Memes para reflexão (parte final)

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De que adianta ser um mestre?

Há uma ideia recorrente de uma visão superficial do misticismo que vê o mestre espiritual como um grande ser iluminado, digno de toda reverência, cujos ensinamentos praticamente não podem ser questionados… Mas em quê exatamente isso auxilia o cominho dos discípulos do mestre, e do próprio mestre?

Nenhum mestre chamaria a si mesmo de mestre, pois sabe que, se chegou aonde chegou, foi não somente pelo auxílio dos caminhantes de outrora, como pela lenta lapidação de si mesmo, da própria alma, um pensamento de cada vez, um passo de cada vez.

E, se aceita que outros lhe chamem assim, “mestre”, é porque sabe muito bem que houve época em sua andança espiritual em que ele mesmo também teve a necessidade de crer que existia algum guru espiritual que o pegaria pela mão e caminharia junto dele, sem que houvesse necessidade de ir a fundo de si mesmo, e encarar a própria sombra, os próprios medos, as próprias culpas, inteiramente só…

Mas então, depois que descobriu que não existem mestres, e que cada um só pode mesmo ser o mestre de si, também passou, quase que na mesma passada, a compreender que o único mestre é o amor:

Pois o amor é paciente, o amor é gentil. Ele não é ciumento, nem invejoso, nem soberbo, nem rancoroso. Ele sempre aguarda; ele sempre confia; ele sempre persiste; e ele jamais acaba. (Paulo de Tarso, Carta aos Coríntios)

É assim que podemos conhecer a fundo toda exegese bíblica, uma centena de mantras hindus, todas as nobres verdades de Buda e tudo o que se comentou sobre elas ao longo dos séculos, toda a filosofia grega, toda a simbologia do tarô, toda a história da ciência moderna, e muito mais, mas, sem a vivência de tais conhecimentos, sem a conexão com a essência da realidade, sem o mergulho íntimo nesse amor eterno, o que seríamos? Seríamos realmente mestres de alguma coisa?

É assim que chegamos a este meme de Yoda, um mestre jedi que também não chama a si mesmo de mestre, e que é a própria imagem da força espiritual: ela vem de dentro, não de fora. Ela é oculta, não aparente. E ela jamais acaba…

Pertencer a uma Ordem Iniciática não faz de você uma pessoa melhor;
ter muitos conhecimentos magísticos não faz de você uma pessoa melhor;
estar em uma religião não faz de você uma pessoa melhor;
ser uma pessoa melhor faz de você uma pessoa melhor.
(Frater Alef)

O que pode ser mudado

Recentemente surgiu nas redes sociais uma espécie de movimento filosófico que prega o “ficar de boas”, ou seja, o “estar em paz com a vida”. Ele foi chamado, como muitos devem saber, deboísmo.

O que nem todos devem saber, no entanto, é que o sucesso do deboísmo se deve em grande parte a sua similaridade com outra corrente filosófica muito mais antiga, o estoicismo:

Este mundo é uma única cidade, a substância da qual ele é feito é una e, necessariamente, existe uma revolução periódica, os seres cedem lugar uns aos outros, uns se dissolvem enquanto outros aparecem, uns estão fixos e outros em movimento. Tudo está repleto de amigos, antes de tudo os deuses, em seguida os homens que a natureza uniu intimamente uns aos outros. Uns são dados a viver juntos, outros a se separar; é preciso regozijar-se por estar juntos, e não se afligir por dever se separar. O homem, além de sua grandeza natural e de sua faculdade de desprezar o que não depende da sua escolha, possui ainda esta propriedade de não criar raízes e de não estar amarrado à terra, mas de ir de um lugar a outro, seja pressionado pelas necessidades, seja simplesmente para poder contemplar. (Discursos de Epicteto, III, 24)

A condição principal para a pacificação da alma, tanto no estoicismo como em diversas outras correntes filosóficas e/ou religiosas, é justamente a compreensão de que somos apenas pequenos atores em uma peça teatral cujo roteiro supera em muito a nossa atual compreensão. Não nos cabe querer dirigir o que não compreendemos, e ademais seria inútil tentar: há sim muitas coisas que escapam ao nosso controle, a nossa decisão, ao nosso poder.

Mas é justamente nesse “deixar levar” das coisas que não temos realmente controle que nós passamos a voltar nosso foco mental, nossa atenção, para aquilo que é realmente importante, aquilo que podemos mudar: a nossa reação interna, a forma como interpretamos o mundo; em suma, cada um de nossos pensamentos que surge, genuinamente, de nossa mente, de nossa alma, e que “não veio de fora para nos importunar”.

E é precisamente nesse entendimento, nessa compreensão do que pode e do que não pode ser mudado, que iniciamos finalmente na via da sabedoria; e então, se a total pacificação da alma pode ainda se encontrar distante, fato é que a cada passo neste caminho nos tornamos mais confiantes, mais tranquilos, mais “deboas”…

As coisas se dividem em duas: as que dependem de nós e as que não dependem de nós. Dependem de nós o que se pensa de alguma coisa, a inclinação, o desejo, a aversão e, em uma palavra, tudo o que é obra nossa. Não dependem de nós o corpo, a posse, a opinião dos outros, as funções públicas, e, numa palavra, tudo o que não é obra nossa. O que depende de nós é, por natureza, livre, sem impedimento, sem contrariedade, enquanto o que não depende de nós é fraco, escravo, sujeito a impedimento, estranho. (Manual de Epicteto, I)

Deuses dançarinos

Uma vez Friedrich Nietzsche, o grandioso bigodudo da filosofia alemã, disse que “só poderia crer num Deus que soubesse dançar”.

O que o alemão criticava não era a religiosidade, tampouco a espiritualidade poética de deuses dançarinos, mas antes a sisudez e a ortodoxia do cristianismo de sua época, em que os fiéis se abstinham quase que totalmente de suas experiências místicas, de suas danças sagradas, para reler os relatos antigos das experiências dos outros, de muitos séculos atrás.

Fato é que o cristianismo, de lá para cá, acabou realmente se tornando menos sisudo, menos ortodoxo, e mais carismático, em muitos sentidos, e talvez isso agradasse Nietzsche… Ele certamente preferiria dançar ao lado de Jesus do que ouvir a uma missa, se levantando, sentando e gesticulando junto com os demais, em momentos pré-estabelecidos.

No fundo, o que este e os demais memes quiseram lhes trazer é tão somente uma reflexão bem humorada acerca de tais assuntos transcendentes. Levar a vida muito a sério, sem dançar de vez em quando, não parece ser o caminho mais eficiente para a espiritualidade…

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Crédito das imagens: Raph/Google Image Search

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

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#Cristianismo #memes #Nietzsche

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/memes-para-reflex%C3%A3o-parte-final

Iniciação no Novo Aeon: O Não Aperfeiçoamento da Alma

Tradução: Mago Implacável

Revisão: Maga Patalógica

Faça o que tu queres há de ser tudo da Lei

Nota: originalmente escrito em 20 de abril de 2009

5) Não Aperfeiçoamento da Alma

“A alma é, em sua própria natureza, pureza perfeita, calma perfeita, silêncio perfeito (…) Esta alma nunca pode ser ferida, desfigurada, corrompida”

– “A Alma do Deserto”

Esta idéia está fortemente relacionada com as ideias na última seção do Self como Redentor. Afirmamos neste texto que não é em Deus, em gurus, sacerdotes ou quaisquer autoridades externas que devemos confiar e que é equivocado dizer que “redimimos” a nós mesmos porque não há nada a redimir. Crowley escreve: “A redenção é uma palavra ruim; ela implica uma dívida. Uma vez que cada estrela possui riqueza ilimitada; a única maneira adequada de lidar com os ignorantes é levá-los ao conhecimento de sua herança estrelada” (The Book of Thoth). A “alma” não precisa ser redimida porque é perfeita e pura em si mesma; é apenas devido à ignorância do nosso próprio direito divino inato que nos julgamos imperfeitos e passageiros. Esta “alma” não é a personalidade do indivíduo – o ego-eu que se identifica com a mente e com o corpo -, mas sim o Eu que coexiste com Todas as Coisas.

O Verdadeiro Eu nunca morre, pois está além de toda limitação, contendo todas as coisas e relações dentro de Si. O corpo, assim como a mente, com certeza expirará, mas é somente através dos misteriosos mecanismos dessa mente e corpo que o Eu, além de todos os limites e opostos, pode tornar-se autoconsciente e conscientemente experimentar o arrebatamento da existência. Este Eu não precisa ser redimido ou aperfeiçoado: não há Queda do Homem a ser rectificada (religiões Abraâmicas) nem uma Roda do Sofrimento da qual ser liberada (religiões Dhármicas). Não há nem mesmo qualquer sentido [na ideia] da alma encarnar para alcançar “estados espirituais” cada vez mais elevados ou para [chegar à] “iluminação”. No Novo Aeon, o “ponto de partida” não é um estado caído, sofredor e pecaminoso, mas sim [um estado em que] nós somos todos Reais e Divinos, a Divindade-manifestada e “a existência é pura alegria” (Liber AL II: 9), se ela é vista com olhos que “Vinculam nada!” (Liber AL I: 22), ou seja, olhos que vêem a unidade oculta em dualidades aparentes. Como é dito: “Visto que todas as coisas são Deus, em todas as coisas tu vês tão somente de Deus quanto a tua capacidade te dá” (A Visão e a Voz, 17 Aethyr). O símbolo-metáfora essencial é que a Estrela da Unidade está sempre brilhando, potencialmente consciente, mas nós nos identificamos com o ego-eu e, portanto, estamos atolados em dualidade e limitação (uma vez que você se identifica com o ego, você não é imediatamente o não-ego ou o mundo e, portanto, o mundo se torna Dois em vez de Um). Crowley escreve nesta descrição em The Law is for All:

“Não devemos considerar-nos como seres básicos, sendo apenas esfera de Luz ou ‘Deus’. Nossas mentes e corpos são véus da Luz interior. O não-iniciado é uma ‘Estrela Negra’, e a Grande Obra para ele é tornar transparentes os seus véus, ‘purificando-os’. Esta ‘purificação’ é, na verdade, ‘simplificação’; não é que o véu esteja sujo, mas sim que a complexidade de suas dobras o torna opaco. O Grande Trabalho, portanto, consiste principalmente na solução de complexos. Tudo em si mesmo é perfeito, mas quando as coisas se confundem, tornam-se ‘más’”.

O ponto importante é que “tudo em si mesmo é perfeito”, mas nossas mentes inevitavelmente “confundem” a situação, o que culmina na identificação com o ego em vez do Verdadeiro Eu. Porque todas as coisas são perfeitas em si mesmas, obviamente não precisamos de nenhum tipo de Deus ou guru para conceder redenção, libertação ou iniciação a nós: o aspirante precisa apenas limpar os véus da ignorância em torno da sua Estrela, e o Verdadeiro Eu Vai saltar de dentro de sua consciência e queimar toda a divisão e limitação. Como Crowley explica em The Law is For All,

“Esta ‘estrela’ ou ‘Luz Interior’ é a essência original, individual, eterna (…) Nós somos advertidos contra a idéia de um Pleroma, uma chama da qual somos Faísca, e a qual retornamos quando ‘nos iluminamos’. Isso seria, de fato, tornar toda a maldição da existência separada [uma coisa] ridícula, uma insensata e inescusável insensatez. Isso nos levaria de volta ao dilema do maniqueísmo. A idéia de encarnações ‘aperfeiçoando’ uma coisa originalmente perfeita é, por definição, algo imbecil. A única solução sensata é a dada anteriormente, de supor que o Perfeito desfruta da experiência da (aparente) Imperfeição”.

No Novo Aeon vamos ainda mais longe do que se poderia esperar: a “ignorância” da dualidade também não é inerentemente má ou ruim. Em suma, a dualidade é [considerada] “ignorância” para alguém que ainda se identifica com o ego; mas, uma vez que se tenha dissolvido o ego, e se identificado com o Verdadeiro Eu, é possível reconhecer a dualidade como os meios necessários para a autoconsciência. Para o indivíduo atolado em dualidade e identificação com o ego, “união-dissolução” é sua fórmula, mas quem dissolveu o ego e se identificou com o Verdadeiro Eu tem a fórmula de “criação-parto” (…) e “O Todo, assim sendo entrelaçado com Estes, é a Felicidade” (The book of lies). O corpo e a mente, com suas concepções inerentemente dualistas, são uma prisão de ignorância para os não-iniciados e um templo para realizar o Sacramento da Vida para o iniciado.

É preciso ter a experiência da dissolução do ego para superar o medo mórbido da morte e para aceitar a dualidade não como a condição de nosso sofrimento, mas como a oportunidade para nos regozijarmos na união de diversos elementos (eu e mundo em cada experiência, junto com a União Suprema de ego e não-ego/sujeito e objeto). O mundo é ambos “Nenhum (…) e dois” (Liber AL I: 28). Nenhum, o contínuo, é “dividido pelo amor, pela chance de união. Esta é a criação do mundo, [em] que a dor da divisão é como nada, e a alegria da dissolução [é como]tudo” (Liber AL I: 29-30). Nessa concepção, a dualidade e a “criação do mundo” como a conhecemos (isto é, o mundo dualista normal que comumente habitamos) é na realidade a condição de “chance de união”. Somente se duas coisas estão separadas elas podem se unir e ter a possibilidade da “alegria da dissolução” em que o eu se torna “tudo”. Crowley explica: “Nuit manisfesta o objeto para criar a Ilusão da Dualidade. Ela disse: o mundo existe como dois, pois só assim se pode conhecer a Alegria do Amor, em que Dois é feito em Um. Nada que é Um está sozinho, e sente pouca dor em fazer-se dois, para que possa conhecer a si mesmo, e amar a si mesmo, e se regojizar nela” (“Djeridensis Working”). Desse modo, abraça-se tanto a unidade como a multiplicidade (dualidade) numa Unidade mais elevada.

Esta percepção da “consciência da continuidade da existência” (Liber AL I: 22) não é algo dado por um deus ou um guru, mas um direito inato natural de cada indivíduo. É, como descrito na primeira parte, um passo natural do Crescimento em direção à Maturidade espiritual-psicológica. E isso também nos leva ao ponto final: mesmo este é um passo ao longo do Caminho. Pode ser o “Fim” em certo sentido (o fim do domínio do ego, por exemplo), mas também é o começo, pois “a morte é a vida por vir” (Book of Lies). Ainda temos que viver a vida. Poderíamos dizer: “Antes da iniciação: trabalhar, viver e brincar; depois da iniciação: trabalhar, viver e brincar”, pois a identificação com o Verdadeiro Eu não significa o fim da mente e do corpo, juntamente com suas necessidades normais. De fato, a mente e o corpo – o ego-eu – não são destruídos permanentemente, mas renascem com energia renovada; os véus da ignorância (tanto da dualidade como da falsidade das doutrinas da Queda do Homem e do Sofrimento inerente do mundo) tendo sido arrancados. Não se obtém repentinamente o poder terreno de um rei ou o poder intelectual de Einstein, mas a mudança é algo em grande medida “interno” ou psicológico, pois na iniciação “nada é mudado ou pode ser mudado; mas tudo é entendido mais verdadeiramente a cada passo” (Little Essays Toward Truth, “Mastery”). É essa compreensão de nossos Verdadeiros Eus, além dos véus da mente e do corpo, que cada um de nós se esforça para alcançar para que possamos manifestar nossas vontades no mundo mais efetiva e alegremente. A tarefa é, então, simples, mas difícil: cada indivíduo deve dissolver o ego e sua identificação com ele para se identificar com o Verdadeiro Eu, sempre brilhando, embora não percebamos, e que está além das dualidades e de todas as limitações. No fim, “[t]udo que você tem a fazer é ser você mesmo, fazer a sua vontade e se regojizar” (“A Lei da Liberdade”).

“Nenhuma estrela pode desviar-se de seu curso escolhido: pois na alma infinita do espaço todos os caminhos são infinitos, abrangentes: perfeitos”.

-The Heart of the Master

Amor é a lei, amor sob vontade.

LINK ORIGINAL: https://iao131.com/2010/11/14/new-aeon-initiation-no-perfection-of-the-soul/

#Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/inicia%C3%A7%C3%A3o-no-novo-aeon-o-n%C3%A3o-aperfei%C3%A7oamento-da-alma

Al-Ghazali

Abu Hamid al-Ghazali, também conhecido como Al-Ghazzali ou Algazel (1058-1111) foi um dos mais famosos intelectuais muçulmanos da Idade Média, ele escreveu importantes obras sobre misticismo islâmico, teologia e filosofia que tiveram um efeito duradouro no pensamento religioso muçulmano medieval.

Al-Ghazali nasceu na cidade de Tus, no Irã, onde recebeu seus primeiros estudos antes de se mudar para Nishapur, um importante centro iraniano de aprendizado sunita nos séculos XI e XII.

Entre seus professores mais famosos em Nishapur estava al-Juwayni (m. 1085), um renomado estudioso da teologia Ashari e da jurisprudência islâmica (Fiqh).

Al-Ghazali permaneceu em Nishapur até a morte de al-Juwayni.

Depois, ele se juntou ao círculo de estudiosos patronizados por Nizam al-Mulk (m. 1092), o poderoso vizir turco seljúcida do Império Abássida.

Al-Ghazali logo se tornou um dos principais estudiosos de Bagdá, e em 1091, foi um dos primeiros professores nomeados para integrar o corpo docente da nova Faculdade de Nizamiyya (madrasa), onde ensinou a lei Shafii.

Há informações de que algumas de suas palestras atraíram até 300 alunos, um número invulgarmente grande para uma escola medieval.

O sucesso público de Al-Ghazali como acadêmico e professor o levou a questionar seus motivos e a sinceridade de sua fé, de modo que em 1095, ele se viu incapaz de falar ou de continuar com seu trabalho.

Esta crise espiritual levou-o a renunciar ao cargo, deixando sua família e partindo em um período sabático de 11 anos na Síria.

Durante este tempo, suas explorações se concentraram nos caminhos e ensinamentos do Sufismo.

Em sua autobiografia espiritual, Al-Ghazali escreveu sobre o que ele descobriu durante este longo retiro:

De todas as várias escolas de religião no Islã, “eu sabia com certeza que os Sufis são exclusivamente aqueles que seguem o caminho para o Deus Altíssimo, seu modo de vida é o melhor de todos, seu caminho o mais direto, e sua ética a mais pura” (Al-Ghazali, 56).

Ele voltou a ensinar brevemente na madrasa de Nishapur e fundou um hospício sufi (khanqah) em sua cidade natal, Tus, onde passou seus últimos dias.

Al-Ghazali adquiriu um profundo conhecimento de muitas áreas do pensamento religioso islâmico e abordou seus assuntos de forma sistemática.

Os estudiosos o identificaram como autor de cerca de 60 livros.

Seu livro mais famoso é O Renascer das Ciências Religiosas (ca. 1097), uma obra abrangente que busca casar a prática islâmica com as verdades teológicas e místicas.

Escrito durante seu longo retiro, o livro está organizado em quatro partes:

1) os Cinco pilares do Islã e seu significado espiritual;

2) como conduzir moralmente os assuntos diários – tais como práticas alimentares, casamento, trabalho, viagens e ouvir música – de modo a aproximar-se de Deus;

3) como disciplinar o eu para eliminar as fraquezas humanas tais como desejo, calúnia, inveja e ganância que levam à condenação; e

4) como purificar a alma humana e buscar o caminho para Deus e a salvação.

A última parte também inclui descrições vívidas da morte e do pós-vida, o destino final de todos os humanos.

Dois outros livros bem conhecidos, A Incoerência dos Filósofos (ca. 1095) e O Libertador do Erro (ca. 1108), mostram o saber-fazer de Al-Ghazali – tanto das tradições teológicas e filosóficas de seu tempo como dos diferentes pontos de vista dos estudiosos e dos homens de religião.

Nessas obras, ele procurou demonstrar logicamente o que ele pensava serem as falácias e os erros dos filósofos e teólogos dos Ismaili, isto é, dos xiitas ismaelitas.

Defendendo a escola de teologia ashari à qual ele pertencia, ele sustentou que as verdades religiosas pertencentes a Deus, à criação e à alma não poderiam ser adequadamente sondadas pela mente racional, a não ser pela revelação.

Na opinião de Al-Ghazali, os argumentos de filósofos muçulmanos como Al- Farabi (m. 950) e Ibn Sina, Avicena (m. 1037) contra a existência de almas individuais e a crença em uma ressurreição corporal estavam em conflito com as verdades do Alcorão, assim como sua posição sobre a eternidade do mundo.

A principal crítica de Al-Ghazali aos Xiitas Ismaelitas, que representavam uma séria ameaça à hegemonia sunita durante os séculos XI e XII, era a de que eles davam demasiada autoridade aos seus Imãs.

Os crentes só tinham que reconhecer a existência de Deus e aderir à Umma (a Comunidade Islâmica) de Muhammad para conduzir suas vidas.

Além disso, Al-Ghazali advertiu contra permitir que os plebeus se engajassem em especulações teológicas ou filosóficas, pois isso prejudicaria suas chances de salvação.

Ele também criticou as reivindicações exageradas dos místicos sufistas, que falavam do conhecimento divino e da completa aniquilação do eu em Deus.

Somente Deus pode se conhecer plenamente, escreveu ele, e a aniquilação, se alcançada, é apenas temporária.

As contribuições de Al-Ghazali para a história do pensamento e do misticismo islâmico ainda hoje estão sendo debatidas.

Muitos reconhecem que seus escritos ajudaram a dar um novo significado às práticas muçulmanas, unindo-as aos valores e entendimentos sufistas.

O uso de argumentação lógica em seus escritos teológicos estabeleceu um padrão a ser seguido pelos teólogos muçulmanos posteriores.

As críticas ousadas de Al-Ghazali aos filósofos muçulmanos ecoaram em todo o mundo intelectual muçulmano e obrigaram Ibn Rushd (m. 1198), o filósofo e jurista andaluz, a escrever uma réplica intitulada A Incoerência da Incoerência.

No lado negativo, Al-Ghazali pode ter contribuído para o declínio da reflexão filosófica islâmica pela força de seus argumentos baseados teologicamente contra muitos dos seus principais princípios.

Leitura adicional:

– Massimo Campanini, “Al-Ghazzali.” In History of Islamic Philosophy, edited by Seyyed Hossein Nasr and Oliver Leaman, 258–274 (London: Routledge, 1996);

– Abu Hamid al-Ghazali, Al-Ghazali’s Path to Sufism: His Deliverance from Error, al-Munqidh min al-dalal. Translated by R. J. McCarthy (Louisville, Ky.: Fons Vitae, 2000);

– W. Montgomery Watt, The Faith and Practice of al-Ghazali (London: George Allen & Unwin, 1953).

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Fonte:

Encyclopedia of Islam

Copyright © 2009 by Juan E. Campo

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/al-ghazali/

Yeshua no deserto…

Texto de Huberto Rohden

Antes de iniciar sua vida messiânica, retirou-se Jesus durante quarenta dias ao deserto da Judéia. Depois desse período de solidão e meditação enfrenta ele o “adversário”, que em grego se chama diabolus, e em hebraico shai’tan.

As teologias entendem por esse adversário uma entidade objetiva, externa, que teria tentado Jesus. Entretanto, é bem possível que esse adversário tenha sido a personalidade humana de Jesus, que se opôs ao seu Cristo divino, tentando dissuadi-lo dos seus planos de redenção e abrindo gloriosas perspectivas, em que o ego humano vê redenção.

Durante quarenta dias, havia a personalidade humana de Jesus sido suspensa das suas funções normais; nem a sua natureza física, nem as suas faculdades mentais haviam funcionado durante esse tempo, enquanto o Eu divino do seu Cristo se achava no “terceiro céu” do êxtase ou samadhi.

Era natural que, terminando esse período de ego-banimento, a personalidade humana reclamasse os seus direitos suspensos, tentando e testando a individualidade crística com três invectivas tipicamente humanas: satisfazer a sua fome material, exibir a sua magia mental e apoderar-se do domínio político do mundo inteiro.

O cristo divino derrota o seu adversário humano e dá-lhe ordem de se pôr na “retaguarda” (vade retro) como servidor, e não na vanguarda como senhor, porquanto “a deus adorarás e só a ele prestarás culto”.

A sabedoria milenar do Bhagavad Gita harmoniza-se com essa atitude, quando diz: “O ego é um péssimo senhor, mas é um ótimo servidor da nossa vida”.

O texto sacro não manda o adversário (ego humano) ir-se embora, mas, sim, pôr-se na retaguarda, como dócil servidor do Eu divino do Cristo.

E após esses dias de meditação no deserto, a primeira mensagem que, logo no princípio, dirigiu ao povo é o chamado “Sermão da Montanha”, um grande tratado de paz, que representa o programa da mística divina e da ética humana, visando a total auto-realização do homem…

(Huberto Rohden)

#Espiritualidade #Filosofia #meditação #Universalismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/yeshua-no-deserto

A Magia Maior e a Magia Menor no Satanismo

Magia Maior e Magia Menor (conhecida também como Alta e Baixa Magia ou coletivamente Magia Satânica), dentro do Satanismo LaVeyano, designa tipos de crenças com o termo maior magia aplicada à prática ritual significada como catarse psicodramática para focar as emoções para um propósito específico e magia menor aplicado à prática de manipulação por meio de psicologia aplicada e glamour (ou “astúcia e malícia”) para dobrar um indivíduo ou situação à sua vontade.

TEORIA E DEFINIÇÃO:

 “A magia branca é supostamente utilizada apenas para propósitos bons ou altruístas, e a magia negra, nos dizem, é usada apenas por razões egoístas ou “más”. O satanismo não traça tal linha divisória. Magia é magia, seja usada para ajudar ou atrapalhar. O satanista, sendo o mago, deve ter a habilidade de decidir o que é justo, e então aplicar os poderes da magia para atingir seus objetivos.” – Anton LaVey.

Delineado na Bíblia Satânica, LaVey definiu a magia como “a mudança em situações ou eventos de acordo com a vontade de alguém, que, usando métodos normalmente aceitos, seria imutável”. Esta definição incorpora dois tipos amplamente distintos de magia: maior e menor. De acordo com LaVey, um dos objetivos da magia ritual é “isolar a suprarrenal dissipada e outras energias emocionalmente induzidas, e convertê-la em uma força dinamicamente transmissível”. LaVey definiu magia menor como “astúcia e astúcia obtidas através de vários dispositivos e situações inventadas, que quando utilizadas, podem criar mudanças de acordo com a vontade de alguém”. Dentro deste sistema de magia, os termos feiticeiro e bruxa são mais comumente usados ​​e para se referir a praticantes masculinos e femininos, respectivamente.

LaVey defendia a visão de que havia uma realidade objetiva para a magia, e que ela dependia de forças naturais que ainda não haviam sido descobertas pela ciência. Em vez de caracterizá-los como sobrenaturais, LaVey expressou a visão de que eles faziam parte do mundo natural. Ele acreditava que o uso bem-sucedido da magia envolvia o mago manipular essas forças naturais usando a força de sua própria força de vontade. LaVey também escreveu sobre “o fator de equilíbrio”, insistindo que quaisquer objetivos mágicos deveriam ser realistas. LaVey recusou qualquer divisão entre magia negra e magia branca, atribuindo essa dicotomia puramente à “hipocrisia presunçosa e autoengano” daqueles que se autodenominavam “magos brancos”. Tal neutralidade se correlaciona com a visão filosófica de LaVey de um universo impessoal e, portanto, amoral.

LaVey explica suas razões para escrever A Bíblia Satânica em um pequeno prefácio. Ele fala com ceticismo sobre os volumes escritos por outros autores sobre o assunto da magia, descartando-os como “nada mais do que fraude hipócrita” e “volumes de desinformação e falsas profecias”. Ele reclama que outros autores não fazem mais do que confundir o assunto. Ele zomba daqueles que gastam grandes quantias de dinheiro em tentativas de seguir rituais e aprender sobre a magia compartilhada em outros livros de ocultismo. Ele também observa que muitos dos escritos existentes sobre magia e ideologia satânicas foram criados por autores do “caminho da mão direita”. Ele diz que a Bíblia Satânica contém verdade e fantasia, e declara: “O que você vê pode nem sempre agradar a você, mas você verá!” Muitas das ideias de LaVey sobre magia e ritual são descritas na Bíblia Satânica. LaVey explica que alguns dos rituais são simplesmente psicologia aplicada ou ciência, mas que alguns contêm partes sem base científica. Os Rituais Satânicos, publicado por LaVey em 1972, descreve os rituais com mais precisão. O terceiro livro da Bíblia Satânica descreve rituais e magia. De acordo com Joshua Gunn, estes são adaptados de livros de magia ritual, como Magick de Crowley: Teoria Elementar, mais conhecido como o Liber ABA.

A MAGIA MENOR

 “O significado antiquado de ‘glamour’ é bruxaria. O trunfo mais importante para a bruxa moderna é sua capacidade de ser sedutora, de utilizar o glamour. A palavra ‘fascinação’ tem uma origem similarmente oculta. Fascinação era o termo aplicado ao mau-olhado. Fixar o olhar de uma pessoa, em outras palavras, fascinar, era amaldiçoá-la com o mau-olhado. Portanto, se uma mulher tinha a capacidade de fascinar os homens, ela era considerada uma bruxa.” – Anton LaVey.

A Magia Menor, também conhecida como magia “cotidiana” ou “situacional”, é a prática de manipulação por meio da psicologia aplicada. LaVey escreveu que um conceito-chave na magia menor é o “comando para olhar”, que pode ser realizado utilizando elementos de “sexo, sentimento e admiração”, além da utilização de aparência, linguagem corporal, aromas, cores, padrões , e odor. LaVey escreveu que os termos “fascínio” e “glamour” têm origens no mundo da magia “coercitiva”. A palavra “fascinação” vem da palavra latina “fascinare”, que significa “lançar um feitiço sobre”. Este sistema encoraja uma forma de dramatização manipulativa, em que o praticante pode alterar vários elementos de sua aparência física para ajudá-lo a seduzir ou “enfeitiçar” um objeto de desejo.

LaVey desenvolveu “O Relógio Sintetizador”, cujo objetivo é dividir os humanos em grupos distintos de pessoas com base principalmente na forma do corpo e nos traços de personalidade. O sintetizador é modelado como um relógio, e baseado em conceitos de somatótipos. O relógio destina-se a ajudar uma bruxa a se identificar, posteriormente auxiliando na utilização da “atração de opostos” para “encantar” o objeto de desejo da bruxa, assumindo o papel oposto. Diz-se que a aplicação bem-sucedida da magia menor é construída sobre a compreensão de seu lugar no relógio. Ao encontrar sua posição no relógio, você é encorajado a adaptá-la como achar melhor e aperfeiçoar seu tipo harmonizando seu elemento para melhor sucesso. LaVey explica que, para controlar uma pessoa, é preciso primeiro atrair sua atenção. Ele dá três qualidades que podem ser empregadas para esse propósito: apelo sexual, sentimento (fofura ou inocência) e admiração. Ele também defende o uso de odor.

Dyrendal se referiu às técnicas de LaVey como “Erving Goffman conhece William Mortensen”. Extraindo insights da psicologia, biologia e sociologia, Petersen observou que a magia menor combina ocultismo e “ciências rejeitadas de análise corporal e temperamentos”.

  • No MorteSubita.net há uma seção dedicada a Baixa Magia com diversas informações a respeito.

A MAGIA MAIOR:

Da esquerda para a direita: Karla LaVey, Diane Hegarty e Anton LaVey ritualizando na Casa Negra, a sede original da Igreja de Satã.

A Magia Maior é um ritual realizado para concentrar a energia emocional de uma pessoa para um propósito específico. Esses ritos são baseados em três grandes temas psicoemotivos, incluindo compaixão (amor), destruição (ódio) e sexo (luxúria). Esses rituais são frequentemente considerados atos mágicos, com o satanismo de LaVey incentivando a prática da magia para ajudar os fins egoístas. Muito do ritual satânico é projetado para um indivíduo realizar sozinho; isso ocorre porque a concentração é vista como a chave para a realização de atos mágicos. O ritual é referido como uma “câmara de descompressão intelectual”, onde o ceticismo e a descrença são voluntariamente suspensos, permitindo assim que os magos expressem plenamente suas necessidades mentais e emocionais, não retendo nada em relação aos seus sentimentos e desejos mais profundos. LaVey listou os componentes-chave para um ritual bem-sucedido como: desejo, tempo, imaginação, direção e “O Fator de Equilíbrio” (consciência das próprias limitações). Os rituais LaVeyanos às vezes incluem blasfêmias anticristãs, que se destinam a ter um efeito libertador sobre os participantes. Em alguns dos rituais, uma mulher nua serve de altar; nestes casos, fica explícito que o próprio corpo da mulher se torna o altar, em vez de tê-la simplesmente deitada sobre um altar existente. Não há lugar para orgias sexuais no ritual LaVeyano. Nem animais nem sacrifícios humanos acontecem. As crianças são proibidas de participar desses rituais, com a única exceção sendo o Batismo Satânico, que é especificamente projetado para envolver bebês.

Detalhes para os vários rituais satânicos são explicados no Livro de Belial, e listas de objetos necessários (como roupas, altares e o símbolo de Baphomet) são fornecidas. LaVey descreveu uma série de rituais em seu livro, Os Rituais Satânicos; estas são “performances dramáticas” com instruções específicas sobre a roupa a ser usada, a música a ser usada e as ações a serem tomadas. Esta atenção aos detalhes na concepção dos rituais foi intencional, com sua pompa e teatralidade pretendendo envolver os sentidos e os sentidos estéticos dos participantes em vários níveis e aumentar a força de vontade dos participantes para fins mágicos. LaVey prescreveu que os participantes do sexo masculino devem usar túnicas pretas, enquanto as mulheres mais velhas devem usar preto, e outras mulheres devem se vestir de forma atraente para estimular os sentimentos sexuais entre muitos dos homens. Todos os participantes são instruídos a usar amuletos do pentagrama virado para cima ou da imagem de Baphomet. De acordo com as instruções de LaVey, no altar deve ser colocada uma imagem de Baphomet. Isso deve ser acompanhado por várias velas, todas, exceto uma, devem ser pretas. A única exceção é uma vela branca, usada em magia destrutiva, que é mantida à direita do altar. Também deve ser incluído um sino que é tocado nove vezes no início e no final da cerimônia, um cálice feito de tudo menos ouro, e que contém uma bebida alcoólica simbolizando o “Elixir da Vida”, uma espada que representa a agressão, uma falo modelo usado como aspersório, gongo e pergaminho no qual os pedidos a Satã devem ser escritos antes de serem queimados. Embora o álcool fosse consumido nos ritos da Igreja, a embriaguez era desaprovada e o consumo de drogas ilícitas era proibido.

O livro final da Bíblia Satânica enfatiza a importância da palavra falada e emoção para a magia eficaz. Uma “Invocação a Satã” bem como três invocações para os três tipos de ritual são dadas. A “Invocação a Satã” ordena que as forças das trevas concedam poder ao invocador e lista os nomes Infernais para uso na invocação. A “Invocação empregada para a conjuração da luxúria” é usada para atrair a atenção de outro. As versões masculina e feminina da invocação são fornecidas. A “Invocação empregada para a conjuração da destruição” comanda as forças das trevas para destruir o sujeito da invocação. A “Invocação empregada para a conjuração da compaixão” solicita proteção, saúde, força e a destruição de qualquer coisa que aflija o sujeito da invocação. O resto do Livro de Leviatã é composto pelas Chaves Enoquianas, que LaVey adaptou do trabalho original de Dee. Elas são dados em enoquiano e também traduzidas para o inglês. LaVey fornece uma breve introdução que credita Dee e explica um pouco da história por trás das Chaves Enoquianas e da linguagem. Ele sustenta que as traduções fornecidas são um “desenvernizamento” das traduções realizadas pela Ordem Hermética da Golden Dawn (Aurora Dourada) em 1800, mas outros acusam LaVey de simplesmente mudar as referências ao cristianismo com as de Satã.

Ao projetar esses rituais, LaVey baseou-se em uma variedade de fontes mais antigas, com o estudioso do satanismo Per Faxneld observando que LaVey “montou rituais de uma miscelânea de fontes históricas, literárias e esotéricas”. LaVey brincou abertamente com o uso da literatura e da cultura popular em outros rituais e cerimônias, apelando assim ao artifício, pompa e carisma. Por exemplo, ele publicou um esboço de um ritual que ele chamou de “Chamado a Cthulhu”, que se baseava nas histórias do deus alienígena Cthulhu, de autoria do escritor de terror americano H. P. Lovecraft. Neste rito, programado para acontecer à noite em um local isolado perto de um turbulento corpo de água, um celebrante assume o papel de Cthulhu e aparece diante dos satanistas reunidos, assinando um pacto entre eles na linguagem da ficção de Lovecraft “Old Ones (Os Antigos)”.

  • O Morte Súbita inc tem uma seção inteiramente dedicada a Baixa Magia

RITUAIS E RITOS CERIMONIAIS:

No Livro de Belial, ele discute três tipos de rituais: rituais de luxúria que trabalham para atrair outra pessoa, rituais de destruição para destruir outra pessoa e rituais de compaixão para melhorar a saúde, inteligência e sucesso. Rituais de luxúria são projetados para atrair o parceiro romântico ou sexual desejado e podem envolver a masturbação, com o orgasmo como objetivo. Rituais de destruição são projetados para prejudicar os outros e envolvem a aniquilação simbólica de um inimigo através do uso de sacrifício humano “vicário”, muitas vezes envolvendo uma efígie personalizada representando a vítima pretendida que é então submetida a fogo ritual, esmagamento ou outra representação de obliteração . Os rituais de compaixão são projetados com a intenção de ajudar as pessoas (incluindo a si mesmo), para evocar um sentimento de tristeza ou tristeza, e o choro é fortemente encorajado.

Nos Rituais Satânicos, LaVey faz uma distinção entre o ritual e a cerimônia, afirmando que os rituais “… são direcionados para um fim específico que o performer deseja”, e que as cerimônias são “… evento, aspecto da vida, personagem admirado, ou declaração de fé (…) um ritual serve para atingir, enquanto uma cerimônia serve para sustentar”. LaVey enfatizou que em sua tradição, os ritos satânicos vinham em duas formas, nenhuma das quais eram atos de adoração; em sua terminologia, os “rituais” tinham a intenção de provocar mudanças, enquanto as “cerimônias” celebravam uma ocasião particular.

Um batismo satânico é uma cerimônia para uma criança que se destina a ser um reconhecimento simbólico da criança como tendo nascido satanista e só deve ser realizada para menores de quatro anos, pois LaVey afirmou que além dessa idade, a criança já começou a ser influenciado por ideias “alienígenas”. Os batismos de adultos servem como uma declaração de “fé”, onde “falsidades, hipocrisia e vergonha do passado” são simbolicamente rejeitadas. Em 1967, LaVey realizou o primeiro batismo satânico registrado publicamente na história para sua filha mais nova, Zeena, que ganhou publicidade mundial e foi originalmente gravado no LP, The Satanic Mass (A Missa Satânica). Os Batismos Satânicos foram escritos por LaVey e publicados em Os Rituais Satânicos.

Em fevereiro de 1967, LaVey oficiou o primeiro casamento satânico, o casamento muito divulgado de Judith Case e o jornalista John Raymond. O primeiro funeral satânico foi para o mecânico-reparador naval dos EUA, de terceira classe e membro da Igreja de Satã, Edward Olsen. Foi realizado por LaVey a pedido da esposa de Olsen, completo com uma guarda de honra com capacete cromado. Ambas as cerimônias foram escritas por LaVey, mas nunca foram publicadas oficialmente até 2007, quando As Escrituras Satânicas lançou ao público uma versão adaptada delas pelo atual Sumo Sacerdote da Igreja, Peter H. Gilmore.

Junto com as cerimônias de casamento e funeral, As Escrituras Satânicas de Gilmore também publicou um rito menor de dedicação de objetos cerimoniais, que satiriza os rituais de ‘limpeza’ de outras religiões, e o Ragnarök Rite (Rito do Ragnarök), um ritual escrito por Gilmore na década de 1980 inspirado no o antigo mito nórdico do Ragnarök pretendia expurgar seus participantes da angústia e do ódio despertados após serem vítimas do fanatismo religioso.

A MISSA NEGRA:

LaVey também desenvolveu sua própria Missa Negra, que foi concebida como uma forma de descondicionamento para libertar o participante de quaisquer inibições que desenvolvessem ao viver na sociedade cristã. Ele observou que ao compor o rito da Missa Negra, ele se baseou no trabalho de Charles Baudelaire e Joris-Karl Huysmans.

SIMBOLISMO:

Os Quatro Príncipes Coroados do Inferno:

LaVey utilizou o simbolismo dos Quatro Príncipes Herdeiros do Inferno na Bíblia Satânica, com cada capítulo do livro sendo nomeado após cada Príncipe. O Livro de Satã: A Diatribe Infernal, O Livro de Lúcifer: A Iluminação, O Livro de Belial: Domínio da Terra, e O Livro do Leviatã: O Mar Furioso. Esta associação foi inspirada na hierarquia demoníaca do Livro da Magia Sagrada de Abra-Melin, o Mago.

  • Satã (hebraico) “O Senhor do Inferno”:

O adversário, representando a oposição, o elemento fogo, a direção do sul e o Sigilo de Baphomet durante o ritual.

  • Lúcifer (romano) “A Estrela da Manhã”:

O portador da luz, representando orgulho e iluminação, o elemento ar, a direção do leste e velas durante o ritual.

  • Belial (hebraico) “O Sem Mestre”:

A baixeza da terra, independência e autossuficiência, o elemento terra, a direção do norte e a espada durante o ritual.

  • Leviatã (hebraico) “A Serpente do Abismo”:

O grande dragão, representando o segredo primordial, o elemento água, a direção do oeste e o cálice durante o ritual.

Frases:

Hail Satan (Salve Satã)” uma saudação comum e termo ritual na Igreja de Satã, tanto em sua forma inglesa, Hail Satan, bem como na versão original em latim, Ave Satanas. Quando Ave Satanas é usado, muitas vezes é precedido pelo termo Rege Satanas (“Satã Reina”). (Rege Satanas pode ser ouvido no vídeo de um casamento amplamente divulgado da Igreja de Satã realizado por LaVey em 1º de fevereiro de 1967.) A combinação “Rege Satanas, Ave Satanas, Hail Satan!” é encontrado como uma saudação na correspondência inicial da Igreja de Satã, bem como em sua gravação de 1968, The Satanic Mass (A Missa Satânica) e, finalmente, em seu livro de 1969, A Bíblia Satânica. A frase é usada em algumas versões da Missa Negra, onde muitas vezes acompanha a frase Shemhamforash e é dita no final de cada oração. Este rito foi realizado pela Igreja de Satã aparecendo no documentário Satanis em 1969.

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Principais fontes:

Aquino, Michael (2002). The Church of Satan.

Barton, Blanche (1992). The Secret Life of a Satanist: The Authorized Biography of Anton Lavey. Feral House. p. 86. ISBN 978-0-922915-12-5.

Gilmore, Peter H. (2007). The Satanic Scriptures. Baltimore (MD): Scapegoat Publishing. pp. 131–182.

Gunn, Joshua (2005). “Prime-time Satanism: rumor-panic and the work of iconic topoi”. Visual Communication. 4 (1): 93–120. doi:10.1177/1470357205048939. S2CID 144737058.

LaVey, Anton (1969). The Satanic Bible. Avon.

LaVey, Anton, The Satanic Mass, LP (Murgenstrumm Records, 1968)

Melech, Aubrey (1985). La Messe Noire (PDF). London: Sui Anubis. p. 52. ISBN 0-947762-03-5.

Mortensen, William; Dunham, George (2014). The Command to Look: A Master Photographer’s Method for Controlling the Human Gaze. p. 203.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/a-magia-maior-e-a-magia-menor-no-satanismo/

14 sabedorias de Joseph Campbell

por André Camargo

Joseph Campbell é o cara que criou aquela história da ‘Jornada do Herói’. É também o cara daquele documentário incrível, ‘O Poder do Mito’. Já ouviu falar?

Eu gosto muito. 🙂

Sabe aquela pilha de livros que você morre de vontade de ler, mas nunca dá tempo? Essa pilha só cresce, né?

Imagina que o cara tava lá, contrariado com as exigências arbitrárias do doutorado, e resolveu largar a coisa toda. Aí, alugou um casebre no meio do mato e passou ali, sozinho, os cinco anos seguintes.

Fazendo o quê?

Lendo.

9 horas por dia, todos os dias.

Segundo ele, o período de estudo e recolhimento foi a base de toda sua vida futura, assim como do conjunto de seu pensamento.

O cara leu todos os livros que ele queria, do jeito que ele queria, no tempo dele.

Uau.

Essa é uma passagem emblemática na biografia do cara. Como você verá, o pensamento de Joseph Campbell é um monumento à coragem de viver a vida nos próprios termos.
[Sugestão de Consumo] Vá com calma. Leia cada citação pelo menos duas vezes, antes de seguir em frente.

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(1) “A gente precisa se dispor a abrir mão da vida que planejamos a fim de encontrar a vida que espera por nós.”
Deixar-se guiar pelo próprio coração — e não por planos. Abrir mão do desejo de controle. Destemor e confiança. Abertura. Permitir que o que é vivo em nós se manifeste e nos direcione.

(2) “Qualquer que seja seu destino, o que quer que aconteça, diga: “Isso é o que eu preciso”. Pode parecer devastador, mas olhe para aquilo como uma oportunidade, um desafio. Se você trouxer amor para aquele momento — não desencorajamento — perceberá que existe força naquilo.”
Essa é a filosofia do Amor Fati, de Nietzsche. A Força que vem da aceitação incondicional; render-se incondicionalmente à Vida. Requer uma alta dose de desapego. E, de acordo com a sabedoria oriental, premia com a maior das liberdades.

(3) “Você é o herói (ou heroína) da própria história.”
Na real, acho que a maior parte das pessoas, hoje, vive como coadjuvante da própria história. O que é muito triste e não tem nada de heroico. O desafio é sair da periferia da vida, da posição de vítima das circunstâncias, e tomar a vida nas próprias mãos. O que te faz herói ou heroína é tornar-se a um tempo autor/a e protagonista da própria história.

(4) “A caverna em que você teme penetrar guarda o tesouro que você busca.”
A noite escura da alma, que, dizem, precede o despertar de uma nova consciência. Na linguagem da Jornada do Herói, passamos pela Provação Suprema, o encontro com a Sombra, antes de podermos encontrar o Elixir que cura todas as dores.

(5) “Não acredito que as pessoas estejam buscando pelo sentido da vida, tanto quanto pela experiência de se sentirem vivas.”
O sentido da vida, para ele, não é um tipo de enigma a ser solucionado; o sentido da vida é estar vivo. Estar plenamente vivo dá sentido à existência.

(6) “Siga o que enche seu coração de alegria e o universo abrirá portas onde antes só existiam muros.”
Follow your Bliss. Essa frase é considerada a quintessência do pensamento de Campbell. E bliss é uma palavra danada. Ninguém consegue traduzir direito. Então, eu optei por uma expressão: ‘bliss’ = ‘o que enche seu coração de alegria’. A origem do termo, segundo Campbell, é o sânscrito: ‘ananda’. Que significa êxtase, beatitude ou felicidade suprema.

(7) “O maior privilégio da vida é ser quem você é.”
Sócrates ecoa o Oráculo de Delfos: “Conhece a ti mesmo”. Já ouviu isso? Para os gregos antigos, cumprimos nosso destino humano ao amadurecer as sementes de realização que se manifestam por meio de nossos dons e talentos únicos. Nietzsche reformula: “Torna-te quem tu és”.

(8) “A vida não tem sentido. Cada um de nós tem sentido e nós o atribuímos à vida. É bobagem fazer a pergunta quando você é a resposta.”
Essa é matadora! A vida tem o sentido que a gente dá. Nós mesmos somos a resposta para a questão do sentido da vida… Basta se encarar no espelho.

(9) “A vida é como chegar atrasado ao cinema, ter de sacar o que tava rolando sem perturbar todo mundo com um monte de perguntas, e aí ser inesperadamente chamado de volta antes de descobrir como o filme acaba.”
Adoro essa imagem! Uma metáfora da condição humana simplesmente… cinematográfica.

(10) “O objetivo da vida é sintonizar a batida do seu coração com a batida do universo, sintonizar sua natureza com a Natureza.”
Isso é muito lindo. Como o coração do bebê, que bate no mesmo ritmo que o coração da mãe. Assim é. Assim é.

(11) “Se você de fato segue o que enche seu coração de alegria, você se coloca em um tipo de caminho que sempre esteve lá, à sua espera, e a vida que você deveria estar vivendo é a vida que você está vivendo.”
Como uma semente caída no asfalto. Pode ficar um bom tempo ali, congelada. Se, no entanto, alguma força externa a conduz até um punhado de terra fértil, ela naturalmente se reconecta com a verdade de seu Ser, seu potencial de realização. Ela desabrocha, cresce, floresce, frutifica. Pois aquele solo sempre esteve lá, à sua espera, e a nova vida que ela passa a viver é de fato a vida que ela deveria estar vivendo.

(12) “De repente, você é atirado/a na situação de estar vivo. E a vida é dor, e a vida é sofrimento, e a vida é horror, mas — meu Deus — você está vivo, e isso é espetacular.”
Para Joseph Campbell (assim como na maior parte das filosofias orientais), faz mais sentido substituir a ânsia por saber, essa busca ansiosa por respostas, pela experiência de deslumbramento, de arrebatamento, de assombro e deleite diante do mistério.

(13) “O mundo sem espírito é uma terra devastada. As pessoas têm a ideia de salvar o mundo mudando as coisas de lugar, mudando as regras, e quem está em cima e assim por diante. Não, não! Qualquer mundo é um mundo válido se está vivo. A coisa a fazer é trazer vida a ele, e a única forma de fazer isso é encontrar em si mesmo onde a vida está e tornar-se vivo você mesmo/a.”
A aridez de viver apartado de si! Lembro bem. Sempre me pergunto: como colocar meus dons e talentos, minha pulsação, para fortalecer o que serve à vida —  em qualquer situação?

(14) “Não podemos curar o mundo de seus pesares, mas podemos escolher viver com alegria.”
Um antídoto para a onipotência. Acho que a única maneira de, verdadeiramente, salvar o mundo é salvar a nós mesmos primeiro. Um ser humano plenamente realizado é a mais profunda inspiração para cada um de nós.

#Mitologia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/14-sabedorias-de-joseph-campbell

Jan Amos Cornelius

❝Queremos que todos os seres humanos, juntos ou separados, jovens ou velhos, ricos ou pobres, nobres ou plebeus, homens ou mulheres, possam receber uma educação completa e se tornem pessoas bem sucedidas. Queremos que recebam ensinamentos perfeitos e que sejam treinados não apenas em um ou outro assunto, mas também em todas as leis que lhe permitem compreender sua essência, para aprender a verdade, para não serem enganados por pretensões, para amarem o bem, não serem tentados pelo mal, fazerem o que têm de fazer e distingui-los do que devem evitar, para falar com propriedade de causa sobre tudo com qualquer pessoa e finalmente a sempre tratar todas as coisas, humanos e Deus, com cuidado e não precipitadamente e para nunca se desviarem de sua meta de felicidade.❞

— Jan Amos Comenius —

#Biografias

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/jan-amos-cornelius

A Alta Magia e o Santuário do Silêncio

Por Lyam Thomas Christopher

“O propósito do silêncio”, diz o famoso Cabalista Z’ev ben Shimon Halevi, “é harmonizar todos os aspectos díspares da psique” (Halevi 94). Mas como isto é assim? Por que o adepto é notado tanto por sua calma quanto por sua magia? De fato, um dos símbolos mais marcantes e enigmáticos dos mistérios ocidentais é o gesto de trazer o dedo indicador para os lábios. Na superfície, esta postura comunica a necessidade do sigilo. E, num nível mais profundo e oculto, demonstra um segredo de verdadeiro poder.

A Nova Era é conhecida pelo poder mágico: cura energética, projeção astral, adivinhação, proteção psíquica, afirmações que mudam a vida. Estes temas surgem das lendas dos místicos e magos famosos pelos estranhos fenômenos que os rodeavam. O exame da vida destes homens e mulheres, no entanto, revelará que eles não desenvolveram intencionalmente tais poderes externos. Em vez disso, eles praticaram a disciplina de mergulhar em um lugar secreto dentro de si, na verdadeira natureza do Eu. Foi apenas por acaso que, ao penetrarem neste santuário oculto, várias habilidades se manifestaram. Eles começaram a se lembrar de vidas passadas. Eles podiam projetar seus corpos astrais. Seus ambientes começaram a cooperar com eles, cumprindo suas intenções sem nenhum esforço de sua parte. Eles podiam ver outros lugares nos olhos da mente e alegadamente faziam todo tipo de façanhas estranhas, como caminhar sobre a água, aparecer em dois lugares ao mesmo tempo, e viver por centenas de anos.

Muitos desses mestres alertaram seus alunos para não valorizar o trabalho espiritual por seus efeitos especiais, mas as pessoas ainda hoje perseguem poderes mágicos como tantos cachorros enamorados com suas próprias caudas. A ânsia por resultados de todos os seres humanos, infelizmente para eles, é contrária à disciplina espiritual que produz tais resultados. A preocupação com as manifestações de poder “ruidosas” para fora serve apenas para afastar o estudante de magia do próprio poder que ele procura, cuja fonte está escondida na quietude.

Quando o estudante começa a estudar magia na tradição Golden Dawn (Aurora Dourada), a primeira série em que entra ensina-lhe o mais poderoso de todos os gestos rituais: o Sinal do Silêncio. Para realizá-lo, o aluno se levanta de pé, leva seu dedo indicador esquerdo aos lábios e carimba seu pé esquerdo com suavidade e firmeza. Este ato ritual tem a tendência, mesmo em um estudante não acostumado a trabalhar com a aura, de recolher e assentar qualquer energia psíquica que possa estar vagando por aí.

A tendência natural da mente média movida pelo corpo é a de projetar sua preciosa energia para fora em direção a objetos em seu campo perceptual. Obedecendo aos instintos de sobrevivência do corpo, a mente típica é mantida cativa por uma obsessão em mostrar a si mesma um filme de seu próprio conteúdo. Este tipo de projeção é uma faculdade útil para os animais, pois condiciona a mente a ser atraída pela comida e a fugir dos predadores. No entanto, manter um mundo de fantasia povoado de qualidades atraentes e repulsivas desperdiça uma grande quantidade de energia mental que poderia ser usada para fins mais elevados. Ele mantém a pessoa comum fechada em um mundo de sonhos enervante, no qual objetos externos parecem possuir disposições boas e más. Por exemplo, ele pode guardar rancor para um colega de trabalho na medida em que, não importa o que o colega faça, as expressões faciais parecem demoníacas e maneirismos ameaçadores. Seu inimigo percebido pode até mesmo sorrir para ele, mas ele acaba percebendo o ato como lascivo ou sarcástico. Ou, um homem pode ter uma esposa cruel que o faz lembrar de sua mãe. Não importa o quanto ela o trate mal, ele projeta sobre ela imagens de segurança e de segurança. Ele fica preso em uma ilusão, apaixonado por alguém que ele não suporta. Neste cativeiro onírico, ele não reconhece mais o medo e o desejo como autogerados. Ele permite que eles emanem de objetos externos. Quando uma pessoa deixa de assumir a responsabilidade por suas próprias percepções, quando não se reconhece mais como sua fonte, ela se torna subserviente às circunstâncias e presa por seu ambiente.

O humano moderno, no entanto, evoluiu e está se libertando da necessidade do mecanismo de sobrevivência da projeção – isto apesar do fato de que o mecanismo ainda está ligado ao seu sistema nervoso. Projeções de medo e desejo ainda paira sobre ele, governando suas ações, mesmo quando ele se torna vagamente consciente da possibilidade de crescer além da necessidade desses fantasmas parentais desgastados. Diante do potencial para uma vida livre de ilusões externas, ele deve ter a coragem de seguir em frente. Tendo vislumbrado a irrealidade dos demônios que o impulsionam, ele não pode mais, em boa consciência, submeter-se a eles. É tarefa do estudante de alta magia, portanto, tornar-se consciente desta faculdade de projeção – aproveitá-la, chamá-la de lar, e eventualmente dedicá-la a um propósito superior. O silêncio é uma ferramenta que ajuda a este despertar.

A prática ritual do Sinal do Silêncio ajuda a retirar quaisquer correntes de projeção que você esteja jogando fora no momento. Ao executá-lo, imagine-se voltando ao seu lugar ou “fervilhando”. Pat Zalewski acrescenta uma visualização do Sinal do Silêncio em seu livro Z-5: Ensinamento Secreto da Golden Dawn: “Imagine um vapor aquoso que o rodeia. Este é o refluxo da corrente” (Zalewski 176).

Os estudantes que se tornam gradualmente mais hábeis em conter suas projeções notarão que seus ambientes deixam de ser intimidadores. O medo começa a dissolver-se. Eles crescem mais e mais seguros dentro de si mesmos e menos reativos. Estas experiências são bons sinais de progresso.

O oficial do templo conhecido como Kerux dá uma lição chave sobre o silêncio no ritual Neófito da Golden Dawn. Ele conduz o neófito a uma mesa e lhe mostra dois pratos de líquido transparente. Ele entrega um ao neófito e despeja o conteúdo do outro dentro dele. Os dois produtos químicos reagem e ficam vermelhos no sangue:

“Que isto te lembre, ó Neófito, quão facilmente por uma palavra descuidada ou impensada, você pode trair aquilo que jurou guardar em segredo e pode revelar o conhecimento oculto que te foi transmitido, e implantado em seu cérebro e em sua mente. E que o matiz do sangue te lembre que se falhares neste juramento de segredo, teu sangue poderá ser derramado e teu corpo quebrado…(Regardie 130)”

Anos mais tarde, quando o Neófito tiver alcançado uma nota mais alta, esta lição passará de um aviso sobre o sigilo para um bom conselho sobre a verdadeira natureza do poder mágico. A capacidade de manter um juramento de sigilo é simbólica de uma magia mais profunda que o estudante ainda não descobriu. Em algum momento, o estudante se tornará mais sensível às dimensões superiores e à energia bruta que anima seu corpo físico. Em algum momento, ele se tornará capaz de sentir o mal-estar energético da traição – a sensação de quebrar, romper ou derramar que surge em seu instinto quando ele acidentalmente revela algum detalhe íntimo de seu trabalho mágico a um estranho. Em algum momento, então, ele conhecerá a sensação de integridade danificada, o desequilíbrio e o vazamento de energia, como o sangue de uma ferida.

Por que este tipo de autocontenção é importante? O trabalho ritual diário de um estudante do Golden Dawn estabelece um recipiente selado, no qual pode ocorrer o Grande Trabalho de autotransformação. Este recipiente invisível deve ser cuidadosamente alimentado com silêncio e privacidade. Misturar os detalhes de suas duas vidas diferentes, sua persona pública e sua persona mágica, colocará em risco este ponto focal interno de poder potencial. As palavras faladas a outra pessoa devem ser cuidadosamente monitoradas, pois compreendem um ato ritual que pode sugar a energia de uma área da vida para outra. É melhor então empregar o silêncio como uma barreira, que mantém as delicadas energias formativas de seu trabalho mágico diário isoladas e nutridas das multidões ciumentas. Não seja como o sonhador brincalhão que perde tempo e energia falando de seus sonhos e deixando de agir sobre eles. Seja antes como o artista que não expõe seu trabalho enquanto ele está em meio à criação.

A ideia por trás disto é que a energia bruta generativa, cuidadosamente contida e concentrada, incubará e cultivará energia quintessencial para produzir esclarecimento. A centelha divina que caiu na matéria na criação do universo primordial só germinará quando ela for bem cuidada. E quando o trabalho diário do estudante tiver sucesso, essa centelha florescerá no mundo, expressando a divindade nas circunstâncias de sua vida.

Esta ideia não é realmente nada de novo para a disciplina espiritual. Outras tradições também a ensinam. Na yoga taoísta, o estudante usa a respiração, a visualização, várias posturas de equilíbrio e concentração para aproveitar a energia volátil generativa e acumulá-la para produzir um “embrião espiritual”. Cuidado adequadamente através do silêncio, autocontenção e reclusão, este embrião amadurece e se torna um corpo imortal de luz, capaz de explorar a natureza interior do universo e reencarnar em quaisquer circunstâncias que ele requeira para novas aventuras. O Mestre Zen Kuoan do século XII descreve um processo semelhante em uma série de poemas sobre a criação de bois (Loori xv). O boi que ele gosta da tendência volátil, errante e neurótica da mente. A tarefa do monge zen é domar o boi e montá-lo em casa – sendo “casa” a iluminação. Para realizar este processo ele pratica Zazen, uma espécie de meditação sentada na qual se requer total quietude e centralidade. Nas tradições ocidentais, a Alquimia propõe mais uma versão deste processo, afirmando que o Mercúrio volátil (mente inquieta), às vezes representado por uma serpente, deve ser crucificado (contido e domesticado), para que uma transmutação possa ocorrer. A aplicação de enxofre (concentração) a este Mercúrio fixo faz com que a pedra filosofal mágica se cristalize. Estas diferentes abordagens sugerem uma fórmula universal: Para que o poder mágico se manifeste, a mente deve ser contida, domada e concentrada, de modo que algum tipo de transformação possa ocorrer.

A pedra filosofal é vista simbolicamente como um diamante prismático ou esmeralda. Ela refrata e focaliza a luz. Isto sugere que a energia bruta do corpo pode ser contida e concentrada, criando algo análogo a uma lente. Há muitos magos por aí que se orgulham muito de sua capacidade de controlar essa energia generativa. Eles a empregam para “curar” outros, ou para manipulá-los hipnoticamente. Alguns até mostram sua capacidade de gerar uma carga estática quando entregam um aperto de mão. Mal sabem eles como desperdiçam este precioso recurso quando poderiam estar temperando-o e concentrando-o em silêncio para agir como uma lente para outro tipo de energia, a ilimitada luz espiritual dos Mundos superiores.

A disciplina humilde e alternativa da alta magia requer claramente autocontenção e foco, e isso significa que as filosofias estereotipadas da Nova Era não servirão. A Nova Era muitas vezes confunde moralidade com magia. Ela mistura a tolerância politicamente correta da diversidade com a disciplina espiritual. Consequentemente, isto produz um caldo caótico de técnicas conflitantes, misturando e combinando panteões incompatíveis de deuses e aplicando erroneamente símbolos divergentes de modelos mutuamente exclusivos do universo. Estudantes que vão do yoga ao espiritualismo e à Magia Enochiana acabam não chegando a lugar nenhum rapidamente. Alguns acabam desenvolvendo obsessões e neuroses que beiravam a esquizofrenia. Quando você está tentando alcançar a iluminação, você deve se concentrar em um sistema e uma prática particular, de preferência sob a orientação de um adepto. Para romper a crosta de ilusão do ego, é melhor cavar um todo profundo em vez de muitos outros superficiais.

Quando o estudante é capaz de se conter e centralizar de maneira consistente, o que ele descobre? Tem havido muitas tentativas para descrevê-lo. Alguns o chamam de porta de entrada. No budismo é chamado de “gateless gate” (porta sem porta). No cristianismo, Jesus se refere a ela como o “olho da agulha” pelo qual um homem rico não pode passar. A Golden Dawn representa este portão através dos dois pilares do templo.

Os pilares preto e branco, Jachin e Boaz, representam os opostos em manifestação, as forças contendas entre as quais o espectro de sensação do arco-íris é possível. A maioria das pessoas que olham para o mundo veem apenas a dualidade preto e branco dos dois pilares e o jogo do cabo de guerra entre eles. Elas acreditam que as coisas acontecem no mundo por causa de causa e efeito, porque um pilar inicia uma ação e o outro reage a ela. E assim por diante, para frente e para trás, preto e branco, o bem e o mal. Tais pessoas ludibriadas em seu carma, tipicamente gostam de declarações da Nova Era como “O que acontece, acontece” ou “O que você envia, você recebe três vezes para trás”. Embora haja uma certa realidade nestas declarações em um nível, o mago da alta magia alcança um estado além da causa e do efeito, além da roda da morte e do renascimento, e além das paredes do tempo e da morte.

O que a maioria das pessoas não vê é que, entre os pilares preto e branco, em meio a este espectro de ação e reação, o poder imerge de uma dimensão superior. Ela se manifesta dentro do drama das forças em confronto. Os pilares preto e branco não operam em um vácuo. Eles são dois atores em um drama presidido por uma força que é invisível, além e acima da arena de ação limitada pelo tempo. Há um poder que surge no mundo material que não vem de nada iniciado no próprio mundo material. Ele flui através deste portal invisível. O oficial do templo chamado de Hierofante representa este poder oculto. Ele vem simbolicamente em auxílio do Neófito vendado, passando entre os pilares preto e branco de ação e reação. Ele representa o Eu Superior do neófito e uma alternativa à vida que está enredada no refluxo e fluxo da natureza.

Este é um ponto muito importante, pois demonstra que a mudança é possível através de outros meios que não o esforço físico. Ele aponta a possibilidade do verdadeiro poder mágico que surge através do silêncio de nenhum esforço. Na alquimia, a simples presença da pedra filosofal é suficiente para transformar metais de base em ouro. A mera presença do adepto, da mesma forma, sem esforço, faz com que a mudança se manifeste independentemente das leis de causa e efeito.

O mago não manipula necessariamente o mundo. Ele meramente se transforma no meio da mudança, tornando-se uma fonte de transformação. Alguém observou cinicamente que, mais cedo ou mais tarde, todos os magos desistem da magia e se voltam para o misticismo. Mas, se esses estudantes de magia tivessem sido místicos devotados desde o início, eles se teriam encontrado, sem tentar, no papel de mago.

Obras Citadas:

Halevi, Z’ev ben Shimon. The Work of the Kabbalist. York Beach, ME: Samuel Weiser, 1985.

Zalewski, Pat. Z-5 Secret Teachings of the Golden Dawn/Book I: The Neophyte Ritual 0=0. St. Paul, MN: Llewellyn, 1991.

Regardie, Israel. The Golden Dawn. 6th ed. St. Paul, MN: Llewellyn, 1992.

Loori, John Daido. Riding the Ox Home. Boston: Shambhala, 1999.

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Fonte:

High Magic and the Sanctuary of Silence, by Lyam Thomas Christopher.

https://www.llewellyn.com/journal/article/1266

COPYRIGHT (2006) Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/a-alta-magia-e-o-santuario-do-silencio/

Queima ele, Jesus! – parte I

Postado no Sedentário em 24.09.2008.
Depois destes últimos meses estudando a origem dos demônios inventados pela Igreja Católica e fartamente utilizados pelas evangélicas, vamos retornar no Tempo e passar para dois temas que vocês estavam aguardando: Templários e Rei Arthur. Como veremos a seguir, estas duas histórias estão diretamente associadas aos descendentes de Jesus e Maria Madalena, bem como a guerra política, religiosa e mágica que Roma travou com os ocultistas/cientistas por mais de 1.600 anos.
Para quem chegou agora, eu recomendo ler os posts antigos Bota o Natal na conta do Papa, Yod-He-Shin-Vav-He e Maria Madalena, Pitágoras e Buda, os professores de Jesus e finalmente Seria Yeshua um x-men?
Continuemos, então, com um pouco de história antiga…

Terminamos nossa narrativa histórica no resgate de Yeshua da crucificação, quando os iniciados Essênios conseguem, através de acordos políticos com Pilatos, remover o corpo de Yeshua para o sepulcro (o “Santo Sepulcro”) e curá-lo através de imposição de mãos. Jesus reúne-se com seus apóstolos mais algumas vezes, e isto ficou retratado no Novo Testamento como se fosse uma “ressurreição”.

Mais tarde, ainda temendo a revolução, seus discípulos precisaram separar sua família e enviá-los para locais seguros. Maria Madalena, grávida, foi enviada sob proteção para o Egito, onde permaneceu durante quase um ano, quando se reencontrou com Yeshua no Sul da França. Falaremos sobre a Madonna Negra em posts futuros.
Outro dos filhos de Yeshua foi para Glastonbury, acompanhado de José de Arimatéia, seu tio. O terceiro filho de Yeshua, Barrabás (Barr Abas significa “filho de uma pessoa muito importante”), permaneceu com ele e muitos dizem que acabou se tornando um dos mentores intelectuais da Primeira Grande Revolta dos Judeus, que começa em 66DC. Yeshua termina seus dias na Caxemira.

A revolução começou na Cesárea, quando os judeus atacaram uma guarnição da legião romana em frente a uma sinagoga de Jerusalém, em reação à provocação de alguns gregos. Naquela época, era muito comum a disputa religiosa e filosófica entre Helenistas e Judeus: um grupo de gregos sacrificou pássaros em frente à sinagoga como uma provocação e, como os soldados romanos nada fizeram para impedir, os judeus começaram uma revolta atacando os gregos e os soldados. Esta primeira batalha ficou conhecida como a Batalha de Beth-Horon.
Os romanos estavam em vantagem de 5 homens para cada judeu, mas através de uma guerrilha bem planejada, os soldados treinados de Yeshua conseguiram matar uma legião inteira romana.
Muito puto da vida, o Imperador Nero decidiu acabar com os judeus de uma vez por todas.

Aliás, a vida de Nero não foi fácil: ele teve de lidar com revoltas na Inglaterra (60-61) orquestradas por guerreiros ligados a Boudicea, a rainha das tribos de Iceni e provavelmente pertencente aos clãs que acolheram os descendentes de Yeshua. As tribos daquela região estavam em relativa paz com os romanos, até a morte de Presutagus, marido de Boudicea. Como os romanos não reconheciam mulheres como legítimas herdeiras, o governador das Ilhas não quis reconhecer a autoridade de Boudicea, invadindo seu castelo. Boudicea foi chicoteada e suas filhas estupradas pelos romanos.
Como retaliação, os guerreiros celtas atacaram e destruíram 3 das mais importantes cidades romanas, incluindo Londinun (L0ndres) matando mais de 70.000 invasores no processo. Os rebeldes só retrocederam quando a legião comandada por Gaius Suetonius Paulinus conseguiu derrotá-los na batalha de Watling Street.

Boudicea serviu como uma das bases da heroína celta chamada Gwenhwyfach que muitos séculos depois se tornaria Guinevere, esposa do Rei Arthur. Assim como as outras rainhas celtas, Boudicea possuía concubinos (homens encarregados de lhe dar prazer sexual enquanto o rei estivesse longe em batalhas). Este costume celta irá horrorizar os púdicos católicos muitos séculos depois, e Guinevere terá um “amante” para “consertar” esta narrativa. É uma história interessante que contarei mais para a frente, mas adianto que o termo “carregar chifres” como sinônimo para adultério veio deste costume celta.

No meio destas confusões, Nero fazia o que todo Imperador e Papa romano faz melhor: mandava matar os judeus/cristãos (note que o termo “cristãos” usado aqui se refere aos judeus discípulos e seguidores de Yeshua, não aos católicos apostólicos romanos, como a Igreja mentirosamente quer que você acredite quando chama estes caras de “mártires do catolicismo”). As pessoas que iam para os leões eram judeus, maniqueístas, marcionistas, setianos, essênios, ofitas, bogomilos, valentinos e outras seitas judias.

Em 64, um incêndio de enormes proporções devastou 4 dos 14 bairros de Roma e destruiu severamente outros 7 bairros. Nero acusou os cristãos de cometerem este crime e utilizou todo este processo para dar as desculpas necessárias para inaugurar as festividades de jogar os cristãos na arena com os leões.

Flavio Josefus
Outro personagem importante em nossa história é Mattitiyahu ben Yosef ha-Kohen, fariseu que nasceu em 37 EC (Era Comum ou Depois de Cristo); a data da sua morte não é exata – algo entre 95 e 100 EC. Líder da revolta dos judeus contra o domínio de Roma na década de 60 EC e depois da derrota entregou-se aos romanos, caindo nas graças de Vespasiano – comandante das legiões romanas – ao profetizar que este se tornaria imperador. Como sua profecia se confirmou, ele tornou-se protegido do imperador romano, recebeu o título de cidadão e foi nomeado Flávio, o nome da dinastia romana dominante na época. Flávio Josefo – como é conhecido hoje – passou a residir em Roma e escreveu algumas obras históricas, entre elas “As Guerras Judaicas”, “Antiguidades Judaícas” e “Contra Apião”, fornecendo pormenores da destruição de Jerusalém em 70 EC, da qual foi testemunha ocular, e detalhes sobre outros aspectos da história dos hebreus não registradas na Bíblia.

Sei que esta parte será um pouco chata, mas é necessária para entendermos o que aconteceu com a doutrina de Yeshua após seu exílio. Enquanto o Império romano entrava em guerras cada vez mais violenta contra os judeus, sua expansão em direção às Ilhas Britânicas.

Masada

A única fonte histórica para o episódio é a obra do judeu romanizado Flavius Josephus, “Guerra dos Judeus“. Entretanto, os historiadores modernos concordam que realmente um grupo de Zelotes matou a si e às próprias famílias e incendiou algumas construções em Masada. Vocês lembram quem era um dos líderes dos Zelotes, não? Isso mesmo! Judas, o melhor amigo de Jesus.

Quando os zelotes tomaram a fortaleza em 66, após eliminar uma coorte da Legio III Gallica ali estacionada, encontraram um bem sortido estoque de armas, bem como quantidade de ferro, bronze e chumbo para o fabrico de armas e munição. Os armazéns estavam completos com grãos, óleos, tâmaras e vinho; as hortas forneciam alimentos frescos; os canais, escavados na pedra de calcário, coletavam e conduziam as águas pluviais para grandes cisternas subterrâneas, com capacidade superior a 200 mil galões.
Na Primavera de 73, a fortaleza encontrava-se ocupada por 960 zelotas, incluindo mulheres e crianças, sob o comando de Eleazar ben Yair. Outro comandante zelota, um dos envolvidos na defesa de Jerusalém, era Judas, que havia retirado para Masada após a queda de Jerusalém. A guarnição vinha resistindo por dois anos a um assédio das legiões romanas, constituindo-se no último foco de resistência judaica.
Nesse momento, o governador romano, general Flavius Silva, reassumiu as operações militares no sul da Judéia. Em fim de março, à frente da Legio X Fretensis, marchou de Jerusalém para o Mar Morto.
As tropas tomaram posição diante de Masada, passando a construir oito acampamentos de campanha na planície do lado Oeste da elevação. Foi principada ainda uma muralha de circunvalação ao redor de Masada, com cerca de três metros de altura, que se estendia por mais de duas milhas de comprimento, amparada por fortes e torres.
No lado Oeste, 137 metros abaixo do topo de Massada, e separado por um vale rochoso, havia um promontório chamado de Penhasco Branco. Os engenheiros militares romanos decidiram que, a partir desse promontório, seria construída uma única rampa para o topo do monte, iniciando-se a movimentação de terras.
A rampa assim construída, apresentava um gradiente de 1:3 e uma base de 210 metros. Em pouco tempo alvançou os 100 metros de altura e, em sua extremidade foi montada uma plataforma de 22 metros de altura por 22 de largura. Em seguida, uma torre de cerco de 28 metros de altura foi posicionada contra a muralha. Do seu alto, os artilheiros romanos faziam disparos com os escorpiões e balistas, enquanto que na sua base, um aríete golpeava a base da muralha.

Quando a muralha foi rompida, os legionários que penetraram pela brecha constataram a existência de uma segunda muralha, interna. Ao atacá-la, por sua vez, com o aríete, constatou-se que esta fora construída com vigas de madeira alternadas com pedra, técnica que absorvia os golpes de aríete. Desse modo, a 2 de Maio, promoveu-se o incêndio desta muralha, iniciando-se os preparativos para o assalto final no dia seguinte.
Enquanto isso, na fortaleza, os zelotas acompanhavam os preparativos romanos, constatando a iminência do assalto romano. Durante a noite, decidiram que preferiam morrer a ser escravizados ou mortos pelos romanos. Sacrificaram assim as mulheres e crianças, e depois os próprios defensores, até que restaram apenas dez e o comandante Eleazar ben Yair. Tiraram sortes para ver qual deles sacrificaria os demais. Após cumprir a sua tarefa, o último homem ateou fogo ao palácio, e lançou-se sobre a própria espada, ao lado da família morta.
Na manhã do dia 3 de Maio, os legionários ultrapassaram a brecha aberta na muralha interna, encontrando a fortaleza em silêncio. Chamando os rebeldes à luta, apresentou-se uma anciã seguida por uma mulher jovem, parente de Eleazar, e cinco crianças pequenas, que haviam se escondido em um dos condutos de água subterrâneos.
Masada era conhecida como uma das principais bases de resistência dos judeus. Um dos líderes deste agrupamento não era outro senão Barrabás. De acordo com as lendas templárias, Barrabás foi um dos dez últimos homens a se sacrificar, mas que seus filhos estariam a salvo fora da fortaleza antes do ataque romano. Esta lenda é interessante, porque ela explica a origem de outra lenda que surgiu na Idade Média a respeito dos romanos estarem procurando o “Santo Graal” em Masada, mas que os judeus conseguiram retirá-lo de lá antes do derradeiro ataque. Neste caso, o “Cálice Sagrado” (San Graal, Sangreal, ou simplesmente “sangue real” eram os descendentes de Jesus que estavam em Masada com os zelotes).
Estava encerrada assim a Primeira Revolta dos Judeus.

A Gnose
Gnosticismo designa o movimento histórico e religioso cristão que floresceu durante os séculos II e III, cujas bases filosóficas eram as da antiga Gnose (palavra grega que significa conhecimento), com influências do neoplatonismo e dos pitagóricos. Este movimento revindicava a posse de conhecimentos secretos (a “gnose apócrifa“, em grego) que, segundo eles, os tornava diferentes dos cristãos alheios a este conhecimento. Originou-se provavelmente na Ásia menor, e tem como base as filosofias pagãs, que floresciam na Babilônia, Egito, Síria e Grécia. O gnosticismo combinava alguns elementos da Astrologia e mistérios das religiões gregas, como os mistérios de Elêusis, com as doutrinas do Cristianismo. Em seu sentido mais abrangente, o Gnosticismo significa “a crença na Salvação pelo Conhecimento”.
Entre 100 e 300 DC surgiram muitos grupos cristãos que traziam o conhecimento pregado por Yeshua, derivado tanto da ritualística egípcia quanto dos conhecimentos do oriente.
Entre eles podemos destacar:

Mandeísmo
Mandeísmo é uma religião pré-cristã classificada por estudiosos como gnóstica.
Os mandeístas são assim classificados devido à etimologia da palavra manda em mandeu: conhecimento, que é a mesma palavra gnosis em grego. É considerada uma das religiões gnósticas remanescentes até os dias atuais, junto com o gnosticismo de Samael Aun Weor (que alguns segmentos gnósticos não aceitam).
Os mandeístas veneram João Baptista como o Messias e praticam o ritual do batismo. Possuem cerca de 100.000 adeptos em todo o mundo, principalmente no Iraque.
A religião mandeísta tem uma visão dualística mais estrita que a maioria dos gnósticos. Ao invés de um grande pleroma, existe uma clara divisão entre luz e trevas. O senhor das trevas é chamado de Ptahil (semelhante ao Demiurgo gnóstico) e o gerador da luz (Deus) é conhecido como “a grande primeira Vida dos mundos da luz, o sublime que permanece acima de todos os mundos“. Quando esse ser emanou, outros seres espirituais se corromperam, e eles e seu senhor Ptahil criaram o nosso mundo.
A escritura mandeísta mais importante é o Ginza Rba. A linguagem usada por eles é o mandeu, uma sub-espécie do aramaico.

Basilismo ou Basilíades
Basílides (circa de 117-138) foi um Filósofo gnóstico de Alexandria, possivelmente originário de Antioquia, atual cidade turca na província de Hatay. Admitiu um princípio incriado, o Pai, cinco hipóteses emanadas dele e trezentos e sessenta e cinco céus, um dos quais é o nosso mundo, comandado por YHVH (Yahweh, Jeová ou Javé). Santo Irineu e Santo Hipólito refutaram as suas doutrinas. Basílides foi, com Valentino o mais célebre dos gnósticos.

Carpocratos
Carpócrates de Alexandría foi o fundador de uma seita gnóstica na primeira metade do Século II
Filósofo e teólogo do Século II, suas opiniões são uma mescla de cristianismo e platonismo. Sustentava que o mundo foi criado por anjos caídos. Por isso, esta criação era ruim e somente poderia o homem liberar-se dela através da Gnose, ou ciência divina.
Algumas fontes ligam Carpócrates ao Mandeísmo.

Ceritios (não confundir com Coríntios)
Cerinto (c 100) foi um dos primeiros líderes do antigo gnosticismo que foi reconhecido como herético pelos primeiros Cristãos devido aos seus ensinamentos sobre Jesus Cristo e suas interpretações sobre o cristianismo. Ao contrário dos ensinamentos da Cristandade ortodoxa, a escola gnóstica de Cerinto seguiu a lei Judaica, negando que o deus supremo tinha feito o mundo físico e negando a divindade de Jesus. Na interpretação de Cerinto, o espírito de “Cristo” veio a Jesus no momento do seu batismo, guiando-lhe em todo o seu ministério, mas abandonando-o momentos antes de sua crucificação.
Cerinto, assim como os ebionitas, usava apenas uma versão do evangelho de Mateus como escritura, rejeitando os demais escritos, principalmente os do apóstolo Paulo por o considerarem apóstata da lei. Esforçava-se e se sujeitava aos usos e costumes da lei judaica e à maneira de viver dos judeus. Venerava a cidade de Jerusalém como se fosse a casa de Deus.
Cerinto ensinou numa época em que a relação do Cristianismo com o Judaísmo estava se tornando irreconciliável. Para definir o criador do mundo como Demiurgo, combinou a filosofia grega com os ensinos sincréticos dos gnósticos. Sua descrição de Cristo como um espírito sem corpo que residido temporariamente no homem Jesus combina com o gnosticismo de Valentim.
A tradição Cristã antiga descreve Cerinto como um contemporâneo e oponente de João, o Evangelista, que escreveu o Evangelho segundo João contra ele. Tudo que nós sabemos sobre Cerinto vem da escrita de seus oponentes teológicos.

Maniqueísmo
Filosofia religiosa sincrética e dualística ensinada pelo profeta persa Mani (ou Manes), combinando elementos do Zoroastrismo, Cristianismo e Gnosticismo, condenado pelo governo do Império Romano, filósofos neoplatonistas e cristãos ortodoxos.
Filosofia dualística que divide o mundo entre Bem, ou Deus, e Mal, ou o Diabo. A matéria é intrinsecamente má, e o espírito, intrinsecamente bom. Com a popularização do termo, maniqueísta passou a ser um adjetivo para toda doutrina fundada nos dois princípios opostos do Bem e do Mal.
A igreja cristã de Mani era estruturada a partir dos diversos graus do desenvolvimento interior. Ele mesmo a encabeçava como apóstolo de Jesus Cristo. Junto a ele eram mantidos doze instrutores ou filhos da misericórdia. Seis filhos iluminados pelo sol do conhecimento assistiam cada um deles. Esses “epíscopos” (bispos) eram auxiliados por seis presbíteros ou filhos da inteligência. O quarto círculo compreendia inúmeros eleitos chamados de filhos e filhas da verdade ou dos mistérios. Sua tarefa era pregar, cantar, escrever e traduzir. O quinto círculo era formado pelos auditores ou filhos e filhas da compreensão. Para esse último grupo, as exigências eram menores.
Mais tarde, no Sul da França, os maniqueístas e o druidismo formariam as bases do Catarismo.

Menandritas
Menandro foi um patriarca gnóstico da corrente caldeu-síria, uma das figuras mais importantes do Gnosticismo. Como Simão Mago, era da mesma cidade de seu Mestre e transmitiu os ensinamentos Gnósticos e como também mágicos. A sua doutrina afirmava que a Gnose podia entender e controlar as forças da Natureza. O centro de suas atividades era a cidade de Antioquia. Menandro e seus discípulos afirmavam que havia uma entidade superior ao Demiurgo, o Inefável, na administração do mecanismo Universal. Foi o primeiro Gnóstico a separar as duas entidades.

Marcionismo
Fundado em 144 DC. em Roma por Marcião de Sinope (110-160), um religioso cristão do segundo século, e um dos primeiros a serem denunciados pelos cristãos como um herético.
O Marcionismo rejeita o Antigo Testamento. Alguns cristãos julgam mesmo que os marcionistas sejam Anti-Semitas. A palavra marcionismo é mesmo por vezes usada para referir as tendências anti-judaicas nas igrejas cristãs. Seus textos foram uma das bases que muitos e muitos séculos depois serviram de inspiração para a filosofia da Thulegesselshaft (ordem secreta por trás da filosofia nazista).
Mas Marcião tornou-se famoso em sua época, o que acabou tornando os judeus muito impopulares em Roma (anote isso no seu caderno: naquela época, os judeus eram muito impopulares em Roma! Isto ajudará a entender o porquê de Constantino deturpar tanto a história de Yeshua para se adaptar aos anseios de um povo que desejava um messias mais parecido com Apolo/Mithra do que com um “rei judeu”).

Saturninos
Saturnino de Antioquia: (séc. II DC) foi outro renomado teólogo, foi também um grande Cabalista e profundo conhecedor do Zend Avesta e do Gnosticismo. Seus ensinamentos eram tão conhecidos que até mesmo Papus confessou haver tomado muitas de suas fórmulas como base de estudos. Ele pregava a castidade e abstinência sexual como forma de religação com deus.

Setitas ou Setianitas
O Setianismo foi um grupo de antigos gnósticos, que datam sua existência antes do cristianismo . São assim chamados devido à sua veneração à Sete, que teria sido o escolhido de Deus para a promessa de se organizar uma sociedade humana perfeita . Apesar de ter uma origem judaica ,suas doutrinas tem uma forte influência do platonismo.
Tome cuidado para não confundir: em inglês, este culto é chamado de Sethianism. As vezes muitos confundem com Set, Deus egípcio, a sua veneração em inglês é chamada de Setianism.
Existe um trecho de um texto gnóstico descoberto em 1945 em Nag-Hammadi, no Egito, nomeada “A Revelação de Adão“, onde Adão é referido como pai de Seth e que passou todo o conhecimento secreto a ele: “Estas são as revelações que Adão desvelou ao seu filho Seth; e o seu filho ensinou a seus descendentes. Este é o conhecimento secreto que Adão entregou a Seth; é o santo de batismo daqueles que adquirem o conhecimento eterno…”

Lá pelo século III, havia cerca de 80 a 90 seitas cujos ensinamentos variavam por toda uma gama do Budismo ao Judaísmo ortodoxo, passando pelo Helenismo clássico, com todas as variações possíveis e imaginárias a respeito da divindade de Yeshua, da virgindade de Maria, de Reencarnação e Karma até o Olimpo e Hades (que mais tarde se transformarão no “Céu e Inferno” no catolicismo), sobre a traição ou não de Judas, sobre o culto à Madonna Negra, sobre o Sangue Real, sobre o sexo sagrado e sobre o uso de magia e teurgia, além de debates intermináveis sobre quais textos sagrados cada uma destas facções adotava como verdadeiros.

Na próxima semana: O Imperador Constantino botando ordem no galinheiro.

#ICAR

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/queima-ele-jesus-parte-i

A biologia na alquimia: correlações para uma educação alquímica

Marcelo Ribeiro dos Santos[1]

Carlos Eduardo Albuquerque Miranda[2]

Marcus Alexandre Finzi Corat[3]

I. INTRODUÇÃO

Alquimia. Permanece a grande dúvida fomentada por milênios de ocultamento proposital. Com que intenção? Pura burla? Piada milenar atravessando o tempo com comediantes pontuais extremamente meticulosos? A mentira para obter poder? Deter conhecimentos fictícios sobre a imortalidade e a riqueza infinita para melhor ascender sobre seus contemporâneos? Pouco provável. Alquimistas sempre foram renegados, vivendo à margem da sociedade, mesmo quando favorecidos por algum mecenato ambicioso. Alquimistas, ao que se sabe, tiveram vidas sacrificadas até que conseguissem a Pedra. Mesmo após a coroação de sua obra, não obtinham proveito próprio e viviam humildemente, como parecem sugerir os escritos sobre a vida de Nicolas Flamel. Mas obtinham realmente a Pedra? A Pedra dos Filósofos. A Pedra Filosofal, no caminho para a qual deviam realizar obrigatoriamente o Xir, El Ixir, o Elixir da Longa Vida. Fábulas?

Mas ao invés de especularmos sobre e de antemão descartarmos o conhecimento alquímico, talvez seja proveitoso deitar um olhar mais sereno e ordenado, fugindo dos extremos metafísicos dos realistas, que enxergam a alquimia como precursora da química, ou dos idealistas de verve Junguiana, que a consideram como simbolismo arquetípico de um processo interno de depuração e individuação psíquica. Não vamos aqui discorrer sobre estes dois caminhos já vastamente percorridos, mas sim propor uma análise baseada nos conceitos de Henri Bergson, filósofo Francês do final do século XIX que, apesar de reconhecido em seu tempo com um prêmio Nobel, tem sido sistematicamente relegado ao esquecimento pela Ciência contemporânea.

Utilizaremos aqui uma ferramenta conceitual já testada em outras investigações por nós efetuadas, a qual denominamos “Acordeom de Bergson” (Fig.1). Este apelido visa descrever as qualidades de expansão e contração da memória e as ressonâncias virtuais no objeto, descritas pelo esquema, que representa o que Bergson chama de “memória reflexiva”; aquela que utilizamos quando estamos atentos a um objeto desejando extrair dele, através de um circuito expansivo com nossa memória objetiva (A,B,C,D), as camadas virtuais presentes na memória intuitiva que nos permitam uma apreciação cada vez mais complexa voltada para a ação sobre o próprio objeto (O, B’,C’,D’). A profundidade de visão assim obtida nos permitirá uma versatilidade cada vez maior em nossas ações, ou esboços de ações, passíveis de serem executadas sobre o objeto percebido (BERGSON, 1991).

Figura 1 – o “Acordeom de Bergson”

 

Temos em vista que o objeto de nossa análise não é a Alquimia em si, tão diáfana e impalpável, mas sim os textos e imagens alquímicas que chegaram até nós. São com estes textos e imagens que desejamos fazer circuito, começando com um olhar de criança, que enxerga diferenças e semelhanças óbvias, para gradualmente expandirmos os níveis de complexidade de nossa memória à medida que se desvendam as camadas virtuais dadas nos próprios textos e imagens. Esperamos assim conseguir uma compreensão prática e útil do conhecimento alquímico, saindo da esfera da pura teorização estéril.

 

II. ALQUIMIA

A imediata associação que o pensamento comum nos traz sobre a Alquimia é o seu papel como precursora da química, para a qual contribuiu com diversos achados e técnicas. Esta contribuição pode de fato ter acontecido, porém quando nos deparamos com a materialidade dos textos e imagens que chegaram até nossos dias, nada vemos que nos remeta à química, exceto talvez a construção de misturas e reações entre elementos com o intuito de uma transformação ou produto final diferenciado, assim como, o nome de algumas substâncias principais tais como os Sais, o Enxofre e o Mercúrio. Estas três substâncias são recorrentes, porém também recorrente é a afirmação de que não correspondem às substâncias químicas reativas e vulgares que recebem estes nomes, mas sim, a estados ou “fases” separadas de uma mesma matéria inicial. Temos, portanto, o direito de desfocarmos nossos pensamentos da opinião comum materialista e caminharmos num sentido de análise filosófica metafísica nos levando não mais para o campo da química, mas agora, para as sinergias da alquimia para com as práticas biológicas de cultivo celular. Para delimitar nosso campo de análise, poderíamos começar por determinar o que a alquimia não é:

A atitude e o método do alquimista devem, portanto, ser totalmente distintos daqueles adotados pelo químico. A Alquimia não buscava tão-somente lidar com metais e suas inter-relações, nem mesmo tratar com as matérias das quais se interessava a química, mais ainda, não investigava assuntos que a química tornou de sua alçada. Não encontraremos em trabalhos alquímicos nenhum intento de estabelecer ou concluir catálogo ou tabela de substâncias conhecidas, nem mesmo o cuidado de estabelecer suas propriedades, nem mesmo a intenção de mostrar como uma classe de corpos passa a outra (FLAMEL, 1973).

Mas o que seria então a alquimia? Libertando-nos de preconceitos, podemos lançar mão de nossa ferramenta metodológica para desdobrarmos as camadas virtuais presentes em nosso objeto, atingindo níveis cada vez mais profundos de sua realidade. Ao aplicarmos nossa “memória reflexiva” em seus níveis mais primários, aqueles que detectam apenas diferenças e semelhanças entre objetos percebidos, podemos separar nosso material alquímico em dois grandes grupos: os textos e as imagens.

Vamos nos ater inicialmente aos textos: detectamos textos que se parecem com enredos teatrais, tendo como personagens as substâncias e processos alquímicos, com enredos descritivos e diálogos, os quais dramatizam o que parece ser a descrição de um processo e um protocolo de ação (ex: Zózimo de Panóplis, Maria a Profetiza, CALID apud ZALBIDEA et al., 1980)

Existem também textos semelhantes a receitas, ou protocolos experimentais, com descrições impessoais pormenorizadas dos passos a seguir (BACON apud ZALBIDEA et al., 1980). Outros textos são vinculados a imagens e funcionam como explicação detalhada e descrição destas (ex: Nicolau Flamel, BASÍLIO VALENTIM apud ZALBIDEA et al., 1980). Em todos os casos temos a impressão de estarmos diante de instruções genéricas sobre a consecução de um mesmo processo.

As imagens, quando analisadas em separado, nos apresentam a princípio uma profusão delirante de personagens míticos ou quiméricos, além de objetos e equipamentos os mais variados. Temos símbolos astrológicos em abundância e menções bíblicas. Mas quando abstraímos esta multidão pictórica e nos atemos à composição e ao ordenamento das figuras, vemos claramente os sinais inconfundíveis da Arte da Memória. Poderíamos dizer, modernamente, que há arquitetura gráfica, que distingue um arranjo qualquer de um arranjo que faz parte de um programa de educação visão-memória, historicamente agenciada e que tonar-se recorrente na cultural visual, moderna e contemporâneo (ALMEIDA, 1999; MIRANDA, 2001).

A Arte da Memória clássica e medieval trabalhava basicamente com imagens agentes imaginárias colocadas em construções e “nichos” de memória, que deveriam ser seriados e numerados, permitindo ao operador percorre-los a seu bel prazer, extraindo das figuras impactantes as lembranças de que necessitava (YATES, 2013). Um exemplo bastante explícito deste uso das imagens como arquitetura mental visando a rememoração do processo alquímico encontra-se no Arco pintado por encomenda de Nicolas Flamel e sua esposa Perrenelle na Igreja do Cemitério dos Inocentes, em Paris.

Figura 2 -Arco pintado por Nicolas Flamel no Cemitério dos Inocentes (FLAMEL, 1973)

Em outra linha de figuração alquímica temos o famoso “Mutus Liber” ou “Livro Mudo” (Sulat, 1667), que consiste de uma sequência de imagens com apenas algumas curtas frases de texto. O objetivo explícito desse livro é fornecer ao leitor instruções sobre o processo alquímico somente de modo figurativo, de tal maneira que leitores, em qualquer língua, possam compreender o processo.

O fato é que, quer levemos em conta os textos, as imagens ou ambos, sempre nos deparamos com uma espécie de “receita”, ou melhor, receitas diversas para a consecução de um mesmo processo. Temos alguns elementos básicos recorrentes na alquimia, que podem, no entanto, sofrer acréscimos ou variar em sua ordem de manipulação, aproximadamente da mesma maneira com que, para fazermos pão, precisamos ao menos de farinha, água e calor, porém com os inúmeros acréscimos de ingredientes e diferenças de receita, teremos pães de formatos e sabores variados, porém sempre reconhecíveis como pão.

Temos assim uma instância básica de memória reflexiva que, ao fazer circuito com os textos e imagens alquímicos, recria-os enquanto receitas ou protocolos variados para a obtenção dos mesmos fins: o Elixir da Longa Vida e a Pedra Filosofal, um visando à extensão da vida e a outra à transmutação de metais inferiores em ouro. As imagens relacionadas a estes protocolos compõem um processo educativo que se harmoniza, em alguns casos, com os preceitos da Arte da Memória clássica e medieval, em outros, com a imagética figurativa e didática mais próxima à de Comenius (MIRANDA, 2011). Mas teriam estas receitas tão variadas uma consistência funcional? Para determinar isso teríamos que continuar a utilizar nossa memória de diferenciação, porém agora a aplicando ao conteúdo dos textos e imagens e não mais à sua apresentação genérica. Daqui para frente, pretendemos discorrer sobre a nossa interpretação dos relatos e imagens encontrados nos textos alquímicos rumo à obtenção do elixir da vida e contextualizando-os à prática da cultura de células na biologia dos dias atuais, trazendo-a como fruto de uma memória ressonante. Vamos analisar, na sequência, os 5 conteúdos reconhecíveis como sendo recorrentes ou básicos do processo alquímico: o Fogo Alquímico, a Matéria Alquímica, os Elementos Alquímicos, os Procedimentos Alquímicos, o Elixir de Longa Vida e a Pedra Filosofal.

O Forno Alquímico

Esqueçam a imagem de fornos fumegantes cheios de metal incandescente. O forno principal descrito pelos alquimistas mal pode ser chamado de forno, pois seria mais bem definido como uma estufa. O mesmo tipo de forno é representado tanto nas figuras de Flamel (Fig.2, canto esquerdo e arco central) como minuciosamente desenhado no “Mutus Liber”, conforme demonstra a figura abaixo, que representa um desses “fornos” com uma detalhada visão interna de seu funcionamento.

Figura 3 – Forno Alquímico (ROOB, 1996)

Podemos ver que a fonte de calor é uma simples lamparina colocada na parte mais baixa da estrutura. Isto condiz com as inúmeras recomendações dos alquimistas reiterando que não se deve usar fogo de madeira e que a temperatura deve ser constante e relativamente baixa.

Se esse fogo não é medido na proporção que lhe é própria, diz Calid; se ele é ateado com a espada, diz Pitágoras, se inflamas teu vaso, diz Morienus, e fa-lo sentir o ardor do fogo, ele te trará um revés… Além disso, deves sustenta-los perpetuamente neste calor temperado, isto é, noite e dia… (FLAMEL, 1973)

Podemos ver também um cone sobre a lamparina, sob a estrutura oval onde está o frasco ou “ovo alquímico”, geralmente descrito como sendo de vidro ou cerâmica vitrificada. Este cone pode ser um repositório de matéria vegetal (palha) úmida sobre a qual deveria ficar o “ovo alquímico” (o frasco de vidro contendo a matéria), conforme atestam as diversas menções e figuras alquímicas de galinhas chocando em um ninho de palha. Note-se que o fogo não tem contato direto com a câmara oval acima, servindo apenas para manter aquecido o cone, favorecendo a fermentação da palha que irradia um calor brando e uniforme na câmara oval, exalando também gás carbônico. As duas chaminés laterais distribuem o ar quente pelos lados da estrutura além de levar para o exterior qualquer tipo de fumaça, que não atinge assim a câmara oval, a qual apresenta também uma chaminé para saída do ar quente.

Temos, portanto, o desenho detalhado de uma engenhosa estufa artesanal visando manter uma temperatura tépida constante, umidade e alto teor de gás carbônico em sua câmara principal, devido à lenta fermentação da palha úmida favorecida pelo calor da lamparina que aquece o cone. Este não é o único tipo de forno que aparece nos desenhos alquímicos, mas é claramente o principal deles.

A Matéria Inicial (Matéria-Prima)

O que constitui a Matéria-Prima da Obra? Aqui tocamos no grande arcano dos alquimistas, que se recusam a se referir diretamente a este segredo inviolável, usando sempre linguagem figurativa quando falavam sobre ele. Será mesmo? “Chamaram-lhe semente, que quando se transforma se torna em sangue e logo se coalha e se converte numa espécie de carne composta;…(CALID in ZALBIDEA et al., 1980)”.

Portanto, apesar dos protestos veementes de Flamel que diz não se tratar de sangue – “que é maldoso e vil” -, podemos estar bastante certos de que se trata aqui de matéria biológica relacionada ao sangue, provavelmente de origem humana, o que justificaria plenamente o grande segredo zelosamente mantido, visto que a Idade Média absolutamente não olhava com bons olhos a profanação cirúrgica do corpo humano, ainda que de cadáveres, considerando esta atividade correlata com a bruxaria. Certamente os alquimistas já tinham problemas suficientes…

Os Elementos Alquímicos

Todos os textos são unânimes em afirmar que a Obra é feita a partir da separação e recombinação de elementos extraídos de uma mesma matéria: “O nosso magistério vem primeiramente de uma raiz, que logo se expande e reparte em várias coisas e depois torna-se numa só coisa (CALID apud ZALBIDEA et al., 1980)”.

Perante este fato, fica claro que os três elementos básicos sempre recorrentes na linguagem alquímica, o Mercúrio, o Enxofre (ou Latão) e os Sais, são nada mais que designações de estados ou frações da matéria básica. Os próprios alquimistas repetem incessantemente que não se trata dos elementos químicos vulgares conhecidos com estes nomes.

Filósofos escondem altas lembranças
Que não se dirigem a crianças;
Quando citamos metais vulgares,
Só por figuras disciplinares:
Pois eles sabem que esses metais
São todos mortos (disso falar não mais)
Que jamais retomarão
Substância e vida, antes repousarão[…] (FLAMEL, 1973).

O Mercúrio é descrito como sendo translúcido e branco como a lua, além de líquido e volátil. O Enxofre, algumas vezes designado como Latão, é amarelo alaranjado como o sol e de natureza oleosa ou gelatinosa, através de sua calcinação obtém-se os Sais ou cinzas de natureza seca e em forma de pó. A separação e mistura repetida dessas substâncias oriundas da mesma Matéria viva tem o intuito de potencializar a vitalidade desta, até a consecução do Elixir, considerado a primeira etapa da Obra.

Os Procedimentos Alquímicos

Elaboramos uma listagem comentada dos procedimentos básicos descritos nos textos alquímicos:

Decantação: deposição da parte sólida de um composto por ação da gravidade.

Calcinação: secagem dos elementos através do calor.

Dissolução: solubilização de elementos coagulados.

Separação: separação de elementos por filtragem ou decantação.

Conjunção: reunião de elementos.

Putrefação: coagulação de uma camada negra sobre o Mercúrio, ou meio líquido.

Coagulação: solidificação da matéria líquida.

Umidificação: Saturação das matérias secas com líquido.

Sublimação: extração por destilação ou volatilização.

Exaltação: aumento do poder ou vitalidade do Elixir ou da Pedra Filosofal.

Multiplicação: aumento vegetativo na quantidade do Elixir ou da Pedra Filosofal.

Projeção: transmutação de metais.

O Elixir da Longa Vida e a Pedra Filosofal

A consecução da Obra é a obtenção de um objeto descrito como sendo de textura macia e coloração vermelha, que pode ser usado como panaceia universal, prolongando indefinidamente a vida, ou pode ser utilizado para transmutar metais inferiores em ouro e prata, caso em que é chamado de Pedra Filosofal. No caso da transmutação em metais devia-se deixar este fermento vermelho ou purpúreo incubado durante certo tempo com pó de ouro, após o que adquiriria a propriedade de transmutar chumbo ou mercúrio metálico no mais nobre dos metais. Obtendo assim a imortalidade relativa e a riqueza infinita, o alquimista dá o devido valor à vida, desprezando a mesquinhez e utilizando as bênçãos recebidas para anonimamente auxiliar e curar ao próximo. Percebe-se assim a consistência material e espiritual deste sistema extremamente detalhado de obtenção da felicidade humana.

Não temos de maneira alguma a pretensão de haver esgotado nesta breve resenha toda a riqueza de materiais e procedimentos descritos pelos inúmeros textos e imagens remanescentes, no entanto, o delineamento que fizemos nos fornece uma visão orgânica e genérica do fenômeno que estamos analisando. Poderíamos resumir esta visão genérica como: um conjunto de textos e imagens que esboçam uma receita ou protocolo que é efetuado em estufas, com calor brando e constante, a partir de uma matéria inicial relacionada com o sangue a qual é separada em seus componentes líquido e sólido, os quais são recombinados de diversas maneiras para que se obtenha uma matéria final extremamente vitalizada e capaz de curar e rejuvenescer pessoas e transmutar metais. Tendo assim um bom esboço de nosso objeto, podemos agora expandir nossa memória reflexiva buscando sistemas semelhantes ao que esboçamos. Assim, imediatamente nos ocorre a semelhança surpreendente com um sistema de textos e imagens atuais que conhecemos bem: os protocolos de cultivo de células tronco de medula-óssea.

De acordo com nossa metodologia, podemos agora compor estes dois sistemas em um circuito ressonante, pois verificamos que o cultivo de células-tronco de medula óssea possui todas as características que esboçamos em nosso resumo, visto que é um processo realizado em estufas a partir de um tecido semelhante a sangue espesso, que se encontra no interior dos ossos: a medula óssea. Atualmente utilizam-se meios de cultura comerciais especialmente formulados, porém o “soro” ou plasma sanguíneo; a fração líquida e translúcida do sangue; poderia perfeitamente ser usado como um meio de cultivo natural, desde que previamente preparado para isso através de processos semelhantes àqueles descritos na alquimia.

A utilização de frações purificadas de células mononucleares[1] de medula óssea já demonstrou sua eficácia terapêutica em diversos trabalhos científicos, havendo indícios de rejuvenescimento em animais experimentais (SANTOS, 2010), além da cura de paralisias por sequelas neuronais até então incuráveis (BRITO et al., 2010). Para aqueles que pesquisam nesta área, fica claro que a utilização desta terapêutica só não se generaliza devido às idiossincrasias socioeconômicas de nossa era.

Quanto à transmutação dos metais, sabemos que a utilização de culturas de bactérias e fungos unicelulares para a aceleração da transmutação de metais – por exemplo, o Manganês (Mg) em Ferro (Fe) (VYSOTSKII; KORNILOVA, 2011) – já é uma tecnologia incorporada à ciência das fusões a frio, uma das promessas tecnológicas para a geração de energia limpa. Será então assim tão absurdo pensar que as células-tronco poderiam, mediante certos protocolos de cultivo que desconhecemos, transmutar metais inferiores em ouro?

Mas será que poderíamos realmente conectar o processo alquímico com um protocolo de extração e purificação de células-tronco de medula óssea? Para ilustrar nossa hipótese, faremos uma narração do “Mutus Liber” ou “Livro Mudo” que se compõe de uma série de imagens sem texto as quais intencionam descrever figurativamente o processo alquímico. Nossa narração deverá formular um protocolo de extração artesanal, purificação e cultivo de células-tronco de medula óssea que terá que se adequar consistentemente às imagens alquímicas descritas. Vamos ao nosso experimento.

 

III. O “LIVRO MUDO” FALA

O “Mutus Liber” nos apresenta uma sequência de imagens que fogem bastante à regra da maior parte das imagens alquímicas. Enquanto estas se enquadram nitidamente nos cânones da Arte da Memória clássica e medieval (ver Fig.2) com suas imagens agentes exóticas e surpreendentes que visam despertar correlações mnemônicas, o “Mutus Liber” nos parece mais próximo das pretensões pedagógicas de um sistema contemporâneo a ele, elaborado por Jean Amos Comenius também em meados do século XVII para a educação escolar. Comenius, apesar de nitidamente influenciado pela Arte da Memória medieval, utiliza as figuras como suportes realistas de comentários didáticos. No entanto estas figuras são compostas de maneira a serem independentes do comentário (MIRANDA, 2011).

O “Mutus Liber” nos coloca perante um conjunto de equipamentos e uma sequência ordenada de atos realizados por um casal de personagens que cumprem uma determinada tarefa. O simbolismo aparece também, porém com uma função totalmente secundária e quase “hieroglífica”, ou nominativa, em relação ao conjunto das imagens, que se preocupam mais em figurar minuciosamente um protocolo de ação.

Realizaremos comentários didáticos, ao modo de Comenius, visando complementar as figuras para testar nossa hipótese de que a alquimia, conforme descrita pelos textos e imagens que conhecemos, pode funcionar como uma educação do cultivo artesanal de células-tronco. Para contextualizar nossos comentários, deveremos ter em mente que todo o processo deveria ser feito sem o auxílio da tecnologia que temos hoje, tais como microscópios, estufas elétricas com termostato e meios de cultura comerciais previamente formulados, portanto, teremos que nos orientar, como aparentemente faziam os alquimistas, pela coloração e formato das culturas de células. Além disso, deveremos ter uma etapa de síntese artesanal de um meio de cultivo realisticamente eficiente. Obviamente, utilizaremos nossos conhecimentos e linguagem atuais sobre cultivo de células, de modo a podermos perfazer o circuito que desejamos entre imagem e memória reflexiva.

Outra dimensão que deve ser levada em consideração é a atitude emocional e religiosa dos operadores, que aparentemente tinham uma preocupação com o momento astrológico das atividades e consideravam a oração continua como parte do processo: “Ora lege lege lege relege labora et invenies”[1]. No entanto, não nos ateremos aos fatores afetivo-religiosos em nosso protocolo, buscando apenas coerência técnica entre um protocolo de cultivo viável e as imagens do “Mutus Liber” (ROOB A., 1996)[2].

Deixaremos de fora a capa e a primeira prancha, que não parecem estar envolvidas com a descrição técnica. Destacamos em seu significado apenas o despertar para uma visão mais ampla da realidade. Começaremos nosso protocolo, portanto, a partir da prancha 2:

Prancha 2

Prancha 3

Prancha 2-) acima, temos a matéria inicial representada sob a forma de duas crianças e um homem adulto no interior do balão de vidro ou “ovo alquímico”. Veremos adiante que essa representação figura concretamente as fontes iniciais da obra, que provém de corpos humanos. Abaixo vemos um homem e uma mulher, ele em posição de oração e ela como que testando a temperatura que sai pela chaminé do forno que é na verdade uma estufa, sobre a qual já comentamos. Podemos pensar que a maior sensibilidade tátil e a excelente discriminação de cores das mulheres podem ser fatores indispensáveis na falta de termômetros e microscópios, sendo uma recomendação tradicional que a obra seja efetuada por um casal. Veremos que a mulher está com uma roupa diferente a cada imagem sucessiva e que é ela quem realiza as manipulações, ficando o homem mais como um auxiliar braçal. Esta troca de roupas pode nos sugerir a higiene perfeita, tanto do corpo dos operadores quanto dos objetos utilizados, necessária para o cultivo celular, sem a qual teríamos necessariamente contaminações na cultura. Esta necessidade de higiene e de uma matéria inicial limpa e saudável é destacada no início da Obra por diversos alquimistas.

Tal como o médico que purga as entranhas e limpa as sujeiras por meio dos medicamentos, do mesmo modo os nossos corpos devem ser purgados e limpos de todas as impurezas a fim de que, na nossa geração, o que é perfeito possa produzir operações perfeitas[…] (BASÍLIO VALENTIN apud ZALBIDEA et al., 1980)

 

Prancha 4

 Prancha 5

Nas pranchas com vários quadros (4, 5 e 6), estes serão nomeados como a,b,c,d,e,f. A leitura será feita de cima para baixo e da esquerda para a direita, conforme a escrita ocidental.

Prancha 4-) A formulação do meio de cultura ou Mercúrio dos Filósofos: a) A água de orvalho é despejada no jarro de destilação. b) A água de orvalho é destilada desprezando-se a parte inicial, a “cabeça do corvo”, que conterá uma mancha enegrecida com as substâncias voláteis diluídas no orvalho. Apenas a parte secundária deverá ser destilada e aproveitada. c) O sangue coletado dos operadores é aquecido até que se volatilize toda a parte líquida (Mercúrio volátil) restando apenas a parte sólida calcinada, seca sem queimar (Enxofre sólido). A seguir, repõe-se o líquido com a água de orvalho destilada, obtendo-se um meio de cultura esterilizado pelo calor e com todos os nutrientes necessários, porém sem células vivas: o Mercúrio Filosofal. Este meio de cultura é colocado em uma garrafa de cultivo juntamente com quatro pedaços da “Matéria Inicial”, cuja origem nos é mostrada no quadro seguinte. d) Aqui é mostrada claramente a origem da “Matéria Inicial” dos alquimistas. Trata-se das quatro extremidades do fêmur (epífises) de uma criança recém-morta, colocadas em uma garrafa por um homem de aspecto selvagem com o crescente do Islã no peito (ossos de crianças pagãs?). As extremidades do fêmur de bebês ou de fetos abortados seriam fontes abundantes de medula óssea e, portanto, das chamadas células-tronco pluripotentes, aquelas que ainda são totalmente indiferenciadas. Estas células seriam extremamente vigorosas, ainda possuindo longos telômeros[4] devido à sua juventude, e muito adequadas à terapia celular visando rejuvenescimento e regeneração. Se ao leitor essa correlação entre a figura e a utilização de ossos de bebês parece forçada, então talvez uma figura mais explícita o convença.  Trata-se de uma ilustração do tratado alquímico “Aurora Consurgens”, do século XIV.

Figura 4 – mulher parindo. “Aurora Consurgens” (ROOB, 1996, p.80)

Vemos na figura 4 a representação nua e crua de uma mulher (uma freira?) que acaba de parir ou abortar, oferecendo seu bebê ou feto em uma pequena trouxa para o signo de Leão, cujo astro, o Sol, é símbolo do ouro alquímico. Temos, porém, a mais explícita das declarações em um compêndio anônimo de textos medievais alquímicos publicado no século XVII:

Considero o grão metálico como a medula dos ossos…Nos ossos há também medulas de diferentes espécies, a melhor está no tubo dos ossos, e a outra, menos perfeita, está nas suas extremidades…esta porém está a caminho da perfeição da melhor medula; pois este osso esponjoso é coberto por uma cartilagem, e essa cartilagem é acompanhada de glândulas mucilaginosas, nas quais se coze e prepara a sinóvia, que, sob certos aspectos pode ser vista como uma matéria prima das cartilagens e da medula (anônimo, 2006).

Admirável rebuscamento e meticulosidade na descrição da medula óssea da diáfise dos ossos, contendo células medulares prontas, diferenciadas (“…e a outra, menos perfeita, com células-tronco indiferenciadas, está em suas extremidades…esta porém está a caminho da perfeição da melhor medula;…”) em uma época em que o estudo da anatomia em cadáveres era crime que levava à fogueira!

Nicolas Flamel também é bastante explícito quanto à origem da Obra:

Foram estas as coisas que me obrigaram a pôr essas figuras dessa maneira e num lugar como um cemitério, já que se alguém obtiver o bem inestimável da conquista de este rico velo, que pense como eu, que não se deve manter enterrado o talento de Deus comprando terras e propriedades, que são as vaidades deste mundo, mas que deve socorrer os seus irmãos, recordando-se de que este conhecimento foi adquirido com base nos ossos dos mortos… (FLAMEL apud ZALBIDEA et al., 1980)[5]

Olhando-se a questão deste ângulo, compreende-se o grande interesse de Flamel por um cemitério de crianças e suas doações generosas ao Cemitério dos Inocentes adquirem uma conotação não tão inocente. e) Em uma estufa de gás carbônico artesanal, realiza-se o cultivo da medula óssea de cada uma das cabeças de fêmur, pois há lugar na estufa para quatro frascos de cultivo. Inicialmente deve-se remover toda a medula por meios mecânicos, utilizando-se qualquer instrumento pontiagudo esterilizado no fogo, e colocar o tecido semelhante a sangue espesso em solução no meio nutriente previamente preparado com o precipitado de sangue, plasma e a água destilada. Guardam-se os ossos já limpos de medula para sua utilização em fase posterior (Prancha 5, quadro f). O meio de cultura deve ser trocado constantemente e após algum tempo as células terão formado duas populações: uma, aderente, no fundo do frasco; as chamadas células estromais ou fibroblastóides; e outra população de células não aderentes, as células precursoras de células sanguíneas, ou hematopoiéticas. Quando as células aderentes atingirem confluência, ou seja, quando cobrirem todo o fundo do frasco, é o momento de coletá-las e fazer o repique em baixa densidade, para obter as unidades formadoras de colônias fibroblastóides (CFU-F), que são identificadas como colônias circulares de células no fundo do frasco de cultivo (Kern et al., 2006).

Prancha 5-) a) Um passo interessante se delineia aqui, pois trata-se da preparação de um meio de cultura feito com as células sobrenadantes do cultivo acima descrito. Primeiramente despeja-se o líquido sobrenadante dos quatro frascos de cultivo em outro frasco, repondo-se o meio nutriente novo para as células aderentes. b) Coloca-se o meio retirado com as células em suspensão no destilador. c) O meio é destilado em alta temperatura até aparecer um coágulo de células. d) Após a esterilização e coagulação, repõe-se a fase líquida coletada no destilador e separa-se o meio esterilizado, fase líquida e sólida reunidas, em outro frasco. e) Este meio é entregue ao personagem solar, significando que só será utilizado na segunda parte da Obra: a transmutação biológica de metais em ouro. f) As quatro cabeças de fêmur limpas que haviam sido separadas anteriormente, serão fervidas em água para retirada do colágeno, que será utilizado como substrato na próxima fase.

Prancha 6

Prancha 7

Prancha 6-) a) Verte-se o colágeno dissolvido com as epífises em uma bandeja. Este colágeno formará um substrato macio no fundo do frasco de cultivo, favorecendo a quiescência (não diferenciação) das células tronco (WINER et al., 2009). b) O meio de cultura novo contendo colágeno é filtrado em lã; esterilizada por fervura; sobre um funil, para retirar eventuais fragmentos de osso. c) O meio é esterilizado em alta temperatura. d) O meio de cultivo esterilizado contendo substrato de adesão (colágeno gel) é cuidadosamente colocado em um frasco de cultivo em que são também colocadas as colônias de células aderentes (CFU-F) do cultivo anterior. e) Este frasco de cultivo, contendo as células aderentes dos quatro frascos do cultivo anterior, deverá ter seu meio de cultura periodicamente trocado, realizando-se a lavagem das células que estarão aderidas no substrato de colágeno até que se perceba uma população de células fibroblastóides sobreposta por uma colônia de células-tronco que iniciam o processo de osteogênese, ou diferenciação em células ósseas, indicando a presença de células-tronco pluripotentes na cultura (a criança clara com a mão na boca do adulto vermelho) que deverão com o tempo atingir confluência na camada superior (branqueamento, o adulto e a criança brancos após serem lavados com meio de cultura). Também periodicamente deverá ser feito o repique das células quando estas atingem confluência, o que é figurado como a espada cortante na mão do homem, voltada para o frasco de cultivo. O repique consiste na fragmentação da cultura em novos frascos contendo meio com colágeno, evitando-se a superpopulação e o início da diferenciação “in vitro” das células-tronco.

Prancha 7-) Acima, vê-se aqui a ampola de vidro contendo as células prontas para uso, provavelmente diluídas em solução fisiológica salina, simbolizadas pelo deus Mercúrio. As dez serpentes do caduceu de Mercúrio podem ser lidas como dez doses de células derivadas do processo descrito, utilizando-se as quatro extremidades do fêmur de uma criança. Abaixo, o balão de vidro fechado contendo as células-tronco é mantido na estufa padrão, com calor constante e atmosfera saturada de gás carbônico, devendo o casal de operadores vigiar constantemente a uniformidade, a adequação da temperatura e a vitalidade da cultura, que deverá ser descartada se apresentar sinais de deterioração.

Terminamos aqui a primeira etapa da Obra: a confecção do Elixir da Longa Vida. As mesmas células serão utilizadas na segunda etapa.

É importante esclarecer que este esboço de protocolo tem apenas o detalhamento necessário para que o discurso do cultivo contemporâneo de células se componha harmoniosamente com as imagens. Um protocolo real deverá ter uma miríade de ajustes e detalhes que só poderiam ser determinados com a prática, não sendo nosso objetivo aqui estabelecer se este esboço que propusemos poderia ou não obter sucesso em um cultivo real.

A Transmutação Alquímica dos Metais

A comunidade acadêmica relutou muito em reconhecer a validade dos experimentos de C. L. Kervran e George Ohsawa, que foram os primeiros cientistas a demonstrar experimentalmente que sistemas vivos realizavam rotineiramente, como parte de suas funções fisiológicas, a transmutação de elementos (KERVRAN, 2011). Seus experimentos foram repetidos e, apesar de alguns deles terem sido descartados em face de novos fatos científicos que os invalidavam, outros demonstraram resultados consistentes, tais como os experimentos envolvendo a criação de Cálcio (Ca) por plantas a partir da transmutação do Potássio (K) (KERVRAN, 1982). Porém, Kervran e os cientistas que seguiram sua linha de trabalho trabalhavam com medidas em organismos multicelulares, plantas ou animais, e não com cultivo celular. O impulso neste sentido veio dos experimentos de fusão a frio, fenômeno que envolve a transmutação de elementos em níveis baixos de radioatividade e calor. Este campo de estudos foi ofuscado pelo campo do conhecimento de fusões de altíssima radiação, concretizado nos estudos que redundaram na bomba atômica. O campo muito mais pacífico das fusões a frio ficou durante muito tempo restrito a pequenos grupos de pesquisa com poucas verbas e equipamentos e, no entanto, passos importantes foram dados nos sentido de aperfeiçoar esta tecnologia para a produção limpa de energia (NAGEL, 2011).

Um ramo de estudos das fusões a frio envolve as transmutações biológicas efetivadas por culturas de micro-organismos unicelulares tais como leveduras e bactérias, as quais tem a capacidade de potencializar tremendamente a transmutação de metais pesados em elementos mais leves, sendo muito úteis na inativação de resíduos radioativos. Um experimento bastante impressionante neste sentido é o que demonstra rigorosamente a transmutação de Manganês em Ferro por uma cultura mista de bactérias (VYSOTSKII; KORNILOVA, 2011). Visto que tanto bactérias, que são procariontes (sem núcleo organizado), quanto as leveduras, organismos eucariontes (com núcleo organizado), podem realizar a transmutação nuclear de metais, não vemos razão para pensar que poderia ser diferente com células animais cultivadas. Porém, o experimento simplesmente não foi feito e, portanto, tentar seguir aqui o “Mutus Liber” seria puro exercício de imaginação, ao contrário do primeiro protocolo que apresentamos, embasado em conhecimentos práticos e reais.

 

IV. CONCLUSÃO

Estaríamos forçando a realidade se disséssemos que todas as imagens e textos alquímicos encaixam-se na hipótese aventada neste trabalho. Existe toda uma linha de entendimento sobre a alquimia, a partir do séc. XVII, que trabalha com as chamadas “quintessências” de elementos minerais vegetais e animais. Esta corrente inicia-se com Paracelso e acaba por resultar nos trabalhos que criaram a homeopatia e os florais, já no séc. XIX. Os textos clássicos mais antigos, porém, encaixam-se quase que invariavelmente na abordagem que descrevemos. Ainda assim, não estamos preocupados se desvendamos neste trabalho a verdade histórica. Em realidade, a verdade histórica nos interessa muito pouco, visto que ela não poderá nunca ser absolutamente comprovada. O passado permanece em nossa memória e é nela que devemos procurar os recursos para esclarecer nossas ações presentes. Interessa-nos, portanto, não a verdade, mas sim a conectividade fecunda que um conhecimento histórico pode estabelecer com nossas escolhas.

Na medida em que podemos formar circuitos criativos e funcionais com os objetos que o passado distante nos legou, isso nos basta. O circuito aqui experimentado demonstra-se harmonioso e plausível: assim como o cultivo celular pode esclarecer e dar coerência às imagens e textos alquímicos, estes podem atuar como uma didática do cultivo celular artesanal, sugerindo técnicas e procedimentos que ainda não foram experimentados pela ciência atual, deflagrando um ciclo virtuoso que só pode trazer avanços para o saber científico.

Dentre as possíveis ramificações futuras deste trabalho poderíamos destacar: os experimentos com meios de cultura artesanais feitos a partir de plasma e sangue, a construção de estufas de cultivo de células que dispensem o uso de energia elétrica e a elaboração de protocolos práticos de cultivo passíveis de serem executados com mínima infraestrutura. A experimentação com transmutação de elementos em cultivo de células tronco é também uma vertente muito interessante ainda inexplorada pela ciência oficial. É necessário enfatizar que, a abordagem interdisciplinar que utilizamos, demonstra ser um instrumento poderoso para estabelecer correlações fecundas entre assuntos aparentemente distantes, possibilitando sua aplicação em outras esferas de conhecimento além das que aqui abordamos.

 

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Recebido em: 15/10/2018

Aceito em: 15/11/2018


[1] Biólogo, Mestre em Fisiopatologia Médica e Doutor em Educação. Laboratório OLHO – FE/Unicamp E-mail: jorgeodragao@yahoo.com.

[2] Graduado em Educação, Mestre em Educação e Doutor em Educação. Laboratório OLHO – FE/Unicamp E-mail: ceamiranda@gmail.com.

[3] Biólogo, Doutor em Clínica Médica. CEMIB/Unicamp  E-mail: marcus@cemib.unicamp.br.

[4] Conjunto de células precursoras semi-diferenciadas e células-tronco indiferenciadas.

[5] “Ora, lê, lê, lê, relê, trabalha e encontrarás”. Frase final do “Mutus Liber” (Roob A, 1996).

[6] As Pranchas de 2 a 7 são da versão do “Mutus Liber” contida no Hermetische Museum (Roob, 1996, pp.380-384).

[7] No Hemisfério Norte.

[8] Os telômeros podem ser definidos como uma proteção física contra mutações nas extremidades do DNA cromossômico. A diminuição gradativa dos telômeros é característica do envelhecimento.

[9] Flamel se refere às figuras alquímicas pintadas no arco da Igreja dos Inocentes, doado por ele.

Fonte:
ClimaCom – Inter/Transdisciplinaridade, ANO 05 – N13 – ISSN 2359-470

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-biologia-na-alquimia-correlacoes-para-uma-educacao-alquimica/