Devoção e a Grande Obra

Traduzido por AShTarot Cognatus
“Faça o que tu queres, há de ser tudo da Lei.”
 
Saudações a todos os irmãos e irmãs da nossa Nova Ordem de Thelema, para todos vocês que participam do sol nascente da nova Aurora Dourada! É essencial agora para o progresso da Nova Ordem que nós comuniquemos a você a respeito de um dos mais essenciais poderes da grande obra, que cada magista deve cultivar e integrar na sua própria personalidade mágicka se ele for realizar sua Verdadeira Vontade. É o poder mágicko de devoção, que é a determinação para executar e realizar sua Verdadeira Vontade, e sem ânsia de resultado. Devoção é uma recompensa por si só. Aqueles entre nós que são devotos da Grande Obra praticam devoção, não como uma maneira de obter resultados, mas como uma disciplina a ser praticada por si só. Os frutos de tal disciplina são naturais a ela, nós não precisamos desejar esses frutos para compartilhar deles.
Devoção a grande obra é uma inspiração do além; é o sopro celestial dos deuses descendendo sobre nossas almas e nutrindo nossas Vontades com a essência criativa da vida. É o amor do amante, e a aspiração pura para unir com o objeto do seu amor. Devoção e amor são um e o mesmo; são duas palavras que indicam um único princípio. No leste há uma forma de yoga chamada bhakti. Bhakti é definida como a yoga da devoção ou a yoga do amor. É nosso amor e devoção para a grande obra que assegura seu sucesso. Sem a aplicação do poder mágicko da devoção, sob vontade, a grande obra é um caminho sem sentido, uma obra sem substancia ou significância.
Considere estas palavras profundamente em seu coração e você irá entender quão essencial é desenvolver em si mesmo o poder mágicko da devoção. Nenhuma magia(k) real é realizada sem ela; todas as obras de criatividade são mera poeira sem ela. Pois é o espírito da criatividade em si, a vida do divino que é a inspiração do magista e a vitória da sua alma. Sem praticar o poder mágicko da devoção, será impossível para você completar qualquer obra criativa que é valida  de ser completada. Devoção é nossa conexão mística com a ordem celestial; é o que perpetua em nós a vontade divina para criar e desenvolver-se, e para manter nossa relação adequada com o universo, afirmando nossa essência estelar e a soberania mágicka de nossas almas.
Todo ritual mágicko é um ato de devoção. É a Vontade para unir uma força particular ou objeto da grande obra. É o amor do magista por tal força ou objeto e a determinação para integrar-se com ela. Magia(k) não é somente a arte da vontade, mas a arte do amor. Sem amor, toda magia(k) é feita em vão; é mera perda de energia, que requer a essência do amor para ser propriamente concentrada sobre a força ou objeto do ritual mágicko de alguém para assegurar o sucesso. Sem amor, não há invocação mágicka. Invocar apropriadamente um Deus ou Deusa requer a prática mágicka do Amor sob Vontade; exige a devoção total da energia mágicka de alguém. Devoção é a chave do sucesso em qualquer operação mágicka que é dedicada a grande obra; é nossa ligação invisível para o palácio da perfeição.
No sistema real da Aurora Dourada Thelemica, nós instruímos nossos membros em uma forma de disciplina que nós chamamos “Bhakti Magick”, e nós distribuimos aos nossos membros o livro sagrado chamado “O livro de Bhakti Magick”. Neste livro sagrado está contida a chave central para a compreensão essencial desta disciplina sagrada de nossa arte real. Está escrito no livro sagrado:
 “Somente por realizar esta secreta arte primal dos Deuses tu podes aproximar o portal escondido da ordem secreta de todos. Você deve fazer isto; pois certamente todos são chamados”. Mais adiante está escrito: ” E somente consumindo na tua alma o secreto Soma imortal desta santíssima ciência sagrada dos Deuses tu podes atingir o inatingível. Você deve fazer isto; pois certamente todos são chamados.” Estas palavras inspiradas demonstram a necessidade absoluta para a aplicação criativa do poder mágicko da devoção; eles revelam o significado supremo de bhakti magick na operação sacramental da realização a grande obra.
Bhakti Magick é a mais significativa de todas as disciplinas para um adepto magista da tríade dos amantes da ordem interna, participar dos grandes mistérios do universo que estão concentrados no santuário secreto da natureza. É a arte criativa de “Amor sob Vontade”, e é esta sagrada ciência dos adepti de luz. Na sua forma mais esotérica, é o mesmo a qual nós chamamos de magia(k) real do leão branco. A respeito dessa nova magia(k), está escrito no nosso livro sagrado: “É a ciência absoluta da Vontade e do verdadeiro método da religião.” Adiante está escrito, certamente para nosso progresso e alegria: “Amor é a Lei! e cada ato de vontade está de acordo com esta Lei, Portanto deves amar sob vontade, como está escrito no Liber Legis. E tu deves cumprir essa Lei única por observa em seu coração e vida a expressão poderosa da suprema formula mágicka do novo aeon: Faça o que tu queres, há de ser tudo da Lei.”
E além disto, está escrito: “Esta é tua magia(k); e é teu código perfeito de conduta, de acordo com o qual devemos adorar o sol, o senhor deste ilustre e magnífico novo aeon. Um verdadeiro bhakta mágico, ou Magus do amor, se torna o sol, e transmuta todas as outras coisas na pura realidade do seu esplendor infinito de Luz, Vida, Amor e Liberdade”. Este é o poder do amor sob vontade; é a chave central para a realização da grande obra deste novo aeon de Hórus, a grande obra única de união pela qual nós podemos produzir a pedra filosofal e a medicina universal; e é a ligação suprema para a luz eterna da Aurora Dourada, aquela grande luz única de infinidade, que é objetivo de toda humanidade. Portanto, eu proclamo, ouça a voz do Amor!
“Amor é a Lei, Amor sob Vontade.”


Em 31 de março de 2004 e.v., David Cherubin (Frater A.·.A.·.), por sua própria vontade, oficialmente resignou como um membro e representante da T.·.G.·.D.·. (e R.·.C.·.), ele é agora somente um iniciado “particular” da A.·.A.·. (Terceira Ordem), retirado de todas as atividades da Ordem interna e externa, e ele é conhecido agora por nós somente como o fundador da Ordem. David Cherubim não mantêm mais, nem é responsável pela Ordem Thelemica da Aurora Dourada [Thelemic Order of the Golden Dawn (Ordem da T.·.G.·.D.·.)], ele não conduz mais ou participa em quaisquer atividades da T.·.G.·.D.·., e ele não pode ser mais contatado através da T.·.G.·.D.·.. Entretanto, todos os documentos (cerimônias, rituais, lições, informativo, etc.) que ele escreveu e publicou para a T.·.G.·.D.·. permanece como o principal fonte de conhecimento, inspiração e iniciação para a Ordem da T.·.G.·.D.·.. A Ordem Thelemica da Aurora Dourada [Thelemic Order of the Golden Dawn (Ordem da T.·.G.·.D.·.)] foi fundada no equinócio da primavera de 1990 e.v. por David Cherubim (Frater A.·.A.·.) e antigos associados em Los Angeles, CA, EUA, e ele devotou catorze anos de serviço espiritual para a Ordem (durante o qual ele conduziu centenas de iniciações e aulas, escreveu inumeráveis documentos relacionados a Ordem, e ativamente manteve e representou a Ordem).

Fonte: PanDaemonAeon

Por David Cherubim (Frater Aurora Aureae) Copyright © 1991 e.v. The Order of the Thelemic Golden Dawn.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/devocao-e-a-grande-obra/

Eles Estão Entre Nós

Por Llewellyn.

Eu era o mestre de um alojamento de maçonaria alemã/americana em São Francisco, Califórnia. Em uma noite fria de segunda-feira em dezembro de 1966, eu tinha acabado de encerrar a reunião semanal e, como era meu hábito, eu estava esperando até que o último membro do alojamento tivesse saído para que eu pudesse apagar as luzes.

Um irmão do alojamento ainda estava presente, vestindo seu sobretudo e chapéu. Seu nome era Richard Decker. Ele era um cavalheiro de cabelos brancos, em seus setenta anos, dono de uma empresa de engenharia em São Francisco.

Eu sempre tive um gosto especial por Richard. Ele parecia ter poucos ou nenhuns amigos entre seus irmãos de alojamento, talvez porque ele sempre demonstrou uma maneira muito reservada. Ele não participava dos eventos sociais do hotel, e eu nunca o via rir ou mesmo sorrir. Quando Richard falou, foi curto, precisamente ao ponto, e sem embelezamento. Ele tinha ganho a reputação de apenas dizer que era absolutamente correto, confiável e verdadeiro, e foi este traço de caráter que lhe valeu minha amizade e estima.

Quando Richard se aproximou de mim naquela noite para apertar a mão e dizer adeus, notei que ele usava um ornamento de metal prateado na lapela de seu sobretudo. Tinha a forma de uma pequena cabeça de flor redonda e tinha um reflexo estranho e iridescente que eu nunca havia visto antes. Inspecionei o pino de perto, tocando-o com a ponta dos dedos, e perguntei a Richard qual era o seu significado.

Ele disse: “Walter, essa é a razão de eu ter deixado o quarto do hotel por último, porque não quero que os outros o vejam e me perguntem sobre ele. Eu gosto de você e confio em você, portanto vou responder sua pergunta, mas você deve me dar sua palavra de que não divulgará a ninguém o que eu vou lhe dizer”.

Eu concordei.

“Veja, é assim que nos reconhecemos”, disse ele, apontando para o alfinete de lapela.

“Richard, quem reconhece quem?”

Então Richard me contou esta história: “Ninguém sabe disso, Walter, mas eu não sou deste mundo. Eu venho da estrela (ele então mencionou um nome que eu nunca tinha ouvido falar, não entendia e, portanto, não me lembro). Você deve saber que não estou sozinho – há milhares de nós aqui na Terra, e é por isso que precisamos nos reconhecer uns aos outros”.

Eu disse: “Mas Richard, eu sei que você nasceu na Alemanha, que veio para os Estados Unidos para estudar engenharia, e que você é membro deste alojamento há muito tempo”.

“Isso é tudo verdade, é claro”, respondeu ele. “Quando um de nós é designado para uma missão secreta na Terra, temos o poder de entrar, o que significa que assumimos o embrião de uma mulher terrestre grávida, geralmente de uma família bem constituída, e nascemos como qualquer outra criança humana”. Frequentamos a escola e estudamos uma profissão. Podemos até nos casar e ter uma família. Mas assim que chegamos à idade adulta, começamos a trabalhar em nossa missão designada, cuja natureza é totalmente secreta para todos, e também não posso contar a vocês sobre isso.

“Quando atingimos a velhice humana, somos chamados de volta à nossa estrela de casa. A presente é minha quarta missão terrestre. Muito em breve serei chamado de volta, mas sei que esta não é minha última missão na Terra. A próxima missão pode ser depois de sua vida”.

Richard me lembrou de manter tudo o que tinha acabado de ouvir em segredo, apertou minha mão e deixou o quarto do alojamento. Tive que me sentar por alguns momentos, atônito com o que me havia sido confiado. Como eu sabia da sinceridade de Richard Decker há anos, eu não tinha a menor dúvida de que o que ele me havia divulgado era a verdade. Sou um médico da ciência metafísica e acredito firmemente no sobrenatural e na existência de extraterrestres.

Quinze meses depois, em fevereiro de 1968, Richard Decker desapareceu sem deixar rastro, mas eu sabia onde ele estava. Guardei seu segredo por 28 anos antes de contar isso à minha família e aos membros do alojamento. Depois desse tempo, acreditei que Richard teria considerado minha promessa cumprida.

-Walter H. Arden, San Raphael, Califórnia
Agosto de 1996

Extraído de Strange But True (Estranho, Porém Verdadeiro), editado por Corrine Kenner e Craig Miller

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Fonte:

They Are Among Us, by Llewellyn.

https://www.llewellyn.com/journal/article/2071

COPYRIGHT (2009) Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/eles-estao-entre-nos/

História das Maldições

Dedicamos grande parte da vida a lidar com nossa maldição, a jogar com as cartas que nos foram dadas que não são boas. Isso nos tranforma em monstros ou conseguimos encarar isso de forma serenam ou aindam aceitamos esse fato e simplesmente seguimos com a vida?

O autor da frase acima é o pai de um dos monstros mais conhecidos do cinema – ou que na minha humilde opinião deveria ser o monstro mais conhecido do cinema. Não tenho condições de afirmar até onde Wes Craven realmente acredita no que disse, se é de fato tão fatalista ou, de um ponto de vista cínico, tão realista quanto às vezes ele deseja aparentar ser, claro que estando envolvido com o cinema de horror, essa aura lhe cai bem, mesmo que apenas como forma de marketing de seus produtos, mas algo que qualquer um pode constatar é que ele há dácadas lida como poucos com maldições.

Se de fato dedicamos grande parte da vida a lidar com elas, ou simplesmente fazemos tempestades em copos d’água não há como negar que, de uma forma ou outra, as maldições estão presentes ao nosso redor, quer queiramos ou não. Mas ao que parece são poucas as pessoas, se é que existem, que param para pensar nelas. As maldições sempre existiram? São reais? Precisam de pessoas para existirem ou tem uma vida independente? Ela pode ser arremessada para se atingir alguém, ou colocada em um prato de comida apra ser ingerida? É mera crendice ou um vírus que não se reproduz em meio físico?

Pegue dicionários e o consenso geral é de que uma maldição é algo especificamente ruim. Algo associado ao sofrimento e à desgraça. Isso por si só levanta algumas questões interessantes. Deixando de lado por um momento a legitimidade de uma maldição, é curioso ver que ela serve, de uma forma ou de outra, como uma arma ofenciva. No primeiro episódio da série Mr. Deity [www.mrdeity.com], vemos Deus, o Senhor Deidade, conversando com seu engenhrio chefe, logo após a criação do universo e decidindo sobre que males permitiriam, ou Deus permitiria, que existissem em sua criação, e de acordo com a ata da última reunião viram que Deus havia chegado à conclusão de que não permitiria que as pessoas machucassem uma às outras usando apenas o pensamento. A conversa seguia então mostrando como, apesar do que parecia ser uma primeira decisão sábia, Deus permitia então que outros males como terremotos, guerras e síndrome de Down existissem. Como já se é possível imaginar o programa, criado para a internet, consistia de uma série de quadros satíricos curtos parodiando vários aspectos da religião – essencialmente o cristianismo. O ponto discutido brevemente neste episódio é interessante porque, humor ateu posto de lado, as pessoas tem um ímpeto de querer causar a desgraça a outros e se pudessem usar apenas a mente para isso estariam ainda mais satisfeitas. Você com certeza já viveu momentos da vida quando imaginou como seria bom conseguir descascar uma pessoa como uma banana, tirando fatias de pele e a deixando no chão, sem ter que sair de casa ou sujar as mãos. Quem aqui nunca teve um momento em que pensou “como eu gostaria que fulano morresse gritando em chamas enquanto anões tortos mijam na boca dele” que atire a primeira pedra.

Este primeiro episódio de Mr. Deity é engraçado neste aspecto, porque se por um lado tenta mostrar a “insensates” que Deus seria, comparando um mal absurdo como matar alguém com a mente com males aparentemente mais cruéis como doenças degenerativas, catástrofes da natureza e Celine Dion, por outro ele passa batido, como aparentemente toda a nova leva de ateus céticos agnósticos, por um ponto interessante. Nós vivemos em um mundo onde pessoas maltratam, machucam e mesmo matam outras usando apenas a mente. Através de rituais sociais, como o ostracismo e o preconceito, através de rituais profissionais, como “fazer a caveira”, “fritar” ou “puxar o tapete” de alguém, através de rituais psicológicos, como minar a confiança e auto-estima de alguém. Em novembro de 1992 uma adolescente de 13 anos, Megan Taylor Meier, se matou por causa de conversas com um garoto inexistente através da rede social MySpace. Claro que em todos esses casos existe ao menos uma forma de comunicação, são necessarias ferramentas, contato entre o atacante e a vítima, e o ataque não acontece em um plano inteiramente mental. E em todos os casos eles necessitam de certa repetição, a pessoa que ataca tem que manter o ataque por um certo tempo. A menina que se matou passou incontáveis horas conversando com o garoto, e dificilmente você consegue quebrar mentalmente uma pessoa com apenas um insulto. Imagine como seria se você pudesse fazer um alto executivo de sucesso perder tudo o que tem simplesmente passando ao lado dele e dizendo: FRACASSADO!

Uma maldição teria este poder. Mas isso nos faz voltar ao ponto anterior de questionar se uma maldição é algo real.

Os responsáveis pelo que chamamos hoje de maldição é um grupo que faria Wes Craven parecer um vendedor de cocos nos farois do Alasca. Eles foram os criadores dos maiores monstros da história da humanidade, e não apenas do cinema. Eles criaram as dimensões mais assustadoras, as torturas mais inimagináveis, os monstros mais bizarros, e diferente do Freddy Krueger de Craven, fizeram as pessoas de fato acreditarem no que inventaram.

A palavra “maldição” tem sua origem no latim, em duas outras palavras: male, “mal” e dicere, “dizer, falar”. Juntas elas significavam mal dizer alguém, ou seja, falar mal de alguém. “Fulana é uma vagabunda!”, “Beltrano é um cafajeste!” Pronto acabamos de mal dizer duas vezes. Isso de fato poderia afetar a vida da pessoa, mas apenas se o maldicere fosse sustentado pela máquina da fofoca. Mas então vieram os cristãos, e a coisa ficou feia. Com o cristianismo maldizer alguém se tornou sinônimo de execrar alguém – e execrar por sua vez também é composta por outras duas palavras latinas: ex, “fora”, e sacer, “sagrado”. Com o cristianismo alguém maldito era alguém afastado do sagrado, e tudo o que se afasta do sagrado é considerado detestável e ruim, no mínimo.

Mas de onde surgiu um salto tão grande? De alguém cujas pessoas falavam mal para alguém que recebeu o pior castigo e foi afastado de tudo o que é bom e decente? Vamos dar uma olhada na Bíblia para isso.

O oposto de uma maldição é uma benção (do Latim BENEDICTIO, “ato de abençoar”, de BENE, “bem”, mais DICTIO, de DICERE, “dizer”); e diferente do que a maioria das pessoas, e talvez mesmo você, pensa, uma benção não é apenas algo que se possa sair dando por ai. Uma bênção, originalmente era um dom sobrenatural, como meio de salvação ou satisfação. É considerado um dom sobrenatural porque viria direto de Deus, e não pode ser usado por ai, “abençoo você, sua família, seu carro e seu cachorro! Próximo… abençoo você, sua filha, sua mãe, etc…” porque a bêncão é muito mais do que simplesmente falar, é um dom que é passado adiante. Isso fica claro no episódio do Gênesis, todo o capítulo 27, quando Isaque em sua velhice, estando praticamente cego, chama Isaú e pede que ele vá caçar e prepare um guisado para que o próprio Isaque comece e então sua alma pudesse abençoar Isau na face do Senhor antes que morresse. O problema é que a mãe de Isau, mulher de Isaque, ouviu a conversa e achou que seria melhor que a bênção fosse para Jacó, irmão de Isaú. Resumindo a história ela preparou um guisado, vestiu Jacó com as roupas do irmão, tomou conta de certos detalhes que os diferenciaram mesmo para um homem cego e o mandou levar a comida para o pai moribundo. Resultado da história, Jacó recebeu a bênção no lugar de Isaú. QUando Isaú voltou da caçada e levou o guisado para o pai descobriu que haviam lhe passado a perna e pede ao pai: “Abençoa-me também a mim, meu pai!” ao que Isaque responde: “Veio teu irmão e com sutileza tomou a tua bênção.” Isaú se desespera e depois de curto diálogo pede de novo: “Porventura tens uma única bênção, meu pai? Abençoa-me também a mim, meu pai.” E vendo que aparentemente o pai possuia uma única bênção “levantou Esaú a voz, e chorou”.

Curiosamente neste texto existe um diálogo apontando para a equivalência inversa de bênção e maldição quando Jacó ao ouvir o plano da mãe de enganar o pai cego, teme ser apanhado e “e serei a seus olhos como enganador; assim trarei sobre mim uma maldição, e não uma bênção.” Isso mostra que se uma bênção era um dom enviado pela criador e passado direto pela alma de seu portador para alguém, uma maldição seria o oposto disso. Para entender melhor isso basta perceber que a religião, neste aspecto, passou a perna na física em pelo menos 4000 anos.

Enquanto o assunto de radiação, como um fenômeno físico onde partículas ou ondas de energia viajam através de um meio ou do espaço propagando assim sua energia é algo relativamente recente na história da ciência, os antigos patriarcas falavam já de formas de energia que passavam por certos condutores, vindo de determinada fonte, e eram transmitidas. O sol emite radiação solar, especificamente radiação eletromagnética, metade desta energia é emitida como luz visível e a outra metade como energia invisível (que se fora da frequência visível do espector eletro magnético). Por mais difícil que seja imaginar, a luz que você vê hoje não é a mesma que vê amanhã, na verdade a luz que você vê em um instante não é a mesma que você vê no instante seguinte, cada fóton é emitido, viaja e chega aqui onde o vemos. Um mesmo fóton não ilumina o mesmo lugar duas vezes. É como a água que sai de uma torneira. Se uma gota te molhou, não vai sair de novo e te molhar de novo. A história de Jacó e Isaú nos mostram que a visão de uma bênção é muito próxima disso. Isaque possuia UMA bênção, uma vez usada não pode usá-la com outro filho, ou simplesmente sacar yuma segunda bênção do nada. Neste aspecto fica fácil de entender que assim como um fóton é um objeto real, físico e até mensurável em certos aspectos para um físico, uma bênção também é algo real, físico e até mensurável para os que lidam com isso. Neste aspecto, também fica fácil de compreender porque não muito tempo atrás, afirmar que algo ou alguém era maldito era uma ofença extremamente séria.

Já que uma bênção era algo que poderia fazer alguém se tornar o próspero patriarca de uma nação, uma maldição poderia condenar alguém ao pior tipo de existência imaginável, e assim passou a ser entendida como a ação efetiva de um poder sobrenatural, caracterizada pela adversidade que traz, sendo geralmente usada para expressar o azar ou algo ruim na vida de uma pessoa. Na época do Antigo Testamento, Deus era responsável por tudo de bom e de ruim que acontecesse na vida de uma pessoa. Com a criação do cristianismo Deus passou a ser visto como uma criatura de amor, e caiu ao diabo a vontade de trazer o mal para o mundo. Assim foi natural que Satã (ou um de seus infinitos nomes ou equivalentes) se tornasse a fonte do poder sobrenatural de onde se originava a maldição. Dai é fácil imaginar o que aconteceu a seguir: as religiões patriarcais (judaismo e cristianismo) se institucionalizaram.

A base de qualquer instituição é simples: um chefe e um bando de empregados produzindo algo para o resto do mundo. Se todo mundo pudesse ser padre viveríamos em um planeta repleto de igrejas, todas elas vazias. Aparentemente o Deus dos abrahâmicos não é um Deus popular. Assim muito poucas pessoas tinham um acesso às bênçãos. Isso mudou quando na época do protestantismo aparentemente todo mundo se tornou capaz de ser um padre/pastor e o número de bênçãos cresceu. Por outro lado, sempre foi do conhecimento de todos que o Diabo não era tão exigente em relação a seus escolhidos, praticamente qualquer um podia se relacionar com ele, assim maldições sempre foram algo que podiam ser lançadas a torto e direito por qualquer um. Uma pessoa que quisesse sua casa, seus filhos, seu casamento abençoado teria que procurar um padre ou um rabino. Já se qualquer pessoa te olhasse feio e te amaldiçoasse, você estava em maus lençóis. A maldição não poderia ser revogada até que um poder espiritual superior interviesse trazendo libertação.

 

Origem das Maldições na História Humana

 

Texto Gn 2.17: “mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.”

A primeira maldição concreta que surge na Bíblia foi lançada em um objeto e em quem entrasse em contato com esse objeto, pelo próprio Deus. Fica claro que a primeira maldição, então, estava vinculada à desobediência. Se me obedecer, vive no paraíso, se me desobedecer, terá a morte. Era um fato. Uma lei que não poderia ser quebrada impunemente. Por causa de uma distorção da percepção que as pessoas passaram a ter de Deus, uma das maiores fontes de desobediência passaram a ser o ato de desobedecer ao Senhor; já que Deus era bom, ele não poderia causar o Mal, o Mal viria do ato das pessoas.

Com a institucionalização da religião pessoas que tem autoridade passaram a poder amaldiçoar também. Pais podiam amaldiçoar filhos. Líderes amaldiçoar aqueles a quem liderava, Professores amaldiçoar alunos. Sempre seguindo o princípio da desobediência, como castigo para uma ordem não acatada. Pense bem: assim que Adão e Eva desobedeceram a Deus, eles não apenas contraíram a maldição para si como a transmitiram para todos os seus descendentes, que tecnicamente seríamos todos nós humanos. Assim nós temos também o poder de passar a maldição adiante, para quem quisermos, como uma batata quente. É como se por direito divino, cada um de nós nascêssemos com um revólver contendo apenas uma bala, claro que com o tempo poderíamos conseguir mais munição e mesmo armas maiores.

Davi, por exemplo, em Salmos 2 1:21 profere uma maldição conte os montes de Gilboa: “Não caia sobre vós nem orvalho e nem chuva, a fim de que a terra ficasse estéril”. Claro que podemos encarar isso como uma forma primitiva de tentar compreender porque aqueles montes são estéreis, mas também podemos aprar para pensar por que, mesmo hoje com toda a tecnologia que Israel possui no campo do reflorestamento, não consegue sucesso em reflorestar os montes de Gilboa.

 

Tipos de Maldições

Assim, as maldições podem afetar as pessoas de diferentes maneiras e vir de diferentes lugares, podemos classificá-las para estudar melhor isso.

Maldições Hereditárias

O melhor exemplo é o já citado caso de Adão e Eva, que ao serem amaldiçoados, amaldiçoaram toda a raça humana. Agora podemos ver isso sob um aspecto mais moderno. Imagine um pai alcoólatra, qual chance ele tem de criar um filho que seja propenso ao alcoolismo? Se esqueça por um momento do aspecto “sobrenatural” da maldição. O pai pode influenciar seus filhos geneticamente, pode influenciar os valores que os filhos terão, pode influenciar o cotidiano dos filhos. A informação alcoolismo pode ser interpretada de várias maneiras mas tecnicamente é um pacote de informação que será passado adiante, como um programa de computador, e será processado por outra pessoa com os mesmos resultados. Crie um processador de textos e instale em 4 computadores diferente, em cada um ele funcionará do mesmo jeito. Neste caso o alcoolismo será processado de maneira semelhante (por ser analógico e não digital com eventuais diferenças) por pessoas que forem alimentadas com ele.

Assim uma maldição lançada, pode ser desenvolvida para afetar não só sua vítima, mas os decendentes da vítima.

 

– Maldições Indiretas

Tecnicamente esse é um tipo de maldição não lançada diretamente a alguém. Lembre-se que tecnicamente todos possuem o poder de amaldiçoar. Ao ser descuidada, uma pessoa pode lançar uma maldição a algo ou alguém, seja através de palavras ou atos. No ocultismo existe o lema de SABER OUSAR SABER CALAR. Palavras tem poder, se usadas indevidamente podem trazer consequências desastrosas. Muitos magos, por esse motivo, não dizem “a última vez que vi determianda pessoa” e sim “a vez mais recente que vi determiada pessoa”, não dizem “estou morrendo de vontade” e sim “quero muito”. Não é nem necessário se acreditar nessa “besteira supersticiosa”, a cada mês mais e mais estudos de como nomes dados a crianças afetam sua vida. Desde a espectativa dos pais sobre a criança – imagine pais que batizam um filho de Magno e outros que nomeiam o filho de Jaguncinho – até o sucesso profissional e sexual na vida da pessoa, estudos que mostram que certos nomes não passam confiança em curriculos enviados a empresas ou que, por exemplo, nos Estados Unidos um levantamento mostrou que pessoas batizadas de Michael, James e David conseguem muito mais relações sexuais do que pessoas chamadas George e Paul (a não ser que os Georges e Pauls sejam Beatles).

Marta Suplicy pode ter sido ou não uma grande política, mas quando proclamou a fórmula Relaxa e Goza para justificar o caos nos aeroportos de fim de ano, teve sua popularidade e seu respeito dramaticamente reduzidos. Outro exemplo clássico foi a afirmação de que “Este navio nem Deus afunda” feita para o Titanic logo antes de sua primeira, e última, viagem.

E nem paramos para pensar o que deve ser uma criança que cresce sendo chamada por nomes como “diabrete”, “imprestável”, “imbecil”, “preguiçoso”, por pessoas que tem autoridade sobre ela – pais, professores, etc. Ou mesmo depois de adultas e ai já entram no hall de amaldiçoadores os sócios, conjuges, amantes, colegas, superiores do exército, chefes, etc.

 

– Auto-Maldições ou Maldições que se Auto-Realizam

É muito parecida a Maldições Indiretas, mas neste caso ocorrem quando a maldição é lançada sobre a própria pessoa que a profere. São pessoas que passam a se achar burras, incapazes, desastradas. É como o português da piada que ao ver a casca de bananas na calçada já profetiza: “Ai meu Deus… outro tombo!”. Uma forma popular de auto maldição muito mais comum é a do tipo: “quero ser mico de circo se isso não é…”, quando a pessoa em determinada situação proclama algo de ruim ou sinistro a si mesma em decorrencia a um ato banal. “Nossa, como eu não vi isso antes! Eu devia apanhar por causa disso!”, “Nossa, se isso é uma pepita de ouro legítima eu sou um cachorro sarnento!” ou outros similares. Um outro exemplo clássico, para os fãs de citações bíblicas, ocorre em Mateus 27:24-25, quando Pilatos, após lavar suas mãos do destino de Jesus diz para o povo presente que eles serão responsáveis pelo destino de Cristo, ao que eles respondem dizendo: “O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos”. Se Jesus era ou não o filho de Deus, ou a encarnação de Deus, ou se seu julgamento foi justo ou não, não interessa agora, mas basta olharmos a história e a atualidade do povo Judeu para ver que os presentes no julgamento deveriam ter escolhido outras palavras naquele momento.

Em 1995 foi a vez de Paulo Maluf de entrar no Hall dos que deram um tiro no pé. Naquela época, prefeito de São Paulo, lançou Celso Pitta para o substituir nas eleições que aconteceriam em 1996. Em campanhas publicitária políticas profetizou na televisão: “Se ele não for um grande prefeito, nunca mais votem em mim”. Pitta foi eleito, governou entre janeiro de 1997 e maio de 2000, foi afastado do cargo acusado de várias irregularidades, reassumiu em julho de 2000 e terminou o mandato naquele ano. Assim como Maluf, chegou a ser preso, mas deixou a cadeia. Maluf, que depois de abonar Pitta na campanha nunca mais foi eleito para cargos executivos, apesar de tentar ser governador e prefeito, conseguiu apenas se eleger deputado federal.

 

– Maldição Adquirida

Existem casos de pessoas que por um motivo ou outro pegaram para si uma maldição destinada a outra pessoa. Uma mãe que sabendo que o filho foi amaldiçoado pede para que o filho seja poupado e a maldição recaia sobre ela. Ou alguém que clama para si uma maldição destianada a uma pessoa amada.

Mais Bíblia? Voltando para Gênesis capítulo 27, Jacó temeu ser amaldiçoado por Isaque quando este percebesse que o tinha abençoado no lugar de seu irmão; então Rebeca declara: “Caia sobre mim essa maldição, meu filho; atende somente o que eu te digo…” . Esta maldição recai sobre ela que nunca mais vê seu filho, quando Jacó retorna, ela já é morta.

Menos Bíblia? Seu filho precisa de um transplante por causa de algum acidente ou doença, e você decide doar seu coração para ele, por exemplo. Ou você assume o erro de algum colega para que ele não perca o emprego, ou uma futura promoção ou algo parecido.

 

– Maldições Sem Causa

São as maldições que não conseguimos compreender porque foram lançadas, nem por quem foram lançadas, ou como escolhem suas vítimas.

 

Mas São Reais?

Até agora apenas discorremos sobre maldições, alguns exemplos concretos, outros religiosos, mas nenhum deles serve como prova concreta de sua existência. Afinal, praticamente toda maldição pode ser explicada como uma coincidência, certo?

Bem, “coincidência” é apenas uma maneira educada e culta de se dizer MAS QUE MERDA É ESSA? EU NÃO TENHO IDÉIA DE COMO EXPLICAR ISSO! Coincidências podem ser entendidas como simultaneidade de diversos acontecimentos, não necessariamente relacionados. Você deixa um ovo cair no chão e do outro lado do mundo alguém cai do terceiro andar e sua cabeça se abre como um melão na calçada. Até algum tempo atrás apelar para coincidências era uma maneira fácil de se tirar um peso incômodo dos ombros. Não havia um meio de se provar que algo havia acontecido por mero acaso ou se estava ligado a alguma outra coisa. Alguém enfiava uma agulha em um boneco de cera e o rei tinha dores de cabeça, grande coisa o rei vive tendo dores de cabeça, eventualmente alguém diria ou faria algo contra ele que coincidiria com uma de suas crises certo? Pessoas se acidentam o tempo todo, logo a chance de alguém ser amaldiçoado e algo acontecer a essa pessoa é pequena, mas uma chance real. Pense por outro lado: de todas as pessoas amaldiçoadas, quantas sofrem a “maldição” e quantas passam a vida sem serem incomodadas nem por um resfriado?

Bem, essa é uma ótima questão e ai está justamente uma resposta para podermos medir uma maldição. Uma ferramenta para medirmos intensidades, alcance e durabilidade, ou seja a existência e a eficácia de uma maldição e discartarmos de uma vez por todas essa falsa noção de coincidência. Basta que para isso estudemos as estatísticas de um caso e vejamos como isso se aplica em determianda situação.

 

Raios

Entre 2001 e 2010, 280 pessoas foram atingidas por raios nos Estados Unidos em média por ano. Com base nesses números se fizeram mais dois levantamentos, uma estimativa de quantas pessoas, que sobreviveram ou não, teriam sido atingidas. Isso é interessante porque se uma pessoa leva um raio na cabeça e morre no meio do deserto sozinha, ela não entraria na lista de mortes por raios registradas, mas teria, mesmo assim, sido atingida por um raio. Assim chegaram a um número um pouco maior de pessoas que PODERIAM ter sido atingidas por raios nesse período de anos: 400 em média por ano.

Isso nos dá uma série de probabilidades interessantes. Suponha que você é um americano, quais as chances de você:

A) ser atingido por um raio em um dado ano (baseado nos registros)?
B) ser atingido por um raio em um dado ano (baseado nas estimativas)?
C) ser atingido por um raio durante a sua vida?
D) ter sua vida afetada por alguém que já foi atingido por um raio (tendo como base que uma pessoa atingida afeta dez outras pessoas)?

A população estadunidense foi estimulada em 310.000.000 de habitantes no anos de 2011. As respostas então para as perguntas são:

A)1/1.000.000 (uma chance em um milhão)
B)1/775.000 (uma chance em setecentos e setenta e cinco mil)
C)1/10,000 (uma chance em dez mil, levando-se em conta uma estimativa de vida de 80 anos)
D)1/1000 (uma chance em mil)

Isso nos mostra que levar um raio na cabeça não é tão raro assim, mas vejamos dois casos interessantes:

Suponha que exista uma pessoa X. Para ficar mais claro de se visualizar, imagine que essa pessoa é um homem, que esse homem seja um oficial do exército e que ele se chame Summerfold. Major Summerfold. Enquanto estava no meio de uma batalha, montado em seu cavalo, em 1918, Summerfold foi atingido por um raio. Felizmente – ou não – ele sobreviveu.

Antes de continuar tenha em mente também que isso não é tão absurdo quanto parece, no levantamento de pessoas atingidas por raios de cada 241 atingidas, apenas 39 morreram (em média por ano), ou seja de cada 6 pessoas que levam um beijo de Thor na testa, 5 sobrevivem para contar a história.

Continuando com Summerfold, após ser atingido ele ficou paralizado da cintura para baixo. Anos depois, 6 para ser exato, enquanto pescava em um rio, voltou a ser atingido por um raio, o que paralizou todo o seu lado direito. Sua recuperação levou tempo, mas dois anos depois ele era capaz de passear por ai, em parques por exemplo, e foi em um desses parques que em um verão de 1930 ele foi atingido pela terceira vez por um raio, que o deixou permanentemente paralizado. Ele morreu dois anos depois. Apenas para interromper seu processo mental que deve estar começando e formular exclamações como “Caceta! Que azarado!”, em 1936, durante uma tempestade que se formou na região onde ele vivera, um raio atingiu o cemitério local, destruindo um dos túmulos, quebrando a lápide de pedra. Adivinhe quem estava enterrado ali?

O segundo caso envolve uma família.

Na virada do século passado um homem caminhava por uma rua. Foi atingido po um raio. Ele fazia parte da minoria que não sobrevive para contar a história. 30 anos depois, seu filho, andando pela mesmo rua, foi atingido por um raio, morrendo também. No dia 8 de outubro de 1949, um homem caminhava pela mesma rua, é atingido por um raio e morre, esse homem era filho da segunda vítima, ou seja, neto da vítima original.

Agora que leu isso, pare e pense. Coincidência?

Coincidências supostamente ocorrem quando algo acontece sem uma conexão causal definida. Uma forma de sincronicidade. Por exemplo, você acorda, olha para o despertador e vê que são 5:15 da manhã, vai para o trabalho no ônibus 515 e poe ai a fora. Agora e quando existe algo que ofereça uma conexão causal aos eventos?

Enquanto Jacques Demolay era amarrado para ser quiemado vivo, ele gritava para a multidão que assistia:

” – Vergonha! Vergonha! Vós estais vendo morrer inocentes. Vergonha sobre vós todos”.

Enquanto DeMolay queimava na fogueira, ele disse suas últimas palavras:

“- Nekan, Adonai!!! Papa Clemente… Cavaleiro Guillaume de Nogaret… Rei Filipe; Intimo-os a comparecerem perante o Tribunal do Juiz de todos nós dentro de um ano para receberdes o seu julgamento e o justo castigo. Malditos! Malditos! Todos malditos até a décima terceira geração de suas raças!!!

Após essas palavras, Jacques DeMolay, inclinou a cabeça sobre o ombro e morreu.

Quarenta dias depois, Filipe e Nogaret recebem uma mensagem: “O Papa Clemente V morrera em Roquemaure na madrugada de 19 para 20 de abril, por causa de uma infecção intestinal”. O Rei Filipe IV, o Belo, faleceu em 29 de novembro de 1314, com 46 anos de idade, quando caiu de um cavalo durante uma caçada em Fountainebleau. Guillaume de Nogaret acabou falecendo numa manhã da terceira semana de dezembro, envenenado. Após a morte de Filipe, a sua dinastia, que governava a França ha mais de 3 séculos, foi perdendo a força e o prestígio. Junto a isso veio a Peste Negra e a Guerra dos Cem Anos, a qual tirou a dinastia dos Capetos do poder, passando para a dinastia dos Valois.

Coincidência?

Claro que podemos observar a coisa pelo outro ângulo: e todas aquelas maldições vociferadas em momentos de raiva cega que todo mundo profere todos os dias e que nunca se concretizam? Isso não mostra que comparado com o número das maldições que de fato acontecem, essas últimas devem ser obras do acaso?

Para responder isso pense no seguinte: quem nunca tentou fazer um bolo que solou? Quem nunca jogou em alguma loteria, inspirado por um palpite e não ganhou? Quem nunca tentou montar algo que não funcionou? Isso não significa que a culinária, a intuição ou palpite ou a engenharia não funcionem, isso apenas significa que essas pessoas não tinham a habilidade necessária para que sua empreitada desse certo.

Para deixar as coisas ainda mais claras, vejamos agora alguns exemplos de maldições e você decide quais podem ser simples “coincidências”, e quais estão além do mero acaso.

Obito

Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/historia-das-maldicoes/

O espírito no tempo

» Parte 1 da série “Para ser um médium” ver a introdução

O homem, as gerações humanas, morrem no tempo. Mas o espírito não. O tempo é o campo de batalha e que os vencidos tombam para ressuscitar. Quem poderia deter a evolução do espírito no tempo? (J. Herculano Pires)

Ernesto Bozzano foi um pesquisador e intelectual italiano com grande interesse em antropologia, sociologia, evolução e as origens da mediunidade no palco obscuro da pré-história. Num de seus livros ele inicia suas exposições dizendo que “se consultarmos as obras dos mais eminentes antropólogos e sociólogos, notamos que todos concordam em reconhecer que a crença na sobrevivência do espírito humano se mostra universal”. Na época em que Bozzano publicou seus primeiros livros, no final do século XIX, falar abertamente sobre “espírito” ainda não era tão escandaloso na Academia. Os espiritualistas europeus daquela época, muitos influenciados pelas ideias expostas nos livros de Allan Kardec, eram igualmente grandes entusiastas da teoria de Darwin-Wallace… Mas, enquanto esta se ocupava exclusivamente da evolução física das espécies, alguns espiritualistas – dentre eles o próprio Wallace – se interessavam em tentar elucidar a evolução espiritual, particularmente em como o espírito humano havia evoluído através do tempo.

Se saltarmos diretamente para a época em que os primeiros hominídios surgiram no tempo, podemos nos aproveitar de uma bela, simples e elegante teoria proposta pelo arqueólogo Steven Mithen, conforme exposta em A pré-história da mente: Mithen acreditava que algumas potencialidades da mente eram suficientemente conectadas entre si para que pudessem ser agrupadas conceitualmente em módulos mentais… A inteligência geral foi herdada das outras espécies das quais os hominídios evoluíram, e é responsável pelos processos básicos de instinto e sobrevivência; A inteligência naturalista desenvolveu-se ao longo da persistente guerra da fome – o conhecimento do terreno em sua volta, a análise dos rastros de presas livres deixados no solo, o cuidado para evitar plantas venenosas, etc.; A inteligência técnica permitiu o manuseio de objetos e até mesmo a elaboração de ferramentas, como pedras pontiagudas que facilitam o corte da carne das presas abatidas; E, finalmente, a inteligência social evoluiu desde que nossos ancestrais reconheceram que caminhar pelo mundo em bandos era mais seguro do que enfrentar as caçadas sozinho.

Mithen acreditava que o que nos separava definitivamente dos outros hominídios de inteligência primitiva era a interseção entre tais módulos mentais, que parece ter ocorrido de forma mais abrangente no homo sapiens. Subitamente, os dentes de animais caçados, que antes eram descartados, se tornaram decoração de colares; Colares estes que também serviam para demonstrar para outros membros (e mulheres, quem sabe) da mesma tribo quão bons eram os caçadores que os ostentavam; Da mesma forma, as pegadas deixadas na terra pelas presas tornaram-se também símbolos que demonstravam o tamanho e a direção em que o animal se deslocou; E logo tanto símbolos naturais quanto animais quanto os próprios homens se fundiram em pictogramas pintados em cavernas profundas – registros da história de um povo que se reconheceu como povo; Talvez ao mesmo tempo, surgiram os mitos, as forças naturais tornadas meio-homem, meio-animal, meio-espírito, meio-deus – a religião ancestral surgia em meio ao animismo e ao xamanismo, juntamente com a consciência de nossa vida e nossa mortalidade.

A teoria de Mithen não têm absolutamente nada de espiritualista, como podemos ver, mas a sorte de sermos espiritualistas é que não precisamos ignorar as teorias daqueles que não creem em espíritos. Se alguns sentem-se escandalizados com a possibilidade do espírito ter surgido antes do homem, e ser formado por matéria fluida, parte dos 96% da matéria cósmica que não interage com a luz, e que vêm habitando corpos das mais variadas espécies, desde organismos unicelulares até os hominídios e animais com cérebro adequado para comportar um espírito em processo de individualização consciente, numa odisseia multimilenar que caminha lado a lado com a evolução descrita por Darwin e Wallace, deixem estar: lembremos que boa parte de nossa compreensão espiritual se baseia em experiências subjetivas, e que a matéria fluida, espiritual, ainda não foi detectada em laboratório.

Ainda assim, nos anais da pré-história humana, e das primeiras tribos e civilizações, permanece a dúvida objetiva: como podem tantas comunidades isoladas terem chegado a crenças tão parecidas? Em realidade, as crenças nem são tão próximas quanto às atividades místicas em si: a mediunidade, esta sim, conecta de forma definitiva todos os povos primitivos da Terra, sem exceção.

Define-se religião primal como um “sistema de crenças anterior às grandes religiões mundiais”. As religiões primais seguidas por povos tão distintos quanto os inuítes da América do Norte e os aborígenes australianos são variadas, mas com amplas similaridades. Os adeptos ainda hoje vivem quase sempre isolados e privados das comodidades modernas. Enfrentam rigores climáticos, escassez de comida e desastres naturais. Suas crenças lhes dão suporte para lidar com esses problemas. Seus milhares de espíritos ou divindades os ajudam a lidar com as forças naturais, e suas práticas religiosas variam desde experiências místicas e extáticas, normalmente guardadas aos médiuns ativos, até coisas bem mais práticas, como perguntar a um espírito qual a região próxima mais apropriada para a caçada de amanhã…

Muitos chamam tais médiuns ancestrais de xamãs, mas este é um termo surgido na Sibéria, e significa algo como “aquele que enxerga no escuro” na língua local. Mas sejam xamãs, ou pajés, babalorixás, iogues, curandeiros, feiticeiros, etc., todos são em essência médiuns, e suas práticas de comunicação com espíritos, sejam os seus próprios, sejam os de fora, são, estas sim, a grande prática universal que os conecta a todos, e assim conecta a humanidade como um todo, desde sua origem. Conforme disse o Chefe Seattle em sua carta ao presidente americano: “Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida – ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo.”

Como por vezes é complexo identificar como exatamente tantas sociedades primitivas chegaram a ideias e símbolos tão elaborados e “fora da realidade”, muitos antropólogos preferem deixar tudo a cargo das experiências psicodélicas induzidas por alucinógenos naturais. Por exemplo, há escritos do hinduísmo, que é reconhecidamente uma das religiões mais antigas do globo, que louvam a soma, uma planta alucinógena. No Brasil muitos já conhecem o Santo Daime, que é uma doutrina religiosa totalmente baseada nos costumes de povos da grande floresta amazônica, que consomem o chá de ayahuasca a fim de desencadearem experiências místicas… Esta explicação, porém, é incapaz de dar conta de todas as experiências mediúnicas, pois sabemos melhor do que ninguém que a mediunidade hoje pode ser praticada sem o consumo de qualquer tipo de substâncias alucinógenas, e, de fato, esta é a recomendação da grande maioria das doutrinas espiritualistas de hoje em dia. Não há a menor razão para crermos que na pré-história todos os médiuns usavam substâncias do tipo – na verdade, há razões para crer que eles eram minorias localizadas em algumas regiões do globo onde era possível extrair tais substâncias da natureza. Não haviam cogumelos alucinógenos em todas as partes do planeta.

Talvez a religião primal que mais intrigue os antropólogos materialistas seja a religião nativa do Japão que, a despeito do país ter se tornado um verdadeiro polo tecnológico e comportar provavelmente a sociedade mais moderna do mundo, continua plenamente ativa. O xintoísmo, ou “o caminho dos deuses”, foi o título dado à religião nativa do Japão aproximadamente em 720 d.C., poucas décadas após a chegada do budismo na ilha. A questão é que se trata de uma religião pré-histórica, que só foi nomeada em razão de diferencia-la do budismo, recém chegado. Antes o xintoísmo era apenas “a religião”. O xintoísmo reconhece diversos seres divinos chamados kami, supostamente infinitos, que preenchem tudo o que exibe poder ou força vital. Para os japoneses, a natureza é literalmente divina.

Como sabemos, a natureza não é somente divina, como potencialmente viva. Nos dias atuais, presos em nossas selvas de concreto, talvez tenhamos esquecido de como um pequeno galho partido é apenas a parte morta de uma árvore, mas que irá se decompor e formar novamente coisas vivas… Ou que mesmo uma pedra abriga tanto parte da matéria que forma nossos corpos, como parte da matéria que formará espíritos das eras vindouras, embora hoje estejam confortavelmente dormindo no ventre sagrado da Mãe Terra, esperando o chamado do Pai Céu…

Termos antigos, conhecimento antigo, intuição antiga. Certamente tinham uma compreensão precária, parcial, da natureza à volta. Mas, estariam todos eles errados em tudo o que perceberam? Talvez a essência daquilo que viram e sentiram em suas experiências mais sagradas seja exatamente aquilo que falte hoje no mundo moderno. Alguns japoneses o sabem, e também alguns xamãs em meio ao frio do norte, alguns aborígenes, alguns indígenas, alguns poetas, alguns médiuns… Talvez você possa ser um deles, talvez já o seja. Esta é a nossa história, a história do espírito no tempo. Caberá a você escrever os próximos capítulos.

» A seguir, loucura e normalidade…

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Leitura recomendada: O espírito e o tempo, de J. Herculano Pires (Paidéia). Religiões, de Philip Wilkinson (Zahar, Guia Ilustrado).

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Crédito das imagens: [topo] Edward S. Curtis/Corbis (indígena da ilha de Nunivak, no Alasca – EUA, com sua máscara cerimonial); [ao longo] Rainer Hackenberg/Corbis (um torii, símbolo xintoísta, em Kyoto – Japão)

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

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#Antropologia #Espiritismo #Mediunidade

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-esp%C3%ADrito-no-tempo

Howard Phillips Lovecraf e os Mitos de Cthulhu

Resumo

O texto começa por dar algumas informações biográficas sobre Lovecraft, como alguns aspectos mais importantes da sua vida e da sua personalidade. Lovecraft foi um escritor de histórias de temática fantástica que viveu entre 1890 e 1937. É dado algum destaque a Lovecraft enquanto criança, porque se considera importante para a compreensão do seu carácter. Discutem-se diversas influências à sua obra assim como outros factores que o poderão ter marcado. Tenta-se seguidamente dar uma imagem geral dos Mitos de Cthulhu, que é a designação que se adopta para o conjunto de histórias desenvolvidas por este e outros autores que o seguiram. Fala-se sobre o “Círculo de Lovecraft”, conjunto de escritores que seguiram o seu estilo e trocavam grandes volumes de correspondência entre si. For fim aborda-se a questão dos Mitos de Cthulhu depois de Lovecraft e na actualidade.

Introdução

“As a foulness shall ye know Them. Their hand is at your throats, yet ye see Them not; and Their habitation is even one with your guarded thresold.”

– Necronomicon

 

O texto que se segue pretende dar uma ideia geral do trabalho literário de Howard Phillips Lovecraft e do contexto que envolveu esse mesmo trabalho. Criador de um estilo único de literatura, que mistura de uma forma inconfundível ficção científica e terror cósmico, Lovecraft deixou uma obra que ainda hoje em dia inspira muitos autores. Sem pretender deixar de fora os outros escritores que integravam o Círculo de Lovecraft nem tirar mérito ao seu trabalho, utilizo o nome do seu mentor em representação de todo o estilo que ele desenvolveu e que vários seguiram.

Utilizando palavras do próprio Lovecraft, as efabulações sobre temas mundanos e o lugar-comum não satisfazem as mentes mais criativas e sequiosas de novos estímulos. O trabalho de Lovecraft não serve para agradar às massas nem ao cidadão comum, mas apenas a um grupo mais restrito de admiradores que não se contentam com os enredos banais do dia-a-dia. Abdicando do lucro fácil que certamente teria atingido se utilizasse o seu génio na produção de romances comerciais, Lovecraft deixou-nos um legado espantoso de visões fantásticas e universos assombrosos.

Informação Biográfica

“A mais antiga e poderosa emoção da raça humana é o medo, e o mais antigo e poderoso medo é o medo do desconhecido.”

H. P. Lovecraft

Howard Phillips Lovecraft é conhecido na actualidade pelo trabalho que produziu no campo dos contos de ficção e terror. Escreveu durante o seu não muito longo tempo de vida cerca de 65 contos pequenos, 3 romances (um deles incompleto), dezenas de artigos e ensaios para revistas científicas e outras de ficção como Weird Tales, algumas centenas de poemas e sonetos e mais de 100 mil cartas. A sua vasta correspondência será discutida mais adiante na secção que trata do “Círculo de Lovecraft”.

Nasceu no ano de 1890 em Providence, Rhode Island, no seio de uma família abastada mas em clara decadência financeira. Desde cedo mostrou o seu interesse por ciência e pela ficção. Escreveu “The Little Glass Bottle”, o seu primeiro conto, com apenas 6 anos. Cerca de 5 anos mais tarde publicava e distribuia de porta em porta jornais científicos como “The Scientific Gazette” e “The Rhode Island Journal of Astronomy”. Atormentado desde muito cedo por sonhos estranhos e delirantes, tinha uma saúde frágil e problemas nervosos que o impediam de frequentar a escola regularmente. Continuou a escrever ficção ao longo de toda a sua infância e publicou o seu primeiro conto aos 15 anos. No fim da adolescência foi-lhe dito que não tinha talento, deixando de escrever por uns anos. Voltou à actividade com a publicação de “The Transition of Juan Romero” na revista Weird Tales.

Com a morte do seu pai e mais tarde da sua mãe em 1921 num sanatório, a família de Lovecraft atingiu a ruína financeira e viu-se obrigada a vender a maior parte dos seus bens, o que foi para ele um grande choque. Necessitando de ganhar dinheiro para a sua subsistência, Lovecraft viu-se confrontado com um dilema comum a muitos artistas: manter-se fiel à estética artística que persegue ou optar pela vulgaridade e lucro fácil. Tendo sido o seu trabalho sistematicamente rejeitado pelos principais editores, vê-se obrigado a escrever contos de má qualidade para escritores consagrados, segundo ideias por eles fornecidas. Este tipo de actividade era conhecida por ghost-writing. Um dos seus clientes foi Harry Houdini.

A sua ficção, demasiado avançada para a época, atraiu um grupo restrito mas fiel de admiradores, alguns deles escritores consagrados que o impeliam a continuar a escrever. Formou-se aquilo que viria a ser conhecido como Lovecraft Circle, um grupo de escritores de ficção que trocavam correspondência e escreviam dentro de um estilo definido à partida pelo próprio Lovecraft. Foi um dos elementos deste grupo, August Derleth, que mais se empenhou na publicação do trabalho de Lovecraft depois da sua morte, sendo um dos principais responsáveis pela divulgação que tem hoje em dia.

Lovecraft casou-se e foi viver com a sua esposa para Nova Iorque em 1924, mas terminou o casamento dois anos mais tarde, regressando a Providence. Aí viveu o resto da sua vida na companhia de duas tias. Terá, segundo a opinião de alguns críticos produzido os seus melhores trabalhos durante esta época. Tinha como hobbie viajar em busca de vestígios do mundo antigo, fazendo-o na medida em que a sua fraca condição financeira o permitia. Dizia quem o conheceu que era um indivíduo bastante estranho mas muito marcante. Possuidor de um espírito científico e filosófico, era extremamente hipocondríaco e comportava-se como sendo mais velho do que era na realidade. Morreu com 46 anos em 1937 vítima de um cancro súbito e violento, sem nunca conhecer o sucesso.

Sendo desde cedo um leitor ávido, Lovecraft sofreu a influência de muitos outros escritores na sua obra. O seu autor favorito era Edgar Allen Poe, que claramente imitou em “The Outsider”. Além dos escritores que constituíam o Lovecraft Circle, também Robert N. Chambers, Arthur Machen e o jornalista e autor de histórias fantásticas Ambrose Bierce o inspiraram no seu trabalho. Lord Dunsany foi claramente o autor que o influenciou a escrever histórias oníricas e a criar as suas “Dreamlands”, e Algenon Blackwood a recorrer às lendas do índios norte-americanos. Além das influências humanas, e talvez de forma ainda mais marcante, Lovecraft inspirava-se nos seu conhecimentos científicos, astronómicos e filosóficos, assim como nos seu sonhos. Algumas das suas criações mais fantásticas surgiram pela primeira vez na sua mente enquanto dormia.

Os Mitos de Cthulhu

“Todos os meus contos partem da fundamental premissa de que as leis, interesses e emoções humanas não possuem nenhuma validade ou significância na grande imensidão do universo.”

H. P. Lovecraft

August Derleth viria a designar o conjunto do trabalho produzido por Lovecraft e pelos escritores que seguiram o seu estilo como ele próprio por “Mitos de Cthulhu”. Cthulhu é uma criação do próprio Lovecraft de que falarei mais adiante, e que aparece naquele que é provavelmente o seu conto mais conhecido, “Call of Cthulhu”. Cada conto escrito por Lovecraft e seus seguidores constitui mais uma peça para enriquecer a imagem geral do que são os Mitos. A melhor forma de os conhecer é obviamente pela leitura desses mesmo contos, mas tentarei dar uma ideia geral.

É constante ao longo de todas as histórias a ideia de que a humanidade e o nosso planeta são uma “concha” de sanidade mental, imersa num universo completamente alienado, povoado por criaturas e raças poderosas, deuses estranhos e regido por leis completamente insondáveis e divergentes das leis naturais que conhecemos. Um homem exposto a esta realidade tem tendência a enlouquecer. A sanidade mental é vista como uma cortina que nos protege da realidade, permitindo que as sociedades humanas subsistam coma as conhecemos, alheias à estranheza do universo que as rodeia. A personagem principal nas histórias de Lovecraft é tipicamente um cientista, investigador ou professor universitário que se vê confrontado das mais diversas formas com esta terrível realidade.

Outra ideia de base importante é a de que a maioria dos cultos e religiões humanas das mais diversas épocas e regiões do globo, sendo aparentemente dispersas, representem imagens distorcidas e por vezes complementares da verdadeira natureza do cosmos. Segundo a Mitologia de Cthulhu, diversas raças e entidades superiores terão habitado a terra antes do Homem, e diversas o farão depois da Humanidade desaparecer. Algumas destas entidades superiores (como o próprio Cthulhu), dado o seu ciclo de vida inimaginavelmente longo, e a sua supremacia física e intelectual sobre o Homem, são facilmente confundíveis com Deuses. Cultos primitivos terão aparecido para adorar estes pseudo-Deuses. Muitas das histórias dos Mitos especulam sobre a subsistência desses cultos na actualidade, as suas actividades obscuras e as suas motivações incompreensíveis, criando um ambiente extremamente tenso e paranóico.

As histórias originais de Lovecraft têm na sua maioria como cenário os Estados Unidos dos anos 20 e início dos anos 30. Trata-se de uma época de grandes injustiças sociais, em que a classe baixa vivia na miséria e oprimida pela burguesia, enquanto que a classe alta usufruía de um estilo de vida luxuoso. A segregação racial era intensa e a lei seca encontrava-se em vigor, motivando o aparecimento de crime organizado em volta do tráfico de bebidas espirituosas. A terrível realidade dos Mitos de Cthulhu contrasta de uma forma bastante brutal e sugestiva com a futilidade dos interesses da classe alta.

Seguidamente irão ser descritos alguns elementos-chave dos Mitos. Não sendo uma lista de forma alguma exaustiva, pretende apenas dar uma ideia geral do ambiente. Nas descrições que se seguem, e por comodidade, factos completamente fictícios irão ser descritos como reais.

Deuses Exteriores

No panteão dos Mitos, os Deuses Exteriores ocupam o topo da hierarquia. De natureza claramente sobrenatural, governam o universo segundo princípios, desígnios e motivações incompreensíveis para a Humanidade. Tão pouco eles se parecem interessar por ela, sendo-lhes o seu destino indiferente. Não estão limitados pelo espaço ou pelo tempo, conseguindo visitar qualquer local e qualquer era. Percorrem também os diversos planos de existência, sem excluir as Dreamlands.

Azathoth

Origem do Nome: do árabe Izzu Tahuti, que significa “poder de Tahuti”, provavelmente uma alusão à divindade egípcia Thoth.

Azathoth é o “Sultão Demoníaco”, o mais importante dos Deuses Exteriores. Fisicamente é uma massa gigantesca e amorfa de caos nuclear, sendo incrivelmente poderoso mas completamente desprovido de inteligência. A sua “alma” é Nyarlathotep, o mensageiro dos Deuses. Azathoth passa a maior parte do tempo no centro do universo, dançando ao som de Deuses Menores flautistas. A maior parte das suas aparições em locais diferentes deste estão relacionadas com catástrofes gigantescas, como é o caso da destruição do quinto planeta do Sistema Solar, que é hoje a cintura de asteróides.

Nyarlathotep

Origem do Nome: do egípcio Ny Har Rut Hotep, que significa “não existe paz na passagem”.

Nyarlathothep é a alma e o mensageiro dos Deuses Exteriores. É o único deles que tem vindo a travar contactos com a Humanidade, mas os seus objectivos são imperscrutáveis. Possui um inteligência inimaginável e um sentido de humor mórbido. Consegue adoptar centenas de formas físicas distintas, podendo parecer um homem vulgar ou uma monstruosidade gigantesca. Especula-se que um faraó obscuro da IV Dinastia do Egipto Dinástico fosse Nyarlathotep “em pessoa”. A própria Esfinge será uma representação em tamanho natural de uma outra forma de Nyarlathotep.

Great Old Ones – Os Gandes Antigos

Muitas vezes confundidos com Deuses Menores, os Great Old Ones são provavelmente seres vivos incrivelmente poderosos, com ciclos de vida espantosamente longos. Especula-se sobre se pertencerão todos a uma ou várias raças cujos elementos se encontram dispersos pelo universo. A variedade do seu aspecto parece excluir a possibilidade de pertencerem todos à mesma raça. Os seus propósitos são mais compreensíveis do que os dos Deuses Exteriores, estando interessados em colonizar planetas. É frequente um Great Old One liderar um povo de uma raça menos poderosa. Na terra existem cultos dispersos a vários destes seres, principalmente Cthulhu.

Cthulhu

Origem do Nome: Deterioração pelos gregos da palavra árabe Khadhulu, que significa “aquele que abandona”. No Corão existe a seguinte passagem: 25:29 – “Para a Humanidade Satan é Khadulu”.

O mais conhecido dos Great Old Ones e das criações de Lovecraft, Cthulhu é um ser gigantesco e vagamente humanóide, com asas e tentáculos de polvo na boca. Chegou à terra milhões de anos antes do aparecimento do Homem e povoou-a com a sua raça de Deep Ones, seres humanóides anfíbios. Construiu a gigantesca cidade de R’lyeh algures onde é hoje o Oceano Pacífico. Daí comandou o seu império, até ao dia em que as estrelas atingiram um alinhamento que o obriga a entrar em letargia. Cthulhu dorme na sua cidade entretanto submersa por água, aguardando o dia em que a posição das estrelas lhe permita voltar à vida e de novo reinar sobre a Terra. Cthulhu é capaz de comunicar por sonhos enquanto dorme, influenciando alguns seres humanos mais sensíveis durante o sono. Diversos cultos tentam apressar o seu regresso, mas ele próprio não parece ter muita pressa. Especula-se que esta longa hibernação seja uma característica normal do seu estranho ciclo biológico.

Necronomicon

Constituindo uma verdadeira “Bíblia” dos Mitos, o Necronomicon foi originalmente escrito por Abd Al-Azrad, um árabe louco e visionário de cuja vida pouco se sabe, excepto que terá visitado alguns dos lugares mais desolados do globo terrestre. Escrito originalmente em árabe, o Necronomicon foi mais tarde traduzido para grego (onde ganhou o seu nome actual), latim e inglês. Na actualidade não existirão mais do que duas ou três cópias deste livro, supondo-se que uma delas se encontra no Museu Britânico. Revelando alguns dos mais terríveis segredos dos Mitos, a sua leitura provoca graves perdas de sanidade mental a quem o lê.

Arkham

“…The changeless, legend-haunted city of Arkham, with its clustering gambrel roofs that sway and sag over attics where witches hid from the King’s men in the dark olden days of province.”
H. P. Lovecraft

Trata-se de uma pequena cidade universitária perto de Boston, na Nova Inglaterra. Atravessada pelo rio Miskatonic, é nela que vivem muitos dos heróis das histórias de Lovecraft. Fundada por pioneiros ingleses da colonização do contiente americano, Arkham é assombrada pelas memórias do tempo das bruxas e dos ritos sombrios. Alguns dos sotãos desta cidade ocultam ainda hoje segredos terríveis.

Yuggoth

Ainda antes da descoberta oficial de Plutão, o último planeta do Sistema Solar, já Lovecraft escrevia sobre Yuggoth, um pequeno planeta sólido com a sua órbita exterior à de Neptuno. Yuggoth é a terra natal de uma raça de criaturas terríveis, os Fungos de Yuggoth, que são seres insectóides da dimensão de um homem com a capacidade de voar através do vácuo inter-planetário, e donos de uma tecnologia incrivelmente avançada. Os Fungos de Yuggoth vagueiam por todo o Sistema Solar, incluindo a Terra, com propósitos desconhecidos.

Existe bastante polémica sobre se os Mitos de Cthulhu podem ser considerados uma verdadeira mitologia, ou mesmo uma pseudo-mitologia. Tendo todas as características de uma qualquer outra mitologia, desde um panteão de Deuses a um conjunto de lendas (os contos de Lovecraft e outros), foram criados de uma forma perfeitamente artificial e intencional por um conjunto restrito de escritores. Não tiveram a sua génese nas tradições e crenças de uma civilização, como seria normal numa mitologia.

August Derleth, autêntico embaixador da obra de Lovecraft e defensor da ideia de considerar os Mitos de Cthulhu uma mitologia, tentou de certa forma a sua sistematização. Procurou determinar que contos de Lovecraft e outros pertenciam aos Mitos, e esclarecer aspectos focados de uma forma vaga e imprecisa nessas histórias. Chegou a pretender associar algumas entidades dos Mitos com os quatro elementos naturais: ar, água, terra e fogo.

Lin Carter, no seu ensaio “Deamon-Dreaded Lore”, considera que este tipo de sistematização é negativa na medida em que faz desaparecer o factor que considera mais importante nas histórias de Lovecraft: o medo do desconhecido e do incompreensível. Na sua opinião Lovecraft descreve de forma vaga muitos aspectos dos Mitos propositadamente, para criar uma aura de mistério e tensão. Os contos de Lovecraft abordam frequentemente o confronto de seres humanos com realidades e desígnios totalmente alienígenas, e que não para eles compreensíveis.

De forma um pouco marginal ao núcleo central do seu trabalho, e sob a influência de Lord Dunsany, Lovecraft escreveu algumas histórias oníricas, passadas numa dimensão de sonhos, as Dreamlands. A história central deste ciclo é “The Dream-Quest of the Unknown Kadath” e narra as aventuras de Randolph Carter, um homem que quando sonha se vê transportado para um outro plano de existência, semelhante a uma terra medieval povoada de criaturas fantásticas. As Dreamlands são aparentemente um lugar de paz e tranquilidade, habitado por criaturas próprias do imaginário infantil. Este sonho pode por vezes transformar-se em pesadelo, dando lugar aos mais horríveis monstros e criaturas. Embora de uma forma algo dispersa, Lovecraft estabelece algumas relações entre estas Dreamlands e o corpo central dos Mitos.

Existem alguns paralelismos que podem ser traçados entre a vida de Lovecraft e alguns aspectos dos Mitos. Desde muito pequeno que Lovecraft gostava de ler as “Mil e Uma Noites”, fascinando-o especialmente um personagem árabe misterioso. A analogia com o Necronomicon e Abd Al-Azrad é inevitável. A sua repulsa por peixe e comida marinha faz lembrar “The Shadow Over Innsmouth”, onde a decadente população da cidade pesqueira de Innsmouth tem estranhas relações com os Deep Ones, anfíbios humanóides que imitem um repugnante odor a peixe. Lovecraft é atormentado por sonhos desde pequeno, e a sua mais famosa criação, Cthulhu, tem a capacidade de influenciar os sonhos dos humanos. Além disto temos ainda um ciclo inteiro de histórias dedicadas às suas terras de sonhos, as Dreamlands. Os pais de Lovecraft morreram ambos internados no mesmo sanatório, e também as suas personagens sofrem vulgarmente de perturbações mentais, muitas vezes resultante dos seus contactos com os Mitos. Por fim, alguns atribuem a sua obsessão por raças alienígenas terríveis a uma acentuada xenofobia, defeito comum na época e local em que vivia. Tudo isto obviamente é discutível, e não passa de especulação…

O Círculo de Lovecraft

“Slumber, watcher, till the spheres,
Six and twenty thousand years
Have revolv’d, and I return
To the spot where now I burn.
Other stars anon shall rise
To the axis of the skies;
Stars that soothe and stars that bless
With a sweet forgetfulness:
Only when my round is o’er
Shall the past disturb thy door.”
-Polaris

H. P. Lovecraft

O trabalho de Lovecraft atraiu um grupo considerável de escritores, que se começaram a corresponder com ele e entre si. Nascia o Lovecraft Circle, “fundado” pelo próprio Lovecraft e dois escritores consagrados: Clark Ashton Smith e Robert E. Howard (criador de Conan – o Bárbaro). Jovens e talentosos escritores como August Derleth, Frank Belknap e Robert Bloch (que viria a escrever mais tarde o conto que inspirou o filme “Psycho”) juntam-se também ao círculo, e todos contribuem com o seu trabalho para enriquecer os Mitos de Cthulhu.

Os vários autores dos Mitos seguiam um acordo tácito de criar nas suas histórias um ou dois Deuses Exteriores, um Great Old One, um tomo arcano e uma cidade assombrada por cultos obscuros e lendas sombrias. Com pequenas variações, os diversos elementos do Círculo cumpriam as “regras do jogo” ao escrever para os Mitos de Cthulhu. A título de exemplo segue-se uma tabela com informação de alguns livros dos Mitos e o seu criador (assim como o seu autor imaginário).

Era muito frequente os membros do Circulo “brincarem” uns com os outros colocando referências a outros autores dos mitos de uma forma mais ou menos explícita nas suas histórias. Em 1935 Robert Bloch pediu autorização a Lovecraft para o utilizar como personagem principal num conto. Lovecraft concorda e Bloch torna-o o herói em “The Shambler >From the Stars”, matando-o no fim da história às mãos de um monstro alienígena. Lovecraft obtém a sua vingança “matando” Robert Blake, um alter-ego de Bloch em “The Haunter of The Dark”. O autor do tomo “Cultes des Goules” imaginado por Bloch, Comte D’Erlette, é uma alusão clara a August Derleth. O nome Klarkash-Ton, de alto-sacerdote da Atlântida num conto de Lovecraft, constitui uma paródia a Clark Ashton Smith. Vários outros exemplos poderiam ser citados…

Edmund Wilson criticou e ridicularizou mesmo Lovecraft por este usar muita adjectivação na sua escrita. Era considerado que um bom conto de ficção não deveria socorrer-se de muita adjectivação, mas que os próprios acontecimentos e descrições é que deviam sugestionar o leitor. Se uma visão é horrível, o próprio leitor deveria aperceber-se disso, nunca deveria explicitamente ser dito: “a visão é horrível”. O que é facto é que tanto Lovecraft como diversos dos seus seguidores mantiveram sempre o uso de adjectivação muito rica, o que se tornou uma característica distintiva dos contos dos Mitos. Em sua defesa Robert Price considera que estes adjectivos podem ter um efeito quase hipnótico no leitor, despertando a sua própria noção dos conceitos que encerram e inflamando a sua imaginação.

A morte de Lovecraft constituiu um choque para os elementos do Círculo, assim como uma surpresa, visto que este não lhes tinha dado qualquer indicação na sua correspondência de que estivesse doente. Este acontecimento causou uma quebra temporária no trabalho relacionado com os Mitos. Citando Robert Block, “o jogo tinha perdido toda a piada”. Nos anos 40 e 50, Robert Block, James Wade e August Derleth continuaram a escrever histórias dos Mitos. Em 1964 Ramsey Campbell, um jovem escritor britânico, dá a sua contribuição com o apoio de Derleth.Em 1971 ainda outro britânico, Brian Lumley, junta-se ao grupo. O Círculo de Lovecraft não morrera verdadeiramente com Lovecraft, subsistindo de uma forma dispersa até aos dias de hoje.

Lovecraft na Actualidade

“That is not dead which can eternal lie,
And with strange aeons death may die.”

-Necronomicon

Muitos escritores de ficção e terror da actualidade sofrem a influência de Lovecraft, como assume o conhecido autor Stephen King. Sendo hoje considerado um marco da literatura norte-americana, Lovecraft não conheceu qualquer sucesso no seu tempo de vida, e muito pouco nos anos seguintes. August Derleth esforçou-se até muito tempo depois da sua morte por divulgar a sua obra, com algum êxito. Não foi no entanto pela via literária que alcançou a notoriedade de que goza hoje em dia.

No início dos anos 80 apareceu um jogo de personagem (no estilo de Dungeons&Dragons), criado por Sandy Peterson e intitulado “Call of Cthulhu”. Indo buscar o nome a um dos contos mais famosos de Lovecraft, Call of Cthulhu obteve grande popularidade nos Estados Unidos, e mais tarde na França, na Inglaterra e em outros países da Europa. Este estilo de jogo, que é praticamente desconhecido em Portugal, goza de grande popularidade nos Estados Unidos.

Nas décadas de 50 e 60 foram feitas algumas versões cinematográficas de contos de Lovecraft, como “The Strange Case of Charles Dexter Ward” e “Herbert West – The Reanimator”. Não existe, no entanto, nenhuma adaptação mais recente, exceptuando eventualmente o filme “At the Mouth of Madness”. Este filme inspira-se claramente no trabalho de Lovecraft, sendo até a semelhança do seu título com “At the Mountains of Madness” disto indicadora, mas não assume essa influência.

Mais recentemente surgiram alguns jogos de computadores baseados nos Mitos de Cthulhu, como “Alone In The Dark”, “Shadow of the Comet” e “Prisioner of Ice”. Apareceu até um jogo de cartas intitulado “Mythos”. A empresa de entretenimento “Chaosium” está envolvida em quase todas estas iniciativas, incluindo o já mencionado Call of Cthulhu.

Existem três traduções de trabalhos de Lovecraft para português: “O Caso de Charles Dexter Ward” – “The Strange Case of Charles Dexter Ward”, “Nas Montanhas da Loucura” – “At the Mountains of Madness” e “Os Demónios de Randolph Carter”. Esta última é uma compilação de várias histórias do ciclo das Dreamlands, nomeadamente “The Quest for the Unknown Kadath”. Aconselha-se no entanto a leitura das versões em inglês, uma vez que como é normal, as traduções limitam bastante a riqueza inicial dos textos.

Bibliografia

Lovecraft, H. P., “At the Mountains of Madness”, Harper Collins, 1994

Lovecraft, H. P., “Dagon and Other Macabre Tales”, Harper Collins, 1994

Lovecraft, H. P., “The Haunter of the Dark and Other Tales”, Harper Collins, 1994

Petersen, S. e Willis, L., “Call of Cthulhu – horror roleplaying in the worlds of H. P. Lovecraft”, Chaosium, 1995

Bloch, R., “Mysteris of the Worm”, Chaosium, 1995

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/howard-phillips-lovecraf-e-os-mitos-de-cthulhu/

Atos de João

Atos de João faziam parte das obras usadas pelos maniqueus no fim do século IV. Há indícios de terem sido compostos em Edessa, no final do século II d.C., em conjunto com Atos de Pedro, Paulo, André e Tomé, por um autor de nome Leucius Charinus, que viveu na Síria e teria sido discípulo de João. O Texto obedece às linhas mestras do Gnosticismo, nele encontramos uma passagem de rara beleza, trata-se do Hino anterior à Paixão.

É interessante antes de ler esse texto que você pegue um exemplar da Bíblia cristã, em Mateus 26, comece a lendo os versículos 26, 27,28,29, ao iniciar a leitura do versículo 30, você notará a falta de referencias aos salmos cantados pelos apóstolos. Pois bem, Atos de João nos revela esta fabulosa canção.

Este escrito, que você verá a seguir, foi duplamente condenado, tanto pelo papa Leão I(440-461 d.C.) quanto pelo Concílio de Bispo de Nicéia (787 d.C.). Foi proibida sua reprodução e determinada sua destruição pelo fogo.

A tradução do evangelho de João foi baseada na Evangiles Apocryphes, páginas 157 à 179 de F.Amiort. E da obra de Mario Erbetta, in Gli Apocrifi del Nouvo Testamento.

 

 

EVANGELHO DE JOÃO

 Evangelho Cristão

 

(ver Bíblia; MATEUS, 26: versículos 26 a 29)

 

26 Enquanto comiam, tomou Jesus o pão e depois de pronunciar a benção, partiu-o e deu a Seus discípulos, dizendo: 27 “Tomai e comei: Isto é o Meu corpo”. Tomou em seguida um cálice em Suas mãos, deu graças e o entregou dizendo: “Bebei dele todos. 28 Porque este é Meu sangue, sangue da aliança, que vai ser derramado por muitos para a remissão dos pecados. 29 Eu vos digo: Não beberei mais deste produto da videira até ao dia em que o hei-de beber de novo convosco no reino de Meu pai.

 

 

 


EVANGELHO GNÓSTICO DE JOÃO


Atos de João – Complemento de Mateus 26, versículos 29A até 30.

 

 

Antes que fosse preso pelo julgamento dos Judeus, O Mestre nos reuniu a todos e disse:

 

“Antes que eu seja entregues a eles, cantaremos um hino ao Pai e, em seguida, iremos ao encontro daquilo que nos espera”.

 

Ele pediu que nos déssemos as mãos em roda e colocando-se no meio, disse:”Respondei-me Amém.”

Começou, então a cantar um hino que dizia: “Gloria ao Pai”. E nós ao redor lhe respondíamos: “Amém”.

“Glória á Graça; glória ao Espírito; glória ao Santo; glória a sua glória”.- Amém.

“Nós o louvamos, ó Pai; nós lhe damos graças, ó Luz em que não habita as trevas”.- Amém.

“Agora direi porque damos graças:”

“Devo ser salvo e salvarei.” – Amém.

“Devo ser liberto e libertarei.”-Amém.

“Devo ser gerado e gerarei.”-Amém.

“Devo ouvir e serei ouvido.”-Amém.

“Devo ser lembrado e sempre lembrarei.”-Amém.

“Devo ser lavado e lavarei.”-Amém.

“A Graça dança em conjunto, eu devo tocar a flauta, dançai todos.”-Amém.

“O reino dos anjos cantam louvores conosco.”-Amém

“Ao universo pertence àquele que participa da dança.”-Amém.

“Quem participa da dança, não sabe o que vai acontecer.”-Amém.

“Devo ir mas vou ficar.”-Amém.

“Devo honrar e devo ser honrado.”-Amém.

“Não tenho morada mas estou em todas os lugares.”-Amém.

“Não tenho templo mas estou em todos os templos.”-Amém.

“Sou um espelho para aquele que me contempla.”-Amém.

“Sou uma porta para aquele que bate.”Amém.

“Sou um caminho para ti que passa.”Amém.

“Se seguires minha dança, compreendes o que falo, guarda silêncio sobre meus mistérios.”

“Tu, que participa da dança, compreende o que faço, pois a ti pertence esse sofrimento.!

“Tu não poderia de maneira alguma compreender o que sofre, se Eu não tivesse sido enviado como Logos do Pai.”

“Viste o que sofro, me viste sofrendo, e não ficaste insensível, mas sim profundamente perturbado.”

“Tu, que pela perturbação alcançaste a sabedoria, tens em mim um leito: repousa em mim.”

“Saberás quem sou quando Eu tiver partido. O que pareço ser agora, não sou. Tu verás quando vieres.”

“Se soubesse como sofrer, seria capaz de não sofrer mais. Aprende a sofrer e tornar-te-ás capaz de não mais sofrer.”

“O que não sabes, eu mesmo vou ensinar. Sou teu Deus. Quero andar no mesmo ritmo das almas santas. Aprende comigo a palavra da sabedoria.”

“Dize-me de novo: Glória ao Pai; glória ao Logo; glória ao Espírito Santo.

“Tu queres saber o que sou? Com a palavra revelei tudo, e não fui de modo algum revelado.”

“Compreende bem: Eu estarei aqui. Quando tiveres compreendido, diz: Glória ao Pai !”-Amém.

 

EVANGELHO CRISTÃO, MATEUS 26 versículo 30:

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/atos-de-joao/

As Colunas e a Porta

As colunas são evidentemente símbolos do eixo. Estão expressando a idéia de ascensão vertical que une a Terra e o Céu. Quando se tratam de duas colunas rematadas em sua parte superior por um arco ou cimbre, este último simboliza ao Céu, enquanto o retângulo que formam as colunas simboliza a Terra. A porta é também uma esquematização da estrutura completa do templo, especialmente visível nos pórticos das catedrais e mosteiros cristãos. Esse semicírculo do arco simbolizando o Céu se encontra no coro do altar ou abside, que é a projeção sobre o plano de base horizontal da cúpula ou abóbada. E o resto do templo, da porta ao altar, representa a Terra.

A porta (emoldurada pelas duas colunas), com sua dupla função de separar e comunicar dois espaços (o espaço profano do espaço sagrado), está em relação com os ritos de “trânsito” ou de “passagem”, ligados por sua vez com os mistérios da Iniciação, que constituem os mistérios da vida e da morte. Trata-se de um simbolismo primordial que se encontra, sob distintas formas, em todas as tradições.

As duas colunas são um símbolo da dupla corrente de energia cósmica, ativa-passiva, masculina-feminina, rigor e graça, que articula o processo da criação universal em todas suas manifestações. Traspassar o umbral do Templo-Cosmo é ser penetrado por esta dupla energia que convenientemente harmonizada nos conduzirá, através de uma viagem regenerativa e por etapas, à saída do mesmo por outra porta, desta vez pequena (a “porta estreita” do Evangelho, ou “olho da agulha” como se diz na tradição hindu), situada na “chave de abóbada”, e, portanto, na sumidade da cúpula. “Eu sou a Porta”, diz Jesus Cristo, “e quem por mim passa vai ao Pai”. A porta de entrada ao templo, e a que está simbolicamente na sumidade da cúpula, são respectivamente, e utilizando a simbologia da Antigüidade greco-latina, a “porta dos homens” e a ”porta dos deuses”, as duas portas zodiacais de Câncer e Capricórnio. Pela “porta dos homens”, há o nascimento ou a entrada no Cosmo; pela “porta dos deuses”, deixa-se ele, acessando à realidade supracósmica, além do Ser, não condicionada por nenhuma lei espaço-temporal, e da qual nada pode se dizer.

Por sua relação com a caverna iniciática, o templo é semelhante ao corpo da Grande Mãe, sob seu duplo aspecto telúrico e cósmico. As duas colunas são também as duas pernas da Mãe parturiente, em cuja matriz o neófito, que vem do mundo das “trevas profanas”, morre para sua condição anterior, renascendo na verdadeira Vida. Trata-se naturalmente de uma iluminação na esfera da alma, do nascimento do Homem Novo que habita em cada um de nós.

Pela Iniciação, o Cosmo, com todos seus mundos e planos, aparece como a autêntica casa ou morada do homem, na qual já não se sente estranho ou alheio, pois morreu para o velho homem, e se reintegrou ao pulsar do ritmo universal, do qual toma parte.

#hermetismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/as-colunas-e-a-porta

Fantasmas segundo a Bíblia

A crença nos fantasmas remonta a épocas muito recuadas porém foi o advento da escrita que produziu os documentos mais consistentes. A Bíblia se refere à conjuração de fantasmas no Livro dos Reis: Saul, primeiro rei de Israel, recorreu à bruxa de Endor, quando desejou consultar o espírito do profeta Samuel a respeito da conveniência de uma guerra:

“Por aqueles tempos, os filisteus mobilizaram suas tropas em um só exército para combater contra Israel… Samuel tinha falecido… E Saul expulsara da terra os necromantes, feiticeiros e adivinhos… Ao ver o acampamento dos filisteus, Saul inquietou-se e teve grande medo. E consultou o Senhor, o qual não lhe respondeu nem por sonhos, nem pelo urim*, nem pelos profetas. O rei disse a seus servos: “Procurai-me uma necromante para que eu a consulte” ─ Há uma em Endor”, responderam-lhe. Saul disfarçou-se, tomou outras vestes e pôs-se a caminho com dois homens.

Chegaram à noite na casa da mulher. Saul disse-lhe: “Predize-me o futuro, evocando um morto; faze-me vir aquele que eu te designar”… Disse-lhe então a mulher: “A quem evocarei?” ─ “Evoca-me Samuel”. E a mulher, tendo visto Samuel, soltou um grande grito… disse ela ao rei: “Tu és Saul!” E o rei: “Não temas! Que vês? ─ A mulher: “Vejo um deus que sobe à terra” ─ Qual é o seu aspecto?” ─ “É um ancião, envolto em um manto”. Saul compreendeu que era Samuel, e prostrou-se com o rosto por terra. Samuel disse ao rei: “Por quê me incomodaste, fazendo-me subir até aqui?” [BÍBLIA SAGRADA ─ Reis: Samuel I, 28]

* Urim e Tumim [do hebraico אורים ותמים luzes e perfeições] é o nome dado ao processo [pelo Urim e Tumim] e aos instrumentos de adivinhação utilizados pelos antigos israelitas para descobrir a vontade de Deus sobre determinado evento [WIKIPEDIA].

Como se vê, a evocação dos mortos na Antiguidade, foi condenada. Era a sessão espírita daqueles tempos. Ainda assim, o rei apelou para este expediente, sair disfarçado, sendo que ele mesmo havia proscrito seus praticantes. Note-se, também, que o fantasma não gostou de ser evocado, considerando-se incomodado e refere-se ao fato de “subir até aqui”, indicando que não veio do céu, mas de algum lugar abaixo da terra. Onde, afinal, estava o fantasma de Samuel? Meditemos…

por Ligia Cabús

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/fantasmas-segundo-a-biblia/

Anjos e Demônios

O Senhor dos Exércitos:

Nas mais antigas escrituras judaicas Iahweh, aparecia como criador e rei do universo. Tudo o que acontecia, tanto de bom como de ruim, era causado por ele. Em Isaías 45, 7, escrito no sexto século a.C., Deus diz: “Eu formo a luz e crio as trevas, asseguro o bem-estar e crio a desgraça: sim eu, Iahweh, faço tudo isto”. No Livro de Samuel, compilado no décimo século a.C., está escrito: “O Senhor tentou Samuel”. Mas no primeiro Livro de Crônicas (21,1), um texto bem posterior do Velho Testamento, é Satã quem tenta Davi para que desobedeça a Lei e seja alvo da ira de Deus. Segundo esta interpretação, o perigo passava a vir por meio de outros, e não mais através das mãos de Deus (apesar de que ainda sob as ordens dele). Por volta do segundo século a.C., os dois lados de Deus já não eram mais enfatizados nos mitos e nas histórias religiosas dos judeus. [Muitos séculos mais tarde, a primitiva idéia judaica de Iahweh voltava a ser expressada. Na Cabala medieval, dizia-se que Iahweh, que era tudo, também continha tudo – o bem e o mal. Sua mão direita dava a misericórdia, a esquerda, a destruição. Entretanto ele nunca deixou de ser o responsável pelo “mal”, ou melhor, pela “justiça”; afinal de contas não há muita diferença entre punir alguém pessoalmente ou enviar outro, sob ordens expressas, para fazer o mesmo.]

No Livro de Jó, Satã aparece como acusador e tentador do homem, mas ainda é visto como um súdito do Soberano do mundo. Ele apresenta-se diante da coorte celestial como um dos filhos de Deus, que age conforme as instruções do Senhor.

Também em textos apócrifos, midraxes, etc., o casal Samael e Lilith muitas vezes aparece como funcionários de Deus encarregados de testar a fé dos homens e punir aqueles que caírem em erro. No que diz respeito a pecados de natureza sexual, usualmente, as mulheres Lilith, Nahema, Igrat, etc. são quem testam e Samael quem pune. No mais, Lilith costuma punir pecadores matando seus filhos, portanto tirando-lhes a esperança de que sua descendência “será numerosa como as estrelas do céu”, “gerará reis” ou “governará sobre a terra”.

Anjos: Os Mensageiros de Deus

A versão grega das escrituras, conhecida como Septuaginta, traduziu a expressão hebraica “bene ha’ Elohim” por “aggelon theu”, o que acabou por dar no latim “Angelorum”. A palavra grega “ággelos” significa mensageiro, por isso a palavra Anjos passou do latim para as línguas deste derivadas trazendo mais acentuada a idéia de mensageiro do que qualquer outro aspecto da personalidade ‘angélica’, entretanto nos antigos escritos hebraicos, midraxes, etc. haviam “bene ha’ Elohim” para tudo. Por exemplo, haviam anjos para dirigir nações, cuidar do movimento dos astros, transmitir conhecimento aos profetas, guiar os estudantes da Mercabá através dos sete Hehalot, testar os homens através do ciúme, enviar pragas e morte aos infiéis, etc.

Mas também, tanto nas escrituras hebraicas e árabes quanto nas cristãs, aparecem anjos mensageiros (hebr. “Malachim”): Eles trazem mensagens importantes de Deus para os homens, como os avisos da destruição de Sodoma e Gomorra, do nascimento de Isaac (filho de Abraão e Sara), etc. – Para os cristãos a mensagem mais importante que um ser divino já trouxe está no evangelho de Lucas, no episódio em que Gabriel avisa a Maria que ela conceberia Jesus e, uma lenda árabe diz que foi também Gabriel quem teria ditado o Alcorão a Maomé.

Hierarquias Angélicas:

A Bíblia não dá uma descrição precisa a respeito da “hierarquia celeste” e os escritos hebreus conservados apresentam um material um tanto quanto desorganizado. Apesar disso, estudiosos cristãos esforçaram-se para descrever um quadro bem definido. (Podemos ver que estas descrições de autores cristãos foram bastante influenciadas pela filosofia platônica, aristotélica e textos gregos em geral, se afastando em muito do sentido original dos “bene ha’ Elohim”, principalmente nos comentários referentes aos demônios. Mas não é de todo inútil conhece-las devido à antigüidade dos textos e sua influência em autores posteriores).

Ficou mais ou menos estabelecido que os anjos (Angelorum) estariam organizados em hierarquias de sete ordens, de nove coros ou de três tríades. Dionísio, o Aeropagita, elaborou a respeito dos anjos a mais perfeita das teorias cristãs de seu tempo, mas foi São Tomas de Aquino que apresentou a tabela hierárquica atualmente mais aceita, simplesmente por conter o maior número de divisões de “cargos” entre todas as suas contemporâneas.

Santo Agostinho em sua época de pregação enfrentou um problema causado pela grande popularidade dos anjos: As pessoas estavam fazendo-lhes sacrifícios, orando, etc. e esta devoção aos anjos estava causando prejuízos à igreja. Por isso ele pregava ao público: «Sejam quais forem, por conseguinte, os bem aventurados imortais habitantes das mansões celestes, se não tem amor por nós, se não desejam nossa felicidade, não merecem nossa homenagem. Se nos amam, se querem nossa felicidade, querem sem dúvida que a recebamos da mesma fonte que eles»; «Legítimos habitantes das moradas celestes, os espíritos imortais, felizes pela posse do Criador, eternos por sua eternidade, fortes de sua verdade e santos por sua graça, tocados de compulsivo amor por nós, infelizes e mortais, e desejosos de partilhar conosco sua imortalidade e beatitude, não, querem que sacrifiquemos a eles, mas Àquele que sabem ser, como nós, o sacrifício [ou seja, Jesus Cristo]. Porque somos com eles uma só Cidade de Deus.»; «Quanto aos milagres, sejam quais forem, operados pelos anjos ou por qualquer outro modo, se se destinam a glorificar o culto da religião do verdadeiro Deus, princípio único da vida bem aventurada, devem ser atribuídos aos espíritos que nos amam com verdadeira, é preciso acreditar ser o próprio Deus quem neles e por eles opera.»; «… Aquele cuja palavra é espírito, inteligência, eternidade, palavra sem começo e sem fim, palavra ouvida em toda a pureza, não pelos ouvidos do corpo, mas do espírito, por intermédio de seus ministros, enviados que gozam de sua verdade imutável, no seio de eterna beatitude, palavra que lhes comunica de maneira inefável as ordens que devem transmitir à ordem aparente e sensível, ordens que executam sem demora e facilmente.»; «Assim, mostram-nos os anjos fiéis com que sincero amor nos amam; com efeito, não é à sua própria dominação que querem submeter-nos, mas ao poderio daquele que são felizes de contemplar, soberana beatitude a que desejam cheguemos também e de que não se apartam.» (De civitate Dei, X). – De qualquer forma, Santo Agostinho também não deixou a hierarquia angélica bem definida, anotando cerca de três tipos de “anjos” de forma que a fonte mais abalizada para a obtenção de uma angelologia cristã é Dionísio, mais conhecido como o Pseudo-Dionísio, o Areopagita. Seus tratados Gerarchia celeste, Gererchia ecclesiastica, Nomi divini e suas Epistole formaram um corpo que granjeou a estima de muitos, inclusive Gregório Magno, são Tomé, a Escolástica, Dante, Meister Eckhart e são João da Cruz. Seu texto Gerarchia celeste é o mais conhecido e apreciado da angelologia cristã. Nesse texto ele menciona: «Vejo que os Anjos também foram iniciados primeiro no Mistério Divino de Jesus e em Seu amor pelo homem e através deles o Dom desse conhecimento nos foi passado: pois o divino Gabriel anunciou a Zacarias, o sumo sacerdote, que o filho gerado pela Graça Divina, quando já desprovido de esperanças, seria um profeta de Jesus e manifestaria a união entre as naturezas humana e divina mediante a vontade da Boa Lei pela salvação do mundo; ele revelou a Maria que dela nasceria o Mistério Divino da inefável encarnação de Deus.» Dionísio estabeleceu que existem nove ordens celestes, subdividas em três ordens principais: A primeira é aquela que está sempre na presença de Deus e inclui os Tronos e suas legiões ‘com muitos olhos e muitas asas’ (os Querubins e os Serafins) A Segunda ordem inclui os Poderes, as Dominações e as Virtudes; a terceira os Anjos, os Arcanjos e as Potestades. Foi só com Dionísio e Tomás de Aquino que o número das hierarquias foi estabelecido e tornou-se praticamente definitiva nas obras posteriores de autores cristãos. São Tomás de Aquino faz uma longa descrição das hierarquias celestes na Suma contra os gêntios:

«Como as coisas corporais estão governadas pelas espirituais, segundo consta, e entre as corporais existe uma certa ordem, é mister que os corpos superiores sejam governados pelas substâncias intelectuais superiores, e os inferiores pelas inferiores. Além disso, porque quanto mais superior é uma substância, tanto mais universal é sua virtude. Logo, a virtude da substância intelectual é mais universal que a virtude corpórea; e por conseguinte, as substâncias intelectuais superiores possuem virtudes que não podem ser desempenhadas por virtude corporal alguma, e por isso não estão unidas a corpos; já que as inferiores possuem virtudes parciais e que podem ser desempenhadas por alguns instrumentos corporais, dessa forma, é preciso que estejam unidas aos corpos.

E como as substâncias intelectuais superiores tem uma virtude mais universal, por isso também estão mais perfeitamente dispostas por Deus, de maneira que conhecem com detalhe a finalidade da ordem que Deus lhes comunica. E esta manifestação da ordenação divida, realizada por Deus, chega inclusive às substâncias intelectuais mais inferiores, como confirma [a palavra] de Jó: “Inumeráveis são Seus servidores, e sobre qual deles não resplandece Sua luz?” (Jó 25:3). Não obstante, as inteligências inferiores não a recebem de maneira tão perfeita que possam conhecer com detalhe quanto hão de executar em vista do ordenado pela providência, mas somente em geral; pois, quanto mais inferiores são, menos conhecimento detalhado da ordem divina recebem ao serem iluminadas pela primeira vez; entretanto, o entendimento humano, que possui o último grau do conhecimento natural, só tem notícia de algumas coisas universalíssimas.

Assim, pois, as substâncias intelectuais superiores recebem imediatamente de Deus um conhecimento perfeito da ordem divina e, em conseqüência, o hão de comunicar às inferiores, tal como, segundo dissemos, o conhecimento universal do discípulo é aperfeiçoado pelo mestre, que conhece com detalhe. Por isso, Dionísio, falando das supremas substâncias intelectuais, que chama primeiras hierarquias, em outras palavras, sagrados principados, disse que não são santificadas por outras, mas que alcançam imediatamente e plenamente de Deus a santidade, e, enquanto cabe, são transportadas à contemplação da beleza imaterial e invisível e ao conhecimento dos motivos das obras divinas; e disse que por elas são doutrinadas as ordens subalternas de espíritos celestes. Segundo ele, as inteligências mais elevadas recebem do princípio mais alto a perfeição de seu conhecimento. […]»

«Assim, pois, aquelas inteligências que percebem imediatamente em Deus o conhecimento perfeito da ordem da divina providência estão dispostas numa certa hierarquia, porque os superiores e primeiros vêem a razão da ordem da providência – em si mesma – o último fim, que é a bondade divina; porém uns com maior clareza que outros. E estes se chamam Seraphim, i. e., ardentes ou incandescentes, porque o incêndio designa a intensidade do amor ou do desejo, que são duas tendências em relação ao fim. Por isso disse Dionísio que com este nome se designa sua rapidez ou eterno movimento em torno da divindade, fervente e flexível, e sua capacidade de influenciar os seres inferiores excitando-os a um sublime fervor à divindade.

Os segundos conhecem perfeitamente a razão da ordem da providência na imagem mesma de Deus. E se chamam Cherubim, que quer dizer plenitude da ciência, já que a ciência se aperfeiçoa pela forma cognoscível. Por isso disse Dionísio, que tal nome significa que são contempladores da primeira virtude operante da divina beleza.

Dessa forma, os terceiros contemplam a disposição das ordens divinas nelas mesmas. E se chamam Throni, porque trono significa o poder de julgar, segundo o dito: “Te sentas no trono e distribui justiça” (Salmos 9:5). Conforme isso, disse Dionísio que com este nome se declara que são portadores divinos e tomam parte familiarmente em todas as determinações divinas. […]

Por outra parte, entre os espíritos inferiores que para executar a ordem divina recebem das superiores um conhecimento perfeito é preciso estabelecer uma ordem. Pois os mais altos deles tem uma virtude mais universal do conhecimento; por isso conhecem a ordem da providência nos princípios e causas mais universais enquanto os inferiores o obtêm em causas mais particulares. […]

Também estas substâncias intelectuais (i. e. os anjos da Segunda hierarquia) hão de ter certa ordem. Porque, efetivamente a disposição universal da providência se distribui, em primeiro lugar, entre muitos executores. E isso se realiza pela ordem das Dominationum, pois é próprio dos senhores mandar o que hão de executar os outros. Por isso disse Dionísio que este nome (de) dominação designa certo senhorio que rejeita toda servidão e que é superior a toda submissão.

Em segundo lugar, a providência é distribuída e aplicada a vários efeitos pelo que age e executa. E isso se faz mediante a ordem das Virtutum [virtudes], cujo nome, segundo Dionísio, significa certo augusto poder aplicado à todas as obras divinas, que não abandona a nenhum movimento a sua própria debilidade. E isso demonstra que o princípio universal da atividade pertence à esta ordem. Segundo isso, parece que movimento dos corpos celestes, dos quais procedem, como de certas causas universais, os efeitos particulares da natureza, pertence à esta ordem. Por este motivo se chamam virtudes celestes no cap. 21 de S. Lucas, onde diz: “Se moveram as virtudes celestes”. Parece também que a execução das obras divinas que se realizam à margem da ordem natural pertence à esta classe de espíritos, porque tais obras são o que há de mais sublime nos mistérios divinos. Por esta razão diz S. Gregório que “se chamam virtudes aqueles espíritos que freqüentemente fazem coisas milagrosas” (Homil. 34). Por fim, se no cumprimento das ordens divinas há algo principal e universal, é conveniente que pertença à esta ordem.

Em terceiro lugar, a ordem universal da providência, estabelecida já nos efeitos, é preservada de toda confusão pela coerção exercida sobre aquilo que poderia perturbá-la. Coisa que corresponde à ordem das Potestatum [potestades]. Por isso disse Dionísio que o nome de potestade implica certa ordenação, bem disposta e sem confusão alguma acerca do estabelecimento por Deus. E por isso disse S. Gregório que corresponde a esta ordem o conter das forças opostas.

As últimas das substâncias intelectuais superiores são aquelas que conhecem divinamente a ordem da providência através das causas particulares, e são as imediatamente superiores às coisas humanas. Sobre elas Dionísio disse que esta terceira ordem de espíritos manda, por conseguinte, nas hierarquias humanas. E por coisas humanas se há de entender todas as naturezas inferiores e causas particulares que estão ordenadas ao homem e sujeitas a seu serviço.

Aqui também existe uma ordem. Pois nas coisas humanas existe certo bem comum, que é o bem da cidade ou dos cidadãos, e que, ao parecer, pertence a ordem dos Principatuum [principados]. Por isso, disse Dionísio que o nome de principados significa certa categoria de caráter sagrado. Conforme isso, Daniel fez menção de Miguel, príncipe dos judeus e príncipe dos persas e gregos (Dan. 10, 13-20). Segundo isso, a disposição dos reinos, a transmissão de poder de um povo a outro, deve pertencer ao ministério desta ordem. Inclusive a inspiração daqueles que são príncipes entre os homens com respeito a como hão de administrar seu governo, parece que corresponde à esta ordem.

Há, porém, outro bem humano que não é comum, mas individual, ainda que não se utilize em benefício próprio, mas em benefício de muitos: Como as coisas de fé, que todos e cada um hão de crer e observar; o culto divino, etc. E isto corresponde aos Archangelos [arcanjos], de quem disse S. Gregório que anunciam o maior; razão porque chamamos arcanjo a Gabriel, que anunciou a encarnação do Verbo à Virgem.

Há, também, certo bem humano que pertence a cada um em particular. E os bens desta classe correspondem à ordem dos Angelorum [anjos], que, segundo S. Gregório, anunciam as coisas pequenas; e por isso se chamam custódios dos homens, segundo o dizer do salmo: “Te encomendará a seus anjos para que te guardem em teus caminhos” (Sl. 90;11). Por isso, disse Dionísio que os arcanjos são intermediários entre os principados e os anjos, e tem como ambos algo em comum; dessa forma, com os principados, enquanto que são chefes dos anjos inferiores, (…) e com os anjos, porque anunciam aos anjos e, mediante estes – cujo ofício é manifestarem-se aos homens -, a nós o que lhes corresponde segundo a categoria. Por este motivo a última ordem se apropria do nome comum como especialmente seu, porque desempenha o ofício de anunciar aos homens sem intermediários. Daí que os arcanjos tem um nome composto pelos dois, pois se chamam arcanjos, i. e., príncipe dos anjos. (…)

Por último, em todas as virtudes ordenadas é comum que todas as inferiores obrem em virtude da superior. Segundo isso, o que dissemos que pertence à ordem dos serafins o executam as inferiores na virtude dos mesmos. E isso se aplica também às ordens seguintes.»

Tomás de Aquino fala sobre os anjos em outras partes de sua vasta obra, como por exemplo, nos seguintes trechos da Suma Teológica: «Nos anjos (lat. angelis) não pode haver outra virtude senão a intelectiva e a vontade, conseqüente ao intelecto, porque nisso consiste toda a virtude do mesmo. A alma [humana], porém, tem muitas outras potências; assim, as sensitivas e as nutritivas. E portanto, não há símile.»; «o intelecto angélico está sempre em ato em relação aos seus inteligíveis, por causa da proximidade com o intelecto primeiro, que é ato puro como antes se disse.»; «Há, porém, outra virtude cognoscitiva que nem é ato de órgão corpóreo, nem está, de qualquer modo, conjunta com a matéria corpórea, como o intelecto dos anjos. Por onde, o objeto desta virtude é a forma subsistente sem a matéria. Pois, embora conheçam os anjos as coisas materiais, só as vêem no imaterial a saber, em si mesmos ou em Deus»; «inversamente [aos homens], os anjos conhecem as coisas materiais pelos seres imateriais»; etc.

Satã, os olhos do Rei:

Depois do Cativeiro da Babilônia, a religião judaica, influenciada pela doutrina de Zoroastro do Bem e do Mal, e impregnada pelos conceitos religiosos mesopotâmicos, concebeu Satã, baseado num funcionário do sistema de governo mesopotâmico. A origem da palavra Satã é conhecida. Significa “o adversário”, “o acusador”. Sabemos que um funcionário com essas atribuições existia no Império Persa, em oposição a outro funcionário, chamado “Os olhos do rei”. O “acusador” ou os “acusadores”, tinham como função percorrerem secretamente o reino e fiscalizar tudo o que estava sendo feito de errado, para apresentar denúncias diante do Imperador, que mandava chamar os funcionários faltosos e os castigava. Pode-se perceber, facilmente, as conotações de medo, repulsa e verdadeiro pavor que os funcionários exerciam. No livro “Bases da Política Imperial dos Aquemênidas”, Pedro Freire Ribeiro refere-se, também, a verdadeiras expedições de fiscalização, acompanhadas de tropas, para arrecadar impostos e aplicar corretivos (pag. 66). Jeayne Auboyer, na “História Geral das Civilizações”, volume I, pg. 205, diz também, sobre este sistema: “mas apenas a correspondência não é sucifiente: o governo central envia, além disto, a fim de controlar a administração local, inspetores designados, por uma metáfora já corrente nas monarquias precedentes, como ‘os olhos e ouvidos do rei’”. Eis, portanto, a origem de Satã. Estamos diante de uma tradição calcada no sistema administrativo dos Mesopitâmicos e dos Persas. No livro de Jó, Satã aparece, claramente, como uma espécie de inspetor, que se apresenta depois de percorrer a terra junto com os outros anjos (ou “olhos do rei”), para apresentar seu relatório, sobre o que tinha visto.

Satã, em suma, é um “acusador” e este é um dos significados da palavra. Mas Satã não é, obviamente, um demônio. Ele apresenta-se em um concílio diante do Senhor, junto com os anjos e dialoga calmamente com Deus. Naturalmente, esta mesma idéia de Jó, tentado com todas as desgraças, não é originalmente, hebraica. Samuel Kramer em “A Mesopotâmia” (pg. 123), nos dá um resumo da lenda de Jó, na Babilônia: “Entre os mitos da Suméria, figura a história de um homem de nome desconhecido, que um dia se encontrou sozinho por motivos que não era capaz de compreender. Cercado de torturadores, ele é visto aqui no fundo do quadro numa súplica ao seu deus tutelar, que observa do alto. O homem lastima sua sorte, exclamando: “Minha palavra honrada transformou-se em mentira… uma doença maligna cobriu meu corpo… Deus meu… por quanto tempo me abandonarás, me deixarás sem proteção?” A história deste “Jó” sumeriano também tem um desfecho feliz, porque o deus lhe ouviu as preces e fez que as provações terminassem tão abruptamente como tinham começado. Mas as questões fundamentais do sofrimento humano e da justiça divina, formuladas pelos sumérios e ainda com maior pungência pelo seu descendente bíblico, ainda nos desafiam”. Apenas para finalizar o assunto da identificação com os funcionários conhecidos como “os olhos do rei”, vejamos esta passagem em Crônicas (16:9):

“Porque, quanto ao Senhor, seus olhos passam por toda a terra, para mostrar-se forte para aquele cujo coração é totalmente dele; nisto procede loucamente, por isso desde agora haverá guerra contra ti.” (Crônicas, 16:9)

Os seus olhos que passam por toda a terra (o império) são os funcionários que fiscalizam. No caso, alguém foi apanhado em flagrante delito pelos “olhos acusadores” de Satã. E o Rei lhe fará guerra ou perdão… Satã só aparece nos livros mais recentes da Bíblia. Começa no livro de Jó e depois surge em Zacarias e nas Crônicas. Se, no princípio é um acusador, a etimologia da palavra nos levaria, inclusive a “chatám”, isto é, “o adversário”, mais tarde vai tomando as formas de “o contraditor” ou “o acusador”. É uma espécie de procurador de Javé e trata de ver se seus “filhos” são realmente fiéis. Mas, não é só. Depois do cativeiro da Babilônia, Satã vai ganhando contornos cada vez maiores, até que se transforma num ser que induz ao pecado. Neste instante, já estamos entrando na chamada Era Cristã. (Para mais detalhes, veja Fernando G. Sampaio. A História do Demônio. Editora Garatuja. Porto Alegre. 1976.)

A história de Jó:

O autor do Prólogo de Jó, conservou neste relato em prosa seu cunho de narrativa popular onde Deus recebe ou dá audiência em dias determinados, como faz um monarca. Começa com uma introdução elogiando Jó, da terra de Hus, ao sul de Edom: Era um homem íntegro e reto, que temia a Deus e se afastava do mal. Tinha sete filhos, três filhas e era o homem mais rico do Oriente, até que Satã, duvidando de sua honestidade, resolveu testa-lo:

«No dia em que os Filhos de Deus vieram se apresentar a Iahweh, entre eles veio também Satã. Iahweh então perguntou a Satã: “De onde vens?” – “Venho de dar uma volta pela terra, andando a esmo”, respondeu Satã. Iahweh disse a Satã: “Reparaste no meu servo Jó? Na terra não há outro igual: é um homem íntegro e reto, que teme a Deus e se afasta do mal.” Satã respondeu a Iahweh: “É por nada que Jó teme a Deus? Porventura não levantaste um muro de proteção ao redor dele, de sua casa e de todos os seus bens? Abençoaste a obra das suas mãos e seus rebanhos cobrem toda a região. Mas estende tua mão e toca nos seus bens; eu te garanto que te lançará maldições em rosto.” Então Iahweh disse a Satã: “Pois bem, tudo o que ele possui está em teu poder, mas não estendas tua mão contra ele.” E Satã saiu da presença de Iahweh.» (Jó: 6-12)

Logo os sabeus, uma tribo de nômades, “passaram os servos a fio de espada” e roubaram os rebanhos de Jó. No mesmo dia, em outro lugar, “um furacão se levantou das bandas do deserto e se lançou contra os quatro cantos da casa, que desabou sobre os jovens [filhos de Jó] e os matou.” (Jó 1: 19) O Targum, Jó 1:15 acrescenta ainda que:

«Lilith, a Rainha de Zemargad, lanchou, atacou, agarrou [as canções de Jó] e matou o jovem homem…» (Targum, Jó 1:15)

Apesar de toda esta desgraça repentina, Jó conformou-se, não cometeu pecado nem protestou contra Iahweh. Entretanto, o pessimista Satã não ficou totalmente convencido da fidelidade de Jó e continuou a duvidar de sua integridade:

«Num outro dia em que os Filhos de Deus vieram se apresentar novamente a Iahweh, entre eles, para apresentar-se diante de Iahewh veio também Satã. Iahweh perguntou a Satã: “De onde vens?” Ele respondeu a Iahweh: “Venho de dar uma volta pela terra, andando a esmo”. Iahweh disse a Satã: “Reparaste no meu servo Jó? Na terra não há outro igual: é um homem íntegro e reto, que teme a Deus e se afasta do mal. Ele persevera em sua integridade, e foi por nada que me instigaste contra ele para aniquilá-lo.” Satã respondeu a Iahweh e disse: “Pele após pele! Para salvar a vida, o homem dá tudo o que possui. Mas estende a mão sobre ele, fere-o na carne e nos ossos; eu te garanto que te lançará maldições em rosto”. “Seja!”, disse Iahweh a Satã: “fase o que quiseres com ele, mas poupa-lhe a vida.” E Satã saiu da presença de Iahweh.» (Jó: 6-12)

Satã feriu Jó com chagas malignas dos pés à cabeça. Contudo, ele não maldisse a Deus. A partir daí história continua em forma de discursos e só retoma o formato de prosa no Epílogo (Jó 42). No primeiro ciclo de discursos, Jó amaldiçoou a noite de seu nascimento:

«Que a amaldiçoem os que amaldiçoam o dia,
Os entendidos em conjurar Leviatã!» (Jó 3:8)

Passado um tempo, Jó, abatido com sua miséria, fala:

«Levo cravadas as flechas de Shaddai
e sinto absorver seu veneno.
Os terrores de Deus assediam-me.» (Jó 6:4)

Mais tarde, finalmente Satã consegue seu intento. Jó revolta-se e entra em debates com três sábios, a respeito de sua condição. Por fim, ele lamenta-se de não poder ele mesmo ir até Deus defender sua causa, entretanto Deus vem até ele e mostra seu poder. Jó responde:

«Reconheço que tudo podes
e que nenhum dos teus desígnios fica frustrado.
Sou aquele que denegriu teus desígnios,
Com palavras sem sentido.» (Jó 42:2-3)

Por fim, Jó arrepende-se e faz penitência, Iahweh repreende os três sábios porque “não falastes corretamente de mim como o fez meu servo Jó” (Jó 42:7) e recompensou Jó, duplicando todas as suas posses, que teve também outros sete filhos e três filhas em substituição dos que morreram. Suas novas filhas Rola, Cássia e Azeviche foram as mais belas mulheres de toda a terra e seu pai repartiu-lhes herança em igualdade com seus irmãos [o que é fora da regra corrente, pois as filhas só herdavam em último caso, na falta de filhos varões]. Depois desses acontecimentos, Jó viveu cento e quarenta anos, e viu seus filhos e netos até a quarta geração. Jó morreu “velho e cheio de dias”. (Jó 42)

Por Shirley Massapust

Alimente sua alma com m

Postagem original feita no https://mortesubita.net/demonologia/anjos-e-demonios/

Referências Ocultistas em Promethea

O Alan Moore é um gênio. E Promethea é uma de suas obras primas, com referências muito mais complexas do que Watchmen ou mesmo a Liga Extraordinária.

Recentemente, comentei sobre uma sequencia de páginas de Promethea referentes a Daath e o pessoal me pediu para escrever sobre toda a série. Nesta série de posts, que começará no Sedentário e continuará no Teoria da Conspiração, tentarei comentar sobre as referências ocultistas que ele utilizou enquanto escrevia Promethea.

Não será um trabalho simples. Ao longo de 32 edições (que por si só já foi uma escolha pensada, visto que a Árvore da Vida possui 32 Paths (entre 10 Esferas e 22 Caminhos) que relacionam praticamente todos os Sistemas magísticos e filosóficos que existem.
A primeira HQ, “The Radiant Heavenly City”, traz na capa Promethea desenhada por ninguém menos do que Alex Ross, em um estilo egipcio, mas a própria capa já traz dentro de si algumas surpresas e referências:

O Nome “The Radiant Heavenly City” é uma referência bíblica; Apocalipse 22,14 “Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na Cidade Celestial pelas portas.”. A Cidade Celestial mencionada é o Paraíso que os crentes pensam que é de verdade e os ateus pensam que é de mentira mas, na realidade, é apenas simbólica para representar Kether, o Universo e a origem de todas as idéias. A Árvore da Vida é uma estrutura simbólica que representa todos os níveis de consciência humanos, de Malkuth (a pedra bruta) a Kether (o todo).

“Se Ela não existisse, nós teríamos de inventá-la” é uma referência ao maçon Voltaire, que disse “Se deus não existisse, nós teríamos de inventá-lo“.

E finalmente, o conjunto de imagens à direita de Promethea não são apenas desenhos aleatórios: são hieróglifos egipcios e símbolos esotéricos que contam uma história: O Sol (que acompanha Promethea durante sua jornada – o iniciado, iluminado); Ibis (que representa o Pai); O Por do Sol (que representa o fim de um período ou era); o Labirinto (que representa a jornada); O capacete (representando as muralhas de tróia, o conflito e a guerra); As águas e o olho (o despertar da consciência e a pesquisa – a protagonista entra na Jornada do Herói fazendo uma pesquisa a respeito de Promethea); os dois ankhs (herança – promethea é filha do sábio que morre no início da HQ), o escaravelho (renascimento de Promethea) e o Alef (o Começo)… em resumo para quem não leu: Alan Moore conta a história da primeira HQ em hieroglifos!

No Lado esquerdo, os hieroglifos representam as águas (consciência, emoções), a serpente e os dois lados da árvore da Vida (A via úmida e a via Seca dos alquimistas), a pena de Maat queimada (a incompletude), o abismo (a separação entre o reino material e o das idéias) a Lira e louros (representando a poesia e poetas), o Ankh (o domínio da árvore, a própria Promethea) e finalmente Hórus, filho do Sol. Novamente, para quem não leu, spoilers: Alan Moore explica que a idéia de Promethea e a escalada até a iluminação não pode ser destruída, permanecendo dormente até cruzar novamente o abismo através da poesia (ou textos).

O caduceu e as duas vias de subida na Árvore da Vida são representadas no bastão que Promethea segura. A palavra “Promethea” vem de Prometeus, o titã que roubou o fogo dos deuses para trazer aos mortais e, por causa, disso foi punido e condenado a permanecer acorrentado a uma rocha pela eternidade, com uma águia comendo seu fígado, que renascia a cada novo dia. Tal qual os símbolos, cujos significados atravessam o tempo e as culturas.

e acabamos a CAPA… faltam 32 paginas. Agora vocês têm uma idéia do porquê o Alan Moore é foda!

Alexandria 411 DC – Ano em que Santo Agostinho faz o discurso sobre “A imutabilidade de Deus é percebida através da mutabilidade de suas criações”. O mesmo tema de Promethea, já que estamos falando de idéias e formas mutáveis. Voce pode conferir este discurso no site do Vaticano. Obviamente a escolha da data não é uma coincidência.

O pai de Promethea está terminando traduções do egipcio para o grego (note as estátuas de Hermes e Toth sobre a mesa, representando o mesmo deus na cultura grega e egípcia) quando é abordado pelos fanáticos cristãos malucos. Ele possui o dom da profecia, não apenas avisando Promethea sobre seu reencontro (que só vai acontecer lá pela edição 19) mas também falando as frases dos cristãos antes deles próprios, demonstrando que já sabia seu destino e o aceitava (se ele previa o futuro, poderia ter fugido, mas não o fez, e estava sorrindo quando o mataram). Note as imagens do Sol nos cantos dos quadrinhos, desenhados como se estivesse pondo. A partir do começo da história, o Sol é retratado de uma forma moderna, mas DE OLHOS FECHADOS no presente, até o final do capítulo, quando o sol moderno abre os olhos ao renascimento de Promethea.

Na página 20-21, Promethea conversa pela primeira vez com Toth-Hermes. Ambos conversam com ela como se fossem uma única pessoa e explicam o que Moore chamou de Immateria, ou o que os cabalistas conhecem como Ruach, o Mundo das Idéias e Emoções. Ali, todas as histórias possuem vida e podem acessar nosso mundo de tempos em tempos. Carl Jung chamou este estado de consciência de Inconsciente Coletivo e Richard Dawkins chamou estas “idéias vivas” de Memeplexes.

Na página 22 é mostrado um Centauro como sendo o tutor de Promethea. Centauros são construções imagéticas que representam o signo de Sagitário. Sagitário, ou Fogo Mutável, é a essência espiritual/filosófica manifestada no estado mental; é o processo de síntese: de reunir várias teorias e configurá-las em uma tese, como uma espiral.
No arquétipo grego, este período de tempo no qual estas energias estavam mais manifestas coincidia com a fase próxima ao inverno, quando eram valorizados os caçadores e os cavalos (a caça era necessária para obter carne e peles para o inverno e o cavalo para percorrer estas distâncias), daí a fusão de cavalo + cavaleiro em uma única figura, que absorvia o arquétipo de acadêmico e se tornava Quíron, o professor de Herakles (o Sol, filho de Deus com uma humana, Jesus, o Iniciado).

Na última página, uma referência o Arcano do Mundo, do tarot. Moore coloca como símbolos dos quatro elementos o Escaravelho (Terra), os Louros (Fogo), o pássaro/Toth (Água) e o Homem/Hermes (Ar).
Esta representação iconográfica acaba confundindo um pouco os iniciantes, porque aparentemente o pássaro deveria representar o Ar, mas a razão para isso é astronômica. Quando os primeiros zodíacos foram criados na Babilônia, o posicionamento das constelações no céu era diferente do que está ai hoje e a que ocupava o correspondente às emoções era a Constelação de Aquila (daí a imagem da Águia Dourada estar associada à Coragem) e o Ar é a constelação de Aquadeiro (era representado por um homem carregando uma jarra de água, o que causa confusão nos esquisotéricos com o nome Aquário e a correlação com o elemento AR). Constelações e os Signos nunca tiveram nada a ver um com o outro, ao contrário do que a Veja e os leigos astrônomos afirmaram recentemente.

#AlanMoore

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/refer%C3%AAncias-ocultistas-em-promethea