A guerra dos 50 anos

» Parte 2 da série “Intoxicados” ver parte 1

Parece cocaína, mas é só tristeza… Muitos temores nascem do cansaço e da solidão; Descompasso, desperdício – herdeiros são agora da virtude que perdemos… (Legião Urbana)

Se você quer afastar seu filho, filha, ou algum familiar querido, ou amigo, das drogas, fará bem em começar por desiludi-los da lenda de que as drogas fazem sempre mal… Não é verdade, obviamente: se fosse assim, na primeira dose de cachaça um adolescente iria cuspir aquele terrível gosto amargo no chão e nunca mais pensaria em beber novamente. Porém, se esta fosse à regra, não haveriam bebidas alcoólicas sendo vendidas quase como água pelo mundo afora. Pode ser amargo no início, mas depois fica doce, e depois, se exagerarmos na dose, fica amargo de novo; Só que uma amargura muito mais triste – a amargura que anestesia a alma.

Outras drogas podem ser doces desde a primeira dose, gerando “grandes viagens psíquicas” que já chegaram até a inspirar alguns grandes artistas, contanto que sejam usadas com parcimônia – o que raramente é o caso. Você pode subir no pedestal da moralidade e avisar aos desavisados: “Tomem muito cuidado, pois o caminho das drogas é doce somente no início, depois provoca grande tristeza!” – Mas, devemos considerar que há alguns seres civilizados e cultos da pós-modernidade, assim como muitos miseráveis e oprimidos, que, de uma forma ou de outra, constataram que na vida só existe tristeza – Se pelo menos nas drogas conseguem um pouco de doçura aqui e ali, ainda estarão saindo no lucro… São essas tais máquinas tristes, com tendências suicidas, que não veem nenhum problema em se suicidar aos poucos, uma bala, uma cheirada, uma seringa de cada vez.

O vício em drogas produz verdadeiros zumbis psíquicos, incapazes de sentir quase nada de realmente profundo (ou seja, capaz de lhes tocar a alma) no transcorrer de sua fase viciada. Pode parecer terrível, mas ainda assim conseguem o que queriam desde o princípio: não sentir mais aquela melancolia, aquela angústia de terem de cuidar das próprias almas… Ainda que assim também se abstenham de sentir felicidade, está tudo bem: podem então “viajar” nas drogas, até que sua viagem pela vida, uma viagem que não veem muito sentido de ser, em todo caso, finalmente chegue ao fim.

Porém, o mais incrível em toda essa história é o fato de que alguns dos maiores governos do mundo, influenciados ou não pelas grandes doutrinas religiosas, acreditem até hoje que a repressão é o melhor caminho para se resolver o problema, deixando o tratamento dos zumbis em (décimo) segundo plano, como que se eles fossem efetivamente zumbis, e não mais seres; Não mais pessoas em busca de alguma doçura real nessa vida; Não mais almas atormentadas, mas que podem ainda ser curadas.

A chamada lei seca total entrou em vigor nos EUA em 1920, promulgada durante o segundo mandato de Woodrow Wilson. Seu cumprimento foi amplamente burlado pelo contrabando e fabricação clandestina de bebidas alcoólicas. A lei seca foi abolida em 1933, já no primeiro mandato de Roosevelt. Permaneceu ativa por quase 14 anos… Enquanto esteve efetiva, veio contribuir para o aumento das fortunas de vários mafiosos, dos quais o mais conhecido é, sem dúvida, Al Capone. A sua revogação veio ajudar a débil recuperação econômica (devido ao “crash” da Bolsa em 1929), mas essencialmente contribuiu para o final do período de ouro da máfia norte-americana. Esta década e meia de proibição do álcool em uma sociedade capitalista – e que preza a liberdade – nos ensinou muito acerca da natureza humana, e de sua propensão para a ilegalidade e violência, se for o caso, para conseguir chegar aos seus objetos de desejo ou, pelo menos, aos seus anestesiadores de almas…

No Corão (5:91) é dito que “Satã apenas deseja suscitar a inimizade e o ódio entre vós com intoxicantes e jogo, e impedir-vos de lembrardes de Alá e da prece. Sendo assim, não ireis vos abster?”; Não chega a ser uma proibição cabal, mas uma espécie de aconselhamento… Mesmo assim, ainda que as bebidas alcoólicas tenham sido largamente consumidas no mundo islâmico (e principalmente no período de ouro do Islã, em Al-Andalus), ainda hoje há inúmeros países islâmicos que punem o tráfico de entorpecentes mais pesados, como cocaína e heroína, com a pena de morte. Aparentemente funciona: com a pena de morte em estados totalitários, o tráfico de drogas ilegais é quase nulo nos países do Islã. A questão é que não apenas os traficantes são punidos e perseguidos, mas também os usuários. Aqui está a solução: matar todos os zumbis (que, em todo caso, já buscam a morte)… E então estaremos supostamente seguindo o desejo de algum deus estranho. Para os islâmicos, parece ter resolvido, ou pelo menos enquanto mantém sua população sob o jugo totalitário de seus estados teocráticos. Até que venham as primaveras árabes.

Mas, estranho de se pensar, a grande diversão dos bares islâmicos é fumar narguilé enquanto conversamos com os amigos… Lá, na terra onde quase todos os entorpecentes são proibidos, fuma-se tabaco (e outras especiarias) com essa espécie de cachimbo d’água, à vontade… Então, talvez nem lá, nem lá a questão esteja totalmente resolvida. Hoje a ciência sabe que o tabaco é bem mais prejudicial à saúde do que, por exemplo, a cannabis, entretanto a cannabis é ilegal em quase todo mundo, e a grande fonte de renda dos traficantes de drogas ilegais, enquanto que o tabaco é perfeitamente aceito (com algumas ressalvas) em todo o mundo, inclusive no islâmico…

Segundo a AVAAZ, nos últimos 50 anos as políticas atuais de combate às drogas falharam em toda a América Latina, mas o debate público está estagnado no lodo do medo, da corrupção e da falta de informação. Todos, até o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, que é responsável por reforçar essa abordagem, concordam – organizar militares e polícia para queimar plantações de drogas em fazendas, caçar traficantes, e aprisionar pequenos traficantes e usuários – tem sido completamente improdutivo. E ao custo de muitas vidas humanas – do Brasil ao México, e aos Estados Unidos [1], o negócio ilegal de drogas está destruindo nossos países, enquanto as mortes por overdose continuam a subir.

Enquanto isso, países com uma política menos severa – como Suíça, Portugal, Holanda e Austrália – não assistiram à explosão no uso de drogas que os proponentes da guerra às drogas predisseram. Ao invés disso, eles assistiram à redução significativa em crimes relacionados a drogas, e são capazes de focar de modo direto na destruição de impérios criminosos.

Lobbies poderosos impedem o caminho da mudança, inclusive militares, polícias e departamentos prisionais cujos orçamentos estão em jogo. E políticos de toda nossa região temem ser abandonados por seus eleitores se apoiarem abordagens alternativas. Mas pesquisas de opinião mostram que cidadãos de todo o mundo sabem que a abordagem atual é uma catástrofe.

Parece complexo, mas pode ser simples como uma partida de futebol: em time que esta ganhando não se mexe, mas em time que está perdendo ou, no máximo, amargando um empate em 0 a 0 ou 1 a 1, devemos pensar em mudanças, nem que sejam provisórias, nem que sejam apenas para que ganhemos o primeiro jogo deste longo campeonato… Se pararmos de dar murro em prego nos próximos anos, a guerra de 50 anos do combate às drogas no mundo ocidental poderá ficar conhecida por nossa história como a primeira tentativa, mas que não deu certo, e nos levou as próximas. Mas, se não pararmos para reavaliar a situação, poderemos chegar a um século de guerra inútil, com máquinas tristes cada vez mais tristes, grandes cidades cada vez mais violentas, playboys cada vez mais alienados, e zumbis cada vez mais aterrorizantes… Para um filme de horror, não está nada mal.

Nós pedimos que vocês acabem com a guerra às drogas e o regime de proibição, e movam-se em direção a um sistema baseado em descriminalização, regulamentação, saúde pública e educação. Essa política de 50 anos falhou, abastece o crime organizado violento, devasta vidas e está custando bilhões. É hora de uma abordagem humana e efetiva (AVAAZ; Manifesto endereçado a ONU, que neste momento conta com mais de 650 mil assinaturas online).

» Na continuação – um passeio pelo Inferno.

***
[1] Recentemente, até mesmo os EUA, o país que iniciou a malfadada “guerra as drogas”, se rendeu a política de legalização da maconha, a grande responsável pelos lucros dos traficantes (em alguns países, chega a representar 80% do mercado):

“Por muito tempo – décadas – outros países corretamente entenderam que seriam criticados pelos EUA se tomassem medidas para liberalizar as suas leis. Mas no caso do Uruguai, os EUA se deram conta de que não estão na posição de criticar abertamente o governo uruguaio, e de fato não criticaram.”

– trecho de artigo da BBC Brasil

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» Veja também o post Intoxicados: o fim da guerra, que complementa esta parte da série.

Crédito da foto: Mauricio Abreu/JAI/Corbis

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

» Comprar livro impresso, PDF, ou versão para Amazon Kindle

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#Islamismo #Drogas #Medicina #política #Economia

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20 Milhões de Conspiradores!

20milhoes

Acabamos de chegar à marca de 20 milhões de Pageviews neste blog… Nada mal para um blog de hermetismo e espiritualismo no país do carnaval … Como de costume, para quem gosta dos números ou estava procurando pelos links de tudo o que fazemos, ao todo, nesta caminhada desde 7/5/2008, foram exatos 2.933 posts publicados e 48.230 comentários. Temos 4.780 followers no twitter , 20k subscribers no Facebook e até mesmo uma Conta no Instagram onde publico pequenas dicas de magia prática e estamos quase chegando a 2.211 followers.

Post sobre como tudo começou.

Nosso Projeto de Hospitalaria está funcionando perfeitamente e passamos de 5 mil mapas astrais, 3 mil sigilos e 1.200 Mapas Sephiroticos (aproximadamente 14.500 cestas básicas ou equivalente distribuídas em 8 anos).

O Projeto Mayhem está com 4.552 membros. A Wikipedia de Ocultismo conta atualmente com 5.219 verbetes e 2.082 imagens e, de quebra, virei pop-star no Astrotheme, com direito até a página em francês…

O Arcanum Arcanorum conta com mais de 8 mil que passaram por seus atrios e 250 que chegaram ao grau de Probacionista, além de uma Loja Maçônica (ARLS Arcanum Arcanorum, 4269 – GOB), três Terreiros irmãos e agora um Capítulo Arcanum Arcanorum na Ordem Demolay, o que nos coloca como uma das egrégoras mais fortes dentro das Ordens Iniciáticas aqui no Brasil. Em janeiro de 2016 inauguramos nosso próprio Templo.

Ao longo destes sete anos (incluindo o TdC S&H que completou 8 anos em 7/Agosto/15), perdi a conta de quantas pessoas conseguimos iniciar nos estudos da Kabbalah, Astrologia, Tarot, Runas e Magia Prática, sem contar os leitores que se filiaram à FRA, AMORC, Lectorium, OKRC, CALEN, AA, SCA, CIH, Demolay, Eubiose, Circulo Egregore, Casa do filósofo, Pró-Vida, Sirius-Gaia, Gnose, Martinismo ou Maçonaria graças ao blog.

O Raph Arrais editou o Grande Computador Celeste que contém os 70 primeiros textos do TdC, distribuido em pdf gratuito ou versão impressa, e o PH gravou comigo um Curso Básico gratuito de Exercícios Herméticos. Não tem desculpa para não começar a estudar e praticar!

Fazemos anualmente uma das maiores correntes de meditação no Sefirat Ha Omer aqui no Brasil, três Encontros do Blog, ajudamos em quatro Simpósios Brasileiros de Hermetismo (o V Simpósio ja confirmado para 2016) e temos conseguido organizar cursos presenciais pelo menos uma vez por mês. No início de 2015 começamos o primeiro Curso de Kabbalah em Ensino à Distância, logo em seguida, com o resultado do primeiro curso, gravamos o curso de Astrologia Hermética, Geomancia e o Curso Completo de Tarot, levando os estudos de Hermetismo a quem mora longe dos grandes centros urbanos.

E, como se não bastasse, reimprimimos o Tarot da Kabbalah Hermetica, feito em parceria por mim e pelo talentoso artista Rodrigo Grola, a nova impressão da Enciclopédia de Mitologia e os Posteres do Lamen e da Árvore da Vida.

Emplacamos um cardgame de protesto Pequenas Igrejas, Grandes Negócios! que foi notícia até na Playboy, Folha e Gizmodo e três Livros de Hermetismo para crianças, As Aventuras de Lilith, “As Aventuras de Isis” e “As Aventuras de Hércules”.

Em Abril, começaremos o Financiamento Coletivo do Livro de Kabbalah Hermética, com quase 700 páginas coloridas sobre tudo o que você puder imaginar a respeito de hermetismo, kabbalah e ocultismo.

Nada disso seria possível sem vocês.

Sucesso é a Única Possibilidade!

#Blogosfera

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Aquele que não segue a multidão

Tao Te Ching

Retirado do Tao Te Ching (*)

Quando renunciamos ao aprendizado

cessa toda a aflição.

A menor diferença entre as palavras,

como “maçã” e “maça” [1],

pode ser alvo de interminável controvérsia

e debate intelectual.

Atemorizante é a morte,

pois que todos os homens a temem.

Mas as infindáveis discussões que se seguem acerca dela

causam ainda mais medo!

A multidão parece satisfeita;

como se participasse de um grande banquete;

como se festejasse no cume da montanha na primavera.

Mas eu estou aqui só, calmo e tranquilo,

sem ser incomodado por meus desejos.

Eu sou como o recém-nascido que ainda não sorriu.

Eu pareço triste e desamparado

como alguém que não tem uma casa para retornar.

A multidão tem todo o necessário,

e até mais do que o necessário,

enquanto eu pareço haver perdido tudo o que eu tinha…

Minha mente se parece com a mente de um abobado,

sem forma definida.

O homem da multidão parece brilhante e perspicaz,

mas eu pareço carregar uma mente em branco.

O homem da multidão a tudo critica

com suas ideias pré-concebidas,

mas eu pareço totalmente despreocupado.

Eu pareço com um náufrago no oceano,

carregado pelos ventos, a deriva, sem destino…

O homem da multidão parece ter todo o curso da sua vida

cuidadosamente planejado e definido,

mas eu pareço um inapto, um incapaz,

um refugiado vindo da fronteira.

Sim, eu sou diferente de todos esses homens da multidão.

Não preciso me mover até o rio – bebo minha água

direto da Fonte.

***

[1] Nota do tradutor: Tanto Legge quanto Crowley usaram os termos do inglês “yes” (sim; formal) e “yea” (sim; informal). Murillo optou por ignorar a passagem. Já eu optei por usar os termos “maçã” (a fruta) e “maça” (a arma medieval), pois por muitos anos escrevi “maçã” como “maça”, isto é, sem o acento devido. A ideia aqui é, no entanto, apenas a crítica a preocupação excessiva da intelectualidade, de modo que os termos em si não importam tanto assim.

Todo mês traremos mais uma passagem do Tao Te Ching…

(*) Nesta tradução exclusiva do Tao Te Ching a partir da tradução clássica de James Legge para o inglês, Rafael Arrais (autor do blog Textos para Reflexão) usa do auxílio precioso das interpretações do ocultista britânico Aleister Crowley e do filósofo brasileiro Murillo Nunes de Azevedo para compor uma visão moderna da antiga sabedoria de Lao Tse.

» Versão impressa

» eBook (Kindle)

» eBook (Kobo/Cultura)

» eBook (Saraiva)

#Tao

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Poesia, Música e Magia. Do Liber 333 ao Tarot de Thoth – Johann Heyss

Bate-Papo Mayhem #100 – gravado dia 10/11/2020 (Terça) Marcelo Del Debbio bate papo com Johann Heyss – Poesia, Música e Magia. Do Liber 333 ao Tarot de Thoth

Os bate-Papos são gravados ao vivo todas as 3as, 5as e sábados com a participação dos membros do Projeto Mayhem, que assistem ao vivo e fazem perguntas aos entrevistados. Além disto, temos grupos fechados no Facebook e Telegram para debater os assuntos tratados aqui.

Johann Heyss: https://linktr.ee/johannheyss

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O Caminho do Darma, como nos ditou o Buda

As Edições Textos para Reflexão desta vez trazem a você o livro mais lido e traduzido do budismo, Dhammapada: O Caminho do Darma.

Segundo a tradição, ele teria sido composto pelas anotações dos discípulos que chegaram a conviver com o Buda. Ou seja, se trata do que nos foi ditado pelo próprio Buda. Monges budistas da vertente teravada registraram o Cânone Páli algumas centenas de anos após a morte do Buda. O Dhammapada é uma parte do Sutta Pitaka, que por sua vez é uma parte do Cânone Páli. Trata-se de uma coleção de 423 versos que nos demonstram como viver uma vida que conduza à iluminação. Quem consegue viver uma vida neste caminho, segue o seu Darma.

Disponível em e-book e versão impressa :

» Comprar eBook (Kindle)

» Comprar versão impressa (Clube de Autores)

***

À seguir, trazemos um trecho do Prefácio (por Rafael Arrais, tradutor da obra):

Uma criança é um Buda que não sabe que é um Buda. E um Buda é uma criança que sabe que é um Buda. (Satyaprem)

Enquanto vivia sua juventude em meio ao luxo do palácio de sua família, o príncipe Sidarta era mesmo puro, puro como a criança que tem a sorte de viver uma infância de belezas. Diz-se que seu pai, o governante de Kapilavastu (um reinado que se situava ao sul de onde hoje existe o Nepal), tentou proteger o filho de qualquer tipo de sofrimento humano, e o criou dentro dos limites do próprio palácio, sem que tivesse contato com o que havia fora dele.

Quando fez 16 anos, Sidarta Gautama se casou com uma prima da mesma idade e com ela teve um filho. Até os 29 anos, o príncipe viveu uma vida sem grandes incidentes, tendo a sua mão todo o conforto material de que poderia necessitar, embora se diga que nada disto jamais o seduziu. Talvez faltasse algo naquela vida de contos de fada, afinal…

Inquieto em meio a uma vida de perfeições palacianas, aos 29 anos Sidarta resolve sair de seu palácio (sem o conhecimento do pai), acompanhado somente por um cocheiro, que pilotava a sua luxuosa carruagem. Diz-se que ele fez quatro viagens curtas para além das muradas palacianas, finalmente tendo contato direto com o mundo lá fora:

Na primeira viagem, avistou um homem velho e decrépito, apoiado num cajado. Seu cocheiro prontamente lhe explicou que envelhecer era o destino de todas as pessoas.

Na segunda viagem, avistou um homem doente e cambaleante, ardendo em febre. Seu cocheiro complementou que muitas doenças eram inevitáveis na vida.

Na terceira viagem, avistou um corpo já em decomposição, sendo conduzido a um cemitério local. Seu cocheiro explicou que ninguém poderia escapar para sempre da morte.

Desolado e deprimido, em sua quarta viagem o príncipe finalmente avista um monge mendicante calmo e sereno, mesmo conhecendo a velhice, a doença e a morte, como todos os demais que viviam fora dos palácios. Essa visão o consola e, ao mesmo tempo, estabelece um novo sentido para a sua vida: chega de palácios artificiais, chega de infância, Sidarta desejava ser adulto em meio ao sofrimento do mundo.

Numa noite, enquanto todos no palácio dormiam, saiu novamente acompanhado de seu amigo cocheiro, cada um montando um cavalo. Desta vez, a viagem seria bem mais longa…

A alguns quilômetros de distância de Kapilavastu, Sidarta parou, cortou os próprios cabelos com sua espada, trocou as roupas luxuosas pelos trajes simples de um caçador, e se despediu do amigo, que retornou ao reino com ambos os cavalos.

Transformado em monge andarilho sob a alcunha de Gautama (o nome da sua família), dirigiu-se para Vaisali, onde um mestre bramânico indiano, Arada Kalama, ensinava um sistema filosófico que ficou conhecido como sanquia. Aprendendo-o rapidamente, mas julgando-o insuficiente, ele deixa o mestre e se dirige a Rajagarra, capital do reino Mágada, ao sul do rio Ganges. Lá conhece o rei Bimbisara, que, seduzido pelo seu já vasto conhecimento, lhe oferece a metade do próprio reinado, mas o monge Gautama gentilmente recusa a oferta, e logo se torna discípulo de outro mestre, chamado Udraka.

Após apenas um ano, domina com facilidade as técnicas e a filosofia do yoga ensinado por Udraka, e parte rumo à cidade de Gaya acompanhado por cinco discípulos, que já o tinham como mestre. Gautama se estabelece num local aprazível nas proximidades de Gaya, e lá se submete, durante alguns anos, à ascese mais severa. Chegou a se alimentar com um único grão de milho por dia.

Meditando imóvel, magro como um esqueleto coberto de parcas camadas de pele, eventualmente recebeu o título de sakyamuni (“asceta entre os Sakya”, o clã dos Gautama). Ao atingir o extremo limite da mortificação, finalmente compreendeu a inutilidade da ascese total como meio de libertação do sofrimento do mundo, e decidiu encerrar aquela prática.

Diz-se que uma mulher piedosa, ao ver o seu estado deplorável, lhe ofereceu um pote de arroz cozido. Para a imensa surpresa de seus discípulos, que naquela altura o veneravam, o monge Gautama aceita a oferta e devora o alimento. Consternados, seus cinco discípulos o abandonam a própria sorte…

Milagrosamente restaurado pelo arroz, Sidarta dirige-se a um bosque próximo, escolhe uma árvore (que eventualmente foi chamada de bodhi-druma, sânscrito para “a árvore do despertar”) e se senta ao pé de suas raízes, decidido a se levantar somente após haver obtido o “despertar”, ou seja, uma forma de se livrar definitivamente do sofrimento da existência.

Diz-se que, durante as sete semanas em que permaneceu aos pés da árvore, Sidarta foi tentado e atormentado inúmeras vezes pela entidade conhecida como Mara, que reinava sobre a morte. Ora, Sidarta ameaçava ensinar aos homens e mulheres a se libertarem definitivamente do ciclo de nascimentos, mortes e renascimentos, portanto era natural que Mara quisesse impedi-lo.

Em suas reflexões internas, Sidarta avançava rapidamente, estava a um passo de se tornar Buda, “o desperto”. O último recurso de Mara foi lhe oferecer a passagem imediata para o Nirvana, o estado além da vida onde o príncipe se encontraria livre, para sempre, dos ciclos de mortes e renascimentos. Sidarta lhe respondeu que só aceitaria entrar no Nirvana após ter estabelecido naquele mundo uma comunidade instruída e bem organizada, que soubesse ensinar o caminho da libertação…

Assim, após sete semanas aos pés da árvore do despertar, o príncipe Sidarta Gautama venceu definitivamente a tentação de Mara, e se ergueu como o Buda, o primeiro desperto, o primeiro ser que conheceu o caminho para a libertação do sofrimento.

Aos 35 anos, o Buda iniciou sua peregrinação pelos vilarejos, pequenas cidades e grandes reinados dos arredores da região onde atingiu a iluminação. A pé, carregando pouco mais que a roupa do corpo, acompanhado por dezenas de discípulos (dentre os quais, aqueles cinco que lhe haviam abandonado), o Buda passou 45 anos ensinando as chamadas quatro nobres verdades que conduziam ao Darma, o caminho para a iluminação: a existência do sofrimento; a origem do sofrimento; a interrupção do sofrimento; e o caminho que nos leva à cessação do sofrimento.

A criança havia perdido sua pureza, e conhecido as dores da vida adulta. Mas, ao contrário de tantos outros, o adulto havia encontrado um meio para se libertar definitivamente de todo o sofrimento, e alcançar novamente a pureza infantil, mesmo tendo conhecido a dor. Sidarta era novamente como uma criança, mas era também um Buda que sabia que era um Buda.

Aos 80 anos, depois de padecer de uma forte diarreia em decorrência, provavelmente, de haver ingerido carne de porco estragada, o Buda se despediu deste mundo e pôde finalmente alcançar o Nirvana. Diz-se que isto se deu no nordeste da Índia, na cidade de Kushinagar. A data provável é o ano de 483 a.C.

Assim viveu e morreu, quiçá pela última vez, Sidarta Gautama, o Buda, o homem que trouxe o budismo a este mundo.

#Budismo #Darma #eBooks #espiritualismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-caminho-do-darma-como-nos-ditou-o-buda

21 Milhões de Conspiradores e o Primeiro Ciclo!

21-milhoes

Acabamos de chegar à marca de 21 milhões de Pageviews neste blog… Nada mal para um blog de hermetismo e espiritualismo no país das olimpíadas … Como de costume, para quem gosta dos números ou estava procurando pelos links de tudo o que fazemos, ao todo, nesta caminhada desde 7/5/2008, foram exatos 3.000 posts publicados e 48.500 comentários. Temos 4.787 followers no twitter , 20k subscribers no Facebook e até mesmo uma Conta no Instagram onde publico pequenas dicas de magia prática.

Post sobre como tudo começou.

Nosso Projeto de Hospitalaria está funcionando perfeitamente e passamos de 5 mil mapas astrais, 3 mil sigilos e 1.200 Mapas Sephiroticos (aproximadamente 14.500 cestas básicas ou equivalente distribuídas em 8 anos).

O Primeiro Ciclo do Blog está para ser finalizado, com a publicação de um dos mais importantes livros de Kabbalah Hermética em língua portuguesa. E fechando este ciclo, informo que em algum tempo estarei encerrando o Mayhem para dar início a outro fórum mais fechado de discussões. O Projeto Mayhem nasceu com o TdC e era um fórum aberto onde qualquer um poderia se inscrever e conversar sobre Hermetismo. Para esta segunda etapa do Blog, teremos um fórum mais restrito, para quem já tem uma base de conhecimentos no assunto. Deixaremos o Grupo do Facebook para assuntos mais gerais.

Ao longo destes sete anos (incluindo o TdC S&H que completou 8 anos em 7/Agosto/15), perdi a conta de quantas pessoas conseguimos iniciar nos estudos da Kabbalah, Astrologia, Tarot, Runas e Magia Prática, sem contar os leitores que se filiaram à FRA, AMORC, Lectorium, OKRC, CALEN, AA, SCA, CIH, Demolay, Eubiose, Circulo Egregore, Casa do filósofo, Pró-Vida, Sirius-Gaia, Gnose, Martinismo ou Maçonaria graças ao blog.

O Raph Arrais editou o Grande Computador Celeste que contém os 70 primeiros textos do TdC, distribuido em pdf gratuito ou versão impressa, e o PH gravou comigo um Curso Básico gratuito de Exercícios Herméticos. Não tem desculpa para não começar a estudar e praticar!

Fazemos anualmente uma das maiores correntes de meditação no Sefirat Ha Omer aqui no Brasil, três Encontros do Blog, ajudamos em quatro Simpósios Brasileiros de Hermetismo (o V Simpósio ja confirmado para 2016) e temos conseguido organizar cursos presenciais pelo menos uma vez por mês. No início de 2015 começamos o primeiro Curso de Kabbalah em Ensino à Distância, logo em seguida, com o resultado do primeiro curso, gravamos o curso de Astrologia Hermética, Geomancia e o Curso Completo de Tarot, levando os estudos de Hermetismo a quem mora longe dos grandes centros urbanos.

E, como se não bastasse, reimprimimos o Tarot da Kabbalah Hermetica, feito em parceria por mim e pelo talentoso artista Rodrigo Grola, a nova impressão da Enciclopédia de Mitologia e os Posteres do Lamen e da Árvore da Vida.

Emplacamos um cardgame de protesto Pequenas Igrejas, Grandes Negócios! que foi notícia até na Playboy, Folha e Gizmodo e três Livros de Hermetismo para crianças, As Aventuras de Lilith, “As Aventuras de Isis” e “As Aventuras de Hércules”.

E agora iniciamos um novo ciclo, com mais novidades…

Sucesso é a Única Possibilidade!

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Após a Caçada

» Parte 2 da série “A ciência da inspiração” ver parte 1

Mente: 1. Conjunto das idéias e convicções de uma pessoa, concepção, imaginação, intelecto; 2. Capacidade de raciocinar ou aprender, inteligência.

Retornemos aproximadamente 200 mil anos no tempo, e observemos uma pequena comunidade de caçadores-coletores nas planícies africanas, berço de todos nós, os humanos. São ainda hominídios, humanos arcaicos, mas já possuem seus módulos mentais relativamente desenvolvidos: a inteligência geral foi herdada das outras espécies das quais evoluíram, e é responsável pelos processos básicos de instinto e sobrevivência; A inteligência naturalista desenvolveu-se ao longo da persistente guerra da fome – o conhecimento do terreno em sua volta, a análise dos rastros de presas livres deixados no solo, o cuidado para evitar plantas venenosas, etc; A inteligência técnica permitiu o manuseio de objetos e até mesmo a elaboração de ferramentas, como pedras pontiagudas que facilitam o corte da carne das presas abatidas; E, finalmente, a inteligência social evoluiu desde que reconheceram que caminhar pelo mundo em bandos era mais seguro do que enfrentar as caçadas sozinho.

Tais hominídios acabaram de retornar de uma boa caçada, e estão aproveitando o pouco tempo que resta de luz do sol no final da tarde… Alguns estão retalhando as carcaças para que a comida possa ser compartilhada; As mulheres e anciãos estão descansando, conversando, ou ensinando as crianças algumas regras básicas da vida em sociedade tribal; Já aqueles mais hábeis com os cinzéis estão afiando as pontas das lanças utilizadas na última caçada, ou ainda criando novas… Todas mais ou menos no mesmo formato, projeto de algum gênio primordial que se espalhou e manteve-se inalterado por dezenas de milhares de anos. Não havia muita criatividade, não havia muita inspiração, praticamente não existia a arte, nem a religião…

Avancemos então para cerca de apenas 50 mil anos atrás. No tempo da evolução das espécies terrestres apenas um piscar de olhos de meros 150 mil anos… Ainda estamos nas mesmas planícies do continente mãe, só que agora observando o retorno da caçada – igualmente bem sucedida – de uma comunidade de homo sapiens, humanos como nós, nossos avôs e avós ancestrais. Percebemos que eles continuam cortando as carcaças recém-abatidas (embora com instrumentos mais anatômicos e afiados, ainda de pedra), continuam fabricando novos instrumentos e afiando os desgastados, e as mulheres e anciãos continuam dando instruções básicas de vida social para os infantes. O que mudou, afinal?

Para os arqueólogos, os registros do solo dizem que mudou muita coisa, embora para os leigos talvez essa mudança passasse desapercebida. Ocorre que, na tribo de hominídios, cada grupo realizava sua tarefa em uma área em separado da aldeia; Já nos homo sapiens, todos faziam as atividades uns próximos aos outros, geralmente em torno da fogueira… Nessas longas noites de conversas e atividades após a caçada, muito do que somos hoje tornou-se possível.

Segundo o arqueólogo (sim, arqueólogo mesmo) Steven Mithen em “A pré-história da mente”, foi essa intercessão entre os módulos da mente primitiva que catapultou nossa inteligência a patamares inimagináveis para os humanos ancestrais. Subitamente, os dentes de animais caçados, que antes eram descartados, se tornaram decoração de colares; Colares estes que também serviam para demonstrar para outros membros (e mulheres, quem sabe) da mesma tribo quão bons eram os caçadores que os ostentavam; Da mesma forma, as pegadas deixadas na terra pelas presas tornaram-se também símbolos que demonstravam o tamanho e a direção em que o animal se deslocou; E logo tanto símbolos naturais quanto animais quanto os próprios homens se fundiram em pictogramas pintados em cavernas profundas – registros da história de um povo que se reconheceu como povo; Talvez ao mesmo tempo, surgiram os mitos, as forças naturais tornadas meio-homem, meio-animal, meio-espírito, meio-deus – a religião ancestral surgia em meio ao animismo e ao xamanismo, juntamente com a consciência de nossa vida e nossa mortalidade.

Esta é apenas uma teoria de Mithen, mas acredito que seja muito bem fundamentada. Essa união de módulos mentais, essa divina fluidez cognitiva, faz-se representar até os dias de hoje… Já se parou para perguntar por que a maioria das pessoas passa cerca de 2/3 de seu tempo de convívio com qualquer outra pessoa falando sobre relacionamentos com outras pessoas, ou os relacionamentos de famosos, ou quem morreu e quem nasceu? Ou porque revistas com fotos imensas de modelos de beleza que não possuem muito espaço para texto vendem que nem água? Ou simplesmente porque apreciamos tanto uma boa fofoca? Ora, Mithen sabe: porque nossa fluidez cognitiva nasceu de nosso convívio social ancestral – nada mais justo que dediquemos tanto tempo a ela ainda nos dias atuais. Ou pelo menos, se ainda nos identificamos com nosso lado animal…

Nós trocamos idéias, trocamos palavras, trocamos símbolos uns com os outros constantemente. Nosso maior dom não é a visão ou a audição ou nem mesmo a racionalidade, mas antes de tudo, a capacidade de interpretar símbolos. Um dom sim, mas que muitas vezes pode se tornar também uma maldição – principalmente quando mal fazemos idéia da extensão de tal capacidade.

A criatividade é a capacidade de reformular o que conhecemos, em geral sob a luz de uma informação nova, e de desenvolver um conceito ou uma idéia original. A fim de ser criativa, uma pessoa precisa ser crítica, seletiva e inteligente.

O processo criativo transcorre, segundo a ciência, da seguinte forma: nossos cérebros são bombardeados de forma contínua com estímulos, sendo que a maior parte é ignorada. Essa “exclusão” garante que usemos as informações mais relevantes para direcionar nossos pensamentos. A abertura de nossas mentes para informações novas promove o arranque do processo criativo. Para isso, o cérebro desativa a atenção aguda, identificada por eletrencefalograma como ondas beta (estado de alerta) e permite o aparecimento de ondas alfa, amplas e lentas (estado de relaxamento mental e ociosidade). Desse modo, os estímulos, que de outra forma poderiam ser ignorados, tornam-se conscientes e ressoam com as memórias, gerando novos pensamentos e idéias que podem ser tanto originais quanto úteis. Pois é, deve ser por isso que as pessoas têm a maioria das boas idéias no cafezinho, e não durante um dia estressante de trânsito e trabalho nas grandes cidades…

Os artistas que dominaram suas disciplinas têm uma base de conhecimento que sustenta melhorias e mudanças a partir da repetição e/ou reorganização dos padrões simbólicos que eles já dominam. Tal habilidade permite que esses processos rodem na inconsciência, liberando a consciência para a absorção e reconhecimento de estímulos inteiramente novos. Pessoas assim possuem uma alta capacidade de retornar a um estado de alerta mental quando reconhecem uma nova idéia, pois de forma recorrente as submetem a uma avaliação crítica rigorosa – “será que isto combina ou acrescenta algo a minha arte?”. Os estímulos, os símbolos que sobrevivem a esse segundo processo de pensamento criativo tendem a ser valiosos e, portanto, julgados como genuinamente originais.

Sejamos então todos artistas de nossa própria vida, pois que ela sempre será nossa obra mais importante. Após a longa caçada, após tantas noites de conversas em fogueiras amedontrados e extasiados com a imensidão da noite a volta, de alguma forma fomos guiados por essa vasta natureza a uma certa fluidez de pensamento. Em todos esses dias de homens, aprendemos passo a passo a compartilhar símbolos, idéias, pensamentos, e emoções… Nem sempre temos sido bem sucedidos em reconhecer tudo isso que há de sagrado em torno e mesmo dentro de nós – seja no mecanismo, seja no sentido. Mas o que importa é que podemos aprender com nossos erros, e melhorar um pouco, um pensamento de cada vez.

Idéias, idéias são tudo o que há além da natureza que aqui já estava quando chegamos. Idéias são tudo o que iremos deixar em retribuição. Reconheçamos então quais são as idéias que nos levarão a frente, e quais são âncoras disfarçadas de pipas, prontas a nos deixar fixados no mesmo lugar por mais uma vida inteira.

Sejamos caçadores então, e façamos de nossa caça uma verdadeira arte: cacemos não para sobreviver simplesmente, mas para viver, viver plenamente, viver em harmonia, conectados com a infinita teia da vida a nossa volta. Cacemos idéias que se escondem além da galáxia mais distante e no menor pedaço de átomo que fomos capazes de enxergar. Cacemos o horizonte à frente, cacemos os mecanismos e o sentido desse turbilhão universal, cacemos a nós mesmos, cacemos ao amor. Enfim, cacemos pela enorme felicidade e a enorme paz que essa caçada nos proporciona.

» Na continuação, metáforas, poesia e o grande programador cósmico…

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Crédito das imagens: [topo] Becoming Human; [ao longo] Werner Backhaus/dpa/Corbis

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Um drama persistente

» Parte 1 da série “Intoxicados”

Droga é toda e qualquer substância, natural ou sintética, que quando introduzida no organismo, modifica suas funções de forma considerável; Particularmente alterações nos sentidos, no caso dos entorpecentes.

Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774) é um romance de Johann Wolfgang von Goethe. Marco inicial do romantismo, considerado por muitos como uma obra-prima da literatura mundial, é uma das primeiras obras do autor, de tom autobiográfico. Werther – o protagonista – é marcado por uma paixão profunda e tempestuosa, marcada pelo fim trágico. Com seu suicídio, devido ao amor aparentemente não correspondido, Goethe põe um pouco de sua vida na obra, pois ele também vivera um amor não correspondido, apesar de, evidentemente, não ter cometido o ato de se matar. Em todo caso, tão profundamente descrito foi o drama e o suicídio do jovem Werther, que nos anos seguintes a publicação, diversas pessoas se mataram de forma semelhante na Alemanha e, em vários casos, um exemplar do livro era encontrado ao lado do corpo.

É sempre complexo lidar com os momentos em que a vida simplesmente parece não se desenrolar da maneira que esperávamos, que gostaríamos, particularmente nos casos de sentimentos não correspondidos. Sem dúvida que, quando éramos caçadores nômades, tais angústias provavelmente sequer tinham espaço em nossa mente: era preciso sobreviver, não havia muito tempo para refletir sobre a vida… Estranho de se pensar: foi exatamente quanto nos assentamos em grandes e luxuosas cidades, quando tínhamos comida fresca na geladeira e acesso fácil ao conhecimento elaborado da natureza, que passamos a nos angustiar com a vida. Será que a vida foi feita para vivermos sem exatamente pensarmos sobre ela?

Paradoxalmente, ao termos tempo de sobra para refletir sobre nossa própria vida, por vezes acabamos por, ao invés de celebrá-la e aproveitar o tempo livre para viver, criar uma enorme dramaturgia que insiste em tornar tudo cinza e melancólico, ao nos reafirmar que, ao contrário do que pensávamos, a vida não transcorre sempre da maneira que gostaríamos… Se é assim, vale a pena viver? A grande ironia é que o “mal do século”, a depressão, quase que sempre se caracteriza por um medo persistente da morte. Então, por nos angustiarmos com a vida, principalmente por temer a morte, acabamos por deixar de aproveitar este precioso momento do existir. Então, parafraseando o Dalai Lama, vivemos como se não fôssemos morrer, mas com grande medo da morte, e por fim morremos como se não houvéssemos sequer vivido, pois que foi uma vida de medo.

A primeira causa de morte por atos de violência no mundo não são os acidentes de trânsito, os homicídios nem os conflitos armados, mas o suicídio. Esse dado desconcertante foi revelado em 2002, numa reunião da Organização Mundial de Saúde (OMS) em Bruxelas. Ao lê-las (aparentemente pela primeira vez) para os convidados da cerimônia, o então primeiro-ministro da Bélgica, Guy Verhofstadt, não conteve o susto e, quebrando o protocolo, indagou incrédulo: “É isso mesmo?”. Sim, é isso mesmo, a pós-modernidade tem nos relegado esta herança macabra, em que uns optam por findar sua dramaturgia encerrando a própria vida, enquanto outros optam por viverem como se nem mesmo estivessem por aqui…

Ao longo do tempo, muitos encontraram refúgio dessa angústia na anestesia da própria alma… A lista das substâncias que deveriam vencer as depressões, mas que sempre ajudaram apenas alguns afetados, é muito longa. No decorrer dos séculos, os médicos testaram quase tudo o que influenciava o cérebro de alguma forma. O ópio já era considerado na antiga China um meio eficaz contra as doenças do ânimo. O “tratamento com ópio” devia curar a melancolia, mas devido ao seu enorme risco de vício, ao longo dos séculos as pessoas desistiram da droga (mas nem todas), sendo que ela há muito deixou de ser compreendida como um remédio para a angústia.

Em 1802, um médico londrino recomendava um pesado Borgonha contra a melancolia. A cannabis e a cocaína também eram comumente utilizadas no século 19 como medicamento. Nos anos 50, entraram em voga as anfetaminas estimulantes. Em 1953, causou sensação uma notícia que dizia que o medicamento utilizado para tuberculose, a iproniazida, também tinha efeito antidepressivo. Alguns anos mais tarde, porém, ele foi tirado do mercado, pois pode causar graves efeitos colaterais no organismo. De lá para cá, entretanto, temos observado uma grande corrida da indústria farmacêutica mundial em busca de antidepressivos cada vez mais eficazes e com menos efeitos colaterais… Ou, pelo menos, é o que o grande mercado da melancolia gostaria que vocês acreditassem.

Em 2008, o psicólogo Irving Kirsch, da universidade britânica de Hull, examinou os documentos americanos da autorização de quatro novos depressivos. Os produtos, aparentemente ajudavam apenas pacientes com depressão grave. À primeira vista, parecia que as substâncias mitigavam os sintomas da patologia independentemente de sua gravidade. Ora, formas mais amenas de melancolia costumam regredir naturalmente após certo tempo. Essas “curas espontâneas” são tanto mais comuns quanto mais leves forem os estados depressivos. Nos estudos de Kirsch comprovou-se que nos estágios de depressão leve, faz pouquíssima diferença se os pacientes usaram antidepressivos ou placebo (por exemplo, pílulas de farinha). Somente em depressões mais sérias a diferença estatística entre o preparado e o placebo se torna realmente relevante.

Não quero aqui, obviamente, dizer que depressivos devem deixar de se medicar. Muito pelo contrário, estou, como Kirsch, enaltecendo que os remédios são de grande auxílio, contanto que o paciente esteja efetivamente depressivo… A indústria farmacêutica é, ironicamente, junto com a indústria do comércio ilegal de drogas, um dos grandes mercados mundiais, provavelmente com as taxas de lucro mais elevadas – ao lado da indústria de armamentos. Estamos, pois, vivendo na era do culto ao lucro, capitaneada pelo deus do consumo. Não é nenhuma surpresa, portanto, que o seu grande profeta, o deus da tarja-preta, surja como o grande agente de barganhas por todas as partes do mundo capitalista.

É fácil compreender: se as indústrias deixam de visar apenas o auxílio à cura efetiva, e passam a dar prioridade às margens de lucro, me parece óbvio que seja cada vez mais comum às pessoas serem diagnosticadas apressadamente como depressivas. E, igualmente compreensível, que cada vez mais remédios antidepressivos sejam facilmente recomendados, mesmo nos casos em que não têm eficácia muito distante de uma pílula de farinha… Cada vez mais, o tratamento psicoterápico, tão essencial, é relegado a uma mera medição mecânica onde supostamente se mede um estado de tristeza e se receita antidepressivos X ou Y como tratamento. Cada vez mais, somos que tratados como máquinas complexas que, por alguma estranha razão, estão preferindo se anestesiar a encarar a própria melancolia, e viverem como se não estivessem mais aqui… Para o deus tarja-preta, no entanto, tudo está perfeitamente bem, contanto que não se matem, contanto que não parem de comprar suas maravilhosas “pílulas de felicidade comprimida”.

Mas, as estatísticas da OMS não mentem: não tem dado certo. As máquinas tristes continuam se matando, continuam preferindo se desligar a enfrentar o drama persistente da vida… Talvez fosse a hora de voltarmos a uma medicina de vida, e não de anestesia da vida. A um entendimento de que somos, afinal, seres, e não máquinas, por mais que isso contrarie o materialismo em voga. No fim, o que parece nos salvar da angústia do mundo é algo que sempre esteve dentro de nós mesmos, mas que em nossa dramaturgia encenada cuidadosamente para que continuássemos a buscar algo lá fora, e não aqui dentro, acabamos por ignorar, e a viver como se não tivéssemos uma alma para tomar conta.

Tomar conta de uma alma é uma grande responsabilidade. Requer a compreensão dos eventos da vida que podemos mudar e, sobretudo, daqueles que não podemos. Requer o olhar para si mesmo, e encarar de frente os momentos de tristeza… Não como o jovem Werther, que apostou toda a sua felicidade, toda a sua vida, no sentimento de outro alguém, mas como todo ser que está em via de desenvolvimento, e de lenta aquisição de sabedoria, e que aposta toda a sua vida na própria vida, na existência em si, neste divino momento, e apenas nele.

Há outros, porém, que foram ainda mais iludidos: que aprenderam a se entorpecer, e se tornarem insensíveis para a melancolia, ainda antes que ela viesse…

» Na continuação – o grande dilema do combate às drogas: reprimir ou tratar?

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Bibliografia

As informações científicas e estatísticas do artigo foram retiradas dos artigos Antidepressivos são mesmo eficazes?, pelo psicólogo e jornalista Jochen Paulus, que foi matéria de capa da revista Scientific American – Mente & Cérebro #226 (Duetto); e Escalada do suicídio, pela jornalista científica Luciana Christante, autora do blog Efeito Adverso.

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Crédito da imagem: Corbis

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#Drogas #Filosofia #Medicina

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/um-drama-persistente

Interregno de eras

Há séculos o rio Tâmisa não era atravessado por uma procissão de barcos tão bela e luxuosa. Por quase todos os prédios no percurso, os súditos da rainha exibiam, orgulhosos, a bandeira da Inglaterra nas sacadas. Em seu barco real, cercada da família e em pé na maior parte do trajeto, Elizabeth II retribuía com pequenos acenos a todos que se acotovelavam as margens para celebrar o jubileu de diamante de seu reinado (em 2012): 6 décadas como rainha da Inglaterra, governante suprema da Igreja Anglicana, e comandante-em-chefe das Forças Armadas do Reino Unido.

Um pequeno grupo protestava pacificamente com cartazes de mensagens contra a monarquia. “Não tenho nada pessoal contra a rainha. É mais uma questão moral de ter uma chefe de Estado não eleita em pleno século 21” – explicou-se um manifestante. Outro alegava questões mais econômicas do que políticas: “A ideia de celebrar a vida de luxo da rainha me faz passar mal; muitos lembraram que essas celebrações estão acontecendo num momento de austeridade (em toda Europa), em que muitos estão perdendo seus empregos”… Estranho de se pensar: ainda assim, a grande maioria dos britânicos apoia a permanência da monarquia, exatamente como é hoje, e assim como já o é há muitos séculos.

Mais estranho ainda se lembrarmos que, há poucos meses, no final de 2011, Londres foi sacudida por uma série de manifestações populares em bairros de baixa renda. Jovens desempregados e desiludidos atacaram grandes lojas e mercados, saqueando boa parte das mercadorias, e tocando fogo nas demais… O polonês Zygmunt Bauman, que vive na Inglaterra há anos, sendo para muitos um dos maiores sociólogos vivos, foi quem primeiro levantou a grande questão que podia ser lida nas entrelinhas daqueles dias caóticos; Aquela não era uma primavera londrina, e tampouco os manifestantes tinham claras reivindicações políticas a fazer. Tratava-se simplesmente de um ato de revolta, de revanche, dos “consumidores desqualificados que foram criados numa sociedade de consumo”. Aquilo que desejavam, os tênis e roupas de grife, era o mesmo que, ao mesmo tempo, amavam e odiavam – tanto que colocaram fogo em parte do que poderia ter sido saqueado.

Essa complexa dualidade, de amor e ódio em relação ao objeto de consumo, pode ser, senão vista, ao menos intuída, por todo o mundo moderno ocidental, e particularmente na Europa. Os governantes que, em meio à crise econômica, recomendam o ajuste fiscal dos países em débito – incluindo pesadas reduções de salários –, são os mesmos que, por outro lado, continuam a estimular e tentar manter vivo a todo custo um sistema já decadente de consumo desenfreado, onde é dito a todos e há todo momento, em propagandas que só faltam pular por debaixo do tapete da porta de nossa casa: “Compre, consuma, aproveite enquanto é tempo! Seja feliz com um novo smartphone, um carro zero, uma TV com 10 polegadas a mais… Mas não se esqueça de continuar comprando, pois coisas novas são lançadas há todo momento, e se você parar de comprar, já sabe – a economia esfria, e é capaz de você perder o seu emprego!”.

Ora, é óbvio que as pessoas não conseguem consumir tanto quando as propagandas incitam, e exatamente por isso que foi criado o crédito bancário, que é obviamente a melhor coisa que os bancos inventaram desde as Cruzadas [1]: emprestar dinheiro que as pessoas não têm, para que elas comprem o que não precisam; mas, não obstante, dinheiro este que serão obrigadas a pagar de volta, com juros. Ah! Os juros! O que os bancos fariam sem inventar crédito, e ganhar dinheiro de volta por algo que foi emprestado, mas que, em realidade, sequer existe, sequer têm permanência – todo valor do dinheiro impresso é, afinal, um construto da fé. Afinal, não sei se sabem, mas as leis que requeriam que existisse lastro material em ouro (ou outros valores) para os belos papéis coloridos já deixaram de ser usadas há décadas… Nosso sistema econômico: uma grande bolsa de crenças, onde especuladores podem ser confundidos com pastores.

Este dinheiro de valor impermanente é apenas mais um dos fatores que compõe o que Bauman intitulou modernidade líquida: onde todos os valores morais, todas as antigas tradições, entraram numa ebulição, numa mistura complexa e sempre fluida, em constante mudança, de onde é cada vez mais difícil extrairmos algum significado. Tempo é dinheiro e, como é exatamente o dinheiro que nos garante o consumo, vivemos correndo, “economizando” tempo em fast-foods, em relações amorosas superficiais, em relações familiares cada vez mais desconexas, já que não há mais muito tempo nem para os jantares em família… Com todo esse precioso tempo que foi “economizado”, nos sobra então o tempo que precisávamos para ir nalgum shopping center consumir.

E é bom que sejamos felizes nestes breves momentos de consumo, pois será nossa única chance de termos alguma felicidade… Ou, pelo menos é para essa vida que fomos educados na modernidade, e basta ligar qualquer televisão no horário nobre para verificar. Nas grandes agências de propaganda e marketing, especialistas que passaram anos e anos nas melhores escolas e universidades realizam o seu brainstorm diário exatamente para que a nossa mente não desgrude os pensamentos da vitrine mais vistosa. A culpa não é dos publicitários: eles estão apenas realizando o que foram educados para fazer; eu diria até que alguns deles foram muito bem educados para nos convencer de quase qualquer coisa… Estamos na desvantagem, e nosso pensamento foi aprisionado nalgum outdoor pelo caminho.

Mas foi somente nos últimos anos, onde se levantaram as bandeiras da ecologia e da sustentabilidade, que as pessoas, todas as pessoas (embora algumas finjam não saber), passaram a perceber que a conta da economia de consumo em crescimento exponencial não irá fechar com um planeta, um meio ambiente, de recursos naturais finitos. Se tudo o que consumimos, e principalmente o combustível envolvido na produção e distribuição dos bens, tivesse uma taxação sobre “recurso finito”, e não fosse tratado como algo fabricado a partir de materiais infinitos, provavelmente viajaríamos bem menos de avião, comeríamos muito menos frutas vindas da Ásia, ou queijos vindos da Europa.

Dessa forma, a sociedade de consumo, perdida na fluidez de uma vida sem significado, sabe muito bem que o mesmo objeto de consumo que hoje deseja, depois vira lixo, muitas vezes não tratado, não reciclável. E, sem reciclar o que é finito, para ser reutilizado, um dia a conta chegará… Bem, segundo Bauman, as gerações atuais, com seu sistema de crédito e consumo, nada mais fazem do que hipotecar o futuro. Estamos, dessa forma, comendo em restaurantes luxuosos e deixando a conta para que nossos netos e bisnetos paguem, literalmente. Sob esse ponto de vista, é mesmo bom que haja uma grande crise no horizonte.

E, quanto a monarquia inglesa, ela nada mais é do que uma âncora fincada no passado. Uma mitologia, um significado, uma narrativa da pátria, do “ser inglês”, que ainda traz sentido à vida britânica. Se os ingleses estão dispostos a continuar financiando os rituais de sua realeza? Enquanto não chegar uma nova era, certamente – para eles, é uma pechincha. E, afinal, o dinheiro não existe enquanto valor por si só, o que existe á uma crença nos valores que povoam nosso pensamento. Melhor comemorar a longa vida da rainha do que a curta vida do seu smartphone.

Ainda assim, um dia, mesmo a rainha cairá… Mas, e o que virá nesse interregno de eras, onde os sistemas e os reis antigos caem, mas os novos não se erguem, sequer foram ainda inventados? Isso, nem mesmo Bauman foi capaz de nos dizer…

Entrevista com Zygmunt Bauman no programa Milênio, da Globo News. Vinte e poucos minutos altamente recomendados.

***

[1] Devido ao pouco espaço, estou trazendo alguns conceitos de forma superficial. Para se aprofundar melhor em alguns dos assuntos tratados neste artigo, recomendo consultarem alguns outros posts: A história do ouro; Padrão-fé; O dinheiro que não existe; A lâmpada centenária; Nosso planeta, nossa casa; e finalmente Onde está o seu deus?

Crédito das imagens: [topo] AFP (Elizabeth II conversa com o decano David Ison ao deixar a Catedral de St. Paul); [ao longo] Anônimo.

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