A Filosofia dentro da Maçonaria

Autor: H. L. Haywood
Tradução: Luiz Marcelo Viegas

O que é isso tudo? Essa foi uma pergunta que eu me fiz muitas vezes durante minha iniciação. É uma pergunta que você, sem dúvida, também fez a si mesmo, e por ela todos somos moldados até o fim do Terceiro Grau. A linguagem do ritual, imponente e bonito como ele geralmente é, é para a maioria de nós um discurso “misterioso”; e as instruções e a ritualística são igualmente confusas para o neófito. Por isso é que fazemos a pergunta, “O que é isso tudo?”.

Depois de nos tornarmos familiarizados com o ritual e ter aprendido alguma coisa de seu significado, descobrimos que a própria Fraternidade, como um todo, e não apenas uma parte ou detalhe mais misterioso, é algo quase demasiado complexo para se entender. Com o passar do tempo o maçom fica tão acostumado com o ambiente da Loja que ele se esquece de sua primeira sensação de estranheza, mas mesmo assim ele ouve de tempos em tempos coisas sobre antiguidade, a universalidade e a profundidade da Maçonaria; ouve conversas sobre o seu lugar na história e no mundo, e isso o faz sentir que, apesar de toda sua familiaridade com a Loja, ele pouco sabe sobre a Fraternidade Maçônica na sua totalidade.
O que é a Maçonaria? O que é que está tentando fazer? Como veio a ser? Quais são os seus ensinamentos centrais e permanentes? É para responder a estas perguntas — e essas perguntas passam pela mente de quase todos os Maçons, porém ele pode ficar indiferente a elas — que a filosofia da Maçonaria existe. Para entender “O que é isso tudo”, no seu conjunto, e não em partes, devemos aprender sobre a filosofia de nossos mistérios.

O indivíduo que ingressa na Maçonaria torna-se herdeiro de uma rica tradição; a iniciação que lhe permite o acesso aos mistérios não é algo que o capacitará em um dia, e ele vai aprender pouco se nenhuma tentativa fizer de se aprofundar em seus ensinamentos. Ele deve aprender um pouco da história da Maçonaria; de suas realizações nas grandes nações; dos seus professores excelentes, e o que eles têm ensinado; de suas ideias, princípios, espírito.

A Iniciação por si só não confere esse conhecimento (e não poderia): o próprio iniciado deve se esforçar para compreender as riquezas inesgotáveis da Ordem. Ele deve descobrir os propósitos maiores da Fraternidade a que pertence.

Não há uma interpretação pronta para o que é Maçonaria. O irmão recém-iniciado não encontra à sua espera um ritual leia-e-aprenda. Ele deve pensar o que é a Maçonaria por si mesmo. Mas pensar o que é Maçonaria por si mesmo não é tarefa fácil. Isso requer que o neófito a veja por suas próprias perspectivas; que se conheçam os principais contornos da sua história; que se saiba como ela realmente é, e o que está fazendo; e entender como ela foi entendida pelos seus próprios pelos seus membros em seus primórdios. Não é fácil de fazer isso sem orientação e ajuda, e é para dar esta orientação e ajuda que esta série foi escrita.

Há ainda outra razão para o estudo da filosofia, ou, como nós aqui preferimos dizer, os ensinamentos da Maçonaria. Nossa Fraternidade é uma organização mundial com Grandes Lojas praticamente em todas as nações. Para sustentar, gerenciar e promover tal sociedade custa ao mundo somas incalculáveis de dinheiro e esforço humano. Como pode a Maçonaria justificar sua existência? O que fazer para reembolsar o mundo com seus próprios recursos? De uma forma ou de outra, essas perguntas são feitas a quase todos os membros, e cada membro deve estar pronto para dar uma resposta verdadeira e adequada. Mas para dar tal resposta exige-se que ele tenha entendido os grandes princípios e estar familiarizado com os contornos das realizações do Craft, e isso novamente é um dos propósitos do nosso filosofar sobre a Maçonaria.

Como podemos chegar a uma filosofia da Maçonaria? Como podemos aprender a interpretação autêntica dos ensinamentos da Maçonaria? Qual é o método pelo qual aquele que não é nem um estudioso geral, nem um especialista maçônico pode ganhar alguma compreensão abrangente da Maçonaria como foi dito nos parágrafos anteriores? Em suma, como pode um homem “chegar a ela”?

Uma forma de “chegar a ela” é ler uma ou duas boas histórias maçônicas. Não há necessidade de entrar em detalhes ou ler sobre as várias questões colaterais de interesse meramente histórico; isso é para o estudante profissional. Essa leitura e apenas para obter a tendência geral da história e para capturar os eventos pendentes; para saber o que a Maçonaria tem realmente realizado no mundo e receber um insightsobre seus propósitos e princípios; para, como qualquer outra organização, ver revelado seu espírito através de suas ações. A partir de um conhecimento do que a Ordem tem sido e o que ela fez no passado pode-se facilmente compreender a sua própria natureza presente e princípios, e entender porque Maçonaria nunca teve necessidade de romper com o seu próprio passado! A Maçonaria de hoje não nega a Maçonaria de ontem. Seu caráter resulta claramente da sua própria história como uma montanha se destaca acima de uma névoa; e que sempre tem sido, pelo menos em um grande caminho – é agora, e sem dúvida sempre será.

Esta mesma história constrói-se incessantemente, sempre renovando e formando-se. Acontece no dia-a-dia, e o processo mantém-se aberto a todos, pois, afinal de contas, não há muito que se esconder sobre a vida rica e incansável da Fraternidade; na verdade, esta vida está constantemente revelando-se em todos os lugares. Grandes Lojas publicam seus Anais; homens que exercem as funções ativas de escritórios maçônicos fazem relatórios dos seus funcionamentos; estudiosos do Craft escreverem artigos e publicam livros; Oradores maçônicos entregar incontáveis discursos; conferências maçônicas especiais, qualquer que seja a sua natureza, publicam os temas discutidos; a maioria dos eventos mais importantes está presente nos jornais diários; há dezenas e dezenas de jornais maçônicos, boletins e jornais, semanais, mensais e bimestrais, e há muitas bibliotecas, clubes de estudo e de sociedades científicas em todos os lugares se esforçando com zelo incansável para tornar claro aos membros e profanos “o que é tudo isso.” Assim, verifica-se que para aprender isso por si mesmo não é necessário que uma definição de Maçonaria ouvida por um irmão seja o fim da linha; ele pode (e deve) pesquisar sobre o tema, ouvir outros irmãos, e ler um pouco, e, assim, formar suas próprias conclusões. Para saber quais são esses ensinamentos não é necessário nenhum talento raro, nenhum “conhecimento interno”, mas apenas um pouco de esforço, um pouco de tempo.

Para o neófito do mundo maçônico parece muito confuso, é tudo tão multifacetado, tão longínquo, tão misterioso; mas isso, afinal de contas, não precisa assustá-lo e impedi-lo de uma tentativa de entender esse mundo com uma visão abrangente, e perceber que toda a Maçonaria gira em torno de algumas grandes ideias. Compreender essas ideias por sua vez, é o que torna mais familiar para um Maçom palavras tais como “Fraternidade”, “Igualdade”, “Tolerância”, etc., etc., de modo que o mais jovem Aprendiz não precisa ter nenhuma dificuldade no seu entendimento. Se ele chegar a elas, e se ele aprende a compreendê-las como maçons devem entendê-las, elas vão ajudá-lo muito para conquistar essa visão abrangente e inclusive do que chamamos de filosofia da Maçonaria.
Nada foi dito ainda dos grandes mestres da Maçonaria. No passado havia Anderson, Oliver, Preston, Hutchinson, etc .; depois vieram os filósofos da meia-idade, Pyke, Krause, Mackey, Drummond, Parvin, Gould, Speth, Crawley, e outros; e em nossos dias Waite, Pound, Newton, etc., etc. Nas obras desses homens as grandes e simples ideias da Maçonaria se tornaram luminosas e inteligíveis, de modo que podemos ler e compreender o que dizem.

Além disso, o maçom deve estudar as leituras e instruções incorporadas ao ritual de todos os ritos e graus, sendo estes instrumentos interpretativos uma parte do próprio Craft. Nenhum deles é infalível – mas mesmo quando se afastam do significado original de nossos símbolos são sempre valiosos em revelar as ideias e os ideais das pessoas de que se originaram e que deles fizeram uso.

Isto é para mostrar por que devemos nos esforçar para fazer da nossa própria mente uma filosofia da Maçonaria, e de quantas maneiras pode-se chegar a essa filosofia. Mas cuidado. O estudo da filosofia da Maçonaria não é o estudo da filosofia maçônica; o estudante maçônico como tal, pode vir a ter pouco interesse em Platão e Aristóteles, no neoplatonismo, misticismo, Escolástica, racionalismo, idealismo, pragmatismo, Naturalismo, etc. Na Maçonaria há sinais de cada um desses e de outros sistemas filosóficos principais, sem dúvida, mas não existe essa coisa de filosofia maçônica, da mesma forma que não existe religião maçônica. Falamos de uma filosofia da Maçonaria no mesmo sentido que falamos de uma filosofia de governo, ou da indústria, ou arte, ou ciência. Queremos dizer que se estuda a Maçonaria, da mesma forma ampla, esclarecida, inclusiva e crítica, da mesma forma em que um economista estuda a política de um governo ou um astrônomo estuda as estrelas.

Seria uma coisa abençoada se um maior número de nossos membros deixasse de lado os assuntos administrativos e, muitas vezes mesquinhos de sua própria Loja, a fim de olhar com mais frequência para esses princípios profundos e sábios que estão para nossa Fraternidade assim como as leis da natureza estão para o universo.

#Filosofia #Maçonaria

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Mapa Astral de Goethe

Johann Wolfgang von Goethe (Frankfurt am Main, 28 de Agosto de 1749 — Weimar, 22 de Março de 1832) foi um escritor alemão e pensador que também incursionou pelo campo da ciência. Como escritor, Goethe foi uma das mais importantes figuras da literatura alemã e do Romantismo europeu, nos finais do século XVIII e inícios do século XIX. Juntamente com Friedrich Schiller foi um dos líderes do movimento literário romântico alemão Sturm und Drang. De sua vasta produção fazem parte: romances, peças de teatro, poemas, escritos autobiográficos, reflexões teóricas nas áreas de arte, literatura e ciências naturais. Além disso, sua correspondência epistolar com pensadores e personalidades da época é grande fonte de pesquisa e análise de seu pensamento. Foi membro da Maçonaria e dos Illuminati.

O Mapa de Goethe mostra uma pessoa extremamente organizada, metódica e prática, característica comum entre os virginianos solares. seu Mapa possui Sol em Virgem na Casa 9 (academia e filosofia), Lua em Peixes na casa 3 (comunicação), Ascendente em Escorpião e Caput draconis em Capricórnio.

A maneira de pensar de Goethe refletia seu Mercúrio em Leão-Virgem (Rei de Moedas). Suas oposições Virgem (vênus, Sol) / Peixes (lua, júpiter) foram trabalhadas de maneira magnífica. Júpiter em Peixes (o Planeta mais forte no mapa de Goethe, com 5 aspectações fortes) indica uma capacidade criativa fora do comum, imaginação e facilidade enorme para visualizações. O quincúncio a zero graus cravado com Mercúrio é descrito nas seguintes palavras: “Um de seus grandes talentos profissionais é a sua curiosidade intelectual e seu interesse por comunicação e informação. Você pode ser um eterno estudante e acumular conhecimento e perspicácia por toda a vida. Estes talentos intelectuais lhe trazem sucesso em campos que exigirem uma boa formação, boa redação, contato com as pessoas, viagens e troca de idéias. Você tem excelentes talentos pedagógicos, porque tem a capacidade de se concentrar em detalhes e ao mesmo tempo de tirar conclusões abrangentes.“.

Muita gente que faz os Mapas na hospitalaria se pergunta sobre os aspectos de Oposição; alguns céticos, como o Cafetron, consideraram “erro” no mapa porque um Planeta diz que a pessoa tem facilidade para uma coisa, e outro planeta diz que a facilidade é para algo oposto ou uma dificuldade na mesma característica quando, na verdade, o resultado é uma soma vetorial das duas forças, que quando bem trabalhadas, produzem resultados fantásticos (como o próprio Goethe, por exemplo).

Goethe trabalhou seus aspectos mais fortes: Lua e Júpiter em Peixes seriam interpretados isoladamente como uma pessoa “no mundo da lua”, extremamente imaginativa, romântica, cuja facilidade seria o campo espiritual; Por outro lado, uma pessoa com Vênus e Sol em virgem seria interpretado isoladamente como extremamente metódica, organizada, cética e prática… e ai? comofas?

Pela obra de Goethe, vemos que ele conseguiu trazer esta espiritualidade e criatividade para o campo organizado e metódico, expressado em seus textos (ao contrários dos piscianos “puros” que escolheriam outra forma de manifestação artística como pintura ou música).

No decorrer de sua vida, esta energia se torna mais próxima da busca pelo conhecimento e poder (escorpião), chegando até a fazer parte de ordens secretas. Saturno em escorpião diz “Na sua carreira, poderá envolver-se com instituições que necessitem de sigilo, ou poderá exercer ação psicológica em camadas profundas.” e realmente é muito comum encontrarmos membros dedicados da maçonaria com esta característica (Goethe possuia sextil entre Saturno/escorpião e Caput draconis/Capricórnio de 1 grau, o que intensificaria ainda mais esta necessidade).

#Astrologia #Biografias

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O espírito no tempo

» Parte 1 da série “Para ser um médium” ver a introdução

O homem, as gerações humanas, morrem no tempo. Mas o espírito não. O tempo é o campo de batalha e que os vencidos tombam para ressuscitar. Quem poderia deter a evolução do espírito no tempo? (J. Herculano Pires)

Ernesto Bozzano foi um pesquisador e intelectual italiano com grande interesse em antropologia, sociologia, evolução e as origens da mediunidade no palco obscuro da pré-história. Num de seus livros ele inicia suas exposições dizendo que “se consultarmos as obras dos mais eminentes antropólogos e sociólogos, notamos que todos concordam em reconhecer que a crença na sobrevivência do espírito humano se mostra universal”. Na época em que Bozzano publicou seus primeiros livros, no final do século XIX, falar abertamente sobre “espírito” ainda não era tão escandaloso na Academia. Os espiritualistas europeus daquela época, muitos influenciados pelas ideias expostas nos livros de Allan Kardec, eram igualmente grandes entusiastas da teoria de Darwin-Wallace… Mas, enquanto esta se ocupava exclusivamente da evolução física das espécies, alguns espiritualistas – dentre eles o próprio Wallace – se interessavam em tentar elucidar a evolução espiritual, particularmente em como o espírito humano havia evoluído através do tempo.

Se saltarmos diretamente para a época em que os primeiros hominídios surgiram no tempo, podemos nos aproveitar de uma bela, simples e elegante teoria proposta pelo arqueólogo Steven Mithen, conforme exposta em A pré-história da mente: Mithen acreditava que algumas potencialidades da mente eram suficientemente conectadas entre si para que pudessem ser agrupadas conceitualmente em módulos mentais… A inteligência geral foi herdada das outras espécies das quais os hominídios evoluíram, e é responsável pelos processos básicos de instinto e sobrevivência; A inteligência naturalista desenvolveu-se ao longo da persistente guerra da fome – o conhecimento do terreno em sua volta, a análise dos rastros de presas livres deixados no solo, o cuidado para evitar plantas venenosas, etc.; A inteligência técnica permitiu o manuseio de objetos e até mesmo a elaboração de ferramentas, como pedras pontiagudas que facilitam o corte da carne das presas abatidas; E, finalmente, a inteligência social evoluiu desde que nossos ancestrais reconheceram que caminhar pelo mundo em bandos era mais seguro do que enfrentar as caçadas sozinho.

Mithen acreditava que o que nos separava definitivamente dos outros hominídios de inteligência primitiva era a interseção entre tais módulos mentais, que parece ter ocorrido de forma mais abrangente no homo sapiens. Subitamente, os dentes de animais caçados, que antes eram descartados, se tornaram decoração de colares; Colares estes que também serviam para demonstrar para outros membros (e mulheres, quem sabe) da mesma tribo quão bons eram os caçadores que os ostentavam; Da mesma forma, as pegadas deixadas na terra pelas presas tornaram-se também símbolos que demonstravam o tamanho e a direção em que o animal se deslocou; E logo tanto símbolos naturais quanto animais quanto os próprios homens se fundiram em pictogramas pintados em cavernas profundas – registros da história de um povo que se reconheceu como povo; Talvez ao mesmo tempo, surgiram os mitos, as forças naturais tornadas meio-homem, meio-animal, meio-espírito, meio-deus – a religião ancestral surgia em meio ao animismo e ao xamanismo, juntamente com a consciência de nossa vida e nossa mortalidade.

A teoria de Mithen não têm absolutamente nada de espiritualista, como podemos ver, mas a sorte de sermos espiritualistas é que não precisamos ignorar as teorias daqueles que não creem em espíritos. Se alguns sentem-se escandalizados com a possibilidade do espírito ter surgido antes do homem, e ser formado por matéria fluida, parte dos 96% da matéria cósmica que não interage com a luz, e que vêm habitando corpos das mais variadas espécies, desde organismos unicelulares até os hominídios e animais com cérebro adequado para comportar um espírito em processo de individualização consciente, numa odisseia multimilenar que caminha lado a lado com a evolução descrita por Darwin e Wallace, deixem estar: lembremos que boa parte de nossa compreensão espiritual se baseia em experiências subjetivas, e que a matéria fluida, espiritual, ainda não foi detectada em laboratório.

Ainda assim, nos anais da pré-história humana, e das primeiras tribos e civilizações, permanece a dúvida objetiva: como podem tantas comunidades isoladas terem chegado a crenças tão parecidas? Em realidade, as crenças nem são tão próximas quanto às atividades místicas em si: a mediunidade, esta sim, conecta de forma definitiva todos os povos primitivos da Terra, sem exceção.

Define-se religião primal como um “sistema de crenças anterior às grandes religiões mundiais”. As religiões primais seguidas por povos tão distintos quanto os inuítes da América do Norte e os aborígenes australianos são variadas, mas com amplas similaridades. Os adeptos ainda hoje vivem quase sempre isolados e privados das comodidades modernas. Enfrentam rigores climáticos, escassez de comida e desastres naturais. Suas crenças lhes dão suporte para lidar com esses problemas. Seus milhares de espíritos ou divindades os ajudam a lidar com as forças naturais, e suas práticas religiosas variam desde experiências místicas e extáticas, normalmente guardadas aos médiuns ativos, até coisas bem mais práticas, como perguntar a um espírito qual a região próxima mais apropriada para a caçada de amanhã…

Muitos chamam tais médiuns ancestrais de xamãs, mas este é um termo surgido na Sibéria, e significa algo como “aquele que enxerga no escuro” na língua local. Mas sejam xamãs, ou pajés, babalorixás, iogues, curandeiros, feiticeiros, etc., todos são em essência médiuns, e suas práticas de comunicação com espíritos, sejam os seus próprios, sejam os de fora, são, estas sim, a grande prática universal que os conecta a todos, e assim conecta a humanidade como um todo, desde sua origem. Conforme disse o Chefe Seattle em sua carta ao presidente americano: “Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida – ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo.”

Como por vezes é complexo identificar como exatamente tantas sociedades primitivas chegaram a ideias e símbolos tão elaborados e “fora da realidade”, muitos antropólogos preferem deixar tudo a cargo das experiências psicodélicas induzidas por alucinógenos naturais. Por exemplo, há escritos do hinduísmo, que é reconhecidamente uma das religiões mais antigas do globo, que louvam a soma, uma planta alucinógena. No Brasil muitos já conhecem o Santo Daime, que é uma doutrina religiosa totalmente baseada nos costumes de povos da grande floresta amazônica, que consomem o chá de ayahuasca a fim de desencadearem experiências místicas… Esta explicação, porém, é incapaz de dar conta de todas as experiências mediúnicas, pois sabemos melhor do que ninguém que a mediunidade hoje pode ser praticada sem o consumo de qualquer tipo de substâncias alucinógenas, e, de fato, esta é a recomendação da grande maioria das doutrinas espiritualistas de hoje em dia. Não há a menor razão para crermos que na pré-história todos os médiuns usavam substâncias do tipo – na verdade, há razões para crer que eles eram minorias localizadas em algumas regiões do globo onde era possível extrair tais substâncias da natureza. Não haviam cogumelos alucinógenos em todas as partes do planeta.

Talvez a religião primal que mais intrigue os antropólogos materialistas seja a religião nativa do Japão que, a despeito do país ter se tornado um verdadeiro polo tecnológico e comportar provavelmente a sociedade mais moderna do mundo, continua plenamente ativa. O xintoísmo, ou “o caminho dos deuses”, foi o título dado à religião nativa do Japão aproximadamente em 720 d.C., poucas décadas após a chegada do budismo na ilha. A questão é que se trata de uma religião pré-histórica, que só foi nomeada em razão de diferencia-la do budismo, recém chegado. Antes o xintoísmo era apenas “a religião”. O xintoísmo reconhece diversos seres divinos chamados kami, supostamente infinitos, que preenchem tudo o que exibe poder ou força vital. Para os japoneses, a natureza é literalmente divina.

Como sabemos, a natureza não é somente divina, como potencialmente viva. Nos dias atuais, presos em nossas selvas de concreto, talvez tenhamos esquecido de como um pequeno galho partido é apenas a parte morta de uma árvore, mas que irá se decompor e formar novamente coisas vivas… Ou que mesmo uma pedra abriga tanto parte da matéria que forma nossos corpos, como parte da matéria que formará espíritos das eras vindouras, embora hoje estejam confortavelmente dormindo no ventre sagrado da Mãe Terra, esperando o chamado do Pai Céu…

Termos antigos, conhecimento antigo, intuição antiga. Certamente tinham uma compreensão precária, parcial, da natureza à volta. Mas, estariam todos eles errados em tudo o que perceberam? Talvez a essência daquilo que viram e sentiram em suas experiências mais sagradas seja exatamente aquilo que falte hoje no mundo moderno. Alguns japoneses o sabem, e também alguns xamãs em meio ao frio do norte, alguns aborígenes, alguns indígenas, alguns poetas, alguns médiuns… Talvez você possa ser um deles, talvez já o seja. Esta é a nossa história, a história do espírito no tempo. Caberá a você escrever os próximos capítulos.

» A seguir, loucura e normalidade…

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Leitura recomendada: O espírito e o tempo, de J. Herculano Pires (Paidéia). Religiões, de Philip Wilkinson (Zahar, Guia Ilustrado).

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Crédito das imagens: [topo] Edward S. Curtis/Corbis (indígena da ilha de Nunivak, no Alasca – EUA, com sua máscara cerimonial); [ao longo] Rainer Hackenberg/Corbis (um torii, símbolo xintoísta, em Kyoto – Japão)

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

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#Antropologia #Espiritismo #Mediunidade

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Anjos e Demônios

O Senhor dos Exércitos:

Nas mais antigas escrituras judaicas Iahweh, aparecia como criador e rei do universo. Tudo o que acontecia, tanto de bom como de ruim, era causado por ele. Em Isaías 45, 7, escrito no sexto século a.C., Deus diz: “Eu formo a luz e crio as trevas, asseguro o bem-estar e crio a desgraça: sim eu, Iahweh, faço tudo isto”. No Livro de Samuel, compilado no décimo século a.C., está escrito: “O Senhor tentou Samuel”. Mas no primeiro Livro de Crônicas (21,1), um texto bem posterior do Velho Testamento, é Satã quem tenta Davi para que desobedeça a Lei e seja alvo da ira de Deus. Segundo esta interpretação, o perigo passava a vir por meio de outros, e não mais através das mãos de Deus (apesar de que ainda sob as ordens dele). Por volta do segundo século a.C., os dois lados de Deus já não eram mais enfatizados nos mitos e nas histórias religiosas dos judeus. [Muitos séculos mais tarde, a primitiva idéia judaica de Iahweh voltava a ser expressada. Na Cabala medieval, dizia-se que Iahweh, que era tudo, também continha tudo – o bem e o mal. Sua mão direita dava a misericórdia, a esquerda, a destruição. Entretanto ele nunca deixou de ser o responsável pelo “mal”, ou melhor, pela “justiça”; afinal de contas não há muita diferença entre punir alguém pessoalmente ou enviar outro, sob ordens expressas, para fazer o mesmo.]

No Livro de Jó, Satã aparece como acusador e tentador do homem, mas ainda é visto como um súdito do Soberano do mundo. Ele apresenta-se diante da coorte celestial como um dos filhos de Deus, que age conforme as instruções do Senhor.

Também em textos apócrifos, midraxes, etc., o casal Samael e Lilith muitas vezes aparece como funcionários de Deus encarregados de testar a fé dos homens e punir aqueles que caírem em erro. No que diz respeito a pecados de natureza sexual, usualmente, as mulheres Lilith, Nahema, Igrat, etc. são quem testam e Samael quem pune. No mais, Lilith costuma punir pecadores matando seus filhos, portanto tirando-lhes a esperança de que sua descendência “será numerosa como as estrelas do céu”, “gerará reis” ou “governará sobre a terra”.

Anjos: Os Mensageiros de Deus

A versão grega das escrituras, conhecida como Septuaginta, traduziu a expressão hebraica “bene ha’ Elohim” por “aggelon theu”, o que acabou por dar no latim “Angelorum”. A palavra grega “ággelos” significa mensageiro, por isso a palavra Anjos passou do latim para as línguas deste derivadas trazendo mais acentuada a idéia de mensageiro do que qualquer outro aspecto da personalidade ‘angélica’, entretanto nos antigos escritos hebraicos, midraxes, etc. haviam “bene ha’ Elohim” para tudo. Por exemplo, haviam anjos para dirigir nações, cuidar do movimento dos astros, transmitir conhecimento aos profetas, guiar os estudantes da Mercabá através dos sete Hehalot, testar os homens através do ciúme, enviar pragas e morte aos infiéis, etc.

Mas também, tanto nas escrituras hebraicas e árabes quanto nas cristãs, aparecem anjos mensageiros (hebr. “Malachim”): Eles trazem mensagens importantes de Deus para os homens, como os avisos da destruição de Sodoma e Gomorra, do nascimento de Isaac (filho de Abraão e Sara), etc. – Para os cristãos a mensagem mais importante que um ser divino já trouxe está no evangelho de Lucas, no episódio em que Gabriel avisa a Maria que ela conceberia Jesus e, uma lenda árabe diz que foi também Gabriel quem teria ditado o Alcorão a Maomé.

Hierarquias Angélicas:

A Bíblia não dá uma descrição precisa a respeito da “hierarquia celeste” e os escritos hebreus conservados apresentam um material um tanto quanto desorganizado. Apesar disso, estudiosos cristãos esforçaram-se para descrever um quadro bem definido. (Podemos ver que estas descrições de autores cristãos foram bastante influenciadas pela filosofia platônica, aristotélica e textos gregos em geral, se afastando em muito do sentido original dos “bene ha’ Elohim”, principalmente nos comentários referentes aos demônios. Mas não é de todo inútil conhece-las devido à antigüidade dos textos e sua influência em autores posteriores).

Ficou mais ou menos estabelecido que os anjos (Angelorum) estariam organizados em hierarquias de sete ordens, de nove coros ou de três tríades. Dionísio, o Aeropagita, elaborou a respeito dos anjos a mais perfeita das teorias cristãs de seu tempo, mas foi São Tomas de Aquino que apresentou a tabela hierárquica atualmente mais aceita, simplesmente por conter o maior número de divisões de “cargos” entre todas as suas contemporâneas.

Santo Agostinho em sua época de pregação enfrentou um problema causado pela grande popularidade dos anjos: As pessoas estavam fazendo-lhes sacrifícios, orando, etc. e esta devoção aos anjos estava causando prejuízos à igreja. Por isso ele pregava ao público: «Sejam quais forem, por conseguinte, os bem aventurados imortais habitantes das mansões celestes, se não tem amor por nós, se não desejam nossa felicidade, não merecem nossa homenagem. Se nos amam, se querem nossa felicidade, querem sem dúvida que a recebamos da mesma fonte que eles»; «Legítimos habitantes das moradas celestes, os espíritos imortais, felizes pela posse do Criador, eternos por sua eternidade, fortes de sua verdade e santos por sua graça, tocados de compulsivo amor por nós, infelizes e mortais, e desejosos de partilhar conosco sua imortalidade e beatitude, não, querem que sacrifiquemos a eles, mas Àquele que sabem ser, como nós, o sacrifício [ou seja, Jesus Cristo]. Porque somos com eles uma só Cidade de Deus.»; «Quanto aos milagres, sejam quais forem, operados pelos anjos ou por qualquer outro modo, se se destinam a glorificar o culto da religião do verdadeiro Deus, princípio único da vida bem aventurada, devem ser atribuídos aos espíritos que nos amam com verdadeira, é preciso acreditar ser o próprio Deus quem neles e por eles opera.»; «… Aquele cuja palavra é espírito, inteligência, eternidade, palavra sem começo e sem fim, palavra ouvida em toda a pureza, não pelos ouvidos do corpo, mas do espírito, por intermédio de seus ministros, enviados que gozam de sua verdade imutável, no seio de eterna beatitude, palavra que lhes comunica de maneira inefável as ordens que devem transmitir à ordem aparente e sensível, ordens que executam sem demora e facilmente.»; «Assim, mostram-nos os anjos fiéis com que sincero amor nos amam; com efeito, não é à sua própria dominação que querem submeter-nos, mas ao poderio daquele que são felizes de contemplar, soberana beatitude a que desejam cheguemos também e de que não se apartam.» (De civitate Dei, X). – De qualquer forma, Santo Agostinho também não deixou a hierarquia angélica bem definida, anotando cerca de três tipos de “anjos” de forma que a fonte mais abalizada para a obtenção de uma angelologia cristã é Dionísio, mais conhecido como o Pseudo-Dionísio, o Areopagita. Seus tratados Gerarchia celeste, Gererchia ecclesiastica, Nomi divini e suas Epistole formaram um corpo que granjeou a estima de muitos, inclusive Gregório Magno, são Tomé, a Escolástica, Dante, Meister Eckhart e são João da Cruz. Seu texto Gerarchia celeste é o mais conhecido e apreciado da angelologia cristã. Nesse texto ele menciona: «Vejo que os Anjos também foram iniciados primeiro no Mistério Divino de Jesus e em Seu amor pelo homem e através deles o Dom desse conhecimento nos foi passado: pois o divino Gabriel anunciou a Zacarias, o sumo sacerdote, que o filho gerado pela Graça Divina, quando já desprovido de esperanças, seria um profeta de Jesus e manifestaria a união entre as naturezas humana e divina mediante a vontade da Boa Lei pela salvação do mundo; ele revelou a Maria que dela nasceria o Mistério Divino da inefável encarnação de Deus.» Dionísio estabeleceu que existem nove ordens celestes, subdividas em três ordens principais: A primeira é aquela que está sempre na presença de Deus e inclui os Tronos e suas legiões ‘com muitos olhos e muitas asas’ (os Querubins e os Serafins) A Segunda ordem inclui os Poderes, as Dominações e as Virtudes; a terceira os Anjos, os Arcanjos e as Potestades. Foi só com Dionísio e Tomás de Aquino que o número das hierarquias foi estabelecido e tornou-se praticamente definitiva nas obras posteriores de autores cristãos. São Tomás de Aquino faz uma longa descrição das hierarquias celestes na Suma contra os gêntios:

«Como as coisas corporais estão governadas pelas espirituais, segundo consta, e entre as corporais existe uma certa ordem, é mister que os corpos superiores sejam governados pelas substâncias intelectuais superiores, e os inferiores pelas inferiores. Além disso, porque quanto mais superior é uma substância, tanto mais universal é sua virtude. Logo, a virtude da substância intelectual é mais universal que a virtude corpórea; e por conseguinte, as substâncias intelectuais superiores possuem virtudes que não podem ser desempenhadas por virtude corporal alguma, e por isso não estão unidas a corpos; já que as inferiores possuem virtudes parciais e que podem ser desempenhadas por alguns instrumentos corporais, dessa forma, é preciso que estejam unidas aos corpos.

E como as substâncias intelectuais superiores tem uma virtude mais universal, por isso também estão mais perfeitamente dispostas por Deus, de maneira que conhecem com detalhe a finalidade da ordem que Deus lhes comunica. E esta manifestação da ordenação divida, realizada por Deus, chega inclusive às substâncias intelectuais mais inferiores, como confirma [a palavra] de Jó: “Inumeráveis são Seus servidores, e sobre qual deles não resplandece Sua luz?” (Jó 25:3). Não obstante, as inteligências inferiores não a recebem de maneira tão perfeita que possam conhecer com detalhe quanto hão de executar em vista do ordenado pela providência, mas somente em geral; pois, quanto mais inferiores são, menos conhecimento detalhado da ordem divina recebem ao serem iluminadas pela primeira vez; entretanto, o entendimento humano, que possui o último grau do conhecimento natural, só tem notícia de algumas coisas universalíssimas.

Assim, pois, as substâncias intelectuais superiores recebem imediatamente de Deus um conhecimento perfeito da ordem divina e, em conseqüência, o hão de comunicar às inferiores, tal como, segundo dissemos, o conhecimento universal do discípulo é aperfeiçoado pelo mestre, que conhece com detalhe. Por isso, Dionísio, falando das supremas substâncias intelectuais, que chama primeiras hierarquias, em outras palavras, sagrados principados, disse que não são santificadas por outras, mas que alcançam imediatamente e plenamente de Deus a santidade, e, enquanto cabe, são transportadas à contemplação da beleza imaterial e invisível e ao conhecimento dos motivos das obras divinas; e disse que por elas são doutrinadas as ordens subalternas de espíritos celestes. Segundo ele, as inteligências mais elevadas recebem do princípio mais alto a perfeição de seu conhecimento. […]»

«Assim, pois, aquelas inteligências que percebem imediatamente em Deus o conhecimento perfeito da ordem da divina providência estão dispostas numa certa hierarquia, porque os superiores e primeiros vêem a razão da ordem da providência – em si mesma – o último fim, que é a bondade divina; porém uns com maior clareza que outros. E estes se chamam Seraphim, i. e., ardentes ou incandescentes, porque o incêndio designa a intensidade do amor ou do desejo, que são duas tendências em relação ao fim. Por isso disse Dionísio que com este nome se designa sua rapidez ou eterno movimento em torno da divindade, fervente e flexível, e sua capacidade de influenciar os seres inferiores excitando-os a um sublime fervor à divindade.

Os segundos conhecem perfeitamente a razão da ordem da providência na imagem mesma de Deus. E se chamam Cherubim, que quer dizer plenitude da ciência, já que a ciência se aperfeiçoa pela forma cognoscível. Por isso disse Dionísio, que tal nome significa que são contempladores da primeira virtude operante da divina beleza.

Dessa forma, os terceiros contemplam a disposição das ordens divinas nelas mesmas. E se chamam Throni, porque trono significa o poder de julgar, segundo o dito: “Te sentas no trono e distribui justiça” (Salmos 9:5). Conforme isso, disse Dionísio que com este nome se declara que são portadores divinos e tomam parte familiarmente em todas as determinações divinas. […]

Por outra parte, entre os espíritos inferiores que para executar a ordem divina recebem das superiores um conhecimento perfeito é preciso estabelecer uma ordem. Pois os mais altos deles tem uma virtude mais universal do conhecimento; por isso conhecem a ordem da providência nos princípios e causas mais universais enquanto os inferiores o obtêm em causas mais particulares. […]

Também estas substâncias intelectuais (i. e. os anjos da Segunda hierarquia) hão de ter certa ordem. Porque, efetivamente a disposição universal da providência se distribui, em primeiro lugar, entre muitos executores. E isso se realiza pela ordem das Dominationum, pois é próprio dos senhores mandar o que hão de executar os outros. Por isso disse Dionísio que este nome (de) dominação designa certo senhorio que rejeita toda servidão e que é superior a toda submissão.

Em segundo lugar, a providência é distribuída e aplicada a vários efeitos pelo que age e executa. E isso se faz mediante a ordem das Virtutum [virtudes], cujo nome, segundo Dionísio, significa certo augusto poder aplicado à todas as obras divinas, que não abandona a nenhum movimento a sua própria debilidade. E isso demonstra que o princípio universal da atividade pertence à esta ordem. Segundo isso, parece que movimento dos corpos celestes, dos quais procedem, como de certas causas universais, os efeitos particulares da natureza, pertence à esta ordem. Por este motivo se chamam virtudes celestes no cap. 21 de S. Lucas, onde diz: “Se moveram as virtudes celestes”. Parece também que a execução das obras divinas que se realizam à margem da ordem natural pertence à esta classe de espíritos, porque tais obras são o que há de mais sublime nos mistérios divinos. Por esta razão diz S. Gregório que “se chamam virtudes aqueles espíritos que freqüentemente fazem coisas milagrosas” (Homil. 34). Por fim, se no cumprimento das ordens divinas há algo principal e universal, é conveniente que pertença à esta ordem.

Em terceiro lugar, a ordem universal da providência, estabelecida já nos efeitos, é preservada de toda confusão pela coerção exercida sobre aquilo que poderia perturbá-la. Coisa que corresponde à ordem das Potestatum [potestades]. Por isso disse Dionísio que o nome de potestade implica certa ordenação, bem disposta e sem confusão alguma acerca do estabelecimento por Deus. E por isso disse S. Gregório que corresponde a esta ordem o conter das forças opostas.

As últimas das substâncias intelectuais superiores são aquelas que conhecem divinamente a ordem da providência através das causas particulares, e são as imediatamente superiores às coisas humanas. Sobre elas Dionísio disse que esta terceira ordem de espíritos manda, por conseguinte, nas hierarquias humanas. E por coisas humanas se há de entender todas as naturezas inferiores e causas particulares que estão ordenadas ao homem e sujeitas a seu serviço.

Aqui também existe uma ordem. Pois nas coisas humanas existe certo bem comum, que é o bem da cidade ou dos cidadãos, e que, ao parecer, pertence a ordem dos Principatuum [principados]. Por isso, disse Dionísio que o nome de principados significa certa categoria de caráter sagrado. Conforme isso, Daniel fez menção de Miguel, príncipe dos judeus e príncipe dos persas e gregos (Dan. 10, 13-20). Segundo isso, a disposição dos reinos, a transmissão de poder de um povo a outro, deve pertencer ao ministério desta ordem. Inclusive a inspiração daqueles que são príncipes entre os homens com respeito a como hão de administrar seu governo, parece que corresponde à esta ordem.

Há, porém, outro bem humano que não é comum, mas individual, ainda que não se utilize em benefício próprio, mas em benefício de muitos: Como as coisas de fé, que todos e cada um hão de crer e observar; o culto divino, etc. E isto corresponde aos Archangelos [arcanjos], de quem disse S. Gregório que anunciam o maior; razão porque chamamos arcanjo a Gabriel, que anunciou a encarnação do Verbo à Virgem.

Há, também, certo bem humano que pertence a cada um em particular. E os bens desta classe correspondem à ordem dos Angelorum [anjos], que, segundo S. Gregório, anunciam as coisas pequenas; e por isso se chamam custódios dos homens, segundo o dizer do salmo: “Te encomendará a seus anjos para que te guardem em teus caminhos” (Sl. 90;11). Por isso, disse Dionísio que os arcanjos são intermediários entre os principados e os anjos, e tem como ambos algo em comum; dessa forma, com os principados, enquanto que são chefes dos anjos inferiores, (…) e com os anjos, porque anunciam aos anjos e, mediante estes – cujo ofício é manifestarem-se aos homens -, a nós o que lhes corresponde segundo a categoria. Por este motivo a última ordem se apropria do nome comum como especialmente seu, porque desempenha o ofício de anunciar aos homens sem intermediários. Daí que os arcanjos tem um nome composto pelos dois, pois se chamam arcanjos, i. e., príncipe dos anjos. (…)

Por último, em todas as virtudes ordenadas é comum que todas as inferiores obrem em virtude da superior. Segundo isso, o que dissemos que pertence à ordem dos serafins o executam as inferiores na virtude dos mesmos. E isso se aplica também às ordens seguintes.»

Tomás de Aquino fala sobre os anjos em outras partes de sua vasta obra, como por exemplo, nos seguintes trechos da Suma Teológica: «Nos anjos (lat. angelis) não pode haver outra virtude senão a intelectiva e a vontade, conseqüente ao intelecto, porque nisso consiste toda a virtude do mesmo. A alma [humana], porém, tem muitas outras potências; assim, as sensitivas e as nutritivas. E portanto, não há símile.»; «o intelecto angélico está sempre em ato em relação aos seus inteligíveis, por causa da proximidade com o intelecto primeiro, que é ato puro como antes se disse.»; «Há, porém, outra virtude cognoscitiva que nem é ato de órgão corpóreo, nem está, de qualquer modo, conjunta com a matéria corpórea, como o intelecto dos anjos. Por onde, o objeto desta virtude é a forma subsistente sem a matéria. Pois, embora conheçam os anjos as coisas materiais, só as vêem no imaterial a saber, em si mesmos ou em Deus»; «inversamente [aos homens], os anjos conhecem as coisas materiais pelos seres imateriais»; etc.

Satã, os olhos do Rei:

Depois do Cativeiro da Babilônia, a religião judaica, influenciada pela doutrina de Zoroastro do Bem e do Mal, e impregnada pelos conceitos religiosos mesopotâmicos, concebeu Satã, baseado num funcionário do sistema de governo mesopotâmico. A origem da palavra Satã é conhecida. Significa “o adversário”, “o acusador”. Sabemos que um funcionário com essas atribuições existia no Império Persa, em oposição a outro funcionário, chamado “Os olhos do rei”. O “acusador” ou os “acusadores”, tinham como função percorrerem secretamente o reino e fiscalizar tudo o que estava sendo feito de errado, para apresentar denúncias diante do Imperador, que mandava chamar os funcionários faltosos e os castigava. Pode-se perceber, facilmente, as conotações de medo, repulsa e verdadeiro pavor que os funcionários exerciam. No livro “Bases da Política Imperial dos Aquemênidas”, Pedro Freire Ribeiro refere-se, também, a verdadeiras expedições de fiscalização, acompanhadas de tropas, para arrecadar impostos e aplicar corretivos (pag. 66). Jeayne Auboyer, na “História Geral das Civilizações”, volume I, pg. 205, diz também, sobre este sistema: “mas apenas a correspondência não é sucifiente: o governo central envia, além disto, a fim de controlar a administração local, inspetores designados, por uma metáfora já corrente nas monarquias precedentes, como ‘os olhos e ouvidos do rei’”. Eis, portanto, a origem de Satã. Estamos diante de uma tradição calcada no sistema administrativo dos Mesopitâmicos e dos Persas. No livro de Jó, Satã aparece, claramente, como uma espécie de inspetor, que se apresenta depois de percorrer a terra junto com os outros anjos (ou “olhos do rei”), para apresentar seu relatório, sobre o que tinha visto.

Satã, em suma, é um “acusador” e este é um dos significados da palavra. Mas Satã não é, obviamente, um demônio. Ele apresenta-se em um concílio diante do Senhor, junto com os anjos e dialoga calmamente com Deus. Naturalmente, esta mesma idéia de Jó, tentado com todas as desgraças, não é originalmente, hebraica. Samuel Kramer em “A Mesopotâmia” (pg. 123), nos dá um resumo da lenda de Jó, na Babilônia: “Entre os mitos da Suméria, figura a história de um homem de nome desconhecido, que um dia se encontrou sozinho por motivos que não era capaz de compreender. Cercado de torturadores, ele é visto aqui no fundo do quadro numa súplica ao seu deus tutelar, que observa do alto. O homem lastima sua sorte, exclamando: “Minha palavra honrada transformou-se em mentira… uma doença maligna cobriu meu corpo… Deus meu… por quanto tempo me abandonarás, me deixarás sem proteção?” A história deste “Jó” sumeriano também tem um desfecho feliz, porque o deus lhe ouviu as preces e fez que as provações terminassem tão abruptamente como tinham começado. Mas as questões fundamentais do sofrimento humano e da justiça divina, formuladas pelos sumérios e ainda com maior pungência pelo seu descendente bíblico, ainda nos desafiam”. Apenas para finalizar o assunto da identificação com os funcionários conhecidos como “os olhos do rei”, vejamos esta passagem em Crônicas (16:9):

“Porque, quanto ao Senhor, seus olhos passam por toda a terra, para mostrar-se forte para aquele cujo coração é totalmente dele; nisto procede loucamente, por isso desde agora haverá guerra contra ti.” (Crônicas, 16:9)

Os seus olhos que passam por toda a terra (o império) são os funcionários que fiscalizam. No caso, alguém foi apanhado em flagrante delito pelos “olhos acusadores” de Satã. E o Rei lhe fará guerra ou perdão… Satã só aparece nos livros mais recentes da Bíblia. Começa no livro de Jó e depois surge em Zacarias e nas Crônicas. Se, no princípio é um acusador, a etimologia da palavra nos levaria, inclusive a “chatám”, isto é, “o adversário”, mais tarde vai tomando as formas de “o contraditor” ou “o acusador”. É uma espécie de procurador de Javé e trata de ver se seus “filhos” são realmente fiéis. Mas, não é só. Depois do cativeiro da Babilônia, Satã vai ganhando contornos cada vez maiores, até que se transforma num ser que induz ao pecado. Neste instante, já estamos entrando na chamada Era Cristã. (Para mais detalhes, veja Fernando G. Sampaio. A História do Demônio. Editora Garatuja. Porto Alegre. 1976.)

A história de Jó:

O autor do Prólogo de Jó, conservou neste relato em prosa seu cunho de narrativa popular onde Deus recebe ou dá audiência em dias determinados, como faz um monarca. Começa com uma introdução elogiando Jó, da terra de Hus, ao sul de Edom: Era um homem íntegro e reto, que temia a Deus e se afastava do mal. Tinha sete filhos, três filhas e era o homem mais rico do Oriente, até que Satã, duvidando de sua honestidade, resolveu testa-lo:

«No dia em que os Filhos de Deus vieram se apresentar a Iahweh, entre eles veio também Satã. Iahweh então perguntou a Satã: “De onde vens?” – “Venho de dar uma volta pela terra, andando a esmo”, respondeu Satã. Iahweh disse a Satã: “Reparaste no meu servo Jó? Na terra não há outro igual: é um homem íntegro e reto, que teme a Deus e se afasta do mal.” Satã respondeu a Iahweh: “É por nada que Jó teme a Deus? Porventura não levantaste um muro de proteção ao redor dele, de sua casa e de todos os seus bens? Abençoaste a obra das suas mãos e seus rebanhos cobrem toda a região. Mas estende tua mão e toca nos seus bens; eu te garanto que te lançará maldições em rosto.” Então Iahweh disse a Satã: “Pois bem, tudo o que ele possui está em teu poder, mas não estendas tua mão contra ele.” E Satã saiu da presença de Iahweh.» (Jó: 6-12)

Logo os sabeus, uma tribo de nômades, “passaram os servos a fio de espada” e roubaram os rebanhos de Jó. No mesmo dia, em outro lugar, “um furacão se levantou das bandas do deserto e se lançou contra os quatro cantos da casa, que desabou sobre os jovens [filhos de Jó] e os matou.” (Jó 1: 19) O Targum, Jó 1:15 acrescenta ainda que:

«Lilith, a Rainha de Zemargad, lanchou, atacou, agarrou [as canções de Jó] e matou o jovem homem…» (Targum, Jó 1:15)

Apesar de toda esta desgraça repentina, Jó conformou-se, não cometeu pecado nem protestou contra Iahweh. Entretanto, o pessimista Satã não ficou totalmente convencido da fidelidade de Jó e continuou a duvidar de sua integridade:

«Num outro dia em que os Filhos de Deus vieram se apresentar novamente a Iahweh, entre eles, para apresentar-se diante de Iahewh veio também Satã. Iahweh perguntou a Satã: “De onde vens?” Ele respondeu a Iahweh: “Venho de dar uma volta pela terra, andando a esmo”. Iahweh disse a Satã: “Reparaste no meu servo Jó? Na terra não há outro igual: é um homem íntegro e reto, que teme a Deus e se afasta do mal. Ele persevera em sua integridade, e foi por nada que me instigaste contra ele para aniquilá-lo.” Satã respondeu a Iahweh e disse: “Pele após pele! Para salvar a vida, o homem dá tudo o que possui. Mas estende a mão sobre ele, fere-o na carne e nos ossos; eu te garanto que te lançará maldições em rosto”. “Seja!”, disse Iahweh a Satã: “fase o que quiseres com ele, mas poupa-lhe a vida.” E Satã saiu da presença de Iahweh.» (Jó: 6-12)

Satã feriu Jó com chagas malignas dos pés à cabeça. Contudo, ele não maldisse a Deus. A partir daí história continua em forma de discursos e só retoma o formato de prosa no Epílogo (Jó 42). No primeiro ciclo de discursos, Jó amaldiçoou a noite de seu nascimento:

«Que a amaldiçoem os que amaldiçoam o dia,
Os entendidos em conjurar Leviatã!» (Jó 3:8)

Passado um tempo, Jó, abatido com sua miséria, fala:

«Levo cravadas as flechas de Shaddai
e sinto absorver seu veneno.
Os terrores de Deus assediam-me.» (Jó 6:4)

Mais tarde, finalmente Satã consegue seu intento. Jó revolta-se e entra em debates com três sábios, a respeito de sua condição. Por fim, ele lamenta-se de não poder ele mesmo ir até Deus defender sua causa, entretanto Deus vem até ele e mostra seu poder. Jó responde:

«Reconheço que tudo podes
e que nenhum dos teus desígnios fica frustrado.
Sou aquele que denegriu teus desígnios,
Com palavras sem sentido.» (Jó 42:2-3)

Por fim, Jó arrepende-se e faz penitência, Iahweh repreende os três sábios porque “não falastes corretamente de mim como o fez meu servo Jó” (Jó 42:7) e recompensou Jó, duplicando todas as suas posses, que teve também outros sete filhos e três filhas em substituição dos que morreram. Suas novas filhas Rola, Cássia e Azeviche foram as mais belas mulheres de toda a terra e seu pai repartiu-lhes herança em igualdade com seus irmãos [o que é fora da regra corrente, pois as filhas só herdavam em último caso, na falta de filhos varões]. Depois desses acontecimentos, Jó viveu cento e quarenta anos, e viu seus filhos e netos até a quarta geração. Jó morreu “velho e cheio de dias”. (Jó 42)

Por Shirley Massapust

Alimente sua alma com m

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Magia na corte da Rainha Elizabeth

O presente estudo é destinado a estudantes aos adeptos do chamado Sistema Enoquiano de Magia e aos pesquisadores da história do ocultismo em geral. Faz-se aqui um apanhado da corte Elizabetâna e sobre como o ocultismo floresceu durante o reinado da Rainha Virgem. O mérito da biografia aprofundade de John Dee e Edward Kelley será deixado para uma outra oportunidade visto que a compreensão do background histórico onde atuaram trata-se de um conhecimento mais básico e necessário num primeiro momento.

A Dinastia Tudor

O Rei Henrique VIII, como todo rei, desejava um filho homem para se tornar o herdeiro do trono da Inglaterra. A então Rainha Catherine de Aragão, que havia lhe dado uma filha, Mary, foi substituída por Anne Boleyn na esperança de com ela conseguir o filho que Catherine não lhe deu, mas em setembro de 1533, no Palácio Greenwich suas esperanças vão por água a baixo: nasce sua segunda filha, Elizabeth. Anne chegou a ter um filho homem, mas natimorto. Henrique, cansado já da rainha, começou a planejar sua queda e em 1536, antes de Elizabeth completar três anos de idade, a rainha, acusada de incesto, é decapitada.

Por ser uma lembrança constante da mãe, Elizabeth é afastada da corte. Henrique se casa novamente com Jane Seymour que dá a luz ao tão esperado filho, Edward (que viria a se tornar Edward VI), morrendo logo depois.

A última madrasta de Elizabeth foi Katherine Parr, a sexta esposa de Henrique VIII, foi a responsável por trazer de volta à corte inglesa Elizabeth e sua meio-irmã Mary. Henrique morre em 1547 mas seu filho Edward ainda era muito jovem para assumir a coroa, então Edward Seymor (irmão da Rainha e tio do jovem herdeiro) se torna Senhor Protetor da Inglaterra. A Rainha Katherine estava grávida de seu novo marido, Lorde Almirante Thomas Seymor, e morreu um tempo depois de dar a luz a uma filha.

O jovem Edward nunca foi uma criança saudável e caiu vítima de uma doença desconhecida na época, que hoje se supõe ter sido tuberculose. Quando se tornou aparente que Edward estava prestes a morrer sem deixar um herdeiro, a luta pela coroa teve início.

Quando Edward morreu em 1553 Jane foi proclamada Rainha por seu pai e por seu sogro que a apoiaram com a ajuda do exércio; entretanto haviam muitos outros que apoiavam Mary, a filha de henrique VIII e Katherine de Aragão sua primeira esposa, e desejavam que ela subisse ao trono. Nove dias após a posse da Rainha Jane, Mary foi para Londres levando Elizabeth com ela. Jane Grey e seu marido foram aprisionados na Torre.

Logo após se tornar Rainha, Mary se casou com o príncipe Felipe da Espanha, o que a tornou muito impopular. Mary era católica e todos os Protestantes que começaram a ser perseguidos começaram a enxergar em Elizabeth sua salvadora. Ela era um ícone da “Nova Fé”, já que foi para se casar com sua mãe que Henrique enfrentou Roma e transformou o Protestantismo na religião oficial do reino. Por causa disso inúmeras rebeliões e levantes foram realizados em nome de Elizabeth.

A Rainha Mary morreu em novembro de 1558, acredita-se hoje, por causa de um enorme cisto no ovário. Elizabeth finalmente se tornou rainha da Inglaterra.

Elizabeth nunca se casou. Os últimos anos de seu reinado ficaram conhecidos como a Era de Ouro da Inglaterra. Após sua morte em março de 1603 foi sucedida por James I (James VI da Escócia), o filho de sua prima Mary, Rainha da Escócia.

A Igreja da Inglaterra Elisabetana

Antes de Henrique VIII se desentender com o Papa e estabelecer a Igreja da Inglaterra, o seu país foi durante séculos um país Católico. O próprio Henrique VIII, antes de enfrentar Roma para anular seu primeiro casamento, era um fiel Católico e ganhou o título de “Defensor da Fé” após escrever um tratado contra a nova religião protestante.

Quando ficou claro para o Rei que ele não teria um filho com Catherine de Aragão ele decidiu que anularia seu casamento com ela e arranjaria outra esposa. Catherine não concordou com a anulação dizendo que era esposa legítima do Rei, na época existiam poucos recursos para terminar um casamento, a anulação era o reconhecimento de que nem o Rei nem a Rainha haviam sido realmente casados, as únicas circunstâncias que permitiam a anulação eram: se um ou ambos os cônjuges tivessem sido muito jovens para se casar ou que a cerimonia não houvesse sido conduzida corretamente ou ainda se o casal tivesse laços sanguineos.

Henrique usou o fato de Catherine ter sido esposa de seu irmão para fazer uma apelação para o Papa com base na relação sanguínea de ambos mas não obteve a resposta que desejava. Catherine era a sobrinha do grande Imperador Charles V, o homem mais influente da Europa, e sabendo das convicções dela o Papa não ousou ofendê-la. Durante anos Henrique tentou conseguir a anulação, mas o Papa foi irredutível, o Rei decidiu então que para se casar novamente com outra mulher ele teria que buscar outra maneira de anular o casamento, e essa maneira foi o estabelecimento da Igreja da Inglaterra, totalmente independente do poder Papal. Como Protestantes não reconheciam o poder do Papa, Henrique, como Rei, poderia moldar a igreja de acordo com sua vontade. Ele se tornou “Chefe Supremo da Igreja na Inglaterra” e assim conseguiu anular seu casamento.

Como chefe da Igreja ele se tornou responsável pelos Arquebispos, Bispos e todo clérigo que a Igreja da Inglaterra ainda possuía. Por um lado a nova Igreja Inglesa era muito similar à velha Igreja Católica, por ter sido criado como Católico realizou muito poucas mudanças nas crenças religiosas; mas por outro lado a mudança da religião na Inglaterra causou enormes repercussões através do país.

O filho tão esperado de Henrique VIII morreu com 16 anos deixando o trono para sua filha mais velha, Mary. Mary era uma Católica devota e estava determinada a reestabelecer a sua fé na Inglaterra.

Muitas pessoas estavam desconfortáveis com os planos da nova Rainha, tendo ganho riquezas e terras com as dissoluções de conventos e monastérios temiam perder tudo o que tinham. Também a fé Protestante havia secularizado certos aspectos da política local e os oficiais não tinham nenhum interesse em perder sua influência e prestígio para a Igreja Romana. Entretanto a maior parte da população inglesa ainda era Católica e havia muito entusiasmo na restauração de sua antiga fé.

Teve então início a perseguição aos Protestantes. Mary substituiu o clero Protestante por um Católico, prendendo vários Protestantes proeminentes como Cranmer, Latimer e Ridley. O Parlamento de 1553 repugnou a maior parte das legislações Protestantes, o Ato de Supremacia de 1554 devolveu o país à obediência Papal. Em 1555 aqueles que se recusavam a aderir ao Catolicismo eram queimados como hereges, mais de 300 pessoas foram queimadas entre 1555 e 1558. Nesta época Mary de tornou uma figura extremamente impopular, muitas pessoas se horrorizavam com a violência da perseguição, ninguém era poupado, mulheres grávidas eram queimadas até a morte, enquanto Elizabeth foi se tornando cada vez mais admirada, como mostra um poema dedicado a ela:

“When these with violence were burnt to death,
We prayed to God for our Elizabeth””Quando violentamente eram queimados até a morte,
Nós rezávamos para Deus por nossa elizabeth”

Quando Elizabeth se tornou Rainha em novembro de 1558 todos achavam que ela fosse restaurar a fé Protestante na Inglaterra, a perseguição feita por Mary havia maculado o Catolicismo existente no país e a população Protestante crescia a cada dia. Mesmo tendo aderido à fé Católica durante o reinado de sua irmã, Elizabeth teve uma criação Protestante e se mostrou incrivelmente tolerante dizendo que acreditava que tanto os Católicos quanto os Protestantes faziam parte da mesma fé: “Existe apenas um Cristo, Jesus, uma fé.” Durante seu reinado sua principal preocupação foi a de manter a paz e a estabilidade do reino e perseguição só era usada quando certos grupos religiosos ameaçavam essa paz. Elizabeth desejava uma igreja que tivesse apelo para ambos os grupos e não tinha planos de tornar a igreja mais ou menos Protestante desfavorecendo um grupo ou outro, ela queria uma igreja popular e se o Catolicismo fosse se extinguir na Inglaterra que fosse de forma natural conforme o povo fosse se convertendo.

Elizabeth tinha capelas particulares em quase todos os seus palácios e rezava nelas todos os dias, em sua visão ela era o veículo de Deus na terra e rezava para que a Vontade Divina se revelasse para que pudesse levá-la a diante.

Não existem evidências concretas de suas crenças pessoais mas podemos observar alguns detalhes em suas atitudes e gestos: suas capelas eram conservadoras, todas possuíam crucifixos, ela também gostava de velas e música. Ela não gostava dos longos sermões Protestantes assim como não gostava de vários rituais Católicos como a comunhão, o que mostrava que ela rejeitava a crença Católica da transubstanciação. Ela também não aprovava o casamento dentro do clero, um aspecto integral do protestantismo. Uma indicação mais pessoal de suas crenças podem ser encontradas nas orações que escrevia para o povo e nas cartas que escrevia para amigos e conhecidos, nessas cartas era comum se referir a Deus e à necessidade de aceitar Sua Vontade.

Após sua morte em 1603 a Inglaterra era um pais de maioria dominante Protestante, os Católicos se tonaram a grande minoria.

A Ciência e a Magia Elizabetâna

A Rainha Elizabeth herdou um reino despedaçado: discordância entre Católicos e Protestantes abalavam as bases da sociedade, o tesouro real, graças à Rainha Mary e a seus conselheiros, havia sido gasto completamente, Mary ainda contribuiu para a falência da Inglaterra com a perda de Calais, o último território Inglês no continente. Além do descontentamento por parte do povo (principalmente os Católicos) havia problemas envolvendo a Europa. A França possuia um controle forte na Escócia e a Espanha, a mais forte nação da época, era uma ameaça para a segurança inglesa. Mas a nova Rainha provou ser mestre nas ciências políticas, empregando homens capazes e distintos para levar adiante as prerrogativas reais.

O Reinado Elizabetano foi um dos períodos mais construtivos na história da Inglaterra. A literatura florescia através dos trabalhos de Spenser, Marlowe e Shakespeare. A influência inglesa se espalhou pelo Novo Mundo através de Francis Drake e Walter Raleigh.

Antes do século XVII, que estabeleceu a visão científica moderna do mundo, a relação entre magia e ciência era muito diferente da que temos hoje, elas se complementavam e nem sempre era possível dizer onde uma terminava e a outra começava. Astrologia e Alquimia eram disciplinas muito respeitadas, e a Rainha Elizabeth possuia ocultistas iniciados entre seus conselheiros, ela havia sido avisada da data de sua coroação por astrólogos e seu respeito pela arte era tamanho que chegava a impedir que navios partissem dos portos até que as influências astrológicas fossem favoráveis.

Mantendo em mente que a palavra ciência, que significa literalmente conhecimento só começou a ser usada popularmente como nós a conhecemos após o século XIX. Na época existia a divisão entre magia e a filosofia natural, a magia ainda era dividida em natural e sobrenatural.

A magia natural não precisava de nenhum auxílio sobrenatural para acontecer, ela era compreendida como uma sabedoria natural porém oculta, enquanto a Filosofia Natural (a ciência) lidava com aquilo que era evidente para os sentidos a Magia Natural lidava com aquilo que estava distante da vista do homem comum, com aquilo que era “escondido”.

O magnetismo era considerado um fenômeno oculto, forças magnéticas eram consideradas como “laços simpáticos” existentes entre objetos magnéticos, uma harmonia que não podia ser vista, e a crença era a de que existiam muito mais dessas forças ocultas, o trabalho do mago era descobri-las. Existia uma ênfase na idéia de que Deus havia criado o mundo usando essas forças e harmonias naturais, o homem era um micro cosmo vivendo em um macro cosmo e haviam inúmeras relações interessantes entre o micro e o macro cosmo. Era através da Vontade Divina e da interpretação dos desígnios divinos que era possível encontrar esses laços harmônicos.

E claro havia a magia sobrenatural, onde o mago lidava com eventos que não faziam parte da natureza. Praticantes usavam feitiços para evocar espíritos, demônios e anjos. O mago John Dee se tornou famoso por suas conversações com anjos. Hoje se acredita que na época existiu uma “rede” de comunicação entre magos, cientistas e ocultistas que se correspondiam como Nostradamus, Agrippa von Nettesheim, o próprio Dee, Giordano Bruno e Paracelso entre outros, trocando experiências e “segredos científicos” adquiridos em peregrinações.

Rev. Obito, Templo de Satã

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As lições da ciência

Quando eu debatia em comunidades online onde haviam embates homéricos entre céticos e espiritualistas, acabava por confundir a ambos quando tocava em assuntos científicos. Para os últimos, a ciência geralmente não despertava muito interesse, pois raramente a analisavam sob o ponto de vista espiritual; Para os primeiros, era tão estranho que um espiritualista estivesse citando Carl Sagan e Richard Feynman, que alguns pensavam se tratar de um cientista “brincando” de ser espiritualista – um “místico fake”. Obviamente, eles estavam mesmo confusos…

Podem nunca haver lhe contado na escola, mas nem sempre a espiritualidade esteve dissociada da ciência. Porém, nesta ciência de hoje, interpretada apenas como um conhecimento estritamente objetivo da realidade detectável, apenas um método sem nenhuma relação com qualquer espécie de ideologia ou filosofia, restou muito pouco da ciência antiga, a filosofia da Natureza, o conhecimento da physis.

Os sábios antigos chamavam Natureza à realidade primeira e fundamental de todas as coisas, a essência em torno da qual gira tudo o que é transitório: “A noite segue o dia. As estações do ano sucedem-se uma à outra. As plantas e os animais nascem, crescem e morrem. Diante desse espetáculo cotidiano da natureza, o homem manifesta sentimentos variados – medo, resignação, incompreensão, admiração e perplexidade. E são precisamente esses sentimentos que acabam por levá-lo à filosofia. O espanto inicial traduz-se em perguntas intrigantes: O que é essa physis, que apresenta tantas variações? Ela possui uma ordem ou é um caos sem nexo?”.

Eis que os cientistas nem sempre foram chamados de doutores. Também já atenderam por naturalistas, filósofos, sábios, alquimistas, astrólogos, druidas, ocultistas, etc. Portanto, imaginar que a vivência da ciência moderna deveria estar totalmente desconexa da espiritualidade é, antes de tudo, uma ignorância da história do pensamento humano. Uma ignorância de tantos e tantos que vieram antes de nós, e fizeram as mesmas perguntas ao céu noturno salpicado de estrelas. E, como o Cosmos não respondeu de volta tal qual um deus lendário, foram obrigados a arregaçar suas mangas e buscar pelas respostas eles mesmos. É precisamente da atitude desses cientistas – os de outrora e os de hoje – que podemos tirar preciosas lições:

A Natureza fala por si

Talvez a qualidade mais notável de todo verdadeiro cientista seja esse tal contentamento, esta real aceitação, este estoicismo perante o que a physis realmente é, e não o que gostaríamos que fosse. Feynman dizia que a imaginação da Natureza é muito, muito maior do que a nossa: ela jamais nos deixará relaxar. Sempre haverá, para o real buscador, mais uma galáxia oculta atrás de um grande conglomerado, mais uma partícula oculta nalgum nível de energia ainda indetectável pelo nosso mais avançado instrumento, mais uma lei natural oculta de nossa mais simples e elegante equação, mais um tanto do Cosmos que jamais alcançamos com nossa luz: não fomos capazes de ver sua escuridão antes que a luz fosse acesa.

Nós podemos estar errados

Outra lição é esta, tão simples, e tão essencial: podemos, sim, estar errados, e geralmente estamos. Os atomistas acreditavam que a matéria era feita de pequenas partes dos elementos que sustentavam todo o Cosmos – Hoje sabemos que átomos e quarks não são formados pelo fogo, ou a água, ou a terra, ou o ar [1]… Mas foram dos erros passados que vieram novos acertos; acertos esses que podem também se comprovar como erros no futuro. O que importa, portanto, é que hoje conhecemos um pouco mais da physis do que ontem, e amanhã conheceremos ainda um pouco mais do que hoje. Mas, decerto não existe um conhecimento infalível, uma verdade derradeira, ou pelo menos ainda estamos num nível de consciência muito distante dela. Admitir que podemos estar errados é o melhor caminho para que prossigamos adiante no fluxo deste rio sagrado, sem jamais ficarmos uma vez mais aprisionados, represados pelo dogma.

O conhecimento é uma conquista

Ainda que a Verdade pudesse realmente nos ser revelada em antigos livros escritos sob inspiração divina, não significa que tivemos a capacidade de interpretá-la. Ainda que a inspiração tenha sido uma ponte direta para os segredos mais ocultos do Cosmos, e ainda que a informação escrita tenha passada ilesa por séculos de guerras de interesses e traduções de cada época, ainda assim tudo o que temos são palavras, linguagem, símbolos de gramática que já provaram serem incapazes de traduzir tudo o que é sentido e experimentado em uma verdadeira experiência mística – por isso muitos grandes sábios jamais escreveram coisa alguma, pois eles sabiam que cascas de sentimento não fariam jus à sacralidade da experiência.

O conhecimento, portanto, é e sempre foi uma conquista. E muitos cientistas têm nos auxiliado em conhecer a physis de fora, mas nenhum, absolutamente nenhum deles, poderá realizar por nós uma conquista que foi profetizada e ofertada pelo próprio Deus: mergulhar em si mesma, isto apenas a própria alma poderá realizar.

De pé sobre o ombro de gigantes

Foi o próprio Isaac Newton quem confessou que se havia visto mais longe do que os demais, foi por ter estado em pé sobre o ombro dos gigantes de outrora. A beleza da ciência é que, desde que não tenha sido queimado por bárbaros ou eclesiásticos coléricos, seu conhecimento armazenado, em livros e outros artefatos, por toda a história da humanidade, está ainda situado nos alicerces da torre pela qual podemos observar o Cosmos cada vez mais de perto… Ao contrário do que disseram os supersticiosos, nenhum deus raivoso desceu dos céus para nos punir por nossa ousadia: continuaremos a construir torres de Babel e abrir tantas quantas foram às caixas de Pandora encontradas. Foi graças a Prometeu, que roubou o fogo dos deuses, que chegamos onde chegamos: ele foi apenas o primeiro gigante, o primeiro titã.

Mas, ao contrário do que o mito possa te levar a pensar, os deuses não se chatearam conosco – aquilo foi pura encenação. Puro teatro, para que pudéssemos assim, uns auxiliando aos outros, numa colaboração digna dos maiores exércitos do Céu, marchar para cada vez mais perto da montanha sagrada… E, quando lá chegarmos, quem sabe não possamos acender a pira do salão de Zeus, e realizarmos por lá uma grande festa – na qual mesmo os gigantes estarão convidados.

Não há elite

Na ciência genuína, todos tem a oportunidade de colaborar: não importa onde nasceram, sua cor de pele, seu sexo – desde que possam pensar, podem auxiliar nossa ciência.

Apesar de ainda haverem os “donos da verdade”, aqueles ignorantes que pensam poder determinar quem pode ou não pode falar em nome da ciência, a verdade é que não há elite na physis: assim como somente os peixes podem nos falar do mar profundo, somente os pássaros podem nos falar do céu, e os morcegos da escuridão das cavernas. Apenas assim, juntos, podemos ter alguma esperança de conhecer a Natureza sob todos os pontos de vista.

Até onde a luz pode chegar

Muitas das ideias mais místicas que fomos capazes de um dia conceber hoje estão sendo melhor desenvolvidas, e comprovadas, na cosmologia, e não mais na religião. Sabemos hoje que tudo o que há neste universo surgiu de uma singularidade, um ponto, um grão de milho que, nos primeiros momentos, englobava todo o espaço-tempo – e não havia nada “do lado de fora”, pois o tecido do espaço-tempo é tudo o que há. Sabemos também que a velocidade da luz tem um limite, e que provavelmente nada no universo o possa ultrapassar… Há não ser o próprio tecido espaço-temporal, em seu berço de crescimento inflacionário, quando venceu a própria luz. Eis que, dessa forma, existem espaços deste universo que jamais poderão ser conhecidos, espaços onde nenhuma luz poderá um dia sair, ou chegar. Essa ideia de Infinito é suficientemente mística para você?

Poeira de estrelas

Ao observar o pequenino e pálido ponto azul, flutuando numa nuvem de gás sideral, parte de uma das fotos da sonda espacial Voyager I, Carl Sagan prontamente identificou: aquele ponto era a Terra, toda a Terra! Mas, a despeito da beleza de suas reflexões acerca desta imagem, há ainda algo mais belo e profundo sobre o que pensar: não apenas nosso planeta é apenas um grão de poeira na Via Láctea, nós mesmos somos formados por elementos pesados que só podem ser gerados nas fornalhas estelares. Nós somos, realmente, não somente os filhos das estrelas – nós somos formados por partes delas.

Atomicamente, somos formados pela mesma divina poeira que forma todas as outras substâncias cósmicas. Mergulhada no oceano, toda poeira é também uma parte do mar…

Conhecer a si mesmo

E foi exatamente aqui, este pequeno ponto azul em meio a escuridão infindável do oceano da noite, que despertamos pela primeira vez e dissemos: “nós aqui também existimos, também somos da raça dos deuses!”.

Não se sabe se existem outros como nós, mas provavelmente existem, e aos montes… Seja neste pequeno planeta, ou na infinidade de moradas da casa cósmica, nós parecemos ser um espécie de imagem espelhada, de semelhança, uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo.

E, nesta tal aventura do conhecimento, nesta tal jornada para sondarmos a inconcebível natureza da Natureza, podemos navegar tanto acima quanto abaixo – tanto faz, uma parte é apenas o espelho da outra.

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[1] Pelo menos não da forma literal como tais elementos são compreendidos. Como símbolos, no entanto, foram, e ainda são, poderosos aliados para nossa compreensão da physis.

Crédito das imagens: [topo] APOD (telescópios em Atacama/Chile); [ao longo] APOD (lua cheia em Paris/França)

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

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#Ciência #Espiritualidade #natureza

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/as-li%C3%A7%C3%B5es-da-ci%C3%AAncia

Os Axiomas de Zurique

Os Axiomas de Zurique

A Suíça é um país curioso. Não tem grandes riquezas minerais nem capacidade de cultivo e tem uma área menor que a do Rio de Janeiro.  Mesmo assim os suíços estão entre os povos mais ricos do mundo. Em renda per capita se comparam  aos norte-americanos, alemães e japoneses. Como isso pode ser possível? O livro “Os Axiomas de Zurique” ensina que isso acontece porque, mais do que qualquer outro povo, os suíços sabem como investir. A Suíça possui sólidas instituições financeiras e os suíços são ótimos especuladores e jogadores. Em outras palavras eles sabem como fazer uma boa aposta.

Os “Axiomas de Zurique” é um livro sobre como calcular riscos. Mas você não vai precisar ser um matemático para entender. Ele traz axiomas, regras criadas por um clube de investidores suíços, que fizeram a história de Wall Street.

O livro ensina como especular o seu dinheiro. Mas assim como outro clássico, “A Arte da Guerra”, seus princípios podem ser levados para outras áreas, como sua vida pessoal, carreira e até relacionamentos. Para ter qualquer espécie de ganho você tem que se arriscar. E este livro vai ajudar você a fazer as melhores apostas possíveis.

Primeiro Axioma: O Risco

Quem não arrisca não petisca. Para conquistar grandes coisas é preciso se arriscar. Riscos, é claro, trazem preocupações, mas preocupações não são necessariamente algo ruim. Elas nos impulsionam e nos fazem ficar atentos ao que fazemos. As pessoas agarram-se à segurança como se fosse a coisa mais importante do mundo. Elas gostam da sensação de tranquilidade. Mas a filosofia dos Axiomas de Zurique ensina o oposto. Nos casos de amor, por exemplo, quem tem medo de se expor ou de se comprometer jamais encontrará seu par. Outro exemplo são os esportes, área em que tanto os atletas como seus torcedores se expõem a riscos de perder em troca do sentimento de aventura pela vitória.

Realmente precisamos de momentos de tranquilidade, mas deixemos isso para o descanso e para quando formos dormir.  Para o especulador é a aventura que dá sabor à vida e ela só acontece quando nos expomos a riscos. Os mais célebres operadores de Wall Street nunca esconderam que um estado de constante preocupação é parte do seus estilos de vida. Eles gostam e buscam isso. A verdade é que não existe investimento sem riscos e não existem riscos sem preocupações.

Só aposte no que vale a pena

A única maneira de derrotar o sistema é apostar quantias que valham a pena. Se você apostar pouco vai ganhar pouco. Isso não significa apostar somas que se perdidas levariam você a falência, mas sim que você deve superar o medo de se machucar.  Se a quantia for tão pequena que sua perda não apresenta grandes diferenças  provavelmente os ganhos também serão insignificantes. Você pode começar disposto a se ferir pelo menos um pouquinho e, à medida que ganhar experiência, vá aumentando a sua dosagem de preocupação.

Resista a tentação das diversificações

Gerentes de banco sabem que as pessoas são geralmente avessas a perdas. Por isso, sugerem o  clichê de “colocar seus ovos em várias cestas”. A diversificação reduz os riscos mas também reduz qualquer esperança de ficar rico. Ao diversificar você cria uma situação e em que perdas e ganhos acabam se cancelam. Além disso, quanto mais investimentos simultâneos você tem mais difícil e confuso será gerênciá-los.  Um pouco de diversificação não fará mal, mas o autor sugere três ou menos investimentos ao mesmo tempo. Se possível, coloque todos os seus ovos no mesmo cesto e tome conta desse cesto.

Segundo Axioma: Realize o lucro sempre cedo demais

Não é fácil parar quando se está ganhando. Sempre queremos mais e essa ganância, muitas vezes, pode nos fazer perder tudo o que conquistamos. Não podemos saber de antemão quanto tempo nosso período de sorte vai continuar. Pode durar muito, mas pode durar muito pouco. Dessa forma, a melhor estratégia é presumir que qualquer conjunto de eventos lucrativos terá breve duração. Assim que estiver com um bom lucro caia fora.

Não force sua sorte tentando espremer até o último centavo e não tenha medo de se arrepender. Não olhe para trás. De vez em quando você realmente lamentará ter saído. É uma experiência deprimente ver que seus lucros poderiam ter sido maiores. Mas a cada duas ou três decisões erradas haverá dúzias de acertos. Na maior parte das vezes sair será a melhor opção.

Defina sua meta de chegada

Em uma negociação tenha claro quais concessões quer conquistar antes de começar a conversa. Não force o relacionamento pedindo mais do que queria no começo. A melhor hora para definir a linha de chegada é antes de a corrida começar, afinal, não existe gongo ou pessoas batendo palma na vida real. Você mesmo é que precisa definir sozinho quando o lucro é razoável e o melhor momento para fazer isso é antes de começar o investimento. Ao chegar lá, caia fora. Uma boa maneira de reforçar essa sensação final é estabelecendo alguma premiação para si próprio quando o objetivo inicial for conquistado. Reduzir a ganância é lucrativo a longo prazo.

Terceiro Axioma: Quando o barco começar a afundar abandone-o.

Tenha certeza que mais da metade das suas operações especulativas irão pro brejo antes da linha de chegada. Metade das suas esperanças está condenada a não se realizar. A maneira sugerida pelos Axiomas de Zurique para lidar com isso é abandonar o barco assim que ele começar a afundar. Não espere que até metade esteja submersa. Não reze nem cubra seus olhos. Calma e decididamente saia antes que o pânico se instaure.

Saber aceitar as pequenas perdas é o segredo para se proteger das grandes. E não se engane, isso vai doer.  É provável que algumas vezes as coisas melhorem depois de você sair e o sentimento de arrependimento se instaurar. Mas, novamente, não olhe para trás. Com frequência uma situação ruim permanece ruim antes de voltar a melhorar. Nesse meio tempo seu dinheiro poderia estar rendendo mais em outros lugares.

Os bons jogadores de poker conhecem bem esse fenômeno. Por essa razão, o autor sugere que você, se possível, organize alguns jogos entre seus amigos. Há muito a se aprender neste jogo – sobre especulações e sobre si mesmo.

 

Aceite pequenas perdas

Conte incorrer em várias perdas pequenas enquanto espera um grande ganho. Se uma operação não está funcionando, caia fora e procure outra.  Existe um mecanismo na bolsa de valores conhecido como stop-loss. Com ele seus papéis são automaticamente vendidos assim que um determinado nível de perdas seja atingido. Isso é bom porque poupa você da angústia de decidir quando vender. Mas o autor sugere que você use sua própria capacidade de decisão e visite pessoalmente o fundo do poço. Isso fará você, aos poucos, entender que perdas são apenas fatos desagradáveis da vida, assim como impostos e contas a pagar. Superar o apego e a falsa esperança e admitir seus próprios erros são lições valiosas que você pode levar para a vida toda.

Quarto Axioma: O futuro não pode ser conhecido

O comportamento do ser humano não é previsível. Esqueça todos os prognósticos. Sempre que o fator humano está presente, como no caso da economia, ninguém tem a remota ideia do que acontecerá. Por mais que tentem nos convencer do contrário ninguém sabe o que vai acontecer no ano que vem, semana que vem ou sequer amanhã. Por essa razão os axiomas enfatizam que devemos largar o vício de prestar atenção em previsões. Às vezes, os oráculos financeiros, economistas e especialistas de mercado estão certos, mas é justamente por isso que são tão perigosos. Depois de passar anos bancando um profeta qualquer um consegue exibir meia dúzia de palpites que se realizaram. O que nunca aparece na publicidade dos profetas são as vezes em que ele errou.

Economistas tendem a tratar assuntos econômicos como se fossem eventos físicos. A economia, no entanto, é resultado do comportamento humano e não existe nada capaz de prever eventos humanos. As altas e baixas da bolsa de valores, por exemplo, são resultado das emoções de homens e mulheres que estão reagindo uns aos outros. O mesmo ocorre com índices e números com os quais  os especialistas gostam de brincar, tais como PNB, nível da construção civil e taxas de inflação. Recessões, recuperações, bolhas, altas e baixas de mercado, tudo isso é causado por pessoas. Ao explicarem porque uma previsão falhou os oráculos vão sempre alegar “fatores imprevisíveis” . Mas é exatamente esse o problema. Os fatores imprevisíveis superam, em muito, os fatores que podem ser previstos.

 

Os especuladores de sucesso não baseiam suas jogadas no que vai acontecer. Eles reagem ao que realmente acontece. Trace seu projeto especulativo em reações rápidas a eventos que você vê acontecendo à sua frente e, quando atingir seu objetivo pré-determinado ou quando as coisas começarem a dar errado, caia fora.

Quinto Axioma: Até começar a parecer ordem, o caos não é perigoso

Devemos sempre buscar apostas vantajosas e investimentos promissores. Quando topar com algo que pareça bom, aposte. Mas não se deixe hipnotizar pela ilusão da ordem.  É improvável que seus estudos tenham criado uma situação “certa” de lucro. Ainda mais improvável é que tenha encontrado alguma fórmula de como o mercado funciona. Todos gostariam de ter esta fórmula. Infelizmente ela não existe.

O mundo é uma desordem sem padrões confiáveis, um absoluto caos. O mundo do dinheiro é um reflexo disso. De vez em quando padrões ou desenhos parecem se formar mas são tão efêmeros como as imagens que vemos nas nuvens. Não existe, por exemplo, nenhum especialista de arte que possa dizer qual o próximo artista obscuro que entrará na moda. Conselheiros econômicos e especialistas financeiros geralmente apresentam algum tipo de “ilusão de ordem” e acham que descobriram como as peças se encaixam. Elas não se encaixam.

Cuidado com a Armadilha do Historiador

Uma suposta fórmula que deu certo no passado não vai, obrigatoriamente, dar certo da próxima vez. É fácil acreditar que a repetição ordenada da história pode fazer previsões corretas. Mas a história nunca se repete exatamente do mesmo jeito e, na maioria das vezes, não se repete de modo algum.

Cuidado com a ilusão do grafista

Um gráfico tem sempre um ar confortável de ordem, mas por trás dele esconde-se o caos.  Além disso, os gráficos raramente se repetem e quando o fazem nunca é de forma confiável.  Fazer gráficos dos preços das ações é como fazer gráficos da espuma do mar.

Cuidado com a ilusão da causalidade

A mente racional  busca sempre relações de causa e efeito. O problema é que quando não as encontramos  acabamos inventando algumas. Na busca por ordem a mente humana  refugia-se em um mundo de fantasias. Quando ocorrem dois eventos pertos um do outro vamos logo costurando elos causais entre eles para o nosso próprio conforto. E uma vez que uma ligação causal seja inventada e estabelecida ela é capaz de fazer com que um fenômeno pareça mais ordenado do que realmente é. Assim, ao menos que você realmente constate uma causa operando, considere sempre todas as relações causais com o maior dos ceticismos.

Cuidado com a falácia do jogador

Outra espécie de ilusão de ordem é aquela que se volta para a própria pessoa. Quando alguém diz que está “em um dia de sorte” ou numa “maré de sucesso”. Na realidade, o que  pessoa está dizendo é que se encontra, temporariamente, em um estado de acasos favoráveis. Jogue uma moeda um número suficiente de vezes  e não demorará para conseguir uma  sequência de caras. O problema é que não dá para saber com antecedência quando essa sequência vai começar nem o quanto durará. A falácia do jogador é perigosa porque vende uma sensação temporária de invencibilidade, e ninguém é invencível.

Sexto Axioma: Evite lançar raízes

Raízes tolhem seu movimento. Preserve sua mobilidade e jamais se apegue ou crie um investimento de estimação. Sentimentos de lealdade a algum investimento são prejudiciais e você deve estar sempre pronto para pular fora quando surgir alguma oportunidade melhor. Isso não quer dizer que você tenha que ficar pulando sem parar e sem motivo. Seus movimentos devem ser antecedidos por cuidadosa avaliação dos prós e dos contras. Mas quando aparecer algo mais promissor corte as raízes e siga em frente.

Numa operação que não deu certo não se deixe apanhar por sentimentos como lealdade ou saudade. Há momentos em que você  terá que escolher entre raízes e dinheiro. Lembre de ser fiel a pessoas e não às coisas sem personalidade como investimentos e especulações. Não caia na armadilha de que um investimento ainda deve algo para você ou, ainda pior, que você deva algo ao investimento. Jamais hesite em sair de um negócio se algo mais atraente aparecer.

Apegar-se prejudica sua mobilidade e rapidez quando as circunstâncias exigem. Ter raízes em empresas, imóveis ou ações prejudica demais sua eficiência de especulador. Esteja sempre atento sobre onde estão suas melhores chances e então corra atrás.

Sétimo Axioma: Só se pode confiar em um palpite que possa ser explicado

Intuições e palpites são eventos mentais em que sabemos algo mas não sabemos como sabemos. Em geral, as pessoas têm duas posturas diante da intuição. Ou desprezam completamente ou confiam cegamente nesses lampejos. O método dos Axiomas de Zurique é entendê-los e separar os palpites que têm valor dos que não valem nada.

Para isso é importante saber de onde vem nossa intuição. Diariamente, absorvemos quantidades colossais de informações, muito mais do que somos capazes de arquivar conscientemente. A maior parte de tudo o que captamos vai para algum reservatório do inconsciente.

Assim, quando ocorrer um palpite você deve sempre se perguntar se em seu arquivo inconsciente há informações grandes o suficiente para justificá-lo. É por isso que a intuição de especialistas geralmente acerta dentro de seus campos de atuação. É também por isso que a intuição materna não deve ser desprezada, afinal, toda mãe é uma especialista em seus filhos. Se seu palpite é sobre um mercado pergunte-se. Você tem um banco de dados grande o suficiente sobre esse mercado? Se é sobre uma pessoa,  você a conhece o suficiente?  Submeter os palpites a esses critérios rigorosos é importante para separar os palpites que vêm de algum lugar daqueles que não levam a lugar nenhum. Não tendo o banco de dados, descarte o palpite.

Além disso, jamais confunda palpite com esperança. Quando você quer muito alguma coisa é fácil acreditar que aquilo acontecerá. Esse axioma ensina que quando temos um palpite de alguma coisa que queremos que ocorra devemos manter um alto nível de ceticismo. Em contrapartida, quando a intuição diz que algo que não queremos vai ocorrer ela é um pouco mais confiável. Tenha cuidado especial com lampejos que confirmam algo que você quer muito.

Oitavo Grande Axioma: Cuidado com o sobrenatural

É improvável que entre os desígnios de Deus para o Universo se inclua o de fazer você ficar rico. Dinheiro e sobrenatural são uma mistura perigosa.  É melhor manter esses dois mundos separados sob o risco de perder tanto seu dinheiro como sua fé. Se Deus existe – questão sobre a qual os Axiomas não têm opinião – não existe nada que prove que Ele se importe se você morrerá rico ou pobre. Deus, ou qualquer outra força ou entidade sobrenatural, não deve ter nenhum papel a desempenhar em seu comportamento como especulador. Apoiar-se no sobrenatural  tem o mesmo efeito de apoiar-se em previsões ou ilusões de ordem e pode fazer com que você seja atraído para um estado perigosamente despreocupado. Especule partindo do princípio de que você está absolutamente só e apoie-se, exclusivamente, em seus próprios talentos.

Se Astrologia funcionasse, todos os astrólogos seriam ricos

Os Axiomas de Zurique criticam o uso da Astrologia, mas isso apenas porque é uma crença sobrenatural muito popular. De toda forma, o cuidado serve para qualquer outra doutrina mística de profecia ou clarividência. O mesmo se aplica ao tarô, poderes da mente ou sistemas místicos, pseudocientíficos ou religiosos, no que se refere a dinheiro.

Você entretanto não precisa exorcizar todas as suas superstições. Como vimos, esse tipo de crença pode representar um risco ao seu patrimônio. Mas não há problema em acreditar em algumas desde que essas crenças tenham um papel menor, trivial  e que elas sejam usadas na hora e do jeito certo. O jeito certo é fazê-lo é rindo e a hora certa é quando se está em uma situação que não se presta a nenhum tipo de análise racional. Se tudo o que você tem é um número apostado na loteria não faz mal algum cruzar os dedos.

Nono Axioma: Cuidado com o otimismo

Otimismo significa esperar o melhor, mas confiança significa saber como lidar com o pior. Jamais faça um jogada por otimismo apenas. O otimismo é da nossa natureza, sem ele é impossível começar qualquer especulação. O próprio ato de se arriscar em um especulação é uma afirmação de otimismo. O paradoxo está no fato de que otimismo demais pode nos levar à catástrofe. Quando se sentir otimista examine se essa sensação gostosa se justifica nos fatos. Tenha sempre um plano de como sair do negócio e do que fazer no caso de as coisas começarem a dar errado.  O uso construtivo do pessimismo vai te dar mais do que apenas otimismo, vai te dar confiança.

Décimo Axioma: Fuja da opinião da maioria. Provavelmente está errada

Com frequência a melhor hora para comprar alguma coisa é quando ninguém quer. ” A melhor hora para comprar é quando todo mundo está gritando “quero vender!”. A melhor hora de vender é quando todo mundo está gritando “quero comprar!”. Mas é difícil pensar quando todo mundo está gritando.

Em nossa era democrática tendemos a aceitar sem críticas a opinião da maioria. Temos também a tendência psicológica em concordar com as pessoas ao nosso redor. Essa humildade pode ter sua importância em outros aspectos da vida, mas pode, também, ter efeitos perversos em sua saúde financeira. Basta observar que a maioria das pessoas não é rica. Isso não significa que a opinião da maioria esteja automaticamente errada.  Algumas vezes a maioria acerta. O truque aqui é não cair na ilusão de ordem e esquecer que a realidade não é democrática.

Não se deve ir, automaticamente, nem contra nem a favor da maioria. Em vez disso os Axiomas nos estimulam a pensar por nós mesmos. Cada caso é um caso e você tem que aprender a pensar com a própria cabeça antes de envolver-se em riscos calculados. Jamais embarque cegamente nas especulações da moda.

Décimo Primeiro Axioma: Cuidado com a teimosia

Ser teimoso e perseverante pode ser algo bom em diversas situações da vida, mas em termos de especulações precisamos traçar um limite para que não nos leve à ruína. Nada mais prejudicial do que insistir em algo que está dando errado. O maior erro é imaginar que um investimento que fez você perder dinheiro de alguma forma tem o dever de lhe pagar de volta. Também nunca engula a ideia de que é sempre possível melhorar uma situação ruim. Você precisa superar sua tendência à teimosia sempre que a perseverança o estiver levando para o buraco.

Não caia na armadilha do preço médio

Jamais tente salvar um mau investimento fazendo o “preço médio”. Essa armadilha funciona assim. Imagine que você comprou 100 ações de uma empresa pagando 100 dólares por ação, ou seja 10.000 dólares. Mas as coisas vão mal e o preço da ação cai para 50 dólares fazendo você perder metade do investimento. A armadilha do “preço médio” diz que se você comprar mais 100 ações terá agora 15000 e o preço médio das suas ações agora será de 75 dólares. Parece mágica, mas é ilusão. Você só parece ter mais dinheiro porque colocou mais dinheiro na roleta. Para fugir dessa armadilha pergunte-se sempre: se eu já não tivesse essas ações estaria comprando-as agora?

Décimo Segundo Axioma: Cuidado com o planejamento de longo prazo

Planejamentos de longo prazo saem sempre do pressuposto de que sabemos como o mundo será no futuro. Como vimos, ninguém conhece o futuro e um planejamento de longo prazo cria a perigosa crença de que o futuro está sob controle. É importante jamais levar muito a sério os seus planos de longo prazo nem os de quem quer que seja.

Em vez de se iludir com planos longínquos foque em  sua rapidez de resposta. Aprenda a realizar alterações necessárias de acordo com as mudanças que forem ocorrendo. Ponha seu dinheiro, tempo, atenção e esforços nas oportunidades conforme elas se apresentem e tire-as dos riscos assim que os riscos aparecerem. Valorize sua mobilidade e jamais assine qualquer papel que comprometa sua liberdade.

Investimentos de longo prazo apresentam muitos encantos. O maior deles é que você só precisa tomar a decisão uma vez. Isso traz um alívio das tensões que muitas pessoas abominam e atrai os preguiçosos e os covardes. Eles pensam: “Compro isso e esqueço”. Raramente essas pessoas pensam no custo de oportunidade, aquele dinheiro que você não vai ganhar porque trancou seu capital em algum investimento de longo prazo. A única coisa que podemos dizer sobre o futuro é que, quando chegar, chegou. Não dá para ver a cara que terá, mas você pode ao menos se preparar para reagir às oportunidades e acasos. Na verdade, o único planejamento que você deve fazer no longo prazo é o de ficar rico. Mas como chegar lá é algo que você deve repensar a todo momento.

Notas Finais

  • Aprenda a correr riscos. Quem aposta pouco ganha pouco.
  • Defina o quanto quer ganhar antes de começar a investir e quando chegar lá pule fora.
  • Pequenas perdas podem proteger-lhe das grandes. Saia do barco assim que as coisas começarem a dar errado.
  • Não caia nas ilusões de ordem: ninguém realmente sabe comos será o futuro.
  • Seus investimentos não são pessoas. Eles não devem nada a você nem você a eles.
  • Confie na sua intuição apenas se você tiver experiência na área.
  • Cuidado com planos de longo prazo. Valorize sua capacidade de reagir a mudanças.

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/os-axiomas-de-zurique/

Ayn Rand e o Ocultismo: A Importância do Objetivismo na Magia

Alguns de vocês podem reconhecer o Objetivismo como a filosofia desenvolvida pela autora Ayn Rand em livros como A Nascente e A Revolta de Atlas. E se vocês sabem algo sobre a Sra. Rand e seus escritos, também sabem que o Objetivismo é praticamente o oposto de qualquer filosofia espiritual ou ocultista. Deixe-me dar-lhe uma breve citação da entrada da Wikipédia como ilustração:

“Os princípios centrais do Objetivismo são que a realidade existe independentemente da consciência, que os seres humanos têm contato direto com a realidade através da percepção dos sentidos, que se pode alcançar o conhecimento objetivo a partir da percepção através do processo de formação do conceito e da lógica indutiva…”

Na verdade, só piora a partir daí. (Em breve falaremos sobre a triste posição de Rand sobre a moralidade humana.) Entretanto, o acima mencionado é suficiente para que qualquer ocultista abane a cabeça e procure sabedoria em outro lugar. Possa que a consciência nada tem a ver com a realidade, e que podemos sempre confiar em nossos sentidos para nos dizer a verdade sobre o mundo ao nosso redor. Como ocultistas, nós sabemos melhor, não é mesmo?

E quanto à postura Objetivista sobre a moralidade? Bem, a Sra. Rand nasceu na Rússia durante um período particularmente difícil de sua história (isto foi durante a queda do Império Russo e a ascensão dos bolcheviques), e sem dúvida ela sofreu alguns traumas profundos durante sua infância. Como adulta, ela pregou uma filosofia de puro interesse próprio. Os pobres deveriam poder passar fome e morrer. Os ricos deveriam ser apoiados e governar sobre o resto de nós. Obtenha o que é seu enquanto a obtenção é boa, e não dê nada aos fracos. Aqui está outro trecho do artigo da Wikipédia:

“…o propósito moral próprio da própria vida é a busca da própria felicidade (interesse próprio racional), que o único sistema social consistente com esta moralidade é aquele que demonstra pleno respeito pelos direitos individuais encarnados no capitalismo do laissez-faire…”.

Alguns de vocês podem reconhecer isto como fundamental para visões de mundo como o conservadorismo político americano, bem como a Igreja de Satã de Anton LaVey. (Estes últimos, a propósito, são ateus rigorosos.) Certamente este é o tipo de filosofia que deve ser evitada por qualquer pessoa com uma visão de mundo espiritual! Ou qualquer pessoa com um pouquinho de compaixão ou caridade no coração. Obviamente, tenho alguns protestos contra o Objetivismo e Ayn Rand (que, a propósito, viveu seus anos mais tardios com a ajuda pública que negaria aos outros).

Então, por que me identifico constantemente com personagens fictícios que encarnam a filosofia Objetivista?

Deixe-me dar-lhe um grande exemplo: Se você tem uma gota de sangue nerd em suas veias (tenho várias canecas), você certamente já viu o filme The Watchmen. É um filme sobre um grupo de super-heróis que devem sair da aposentadoria para resolver um assassinato de um de seus próprios. Um dos principais protagonistas desta história é um anti-herói chamado Rorschach. Ele é o representante da história do Objetivismo, e é meu personagem favorito.

Por que ele é o personagem favorito? Porque ele se recusa a aturar as besteiras filosóficas dos que o rodeiam. Quando coisas ruins acontecem, outros tentam encontrar algum “significado” por trás de tudo isso, para explicá-lo com chavões existenciais que, no final, não significam nada. Para Rorschach, o mundo é um lugar real com problemas reais (e sofrimento real!) que precisam ser abordados com ações reais. Ele não vê nenhum valor em sentar a sua bunda e se tornar poético quando ele poderia simplesmente sair e quebrar algumas rótulas para fazer do mundo um lugar melhor.

Agora não me interprete mal aqui. Na vida real, eu nunca poderia apoiar Rorschach ou mesmo ser amigável com ele. Para aplicar alguma realidade Objetivista ao seu caráter: ele é um fascista, plano e simples. Ele acredita que isso pode dar certo, que ele tem o direito de definir se você é “bom” ou “ruim”, e se ele o considera “ruim”, ele tem o direito de quebrá-lo. (Sejamos francos, a maioria dos heróis cômicos possui essa falha).

Entretanto, não é isso que me atrai a Rorschach e personagens similares. Por muitos anos eu não pude entender com o que se tratava deles que eu me identificava tão fortemente. Certamente nunca conheci um Objetivista em carne e osso que eu gostasse. No entanto, às vezes me encontro acenando com minha cabeça quando leio sobre a filosofia. Como posso concordar simultaneamente com o Objetivismo e opor-me veementemente a ele?

Há pouco tempo, a resposta finalmente me veio à cabeça. A razão da minha dupla mente sobre este assunto é porque o Objetivismo tem dois ramos principais. Na verdade, eu já os destaquei neste texto. Uma é a visão de que a realidade é a realidade e não devemos colar patranhas sobre ela. O outro é o material moral. Você provavelmente não precisa adivinhar que é o absurdo moral que eu acho repreensível.

Mas a postura Objetivista sobre a realidade… agora há algo que me impressiona profundamente. É claro, certamente não concordo que a consciência não tem parte em nossa percepção da realidade, nem acredito por um segundo que meus cinco sentidos básicos sejam a palavra final sobre o que percebo. Entretanto, também sinto que os ocultistas muitas vezes vão muito longe na direção oposta: eles insistem que não há realidade alguma, que somente a consciência e a percepção importam. Eles acreditam que a magia está tudo em sua cabeça, que você pode simplesmente inventar à medida que avança e que a “realidade” simplesmente se moldará a suas intenções.

E em nenhum lugar tais ocultistas são mais culpados por esta falha do que quando interpretam os “resultados” de sua magia. Estes são os tipos que levam crédito cada vez que uma lâmpada de rua próxima se apaga (ou se acende de repente), por cada semáforo que fica verde quando eles se aproximam dele, e por cada coincidência aleatória em suas vidas para provar aos outros (e a si mesmos) que eles são os poderosos manejadores de forças mágicas. E quando chegar a hora de lançar um feitiço de propósito, não importa que resultados obtenham – nem mesmo nenhum resultado – porque eles irão filosofar os eventos da maneira que for necessária para fazer parecer que alcançaram seu objetivo.

(Exemplo que acabei de inventar totalmente: Eu fiz um feitiço para obter um carro que eu preciso. Não consegui o carro, mas o açougueiro do primo do meu amigo me deu um de graça de repente! Então meu feitiço funcionou, e eu fui responsável por alguém conseguir um carro que previamente – precisava de mais um do que eu. Viva eu!)

E é aí, meus amigos, que eu mais me identifico pessoalmente com o Objetivismo. Na verdade, eu devo meu sucesso como ocultista a ele. Desde o início do meu caminho, tenho me recusado firmemente a “justificar” ou “reinterpretar” minhas falhas mágicas apenas para evitar ferir meus próprios sentimentos. (Em círculos ocultos, fazer isso é frequentemente chamado de “masturbação mental”). Se eu realizei um feitiço, ou alcancei meu objetivo ou contei o trabalho como um fracasso e descobri o que fiz de errado. E continuei fazendo isso até que eu acertei!

Até hoje, eu nunca tentei me convencer de que uma operação funcionava quando, claramente, não funcionava. Nesse sentido, a realidade é realmente a realidade. Você conseguiu ou não o carro? Simples e simples. Posso acreditar que minha consciência pode realmente ajudar um carro a se manifestar em minha realidade. Mas se não o fizer, então simplesmente não o faz, e toda a racionalização no mundo não mudará isso.

O que vai mudar é aceitar a derrota e fazer melhor na próxima vez. Continue trabalhando através de tentativas e erros e acabará descobrindo o que obtém resultados reais e o que é um desperdício de seu tempo. Se você não aceitar nada além de resultados objetivos de sua magia e estiver disposto a trabalhar por décadas para alcançá-los, então você encontrará o sucesso que não precisa ser explicado para existir.

Aceite nada menos de sua magia, seu espírito e seu Eu do que resultados concretos!

Quanto a Ayn Rand e seus amigos Objetivistas: mesmo um relógio parado tem que estar certo duas vezes ao dia…

Por Aaron Leitch, autor de vários livros, incluindo Secrets of the Magickal Grimoires (Segredos dos Grimórios Mágicos), The Angelical Language Volume I and Volume II (A Linguagem Angélica Volume I e Volume II), e o Essential Enochian Grimoire (Grimório Enoquiano Essencial).

Fonte: https://www.llewellyn.com/blog/2014/5/ayn-rand-and-the-occult-the-importance-of-objectivism-in-magick/

COPYRIGHT (2014) Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/ayn-rand-e-o-ocultismo-a-importancia-do-objetivismo-na-magia/

A História da Magia no Ocidente

Começa hoje o Financiamento Coletivo dos Livro da história da magia no Ocidente

https://www.catarse.me/historiadamagia

Reunimos neste projeto livros essenciais em várias áreas do Hermetismo, Thelema e Filosofia para definir a Magia no século XX e XXI. Este nosso vigésimo quinto projeto traz os livros que editaremos no segundo semestre de 2022, com previsão de entrega para Novembro. A grande vantagem de participar de um Financiamento Coletivo é que pretendemos publicar grimórios extras que serão entregues como presentes para os apoiadores conforme as metas estipuladas forem sendo batidas, como fizemos nos últimos dez projetos.

A HISTÓRIA DA MAGIA

A compreensão histórica da Tradição Esotérica Ocidental é o ponto de partida fundamental para todos aqueles que pretendem estudá-la e praticá-la, bem como a rota que deve nortear a nossa caminhada no seio da Tradição. Se não sabemos de onde viemos e onde se encontra cada um dos pensadores e movimentos que constituem o arcabouço do Esoterismo Ocidental, iremos correr o risco de, à moda New Age, colocar todos esses pensadores e movimentos em um único plano e compará-los como que se fizessem parte de um mesmo momento e, deste modo, incorrendo em erros primários. Um destes erros é olhar o passado como se ele fosse glorioso e o presente como um estado decadente; no outro extremo, faltar alinhamento, consonância ou correspondência com o momento histórico que iremos nos debruçar também é problemático. Compreendendo as raízes do movimento no qual decidimos trilhar a Senda da Iniciação, podemos segui-lo com mais segurança, consciência e mesmo como continuadores e perpetuadores da Tradição, nos tornarmos células vivas dela, acrescentando os nossos passos. Com tal objetivo, a obra História do Esoterismo Ocidental foi construída como uma introdução e roteiro a esse assunto tão importante ao Esoterismo Ocidental, mas, infelizmente, negligenciado. Originalmente concebida para ser um curso para os postulantes à Iniciação no seio da Irmandade dos Filósofos Desconhecidos, essa obra tomou proporções maiores e entendeu-se que ela precisaria ser disponibilizada para o benefício de todos os buscadores.

TREINAMENTO MÁGICO

Ao contrário do pensamento cada vez mais difundo na contemporaneidade, temos insistido de maneira muito categórica em que a Ordem Martinista, uma expressão da Escola Francesa da Tradição Esotérica Ocidental, é completa em si mesma. Com isso, queremos dizer que um buscador realmente implicado em sua busca encontrará tudo o que é necessário para seu crescimento espiritual dentro da Ordem Martinista. A respeito da obra que o leitor tem em mãos, ela nasceu no transcurso da pandemia de 2020. Nesse período, os conventículos martinistas das diferentes Heptadas espalhadas pelo Brasil foram suspensos e, ao contrário do que se poderia imaginar, tal situação proporcionou uma grande aproximação entre todos membros desses diversos corpos martinistas. Sob essa particular circunstância, atravessada pelo isolamento social e pela sensação de vulnerabilidade que proporcionaram uma busca mais intensa e urgente pelo aprofundamento no conhecimento e no desenvolvimento espiritual, o Treinamento Mágico que ora publicamos foi aplicado em âmbito nacional, entre estudantes de diferentes vocações e estágios no treinamento tradicional. Evidentemente, um treinamento como o que é aqui proposto exige do praticante disciplina e constância. Dentre os disciplinados que mantiveram a constância no Treinamento, destacou-se a compreensão de que um dos grandes méritos dele foi o de propor algo realmente possível de ser introduzido e realizado no cotidiano independentemente da agenda de cada qual, pois implica no máximo 15 minutos diários. Estamos enormemente satisfeitos por saber que, por meio desta publicação, muitos buscadores terão acesso ao nosso Treinamento Mágico e que poderão comprovar, por eles mesmos, a eficácia e a grandeza do que aqui é proposto. Por fim, frisamos que o nosso Treinamento Mágico não traz práticas restritas a iniciados martinistas, nem tampouco se limita ao “espírito” da Escola Francesa da Tradição Esotérica Ocidental.

THEOSOPHIA PERENNIS

Nestes artigos, ensaios e exposições, o autor Daniel Placido guiará o leitor por um passeio através de assuntos como mito, imaginário, Santo Graal, sufismo, gnosticismo, neoplatonismo, teosofia, prisca theologia, Vedanta, filosofia da natureza, esoterologia, antroposofia, Nova Era, acompanhados por expoentes ocidentais e orientais clássicos da sabedoria perene como Fílon, Plotino, Shankara, Sohravardî, Ibn ‘Arabî, Marsílio Ficino, Jacob Boehme, Emanuel Swedenborg, William Blake, Ramana Maharshi, sem falar de pensadores mais contemporâneos como N. Berdiaev, Henry Corbin, M. Eliade, F. G. Bazán, entre outros.

Subjacente à diversidade de temas e autores, existe a concepção de Theosophia Perennis (Teosofia Perene): uma sabedoria divina pertinente às diferentes tradições filosófico-esotéricas do Ocidente e do Oriente, sem negar a pluralidade e dissonância dentro dela, como uma árvore cheia de galhos e ramificações.

GNOSTICISMO THELÊMICO

Poucas palavras foram tão combatidas e incompreendidas através dos séculos do que Gnose e Gnosticismo. Sua história é longa e remonta aos primeiros anos da Era Comum, ou da Era Cristã, quando as mensagens ainda eram transmitidas majoritariamente de forma oral, através dos viajantes e comerciantes que circulavam pelo Império Romano, em uma época em que sequer o Cristianismo, como nós o conhecemos hoje existia, ele ainda engatinhava para tomar forma nos séculos seguintes, através de tratados e concílios.

No século XX o gnosticismo (ou neo gnosticismo) se aproximou de Thelema, uma lei ou filosofia que ganhava as luzes do mundo graças ao trabalho daquele que seria considerado o “O homem mais ímpio do mundo”, Aleister Crowley. A espiritualidade, porém, não para, e tanto o Gnosticismo quanto Thelema continuaram a caminhar e a se desenvolver, dentro daquilo que hoje, no século XXI, reconhecimentos como Gnosticismo Thelemico.

AUTO-INICIAÇÃO NA MAGIA ENOCHIANA

A magia enochiana é, sem duvida, um dos sistemas mágicos mais cobiçados pelos praticantes de magia cerimonial desde a Ordem Hermetica da Aurora Dourada, sendo considerada por muitos como um dos sistemas mágicos mais poderosos do mundo, rivalizando com os mais populares sistemas de magia Salomônica.

APROXIMANDO-SE DE BABALON

Aproximando-se de Babalon apresenta uma série de ensaios explorando a Deusa Babalon, o Divino Feminino, a Madona Negra e o circuito sempre revolvente do Sexo e da Morte, que se encontra no centro dos Mistérios.

Uma visão geral e uma introdução à Deusa Babalon que toma um caminho diferente daquele de Crowley e seus seguidores, Aproximando-se da Babalon se baseia nos insights de Thelema, Magia Cerimonial, Teoria Crítica, Teologia da Libertação e dos Decadentes para tecer sua poética magico-teológica.

Centralizando o corpo e a experiência corporal, a autora rejeita os misticismos patriarcais que buscam fugir do corpo e do mundo e se deslizar na pura luz branca do tédio racionalista celestial. Inspirador, erótico e profundamente poético, o texto atinge dimensões extasiantes ao oferecer uma visão caleidoscópica de magia, sexualidade, espiritualidade, ritual e do corpo no tempo do apocalipse.

A FADA DO DENTE

Dente é uma palavra que, entre outras coisas, é tradução para o português da letra hebraica שׂ (Shin). Nos tarôs tradicionais, essa letra é relacionada ao Arcano do Louco, mas no Tarô de Thoth é ligada ao arcano do Aeon, uma das mais belas lâminas pintadas por Lady Frieda Harris e um dos maiores rompimentos deste para com as cartas de tarô criadas anteriormente. E aqui temos uma chave interessante, porque o Louco e o Aeon seriam uma forma apropriada para o tarô descrever o livro que você está prestes a ler.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-hist%C3%B3ria-da-magia-no-ocidente

H.P. Lovecraft: Visionário do Vazio

“As ciências cada uma se esforçando em sua própria direção, tem nos atrapalhado um pouco; mas um dia todas as peças dessa sabedoria dissociada juntas abrirão algumas visões terríveis da realidade, e da nossa verdadeira posição ali, dai poderemos enlouquecer com a revelação ou fugir da luz fatal para a paz e a segurança de uma nova idade das trevas”.

-H.P. Lovecraft, o Chamado de Cthulhu

 

Howard Philips Lovecraft (1890 – 1937) retratava os acontecimentos mais bizarros da sua vida através da ficção. Colin Wilson tipifica-o como um ‘intruso’, e não há muita informação biográfica para apoiar este ponto de vista. Lovecraft certamente sentiu-se como um ‘intruso’, na América do início do século XX. Tendo perdido seus pais em tenra idade, ele foi criado por duas tias solteironas, que o incentivaram a não sair de casa, dizendo-lhe que ele era “horrível”. Ele retirou-se para o mundo da ficção, tornando-se um leitor prodigioso de fantasias.

Lovecraft gostava de ver a si mesmo como um “cavalheiro Inglês” – uma persona que se tornou tão fixa que influenciou grande parte de sua atitude para com a vida diária. Ele sentia-se muito fora de sintonia com o ritmo da América moderna – o que possivelmente explica por que muitos de seus protagonistas são estudiosos de antiguidades ou reclusos. Os principais temas subjacentes no restante do trabalho de Lovecraft não são focados nos medos claustrofóbicos tradicionais de morte e decadência, assombrações fantasmagóricas, etc.; mas sim no medo agorafóbico de abismos incomensuráveis ​​no espaço; os infinitos abismos escuros do cosmos, onde a mente humana, de repente, percebendo muito espaço, é esticada ao limite até que se encaixe . A sensação de estar sozinho em um vasto deserto de dimensão cósmica é encapsulada na afirmação de Lovecraft de que a humanidade é “uma ilha em um mar de caos – e não estava destinada a navegar tão longe.” O biógrafo de Lovecraft, L.Sprague de Camp, chamava essa ideia de pessimismo cósmico de Lovecraft. “Futilitarismo’ , na filosofia pessoal de Lovecraft, como em seus Mitos de Cthulhu , a humanidade era totalmente insignificante no grande esquema do cosmos”.

A inspiração de Lovecraft para seus escritos vinha de seus sonhos, e suas cartas (ele mantinha uma volumosa correspondência com alguns colegas escritores) mostram que ele teve um pesadelo cada noite de sua vida. No seguinte extrato de uma carta, ele descreve um pesadelo sobre Nyarlathotep, um dos Grandes Antigos:

“Enquanto eu era tirado do abismo, emitia um grito retumbante e a imagem cessou. Eu estava com muita dor – testa batendo e zumbido nos ouvidos – eu tinha apenas um impulso automático – para escrever e preservar a atmosfera de medo sem precedentes; e antes que eu percebesse, eu já tinha puxado a luz e estava rabiscando desesperadamente. … Quando totalmente acordado lembrei-me de todos os incidentes, mas havia perdido a emoção requintada de medo -. A sensação real da presença hedionda do desconhecido”

Os escritos de Lovecraft apareciam regularmente nas paginas da revista Weird Tales, editada por Farnsworth Wright. Weird Tales publicou também muitos dos trabalhos de amigos correspondentes de Lovecraft, como Robert E. Howard, (o criador de Conan o bárbaro) Frank Belknap Long, and Clark Ashton Smith.  Estes, e outros escritores foram se correspondendo com Lovecraft, comentando os trabalhos uns dos outros, e o desenvolvimento de mecanismos ficcionais uns dos outros e o desenvolvimento de dispositivos ficcionais uns dos outros. Logo outros seres e conceitos foram sendo adicionados ao conjunto original de seres Cthulhuoides de Lovecraft.

A biblioteca mitológica de “livros proibidos” estava se expandindo – Clark Ashton Smith escreveu o ‘O Livro de Eibon’, por exemplo.

 

Os Grandes Antigos

 

No Panteão de Entidades Mitológicas de Lovecraft, Os Grandes Antigos, são os seres pan-dimensionais de pesadelo que continuamente ameaçam a Terra com destruição. Eles estão imersos “no sonho de morte” selados no fundo do oceano, ou além das estrelas. Eles podem ser invocados , quando as estrelas “estão alinhadas”, e pode entrar no mundo humano através de uma série de portais – pontos de poder, lentes mágicas, ou, como no caso de “O Horror de Dunwich”, através de ritos de congresso sexual entre aliens & Humanos.

Os Grandes Antigos são servidos por várias seitas humanas e não- humanas, em lugares selvagens e desolados, desde degenerados moradores do pântano , até os inumeráveis incestos de Whateley da região fictícia de Dunwich. Esses cultos estão continuamente se preparando tanto para trazer Antigos de volta, como para silenciar quem tropeçar em todo o terrível segredo da existência dos Antigos. O retorno dos Antigos envolve, como Wilbur Whateley coloca em O Horror de Dunwich, a “limpeza” da Terra, ou seja, a destruição da humanidade, exceto de alguns adoradores e escravos. Esta referência apocalíptica pode ser afirmada como metafórica, ou como se referindo a uma real catástrofe física – holocausto nuclear, talvez? Talvez Lovecraft quisesse enfatizar que os Grandes Antigos não dariam mais atenção a aniquilar humanos do que poderíamos dar para limpar água sobre uma mesa. Exatamente por isso os Antigos nunca desejam retornar para a Terra é claro, mas pode-se supor que, para eles, a Terra está perto dos bares e convenientemente nas rotas dos ônibus!

Lovecraft é cuidadoso ao apontar que muitos dos antigos são, de fato burros, ou “deuses idiotas”. Somente aqueles que já são loucos ou degenerados pode adorá-los com sinceridade. Apenas a Nyarlathotep, o Caos Rastejante, é dada uma aparência humana de inteligência. Os Grandes Antigos não formam um panteão distinto, e no original de Lovecraft , não correspondem á elementais ou á qualquer noção de bem contra o mal – essas modificações da Mitologia vieram de August Derleth. Em resumo, os Grandes Antigos são enormes, horríveis, e famintos. Pouco se sabe sobre eles, uma vez que uma boa olhada é geralmente mais do que qualquer ser humano pode suportar, e a maioria dos encontros são inevitavelmente terminais na ficção de Lovecraft – para o protagonista e inocentes transeuntes (a quem as criaturas muitas vezes consomem como aperitivo, antes de fazer do narrador o prato principal).

Os críticos do estilo de Lovecraft se queixaram de que seus narradores parecem ser um pouco densos, quando se trata de reconhecer o que está acontecendo ao seu redor. Eles leem as cartas de parentes desaparecidos, ou talvez o Necronomicon, enquanto à sua volta, seres monstruosos estão caçando desordenadamente pelo distrito e comendo pessoas, e depois rondando a casa do narrador causando efeitos estranhos que ele geralmente descarta como subsidência, ou anomalias atmosféricas. Depois de ler alguns contos, o leitor sabe o que esperar, e pode facilmente tornar-se impaciente com o narrador. Mas esta é uma fórmula realista do comportamento humano. Quando confrontado com a possível realidade de existirem monstros que estão lá fora à espera para nos comer, em seguida, assumir a nossa aparência, quem pode não procurar explicações alternativas? O pobre ocultista que salta e diz: “é tudo o trabalho dos sapos do lodo venusiano” será no mínimo taxado de ridículo, se não for internado num hospício, deixando os sapos lodo venusianos para realizar seus planos malignos.

Diante do exposto anteriormente, não é surpreendente que os ocultistas contemporâneos tenham se interessado pelos Mitos de Cthulhu .Os Rituais lovecraftianos serviram de inspiração para escritores como Anton LaVey (os rituais satânicos), Michael Aquino (chefe do Templo de Set), e Peter Carroll (Illuminates of Thanateros). Kenneth Grant, em sua progressão de obras ‘Typhoniana’ fez muito uso das imagens de Lovecraft em suas interpretações da obra de Aleister Crowley e de Austin Osman Spare. Michael Bertiaux, chefe do La Coulvoire Noir, a ordem de Voodoo-gnóstico, também incorporou elementos dos Mitos de Cthulhu em sua obra. Após a tentativa de August Derleth para condensar os Mitos de Cthulhu em uma cosmologia identificável, vários ocultistas (nomeadamente Kenneth Grant) tentaram classificar os Grandes Antigos em um sistema de “identificação” de um tipo ou de outro.

Embora tais tentativas exibam a propensão dos ocultistas ocidentais para a edificação metaestruturas simbólicas , sinto que tal sistematização dos Grandes Antigos é um desvio do sentido original que Lovecraft deu á eles . Sua própria natureza  eles são “primais e indimensionaveis ” – eles mal podem ser percebidos e para sempre ‘espreitam’ na borda da consciência . As energias mais potentes são aqueles que não podem ser nomeadas – isto é, elas não podem ser claramente apreendidas ou concebidas . Eles permanecem intangíveis e tênues. Muito parecido com a sensação de despertar de um pesadelo aterrorizado, mas incapaz de se lembrar o porquê. Lovecraft entendeu isso muito bem, provavelmente porque a maioria de seus escritos  evoluiu a partir de seus sonhos. Lovecraft Negou o significado objetivo dos sonhos , incluindo o seu próprio ,  a maioria dos estudiosos de sua obra sugeriram  que não há fundamento nas reivindicações exóticas feitas pelos intérpretes Ocultistas da obra de Lovecraft – e para ser justo, Lovecraft negou positivamente crença nas doutrinas irracionalistas com a qual ele era associado por ocultistas e místicos .

Os Grandes Antigos ganharam seu poder pela indefinição e intangibilidade . Uma vez que eles são formalizados em símbolos e sistemas  e relacionados com metasistemas intelectuais, algo de sua intensidade primal é perdida. William Burroughs coloca desta forma :

“Assim que você nomeia algo, retira o seu poder … Se você pudesse olhar a morte de frente ela perderia o poder de matá-lo. Quando você pergunta a morte por suas credenciais, seu passaporte é por tempo indeterminado.”

 

O Lugar dos Caminhos Mortos

 

Uma forte ocorrência ao longo da escrita de Lovecraft é a rejeição da modernidade. Muitas vezes existe um conflito de crença entre cidadãos “civilizadas” que desconsideram a superstição e folclore, e camponeses que estão mergulhados na sabedoria dos Grandes Antigos, mas de alguma forma degenerados e decadentes. Lovecraft alude continuamente a natureza ‘degenerada’ dos adoradores de Cthulhu, provavelmente refletindo suas atitudes à raça e realização intelectual. Mas há também uma consciência de que a degeneração das práticas de culto com a influência dos Antigos diminui no mundo, devido à propagação do materialismo e a decadência das comunidades rurais. Alguns comentaristas acusaram Lovecraft de atitudes racistas, mas eu sinto que seria mais correto dizer que na ficção de Lovecraft, nenhum indivíduo ou grupo pode escapar de sua sensação de desgraça; cientistas, em algum momento se deparam com os segredos terríveis do universo, enquanto camponeses, eslavos e ilhéus  vão  se degenerar em mutantes não-humanos. Feiticeiros que convocam os Grandes Antigos, em algum momento pagam o preço da sanidade ou morte. Todo mundo tem como premio a loucura terrível do “o que está lá fora, esperando” á apenas um passo de distância. Depois de ter passado para a esfera dos Antigos, não há como voltar atrás…

Não há espaço para conceitos dualistas de “bem” e “mal” na mitologia de Lovecraft. Não há ‘“forças da luz “, que podem ser invocadas para nos salvar do horror dos Antigos. Eles podem, ocasionalmente, serem enganados, mas isso é mais uma questão de pura sorte do que qualquer habilidade ou capacidade da parte dos seres humanos. Mesmo se um dos protagonistas de Lovecraft sobreviver a um encontro com os Grandes Antigos, ele carregará para sempre  o conhecimento do que se esconde “lá fora”.

Alguns intelectuais, entusiasmados pelas visões de Lovecraft, tentaram colocar seus mitos dentro de uma perspectiva Nietzschiana – dizendo que os Grandes Antigos representam as forças do Super homem que se destaca para além do bem e do mal, consciente apenas dos desejos primitivos e paixões. Lovecraft deixa claro que os Grandes Antigos não são meramente um reflexo da moralidade tradicional – que eles têm sobre tanto interesse em nós, quanto temos pelos bovinos. Mais cedo ou mais tarde, mesmo um adorador devoto de Cthulhu será dobrado sob a faca.

A visão de Lovecraft, seu “futilitarianismo” – é particularmente apropriado para a nossa época atual, em que os pensadores pós-modernistas afirmam ter destruído o futuro e saqueado o passado em uma busca incessante de ‘chutes’ de um tipo ou outro. Cada vez mais, estamos ecoando a declaração de Hassan I Sabbah que “nada é verdadeiro” – ou, talvez mais precisamente, nada pode ser confiável. Vivendo como nós, em uma sociedade que está rapidamente transformando-se por meio de computadores, filmadoras e TV a cabo; em que os homens podem andar na Lua, enquanto outros vendem seus filhos para os traficantes de órgãos; onde os mistérios da vida são detectados durante a manipulação de DNA e as realidades da morte de outras pessoas servidas no horário nobre da televisão, é fácil ser cínico, e difícil, para qualquer conceito de verdade,  permanecer inviolável e essencial.

Em uma cultura onde as bordas da atualidade estão desmoronando no futuro a uma taxa que é muitas vezes difícil de compreender, o senso de conexão com o tempo histórico é vaga, para dizer o mínimo. As contradições do pós-capitalismo fragmentaram realidade consensual a um ponto onde a alienação e impotência são endêmicos em nossa cultura. Ocultismo oferece uma alternativa: um senso de conexão, talvez, para o tempo histórico em que o mundo era menos complicado, em que os indivíduos eram mais ’em contato’ com o seu ambiente, e, tinham maior controle sobre suas vidas. Os subgêneros ocultos mantém-se um espelho da realidade consensual.

Os ocultistas prontamente zombam das religiões escravagistas e depois entram êxtase na compra de um genuíno conjunto de meias que pertenceram á Aleister Crowley. Fala-se muito do mago como um rebelde perigoso ou anarquista da alma por pessoas que tomam por “legítima” a sua posição, acenando com suas patentes, certificados e copyrights.

 

 

por Phil Hine – Trad. Giuliana

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/h-p-lovecraft-visionario-do-vazio/