O Menino Jesus

Toda poesia de Alberto Caeiro

Num meio-dia de fim de Primavera

Tive um sonho como uma fotografia.

Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte

Tornado outra vez menino,

A correr e a rolar-se pela erva

E a arrancar flores para as deitar fora

E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.

Era nosso demais para fingir

De segunda pessoa da Trindade.

No céu era tudo falso, tudo em desacordo

Com flores e árvores e pedras.

No céu tinha que estar sempre sério

E de vez em quando de se tornar outra vez homem

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer

Com uma coroa toda à roda de espinhos

E os pés espetados por um prego com cabeça,

E até com um trapo à roda da cintura

Como os pretos nas ilustrações.

Nem sequer o deixavam ter pai e mãe

Como as outras crianças.

O seu pai era duas pessoas —

Um velho chamado José, que era carpinteiro,

E que não era pai dele;

E o outro pai era uma pomba estúpida,

A única pomba feia do mundo

Porque não era do mundo nem era pomba.

E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala

Em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que ele, que só nascera da mãe,

E nunca tivera pai para amar com respeito,

Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modelo às outras.

Depois fugiu para o Sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz ao braço direito,

Chapinha nas poças de água,

Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.

Atira pedras aos burros,

Rouba a fruta dos pomares

E foge a chorar e a gritar dos cães.

E, porque sabe que elas não gostam

E que toda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas

Que vão em ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me todas as coisas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.

Diz que ele é um velho estúpido e doente,

Sempre a escarrar no chão

E a dizer indecências.

A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.

E o Espírito Santo coça-se com o bico

E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada

Das coisas que criou —

“Se é que ele as criou, do que duvido.” —

“Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,

Mas os seres não cantam nada.

Se cantassem seriam cantores.

Os seres existem e mais nada,

E por isso se chamam seres.”

E depois, cansado de dizer mal de Deus,

O Menino Jesus adormece nos meus braços

E eu levo-o ao colo para casa.

……

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina

É esta minha quotidiana vida de poeta,

E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.

E que o meu mínimo olhar

Me enche de sensação,

E o mais pequeno som, seja do que for,

Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segredo comum

Que é o de saber por toda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.

A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.

O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro,

Mas vivemos juntos e dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas

No degrau da porta de casa,

Graves como convém a um deus e a um poeta,

E como se cada pedra

Fosse todo um universo

E fosse por isso um grande perigo para ela

Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens

E ele sorri, porque tudo é incrível.

Ri dos reis e dos que não são reis,

E tem pena de ouvir falar das guerras,

E dos comércios, e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos mares.

Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer

E que anda com a luz do Sol

A variar os montes e os vales

E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.

Levo-o ao colo para dentro de casa

E deito-o, despindo-o lentamente

E como seguindo um ritual muito limpo

E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com os meus sonhos.

Vira uns de pernas para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sozinho

Sorrindo para o meu sono.

……

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

……

Esta é a história do meu Menino Jesus.

Por que razão que se perceba

Não há-de ser ela mais verdadeira

Que tudo quanto os filósofos pensam

E tudo quanto as religiões ensinam?

s.d.

“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). – 32.

“O Guardador de Rebanhos”. 1ª publ. in Presença, nº 30. Coimbra: Jan.-Fev. 1931.

As Edições Textos para Reflexão voltam a publicar Fernando Pessoa, ou melhor, Mestre Caeiro. Em Toda poesia de Alberto Caeiro temos ao todo 3 livros – O Guardador de Rebanhos, O Pastor Amoroso e Poemas Inconjuntos –, além de diversos textos adicionais.

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O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

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#FernandoPessoa #Kindle #poesia #Jesus #Paganismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-menino-jesus

Cristo, Buda e Krishna

Hans Küng, teólogo suíço, escreveu: “não haverá paz no mundo se não houver paz nas religiões e não haverá paz entre as religiões se não houver diálogo”. Eu poderia escrever um longo texto sobre tolerância religiosa. Ou quem sabe, sobre o diálogo entre as religiões, suas semelhanças, suas diferenças e etc. Mas preferi me calar e expor o que os próprios representantes do Grande Arquiteto do Universo tem a dizer.

O Conselho dos Avatares

Buda: A causa do sofrimento humano encontra se, sem dúvida, nos desejos do corpo físico e nas ilusões das paixões humanas. Os homens se apegam obstinadamente à vida de riqueza e fama, de conforto e prazer, de excitamento e egoísmo, sem saber que estes desejos são a fonte do sofrimento humano.

Krishna:  Sábios dotados de perfeita sabedoria não se apegam aos frutos do seu trabalho, e com isto se libertam para sempre da escravidão de nascimento e morte, e atingem o estado de beatitude absoluta.

Cristo: Não acumuleis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os destroem, onde os ladrões penetram e roubam. Acumulai para vós tesouros nos céus, onde nem a traça nem a ferrugem os destroem, onde os ladrões não penetram nem os roubam. Pois onde está o tesouro, aí também está o teu coração. 

Buda: O rico se preocupa com seu patrimônio; preocupa-se com sua mansão ou outras propriedades. Aflige-se, enfim, com o desastre que lhe possa acontecer: incêndio em sua mansão, roubos ou sequestro. Preocupa-se com a morte e a disposição de sua fortuna. Com efeito, seu caminho para a morte é solitário: ninguém o acompanhará em sua morte.

Cristo: Por isso vos digo: não vos dê cuidados a vida, o que haveis de comer e o que haveis de beber; nem o vosso corpo, o que haveis de vestir. Não vale, porventura, mais a vida que o alimento, e o corpo mais que a vestimenta?

Krishna: Quem a tudo renuncia, jubiloso, alcança, já agora, a mais alta paz de espírito; mas quem espera vantagem das suas obras é escravizado por seus desejos.

Buda: Muitos homens, por alimentar o amor ao bem-estar do corpo, não percebem os males que seguem o conforto (…)   Estes desejos, que surgem das diferentes sensações, são as mais perigosas armadilhas. Sendo apanhados por elas, os homens se enredam nas paixões mundanas e sofrem. Devem aprender um meio pelo qual possam escapar dessas ciladas.

Cristo: Não andeis, pois, inquietos, nem digais: que havemos de comer? Que havemos de Beber? Com que havemos de nos vestir? Os mundanos é que se preocupam com todas essas coisas. Vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas. Buscai, pois, em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas de acréscimo.

Buda: Se o desejo, que se aloja na raiz de toda paixão humana, puder ser removido, aí então, morrerá esta paixão e desparecerá, consequentemente, todo o sofrimento humano.

Krishna: Porque quando o homem é perfeitamente liberto de todos os desejos do ego finito e alcança a paz da alma pela realização do Eu divino, então é um homem de perfeita sabedoria.

Cristo: Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.

Buda: O meio de vida, isento de toda a paixão mundana e do sofrimento, somente é conhecido através da Iluminação.  Aqueles que buscam a Iluminação devem sempre se lembrar da necessidade de manter constantemente puros o corpo, a fala e a mente.

Cristo: Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.

Krishna: Entretanto, árduo é esse caminho para os que procuram encontrar o Imanifesto por meio de um amor afetivo; difícil é esse caminho para os que ainda vivem em corpo carnal.

Cristo: Entrai  pela porta estreita. Pois larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição – e são muitos os que entram por ele. Quão apertada é a porta e quão estreito o caminho que conduz à vida – e poucos são os que acertam com ele!

Buda: É muito difícil seguir o caminho da Iluminação, mas será muito mais difícil, se os homens não tiverem a mente para procurar este caminho. Sem a Iluminação, haverá infindável sofrimento neste mundo da vida e da morte.

Krishna: Verdade é que o saber espiritual é melhor que o fazer material; porém, melhor que ambos é o amar integral – e isso requer total desapego; quem a tudo renuncia por amor, este está perto da meta final.

Buda: Para se manter o corpo puro, não se deve matar qualquer criatura vivente, não se deve roubar ou cometer adultério.

Cristo: Tendes ouvido que foi dito aos antigos: não matarás e quem matar será réu em juízo, Tendes ouvido que foi dito: “Não cometerás adultério”.

Krishna: Quem não quer mal a ser algum e, liberto do ódio e egoísmo, é benévolo para com todas as criaturas; quem permanece fiel a si mesmo, no prazer e no sofrimento, sempre sereno e paciente, este me é querido.

Cristo:  Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.

Buda: O Esforço Correto significa dar o melhor de si, com diligência, para realizar nobres ações.

Krishna: Quem dá esmola em tempo e lugar corretos, de espírito alegre e por compaixão, inspirado no senso do dever, sem nada esperar em retribuição – este também é guiado pela sapiência da razão.

Cristo: Quando, pois deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, para que tua esmola fique às ocultas; e teu Pai, que vê o que é oculto, te há de recompensar.

Buda: Para se manter pura a fala, não se deve mentir, abusar, ludibriar ou se perder em vãs conversas.  Mas evitar as palavras falsas, inúteis, abusivas e ambíguas.

Krishna: Quem age indeciso, sem rumo certo, sem jeito nem critério, procurando iludir os outros – este age sob o signo do desmazelo.

Cristo: Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna.

Buda: Para se manter pura a mente, deve-se remover toda a cobiça, ira e o falso julgamento.

Cristo: Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir vós.

Krishna: E ainda que a mente volúvel se rebele e tente fugir para longe, disciplina-a pela força do amor e a reconduz ao Ser Supremo.

Buda: À mente impura seguem atos impuros e estes trarão sofrimentos. Assim, é de suma importância que se conservem puros a mente e o corpo.

Cristo: O que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, fornicação, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias.

Krishna: Realmente perseverante é o homem quando domina os impulsos do coração, a força vital e os sentidos – e isso provém do conhecimento da Verdade.

Cristo:  E conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará.

***

Na tentativa de construir um só diálogo,  retirei  as falas de Krishna da Bhagavad Gita, as falas de Cristo dos Evangelhos e as falas de Siddharta Gautama do livro “A Doutrina de Buda”. Os ensinamentos desses três avatares são tão similares, que foi preciso pouco esforço para construir tal diálogo.

Vejo cada religião como uma bela sinfonia, diferentes entre si, tal como as diferenças que percebemos ao ouvir uma sinfonia de Mozart, Beethoven ou Bruckner. Diferenças estéticas à parte, somos capazes de apreciar o que cada uma delas tem de melhor. No fim, todo compositor possui os mesmos recursos: uma pauta de cinco linhas e sete notas. A única diferença é a maneira como elas se organizam.

Fábio Almeida é bacharel em administração de empresas, especializado em filosofia, teologia e história. Um eterno aprendiz, amante das artes e do livre-pensar.

#Cristo #Religiões #Universalismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/cristo-buda-e-krishna

Filmes sobre Tantra

Excerto de Magia Moderna de Donald Michael Kraig

Tradução: Yohan Flaminio

Embora existam filmes que supostamente tratam do Tantra, poucos realmente manifestam a experiência do Mahatantra. No entanto, há dois que aparentemente não têm nada a ver com o Tantra, mas o retratam de maneira brilhante. E você não vai acreditar no que eles são.

O primeiro é Star Trek: The Motion Picture. Nele, um ser semelhante a um deus, V’ger, se manifesta como Ilia, uma mulher. Para que a divindade definitiva evolua, esta fêmea (deusa?) Deve se unir em total unidade com um homem, o comandante Decker. No clímax, eles se abraçam enquanto a energia gira em torno deles. Eles se fundem e a divindade (V’ger), o deus (Decker) e a deusa (Ilia) evoluem e se movem para um plano superior.

O segundo filme foi o último filme de Natalie Wood, Brainstorm. O conceito básico é a invenção de um dispositivo que permite registrar as experiências, incluindo pensamentos e sentimentos, de uma pessoa. Quando outra pessoa reproduz usando um capacete especial, ela pode vivenciar tudo o que foi gravado, incluindo sensações e emoções. Originalmente, quando alguém estava reproduzindo uma gravação, a imagem na tela do cinema ficava repentinamente muito mais ampla e o filme, viajando em uma velocidade mais rápida, era mais realista. Foi uma sensação intensa para a época.

Para se divertir, um dos experimentadores faz uma gravação de si mesmo fazendo sexo com um parceiro voluntário. Um cientista chamado Gordy Forbes acima do peso, farto de seu trabalho e de sua vida – consegue a gravação e faz um loop, para que possa experimentar sexo orgástico indefinidamente…

Quando o encontram, ele está tremendo em um estado de transe! Claro, eles pensam que é algo terrível e o levam para um hospital onde ele se recupera. Ele diz aos personagens principais (interpretados por Wood e Christopher Walken) que não pode mais fazer seu trabalho. Ele mudou com a experiência. Mais tarde, quando o vemos, ele parece mais saudável e está se exercitando.

Toda a sua vida mudou para melhor com a experiência do MahaTantra.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/filmes-sobre-tantra/

Invocação de Cthulhu

“Ó escuro oceano proibido,

que  mentiras escondes em suas profundezas,

lá embaixo além do alcance do homem mortal,

meditando na noite eterna,

muito além daquele reino de raios de sol;

reside uma relíquia de uma era há muito esquecida,

ela se encolhe, esperando, Aguarda seu tempo,

até que mais uma vez irromperá sobre o mundo.

Eu sonhei com esse lugar, 

as torres negras e sujas, 

as torres negras e sujas , 

os pilares de basalto envolvidos pelas algas; 

uma fortaleza dos abismos, cidade antiga,  dos eons de pesadelo, 

Sobre seu pico mais alto ergue-se um colosso cinza, 

um enorme monólito de pedra, perfurado pela passagem de incontáveis anos . 

Esse edifício titã coroa uma cripta, 

onde repousa o grande sacerdote, poderoso Cthulhu, 

mergulhado no sonho de morte, até o alinhamento estrelas, 

então ele se levantará para assombrar as mentes de humanos inferiores, 

quando sua cidadela será lançada no mundo desperto onde ele não é conhecido, 

exceto em cantos distantes do globo,

onde os feiticeiros e xamãs ainda governam ,

e quando a lua está pálida, ficam a sussurrar ladainhas ao seu nome temido . ”

 

Uma das associações que podemos fazer sobre os  mitos de Cthulhu , o grande sacerdote dos Antigos,  é sua função como o senhor dos sonhos. “Quando Cthulhu se agita em  seu ‘ sonho de morte “, a onda telepática resultante envia uma onda de caos á todo o mundo – o humano sensível enlouquece, e ocultistas se prepararam para um evento portentoso (ver Lovecraft “The Call of Cthulhu “). O oceano profundo, o local escondido onde Cthulhu sonha, dentro da cidade submersa de R’Lyeh , pode ser tomado como uma referência para as profundezas da psique – o subconsciente ou mente profunda , dentro do qual se encontram as memórias de estágios pré-humanos da vida. Note-se que , dos Grandes Antigos , Cthulhu é o mediador entre a Terra, a consciência humana , e os verdadeiramente alienígenas como Azathoth ou Yog- Sothoth . Cthulhu é uma forma- deus adequada para a estimulação de ” envios ” telepáticos e R’Lyeh a ‘ porta de entrada ‘ para a consciência coletiva . Esta premissa foi o tema de uma série de trabalhos realizados entre 1979-1980 , o envio de uma ‘ vibração ‘  á toda a região de West Yorkshire , atuando como uma espécie de telegrama psíquico para colocar outros ocultistas em contato com o método de Fra. Zebulon :

 

Uma câmara em escuridão total. Efeitos de áudio sugerindo um leve sussurro –  sussurros lembrando sons aquáticos. Os preparativos para os ritos incluem jejum, privação de sono e imersão prolongada em água fria. A sequência de visualização é a seguinte: um redemoinho no qual se é arrastado – que se desloca através das profundezas do oceano , acompanhado por um sentimento de grande pressão com estranhas  formas  de vida do fundo do mar girando junto no redemoinho. Então , ao longe, avista-se vagamente a forma  de edifícios ciclópicos  – a geometria louca de R’Lyeh . Então, o grande monólito cinza que coroa o túmulo de Cthulhu pode ser identificado. Neste momento, um sigilo especialmente preparado (o glifo de sua intenção mágica) é arremessado para o monólito e por uma fração de segundo , ele brilha intensamente contra a superfície da pedra.  Um emerge em resposta  – toda R’lyeh treme e o mago é atingido por uma onda de força que o leva a uma grande velocidade de volta à superfície e o estado de vigília normal. Cthulhu foi agitado e essa breve ondulação vai ser percebida – aqueles que estão despertos para a chamada irão responder em seu próprio tempo .

Notas;

1. Não é considerado aconselhável ir muito perto de r’lyeh  – e melhor (tratá-la ou tratá-lo¿)  como a teia do demônio que está entre o humano e o espaço não humano, ou os Túneis de Set em Nightside of Eden de Kenneth Grant.

2. R’Lyeh, foi recentemente identificado com Nan-Madol, uma cidade de pedra arruinada consistindo de ilhotas artificiais na ilha do Pacífico de Ponape. De acordo com lendas locais, a cidade “caiu do céu”, e foi habitada por uma raça de deuses.

3 Partes desse rito aparecem no “The Handbook of Chaos Magic” publicado na Áustria por Fra.717

Por: Fra. Zebulon – trad. Giuliana

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/invocacao-de-cthulhu/

Arcano 13 – A Morte – Nun

Esta carta, comumente designada como “Morte”, não tem nome algum inscrito no tarô de Marselha, nem em suas variantes mais significativas.

Um esqueleto revestido por uma espécie de pele tem uma foice nas mãos. Do chão negro brotam plantas azuis e amarelas, e diversos restos humanos. O fundo não está colorido.

No primeiro plano, à esquerda, uma cabeça de mulher; à direita, uma cabeça de homem com uma coroa.

Um pé e uma mão aparecem também no chão; outras duas mãos – uma mostrando a palma e outra as costas – brotam atrás, ultrapassando a linha do horizonte.

O esqueleto está representado de perfil e parece dirigir-se para a direita. Maneja a foice, sobre a qual apóia as duas mãos. Em algumas variantes, seu pé direito não está visível.

Para o iniciante, mostra-se como a carta mais temível, mas os estudos simbólicos ajudam a entender um outro sentido no plano da evolução humana.

Significados simbólicos

Grandes transmutações e novos espaços de realização.

Dominação e força. Renascimento, criação e destruição.

Fatalidade irredutível. Fim necessário.

Interpretações usuais na cartomancia

Fim de uma fase. Abandono de velhos hábitos.

Profundidade, penetração intelectual, pensar metafísico. Discernimento severo, sabedoria drástica. Resignação, estoicismo, dom para enfrentar situações difíceis. Indiferença, desapego, desilusão.

Mental: Renovação de idéias, total ou parcial, porque algo vai intervir e tudo transformar; como um fenômeno catalisador ou um corpo novo que modifica totalmente a ação do corpo atual.

Emocional: Afastamento, dispersão. Destruição de um sentimento, de uma esperança.

Físico: Morte, perdas, imobilidade. Completa transformação nos negócios ou atividades.

Sentido negativo: Do ponto de vista da saúde, estagnação de enfermidade ou processo. A morte poderá ser evitada, mas em troca de uma lesão incurável. Segundo sua posição, pode significar a morte, em seus múltiplos matizes, mas também maus acontecimentos, más notícias.

Prazo fatal. Xeque-mate inevitável, mas não provocado pela vítima.

Ânimo baixo, pessimismo, perda de coragem. Suspensão de um processo para começar de modo diametralmente oposto.

História e iconografia

E provável que a alegoria da morte representada como um esqueleto com a foice, seja original do Tarô; se isto for verdade, trata-se de uma das contribuições fundamentais feitas pelas cartas à iconografia contemporânea, considerando a ampla popularidade desta metáfora macabra.

Van Rijneberk divide o estudo deste arcano em três aspectos: o número treze, o esqueleto, a foice. Como emissário de uma premonição sombria, o treze tem seu antecedente cristão nos comensais da Última Ceia, de onde a tradição extraiu um conto bastante popular da Idade Média: quando treze pessoas se sentam à mesa, uma delas morrerá em breve.

Esta superstição seria herdeira de outras versões mais antigas: Diodoro da Sicília, contemporâneo do imperador Augusto, explica desse modo a morte de Filipe da Macedônia, cuja estátua havia sido colocada junto as dos 12 deuses principais, dias antes de ser assassinado.

Simbolicamente, o 13 é a unidade superadora do dodecadenário, ou seja, a morte necessária de um ciclo completo, que implica também – ainda que este aspecto tenha sido esquecido na transmissão popular – a idéia conseqüente de renascimento.

Na arte cristã primitiva não há traços deste simbolismo durante os primeiros séculos, o que não parece estranho se considerarmos as idéias centrais dos catecúmenos: a morte entendida como pórtico de uma vida melhor, a confiança na proximidade do Juízo Final (e a conseqüente ressurreição da carne); a absoluta falta de medo frente a um estado transitório.

O esqueleto propriamente dito só aparece em todo o seu esplendor nas Danças da morte, disseminadas pelos cemitérios e claustros europeus, quase que simultaneamente, e com certeza não antes do séc. XV.

O tema das composições desse período mostra-se idêntico em todos os lugares: o esqueleto se apodera (o matiz está apenas no grau de violência ou gentileza) de criaturas humanas de ambos os sexos, de qualquer idade e condição.

Outro elemento que as Danças da morte têm em comum é que todas são posteriores ao Tarô, de cuja popularidade puderam extrair o encanto de suas imagens.

Nestas danças, no entanto, não há esqueletos com foices, mas sim com diversos objetos (uma espada, um arado, um par de tesouras, um arco e flechas) que se referem em geral ao ofício da pessoa que será levada pela morte.

Em Joel (4,13), Mateus (13,39), Marcos (4,29) e no Apocalipse (14,14-20) podem ser encontradas metáforas bíblicas em que se fala da foice como instrumento de justiça empunhado por Jeová, pelo Filho do Homem e, mais tarde, pelos anjos: como derivação deste princípio moral.

Os esotéricos não vêem a morte como falha ou imperfeição: as formas se dissolvem, variam de aparência quando se tornam incapazes de servir ao seu destino. Desse modo, entre o Imperador e a Morte (primeiros termos do segundo e do quinto ternário, respectivamente), há apenas uma diferença de matizes: ao esplendor máximo do poder e da matéria sucede sua extinção, que é uma conseqüência lógica e também uma necessidade. Como parábola do processo iniciático em oposição à vida corrente, é talvez o arcano mais explícito: “O profano deve morrer – lembra Wirth – para que renasça a vida superior que a Iniciação concede”.

A morte guarda relações simbólicas com a terra, com os quatro elementos, e com a gama de cores que vai do negro ao verde, passando pelos matizes terrosos. Também é associada ao esterco, menos pelo que este tem de desagradável do que pelo processo de transmutação material que representa.

Por Constantino K. Riemma
http://www.clubedotaro.com.br/

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/arcano-13-a-morte-nun

Barbelo: A Deusa no Gnosticismo

Barbēlō (grego: Βαρβηλώ) refere-se à primeira emanação de Deus em várias formas de cosmogonia gnóstica. Barbēlō é frequentemente descrita como um princípio feminino supremo, a único antecedente passivo da criação em sua multiplicidade. Esta figura também é chamada de ‘Mãe-Pai’ (sugerindo sua aparente androginia), o ‘Primeiro Ser Humano’, ‘O Triplo Nome Andrógino’, ou o ‘Aeon Eterno’. Tão proeminente era seu lugar entre alguns gnósticos que algumas escolas foram designadas como os Barbeliotae, os adoradores de Barbēlō ou os gnósticos de Barbēlō.

NA BIBLIOTECA DE NAG HAMMADI:

No Apócrifo de João, um tratado da Biblioteca de Nag Hammadi contendo o relato mais extenso do mito da criação setiana, a Barbēlō é descrita como “o primeiro poder, a glória, Barbēlō, a glória perfeita nas eras, a glória da revelação”. Todos os atos subsequentes de criação dentro da esfera divina (exceto, crucialmente, o de Sophia, no aeon mais baixo Sophia) ocorrem através de sua coação com Deus. O texto a descreve assim:

“Este é o primeiro pensamento, sua imagem; ela se tornou o ventre de tudo, pois é ela que é anterior a todos eles, a Mãe-Pai, o primeiro homem (Anthropos), o Espírito Santo, o três vezes masculino, o três vezes poderoso, o andrógino três vezes nomeado, e o aeon eterno entre os invisíveis, e o primeiro a surgir.”

Barbēlō é encontrada em outros escritos de Nag Hammadi:

– O Alógenes faz referência a um Espírito Duplo Poderoso Invisível, uma virgem masculina, que é a Barbēlō.

– O Livro Sagrado do Grande Espírito Invisível refere-se a uma emanação divina chamada ‘Mãe’, que também é identificada como Barbēlō.

– Em Marsanes — vários lugares.

– Em Melquisedeque – duas vezes, a segunda vez em uma oração de Melquisedeque:

“Santa és tu, Santa és tu, Santa és tu, Mãe dos aeons, Barbelo, para todo o sempre, Amém.”

– As Três Estelas de Seth oferecem uma descrição do “primeiro aeon, a virginal masculina Barbelo, a primeira glória do Pai invisível, aquela que é chamada ‘perfeita’”.

– A Protenoia Trimórfica (o ‘Primeiro Pensamento em Três Formas’), mesmo na primeira pessoa:

“Ele perpetuou o Pai de todos os Aeons, que sou Eu, o Pensamento do Pai, Protennoia, isto é, Barbelo, a Glória perfeita, e o Invisível imensurável que está oculto. Eu sou a Imagem do Espírito Invisível, e é através de mim que o Todo tomou forma, e (eu sou) a Mãe (assim como) a Luz que ela designou como Virgem, ela que é chamada ‘Meirothea’, o Ventre incompreensível, a Voz irrefreável e imensurável.”

– No Zostrianos— o aeon Barbēlō é referido em muitos lugares. Em Zostrianos, Barbelo possui três subníveis ou subaeons que representam três fases distintas:

– Kalyptos (a “Oculta”), o primeiro e mais alto subaeon dentro do Aeon de Barbelo, representando a latência inicial ou existência potencial do Aeon de Barbelo.

– Protophanes (o “Primeiro Aparecimento”), o segundo maior subaeon, é chamado de grande Mente masculina perfeita e representa a manifestação inicial do Barbelo Aeon.

– Autogenes (“Autogerado”), a atualização autogerada do Aeon Barbelo, é o mais baixo dos três subaeons.

NA PISTIS SOPHIA:

Na Pistis Sophia, Barbēlō é nomeada com frequência, mas seu lugar não é claramente definido. Ela é um dos deuses, “um grande poder do Deus Invisível” (373), unido a Ele e às três “divindades três vezes poderosas” (379), a mãe da luz Pistis Sophia” ou corpo celestial (13, 128; cf. 116, 121); a terra aparentemente é a “matéria criativa de Barbēlō” (128) ou o “lugar de Barbēlō” (373).

NOS TEXTOS PATRÍSTICOS:

Ela é obscuramente descrita por Irineu como “um aeon que nunca envelhece em um espírito virginal”, a quem, segundo certos “Gnósticos”, o Pai Inominável quis se manifestar, e que, quando quatro seres sucessivos, cujos nomes expressam pensamento e vida, havia saído Dele, foi vivificada com alegria com a visão, e ela mesma deu à luz a três (ou quatro) outros seres semelhantes.

Ela é notada em várias passagens vizinhas de Epifânio, que em parte deve estar seguindo o Compêndio de Hipólito, como mostra a comparação com Filastro (c. 33), mas também fala por conhecimento pessoal das seitas ofíticas especialmente chamadas de “Gnósticos” ( i. 100 f.). A primeira passagem está no artigo sobre os nicolaítas (i. 77 f.), mas aparentemente é uma referência antecipatória aos seus supostos descendentes, os “gnósticos” (77 a; Philast.). De acordo com a opinião deles, Barbēlō vive “acima do oitavo céu”; ela havia sido ‘produzida’ (προβεβλῆσθαι) “do Pai”; ela era mãe de Yaldabaoth (alguns diziam, de Sabaoth), que insolentemente tomou posse do sétimo céu e se proclamou o único Deus; e quando ela ouviu esta palavra, ela lamentou. Ela estava sempre aparecendo para os Arcontes em uma bela forma, para que, ao seduzi-los, ela pudesse reunir seu próprio poder disperso.

Outros, Epifânio parece dizer (78 f.), contaram uma história semelhante de Prunikos, substituindo Caulacau por Yaldabaoth. Em seu próximo artigo, sobre os “gnósticos”, ou borboritas (83 d.C.), a ideia da recuperação dos poderes dispersos de Barbēlō se repete conforme estabelecido em um livro apócrifo de Noria (ou Norea), a lendária esposa de Noé.

“Pois Noé era obediente ao arconte, dizem eles, mas Noria revelou os poderes no alto e Barbelo, a descendente ou herdeira dos poderes – a oposta do arconte, como os outros poderes são. E ela deu a entender que o que foi tirado da Mãe nas Alturas pelo arconte que fez o mundo, e outros com ele – deuses, demônios e anjos – deve ser obtido do poder nos corpos, através das emissões masculinas e femininas.”

Em ambos os lugares, Epifânio representa a doutrina como dando origem à libertinagem sexual. Mircea Eliade comparou essas crenças e práticas borboritas envolvendo Barbēlō com rituais e crenças tântricas, observando que ambos os sistemas têm um objetivo comum de alcançar a unidade espiritual primordial através da felicidade erótica e do consumo de menstruação e sêmen.

Em uma terceira passagem (91 ss.), enumerando os Arcontes que dizem ter seu assento em cada céu, Epifânio menciona como os habitantes do oitavo ou mais alto céu “aquela que é chamada Barbēlō”, e o auto-gênero Pai e Senhor de todas as coisas, e o Cristo nascido de virgem (αὐτολόχευτον) (evidentemente como seu filho, pois de acordo com Irineu sua primeira progênie, “a Luz”, foi chamada de Cristo); e da mesma forma ele conta como a ascensão das almas através dos diferentes céus terminava na região superior, “onde está Barbēro ou Barbēlō, a Mãe dos Vivos” (Gênesis 3:20).

Teodoreto (H. F. f. 13) apenas parafraseia Irineu, com algumas palavras de Epifânio. Jerônimo várias vezes inclui Barbēlō em listas de nomes portentosos correntes na heresia espanhola, isto é, entre os priscilianistas; Bálsamo e Leusibora sendo três vezes associados a ele (Ep. 75 c. 3, p. 453 c. Vall.; c. Vigil. p. 393 A; em Esai. lxvi. 4 p. 361 c; em Amos iii. 9 pág. 257 E).

BARBELO E BABEL:

Babel, no livro de “Baruque” de Justino,o  Gnóstico, é o nome do primeiro dos doze “anjos maternos” nascidos de Elohim e Edem (Hipp. Haer. v. 26, p. 151). Ela é idêntica a Afrodite, e é ordenada por sua mãe a causar adultérios e deserções entre os homens, em vingança pela deserção de Edem por Elohim (p. 154). Quando Herácles é enviado por Elohim como “um profeta da incircuncisão” para vencer “os doze anjos maus da criação”, i. e. os anjos maternos, Babel, agora idênticos a Ômfale, o seduzem e o enfraquecem (p. 156; x. 15, p. 323). Ela pode possivelmente ser a Baalti ou Baal feminina de várias nações semíticas, embora o β (beta) intrusivo não seja facilmente explicado. Mas em geral é possível tomar Babel, “confusão” (Joseph. Ant. i. 4, § 3), como uma forma de Barbēlō, que pode ter o mesmo significado. O ecletismo de Justino explicaria sua deposição de Barbēlō do primeiro ao segundo lugar, onde ela ainda está acima de Hachamoth.

SIGNIFICADO DE BARBELO:

Nos relatos gnósticos de Deus, as noções de impenetrabilidade, estase e inefabilidade são de importância central. Pode-se dizer que a emanação de Barbēlō funciona como um aspecto generativo intermediário do Divino, ou como uma abstração do aspecto generativo do Divino através de sua Plenitude. O Espírito invisível oculto mais transcendente não é retratado como participando ativamente da criação. Esse significado é refletido tanto em sua aparente androginia (reforçada por vários de seus epítetos) quanto no próprio nome Barbēlō. Várias etimologias plausíveis do nome (Βαρβηλώ, Βαρβηρώ, Βαρβηλ, Βαρβηλώθ) foram propostas.

– William Wigan Harvey (On Irineu) e Richard Adelbert Lipsius (Gnosticismus, p. 115; Ofit. Syst. in Hilgenfeld’s Zeitschrift for 1863, p. 445) propuseram Barba-Elo, ‘A Deidade-em-Quatro’, com referência à Tétrade, que pelo relato de Irineu procede dela. Sua relação com esta Tétrade, porém, não tem nenhuma analogia verdadeira com a Col-Arba de Marcos; forma apenas o grupo mais antigo de sua progênie; e é mencionado apenas uma vez.

– ‘O limite supremo’, “paravela”, do indiano, “vela”, ‘limite’ – uma sugestão feita por Julius Grill (Untersuchungen über die Entstehung des vierten Evangeliums, Tübingen, 1902, pp. 396-397), que o conecta com o Horos Valentiniano , sendo o Barbēlō chamado de ‘o limite supremo’ em relação ao Patēr akatonomastos de um lado e às sizígias inferiores do outro.

– Wilhelm Bousset (Hauptprobleme der Gnosis, Göttingen, 1907, p. 14 f.) sugere que a palavra é uma mutilação de parthenos — a forma intermediária, Barthenōs, que realmente ocorre em Epifânio (Haer. xxvi. 1) como o nome da esposa de Noé.

– Fenton John Anthony Hort (DCB i. 235, 249) afirma que a “raiz balbel muito usada nos Targums (Buxtorf, Lex, Rabb. 309), em hebraico bíblico balal, significando mistura ou confusão, sugere uma melhor derivação para Barbelo, como denotando o germe caótico da existência variada e discreta: a mudança de ל para ר é bastante comum e pode ser vista na forma alternativa Βαρβηρώ. Se a Babel de Justino (Hipp. Haer. v. 26; x. 15) é idêntica a Barbelo, como é pelo menos possível, esta derivação torna-se ainda mais provável.”

– Pode ser uma construção copta ad hoc significando tanto ‘Grande Emissão’ (de acordo com The Gnostic Scriptures de Bentley Layton) quanto ‘Semente’ de acordo com F.C. Burkitt (em Church and Gnosis).

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Fontes:

– Eliade, Mircea (1978). Occultism, Witchcraft, and Cultural Fashions: Essays in Comparative Religion. University of Chicago Press. ISBN 0-226-20392-1.

– Meyer, Marvin (2007). The Nag Hammadi scriptures. New York: HarperOne. ISBN 978-0-06-162600-5. OCLC 124538398.

– Hoeller, Stephan A. (1989). Jung and the Lost Gospels. Quest Books. ISBN 0-8356-0646-5.

– Jonas, Hans (2001). The Gnostic Religion (3rd ed.). Beacon Press. ISBN 0-8070-5801-7.

– Layton, Bentley (1987). The Gnostic Scriptures. SCM Press. ISBN 0-334-02022-0.

– Rudolph, Kurt (1987). Gnosis: The Nature & History of Gnosticism. Harper & Row. ISBN 0-06-067018-5.

– Williams, Frank (1987). The Panarion of Epiphanius of Salamis. Vol. 2 volumes. Leiden; New York; København; Köln: E.J. Brill.

– Herbermann, Charles, ed. (1913). “Gnosticism”. Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company.

– Hort, Fenton John Anthony (1877). “Babel”. In Smith, William; Wace, Henry (eds.). A Dictionary of Christian Biography, Literature, Sects and Doctrines. Vol. I. London: John Murray. p. 235.

– Hort, Fenton John Anthony (1877). “Barbelo”. In Smith, William; Wace, Henry (eds.). A Dictionary of Christian Biography, Literature, Sects and Doctrines. Vol. I. London: John Murray. pp. 248–49.

– Moffatt, James (1919). “Pistis Sophia”. In James, William (ed.). Encyclopædia of Religion and Ethics. Vol. X. New York: Charles Scribner’s Sons. p. 46. ISBN 9780567065100.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/barbelo-a-deusa-no-gnosticismo/

Anjos Rebeldes

Deus não criou o Diabo: um anjo criado por ele é que se fez demônio. Era um arcanjo (como Miguel) que arrebatou consigo outras criaturas celestes. Era o mais belo de todos e também o mais amado por Deus. Seu nome era Lúcifer (“portador da luz”). Extremamente orgulhoso de sua beleza , queria se igualar a Deus e persuadir os outros anjos a tratarem-no como tal. Numerosos anjos o seguiram e foram parar junto com ele, nas trevas, indo reinar no Inferno.

No livro do Gênesis, em seu 6º capítulo, há uma passagem a qual mostra os filhos de Deus se unindo às filhas dos homens. Surgiram diversas versões uma delas narra que 200 anjos chefiados por Semjaza e Azazel, atraídos pela beleza das mulheres, desceram a terra para se unir a elas. Estes anjos ensinaram aos mortais vários conhecimentos nocivos.

As mulheres conceberam gigantes famintos e descomunais (alguns com mais de 3000 metros de altura) comiam tudo o que encontravam e começaram a devorar uns aos outros. O mundo mergulhou numa anarquia total. Deus interveio, enviando seu anjo Miguel que aprisionou os anjos turbulentos nos vales da terra, onde estão à espera do juízo final.

Outra versão afirma que os anjos encarregados de velar pelas criaturas terrestres foram seduzidos pelas mulheres. Dessa união resultaram os demônios que dominam os homens por meio da magia.

O orgulho e o ciúme são apontados como causas possíveis da queda dos anjos.

Os demônios se multiplicaram e formaram um universo complexo. Diz-se que existem cerca de 7459126 diabos divididos em 1111 legiões, dirigidos por 72 príncipes.

Seus poderes são reais: souberam tentar tanto Adão e Eva como Cristo. São provocadores de calamidades e heresias, responsáveis pelas diversas enfermidades físicas e morais que tanto afligem os homens.

“Há três tipos de demônios. Aqueles que procuram infernizar a própria pessoa, induzindo-a a pensamentos ou atos espúrios, ações degradantes, visões apavorantes. Há demônios que fazem com que o possuído irradie mal a pessoas, animais ou objetos que estão em seu campo de ação e, por fim, existem demônios que impelem à ambição, avareza, egoísmo, vaidade, fazendo com que o indivíduo tenha como propósito dominar e explorar seus semelhantes”.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/demonologia/anjos-rebeldes/

Mundos Enoquianos

A cosmovisão apresentada pelo sistema enoquiano tem como ponto de partida a interação com a inteligências espirituais que habitam para além daquilo que a mente humana enxerga como realidade. Segundo o diário de John Dee ele identificava estas entidades com os anjos celestiais. Por outro lado, seu parceiro Kelly tinha certeza de que estavam lidando com seres de naturezas demoníacas. Estas interpretações deixaram uma marca forte no sistema enoquiano até os dias de hoje mas retratam bem a mentalidade cristã dominante do período em que nasceu. Esse dicotomia já havia caducado na época em que a Golden Dawn explorava o sistema.

Hoje as interpretações são muitas. Talvez as entidades sejam meros reflexos projetados de nossa psique. Talvez sejam aliens ou criaturas de outra dimensão. De qualquer forma cada uma destas entidades é um recorte feito de alguma porção das chamadas Tábuas Enoquianas. O consenso entre os magistas é que a totalidade destas tábuas com todas as suas letras e subseções é por assim dizer um retrato simbólico do Ser Supremo, um mapa da realidade como a Árvore da Vida da cabala por exemplo. Desta forma, os chamados anjos enoquianos não seriam meninos gordinhos com asinhas, como conta a cultura popular, mas sim palavras escritas com o alfabeto que separa o alfa do ômega.

Mas existe uma alternativa a impor nossas interpretações sobre as entidades. Em vez disso podemos ouvir o que elas estão falando sobre si mesmas desde o século XVI. Segundo o sistema enoquiano a universo e divindade suprema são uma mesma coisa. Incognisível para a mente humana ela só pode ser contemplada por aproximação. Desta forma o magista enoquiano aprende que ela se revela em uma série de planos diferentes. Estes planos podem ser entendidos como diversos círculos concêntricos dispostos em camadas.  Entretanto a metáfora das camadas é limitada pois sugere uma separação que não corresponde como que é ensinado.  Cada camada possui suas particularidades, mas ainda assim fazem parte de um todo coeso muito maior.

A camada mais externa e sutil é a do Espírito, o plano da divindade. Depois dela temos a região do Fogo, representando o mundo das causas,  a região do Ar, que é o plano mental, a região da Água, o plano astral e por fim a região da Terra, o plano etérico da matéria. No interior de todos estes planos está o mundo físico que conhecemos bem como suas limitações de tempo, espaço.

A região do Espírito está contida na Tábua da União, enquanto que as regiões elementares do Fogo, Ar, Água e Terra possuem suas regiões especiais chamadas Torres de Vigia.  estes mundos não podem ser tocados por nossos órgãos dos sentidos, mas podem ser experimentados pelo c corpo sutil chamado “Corpo de Luz”.  Vejamos agora com detalhes a natureza exata destas cinco regiões:

Terra

A Região designada ao que chamamos de Terra é a primeira e mais próxima de nosso mundo sensorial. É o que sustenta a estrutura do nosso mundo físico.  É a região sutil que permite a existências de todas as coisas materiais. Pode ser entendida como a cola que une as letras do verbo criador. Não se trata do elemento Terra que encontramos nos jardins nem do planeta Terra onde nossos corpos se arrastam, mas sim de um mundo invisível aos nossos sentidos. Outras tradições chama esta região de Plano Etérico. Ele possui relação astrológica com a Lua.

Água

A Região designada ao que chamamos de Água é o plano dos desejos que se reflete no mundo etérico. É o mundo de onde surgem e onde se mantêm as energias nervosas e emocionais. Novamente não se trata da água que bebemos, mas de um mundo invisível ainda mais sutil que o anterior. Outras tradições chamam esta região de Plano Astral. Possui relação astrológica com Vênus.

Ar

A região designada para o que chamamos de Ar é o plano de onde emanam as idéias e pensamentos lógicos que se desdobram nas regiões acima citadas em formas emocionais e físicas. É a região das forças inteligentes e da razão  que orquestra o universo. Não se trata do Obviamente não se trata do ar que respiramos em nosso mundo físico. Outras tradições chamam a região de Plano Mental e ele possui relações astrológicas com Mercurio.

Fogo

A região designada ao que chamamos de Fogo é a o mundo da causa das mudanças constantes em todo o universo, incluindo as modificações do mundo físico. É a região de fortes forças criativas e destrutivas, especialmente do Amor ou da Justiça que impulsionam a formação de todas as coisas que existem. Novamente, não se trata do fogo do nosso mundo físico, mas sim de uma propriedade sutil do universo invisível. Outras tradições chamam esta região de Plano Causal. Ele possui relações astrológicas com o Sol.

Espirito

Antes do mundo do Espírito existe o Grande Abismo externo que o separa dos quatro planos elementares, pois sua magnitude é muito superior a todos os mundos acima citados. A Região do Espírito é a fonte original de todas as coisas que existem. É a região da consciência cósmica  que se desdobra em Amor ou Justiça (Fogo), que se traduz em inteligência (Ar) e se infla em forma emocionais (Água) que coagulam no éter (Terra) e se manifestam do mundo material. Possui relações astrológicas com nossa galáxia. É por excelência a região da Vontade Suprema.

Aethyrs

Vale dizer que  interpenetrando estes cinco mundos existem 30 zonas especiais chamadas Aethers, ou Céus. O mais próximo de nós se chama TEX e o mais distante se chama LIL que atinge o mundo da divindade suprema.

 Concordância

A estrutura macrocósmica do sistema enoquiano não é muito diferente do sistema apresentado por outras tradições esotéricas.  Uma pesquisa da descrição e natureza destes planos pode ser bastante esclarecedor. Para facilitar esta pesquisa segue uma pequena tabela comparativa.

Enoquiano Teosofico Rosacruz Tattwas
Terra Plano Físico Etérico Mundo Físico (Região Etérica) Prithivi
Água Plano Astral Mundo do Desejo Apas
Ar Plano Búdico
Plano Átmico
Mundo do Pensamento Waju
Fogo Plano  Monádico Mundo do Espírito de Vida
Mundo do Espírito Divino
Mundo dos Espíritos Virginais
Tejas
Espírito Plano Divino Mundo de Deus Akasha

 

Por Angellita Obelieniute PhD

Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/mundos-enoquianos/

A Alquimia de Francis Bacon

Francis Bacon (1561-1626) foi um dos mais conhecidos e influentes rosacruzes e também um alquimista, tendo ocupado o posto mais elevado da Ordem Rosacruz, o de Imperator.

Estudiosos apontam como sendo o real autor dos famosos manifestos rosacruzes, Fama Fraternitatis (1614), Confessio Fraternitatis (1615) e Núpcias Alquímicas de Christian Rozenkreuz (1616).

Bacon interessava-se por astrologia e tentou formular uma ciência empírica baseada na co-relação das conjunções astrológicas e os fatos históricos. Se tivesse levado a cabo esse projeto, a ciência hoje seria completamente diferente. Mas, pressões acadêmicas da época forçaram-no a abandonar a empreitada.

A produção intelectual de Bacon foi vasta e variada. De modo geral, pode ser dividida em três partes: jurídica, literária e filosófica.

As obras filosóficas mais importantes de Bacon são Instauratio magna (Grande restauração) e Novum organum. Nesta última, Bacon apresenta e descreve seu método para as ciências. Este novo método deverá substituir o Organon aristotélico.

Seus escritos no âmbito filosófico podem ser agrupados do seguinte modo:

1) Escritos que faziam parte da Instauratio magna e que foram ou superados ou postos de lado, como: De interpretatione naturae (Da interpretação da natureza), Inquisitio de motu (Pesquisas sobre o movimento), Historia naturalis (História natural), onde tenta aplicar seu método pela primeira vez;

2) Escritos relacionados com a Instauratio magna, mas não incluídos em seu plano original. O escrito mais importante é New Atlantis (Nova Atlântida), onde Bacon apresenta uma concepção do Estado ideal regulado por idéias de caráter científico. Além deste, destacam-se Cogitationes de natura rerum (Reflexões sobre a natureza das coisas) e De fluxu et refluxu (Das marés);

3) Instauratio magna, onde Bacon procura desenvolver o seu pensamento filosófico-científico e que consta de seis partes:

(a) Partitiones scientiarum (Classificação das ciências), sistematização do conjunto do saber humano, de acordo com as faculdades que o produzem;

(b) Novum organum sive Indicia de interpretatione naturae (Novo método ou Manifestações sobre a interpretação da natureza), exposição do método indutivo, trabalho esse que reformula e repete o Novum organum;

(c) Phaenomena universi sive Historia naturalis et experimentalis ad condendam philosophiam (Fenômenos do universo ou História natural e experimental para a fundamentação da filosofia), versa sobre a coleta de dados empíricos;

(d) Scala intellectus, sive Filum labyrinthi (Escala do entendimento ou O Fio do labirinto), contém exemplos de investigação conduzida de acordo com o novo método;

(e) Prodromi sive Antecipationes philosophiae secundae (Introdução ou Antecipações à filosofia segunda), onde faz considerações à margem do novo método, visando mostrar o avanço por ele permitido;

(f) Philosophia secunda, sive Scientia activa (Filosofia segunda ou Ciência ativa), seria o resultado final, oragnizado em um sistema de axiomas.

Fama Fraternitatis Rosae Crucis (Fama fraternitatis Roseae Crucis oder Die Bruderschaft des Ordens der Rosenkreuzer), ou simplesmente Fama Fraternitatis, é um manifesto rosacruciano publicado em 1614 na cidade alemã de Kassel.

Fama Fraternitatis foi dirigido às autoridades políticas e religiosas, bem como aos cientistas da época. Ao mesmo tempo em que fazia um balanço talvez negativo da situação geral na Europa, revelou a existência da Ordem da Rosa+Cruz através da história alegórica de Christian Rosenkreutz (1378-1484), desde o périplo que o levara pelo mundo inteiro antes de dar vida à Fraternidade Rosacruz, até à descoberta de seu túmulo. Esse Manifesto já fazia apelo a uma Reforma Universal. Continha a história, a constituição e as Leis da Ordem. A confissão da Fraternidade da Rosa-Cruz dava 37 razões para sua existência, definindo seus objetivos e os meios para alcançá-los.

Confessio Fraternitatis (Confessio oder Bekenntnis der Societät und Bruderschaft Rosenkreuz), ou simplesmente Confessio Fraternitatis, é um manifesto rosacruciano publicado em 1615 na cidade alemã de Kassel.

Confessio Fraternitatis completou o primeiro Manifesto, por um lado insistindo na necessidade do ser humano e a sociedade se regenerarem e, por outro lado, indicando que a Fraternidade dos Rosacruzes possuía uma ciência filosófica que permitia realizar essa Regeneração. Nisso ela se dirigia antes de tudo aos buscadores desejosos de participar nos trabalhos da Ordem e promover a felicidade da Humanidade. O aspecto profético desse texto intrigou muito os eruditos da época.

Núpcias Alquímicas de Christian Rozenkreuz (Chymische Hochzeit Christiani Rosencreutz anno 1459), ou simplesmente Núpcias Alquímicas (ou Químicas) de Christian Rozenkreuz, é um manifesto rosacruciano publicado em 1616 na cidade alemã de Estrasburgo (anexada à França em 1681).

O Casamento Alquímico de Christian Rosenkreutz, num estilo bastante diferente dos dois primeiros Manifestos, relatou uma viagem iniciática que representava a busca da Iluminação. Essa viagem de sete dias se desenrolava em grande parte num misterioso castelo onde deviam ser celebradas as bodas de um rei e de uma rainha. Em termos simbólicos, o Casamento Alquímico descrevia a jornada espiritual que leva todo Iniciado a realizar a união entre sua alma (a esposa) e Deus (o esposo).

Texto publicado originalmente pela Lupy no excelente blog Ponte Oculta

#Alquimia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-alquimia-de-francis-bacon

A Magia e a Mídia

As diversas formas de mídia atuais nos proporcionam momentos de prazer, de euforia, de espanto e de tensão, entre tantos outros. Todos eles podem ser encarados como reações que temos no momento em que entramos em contato com essas mídias, trazendo certas emoções, sensações ou pensamentos no âmbito de nossa psique.

Magia nada mais é do que a arte de causar mudanças. Se as mídias com as quais entramos em contato causa mudanças no nosso humor e comportamento, então, pode-se dizer que as mídias são veículos de Magia.

Presencia-se essa Magia todos os dias, o tempo todo. No ato de se ligar um aparelho de som, ou de se assistir a um filme, ou ao ver uma foto inspiradora, ou ainda contemplar uma bela obra de arte, seja ela uma escultura ou uma ilustração… causa-nos uma ou todas as características supra-citadas (emoções, sensações, pensamentos). Nossas mentes, por livre associação, lembrarão conceitos relacionados à arte que estamos experimentando. Por exemplo, se estamos ouvindo uma orquestra sinfônica a tocar em uma apresentação pública, poderá despertar-nos a sensações de leveza, de relaxamento, de harmonia, etc. Perceba que, nesse pequeno exemplo, já ocorreram três sensações disparadas por essa experiência.

Ora, se Magia é a Arte de causar mudanças, então, ao passarmos pela experiência acima, e esta música mudar nosso estado psíquico anterior para algo diferente, então é certo dizer que você foi alvo de um ato mágico, embora não intencional. Você foi transformado pela magia da música, magia essa que acabou por mudar seu humor e seu comportamento, modificando as interações conseguintes. Se você estava nervoso, acabou ficando mais calmo. Você estará mais tolerante e amigável a partir desse momento, melhorando as relações interpessoais que por um acaso venham a ocorrer nos momentos seguintes.

Passar por essa modificação depende unicamente da sua sensibilidade (não uso essa palavra aqui com uma conotação melodramática (vulgo emo), mas sim como algo que possui o senso, ou o sentido, a faculdade de se aperceber daquela mensagem que está sendo transmitida). Pessoas muito sensíveis para sons e música poderão até mesmo chorar diante da carga sensitiva-emocional de uma bela melodia, pois as vibrações enviadas por ela entram em ressonância com o padrão vibratório dessa pessoa[1]. Na Física, quando algo entra em ressonância, sua vibração aumenta infinitamente, até que uma das fontes vibratórias cesse seu movimento, ou o material em ressonância se modifique (ou quebre). Nesse caso, em se tratando dos nossos corpos físicos e psíquicos, a única saída seria desligar a música, ou deixar transbordar suas sensações e seus sentimentos através do choro, sendo essa a derradeira válvula de escape para o montante de energia acumulada.

Cada pessoa possui, portanto, mídias (ou sentidos) que as atingem mais facilmente, transformando seus estados psíquicos mais rapidamente do que outras. Há aquelas que preferem fotos inspiradoras. Ilustrações (ou símbolos) dos mais variados tipos, cores e padrões. Há também aquelas pessoas que preferem assistir a um bom filme. Com sua capacidade introspectiva e “de se colocar no lugar do outro”, essas pessoas conseguem se colocar na pele da personagem durante a história, e vivenciar os acontecimentos como se estivessem ocorrendo com ela própria. Conseguem realmente sentir toda a ação, as emoções e pensamentos, pois podem compreender a personagem profundamente. Dessa forma, modificam seu estado de humor e seu comportamento eficazmente. Isso nos remete à invocação de deuses, praticada desde os tempos mais remotos até os dias atuais.

Colocando-se em prática esse conhecimento, permanecendo mais alerta com os diversos estados mentais que estamos despertando ao longo do dia, de acordo com as mídias com as quais travamos contato, só trará benefícios. Aqueles que não cultivam essa atitude são largamente explorados por campanhas publicitárias (o poder da propaganda!), através de sons, imagens e cores marcantes, bombardeando-os com mensagens psíquicas para que compremos tal ou qual produto; isso ocorre tão automaticamente que mal percebemos quando e como essas mensagens são disparadas e absorvidas por nós. Mas com a prática e com a vigilância, podemos exercer um maior controle sobre nossa psique. Podemos escolher quais emoções, sensações ou pensamentos queremos ativar em determinado momento. Para tanto, faz-se necessário adquirir a disciplina e o respeito próprio para obtermos mais paz e mais foco dos nossos objetivos diários, sem nos dispersarmos tanto com o que vem de fora. Esse policiamento é essencial para que evitemos o stress e o esgotamento. Cultivando mídias de melhor qualidade, que entrem mais em ressonância (e harmonia) com os estados psíquicos que desejamos manter a maior parte do tempo, teremos maior qualidade de vida, mais felicidade, serenidade e, principalmente, individualidade.

Notas:

[1] Padrão vibratório pessoal: os átomos, que são os “tijolos”, segundo a Física clássica, que formam nossa realidade perceptiva, são formados por partículas que se mantém em constante movimento. Esse movimento causa uma propagação de ondas em todas as direções, pois o movimento vai sendo passado para os átomos dos arredores por indução. Como é em essência um movimento de oscilação ou vibração, daí o nome para o termo.

#Arte #cultura #Magia

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