Daath e a Travessia do Abismo

Em Malkuth comeca o trabalho do despertar da centelha e elevação da mesma atraves dos Sephiroth.

Malkuth pode ser comparada ao mito de Persefone (ou Proserpina entre os romanos), onde a historia do mito narra a violação de Persefone por Hades obrigando-a a seu exílio sob a Terra, assim como também o mito dos gnósticos sobre a queda de Sophia.

Segundo Israel Regardie existem dois métodos básicos de consecução espiritual baseados no uso direto da Arvore da Vida: Um eh a meditação e o outro eh o Ritual. O objetivo de seguir esses dois processos, eh atingir o Coração da Arvore, o centro cristico nele mesmo – Tipheret, onde terah a visao e conversação do Sagrado Anjo Guardião. Os dois métodos acima referidos na verdade sao um. Assim trabalhando ele transcende o que ele pensa ser, ascendendo pelos sephiroth.

Esta subida realiza-se pela coluna do meio ou pilar do meio, isto eh, a coluna central da arvore formada por Malkuth, Yesod, Tiphareth, Daath, Kether.

No sistema oriental isto equivale ao canal Shushuma, por onde eleva-se Kundalini. O Sushuma eh o mais importante dos Nadis e consiste no eixo ou canal central que se situa ao longo da coluna, por onde circula energia neutra. Ele eh conhecido como o sustentador do universo e o “caminho da salvacao”.

Na tradicao Greco-Romana, o caduceu de Thot eh o simbolo do segredo, tanto quanto a Serpente de Bronze erguida por Moises no Egito.

Segundo Israel Regardie, esse metodo de elevacao da Kundalini, ou de conscientizacao da Essencia, se dah atraves da conciliacao das energies opostas na Arvore, essa conciliacao se efetua no pilar central, ou pilar do meio/equilibrio, e eh nesse equilibrio onde nasce o Filho em Tiphereth, ou seja, o dialogo com o Sagrado Anjo, o Self. Essa eh a meta e o objetivo de todo praticante de magia ou de todos aqueles que se dedicam ao auto-conhecimento, pois eh o proprio Anjo quem prepara o adepto para a proxima etapa, a travessia do abismo de Daath.

Daath eh uma sephira oculta, invisivel, que se encontra entre Tiphereth e Kether. Daath representa o abismo que separa a nossa percepcao dual da percepcao una. Acima do abismo de Daath nao ha dualidade, abaixo do abismo tudo eh dual.

Em Daath se encontra toda a hipertrofia de toda a ilusão do Universo e de todas as esferas abaixo dele que vao de Chesed a Malkuth. Eh Visudh Chakra, o Chakra do pescoço, que segundo os Hindus, eh onde sao gerados os pensamentos. Para os Budistas aqui eh onde habita Mara, o senhor da ilusão, ou Chorozon, o monturo de lixo do Universo de cuja travessia nasce o Magister Templi, segundo Crowley. Daath eh considerada uma “esfera que nao eh esfera”, pois sua funcao eh o desviar da atencao da verdade inexprimivel atraves do pensamento. Eh o deserto de Apep, o inimigo de Osiris que precisa ser derrotado por este ultimo para sua ressurreicao. Para os gregos era Hades, o deus do mundo ctônico, para os romanos era Plutão, o Senhor dos infernos. Aqui também estao os demônios da Goetia, os Qliphot, e os 50 nomes de Marduk.

Eh como se houvesse uma dobra na Criacao que criasse a divisao da realidade na ilusao do espaco e do tempo atraves daquilo que foi gerado em Binah, portanto Daath paira sobre o abismo na fronteira entre os mundos da criacao e da formacao.

Abaixo do abismo eh o plano da existência finita e condicionada. O abismo eh uma regiao de tensão permanente entre o Macrocosmo e o Microcosmo, sendo a sede das forcas dissolventes que o profano conhece como demônios. Isso eh referente na bíblia segundo o qual Cristo (o iniciado em Tipheret) deve primeiro “descer aos infernos” Qliphoticos antes de proceder aos ceus das Supernas.

Segundo Crowley, no Abismo todas as coisas existem, realmente, pelo menos em posse, porém não possuem nenhum significado possível; pois elas carecem do substrato da realidade espiritual. Elas são aparências sem Lei. Elas são, pois Ilusões Insanas. Choronzon é o Habitante do Abismo; ele é lá a obstrução final. Se ele for enfrentado com a preparação própria, então ele estará lá para destruir o ego, o que permitirá ao adepto mover-se para além do Abismo. Se não estiver preparado, então o desafortunado viajante será completamente disperso em aniquilação. “O nome do Habitante do Abismo é Choronzon, porém ele não é realmente um indivíduo.”

Para Jung a sombra tem um componente pessoal, formado pelos aspectos da psique individual que sao rejeitados e recalcados pelo ego, mas alem disso, o nucleo da sombra eh uma estrutura arquetipica que atrai esse material e o organiza segundo uma configuracao transpessoal, porque Daath eh a fronteira entre o eu pessoal, imerso no espaco tempo e o plano arquetipico da realidade. Eh a energia aprisionada na sombra que depois de assimilada e integrada pela consciencia, permite que a consciencia se libere do ego e vah em direcao ao nucleo da estrutura arquetipica da sombra, que corresponde ao Demiurgo dos gnosticos ou Choronzon. Essa estrutura arquetipica da sombra equivale a sombra coletica, ou sombra da Anima Mundi. Chorozon equivale ao sistema de aprisionamento que rege a sociedade, cultura e o coletivo, e que eh o nucleo arquetipico que organiza a formacao da sombra bem como do ego. Ele eh como os filtros que estao nos chacras limitando a percepcao da realidade da vida, essa estrutura que tambem eh condicionamento tambem eh equivalente ao Carma individual e coletivo.

Quando da descida da substancia que emana de Binah, para os mundos formativos atraves das sephiroth abaixo do abismo, estes perdem a conexao com a energia espiritual, como que se a cada revestimento de materia, sua forma original fosse diminuida, isso se chama Kenosis, onde o arquetipo diminiu a sua potencia, ateh ficar adormecido na forma da kundalini no corpo humano. Esses mesmos sephiroth isolados se tornam como cascas vazias da essencia espiritual, se tornam como os arcontes do Mito de Sofia. O despertar na base do corpo e a consequente subida eh como quebrar o estado de sistase ou amarras de cada chakra ou sephirah, recuperar a sua potencialidade original e assim a consciencia vai se desvencilhando da irrealidade do ego e do mundo como eh percebido. Na travessia do abismo de Daath, eh onde a consciencia transcende totalmente o ego e o nucleo arquetipico que gera e dah forma a sociedade e cultura como um todo, se unindo a sua Contra-parte Espiritual de acima do abismo, recuperando e preenchendo o Ser de sua plenitude/potencia original. A consciencia se une ao Self e recupera a substancia espiritual, transformando os arcontes em Eons.

Daath tambem eh “Conhecimento”, ou seja, a pura Gnose, e desta forma os demonios sao transformados em Deuses, recuperando a plenitude do Ser.

A Travessia do Abismo de Daath

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/daath-e-a-travessia-do-abismo

Alquimia e Harry Potter, parte I

Arianrhod.

Este artigo traçará a história antiga da alquimia, suas metas e objetivos, e explicará os sete estágios da transformação alquímica. Mais tarde, discutirei os livros um de cada vez, discutindo as imagens alquímicas e o simbolismo em cada um no que se refere aos Sete Estágios e ao enredo. Finalmente, tentarei fazer algumas previsões sobre o próximo livro com base nos princípios da alquimia e nos elementos necessários para que Harry termine sua jornada para a iluminação e imortalidade espiritual.

  1. Uma (Muito) Breve Introdução à Alquimia:

A alquimia é uma prática protocientífica inicial que combina elementos de química, física, astrologia, arte, semiótica, metalurgia, medicina, misticismo e religião. Dois objetivos entrelaçados procurados por muitos alquimistas eram a pedra filosofal, uma substância mítica que possibilitaria a transmutação de metais comuns em ouro; e a panaceia universal, um remédio que curaria todas as doenças e prolongaria a vida indefinidamente. A alquimia pode ser considerada como a precursora da moderna ciência da química anterior à formulação do método científico.

A palavra alquimia vem do árabe al-kimiya ou al-khimiya e da palavra grega khumeia, que significa “juntar”, “derramar”, “soldar”, “ligar”, etc. (de khumatos, aquilo que é derramado fora, um lingote”). Outra etimologia liga a palavra com “Al Kemi”, que significa “a arte egípcia”, já que os antigos egípcios chamavam sua terra de “Kemi” e eram amplamente considerados como poderosos magos em todo o mundo antigo.

Essa é a definição padrão dos livros didáticos de alquimia como ciência, que é encontrada literalmente em vários sites de alquimia. Como veremos, porém, os próprios alquimistas eram tudo menos malucos, pagãos e ocultistas. A alquimia era muito mais do que uma protociência infantil baseada em princípios quase científicos e impregnada de alegoria e metáfora, embora certamente tivesse muito disso.

Ninguém sabe realmente a idade da alquimia. De acordo com o alchemylab.com, há algumas evidências de que o advento da alquimia antecede a Revolução Agrícola, que ocorreu há cerca de 8.000 anos. Algumas fontes conectam alquimia com xamanismo e metalurgia; certamente era conhecido na Suméria, Egito e Babilônia e mais tarde na Grécia, misturando-se cada vez mais com metalurgia e adivinhação até o advento do cristianismo, quando se tornou uma filosofia de pleno direito por direito próprio. Muitos dos alquimistas medievais eram devotos cristãos ou muçulmanos e começavam todos os dias com orações e devoções.

A alquimia como filosofia (assim como o Tarô, a Cabala, a astrologia e todos os estudos ocultistas) deve sua existência a um único documento chamado A Tábua de Esmeralda, também conhecida como a Mesa Smaragdine, Os Segredos de Hermes ou a Tabula smaragdina de Hermes Trismegisto. É um texto curto e enigmático que pretende revelar o segredo da substância primordial e suas transmutações. Até o século XX, suas primeiras fontes conhecidas eram manuscritos latinos medievais, mas a fonte documentada mais antiga para o texto é o Kitab Sirr al-Asrar, um livro de conselhos para governantes de autoria de Abd al-Qadir al-Jilani por volta de 800 d.C. Esta obra foi traduzida para o latim como Secretum Secretorum (O Segredo dos Segredos) por Johannes “Hispalensis” ou Hispaniensis (João de Sevilha) por volta de 1140 d.C. e por Filipe de Trípoli por volta de 1243 d.C. 1

A palavra-chave aqui é “documentado”. As origens da Tábua de Esmeralda podem remontar a vários milhares de anos; foi traduzido para o grego por estudiosos alexandrinos e, na verdade, foi exibido no Egito em 330 a.C. Por volta do ano 400 d.C., teria sido enterrado em algum lugar no planalto de Gizé para protegê-lo de fanáticos religiosos que estavam queimando bibliotecas ao redor do mundo naquela época. Muitos acreditam que a tabuleta ainda está escondida lá, escondida sob um hipogeu sob as patas traseiras da Esfinge. Segundo a lenda, o deus egípcio Thoth construiu um Salão de Registros ali, armazenando todos os registros da humanidade antes do dilúvio universal.

Para esclarecer um ponto: Hermes Trismegisto não deve ser confundido com o deus grego Hermes. Enquanto o nome Hermes Trismegisto significa “Hermes Três Vezes Grande”, o nome é realmente uma combinação do deus grego e Thoth, o deus egípcio do conhecimento, sabedoria e escrita. Aliás, os gregos, e os romanos depois deles, se recusaram a identificar Thoth com Hermes ou Mercúrio, e Cícero notou vários indivíduos conhecidos como Hermes. Hermes e Thoth, no entanto, compartilhavam muitos traços semelhantes. Ambos são deuses da escrita, comunicação e magia, e ambos eram considerados psicopompos, ou deuses que agiam como guias para as almas na vida após a morte.

No século XIV, o alquimista Ortolano escreveu O Segredo de Hermes, que influenciou o desenvolvimento subsequente da alquimia. Muitos manuscritos desta cópia da Tábua de Esmeralda e o comentário de Ortolano sobrevivem, datando pelo menos desde o século XV. A Tábua também foi encontrada anexada a manuscritos do Kitab Ustuqus al-Uss al-Thani (O Segundo Livro dos Elementos da Fundação) atribuído a Jabir ibn Hayyan ou Geber, e o Kitab Sirr al-Khaliqa wa San`at al-Tabi `a (O Livro do Segredo da Criação e da Arte da Natureza), datado entre 650 e 830 d.C.

Desde o início do texto vem o lema dos alquimistas: Como em cima, assim embaixo. É uma metáfora para recriar o céu na terra através dos segredos dos antigos, que certamente sabiam muito melhor do que nós como fazê-lo. Da Tábua de Esmeralda:

Verdade! Certeza! Aquilo em que não há dúvida!

O que está em cima é do que está em baixo, e o que está em baixo é do que está em cima, operando os milagres de um.

Como todas as coisas eram de um.

Seu pai é o Sol e sua mãe a Lua.

A Terra o carregou em seu ventre, e o Vento o alimentou em seu ventre,

como Terra que se tornará Fogo.

Alimente a Terra com o que é sutil, com o maior poder.

Ele sobe da terra ao céu e se torna governante sobre o que está em cima e o que está em baixo.

E já expliquei o significado de tudo isso em dois desses meus livros.

  1. As Metas e os Objetivos da Alquimia: Harry Potter e Tom Riddle (Lord Voldemort):

Os alquimistas medievais perseguiram três objetivos:

1· A transmutação de metais básicos em ouro;

2· A imortalidade da alma e do espírito;

3· A criação de vida artificial.

Enquanto muitos alquimistas passaram décadas tentando transformar metais básicos em ouro por meio de uma substância vaga chamada Pedra Filosofal, outros, como William Lilly e Nicolau Flamel, buscaram a iluminação espiritual da alma. Embora esses objetivos possam parecer incompatíveis ou mesmo mutuamente exclusivos, é importante lembrar que a alquimia era tanto uma filosofia quanto uma ciência experimental, e a transmutação dos metais permitiu aos alquimistas tentar provar que o Acima poderia ser recriado no Abaixo; em suma, recriar o céu na terra e na alma. Vemos o genuíno espírito científico nas palavras de um dos alquimistas: “Quisera Deus… que todos os homens se tornassem adeptos de nossa Arte – pois então o ouro, o grande ídolo da humanidade, perderia seu valor, e deveríamos valorizá-lo apenas por seu ensino científico.” 2 Infelizmente, porém, poucos alquimistas chegaram a esse ideal; e para a maioria deles, a alquimia significava apenas a possibilidade de fazer ouro barato e ganhar uma riqueza incalculável.

O terceiro objetivo da alquimia “a criação da vida a partir do nada” pertencia quase inteiramente aos alquimistas islâmicos. Isso entrará em jogo mais tarde, quando discutirmos o Cálice de Fogo. Os alquimistas islâmicos, especialmente Jabir ibn Hayyan ou Geber, experimentaram os princípios dos elementos na esperança de produzir takwin, a criação artificial da vida, incluindo a vida humana, em laboratório. Até onde sabemos, Geber não teve sucesso, mas Mary Shelley tocou nesse tema em seu romance Frankenstein, assim como muitos outros autores da época. Eles chamaram suas criações de homunculus, ou o “pequeno homem”, e parece que o grande alquimista e médico medieval Paracelso cunhou o termo depois que ele supostamente criou um homem falso que tinha apenas cerca de 30 centímetros de altura. O conceito é semelhante ao golem judeu, que era a criação de vida a partir de objetos inanimados, e os homúnculos geralmente faziam o trabalho atribuído aos golens.

A alquimia contém um elemento profundamente místico, e quem tentar estudá-la com um ponto de vista moderno ou puramente científico não a compreenderá nem a apreciará. Os alquimistas sempre falaram de sua arte como um Dom Divino, cujos segredos não poderiam ser aprendidos em nenhum livro, e só poderiam ser alcançados por longos anos de estudo e devoção. A iluminação, quando e se veio, ocorreu de uma só vez e sem aviso prévio. Mais de um alquimista ficou maravilhado com a simplicidade da resposta e quanto tempo eles levaram para compreendê-la. A atitude mental correta com Deus foi o primeiro passo crucial para alcançar a Grande Obra (magnum opus), porque a alquimia é uma transformação tripla: física, espiritual e psicológica.

De acordo com The Hermetic House (A Casa Hermética): “Do ponto de vista ascético… o desenvolvimento da alma só é plenamente possível com a mortificação do corpo; e todo o verdadeiro misticismo ensina que se alcançarmos o objetivo mais elevado possível para o homem – união com o Divino – deve haver um abandono de nossas próprias vontades individuais, um rebaixamento da alma diante do Espírito. E assim os alquimistas ensinaram que para a realização da magnum opus no plano físico, devemos despojar os metais de suas propriedades exteriores para desenvolver a essência interior, como diz Helvetius:

“… As essências dos metais estão escondidas em seus corpos exteriores, como o núcleo está escondido na noz. Todo corpo terrestre, seja animal, vegetal ou mineral, é a habitação e morada terrestre daquele espírito celestial, ou influência, que é seu princípio de vida ou crescimento. O segredo da Alquimia é a destruição do corpo, que permite ao Artista obter e utilizar para seus próprios propósitos, a alma viva.” Essa morte da natureza externa das coisas materiais deveria ser provocada pelos processos de putrefação e decadência; daí a razão pela qual tais processos figuram tão amplamente nas receitas alquímicas para a preparação do “Magistério Divino”. 3

O buscador deve entrar em seus estudos com um coração puro. Aqueles que não o fizerem “usar a alquimia para obter poder ou ganho financeiro” nunca alcançarão a perfeição espiritual e a imortalidade. Suspeito que foi isso que aconteceu com Tom Riddle. Em sua busca por conhecimento sobre as Horcruxes e em seus experimentos para se tornar imortal, seu coração e seus motivos não eram puros. Ele usou seu ganho para mutilar sua alma, um ato que ia contra as leis da natureza e de Deus. E ele pagou por isso: No capítulo “O Pedido de Lord Voldemort”, vemos o resultado de sua loucura. Sua boa aparência se foi “ainda não como uma cobra, mas apenas uma sombra do que eles eram uma vez. O exterior espelha o interior. Uma alma mutilada e difamada não pode ser encerrada em um belo pacote:

“Em primeiro lugar, que todo químico e estudante devoto e temente a Deus e estudante desta Arte considere que este arcano deve ser considerado, não apenas como uma arte verdadeiramente grande, mas como uma arte santíssima (vendo que ele tipifica e obscurece a mais alta bem celestial). Portanto, se alguém deseja alcançar este grande e indizível Mistério, deve lembrar-se de que ele não é obtido pelo poder do homem, mas pela graça de Deus, e que não nossa vontade ou desejo, mas apenas o misericórdia do Altíssimo, pode concedê-la a nós.

“Por esta razão, você deve primeiro limpar seu coração, levantá-lo somente a Ele, e pedir-Lhe este dom em oração verdadeira, fervorosa e indubitável. Só Ele pode dar e outorgar.” 4

Thomas Norton em seu Orindall of Alchemy coloca isso muito bem quando diz:

“… Uma graça e dom singular do Todo-Poderoso

Que nunca foi encontrado, como testemunha podemos,

Nem esta ciência jamais foi ensinada ao homem…

TAMBÉM NENHUM HOMEM DEVE ESSA CIÊNCIA ENSINAR

Pois é tão maravilhoso e tão isolado

Que deve ser ensinado de boca em boca,

Também ele deve (se ele nunca for tão relutante),

Receba-o com um juramento mais sagrado,

Que, ao recusarmos grande dignidade e fama,

Então ele deve necessariamente recusar o mesmo…

Para que por dúvida de tanto orgulho e riqueza

Ele deve tomar cuidado com o que esta ciência ensina

Nenhum homem, portanto, pode alcançar este presente

Mas ele tem virtudes excelentes.” 5

Tom Riddle também buscou o conhecimento dos alquimistas; ele também buscou a imortalidade da alma e do espírito para permanecer aqui na terra. A diferença entre Riddle e Harry, no entanto, são suas motivações para buscar o conhecimento para começar. Tom queria poder e ganho enquanto Harry não. Um excelente exemplo disso é um dos capítulos finais do primeiro livro “O Espelho de Ojesed”. Dumbledore, ele próprio um alquimista, estava bem ciente do princípio do amor e da iluminação, e escondeu a Pedra em um lugar onde apenas os puros de coração poderiam obtê-la. O professor Quirrell podia se ver com a Pedra Filosofal, mas não conseguia pegá-la. Por quê? Porque ele queria isso para ganho material e poder” para devolver seu mestre à força. Harry, por outro lado, queria que a Pedra a mantivesse segura; de forma alguma ele pretendia usá-lo para si mesmo. É por isso que ele conseguiu pegar a Pedra do Espelho.

Este é o caminho no qual Harry se encontra – o caminho para a iluminação. Somente buscando aquela parte de si mesmo “sua bondade e amor” ele encontrará os meios para destruir Voldemort de uma vez por todas. Ele deve se tornar a personificação física da Pedra Filosofal, alcançando a perfeição espiritual e a imortalidade, antes de finalmente se libertar do vínculo entre ele e Tom Riddle.

III. A Pedra Filosofal e o Elixir da Vida:

Mencionado pela primeira vez por Zósimo, o Tebano, no século III a.C., o conceito da Pedra Filosofal é verdadeiramente antigo. É conhecida por muitos nomes em muitas civilizações, mas o conceito ainda é o mesmo: a Pedra Filosofal é um meio pelo qual os humanos podem alcançar a perfeição espiritual e a imortalidade. Representa a força por trás da vida e o poder universal de ligação entre a mente e o corpo.

Uma das manifestações mais antigas da Pedra é tão antiga quanto a própria civilização. A água da vida suméria, agora conhecida como álcool ou aqua vitae, também era chamada de “água viva”, ou a “água com espíritos” e era usada na alquimia como agente de destilação. Foi mencionado na Epopeia de Gilgamesh e apresentada com destaque no mito do renascimento da deusa Inanna depois que sua irmã Eriskegal, a esposa do deus da morte, a assassinou no submundo.

A Pedra Benben da lenda egípcia também era chamada de “a pedra que caiu do céu” (lapsit ex caelis). Era o símbolo do sol, de forma piramidal, e residia no Templo do Sol em Heliópolis, o centro da religião e da astronomia no antigo Egito. Dizia-se que a Pedra Benben tinha os segredos da vida inscritos nela. A tradução latina da Pedra Filosofal/Elixir da Vida é ex lapis elixir, que é estranhamente semelhante ao nome que Wolfram von Esenbach dá ao Santo Graal em seu romance arturiano Parzival (lapsit exillis). Na verdade, Wolfram se esforça para descrever o Graal como uma pedra, e sua escolha de palavras não parece coincidência. O termo lapsit exillis também pode ser traduzido como lapsit ex caelis: a “pedra que caiu do céu”, o que implica que tanto a Pedra quanto o Graal podem ser rastreados pelo menos até o antigo Egito, embora provavelmente seja muito mais antigo do que isso.

Algumas das outras manifestações da Pedra incluem:

1· Lia Fáil, Irlanda/A Pedra do Destino, Escócia

2· Caldeirão da Imortalidade de Keridwen, Irlanda

3· A Pedra de Jacó, Bíblica

4· Caldeirão do Renascimento de Bran, País de Gales

5· O Santo Graal, Europeu.

6· A Kaa’ba, no Islã.

A Pedra era vista como uma substância mágica que poderia aperfeiçoar imediatamente qualquer substância ou situação. A Pedra Filosofal tem sido associada a muitos outros exemplos e fenômenos místicos e religiosos, incluindo o Sal do Mundo, o Corpo Astral, o Elixir e até mesmo Jesus Cristo. O Elixir dos alquimistas tem essencialmente a mesma capacidade de aperfeiçoar qualquer substância. Como a panaceia universal, o Elixir cura doenças e restaura a juventude.

Se a criação da Pedra Filosofal foi difícil, a criação do Elixir da Vida foi quase impossível. O Elixir da Vida deve conter os quatro elementos (fogo, terra, ar e água) mais os três princípios do animal, vegetal e prima materia (tan). Para trabalhar com esses ingredientes, muitos achavam que era necessário usar fígados de crocodilo, esqueletos humanos, raízes de mandrágora e vesículas biliares de antílopes, além de outros ingredientes bizarros.

Acredita-se que a prima materia ou tan seja o mineral cinábrio, ou sulfeto de mercúrio, também conhecido como Sangue de Dragão. Aprendemos em A Pedra Filosofal que Alvo Dumbledore era o parceiro de Nicolau Flamel, que possuía “a única Pedra Filosofal conhecida”. Como veremos, Flamel foi um dos melhores alunos de alquimia, e que Dumbledore era seu parceiro certamente não é por acaso da parte de Rowling. Dumbledore estava então familiarizado com o conhecimento dos alquimistas, suas metas e objetivos, e a atitude necessária para ter sucesso em sua busca. Rowling credita a Dumbledore a descoberta dos doze usos do Sangue de Dragão, que é um ingrediente crucial na construção da Pedra Filosofal. Muito usado pelos antigos como uma droga de longevidade, o cinábrio é extraído desde os tempos antigos e é altamente tóxico devido ao seu teor de mercúrio.

Sangue de Dragão também é o nome de uma planta, Dracaena draco, que é nativa das Ilhas Canárias, e outra planta, D. cinnabari, que é encontrada apenas na ilha de Socotra, na costa sul da Arábia. Acreditava-se que a resina seca dessas plantas tinha propriedades mágicas devido à sua cor vermelha brilhante. O Sangue de Dragão agora é usado em uma variedade de aplicações industriais” como verniz e em fotogravura, entre outros. Ainda é usado na Índia para fins cerimoniais. Embora tenha muito mais de doze usos, nenhum deles é limpador de forno!

O cinábrio, também chamado de vermelhão, combinava as duas substâncias importantes na alquimia: mercúrio e enxofre. Segundo Paracelso:

“A NATUREZA gera um mineral nas entranhas da terra. Existem dois tipos dele, que são encontrados em muitos distritos da Europa. figura do mundo maior, e está na parte oriental da esfera do Sol. A outra, na Estrela do Sul, está agora em sua primeira eflorescência. As entranhas da terra a empurram através de sua superfície. em sua primeira coagulação, e nele se escondem todas as flores e cores dos minerais. Muito se escreveu sobre isso pelos filósofos, pois é de natureza fria e úmida, e concorda com o elemento água.

No que diz respeito ao seu conhecimento e experimentação, todos os filósofos antes de mim, embora tenham mirado nele com seus mísseis, foram muito longe do alvo. Eles acreditavam que o Mercúrio e o Enxofre eram a mãe de todos os metais, nunca sequer sonhando em fazer menção a um terceiro; e, no entanto, quando a água é separada dela pela arte espagírica, a verdade é claramente revelada, embora fosse desconhecida para Galeno ou Avicena. Mas se, por causa de nossos excelentes médicos, tivéssemos que descrever apenas o nome, a composição; a dissolução e coagulação, como no início do mundo a Natureza procede com todas as coisas em crescimento, um ano inteiro dificilmente me bastaria, e para explicar essas coisas, nem mesmo as peles de numerosas vacas seriam adequadas.

Agora, afirmo que neste mineral se encontram três princípios, que são o Mercúrio, o Enxofre e a Água Mineral que serviu para coagular naturalmente. A ciência espagírica é capaz de extrair este último de seu próprio suco quando não está totalmente amadurecido, no meio do outono, como uma pera de uma árvore. A árvore contém potencialmente a pera. Se os astros celestiais e a natureza concordam, a árvore, antes de tudo, dá brotos no mês de março; em seguida, brota os botões e, quando estes se abrem, a flor aparece, e assim sucessivamente, até que no outono a pera amadurece. Assim é com os minerais. Estes nascem, da mesma maneira, nas entranhas da terra. Que os Alquimistas que estão procurando o Tesouro dos Tesouros observem isso cuidadosamente. Eu lhes mostrarei o caminho, seu começo, seu meio e seu fim. No tratado a seguir descreverei a Água adequada, o Enxofre adequado e o Bálsamo adequado. Por meio desses três, a resolução e a composição são coaguladas em uma…” 6

Como sabemos, a Pedra Filosofal e o Elixir da Vida eram os principais objetivos dos alquimistas. A Pedra Filosofal era a substância que poderia transformar chumbo barato em ouro e criar uma panaceia universal que tornaria os humanos imortais – o Elixir da Vida. A Grande Obra, ou Magnum Opus, refere-se à busca por esta pedra. Além disso, a fabricação da Pedra Filosofal era entendida como conferir um tipo de iniciação ao aluno, e essa iniciação é a culminação adequada da Grande Obra. A Pedra Filosofal é um símbolo para a jornada para a iluminação, quebrando e recombinando elementos dentro de nós (solve et coagula).

Embora houvesse tradicionalmente sete etapas para a conclusão da Pedra Filosofal, outros autores colocam o número mais alto. De acordo com o Pergaminho Ripley, havia 12 etapas envolvidas na fabricação da Pedra Filosofal. Basílio Valentino escreveu As Doze Chaves. A diferença nos sistemas é que o sistema tradicional de sete etapas remonta a Tábua de Esmeralda, enquanto o sistema de 12 etapas lida mais com arquétipos astrológicos.

Ripley escreveu sobre os quatro elementos conhecidos: fogo, terra, ar e água:

Você deve fazer Água da Terra, e Terra do Ar, e Ar do Fogo, e Fogo da Terra.” 7

De acordo com a Wikipédia, os alquimistas acreditavam que todos os quatro elementos eram interdependentes uns dos outros e que qualquer processo produziria os quatro elementos. Essa ideia remonta aos filósofos, especificamente Empédocles de Agrigento (440 a.C.), que consideravam que havia quatro elementos – terra, água, ar e fogo. Aristóteles acrescentou o chamado Quinto Elemento, “o éter”. (alt: aether) Esses elementos eram considerados, não como diferentes tipos de matéria, mas como diferentes formas de uma única matéria original, pela qual manifestavam diferentes propriedades. Pensava-se que isso se devia às quatro propriedades primárias de secura, umidade, calor e frio, com cada elemento tendo duas dessas propriedades: fogo era equiparado a quente e seco, quente e úmido ao ar, úmido e frio à água, e seco e frio para a terra. Assim, corpos úmidos e frios (a maioria dos líquidos) foram chamados de “águas”. Além disso, como esses elementos não eram considerados diferentes tipos de matéria, os alquimistas pensavam que a transmutação era possível. Na verdade, é possível, mas foi preciso o desenvolvimento da fissão nuclear para tornar realidade os sonhos dos alquimistas.

De acordo com Rowling, as quatro Casas de Hogwarts são usadas para representar esses quatro elementos. Grifinória é Fogo, Corvinal é Ar, Lufa Lufa é Terra e Sonserina é Água. Mas e o Quinto Elemento de Aristóteles, o éter? É aqui que entra Harry. O éter, ou quintessência, está sozinho acima dos outros elementos. É puro e incorruptível, a presença essencial de algo ou alguém. A quintessência combina o Acima e o Abaixo, o mental e o material. Pode ser pensado como a encarnação etérea da força vital que encontramos em sonhos e estados alterados de consciência. Segundo os gregos, o éter era o fogo celestial na visão grega, a pura essência em que os deuses viviam e respiravam, e os gregos o comparavam ao calor radiante do sol, que podia se mover no espaço vazio; isso levou Aristóteles a afirmar que “a natureza abomina o vácuo”. 8

Os elementos clássicos são frequentemente usados juntos tematicamente na fantasia moderna, ficção científica, cinema e televisão. Normalmente, um mago, mago ou alguém capaz de usar magia tem a habilidade de influenciar um dos elementos, ou pode usar os elementos para afetar o mundo ao seu redor. O quinto elemento ou quintessência está incorporado no herói, que geralmente é o epítome do amor, e do amor puro. Exemplos deste tema incluem Capitão Planeta, onde o Capitão Planeta é invocado combinando o poder de cinco anéis que representam cada um dos quatro elementos clássicos, bem como um anel que representa o “Coração”; A série The Sword of Truth (A Espada da Verdade) de Terry Goodkind e o programa de televisão infantil Avatar, onde quatro nações representando os quatro elementos estão em guerra. Os “magos” de cada nação têm a capacidade de controlar o elemento para o qual sua nação é nomeada. O Avatar, Ang, uma criança pequena, é o único que pode controlar todos os quatro elementos e trazer as nações de volta à harmonia. Ainda outro exemplo é o longa-metragem O Quinto Elemento, onde o personagem principal (interpretado por Bruce Willis) deve usar os quatro elementos para alimentar uma arma para a defesa da Terra, juntamente com o amor, o “quinto elemento”. Exemplos mais recentes incluem dois filmes populares do ano passado: Os Incríveis e O Quarteto Fantástico (que originalmente era uma história em quadrinhos).

Harry está em busca da quintessência dentro de si mesmo. Ele é aquele que pode unir as quatro casas como uma. Ele sozinho contém todas as quatro características dentro de si mesmo. A busca da quintessência é a busca da Pedra Filosofal, seu despertar e imortalidade espiritual.

Em O Enigma do Príncipe, até encontramos Harry lendo um livro sobre a quintessência:

“Harry não respondeu, mas fingiu estar absorto no livro que eles deveriam ter lido antes de Feitiços na manhã seguinte, Quintessence: A Quest (A Quintessencia: Uma Busca). (US Deluxe HBP, p. 304).

  1. As Ferramentas da Alquimia e Harry Potter:

Os alquimistas acreditavam que a fórmula universal contida na Tábua de Esmeralda era a base para uma filosofia espiritual introduzida pela primeira vez no antigo Egito na remota antiguidade” algumas fontes dizem mais de 10.000 anos atrás. Esta fórmula consiste em sete operações consecutivas realizadas sobre a “matéria” – seja de natureza física, psicológica ou espiritual.

Basílio Valentim, em seu Azoth dos Filósofos, descreve o significado completo da Coisa Única, que é tanto a Caótica Matéria no início da Obra quanto a Pedra aperfeiçoada em sua conclusão. A palavra “Azoth” é da Tábua de Esmeralda; o “A” e o “Z” na palavra relacionada ao alfa e ômega gregos, que significa simplesmente o começo e o fim de todas as coisas. 9

No desenho acima, tirado de Os Sete Estágios da Transformação Alquímica, uma salamandra envolta em chamas e um pássaro em pé estão tocando as asas de um caduceu. Abaixo da salamandra está a inscrição Anima (Alma); abaixo do pássaro está a inscrição Spiritus (Espírito). Corpus significa Corpo. De acordo com o Alchemy Electronic Dictionary (O Dicionário Eletrônico da Alquimia), a alma é “a presença passiva em todos nós que sobrevive por toda a eternidade e, portanto, é parte da substância original (Primeira Matéria) do universo. Em última análise, é a Única Coisa do universo. A alma foi considerada além dos quatro elementos materiais e, portanto, conceituada como um quinto elemento (ou Quintessência). O espírito é “a presença ativa em todos nós que luta pela perfeição. O espírito busca manifestação material para expressão. Em última análise, é a Mente Única do universo”. Em outras palavras, a alma é aquilo com que nascemos; é o espírito e as escolhas que fazemos na vida que nos moldam em quem somos, um ponto que Rowling enfatiza repetidamente nos romances.

Spiritus, Anima e Corpus formam um grande triângulo invertido que fica atrás do emblema central. De acordo com McLean, juntos eles simbolizam as três forças celestes arquetípicas que os alquimistas chamavam de Enxofre, Mercúrio e Sal. Na filosofia da alquimia, não são produtos químicos, mas nossos sentimentos, pensamentos e corpo.

Antes de discutirmos os livros e como Rowling habilmente tece os fios da alquimia através deles, é necessário dar algumas breves definições e descrições das substâncias básicas usadas na alquimia. Havia sete metais conhecidos pelos alquimistas: ouro, prata, mercúrio, chumbo, cobre, estanho e ferro (ver figura 1). Cada um teve um papel específico na formação da Pedra Filosofal; no entanto, como veremos, os alquimistas nem sempre foram claros sobre os nomes das substâncias, muitas vezes expressando-os em metáfora e simbolismo. Além disso, antes do século XIX não havia um sistema de nomenclatura universal para os elementos químicos. O que um alquimista chamava de enxofre outro poderia chamar de mercúrio e vice-versa; isso torna a interpretação de seus textos extremamente difícil.

METAL/PLANETA REGENTE:

Ouro – Sol

Prata – Lua

Mercúrio – Mercúrio

Cobre – Vênus

Estanho – Júpiter

Ferro – Marte

Chumbo – Saturno

Figura 1: Os Sete Metais da Alquimia e seus planetas regentes.

Além dos sete metais, havia também outros elementos e compostos em uso: vitríolo, antimônio (o lobo cinzento ou estribita), salitre (nitrato de potássio), uma combinação de ácido sulfúrico e ácido nítrico (chamado aqua regis), ácido nítrico (aqua fortae), água, sal amoníaco (cloreto de amônio), alúmen (sulfato de alumínio e potássio) e sal, entre outros.

É importante lembrar que os elementos que possuíam as mesmas propriedades foram classificados sob o mesmo nome; por exemplo, os compostos mais combustíveis com os quais os alquimistas trabalharam receberam o nome de “enxofre”, embora claramente não sejam todos enxofre elementar. Mercúrio era bem conhecido por sua capacidade de se unir e era famoso por seu brilho e maleabilidade. Mas os alquimistas rotularam muitas substâncias como “mercúrio” – aquelas que eram macias, brilhantes e fáceis de trabalhar, o que inclui a maioria dos metais – e às vezes é difícil determinar exatamente do que eles estão falando. Mais uma vez, os próprios alquimistas nunca são claros sobre a qual “enxofre” ou “mercúrio” eles estavam se referindo, o que só agrava o problema da tradução.

As três substâncias mais importantes na alquimia eram mercúrio, enxofre e sal. Os alquimistas acreditavam que todos os metais eram compostos de mercúrio e enxofre, em diferentes proporções e graus de pureza. O mercúrio também era conhecido como mercúrio ou sangue de unicórnio e era usado para fazer óxido de mercúrio vermelho aquecendo-o em uma solução de ácido nítrico. Um espesso vapor vermelho pairava sobre a solução e cristais vermelhos brilhantes precipitavam no fundo. Isso convenceu os alquimistas de que o mercúrio transcendia os estados líquido e sólido e, consequentemente, tanto o céu quanto a terra, a vida e a morte. Mercúrio foi a causa da “perfeição” nos metais e deu ao ouro seu brilho. Um alquimista desconhecido, citando Arnold de Villanova, escreve: “O mercúrio é a forma elementar de todas as coisas fusíveis; pois todas as coisas fusíveis, quando derretidas, se transformam nela, e se mistura com elas porque é da mesma substância que elas. Tais corpos diferem do mercúrio em sua composição apenas na medida em que está ou não livre da matéria estranha do enxofre impuro”. 10 O “mercúrio filosófico”, presente na busca do buscador pela iluminação, era absolutamente necessário para a conclusão da Magnum Opus. Na alquimia, uma serpente ou cobra geralmente representa mercúrio.

Os alquimistas acreditavam que um excesso de enxofre nos metais causava impurezas. Ao eliminar o excesso de enxofre por meio de um processo de purificação, eles ficariam com mercúrio puro ou mercúrio. Geber chamou o enxofre de “a gordura da terra, por decocção temperada na mina da terra engrossada, até ser endurecida e seca”. 11 Ele considerava o excesso de enxofre como causa de imperfeição nos metais, e escreve que uma das causas da corrupção dos metais pelo fogo “é a inclusão de um enxofre ardente na profundidade de sua substância, diminuindo-os por Inflamação, e exterminando também em Fumo, com Consumo extremo, tudo o que Argentvive (a “prata viva”) neles é de boa Fixação.” 12 Ele assumiu, além disso, que os metais continham dois tipos de enxofre: enxofre incombustível e enxofre combustível, sendo o segundo aparentemente considerado uma impureza.13 Um alquimista posterior diz que o enxofre é “mais facilmente reconhecido pelo espírito vital nos animais, a cor nos metais, o odor nas plantas.” 14 Para piorar a situação, o termo enxofre também foi dado a qualquer substância de cores vivas.

De acordo com The Hermetic House: Alchemy Ancient and Modern (A Casa Hermética: Alquimia Antiga e Moderna), essa “teoria do enxofre-mercúrio dos metais foi defendida por alquimistas famosos como Roger Bacon, Arnaldo de Villanova e Raimundo Lúlio”. 15 O sal, por outro lado, foi uma adição tardia à alquimia. O sal foi o início e o fim da Grande Obra, e esse conceito que será extremamente importante em nossa análise dos livros. Assim como o mercúrio e o enxofre, os alquimistas não se referiam ao sal de mesa aqui. Qualquer substância que fosse resistente ao fogo era chamada de “sal”. Isaac da Holanda e Basílio Valentim tentaram explicar as diferenças nos metais pela quantidade de mercúrio, enxofre e sal que continham. Por exemplo, o cobre, que é brilhantemente colorido, contém um excesso de enxofre, enquanto o ferro, que é duro, contém um excesso de sal. Paracelso e outros aprovaram entusiasticamente a adição de sal à lista de substâncias alquímicas, embora o sal permanecesse menos importante que o mercúrio ou o enxofre.

O vitríolo é outra substância que encontraremos no decorrer de nossa análise. É o líquido mais importante na alquimia, sem exceção, servindo como catalisador para todas as reações subsequentes. Foi destilado a partir de uma substância oleosa e verde (sulfato de cobre) que se formou naturalmente a partir do desgaste do cascalho com enxofre. Este Vitríolo Verde é simbolizado pelo Leão Verde em desenhos alquímicos. Depois de recolhido, foi aquecido e decomposto em compostos de ferro e ácido sulfúrico. O ácido foi então separado por destilação. A primeira destilação produziu um líquido marrom que cheirava a ovos podres (enxofre), mas a destilação posterior produziu um óleo amarelo quase inodoro chamado simplesmente vitríolo. O nome também foi usado para vários sais de sulfato, como sulfato de cobre (vitríolo azul, ou raramente vitríolo romano), sulfato de zinco (vitríolo branco), sulfato de ferro (II) (vitríolo verde), sulfato de ferro (III) (vitríolo de Marte), ou sulfato de cobalto (vitríolo vermelho). O vitríolo dissolve facilmente o tecido humano e é severamente corrosivo para a maioria dos metais, embora não tenha efeito sobre o ouro. A importância do Vitríolo nos romances não pode ser subestimada; sem ela, Harry não pode passar pelos estágios de transformação para a iluminação, mesmo quando as coisas parecem irreprimivelmente sombrias.

O ácido sulfúrico reage com a maioria dos metais para produzir gás hidrogênio e um sulfato metálico. Essas reações fazem com que o ácido ferva e pode explodir. A única maneira de combater um incêndio de ácido sulfúrico é com espuma ou outros agentes de terra seca para evitar que ferva. Uma vez que ferve, libera gases ácidos que podem matar.

Em Harry Potter, essas quatro substâncias são simbolizadas pelos seguintes caracteres, e estes serão discutidos em maiores detalhes: Mercúrio=Dumbledore, Enxofre=Hagrid, Sal=Sirius e Vitriol=Snape. Os outros personagens também têm seus lugares. Três casais representam a união de enxofre e mercúrio ou o Grande Casamento: Tiago e Lílian; Ron e Hermione (o “casal briguento”); e Bill e Fleur. Além disso, o nome completo de Ginny, Ginevra, significa “espuma branca”. Como mencionado nos parágrafos sobre vitríolo, a única coisa que pode combater um incêndio de ácido sulfúrico é a espuma.

  1. Os Sete Estágios da Transformação Alquímica:

Segundo fontes tradicionais, havia sete estágios de alquimia, cujo produto final era a Pedra Filosofal. Os primeiros quatro passos ocorrem no Abaixo, no reino da matéria. Os últimos três passos acontecem no Alto, no reino da mente e da imaginação criativa. Embora cada livro represente um estágio na transformação, os ciclos de alquimia também estão presentes em cada livro, começando com Harry na casa dos Dursley (o Estágio Negro) e terminando com a importante conversa de Dumbledore e a viagem de trem para casa (o Estágio Vermelho).

Cada estágio está relacionado a uma cor, substância alquímica e metal, e cada um tem um lugar específico na criação da Pedra. De acordo com outras fontes, como George Ripley e Basílio Valentino, havia Doze Chaves ou Portões. Para os propósitos desta discussão, no entanto, vamos nos limitar aos sete estágios tradicionais e analisá-los como eles se relacionam com o mundo de Harry Potter. (veja a figura 2) As primeiras cinco fases juntas são chamadas do Estágio Negro ou melanose; o Estágio Branco é destilação ou leucose e o Estágio Vermelho é coagulação ou iose. A iose também é conhecida como fase roxa, porque o material fica roxo durante o processo de coagulação.

Ano 1: A Pedra Filosofal:

No universo de Rowling, a Pedra Filosofal e o Elixir da Vida desempenharam o papel principal no primeiro livro. Lord Voldemort, arrancado de seu corpo onze anos antes, precisa que a Pedra permaneça viva até que possa construir um novo corpo, reduzindo-se a se alimentar de sangue de unicórnio, uma caricatura tão horrível que a partir de então levará uma meia-vida amaldiçoada. Hogwarts se torna um lugar de intriga e perigo para Harry e seus amigos enquanto eles tentam desvendar o mistério do roubo no Banco de Gringotes e evitar que a Pedra caia em mãos erradas. Eventualmente, Harry consegue, no processo descobrindo dentro de si suas próprias habilidades e o segredo do sacrifício de sua mãe por ele. Voldemort não recebe a Pedra e é forçado a fugir para a Albânia, não melhor do que quando voltou para a Grã-Bretanha.

Este é o início da jornada de Harry. Ele começa como uma massa confusa, sozinho sob os cuidados de parentes abusivos, e então leva o choque de sua vida quando Hagrid lhe diz que é um bruxo. A partir daí, ele precisa quebrar (dissolver) tudo o que aprendeu e começar a construir novamente (coagular). Ele aprende no processo que não é apenas um mago; ele é O Menino Que Sobreviveu. Para que ele fique completamente livre de Voldemort, ele deve dissolver o vínculo entre eles, um processo que levará mais seis livros para ser concluído.

Conhecemos Harry pela primeira vez no Capítulo 2, abusado por seus parentes trouxas e confinado em seu armário embaixo da escada. A impressão que temos é a de um menino que está sozinho no mundo, sem um amigo e sem esperança de que sua situação mude. E então, de repente, todo o seu mundo muda. Ele descobre que é um bruxo. O agente dessa mudança profunda é Rúbeo Hagrid, que passará a desempenhar um papel crucial na série. O nome Rúbeo significa “vermelho”, e logo descobrimos que Hagrid tem uma queda por criaturas perigosas. Ele é atencioso e carinhoso, algo que não esperaríamos em um homem tão grande; que ele seja retratado como tal por Rowling não é por acaso, como veremos nos livros posteriores.

De acordo com Adam McLean em seu The Seven Stages of Transformation (Os Sete Estágios da Transformação), este primeiro estágio da Grande Obra, chamado calcinação, é a quebra da massa confusa (massa confusa) pelo fogo. É representado pelo ácido sulfúrico, um potente corrosivo que corrói a pele e reage com todos os metais, exceto o ouro. Os alquimistas criaram o ácido sulfúrico a partir do vitríolo, o agente altamente corrosivo discutido anteriormente. A massa confusa caótica tem que passar por um longo processo no qual é repetidamente dissolvida e coagulada (solve et coagula) e daí surge a prima materia, que é a matéria-prima para a fabricação do ouro. O psicólogo Carl Jung estava muito ocupado com os aspectos arquetípicos da alquimia e ficou impressionado com as semelhanças entre o opus magnum e o processo psicanalítico. Na psicanálise de Jung, a massa confusa do subconsciente é o instrumento primordial para alcançar um estado de equilíbrio e completude mental. A própria calcinação representava a quebra do ego e os apegos às posses materiais. Através deste processo o Buscador torna-se introspectivo e começa a avaliar a sua vida.

A massa confusa é descrita como uma cobra segurando sua cauda – o Ouroboros. A cobra era frequentemente usada como um símbolo para a dualidade – seu corpo alongado separando as polaridades da cabeça e da cauda. Às vezes, a figura de um dragão alado era usada aqui no lugar da cobra, para fechar o círculo com o dragão no início do trabalho. Quando a cobra ou dragão agarrou sua cauda, uniu as polaridades em um círculo, um símbolo para os alquimistas para alcançar a solidez entre as energias dualistas das forças da alma. A criação da Pedra Filosofal foi a formação de uma base interna sólida sobre a qual os filósofos alquímicos puderam construir suas personalidades e experimentar toda a potencialidade de serem humanos.16

Isso é o que Harry começa a experimentar desde o momento em que pisa no Expresso de Hogwarts. Ele está entrando em um mundo totalmente novo; um de magia e admiração, que o obriga a avaliar quem ele é e a que propósito serve. A plataforma 9 3/4 representa sua iniciação neste mundo de maravilhas, cruzando as fronteiras entre os reinos mundano e superior. Ele conhece Ron e Hermione, que imediatamente não gostam um do outro. Juntos, eles representam o Casal Brigante; rei e rainha, mercúrio e enxofre, ouro e prata, cujo Grande Casamento no final da Grande Obra permitirá que Harry alcance todo o seu potencial. Discutiremos isso mais adiante.

O nome de Hermione encontra suas raízes no deus grego Hermes, mas ainda mais importante em Hermes Trismegisto, o autor da Tábua de Esmeralda, da qual derivam todos os estudos de alquimia e ocultismo. Também é significativo que São Tiago (Potter) seja o santo padroeiro da alquimia, e o símbolo do Estágio Branco da transformação seja o lírio.

Neste ponto, encontramos dois dos personagens mais importantes de todo o livro: Alvo Dumbledore e Nicolau Flamel. As Cartas de Sapo de Chocolate de Ron são uma verdadeira fonte de informação para nós na primeira leitura do livro. Descobrimos que Dumbledore e Flamel eram parceiros; além disso, afirma-se inequivocamente que eles eram alquimistas. Dumbledore é creditado com a descoberta dos doze usos do Sangue de Dragão, que como vimos não é uma fantástica virada da imaginação de Rowling. Dumbledore repetidamente mostra-se bem familiarizado com os princípios alquímicos ao longo do livro e de fato ao longo da série.

Por outro lado, Nicolau Flamel é a pessoa mais importante em Harry Potter a nunca ser lembrada em um Cartão de Sapo de Chocolate. A razão para isso não está clara; o fato de ele ainda estar vivo não pode ser o motivo, já que Dumbledore está vivo e tem seu próprio cartão. Em todo caso, a vida de Flamel foi bastante real”sua casa em Paris, construída em 1407, ainda está de pé, na rue de Montmorency, 51, onde foi transformada em restaurante. Suas façanhas, no entanto, são lendárias entre os estudantes de esoterismo e ocultismo.

Este é o fim da Parte I. A Parte II discute a vida de Flamel, seu infame manuscrito e aborda a questão: Flamel realmente encontrou a Pedra Filosofal? Também traço o simbolismo alquímico na Câmara Secreta através do Enigma do Príncipe e além, fazendo algumas previsões para o destino dos personagens e o final da série.

Referências:

1. The Internet Sacred Text Archive. “History of the Tablet.” The Emerald Tablet of Hermes. 2005. The Internet Sacred Text Archive. 10 March 2006. http://www.sacred-texts.com/alc/emerald.htm

2. Waite, A. E. “’EIRENÆUS PHILALETHES’: An Open Entrance to the Closed Palace of the King.” The Hermetic Museum. vol. ii. London. 1893. p. 178

3. Redgrove, H. Stanley. Alchemy: Ancient and Modern. London: William Rider & Son, LTD, 1922. http://www.geocities.com/andymak252/AlchemyAncientModern.htm

4. Geber; Richard Russel. “Of the Sum of Perfection.” The Works of Geber. London : Printed for William Cooper,1678. pp. 69 – 70

5. Norton, Thomas. The Ordinal of Alchemy. London ; New York : Published for the Early English Text Society by the Oxford University Press, 1975.

6. Mileusnic, Dusan Djordjevic. Paracelsus: The Treasure of Treasures for the Alchemists. London: J.H. Oxon, 1659. The Alchemy Web Site. McLean, Adam. 1996. levity.com. 10 March 2006. http://www.levity.com/alchemy/paracel1.html

7. McLean, Adam. The Ripley Scrowle. 1450-1500. The Alchemy Web Bookshop. 10 March 2006. http://www.alchemywebsite.com/bookshop/ripley_scroll.html

8. Wikipedia. “Classic Elements.” Wikipedia Encyclopedia. 2005-06. Wikmedia. 18 Feb. 2006. http://en.wikipedia.org/wiki/Classical_elements

9. De Giorgio,Dr. Laura. “The Seven Stages of Transformation.” Alchemy. 2001-2005. Deep Trance Now. 10 March 2006. http://www.deeptrancenow.com/exc3_7operations.htm

10. Waite, A. E. “The Golden Tract concerning the Stone of the Philosophers” The Hermetic Museum vol. i. London. 1893. p. 17.

11. Geber; Richard Russel. “Of the Sum of Perfection.” The Works of Geber. London : Printed for William Cooper,1678. pp. 69 – 70

12. Ibid, p 156.

13. Ibid, p 160.

14. Waite, A. E. The Hermetic Museum. The New Chemical Light, Part II. Concerning Sulphur. vol. ii. London. 1893. p. 151

15. Redgrove, H. Stanley. Alchemy: Ancient and Modern. London: William Rider & Son, LTD, 1922. http://www.geocities.com/andymak252/AlchemyAncientModern.htm

16. De Giorgio,Dr. Laura. “First Stage – Calcination.” The Seven Stages of Transformation. 2001-2005. Deep Trance Now. 10 March 2006. http://www.deeptrancenow.com/exc3_calcination.htm

Original: http://www.the-leaky-cauldron.org/features/essays/issue1/alchemypart1/

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/alquimia-e-harry-potter-parte-i/

Hermes Trismegistus

“O que está em cima é como o que está embaixo.

E o que está embaixo é como o que está em cima”

O que é magia? Esta é uma questão que, mesmo em círculos esotéricos, levanta muita discussão. Vários autores e filósofos em todas as épocas teceram variadas interpretações a respeito do assunto. Entretanto, os elementos-chave de todas as definições existentes parecem concordar em apenas um ponto: Magia (ou Magick) envolve o uso da mente humana para causar uma alteração: Mudança no mundo, mudança do próprio indivíduo, mudança para com os outros. Aleister Crowley definiu mágica como “a Arte ou Ciência de causar uma mudança. Para que esta ocorra em conformidade com a Vontade”. Doreen Valiente define magia como “a ciência do controle das forças secretas da natureza”. Scott Cunningham chama a magia de “o movimento de energias naturais para criar uma mudança necessária”. Mas é Margot Adler que tem a definição que considero ser a mais interessante de todas. Ela diz:

“Magia é uma palavra conveniente para toda uma coleção de técnicas, todas as quais envolvem o uso da mente. Neste caso, veremos que todas estas técnicas envolvem a mobilização da confiança, vontade e emoção, direcionadas a partir do reconhecimento da necessidade, do uso das faculdades da imaginação, principalmente através da habilidade de visualizar, a fim de entender como outros seres funcionam na natureza para que possamos usar este conhecimento de forma a atingir os fins necessitados”.

Magia, portanto, é um instrumento da mente e, como tal é mental por natureza. Magia é um meio através do qual a vontade (Thelema), a emoção (Emotionem) e a imaginação (Imaginatio) criam uma mudança verdadeira no mundo físico. Como, porém, pode um instrumento mental e não físico criar uma alteração no mundo físico e corpóreo? A resposta está na Verdade de que o universo em si mesmo é Mental por natureza e que a mente é a chave para abrir os poderes do Cosmo.

“Substância” pode ser definida como aquilo que está por dentro de todas as manifestações exteriores. Atrás de toda aparência exterior neste mundo e em todos os outros mundos, deve existir uma realidade substancial. Um imenso Panteão de deuses e deusas mostra-nos como o homem tentar dar nome a esta realidade substancial.

Como John Barnes afirmou certa vez, “O Todo é a Realidade Substancial que está escondida em todas as manifestações de vida. O Todo é a Grande Avó -Avô que criou a si mesmo, que sempre existiu e que irá existir para sempre”

Uma das chaves para entender como o Universo funciona nos foi dada por Hermes-Toth, também conhecido como Hermes Trismegistus. Algumas pessoas o consideram um deus, outras um grande iniciado, e algumas ainda acreditam que este nome represente uma das primeiras Ordens Iniciáticas do Antigo Egito e Grécia, cujos trabalhos de seus Iniciados perduram até os dias de hoje, através da ciência conhecida como Hermetismo. A seguir, falarei um pouco sobre quem foi esta figura e o que ele nos deixou de legado.

Toth

Toth (ou Thoth) é considerada uma das divindades mais importantes do Egito. Também chamado de “O escriba dos Deuses”, ele é geralmente descrito como tendo a cabeça de um Íbis.

Sua contraparte feminina era Maat, deusa da Justiça, e seu principal templo ficava em Khemennu (que os gregos chamavam de Hermopolis e os árabes de Eshmunen). Mas Toth também tinha templos iniciáticos em Abydos, Hesert, Urit, Per-Ab, Rekhui, Ta-ur, Sep, Hat, Pselket, Tamsis, Antcha-Mutet, Bah, Amen-heri-ab e Ta-kens. Nestes templos, seus discípulos aprendiam as bases do que chamamos de “Livro de Toth”, ou como é conhecido pelos profanos, o Tarot. As 78 lâminas, também chamada “Espelho da Alma”, são capazes de reproduzir simbolicamente todos os fluxos de energia que permeiam uma situação (as pessoas acreditam que o Tarot serve para “prever o futuro” mas isto não é verdade. Seu uso principal é para autoconhecimento). Falarei mais sobre Tarot em posts futuros.

Ele era considerado o coração e a língua de Rá, assim como a vontade de Rá traduzida para a fala (o Verbo). Dentro do Panteão Egípcio, ele possuía diversas funções muito importantes (entre elas, ensinar a escrita, magia, ciência, astrologia e ajudar no julgamento dos mortos).

Toth também é responsável pelo governo dos Planetas e das estações. È chamado de “Senhor das palavras Sagradas” pois foi ele quem inventou os hieroglifos e os números. Por ter sido o primeiro magista, Toth possuía mais poder até mesmo do que Osíris ou Rá.

Em algumas representações, podemos vê-lo com a crescente lunar sobre sua cabeça e sua figura carregando uma palheta e cinzel. Toth possuía duas esposas, Seshat e Nehmauit. Seu festival principal acontecia no décimo nono dia do mês de Toth, alguns poucos dias após a lua cheia do começo do ano.

Toth é considerado deus da Magia, escrita, invenções, profecia, música, tarot, conhecimento, ciências, medidas, matemática, fala, oráculos, julgamento, desenhos, arquitetura, gramática, teologia, hinos, aprendizado, livros, registros Akashicos, paz e orações.

Hermes

Hermes também é tido como uma das mais importantes divindades gregas do Panteão Olímpico. Considerado o mais jovem dos deuses, ele é o protetor de todos os viajantes e ladrões, é o mensageiro dos deuses, responsável por levar a palavra dos deuses até os mortais (qualquer semelhança com Prometeu ou Lúcifer NÃO é mera coincidência); Hermes é o deus da eloqüência, ao lado de Apolo, é o Deus dos diplomatas e da diplomacia (que era chamada de Hermeneus pelos gregos) e é o deus dos mistérios e interpretações (da onde vem a palavra Hermenêutica). Além disto, era um dos únicos deuses que tinha permissão para descer ao Hades e partir quando desejasse. Todos os outros (incluindo Zeus) estavam sujeitos às leis de Hades.

Hermes tinha vários símbolos, mas os mais tradicionais eram as sandálias com asas, o caduceu (que curiosamente representa a Kundalini, duas serpentes enroscadas em um cajado) e a tartaruga (de cujo casco ele criou a primeira Lira).

Como inventor de diversos tipos de corrida e também das lutas, Hermes era considerado o patrono dos atletas. Finalmente, era tido como o inventor do Fogo (em alguns textos anteriores a Prometeu) e considerado um deus pregador de peças, que adorava aprontar com seus irmãos (isto desde seu nascimento, quando a primeira coisa que fez quando aprendeu a andar foi roubar os bois de Apolo e esconde-los). Hermes era patrono dos alquimistas, magos e filósofos.

Mercúrio

Para os romanos, Mercúrio surgiu da fusão do deus Turms (Etrusco) com as características de Hermes grego, em aproximadamente 400 AC. Mercúrio tornou-se assim o deus do comércio (em muitos países o símbolo do Caduceu é usado para indicar administração e não medicina), das estradas e das relações de diplomacia. Mercúrio não era tão popular entre os romanos como Hermes era entre os gregos, sendo considerado um deus menor dentro do Panteão romano.

Mercúrio era patrono do comércio, transportes, sucesso, magia, viagens, apostas, atletas, eloqüência, mercadores e mensageiros.

Hermes Trimegistus

Hermes Trismegistus é a tradução em latim e significa “Hermes, o três vezes grande”.

Trata-se do nome dado pelos neoplatônicos, místicos e alquimistas ao deus egípcio Toth ou Tehuti, identificado com o deus grego Hermes. Ambos eram os deuses da escrita e da magia nas respectivas culturas.

Toth simbolizava a lógica organizada do universo. Era relacionado aos ciclos lunares, cujas fases expressam a harmonia do universo. Referido nos escritos egípcios como “duas vezes grande”, era o deus do verbo e da sabedoria, sendo naturalmente identificado com Hermes. Na atmosfera sincrética do Império Romano, deu-se ao deus grego Hermes o epíteto do deus egípcio Toth.

Como “escriba e mensageiro dos deuses”, no Egito Helenístico, Hermes era tido como o autor de um conjunto de textos sagrados, ditos “herméticos”, contendo ensinamentos sobre artes, ciências e religião e filosofia – o Corpus Hermeticum – cujo propósito seria a deificação da humanidade através do conhecimento de Deus. É pouco provável que todos esses livros tenham sido escritos por uma única pessoa, mas representam o saber acumulada pelos egípcios ao longo do tempo, atribuído ao grande deus da sabedoria.

Segundo Clemente de Alexandria, eram 42 livros subdivididos em seis conjuntos. O primeiro tratava da educação dos sacerdotes; o segundo, dos rituais do templo; o terceiro, de geologia, geografia, botânica e agricultura; o quarto, de astronomia e astrologia, matemática e arquitetura; o quinto continha os hinos em louvor aos deuses e um guia de ação política para os reis; o sexto era um texto médico.

Também é creditado a Hermes Trismegistus, “O Livro dos Mortos” ou “O Livro da Saída da Luz” e o mais famoso texto alquímico – a “Tábua de Esmeralda”.

Os Escritos Herméticos

Os escritos Herméticos são uma coleção de 18 obras Gregas. Estes escritos contêm os aspectos teórico e filosófico do Hermetismo em seu aspecto teosófico. O período bizantino é marcado por uma outra coleção de obras herméticas, que também são relacionadas ao Hermes Trismegistus e contêm uma tradição hermética popular a qual é composta essencialmente por escritos relacionados a astrologia, magia e Alquimia. Esta versão popular encontra sustentação ou base nos diálogos Hermeticos, apesar dele se distanciar da magia.

A prática da magia entretanto não está distante das praticas realizadas no antigo Egito, a qual em uma última análise é a fonte de todos os diálogos herméticos, pois o Hermetismo lá floresceu e, portanto estabelece uma conexão entre as duas tradições Hermeticas: filosófica e magia.

Os ensinos de Hermes-Toth chegaram à atualidade baseados em escassos documentos que constituem o “Kabalion“, “A Tábua da Esmeralda“, “Pistis Sophia“, “Corpus Hermeticum“, e alguns outros papiros. Naturalmente que o acervo de ensinamentos de Toth estão contidos em muitos outros documentos que foram preservados e mantidos sob a guarda de Ordens Iniciáticas. Tratam-se de documentos originais e cópias que foram preservados do incêndio da Biblioteca de Alexandria. Entre os documentos preservados existem aqueles que deram base ao desenvolvimento da Alquimia.

As sete Leis Herméticas

As sete principais leis herméticas se baseiam nos princípios incluídos no livro Kabalion que reúne os ensinamentos básicos da Lei que rege todas as coisas manifestadas. A palavra Kabalion, na língua hebraica significa tradição ou preceito manifestado por um ente de cima. Esta palavra tem a mesma raiz da palavra Kabbalah, que em hebraico, significa recepção. De acordo com Hermes Trismegistus:

Lei do Mentalismo

O universo é mental ou Mente. Isso significa que todo universo fenomenal é simplesmente uma criação mental do TODO… Que o universo tem sua existência na Mente do TODO.

Uma outra maneira de dizer isso é: “tudo existe na mente do Deus e da Deusa que nos ‘pensa’ para que possamos existir. Toda a criação principiou como uma idéia da mente divina que continuaria a viver, a mover-se e a ter seu ser na divina consciência.”

“O Universo e toda a matéria são consciência do processo de evolução.”

Minha opinião é que toda a matéria são como os neurônios de uma grande mente, o universo consciente, que “pensa”.

Todo o conhecimento flui e reflui de nossa mente, já que estamos ligados a uma mente divina que contem todo o conhecimento.

É claro que não estamos conscientes de “todo o conhecimento” em qualquer momento dado, por que seria uma tarefa exorbitante manuseá-lo e processa-lo e ficaríamos loucos no processo.

Os cinco sentidos do cérebro humano atuam tanto como filtros como fontes de informação. Eles bloqueiam uma considerável soma de informação caso contrário seriamos esmagados por informações que nos bombardeiam minuto a minuto como sons, cheiros e até idéias, não seriamos capazes de nos concentrarmos nas tarefas especificas em mãos. Mas sob condições corretas de consciência podemos moderar, ou até desligar o processo de filtração, com a consciência alterada, o conhecimento universal (Registros Akáshicos) torna-se acessível.

Lei da Correspondência

“Aquilo que está em cima é como aquilo que está embaixo.”

Essa lei é importante porque nos lembra que vivemos em mais que um mundo.

Vivemos nas coordenadas do espaço físico, mas também vivemos em um mundo sem espaço e nem tempo.

A perspectiva da Terra normalmente nos impede de enxergar outros domínios acima e abaixo de nós. A nossa atenção está tão concentrada no microcosmo que não nos percebemos o imenso macrocosmo à nossa volta. O principio de correspondência diz-nos que o que é verdadeiro no macrocosmo é também verdadeiro no microcosmo e vice-versa.

Portanto podemos aprender as grandes verdades do cosmo observando como elas se manifestam em nossas próprias vidas.

Por isso estudamos o universo: para aprender mais sobre nós mesmos.

Na menor partícula existe toda a informação do Universo.

A Lei da Correspondência, em conjunto com a Lei da Causa e Efeito, é a explicação para o funcionamento perfeito do Tarot e da Astrologia, bem como de todos os outros oráculos.

Lei da Vibração

“Nada está parado, tudo se move, tudo vibra”

No universo todo movimento é vibratório. O todo se manifesta por esse princípio. Todas as coisas se movimentam e vibram com seu próprio regime de vibração. Nada está em repouso. Das galáxias às partículas sub-atômicas, tudo é movimento.

Todos os objetos materiais são feitos de átomos e a enorme variedade de estruturas moleculares não é rígida ou imóvel, mas oscila de acordo com as temperaturas e com harmonia. A matéria não é passiva ou inerte, como nos pode parecer a nível material, mas cheia de movimento.

A Lei da Vibração rege toda a comunicação entre espíritos e matéria, bem como a conjuração de elementais, devas, exús, orixás, anjos enochianos e qualquer outro tipo de serviçal astral. Também rege os princípios de atração e repulsão entre indivíduos, a harmonia e as egrégoras.

Lei da Polaridade

“Tudo é duplo, tudo tem dois pólos, tudo tem o seu oposto. O igual e o desigual são a mesma coisa. Os extremos se tocam. Todas as verdades são meias-verdades. Todos os paradoxos podem ser reconciliados”

A polaridade revela a dualidade, os opostos representando a chave de poder no sistema hermético. Mais do que isso, os opostos são apenas extremos da mesma coisa. Tudo se torna idêntico em natureza. O pólo positivo + e o negativo – da corrente elétrica são uma mera convenção.

O claro e o escuro também são manifestações da luz. A escala musical do som, o duro versus o flexível, o doce versus o amargo. Amor e o ódio são simplesmente manifestações de uma mesma coisa, diferentes graus de um sentimento.

Lei do Ritmo

“Tudo tem fluxo e refluxo, tudo tem suas marés, tudo sobe e desce, o ritmo é a compensação”

Pode se dizer que o princípio é manifestado pela criação e pela destruição. É o ritmo da ascensão e da queda, da conversão da energia cinética para potencial e da potencial para cinética. Os opostos se movem em círculos.

É a expansão até chegar o ponto máximo, e depois que atingir sua maior força, se torna massa inerte, recomeçando novamente um novo ciclo, dessa vez no sentido inverso. A lei do ritmo assegura que cada ciclo busque sua complementação.

Lei do Gênero

“O Gênero está em tudo: tudo tem seus princípios Masculino e Feminino, o gênero se manifesta em todos os planos da criação”

Os princípios de atração e repulsão não existem por si só, mas somente um dependendo do outro. Tudo tem um componente masculino e um feminino independente do gênero físico. É semelhante ao principio com o principio animas animus que Carl Jung e seus seguidores popularizaram, ou seja que cada pessoa contém aspectos masculinos e femininos, independente do seu gênero físico, nenhum ser humano é 100% homem ou mulher, e isso é até astrologicamente explicado, uma vez que todos somos influenciados por todos os signos (uns mais, outros menos), e metade do zodíaco é feminino, enquanto que a outra metade é obviamente masculina (Esse é mais um argumento que suporta a igualdade entre Deus/Hochma e Deusa/Binah dentro das Esferas da Kabbalah).

Em todas as coisas existe uma energia receptiva feminina e uma energia projetiva masculina, a que os chineses chamavam de Yin e Yang.

Lei de Causa e Efeito

“Toda causa tem seu efeito, todo o efeito tem sua causa, existem muitos planos de causalidade mas nenhum escapa à Lei”

Nada acontece por acaso, pois não existe o acaso, já que acaso é simplesmente um termo dado a um fenômeno existente e do qual não conhecemos e a origem, ou seja, não reconhecemos nele a Lei à qual se aplica.

Esse princípio é um dos mais polêmicos, pois também implica no fato de sermos responsáveis por todos os nossos atos e é muito mais cômodo deixar os acontecimentos ao “acaso” ou ao “divino”. Também é conhecido como Lei do Karma.

Hermes/Toth na Kabbalah

A Árvore da Vida representa um mapa dos estados de consciência humanos. Vamos falar mais detalhadamente sobre isso em posts futuros, mas vou fazer a referência agora e vocês podem retornar e ler novamente este texto mais tarde, ok?

Em razão de sua eloqüência e inteligência privilegiada, Mercúrio está associado na Kabbalah à oitava esfera (sephira), chamada Hod (explendor). Hod representa a razão pura, a lógica, a matemática, o ceticismo e os desertos dos códigos rígidos e cartesianos, em contraste com Netzach (Vênus) que representa a Emoção Pura.

Hod está associado ao Planeta Mercúrio, ao metal mercúrio, ao incenso de sândalo, Mastic e Storax, à cânfora, lavanda, lírios, marjoran e mirtila e ao caduceu. Seu elemento é o Ar.

Hod influencia os Caminhos Shin (31), a Inteligência Perpétua, conectando a Razão ao Plano Material, servindo de filtro entre as idéias que permeiam o mundo material e o que pode ser aproveitada delas (este é literalmente o caminho do despertar dos céticos), Resh (30), o Sol, que conecta a Razão ao Plano Astral, perfazendo a segunda trilha que um mago deve percorrer na consciência, usando a razão de maneira questionadora no Plano Astral, Peh (27), a Torre, o caminho turbulento que conecta a esfera da Razão Pura à esfera da Emoção Pura. Imaginar este estado de consciência é como colocar um fanático cético com um fanático religioso para discutir. Mais cedo ou mais tarde, a estrutura vai rachar ao meio. Da conexão entre Hod e Tiferet (Sol) há o Caminho 26, Ayin, o Diabo, o caminho da iluminação através da razão ou através do Caminho da Esquerda, como vocês já devem ter ouvido falar por aí. O famoso “Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei” e finalmente, o caminho 23, Mem, que liga a Razão às planícies de provação de Marte/Geburah, simbolizando a estagnação do Enforcado.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/hermes-trismegistus-1

A Ascensão Tifoniana: O Legado Mágico de Kenneth Grant

Matthew Levi Stevens

Onze anos após a morte do autor, ocultista e poeta britânico Kenneth Grant (1924-2011), estamos apenas agora começando a ver as primeiras tentativas de avaliar o impacto e o legado do homem que foi o último estudante e secretário do famoso Aleister Crowley, e que muitos acreditam ser seu sucessor natural.

Grant também foi um amigo próximo do mago artista Austin Osman Spare, apoiando-o em seus últimos anos, teve o padrinho de Wicca, Gerald Gardner, como um colega e às vezes rival, assim como durante seu tempo com Crowley e conheceu a Sacerdotisa da Nova Era, Dion Fortune. Como tal, Grant teve contato direto com quatro das figuras mais influentes do Renascimento Mágico e Místico dos meados do século XX.

Com relação a seu próprio trabalho, os nove volumes das três “Trilogias Tifonianas” de Grant escritos ao longo das três décadas de 1972 a 2003 – assim como vários volumes de ficção com temática oculta, e memórias das personalidades mágicas que ele encontrou – abrangem temas como Alquimia, Cabala, Controle de Sonhos, Egiptologia, Mitos de Cthulhu de H. P. Lovecraft, Caminho da Mão Esquerda, Magia Sexual, Surrealismo, Tantra, Thelema, Budismo Tibetano, Ufologia, Bruxaria e Vodu, que são um retrato único do Renascimento Oculto Moderno, assim como indiscutivelmente uma de suas correntes mais criativas.

Então, quem era exatamente Kenneth Grant?

Nascido em 23 de maio de 1924, muito pouco se sabe sobre os antecedentes de Grant ou sobre a sua biografia real. Ele era um homem intensamente reservado, que apesar – ou talvez até mesmo por causa – da natureza de seu trabalho e a notoriedade de seu mentor, Aleister Crowley, seguia uma rígida política de não divulgação, semelhante ao apagamento da história pessoal defendida nos livros de Carlos Castañeda.

Por sua própria natureza, algo como um jovem livreiro, sonhador, fascinado pela magia e pelo misticismo, o jovem Grant havia experimentado projeção astral e, aos 15 anos de idade, o que ele vivia eram contatos espontâneos de um ser que se chamava Aushik ou Aossic, que mais tarde identificaria como seu Santo Anjo Guardião. Grant tinha encontrado Magick In Theory and Practice (Magia em Teoria e Prática) de ‘Mestre Therion’ (um pseudônimo de Crowley’s) na livraria Charing Cross Road, Zwemmer’s, e, sentindo aqui talvez uma chave para entender – ou mesmo controlar – suas experiências, convenceu Michael Houghton, proprietário da Livraria The Atlantis Bookshop, a colocá-lo em contato com o autor. Houghton declinou, no entanto – as razões para isso não são claras – mas o que é um assunto de registro é que Grant, depois de escrever pela primeira vez, finalmente se encontrou com Crowley. Era dezembro de 1945, e quando eles apertaram as mãos pela primeira vez a música Shine On Harvest Moon estava tocando no rádio em segundo plano.

Foi assim que o jovem Kenneth Grant se tornou, por um tempo, um assistente-secretário do velho Magus ao abandonar Londres devastada pela Blitzkrieg, pela paz, tranquilidade e relativa segurança de uma hospedaria na costa sul. Foi em ‘Netherwood’ em Hastings, onde A Grande Besta terminou seus dias apenas três curtos anos depois, que Grant se tornaria aprendiz da Magia de Crowley a sério, e seria iniciado em sua Ordo Templi Orientis, conheceria pessoas como Dion Fortune, Gerald Gardner e Lady Frieda Harris, a artista talentosa que ilustrou o superlativo Livro do Tarô de Toth de Crowley. Ele também tomou conhecimento da ainda extensa rede de correspondência de Crowley com ocultistas no exterior – tais como Karl Germer e Eugen Grosche na Alemanha, e Jane Wolfe, W. T. Smith e Jack Parsons na América. Por um tempo, parece até que a Besta envelhecida estava preparando o jovem Grant para ser um possível sucessor, referindo-se a ele como um “Presente dos Deuses“, e anotando em seu diário:

“…o valor de Grant. Se eu morrer ou for para os EUA, deve haver um homem treinado para cuidar da OTO inglesa.”

Mas mesmo nesta fase inicial, a propensão de Grant para o devaneio e para o outro mundo desnorteou e frustrou o homem mais velho, que – afinal de contas – procurava assistência prática, no dia-a-dia, em primeiro lugar, e treinar um herdeiro, em segundo. Finalmente tudo se tornou demais – particularmente para Grant, que sentia falta de sua noiva Steffi – e Crowley o deixou ir, mas não antes de iniciar Grant no Grau IXO da O.T.O. e de fornecê-lo com uma Carta para montar um acampamento da Ordem.

Pouco antes da morte de Crowley, Grant também conheceu um homem que mais tarde provaria ser quase tão influente sobre ele quanto A Grande Besta: embora mais na forma de uma eminência parda, que influenciou Grant nos bastidores. Ele forneceu uma iniciação e inspiração que teve um impacto definitivo na reformulação da Thelema de Grant, no propósito e rituais do ramo da O.T.O. que ele fundou, e muito do foco das suas Trilogias Tifonianas. Seu nome era David Curwen.

Um alquimista praticante e aluno do Tantra, que havia dado o passo da devoção a um guru indiano – incomum para um ocidental na época – David Curwen foi mencionado pela primeira vez nas memórias de Grant de 1991, Remembering Aleister Crowley (Relembrando o diário Aleister Crowley):

“David Curwen foi mencionado pela primeira vez nos diários de Crowley, em 2.9.1944. Quando o conheci, pouco antes da morte de Crowley, ele era membro do IX° O.T.O. Sua paixão pela Alquimia era tão grande que ele quase morreu depois de absorver o ouro líquido. Seu conhecimento do Tantra era considerável. Foi através de Curwen que recebi, eventualmente, a iniciação completa em uma fórmula altamente recôndita do Tântrico vama marg.”

Ao discutir a tentativa de Crowley de formular um “elixir” como parte de seu trabalho da magia sexual, Grant menciona um detalhe de relevância fundamental para sua posterior tecelagem de Tantra e Thelema, que seria essencial para sua própria jornada de iniciação:

“Existe um documento relativo a esta fórmula compilado pelo antigo guru de Curwen, um tântrico do sul da Índia. É na forma de um extenso comentário sobre um texto antigo da Escola Kaula. Curwen emprestou a Crowley uma cópia do mesmo.”

O documento em questão era uma cópia do Anandalahari, ou a “Onda de Felicidade“, anotado pelo guru sul-indiano de Curwen e com um Comentário explicando o simbolismo fisiológico – e explicitamente sexual -. Isto forneceu a Grant a chave para desvendar os mistérios ocultos dos Textos Sagrados em Sânscrito, a partir dos quais ele foi capaz de desenvolver – com a ajuda de Curwen – uma visão mais profunda do Tantra do que seu antigo mentor jamais havia conseguido:

Nas instruções que acompanham os graus superiores da O.T.O., não há um relato abrangente do papel crítico dos kalas, ou emanações psicossexuais da mulher escolhida para os ritos mágicos. O comentário foi um abrir de olhos para Crowley, e explicou algumas de suas preocupações durante minha estada no ‘Netherwood’. Estas envolviam uma fórmula de rejuvenescimento. Faltava ao O.T.O. algumas chaves vitais para o verdadeiro segredo da magia que Crowley afirmava ter incorporado nos graus mais altos. Curwen, sem dúvida, sabia mais sobre estes assuntos do que Crowley, e Crowley ficou irritado com isso.

Apesar de suas credenciais externas como ocultista e às vezes transgressor, como um bissexual promíscuo e drogado, Aleister Crowley ainda era, em muitos aspectos, um produto de seu tempo: ele pode não ter sido um misógino, mas sofria de um chauvinismo masculino, todo típico de sua origem vitoriana, privilegiada e branca. Ele também tinha pouco ou nenhum conhecimento do autêntico Tantra de fontes originais, enquanto quando eu troquei cartas e me encontrei brevemente com Kenneth Grant em 1981, ele deixou claro que apesar de sua dedicação de toda sua vida a Crowley e à Lei de Thelema, realmente seu “primeiro amor”, espiritualmente falando, foi o Advaita Vedanta. Esta antiga filosofia hindu da não-dualidade afirma que Atman, ou o Verdadeiro Eu, não é essencialmente diferente do Princípio Universal mais Elevado, ou Brahman. Grant se tornaria por um tempo, nos anos 50, um seguidor do Sábio de Arunachala, Bhagavan Sri Ramana Maharshi, e via sua meditação essencial “Quem sou eu?” como equiparada à busca de Thelema de realizar a Verdadeira Vontade de alguém, escrevendo:

“O espírito natural do Oriente, em sua rotunda mais profunda, está em total concordância com a doutrina de Thelema. Que isto pode ser provado comparando os princípios básicos de Thelema com o Caminho Chinês do Tao, a doutrina Vedântica de Advaita e a filosofia central do Tantricismo Hindu e Budista.”

Vários artigos que Grant escreveu para as revistas anglo-indianas foram posteriormente reunidos e publicados como At the Feet of the Guru (Aos Pés do Guru).

Depois de um período de associação com Gerald Gardner – que também era membro da O.T.O., também com um estatuto para criar um acampamento (embora não haja evidências de que ele alguma vez o tenha utilizado) – Grant criaria um Grupo de Trabalho próprio, “evoluído… para fins de tráfego com os Outer Ones (Exteriores)”, do qual ele escreveu:

“Entre os anos 1955-1962, eu estava envolvido com uma Ordem oculta conhecida como New Ísis Lodge (Nova Loja Ísis). Ela funcionava como uma filial da Ordo Templi Orientis (O.T.O.), com sede em Londres. Fundei a Loja para canalizar transmissões de fontes transplutônicas… O corpo dessas transmissões forma a base das Trilogias Tifonianas.”

Isto causou uma briga com Karl Germer, chefe nominal da O.T.O. quando da morte de Crowley, que sentiu que Grant havia excedido sua autoridade. Houve também conflitos de personalidade porque a New Ísis Lodge havia emitido um manifesto em conjunto com o antigo Grão-Mestre da Fraternitas Saturni alemã, Eugen Grosche, com quem Germer havia se desentendido anteriormente – o resultado foi a expulsão de Grant da Ordem. Este Grant desconsiderou, entretanto, considerando sua autorização de ter vindo do próprio Crowley, e também seus próprios contatos dos “Planos Interiores”. Assim começou a separação dos caminhos entre a Ordem Tifoniana de Grant e o chamado ‘Califado’ O.T.O. reformulado na América por Grady McMurtry.

Uma chave para entender a noção de ‘Gnose Tifoniana é a identificação enfática de Kenneth Grant com Tifón – uma entidade monstruosa da mitologia grega, líder dos Titãs, que fazem guerra contra os deuses do Olimpo, e decididamente feminina – como a Mãe de Set. Grant não hesita em se apropriar deste gigantesco monstro ctônico, de múltiplas asas e membros de cobra, Tifón Primordial, como um avatar da Grande Mãe, ou seja, da própria “Mãe Natureza”, e ousadamente afirma:

“Ela tipificou a primeiro progenitora numa época em que o papel do macho na procriação era insuspeito. Como ela não tinha consorte, ela era considerada uma deusa sem um deus, e seu filho – Set – sendo sem pai, também não tinha deus e era, portanto, o primeiro ‘diabo’, o protótipo do Satã das lendas posteriores.”

Em relação a Set – uma figura sombria e primordial da potência bruta do Egito aborígine, pré-dinástico, mais tarde lançado como o assassino do deus-rei Osíris e depois protótipo do “Deus contra os deuses” – Grant escreveu no prefácio da edição de 1990 do que havia sido originalmente seu primeiro livro, O Renascer da Magia:

“Para nós, que temos o conhecimento interior, herdado ou vencido, resta restaurar os verdadeiros ritos de Átis, Adônis, Osíris, de Set, Serápis, Mitra, e Abel”.

Estas palavras de Aleister Crowley me inspiraram quando jovem e, imaginando-me como um daqueles a quem eram dirigidas, logo descobri que, por alguma razão, não fui capaz de entender que era o deus Set que eu estava sendo chamado a honrar. Assim, tomei a mim mesmo a tarefa de penetrar nos Mistérios deste, o mais antigo dos deuses, e traçar a história de seus ritos desde uma antiguidade indefinida até os dias de hoje.

Os Mistérios Egípcios formam em grande parte o núcleo da Tradição Mágica Ocidental e foram certamente a base para os mitos e rituais da  Hermetic Order of the Golden Dawn (Ordem Hermética da Aurora Dourada), onde Crowley tinha aprendido a maior parte do que precisava para seu desenvolvimento posterior. O Antigo Egito como fonte de poder sobrenatural sancionou seu papel como Profeta, e construiu sobre o Éon de Horus de Crowley e O Livro da Lei, tanto quanto Grant cuja principal fonte para sua Gnose Tifoniana foi o controverso trabalho do egiptólogo esotérico autodidata, Gerald Massey.

Em obras monumentais como o Natural Genesis and Ancient Egypt: The Light of the World (Gênesis Natural e o Egito Antigo: A Luz do Mundo), Massey expôs em termos inequívocos o que ele afirmava ser a base afrocêntrica e fisiológica da Gnose: “Os mais antigos símbolos e religiões têm origem na África”. Ele concebeu o Tifón como equivalente à Tauret egípcia, ou Ta-Urt, o hipopótamo “Senhora da Casa de Nascimento”. Ela era a Deusa das Sete Estrelas do Norte (A constelação da Ursa Maior), e seu filho era a Estrela da (Constelação) do Cão (Maior), Sothis ou Sírius (igualado a Set), cuja ascensão heliacal aparecia acima do horizonte pouco antes da inundação do Nilo. A palavra “Tifoniano” se referia àqueles que adoravam esta Deusa Primordial, e os membros de Seu Culto Estelar haviam fugido para o Oriente, levando sua sabedoria com eles, quando os adoradores do Culto Solar ganharam a ascendência. Em muitos aspectos, a maior inovação de Kenneth Grant foi ligar esta Tradição Tifoniana ao Ocultismo Moderno.

Enquanto Grant se baseava extensivamente nas obras de outros ocultistas que o precederam – Blavatsky, Crowley, Fortune, Grosche, Spare – e citou acadêmicos e estudiosos, do sexólogo pioneiro Havelock Ellis ao ‘Egiptosofista’ Gerald Massey, ele também tinha o curioso hábito de referenciar obras de ficção com a uma aparente mesma seriedade. Assim, as discussões sobre a Sabedoria Estelar e a sobrevivência do culto pré-dinástico do primeiro Egito podem incluir, assim como referências a fontes arqueológicas, também material especulativo extraído dos Registros Akáshicos. Comparações com escritos sobre Tantra e Vodu são todas misturadas com as histórias de terror de Bram Stoker, as pulp novels (romances de celulose) de Sax Rohmer, a ficção sobrenatural de Arthur Machen e os ‘Contos Estranhos’ de H. P. Lovecraft.

Grant tinha uma afeição especial por Lovecraft, aparentemente acreditando que ele estava “em alguma coisa” – que seu temido grimório, O Necronomicon, de fato existia no plano astral, e que HPL (Lovecraft) tinha apreendido isso através de seus sonhos, mas era incapaz de aceitar a “verdade” do que ele tinha discernido – que ele era, de fato, um mago inconsciente. Para aumentar a aparente confusão, em várias obras Grant deu relatos – alegadamente dos Anais de sua Nova Loja Ísis – que parecer como algo da prosa roxa de escritores de horror sobrenaturais, e falou de personagens fictícios como se fossem “reais” – e então em suas obras supostamente fictícias ele se baseou em elementos presumivelmente biográficos de sua própria vida, também personagens e locais “reais”.

A meu ver, este exame excessivamente literal de certos escritos, tais como Grant – ou mesmo Carlos Castañeda, com quem às vezes foi comparado – pode passar despercebido. Se Don Juan ‘realmente’ transformou Castañeda em um corvo, ou se eles saltaram da montanha juntos – ou se Crowley ‘realmente’ perguntou a Kenneth Grant se eles eram parentes distantes por meio de um primo compartilhado em um clã estendido, que por acaso estava de posse de uma herança de família na forma de um grimório documentando seu tráfego de gerações – com inteligências de outros mundos – não está nem aqui nem lá. O que Grant está tentando enfatizar – do que ele era um indubitável Mestre – é o uso da ficção ou literatura como uma forma de Glamour mágico.

As palavras podem tecer mundos, as palavras podem conjurar fantasmas – as palavras podem transportar, transformar, e alterar a consciência – o único limite sendo a imaginação. É preciso lembrar que a imaginação se preocupa com a criação de imagens, em cujo respeito está diretamente relacionada à Antiga Heka egípcia: uma palavra que significava tanto “Magia” quanto “a criação de imagens”. O rol de escritores que também eram magos – ou, alternativamente, ocultistas que empregam a ficção como meio de expressar conceitos mágicos – é longa e distinta.

O próprio Grant segue as pegadas de Aleister Crowley e Dion Fortune, ambos com um passado na Golden Dawn e seus descendentes, assim como Algernon Blackwood, J. W. Brodie-Innes, Arthur Machen, Sax Rohmer, Bram Stoker e A. E. Waite. Grant viu as implicações ocultas no trabalho de tais escritores como não sendo tão diferentes das suas próprias:

“Machen, Blackwood, Crowley, Lovecraft, Fortune e outros, frequentemente usaram como tema para seus escritos o influxo de poderes extraterrestres que têm moldado a história de nosso planeta desde o início dos tempos…”

Assim como outros poetas e escritores decadentes e simbolistas, como Baudelaire, Huysmans, Lautréamont e Rimbaud, pintores surrealistas como Salvador Dali, Paul Delvaux, Max Ernst e Yves Tanguy tem uma apreciação especial. Dali em particular foi elogiado como “Um dos maiores magos de nosso tempo” – com Grant passando a explicitar a comparação deste com Spare:

“Spare já havia conseguido isolar e concentrar o desejo em um símbolo que se tornou senciente e, portanto, potencialmente criativo através dos relâmpagos da vontade magnetizada. Dali, parece, levou o processo um passo adiante. Sua fórmula de ‘atividade paranóico-crítica’ é um desenvolvimento do conceito primordial (africano) do fetiche, e é instrutivo comparar a teoria de Spare de ‘sensação visualizada’ com a definição de Dali de pintura como ‘fotografia colorida feita à mão de irracionalidade concreta’. A sensação é essencialmente irracional, e sua delineação em forma gráfica (“fotografia a cores feita à mão”) é idêntica ao método de Spare de “sensação visualizada”.”

A ênfase no uso de tal criatividade, carregada de intenção mágica e dirigida pela vontade treinada, é um conceito chave da Gnose Tifoniana:

“Dion Fortune enfatizou a importância do devaneio conscientemente controlado. Baseando suas práticas em aspectos dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, ela demonstrou o valor mágico do “sonho verdadeiro”, uma expressão derivada do romance de George du Maurier, Peter Ibbetson. A teoria é que se alguém tece um sonho diurno com intensidade suficiente induz a uma abstração tão total dos sentidos que o sonhador se funde num sonho acordado, no qual ele é o criador e mestre de suas próprias fantasias. Se poderosamente formuladas, estas concretizam, reificam e assumem uma realidade igual em grau – e muitas vezes maior – àquela que é experimentada na consciência desperta comum. As vantagens de ser capaz de induzir tal estado são evidentes.”

Talvez mais do que qualquer outro escritor ocultista moderno, Grant enfatizou a importância, potencial e poder de tal criatividade, escrevendo em Aleister Crowley & O Deus Oculto que, “A Grande arte é sempre simples… a verdadeira arte expressa a Eternidade”. Desde o início, a arte de Austin Osman Spare e a esposa de Grant, Steffi, é essencial para a função das Trilogias Tifonianas – o texto ilustra as figuras tanto quanto as figuras ilustram o texto. Mais tarde, em Outside the Circles of Time (Fora dos Círculos do Tempo), Grant escreve a respeito de artistas como Dali, Sidney Sime, Spare, e Tanguy:

“Estes artistas deram um salto em outras dimensões e – este é o ponto importante – voltaram para registrar suas experiências extradimensionais… A arte, no sentido verdadeiro e vital, é um instrumento, uma máquina mágica, um meio de exploração oculta que pode projetar o vidente no reino do invisível, e lançar a mente desperta nos mares do subconsciente.”

Por mais que as obras de Kenneth Grant possam ser documentos inestimáveis da evolução do ocultismo contemporâneo – assim como registros da contribuição de muitas das figuras pioneiras com as quais ele teve contato pessoal – é de se esperar que a maior contribuição de seus livros seja como catalisadores mágicos para o leitor que está preparado para abordá-los sob a mesma luz. Como escreveu a antiga protegida de Grant, Sacerdotisa da Magia de Maat, Nema: “Estes não são apenas livros sobre Magia; são livros que são Magia”.

Usados como portais para o Nightside (Lado Noturno), os nove volumes das Trilogias Tifonianas – assim como os vários outros livros de Grant – podem finalmente servir como guias para aquele lugar de exploração e inspiração além de distinções como ‘fato’ e ‘ficção’ que ele gostava de chamar de “a Zona Malva”.

Como tal, eles podem servir como plataformas de lançamento ou mesmo veículos para aquele lugar que cada um de nós precisa encontrar por si mesmo: o lugar onde a Magia acontece.

Finalmente, para concluir, sei que uma imagem de Grant é frequentemente pintada como autocrático, até mesmo autoritário da “Velha Escola”, o que pode muito bem ter sido assim – várias pessoas me levaram a acreditar que ele era realmente mais fácil de lidar se você não fosse um membro da sua Ordem Tifoniana! – mas não há dúvida da sua óbvia dedicação ao Feminino Daemônico (ou Demoníaco). A  Fellowship of Isis (Irmandade de Ísis), que Grant apoiou, afirmou que ele era “totalmente a favor da Deusa”. Sua defesa da obra de Dion Fortune, de Marjorie Cameron – numa época em que a maioria das pessoas, se é que tinham conhecimento dela, apenas a consideravam como a “viúva de Jack Parsons” – seu encorajamento ativo às sucessivas gerações de mulheres fortes ocultistas, como Janice Ayers, Jan Bailey, Linda Falorio, Margaret Ingalls (a supracitada Nema), Mishlen Linden e Caroline Wise – assim como sua devoção vitalícia à sua esposa, a artista Steffi Grant, cujas obras complementam e ilustram vividamente seus livros – todas atestam isso.

Retrato de Steffi e Kenneth Grant, por Austin Osman Spare.

Sendo o último elo vivo* com Aleister Crowley, Gerald Gardner, Eugen Grosche e Austin Osman Spare, o legado de Kenneth Grant ainda está para ser totalmente avaliado e não voltaremos a ver algo semelhante a ele novamente.

* Kenneth Grant faleceu em janeiro de 2011 aos 86 anos.


Fonte: Tifon Rising: The Magical Legacy of Kenneth Grant.

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/a-ascensao-tifoniana-o-legado-magico-de-kenneth-grant/

22 alternativas sensatas para a morte involuntária

A maioria dos seres humanos encaram a morte com uma ‘atitude’ de impotência, seja resignada ou com medo. Nenhum desses ‘ângulos de enfoque’ submissos e freqüentemente mal-informados, frente ao evento mais crucial da vida de uma pessoa, pode ser considerado como enobrecedor.

Atualmente, existem muitas opções práticas disponíveis para lidarmos com o processo de morrer. A passividade, a falha em aprender sobre estas opções, poderá ser o ultimo e definitivo engano. A famosa proposição de Pascal sobre a existência de Deus traduz-se em termos da vida moderna como uma aposta que não envolve riscos, apoiada sobre a habilidade da tecnologia. Por milênios, o temor da morte depreciou a confiança individual e aumentou a dependência na autoridade. Ora, o membro leal de uma família ou reservatório genético pode orgulhar-se da tenacidade e sucesso em sobreviver de seus iguais.

Mas com relação ao indivíduo, as perspectivas tradicionais são bem menos exaltadas. Vamos ser curtos e grossos aqui. Como podemos ficar orgulhosos de nossos sucessos passados, andarmos eretos e nos encaminharmos com entusiasmo para o futuro se, implacavelmente à nossa espera em alguma esquina futura, nos aguarda a Velha Senhora Morte, a Colhedora de Vidas?

Mas que trabalho de primeira linha os Construtores do Mundo fizeram ao transformarem esse Conceito de Morte em um Show-Espetáculo de Horror! A tumba. Mortificação. Extinção. Degeneração. Catástrofe. Perdição. Fim. Fatalidade. Malignidade. Necrológicos. O final.

Notemos a atitude de negativismo calculado. Morrer ‚ decair, entregar o espírito, morder o pé, chutar o balde, perecer. Tornar-se inanimado, sem vida, defunto, extinto, moribundo, cadavérico, necrótico. Um cadáver, uma rigidez, um corpo, uma relíquia, alimento para vermes, um corpo de delito, uma carcaça. Que fim miserável para o jogo da vida!

O Temor da Morte era uma Necessidade Evolutiva no Passado.

No passado, o dever genético reflexo de Controle Gerencial Total (aqueles que se encontram no controle social de v rios reservatórios genéticos = governantes, autoridades, instituições, etc.) era fazer com que os seres humanos se sentissem fracos, impotentes e dependentes frente à morte. O bem da raça ou nação era garantido a custo do sacrifício do indivíduo.

A obediência e submissão eram recompensadas num planejamento de pagamento através do tempo. Pela devoção dele ou dela, era prometida a imortalidade ao indivíduo, naquele centro-de-enxame pós-mortem variadamente conhecido como ‘céu’, ‘paraíso’ ou ‘Reino do Senhor’. Para poder manter a atitude de dedicação, os controladores do reservatório genético tinham de controlar os ‘reflexos de morte’, orquestrar os estímulosdisparadores que ativam os ‘circuitos de morte’ do cérebro. Isto foi obtido através de rituais que imprintam a dependência e docilidade, quando os sinais de alarme da morte disparam dentro do cérebro.

Talvez possamos compreender melhor esse processo de imprint ao considerar um outro conjunto de ‘rituais’, aqueles pelos quais o enxame humano controla os reflexos de concepção-reprodução. Uma discussão destes apresenta um menor potencial de alarmalo. E os mecanismos de controle impostos pela atuação dos mecanismos sociais são semelhantes em ambas as situações (morte e reprodução). Convidamos o leitor a ‘sair fora do sistema’ por alguns momentos, para ver vividamente aquilo que ordinariamente está invisível por estar tão entrincheirado dentro de nossas expectativas.

Na adolescência, cada grupo de iguais fornece rituais, tabus e orientações éticas destinadas à guiar a situação toda-importante do esperma-óvulo.

O controle efetuado pelo indivíduo dos mecanismos do DNA excitado sempre representa uma ameaça ao processo de reprodução do enxame. Padrões no vestir, namorar, corte, anticoncepcionais e de aborto são fanaticamente convencionados em sociedades tribais e feudalizadas. A inovação pessoal ‚ fortemente condenada e ostracizada. As democracias industriais variam em termos de liberdade sexual permitida aos indivíduos. Mas nos estados totalitários, como China e Irã, por exemplo, uma moralidade rigidamente conservadora controla os reflexos de acoplamento e governa as relações rapaz-moça. Debaixo do domínio do ditador Mao, o ‘romance’ foi abolido porque enfraquecia a dedicação ao Estado, isto, o reservatório genético local. Se os adolescentes pudessem pilotar e selecionar seu próprio acoplamento, então teriam maior probabilidade em fertilizar fora do enxame e uma maior probabilidade de insistir em dirigir suas próprias vidas e, pior de tudo, menor possibilidade de educarem seus filhos com uma lealdade cega de reservatório genético.

Mesmo os mais rígidos rituais de imprint social guardam os ‘reflexos de morte’ . O controle efetuado pelo enxame das respostas de ‘morte’ ‚ considerado como garantido em todas as sociedades pró-cibernéticas. No passado essa degradação conservativa da individualidade era uma virtude evolutiva. Durante épocas de estabilidade das espécies, quando as tecnologias tribais, feudais e industriais estavam sendo ainda dominadas, a sabedoria sofisticamente afinada estava centrada no reservatório genético, armazenada na consciência linguística coletiva, nos arquivos de dados raciais do enxame.

Uma vez que a vida individual ‚ curta, brutal, sem objetivos, aquilo que um indivíduo aprendia era quase irrelevante. O mundo estava mudando tão lentamente que o conhecimento podia apenas ser corporificado nas espécies. Na falta de tecnologias para o domínio pessoal da transmissão e armazenamento da informação, o indivíduo era, portanto, muito lerdo, muito pequeno para ter alguma importância. A lealdade ao coletivo racial era então uma virtude. A Criatividade, a individuação Prematura eram anti-evolucionárias naquela época. Uma distração estranha, mutante. Apenas os idiotas de Greenwich Village tentariam cometer um pensamento independente, não-autorizado.

Nas eras feudal e industrial, o Gerenciamento fez uso do temor da morte para motivar e controlar indivíduos. Atualmente, os políticos fazem uso dos artesãos da morte, os militares, policiais e a punição capital para proteger a ordem social. A religião organizada afirma o seu poder e riqueza ao orquestrar e exagerar o temor à morte.

Entre as muitas coisas que o Papa, o Ayatollah e os Protestantes Fundamentalistas concordam temos: uma compreensão confiante e um domínio auto-direcionado do processo de morte são a última coisa a ser permitida ao indivíduo. A própria noção de uma Inteligência Cibernética Pós-Social ou uma opção-consumista de imortalidade‚ um tabu, pecado. Pelas mesmas razões previamente v lidas de proteção do reservatório genético.

As religiões espertamente monopolizaram os rituais da morte para ampliar seu controle sobre os supersticiosos. Através da história, os sacerdotes e mullahs rodearam o ser humano agonizante como abutres negros. A Morte pertencia a eles.

À medida que encerramos o século vinte, somos sistematicamente programados sobre Como Morrer. Os hospitais são povoados com sacerdotes/ministros/rabinos prontos a realizarem os ‘últimos ritos’. Cada unidade do exército tem o seu capelão Católico para administrar o Sacramento da Extrema Unção (que frase, realmente!) ao soldado que expira. O Ayatollah o Mullah-Chefe do Culto de Morte Islâmico, manda os seus soldados adolescentes para os campos minados do Iraque com etiquetas garantindo imediata transferência para os Campos de Chegada de Allah. O Paraíso corânico. Um terrível acidente automobilístico? Chame os médicos. Chame os sacerdotes! Chame o Reverendo!

Na Sociedade Industrial, tudo torna-se parte do Grande Negócio. A morte passa a envolver a Cruz Azul, Medicare, Sistemas de Saúde de Grupo, a Administração de Finanças de Serviços de Saúde (HCFA), alas de pacientes terminais. Serviços funerários. Cemitérios. Os rituais de enterro.

Os monopólios da religião e das linhas de montagem do processo de Gerenciamento Total dos agonizantes e mortos ‚ ainda mais eficiente do que o dos vivos.

Recordemo-nos de que o conhecimento e escolha seletiva sobre tais assuntos do reservatório genético como a concepção, fertilização em laboratório, gravidez e aborto são demasiadamente perigosos aos pais da(s) igreja(s).

Mas o suicídio, o conceito de direito de morrer, a eutanásia, a expansão da vida, experiências fora do corpo, experimentos ocultos, cenários de viagens astrais, relatos de morte/renascimento, especulações extraterrestres, criogenia, bancos de esperma, bancos de DNA, Tecnologia de Inteligência Artificial capaz de conferir capacidades e poderes aos indivíduos – tudo que encoraje ao indivíduo vir a se engajar numa especulação especial e experimentação com a imortalidade – representa um anátema aos ortodoxos Pastores de Sementes das eras feudais e industriais.

Por que? Porque se o rebanho não teme a morte, então o controle do Gerenciamento Religioso e Político ‚ quebrado. O poder da ferramenta genética ‚ ameaçado. E quando o controle sobre o reservatório genético se enfraquece, inovações genéticas e visões mutacionais tendem a aparecer.

Alguns acreditam que a Era Cibernética a que estamos ingressando poderia marcar o início de um período de individualismo iluminado e inteligente, um tempo único na história, onde a tecnologia está a disposição de indivíduos para dar apoio a uma imensa diversidade de estilos de vida personalizados e culturas, um mundo de diversos grupos sociais interativos, cujo número de sócios-fundadores ‚ um (1).

A tecnologia da computação e comunicação em franca explosão oferece um delicioso festim de conhecimento e escolha pessoal dentro de nossas possibilidades. Debaixo dessas condições, a sabedoria atuante e o controle, naturalmente são transferidos dos reservatórios genéticos de poder antigos para localizarem-se nos cérebros em rápida modificação, cérebros de indivíduos capazes de lidarem com uma taxa da mudança em plena aceleração.

Com a ajuda de acessórios adaptados às necessidades do ser, pessoal e quantumlinguisticamente programados, o indivíduo poder escolher o seu próprio futuro social e genético. E talvez escolher não ‘morrer’.

 

A Teoria de Evolução por Ondas

 

As teorias correntes da genética sugerem que a evolução, como tudo o mais no universo, acontece em ondas. Assim – nos tempos da evolução Pontuada, de metamorfose coletiva, quando muitas coisas estão mutando ao mesmo tempo, então os dez mandamentos dos ‘antigos’ tornam-se dez outras sugestões Em tais momentos de rápida inovação e de mutação coletiva, o dogma conservador do enxame pode ser perigoso, suicida. A experimentação individual e a exploração, o desafio sério, metódico e científico dos tabus tornam-se a chave para a sobrevivência da escola genética.

 

Agora, à medida que ingressamos na Era Cibernética, chegamos a uma nova sabedoria que amplia nossa definição da imortalidade pessoal e de sobrevivência do reservatório genético: As opções pós-biológicas das espécies da informação. Um conjunto fascinante de escolhas-gourmet subitamente aparecem no menu desdobrante do Café Evolucionário.

 

Está começando a parecer que na Sociedade da Informação, o ser humano individual poder escrever o roteiro, produzir e dirigir sua própria imortalidade. Aqui encaramos o Choque Mutacional na sua forma mais geradora de pânico. E, como fizemos na compreensão das mutações anteriores, o primeiro passo a ser dado ‚ desenvolver uma nova linguagem. Não devemos impor os valores ou os vocabulários das espécies do passado sobre a nova Cultura Cibernética.

 

Você permitiria que o zumbido de um culto pró-literato paleolítico controlasse a sua vida? Ir deixar com que as superstições de uma cultura tribal-urbana (agora representada pelo Papa e pelo Ayatollah) o atire fora de cena? Ir deixar com que as táticas de obsolescência planejada, mecânicas, da Cultura Fabril controlem a sua existência?

 

Assim, não mais façamos piedosos e mansos cordeiros discursos sobre a morte! Chegou o momento para falarmos de maneira entusiasmada e fazermos piadas sobre a responsabilidade de controlarmos o processo de morrer. Para começar, vamos desmitificar a morte e desenvolver metáforas alternativas para a consciência abandonando o corpo. Vamos especular de boa vontade sobre opções pós-biológicas. Vamos ser corajosos ao abrirmos um amplo espectro de possibilidades pós-biológicas.

 

De início, vamos substituir a palavra morte por um termo mais neutro, preciso e científico: Coma Metabólico. E em seguida vamos seguir em frente ao sugerirmos que esse estado temporário de ‘coma’ pode ser substituído por: Auto-Metamorfose, uma modificação auto-controlada da forma corporal, onde o indivíduo escolhe mudar o seu veículo de existência sem qualquer perda de consciência.

 

Então, vamos estabelecer uma distinção entre o coma metabólico voluntário e involuntário. Vamos explorar essa ‘terra de ninguém’ fascinante – o período dentre a morte corporal e a neurológica em termos do processamento de conhecimentoinformação aqui envolvido. Vamos coletar alguns dados sobre aquela zona ainda mais intrigante que agora começa a ser pesquisada nos campos interdisciplinares da ciência, chamada de Vida Artificial (2).

 

Que capacidades de processamento de conhecimento-informação podem ser preservadas depois que ocorreram tanto o coma metabólico quanto o cerebral? Que sistemas naturais e artificiais, a partir do crescimento de estruturas minerais, até a auto-reprodução de autômatos matem ticos formais, representariam alternativas de candidatos promissores à biologia frente à manutenção da vida?

 

E vamos realizar o ultimo ato de Inteligência Humana. Vamos nos aventurar com uma tolerância calma, aberta, e com rigor científico, naquela perene terra incógnita e fazer a pergunta final: Que possibilidades de processamento de conhecimento-informação podem permanecer depois do fim de toda a vida biológica: somática, neurológica e genética?

 

Como pode a consciência humana ser abrigada em um hardware situado fora deste envoltório carnal úmido, gracioso, atraente e cheio de prazer que agora habitamos? Como pode a lagarta construída a base de carbono tornar-se uma borboleta de silicone?

 

Christopher S. Hyatt, Ph.D. e A.K. O’Shea sugeriram três estágios de Inteligência Pós- Biológica: 1. Reconhecimento Cibernético das miríades de variedades de processamento do conhecimento-informação envolvidas nos muitos estágios de morte; 2. Gerenciamento Cibernético, com o desenvolvimento de habilidades de processamento de conhecimento-informação enquanto em estado fora do corpo, fora do cérebro e além do DNA; 3. Tecnologia Cibernética, alcançando uma entre muitas das opções de imortalidade.

 

A Inteligência de Reconhecimento Cibernética

 

Reconhecemos que o processo de morte, amortizado por milênios pelos tabus e superstições primitivas, subitamente tornou-se acessível à inteligência humana. Aqui experimentamos as intuições súbitas sobre o fato que não devemos ir quieta e passivamente para aquela noite escura ou paraíso disneyano iluminado feericamente por neons ou música ambiente monótona da multidão de regressão a vidas passadas. Descobrimos que o conceito de coma metabólico irreversível, conhecido como morte‚ uma superstição feudal, uma estratégia de Marketing promotora de eficiência da sociedade industrial. Compreendemos que podemos descobrir dúzias de alternativas ativas e criativas frente ao ato de irmos de barriga para cima, agarrados aos logotipos das companhias da Cruz cristã, Cruz Azul, Cruz Crescente ou aos cartões de sociedade das Companhias de Saúde Privada.

 

O reconhecimento sempre ‚ o início da possibilidade de uma modificação. Depois que compreendermos que a ‘morte’ pode ser definida como um problema de processamento de conhecimento-informação, então soluções para esse ‘problema’, que existe há tanto tempo, podem surgir. Podemos descobrir que a coisa inteligente a ser feita ‚ tentar manter as nossas capacidades de processamento de conhecimento-informações por tanto tempo quanto possível. Em forma corporal. Em forma neutra. Nos circuitos de silicone e nos meios de armazenamento magnético dos computadores atuais. Na forma molecular, através do empilhamento atômico da nanotecnologia dos computadores do futuro. Em forma criogênica, como dados armazenados, lendas, mitos. Na forma de filhos que são ciberneticamente treinados em usar a Inteligência Pós-Biológica. Em forma de reservatórios genéticos pós-biológicos, info-reservatórios, formas virais avançadas residindo nas redes mundiais de computadores e matrizes de ciberespaços do tipo descrito nas novelas de William Gibson (3).

 

O segundo passo para alcançar a Inteligência de Reconhecimento Pós-Biológica‚ mudar de um modo passivo para um ativo. Os humanos da era industrial foram treinados em esperar docilmente o término e a devolução de seus corpos para serem enterrados aos sacerdotes e à fábrica (hospitais).

 

Nossa espécie agora está desenvolvendo habilidades cibernéticas para planejar antecipadamente; para fazer com que a vontade do indivíduo prevaleça. A coisa inteligente a ser feita ‚ ver o ato de morrer como uma mudança na implementação do processamento de informações: orquestra-la, gerencia-la, antecipar e exercer as muitas opções disponíveis. Consideramos aqui vinte e dois métodos distintos de evitar um modo de morrer submisso ou cheio de medo (4).

 

A Inteligência Pós-Biológica Programadora

 

Em outras publicações, autores definiram oito níveis de inteligência: biológica, emocional, mental-simbólica, social, estética, neurológico-cibernética, genética, atômico-nano-tecnológica. Em cada um desses estágios existe uma fase de reconhecimento, seguida por uma fase de programação ou reprogramação cerebral. Para reprogramar é necessário ativar os circuitos do cérebro que mediam aquela dimensão particular da inteligência. Uma vez que este circuito é ‘ativado’, torna-se possível reimprinta-lo ou re-programa-lo.

 

A neurologia cognitiva sugere que a forma mais direta de reprogramar respostas emocionais‚ de reativar os circuitos apropriados. Para reprogramar respostas sexuais‚ eficiente reativar e reexperienciar os imprints originais da adolescência e reimprintar novas respostas sexuais.

 

Os circuitos do cérebro que mediam o processo de ‘morte’ são rotineiramente experienciados durante as crises de ‘quase morte’. Por séculos as pessoas contaram: ‘A minha vida inteira passou num relance frente aos meus olhos enquanto eu afundava na água pela terceira vez’.

 

Essa experiência de ‘quase morte’ pode ser ativada através do uso de certas drogas anestésicas. Ou por um aprendizado suficiente dos efeitos das drogas indutoras de experiências fora do corpo, de forma que se pode fazer uso de técnicas hipnóticas para ativar os circuitos desejados sem que tenhamos de usar estímulos químicos externos.

 

Imediatamente vemos que os rituais intuitivamente desenvolvidos por grupos religiosos têm a intenção de induzir estados de transe relacionados com o ato de ‘morrer’. A criança sendo educada numa cultura Católica ‚ profundamente imprintada (programada) pelos ritos dos funerais. A chegada de um sacerdote solene para administrar a extremaunção torna-se um código de acesso para o estado Pós-Biológico. Outras culturas têm diferentes rituais para ativarem e depois, controlarem os circuitos de morte do cérebro. Até recentemente, muitos poucos tiveram a permissão de um controle pessoal ou personalizado para realizar uma escolha.

 

Talvez essa discussão dos ‘circuitos de morte do cérebro’ seja excessivamente inovativa. Algumas vezes‚ mais fácil compreender novos conceitos sobre a nossa espécie por referência a outras espécies. Quase todas as espécies animais manifestam ‘reflexos de morrer’. Alguns animais abandonam o rebanho para morrer isolados. Outros ficam de pernas separadas, estoicamente postergando o ultimo momento. Algumas espécies ejetam o organismo agonizante do resto do grupo social.

 

Para ganhar um controle navegacional sobre os nossos processos de morte, sugerem-se três passos fundamentais: 1. Ativar os reflexos de morte imprintado pela nossa cultura, experiencia-los, 2. Detectar as suas raízes e, 3. Re-programar.

 

O objetivo‚ desenvolver um modelo científico da cadeia de processos cibernéticos (conhecimento-informação) que ocorrem quando nos aproximamos deste estado metamórfico – e intencionalmente desenvolver opções para assumirmos uma responsabilidade ativa frente a estes eventos.

 

Alcançando a Imortalidade

 

Desde a origem da história humana, filósofos e teólogos especularam sobre a imortalidade. De maneira constrangida, reis envelhecidos ordenaram m‚todos para a extensão da duração da vida. Um exemplo dos mais dramáticos desse impulso antiquíssimo ocorre no velho Egito, que produziu a mumificação, as pirâmides e os manuais tais como o Livro Egípcio dos Mortos.

 

O Livro Tibetano dos Mortos (Budista) apresenta um modelo primoroso dos estágios pós-mortem e técnicas para guiar o estudante a um estado de imortalidade que‚ neurologicamente ‘real’ e sugere técnicas científicas para a reversão do processo de morte.

 

O novo campo de engenharia molecular está produzindo técnicas dentro do âmbito do atual consenso da Ciência Ocidental para implementar a auto-metamorfose. O objetivo do jogo ‚ derrotar a morte – dar ao Indivíduo o domínio disto seria a estupidez final.

 

UMA LISTA PRELIMINAR DE OPÇÕES DE IMORTALIDADE

(Para substituirmos o Coma Metabólico Involuntário e Irreversível)

 

I. TREINAMENTO DE TÉCNICAS PSICOLÓGICAS/COMPORTAMENTAIS

 

As técnicas dessa categoria não ajudam na obtenção da imortalidade pessoal por si mesmas, mas são úteis para adquirir a experiência da ‘morte experimental’, uma Exploração reversível e voluntária do território entre o coma corporal e cerebral, uma morte geralmente chamada de Experiência Fora do Corpo ou Experiência de Quase Morte. Outros a denominaram de Viagem Astral ou Memórias de Re-encarnações Prévias.

 

1.  Meditação e hipnose

 

Estas são as rotas iogues clássicas para explorarmos estados não-comuns da consciência. São bastante bem conhecidas e exigem tempo e esforços intensos. Para uma discussão mais completa e ampla dessas técnicas, recomendamos Crowley (5).

 

2.  Experiências psicodélicas cuidadosamente planejadas para induzir um estado de ‘morte’ e uma consciência genética (re-encarnação/pré-encarnação).

 

Não existe aqui, nenhum tipo de envolvimento com alguma teoria ocultista sobre a encarnação biológica. Nos referimos a técnicas que permitem o acesso à informação e aos programas operacionais armazenados no cérebro do indivíduo em estados de consciência normais, são sub-rotinas atuando abaixo do acesso voluntário (6).

 

3.  Experiências Fora do Corpo com o uso de anestésicos.

 

John Lilly escreveu amplamente sobre as suas experiências com pequenas dosagens de anestésicos(7). _ possível que os efeitos subjetivos ‘fora-do-corpo’ de tais substâncias são (meramente) interpretações de uma disrupção (perturbação) proprioceptiva. Ainda assim, as experiências relatadas por Lilly parecem indicar que existem informações disponíveis através dessas rotas de investigação.

 

4.  Tanques de Privação e Isolamento Sensorial.

 

Novamente, foi Lilly quem investigou esse assunto de forma mais completa(8).

 

5.  Exercícios de Re-Programação (suspensão de efeitos e substituição de imprints primitivos de ‘morte’ impostos pela cultura).

 

6.  Desenvolvimento de Novos Rituais para guiar as Transições Pós-Corporais.

 

Os nossos tabus culturais proibiram o desenvolvimento de trabalhos muito detalhados nesta área. Uma das poucas fontes disponível ‚ E.J. Gold(9).

 

7.  Exercícios de Pré-encarnação

 

Com estes, usamos o m‚todo preferido de alteração de consciência (drogas, hipnose, transe xamânico, ritual vudu, frenesi de nascer de novo), para criar roteiros futuros.

 

8.  ’Morte’ Voluntária Esteticamente Orquestrada.

 

Este procedimento foi chamado de suicídio, isto é, ‘auto-assassinato’, por autoridades que desejam controlar o processo de morte. O Sr. e Sra. Arthur Koestler, membros ativos do grupo britânico EXIT, têm um programa que providencia um coma metabólico muito digno e gracioso. Um californiano, HADDA, está tentando colocar uma emenda nas eleições do estado, para permitir com que pacientes terminais possam planejar um coma metabólico voluntário juntamente com seus conselheiros médicos. Os não-californianos podem sempre buscar por um médico iluminado, ou amigos adultos que concordem com isto e que possam atuar como guias para as Terras Ocidentais.

 

II. TÉCNICAS SOMÁTICAS PARA A AMPLIAÇÃO DA DURAÇÃO DA VIDA.

 

Técnicas para inibir o processo de envelhecimento compreendem o enfoque clássico da imortalidade. No estado atual da ciência, estas meramente ‘compram tempo’.

 

9.  Dieta

 

A pesquisa clássica sobre a dieta e longevidade foi desenvolvida por Roy L. Walford, médico (10).

 

10.  Drogas de Extensão de Vida

 

Estas incluem drogas anti-oxidantes e outras. Uma referência ‚ a ‘Expansão da Vida’, por Sandy Shaw e Durk Pearson.

 

11. Programas de Exercícios.

 

12. Variações de Temperatura.

 

13. Tratamentos de Sono (hibernação)

 

14. Imunização Contra o Processo de Envelhecimento.

 

III. PRESERVAÇÃO SOMÁTICA/NEURAL/GENÉTICA

 

Técnicas nesta classe não garantem o funcionamento contínuo da consciência. Elas produzem o coma metabólico potencialmente reversível. Elas são alternativas para a preservação de estrutura dos tecidos até que alcancemos uma época de um conhecimento médico mais avançado.

 

15. ‘Conserva’ Criogênica ou pelo Vácuo.

 

Por que permitir que o corpo ou cérebro degenerem, quando isto parece implicar em nenhuma possibilidade para o futuro? Por que permitir que o arranjo cuidadoso de crescimentos dendríticos em nossos sistemas nervosos, que poder ser o reservatório de todas as nossas memórias, seja comido por fungos? A preservação perpétua de seus tecidos está disponível atualmente a preços moderados(11).

 

16. Preservação Criônica do Tecido Neuronal, ou do DNA

 

Aqueles que não estão particularmente apegados aos seus corpos podem optar para a preservação apenas dos elementos essenciais: seus cérebros, juntamente com os códigos instrucionais capazes de fazer crescer novamente algo geneticamente idêntico a atual bio-maquinaria.

 

IV. MÉTODOS BIO-GENÉTICOS PARA A EXTENSÃO DA VIDA.

 

Existe qualquer necessidade em experienciar o coma metabólico, afinal das contas? Temos mencionado modos de ganhar controle pessoal da experiência, para evita-lo através de técnicas ‘convencionais’ de longevidade, para evitar a dissolução irreversível do substrato sistêmico.

 

Agora começam a emergir técnicas que permitem uma garantia muito mais vívida de uma persistência pessoal, uma transformação metamórfica em direção a uma forma diferente de substrato no qual o programa de computador da consciência roda.

 

17. Reparo Celular/DNA

 

A nanotecnologia ‚ a ciência e a engenharia mecânica de sistemas eletrônicos construídos em dimensões atômicas(12). Uma das habilidades previstas e da nanotecnologia ‚ o seu potencial para a produção de nano-máquinas replicantes no interior de células biológicas. Essas enzimas artificiais irão realizar o reparo celular, à medida que ocorre o dano oriundo de causas mecânicas, radiação e outros efeitos do envelhecimento. O reparo do DNA garante a estabilidade genética.

 

18. Clonização.

 

A replicação biológica de cópias pessoais geneticamente idênticas de você mesmo, em qualquer momento desejado, está começando a tornar-se possível. O sexo é divertido, mas a reprodução sexual é biologicamente ineficiente, adaptada apenas para a indução da variação genética em espécies que ainda evoluem através dos acidentes devidos ao acaso de uma combinação probabilística.

 

V – MÉTODOS CIBERNÉTICOS (PÓS-BIOLÓGICOS) PARA A OBTENÇÃO DA IMORTALIDADE (VIDA ARTIFICIAL EM SILÍCIO)

 

Como o autor cyberpunk neuromântico Bruce Sterling nota, a evolução movimenta-se em ondas, irradiando-se para fora numa diversidade omnidirecional, e não seguindo uma trajetória única e linear. Alguns visionários do silício acreditam que a evolução natural da espécie humana (pelo menos os ramos especiais dela) está a ponto de se completar. Não mais estão interessados em meramente procriar, mas em planejar seus sucessores.

 

O cientista em robótica de Carnegie-Mellon, Hans Moravec escreve: “Devemos nossa existência à evolução orgânica. Mas devemos a ela muito pouca lealdade. Estamos no limiar de uma modificação no universo, comparável à transição do não-vivo à vida”.(13)

 

A sociedade humana já alcançou um ponto de virada na operação do processo de evolução, um ponto no qual o próximo salto evolutivo da espécie está debaixo de nosso controle. Ou, colocando de forma mais correta, os próximos passos, que irão ocorrer em paralelo, resultarão de uma explosão da diversidade de espécies humanas. Não mais estamos dependentes de uma capacitação em qualquer senso físico para a sobrevivência; nossos aparelhos quânticos ou outros mais antigos, mecânicos, fornecem o necessários para isto em todas as circunstâncias. Num futuro próximo, os métodos (agora emergentes) de tecnologia computacional e biológica, irão fazer da forma humana algo totalmente determinável pela escolha individual.

 

Como espécie de carne e sangue estamos moribundos, presos num momento ‘local ótimo’, para tomar de empréstimo a teoria de otimização matemática. Além desse horizonte que a humanidade alcançou, existe o desconhecido, aquilo que até agora foi muito mal imaginado. Iremos planejar nossos filhos e co-evoluir intencionalmente com os artefatos culturais que são a nossa progênie.

 

Os seres humanos já vêm em alguma variedade de raças e tamanhos. Em comparação ao que ir significar ser ‘humano’ no decorrer do próximo século nós, humanos da atualidade, somos tão indistinguíveis uns dos outros quanto moléculas de hidrogênio. Nosso antropocentrismo irá diminuir.

 

Vemos duas categorizações de princípios da forma do ser humano no futuro, uma biológica: um híbrido bio/máquina de qualquer forma desejada e uma que sequer ser biológica: uma ‘vida eletrónica’ nas redes de computadores. Humanos como máquinas e humanos dentro de máquinas.

 

Destes, os humanos como m quinas talvez serão mais facilmente aceitos. Atualmente, já dispomos de implantes e próteses grosseiros, membros artificiais, válvulas e órgãos inteiros. Os contínuos progressos na tecnologia mecânica de velho estilo lentamente aumentam a totalidade da integração homem-máquina.

 

A forma de vida eletrônica do humano dentro da m quina ‚ ainda mais alienígena para nossas formas atuais de conceitos de humanidade. Através do armazenamento dos sistemas de crenças e valores de uma pessoa, em estruturas de dados ‘on line’, ativadas por estruturas de controle selecionadas (o análogo eletrônico da vontade?), o sistema neuronal de uma pessoa ir funcionar em silício da mesma maneira que o faz numa ‘rede úmida’ cerebral, embora muito mais rapidamente, corretamente, muito mais automaleável e, se desejado, de maneira imortal.

 

19. Informacional – Arquivístico

 

Uma maneira padronizada de se tornar ‘imortal’ ‚ deixar uma trilha de arquivos, biografias e nobres obras que merecem ser tornadas públicas. O aumento da presença de um meio reconhecidamente estável em nossa Sociedade Cibernética faz disto uma plataforma mais rigorosa para uma existência persistente. O conhecimento possuído pelo indivíduo ‚ capturado por sistemas especialistas e sistemas de hipertexto de escala mundial(14), assim garantindo a longevidade e acessibilidade de memes texturais e gráficos. Visto fora da perspectiva do ‘Eu’, a morte não é um fenômeno binário, mas uma função continuamente variável. Quão vivo está você em Paris neste momento? Na cidade em que vive? No local onde está lendo isso?

 

20. Treinador de Cabeça – Transmissão de Bancos de Dados de Personalidade

 

O Treinador de Cabeça ‚ um sistema de computação que está sendo desenvolvido por Futique Inc., um dos primeiros exemplos de uma nova geração de programas psicoativos. Permite com que o usuário (o atuante) venha a digitalizar e armazenar pensamentos numa base de rotina diária. Se uma pessoa deixa, digamos, vinte anos de registros diários de desempenho mental armazenados, seu bisneto, após cem anos poder ‘conhecer’ e recuperar seus hábitos informacionais e desempenhos mentais. Para fornecer um exemplo dos mais vulgares, se os movimentos num jogo de xadrez de um indivíduo forem registrados, os seus descendentes poderão reviver, passo a passo, um jogo de seu tataravô feito no passado.

 

À medida que a leitura passiva‚ substituída por um ‘reescrever ativo’ as gerações posteriores serão capazes de reviver, como percebíamos, os grandes livros de nosso tempo. Ainda mais intrigante ‚ a possibilidade e implementação do conhecimento extraído ao longo do tempo de uma pessoa: suas crenças, preferências e tendências, como um conjunto de algoritmos guiando um programa capaz de atuar de forma funcionalmente idêntica à pessoa. Avanços na tecnologia da robótica irão fazer com que essas ‘Criaturas de Turing’ deixem de ser meros ‘cérebros dentro de garrafas’ e gerar híbridos capazes de interagir sensorialmente com o mundo físico.

 

21. Armazenamento Informacional Nano-tecnológico: em Direção a uma Transferência Computador-Cérebro Direta.

 

Quando um computador torna-se obsoleto, não temos de jogar fora as informações que ele contém. O hardware ‚ meramente um veículo de implementação para as estruturas de informação. As informações são transferidas para outros sistemas, para continuar a serem usadas. Os custos decrescentes de armazenamento de informações, CD-ROM e sistemas de memória WORM implicam que nenhuma informação gerada nos dias de hoje ter de ser perdida.

 

Podemos imaginar a construção de um substrato computacional artificial tanto funcional quanto estruturalmente idêntico ao cérebro (e talvez, com relação ao próprio corpo) de uma pessoa. Como? Através das capacidades previstas para o futuro da nano-tecnologia (15).

 

Nano-máquinas comunicantes que permeiam o organismo poderão analisar a estrutura neural e celular e transferir a informação obtida para maquinaria capaz de reproduzir, tomo por tomo, uma cópia idêntica. Mas e a alma? De acordo com o dicionário: ‘alma‚ o princípio que anima e confere vitalidade ao homem, creditado com faculdades de pensamento, ação e emoção, concebida como formando uma entidade imaterial distinguível de, mas temporariamente coexistente com o seu corpo.”

 

Numa primeira leitura, essa Definição parece ser um exemplo clássico de uma bobagem teológica. Mas estudada a partir da perspectiva da teoria da informação, seremos capazes de lidar com esse religio-jargão dentro de uma área científica. Vamos mudar a palavra bizarra ‘imaterial’ para ‘invisível aos órgãos dos sentidos desacompanhados de qualquer instrumento’, isto ‚, atômicos/moleculares/eletrônicos. Agora a ‘alma’ se refere às informações processadas e armazenadas em pacotes microscópicos, celulares, moleculares. A alma torna-se qualquer informação que ‘vive’, isto é, capaz de ser recuperada e comunicada. não ‚ verdade que todos os testes para a ‘morte’ em todos os níveis de medida (nuclear, neural, corporal, galáctico) envolvem a verificação pela não resposta a sinais?

 

A partir deste ponto de vista, as 22 opções para a imortalidade tornam-se m‚todos cibernéticos de preservação da capacidade única de sinalização. Existem tantas almas quantos formas de armazenar e comunicar dados. A cultura tribal define a alma racial. O DNA ‚ uma alma molecular. O cérebro ‚ uma alma neurológica. O sistema de armazenagem eletr”nica cria a alma de silicone. A nanotecnologia torna possível a alma atômica.

 

22. Computacional-Viral

 

A opção precedente permitiu a sobrevivência pessoal através do mapeamento isomórfico da estrutura neural para o silício (ou outro meio arbitrário qualquer de implementação). Também sugere a possibilidade de sobrevivência de uma entidade naquilo que parece ser uma retificação do inconsciente coletivo de Jung: a rede global de informação.

 

No século 21 imaginado por William Gibson, cibernautas temer rios e os cibernautas irão não somente se armazenar eletronicamente, como farão isto na forma de um ‘vírus de computador’, capaz de atravessar redes de computadores e de se auto-replicar como uma Proteção contra um ‘apagamento’ acidental ou malicioso por outras pessoas ou programas. (Imagine este cenário algo ridículo; ‘O que há nesse CD?’ ‘Ah, apenas um Leary antigo. Vamos reformata-lo.’)

 

Dada a facilidade de cópia de informações armazenadas em computadores, podemos existir simultaneamente em v rias formas. Onde o ‘eu’ se encontra nesta situação‚ assunto para a filosofia. A nossa crença ‚ que a consciência ir persistir em cada forma, correndo independentemente de ( e ignorando cada uma das outras manifestações do ‘Eu’, a menos que esteja em comunicação com uma ou mais das outras formas), clonificada em cada ponto de ramificação.

 

Notas

1- Essa lista de opções para o Coma Metabólico Voluntariamente Reversível e autometamorfose não é mutuamente exclusiva. A pessoa inteligente precisa de muito pouco encorajamento para explorar todas essas possibilidades. E tentar planejar muitas outras alternativas novas contra ir de barriga para cima, em fila para os Arquivos-Mortos do Gerenciamento.

2. KON-TIKI NA CARNE: no futuro próximo, aquilo que atualmente é considerado como garantido na forma de uma criatura humana perecível ser uma mera curiosidade histórica, um ponto entre outros de uma inimaginável diversidade multidimensional de formas. Indivíduos ou grupos de aventureiros estarão livres para escolher reassumir a forma de carne e sangue, construída de acordo com a ocasião pela ciência apropriada.

Tais expedições históricas podem muito bem ser conduzidas no espírito das viagens do Kon Tiki de Thor Heyerdahl. Viajar naquilo que à luz da História revela ser uma forma objetivamente improvável, meramente para provar que é possível, ou tão improvável quanto parece.

Notas e Referências

1. Os autores dividem os estágios da história humana em: tribal, feudal, industrial e cibernética

2. Los Alamos, famosa como berço das armas atômicas, atualmente também aloja o Centro para Estudos Não-Lineares, onde um grupo tem realizado reuniões semanais para discutir os muitos aspectos técnicos do novo campo da Vida Artificial. O centro recentemente patrocinou um workshop internacional de uma semana de duração, o primeiro no mundo, onde cientistas encontraram-se para discutir as implicações e a fundamentação das teorias do campo. A reunião foi amigável, divertida e selvagemente trans-disciplinar. Os pioneiros da nano-tecnologia delinearam os potenciais para a engenharia molecular e o especialista em robótica, Hans Moravec apresentou argumentos convincentes de que uma transformação genética estava em pleno desenvolvimento, sendo que nossos artefatos culturais agora estavam evoluindo para além do ponto de simbiose com a espécie humana. Estruturas auto-replicantes, de minerais e vírus de computadores foram demonstrados.

3. William Gibson, ciberpunk e visionário sci/fi publicou Neuromancer, Contagem Zero e Cromo Queimando. São leituras recomendadas pela sua visão técnica e socialmente plausível da vida high-tech do baixo mundo das ruas.

4. Os místicos poderão se lembrar de que também existem 22 caminhos para os Cabalistas, na ‘Árvore da Vida’, associada com o Taro.

5. Aleister Crowley, ‘Oito Palestras sobre Ioga’, dividida em duas partes, respectivamente intituladas: ‘Ioga para Yahoos’ e ‘Ioga para Covardes’.

6. Martin Minsky delineou uma teoria de que a ‘mente’ emerge de uma coleção de entidades menores interagindo conjuntamente, elas mesmas, isentas de mente. Isto está apresentado em seu livro, ‘A Sociedade da Mente’, 1986.

7. John Lilly, O Cientista e Programando e Metaprogramando no Bio-Computador Humano.

8. John Lilly, O Eu Profundo.

9. E.J. Gold, O Livro Americano dos Mortos, a ser lançado proximamente pela Ed. Eleusis, ver também a Estória da Criação.

10. Roy L. Walford, médico, A Dieta dos 120 Anos, 1986 e Máxima Duração de Vida, 1983.

11. Uma das poucas companhias de preservação criogênica em funcionamento é a Alcor Foundation, (800) 367-2228.

12. O proponente mais visível e eloqüente da nanotecnologia ‚ K. Eric Drexler, da MTI e Universidade de Stanford. Seu livro, Máquinas da Criação fornece uma visão detalhada do campo. Outros trabalhos mais técnicos incluem:

– K. Eric Drexler, Engenharia Molecular: Um Enfoque ao Desenvolvimento das Capacidades Gerais de Manipulação Molecular, Proc. Natl. Acad. Sci, vol. 78 #9, September, 1981, pp. 5275-5278.

– K. Eric Drexler, Rod Logic & Thermal Noise in the Mechanical Nanocomputer, Proc. 3rd Intl. Symposium on Molecular Electronic Devices, Elsevier, North Holland, 1987.

– K. Eric Drexler, Molecular Engineering: Assemblers and future Space harware, Aerospace XXI, 33rd Annual meeting of the American Astronautical Society, paper AAS-86-415.

– Feynman, R., There’s Plenty of rooms at the Botton, in ‘Miniaturization’, H.D. Gilbert (ed.), Reinhold, New York, 1976, pp. 282-296. (Um dos trabalhos originais enfocando a engenharia em escala molecular, o ganhador do prêmio Nobel, Feynman é sem dúvida um dos mais brilhantes cientistas da atualidade).

13. Hans Moravec, Mind Children, 1988.

14. Um sistema global de hipertexto para permitir acesso instantâneo on-line a redes globais de conhecimento foi imaginado e descrito por Ted Nelson em Literary Machines, publicado pelo autor. Outras informações estão disponíveis em Computer Lib de Nelson (1974), republicado pela Microsoft Press (1987).

15. Particularmente nos desculpamos destas especulações situadas presentemente para além das capacidades tecnológicas. O cérebro ‚ uma máquina das mais complexas, com algo de 1020 células individuais, conforme as estimativas mais atuais. Ainda assim somos redimidos por aquilo que vemos como a inevitabilidade tecnológica da nanotecnologia.

 

 

Timothy Leary, Ph.D. & Eric Gullichsen, Tradução: NoKhooja

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/22-alternativas-sensatas-para-a-morte-involuntaria/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/22-alternativas-sensatas-para-a-morte-involuntaria/

As Múmias de Jade da China

Quando pensamos em múmias é logo no Egito que pensamos. Mas as múmias do Nilo não são nem as mais antigas (essas seriam as múmias Chilenas) nem as mais  espetacularmente preservadas. Nesse segundo critério quem ganha são as relativamente pouco conhecidas Múmias de Jade da China datadas dentre 201 a.c e 24 d.c.

O primeiro ponto é que em vez de um enorme monumento a vista de todos as “pirâmides” chinesas estão embaixo da terra com entradas tão secretas que só foram descobertas em 1968. A primeira foi achada em Mancheng, província de Jopei, durante uma temporada arqueológica do Instituto de Arqueologia de Pequim  dirigido por Dr. Xia Nai.

Pesquisas nos antigos mausoléus eram considerados tabus até a formação do governo secular da República da China, quando então foram exploradss uma série de câmaras fúnebres criadas para a família real da Dinastia Han do oeste. Estes mausoléus talhados na rocha são conhecidos a muito tempo e tinham fama de mal assombrados, tinham além disso um grande problema. Eles possuíam belas obras funerárias e inscrições fúnebres, mas faltava algo muito importante: o túmulo.

As pirâmides subterrâneas

Dedicado a encontrar os túmulos a equipe do Dr. Xia fez a cuidadosa remoção de obras de arte em ouro, prata e bronze de surpreendente beleza. Cavaram abaixo delas e  removeram centenas de toneladas de pedras que formavam uma capa de entulho. Penetraram então em um longo corredor subterrâneo.  Em diversos pontos deste corredor existem inscrições contendo maldições e ofensas para aqueles que ousassem continuar.

Este corredor levava a um labirinto de galerias. Após cruzarem muitas passagens, becos sem saída e voltas ao ponto de partida – tendo inclusive que evitar armadilhas de dardos e chãos falsos – os pesquisadores atingiram uma enorme câmara mortuária, testemunha silenciosa de um gigantesco e esquecido trabalho. Grande demais para algo subterrâneo a tumba ocupa uma área de 3000 m³ e culmina em uma sala de teto alto de 40m de comprimento por 64 de largura e altura média de 7.9m.

Entrada da tumba de Dou Wan

Logo se deu o início do levantamento e catálogo dos milhares de objetos que  compunham o mobiliário fúnebre ao mesmo tempo em que precederam a abertura do sarcófago central de madeira laqueada no qual esperavam encontrar um esqueleto real. Para espanto de todos, após levantarem a pesada tampa, encontraram uma enorme coleção de centenas de placas de jade e fios de ouro e abaixo deles um esqueleto fragmentado, posteriormente identificado como sendo da princesa Dou Wan, falecida em 104 a.c

Enquanto procediam o trabalho de identificação e remoção do tesouro, verificou-se a existência de uma outra passagem secreta que levou a um segundo local escondido onde havia um cômodo ainda maior e uma outra tumba central. Porque fazer uma passagem secreta em uma tumba subterrânea é algo que nunca saberemos. Mas os arqueólogos identificaram o segundo corpo como sendo o do príncipe Ching de Chungshaw, marido de Dou Wan, falecido em 113 a.c.

Múmias de Jade

No caso do príncipe as placas de jade e os fios de ouro se revelaram partes de uma elaborada armadura. A roupa da múmia foi recolhida pelo governo chinês e está hoje sob custódia do museu de Pequim. Ela é composta por mais de duas mil peças de jade e entrelaçadas por 1kg de fio de ouro. A parte central é constituída por placas retangulares, placas triangulares cobrem o dorso enquanto que as pernas e braços são fechadas apenas por peças retangulares.

A cabeça é igualmente coberta e possui placas circulares para imitar os olhos e o nariz que foi preparado com finas lâminas de corte especial. Em todos os casos a espessura do jade nunca ultrapassa 3 mm e os furos do fio de ouro seguem sempre o mesmo padrão.

Quando o museu de Pequim abriu a armadura verificou que o corpo estava perfeitamente preservado em alto grão de conservação por um estranho e espesso líquido. Graças ao fato dessa armadura estar bem conservada foi possível reconstruir a da princesa adaptada ao corpo feminino.

Estudos posteriores feito por historiadores principalmente nas obras ‘Recordações de um Historiador’ de Sima Qin e ‘História da Dinastia Han’ de Ban-Gu revelaram que as vestimentas mortuárias de jade eram reservadas apenas para nobres no período da dinastia Han. Isso não apenas devido ao alto custo na produção mas por razões sociais e religiosas. A violação dessa regra era punida com firmeza como no caso de um eunuco chamado Zhao-Zhong que secretamente enterrou seu pai numa daquelas mortalhas. Ele foi denunciado e houve uma ordem imperial para que a tumba fosse profanada, o corpo destruído e a armadura confiscada. O eunuco e toda sua família foram em seguida executados pelo crime de lesa-majestade.

Mistérios em aberto

A fabulosa descoberta do túmulo de Dou Wan deu início a um corrida arqueológica atrás de múmias de jade nos sepulcros das antigas famílias reais chinesas. O objetivo central era encontrar a tumba do Imperador Wu que teria um cômodo e armadura ainda mais imponentes.

Desde então outros 19 esconderijos e ‘pirâmides subterrâneas’ como esta foram encontrados embora somente cinco corpos estavam igualmente conservados por suas armaduras de jade. A maioria delas estavam desmontadas como a da princesa sem o líquido  conservador.

O local de descanso final do imperador ainda permanece um mistério, mas este não é o único segredo que falta ser revelado. Os químicos chineses ainda prosseguem na tentativa de identificar a composição e meios de produção do misterioso líquido embalsamador que permitiu a impressionante preservação dos corpos. Sua descoberta abriria ao governo chinês novos caminhos no campo da criogenia e conservação de órgãos e corpos.

Fontes:

  • Danielle, Elisseeeff, “Le Timbes de ManTch’enf”, in Archeologia jun/1973
  • Jeffrey Kao e Yang Zuosheng, On Jade suits and Han Archeology, in Archaeology nov/dev/1983
  • Abreu, Aurélio, M.G. Revista Planeta, Junho 1987
  • Historical Relics Unearthed in New China, Foreign Languages Press – Peking, 1972

Tamosauskas

Qual seria o verdadeiro motivo para um eunuco chinês arriscar a morte de toda a sua família para preservar o corpo de seu pai por este processo?

Ai tem coisa mesmo hein? E sei não se o partido comunista chines já não decifrou o que é o líquido…

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/as-mumias-de-jade-da-china/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/as-mumias-de-jade-da-china/

Pitágoras, o Grande Iniciado

Pitágoras foi um dos vultos mais elevados deste ciclo de civilização. Nasceu na ilha de Samos, na Jônia (Grécia) no ano 585 AC. Quando ainda criança ele foi levado para residir no Líbano, onde um sacerdote disse à sua mãe: “Ó mulher Jônica, teu filho será grande pela sabedoria; os gregos já possuem a ciência dos deuses, mas a ciência de Deus só se encontra no Egito”. Sua mãe, então, resolveu mandar o jovem Pitágoras para o Egito a fim de obter a sua iniciação.

Portador de uma carta de apresentação endereçada ao Faraó Amasis, Pitágoras chegou ao Egito e foi pelo próprio faraó recomendado aos sacerdotes de Menfis que o aceitaram com reservas. Em Menphis o jovem submeteu-se com inquebrantável vontade às provas iniciáticas. Sua iniciação completa durou 22 anos. Foi após esse longo tempo de preparação que ele teve uma visão sintética da essência da vida e das formas, compreendendo a involução do espírito na matéria ( a queda ), mediante a criação universal e a sua evolução ( ascensão ) rumo à unidade pela criação pessoal, que se chama desenvolvimento da consciência.

Ainda estava Pitágoras no Egito por ocasião em que Cambisses invadiu aquele país, levando os dirigentes como escravos. Assim, Pitágoras acompanhou os escravos para a Babilônia onde foi iniciado nos conhecimentos deixados por Zoroastro (Fundador do Mazdeismo, a religião predominante na Pérsia).

Os sacerdotes egípcios tinham altos conhecimentos das ciências sagradas, mas eram os magos persas os que tinham os maiores desenvolvimento nas práticas mágicas, na manipulação das leis ocultas da natureza. Diziam-se capazes de dominar as potências ocultas da natureza, que denominavam de o fogo pantomorfo e de a luz astral. Há registros que dizem que nos templos persas as lâmpadas ascendiam-se por si, deuses brilhavam com luzes desconhecidas, surgiam raios e trovões. Os magos denominavam “leão celeste”, “fogo incorpóreo”, o gerador daqueles raios.

Por certo os sacerdotes tinham conhecimentos e dominavam muitos fenômenos elétricos, gerando de alguma forma eletricidade. Também mantinham controle sobre fenômenos atmosféricos despertando correntes elétricas na atmosfera e manipulações magnéticas desconhecidas das pessoas da época, muita ainda desconhecidas da ciência atual.

Os sacerdotes da Babilônia tinham grandes conhecimentos do poder sugestivo, atrativo e criativo da palavra humana.

Assim, na Babilônia, Pitágoras penetrou nos arcanos da antiga magia persa. A religião da Pérsia, embora já totalmente degenerada naquela época, mesmo assim ainda havia um grupo de iniciados unidos defensor de uma autêntica ciência oculta. Iniciados que defendiam a sua fé e também a Justiça, e secretamente enfrentavam os déspotas, fascinavam, muitas vezes dominavam o poder absoluto dos governantes.

Depois da iniciação egípcia e caldaica Pitágoras, ainda jovem, já sabia mais que todos os seus mestres e do que qualquer grego de seu tempo. Durante todos aqueles anos ele tomou ciência de fartos conhecimentos secretos, tornando-se sabedor da verdadeira natureza da humanidade e de grande parte da sua verdadeira história, de tudo aquilo que a “conjura do silêncio” a todo custo tentava ocultar ou que havia deformado. Sabia sobre religiões, continentes e raças totalmente desaparecidas.

Com o seu enorme conhecimento ele teve condições de fazer estudo comparado de todas as religiões tanto ocidentais quanto orientais. Estava consciente da força negativa e do obscurantismo importo pela “conjura” que havia imposto sua pesada mão e jugo aos egípcios, e depois à própria Babilônia e Pérsia (onde esteve por cerca de 12 anos). Pitágoras prevendo que o passo seguinte seria a Europa se antecedeu e voltou à Grécia, de onde havia passado cerca de 34 anos ausente.

Voltando à Grécia teve a alegria de ainda encontrar com vida o seu Primeiro Grande Mestre, assim com a sua mãe. Sabedor que o próximo passo do domínio da conjura seria a Grécia tomou a decisão de partir para um lugar onde pudesse fundar uma escola iniciática para legar à humanidade muitos conhecimentos, entre eles os matemáticos, dos quais o mais conhecido é o “Teorema de Pitágoras”. Juntamente com a sua mãe foi se fixar em Crotona no golfo de Tarento na Itália Meridional. Ele pretendia fundar um centro, não apenas para ensinar a doutrina esotérica a um grupo de discípulos escolhidos, mas também para aplicar seus princípios à educação, à mocidade e à vida do Estado. Pretendia fundar uma instituição com a intenção de ir transformando aos poucos a organização política das cidades e estados. É compreensível que bastaria isso para acirrar ódios e perseguições.

Grande matemático, Pitágoras legou importantes conhecimentos à humanidade, e por outro lado foi também um místico proeminente. Estabeleceu um sistema político, além do movimento religioso e educativo e que foi considerado aristocrático e ditatorial. Platão, assim como Aristóteles foram discípulos da Escola Pitagórica. O que Platão escreveu na sua obra “A Republica” teve como base os ensinamentos da Escola Pitagórica.

Pitágoras, por defender o principio da autoridade, hoje seria tido como um ditador, como um opressor, mas na realidade nada disso é verdade, o que pode ser comprovado pelos seus atos pessoais, como veremos depois. Na realidade ele defendia acirradamente o principio da autoridade, e não podia ser diferente. Ele fora iniciado em escolas iniciáticas em que havia uma rígida obediência hierárquica e vivido sobre regimes títeres e escravagistas. Como já dissemos em outras palestras o sistema iniciático era muito rígido como uma forma de defesa contra a mão impiedosa da “conjura”. Também se deve ter em conta que as escolas iniciáticas do Egito descendiam da Civilização Atlântida onde o poder era controlado com rigor pela religião e pela ciência e vice-versa.

O sentido de ordem e respeito estabelecido por Pitágoras, propugnador de um estado hierárquico, fez com que muitos o perseguissem. Se, por um lado, ele tinha uma plêiade de seguidores e de admiradores, também ocorria o inverso, como uma decorrência de Crotona ser uma cidade já degenerada por vícios, com forte tendência à vida voluptuosa, como acontecia na vizinha Sibaris, tida como uma das mais devassas cidades daquela época. Suscitou uma verdadeira revolução nos costumes. Procedia mais como um mágico do que como um filósofo. Reunia os rapazes no templo e com sua eloqüência conseguia afastá-los da vida debochada de então, fazia com que abandonassem até mesmo as suas vestes luxuosas. A beleza da sua fisionomia, a nobreza da sua pessoa, o encanto dos seus traços e da sua voz, concorriam para o fascínio que exercia sobre as pessoas, de modo que as mulheres o comparavam a Júpiter, os rapazes a Apolo.

O Senado de Crotona – o Conselho dos Mil – então começou a se preocupar com o prestígio de Pitágoras e por isso ele foi intimado a dar explicações sobre a sua conduta. Nesta fase foi quando ele criou um Instituto para atender aos seus discípulos. Uma confraria de iniciados com vida comunitária, onde havia um sistema iniciático exigente. Dizia Pitágoras: “Não é qualquer madeira que serve para fazer-se mercúrio”.

No Instituto Pitagórico dava-se grande importância também ao lado físico, por isso era cultivada a prática de ginásticas e exercícios diversos. Ali os que tentavam a iniciação antes tinham que passar por provas sérias, muitas vezes sarcásticas; passava até mesmo por humilhações, cujo objetivo era evidenciar o verdadeiro desejo de saber e a sinceridade do iniciando. Isso gerou inimigos entre os noviços fracassados. Um deles, o Cilon, mais tarde amotinou o povo contra os pitagóricos, levando a cabo o incêndio e o saque do Instituto em que os principais dirigentes morreram e dizem que o próprio Pitágoras. (Dizem que ele conseguir escapar com vida juntamente com uns poucos adeptos).

As controvérsias existentes em torno dos ensinamentos pitagóricos, sobre suas idéias e ensinamentos motivaram ódios tanto por parte do povo quanto dos governantes. Incitados por Cilon isto motivou a destruição do Instituto, mas como não se mata facilmente uma idéia os ensinamentos perduraram por mais de dez séculos e ainda existem até o presente.

Com o intuito de serem evitadas perseguições às pessoas, durante séculos os ensinamentos pitagóricos foram sendo transmitidos através de confrarias e sociedades secretas, entre essa a célebre Ordem Pitagórica que subsiste até hoje funcionando de forma oculta, com caráter rígido de seleção e mantendo um sistema iniciático bem rigoroso. É uma dessas ordens secretas em que não se chega à ela diretamente, mas somente por indicação de outras ordens preliminares. Por outro lado existiram e existem ainda muitas organizações que se intitulam de pitagórica por estudarem a doutrina, mas que na realidade não são autênticas. Algumas estudam com sinceridade e honestidade os princípios pitagóricos mesmo que não mantenham vínculos diretos com a ordem original; mas por outro lado também existem aquelas que usurpam o nome apenas, que nada sabem, nada ensinam de autêntico e quando não, apresentam ensinamentos outros com intenções espúrias.

Por José Laércio do Egito – F.R.C.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/pit%C3%A1goras-o-grande-iniciado

Quando Israel era menino, parte final

« continuando da parte 1

Texto de Mircea Eliade em “História das crenças e das ideias religiosas, vol. I” (Ed. Zahar) – trechos das pgs. 165 a 167. Tradução de Roberto Cortes de Lacerda. Algumas das notas ao final são minhas.

O jardim do Éden, com o seu rio que se dividia em quatro afluentes e levava a vida às quatro regiões da Terra, e as suas árvores que Adão devia guardar e cultivar, lembra o imaginário mesopotâmico. É provável que, também nesse caso, o relato bíblico utilize certa tradição babilônica. Mas o mito de um paraíso original, habitado pelo homem primordial, e o mito de um lugar “paradisíaco” dificilmente acessível aos seres humanos eram conhecidos além do Eufrates e do Mediterrâneo. Como todos os “paraíso”, o Éden [1] encontra-se no centro do mundo, onde emerge o rio de quatro afluentes. No meio do jardim elevavam-se a árvore da vida e a árvore da ciência do bem e do mal (Gênese II:9). Javé deu ao homem o seguinte mandamento: “Podes comer de todas as árvores de jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás de morrer” (II:16-17). Uma ideia, aliás desconhecida, destaca-se dessa proibição: o valor existencial do conhecimento. Em outros termos, a ciência pode modificar radicalmente a estrutura da existência humana [2].

Entretanto, a serpente conseguiu tentar Eva. “Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal” (III:4-5). Esse episódio deveras misterioso deu lugar a inúmeras interpretações. O cenário lembra um símbolo mitológico muito conhecido: a deusa nua, a árvore milagrosa e seu guardião, a serpente [3]. Mas, em vez de um herói que triunfa e se apodera do símbolo da vida (fruto milagrosos, fonte da juventude, tesouro, etc.), o relato bíblico apresenta Adão como vítima ingênua da perfídia da serpente.

Temos, em síntese, uma “imortalização” malograda, como a de Gilgamesh [4]. Pois, uma vez onisciente, tal como os “deuses”, Adão podia descobrir a árvore da vida (da qual Javé não lhe havia falado) e tornar-se imortal. O texto é claro e categórico: “Depois disse Javé: ‘Se o homem já é como um de nós, versado no bem e no mal, que agora ele não estenda a mão e colha também da árvore da vida, e coma e viva para sempre!’” (III:22) E Deus pôs o casal para fora do paraíso e condenou-os a trabalhar para viver [5].

Voltando ao enredo evocado há pouco – a deusa nua e a árvore milagrosa guardada por um dragão –, a serpente do Gênese afinal teve sucesso no seu papel de “guardiã” de um símbolo de vida ou de juventude. Mas esse mito arcaico foi radicalmente modificado pelo narrador bíblico [6]. O “fracasso iniciatório” de Adão foi reinterpretado como uma punição amplamente justificada: sua desobediência denunciava seu orgulho luciferino, o desejo de assemelhar-se a Deus. Era o maior pecado que a criatura podia cometer contra seu Criador [7]. Era o “pecado original”, noção prenhe de consequências para as teologias hebraica e cristã. Essa visão da “queda” somente podia impor numa religião centralizada na onipotência e no ciúme de Deus. Da forma como nos foi transmitido, o relato bíblico indica a crescente autoridade do monoteísmo javista [8].

Segundo os autores dos capítulos IV-VII do Gênese, esse primeiro pecado não só acarretou a perda do paraíso e a transformação da condição humana, mas tornou-se de algum modo a fonte de todas as desventuras que se abateram sobre a humanidade [9]. Eva deu à luz Caim, que “cultivava o solo”, e Abel, “pastor de ovelhas”. Quando os irmãos ofereceram o sacrifício da gratidão – Caim, produtos do solo, e Abel, as primícias do seu rebanho –, Javé acolheu a oferenda de Abel, mas não a de Caim [10]. Irado, ele “se lançou sobre seu irmão e o matou” (IV:8). Agora, sentenciou Javé, “és maldito e expulso do solo fértil (…) Ainda que cultives o solo, ele não te dará mais seu produto: serás um fugitivo errante sobre a Terra” (IV:11-12)

Pode-se ver nesse episódio a oposição entre lavradores e pastores, e, implicitamente, a apologia destes últimos [11]. […] A tradição conservada no relato bíblico reflete a idealização da existência “simples e pura” dos pastores nômades, e a resistência contra a vida sedentária dos agricultores e dos habitantes de cidades. Caim “tornou-se um construtor de cidade” (IV:17) [12] […] O primeiro assassinato é portanto cometido por aquele que, de alguma forma, encarna o símbolo da tecnologia [13] e da civilização urbana. Implicitamente, todas as técnicas são suspeitas de “magia” [14].

***
[1] Nota do autor: Essa palavra foi relacionada pelos hebreus ao vocábulo é’dén, “delícias”. O termo paraíso, de origem iraniana (pairi-daeza), é mais tardio. Imagens paralelas, familiares sobretudo no Oriente Próximo e no mundo egeu, apresentam uma grande deusa ao lado de uma árvore da vida e de uma fonte vivificante, ou uma árvore da vida guardada por monstros e grifos.
Meu complemento: É interessante como ainda hoje, nas práticas de “mentalizações de cenários naturais”, tanto na umbanda quanto no espiritualismo em geral, ainda seja tão comum imaginarmos um jardim paradisíaco – isto é, como qualquer outro jardim onde haja apenas paz –, por onde passa um rio que flui de uma cachoeira – a fonte vivificante. Este tal jardim pode mesmo ter vindo da magia africana, ainda mais antiga do que Israel ou a tradição babilônica, ou mesmo de um lugar ainda mais arcaico, ancestral: nossa própria mente, a mente humana. Por isso, quando Joseph Campbell diz que “o Éden não foi e nem será, o Éden é”, ele realmente está falando sério, muito sério!
[2] O filósofo brasileiro, Mario Sergio Cortella, diz que “o homem é o único animal mortal”. Isto, pois, todos os outros animais (tirando, quem sabe, os elefantes) não tem a ciência da própria mortalidade. Somente o homem, que adquiriu tais conhecimentos (e muitos outros, pois que “conhece o bem e o mal”, isto é, possui razão), é “condenado” a mortalidade – pois sabe que irá morrer um dia.
[3] No processo de “demonização” da Deusa Mãe, e da magia antiga, associou-se Eva ao “pecado original”, e a serpente (o pobre bode expiatório), ao “Demônio”. É sempre interessante lembrar que por toda a mitologia dos povos arcaicos (bem mais antigos que Israel), a serpente é, pelo contrário, um grande símbolo de sabedoria. Aqui, novamente, recomendo consultarem o artigo Serpentes.
[4] Herói e rei sumério semilendário, retratado na Epopéia de Gilgamesh, texto central das mitologias suméria e babilônica.
[5] Eis que o próprio Antigo Testamento já atesta, desde seu início, aquilo que Jesus viria a dizer muito depois: “vós sois deuses”. Mas nem na época da elaboração do AT esta era uma ideia nova, no Antigo Egito já se conhecia, ao menos entre os iniciados, esta frase ancestral: “eu também sou da raça dos deuses”. Porém, seria Javé injusto por haver afastado Adão e Eva do paraíso, e da imortalidade concedida pela árvore da vida? Ou não seria uma justiça ainda maior que desse a oportunidade para que o homem e a mulher alcancem a ciência da árvore da vida por seu próprio mérito? “O Reino está espalhado pela Terra, mas os homens não o veem”.
[6] Antes de condenar o “narrador bíblico”, é preciso lembrar que a principal característica da elaboração de uma nova cultura para um “novo povo” é a supressão da cultura alheia. Nesse sentido, era “função” do “narrador bíblico” exatamente modificar radicalmente alguns mitos antigos, porém sem lhes desviar inteiramente da essência. Pois que os escritores eram suficientemente sábios e cultos para compreender que certas essências mitológicas não podem ser inteiramente suprimidas – pertencem ao espírito humano, e “existem sempre”.
[7] Paradoxalmente, era também exatamente o “pecado” que o Criador já esperava de sua criatura, como fica muito claro em qualquer mitologia sobre o tema.
[8] Nota do autor: O mito da “queda” nem sempre foi entendido de acordo com a interpretação bíblica. Principalmente a partir da época helenística e até os tempos do Iluminismo, inúmeras especulações tentaram elaborar uma mitologia adâmica mais audaciosa e muitas vezes mais original.
[9] De fato, como no mito onde Prometeu rouba o fogo divino e com ele cria a humanidade, o “pecado original” deu origem a própria humanidade, pois sem a ciência da própria nudez, dificilmente Adão e Eva nalgum dia teriam um filho.
[10] Teriam os cristãos radicais, críticos ferozes dos ritos do Candomblé, lido este trecho do Gênese?
[11] Ao menos a quem tem olhos para ver, quase todas as mitologias antigas trazem, num “código meio cifrado”, a própria história dos povos arcaicos. O embate dos caçadores-coletores errantes, ou grandes povos nômades, contra os primeiros agricultores, ou mesmo as primeiras grandes aldeias onde se estocavam grãos, é tema corriqueiro dos mitos de “pós-criação”. Em nosso artigo sobre a mitologia do deus Odin, falamos sobre a guerra entre os vanir (sedentários, agricultores) e os æsir (nômades, caçadores), que essencialmente trata do mesmo tema, só que na região do norte europeu. Enquanto a mitologia nórdica “privilegia” os caçadores nômades (pois foi elaborada por eles), no relato bíblico, da mesma forma, os pastores nômades são exaltados, enquanto que os cultivadores sedentários (representados por Caim) são “banidos”. Nota-se que, neste caso, os pastores hebreus provavelmente entravam em conflito com os agricultores das terras por onde passavam com seu rebanho. A diferença é que os nórdicos æsir venceram a guerra, enquanto que a vida dos pastores hebreus deve ter sido bem mais difícil (de certa forma, o é até hoje: a própria existência do estado de Israel é questionada pelos povos em seu entorno até os dias modernos).
[12] Resta saber qual deus criou a mulher que Caim conheceu na terra de Node (IV:16-17).
[13] Caim também pode significar “ferreiro”. Na época antiga, os ferreiros eram considerados “senhores do fogo”, com o conhecimento de poderes mágicos temíveis. Um dos descendentes de Caim é Tubalcaim, “o pai de todos os laminadores em cobre e ferro”.
[14] “Qualquer tecnologia suficientemente avançada não se distingue de magia” (Arthur C. Clarke)

***

Crédito da foto: Robert Recker/Corbis

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

» Comprar livro impresso, PDF, ou versão para Amazon Kindle

***

» Ver todos os posts da coluna Textos para Reflexão no TdC

» Veja também nossa página no Facebook

#história #Religião #Mitologia #Judaismo #MirceaEliade

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/quando-israel-era-menino-parte-final

A História Da Atlântida

Um Esboço Geográfico, Histórico e Etnológico

A amplitude do assunto que se nos apresenta será mais bem compreendida considerando-se a quantidade de informações que podem ser obtidas a respeito das várias nações que constituem nossa grande quinta raça ou raça árica.

Desde a época dos gregos e dos romanos tem-se escrito continuas obras* sobre os povos que, sucessivamente, ocuparam o palco da História. As instituições políticas, as crenças religiosas, os hábitos e costumes domésticos e sociais, tudo tem sido analisado e catalogado em inúmeras obras que, em muitas línguas, registram, para nosso benefício, a marcha do progresso.

Além do mais, é preciso lembrar que, da história dessa quinta raça, possuímos apenas um fragmento – o registro dos últimos descendentes da sub-raça céltica e das primeiras linhagens do nosso tronco teutônico.

Porém, as centenas de milhares de anos que decorreram desde a época em que os primeiros áricos deixaram sua terra natal, nas costas do mar asiático central, até a época dos gregos e dos romanos testemunharam a ascensão e queda de inúmeras civilizações. Da primeira sub-raça da nossa raça árica, que habitou a índia e colonizou o Egito em épocas pré-históricas, não sabemos praticamente nada, e o mesmo pode-se dizer dos povos caldeu, babilônico e assírio, que constituíram a segunda sub-raça – pois os fragmentos à nossa disposição, obtidos a partir de hieróglifos ou de inscrições cuneiformes, encontrados em tumbas egípcias e em placas babilônicas, decifrados recentemente, por certo não podem ser considerados como formadores da História. Os persas, que pertenceram à terceira sub-raça ou sub-raça iraniana, deixaram, é verdade, alguns poucos traços mais, mas das civilizações mais primitivas da quarta sub-raça, ou sub-raça céltica, não temos absolutamente nenhum registro. Somente com o surgimento dos últimos ramos deste tronco céltico, a saber, os povos grego e romano, é que chegamos aos períodos históricos.

A um período em branco do passado soma-se também um do futuro, pois das sete sub-raças necessárias para completar a história de uma grande raça-raiz, somente cinco, até agora, chegaram a existir. A nossa própria quinta sub-raça, ou sub-raça teutônica, já se desdobrou em muitas nações, mas ainda não completou seu curso, enquanto as sexta e sétima sub-raças, que se desenvolverão nos continentes da América do Norte e do Sul, terão milhares de anos de história a dar ao mundo.

Sintetizar, em poucas páginas, informações a respeito do progresso do mundo durante um período que, no mínimo, deve ter sido tão extenso quanto o acima referido é, por esse motivo, uma tentativa que, necessariamente, não pode ultrapassar os limites de um ligeiro esboço.

Um registro do progresso da Humanidade durante o período da quarta raça ou raça atlante deve abarcar a história de muitas nações, bem como registrar a ascensão e queda de muitas civilizações.

Além disso, durante o desenvolvimento da quarta raça, em mais de uma ocasião ocorreram catástrofes, numa escala que ainda não foi experimentada durante a existência da nossa atual quinta raça. A destruição da Atlântida foi motivada por uma série de catástrofés das mais variadas espécies, desde grandes cataclismos, onde territórios e populações inteiras pereceram, até os comparativamente insignificantes deslizamentos de terra, tais como os que ocorrem hoje em dia em nossas costas. Uma vez iniciada a destruição, pela primeira grande catástrofe, não houve mais intervalos entre os deslizamentos menores que, lenta porém incessantemente, continuaram a destruir o continente. Quatro grandes catástrofes sobressaem, em magnitude, a todas as outras. A primeira ocorreu durante o mioceno, cerca de 800.000 anos atrás. A segunda, de menor consequência, ocorreu há, aproximadamente, 200.000 anos. A terceira, há cerca de 80.000 anos, foi a mais descomunal e destruiu tudo o que restava do continente atlante, com exceção da ilha à qual Platão deu o nome de Posseidones e que, por sua vez, submergiu na quarta e última grande catástrofe, no ano de 9564 a.C.

As declarações dos mais antigos escritores e da pesquisa científica moderna igualmente confirmam a existência de um antigo continente, ocupando o local da Atlântida desaparecida.

Antes de passar ao exame do assunto em si, convém analisar rapidamente as fontes em geral reconhecidas por fornecerem dados corroborativos. Elas podem ser agrupadas nas cinco categorias seguintes:

Primeira Categoria

As provas das sondagens do fundo do mar. Segunda, a distribuição da fauna e da flora. Terceira, a similaridade de língua e do tipo etnológico. Quarta, a similaridade de crença, ritual e arquitetura religiosas. Quinta, os depoimentos dos antigos escritores, as tradições de raças primitivas e as antigas lendas a respeito do dilúvio.

Portanto, em primeiro lugar, temos as provas das sondagens do fundo do mar, que podem ser resumidas em poucas palavras. Graças principalmente às expedições das canhoneiras britânica e americana, a Challenger e a Dolphin (embora a Alemanha também tenha participado desta exploração científica), o fundo do Oceano Atlântico está agora totalmente mapeado, tendo-se constatado a existência de uma imensa cordilheira de grande altitude no médio Atlântico. Esta cordilheira estende-se para o sudoeste, mais ou menos a partir de 50°, latitude norte, em direção à costa da América do Sul; em seguida, para o sudeste, em direção à costa da África, mudando outra vez de direção, perto da ilha da Ascensão, seguindo então diretamente para o sul, rumo a Tristão da Cunha. A cordilheira ergue-se, de forma quase perpendicular, cerca de 2.743 m acima das profundezas do oceano, enquanto Açores, São Paulo, Ascensão e Tristão da Cunha formam os picos dessa terra que ainda continuam acima das águas. Para sondar as mais profundas regiões do Atlântico, foi necessário um prumo de 3.500 braças, ou seja, 6.400 m, mas as partes mais altas da cordilheira estão apenas a uns 200 m, ou pouco mais, abaixo da superfície.

As sondagens também demonstraram que a cordilheira está coberta de detritos vulcânicos, cujos vestígios foram encontrados de um lado a outro do oceano, até as costas americanas. Na verdade, o fato de que o fundo do oceano, particularmente perto dos Açores, foi palco de distúrbios vulcânicos numa escala gigantesca, e isso dentro de um período perfeitamente mensurável da era geológica, está conclusivamente provado pelas investigações realizadas durante as expedições acima citadas.

O sr. Starkie Gardner é da opinião que, durante o eoceno, as ilhas Britânicas faziam parte de uma imensa ilha ou continente, que estendia-se na direção do Atlântico, e “que uma grande extensão de terra existiu outrora onde hoje existe o mar, e que a Cornualha, as ilhas Scilly e Anglo-Normanda, a Irlanda e a Bretanha formam o que restou de seus cumes mais altos” (Pop. Sc. Review, julho de 1878).

Segunda Categoria

A comprovada existência, em continentes separados por vastos oceanos, de espécies idênticas ou similares de fauna e flora constitui o constante enigma dos biólogos e botânicos. Contudo, se existiu no passado uma ligação entre esses continentes, permitindo a natural migração desses animais e plantas, o enigma está decifrado. Atualmente, os fósseis de camelos são encontrados na índia, África, América do Sul e Kansas; no entanto, uma das hipóteses dos naturalistas, geralmente aceita, é a de que todas as espécies de animais e plantas originaram-se em apenas uma parte do globo e, deste centro, gradualmente invadiram as outras regiões. Sendo assim, como explicar a ocorrência desses fósseis, sem a existência de uma passagem por terra em alguma época remota? As descobertas nas camadas fósseis do Nebraska parecem também provar que o cavalo originou-se no hemisfério ocidental, pois essa é a única parte do mundo onde se tem descoberto fósseis demonstrativos das várias formas intermediárias, identificadas como precursoras do cavalo atual. Portanto, seria difícil explicar a presença do cavalo na Europa, exceto pela hipótese da existência de uma passagem por terra entre os dois continentes, já que não resta dúvida quanto à presença do cavalo, em estado selvagem, na Europa e na Ásia, antes de sua domesticação pelo homem, a qual poderia remontar praticamente à Idade da Pedra. O gado e o carneiro, como agora sabemos, possuem ancestrais igualmente remotos. Darwin descobre gado domesticado na Europa, pertencente à mais remota era da Idade da Pedra, e que, num período muito anterior, teria evoluído de formas selvagens, semelhantes ao búfalo da América. Fósseis do leão descobertos nas cavernas da Europa também foram encontrados na América do Norte.

Passando agora do reino animal ao vegetal, parece que a maior parte da flora européia, da época miocena – encontrada, principalmente, nas camadas fósseis da Suíça -, existe até hoje na América e, algumas espécies, na África. Contudo, deve-se ressaltar que, enquanto a maior incidência dessas espécies ocorra no leste americano, muitas delas não são encontradas na costa do Pacífico. Isso parece demonstrar que essas espécies penetraram no continente americano pelo lado do Atlântico. O professor Asa Gray afirma que dos 66 gêneros e das 155 espécies existentes na floresta a leste das Montanhas Rochosas, somente 31 gêneros e 78 espécies são encontradas a oeste dessas elevações.

Todavia, o maior de todos os problemas é a bananeira. O professor Kuntze, eminente botânico alemão, pergunta: “De que maneira esta planta” (nativa da Ásia tropical e da África), “que não poderia resistir a uma viagem através da zona temperada, foi transportada para a América?” Como ele assinala, a planta não tem sementes, não pode ser propagada através de chantões e tampouco possui um tubérculo que pudesse ser transportado facilmente. Sua raiz é semelhante a uma árvore. Para transportá-la, seria necessário um cuidado especial, e ela não resistiria a uma viagem longa. A única maneira pela qual ele pode explicar o aparecimento desta planta na América é supondo que ela deve ter sido transportada pelo homem civilizado, numa época em que as regiões polares possuíam um clima tropical! Ele acrescenta: “Uma planta cultivada que não possui sementes deve ter sido submetida a um processo de cultivo durante um período muito longo . . . talvez seja correio inferir que essas plantas foram cultivadas já no início do período diluviano.” Por que – pode-se perguntar – esta inferência não nos deveria remeter a tempos ainda mais remotos, e quando existia a necessária civilização para o cultivo da planta, ou condições climáticas e materiais para o seu transporte, a menos que houvesse, em alguma época, uma ligação entre o Velho Mundo e o Novo?

O professor Wallace, em sua deleitável obra Island Life, assim como outros autores, em obras muito importantes, formulou engenhosas hipóteses para explicar a identidade da flora e da fauna em terras bastante distantes entre si, e para o seu transporte através do oceano, mas nenhuma é convincente e todas apresentam diversas lacunas.

Sabe-se muito bem que o trigo, tal como o conhecemos, nunca existiu num estado verdadeiramente selvagem, e não há nenhuma evidência de que tenha se originado de espécies fósseis. Cinco variedades de trigo já foram cultivadas na Europa, na Idade da Pedra -uma delas, descoberta nos “povoados lacustres”, conhecida como trigo egípcio, fez Darwin argumentar que os lacustres “ou ainda mantinham relações comerciais com algum povo do sul, ou tinham originalmente vindos do sul como colonos”. Ele conclui que o trigo, a cevada, a aveia, etc. são provenientes de várias espécies hoje extintas, ou de tal modo alteradas que escapam à identificação; neste caso, afirma ele: “O homem deve ter cultivado cereais desde um período consideravelmente remoto.” Tanto as regiões em que essas espécies extintas floresceram, como a civilização que as cultivou por meio de inteligente seleção, foram ambas supridas pelo continente perdido, cujos colonizadores transportavam-nas para o leste e para o oeste.

Terceira Categoria

Da flora e da fauna, voltamo-nos agora para o homem:

Língua

O idioma basco mantém-se isolado entre as línguas européias, não tendo afinidade com nenhuma delas. De acordo com Farrar, “nunca houve alguma dúvida de que esta língua diferente, preservando sua identidade num recanto ocidental da Europa, entre dois poderosos reinos, assemelha-se, em sua estrutura, às línguas aborígines do vasto continente oposto (América), e apenas a estas” (Families of Speech, p. 132).

Ao que parece, os fenícios foram o primeiro povo do hemisfério oriental a usar o alfabeto fonético, sendo seus caracteres considerados simples sinais para os sons. É um fato curioso que, em data igualmente remota, encontremos um alfabeto fonético na América Central, entre os maias do Yucatán, cujas tradições atribuem a origem de sua civilização a uma terra situada do outro lado do mar, para leste. Lê Plongeon, a maior autoridade neste assunto, escreve: “Um terço desta língua (o maia) é puro grego. Quem levou o dialeto de Homero para a América? Ou quem levou para a Grécia o dos maias? O grego descende do sânscrito. O maia também? Ou seriam eles contemporâneos?” Mais surpreendente ainda é encontrar treze letras do alfabeto maia apresentando uma nítida relação com os sinais hieroglíficos egípcios, referentes às mesmas letras. E provável que a forma mais primitiva do alfabeto fosse hieroglífica, “a escrita dos deuses”, como os egípcios a chamavam, que, mais tarde, na Atlântida, desenvolveu-se em fonética. Seria natural admitir que os egípcios foram uma antiga colônia da Atlântida (como realmente foram) e que levaram consigo o tipo primitivo de escrita, que assim deixou seus traços em ambos os hemisférios, ao passo que os fenícios, que eram navegadores, obtiveram e assimilaram a forma posterior do alfabeto durante suas viagens comerciais aos povos do oeste. Há mais um detalhe que deve ser mencionado, a saber, a extraordinária semelhança entre muitas palavras da língua hebraica e palavras, que mantêm exatamente o mesmo significado, do idioma dos Chiapenecs – um ramo da raça maia, entre os mais antigos da América Central. A lista dessas palavras encontra-se em North Americans of Antiquity, p. 475.

A similaridade de língua entre os diversos povos selvagens das ilhas do Pacífico foi utilizada como argumento por escritores que tratam desta matéria. A existência de línguas semelhantes entre raças separadas por léguas de oceano, que, no período histórico, não possuíam nenhum meio de transporte para atravessá-las, é certamente um argumento a favor da descendência de uma única raça, que ocupava um único continente. Contudo, este argumento não pode ser utilizado aqui, pois o continente em questão não era a Atlântida, mas a ainda mais remota Lemúria.

Tipos Etnológicos

Dizem que a Atlântida, como veremos, foi habitada pelas raças vermelha, amarela, branca e negra. Está agora provado, pelas pesquisas de Lê Plongeon, de De Quatrefages, de Bancroft e outros, que populações negras do tipo negróide existiram, até mesmo em épocas recentes, na América. Muitos dos monumentos da América Central são decorados com rostos negros, e alguns dos ídolos encontrados destinaram-se, nitidamente, a representar negros, com crânios pequenos, cabelos curtos e crespos e lábios grossos. O Popul Vuh, discorrendo sobre a primeira pátria do povo guatemalteco, diz que “homens negros e brancos” viviam juntos nessa terra feliz, “em grande paz”, falando “uma só língua”. (Ver Bancroft, Native Roces, p. 547.) O Popul Vuh prossegue, relatando como o povo emigrou de sua pátria ancestral, como sua língua se alterou e como alguns se dirigiram para o leste, enquanto outros viajaram para o oeste (para a América Central).

O professor Retzius, em seu Smithsonian Report, considera que os primitivos dolicocéfalos da América são quase parentes dos guanchos das ilhas Canárias e dos habitantes do litoral atlântico da África, aos quais Latham chama de atlantidae-egípcios. O mesmo formato de crânio é encontrado nas ilhas Canárias, distantes da costa africana, e nas Pequenas Antilhas, afastadas da costa americana, embora, em ambas, a cor da pele seja pardo-avermelhada.

Os antigos egípcios descreviam a si mesmos como homens vermelhos, com um aspecto muito semelhante ao encontrado atualmente entre algumas tribos de índios americanos.

“Os antigos peruanos”, diz Short, “pelos numerosos exemplares de cabelos encontrados em suas tumbas, parecem ter sido uma raça ruiva.”

Um fato notável a respeito dos índios americanos, que constitui um enigma constante para os etnólogos, é a grande variação de cor e de compleição verificada entre eles. Da cor branca das tribos Me-nominee, Dacota, Mandan e Zuni, muitas das quais possuem cabelos ruivos e olhos azuis, até quase a negrura da raça negra dos Karos do Kansas e das já extintas tribos da Califórnia, as raças índias passam por todas as variações de vermelho-acastanhado, cobre, verde-oliva, canela e bronze. (Ver Short, North Amerícans of Antiquity, Win-chell, Pre-Adamites e, Catlin, Indians of North America’, ver também Atlantis, de Ignatius Donnelly, que coletou grande número de dados sobre este e outros assuntos.) Veremos dentro em pouco como a diversidade de compleição no continente americano é explicada pelos originais matizes da raça da Atlântida, o continente materno.

Quarta Categoria

No México e no Peru, nada parece ter surpreendido mais os primeiros aventureiros espanhóis do que a extraordinária similaridade entre as crenças religiosas, os rituais e os emblemas, estabelecidos no Novo Mundo, e aqueles do Velho Mundo. Os padres espanhóis viam essa similaridade como uma obra do demônio. O culto da cruz pelos nativos, bem como sua presença constante em todas as edificações e cerimônias religiosas, era a causa principal do seu assombro; na verdade, em parte alguma – nem mesmo na índia e no Egito – este símbolo era motivo de tanta veneração do que entre as tribos primitivas dos continentes americanos, embora o significado básico de seu culto fosse idêntico. No Ocidente, como no Oriente, a cruz era o símbolo da vida – às vezes, da vida física, mais amiúde, da vida eterna.

Do mesmo modo, em ambos os hemisférios os cultos do disco ou círculo solar e da serpente eram universais. Mais surpreendente ainda é a similaridade do significado da palavra “Deus” nas principais línguas do Oriente e do Ocidente. Compare o sânscrito “Dy-aus” ou “Dyauspitar”, o grego “Theos” e Zeus, o latino “Deus” e Júpiter, o celta “Dia” e “Ta”, pronunciado “Thyah” (aparentando afinidade com o egípcio Tau), o hebraico “Jah” ou “Yah” e, por fim, o mexicano “Teo” ou “Zeo”.

Os rituais de batismo foram praticados por todas as nações. Na Babilônia e no Egito, os candidatos à iniciação nos Mistérios eram, antes de tudo, balizados. Tertuliano, em seu De Baptismo, afirma que, aos balizados era prometido “a regeneração e o perdão de todos os perjúrios”. As nações escandinavas praticavam o batismo de crianças recém-nascidas; e se nos voltarmos para o México e o Peru, encontraremos o batismo de crianças como um cerimonial solene, consistindo de aspersão de água, do sinal da cruz e de orações para que o pecado fosse levado (lavado) pela água (ver Humboldt, Mexican Researches, e Prescott, México).

Além do batismo, as tribos do México, da América Central e do Peru assemelhavam-se às nações do Velho Mundo em seus rituais de confissão, absolvição, jejum e casamento, realizados por sacerdotes através da união das mãos. Elas praticavam até mesmo uma cerimônia semelhante à Eucaristia, na qual comiam bolos com a marca do Tau (uma forma egípcia de cruz). O povo chamava esses bolos de carne de seu Deus, o que os assemelha aos bolos sagrados do Egito e de outras nações orientais. Do mesmo modo que essas nações, os povos do Novo Mundo também possuíam ordens monásticas, masculinas e femininas, nas quais a quebra dos votos era punida com a morte. Tal como os egípcios, eles embalsamavam seus mortos, cultuavam o sol, a lua e os planetas, mas, além disso, adoravam uma Divindade “onipresente, conhecedora de todas as coisas… invisível, incorpórea, um Deus de completa perfeição” (ver Sa-hagun, Historia de Nueva Espana, livro VI).

Também tinham sua deusa virgem-mãe, a “Nossa Senhora”, cujo filho, o “Senhor da Luz”, era chamado “Salvador”, o que vem estabelecer uma correspondência exata com Isis, Béltis e muitas outras deusas-virgens do Oriente, com seus filhos divinos.

Seus rituais do sol e culto do fogo assemelhavam-se aos dos antigos celtas da Grã-Bretanha e da Irlanda – e, tal como estes últimos, denominavam-se “filhos do sol”. Uma arca, ou argha, era um dos símbolos sagrados universais, que encontramos tanto na índia, na Caldéia, na Assíria, no Egito e na Grécia, como entre os povos celtas. Lord Kingsborough, em sua obra Mexican Antiquities (vol. VIU, p. 250), afirma: “Assim como entre os hebreus a arca era uma espécie de templo portátil, onde, acreditava-se, a divindade estava continuamente presente, também entre os mexicanos, cheroquis e índios de Michoacán e Honduras, a arca era objeto da mais profunda veneração, considerada tão sagrada que só os sacerdotes podiam tocá-la.”

Quanto à arquitetura religiosa, descobrimos que, em ambas as margens do Atlântico, uma das mais antigas edificações sagradas é a pirâmide. Por mais obscuros que sejam os usos para os quais essas construções foram originalmente projetadas, uma coisa é certa: estavam estreitamente vinculadas a alguma idéia ou conjunto de idéias religiosas. A identidade do traçado entre as pirâmides do Egito e as do México e da América Central é por demais surpreendente para ser uma simples coincidência. De fato, algumas das pirâmides americanas – a maioria – terminam abruptamente, com um topo achatado; contudo, segundo Bancroft e outros, muitas das pirâmides encontradas em Yucatán, particularmente aquelas próximas a Palenque, possuem um topo pontiagudo, no mais genuíno estilo egípcio, ao passo que, por outro lado, temos algumas pirâmides egípcias em forma de escada e com o topo achatado. Cholula foi comparada aos grupos de Dachour, de Sakkara e à pirâmide escalonada de Mé-dourn. Semelhantes em orientação, em estrutura e mesmo nas galerias e câmaras internas, esses misteriosos monumentos do Oriente e do Ocidente atestam uma origem comum, a partir da qual seus construtores traçaram seus projetos.

As imensas ruínas de cidades e templos no México e Yucatán estranhamente também se assemelham às do Egito, sendo as ruínas de Teotihuacán freqüentemente comparadas às de Karnak. O “arco falso” – fiadas de pedras, levemente sobrepostas umas às outras – é encontrado, com a mesma forma, na América Central, nas mais antigas construções da Grécia e nas ruínas etruscas. Os maund builders, tanto dos continentes orientais como ocidentais, ergueram túmulos semelhantes para seus mortos, os quais foram depositados em esquifes de pedra também semelhantes. Ambos os continentes possuem seus enormes mounds da serpente; compare-se o do condado de Adams, em Ohio, com o primoroso mound da serpente descoberto em Argyllshire, ou com o exemplar menos perfeito de Avebury, em Wilts. Até mesmo a escultura e a decoração dos templos da América, do Egito e da índia têm muito em comum, enquanto algumas das decorações murais são absolutamente idênticas.

Quinta Categoria

Só resta agora resumir alguns depoimentos prestados pelos antigos e alguns dados extraídos das tradições de povos primitivos e das antigas lendas diluvianas.

Aelian, em sua Varia Historia (vol. Hl, cap. XVm) afirma que Teopompo (400 a.C.) registrou um encontro entre o rei da Frigia e Sileno, no qual este último referiu-se à existência de um grande continente do outro lado do Atlântico, maior que a Ásia, a Europa e a Líbia juntas.

Proclo cita um trecho de um antigo escritor que se refere às ilhas existentes no mar que ficava do outro lado das Colunas de Hércules (Estreito de Gibraltar), afirmando que os habitantes de uma dessas ilhas possuíam uma crença, que lhes fora legada por seus antepassados, a respeito de uma enorme ilha, chamada Atlântida, que, por um longo tempo, governou todas as ilhas do oceano Atlântico.

Marcelo menciona sete ilhas no Atlântico e afirma que seus habitantes conservam a lembrança de uma ilha muito maior, a Atlântida, “a qual, por longo tempo, exerceu domínio sobre as ilhas menores”.

Diodoro de Sicília relata que os fenícios descobriram “uma grande ilha no oceano Atlântico, além das Colunas de Hércules, a vários dias de viagem da costa africana”.

Contudo, a maior autoridade nesse assunto é Platão. No Timeu ele alude ao continente insulano, enquanto o Crítias ou Atlântico é nada menos que um relato detalhado da história, artes, usos e costumes do povo. No Timeu ele menciona “uma poderosa força bélica, partindo do mar Atlântico e alastrando-se com fúria hostil por toda a Europa e Ásia. Por esse tempo, o mar Atlântico era navegável e havia uma ilha antes da desembocadura que é chamada por vocês de Colunas de Hércules. Mas essa ilha era muito maior do que a Líbia e toda a Ásia juntas, e proporcionava fácil acesso às outras ilhas vizinhas. Além disso, era igualmente fácil passar daquelas ilhas para todos os continentes que se limitavam com o mar Atlântico”.

O Crítias fornece tantos dados valiosos que se torna difícil selecioná-los; o trecho abaixo, por exemplo, menciona as riquezas materiais do país: “Eles também tinham todas as coisas necessárias à subsistência, as quais, tanto numa cidade como em qualquer outro lugar, são tidas como benéficas aos propósitos da vida. Na verdade, em virtude de seu extenso império, supriam-se de muitas coisas provenientes dos países estrangeiros; mas a ilha fornecia-lhes a maior parte de tudo o que necessitavam. Em primeiro lugar, a ilha provia-os de minerais extraídos do solo em estado sólido, dos quais alguns eram fundidos; o oricalco, que hoje em dia raramente é mencionado, mas que outrora era muito conhecido, também era extraído do solo em muitas partes da ilha, sendo considerado o mais nobre dos metais, à exceção do ouro. Além disso, tudo quanto as florestas forneciam para os construtores, a ilha produzia em abundância. Havia, outrossim, suficientes pastagens para animais selvagens e domésticos, bem como um número prodigioso de elefantes. Havia pastagens para todos esses animais, que se alimentavam nos lagos, rios, montanhas e planícies. Do mesmo modo, havia alimento suficiente para as espécies maiores e mais vorazes de animais. Além disso, todos os tipos de odoríferos que a terra, atualmente, nutre, sejam raízes, gramíneas, bosques, sucos, resinas, flores ou frutos – isso tudo a ilha produzia, e fartamente.”

Os gauleses possuíam costumes da Atlântida, os quais foram compilados pelo historiador romano Timagenes, que viveu no século I a.C. Parece que três povos distintos habitaram a Gália. A princípio, populações indígenas (provavelmente os remanescentes de alguma raça lemuriana); em segundo lugar, os invasores provenientes da longínqua ilha de Atlântida e, em terceiro, os gauleses áricos (ver Pre-Adamites, p. 380).

Os toltecas do México reconstituíram seu próprio passado a partir de um marco inicial chamado Atlan ou Aztlan; os astecas também sustentaram ter se originado de Aztlan (ver Bancroft, Native Roces, vol. 5, pp. 221 e 321).

O Popul Vuh (p. 294) menciona uma visita que os três filhos do rei dos Quichés fizeram a uma terra “no leste, situada nas costas do mar de onde tinham vindo seus pais”, da qual trouxeram, entre outras coisas, “um sistema de escrita” (ver também Bancroft, vol. V, p. 553).

Entre os índios da América do Norte, há uma lenda muito popular, segundo a qual seus antepassados vieram de uma terra situada “na direção do nascer do sol”. Segundo o Major J. Lind, os índios de lowa e Dacota acreditavam que “todas as tribos de índios tinham sido, outrora, uma só tribo e que, juntas, haviam habitado uma ilha . situada na direção do nascer do sol”. Dali, elas atravessaram o mar “em enormes esquifes, nos quais os dacotas do passado flutuaram durante semanas, para finalmente alcançarem a terra firme”.

Os livros centro-americanos afirmam que uma parte do continente americano estendia-se para bem distante, oceano Atlântico adentro, e que essa região foi destruída por uma série de terríveis cataclismos, separados por longos intervalos. Três deles são freqüentemente mencionados (ver Baldwin, Anciení America, p. 176). Uma curiosa confirmação disso encontra-se numa lenda dos celtas da Grã-Bretanha, segundo a qual uma parte de seu país, que outrora estendia-se Atlântico adentro, foi destruída. Três catástrofes são mencionadas nas tradições galesas.

Diz-se que Quetzalcóatl, a divindade mexicana, veio do “oriente distante”. Ele é descrito como um homem branco, com uma enorme barba (os indígenas da América do Norte e do Sul são imberbes). Ele criou as letras e organizou o calendário mexicano. Depois de ensinar-lhes muitas artes e lições pacíficas, ele partiu para o leste, numa canoa feita de couro de serpente (ver Short, North Americans of Antiquity, pp. 268-271). A mesma história é contada a respeito de Zamna, o criador da civilização em Yucatán.

Resta apenas tratar da admirável uniformidade das lendas diluvianas em todas as partes do globo. Quer sejam antigas versões da história da Atlântida desaparecida e de sua submersão, ou eco de uma importante parábola cósmica outrora ensinada e mantida em reverência em algum centro comum, de onde se difundiram por todo o mundo, isso não nos diz respeito no momento. Por enquanto, basta-nos demonstrar a aceitação universal dessas lendas. Seria um desperdício inútil de tempo e espaço examinar, minuciosamente e uma a uma, essas lendas diluvianas. Basta dizer que na índia, na Caldéia, na Babilônia, na Média, na Grécia, na Escandinávia, na China, entre os hebreus e entre as tribos celtas da Grã-Bretanha, a lenda é absolutamente idêntica em seus pontos essenciais. E o que encontraremos, se nos voltarmos para o Ocidente? A mesma história, preservada em todos os detalhes pelos mexicanos (cada tribo tendo a sua versão), pelos povos da Guatemala, Honduras, Peru e por quase todas as tribos de índios norte-americanos. Seria ingênuo sugerir que a mera coincidência explicaria essa identidade fundamental.

O trecho abaixo transcrito, extraído da tradução de Lê Plongeon do célebre Manuscrito Troano, que pode ser visto no Museu Britânico, certamente proporcionará uma conclusão adequada a esta questão. O Manuscrito Troano parece ter sido escrito há cerca de 3.500 anos, entre os maias do Yucatán, e sua descrição da catástrofe que submergiu a ilha de Posseidones é a seguinte: “No ano 6 Kan, no II9 Muluc do mês Zac, ocorreram terríveis terremotos, que con- tinuaram, sem interrupção, até o 13- Chuen. A região das colinas de lodo, a terra de Mu, foi sacrificada: sendo erguida por duas vezes, desapareceu de súbito durante a noite, enquanto a bacia era continuamente sacudida por forças vulcânicas. Estas, confinadas, fizeram a terra afundar e erguer-se diversas vezes e em vários lugares. Por fim, a superfície cedeu e dez regiões foram violentamente separadas e dizimadas. Incapazes de resistir à força das convulsões, afundaram, com seus 64.000.000 de habitantes, 8.060 anos antes de este livro ser escrito.”

Hoje, porém, tem sido devotado espaço suficiente aos fragmentos de depoimentos – todos mais ou menos convincentes – que estão, até agora, em poder da Humanidade. Aos interessados em se dedicar a uma Unha especial de investigação, as várias obras acima mencionadas ou citadas poderão ser consultadas.

O assunto em questão agora poderá ser abordado. Os fatos aqui coletados, extraídos, como foram, de registros contemporâneos que, por sua vez, foram compilados e transmitidos através das épocas que teremos de abordar, não se baseiam em hipóteses ou conjecturas. O autor pode não ter alcançado uma compreensão exata dos fatos e, portanto, pode tê-los desfigurado parcialmente. Contudo, os registros originais poderão ser examinados por aqueles que se encontram devidamente qualificados, e os que estão dispostos a empreender o treinamento necessário poderão conseguir licença para examinar e conferir.

Todavia, ainda que todos os registros ocultos fossem acessíveis à nossa inspeção, é preciso compreender que um esboço que tenta resumir numas poucas páginas a história de raças e nações, cujo desenvolvimento se estende, pelo menos, durante centenas de milhares de anos, não poderia deixar de ser fragmentário. Entretanto, qualquer relato acerca desse assunto – ainda que desconexo – não deixa de ser algo inédito e, portanto, de amplo interesse para a Humanida- de em geral.

Entre os documentos acima mencionados, há mapas referentes a vários períodos da história da Humanidade, e a permissão de obter cópias – mais ou menos completas – de quatro desses mapas foi o grande privilégio do autor. Todos os quatro retraíam a Atlântida e as terras adjacentes em diferentes épocas da sua história. Essas épocas correspondem, aproximadamente, aos períodos que medeiam as catástrofes acima mencionadas e, a esses períodos assim representados pelos quatro mapas associar-se-ão, naturalmente, os registros da raça atlante.

Entretanto, antes de iniciar a história da raça, seriam úteis algumas observações a respeito da geografia das quatro diferentes épocas:


O primeiro mapa representa a superfície terrestre do globo há cerca de um milhão de anos, quando a raça atlante estava em seu apogeu e antes da ocorrência da primeira grande submersão, cerca de 800.000 anos atrás. O próprio continente da Atlântida, como se pode observar, estendia-se desde um ponto situado alguns graus a leste da Islândia até mais ou menos o local onde hoje fica o Rio de Janeiro, na América do Sul. Abrangendo o Texas e o golfo do México, os estados do sul e do leste da América, inclusive o Labrador, ele estendia-se através do oceano até as ilhas européias – Escócia e Irlanda e uma pequena porção do norte da Inglaterra, formando um de seus promontórios -, enquanto suas regiões equatoriais abrangiam o Brasil e toda a extensão do oceano, até a Costa do Ouro, na África. Os fragmentos dispersos de que, finalmente, se formaram os continentes da Europa, da África e da América, bem como os vestígios do ainda mais antigo e outrora extenso continente da Lemúria, também podem ser vistos nesse mapa. Os vestígios do ainda mais remoto continente hiperbóreo, que foi habitado pela segunda raça-raiz, também são visíveis e, tal como a Lemúria, em cor azul.

Como se pode observar pelo segundo mapa, a catástrofe de 800.000 anos atrás provocou grandes alterações na configuração terrestre do globo. O grande continente está agora despojado de suas regiões setentrionais, e sua porção remanescente encontra-se mais dilacerada ainda. O continente americano, agora em fase de crescimento, está separado de seu continente materno, por uma falha, a Atlântida, e esta já não abrange as terras ora existentes, mas ocupa a maior parte da depressão atlântica, desde mais ou menos 50° de latitude norte até uns poucos graus ao sul do equador. Os assentamentos e elevações da superfície terrestre em outras partes do globo também foram consideráveis – as ilhas Britânicas, por exemplo, agora fazem parte de uma imensa ilha, que também abrange a península escandinava, o norte da França, todos os mares intermediários e alguns mares circundantes. Pode-se constatar que as extensões dos vestígios da Lemúria sofreram mutilações ainda maiores, enquanto a Europa, a África e a América tiveram seus territórios acrescidos.

map_3.jpg

O terceiro mapa mostra os efeitos da catástrofe ocorrida há mais ou menos 200.000 anos. Com exceção das fendas nos continentes atlante e americano e a submersão do Egito, pode-se observar como os assentamentos e as elevações da superfície terrestre nessa época foram relativamente insignificantes; na verdade, o fato de esta catástrofe nunca ter sido considerada como uma das maiores transparece no trecho acima transcrito do livro sagrado dos guatemaltecos -onde apenas três grandes catástrofes são mencionadas. Contudo, a ilha escandinava aparece, agora, unida ao continente. A Atlântida encontra-se agora dividida, formando duas ilhas, conhecidas pelos nomes de Ruta e Daitya.

map_4.jpg

O caráter extraordinário da convulsão natural que ocorreu há cerca de 80.000 anos fica evidenciado pelo quarto mapa. Daitya, a menor e mais meridional das ilhas, já desapareceu quase totalmente, ao passo que, de Ruta, apenas resta uma ilha relativamente pequena, Posseidones. Este mapa foi compilado há cerca de 75.000 anos e, sem dúvida, representa razoavelmente a superfície terrestre do globo, desde esse período até a submersão definitiva de Posseidones, em 9564 a.C., embora, durante esse período, devam ter ocorrido pequenas alterações. Notar-se-á que os contornos da superfície terrestre começaram, então, a assumir, aproximadamente, a mesma aparência que possuem hoje, embora as ilhas Britânicas ainda estivessem unidas ao continente europeu, o mar Báltico não existisse e o deserto do Saara formasse uma parte do fundo do oceano.

Quando se aborda a formação de uma raça-raiz é indispensável alguma referência à temática bastante mística acerca dos Manus. No Relatório nº 26 da Loja Maçônica de Londres, fez-se uma referência ao trabalho realizado por esses Seres sublimes, que abrange não só o planejamento dos tipos de todo o Manvantara como também supervisiona a formação e educação de cada raça-raiz, sucessivamente. O seguinte trecho refere-se a esse plano: “Também há os Manus, cujo dever consiste em atuar de modo semelhante em cada raça-raiz de cada Planeta do Círculo, o Manu-Semente, planejando o aperfeiçoamento do tipo que cada sucessiva raça-raiz inaugura, e o Manu-Raiz, realmente encarnando entre a nova raça na qualidade de guia e mestre, a fim de dirigir o desenvolvimento e garantir o aperfeiçoamento.”

A maneira pela qual a necessária segregação das espécimes selecionadas é efetuada pelo Manu encarregado, bem como seu subsequente cuidado com a comunidade em desenvolvimento, pode ser abordada num futuro relatório. Uma informação bastante simples quanto ao modo de proceder será suficiente aos nossos propósitos.

Foi, naturalmente, de uma das sub-raças da terceira raça-raiz, que habitava o continente conhecido pelo nome de Lemúria, que se efetuou a segregação destinada a produzir a quarta raça-raiz.

A fim de acompanhar as principais etapas do processo histórico dessa raça, através dos quatro períodos representados pelos quatro mapas, convém dividir o assunto nos seguintes tópicos:

1. Origem e localização territorial das diferentes sub-raças.
2. As instituições políticas que, respectivamente, elas desenvolveram.
3. Suas migrações para outras partes do mundo.
4. As artes e ciências desenvolvidas.
5. Os usos e costumes adotados.
6. O desenvolvimento e o declínio de idéias religiosas.

Em primeiro lugar, portanto, uma lista dos nomes das diferentes sub-raças:

1. Rmoahal
2. Tlavatli
3. Tolteca
4. Turaniana primitiva
5. Semita original
6. Acadiana
7. Mongólica

Faz-se necessária uma explicação acerca do princípio pelo qual esses nomes são escolhidos. Nos casos em que os etnólogos atuais descobriram vestígios de uma dessas sub-raças, ou mesmo identificado pequena parte de uma delas, o nome que lhes deram é utilizado a bem da clareza; contudo, no caso das duas primeiras sub-raças, dificilmente foram deixados quaisquer vestígios para que a ciência deles se apoderasse e, desse modo, foram adotados os nomes pelos quais elas mesmas se designavam.

O período representado pelo Mapa nº l mostra como era a superfície terrestre do globo há cerca de um milhão de anos, mas a raça rmoahal surgiu há quatro ou cinco milhões de anos, no período em que grandes porções do vasto continente meridional da Lemúria ainda existiam, enquanto o continente da Atlântida não havia assumido as dimensões que, finalmente, atingiria. Foi num contraforte desta terra lemuriana que a raça rmoahal nasceu. Pode-se localizá-lo, aproximadamente, a 7° de latitude norte e 5° de longitude oeste, e uma consulta a qualquer atlas moderno revelará que sua localização coincide com a atual costa de Achanti. Era uma região quente e chuvosa, habitada por enormes animais antediluvianos, que viviam em pântanos juncosos e florestas tímidas. Os fósseis dessas plantas atualmente são encontrados nas jazidas de carvão. Os nnoahals eram uma raça morena – sendo sua pele da cor do mogno. Sua altura, naqueles tempos remotos, era de, aproximadamente, 3 a 3,5 m – na verdade, uma raça de gigantes – mas, ao longo dos séculos, sua estatura foi gradualmente diminuindo, tal como se deu com todas as outras raças, e, mais tarde, vamos encontrá-los reduzidos à estatura do “homem de Furfooz”. Por fim, migraram para as costas meridionais da Atlântida, onde travaram contínuos combates com as sexta e sétima sub-raças dos lemurianos, que então habitavam essa região. Em seguida, uma grande parte da tribo mudou-se para o norte, enquanto o restante estabeleceu-se no local e uniu-se aos aborígines lemurianos negros. Como consequência, não restou, neste período – o período do primeiro mapa -, nenhuma linhagem pura no sul e, como veremos, foi dessas raças morenas, que habitavam as regiões equatoriais e o extremo sul do continente, que os conquistadores toltecas subseqüentemente se abasteciam de escravos. Contudo, o restante da raça alcançou os promontórios do extremo nordeste, contíguos à Islândia, e, vivendo nessa região por incontáveis gerações, foi aos poucos assumindo uma coloração mais clara, até que, no final do período do primeiro mapa, deparamo-nos com um povo razoavelmente louro. Posteriormente, seus descendentes tornaram-se súditos, ao menos nominalmente, dos reis semitas.

O fato de terem habitado nessa região por inúmeras gerações não implica que aí se tenham estabelecido ininterruptamente, pois certos fatores os obrigavam, de tempos em tempos, a se dirigirem para o sul. Sem dúvida, o frio das épocas glaciais influiu de modo semelhante sobre as outras raças; contudo, a fim de evitar digressões, apenas algumas informações devem ser aqui incluídas.

Sem entrar na questão das diferentes rotações que a Terra executa, ou da variação de graus da deslocação de sua órbita, cuja combinação é, às vezes, considerada a causa das épocas glaciais, o fato é que – como já foi admitido por alguns astrônomos – uma curta época glacial ocorre, aproximadamente, a cada 30.000 anos. Além dessas, porém, houve duas ocasiões na história da Atlântida em que a grande extensão de gelo despovoou, não só as regiões setentrionais, como também, ao invadir a maior parte do continente, forçou todos os seres vivos a migrar para as terras equatoriais. A primeira delas ocorreu durante a época dos rmoahals, há cerca de 3.000.000 de anos, e a segunda, durante o domínio dos toltecas, cerca de 850.000 anos atrás.

No que se refere a todas as épocas glaciais, deve-se dizer que, embora os habitantes das terras setentrionais tenham sido forçados a migrar, durante o inverno, para o sul, afastando-se da zona de gelo, era nessa zona que ficavam os grandes povoados, para os quais podiam retomar no verão e onde, devido à caça, acampavam até que o frio do inverno os forçasse a se dirigir novamente para o sul.

O lugar de origem dos tlavatli, ou segunda sub-raça, foi uma ilha ao largo da costa ocidental da Atlântida. O local está assinalado no primeiro mapa com o algarismo 2. Dali eles se espalharam pela Atlântida propriamente dita, sobretudo através do centro do continente, deslocando-se, contudo, gradualmente para o norte, em direção à faixa litorânea voltada para o promontório da Groenlândia. Fisicamente, constituíam uma raça robusta e resistente, de cor vermelho- acastanhada, mas não tão altos quanto aos rmoahals, a quem impeliram mais ainda para o norte. Sempre foram um povo amante das montanhas, e seus principais povoados situavam-se nas regiões montanhosas do interior. Comparando-se os Mapas l e 4, verificar-se-á que sua localização era mais ou menos contínua à região que, mais tarde, tornou-se a ilha de Posseidones. Neste período do primeiro mapa, eles também ocuparam – como já foi mencionado – as costas setentrionais, enquanto uma mistura de raça tlavatli com a tolteca habitava as ilhas ocidentais, que, mais tarde, participaram da formação do continente americano.

A seguir, temos a raça tolteca, ou terceira sub-raça, que constituiu um desenvolvimento esplêndido. Governou todo o continente da Atlântida por milhares de anos, com grandes recursos materiais e muito brilho. Na verdade, esta raça era de tal modo dominante e dotada de vitalidade, que as uniões com as sub-raças vizinhas não conseguiram alterar-lhe o tipo, que ainda permaneceu essencialmente tolteca; e, centenas de milhares de anos mais tarde, encontramos uma de suas remotas linhagens governando, magnificamente, no México e Peru, muito., anos antes que seus degenerados descendentes fossem conquistados pelas mais ferozes tribos astecas do norte.

Essa raça também tinha uma pele vermelho-acastanhada, embora fosse mais vermelha, ou mais acobreada, que a dos tlavatli. Sua estatura também era elevada, medindo em torno de 2,5 m durante o período de seu domínio absoluto; contudo, assim como ocorreu com todas as raças, foi sofrendo uma redução, até atingir o tamanho médio de hoje em dia. O tipo foi um aperfeiçoamento das duas sub-raças anteriores, possuindo uma feição séria, bastante acentuada, bem parecida com a dos antigos gregos. O lugar aproximado de origem dessa raça pode ser observado no primeiro mapa, assinalado com o algarismo 3. Sua localização ficava perto da costa ocidental da Atlântida, a cerca de 30° de latitude norte, e, toda a região circunvizinha, incluindo a maior parte da costa ocidental do continente, foi habitada por uma raça tolteca pura. Contudo, como veremos ao tratarmos da organização política, seu território finalmente ampliou-se por todo o continente, e foi de sua grande capital, situada na costa oriental, que os imperadores toltecas estenderam seu domínio a quase todas as nações.

Essas três primeiras sub-raças são conhecidas como as “raças vermelhas” e, entre elas e as quatro seguintes, não houve, a princípio, muita mistura de sangue. Essas quatro, embora diferindo consideravelmente entre si, foram chamadas de “amarelas”, e esta cor pode caracterizar de maneira apropriada a tez dos turanianos e mongólicos, mas os semitas e acadianos eram brancos.

A turaniana, ou quarta sub-raça, originou-se no lado oriental do continente, ao sul da região montanhosa habitada pelo povo tlavatli. Esse local está assinalado, no Mapa n2 l, com o algarismo 4. Desde sua origem, os turanianos eram colonizadores e muitos deles migraram para as terras situadas a leste da Atlântida. Nunca foram uma raça completamente dominante no seu continente de origem, embora algumas de suas tribos e linhagens tenham se tornado razoa- velmente poderosas. As grandes regiões centrais do continente, situadas a oeste e ao sul da região montanhosa dos tlavatlis, constituíam seu habitat especial, embora não exclusivo, pois repartiam essas terras com os toltecas. As curiosas experiências políticas e sociais realizadas por essa sub-raça serão abordadas mais adiante.

Quanto à semita original, ou quinta sub-raça, os etnólogos têm estado um tanto confusos, como de fato é extremamente natural que estejam, considerando os dados por demais insuficientes que possuem para se orientar. Essa sub-raça surgiu na região montanhosa que formava a mais meridional das duas penínsulas nordésteas, as quais, como vimos, correspondem, atualmente, à Escócia, à Irlanda e a alguns dos mares adjacentes. No Mapa n- l, o local está assinalado com o algarismo 5. Nesta menos atraente porção do grande continente a raça se desenvolveu e floresceu, mantendo-se durante séculos independente dos agressivos reis sulistas, até que, aos poucos e em grupos, começaram a se espalhar em várias direções e a colonizar outras regiões. É preciso lembrar que, na época em que os semitas subiram ao poder, centenas de milhares de anos haviam transcorrido e o período do segundo mapa já havia sido atingido. Eram uma raça turbulenta e descontente, sempre em guerra com seus vizinhos, sobretudo com o império cada vez mais amplo dos acadianos.

O lugar de origem da sub-raça acadiana, ou sexta sub-raça, será encontrado no Mapa nº 2 (assinalado com o algarismo 6), pois foi após a grande catástrofe de 800.000 anos atrás que esta raça surgiu. O local ficava na região oriental da Atlântida, mais ou menos no centro da grande península, cuja extremidade sudeste estendia-se em direção ao velho continente. Pode-se localizá-lo aproximadamente a 42° de latitude norte e a 10° de longitude leste. Contudo, os acadianos não permaneceram por muito tempo em sua terra de origem, invadindo o continente da Atlântida, que, nessa época, já sofrera uma redução de suas dimensões. Eles travaram inúmeras batalhas terrestres e navais com os semitas, onde foi utilizado um grande número de frotas pelos dois combatentes. Por fim, há cerca de 100.000 anos, derrotaram definitivamente os semitas e, a partir de então, estabeleceram uma dinastia acadiana na antiga capital semita e, durante séculos, governaram o país com sabedoria. Tornaram-se grandes comerciantes, navegadores e colonizadores, estabelecendo muitos núcleos que serviam de pontos de ligação com terras distantes.

A sub-raça mongólica, ou sétima sub-raça, parece ter sido a única que não teve absolutamente nenhum contato com seu continente de origem. Originária das planícies da Tartária (local assinalado com o algarismo 7, no segundo mapa), a cerca de 63° de latitude norte e 140° de longitude leste, desenvolveu-se diretamente dos descendentes da raça turaniana, a quem suplantou paulatinamente por quase toda a Ásia. Essa sub-raça multiplicou-se de tal modo que, hoje em dia, a maior parte dos habitantes da Terra pertencem, tecnicamente, a ela, embora muitas de suas subdivisões estejam tão profundamente alteradas com o sangue de raças mais primitivas que mal se distinguem delas.

Instituições Políticas

Num resumo como este seria impossível descrever como cada sub-raça se subdividiu, posteriormente, em nações, cada qual com seu tipo e características distintos.

Tudo o que se pode tentar aqui é esboçar, em linhas gerais, a variedade de instituições políticas que se sucederam ao longo das grandes épocas da raça.

Embora reconhecendo que cada sub-raça, bem como cada raça-raiz, está destinada a permanecer, em alguns aspectos, num nível mais elevado do que aquela que a antecedeu, a natureza cíclica do desenvolvimento deve ser compreendida como um condutor da raça à semelhança do homem que, passando pela infância, juventude e atingindo a maturidade, retorna de novo à infância da velhice. Evolução significa, necessariamente, máximo progresso, ainda que o retrocesso de sua espiral ascendente pareça fazer da história da política ou da religião um relato não só do desenvolvimento e do progresso, mas também da degradação e da decadência.

Portanto, quando se afirma que a primeira sub-raça iniciou-se sob a mais perfeita forma de governo concebível, deve-se compreender que isso se deu antes em virtude das necessidades de sua infância do que dos méritos de sua maturidade. Os rmoahals eram incapazes de desenvolver um programa de governo fixo, e tampouco atingiram um nível de civilização tão elevado quanto o alcançado pelas sexta e sétima sub-raças lemurianas. Contudo, o Manu que efetuou a segregação encarnou, de fato, na raça e governou-a como rei. Até mesmo quando deixava de ter uma participação efetiva no governo da raça, governantes Adeptos ou Divinos, quando os tempos assim o exigiam, ainda garantiam o futuro da comunidade em sua tenra idade. Como é do conhecimento dos estudantes de Teosofia, nossa humanidade ainda não atingira o necessário estágio de desenvolvimento que lhe permitisse gerar Adeptos inteiramente iniciados. Portanto, os governantes acima mencionados, inclusive o próprio Manu, eram, necessariamente, fruto da evolução em outros sistemas de mundos.

O povo tlavatli mostrou alguns sinais de avanço na arte de governar. Suas várias tribos ou nações eram governadas por chefes ou reis que, geralmente, eram investidos de sua autoridade através da aclamação do povo. Naturalmente, os indivíduos mais vigorosos e os guerreiros mais destemidos eram, então, os escolhidos. Um império considerável finalmente se estabeleceu entre eles, onde um rei tornou-se o chefe nominal, embora sua suserania consistisse mais num título honorário do que numa autoridade real.

Foi a raça tolteca que desenvolveu o mais alto grau de civilização e organizou o mais poderoso império de todos os povos atlantes, estabelecendo pela primeira vez o princípio da sucessão hereditária. A princípio, a raça dividiu-se em vários e pequenos reinos independentes, que lutavam constantemente entre si, e todos em guerra com os rmoahals-lemurianos do sul. Estes últimos foram gradualmente conquistados e dominados – muitas de suas tribos foram escravizadas. Entretanto, cerca de um milhão de anos atrás, esses reinos independentes uniram- se numa grande federação e reconheceram um imperador como chefe. Naturalmente, isso se deu através de grandes guerras, mas resultou em paz e prosperidade para a raça.

Deve ser lembrado que a Humanidade sempre foi dotada, em sua grande maioria, de atributos psíquicos e, nessa época, os indivíduos mais desenvolvidos tinham se submetido ao aprendizado necessário nas escolas de ocultismo, tendo obtido vários estágios de iniciação – alguns, inclusive, haviam alcançado o grau de Adeptos. O segundo desses imperadores era um Adepto e, por milhares de anos, a dinastia Divina governou não só todos os reinos nos quais a Atlântida estava dividida, mas também as ilhas ocidentais e a porção meridional do território adjacente, situado a leste. Quando necessário, essa dinastia era fornecida pela Casa de Iniciados mas, por via de regra, o poder era legado de pai para filho, sendo todos mais ou menos qualificados; em alguns casos, o filho recebia um grau adicional das mãos do pai. Durante todo esse período, os governantes Iniciados mantiveram-se vinculados à Hierarquia Oculta que governa o mundo, submetendo-se às suas leis e atuando em harmonia com seus desígnios. Essa foi a idade de ouro da raça tolteca. O governo era justo e generoso; as artes e ciências eram cultivadas – na verdade, aqueles que trabalhavam nesses setores, guiados como foram pela ciência oculta, alcançaram resultados extraordinários; as crenças e rituais religiosos ainda eram relativamente puros – na verdade, a civilização da Atlântida alcançara, nessa época, seu apogeu.

Mais ou menos 100.000 anos após esta idade de ouro, iniciou-se a degeneração e o declínio da raça. Muitos dos reis tributários, e um grande número de sacerdotes e súditos, deixaram de usar suas faculdades e poderes de acordo com as leis estipuladas por seus governantes Divinos, cujos preceitos e conselhos eram agora desrespeitados. Seus vínculos com a Hierarquia Oculta se romperam. O engrandecimento pessoal, a obtenção de riqueza e poder, a humilhação e ruína de seus inimigos tornaram-se, cada vez mais, o alvo para o qual seus poderes ocultos estavam dirigidos: desse modo, afastados de seu emprego lícito e utilizados para a obtenção de todos os tipos de propósitos egoístas e malévolos, inevitavelmente esses poderes conduziram ao que devemos chamar de bruxaria.

Envolta como esta palavra está pelo ódio, cuja associação foi gradualmente produzida, durante séculos de superstição e ignorância, pela credulidade, por um lado, e pela impostura, por outro, consideremos por um momento seu significado real e as terríveis consequências que sua prática sempre acaba trazendo ao mundo.

Em parte por suas faculdades psíquicas, que ainda não tinham se extinguido nas profundezas da materialidade, para a qual a raça em seguida decaiu, e em parte por seus conhecimentos científicos, obtidos durante esse apogeu da civilização atlante, os membros mais intelectuais e vigorosos da raça foram aos poucos alcançando uma compreensão cada vez maior acerca da atuação das leis da Natureza, bem como um controle cada vez maior de algumas de suas forças ocultas. A profanação desse saber e seu emprego para fins egoístas é o que constitui a bruxaria. As terríveis consequências de tal profanação também estão suficientemente exemplificadas pelas horríveis catástrofes que se desencadearam sobre a raça. A partir do momento em que a magia negra foi posta em prática, ela estava destinada a se propagar em círculos cada vez mais amplos. Assim, uma vez afastado o guia espiritual supremo, o princípio kâmico, que era o quarto, atingiu naturalmente seu zênite durante a quarta raça-raiz, afirmando-se cada vez mais na Humanidade. A luxúria, a brutalidade e a ferocidade foram aumentando, e a natureza animal do homem foi assumindo seu aspecto mais abjeto. Desde os primórdios, o que dividiu a raça atlante em duas facções inimigas foi uma questão moral, e o que já havia começado na época dos rmoahals acentuou-se terrivelmente na era tolteca. A batalha de Armagedon é travada repetidas vezes em cada idade da história do mundo.

Deixando de se submeter ao sábio governo dos imperadores Iniciados, os seguidores da “magia negra” sublevaram-se e elegeram um imperador rival que, depois de muitas lutas e conflitos, expulsou o imperador branco de sua capital, a “Cidade dos Portais Dourados”, e assumiu o trono.

O imperador branco, expulso para o norte, reinstalou-se numa cidade fundada originalmente pelos tlavatli, na extremidade meridional da região montanhosa que, nessa época, era a sede de um dos reis tributários toltecas. Esse rei recebeu com alegria o imperador branco e colocou a cidade à sua disposição. Havia outros reis tributários que também permaneceram leais a ele, mas a maioria transferiu sua vassalagem ao novo imperador, que reinava na antiga capital. Entretanto, essa lealdade não durou muito tempo. Os reis tributáveis constantemente reivindicavam sua independência, e contínuas batalhas eram travadas em diferentes pontos do império, recorrendo-se largamente à prática de bruxaria a fim de suplementar os poderes de destruição que os exércitos possuíam.

Esses eventos ocorreram cerca de 50.000 anos antes da primeira grande catástrofe.

Dessa época em diante as coisas foram de mal a pior. Os bruxos usavam seus poderes de um modo cada vez mais arrojado, e um grupo cada vez maior de pessoas adquiria e praticava essa terrível “magia negra”.

Veio então a horrível punição, onde pereceram milhões e milhões de pessoas. A grande “Cidade dos Portais Dourados” tornara-se, nessa época, um perfeito antro de iniquidade. As ondas precipitaram-se sobre ela e exterminaram seus habitantes, e o imperador “negro” e sua dinastia caíram para sempre. O imperador do norte e os sacerdotes iniciados, de todas as partes do continente, há muito tempo estavam conscientes dos funestos dias que se aproximavam, e as páginas seguintes falarão das muitas migrações, lideradas pelos sacerdotes, que precederam esta catástrofe, bem como das que se deram em épocas posteriores.

O continente estava, então, bastante dilacerado. Mas a porção atual de território submerso de modo algum representava o dano provocado, pois os vagalhões varreram grandes extensões de terra, transformando-as em pântanos abandonados. Regiões inteiras tornaram-se estéreis, permanecendo desertas e sem plantações por muitas gerações.

Além disso, a população restante recebera uma terrível advertência. Levaram-na a sério e, durante certo tempo, a bruxaria foi menos freqüente entre eles. Passou-se um longo período, antes que se estabelecesse um novo governo eficaz. Por fim, depararemos com uma dinastia semita de bruxos entronizada na “Cidade dos Portais Dourados”, mas nenhuma autoridade tolteca destacou-se durante o período do segundo mapa. Ainda havia um número considerável de populações toltecas, mas pouco restava de seu puro sangue no continente de origem.

Entrementes, na ilha de Ruta, no período do terceiro mapa, uma dinastia tolteca novamente ascendeu ao poder e governou, através de seus reis tributários, uma grande porção da ilha. Essa dinastia devotava-se à magia negra. E importante salientar que essa prática tomou-se, durante todos os quatro períodos, cada vez mais predominante, até culminar na inevitável catástrofe que, em grande medida, purificou a terra do mal monstruoso. Deve-se também ter em mente que, até a destruição final, quando Posseidones desapareceu, um imperador ou rei Iniciado – ou ao menos alguém que conhecia a “boa lei” -, governou em alguma parte do continente insular, atuando sob a orientação da Hierarquia Oculta, a fim de refrear, onde fosse possível, os bruxos malignos e orientar e instruir a pequena minoria que ainda estava disposta a levar uma vida pura e saudável. Nos últimos dias, esse rei “branco” era, via de regra, eleito pelos sacerdotes – ou seja, pelos poucos que ainda seguiam a “boa lei”.

Pouco resta a ser dito sobre os toltecas. Em Posseidones, a população de toda a ilha era mais ou menos mesclada. Dois reinos e uma pequena república, localizada a oeste, dividiam a ilha entre si. A região norte era governada por um rei Iniciado. No sul, o princípio hereditário também fora substituído pela eleição popular. As dinastias raciais aristocráticas estavam acabando, mas reis de linhagem tolteca ocasionalmente subiam ao poder, tanto no norte quanto no sul, embora o reino setentrional fosse constantemente invadido pelo seu rival sulista, que conquistava para si uma parte cada vez maior de seu território.

Esta abordagem, até certo ponto minuciosa, da situação política na época dos toltecas, exime-nos de uma análise pormenorizada das principais características políticas das quatro sub-raças seguintes, já que nenhuma delas atingiu o apogeu alcançado pelos toltecas – na verdade, a degeneração da raça já havia começado.

Ao que tudo indica, foi a tendência inata da raça turaniana que a levou a desenvolver uma espécie de sistema feudal. Cada chefe era supremo em seu próprio território e o rei era apenas o primas inter pares. Os chefes que compunham o conselho de estado ocasionalmente assassinavam o rei, substituindo-o por um deles. Eram uma raça violenta e bárbara, bem como brutal e cruel. O fato de que, em alguns períodos de sua história, uma grande quantidade de mulheres participassem de suas guerras é indicativo dessas características.

Contudo, o fato mais interessante de sua história está na estranha experiência que empreenderam em sua vida social, que, não fosse por sua origem política, melhor se enquadraria na seção destinada aos “usos e costumes”. Os turanianos sofriam constantes derrotas nas batalhas travadas com seus vizinhos toltecas, muito mais numerosos; assim, tinham como meta principal o aumento da população. Para tanto promulgaram leis que retiravam de cada homem a responsabilidade de sustentar a família. O Estado cuidava e provia a subsistência das crianças, que eram consideradas propriedade sua. Isso contribuiu, sem dúvida, para o aumento do coeficiente de natalidade entre os turanianos, e a cerimônia do casamento passou a ser desprezada. Os laços da vida familiar e o sentimento de amor entre pais e filhos logicamente foram destruídos, o que levou o sistema a um verdadeiro fracasso total, sendo finalmente abandonado. Outras tentativas de encontrar soluções socialistas para problemas econômicos, que até hoje nos afligem, foram experimentadas e abandonadas por essa raça.

Os semitas originais, que eram uma raça belicosa, saqueadora e enérgica, sempre teve uma inclinação pela forma patriarcal de governo. Seus colonizadores, que geralmente levavam uma vida nômade, adotaram essa forma de governo de modo quase exclusivo, mas, como vimos, desenvolveram um considerável império durante o período do segundo mapa e invadiram a grande “Cidade dos Portais Dourados”. Entretanto, acabaram sendo obrigados a recuar diante do crescente poder dos acadianos.

Foi no período do terceiro mapa, cerca de 100.000 anos atrás, que os acadianos afinal derrotaram o poderio semita. Essa sexta sub-raça era um povo muito mais obediente às leis do que seus predecessores. Mercadores e navegadores, viviam em comunidades sedentárias e, naturalmente, criaram uma forma oligárquica de governo. Uma de suas características, da qual Esparta é o único exemplo recente, era o sistema dual de governo, onde dois reis governam a mesma cidade. Talvez em consequência de sua aptidão naval, o estudo das estrelas tomou-se uma atividade característica, tendo essa raça realizado grandes progressos na astronomia e na astrologia.

O povo mongólico foi um aperfeiçoamento de seus vizinhos ancestrais, originários do selvagem tronco turaniano. Nascidos, como eram, nas vastas estepes da Sibéria Oriental, nunca tiveram qualquer contato com o continente-mãe e, sem dúvida por causa de seu ambiente, tornaram-se um povo nômade. Mais psíquicos e mais religiosos do que os turanianos, de quem descendiam, a forma de governo para a qual tenderam exigia um suserano que exercesse o poder supremo, não só como governante territorial mas também como sumo sacerdote.

Emigrações

Três causas contribuíram para provocar as emigrações. A raça turaniana, como vimos, estava, desde sua origem, imbuída do espírito de colonização, o que ela levou a cabo numa escala considerável. Também os semitas e acadianos eram, até certo ponto, raças colonizadoras.

Com o passar do tempo, a população também tendia cada vez mais a ultrapassar os limites de subsistência. Por conseguinte, a miséria se instalava, de modo semelhante, entre os menos prósperos de cada raça, que se viram obrigados a procurar um meio de vida em países menos populosos. Deve-se ter em mente que, quando os atlantes atingiram seu apogeu na era tolteca, a proporção de habitantes por quilômetro quadrado no continente da Atlântida provavelmente era comparável, embora não excedesse, à que se verifica atualmente na Inglaterra e Bélgica. De qualquer modo, é claro que os espaços vagos disponíveis para colonização eram mais abundantes naquela época do que na nossa, embora a população total do mundo – que no momento [1986], não deve ser superior a 1,2 ou 1,5 bilhão de habitantes – atingisse naqueles dias a grande cifra de aproximadamente 2 bilhões de habitantes.

Por fim, havia as emigrações lideradas por sacerdotes, que ocorreram antes de cada catástrofe – e as quatro grandes catástrofes, acima mencionadas, não foram as únicas. Os reis e sacerdotes Iniciados que observavam a “boa lei” estavam, de antemão, cientes das calamidades iminentes. Portanto, cada um deles tornou-se um centro de advertência profética, acabando por liderar grupos de colonizadores. Deve-se observar aqui que, nos últimos dias, os governantes do país indignaram-se profundamente com essas emigrações lideradas pelos sacerdotes, as quais tendiam a empobrecer e despovoar seus reinos, e os emigrantes eram obrigados a embarcar secretamente durante a noite.

Acompanhando, mais ou menos, as rotas de emigração que, sucessivamente, foram seguidas por cada sub-raça, inevitavelmente acabaremos chegando às terras que seus respectivos descendentes hoje ocupam.

Quanto às emigrações mais antigas, temos de recuar até a época dos rmoahals. É preciso lembrar que apenas a porção da raça que habitava as costas nordésteas conservava seu sangue puro. Atacados em suas fronteiras meridionais e expulsos mais para o norte pelos guerreiros tlavatlis, começaram a penetrar no território vizinho, situado a leste, e no promontório da Groenlândia, que ficava mais próximo ainda. No período do segundo mapa, não havia mais nenhum rmoahal de sangue puro no já então reduzido continente-mãe, mas o promontório setentrional do continente, que se erguia a oeste, bem como o já mencionado cabo da Groenlândia e o litoral ocidental da grande ilha escandinava estavam ocupados por eles. Havia também uma colônia, na região situada ao norte do mar asiático central.

Naquele tempo, a Grã-Bretanha e a Picardia faziam parte da ilha escandinava, embora a própria ilha se tornasse, no período do terceiro mapa, parte do crescente continente europeu. Atualmente, é na França que os restos mortais desta raça têm sido encontrados, nos estratos quaternários, e o espécime braquicéfalo, de cabeça arredondada, conhecido como o “homem de Furfooz”, pode ser considerado como uma degeneração do tipo da raça em seu declínio.

Muitas vezes obrigados, devido às inclemências de uma época glacial, a se dirigirem para o sul, muitas vezes impelidos para o norte pela ganância de seus vizinhos mais poderosos, os remanescentes dessa raça, dispersos e degradados, podem ser encontrados hoje entre os atuais lapões, embora mesmo neste caso tenha havido uma mistura de sangue. Contudo, estes enfraquecidos e atrofiados espécimes da Humanidade são descendentes diretos da raça negra de gigantes que surgiu nas terras equatoriais da Lemúria, há quase cinco milhões de anos.

Os colonizadores tlavatlis parecem ter se espalhado por todas as direções. No período do segundo mapa, seus descendentes estavam instalados nas costas ocidentais do então crescente continente americano (Califórnia), bem como nas costas do extremo sul (Rio de Janeiro). Também podemos encontrá-los nas regiões litorâneas orientais da ilha escandinava, embora muitos deles se tivessem aventurado pelo oceano, contornando a costa da África e alcançando a índia, onde, num processo de miscigenação com a população indígena lemuriana, formaram a raça dravídica. Mais tarde, essa raça misturou-se, por sua vez, com a raça árica, ou quinta raça, de onde a complexidade tipológica encontrada hoje na índia. De fato, temos aqui um claro exemplo da dificuldade extrema de decidir qualquer questão de raça pela evidência meramente física, pois seria perfeitamente possível que egos da quinta raça encarnassem entre os brâmanes, egos da quarta raça entre as castas inferiores, e alguns retardatários da terceira raça entre as tribos montesas.

No período do quarto mapa, encontramos uma nação tlavatli ocupando as regiões meridionais da América do Sul, de onde se pode deduzir que os patagônios provavelmente tiveram uma remota ascendência tlavatli.

Restos mortais dessa raça, assim como dos rmoahals, têm sido encontrados nos estratos quaternários da Europa central, e o doli-cocéfalo “homem de Cro-Magnon”* pode ser considerado um típico espécime da raça em sua decadência, ao passo que os “povos lacustres” da Suíça constituíam um ramo ainda mais primitivo e não totalmente puro. Atualmente, os únicos povos que podem ser citados como espécimes de sangue razoavelmente puro dessa raça são algumas tribos pardas de índios da América do Sul. Os birmaneses e siameses também possuem sangue tlavatli nas veias, embora tenham se misturado com a estirpe mais nobre de uma das sub-raças ancas, cujo sangue é, portanto, dominante.

Chegamos, assim, aos toltecas. Eles emigraram sobretudo para o oeste. As costas próximas do continente americano estavam, no período do segundo mapa, povoadas por uma raça tolteca pura, enquanto a maioria dos que permaneceram no continente-mãe tinha o sangue muito misturado. Foi nos continentes da América do Norte e do Sul que essa raça se disseminou e floresceu; aí, milhares de anos mais tarde, os impérios do México e do Peru seriam fundados. A grandeza desses impérios é um assunto da História, ou ao menos da tradição, que tem à sua disposição inúmeras evidências, entre as quais as magníficas ruínas arquitetônicas. Pode-se notar aqui que, embora o império mexicano tenha sido, durante séculos, vasto e poderoso em todos os aspectos que nossa civilização atual considera como tal, ele nunca atingiu o apogeu alcançado pelos peruanos há cerca de 14.000 anos, sob o governo dos soberanos inças. No que diz respeito ao bem-estar geral do povo, à justiça e beneficência do governo, à divisão igualitária da posse da terra e à vida simples e religiosa dos habitantes, o império peruano daquela época poderia ser considerado como um eco tradicional, porém débil, da idade de ouro dos toltecas no continente-mãe da Atlântida.

O índio pele-vermelha típico da América do Norte ou do Sul, é o melhor representante atual do povo tolteca, mas naturalmente não se compara ao indivíduo altamente civilizado da raça em seu apogeu.

O Egito deve ser agora mencionado, e o estudo dessa matéria deve fornecer um importante esclarecimento a respeito de sua primitiva história. Embora o primeiro povoamento desse país não tenha sido, no sentido estrito da palavra, uma colônia, foi da raça tolteca que, posteriormente, foi aliciado o primeiro grande contingente de emigrantes, destinados a se misturarem com o povo aborígine e a dominá-lo.

Em primeiro lugar, houve a transferência de uma grande Loja de Iniciação, cerca de 400.000 anos atrás. A idade de ouro dos toltecas há muito terminara. A primeira grande catástrofe já ocorrera. A degradação moral do povo e a conseqüente prática das “magias negras” estavam se tornando mais acentuadas e se disseminavam por toda parte. Fazia-se necessário um ambiente mais puro para a Loja Branca. O Egito estava isolado e sua população era escassa. Por isso, foi escolhido. A colonização servia, assim, ao seu propósito e, não perturbada por condições adversas, a Loja de Iniciados realizou seu trabalho por, aproximadamente, 200.000 anos.

Cerca de 210.000 anos atrás, no tempo propício, a Loja Oculta fundou um império – a primeira “Dinastia Divina” do Egito – e principiou a ensinar o povo. Foi então que o primeiro grande grupo de colonizadores foi trazido da Atlântida e, em alguma época, durante os 10.000 anos que precederam a segunda catástrofe, as duas grandes pirâmides de Giseh foram construídas, em parte para proporcionar Salas de Iniciação permanentes, mas também para atuar como casa do tesouro e santuário de algum grande talismã de poder durante a submersão, que os Iniciados sabiam ser iminente. O Mapa nº 3 retrata o Egito nessa época, submerso. E ele assim permaneceu por um considerável período, mas quando tornou a emergir foi outra vez povoado pelos descendentes de muitos de seus antigos habitantes, que tinham se refugiado nas montanhas abissínias (que no Mapa D- 3 aparecem como uma ilha), bem como por novos grupos de colonos atlantes, vindos de várias regiões do mundo. Uma considerável imigração de acadianos ajudou, então, a alterar o tipo egípcio. Esta é a era da segunda “Dinastia Divina” do Egito – na qual os Adeptos Iniciados foram, novamente, os governantes do país.

A catástrofe de 80.000 anos atrás deixou, uma vez mais, o país submerso, mas dessa vez foi apenas uma onda temporária. Quando esta refluiu, a terceira “Dinastia Divina” – mencionada por Maneio — começou seu governo, e foi durante o reinado dos primeiros reis dessa dinastia que o grande templo de Karnak, e uma grande parte das mais antigas construções que ainda podem ser vistas no Egito, foram erigidas. Na verdade, excetuando-se as duas pirâmides, nenhuma outra construção no Egito é anterior à catástrofe de 80.000 anos atrás.

A submersão definitiva de Posseidones fez com que um outro vagalhão atingisse o Egito. Essa calamidade também foi apenas temporária, mas pôs fim às “Dinastias Divinas”, pois a Loja de Iniciados transferira suas sedes para outras terras.

Vários aspectos não mencionados aqui já foram tratados em Transaction of the London Lodge, “The Pyramids and Stonehenge”.

Os turanianos, que no período do primeiro mapa colonizaram as regiões setentrionais do território situado logo a leste da Atlântida, ocuparam, no período do segundo mapa, suas regiões litorâneas meridionais (que incluíam o Marrocos e a Argélia atuais). Também vamos encontrá-los vagando em direção ao oriente, povoando tanto as costas ocidentais como orientais do mar asiático central. Finalmente, seus grupos deslocaram-se ainda mais para o leste e, nos dias de hoje, o chinês do interior é o tipo que mais se aproxima dessa raça. Um curioso capricho do destino, a respeito de uma das ramificações ocidentais desta raça, deve ser mencionado. Apesar de dominados durante séculos pelos seus vizinhos toltecas, mais poderosos, estava reservado a um pequeno ramo do tronco turaniano a conquista e a ocupação do último grande império construído pelos toltecas, pois os brutais e pouco civilizados astecas possuíam o puro sangue turaniano.

Houve dois tipos de emigrações semitas: primeiro, as motivadas pelo impulso natural da raça; segundo, aquela emigração especial, efetuada sob direta orientação do Manu; pois, por mais estranho que possa parecer, o núcleo destinado a ser desenvolvido na nossa grande raça árica, ou quinta raça, não foi escolhido dentre os toltecas, mas sim, entre os dessa sub-raça violenta e anárquica, embora vigorosa e energética. A razão, sem dúvida alguma, repousa na característica manásica, com a qual o número 5 é sempre associado. A sub-raça desse número foi inevitavelmente desenvolvendo o poder e a inteligência de seu cérebro físico, embora à custa das percepções psíquicas; contudo, esse desenvolvimento do intelecto, em níveis infinitamente mais elevados, é ao mesmo tempo a glória e a meta prefixada de nossa quinta raça-raiz.

Analisando, em primeiro lugar, as emigrações naturais, constatamos que, no período do segundo mapa, enquanto ainda restavam nações poderosas no continente-mãe, os semitas espalharam-se tanto para o oeste como para o leste – a oeste, para as terras que hoje formam os Estados Unidos, explicando o porquê de o tipo semítico ser encontrado em algumas das raças índias; e a leste, para as costas setentrionais do continente vizinho, que formava tudo o que então havia da Europa, da África e da Ásia. O tipo dos egípcios antigos, bem como de outras nações adjacentes, foi, até certo ponto, alterado por essa linhagem semita original; contudo, com exceção dos judeus, os cabilas menos escuros das montanhas argelinas são, no momento, os únicos representantes da raça relativamente pura.

As tribos resultantes da segregação efetuada pelo Manu para a formação da nova raça-raiz finalmente encontraram seu caminho para as regiões litorâneas meridionais do mar asiático central, onde foi fundado o primeiro grande reino árico. Quando o Relatório acerca da origem de uma raça-raiz for escrito, verificar-se-á que muitos dos povos aos quais costumeiramente chamamos semíticos, na verdade são, quanto ao sangue, áricos. O mundo também será esclarecido a respeito do que consiste a reivindicação dos hebreus de serem considerados um “povo escolhido”. Em poucas palavras, pode-se afirmar que eles representam um vínculo anormal e artificial entre as quarta e quinta raças-raízes.

Os acadianos, apesar de se tornarem, finalmente, os governantes supremos no continente-mãe da Atlântida, originaram-se, como vimos no período do segundo mapa, no continente vizinho – seu habitat específico ficava na região ocupada pela bacia do Mediterrâneo, mais ou menos onde atualmente fica a ilha da Sardenha. A partir deste centro, avançaram para o oriente, ocupando as regiões que, posteriormente, formaram as costas do Levante, e chegaram até a Pérsia e a Arábia. Como já vimos, eles também ajudaram a povoar o Egito. Os antigos etruscos, os fenícios, incluindo os cartagineses e os sumério-acadianos, eram ramificações desta raça, embora os bascos de hoje, provavelmente, tenham uma porcentagem bem maior de sangue acadiano correndo em suas veias.

Uma referência aos antigos habitantes de nossas ilhas pode ser oportuna aqui, pois foi na primitiva era acadiana, cerca de 100.000 anos atrás, que a colônia dos Iniciados, que fundaram Stonehenge, desembarcaram nessas praias – sendo “essas praias”, naturalmente, as praias da parte escandinava do continente da Europa, como demonstra o Mapa nº 3. Parece que os sacerdotes iniciados e seus discípulos pertenciam a uma linhagem bastante antiga da raça acadiana – eram mais altos, mais bonitos e mais espertos do que os aborígines da região, que eram uma raça muito miscigenada e, em sua grande maioria, remanescentes degenerados dos rmoahals. Como os leitores do Transaction of the London Lodge, em “Pyramids and Stonehenge”, devem saber, a rude simplicidade de Stonehenge foi planejada para servir de protesto contra os ornamentos extravagantes e a exagerada decoração dos templos existentes na Atlântida, onde os habitantes prosseguiam com o degradante culto de suas próprias imagens.

Os mongóis, como vimos, nunca tiveram nenhum contato com o continente-mãe. Nascidos nas vastas planícies da Tartána, durante muito tempo suas emigrações se limitaram às grandes extensões dessas regiões; por mais de uma vez, porém, tribos de origem mongólica atravessaram o estreito de Bering, passando, assim, do norte da Ásia para a América. A última dessas emigrações – a dos k’i-tans, há uns 1.300 anos – deixou rastos, que alguns cientistas ocidentais puderam seguir. A presença de sangue mongol em algumas tribos de índios norte-americanos também foi admitida por vários etnólogos. Sabe-se que tanto os húngaros como os malaios são ramificações dessa raça, enobrecida, no primeiro caso, por uma estirpe de sangue árico, degradada, no segundo, pela miscigenação com os exaustos lemurianos. Contudo, o fato interessante sobre os mongóis é que seus últimos descendentes ainda estão em pleno vigor – na verdade, ainda não atingiram seu apogeu – e a nação japonesa ainda tem muita história a oferecer ao mundo.

* Os estudiosos de geologia e paleontologia devem saber que essas ciências consideram o “homem de Cro-Magnon” anterior ao “homem de Furfooz”, e considerando-se que essas duas raças seguiram lado a lado, por vastos períodos de tempo, pode muito bem ser possível que o esqueleto do indivíduo de “Cro-Magnon”, embora representativo da segunda raça, tenha se sedimentado nos estratos quaternários milhares de anos antes que o “homem de Furfooz” vivesse na Terra.

Artes e Ciências

Deve-se, antes de tudo, reconhecer que nossa própria raça árica tem, naturalmente, conquistado resultados muito maiores, em quase todos os campos de atividade, do que os atlantes. No entanto, mesmo onde eles fracassaram em alcançar o nosso nível, o relato de seus feitos serve para demonstrar o alto grau de desenvolvimento atingido pela sua civilização. Por outro lado, a qualidade de suas conquistas científicas, nas quais nos excederam, são de uma natureza tão deslumbrante que não podemos deixar de nos surpreender diante desse desenvolvimento desproporcional.

As artes e ciências, tal como praticadas pelas duas primeiras raças, eram, naturalmente, bastante rudimentares, mas não é nosso propósito seguir o progresso alcançado por cada sub-raça em separado. A história da raça atlante, bem como da raça árica, foi entremeada com períodos de progresso e de decadência. Às épocas de cultura seguiram-se períodos anárquicos, durante os quais todo o desenvolvimento artístico e científico se perdia, e esses períodos eram, por sua vez, sucedidos por civilizações que atingiam níveis ainda mais elevados. Naturalmente, serão desses períodos de cultura que tratarão as observações seguintes, entre os quais se distingue, sobretudo, a grande era tolteca.

A arquitetura, a escultura, a pintura e a música eram praticadas na Atlântida. A música, mesmo nos períodos de maior brilho, era rudimentar e os instrumentos bastante primitivos. Todas as raças atlantes gostavam das cores, e matizes brilhantes decoravam o interior e o exterior de suas casas. Contudo, a pintura, enquanto arte pura, nunca se firmou realmente, embora se ensinasse, nos últimos dias, algum tipo de desenho e pintura nas escolas. Por outro lado, a escultura, que também era ensinada nas escolas, era muito praticada e sua qualidade foi excepcional. Como veremos mais adiante, na seção destinada à “Religião”, tornou-se uma prática comum, desde que se tivesse recursos para tanto, colocar num dos templos uma imagem de si próprio. Essas imagens eram, algumas vezes, esculpidas em madeira ou numa pedra resistente e escura, semelhante ao basalto; entre os ricos, porém, tornou-se moda esculpir suas estátuas em metais preciosos, tais como o oricalco, o ouro ou a prata. Geralmente, conseguia-se uma imagem razoável do indivíduo e, em alguns casos, alcançava-se uma semelhança notável.

Contudo, a arquitetura era, sem dúvida, uma das artes mais praticadas. Suas construções consistiam em estruturas maciças, de proporções gigantescas. As moradias nas cidades não eram como as nossas, compactamente aglomeradas nas ruas, uma ao lado da outra. Do mesmo modo que suas casas rurais, algumas erguiam-se cercadas por jardins, outras separadas por lotes de terrenos comuns, mas todas eram estruturas isoladas. No caso dos edifícios mais importantes, quatro blocos circundavam um pátio central, no meio do qual geralmente erguia-se uma das fontes, cuja quantidade na “Cidade dos Portais Dourados” fez com que esta recebesse uma segunda denominação, a de “Cidade das Águas”. Não havia, como hoje, mercadorias expostas nas ruas para venda. Todas as transações de compra e venda eram efetuadas de modo particular, exceto em datas estabelecidas, quando se realizavam grandes feiras públicas nos espaços livres das cidades. Todavia, a principal característica da habitação tolteca era a torre que se erguia em um dos cantos ou no centro de um dos blocos. Uma escada espiral, construída do lado externo, conduzia aos andares superiores, e uma cúpula pontiaguda encimava a torre – esta parte mais elevada geralmente era usada como observatório. Como já foi mencionado, as casas eram decoradas com cores brilhantes. Algumas eram ornamentadas com esculturas, outras com afrescos ou desenhos decorativos. Os espaços das janelas eram preenchidos com algum artigo Manufaturado, semelhante ao vidro, mas menos transparente. Os interiores não eram guarnecidos com os elaborados detalhes de nossas habitações modernas, mas a vida era altamente civilizada em seu gênero.

Os templos eram edifícios enormes, assemelhando-se, mais do que quaisquer outros, às gigantescas construções egípcias, porém construídos num estilo ainda mais prodigioso. As colunas que sustentavam o teto raramente eram circulares, sendo, em sua maioria, quadradas. Na época da decadência, os corredores estavam rodeados por inúmeras capelas, onde se encontravam as estátuas dos habitantes mais importantes. Essas capelas laterais eram às vezes de um tamanho considerável, a fim de comportar toda uma comitiva de sacerdotes, que alguns homens especialmente importantes tinham a seu serviço para o culto cerimonial de sua imagem. Tal como as residências particulares, os templos nunca estavam completos sem as torres encimadas por domos, que naturalmente guardavam suas respectivas proporções em tamanho e magnificência. Elas eram utilizadas como observatórios astronômicos e para o culto do sol.

Os metais preciosos eram muito usados na decoração dos templos, cujos interiores eram freqüentemente não apenas marchetados mas chapeados de ouro. Valorizava-se altamente o ouro e a prata mas, como veremos mais adiante, ao abordarmos o assunto da moeda corrente, a finalidade do uso desses metais era artística e nada tinha que ver com o sistema monetário, embora a enorme quantidade então fabricada pelos químicos – ou devíamos hoje em dia chamá-los alquimistas -, deva tê-los afastado da categoria de metais preciosos. Esse poder de transmutação de metais não era universal, mas era tão largamente conhecido que se fabricavam enormes quantidades. Na verdade, a fabricação dos metais almejados pode ser considerada como um dos empreendimentos industriais daquela época, através dos quais os alquimistas ganhavam a vida. O ouro era bem mais admirado do que a prata e, conseqüentemente, fabricado numa escala muito maior.

Educação

Algumas palavras acerca do idioma introduzirá adequadamente um comentário a respeito da instrução ministrada nas escolas e nas faculdades da Atlântida. Durante o período do primeiro mapa, o tolteca era a língua universal, não apenas em todo o continente, mas também nas ilhas ocidentais e naquela porção do continente oriental que reconhecia o governo do imperador. Vestígios dos idiomas rmoahal e tlavatli sobreviviam, é verdade, em regiões remotas, assim como os idiomas celta e galês sobrevivem hoje entre nós, na Irlanda e no País de Gales. A língua tlavatli foi a base usada pelos turanianos, que introduziram tantas modificações que, com o tempo, criaram uma língua inteiramente diversa; por sua vez, os semitas e acadianos, adotando uma base tolteca, modificaram-na, cada um a seu modo, e criaram, assim, duas variações divergentes. Desse modo, nos últimos dias de Posseidones, havia várias línguas inteiramente distintas – embora todas pertencessem a um tipo aglutinante -, pois só na época da quinta raça é que os descendentes dos semitas e acadianos desenvolveram uma língua flexiva. Entretanto, através de todas as épocas, a língua tolteca manteve razoavelmente sua pureza, e o mesmo idioma falado na Atlântida, na época de seu esplendor, foi usado, com ligeiras alterações, milhares de anos mais tarde, no México e no Peru.

As escolas e faculdades da Atlântida, na grande era tolteca, bem como nos posteriores períodos de cultura, eram mantidas pelo Estado. Embora se exigisse que todas as crianças passassem pelas escolas primárias, a educação subsequente diferia bastante. As escolas primárias constituíam uma espécie de processo de seleção. As crianças que demonstrassem verdadeira aptidão para o estudo, juntamente com as crianças das classes dominantes, que naturalmente possuíam maiores habilidades, eram escolhidas para as escolas superiores, mais ou menos com doze anos de idade. A leitura e a escrita, consideradas como simples preliminares, já lhes tinham sido ensinadas nas escolas primárias.

Mas a leitura e a escrita não eram consideradas necessárias à maioria dos habitantes, que tinham de passar a vida cultivando a terra, ou então nos ofícios Manuais, cuja prática era requerida pela comunidade. Por essa razão, a grande maioria das crianças era imediatamente conduzida às escolas técnicas que melhor conviessem às suas diversas aptidões. Entre as escolas técnicas, as principais eram as agrícolas. Alguns ramos da mecânica também faziam parte da educação, ao passo que nas regiões mais afastadas e próximas do litoral incluíam-se a caça e a pesca. Desse modo, todas as crianças recebiam a educação ou treinamento que lhes fosse mais apropriado.

As crianças com aptidões superiores que, como vimos, tinham aprendido a ler e a escrever, recebiam uma educação mais elaborada. As propriedades das plantas e suas qualidades de cura constituíam um importante ramo de estudo. Nessa época não havia médicos reconhecidos como tais – todo homem Instruído sabia alguma coisa de medicina, bem como de cura magnética. Também ensinavam-se química, matemática e astronomia. O treinamento nessas matérias en- contra sua analogia entre nós, mas o objetivo para o qual os esforços dos professores se dirigiam era o desenvolvimento das faculdades psíquicas dos alunos e sua instrução acerca das forças ocultas da Natureza. As propriedades ocultas das plantas, dos metais e das pedras preciosas, bem como os processos alquímicos de transmutação, estavam incluídos nessa categoria. Com o passar do tempo, porém, isso tornou-se cada vez mais o poder individual, ao qual Bulwer Lytton dá o nome de vril, descrevendo exatamente sua ação em The Corning Roce, que as faculdades destinadas ao ensino superior dos jovens da Atlântida ocupavam-se particularmente em desenvolver. A mudança marcante, ocorrida por ocasião da decadência da raça, consistiu em que, em vez de o mérito e a aptidão serem considerados decisivos para a promoção aos mais altos graus de instrução, as classes dominantes, que se tomavam cada vez mais exclusivistas, apenas permitiam que seus próprios filhos se graduassem no mais alto nível de ensino, o que lhes proporcionava um grande poder.

Num império como o dos toltecas, era natural que a agricultura recebesse especial atenção. Não só os trabalhadores aprendiam seu ofício nas escolas técnicas, como também havia faculdades onde se ministrava, aos estudantes habilitados, o conhecimento necessário para levar a cabo experiências de cruzamentos de animais e de plantas.

Como os leitores de literatura teosófica devem saber, o trigo não tem sua origem neste planeta. Foi uma dádiva do Manu, que o trouxe de outro planeta, situado além de nosso sistema solar. Mas a aveia e alguns de nossos outros cereais são resultados dos cruzamentos entre o trigo e as ervas nativas da terra. Ora, as experiências que produziram esses resultados foram realizadas nas escolas agrícolas da Atlântida. Essas experiências foram, sem dúvida, orientadas por um conhecimento superior. Contudo, a mais notável façanha dos agricultores atlantes foi o desenvolvimento da pacobeira ou bananeira. No seu estado selvagem original, ela era um melão alongado, com pouquíssima polpa, porém repleta de sementes, como é o caso do melão. Naturalmente, só após séculos (se não milhares de anos) de continua seleção e eliminação que a atual planta sem sementes foi desenvolvida.

Entre os animais domesticados da era tolteca, havia uma espécie semelhante a uma anta muito pequena. Naturalmente, alimentava-se de raízes ou ervas; mas, como os porcos de hoje, com os quais se assemelhavam em vários aspectos, não era lá muito limpo e comia tudo o que aparecesse em seu caminho. Animais maiores, semelhantes ao gato, e ancestrais do cachorro, parecidos com um lobo, também podiam ser encontrados ao redor das habitações humanas. Parece que os carros toltecas eram puxados por animais um pouco parecidos com pequenos camelos. Os atuais lhamas peruanos provavelmente são seus descendentes. Os ancestrais do alce irlandês também vagavam pelas encostas dos morros, do mesmo modo que nosso gado montanhês, demasiado selvagem para permitir uma aproximação fácil mas, mesmo assim, sob o controle do homem.

Constantes experiências eram feitas relativas à criação e ao cruzamento de diferentes espécies de animais e, por mais curioso que nos possa parecer, o calor artificial era muito utilizado para estimular seu desenvolvimento a fim de que os resultados do cruzamento de raças e da hibridação pudessem ser verificados num espaço de tempo mais curto. Também foi adotado o uso de diferentes luzes coloridas nos compartimentos onde se realizavam essas experiências, a fim de se obter resultados variados.

Esse controle e moldagem das formas animais, sujeitos à vontade humana, leva-nos a um tema bastante surpreendente e muito misterioso. Já mencionamos o trabalho realizado pelos Manus. Pois bem, é na mente do Manu que se originam todos os aperfeiçoamentos no tipo e as potencialidades latentes em cada forma de vida. A fim de desenvolver minuciosamente os aperfeiçoamentos nas formas de vida animal, a ajuda e a cooperação do homem foram requeridas. As espécies anfíbias e os répteis, que então existiam em abundância, tinham quase completado seu curso e estavam prontas para adotar a forma de um tipo mais desenvolvido, pássaro ou mamífero. Essas formas constituíam a matéria-prima rudimentar que se encontrava à disposição do homem, e a argila estava pronta para assumir qualquer formato que as mãos do oleiro conseguissem moldar. As experiências acima mencionadas foram empreendidas principalmente com os animais que se encontravam num estágio intermediário; e, sem dúvida, os animais domesticados, tal como o cavalo, que hoje prestam tanto serviço ao homem, são o resultado dessas experiências, nas quais os homens daquela época aluaram em cooperação com o Manu e seus ministros. Todavia, não demorou para que essa cooperação se desfizesse. O egoísmo acabou prevalecendo, e a guerra e a discórdia puseram fim à Idade de Ouro dos toltecas. No momento em que os homens, em vez de trabalharem lealmente, com o mesmo objetivo, sob a orientação de seus reis Iniciados, começaram a se atacar mutuamente, os animais que, sob os cuidados do homem, poderiam assumir aos poucos formas cada vez mais úteis e domesticadas, abandonados à orientação de seus próprios instintos, acabaram seguindo o exemplo de seus monarcas e começaram a se atacar. Na verdade, alguns já haviam sido treinados e utilizados pelos homens em suas expedições de caça; assim, os animais semidomesticados semelhantes ao gato, acima mencionados, tornaram-se naturalmente os ancestrais do leopardo e do jaguar.

Um exemplo daquilo que algumas pessoas podem se sentir tentadas a considerar uma teoria fantástica, que embora não venha talvez elucidar a questão, chamará pelo menos a atenção para a moral encerrada neste suplemento ao nosso conhecimento quanto ao modo misterioso pelo qual se deu nossa evolução. Parece que o leão poderia ter uma natureza mais dócil e um aspecto menos feroz se os homens dessa época tivessem concluído a tarefa que lhes fora dado executar. Se ele está ou não destinado a, finalmente, “deitar-se com o cordeiro e a comer palha como o boi”, o destino que lhe estava reservado, tal como foi imaginado por Manu, ainda não tinha sido realizado, pois a imagem era a de um animal possante, porém domesticado – um animal forte, com a espinha dorsal em linha horizontal, olhos grandes e inteligentes, projetado para atuar como um servo muito possante do homem em trabalhos de tração.

A “Cidade dos Portais Dourados” e seus arredores devem ser descritos antes de passarmos à apreciação do maravilhoso sistema pelo qual seus habitantes se supriam de água. Situava-se, como já vimos, na costa oriental do continente, próxima do mar, e cerca de 15° ao norte do equador. Um campo lindamente arborizado, semelhante a um parque, circundava a cidade. Espalhadas por uma ampla área dessa região ficavam as casas de campo das classes mais abastadas. A oeste, estendia-se uma cadeia de montanhas, de onde vinha a água que abastecia a cidade. A própria cidade foi construída nas encostas de uma colina que se erguia cerca de 152 m acima da planície. No topo dessa colina ficava o palácio e os jardins do imperador, de cujo centro jorrava da terra um fluxo incessante de água, que, depois de abastecer o palácio e as fontes dos jardins, fluía em todas as direções, despencando em forma de cachoeiras e formando um canal ou fosso que circundava as terras adjacentes ao palácio, separando-as, assim, da cidade, que se estendia mais abaixo, em cada face da colina. A partir desse canal, quatro regos conduziam a água, passando pelas quatro zonas da cidade, até as cachoeiras que, por sua vez, formavam outro canal circundante, situado num nível mais baixo. Havia três desses canais dispostos em círculos concêntricos, entre os quais o mais exterior e inferior ainda se encontrava acima do nível da planície. Um quarto canal situado nesse nível mais inferior, porém com um traçado retangular, recebia os constantes fluxos de água e, por seu turno, despejava-os no mar. A cidade alcançava uma parte da planície, estendendo-se até a margem desse enorme fosso mais exterior, que a circundava e a defendia através de uma linha de pequenos canais, cuja extensão abrangia uns 200 km2.

Veremos, assim, que a cidade se dividia em três grandes zonas, cada uma cercada por seus canais. A zona mais alta, abaixo dos jardins do palácio, caracterizava-se por uma pista circular de corridas e amplos jardins públicos. A maioria das casas dos funcionários da corte também ficava nessa zona, onde havia ainda uma instituição da qual não temos paralelo nos tempos modernos. O termo “Casa dos Estrangeiros”, entre nós, dá uma impressão de desprezo e sugere um ambiente sórdido; tratava-se, porém, de um palácio que hospedava todos os estrangeiros que porventura chegassem à cidade, onde eram tratados, pelo tempo que desejassem ficar, como hóspedes do Governo. As casas separadas dos habitantes e os diversos templos espalhados pela cidade ocupavam as outras duas zonas. No período áureo da civilização tolteca, parece não ter havido uma pobreza propriamente dita – até mesmo os escravos que, em grande número, estavam à disposição de quase todas as famílias, alimentavam-se e vestiam-se muito bem – mas havia algumas famílias relativamente pobres, que moravam ao norte da zona mais baixa, bem como além dos limites do canal mais exterior, perto do mar. Os habitantes dessa região dedicavam-se, em sua grande maioria, à navegação, e suas casas, embora separadas, eram construídas mais perto umas das outras do que nas demais regiões.

Pode-se deduzir, do que foi dito acima, que os habitantes dispunham de um abundante estoque de água pura e limpa, que circulava incessantemente por toda a cidade, enquanto as zonas mais altas e o palácio do imperador eram protegidos por uma série de fossos, cada um num nível mais alto que o outro à medida que se aproximavam do centro.

Assim sendo, não é necessário um conhecimento profundo de mecânica para perceber quão estupendas devem ter sido as obras necessárias para fornecer esse abastecimento, pois a “Cidade dos Portais Dourados”, em seu período áureo, abrigava, dentro do espaço compreendido por seus quatro fossos circulares, mais de dois milhões de habitantes. Nenhum sistema semelhante de abastecimento de água foi alguma vez empreendido, quer na Grécia, em Roma, ou mesmo nos tempos modernos – de fato, é bastante duvidoso que nossos mais hábeis engenheiros, mesmo às custas de imensas fortunas, conseguissem produzir tal resultado.

Será interessante descrever algumas de suas principais características. O abastecimento era extraído de um lago situado entre as montanhas a oeste da cidade, numa altitude acima de 792 m. O aqueduto principal, que era de seção oval e media 15 m por 9 m, levava a água, através do subsolo, a um enorme reservatório em forma de coração, situado bem abaixo do palácio – na verdade, na própria base da colina onde se erguiam a cidade e o palácio. A partir desse reservatório, um poço perpendicular, com cerca de 152 m de altura, atravessava a rocha maciça e dava passagem à água, que jorrava nos jardins do palácio, de onde era distribuída por toda a cidade. Do reservatório central, também partiam diversos canos, destinados a fornecer água potável e a suprir as fontes públicas de vários setores da cidade. Naturalmente, também havia sistemas de comportas para controlar ou interromper o abastecimento das diferentes regiões.

Pelo acima mencionado, qualquer pessoa com algum conhecimento de mecânica deduzirá que a pressão no aqueduto subterrâneo e no reservatório central, de onde a água naturalmente subia até o pequeno lago nos jardins do palácio, devia ser enorme e, por conseguinte, o poder de resistência do material utilizado na sua construção era extraordinário.

Se o sistema de abastecimento de água na “Cidade dos Portais Dourados” era maravilhoso, deve-se admitir que os métodos atlantes de locomoção eram muito mais magníficos, pois era utilizado uma espécie de veículo-voador, embora não fosse um meio de transporte público que pudesse ser usado a qualquer hora. Os escravos, os servos e as classes inferiores, cujo trabalho era Manual, tinham de percorrer a pé as rotas que levavam à zona rural, ou fazer esse percurso em carroças primitivas, de rodas grossas, puxadas por estranhos animais. Os barcos aéreos podem ser considerados como os transportes particulares dessa época, ou melhor, os iates particulares, levando-se em conta o número relativo dos que os possuíam, pois a produção desses veículos deve ter sido sempre difícil e dispendiosa. Por via de regra, não eram planejados para acomodar muitas pessoas. Muitos deles eram construídos com apenas dois lugares; outros tinham espaço para seis ou oito passageiros. Nos últimos dias, quando a guerra e a discórdia puseram fim à Idade de Ouro, navios de guerra aéreos substituíram em grande escala os navios de guerra normais – à medida que o potencial de destruição daqueles revelou-se muito mais eficaz. Esses navios eram planejados para transportar o equivalente a cinqüenta combatentes e, em alguns casos, comportavam até cem homens.

O material com que esses barcos aéreos eram construídos era madeira ou metal. Os primeiros foram construídos de madeira – as tábuas utilizadas eram muitíssimo finas, mas a injeção de alguma substância, que, embora não lhes aumentasse materialmente o peso, fornecia-lhes uma resistência análoga à do couro, proporcionava a necessária combinação de leveza e rijeza. Quando o metal foi utilizado, geralmente era uma liga – dois metais brancos e um vermelho entravam nessa mistura. O resultado era um metal branco, semelhante ao alumínio, e até mesmo mais leve no peso. Sobre a estrutura básica do barco aéreo estendia-se uma folha grande desse metal, que, em seguida, era ajustada à forma e, onde necessário, soldada eletricamente. Contudo, quer fossem construídos de metal ou de madeira, a superfície exterior era aparentemente inconsútil e perfeitamente lisa; além disso, brilhavam no escuro, como se tivessem sido revestidos por uma tinta fosforescente.

Quanto à forma, assemelhavam-se a um barco, mas eram invariavelmente cobertos, pois, quando no auge da velocidade, não seria nada cômodo, mesmo que fosse seguro, permanecer no convés superior. Seu mecanismo de propulsão e de direção podia ser acionado em ambas as extremidades.

Mais curioso ainda, porém, é a energia que os impulsionava. A princípio, parece que o vril pessoal supria a força motriz – se era usado em combinação com algum dispositivo mecânico, pouco importa -, sendo substituído, mais tarde, por uma força que, embora gerada de um modo que desconhecemos, operava, não obstante, através de dispositivos mecânicos. Na verdade, essa força era de uma natureza etérica. Sem dúvida, os dispositivos mecânicos não eram exatamente idênticos em cada uma das embarcações. A seguinte descrição refere-se a um barco aéreo, no qual, em certa ocasião, três embaixadores do rei que governava a região setentrional de Posseidones viajaram até o palácio do reino meridional. Uma forte e pesada arca de metal, situada no centro do barco, era o gerador. Dali a força fluía através de dois grandes tubos flexíveis até as duas extremidades da embarcação, bem como através de oito tubos suplementares que, fixados nas amuradas, iam da proa até a popa. Estes tinham aberturas duplas, uma voltada para cima e a outra para baixo. Quando a viagem estava prestes a se iniciar, abriam-se as válvulas dos oito tubos da amurada que estavam voltadas para baixo – as demais válvulas permaneciam fechadas. Precipitando-se através dessas válvulas, a corrente chocava-se tão violentamente contra a terra, que impelia o barco para cima, enquanto o próprio ar continuava a fornecer o suporte necessário. Quando se alcançava uma altitude suficiente, acionava-se o tubo flexível dessa extremidade da embarcação voltada para a direção oposta à desejada, ao mesmo tempo que, pelo fechamento parcial das válvulas, reduzia-se a corrente que se precipitava através dos oito tubos verticais, até se obter o mínimo de corrente necessário à Manutenção da altitude alcançada. A grande intensidade da corrente, sendo agora dirigida através do amplo tubo voltado na direção da popa, com uma inclinação de aproximadamente 45°, além de ajudar a manter a altitude, também fornecia a grande força motriz que impulsionava a embarcação através do ar. A pilotagem se efetuava pela descarga da corrente ao longo desse tubo, pois a menor alteração do sentido dessa corrente provocava uma alteração imediata no rumo da embarcação. Mas não era necessário uma inspeção constante. No caso de uma viagem longa, o tubo podia ser fixado, de modo que não era preciso manejá-lo até que o percurso estivesse quase concluído. A velocidade máxima alcançada era de mais ou menos 160 km por hora; o percurso nunca era feito em linha reta, mas sempre em forma de longas ondulações, ora aproximando-se, ora afastando-se do solo. A altitude em que as embarcações faziam seu percurso era de apenas poucas centenas de metros – na verdade, quando altas montanhas surgiam na Unha de rota, era necessário mudar o curso e contorná-las. O ar mais rarefeito não fornecia o suporte necessário por muito tempo. Os morros de cerca de 300 m eram os mais altos que conseguiam transpor. O modo pelo qual se detinha a embarcação, quando esta chegava ao seu destino -o que também podia ser feito em pleno voo -, era através da liberação de uma quantidade da corrente pelo tubo que ficava na extremidade do barco voltada para o local de chegada; a corrente, chocando-se com o solo ou com o ar frontal, atuava como um freio, enquanto a força propulsora de trás era gradualmente reduzida pelo fechamento da válvula. Resta ainda explicar a razão da existência dos oito tubos, fixados nas amuradas, voltados para cima. Estavam mais relacionados com os combates aéreos. Tendo uma força tão poderosa à sua disposição, os navios de guerra, naturalmente, dirigiam a corrente uns contra os outros. Entretanto, isso podia destruir o equilíbrio do navio atingido e virá-lo de borco – sem dúvida, uma situação que permitia à embarcação inimiga desferir ataques com seu esporão. Havia também o perigo de ser precipitado ao solo, a menos que se providenciasse, imediatamente, o fechamento e a abertura das válvulas necessárias. Em qualquer posição que a embarcação se encontrasse, os tubos voltados para o solo eram, naturalmente, aqueles pelos quais a corrente deveria se precipitar, ao passo que os tubos voltados para cima deviam permanecer fechados. O modo pelo qual a embarcação virada de cabeça para baixo podia ser endireitada, retomando à posição original; era através do uso dos quatro tubos num dos lados da embarcação apontados para baixo, enquanto os outros quatro, do lado oposto, eram mantidos fechados.

Os atlantes também tinham embarcações marítimas que eram impulsionadas por uma energia análoga à acima mencionada, mas a força da corrente que, neste caso, demonstrou ser mais eficaz era menos densa do que a utilizada nos barcos aéreos.

Usos e Costumes

Houve, sem dúvida, tanta variedade nos usos e costumes dos atlantes, em diferentes épocas de sua história, quanto tem havido entre as várias nações que compõem a nossa raça árica. Não vamos acompanhar aqui a variação dos padrões durante o passar dos séculos. Os comentários que seguem procurarão abordar apenas as características principais que diferenciam seus hábitos dos nossos, e estes serão selecionados, na medida do possível, entre a grande era tolteca.

Com respeito ao casamento e ao relacionamento entre os dois sexos, já mencionamos as experiências realizadas pelos turanianos. Os costumes polígamos prevaleceram, em diferentes períodos, entre todas as sub-raças; na época dos toltecas, porém, embora a lei permitisse duas esposas, um grande número de homens tinha apenas uma. Tampouco as mulheres – como ocorre nos países onde atualmente prevalece a poligamia – eram consideradas inferiores, e não eram nem um pouco oprimidas. Sua posição social era perfeitamente igual à dos homens, embora a aptidão que muitas delas manifestavam para adquirir a energia vril, elevassem-nas à mesma categoria, e até acima, do outro sexo. Na verdade, essa igualdade era reconhecida desde a infância, e nas escolas ou faculdades os dois sexos não eram separados. Meninos e meninas aprendiam juntos. Além disso, essa era a regra, e não a exceção, para que a completa harmonia imperasse nas famílias duplas, e as mães ensinavam seus filhos a procurar amor e proteção nas outras esposas do pai, sem discriminação. Tampouco as mulheres eram impedidas de participar do governo. Às vezes participavam das assembléias administrativas e, ocasionalmente, eram escolhidas pelo imperador Adepto para representá-lo nas diversas províncias, como soberanas regionais.

O material de escrita dos atlantes consistia em finas lâminas de metal, com uma superfície branca semelhante à porcelana, sobre a qual eram escritas as palavras. Também tinham recursos para reproduzir o texto, colocando sobre a lâmina escrita uma outra chapa fina de metal previamente mergulhada em algum Líquido. Desse modo, o texto impresso na segunda chapa podia ser reproduzido à vontade em outras lâminas, e um grande número delas, agrupadas, formava um livro.

Em seguida, devemos citar um costume que difere consideravelmente do nosso no que concerne à escolha do alimento. Trata-se de um assunto desagradável, mas que não pode ser omitido. Geralmente a carne dos animais era posta de lado, embora devorassem as partes que nós nos abstemos de comer. Também bebiam o sangue -muitas vezes ainda quente do animal -, bem como preparavam vários cozidos com ele.

Entrementes, não se deve pensar que eles não tivessem alimentos mais leves e mais saborosos ao nosso paladar. Os mares e rios forneciam-lhes peixes, cuja carne comiam, embora muitas vezes num grau tão adiantado de decomposição que nos causaria náusea. Cultivavam em larga escala os mais diversos cereais, com os quais faziam pães e bolos. Também bebiam leite e comiam frutas e vegetais.

É verdade que uma pequena minoria dos habitantes jamais adotou os repulsivos costumes acima mencionados. Tal era o caso, por todo o império, dos reis e imperadores Adeptos, bem como dos sacerdotes iniciados. Estes tinham hábitos inteiramente vegetarianos, muito embora um grande número de conselheiros do imperador e de funcionários da corte apenas fingissem preferir essa alimentação mais pura, pois freqüentemente satisfaziam às escondidas seus gostos mais grosseiros.

As bebidas fortes não eram desconhecidas nessa época. Durante algum tempo, uma bebida alcoólica fermentada e muito forte esteve em voga. Mas era capaz de provocar em quem a ingerisse uma excitação tão perigosa que se promulgou uma lei proibindo, em absoluto, o seu consumo.

As armas de guerra e a caça diferiram consideravelmente, de acordo com a época. Em geral, as espadas e lanças, arcos e flechas foram suficientes aos rmoahals e aos tlavatlis. Os animais que caçavam, nesse período bastante remoto, eram os mamutes de pelos longos e lanosos, os elefantes e os hipopótamos. Também havia muitos marsupiais, bem como sobreviventes de tipos intermediários – alguns semi-répteis e semimamíferos, outros semi-répteis e semipássaros.

O uso de explosivos foi adotado numa época antiga e, em épocas posteriores, foi sendo aperfeiçoado. Parece que alguns eram feitos para explodir através do choque e outros depois de um certo intervalo de tempo mas, nos dois casos, a destruição da vida resultava, provavelmente, da liberação de algum gás venenoso, e não do impacto de projéteis. De fato, esses explosivos devem ter se tornado tão poderosos nos últimos tempos da Atlântida que temos notícias de companhias inteiras de homens destruídas em combate pelo gás nocivo produzido pela explosão de uma dessas bombas acima de suas cabeças, lançadas por alguma espécie de alavanca.

Vamos considerar agora o sistema monetário. Durante as três primeiras sub-raças, pelo menos, não se conhecia um sistema monetário oficial. Havia, é verdade, pequenas peças de metal ou de couro, estampadas, com um determinado valor, que eram usadas como fichas. Eram perfuradas no centro, amarradas juntas, de modo a formarem um cinto e geralmente usadas ao redor da cintura. Mas cada homem era, por assim dizer, o seu próprio cunhador e a ficha de metal ou de couro por ele fabricada e trocada com outro homem, pela aquisição de alguma mercadoria, significava apenas um reconhecimento pessoal da dívida, tal como existe, entre nós, a nota promissória. Nenhum homem estava autorizado a fabricar essas fichas em quantidade maior do que fosse capaz de compensar através da transferência dos bens em seu poder. As fichas não circulavam como moedas, embora o portador da ficha tivesse meios de avaliar, com exatidão, os recursos de seu devedor através da faculdade de clarividência que, em maior ou menor grau, todos possuíam; em caso de dúvida, essa faculdade era utilizada na apuração da veracidade dos fatos.

Contudo, é preciso registrar que, nos últimos dias de Posseidones, foi adotado um sistema semelhante à nossa circulação monetária, e a montanha tríplice, que podia ser avistada da grande capital meridional, era a imagem favorita na cunhagem oficial.

No entanto, o sistema fundiário é o assunto mais importante desta Seção. Entre os rmoahals e os tlavatlis, que viviam sobretudo da caça e da pesca, a questão da terra praticamente não existia, embora houvesse um sistema de cultivo aldeão na época dos tlavatlis.

Foi com o aumento da população e com o desenvolvimento da civilização, nos primeiros anos da era tolteca, que a terra, pela primeira vez, tornou-se algo pelo qual valia a pena lutar. Não é nosso propósito reconstituir o sistema ou descrever a pobreza do sistema predominante nos períodos turbulentos anteriores ao advento da Idade de Ouro. Mas os registros dessa época proporcionam matéria de reflexão do maior interesse e importância, não só aos economistas políticos, mas a todos os que estimam o bem-estar da raça.

Deve-se ter em mente que a população vinha aumentando de modo constante e que, sob o governo dos imperadores Adeptos, chegara à enorme cifra já citada; naqueles dias, porém, a pobreza e a miséria eram coisas jamais imaginadas e esse bem-estar social devia-se, sem dúvida, em parte ao sistema fundiário.

Não só a terra e seus produtos eram considerados propriedades do imperador, mas também todos os rebanhos e animais. O país dividia-se em diversas províncias ou regiões, e cada província tinha, à sua frente, um dos reis auxiliares, ou vice-reis nomeados pelo imperador. Cada vice-rei era responsável pelo governo e bem-estar de todos os habitantes sob o seu domínio. O cultivo da terra, a colheita dos produtos e a pastagem dos rebanhos eram de sua alçada, bem como a administração daquelas experiências agrícolas anteriormente mencionadas.

Cada vice-rei tinha à sua volta um conselho de consultores e coadjutores agrícolas, que, entre outras coisas, deviam ser versados em astronomia, pois, nessa época, esta não era uma ciência improdutiva. Estudava-se e tirava-se o maior proveito possível das influências ocultas sobre a vida vegetal e animal. Também o poder de produzir chuva à vontade não era, então, algo incomum, e os efeitos de uma era glacial em mais de uma ocasião foram parcialmente neutralizados nas regiões setentrionais do continente, através da ciência oculta. O dia apropriado para o início de cada atividade agrícola era, é claro, devidamente calculado e o trabalho era realizado por funcionários, cuja função consistia em supervisionar cada detalhe.

Os produtos colhidos em cada região ou reino eram, em geral, ali consumidos, embora, às vezes, os governantes organizassem trocas de alguns produtos.

Depois que se separava uma pequena porção para o imperador e para o governo central da “Cidade de Portais Dourados”, os produtos de toda a região ou reino eram divididos entre os habitantes -o vice-rei local e sua comitiva de funcionários recebiam naturalmente as maiores porções, mas o mais inferior dos trabalhadores agrícolas recebia o bastante para assegurar-lhe a subsistência e o bem-estar. Qualquer aumento da capacidade produtiva da terra ou de suas riquezas minerais era proporcionalmente dividido entre todos os interessados – desse modo, era do interesse geral tomar o fruto do trabalho coletivo tão lucrativo quanto possível.

Esse sistema foi bastante eficaz durante muito tempo. Contudo, à medida que o tempo passava, a negligência e o egoísmo foram se insinuando. Os que tinham o dever de supervisionar foram transferindo cada vez mais suas responsabilidades para seus funcionários subalternos e, com o tempo, tornou-se raro os imperadores interferirem ou interessarem-se por alguma atividade. Esse foi o início dos maus tempos. Os membros da classe dominante, que a princípio dedicavam todo o seu tempo aos devedores públicos, começaram a imaginar um modo de tornar suas vidas particulares mais agradáveis. A intemperança estava a caminho.

Um motivo em particular causou grande descontentamento entre as classes mais baixas. Já mencionamos o método pelo qual os jovens da nação eram selecionados para as escolas técnicas. Ora, era sempre a alguém da classe superior, cujas faculdades psíquicas tinham sido devidamente desenvolvidas, que cabia a seleção das crianças, a fim de que cada uma recebesse a devida instrução e, finalmente, se dedicasse à ocupação para a qual fosse mais qualificada. Mas quando os que eram dotados de visão clarividente, a única que tornava possível essa seleção, transferiram suas funções para subalternos destituídos desses atributos psíquicos, resultou que as crianças eram muitas vezes forçadas a rotinas injustas, e aquelas cuja aptidão se inclinava em determinada direção viam-se, freqüentemente, destinadas a uma ocupação que as desgostava e na qual, por conseguinte, raramente obtinham sucesso.

Foram muitos e variados os sistemas fundiários que se seguiram, em diferentes partes do império, à dissolução da grande dinastia tolteca. Mas não é necessário descrevê-los. Nos últimos dias de Posseidones, quase todos haviam sido substituídos pelo sistema de propriedade particular, que tão bem conhecemos.

Já nos referimos, no tópico “Emigrações”, ao sistema fundiário prevalecente no glorioso período da história peruana durante o poderio Inça, cerca de 14.000 anos atrás. Um pequeno resumo desse assunto pode ser interessante para demonstrar a fonte de onde sem dúvida derivaram as bases desse sistema, bem como para citar as variações adotadas neste sistema um tanto mais complexo.

Todos os direitos sobre a terra eram, em primeiro lugar, conferidos ao Inça, mas metade dela era cedida aos agricultores, que logicamente constituíam a maioria da população. A outra metade era dividida entre o Inça e os sacerdotes, que observavam o culto do sol.

Com a renda de suas terras, especialmente divididas, o Inça tinha de sustentar o exército, conservar as estradas de todo o império e manter todo o mecanismo de governo. Este era administrado por uma classe dirigente especial, em sua maioria composta por parentes do próprio Inça, representantes de uma civilização e de uma cultura bem superiores às da maior parte da população.

A quarta parte restante – “as terras do sol” – não só provia a subsistência dos sacerdotes, que dirigiam o culto público em todo o império, como também se destinava à educação do povo nas escolas e colégios; além disso, garantia o futuro de todas as pessoas doentes e fracas e de cada habitante (afora, é claro, a classe dirigente, para quem não havia interrupção de trabalho) que atingia a idade de quarenta e cinco anos, idade estipulada para a suspensão do árduo trabalho da vida e para o início do lazer e do divertimento.

Religião

O único assunto que ainda nos resta tratar é a evolução das idéias religiosas. Entre a aspiração espiritual de uma raça simples porém rude e o ritual degenerado de um povo intelectualmente culto, mas espiritualmente morto, existe um abismo que só o termo religião, usado no seu sentido mais amplo, pode transpor. Todavia, é o processo consecutivo de geração e degeneração que tem de ser investigado na história do povo atlante.

Deve-se ter em mente que o governo sob o qual surgiram os rmoahals foi descrito como o mais perfeito dos governos concebíveis, pois o próprio Manu atuou como rei. A lembrança desse governante divino foi, naturalmente, preservada nos anais da raça e, no devido tempo ele chegou a ser considerado um deus entre um povo que era, por natureza, psíquico e tinha, portanto, vislumbres daqueles estados de consciência que transcendem nosso estado de vigília habitual. Conservando esses atributos superiores, era muito natural que esse povo primitivo adotasse uma religião que, embora de modo algum representasse uma filosofia elevada, nada tinha de ignóbil. Mais tarde, essa fase de crença religiosa tomou-se uma espécie de culto aos antepassados.

Os tlavatlis, embora herdeiros da reverência e do culto tradicionais a Manu, foram ensinados pelos instrutores Adeptos sobre a existência de um Ser Supremo, cujo símbolo era reconhecido como o sol. Assim, desenvolveram uma espécie de culto ao sol, cuja pratica era celebrada no alto dos morros. Nesses locais, eles construíram enormes círculos de monolitos aprumados, que se destinavam a simbolizar o curso anual do sol, embora também fossem utilizados para observar o curso dos astros, sendo dispostos de tal modo que, para quem estivesse no altar-mor, o sol nasceria, no solstício de inverno, atrás de um desses monolitos e, no equinócio da primavera, atras de outro, e assim por diante, durante o ano todo. Esses círculos de pedra também eram usados em observações astronômicas ainda mais complexas, relacionadas com as mais distantes constelações.

Já vimos, no tópico referente às emigrações, como uma sub-ra-ça posterior – os acadianos – retornou a essa primitiva construção de monolitos, na edificação do Stonehenge.

Embora os tlavatlis fossem dotados de uma capacidade de desenvolvimento intelectual um tanto maior do que a da sub-raça anterior, seu culto ainda era de um tipo muito primitivo.

Na época dos toltecas, com a difusão mais ampla de conhecimentos e, mais particularmente, com o posterior estabelecimento de um sacerdócio iniciado e de um imperador Adepto, crescentes oportunidades foram oferecidas ao povo para a obtenção de uma concepção mais verdadeira do divino. A minoria que estava disposta a tirar total proveito do ensino oferecido, após ser posta à prova e apreciada, sem dúvida era admitida nas ordens dos sacerdotes, que então constituíam uma grande confraria oculta. Contudo, não estamos interessados aqui nesses poucos que sobrepujaram a grande maioria da humanidade e estavam dispostos a enveredar pelos caminhos das ciências ocultas; o tema geral do nosso estudo é, antes, as religiões praticadas pelos habitantes da Atlântida.

As classes inferiores da sociedade daquela época não tinham, é claro, o poder de se alçar às alturas filosóficas do pensamento – como, aliás, não o tem a grande maioria dos habitantes do mundo atual. A abordagem mais aproximada que um professor, por talentoso que fosse, poderia fazer, ao tentar transmitir qualquer idéia a respeito da inominável essência do Cosmos, presente em todas as coisas, era necessariamente comunicada na forma de símbolos e, como era de se esperar, o sol foi o primeiro símbolo adotado. Como ocorre também em nossos dias, o indivíduo mais culto e com inclinações espiritualistas veria através do símbolo e poderia, às vezes, divisar, com as asas da devoção, o Pai de nossos espíritos,

A razão e o centro do anseio de nossas almas,
Objeto e refúgio do fim da nossa jornada —

enquanto os mais vulgares não veriam outra coisa senão o símbolo, e o cultuariam, assim como a Madona esculpida ou a imagem de madeira do crucificado são hoje veneradas em toda a Europa católica.

A adoração do sol e do fogo tornaram-se então o culto, e para sua celebração construíram-se templos magníficos nos quatro cantos do continente da Atlântida, mais particularmente, porém, na grande “Cidade dos Portais Dourados” – o ofício era executado pela comitiva de sacerdotes mantida pelo Estado para esse fim.

Nessa época remota não se permitia nenhuma imagem da Divindade. O disco solar era considerado o único emblema apropriado de Deus e, como tal, era usado em todos os templos, onde em geral colocava-se um disco dourado de modo a captar os primeiros raios do sol nascente durante o equinócio da primavera ou o solstício de verão.

Um exemplo interessante da sobrevivência quase intata desse culto ao disco solar pode ser visto nas cerimônias xintoístas do Japão. Segundo essa doutrina, qualquer outra representação da Divindade é considerada ímpia, e até mesmo o espelho circular de metal polido fica oculto ao olhar do público, salvo por ocasião das cerimônias. Contudo, ao contrário das suntuosas decorações dos templos da Atlântida, os templos xintoístas caracterizam-se por uma total ausência de decoração – a uniformidade do requintado acabamento da singela carpintaria não é quebrada por nenhum entalhe, pintura ou adorno.

No entanto, o disco solar não permaneceu como o único emblema admissível da Divindade. A imagem de um homem – um homem arquetípico – foi, em épocas posteriores, colocada nos templos e adorada como a mais sublime representação do divino. De certo modo, isso poderia ser considerado um retorno ao culto rmoahal de Manu. Até então, a religião era relativamente pura e a confraria oculta da “Boa Lei” naturalmente fazia o possível para conservar no coração do povo o ardor pela vida espiritual.

Contudo, estava se aproximando a época maligna na qual não restaria nenhuma idéia altruística para salvar a raça das profundezas do egoísmo, onde estava fadada a submergir. A deterioração do conceito ético foi o prelúdio inevitável da perversão do espírito. As mãos de cada homem lutavam unicamente por ele próprio e seus conhecimentos serviam apenas a fins egoístas, até tornar-se uma crença estabelecida a de que, no universo, não havia nada que fosse maior ou superior aos próprios homens. Cada um era a sua própria “Lei, Senhor e Deus”, e o próprio culto nos templos deixou de ser o culto a algum ideal para tornar-se a mera adoração do homem, tal como ele era conhecido e visto. Como está escrito no Livro de Dzyan, “Então a

Quarta cresceu em orgulho. Dizia: nós somos os reis; somos os Deuses. . . . Construíram enormes cidades. Construíram-nas de terras e metais raros, e dos fogos vomitados, da pedra branca das montanhas e da pedra preta modelaram suas próprias imagens em seu tamanho e semelhança, e adoraram-nas.” Capelas foram dispostas nos templos, nas quais a estátua de cada homem, feitas de ouro ou prata, ou esculpida em pedra ou madeira, era venerada por ele próprio. Os homens mais ricos dispunham de séquitos inteiros de sacerdotes para o culto e a Manutenção de suas capelas, e faziam-se oferendas a essas estátuas, como se fossem deuses. A apoteose do eu não poderia ir mais longe.

É preciso lembrar que toda idéia religiosa verdadeira que alguma vez penetrou na mente do homem foi-lhe conscientemente sugerida pelos instrutores divinos ou pelos iniciados das Lojas ocultistas, os quais, ao longo de todos os períodos históricos, têm sido os guardiões dos mistérios divinos e das ocorrências dos estados supra-sensíveis de consciência.

Geralmente, só de um modo muito lento é que a humanidade se torna capaz de assimilar algumas dessas idéias divinas, ao passo que os crescimentos monstruosos e as terríveis distorções, exemplificadas por cada religião existente, têm sua origem na própria natureza mais inferior do homem. Na verdade, tem-se a impressão de que nem sempre ele esteve em condições de receber o conhecimento acerca dos simples símbolos sob os quais se ocultava a compreensão da Divindade, pois na época da hegemonia turaniana parte desse conhecimento foi erroneamente divulgada.

Vimos como a vida e a luz, enquanto atributos do sol, foram, em tempos remotos, usados como símbolo para despertar na mente das pessoas tudo o que elas fossem capazes de conceber acerca do grande Criador. Contudo, outros símbolos de maior profundidade e significado mais real eram conhecidos e guardados pelos sacerdotes. O conceito de uma Trindade na Unidade era um desses símbolos. As Trindades de significação mais sagrada nunca foram reveladas ao povo, mas a Trindade que personificava os poderes cósmicos do universo como Criador, Preservador e Destruidor tornou-se publicamente conhecida na época dos turanianos de um modo um tanto irregular. Essa idéia foi ainda mais materializada e degenerada pelos semitas, que a transformaram numa Trindade estritamente antropomórfica, consistindo de pai, mãe e filho.

É preciso mencionar ainda um outro fato bastante terrível que ocorreu na época dos turanianos. Com a prática da bruxaria, muitos dos habitantes, é claro, tornaram-se conscientes da existência de elementais poderosos – criaturas que tinham sido criadas ou ao menos animadas pelas próprias e poderosas vontades dos habitantes, as quais, à medida que eram direcionadas para fins maléficos, produziram naturalmente os elementais de poder e malignidade. Os sentimentos humanos de reverência e culto tinham degenerado tanto que os homens realmente começaram a adorar essas criações semiconscientes de seu próprio pensamento maligno. O ritual pelo qual se cultuava esses seres foi, desde o início, manchado de sangue e, sem dúvida, cada sacrifício oferecido em seus altares conferia vitalidade e persistência a essas criações vampirescas – a tal ponto que, mesmo hoje em dia, em várias partes do mundo, os elementais formados pela vontade poderosa desses antigos bruxos atlantes ainda continuam a exigir seu tributo de inocentes comunidades aldeãs.

Embora iniciado e largamente praticado pelos brutais turanianos, parece que esse ritual manchado de sangue nunca se difundiu entre as outras sub-raças; todavia, os sacrifícios humanos parecem não ter sido raros entre alguns ramos semitas.

No grande império tolteca do México, o culto do sol – praticado por seus antepassados – ainda era a religião nacional, embora as oferendas incruentas à sua Divindade benéfica, Quetzalcóatl, consistissem simplesmente de flores e frutos. Só com o advento dos astecas selvagens é que se acrescentou, ao inocente ritual mexicano, o sangue de sacrifícios humanos, que banhava os altares de seu deus da guerra, Huitzilopochtli, e a extração do coração das vítimas no cume do Teocáli pode ser vista como uma sobrevivência direta do culto aos elementais de seus ancestrais turanianos da Atlântida.

Pode-se observar então que, tal como em nossos dias, a vida religiosa do povo abrangia as mais variadas formas de crença e culto. Desde a pequena minoria que aspirava à iniciação e tinha contato com a mais elevada vida espiritual – que sabia que a boa vontade para com todos os homens, o controle do pensamento e a pureza de vida e ações eram as preliminares necessárias à obtenção dos mais elevados estados de consciência e dos mais amplos campos de visão -, inumeráveis estágios de decadência conduziram desde o culto mais ou menos irracional das energias cósmicas, ou dos deuses antropomórficos, até os ritos sangrentos do culto aos elementais, passando pelo ritual degenerado, porém de grande aceitação, no qual cada homem adorava sua própria imagem.

Não se deve esquecer que estamos tratando apenas da raça atlante, de modo que seria inoportuna qualquer referência relativa ao culto ainda mais infame do fetiche que então existiu – como ainda existe – entre os degradados representantes dos povos lemurianos.

Ao longo dos séculos, portanto, os vários rituais constituídos para celebrar essas diversas formas de culto continuaram existindo, até a submersão derradeira de Posseidones, quando um grande número de emigrantes atlantes já haviam estabelecido, em terras estrangeiras, os vários cultos do continente-mãe.

Reconstituir a ascensão e acompanhar minuciosamente o progresso das religiões antigas, que no período histórico floresceram em formas tão diversas e antagônicas, seria uma tarefa bastante difícil, mas o esclarecimento que isso traria às questões de importância transcendente poderá, algum dia, induzir à tentativa.

Concluindo, seria inútil tentar resumir o que já está por demais resumido. Antes, vamos esperar que o precedente possa servir como texto, a partir do qual seja possível desenvolver histórias acerca dos diversos ramos das várias sub-raças – histórias que possam, analiticamente, abordar as evoluções políticas e sociais que, aqui, foram expostas de modo bastante fragmentário.

Todavia, uma palavra ainda pode ser dita sobre essa evolução da raça – esse progresso que toda criação, com a humanidade à frente, está sempre destinada a alcançar, século a século, milênio a milênio, manvantara a manvantara e kalpa a kalpa.

A descida do espírito à matéria – esses dois pólos da substância eterna una – é o processo que abrange a primeira metade de cada ciclo. Ora, o período estudado nas páginas anteriores – o período durante o qual a raça atlante estava percorrendo sua trajetória – foi exatamente o ponto médio ou crítico deste manvantara atual.

O processo de evolução que se tem estabelecido em nossa atual quinta raça – isto é, o retorno da matéria ao espírito – manifestou-se, nessa época, em apenas uns poucos casos individuais isolados -precursores da ressurreição do espírito.

Mas o problema, que todos os que têm se dedicado de algum modo a esta matéria devem ter constatado estar ainda à espera de uma solução, está no surpreendente contraste verificado nas características da raça atlante. Ao lado de suas paixões brutais, de suas inclinações animais degradadas, estavam suas faculdades psíquicas, sua intuição divina.

A solução deste enigma aparentemente insolúvel repousa no fato de que a construção da ponte fora então apenas iniciada – a ponte do manas, ou mente, destinada a ligar, no indivíduo aperfeiçoado, as forças do animal, que se dirigem para o alto, ao espírito do Deus, que, num movimento crítico dirige-se para baixo. O atual reino animal revela um campo da natureza onde a construção dessa ponte ainda não se iniciou e, mesmo entre a humanidade nos tempos da Atlântida, a conexão era tão frágil que os atributos espirituais tinham pouco poder de controle sobre a natureza animal mais inferior. O tipo de mente que possuíam era capaz de acrescentar prazer à satisfação dos sentidos, mas não tinha o poder de vitalizar as faculdades espirituais ainda adormecidas que, no indivíduo aperfeiçoado, precisarão tornar-se o monarca absoluto. Nossa metáfora da ponte pode levar-nos um pouco mais além, se a considerarmos atualmente em processo de construção, porém destinada a permanecer incompleta, para a humanidade em geral, durante incontáveis milênios – na verdade, até que a Humanidade tenha completado mais um ciclo dos sete planetas e o grande Quinto Curso esteja a meio caminho de sua trajetória.

Embora tenha sido durante a segunda metade da terceira raça-raiz e o início da quarta que o Manasaputra desceu para dotar de mente a maior parte da Humanidade, que ainda estava sem a centelha, foi tão fraco o fogo que ardeu durante toda a era atlante que se pode dizer que foram poucos os que atingiram os poderes do pensamento abstraio. Por outro lado, os atlantes conseguiram um ótimo desempenho mental no campo da realidade concreta e, como vimos, foi nas atividades práticas do seu cotidiano, especialmente quando suas faculdades psíquicas eram direcionadas para os mesmos objetos, que eles alcançaram resultados notáveis e estupendos.

É preciso também lembrar que o Kama, o quarto princípio, alcançou sem dúvida o ápice do seu desenvolvimento durante a quarta raça. Isso explicaria os níveis de vulgaridade animal em que mergulharam, enquanto o ciclo, aproximando-se de seu nadir, inevitavelmente acentuou esse movimento decadente, de modo que há pouco para se surpreender quanto à perda gradual das faculdades psíquicas da raça e sua degradação rumo ao egoísmo e ao materialismo.

Tudo isso deve ser visto como parte do grande processo cíclico, em obediência à lei eterna.

Nós todos atravessamos aqueles péssimos dias, e as experiências que então acumulamos contribuíram para formar as qualidades que ora possuímos.

Contudo, um sol mais radiante brilha agora sobre a raça anca, mais do que aquele que iluminava a vereda de seus antepassados atlantes. Menos dominados pelas paixões dos sentidos, mais abertos à influência da mente, os homens da nossa raça obtiveram, e estão obtendo, um controle mais firme do conhecimento, um alcance intelectual mais amplo. Este arco ascendente do grande ciclo manvantárico naturalmente conduzirá um número cada vez maior de pessoas rumo à entrada do Caminho Oculto e emprestará um encanto cada vez maior às oportunidades transcendentes que ela oferece ao contínuo fortalecimento e purificação do caráter – fortalecimento e purificação não mais dirigidos pelo mero esforço espasmódico e constantemente interrompidos por atrações enganosas, mas orientados e vigiados, a cada passo, pelos Mestres da Sabedoria, de modo que a escalada, uma vez iniciada, não será mais hesitante e incerta, mas conduzirá direto à meta gloriosa.

Também as faculdades psíquicas, bem como a intuição divina, perdidas por um tempo, mas ainda heranças legítimas da raça, aguardam apenas o esforço individual para serem readquiridas, o que fornecerá ao caráter da espécie uma compreensão ainda mais profunda e poderes mais transcendentes. Desse modo, as ordens dos instrutores Adeptos – os Mestres da Sabedoria – sempre devem ser fortalecidas e renovadas, e mesmo entre nós, hoje, certamente estão alguns deles, indistinguíveis, salvo pelo imortal entusiasmo que os impulsiona, e que, antes que se estabeleça a próxima raça-raiz neste planeta, erguer-se-ão como Mestres da Sabedoria para ajudar a raça em seu progresso ascendente.

William Scott-Elliot

Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/a-historia-da-atlantida/

Biografias: Carl Kellner

Sabe-se que ele nasceu na cidade de Viena, todavia, as fontes divergem até mesmo quanto ao seu ano de nascimento, ora apontando 1850 (Howe & Möller, 1979:30) ora 1851 (Koenig, 1992:93).

De origem modesta, desde bem cedo freqüentou vários laboratórios, os quais o habilitaram para exercer a profissão de químico. Já aos 22 anos de idade, graças ao seu conhecimento e brilhantismo, Kellner se mostrava um inventor de grande criatividade, galgando rápido sucesso. Uma série de experimentos o levaria a várias descobertas em sua área de atuação profissional, permitindo-lhe revolucionar a tecnologia de produção de papel e se tornar um expoente na indústria química de sua região de origem.(1)

Kellner, costumeiramente descrito como um gênio, um homem extraordinário (Koenig, 1999:13) e bem versátil, era uma pessoa inventiva e vívida, de ótima agudeza intelectual que, em paralelo à sua profissão, também cultivava interesse em alquimia e yoga.

Nas imprecisas palavras de Theodor Reuss (1855-1923), Kellner também tinha profundo interesse em assuntos relacionados seja à maçonaria seja à magia sexual.(2) Contudo, no que diz respeito à Maçonaria, apesar de ter sido iniciado nesta Ordem, na Loja Húngara Humanitas, o austríaco permaneceria por pouco tempo nela, não passando além do grau de Aprendiz Maçom.

Especificamente em relação ao yoga, tamanho era seu interesse que, ao final do século XIX, Kellner era reconhecidamente um dos únicos europeus com detalhado conhecimento sobre teoria e prática desta disciplina. Tão proeminente era seu conhecimento sobre a matéria, que isto acabou por levá-lo a elaborar um pequeno tratado, acerca das influências psicológicas e fisiológicas que a prática do yoga exercia sobre o ser humano. Este trabalho foi apresentado no Terceiro Congresso Internacional de Psicologia, sediado em Munique, em 1896 (Howe & Möller, 1979:30). Depois, o estudo sobre yoga de Kellner também foi publicado em inglês, com o título de Yoga: A Draft on the Psychophysiological Aspect of the Ancient Yoga Doutrine. Bem posteriormente a sua morte, Crowley o relacionou como uma das “instruções oficiais da O.T.O.”, onde o estudo é apresentado como sendo de autoria de um certo Irmão Renatus (Crowley, 1997:485). Renatus havia sido o mote adotado por Kellner quando Aprendiz Maçom e a partir daí, algumas ramificações da O.T.O. passaram a adotar este nome como divisa mágica de Kellner, passando a frequentemente citá-lo como Frater Renatus Xº, O.T.O. – entretanto, como já demonstrado em outro post, não há qualquer relação direta entre a O.T.O. e Kellner (ver Origens Maçônicas da O.T.O.).

Conforme alguns acreditam (Grant, 1991:121 e Scriven, 2001:212), os interesses paralelos de Kellner também acabariam por levá-lo a empreender viagens pelo Oriente. Em uma delas, ele findaria estabelecendo contato com certos mestres da tradição oriental, adeptos que viriam a se tornar seus instrutores e gurus. Ainda segundo esta perspectiva, os adeptos orientais eram dois hindus de nomes Bhima Sen Pratap e Sri Mahatma Agamya Paramahamsa, e um árabe adepto do sufismo e da magia chamado Soliman bem Aifa, todos versados nas mais diversas doutrinas místicas do oriente. Assim, estes mestres, também adeptos tântricos orientais do Vama Marga, teriam iniciado Kellner nos mistérios da magia sexual (Grant, 1992a:72).(3) Acrescente-se que absolutamente nada se sabe a respeitos de pelo menos dois destes três supostos gurus de Kellner.

Contudo, as supostas andanças de Kellner pelas terras do Oriente não encerra o assunto sobre seu conhecimento a respeito do misticismo oriental. Ocorre que seu interesse pelo oculto também o levaria a se aproximar da teosofia, onde encontra e estabelece estreita amizade com o famoso Dr. Franz Hartmann (1838-1912), eminente teósofo, amigo e confidente da notória Madame Blavatsky (1831-1891). Foi justamente por intermédio do Dr. Hartmann, que Kellner passou a freqüentar a Sociedade Teosófica. Recentemente, o interessante artigo de Joseph Dvorak sobre Kellner vem sugerir que nesta ocasião é o Dr. Hartmann quem lhe teria apresentado – na Europa – o instrutor Sri Mahatma Agamya Paramahamsa. O mesmo artigo também nos dá conta do contato direto que Kellner teve com ninguém menos do que o erudito filologista e orientalista alemão Friedrich Max Müller (1823-1900), responsável por uma das mais completas e impressionantes obras já publicadas no Ocidente sobre as doutrinas religiosas do Oriente, o monumental The Sacred Books of the East, em 50 volumes. Ao mesmo tempo, há significativos indícios de que Kellner também estaria em contato direto com alguns membros europeus de uma obscura sociedade denominada Brotherhood of Eulis (King, 2002:97) e com seguidores do afamado e brilhante Pascal Beverly Randolph (1825-1875).

Essas últimas informações a respeito de Carl Kellner, quais sejam, sua amizade com Hartmann, seu contato com Max Muller e sua possível associação com os discípulos europeus de Randolph,(4) lançam novas luzes sobre como teria sido a sua formação, permitindo que sejam traçadas as possíveis verdadeiras fontes do conhecimento místico a ele atribuído. Em outras palavras, atualmente, a alegada viagem de Kellner pelo Oriente tende mais a ser considerada mera epopeia mítica que nem de longe corresponderia à verdade.

Continuando, o mútuo interesse profissional na área médica e química faz com que ambos, Kellner e Hartmann, colaborem de forma decisiva no desenvolvimento de uma inovadora terapia de inalação, para o tratamento de tuberculose, técnica empregada com relativo sucesso no hospital dirigido por este último.

Em 1895, já com larga experiência na prática do yoga, Kellner resolve trabalhar com um pequeno, bem seleto e extremamente reservado círculo de praticantes, dando ênfase tanto ao Hatha Yoga quanto a exercícios tântricos (Koenig, 1999:13). Não há, todavia, registros que indiquem a respeito de qualquer tipo de Ordem montada a partir deste reduzido e muito discreto grupo de praticantes de yoga.

Em novembro de 1904, Reuss publica no seu Oriflamme, em nota especificamente direcionada a quem ele chama de Pupilos do Círculo Oculto, que “nosso amado líder, Frater Carl Kellner, encontra-se severamente doente”. Em seguida, Reuss convoca todos os membros daquele Círculo Oculto a dedicarem suas preces e meditações diárias à franca recuperação de Kellner.(5)

Finalmente, em março de 1905, Kellner, que estava no Egito tentando se recuperar de uma enfermidade, volta para a Áustria. Já em Viena, ele falece no dia 7 de junho deste mesmo ano. Seu atestado de óbito oficialmente declara que a causa mortis foi “envenenamento do sangue” (Howe & Möller, 1979:36). Contudo, uma curiosa questão permanece: por que havia veneno em seu sangue? O desconhecimento sobre o que realmente aconteceu a Kellner tem levado a elucubrações curiosas como, por exemplo, dizer que forças malignas foram atraídas para “frater Renatus”, graças aos exercícios ocultos praticados por ele (cit. Howe & Möller, 1979:38).(6)

Elucubrações do além à parte, certamente a vida de Carl Kellner ainda é um campo a ser explorado. Espero que o presente artigo sirva de ponto de partida para os que apostam na plausibilidade de sua biografia.

De minha parte, isso é apenas um início.

BIBLIOGRAFIA

CROWLEY, Aleister. 1997: Magick – Book 4 – Liber ABA (second revised edition). Edited by Hymenaeus Beta (i.e. William Breeze). Maine: Samuel Weiser.

DVORAK, Joseph. Carl Kellner. Versão inglesa em http://user.cyberlink.ch/~koenig/sunrise/kellner.htm

Friedrich Max Müller – Artigo biográfico: http://en.wikipedia.org/wiki/Max_Muller

GRANT, Kenneth. 1991: The Magical Revival. London: Skoob Books Publishing.

_____. 1992: Aleister Crowley and the Hidden God. London: Skoob Books Publishing.

HOWE, Ellic & MÖLLER, Helmut. 1979: “Theodor Reuss – Irregular Freemasonry in Germany, 1900-23”. In: BATHAM, Cyril N. (ed). Ars Quatuor Coronatorum – Transactions of Quatuor Coronati Lodge, Vol. 91 for the Year 1978. Oxfordshire: Burgess & Sons, pp 28-46.

KOENIG, Peter-Robert. 1992: “The OTO Phenomenon”. In: SANTUCCI, James. (ed.) Theosophical History, vol. IV, nº 3 (July, 1992) , pp. 92-98.

_____. 1994: Das OTO-Phänomen. München: AWR.

_____. 1999: “Introduction”. In: NAYLOR, Anton R (Ed.). O.T.O. Rituals and Sex Magick. Thame: I-H-O Books; pp. 13-61.

KING, Francis. 2002: Sexuality, Magic & Perversion. Los Angeles: Feral House.

SCRIVEN, David (i.e. Tau Apiryon). 2001: “Portraits of the Saints of the Gnostic Catholic Church”. In: CORNELIUS, J. Edward (Ed) e CORNELIUS, Marlene (Ed). Red Flame – A Thelemic Research Journal, nº 2. Berkely: Red Flame Productions, pp 117-224.

Texto original do meu querido irmão Carlos Raposo, publicado originalmente no blog Orobas.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/biografias-carl-kellner