Como a religião mata Deus

“A pergunta diante de tudo e de todas as coisas, ‘Você quer isto mais uma vez e incontáveis vezes?’”
– Nietzsche

“Em geral, chamamos de destino as asneiras que cometemos.“
– Schopenhauer

E somos todos crianças do Iluminismo, netos, bisnetos e tataranetos do Século das Luzes, um nome que deixa claro que a idade das trevas, da ignorância – a Idade Média – não apenas ficou para trás mas foi Iluminada, deixando de existir. E com ela toda a ignorância e superstição, a mitologia que se contrapunha a razão foram, ou começaram a ser, erradicadas.

A filosofia de fins do século XIX pareceu pregar o último prego no caixão do cristianismo na figura do – tão propriamente apelidado – Martelo de Bigodes, que deu sentença última ao cristianismo escrevendo em seu O Anticristo que “O Evangelho morreu na cruz”.

A biologia não ficou para trás neste apedrejamento digno da Bíblia, afirmou que o homem não havia sido criado mas sim evoluído, como todos os outros animais. Em Dawkins Darwin encontrou a pedra sobre a qual sua igreja foi edificada, o papa transviado do ateísmo.

Cada nova década trazia evidências observadas em microscópios eletrônicos e confirmadas por cálculos matemáticos que os mitos primitivos de nossos antepassados não passavam de coisas vãs, tentativas simplórias de pessoas rústicas para explicar o desconhecido mundo que as continha. E hoje religião, especialmente a cristã e a islâmica, se tornam sinônimos de crenças desesperadas de se acreditar no inacreditável, no invisível e no impossível com o objetivo de fazer o crente se sentir, ao menos, importante – já que um ser onipotente se preocupa em lhe ouvir as preces (e quiçá realizá-las).

Mas qualquer pessoa que deixe este novo orgulho cientifista, tão grande e amargo quanto o orgulho religioso, logo percebe que o Iluminismo não foi o remédio contra a doença da beatitude e sim o resultado inevitável dela.

Por anos a Igreja não apenas coletou e guardou o conhecimento como o distribuiu de maneira cada vez mais eficiente pela europa. Todos os astros do Iluminismo foram educados pela igreja e todo ícone pop da época era devoto – mesmo que tentemos fingir não se passar de um teatro para não atrair a fúria romana. A ciência e filosofia, assim como a matemática e a música existem hoje por causa da igreja e do catolicismo e seus cismas.

E para aqueles que acreditam que caminhamos a um futuro onde a ciência prove que Deus não existe, nos livrando de um onipresente e severo Juiz que a cada ato nosso está atento, pensem novamente. Esta época que vivemos não é a primeira – e provavelmente nem será a última – a tentar sepultar um ou vários Deuses. Como pragas eles sempre voltam a nos atormentar.

Toda a cultura ocidental que existe hoje nasceu na Grécia antiga, e então – como um vírus – chegou a Roma e então se espalhou pela europa como uma praga.

Na Grécia antiga o mito não era visto como uma mera representação, uma fábula ou parábola. Mitos tinham o peso da lei, da moral e dos costumes. Os gregos caminhavam lentamente para fora de sua pré-história e esse mitos eram passados de geração a geração, de povoado a povoado de forma oral graças a poetas ou bardos.

Quando o mito era reduzido a uma obra de arte (uma canção ou poesia, por exemplo) ocorre uma cristalização: o que antes vivia em variantes começa a se tornar um cânon, sua diversidade e seus nuances começam a se transmutar em uma versão oficial aceita por todos. Claro que esse cânon não surgia apenas da mente do poeta, a variante apresentada por um vate de prestígio impunha-se à consciência pública e se tornava, com o devido tempo, o mito canônico que atravessava e educava gerações.

E desta forma poetas e artistas recolhiam várias crenças espalhadas por ilhas e continentes e as compilavam, destilavam e usavam de sua arte e engenho para criar algo mais próximo do real – sempre inspirado por musas que lhe faziam cantar a Verdade.

Mas essas não foram as únicas alterações que essas verdades coletivas sofreram, por mais que poetas e artistas reduzissem e recriassem os mitos de acordo com as novas exigências estéticas e artísticas, eles as aceitavam e as mantinham.

O pensamento racional, ao contrário do que muitos pensam, não é um modismo atual e contemporâneo. Na época pré-Socrática muitos pensadores tentaram encarar com visão crítica os mitos e por consequência os desmitizar e dessacralizar em nome do lógos – a razão.

Mircea Eliade afirmou que: “Em nenhuma outra parte vemos, como na Grécia, o mito inspirar e guiar não só a poesia épica, a tragédia e a comédia, mas também as artes plásticas; por outro lado, a cultura grega foi a única a submeter o mito a uma longa e penetrante análise, da qual ele saiu radicalmente ‘desmitizado’. A ascensão do racionalismo jônico coincide com uma crítica cada vez mais corrosiva da mitologia ‘clássica’, tal qual é expressa nas obras de Homero e Hesíodo. Se em todas as línguas européias o vocábulo ‘mito’ denota uma ‘ficção’, é porque os gregos o proclamaram há vinte e cinco séculos”.

O que primeiro despertou a atenção dos pensadores Jônicos não foi a essência do mito em si, mas as atitudes e a moral dos Deuses. Xenófanes (576-480 a.C.) já dizia que um Deus verdadeiro jamais poderia ser concebido como injusto, vingativo, adúltero e ciumento.

“No dizer de Homero e de Hesíodo os deuses fazem tudo quanto os homens considerariam vergonhoso: adultério, roubo, trapaças mútuas” (Frgs. B11, B12). Repele a concepção de que os deuses tenham tido um princípio e se assemelhem aos homens: “Mas os mortais acreditam que os deuses nasceram, que usam indumentária e que, como eles, têm uma linguagem e um corpo” (Frg. B14). O antropomorfismo, iniciado com Homero e aperfeiçoado por Hesíodo, é violentamente censurado: “Se os bois, os cavalos e os leões tivessem mãos e pudessem, com suas mãos, pintar e produzir as obras que os homens realizam, os cavalos pintariam figuras de deuses semelhantes a cavalos, os bois semelhantes a bois e a eles atribuiriam os corpos que eles próprios têm” (Frg. B15).

E isso não era afirmar que Xenófanes fosse algum tipo de primeiro ateu, seus pensamentos eram muito mais sérios – e sacros:

“Há um deus acima de todos os deuses e homens: nem sua forma nem seu pensamento se assemelham aos dos mortais” (Frg. B23).

As críticas dos nacionalistas cresciam e se tornavam mais poderosas e Demócrito (520-440a.C.) acertou no caixão dos Mitos um prego talvez mais poderoso que o de Nietzsche mais de dois mil anos depois. O filósofo de Abdera afirma que tudo o que existe é a manifestação do choque entre partículas indivisíveis: os átomos.

“Por necessidade da natureza, os átomos movem-se no vácuo infinito com movimento retilíneo de cima para baixo e com desigual velocidade. Daí entrechoques atômicos e formação de imensos vórtices ou turbilhões de que se originam os mundos”

Assim tudo o que existia, fosse o objeto mais concreto – como uma rocha – ou o mais sútil – o ar, a alma, os deuses – está inevitavelmente sujeito à Lei da Morte.

E quanta gente não acha que a ciência de hoje é que foi a responsável pelo funeral dos deuses.

Demócrito pôs em xeque não a moralidade ou a humanização dos deuses, mas algo mais fundamental: por um lado afirmava que os deuses vulgares e a mitologia nasceram da fantasia popular e por outro, embora não descartando a existência de deuses reais, “Superiores”, os sujeitava à Lei funesta: “Deus verdadeiro e natureza imortal não existem”. Era a imortalidade que ele matava.

Na esteira de Demócrito outros vieram.

Píndaro (521-441a.C.) – um dos maiores e mais religiosos poetas de Helade – começou a filtrar o mito. Para ele todas as variantes de um mitologema tem como origem um único mito verdadeiro, todo o resto são devaneios estéticos criação de poetas.

“O mundo está repleto de maravilhas e, não raro, as afirmativas dos mortais vão além da verdade; mitos, ornamentados de hábeis ficções, nos iludem. .. As Graças, a quem os mortais devem tudo quanto os seduz, tributam-lhes honras e, as mais das vezes, fazem-nos crer no incrível!” … “O homem não deve atribuir aos deuses a não ser belas ações. Este é o caminho mais seguro”.

Os deuses deveriam apenas nos mostrar o correto, e para isso o maior dos líricos da Grécia truncou, moldou, cortou, e alterou mitos para que se tornassem espelhos de suas exigências morais.

E não foi o único grande nome a fazer isso. Esquilo (525-456 a.C.) destilou do mito apenas seus aspectos sadio. Junito Brandão de Souza, em seu Teatro Grego, Origem e Evolução, afirma “O dever do poeta, diz Ésquilo a respeito do mito de Fedra, é ocultar o vício, não propagá-lo e trazê-lo à cena. Com efeito, se para as crianças o educador modelo é o professor, para os jovens o são os poetas. Temos o dever imperioso de dizer somente coisas honestas”.

Eurípides (480-406 a.C.) foi outro gigante que trilhou pela senda de Xenófanes.

Outro ponto interessante que serviu como ir minguando o poder dos antigos deuses foi a politização! Veja, Atenas, a acrópole, se tornou o centro do mundo que era a Grécia e logo os mitos, quase todos, passam a sofrer de uma deslocação fazendo com que acabassem passando, em um momento ou outro, pela cidade. As peregrinações dos heróis os levam a Atenas, o desejo de defender a hegemonia política ateniense faz com que seus poetas começam a tomar certas liberdades criativas com certos mitos, incluindo neles genealogias duvidosas, dando à cidadela importantes fatos históricos que deformavam a cronologia de acontecimentos míticos ao mesmo tempo que denegriam heróis e feitos das cidades vizinhas e concorrentes. Admeto da Tessália, Édipo de Tebas, Adrasto de Sicione, Orestes de Argos… a lista dos que desfilaram pelas ruas atenienses é enorme.

O século V a.C. viu o desabrochar de ilustres discípulos da crítica racionalista. Tucidides (460-395 a.C.) – ao contrário de Heródoto (480-425 a.C.) – o pai dos historiadores – expulsa os deuses de sua História da Guerra do Peloponeso, foi ele o responsável por transformar o adjetivo mythôdes, que tem por significado aquilo que é “semelhante ao mito”, em sinônimo de “fabuloso”.

Assim os sofistas, tomando partido das condições políticas e sociais, abalaram os nervos da pólis, tirando vantagem da senda aberta a golpes de machete pela ceticismo, varrendo todo o conceito de mito da mente de seus jovens discípulos.

E assim ao chegarmos ao século IV a.C. os deuses e deusas do passado não passam a ser compreendidos como alegorias ou tentativas de explicar o processo de apoteose de homens ilustres. Eles não eram mais verdadeiros mas sim suposições com significações ocultas. Outrora deuses passam a ser meros fenômenos naturais e suas leis e histórias mera poesia e entretenimento.

Mas os deuses não permanecem mortos novamente, com o império romano voltaram, e novamente foram enterrados pelo ceticismo até que o império ruísse e um novo Deus surgisse, tão real e palpável quanto as catedrais que erigiam em sua homenagem.

O que muitos não percebem ao chegar a este ponto é que não era a razão científica que atirava pedras nas divindades, rotulando-as de superstições, era homens de religião que tentavam se aproximar de uma Divindade insondável que tentavam se livrar das alegorias humanas, criadas por humanos para tentar compreendê-los. Ao questionar que Deus não podia ser onipotente e onipresente, não levantavam dúvidas a respeito de sua existência, mas o despiam de conceitos humanos, tentando enxergar mais longe além do véu.

Não pense agora que nossa ciência e inteligência hodiernas serão o fim daquilo que tão orgulhosamente consideramos ser apenas mitos, estórias e metáforas. Ela apenas se apoia de forma capenga e não criativa em questionamentos filosóficos que os papagaios que os repetem sequer compreendem. Estamos, enquanto sociedade iluminada, apenas usando o conhecimento que recebemos dos sacerdotes e crentes de uma divindade para solapar seu Deus. Tal qual Cronos fez com seu pai Urano e Zeus fez com seu pai Cronos. Da mesma maneira que incontáveis “homens da razão” fizeram antes de nós com a mesma convicção que os mais notórios biólogos que a mídia nos trazem tem.

E encerro apenas com o lembrete quase profético que o poeta John Donne escreveu, inspirado talvez pelas mesmas musas que inspiraram Hesíodo e Homero, em 1609 e que talvez a muitos fãs de Howard Phillips Lovecraft pareça familiar:

“Após curto sono, acorda eterno o que jaz,
E a morte já não é; morte, tu morrerás.”

 

 

 

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/como-a-religiao-mata-deus/

Carta a um Maçom

Rio de Janeiro, 9 de julho de 1963.

Caro Dr. G.:

Faze o que tu queres há de saer tudo da Lei.

Li, com maior prazer, a entrevista concedida ao Diário de Notícias, através da qual o Grande Oriente do Brasil manifesta à nação a sua intenção de, finalmente, fazer com que a Maçonaria venha a ocupar na vida brasileira o papel que lhe cabe e sempre lhe coube desde a Independência – que, como todos sabemos, foi feita por maçons.

Relembrei nessa ocasião minha conversa com o senhor, e as nossas palavras de despedida, nas quais buscou o senhor gentilmente trazer à minha atenção o fato de que (na sua opinião) a Igreja Católica Romana é uma boa introdução à vida adulta para crianças. Eu lhe disse então: “Mas a Maçonaria é infinitamente melhor”, e aproveito esta oportunidade para repetir e ampliar estas palavras.

Eu não quis discutir a validade ou falta de validade da Igreja Romana como campo de treino para crianças, porque não é assunto que se possa, propriamente, discutir. É assunto que deve — repito, deve – – ser pesquisado por todo homem consciencioso e responsável, principalmente por maçon de alto grau e no Brasil, onde essa Igreja teve tanta influência na formação psíquica do povo — com os resultados que estamos vendo no presente.

Para esta pesquisa, vitalmente necessária a todos os maçons neste momento de transição, é necessário uma análise cuidadosa da evidência espalhada pelas obras de muitos pesquisadores imparciais e fidedignos; e isto não pode ser resumido numa breve discussão. Eu estou a par dos fatos; o senhor não estava, na ocasião; e afirmativas de minha parte teriam forçosamente de parecer ao senhor opiniões arbitrárias e caprichosas, principalmente por o senhor, com certeza, suspeitar de mim e de minhas intenções. Thelemitas não são mais benquistos no momento do que o foram os gnósticos e os essênios em seu tempo! A finalidade desta carta é expor, de maneira mais ordeira e clara, minhas conclusões, e citar as obras nas quais me baseio; de forma que o senhor possa, se quiser, consulta-las e tirar suas próprias conclusões, que podem ou não virem a coincidir com as minhas. Peço-lhe apenas que, tendo lido a minha carta; examinado, se lhe aprouver, as fontes nela citadas; e chegado, porventura, à conclusão de que são ambas de valor a seus irmãos maçons, transmita-lhes a carta assim como as fontes, para que, por sua vez, tenham a oportunidade de examinar, ponderar, e julgar.

Devo começar por repetir-lhe o que lhe disse por ocasião de nossa conversa, e que tanto chocou seus bons sentimentos e sua honesta devoção: que o homem chamado “Jesus Cristo” nos Evangelhos nunca existiu. Suas peripécias são fictícias; não padeceu sob nenhum Pôncio Pilatos; não foi nem poderia jamais ser a única Encarnação do Verbo; e qualquer Igreja, seita ou pessoa que diga o contrário ou está enganada ou enganando. Não quero dizer com isto que um homem assim não pudesse ter nascido, pregado, e padecido. Pelo contrário: tais homens nascem continuamente, e continuarão a nascer por todos os tempos: Encarnações do Logos, Templos do Espírito Santo, Cruzes de Matéria coroadas pela chama do Espírito.

Direi mais: houve, em certa ocasião, um homem que alcançou no mais alto grau a consciência de sua própria Divindade; e este homem morreu em circunstâncias análogas (porém não idênticas!) àquelas narradas nos Evangelhos. Seu nascimento perdeu-se na noite dos tempos: ele foi o original do “Enforcado” ou “sacrificado” no Taro, e os egípcios o conheciam pelo nome de Osiris. Foi esse Iniciado quem formulou na carne a fórmula do Deus Sacrificado. Esta é a fórmula da Cerimônia da Morte de Asar na Pirâmide, que foi reproduzida nos mistérios de fraternidades maçônicas da tradição de Hiram, das quais o exemplo mais perfeito foi o Antigo e Aceito Rito Escocês. O Graus 33º desse rito indicava uma Encarnação do Logos; a descida do espírito Santo; a manifestação, na carne, de um Cristo; a presença do Deus Vivo.

Para os fatos que servem de base às asserções acima, indico ao senhor as seguintes obras, de maçons ilustres e merecedores:

LA MISA Y SUS MISTERIOS, de J.M. Ragón.

THE ARCANE SCHOOLS, de John Yarker.

DO SEXO À DIVINDADE, do Dr. Jorge Adoum.

CURSO FILOSÓFICO DE LAS INICIACIONES ANTIGUAS Y MODERNAS, de J.M.Ragón.

ISIS DESVELADA, de Helena Blavatsky, seção sobre o Cristianismo. Mme Blavatsky não era dos vossos, mas era dos Nossos…

Na minha opinião, Dr. G., um maçon de alto grau, com tempo a seu dispor, faria um grande benefício a seus irmãos ao traduzir para o português as obras acima citadas, principalmente as duas primeiras.

Os documentos incluídos no assim-chamado “Novo Testamento” (a saber, os Quatro Evangelhos, os Atos, as Cartas e o Apocalipse) são falsificações perpetradas pelos patriarcas da Igreja Romana na época de Constantino, por eles chamado “o Grande” porque permitiu esta contrafação, colaborando com ela. Constantino não teve sonho algum de “In Hoc Signo Vinces”. Tais lendas são mentiras desavergonhadas inventadas pelos patriarcas romanos dos três séculos que se seguiram, durante os quais todos os documentos dos primórdios da assim- chamada “Era Cristã” existentes nos arquivos do Império Romano foram completamente alterados.

O que realmente aconteceu na época de Constantino foi que, aliados, os presbíteros de Roma e Alexandria, com a cumplicidade dos patriarcas das igrejas locais, dirigiram-se ao Imperador, fizeram-lhe ver que a religião oficial era seguida apenas por uma minoria de patrícios, que a quase totalidade da população do Império era cristão ( pertencendo às várias seitas e congregações das províncias ); que o Império se estava desintegrando devido à discrepância entre a fé do povo e a dos patrícios; que as investidas constantes das seitas guerreiras essênias da Palestina incitavam as províncias contra a autoridade de Roma; e que, resumindo, a única forma de Constantino conservar o Império seria aceitar a versão Romano-Alexandrina do Cristianismo. Então os bispos aconselhariam o povo a cooperar com ele; em troca, Constantino ajudaria os bispos a destruírem a influência de todas as outras seitas cristãs! Constantino aceitou este pacto político, tornando a versão romano- alexandrina de Cristianismo na religião oficial do Império.

Conseqüentemente, a liderança religiosa passou às mãos dos patriarcas romano-alexandrinos, que, auxiliados pelo exército do Imperador, começaram uma “purgação” bem nos moldes daquelas da Rússia moderna. Os cabeças das seitas cristãs independentes foram aprisionados; seus templos, interditados; e congregações inteiras foram sacrificadas nas arenas das províncias de Roma e Alexandria. Os gnósticos gregos, herdeiros dos Mistérios de Eleusis, foram acusados de práticas infames por padres castrados como Orígenes e Irineu (a castração era um método singular de preservar a castidade, derivado do culto de Atis, do qual se originou a psicologia romano-alexandrina). Os essênios foram condenados através do hábil truque de fazer dos judeus os vilões do Mistério da Paixão; e com a derrota e dispersão finais dos judeus pelos quatro cantos do Império, a Igreja Romano- Alexandrina respirou desafogada e pode dedicar-se completamente ao que tem sido sua especialidade desde então: ajudar os tiranos do mundo a escravizarem os homens livres.

Para o escrito acima, indico ao senhor os seguintes livros:

ISIS DESVELADA, de Blavatsky, seção sobre o Cristianismo OUTLINES ON THE ORIGIN OF DOGMA, de Adolf von Harnack.

DECLINE AND FALL OF THE ROMAN EMPIRE, de Gibbon.

THE AGE OF CONSTANTINE THE GREAT, de Burckhardt.

Quanto às falsificações da Igreja Romano-Alexandrina, indico ao senhor as palavras do grande erudito americano Moses Hadas, em suas notas à tradução do livro de Burckhardt, à página 367, que passo a traduzir:

“A História Augusta apresenta biografias de imperadores, cézares e usurpadores, de Afriano a Numério (117-284), com uma lacuna no período de 244 a 253. Pretende ser o trabalho de seis autores (Aelius Spartianus, Vulcacius Gallicanus, Aelius Lampridius, Julius Capitolinus, trebellius Pollius e Flavius Vopiscus), e ter sido escrita entre os reinados de Diocleciano e Constantino, ou cerca de 330. Alguns estudiosos creêm tais asserções verdadeiras, mas outros mantêm que a obra foi escrita um século mais tarde, e por uma só pessoa. Em tal caso o nome dos seis autores terá sido adicionado para tornar mais convincente o que foi escrito.

Trocando em miúdos, o que ele quer dizer é o seguinte: os patriarcas romanos, ansiosos por esconder seus crimes (especialmente a perseguição a cristãos de outras seitas ou igrejas) e por se declararem os únicos cristãos verdadeiros, destruíram todos os documentos autênticos nos quais conseguiram por as mãos. (Isto lhes era particularmente fácil já que, desde a era de Constantino, eles foram os guardiães de tais manuscritos.) Feito isto, substituíram os destruídos por outros, forjados, que descreviam a sua clique como oprimida pelos imperadores e outras seitas cristãs como inexistentes ou obscenas. (Na realidade, ela bajulara os imperadores desde o começo: o culto de Átis era o único em Roma ao qual os patrícios podiam ir legalmente.) Um pouco mais tarde, Romanos e Alexandrinos brigaram. Isto porque cada facção queria fazer de sua cidade o centro político e religioso do Império. Foi então que um dos poucos historiadores pagãos que escaparam à atenção dos Patriarcas escreveu: “As atrocidades dos cristãos uns contra o outros ultrapassa a fúria das bestas selvagens contra o homem.”(Ammianus Marcellinus) O capítulo final da disputa foi a divisão do Império em Romano e Bizantino. Desde então, a Igreja Romana tem se chamado “Católica”, e a Bizantina, “Ortodoxa”.

Ambas, é claro, um amontoado de mentiras.

Qual o motivo, o senhor perguntará, para essa perseguição impiedosa às seitas gnósticas e essênias? No caso dos essênios, as razões foram políticas e dogmáticas.

Aproximadamente um século antes do assim-chamado “Ano Um” nascera na Palestina um rabi, cujo nome é desconhecido (embora alguns estudiosos presumam ter sido Ionas, ou Jonas). Ele criou um novo sistema de Essenismo, fundando muitos ramos dessa fraternidade judeo-cóptica, e adquirindo um grande número de seguidores na Ásia Menor. Muitos documentos foram escritos acerca dos incidentes de sua vida e doutrina. Foi um Adepto Cristão, ou seja, defendeu a tese de que todo homem é um Templo do Deus Vivo; deu testemunho do Logos e do Espírito Santo, e tal foi seu impacto no pensamento religioso de sua época que os patriarcas romano-alexandrinos, ao escreverem a “história de Jesús Cristo”, foram forçados a incluí-lo, para evitar suspeitas. Chamaram-no de “João Batista”…

Acerca deste: THE DEAD SEA SCROLLS, AN INTRODUCTION, de R.K.Harrison.

Também este livro deveria ser traduzido para o português por um maçon! Abaixo, cito uma passagem atribuída a esse iniciado, extraída de um manuscrito cóptico intitulado “Evangelho de Maria”, apócrifo, desde 1896 no Museu de Berlim. Depois de haver explicado vários pontos de sua doutrina, ele se despede de seus discípulos:

“… Quando o Abençoado havia dito isto, ele saudou a todos, dizendo: ‘Paz seja convosco. Recebei minha paz para vós mesmos. Cuidai-vos de que nenhum vos desvie com as palavras “olha alí” ou “olha lá”, pois o Filho do Homem está dentro de vós. Seguí-o: aqueles que o buscam o encontrarão. Ide, pois, e pregai a Boa Nova do Reino. Eu não vos deixo nenhuma regra, salvo o que vos recomendei (Amai-vos uns aos outros), e eu não vos dei nenhuma lei, qual fez o legislador (Moisés), para evitar que vos sentísseis obrigados por ela.’ E quando acabou de dizer isto, ele foi embora.” (Gnosticism, An Anthology, ed. Robert M. Grant, Collins, London, pp.65-66, “The Gospel of Mary”)

Esta passagem pode ser comparada a muitas outras nos Evangelhos nas quais, quando interrogado, “Jesús” diz explicitamente: “O Reino de Deus está dentro de vós.” E que razão tinham os Romanos e Alexandrinos para perseguir e exterminar os gnósticos gregos? Desta feita o motivo era puramente dogmático. Na época posteriormente atribuída pelos patriarcas ao “nascimento de Jesús Cristo”, um iniciado grego deu vida nova aos mistérios de Apolo e Diôniso, restabeleceu o culto ao Sol Espiritual e ao Logos, praticou maravilhas taumatúrgicas e, em suma, causou tal impressão que os Romano-Alexandrinos foram forçados a incorporar diversos “milagres” em sua miscelânia evangélica, de forma que o seu “Jesus” pudesse igualar os prodígios atribuídos a Apolônio de Tyana. Ao mesmo tempo, afirmaram que Apolônio de Tyana havia sido enviado por “Satã” para reproduzir os milagres de “Jesús” e assim desviar as pessoas do “verdadeiro Cristo”. destruíram também, sistematicamente, todos os documentos autênticos da vida de Apolônio, salvo um, a fantástica e inacreditável Vita, atribuída a um pretenso “discípulo” desse grande Adepto.

Novamente lhe indico ISIS DESVELADA, e o artigo “Apollonius” na Enciclopédia Britânica.

Devo aqui, Dr. Gastão, apender um parêntese um pouco prolongado, de forma a estabelecer a maneira pela qual o Catoliscismo Romano difere do verdadeiro Cristianismo. Para este fim, começarei por apresentar um dos poucos textos que nos chegaram quase sem alterações cometidas pelos patriarcas de Roma e Alexandria. As modificações relevantes vão comentadas entre parênteses, e o texto, apresento o original, intacto. É o Intróito do Evangelho de “São João”:

“No princípio era o Verbo. E o verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

“Ele estava no princípio com Deus.

“Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez.

“A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens.

“A luz resplandece nas trevas, e as trevas não o escondem ( isto é, não escondem o fato que a luz brilha nelas!).

“Houve um homem enviado por Deus, cujo nome foi Jonas (Johannes no original em grego).

“Ele veio como testemunha da luz, a fim de todos virem a crer por intermédio dele.

“Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz: a saber, a verdadeira luz que, vinda ao mundo, ilumina todo homem.

“Estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dela, mas o mundo não a conheceu ( no masculino na Vulgata, para sugerir “Jesús”).

“Veio para o que era seu, e os seus não a receberam ( idem).

“Mas, a todos quanto a (idem) receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus ( e aqui os Romanos-Alexandrinos acrescentaram: a saber, os que crêem no seu nome, isto é, no “Jesús” que eles inventaram para servir aos seus propósitos), os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.

“E o Verbo se fez carne, e habitou em nós ( a Vulgata aqui põe “entre”, o que muda totalmente o sentido da passagem) cheio de graça e verdade, e vimos a sua glória, glória como a do primogênito do Pai ( o primogênito do Pai é, claro, Chokmah, o Verbo Espiritual, a Primeira Emanação do Ancião dos Dias, Kether. “Primogênito” também traz à lembrança o “mais velho dos filhos de Deus”, Lúcifer ou Satã.” Na versão acima, original, desse documento cristão, e nas interpolações introduzidas pelos romanos-alexandrinos, Dr. G., tem o senhor o sumário e a base do dógma católico romano.

Jonas, Apolônio, Simão ( Simão Pedro e Simão o Mago; a isto aludiremos depois), Adeptos cristãos, ensinaram todos os três: “Vós sois o Templo do Deus Vivo. Contemplai a Luz dentro de vós, e sabei que sois Filhos da Luz!” Repetidamente esta mensagem é encontrada nos Evangelhos; mas sempre deformada, condicionada ou “explicada” pelas interpolações e teologismos romano- alexandrinos. O resultado é que, algumas vezes, “Jesús” fala como um santo, como uma verdadeira Encarnação do Verbo; o mais das vezes, porém, como fanático e sectarista.

Contradições deste tipo abundam.

Este é o resultado das alterações a interpolações dos romanos e alexandrinos. Copiaram, adaptando-os às suas necessidades político- financeiras, os documentos essênios que descreviam as pregações de Jonas ( entre outros, o “Sermão da Montanha”). Inseriram “milagres” do tipo atribuído a Apolônio de Tyana. Arranjaram um Mistério da Paixão em drama nos moldes dos cultos de Mitras, de Adonis, de Átis, de Diôniso e de Oannes — o que era necessário para tornar o seu “Jesús” numa Encarnação do Logos do Aeon de Osiris, o Deus Sacrificado. Tão cuidadosamente misturaram a verdade e mentira que durante quase mil e seiscentos anos todo cristão que procurou encontrar o Verbo em si mesmo — o único lugar onde pode ser encontrado — deparou, nos portais de sua alma, com este fantasma insidioso, esta blásfema quimera, este pesadelo teológico: “Nosso Senhor Jesus Cristo”.

“Adora-me!” — diz o Egrégora — “Eu sou o filho de Deus. Tu não és nada mais que uma criatura sem valor e pecadora, condenada desde o nascimento e destinada ao inferno não fosse por meu sacrifício; e sem mim nunca alcançarás o céu.” Talvez o senhor comece a compreender agora, Dr. G., a natureza daquilo a que nós chamamos a Grande feitiçaria? Após mil e seiscentos anos de vitalização por multidões de adorantes, e a absorção das cascas vazias de padres, freiras e fanáticos que se deixaram vampirizar por ele, o Egrégora existe no assim-chamado plano astral; e é um demônio, quer dizer, uma entidade ilusória. Não é um verdadeiro Microcosmo, mas uma gestalt de cascões vitalizados, um foco para tudo que há de negativo, derrotista, piegas, preconceituoso e introvertido na natureza dos cristãos: um lodaçal completamente hostíl ao progresso e á evolução espiritual deles.

E, no entanto, nada há mais sagrado ou puro do que está oculto neste nome, “Jesus Cristo”… É um híbrido dos títulos pelos quais os cabalistas essênios e os gnósticos gregos, respectivamente, chamavam o Iniciado que alcançasse a esfera de Tiphareth, o Filho — ou seja, a “sephira”, ou “plano” de consciência que em Nosso sistema corresponde ao grau de Adeptus Minor, e, no Rito Escocês, ao 33º grau.

Cristo, Chrestos, significa “Bom” e “ungido”. Este era um título nobre nos Mistérios de Eleusis. O Iniciado tem sempre sido um sacerdote-rei desde a antiguidade; a superstição absurda do “direito divino hereditário” dos reis foi outra adulteração dos romanos- alexandrinos para ajudar aos tiranos que os apoiavam. Seria realmente fácil se a verdadeira realeza, dura recompensa da Iniciação, pudesse ser transmitida por métodos dinásticos, ou conferida por um papa! Para fazer justiça a este tema um volume inteiro seria necessário; diremos apenas que os símbolos tradicionais da realeza são os símbolos da completa iniciação. O Cetro representa o Falo, a imagem material do Verbo; o Globo e a Cruz são formas da Cruz Ansata, o símbolo da imortalidade conferida pela Iniciação ( mostra a mulher “dominada” pelo homem, ou seja, satisfeita pelo homem….); a Coroa é Kether, o Sahashara Cakkram em completo funcionamento, a Primeira Sephira, o Ancião dos Dias, o Pai; o Manto Púrpura ornado de estrelas ou flores representa o Céu Noturno, a Aura do Sacerdote de Nuit; e finalmente, as roupagens rubro-douradas são o símbolo do Corpo Solar, o Corpo de Glória do Iniciado — vermelho e ouro sendo as cores heraldicas do sol.

Quanto ao nome “Jesús”, é escrito em hebraico IHShVH ( pronuncia- se Jehêshua). Note que isto é IHVH ( Tetragrammaton ) com Shin (Sh) intercalada. Shin é a letra que representa a um só tempo os elementos Fogo e Espírito, e, estando no centro de IHVH, equilibra as Quatro Forças Elementais Cegas do Demiurgo. Jeová — a Palavra de Moisés — torna-se Jeheshua — a Palavra de Jonas. Nesta Palavra o senhor tem o Deus Crucificado, Dr. G.: nela o Pentagrama, o Sinal do Homem, a Estrela Flamejante do Santuário; nela a chave cabalistica do Tetragrammaton Cristão, INRI, que significa, entre outras coisas, Igne Natura Renovatur Integra, ou seja: Pelo Fogo (do Espírito Santo) a natureza se Renova Inteiramente…

A diferença básica entre o Cristianismo e as religiões que o precederam é que o Mistério de Osíris, até então revelado apenas a aspirantes cuidadosamente selecionados nos mais profundos recônditos dos mais remotos santuários, foi abertamente oferecido ao mundo.

Antes do Aeon de Osíris, no Aeon de Isis, os homens adoravam a Deus em uma de Suas múltiplas imagens (adaptadas à visão espiritual de indivíduos diversos em nações diversas) da mesma forma que uma criança ama e adora sua mãe: como Alguém que protege, alimenta, conforta e ocasionalmente corrige e castiga, mas sempre como alguém exterior a si mesmos.

Foi a revelação do Mistério da Morte de Osíris que acordou os homens para a consciência de que eles, em si mesmos, são a divindade encarnada. Tampouco podemos ir muito longe neste assunto, pois é matéria para outro volume. O Aeon de Virgo-Pisces, com suas vibrações, adaptava-se às idéias de devoção e auto-sacrifício, tornando a Iniciação Racial possível em larga escala; mas é necessário que o senhor compreenda, Dr.G., que o Mistério de Osíris data da mais remota antiguidade. O Deus Sacrificado é fórmula anterior à destruição da Atlântida, quando o verdadeiro significado dos símbolos, até então geralmente conhecido, tornou-se o privilégio de alguns poucos iniciados. Um sacrifício humano anual, para ajudar a colheita, era um rito genérico entre todas as tribos agricultoras da Europa e da Ásia Menor há cinco mil anos atrás; e mesmo nos primórdios do Romanismo ainda era praticado por tribos indo- européias. O sacrificado era, originalmente, o rei da tribo; reinava durante o ano, e era executado nos Ritos da Primavera, ou Páscoa (em ingles Easter, corruptela de Ishtar). Era tratado como encarnação do deus tribal, e adorado até o momento de sua morte. Com seu sangue os campos de cultivo eram salpicados; sua carne era comida por nobres e sacerdotes; e o povo tinha de contentar-se em respirar a fumaça de certas partes queimadas e oferecidas à divindade que ele havia encarnado (estas partes variavam: algumas tribos queimavam os órgãos sexuais, outras o coração).

Eventualmente, com o desenvolvimento da inteligência, a fórmula tornou-se mais conveniente para os reis: algum gênio tribal concebeu a idéia de um vicário; e desde então, um rei substituto era simbolicamente ungido para a ocasião, para ser sacrificado no lugar do rei verdadeiro. Primeiro usaram voluntários, depois velhos e doentes ou criancinhas, a seguir inimigos, e por último animais.

Em muitas tribos os pais, em vez de se sacrificarem, sacrificavam seus primogênitos (neste caso eram os pais os chefes ou patriarcas das tribos). Na Bíblia, a história do primogênito de Abraão é uma hábil fábula que marca a transição, entre os primeiros judeus, do sacrifício dos primogênitos a Jeová para aquele dos bodes expiatórios.

Sacrifícios humanos, acompanhados de antropofagia ritual, eram costume no continente indoeuropeu, na Austrália, no continente africano e no Novo Mundo. A presença universal de tal rito, numa época em que a arte da navegação era praticamente nula, indica uma origem comum na Antiguidade, Esta foi a Atlantida, se bem que o senhor deva notar que seus habitantes não praticavam sacrifícios humanos. Foi precisamente a destruição desta civilização (devida não a “castigo divino”, mas a um dos grandes movimentos periódicos da crosta terrestre a intervalos de vinte mil anos) que, havendo deixado apenas algumas colônias em outras terras, resultou na volta à barbárie que ali ocorreu quando o símbolos passaram a ser interpretados da forma mais grosseira. Alguns mais avançados da cultura atlante mantiveram o verdadeiro significado. Entre eles, o Egípto, onde os Mistérios Menores ( de Isis e Osíris ) eram celebrados com pleno conhecimento de seu significado verdadeiro (é suficiente que o senhor recorde que no Livro dos Mortos a alma do morto ou da morta é sempre chamada Osíris), e os Mistérios Maiores ( de Nuit-Hadit-Hoor ) preservados com o máximo segredo.

Foi do Egito que veio a Corrente de Osíris, a qual, devido à diversidade de povos e línguas, e às dificuldades de comunicação no plano material, manifestou-se em pontos diferentes do continente indoeuropeu sob formas diversas, embora seguindo sempre a fórmula do Deus sacrificado. A corrente começou aproximadamente no ano 500 A.C.

Um estático da Ásia Menor, cujas aventuras tornaram-se lendárias, e que eventualmente ficou conhecido pelo nome de Diôniso, viajou pela Grécia, Ásia Menor e India, ensinando a nova fórmula de Iniciação Racial. Este iniciado, o original verdadeiro do “Jesús Cristo” evangélico, foi um filho espiritual de Krishna, ou antes, de Vishnu, de quem foi Krishna o principal avatar; e sua Palavra era INRI, que é uma modificação da Palavra de Krishna, AUM. Citamos aqui o Capítulo 71 de LIBER ALEPH, um dos mais profundos trabalhos do Mestre Therion: “Krishna tem inumeráveis nomes e formas, e não conheço seu verdadeiro Nascimento humano. Pois sua Fórmula é de alta Antiguidade. Mas Sua Palavra espalhou- se por muitas terras, e hoje a conhecemos como INRI com o IAO secreto aí oculto. E o significado desta Palavra é a Maneira de Trabalho da Natureza em Suas Mutações: isto é, é a Fórmula de Magia pela qual todas as Coisas se reproduzem e recriam a si mesmas. Porém, esta Extensão e Especialização foi antes a Palavra de Diôniso; pois a verdadeira Palavra de Krishna era AUM(OM), implicando antes numa asserção da Verdade da Natureza do que numa Instrução prática sobre Operações Detalhadas de Magia. Mas Diôniso, pela palavra INRI, estabeleceu a fundação de toda Ciência, da forma como hoje entendemos a palavra Ciência em seu senso particular, ou seja, o de causar a Natureza externa a mudar em Harmonia com nossas Vontades.” Este Iniciado, cujo nome carnal é hoje desconhecido, mas que conhecemos por Diôniso (o qual pode ter sido seu nome, pois se tornou bastante comum na Ásia e na Grécia depois de sua morte), viveu e trabalhou aproximadamente quinhentos anos antes da assim-chamada “era cristã”. Foi mencionado por um dos profetas judeus — Isaias — em várias passagens do Livro de Isaías. Estas eram estudadas com veneração profunda pelos velhos Essênios, que sabiam do seu sentido oculto. A passagem principal é citada aqui (parênteses meus):

“Quem acreditou em nossa pregação? A quem foi mostrado o braço de Adonai? (braço é um eufemismo para o falo, o órgão material do Verbo.

Coxa, braço, quafril, chifre, etc., são eufemismos para penis, usados tanto no Novo quanto no Velho Testamento para apaziguar as mentes prurientes dos tradutores que, projetando seus próprios traumas psíquicos, acharam que o povo ficaria chocado ao ouvir uma pica chamada de pica. Este tipo de “censura bem intencionada” ainda hoje é praticado: os cristãos todos parecem achar-se capazes de “proteger a virtude” de seus semelhantes!) . Porque foi subindo como um rebento novo ( ou seja, como uma Palavra nova, necessariamente mal-entendida e temida a princípio) perante Ele, e sua raiz em uma terra seca; não tinha presença nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza tinha ele que nos agradasse.

“Foi desprezado, o mais rejeitado entre os homens; homem que sofrera, e sabia o que é padecer; como um de quem os homens se desviam, foi desprezado, e dele não fizemos caso.

“Em verdade ele tomou sobre si nossas mazelas; as nossas dores carregou sobre si; e por isto o considerávamos, aflito, ferido de Deus, e opresso; “Ele foi golpeado, mas por nossas transgressões; moído, mas por nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe a paz caíu sobre ele, e pelas suas pisaduras nós fomos sarados.

“Andávamos todos desgarrados, como ovelhas; cada um se desviava do caminho, mas Adonai fez caír sobre ele a iniquidade de nós todos”.

“Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e como ovelha, muda perante seus tosquiadores, manteve silêncio.

“Por decreto tirânico nos foi arrebatado, e sua linhagem, quem dela cogitou? Pois ele foi cortado da terra dos vivos; por causa da transgressão do meu povo foi ele ferido.

“Deram-lhe sepultura com os perversos, mas com o rico habitou em sua morte; pois nunca fez injustiça, nem dolo algum se achou em sua boca.

“Todavia, a Adonai agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando ele deu a sua alma (a Vulgata tem der , para sugerir que isto é uma profecia sobre — claro — “Jesús Cristo”) como oferta pelo pecado, viu a sua posteridade ( isto é, seus filhos mágicos ) e prolongará seus dias; a vontade de Adonai prosperará em sua mãos.

“Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma, e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com a sua compreensão ( isto é, Binah; a “entrega da alma” corresponde à Passagem do Abismo ) justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si.

“Por isso eu lhe darei muitos como a sua parte ( isto é, como seus discípulos ), e com os poderosos (isto é, os Reis ou Potestades — uma das hierarquias celestiais ) repartirá ele os despojos; porquanto derramou a sua alma ( isto é, o seu sangue — vinho de IAO — na Taça de BABALON, que contém o sangue dos santos ) na morte; foi contado com os transgressores ( isto é, considerado malígno ); contudo levou sobre si os pecados de muitos, e pelos transgressores ( isto é, os malígnos entre os quais foi contado, os quais eram na realidade os que o condenavam ) intercedeu.”

LIVRO DE ISAÍAS, III, vv. 1 – 12.

Talvez o senhor compreenda melhor o acima se eu citar aqui alguns raros versos de um dos Livros Santos de Télema:

“46. Ó meu Deus, mas o amor em Me rebenta sobre os laços de Espaço e Tempo; meu amor é derramado entre aqueles que não amam o amor.

“47. Meu vinho é servido àqueles que nunca provaram vinho.

“48. Os fumos dele os intoxicarão, e o vigor do meu amor engendrará bebês pujantes em suas virgens.”

LIBER VII, vii, vv. 46 – 48.

Há certos segredos iniciáticos, Dr. G., que não podem ser revelados pela simples razão que apenas aqueles que os experimentaram em si mesmos são capazes de compreender referências a eles feitas.

Portanto limitar-me-ei a dizer que a história simples contada nos versos de Isaías descreve a carreira de todo Adepto Cristão. Isto, em teoria, seria também a história de todo maçon do grau 33º; mas na prática, embora não tenham os srs. perdido a Palavra, mantêm a letra mas não o espírito. Os senhores maçons caíram bem aquém do que era intencionado por seu sistema — isto principalmente devido ao constante ataque da Igreja de Roma.

Os patriarcas romanos-alexandrinos que escreveram o Novo Testamento copiaram palavras de verdadeiros Iniciados; resulta que, encerradas em seus evangelhos adulterados, ainda há várias chaves que aqueles que “tiverem ouvidos de ouvir” (isto é, percepção espiritual: o sentido da audição corresponde ao Akasha hindu, o Elemento do Espírito) podem usar para encontrar a Medicina Universal e o Elixir da Vida …

No entanto, os romanos-alexandrinos erraram tristemente ao tentar usar de métodos profanos para expandir um cristianismo viciado por interpretações dogmáticas e ambições temporais de poder político e financeiro. Falharam por não fazerem o preconizado por Jonas aos essênios: “Dar a Cesar o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Invariavelmente, quando quer que na história da humanidade um sistema de teurgia é conspurcado e se torna uma religião organizada, sofrem os elos entre o sistema e sua fonte espiritual. Os planos não podem ser misturados, e acreditando-se movidos pelas melhores intenções, os romanos-alexandrinos foram na verdade impelidos por vaidade e orgulho — sentimentos enraizados no ego, precisamente a faculdade que o homem deve destruir na passagem do Abismo.

O resultado foi que, perdendo contato com o Logos do Aeon de Osíris, a igreja romano-alexandrina tornou-se instrumento de forças demoníacas — isto é, de forças ilusórias, egóicas — e deu-se desde então a erros espantosos, a crueldades indizíveis.

Consequentemente, os verdadeiros cristãos retiraram-se daquela igreja no momento mesmo em que ela triunfava sobre suas “rivais” gnósticas e essênias, e aliava-se aos príncipes do mal deste mundo.

Retiraram-se, e silenciosamente continuaram seu trabalho através de todo o abuso e perseguição que se seguiram; e eventualmente, para contrafazer mais eficientemente os efeitos da Grande Feitiçaria, criaram a Maçonaria.

O senhor sabe, é claro, que o Rito Antigo, ou melhor, a Grande Loja da Inglaterra, foi organizada ( e o Rito inteiro reformado ) por um certo Elias Ashmole, judeu, e Irmão da R.C. A R.C. (que só existe neste mundo com este nome desde que o grande iniciado que se ocultou sob o nome de “Cristian Rosenkreutz” começou o movimento que resultou na Renascença, na Reforma e nas revoluções Francesa e Americana ) é responsável pelo Mistério do Logos — o Mistério do cristo. É tarefa dela zelar para que este Mistério jamais seja perdido pela humanidade. Quando quer que, por erros humanos, por oscilações do karma terrestre, ou pelas leis do acaso, a transmissão da Palavra e do Sinal (isto é, a sucessão apostólica) é ameaçada, é a R.C., sob um de seus muitos véus (ela nunca usa abertamente o nome de R.C.!), através de um ou mais de seus Irmãos, que lembra a humanidade o significado espiritual da Encarnação; da promessa da Ressurreição; da Grande Obra, isto é: o estabelecimento do Reino de Deus sobre a Terra.

A R.C. nunca interfere de forma alguma com a organização ou direção de ritos maçônicos; nem seus Adeptos, necessáriamente, ingressam em tais ritos. Apenas, informação em quantidades suficientes é outorgada, e fontes de pesquisa são sugeridas ao exame dos maçons, para que o significado espiritual dos ritos seja reestabelecido pelos próprios maçons.

A R.C. está abaixo do Abismo: a Grande Ordem que não tem nome é simbolizada pelo Olho no Triângulo, e este é o Collegium Summum, ou a S.S., da A.•.A.•.

A A.•.A.•. é apenas uma das Fraternidades Iniciáticas, e abaixo do Abismo é das mais novas. Foi organizada em sua forma presente na primeira década deste século.

Quanto à S.S., é a mesma para todas as fraternidades iniciáticas.

Isto é fonte de surpresa, às vezes, para iniciados de graus mais baixos, pois, chegando a certas consecuções, verificam que Mestres que pareceram pregar doutrinas completamente opostas ( como, por exemplo, Maomé e Jonas ) estão sentados lado a lado no Areópago dos Adeptos.

Recapitulando: Quem é “São João Batista”? É Jonas, Ionas, Jon, Johannes, João, o Mestre de retidão dos essênios, cujos sermões são postos nos Evangelhos na boca de “Jesús”.

Quem é “Jesús”? É qualquer indivíduo que tenha atingido o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião, o Paracleto.

Quem é “Jesús Cristo”? É o nome dado pelos Romano-Alexandrinos à sua versão fictícia do Logos do Aeon de Osíris, cuja Palavra foi INRI, e a quem Nós conhecemos por Diôniso.

Quem é o “Pai” a quem “Jesús” sempre se refere nos Evangelhos? É o Logos, a LVX, o Verbo, cuja Sephira é Chokmah, o Primogênito de Kether.

Quem é o Cristo? Tecnicamente é todo e qualquer Adepto, desde que, no simbolismo grego, o nome corresponde ao essênio Jeheshua; mas na prática o título é usado para designar o LOGOS AIONOS.

Do ponto de vista místico, “ninguém atinge o Pai a não ser pelo Filho”; consequentemente, desde que todo Adepto Cristão é uma Encarnação do Verbo, a distinção entre o Cristo Solar e o Cristo Interno é mera ilusão do profano. Ego sum qui sum, diz o Iniciado: AHIH, EU SOU O QUE SOU.

Quando Aleister Crowley estava sendo “julgado” (foi nesta ocasião que o juiz presidindo o chamou de “o pior homem do mundo”), o promotor lhe perguntou: “Não é verdade que o senhor se chama a si mesmo de A Besta do Apocalipse?” Crowley, que já estava acostumado a esperar o pior de seus semelhantes, respondeu com a paciência e agudeza de humor que lhe eram característicos: “Esse nome significa apenas O Sol. O senhor pode me chamar de Raio-de-Sol, se quizer.” Isto é: chamá-lo de Adepto, ou seja, Jeheshua, ou seja, Maçon 33º, Dr. G.: Sol em miniatura, isto é, Tiphareth…

Esta confusão entre o Adepto e seu Pai aparece até em “João Batista”, quando ele diz: “Eu sou a Voz (ou seja, o Verbo) que clama no Deserto ( isto é, no Abismo).” O mais antigo símbolo conhecido para o Logos é o Olho dos Egípcios; e o Olho está no Abismo; este é o Olho no triângulo, e este é o verdadeiro Baphomet, o Chefe Secreto de todos os maçons.

Abaixo do Abismo, Ele é representado por dois Adeptos, um do Pilar Branco, o outro do Pilar Negro. O do Pilar Branco é o Adepto Exempto, e ele promulga a Lei; o do Pilar Negro é o Adepto Maior, e ele faz com que as promulgações do Adepto Exempto sejam cumpridas.

Os judeus, depois que pararam de sacrificar primogênitos, tinham dois bodes sagrados para os festivais, um branco e outro negro. O branco era sacrificado a IAO ( o nome mais antigo de Jeová); o negro, carregado com as maldições dos sacerdotes, era impelido para o deserto…

Compreende o senhor melhor agora, Dr. G., por que razão a Sala dos Maçons é chamada a Sala do Bode Preto? O Olho no Abismo é o Olho do Sol, o Olho de Hoor, que, por certas razões ocultas, é identificado com o anus. É por isto que se dizia, dos iniciados de Satã, que eles “beijavam o anus de um bode preto”…. No Egito antigo, em certo ritual onde cada parte do corpo do Iniciado era colocada em relação com cada parte correspondente de algum ser divino, o Iniciado dizia em dado momento: “Minhas nádegas são as Nádegas do Olho de Hoor.” Mas quem diabo — perdoe o trocadilho — é na verdade este notório Satã que os padres romanos nos acusam de adorar, e a quem eles culpam por seus fracassos (ao invés de culparem a sua estupidez preconceituosa)? Quando a Igreja Romana começou a “catequização” das províncias, encontrou continuamente deuses locais. Aprendendo as peripécias lendárias de tais deuses, os engenhosos padres romanos fabricavam um “santo” com as mesmas proezas, e diziam aos ignorantes pagãos: “Esse seu deus não é mais que um demônio que tenta lhes desviar de Nosso Senhor Jesús Cristo, e para este fim imita as façanhas de nosso amado mártir Fulano. E se vocês não me acreditam, ouçam a história da vida de nosso santo mártir…” Desta forma, a Igreja Romana assimilou em sua liturgia um panteão inteiro de deuses pagãos que eram transformados em santos e santas e mártires imaginários — os únicos mártires cristãos do início do cristianismo foram os essênios e os gnósticos, a quem os romanos- alexandrinos acusaram, caluniaram, e denunciaram aos imperadores.

Exemplos: aqueles que adoravam o Cristo sob a forma de um asno ( Príapus ), os que adoravam o Cristo sob a forma de um peixe ( Oannes ); os que adoravam o Cristo sob seu nome de Baco ou Diôniso…

Mas houve um deus pagão que os romanos não conseguiram absorver, porque suas peripécias eram por demais virís para serem atribuídas a um “santo romano”, que era necessariamente um castrado, no corpo ou no espírito. Por outro lado, seus ritos eram tão vitais, tão universalmente populares nas províncias, que era impossível esperar que o povo o esquecesse: depois de seis séculos de tirania romano- alexandrina, ele ainda era conhecido e adorado: o deus PÃ, o deus de chifres e de cascos de bode…

Portanto, não podendo fazer dele um santo, Dr.G.’fizeram dele o diabo.

Uma profusão de dados sobre tudo o que foi escrito acima pode ser encontrado nos seguintes livros:

THE GOD OF THE WITCHES, de Margaret Murray O LIVRO DOS MORTOS, trauzido do egípcio por Sir Wallis Budge.

THE GOLDEN BOUGH, de Sir James Frazer, na edição completa em vários volumes. Neste trabalho monumental o senhor encontrará um estudo detalhado dos deuses pagãos tornados em “santos” e “mártires” do calendário romano…

Mas voltando ao deus PÃ: a igreja Romana lutou contra os ritos deste deus durante vários séculos. Os festivais de Pã eram orgiásticos — daí sua popularidade — e celebrados nos Equinócios e Solstícios. Eventualmente, a Igreja Romana foi forçada a incorporar estes rituais em sua liturgia, visto ser impossível eliminá-los; e sabiamente fez deles os festivais mais importantes do culto a “Nosso Senhor Jesus Cristo”: a Páscoa ( com Corpus Christi ), o “Natal”, o dia de “São João Batista” e o dia de “São João Apóstolo”.

Eventualmente, a reforma gregoriana mudou o “Natal”, que a princípio era oscilável como a Páscoa e Corpus Christi, e caía no Solstício; e tendo finalmente absorvido o rito orgiástico que então tinha lugar, os padres fixaram a data de 25 de dezembro (dava muito na vista, um aniversário oscilante…). Então os católicos romanos, seus derivados posteriores e muitas ordens ocultistas espúreas celebram nessa data a “ressurreição” ou “nascimento” do Sol: isto porque o solstício de inverno é o momento em que o Sol, tendo alcançado seu máximo declínio meridional na eclítica, começa sua volta para o Norte, levando o calor que renovará a vida da vegetação na Primavera.

Mas, do ponto de vista iniciático, quem era este Pã? Como qualquer deus de toda e qualquer terra em todo e qualquer período da história do mundo, era uma das formas pelas quais ou o Sol espiritual, que é o Pai verdadeiro, ou o seu primogênito, que é a “Bêsta”, são adorados. Esta Besta varia segundo a precessão dos equinócios, pois o Equinócio de Primavera se move ( devido ao deslocamento de ponto vernal ) de signo para signo no Zodíaco aproximadamente em cada dois mil e quinhentos anos; e no Zodíaco os signos são alternadamente representados sob a forma humana e animal.

No Aeon Passado, os pontos vernais caíam respectivamente em Virgo e Pisces, a Virgem e o Peixe; no que lhe antecedeu, caíam em Áries e Libra, o Carneiro e a Justiça (a mulher com a espada e a balança dos romanos antigos); no presente os pontos vernais caem em Aquarius, ou seja, a Mulher com a Taça (BABALON) e em Leo, ou seja, a Grande Besta Selvagem (THERION).

O deus Pã é simplesmente a fórmula do Logos que data do Aeon de Câncer- Capricórneo. Aí está o “diabo” dos padres romanos reduzido a suas verdadeiras proporções. Reduzido?… Bem, é uma questão de ponto de vista…

Não podemos nos aprofundar nesta questão do deus Pã, nem no simbolismo dos chifres, nem mesmo na história completa da luta da Igreja Romana contra o culto do “Diabo”; um culto que, diga-se de passagem, Roma jamais conseguiu destruir, a despeito de seus esforços sinistros. O senhor encontrará os dados fundamentais para tal estudo num livro precioso, publicado pela primeira vez no Século XVIII, mas recentemente republicado nos Estados Unidos e Inglaterra:

TWO ESSAYS ON THE WORSHIP OF PRIAPUS, de Payne Knight.

Limitar-nos-emos a dizer aqui que este era o deus adorado por “bruxos” e “feiticeiros”, que preservaram seus ritos orgiásticos apesar de toda a perseguição implacável, das calúnias absurdas e do terrível risco de tortura e morte na fogueira, alem de outras punições impostas pela Igreja de Roma não só na Idade Média como até ao Século XVIII — e que só não são impostas até hoje devido ao trabalho paciente e silencioso dos maçons, representantes dos verdadeiros cristãos…

Depois que Romanos e Alexandrinos estabeleceram seu domínio teológico no Concílio de Nicéia (disto falaremos depois) e instituiram o dógma de “Jesus Cristo” como personagem histórico e “única” encarnação do Verbo, os poucos essênios e gnósticos que sobreviveram à “purgação” continuaram, sob o maior segredo, a tradição pura e original dos Mistérios Menores do Egito e da Fórmula de Diôniso.

Várias vezes, no curso destes mil e quinhentos anos, os Iniciados tentaram reconstituir abertamente os ensinamentos essênios e gnósticos. Em toda ocasião em que isto aconteceu, a Igreja Romana interveio com fúria demoníaca, assassinando homens, mulheres, velhos e até criancinhas, sem a mínima compunção; ao ponto mesmo ( como no caso dos Albigenses ) de capitães medievais, homens supostamente embrutecidos pela violência das batalhas selvagens da época, terem ficado tão fartos da chacina que foram perguntar ao papa se, por ventura, não estariam exterminando inocentes com os culpados (essa gente morria tão virtuosamente, o senhor compreende!). E foi em tal ocasião que o Bispo de Roma honrou a tradição cristã de sua igreja com as seguintes palavras: “Matai a todos; Deus distinguirá os seus.”

A matança, Dr. G.. incluía até recém-nascidos.

E não é que se tratasse de fé cega, por parte do Bispo de Roma, na crassa teologia do seu credo. Não é que ele acreditasse realmente na existência de um “salvador” chamado “Jesus”, e no fato dos Albigenses serem “criaturas do Diabo”. Não, DR. G., não havia sequer a justificativa do fanatismo – se de justificativa podemos chamá-la – pois os papas romanos sabem, e sempre souberam, que nunca houve nenhum “Jesus Cristo!”.

Talvez lhe seja difícil crer no que digo? Pois lembre-se das palavras históricas, proferidas num momento de descuido por um dos mais cínicos e mais prósperos dos papas, Leão X:

“Quantum nobis prodeste haec fabula Christi!”.

Ou seja: “Quanto nos ajuda esta fábula de Cristo!”.

O senhor deve se lembrar de que os documentos originais daquilo que os Romanos chamavam de “Cristianismo” estão preservados na Biblioteca Secreta, do Vaticano. É bastante simples para os pouquíssimos prelados a quem a Cúria dá acesso aos documentos mais antigos, verificarem onde acabam os fatos e começa a ficção.

Creio que já falamos suficientemente da história passada da Igreja de Roma. Não deve ser necessário que eu lhe lembre Joana D’Arc, nem Gilles de Rais (contra o qual foram feitas as acusações mais horrendas, mas contra o qual jamais apresentaram evidências – nem sequer um ossinho! – das centenas de crianças que ele havia, supostamente, sacrificado; e seus acusadores, e juizes, dividiram entre si, seus consideráveis bens), nem os Templários, nem o Imperador Frederico Hohenstaufen, nem João Huss, nem Michel Servent, nem Henrique IV (assassinado por ordem dos Jesuítas), nem os Cátaros, nem os Albigenses, nem os Huguenotes, nem os Judeus e Árabes de Portugal e Espanha, nem os Gnósticos franceses, alemães, escoceses, irlandeses e ingleses que foram chamados de “feiticeiros” e forçados a confessar obscenidades sob torturas diabólicas, nem Cagliostro, nem uma quantidade imensa de Maçons cujos ossos branquejam a estrada que leva à Roma. Creio que, a um Maçon, não deve ser necessário falar mais do passado dessa igreja infame.

Falemos então do presente – desta época de “reforma” e do “Papa da Paz”. Mudou a Igreja de Roma? Dr. G., o senhor acha, certamente que essa propalada reforma romana, que esse muito propagandizado concílio ecumênico, que as duas bulas de João XXIII (na realidade João XXIV: houve uma época, entre outras da história do papado, em que havia três papas. Um deles chamou-se João XXIII, foi forçado a renunciar ao papado quando os dois outros fizeram um pacto contra ele, e pouco após morreu envenenado – por quem, deixamos ao senhor ponderar) – o senhor acha que tudo isso fará da Igreja de Roma algo mais humano, mais próximo de Deus e do Seu Logos? Muito bem; tenho diante de mim, neste instante em que lhe escrevo, um catecismo católico romano chamado “Doutrina Cristã”. É publicado pelas Edições Paulinas e leva o nº. 1; é destinado, portanto, ao condicionamento das mais tenras criancinhas. O senhor me disse que, na sua opinião, a Igreja Romana era uma boa introdução à vida adulta para crianças. Se assim é. Considere as seguintes passagens que transcreverei desse livreto infame (os parênteses são meus):

“Eu gosto do meu catecismo.” (Auto-sugestão inconsciente).

“O catecismo me ensina o caminho do céu.”(Do outro lado, o inferno).

“O caminho do céu é: conhecer a Deus”(pela boca dos padres), “amar a Deus” (de acordo com a definição de “amor” por parte dos homens que evitam todas as manifestações sadias desse sentimento), “e obedecer a Deus”(pela boca dos padres, seus únicos representantes legítimos; os demais são servos do diabo, e se alguém tentar definir por si mesmo a obediência a Deus, esse alguém na Idade Média era queimado vivo, e hoje em dia é culpado de orgulho, um dos pecados mortais).

“Eu irei sempre ao catecismo para conhecer o caminho do céu” (a ameaça velada é que, se a criança não for ao catecismo para aprender o caminho do céu, acabará no inferno).

“Estudarei sempre direitinho o meu catecismo”(e há quem diga que os comunistas inventaram a lavagem cerebral!).

Isto, apenas como introdução. Seguem-se as seguintes notáveis “verdades”: “Jesus morreu na cruz para nos salvar” (falsidade histórica; mas a implicação dogmática é que, desde que somos criaturas condenadas ao inferno desde o nascimento não fosse por “Jesus”, precisamos, mesmo na infância, de salvação. Que distância entre isto e “Deixai virem a mim as criancinhas, pois delas é o reino dos céus…”.

“As criancinhas gostam muito de Nossa Senhora” (se isto fosse uma cartilha usa, e em vez de “Nossa Senhora” estivesse Lênin, nós chamaríamos este tipo de propaganda de atentado contra a mente humana; no entanto, Lênin, pelo menos, realmente existiu!…) “Nossa Senhora é a mãe de Jesus”. (De fato, BABALON é a Mãe de Adepto; mas não é assim que eles interpretam!…) Mais adiante, o “Credo”, com a nota: “O Credo é o resumo da religião que Jesus nos ensinou.” Isto é uma mentira deslavada, pois nem Jon nem Dioniso, os originais de “Jesus Cristo” evangélico, ensinaram religiões. Buda não pregou o Budismo, nem Lao-Tsé o Taoísmo, nem Maomé o Islamismo; nenhum guia espiritual de vulto estabeleceu qualquer dogma formal, com exceção de Moisés; e ele, ao menos, tinha a desculpa de precisar criar uma cultura do nada, de fazer uma nação daquela multidão de ex- escravos superticiosos e rebeldes que o seguia. São sempre os sucessores dos Magos (diga-se de passagem, os falsos sucessores) que organizam religiões e dissociam o Espírito da Letra, mais cedo mais tarde comportando-se de forma completamente oposta àquela recomendada pelo Instrutor.

No entanto, no caso presente, a mentira é dupla; pois além do fato de que Jon não deixou “religião” a ser seguida, o Credo de Nicéia, que é o credo a que o catecismo em questão se refere, não era sequer um sumário da religião que começava a se cristalizar em redor dos ensinamentos de Jon. Este credo era antes um códice dos dogmas que os Romano- Alexandrinos consideravam essenciais ao estabelecimento de sua dominação política, material, temporal, sobre as muitas congregações – igrejas – fundadas na Ásia Menor e na península romana por seguidores e discípulos de Jon, cada qual com variações de doutrina e temperamento determinadas por condições locais e idiossincrasias do discípulo fundador. Estes discípulos foram os originais dos “apóstolos” dos “Atos” (os “Atos” são uma antologia cuidadosamente censurada; e deturpada pela introdução de incidentes e nomes altamente imaginários, de alguns dos discípulos de Jon. As mais gritantes falsidades lá se encontram misturadas a fatos históricos. O propósito de tais falsificações foi a afirmação da autoridade da Igreja Romana, a qual, longe de ser a mais velha das igrejas Cristãs, era a mais nova e certamente a menos Cristã, de todas. Um exemplo interessante é “Simão Pedro”, que é o mesmo “Simão o Mago” que a ele se opõe nos Atos… Era um Gnóstico a quem a Igreja Romana teve que atribuir a sua fundação, pois ele pregara em Roma e era universalmente respeitado por todas as congregações; mas ao mesmo tempo, teve que ser atacado devido as doutrinas que tinha em comum com os Gnósticos Gregos e os Essênios Hebreus. “Pedro” e “Paulo” são, possivelmente a mesma pessoa, mas só pesquisas futuras, empreendidas por investigadores sem preconceitos que tenham acesso a verdadeira documentação, poderão esclarecer tal ponto). A história da maneira pela qual os Romano-Alexandrinos forçaram o Concílio de Nicéia a votar neste Credo é um pântano de horrores. Tal era a situação que os patriarcas visitantes não ousavam andar pelas ruas de Nicéia, Roma ou Alexandria, sem terem ao menos uma dúzia de guarda-costas, por medo de serem assassinados por ordem dos patriarcas Romano-Alexandrinos.

(Vide OUTLINES ON THE ORIGIN OF DOGMA, DECLINE AND FALL OF THE ROMAN EMPIRE e LA MESSE ET SES MYSTERES para uma discussão detalhada deste assunto).

Mas examinemos esse “resumo da religião que Jesus nos ensinou”! “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra…” (Já começa deturpado, pois o “Pai” a quem Jon se refere em seus sermões era Dionísio, o Logos do Aeon, o pai espiritual de Jon. O Criador do Céu e da Terra” era, na verdade, “Criadores”, no plural. A Gênese, um trabalho cabalístico, é sempre mal traduzida. Os “Elohim”, criadores do céu e da terra, eram literalmente “deuses macho-fêmea”, ou seja, uma hoste divina andrógina. Então, o senhor talvez perguntará, quem era Jeová? Era o Pai de Moisés, da mesma forma que Dionísio era o Pai de Jon!…) Mas continuemos: “…e em Jesus Cristo, um só seu filho, Nosso Senhor…” (Estas dez palavras causaram mais mortes no Concílio de Nicéia do que quaisquer outras. Houve ocasiões em que patriarcas Romano- Alexandrinos provocaram com insultos pessoais outros patriarcas que se opunham a este “um só seu filho” ou a este “Nosso Senhor” até que os ofendidos reagissem – e fossem imediatamente apunhalados por assassinos previamente instruídos. Quanto a parte de “Jesus Cristo” ninguém a ela se opôs seriamente, visto que os verdadeiros Iniciadores Cristãos nem sequer se deram ao trabalho de ir ao Concílio, sabendo tratar-se de caso fraudulento, como quaisquer outros concílios convocados pelos Romano-Alexandrinos antes ou depois deste. Os Iniciados Cristãos já começavam a organizar (prevendo a necessidade premente que para eles haveria) as irmandades secretas que apareceriam abertamente na Idade Média, como Franco-Maçonaria – o grêmio maçon que construiu as grandes catedrais Góticas. Esses franco- maçons formavam uma classe social a parte, pois, não sendo nobres nem padres, nem militares, não eram camponeses ou vassalos, tampouco. A Igreja Romana os protegia porque deles precisava para a construção – sendo ela, até hoje, incapaz de construir coisa alguma… E foi através dessas associações de pedreiros que o verdadeiro Cristianismo foi transmitido de reino a reino, de cidade a cidade, e isto, ironicamente, sob a proteção dos romanos… Veja-se THE ARCANE SCHOOLS, ou qualquer bom compêndio de história da maçonaria para maiores detalhes).

“…o qual foi concebido do Espírito Santo…” (Outra fonte de muitos assassinatos foi este dogma. Sobre ele não faremos comentários: padres romanos certamente lerão esta carta, e não temos qualquer intenção de dar a eles quaisquer dados sobre a natureza do Espírito Santo. Já que eles o invocam tanto, devem saber o que Ele é!…) “…nasceu da Virgem Maria…” (esta Virgem Maria é também a Grande Puta do Apocalipse. É a Grande puta porque Ela se dá a tudo o que vive; e é a Virgem porque permanece intocada por tudo a que se entrega. Quem é Ela? É a Casa de Deus, a Natureza, a Grande Mãe, e as leis naturais são as únicas leis realmente divinas… Ísis-Urânia, NUIT, Nossa Senhora das Estrelas, é a concepção dessa Mãe Grande e Eterna, copulando desavergonhadamente e avidamente com todas as suas criaturas, pois em cada uma delas Seu Senhor se manifesta e A ocupa.

É também a mais alta e mais verdadeira forma de PÃ. A Ísis eternamente inviolada e esta Virgem Imaculada, e as imagens de Virgem com o Menino Jesus nas Igrejas Romanas são cópias das múltiplas imagens de Ísis com o Menino Hoor, que podem ser examinadas na seção de Egiptologia de qualquer museu).

“…padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos…”(pessoa altamente questionável esse Pôncio Pilatos, do ponto de vista histórico.

Recentemente foram “descobertas” e “reveladas” nos E.U.A umas “cartas da mulher de Pilatos a uma amiga”. Estas relatam como a vida do casal tornou-se puro melodrama depois de haverem lavado as mãos no caso “Cristo Jesus”. Mais conversa fiada jesuítica, sem dúvida…) “…foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos, ao terceiro dia ressurgiu dos mortos, está sentado a mão de Deus Pai Todo Poderoso donde há de vir julgar os vivos e os mortos” (Tudo isto tem um significado esotérico, e é verdade de todo Cristo, de todo Adepto; mas os padres de Roma profanam estes símbolos quando os interpretam da forma mais crassa).

“Creio no Espírito Santo… (eles nem sabem o que Ele é, não tendo merecido Sua presença sequer uma vez, ao longo de mil e seiscentos anos!) “…na Santa Igreja Católica… ” (esta é a única e verdadeira Igreja acima do Abismo, e inclui todos os cultos dos homens; mas os padres romanos querem aludir, naturalmente a igreja de Roma).

“…na remissão dos pecados…”(esta “remissão dos pecados”, que faz da humanidade uma raça suja e maldita é, de todas as blasfêmias deste credo, a menos perdoável. Esta é precisamente a razão pela qual a Igreja de Roma nunca mereceu a manifestação do Espírito Santo!) “…na ressurreição da carne…” (isto se refere a doutrina da regeneração, isto é, da Medicina Universal; mas tendo este e outros segredos do Cristianismo primitivo sido perdido pelos romanos, eles interpretam esta frase da forma mais grosseira. Veja-se o RITUAL DA MAÇONARIA EGÍPCIA de Cagliostro para maiores detalhes.) “…na vida Eterna…”(isto se refere ao Elixir da Vida, novamente mal interpretado).

“…Amém”.

Agora, por favor, atente bem para esta passagem que se segue: “Um dia, alguns anjos fizeram pecado.” (Mais adiante explicam o que é pecado.) “Os anjos maus são chamados demônios.” “Os anjos maus foram para o inferno.” (É necessário que haja inferno. Pondere como essas criancinhas eram felizes, sem saberem que havia inferno antes de entrarem em contacto com a Igreja de Roma!…) “Para que Deus nos criou? Deus nos criou para conhecê-Lo… (na versão de Roma) “…para amá-lo e serví-lo neste mundo… (os pais têm filhos porque precisam de admiradores e escravos, nenhum ser sobrehumano poderia ter outra motivação…) “… e depois ir com Ele ao Céu.” (todo cachorro bem treinado merece uma recompensa) Convenhamos: a versão romana do Criador mostra bem pouca imaginação criadora! Mas a insensatez continua:

“Adão e Eva eram felizes no Paraíso.

“Um dia, porém, fizeram pecado.

“Que é pecado? “O pecado é uma desobediência voluntária à lei de Deus ou LEI DA IGREJA.” (a ênfase é nossa. Note, por gentileza, que os astuciosos roupetas estão duplamente assegurados: primeiro, porque foram eles que escreveram “a lei de Deus”; segundo, porque são eles que escrevem a lei da igreja!) “Jesus morreu na cruz para nos salvar do pecado.” (eles nem sabem mais o que é “Jesus”, e nunca souberam o que é a Cruz) “Deus dá o prêmio aos bons e o castigo aos maus.

“O prêmio para os bons é o céu.

“O castigo para os maus é o inferno.

“O céu e o inferno NÃO TERÃO FIM. (a ênfase é nossa. Deus não é apenas destituído de imaginação, é também destituído de misericórdia, para não falar em senso de humor. Este “Deus” é um demônio — feito à imagem daqueles que o promovem!) “Quem vai para o céu? “Vai para o céu quem morre sem pecado grave.” Note que não é necessário ser virtuoso, alegre, corajoso, honrado, para ir para o céu. As virtudes positivas não têm sentido para as criancinhas “cristãs” à moda romana: é suficiente “morrer sem pecado grave”. Veja o senhor, no Apocalípse, o que o Amém tem a dizer à Igreja em Laodicéia, Cap. III, vv. 14-22.

“Quem vai para o inferno? “Vai para o inferno quem morre em pecado grave.” Desta forma, os cavaleiros de Roma podem manter seu bolo e comê-lo ao mesmo tempo. Se o senhor não é batizado ( por eles ) ao nascer, está destinado ao menos ao purgatório (favor lembrar que o purgatório é uma invenção relativamente recente, promulgada quando o povo começou a reclamar que Roma mostrava pouca caridade para com os homens: no começo, o inferno era a única alternativa para o céu). A vida do senhor, do nascimento à morte, é completamente subordinada a eles: comunhão, sacramento, confirmação, casamento, confissão….

Lembre-se, dr. G., que toda esta teologia que ameaça de tormento eterno aos que não a aceitam, toda esta síndrome de repressão, de escravidão psíquica e social, toda esta maquinação, está baseada nas mentiras deliberadas e conscientes dos patriarcas de Roma e Alexandria! Verdadeiramente, eles podem se gabar: “Quantum nobis prodest haec fabula Christi!” Mas, infelizmente para eles, Dr. G., o Cristo não é uma fábula.

E o Verbo se fez carne, e habitou em nós.

Tu que és eu mesmo, além de tudo meu; Sem natureza, inominado, ateu; Que quando o mais se esfuma, ficas no crisol; Tu que és o segredo e o coração do Sol; Tu que és a escondida fonte do universo; Tu solitário, real fogo no bastão imerso, Sempre abrasando; tu que és a só semente; De liberdade, vida, amor e luz, eternamente; Tu, além da visão e da palavra; Tu eu invoco, e assim meu fogo lavra! Tu eu invoco, minha vida, meu farol, Tu que és o segredo e o coração do Sol E aquele arcano dos arcanos santo Do qual eu sou veículo e sou manto Demonstra teu terrível, doce brilho: Aparece, como é lei, neste teu filho!

Os versos acima, Dr. G., foram escritos por Aleister Crowley, o “pior homem do mundo” de acordo com a opinião dos padres que organizaram a campanha difamatória que o seguiu por toda a vida.

Estes versos deveriam ser cantados com orgulho por todo Filho da Luz, ou seja, por cada ser humano, cada Filho de Deus! O senhor ainda acha que a Igreja Romana pode ser encarregada, por homens responsáveis, honrados e ajuizados, da educação de crianças? Dr. G., enquanto esta igreja não reconhecer publicamente seus crimes contra Deus e a humanidade; enquanto não renunciar para sempre a essa ameaça de inferno e a esse dógma de pecado com os quais forças negativas, que se opõem à evolução da humanidade, tentam impedir ao homem e à mulher que se tornem Deus por meio do ato sexual (veja o Evangelho de “João”, Cap. IV, vv. 13-16); enquanto ela for a causadora de masturbação e autismo entre os seus assim-chamados monges e freiras, em vez de permitir que se expressem livremente como homossexuais (qual são frequentemente) ou como heterosexuais (qual são algumas vezes); enquanto o Bispo de Roma não admitir que ele é um entre muitos, e herdeiros de uma história acumulada de erros; em suma, enquanto a Igreja de Romana existir (pois no dia em que renunciar a todas as suas infâmias não será mais “Romana”, mas finalmente parte da verdadeira Igreja Católica, a Humanidade), a ela se aplicam as palavras de Jon, o filho da Luz, copiadas por ela em seus assim-chamados “Evangelhos”: “Cuidado com os falsos profetas, que a vós se mostram como cordeiros, mas que internamente são lobos vorazes.

“Pelos seus frutos os conhecereis.

“Nem todo aquele que me diz Senhor! Senhor! entrará no reino dos céus, mas só aqueles que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus.

“Muitos, naquele dia, me dirão: Senhor! Senhor! Não temos nós profetizado em Teu nome, não temos expelido demônios em Teu nome, e em teu nome não realizamos muitos milagres? “Então eu lhes direi claramente: nunca vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais a iniquiade.” – Mateus”, VIII, vv. 15-23.

Francamente, Dr.G., não posso entender como um maçon, como um homem sensato e honrado pode, por um momento, defender uma instituição que é uma nódoa na história da humanidade. Nós, verdadeiros herdeiros do Cristo, temos sido acusados de odiar a Igreja de Roma. Sabe Deus que não a odiamos: nós a abominamos e desprezamos com a intensidade devida àquilo que não só é vil em si mesmo, como aviltante para tudo que é sagrado e valoroso no homem.

Dizem que o diabo corre da Igreja de Roma, e é verdade. Mas não é que nós a temamos: ela nos enoja. É inútil proclamar o efeito maravilhoso que o Romanismo tem exercido sobre a civilização ocidental. A verdade é precisamente o oposto. Roma tem combatido toda reforma e todo progresso a cada passo, aceitando-os apenas no último minuto, e então fingindo — aos incautos — tê-los inventado. A renovação das artes, das ciências, da liberdade humana, jamais veio de Roma; veio dos maçons, dos árabes, dos judeus, da herança pagã redescoberta na Renascença, dos protestantes alemães, franceses e ingleses, das invasões dos piratas normandos e até das hordas de tártaros e turcos: nunca de Roma.

Considere a evidência histórica, Dr. G.! Durante mil anos, o sistema feudal, tornado odioso justamente pelos abusos decorridos da aliança da igreja com os senhores feudais, oprimiu a população da Europa. Veio a reforma — e em um século o sistema havia praticamente desaparecido. A Inglaterra católica romana era uma ilhota insignificante perdida no mapa da Europa: veio Henrique VIII, expulsou os jesuítas, criou o Anglicanismo — e em duas gerações a Inglaterra derrotava a Espanha católica romana, tornava-se o maior poder naval do mundo e estava prestes a construir um império mais poderoso do que o dos Césares. A França decaíu com os Valois católicos romanos: veio Henrique IV, protegeu os huguenotes, foi assassinado por isto, mas em um século a França de Luis XIV deslumbraria o mundo. Os protestantes colonizaram a América do Norte; compare o progresso da civilização da América do Norte com a situação das Américas Central e do Sul, colonizadas por padres jesuítas! Os países onde, no momento, prevalece o dógma romano, estão atrasados de cinquenta a cem anos em progresso material, e moralmente, em certa áreas, o atraso é de quinhentos a mil anos. Os países protestantes têm sina muito melhor. Mas infelizmente, mesmo os protestantes não estão livres da mancha do “pecado original” e do complexo de culpa, como tampouco de crença na necessidade de “salvação”, já que usam os textos evangélicos fabricados pelos romano-alexandrinos; e não foi à toa que Ambrose Bierce, por muitos considerado um dos maiores iniciados americanos, escreveu, como parte da definição da palavra “cristão” em seu impagável e realista “O Dicionário do Diabo”:

“Sonhei-me no alto dum morro, e vejam só: Em baixo, pias multidões, com ar de dó

Triste e devoto, andavam de cá para lá, Domingadas em suas roupas de sabá, Enquanto na igreja os sinos gemiam Solenes, alertando os que em falta viviam.

Foi então que pessoa alta e magra eu vi Vestida de branco, a olhar para ali Com a face tranquila, suave, simbólica, E os olhos repletos de luz melancólica.

‘Deus te abençoe, estranho!’ — exclamei.

‘Inda que, por teu diverso traje, bem sei Que vens sem dúvida de longínquo cantão, Espero sejas, como essa gente, cristão.’ Ele os olhos ergueu, com tão severo ardor Que senti meu rosto a queimar de rubor, E respondeu com desdém: ‘Como! O que é isto?! Eu um cristão? Na verdade não! Eu sou cristo.’”

Se o senhor quiser ler um magnífico estudo psicológico do Romanismo, leia “O Anticristo” de Nietzsche, e quando quer que o senhor encontre escrita a palavra “cristão”, substitua-a por “católico romano”. O senhor terá a Igreja de Roma exatamente como é.

Resumindo o conteúdo desta carta: Todos os homens são filhos de Deus. Todos os homens são capazes de realizar sobre a terra o Reino dos Céus, que está dentro de nós.

Somos todos membros do Corpo de Deus, todos Templos do Espírito Santo, e basta limpar o Templo — o que não significa castrar- se física ou psicologicamente! — para que a Presença se manifeste.

Não há nenhum “Jesús, Filho Único de Deus” para ser adorado; e quaisquer pessoas que afirmem o contrário ou estão enganadas ou estão enganando.

Está escrito nos “Evangelhos”: Vós conhecereis a verdade, e a verdade vos fará livres.

E também está escrito, nos originais santos, blasfemados e traídos pelas perpetrações romano-alexandrinas, que Jon olhou sorridente para a multidão e, abrindo os braços, lhes bradou:

“Vós sois o Caminho, a Ressurreição e a Vida!

Pois é eternamente verdade que o Verbo se faz carne; e neste exato momento, habita em nós.

Amor é a lei, amor sob vontade.

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NOTA BIBLIOGRÁFICA E ADDENDUM

Esta carta foi originalmente escrita no dia 9 de julho de 1963 e.v., endereçada a um maçom osiriano, médico, o Dr. Luiz Gastão da Costa e Souza, clinicando em Petrópolis, RJ. Foi-nos posteriormente dito, por outro maçom osiriano e ex-aspirante, Euclydes Lacerda de Almeida, que o Dr. Gastão cuidadosamente guardou a carta, mas se absteve por completo de mostrá-la a outros maçons.

Após o Primeiro de Abril de 1964 e.v., a carta foi copiada a carbono pelo autor, e distribuída livremente nas ruas do Rio de Janeiro a pessoas a quem ele se sentia impulsionado a entregá-la. A segunda versão foi consideravelmente ampliada na parte bibliográfica e histórica. O presente documento representa a terceira, e, esperamos, final versão.

A carta original terminava com os seguintes dizeres: “Doutor Gastão, este momento é dos mais graves da história da humanidade. Dos quatro cantos do mundo, forças das mais hediondas, das mais diabólicas, forças desalmadas se concentram em um ataque ao Homem, a Deus, à Justiça e à Verdade. Os comunistas encarnam um dos aspectos destas forças; as religiões organizadas do Aeon passado encarnam outros. No momento presente, são pouquíssimos os homens que conservam contacto com os planos espirituais; e no entanto eu levanto a minha voz em profecia e lhe digo:

Esta é a escuridão da Passagem dos Aeons.

No Novo Aeon, serão os bodes que organizarão a Igreja.

A maçonaria é a chave do Templo de Deus.

Eu avisei o senhor quando nos vimos: se os maçons brasileiros tentarem honestamente limpar a maçonaria das forças malignas que tentam infiltrar-se nela; se eles se despertarem novamente para a luta espiritual e para a luta cívica, eles terão todo o auxílio que for necessário. O Olho ainda está no Triângulo. MAS SE VÓS FIZERDES PACTOS COM DEMÔNIOS O OLHO SE FECHARÁ SOBRE VÓS.

Não é possível ser maçon e ser católico romano.

Não é possível ser marxista e ser maçon.

Não é possível ser maçon sem ser cristão.

Limpai as Lojas! Ou o Olho se fechará sobre vós.

Calafatai as Lojas! Ou a energia espiritual que nelas se acumula se escoará (esta é a razão pela qual o vosso segredo é a vossa força).

Serví o Brasil antes de mais nada; acima de toda outra nação; sois brasileiros, e o progresso como a caridade começa em casa.

Daí aos pobres do vosso excesso, mas não da vossa substância.

Sede verdadeiros maçons: maçons dignos dos que vos precederam, maçons dignos dos que fizeram a Independência, o Segundo Império e a República.

Nunca tenhais medo de lutar pela Verdade e pela Justiça, e perdoai os vossos adversários mas vencei-os, antes! Não agradeçais à Igreja de Roma as concessões que ela vos “faz”. Ó meus Irmãos pois como homens, somos todos Irmãos essas “concessões”, vós já as conquistastes: não ouvis os gemidos de dor? Não vedes os oceanos de sangue, não percebeis a legião de mártires maçônicos, não sentis ainda o cheiro e o clarão das fogueiras? A Igreja de Roma nunca fez concessões de ordem teológica a não ser por razões econômicas e políticas; ela sempre se aliou aos tiranos contra os oprimidos, e aliar-se-á aos marxistas, se necessário, para combater-vos; mas sede fiéis ao olho e o olho vos servirá.

Todo o progresso humano; toda lei humanitária; toda proteção à ciência pura; toda tolerância religiosa que existe no mundo presente foi o resultado do trabalho dos maçons! Nunca vos esqueçais disto! Não deveis agradecer ao inimigo oculto aquilo que ele nunca te concedeu, mas que vós conquistastes pelo sacrifício de muitos e pelo paciente trabalho de incontáveis outros.

Repito-vos: sede dignos do Olho, ou o Olho se fechará sobre vós.” O Primeiro de Abril de 1964 e.v. não teria ocorrido se os maçons tivessem cumprido as condições desta profecia. Em vez de fazer isto, a maçonaria brasileira deu os seguintes passos para trás nos anos que se seguiram a esta carta:

1) – Dividiu a sua direção em duas facções antagônicas.

2) – Permitiu a publicação em jornais de fotografias do interior das Lojas, inclusive em funcionamento.

3) – Promoveu declarações públicas de aliança com a Igreja de Roma.

4) – Espionou-nos e cooperou em armar-nos ciladas e na busca por desvendar os nossos “segredos”. Infelizmente, não temos segredos.

Ponde um tratado sobre o cálculo tensorial nas

mãos de um estudante primário e deixai-o ler o livro a vontade: de nada lhe adiantará.

O “esoterismo” é uma farsa: verdadeiros segredos NÃO PODEM ser revelados, pela simples razão que sem vivência é impossível compreende-los, mesmo quando são explicados da forma mais simples e mais franca.

Devido ao desleixo ou a inércia dos maçons, a profecia da carta se cumpriu e continua se cumprindo. Como consequência, a maçonaria brasileira só está viva agora na O.T.O. e na Ordem de Télema. Nós não reconhecemos nenhum movimento maçônico do Velho Aeon.

A bom entendedor, meia palavra basta; aos maus entendedores, milhares de discursos não surtirão efeito.

Não existe Lei além de faze o que tu queres.

Fraternalmente

Marcelo Motta

#Maçonaria #Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/carta-a-um-ma%C3%A7om

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada

Publicado no S&H em 04/03/09

Na Semana anterior começamos finalmente uma das séries mais empolgantes aqui no Teoria da Conspiração: Os Mitos do Rei Arthur e suas relações com a Mitologia, o Ocultismo, a Alquimia e com os Cavaleiros Templários.
Semana passada falamos sobre Excalibur e o simbolismo da Espada dentro da Alquimia e ocultismo, bem como das origens de uma das mais famosas armas mágicas de todos os tempos. Esta semana, nos aventuraremos na origem e significado do Cálice Sagrado.

A Cornucópia
Um dos amuletos mais comuns e conhecidos no mundo são os pedaços de chifres e cornos (ou metais e corais moldados à forma de um chifre). Este amuleto é também chamado de Cornucópia de Amaltea e sua origem data das celebrações gregas.
E quem era Amaltea?
Amaltea era uma cabra descendente do Sol que vivia numa gruta no monte Ida, em Creta. Ou segundo outras fontes, era uma ninfa, filha de Meliseo, que alimentou Zeus com o leite de uma cabra.
Segundo as lendas, quando Zeus era pequeno e estava escondido de seu pai, Saturno (Chronos) e era tratado por Amaltea, num ataque de ira, o deus menino agarrou com força o corno da cabra, puxou-o e arrancou-o, produzindo uma enorme dor à sua cuidadora. Quando Zeus ficou adulto, ele concedeu ao chifre arrancado o dom da abundância; a partir desse momento o chifre estaria sempre cheio de alimentos e bens que o seu dono possa desejar.
Quando Amaltea morreu, foi levada a Zeus, que a transformou na constelação de Capricórnio. O chifre ficou conhecido como “a cornucópia” ou “o corno da abundância”. Desta maneira, ao mesmo tempo, este símbolo representava o poder fálico dos deuses criadores e o ventre gerador da vida feminino. Traçando um paralelo com a Kabbalah hermética, temos o Caminho de Daleth, entre Hochma e Binah.

Cornu Copiae
Já na mitologia romana, a cornucópia deriva do latim “Cornu copiae”. A cornucópia ou corno da abundância é um dos cornos do deus-rio Aqueloo, metamorfoseado em touro, que lhe foi arrancado por Hércules, quando lutava contra ele.
Segundo outros textos romanos, a lenda segue a original grega: é um chifre da cabra com cujo leite, a ninfa Amaltea, amamentou Júpiter na sua infância, quando se escondeu de seu pai, Saturno, para que este não o devorasse. Diz-se que Júpiter arrancou o corno à cabra enquanto brincava, e ofereceu-o a Amaltea, asseguran-do-lhe que o corno se encheria de frutos cada vez que ela o desejasse. A cornucópia é um atributo muito mostrado nas moedas romanas, nas mãos de divindades benéficas, como Ceres e Cibeles, ou de alegorias como a Abundância e a Fortuna.
Como curiosidade, a cornucópia é usada atualmente como símbolo do Mestre de Banquetes em algumas ordens cavaleirescas e na maçonaria.

O Chifre de Epona e o Unicórnio
Entre os povos gauleses, a principal divindade relacionada com os equídeos é a deusa gaulesa, ou melhor, galo-romana, chamada Epona (ou Epona Regina), cujo nome deriva do gaulês epo, que significa cavalo. O seu culto difundiu-se até à Bretanha e ao leste da Europa, especialmente na região de Borgonha. Na Península Ibérica foram documenta dos alguns vestígios epigráficos que testemunham o seu culto.
Epona possui diversas referências e numerosas imagens da deusa, geralmente montada sobre um cavalo. A deusa era representada muitas vezes com uma série de atributos, como a cornucópia ou a patera (espécie de bacia de cerâmica onde eram feitas as oferendas, semelhante a um caldeirão raso), que a relacionam com a abundância e a prosperidade. Também estava vinculada com as fontes e ao mundo espiritual.
Da fusão destas duas características da mesma deusa surgem os primeiros relatos medievais de uma criatura encantada que vocês já devem estar imaginando quem seja: o Unicórnio. O Cavalo Branco, símbolo sagrado para a Deusa Epona, associado ao chifre mágico que tudo produz. Claro que esta criatura não existe no Plano Físico, embora muitos picaretas ao longo dos milênios tenham tentado forjar unicórnios com esqueletos de cavalos e narvais, além de rinocerontes e de uma criatura particular chamada Orix.
Até então, o Unicórnio estava associado a um BOI de um único chifre, não a um cavalo. Na Bíblia, em Números 23:22 e no Deuteronômio 33:17, é citado o unicórnio como um animal de força extraordinária. Nos ritos antigos, era costume cortar um dos chifres do maior e mais viril touro do rebanho para ser usado como taça cerimonial para beber o vinho sagrado ao final dos rituais egípcios, junto com o Pão (e qualquer semelhança com a Santa Ceia e o Cálice Sagrado NÃO é mera coincidência!).
O Touro, agora considerado sagrado, era chamado de Uni-corno. Somente com os gauleses e com Epona esta associação passou a ser feita com cavalos. Uma curiosidade é que durante todo este tempo, na história grega, o unicórnio não aparecia em textos de Mitologia, mas sim em textos de biologia, pois os gregos estavam convencidos de que era uma criatura real.
E desta relação surgem as lendas a respeito da pureza necessária para se tocar o chifre de um unicórnio. Embora o primeiro escritor a descrever que “somente uma virgem poderia cavalgar um unicórnio” foi o Grão Mestre Leonardo DaVinci, em suas anotações datadas de 1470, para o quadro “Jovem sentada com unicórnio”.

Mimisbrunnr
Um dos chifres que também é famoso na mitologia é o Gjallarhorn, narrado nas Prosas Eddas do século XIII, que originalmente é o chifre usado por Odin para beber a água da sabedoria da fonte que fica debaixo de Yggdrasil, a Árvore da Vida. De acordo com a história, qualquer um que seja capaz de beber deste chifre terá vida eterna e abundância material. Para vocês terem uma idéia de como este conhecimento é valioso, de acordo com a lenda, Odin sacrificou um de seus olhos em troca da oportunidade de beber destas águas (a razão pela qual Odin sempre é retratado com um tapa-olhos nas imagens nórdicas).
Este chifre acaba se tornando a posse de maior valor de Heimdall, o guardião da Ponte do Arco-Íris que liga Aasgard à Terra (que simbolicamente representa o caminho de Tav na Kabbalah, unindo Yesod a Malkuth, com todas as simbologias associadas a este caminho). O Gjallahorn é a trombeta que será tocada no dia do Juízo Final para anunciar o Ragnarok.

O Caldeirão de Dagda
O deus supremo do panteão celta é chamado de Dagda (esposo da deusa da natureza e prosperidade, Danu). O Dagda é uma figura paternal, protetor da tribo e o deus “básico” do qual outros deuses masculinos podem ser considerados variantes. Também associado com Cernunnos e outros deuses “chifrudos” tanto do panteão celta quanto do panteão grego. Os Contos irlandeses descrevem Dagda como uma figura de força imensa, armado de uma clava e associado a um caldeirão (o Caldeirão de Sangue, que continha diversas propriedades mágicas).
E adivinhem o que este caldeirão fazia?
O Caldeirão de Dagda estava sempre cheio de sopa, vegetais e frutas, providenciando abundância e alimentos para todos a seu redor, sem nunca se esgotar. Poderia servir a toda uma tribo durante um banquete e nunca estaria vazio. O Caldeirão de Dagda é considerado um dos quatro tesouros da Irlanda (os outros são a Espada de Nuada, a Lança de Lugh e a Pedra de Fal). Note que, mais uma vez, fazem-se referências aos quatro elementos da Alquimia e aos quatro naipes do Tarot, quase seiscentos anos antes do tarot aparecer “oficialmente” na forma de cartas. Mas falarei sobre isso depois que acabar esta série sobre o Rei Arthur.

O Mabinogion
Nas lendas posteriores, o Caldeirão de Cerridwen passa a ter sua localização nos Reinos Subterrâneos, mas mantém suas propriedades de sabedoria, vidência e prosperidade, culminando no famoso poema “The Spoils of Annwn”, onde o conhecemos como o “Caldeirão do rei Odgar”. Este caldeirão mágico é roubado do rei Odgar pelo Rei Arthur e seus homens, no poema “Culhwch and Owen” (onde estavam os celtas quando distribuíram as vogais?).
Neste poema, temos o primeiro contato com uma “jornada aos reinos Subterrâneos” em busca de um “Caldeirão Mágico”. O caldeirão é, então, levado por Arthur para a casa de Llwydeu, filho da deusa Rhiannon. Até ai tudo bem, mas Rhiannon é outro nome para Epona, “A Grande e Divina Rainha”, que se torna, então, proprietária do tal caldeirão mágico (que em algumas pinturas é retratado como uma espécie de vasilha rasa usada para oferecer comida aos deuses, a já mencionada patera). A mesma deusa Epona dos chifres mágicos, etc, etc etc.
Estas histórias acabam entrando em uma coletânea de livros galeses, que se tornaram famosas a partir do século XIII e traçam as bases das lendas mais conhecidas do rei Arthur.
A Jornada ao Reino Subterrâneo eu já descrevi em colunas anteriores, quando falei sobre Yesod e o Reino dos Mortos simbólico.

O Caldeirão e o Sangreal
A partir das cruzadas e dos Templários agindo mais abertamente, algumas destas lendas acabaram sendo recontadas sob o ponto de vista dos cavaleiros e dos cátaros, os protetores da linhagem Sagrada, que aproximaram as narrativas a respeito do Graal.
Para entender a próxima etapa, recomendo a leitura dos seguintes textos, na seguinte ordem:
– Perceval, de Chrétien de Troyes
– Lancelot ou le chevalier de la charrette, versos de Chrétien de Troyes
– Yvain ou le chevalier au lion, versos de Chrétien de Troyes
– Perceval ou le Conte du Graal, versos de Chrétien de Troyes
– Parzival, de Wolfram von Eschenbach
– Joseph d’Arimathie de Robert de Boron
– La Mort D´Arthur, de Thomas Malory

Eles foram publicados em um espaço de tempo relativamente curto e formataram a lenda do Rei Arthur e da Távola Redonda tal qual a conhecemos hoje. Sei que, como os 4 elementos da narrativa fluem juntos (o Graal, Excalibur, o Cajado de Merlin/Lança do rei Pecador e a Távola Redonda/Cavaleiros), talvez algumas partes deste texto ainda vão gerar dúvidas. Eu recomendo a vocês relerem cada matéria novamente antes de avançar para as próximas, e tudo vai fazer mais e mais sentido a cada novo elemento, ok?

Perceval ou Lê Conte du Graal
Nesta série de poemas, estamos finalmente dando uma forma para o Graal, da maneira como ele é mais conhecido pelo público leigo: A forma de um cálice ou, mais precisamente, o Cálice usado na Santa Ceia.
Perceval ou le Conte du Graal (Perceval, o Conto do Graal) é um romance inacabado de Chrétien de Troyes escrito provavelmente entre 1181 e 1191, dedicado ao patrono do escritor, Filipe da Alsácia, conde de Flandres e cavaleiro Templário. Chrétien havia trabalhado na obra a partir de escrituras iniciáticas fornecidas por Filipe e relata as aventuras do jovem cavaleiro Perceval.
O poema é iniciado com o jovem Perceval encontrando cavaleiros e percebendo que também gostaria de ser um. Sua mãe o havia criado fora dos domínios da civilização, nas florestas do País de Gales, desde a morte de seu pai. A contragosto de sua mãe, o garoto parte para a corte do Rei Artur, onde uma garota prevê grandes conquistas na vida dele. Ele é caçoado por Kay, mas torna-se cavaleiro e parte para aventuras. Perceval salva e apaixona-se pela jovem princesa Brancaflor, e treina com o experiente Gornemant.
Em um momento de sua vida conhece o Rei Pescador, que convida Perceval a permanecer em seu castelo. Enquanto estava lá, o cavaleiro presenciou uma procissão em que jovens carregam objetos magníficos entre cômodos, passando por ele em cada fase do evento. Primeiro aparece um jovem carregando uma lança coberta por sangue, e depois dois jovens carregando candelabros. Por fim, uma jovem aparece trazendo consigo um decorado cálice (o Graal). O objeto contém uma alimento que miraculosamente sustém o pai ferido do Rei Pescador.
Tendo sido aconselhado para tal, o jovem cavaleiro permanece em silêncio durante todo a cerimônia, apesar de não entender seu significado. No dia seguinte, ele volta para a corte do Rei Artur.
Antes de se manifestar no local, uma dama furiosa com trejeitos celtas entra na corte e clama a falha de Perceval em perguntar sobre o Graal, já que a pergunta apropriada curaria o Rei Ferido. Ela então anuncia que os Cavaleiros da Távola Redonda já haviam se prontificado a buscar o Cálice.
E o poema termina ai, sem um final…

O Rei Pescador aparece originalmente neste poema. Nem sua ferida nem a ferida de seu pai são explicadas, mas Perceval descobre posteriormente que os reis seriam curados se ele perguntasse sobre o Graal. Percival descobre que ele próprio é da linhagem dos Reis do Graal através de sua mãe, que é filha do rei ferido. Entetanto, o poema é terminado antes que Perceval retornasse ao castelo do Graal.
A associação entre “Pescador” e “Pecador” (no original Pêcheur e Pécheur respectivamente) é proposital, pois faz diversas associações entre o símbolo do Pescador, da linhagem de Yeshua e sua associação com a multiplicação dos peixes e com os apóstolos “pescadores” em diversas passagens do Novo Testamento.

Chrétien não chegou a usar o adjetivo “sagrado” para o Graal, assumindo que sua audiência (templária) já estaria familiarizada como o termo. Neste poema, Chrétien deixava implícito que havia uma dinastia descendente direta de Jesus, isso mais de 700 anos antes do Dan Brown!

Associação direta do Graal ao Sangue de Jesus
O próximo trabalho sobre o tema “Linhagem Sagrada” foi apresentado no poema Joseph d’Arimathie de Robert de Boron, o primeiro a associar diretamente o Graal à Jesus Cristo. Nesta obra, o “Pescador Rico” chama-se Bron, e ele é dito ser cunhado de José de Arimatéia, que havia usado o Graal para armazenar o sangue de Cristo antes de o deitar na tumba. José então encontra uma comunidade religiosa que viaja para a Bretanha, confiando o Graal à Bron (falarei sobre a relação entre José de Arimatéia, ou Yossef Rama-Teo e Merlin na próxima coluna).

Segundo a lenda, José de Arimatéia teria recolhido no Cálice usado na Última Ceia (o Cálice Sagrado), o sangue que jorrou de Cristo quando ele recebeu o golpe de misericórdia, dado pelo soldado romano Longinus, usando uma lança, depois da crucificação. Boron conta ainda que, certa noite, José é ferido na coxa por uma lança (perceba também, sempre presente, as referências às lanças, símbolos do fogo, tanto nas histórias de Jesus como de Arthur). Em outra versão, a ferida é nos genitais e a razão seria a quebra do voto de castidade (este fato mais tarde dará origem ao desenvolvimento literário do affair entre Lancelot e Guinevere, que precisa ainda ser mais detalhado).

Somente uma única vez Boron chama a taça de Graal (ou SanGreal). Em um inciso, ele deduz que o artefato já tinha uma história e um nome antes de ser usado por Jesus: “eu não ouso contar, nem referir, nem poderia fazê-lo (…) as coisas ditas e feitas pelos grandes sábios. Naquele tempo foram escritas as razões secretas pelas quais o Graal foi designado por este nome”.
Em outra versão do poema, teria sido a própria Maria Madalena, segundo a Bíblia a única mulher além de Maria (a mãe de Jesus) presente na crucificação de Jesus, que teria ficado com a guarda do cálice e o teria levado para a França, onde passou o resto de sua vida, dando origem à já conhecida “linhagem Sagrada”.

O cavaleiro e escritor Wolfram von Eschenbach baseia-se na história de Chrétien e a expande em seu épico Parzival. Ele re-interpreta a natureza do Graal e a comunidade que o cerca, nomeando os personagens, algo que Chrétien não havia feito; o rei pai é chamado de “Titurel” e o rei filho de “Anfortas”.

Sarras e São Corentin
Outro aspecto muito importante a respeito do Santo Graal é Sarras, a cidade mítica para onde o Graal é levado ao término do poema. A Cidade mítica de Sarras. Sarras é a “Cidade nos confins do Egito, onde está armazenada toda a sabedoria antiga”, que está associada às terras bíblicas de Seir. Porém, ao analisarmos o nome do rei de Sarras, Sir (Es)corant, chegamos a um personagem muito importante do século VI, chamado São Corentin.
Corentin, ou Corenti em alguns textos, foi um monge da Cornualha cujo monastério ficava justamente na península de Sarzeu Uma das lendas a respeito de Corentin é a de que ele teria vivido durante um período na floresta sendo alimentado apenas por um peixe. Ele comia um pedaço do peixe e, no dia seguinte, o peixe estava vivo e inteiro novamente. É muito simples perceber a associação entre Sarras/Sarzeu, Es-Corant/St Corentin e o rei pescador/monge pescador neste poema.

O Graal-pedra
Em “Parzifal”, o cavaleiro alemão Wolfram Von Eschenbach coloca na mão dos Templários a guarda do Graal que não é uma taça, mas sim uma pedra: o poema fala sobre uma gema verde esmeralda.

Ela trazia o desejo do Paraíso: era objeto que se chamava o Graal!
(Parzifal)

Para Eschenbach, o Graal era realmente uma pedra preciosa, pedra de luz trazida do céu pelos anjos. Ele imprime ao nome do Graal uma estreita dependência com as força cósmicas. A pedra é chamada Exillis ou Lapis exillis, Lapis ex coelis, que significa “pedra caída do céu”.

É a referência à esmeralda na testa de Lúcifer, que representava seu Terceiro Olho. Quando Lúcifer, o anjo de Luz, se rebelou e desceu aos mundos inferiores, a esmeralda partiu-se pois sua visão passou a ser prejudicada. Uma dos três pedaços ficou em sua testa, dando-lhe a visão deformada, que foi a única coisa que lhe restou. Outro pedaço caiu ou foi trazido à Terra pelos anjos que permaneceram neutros durante a rebelião. Mais tarde, o Santo Graal teria sido escavado neste pedaço.

Façamos agora uma comparação entre o Graal-pedra de Eschenbach com a não menos mítica Pedra Filosofal, que transformava metais comuns em ouro, homens em reis, iniciados em adeptos; matéria e transmutação, seres humanos e sua transformação. O alemão têm como modelo de fiéis depositários do cálice sagrado os Cavaleiros Templários (de novo!).

Seria Wolfran von Eschenbach um Templário? Certamente que sim. Era a época em que Felipe de Plessiez estava à frente da ordem quase centenária. O próprio fato de ser a pedra uma esmeralda se relaciona com a cavalaria. Os cavaleiros em demanda usavam sobre sua armadura a cor verde, sinônimo de vitalidade e esperança. Malcom Godwin, escritor rosacruz, refere-se a Parzifal da seguinte maneira: “Muitos comentadores argumentaram que a história de Parzifal contém, de modo oculto, uma descrição astrológica e alquímica sobre como um indivíduo é transformado de corpo grosseiro em formas mais e mais elevadas”.
Nesta obra, que é um retrato da Idade Média – feito por quem sabia muito bem sobre o que estava falando – reconhece-se uma verdadeira ordem de cavalaria feminina, na qual se vê Esclarmunda, a virgem guerreira cátara, trazendo o Santo Graal, precedida de 25 cavaleiros segurando tochas, facas de prata e uma mesa talhada em uma esmeralda (mais para a frente, voltarei a este assunto quando for falar de Joana D´Arc).

Na descrição do autor da cena de Parzifal no castelo do rei-pescador (que, assim como Jesus, saciara a fome de muitas pessoas multiplicando um só peixe) lemos:

“Em seguida apareceram duas brancas virgens, a condessa de Tenabroc e uma companheira, trazendo dois candelabros de ouro; depois uma duquesa e uma companheira, trazendo dois pedestais de marfim; essas quatro primeiras usavam vestidos de escarlate castanho; vieram então quatro damas vestidas de veludo verde, trazendo grandes tochas, em seguida outras quatro vestidas de verde (…). “Em seguida vieram as duas princesas precedidas por quatro inocentes donzelas; traziam duas facas de prata sobre uma toalha. Enfim apareceram seis senhoritas, trazendo seis copos diáfanos cheios de bálsamo que produzia uma bela chama, precedendo a Rainha Despontar de Alegria; esta usava um diadema, e trazia sobre uma almofada de achmardi verde (uma esmeralda) o Graal, ‘superior a qualquer ideal terrestre’”.

As histórias que fazem parte do chamado “ciclo do Graal” foram redigidas de 1180 até 1230, o que nos inclina a relacioná-las com a repressão sangrenta da heresia cátara (mas terei de fazer um post paralelo só sobre a Cruzada contra os Cátaros para explicar como tudo isto está intimamente relacionado).

Conta-se que durante o assalto das tropas do rei Filipe II de França à fortaleza de Montsegur, apareceu no alto da muralha uma figura coberta por uma armadura branca que fez os soldados recuarem, temendo ser um guardião do Graal. Alguns historiadores admitem que, prevendo a derrota, os cátaros emparedaram o Graal em algum dos muros dos numerosos subterrâneos de Montsegur e lá ele estaria até hoje.

A “Mesa de Esmeralda” evocada pelas histórias de fundo cátaro relacionam-se de maneira óbvia com outra “mesa”: a Tábua de Esmeralda atribuída a Hermes Trimegistos. A partir daí o Graal-pedra cede lugar ao Graal-livro.

O Graal-livro
O Graal-taça é tido como um episódio místico e o Graal-pedra como a matéria do conhecimento cristalizado em uma substância. Já o Graal-livro é a própria tradição primordial, a mensagem escrita. Em “José de Arimatéia”, Robert de Boron diz que “Jesus Cristo ensinou a José de Arimatéia as palavras secretas que ninguém pode contar nem escrever sem ter lido o Grande Livro no qual elas estão consignadas, as palavras que são pronunciadas no momento da consagração do Graal”. De fato, em “Le Grand Graal”, continuação da obra de Boron por um autor anônimo, o Graal é associado – ou realmente é – um livro escrito de próprio punho por Jesus, o qual a leitura só pode entender – ou iluminar – quem está nas graças de Deus. E por conta disso temos uma noção de que “segredos Templários” o Vaticano estaria atrás todo este tempo.

“As verdades de fé que este contém não podem ser pronunciadas por língua mortal sem que os quatro elementos sejam agitados. Se isso acontecesse realmente, os céus diluviariam, o ar tremeria, a terra afundaria e a água mudaria de cor”.

Semana que vêm, Merlin, Cajados, Lanças, José de Arimatéia e os Reis Pescadores.
Qualquer dúvida, mandem nos comentários que eu tento responder.

PS: o Sedentário está com a CSS zoada, então não aparece nem negrito e nem itálico nos textos.

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– O Tarot, a Kabbalah e a Alquimia
– Os Illuminati
– A História de Gilgamesh
– Belém institui o “Dia do Dizimista”
– História da Umbanda
– O Círculo Mágico
– Raul Seixas, Paulo Coelho e a Sociedade Alternativa
– Arcano 13 – a Morte
– Pai Nosso em Aramaico
– o Bode na Maçonaria

#ReiArthur

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-santo-graal-e-a-linhagem-sagrada

Entrevista com um Hare Krishna (Ramananda Das)

Apresente-se por favor para nosso público.

Sou Ramananda Das (Felipe D´Aviz), iniciado na tradição Gaudiya Vaishnava de bhakti-yoga. Participei de diversos grupos espiritualistas, incluindo grupos esotéricos e mágickos. Hoje em dia me dedico mais a prática e divulgação da bhakti-yoga, tal como foi me passada por meus mestres espirituais.

Como você conheceu inicialmente o movimento Hare Krishna?

Recebi uma certa vez um livrinho chamado “A Fórmula da Paz” que continha conversas de Srila Prabhupada (que trouxe o movimento Hare Krishna para o ocidente) com George Harrison (que chegou a doar uma mansão ao movimento), John Lennon e Yoko Ono. Depois disso encontrei na biblioteca da minha cidade (Santos-SP) um exemplar do “Bhagavad Gita como ele é” traduzido e comentado por Srila Prabhupada. Fiquei encantado com o sânscrito e a profundidade da filosofia védica.

Uma certa vez passando pela rua, encontrei os devotos cantando e dançando, distribuindo “simplesmente maravilhosa” (um doce de leite em pó) de manga. Meu amigo perguntou se tinha que pagar e eles responderam que não. Depois daquela bolinha, nunca mais minha vida seria a mesma! Manga sempre foi minha fruta predileta e Krishna soube usar o artificio perfeito para me atrair até Ele. Depois disso fiquei querendo conhecer o templo Hare Krishna. Quem sabe assim poderia adquirir mais dessas bolinhas?

Então um amigo Straight Edge que gostava dos Hare Krishna e eu combinamos de ir ao templo. Ele não apareceu, mas eu comecei a frequentar toda semana. Se não me engano isso tudo foi em 2000, logo após o grupo Shelter (grupo de Krishnacore) ter feito um show em Santos ao qual eu fui, sem conhecer ainda os devotos de Krishna, alguns dos quais estavam lá.

 

Como e porque você se decidiu participar deste movimento? 

Tudo se encaminhou para tal. Devido a uma doença de pele, a dermatologista pediu que eu evitasse comer carne. Parei de comer carne logo após comer o primeiro prato de prasada (alimento oferecido a Krishna) no templo.  Minhas práticas em Thelema me indicavam “Inflama-te em oração!”, o estudo do Gita e a prática de Bhakti (Liber Astarte vel Berylli). Isso junto ao que relatei na pergunta anterior, fez com que quisesse me aprofundar no assunto.

Existe alguma forma de oficialização da entrada no movimento, como é o batismo entre os cristãos?

Sim, isso se chama harinama (primeira iniciação). Quando você encontra um guru fidedigno, pede-se dele as bençãos para o cantar do maha-mantra Hare Krishna nas contas de tulasi (japa). Ele também dará um nome de servo (Das) ou serva (Dasi) de Krishna ou Radharani e um colar de tulasi (kanti), uma planta que aumenta a devoção por Krishna. Para receber essa iniciação existe alguns pré-requisitos que podem variar de acordo com o guru. Em geral deve-se tornar completamente vegetariano, não consumindo nenhuma tipo de carne (peixe é carne!) e ovos. Dessa forma é pedido que se dedique ao cantar do maha-mantra Hare Krishna na japa diariamente e vá progredindo em sua prática.

No que sua rotina mudou desde então?

Desde então tenho me dedicado diariamente a prática do cantar do maha-mantra na japa, cuidar das deidades de Krishna (imagens para adoração no altar), divulgar essa filosofia, entre outros. Tenho procurado aceitar tudo que é favorável nesse caminho e rejeitar tudo que é desfavorável, ainda que como uma alma condicionada eu tenha diversos apegos materiais.

O “Hinduísmo” é uma invenção do ocidente?

Pode-se dizer que é uma construção teórica deformada do que seria o Sanatana-Dharma, ou principio espiritual eterno da cultura védica. A palavra “Hinduísmo” não é proveniente do sânscrito e vêem do persa “Hindu”, uma outra maneira de designar o rio Sindhu, um rio ao noroeste da Índia e que agora pertence ao Paquistão. A palavra “Hindu” foi utilizado primeiramente para designar o povo que vivia as margens desse rio Sindhu e que seguiam as tradições que ficaram sendo conhecidas como Hinduísmo. No movimento Hare Krishna não usamos esse termo para nos designar enquanto seguidores do Sanatana-Dharma.

Qual a diferença entre o movimento Hare Krishna e as muitas escolas e praticas religiosas indianas?

Dentro do Sanatana-Dharma existem uma enorme variedade de processos para pessoas de naturezas diversas como havia dito anteriormente. No entanto, no movimento Hare Krishna (também conhecido como Gaudiya Vaishnavismo) procuramos seguir apenas a essência da cultura védica, tal como exposta no Srimad Bhagavatam, Bhagavad Gita e outras escrituras de bhakti. Essas escrituras foram comentadas por uma sucessão discipular que revelam os conteúdos confidenciais das escrituras e as práticas a serem realizadas para a auto-realização. O movimento Hare Krishna é um dos ramos do Vaishnavismo. No Vaishnavismo adora-se Krishna, Vishnu ou alguma de suas encarnações como a verdade suprema. No ramo Gaudiya Vaishnava adoramos ao Casal Divino Radha e Krishna, e vemos a Chaitanya Mahaprabhu como a encarnação de Krishna experimentando o amor que Radha sente por Ele.

O Movimento Hare Krishna é monoteísta ou politeísta?

Difícil encaixar em somente um desses conceitos. Pode-se dizer monoteísta pois acreditamos que existe apenas uma Suprema Personalidade de Deus – Krishna, mas que se manifesta em diversas expansões. Krishna engaja ainda diversos semideuses que regem esse mundo material, mas no movimento não adoramos esses semideuses, como é o caso de muitos que se dizem “Hindus”.

Os Hare Krishna devem se vestir como indianos? Quais as exigências e restrições feitas aos adeptos?

As vestes deverão ser utilizadas em ocasiões especificas como a adoração no altar, entre outras. Fora isso, o uso ou não das vestes indianas fica a critério da pessoa. É pedido que as pessoas sigam 4 princípios regulativos que são: 1) não comer carne, nem peixe e ovos, buscando comer somente prasada (alimentos oferecidos), 2) não jogar jogos de azar, 3) não se intoxicar (incluindo álcool, café, chá preto etc), 4) não realizar sexo ilícito (sexo deve ser apenas para procriação).

Os Hare Krishnas acreditam no céu e no inferno? Eles são diferentes dos da visão judaico-cristã?

Sim, tudo isso é descrito de maneira detalhada nas escrituras védicas, em especial no Srimad Bhagavatam. Seria necessário um estudo mais detalhado para comparar a visão judaico-cristã, o que não tenho capacidade para discorrer sobre no momento.

No que os ensinamentos dos vedas difere do espiritismo kardecista?

O kardecismo ao contrário da visão védica, não acredita que a alma possa voltar a encarnar em um corpo de um animal. Já as escrituras védicas afirmam que você obtêm um corpo adequado ao nível de consciência que se tem na hora de abandonar o corpo. O espiritismo é todo baseado na revelação dada por espíritos, que de acordo com a visão védica estão sujeitos as imperfeições das almas condicionadas. Já as escrituras védicas foram reveladas por Vyasadeva, a encarnação literária de Krishna que veio transmitir o conhecimento de maneira pura e que nos é passada através da sucessão discipular. O kardecismo descreve apenas os planos sutis que também são materiais, enquanto as escrituras védicas descrevem tanto os diversos planos materiais quanto espirituais. Essas e outras comparações poderão ser encontradas em: Espiritismo e Consciência de Krishna

Não te incomoda o sistema ser aberto a qualquer um que queira um almoço grátis?

Claro que não! Dessa forma muitos se atraem e acabam virando devotos. Talvez as pessoas tenham dificuldade em aceitar um ou outro aspecto da filosofia, mas rejeitar um delicioso prato de prasada, preparado com todo amor e devoção, ainda estou para conhecer. Analisando sob outro aspecto, simplesmente por honrar essa prasada de Krishna, a pessoa já está praticando serviço devocional e dessa maneira ela irá estar se graduando para realizar outros tipos de serviço ao Casal Divino Radha-Krishna.

Qual a importância de ter um guru? Como identificar um confiável?

Para a maioria dos empreendimentos que vamos realizar, geralmente buscamos as instruções de alguém com maior experiencia no assunto para ser nosso professor. De tal forma, no caminho espiritual isso não é diferente. O que acontece é que nossa visão está obscurecida pelo véu de maya (ilusão) e o guru, sendo uma alma auto-realizada, não sofre desse mal, podendo abrir nossos olhos com o archote do conhecimento espiritual. As escrituras indicam quem é um guru confiável/fidedigno. Ele tem que ter realizado a conclusão das escrituras, ser hábil em convencer os outros dessas conclusões e ser completamente livre de apegos materiais.

Quem é o seu guru? Fale um pouco sobre ele

É um grande prazer essa oportunidade para falar sobre meu guru Srila Narayana Goswami Maharaj, cujo aparecimento (aniversário) se comemora hoje. Srila Narayana Goswami Maharaj nasceu em uma família de brahmanas vaishnavas em Tiwaripur, no estado de Bihar, Índia. Na sua família, adora-se Sita-Rama e portanto desde pequeno gurudeva apegou-se as histórias do Ramayana de Tulsi Das e o kirtan (cantar) de Sita-Rama. Mais tarde conheceu os devotos da linha Gaudiya Vaishnava (Hare Krishna) e largou tudo para se dedicar completamente a essa prática e seus ensinamentos. Mais tarde a pedido de Srila Prabhupada veio ao ocidente ajudar os devotos que desconheciam a profundidade do sidhanta (conclusões filosóficas) a restabelecer o sentido original da missão iniciada por Sri Chaitanya Mahaprabhu. Em virtude disso deu a volta mais de 30 vezes ao mundo espalhando esse conhecimento, vindo 3 vezes ao Brasil, sendo que seu ultimo aniversário em vida foi comemorado aqui em 2010. Srila Gurudeva é um grande cirurgião que remove a impurezas do coração e coloca a semente do amor espontâneo a Sri Chaitanya Mahaprabhu e o Casal Divino Radha-Krishna. Sua mensagem é muito importante pois revela os segredos mais confidenciais de bhakti de uma maneira acessível ao mundo inteiro.

Outras informações mais detalhadas poderão ser consultadas em um dos blogs que construí para sua missão (IPBYS) no Brasil: http://ipbysbrasil.blogspot.com.br/p/srila-narayana-gosvami-maharaj.html

O que é o movimento Krishna West? Qual sua opinião sobre ele?

O movimento Krishna West é um movimento dentro da ISKCON que visa ocidentalizar a divulgação do movimento Hare Krishna. Vejo com bons olhos qualquer inovação que facilite o acesso das pessoas a consciência de Krishna e o cantar do maha-mantra. Mesmo não sendo mais um membro ativo da ISKCON, participei de algumas discussões nesse sentido e tenho a opinião que as pessoas deveriam ter liberdade de escolher o tipo de apresentação que lhe atraem mais, seguindo sua inspiração. De qualquer forma, os praticantes devem se aprofundar na filosofia de nossa tradição e passar a essência da mensagem de Sri Chaitanya Mahaprabhu sem alteração.

Vocês aceitam a existência de vida em outros planetas?

Sim, a literatura védica descreve que existe vida nos diversos planetas do mundo material e do mundo espiritual. No livro “Fácil viajem a outros planetas” Srila Prabhupada descreve que yogis viajam a esses diversos planetas. No entanto, o bhakta (devoto) está interessado somente em viajar ao planeta de Krishna e lá residir servindo Radha-Krishna eternamente. O processo para tal também é descrito nesse livro.

São a favor ou contra a pena de morte?

Esse é um tema muito polemico que exige uma análise cuidadosa. Com base no Código de Manu, Srila Prabhupada afirma sim que é possível aplicar a pena de morte em caso de homicídio. No entanto, devemos levar em consideração também a misericórdia aos criminosos que se arrependem sinceramente dos crimes cometidos. Afim de levar uma luz aos encarcerados nas penitenciárias (tal como estamos encarcerados no mundo material) devotos tem programas de distribuição de livros nas penitenciárias e se correspondem com os presos. Essa é misericórdia dos devotos que pode levar a uma transformação de consciência dos presos e uma possível mudança de vida.

E o aborto, condenam?

Toda forma de vida é sagrada e pode somente ser retirada em casos de auto-defesa, por kshatriyas (guerreiros) em guerra (Arjuna no Gita por exemplo) ou como no caso da pena de morte. O aborto é uma grande irresponsabilidade de pessoas que não conseguem enxergar essa sacralidade e na maioria das vezes surge como medida emergencial de pessoas que quiseram desfrutar do gozo dos sentidos mas não querem assumir a responsabilidade de gerar uma criança. Srila Prabhupada costumava dizer que o grande mal da civilização é a prole indesejada e como solução para tal indicava que as crianças fossem geradas dentro do ritual védico de procriação.

Segundo os ensinamentos, qual a influência dos desencarnados em nossas vidas? Estes são vistos como espíritos, demônios ou o que?

Existem espíritos de desencarnados e existem demônios, uma coisa não te a ver com a outra.  Os espíritos podem atuar de diversas maneiras a influenciarem os seres humanos, sendo que algumas vezes tentam prejudicar alguma pessoa. Para isso, o cantar em voz alta do maha-mantra, a presença da planta tulasi e a leitura das escrituras são eficazes para remover esses espíritos que queiram nos prejudicar.

Haribol!

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/entrevista-com-um-hare-krishna-ramananda-das/

Resultados da Hospitalaria – Novembro 2015

Em Novembro, tivemos 32 mapas, 13 sigilos e 8 Mapas Sephiroticos, além de 6 doações de sangue. Entidades ajudadas este mês:

– Sociedade Protetora dos Animais de Curitiba

– Sociedade Espírita Joanna de Angelis

– Casa de Palha, APAE Piauí

– ADEP – Associação de Apoio aos Excepcionais de Palhoça

– APADESC – Associaçao palhocense de Beneficencia Social e caridade

– Associaçao Beneficente N Sra de Azambuja

– Associação Social pela Vida

– Medicos sem fronteiras

E continuamos com o projeto de Hospitalaria. Quem estiver a fim de participar, é só seguir as instruções e pegar seu Mapa Astral ou Sigilo Pessoal via o TdC.

AVISO IMPORTANTE – Se você pretende dar Mapas de presente de Natal para alguém, recomendo que faça os pedidos da Hospitalaria até no máximo dos máximos dia 15, pois entrarei em férias no dia 19 e ai provavelmente só entregarei os Mapas e Sigilos que receber depois desta data no começo de 2016.

#Hospitalaria

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/resultados-da-hospitalaria-novembro-2015

Drácula Histórico

Em um sentido geral, Stoker estava absolutamente certo ao situar sua história de Drácula na Transilvânia, embora localizando seu castelo de ficção a nordeste, muitos quilômetros distante do verdadeiro, na fronteira ao sul. O Drácula de verdade nasceu em 1431 na Transilvânia, na cidade fortificada alemã de Schassurg (Sighsoara, na Romênia). Um dos burgos saxônios mais encantadores, certamente o mais medieval, Schassburg está localizado cerca de quarenta quilômetros ao sul de Bistrita.

Esse castelo fica no local estratégico que domina o vale do rio Tirnava. É circundado por finas muralhas de defesa em pedra e tijolos, de novecentos metros de comprimento, e quatorze torres na muralha, cada uma delas com o nome da guilda que a custeou – as dos alfaiates, joalheiros, peleteiros, açougueiros, ourives, ferreiros, barbeiros, cordoeiros. Com suas ruas estreitas, tortuosas e de paralelepípedos, suas escadas`ligando a famosa torre do relógio às torres mais altas na crista da colina, a cidade fortificada servia às necessidades de uma próspera comunidade de comerciantes alemães que negociavam com Nuremberg e outras cidades alemãs Ela funcionava como depósito de mercadorias que eram levadas e trazidas entre a Alemanha ocidental e Constantinopla; além disso, servia de rota comercial pelo nordeste para a Polônia, o mar Báltico e as cidades germânicas ligadas à União Aduaneira Hanseática.

A casa em que Drácula e seu irmão Radu nasceram é identificada por uma pequena placa mencionando o fato de que seu pai, Drácul, morou ali de 1431 a 1435. O edifício é uma construção de pedra de três andares em tom amarelo-escuro, com um teto de telhas e pequenas janelas, e aberturas apropriadas para a pequena guarnição que servia a Vlad Dracul. Recente restauração do segundo andar revelou uma pintura mural representando três homens e uma mulher sentados a uma mesa. Somente a figura central sobreviveu inteiramente intacta. O retrato de um homem rotundo com um queixo duplo, um longo bigode bem untado, sobrancelhas arqueadas e nariz bem torneado. A semelhança dos olhos castanhos e amendoados com os do famoso retrato de Drácula preservado no Castelo Ambras, sugere que esse pode ser o único retrato sobrevivente do pai de Drácula, Vlad Dracul. A mãe de Drácula, princesa Cneajna, da dinastia Musatin da vizinha Moldávia, criou o jovem Drácula com o auxílio de suas damas de companhia dentro de casa. A amante de seu pai, Caltuna, deu a Dracul um filho também chamado Vlad. Ela finalmente entrou para um mosteiro e ali tomou o nome de Eupráxia. Seu filho mais tarde tornou-se conhecido como Vlad o Monge, porque seguiu os passos de sua mãe e encaminhou-se para a vida religiosa. Drácula passou sua juventude numa atmosfera tipicamente germânica; seu pai exerceu autoridade sobre todas as cidades alemãs da região e defendia a Transilvânia inteira contra ataques potenciais dos turcos. Vlad Dracul recebia sua autoridade do sacro imperador romano Sigismundo de Luxemburgo, em cuja corte em Nuremberg foi educado por monges católicos. Suas ambições políticas ganharam forma quando em 8 de fevereiro de 1431 dois importantes eventos tiveram lugar em Nuremberg: sua entrada na prestigiosa Ordem do Dragão, juntamente com o rei Ladislau da Polônia e o príncipe Lazarevic da Sérvia, e sua investidura como príncipe da Valáquia. O imperador germânico Sigismundo de Luxemburgo e sua segunda mulher, Bárbara von Cilli, haviam fundado a Ordem do Dragão em 1387 como uma fraternidade secreta militar e religiosa com o fim de proteger a Igreja Católica contra heresias tais como as dos hussitas, que punham em perigo a Europa Central.

Outro objetivo da Ordem era a organização de uma cruzada contra os turcos que haviam invadido grande parte da península balcânica. A segunda investidura, presidida pelo próprio imperador, encarregou Dracul da tarefa arriscada de buscar o inseguro trono valáquio (que incluía os ducados transilvanos de Amlas e Fagaras), governados na época pelo príncipe Alexandru Aldea, meio-irmão de Drácula. Isso marcaria o começo de uma prolongada contenda entre membros rivais da família principesca Besarab, dela decorrendo inúmeros crimes.

Quando o há pouco investido “dragão” estava enfim apto a fazer valer o seu título de príncipe expulsando Alexandru Aldea da Valáquia durante o inverno de 1436/37, a sede do poder valáquio continuava próxima da fronteira da Transilvânia, onde Dracul tinha sua base. Historicamente, a Transilvânia sempre foi ligada à Moldávia e aos principados valáquios. Depois que as legiões romanas evacuaram a mais recentemente conquistada província da Adácia, em 271 d.C., a maioria da população romanizada retirou-se para as montanhas, tentando escapar das desordens decorrentes da invasão pelo leste do planalto da Transilvânia. Desse modo, os dácio-romanos sobreviveram intocados pelas avalanches gótica, huna, eslava ou mesmo húngara e búlgara, que teriam certamente destruído sua língua e seus costumes latinos, tivessem permanecido na região. Só depois que a torrente de invasões diminuiu puderam os romenos descer para a planície, mas cautelosamente, conservando seu abrigo na montanha. Cada geração de romenos do século XIII avançou um pouco mais na planície. Finalmente eles alcançaram o Danúbio e o mar Negro ao sul, o Prut e o Dniester a nordeste – em outras palavras, os limites da moderna Romênia e também parte dos limites anteriores da antiga Dácia. No caso da Valáquia, nada mais típico da sua tendência em se voltar para a Transilvânia em busca de segurança, e nada demonstra melhor a excitação em abandonar as montanhas como um abrigo Seguro do que a escolha de antigas capitais do principado. A primeira, antiga capital do século XVI, Cimpulung, limita-se com os Alpes da Transilvânia.

A capital de Drácula, Tirgoviste, fica a baixa altura nas colinas, mas ainda assim permite um acesso fácil às montanhas. A escolha desse sítio marca um período de crescente autoconfiança na história do país. Boatos diziam que o mais jovem irmão de Drácula, Radu o Belo, devido a sua longa permanência na capital turca, também queria estar perto de Constantinopla, uma vez que ele não era imune aos prazeres do harém do sultão. Mexericos o acusavam, muito por causa de sua boa aparência, de ser um dos favoritos do harém masculino de Mehemed, herdeiro do trono otomano, o que o obrigava a ficar constantemente à disposição do seu mestre. Em todo caso, o reino de Radu marcou o recuo do período heróico da história da Valáquia e o começo da rendição condicional ao sultão. Condicional porque a relação da Valáquia com Constantinopla continuava a ser regulada por um tratado, com os príncipes locais como vassalos do sultão.

Quando seguro do seu trono, Dracul, um político esperto, sentiu que a tênue balança do poder estava rapidamente oscilando a favor do ambicioso sultão Murad II. Os turcos haviam então destruído sérvios e búlgaros, e o sultão estava planejando um ataque final contar os gregos. Assim, Dracul promoveu a primeira de suas numerosas imposturas, assinando traiçoeiramente um acordo com os turcos contra os sucessores de seu protetor, o sacro imperador romano Sigsmundo, que morreu em 1437. Em 1438, em circunstâncias inegavelmente difíceis, Dracul e seu filho Mircea, acompanharam o sultão Murad II numa de suas freqüentes incursões na Transilvânia, assassinando, pilhando e queimando pelo caminho, como era da tradição turca. Essa foi a primeira das muitas ocasiões em que os Dráculas, que se consideravam transilvanos, voltaram a sua pátria como inimigos ao invés de amigos. Mas as vilas e cidades da Transilvânia, embora cruelmente devastadas e pilhadas, ainda acreditavam num acordo melhor com um cidadão seu do que com os turcos. Isso serviu de justificativa para a avidez do administrador e dos cidadãos de Sebes em se renderem especificamente aos Dráculas, com a condição de que suas vis seriam poupadas e eles não acabariam escravizados pelos turcos. Dracul, que havia jurado proteger os cristãos, pôde ao menos nessa ocasião salvar uma cidade da destruição completa.

Muitos desses incidentes fizeram com que os turcos suspeitassem da lealdade do príncipe romeno. Em conseqüência, o sultão Murad II levou Dracul a um confronto pessoal na primavera de 1442. Sem perceber a armadilha, Dracul atravessou o Danúbio com seu segundo filho Drácula e seu filho mais moço Radu, sendo em seguida “preso em cadeias de ferro” e levado à presença de quem o acusara de deslealdade. Para salvar seu pescoço e recuperar seu trono, após um breve aprisionamento em Gallipoli Dracul jurou renovar fidelidade a Murad II, e como prova de sua lealdade deixou Drácula e Radu como reféns. Os dois meninos foram colocados sob prisão domiciliar no palácio do sultão em Gallipoli e mais tarde foram mandados, por razões de segurança, à distante Egrigoz, na Ásia Menor. Drácula permaneceu cativo dos turcos até 1448; Radu tornou-se aliado de Murad II e, devido ao seu caráter fraco, submeteu-se mais facilmente às técnicas de doutrinação daqueles que eram, até certo ponto, seus carcereiros. Radu se tornou um favorito do futuro sultão Mehmed II e eventualmente candidato oficial turco ao trono da Valáquia, no qual, na devida ocasião, sucedeu seu irmão Drácula.

A reação de Drácula há esses anos perigosos foi exatamente oposta. De fato, esse tempo como prisioneiro dos turcos ofereceu um bom estímulo à sua personalidade ardilosa e perversa. A partir dessa época, Drácula passou a ter a natureza humana em baixa estima. A vida era coisa desprezível – além do mais, sua própria vida estaria em perigo se seu pai se mostrasse desleal ao sultão – e a moralidade não era essencial em assuntos de estado. Ele não precisou de Maquiavel para se informar sobre a amoralidade dos políticos. Os turcos ensinaram a Drácula a língua turca, entre outras coisas, e ele a manejava como um nativo; ele foi aproximado dos prazeres do harém, porque suas condições de confinamento não eram tão estritas; e completaram seu treinamento no cinismo bizantino, que os turcos herdaram dos gregos. Como foi relatado por seus carcereiros turcos durante aqueles anos, ele também desenvolveu uma reputação como trapaceiro, manhoso, insubordinado e brutal, inspirando medo aos seus próprios guardas. Isso em contraste agudo com a dócil subserviência de seu irmão. Dois outros traços se entrincheiravam na pisque de Drácula devido à trama em que pai e filho se enrascaram. Um era a suspeição; nunca de novo ele confiaria nos turcos ou em homem algum. O outro era o sabor da vingança; Drácula jamais se esqueceria ou perdoaria os que o traíram – esse fato tornou-se um traço da família.

Em dezembro de 1447, Dracul pai morreu, vítima de sua própria trama. Seu assassínio foi ordenado por João Hunyadi, que ficou irritado com as relações do Dragão com os turcos. A política de Dracul a favor dos turcos era facilmente explicável, se não por outro motivo, para salvar seus filhos de uma inevitável vingança e possível morte. O filho mais velho de Dracul, Mircea, fora cegado com ferro em brasa e queimado vivo por seus inimigos políticos em Tirgoviste. Essas mortes e as circunstâncias traiçoeiras que cercaram a morte de seu irmão revelaram ter deixado fortes marcas no príncipe Drácula, logo após a sua ascensão ao poder. O assassínio de Drácul teve lugar nos pântanos de Baltenir, próximos a um velho monastério que ainda existe ali. Houve, no entanto, alguma justificativa para a premeditação desse assassínio por Hunyadi.

Ao tempo de sua prisão em Adrianópolis, Dracul havia jurado que jamais tomaria armas contra os turcos, uma flagrante violação de seu juramento anterior como membro da Ordem do Dragão. Uma vez seguro na sua posição de príncipe, e não obstante o fato de seus filhos serem reféns dos turcos, Dracul reavaliou in extremis seu juramento ao sacro imperador romano, e junto-se à luta contra os turcos, sendo ele mesmo absolvido do seu juramento a vafor dos turcos, pelo papa. Isso significava que podia participar das cruzadas dos Balcãs organizadas por Hunyadi contra o sultão Murad II. O príncipe sérvio Brankovic teve seus dois filhos cegados pelos turcos quando fora desleal com o sutão, e Dracul temeu o mesmo destino trágico para seus próprios filhos. Ele escreveu desconsolado aos chefes de Brasov no fim de 1443: “Por favor entendam que permiti que meus filhos fossem massacrados em favor da paz cristã, de modo que eu e meu país pudéssemos continuar vassalos do Sacro Império Romano”. De fato, foi quase um milagre que os turcos não tenham decapitado Drácula e Radu. O irmão mais velho de Drácula, Mircea, não Dracul, teve efetivamente o papel mais ativo no que foi descrito como “a longa campanha” de 1443. Do ponto de vista valáquio, essa campanha teve imenso sucesso. Ela permitiu a captura da cidade de Giurgiu (construída a um alto custo para a Valáquia pelo avô de Drácula), e ameaçou o poder turco na Bulgária. No entanto, a campanha de Hunyadi em Varna em 1444, que foi organizada em escala muito ambiciosa e chegou até o mar Negro, acabou em desgraça. O jóvem e inesperiete rei da Polônia, Ladislau III, e o núncio papal Juliano Cesarini morram na ocasião.

Hunyadi conseguiu fugir e sobreviveu apenas porque os valáquios conheciam suficientemente o terreno para conduzi-lo em segurança. Nas inevitáveis recriminações que se seguiram, Dracul e Mircea atribuem pessoalmente a Hunyadi a responsabilidade pela magnitude da derrota. Um conselho de guerra reunido em algum lugar na Dobrogea julgou Hunyadi responsável pelo fracasso cristão, e por maioria, embora parte devido à insistência de Mircea, sentenciou-o à morte. Mas os servissos prestados por Hunyadi e sua grande reputação como cavaleiro branco das forças cristãs poupara-lhe a vida e Dracul assegurou sua passagem a salvo para a Transilvânia.

Todavia, a partir do momento em que os Hunyadis contrariaram os Dráculas, particularmente Mircea, surgiu um grande ódio entre eles. A sede de vingança que decorreu de tudo isso foi afinal aplacada com as mortes de Drácula e Mircea. Depois de 1447, Hunyadi pôs a coroa valáquia nas mãos mais confiáveis de um pretendente Danesti, Vladslav I (a família rival Danesti tinha ligações de sangue com o príncepe Dan, um dos tios-avós de Drácula.)

O mais difícil de entender é a atitude de Drácula na sua fuga do cativeiro turco em 1448. Sabemos que os turcos, inegavelmente impressionados com a ferocidade e a bravura de Drácula, e obviamente adversários dos príncepes Danesti, que eram identificados com a corte húngara, tentaram colocar Drácula no trono valáquio a partir de 1448, enquanto Vladislav II e Hunyadi combatiam ao sul do Danúbio. Esse golpe corajoso foi eficaz por apenas dois meses. Drácula, então com cerca de vinte anos, temeroso dos assassinos transilvanos de seu pai e igualmente relutante em voltar para os seus captores turcos, fugiu para a Moldavia, o mais ao norte possível dos principados romenos, governada nesse tempo pelo príncepe Bogdan, cujo filho, príncipe Estêvão, era primo de Drácula. Durante esses anos de exílio moldavio, Drácula e Estêvão desenvolveram uma estreita e duradoura amizade, cada um deles prometendo ao outro que aquele que primeiro ascendesse ao trono do seu principado levaria o outro imediatamente ao poder – à força de armas, se preciso. A sede do principado moldávio era então em Suceava, uma antiga cidade onde Drácula e Estêvão continuavam sua educação eclesiástica bizantina sob a supervisão de monges eruditos.

Dracula permaneceu na Moldávia até 1451, quando Bogdan foi brutalmente assassinado por seu rival Petru Aron. Talvez devido à falta de alternativa, Drácula então reapareceu na transilvânia, onde se entregou à misericórdia de João Hunyadi. Estava então tentando a sorte, embora nessa época, devido à pressão turca, o príncepe Danesti da Valáquia, Ladislau II, estivesse adotando uma política favorável aos turcos, distanciando-se dos seus protetores húngaros.

Era interessante para os Hunyadis, uma vez mais, ter um instrumento flexível, um príncepe de reserva, para o caso de o príncipe Danesti voltar-se para os turcos completamente. Assim, interesses mútuos em lugar de qualquer confiança, aproximaram Drácula e João Hunyadi de 1451 a 1456, quando Hunyadi morreu em Belgrado. Durante esse tempo, Hunyadi foi o último tutor de Drácula, seu mentor político e mais importante educador militar. Hunyadi introduziu seu protegido na corte do rei absburgo da Hungria, Ladislau V. Ali ele conheceu o filho de Hunyadi, Matias Corvinus, seu futuro adversário político. Drácula não podia ter melhor preparação de campo da estratégia antiturca. Como nobre vassalo, tomou parte pessoalmente em muitas das campanhas de Hunyadi contra os turcos nas regiões onde no século XX surgiria a Iugoslávia. E ele se envolveu, como seu pai o fizera, com os ducados de Fagaras e de Almas. Além disso, Drácula também se fez pretendente do trono valáquio. Foi por essa razão que ele não acompanhou seu suserano na campanha de Belgrado de 1456, quando Hunyadi foi finalmente vencido pela peste. Por esse tempo, Drácula recebeu afinal permissão para atravessar as montanhas da transilvânia e desalojar o infiel príncipe Danesti do trono valáquio.

Durante os anos 1451-56, Drácula residiu novamente na Transilvânia. Abandonando a casa da família em Sighisoara passou a residir em Sibiu, principalmente para ficar próximo da fronteira valáquia. Em Sibiu, Drácula foi informado pelo administrador da cidade e por muitos outros refugiados da capital do império grego sobre um acontecimento que teve o efeito de uma bomba no mundo cristão: Constantinopla havia sido tomada pelos turcos e o imperador Constantino XI Paleólogo (em cuja corte Drácula viveu temporariamente como pajem em 1430), morrera no combate corpo a corpo, defendendo as muralhas da capital. Um refugiado romeno, bispo Samuil, informou Drácula de que o próximo objetivo do sultão Mehmed II era a conquista da Transilvânia e que ele planejava um ataque à própria Sibiu, local estratégico que podia servir de base a uma conquista posterior do reino húngaro. Drácula pelo menos podia sentir-se confortado com o fato de Sibiu ser considerada a mais inexpugnável das cidades da Transilvânia. Isso pode ter influído na sua decisão de lá permanecer. Mas numa daquelas decisões que tornaram ainda mais misteriosa sua personalidade, em 1460, apenas quatro anos depois que ele deixara a cidade de Sibiu, Drácula devastou impiedosamente essa região com um contingente valáquio de vinte mil homens e matou, mutilou, empalou e torturou cerca de dez mil de seus antigos vizinhos. Ele achava que os alemães de Sibiu haviam se envolvido em práticas de comércio desonesto às expensas dos mercados valáquios. A pilhagem e o saque tiveram lugar em escala mais feroz do que a feita pelos turcos em 1438.

Isso nos leva a considerar um dos aspectos mais ambivalentes da carreira de Drácula na Transilvânia, onde de amigo ele se transformou em inimigo para os seus companheiros e aliados. (Isso será descrito em detalhes na análise das histórias de horror alemães.) Essa rixa vai durar três anos violentos, de 1458 a 1460, durante os quais Drácula foi príncipe na vizinha Valáquia. A primeira investida relâmpago na área de Sibiu teve lugar em 1457, quando Drácula queimou e pilhou cidades e vilarejos, destruindo tudo no seu caminho. Somente a própria cidade de Sibiu, assim mesmo uma pequena parte dentro de suas poderosas muralhas de defesa, escapou da destruição. O propósito do ataque pode ter sido a captura do meio irmão de Drácula e rival político Vlad o Monge, e para servir de advertência aos cidadãos de Sibiu para não darem abrigo e proteção a candidatos rivais. Outra cidade ligada ao nome de Drácula é Brasov (Kronstadt para os alemães). Brasov tinha a duvidosa honra de haver testemunhado em suas colinas próximas mais vítimas de empalamento ordenado por Drácula, apodrecendo no sol e mutiladas pelos abutres dos Cárpatos, do que outro lugar do principado. Conta-se que foi numa dessas colinas que Drácula jantou e tomou vinho entre cadáveres. E foi numa dessas ocasiões que Drácula deu prova do seu senso de humor pervertido. Uma narrativa russa fala de um boiardo que tendo chegado para uma festa em Brasov, e não suportando o horrível cheiro de sangue coagulado, fechou com os dedos suas narinas num gesto de repulsa. Drácula mandou que se trouxesse uma grande estaca e a exibiu ao visitante, dizendo: “Fica ali, bem afastado, onde o mau cheiro não vai incomodar-te”. E mandou empalar imediatamente o boiardo. Depois do ataque a Brasov, Drácula continuou queimando e aterrorizando outros vilarejos na vizinhança da cidade, mas ele não foi capaz de capturar a fortaleza de Zeyding (Codlea em romeno), ainda hoje existente em parte, tendo então mandado executar o capitão responsável pelo fracasso. Durante o inverno de 1458-1459 as relações de Drácula com os saxões da Transilvânia mudaram para pior na Valáquia. Drácula decidiu aumentar as tarifas dos bens na Transilvânia, a favor de manufatureiros locais, em violação do tratado por ele assinado no início do seu reinado. Obrigou também os alemães a voltarem ao antigo costume de expor seus produtos apenas em determinadas cidades, como Cimpulung, Tirgoviste e Tirgsor. Essa decisão fechou subitamente muitas cidades ao comércio alemão onde os saxões tinham feito negócios proveitosos, inclusive na tradicional estrada para o Danúbio. Quando os habitantes de Brasov ignoraram essas medidas, Drácula iniciou outra ação terrorista.

A vingança e a violência de Drácula se estenderam pela primavera e o verão de 1460. Em abril, ele pôde finalmente pegar e matar seu oponente Dan III; somente sete dos segidores de Dan puderam escapar. No começo de julho, Drácula capturou a fortaleza de Fagarras e empalou seus cidadãos – homens mulheres e crianças. Embora as estatísticas desse período sejam muito difíceis de estabelecer, na cidade de Almas vinte mil pessoas foram mortas na noite de São Bartolomeu de 24 de agosto de 1460, mais do que foram assassinadas por Catarina de Médices em Paris, cerca de um século depois. O massacre de São Bartolomeu de Drácula escapou, de certo modo, da atenção dos historiadores, enquanto o de Catarina de Médicis fez dela alvo de grande reprovação moral.

Depois de 1460, os ataques e ações na Transilvânia contra os alemães da Valáquia diminuíram, e a renovação de tratados permitiu aos alemães privilégios comerciais, quando assinados juntamente com obrigações prévias ou quando outros acontecimentos concorriam para preencher a atenção de Drácula em outro lugar. No entanto, os saxões exercitaram sua vingança contribuindo para a prisão de Drácula como “inimigo da humanidade”, no outono de 1462, e a mais longo prazo arruinando sua reputação para a posteridade.

Reexaminando esse catálogo de horrores, percebe-se que havia dois lados na personalidade de Drácula. Um era o do torturador e inquisidor que aterrorizava deliberadamente como método político, às vezes inclinando-se à piedade para aliviar a própria consciência. O outro revelava um precursor de Maquiavel, um racionalista pioneiro e um surpreendente estadista moderno que justificava suas ações de acoedo com alguma raison d’état. Os cidadãos de Brasov e de Sibiu eram afinal estrangeiros que tentavam perpetuar seu monopólio de comércio com os principados romenos. Gostavam, a seu modo, também de uma intriga. Os saxões, conscientes do autoritarismo de Drácula, estavam ansiosos para subverter sua autoridade na Transilvânia e garantir asilo a possíveis contestadores do trono valáquio. É fácil demais explicar a personalidade de Drácula, como alguns fizeram, com base só na crueldade.

Havia um método na sua aparente loucura.

Embora Drácula tivesse governado o principado romeno da Valáquia em três diferentes ocasiões e morrido perto da cidade de Bucareste, seu lugar de nascimento, sua propriedade familiar e os dois ducados feudais a ele sujeitos, Almas e Fagaras, ligaram seu nome à Transilvânia. Drácula amava seu lugar de nascimento e finalmente se instalou em Sibiu, após Ter feito as pazes com os alemães. Mesmo seu famoso castelo no rio Arges, embora tecnicamente localizado no lado valáquio da fronteira, era vizinho dos Alpes da Transilvânia. Nesse sentido a tradição confirma que a história de Stoker é absolutamente correta. O nome de Drácula está inexorável e historicamente ligado à romântica Transilvânia.

Um Cruzado Contra os Turcos

Durante o inverno de 1461, Drácula lançou um desafio a ninguém menos do que o orgulhoso conquistador de Constantinopla, o sultão Mehemed II. As campanhas que se seguiram no Danúbio e na Valáquia, e que duraram do inverno de 1461 até o outono de 1462, inegavelmente constituem o episódio mais discutido na carreira de Drácula. Sua habilidade, seus feitos de valor, suas táticas e estratégia, trouxeram-lhe tanta notoriedade na Europa quanto o horrível tratamento que dava a seus súditos. Enquanto seus empalamentos eram evocados nas narrativas populares, os atos de heroísmo a ele atribuídos na luta contra os turcos foram preservados nos registros oficiais da época.

Com a morte do grande Hunyadi em 1456, as forças remanescentes cristãs precisavam desesperadamente de uma liderança. As disputas amargas que haviam ficado desde o assassínio do pai de Drácula ainda não estavam superadas. Essa ausência de unidade dos cristãos contribuiu muito para a causa turca e ajudou na captura de Constantinopla em 1453, três anos antes da segunda subida de Drácula ao trono da Valáquia. Com o desaparecimento dos últimos vestígios da independência sérvia e búlgara, e a queda do império grego, circunstâncias geográficas colocaram a Valáquia na vanguarda da cruzada antiturca. A Moldávia, aliada da Valáquia, estava salva nas mãos de Estêvão, primo de Drácula que surgiu como herói no mundo cristão depois de Hunyadi. Após o assassínio de seu pai, Bogdan, Estêvão acompanhou Drácula no seu exílio na Transilvânia. Lá, enquanto ambos residiam no castelo dos Hunyadis em Hunedoara, Drácula fez um pacto com Estêvão: Quem subisse ao trono primeiro, ajudaria o outro a ganhar o principado irmão. Em 1457, exatamente um ano após sua subida ao trono, Drácula coerente com sua promessa, mandou um contingente valáquio para ajudar Estêvão a reconquistar a coroa de seus antepassados. Desse modo, Drácula ajudou a iniciar a brilhante carreira do maior soldado, estadista e homem de cultura que a Renascença romena produziu. Porque Estêvão o Grande, ou Santo Estêvão como é ele hoje chamado após a sua canonização pela Igreja Ortodoxa em 1972, foi soldado e amante das artes. O número de mosteiros que sobreviveram na região de Suceava, capital de Estêvão, é eloqüente testemunho do brilho cultural e arquitetônico da sua época.

Quando Drácula finalmente ascendeu ao trono em julho de 1456, os astrônomos chineses e europeus documentaram uma aparição celestial incomum – um cometa “tão grande quanto a metade do céu, com duas caudas, uma apontando o Ocidente e a outra o Oriente, cor de ouro e parecendo uma chama ondulante no horizonte noturno”. O cometa tornou-se mais tarde tema de estudo do astrônomo Edmund Halley, e tornou-se conhecido então como Cometa de Halley.

No século XV, como hoje, as pessoas supersticiosas viam nos cometas anúncios de catástrofes naturais, pestes ou ameaças de invasão. Com a morte de Hunyadi em Belgrado, esses augúrios aumentaram muito. Mas os videntes e astrólogos de Drácula interpretaram o cometa como um símbolo de vitória. Um especialista romeno em numismática descobriu recentemente uma pequena moeda de prata cunhada pelo príncipe, mostrando a águia Valáquia de um lado e a estrela puxando seis raios ondulantes de outro, uma representação tosca do famoso cometa.

Após a queda de Constantinopla, os poderes remanescente da Europa Central e Oriental dedicaram-se a libertar as terras dos Bálcãns conquistadas pelos turcos. Uma das grandes figuras da Renascença, Enea Silvio Piccolominio, um astuto diplomata e especialista em Europa Ocidental, tornou-se o papa Pio II em 1458. Ele percebeu o imenso perigo para todo o mundo cristão das ambições imperialistas do sultão Mehmed II. Pio II lançou sua cruzada no Concílio de Mântua em 1459, advertindo os governantes incrédulos de que, a menos que os cristãos se unissem todos para se opor a Mehemed, o sultão destruiria seus inimigos um a um. O papa pedia aos cristãos que tomassem a si a cruz e angariassem cem mil ducados de ouro.

Em seguida à morte de Hunyadi e ao assassinato de seu filho mais velho, Ladislau, a luta pela coroa húngara continuou entre os Hunyadi e os Habsburgos. Drácula permaneceu leal aos Hunyadis em suas lutas com os alemães da Transilvânia, inicialmente a Ladislau e após sua morte ao filho mais jovem de Hunyadi, Matias, e ao cunhado Michael Szilagy. Do lado oposto estavam os Habsburgos: Albert I, que governou pouco tempo, sua esposa Elizabete e Ladislau V. A coroa sagrada de Santo Estêvão, guardada na fortaleza de Visegrad, esperava ser reclamada pelo próximo legítimo Habsburgo. O sacro imperador romano Frederico III estava tão preocupado com seus assuntos internos que o império não se animou a responder ao apelo do papa. O filho de Hunyadi, Matias, manobrou para tornar-se rei da Hungria em 1458. Drácula, que conheceu Matias ainda jovem, esperava que ele se juntasse à cruzada. Quanto a isso ele se desapontou, tal como o papa. Matias nunca deu seu inteiro apoio à cruzada papal contra os turcos, devido ao seu vacilante apoio ao trono da Hungria. O sacro imperador romano Frederico III; George de Podebrady, rei da Boêmia; Casimir IV, da Polônia; o Grão-Duque de Moscou, Ivan III; os governantes das repúblicas italianas; e um número de potentados orientais que participaram do concílio, limitou-se a enviar palavras de encorajamento ao papa. Estavam todos envolvidos em suas pequenas querelas e preferiram descartar logo o apelo papal.

Drácula foi o único soberano que respondeu imediatamente à conclamação do papa. Sua ação corajosa foi reconhecida nos comentários favoráveis dos representantes oficiais de Veneza, Gênova, Milão e Ferrara e mesmo do papa Pio II. Embora ainda desaprovasse algumas das cruéis táticas que ele usava, todos admiravam a coragem de Drácula e elogiavam sua disposição de combater pela cristandade.

Apesar do seu juramento ao rei húngaro e ao papa, as relações de Drácula com os turcos permaneciam acomodadas. Ele cumpria suas obrigações de vassalagem, que incluíam pagamento de tributo e uma visita ocasional a Constantinopla. A primeira indicação de que podia haver problemas na preservação de relações amigáveis veio do próprio Drácula. Em carta datada de 10 de setembro de 1456, dirigida aos dignitários de Brasov, Drácula revelou seu real pensamento, apenas alguns dias depois da sua investidura como príncipe:

Estou vos dando notícias… de que o embaixador dos turcos veio agora até nós. Tende no espírito e o conservai com firmeza o que tratei previamente convosco acerca de fraternidade e paz… O tempo e a hora chegaram afinal, a respeito do que antes vos havia dito. Os turcos querem pôr em nossos ombros… responsabilidades insuportáveis e… compelir-nos a não mais viver em paz (convosco)… Eles estão buscando um modo de saquear nosso país passando sobre nós. Além disso, eles nos forçam a trabalhar contra nossa fé católica. Nosso desejo é nada fazer contra vós, nem vos abandonar, como vos disse e jurei. Asseguro-vos que continuarei vosso irmão e amigo fiel, e por isso retive os enviados turcos aqui, de modo a que tivesse tempo de mandar-vos essas notícias.
Seguem-se aqui preceitos típicos que antecipam Maquiavel:

Tendes de refletir … quando um príncipe é poderoso e valente ele pode fazer a paz como desejar. Se, no entanto, ele foi enfraquecido, alguém mais poderoso que ele há de conquista-lo e ditar-lhe sua vontade.

Levando em conta sobretudo à tensa situação turco-valáquia resultante da dupla posição de Drácula, as causas do corte final de relações e do início das hostilidades devem ser buscadas nas tentativas turcas de se beneficiar da infringência dos tratados. Os tributos foram pagos regularmente por Drácula apenas durante os primeiros três anos do seu reinado. De 1459 a 1461. Daí por diante, no entanto, porque estava preocupado com os problemas dos saxões da Transilvânia, Drácula violou o contrato e deixou de comparecer à corte turca. Por isso, quando as negociações foram retomadas, os turcos exigiram o pagamento dos tributos devidos.

Havia uma outra nova exigência que nunca fora estipulado antes e que representava uma clara violação dos trados anteriores. Ela envolvia a cobrança do tributo infantil – nada menos do que quinhentos jovens destinados aos regimentos de janízaros. Essa infantaria de elite era composta de recrutas de várias províncias dos Nálcãs, sob o controle do sultão. De fato, oficiais recrutadores de vez em quando invadiam as planícies da Valáquia, onde sentiam que a qualidade dos jovens era melhor.

Drácula havia resistudo a tal incursão pela força das armas, e cada turco que fosse pego nessa tarefa podia ser levado à estaca. Tais violações do território por ambos os lados somaram-se às provocações e contribuíram para azedar as relações turco-valaquias. Ataques, pilhagem e saques tornaram-se endêmicos, de Giurgiu até o mar Negro. Os turcos conseguiram assegurar o controle de várias fortalezas e comunas no lado romeno do Danúbio.

Para complicar as coisas, Radu o Belo, que fielmente residira em Constantinopla desde sua libertação em 1447, foi encorajado pelos turcos a se considerar candidato ao trono da Valáquia. Antes do corte de relações, o sultão Mehemed II deu a Drácula uma última opotunidade. Ele o convidou a ir a Niocópolis, no Danúbio, para se encontrar com Isaac Pasha, o governante da Rumélia e representante do sultão, que foi intruido a persuadir Drácula de ir pessoalmente a Constantinopla e explicar suas violações de vassalagem dos últimos anos.Drácula respondeu que estava preparado para viajar, levando presentes, até Constantinopla, e concordou em discutir o não-pagamento dos tributos e até ajustamentos de fretes na fronteira, mas continuava inflexível a respeito do recrutamento de crianças pelos turcos.

Na verdade, em hipótese nenhuma ele viajaria até a corte do sultão, porque se lembrava de como seu pai fora traído. O pretexto oficial para sua recusa de ir a Constantinopla era o receio de que se fizesse isso seus inimigos na Transilvânia ficariam mais fortes na sua ausência.

Uma vez que não havia base sincera e genuína para as negociações, pode se entender melhor a reação do sultão. A recusa de Drácula de viajar até Constantinopla confirmava as suspeitas dos turcos de que ele estava negociando simultaneamente uma aliança com os húngaros. Por isso, os turcos planejaram uma emboscada. Os homens encarregados de levar avante o plano não podiam ter sido mais bem escolhidos – um demônio de esperteza grego, Thomas Catavolinos, e Hamza Pasha, chefe dos falcoeiros da corte, governador de icópolis e homem conhecido por sua mente sutil. O pretexto ostensivo era encontrar Drácula para discutir uma fronteira mutuamente aceita e para persuadi-lo a ir a Constantinopla. Logo que eles souberam que Drácula recusaria esta última proposta, suas instruções secretas eram de capturar o príncipe Valáquio morto ou vivo. Temos a sorte de possuir um relato claro e dramático das precisas circunstâncias nas quais Drácula venceu seus oponentes. A história é contada pelo próprio Drácula em carta datada de 11 de fevereiro de 1462, dirigida ao rei Matias Corvinus: Em outras cartas que enviei a Vossa Alteza, narrei o modo pelo qual os turcos, cruéis inimigos da Cruz de Cristo, mandaram seus emissários até mim visando quebrar nossa mútua paz e aliança, e destruir nossa união, de forma que eu me aliasse com eles e viajasse até o soberano turco, o que equivale dizer sua corte, e a menos que eu recusasse a abandonar a paz e os tratados e a união com Vossa Alteza, os turcos não manteriam a paz comigo. Eles também enviaram um importante conselheiro do sultão, Hamza Pasha, de Nicópolis, para determinar a fronteira do Danúbio, com o intento de que Hamza Pasha, se pudesse, me tomasse de algum modo por engano ou boa-fé, ou de alguma outra maneira, levando-me para o porto, ou então tentando me manter cativo. Mas pela graça de Deus, quando eu viajava pela fronteira descobri suas intenções e astúcia, e fui eu quem capturou Hamza Pasha num distrito e numa terra turca, próxima a uma fortaleza chamada Giurgiu. Quando os turcos abriram os portões da fortaleza, a pedido dos nossos homens, imaginando que apenas os seus entrariam, nossos soldados se misturaram com eles e invadiram a fortaleza, conquistando a cidade que em seguida mandei incendiar.

Nessa mesma carta, Drácula descreve a campanha que se seguiu e que teve lugar ao longo do Danúbio até o mar Negro durante o inverno de 1461, que se constituiu no começo real das hostilidades, sem que tenha havido uma declaração formal de guerra. Desse modo, Drácula pode ser visto como agressor. A campanha do Danúbio foi a bem-sucedida fase inicial da guerra turco-valáquia. Drácula estava na ofensiva, tentando duplicar a bem-sucedida guerra anfíbia de Hunyadi na decada de 40 daquele século. A maior parte da campanha teve lugar em solo búlgaro controlado pelos turcos. Pela menção de nomes de locais é possível reconstituir o avanço das forças de Drácula ao longo do Danúbio, e Drácula conta com precisão o número de baixas infligidas:

Matei homens e mulheres, velhos e jovens que viviam em Oblucitza e Novoselo, onde o Danúbio flui para o mar até Rahova, que fica perto de Chilia desde o baixo (Danúbio) até lugares como Samovit e Ghighen (ambos localizados na moderna Bulgária). (Matamos) 23.884 turcos e búlgaros sem contar aqueles que foram queimados em suas casas ou aquelas cabeças que não foram cortadas por nossos soldados… E assim Vossa Alteza deve saber que quebrei a paz com o sultão.

Seguem-se algumas espantosas estatísticas de pessoas assassinadas: em Oblucitza e Novoselo, 1.350; em Dirstor (Durostor, Silistria), Cirtal e Dridopotrom, 6.840; em Orsova, 343; em Vectrem, 840; em Turtucaia, 630, em Marotim, 210, na propria Giurgiu, 6.414; em Turnu, Batin e Novigrad, 384, em Sistov, 410; em Nicóplis, Samovit e Ghighen, 1.138; em Rahova, 1.460. Para melhor impressionar o rei Matias com os detalhes do seu relato, Dracula mandou até ele seu enviado Radu Farma, com dois sacos contendo cabeças, narizes e orelhas.

A campanha de inverno terminou na costa do mar Negro, sob as vistas da poderosa força dos turcos que havia atravessado o Bósforo para uma invasão em grande escala da Valáquia. Com seu flanco desprotegido, Drácula fora obrigado a abandonar a ofensiva. Ele havia queimado todas as fortalezas turcas que não conseguira de fato ocupar. Não tinha muito mais o que fazer; o ponto alto da ofensiva tinha se esgotado.

A campanha do Danúbio havia estabelecido a reputação de Drácula como cruzado e guerreiro da cristandade. Através da Europa Central e Ocidental, e de um eram cantados e os sinos tocavam de Gênova a Paris em gratidão pela cruzada, com um novo ânimo de viver e a louvação da liderança de Hunyadi. A corajosa ofensiva de Drácula enviou também uma nova esperança de liberdade aos povos escravizados da Bulgária, Sérvia e Grécia. Em Constantinopla pairava uma atmosfera de consternação, melancolia e medo, e alguns dos chefes turcos, temendo o Empalador, consideravam a hipótese de fuga pelo Bósforo para a Ásia menor. Mehmed II decidiu lançar sua invasão da Valáquia na primavera de 1462; Drácula não havia dado ao sultão outra alternativa. Desafiar o sultão com o fracasso de um provável plano de assassínio era uma coisa; ridiculariza-lo e instilar esperanças de libertação entre os súditos cristãos era outra, muito mais perigosa para seu império recentemente estabelecido. Em cada movimento que fez dali em diante, Mehmed quis reduzir a Valáquia a uma província turca. Com esse formidável desafio em mente, o sultão reuniu as mais poderosas forças que até então tinham se juntado desde a queda de Constantinopla em 1453. Um imenso contingente comandado pelo próprio sultão foi transportado ao longo do Bósforo por uma vasta frota de barcaças. Outra força poderosa, reunida em Nicópolis, na Bulgária, devia cruzar o Danúbio, recapturar a fortaleza de Giurgiu e então se unir com o contingente principal num ataque combinado a Tirgoviste.

Drácula esperava reforços de Matias da Hungria, de maneira a equilibrar a disparidade dos números. De acordo com as narrativas eslavas, ele não dispunha de mais de 30.900 homens. Drácula apelou aos seus compatriotas. Como era costume a independência do país era ameaçado, todo o homem válido, inclusive meninos de mais de doze anos, e até mulheres eram convocados. Uma testemunha ocular turca afirma que a travessia do Danúbio foi completada na noite do sexto dia do jejum de Ramadã (sexta-feira, 4 de junho de 1462), os soldados turcos sendo transportados em setenta barcos e barcaças. Outras testemunhas oculares turcas dão-nos conta em detalhes e gráficos de toda a operação. A travessia tornou-se possível graças ao fogo dos canhões turcos dirigidos contra posições valáquias na margem direita: (Quando a noite começou a cair) subimos nos barcos e descemos pelo Danúbio e chegamos à outra margem, muitas léguas abaixo do lugar onde o exército de Drácula havia estacionado. Ali cavamos nós mesmos trincheiras instalando os canhões ao nosso redor. Escondemo-nos nas trincheiras de modo que os cavaleiros não nos atingissem. Depois disso cruzamos de volta para a outra margem e aí transportamos soldados através do Danúbio. E quando o conjunto de nossa infantaria havia atravessado, preparamo-nos e saímos aos poucos em direção ao exército de Drácula, juntamente com a artilharia e outros componentes que trouxéramos também. Havendo parado, acertamos os canhões, mas antes que pudéssemos usá-los, trezentos dos nossos foram mortos. O sultão ficou muito entristecido com o fato, vendo aquela batalha do outro lado do Danúbio e sentindo-se incapaz de chegar até nós. Ele temia que todos os soldados fossem mortos, uma vez que o imperador não podia pessoalmente cruzar o rio. Depois disso, vendo que nosso lado foi muito enfraquecido e tendo conosco cento e vinte armas, defendemo-nos e atiramos repetidamente com elas, repelimos o exército do príncipe nesse local e nos fortalecemos a nós mesmos. Então o imperador, tendo ganhado a confiança, transportou outros soldados. E Drácula, vendo que não podia evitar a travessia, retirou-se das nossas proximidades. Então, depois de o imperador haver cruzado o Danúbio seguindo-nos com todo o exército, distribuiu entre nós trinta moedas de ouro.

Pouco depois houve escaramuças preliminares ao longo dos pântanos do Danúbio, que visavam basicamente retardar a junção dos dois grandes exércitos turcos. Drácula abandonou o rio e iniciou sua retirada para o norte. A partir desse ponto, Drácula recorreu ao que é conhecido como retirada estratégica, um recurso invariavelmente usado pelos exércitos com inferioridade numérica. Os romenos dependiam da variedade do terreno para sua defesa: o solo pantanoso perto do Danúbio, a densa floresta de Vlasi aprofundando-se na planície e as montanhas impenetráveis. De acordo com a tradição romena, era a floresta “louca” e as montanhas “irmãs do povo” que haviam assegurado a sobrevivência da nação através das épocas. À medida que as tropas Valáquianas deixavam seu território aos turcos, Drácula usava táticas de terra devastada, e esgotava seus inimigos criando um vasto deserto no caminho das forças invasoras. Enquanto o exército de Drácula batia em retirada para o norte, abandonando território aos turcos, ele despovoava a área, queimava seus próprios vilarejos e punha fogo nos grandes centros, reduzindo-os a cidades-fantasmas. Boiardos, camponeses e citadinos acompanhavam os exércitos em retirada, a menos que encontrassem refúgios em montanhas isoladas ou mosteiros inacessíveis, como os de Snagov, onde os mais ricos buscavam proteção. Além disso, Drácula ordenou que as colheitas fossem sistematicamente queimadas; e envenenados todos os poços e exterminado o gado e todos os outros animais domésticos que não pudessem ser levados para as montanhas. O povo cavara longos buracos e havia coberto com galhos e folhas, de maneira a fazer grandes armadilhas para homens, camelos e cavalos. Drácula determinou mesmo que represas fossem construídas para secar a água de pequenos rios e para criar pântanos que pudessem impedir o avanço dos canhões turcos, atolando-os todos em lama. Fontes contemporâneas confirmam o cenário de desolação que esperava os exércitos turcos. Um historiador grego, por exemplo, conta: “Drácula escondeu as mulheres e crianças numa área muito pantanosa, protegida por defesas naturais, cobertas por uma densa floresta de carvalhos e ordenou a seus homens que se ocultassem nessa floresta de carvalhos e ordenou a seus homens que se ocultassem nessa floresta, que era inacessível a qualquer estranho que a penetrasse”. Do lado turco, os comentários são exatamente os mesmos. Um veterano da campanha queixava-se de que “o melhor dos homens entre os turcos não encontrava fontes… (nenhuma) água potável”. Mahmud Pasha, um dos comandantes que foram mandados à frente do exército principal com um pequeno contingente, pensou ter encontrado finalmente um lugar para descansar. “Mas mesmo ali”, escreveu o veterano, “numa distância de seis léguas não era encontrada uma gota de água. A intensidade de calor causado pelo sol ardente era tão grande que a armadura parecia derreter numa forja. Na planície ressecada, rachavam os lábios dos combatentes do Islã. Os africanos e asiáticos, acostumados a condições do deserto, usavam seus escudos para cozinhar carne ao sol.”
Certamente um fator que contribuiu para o sofrimento e a morte que atingiu o exército turco foram o fato de o verão de 1462 ter sido um dos mais quentes já registrados. Ao lado das medidas de terra devastada, Drácula usou táticas de guerrilha nas quais o elemento surpresa e o íntimo conhecimento do terreno eram as chaves do sucesso. Um viajante italiano relatou que a cavalaria de Drácula podia freqüentemente surgir de trilhas relativamente desconhecidas e atacar saqueadores turcos distanciados das forças militares. Às vezes Drácula atacava mesmo o grosso das tropas, quando elas menos esperavam, e antes que pudessem se recuperar ele voltava para a floresta sem dar ao inimigo a oportunidade de combater em igualdade de condições. Os desgarrados do principal corpo das forças turcas que ficavam para trás eram invariavelmente isolados e mortos, a maioria por empalamento. Uma tática mais insidiosa, quase desconhecida nesse período, era uma versão do século XV da guerra bacteriológica. Drácula teria encorajado todos os doentes vítimas de lepra, tuberculose e peste bubônica a se vestirem como os turcos e a se misturarem com os soldados. Se de algum modo sobrevivessem depois de contaminar e matar os turcos com sucesso, os Valáquios infectados seriam ricamente recompensados. Do mesmo modo, Drácula libertava criminosos empedernidos que eram encorajados a assassinar os turcos desgarrados.

O ataque conhecido como a Noite do Terror foi um exemplo da ousadia e da mestria de Drácula em táticas de surpresa. Em um dos muitos vilarejos próximos de Tirgoviste, perto do acampamento dos turcos na floresta, Drácula reuniu um conselho de guerra. A situação de Tirgoviste era desesperada e Drácula apresentou um plano corajoso para salvar sua indefesa capital. O conselho concordou em que somente o assassínio do sultão poderia desmoralizar suficientemente o exército turco, a ponto de produzir uma retirada rápida.

A execução desse plano foi admiravelmente registrada por um soldado sérvio que experimentou todo o impacto da investida audaciosa de Drácula. Seu relato descreve o complexo acampamento turco: o som dos guardas vigilantes gritando ordens ocasionais, o cheiro do carneiro assado na brasa, a conversa de soldados que partem, as risadas das mulheres e de outros visitantes, o cântico lamentoso dos escravos dos turcos, o ruído dos camelos, as incontáveis tendas e finalmente aquela bordada em ouro em que dormia o sultão, bem no centro do acampamento. Menhemed havia acabado de se retirar depois de uma pesada refeição. De repente, ouviu-se o pio de uma coruja, sinal de Drácula para o ataque, seguido do tropel da cavalaria. Os invasores atravessaram o círculo de defesa dos guardas galopando livremente entre as tendas dos soldados mal despertos. A espada e a lança valáquias – com Drácula à frente – abriam um atalho sangrento. “Kaziku Bey!, o Empalador”, gritava fieiras de soldados turcos, gemendo e morrendo na trilha da avalanche romena. Os clarins turcos finalmente chamaram os homens às armas. Um corpo de guarda aos poucos se formou, determinado, em torno da tenda do sultão. Drácula havia calculado que a abrupta surpresa e o ímpeto do ataque podiam levar sua cavalaria até a cama do sultão. Mas enquanto ele buscava essa meta, a guarda do sultão reuniu-se, deteve a ofensiva valáquia e de fato começou a fazer recuar os atacantes. Percebendo que corria o risco de ser envolvido e capturado, Drácula, embora com relutância, deu ordens de retirada. Ele havia matado vários milhares de turcos; ferido muito mais, criado pânico, caos e terror dentro do acampamento turco, mas havia perdido muitas centenas de seus guerreiros mais corajosos e o ataque havia fracassado. O sultão Mehemed tinha sobrevivido e a estrada para Tirgoviste estava aberta.

O grande vizir Machumet prendeu um valáquio e sob tortura começou a interroga-lo sobre a localização e os planos de Drácula. O prisioneiro permaneceu em silêncio e foi provavelmente cerrado em dois. Admirado com esta demonstração de coragem, o vizir disse ao sultão: “Se este homem estivesse no comando de um exército, poderia ter conquistado grande poder”. Os turcos chegaram finalmente a Tirgoviste mas não encontraram homem ou gado; comida ou bebida. A capital valáquia apresentava de fato um aspecto desolador aos turcos que chegavam. Os portões da cidade foram deixados abertos e um véu leve de fumaça se confundia com a luz da madrugada. A cidade fora esvaziada de praticamente todas as suas relíquias sagradas e tesouros, do palácio fora levado tudo que havia ali de aproveitável, e o resto queimado. Por toda parte, os poços estavam envenenados. Os turcos foram recebidos por uns poucos disparos de canhão feitos por alguns valáquios que ainda se escondiam nas ameias. Mehemed II resolveu não se deter na capital mas continuou sua marcha atrás do ardiloso Empalador. A umas tantas milhas ao norte, o sultão foi surpreendido por um espetáculo ainda mais desolador: numa estreita garganta de cerca de um quilômetro e meio ele encontrou uma verdadeira “floresta de cadáveres empalados, talvez 20.000 ao todo”. O sultão examinou o que restava dos homens, mulheres e crianças, sua carne devorada pelos corvos que faziam ninhos em seus crânios e entre suas costelas. Entre eles o sultão encontrou os cadáveres de prisioneiros que Drácula havia conservado desde o começo da campanha, no inverno anterior. Num pico mais alto estavam as carcaças dos dois assassinos que haviam tentado apanhar Drácula antes do início das hostilidades. Ao longo de muitos meses os elementos da natureza e os corvos haviam feito o seu trabalho. Era uma cena horrível o bastante para desencorajar até mesmo o homem mais frio. Impressionado por esse espetáculo, Mehemed II ordenou que o acampamento turco fosse cercado por uma profunda trincheira naquela mesma noite. Logo, pensando sobre o que tinha visto, o sultão perdeu o ânimo. Como registra um historiador, “mesmo o sultão, tomado de pasmo, admitiu que ele não podia tomar a terra de um homem que faz tais coisas, e acima de tudo lida com seus súditos desse modo. Um homem capaz de fazer tais coisas seria capaz de coisas mais terríveis!” O sultão deu então ordens de retirada para a maior parte das forças turcas, e pôs-se em marcha para o leste em busca de um porto no Danúbio onde sua frota havia ancorado.

Após a retirada do contingente de Mehemed, o caráter da guerra mudou radicalmente. de fato, esse último capítulo pode ser descrito com maior propriedade como uma guerra civil, ao invés de uma guerra estrangeira, muito embora soldados turcos ainda continuassem envolvidos. Antes da partida, o sultão Mehemed nomeou formalmente Radu comandante-em-chefe, com a missão de destruir Drácula e tomar conta oficialmente do principado. O contingente turco, sob o comando do paxá de Cilistria, apoiaria as relações de Radu, mas o novo comandante devia confiar principalmente no apoio dos valáquios. Os turcos alimentavam deliberadamente esse conflito de modo a confundir os valáquios e a evitar a impressão de uma guerra nacional contra um adversário comum, de fato abandonando seu plano anterior de conquistar a Valáquia para converte-la num estado vassalo obediente. O que eles deixaram de conseguir pela força das armas obtinham pela diplomacia. Assim, em última análise, era menos uma questão de tática do que de política. As últimas batalhas opunham Drácula não tanto aos turcos, mas aos poderosos boiardos romenos que afinal apoiavam decisivamente a causa de Radu. “Os boiardos romenos, entendendo que os turcos eram mais fortes, abandonaram Drácula e se associaram a seu irmão que chegava como sultão turco.” Terminava assim o relato de um janízaro sérvio. Havia uma outra razão mais forte para a retirada turca. A peste havia aparecido nas hostes do sultão e as primeiras vítimas da terrível doença foram registradas em Tirgoviste. Talvez a tentativa de Drácula de fazer guerra bacteriológica tivesse funcionado. O pedido desesperado de ajuda feito por Drácula a seu parente Estêvão foi respondido com a traição. Em junho o governante moldavo atacou a importante fortaleza valáquia de Chilia, vindo do norte, enquanto poderosos contingentes turcos atacavam-na simultaneamente pelo sul. Apesar disso, esse extraordinário duplo assalto fracassou. Os turcos levantaram o sítio. Estêvão foi ferido por um tiro disparado pela fortaleza e retirou-se para a Moldávia. Ele não renovou o ataque a chilia até 1465. E então ele a capturou, enquanto seu primo Drácula vivia em segurança numa prisão húngara, alguns quilômetros Danúbio acima, em Visegrad. Durante a última fase da guerra turco-valáquia, Drácula governou de seu castelo no Arges superior, o ponto final do refúgio do príncipe quando os turcos avançavam. Uma vez que os cronistas da campanha turca haviam retornado a Constantinopla com o sultão e o grosso do exército, só restava aos historiadores confiar nas baladas populares da região do castelo pra obter suas informações. Os camponeses dos vilarejos vizinhos do Castelo Drácula relatam histórias relativas ao fim do segundo reinado no outono de 1462. Todas essas histórias terminam quando Drácula atravessa a fronteira da Transilvânia e se torna prisioneiro dos húngaros. Elas recomeçam em 1476, quando Drácula volta à Valáquia para seu terceiro reinado. Uma das narrativas mais clássicas dos últimos momentos da resistência de Drácula aos turcos em 1462 apresenta-se assim: Após a queda de Tirgoviste, Drácula e uns poucos fiéis seguidores seguiram para o norte; evitando os passos mais conhecidos que levavam à Transilvânia, chegaram ao seu retiro na montanha. Os turcos que foram mandados em sua perseguição acamparam no escarpado de Poenari, que domina uma vista admirável do Castelo Drácula na margem oposta do Arges. Ali eles instalaram seus canhões de cerejeira. O grupo de soldados turcos desceu para o rio e o atravessou a vau, acampando do outro lado. O bombardeio ao Castelo Drácula começou, mas sem sucesso, devido ao pequeno calibre dos canhões turcos e à solidez das muralhas do castelo. As ordens para o assalto final ao castelo foram preparadas para ser dadas na manhã seguinte.

Naquela noite, um escravo romeno dos turcos, de acordo com uma narrativa local, que era um parente distante de Drácula, advertiu o príncipe valáquio sobre o grande perigo em que se encontrava. Sem ser percebido na noite sem lua, o escravo subiu as escarpas do Poenari e fazendo cuidadosa pontaria disparou uma flecha para uma das janelas da torre principal, onde ele sabia que ficavam os aposentos de Drácula. Presa à flecha ia uma mensagem advertindo Drácula para escapar enquanto ainda era tempo. A flecha apagou um candelabro dentro da torre. O escravo pôde ver a sombra da mulher de Drácula e conseguiu talvez perceber que ela lia a mensagem. O resto dessa história só pode ter sido transmitido por conselheiros íntimos de Drácula dentro do castelo. A esposa de Drácula informou o marido sobre o aviso. Ela lhe disse que preferia ter seu corpo devorado pelos peixes lá em baixo no rio Arges a ser capturada pelos turcos. Drácula sabia por sua própria experiência em Egrigoz o que, no caso, significava ser prisioneiro. Percebendo o quanto era desesperadora sua situação, e antes de qualquer outra interferência, a mulher de Drácula subiu correndo as escadas e se atirou da torre. Esse ponto do rio é hoje conhecido como Riul Doannei, rio da Princesa. Essa narrativa trágica é praticamente a única menção à primeira mulher de Drácula. Drácula imediatamente fez planos para sua própria fuga; não importava o quanto as circunstâncias fossem desfavoráveis, o suicídio não era uma opção. Ele ordenou que os seus líderes mais corajosos do vilarejo vizinho de Arefu fossem trazidos ao castelo, e durante a noite eles discutiram as várias rotas de fuga para a Transilvânia. Drácula tinha esperança de que Matias da Hungria, ao qual havia enviado muitos apelos desde uma primeira carta de fevereiro de 1462, pudesse acolhê-lo como um aliado e assegurar sua volta ao trono valáquio. De fato, sabia-se que o rei húngaro, dispondo de um poderoso exército, havia estabelecido quartéis além das montanhas, em Brasov. Chegar até ele supunha o desafio de atravessar os Alpes da Transilvânia num ponto onde não havia estradas ou passos. Os despenhadeiros no alto dessas montanhas são rochosos e traiçoeiros, em geral cobertos de neve e gelo mesmo durante o verão. Drácula não poderia ter tentado essa travessia sem o auxílio de guias locais. As narrativas populares ainda identificam vários rios, clareiras, florestas e mesmo rochedos junto aos quais passou Drácula em sua fuga. Tentamos usar essa narrativa para reconstituir o verdadeiro caminho de Drácula, mas a tarefa mostrou-se difícil, porque os nomes dos lugares mudaram com o passar dos anos.

Tão longe quanto conseguimos saber, Drácula, uma dúzia de subordinados, seu filho ilegítimo e cinco guias deixaram o castelo antes da madrugada pela escada em espiral que desce para o seio da montanha e leva até uma caverna na margem do rio. Ali, o grupo de fugitivos podia ouvir os ruídos do acampamento turco e cerca de um quilômetro ao sul. Algumas das montarias mais rápidas haviam sido trazidas do vilarejo; os cavalos eram equipados com ferraduras invertidas de modo a deixar as marcas aparentes de uma cavalaria que chegava. Para distrair a atenção da fuga, durante a noite os canhões do castelo dispararam repetidamente. Os turcos em Poenari respondiam quase automaticamente. Devido ao ruído, assim conta à história, a montaria do próprio Drácula mostrou-se nervosa, e seu filho que estava amarrado na sela caiu ao solo e se perdeu na confusão. A situação era desesperadora demais para que alguém iniciasse uma busca e Drácula estava acossado demais e tinha o coração frio o bastante para se deixar perder por seu filho.

Essa pequena e trágica vinheta teve, entretanto,um final feliz. O menino, por volta de seus dez anos, foi encontrado na manhã seguinte por um pastor, que o tomou e o levou até sua cabana, onde cresceu como se fosse alguém de sua família. Quando Drácula voltou como príncipe quatorze anos depois, o camponês que havia descoberto a verdadeira identidade de seu adotado, levou o rapaz até o castelo. A essa altura ele havia se transformado em um esplêndido jovem. Contou a seu pai tudo o que o pastor havia feito por ele, e como prova de gratidão Drácula compensou o camponês com o oferecimento de terras nas vizinhanças e eventualmente se tornado governador do castelo. Quando o grupo fugitivo finalmente atingiu a crista das montanhas, pôde presenciar o assalto final dos turcos ao sul, que destruiu parcialmente o Castelo Drácula. Ao norte ficavam as muralhas fortificadas de Brasov, onde se esperava que os exércitos do rei Matias estivessem manobrando para vir em auxílio a Drácula. Em um lugar chamado Plaiul Oilor, ou planície do Carneiro; o grupo de Drácula, agora salvos dos turcos, reuniram-se e fizeram planos para a descida pelo norte.

Convocando seus corajosos companheiros, Drácula lhes perguntou de que modo ele poderia recompensá-los por lhe ter salvado a vida. Eles lhe disseram que apenas haviam cumprido seu dever com o príncipe e com o país. O príncipe, no entanto, insistiu: “O que desejais? Dinheiro ou terras?” E eles responderam: “Dai-nos terras, alteza”. Em um bloco de pedra conhecido como Mesa do Príncipe, Drácula atendeu seus desejos escrevendo em algumas peles de lebres caçadas no dia anterior. Entregou aos cinco guias vastas glebas de terra nas montanhas e um rico suprimento de florestas, pescado e ovelhas, tudo por volta talvez de oitenta mil metros quadrados. Drácula mais tarde estipulou a respeito que nenhuma dessas terras podia jamais ser tirada deles por príncipe, boiardo ou chefe eclesiástico. Eram de suas famílias, para ser usufruídas através das gerações.

Diz uma antiga tradição que essas peles de lebre são ainda carinhosamente guardadas pelos descendentes daqueles cinco homens, mas a despeito de muitos esforços e persuasão, nenhum descendente quis esclarecer o paradeiro exato de tais documentos. Ainda assim temos razões para supor que, escondidas em algum sótão ou enterradas num subterrâneo, as peles de coelho de Drácula ainda existem. Um historiador romeno tentou encontrar os pergaminhos, mas os camponeses da área permaneceram reservados e intratáveis. Nem mesmo grandes somas em dinheiro puderam persuadi-los a partilhar tais preciosas lembranças dos tempos heróicos de Drácula.

por Shirley Massapust

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/dracula-historico/

Fenômeno UFO e a percepção dos animais

Verificamos no conjunto um certo número de fenomenos relativos aos OVNIs, e que tem sido perceptiveis graças aos cinco sentidos do homem; em certos casos , foram corroborados por testemunhos de ordem técnica . Nós baseamo-nos em relatórios de observação dignos de fé, várias vezes controlados, não ainda explicados em termos de fenomenos naturais ou artificiais conhecidos.

Fenomeno : Indica a edição popular do Dicionário Larousse: “Tudo quanto é percebido pelos sentidos ou pela consciencia.” E mais adiante : “Ser ou objeto que oferece algo de anormal , de surpreendente.” A partir dai, pode-se por a questão : os fenomenos verificados produzem efeitos? Ainda segundo o Larousse:

Efeito : “Resultado duma causa: não há efeito sem causa.” E a seguir : “Potencia transmitida por uma força, por uma máquina.” Pois bem, vamos ver que os fenomenos — e as realidade materiais — que observamos produzem efeitos não só sobre tudo o que é vivo, mas também sobre certas máquinas criadas pelo homem.

O doutor J. Hallen Hynek havia sugerido , há alguns anos , a Gordon Creighton, da Flying Saucer Review, a compilação de um catalogo dos efeitos dos OVNIs sobre os animais. O assunto ficou arrumado, e a publicação do catálogo começou no vol. XVI , nº 1 , Janeiro-Fevereiro de 1970 , pp. 26-27 , da interessantíssima revista britanica. O leitor poderá aí documentar-se com proveitos. Eis agora alguns exemplos , provenientes doutras fontes , que nos permitirão estabelecer algumas verificações:

Petrila (Romenia) , 22 de novembro de 1967: Ladislav Schmit , agricultor-avicultor, declarou a Ion Hobana , jornalista da revista Ziarul Scientea e correspondente do NICAP dos EUA : “Encontravam-me na quinta cerca das catorze horas. Reparei bruscamente que as minhas galinhas se preciptavam para mim, atravessando o pátio da herdade e cacarejando como doidas. Visivelmente assustadas, esvoaçavam todas . . . Ergui, então , a cabeça e vi claramente um objeto muito brilhante no céu . . ., cor de prata ou aluminio e com a forma de disco. O objeto era ligeramente bojudo e a sua parte superior apresentava-se como uma cúpula, ornada de pequenas hastes , que me fizeram pensar em antenas. Chamei a minha mulher . . . A máquina encontrava-se a uma altitude de cerca de 16.000 pés ( 4.800 metros , mais ou menos ). A principio , estava completamente imóvel no céu , mas após algum tempo pareceu deslocar-se lentamente. Depois , arrancou num instante , a uma velocidade espantosa, na direção noroeste — e desapareceu . . . . . . Inúmeras pessoas a quem apontamos o disco observaram-no bem, assim como alguns operários que colocavam o telhado da casa que se construia diante da nossa. ”

( Segundo The UFO Investigator , vol. IV , n.º 12 , p. 1.)

Comentário: Quem não notou , nas capoeiras , aves que avistaram no céu, um gavião ou um helicóptero ? O instinto de conservação provoca, então , o reflexo de defesa , que consiste em pôr-se em segurança , a coberto de um resguardo sob as arvores ou nas plantações de caules altos . Aqui , nada disso se passou. O instinto de conservação das galinhas do Sr. Schmit é completamente perturbado, a tal ponto que o reflexo de proteção não conta, e as galinhas atravessam o pátio, esvoaçando a descoberto. Qual seria , pois o gênero de influencia que elas teriam eventualmente sofrido? Mas , dirão , é importante levar em consideração as reações dos animais? Para um cientista como o doutor J. Hallen Hynek , isso não oferece dúvidas:

Depoimentos perante a Comissão para a Ciência e a Aeronautica da U. S. House of Representatives ( 29 de Julho de 1968 ). Discutindo o ridículo das testemunhas , o doutor Hynek declara à Comissão:

“Se ele é trazido . . . do mundo inteiro por pessoas competentes e de boa reputação . . . se elas ouviram os animais dos seus estábulos comportar-se de maneira anormal e gravemente perturbada e se, ao empreenderem pesquisas, encontraram não apenas estes animais mergulhados num estado de pânico , mas fizeram também referência a um objeto silencioso, ou por vezes zumbindo, deslumbrantemente iluminado, imóvel no espaço , e muito próximo , projetando uma luz vermelha e brilhante para o chão — então, prestemos-lhe atenção.” ( Symposium on Unidentified Flying Objects, Washington D. C. , julho de 1968 — Gordon Creighton. News F.S.R. Catalogue, vol. XVII. nº 4 p. 29.)

São inúmeros os casos em que , em diversas circunstancias, os cães acordaram os donos; nalgumas das ocorrencias as pessoas só se aperceberam do OVNI alguns instantes após a sua saída de casa : os cães aperceberam-se de uma presença insólita muito antes que o sentido visual tenha sido solicitado . Ora, sabe-se que os cães sentem o que nós chamamos ultra-sons; certos caçadores possuem “apitos silenciosos”, de ultra-sons , para fazer voltar os seus cães de caça. É, pois muito provável que certos OVNIs produzam , seja pelo seu sistema de propulsão, seja pelo seu comportamento na nossa atmosfera, vibrações que se assemelham aos ultra-sons, e que os cães e outros animais podem perceber , ao passo que o homem nada ouve. Os casos são tão numerosos que nós não os citaremos. Mas eis melhor :

Conway (Carolina do Sul) , EUA , 29 de Janeiro de 1953 : Passava de uma hora da manhã . Um antigo oficial de informações da Força Aérea , Lloyd C. Booth, regressava à quinta de seus pais . Aproximava-se de casa quando ouviu ruídos estranhos: os porcos , instalados nas suas cercas, detrás da granja, roncavam e os cavalos escoicinhavam na estrebaria. Booth relatou às autoridades que, após pesquisas, descobriu um disco que planava a pequena altitude sobre um bosquezito de arvores; era de cor cinzento-clara e irradiava uma luminescencia como se estivesse iluminado no interior. Tinha a forma da metade de um ovo. Booth dirigiu-se para o objeto e disparou várias balas da sua carabina 22 . Ouviu o ruido dos impactos , antes que o objeto desaparecesse da sua vista . Em seguida a este incidente , as autoridades militares empreenderam uma busca minunciosa nos arredores . Mas nada foi divulgado acerca das suas descobertas . Depois do acontecimento , verificou-se a morte , sem causa aparente , de inúmeras vacas e outro gado.

( Segundo Frank Edwards , em Parisien Libéré, 25 de Novembro de 1966, p. 2 e outras fontes.)

Nota: Repare-se que os animais , neste caso cavalo e porcos , reagiram antes que o homem tenha sentido a menor impressão , nomeadamente a visual ; e, particularmente , os cavalos , quando encerrados , nada podiam ver. Foi o proprio senhor Booth , antigo oficial de infornmações da USAF , quem nos citou o caso.

Comentário: Aqui , tal como com os cães , pode-se supor que os porcos e os cavalos sentiram ultra-sons , ou pelo menos um gênero de vibrações que poderiam assemelar-se a estes . Mas pode tratar-se também dos efeitos duma forma de radiação, porquanto assinalaram-se mortres de animais em seguida a este incidente — e noutros casos . Um deles , em particular , permiti-nos-á o prolongamento dum caracter pertubante mas, felizmente , excepcional.

Trata-se da ocorrencia que se deu a 21 de junho de 1968, às 11,30 horas , no lugar de La Corvée , da aldeia de Brazey-Bas, ligado à comuna de Brasey-enMorvan ( Côte-d’Or) , França. Todo o inquierito é relatado na revista Lumiére dans la Nuit, vol XV , nº96 , Dezembro de 1968, pp. 4-12. Podeis reportar-vos aí. Digamos simplesmente que , em seguida à aterragem dum OVNI, que deixou traços materiais verificados pela Policia, o proprietário duma pastagem , senhor Beurton , anota a morte duma ovelha, em 18 de julho , e duma outra , em 28 de agosto, além do desaparecimento de duas outras , no dia seguinte ao da aterragem . Jean Cerle, jornalista em Dijon , efetuou um inquiérito e não detectou nenhum traço de radioatividade no contador de Geiger . De que morreram , pois, as duas ovelhas? De intoxicação ? ë pouco provável. Para onde foram as duas desaparecidas ? Ninguem o sabe. Por outro lado , e aí está o perturbante prolongamento, Jean Tyrode , professor primário em Evillers ( Doubs) e inquiridor por conta do grupo LDLN , fez notar a Michot-Rousseau, cultivador e testemunha do incidente , curiosas lesmas de uma cor invulgar. Eram lesmas vermelhas, cuja pigmentação variava até ao castanho-escuro. Foram enviadas amostras ao professor Lautier , doutor em Ciencias, diretor do Laboratório de Biodinamica e vice-presidente da União Francesa para a Proteção da Vida. Após observações, o relatório do professor precisa:

“Em todo o caso , a lesma observada tinha uma pigmentação vermelho-escura e mal repartida. Não posso fornecer-vos nenhuma foto , nem desenho algum , porquanto fui surpreendido pela morte imprevisivel do bicho. Parece nitidamente que ele sofreu um influencia , quer física (radiações) , quer química ( alimentação) , provocada por um fenomeno invulgar. Só os dois flancos eram de uma cor normal, a todo o comprimento . . .”

Uma vez que o meu confrade Jean Cerle não detectou radioatividade nos diversos lugares do incidente , forçoso nos é supor uma outra causa para a morte das ovelhas e para a verdadeira mutação das lesmas . Não pretendemos parecer pessimistas, mas pode-se perguntar até onde certos “efeitos” poderiam fazer-se sentir sobre os vegetais , sobre os animais e sobre os humanos. A partir da morte de ruminantes pode-se permitir ir mais além? A partir da mutação pigmentada de moluscos , pode-se praticar a extrapolação ? Sois cépticos ? Então, levemos o nosso inquiérito mais longe:

Haynesville ( Luisiana) , 30 de dezembro de 1966 ( 20:15 hs ) : “Um físico atomista americano seguia de automóvel para o sul com a familia . O tempo estava encoberto e chovia. Em determinado ponto , antes de atingir Haynesville , deparou-se-lhe , precisamente sobre o cimo das arvores , uma cúpula de luz latejante , que alternava entre um vermelho sombrio e um alaranjado vivo. Em dado momento , a sua luminosidade tornou-se mais intensa, muito mais viva que os faróis do carro — e acordou os dois filhos do sábio , que tinham adormecido no banco de trás. O sábio ( professor de Física e investigador atomico) calculou rápidamente a quantidade de energia representada por esta luz , e ficou tão impressionado que voltou no dia seguinte ao mesmo lugar com um cintilometro, podendo assim determinar que a posição da luz se encontrava a cerca de uma milha do seu carro , no ponto mais próximo . Depois , enquanto caminhava na floresta , notou que em redor do ponto de aterragem , a uma distancia considerável toda a vida animal parecia ter-se completamente desvanecido. Já não se viam esquilos , nem aves , nem sequer o menor inseto; bom caçador , ele próprio estava familiarizado com a abundante fauna de Louisiana . Por fim , ao interrogar as pessoas da região que tinham igualmente avistado a luz , descobriu com espanto que , nessa noite , houvera importantes perdas de vacas. Detectou depois áreas do solo queimadas . Relatou o fato à Força Aérea americana e a Comissão Condon, da Univerisade do Colorado.” ( Jacques Vallée. Passport to Magonia. p. 45 , 338)

Esta espantosa descrição, verídica, devidamente controlada , foi retomada pelo News F.S.R. Cataloge. Mais precisamente , a sua referencia é: Flying Saucer Review, vol. XVII , nº 1, Janeiro- Fevereiro de 1971, p. 29. O seu autor, que , como bom inglês , ama os animais, fica de tal modo impressionado pelo comportamento frequentemente tão desesperado , tão aberrante, por vezes , dos pobres bichos frente a um OVNI que, na introdução do seu catálogo , deu parte aos seus leitores dasreflexões que estas reações dos animais lhe sugeriam. Eis aqui algumas , com a sua gentil autorização, que agradecemos vivamente:

Os Comentários de um Perito

Por Gordon W. Creighton , MA. FRAS, FBIS.

“(. . .) Mas a imagem do fenomeno respeitante aos “efeitos dos OVNIs sobre mamiferos e as aves” não será completa, ou perto de o ser, enquanto não se encetar um estudo sério dos registros “psíquicos” e parapsicológicos disponiveis, das desaparições dos animais e dos seus comportamentos estranhos ( . . . )

Os resultados de tal inquérito , no dominio parapsicológico , poderiam ser de extrema importancia para um pesquisador que se interesse pelos OVNIs. Porque fornercer-nos-iam uma resposta clara à questão de saber se o “fenomeno OVNI” é — para empregar a expressão de John Keel — de caracter circundante, quer dizer, algo que está sempre presente , que existe há tanto tempo quanto nós — ou talvez até há mais tempo — , ou se “o fenomeno OVNI” é , pelo contrário , relativamente novo , devido a qualquer fator ou agente que fez a sua aparição recentemente no nosso ambiente.

Confesso que tenho sido muitas vezes rentado a optar pela tese do “ambiente permanente”. Contudo , no decurso da compilação deste catálogo , fiquei muito impressionado pelo terror total, absoluto , chocante, manifestado por inúmeros animais em presença de OVNIs. Se o “fenomeno OVNI” fosse devido a qualquer fator de ambiente aqui presente há muito, sobre a Terra , na atmosfera terrestre, ter-se-ia podido pensar que os animais teriam , decerto , no curso dos tempos , desenvolvido uma espécie de costume , ou de tolerancia, perante tal fator de ambiente . Algumas pessoas supõem que o que o que os perturba tanto é principalmente alguma emissão VHF de altíssima frequencia . Que um fator VHF esteja aí muitas vezes implicado posso acreditar , mas parece-me que esteja longe de representar todo o conjunto de mal-estar e de terror manifestado pelos animais.

Este terror é talvez algo de muito mais fundamental , elementar , emanado talvez dum conhecimento instintivo dos nossos animais , referindo-se o “fenomeno OVNI” — ou um dos seus elementos — a uma força ou a um agente que é absolutamente estranho e hostil às criaturas de nosso mundo; uma força ou um agente cuja vinda só pode significar para elas desmembramento , destruição e aniquilamento.

Este medo irreprimivel , manifestado pelos animais , pode pois, construir a nossa prova segundo a qual o “fenomeno OVNI” não é ambiencial, mas verdadeiramente “algo proveniente do exterior do nosso planeta” , isto é , do exterior do nosso quadro particular espaço-tempo: em todo caso , alguma coisa que é fundalmente , e implacavelmente , hostil, repelente, nefasto, do ponto de vista de toda a vida saída do nosso planeta. E algo que é inteiramente novo na experiencia do Homem e do Animal. .

Resta ainda a possibilidade de que apenas uma parte do “fenomeno OVNI” caia na categoria do hostil , do intrinsicamente mau ( quer dizer dos “Demonios”) , e de que o resto se ligue a algum agente ou a agentes que, pelo melhor, são ativamente benéficos ( quer dizer , os “Anjos”) , ou que , pelo pior, simplesmente neutros e objetivos em relação ao Homem terrestre e seus companheiros de criação . Se tais agentes benéficos , ou simplesmente neutros , existem ( e todas as religiões no-lo afirmam, do mesmo modo que nos falam dos “Outros”) , há , pois , para nós a necessidade premente de descobrir , desde que possível , a verdadeiranatureza e a verdadeira origem de tais agentes e, acima de tudo , de descobrir um padrão de medida graças ao qual pudéssemos discernir instantaneamente com que agente aventual , ou facção, seríamos confromtados em cada um dos casos. Diga-se de passagem que a nossa simples sobrevivencia e a de outras formas de vida que conosco partilham este planeta podem depender do grau de sucesso com que agarramos este aspecto particular do Grande Enigma.

Os nossos criticos e adversários continuarão naturalmente a afirmar que apenas os gosadores e os psicóticos vêem OVNIs — ou pensam que eles existem. Eis porque, quando chegamos à realidade dos fatos e ao problema dos animais que reagem aos OVNIs, esses mesmos críticos acham necessário fazer a sua aproximação com uma circunspecção extrema. Porque não se suponha que “os nossos amigos de pele e plumagem” sejam também “psicóticos” . Será esta a razão por que o “Relatório Condon” se manteve afastado duma questão tão espinhosa? como a do efeito dos OVNIs sobre os animais? Nem uma palavra acerca disso no Relatório , nem nos escritos do doutor Donald Menzel , de Philip J. Klass e dos outros. Ë de crer que não ocorreu nenhum dos cento e cinquenta casos que assinalo . . . )”

“A última diligência da razão é reconhecer que há uma intimidade de coisas que a ultrapassam.” Pascal

Os testemunhos concernentes às reações animais são por sí só surpreendentes. As deduções que delas extrai um especialista como Gordon Creighton não são o menos ; a sua hipótese de trabalho deveria provocar reflexão , e o seu auto de carência que visa o “Relatório Condon” deveria fazer refletir mais ainda os cientistas .

Extraido do livro Os Estranhos Casos dos OVNIs de Henry Durrant – Livraria Bertrand

Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/fenomeno-ufo-e-a-percepcao-dos-animais/

A Religião dos Índios Brasileiros

Não é fácil definir o sistema religioso dos indígenas do Brasil, primeiro porque se trata de vários povos, com culturas diversas, segundo porque, devido à grande movimentação destes povos pelo vasto território brasileiro, os seus costumes e, portanto, também a sua religião sofreram contínuas e profundas modificações através do tempo.

Os antropólogos admitem em geral que se trata de povos de origem mongólica (mongóis siberianos), que teriam atravessado do estreito de Behring, povoando o continente americano desde o Canadá até a Terra do Fogo. É possível que algumas levas de semitas, talvez de fenícios, tenham navegado até o México, e mesmo que povos da Melanésia tenham abordado a costa do Pacífico, penetrando no interior da América do Sul. Mas trata-se de hipóteses sem fundamento consistente, e, em todo o caso, não foram tão importantes que alterassem de modo sensível a etnia mongólica de nossos indígenas.

As aparentes diferenças de cor da pele e de estatura corporal podem muito bem ser explicadas pelo ambiente em que os nossos indígenas viveram e ao regime alimentar que adotaram. Assim, os indígenas protegidos pela densa floresta conservaram-se mais claros do que os dos cerrados, mais expostos ao sol, e os que se alimentaram de caça se desenvolveram fisicamente mais do que os que só tinham peixe por dieta.

Os etnólogos admitem também quatro grandes áreas culturais: a Andina, que se desenvolveu a partir do Paraná, com intensa agricultura, produzindo a urbanização, a arquitetura, a indústria de tecidos e cerâmica, cujo expoente máximo é o Império dos Incas; a do Círculo das Caraíbas (Antilhas, Colômbia, Venezuela), de agricultura menos intensa e de organização social menos refinada, mas com uma cerâmica expressiva; a da Grande Floresta, com agricultura de subsistência, caça e pesca; a dos Cerrados, a mais pobre culturalmente, caracterizada pela coleta de frutos, raízes, pequenos animais. A arqueologia, por sua vez, admite que os primitivos habitantes da América do Sul se tenham concentrado, primeiramente, em certas áreas verdes das cabeceiras dos grandes rios, e só aos poucos povoaram o resto do continente sul-americano, à medida em que a floresta progredia pelas savanas e pelas margens fluviais. Este fato esclarece até certo ponto que os indígenas da América do Sul, em particular do Brasil, tenham formado desde tempos remotos grandes grupos lingüísticos distintos, pois os primitivos habitantes destas regiões tiveram de viver milênios segregados em suas ilhas verdes, criando costumes próprios. Esclarece igualmente o fato de nos últimos milênios se terem dado a uma grande movimentação pelo território brasileiro, a ponto de o grupo Tupi-Guarani, originário do território da atual Rondônia brasileira, se ter espalhado por todo o território brasileiro atual, desde o Estado do Rio Grande do Sul até o atual Amapá.

Acresce que o estudo da religião de nossos indígenas foi bastante descurado pelos sábios e mesmo frontalmente mal interpretado. Os antigos missionários católicos, no afã de reduzir os indígenas à fé cristã, interpretavam apressadamente as suas figuras míticas nos padrões da teologia católica, identificando, por exemplo, Tupã com Javé e Anhangá com o demônio. De sua parte, os antropólogos modernos, interpretam freqüentemente as crenças dos nossos indígenas dentro de padrões socioeconômicos atuais, que tira todo o sentido original da religião de nossos aborígines.

Os Sistemas Religiosos Indígenas

Desta forma, é muito difícil definir, como foi dito, o sistema religioso de nossos indígenas, e só muito por alto podemos enquadrá-lo nas formas estereotipadas de animismo, totemismo, xamanismo.  Preferimos, por isso, descrever os elementos religiosos que mais chamam a atenção dos estudiosos, sem lhes dar uma interpretação definitiva. No entanto, não podemos deixar de ressaltar os elementos xamãnicos, como a crença em um Ser Superior, de caráter celeste, em espíritos também celestes, que intervêm na vida dos homens e nas atividades do pajé, lembrando de perto as atividades do xamã siberiano (transes extáticos, invocação e domínio dos espíritos).

Os ritos são de tipo socioeconômico (ritos de caça, de pesca, de guerra), notando-se a ausência de um culto especifico a alguma figura divina, a não ser entre os Aruaque e Caraíba, talvez por influência de povos vizinhos, como os Chibcha, de cultura superior.

Resumindo, podemos dizer que os grupos indígenas, que povoaram o Brasil antes do advento dos portugueses, não chegaram a um conceito claro da divindade, menos ainda a cultuar publicamente um deus único, mas certamente tenderam a um monoteísmo implícito na figura de um Ser Superior.

A menor ou maior manifestação deste monoteísmo primitivo está condicionada ao sistema de vida que os diversos grupos tiveram de adotar conforme o ambiente em que viveram: a de simples colhedores, em plena floresta tropical; a de caçadores, nos cerrados; e a de incipiente agricultura nas regiões mais férteis.

A vida errante, a que foram compelidos pelas condições adversas do clima e pelas continuas lutas entre os grupos, impediram a elaboração mais refinada de suas crenças e o desenvolvimento de um culto específico.

 

Grupo Tupi-Guarani

Segundo uma lenda muito antiga, Tupi e Guarani eram dois irmãos que, viajando sobre o mar, chegaram ao Brasil e com seus filhos povoaram o nosso território; mas um papagaio falador fez nascer a discórdia entre as mulheres dos dois irmãos, donde surgiram a desavença e a separação, ficando Tupi na terra, enquanto Guarani e sua família emigraram para a região do Prata.

No entanto, a pesquisa científica afirma que o grupo Tupi-Guarani é originário da região hoje chamada de Rondônia, donde o ramo Guarani emigrou para o sul, penetrando no Paraguai, enquanto o ramo Tupi penetrava no Brasil, estendendo-se por todo o seu litoral, desde o Rio Grande do Sul até o atual território do Amapá.

Esta notável movimentação dos Tupi-Guarani prende-se à busca de uma espécie de Paraíso, onde os homens poderiam refugiar-se quando chegasse o fim do mundo, e que estaria colocado na direção leste, além do grande mar (Atlântico). Por isso, cada vez que a situação se tornava calamitosa, os Tupi, sob o comando de um pajé ou de um profeta, empreendiam a longa caminhada em busca da “terra-sem-mal”. O Mito, recolhido entre os Apapocuva, guaranis originários do Mato Grosso mas estabelecidos no Estado de São Paulo, diz o seguinte: Nyanderuvusu, “nosso pai grande”, ser principal da mitologia apapocuva, criou o mundo e a primeira mulher, Nyandesy, “nossa mãe”, que concebeu dois gêmeos, mas foi devorada por uma onça, que respeitou as duas crianças, Nanderykey e Tyvyry, identificados com o sol e a lua. Nyandesy sobrevive na “terra-sem-mal”, onde os homens vivem eternamente felizes. Pode-se pensar em uma influência da escatologia cristã, mas o mito motivou já antes da vinda dos portugueses as grandes emigrações do grupo Tupi-Guarani.

Como se vê neste mito, a concepção de um Ser Supremo não é muito clara, mas muitos outros mitos falam de um formador do mundo (da terra, do sol, da lua, dos homens, dos animais…) e fundador dos costumes humanos, de modo que não se pode duvidar da crença geral em um monoteísmo implícito. Muitas vezes o Ser Supremo dá existência, diretamente ou por meio de uma “Grande Mãe”, a dois gêmeos, que assumem as funções de “heróis civili- zadores”, identificados, como vimos acima, com o sol, a lua. Aliás, o solarização (fenômeno da identificação do Ser Supremo com o sol) é uma constante em toda a mitologia dos indígenas brasileiros.

Entre os Mundurucu, tupis do Tapajós, Caro Sacaibu é um deus criador onisciente e herói civilizador, pois ensinou aos homens a caça e a agricultura. Maltratado pelos mundurucu retirou-se ao mais alto do céu, onde se confunde com a cerração. No fim do mundo, queimará os homens no fogo. Mas é benévolo e atende as preces dos que a ele recorrem (antes da caça, da pesca, nas doenças). Castiga os maus e acolhe benignamente os bons.
Entre os Tupinambás (Estado da Bahia), Monan é um Ser Superior que criou o céu, a terra, os pássaros, os animais. Mas os homens mostraram-se maus e, por isso, Monan enviou Tatá (Tatá-manha = Mãe-Fogo) que consumiu tudo. Só se salvou Irin-Magé, que Monan tinha levado ao céu, e que se tornou o “herói civilizador” da nova geração de homens, com o nome de Maire-Monan, do qual descende Sumé, o grande pajé, que gerou os dois gêmeos Tamendonaré (Tamandaré) e Aricute, que se odiavam de morte, donde a constante rivalidade entre as duas tribos que deles descendem, Tupinambá e Tomimi.

Segundo Couto de Magaiháes (O Selvagem, 1874), os Tupi faziam descender de um Ser Superior antigo as três grandes divindades: Guaraci, o sol; Jaci, a lua; e Ruda, o amor. Guaraci criou os homens e dominava sobre as seguintes entidades sobrenaturais: Guairapuru,protetor dos pássaros; Anhangá protetor da caça dos campos; Caapora, protetor da caça da floresta. Jaci criou os vegetais e dominava sobre as seguintes entidades sobrenaturais: Saci Cererê, espírito zombeteiro; Mboitatá, a serpente de fogo; Urutau, pássaro de mau agouro; Curupira, guardião da floresta. De Ruda, guerreiro que reside nas nuvens, dependem Cairê, a lua cheia, e Catiti, a lua nova.

Infelizmente, os sábios deram em geral mais atenção aos costumes dramáticos dos indígenas do que aos seus ritos secretos, do que resulta conhecermos muito bem os costumes canibalescos dos Tupi, mas muito pouco as suas verdadeiras crenças religiosas.

No entanto, uma coisa é certa: Os Tupi-Guarani possuíam na figura do pajé um elemento religioso de primeira plana, como o xamã dos mongóis siberianos. Estruturalmente, o fenômeno é o mesmo: assim como o xamã siberiano, o pajé é ao mesmo tempo médico, sacerdote, psiquiatra, pois ele cura, dirige as preces, aconselha, empregando não só ervas medicinais como também o transe extático, no qual entra em contato com os espíritos em benefício de seus clientes. Notemos que o pajé não se deixa possuir dos espíritos, como no Candomblé africano, mas, como no xamanismo siberiano, apossa-se dos espíritos e às vezes sai em busca da alma do enfermo, que o abandonara, causando-lhe o estado doentio, para fazê-la retornar ao corpo e restituir-lhe a saúde.

Certamente, podemos encontrar entre os pajés a esperteza dos charlatães e a maldade dos feiticeiros, mas estes elementos são antes deturpações do verdadeiro significado da pajelança, pois esta tem por intento precípuo ajudar o indígena em suas aflições.
Outro elemento típico do xamanismo é a crença na “alma” humana, como entidade espiritual, a qual não se extingue com a morte corporal, mas, transformando-se em “anguera”, empreende uma longa viagem em busca da “terra-sem-mal”.

Afora os ritos de dança, que serviam para comemorar todos os acontecimentos sociais, como o casamento, a guerra, a morte, o que mais impressionou os antigos autores foi o “canibalismo ritual” dos Tupi-Guarani. Referimo-lo aqui para esclarecer que não se trata de um fenômeno religioso, como acontece entre os Astecas, mas de um rito puramente social, muitas vezes ligado ao rito da iniciação dos jovens guerreiros, os quais, sacrificando um prisioneiro, mostravam a sua maturidade tribal.

Aliás, alguém já sustentou que o canibalismo é um fenômeno socioeconômico, pois aparece sempre onde falta a caça abundante para suprir o grupo de proteínas. De fato, nas Américas o fenômeno está mais ou menos restrito aos Astecas, que não dispunham de grande caça, e aos Tupis, que se estendiam pelo litoral brasileiro.

Grupo Gé (Tapuias)

Outro grande grupo de indígenas do Brasil é o chamado grupo Gê, constituído pelos indígenas que habitavam o planalto brasileiro, desde o Estado de São Paulo até o Pará.  Culturalmente, era o mais atrasado, pois vivia da coleta de frutos, da pesca, da caça e só esporadicamente, por influência dos Tupi, praticavam uma agricultura de subsistência. Em conseqüência, os seus utensílios caseiros eram os mais primitivos e pobres.

O nome Gê quer dizer: chefe – pai – ascendente, enquanto o nome Oran, que também é dado a este grupo, significa: filho – descendente. Os Tupi chamavam-no de Tapuia, que quer dizer: inimigo.

Quanto à religião, podemos encontrar a idéia generalizada de um Ser Supremo, muitas vezes com características de herói civilizador, e não raro identificado com o sol.  Assim, os antigos Aimorés, estabelecidos no Estado do Espírito Santo, acreditavam no “pai de cabeça branca” (Yekankreen Yrung), que habitava no céu. Nunca fora visto, a não ser por alguns homens da era primitiva. Era benévolo e invocado pelo pajé em casos de doença e caristia com cantos e preces, intervindo nas coisas humanas por meio dos “maret” (espíritos), de que se achava cercado. Punia os maus, mandava a chuva, matava os inimigos com flechas, produzia as fases da lua etc.

Os Apinagé, do rio Tocantins, cultuavam o sol, que era objeto de preces e de danças nas ocasiões do plantio e da colheita. Era o autor da organização dual da tribo. Era representado pela forma circular com que a aldeia era construída, pela cor vermelha com que os guerreiros se pintavam. Ao lado do sol, estava a lua, e ambos criaram os antepassados dos Apinagé, mas em grupos separados, e por isso ao norte da vida ficavam os homens do sol e no sul os homens da lua. Também entre os Xavantes se encontra o culto do sol, que é chamado “nosso criador”. O mesmo entre os Canela e os Xerente.

São numerosos os mitos sobre o sol, a lua e o dilúvio, bem como a atividade dos irmãos gêmeos.

É geral, igualmente, a crença nas almas dos homens, dos animais, das plantas etc. As almas dos homens não sobem ao céu, depois da morte, mas vivem na terra, nos lugares em que os corpos foram enterrados, transformando-se em outros seres ou em fantasmas.

Os ritos são mais simples do que entre os Tupi, mas não faltam os ritos de passagem e os funerários.  Os pajés têm funções semelhantes como entre os Tupi, curando doenças com ervas, mas também com transes extáticos, nos quais vão em busca da alma que abandonou o enfermo.

Grupo Aruaque

 

Ao norte do Brasil, encontramos o grupo Aruaque (arwak), oriundo da Venezuela e das Guianas. Essencialmente agrícolas, atribui à lua, astro por excelência das culturas agrícolas, característica de força cósmica, impessoal, existindo antes de todas as coisas e manifestando-se por uma série de emanações. Na origem, porém, está o ar, que assopra nas nuvens provocando a chuva e fecundando a terra. Reina sobre os homens, punindo-os com os elementos desencadeados. Não é invocando pessoalmente, mas por meio dos seres intermediários: vento, fogo, terremoto, trovão… Assume vários nomes e mesmo funções diversas, segundo os vários povos do grupo aruaque. Nas margens do rio Negro, tem o nome de Poré; entre os Maipuri, chama-se Puramínari; entre os Waica, do curso superior do Orinoco, chama-se Omana etc. Entre os Pareci do Mato Grosso, tem o nome de Enoré e entre os Nambiquara, é o Trovão.

São numerosos os mitos que se referem aos elementos agrícolas, como o aparecimento da mandioca.

Mas o mito característico deste grupo é o do Jurupari (aruaque do rio Negro). Jurupari (nascido junto ao rio) foi concebido por uma mulher assexuada depois que ela tomou caxiri (licor de mandioca), e nasceu quando a mulher foi mordida por um peixe enquanto se banhava. Cresceu rapidamente e, adulto, convida todos a beber caxiri, mas como as mulheres não o quisessem preparar, amaldiçoou-as. E como os seus filhos tivessem comido do fruto da árvore uacu, que lhe era consagrada, devorou-os todos. Irritados, os homens aprisionaram-no e atearam-lhe fogo, mas das cinzas nasceu a palmeira paxiuba, de cujos ramos (seus ossos) os homens fizeram flautas, que não podem ser vistas pelas mulheres, sob pena de morte. Este mito tem importância capital nos ritos de iniciação e representa o domínio dos homens sobre as mulheres.

 

Grupo Caraíba

Os Caraíba estão estabelecidos no Estado do Pará à margem esquerda do Amazonas, com alguns grupos disseminados ao longo do rio Madeira (Arara) e outros nas cabeceiras dos rios Tapajós e Xingu (Nahuque e Bacairi).

Inserido no território dos Gê, existia ainda o grupo Pimenteira. O núcleo originário, porém, está nas Guianas e na Venezuela.  Adversários implacáveis dos Aruaque, os Caraíba adotaram, porém, muitos de seus costumes, inclusive a religião.

A idéia de um Ser Supremo é muito difusa entre os diversos povos deste grupo, com tendência ao henoteísmo, ou seja, ao culto de uma divindade determinada com sentido de único deus, sem descartar-se das outras divindades.

Entre os Arikens, do Pará, o Ser Supremo é Purá, identificado com o sol, enquanto o seu companheiro, Murá, se identifica com a lua. Ambos moram na montanha do céu, donde observam todas as coisas: não morrem, não envelhecem, não têm pais nem parentes. Purá criou os homens, esculpindo-os em madeira. Fê-los imortais, mas como não quiseram seguir suas ordens, foram consumidos por um incêndio, do qual só poucos escaparam. Sobre estes, Purá mandará no fim do mundo um incêndio total.

Para os Caraíba do Suriname (Guiana Holandesa), a divindade central é Amana, deusa-mãe, virgem, com cauda de serpente. É o símbolo do tempo e a raiz de todas as coisas: não nasceu, nem morre, porque se renova constantemente. Gerou dois gêmeos: um na aurora, Tamusi, e outro no crepúsculo, Yolokan-tamulu. Tamusi criou todas as coisas boas, é o antepassado dos Calma, mora na luz fria da lua, é o senhor do Paraíso, ao qual vão os bons, que, porém, não o poderão contemplar por causa de seu esplendor. Tamusi combate todas as forças negativas. Yolokan-tamulu (yolokan = natureza; tamulo = avô) é o senhor dos espíritos da natureza, criou a escuridão e o mal, mora no deserto do céu, em uma ilha chamada “país-sem-manhã”: não é propriamente o opositor do bem, mas a face destruidora da natureza.

Os Caraíba do rio Barama, ao norte das Guianas, crêem em um “deus ocioso”, cujo nome é ignorado. É o criador do universo, teve trato com os homens, mas depois afastou-se deles. Seu auxiliar, Komakoto, intervém no universo e nas coisas humanas.

Os Caraíba das nascentes do Xingu crêem no “senhor dos animais”, Kagatopuri, que é a mais sutil das almas humanas, a qual, separando-se do corpo pela morte, tornou-se um espírito (kadopa) e, depois de longa peregrinação, chegou à vila do herói civilizador Nakoeri, transformando-se então em “iamura” (verdadeiro senhor dos animais).

Os ritos agrícolas são numerosos: danças com sentido orgiástico, oferta de bebidas inebriantes (caxiri) etc. Há também ritos de caça, com danças de máscaras, que representam os espíritos dos animais.

Mas a figura central é o pajé, cuja função exige treinamento ascético, técnicas de êxtase, contato com o mundo celeste, conhecimento das ervas medicinais etc. Até o vôo extático, que é próprio do xamanismo siberiano, encontra-se na pajelança dos Caraíba.  Os mitos são também numerosos, principalmente com referência aos irmãos gêmeos, Keri e Kame, nomes de origem aruaque, significando sol e lua. São heróis civilizadores.

Mas o mito mais notável é o de Macunaíma, deus criador dos Macuxi, Arecuna, Acavais, da Venezuela. Macunaíma quer dizer, literalmente, “aquele que trabalha bem à noite”. Para vingar a mãe, morta por uma onça, mete-se em muitas aventuras, transformando-se em herói astuto e desinibido.

Afora estes quatro grandes grupos lingüísticos, há outros grupos menores, como os Borôro do Mato Grosso e os Caigangues do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, os quais, porém, afinam mais ou menos pelas mesmas idéias religiosas e pelos mesmos ritos.

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/paganismo/a-religiao-dos-indios-brasileiros/

Arrebatamento e a Experiência Religiosa

“Você realmente acredita que um dia você vai ser julgado?”

Relato do meu colega Rodrigo Ferreira.

Há uns poucos meses atrás assisti a um vídeo que consistia num trecho de um sermão de um pastor de uma igreja batista dos Estados Unidos. O vídeo era muito bem editado, com efeitos visuais de qualidade e tudo o mais, e o sermão do pastor muito bem executado. A entonação da voz, os recursos visuais, tudo colaborando para alcançar certas reações no expectador. Eu não sei bem o que eu estava fazendo assistindo aquele vídeo, mas quando eu ligo o computador e acesso a internet normalmente é assim que funciona: eu começo com uma página e vou navegando… Em algum ponto eu já estou com mais de 20 páginas abertas sem fazer a menor ideia do que eu estava querendo em primeiro lugar.

Antes de continuar meu relato preciso esclarecer: não sou cristão, não sou sequer religioso e só não sou ateu porque acho um pouco demais afirmar que Deus não existe considerando o pouco que sei sobre o que há lá fora. Então não esperava que minha reação ao vídeo fosse nada além do usual “Ai, quanta bobagem… Isso não faz o menor sentido.”

Comecei, então, a assistir ao vídeo muito cético e qual não foi a minha surpresa quando, mais ou menos no meio do vídeo, comecei a me debulhar em lágrimas. Eu chorava feito uma criança, soluçante, as lágrimas descendo pelo meu rosto copiosamente e cada nova frase do pastor me fazia chorar mais.

Por alguma razão parecia que aquele choro estava entalado em mim há muito tempo e devia ter muita coisa contida porque eu não conseguia parar de chorar. Mesmo depois do término do vídeo eu continuei chorando. Se você perguntar por que eu chorava, eu simplesmente não sei responder, mas sentia como se algo muito maior do que eu tivesse me acertado em cheio e feito transbordar em mim um sentimento de pequenez para o qual a minha única reação era me encolher e chorar. Eu pensava nas mazelas do mundo e chorava; eu pensava na vida e chorava; eu pensava em mim mesmo e nas pessoas que eu amo e chorava. Era um choro de felicidade, misturado com um choro de deslumbramento… Era um choro de arrebatamento. Eu me sentia, de fato, arrebatado. Tomado por algo muito maior do eu e posto frente a frente com a minha insignificância.

Provavelmente, se eu estivesse em uma igreja ouvindo o sermão, ao invés de estar em casa sentado na frente do meu computador, eu seria recolhido para o grupo dos “tocados pelo Espírito Santo”. Mas ao invés de ir procurar um líder religioso de qualquer natureza, fui ao encontro de um grande amigo meu que acredita em Deus, mas que tem um senso crítico muito apurado, uma clareza mental que eu admiro muito e que me conhece muito bem. Eu pensei “Se tem alguém que pode me ajudar a colocar a cabeça no lugar, é ele”. Fui andando pela rua em direção a casa dele ainda chorando. Eu já nem me lembrava do vídeo exatamente, mas as portas estavam abertas, minhas guardas foram suspensas e eu estava completamente vulnerável. Chorando sem parar no meio da rua, no melhor estilo novela mexicana eu seguia andando em direção a casa do meu amigo com um questionamento na cabeça “Será que eu sou Cristão sem saber?”.

Agora eu faço uma pausa no meu relato pra me explicar: não quero parecer nem extremamente idiota e nem extremamente cético. Não gosto de extremos, acho sempre que o bom caminho é o do meio. Pois bem, quando eu disse que não sou religioso, isso não quer dizer que religiões não me interessam. Pelo contrário, me interessam e muito. Todas as questões existenciais profundas que as religiões procuram responder são questões que também ocupam bastante a minha cabeça, só que eu nunca encontrei até hoje uma religião que as responda de uma forma suficientemente satisfatória para mim. Algumas respostas até me satisfizeram durante certo tempo, mas não demorou muito para que elas se juntassem ao monte de verdades não tão verdadeiras assim. O fato é que eu nunca cheguei a sentir que eu estava certo de nada. Talvez a busca por certezas seja a busca errada, mas isso é papo pra outra reflexão… Enfim, o que quero dizer é que eu não sou tão cético assim a ponto de achar que não existe nada metafísico por aí, mas também não sou tão idiota a ponto de acreditar em qualquer fantasma de lençol.

Alguma coisa naquele vídeo me acertou em cheio por alguma razão e o meu amigo me ajudou a vislumbrar o que poderia ser. Quando cheguei à casa dele, sentei-me ao sofá e contei o que havia acontecido. Eu falava ainda chorando, na expectativa de que depois de me ouvir ele me dissesse algo que fizesse sentido, porque o que eu tinha vivenciado até então não fazia muito.

— Você tem consciência de que este tipo de material é feito exatamente com o objetivo de provocar esta reação nas pessoas? — ele disse.

Eu parei de chorar e pensei por uns instantes.

— Não sei… Acho que não. Quero dizer, eu achei que tinha assim que comecei a assistir ao vídeo, mas aí eu comecei a chorar e esqueci-me disso.

— Pois é, mas você sabe que conhecer o processo não te torna imune a ele, não é mesmo?

— É, eu acho que acionando os gatilhos certos, mesmo que nós conheçamos os gatilhos não dá pra evitar a reação. — minha cabeça começava a voltar para o lugar certo.

— Exatamente. Olha, se você me disser que essa sua reação ao vídeo realmente fez você sentir algo pelo que você estaria disposto a mudar a sua vida, a forma como eu vou tratar isso vai ser outra completamente diferente, mas eu duvido que este seja o caso…

— É, acho que concordo com você, mas… Mas você viu o vídeo? Você não sentiu nada?! Quer dizer, eu já vi vídeos assim e eu nunca reagi desta forma.

— É, mas você nunca havia visto vídeos deste tipo em inglês, né?

— É, acho que não. Você quer dizer que pelo fato do vídeo ser em inglês ele pode ter me acessado de uma forma diferente que as mesmas coisas ditas em português?

— Também. O fato é que o vídeo é criado exatamente com este intuito. Essas pessoas são treinadas para colocar outras pessoas exatamente neste estado em que você se encontra. Elas não fazem isso por acaso, elas sabem o que estão fazendo e fazem muito bem.

— Entendi.

— Assista ao vídeo de novo e me diga o que você sente, ok?

— Tá.

Um pouco hesitante, assisti novamente ao vídeo. Confesso que ainda senti alguma coisa, mas não com a mesma intensidade que antes. Não senti vontade de chorar. Minha cabeça já estava enxergando as coisas através de outro prisma.

— Você percebeu sobre o que é o vídeo? — meu amigo acrescentou assim que terminei de assistir.

— É… Não sei. Várias coisas, né?

— Não, este vídeo é sobre Julgamento Final. Agora, a pergunta interessante é: você realmente acredita que um dia você vai ser julgado?

Fiquei em silêncio refletindo durante algum tempo.

— Sei lá, parece que sim…

Fiquei mais um pouco lá na casa dele vendo uns vídeos besteirol no Youtube pra me distrair e voltei pra casa com a questão na cabeça. Será que eu realmente acredito que um dia serei julgado?

Aqui cabe uma diferenciação entre crença ostensiva e crença oculta, uma teorização minha, muito incipiente e baseada unicamente nas minhas próprias reflexões. Se alguém já escreveu sobre isso, eu ainda não li o suficiente pra saber.

Vou pegar emprestada a definição de “crença” do Houaiss:

Crença: sub. fem. ato ou efeito de crer. 1) estado, processo mental ou atitude de quem acredita em pessoa ou coisa. 2) fé, em termos religiosos. 3) convicção profunda. 4) opinião manifesta com fé e grande segurança.

A crença exite na esfera mental e se manifesta no domínio físico observável através das atitudes das pessoas. Sabemos que muitos dizem acreditar em certas coisas, mas não agem de acordo, então também é possível que alguém diga não acreditar em algo, mas aja como se acreditasse. Presumindo que são as crenças pessoais íntimas que norteiam as atitudes de uma pessoa, alguém que ostente uma crença, mas tenha atitudes em desacordo com esta, tem também uma crença oculta, ou seja, não ostensiva, que é mais verdadeira do que que a crença ostentada, já que é essa crença oculta que norteia as atitudes daquela pessoa. Essa crença oculta pode ser oculta somente para os outros, mas muito clara para a pessoa, que esconde conscientemente sua crença, seja lá por quais motivos. No entanto, esta mesma crença pode estar ocultada até mesmo do próprio crente, que não faz a menor ideia de que crê no que crê, até que algo aconteça e ele tome uma atitude automática que seja concordante com a crença oculta e esta se torne de algum modo evidente. Naturalmente, uma crença ostensiva pode estar de acordo com as atitudes, isto é o que se espera. Neste caso temos uma crença consistente por se manter coerente em face as atitudes daquele que a sustenta. No caso de crença e atitude discordantes, temos, analogamente, uma crença inconsistente.

Devemos entender essas relações entre crenças e atitudes como algo fluido e em perpétuo movimento. As crenças de uma pessoa mudam no decorrer da vida e as atitudes de alguém também são afetadas por outros fatores que não unicamente as crenças do ator. Minha análise equivale a análise de uma fotografia, que é uma paralização no fluxo usual do tempo. Do mesmo modo que analisar uma fotografia não implica na compreensão do tempo, minha análise não tem a pretensão de ser capaz de avaliar a complexidade do sistema de crenças humanas, mas me serve na compreensão deste caso pessoal em particular.

O que ocorreu comigo foi que eu me deparei com uma de minhas crenças ocultas. Assim como a pessoa que se diz supersticiosa e se desespera ao ver um chinelo virado, eu me professo não religioso, não cristão, mas acredito sim, em algum grau, que pode ser muito mais relevante do que eu imagino, que um dia serei julgado por Deus, ou por algo muito maior do que eu, que sabe tudo o que faço e o que penso o tempo todo.

A principal questão que surge a partir desta constatação é: que controle eu tenho sobre o que eu mesmo acredito?

Sinceramente, eu não sei. E acho que esta é uma daquelas perguntas que serão sempre perguntas. Algumas coisas simplesmente não tem resposta, ou não tem apenas uma resposta. Talvez a busca por certezas seja mesmo uma busca errada, mas, como eu já disse, isso é papo para outro reflexão.

Rodrigo Ferreira é programador visual e estudante de psicologia.

#Religião

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/arrebatamento-e-a-experi%C3%AAncia-religiosa

Entrevista com Varg Vikernes (Burzum)

Nota: muito deste artigo publicado na revista “Sounds Of Death nº 4” está incorreto, e Varg discute a realidade no “incidente em Estocolmo” numa recente entrevista em 1998. Tenha em mente que aquilo que você lê em uma revista nem sempre é verdade. Este artigo é muito mais ficção às vezes…

Numa noite tranquila em Julho, 1992, uma família, incluíndo duas crianças pequenas, dorme em sua casa suburbana em Upplands Vasby, norte de Estocolmo. Enquanto isso, fora da casa, Maria – uma jovem de 18 anos, membro do Black Circle, uma organização de cultuadores do demônio – espalha silenciosamente acetona na porta de entrada e janelas da casa e calmamente põe fogo na estrutura. Antes de fugir do local, Maria prende uma faca na porta principal, junto com a seguinte mensagem: “O Conde esteve aqui e vai voltar”. A família sente cheiro de fumaça pouco depois e consegue escapar por pouco da casa, apenas com suas vidas, antes das chamas queimarem tudo, fora de controle. A investigação policial do crime levou à prisão de Maria e o confisco de seu diário, onde ela revela que faz parte do culto secreto ao demônio, Black Circle. Numa referência a Conde Grishnackh da banda norueguesa de Black Metal Burzum, Maria escreveu: “Eu fiz em uma missão para nosso líder, o Conde. Eu amo o Conde. As fantasias dele são as melhores. Eu quero uma faca, uma faca bonita, afiada e cruel”.

A família vitimada era a família de Christoffer Jonsson, vocalista da banca sueca de Death Metal Therion. Quatro dias depois do incêndio, uma carta do Conde chegou à família. “Olá vítima! Aqui é o Conde Grishnackh do Burzum. Eu acabei de chegar de uma viagem da Suécia e acho que perdi um fósforo e um álbum autografado do Burzum, ha ha! Eu vou dar a você uma lição no medo. Nós somos mesmo mentalmente desajustados, nossos métodos são a morte e a tortura, nossas vítimas morrerão lentamente, elas devem morrer lentamente”. Pouco depois, Conde Grishnackh, nome real Varg Vikernes, é levado a interrogatório por três incêndios na Noruega e pelo incêndio em Upplands Vasby. O Conde não confessa nenhuma relação com a garota sueca Maria e declara inocência em todas as acusações. Maria é levada a um hospital para doentes mentais e solta depois de um ano de tratamento. As acusações sobre o Conde jamais são provadas.

10 de Agosto, 1993. Oystein Aarseth, conhecido também como Euronymous da banda de Black Metal Mayhem, é encontrado morto nas escadas do prédio onde morava em Oslo com várias punhaladas. Chamado de “Deus do Black Metal” e conhecido nos círculos satânicos como “O Príncipe da Morte”, Aarseth administrava uma gravadora chamada Deathlike Silence, e uma loja de discos chamada Helveye. A polícia norueguesa suspeita que o assassino primeiro apunhalou Aarseth em seu apartamento, e quando este tentava fugir pelas escadas foi pego e apunhalado novamente. Seu melhor amigo era o líder satanista norueguês Conde Grisnachk. O círculo do Conde afirma ter certeza de que os rivais satanistas suecos estão por trás do crime. Um porta-voz da polícia disse que “estes grupos realmente se odeiam e são capazes de usar quase qualquer método para punir um ao outro”. De acordo com o Conde, os suecos lêem a bíblia satânica e clamam serem satanistas, e que isto não é satanismo. Para o Conde, o verdadeiro satanismo é o praticado pelo seu grupo, que cultua a morte.

13 de Agosto, 1993. A polícia de Oslo conduz um interrogatório de oito horas com Ilsa, uma garota sueca de 16 anos que era amiga íntima tanto de Oystein Aarseth como de Conde Grishnachk. “Eu tenho certeza de que sei quem matou Oystein. O assassino era invejoso e queria tomar a posição de liderança que Oystein tinha no cenário”, disse a garota. “Eu não acredito que Oystein foi assassinado por satanistas suecos. A maioria dos suecos é muito covarde para matar alguém. Eu não vou revelar o nome do assassino. O ambiente Black Metal vai fazer sua própria vingança contra ele”. Um mês antes desta entrevista Ilsa havia estado por três semanas com Oystein Aarseth em seu apartamento em Oslo. Ela diz que Oystein falou sobre os conflitos entre os suecos e noruegueses e que ele deixou bem claro que em sua opinião esta richa havia chegado a um fim. “Aquele que eu penso ser o assassino é parte do ambiente norueguês. Muitos outros com quem eu tenho conversado também chegaram à mesma conclusão. Eu não posso dar o nome da pessoa que acredito ser o assassino porque estaria arriscando minha própria vida”. A garota prosseguiu, dizendo que Aarseth não costumava carregar armas consigo para se proteger, pois ele era fisicamente forte e se sentia capaz de se defender desarmado. “Eu não acredito que ele deixaria um estranho entrar em seu apartamento, não era seu estilo. Isso me deixa ainda mais certa sobre o nome do assassino”.

Quatro dias depois desta entrevista, Conde Grishnachk foi preso e acusado do assassinato de Aarseth. Ele está aguardando julgamento. Segue uma entrevista feita por Karl Milton Hartveit.

KM = Karl Milton Hartveit
VV = Varg Vikernes (Conde Grishnachk)

KM (Introdução) – Durante uma noite, no fim de março, eu falei com o Conde. Ele me surpreendeu, sendo uma pessoa fria e eloqüente que se expressava clara e inteligentemente. Ele respondeu às minhas questões precisamente e deixou bem claro o que ele queria responder e o que não queria. Ele demonstrou uma sabedoria convincente sobre mágica e tradições satânicas e ele formulava seus pensamentos com uma velocidade e inteligência que não se encontra facilmente em um charlatão. Eu declarei que estava trabalhando em um livro sobre satanismo e ele, sem hesitar, disse que eu poderia usar esta entrevista em meu livro. Um assunto recorrente durante a conversa foi o desejo intenso do Conde em destruir e arruinar tudo aquilo que é bom e harmônico. O fato de ele ter falado comigo em bergensk (um dialeto norueguês falado em Bergern, cidade do Conde) apenas contribuiu para aumentar ainda mais o horror trazido por sua mensagem.

VV – Bom, eu não estou tão interessado em entrevistas como no passado. As revistas distorceram minhas palavras. Eu acho essa coisa de concentrar todo o pensamento negativo em uma pessoa só é errado, não estou nesse negócio por dinheiro, fama ou fãs. Eu vejo o Burzum como um sonho sem alicerce na realidade. Foi feito para estimular a fantasia dos mortais, fazê-los sonhar. Estou cansado de ser mal interpretado pela mídia. Tudo o que escrevem sobre mim está cheio de erros, como esta merda sobre “Nidarosdomen”, a igreja que eu deveria explodir com dinamite. Quem falou isso para eles? Eu nunca ouvi falar nesta maldita igreja!

KM – Qual o objetivo de sua cruzada?

VV – Nós queremos criar o maior medo possível, caos e agonia para que esta sociedade idiota e amigável cristã possa ser destruída. Nós não estamos realmente interessados na revelação da verdade. Quando divulgamos mentira, causamos confusão; confusão leva ao caos, e finalmente à destruição que queremos. As pessoas devem ser oprimidas e nós apoiamos tudo aquilo que oprime o homem e tira dele seus sentimentos como pessoas individuais. É por esta razão que gostamos de saber que o cristianismo é poderoso… Ele oprime pessoas e todos acham que está tudo bem.

KM – Quais são seus sentimentos em relação aos praticantes da chamada “Magia Branca”?

VV – Eles são todos estúpidos e inocentes. Eles trabalham pelo bem e nós somos totalmente contra isso. Nós queremos espalhar caos e destruição.

KM – Qual sua opinião sobre Anton LeVay e seus seguidores?

VV – Anton LeVay é um idiota e as coisas que ele representa não tem nada a ver com satanismo. Ele representa o benefício próprio e egoísmo se apoiando no satanismo. Aleister Crowley também era uma farsa. Ele era tão aficionado por sexo que perdeu a verdadeira mágica.

KM – Você pode dar exemplos de como espalha caos e destruição?

VV – Através de nossa música. Ela desmantela a alma do ouvinte, e através dela espalhamos morte e devastação. Nós gostamos disso.

KM – Eu não entendo, você não gosta das músicas que você cria?

VV – Nós gostamos daquilo que ajuda a destruir o bem e pessoas estúpidas, e, portanto gostamos de nossa música.

KM – Você fala como se pertencesse a uma sociedade secreta, a uma elite no mundo. O quê é e quem faz parte desta elite?

VV – É um pequeno grupo de pessoas que cultuam o mal, você pode chamar o mal de Satã, mas este é um conceito desgastado e insípido que tem sido usado incorretamente tanto pela mídia como pela cultura cristã. Nós queremos o mal para ganhar mais poder no mundo e isso só conseguimos sendo maus. Quando simples humanos criam o mal, o poder do mal no mundo fica mais forte. Eu não vejo nada de extremista em meu ponto de vista. O que os idiotas chamam de mal, eu chamo de razão verdadeira da sobrevivência. A luta é evolução, paz é degeneração. Apenas os cegos podem negar!

KM – Você usa contatos com poderes sobrenaturais?

VV – Eu não quero falar sobre isso, mas demônios e poderes invisíveis existem e podem ser usados.

KM – Quantos de vocês existem e como estão organizados?

VV – Eu não conseguiria dizer a você quantos somos, mas existimos na maioria dos países do mundo. Apenas em países pequenos e isolados, como a Albânia, nós ainda não conseguimos nos estabelecer. Temos contato próximo entre nós e trabalhamos pelo mesmo objetivo.

KM – Vocês têm membros nas grandes cidades da Noruega?

VV – Sim, em muitas cidades.

KM – A sua organização tem um nome?

VV – Nós nos chamamos de Black Circle e somos organizados em um círculo central (Inner Circle) e vários outros círculos periféricos (Outer Circles). Aqueles que estão nos círculos periféricos são apenas usados para chegarmos aos nossos objetivos. Apenas nós pertencemos ao círculo central, que temos conhecimento completo daquilo que estamos querendo.

KM – Você diz que vocês usam pessoas e que espalham destruição, medo e ódio. Vocês não respeitam as leis e regras da sociedade?

VV – Não! Por quê deveríamos? Nós temos nossas próprias leis e não ligamos muito para as regras impostas pela sociedade.

KM – Vocês deliberadamente quebram as leis da sociedade?

VV – Não posso dizer isso, é um crime.

KM – Mas em princípio?

VV – Em princípio não temos nenhum escrúpulo em relação a quebrar as leis da sociedade. Estas leis pertencem a uma sociedade que estamos lutando para destruir.

KM – Você se vê como um rebelde?

VV – Não, nós não somos rebeldes. Nós apenas queremos destruir e espalhar o mal.

KM – Que tipos de rituais vocês praticam?

VV – Nós temos vários, mas não vou falar nada sobre eles.

KM – Os sacrifícios de sangue são parte importante destes rituais?

VV – É claro, o sangue é o poder da vida e é central aos rituais.

KM – Vocês sacrificam animais?

VV – Sim.

KM – Vocês sacrificam humanos?

VV – Isso é um crime.

KM – Mas em princípio?

VV – Em princípio não temos nenhum escrúpulo quanto ao sacrifício humano.

KM – E vocês já fizeram sacrifícios humanos?

VV – Eu não vou falar nada sobre isso.

KM – Eu não entendo. Por que você deu aquela entrevista reveladora a Bergens Tidende?

VV – Porque aquele jornalista estava me irritando e nós já tínhamos revelado parte de nossas atividades. O que eu disse naquela entrevista não era nada de novo.

KM – Mas você disse que pôs fogo em Fantoft Stavkirke e Asane Kirke.

VV – Não! Eu fui completamente mal-entendido e distorcido. Eu disse que alguém de nosso grupo sabia como os incêndios haviam começado, nada mais.

KM – Então você não teve nada a ver com estes incêndios?

VV – Eu não vou responder.

KM – Por quanto tempo você esteve envolvido no satanismo? Quando você começou a ter estes pensamentos que falou?

VV – Eu sempre os tive. Basicamente, eu sou um devoto de Odin, o deus da guerra e morte. Burzum existe exclusivamente para Odin, o inimigo de um olho do deus cristão. Desde que eu me lembro, eu odiei pessoas boas e generosas. Quando eu era um menino eu via as pessoas que estavam bem e curtindo a vida e aquilo me machucava, eu queria arruinar aquelas vidas. É isto que eu estou tentando fazer agora.

KM (Conclusão) – Grishnackh fundou o Burzum no começo de 1987, quando ele tinha apenas 14 anos, com o nome Uruk-hai. O Burzum teve então uma pausa de um ano da metade de 1990 à metade de 1991, quando o Conde, junto com Demonaz e Abbath do Immortal tocaram em uma banda chamada Satanael. Ele também tocou guitarra em uma banda de Death Metal chamada Old Funeral. Quando o Satanael acabou, Grishnachk continuou com o Uruk-hai e mudou o nome para Burzum em Agosto de 1991. “Eu sempre evitei me envolver com outros músicos no Burzum, sou muito individualista para isso. Você pode chamar de intolerância e egoísmo… Na verdade, eu tive um baixista por alguns meses em 1992, mas eu o chutei!” O Burzum lançou três álbuns por enquanto: o “debut” (“o álbum mais primitivo e cheio de ódio) em março de 1992, o EP Aske (” o álbum rock and roll “) em março de 1993 e o Det Som Engang Var (“o mais pesado e mais estranho”) em setembro de 1993. Um outro álbum, “Filosofem”, vai ser lançado mais tarde neste ano e de acordo com Grishnachk é “depressivo, transcendental e sem nenhuma dúvida o melhor de todos”.

ENTREVISTA 2

BJ = Björn Hallberg
VV = Varg Vikernes

BJ – Por favor me diga seu nome completo, idade e local onde se encontra.

VV – Meu nome completo é Varg Vikernes. Nasci no dia 11 de fevereiro de 1973, e no momento estou na prisão Trondheim.

BJ – Qual o motivo EXATO de sua condenação?

VV – Eu fui condenado por: roubo e possesão de 125kg de dinamite e 26kg de glinite (outro tipo de explosivos); incêndio premeditado de quatro templos judeus (igrejas), dos quais três queimaram até virarem cinzas; três casos de invasão de propriedades privadas (em busca de armas, alguns disseram); assassinato em primeiro grau (apesar de ter sido um assassinato em segundo grau na verdade); e… bem, acho que isso é tudo.

Eu fui acusado também de ter incendiado um quinto templo judeu (Fantoft Stavechurch); um ou dois casos de violação de túmulos; e eles também apreenderam aproximadamente 3000 balas de rifle e pistolas (mas a polícia apenas pegou essa munição, e nem ao menos mencionou-a na lista de itens confiscados). Eu fui considerado inocente no incêndio da igreja Fantoft, e o próprio promotor chegou a aconselhar o juri a não me considerar culpado destas acusações – simplesmente porque eram muito ridículas e porque não havia prova alguma de que eu tinha feito coisas como essas, como violar túmulos!

Eu mesmo disse à corte que eu era culpado do roubo e posse da dinamite/glinite, e também confessei que era culpado de “homicídio doloso” em defesa própria. Eu quis dizer que foi algo em defesa própria, mas depois entendi que na visão deles, no sistema legal deles, era chamado legalmente de “homicídio doloso”, já que eu não estava mais em uma posição onde minha vida estava DIRETAMENTE ameaçada, pois o Aarseth (o cara que eu matei) estava fugindo de seu apartamento quando eu o matei.

Não houve prova nenhuma em NENHUM dos casos de que fui acusado, a não ser na história da dinamite/glinite, é claro… Afinal eles encontraram 150kg de explosivos no meu sótão…

Em todos os outros casos eu fui considerado culpado apenas porque haviam UMA ou DUAS testemunhas em cada caso, dizendo que eu tinha feito aquilo, ou estado lá, ou coisas do tipo. Algumas provas eram tão fracas que meu novo advogado disse que estava surpreso por eu ter sido preso com base nelas. Em um caso era ÓBVIO que eu não tinha cometido o crime (o caso Åsane Kirke). Então, eu diria que fui condenado mesmo sem ninguém ter prova nenhuma contra mim!

BJ – Você diz que o fundador do Mayhem, Oystein Aarseth foi assassinado em defesa própria? Por que motivo ele queria matar você, então?

VV – Ele queria me matar por várias razões. Eu saí de sua gravadora, e fazendo isso o deixei apenas com algumas bandas que vendiam muito pouco (Abruptum, e algumas outras merdas). Eu fiz ele parecer um idiota completo em várias ocasiões, por exemplo, eu dava risada na frente dele enquanto desmascarava todas as mentiras que ele contava. Eu comecei a espalhar propaganda racista em nosso meio. Mas, o que é mais importante, eu comecei a ser mais interessante para a mídia do que ele. Por alguma razão era muito importante para ele ser “o centro” de tudo. Eu ganhava mais atenção porque de fato FAZIA as coisas que dizia, enquanto ele apenas ficava falando e falando – então depois de um tempo ninguém mais o levava a sério, pois todos viam que ele era apenas uma pessoa com muita conversa e nenhuma ação. Ele me culpava por isso, já que eu era a pessoa – ele acreditava – responsável por fazê-lo parecer um covarde (o que ele era, é claro).

Você deve se lembrar de que ele foi “o centro” do movimento por um longo tempo; ele tinha 25 anos de idade, enquanto eu tinha apenas 19 (e 20 quando o matei), e ele ficou seriamente ofendido quando as pessoas começaram a me ouvir ao invés de ouvir a ele. Ele era um comunista, e odiava o fato de que “todo mundo” estava muito mais interessado no meu nacionalismo e minha visão racista – isto é, depois de um tempo, é claro. Ele não gostou do jeito que as coisas se desenrolaram e queria acabar com isso, me matando. Primeiro ele tentou encontrar provas contra mim por vários crimes que ele “sabia” que eu tinha cometido, mas ele não conseguiu encontrar nada.

A razão pela qual eu o desrespeitava era simplesmente esta: ele era completamente incompetente e incapaz de administrar sua gravadora com eficiência. Ele era cheio de grandes palavras e nunca fazia nada daquilo que prometia. Ele tinha verdadeira obsessão por seus pensamentos “Satanistas”, enquanto eu queria espalhar o Odinismo na cena (e ele me odiava por isso também). Ele era ridículo, via filmes pornô o tempo todo, e nós até mesmo desconfiávamos que ele era bisexual ou homossexual! Eu não queria saber de nada que tinha a ver com ele, e eu nunca fiz nada de vontade própria para esconder meu ódio por ele. Ele era um porco, e eu dizia isso a “todo mundo”!

Eu estava meio puto porque tinha gastado muito tempo, fé e energia em sua gravadora, e tudo foi desperdiçado! Eu era jovem, certo, mas ainda me sentia um idiota por ter acreditado em sua gravadora no começo.

Resumindo, eu tinha muitos motivos para odiá-lo, e por causa do meu modo de lidar com este ódio (que era respeitado por “todo mundo”) ele também tinha muitos motivos para me odiar; eu disse a verdade sobre ele, e com certeza a verdade muitas vezes é desconfortável!

Eu disse – e ainda digo – que eu o matei em defesa própria simplesmente porque foi ele quem me atacou, e não o contrário, quando eu apareci em seu apartamento naquela noite para dizer a ele “parar de me encher o saco” (para colocar em palavras claras). Ele queria me torturar até a morte, filmando tudo e vendendo o filme para outras pessoas – e eu sabia disso porque um amigo dele me contou. Ele me atacou e tentou me matar (com uma faca). Por pouco ele não conseguiu, mas eu sabia que se eu não acabasse com “o show” lá eu estaria apenas dando a ele uma segunda chance e é claro que eu não vi nenhum motivo para deixar isto acontecer. E se ele tivesse mais sorte na segunda vez? É por isso que eu digo que foi em defesa própria. No começo era defesa própria, até mesmo legalmente, mas quando ele começou a fugir não era mais legalmente defesa própria, e então eu chamo este assassinato de “ação preventiva”, “defesa própria preventiva”.

BJ – Houve uma história alguns anos atrás de uma garota (Maria, ou algo do tipo), que botou fogo na casa do vocalista da banda sueca Therion perto de Estocolmo… Você ainda não quer comentar este fato?

VV – O que você quer dizer com “ainda não quer comentar”? De qualquer modo, eu não consigo entender o que isto tem a ver comigo. Essa garota (Suvi Marjatta, e não Maria) pôs fogo na casa desse cara do Therion uma semana DEPOIS de eu ter estado na Suécia. Eu acho que autografei um álbum do Burzum para este cara do Therion, por brincadeira, porque ela (Suvi M.) sabia onde eles ensaiavam e disse que podia entregar o álbum para este cara.

De qualquer modo, ela incendiou a porta da casa da família dele, e depois pregou meu álbum autografado na parede (eu acho)! Depois ela me ligou, quando eu já estava na Noruega, e me disse o que tinha feito. É claro que eu achei que ela estava doida (e estava mesmo; eu acho que ela está em um hospital para doentes mentais agora), e também um pouco engraçado. Nós (na Noruega) não levamos isso muito a sério, talvez devêssemos dar mais atenção ao fato, mas nós realmente pensávamos que era um tipo de piada. Então eu escrevi uma carta para o Therion dizendo algo do tipo “eu acho que perdi uma caixa de fósforos quando estive na Suécia, ha ha”, alguma coisa assim.

Eu autografei o álbum porque nós não gostávamos do Therion, porque eles queriam ser “Rock Stars”, e levavam a banda muito a sério, então foi uma espécie de brincadeira com isso – eu assinei o nosso “debut” como se fosse um Rock Star e o entreguei para ele (como se fosse “óbvio” que ele gostaria de uma cópia autografada). É claro que era irônico e também uma piada, mas nem preciso dizer que a tal Suvi M. “exagerou” um pouco…

Resumindo, este incêndio não teve realmente nada a ver comigo, e desde o começo era apenas uma brincadeira. Eu queria na verdade entregar o álbum pessoalmente, mas nós ficamos sem dinheiro quando estávamos lá (eu e um cara do Abruptum), então nós não tínhamos gasolina suficiente para ir até onde eles ensaiavam (mais ou menos uma hora de carro de onde nós estávamos). Foi assim que essa garota entrou na história. Ela poderia entregar o álbum por mim.

Eu tive que agüentar um monte de merda por causa disso, com algumas pessoas dizendo que eu “mandei minha namorada” botar fogo na casa dele, porque eu era muito covarde para fazê-lo por mim mesmo, e até mesmo que na próxima vez eu mandaria meu cachorro e assim por diante. No entanto, como você pode ver toda essa coisa tem pouco a ver com as versões apresentadas nestas revistas sobre Metal. Este caso me garantiu umas risadas, é claro. É incrível como podem inventar coisas sobre uma coisa tão pequena como este incidente…

BJ – O que é o Black Circle? Você ainda é ativo nele?

VV – Ha ha, eu estou surpreso por AINDA me perguntarem isso. NUNCA existiu um “Black Circle”, exceto na cabeça de Aarseth/Euronymous, que queria se fazer mais interessante criando algo como um “misterioso Black Circle”. Era apenas um produto da fantasia dele que nunca existiu. As revistas de música britânicas engoliram esta história estúpida, ou apenas fingiram acreditar para ter alguma coisa sobre o que escrever. Eu não sei.

Apesar disso, eu devo dizer que nós – outros caras que tocavam metal – também “encenávamos” e não fazíamos nada para desmentir a existência deste “Black Circle”, não fazíamos nada para espalhar que era apenas um produto da imaginação de Aarseth.

Agora que eu estou falando sobre isso, posso dizer que esta foi mais uma das “mentiras de Aarseth” que eu fiz questão de desmascarar, e uma outra razão para ele me odiar – ou me matar antes de parecer um idiota completo ao mundo.

Tradução: Metal_Maniac #metalbreath da brasnet

Postagem original feita no https://mortesubita.net/musica-e-ocultismo/entrevista-com-varg-vikernes-burzum/