Agora, sem as rodinhas!

Quando surgiu pela primeira vez na comunidade científica, a ideia de que todo o universo tivesse se originado de uma espécie de “átomo primordial” há bilhões de anos, e que vinha se expandindo desde então, pareceu tão absurda que um famoso astrônomo da época a chamou de Big Bang num programa de rádio da década de 1940.

A intenção de Fred Hoyle, o cientista britânico defensor da teoria do universo estacionário ou eterno, era ridicularizar a teoria do belga Georges Lamaître, aquele quem primeiro propôs a ideia de que o próprio espaço-tempo se encontrava em expansão. O fato de Lamaître, para além de físico e astrônomo, ser também um padre católico, certamente levou Hoyle a supor que ele estava se baseando mais nos dogmas do Gênesis do que em ciência genuína…

Mas hoje sabemos que a hipótese do Big Bang venceu a batalha contra o universo estacionário de Hoyle, e o que determinou a vitória foram os fatos: em 1966, já próximo da morte num leito de hospital, Lamaître foi comunicado que os astrônomos Arno Penzias e Robert Wilson haviam confirmado experimentalmente a existência da chamada radiação cósmica de fundo, uma espécie de “registro fóssil” em micro-ondas da época em que todo o universo era quente e denso, apenas cerca de 380 mil anos após o seu início.

Junto com outras evidências, como a de que as galáxias ainda hoje estão se afastando umas das outras, e a observação de uma imensa abundância de elementos leves no universo, hoje a teoria do Big Bang é de muito longe a hipótese mais aceita na comunidade científica, fazendo parte do chamado “modelo padrão”. Penzias e Wilson ganharam o Prêmio Nobel de Física de 1978 por sua descoberta. Se estivesse vivo, Lamaître certamente teria o seu Nobel garantido.

A ideia de um universo eterno, entretanto, era um conceito muito mais antigo do que o advento da própria astronomia moderna; um paradigma tão cristalizado na mente humana que eventualmente também se tornou quase que um dogma científico, ao ponto de ter tirado o sono até mesmo de Albert Einstein, que relutou o quanto pôde em admitir que o universo de fato se expandia. O célebre físico alemão chegou a dizer que este foi “o pior erro de sua carreira”.

Realmente não é fácil quebrar antigos paradigmas. Demócrito e outros filósofos atomistas da Grécia Antiga, por exemplo, acreditavam que os átomos eram eternos e imutáveis. Pitágoras e seus discípulos consideravam que todo o universo era ordenado por princípios imateriais eternos de harmonia e “verdades matemáticas”. Já Platão foi ainda mais longe, e generalizou a matemática transcendente pitagórica para uma visão mais ampla de Ideias arquetípicas e universais, que incluíam a Forma de cada objeto ou qualidade, como cavalos, seres humanos, cores e bondade. Segundo o grande filósofo grego, a própria realidade era composta por “sombras e reflexos das Formas transcendentais”.

Sempre foi complexo para a mente humana imaginar uma Natureza evolutiva, que não surgiu “pronta e acabada”, com todas as suas leis e variáveis imutáveis. E isso, é óbvio, se reflete também nas ideias científicas.

Ironicamente, o mesmo paradigma de universo estacionário com leis imutáveis gerou um baita problema para a visão ateísta do mundo… De acordo com o Princípio Antrópico, se as leis e constantes cosmológicas fossem ligeiramente diferentes após o Big Bang, não teria sido possível o surgimento de formas de vida baseadas em carbono, como nós aqui neste planetinha. Uma das respostas óbvias para tal enigma é que a própria Criação foi obra de alguma espécie de inteligência superior, ou seja, a ciência se vê forçada a retornar a hipótese de um Criador.

Para contornar esse “incômodo”, muitos cosmólogos preferem pensar que há inúmeros universos além do nosso, cada um deles com leis e constantes específicas. Nesses modelos de “multiverso”, o fato de calharmos de estarmos aqui, conscientes e maravilhados, se explica pela extraordinária sorte de fazermos parte de um dos bilhões e bilhões de universos que propiciou o surgimento da vida como a conhecemos. Segundo esses modelos, não faz o menor sentido reclamarmos de qualquer espécie de azar, pois a nossa sorte em estarmos aqui vivos é tão imensamente grande que equivale a uma chance estatística inferior a sermos atingidos por um raio a cada minuto durante toda a vida (e, nesse caso, também considerando as chances de sobrevivermos a todos eles).

Portanto, se as leis e constantes são imutáveis e tudo estava determinado desde o início dos tempos, tanto faz se calhamos de existir num dos universos que possibilitou a vida baseada em carbono, ou se este universo único foi criado conforme descrito no Gênesis, as chances estatísticas provavelmente se equivalem, e tudo passa a ser uma questão de “gosto pessoal” que defina qual aposta é menos absurda do que a outra.

No fundo, todas as teorias que postulam a existência de um multiverso possuem a crença comum na primazia da matemática sobre a realidade. Mesmo que existam muitos universos além do nosso, o que os sustenta, segundo tais ideias, são fórmulas matemáticas transcendentes, como por exemplo as que formam a espinha dorsal da teoria das cordas ou teoria M. Para resumir: tais teorias nada mais são do que uma espécie de pitagorismo ultrarradical.

Mas temos outra alterativa surpreendente, defendida pelo físico Rupert Sheldrake em seu monumental Ciência sem Dogmas. A opção ao pitagorismo é a evolução das regularidades da Natureza. Tais regularidades seriam mais semelhantes a hábitos adquiridos do que a leis imutáveis que estavam lá desde o início dos tempos, e ficariam mais fortes (ou “constantes”) pelo meio da repetição, da mesma forma que aprendemos a andar de bicicleta. Segundo Sheldrake, há um tipo de memória na Natureza, e o que acontece agora é influenciado direta ou indiretamente pelo que já ocorreu antes.

Hábitos ancestrais foram estabelecidos há bilhões de anos, e estão arraigados de tal forma na Natureza que se parecem mesmo com “leis imutáveis”. Dos fótons, prótons e elétrons surgiram as moléculas, depois as estrelas e as galáxias, então os planetas, os cristais, e ao menos aqui neste planetinha, as plantas e os seres humanos.

Entre as moléculas, por exemplo, a de hidrogênio é provavelmente a mais antiga – ela já existia antes da formação da primeira estrela. As “leis” e “constantes” associadas a esses padrões arcaicos de organização estão tão bem estabelecidas que atualmente já não apresentam nenhuma mudança detectável. Em contrapartida, algumas moléculas são novíssimas, como as centenas de compostos produzidos pela primeira vez por químicos de síntese em nosso próprio século. Nesse caso, os hábitos ainda estão se formando. O mesmo ocorre com novos padrões de comportamento em animais e novas habilidades humanas.

Se eliminarmos a biologia e nos mantivermos exclusivamente na física e na química, ainda assim esta teoria tem uma vantagem gritante se comparada às teorias que postulam um multiverso como forma de explicação ao Princípio Antrópico: ela fala de coisas que podem efetivamente serem observadas e testadas!

Na verdade, sabemos que os químicos que sintetizam novas substâncias muitas vezes têm grandes dificuldades de fazer com que elas se cristalizem. Às vezes leva muitos anos para os cristais surgirem pela primeira vez. Por exemplo, a turanose, um tipo de açúcar, durante décadas foi considerada um líquido, até que, na década de 1920, ocorreu a cristalização. Depois disso, esse açúcar formou cristais em todo o mundo [1].

O xilitol, álcool de açúcar usado como adoçante em gomas de mascar, foi preparado pela primeira vez em 1891 e considerado líquido até 1942, quando surgiram cristais pela primeira vez. O ponto de fusão desses cristais era de 61ºC. Depois de alguns anos surgiu outra forma de cristal, com ponto de fusão de 94ºC e, mais tarde, o primeiro tipo de cristal desapareceu da Natureza [2] (leia novamente este parágrafo se não compreendeu ainda o quão assombroso ele é)…

Nós tendemos a ver o universo sob o nosso ponto de vista, mas ironicamente postulamos que, ao contrário de nós mesmos, ele deveria ser como que um rio congelado, uma espécie de fórmula matemática supersimétrica, superelegante, transcendente e eternamente imutável. Dessa forma, tendemos a ver a Natureza como uma espécie de supercomputador programado desde o início dos tempos para obedecer às mesmas leis e constantes, sem a mísera variação. Entretanto, basta olhar a nossa volta, como uma árvore só pode existir após haver sido broto e, ainda antes, semente. Como os filhotes de passarinho devem ser alimentados por seus pais antes de criarem força nas asas e, eventualmente, se arremessarem aos céus. Como toda a metrópole tem o seu centro histórico e, dentro dele, o seu marco inicial.

Tudo evolui do simples para o complexo, e o grande destino da vida parece mesmo ser se organizar, de alguma forma extraordinária, em consciências capazes de observar o mundo – a Natureza vendo a si mesma, compreendendo a si mesma, se espantando consigo mesma.

E não podemos saber ainda, de fato, se há mesmo um Criador que pensou nisso tudo desde o início. Talvez, quem sabe, ele esteja aprendendo conosco. Talvez ele tenha preferido nos deixar livres para descobrir as coisas, tateando o Cosmos e evoluindo por nossa própria conta.

Como quando nossos pais nos levam ao parque para nos ensinar a andar de bicicleta. No começo, colocam rodinhas para que nos auxiliem a manter o equilíbrio. Talvez, quem sabe, todo o nosso passado mineral, vegetal e animal tenha sido como que um aprendizado com o auxílio das rodinhas…

Mas hoje, hoje despertamos, hoje somos seres conscientes encarando de volta a vastidão cósmica salpicada pelas mesmas fornalhas que fundiram os elementos de nosso corpo, habituadas há bilhões de anos a este caminho ancestral que vai do átomo primordial de Lamaître a um planetinha, quiçá bilhões e bilhões deles, plenos de vida, plenos de crianças a arriscar suas primeiras voltas de bicicleta.

Até o dia em que partiremos deste pequeno parquinho para os mundos e galáxias mais distantes, e quem sabe neste dia não poderemos olhar para o Alto e dizer:

“Olhem para nós! Agora, sem as rodinhas!”

***
[1] Crystals and Crystal Growing, por Allan Holden e Phyllis Singer (1961), pp. 80 e 81.
[2] Ibid., p. 81.

Crédito da imagem: Google Image Search/shutterstock

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#Ciência #Evolução #universo

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Conceitos Base da Manifestação

Paulo Jacobina*

Excerto de A Manifestação

Tal como na obra preliminar, aqui se busca uma didática visando a captura do conhecimento por parte do leitor e a sua interiorização, fazendo resgatar a consciência do que se está sendo analisado. Para isso, será necessária a análise inicial de alguns conceitos que são, costumeiramente, utilizados de maneira equivocada pela maioria, e, por isso, acabam contribuindo para a perpetuação de certa confusão acerca dos temas em que são utilizados.

O primeiro conceito que se deve ter em mente é o do ponto. “Ponto” é um objeto que não tem definição, dimensão e forma e, por isso, é impossível mensurá-lo fazendo uso de medidas espaciais, como as de comprimento, largura, altura, área e volume. Apesar de o ponto não possuir medida, ao se unir infinitos pontos em linha, obtêm-se uma reta. Da mesma forma que se unindo infinitos pontos em linha dá-se origem à reta, ao se unir infinitas retas tem-se o plano, que é o conjunto infinitos e ilimitados de reta. Assim como o plano é uma justaposição de retas, ao se realizar uma sobreposição de planos de forma que nenhuma dos planos possuam ponto em comum, mas que estejam tão próximos a ponto de serem confundidos entre si, dá-se origem ao espaço.

Além de servir de base construtiva do espaço, o ponto também é utilizado como mecanismo para se determinar uma posição no próprio espaço por intermédio das dimensões. “Dimensão” nada mais é do que o número de parâmetros utilizados para identificar um ponto no espaço. Assim, ao se falar que um ponto está na terceira dimensão, significa que foram utilizadas apenas três coordenadas para identifica-lo, ignorando-se todas as outras existentes e que também podem ser utilizadas para se auferir a sua localização.

Habitualmente, faz-se uso apenas de três coordenadas, comumente chamadas por comprimento, largura e profundidade. Contudo, existem outras coordenadas, como o tempo, e, ao fazer uso dessas quatro dimensões tem-se origem o que se chama de espaço-tempo.

Como toda coordenada pode ser utilizada para se mensurar alguma coisa, a exemplo da reta com o comprimento e o plano com a largura, o tempo é utilizado para se estabelecer a frequência. Frequência consiste no número de ocorrências por unidade de tempo, assim, quanto maior a frequência de uma ocorrência, mais rápido no tempo se dá esta ocorrência.

Desta forma, o espaço-tempo é a parcela do Universo analisada por intermédio de quatro dimensões, três associadas à localização espacial e uma dimensão referente a localização temporal. Essa interrelação entre as dimensões espaciais e a dimensão temporal, ocasiona uma peculiaridade: o espaço-tempo é composto por uma parte espacial e uma parte temporal, fazendo com que, quanto maior for a presença de uma dessas partes, menor será a da outra.

Essa peculiaridade é a responsável por gerar algumas percepções, como a de que em um ponto extremamente maciço, isto é, repleto com as três dimensões espaciais, há a ocorrência reduzida do tempo, fazendo com que a velocidade[1] percebida no ponto por alguém externo a ele seja pequena.

Outra percepção destacável encontra-se no fato de que, quanto mais precisa for a localização espacial de um ponto, mais imprecisa será a aferição da sua velocidade, uma vez que, para se obter a velocidade, faz-se uso da dimensão temporal. Ao contrário, quanto mais precisa a aferição da velocidade, mais impreciso será para se estabelecer a sua localização espacial. Por exemplo, ao se determinar que a Terra se desloca em uma velocidade orbital média de 29,78km/s, faz-se uso de incertezas tanto quanto a sua posição espacial, quanto a sua posição temporal, pois se se utilizasse uma posição espacial exata, a posição temporal seria zero e o ponto se encontraria fora do espaço-tempo. Da mesma forma, se se utilizasse uma posição temporal exata, a sua posição espacial seria zero, encontrando-se fora do espaço-tempo. Por mais exata que a compreensão do Eu que encarna na Terra possa ter sobre a localização de algo, esta localização não é inteiramente correta, apenas ilusoriamente se manifesta precisa, sendo uma faixa de probabilidade constatada pelo Eu.

As relações analisadas dentro do espaço-tempo compõem o que se chama de ciclo. O ciclo é um período no tempo no qual um fenômeno ocorre, sendo o fenômeno uma sequência de fatos, nem sempre compreendidos pelo Eu que necessita de encarnar na Terra. Por exemplo, existem ciclos “mais simples” de se compreender, como o piscar de olhos; a rotação da Terra; a translação da Terra; e a encarnação. Tal qual existem ciclos “mais complexos”, como o da Manifestação. Entretanto, mesmo nesses ciclos “mais simples” existem fatos que ocorrem de forma desapercebida pelo Eu. Bem como existem ciclos que possuem fatos que a compreensão do Eu aqui encarnado não consegue visualizar como integrantes do fenômeno observado. E todos os fatos que compõem o ciclo são necessários, pois, sem eles, o ciclo não se completa, apenas torna-se mais longo.

Outrossim, os fatos que compõem um ciclo também podem compor outros ciclos, sendo estes integrantes de um ciclo “maior” ou de um outro ciclo. Tomando o piscar de olhos como exemplo de ciclo, é possível se estabelecer que existem dois ciclos “menores” dentro dele, um correspondente ao fenômeno do fechar dos olhos e outro, ao abri-los. O próprio abrir dos olhos, além de integrar o piscar de olhos, também é parte integrante do ciclo de visão. Desta forma, todos os ciclos acabam por se integrar e conectar, compondo o Ciclo da Manifestação.

Outro conceito base que se deve ter em mente é o de campo. “Campo” é o nome dado a uma região de influência de algo ou sobre a qual atua uma determinada força. Sendo a força um agente capaz de modificar o estado no qual algo se encontra, essa modificação causada pela força ocorre em virtude da utilização do deslocamento da energia, que é a capacidade que algo possui de criar movimento, ou, em outras palavras, é a Vitalidade.

À concentração de energia dá-se o nome de “massa”[2] e, à concentração dessa massa em uma região do espaço dá-se o nome de “densidade”[3]. Assim, quanto mais massa existir em uma região espacial, mais densa essa região estará e, ao contrário senso, quanto menor for a massa em uma região, mais sutil ela estará.

Ponto que merece destaque encontra-se no fato de que a massa é a concentração de energia e, sendo a energia a capacidade de criar movimento, quanto mais massa, consequentemente, mais energia e, consequentemente, mais movimento. Contudo, embora um objeto denso possa parecer estático para quem o observa do exterior, em seu interior, há o movimento da própria energia. Porém, como a porção do espaço no qual esta energia se encontra é ínfima, a porção do tempo se eleva, fazendo com que a energia atinja elevadas frequências[4]. Essas frequências podem ser tão elevadas que ilusoriamente façam o objeto parecer estático para um observador externo.

Assim, a elevação da frequência está intimamente associada ao aumento da densidade; ao passo que a diminuição da frequência está correlacionada à diminuição da densidade ou à ocorrência do processo de sutilização. Da mesma forma, um objeto para se adensar necessita de acumular energia, enquanto que, para se sutilizar, necessita liberar energia. Por exemplo, em um objeto esférico no qual o centro é o local de maior densidade e a superfície é o de menor, para um ponto que se encontra no centro deste objeto se deslocar em direção à superfície, ele deve liberar energia no sistema, que será absorvida por outro ponto no sistema que passará a ocupar o seu antigo local, realizando uma troca de posições, na qual um ponto se sutiliza ao passo em que outro se adensa.

Aqui serão mantidos, para fins didáticos, a nomenclatura utilizada na obra preliminar (“A Senda Infinita”) e, portanto, o processo de adensamento ocorre pela ação do Agente Modelador, enquanto, o de sutilização, pelo Eu.

Assim, a manifestação ocorre por um processo de contração no Absoluto, no qual o Tecido Elementar é fragmentado infinitamente pelo Agente Modelador até se obter a Partícula Elementar, que nada mais é do que a mais básica forma manifesta do Absoluto. Essa Partícula Elementar é o ponto no qual a ação desagregadora do Agente Modelador é totalmente anulada pela ação integralizadora do Eu.

Em que pese o fato de o Universo ser criado pela fragmentação até se alcançar a Partícula Elementar, é possível se estabelecer, para fins didáticos, que toda a Manifestação é formada por partículas elementares reunidas em diferentes proporções.

De forma a facilitar a visualização, basta pensar em um átomo de hidrogênio, o mais básico elemento químico conhecido. Ao se unir dois átomos de hidrogênio, obtém-se um átomo de hélio. Acrescentando mais um átomo de hidrogênio, cria-se um de lítio e, assim por diante, criando todos os elementos químicos. Da mesma forma com que se “unindo” átomos de hidrogênio se consegue formar todos os demais elementos químicos, ao se unir partículas elementares, forma-se tudo o que existe e o que não existe.

Como tudo o que existe e o que não existe é composto pela partícula elementar em diversas quantidades, todos os princípios que atuam sobre a partícula elementar também se aplicam àquilo o que é manifesto.

Este fato é importante para se compreender que tudo o que existe e o que não existe está submetido às mesmas regras básicas, pois é composto pela mesma coisa, a Partícula Elementar, em distintas quantidades. É por isso que comumente se diz que “o que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima”.

É claro que a Manifestação, como é observada pelo Eu que necessita de estar encarnado na Terra, apresenta-se de infinitas formas, sendo cada uma dessas formas composta por uma quantidade de partículas elementares, fazendo com que as regras básicas aplicadas à Partícula Elementar se verifiquem em maior ou menor evidência, de acordo com a proporção de partículas elementares daquela forma.

Outro ponto encontra-se no fato de que uma forma, observada pelo Eu que necessita de estar encarnado na Terra, é composta por infinitas outras formas, a exemplo da forma humana, que é o resultado da aglutinação de infinitas outras formas; ou do triângulo, que é uma das formas obtidas com a união de três segmentos de reta.

Continua em A Imagem do Ciclo de Manifestação 

Notas

[1] V=T/V’, onde “v” é a velocidade; “D” é a distância, a medida espacial; e “T” é o tempo.

[2] E = m.c², onde “E” é a energia; “m” é a massa; e “c²” é a velocidade da luz ao quadrado.

[3] D=M/V’ , onde “D” é a densidade; “m” é a massa; e “v” é o volume.

[4] E = H.F, onde “E” é a energia; “H” é a constante de Planck; e “F” é a frequência.

 


Paulo Jacobina mantêm o canal Pedra de Afiar, voltado a filosofia e espiritualidade de uma forma prática e universalis

Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/conceitos-basea-manifestacao-parte-1/

Artha Sutra (O Livro da Riqueza)

De acordo com a cosmovisão indiana, um ser humano para ser considerado bem sucedido em todos os aspectos da vida deve dominar três grandes áreas da atuação humana: Dharma, Artha, Kama. (Espiritualidade, Riquezas, Prazeres). Da mesma forma que temos o Kama Sutra como um guia para a maestria do Kama, e  obras como o Bhagavad Gita que nos orientam sobre o Dharma, a civilização hindu também nos legou o Artha Sutra, um valioso tesouro literário sobre a arte de ficar  e se manter rico.

Mas como veremos, estas três áreas não vivem isoladas.O Dharma é a mais conhecido e se refere ao mérito religioso, ao sentido de propósito espiritual, ou seja, a realização de nossa vinda na terra com sabedoria. Kama, é o segundo termos mais conhecido e refere a saber satisfazer os desejos pela maestria dos prazeres, em particular do sexo. O terceiro termo, Artha é menos conhecido. Se refere mais especificamente a administração dos bem terrenos, a aquisição das riquezas e bens materiais com os quais tanto a caridade como hedonismo são impossíveis.

Artha Sutra (O Livro da Riqueza) nos veio pelas mãos de Chanakya, também chamado Kauitilya ou Vishnugupta, um antigo guru, filósofo, economista e jurista do subcontinente indiano. Em muitos sentidos suas ideias foram as responsáveis pela prosperidade do Império Mauria entre os séculos IV e II antes de cristo. De acordo com seu autor, suas lições são capazes de prover prosperidade material e consequentemente sucesso em todos os aspectos da vida.

Chanakya nos legou duas obras principais. A primeira Arthashastra voltada para os governantes e considerado uma obra pioneira no campo da ciência política. A segunda, voltada a população em geral e posteriormente batizada como Artha Sutra, é um tratado composto de mais de quatrocentos aforismos com o objetivo de ensinar as leis que regem as conquistas materiais. É este o texto que você encontra abaixo e cuja ordenação por subtítulos é uma inclusão ocidental tardia para facilitar a leitura.

Artha sutra de Chanakya

A base do Artha (meios de vida materiais)

  • O objetivo da vida humana é a busca da felicidade.
  • A felicidade reside na adesão ao Dharma.
  • A base do Dharma é a relação entre as pessoas.
  • A base da relação entre as pessoas é a economia da nação.
  • Nações são melhor administradas por pessoas que conquistaram a si mesmas.
  • As pessoas conquistam a si mesmas pela humildade.
  • A humildade é conquistada servindo aos mais sábios e experientes.
  • Ao servir os sábios e experientes, o conhecimento é obtido.
  • Por meio do conhecimento, você entende o mundo ao seu redor.
  • Por meio do conhecimento, você também obtém sabedoria.
  • Por meio da sabedoria, você atinge os objetivos.

Benefícios da Riqueza

  • Perseverar no caminho da prosperidade é uma jornada deliciosa.
  • A aspiração por riqueza é a causa de todas as profissões.
  • Todos os objetos materiais podem ser obtidos por meio da riqueza.
  • Até a feiura pode ser escondida por meio de jóias.
  • Os ricos podem alcançar muito com o mínimo esforço devido à sua riqueza.
  • O conhecimento de uma pessoa sem um tostão é considerado sem valor.
  • Mesmo a voz sensata de um pobre raramente é ouvida.
  • Com a riqueza do seu lado, até um homem vergonhoso é considerado gracioso.
  • Se até mesmo o rei dos deuses fosse um pobre, ele também seria visto com desprezo.
  • Uma pessoa sem um tostão é insultada até mesmo por sua própria esposa.
  • Uma planta sem flor raramente é visitada por abelhas.
  • Homens ricos são respeitados pelas massas.
  • Um homem rico é considerado bonito pelas massas.
  • Mesmo que um homem rico não dê esmolas, os mendigos não param de persegui-lo.
  • Uma pessoa em busca de flores raramente rega uma planta morta.
  • A riqueza de recursos leva à riqueza de pessoas.
  • Por meio da riqueza de pessoas, uma nação se torna próspera mesmo na ausência de um líder.

O Caminho da Riqueza

  • Conquistar riqueza, proteger o que foi conquistado e construir sobre o que foi conquistado são os três objetivos fundamentais de qualquer organização.
  • Rejeitar o que foi ganho ao acaso é considerado uma perda.
  • Se for o momento certo, a prosperidade pode simplesmente chegar à sua porta.
  • Mas aquele que se apóia totalmente no destino é estúpido e não consegue nada.
  • A prosperidade e a pobreza são devidas à ação de alguém.
  • Trabalhando de forma adequada, os lucros podem ser aumentados.
  • Deve-se acumular riqueza como se fosse viver para sempre.
  • É preciso sempre economizar dinheiro para amanhã.
  • É preciso salvar sua riqueza de ladrões e políticos.
  • Empréstimos, inimigos e doenças devem ser mantidos à distância.
  • A riqueza é freqüentemente alcançada assumindo riscos.
  • Quando esses sutras são seguidos, as fontes de renda aumentam.

Conhecimento é a primeira riqueza

  • Para uma pessoa sem riqueza, o conhecimento é sua riqueza
  • Aqueles destinados à destruição raramente ouvem palavras de sabedoria.
  • O envelhecimento não garante sabedoria.
  • Quando cheio de sabedoria, até mesmo as palavras de um ignorante devem ser ouvidas.
  • Nenhum ladrão pode roubar conhecimento.
  • Somente o conhecimento pode levar ao verdadeiro prazer.
  • O respeito conquistado pelo conhecimento de uma pessoa é verdadeiro e duradouro.
  • Quando uma pessoa experiente sai do caminho, seu próprio conhecimento é capaz de colocá-la de volta nos trilhos.
  • Pessoas más nunca devem receber conhecimento.
  • Homens sem conhecimento não valem nada.
  • As pessoas de saber não têm medo do mundo.
  • O conselho deve ser buscado exclusivamente com especialistas.
  • A capacidade de compreender o mundo é sabedoria.
  • Uma pessoa com conhecimento que não consegue entender o mundo é tola.
  • A utilidade da leitura é entender o mundo.
  • É apenas na aplicação que a utilidade do conhecimento é compreendida.
  • O conhecimento é um ornamento dos homens.
  • A obediência ao sábio é um ornamento para todos.
  • O ornamento entre os ornamentos é aquele conhecimento que transmite humildade.

Escolhendo subordinados

  • Depois de se equipar com conhecimento e sabedoria, um líder deve encontrar subordinados.
  • Sem subordinados competentes, os líderes nada alcançam.
  • Nunca se deve caminhar sozinho por um caminho deserto.
  • Uma carroça não vai a lugar nenhum com apenas uma roda.
  • O subordinados devem ser aqueles que entendem o bem-estar dos líderes.
  • Os líderes devem indicar como subordinados apenas as pessoas para quem tenha respeito e credibilidade.
  • O nepotismo e o favoritismo devem ser evitados durante a nomeação de subordinados.
  • Até mesmo um trapaceiro parece um cavalheiro no início.
  • Uma única vaca é melhor do que mil cães.
  • O pavão de amanhã não é melhor do que o pombo de hoje.
  • Os subordinados não devem apenas ser bem informados e informativos, eles devem ser igualmente sábios.
  • Pessoas imorais nunca devem ser consideradas, mesmo que tenham conhecimento.
  • Nunca confie em um indivíduo que ultrapassou seu limite.

Lidando com subordinados

  • Nunca insulte as pessoas, mesmo que sejam fracas.
  • Um rei observa seus súditos por meio de espiões.
  • A sobrecarga faz com que os gerentes fiquem exaustos e desanimados.
  • Aquele que anuncia as faltas dos outros em uma assembleia, declara as suas.
  • A raiva causada pelo ego pode destruir o eu.
  • Aquele que não desiste ou se opõe raramente deve ser desrespeitado.
  • Aqueles que mantêm seu compromisso geralmente são bem-sucedidos.
  • Líderes que não estão em contato com seus seguidores geralmente são fracassados ​​por seus súditos.
  • A opinião de uma pessoa verdadeira raramente deve ser minada.
  • Por estarem em contato, os líderes dão felicidade a seus seguidores.
  • Líderes tímidos raramente são obedecidos por subordinados.
  • Líderes rudes costumam ser tratados com desprezo pelas costas.
  • A punição deve ser dada como se merece.
  • A má conduta de seu pessoal deve ser corrigida.
  • Mesmo uma pequena doença do corpo humano pode causar destruição.
  • O líder nunca deve menosprezar ou insultar as pessoas.
  • Os líderes nunca devem ser vingativos.
  • A obediência excessiva daqueles que são familiares de muito tempo deve ser posta em dúvida.
  • A proximidade excessiva gera desrespeito.
  • É preciso conhecer seus limites, mesmo com seu próprio povo.
  • É preciso sempre fazer feliz uma pessoa prestativa.
  • Aqueles que ajudaram nunca devem ser traídos.
  • O pagamento é um dever.
  • A ira do povo é catastrófica.

Lidando com autoridades

  • Uma autoridade é como uma divindade.
  • Mesmo enfrentando uma fome terrível, um leão raramente come grama.
  • Servindo sob um líder capaz, até mesmo uma pessoa incapaz se torna capaz.
  • A água, depois de entrar no leite, torna-se o próprio leite.
  • Ao servir a um líder ganancioso, uma pessoa não faz bem a si mesma.
  • É bom servir a um líder sábio.
  • Ao se curvar, até mesmo uma tampa de panela esvazia um poço.
  • Nunca se deve visitar um rei ou seu guru com as mãos vazias.
  • Nunca se deve estar muito próximo da classe principesca.
  • Nunca se deve olhar diretamente nos olhos do rei.
  • Aqueles que mandam raramente são privados de dores e ganhos, felicidade e infelicidade.
  • Nunca se deve fofocar sobre grandes homens.
  • Sempre se refugie com um líder forte como uma fogueira no inverno.
  • Não é sensato agir contra seu próprio líder.
  • Não se vista mais suntuosamente do que seu líder.
  • Nunca se comporte com pompa na frente de seu líder.
  • Os trabalhadores raramente devem se gabar de seu mestre.
  • A ordem de um rei raramente deve ser desobedecida.
  • Um bom líder é como uma mãe para seus seguidores.
  • Se um mestre está zangado, o servo deve ser paciente.
  • Mesmo que seja punida, a criança deve buscar refúgio em sua mãe.
  • Os grandes homens nunca devem ser ridicularizados
  • Nunca se deve insultar grandes homens.
  • Nem uma vez se deve transgredir seu limite.
  • É melhor estar sem um líder do que sem moralidade.
  • A ira dos reis pode ser devastadora.

O Desejo

  • A riqueza raramente pode residir em uma pessoa desprovida de desejo.
  • Cada pessoa é limitada pelos limites de seu desejo.
  • Aqueles sem desejo nem a coragem é útil.
  • Por meio de esforços adequados, todos os desejos humanos são alcançados.
  • Desejo bom é aquele que não afasta ninguém de seus deveres.
  • O desejo de ser antiético indica autodestruição.
  • Os maus desejos podem sequestrar a dignidade.
  • Aqueles com uma mentalidade cada vez menor certamente enfrentarão fracassos.
  • Autoridade  respeitada é seguida por seu povo.
  • Na falta de coragem, o homem nada alcança.

O Planejamento

  • O trabalho não pode ser realizado exclusivamente com coragem.
  • O sucesso geralmente é melhor alcançado com planejamento.
  • Todos os esforços devem ser feitos para fazer o melhor uso dos recursos disponíveis para ganhar riqueza.
  • A riqueza permanece por mais tempo com aqueles que são cautelosos e calculistas.
  • Todos os esforços, com planejamento adequado, podem alcançar o sucesso.
  • Sem um planejamento adequado, todos os esforços estão fadados ao fracasso.
  • As políticas bem definidas para os subordinados são como lanternas para os homens caminhando no escuro.
  • Políticas e estratégias devem ser adotadas somente após reflexão e discussão substanciais.
  • É apenas mantendo boas políticas que os líderes podem cumprir seus objetivos.
  • Ao diminuir o comprometimento, os líderes certamente sofrerão o fracasso.
  • Por não ser vigilante e por descuido, um líder certamente será subjugado por seus adversários.
  • Por meio de todos os métodos e recursos, os líderes devem corrigir todas as lacunas em suas políticas.
  • Ao trabalhar em políticas corretas, uma nação está destinada a florescer.
  • O compromisso de uma organização com as políticas desempenha um papel fundamental em seu sucesso.
  • Ao proteger as políticas certas, as organizações e as nações se protegem da vulnerabilidade.
  • Deve-se evitar o ciúme pessoal e o ego ao trabalhar nas políticas.
  • Se todo mundo apoiar algo, deve-se desconfiar.
  • No interesse de um país, uma aldeia pode ser abandonada.
  • No interesse de uma aldeia, uma família pode ser abandonada.
  • Somente subordinados com sabedoria devem se envolver na formulação de políticas.
  • Políticas estruturadas por ouvir muitos estão fadadas ao fracasso.
  • Tarefas importantes nunca devem ser realizadas consultando astrólogos.

O Trabalho

  • A felicidade colhida sem esforços dura pouco.
  • Pessoas pacientes são capazes de realizar grandes feitos.
  • Deve-se empreender apenas aquele trabalho que, segundo ele, pode corresponder às suas capacidades.
  • Deve-se receber uma tarefa em que seja proficiente.
  • Se uma pessoa sem conhecimento e habilidade adequados realiza uma tarefa específica, ela deve ser considerada indigna.
  • Raramente se pode desviar de sua verdadeira natureza.
  • Aquele que desfruta do restante depois de satisfazer os dependentes desfruta da bem-aventurança.
  • A riqueza abandona aquele que trabalha sem pensar muito.
  • O trabalho que pode levar a consequências graves não deve ser procurado.
  • Quem está em sintonia com o tempo, com certeza cumprirá sua tarefa.
  • Perder tempo tem suas próprias consequências.
  • Ao perder tempo, surgem obstáculos.
  • Mesmo um segundo desperdiçado pode ter consequências.
  • Nenhum trabalho deve ser procurado sem considerar os fatores de tempo e lugar.
  • Às vezes, na falta de sorte, mesmo um trabalho / tarefa de aparência simples se torna difícil de realizar.
  • Homens sábios costumam monitorar os campos e o tempo.
  • Homens sábios e espertos podem tornar mais fácil até mesmo uma tarefa difícil de realizar.
  • Deve-se regozijar somente depois que uma tarefa específica for realizada.
  • Devido à má sorte, até mesmo pessoas habilidosas e instruídas podem falhar.
  • O trabalho de amanhã deve ser feito hoje.
  • O trabalho da tarde deve ser feito pela manhã.
  • É preciso se esforçar para cumprir seu dever.
  • O trabalho é mais importante do que a adoração.
  • É preciso pensar bem antes de embarcar em uma tarefa específica.
  • Uma vez decidida, uma tarefa não deve ser atrasada.

Superando adversidades

  • Trabalhar sem desafios é raro.
  • Como um bezerro atrás de uma vaca, o prazer e a dor seguem a vida.
  • Qualquer tarefa pode ser analisada a partir de três perspectivas: a própria perspectiva, a perspectiva dos outros e a perspectiva lógica.
  • As dificuldades podem ser resolvidas por meio de um exame adequado.
  • O destino adverso pode ser domado aderindo aos rituais védicos.
  • Todos os obstáculos criados pelo homem podem ser eliminados.
  • Quando surgem desafios ou quando se depara com fracassos, uma pessoa imatura recorre ao jogo da culpa.
  • Alguém com limitações procura limitações nos outros.
  • A falta de esforços aumenta a dificuldade em atingir os objetivos.
  • Os empreendedores, às vezes, precisam ser implacáveis.
  • Assim como um bezerro desejando o leite materno bate no peito de sua mãe.
  • Até mesmo uma poção pode ser derivada de veneno.
  • Melhor eliminar as dúvidas do que se empenhar em controlá-las.
  • Quando há várias tarefas, a tarefa com maior potencial deve ter prioridade.
  • As falhas devem ser admitidas no consolo e nunca por antecipação.
  • O medo eclipsa o senso de julgamento.
  • Com o julgamento correto, qualquer objetivo é alcançável.

Objetividade

  • Uma pessoa completamente direta por natureza é a mais rara entre as pessoas.
  • É preciso ser objetivo, mesmo com aqueles que o traíram no passado.
  • Não há riqueza sem responsabilidade.
  • Com o veículo certo, os esforços para viajar são limitados.
  • Não há maior vantagem do que ter a habilidade de meditar durante a angústia.
  • É preciso contemplar ao amanhecer.
  • Não é recomendado contemplar ao entardecer.
  • Não há penitência maior do que ser honesto com seus deveres.
  • A riqueza acumulada pelos pecadores é desfrutada por outros pecadores.
  • Um cisne raramente pode morar em um crematório.
  • As circunstâncias podem mudar os homens.
  • O ouro deve ser proporcional à riqueza de cada um.
  • O crime deve ser punido de forma adequada.
  • Uma resposta deve estar de acordo com a pergunta.
  • Deve-se agir de acordo com seu status.
  • Os esforços devem ser proporcionais ao trabalho.
  • A doação deve ser de acordo com a necessidade.
  • Deve-se vestir de acordo com sua idade.
  • Um servo deve atender às necessidades de seu mestre.
  • A esposa deve estar de acordo com o marido.
  • Um aluno deve estar de acordo com seu professor.
  • Um filho deve estar de acordo com os desejos de seu pai.
  • Nunca se deve mostrar parcialidade ao fazer justiça.
  • Uma árvore de nim raramente pode ser uma mangueira.
  • Aquele que é fiel a seu dever é feliz.
  • Como a semente, a colheita
  • Como o conhecimento, o intelecto.
  • Como a educação, a conduta.

Evitando empréstimos

  • Um favor deve ser devolvido.
  • Esperar a riqueza dos outros pode levar uma pessoa à ruína.
  • Não se deve esperar nem mesmo uma pequena soma de ninguém.
  • Mesmo um bom conhecimento de pessoas más não os ajudará a evitar seus maus hábitos.
  • Nunca se deve ter ciúme de pessoas generosas.
  • Aquele que cobiça a riqueza alheia é egoísta.
  • A prosperidade das pessoas que conhecemos pode causar dor pior do que a que sentimos durante a nossa pobreza.
  • Ao alimentar uma cobra com leite, não se pode esperar que a serpente evite seu veneno.
  • Não é uma virtude esperar a riqueza dos outros.
  • Qualquer coisa que impeça alguém de cumprir compromissos é um convite ao desastre.
  • Os traidores não têm culpa.

Evitando doenças

  • Comer uma dieta balanceada e regular leva ao ganho de saúde.
  • As doenças causadas por alimentos não saudáveis ​​não podem ser curadas comendo alimentos saudáveis.
  • Com uma digestão adequada, um corpo nunca é afetado por doenças.
  • É uma dor comer durante a indigestão.
  • Doença e enfermidade são piores do que um inimigo.
  • A penitência é uma virtude que acompanha a pessoa mesmo depois da morte.
  • Mesmo um bocado de comida pode salvar uma vida.
  • Mas mesmo o melhor remédio é incapaz de trazer os mortos de volta.
  • O vegetarianismo é bom para todos.

Evitando Inimigos

  • Nunca se deve insultar um inimigo, especialmente em uma assembléia.
  • É um prazer ouvir a dor de um inimigo.
  • Somente aqueles que são leais devem ser considerados amigos.
  • Ganhando amigos, ganha-se influência.
  • Homens fortes procuram ganhar o que não têm.
  • A arte da gestão faz parte da ciência política.
  • Os assuntos internos e externos de qualquer organização dependem do ambiente político.
  • Assuntos internos constituem aquilo que governa os recursos dentro de uma organização.
  • Os assuntos externos constituem a relação das organizações com o mundo exterior.
  • Os líderes devem compreender esses fatos com firmeza.
  • O vizinho imediato de um país costuma ser seu inimigo.
  • O outro vizinho de um inimigo geralmente é seu amigo.
  • Os inimigos e amigos são assim por suas necessidades e conveniências.
  • Pessoas inteligentes não têm inimigos.
  • Se um indivíduo tem muitos inimigos, ele não deve ser seguido.
  • Uma pessoa deve guardar seus segredos de todos, especialmente daqueles sem caráter e moral.
  • Nunca se deve revelar sua vulnerabilidade.
  • Aqueles que atingem pontos vulneráveis ​​são de fato inimigos.
  • A indignidade deve ser evitada.
  • Pessoas indignas não têm amigos.
  • As pessoas encontrarão falhas até mesmo em quem não conhecem.
  • As falhas podem ser facilmente encontradas, mesmo entre os sábios.
  • Nenhuma pedra preciosa é encontrada sem uma rachadura.
  • A parceria não deve ser feita com pessoas más.
  • Uma pessoa gentil não deve ter relacionamento com pessoas desagradáveis.
  • Muitas vezes, um inimigo pode ser confundido com um amigo.
  • Um estrangeiro benevolente é um irmão e amigo.
  • Raramente se deve ter ciúme da virtude de um inimigo.
  • Não reclame de um inimigo em uma assembléia.
  • As boas qualidades dos inimigos devem ser absorvidas.

Lidando com conflitos

  • O forte vencerá o fraco na guerra.
  • Um fraco deve fazer as pazes com o forte.
  • O forte não deve buscar amizade do fraco.
  • A necessidade é a única razão para os fortes e fracos buscarem colaboração e tratados.
  • Um ferro não aquecido nunca pode ser unido a um ferro aquecido.
  • Quando estiver sem energia, procure a ajuda de alguém que seja forte.
  • Ao refugiar-se nos fracos, certamente enfrentará a desgraça.
  • A paz e a guerra muitas vezes são devidas às condições econômicas e ambientais.
  • É estúpido lutar com alguém poderoso.
  • Lutar com os poderosos é inútil; como um indivíduo desarmado diante de um poderoso elefante, a condenação dos fracos é freqüentemente predestinada.
  • Quando dois potes de barro com qualidades semelhantes colidem, ambos são destruídos.
  • Os esforços e ações de um adversário devem ser monitorados e examinados de perto.
  • Depois de discordar de um inimigo, tome providências para se proteger.
  • A não violência é um sinal de grandes homens.

Perigo dos vícios

  • Aqueles com vícios muitas vezes enfrentam fracassos.
  • O preguiçoso, sem ambições, nada busca.
  • Os ociosos, mesmo com força substancial, nunca reterão o que possuem por muito tempo.
  • Os ociosos não conseguirão nem proteger sua herança.
  • Os ociosos nunca podem cuidar daqueles que dependem deles.
  • Homens preguiçosos raramente se beneficiam da sabedoria das escrituras.
  • Gastar dinheiro sem consideração não serve nem a si mesmo nem à sociedade.
  • Ao renunciar à raiva, o homem está no caminho certo para o sucesso.
  • Pessoas sob a influência da luxúria e das drogas certamente perderão tudo o que possuem.
  • Para uma pessoa viciada em jogos de azar, nenhum trabalho parece justo.
  • Os viciados em violência costumam evitar a ética.
  • O desejo de riqueza não deve ser considerado um vício.
  • A falta de vontade de trabalhar deve ser considerada um vício.
  • Um mulherengo é uma desgraça; ele raramente é respeitado.
  • Um mulherengo é desrespeitado até pelas mulheres com quem dorme.
  • Capacidade de controlar a si mesmo é uma marca registrada da meditação.
  • É muito difícil se livrar da luxúria.
  • A luxúria leva à desgraça do homem.
  • Um oceano raramente consegue matar a sede.

Perigos da estupidez

  • Uma pessoa gananciosa, mesmo que competente, pode ser facilmente enganada.
  • Pela ganância, a consciência é enganada.
  • Quando seu trabalho está corrompido, a pessoa deve se consertar.
  • Pessoas estúpidas costumam ser teimosas.
  • É estúpido ter conflito com amigos, professores e mestres inteligentes.
  • Vale mais ser inimigo dos sábios do que amigo dos estúpidos.
  • É preciso falar a linguagem dos estúpidos com pessoas estúpidas.
  • É estúpido discutir com pessoas estúpidas.
  • Somente o ferro pode cortar o ferro.
  • Pessoas estúpidas não têm amigos verdadeiros.

Palavras e discurso

  • Palavras ásperas podem causar dores piores do que queimaduras de fogo.
  • Os líderes serão odiados se usarem palavras ásperas com frequência.
  • Qualquer inimigo pode ser contido empregando-se habilmente tato e diplomacia.
  • Palavrões nunca devem ser praticados.
  • Não há mérito maior que a verdade.
  • A verdade é o caminho para a bem-aventurança.
  • A existência do mundo é verdade.
  • A verdade é a essência da vida.
  • Não há pecado maior do que a mentira.
  • Poção e veneno emanam de sua língua.
  • Aqueles com palavras doces não têm inimigos.
  • Com palavras doces, até os deuses ficam satisfeitos.
  • Palavrões, mesmo que em brincadeiras, vivem para a eternidade.
  • Nunca fale nada que não seja apreciado pelos reis.
  • Pessoas más nunca podem falar com o coração.
  • Nunca se deve falar de seus medos.
  • Nunca se deve dar falso testemunho.
  • O falso testemunho é um caminho para o inferno.
  • O corpo pode desafiar as palavras de alguém.
  • O inacreditável, mesmo se verdadeiro, não deve ser falado.
  • Homens ricos geralmente desprezam falatório.

Carisma e Prestígio

  • Para os líderes, seu carisma é riqueza.
  • Esforços para tornar gracioso um homem vergonhoso são uma tarefa assustadora.
  • A falta de entusiasmo pode levar ao fracasso.
  • Para os entusiastas, até os inimigos se tornam favoráveis.
  • Se algo bom é feito por alguém que se não gosta, isso não é apreciado.
  • Por uma falha menor, uma pessoa com muitas boas qualidades não deve ser sacrificada ou abandonada.
  • Muitas virtudes em um homem podem ser eclipsadas por uma única falha.
  • Até uma mãe é abandonada se for considerada vil, cruel ou corrompida.
  • Assim como um membro que enfrenta gangrena é amputado.
  • Uma pessoa pode ser adorada simplesmente por causa de sua posição.
  • Uma pessoa boa é respeitada mesmo quando perde sua posição.
  • O carisma de uma pessoa respeitável raramente é esquecido.
  • Ele é uma boa pessoa que trabalha para o interesse dos outros.
  • Quando o respeito não combina com o status de alguém, é um bom motivo para suspeitar.
  • A autoconfiança deve sempre ser preservada.
  • Mas o ego é o pior inimigo do homem.
  • Uma pessoa vergonhosa não tem medo de insultos.
  • Os homens sábios não têm medo da morte.
  • Para santos e sábios, não existem medos.
  • O mesmo é para qualquer pessoa que aprendeu a controlar seus sentidos.
  • Ele é uma pessoa generosa que considera os problemas dos outros como seus.
  • Não se deve vangloriar-se de si mesmo.
  • Um grande homem é inestimável.
  • Uma mulher elegante é incomparável.
  • O medo do desrespeito está entre os piores temores.
  • Não há dor maior do que cair em desgraça.

Respeito à Família

  • Uma pessoa que salva seus pais da miséria é um filho verdadeiro.
  • Ele é um filho que traz glória para sua família.
  • Para um chefe de família, um filho virtuoso é uma bênção.
  • É preciso garantir que seu filho seja excelente em educação.
  • Nunca se deve vangloriar-se do filho.
  • É impossível esconder suas limitações entre parentes.
  • Um líder maligno é insultado até mesmo por sua própria esposa e filhos.
  • A Mãe é a maior professora.
  • É preciso sempre cuidar da mãe.
  • O sábio não deve se casar com imprudente.
  • Ao se casar com uma mulher imprudente, o homem certamente perderá seu respeito, longevidade e carisma.
  • Nunca se deve engravidar uma mulher desconhecida.
  • As mulheres procuram companheirismo.
  • Quando um homem respeitado se casa com uma mulher sem personalidade, ele com certeza sofrerá uma vida de agonia.
  • Mesmo as pessoas com amor têm raiva.
  • Deve-se morar em um lugar pacífico.
  • Onde se pode viver em paz é um lugar onde se deve viver.
  • As pessoas que vivem ao redor devem ser boas.
  • Eles devem cumprir a lei.

Respeito às Leis

  • Ao roubar a riqueza de outra pessoa, uma pessoa corre o risco de colocar a sua própria em risco.
  • Não há pior armadilha mortal do que roubar.
  • Ao cumprir a lei, um líder é respeitado por seu povo.
  • A lei é bem governada durante a prosperidade.
  • Sem lei, a própria estrutura da sociedade certamente perecerá.
  • Por medo da punição, as pessoas evitam a violência e seguem a lei.
  • Ao proteger a lei, as pessoas se protegem.
  • Ao proteger a si mesmo, tudo está protegido.
  • O crescimento e a destruição são causados ​​pelas pessoas.
  • A aplicação da lei deve ser feita aplicando sabedoria.
  • Até mesmo o emprego de pessoas é protegido pela aplicação da lei.

Respeito ao Dharma

  • O mundo é ordenado por meio do Dharma.
  • A riqueza somente deve ser conquistada com justiça.
  • Riquezas ganhas com a perda de respeito próprio são humilhação
  • Tudo o que é ganho de forma injusta não deve ser considerado riqueza.
  • Empatia é a mãe da ética.
  • A verdade e a penitência estão enraizadas na ética.
  • Não existe inimigo igual ao egoísmo.
  • Homens bons raramente podem desfrutar da companhia dos ímpios.
  • Os líderes imorais destroem não apenas a si mesmos, mas também seus seguidores.
  • Os líderes éticos se protegem, como seus seguidores.
  • Um líder ético é o protetor das massas.
  • Um líder que gera felicidade para seus seguidores é feliz em todos os lugares.
  • Não é sensato se associar com pessoas más.
  • O mais valente é aquele que é caridoso.
  • A fidelidade aos deuses, homens eruditos e professores é uma virtude.
  • A bondade em qualquer pessoa é uma virtude.
  • Com bondade, uma pessoa de nascimento humilde também pode ser considerada digna.
  • Mesmo que seja agradável, uma má ação nunca deve ser cometida.
  • Para pessoas altruístas, a vida não é um negócio.
  • Bons presságios significam sucesso.
  • Os presságios têm maior valor do que as estrelas.
  • As escrituras devem ser seguidas.
  • Mas a boa conduta não está só nas escrituras.
  • Deve-se aprender e seguir as características graciosas de homens excelentes.
  • Quando as escrituras estão ausentes, os homens sábios devem ser seguidos.
  • O perdão leva à penitência e à divindade na pessoa.
  • Por penitência, grandes feitos se tornam possíveis.
  • Somente nossa consciência dá testemunho de nosso trabalho.
  • A consciência é a testemunha eterna de todas as nossas ações.
  • Aqueles que pecam em segredo, sua consciência ainda dá testemunho.
  • É preciso sofrer seus pecados mais cedo ou mais tarde.
  • Sob nenhuma circunstância um indivíduo deve violar seus limites.
  • Escrituras más são freqüentemente suportadas por pessoas más.
  • Pessoas compassivas se veem em todos.
  • A personalidade reflete o caráter de uma pessoa.
  • Homens excelentes consideram a dor dos outros como sua.
  • Uma pessoa necessitada nunca deve ser rejeitada.
  • Um favor feito àquele que é gracioso raramente é esquecido. Ele está sempre agradecido.
  • Pessoas ingratas não têm retorno do inferno.
  • A companhia de bons homens é como a do céu.
  • Por meio do bom comportamento, um indivíduo aumenta não apenas seu respeito, mas também sua riqueza.
  • Sem a apoio dos deuses mesmo os melhores esforços estão destinados ao fracasso.
  • A bênção dos deuses é importante.

Malefícios da pobreza

  • Quando a desgraça está predestinada, uma pessoa fará tudo contra seus próprio interesse.
  • Um desempregado raramente pode cuidar de seus dependentes.
  • Aquele que não consegue encontrar trabalho para si mesmo é pior do que um cego.
  • Uma pessoa sem trabalho certamente enfrentará a fome.
  • Não há inimigo como a fome.
  • Um homem faminto pode comer qualquer coisa por fome.
  • Ao sucumbir à fome, um homem pode perder o controle de si mesmo
  • Pessoas empobrecidas frequentemente sofrem obstáculos.
  • Os mendigos carecem de respeito.
  • A pobreza é pior do que a morte.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/artha-sutra-o-livro-da-riqueza/

Memes para reflexão (parte 3)

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O Senhor dos Exércitos

As Cruzadas não se prestaram a “combater infiéis” somente na Terra Santa. No caminho até lá, houve algumas outras batalhas da Igreja dentro da própria Europa. Bem, “batalha” talvez não seja a melhor definição, e sim “massacre”.

Em 1209 a cidade de Béziers era habitada por cerca de 60 mil pessoas, e dentre elas havia muitos seguidores do catarismo, uma vertente mística do cristianismo que desagradava a Igreja. O problema é que nem todos dentro dos seus muros eram cátaros, o que gerou um questionamento muito pertinente de um dos comandantes do exército francês ao representante do Papa, quando eles se preparavam para invadir a cidade com uma força militar vastamente superior. O comandante perguntou: “Mas senhor, nesta cidade encontram-se vivendo em paz cristãos, judeus, árabes e cátaros. Como vamos saber quais são os inimigos?”. E o representante assim o respondeu: “Matem todos; Deus escolherá os seus!”. Béziers foi dizimada, mas não se sabe se Deus conseguiu encontrar os seus…

A ideia da “guerra do Bem contra o Mal” é poderosa e sedutora, e por isso mesmo sempre agradou aos Imperadores, Reis e Papas. De todas as ilusões que se interpõe a verdade inconveniente de que, como muitos já devem saber, todas as guerras do mundo se dão quase que unicamente pelo desejo da conquista de territórios e riquezas, a lenda do Bem contra o Mal é a mais simples de se compreender, e a mais capaz de arrebatar uma grande massa de ignorantes. Nesse tipo de guerra não há dor na consciência em dizimar inocentes, nem mesmo em estuprar mulheres e crianças, pois fica pré-estabelecido que elas são como demônios sem alma, fruto de um suposto exército comandando pelo Mal.

No entanto, talvez até mesmo uma criança já seja capaz de se questionar: “Ora, mas se Deus criou a todos nós, como ele pode ser o Senhor de um único exército?”. Acredito que a resposta seja óbvia, e este meme é uma tentativa de trazer essa reflexão à tona.

Buda, e Budai…

Uma curiosidade: na imagem cima não temos o Buda Sidarta Gautama, mas Budai, uma divindade chinesa que é costumeiramente confundida com Sidarta. Obviamente que o Buda Gautama provavelmente nunca foi muito “gordinho”, até mesmo porque chegou a praticar jejuns extremos, e após atingir a iluminação, aos 35 anos, passou os próximos 45 anos de sua vida viajando pelos arredores do Nepal.

A vida de Buda se parece muito mais com a vida de um místico andarilho, como Jesus de Nazaré, que viajou a pé pelos arredores de sua cidade natal, ensinando a todos com quem cruzava. A diferença é que Buda não é conhecido por realizar milagres, como ressuscitar mortos, curar leprosos ou transformar água em vinho. Em todo caso, os ensinamentos de Buda foram tão impactantes quanto os de Jesus, o que é atestado pelo fato de terem igualmente sobrevivido por mais de dois mil anos, sem terem sido esquecidos.

No entanto, não é difícil encontrar pessoas que, por total desconhecimento da história de vida de Sidarta, creem piamente que ele passou a vida toda meditando ao lado de uma árvore, e não ajudou ninguém. O fato de sua imagem ser costumeiramente confundida com a imagem de Budai talvez ainda ajude a perpetuar essa lenda do “monge gordinho que nunca saiu do lugar”.

Tal visão, é óbvio, não poderia estar mais distante da realidade. Desde o momento em que atingiu a iluminação, é dito que o Buda passou o restante de seus dias tentando auxiliar aos demais a atingir esse mesmo grau de consciência da realidade, e de desapego para com tudo o que existe somente no fluxo do tempo.

Se há um lugar em que Sidarta passou boa parte da vida, não foi na sombra de uma árvore, mas na própria eternidade.

» Em breve, + memes!

***

Crédito das imagens: Raph/Google Image Search

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

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#Budismo #Cristianismo #memes

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/memes-para-reflex%C3%A3o-parte-3

Xamãs, Heróis e Dragões

Este texto é destinado principalmente a todos aqueles que sabem perfeitamente a diferença entre imaginação, fantasia e realidade, e exatamente por isso se sentiram “atraídos”, desde cedo, pelos mitos modernos – embora, talvez hoje saibam, estes sempre foram também uma parte dos mitos de outrora…

A chamada tradição oral é a preservação de histórias, lendas, usos e costumes através da fala. Origina-se do primórdio da história humana, quando ainda não havia a escrita e os materiais que pudessem manter e circular os registros históricos.

Na atualidade própria das classes iletradas, a tradição oral tem sido, contudo, muito valorizada pelos eruditos que se dedicam ao seu estudo e compilação (os contos dos Irmãos Grimm, por exemplo), ao considerarem que é na tradição oral que se fundamenta a identidade cultural mais profunda de um povo. Supõe-se, por exemplo, que a Ilíada e a Odisseia de Homero foram, inicialmente, longos poemas recitados de memória.

Joseph Campbell gostava de dizer que “o mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre”. Esse aparente paradoxo pode ser reconciliado se entendermos a tradição oral, mãe da mitologia, como a melhor forma com a qual o espírito humano pôde passar adiante suas experiências no contato com a essência das coisas, com o que há de eterno no mundo. Dessa forma, todas as variantes de um mesmo mito são, no fundo, uma mesma história. E toda mitologia é, no fundo, uma mesma mitologia, uma mitologia do espírito humano.

Mas hoje não vivemos mais em tribos e aldeias, e nem todos necessitam decorar tais histórias antigas. Além disso, não são os xamãs nem os anciãos quem nos passam os mitos, mas alguns poucos textos sagrados de outrora, que até hoje inspiram inúmeras variações na mente dos contadores de histórias modernos – a quem conhecemos, principalmente, como artistas. Existem mitos sendo recontados em todos os cantos: nos livros de vampiros adolescentes, nos filmes de Hollywood, nas séries de TV de fantasia, e até mesmo num gibi.

Desde pequeno eu fui imediatamente atraído pela mitologia dos super-heróis do século passado. E o meu predileto é Steve Rogers, o Capitão América, que era fisicamente fraco, mas ao passar pelo processo “mágico” do projeto do supersoldado, tornou-se um ser sobre-humano. No entanto, a maior força de Steve sempre foi sua honra e sua ética, sua compaixão pelos fracos – tão fracos e indefesos como ele fora um dia. Ora, essa história é um mito, e esse mito nada tem a ver com os Estados Unidos da América. Steve calhou de ter sido criado durante a Segunda Guerra, por quadrinistas americanos, e por isso serviu como um elemento patriótico na luta contra o nazismo. Mas a guerra acabou. As guerras passam, os mitos permanecem.

Por isso os heróis das histórias precisam continuar lutando suas guerras, e vivenciando suas aventuras e jornadas de heróis – tais histórias podem hoje terem se tornado superficiais, mitos “diluídos” em uma sociedade que em sua maior parte se esqueceu da espiritualidade antiga… Mas ainda continuam narrando, em essência, aquilo que está fora do tempo. Continuam se tratando de jornadas espirituais. Mesmo que não saibamos, estamos até os dias de hoje vivenciando a mitologia, apenas uma mitologia moderna, que nos chega através de gibis e filmes 3D, e não pela boca de um contador de histórias, próximo à fogueira no centro da aldeia, numa noite de céu estrelado – salpicado de super-heróis.

Essa reflexão pode não ter nada de aparentemente espiritual, mas isso é porque poucos interagem com os mitos. As histórias contadas da maneira antiga serviam principalmente para que cada homem e cada mulher se imaginassem como o herói ou heroína através de sua jornada. Não era algo para se ouvir e simplesmente decorar. Era algo para se ouvir, imaginar, experimentar, modificar, e só então passar adiante… Obviamente que as histórias foram alteradas, e seria estranho que não fossem. Mas, ainda mais estranho, é que tenham chegado aos dias atuais com sua essência inalterada – eis que são diversos modos de se abordar um mesmo mito, e o mito não se altera, pois sua essência reside fora deste mundo.

J. R. R. Tolkien foi um filólogo e escritor britânico que desde cedo se ressentiu do fato da maior parte da mitologia inglesa ter se perdido com o tempo. Ele decidiu resolver o problema criando uma nova mitologia inglesa. Claro que de nova ela não tinha nada, pois que todos os mitos são tão antigos quanto à humanidade, mas era uma mitologia moderna, uma mitologia que cativou seguidores em todo o mundo… Só para terem uma ideia, existem grupos que se reúnem para falar em quenya, um idioma fictício que existe apenas nas obras de Tolkien. Esses estão literalmente “entrando na história”, vivenciando o mito.

Mas foi através de Gary Gygax que encontramos uma forma totalmente inesperada de vivenciar mitos. Em 1974 ele adaptou, junto com seu amigo Dave Arneson, um jogo de guerra baseado no movimento de miniaturas em um tabuleiro. O tabuleiro passou a ser irrelevante, as partidas passaram a ocorrer principalmente na imaginação dos jogadores, e todos se tornaram contadores de histórias – novamente. No jogo de Gygax, o primeiro Role Playing Game da história (“Jogo de Interpretação de Personagens”), heróis enfrentavam jornadas épicas e aventuras sem fim, adentrando masmorras obscuras como labirintos de minotauros, e digladiando-se com dragões e outros seres mitológicos… Cabia ao jogador designado como mestre do jogo, um novo xamã da tribo, determinar o desenrolar da história – mas todas as escolhas dos heróis eram feitas por eles próprios, os jogadores. Todos estavam vivenciando a jornada.

Os resultados se suas ações eram determinados pelo resultado obtido em se arremessar poliedros regulares na mesa. Os famosos sólidos de Platão e Pitágoras continuavam a ser sagrados – são os rolamentos dos dados de 4, 6, 8, 12 e 20 faces que decidem o destino dos heróis (bem, existe também o dado de 10 faces, embora este não seja um poliedro regular). Todo jogo de RPG tem alguma coisa de experiência religiosa, mas foi só muito tempo depois de ter jogado a primeira vez, com cerca de 11 anos de idade, que me apercebi disso.

Cheguei a criar meu próprio mundo de fantasia e cenário de RPG. A mitologia moderna me atraiu, e não poderia ter sido de outra forma. Hoje compreendo: aquele jogo tão distinto, onde o tabuleiro existia principalmente em nossa mente, foi talvez a minha primeira experiência genuinamente espiritual.

E, se não lhes pareceu suficientemente profunda, gostaria de lembrar brevemente que quando um personagem com o qual jogamos RPG eventualmente morre na história, podemos ser ressuscitados por feitiços, mas também podemos ter de criar um novo personagem. E, não importa se este novo é um guerreiro ou ladrão, enquanto o antigo era um clérigo ou mago, nosso entendimento do jogo se desenvolveu, nosso potencial para jogar e interpretar cada vez melhor é hoje maior do que ontem. E, se tivermos de começar uma vez mais do nível 1, não significa que tenhamos perdido a experiência de um dia termos chegado, quem sabe, a um nível 13 ou 14… Um dia chegaremos finalmente ao nível 20, e depois quem sabe a semi-deuses, e depois a algum nível que nem mesmo Gygax descreveu nas regras. E teremos de criar novas regras nós mesmos.

Assim também ocorre com o espírito. Esta vida é meu mais novo personagem, e sinceramente não sei mais em que nível eu estou…

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Posts relacionados a este tema, no meu blog:

» Poesia em quadrinhos

» Arte, Magia e Moore

» Festa estranha (série de depoimentos pessoais da qual este texto faz parte)

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Crédito das imagens: [topo] Jason Thompson; [ao longo] Divulgação (Capitão América/Marvel)

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

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#Espiritualidade #Mitologia #Quadrinhos #RPG

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/xam%C3%A3s-her%C3%B3is-e-drag%C3%B5es

Stallone, George Bush e Toquinho

Procurando por Mapas para postar no dia de hoje, me deparei com essa ótima coincidência de datas (6/7/1946) de três figuras bastante importantes em suas áreas de atuação (e mais importante ainda, três figuras públicas dos quais temos o horário de nascimento), que ajudam a entender o questionamento que muita gente faz a respeito da Astrologia do “O que acontece com pessoas que nascem no exato mesmo dia que eu?”.

Todos os Mapas possuem os Planetas nos mesmos locais, com a diferença apenas do Ascendente e das Casas. Temos Sol e Saturno em Câncer; Mercúrio, Vênus e Plutão em Leão; Marte em Virgem; Lua, Júpiter e Netuno em Libra e Caput Draconis em Gêmeos. Stallone possui Ascentende em Sagitário; George Bush possui Ascendente em Leão e Toquinho possui Ascendente em Áries.

George W. Bush

Vamos começar pela oitavas baixas: Após graduar-se pela Universidade Yale em 1968, e a Harvard Business School em 1975, Bush trabalhou na empresa de petróleo de sua família. Casou-se com Laura Welch em 1977 e, sem sucesso, candidatou-se para a Câmara dos Representantes logo em seguida. Ele depois co-possuiu o time de beisebol Texas Rangers, após derrotar Ann Richards nas eleições governamentais do Texas de 1994. Em uma eleição fechada e controversa, Bush foi eleito Presidente em 2000 como o candidato republicano, recebendo uma maioridade dos votos eleitorais, porém perdeu nos votos populares para o então-Vice Presidente Al Gore.

Sol em Câncer, junto com saturno, indicam alguém cuja família é muito importante na vida. Na casa 12 isso influencia na maneira como se trabalhará a filosofia e a espiritualidade. nas oitavas altas, indica alguém com capacidade de cuidar dos outros e manter a vida destas pessoas em suas mãos (um enfermeiro, por exemplo). Nas oitavas baixas, indica alguém que tem prazer em manter a emoção e a vida das pessoas em seu controle (um serial killer, por exemplo); Lua e Júpiter em conjunção indicam uma facilidade maior que a média em entender o que os outros desejam. Muito comum em escritores, compositores, negociantes, blogueiros, atores e pessoas manipuladoras (capazes de contar as maiores lorotas sobre armas de destruição em massa na TV sem ficar corado). A combinação entre Sol em Câncer e Lua em Libra direciona a pessoa para a comunicação com os sentimentos dos outros, seja para conduzí-los, seja para manipulá-los. Nas oitavas baixas, será uma pessoa birrenta, mimada e manipuladora… você, leitor, será o juiz no caso do Bush.

Mercúrio e Vênus em Leão são encontrados em publicitários, atores, artistas e pessoas que gostam de estar em contato com o público. Nas oitavas baixas indica propensão para a arrogância e impor o seu modo de pensar sobre os outros. No caso de Bush, na Casa 1 (liderança, autoconhecimento) indica tendência para liderar grupos grandes de pessoas no sentido que um rei faria (governar pela imagem). A imagem de “rei salvador da pátria” criada de Bush após os atentados de 2001 refletem esta maneira de se expressar e sua popularidade (a maior entre todos os presidentes americanos, logo após o início da “guerra ao terror”… depois cairam para menos de 50% de aprovação quando a máscara de leão da guerra caiu). Marte em Virgem indica alguém metódico e perfeccionista nas oitavas mais altas, muito encontrado em engenheiros e administradores.

Stallone

Sylvester Gardenzio Stallone, também conhecido como Sly Stallone (Nova Iorque, 6 de julho de 1946), é um ator, diretor e roteirista estadunidense. Extremamente encrenqueiro em sua infância, foi expulso de 15 escolas até se formar. Seu fraco desempenho na vida acadêmica lhe deixou poucas opções de faculdade. Muito jovem para se alistar na Marinha, Stallone entrou numa escola de beleza, onde tempos depois descobriu que tinha poucas habilidades para o ofício. Conseguiu uma bolsa de estudos para um colégio americano na Suíça, onde pagava suas aulas de arte dramática ensinando educação física a garotas. Voltou aos Estados Unidos e entrou no departamento de artes dramáticas da Universidade de Miami.

Seu primeiro grande sucesso ocorreu com o filme Rocky, que chegou a ser indicado a 10 Oscars, vencendo 3 deles (filme, edição e direção). Também protagonizou o clássico Rambo e suas continuações, especializando-se no papel de “Leão de Guerra” até seu filme mais recente, Expendables (Os Mercenários). Seu Sol e Saturno em Câncer estão na Casa 7 (indicando relacionamentos voltados para a família tradicional; Sly teve ao todo 6 filhos; seu grande choque foi justamente o casamento tumultuado com a modelo Brigitte Nielsen). sua Lua, Júpiter e Netuno em Libra estão na Casa 9 (Academia, filosofia de vida) com a Lua em conjunção ao Meio do Céu (indicando uma Carreira voltada para roteiros, que coincidentemente também foi previsto pela mãe de Sly, que era Astróloga). A combinação Sol/Cancer, Lua/Libra e Ascendente Sagitário/Capricórnio (Rainha de Moedas) fez com que dirigisse suas energias para a direção e roteirização de peças artísticas que envolvessem muitas pessoas (no caso, filmes).

Toquinho

O apelido Toquinho foi dado por sua mãe e já aos quatorze anos. Toquinho começara a ter aulas de violão com Paulinho Nogueira. Estudou harmonia com Edgar Janulo, violão clássico com Isaías Sávio, orquestração com Léo Peracchi e Oscar Castro Neves.

Toquinho começou a se apresentar em colégios e faculdades e profissionalizando-se nos anos sessenta, em shows promovidos pelo radialista Walter Silva no teatro Paramount em São Paulo. Compôs com Chico Buarque sua segunda canção a ser gravada, Lua cheia. Em 1969 acompanha Chico à Itália, pais onde até hoje se apresenta regularmente.

Em 1970, compos, com Jorge Benjor, seu primeiro grande sucesso, Que Maravilha. Ainda nesse ano, Vinicius de Moraes o convida para participar de espetáculos em Buenos Aires, formando uma sólida parceria que iria durar onze anos, 120 canções, 25 discos e mais de mil espetáculos. Entre as composições da parceria destacou-se a canção Aquarela. Após a morte de Vinicius, Toquinho seguiu em carreira solo.

No mapa de Toquinho, observa-se que ele utilizou as combinações de Câncer, Leão e Libra na maneira mais tradicional, como compositor musical. Seu Sol em Câncer na casa 3 (Comunicação com Emocional), Lua e Júpiter na Casa 6 (Trabalho) e Ascendente em Áries (liderança, dinamismo) fizeram com que produzisse uma quantidade muito grande de músicas e espetáculos. Júpiter em Libra é seu Planeta mais forte, com nada menos do que 8 Aspectações!

Cada um dos três desenvolveu estas mesmas características de acordo com o ambiente em que cresceu e nas oitavas escolhidas. É inegável que eles possuam características semelhantes (impossível não dissociar os ideais do alter-ego de Stallone, Rambo, da maneira com o Presidente Bush agiu na Guerra). Dos três, certamente Bush foi que trabalhou nas piores oitavas do seu mapa, estando muito longe do que seria o ideal para o planeta. Sly e Toquinho trabalharam com atuação e roteirização dentro da arte, Bush trabalhou esta energia para contar lorotas em rede nacional e promover uma guerra na qual aparecia como herói.

#Astrologia #Biografias

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/stallone-george-bush-e-toquinho

A aurora de Malévola (parte 1)

Recentemente assisti ao filme Malévola (Maleficent), da Disney, com Angelina Jolie no papel principal, que se trata de uma releitura de um antigo conto de fadas que também já havia sido transposto ao cinema pela própria Disney há décadas atrás.

A versão mais conhecida do conto é a dos Irmãos Grimm, publicada em 1812, na obra Contos de Grimm, sob o título A Bela Adormecida (Dornröschen). No entanto, como de costume, os Grimm se basearam em mitos ainda mais antigos para compor sua obra, de modo que podemos rastrear sua inspiração até o original La bella addormentata nel bosco (A Bela Adormecida no Bosque), do italiano Giambattista Basile (1566-1632), assim como o La Belle au bois dormant, do francês Charles Perrault (1628-1703), que já na época fazia sua própria releitura do anterior.

Há muitas análises simbólicas sobre os contos originais [1], mas meu objetivo aqui não é me ater ao passado, mas sim celebrar esta releitura atual, fruto da parceria da roteirista Linda Woolverton com o diretor Robert Stromberg. A seguir analisarei o filme com a minha interpretação da sua mitologia ainda presente, e embora os meus comentários tratem de assuntos que vão além da visão superficial da história, é inevitável que eu traga aqui alguns spoilers, de modo que recomendo que vejam ao filme antes de lerem o restante deste artigo…

A fada criança

No início do filme vemos uma fada Malévola muito diferente da bruxa má que aparece de repente nos contos antigos. De cara, já fica óbvio que a história tratará de explicar os acontecimentos ocorridos muito antes do início dos contos.

Aqui vemos uma menina inocente e brincalhona, que gosta de voar pela terra das fadas, brincar de guerra de lama com os duendes e, de vez em quando, subir até o alto do céu para tomar um banho de sol. Alguns desavisados podem achar que os seus enormes chifres, por si só, fazem dela um “ser maléfico”, mas é preciso estar atento para o fato de que, em muitas mitologias pagãs, os chifres estarem associados a sabedoria, e não a maldade.

Em todo caso, não poderíamos dizer que esta fada era muito sábia. Ela acaba encontrando um garoto larápio que havia adentrado a floresta encantada em busca de pedras preciosas, mas consegue convencê-lo a devolver o que havia roubado e, eventualmente, se afeiçoa a ele. A princípio a amizade dos dois é pura e verdadeira, mas eventualmente o mundo externo acaba seduzindo mais ao larápio do que sua amiga fada, e ele abandona a amizade.

Com o tempo ficamos sabendo que no mundo externo também existe um rei bem velho que não se conforma com o fato de não poder conquistar as terras das fadas. Durante o filme, este rei eventualmente perde uma batalha para uma Malévola crescida e jura se vingar…

Até mesmo crescida, entretanto, Malévola ainda não parece se dar conta da maldade que existe no mundo externo. Esta parte do filme tem algum paralelo com o mito do Éden, assim como com a época infantil.

Assim como Adão e Eva, as crianças são naturalmente boas, simplesmente pelo fato de ainda não haverem conhecido o mal. Uma vez comida a maçã, uma vez atingida a adolescência e, principalmente, o despertar da sexualidade, todos passamos a conhecer tanto o bem quanto o mal, e todos passamos a, efetivamente, fazer nossas próprias escolhas internas sobre qual o caminho a seguir. Acredito que o restante do filme fale essencialmente sobre isto.

A inocência perdida

No decorrer do filme, o velho rei decreta: “Aquele que matar Malévola será o herdeiro do meu trono”. Aqui, vemos o garoto larápio já crescido, um reles serviçal do rei, porém muito ambicioso. Ele elabora um plano ardiloso.

O larápio retorna a floresta das fadas e, mesmo após muitos anos sem ver Malévola, ela acaba voando ao seu encontro ao ouvir seus chamados. Ele a seduz e diz querer reatar a amizade de outrora. Malévola, a criança crescida, aceita prontamente.

Então transcorre a cena mais impactante do filme, que é uma óbvia analogia a uma violência sexual, mas por contra de ser um filme para crianças, transcorre de maneira inteiramente simbólica. O larápio dá um sonífero para Malévola beber e, enquanto ela esta dormindo de bruços na relva, vemos sua tentativa de esfaqueá-la… No último momento, ele reluta, pois ainda há uma chama, quem sabe, de amor verdadeiro, que embora quase apagada, ainda o faz pensar noutra solução: cortar suas asas para levar ao velho rei como “prova” do assassinato.

Ao acordar sem suas asas, e sem seu suposto amigo, Malévola prontamente compreende o ocorrido, e grita de tristeza. Sim, fica muito claro que é tristeza, uma profunda tristeza, o que ela sente ao perceber que foi não somente ludibriada por seu “amigo”, mas que também foi profundamente violentada por ele. Sem suas asas, ela não poderia mais escapar de vez em quando da terra para ver o sol nas alturas – ela caiu, definitivamente, do Éden; será que um dia conseguirá retornar?

A terrível maldição

Passam-se os anos e o garoto acaba mesmo se tornando um rei, que eu devo chamar de rei larápio. Ele se casa com alguma princesa (que não tem muita importância no contexto da história) e eles acabam tendo uma filha. É precisamente na festa do batizado desta filha, Aurora, que Malévola reaparece e chegamos, finalmente, ao início dos contos originais.

Malévola, que não havia sido convidada para a celebração, vai até lá por conta do ódio que nutriu, por anos, em seu coração (a tristeza não devidamente tratada). Chagando lá ela profere uma “terrível maldição que não poderia ser quebrada por nenhum poder do mundo”. A princípio, seu intuito era o de fazer Aurora dormir para sempre após completar 16 anos, ao espetar seu dedo na ponta de um fuso de tear; porém, como o rei larápio suplica de joelhos, ela “suaviza” a maldição e diz, “Mas se alguém lhe der um beijo de amor verdadeiro, ela acordará”.

Ocorre que, naquela altura, nem Malévola nem o rei acreditavam que o amor verdadeiro existia, de modo que o rei passa a crer que a maldição seria inevitável se ele não desse cabo de todos os teares do reino, e mandasse seu bebê para ser cuidado por três fadas “bondosas” em algum local secreto. Aurora é então levada para a própria terra das fadas, onde é criada pelas “tias fadas” num casebre em meio a floresta, enquanto o rei larápio fica cada vez mais paranoico com o passar dos anos, passando até a “conversar” com as asas arrancadas de malévola, que decoram o seu salão, como se ela estivesse ali (e, como veremos, de certa forma, uma parte dela estava mesmo).

No início da criação de Aurora, nos surpreendemos ao perceber que Malévola, apesar de a odiar profundamente, acaba por cuidar para que não lhe falte alimentação, e envia o seu corvo serviçal para auxiliar no possível, onde as “tias fadas”, que não tinham lá muita experiência em cuidar de bebês humanos, falhavam [2]… Na próxima parte do filme ficamos na dúvida se o que Malévola sente por Aurora é mesmo ódio, ou amor; raiva, ou medo!

» Em seguida, o misterioso amor verdadeiro…

***

[1] Ver, por exemplo, Análise mitológica de A Bela Adormecida e Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento, de Wilton Fred C. de Oliveira; ou A Bela Adormecida do Bosque e o despertar da sexualidade, de Ana Cláudia Matos Gonçalves.

[2] Uma curiosidade: É a própria filha de Angelina Jolie, Vivienne, quem interpreta Aurora quando criancinha. De fato, foi a sua estreia nos cinemas!

Crédito da imagem: Malévola – O filme (Divulgação)

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#Cinema #contosdefadas #Mitologia

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O software angélico que roda no eixo do mundo (parte 1)

O único lugar em que os deuses e demônios existem indiscutivelmente é na mente humana, onde são reais em toda a sua grandiosidade e monstruosidade (Alan Moore).

Há muitas coisas a se falar acerca de deuses, anjos e demônios. Para não tornar este texto excessivamente longo, estarei iniciando no meio do caminho, de forma que é recomendável que primeiramente leiam estas duas séries de artigos, antes da leitura deste aqui: A roda dos deuses e Os corvos de Wotan.

Se não entenderem muita coisa a partir daqui, não digam que não avisei!

Seriam os deuses forças da natureza?

Segundo muitos estudantes de mitologia e ocultistas, os deuses nada mais seriam do que imensos conjuntos de símbolos resumidos nalgumas imagens ou histórias, que foram passadas adiante pela cultura humana mesmo antes de a escrita haver sido inventada [1]. Existiriam, dessa forma, tão somente na mente humana, esta incrível força capaz de interpretar a realidade. Mesmo que este fosse o caso, o fato de existir somente na mente não necessariamente torna os deuses “assunto irrelevante”, principalmente pelo fato de que toda a realidade, de certa forma, existe na mente – na medida em que o resultado final dela é processado na mente.

Mas é óbvio que há muitos religiosos, dogmáticos ou não, que consideram ou creem piamente na possibilidade dos deuses existirem também fora da mente, na realidade objetiva. Ora, isto gera pelo menos duas questões lógicas de solução não exatamente trivial:

(1) Se os deuses existem objetivamente, quem os criou?

(2) Se os deuses são seres individuais, conscientes, de que forma ocorreu sua evolução?

Para respondermos a primeira pergunta, precisamos considerar o problema da existência, ou o problema do ser, que na filosofia postula, basicamente, que nada pode surgir do nada [2]. Trata-se de um problema muito antigo, que consta tanto nos Upanixades hindus quanto no taoismo, tanto na filosofia de Parmênides e Plotino quanto na monumental síntese moderna de Benedito Espinosa, que postula que “uma substância não pode criar a si mesma ou alguma outra substância totalmente dissociada de si”.

Ora, pela lógica mais pura e básica, isto significa que algo sempre existiu, e jamais foi criado, exatamente porque o nada não existe. Desta forma, isto também significa que, acaso os deuses existam objetivamente, mesmo eles precisam haver sido criados, e quem ou o que os criou, este sim é o chamado Criador.

A despeito da ignorância de muitos eclesiásticos monoteístas acerca do tema, em realidade o politeísmo sempre contou com alguns grandes sábios e/ou místicos que sabiam muito bem que “teria de haver um Deus anterior aos demais, e este seria o Criador, e ele teria de ser único”. Desta forma, a ideia central do monoteísmo, longe de ser alguma novidade lógica, é apenas uma conclusão tardia que, por alguma razão, preferiu discriminar ou ignorar a possibilidade da existência dos deuses.

De fato, há muitas mitologias arcaicas [3] que falam acerca de um Criador que, após haver criado o mundo e os deuses, se tornou um “deus ocioso”. O fato de ser “ocioso”, entretanto, não necessariamente significa que “não faça nada”, mas sim que “não fazemos sequer ideia do que ele é ou faz”.

Na mitologia iorubá, que teve grande influência no Brasil através do candomblé e da umbanda sagrada, que lhe são derivadas, há o exemplo do Deus Criador: Olorun. Ora, foram os deuses (orixás) quem criaram os homens [4], e são eles quem “os influenciam” na Terra (Ayie). Mesmos estes orixás, porém, foram criados por Olorun, que hoje reside no Céu (Orun). Bem, sabemos que nos ritos do candomblé, por exemplo, há oferendas para os orixás. Para Olorun, porém, jamais é feita oferenda alguma. E o motivo é mesmo óbvio: Tudo o que existe, tudo o que pode ser ofertado, já lhe pertence em todo caso! Eis uma profundidade de pensamento que muitos críticos dos iorubás ignoram ou desconsideram.

E Olorun é também “ocioso”, antes por não ter nenhuma participação nos ritos e rituais, do que propriamente por não fazer nada. Ora, são os homens quem não sabem o que ele faz ou deixa de fazer, e que, portanto, disseram que ele “se tornou ocioso” – ou seja, além de nossa capacidade de compreensão do que uma ou outra ação sua significaria.

Seja Olorun da África, ou El da Mesopotâmia (que foi sincretizado com o deus bíblico), ou o próprio Tao, “anterior ao Soberano do Céu”, do taoismo: todos estes nomes se referem ao Criador, ao Uno, a substância tão sabiamente definida por Espinosa. E os deuses nada mais são do que seus filhos, assim como nós mesmos [5].

Para respondermos a segunda pergunta, precisamos considerar que todo ser vivo há que haver evoluído de um princípio simples para uma entidade complexa, consciente. Pois, assim como não há árvore que antes não tenha sido semente, e não há espécies complexas sem que antes haja existido espécies tão simples como uma simples bactéria, da mesma forma ocorre com o espírito. Se os deuses, portanto, fossem espíritos, teriam de haver evoluído da mesma forma, sabe-se lá onde, sabe-se lá quando.

O grande problema desta hipótese é que os deuses representam as forças da natureza, e estas não podem simplesmente ter passado por uma evolução. Pelo que sabemos, a gravidade precisa existir, da mesma forma como é hoje, desde os primeiros momentos deste espaço-tempo. E, ainda que existam outros universos num hipotético multiverso, pela lógica seria muito complexo supormos que, nalgum outro universo qualquer, a gravidade possa ter “evoluído passo a passo, assim como nós”.

Pode ser estranho para alguns associar um conceito científico, a gravidade, com o conceito dos deuses entendidos como forças da natureza. Mas para mim é uma associação muito proveitosa… Para Empédocles (filósofo pré-socrático), por exemplo, a gravidade era chamada de amor: o que unia não somente os seres, como todas as coisas do Cosmos. Ora, se a gravidade deixasse de existir por um momento sequer, podemos imaginar o caos que ocorreria em todo o universo. Não há como haver universo, ao menos um universo onde haja sóis, planetas e vida, sem a gravidade, sem o amor de Empédocles. Portanto, este amor tem de haver existido desde sempre.

Se formos então transportar esta ideia para o conceito dos deuses enquanto representantes e agentes das forças naturais, temos que eles não somente não são seres individuais, ou espíritos como nós, como tampouco tem exatamente uma vontade própria. Se existe alguma vontade nalgum deus, esta vem como reflexo da vontade do Deus Criador, pois que tudo o que os deuses fazem é legislar com as leis que existem na própria engenharia da realidade…

Isto é, se é que os deuses existem fora da mente humana.

» Em seguida, anjos e outros mensageiros atuando no eixo do mundo…

***

[1] Há muitos deuses que inclusive fazem parte da própria narrativa da descoberta da escrita, como é o caso de Toth-Hermes ou Odin-Wotan. Eles têm em comum pelo menos o fato de terem sido aqueles que “trouxeram o conhecimento da escrita para a humanidade”. Entretanto, também existem ou existiram outras doutrinas espiritualistas, como a druídica e boa parte das antigas doutrinas xamãnicas e indígenas, que ou jamais descobriram a escrita, ou preferiram não utilizá-la, temendo que ela terminasse por reduzir à experiência religiosa a mera teoria (provavelmente Sócrates sentia o mesmo, tanto que faz uma curiosa crítica ao discurso escrito no Fedro).

[2] Recomendamos a leitura da série Reflexões sobre o nada.

[3] E recomendamos, ainda uma vez mais neste blog, a leitura do monumental História das crenças e ideias religiosas, de Mircea Eliade (Ed. Zahar). Trata-se de uma série de 3 volumes, no qual o primeiro volume, por tratar do início, é obviamente o mais importante (ao menos no contexto do que estamos refletindo aqui).

[4] Bem, em algumas interpretações desta mitologia, Olorun também foi responsável pela criação dos homens. Mas no contexto de nossa reflexão, isto não fará muita diferença prática.

[5] Não à toa o rabi da Galileia nos disse: “sois deuses”. E, mesmo isto não era nenhuma novidade, pois há uma frase mística muito mais antiga que afirmava: “eu também sou da raça dos deuses”.

Crédito da imagem: Encontrada em UNEGRO

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#anjos #Candomblé #Mitologia #Umbanda

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A aurora de Malévola (parte final)

« continuando da parte 1

Face a face

O período em que Aurora cresce em meio a floresta encantada, sendo cuidada, de forma oculta, por Malévola e seu corvo fiel, é na minha opinião o ponto alto do filme. Elas chegam a se encontrar quando Aurora ainda é criança, mas é na cena em que Malévola se revela, ainda que de forma relutante, para Aurora, que chegamos a um dos grandes momentos da história.

Malévola está escondida nas sombras dentre as árvores, enquanto Aurora está sob a luz que penetra mesmo naquele canto sombrio da floresta. Lembremos aqui que a própria floresta vai se tornando sombria na medida em que Malévola, sem suas asas e nutrindo o seu ódio pelo rei larápio, vai se tornando mais e mais reclusa. Ora, a única coisa que impede que Malévola se torne definitivamente a bruxa má, e deixe de ser uma fada, é a presença de Aurora, a quem ela chama de “peste” mas, ainda assim, nutre uma afeição crescente e verdadeira.

Neste encontro entre as duas, Malévola supõe que seria Aurora quem teria medo dela, mas é Aurora quem indaga se Malévola tinha receio em se revelar, e em seguida diz, “Eu sei quem é você, você é a sombra que sempre esteve por perto, cuidando de mim, você é a minha fada madrinha”. Para compreender a profundidade deste encontro, devemos lembrar do que dizia Joseph Campbell, grande estudioso de mitologia do século XX [1]:

Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual… Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é. Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você enfrentou o seu monstro interior? Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana?

Ora, sob este ponto de vista podemos notar que Aurora assume um papel duplo na história. Enquanto numa camada mais superficial ela continua sendo a Bela Adormecida, numa camada mais profunda desta releitura do mito, ela é a própria Malévola; ou melhor, ela é a essência mais pura, a alma de fada de Malévola, enquanto que a bruxa má é a sombra ressentida, a carcaça do ego que se afundou no ódio ao mundo que a violentou.

E por que Malévola tinha ao mesmo tempo, tanto amor e tanta raiva de Aurora, tanto ódio e tanto medo? Para compreender, nada melhor do que ouvir as palavras do grande Alan Moore, ocultista e roteirista de quadrinhos britânico [2]:

Muitos dos magos como eu entendem que a tradição mágica ocidental é uma busca do Eu com “E” maiúsculo. Esse conhecimento vem da Grande Obra, do ouro que os alquimistas buscavam, a busca da Vontade, da Alma, a coisa que temos dentro que está por trás do intelecto, do corpo e dos sonhos. Nosso dínamo interior, se preferir assim. Agora, esta é, particularmente, a coisa mais importante que podemos obter: o conhecimento do verdadeiro Eu.

Assim, parece haver uma quantidade assustadora de pessoas que não apenas têm urgência por ignorar seu Eu, mas que também parecem ter a urgência por obliterarem-se a si próprias. Isto é horrível, mas ao menos vocês podem entender o desejo de simplesmente desaparecer, com essa consciência, porque é muita responsabilidade realmente possuir tal coisa como uma alma, algo tão precioso. O que acontece se a quebra? O que acontece se a perde? Não seria melhor anestesiá-la, acalmá-la, destruí-la, para não viver com a dor de lutar por ela e tentar mantê-la pura?

Creio que isto explica muito bem todo o medo que Malévola tinha de encarar sua alma, sua aurora, face a face. Mas este é o tortuoso caminho que todos nós temos de percorrer, sejamos fadas, duendes ou seres humanos, pois que é somente ao nos reconciliarmos com nossa essência mais íntima que poderemos enfim transformar o mundo – primeiro dentro de nós, e em seguida, também lá fora.

Voltando a história…

A história do filme prossegue, e Aurora está prestes a completar 16 anos e sucumbir a terrível maldição, quando encontra um cavaleiro que passava pela floresta encantada, perdido e procurando o caminho para o castelo do rei larápio.

Aurora, que nunca havia saído da floresta, mesmo assim aponta o caminho correto, e os dois combinam de um dia se reencontrar… É preciso lembrar que este jovem cavaleiro é o único ser humano (não faérico) além de Aurora a perambular pela terra das fadas. Como ele poderia estar lá, se não fosse por se tratar de uma alma pura, como a própria Aurora?

Neste momento fica subentendido que seria este jovem aquele quem daria o “beijo de amor verdadeiro” para livrar Aurora da maldição, mas esta releitura do mito transcorrerá de forma bem mais interessante…

A fuga de Aurora

Por um descuido das “tias fadas”, Aurora acaba sabendo que, na realidade, era filha do rei larápio. Nesta altura, o desejo dela era morar “para sempre” na floresta encantada, então ela vai encontrar mais uma vez com Malévola, quando acaba descobrindo que ela era quem havia proferido a terrível maldição que selaria o seu destino. Aurora e Malévola brigam e a jovem foge para as terras do rei larápio, buscando se apresentar como sua filha.

É preciso lembrar que antes desta briga Malévola chega a tentar desfazer a sua maldição. Porém, como ela “não poderia ser desfeita por nenhum poder na terra, além do beijo de amor verdadeiro”, ela acaba falhando.

Ao encontrar sua filha, o rei larápio, já paranoico e extremamente insensível, apenas manda que a deixem trancada nalguma torre do castelo. Ele planeja atacar a floresta encantada com todo o seu exército.

Enquanto isso, o jovem cavaleiro acaba retornando a terra de Malévola, em busca de Aurora. Ao se aperceber disso, o corvo de Malévola a convence a tentar levar o rapaz até o castelo, para desfazer a maldição com o seu aguardado beijo. Prontamente, Malévola faz o rapaz dormir com um feitiço e começa a jornada até o castelo do rei.

O misterioso amor verdadeiro

Pouco antes de adentrarem o castelo, Malévola sente que a maldição profetizada havia se consumado: Aurora havia encontrado “todos os teares do reino” escondidos nos calabouços do castelo e, quase que hipnotizada pela maldição, espeta seu dedo num fuso e cai em seu sono infindável. Esta cena demonstra a inevitabilidade do seu destino, o que é muito comum em se tratando de contos de fadas.

Então chegamos a outra cena grandiosa do filme. Malévola consegue adentrar sorrateira, com o corvo e o jovem cavaleiro em seu sono enfeitiçado, aos aposentos onde se encontra a Bela Adormecida em seu sono sepulcral. A seguir, Malévola e o corvo se escondem num canto e ela desfaz o feitiço, permitindo que o jovem acordasse bem em frente ao leito de Aurora.

No entanto o jovem, muito sabiamente, pergunta se “não seria errado beijar uma jovem em seu sono”… Mas uma das “tias fadas”, que “velavam” a Bela Adormecida, diz algo como, “Vai, pode beijar!”, e o cavaleiro arrisca o seu beijo de amor verdadeiro. E não ocorre absolutamente nada!

Malévola aparece e faz o rapaz dormir novamente, então lamenta profundamente que a sua própria maldição não possa ser desfeita, visto que, como ela imaginava, “não existe o amor verdadeiro”. Ela dá então um beijo na testa da Bela Adormecida e, quando já se preparava para ir embora, Aurora desperta e diz, “Oi, fada madrinha”.

Quão misterioso é, afinal, o amor verdadeiro! Não algo que pode surgir do nada, de um encontro casual entre dois jovens, por mais puros que sejam; não algo que surja a primeira vista, mas algo que pulsa e pulsa, em nosso interior mais íntimo, nos recônditos da eternidade!

Reencontrar o amor verdadeiro faz com que Malévola se reconcilie com sua alma e com seu passado, e deixe definitivamente de ser a bruxa má, para voltar a ser a fada. Agora, não mais uma fada inocente e inexperiente, mas uma fada que viu o quão grosseiro pode ser o mundo fora de sua floresta encantada, e que ainda assim consegue manter a conexão com a sua essência eterna.

O retorno das asas

Na sequencia da história, enquanto tentavam fugir do castelo sem serem vistas, Malévola é pega numa armadilha com uma rede de ferro (o contato com o ferro fere gravemente as fadas – a alquimia explica), e então precisa combater o rei larápio e os seus guardas.

A batalha ia muito mal para Malévola (mesmo com seu corvo transformado num assombroso dragão), mas é então que Aurora, em sua fuga da batalha, acaba encontrando as asas trancafiadas de Malévola. Ela derruba a caixa de vidro onde elas estavam, e elas saem voando em direção a Malévola, unindo-se novamente ao seu corpo.

A essa altura já deve ter ficado clara a simbologia de toda a cena: as asas retornam quando Malévola consegue se reconciliar com sua essência, e transformar o seu ódio novamente em amor pelo mundo. Mas ainda faltava o rei larápio…

Ao tentar fugir voando, o antigo amigo de Malévola consegue se engalfinhar em suas pernas com o auxílio de uma arma de corrente, e os dois acabam lutando no topo de uma das torres do castelo. Em dado momento, Malévola poderia o ter enforcado até a morte; mas ela desiste, e diz, “Acabou!”.

De fato, para ela havia acabado o ódio, ela finalmente o havia perdoado. Perdoar não significa relevar o ocorrido, nem exatamente esquecer, mas reconhecer que o ódio e o ressentimento são apenas represas para o amor, e o amor, o amor verdadeiro, uma vez encontrado, deseja romper todas as represas, deseja inundar o mundo todo… Não há ressentimento que resista a tamanho milagre!

Infelizmente não foi a conclusão a qual o rei larápio chegou… Tentando atingi-la por trás, ele acaba caindo da torre e morrendo.

Depois, no final do filme, ficamos sabendo que Aurora e o jovem cavaleiro iriam se casar, e que a floresta encantada voltara a ser como era antes, na infância de Malévola. E assim, todos viveram felizes para sempre.

Joseph Campbell também dizia que “o mito é algo que não existe, mas que existe sempre”. Os mitos são, afinal, os fatos da alma e da mente humana encenados no mundo externo. Por isso são atemporais, pois os assuntos da alma residem na eternidade, e embora não existam na realidade mundana, existem na realidade da imaginação. A única forma de viver feliz para sempre é viver neste caminho que leva a nossa essência mais íntima, a nossa aurora.

***

[1] Trecho de O Poder do Mito.

[2] Trecho de The Mindscape of Alan Moore.

Crédito da imagem: Malévola – O filme (Divulgação)

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Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-aurora-de-mal%C3%A9vola-parte-final

Quando Israel era menino, parte final

« continuando da parte 1

Texto de Mircea Eliade em “História das crenças e das ideias religiosas, vol. I” (Ed. Zahar) – trechos das pgs. 165 a 167. Tradução de Roberto Cortes de Lacerda. Algumas das notas ao final são minhas.

O jardim do Éden, com o seu rio que se dividia em quatro afluentes e levava a vida às quatro regiões da Terra, e as suas árvores que Adão devia guardar e cultivar, lembra o imaginário mesopotâmico. É provável que, também nesse caso, o relato bíblico utilize certa tradição babilônica. Mas o mito de um paraíso original, habitado pelo homem primordial, e o mito de um lugar “paradisíaco” dificilmente acessível aos seres humanos eram conhecidos além do Eufrates e do Mediterrâneo. Como todos os “paraíso”, o Éden [1] encontra-se no centro do mundo, onde emerge o rio de quatro afluentes. No meio do jardim elevavam-se a árvore da vida e a árvore da ciência do bem e do mal (Gênese II:9). Javé deu ao homem o seguinte mandamento: “Podes comer de todas as árvores de jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás de morrer” (II:16-17). Uma ideia, aliás desconhecida, destaca-se dessa proibição: o valor existencial do conhecimento. Em outros termos, a ciência pode modificar radicalmente a estrutura da existência humana [2].

Entretanto, a serpente conseguiu tentar Eva. “Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal” (III:4-5). Esse episódio deveras misterioso deu lugar a inúmeras interpretações. O cenário lembra um símbolo mitológico muito conhecido: a deusa nua, a árvore milagrosa e seu guardião, a serpente [3]. Mas, em vez de um herói que triunfa e se apodera do símbolo da vida (fruto milagrosos, fonte da juventude, tesouro, etc.), o relato bíblico apresenta Adão como vítima ingênua da perfídia da serpente.

Temos, em síntese, uma “imortalização” malograda, como a de Gilgamesh [4]. Pois, uma vez onisciente, tal como os “deuses”, Adão podia descobrir a árvore da vida (da qual Javé não lhe havia falado) e tornar-se imortal. O texto é claro e categórico: “Depois disse Javé: ‘Se o homem já é como um de nós, versado no bem e no mal, que agora ele não estenda a mão e colha também da árvore da vida, e coma e viva para sempre!’” (III:22) E Deus pôs o casal para fora do paraíso e condenou-os a trabalhar para viver [5].

Voltando ao enredo evocado há pouco – a deusa nua e a árvore milagrosa guardada por um dragão –, a serpente do Gênese afinal teve sucesso no seu papel de “guardiã” de um símbolo de vida ou de juventude. Mas esse mito arcaico foi radicalmente modificado pelo narrador bíblico [6]. O “fracasso iniciatório” de Adão foi reinterpretado como uma punição amplamente justificada: sua desobediência denunciava seu orgulho luciferino, o desejo de assemelhar-se a Deus. Era o maior pecado que a criatura podia cometer contra seu Criador [7]. Era o “pecado original”, noção prenhe de consequências para as teologias hebraica e cristã. Essa visão da “queda” somente podia impor numa religião centralizada na onipotência e no ciúme de Deus. Da forma como nos foi transmitido, o relato bíblico indica a crescente autoridade do monoteísmo javista [8].

Segundo os autores dos capítulos IV-VII do Gênese, esse primeiro pecado não só acarretou a perda do paraíso e a transformação da condição humana, mas tornou-se de algum modo a fonte de todas as desventuras que se abateram sobre a humanidade [9]. Eva deu à luz Caim, que “cultivava o solo”, e Abel, “pastor de ovelhas”. Quando os irmãos ofereceram o sacrifício da gratidão – Caim, produtos do solo, e Abel, as primícias do seu rebanho –, Javé acolheu a oferenda de Abel, mas não a de Caim [10]. Irado, ele “se lançou sobre seu irmão e o matou” (IV:8). Agora, sentenciou Javé, “és maldito e expulso do solo fértil (…) Ainda que cultives o solo, ele não te dará mais seu produto: serás um fugitivo errante sobre a Terra” (IV:11-12)

Pode-se ver nesse episódio a oposição entre lavradores e pastores, e, implicitamente, a apologia destes últimos [11]. […] A tradição conservada no relato bíblico reflete a idealização da existência “simples e pura” dos pastores nômades, e a resistência contra a vida sedentária dos agricultores e dos habitantes de cidades. Caim “tornou-se um construtor de cidade” (IV:17) [12] […] O primeiro assassinato é portanto cometido por aquele que, de alguma forma, encarna o símbolo da tecnologia [13] e da civilização urbana. Implicitamente, todas as técnicas são suspeitas de “magia” [14].

***
[1] Nota do autor: Essa palavra foi relacionada pelos hebreus ao vocábulo é’dén, “delícias”. O termo paraíso, de origem iraniana (pairi-daeza), é mais tardio. Imagens paralelas, familiares sobretudo no Oriente Próximo e no mundo egeu, apresentam uma grande deusa ao lado de uma árvore da vida e de uma fonte vivificante, ou uma árvore da vida guardada por monstros e grifos.
Meu complemento: É interessante como ainda hoje, nas práticas de “mentalizações de cenários naturais”, tanto na umbanda quanto no espiritualismo em geral, ainda seja tão comum imaginarmos um jardim paradisíaco – isto é, como qualquer outro jardim onde haja apenas paz –, por onde passa um rio que flui de uma cachoeira – a fonte vivificante. Este tal jardim pode mesmo ter vindo da magia africana, ainda mais antiga do que Israel ou a tradição babilônica, ou mesmo de um lugar ainda mais arcaico, ancestral: nossa própria mente, a mente humana. Por isso, quando Joseph Campbell diz que “o Éden não foi e nem será, o Éden é”, ele realmente está falando sério, muito sério!
[2] O filósofo brasileiro, Mario Sergio Cortella, diz que “o homem é o único animal mortal”. Isto, pois, todos os outros animais (tirando, quem sabe, os elefantes) não tem a ciência da própria mortalidade. Somente o homem, que adquiriu tais conhecimentos (e muitos outros, pois que “conhece o bem e o mal”, isto é, possui razão), é “condenado” a mortalidade – pois sabe que irá morrer um dia.
[3] No processo de “demonização” da Deusa Mãe, e da magia antiga, associou-se Eva ao “pecado original”, e a serpente (o pobre bode expiatório), ao “Demônio”. É sempre interessante lembrar que por toda a mitologia dos povos arcaicos (bem mais antigos que Israel), a serpente é, pelo contrário, um grande símbolo de sabedoria. Aqui, novamente, recomendo consultarem o artigo Serpentes.
[4] Herói e rei sumério semilendário, retratado na Epopéia de Gilgamesh, texto central das mitologias suméria e babilônica.
[5] Eis que o próprio Antigo Testamento já atesta, desde seu início, aquilo que Jesus viria a dizer muito depois: “vós sois deuses”. Mas nem na época da elaboração do AT esta era uma ideia nova, no Antigo Egito já se conhecia, ao menos entre os iniciados, esta frase ancestral: “eu também sou da raça dos deuses”. Porém, seria Javé injusto por haver afastado Adão e Eva do paraíso, e da imortalidade concedida pela árvore da vida? Ou não seria uma justiça ainda maior que desse a oportunidade para que o homem e a mulher alcancem a ciência da árvore da vida por seu próprio mérito? “O Reino está espalhado pela Terra, mas os homens não o veem”.
[6] Antes de condenar o “narrador bíblico”, é preciso lembrar que a principal característica da elaboração de uma nova cultura para um “novo povo” é a supressão da cultura alheia. Nesse sentido, era “função” do “narrador bíblico” exatamente modificar radicalmente alguns mitos antigos, porém sem lhes desviar inteiramente da essência. Pois que os escritores eram suficientemente sábios e cultos para compreender que certas essências mitológicas não podem ser inteiramente suprimidas – pertencem ao espírito humano, e “existem sempre”.
[7] Paradoxalmente, era também exatamente o “pecado” que o Criador já esperava de sua criatura, como fica muito claro em qualquer mitologia sobre o tema.
[8] Nota do autor: O mito da “queda” nem sempre foi entendido de acordo com a interpretação bíblica. Principalmente a partir da época helenística e até os tempos do Iluminismo, inúmeras especulações tentaram elaborar uma mitologia adâmica mais audaciosa e muitas vezes mais original.
[9] De fato, como no mito onde Prometeu rouba o fogo divino e com ele cria a humanidade, o “pecado original” deu origem a própria humanidade, pois sem a ciência da própria nudez, dificilmente Adão e Eva nalgum dia teriam um filho.
[10] Teriam os cristãos radicais, críticos ferozes dos ritos do Candomblé, lido este trecho do Gênese?
[11] Ao menos a quem tem olhos para ver, quase todas as mitologias antigas trazem, num “código meio cifrado”, a própria história dos povos arcaicos. O embate dos caçadores-coletores errantes, ou grandes povos nômades, contra os primeiros agricultores, ou mesmo as primeiras grandes aldeias onde se estocavam grãos, é tema corriqueiro dos mitos de “pós-criação”. Em nosso artigo sobre a mitologia do deus Odin, falamos sobre a guerra entre os vanir (sedentários, agricultores) e os æsir (nômades, caçadores), que essencialmente trata do mesmo tema, só que na região do norte europeu. Enquanto a mitologia nórdica “privilegia” os caçadores nômades (pois foi elaborada por eles), no relato bíblico, da mesma forma, os pastores nômades são exaltados, enquanto que os cultivadores sedentários (representados por Caim) são “banidos”. Nota-se que, neste caso, os pastores hebreus provavelmente entravam em conflito com os agricultores das terras por onde passavam com seu rebanho. A diferença é que os nórdicos æsir venceram a guerra, enquanto que a vida dos pastores hebreus deve ter sido bem mais difícil (de certa forma, o é até hoje: a própria existência do estado de Israel é questionada pelos povos em seu entorno até os dias modernos).
[12] Resta saber qual deus criou a mulher que Caim conheceu na terra de Node (IV:16-17).
[13] Caim também pode significar “ferreiro”. Na época antiga, os ferreiros eram considerados “senhores do fogo”, com o conhecimento de poderes mágicos temíveis. Um dos descendentes de Caim é Tubalcaim, “o pai de todos os laminadores em cobre e ferro”.
[14] “Qualquer tecnologia suficientemente avançada não se distingue de magia” (Arthur C. Clarke)

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Crédito da foto: Robert Recker/Corbis

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Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/quando-israel-era-menino-parte-final