita possuía qualidades finitas ocultas e latentes. O Tzimtum permitiu que qualidades infinitas se retirassem para o Ein Sof, e qualidades potencialmente finitas emergissem. À medida que o Kav brilhava no centro do vácuo, englobava dez Iggulim “concêntricos” (o esquema conceitual dos “Círculos”), formando as Sephirot, permitindo que a Luz aparecesse em sua diversidade.

Shevira – A Quebra dos Vasos das Sephirot:

A primeira configuração divina dentro do vácuo compreende Adam Kadmon, o primeiro reino espiritual primitivo descrito na Cabala anterior. É a manifestação da vontade divina específica para a criação subsequente, dentro da estrutura relativa da criação. Seu nome antropomórfico indica metaforicamente o paradoxo da criação (Adam – homem) e manifestação (Kadmon – divindade primordial). O homem é concebido como a futura encarnação na criação subsequente, ainda não surgida, das manifestações divinas. O Kav forma as Sephirot, ainda apenas latentes, de Adam Kadmon em dois estágios: primeiro como Iggulim (Círculos), depois englobado como Yosher (Reto), os dois esquemas de arranjo das Sephirot. Na explicação sistemática de Luria dos termos encontrados na Cabala clássica:

  • Iggulim é o Sephirot agindo como dez princípios “concêntricos” independentes;
  • Yosher é um Partzuf (configuração) no qual as Sephirot agem em harmonia umas com as outras no esquema de três colunas.

“Reto” é assim chamado por meio de uma analogia com a alma e o corpo do homem. No homem, os dez poderes sefiróticos da alma atuam em harmonia, refletidos nos diferentes membros do corpo, cada um com uma função particular. Luria explicou que é a configuração Yosher das Sephirot que é referido por Gênesis 1:27, “Deus criou o homem à Sua própria imagem, à imagem de Deus Ele o criou, macho e fêmea Ele os criou”. No entanto, em Adam Kadmon, ambas as configurações das Sephirot permanecem apenas em potencial. Adam Kadmon é pura luz divina, sem vasos, limitado por sua futura vontade potencial de criar vasos e pelo efeito limitador da Reshima.

Da configuração figurativa não corpórea de Adam Kadmon emanam cinco luzes: metaforicamente dos “olhos”, “ouvidos”, “nariz”, “boca” e “testa”. Estes interagem uns com os outros para criar três estágios do mundo espiritual particular após Adam Kadmon: Akudim (“Ligado” – caos estável), Nekudim (“Pontos” – caos instável) e Berudim (“Conectado” – início da retificação). Cada reino é um estágio sequencial no primeiro surgimento dos vasos sefiróticos, antes do mundo de Atziluth (Emanação), o primeiro dos quatro mundos espirituais abrangentes da criação descritos na Cabala anterior. À medida que as Sephirot emergiam dentro dos vasos, elas atuavam como dez forças Iggulim independentes, sem inter-relação. Chesed (Bondade) se opôs a Gevurah (Severidade), e assim com as emoções subsequentes. Este estado, o mundo de Tohu (Caos) precipitou uma catástrofe cósmica no reino Divino. Tohu é caracterizado pela grande divina Ohr (Luz) em vasos fracos, imaturos e não harmonizados. À medida que a luz divina se derramava nas primeiras sefirot intelectuais, seus vasos estavam próximos o suficiente de sua fonte para conter a abundância de vitalidade. No entanto, à medida que o transbordamento continuou, as sefirot emocionais subsequentes se despedaçaram (Shevirat HaKeilim – “A Quebra dos Vasos”) de Binah (Compreensão) até Yesod (a Fundação) sob a intensidade da luz. A sephirah final Malkhut (Reinado) permanece parcialmente intacta como a Shekhina exilada (imanência divina feminina) na criação. Este é o relato esotérico em Gênesis e Crônicas dos oito reis de Edom que reinaram antes de qualquer rei reinar em Israel. Os fragmentos dos vasos quebrados caíram do reino de Tohu na ordem criada subsequente de Tikun (Retificação), estilhaçando-se em inúmeros fragmentos, cada um animado pelas Nitzutzot (Faíscas) exiladas de sua luz original. As centelhas divinas mais sutis foram assimiladas nos reinos espirituais mais elevados como sua força vital criativa. Os fragmentos animados mais grosseiros caíram em nosso reino material, com fragmentos inferiores nutrindo os Kelipot (Conchas) em seus reinos de impureza.

Tikun – Retificação:

Partzufim – As Personas Divinas:

Os subsequentes quatro mundos espirituais da Criação abrangentes, descritos na Cabala anterior, incorporam o reino luriânico de Tikun (“Retificação”). Tikun é caracterizado por luzes mais baixas e menos sublimes que Tohu, mas em vasos fortes, maduros e harmonizados. A retificação é iniciada em Berudim, onde as Sephirot harmonizam suas 10 forças, cada uma incluindo as outras como princípios latentes. No entanto, a retificação celestial é completada em Atziluth (Mundo da “Emanação”) após a Shevira, através das Sephirot transformando-se em Partzufim ( “Faces/Configurações”) Divinas. Na Cabala Zoharica, os partzufim aparecem como aspectos divinos supernais particulares, expostos no Idrot esotérico, mas tornam-se sistematizados apenas no Lurianismo. Os 6 partzufim primários, que se dividem em 12 formas secundárias:

  • Atik Yomin (“Ancião dos Dias”) parte interna de Keter, a Deleite.
  • Arikh Anpin (“O Semblante Maior”) partzuf exterior de Keter, a Vontade.
  • Abba (“Pai”) partzuf de Chokhma, a Sabedoria.
  • Imma (“Mãe”) partzuf de Binah, a Compreensão.
  • Zeir Anpin (“O Semblante Menor” – Filho) partzuf das Sephirot emocionais.
  • Nukva (“Feminino” – Filha) partzuf de Malkhut, a Realeza.

Os Parzufim são as Sephirot agindo no esquema de Yosher, como no homem. Em vez de incluir latentemente outros princípios independentemente, os partzufim transformam cada sephirah em configurações antropomórficas completas de três colunas de 10 Sephirot, cada uma das quais interage e envolve as outras. Através do parzufim, a fraqueza e a falta de harmonia que instigou a shevirah é curada. Atziluth, o reino supremo da manifestação Divina e consciência exclusiva da Unidade Divina, é eternamente retificado pelos partzufim; suas centelhas de raiz de Tohu são totalmente redimidas. No entanto, os três mundos inferiores de Beri’ah (“O Mundo da Criação”), Yetzirah (“O Mundo da Formação”) e Assiah (“O Mundo da Ação”) incorporam níveis sucessivos de autoconsciência independente da Divindade. A retificação ativa de Tikun da Criação inferior só pode ser alcançada de baixo, de dentro de suas limitações e perspectivas, em vez de imposta de cima. A redenção messiânica e a transformação da Criação são realizadas pelo Homem no reino mais baixo, onde predomina a impureza.

Este procedimento era absolutamente necessário. Se Deus no princípio tivesse criado os partzufim em vez das Sefirot, não haveria mal no mundo e, consequentemente, nenhuma recompensa e punição; pois a fonte do mal está nas Sefirot ou vasos quebrados (Shvirat Keilim), enquanto a luz do Ein Sof produz apenas o que é bom. Essas cinco figuras são encontradas em cada um dos Quatro Mundos; ou seja, no mundo da Emanação (Atzilut), Criação (Beri’ah), Formação (Yetzirah) e no mundo da Ação (Asiyah), que representa o mundo material.

Birur – O Esclarecimento pelo Homem:

A tarefa de retificar as centelhas de santidade que foram exiladas nos mundos espirituais inferiores autoconscientes foi dada ao Adão bíblico no Jardim do Éden. No relato luriânico, Adão e Hava (Eva) antes do pecado da Árvore do Conhecimento não residiam no mundo físico Assiah (“Ação”), no nível atual de Malkhut (sephirah mais baixa “Reina”). Em vez disso, o Jardim era o reino não-físico de Yetzirah (“Formação”), e na sephirah superior de Tiferet (“Beleza”).

Gilgul – A Reencarnação e a Alma:

O sistema psicológico de Luria, no qual se baseia sua Cabala devocional e meditativa, está intimamente ligado às suas doutrinas metafísicas. Dos cinco partzufim, diz ele, emanaram cinco almas, Nefesh (“Espírito”), Ru’ach (“Vento/Fôlego”), Neshamah (“Alma“), Chayah (“Vida”) e Yechidah (“Singularidade“); sendo o primeiro deles o mais baixo, e o último o mais alto. (Fonte: Etz Chayim). A alma do homem é o elo de ligação entre o infinito e o finito e, como tal, tem um caráter múltiplo. Todas as almas destinadas à raça humana foram criadas juntamente com os diversos órgãos de Adão. Assim como existem órgãos superiores e inferiores, há almas superiores e inferiores, segundo os órgãos com os quais estão acoplados, respectivamente. Assim, há almas do cérebro, almas do olho, almas da mão, etc. Cada alma humana é uma centelha (nitzotz) de Adão. O primeiro pecado do primeiro homem causou confusão entre as várias classes de almas: a superior misturou-se com a inferior; bem com mal; de modo que mesmo a alma mais pura recebeu uma mistura do mal, ou, como Luria chama, do elemento das “conchas/cascas” (Kelipoth). Em consequência da confusão, os primeiros não são totalmente privados do bem original, e os segundos não estão totalmente livres do pecado. Este estado de confusão, que dá um impulso contínuo para o mal, cessará com a chegada do Messias, que estabelecerá o sistema moral do mundo sobre uma nova base.

Até a chegada do Messias, a alma do homem, por suas deficiências, não pode retornar à sua fonte, e tem que vagar não apenas pelos corpos dos homens e dos animais, mas às vezes até por coisas inanimadas como madeiras, rios e pedras. A esta doutrina do gilgulim (reencarnação das almas) Luria acrescentou a teoria da impregnação (ibbur) das almas; isto é, se uma alma purificada negligenciou alguns deveres religiosos na terra, ela deve retornar à vida terrena e, unindo-se à alma de um homem vivo, e unir-se a ela para compensar tal negligência.

Além disso, a alma morta de um homem liberto do pecado aparece novamente na terra para apoiar uma alma fraca que se sente desigual para sua tarefa. No entanto, essa união, que pode se estender a duas almas ao mesmo tempo, só pode ocorrer entre almas de caráter homogêneo; isto é, entre aqueles que são centelhas do mesmo órgão adamita. A dispersão de Israel tem como propósito a salvação das almas dos homens; como as almas purificadas dos israelitas cumprirão a profecia de se tornarem “Lâmpada para as nações”, influenciando as almas dos homens de outras raças a fazer o bem. Segundo Luria, existem sinais pelos quais se pode conhecer a natureza da alma de um homem: a que grau e classe ela pertence; a relação existente entre ela e o mundo superior; as andanças que já realizou; os meios pelos quais pode contribuir para o estabelecimento do novo sistema moral do mundo; e a qual alma deve se unir para se purificar.

INFLUÊNCIA DA CABALA LURIANICA

 As Heresias Místicas Sabateanas:

A Cabala Luriânica foi acusada por alguns de ser a causa da disseminação dos Messias Sabbateanos Shabbetai Tzvi (1626–1676) e Jacob Frank (1726–1791), e suas heresias baseadas na Cabala. O renascimento místico do século XVI em Safed, liderado por Moshe Cordovero, Joseph Karo e Isaac Luria, fez do estudo cabalístico um objetivo popular dos estudantes judeus, até certo ponto competindo pela atenção com o estudo talmúdico, ao mesmo tempo em que capturava a imaginação do público. O shabbetianismo surgiu nessa atmosfera, juntamente com as opressões do exílio, ao lado dos genuínos círculos místicos tradicionais.

Onde o esquema de Isaac Luria enfatizou o papel democrático de cada pessoa em redimir as faíscas caídas de santidade, alocando o Messias apenas uma chegada conclusiva no processo, o profeta de Shabbetai, Nathan de Gaza, interpretou seu papel messiânico como fundamental para recuperar essas faíscas perdidas na impureza. Agora, a fé em seu papel messiânico, depois que ele se converteu ao islamismo, tornou-se necessária, assim como a fé em suas ações antinomianas. Jacob Frank alegou ser uma reencarnação de Shabbetai Tzvi, enviado para recuperar faíscas através das ações mais anarquistas de seus seguidores, alegando que a quebra da Torá em sua era messiânica emergente era agora seu cumprimento, o oposto da necessidade messiânica da devoção haláchica por Luria e os cabalistas. Em vez disso, para os cabalistas de elite do século XVI de Safed após a expulsão da Espanha, eles sentiram uma responsabilidade nacional pessoal, expressa através de seu renascimento místico, restrições ascéticas, fraternidade devotada e estreita adesão à prática judaica normativa.

Influência na Prática Ritual e na Meditação da Oração:

A Cabala Luriânica permaneceu a principal escola de misticismo no judaísmo e é uma influência importante no hassidismo e nos cabalistas sefarditas. De fato, apenas uma minoria dos místicos judeus de hoje pertence a outros ramos do pensamento no misticismo zoharico. Alguns cabalistas judeus disseram que os seguidores de Shabbetai Tzvi evitavam fortemente os ensinamentos da Cabala Luriânica porque seu sistema refutava suas noções. Por outro lado, os Shabbetians usaram os conceitos luriânicos de faíscas presas na impureza e almas puras sendo misturadas com as impuras para justificar algumas de suas ações antinomianas.

Luria introduziu seu sistema místico na observância religiosa. Cada mandamento tinha um significado místico particular. O Shabat com todas as suas cerimônias era visto como a encarnação da Divindade na vida temporal, e cada cerimônia realizada naquele dia era considerada uma influência sobre o mundo superior. Cada palavra e sílaba das orações prescritas contêm nomes ocultos de Deus sobre os quais se deve meditar devotamente enquanto recita. Novas cerimônias místicas foram ordenadas e codificadas sob o nome de Shulkhan Arukh HaARI (O “Código de Lei do Ari”). Além disso, um dos poucos escritos do próprio Luria compreende três hinos à mesa do sábado com alusões místicas. Do hino da terceira refeição:

Vocês, príncipes do palácio, que anseiam por contemplar o esplendor de Zeir Anpin

Esteja presente nesta refeição em que o Rei deixa Sua marca

Exulte, regozije-se nesta reunião com os anjos e todos os seres celestiais

Alegrai-vos agora, neste momento tão propício, quando não há tristeza…

Convido o Ancião dos Dias neste momento auspicioso, e a impureza será totalmente removida…

De acordo com o costume de se dedicar ao estudo de Torá durante toda a noite no festival de Shavuot, Isaac Luria organizou um serviço especial para a vigília noturna de Shavuot, o Tikkun Leil Shavuot (“Retificação para a Noite de Shavuot”). É comumente recitado na sinagoga, com o Kadish se o Tikkun for estudado em um grupo de dez. Depois, os hassidim mergulham em um mikveh antes do amanhecer.

Espiritualidade Judaica Moderna e Opiniões Divergentes:

As idéias do rabino Luria gozam de amplo reconhecimento entre os judeus hoje. Ortodoxos, bem como reformistas, reconstrucionistas e membros de outros grupos judaicos frequentemente reconhecem a obrigação moral de “reparar o mundo” (tikkun olam). Essa ideia se baseia no ensinamento de Luria de que fragmentos de divindade permanecem contidos na criação material defeituosa e que os atos rituais e éticos dos justos ajudam a liberar essa energia. A teologia mística do Ari não exerce o mesmo nível de influência em todos os lugares, no entanto. As comunidades onde o pensamento de Luria tem menos influência incluem muitas comunidades alemãs e ortodoxas modernas, grupos que levam adiante as tradições espanholas e portuguesas, um segmento considerável de judeus iemenitas Baladi (ver Dor Daim) e outros grupos que seguem uma forma de judaísmo da Torá baseada mais no clássico autoridades como Maimônides e os Geonim.

Com seu projeto racionalista, o movimento Haskalah do século 19 e o estudo crítico do judaísmo descartaram a Cabala. No século 20, Gershom Scholem iniciou o estudo acadêmico do misticismo judaico, utilizando metodologia histórica, mas reagindo contra o que ele via como seu dogma exclusivamente racionalista. Em vez disso, ele identificou o misticismo judaico como a corrente vital do pensamento judaico, renovando periodicamente o judaísmo com um novo ímpeto místico ou messiânico. O respeito acadêmico da Cabala no século XX, bem como o interesse mais amplo pela espiritualidade, reforçam um interesse cabalístico renovado de denominações judaicas não-ortodoxas no século XX. Isso é frequentemente expresso através da forma de incorporação hassídica da Cabala, incorporada no neo-hassidismo e na renovação judaica.

Lurianismo Tradicional Contemporâneo:

O estudo do Kitvei Ha’Ari (escritos dos discípulos de Isaac Luria) continua principalmente hoje entre os círculos cabalísticos de forma tradicional e em seções do movimento hassídico. Mekubalim mizra’chim (orientais sefarditas cabalistas), seguindo a tradição de Haim Vital e o legado místico do Rashash (1720-1777, considerado pelos cabalistas como a reencarnação do Ari), vêem-se como herdeiros diretos e em continuidade com Os ensinamentos e esquema meditativo de Luria.

Ambos os lados do cisma hassídico-mitnagdico do século 18, defenderam a visão teológica do mundo da Cabala Luriânica. É um equívoco ver a oposição rabínica ao judaísmo hassídico, pelo menos em sua origem formativa, como derivada da adesão ao método filosófico judaico medieval racionalista. O líder da oposição rabínica Mitnagdic ao renascimento místico hassídico, o Vilna Gaon (1720-1797), estava intimamente envolvido na Cabala, seguindo a teoria luriânica, e produziu ele mesmo uma escrita cabalisticamente focada, enquanto criticava o Racionalismo Judaico Medieval. Seu discípulo, Chaim Volozhin, o principal teórico do judaísmo mitnagdico, diferia do hassidismo sobre a interpretação prática do tzimtzum luriânico. Para todos os efeitos, o judaísmo mitnagdico seguiu uma ênfase transcendente no tzimtzum, enquanto o hassidismo enfatizava a imanência de Deus. Essa diferença teórica levou o hassidismo a um foco místico popular além das restrições elitistas, enquanto sustentava o foco mitnagdico no judaísmo talmúdico e não místico para todos, exceto a elite, com uma nova ênfase teórica no estudo talmúdico da Torá no movimento lituano da Yeshiva.

O desenvolvimento judaico de maior escala baseado no ensino luriânico foi o hassidismo, embora tenha adaptado a Cabala ao seu próprio pensamento. Joseph Dan descreve o cisma hassídico-mitnágdico como uma batalha entre duas concepções da Cabala Luriânica. A Cabala de elite mitnagdica era essencialmente leal ao ensino e à prática luriânica, enquanto o hassidismo introduziu novas ideias popularizadas, como a centralidade da imanência divina e Deveikut para toda atividade judaica, e o papel místico social da liderança hassídica tzadik.

Interpretações Literais e Não Literais do Tzimtzum:

Nas décadas após Luria e no início do século 18, diferentes opiniões se formaram entre os cabalistas sobre o significado de tzimtzum, a auto-retirada Divina: deve ser tomada literal ou simbolicamente? Immanuel Hai Ricci (Yosher Levav, 1736-7) tomou tzimtzum literalmente, enquanto Joseph Ergas (Shomer Emunim, 1736) e Abraham Herrera sustentaram que tzimtzum deveria ser entendido metaforicamente.

Os Pontos de Vista Hassídicos e Mitnágdicos do Tzimtzum:

A questão do tzimtzum sustentou a nova popularização pública do misticismo incorporado no hassidismo do século XVIII. Sua doutrina central da imanência divina quase panenteísta, moldando o fervor diário, enfatizava a ênfase mais não literal do tzimtzum. A articulação sistemática desta abordagem hassídica por Shneur Zalman de Liadi na segunda seção do Tanya, esboça um Ilusionismo Monístico da Criação a partir da perspectiva da Unidade Divina Superior. Para Schneur Zalman, o tzimtzum apenas afetava a ocultação aparente da Ohr Ein Sof. O Ein Sof, e o Ohr Ein Sof, na verdade permanecem onipresentes, este mundo anulado em sua fonte. Somente, da perspectiva da Unidade Divina Inferior, Mundana, o tzimtzum dá a ilusão de aparente retirada. Na verdade, “Eu, o Eterno, não mudei” (Malaquias 3:6), pois interpretar o tzimtzum com qualquer tendência literal seria atribuir falsa corporeidade a Deus.

Norman Lamm descreve as interpretações hassídicas-mitnagdicas alternativas disso. Para Chaim Volozhin, o principal teórico da oposição rabínica do Mitnagdim ao hassidismo, o ilusionismo da Criação, decorrente de um tzimtzum metafórico é verdadeiro, mas não leva ao panenteísmo, pois a teologia mitnagdica enfatizava a transcendência divina, enquanto o hassidismo enfatizava a imanência. Como é, a impressão geral inicial da Cabala Luriânica é de transcendência, implícita na noção de tzimtzum. Em vez disso, para o pensamento hassídico, especialmente em sua sistematização Chabad, a essência divina última de Atzmus é expressa apenas na finitude, enfatizando a imanência hassídica. Norman Lamm vê ambos os pensadores como sutis e sofisticados. O Mitnagdim discordou do Panenteísmo, na oposição inicial do líder Mitnagdic, o Vilna Gaon vendo-o como herético. Chaim Volzhin, o principal aluno do Vilna Gaon, era ao mesmo tempo mais moderado, buscando acabar com o conflito, e mais teologicamente principiológico em sua oposição à interpretação hassídica. Ele se opôs ao panenteísmo tanto como teologia quanto como prática, pois sua espiritualização mística do judaísmo substituiu o aprendizado talmúdico tradicional, pois era capaz de inspirar a confusão antinomiana das restrições de observância judaica da Halachá, em busca de um misticismo para o povo comum.

Como resume Norman Lamm, ao Schneur Zalman e ao hassidismo, Deus se relaciona com o mundo como uma realidade, por meio de sua imanência. A imanência divina – a perspectiva Humana, é pluralista, permitindo a popularização mística no mundo material, ao mesmo tempo em que resguarda a Halachá. A Transcendência Divina – a perspectiva Divina, é Monista, anulando a Criação em ilusão. Para Chaim Volozhin e Mitnagdism, Deus se relaciona com o mundo como ele é através de Sua transcendência. A imanência divina – a forma como Deus olha para a Criação física, é monista, anulando-a na ilusão. Transcendência Divina – a forma como o Homem percebe e se relaciona com a Divindade é pluralista, permitindo que a Criação exista em seus próprios termos. Dessa forma, tanto os pensadores quanto os caminhos espirituais afirmam uma interpretação não literal do tzimtzum, mas a espiritualidade hassídica se concentra na proximidade de Deus, enquanto a espiritualidade mitnagdica se concentra no afastamento de Deus. Eles então configuram sua prática religiosa em torno dessa diferença teológica, o hassidismo colocando o fervor do Deveikut como sua prática central, o mitnagdismo enfatizando ainda mais o estudo intelectual talmúdico da Torá como sua atividade religiosa suprema.

Texto Original.  Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cabala/a-cabala-lurianica/

A influência da bruxaria européia na Umbanda

A bruxaria européia entrou no Brasil via Portugal. Escreve Luís da Câmara Cascudo, em Meleagro (Rio 1951) p. 179: “A presença do feiticeiro, da feiticeira especialmente, é um documento histórico, uma constante etnográfica desde as manhãs do Brasil colonial. As denunciações e confissões prestadas ao Santo Ofício em Baía, 1591-1593, e Pernambuco, Paraíba, 1593- 1595, evidenciam a fauna prestigiosa da bruxaria européia, em funcionamento normal e regular”. E cita uma porção de portuguêsas, divulgadoras dos processos da magia tradicional. “Ao findar do séc. XVI o brasileiro estava com todos os elementos disponíveis do espírito para ser um fiel consulente do candomblé, muamba, macumba, canjerê e xangô. Os volumes que registaram as confissões e denúncias em Baía, Pernambuco e Paraíba evidenciam que a credulidade popular contemporânea tem raízes fundas na terra em que a raça se formou” (p. 181).

Nas Denunciações de Pernambuco (1593-1595), segundo publicação feita por Rodolpho Garcia (São Paulo 1929), damos com as seguintes feiticeiras e bruxas: Ana Jácome, acusada de ter embruxado uma menina recém-nascida de seis dias (pp. 24 s.); Lianor Martins, a Salteadeira, que, como se dizia, tinha um familiar, uma medrácu1a, um buço de lobo, uma carta de Santo Erasmo, semente do feito colhida na noite de São João com um clérigo revestido e com esse arsenal mágico pod1a fazer com que os homens quisessem bem às mulheres e vice-versa, com que os maridos não vissem o que as mulheres faziam e outras coisas semelhantes (pp. 108-109); Felícia Toulrinha, presa na cadeia pública por amancebada com um homem casado, tomou um chapim, pregou-lhe no meio uma tesoura e, com os dedos indicadores colocados abaixo dos anéis, levantou para o ar o chapim e de1xou-o cair, invocando o diabo guedelhudo, o diabo orelhudo, o diabo felpudo, para que lhe dissessem se certo homem ia por onde tinha dito que havia de ir (p. 187). -Mas não conseguimos ver, nas Atas publicadas das “Denunciações”, nenhum processo que lidasse diretamente com alguma bruxa “profissional”. Nos outros processos, porém, ocorrem freqüentemente casos de supostas feitiçarias, encantamentos e envultamentos. Era sem dúvida bem difundida a superstição e a credulidade no ambiente de origem européia do nosso século XVI.

Ora, a bruxaria européia, a “tradicional”, dispõe de literatura própria, que encontra sua expressão mais fiel no famoso Livro de São Cipriano. Ao lado dele há outros, do mesmo tipo, como: As Verdadeiras Clavículas de Salomão, Enquiridião do Papa Leão, Grimório do Papa Honório, O Dragão Vermelho, Os Maravilhosos Segredos do Grande e Pequeno A/berto, O Livro Completo das Bruxas, O Livro do Feiticeiro, Cruz de Caravaca, etc. Tudo traduzido para o português e exposto nas livrarias do Brasil. Estão sempre entre a literatura umbandista ou “espiritualista” (sic). Inclusive livrarias espíritas mais sérias e “ortodoxas”, como a LAKE de São Paulo, expõem e propagam a literatura que poderíamos qualificar como “sãociprianista”.

E a coisa não é de hoje. Em 1904 o conhecido jornalista João do Rio (Paulo Barreto) constatou que o Livro de São Cipriano era, já então, o vademecum dos feiticeiros cariocas. Assim lemos em As Religiões do Rio (edição de 1951), p. 40: “Mas o que não sabem os que sustentam os feiticeiros, é que a base, o fundo de toda a sua ciência é o Livro de S. Cipriano. Os maiores alufás, os mais complicados pais-de-santo, têm escondida entre os tiras e a bicharada uma edição nada fantástica do S. Cipriano. Enquanto criaturas chorosas esperam os quebrantos e as misturas fatais, os negros soletram o S. Cipriano, à luz dos candeeiros…”.
Há diferentes edições do S. Cipriano. Temos várias na nossa coleção: “O Grande e Verdadeiro Livro de São Cipriano”, “O Antigo e Verdadeiro Livro de São Cipriano” e “O Único Verdadeiro Livro de São Cipriano”. Haverá outros, “mais autênticos”. Abrimos o “Antigo e Verdadeiro” (“única edição completa conforme antigo original”). Tem 411 páginas. Apresenta o material em quatro partes distintas: I. Tesouros do Feiticeiro; II. Verdadeiro Tesouro da Mágica; III. Enguerimanços de S. Cipriano ou Prodígios do Diabo; IV. Oráculo dos Segredos. Na primeira parte, além de esconjuros e orações supersticiosas misturadas com orações católicas, há dois tratados de cartomancia e um de astrologia. Nas outras partes há numerosas receitas para fazer amuletos e talismãs, inclusive uma para fazer pacto com o demônio. Fantasiam-se modos para fazer o mal, para obrigar o marido a ser, fiel, para forçar as mulheres a dizer tudo o que tencionam fazer, para ser feliz nos negócios, para fazer-se amar pelas mulheres, para obrigar a amar contra a vontade, para fazer casamentos, para ganhar no jogo, para apressar casamento, para ligar namorados, para obrigar as almas a fazer o que se deseja, para aquecer as mulheres frias, para saber se a pessoa ausente é fiel, para fazer ouro puro, etc.

O Enquiridião do Papa Leão é apresentado como obra escrita pelo Pa.pa Leão III a Carlos Magno. São 174 páginas com orações supersticiosas, contra toda sorte de encantos, malefícios, feitiçarias, sortilégios, visões, obstáculos, malefícios de casamentos, etc. Apresenta também sinais cabalísticos com forças misteriosas contra o demônio e as adversidades. Muitas vêzes o texto é totalmente ininteligível, como, por exemplo, este da p. 89: “Adonay, Jod, Magister, dicit Jo. Oh bom Jesus, exorcisa-me! Manuel, Sathor, Jessé, adorável Tetragrammaton. Heli, Heli, Heli, Laebé Hey Hámy, este é meu corpo Tetragrammaton…”.

Já o Grimórios do Papa Honório (“Os misteriosos segredos ocultos do Papa Honório”), traduzido do francês, é um produto da mais consumada malícia. Tudo é apresentado piedosamente sob forma de uma Constituição Apostólica de Honório III. Entre blasfemas invocações do Santo Nome de Deus, da Santíssima Trindade, de Jesus, da Eucaristia, entre numerosas prescrições de Pai-Nossos, Ave-Marias, jejuns e santas missas, apresentam-se fórmulas de conjurações de demônios, espíritos e divindades. Há encantos, feitiços e magias para ver os espíritos dos quais o ar está cheio, para atrair uma moça por mais esperta que seja, para ganhar no jogo, para tornar-se invisível, para possuir ouro e prata, para ter o corpo fechado contra todos os tipos de armas, para fazer vir uma pessoa, para fazer uma moça dançar nua, para tirar o sono de alguém, para gozar e possuir a mulher a quem se deseja (é o “segredo do Padre Girard”!), para romper e destruir todos os malefícios, para aprisionar cavalos, equipagem e extraviar uma pessoa, para ajudar lebres nos partos difíceis e contra uma porção de doenças. Para calcular a maldade com que são misturadas as coisas mais sujas com as mais santas, veja-se a receita indicada na p. 90, “para fazer uma moça dançar nua”: é preciso escrever o nome da moça num pergaminho novo com uma pena molhada no sangue de um morcego e colocá-la debaixo da laje de um altar “a fim de que uma Missa seja rezada em cima”… E tudo isso numa Constituição Apostólica do Papa Honório III…

As Verdadeiras Clavículas de Salomão (“ou o Tesouro das Ciências Ocultas… acompanhadas de um grande número de segredos”), como também O Dragão Vermelho, outra forma das “Clavículas”, pretendem ensinar o modo como fazer pactos com os demônios. Descrevem o modo de “consagrar” os objetos necessários para o “trabalho” (faca, lancêta, defumadores, tinta, penas, sal), como sacrificar os animais (cabrito e galo preto), etc. Dão uma lista enorme de demônios, com nomes e especialidades, fazendo recordar a lista dos Exus da Umbanda. Há também os mais variados sinais (desenhos) cabalísticos, capazes de atrair o respectivo espírito, exatamente como os “pontos riscados” dos umbandistas.

Cheio de perversidades está O Livro Completo das Bruxas, “o único verdadeiro, completo e de acordo com os manuscritos existentes nos museus de Londres, Cairo e Louvre, bem como de diversos países do Oriente”. Sabe o A., exatamente, que os habitantes do Inferno estão divididos em 6.666 legiões, contendo cada uma 6.666 elementos, o que dá um total de 44.435.556. E que cada diabo vive aproximadamente 680.400 anos.

Bem no início da obra temos também os mandamentos da bruxa: 1) Renegar a Deus; 2) blasfemar continuamente; 3) adorar ao diabo; 4) esforçar-se por não ter filhos; 5) jurar em nome do diabo; 6) alimentar-se de carnes; 7) imaginar que pratica o ato sexual com o diabo, todas as noites; 8) trazer consigo a imagem do diabo; 9) lavar o rosto e pentear-se de 4 em 4 dias; 10) tornar banho cada 42.º dia; 11) mudar de roupa cada 57.º dia; 12) Se for homem, barbear-se cada 91.º dia; 13) não cortar nem polir as unhas… Também deverá comer quatro dentes de alho, sem tempero nenhum, em cada refeição, de quatro em quatro horas.

Entre cruzes, Pai-Nossos e Ave-Marias, invocações de Lúcifer e Satanás, conjurações e esconjuras, aparecem mil formas e fórmulas para praticar o mal e enfeitiçar meio mundo, num ambiente de meia-noite, sexta-feira, lua minguante e encruzilhadas, recorrendo a gatas pretas, galos pretos, galinhas pretas, bodes pretos, sapos pretos, ouriços pretos, corujas pretas, olhos de cães pretos, ovos de galinhas pretas, miolo de burro, corações de pombas pretas, sangue de rã, rim de lebre, pernas esquerdas de galinhas pretas, fígados de rouxinol; com o auxílio de panos pretos, seda vermelha, azeite, farofa, moedas, urinas, suores, ervas, raízes, flores, pedras de cevar, filtros de amor, cavalos marinhos, estrelas do mar, figas de Guiné, de arruda e de azeviche… É o bazar barato e constante da feitiçaria universal, sempre preocupada com questões de saúde, problemas de fortuna e os mistérios do amor.

Continua, assim, abundante a literatura da bruxaria européia: Lá está o Breviário de Nostradamus, outro Livro da Bruxa, o Tratado de Magia Oculta, o Livro dos Sonhos, o Livro do Feiticeiro e mais obras de Astrologia, Cartomancia e Quiromancia, sem esquecer os livros de Papus, Eliphas Levi, do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento, das Sociedades Teosóficas, dos Rosacruzes, de Allan Kardec.

Eis as causas remotas da Umbanda. O movimento umbandista ainda está na fase de formação e elaboração. Mas é nestes elementos de origem africana, ameríndia e européia que os dirigentes da Umbanda encontram sua principal fonte. Há, certamente, também o aspecto cristão ou católico, e com ele ainda nos ocuparemos. É, porém, mais um elemento para a superfície, de decoração ou de fachada. O cerne da Umbanda não é cristão: é profunda e visceralmente contrário à autêntica vida cristã. A idolatria e as superstições do paganismo constituem a verdadeira essência do Espiritismo Umbandista. Quem conhece a vida e as práticas dos nossos terreiros ou tendas, reconhecerá imediatamente as várias causas que acabamos de lembrar.

Fonte:

KLOPPENBURG, Boaventura. A Umbanda no Brasil: Orientação para os católicos. Petrópolis, Vozes, 1961, p 37-41.

Boaventura Kloppenburg

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/a-influencia-da-bruxaria-europeia-na-umbanda/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/a-influencia-da-bruxaria-europeia-na-umbanda/

Literatura e Cultura

Já observamos que as origens da cultura são sagradas. Isto é particularmente notório nas artes, já que tanto a dança, como o teatro, a música e as artes plásticas se remontam dos começos míticos e rituais do homem, e foi sempre uma deidade a reveladora e patrocinadora destas disciplinas. Na Antigüidade, as obras de arte eram anônimas, como seguem sendo ainda entre diversos povos, e só a partir do Renascimento é que se conhece seus autores em forma individualizada. Criar é repetir e reproduzir a situação da Criação original. A literatura não escapa a este princípio, e as grandes obras em verso e em prosa são aquelas que despertam e fazem pressentir a aflição e o deslumbramento do Conhecimento. O poeta, bardo, ou vate (daí a palavra “Vaticano”), é um transmissor inspirado das energias do sublime, e sua linguagem se articula com um ritmo preciso e particular. Os textos sagrados de todas as tradições dão conta cabal disso. A beleza da forma é a roupagem e a atração da Beleza do Princípio e, portanto, reflete-o harmonicamente. A arte é um veículo e uma maneira de conhecer, e são numerosos os esoteristas que se expressaram por seu intermédio. Lembremos que a sefirah Tifereth é Beleza, e que se acha no caminho ascendente que vai de Malkhuth a Kether.

Num sentido amplo, todo escrito é literatura. Mas há alguns nos quais a arte na maneira de dizer, a transparência das imagens com que se diz, a clareza e a ordem dos conceitos, ainda que permaneçam velados, fazem-nos memoráveis e os ligam a nós com laços emotivos e sutis. Assim, na memória dos povos as lendas transmitem seus mitos. Os contos de fadas e de bruxos nos aproximam a uma realidade prodigiosa. A poesia épica (a Ilíada, a Odisséia) nos revela uma mensagem heróica. O classicismo de Dante e Virgilio é completamente outra coisa sob uma leitura Hermética, acrescentando desta maneira seu conteúdo e sua estética. As histórias do Santo Graal, as gestas de cavalaria, as fábulas (como a Metamorfoses, ou Asno de Ouro, de Apuleio), ou a produção Metafísica de um Dionísio Areopagita, entre muitíssimas outras, são alguns dos exemplos da potencialidade da Arte como transmissor de Conhecimento e promotor de Iniciações espirituais.

A mensagem da Filosofia perene tomou todas as formas possíveis para se difundir. Inclusive os provérbios e ditos “populares”, foram cunhados como lembranças de princípios de sabedoria; ainda que como todas as coisas, tenham sofrido com o tempo um processo de degradação.

#hermetismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/literatura-e-cultura

A Filosofia da Alquimia

Curso de John Reid sobre Alquimia Prática – I. Capítulo 1.

A primeira pergunta com a qual nos deparamos e certamente devemos nos perguntar ao iniciarmos este caminho é: o que é a alquimia? Para muitas pessoas, a alquimia é uma pseudociência praticada por velhos em sótãos mofados. Eles usam ingredientes como olho de salamandra, asa de morcego, fígado de gato e similares para tentar produzir um elixir universal que prolonga a vida indefinidamente, além de transmutar metais básicos em ouro.

A alquimia é muito mais do que a busca desses sonhos frívolos. A alquimia é a busca da QUINTESSÊNCIA! Trata-se de encontrar a força vital da própria vida, isolando-a para que possa ser condensada, purificada e manipulada de acordo com a vontade do artista. A alquimia, em suma, é a arte da evolução! Trata-se, em um sentido real, de elevar todos os organismos ao mais alto nível de perfeição que puderem atingir – como originalmente ordenado por Deus – enquanto ainda estão nesta terra em forma material. Quando se fala de organismo faz-se referência a todas as formas de matéria encontradas neste planeta, independentemente de serem orgânicas ou inorgânicas, pois para o alquimista toda matéria é viva, ou então não poderia continuar na forma que ela ocupa e mantém. É claro que existem diferentes níveis de força vital em todos os organismos. Alguns têm força vital suficiente para manter sua forma, ou assim parece porque sua decadência é tão prolongada, como no caso de um metal enferrujado. Enquanto outros têm tamanha abundância de vida que podem reproduzir ou mesmo ajudar a vitalizar e estabilizar a força vital em outros organismos que se desequilibraram.

A fim de obter uma melhor compreensão aqui do que significa a alquimia ser a arte da evolução, devemos dar uma olhada nos cinco princípios básicos da alquimia, que são:

1) Que todo o universo é de origem divina. Portanto, Sabedoria e Orientação devem ser buscadas na fonte da qual toda a criação flui.

2) Que todos os organismos, por mais sutis ou grosseiros que sejam, têm dentro de si a centelha divina da vida e estão inter-relacionados entre si. É, portanto, nossa tarefa compreender esse parentesco, para que possamos utilizar o conhecimento inspirado para auxiliar em nossa compreensão de como preparar a quintessência de nossa matéria.

3) Que todos os organismos estão em constante evolução enquanto prosseguem sua síntese rumo à perfeição. Ao atingir a compreensão do princípio (2), o verdadeiro trabalho começa, ou seja, o auxílio da natureza pela arte da alquimia para atingir seu ponto mais alto de perfeição.

4) Que os humanos estão à parte do universo. Portanto, eles são de origem divina e podem afetar todos os organismos em todas as esferas da existência por suas ações ou inação.

5) Que os humanos, compreendendo as leis básicas que regem seus seres e inversamente todo o universo, aprendem a reconhecer a centelha divina de energia vital em todos os organismos, isolá-la, purificá-la e manipulá-la para acelerar os processos de evolução.

Esses cinco princípios propõem que existe um sistema pelo qual os humanos podem aprender sobre o universo desde suas sugestões mais sutis até suas manifestações mais grosseiras. Ela diz que conhecendo a si mesmo, pode-se conhecer o Um, o Todo (ou o mais próximo que a mente humana pode chegar de reconhecê-lo) e, de fato, provocar mudanças e manifestações físicas por uma aplicação legal das regras do sistema. Essas afirmações são verdadeiras, embora o grau em que elas se manifestam em qualquer vida dependa inteiramente do indivíduo que as aplica e da quantidade de diligência com que abordam sua tarefa. No entanto, é preciso começar em algum lugar nesta estrada. Então vamos começar juntos.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-filosofia-da-alquimia/

A Dura Verdade sobre Projeção Astral

Eis algo que você não vai ler muito em livros de ocultismo: Projeção Astral não existe.

Não me entenda mal, eu mesmo já tive diversas experiências e sei como induzi-las. O que estou tentando dizer aqui é que ‘Projeção Astral’ é um péssimo nome usado para descrever o que realmente acontece. Este é um nome que não apenas não condiz com os fatos experimentados mas que confunde ainda mais os praticantes ao empurrar discretamente goela a baixo uma série de conceitos ultrapassados e até mesmo ingênuos.

Este nome propõe, como muitas escolas esotéricas ensinam, que o ser humano é composto de diferentes corpos, sendo que um deles é o chamado corpo astral. Até ai nenhuma crítica, cada um dá ao próprio rabo o apelido que mais gosta, além disso é uma forma didática de se ver o mundo – como quem separa o sistema circulatório do sistema nervoso em um livro de anatomia, mas sabe que não pode separá-los na anatomia propriamente dita. O ponto amargo é que é justamente isso que a Projeção Astral propõe: a suposição que o corpo astral se projeta para fora do corpo, permanecendo ligado a ele por um fio luminoso infinitamente elástico, que sinceramente nunca vi.

O problema central é tentar explicar uma experiência mental usando vocabulário corporal. Outro nome horrível é EFC (OBE), sigla para “Experiência Fora do Corpo”, pois igualmente sugere que um “espírito”, “fantasma” ou qualquer coisa etérea exista e que sob as condições certas deixe corpo e saia passeando por aí. Eis o velho perigo no ocultismo, aceitar o que é dito sem refletir, estudar e experimentar um determinado assunto por si mesmo. Não se trata apenas de levianidade, mas um tipo de estupidez pois quando o praticante passa pela experiência, e vê que é real, acaba acreditando que a teoria fajuta que veio com o pacote também é verdadeira. Felizmente para a mente sagaz uma gota de bom senso basta para purificar um mar de ilusões.

De fato, não podemos dizer que ‘nada acontece’. Sabemos por algumas pesquisas que durante as projeções algo de diferente se passa. O artigo de Andra M. Smith e Claude Messierwere publicado pela Frontiers of Human Neuroscience monitorou por exemplo, algumas “projeções” via ressonância magnética e pode comprovar uma “forte desativação do córtex visual” acompanhada de  intensa atividade “no lado esquerdo de diversas áreas associadas a imagens cinestésicas”. Em outra palavras é como se a visão fosse desligada e as pessoas se movimentassem dentro de sua prrópria cabeça. Para a pessoa a experiência em si é absolutamente real e ela pode inclusive sentir que esta fora do próprio corpo. Mas quem realmente está em atividade é seu cérebro.

Isso pode ser comprovado de modo simples. Você provavelmente conhece algumas pessoas e “mestres ocultos” que dizem conseguir projetar-se para fora do corpo. Proponha para elas um teste simples. Que feche os olhos e sorteie uma carta de baralho. Sem olhar para ela coloque-a sobre uma mesa em um um recinto próximo. Feche a porta e na próxima oportunidade simplesmente se projete e veja qual foi carta sorteada. Alternativamente tente descobrir a cor de um lápis de cor também sorteado cegamente, peça para verem a a cor e depois voltem para te contar. É importante que você também feche os olhos na hora do sorteio, mesmo se estiver testando outra pessoa. De todas as pessoas a quem propus o teste, posso dizer que nenhuma foi capaz de descobrir o que havia na sala ao lado.

Em minhas experiências nunca vi nada que me convencesse da existência de um corpo astral interagindo com o mundo físico. Em outras palavras, o corpo astral não está “flutuando”, ele não “sai do corpo”, não “enxerga” nem “escuta” as coisas por onde passa. Pense no seguinte: sabemos que quando vemos algo, estamos na verdade estamos experienciando impulsos elétricos enviados a nosso cérebro, causados pela luz que é interceptada por nossa retina; se não temos mais olhos, retina ou sistema nervoso, como nosso espírito astral consegue “enxergar” qualquer coisa? Também ouvimos coisas quando vibrações do ar estimulam nossos tímpanos; como nosso corpo “astral” é estimulado por tais ondas?

Assim defendo que tudo o que experimentamos no desdobramento é uma realidade mental e não corpórea. Não é um salto para fora mas um mergulho para dentro. Se o corpo astral existe, e não é este o ponto da discussão aqui, ele apenas percebe o que podemos chamar, com certa cautela, de “plano astral” da mesma forma que o corpo físico apenas percebe o mundo físico a nossa volta. Na verdade eu me arriscaria chamar este plano de “virtual”, mas sei que muitas pessoas iriam confundir isso com uma internet fantasma e tenho medo dos desdobramentos que isso pode causar, “meu Deus… o cordão de prata é então o fio do mouse astral? Onde ele é enfiado?”

Isso não quer dizer que esta experiência não seja realmente um fenômeno genuíno e não passe de imaginação. Isso seria um contra senso pois a imaginação é também ao seu modo um fenômeno genuíno. Por falta de um nome melhor e por razões que apontarei a seguir, prefiro o nome “Desdobramento da Consciência” ou simplesmente “Desdobramento” pois o eu posso dizer que realmente experimento nestas ocasiões é uma tomada de consciência mais profunda dentro de minha própria mente. Um desdobramento mal feito é algo muito semelhante a uma visualização e um desdobramento bem feito é idêntico a um sonho lúcido. De fato quem sonha está em contato com essa realidade seja consciente ou inconscientemente.

O termo desdobramento é usado por outras pessoas que ao contrário de mim, acreditam na exteriorização de algum tipo de corpo sutil. Mas uso esse termo por uma razão diferente. Eu poderia usar termos herméticos e dizer que “O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo”, mas prefiro me arriscar a usar alguns termos cunhados pelo físico David Bohm, um dos pais da física quântica: “Em certo sentido, o homem é um microcosmo do universo, e portanto o ser humano é uma pista do que o universo é. Nós somos o desdobramento do universo.”

Para mim o Desdobramento da Consciência é a mudança de perspectiva entre a “ordem explicita”, com a qual estamos acostumados graças aos nossos sentidos e a “ordem implícita” que é a nossa natureza anterior. O próprio termo ordem implícita me parece um pouco traiçoeiro pois o que temos la é um caos, no sentido de potencialidades infinitas e não de mera bagunça, é óbvio. Nesse sentido me agrada bastante os termos universo causal e acausal usado na Tradição Septenária. Uma ordem limitada não é mais real do que um outra além da compreensão, assim como as imagens de um canal de TV não são mais reais do que as ondas eletromagnéticas de todos os canais juntos. Ambas simplesmente duas formas de encarar a realidade. Em última estância a realidade é experimentada por nós através de nossa mente, todo o universo onde habitamos não passa de um construto mental nosso. Um mesmo fenômeno pode ser visto e experienciado de formas diferentes ou pode ser caracterizado por diferentes princípios em diferentes contextos, como por exemplo, em diferentes escalas. Um exemplo seria o processo pelo qual um aparelho de rádio transforma ondas eletromagnéticas em ondas sonoras. Outra analogia possível é a de fazer um furo em um pedaço de papel dobrado várias vezes. ao desdobrá-lo a ordem explícita de vários buracos se revelará, embora implicitamente sejam o mesmo buraco. Este modelo de como a mente funciona é semelhante ao modelo proposto pelo neurocientísta Karl H. Pribram, que descreve o funcionamento do cérebro como uma espécie de projeção holográfica.

O mundo mental não pode ser tratado da mesma forma que o mundo físico. Seria como usar regras de macro-economia para explicar o comportamento dos ácaros ou micro-biologia para falar das estrelas. Dizer que o corpo astral fica preso no corpo físico por um cordão de prata infinitamente elástico sinceramente é algo que beira o ridículo. Quando você passa por um desdobramento, você muda de tabuleiro. As peças são outras e o jogo mudou. Na realidade mental, espaço e tempo não são fatores dominantes determinando a relação de dependência ou independência dos diferentes elementos. Em seu lugar um conjunto inteiramente diferente de conexões básicas dos elementos é possível, das quais nossas noções de causa e consequência, bem como de partículas existindo separadamente são abstraídas como formas derivadas de uma ordem mais profunda. Nesta condição não é preciso ‘ir’ para ‘chegar’ pois não há distâncias a serem percorridas. Tudo o que pode ser alcançado está presente em toda parte em um único instante.

O plano astral, se quiser continuar usando o termo, possui sua própria (des)ordem e sua própria (i)lógica. Esta (des)ordem não pode ser entendida apenas como meramente o arranjo regular de objetos (como uma fila) ou de eventos (como uma história), é um caos que só ganha forma com a tenção e assim dá origem a cada e toda região do espaço e tempo que você pode visitar. Veja um exemplo mais prático e didático disto, observe a imagem abaixo:

cone

 

Você pode perceber seu universo como um círculo, uma elípse, uma parábola ou uma hipérbole, dependendo apenas de como o observar, mesmo que ele seja “realmente” um cone. Acredite ou não fora de nossa mente, no mundo da astronomia e da física, a cada momento, cientistas percebem o universo “real” – vou chamá-lo de físico para não desgastar a palavra real- de maneiras diferentes. Antes algo infinito para todos os lados, então algo plano e circular, então algo em forma de pêra, então de sino… a cada vez as próprias leis da física mudavam, para corroborar essas novas visões, outras vezes novas descobertas matemáticas é que nos forçavam a mudar a nossa visão sobre o universo. O “universo astral” é apenas uma outra perspectiva.

Um ponto que quero destacar, que é imensamente importante, é que se você mergulhar profundamente em sua própria consciência verá que possui em sua cabeça muito mais informação do que imaginava. Qualquer  estudante de psicologia sabe hoje que a mente consciente é só a ponta do ice-berg de nossa Monte Everest mental. Isso fica evidente quando sonhamos, mas torna-se assustadoramente claro nos sonhos lúcidos e nos desdobramentos. Tudo o que você já viu, ouviu, tocou, cheirou, sentiu, pensou e provou está gravado. A mente como um todo é incapaz de esquecer. Por si só, isso já faria do desdobramento uma ferramenta interessantíssima de se trabalhar. Embora você não possa virar o gasparzinho para espiar a vizinha tomando banho, certamente sua mente possui coisas muito mais interessantes de se ver. Entretanto, existe ainda mais a ser explorado.

Se você mergulhar ainda mais profundamente poderá experimentar o que Jung chamou de Inconsciente Coletivo. O conteúdo atávico de onde nasceram todos os grandes épicos. A matéria prima da qual foram feitos todos os mitos e todas as religiões. Todos as deusas e todas as feras são acessíveis de forma assustadoramente interativa para quem se dedicar à prática do desdobramento. Descrevi uma forma pela qual você pode chegar a este estado no capítulo “Mergulhando no Abismo” do Lex Satanicus.

Quanto mais fundo você desce na própria mente, mais próximo fica da mente de todos os demais – para que perder tempo vendo sua vizinha pelada, quando pode literalmente transar com qualquer estrela de cinema ou modelo de revista erótica? O fato é que se fizer o teste das cartas com pessoas o suficiente verá que, algumas delas, embora não possam ver de fato a carta podem de alguma forma, que sinceramente desconheço, ver por meio da sua mente aquilo que os seus olhos viram antes. Em algum lugar abaixo do inconsciente coletivo, ou quem sabe através dele, as mentes podem se tocar.

Para uma experiência prática a este respeito existem várias técnicas as quais você pode recorrer.  Agende um dia que possa fazer isso e acorde no mesmo horário que costuma acordar. Se arrume, tome um café rápido troque de roupa como se estivesse se preparando para sair e então… volte para cama e tente dormir novamente. Percebi que, ao menos comigo, isso engana o cérebro que entende que deveria estar acordado e assim realmente torna-se mais fácil acordar dentro do sono. Outra prática benéfica é criar um diário onde todos os dias ao acordar você anote o máximo possível de seus sonhos. Em um primeiro momento tal tarefa será ardua e pouco produtiva mas com constância em breve estará escrevendo páginas e mais páginas e assim tornando-se cada vez mais consciente do universo acausal. Existem muitas outras técnicas que você pode tentar, é tudo uma questão de descobrir qual a mais adequada para você.

A respiração holotrópica, técnica desenvolvida por Stanislav Grof é outra forma de atingir resultados semelhantes e as vezes ainda mais intensos. Em tempo as pesquisas de Grof, assim como Os Campos Morfogenéticos de Rupert Sheldrake não deixam dúvidas quanto a existência de um nível mais essencial de comunicação entre as mentes de todos os seres vivos. Se você realmente se dedicar poderá levar este nível ao seu extremo e cruzar a fronteira da pessoalidade. Esta é a razão para eu ter pedido para você fechar os olhos na hora de tirar uma carta no teste acima. Como as pesquisas de Joseph Banks Rhine demonstraram, sob certas condições a mente humana tem acesso a conhecimentos que não passaram pelos seus sentidos. É razoável supor que tenham vindo de algum outro lugar. O experimento de Jacobo Grinberg-Zylberbaum mostrou que pode sim existir alguma espécie de ligação não-local entre duas mentes, embora isso passe desapercebido no nível consciente.

Podemos dizer que em um nível superficial o chamado plano astral reflete nossa própria realidade mental e em um nível mais profundo, a realidade mental da coletividade. Durante o desdobramento absolutamente tudo é simbólico. O símbolo e o simbolizado são uma coisa só. Uma casa que você visita não é exatamente uma casa de concreto armado, mas antes disso um lar, um constructo com todas as impressões simbólica e emocionais tanto de seus habitantes quando de si mesmo. Muito mais do que no chamado mundo físico, nesta outra realidade o observador e o observado influenciam e modificam um ao outro o tempo todo.

O Desdobramento deve ser a fronteira final a ser cruzada por todo psiconauta corajoso. É um mergulho dentro de si mesmo com destino ao universo. Essa é a razão porque muitas pessoas tem dificuldades com desdobramentos. Não é um problema de escolher esta ou aquela técnica, mas de se estar pronto para o que vai encarar. Quase sempre esta experiência deve ser precedida de um processo de auto-conhecimento e auto-aceitação, quando não de psicoterapia. Antes de mergulhar de cabeça, certifique-se de que a piscina está cheia. A dificuldade em conseguir experiências eficazes quase nunca é por causa do método ou receita usada, mas sim por conta das próprias travas internas de cada um. O famoso guardião do umbral possui uma face assustadoramente familiar; a sua. A dura verdade é que as pessoas têm medo de olhar para si mesmas.

Morbitvs Vividvs é autor de Lex Satanicus: O Manual do Satanista e outros livros sobre satanismo.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/a-dura-verdade-sobre-projecao-astral/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/a-dura-verdade-sobre-projecao-astral/

A Primazia da Shakti

Por Dr. David Frawley

Libertação: O Objetivo da Vida:

O objetivo final da vida humana é a libertação ou moksha, a realização do Eu Puro ou Brahman além de todo tempo, espaço e carma. Só nisso está a paz e a liberdade completas e duradouras. Isto fica claro em muitos grandes ensinamentos espirituais desde os Vedas.

Esta realidade suprema de pura unidade não é difícil de descrever e a busca por ela é algo que conhecemos em nossos corações, onde buscamos a unidade com todos. A questão importante e difícil que se coloca, no entanto, é como chegar lá? Esse Eu puro está tão distante de nossa experiência de vida comum que requer uma mudança radical de todo o nosso modo de vida para chegarmos até mesmo a ele.

Brahman é nirguna (desprovido de qualidades), nishkriya (além da ação) e nishkama (além do desejo). É extremamente difícil de acessar mesmo para aqueles com as mentes mais afiadas e os estilos de vida mais puros. Brahman, além disso, está além de todos os caminhos, todos os esforços e todos os esforços. Ele está fora do tempo, do espaço e da causalidade e não pode ser produzido por nada. Aquele que o procura deve ele mesmo desaparecer antes de encontrá-lo. No entanto, mesmo tendo esse pensamento sobre sua ultimidade não o leva lá ou mesmo a assegurar que se esteja indo na direção certa.

Somente se nossas mentes puderem estar totalmente concentradas dentro do coração é que poderemos conhecer Aquele Ser Supremo. Aqueles cujas mentes são claras e focalizadas internamente podem certamente entrar nesse Brahman sem forma. Mas se existe algum desejo não satisfeito, não podemos alcançá-lo, ou se o tocamos, não podemos permanecer nele. O problema é que estamos cheios de desejos, mesmo que nossas mentes sejam fortes. O desejo é a essência de tudo o que fazemos e a própria força por trás de nossas vidas.

Não vivemos em Brahman ou no imanifesto além do tempo e do espaço, mas no reino manifesto da experiência de vida, repleto de suas energias, atrações, repulsões e apegos. Em nossas mentes e emoções comuns, somos produtos do tempo e do espaço. Somos apanhados no lugar, pessoa, forma e carma como o próprio alicerce de nossa realidade pessoal e social.

Não podemos ir além deste reino manifesto, a menos que primeiro reconheçamos o poder por trás dele. Não está ao nosso alcance ir além do reino em que existimos e do qual somos um produto. Somente o poder que nos criou pode fazer isso por nós. Portanto, a verdadeira questão, qual é o poder por trás do universo, por trás de nossos corpos e mentes e como podemos trabalhar com ele para alcançar o Último?

Shakti, a Deusa como o Poder de Brahman:

O verdadeiro poder por trás deste universo manifesto é Shakti ou a energia da Deusa, que é a força de expressão e manifestação de Brahman. Shakti ou o poder da criação controla tudo o que ocorre dentro de seu campo. O brâmane sem forma além da criação não tem nenhuma preocupação com este reino ou com qualquer coisa que façamos dentro dele. Ele não pode nos ajudar nem nos atrapalhar de forma alguma. Do seu ponto de vista, nunca houve nascimento ou morte, individual ou cosmos, escravidão ou libertação. Mesmo nossa busca de libertação não tem nenhum significado para ela.

Nossas vidas dependem inteiramente de Shakti, o que nos confere vitalidade, sentimento e consciência, através dos quais operamos em todos os níveis e podemos pôr em movimento tanto nossas ações externas quanto nossa sadana interior ou prática espiritual. Shakti controla toda a manifestação, assim como a eletricidade permite que todos os aparelhos funcionem. Ela governa sobre os processos de nascimento e morte e o carma do desdobramento. Ela fornece às nossas almas os corpos e mentes e os mundos nos quais experimentar a vida. Tudo o que comemos, respiramos, percebemos, sentimos ou conhecemos consiste em alguma porção de sua energia e um aspecto de Seus processos dinâmicos que nos cercam de todos os lados. Tudo o que buscamos adquirir para o sustento, felicidade, conhecimento ou crescimento faz parte dela e vem dela.

No entanto, Shakti também controla o caminho além da manifestação, o retorno ao Brahman. Mesmo para buscar o Brahman, para buscar o que está além de Shakti, devemos trabalhar com Shakti. Shakti nos proporciona o poder da meditação e a visão discriminadora através da qual podemos transcender o tempo e o espaço. Isto significa que o melhor meio para a realização espiritual e para alcançar todos os outros objetivos da vida é adorar Shakti, para trabalhar com e para a Deusa. Não existe outra maneira tão eficaz, se é que existe qualquer outra maneira. Se o Brahman é o objetivo, a Shakti é tanto o caminho quanto o poder de atravessá-lo. Podemos despertar e seguir sua corrente até Brahman, ou permanecer adormecidos e ser apanhados em suas correntes externas que se movem em diferentes direções.

Portanto, a questão não é Brahman, que está além de tudo, mas Shakti que se manifesta em todos os lugares. Shakti está ao nosso redor, piscando em tudo, quer reconheçamos Sua peça ou não. A questão é como ganhar a graça dessa Shakti – Como nos aliarmos às Shaktis certos para facilitar nosso desenvolvimento como uma alma.

Devemos reconhecer a primazia de Shakti, ou poucos, se algum de nós puder vir a Brahman, ou mesmo ganhar com sucesso os objetivos comuns da vida. Mesmo grandes Vedantistas adoraram primeiro Shakti, como no caso dos grandes ensinamentos do texto a Tripura Rahasya, ou tiveram que reconhecer Shakti eventualmente, como no caso de Tota Puri, o guru de Ramakrishna.

Tudo é controlado por Shakti. Shakti está intimamente ligada a todos os aspectos da vida dos quais dependemos, que nos atraem e mantêm a vida em andamento e desenvolvimento. Pense bem sobre isso. O nascimento, a reprodução e a sexualidade são tudo através de Shakti. Alimentação e nutrição são outro passatempo de Shakti. A respiração, a vida (Prana), a emoção e o sentimento são todos devidos a Shakti. Os grandes elementos da Terra, Água, Fogo, Ar e Éter são todas as formas de Shakti, que é sua energia subjacente. Os principais gunas de Sattva, Rajas e Tamas são as forças raízes de Shakti. Ou sucessos, ganhos, metas e realizações em qualquer esforço só são possíveis por causa de Shakti ou do poder de realizá-los com os quais temos sido capazes de descobrir como trabalhar.

Energia, ciência e tecnologia são meios de trabalhar com Shakti em um nível externo e transformaram nosso mundo. A mídia de massa é um jogo da Shakti no campo da comunicação, que derrubou barreiras de comunicação em todos os lugares. A própria Terra, com sua rica diversidade de vida, é Shakti em forma manifesta como a terra em que vivemos. As estrelas são os flashes da Shakti cósmica através da imensidão sem limites do espaço. Mesmo as partículas subatômicas estão vivas com poderosas forças sutis da Shakti, que formam o oceano ou matriz a partir da qual elas dançam para dentro e para fora.

Todas as coisas às quais estamos apegados ou envolvidos são formas da Shakti ou estão enraizadas na Shakti. O que amamos, buscamos ou desejamos é algum aspecto da Shakti que confere às formas cor, beleza, encanto e deleite. Não é o objeto, pessoa, lugar ou experiência em si que é a verdadeira fonte de nosso fascínio por elas, mas a energia, rasa ou essência, a Shakti trabalhando através dela. Estamos sob o fascínio da Shakti de uma forma ou de outra, quer reconheçamos ou não essa Shakti subjacente.

Não podemos ir além de nada, a menos que primeiro honremos a Shakti por trás dela, o que significa tocar sua energia central na consciência. Não se pode renunciar a nada pelo qual se sinta realmente atraído, por mais que se tente. Mas você pode reconhecer a Shakti por trás dela e, seguindo-a, ir além das limitações da forma, como a abelha que pode reunir o pólen e não se lembra da forma. A Shakti dentro de qualquer objeto ou experiência individual é, em última análise, a mesma Shakti dentro de todos.

Não podemos sair do reino da Shakti a menos que reconheçamos e honremos a Shakti, que está tanto neste reino como além dele – a menos que ela decida. Se ela não estiver disposta, nossos esforços serão em vão. Se ela estiver disposta, então seremos guiados ao longo do caminho e ela mesma nos conduzirá adiante. Podemos então simplesmente seguir seu fluxo e não precisamos calcular ou empurrar nosso caminho para frente, levados para frente por seu fluxo. No entanto, para que isso ocorra, devemos primeiro aprender a olhar para dentro de nós mesmos e descobrir o movimento mais profundo da Shakti. Isso descobriremos como nossa própria busca mais interior da verdade e da divindade.

Shakti como o Caminho e o Objetivo:

Shakti é o caminho para Deus ou Brahman. Mesmo que você só queira praticar Yoga, você deve despertar e honrar a Kundalini Shakti para levá-lo adiante. Se você é devoto a Deus ou à Deusa em qualquer forma, você deve ter aquela Shakti de devoção para levá-lo adiante. Para que qualquer yantra, puja ou mantra trabalhe, sua Shakti deve ser invocada primeiro a fim de lhe dar poder.

Mesmo que você seja totalmente dedicado à Autorrealização ou Jnana, isso só é possível através da graça de Shakti e seu poder de conhecimento, sua Buddhi Shakti através do qual a maior discriminação funciona. Sem que Shakti apoie seus esforços para a Autorrealização ou declarações de Autorrealização que você possa fazer, não terá energia, força ou convicção.

Nessa Shakti primordial não há dualidade entre o manifesto e o não-manifesto. É a mesma Shakti em suas modalidades ativa e inativa. Que Shakti detém o Brahman sem forma no mundo da forma, não limitando-o, mas como parte de seu transbordamento que é sua dança. Portanto, se um devoto adora Shakti para casa e felicidade ou para a maior libertação, é o mesmo movimento da Shakti em diferentes níveis e de diferentes maneiras.

Mesmo que você queira mudar o mundo através da ação política, você deve primeiro ganhar a Shakti ou o poder para fazê-lo. Se você quer ser um grande artista, você precisa da capacidade correspondente de Shakti, do poder e da habilidade na arte. Tudo tem sua chave Shakti, que contém não apenas a energia, mas o código de sua manifestação como o DNA, tanto sua motivação como a energia para realizá-la.

Portanto, durante as práticas espirituais que você escolher ou o que quer que você procure na vida que lhe trará paz e felicidade, não esqueça a primazia da Shakti e você nunca perderá seu caminho. O verdadeiro Shakti reunirá todas as Shaktis exteriores e o conduzirá ao seu objetivo interior.

Há duas formas principais de trabalhar com Shakti. A primeira é reconhecer as diferentes Shaktis no universo, externa e internamente, suas qualidades, energias e movimentos e como trabalhar com eles. Isto é como um médico aprendendo os poderes de cura em diferentes níveis, incluindo tanto os de diagnóstico como os de tratamento.

A segunda e mais simples maneira é simplesmente adorar Shakti diretamente, vendo a Shakti suprema em todas as coisas. Se alguém honrar a Shakti por trás de todas as Shaktis, então ganhará seu apoio, assim como aprenderá a entender suas formas específicas. No entanto, estes dois aspectos do trabalho com Shakti estão relacionados, ao aprender a descobrir a Shakti única em cada coisa, também se toca na Shakti suprema que está em toda parte.

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Fonte:

FRAWLEY, David. The Primacy of Shakti. Vedanet, 2017. Disponível em: <https://www.vedanet.com/the-primacy-of-shakti/>. Acesso em 11 de março de 2022.

COPYRIGHT (2017) American Institute of Vedic Studies.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/a-primazia-da-shakti/

A Pedra de Sangue

Shirlei Massapust

Segundo o geólogo Walter Schumann, heliotrópio é uma calcedônia opaca verde escura pontilhada de machas vermelhas: “Foram-lhe atribuídos, durante a Idade Média, poderes mágicos, porque as pequeninas manchas vermelhas eram consideradas gotas de sangue de Cristo”.[1]

Uma edição do Les Admirables Secrets D’Albert Le Grand (1703), livro mais conhecido como Grande Alberto, diz-nos que os padres se serviam do heliotrópio, importado de jazidas “na Etiópia, em Chipre e nas Índias”, para adivinhar e interpretar os oráculos e as respostas dos ídolos.[2] A homonímia da planta e da pedra conduziu à ideia do uso conjunto como ingrediente de fórmulas milagrosas:

Os caldeus chamam a primeira erva Ireos, os Gregos Mutichiol e os Latinos Eliotropium. Esta interpretação vem de Hélios, que significa o Sol, e de Tropos, que quer dizer “mudança”, porque esta erva vira-se para o Sol. Tem ela uma virtude admirável, se a colhermos no mês de agosto, quando o Sol está no signo do Leão, porque ninguém poderá falar mal, nem prejudicar com más palavras quem a trouxer consigo, envolvida numa folha de loureiro com um dente de lobo, pelo contrário, não se dirá dele senão bem. Além disso, quem a puser sob a cabeça, durante a noite, verá e conhecerá aqueles que poderiam vir roubá-lo. Mais ainda, se se puser esta erva, da maneira que acima se disse, numa igreja onde estejam mulheres, aquelas que tiverem violado a fidelidade prometida aos seus maridos não conseguirão sair se não a tirarem da igreja.[3]

A versão do personagem Rabino Hebognazar no manuscrito da Chave de Salomão (1890), compilado por Stanislas de Guaïta e François Ribadeau Dumas, ensina a produzir um anel astronômico com aro forjado numa liga de ferro e ouro e adorno superior contendo “um retalho de folha de Heliotropium europaeum, outro de Aconitum napellus, um pedacinho de pele de leão, outro de pele de lobo, um pouco de pluma de cisne e de abutre e, acima de tudo, um rubi lapidado”.[4]

O Grande Alberto atribui aos “antigos filósofos” a afirmação de que a pedra possui grandes virtudes quando associada com a planta homônima. A tradição sugere que a união do heliotrópio mineral com o vegetal produz “outra virtude muito maravilhosa sobre os olhos dos homens, que é a de suspender sua capacidade, vivacidade e penetração, e de cegá-los de forma a não poderem ver a quem os levam”.[5] Ou seja, a gema untada adquire a propriedade prodigiosa “de confundir os olhos das pessoas a ponto de tornar o usuário invisível”.[6]

Tal ideia deriva da mitologia grega, onde os artefatos de invisibilidade são propriedade dos deuses e titãs. Platão narra uma história fantástica sobre Giges, rei do Hindustão (c. 687-651 a.C.), que usou um anel de invisibilidade encontrado junto ao corpo de um gigante para assassinar o monarca anterior, Candaules, e desposar a viúva deste:

Era ele um pastor que servia em casa do que era então soberano da Lídia. Devido a uma grande tempestade e tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no local onde ele apascentava o rebanho. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que para aí fantasiam, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá dentro um cadáver, aparentemente maior do que um homem, e que não tinha mais nada senão um anel de ouro na mão. Arrancou-lhe e saiu. Ora, como os pastores se tivessem reunido, da maneira habitual, a fim de comunicarem ao rei, todos os meses, o que se dizia respeito aos rebanhos, Giges foi lá também, com o seu anel. Estando ele, pois, sentado no meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, em direção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para fora o engaste. Assim que o fez, tornou-se visível. Tendo observado estes fatos, experimentou, a ver se o anel tinha aquele poder, e verificou que, se voltasse o engaste para dentro, se tornava invisível; se o voltasse para fora, ficava visível. Assim senhor de si, logo fez com que fosse um dos delegados que iam junto do rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim se assenhoreou do poder.[7]

O homem invisível pode agir livremente, conforme sua vontade, pois está protegido das reprimendas e comentários maldosos do vulgo. Henri Cornélio Agrippa (1486-1535) atribuiu a Alberto Magno e Willian de Paris o registro de crenças medievais, segundo as quais o Heliotropium europæum confere glória constante e boa reputação a quem o carrega. Francis Barret interpreta a afirmativa de que “quem a usar terá uma boa reputação, boa saúde e viverá muito tempo[8]”, concluindo que o porte da planta e/ou da pedra “faz do usuário uma pessoa segura, respeitável e famosa, e contribui para uma vida longa”.[9]

O mago envolto em brumas

O anel de heliotrópio não deveria funcionar exatamente como o hipotético anel de Giges. Aparentemente, ele deveria envolver seu possuidor em névoa… Na versão do Magus (1801), Francis Barret omitiu um efeito citado por Cornélio Agrippa (1486-1535), segundo o qual o heliotrópio “tem admirável virtude sobre os raios do sol, pois diz-se que os converte em sangue. Quer dizer, faz o sol aparecer como em um eclipse, se lhe unta com uma erva que leva o mesmo nome e o coloca em vaso cheio d’água”.[10]

Presumo que a pedra deveria ser fervida com suco de heliotrópio até que a água em ebulição produzisse uma nuvem de vapor suficientemente densa para filtrar os raios solares. Apesar de incompleta, a descrição mais extensa deste rito aparece no Grande Alberto:

Para fazer com que o Sol pareça cor de sangue deve-se usar a pedra que se chama Heliotrópio, que tem a cor verde e que se parece com a Esmeralda e é toda pintalgada como que de gotas de sangue. Todos os necromantes lhe chamam comumente a pedra preciosa de Babilônia; esta pedra, esfregada no suco de uma erva do mesmo nome, faz ver o Sol vermelho como sangue, da mesma maneira que num eclipse. A razão disto é que fazendo ferver água em grandes borbotões em forma de nuvens, ela espessa o ar que impede o Sol de ser visto como de costume. Contudo, isto não pode fazer-se sem dizer algumas palavras com certos caracteres de magia.[11]

Se as palavras e caracteres de magia forem padronizados com aquela outra tradição da Chave de Salomão, onde se utiliza a erva, as palavras consistem na invocação voltada para o ocidente “no dia e hora de marte” dos anjos “Michael, Cherub, Gargatel, Turiel, Tubiel, Bael, os Silfos Camael, Phaleg, Samael, Och, Anael”.[12] Estes caracteres de magia são gravados no halo do anel:

O que se publicou em todos os manuais de magia editados desde o fim do séc. XIX até meados do séc. XX, que tive a oportunidade de consultar, foram apenas cópias, muitas vezes incompletas, dos textos supracitados.

Por exemplo, Gérard Encausse (1865-1916) reproduz “um tratado muito curioso sobre pedras extraído de um livro sob os nomes de Evax e de Aaron”, igual aos tratados de Agripa e Kircher, adicionando-lhe a classificação das pedras “conforme as relações planetárias”.[13] A “pedra heliotrópio” foi relacionada com o Sol.[14]

Embora N.A. Molina conhecesse e recomendasse uma versão integral do Grande Alberto publicada “por um ocultista muito conhecido na Espanha e na América sob o nome de Mago Bruno[15]”, ele preferiu copiar a cópia imperfeita de Gérard Encausse com todos os seus rearranjos e omissões, conforme a tradução para português pré-existente, em seu Antigo Livro de São Cipriano.[16]

Anel de pedra heliotrópio em aro de prata forjado pelo meu finado amigo Afrânio, fazedor de joias e artigos de umbanda. Foi untado com extrato de heliotrópio.

O anel do vampiro

Waldo Vieira, fundador do Instituto Internacional de Projeciologia, autor de obras psicografadas junto com Chico Xavier, foi também um dos maiores colecionadores de gibis do Brasil. Em 1978 ele selecionou e forneceu a maioria das “histórias antológicas” publicadas pelo editor Otacílio D’Assunção Barros no número especial sobre vampiros da revista Spektro. É claro que o nível de informação nas entrelinhas subiu à estratosfera!

Um dos romances gráficos cuidadosamente seletos entre dez mil exemplares foi publicado pela primeira vez no Brasil em julho de 1954, no n º 44 de O Terror Negro. No enredo um personagem acerta uma lança no coração de um vampiro possuidor de um “anel com um morcego”.[17] Ataíde Brás incrementou o motivo num novo roteiro onde o vampiro Paolo coloca “um anel, com um morcego como enfeite” no dedo de sua amada e, imediatamente, “os caninos dela começam a crescer”.[18]

Parece que esta variante do mito surgiu de um equivoco. Todos os filmes da Hammer em que Christopher Lee interpretou Drácula terminaram com a morte do conde. O corpo, as roupas e até mesmo o castelo do nobre vampiro dissolviam-se, restando apenas um anel.  Ninguém sabia por que a joia escapava intacta nem qual era o seu significado. Todos os fãs queriam ter aquilo. Os mais crédulos desejavam que o suposto amuleto existisse e tivesse poderes mágicos.

Poucos conheciam a explicação de Christopher Lee sobre o valor emocional do apetrecho: O anel com aro de prata e pedra vermelha gravada com as iniciais B•L era mera réplica de outra joia enterrada no dedo do finado ator Bela Lugosi, que também interpretou Drácula, sendo usada pelo sucessor em sua memória.[19]

Enquanto durou a polêmica, Robert Amberlain afirmou ter encontrado manuais de feiticeiros alemães descrevendo a confecção de um anel especial:

Um Vampiro gravado na pedra heliotrópio transforma-a numa pedra de sangue. Ela dará a quem a transportar, segundo os ritos convenientes, o poder de comandar os demônios íncubos e súcubos. Ela assisti-lo-á nas suas conjurações e nas suas evocações.[20]

Juro pela alma de Nicolae Paduraru que não existe um manual de feitiçaria contendo semelhante rito ou que, se existe, é um livro particular que nunca foi editado, certamente escrito entre 1958 e 1978 por um feiticeiro fã de vampiros cinematográficos que achou que a descrição do mago envolto em brumas, no Grande Alberto, parecida com a do Conde Drácula virando névoa.

O jornalista fantástico Jean-Paul Bourre também procurou o tal livro e ouviu o seguinte quando entrevistou Vladimir S, membro da seita veneziana Ordem Verde:

Casanova foi encarcerado em Veneza, nas celas do palácio ducal. E sabem os motivos? Foi preso pela Santíssima Inquisição a seguir a uma denúncia em que foi acusado de magia negra. Manuzzi, espião dos inquisidores de Veneza, mandou apreender em sua casa os livros e manuscritos ocultos, entre os quais se contavam os seguintes: Clavículas de Salomão, as obras de Agrippa e o Livro de Abramelin o Mágico. Quais eram então as atividades ocultas do jovem veneziano? Ele afirmava, na sua correspondência, que não praticava a Cabala, mas a arte do Kab-Eli, isto é, a arte da “pedra do sol”. Esta pedra é nossa conhecida. É o heliotrópio (…), os nossos adeptos chamam-lhe “pedra de sangue”, uma vez que permite evocar os defuntos e originar o aparecimento dos vampiros. Outrora tinha também uma função medicinal ligada ao sangue: Ajudava a neutralizar as hemorragias.[21]

Essa estória vingou e se desenvolveu. De acordo com Robert Amberlain e Jean-Paul Bourre, usando isto se podia distinguir “os espectros, os manes e os Vampiros” quando o Sol aparecia vermelho por traz dos vapores. O anel mágico destinado às operações de vampirismo devia ter a pedra montada sobre prata (metal lunar, noturno), enquanto o anel de proteção seria forjado em ouro vermelho (símbolo solar, diurno).

Pela razão de que é verde (cor do astral ou do ‘mundo’ imediato dos mortos) e verde escura (os mortos maléficos), raiada de traços vermelhos (o sangue), esta pedra liga-se aos mistérios da morte, do vampirismo e do sangue. (…) Outrora era tida como capaz de parar as perdas de sangue, as hemorragias, e como proteção contra os venenos e mordeduras dos Vampiros.[22]

Robert Amberlain reconhece que quando se penetra no domínio da magia, penetra-se igualmente no da superstição. Então, “no caso de se tratar de uma seita votada ao vampirismo” os nobres afligidos pela seita poderiam ser enterrados com o anel contendo a “pedra do sangue” na crença de que ele protegeria o túmulo, os despojos e o “duplo” durante as saídas e materializações. “Imaginavam que o uso do anel maléfico lhes evitaria uma acidental e desastrosa exposição aos raios do Sol”.[23]

Jean-Paul Bourre incluiu a proteção contra “o aparecimento de caçadores de vampiros, a estaca aguçada e o fogo que podia destruir em poucos segundos o corpo do não morto”.[24] Como isso? O amuleto protege o vampiro causando a morte de quem quer que pise “dentro do perímetro mágico”. A sorte do homem que penetra na zona sagrada se assemelha a dum inseto caído numa teia de aranha. “Uma pequena e subtil vibração basta para que toda essa teia seja sacudida”. A aranha desperta e abocanha o intruso. “Sua lei é inexorável”.[25]

Fada do Heliotrópio, ilustração de Cicely Mary Barker (1895-1973), parte duma coleção de 168 fadas com plantas botanicamente corretas, no livro Flower Fairies of the Garden (1944).

Sangue de dragão

Existem lendas sobre uma pedra impossível cuja descrição parece remeter ao jaspe sanguíneo, chamado “sangue de dragão”, que só um exímio caçador de dragões consegue obter. O frade Rogério Bacon (1214-1292) escreveu o seguinte:

 

Sábios etíopes vieram à Itália, à Espanha, à França, à Grã Bretanha e essas terras cristãs onde existem bons dragões voadores. E, por uma arte oculta, que possuem, excitam os dragões a saírem das suas cavernas. E tem selas e freios já prontos, e montam esses dragões e fazem-nos voar a toda a velocidade pelos ares a fim de amolecerem a rigidez da sua carne (…) e quando desse modo amaciam esses dragões, tem a arte de preparar a sua carne (…) que utilizam contra os acidentes da velhice, para prolongarem a sua vida e subutilizarem a sua inteligência de maneira inconcebível. Porque nenhuma doutrina humana pode fornecer tanta sabedoria como o consumo da sua carne.[26]

Esse é o tipo de estória mirabolante na qual ninguém acredita, mas que todos gostam de ouvir. A temática faz boa parelha com uma instrução obscura do talvez contemporâneo livro do Grande Alberto:

Para vencer os inimigos deve usar-se a pedra Draconite, que se tira da cabeça do dragão; é boa e maravilhosa contra o veneno e a peçonha, e quem a usar no braço esquerdo sairá sempre vitorioso dos seus adversários.[27]

Estas são estórias para divertir crianças, embasadas na interpretação literal da lenda cristã onde São Jorge ou o arcanjo Miguel mata um dragão.

Em 1222, o National Council of Oxford decidiu organizar um grande festival em honra ao santo, no qual o dragão foi apresentado, à guisa de satânico adversário da verdadeira fé, para ser dominado e vencido pelo herói do dia. Por todos esses motivos foram inúmeras as histórias ligando São Jorge ao dragão, naqueles tempos. A mais popular entre todas foi, talvez, a que contou Jacques de Voragine, arcebispo de Gênova (de 1236-1898), em sua Lenda Dourada (…) Segundo essa lenda, houve uma vez, na Líbia, uma cidade chamada Selene. Todos os campos em seu redor tinham sido devastados por um monstro terrível, que somente era impedido de atacar e devastar a cidade pela oferta diária de dois gordos carneiros. Mas chegou um tempo em que não havia mais nem um só carneiro para apaziguar a fome do monstro, que imediatamente começou a aumentar sua devastação em torno da cidade. Por isso, diariamente, eram sorteadas duas crianças até a idade de quinze anos e as indicadas pela sorte eram oferecidas em sacrifício ao monstro. Um dia a sorte apontou a própria filha do rei, Cleodolinda. Imediatamente o soberano ofereceu tudo o que possuía ao cidadão que se apresentasse para substituir a infeliz. Porém todos recusaram e Cleodolinda foi abandonada, só, fora das muralhas de Selene, a fim de seguir o seu triste destino. Um tribuno do exército romano, Jorge da Capadócia, surgiu cavalgando um cavalo branco e, ao saber da triste história da jovem princesa, decidiu, imediatamente, sair ao encontro do dragão, em nome de Jesus Cristo, a fim de matar a fera ou morrer nessa empresa.

 

O monstro se atirou contra o cavalheiro e tremenda luta se seguiu, até que Jorge, com ousadia e perícia sem par, varou o dragão com sua espada. Porém a fera não morreu imediatamente e Jorge disse a Cleodolinda que passasse seu próprio cinto em redor do pescoço do monstro, a fim de o conduzir em triunfo até a cidade. Ela assim fez e o monstro seguiu-a submisso. À chegada do estranho grupo, o povo, cheio de terror, tratou de fugir. Porém, Jorge a todos serenou e, depois de os ter reunido na praça principal, degolou o dragão. Foram necessários quatro juntas de bois para arrastar para fora da cidade a imensa carcaça.

 

O rei, a rainha, Cleodolinda e vinte mil cidadãos abraçaram o cristianismo. O rei ofereceu a Jorge a mão de sua filha em casamento. Porém o santo herói, cortesmente, declinou essa proposta e, após recomendar ao rei que honrasse a religião e amasse aos pobres, beijou-o nas duas faces e continuou viagem.[28]

Quanta imaginação para dizer que nem uma princesa virgem, nem um reino inteiro valem a quebra de um voto de castidade de um santo católico!

Pedrarias genéricas

A cultura da desinformação aconselha os brasileiros a nacionalizar toda e qualquer coisa pela substituição do antigo pelo novo, do raro pelo disponível, da economia pela ostentação. Em meados do século XX um famoso autor brasileiro – que eu me absterei de identificar pelo nome – aconselhou seu público alvo, os mandingueiros, a empapar seus objetos de uso pessoal com Helianthus annuus, óleo de girassol, ao invés de extrato perfumado de Heliotropium europaeum, de fragrância agradável e duradoura, que custava seis reais o frasco.

Na virada do milênio um quilo de pedra heliotrópio custava cinco centavos de dólar no atacado, no Rio de Janeiro. Mesmo assim faltava no estoque das lojas revendedoras onde pseudo-especialistas nos ofereciam o conteúdo da caixa etiquetada “bloodstone” que poderia conter jaspe sanguíneo, hematita e até mesmo pedra imã.

Eu tive de insistir e pagar adiantado pela lapidação de um heliotrópio, pois o especialista em produção de artigos para terapeutas alternativos relutou a crer que uma mulher pudesse preferir uma pedra barata a um rubi-zoisita. Algo parecido ocorreu algumas vezes no passado. Hebognazar intercambia heliotrópio e rubi em sua Chave de Salomão. Por que trocar um pelo outro? Naquela época o herói da mineralogia George Frederick Kunz (1856-1932) ainda não havia nascido nem catalogado um batalhão de pedras mágicas de baixo custo para a alegria do povo e felicidade geral da nação.

Sem ninguém para explicar aos soberbos que gosto não se discute pareceria um desperdício gastar um aro de ouro ou prata para equipar uma pedra adquirida ao custo de poucas moedas numa barraquinha de camelô. Uns e outros pensariam ser mais adequado portar uma gema digna de ser comercializada numa joalheria que fornece certificado de origem. O problema é que a troca prejudica a lógica ritualística pondo a perder a relação de homonímia entre erva e pedra, onde o semelhante reage com o semelhante.

Notas:

[1] SCHUMANN, Walter. Gemas do Mundo. Trad. Rui Ribeiro Franco e Mario Del Rey. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, p 128.

[2] HUSSON, Bernard (org). O Grande e o Pequeno Alberto. Trad. Raquel Silva. Lisboa, Edições 70, 1970, p 163.

[3] HUSSON, Bernard (org). Obra citada, p 149-150.

[4] CLAVÍCVLAS DE SALOMON: Libro de Conjuros y Fórmulas Mágicas. Trad. Jorge Guerra. Barcelona, Editorial Humanitas, 1992, p 93 do fac simile.

[5] AGRIPPA, Cornélio. La Filosofia Oculta: Tratado de magia y ocultismo. Trad. Hector V. Morel. Buenos Aires, Kier, 1998, p 42.

[6] BARRET, Francis. Magus: Tratado completo de alquimia e filosofia oculta. Trad. Júlia Bárány. São Paulo, Mercuryo, 1994, p 60.

[7] PLATÃO. A República. Trad. Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1996, p 56-57.

[8] HUSSON, Bernard (org). O Grande e o Pequeno Alberto. Trad. Raquel Silva. Lisboa, Edições 70, 1970, p 163.

[9] BARRET, Francis. Obra citada, p 60-61.

[10] AGRIPPA, Cornélio. Obra citada, p 42.

[11] HUSSON, Bernard (org). O Grande e o Pequeno Alberto. Trad. Raquel Silva. Lisboa, Edições 70, 1970, p 163.

[12] CLAVICULAS DE SALOMON (1641). Barcelona, Humanitas, 1997, p 93 do fac simile.

[13] PAPUS. Tratado Elementar de Magia Prática. Trad. E. P. São Paulo, Pensamento, 1978, p 232-233.

[14] PAPUS. Obra citada, p 235.

[15] MOLINA, N. A. Nostradamus – A Magia Branca e a Magia Negra. Rio de Janeiro, Espiritualista, p 63 e 76.

[16] MOLINA, N. A. Antigo Livro de São Cipriano: O gigante e verdadeiro capa de aço. Rio de Janeiro, Espiritualista, p 131-135.

[17] A VILA DO VAMPIRO. Em: SPEKTRO: Especial dos vampiros. Rio de Janeiro, Vecchi, março de 1978, nº 5, p 82.

[18] BRAZ, Ataíde (roteiro) e KUSSUMOTO, Roberto (desenho).  A Noite da Vingança. Em: SPEKTRO: Especial dos vampiros. Rio de Janeiro, Vecchi, março de 1978, nº 5, p 68.

[19] AS VÁRIAS FACES DE CHRISTOPHER LEE. Brasil, Dark Side, 1996, DVD.

[20] AMBERLAIN, Robert. O Vampirismo. Trad. Ana Silva e Brito. Lisboa, Livraria Bertrand, 1978, p 213.

[21] BOURRE, Jean-Paul. O Culto do Vampiro. Trad. Cristina Neves. Portugal, Europa-América, p 137.

[22] AMBERLAIN, Robert. Obra citada, p 213.

[23] AMBERLAIN, Robert. Obra citada, p 214.

[24] BOURRE, Jean-Paul. Os Vampiros. Trad. Margarida Horta. Portugal, Europa-América, 1986, p 133.

[25] BOURRE, Jean-Paul. Idem, p 133-134.

[26] BACON, Rogério. Opus Majus: Vol. II. Oxford, J. H. Bridges, 1873, p 211. Em: HUSSON, Bernard (org). O Grande e o Pequeno Alberto. Trd. Raquel Silva. Lisboa, Edições 70, 1970, p 75.

[27] HUSSON, Bernard (org). O Grande e o Pequeno Alberto. Trd. Raquel Silva. Lisboa, Edições 70, 1970, p 167.

[28] SÃO JORGE: HISTÓRIA, TRADIÇÃO E LENDA. Em: EU SEI TUDO, nº 11. Abril de 1954, p 16-18.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/a-pedra-de-sangue/

A bolha da Consciência no mar da Imaginação

Triumphant George

O que você realmente é uma bolha de consciência em um mar de possibilidades. Dissolvidos neste mar estão implicitamente todas as experiências e padrões que existem, embora apenas alguns estejam apenas sutilmente presentes e pouco ativados. Sua sensação de fundo é a orientação global e o sentido somado de todos os padrões ao redor da sua bolha e aos quais você está se apegando (os fatos-do-mundo). Toda experiência sensorial é o surgimento espontâneo e sem esforço de padrões em alinhamento com esta sensação. A mudança da sensação é como realmente selecionamos a experiência.

O conteúdo dos seus sentidos e da sua história aparente não têm impacto necessário sobre o que acontece a seguir, se você se separar delas. Tudo o que importa são os padrões aos quais você está se apegando agora.

Se você acionar um padrão, ele surgirá posteriormente em sua experiência (pensamentos e sentidos). Recordar ou experimentar parte de um padrão de alguma forma aciona todo o padrão (e, em menor grau, todos os padrões associados) por meio do preenchimento automático.

Toda imaginação em primeira pessoa é um padrão na consciência e todas trazem uma experiência. Se você se imagina fazendo algo de uma perspectiva de 1ª pessoa, você está imaginando “eu fazendo isso” e mais tarde você se experimentará fazendo isso ou algo parecido.

Se você se imagina fazendo algo a partir de uma perspectiva de 3ª pessoa, você está imaginando “ver alguém fazendo isso” e mais tarde você experimentará alguém fazendo isso ou algo parecido. Se você imaginar uma coruja na sua frente, o que você está fazendo é imaginar “ver uma coruja”. Você verá posteriormente corujas. As pessoas comuns chamam isso de “sincronicidade”.

O padrão irá se sobrepor a outros padrões que você está segurando. É por isso que ela não se torna imediatamente sua experiência. É imediatamente verdade, mas seus outros padrões se encaixam em uma estrutura de tempo.

Quanto mais desapegado você estiver da experiência sensorial e das sensações, mais rápida e completamente o padrão se tornará experiência. Se você não tivesse nenhum padrão de tempo, seria imediato.

Observe que uma emoção é um aspecto sensorial. Agarrar-se a uma emoção é desencadear ou reter todos os padrões que têm essa emoção como parte deles.

A Prática

Defina e afirme-se como o espaço aberto da consciência em que as experiências sensoriais aparecem.

Lembrando que toda imaginação está na 1ª pessoa e é o desencadeamento de um padrão de memória que virá à experiência – você deve sempre imaginar a partir de sua própria perspectiva.

Padrões se manifestam imediatamente da perspectiva do tempo. “É verdade agora que isso acontece então.”

Em última análise, você deve procurar se desapegar completamente da experiência sensorial ao seu redor (o que parece estar acontecendo) e da sensação (que é um resumo dos fatos do mundo que você acumulou).

Quanto mais desapegado você for, mais você pode simplesmente “decidir” sobre algo (a imaginação parcial que é a “decisão” acionará todo o padrão via preenchimento automático).

Na ausência de desapego completo, permitir que o padrão de decisão (que normalmente será apenas o sentimento da decisão) ou uma situação imaginada (uma visualização sensorial da experiência desejada) se intensifique antes de abandoná-lo irá priorizá-lo sobre outros padrões.

Não há problema em re-decidir ou re-imaginar um padrão, desde que sua decisão não contenha detalhes específicos, do caminho de manifestação, mesmo que apenas implícito. Caso contrário, estará essencialmente recriando seu padrão futuro novamente.

O Espaço do Sonho Experiencial

Se é verdade que a realidade é como um sonho, então deve ser verdade agora. Na sala em que você está aparentemente, neste exato momento. Então olhe ao redor. Além disso, seu próprio corpo e pensamentos devem ser sonhados, juntamente com todas as outras experiências que você está tendo. Tudo isso deve estar surgindo dentro de um “espaço de sonho”, uma bolha feita de consciência. Toda essa experiência é “você”! Geralmente não se sente assim, não é? Por que não?

Mesmo que compreendamos intelectualmente que tudo é consciência e que o mundo é indiviso, geralmente ainda sentimos que há um interior e um exterior para experimentar, que estamos “localizados” e separados, exceto durante certas experiências de pico. Qual é a natureza desse sentimento? Podemos abordá-lo diretamente? Eu digo que podemos.

Pensamentos presos, movimentos incompletos

Sugiro que essa desconexão surja porque, com o tempo, acumulamos formas de “detritos experienciais” em nossas bolhas. As ideias que aceitamos, os pensamentos que temos, os outros encontros no mundo, sejam passivos ou ativos – tudo deixa rastros que, quando repetidos e reativados, gradualmente se solidificam. Há muitas implicações disso, mas as mais importantes no momento são:

Pensamentos Presos. Estas são basicamente estruturas de pensamento que se solidificaram em seu espaço, em vez de se dissolverem naturalmente. Estes podem estar localizados na área do seu corpo ou além. Esse senso de divisão entre corpo e mundo é um desses pensamentos.

Movimentos Incompletos. Estas são intenções que foram resistidas ou abortadas antes de serem concluídas. Isso pode ser uma resposta de sobressalto reprimida, uma decisão de fazer algo que você interrompeu por tensão ou uma intenção inversa, e assim por diante.

Nenhum destes surgiria ou seria um problema se vivêssemos em não-resistência aberta. No entanto, a maioria de nós está se apegando a – identificando-se com – certos padrões de consciência, e isso impede a passagem e dissolução natural dessas estruturas. Isso leva a uma sensação de confusão e restrição (pensamentos presos) e tensão (movimentos incompletos).

Identidade sutil, limite sutil

Embora todas as estruturas mantidas interfiram em nossa apreciação direta da experiência onírica, existem duas em particular que, sendo sutis, são frequentemente negligenciadas:

A primeira é a Identidade Sutil. Esta é uma sensação de localização, geralmente em algum lugar ao longo da linha central do corpo. É um “pensamento preso” que consiste apenas em um sentido sentido. É onde você sente que “eu” está, mesmo quando você obviamente o experimenta de fora – ou seja, “eu” está experimentando “isso”.

O segundo é o Limite Sutil. Isso muitas vezes corresponde ao que é percebido como o “espaço pessoal”. Tal como acontece com a identidade, é uma sensação sutil, uma estrutura tridimensional sentida como uma “parede” sutil entre uma área do espaço do sonho e o resto. Mais uma vez, consiste apenas em um sentimento localizado.

A chave para experimentar diretamente a natureza indivisa de seu mundo é pelo menos reconhecer e, idealmente, dissolver essas duas estruturas.

Liberando Estruturas Retidas

Existem três abordagens gerais para liberar essas estruturas, variando de passiva a totalmente ativa:

Passiva. Simplesmente deite-se no chão todos os dias por cerca de 10 minutos. Solte completamente a gravidade e permita que seu corpo e seus pensamentos se movam como quiserem. Se você perceber que sua atenção está restrita a algum aspecto da experiência, simplesmente deixe de prender sua atenção. Deixe-o vagar como quiser. Gradualmente, por um longo período, seus padrões retidos vão se desfazendo naturalmente. No entanto, você sentirá os benefícios de maior clareza quase imediatamente, pois as estruturas mais rasas evaporam rapidamente.

Investigativo. Nesta abordagem, você detecta ativamente as áreas difíceis e as libera. Às vezes, sabemos que há um problema específico que precisa ser resolvido, outras vezes podemos escanear nossos corpos ou um espaço maior e procurá-los. De qualquer forma, abordamos essa tarefa com uma atenção aberta e relaxada. Tendo identificado uma área emperrada em particular, nós “nos sentamos com ela” e deixamos que ela se intensifique e solte no fundo por conta própria.

Ativo-Assertivo. A versão mais extrema é ir direto para o resultado desejado. Estruturas residuais são acumuladas ao longo do tempo, uma deformação da natureza aberta, experiência vazia com a qual começamos. Em vez de difundir gradualmente essas estruturas, podemos afirmar voluntariamente o espaço aberto como nossa experiência.

Para fazer isso ou seja, permitimos que nossa atenção se abra e seja ilimitada: expanda para todo o espaço do corpo, a sala e além. Tomamos nossa posição como o espaço de fundo no qual os padrões aparecem. Nós então simplesmente afirmamos – declaramos a nós mesmos como um fato, invocamos a sensação de que é verdade – que estamos experimentando um espaço completamente aberto e sem estrutura.

Você sentirá imediatamente o contrário disso: ainda não é verdade e, portanto, você estará muito consciente dos elementos da experiência que não estão abertos e vazios. A realidade oferecerá sua contra-afirmação! Independentemente disso, você simplesmente permanece com essa postura de afirmação e se senta com ela. Gradualmente, a resistência diminuirá. Com a prática regular, você se aproximará rapidamente de uma experiência mais clara e aberta – a identidade e o limite sutis se tornarão particularmente óbvios para você e se suavizarão posteriormente. No entanto, uma sensação de espaço expandido e divisão mais frouxa será quase imediata.

Importante: você está afirmando o sentimento de verdade disso diretamente no espaço do sonho aqui, em vez de meramente pensar sobre isso.

Observe que, com a abordagem final, você está efetivamente se substituindo por espaço vazio. Como tal, é natural que você encontre uma resistência bastante forte e até uma sensação de medo existencial. Por essa razão, provavelmente é melhor começar com um dos outros métodos, avançar para isso e começar apenas com “afirmação leve” até que você se acostume com a experiência.

Há boas áreas para explorar, vamos ver duas delas, a Imaginação Líquida e a Sala da imaginação.

Imaginação Líquida

QUANDO falamos de imaginação e de imaginar algo, tendemos a pensar em uma experiência visual ou sensorial delimitada. Estamos imaginando um carro vermelho, estamos imaginando uma árvore na floresta.

No entanto, a imaginação não é tão direta assim, e concebê-la incorretamente é apresentar uma barreira ao sucesso – e ao entendimento de que imaginar e imaginar é tudo o que existe.

Na verdade, não imaginamos no sentido de manter um objeto sólido, mas como um caldo no qual este sólido faz parte. Imaginamos que há um carro vermelho e estamos olhando para ele mas lá também estão as estradas, a paisagem, as leis de trânsito; imaginamos que há uma árvore na floresta e podemos vê-la com toda sua fauna e flora, Em outras palavras, primeiro imaginamos ou “afirmamos” que algo é verdadeiro – e a experiência sensorial correspondente segue em nossa mente.

É nesse sentido que imaginamos ser uma pessoa em um mundo. Você está atualmente imaginando que é um humano, em uma cadeira, em uma sala, em um planeta, lendo algum texto. Imaginamos fatos e a experiência correspondente segue, mesmo que o fato em si não seja percebido diretamente. Tendo imaginado que há uma lua, as marés ainda parecem afetar a costa, mesmo que seja um céu nublado.

E tendo imaginado um fato que é um fato eterno, sua experiência sensorial contínua permanecerá consistente com ele para sempre. Até você decidir que não é eterno, afinal.

Exercício: Ao tentar visualizar algo, em vez de tentar tornar as cores e texturas vívidas, tente aceitar plenamente o fato de sua existência e deixe a experiência sensorial seguir espontaneamente.

Sala da Imaginação

Há uma vasta sala. O chão é transparente e através dele brilha uma luz infinitamente brilhante, enchendo completamente a sala com uma luz branca imutável e ilimitada.

De repente, padrões começam a aparecer no chão. Esses padrões filtram a luz. Os padrões se acumulam, camada sobre camada entrelaçados, até que, em vez de uma luz homogênea preenchendo a sala, a luz parece ser holograficamente redirecionada pelos padrões para a forma de experiências, dispostas no espaço, desdobrando-se ao longo do tempo. Experiências que consistem em sensações, percepções e pensamentos.

No centro da sala há sensações corporais, que você reconhece como… você, seu corpo. Você decide se centrar na parte superior dessa região, como se estivesse “olhando” de lá, “sendo” aquela experiência corporal.

No momento você está simplesmente experimentando, sem fazer nada. No entanto, você percebe que cada experiência que surge aprofunda ligeiramente o padrão correspondente a ela, tornando-o mais estável e mais provável de aparecer novamente à medida que a luz é canalizada para essa forma.

Agora, você percebe outra coisa. Se você criar um pensamento, a imagem aparecerá flutuando na sala – como uma experiência. Novamente, o padrão correspondente é aprofundado. Só que desta vez, você está criando a experiência e, na verdade, criando um novo hábito em seu mundo!

Até mesmo dizer uma palavra ou frase que desencadeia as associações correspondentes, portanto, não é apenas o simples pensamento que deixa um padrão mais profundo, mas todo o contexto desse pensamento, sua história e relacionamentos.

Agora, enquanto você caminha hoje, você sentirá o chão sob seus pés – mas você saberá que sob o que parece ser o chão é na verdade o chão da sala, através do qual a luz está brilhando, sendo moldada na experiência ao redor vocês. Apesar de parecer se mover você sempre está no centro. Não é a sala que se move é o mundo projetado por você dentro da sala. E cada pensamento ou experiência que você tem está mudando o padrão…

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-bolha-da-consciencia-no-mar-da-imaginacao/