Cultos a Corpos Incorruptos

Nos anos de 1989 e 1990 o GIFI efectuou um levantamento sobre os cultos a corpos incorruptos existentes no Norte de Portugal, nas regiões do Porto, Braga e Lamego.

Tendo em conta a informação de que dispúnhamos, resultante da escassa bibliografia sobre o tema e de notícias veiculadas por órgãos da comunicação social, os objectivos deste projecto de investigação resumiam-se à localização geográfica desses cultos, identificação da sua origem e avaliação do seu nível de implantação entre as populações.

No decurso da investigação identificámos uma dezena de cultos activos, entre os quais se encontram fenómenos de índole estritamente local, com meia dúzia de adeptos, lado a lado com santuários que contam com a visita de vários milhares de fiéis.

O resultados obtidos foram, no nosso entendimento, um sucesso, na medida em que para além de terem sido cumpridos os objectivos inicialmente delineados, foi possível obter dados físicos e laboratoriais que concedem absoluto rigor científico às conclusões deste trabalho.

Posteriormente, no início de 1995 e por força dos trabalhos de preparação de uma reportagem sobre o tema realizada pelo GIFI para a TVI, foi possível actualizar alguma da informação de que dispomos, relativamente à situação à data de alguns dos cultos, o que se mostrou particularmente relevante para a sua compreensão, como adiante se demonstrará.

Antes ainda de se avançarem os resultados sistemáticos da investigação, importa apresentar sumariamente cada um dos cultos identificados pelo GIFI.

A- Região de Lamego

LAMEGO- Padre José António Alves de Almeida

No cemitério de Lamego diz-se existir o corpo incorrupto de um padre de nome José António Alves de Almeida.

O GIFI entrevistou o coveiro do cemitério que nos prestou algumas declarações.

O povo “diz que o corpo está direito” e que a barba teria crescido, no entanto como “está chumbado” não percebe como foi possível observar o cadáver.

O caixão encontra-se depositado numa sala subterrânea com paredes de granito e tampa do mesmo material e pressupõe-se que foi originalmente enterrado dessa forma.

O coveiro afirmou ainda que ” a terra é muito areenta e já não tem a mesma força para comer corpos como tinha dantes “e certos medicamentos que as pessoas tomam podem também contribuir para os mesmos ficarem incorruptos”.

Acrescente-se que este coveiro ocupa o lugar desde 1975 e que até à data da investigação nunca encontrou um corpo incorrupto.

Na medida em que, pelas razões acima referidas, não é possível observar o cadáver, nenhuma das informações obtidas foi susceptível de confirmação.

LALIM- Santinha Aparecida

Sendo certo que correm várias versões em Lalim sobre a matéria, de acordo com a que parece ser a melhor tradição oral, o cadáver incorrupto da Santa Aparecida de Lalim terá sido encontrado no cemitério da localidade, pelo ano de 1890, quando o coveiro abria uma cova para que se procedesse a um enterro.

Anote-se que àquela data o cemitério encontrava-se em redor da igreja local.

Parece ser esta a versão mais exacta, contada por uma senhora que há data da investigação tinha 104 anos e que teria seis anos à data dos factos. No entanto, um dos testemunhos obtidos refere a ocorrência da descoberta do corpo cerca de 68 anos antes da data da investigação.

Importa referir que na época a taxa de mortalidade na região era muito elevada, designadamente em resultado de doenças como a peste e a cólera, razão pela qual o coveiro tinha sempre muito trabalho. Conta-se que, por isso, era vulgar recorrer ao vinho para ganhar algum alento.

A decisão do coveiro terá sido a de voltar a enterrar o corpo, juntamente com aquele que devia naquele momento ser enterrado. No entanto, conta-se que a “santinha” lhe terá de novo aparecido fora da campa, nos três dias seguintes, pelo que o coveiro, desesperado com a situação, terá dado uma forte sacholada na face do cadáver.

Passado aquele acesso de raiva, o coveiro terá depreendido que a falecida teimava em reaparecer por ter alguma promessa por cumprir, decidindo então pegar no corpo e arrastá-lo à volta da igreja.

Foi assim que a população tomou conhecimento do aparecimento da “santinha”, já não permitindo que voltasse a ser enterrada.

Quanto ao coveiro, conta-se que, de pronto, comunicou aos responsáveis da freguesia que não mais enterraria qualquer cadáver, posto o que foi para sua casa, onde teria sido encontrado morto, “todo tolhidinho”. É evidente que a tradição local sobre o aparecimento da “santinha” imputa, indirectamente, a morte do coveiro ao facto de não ter reconhecido a santidade do cadáver e de, ainda para mais, o ter mutilado na cara.

Há quem refira que, antes da intervenção da população, o corpo terá ficado abandonado no cemitério, debaixo de uma forte chuvada que, diz a tradição local, não molhou minimamente o cadáver.

O corpo foi limpo com uma escova de arame e a cara coberta com uma máscara de cera, por forma a corrigir os danos provocados pelo acesso de fúria do coveiro.

Afirma-se que o padre da paróquia à data da descoberta do cadáver, de nome Eduardo, terá picado a “santinha” na língua e no peito, provocando o seu sangramento.

O cadáver foi levado, primeiro para a fábrica (igreja) e depois para um palacete existente na localidade, onde os fiéis o podiam visitar. No entanto, havendo notícia de que a vizinha aldeia de Cambros pretendia comprar o corpo, para obter a sua trasladação, o povo conseguiu que o colocassem numa pequena sala da igreja local, para onde o levaram em procissão e onde permaneceu até meados da década de oitenta do século XX.

Nessa sala o corpo terá sido muito pouco visitado, até que algumas senhoras começaram a juntar-se no local para ouvir a missa, pois o quarto tinha duas portas com grandes janelas de vidro.

Há quem afirme que o corpo foi enterrado há mais de trezentos anos, ninguém lhe conhecendo a identidade.

A clara antipatia da Igreja relativamente ao culto provocou um episódio no qual o pároco local resolveu oferecer o corpo a Cambros, o que veio a ser inviabilizado pelo facto do sacristão ter tocado os sinos a rebate, o que provocou a reunião do povo, que impediu a entrega do corpo à localidade rival. Ao que parece, houve até quem tentasse matar o padre, pelo facto de ele ter dado aquilo que não lhe pertencia.

À data da investigação já a santinha se encontrava, há cerca de quatro anos, exposta numa pequena capela existente próximo da igreja, sendo visível a devoção que merece, ao menos ao nível local, tendo em conta os ex-votos, recordações várias e objectos em ouro que ali se encontravam depositados.

Fomos informados de que a maior parte do ouro da “santinha”, que não será pouco, está depositado no Banco Nacional Ultramarino, por iniciativa da Irmandade do Senhor, confraria local que assegura a preservação do culto. Anteriormente era a confraria que guardava o espólio da “santinha”, o que implicava que o ouro fosse guardado por determinados períodos de tempo na casa de cada membro da confraria.

Foi o padre Avelino quem impulsionou o depósito do ouro no referido Banco, pois já se tinham verificado vendas irregulares de algumas peças.

Registe-se que a Igreja Católica se limita a tolerar o culto, não o combatendo, nem fomentando.

Fala-se de alguns milagres atribuídos à Santa Aparecida, tanto ao nível de curas, como de mulheres que teriam engravidado, após dirigirem preces à “santinha” para obtenção dessa graça.

As senhoras que cuidam do santuário e da “santinha” afirmam que é fácil mudarem-lhe a roupa, pois o corpo terá flexibilidade ao nível dos braços e do abdómen.

O padre Avelino que esteve colocado na paróquia de Lalim e que, à data da investigação, era capelão da Companhia de Instrução de Operações Especiais de Lamego, recorda com um misto de espanto e horror a mobilidade do cadáver que era venerado na sua igreja. De acordo com o seu testemunho o corpo era conservado numa pequena sala que seria necessário limpar de tempos a tempos. Uma vez que o espaço era extremamente exíguo o corpo era retirado do esquife em que se encontrava, dobrado pela cintura e sentado para se proceder à limpeza.

Quando esse sacerdote iniciou funções naquela localidade, foi recebido friamente pela população, tendo-lhe sido dito que poderia ser acometido de doença se se mostrasse adverso ao culto à “santinha”. O facto é que o padre que foi substituir teve um cancro na garganta e o seu antecessor, primo do padre Avelino, teve uma trombose que o deixou com paralisia facial parcial.

Foi-nos referido que foram vistas pessoas retirando pedaços do corpo para os guardarem como relíquia.

Há quem afirme que médicos consultados sobre o assunto ficaram impressionados com a ausência de odores desagradáveis no corpo.

Diz-se que um dos braços do cadáver se encontra partido, sendo apresentadas como hipóteses justificativas desse facto ou o ataque que sofreu por parte do coveiro ou a retirada de uma oliveira junto ao local onde se encontrava enterrado.

Da nossa observação directa resulta que o cadáver se apresenta claramente mumificado, em razoável estado de conservação. A pele do pescoço tem uma tonalidade castanha e conserva uma certa elasticidade, ou seja, a pele cede quando é pressionada e depois volta a ocupar a posição inicial. Os membros superiores mantém igualmente alguma mobilidade, mas que parece resultar essencialmente de zonas deterioradas das articulações e pele envolvente.

São-lhe atribuídos os seguintes milagres ou graças, que nos foram relatados pelo padre Avelino:

– Um jovem de Setúbal que via muito mal fez uma promessa à “santinha” e ficou curado;

– Uma professora que estava de visita a Lalim foi ver o corpo, tendo-se mostrado descrente e considerando inclusivamente ridículo o culto dedicado a um corpo que se encontrava mumificado. Como tinha sete
filhos, todos rapazes, disse “se és santa, faz com que eu tenha uma filha”. Diz-se que engravidou nessa noite e teve uma filha, pelo que desde então todos os anos vem a Lalim, ver a “santinha”;

– A irmã do padre Avelino estava casada há oito anos e não tinha filhos, o que estava a afectar o seu casamento. Os médicos consultados apenas apontavam uma causa psicológica para o facto, à falta de outros indícios. Após ter realizado uma promessa à “santinha” engravidou finalmente, tendo dois filhos à data da nossa investigação. Registe-se que a promessa tinha em vista o sucesso no exame de condução, que faria no dia seguinte e que temia fosse um desastre, não tendo qualquer relação directa com a dificuldade em engravidar;

– Uma pessoa de nome Serafim, funcionário da Real Companhia Velha foi acometido de um acesso de loucura, pelo que teve de ser internado. O padre Avelino telefonou para o local de internamento, de onde o informaram que o paciente não deveria sobreviver àquela noite. Informou a família da situação desesperada do senhor Serafim, por forma a que tivessem disponível uma muda de roupa, para lhe prepararem o enterro. Os familiares do paciente fizeram uma promessa à “santinha”, sendo que no dia seguinte o padre Avelino foi informado pelo hospital que o doente tinha melhorado bastante, não havendo notícia de que tenha vindo posteriormente a falecer em consequência da causa do internamento.

SANFINS- Santo Justo

Este corpo foi encontrado em 1918 e está exposto no capela de Sanfins. Acredita-se que tenha sido um eclesiástico e num panfleto encontrado no capela a data atribuída ao seu enterro não está concretizada, mas supõe-se que tenha ocorrido há pelo menos um século.

A descoberta do cadáver ficou-se a dever ao nascimento diário de um Lírio por cima do local onde o corpo veio a ser encontrado.

Além disso, duas senhoras andavam há muito tempo a sonhar com aquele local e, num certo dia, os seus sonhos foram de tal forma coincidentes que não resistiram a ir escavar o local.

Nessa altura encontraram não um, mas dois corpos incorruptos estando o do “Justo de Sanfins” por baixo do primeiro.

Uma vez que o outro corpo se encontrava em pior estado do que o do “Justo de Sanfins”, ficou sempre por baixo da urna deste e nunca foi exposto ao publico.

O corpo foi vestido uma única vez, sem que nos tenha sido indicada data desse facto.

O único registo de milagres efectuados pelo Santo Justo é o seguinte: “Maria Gomes de Abreu Nova, 1974. Padecia de doença, gastou muito dinheiro em médicos e nada. Fez uma promessa e curou-se.”.

Na capela mandada erigir por um dos comissários locais, encontraram-se também alguns ex-votos.

Apenas nos foi possível observar a face e as mão do cadáver, que se apresenta mumificado e em razoável estado de conservação. Estando a urna fechada, nada mais foi possível registar sobre a situação em que o corpo se encontra.

VILA CHÃ- São Julião

Tratar-se-à do cadáver de um missionário de nacionalidade espanhola, que andava a pregar naquelas freguesias e que há 97 anos (V. contado de quando) adoeceu e morreu em Vila Chã, depois de ali ter rezado missa.

Passados Vinte um anos após o enterro, uma senhora sonhou que o cadáver estava em cima da terra, logo abaixo da pedra tumular. Algumas pessoas vieram verificar a eventual veracidade dom sonho e quando tocaram na pedra tumular esta abriu-se sozinha, como se não tivesse peso, mostrando o caixão.

O corpo estaria conservado, tal como se encontrava à data da morte, tendo “secado” por lhe terem posto cal em cima muito ouro – comissão da igreja.

O presidente da câmara, consultado sobre o assunto, autorizou que o corpo fosse levantado e exposto ao público.

BARCOS (Tabuaço)- Maria Adelaide Sá Menezes

Morreu em 17 de Junho de 1878, com 51 anos de idade, sendo viúva há já vinte anos e sem filhos.

Terá sido uma pessoa descuidada na vivência da fé, razão pela qual não recebeu sacramentos, a quando da sua morte.

Antes da sua morte, Maria Adelaide mandou fazer um túmulo em granito, no cemitério recém inaugurado. Foi enterrada directamente sobre a pedra, sendo o túmulo fechado com uma laje de granito. O corpo foi coberto de cal e, como o falecimento ocorreu no Verão, o túmulo ficava directamente exposto ao Sol, nas horas mais quentes do dia.

Um médio legista de Coimbra afirmou a jornalistas que a cal absorveu a húmidade do corpo, tendo o calor do Sol e o facto do túmulo se de pedra e fechado contribuído para a petrificação do cadáver. Descoberto em 1916, trinta e oito anos após a morte, por um familiar, de nome Luís Cabral.

Na tradição local diz-se que a “santa” foi enterrada num caixão de chumbo, que para ser aberto exigiu os esforços de quatro homens, um  dos quais viria a danificar o cadáver na zona dos lábios. Afirma-se que Maria Adelaide terá morrido sem cabelo, o qual só teria voltado a crescer após a sua morte. Atribuem-lhe o crescimento das unhas e do cabelo, bem como o facto de ajudar a trocar a roupa. Diz-se ainda que o Bispo tentou queimá-la, quatro vezes, sem sucesso.

A “santa” está exposta na capela de Santa Bárbara, junto ao cemitério.

Uma referência curiosa, no âmbito da tradição do culto, é a de que a “santa” não aceita a cor preta, nem sapatos.

No túmulo onde foi enterrada, encontram-se os restos mortais do padre Ismael de Araújo Vilela, de Barcos, onde foi pároco de 1909 a 1938.

O padre da paróquia à data da investigação, Luís Ribeiro da Silva, opunha-se de forma declarada ao culto, razão pela qual o corpo se encontrava depositado na referida capela.

O sacerdote contestou de forma veemente à lenda do crescimento do cabelo e das unhas, bem como afirmou inexistirem quaisquer registos que suportem a afirmada vontade do Bispo no sentido de que o cadáver fosse queimado.

Na opinião do padre, o culto tem sido promovido por força de interesses comerciais, visto que são organizadas excursões para visita ao local, bem como por parte das autoridades, interessadas em promover o turismo na região.

Habitantes de Barcos disseram-nos, no entanto, que o padre se aproveita do facto da capela onde se encontra o corpo pertencer à Igreja para se apropriar das esmolas e dos bens doados para cumprimento de promessas.

A maioria das promessas são feitas por emigrantes e por pessoas que vivem fora de Barcos, tendo-nos sido referidas excursões organizadas por uma senhora de Famalicão.

B- Região de Braga

PROZELO (Amares) – Maria de Jesus

Faleceu, assassinada, nos anos trinta do século XX.

O corpo foi encontrado incorrupto em 1967 ou 1969, pelo coveiro. Muito destruído e abandonado.

A 17 de Março de 2001 regressámos ao local, tendo em vista verificar a situação actual do culto a “santa” Maria de Jesus.

Nesse Sábado ao final de tarde, encontrámos o cemitério praticamente vazio, mas notámos actividade na pequena capela – jazigo, onde se encontra exposto em urna com tampo de vidro a “santinha” local. Ambas as portas da edificação estavam abertas, estando uma mulher a realizar a sua limpeza. O jazigo encontrava-se caiado e pintado, o que constituiu outro factor indicativo de que o culto estará mais activo, pelo menos em termos da atenção dada à conservação do “santuário”, onde se observam diversos ex-votos, roupas e fotografias.

A mulher acima referida explicou-nos que ajuda na limpeza da “santinha” e que a encarregada do jazigo reside numa casa próxima do cemitério.

Interpelada relativamente ao estado de abandono que o jazigo denotava na nossa anterior visita ao local, afirmou que o antigo encarregado do jazigo foi afastado por não cumprir a sua tarefa e por existir a suspeita de que ficava com o dinheiro das esmolas. Por fim, referiu que costuma ver alguns visitantes no local, principalmente aos Domingos.

C- Região do Porto

ARCOZELO (Vila Nova de Gaia)- Maria Adelaide

Morta em 1885 e desenterrada em 1915.

A dimensão do culto de Arcozelo não tem qualquer comparação com as do demais que estudámos.

Aqui, um grande parque de estacionamento permite aceder ao cemitério local, onde ficam situados a capela, o museu e a sala dos ex-votos, bem como a uma pequena praça onde proliferam lojas de recordações e restaurantes.

Sob todos os aspectos a organização do recinto lembra, à devida escala, a dos grandes santuários da Igreja Católica, sendo evidente o envolvimento da autarquia local na administração do culto, a qual beneficia claramente das visitas de forasteiros e dos gastos por estes realizados.

BEIRE (Paredes) – António Moreira Lopes

O corpo venerado na localidade de Beire (Paredes) é o de um tal António Moreira Lopes, falecido em 1907 e exumado em 1978. Ao que parece, a anormal condição de conservação em que o corpo se encontrava chamou a atenção à população, que já não deixou voltar a enterrar o cadáver.

A administração do culto era, no final da década de oitenta, da responsabilidade da Junta de Freguesia, que construiu uma capela onde o corpo se encontra em exposição, bem como um pequeno museu, que funciona igualmente como loja de recordações do santuário.

A recolha de dados adicionais sobre o “santo” e respectivo culto foi inviabilizada pela hostilidade dos responsáveis autárquicos, que claramente não viam com bons olhos a curiosidade de forasteiros quanto ao “seu” corpo incorrupto, bastando, por exemplo, referir que estão interditas as fotografias, que, no entanto, podem ser adquiridas no santuário.

ARREIGADA (Paços de Ferreira)- Princesinha da Calçada

Março 1917, trinta e sete anos após a sua morte.

Encontrado pelo coveiro.

Oposição da Junta de Freguesia, com reacção do povo.

Miraculados.

Em Arreigada existia o costume, considerado perfeitamente normal, de as noivas concederem em promessa os seus vestidos à santa local. Um destes vestidos é-lhe posto todos os anos no Verão, por altura da festa da aldeia, e o que ela tinha vestido vai para um mostruário na sala contígua ao santuário. Outras noivas , de menores posses e de maior fé , alugam depois estes vestidos usados pela “santa” para os seus próprios casamentos.

Bruxaria e encerramento da capela – depoimento dos coveiros em 1995.

VILELA (Paredes) – Maria Carolina

O cadáver de Vilela participa igualmente, mas de forma mais directa, nos casamentos locais, pois existem no santuário fotografias de pelo menos um casamento em que o corpo foi retirado da urna para figurar entre os noivos, numa das fotografias da cerimónia. (rever)

Em Vilela, num cemitério, que alberga três corpos incorruptos, a população local tem em exposição o cadáver que revelou características mais extraordinárias.

Enquanto a maior parte dos corpos observados não passavam de verdadeiras múmias este diferia dos restantes não só pela coloração mais clara como pelo cheiro, menos agradável, que exalava.

A conservadora da capela revelou-nos que o corpo está em exposição à cerca de 20 anos e que é lavado regularmente com o intuito de aliviar o dito odor. Este processo da lavagem é conduzido com uma esponja humedecida e com um vulgar sabonete, mas há uns anos atrás o corpo era lavado numa tina por imersão.

Na sequência destas explicações a conservadora da capela comentou connosco que o cadáver sua e mancha a roupa que lhe vestem, fenómeno muito natural para esta senhora, aliás, atribui a isso mesmo a origem do mau cheiro que se sente.

O GIFI conseguiu trazer para Lisboa a camisa de dormir que o cadáver tinha vestido tendo esta sido analisada no Instituto de Medicina Legal com o objectivo de determinar que tipo de liquido produziria aquelas manchas.

Determinou-se que se trata de uma amina de putrefacção normalmente encontrada precisamente em cadáveres em decomposição.

Não deixa de ser curioso referir que este corpo enterrado durante dezenas de anos e exposto ao ar há pelo menos 20 anos sofra um processo de decomposição tão lento uma vez que estas lavagens decorrem de acordo com os testemunhos que recolhemos desde que o corpo foi encontrado.

Algumas notas conclusivas

A- Enquadramento social e religioso:

Aceitação do culto por parte da hierarquia religiosa ou de autoridades locais:

Cultos apoiados pela Igreja e ou autarquia local: Arcozelo; Beire; Sanfins;
Cultos tolerados, mas não incentivados: Lalim (à data da investigação);
Cultos objecto de oposição pela Igreja ou autarquia local: Lalim (no passado); Barcos; Vilela (à data da investigação);
Cultos desactivados por intervenção da Igreja ou autarquia local: Vilela (enterramento do cadáver, em meados dos anos 90);

Aceitação do culto pela população:

Relevância nacional: Arcozelo;
Relevância regional: Barcos; Beire;
Relevância local: Sanfins; Prozelo (actualmente);
Relevância para pequenos grupos locais: Vilela;
Irrelevância ou abandono: Prozelo (à data da investigação);

Localização do corpo:

Uma vez que a posição da Igreja é, em quase todos os casos, de contemporização forçada os cultos têm lugar quase sempre em pequenas capelas, construídas nos próprios cemitérios onde os corpos foram encontrados.

Jazigo em cemitério: Vilela; Prozelo; Arreigada; Lalim;
Capela em cemitério ou nas suas imediações: Barcos;
Capela em igreja ou nas suas imediações: Sanfins;
Capela autónoma: Arcozelo; Beire;

Rituais, milagres, graças e cultos não religiosos associados:

Em termos de ritual a maior parte destes cultos é extremamente pobre, muito embora se possam encontrar em alguns casos características verdadeiramente qualificáveis como macabras.

Limpeza do cadáver e mudança de roupa: Lalim; Barcos; Vilela;
Presença de ex-votos: Arcozelo; Vilela;
Presença de objectos valiosos, nomeadamente em ouro: Arcozelo; Lalim; Beire;
Registo de milagres ou graças concedidas: Arcozelo (em grande número); Sanfins;
Rituais relativos ao casamento: Arcozelo; Arreigada;
Práticas mágicas: Arreigada;

B- Tipologia dos cadáveres:

Sexo:

O objecto destes cultos é normalmente um cadáver do sexo feminino, o qual se apresenta habitualmente vestido de noiva. As raras excepções em que o culto era devotado a indivíduos do sexo masculino tratavam-se de padres, frades ou missionários.

Sexo feminino: Arcozelo, Lalim, Barcos, Vilela, Prozelo, Arreigada
Sexo masculino: Lamego; Beire, Sanfins;

Estado de conservação:

Muito deteriorados: Arcozelo; Prozelo;
Deteriorados, apresentado sinais de conservação por acção humana:
Lalim; Arreigada; Beire
Mumificados, em bom estado de conservação: Sanfins;
Courificados: Vilela

Causas de deterioração:

Vandalismo ou ataque: Arcozelo; Lalim;
Exposição ao público e obtenção de relíquias: Lalim;
Limpeza e lavagem: Lalim; Vilela;

Forma de exposição e actividades de conservação:

Estes corpos estão normalmente expostos em urnas com tampo em vidro, muitas vezes abertas, expostos à manipulação dos seus devotos, bem como, aliás, à de qualquer curioso.

Lavagem e mudança de roupas: Lalim; Barcos; Vilela;

por Morgana Le Fay

Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/cultos-a-corpos-incorruptos/

Das Páginas do Anuncio do Editorial de Arkham

Caro editor,

 

Eu tenho 8 anos de idade. Alguns de meus amiguinhos dizem que não á o Grande Cthullu. Papai diz: “Se você o ver, será em um grande terror, Cthullu é assim.” Por favor, me diga a verdade, há um Grande Cthullu que vai subir a partir da profundidade aquosa do Pacifico para limpar a Terra de todas as coisas vidas?
Virginia Marsh.

 

Virginia, seus amiguinhos estão errados. Eles têm sido afetados pela febre de esclarecimento dado a eles por uma chamada era “iluminada”. Eles não acreditam em qualquer coisa, a menos que ela carregue o mesmo peso da autoridade cientifica. Eles pensam que nada pode ser o que não é compreensível por suas pequenas mentes. A realidade é que o que pode ser catalogado e medido, para ser em colheradas racionais dosadas para pessoas comuns. Todas as mentes Virgínia, sejam elas adultas ou crianças, são poucas. Neste vasto caos que rindo ligam o universo, o homem é um mero inseto cujo o intelecto tem tanta chance de aprender toda a verdade, como a formiga tem.

 

Sim Virgínia, há um Grande Cthullu. Ele não existe tão certamente quanto a insensibilidade das frias saídas dos cosmos, e você sabe que essa falta de sentido é abundante e dá a sua vida o seu maior absurdo. Ai de mim! Quão confortável serio se o não existisse Cthullu! Seria tão reconfortante como se um Papai Noel realmente se importasse e recompensasse crianças por fazerem o bem. Não haveria então fé infantil, um mundo de poesia crível, doce e romântica para tornar a existência idílica e atraente. A luz externa com que a infância enche o mundo não iria acabar nunca.

 

Não acredite no Grande Cthullu! Você poderia não muito bem acreditar em Hastur ou no Necronomicon. Você pode adquirir os livros de ciência de seu papai e inquisidores céticos para ver se Cthullu é mencionado em algum contexto histórico ou se R’Lyeh realmente descansa sobre o Oceano Pacifico, mas mesmo se você não encontrou nem mencionado em seus livros “sagrados”, o que isso provaria? Ninguém vê ou sabe de Cthullu, mas isso não é sinal de que não há nenhum Grande Cthullu. As coisas mais reais do mundo são aquelas que não podemos saber através dos sentidos. Pode a dor de cabeça de seu amigo ser sentida por você? Não, mas a sua dor afeta sua vida independentemente. Você sente a angustia de viver uma vida que você nunca quis através de qualquer um dos seus cinco sentidos? Não, mas o desespero permanece. No entanto, se tais realidades são conhecidas, mas nunca são vistas, então por que a ignorância do invisível do outro nos leva a compartilhar em sua cegueira. Com que direito têm eles de ganhar a sua obediência? Ninguém pode conceber o inconcebível, incluindo seus lideres de pensamento.

 

Você rasgar o chocalho de um bebe para ver o que esta dentro para fazer tal barulho, mas as pequenas bolas que não podem explicar ou ilustrar o medo de um mundo hostil, que faz com que a embreagem do bebe e da vibração que chacoalhar assim. So pegando insanidade, poder agastar a cortina de nossas esperanças e ver com uma gritante loucura o vazio que esta além. Isso é a realidade? É essa a verdade? Para dar uma resposta é de substituir a cortina com apenas mais de um. E é isto que faz com que o Grande Cthullu, como verdadeiro e real quanto qualquer véu que colocamos sobre o além-caos. Se for preciso criar um significado, porque não, o Grande Cthullu. Pelo menos a escolha é livre.

 

Obrigado Azathoth! O Grande Cthullu vive e viverá para sempre. Mil anos a partir de agora, Virgínia, ou melhor 10 vezes, 10 mil anos a partir de agora, ele vai continuar a aguardar o momento em que as estrelas são boas novamente. Para com aqueles que mentiram eternamente, como eras estranhas até a morte pode morrer.

 

(Da Página Editorial, Anúncios Arkham, 1928)

Trad. Carolina Rezende

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/das-paginas-do-anuncio-do-editorial-de-arkham/

Como identificar um bom Astrólogo?

Dez anos atrás, nesta data, a Rede Globo estreiou um remake da novela “O Astro”. Esta novela fez grande sucesso muitos anos atrás, quando Francisco Cuoco era o protagonista – um astrólogo charlatão. É oportuno abordarmos dois pontos que fatalmente virão à tona quando a novela estrear: este personagem pode ser ruim para a imagem da Astrologia e dos astrólogos? Mais: como discernir um astrólogo sério de um charlatão?

No que diz respeito à primeira pergunta, meu ponto de vista é o mesmo que sustento sempre que um personagem fictício é apresentado como um astrólogo de comportamento duvidoso: ficção é ficção, e nenhuma obra ficcional tem a menor obrigação de representar idealmente nenhuma atividade profissional. Quantos personagens em filmes ou novelas são médicos malignos, psiquiatras sem escrúpulos, engenheiros vilões? Inúmeros! Um personagem de obra ficcional não é criado para “representar classes”. Ademais, ainda que a ficção tivesse por objetivo retratar a realidade, quem disse que não existem vários astrólogos que fazem coisas duvidosas, como este que será apresentado na novela “O Astro”? Astrólogos não deveriam se preocupar com charlatães apresentados em filmes e novelas. Não conheço médico psiquiatra algum reclamando de Hannibal Lecter (vilão do filme “O Silêncio dos Inocentes”).

Já no que concerne à segunda questão, sobre como identificar um astrólogo charlatão, a resposta é mais difícil. Primeiro, porque para muitas pessoas a Astrologia já é, por si mesma, um exercício de charlatanismo. Deste modo, para estas pessoas, não haveria divisão entre “astrólogos sérios” e “charlatães”. Todos seriam enganadores.

Eu digo que este pensamento, isso sim, é enganoso. Explico:

Charlatanismo é uma palavra que explicita o desejo intencional de enganar, oferecendo algo que não se pode cumprir, ou afirmando algo que o próprio declamante sabe não ser verdade. Alguém que pratica ilegalmente a Medicina, sem ter formação para tanto, é um charlatão. Um astrólogo que afirma que pode fazer você ganhar na loteria ou que traz a pessoa amada em 3 dias através de magia é, igualmente, um enganador. Não é complicado identificar este tipo de pessoa perigosa. Procure referências sobre ela. No caso de um astrólogo, procure saber quem ele é, como trabalha, tente descobrir se pessoas de sua confiança já fizeram consultas com ele. Aliás, vale dizer que esta é uma dica preciosa no tocante a serviços astrológicos: o melhor astrólogo é aquele que lhe foi indicado. Note que a Astrologia não é algo que exige de ninguém um estudo formal. Qualquer pessoa pode se dizer “astróloga”. Logo, não é como a Medicina, atividade que exige um CRM, ou a Psicologia, que exige CRP (e ambos os registros exigem formação acadêmica).

OS LIMITES DA PRÁTICA ASTROLÓGICA

Há também outro tipo de charlatanismo, moralmente menos grave, que eu chamo de não-intencional. É quando a pessoa aprende uma coisa que não é verdade, acredita nela e propaga a falsidade, conduzindo outras pessoas ao erro. Para céticos em relação à Astrologia, essa descrição caberia a todos os astrólogos, pois estes céticos partem do pressuposto de que a Astrologia é, por si mesma, um engano – até mesmo para quem a pratica com a melhor das intenções. Argumentar sobre a validade da Astrologia é algo que não farei neste artigo. Limito-me a dizer que se o astrólogo pratica o que tradicionalmente é chamado de Astrologia, ele não é um charlatão, nem intencional, nem não-intencional. E, note: o que é tradicionalmente chamado de Astrologia não promete trazer pessoas amadas nem em um dia, nem em 100, Astrologia não faz ninguém ganhar na loteria (se isso fosse possível, astrólogos estariam ricos), Astrologia não cura doenças. Assim sendo, cuidado com quem promete coisas fantásticas. Astrólogos sérios geralmente deixam bem claro os limites da prática: o que pode e o que não pode ser feito.

O que eu chamo de charlatanismo não-intencional é a postura de incorporar à atividade astrológica um palavreado científico acadêmico sem verdadeiro conhecimento de causa. Geralmente, isso decorre mais de ingenuidade que de má fé. Associar Astrologia à física quântica, por exemplo, é forçar a barra. Jamais encontrei nenhum trabalho sobre Astrologia e física quântica que eu pudesse dizer que conta com qualquer mínimo conhecimento, mesmo que vago, de física quântica. Falar em “campos magnéticos”, “efeito quântico” e outras coisas do gênero, na minha opinião, não passa de desejo de impressionar através de palavras difíceis ou, na melhor das hipóteses, exercício de analogias forçadas entre dois saberes tão distintos (a Física e a Astrologia). Se um dia a Astrologia puder ser comprovada pela ciência, isso não se dará por mera retórica que se vale de palavras impressionantes e uso de termos exóticos.

Por fim, vale um conselho: se você procura um astrólogo, não tenha medo de inquiri-lo e buscar referências. Procure por alguém de quem você já ouviu falar bem, ou cujos textos você leu e gostou. Converse com ele. Se o astrólogo pontua claramente os limites do que pode ser feito, ele provavelmente é confiável.

Por Alexey Dodsworth

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/como-identificar-um-bom-astr%C3%B3logo-1

ABC da Umbanda

 

Água Fluida Nada mais é que um veículo preparado com elementos espirituais e da natureza, saturada por hábeis manipuladores do astral, com fins terapêuticos.
Amaci Banho purificatório na cabeça, feito com folhas, flores, mel, perfumes, ervas e outros, de acordo com orientação das pelo diretor dos trabalhos. Sua finalidade é auxiliar na incorporação e firmar o médium e seus guias nas correntes material e espiritual do Centro Espírita (Egrégora). É o começo da caminhada mediúnica no Centro Espírita escolhido pelo médium, para o seu desenvolvimento e de suas entidades.
Amuletos Objetos os mais variados possíveis em todo o mundo, tornam-se populares como “quebradores”  de olho-grande. Ao serem colocados em locais visíveis, alguns preparados para dissolver descargas negativas, são a primeira coisa a ser vista por aqueles portadores deste tipo de magnetismo pesado, recebendo em primeiro lugar, a descarga do mesmo. Ou seja, viram objetos de descarrego, de limpeza, absorvendo ou dissolvendo tais vibrações na entrada de residências.

Todos esses objetos e práticas auxiliam muito como paliativos, no teor magnético existente nas casas. Todavia, o mais importante é o tipo de ambiente que é criado pelas mentes que ali habitam. Se não, tornam-se inúteis ou de muito baixa influência.

Aruanda Lugar de onde veem os Orixás e as entidades superiores. No catolicismo é o céu. No Espiritismo são as colônias espirituais.
As Ervas As ervas, ao crescerem, absorvem as radiações do sol, da lua, dos minérios, enfim, de toda a natureza, e dos elementos espirituais, à semelhança da aura humana, daí o seu uso nos tratamentos, nas limpezas e na fixação de energias. Devem ser frescas, se possível, e nunca demasiadamente fervidas.
As Leis de Umbanda São 10 os princípios básicos que regem a Umbanda:

1 – Crença em um Deus único, onipotente, eterno, incriado, potência geradora de todo o Universo material e espiritual, adorado sob vários nomes.

2 – Crença em entidades superiores: Orixás, anjos e santos que chefiam falanges.

3 – Crença em guias, em planos médios, mensageiros dos Orixás, anjos e santos.

4 – Existência da alma e sua sobrevivência após a morte.

5 – Prática da caridade desinteressada, na busca de aliviar o Karma do médium.

6 – Lei do Livre-Arbítrio, pela qual cada um escolhe fazer o bem ou o mal, e o ser humano afiniza com sua faixa vibratória e a do ambiente que o cerca.

7 – O ser humano é a síntese do universo.

8 – Crença na existência de vida inteligente em todo o Universo, vivendo e habitando.

9 – Crença na reencarnação, na lei cármica de causa e efeito.

10- Direito de liberdade de todos os seres.

Benzeduras Nada mais são do que passes magnéticos. Nossos pretos velhos eram eficazes, assim como nossos índios. Utilizam-se de metais, água, ervas, saliva etc. como condutores desse magnetismo curativo.
Crendices Há crendices verdadeiras e falsas. Quando muitos dizem que determinada atividade é correta, deve-se analisar os fundamentos do ponto de vista científico e espiritual. Ou seja, devem ser analisadas friamente, sem serem repetidas, mecanicamente, sem discussão prévia. Certa vez ouvi que determinada imagem, dentro de casa, produziria efeito negativo na sexualidade feminina e coisas do gênero. Já falamos repetidas vezes que o que vale são os pensamentos e a magnetização dos objetos. Como foi comprovado, mais tarde, a dita imagem nada produziu de negativo, muito pelo contrário.
Defumação Nada mais é do que as plantas que, com todo o magnetismo absorvido da natureza, ao serem queimadas e suas emanações dirigidas por entidades encarregadas da purificação de ambientes, diluiriam fluidos pesados ou  atrairiam boas vibrações. Usam-se desde a tradicional arruda ou outras ervas, cascas de alho, açúcar, resinas aromáticas etc.
Elementais Sem eles a Umbanda não existiria. São entidades primárias, quase infantis na espiritualidade, sempre dirigidas por entidades superiores, habitando um dos quatro elementos. No fogo, as salamandras que trabalham nas áreas relacionadas ao amor, ao sexo, à amizade, à agressividade e à proteção. Na terra, há vários, sendo os mais conhecidos os gnomos, cuja atividade relaciona-se ao trabalho, à criatividade, à perseverança e aos bens materiais. As ondinas, nas águas, atuam na sabedoria, na doçura, nas atividades espirituais e mediúnicas. Nos ar, os silfos, ágeis e inquietos, dominam as áreas de saúde, da cura e do equilíbrio físico e mental.

Todos eles participam dos trabalhos umbandistas como auxiliares valiosos, e nas outras doutrina e religiões, muitas vezes, em discreto anonimato.

Elementares São diferentes dos elementais. São entidades primitivas em situação intermediária entre o animal e a racionalidade. Dirigidos por entidades, colaboram na limpeza, na guarda, tomando formas as mais variadas possíveis. São colaboradores dos Exus e boiadeiros, principalmente.
Exu e Quiumba Os quiumbas são malfeitores do astral, avessos ao bem e altamente perturbadores. Tanto que há concordância entre autores quanto ao fato de serem eles os verdadeiros executores dos trabalhos destinados ao mal. São os costumeiros “encostos” ou “rabos de encruza”. Fazem-nos pensar que muitos quiumbas mistificam, fingindo, em casas desatentas, serem Exus ou até mesmo Orixás, com fins de alcançar seus objetivos.

Os Exus, não. São eles que desmancham os trabalhos de magia negra, transportando magneticamente as mazelas, as dores e doenças físicas e espirituais, aliviando Carmas. Alguns Exus, por estarem ainda no início de sua evolução, como trabalhadores do bem, necessitam de orientação e doutrina, tanto pelo médium como pelos dirigentes dos trabalhos e devem ser colocados na disciplina da Casa.

Daí temos os Exus orientados, que não pedem sacrifícios, com oferendas mais simples, e aqueles que não tiveram uma colocação correta, que se acostumam com extravagâncias e exigências repletas de vaidades  humanas

Fases da Lua para Trabalhos A ação eletromagnética da lua é conhecida desde a mais remota antiguidade nos fenômenos das marés, na germinação e crescimentos das plantas, na poda de plantações, na fecundação de seres, nas alterações de humor e um sem-número de fenômenos. Já que se trata de trabalhos, com fins quaisquer, é natural que se escolham dias em que a força eletromagnética  da Terra, sob a influência lunar, crie um ambiente mais propício ao crescimento, ou não, do teor magnético nocivo ou benigno desses mesmos trabalhos.

Na lua minguante são entregues os trabalhos destinados a diminuir ou acabar com algo, tal como doenças ou vícios, dias esses com poderoso influxo magnético lunar de retração. Nos dias de lua cheia ou crescente, para trabalhos de crescimento, tais como os destinados a melhoria no trabalho, estudos, amor e saúde. Na lua nova não recomendamos, pois já é sentida a influência da passagem para a lua minguante.

Feitiço Infelizmente existe sim. São trabalhos feitos pela quimbanda com fins de prejudicar alguém, perfeitamente lógicos, dentro do ponto de vista magnético.
Como Evitar (Feitiço) Já vimos no conceito de magnetismo que, dependendo da sintonia que vibre em cada um, podemos assimilar o feitiço ou não. Nesses casos, quando a pessoa vibra em frequência mais elevadas, a onda do mal emitida tende a ricochetear e, muitas vezes, retorna a quem o emitiu, que, na realidade, vibra nessa faixa, pelo simples fato de Ter desejado o mal.
Há Nomes Que Não Devem Ser Ditos na Umbanda? Cada letra possui um som. Cada som produz uma frequência. A soma das letras produz um nome que poderá, ou não, formar uma melodia harmoniosa do ponto de vista espiritual. Todavia, antes de mais nada, não produz efeitos desastrosos se comparados ao teor de pensamento que exprime a palavra.
Imagens de Exus. Por Que Tão Assustadoras? Os Exus costumam tomar tais formas como meio de impor respeito e medo a espíritos inferiores (quiumbas) e, desta forma, facilitar o controle e vigilância que obtêm sobre estas mentes vinculadas ao mal, para que não perturbem trabalhos ou até mesmo lares e locais.
O Pensamento Tem Cor Segundo Ramatis: “A qualidade do pensamento determina-lhe a cor; a natureza do pensamento compõe-lhe a forma; e a precisão do pensamento determina-lhe a configuração exata” (Magia de Redenção, pág. 64). Dependendo da intensidade do mesmo, podem-se criar as conhecidas formas- pensamento, criações estas com volume, cor, som, verdadeiros marionetes espirituais de quem os criou. Na maioria das vezes, exprimem o verdadeiro interior de cada um, visíveis pelos guias que as analisam. São percebidas, também, pelos médiuns videntes e, muitas vezes, confundidas com entidades.
O Que é Pemba? Em sua origem, é um calcáreo extraído da terra, cuja finalidade é riscar os pontos que identificam a linha vibratória da entidade. Há diversas cores. A mais comum é a branca, que serve para todos, pertencente a Oxalá.
O Que é um Orixá? São divindades africanas diretamente relacionadas às forças da natureza. Seriam as falanges específicas que trabalham especializadas em determinado meio, como mar, céus, plantas, etc. Um Orixá é um regente de uma das forças do mundo material, sempre abaixo de Olurum (Zambi, etc.), o Deus Supremo. Fala-se, também, que seriam antigos governantes africanos tornados deuses após a morte. Na África há em torno de 600 Orixás. No Candomblé, 16. Na Umbanda 7.
O Que é um Orixá de Cabeça? O mesmo que Orixá de Frente. No Brasil, costuma-se dar uma pessoa a dois Orixás, normalmente formando casais, sem ser, com isso, regra. Em certos cultos, adotam-se três Orixás, os demais seriam conhecidos como “passagens”, exercendo menor influência. O Orixá de Cabeça corresponde à energia básica, fundamental, do indivíduo, dando-lhe características mais marcantes em sua personalidade. O segundo é o Adjuntó, de características mais sutis, muitas vezes amenizando o caráter o Orixá de Cabeça, que poderá Ter o caráter arrebatado por ser jovem e guerreiro. O terceiro seria o Orixá de Herança, que acompanha a família por algumas gerações.
O Que é Umbanda? Surgiu em 1908, no Brasil. Grosso modo, seria a mistura do culto congo-angola (misturado com o nagô), catolicismo, noções de Espiritismo, esoterismo, pajelança e até mesmo budismo. Umbanda quer dizer “Arte de Curar” ou “Magia”.
Objetos de Cera e as Velas A cera natural, vinda das abelhas, é impregnada dos fluidos existentes nas flores, em grande quantidade. Este elemento, vindo da natureza, é utilizado na prática do bem e do mal como matéria prima poderosa para somar-se com os teores dos pensamentos, tornando eficaz o trabalho e o objetivo ao qual se propõe. Comparada  a uma bateria, uma pilha natural, a cera sempre foi utilizada em larga escala na magia. A vela é considerada, na espiritualidade, como uma das melhores oferendas por ter, em sua função, os quatro elementos da natureza ativos, desprendendo energia. O fogo da chama, a terra ( através da cera), a água (a cera ao ser diluída desprende este elemento), o ar aquecido queimando resíduos espirituais. O umbandista não deve, jamais, retirar  nada da natureza sem deixar, pelo menos, uma vela para repor aos elementos mentais o fluido retirado do seu ambiente, em profundo respeito à criação divina.
Oferenda Na Umbanda trabalha-se com os quatro elementos da natureza: água, fogo, terra e ar, como matéria-prima básica. Manejados convenientemente, por entidades especialistas, promovem o equilíbrio, o descarrego, a harmonia. Na Umbanda, em respeito à natureza, nada pode ser retirado sem uma restituição ao elemento básico. Muitas vezes, ao entregar-se determinada oferenda, por afinidade fluídica, a mesma fica saturada dos fluido densos retirados do solicitante, pelas entidades. Assim, os Exús utilizam o álcool com fins de evitar os vícios do médium; o dendê, para evitar a desordem psíquica; a farofa, para trazer bens materiais (alimentação); a pipoca, para atrair doenças cármicas.
Orixá não é uma Entidade Um Orixá é energia vinda de um elemento primordial. Existem entidades que trabalham com essas energias e são especializadas nelas. São com tais energias que os umbandistas trabalham. Assim, mesmo que a entidade se identifique como Oxóssi ou Odé, não é o Orixá em si, mas está se identificando em sua linha vibratória. Isso explica porque pode, em um mesmo trabalho ou simultaneamente em vários locais, haver entidades com o mesmo nome.
Os Mortos Não são Orixás, podendo se tornar um guia, Exú, auxiliar ou anjo, de acordo com sua elevação espiritual. São chamados Eguns.
Pintura de Objetos Na escala de cores, cada qual possui uma frequência específica, daí o seu uso.
Ponto Riscado Identifica a origem da entidade, quais os seus domínios e a quem é subordinada. Risca-se com a pemba.
Por Que Despachar Objetos em  Água Corrente? Sabemos que a água é um dos mais poderosos elementos da natureza, no que se refere a sua capacidade de excelente condutor de eletricidade e fluidos quaisquer, sendo um poderoso solvente. Ao atirar-se o objeto saturado, a água de imediato absorve este teor magnético, levando-o, para longe do enfeitiçado (ou daquele que quer  livrar-se de objetos imantados). Assim, quebra os vínculos que antes existiam, por proximidade ou assimilação do dono.
Quebrantos /
Olho-grande (ou gordo)
Funcionam similar as pragas. Há pessoas que, de baixo teor espiritual e magnético, emitem, alguma sem desejar, poderosos feixes de caráter nocivo capazes de matar plantas, animais ou causar mal-estar em pessoas.
Quiumbas Espíritos de mortos sem luz ou esclarecimento, escravizados pelos seus próprios sentimentos em grande ódio e revolta. São as levas de obsessores existentes na espiritualidade, que induzem ideias maléficas aos vivos, apreciam fingir que são entidades iluminadas, quando não o são. Da mesma forma, são os verdadeiros executantes da magia negra e os vampiros do astral.
Ritual É um processo gradativo, onde se utilizam acessórios, os mais diferentes possíveis, até ser atingido o clímax desejado. Na verdade, assemelha-se a uma subida em uma escada, degrau a degrau, frequência a frequência, até a sintonia com as falanges desejadas, cujos objetivos podem variar sobremaneira.
Umbanda Cruzada Chamada de Quimbanda pelos umbandistas (ditos de linha branca) e macumba, os seus trabalhos ou feitiços. Cultuam dez a doze Orixás, dependendo da nação africana de origem, sendo que os Orixás “descem” pessoalmente, podendo haver, ou não, gira de caboclos e pretos-velhos em outros dias, intercalados. Fazem comidas (oferendas) mais elaboradas que na Umbanda Branca e sacrifícios animais. Nela é comum o jogo de búzios e rituais assemelhados ao Candomblé, feitos pelo pai ou mãe-de-santo ou babalorixá e iyalorixá. O vestuário é elaborado, há toque de instrumentos (algumas casas de Umbanda Branca aboliram), seu cerimonial e ritualística possuem maior quantidade de preceitos, proibições e quizilas (proibições alimentares). Cultuam-se os Orixás ligados à morte e aos cemitérios, fonte de energética de muitos trabalhos de magia negra, como Xapanã (Obaluaiê ou Omulu), Exu (Elebaras) e Iansã como dominadora de Eguns.
Umbanda de Branco/Umbanda Branca/ou de Cáritas Na verdade, varia infinitamente de casa para casa. Mas seus fundamentos básicos são que algumas casas se recusam a trabalhar com giras de exus, por considerá-los indisciplinados e só trabalharem com sacrifícios sangrentos, coisas que já sabemos incorretas, apesar de serem ideias muito difundidas. Existem sete falanges, denominados por Orixás, Yorimá (Pretos-Velhos) e Yori (Crianças). Na legião de Iemanjá haveria  Orixás comandando suas subdivisões, tais como Oxum, Iansã e Nanã. Em alguns locais, os Orixás não “descem” pessoalmente, mas são representados por Pretos-Velhos, Caboclos e espíritos de Crianças. Há rituais em matas, praias, pedreiras, cachoeiras etc. Nela foram abolidos rituais com sangue e magia negra.
Umbanda Religião Cristã Em seus princípios (Leis de Umbanda), há a crença em um Deus único e a caridade desinteressada, visto nos mesmos princípios do Evangelho de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Jesus, por sua vez, ocupa seu lugar nas preces como o divino coordenador ou mesmo na figura excelsa de Oxalá, sendo Deus, Ifá. Por que, então, não considerá-la cristã?
Valor das Palavras na Umbanda A palavra, no antigo Egito, era sinônimo de criação. Tanto é verdade que uma palavra exprime uma ideia. Uma ideia, um pensamento. E um pensamento é onda emitida. Daí usar-se algumas palavras que exprimem complexos sentimentos carregados de amor, nos trabalhos de Umbanda. São os conhecidos mantras, na Índia.

Lembretes:

 O respeito à natureza é um dos atributos do umbandista. Em respeito aos Orixás e manutenção de seus locais, jamais deixe lixo de qualquer espécie após as oferendas, como sacolas, papéis, embalagens e garrafas de vidro.

Médiuns devem abster-se de ingerir, nos dias de trabalho, bebidas alcoólicas, comidas picantes, excesso de carne vermelha e, dentro do possível, evitar discussões e agitações de toda a espécie. As entidades de Oriente não admitem o consumo de carne de gado, porco ou carneiro pelo seu médium no dia de trabalho. Incluem-se também nesses itens o excesso de café, chás e chocolates.

Para as Oferendas:

  • Todos os itens da oferenda deverão ser comprados por quem os oferece, sem nenhuma exceção.
  • O local escolhido não poderá ter outras oferendas ou ter havido agitações ultimamente, com exceção das encruzilhadas que são muito ocupadas.
  • Cumprimente o local e as entidades que ali trabalham e estão assistindo à entrega, e sais respeitosamente, em silêncio, não se voltando para trás.
  • Não ofereça bebida gelada.
  • Tudo deve ser aberto, desenrolado, inclusive balas.
  • Pode-se acender ou não cigarros e charutos. A caixa de fósforo deve ficar ao lado, aberta.
  • Os Orixás não se preocupam com a quantidade de itens oferecida, mas sim com o axé mínimo para a troca fluídica e o valor da intenção do pedinte.
  • Peça justiça, nunca o mal de ninguém. A Umbanda não admite trabalhos voltados para o lado da Quimbanda.
  • Não devem ser comidos ou provados os itens da oferenda. O que foi preparada deve ser entregue ou, se sobrar, posto fora.
  • Os despachos (oferendas a Exu) devem ser entregues em um dos quatro cantos da encruzilhada. Alguns trabalhos, com a devida orientação, constam também no centro. Nunca faça, sem o devido preparo e aval das entidades, tais oferendas. Limite-se as velas, charuto e cachaças.
  • As oferendas deverão ser entregues a partir das sete horas da noite ou pela manhã, antes do sol firmar-se no céu, com exceção de Oxalá e Ibeji que aceitam em dia claro. Nunca deverão ser entregues a partir da meia noite, quando se nota maior acúmulo de entidades perturbadoras à procura de encarnados dedicados aos prazeres mais inferiores.
  • Nada será entregue durante a chuva. Podem ser entregues nas estiagens, nas horas em que a chuva cessa.

Fonte: Sociedade Espiritualista Mata Virgem. Curso Básico de Doutrina Espírita – Aula 33. ABC da Umbanda.

Texto revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/abc-da-umbanda/

Manifesto Contra o Trabalho

1. O domínio do trabalho morto 

Um defunto domina a sociedade – o defunto do trabalho. Todos os poderes ao redor do globo uniram-se para a defesa deste domínio: o Papa e o Banco Mundial, Tony Blair e Jörg Haider, sindicatos e empresários, ecologistas alemães e socialistas franceses. Todos eles só conhecem um lema: trabalho, trabalho, trabalho !

Os que ainda não desaprenderam a pensar reconhecem facilmente que esta postura é infundada. Pois a sociedade dominada pelo trabalho não passa por uma simples crise passageira, mas alcançou seu limite absoluto. A produção de riqueza desvincula-se cada vez mais, na seqüência da revolução microeletrônica, do uso de força de trabalho humano – numa escala que há poucas décadas só poderia ser imaginada como ficção científica. Ninguém poderá afirmar seriamente que este processo pode ser freado ou, até mesmo, invertido. A venda da mercadoria força de trabalho será no século XXI tão promissora quanto a venda de carruagens de correio no século XX. Quem, nesta sociedade, não consegue vender sua força de trabalho é considerado “supérfluo” e está sendo jogado no aterro sanitário social.

Quem não trabalha, não deve comer ! Este fundamento cínico vale ainda hoje – e agora mais do que nunca, porque tornou-se desesperançosamente obsoleto. É um absurdo: a sociedade nunca foi tanto sociedade do trabalho como nesta época em que o trabalho se faz supérfluo. Exatamente na sua fase terminal, o trabalho revela, claramente, seu poder totalitário, que não tolera outro deus ao seu lado. Até nos poros do cotidiano e nos íntimos da psique, o trabalho determina o pensar e o agir. Não se poupa nenhum esforço para prorrogar artificialmente a vida do deus-trabalho. O grito paranóico por “emprego” justifica até mesmo acelerar a destruição dos fundamentos naturais, já há muito tempo reconhecida. Os últimos impedimentos para a comercialização generalizada de todas as relações sociais podem ser eliminados sem crítica, quando é colocada em perspectiva a criação de alguns poucos e miseráveis “postos de trabalho”. E a frase, seria melhor ter “qualquer” trabalho do que nenhum, tornou-se a confissão de fé exigida de modo geral.

Quanto mais fica claro que a sociedade do trabalho chegou a seu fim definitivo, tanto mais violentamente este fim é reprimido na consciência da opinião pública. Os métodos desta repressão psicológica, mesmo sendo muito diferentes, têm um denominador comum: o fato mundial de o trabalho ter demonstrado seu fim em si mesmo irracional, que tornou-se obsoleto. Este fato vem redefinindo-se com obstinação em um sistema maníaco de fracasso pessoal ou coletivo, tanto de indivíduos quanto de empresas ou “localizações”. A barreira objetiva ao trabalho deve aparecer como um problema subjetivo daqueles que caíram fora do sistema.

Para uns, o desemprego é produto de exigências exageradas, falta de disponibilidade, aplicação e flexibilidade dos desempregados, enquanto outros acusam os “seus” executivos e políticos de incapacidade, corrupção, ganância ou traição do interesse local. Mas enfim, todos concordam com o ex-presidente alemão Roman Herzog: precisa-se de um “arranque”, como se o problema fosse semelhante ao de motivação de um time de futebol ou de uma seita política. Todos têm, “de alguma maneira”, que puxar a carroça, mesmo se ela não existir, e colocar toda energia para arregaçar as mangas, mesmo que não exista nada a ser feito ou somente algo sem sentido. As entrelinhas dessa mensagem infeliz deixam muito claro: quem não encontra a misericórdia do deus-trabalho tem a sua própria culpa e pode ser excluído, ou até mesmo descartado, com boa consciência.

A mesma lei do sacrifício humano vale em escala mundial. Um país após o outro é triturado sob as rodas do totalitarismo econômico, o que comprova sempre a mesma coisa: não atendeu às assim chamadas leis do mercado. Quem não se “adapta” incondicionalmente ao percurso cego da concorrência total, não levando em consideração qualquer dano, está sendo penalizado pela lógica da rentabilidade. Os portadores de esperança de hoje são o ferro-velho econômico de amanhã. Os psicóticos econômicos dominantes não se deixam perturbar em suas explicações bizarras do mundo. Aproximadamente três quartos da população mundial já foram declarados como lixo social. Uma “localização” após a outra cai no abismo. Depois dos desastrosos países “em desenvolvimento” do Hemisfério Sul e do departamento do capitalismo de Estado da sociedade mundial de trabalho no Leste, também os discípulos exemplares da economia de mercado no Sudoeste Asiático desapareceram no orco do colapso. Também na Europa se espalha há muito tempo o pânico social. Os cavaleiros da triste figura da política e do gerenciamento continuam em sua cruzada ainda mais ferrenhamente em nome do deus-trabalho.

“Cada um deve poder viver de seu trabalho: é o princípio posto. Assim, o poder-viver é determinado pelo trabalho e não há nenhuma lei onde esta condição não foi realizada.”
(Johann Gottlieb Fichte – Fundamentos do Direito Natural segundo os Princípios da Doutrina-da-Ciência, 1797)


2. A Sociedade Neoliberal de Apartheid

Uma sociedade centralizada na abstrata irracionalidade do trabalho desenvolve, obrigatoriamente, a tendência ao apartheid social quando o êxito da venda da mercadoria força de trabalho deixa de ser a regra e passa a exceção. Todas as facções do campo de trabalho, trespassando todos os partidos, já aceitaram dissimuladamente essa lógica e ainda a reforçam. Eles não brigam mais sobre se cada vez mais pessoas são empurradas para o abismo e excluídas da participação social, mas apenas sobre como impor a seleção.

A facção neoliberal deixa, confiantemente, o negócio sujo e social-darwinista na “mão invisível” do mercado. Neste sentido, estão sendo desmontadas as redes sócio-estatais para marginalizar, de preferência sem ruído, todos aqueles que não conseguem se manter na concorrência. Só estão sendo reconhecidos como seres humanos os que pertencem à irmandade dos ganhadores globais com seus sorrisos cínicos. Todos os recursos do planeta estão sendo usurpados sem hesitação para a máquina capitalista do fim em si mesmo. Se esses recursos não são mobilizados de uma maneira rentável eles ficam em “pousio”, mesmo quando, ao lado, grandes populações morrem de fome.

O incômodo do “lixo humano” fica sob a competência da polícia, das seitas religiosas de salvação, da máfia e dos sopões para pobres. Nos Estados Unidos e na maioria dos países da Europa Central, já existem mais pessoas na prisão do que na média das ditaduras militares. Na América Latina, estão sendo assassinadas diariamente mais crianças de rua e outros pobres pelo esquadrão da morte da economia de mercado do que oposicionistas nos tempos da pior repressão política. Aos excluídos só resta uma função social: a de ser um exemplo aterrorizante. O destino deles deve incentivar a todos os que ainda fazem parte da corrida de “peregrinação para a Jerusalém” da sociedade do trabalho na luta pelos últimos lugares. Este exemplo deve ainda incitar às massas de perdedores a manterem-se em movimento apressado, para que não tenham a idéia de se revoltarem contra as vergonhosas imposições.

Mas, mesmo pagando o preço da auto-resignação, o admirável mundo novo da economia de mercado totalitária deixou para a maioria das pessoas apenas um lugar, como homens submersos numa economia submersa. Submissos aos ganhadores bem remunerados da globalização, eles têm de ganhar sua vida como trabalhadores ultra baratos e escravos democratas na “sociedade de prestação de serviços”. Os novos “pobres que trabalham” têm o direito de engraxar o sapato dos businessmen da sociedade do trabalho ou de vendê-los hambúrguer contaminado, ou então, de vigiar o seu shopping center. Quem deixou seu cérebro na chapeleira da entrada até pode sonhar com uma ascensão ao posto de milionário prestador de serviços.

Nos países anglo-saxônicos, este mundo de horror já é realidade para milhões, no Terceiro Mundo e na Europa do Leste, nem se fala; e o continente do Euro mostra-se decidido a superar, rapidamente, esse atraso. As gazetas econômicas não fazem mais nenhum segredo sobre como imaginam o futuro ideal do trabalho: as crianças do Terceiro Mundo, que limpam os pára-brisas dos automóveis nos cruzamentos poluídos, são o modelo brilhante da “iniciativa privada”, que deveria servir de exemplo para os desempregados do deserto europeu da prestação de serviço. “O modelo para o futuro é o indivíduo como empresário de sua força de trabalho e de sua própria previdência social”, escreve a “Comissão para o Futuro dos Estados Livres da Baviera e da Saxônia”. E ainda: “a demanda por serviços pessoais simples é tanto maior quanto menos custam, isto é, quanto menos ganham os prestadores de serviço”. Num mundo em que ainda existisse auto-estima humana, uma frase deste tipo deveria provocar uma revolta social. Porém, num mundo de animais de trabalho domesticados, ela apenas provoca um resignado balançar de cabeça.

“O gatuno destruiu o trabalho e, apesar disso, tirou o salário de um trabalhador; agora, deve trabalhar sem salário, mas, mesmo no cárcere, deve pressentir a benção do êxito e do ganho(…) Ele deve ser educado para o trabalho moral enquanto um ato pessoal livre, através do trabalho forçado.”
(Wilhelm Heinrich Riehl – O trabalho alemão, 1861)

3. O Apartheid do Neo-Estado Social

As facções antineoliberais do campo de trabalho social podem não gostar muito desta perspectiva, mas exatamente para elas está definitivamente confirmado que um ser humano sem trabalho não é um ser humano. Fixados nostalgicamente no período pós-guerra fordista de trabalho em massa, eles não pensam em outra coisa a não ser em revitalizar os tempos passados da sociedade do trabalho. O Estado deveria endireitar o que o mercado não consegue mais. A aparente normalidade da sociedade do trabalho deve ser simulada através de “programas de ocupação”, trabalhos comunitários obrigatórios para pessoas que recebem auxílio social, subvenções de localizações, endividamento estatal e outras medidas públicas. Este estatismo de trabalho, agora requentado e hesitante, não tem a menor chance, mas continua como o ponto de referência ideológico para amplas camadas populacionais ameaçadas pela queda. Exatamente nesta total ausência de esperança, a práxis que resulta disso é tudo menos emancipatória.

A metamorfose ideológica do “trabalho escasso” em primeiro direito da cidadania exclui necessariamente todos os não-cidadãos. A lógica de seleção social não está sendo posta em questão, mas só redefinida de uma outra maneira: a luta pela sobrevivência individual deve ser amenizada por critérios étnico-nacionalistas. “Roda-Viva do trabalho nacional só para nativos” clama a alma popular que, no seu amor perverso pelo trabalho, encontra mais uma vez a comunidade nacional. O populismo de direita não esconde essa conclusão necessária. Na sociedade de concorrência, sua crítica leva apenas à limpeza étnica das áreas que encolhem em termos de riqueza capitalista.
Em oposição a isso, o nacionalismo moderado de cunho social-democrata ou verde permite aos antigos imigrantes de trabalho, quando estes se comportam de maneira adequada e inofensiva, tornarem-se cidadãos locais. Mas, a acentuada e reforçada rejeição de refugiados do Leste e do Sul pode, assim, ser legitimada de uma forma mais populista e silenciosa – o que fica obviamente sempre escondido por trás de um palavrório de humanidade e civilidade. A caça aos “ilegais”, que pretendem postos de trabalho nacionais, não deve deixar, se possível, nenhuma mancha indigna de sangue e de fogo em solo europeu. Para isso existe a polícia, a fiscalização militar de fronteira e os países tampões da “Schengenlândia”, que resolvem tudo conforme o direito e a lei e, de preferência, longe das câmeras de televisão.

A simulação estatal de trabalho é, por princípio, violenta e repressiva. Ela significa a manutenção da vontade de domínio incondicional do deus-trabalho, com todos os meios disponíveis, mesmo após sua morte. Este fanatismo burocrático de trabalho não deixa em paz nem aos que caíram fora – os sem-trabalho e sem-chances – nem todos aqueles que com boas razões rejeitam o trabalho, nos seus já horrivelmente apertados nichos do demolido Estado Social. Eles estão sendo arrastados para os holofotes do interrogatório estatal por assistentes sociais e funcionários da distribuição do trabalho e sendo obrigados a prestar reverência pública perante o trono do defunto-rei.

Se na justiça normalmente regera o fundamento “em dúvida, a favor do réu”, agora isso se inverteu. Se os que caíram fora futuramente não quiserem viver de ar ou de caridade cristã, precisam aceitar qualquer trabalho sujo ou de escravo e qualquer programa de “ocupação”, mesmo sendo o mais absurdo, para demonstrar a sua disposição incondicional para com o trabalho. Se aquilo que eles devem fazer tem ou não algum sentido, ou é o maior absurdo, de modo algum interessa. O que importa é que eles fiquem em movimento permanente para que nunca esqueçam a lei que sua existência tem que realizar.

Outrora, os homens trabalhavam para ganhar dinheiro. Hoje, o Estado não poupa gastos e custos para que centenas de milhares de pessoas simulem trabalhos em estranhas “oficinas de treinamento” ou “empresas de ocupação”, para que fiquem em forma para “postos de trabalho regulares” que nunca ocuparão. Inventam-se cada vez mais novas e mais estúpidas “medidas” só para manter a aparência da Roda-Viva do trabalho social que-gira-em-falso funcionando ad infinitum. Quanto menos sentido tem a coerção do trabalho, mais brutalmente insere-se nos cérebros humanos que não haverá mais nenhum pãozinho de graça.

Neste sentido, o “New Labour” e todos os seus imitadores demonstram-se, em todo o mundo, compatíveis inteiramente com o modelo neoliberal de seleção social. Pela simulação de “ocupação” e pelo fingimento de um futuro positivo da sociedade do trabalho, cria-se a legitimação moral para tratar de uma maneira mais dura os desempregados e os recusadores de trabalho. Ao mesmo tempo, a coerção estatal de trabalho, as subvenções salariais e os trabalhos assim chamados “cívicos e honoríficos” reduzem cada vez mais os custos de trabalho.

Desta maneira, incentiva-se maciçamente o setor canceroso de salários baixos e trabalhos miseráveis.

A assim chamada política ativa do trabalho, segundo o modelo do “New Labour”, não poupa nem mesmo doentes crônicos e mães solteiras com crianças pequenas. Quem recebe auxílio estatal só se livra do estrangulamento institucional quando pendura a plaquinha prateada no dedão do pé. O único sentido desta impertinência está em evitar-se o máximo possível que pessoas façam qualquer solicitação ao Estado e, ao mesmo tempo, demonstrar aos que caíram fora que, diante de tais instrumentos terríveis de tortura, qualquer trabalho miserável parece agradável.

Oficialmente, o Estado paternalista só chicoteia por amor, com intenção de educar severamente os seus filhos que foram denunciados como “preguiçosos”, em nome de seu próprio progresso. Na realidade, essas medidas “pedagógicas” só têm como objetivo afastar os fregueses de sua porta. Qual seria o sentido de obrigar os desempregados a trabalharem na colheita de aspargos? O sentido é afastar os trabalhadores sazonais poloneses que só aceitam os salários de fome dadas as relações cambiais, que os transformam em um pagamento aceitável. Mas, aos trabalhadores forçados essa medida é inútil e tampouco abre qualquer “perspectiva” profissional. E mesmo para os produtores de aspargos, os acadêmicos mal-humorados e os trabalhadores qualificados que lhes são enviados só significam um estorvo. Mas, se após a jornada de doze horas nos campos alemães, de repente aparecer como uma luz mais agradável a idéia maluca de ter, por desespero, um carrinho de cachorro-quente, então a “ajuda para a flexibilização” demonstrou seu efeito neobritânico desejável.

“Qualquer emprego é melhor do que nenhum.”
(Bill Clinton, 1998)

“Nenhum emprego é tão duro como nenhum.”
(Lema de uma exposição de cartazes da Divisão de Coordenação Federal da Iniciativa dos Desempregados da Alemanha, 1998)

“Trabalho civil deve ser gratificado e não remunerado… mas quem atua no trabalho civil também perde a mácula do desemprego e da recepção de auxílio social.”
(Ulrich Beck – A alma da democracia, 1997)

4. O agravamento e o desmentido da religião do trabalho

O novo fanatismo do trabalho, com o qual esta sociedade reage perante a morte de seu deus, é a continuação lógica e a etapa final de uma longa história. Desde os dias da Reforma, todas as forças basilares da modernização ocidental pregaram a santidade do trabalho. Principalmente durante os últimos 150 anos, todas as teorias sociais e correntes políticas estavam possuídas, por assim dizer, pela idéia do trabalho. Socialistas e conservadores, democratas e fascistas combateram-se até a última gota de sangue, mas, apesar de toda a animosidade, sempre levaram, em conjunto, sacrifícios ao altar do deus-trabalho. “Afastai os ociosos”, dizia o Hino Internacional do Trabalho – e “o trabalho liberta”, diziam aterrorizantemente os portões de Auschwitz. As democracias pluralistas do pós-guerra juraram ainda mais a favor da ditadura eterna do trabalho. Mesmo a Constituição do Estado da Baviera, arquicatólico, ensina aos seus cidadãos partindo do sentido da tradição luterana: “o trabalho é a fonte do bem-estar do povo e está sob proteção especial do Estado”. No final do século XX, quase todas as diferenças ideológicas desapareceram. Sobrou o dogma impiedoso, segundo o qual, o trabalho é a determinação natural do homem.

Hoje, a própria realidade da sociedade do trabalho desmente este dogma. Os sacerdotes da religião do trabalho sempre pregaram que o homem, por sua suposta natureza, seria um “animal laborans“. Somente tornar-se-ia ser humano na medida em que submetesse, como Prometeu, a matéria natural à sua vontade, realizando-se através de seus produtos. Este mito de explorador do mundo e demiurgo que tem sua vocação desde sempre foi um escárnio em relação ao caráter do processo moderno de trabalho, embora na época dos capitalistas-inventores, do tipo Siemens ou Edison e seus empregados qualificados, tinha ainda um substrato real. Hoje, este gesto é totalmente absurdo.

Quem hoje ainda se pergunta pelo conteúdo, sentido ou fim de seu trabalho vira louco – ou um fator de perturbação do funcionamento do fim em si da máquina social. O “homo faber“, antigamente orgulhoso de seu trabalho e com seu jeito limitado levando a sério o que fazia, hoje é tão fora de moda quanto a máquina de escrever mecânica. A Roda tem que girar de qualquer jeito, e basta. Para a invenção de sentido são responsáveis os departamentos de publicidade e exércitos inteiros de animadores e psicólogas de empresa, consultores de imagem e traficantes de drogas. Onde se balbucia continuamente um blablablá sobre motivação e criatividade, disso nada sobrou, a não ser auto-engano. Por isso, contam hoje as habilidades de auto-sugestão, auto-representação e simulação de competência como as virtudes mais importantes de executivos e trabalhadoras especializadas, estrelas da mídia e contabilistas, professoras e guardas de estacionamento.

Também a afirmação de que o trabalho seria uma necessidade eterna, imposta ao homem pela natureza, tornou-se, na crise da sociedade do trabalho, ridícula. Há séculos está sendo rezado que o deus-trabalho precisaria ser adorado porque as necessidades não poderiam ser satisfeitas por si próprias, isto é, sem o suor da contribuição humana. E o fim de todo este empreendimento de trabalho seria a satisfação de necessidades. Se isto fosse verdade, a crítica ao trabalho teria tanto sentido quanto a crítica da lei da gravidade. Pois, como uma “lei natural” efetivamente real pode entrar em crise ou desaparecer? Os oradores do campo de trabalho social – da socialite engolidora de caviar, neoliberal e maníaca por eficiência até o sindicalista barriga-de-chope – entram, com a sua pseudo-natureza do trabalho, em dificuldade de argumentação. Afinal, como eles querem nos explicar que hoje três quartos da humanidade estejam afundando no estado de calamidade e miséria somente porque o sistema social de trabalho não precisa mais de seu trabalho?

Não é mais a maldição do velho testamento – “comerás teu pão com o suor da tua face” – que pesa sobre os que caíram fora, mas uma nova e implacável condenação: “tu não comerás porque o teu suor é supérfluo e invendível”. E será isto uma lei natural? Não é nada mais que o princípio social irracional que aparece como coerção natural porque destruiu, ao longo dos séculos, todas as outras formas de relação social ou as submeteu e se impôs como absoluto. É a “lei natural” de uma sociedade que se considera muito “racional”, mas que, em verdade, apenas segue a racionalidade funcional de seu deus-trabalho, a cujas “coerções objetivas” está disposta a sacrificar o último resto de humanidade.

“Trabalho está, por mais baixo e mamonístico que seja, sempre em relação com a natureza. Só o desejo de executar trabalho já conduz cada vez mais à verdade e às leis e prescrições da natureza, que são a verdade.”
(Thomas Carlyle – Trabalhar e não desesperar, 1843)

5. Trabalho é um princípio coercitivo social

Trabalho não é, de modo algum, idêntico ao fato de que os homens transformam a natureza e se relacionam através de suas atividades. Enquanto houver homens, eles construirão casas, produzirão vestimentas, alimentos, tanto quanto outras coisas, criarão filhos, escreverão livros, discutirão, farão hortas, música etc. Isto é banal e se entende por si mesmo. O que não é óbvio é que a atividade humana em si, o puro “gasto de força de trabalho”, sem levar em consideração qualquer conteúdo e independente das necessidades e da vontade dos envolvidos, torne-se um princípio abstrato, que domina as relações sociais.

Nas antigas sociedades agrárias existiam as mais diversas formas de domínio e de relações de dependência pessoal, mas nenhuma ditadura do abstractum trabalho. As atividades na transformação da natureza e na relação social não eram, de forma alguma, autodeterminadas, mas também não eram subordinadas a um “gasto de força de trabalho” abstrato: ao contrário, integradas num conjunto de complexo mecanismo de normas prescritivas religiosas, tradições sociais e culturais com compromissos mútuos. Cada atividade tinha o seu tempo particular e seu lugar particular; não existia uma forma de atividade abstrata e geral.

Somente o moderno sistema produtor de mercadorias criou, com seu fim em si mesmo da metamorfose permanente de energia humana em dinheiro, uma esfera particular, “dissociada” de todas as outras relações e abstraída de qualquer conteúdo, a esfera do assim chamado trabalho – uma esfera da atividade dependente incondicional, desconectada e robótica, separada do restante contexto social e obedecendo a uma abstrata racionalidade funcional de “economia empresarial”, para além das necessidades. Nesta esfera separada da vida, o tempo deixa de ser tempo vivido e vivenciado; torna-se simples matéria-prima que precisa ser otimizada: “tempo é dinheiro”. Cada segundo é calculado, cada ida ao banheiro torna-se um transtorno, cada conversa é um crime contra o fim autonomizado da produção. Onde se trabalha, somente pode ser gasto energia abstrata. A vida se realiza em outro lugar, ou não se realiza, porque o ritmo do tempo de trabalho reina sobre tudo. As crianças já estão sendo domadas pelo relógio para terem algum dia “capacidade de eficiência”. As férias também só servem para a reprodução da “força de trabalho”. E mesmo na hora da refeição, na festa e no amor o ponteiro dos segundos toca no fundo da cabeça.

Na esfera do trabalho não conta o que se faz, mas que se faça algo enquanto tal, pois o trabalho é justamente um fim em si mesmo, na medida em que é o suporte da valorização do capital-dinheiro – o aumento infinito de dinheiro por si só. Trabalho é a forma de atividade deste fim em si mesmo absurdo. Só por isso, e não por razões objetivas, todos os produtos são produzidos como mercadorias. Pois somente nesta forma eles representam o abstractum dinheiro, cujo conteúdo é o abstractum trabalho. Nisto consiste o mecanismo da Roda-Viva social autonomizada, no qual a humanidade moderna está presa.

E por isso, o conteúdo da produção é indiferente tanto quanto a utilização dos produtos e as conseqüências sociais e naturais. Se casas são construídas ou campos minados produzidos, se  livros são impressos, se tomates transgênicos são criados, se pessoas adoecem, se o ar está poluído ou se “apenas” o bom gosto é prejudicado – tudo isso não interessa. O que interessa, de qualquer modo, é que a mercadoria possa ser transformada em dinheiro e dinheiro em novo trabalho. Que a mercadoria exija um uso concreto, e que seja ele mesmo destrutivo, não interessa à racionalidade da economia empresarial, para ela o produto só é portador de trabalho pretérito, de “trabalho morto”.

A acumulação de “trabalho morto” como capital, representado na forma-dinheiro, é o único “sentido” que o sistema produtor de mercadorias conhece. “Trabalho morto”? Uma loucura metafísica! Sim, mas uma metafísica que se tornou realidade palpável, uma loucura “objetivada” que prende a sociedade com mão férrea. No eterno comprar e vender os homens não intercambiam enquanto seres sociais conscientes, mas apenas executam como autômatos sociais o fim em si mesmo pré-posto a eles.

“O trabalhador só se sente consigo mesmo fora do trabalho, enquanto que no trabalho se sente fora de si. Ele está em casa quando não trabalha, quando trabalha não está em casa. Seu trabalho, por isso, não é voluntário, mas constrangido, é trabalho forçado. Por isso, não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio de satisfazer necessidades exteriores a ele mesmo. A estranheza do trabalho revela sua forma pura no fato de que, desde que não exista nenhuma coerção física ou outra qualquer, foge-se dele como se fosse uma peste.”
(Karl Marx – Manuscritos Econômico-Filosóficos, 1844)

6. Trabalho e capital são os dois lados da mesma moeda

A esquerda política sempre adorou entusiasticamente o trabalho. Ela não só elevou o trabalho à essência do homem, mas também mistificou-o como pretenso contra-princípio do capital. O escândalo não era o trabalho, mas apenas a sua exploração pelo capital. Por isso, o programa de todos os “partidos de trabalhadores” foi sempre “libertar o trabalho” e não “libertar do trabalho”. A oposição social entre capital e trabalho é apenas uma oposição de interesses diferenciados (é verdade que de poderes muito diferenciados) internamente ao fim em si mesmo capitalista. A luta de classes era a forma de execução desses interesses antagônicos no seio do fundamento social comum do sistema produtor de mercadorias. Ela pertencia à dinâmica interna da valorização do capital. Se se tratava de luta por salários, por direitos, por condições de trabalho ou por postos de trabalho: o pressuposto cego continuava sempre sendo a Roda-Viva dominante com seus princípios irracionais.

Tanto do ponto de vista do trabalho quanto do capital, pouco importa o conteúdo qualitativo da produção. O que interessa é apenas a possibilidade de vender de forma otimizada a força de trabalho. Não se trata da determinação em conjunto sobre o sentido e o fim da própria atividade. Se houve algum dia a esperança de poder realizar uma tal autodeterminação da produção dentro das formas do sistema produtor de mercadorias, hoje as “forças de trabalho” já perderam, e há tempos, esta ilusão. Hoje interessa apenas o “posto de trabalho”, a “ocupação” – já esses conceitos comprovam o caráter de fim em si mesmo de todo esse empreendimento e a menoridade dos envolvidos.

O que, para que e com que conseqüências se produz, no fundo não interessa, nem ao vendedor da mercadoria força de trabalho, nem ao comprador. Os trabalhadores das usinas nucleares e das indústrias químicas protestam ainda mais veementemente quando se pretende desativar as suas bombas-relógio. E os “ocupados” da Volkswagen, Ford e Toyota são os defensores mais fanáticos do programa suicida automobilístico. Não só porque eles precisam obrigatoriamente se vender só para “poder” viver, mas porque eles se identificam realmente com a sua existência limitada. Para sociólogos, sindicalistas, sacerdotes e outros teólogos profissionais da “questão social”, este fato é a comprovação do valor ético-moral do trabalho. Trabalho forma a personalidade. É verdade. Isto é, a personalidade de zumbis da produção de mercadorias, que não conseguem mais imaginar a vida fora de sua Roda-Viva calorosamente amada, para a qual eles próprios se preparam diariamente.

Como tampouco era a classe trabalhadora, enquanto tal, a contradição antagônica ao capital e o sujeito da emancipação humana, tampouco também, por outro lado, os capitalistas e executivos dirigem a sociedade seguindo a maldade de uma vontade subjetiva de explorador. Nenhuma casta dominante viveu, em toda a história, uma vida tão miserável e não livre como os acossados executivos da Microsoft, Daimler-Chrysler ou Sony.

Qualquer senhorio medieval teria desprezado profundamente essas pessoas. Pois, enquanto ele podia se dedicar ao ócio e gastar mais ou menos em orgias a sua riqueza, as elites da sociedade do trabalho não podem se permitir nenhum intervalo. Mesmo fora da Roda-Viva, eles não sabem outra coisa para fazer consigo mesmos que infantilizarem-se. Ócio, gozo no reconhecimento, prazer sensual lhes são tão estranhos quanto o seu material humano. Eles mesmos são servos do deus-trabalho, meras elites funcionais do fim em si mesmo social irracional.
O deus dominante sabe impor sua vontade sem sujeito através da “coerção silenciosa” da concorrência, ao qual precisam se curvar também os poderosos, justamente mais ainda quando são os executivos de centenas de fábricas e transferem somas milionárias pelo globo. Se eles não fizerem isso, são colocados de lado do mesmo modo brutal como as “forças de trabalho” supérfluas. Mas é justamente sua menoridade que faz com que os funcionários do capital sejam tão incomensuravelmente perigosos, e não a sua vontade subjetiva de exploração. Eles têm menos direito de perguntar pelo sentido e pelas conseqüências de suas atividades infatigáveis, sentimentos e considerações não podem permitir a si mesmos. Por isso, eles falam de realismo quando devastam o mundo, fazem as cidades cada vez mais feias e deixam os homens empobrecerem no meio da riqueza.

“O trabalho tem cada vez mais a boa consciência ao seu lado: atualmente a inclinação para a alegria chama-se ‘necessidade de recreação’ e começa a ter vergonha de si mesma. ‘Deve-se fazer isto pela saúde’ – assim se diz quando se é surpreendido num passeio pelo campo. Pois logo poder-se-á chegar ao ponto em que a gente não mais ceda a uma inclinação para a vita contemplativa (isto é, a um passeio com pensamentos e amigos) sem má consciência e desprezo de si.”
(Friedrich Nietzsche – Ócio e Ociosidade, 1882)

7. Trabalho é domínio patriarcal

Mesmo que a lógica do trabalho e da sua metamorfose em matéria-dinheiro insista, nem todas as esferas sociais e atividades necessárias deixam-se embutir sob pressão na esfera do tempo abstrato. Por isso, surgiu junto com a esfera “separada” do trabalho, de certa forma como seu avesso, também a esfera privada doméstica, da família e da intimidade.

Nesta esfera definida como “feminina” restam as numerosas e repetidas atividades da vida cotidiana que não podem ser, a não ser excepcionalmente, transformadas em dinheiro: da faxina à cozinha, passando pela educação das crianças e a assistência aos idosos até o “trabalho de amor” da dona de casa típica ideal, que reconstrói seu marido trabalhador esgotado e que permite-lhe “encher seu tanque com sentimentos”. A esfera da intimidade, como avesso do trabalho, é declarada pela ideologia burguesa da família como o refúgio da “vida verdadeira” – mesmo se na realidade ela é, antes, um inferno da intimidade. Trata-se justamente não de uma esfera de vida melhor e verdadeira, mas de uma forma de existência tão reduzida quanto limitada, só com os sinais invertidos. Essa esfera é ela própria um produto do trabalho, cindida dele, mas só existente em relação a ele. Sem o espaço social cindido das formas de atividade “femininas”, a sociedade do trabalho nunca poderia ter funcionado. Este espaço é seu pressuposto silencioso e ao mesmo tempo seu resultado específico.

Isto vale também para os estereótipos sexuais que foram generalizados no decorrer do desenvolvimento do sistema produtor de mercadorias. Não é por acaso que se fortaleceu o preconceito em massa da imagem da mulher dirigida irracional e emocionalmente, natural e impulsiva, juntamente com a imagem do homem trabalhador, produtor de cultura, racional e autocontrolado. E também não é por acaso que o auto-adestramento do homem branco para as impertinências do trabalho e para sua administração humana estatal foi acompanhado por seculares e enfurecidas “caças às bruxas”. Simultaneamente a estas, inicia-se a apropriação do mundo pelas ciências naturais desde já contaminadas em suas raízes pelo fim em si mesmo da sociedade do trabalho e pelas atribuições de gênero. Dessa maneira, o homem branco, para poder “funcionar” sem atrito, expulsou de si mesmo todos os sentimentos e necessidades emocionais que, no reino do trabalho, só contam como fatores de perturbação.

No século XX, em especial nas democracias fordistas do pós-guerra, as mulheres foram cada vez mais integradas no sistema de trabalho, mas o resultado disso foi apenas a esquizo consciência feminina. Pois, de um lado, o avanço das mulheres na esfera de trabalho não poderia trazer nenhuma libertação, mas apenas o ajuste ao deus-trabalho, como entre os homens. De outro lado, continuou a existir ilesa a estrutura de “cisão”, e assim também as esferas das atividades ditas “femininas”, externas ao trabalho oficial. As mulheres foram submetidas, desta maneira, à carga dupla e, ao mesmo tempo, expostas a imperativos sociais totalmente antagônicos. Dentro da esfera do trabalho elas ficaram até hoje, na sua grande maioria, em posições mal pagas e subalternas.

Disso, nenhuma luta inerente ao sistema, por cotas femininas de carreira e oportunidades, pode mudar alguma coisa. A visão burguesa miserável de “unificação da profissão e família” deixa totalmente intocada a separação de esferas do sistema produtor de mercadorias, e com isso também a estrutura de “cisão” de gênero. Para a maioria das mulheres esta perspectiva não é vivenciável, para a minoria daquelas que “ganham melhor” ela torna-se uma posição pérfida de ganhador no apartheid social, na medida em que pode-se delegar o trabalho doméstico e a criação dos filhos a empregadas mal pagas (e “obviamente” femininas).

Na sociedade como um todo, a sagrada esfera burguesa da assim chamada vida privada e de família está, na verdade, sendo cada vez mais minada e degradada, porque a usurpação da sociedade do trabalho exige da pessoa inteira o sacrifício completo, a mobilidade e a adaptação temporal. O patriarcado não é abolido, mas passa por um asselvajamento na crise inconfessa da sociedade do trabalho. Na mesma medida em que o sistema produtor de mercadorias entra em colapso, as mulheres tornam-se responsáveis pela sobrevivência em todos os níveis, enquanto o mundo “masculino” prolonga simulativamente as categorias da sociedade do trabalho.

“A humanidade teve que se submeter a terríveis provações até que se formasse o eu, o caráter idêntico, determinado e viril do homem, e toda infância ainda é de certa forma a repetição disso”.
(Max Horkheimer & Theodor W. Adorno – Dialética do Esclarecimento )

8. Trabalho é a atividade da menoridade

Não só de fato, mas também conceitualmente, deixa-se demonstrar a identidade entre trabalho e menoridade. Até há poucos séculos, os homens tinham consciência do nexo entre trabalho e coerção social. Na maioria das línguas européias, o termo “trabalho” relaciona-se originalmente apenas com a atividade de uma pessoa juridicamente menor, do dependente, do servo ou do escravo. Nos países de língua germânica, a palavra “Arbeit” significa trabalho árduo de uma criança órfã e, por isso, serva. No latim, “laborare” significava algo como o “balançar do corpo sob uma carga pesada”, e em geral é usado para designar o sofrimento e o mau trato do escravo. As palavras românicas “travail”, “trabajo” etc. derivam-se do latim, “tripalium”, uma espécie de canga utilizada para a tortura e o castigo de escravos e outros não livres. A expressão idiomática alemã – “canga do trabalho” (”Joch der Arbeit”) – ainda faz lembrar este sentido.

“Trabalho”, por conseguinte, pela sua origem etimológica, não é sinônimo de uma atividade humana autodeterminada, mas aponta para um destino social infeliz. É a atividade daqueles que perderam sua liberdade. A ampliação do trabalho a todos os membros da sociedade é, por isso, nada mais que a generalização da dependência servil, e sua adoração moderna apenas a elevação quase religiosa deste estado.

Esta relação pôde ser reprimida com êxito e a impertinência social interiorizada, porque a generalização do trabalho foi acompanhada pela sua “objetivação” por meio do moderno sistema produtor de mercadorias: a maioria das pessoas não está mais sob o chicote de um senhor pessoal. A dependência social tornou-se uma relação abstrata do sistema e, justamente por isso, total. Ela pode ser sentida em todos os lugares, mas não é palpável. Quando cada um tornou-se servo, tornou-se ao mesmo tempo senhor, o seu próprio traficante de escravo e feitor. Todos obedecem ao deus invisível do sistema, o “Grande Irmão” da valorização do capital, que os subjugou sob o “tripalium”.

9. A história sangrenta da imposição do trabalho

A história da modernidade é a história da imposição do trabalho que deixou seu rastro amplo de devastação e horror em todo o planeta. Nunca a impertinência de gastar a maior parte de sua energia vital para um fim em si mesmo determinado externamente foi tão interiorizada como hoje. Vários séculos de violência aberta em grande escala foram precisos para torturar os homens a fim de fazê-los prestar serviço incondicional ao deus-trabalho.

O início, ao contrário do que se diz comumente, não foi a ampliação das relações de mercado com um conseqüente “crescimento do bem-estar”, mas sim a fome insaciável por dinheiro dos aparelhos do Estado absolutista, para financiar as primeiras máquinas militares modernas. Somente pelo interesse desses aparelhos, que pela primeira vez na história sufocaram toda uma sociedade burocraticamente, acelerou-se o desenvolvimento do capital mercantil e financeiro urbano, ultrapassando as formas comerciais tradicionais. Somente desta maneira, o dinheiro tornou-se o motivo social central e o abstractum trabalho uma exigência social central, sem levar em consideração as necessidades.

Não foi voluntariamente que a maioria dos homens passou a uma produção para mercados anônimos e assim a uma economia monetária generalizada, mas antes porque a fome absolutista por dinheiro monetarizou os impostos, aumentando-os simultaneamente de forma exorbitante. Não se precisava “ganhar dinheiro” para si mesmo, mas sim para o militarizado Estado de armas de fogo do início da modernidade, para sua logística e sua burocracia. Assim, e não de outra forma, nasceu o fim em si mesmo absurdo da valorização do capital e do trabalho.

Não demorou muito para que os impostos monetários e as taxas não fossem mais suficientes. Os burocratas absolutistas e os administradores do capital financeiro começaram a organizar coercitivamente os homens diretamente como material de uma máquina social para a transformação de trabalho em dinheiro. O modo tradicional de vida e de existência da população foi destruído; não porque esta população estava se “desenvolvendo” voluntariamente e de maneira autodeterminada, mas porque ela precisava servir como material humano para uma máquina de valorização já acionada. Os homens foram expulsos de suas roças à força de armas para dar lugar à criação de ovinos para as manufaturas de lã. Direitos antigos como a liberdade de caça, pesca e coleta de lenha nas florestas foram extintos. E quando as massas pauperizadas perambularam mendigando e roubando pelo território, foram, então, internadas em casas de trabalho e manufaturas para serem maltratadas com máquinas de tortura de trabalho e para adquirirem a pauladas uma consciência de escravos, a fim de se tornarem animais de trabalho obedientes.

Mas, também a transformação por etapas de seus vassalos em material do deus-trabalho fazedor de dinheiro não foi suficiente para os Estados absolutistas monstruosos. Eles ampliaram suas pretensões também a outros continentes. A colonização interna da Europa foi acompanhada pela colonização externa, primeiro nas duas Américas e em partes da África. Ali, os feitores do trabalho perderam definitivamente seus pudores. Em campanhas militares de roubo, destruição e extermínio sem precedentes, eles assaltaram os mundos recentemente “descobertos” – lá as vítimas nem eram consideradas seres humanos. Em sua aurora, o Poder europeu antropófago da sociedade do trabalho definiu as culturas estrangeiras subjugadas como “selvagens” e antropófagas.

Com isso, foi criada a lei de legitimação para eliminá-los ou escravizá-los aos milhões. A escravidão em sentido literal, que nas economias coloniais de plantation de matérias-primas ultrapassou em dimensões a escravidão antiga, faz parte dos crimes fundadores do sistema produtor de mercadorias. Ali foi utilizado em grande estilo, pela primeira vez, a “destruição através do trabalho”. Isso foi a segunda fundação da sociedade do trabalho. Com os “selvagens”, o homem branco, que já era marcado pelo autodisciplinamento, podia liberar o ódio de si próprio reprimido e seu complexo de inferioridade. Os “selvagens” pareciam-lhe com a “mulher”, isto é, semi-seres entre o homem e o animal, primitivos e naturais. Immanuel Kant supunha, com precisão lógica, que o babuíno saberia falar se quisesse, só não falava porque temia ser recrutado para o trabalho.

Este raciocínio grotesco joga uma luz reveladora sobre o Iluminismo. O ethos repressivo do trabalho da modernidade, que se baseou, em sua versão protestante original, na misericórdia divina e, a partir do Iluminismo, na lei natural, foi mascarado como “missão civilizatória”. Cultura, neste sentido, é submissão voluntária ao trabalho; e trabalho é masculino, branco e “ocidental”. O contrário, o não-humano, a natureza disforme e sem culura, é feminino, de cor e “exótico”, portanto, a ser colocado sob coerção. Numa palavra: o “universalismo” da sociedade do trabalho já é totalmente racista desde sua raiz. O abstractum trabalho universal só pode se autodefinir pelo distanciamento de tudo o que não está fundido a ele.

Não foram os pacíficos comerciantes das antigas rotas mercantis – de onde nasceu a burguesia moderna que, finalmente, herdou o absolutismo – que formaram o húmus social do “empresariado” moderno, mas sim os condottieri das ordas mercenárias do início da modernidade, os administradores do trabalho e das cadeias, os parceiros da coleta de impostos, os feitores de escravos e os agiotas. As revoluções burguesas do século XVIII e XIX não têm nenhuma relação com a emancipação; elas apenas reorganizaram as relações de poder internamente ao sistema de coerção criado, separaram as instituições da sociedade do trabalho dos interesses dinásticos ultrapassados e avançaram a sua objetivação e despersonalização. Foi a gloriosa Revolução Francesa que declarou com pathos específico o dever ao trabalho e introduziu, numa “lei de eliminação da mendicância”, novas prisões de trabalho.

Isto foi exatamente o contrário daquilo que pretendiam os movimentos sociais rebeldes, que cintilaram à margem das revoluções burguesas sem a elas se integrarem. Já muito antes, houve formas autônomas de resistência e rejeição com as quais a historiografia oficial da sociedade do trabalho e da modernização não soube como lidar.

Os produtores das antigas sociedades agrárias, que nunca concordaram completamente sem atritos com as relações de poder feudais, não queriam, de modo algum, conformar-se como “classe trabalhadora” de um sistema externo. Das guerras camponesas do século XV e XVI, até os levantes posteriormente denunciados como Ludditas, ou destruidores de máquinas, e a revolta dos tecelões da Silésia de 1844, ocorre uma seqüência de lutas encarniçadas de resistência contra o trabalho. A imposição da sociedade do trabalho e uma guerra civil – às vezes aberta, às vezes latente – no decorrer dos séculos, foram idênticas.

As antigas sociedades agrárias eram tudo menos paradisíacas. Mas a coerção monstruosa da invasão da sociedade do trabalho foi vivenciada, pela maioria, como piora e como “período de desespero”. Com efeito, apesar do estreitamento das relações, os homens ainda tinham algo a perder. O que, na falsa consciência do mundo moderno aparece inventado como uma calamitosa Idade Média de escuridão e praga foi, na realidade, o terror de sua própria história. Nas culturas pré e não-capitalistas, dentro e fora da Europa, o tempo de atividade de produção diária ou anual era muito mais reduzido do que hoje, para os “ocupados” modernos em fábricas e escritórios. Aquela produção estava longe de ser intensificada como na sociedade do trabalho, pois estava permeada por uma nítida cultura de ócio e de “lentidão” relativa. Excetuando-se catástrofes naturais, as necessidades básicas materiais estavam muito mais asseguradas do que em muitos períodos da modernização, e melhor também do que nas horríveis favelas do atual mundo em crise. Além disso, o poder não entrava tanto nos poros como nas sociedades do trabalho totalmente burocratizadas.

Por isso, a resistência contra o trabalho só poderia ser quebrada militarmente. Até hoje, os ideólogos da sociedade do trabalho dissimulam, afirmando que a cultura dos produtores pré-modernos não era “desenvolvida”, e que ela teria se afogado em seu próprio sangue. Os atuais esclarecidos democratas do trabalho responsabilizam por essas monstruosidades, preferencialmente, as “condições pré-democráticas” de um passado soterrado, com o qual eles não teriam nada a ver. Eles não querem admitir que a história terrorista originária da modernidade revela também a essência da atual sociedade do trabalho. A administração burocrática do trabalho e a integração estatal dos homens nas democracias industriais nunca puderam negar suas origens absolutistas e coloniais. Sob a forma de objetivação de uma relação impessoal do sistema, cresceu a administração repressiva dos homens em nome do deus-trabalho, penetrando em todas as esferas da vida.

Exatamente hoje, na agonia do trabalho, sente-se novamente a mão férrea burocrática, como nos primórdios da sociedade do trabalho. A administração do trabalho revela-se como o sistema de coerção que sempre fora, na medida em que organiza o apartheid social e procura eliminar, em vão, a crise através da democrática escravidão estatal. De modo semelhante, o absurdo colonial regressa na administração econômica coercitiva dos países seqüencialmente já arruinados da periferia através do Fundo Monetário Internacional. Após a morte de seu deus, a sociedade do trabalho relembra, em todos os aspectos, os métodos de seus crimes de fundação, que, mesmo assim, não a salvarão.

“O bárbaro é preguiçoso e diferencia-se do homem culto na medida em que fica mergulhado em seu embrutecimento, pois a formação prática consiste justamente no hábito e na necessidade de ocupação.”
(Georg W.F. Hegel – Princípios da Filosofia do Direito, 1821)

“No fundo agora se sente […], que um tal trabalho é a melhor polícia, pois detém qualquer um e sabe impedir fortemente o desenvolvimento da razão, da voluptuosidade e do desejo de independência. Pois ele faz despender extraordinariamente muita força de nervos, e despoja esta força da reflexão, da meditação, do sonhar, do inquietar-se, do amar e do odiar.”
(Friedrich Nietzsche – Os apologistas do trabalho, 1881)


10. O movimento dos trabalhadores era um movimento a favor do trabalho.

O movimento clássico dos trabalhadores, que viveu a sua ascensão somente muito tempo depois do declínio das antigas revoltas sociais, não lutou mais contra a impertinência do trabalho, mas desenvolveu uma verdadeira hiperidentificação com o aparentemente inevitável. Ele só visava a “direitos” e melhoramentos internos à sociedade do trabalho, cujas coerções já tinha amplamente interiorizado. Em vez de criticar radicalmente a transformação de energia em dinheiro como fim em si irracional, ele mesmo assumiu “o ponto de vista do trabalho” e compreendeu a valorização como um fato positivo e neutro.

Desta maneira, o movimento dos trabalhadores assumiu a herança do absolutismo, do protestantismo e do Iluminismo burguês. A infelicidade do trabalho tornou-se orgulho falso do trabalho, redefinindo como “direito humano”, o seu próprio adestramento enquanto material humano do deus moderno. Os hilotas domesticados do trabalho invertem ideologicamente, por assim dizer, a espada contra si, e desenvolvem um empenho missionário para, de um lado, reclamar o “direito ao trabalho” e de outro, reivindicar o “dever de trabalho para todos”. A burguesia não foi combatida como suporte funcional da sociedade do trabalho, mas ao contrário, insultada como parasitária exatamente em nome do trabalho. Todos os membros da sociedade, sem exceção, deveriam ser recrutados coercivamente nos “exércitos de trabalho”.

O próprio movimento dos trabalhadores tornou-se, assim, o marca-passo da sociedade do trabalho capitalista. Era ele que impunha os últimos degraus de objetivação contra os suportes funcionais burgueses limitados do século XIX e do início do século XX no processo de desenvolvimento do trabalho; de modo semelhante ao que a burguesia havia herdado do absolutismo um século antes. Isso só foi possível porque os partidos de trabalhadores e sindicatos relacionavam-se, no percurso de sua divinização do trabalho, também positivamente com o aparelho do Estado e com as instituições repressivas da administração do trabalho, que, afinal, eles não queriam suprimir, mas sim, numa certa “marcha através das instituições”, ocupar. Deste modo, assumiram, como anteriormente fizera a burguesia, as tradições burocráticas da administração de homens na sociedade do trabalho que vem desde o absolutismo.

Mas a ideologia de uma generalização social do trabalho exigia também uma nova relação política. Em lugar da divisão de estamentos com “direitos” políticos diferenciados (por exemplo, direito eleitoral censitário), na sociedade do trabalho apenas parcialmente imposta foi necessário que aparecesse a igualdade democrática geral do “Estado de trabalho” consumado. E os descompassos no percurso da máquina de valorização, a partir do momento em que esta determinasse toda a vida social, precisavam ser equilibrados por um “Estado Social”. Também para isso, o movimento dos trabalhadores forneceu o paradigma. Sob o nome de “social-democracia”, tornar-se-ia o maior movimento civil na história que, todavia, não poderia senão cavar sua própria cova. Pois na democracia tudo se torna negociável, menos as coerções da sociedade do trabalho que são axiomaticamente pressupostas. O que pode ser debatido são apenas as modalidades e os percursos destas coerções, sempre há apenas uma escolha entre Omo e Minerva em pó, entre peste e cólera, entre burrice e descaramento, entre Kohl e Schröder.

A democracia da sociedade do trabalho é o sistema de dominação mais pérfido da história – é um sistema de auto-opressão. Por isso, esta democracia nunca organiza a livre autodeterminação dos membros da sociedade sobre os recursos coletivos, mas sempre apenas a forma jurídica das mônadas de trabalho socialmente separadas entre si, que levam, na concorrência, sua pele ao mercado de trabalho. Democracia é o oposto de liberdade. E assim, os seres humanos de trabalho democráticos dividem-se, necessariamente, em administradores e administrados, empresários e empreendidos, elites funcionais e material humano. Os partidos políticos, em particular os partidos de trabalhadores, refletem fielmente essa relação na sua própria estrutura. Condutor e conduzidos, VIPs e o povão, militantes e simpatizantes apontam para uma relação que não tem mais nada a ver com um debate aberto e tomadas de decisão. É parte integral desta lógica sistêmica que as próprias elites só possam ser funcionárias dependentes do deus-trabalho e de suas orientações cegas.

No mínimo desde o nazismo, todos os partidos são partidos de trabalhadores e, ao mesmo tempo, partidos do capital. Nas “sociedades em desenvolvimento” do Leste e do Sul, o movimento dos trabalhadores transformou-se num partido de terrorismo estatal de modernização retardatária; no Ocidente, num sistema de “partidos populares” com programas facilmente substituíveis e figuras representativas na mídia. A luta de classes está no fim porque a sociedade do trabalho também está. As classes se mostram como categorias sociais funcionais do mesmo sistema fetichista, na mesma medida em que este sistema vai esmorecendo. Se sociais-democratas, verdes e ex-comunistas destacam-se na administração da crise desenvolvendo programas de repressão especialmente infames, mostram-se, com isto, como os legítimos herdeiros do movimento dos trabalhadores, que nunca quis nada além de trabalho a qualquer preço.

“Conduzir o cetro, deve o trabalho,
servo só deve ser quem no ócio insistir;
Governar o mundo, deve o trabalho,
pois só por ele pode o mundo existir.”
(Friedrich Stampfer, 1903)

11. A crise do trabalho

Após a Segunda Guerra Mundial, por um curto momento histórico pôde parecer que a sociedade do trabalho nas indústrias fordistas tivesse se consolidado num sistema de “prosperidade eterna”, no qual a insuportabilidade do fim em si coercitivo tivesse sido pacificada duradouramente pelo consumo de massas e pelo Estado Social. Apesar desta idéia sempre ter sido uma idéia hilótica e democrática, que só se referiria a uma pequena minoria da população mundial, nos centros ela também necessariamente fracassou. Na terceira revolução industrial da microeletrônica, a sociedade mundial do trabalho alcança seu limite histórico absoluto.

Que este limite seria alcançado mais cedo ou mais tarde, era logicamente previsível. Pois o sistema produtor de mercadorias sofre, desde seu nascimento, de uma autocontradição incurável. De um lado, ele vive do fato de sugar maciçamente energia humana através do gasto de trabalho para sua maquinaria: quanto mais, melhor. De outro lado, contudo, impõe, pela lei da concorrência empresarial, um aumento de produtividade, no qual a força de trabalho humano é substituída por capital objetivado cientificizado.

Esta autocontradição já foi a causa profunda de todas as crises anteriores, entre elas a desastrosa crise econômica mundial de 1929-33. Porém, estas crises podiam sempre ser superadas por um mecanismo de compensação: num nível cada vez mais elevado de produtividade, foram absorvidas em termos absolutos – após um certo tempo de incubação e através da ampliação de mercados integradora de novas camadas de consumidores – maiores quantidades de trabalho do que aquele anteriormente racionalizado. Reduziu-se o dispêndio de força de trabalho por produto, mas foram produzidos em termos absolutos mais produtos, de modo que a redução pôde ser sobrecompensada. Enquanto as inovações de produtos superaram as inovações de processos, a autocontradição do sistema pôde ser traduzida em um movimento de expansão.

O exemplo histórico de destaque é o automóvel: através da esteira e outras técnicas de racionalização da “ciência do trabalho” (primeiramente na fábrica de Henry Ford, em Detroit), reduziu-se o tempo de trabalho para cada automóvel em uma fração. Simultaneamente, o trabalho intensificou-se de maneira gigantesca, isto é, no mesmo intervalo de tempo foi absorvido material humano de forma multiplicada. Principalmente o automóvel, até então um produto de luxo para a alta sociedade, pôde ser incluído no consumo de massa por seu conseqüente barateamento.

Desta maneira, apesar da racionalização da produção em linha, a fome insaciável do deus-trabalho por energia humana foi satisfeita em nível superior. Ao mesmo tempo, o automóvel é um exemplo central para o caráter destrutivo do modo de produção e consumo altamente desenvolvido da sociedade do trabalho. No interesse de produção em massa de automóveis e de transporte individual em massa, a paisagem é asfaltada, impermeabilizada e torna-se feia, o meio ambiente é empestado e aceita-se, de maneira resignada, que nas estradas mundiais, ano após ano, seja desencadeada uma terceira guerra mundial não declarada com milhões de mortos e mutilados.

Na terceira revolução industrial da microeletrônica finda, o até então vigente, mecanismo de compensação pela expansão. É verdade que, obviamente, através da microeletrônica muitos produtos também são barateados e novos são criados (principalmente na esfera da mídia). Mas, pela primeira vez, a velocidade de inovação do processo ultrapassa a velocidade de inovação do produto. Pela primeira vez, mais trabalho é racionalizado do que o que pode ser reabsorvido pela expansão dos mercados. Na continuação lógica da racionalização, a robótica eletrônica substitui a energia humana, ou as novas tecnologias de comunicação tornam o trabalho supérfluo. Setores inteiros e níveis da construção civil, da produção, do marketing, do armazenamento, da distribuição e mesmo do gerenciamento caem fora. Pela primeira vez o deus-trabalho submete-se, involuntariamente, a uma ração de fome permanente. Com isso, provoca sua própria morte.

Uma vez que a sociedade democrática do trabalho é um sistema com o fim em si mesmo amadurecido e auto-reflexivo, não é possível dentro das suas formas uma alteração para uma redução da jornada geral. A racionalidade empresarial exige que massas cada vez maiores tornem-se “desempregadas” permanentemente e, assim, sejam cortadas da reprodução de sua vida imanente ao sistema. De outro lado, um número cada vez mais reduzido de “ocupados” são submetidos a uma caça cada vez maior de trabalho e eficiência. Mesmo nos centros capitalistas, no meio da riqueza voltam a pobreza e a fome, meios de produção e áreas agrícolas intactos ficam maciçamente em “pousio”, habitações e prédios públicos ficam maciçamente vazios, enquanto o número dos sem-teto cresce incessantemente.

Capitalismo torna-se um espetáculo global para minorias. Em seu desespero, o deus-trabalho, agonizante, tornou-se canibal de si mesmo. Em busca de sobras para alimentar o trabalho, o capital dinamita os limites da economia nacional e se globaliza numa concorrência nômade de repressão. Regiões mundiais inteiras são cortadas dos fluxos globais de capital e mercadorias. Numa onda de fusões e “integrações não amigáveis” sem precedentes históricos, os trustes se preparam para a última batalha da economia empresarial. Os Estados e Nações desorganizados implodem, as populações empurradas para a loucura da concorrência pela sobrevivência assaltam-se em guerras étnicas de bandos.

“O princípio moral básico é o direito do homem ao seu trabalho (…) a meu ver, não há nada mais detestável que uma vida ociosa. Nenhum de nós tem direito a isto. A civilização não tem lugar para ociosos.”
(Henry Ford)

“O próprio capital é a contradição em processo, pois tende a reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, enquanto põe, por outro lado, o tempo de trabalho como única medida e fonte de riqueza. (…) Assim, por um lado, evoca para a vida todos os poderes da ciência e da natureza, assim como da combinação e do intercâmbio social, para fazer com que a criação da riqueza seja (relativamente) independente do tempo de trabalho empregado nela. Por outro lado, pretende medir estas gigantescas forças sociais, assim criadas, pelo tempo de trabalho, e as conter nos limites exigidos para manter, como valor, o valor já criado.”
(Karl Marx – “Grundrisse” , 1857/58)

12. O fim da política

Necessariamente, a crise do trabalho tem como conseqüência a crise do Estado e, portanto, a da política. Por princípio, o Estado moderno deve a sua carreira ao fato de que o sistema produtor de mercadorias necessita de uma instância superior que lhe garanta, no quadro da concorrência, os fundamentos jurídicos normais e os pressupostos da valorização – sob inclusão de um aparelho de repressão para o caso de o material humano insubordinar-se contra o sistema. Na sua forma amadurecida de democracia de massa, o Estado no século XX precisava assumir, de forma crescente, tarefas sócio-econômicas: a isso não só pertence a rede social, mas também a saúde e a educação, a rede de transporte e comunicação, infra-estruturas de todos os tipos que são indispensáveis ao funcionamento da sociedade do trabalho industrial e que não podem ser propriamente organizadas como processo de valorização industrial. Pois as infra-estruturas precisam estar, permanentemente, à disposição no âmbito da sociedade total e cobrindo todo o território. Portanto, não podem seguir as conjunturas do mercado de oferta e demanda.

Como o Estado não é uma unidade de valorização autônoma, ele próprio não transforma trabalho em dinheiro, precisa retirar dinheiro do processo real da valorização. Esgotada a valorização esgotam-se também as finanças do Estado. O suposto soberano social apresenta-se totalmente dependente frente à economia cega e fetichizada da sociedade do trabalho. Ele pode legislar o quanto quiser; quando as forças produtivas ultrapassam o sistema de trabalho, o direito estatal positivo, o qual sempre só pode relacionar-se com sujeitos do trabalho, se esvai.

Com o crescente desemprego de massas, resseca-se a renda estatal proveniente dos impostos sobre os rendimentos do trabalho. As redes sociais se rompem logo que se alcança uma massa crítica de “supérfluos”, que apenas podem ser alimentados de modo capitalista através da redistribuição de outros rendimentos monetários. Na crise, com o processo acelerado de concentração do capital, que ultrapassa as fronteiras das economias nacionais, caem fora também as rendas estatais provenientes dos impostos sobre os lucros das empresas. Os trustes transnacionais obrigam os Estados que concorrem por investimentos a fazer dumping fiscal, social e ecológico.

É exatamente este desenvolvimento que permite o Estado democrático transformar-se em mero administrador de crises. Quanto mais ele se aproxima da calamidade financeira, tanto mais se reduz ao seu núcleo repressivo. As infra-estruturas se reduzem às necessidades do capital transnacional. Como antigamente nos territórios coloniais, a logística se limita, crescentemente, a alguns centros econômicos, enquanto o resto fica abandonado. O que dá para ser privatizado é privatizado, mesmo que cada vez mais pessoas fiquem excluídas dos serviços de provimento mais elementares. Onde a valorização do capital concentra-se em um número cada vez mais reduzido de ilhas do mercado mundial, não interessa mais o provimento cobrindo todo o território.

Enquanto não atinge diretamente esferas relevantes para a economia, não interessa se trens andam e as cartas chegam. A educação torna-se um privilégio dos vencedores da globalização. A cultura intelectual, artística e teórica é remetida aos critérios de mercado e padece aos poucos. A saúde não é financiável e se divide em um sistema de classes. Primeiro devagar e disfarçadamente, depois abertamente, vale a lei da eutanásia social: porque você é pobre e “supérfluo”, tem de morrer antes.

Enquanto todos os conhecimentos, habilidades e meios da medicina, educação e cultura estão à disposição em excesso como infra-estrutura geral, ficam reclusos conforme a lei irracional da sociedade do trabalho, objetivada como “restrição financeira”, desmobilizados e jogados no ferro-velho – assim como os meios de produção industriais e agrários que não são mais representáveis de forma rentável. O Estado democrático, transformado num sistema de apartheid, não tem mais nada a oferecer aos seus ex-cidadãos de trabalho além da simulação repressiva do trabalho, sob formas de trabalho coercitivo e barato, com redução de todos os benefícios. Num momento mais avançado, o Estado desmorona totalmente. O aparelho de Estado asselvaja-se sob a forma de uma cleptocracia corrupta, os militares sob a de um bando bélico mafioso e a polícia sob a de assaltante de estradas.
Este desenvolvimento não pode ser parado através de qualquer política do mundo e ainda menos ser revertido. Pois política é em sua essência uma ação relacionada ao Estado que torna-se, sob as condições de desestatização, sem objeto. A fórmula da democracia esquerdista da “configuração política” torna-se, dia após dia, mais ridícula. Fora a repressão infinita, a destruição da civilização e o auxílio ao “terror da economia”, não há mais nada a “configurar”. Como o fim em si mesmo da sociedade do trabalho é o pressuposto axiomático da democracia política, não pode haver nenhuma regulação política democrática para a crise do trabalho. O fim do trabalho torna-se o fim da política.

13. A simulação cassino-capitalista da sociedade do trabalho

A consciência social dominante engana-se, sistematicamente, sobre a verdadeira situação da sociedade do trabalho. As regiões de colapso são ideologicamente excomungadas, as estatísticas do mercado de trabalho são descaradamente falsificadas, as formas de pauperização são dissimuladas pela mídia. Simulação é, sobretudo, a característica central do capitalismo em crise. Isto vale também para a própria economia. Se pelo menos nos países centrais ocidentais até agora parecia que o capital seria capaz de acumular mesmo sem trabalho, e que a forma pura do dinheiro sem substância poderia garantir a contínua valorização do valor, então esta aparência deve-se a um processo de simulação nos mercados financeiros. Como reflexo da simulação do trabalho através de medidas coercitivas da administração democrática do trabalho, formou-se uma simulação da valorização do capital através da desconexão especulativa do sistema creditício e dos mercados acionários da economia real.

A utilização de trabalho presente é substituída pela usurpação da utilização de trabalho futuro, o qual nunca realizar-se-á. Trata-se, de certo modo, de uma acumulação de capital num fictício “futuro do subjuntivo (composto)”. O capital-dinheiro, que não pode mais ser reinvestido de forma rentável na economia real e que, por isso, não pode absorver mais trabalho, precisa se desviar, reforçadamente, para os mercados financeiros.

Já o impulso fordista da valorização, nos tempos do “milagre econômico” após a Segunda Guerra, não era totalmente auto-sustentável. Muito além de suas receitas fiscais, o Estado tomava crédito em quantidades até então desconhecidas, pois as condições estruturais da sociedade do trabalho não eram mais financiáveis de outra maneira. O Estado penhorou todas as suas receitas reais futuras. Desta maneira surgiu, de um lado, uma possibilidade de investimento capitalístico financeiro para o capital-dinheiro “excedente” – emprestava-se ao Estado com juros. O Estado pagava os juros com novos empréstimos e reenviava o dinheiro emprestado imediatamente para o circuito econômico. De outro lado, ele financiava, então, os custos sociais e os investimentos de infra-estrutura, criando uma demanda artificial, no sentido capitalista, pois sem a cobertura de nenhum dispêndio produtivo de trabalho. O boom fordista foi, assim, prolongado além de seu próprio alcance, na medida em que a sociedade do trabalho sangrava o seu próprio futuro.

Este momento simulativo do processo de valorização, aparentemente ainda intacto, já alcançou seus limites junto com o endividamento estatal. Não só no Terceiro Mundo, mas também nos centros, as “crises da dívida” estatais não permitiram mais a expansão deste procedimento. Este foi o fundamento objetivo para a caminhada vitoriosa da desregulação neoliberal que, conforme sua ideologia, seria acompanhada de uma redução drástica da cota estatal no produto social. Na verdade, desregulamentação e redução das obrigações do Estado são compensadas pelos custos da crise, mesmo que seja em forma de custos estatais de repressão e simulação. Em muitos Estados, a cota estatal até aumenta.

Mas a acumulação subseqüente do capital não pode mais ser simulada através do endividamento estatal. Por isso, transfere-se, desde os anos 80, a criação complementar do capital fictício para os mercados de ações. Ali, há tempos, não se trata mais de dividendos, da participação nos ganhos da produção real, mas antes, de ganhos de cotação, por aumento especulativo do valor dos títulos de propriedade em escalas astronômicas. A relação entre a economia real e o movimento especulativo do mercado financeiro virou-se de cabeça para baixo. O aumento especulativo da cotação não antecipa mais a expansão da economia real, mas ao contrário, a alta da criação fictícia de valor simula uma acumulação real que já não existe mais.

O deus-trabalho está clinicamente morto, mas recebe respiração artificial através da expansão aparentemente autonomizada dos mercados financeiros. Há tempos, empresas industriais têm ganhos que já não resultam da produção e da venda de produtos reais – o que já se tornou um negócio deficitário – mas sim, da participação feita por um departamento financeiro “esperto” na especulação de ações e divisas. Os orçamentos públicos demonstram entradas que não resultam de impostos ou tomadas de créditos, mas da participação aplicada da administração financeira nos mercados de cassino. Os orçamentos privados, nos quais as entradas reais de salários reduziram-se dramaticamente, conseguem manter ainda um consumo elevado através dos empréstimos dos ganhos nos mercados acionários. Cria-se, assim, uma nova forma de demanda artificial que, por sua vez, tem como conseqüência uma produção real e uma receita estatal real “sem chão para os pés”.

Desta maneira, a crise econômica mundial está sendo adiada pelo processo especulativo; mas, como o aumento fictício do valor dos títulos de propriedade só pode ser antecipação de utilização ou futuro dispêndio real de trabalho (em escala astronômica correspondente) – o que nunca mais será feito – então, o embuste objetivado será desmascarado, necessariamente, após um certo tempo de encubação. O colapso dos “emerging markets” na Ásia, na América Latina e no Leste Europeu forneceu apenas o primeiro gostinho. É apenas uma questão de tempo para que entrem em colapso os mercados financeiros dos centros capitalistas dos EUA, UE e Japão.

Este contexto é percebido de uma forma totalmente distorcida na consciência fetichizada da sociedade do trabalho e, principalmente, na dos “críticos do capitalismo” tradicionais da esquerda e da direita. Fixados no fantasma do trabalho, que foi enobrecido enquanto condição existencial suprahistórica e positiva, confundem, sistematicamente, causa e efeito. O adiamento temporário da crise, pela expansão especulativa dos mercados financeiros, aparece, assim, de forma invertida, como suposta causa da crise. Os “especuladores malvados”, assim chamados na hora do pânico, arruinariam toda a sociedade do trabalho porque gastam o “bom dinheiro” que “existe de sobra” no cassino, ao invés de investirem de uma maneira sólida e bem comportada em maravilhosos “postos de trabalho”, a fim de que uma humanidade louca por trabalho pudesse ter o seu “pleno emprego”.

Simplesmente não entra nestas cabeças que, de modo algum, a especulação fez os investimentos reais pararem, mas estes já se tornaram não rentáveis em decorrência da terceira revolução industrial, e o decolar especulativo é apenas um sintoma disso. O dinheiro que aparentemente circula em quantidades infinitas já não é, mesmo no sentido capitalista, um “bom dinheiro”, mas apenas “ar quente” com o qual a bolha especulativa foi levantada.

Cada tentativa de estourar esta bolha, via qualquer projeto de medida fiscal (imposto Tobin etc.) para dirigir o capital-dinheiro novamente para as Rodas pretensamente “corretas” e reais da sociedade do trabalho, só pode levá-la a estourar mais rapidamente.

Em vez de compreenderem que nós todos tornaremo-nos, incessantemente, não rentáveis, e que por isso, precisam ser atacados tanto o próprio critério da rentabilidade quanto os fundamentos da sociedade do trabalho, preferem satanizar os “especuladores”. Esta imagem barata de inimigo, cultivam em uníssono radicais da direita e autônomos da esquerda, funcionários sindicalistas pequenos burgueses e nostálgicos keynesianos, teólogos sociais e apresentadores de talk shows, enfim, todos os apóstolos do “trabalho honrado”. Poucos estão conscientes de que se está apenas a um pequeno passo deste ponto até a remobilização da loucura anti-semita. Apelar ao capital real “produtivo” e “de sangue nacional” contra o capital-dinheiro “judaico”, internacional e “usurário” – esta ameaça ser a última palavra da “esquerda dos postos de trabalho”, intelectualmente perdida. De qualquer maneira, esta já é a última palavra da “direita dos postos de trabalho”, desde sempre racista, anti-semita e antiamericana.

“Tão logo o trabalho, na sua forma imediata, tiver deixado de ser a grande fonte de riqueza, o tempo de trabalho deixa, e tem de deixar, de ser a sua medida, e, por isso, o valor de troca (a medida) do valor de uso.(…) Em virtude disso, a produção fundada no valor de troca desmorona e o próprio processo de produção material imediato se despoja da forma do carecimento e da oposição.”
(Karl Marx – “Grundrisse”, 1857/58)

14. Trabalho não se deixa redefinir

Após séculos de adestramento, o homem moderno simplesmente não consegue imaginar uma vida além do trabalho. Como princípio imperial, o trabalho domina não só a esfera da economia no sentido estrito, mas permeia toda a existência social até os poros do cotidiano e da existência privada. O “tempo livre”, que por sua própria semântica já é um termo de presídio, serve, há tempos, para “trabalhar” mercadorias e, assim, garantir a venda necessária.

Mas, mesmo além do dever interiorizado do consumo de mercadorias como fim em si mesmo, a sombra do trabalho põe-se sobre o indivíduo moderno também fora do escritório e da fábrica. Tão somente por levantar-se da poltrona da TV e tornar-se ativo, qualquer ação efetuada transforma-se em algo semelhante ao trabalho. O jogger substitui o relógio de ponto pelo cronômetro. Nas academias reluzentes, a Roda-Viva vivencia o seu renascimento pós-moderno, e os motoristas nas férias fazem tantos e tantos quilômetros como se fossem alcançar a cota anual de um caminhoneiro. E mesmo o trepar se orienta pelas normas DIN (ISO 9000) da pesquisa sexual e pelos padrões de concorrência das fanfarronices dos talk shows.

Se o rei Midas ao menos ainda vivenciava como maldição o fato de que tudo em que tocava virava ouro, o seu companheiro de sofrimento moderno já ultrapassou esse estado. O homem do trabalho nem nota mais que, pela adaptação ao padrão do trabalho, cada atividade perde sua qualidade sensível específica e torna-se indiferente. Ao contrário, ele dá sentido, razão de existência e significado social a alguma atividade somente através desta adaptação à indiferença do mundo da mercadoria. Com um sentimento como o luto, o sujeito do trabalho não sabe o que fazer; todavia, a transformação do luto em “trabalho de luto” faz desse corpo estranho emocional algo conhecido, através do qual se pode intercambiar com seus semelhantes. Até mesmo sonhar torna-se “trabalho de sonho”, o conflito com a pessoa amada torna-se “trabalho de relação” e o trato de crianças é desrealizado e indiferenciado como “trabalho de educação”. Sempre que o homem moderno insiste em fazer algo com “seriedade”, tem na ponta da língua a palavra “trabalho”.

O imperialismo do trabalho tem seus reflexos na linguagem cotidiana. Não só temos o hábito de inflacionar a palavra “trabalho”, mas a usamos em dois níveis de significância totalmente diferentes. Faz tempo que o “trabalho” não significa mais (como seria adequado) a forma de atividade capitalista da Roda do fim em si mesmo, antes este conceito torna-se, escondendo seus rastros, sinônimo de qualquer atividade com objetivo.

A falta de foco conceitual prepara o solo para uma crítica à sociedade do trabalho tão corriqueira e de meia-tigela que opera exatamente de modo oposto, isto é, toma como ponto de partida uma interpretação positiva do imperialismo do trabalho. Por incrível que pareça, a sociedade do trabalho é acusada de ainda não dominar suficientemente a vida com a sua forma de atividade, porque, pretensamente, ela definiria o conceito de trabalho de modo “muito estreito”, isto é, excomungando moralmente o “trabalho para si mesmo” ou o trabalho enquanto “auto-ajuda não-remunerada” (trabalho doméstico, ajuda da vizinhança etc.). Ela aceita, como “efetivo”, apenas o trabalho-emprego, conforme a dinâmica do mercado. Uma reavaliação e uma ampliação do conceito de trabalho deveria eliminar esta fixação unilateral e as hierarquizações ligadas a ela.

Este pensamento não trata da emancipação das coerções dominantes, mas somente de uma correção semântica. A ilimitada crise da sociedade do trabalho deveria ser solucionada pela consciência social através da elevação “efetiva” das formas de atividade, até então inferiores e laterais à esfera da produção capitalista, ao estado do nobre trabalho. Mas a inferioridade destas atividades não é somente resultado de uma determinada maneira ideológica de perceber, mas pertence à estrutura fundamental do sistema capitalista e não pode ser superada por redefinições morais simpáticas.

Numa sociedade dominada pela produção de mercadorias com o fim em si mesmo, só vale como riqueza propriamente dita o que é representável na forma monetária. O conceito de trabalho, assim determinado, brilha de modo imperial sobre todas as outras esferas, mas apenas negativamente, à medida que revela estas esferas como dependentes de si. Assim, as esferas externas à produção de mercadorias ficam necessariamente na sombra da esfera da produção capitalista, porque não são absorvidas pela lógica abstrata empresarial de economia de tempo – mesmo, e exatamente, quando elas são necessárias para a vida, como no caso da esfera de atuação cindida e definida como feminina, doméstica privada, de dedicação pessoal etc.

Ao invés de sua crítica radical, uma ampliação moralizante do conceito de trabalho não só vela o imperialismo social real da economia produtora de mercadorias, mas integra-se também perfeitamente nas estratégias autoritárias da administração estatal da crise. A reivindicação feita desde os anos 70 para que o “trabalho doméstico” e as atividades do “terceiro setor” também devessem ser reconhecidos socialmente como trabalhos válidos, especula, desde o primeiro momento, uma remuneração estatal em dinheiro. O Estado em crise inverte a espada e mobiliza o ímpeto moral desta reivindicação no sentido do afamado “princípio de subsídio”, exatamente contra as suas expectativas materiais.

O cântico dos cânticos da “função honorífica” e do “trabalho voluntário” não trata da permissão de mexer nas panelas financeiras quase vazias do Estado, mas torna-se álibi para a recuada do Estado aos programas, agora em marcha, de trabalho coercitivo e para a tentativa sórdida de passar o peso da crise, principalmente, para as mulheres. As instituições sociais oficiais abandonam a sua responsabilidade social com o apelo tão amigável quanto gratuito a “nós todos”, faça o favor, para combater, por iniciativa privada, tanto a própria miséria quanto a dos outros, sem fazer nenhuma reivindicação material. Assim, mal entendido como programa de emancipação, o malabarismo definidor do santificado conceito de trabalho abre as portas à tentativa estatal de suprimir o trabalho assalariado através da eliminação do salário com a simultânea manutenção do trabalho na terra queimada da economia de mercado. Comprova-se, assim, involuntariamente, que a emancipação social não pode ter como conteúdo a revalorização do trabalho, mas unicamente a consciente desvalorização do trabalho.

“Ao lado dos serviços materiais, também os serviços pessoais e simples podem elevar o bem-estar imaterial. Assim, pode-se elevar o bem-estar de um cliente quando um prestador de serviço retira-lhe trabalho que ele próprio teria de fazer. Ao mesmo tempo, eleva-se o bem-estar dos prestadores de serviço quando o seu sentimento de auto-estima se eleva através da atividade. Exercer um serviço simples e relacionado a uma pessoa é melhor à psique que estar desempregado.”
(Relatório da Comissão para Questões do Futuro dos Estados Livres da Baviera e da Saxônia, 1997)

“Preserve o conhecimento comprovado no trabalho, pois a própria natureza confirma este conhecimento, diz sim a ele. No fundo, você não tem outro conhecimento a não ser aquele que foi adquirido através do trabalho, o resto é uma hipótese do saber.”
(Thomas Carlyle – Trabalhar e não desesperar, 1843).

15. A crise da luta de interesses

Mesmo que a crise fundamental do trabalho seja reprimida ou transformada em tabu, ela cunha todos os conflitos sociais atuais. A transição de uma sociedade de integração de massas para uma ordem de seleção e apartheid não levou a uma nova rodada da velha luta de classes entre capital e trabalho, mas a uma crise categorial da própria luta de interesses imanente ao sistema. Já na época da prosperidade, após a Segunda Guerra Mundial, a antiga ênfase da luta de classes empalideceu. Mas não porque o sujeito revolucionário “em si” foi “integrado” ao questionável bem-estar através de manipulações e corrupção, mas ao contrário, porque veio à tona, no estado de desenvolvimento fordista, a identidade lógica de capital e trabalho enquanto categorias sociais funcionais de uma forma fetichista social comum. O desejo imanente ao sistema de vender a mercadoria força de trabalho em melhores condições possíveis perdeu qualquer momento transcendente.

Se, até os anos 70, tratava-se ainda da luta pela participação de camadas mais amplas possíveis da população nos frutos venenosos da sociedade do trabalho, este impulso foi apagado sob as novas condições de crise da terceira revolução industrial. Somente enquanto a sociedade do trabalho expandiu-se foi possível desencadear a luta de interesses de suas categorias sociais funcionais em grande escala. Porém, na mesma medida em que a base comum desapareceu, os interesses imanentes ao sistema não puderam mais ser reunidos ao nível da sociedade geral. Inicia-se uma dessolidarização generalizada. Os assalariados desertam dos sindicatos, as executivas desertam das confederações empresariais. Cada um por si e o deus-sistema capitalista contra todos: a individualização sempre suplicada é nada mais do que um sintoma de crise da sociedade do trabalho.

Enquanto interesses ainda podiam ser agregados, o mesmo só se dava em escala microeconômica. Pois, na mesma medida em que, ironicamente, a permissão para embutir a própria vida no âmbito econômico empresarial desdobrou-se de libertação social em quase um privilégio, as representações de interesse da mercadoria força de trabalho degeneraram numa política inescrupulosa de lobbies de segmentos sociais cada vez menores. Quem aceita a lógica do trabalho tem, agora, de aceitar a lógica do apartheid. Ainda trata-se, somente, de assegurar a venalidade de sua própria pele para uma clientela restrita, às custas de todos os outros. Há tempos, empregados e membros de conselhos das empresas não encontram mais seus verdadeiros adversários entre os executivos de sua empresa, mas entre os assalariados de empresas e de “localizações” concorrentes, tanto faz se na cidade vizinha ou no Extremo Oriente. E, quando se coloca a questão: quem será sacrificado no próximo impulso da racionalização econômica empresarial, também o departamento vizinho e o colega imediato tornam-se inimigos.

A dessolidarização radical atinge não apenas o conflito empresarial e sindical. Mas, justamente quando na crise da sociedade do trabalho todas as categorias funcionais insistem ainda mais fanaticamente na sua lógica inerente, isto é, que todo o bem-estar humano só possa ser o mero produto residual da valorização rentável, então o princípio de São Floriano domina todos os conflitos de interesse. Todos os lobbies conhecem as regras do jogo e agem conforme tais regras. Cada dólar que a outra clientela recebe, é um dólar perdido para a sua própria clientela. Cada ruptura do outro lado da rede social aumenta a chance de prolongar o seu próprio prazo para a forca. O aposentado torna-se o adversário natural do contribuinte, o doente o inimigo de todos os assegurados e o imigrante objeto de ódio de todos os nativos enfurecidos.

A pretensão de querer utilizar a luta de interesses imanentes ao sistema como alavanca de emancipação social esgota-se irreversivelmente. Assim, a esquerda clássica está no seu fim. O renascimento de uma crítica radical do capitalismo pressupõe a ruptura categorial com o trabalho. Unicamente quando se põe um novo objetivo da emancipação social além do trabalho e de suas categorias fetichistas derivadas (valor, mercadoria, dinheiro, Estado, forma jurídica, nação, democracia etc.), é possível uma ressolidarização a um nível mais elevado e na escala da sociedade como um todo. Somente nesta perspectiva podem ser reagregadas lutas defensivas imanentes ao sistema contra a lógica da lobbização e da individualização; agora, contudo, não mais na relação positiva, mas na relação negadora estratégica das categorias dominantes.

Até agora, a esquerda tenta fugir desta ruptura categorial com a sociedade do trabalho. Ela rebaixa as coerções do sistema a meras ideologias e a lógica da crise a um mero projeto político dos “dominantes”. Em lugar da ruptura categorial, aparece a nostalgia social-democrata e keynesiana. Não se pretende uma nova universalidade concreta da formação social além do trabalho abstrato e da forma-dinheiro, bem ao contrário, a esquerda tenta manter forçosamente a antiga universalidade abstrata dos interesses imanentes ao sistema. Essas tentativas continuam abstratas e não conseguem mais integrar nenhum movimento social de massas porque passam despercebidas nas relações reais de crise.

Em particular, isto vale para a reivindicação de renda mínima ou de dinheiro para subsistência. Em vez de ligar as lutas sociais concretas defensivas contra determinadas medidas do regime de apartheid com um programa geral contra o trabalho, esta reivindicação pretende construir uma falsa universalidade de crítica social, que se mantém em todos os aspectos abstrata, desamparada e imanente ao sistema. A concorrência social de crise não pode ser superada assim. De uma maneira ignorante, continua-se a pressupor o funcionamento eterno da sociedade global do trabalho, pois, de onde deveria provir o dinheiro para financiar a renda mínima garantida pelo Estado senão dos processos de valorização com bom êxito? Quem conta com este “dividendo social” (o termo já explica tudo) precisa apostar, ao mesmo tempo, e disfarçadamente, na posição privilegiada de “seu próprio país” na concorrência global, pois só a vitória na guerra global dos mercados poderia garantir provisoriamente o alimento de alguns milhões de “supérfluos” na mesa capitalista – obviamente excluindo todas as pessoas sem carteira de identidade nacional.

Os reformistas “amadores” da reivindicação de renda mínima ignoram a configuração capitalista da forma-dinheiro em todos os aspectos. No fundo, entre os sujeitos do trabalho e os sujeitos do consumo de mercadorias capitalistas, eles apenas querem salvar este último. Em vez de pôr em questão o modo de vida capitalista em geral, o mundo continuaria, apesar da crise do trabalho, a ser enterrado debaixo de uma avalanche de latas fedorentas, de horrorosos blocos de concreto e do lixo de mercadorias inferiores, para que aos homens reste a última e triste liberdade que eles ainda podem imaginar: a liberdade de escolha ante às prateleiras do supermercado.

Mas mesmo esta perspectiva triste e limitada é totalmente ilusória. Seus protagonistas esquerdistas e analfabetos teóricos esqueceram que o consumo capitalista de mercadorias nunca serve simplesmente para a satisfação de necessidades, mas tem sempre apenas uma função no movimento de valorização. Quando a força de trabalho não pode mais ser vendida, mesmo as necessidades mais elementares são consideradas pretensões luxuosas e desavergonhadas, que deveriam ser reduzidas ao mínimo. E, justamente por isso, o programa de renda mínima funciona como veículo, isto é, como instrumento da redução de custos estatais e como versão miserável da transferência social, que substitui os seguros sociais em colapso. Neste sentido, o guru do neoliberalismo Milton Friedman originalmente desenvolveu a concepção da renda mínima antes que a esquerda desarmada a descobrisse como a pretensa âncora de salvação. E com este conteúdo ela será realidade – ou não.

“Foi comprovado que, conforme as leis inevitáveis da natureza humana, alguns homens estão expostos à necessidade. Estes, são as pessoas infelizes que, na grande loteria da vida, tiraram a má sorte.”
(Thomas Robert Malthus)

16. A superação do trabalho

A ruptura categorial com o trabalho não encontra nenhum campo social pronto e objetivamente determinado, como no caso da luta de interesses limitada e imanente ao sistema. Trata-se da ruptura com uma falsa normatividade objetivada de uma “segunda natureza”, portanto não da repetição de uma execução quase automática, mas de uma conscientização negadora – recusa e rebelião sem qualquer “lei da história” como apoio. O ponto de partida não pode ser algum novo princípio abstrato geral, mas apenas o nojo perante a própria existência enquanto sujeito do trabalho e da concorrência, e a rejeição categórica do dever de continuar “funcionando” num nível cada vez mais miserável.

Apesar de sua predominância absoluta, o trabalho nunca conseguiu apagar totalmente a repugnância contra as coerções impostas por ele. Ao lado de todos os fundamentalismos regressivos e de todos os desvarios de concorrência da seleção social, existe também um potencial de protesto e resistência. O mal-estar no capitalismo está maciçamente presente, mas é reprimido para o subsolo sócio-psíquico. Não se apela a este mal-estar. Por isso, precisa-se de um novo espaço livre intelectual para poder tornar pensável o impensável. O monopólio de interpretação do mundo pelo campo do trabalho precisa ser rompido. A crítica teórica do trabalho ganha, assim, um papel de catalisador. Ela tem o dever de atacar, frontalmente, as proibições dominantes do pensar; e expressar, aberta e claramente, aquilo que ninguém ousa saber, mas que muitos sentem: a sociedade do trabalho está definitivamente no seu fim. E não há a menor razão para lamentar sua agonia.

Somente a crítica do trabalho formulada expressamente e um debate teórico correspondente podem criar aquela nova contra-esfera pública, que é um pressuposto indispensável para construir um movimento de prática social contra o trabalho. As disputas internas ao campo de trabalho esgotaram-se e tornaram-se cada vez mais absurdas. É, portanto, mais urgente, redefinir as linhas de conflitos sociais nas quais uma união contra o trabalho possa ser formada.

Precisam ser esboçadas em linhas gerais quais são as diretrizes possíveis para um mundo além do trabalho. O programa contra o trabalho não se alimenta de um cânon de princípios positivos, mas a partir da força da negação. Se a imposição do trabalho foi acompanhada por uma longa expropriação do homem das condições de sua própria vida, então a negação da sociedade do trabalho só pode consistir em que os homens se reapropriem da sua relação social num nível histórico superior. Por isso, os inimigos do trabalho almejam a formação de uniões mundiais de indivíduos livremente associados, para que arranquem da máquina de trabalho e valorização que-gira-em-falso os meios de produção e existência, tomando-os em suas próprias mãos. Somente na luta contra a monopolização de todos os recursos sociais e potenciais de riqueza pelas forças alienadoras do mercado e Estado, podem ser ocupados os espaços sociais de emancipação.

Também a propriedade privada precisa ser atacada de um modo diferente e novo. Para a esquerda tradicional, a propriedade privada não era a forma jurídica do sistema produtor de mercadorias, mas apenas um poder de “disposição” ominoso e subjetivo dos capitalistas sobre os recursos. Assim, pode aparecer a idéia absurda de querer superar a propriedade privada no terreno da produção de mercadorias. Então, como oposição à propriedade privada aparecia, em regra, a propriedade estatal (”estatização”). Mas o Estado não é outra coisa senão a associação coercitiva exterior ou a universalidade abstrata de produtores de mercadorias socialmente atomizados, a propriedade estatal é apenas uma forma derivada da propriedade privada, tanto faz se com, ou sem, o adjetivo socialista.

Na crise da sociedade do trabalho, tanto a propriedade privada quanto a propriedade estatal ficam obsoletas porque as duas formas de propriedade pressupõem do mesmo modo o processo de valorização. É por isso que os correspondentes meios materiais ficam crescentemente em “pousio” ou trancados. De maneira ciumenta, funcionários estatais, empresariais e jurídicos vigiam para que isto continue assim e para que os meios de produção antes apodreçam do que sejam utilizados para um outro fim. A conquista dos meios de produção por associações livres contra a administração coercitiva estatal e jurídica só pode significar que esses meios de produção não sejam mais mobilizados sob a forma da produção de mercadorias para mercados anônimos.

Em lugar da produção de mercadorias entra a discussão direta, o acordo e a decisão conjunta dos membros da sociedade sobre o uso sensato de recursos. A identidade institucional social entre produtores e consumidores, impensável sobre o ditado do fim em si mesmo capitalista, será construída. As instituições alienadas pelo mercado e pelo Estado serão substituídas pelo sistema em rede de conselhos, nos quais as livres associações, da escala dos bairros até a mundial, determinam o fluxo de recursos conforme pontos de vista da razão sensível social e ecológica.

Não é mais o fim em si mesmo do trabalho e da “ocupação” que determina a vida, mas a organização da utilização sensata de possibilidades comuns, que não serão dirigidas por uma “mão invisível” automática, mas por uma ação social consciente. A riqueza produzida é apropriada diretamente segundo as necessidades, não segundo o “poder de compra”. Junto com o trabalho, desaparece a universalidade abstrata do dinheiro, tal como aquela do Estado.

Em lugar de nações separadas, uma sociedade mundial que não necessita mais de fronteiras e na qual todas as pessoas podem se deslocar livremente e exigir em qualquer lugar o direito de permanência universal.

A crítica do trabalho é uma declaração de guerra contra a ordem dominante, sem a coexistência pacífica de nichos com as suas respectivas coerções. O lema da emancipação social só pode ser: tomemos o que necessitamos! Não nos arrastemos mais de joelhos sob o jugo dos mercados de trabalho e da administração democrática da crise! O pressuposto disso é o controle feito por novas formas sociais de organização (associações livres, conselhos) sobre as condições de reprodução de toda a sociedade. Esta pretensão diferencia os princípios dos inimigos do trabalho de todos os dos políticos de nichos e de todos os dos espíritos mesquinhos de um socialismo de colônias de pequenas hortas.

O domínio do trabalho cinde o indivíduo humano. Separa o sujeito econômico do cidadão, o animal de trabalho do homem de tempo livre, a esfera pública abstrata da esfera privada abstrata, a masculinidade produzida da feminilidade produzida, opondo, assim, ao indivíduo isolado, sua própria relação social como um poder estranho e dominador. Os inimigos do trabalho almejam a superação dessa esquizofrenia através da apropriação concreta da relação social por homens conscientes, atuando auto-reflexivamente.

“O ‘trabalho’ é, em sua essência, a atividade não livre, não humana, não social, determinada pela propriedade privada e que cria a propriedade privada. A superação da propriedade privada se efetivará somente quando ela for concebida como superação do ‘trabalho’.”
(Karl Marx – Sobre o livro “O sistema Nacional da economia política” de Friedrich List, 1845)

17. Um programa de abolições contra os amantes do trabalho

Os inimigos do trabalho serão acusados de não serem outra coisa que fantasistas. A história teria comprovado que uma sociedade que não se baseia nos princípios do trabalho, da coerção da produção, da concorrência de mercado e do egoísmo individual, não poderia funcionar. Vocês, apologistas do status quo, querem afirmar que a produção de mercadorias capitalistas trouxe, realmente, para a maioria dos homens, uma vida minimamente aceitável? Vocês dizem “funcionar”, quando justamente o crescimento saltitante de forças produtivas expulsa milhões de pessoas da humanidade, que podem então ficar felizes em sobreviver nos lixões? Quando outros milhões suportam a vida corrida sob o ditado do trabalho no isolamento, na solidão, no doping sem prazer do espírito e adoecendo física e psiquicamente? Quando o mundo se transforma num deserto só para fazer do dinheiro mais dinheiro? Pois bem, este é realmente o modo como vosso sistema grandioso de trabalho “funciona”.

Estes resultados, não queremos alcançar!

Vossa auto-satisfação se baseia na vossa ignorância e na fraqueza de vossa memória. A única justificativa que encontram para vossos crimes atuais e futuros é a situação do mundo que se baseia em vossos crimes passados.

Vocês esqueceram e reprimiram quantos massacres estatais foram necessários para impor, com torturas, a “lei natural” da vossa mentira nos cérebros dos homens, tanto que seria quase uma felicidade ser “ocupado”, determinado externamente, e deixado que se sugasse a energia de vida para o fim em si mesmo abstrato de vosso deus-sistema.

Precisavam ser exterminadas todas as instituições da auto-organização e da cooperação autodeterminada das antigas sociedades agrárias, até que a humanidade fosse capaz de interiorizar o domínio do trabalho e do egoísmo. Talvez tenha sido feito um trabalho perfeito. Não somos otimistas exagerados. Não sabemos se existe ainda uma libertação desta existência condicionada. Fica em aberto a questão se o declínio do trabalho leva à superação da mania do trabalho ou ao fim da civilização.

Vocês argumentarão que com a superação da propriedade privada e da coerção de ganhar dinheiro, todas as atividades acabam e que se iniciará então uma preguiça generalizada. Vocês confessam portanto que todo vosso sistema “natural” se baseia em pura coerção? E que, por isso, vocês teimam em ser a preguiça um pecado mortal contra o espírito do deus-trabalho? Os inimigos do trabalho não têm nada contra a preguiça. Um dos seus objetivos principais é a reconstrução da cultura do ócio, que antigamente todas as sociedades conheciam e que foi destruída para impor uma produção infatigável e vazia de sentido. Por isso, os inimigos do trabalho irão paralisar, sem compensação, em primeiro lugar, os inúmeros ramos de produção que apenas servem para manter, sem levar em consideração quaisquer danos, o louco fim em si mesmo do sistema produtor de mercadorias.

Não falamos apenas das áreas de trabalho claramente inimigas públicas, como a indústria automobilística, a de armamentos e a de energia nuclear, mas também a da produção de múltiplas próteses de sentido e objetos ridículos de entretenimento que devem enganar e fingir para o homem do trabalho uma substituição para sua vida desperdiçada. Também terá de desaparecer o número monstruoso de atividades que só aparecem porque as massas de produtos precisam ser comprimidas para passar pelo buraco da agulha da forma-dinheiro e da mediação do mercado.

Ou vocês acham que serão ainda necessários contabilistas e calculadores de custo, especialistas de marketing e vendedores, representantes e autores de textos de publicidade quando as coisas forem sendo produzidas conforme a necessidade, ou quando todos simplesmente tomarem o que for preciso? Por que então ainda existir funcionários de secretaria de finanças e policiais, assistentes sociais e administradores de pobreza, quando não houver mais nenhuma propriedade privada a ser protegida, quando não for preciso administrar nenhuma miséria social e quando não for preciso domar ninguém para a coerção alienada do sistema?

Já estamos ouvindo o grito: quantos empregos! Sim senhor. Calculem com calma quanto tempo de vida a humanidade se rouba diariamente só para acumular “trabalho morto”, administrar pessoas e azeitar o sistema dominante. Quanto tempo nós todos poderíamos deitar ao sol, em vez de se esfolar para coisas cujo caráter grotesco, repressivo e destruidor já se encheu bibliotecas inteiras. Mas não tenham medo. De forma alguma acabarão todas as atividades quando a coerção do trabalho desaparecer. Porém, toda a atividade muda seu caráter quando não está mais fixada na esfera de tempos de fluxo abstratos, esvaziada de sentido e com fim em si, podendo seguir, ao contrário o seu próprio ritmo, individualmente variado e integrado em contextos de vida pessoais; quando em grandes formas de organização os homens por si mesmos determinarem o curso, em vez de serem determinados pelo ditado da valorização empresarial. Por que deixar-se apressar pelas reivindicações insolentes de uma concorrência imposta? É o caso de redescobrir a lentidão.

Obviamente, também não desaparecerão as atividades domésticas e de assistência que a sociedade do trabalho tornou invisível, cindiu e definiu como “femininas”. Cozinhar é tão pouco automatizável quanto trocar fraldas de bebê. Quando, junto com o trabalho, a separação das esferas sociais for superada, estas atividades necessárias podem aparecer sob organização social consciente, ultrapassando qualquer definição sexual. Elas perdem seu caráter repressivo quando pessoas não mais subsumem-se entre si, e quando são realizadas segundo as necessidades de homens e mulheres da mesma forma.

Não estamos dizendo que qualquer atividade torna-se, deste modo, prazer. Algumas mais, outras menos. Obviamente há sempre algo necessário a ser feito. Mas a quem isso poderia assustar se a vida não será devorada por isso? E haverá sempre muito o que possa ser feito por decisão livre. Pois a atividade, assim como o ócio, é uma necessidade. Nem mesmo o trabalho conseguiu apagar totalmente esta necessidade, apenas a instrumentalizou e a sugou vampirescamente.

Os inimigos do trabalho não são fanáticos de um ativismo cego, nem de um nada fazer também cego. Ócio, atividades necessárias e atividades livremente escolhidas devem ser colocados numa relação com sentido que se oriente nas necessidades e nos contextos de vida. Uma vez despojadas das coerções objetivas capitalistas do trabalho, as forças produtivas modernas podem ampliar, enormemente, o tempo livre disponível para todos. Por que passar, dia após dia, tantas horas em fábricas e escritórios se autômatos de todos os tipos podem assumir uma grande parte destas atividades? Para que deixar suar centenas de corpos humanos quando algumas poucas ceifadoras resolvem? Para que gastar o espírito com uma rotina que o computador, sem nenhum problema, executa?

Todavia, para esses fins só podem ser utilizados a mínima parte da técnica na sua forma capitalista dada. A grande parte dos agregados técnicos precisa ser totalmente transformada porque foi construída segundo os padrões limitados da rentabilidade abstrata. Por outro lado, muitas possibilidades técnicas não foram ainda nem desenvolvidas pela mesma razão. Apesar da energia solar poder ser produzida em qualquer canto, a sociedade do trabalho põe no mundo usinas nucleares centralizadas e de alta periculosidade. E apesar de serem conhecidos métodos não agressivos na produção agrária, o cálculo abstrato do dinheiro joga milhares de venenos na água, destrói os solos e empesta o ar. Só por razões empresariais, materiais de construção e alimentos estão sendo transportados três vezes em volta do globo, apesar de poderem ser produzidos sem grandes custos localmente. Uma grande parte da técnica capitalista é tão vazia de sentido e supérflua quanto o dispêndio de energia humana relacionada a ela.

Não estamos dizendo-lhes nada de novo. Mas mesmo assim, vocês sabem que nunca tirarão as conseqüências disto tudo, pois recusam qualquer decisão consciente sobre a aplicação sensata de meios de produção, transporte e comunicação e sobre quais deles são maléficos ou simplesmente supérfluos. Quanto mais apressados vocês rezam seu mantra da liberdade democrática, tanto mais aferradamente rejeitam a liberdade de decisão social mais elementar, porque querem continuar servindo ao defunto dominante do trabalho e às suas pseudo “leis naturais”.

“Que o trabalho, não somente nas condições atuais, mas em geral, na medida em que sua finalidade é a simples ampliação da riqueza, quer dizer, que o trabalho por si só seja prejudicial e nefasto – isto sucede, sem que o economista nacional o saiba (Adam Smith), de suas próprias exposições.”
(Karl Marx – Manuscritos Econômico-Filosóficos, 1844)

18. A luta contra o trabalho é antipolítica.

A superação do trabalho é tudo menos uma utopia nas nuvens. A sociedade mundial não pode continuar na sua forma atual por mais cinqüenta ou cem anos. O fato de os inimigos do trabalho tratarem de um deus-trabalho clinicamente morto não quer dizer que sua tarefa torna-se necessariamente mais fácil. Quanto mais a crise da sociedade do trabalho se agrava e quanto mais falham todas as tentativas de consertá-la, tanto mais cresce o abismo entre o isolamento de mônadas sociais abandonadas e as reivindicações de um movimento de apropriação da sociedade como um todo. O crescente asselvajamento das relações sociais em grandes partes do mundo demonstra que a velha consciência do trabalho e da concorrência continuam num nível cada vez mais baixo. A descivilização por etapas parece, apesar de todos os impulsos de mal-estar no capitalismo, a forma do percurso natural da crise.

Justamente, face a perspectivas tão negativas, seria fatal colocar a crítica prática do trabalho ao cabo de um programa amplo em relação à sociedade como um todo e se limitar a construir uma economia precária de sobrevivência nas ruínas da sociedade do trabalho. A crítica do trabalho só tem uma chance quando luta contra a corrente da dessocialização, ao invés de se deixar levar por ela. Os padrões civilizatórios não podem ser mais defendidos com a política democrática, mas apenas contra ela.

Quem almeja a apropriação emancipatória e a transformação de todo o contexto social, dificilmente pode ignorar a instância que até então organizou as condições gerais deste contexto. É impossível se revoltar contra a apropriação das próprias potencialidades sociais sem o confronto com o Estado. Pois o Estado não administra apenas cerca de metade da riqueza social, mas assegura também a subordinação coercitiva de todos os potenciais sociais sob o mandamento da valorização. Se tampouco os inimigos do trabalho podem ignorar o Estado e a política, tampouco podem fazer Estado e política com eles.

Quando o fim do trabalho é o fim da política, um movimento político para a superação do trabalho seria uma contradição em si. Os inimigos do trabalho dirigem reivindicações ao Estado, mas não formam nenhum partido político, nem nunca formarão. A finalidade da política só pode ser a conquista do aparelho do Estado para dar continuidade à sociedade do trabalho. Os inimigos do trabalho, por isso, não querem ocupar os painéis de controle do poder, mas sim desligá-los. A sua luta não é política, mas sim antipolítica.

Na modernidade, Estado e política são inseparavelmente ligados ao sistema coercitivo do trabalho e, por isso, precisam desaparecer junto com ele. O palavreado sobre um renascimento da política é apenas a tentativa de reduzir a crítica do terror econômico a uma ação positiva referente ao Estado. Auto-organização e autodeterminação, porém, são simplesmente o oposto exato de Estado e política. A conquista de espaços livres sócio-econômicos e culturais não se realiza no desvio político, na via oficial, nem no extravio, mas através da constituição de uma contra-sociedade.

Liberdade quer dizer não se deixar embutir pelo mercado, nem se deixar administrar pelo Estado, mas organizar as relações sociais sob direção própria – sem a interferência de aparelhos alienados. Neste sentido, interessa aos inimigos do trabalho encontrar novas formas de movimentos sociais e ocupar pontos estratégicos para a reprodução da vida, para além do trabalho. Trata-se de juntar as formas de uma práxis de oposição social, com a recusa ofensiva do trabalho.

Os poderes dominantes podem declarar-nos loucos porque arriscamos a ruptura com seu sistema coercitivo irracional. Não temos nada a perder senão a perspectiva da catástrofe para a qual eles nos conduzem. Temos a ganhar um mundo além do trabalho.

Proletários de todo mundo, ponham fim nisso!

“Nossa vida é o assassinato pelo trabalho, durante sessenta anos ficamos enforcados e estrebuchando na corda, mas não a cortamos.”
(Georg Büchner – A Morte de Danton, 1835).


Publicado nos Cadernos do Labur – nº 2 (Laboratório de Geografia Urbana/Departamento de Geografia/Universidade de São Paulo. Contatos: Krisis na internet – www.magnet.at/krisis ; e-mail: ntrenkle@aol.com ; Grupo Krisis-Labur-São Paulo: labur@edu.usp.br

Grupo Krisis – Tradução de Heinz Dieter Heidemann com colaboração de Cláudio Roberto Duarte

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/manifesto-contra-o-trabalho/

Ars Almadel – A Quarta Chave Menor de Salomão

Ars Almadel
Tradução por LVX NOX (Leonardo M.) Grupo de Traduções Ocultas

Aqui começa A Quarta Parte deste Livro
O qual é chamado a Arte Almadel de Salomão

Por esta arte, Salomão obteve grande sabedoria dos Anjos Superiores que governam as quatro Altitudes do Mundo: você deve observar que há quatro Altitudes, que representam os quatro Cantos, Oeste, Leste, Norte e Sul: os quais são divididos em 12 partes; isto é, cada um com 3 partes. E o Anjo de cada uma¹ dessas partes possui suas virtudes e poderes particulares, como devem ser mostradas no seguinte tópico (resumo), &c (etc).

Constrói este Almadel da mais pura cera branca; porém os outros devem ser coloridos apropriadamente para a Altitude. Cada quadrado deve ser de 4 polegadas, e para cada sentido deve ser 6 polegadas, e em cada canto deverá ter um buraco, e escreve entre cada buraco com uma caneta nova as seguintes palavras e nomes de Deus. Mas isto deve ser feito em um dia e hora do Sol. Escreve sobre a primeira parte, para o Leste, ADONAIJ, HELOMI, PINE. E sobre a segunda parte, para o Sul, HELION, HELOI, HELI. E sobre a parte do Oeste, JOD, HOD, AGLA. E sobre a quarta parte, a qual é o Norte, escreve TETRAGRAMMATON, SHADAI, JAH.

E entre a primeira e as outras partes, marca o pentáculo de Salomão, assim: e entre o primeiro quadrante escreve a palavra ANABONA, e no meio do Almadel constrói a figura do hexágono , e no meio deste, deverá haver um triângulo, onde devem está escrito estes nomes de Deus HELL, HELION, ADONAIJ, e ao redor desta figura de seis ângulos, deverá ficar como está no exemplo.

E da mesma cera devem ser feitas quatro velas. E elas devem ser da mesma cor da qual o Almadel é. Divide tua cera em três partes: uma para criar o Almadel, e as outras duas partes para fazer as velas. E deixa vir de cada uma delas um pé feito da mesma cera para apoiar o Almadel.

Estando isto feito, num lugar próximo tu deverás fazer um selo de ouro puro ou prata (mas o ouro é melhor) sobre o qual devem ser gravados estes três nomes HELION, HELLUION, ADONAIJ.
E observas que a Primeira Altitude é chamada Chora Orientis, ou Altitude Leste. E faz uma experiência nesta Chora, que deve ser feito no dia e hora do Sol. E o poder e ofício destes anjos é fazer todas as coisas fecundas, produtivas e férteis, e aumentar tanto nos animais e vegetais, na criação ou geração, promovendo o bom nascimento e desenvolvimento das crianças, e fazendo a mulher que é estéril, fértil.
E seus nomes são estes, a saber: ALIMIEL, GABRIEL, BARACHIEL, LEBES, HELISON.

E presta atenção para que não suplique ou ore por qualquer anjo, mas sim diante daquela Altitude da qual tu desejas chamar.

E quando tu administrares a colocação das quatro velhas sobre os quatro castiçais, que tu tenhas cautela para não acendê-las antes de você iniciar a operação.

Então posicione o Almadel entre as quatro velas e sobre um suporte que vêm das velas, e posicione o selo de ouro sobre o Almadel, e tendo a invocação que será lida escrita sobre um pergaminho virgem, acenda as velas e leia a invocação.

E quando ele aparecer na forma de um Anjo levando em sua mão um estandarte ou bandeira, tendo a figura de uma cruz branca¹ nesta, o corpo dele começará a ser envolvido com uma névoa suave, e uma coroa de flores rosa sobre sua cabeça.


Ele se elevará primeiro sobre o sobrescrito no Almadel, como se fosse uma névoa ou neblina.

Em seguida, tendo tu preparado um recipiente de terra da mesma cor que é o Almadel, e outro para seus acessórios, que seja na forma de uma bacia, colocará dentro deste algumas cinzas ou brasas, mas não deve ser em grande quantidade, para que não derreta a cera do Almadel. E colocai dentro deste, três pequenos grãos pulverizados de resina de lentisco², para que este possa defumar e o cheiro suba pelos buracos do Almadel quando o recipiente estiver abaixo deste.

E logo que o Anjo perceber o cheiro ele começará a falar com uma voz baixa, perguntando qual é o teu desejo, e o que te levara a chamar os príncipes e governantes desta Altitude para isso.

Então tu deves responder a ele, dizendo: Eu desejo que tudo o que peço seja concedido e aquilo que rogo seja realizado: por teu ofício faças com que isso aconteça e declarai assim que isso será feito por ti, se agrada a Deus, acrescentar as particularidades de seu pedido, pedindo com humildade para o que é lícito e justo: e tu deverás obter por ele.

Porém se ele não aparecer logo, então tu deverás alcançar o selo de ouro, e fazer com ele três ou quarto marcas sobre as velas, pelas quais se tenciona que o Anjo aparecerá prontamente como supracitado. E quando o Anjo partir ele preencherá totalmente o local com um doce e agradável cheiro, o qual será perceptível por um longo tempo.
E note que o selo de ouro servirá e é utilizado em todas as operações de todas as quatro Altitudes.

A cor pertencente à primeira Altitude, ou Chora, é branca como o lírio; o segundo Chora, a cor perfeita de uma rosa vermelha; o terceiro Chora é um verde mesclado com uma cor branco-prateada; o quarto Chora é negro misturado com um pouco de verde ou uma cor triste.

_ 1: An equal-armed cross is drawn in the manuscript, following the word “cross”.
2: O nome é “mastick”, também encontrado como mastic ou mastix, que é uma planta de origem das regiões gregas. Lentisco é o nome da resina produzida desta planta.

Do segundo Chora ou Altitude

Tomai nota de que as outras três Altitudes, com seus Sinais e Príncipes podem exercer poder acima de bens e riquezas, e podem fazer que qualquer homem rico seja pobre. E como a primeira Chora que concede crescimento e o torna produtivo, estes concedem decréscimo e esterilidade. E se alguém deseja operar com qualquer um dessas três Choras ou Altitudes seguintes, eles devem fazer isso em um die Solis (dia do Sol), na forma como foi mostrada acima.

Mas não rogues por algo que é contra Deus e Suas Leis, mas por aquilo que Deus concede por direito ou pelo o curso natural: que você possa desejar e obter.

Todos os acessórios a serem utilizados devem ser da mesma cor que o Almadel é.

E os príncipes do segundo Chora são estes, a saber: APHIRIZA, GENON, GERON, ARMON, GEREIMON. E quando tu estiveres a operar, deverá ajoelhar-se diante do Almadel, com roupas da mesma cor, pendurado em um armário também com a mesma cor; para a santa aparição que será da mesma cor.

E quando ele aparecer, ponha um vaso de barro abaixo do Almadel, com fogo ou carvão e três grãos (equivalente a 0,200 gramas) de lentisco (mastic) para perfumar como dito acima.

E quando o Anjo perceber o cheiro, ele voltará o rosto para ti, e perguntará com uma voz em tom baixo por que chamaste o príncipe desta Chora ou Altitude.

Então tu deverás responder como anteriormente: Eu desejo que tudo o que peço seja concedido e aquilo que rogo seja realizado: por seu ofício faças com que isso aconteça e declarai assim que isso será feito por ti, se agrada a Deus.

E tu não deves ficar com medo, porém falar humildemente, dizendo: Eu encarrego meu propósito totalmente ao teu ofício, e eu rogo a ti, Príncipe desta Altitude, que eu possa desfrutar e obter todas as coisas de acordo com meus desejos e vontade. E tu poderás acrescentar algo mais conforme sua mente manifestar todas as particularidades em tua oração, e fazer como nos outros dois Choras seguintes.

O Anjo do segundo Chora aparece na forma de uma jovem criança com roupas de cetim, e de cores de uma rosa vermelha, tendo uma coroa de flores ornamentais sobre sua cabeça. Seu rosto olha para além do céu e é de uma cor vermelha, e é rodeado por uma claridade esplendorosa, como os raios do sol.

Antes que ele parta, ele falará a ti dizendo, Eu sou teu amigo e irmão. E iluminará o ar ao redor com seu esplendor, e deixara um agradável cheiro o qual ficará até o fim por um longo tempo acima de sua cabeça.

Do terceiro Chora ou Altitude

Nesta Chora tu deves fazer todas as coisas conforme fora indicado nos outros dois. Os nomes dos anjos desta Altitude são estes, a saber: ELIPHANIASAI, GELOMIROS, GEDOBONAI, TARANAVA & ELOMINA.

Eles aparecem na forma de crianças pequenas ou uma mulher pequena trajando um vestido em cores verde muito belo visualmente, e uma coroa de folhas de louro e cores acima de sua cabeça. E elas olham um pouco para baixo com seus rostos. E eles falam como os anteriores a ti, e deixam um forte e doce perfume após sua saída.

Do quarto Chora ou Altitude

Neste Chora tu deves fazer como nos outros, e os Anjos nesta Chora são ARCAHIEL, GEDIEL, GEDIEL, DELIEL e CAPITIEL. Eles aparecem na forma de homens pequenos ou meninos, com roupas de cor escura misturado com verde escuro; e em suas mãos eles seguram um pássaro desprotegido; e suas cabeças estão envoltas de esplendorosas luzes de diversas cores. Eles deixam um cheiro doce atrás deles, porém diferente dos outros até certo ponto.

Horas para invocação dos Anjos

Observai que há doze Príncipes, além daqueles nas quarto Altitudes: e eles partilham seus ofícios entre eles mesmos, cada um dominando durante trinta dias a cada ano. Será em vão chamar qualquer um dos Anjos a não ser por aqueles que o governa, pois para cada Chora ou Altitude há um tempo limitado, de acordo com os doze signos Zodiacais; e desde que o Sol esteja neste Signo, este ou aquele Anjo que competem ao Signo possuem o controle [e poderão ser invocados].
Como, por exemplo: suponha que eu chamaria os dois primeiros dos cinco que pertencem ao primeiro Chora. Então escolho o primeiro domingo de Março, após o Sol ter entrado em Áries: e então eu faço uma invocação. E assim como, se você quiser, no próximo Domingo.
E se você chamará pelos os outros dois espíritos seguintes ainda da primeira Chora que seja em um Domingo após o Sol ter entrado em Touro, em Abril. Mas se você chamará pelo o último dos cinco, então você deverá aproveitar dos Domingos de Maio após o Sol ter entrado em Gêmeos, para fazer suas práticas.

Faça assim com as outras Altitudes, para que com todos eles exista uma forma única de trabalho. Mas as Altitudes possuem nomes formados individualmente na substância do paraíso, cada Nome. Para quando os Anjos ouvirem os nomes de Deus que lhes são atribuídos, eles escutem pela virtude da Individualidade do Nome. Por esta razão, é em vão chamar qualquer anjo ou espírito a menos que ele saiba qual nome chama por ele.

Então, observe a forma desta conjuração ou invocação:

A Invocação

Oh tu, poderoso, abençoado e glorioso Anjo de Deus (Nome), que governas e és Anjo superior governando no (número) Chora ou Altitude. Eu sou o servo do Supremo, o mesmo teu Deus ADONAIJ, HELOMI, e PINE¹; o mesmo a quem tu obedeces, e é o distribuidor e árbitro de todas as coisas, tanto no céu, na terra e no inferno, invoco-te, conjuro-te e rogo a ti (Nome), que apareças sem demora na virtude e poder do mesmo Deus, ADONAIJ, HELOMI e PINE; e eu te ordeno por aquele a quem obedeces, e é posto acima de ti como Rei no divino poder de Deus, que tu desças imediatamente de tua ordem ou local de residência e venha até mim; e que apareças visivelmente diante de mim nesta pedra de cristal, na tua própria forma e glória, falando com uma voz inteligível para meu entendimento.

Oh tu, forte e poderoso Anjo (Nome), quem és ordenado pelo o poder de Deus a governar os animais, vegetais e minerais, e causar a eles e a todas as criaturas de Deus a se espalhar e multiplicar de acordo com seus tipos e naturezas:

Eu, o servo do Deus Maior o qual tu obedeces, peço e humildemente imploro a ti que venha de sua mansão celestial, e mostre-me todas as coisas que eu desejar de ti, desde que tu sejas capaz, ou lhe seja possível fazê-lo, e se Deus permitir o mesmo.

Oh tu, servente de misericórdia (Nome), eu rogo humildemente e suplico-te por estes santos e abençoados nomes de Deus ADONAIJ, HELLOMI, PINE;

_ 1: Use o nome divino que governa a Altitude invocada, aqui e nos parágrafos seguintes.

E eu também te obrigo neste e por este poderoso nome ANABONA, que tu apareças visivelmente sem demora e claramente em sua forma e glória própria e que seja por este cristal, que eu possa vê-lo visivelmente; e possa ouvir-te falar diante de mim; e que eu possa ser abençoado por tua gloriosa assistência angelical, amizade familiar e companhia constante, comunhão e instrução, agora e por todo o tempo, justamente para me informar e me instruir na minha ignorância e corrompida inteligência; julgando e entendendo, e ajudar-me tanto aqui como também nas outras verdades, pelo o Todo-Poderoso ADONAIJ, Rei dos Reis, aquele que concede a todos boas dádivas, que generosa e paternalmente agracia com misericórdia; agradando-me com esta dádiva.

Por esta razão, oh abençoado Anjo (Nome), sejas amigável diante de mim, na medida em que Deus lhe dará o poder e a presença, para aparecer, e que eu possa cantar com seus Santos Anjos.
O Mappa Laman, Hallelujah. Amen.

Quando ele aparecer, dê a ele ou eles, acolhimento; e então pergunte o que é merecido e lícito, e o que é próprio e adequado ao seu ofício. E você deverá obter.

Assim termina o 4° livro chamado de Almadel de Salomão, o Rei.

Epílogo

O Ars Almadel completa a maior parte do Lemegeton; a parte restante, Ars Nova, é mais um apêndice do que propriamente um livro. Entre eles, estas quatro partes fornecem uma razoável compreensão do sistema de acesso aos poderes magicko do universo; demoníaco (Goetia), terrestre (Theurgia Goetia), planetário (Ars Paulina) e zodiacal (Ars Almadel).

É interessante notar que como os poderes invocados tornaram-se progressivamente mais exaltados, o método de invocação se tornou progressivamente simples. Alguns se preparam para invocar um espírito da Goetia como se fossem para uma pequena guerra mágicka; um único trabalho do Almadel pode ser realizado antes do desjejum. Isto está de acordo com a idéia medieval de os espíritos que são servos de Deus desejam ajudar a humanidade, e virão prontamente se forem chamados corretamente; as ameaças e força usadas para com os espíritos da Goetia não são necessárias para os espíritos superiores, e de fato, seria um insulto para eles.

As quatro Altitudes do Almadel não são exatamente ligadas com as quatro direções, ou com os Elementos. Em vez disso, eles parecem ser pontos representativos dos pontos de equinócio e solstício, vistos como pontos de ancoragem do zodíaco e as estações. Eles são chamados “cantos”, da mesma forma que os pontos horizontais e verticais de um gráfico astrológico são chamados de “ângulos”. Bem como suas cores que parecem ser sazonais antes que sejam elementais; o branco puro e imaculado como o frescor da brisa da primavera; o vermelho do calor do verão; o verde das plantas maduras revigorado pelo cair das chuvas, e a escuridão do solstício de inverno.
Cada Altitude governa em ordem uma estação e três signos zodiacais, nesse sentido, não como sugerido por Carroll “Poke” Runyon, os três signos de um único elemento ou os signos Cardinais isolados. Isto é claro pela descrição do tempo escolhido para as invocações: os dois primeiros Príncipes de uma Altitude governam o signo Cardinal de uma estação, os dois seguintes governam o signo Fixo, e o último governa o Mutável. A idéia de Runyon’s de substituir os nomes dos quatro Arcanjos dos Elementos pelos Príncipes parece inapropriada; provavelmente isso produzirá algum tipo de resultado, porém é muito mais provável que não seja o resultado que era destinado por este trabalho.

Runyon também afirma que as velas são destinadas a passar pelos buracos do Almadel, porém este não é claramente o caso, a partir da descrição. Mais apropriadamente, pequenas abas são construídas de dentro pra fora das velas, de modo que (com a altura adicional fornecida pelo o suporte das velas, ou seja, os castiçais) é levantado o suficiente para encaixar um pequeno vaso para incenso na parte inferior. Pelas considerações práticas, as velas suportariam Almadel nos cantos, em vez de ser pelos lados, porém as bordas não devem ser tão largas para obstruir os buracos.
Os poderes mencionados para estes anjos são muito vagos, e no caso de três dos Choras, parecem ser bem inúteis. Entretanto o primeiro parágrafo do documento é bastante claro em apontar que “cada um destas [doze] partes possuí virtudes e poderes particulares.” Dadas suas associações explícitas com os signos, seguiria que seus poderes são associados com os signos que eles regem. Por exemplo, comércio e prosperidade em Touro, arte e comunicações em Gêmeos ou Virgem, diplomacia e relacionamento em Libra, construção e governo em Capricórnio, e assim por diante.

Uma pedra de cristal é mencionada na invocação, embora não esteja nas instruções de construção do Almaldel. A utilização de tal artifício parece-me opcional; não é absolutamente necessário, mas é aceitável para quem está acostumado a utilizar uma. Se usado, provavelmente seria colocado em cima do selo de ouro, que por sua vez é colocado no topo do Almadel. Ela seria necessariamente uma pequena pedra, para que seu peso não exerça grande pressão na estrutura de cera.

Benjamin Rowe, 21 de Julho, 1999.

Nota Final
Pela conclusão deste trabalho, devem-se sinceros agradecimentos aos seguintes:
— Anderson S. (Mephisto) como crítico e incentivador; Victor T. como um grande auxiliar; e Junior, por mostrar-me suas teorias sobre círculos e Goetia, e com elas me deixar louco durante as madrugadas. Aos participantes e voluntários do Grupo de Traduções Ocultas.

Para cada um de vocês, eu só posso dizer: Muito Obrigado.

LVX NOX, do oitavo dia ao décimo terceiro dia de Janeiro de 2009.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/ars-almadel-a-quarta-chave-menor-de-salomao/

O Útero dos Anjos

– Uma homenagem às mulheres –

Figura ‘Yonitântrica” de Kali em pleno fluxo menstrual (Séc.XVII).

Por Katy Frisvold.

Há um tempo um comentário nesta mesma coluna me chamou a atenção, não só pela franca erudição do remetente, mas também pela graciosa comparação com Bruxaria Tradicional e a Magia Tradicional Salomônica. Nas palavras dele: “Me parece que a bruxaria tradicional se assenta sobre a mesma filosofia e cosmologia da magia grimórica, mas imagino que na sua tradição haja um trabalho maior com os chamados espíritos terrestres, o que a meu ver é interessantíssimo. De fato, há uma lacuna na tradição grimórica no que diz respeito a trabalhos com elementais e espíritos dos mortos (os ancestrais), e seria interessante ver como a bruxaria tradicional lida com isso.”

Na época em que este comentário foi feito, deixei disponível meu email de contato. Não achei que era momento de escrever um texto muito longo como resposta como fora a resposta anterior.  As férias se passaram e estes são assuntos que ainda se apresentam muito pertinentes e que eu gostaria de desdobrar um pouco mais, de forma em que percebo este questionamento uma forma de clarear alguns assuntos àqueles que apreciam a abordagem teológica mais simples e pragmática. Isto porque a abordagem não recorre aos Doutos Mestres de outrora, mas na simples compreensão daquelas que foram caladas por séculos de repressão patriarcal.

A classificação bipartida da magia geralmente se apóia em “celestial x infernal” e “alta x baixa”, comumente compreendendo “celestial” como algo superior e sagrado e “infernal” como algo diabólico, ou do mal. Hoje alguns conseguem sair deste território ignorante, mas esta ainda é uma teoria muito vigente quando falamos de “baixa magia”, graças ao dualismo reinante nas culturas cristianizadas. Dentro da miríade de mundos e possibilidades, criou-se então uma dicotomia absurda ainda adotada por muitos magos, e “baixa magia” se tornou um rótulo negro às artes que lidam com o fator humano, a corporeidade e a noção de mortalidade.

O que alguns parecem desconhecer é que por “baixa magia” abarca-se toda a magia telúrica, todos os espelhos celestes (tais como os oráculos compostos de elementos naturais, ou seja, de pedra, areia, nas águas, etc.), bem como a comunhão entre vivos, mortos e seres intermediários entre mundos, como manifestações naturais e os chamados “anjos caídos”, ou seja, aqueles anjos que operam em nossa esfera e que conhecem a humanidade muito proximamente.

Da mesma forma em que Eruditos, Astrólogos e Magos necessariamente se apóiam em Tradição, o mesmo se dá àqueles que hoje são denominados Bruxos Tradicionais. Um Bruxo Tradicional se apóia à Tradição enquanto dá foco à magia mais imediata em seu reino, bem como em reinos próximos e paralelos ao humano, ou seja, ao aspecto mais “feiticeiro” ou “anímico” da Tradição.

Para quem opera nestas premissas, “Terra” ou “Inferno” são tão diferentes quanto “respirar” e “não respirar”. Ambos os reinos se localizariam no mesmo lugar: sob a abóboda celeste. Assim a tal “lacuna” na magia grimórica refere-se pura e simplesmente na compreensão entre o mundo que “respira” e o que “não respira”, ou seja, o mundo logo abaixo de nossos pés, os mortos em cujos ombros nos sustentamos. Segundo a Tradição, nossa “Memória” é composta especificamente pelos nossos antepassados e ancestrais. Antepassados e Ancestrais são História, são os chamados Mortos Poderosos, ideais míticos e exemplos de como a vida repete padrões cíclicos, são o “expirar”, e nós, vivos, somos Aspiração e Respiração. Devir e processo.

“Sheela Na Gig” – Quantas representações sagradas são necessárias para relembrar o portal de homens e anjos?

A compreensão sobre o mundo dos mortos e vivos como paralelos e não necessariamente locais de sofrimento sempre foi um assunto espinhoso para aqueles que unicamente “aspiram” a ida – ou retorno – ao Éden. Para estes, o Homem deverá mortificar a carne para se tornar digno de um extremo bem, enquanto a humanidade comum pavimenta seu caminho rumo ao extremo mal. Mas a própria visão do que seja o Inferno foi algo que mudou através dos tempos, fosse por influências literárias ou por interesses político-religiosos. “Inferno”, ou Mundo Subterrâneo, na acepção de boa parte dos povos primitivos, era simplesmente a “morada dos mortos”, o Castelo dos nossos Ancestrais, ou o lugar onde encontramos aqueles que nos são queridos e vinculados pela consangüinidade ou alma. Então, não, os Bruxos não “aspiram” o inferno de fogo e sofrimento tão propagado por alguns. Nem os Bruxos Tradicionais se apóiam em um mundo dualista – pelo contrário, como a Tradição sugere, monismo qualificado seria a forma mais acurada de explicar a idéia cosmológica de um Bruxo.

De acordo com certos grimórios, os anjos teriam caído de amor pelas mulheres. Eles teriam caído no reino de possibilidades, dos desdobramentos da Sabedoria Divina – com toda a sua ambivalência -, pois não há um reino, ser, palavra ou ação que não esteja no Plano Divino.

Tenho certeza que neste momento encontramos alguns Magos coçando a cabeça e pensando no quão similar isto tudo soa. Mas aparte os comuns preconceitos, todo Sábio – não interessa se chamado de Mago ou de Bruxo – opera nas duas vias em busca da União Mística, ao Criador(a) através da Natureza, ou como chamamos “Natureza Perfeita”.

As Três Bruxas de Macbeth – As bruxas figuram aqui com suas forquilhas – que também representam o “pé da bruxa”, (cerca de 1948, dirigido e estrelado por Orson Welles)

Na Bruxaria encontramos não a Trindade, mas o Quaternário Sagrado, o da manifestação, que ocorre entre Pai, Mãe, Miguel e Satanael, tão replicado em temas como Caim e Abel ou Judas e Jesus. Tudo isto se reflete na figura do “pé da bruxa” e na forquilha, que fortifica a constante memória de nossa condição e a aceitação plena dos nossos daemons.

E é justamente aqui que encontramos as “heresias” como a dos Bogomilos, que relegam a carne ao reino de uma “amada sombra divina”, e daí, ao Homem. Fora dos confinamentos “heréticos”, a mulher sempre foi satanizada por ser o portal, o “templo” onde anjos ganham corpo, pois é no útero, em última instância, onde eles “caem”.

Como representante desta Mãe do quaternário, está a terra onde vivemos – o corpo que sangra pelos seus filhos. Sua conexão maior se encontra na mulher, a bruxa, consolatrix e progenitora última de homens e anjos, cuja linguagem não se desvela completamente ao homem puramente celestial, mas naqueles que são de carne, osso e sangue.  Bruxas são as domadoras do fogo dos homens, preservadoras da Memória dos Mortos, Mães e Consoladoras, e como tal, são capazes de absoluta amoralidade: a única lei é ensinada pela única professora possível – a Natureza.

Os homens são movidos por impulsos celestes, são o fogo e o sopro que alimenta fogo. Enquanto a dor tem sido a condição mais celebrada quando falamos da saudade idílica reservada a Adão, do outro lado, para a Mulher, a Bruxa, o equilíbrio é a chave mestra de toda a magia da vida, e assim, o prazer é também reconhecido como inerente ao carnal. Negue sua mãe, negue sua corporeidade e você não deveria estar aqui para contar história, para sentir dor ou prazer, para amar ou sentir saudades. É tudo uma questão de “exercício”, e não de “exorcismo”.

Como aquela que traz do imanifesto ao manifesto, por séculos e séculos pisada, acusada e lançada nos recônditos sociais e morais, agora é o momento de seu ressurgimento e reconhecimento. A Mãe última não pede sua dor, mas por equilíbrio entre os mundos. Honre-a e o sagrado portal aos reinos celestes estará sempre aberto ao justo peregrino!

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-%C3%BAtero-dos-anjos

APIKORSUS

m ensaio em diversas práticas de Magia do Caos da Lincoln Order of Neuromancers – L.O.O.N.
Compilado por SKaRaB, SNaKe, Sister Apple & Bro. Moebius B
Este é um livro cadeia. Recebendo-o, por favor o copie e passe-o para qualquer um.
Nenhuma maldição é invocada se você escolher não o fazer.
De qualquer forma nós ganhamos.

Todos os direitos reservados – 1986
Versão 2.11 distribua/adicione livremente.

Introdução

Alguns conceitos chaves são comuns a vários sistemas/tradiçõ es/paradigmas. Nós persuadimos o leitor a não rejeitar ou aceitar estas construções teóricas, mas a tentá-las e verificá-las por experiência pessoal. O todo está codificado dentro de cada um de seus constituintes – “Assim acima como abaixo.”

O todo é interconectado, e todas as totalidades relativas compartilham na consciência em vários níveis. O todo é auto-organizante, e a evolução de todas as formas é governada por princípios similares. Por meio de uma vontade treinada e direcionada, nós podemos afetar a mudança (probabilidade > possibilidade) em vários níveis de organização. Mudança é a única constante.

O todo é mais do que a soma de suas partes. Nossas crenças definem os limites de nossa experiência permitida. “Realidade do Cotidiano” não é o limite de nossa experiência – entrando em estados alterados de consciência nós podemos experimentar outras realidades.

As entidades que podem ser encontradas durante nossas experiÊncias destas outras realidades são reais dentro de seus próprios mundos. Questionar suas existências relativas é insignificante, uma vez que o universo comporta-se como se eles existissem. Habilidade Mágica é engedrada através de uma jornada interna e transformativa.

Gnosis

Gnosis é a chave para as habilidades mágicas – a realização de um intenso estado de consciência conhecido em várias tradições como ´Não-mente´, ´Foco único´ ou ´Sartori´. Consciência é esvaziada de toda informação exceto o objeto/sujeito da concentração. Vários métodos de alcançar gnosis podem ser empregados, da dança frenética à contemplação arrebatada de uma idéia. Qualquer que seja o método escolhido, o praticante continua-o até ele(a) ser levado(a) ao Êxtase.

Alcançar gnose pode resultar, para o orientado religiosamente, em ´experiências místicas´ – Visitações por Deuses, Demônios, ou a revelação de verdades divinas. Para o magista, entretanto, o conteúdo de tais momentos de gnosis são menos interessantes do que o que pode ser feito com eles – é durante momentos de gnosis: que sigilos podem ser lançados; que o magista pode alcançar diretamente níveis de tempo-espaço para manifestar sua vontade; que Deuses podem possuir seus devotos. Historicamente, muitas das técnicas de gnosis tem sido aumentadas pelo uso de drogas – dos ungüentos para voar das bruxas ao LSD e experimentos deprivatórios de sentidos de John Lilly.

Qualquer sistema ou tradição é incompleto enquanto ele permanecer uma curiosidade teórica. Estudo isolado é de pouco valor, a não ser que seja complementado com prática à respeito. Obras completas podem ser escritas ´explicando´ a natureza mágica de diversas entidades como Deusas, Demônios, ou Espíritos, mas elas não são substituto para a experiência ´real´ de uma deidade durante o curso de um ritual. Embora existe muita conversa sobre ´segredos mágicos´, os únicos ´verdadeiros´ segredos são aqueles que podem ser pessoalmente descobertos através da luz da experiência mágica direta. Estados alterados de consciência podem ser alcançados usando uma combinação de mudanças internas (o uso dos métodos de gnosis), e interação com outros, como na hipnose, ritual de grupo ou orgia.

 

Invocando Esquisitices

Meu antigo Adepto (instrutor) costumava me dizer ´Laddie, não existe nenhuma coisa que você não possa fazer se colocar sua mente nela. Então, distantes, nós fomos à completa realidade Golden Dawn para segurar a maré, à frente do mar em Bournemouth. Depois daquilo ele me fez fazer sigilos para fazer os cabelos de Harold Macmillan ficar na extremidade. Ele doou sua vida à magia (o instrutor), disse ele, depois de conhecer Crowley em um banho turco (sauna), mas ele tinha entusiasmo ilimitado que era contagioso. Você sentia que podia fazê-lo, não importa o quanto estúpido ou absurdo o fosse. Ele gostava muito de dizer “Se o reino dos céus está dentro de você, porque gastar mais do que R$50 em livros de ocultismo?” Aqui estão algumas das coisas que ele me fazia fazer: “Todas as coisas que conhecemos extrata no final em suposições, então reverta todas as declarações, ou ponha ´nãos´ nas assertivas e vire-as (n.t. aqui o autor usou o termo ´leap´, no sentido de ´solte-as´, ´arremesse-as´ , o tradutor preferiu uma tradução não literal para ´vire-as´ por achar mais adequado ao português) antes de olha-las. Acorde um dia e tente banir sua realidade diária – todas as coisas tornam-se novas, não familiares e totalmente frustrantes. Objetos se tornam intensos e assustadores.

Esteja errado. Gastamos muito tempo buscando por respostas ´corretas´, crenças certas, fazer o certo. Fazer certo = confiança = sucesso. Enfadonho! Esteja errado! ”

Deuses e Gurus.

Possessão por um Deus ou espírito permite você fazer coisas que ordinariamente não faria. Um guru prova que você pode caminhar em uma corda esticada sem cair, que você pode brincar no fundo de uma piscina sem se afogar. Insanidade parece ser um risco ocupacional de magistas. Melhor ser maluco agora e poupar tempo depois. Harpo Marx foi o maior shaman de Hollywood. Você conseguiria explodir uma luva de borracha e depois ordenha-la? Sanidade está ´lá fora´ antes do que na sua cabeça, uma vez que a maior parte das pessoas parece ver a si mesmas como mais louca do que o resto. Se dissermos muitos pensamentos loucos, somos trancafiados. Lembro de uma mulher no asilo local que dizia ser um passarinho na gaiola – ela tinha aprendido a ficar calada sobre isto, pois dizê-los aos outros só havia conseguido mais medicação e Eletro-choque para ela. Ser ´safo´ é ser sano – não expressando seus pensamentos loucos. Magia pode ser sobre deixar seus pensamentos loucos saírem para ver as ruas em grupos. Magia é uma coisa da rua. Magistas precisam ser vistos e ouvidos. A personalidade travessa de Crowley exemplificava isto, seguindo o caminho em zigue-zague de Cagliostro, Simon Magus e inumeráveis Shamans e bruxas de todo o mundo. Um bom magista toca para sua audiência, seja ele um shaman tribal fazendo ritual de IFÁ ou um feiticeiro da esquina fazendo talismãs anti-polícia de tampas de latas vazias. Aprenda a iludir, dançar, jogar ludicamente (n.t. tradução não literal para ´play Irish Stan-down´); estes são os verdadeiros poderes mágicos. Se você está realmente indo tornar-se um pequeno megalomaníaco ascendente, você pode também conseguir algumas risadas enquanto isto. Passe o Chapéu.”

Titã-Gnosis

Existe uma grande discussão no momento no assunto da mudança no Aeon, e da influência de várias ´Correntes´. Aparentemente algumas pessoas sentem que a era de Aquário – verdade, justiça, comidas sadias, não-nuclear (n.t. Guerra) e brincadeiras pagãs pacíficas é apenas, como nas esquinas … ´maan´ (n.t. o termo não tem tradução, mas é uma expressão de surpresa incrédula). De outro lado, a possibilidade do Novo Aeon ser governado por zumbis canibais radioativos também não pode ser eliminada totalmente.

O século XX está ocupado ressurgindo os titãs – os primais ´construtores´ dos cosmos que aparecem nos mitos da Criação sob vários modos – os Gigantes da mitologia Nórdica ou os Titãs Gregos por exemplo. Uma vez que estas forças Titãs tinham completado seus trabalhos, eles eram banidos ou mandados embora do cosmos ordenado, que era então povoado com todas as formas de entidades. Os Titãs estão sempre presentes, espreitando das beiradas da ´realidade´. Estas forças, tanto destrutivas e criativas, continuamente aparecem na literatura como o tema de conflito entre a razão e a natureza baixa, primária. O ´Sacerdote´ de tais mistérios é o autor H.P. Lovecraft, do qual os ´Antigos´ parecem reter uma fascinação contínua dos ocultistas, juntamente com vários outros panteões de Deuses Negros, Deuses da Morte …

O mito cíclico dos Titãs representa a catabólica força que propaga mudança em qualquer sistema, seja na escala universal ou subatômica. Eles são compreendidos estar dormentes ou sonhando e nisto estão em equilíbrio. Entretanto, quando um sistema envolve um certo grau de complexidade se torna incrementalmente instável, o que pode eventualmente levar tanto a evolução – o sistema ´evolui´ para uma ordem superior de complexidade, ou entra em colapso, destruindo-se. É nestes pontos críticos que os Titãs mais uma vez tornam-se ativos – quando um grande volume de instabilidade precisa ser construído, para que o salto evolucionário seja feito.

O desenvolvimento de tecnologia nuclear tem levado a um incremento súbito de pontos de acesso onde as esferas encontram-se entre nossa realidade ordenada e o Caos Primal dos Titãs. Os portões tem sido abertos, e a evolução de todas as entidades dentro da biosfera (tanto orgânica como elemental) está sendo afetada.

Enquanto o poder dos Titãs retorna, um novo sacerdócio tem surgido para adorá-los – os políticos obcecados por poder e seus numerosos seguidores. Como os magos inatos dos Mitos de Cthulhu, eles acreditam que os Titãs podem ser controlados, e que eles possuem os encantamentos para combinar e encadear as forças nucleares sem perigo. Desafortunadamente para eles ( e nós ), os Titãs são completamente amorais, não sendo conscientes como nós o conhecemos (n.t. a consciência). Nosso único ponto de interface com eles é através do assim chamado ´cérebro de Dragão´, com seus atavismos pré-verbais e conduções instintivas.

Titã-Gnosis é o nome que nós demos para a evolução em consciência que os Titãs estão gerando nos seres humanos enquanto suas ondas ativas atravessam nossa mente. A percepção cresce de que a sobrevivência humana ultrapassa todos os limites, ambos ideológicos e cultural; que é necessário viver melhor dentro da natureza melhor do que destruindo o ambiente. Parece que enquanto os Titãs agitam em sonhos de morte, mais próximos nós estamos de ´acordar´ em números maiores e maiores.

O ponto traiçoeiro acerca dos Titãs é que por enquanto, nós necessitamos deles se o salto evolucionário é para ser feito bem sucedidamente. Seu retorno (n.t. dos Titãs) é gerado pela corrente entrante que tem sido conceptualizada variadamente como 93, Ma´at ou Caos. Na análise final, os nomes e simbolismos utilizados não são tão importantes – eles são facetas de um mesmo processo (n.t. o retorno dos Titãs).

Magistas e outros visionários que estão atentos para a Titã- Gnosis e seus efeitos estão agora trabalhando ativamente como transportadores para estas energias. Evocação destas energias titânicas para dentro do ensejado espaço-tempo de alguém é uma jornada perigosa, ainda que existam aqueles podem aparentemente fazê-lo com impunidade. O uso de nomes, sigilos, e cantos são apenas parcialmente úteis, desde que os ´nomes´ dos Titãs formam a estrutura de nossa própria realidade.

NB: Este ensaio foi escrito seguindo uma série de trabalhos coincidentes com eventos precedentes a sucedentes ao desastre de Chernobyl.

Ego & Vontade

O conceito do Ego – a estrutura psíquica de auto-identificações, crenças, desejos e personificações é reconhecida como a base de nosso psico-cosmo. Um curioso mal-entendido tem emergido, de que o Ego é uma barreira para o desenvolvimento mágico – que isto (n.t. o ego) deve de alguma maneira ser derrubado ou destruído antes que alguém possa avançar na espiritualidade. Para alguns, parece que enquanto o ´desenvolvimento ocidental´ constrói o ego, os meios orientais baseiam-se em transcendÊncia do ego. Existe muita discussão de ´ser superior´ que aparece após o ego ter sido transcendido – este é um tema comum no assim chamado pensamento ´Nova Era´. A psique entretanto, não é uma entidade estática, e este tipo de coisa ´ego versus ser superior´ é um extravasamento da racionalista divisão ´corpo – mente´. Tentativas de se livrar do ego podem facilmente resultar em um desenvolvimento de um lado só, promovendo ambos auto-importância e atitude de ´mais santo que outros´. Evitar o assim chamado aspecto ´sombrio´ de d sejo humano resulta em uma caricatura superficial da potencialidade humana, uma gentileza que evita o sondar das profundezas da psique. Clareza de pensamento, insights e esforço são polidos com uma cobertura de felicidade.

Trabalhar com o ego é iniciar uma alquimia interior, cujo objetivo não é ´destruí-lo´, nem ´transcendê-lo´ , mas mover de um estado de fixação (ego-cêntrico) para uma condição de mutabilidade (exo- cêntrico), que é capaz de constante revisão e mudança. Isto é o que se diz com a frase ´lettin go´ (n.t. deixar ir), e de dissolver a idéia da mente como separada do mundo. O ego subsiste como um ponto de ´Eu´, que dá significado para a experiência, ainda que o conteúdo da psique torne-se mais fluído. De certa forma, é o ego que enraízanos no espaço-tempo – o equivalente psíquico de ter o senso de lugar, de ocupar um conjunto particular de coordenadas. A maioria de nossa experiência de realidade está no nível de objetos, corpos e eventos que parecem ser temporariamente separados. Nós experimentamos a nós mesmos como centros de vontade, percepção e ego.

Em contraste com o ego, a vontade mostra uma qualidade de vetor, e nisto ambas direção e magnitude. A vontade é a onde para as partículas do ego. Embora nós gostemos de pensar em nós mesmos como centros da intencionalidade, muito de nosso comportamento é resultado da ressonância vetorial – ondas ondulando através, aparecendo em nosso universo de tempo-espaço como eventos separados e experiências síncronas. A chave para a apropriada postura mágica é dada por Crowley em sua novela, Filho da Lua: “… o homem inteligente, assim chamado, o homem de talento, expulsa seu gênio pela construção de sua vontade consciente como uma entidade positiva. O real homem de gênio deliberadamente subordina-se a si mesmo, reduzindo-se em uma negativa e permite seu gênio brincar com ele como queira…”

O conceito Telêmico de realização da Verdadeira Vontade necessita de um desdobramento de consciÊncia da vontade como uma qualidade vetorial. Vontade impõe organização – ordem fora do ´caos do normal´ (Austin Osman Spare), e a realização da Verdadeira Vontade envolve uma ´obediência à atenção´ dos padrões evolucionários que governam o desenvolvimento humano. Vontade é uma propriedade emergente de nossa interação com o ambiente total – não pode ser isolada por nenhum elemento. Vontade, percepção e consciência – nós estamos imersos nelas da maneira que um peixe está imerso na água. Elas são propriedades emergentes da biosfera total de Gaia. Muita coisa por teoria. (n.t. – ´So much for theory´).

Como esta alquimia é concluída? A chave é integração – dissolver a fragmentação (n.t. separação) do corpo-mente, matéria-espírito. Entrar em uma dança ´ser-no-presente´ , imerso no corpo de Gaia, no interiro do universo. Vontade em qualquer nível é um princípio organizante – shakti-kundalini em espiral cria todas as formas. Portanto: Invoque sempre, sentindo todos os atos mágicos como uma passagem da Vontade através de você. Atenda à reconstrução contínua de seu psico-cosmo através doexaminar de crenças, desejos e atitudes. Busque união com tudo o que você tenha rejeitado. Pratique mágica como sua verdadeira sobrevivência dependesse disto. Esqueça tudo que lhe foi dito sobre o mundo, assuma nada e desenvolva seu próprio caminho. Coma mais bolinhos!

 

Sigilos

Sigilização é um método pelo qual um desejo/intençã o é codificado em uma forma não óbvia, i.e. um glifo ou figura que não imediatamente chama a mente a intenção original. Qualquer intenção mágica pode ser escrita e as letras misturadas para formar uma figura, mantra ou neologismo, que pode ser repetida
ou objeto de concentração até que ocorra gnosis. Alternativamente, o sigilo pode ser deixado de lado até que seu propósito original seja esquecido, e então lançado.

Durante gnosis ou momentos de grande sentimento emocional, o sigilo pode ser desenhado, visualizado e foco de feroz concentração, até a exclusão de todo o resto. Isto habilita a assim chamada mente subconsciente a ´reprogramar´ a realidade de acordo com a vontade. Uma vez que o sigilo é lançado, ele é
esquecido, para que a realização do desejo não seja impedida pela ´ânsia do resultado´.

A palavra, dita ou escrita, forma a maioria dos sigilos. É também válido experimentar codificar os desejos com aromas, gostos ou sons específicos. Sigilos podem trazer uma grande variedade de resultados, do mais abstrato ao mais ´mundano´. De alterar conteúdo de sonhos, a reformas de comportamentos e hábitos, a
arranjar consciências fortuitas.

Sigilos podem ser formados desta maneira independentemente de qualquer sistema planetário e outros símbolos, e podem ser lançados em rituais elaborados. Como um método de magia prática, ele é simples e elegante; sua efetividade pode ser descoberta através de experiÊncia pessoal.

Veja:
The Book of Results – Ray Sharin.
Liber Null – Peter Carroll.

Dançando no fio da navalha

Duelos mágicos deliberados entre feiticeiros são geralmente considerados ´magia negra´pelos ocidentais, enquanto combate mágico pode ser um caminho extremamente poderoso de trazer magistas ´aprendizes´ para completa operacionabilidade. Tais ´testes de ginástica´ podem ser encontrados nos desafios de pupilos Zen sobre mestres diversos, as explorações xamânicas de CArlos Castaneda ou Lynn Andrews, e na lenda de Nimue e Merlin.

Como parte de uma iniciação, pode ser esperado que o candidato defenda um local ou objeto, apesar de todos os esforços combinados do grupo em obtê-lo. Ataques mágicos de longo alcance podem empregar impulsos telepáticos destrutivos, projeção de formas pensamento ou magia simpática (bonecas voodoo ). Combate mágico deve ser diferenciado de ataque psíquico, no qual uma grande proporção de ocultistas se consideram estar, e é amplamente um produto de auto-desilusã o e degraus variáveis de megalomania.

Combates mágicos verdadeiros tem suas regras próprias e limites, que são conhecidos pelo expert, enquanto um aprendiz deve rapidamente aprende-las, se quiser evitar trauma. Preso em uma situação que ele(a) acha incompreensível e alienígena, o aprendiz apenas conhecerá confusão e terror. Despido da presunção de que ´isto não pode acontecer comigo´ ele(a) aprende a perceber o ambiente com clareza, a dar atenção para os ritmos e pulsos do mundo. Verdadeiramente, Morte é uma grande professora. Se você poder alcançar além e ver o momento de ´morte´, então aquele momento irá lhe dar um vislumbre de seu potencial. Nisto, o magista é menos um guerreiro e mais um ladrão ( Garantido, ´Ladrão do Caos´ não é um título tão atrativo quando ´Guerreiro do Caos´). Prometheus é a imagem mítica apropriada – o furtador do fogo. Ninguém pode lutar com a Morte e vencer, mas ela pode ser lograda. O magista é alguém que faz cambalhotas para trás, um tolo sábio. Ninguém leve um tolo seriamente. Torne-se um tolo e deixe um rastro falho. Deixe cair a máscara de iniciado e pegue seus parceiros para a dança.

O progresso de magistas ocidentais não parece ser tão terrível como os desafios de magistas em outras culturas. Desde que tanto ´conhecimento´ possa ser comprado, a idéia de lutar contra desafios de poder soam distante. Isto não é só um glamour; situações de risco de vida ou mentalmente traumáticas podem abrir os portões de habilidade mágica de uma forma que nenhum workshop de final-de-semana ou curso de correspondência jamais poderá. Viver no limite é uma frase apropriada, como se não existisse espaço para meias medidas. Um combate mágico, se propriamente arranjado, irá forçar você a re-aprender o que você precisa, para ser capaz de fazer o que é preciso para sobreviver. Se um Magus está indo passar seu poder para outro, ele deve ter certeza de que o candidato tem as qualidades (i.e. um instinto de sobrevivência e poder de permanecer) necessárias para aceitar a responsabilidade ?(karma) que a posição requer. O objetivo de tal combate é construtivo, mas se o candidato falhar – assim deve ser.

Ritual

Durante o ritual, a rede de conceitos, símbolos e mapas mentais ´tornam-se vivas´ e a experiência direta produz uma mudança na consciência. Ritual envolve deixar de lado o mundo do dia a dia e criar uma bolha onde todas as limitações estão suspensas, e o poder da magia flui desimpedido. Um grupo bem sintonizado pode agir como um chip de silicone dentro da biosfera (nós gostamos às vezes de pensar que Gaia como sendo a Motherboard) , acessando e interfaceando (n.t. comunicando) com outros subsistemas através dos códigos de símbolos, gnosis e imaginação, permitindo que a mudança se manifeste em todos os níveis possíveis no sistema – Desenvolvimento da Era, ritmos sazonais, desenvolvimento psíquico – Assim aqui como em todos os lugares.

O uso crescente de metáforas de computadores dentro das células L.O.O.N. tem influenciado nosso estilo de ritual. Nós temos abandonado a forma tradicional, com seus formatos quase religiosos e robes monásticos. A moda corrente é jaquetão branco de laboratório, luvas e máscara negras. Isto junto com andar de robot e fundo de decoração eletrônico nós dá um estilo distinto. Garantido, parece um pouco fora de lugar em Glastonbury. Danças podem refletir as energias espirais do universo, manifestando no DNA e outras formas. A formação de um grupo de Gestalt permite o grupo trabalhar rituais enquanto estiverem temporariamente ou espacialmente separados, se necessário.

Rituais criam Ordem do Caos, uma esfera dentro da qual tudo (até nossos erros) é uma expressão de vontade. Quando invoca a Corrente do Caos, alguém está identificando- se com a mudança dos Aeons, então literalmente este alguém se torna a corrente, como um lugar físico.

Armado com esta consciência, um ritual sazonal pode se tornar um poderoso foco de mudança, enquanto o pulso sazonal é direcionado tanto para dentro (mudança pessoal) quanto para fora (mudança ambiental). Tradicionalmente, estes festivais são encruzilhadas entre os mundos – e consciência das dimensões interna/externa parece ter sido amplamente esquecida pelos ocidentais, protegidos como somos dos elementos pelos nossos corpos centralmente inflamados (n.t. Tradução não literal – ´protegidos como somos dos elementos pelo nosso egocentrismo´ ).

A escala na qual um ato ritual manifesta é dependente da vontade dos seus participantes – qualquer coisa desde a vidência das ondulações e movimentos do Caos até a desfigurar a própria fábrica de espaço-tempo. O formato do trabalho é aquele em que os participantes percebem ser apropriados para o intento – invocação pode ser verbal ou estruturada pelo arranjo de sinos e congos de tons diferentes. A seqüência de danças pode ser arranjada para refletir a transformação da forma na forma, ou da energização de maquinas astrais ou circuitos. Um ritual, começa fisicamente, podendo ser re-encenada ou continuado nos sonhos.

Nos temos achado que geralmente, são os rituais estruturados simplesmente que têm o resultado mais efetivo. Vontade é o toque de pluma que pode mover montanhas.

Como com qualquer outra coisa, o ritual de outros somente será efetivo para vocÊ até um ponto – olhar para os rituais das outras pessoas como dispositivos de aprendizagem. Ritual por si só é raramente efetivo, mas quando reforçado pela Vontade/Intençã o, o é altamente (efetivo). Entretanto a condição de mente que deve ser dominada é parar de pensar sobre se o rito será ou não efetivo. Ânsia pelo resultado deve ser substituída por uma certeza celular que uma vez que a seta do desejo tiver sido lançada, ela irá acertar o alvo. Por todos os meios discuta experiência, técnica e como poderá ser feito melhor da próxima vez, mas deixa o desejo/intençã o desaparecer da preocupação consciente.

Armas Mágicas

“Seu corpo e mente são ferramentas preciosas” – Bene Gesserit

O suficiente tem sido escrito sobre as tradicionais armas de magia, então nós não aumentaremos a verborragia. Em geral, uma arma mágica é um foco para percepção e vontade – um veículo para energia etérea/astral (seja lá o que for). Forma física é uma consideração secundária. Uma arma é qualquer instrumento imbuído de poder. Alguns instrumentos xamânicos – bonecas, máscaras, chocalhos, tambores, etc, tem sua história própria, personalidade e carisma – eles são completamente prováveis a ´morder´ o descuidado, e são considerados pelos seus donos como semi- conscientes. O relacionamento entre tal arma e seu dono é similar àquele entre um humano e um gato – uma verdadeira arma de poder possui a si mesmo e é perfeitamente provável que decida quando deve ser passada para frente.

Talvez a primeira arma seja o corpo. Em combate mágico, projeção da Bio-aura pode corromper o campo de outra pessoal, e o ´empurrão´ resultar em trauma psico-físico. Yogis orientais são reputados serem capazes de causar a morte pela aplicação de mantra yoga. A forma que experimentamos nosso corpo tende a refletir nossa experiência de mundo – ver o corpo como uma máquina e ela é passível de se quebrar. Nós da L.O.O.N. preferimos ver o corpo como um biosistema, um microcosmo da biosfera, ele mesmo um microcosmo do universo. Então o corpo torna-se uma arma para o entendimento de sistemas maiores nos quais estamos imersos.

Ao invés de sustentar que aquelas armas A, B, C e D, como necessárias antes que alguém comece a praticar magia, nós nos colocamos em nossos caminhos e deixamos que as armas se mostrem para nós. Como Don Juan diz, não existe tal coisa como um ´acidente´ para um ´homem de conhecimento´ – tudo está lá fora, esperando para ocorrer. Então, ao invés de procurar por uma arma fora de nós, ou de correr à uma loja esotérica e comprar uma, nós atraímos os instrumentos necessários para nós pelos nossos trabalhos – isto pode se manifestar através de um ´achado´, de um ´presente´ ou apareça como uma entidade inspirada em alguma outra dimensão. UM exemplo desta última alternativa é o objeto com chifres possuído por sKaRaB, que foi inspirado a desenhá-lo durante um momento de vacuidade (assistindo TV) e horas mais tarde, viu-o no astral:

“fui dormir cerca de 01:45. Procedi a visualização da imagem do objeto num templo egípcio. Encontrei o objeto preso em uma falha no chão, de forma que estava ereto. Agarrei o objeto com minha mão direita e uma onda de energia intensa me invadiu, começando na base de minha espinha – tirando meu fôlego, mas não violentamente. Vibrei os nomes divinos do objeto (recebidos anteriormente) : Ra, Isis, Ma´at, Hatar, Sekhmet – com cada vibração, a agitação aumentava. Mudando a postura do corpo não interrompeu isto. Soltei o objeto e assumi a forma astral de Osíris sacrificado. Senti calmo, brilhante, mas cansado. Peguei o objeto novamente e senti as vibrações físicas percorrerem meu braço direito. Invoquei Hathor e disse mentalmente: ´Basta – Não consigo agüentar mais´. A energia cessou abruptamente. Deixei a forma astral do objeto no templo. Trabalho encerrado as 05:35.”

SKaRaB nota que a montagem subseqüente do objeto físico foi uma transformação em si mesmo, embora a forma etérica e personalidade tinham sido já estabelecidos em grande extensão. Quando assistido SKaRaB e o objeto em ação, era difícil às vezes dizer quem estava segurando quem. A arma tinha conhecimento e seus próprios familiares, e poderia ainda abandonar SKaRaB e encontrar outra pessoa que pudesse efetivar seu propósito em maior precisão.

Neuromancia

Neuromancia centra toda habilidade oculta e potencial dentro do cérebro humano – possivelmente o menos compreendido e mais complexo de todos os sistemas. Todos os exercícios ocultos, de acordo com este modelo, tem algum tipo de efeito no cérebro, e também sucede que à respeito de experiências como ASCs, possessão, gnosis, etc, que a raiz do evento está ocorrendo no nível neurológico.

Então o objetivo de qualquer psicotecnologia é destravar os poderes do cérebro humano. Nós acreditamos que a adaptação evolucionária da humanidade é um contínuo desenvolvimento da consciência, e o lugar onde todos os vetores se encontram é expressado, na forma física, como o biosistema individual. De todas as técnicas de neuromancia, o recurso à Quimiognosis é o mais difundido através das culturas, e particularmente no hemisfério ocidental, o que mais causa controvérsia. Apenas aqueles que tenham recebido treinamento médico, e que pode conseqüentemente dizer de uma posição de autoridade que eles não conhecem como o cérebro trabalha, são autorizados a mexer com isto – através de ECT, cirurgia e o bom e velho ´cassetete químico´. Enquanto é fácil para aqueles cães de guarda impor suas vontades sobre o cérebro de outros, é bem outra coisa para as pessoas não qualificadas tentarem consigo mesmas.

Dance e Fodam-se

Nós somos magia. Isto não é uma ostentação, nós não encontramos “L.O.O.N. é magia!” colocados em pontos de ônibus – mas magia não é algo que fazemos, ou algo em que ´estamos dentro´, é o que decidimos ser. Mas nossa magia não é algo que sentimos distante e que fazemos depois do trabalho, em finais de semana, ou uma vez por semana quando o grupo se encontra – diabos, o melhor trabalho de grupo que fazemos é quando estamos separados! Magia nós vivemos, comemos, respiramos e cagamos! Este livro é uma breve pausa no vídeo – uma pausa momentânea para nós. Quando você estiver lendo isso, nós já teremos partido, no curso de colisão com nossos futuros.

Escreva o seu volume (n.t. – Tomo, livro) de Magia do Caos.

Porquê comprar livros em Magia do Caos quando você pode escrever o seu próprio?! É simples, tudo que você precisa é um monte de papel, canetas, cola, e a substância alteradora de consciÊncia de sua preferência. Vá até a livraria e escolha livros aleatoriamente, colete uma pilha de revistas de lugares onde você puder obtê-las gratuitamente. Grave pedaços das conversas de outras pessoas. Junte todas estas coisas e coloque no chão em uma pilha. Tome (nt.- coma) o sacramento, espalhe a pilha de coisas no chão e comece a cortar os pedaços (não faça isso com os livros) em clippings. Quando você alcançar gnosis ou encher o saco disto, varra tudo para uma caixa de papelão. Não esqueça de inserir a palavra ´Caos´ no texto a cada duas ou trÊs frases. E próxima semana nós estaremos mostrando para você como fazer a capa para contar tudo isto, um tema musical legal… créditos.

Este é usualmente o estágio em todo volume de Magia do Caos onde os autores começam os insultos e diarréia verbais e começam a encher lingüiça com exemplos de rituais, feitiços, ´novos´ sistemas de adivinhação ou equações. Então sem mais alvoroço nós apresentamos o ritual de banimento L.O.O.N. : “FODAM-SE SEUS FILHOS DA PUTA!”

 Tecno-shamanismo

Porque usar uma bola de crista? Tente uma televisão fora de estação – vem com de graça um fundo de ruído ´branco´!

Recupere o descarte de outras pessoas e use-os para produzir objetos mágicos. Talismãs feitos de colagens e foto-montagens, pedaços de latas e partes de rádios velhos.

Invoque os fetiches da era moderna, canalize as identidades corporativas da ´Unilever´ ou ´Max Factor´. O que nós chamamos feitiçaria, eles chamam publicidade.

Rituais para ´Parar a cidade´, furtos de loja, batidas de aluguel ou zerar computadores são muito mais divertidas do que as coisas usuais. Veja se você consegue conjurar um poltergeist a ´baixar´ em na secretaria de finanças local.

Experimente com transmissões de notícias de rádio falsas. Faça fitas de áudio anunciando maluquices e toque-as sem alarde em lotadas estações de trem ou ônibus. Veja as pessoas pensando ´Eu realmente ouvi aquilo?´ e curta a suspensão momentânea da realidade para conseguir fazer alguma feitiçaria espontânea!

Talvez nós precisemos de uma revolução de feiticeiros?

 Entropolítica

Não existe tirania no estado de confusão´… A mídia age para censurar a informação. Toda mídia em rede é programada para dar a ilusão de liberdade de expressão e multiplicidade de opções. Manipulação política da media está tornando-se incrementalmente. .. quem se importa?

E sobre as assim chamadas revistas de ocultismo ´underground´? Elas tendem a ser produtos de indivíduos, ordens ou grupos, e provêem uma rede essencial para passar informações – ou para injetar uma dose saudável de desinformação. Nós tendemos a julgar um grupo oculto pela base das informações circulantes sobre ele. Tais julgamentos são no mínimo tênues. No passar dos últimos anos, nós temos visto o debate ´Caoístas x Cabalistas´, o ´Bitchcraft´ da Wicca, e as numerosas facções OTO todas tomando suas posições. Embora existe muita discussão sobre as ´Correntes do Caos´, a mais poderosa corrente é aquele som das caixas eletrônicas registrando mais uma venda… ´ring!´ Magia do Caos já está morta, e o único debate atual entre os abutres é sobre quem fica com os maiores ossos. Então volte às suas câmaras caóticas, esferas, politrapezóides e desapareça sobre suas ondas de vácuo. Um exemplo típico, você poderia dizer, de um espetáculo ´lembrando´ a situação.

Sem dúvida existem tentativas de classificar L.O.O.N. entre as facções deste quebra-cabeças. Bem justo, mas nós ´gostamos de todo mundo´. Nós gostamos da OTO, ONA, IOT, OS, OTOA, BOTA, SOL, OCS. Nós também gostamos das pessoas que mantém posição (em grande extensão) em nós gostar de … (insira um grupo de sua escolha). Nós podemos até mesmos sermos cabalistas gozando da cara de toda essa pose da Magia do Caos.

Magia do Caos tem sido a ´onda´ deste Aeon. Relativamente ´boa grana´ nas arrebentações da mídia ocultista. Alguns dizem que ela fez pela magia o que o punk fez pelo cenário musical. O que sucederá então… Nova Re-magia?

L.O.O.Naticos

Quando vocÊ estiver lendo isto nós não estaremos mais em Lincoln.
Nós não somos uma ´ordem´ no senso comumente aceito.
Apikorsus é a palavra grega para ´céptico´.
Minhas arvores carregam um estranho fruto: dividam e repartam de mesma forma. — Eris, ´the Stupid Book.´

T.T.F.N:
SNaKe, SKaRaB, Sister Apple, Bro. Moebius B. com agradecimentos to HTC pela versão original impressa.

Traduzido por Lobo Solitário – t_lone_wolf@ yahoo.com. br

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/apikorsus/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/apikorsus/

Três bacias cheias de sangue

Conto degustação da obra Rei da Dor e outros contos de horror

Gregori não podia reclamar do trabalho. O circo Bruxelas o havia recebido com os braços abertos quando, com apenas 17 anos, ele se juntou à trupe. Foi contratado primeiro como ajudante geral, tirava o lixo dos trailers, carregava e descarregava os vagões, fazia o trabalho pesado. Da limpeza, tornou-se o responsável pela jaula dos animais, alimentando os grandes felinos. Até se apegou a eles. Ficou radiante quando a leoa teve filhotes e assistiu com tristeza chegar até ela as dores e dificuldades da idade avançada. Mas Gregori sempre olhava para o futuro, ele era pró-ativo e solícito e queria progredir na carreira. Já havia tentado se juntar aos malabaristas, mas não tinha a habilidade necessária. Também já havia provado não ter graça o bastante para ser um bom palhaço. Em suas várias tentativas acumulou fracassos, mas também amigos. Não podia reclamar do trabalho, mas podia reclamar do chefe. Embora realmente tivesse progredido – em obrigações, não em salário – na cabeça do Sr. Stephano Bruxelas, o proprietário do circo, ele ainda só era apenas um desprezível ajudante geral.

Suba essas vigas. Bata o chão do picadeiro. Panflete o circo nas ruas. Lave essas roupas. Às vezes Grigori sentia que era o escravo pessoal do Sr. Bruxelas e não um membro da equipe. Nunca era chamado para os anúncios importantes, mas por ser uma espécie de faz-tudo tinha acesso a praticamente todas as partes do circo e ficou sabendo pela mulher barbada da pauta da última reunião. O Grande Jéan Eugene estava morto.

O velho mágico era o funcionário mais antigo do circo e segundo alguns já fazia apresentações antes dos pais do Sr. Bruxelas nascerem. Se morreu com 120 anos foi pouco, mas ninguém realmente sabia sua idade. Seus espetáculos eram lendários e sem dúvida o maior chamariz da bilheteria. Em certa ocasião, teria subido a altura dos trapézios em uma escada de fumaça; em outra, feito um saco de ossos se transformar em um macaco. A verdade é que o proprietário não cuidava dos negócios como seus pais. Sem o grande Jéan Eugene, o Circo corria o sério risco de fechar.

Ao saber do ocorrido, Gregori primeiro se entristeceu. Certa vez, Jéan Eugene tinha lido o futuro em sua bola de cristal e dito que ele tinha um grande futuro no circo. Era esse tipo de apoio dos amigos que o animava. Não que ele acreditasse em bolas de cristal. Mesmo assim, quando se lembrou da profecia, pensou que deveria tentar outra vez. Talvez fosse essa a grande oportunidade que Gregori precisava. Quando sugeriu ao Sr. Bruxelas que poderia tentar a vaga de mágico foi recebido com uma humilhante gargalhada.

— Está louco menino? Quem é você?

— Sr. Bruxelas, sei que parece loucura, mas o que você tem a perder?

— Tempo moleque. E tempo é dinheiro.

— Quero crescer aqui dentro. Olha, escolhe uma carta. E puxou um baralho.

O Sr. Bruxelas deu um tapa de baixo para cima no maço, arruinando a tentativa patética de o impressionar.

— Garoto, nem os palhaços te quiseram. Como você imagina poder tomar o lugar do grande Jeán Eugene?

— Não sei. Mas talvez eu me descubra como ilusionista. Tenho que ser bom em algo, certo?

— Você é bom em limpar o chão – disse a dançarina dos bambolês, Liliane, atual amante do chefe, entrando na conversa sem ser chamada para o prazer do Sr. Bruxelas. Era uma beldade de cabelos cacheados e sabia se aproveitar de sua juventude.

— Ótima essa, meu querubim!

O casal arrogante riu um para o outro e quase se esqueceram da presença de Gregori, que tentou mais uma vez:

— Sei que ainda não descobri meu lugar. Mas eu acredito em mim, Sr. Bruxelas.

— Oras, pivete, saiba do seu lugar! Olhe para si mesmo. Você devia agradecer de limpar nossa sujeira. Onde acha que conseguiria um emprego desse? Sabe como anda a economia?

Após pensar um pouco, o ajudante tomou coragem e desafiou:

— Pois bem! Deixe-me fazer uma apresentação. Uma única apresentação. Se você gostar, me dá a vaga. Se não gostar, eu trabalho de graça por um ano!

Sr. Bruxelas fingiu fazer algumas contas de cabeça e sorriu concordando.

— Você é um tolo, menino. Se é o que quer, eu gostaria mesmo de poupar a esmola que você ganha. Daqui a três dias, você fará seus truques baratos para que eu e meu querubim possamos dar outras risadas.

— Ai docinho, você é demais! – comentou a dançarina.

II

Gregori estava decidido pela vitória. Faria qualquer coisa para ganhar aquela aposta. Imaginou que talvez dentro do trailer do grande Jéan Eugene encontrasse algum truque que pudesse usar. Esperou todos dormirem e entrou no vagão com as chaves a que, como faz-tudo, tinha acesso. Avançou como um ladrão pela noite e chegou na porta. Colocou a chave na fechadura e a virou, praticamente sem emitir nenhum som. Quando entrou, sua espinha gelou. O barulho de bater asas das pombas na gaiola denunciavam o ladrão que rapidamente encostou a porta. Com a morte do mágico, todos haviam esquecido delas. Na verdade, aparentemente ninguém havia entrado lá desde a morte de Jeán. Talvez por respeito, provavelmente por medo.

A cama ainda estava bagunçada do último sono do mágico e sobre a escrivaninha um café frio que nunca seria terminado. Grigori fechou a porta e acendeu o lampião. Pôde assim ver uma série de instrumentos arcaicos dividindo estranhamente o ambiente com artigos de palco. Cristais, incensário ao lado de varinhas e argolas. Em um baú, encontrou uma cartola, luvas brancas e um crânio sem a tampa do osso parietal – tão realista que preferiu não pensar a respeito. No chão, um triângulo desenhado com giz.

A maior parte do trailer era, entretanto, ocupado por uma pequena, mas poderosa biblioteca que ocupa do chão ao teto de praticamente toda a lateral. Nessas prateleiras, havia uma coleção de livros clássicos de ilusionismo pareando com antigos tomos de superstição pagã e feitiçaria medieval. Não havia nenhuma organização aparente, mas era uma biblioteca realmente invejável: O Grande Livro da Magia, de Wendy Rydell, bem ao lado das Clavículas de Salomão, vários volumes do Zohar interrompidos pela Enciclopédia Ilustrada Blackstone de Truques de Baralho. Era muita coisa para ler em uma noite, talvez em um dia, de modo que Grigori apenas fechou os olhos e deixou seus dedos escolherem ao acaso. Puxou um livro de capa de couro carcomido e que emanava um certo poderio oracular.

Colocou o livro sobre a escrivaninha e o abriu. Era um volume velho como uma pirâmide azteca. Como ela, uma obra repleta de desenhos e glifos. As páginas eram amarelas de idade e todas as palavras escritas com uma tinta cor de ferrugem que lembrava sangue oxidado. Na folha de rosto, pôde ler em tipos antigos: “Suk’Nazbot”, abaixo dele o subtítulo excessivamente descritivo: “Coletânea de sortilégios demoníacos e artes trevosas”. Tentou ler, mas conforme o fazia as palavras se agitavam como formigas nervosas e o texto tornava-se ilegível. Quando isso acontecia, avançava algumas páginas para recuperar o poder de leitura. Foi assim guiado pelo próprio volume a ler o que devia ser lido e chegou em um capítulo intitulado “Sacrifício da Carne: Como obter poderes ocultos derramando o sangue dos vivos”.

Aprendeu que poderes verdadeiros poderiam ser adquiridos se fizesse um pacto com certas realidades inumanas. Teria que se comprometer a dar algo em troca. Usando as estranhas runas descritas naquelas páginas, esse acordo poderia ser feito com o mundo oculto, não com dinheiro ou joias, mas oferecendo o sangue dos vivos. O sangue deveria ser todo retirado e oferecido a entidades cujos nomes o homem mal pode pronunciar. Pela descrição e ilustração do livro, seriam necessárias três bacias cheias de sangue. Gregori calculou em torno de nove litros, o equivalente a dois adultos saudáveis. O sangue precisaria ser tirado na hora em que fosse oferecido e seus fornecedores obrigatoriamente mortos no processo.

Gregori foi seduzido por aquelas páginas como Eva pela serpente. Parecia um bom negócio. Com apenas um assassinato, usando aquelas palavras de poder, ele teria acesso às forças que fazem as leis da natureza se curvarem. Podia escolher alguém que merecesse morrer. Não seria difícil encontrar. Poderia depois usar os poderes adquiridos para fazer muitas boas ações que compensariam até mesmo o homicídio. Se matasse duas pessoas, poderia melhorar a vida de outras quarenta. Tentava reduzir a moral a uma conta aritmética. Já não pensava com clareza. Leu o capítulo muitas e muitas vezes como um maníaco. Horas depois, percebeu que não viu o tempo passar. Quando deu por si, notou que não viu a manhã chegar e foi tomado pelo impulso da fuga. Não queria ser pego lá dentro. Saiu do trailer como um animal liberado sai do cativeiro. Estava agora tomado de uma certeza luciferina e sabia exatamente o que fazer. Atrás de si, deixou a porta e o livro aberto.

Naquela mesma manhã, o Sr. Bruxelas fazia a ronda que os chefes gostam de fazer para não ter eles mesmos que trabalhar. Andava devagar com a pompa dos grandes proprietários, avaliando os ensaios dos palhaços e o treino dos trapezistas.  Quando passou pelo trailer do poderosos Jéan Eugene, achou muito estranho ver a porta aberta. Nunca tinha entrado naquele local enquanto o mágico anterior vivia e agora adentrava com a curiosidade de quem explora as ruínas de um templo antigo.  Entrando, notou o livro aberto e se horrorizou com ele. Na escrivaninha e ao lado dele, o molho de chaves do tratador de leões.

Saiu, trancou a porta de forma afetada e mandou chamar o ajudante geral.

— Você sabe que não posso ignorar isso.

— Não se preocupe, Stephano, nada aconteceu. Ele nunca havia chamado ele pelo primeiro nome.

— Você invadiu o trailer do grande Jean. Não é só um desrespeito. É um crime. Um pecado!

— Crime? Pecado? Ainda não… por acaso algo foi roubado? Sua calma era perturbadora.

— Não sei. Parece que não. Mas essas chaves são suas.

– Devo ter esquecido lá quando fui alimentar as pombas. E pegou a chave de forma excessivamente cortez.

O Sr. Bruxelas estava sem ação com a nova postura do ajudante.

— Sacrifício? Pacto de Sangue? Você sabe que isso é loucura não é, Gregori?

— Não é loucura o nome que os covardes dão à sabedoria? – e saiu.

Não se falaram mais até o dia da apresentação. A nova postura dominante de Gregori fez com que não apenas o dono do circo, mas também todos os funcionários se reunissem na ala oeste do picadeiro onde foi montado um palco para a exibição.

 III

As cortinas abriram. No seu centro do palco, havia agora uma caixa retangular de pé como uma enorme lápide dividida em três partes. Em cada uma das partes, uma parcela de uma figura demoníaca estava desenhada ao estilo azteca. A cabeça era como a de um javali, o tronco com o de um macaco e as pernas iguais às de um bode agachado. Gregori entrou no palco pela esquerda em passos lentos com a autoridade com que um juiz entra no tribunal. O silêncio imediatamente se fez presente em todos que escutavam a sola de seus sapatos bater na madeira do chão enquanto ele se aproximava da caixa. 

Audácia das audácias. Estava vestido com as roupas do grande Jéan Eugene. O tamanho era um número maior que o dele, dando-lhe a impressão desleixada. Sua cartola e capa lhe dava uma impressão que seria cômica se não houvesse algo de errado em seu rosto. Havia agora um sorriso quase deformado em seu rosto, como que esticado por dedos invisíveis, uma certa perversão que ninguém até então já tinha observado. Era como se o próprio diabo tivesse emprestado seu corpo para brincar de circo. Sua voz também era quase a mesma:

— Senhoras e senhores, lhes apresento a Tumba Montezuma!

A luz do holofote iluminou a caixa, embora todos os outros funcionários estivessem na plateia.

— Esta noite vamos desafiar a vida e a morte quando um de vocês for colocado na tumba e as próprias leis da natureza forem violadas.

A tumba se abriu. A divisão em três partes continuava na parte de dentro separada por três lâminas que cortavam lado a lado toda sua área interna. O mago se aproximou e retirou as três lâminas com a firmeza de um cirurgião.

— Como devem imaginar, estou sem minha ajudante. Será necessário um voluntário da plateia.

Silêncio total.

— Com certeza, você, nosso amado chefe, Stephano não vai perder a chance de entrar para a história do circo Bruxelas.

O dono do picadeiro olhou para os lados confuso quando uma força invisível pareceu ter forçado sua cabeça para frente. Ele então disse em uma voz tremendo tal qual um gago que se esforça para falar.

— Ee eu soo souu o vooluuuntário…

— Excelente! Aproxime-se! – disse o mágico.

Pouco se moveu à medida em que Stephano se dirigia à tumba como um zumbi. Uma vez dentro, deu uma meia-volta militar e a plateia pôde ver o vazio de seus olhos.

— Agora, algumas medidas de segurança. Não queremos que o corpo caia quando arrancarmos seus pedaços – prosseguiu Grigori com a solenidade de um carrasco. 

Enquanto ele retirava das mãos as algemas, Stephano colocou as mãos para frente. Uma faixa de fita adesiva reforçada foi colocada em sua boca e uma corda de marinheiro apertou forte uma perna contra a outra. Cada parte do corpo estava também bem presa a uma das três partes da caixa. A tudo isso, o dono do circo colaborava tal qual um bovino ignorante do abate. 

— Estamos prontos, amado público! Hora de um pouco mais de ação!

Ao dizer isso, estalou os dedos e todos puderam ver que o dono do circo havia voltado a si. Estava completamente apavorado e se esforçou em vão para se soltar. Emitiu um mugido mudo de sequestrado quando o mágico fechou a porta da tumba à sua frente.

— Música! 

O som que preencheu o ambiente era como um coral de monges do inferno cantando para o deus da morte. O horror que se apossou da plateia fez a maioria dos funcionários paralisar de medo e aqueles que tentaram fugir se viram presos por forças estranhas.

— Primeiro, vamos separar as pernas… para que não corra, sabem? – e piscou para a plateia.

A primeira lâmina foi enviada com a brutalidade de um açougueiro. O grito abafado pela caixa e pela fita adesiva superou até mesmo a música infernal que tocava e foi ouvida da última fileira.  

— Agora, lhe arrancamos a cabeça! – disse Gregori rindo descontroladamente.

O mágico posicionou a segunda lâmina na fenda da caixa e olhou de forma sádica para a plateia.

— Contem comigo, amado público!

Como uma horda de almas condenadas, todas as bocas obedeceram.

— Dez… Nove… Oito..  Sete… Quando a contagem começou os gritos de dentro da caixa se intensificaram e um leve balançar pode ser notado à medida que seu prisioneiro se debatia como um peixe fora d’ água.

— Sete… Cinco… Quatro… – alguns choravam desesperados e outros molhavam as calças. Ninguém conseguia fechar os olhos.

— Três… Dois… Um… – os gritos abafados chegaram ao ápice e pararam, quando a lâmina foi enfiada com força. A música apoteótica sobrenatural também cessou como que para todos pudessem ouvir o barulho de pele e carne rasgada de dentro da caixa. 

A essa altura, o sangue escorria pela abertura da tampa frontal e empatava o espaço ao redor do palco.

— Outro voluntário! Quero outro voluntário! – anunciava o mágico satisfeito – Você, dançarina, venha fazer parte do meu espetáculo!

Liliane se levantou. A urina lhe escorria pela meia-calça. Seu rosto porcamente desmaquiado pelas lágrimas se afastava aterrorizado, enquanto seus braços e suas pernas se dirigiam obedientes ao picadeiro.. 

— Vamos, minha cara… Retire a Lâmina de baixo!

Toda a alma da dançarina devia estar empenhada em resistir a essa ordem, pois a mão vacilava em obedecer. Apesar disso, obedeceu como uma sonâmbula. Tentou retirar a lâmina inferior, mas teve dificuldade. Forçou-a e quando conseguiu a tumba de madeira se mexeu como se um novilho natimorto tivesse sido arremessado ao chão. O fluxo de sangue no chão se intensificou.

— Agora a de cima! Retire ela também!

A segunda lâmina foi puxada com facilidade pelo ajudante involuntário. Manchada do centro em diante de sangue escuro como se um dragão a tivesse lambido após se fartar de carne humana. Novamente, o barulho de algo caindo.

— Agora, abra a tumba! Senhoras e senhores, esse é meu presente para todos!

A mão da circense tremia e vacilava como uma palmeira em uma tempestade denunciando a revolta da alma dominada. Ainda assim, segurou a pequena maçaneta. O sangue do chão começou a evaporar de forma sobrenatural, criando serpentes de fumaça  ao redor da tumba, como coroando o ponto alto do espetáculo.

— Vamos, abra! Abra! Abracadabra!

A porta da tumba foi aberta.

Dentro dela estava Sr. Bruxelas. E que surpresa, sem algemas nem fita. Com pernas e cabeça. No chão, a última gota de sangue evaporava. Estupefato, o homem apenas deu alguns passos para frente e olhou ao redor completamente perplexo. 

Gregori segurou com autoridade a mão do dono do circo e da bailarina e os levou até a frente do palco, obrigando-os a fazer uma teatral referência para a plateia. Ao levantarem suas cabeças, soltou as mãos de ambos e com um gesto liberou todos os funcionários das forças sobrenaturais que os oprimiam. Alguns caíram desmaiados. Outros fugiram de horror.

A dançarina foi uma das que desmaiou quase que imediatamente. Grigori a ignorou e se voltou para o casaco do Sr. Bruxelas. Tirando o pó de seus ombros com o zelo de uma mãe severa, Grigori explicou sorrindo com os olhos:

— Uma fantástica ilusão, não acha, meu caro Stephano? O emprego é certamente meu.

Obedientemente, ele apenas assentiu com a cabeça como uma criança assustada. Sabia que lá estava alguém com quem não poderia discutir. Na verdade, tinha dúvidas sobre quem era o proprietário do circo agora. Grigori ganhou não apenas a vaga de mágico, mas o maior salário da trupe, o trailer com toda coleção de artigos raros de seu antigo dono e principalmente, o nefasto livro Suk’Nazbot. 

O circo não fechou. Pelo contrário, nos meses que se seguiram, as arquibancadas estavam diariamente mais lotadas. As apresentações do grande Grigori Vigatto superaram até mesmo as de Jéan Eugene. Aparições espectrais de cair o queixo. Cabeças decepadas flutuando como balões. Fileiras de esqueletos dançando um cancã macabro como garotas francesas. Criaturas inomináveis brotando do chão. Mãos amputadas correndo pela plateia como caranguejos. Até os jornalistas dos grandes jornais vinham assistir seus espetáculos. O circo estava de volta.

Foi, contudo, logo após a sádica apresentação inicial que o Sr. Bruxelas entendeu o que havia acontecido. Os funcionários que saíram correndo daquele horror encontraram em uma área não muito distante do circo uma cena digna de uma missa diabólica. No centro, um corpo rasgado de peito para cima. Ao seu redor, um triângulo de sal repleto de símbolos indecifráveis. Em cada ponto do triângulo, uma bacia cheia de sangue. O sacrifício havia mesmo sido feito. A velha leoa estava morta.

 

versão impressa e kindle

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/popmagic/tres-bacias-cheias-de-sangue/

A TV Globo e Sua História Secreta

“Um povo ignorante é o instrumento cego de sua própria destruição”

As reais motivações que a Globo teve, e tem agora, depois das eleições, com uma inusitada e inesperada aproximação do Governo Lula. Uma reflexão sobre o papel da emissora na implantação do poder do capital especulativo sobre o produtivo no Brasil.

Recebi, com alegria, algumas observações competentes do amigo Giovano de Oliveira Cardoso, leitor da Novae, a respeito de meu artigo publicado nesta Revista em 28 de outubro [link da revista retirado do ar], sobre o resultado das eleições, o qual lembrou algumas razões da neutralidade da Rede Globo no recente processo eleitoral brasileiro.

Apropriadamente lembrava o amigo Giovano dos interesses conflitantes entre a rede Globo e o Grupo Silvio Santos, em diferentes âmbitos de uma mesma disputa. A aproximação do Gugu Liberato do candidato Serra, enquanto negociava a aquisição de um canal de televisão no Mato Grosso, e que já lhe havia sido concedido o direito de compra, fora dos prazos legais que são admitidos nos contratos de concessão, seria um dos motivos para essa disputa.

Outros motivos, que também podem ser visualizados no estreito contato do Governador de São Paulo ao próprio Silvio Santos, em evidente envolvimento por ocasião de seu seqüestro, em nebuloso episodio que incluiu o assassinato do seqüestrador na prisão, após ser admitido publicamente sua salvaguarda e integridade física pelo próprio Governador, em meio a fatos de apropriação do botim do seqüestro por policiais que não ficaram devidamente esclarecidos.

E ainda o pleito da Globo junto ao BNDES, de um escandaloso credito de um bilhão de reais, no sentido de salvar do naufrágio econômico os erros cometidos pela administração incompetente de um canal de TV por assinaturas dessa Rede, e vergonhoso, se comparamos o volume de crédito aos recursos de 400 milhões negados pelo Governo ao desenvolvimento de toda uma região, no caso o nordeste brasileiro, através da SUDENE, que foi fechada, para evitar que se averiguassem denuncias de corrupção em projetos financiados pelo órgão.

O amigo Giovano lembra ainda, com propriedade, o temor da Globo pela aprovação da lei que permite a participação de empresas estrangeiras em até 90% do capital social das emissoras nacionais, o que daria ensejo as redes norte-americanas para assediar a Globo, como maior canal brasileiro, e tentar assumir seu controle, dentro de uma política de lançamento da ALCA em nosso pais e de avanço dos produtos norte-americanos em substituição aos nacionais em nosso mercado interno.

Acredito que esses temas devam ser tópicos de reflexão ponderada de pesquisadores e intelectuais militantes, que se interessem por esclarecer as reais motivações que a Globo teve, e tem agora, depois das eleições, com uma inusitada e inesperada aproximação do Governo Lula. E, para colocar mais um pouco de lenha na fogueira, transcrevo um fragmento de meu livro Capitalismo Autoritário, ainda não publicado, onde abordo, em determinado momento o papel das comunicações, em especial da Rede Globo, para a implantação do poder do capital especulativo sobre o produtivo no Brasil.

Do livro “Capitalismo Autoritário”, ainda inédito:

Como veremos adiante, não se trata aqui somente dos recursos tecnológicos e materiais indispensáveis para o suporte técnico do Capitalismo Autoritário, mas da função adquirida pelos mesmos na estratégia montada para a condução desse Capitalismo, em suas bases ideológicas e econômicas que exercerão o poder de fato na nova Sociedade Capitalista.

Uma citação do diretor-presidente da TV Globo, em 1966, respondendo à Comissão Parlamentar de Inquérito (já se fazia isto, naquela época) que investigou as ligações entre a Globo e o grupo Time-Life (ligações espúrias, conforme veremos) é muito elucidativa para se entender a importância do sistema de comunicações no novo cenário nacional: “As empresas jornalísticas sofreram, mais talvez do que quaisquer outras, certas injunções, como depressões políticas, acontecimentos militares. Os prognósticos que estamos fazendo na TV Globo dependem muito da normalidade… da tranqüilidade da vida brasileira. Esses planos podem ser profundamente alterados, se houver um imprevisto qualquer ou advir uma situação que não esteja dentro dos esquemas traçados, como se vê nas operações de guerra.”

Esta era uma citação que fazia ver o papel que a rede Globo planejava, junto com o grupo Time-Life no futuro imediato do Brasil. O acusador, por outro lado, coincidentemente representante da rede de televisão já existente e líder das comunicações na época (os Diários Associados, proprietários da Rede Tupi), esclarecia à mesma CPI: “E esta é uma guerra – não é uma guerra quente, mas um episódio da guerra fria. Entretanto, se perdermos neste episódio, o Brasil deixará de ser um país independente para virar uma colônia, um protetorado. É muito mais fácil, muito mais cômodo e muito mais barato, não exige derramamento de sangue, controlar a opinião pública através dos seus órgãos de divulgação, do que construir bases militares ou financiar tropas de ocupação”.

Feitas estas considerações, passemos a analisar a montagem do sistema de comunicações durante o período da ditadura militar, que é um ponto importante para compreender a função desse sistema como parte do Capitalismo Autoritário.

A legislação que orienta as concessões de rádio e televisão foi estabelecida logo após o Golpe Militar de 1 de abril de 1964 e conservou-se inalterável até a Constituição de 1988, que apenas confirmou as normas já existentes e somente agora pretende ser alterada, para pior, é claro, dando permissão às empresas estrangeiras participarem do capital da radiodifusão brasileira.

Ela atribui ao presidente da República poder absoluto sobre as concessões, que não dependem em nenhum momento de pareceres técnicos, considerando-se, desta forma, apenas os prêmios políticos que o presidente utiliza como barganha para conquistar os votos dos deputados e senadores no Parlamento.

No apagar das luzes da ditadura, já no governo Figueiredo, foram feitas 700 concessões de rádio e televisão, que representou na época mais de um terço do total das emissoras inauguradas desde o surgimento da radiodifusão no país. (FSP, 14 mar. 1985).

O serviço de radiodifusão no Brasil é mantido sob estrito padrão privado comercial, sem a preocupação da transmissão e defesa da cultura nacional, exceção feita à Rede Universitária -TV Cultura que sobrevive com parcas verbas e de qualidade técnica inferior frente às concorrentes comerciais.

As concessões são feitas sem o cuidado de análise mercadológica e, distribuídas como brindes, dentro da mentalidade cartorial do governo federal. Elas são freqüentemente superpostas e tem sua abrangência geográfica aumentada arbitrariamente.

Dois são os tipos de concessão: a controlada pelas grandes redes de rádio e televisão e as presenteadas aos apaziguados do Poder. Servem, assim, para contemplar diretamente o poder econômico e o poder político, sem visar em nenhum momento o interesse público. A rede Globo sozinha detém 40% do mercado publicitário das emissoras de televisão, dominando, desta forma, o mercado em sua totalidade, e em completa abrangência do território nacional.

Na história da rede Globo existe o obscuro acordo com o grupo Time-Life, norte-americano, que financiou, equipou, planejou, treinou o pessoal e deu assistência técnica durante mais de dez anos, até sua autonomia técnica e comercial; este acordo, como vimos a pouco, foi motivo, inclusive de uma CPI para investigar as suas conseqüências monopolizadoras do mercado do país, logo no início da ditadura militar, quando esta ainda se preocupava em dar alguma função aos deputados e senadores, e mesmo que, como todas, terminasse em pizza.

Conforme o livro “História Secreta da Rede Globo – Ed. Tchê! Porto Alegre “, (p.71) o autor afirma que “Controlando as entidades representativas das emissoras de radiodifusão, o sistema Globo faz predominar seus interesses e neutraliza as manifestações das pequenas e médias empresas que são sufocadas pela concorrência dos oligopólios”. E, em seguida: “Com a Nova República, a Globo teve seu poder fortalecido”.

Visto está que, após a ditadura, o sistema de comunicações brasileiro, capitaneado pela rede Globo, manteve-se intacto e até fortalecido, dentro dos padrões ideológicos definidos pelo grupo Time-Life na década de sessenta, em plena guerra fria. E, pela importância e destaque que a Globo continua ocupando na mídia nacional, é evidente que este processo continuou a se fortalecer durante os últimos quinze anos.

Que a implantação da rede Globo no Brasil foi ilegal e fato criminoso é assunto já discutido e conhecido por uma grande parte da população pensante do país, mas entender que este fato faz parte de um contexto econômico e político-social configurado na “globalização” das comunicações e que é o grande orientador ideológico do Capitalismo Autoritário, isto é que é preciso analisar e definir claramente.

Com isso estaremos dando argumentos para que os setores que ainda resistem aos avanços do Capitalismo Autoritário possam ser “sacudidos” em seus brios éticos e de compromisso com a nação, e passem a defender o direito das maiorias de impor seus interesses nos sistemas de comunicação de massa.

Os jornais, censurados, dirigiram as notícias segundo os interesses da ditadura, que coincidiam com os Estados Unidos. Foi a era do “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. A subserviência aos americanos passou a ser completa, e assim continua até os dias atuais.

Mas a grande vedete das comunicações já era a televisão. Inaugurada em 1950, teve um caminho ascendente muito lento, que durou toda a década de cinqüenta. Só na década de sessenta é que começou a espalhar suas antenas e repetidoras por todo o país, tornando-se o maior veículo de comunicação e transmissão ideológica a partir de então.

O grupo Time-Life, da direita conservadora norte-americana tentou associar-se ao “Estado de São Paulo” mas os seus proprietários, ou não entenderam bem o significado da proposta, o alcance histórico que ela teria na formação da consciência nacional nas décadas seguintes, ou eram pretensiosos demais para dividirem o poder da mídia que detinham, mesmo que fosse com os norte-americanos.

O fato é que o grupo Time-Life acabou associando-se com o jornal O Globo, do Rio de Janeiro, reconhecido como a cabeça da reação, do conservadorismo e do entreguismo no Brasil. O contrato assinado entre Roberto Marinho e o grupo Time-Life o foi em 1962, mas a primeira emissora só começou a funcionar em 1965, depois do Golpe Militar. Até então já haviam sido assinados vários acordos de cooperação entre ambos os sócios, chegando os dólares americanos em profusão, para a importante missão.

Tão importante que, em outubro de 1964, na “Conferência sobre o Desenvolvimento  Latino-americano”, promovida pelo Hudson Institute foram expostos com clareza, pelo comparsa de Roberto Marinho no projeto da rede Globo, Weston C. Pullen Jr., Presidente do Time-Life Broadcasting Inc., os desígnios norte-americanos com as associações na mídia televisiva que se processavam entre os Estados Unidos e os países da América Latina, que aqui reproduzimos, e que está citada na obra acima mencionada “História Secreta da Rede Globo – Ed. Tchê! Porto Alegre (p. 125/126)”:

“Passando em revista sua experiência em TV na Europa, Oriente Médio e América Latina, o Sr. Pullen afirmou que ele está operando na Venezuela, no Brasil, na Argentina e possivelmente entrará em nova operação na Colômbia. (…) A NBC, a CBS e a ABC, estão todas ativas nessas áreas e todas têm, como o Time, uma fórmula comercial que tende a incluir as seguintes características:

1. O grupo norte-americano necessariamente tem posição minoritária, em termos de oportunidade de investimentos, devido às leis dos respectivos países sobre telecomunicações.

2. Em todos os casos é indispensável ter sócios locais, o que é importante; e eles têm provado ser dignos de confiança.

3. A programação das estações é uma tarefa conjunta norte e latino-americana.

4. A política adotada mostra que a TV educativa diurna é importante para o êxito comercial e poderosamente eficaz e popular, quando tentada. O Sr. Pullen considera que o governo norte-americano pode e deve interessar-se por esse tipo de expansão por parte de grupos norte-americanos como um meio de atingir o povo. E apesar dos problemas que surgem, a TV se tornará para todo latino-americano, tal qual como para todo norte-americano (sic) em futuro bem próximo.”

A estratégia, portanto, estava muito clara: tratava-se de apoderar-se dos meios de comunicação mais importantes dos países-chaves da América Latina – Brasil, Argentina, Venezuela e Colômbia, da mesma maneira como o mesmo Sr. Pullen vinha fazendo na Europa e no Oriente Médio, e a intenção, óbvia, era a de influir decisivamente na formação da consciência das gerações que formariam o novo mundo do terceiro milênio, que os Estados Unidos desejavam, estivessem sob seu controle.

E, para garantir a completa estruturação do sistema de dominação ideológica através da mídia televisiva, o senhor Pullen ficou governando a Globo durante treze anos: desde o contrato inicial, em 1962, até o final do contrato de “assistência técnica”, em 1975.

Aqui é preciso verificar que o conceito básico da formação da consciência, que seria o objeto da programação, do conteúdo dessa programação, apresentado através das novelas e programas de auditório, procurava, além de alienar o povo brasileiro, quebrar também a sua auto-estima como Nação, única forma de se dominar sem precisar armas, nem bases militares que servissem à ocupação pelos norte-americanos.

As medidas eram mais simples: da mesma forma como o americano é auto-endeusado, através da metáfora do super-homem, ou seja, a capacidade que qualquer indivíduo isolado nascido nos Estados Unidos tem de resolver qualquer tipo de problema, situação ou risco, o que é mostrado sistematicamente na filmografia americana, principalmente, mas nas demais produções que se fabricam naquele país, com o intuito de elevar a auto-estima desse povo, e leva-lo a considerar-se superior aos demais, a estratégia da Time-Life e do governo norte-americano em relação ao povo brasileiro era justamente a oposta: mostrar as mazelas do povo, as dificuldades sem solução, a incapacidade, a corrupção e o conformismo como base do espírito brasileiro, utilizando-se para isto, principalmente, das novelas da televisão e dos programas “bandeira dois” nas rádios locais.

Nas novelas são mostrados o tempo todo as fraquezas dos personagens, a complacência e a traição permanente e geral. A vulgaridade das classes médias urbanas, nos bairros pobres cariocas, em contraste com a exuberância e extravagância das classes médias da Zona Sul. A caricatura do povo nordestino, apresentado como sub-nação, e ridicularizado em suas maneiras e modo de vida. É, evidentemente uma imagem falsa, mas, que de tanto ser repetida durante décadas pela rede nacional da Globo, acabou por ser aceita como verdade, quebrando a auto-estima desse povo, que se ridiculariza a si próprio, e ri de si mesmo com as humilhantes alegorias feitas aos pobres por “Caco Antibes” no programa “Sai de baixo” dos domingos globais.

A questão da TV educativa diurna também ficou bem colocada e explícita, segundo o ponto 4 acima, e se tornou mais recentemente uma tarefa sistemática, com os programas de ensino supletivo, dirigidos pela Rede Globo, assumindo a função do Estado e por ele reconhecido oficialmente, assim como os novos meios de ensino à distância, a tele-escola, com programas de desenvolvimento escolar através de tele-salas, o ensino técnico, empresarial (“Pequenas Empresas Grandes Negócios”), etc.

Antes que aconteça a expansão da tele-educação a níveis mais abrangentes, a Rede Globo se antecipou no controle desse nicho formador de consciência, assumindo essa tarefa, imprescindível para a manutenção do seu domínio, da ideologia norte-americana imperialista e do Capitalismo Autoritário que se estabeleceu.

Ou seja, a Globo assume a orientação da educação, cria e financia os sistemas de divulgação, estabelece a programação e é reconhecida em todos os seus atos pelo Ministério da Educação. Fecha-se o círculo, e a formação da Consciência Nacional fica entregue aos objetivos da Rede Globo e de sua integração com o pensamento e ideologia norte-americana.

Hoje, a Rede Globo absorve metade da audiência televisiva e setenta e cinco por cento das verbas gastas com publicidade, segundo abalizada opinião do jornalista Paulo Henrique Amorim. É evidente, assim, o domínio total deste meio de comunicação sobre a formação da consciência do povo brasileiro, capaz de eleger presidentes e determinar o curso de nossa história, como era o objetivo central da Ditadura Militar e do Governo Norte-americano, mancomunados para a derrota histórica da Nação Brasileira em 1964, quando lançaram os esteios sobre os quais se ergueria o Capitalismo Autoritário.

À mesma época se instalaram no Brasil dois outros grupos editoriais importantes: o grupo Visão, com matriz em Nova York, cujas publicações eram dirigidas à orientação da classe empresarial, assim como a editora Mc Graw Hill, que destinava suas publicações técnicas ao meio empresarial e que depois se associou ao grupo Visão. Além desses, o grupo Civita, da Editora Abril, também começou suas atividades, com dezenove revistas, o mesmo número que, na mesma época, começava a publicar na Argentina e no México. Victor Civita, seu presidente, italiano de nascimento, mas naturalizado norte-americano, havia sido empregado do grupo Time-Life e veio para a América do Sul com seu irmão, ele ficando no Brasil e o irmão indo para Argentina.

Assim, ficou formado o quadro de propriedade dos meios de comunicação brasileiros e latino-americanos, onde o grupo Time-Life aparecia como maior parceiro, ditando os investimentos financeiros, tanto na televisão, como no rádio e nas revistas. Mesmo alguns jornais, como O Globo, especialmente, já eram porta-vozes das posições norte-americanas pela afinidade ideológica que possuía e ainda possui com este país.

Evidentemente, a estratégia foi coroada de êxito, pois, nas décadas seguintes:

1. O Brasil passou a receber a influência cultural apenas dos Estados Unidos.
2. Foi estimulado o desenvolvimento de uma sub-cultura semelhante à norte-americana que dominou a consciência das massas.
3. A filmografia mostrada na Televisão concentrou-se na violência e no culto ao super-homem americano, que tudo resolve sozinho, seja ele homem, velho, moço, mulher ou criança, desprezando os esforços coletivos e o trabalho social.
4. Ao contrário do que ocorria nos Estados Unidos, nos países periféricos, como o Brasil, tentava-se quebrar a auto-estima desses povos, para permitir a dominação e a alienação a partir dos países centrais, Estados Unidos em primeiro lugar.
5. A mediocridade tomou conta das programações das estações (decidida em conjunto, “entre americanos e brasileiros”, segundo o Sr. Pullen).
6. A alienação cultural passou a ser a característica das novas gerações, contribuindo para o abandono do espírito crítico que ainda sobrevivia na “geração de 68”.
7. Os assuntos a serem ventilados e discutidos na Televisão passaram a ser os assuntos que interessavam aos norte-americanos e não aos brasileiros.
8. A metodologia educacional divulgada através da TV passou a privilegiar os resumos, as visões gerais, sem contribuir para a formação de conhecimentos sólidos, que levem ao pensamento crítico.
9. Surgiu, a partir da rede Globo, uma concentração desproporcional do mercado da televisão em mãos de uma única rede.
10. A formação da Consciência integrada, seguindo a ideologia norte-americana do Capitalismo Autoritário foi entregue oficialmente nas mãos da Rede Globo, com a parceria entre a Fundação Roberto Marinho e o Ministério da Educação.

11.2002

José Lucas Alves Filho – Economista pernambucano, formado na Faculdade de Ciências Econômicas de Montevideo. É professor de Metodologia Dialética em cursos de ‘pós-graduação’ nas universidades de Pernambuco, Consultor de Empresas, escritor e dramaturgo, entre outras atividades. Publicou trabalhos de economia como “Não à Teoria do Subdesenvolvimento” (Kairós, SP, 1983); “S.O.S., Homem do Campo”(Kairós, SP, 1984); “Capital Ilusão”(Ed. Coragem, SP, 1986); “O Fim do Desemprego ou A Jornada de Seis Horas”(Ed. do Autor, Recife, 1999); “A Cachorra Isaura (Romance, Ed. do Autor, Recife, 2001), além de outras obras inéditas, como: “Metodologia Científica – O Método Dialético”;”Reforma Agrária em Pernambuco”;os Romances “Madalena Uchôa”, “Para Onde Vamos” e “O Castelo Destruído”; as peças teatrais “O Direito à Preguiça”, “Verso e Reverso da História de Olinda”, “Ëlogio da Loucura” e o Poema “Século XXI”.

Ilustração: Cris Fernandes, produtora executiva da Novae. http://www.crisfernandes.blogger.com.br

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Por José Lucas Alves Filho

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/a-tv-globo-e-sua-historia-secreta/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/a-tv-globo-e-sua-historia-secreta/