A Lei da Atração e o Poder do Pensamento

William Atkinson

Somos uma parte daquilo que pensamos ser. Nossa atitude mental geral determina o caráter das ondas de pensamentos que recebemos dos outros assim como os pensamentos que emanam de nós mesmos.  Essas são as premissas deste livro que foi uma das principais inspirações para a Lei da Atração apresentada em best sellers como “O Segredo”.

A pessoa que acredita piamente em si mesma e mantém uma atitude mental forte de confiança e determinação não será afetada por pensamentos adversos e negativos de desânimo e fracasso que vêm de outras pessoas.  Por outro lado quando tais pensamentos negativos  alcançam alguém cuja atitude mental está num tom mais baixo isso aprofunda ainda mais seu estado negativo.

Neste livro William Atkinson mostra como direcionar nossos pensamento para com eles atrair em nossa vida apenas coisas positivas e, assim, por meio da Lei da Atração, conquistar todos os seus objetivos.

A Lei da Atração no mundo do pensamento

Quando pensamos emitimos vibrações. Essas vibrações são tão reais quanto as vibrações que se manifestam em luz, calor ou som, mas de uma natureza muito mais sútil. Somente agora a ciência começa a avançar a ponto de poder detectar algo dela por meio de seus instrumentos mais avançados como a ressonância magnética e o eletroencefalograma. Quando entendemos completamente as leis que governam a produção e transmissão dos pensamentos podemos usar estas vibrações no dia a dia como fazemos com outras formas mais conhecidas de energia como a luz, o magnetismo e a eletricidade.

A intensidade de nossos pensamentos varia o tempo todo. Nossas ondas de pensamentos influenciam a nós mesmos e aos demais e tem em si um poder de atração. A forma como pensamos atrai  pensamentos ao nosso redor. Pensamentos amorosos atrairão para nós o amor dos outros, assim como circunstâncias e ambientes amorosos. Pensamentos de raiva, ódio, crueldade, maldade e ciúme, atraem todo tipo de pensamentos e comportamentos semelhantes. Seja qual for nosso pensamento,  se ele for forte ou de longa duração isso nos tornará um centro de atração para as correntes de pensamentos correspondentes produzidas pelas outras pessoas.

Um exemplo simples de entender isso é o do homem rabugento que consegue deixar a família toda com o mesmo humor antes do final do café da manhã. Por outro lado o homem – ou a mulher – cheio de amor verá amor por toda parte e atrairá o amor de sua família. Quem aprende o funcionamento das Leis da Atração do Pensamento consegue se manter calmo e positivo mesmo em ambientes desarmônicos. Estas pessoas permanecem tranquilas e seguras mesmo nas piores tempestades e pela força de sua disciplina mental transformam todo o ambiente ao seu redor. A consequência lógica disso é que apesar de muitas vezes gostarmos de jogar a culpa nos outros  no fundo somos realmente responsáveis pelo ambiente que nos cerca.

As ondas de pensamento e seu processo de produção

Assim como estamos rodeados por um grande mar de ar na Terra, também estamos cercados por um grande mar da Mente. Estas ondas de pensamento se movem por meio desse vasto oceano em todas as direções, exatamente como as ondas sonoras. Sua intensidade fica cada vez menor de acordo com a distância percorrida, pois sua jornada entra em choque com outras ondas que também foram emitidas.

Assim como uma nota de violino pode fazer um cristal vibrar e “cantar”, um pensamento forte também pode despertar vibrações similares nas mentes afinadas para recebê-los. Muitos dos pensamentos errantes que chegam até nós foram assim emitidos por outras pessoas.Mas a não ser que entendamos como nos tornar afinados para receber estes pensamentos é quase certo que estes pensamentos não nos afetarão. Nossa postura mental é o que em geral que define a qualidade das ondas mentais que absorvemos.

A Auto Sugestão

Quando sua mente opera de maneira positiva você se sente forte, esperançoso, brilhante, animado, feliz, confiante e corajoso e se permite trabalhar bem, cumprir seus objetivos  e progredir em sua estrada para o sucesso. Esses pensamentos positivos, se forem fortes, afetam outras pessoas e fazem com que elas cooperem com você. Por outro lado pensamentos negativos fazem você se sentir deprimido, fraco, passivo, inerte, medroso e incapaz.

Mas lembre-se de que você possui o poder de tornar seus pensamentos positivos com a força de vontade. Há mais pessoas vibrando no plano negativo do pensamento e portanto mais vibrações negativas em nossa atmosfera mental. Mas felizmente, isso é contrabalanceado pelo fato de um pensamento positivo ser infinitamente mais poderoso do que um negativo; e se pela força ou pela vontade quisermos podemos excluir os pensamentos depressivos e receber as vibrações correspondentes a nossa atitude mental já modificada. Esse é o poder das Auto-Sugestões e das Afirmações.

Auto-Sugestões servem a uma dupla função:

  • Tendem a estabelecer novas atitudes mentais em nós e assim nos transformar
  • Tendem a aumentar o tom mental para receber ondas de pensamentos positivos na mesma vibração

Não se permita ser afetado pelos pensamentos negativos daqueles que o cercam. Você aprenderá a seguir como fazer isso.

Uma conversa sobre a mente

Na ciência mental temos que aprender a distinguir entre esforço ativo e esforço passivo: um esforço ativo é o resultado de um impulso mental direto e proposital feito no momento do esforço. Um esforço passivo é o resultado de um esforço ativo anterior da própria mente, da mente de outras pessoas ou de um pensamento ancestral.

Em outras palavras, o esforço ativo traça seu próprio caminho enquanto o esforço passivo segue o caminho mais percorrido. O esforço ativo é sempre recém-nascido, novo, enquanto que o esforço passivo é o eco de uma criação anterior e na verdade, muitas vezes resultado de impulsos vibratórios de eras longínquas.

A função ativa cria, transforma ou destrói. A passiva  cumpre a função dada  e obedece ordens e sugestões. Na verdade todos os impulsos de pensamento depois de lançados a uma tarefa continuam a vibrar passivamente até que sejam corrigidos ou excluídos por impulsos subsequentes. Mas a continuidade desse impulso original reforça o pensamento e torna sua correção ou eliminação cada vez mais difícil.

Essa é a origem tanto dos hábitos como dos vícios, pois um esforço ativo original pode se tornar uma repetição contínua estritamente automática.  Por outro lado pensamentos continuados passivamente podem ser neutralizados ou corrigidos por um esforço ativo.

A constituição da Mente

O ser humano pode construir sua mente e fazer dela o que desejar. Na verdade todos nós estamos construindo nossas mentes a cada hora de nossas vidas conscientemente ou não.  A maioria de nós por meio de nossas escolhas acabamos formando uma condição mental da qual não temos nenhum controle. Mas aqueles de nós que conseguem ver um pouco além da superfície nos tornamos criadores conscientes de nossa mentalidade.Não nos sujeitamos mais a influência dos outros, mas nos tornamos mestres de nós mesmos.

Mas antes de poder se beneficiar dessa força poderosa é preciso primeiro desenvolver um domínio sobre o eu inferior que criamos sem consciência até aqui. Um homem ou mulher que é escravo de seus humores, paixões, desejos animais e faculdades inferiores não estão aptos ainda a reivindicar os benefícios do controle da própria mente. Não se trata de ascetismo mas auto-controle. É a primeira afirmação do Eu Superior sobre as partes subordinadas de uma pessoa.

Um Auto-Sugestão poderosa

Repita essa frase para si mesmo: “Eu estou afirmando o controle do meu Eu Verdadeiro.”

Repita essas palavras de maneira positiva durante o dia por pelo menos uma hora, especialmente quando estiver confrontado com condições que deixem tentado a agir por impulso. Repita essa frase ao acordar e ao ir dormir mas não meramente como um papagaio. Construa a imagem mental do Eu Verdadeiro impondo seu controle sobre os planos inferiores da mente.

Como exercício concentre sua mente no Eu Superior e se inspire nele quando sentir-se tentado a se render as induções da parte inferior da sua natureza. Quando sentir que vai explodir de raiva, afirme o “Eu” e sua voz se baixará. Quando se sentir aborrecido ou mal-humorado lembre-se quem você é e supere esses sentimentos inferiores.

Não permita que seus pensamentos controle você. O Eu Verdadeiro é o Rei e os pensamentos são seus súditos, não seus mestres. Se você seguir essas práticas será uma pessoa completamente diferente ao final de um ano.

O segredo da vontade

Todo mundo reconhece o poder da vontade  e como ela pode ser usada para superar os maiores obstáculos.  Uma vontade  incansável esmaga as dificuldades, os perigos e faz o impossível se tornar inevitável. O problema é que a maioria de nós não queremos trabalhar duro. Somos mentalmente fracos e preguiçosos. Mas aos interessados existem algumas coisas práticas que podem ser feitas:

A segunda coisa é exercitar sua vontade como faria com um músculo. Para isso realize todos os dias pelo menos uma tarefa desagradável. Uma vez por dia você deve deixar de fazer algo que gostaria e deve fazer algo que não gostaria.  Não se trata de auto-sacrifício ou submissão, mas um verdadeiro exercício de vontade. Qualquer pessoa pode fazer algo agradável alegremente mas só alguém com a vontade exercitada consegue fazer algo desagradável alegremente. Este deve ser seu objetivo.

Nesses momentos use o poder da auto-sugestão. Repita para si mesmo “Eu estou usando minha força de vontade.” Repita isso com frequência, mas principalmente  quando se deparar com algo que pede o exercício da sua força de vontade. Carregue essas palavras com seus pensamentos. Na verdade o pensamento é tudo e as palavras apenas pinos onde penduramos nossos pensamentos. Diga então com verdade e sentimento.

Como se tornar imune ao pensamento prejudicial

O medo é um hábito da mente que se prende em nós por meio de pensamentos negativos, mas do qual podemos nos livrar com um esforço especial e perseverança. E a melhor maneira de superar o medo é assumir uma atitude mental de coragem, assim como a melhor maneira de se livrar da escuridão é permitir a entrada da luz. Comece a fazer coisas que você já estaria fazendo com maestria se o medo não o impedisse de tentar.

 

Isso é verdadeiro para todos os pensamentos negativos. É uma perda de tempo tentar lutar contra hábitos ruins. Em vez disso deve-se preencher o espaço mental que ocupam com hábitos mentais bons. Não se deve lamentar a tristeza, mas sim alimentar a alegria. Não faça acordos com o medo, a tristeza ou a raiva. Sempre que surgirem eles devem ser expulsos com um sentimento bom de natureza oposta, que por definição possui maior força de manifestação.

A Lei do Controle Mental

Seus pensamentos devem ser fiéis criados de sua vontade não apenas quando você está acordado, mas também quando você dorme. Boa parte de nosso trabalho mental acontece quando nossa mente consciente está em repouso. É por isso que muitas vezes pela manhã temos a solução de problemas que nos atormentaram na noite anterior.

De fato, para quem conhece as leis do pensamento é um absurdo ficar acordado esquentando a cabeça com estes problemas. Depois que você já pensou o suficiente em algo, muitas vezes a melhor coisa a fazer é pensar em algum outro assunto – algo que seja o mais diferente possível do pensamento que o afligia. Deixe-o ir e mantenha sua atenção em algo totalmente diferente pelo esforço da sua vontade. Quando você menos esperar a solução estará nos seus braços. Tente você mesmo.

Treinando o hábito da mente

A melhor coisa que a educação das leis mentais pode nos oferecer é fazer de nosso sistema nervoso um aliado em vez de um inimigo. Para tanto precisamos tornar automáticas e habituais o mais cedo possível o maior número de ações úteis que pudermos e evitar cuidadosamente que elas se desenvolvam de maneira a se tornar desvantajosas.  Ao determinar um novo hábito e abandonar um antigo tenha o cuidado de  fazer com que a iniciativa seja a mais forte e decidida possível. Nunca deixe acontecer uma exceção até que o novo hábito esteja seguramente enraizado em sua vida.

Sempre que tiver que fazer uma escolha, faça a si mesmo a pergunta: “quais dessas ações eu gostaria que se tornasse um hábito em minha vida?”  Devemos sempre estar alerta a formação de hábitos indesejáveis. Pode não haver mal nenhum ao fazer uma coisa insignificante. Mas pode existir um grande perigo em estabelecer o hábito de fazer algo que é prejudicial. Lembre-se: cada vez que você resiste a um impulso sua vontade e resolução se tornam mais fortes.

A Psicologia da Emoção

As emoções se tornam mais profundas pela repetição. Se alguém se permite um estado de sentimento tomar o controle sobre ela, achará ainda mais fácil se render a mesma emoção na segunda oportunidade. Se uma emoção indesejada começar um processo de fazer morada em sua cabeça, expulse-a logo no início. Embora não possamos controlar as emoções podemos sempre controlar a forma como nos expressamos. Recuse-se a expressar uma emoção negativa e ela morrerá. Conte até dez antes de soltar sua raiva e logo a ocasião lhe parecerá ridícula. Por outro lado, se passar o dia se lastimando e respondendo tudo com voz abatida a melancolia não irá embora tão cedo.

A poder da atração e a força do desejo

Para se obter algo é preciso que a mente se apaixone pelo objeto de desejo e esteja consciente de sua existência a ponto de quase eliminar qualquer outra coisa. Você precisa se apaixonar por aquilo que deseja conquistar assim como se tivesse encontrado a mulher ou homem com o qual deseja se casar. Não quer dizer que precise se tornar um monomaníaco pelo assunto, nem perder o interesse pelas outras coisas da vida, pois a mente precisa de recreação, descanso e mudanças. Mas é preciso que tudo adquira uma importância secundária diante do seu objetivo maior.

Se você dispersa sua força de pensamento em vários sonhos, seu subconsciente não saberá como agradá-lo e como resultado você não terá toda a ajuda que poderia ter.  Além disso, você perderá o resultado poderoso do pensamento concentrado para estabelecer os detalhes dos seus planos. A pessoa que tem a mente cheia de interesses e desejos fracassa ao exercer o poder da atração que só é conquistado pelas pessoas cuja paixão é predominante.

Se você for uma pessoa muito ambiciosa selecione qual dos seus objetivos é o maior e então ame-o ardentemente. Mas apaixone-se só por uma coisa de cada vez.

Lei não sorte

Muitas pessoas chamam o sucesso de sorte e o fracasso de azar. A verdade é que tudo no universo funciona baseado em leis imutáveis. Não há sorte ou azar, mas apenas causas e consequências. A Lei da Atração é um nome para uma manifestação da grande Lei única que rege todas as coisas. A lição mais importante deste livro é que pensamentos são coisas reais. Eles partem de você em todas as direções, combinando-se com pensamentos similares emitidos por outras pessoas ou sendo neutralizados por pensamentos de caráter distintos. Você é atraído e influenciado pelos pensamentos que são formados pelos seus hábitos e decisões, mas também pelos pensamentos das pessoas que o rodeiam.

Ao afinar sua mente no tom da coragem, da confiança, força e sucesso você vai atrair pensamentos de natureza semelhante, pessoas de natureza semelhante, e coisas e situações que se encaixam em seus padrões mentais. Pegue o melhor que há no mundo do pensamento. O melhor já está lá esperando você se harmonizar com ele.  Não se conforme com nada menos do que isso. Encontre as vibrações certas e embarque em uma parceria com as outras boas mentes do universo.

Conclusão

A proposta principal deste livro é que pensamentos não são apenas abstrações. São coisas reais que interagem com o mundo a sua volta. Assim como ondas sonoras e eletromagnéticas, os pensamentos uma vez emitidos se propagam em todas as direções. Nossa mente tem a capacidade não só de criar pensamentos mas também de absorver pensamentos semelhantes emitidos por outras pessoas. Vivemos assim em um imenso oceano mental em que tanto influenciam como somos influenciados pelo meio ao nosso redor.

Nossa mente não recebe qualquer tipo de pensamento, mas apenas aqueles que estão afinados com sua própria vibração. Pensamento de otimismo, coragem e alegria atraem e reforçam pensamentos semelhantes. Da mesma maneira pensamentos de tristeza, apatia e covardia atraem e alimentam uns aos outros.

Infelizmente a maioria das pessoas não controla as próprias emoções mentais. O resultado é que se tornam escravas dos pensamentos e não o mestre deles. Essas pessoas acabam sendo emissores contínuos e inconscientes de pensamentos desordenados e quase sempre negativos. A boa notícia é que um pensamento positivo é muito mais forte que um negativo. Uma onda de amor pode afastar muitos pensamentos de ódio, medo e tristeza.

Devemos sempre observar que tipo de pensamento estamos atraindo. Para tomar as rédeas deste mecanismo podemos usar o poder da auto-sugestão. Todos os dias, diversas vezes, ao acordar e ir dormir, devemos afirmar para nós mesmos que somos nós que estamos no controle. Não podemos permitir que sentimentos aleatórios que surgem do nada controlem nossa vida, e assim devemos extirpá-los tão logo se manifestem.

Para fortalecer o poder da força de vontade temos também que exercitá-la assim como fazemos com outras de nossas qualidades físicas e mentais. Todos os dias faça alguma coisa que coloque sua vontade a prova. Pode ser não comer uma sobremesa ou evitar falar palavrões. Não é uma questão moral, mas sim de autocontrole. Também eduque-se para fazer coisas desagradáveis alegremente, simplesmente para tornar sua força de vontade mais poderosa.

Mas temos que ter cuidado não apenas com o tipo de pensamento que atraímos mas também o que emitimos. Isso porque uma vez que nos permitimos algum pensamento ele se torna mais fácil e provável de ser repetido no futuro. Nesse sentido devemos usar a força do hábito ao nosso favor. Diante de toda decisão devemos nos perguntar: esse comportamento é algo que eu gostaria de ver sempre se repetindo em minha vida?

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-lei-da-atracao-e-o-poder-do-pensamento/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-lei-da-atracao-e-o-poder-do-pensamento/

A Exaltação de Inana

Por Enheduanna.

1-12. Senhora de todos os poderes divinos, luz resplandecente, mulher justa vestida de esplendor, amada de An e Uraš! Senhora do céu, com o grande diadema, que ama o bom cocar condizente com o ofício de sacerdotisa, que se apossou de todos os seus sete poderes divinos! Minha senhora, você é a guardiã dos grandes poderes divinos! Você assumiu os poderes divinos, você pendurou os poderes divinos de sua mão. Você recolheu os poderes divinos, apertou os poderes divinos em seu peito. Como um dragão, você depositou veneno em terras estrangeiras. Quando como Iškur você ruge para a terra, nenhuma vegetação pode resistir a você. Como um dilúvio que desce sobre aquelas terras estrangeiras, poderosa do céu e da terra, você é sua Inana.

13-19. Chovendo fogo ardente sobre a Terra, dotada de poderes divinos por An, senhora que monta em uma besta, cujas palavras são ditas por ordem sagrada de An! Os grandes ritos são seus: quem pode entendê-los? Destruidora das terras estrangeiras, você confere força à tempestade. Amada de Enlil, você fez um terror terrível pesar sobre a Terra. Você está a serviço dos comandos de An.

20-33. Ao seu grito de guerra, minha senhora, as terras estrangeiras se curvam. Quando a humanidade se apresenta diante de você em silêncio respeitoso diante do brilho e da tempestade aterrorizantes, você compreende o mais terrível de todos os poderes divinos. Por sua causa, o limiar das lágrimas se abre e as pessoas caminham pelo caminho da casa das grandes lamentações. Na vanguarda da batalha, tudo é derrubado diante de você. Com sua força, minha senhora, dentes podem esmagar sílex. Você avança como uma tempestade. Você ruge com a tempestade rugindo, você troveja continuamente com Iškur. Você espalha a exaustão com os ventos da tempestade, enquanto seus próprios pés permanecem incansáveis. Com o tambor de lamento, um lamento é levantado.

34-41. Minha senhora, os grandes deuses Anuna voam e fogem de você para os montes de ruína como morcegos velozes. Eles não ousam ficar diante de seu olhar terrível. Eles não ousam confrontar seu rosto terrível. Quem pode esfriar seu coração furioso? Sua raiva malévola é grande demais para esfriar. Senhora, seu humor pode ser acalmado? Senhora, seu coração pode se alegrar? Filha mais velha de Suen, sua raiva não pode ser esfriada!

42-59. Senhora suprema sobre as terras estrangeiras, quem pode tomar qualquer coisa de sua província? Depois de ter estendido sua província sobre as colinas. Se você franzir a testa para as montanhas, a vegetação está arruinada. Seus grandes portais e palácios são incendiados. Sangue é derramado em seus rios por causa de você, e seu povo deve beber, mas não poderiam beber. Eles devem liderar suas tropas cativas antes de você, todos juntos. Eles devem espalhar seus regimentos de elite para você, todos juntos. Eles devem colocar seus jovens vigorosos ao seu serviço, todos juntos. Tempestades encheram os lugares de dança de suas cidades. Eles conduzem seus jovens antes de você como prisioneiros. Vossa santa ordem foi proferida sobre a cidade que não declarou que “As terras estrangeiras são suas!”, onde quer que não tenham declarado que “É de seu próprio pai!”; e é trazido de volta sob seus pés. O cuidado responsável é removido de seus currais. Sua mulher já não fala afetuosamente com o marido; na calada da noite ela já não se aconselha com ele, e não lhe revela mais os pensamentos puros de seu coração. Vaca selvagem impetuosa, grande filha de Suen, senhora maior que An, quem pode tomar qualquer coisa de sua província?

60-65. Grande rainha das rainhas, saída de um ventre sagrado para poderes divinos justos, maior que sua própria mãe, sábia e prudente, senhora de todas as terras estrangeiras, força vital do povo fervilhante: recitarei seu canto sagrado! Verdadeira deusa digna de poderes divinos, suas esplêndidas declarações são magníficas. De coração profundo, boa mulher com um coração radiante, vou enumerar os seus bons e santos poderes divinos para você!

66-73. Eu, En-ḫedu-ana, a sacerdotisa en, entrei em meu santo ĝipar a seu serviço. Carreguei a cesta ritual e entoei a canção de alegria. Mas oferendas fúnebres em vez da minha refeição ritual foram trazidas, como se eu nunca tivesse morado lá. Aproximei-me da luz, mas a luz estava escaldante para mim. Aproximei-me daquela sombra, mas fui coberta por uma tempestade. Minha boca de mel tornou-se escória. Minha capacidade de acalmar os ânimos desapareceu.

74-80. Suen, conte a An sobre Lugal-Ane e meu destino! Que An desfaça isso para mim! Assim que você contar a An sobre isso, An me liberará. A mulher tirará o destino de Lugal-Ane; terras estrangeiras e inundações estão a seus pés. A mulher também é exaltada e pode fazer as cidades tremerem. Dê um passo à frente, para que ela esfrie seu coração para mim.

81-90. Eu, En-ḫedu-ana, recitarei uma oração para você. A ti, santa Inana, darei livre vazão às minhas lágrimas como cerveja doce! Eu direi a ela que seja feita a “Sua decisão!” e darei a ela “Saudações!”. Não fique ansiosa sobre Ašimbabbar. Em conexão com os ritos de purificação do santo An, Lugal-Ane alterou tudo dele, e despojou An do E-ana. Ele não ficou admirado com a maior divindade. Ele transformou aquele templo, cujas atrações eram inesgotáveis, cuja beleza era infinita, em um templo destruído. Enquanto ele entrou na minha frente como se fosse um sócio, na verdade ele se aproximou por inveja.

91-108. Minha boa vaca selvagem divina, expulse o homem, capture o homem! No lugar do encorajamento divino, qual é a minha posição agora? Que An extradite a terra que é uma rebelde malévola contra seu Nanna! Que um esmague aquela cidade! Que Enlil o amaldiçoe! Que seu filho queixoso não seja aplacado por sua mãe! Senhora, com os lamentos iniciados, que seu navio de lamentação seja abandonado em território hostil. Devo morrer por causa de minhas canções sagradas? Meu Nanna não prestou atenção em mim e não decidiu meu caso. Ele me destruiu totalmente em território renegado. Ašimbabbar certamente não pronunciou um veredicto sobre mim. O que me importa se ele o pronunciou? O que é para mim se ele não o pronunciou? Ele ficou ali em triunfo e me expulsou do templo. Ele me fez voar como uma andorinha da janela; Eu esgotei minha força de vida. Ele me fez caminhar pelos arbustos espinhosos das montanhas. Ele me despojou da legítima coroa e vestimenta da sacerdotisa. Ele me deu uma faca e um punhal, dizendo-me: “Estes são ornamentos apropriados para você.”

109-121. Senhora mais preciosa, amada por An, seu coração sagrado é grande; que seja amenizado em meu nome! Amada esposa de Ušumgal-ana, você é a grande senhora do horizonte e zênite dos céus. Os Anuna se submeteram a você. Desde o nascimento você era a rainha-filha: quão suprema você é agora sobre os Anuna, os grandes deuses! Os Anuna beijam o chão com os lábios diante de você. Mas meu próprio julgamento ainda não está concluído, embora um veredicto hostil me envolva como se fosse meu próprio veredicto. Eu não estendi minhas mãos para o meu canteiro florido. Não revelei os pronunciamentos de Ningal a ninguém. Minha senhora amada de An, que seu coração se acalme em relação a mim, a brilhante sacerdotisa en de Nanna!

122-138. Deve ser conhecido! Deve ser conhecido! Nanna ainda não se manifestou! Ele disse: “Ele é seu!” Seja conhecido que você é elevada como os céus! Seja conhecido que você é larga como a terra! Seja conhecido que você destrói as terras rebeldes! Seja conhecido que você ruge nas terras estrangeiras! Seja conhecido que você esmaga cabeças! Saiba que você devora cadáveres como um cachorro! Saiba que seu olhar é terrível! Seja conhecido que você levanta seu olhar terrível! Saiba que você tem olhos brilhantes! Saiba que você é inabalável e inflexível! Saiba que você sempre está triunfante! Que Nanna ainda não falou, e que ele disse “Ele é seu!” te fez maior, minha senhora; você se tornou a maior! Minha senhora amada por An, vou contar todas as suas raivas e tronos! Eu amontoei as brasas no incensário e preparei os ritos de purificação. O santuário E-ešdam-kug espera por você. Seu coração não pode ser apaziguado em relação a mim?

139-143. Já que estava cheio, cheio demais para mim, grande senhora exaltada, recitei esta canção para você. Que um cantor repita para você ao meio-dia o que foi recitado para você na calada da noite: “Por causa de sua esposa cativa, por causa de seu filho cativo, sua raiva aumenta, seu coração não se acalma”.

144-154. A senhora poderosa, respeitada na reunião de governantes, aceitou suas oferendas dela. O coração sagrado de Inana foi apaziguado. A luz era doce para ela, o deleite se estendia sobre ela, ela estava cheia da mais bela beleza. Como a luz da lua nascente, ela exalava prazer. Nanna saiu para olhá-la corretamente, e sua mãe Ningal a abençoou. As ombreiras da porta a saudaram. O discurso de todos para a mestra é exaltado. Louvado seja a destruidora de terras estrangeiras, dotada de poderes divinos por An, a minha senhora envolta em beleza, à Inana!

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Fonte:

The exaltation of Inana (Inana B), by Enheduanna.

https://etcsl.orinst.ox.ac.uk/cgi-bin/etcsl.cgi?text=t.4.07.2#

© Copyright 2003, 2004, 2005, 2006 The ETCSL project, Faculty of Oriental Studies, University of Oxford.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/paganismo/a-exaltacao-de-inana/

Hipátia de Alexandria

Quando tive a idéia de escrever sobre a vida das Grandes Mulheres do Passado a primeira personagem real que me veio à cabeça foi Hipátia de Alexandria. Me lembro do dia que li sobre ela em um de meus livros relacionado ao Império Romano. Havia apenas um pequeno parágrafo… a sensação que passava era de que só estava ali para preencher espaço e dizia apenas: Hipátia de Alexandria, matemática e filósofa, foi diretora da Academia de Alexandria (Biblioteca de Alexandria) e morreu em 415. Nada mais, apenas essa curta frase, porém foi o suficiente para despertar em mim a curiosidade. Afinal, quem fora essa mulher que não só fora matemática e filósofa numa época impensável para as mulheres exercerem tais funções, como chegou a ser diretora de uma das maiores escolas da antiguidade?! Dali para frente procurei pesquisar tudo o que podia. Infelizmente não nos chegou muito sobre a vida dessa Grande Mulher, mas o que temos vale como lição para se carregar para sempre.

Hipátia nasceu em Alexandria por volta do ano 370 D.C. Para aqueles que não lembram, Alexandria é uma cidade do Egito e foi fundada por Alexandre da Macedônia, popularmente conhecido como Alexandre, O Grande.

Na antiguidade Alexandria foi um grande pólo de cultura e livre expressão, mas, na época em que Hipátia nasceu, a cidade encontrava-se em uma disputa entre a Igreja Católica, que crescia em poder rapidamente, e as correntes filosóficas que punham em cheque as doutrinas da nova religião.

Filha de Theon, filósofo, matemático e astrônomo, diretor do Museu de Alexandria; Hipátia creceu em um ambiente cercado de cultura sendo guiada por seu pai nos estudos da Matemática e Filosofia. Ele acreditava no ideal grego da “mente sã em um corpo sadio” (“men sana in corpore sano”) estimulando a filha a exercitar tanto a mente como o corpo, contam as lendas que ele desejava torna-la “um ser perfeito”.

Ainda jovem viajou a Atenas para complementar seus estudos. Era conhecida na Grécia como “A Filósofa”, já demonstrando cedo sua profunda sabedoria. Sócrates Escolástico relata:

“Havia em Alexandria uma mulher chamada Hipátia, filha do filósofo Theon, que fez tantas realizações em literatura e ciência que ultrapassou todos os filósofos de seu tempo. Tendo progredido na escola de Platão e Plotino, ela explicava os princípios da filosofia a quem a ouvisse, e muitos vinham de longe para receber seus ensinamentos.”

Ainda em Atenas tornou-se discípula na Escola de Plutarco e professava ensinamentos Neoplatônicos. Ao retornar a sua pátria, foi convidada para assumir uma cadeira na Academia de Alexandria como professora. Por volta dos 30 anos, tornou-se diretora da Academia. Seus conhecimentos abrangiam a Filosofia, a Matemática, Astronomia, Religião, poesia e artes. Era versada em oratória e retórica. Escreveu diversos livros e tratados sobre álgebra e aritmética. Seu interesse por mecânica e tecnologia a levaram a conceber instrumentos utilizados na Física e na Astronomia, como o astrolábio plano, o planisfério e um hidrômetro. Infelizmente suas obras foram perdidas durante o incêndio que destruiu a Biblioteca de Alexandria. Tudo o que chegou-nos vem através de suas correspondências.

Um de seus alunos Hesíquio o hebreu, escreveu:

“Vestida com o manto dos filósofos, abrindo caminho no meio da cidade, explicava publicamente os escritos de Platão e de Aristóteles, ou de qualquer filósofo a todos os que a quisessem ouvi-la… Os magistrados costumavam consulta-la em primeiro lugar para administração dos assuntos da cidade”.

Hipátia foi uma Grande Mulher que nasceu na época errada. Sua defesa fervorosa ao livre pensamento, seus ensinamentos Neoplatônicos, sua observação de que o universo era regido pela leis da matemática a caracterizaram como herege em um momento onde o Cristianismo triunfava sobre o Paganismo. Enquanto Orestes, um ex-aluno, fora prefeito da cidade, sua vida estivera protegida. Mas quando Cirilo tornou-se bispo de Alexandria, determinado a destruir todo o movimento pagão, sua morte foi anunciada.

Em uma tarde de 415 D.C. retornando a sua casa, Hipátia foi abordada por uma turba de cristãos furiosos que a arrancaram de sua carruagem, arrastaram-na para uma igreja e lá rasgaram-lhe as roupas deixando-a completamente nua e assim puseram-se a retalhar seu corpo esfolando-lhe a carne de seus ossos utilizando para isso cascas de ostras afiadas. Por fim desmembraram-lhe o corpo e os atiraram as chamas.

Morria com ela toda uma era de liberdade e florescimento filosófico e cultural em Alexandria e certamente para todos que viviam sobre a espada afiada da nova religião.

Carl Sagan escreveu em seu livro Cosmos:

“Há cerca de 2000 anos, emergiu uma civilização científica esplêndida na nossa história, e sua base era em Alexandria. Apesar das grandes chances de florescer, ela decaiu. Sua última cientista foi uma mulher, considerada pagã. Seu nome era Hipátia. Com uma sociedade conservadora a respeito do trabalho da mulher e do seu papel, com o aumento progressivo do poder da Igreja, formadora de opiniões e conservadora quanto à ciências, e devido a Alexandria estar sob o domínio romano, após o assassinato de Hipátia, em 415, essa biblioteca foi destruída. Milhares dos preciosos documentos dessa biblioteca foram em grande parte queimados e perdidos para sempre, e com ela todo o progresso científico e filosófico da época.”

Essa Grande Mulher nutriu toda uma época com a luz do conhecimento e do saber. Calaram-lhe a voz e empurraram sua lembrança para as profundezas do esquecimento. Mas, dois milênios não foram suficientes para apagá-la da memória de todos os famintos pela verdade. Hipátia retorna forte e vibrante ao alcance daqueles que buscam por seus ensinamentos. Ainda há pouco, enquanto terminava minha última pesquisa para esse artigo, me deparei com a notícia de que o diretor Alejandro Amenábar recentemente lançou no festival de Cannes o filme Ágora, que conta ao mundo a vida de Hipátia de Alexandria.

Texto da coluna Alma Mater, do Nerd Somos Nozes

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/hip%C3%A1tia-de-alexandria

Hércules e o Cinturão de Hipólita

A missão do herói era conseguir o cinturão da rainha das amazonas, mulheres conhecidas por sua bravura. Mas não poderia obtê-lo pela força: precisaria ganhá-lo conquistando o coração da guerreira. Esse trabalho fala sobre a importância de construirmos laços afetivos duradouros. Ensina que a arte de conquistar uma pessoa não se faz pela força nem criando ilusões e falsas aparências, mas pelo respeito ao outro e pela coragem de mostrar quem verdadeiramente somos.

Mitologia

Este trabalho leva Hércules até às praias onde vivia a grande rainha, que reinava sobre todas as mulheres do mundo conhecido. Elas eram suas vassalas e guerreiras ousadas. Nesse reino não havia homens, só as mulheres reunidas em torno da sua rainha, Hipólita.

A ela pertencia o cinturão que lhe fora dado por Vénus, a rainha do Amor. Aquele cinturão era um símbolo da unidade conquistada através da luta, do conflito, da aspiração, da maternidade e da sagrada Criança para quem toda a vida humana está verdadeiramente voltada.

“Ouvi dizer”, disse Hipólita às guerreiras, “que está a caminho um guerreiro cujo nome é Hércules, um filho do homem e no entanto um filho de Deus; a ele eu devo entregar este cinturão que eu uso. Deverei obedecer a ordem, oh Amazonas, ou deveremos combater a palavra de Deus?” Enquanto as Amazonas reflectiam sobre o problema, foi passada uma informação, dizendo que ele se havia adiantado e estava lá, esperando para tomar o sagrado cinturão da rainha guerreira.

Hipólita dirigiu-se ao encontro de Hércules. Ele lutou com ela, combateu-a, e não ouviu as palavras sensatas que ela procurava dizer. Arrancou-lhe o cinturão, somente para deparar-se com as mãos dela estendidas e lhe oferecendo a dádiva, oferecendo o símbolo da unidade e amor, de sacríficio e fé.

Entretanto, tomando-o, ele, matou quem lhe dera o que ele exigira. E enquanto estava ao lado da rainha agonizante, consternado pelo que fizera, ele ouviu a voz do mestre que dizia: “Meu filho, por que matar aquilo que é necessário, próximo e caro? Por que matar a quem você ama, a doadora das boas dádivas, guardiã do que é possível? Por que matar a mãe da Criança sagrada?

Novamente registamos um fracasso. Novamente você não compreendeu. Ou redimirá este momento, ou não mais verá a minha face.”

Hércules partiu em silêncio deixando as mulheres lamentando a perda da liderança e do amor. Quando ele chegou às costas do grande mar, perto da praia rochosa, ele viu um monstro das profundezas trazendo presa em suas mandíbulas a pobre Hesione. Os seus gritos e suspiros elevavam-se aos céus e feriram os ouvidos de Hércules, perdido em remorsos e sem saber que caminho seguir. Dirigiu-se prontamente em sua ajuda quando ela desapareceu nas cavernosas entranhas da serpente marinha.

Esquecendo-se de si mesmo, Hércules nadou até o monstro e desceu até o fundo do seu estômago onde encontrou Hesione. Com a sua mão esquerda ele agarrou-a e segurou-a junto a si, enquanto com a sua espada se esforçou para abrir caminho para fora do ventre da serpente até a luz do dia. E assim ele salvou-a, equilibrando seu feito anterior de morte.

Pois assim é a vida: um ato de morte, um ato de vida, e assim os filhos dos homens, que são filhos de Deus, aprendem a sabedoria, o equilíbrio e o caminho para andar com Deus.

Simbologia

Este trabalho está associado à Virgem, signo onde a consciência de Cristo é concebida e nutrida através do período de gestação até que por fim em Peixes, o signo oposto, o salvador mundial nasce.

Note-se que nos dois Trabalhos onde Hércules vence, na verdade, são os dois onde ele se saiu mal justamente com os seus opostos, femininos (as éguas bravias e a rainha das Amazonas).

Assim a guerra entre os sexos é de origem antiga, na verdade, está inerente na dualidade da humanidade. O Leão é o rei dos animais. Nele alcançamos a personalidade integrada; mas em Virgem é dado o primeiro passo para a espiritualidade, a alma é chamada de filho da mente, e Virgem é regida por Mercúrio, que leva a energia da mente.

É em virgem que, o mau uso da matéria representa o maior erro de toda a peregrinação de Hércules: atentar contra o Espírito Santo; quando ele não compreendeu que a rainha das Amazonas devia ser redimida pela unidade, e não morta, e foi aí que ele sentiu a dor do signo de Peixes, diante do sofrimento humano provocado pela violência e pela agressividade, criada muitas vezes pela falta de diálogo ou até mesmo de compreensão.

O cinto é o símbolo da união e do amor, e ele mata quem lho quisera entregar por amor a Deus. Aqui o herói é abatido pela depressão e pena que sente de si mesmo, característica de Peixes.

Ao salvar Hesione da boca do monstro, Hércules compreende que tudo o que se faz, se reflecte no universo eternamente, e que para que o ser pare de sofrer, deve compreender que a dor é uma forma de redenção e aprendizagem que nos conduz ao crescimento. Que a aceitação da imperfeição do mundo é um caminho para atingir a perfeição.

Enquanto nos martirizamos com a culpa do mal feito, não assumimos a responsabilidade dos erros, mas quando aceitamos esta responsabilidade, transformamos esta dor em atitude, fazemos o bem e libertamo-nos das amarras do sofrimento. É neste momento e com esta tomada de consciência que passamos do trabalho ao serviço à humanidade.

Caminho de Iniciação

Na Mitologia Esotérica, o Nono Trabalho de Hércules corresponde à conquista do Cinto de Ouro de Hipólita – a Raimnha das Amazonas – viva alegoria do aspecto psíquico feminino oculto e mais delicado de nossa íntima natureza.

Durante este trabalho, o Iniciado é atacado naquilo que ele tem de mais fraco: o sexo. As Amazonas, suscitadas por Hera (um dos aspectos de nossa Mãe Divina), assediam com seus encantos femininos o caminhante que adentra seus domínios; usam de todas as artimanhas da sedução para infligir fatal derrota ao nobre e valente guerreiro que está prestes a conquistar sua rainha com seu precioso cinto, uma vez que o cinto sem a rainha não possui nenhuma beleza…

Mas infeliz do Hércules que se deixa cair ou seduzir por essas beldades dotadas de beleza enfeitiçadora. Apoderar-se do Cinto de Hipólita consiste, justamente, em não se deixar seduzir ou cair sob o hipnotismo de tais provocações sexuais femininas; significa dominar totalmente os sentidos, a mente e as sensações físicas e psíquicas. O Hércules que tem total domínio sobre si acaba conquistando a Rainha das Amazonas, não pela força, mas pelo amor, pelo respeito e pela veneração ao Feminino Cósmico.

Netuno é o Senhor da Magia. Portanto, torna-se evidente que o inferno de Netuno é habitado pelos magos negros mais terríveis e pela magas tenebrosas de beleza fatal e maligna.

Durante este Trabalho, o alegórico Castelo do tenebroso Klingsor, autêntico templo de magia negra, deve ser totalmente destruído. Quando o castelo cair em pedaços, o Iniciado, vencedor da terrível batalha contra si mesmo, ganha o direito de ingressar no Céu do Senhor Netuno, o Empíreo, a região dos Serafins, criaturas do amor e expressões diretas da Unidade Divina.

#Hércules #Mitologia

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Agrapha Extra-Evangelho

[Agraha é o nome dado à coleção de frases que não estão escritas nos Evangelhos, mas em outros escritos].

Durante os três anos de sua pregação, Jesus Cristo falou para multidões, em diversos lugares. Muito do que ele disse ficou registrado nos Evangelhos do Novo Testamento.

Frases, sentenças e palavras, conhecidas como agrapha, acabaram sendo transmitidas pela tradição oral e mais tarde registradas também. Esses registros foram sendo copiados, recopiados e traduzidos, muitas vezes sofrendo alterações conforme a interpretação da época ou da pessoa que lidava com esses textos.

E ESTANDO com eles à mesa, recomendou-lhes que não se retirassem de Jerusalém, mas que aguardassem a promessa do Pai, “que de mim ouvistes, porque João batizou em água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo daqui a alguns poucos dias”. […] Disse-lhes: “Não vos cabe conhecer os tempos ou as possibilidades que o Pai determinou com sua própria autoridade; mas recebereis a força do Espírito Santo que virá a vós, e dareis testemunho de mim tanto em Jerusalém quanto em toda a Judéia e Samaria, até os confins da terra”.

2    E preciso […] recordar as palavras do Senhor Jesus, pois que ele disse: “Maior ventura é dar que receber”.

3    Fazei isto em minha memória. […] Fazei isto, tantas quantas vezes bebeis, em minha memória.

4    Porque isto vos confirmamos de acordo com a palavra do Senhor: que nós, os vivos, os que sobreviverem até a Vinda do Senhor, estaremos na dianteira dos que dormiram.

5    Eis que aqui venho como ladrão. Venturoso é aquele que vigia e conserva suas vestes de forma que não ande desnudo e deixe à vista suas vergonhas.

6    […] mas vós haveis de crescer partindo do pequeno, e não procurando diminuir o grande. Assim, quando vos acercardes, convidados a um banquete, não vos julgueis dignos de ocupar os assentos de honra à mesa, nem vos acerqueis sequer deles, para que não venha alguém mais digno que vós e, chegando o anfitrião, vos diga: “Sentai-vos um pouco mais para baixo”, deixando-vos embaraçados. Mas se vos aproximais dos lugares mais humildes, onde estejam os que são menos que vós, vos dirá o anfitrião: “Chegai-vos mais para cima”; isto vos será útil.

7    E aqueles (apóstolos) se desculpavam dizendo: “Este mundo infiel e iníquo está sob o poder de Satã, que não permite aos impuros de espírito perceber a verdadeira força de Deus. Manifesta, pois, vossa justiça”, diziam os apóstolos a Cristo. Mas Ele lhes dizia: “Foram cumpridos os anos de duração do poder satânico, mas se aproximam outras coisas terríveis. Eu me entreguei à morte por aqueles que pecaram, para que voltem à verdade e não tomem a pecar, e para que sejam herdeiros da glória espiritual e incorruptível que está no céu”.

8    No mesmo dia, tendo visto alguém que trabalhava no Sábado, lhe disse: “Homem, se te dás conta do que fazes, feliz de ti; mas, se não, és um execrável transgressor das leis”.

9    Porque vim a vós como aquele que serve, não como aquele que está sentado à mesa; mas vós vos haveis engrandecido em meu serviço como aquele que serve.

10    E, ao ser batizado, saiu da água uma grande luz que o rodeou, de forma que se encheram de temor todos aqueles que ali estavam.

11    E, de repente, na hora terça, as trevas se estenderam por toda a fase da terra e anjos desceram dos céus. E ao ressuscitar Jesus com o esplendor de Deus vivo, eles se elevaram juntamente com ele, e nesse instante sobreveio a Luz. Então, as mulheres se acercaram do sepulcro e viram removida a pedra.

12    Bateram no peito dizendo: “Ai de nós! Este era o Filho de Deus. Eis que é chegada a ruína de Jerusalém”.

13    “Assim,” disse, “aqueles que pretendem ver-me a mim e conseguir meu reino, hão de alcançar-me à custa de atribulações e sofrimentos.”

14    Por isso disse também Nosso Senhor Jesus Cristo: “No estado em que vos surpreenda. nesse estado vos julgarei”.

15    Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, disse: “E necessário que venham os justos, e afortunado aquele por quem eles vêm”.

16    Meu segredo, para mim e para os filhos de minha casa.

17    Pedi as grandes coisas e vos serão dadas por acréscimo as pequenas.

18    Justamente, pois, as escrituras, em seu desejo de que sejamos dialéticos dessa categoria, nos exorta: “Sede banqueiros experimentados, recusando o mal e guardando o bem.”

19    E o Senhor disse: “Saí (livres), vós que o quereis, de vossas ligaduras”.

20    Disse, pois, Jesus: “Fiz-me fraco pelos fracos e passei fome pelos famintos e sede pelos sedentos”.

21    Por isso disse o Salvador: “Salva-te a ti e à tua alma”.

22    E outra vez disse o Senhor: “Aquele que está casado
não seja repudiado e o celibatário não se case. Aquele que está determinado a viver no celibato, segundo seu propósito, que permaneça celibatário”.

23    E no Evangelho está escrito: “A Sabedoria envia seus filhos”.

24    Para quem disse o Senhor: “Aquele que anda perto de mim anda perto do fogo; mas aquele que está longe de mim, longe está de meu reino”.

25    Por isso disse: “Eis-me aqui diante de mim, aquele que fala por intermédio dos profetas”.

26    […] o ditame evangélico que diz: “Passa o aspecto ilusório do
mundo”.

27    Pois disse: “Viste a teu irmão? Dás-te conta de que viste a Deus?”

28    Falando de Maria, disse Martha que a tinha visto sorrir. Maria retrucou: “Não ri, pois Jesus anunciou em sua pregação que o fraco seria salvo pelo forte”‘.

29    Portanto, dizia-lhes o Senhor: “Por que vos admirais dos prodígios? Uma herança vos darei que não possui o mundo inteiro”.

30    Também disse, acerca da caridade: “o amor cobre grande número de pecados”.

31    “Se alguém comunga do corpo do Senhor e faz uso de purificações será amaldiçoado”.

32    Porque dizem as Escrituras: “O homem que não foi tentado não foi provado”.

33    Pois disse: “Muitos virão em meu nome vestidos por fora com pele de ovelha, mas por dentro são lobos vorazes”; e: “Haverá cismas e heresias”.

34    Pois assim disse: “Compadecei-vos para que tenham compaixão de vós; perdoai para que vos perdoem; conforme vosso comportamento em relação aos demais, assim será o deles com relação a vós; do mesmo modo que dais, se vos dará; como julgais, assim sereis julgados; na medida em que sejais bons, usarão de benevolência para convosco; a vara com que medis, servirá de medida para vos mesmos”.

35    Disse-se também acerca disso: “Que sue a esmola em tuas mãos até que saibas a quem vais dá-la”.

36    Diz o Senhor: “Quando o lenho se inclinar e voltar a subir e quando dele destilar sangue…”

37    Estando o Senhor a falar a seus discípulos acerca do futuro reino dos santos, e ponderando sobre quão glorioso e admirável ele será, Judas, maravilhado ante a descrição, disse: “Quem, pois, poderá ver estas coisas”? E o Senhor replicou: “Será dado ver tais coisas àqueles que se fizerem dignos delas”.
Assim mesmo, os anciãos que conheceram a João, o discípulo do Senhor, recordaram-se de tê-lo ouvido referir-se aos ensinamentos e ditos de Jesus acerca daqueles tempos: “Dias virão em que brotarão as vides, tendo cada cepa dez mil sarmentos; e em cada sarmento haverá dez mil ramos, e em cada ramo haverá dez mil rebentos novos; e em cada rebento novo, dez mil cachos de uva, que ao serem espremidos, darão vinte e cinco mil metretas de vinho. E quando algum dos santos for tomar um cacho de uva, lhe dirá um outro: ‘Eu sou melhor; toma-me a mim e por meu intermédio bendiz ao Senhor’. Da mesma forma, cada grão de trigo haverá de produzir dez mil espigas, e cada espiga haverá de dar dez mil grãos, e cada grão haverá de dar cinco libras dobradas de pura flor de farinha. E todos os demais frutos, ervas e sementes proliferarão segundo esta proporção. Todos os animais que se nutrirem destes alimentos provenientes da terra serão pacíficos entre si, viverão amigavelmente e estarão submetidos ao homem com toda a sujeição”.
Destas coisas dá também testemunho, por escrito, Papias, homem antigo, discípulo de João e companheiro de Policarpo, no quarto de seus livros; pois são cinco os que escreveu. E acrescentou estas palavras: “Mas isto é digno de crédito unicamente para os que crêem. E Judas, o traidor, ao não crer e perguntar de que maneira realizaria o Senhor tais multiplicações, refere-se ao que disse o Senhor: “Vê-las-ão aqueles que forem capazes de chegar até ali”.

38    “Sede fortes na batalha e lutai com a serpente antiga e alcançareis o reino eterno”, diz o Senhor.

39    Disse Jesus (a quem Deus saúda): “Quantas são as árvores! Mas nem todas dão frutos. Quantos são os frutos! Mas nem todos são bons. Quantas são as ciências! Mas nem todas são úteis”.

40    Disse Jesus (a quem Deus saúda): “Não se atiram pérolas aos porcos, pois a sabedoria vale mais que as pérolas, e quem a deprecia, é pior que os porcos”.

41    Disse Jesus (a quem Deus saúda): “Como vai ser contado entre os sábios aquele que depois de estar trilhando a senda que conduz à vida futura dirige seus passos na direção deste mundo? E como vai ser contado entre os sábios aquele que busca a palavra de Deus para anunciá-la aos demais e não para colocá-la em prática”?

42    Disse Jesus (a quem Deus saúda): “Feliz daquele que abandona a paixão do momento por uma promessa que ainda não viu”.

43    Disse Jesus (a quem Deus saúda): “Acautelai-vos ao olhar para as mulheres, pois evidentemente isto gera a concupiscência no coração, e é suficiente para excitar a tentação”.

44    Disse Jesus (a quem Deus saúda): “Não podem estar juntos ao mesmo tempo no coração do crente o amor a este mundo e o amor à vida futura. Da mesma maneira que a água e o fogo não podem tampouco permanecer juntos em um mesmo continente”.

45    Disse Jesus (a quem Deus saúda): “Quem busca ao mundo se parece com o homem que bebe água do mar. Quanto mais bebe, tanto mais aumenta sua sede, até que a água acabe por matá-lo”.

46    Disse o Messias (a quem Deus saúda): “Feliz daquele a quem Deus ensina seu livro porque não morre soberbo depois disso”.

47    Dizia Jesus (a quem Deus bendiz e saúda) aos filhos de Israel: “Recomendo-vos a água pura, as ervas silvestres e o pão de cevada. E tendes cuidado com o pão de trigo, pois nunca podereis dar a Deus abundantes graças por ele”.

48    Conta-se que Jesus, filho de Maria (aos quais Deus saúda e enche de bênçãos), disse: “A assembléia de sábios! Haveis abandonado a senda da verdade e haveis amado o mundo. Não obstante, deixais aos vossos reis o domínio deste, ‘ assim como eles hão deixado a vós, o da sabedoria”.

49    Conta-se que Jesus (a quem Deus saúda) disse a seus apóstolos: “Não vos ensinei a glorificar-vos, mas a trabalhar. A sabedoria não consiste certamente em palavras de sabedoria, mas em sabedoria aplicada”.

50    Disse o Messias (a quem Deus saúda): “A assembléia de apóstolos! Quantas são as lâmpadas que o vento apaga! A quantos servos de Deus a vaidade corrompe”!

51    Disse Jesus (a quem Deus saúda): “Dois são meus amigos. Quem os ama, a mim me ama; quem entretanto, os odeia, a mim me odeia; são, a saber, a pobreza e a mortificação da cobiça”.

52    Coisa mais gloriosa, feliz e perfeita é dar e não receber.

53    Se fordes fiéis no que é pequeno, que se vos dará no grande?

54    Pedi o grande e se vos dará o pequeno. Pedi o celestial e se vos dará o terreno.

55    Poucas coisas do mundo servem para a única coisa necessária.

56    Resistamos a toda a iniqüidade, tenhamos-lhe ódio.

57    Sede bons banqueiros.

58    Se alguém quiser conduzir Israel à penitência, e por meu nome crer em Deus, que remita seus pecados. E ao término de doze anos, que saia do
mundo e não diga: “Não te ouvimos”.

59    Se vos congregais em meu nome e não cumprirdes meus mandamentos, vos abo-minarei e vos direi: “Afastai-vos de mim, não vos conheço, obreiros da iniqüidade”.

60    Sois como cordeiros em meio aos lobos. Mas depois de sua morte, os cordeiros não temem os lobos. Assim, não temais que vos matem, pois que depois de haverdes morrido, nada poderão fazer-vos de mal. Mas temei aqueles que, depois de mortos, têm poder para atirar vosso corpo e vossa alma à Gehenna do fogo.

61    Conservai casta vossa carne e sede imaculados em vosso mais secreto interior, para que possais ser dignos da vida eterna.

62    Eu sou a porta que conduz ao Pai. Minha carne é o pão da vida celeste e meu sangue uma bebida divina. O Espírito Santo sabe de onde vem e pare onde vai, e castiga o que esta oculto.

63    Ninguém conheceu o Pai, a não ser o Filho, e aquele a quem o Filho o quis desvelar nem ninguém conhece o Filho a não ser o Pai.

64    Sempre desejo ouvi sermões inspirados pelo Espírito Divino, e não tenho quem mos pronuncie.

65    Se não fizerdes o destro como o sinistro, o que está acima como se estivesse embaixo, e o que está à frente como se estivesse atrás, não conhecereis o Reino de Deus.

66    Mais vale morrer em Deus que reinar sobre a terra toda, de um extremo ao outro, pois de que serve ao homem possuir o mundo inteiro se é escravo em sua alma?

67    A qualquer um que te peça, dá-lhe.

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Fonte: http://livrosapocrifosbis.blogspot.com/2013/02/agrapha-extra-evangelho.html

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/agrapha-extra-evangelho/

Ahriman e Angra Mainya – As Origens do Mal

Ahriman, o princípio do mal na religião da Pérsia, atual Irã, foi personificado como Angra Mainya, “o espírito destrutivo”, que introduziu a morte no mundo.

Ele liderou as forças do mal contra o exército de Spenta Mainya, “o espírito santo”, que ajudou Ahura Mazdah, “o sábio senhor” e o vencedor final na guerra cósmica. “No princípio”, disse o profeta Zoroastro, “os espíritos gêmeos eram conhecidos como um gêmeo bom e o outro gêmeo mau, em pensamento, palavra e ação. Entre eles, os sábios escolheram sabiamente, não os tolos”.

E quando esses espíritos se encontraram eles estabeleceram a vida e a morte para que no final os seguidores do engano encontrassem a pior existência, mas os seguidores da verdade com o senhor sábio.”

Ahura Mazdah disse a Zoroastro que Angra Mainya havia atrapalhado seus planos de transformar a Pérsia em um paraíso terrestre. Todas as criaturas do “sábio senhor” foram criadas com livre arbítrio: tanto seres espirituais quanto humanos.

Angra Mainya, o irmão gêmeo do “espírito santo”, simplesmente tinha prazer em “escolher as piores coisas”. A fim de frustrar Ahura Mazdah, ele introduziu geada no inverno, calor no verão, todos os tipos de desastres e outros males que a humanidade tem que suportar. Ele também criou o dragão Azhi Dahaka, que trouxe ruína à terra.

Quando Ahura Mazdah criou as estrelas no céu, ele “saltou para o céu como uma serpente” e em oposição a essas luminárias celestiais ele formou os planetas, cuja influência funesta então caiu sobre o mundo. Ao longo da criação houve uma clivagem e antagonismo tão profundos que sob o governo dos sassânidas (226-632) surgiu um mito para suavizar o dualismo.

Os espíritos gêmeos tornaram-se descendentes de um ser primordial pré-existente, Zurvan Akarana, o “tempo infinito”. Porque Zurvan jurou que o primogênito deveria governar como rei e Ahriman “rasgou o ventre” para reivindicar o título, o maligno recebeu o reino do mundo por um período limitado.

“Depois de nove mil anos”, insistiu Zurvan, “Ohrmazd reinará e fará tudo de acordo com sua boa vontade”.

A principal arma de Ahriman era “az”, a concupiscência, presente de Zurvan. “Por meio desse poder”, observou o doador, “tudo o que é seu será devorado, até mesmo sua própria criação”. Ahriman aceitou porque era “como sua própria essência”.

A demoníaca Az, um princípio feminino, incluía mais do que desejo sexual: igualmente era dúvida, um enfraquecimento do intelecto.

Possivelmente a ideia representa um empréstimo do budismo, que via em avidya, “ignorância”, e sua manifestação, o desejo, a razão para o ciclo interminável do ser condicionado. Az também estava ligado ao demônio maniqueísta de mesmo nome, “a mãe de todos os espíritos malignos”. No zoroastrismo, no entanto, o papel da mulher definitivamente não é claro.

O homem era quase santo, uma criação destinada a desempenhar o papel principal na destruição do mal. Quando Ahriman viu o homem justo, ele desmaiou. Por três mil anos ele ficou desmaiado… até que a prostituta acusada, Jeh, o despertou.

Jeh, a prostituta, cobiçou o homem e “contaminou-se” com o “espírito destrutivo” para obter seu desejo. Mas esse conceito apareceu apenas em textos posteriores; originalmente o papel da mulher parecia ser para a propagação da espécie.

Os Gathas, que são os hinos ou canções que se considera terem sido escritos pelo próprio Zoroastro, dizem que no início Ahriman (Angra Mainya), o Espírito Maligno, estava amplamente separado do Bom. No entanto, Ahriman é tomado de curiosidade e inveja e tenta invadir o território do bem, que é luminoso e puro.

Ele é repelido e a vitória é atribuída ao efeito infalível da oração (o Ahuna Vairya) proferida por Ohrmazd, que entretanto decide permitir a Ahriman um período de semi-vitória, para melhor conquistá-lo de uma vez por todas no final.

Este último tema pode soar familiar, pois é proeminente no cristianismo: o diabo reinará na terra antes do fim do mundo e depois será lançado de volta ao inferno para sempre. Ahriman, que se diz ter vivido em um lugar escuro sob a terra, é considerado por alguns como o antecessor do diabo, ou Satanás.

De acordo com outra lenda, um pouco embutida na doutrina oficial do Mazdaísmo (outro nome do Zoroastrismo), a origem de Ahriman, embora incerta, decorre das dúvidas de Zurvan (o Tempo Infinito), que também gerou Ohrmazd. Zurvan, gerado do deus supremo, ofereceu sacrifícios por mil anos para ter um filho e, no final, duvidou da eficácia de seus próprios atos.

Ahriman foi o resultado da dúvida de Zurvan, enquanto Ohrmazd foi gerado a partir dos méritos dos sacrifícios de Zurvan.

A mitologia em torno dos gêmeos, os irmãos espirituais, Ahriman e Ohrmazd, gerados por Zurvan, foi incorporada nas religiões do Zoroastrismo, Maniqueísmo e Budismo. A mitologia tornou-se teologia, ou em alguns casos vice-versa.

No entanto, o tema, ou crença, existe atualmente: o bem contra o mal, e no final o bem inevitavelmente vencerá o mal.

Talvez esse mito seja mais fato do que parece, os gêmeos do bem e do mal eram filhos do próprio Tempo já que o conceito de uma guerra entre o bem e o mal parece ter obcecado o pensamento da humanidade desde tempos imortais. A.G.H.

Referências:

Cotterell, Arthur, A Dictionary of World Mythology, New York, G. P. Putman’s Sons, 1980, p. 63

Grimal, Pierre, Larousse World Mythology, Secaucus, New Jersey, Chartwell Books, 1965, pp. 194-195

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Fonte:

https://www.themystica.com/ahriman/

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/demonologia/ahriman-e-angra-mainya-as-origens-do-mal/

As Sete Consonâncias

Excelente texto enviado pelo músico Alvaro Coutinho

Astrologia e música são dois estudos que aparentam ser bem diferentes, afinal de contas, que relação há entre os astros celestiais e uma orquestra? Estranhamente, a correlação entre essas duas matérias sempre existiu, o que é de certa forma bem conveniente, ambas tratam de assuntos que sempre influenciaram o subconsciente do homem. A fascinação de uma pessoa ao olhar o céu estrelado pode se comparar a alguém escutando a Nona Sinfonia pela primeira vez.

Pitágoras, e a Musica Universalis

Esta associação vem de muito tempo, talvez o primeiro, ou mais notório filósofo a estudar isso viveu na Grécia cerca de 2.500 anos atrás, chamava-se Pitágoras de Samos, filósofo, matemático e místico que proporcionou grandes avanços para a humanidade em inúmeras ciências, matemática, astrologia, política, ética, geometria, metafísica… enfim, a lista segue. Todo mundo conhece por exemplo o seu teorema mais famoso (a² + b² = c²), mas essa equação é completamente eclipsada quando comparamos a importância dos estudos sobre música e sua magnum opus, a Musica Universalis.

Para Pitágoras era simples, matemática e música existem em tudo, afinal de contas “tudo é feito de números”, e como a música funciona por meio de funções, então logo, toda a matéria tem a sua música. Sabemos que a matéria reage a vibrações, ou a frequências diferentes, alguns ainda sugerem que matéria é energia condensada em vibrações fracas, logo, como toda vibração tem a sua “nota” específica, tudo o que existe emite um som e reage a sons diferentes. Na música sabemos que relações entre intervalos formam uma harmonia ou uma consonância.

Na época helênica clássica, não existia o conceito atual de notas, mas sim funções numéricas para cada relação de nota. Então, o que hoje seria, por exemplo, um intervalo de oitava (Dó a Dó) era antes uma função de 2:1, ou seja, a vibração emitida por uma corda é o dobro da frequência (Hz) emitida por uma outra coda afinada a uma oitava mais baixa, um intervalo de quinta (Dó a Sol) é 3:2, e por aí vai. Para fazer os seus estudos Pitágoras usava um instrumento chamado monocórdio, que era basicamente uma corda presa sobre uma caixa acústica e com uma ponte móvel, para assim formar notas diferentes.

Pitágoras percebeu então, que se ele dividisse a corda em diferentes regiões e tocasse ambas simultâneamente, ele teria uma combinação de notas que formaria a tal da consonância (do latim, soar junto, bem auto explicativo).

Mudando para a segunda área do assunto, os estudiosos da escola Pitagórica, tinham desenvolvido um conceito ancestral do héliocentrismo, ou seja, já sabiam que cada planeta possuia uma órbita padrão em relação ao sol que poderia ser expressada como uma razão numérica. Então, se ligarmos os pontos, podemos entender que cada planeta formaria uma consonância que influenciaria o comportamento humano e suas emoções. Para nós estudantes de astrologia isso soa bem familiar não?

Surgia assim a teoria da Música das Esferas. Seria Platão posteriormente que afirmaria, astronomia e música são estudos gêmeos em relação aos nosso sentidos: Astronomia para os olhos e Música para aos ouvidos. Claudius Ptolomeu seria o próximo a estudar e desenvolver novas ideias em cima da teoria de Pitágoras. E por fim, talvez o mais genial astrólogo e astrônomo de todos os tempos, Johannes Kepler [1].

Kepler, e a Harmonices Mundi

Kepler, com a sua incessante busca de tentar encontrar a linguagem de Deus no universo, estudou diversas áreas. Sua obra mais memorável, Mysterium Cosmographicum, constava a utilização de geometria, os Sólidos Platônicos para ser mais exato, para criar um modelo do sistema solar. Ele acreditava que estes cinco poliédros seriam sagrados e perfeitos por natureza, e que o criador teria utilizado-os para desenvolver o plano do universo.

Porém, suas pesquisas não se limitaram somente a geometria, ele logo se deparou com a antiga ideia da Música das Esferas. Enquanto os pensadores da sua época utilizavam esta teoria de forma metafórica, Kepler descobriu a harmonia presente dentro do movimento dos planetas analisando sua velocidade angular (este estudo está presente dentro do seu Harmonices Mundi), criando assim a forma final e mais aceita da música das esferas.

Após analisar as proporções musicais e os padrões orbitais, Kepler atribui aos planetas tais intervalos:

(Tradução: Divisões Harmônicas de uma corda, Estas são razões matemáticas para se criar intervalos que Kepler encontrou experimentando ambas consonâncias a respeito de uma corda inteira e a cada outra.) (Notem que não há os intervalos de 2ª, 7ª e 5ª dimunuta, o motivo disso é que estes intervalos não eram considerados harmônicos dentro da divisão) (Na imagem acima a razão de 6ªm está incorreto, na verdade ela é 3:5, não 4:5)

Intervalo (razão) – Planeta, aspecto/função harmônica.

Terça Menor (5:6) – Saturno, aspecto negativo/mediante.

Terça Maior (4:5) – Júpiter, aspecto positivo/mediante.

Quarta Justa (3:4) – Marte, aspecto neutro/sub-dominante.

Quinta Justa (2:3) – Terra, aspecto neutro/dominante. [2]

Sexta Menor (5:8) – Vênus, aspecto negativo/super dominante.

Sexta Maior (3:5) – Mercúrio, aspecto positivo/super dominante.

Oitava (2:1) – Sol, aspecto neutro/tônica. [3]

Esta classificação pode variar de autor para autor, Kepler não foi o único que realizou este estudo, porém, por ter sido um astrólogo extremamente genial, eu considero esta como a mais aceita, devemos levar em consideração também, que ele foi mais fiel as ideias de Pitágoras.

Outra questão a ser levada em conta é o fato de que a afinação padrão atual (A=440hz) é diferente da utilizada nos tempos de Pitágoras e até mesmo de Kepler, antigamente era utilizada a afinação de A=432hz (que por sinal se chama afinação pitagórica), então sim, nem sempre a música feita pelo homem soou da mesma forma, mas esse é assunto para um outro dia…

Considerações Finais

A beleza do nosso universo não se limita somente em leis de física e equações, nem mesmo a luzes brilhantes no céu, planetas girando e estrelas queimando, há muito mais para se sentir no cosmo. O universo por sua totalidade canta uma ópera que nossos limitados ouvidos não podem ouvir, mas que agem sobre todos nós de uma forma misteriosa e silenciosa.

Procuramos na música feita pelo homem uma beleza que não se pode expressar por imagens ou toques, a música é a arte mais abstrata que existe, e talvez por esta razão, a que mais toca a alma das pessoas. Tentamos alcançar a perfeição feita pelo universo (ou criador, ou natureza, quem ou o que fez não importa) porque assim nos sentiremos mais reconfortados, nos sentiremos como uma parte mais expressiva desta imensidão.

Cada um de nós é, afinal, um amontoado de notas mudas tentando se encaixar na grande sinfonia cósmica.

[2] Em algumas fontes o intervalo de quinta justa é associado ao Sol, enquanto a Terra em si não possui um intervalo definido.

[3] Também é comum associar a Lua ao intervalo de oitava.

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#Espiritualidade #Astronomia #Arte #Música #Astrologia #Ciência

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/as-sete-conson%C3%A2ncias

Gigantes

Entre os pergaminhos de Qumran foram encontrados fragmentos de uma obra conhecida como “Livro dos Gigantes”, que seria uma espécie de comentário ou complemento ao Livro de Henoc. O Livro dos Gigantes conta que Semihazah, o líder dos Vigilantes, teve dois filhos de sua esposa humana chamados ‘Ohyah e Hahyah. Também Baraq’el, o nono vigilante chefe de dezena, foi pai de Mahawai. – Além destes, entre os nomes de gigantes citados entre os fragmentos do mar morto constam os “amigos” «Hobabes e ADK»
A Segunda versão Etíope narra que Asbeel «deu um conselho aos filhos dos Anjos, fazendo com que corrompessem os seus corpos com as filhas dos homens.» (I Enoch LXIX). Assim, seguindo o exemplo dos pais, também “se contaminaram, os Gigantes e os Nefilim”, tomando esposas para “engendraram filhos” mas logo não havia alimento suficiente para todos, o que causou um grande problema entre seus súditos: «Os gigantes (diziam) que não lhes bastava a eles e a seus filhos (o alimento oferecido) […] e pediam muito para comer»

«Hobabes e ADK (perguntavam…): Que me dará para matar?»

Por fim, desesperados de fome, e não podendo ser satisfeitos com o trabalho humano, os Gigantes começaram a destruir praticamente tudo que encontraram pela frente: «A impiedade foi grande, e eles erravam em todos os seus caminhos.» Um curioso fragmento, menciona esta passagem do ponto de vista do próprio ‘Ohyah: «E com o vigor de meu braço e com a força de meu poder […] (abati) toda carne, e fiz guerra com eles. Porem não […] encontrei apoio para fortalecer-me, pois meus acusadores […] habitam nos céus e vivem com os santos, e não (posso vencê-los) […] pois eles são mais poderosos que eu.». – Mais tarde, ‘Ohyah e Hahyah tiveram pesadelos, “e o sonho fugiu de seus olhos”: «Chegou o frêmito das feras selvagens, e gritaram um bramido selvagem […] Assim lhe falou ‘Ohyah: “Meu sonho me abateu. […] fugiu o sonho de meus olhos ao ver a visão”». Os irmãos levantaram-se e foram a Shemihaza, seu pai, e lhe contaram seus sonhos. Hahyah relatou:

«Vi em meu sonho desta noite […] jardineiros; estavam regando (uma árvore…) numerosas raízes saíam de seu tronco […] olhei até que se fecharam as fontes (… e esgotaram-se) todas as águas e o fogo ardeu em todo (o tronco…) Aqui se acaba o sonho.»; «Então ‘Ohyah, seu irmão, reconheceu e disse ante os gigantes: Também eu vi em meu sonho esta noite algo extraordinário: O Poder dos céus descia à terra […] aqui acaba o sonho. Então se assustaram todos os Gigantes, e os Nefilim e chamaram Mahawai e ele veio a eles.»

Os gigantes buscavam quem lhes explicasse o sonho. Por isso suplicaram a Mahawai e lhe enviaram até Henoc, o escriba distinto, e lhe disseram: “Escuta sua voz e diz-lhe que te explique e interprete o sonho” Entretanto, a explicação de Henoc anunciava-lhes punição e morte pela “violência feita aos homens”: «Então castigou e não a nós, (os justos), mas a Azazel», e também aprisionou e capturou «aos filhos dos Vigilantes, os Gigantes; e não serão perdoados nenhum de seus queridos.» Então eles «se prostraram e choraram ante Henoc» – Procurando manter a calma, ‘Ohyah disse a Mahawai: «E não trema. Quem te mostrou tudo?»; Disse Mahawai: «Baraq’el, meu pai, estava comigo.»; «Apenas havia acabado Mahawai de contar o que (… Henoc) lhe disse: “Eu ouvi maravilhas. Se uma estéril pode dar à luz (ainda havia uma chance deles serem perdoados)…”» Mahawai deixou «a terra e cruzou a Desolação, o grande deserto», Então viu Henoc, chamou-o e lhe disse: «”Pela Segunda vez eu te peço um oráculo […] a tuas palavras, junto com todos os Nefilim da terra”»; «”Que saibamos de ti sua explicação”.» – Henoc, o escriba distinto, fez cópias em duas pequenas tábuas das epístulas escrevendo «em uma o testemunho dos gigantes (a Semihaza e a todos os seus companheiros) e na outra [o testemunho dos santos]». Então levou as tábuas «com todas as suas petições, por suas almas, por todas e cada uma de suas obras e por todos o que pediam: que houvesse para eles perdão e longevidade.» Mas o perdão lhes foi negado. Disse Henoc:

«Sabei que não (serão perdoadas …) vossas obras e as de vossas mulheres»; «(Serão castigadas) elas e seus filhos e as mulheres de seus filhos (…) por vossa prostituição na terra.»; «E vos acusa a vós, pelas obras de vossos filhos (…) a corrupção com a qual tendes corrompido (…) até a vinda de Rafael. Eis que haverá destruição (…) Agora, pois, desligai vossas correntes (…) e rezai.» || «Que não haja paz para voz.»

Depois de repreender os Vigilantes e seus filhos, Henoc falou aos justos: «Palavras de bênção com as quais abençoou Henoc, varão justo a quem foi revelada uma visão do Santo e do céu, pronunciou seus oráculos dizendo: A visão do Santo do céu me foi revelada e ouvi todas as palavras dos Vigilantes e dos Santos e, porque o escutei deles, eu soube e compreendi tudo. Não falarei para esta geração mas para uma geração futura. Agora falo acerca dos eleitos, sobre eles pronuncio meu oráculo dizendo: Sairá o grande Santo de sua morada, e o Deus eterno descerá sobre a terra e irá ao monte Sinai e aparecerá com seu grande exército, e surgirá na força de seu poder do alto dos céus. Todos os Vigilantes tremerão e serão castigados em lugares secretos em todas as extremidades da terra; todas as extremidades da terra se fenderão e eles serão possuídos de tremor e medo até os confins da terra. Fender-se-ão e cairão e se dissolverão os altos e as altas montanhas serão rebaixadas…»

Por Shirley Massapust

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/criptozoologia/gigantes/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/criptozoologia/gigantes/

A Luz que não é

Por Kenneth Grant, Nightside of Eden, Capítulo III.

SEGUNDO A sabedoria oculta a Consciência Cósmica se manifesta na humanidade como sensibilidade que se concentra em um centro individualizado de consciência e divide-se em sujeito e objeto. O sujeito se identifica com o princípio consciente como ego, e o objeto é o seu mecanismo de consciência. Esta identificação de consciência com ego é ilusória e portanto o Princípio de Consciência é velado. [68] O ego se imagina como sendo uma entidade distinta dos objetos que ele sente e, ao invés de pura sensação, audição, visão, gustação, conhecimento, existe a falsa suposição que ‘eu sinto’, ‘eu ouço’, ‘eu vejo’, ‘eu experimento’, ‘eu conheço’. É assim que o mundo fenomenal (o mundo das aparências) é representado para nós como Malkuth. O processo inteiro, de Kether a Malkuth, é o de coberturas sucessivas acompanhado de uma perda crescente de consciência do Princípio de Consciência, sendo o pleno propósito da encarnação a ‘redenção’ e reintegração do Princípio perdido.

Budistas e Advaitas consideram estes véus como totalmente ilusórios, ao passo que outros os consideram como modificações do Princípio original. Sob quaisquer pontos de vista em que estes sejam considerados o problema continua inalterado: como resolver o perpétuo jogo de esconde esconde [69] que Kether joga através dos véus primários de sujeito e objeto (Chokmah e Binah), sendo o nexo deste localizado em Daäth. A causa do mistério, glamour, ou ignorância como os Budistas o chamam, é a identificação inicial e mal entendida do Self com seus objetos. Isto é causado principalmente pelo fato que, como os Qabalistas reivindicam, “Kether está em Malkuth e Malkuth está em Kether, porém de uma maneira diferente’. A presença de Kether em Malkuth [70] cria uma ilusão de realidade em todos os objetos. Este glamour engendra sensibilidade a qual desnorteia e submerge o Self em ilusão. Srí Ramakrishna compôs e cantou muitos hinos de transcendente beleza à sua ‘Maya encantadora do mundo’ ou jogo mágico de glamour e ilusão gerada nos sentidos da humanidade que confunde o irreal com o Real.

Kether é o foco da Consciência Cósmica, e a sua primeira manifestação é Luz [71]. O Ain, que é sua fonte, não é Escuridão mas a Ausência de Luz, e portanto a verdadeira essência da Luz. Kether é o ponto infinitesimal no espaço-tempo no qual a Ausência de Luz se torna sua Presença ao virar o Vazio (Ain) no avesso (de dentro para fora). Kether, e a Árvore da Vida resultante, podem portanto ser concebidos como o interior do Vazio [se] manifestando em Espaço, que é o mênstruo da Luz.

No microcosmo esta Luz se manifesta como a luz da consciência que ilumina a forma. Ela é a luz pela qual, e na qual, um pensamento pode ser visualizado na escuridão da mente; como os sonhos aparecem na escuridão do sono. Na esfera celestial, a consciência se manifesta como luz física, o sol. No reino mineral ela se manifesta como ouro. Biológicamente considerada ela é o falo que perpetua a semente de luz (consciência) no reino animal. Estas luzes são Uma Luz (Kether) e elas provém de uma infinita ausência de luz (Ain). Ao se derramar através de Kether ela é dividida em três raios que formam os três ramos supernos da Árvore. Estes possuem três pylons (portais_?): Chokmah, Daäth, e Binah, assim concentrando 16 kalas [72] que, com seu reflexo no mundo da anti-matéria (o Ain) constituem os 32 Caminhos ou Kalas da Árvore da Vida.

Escuridão é ausência de luz, uma ausência que torna possível a presença de tudo que parece ser. Não-ser, cujo símbolo é a escuridão, é a fonte do Ser, e entre estes dois terminais existe uma solution de continuité (solução de continuidade) representada pelo Abismo que separa o mundo numênico de Kether, com seus terminais gêmeos, [73] do mundo fenomenal de Malkuth. O ponto exato de discontinuité (descontinuidade) é marcado pelo Pylon de Daäth no meio do Abismo. Daäth é conhecimento do mundo fenomenal refletida para baixo através dos Túneis de Set na parte posterior da Árvore. Este conhecimento, ou Daäth, é a morte do Self. Ele representa o estágio primário no qual as mortalhas são tecidas em volta da múmia que entra em Amenta no Deserto de Set. Ele aparece na frente da Árvore como a semelhança aparentemente viva do ego com o qual ele se identifica em sua descida gradual para dentro da matéria (Malkuth). Seu despertar para a consciência mundana é em realidade um sono e uma morte dos quais o Princípio de Consciência original pode ser salvo apenas atravessando os Caminhos de Amenta em reverso. Esta jornada para trás através dos Túneis de Set começa no Tuat, a passagem preliminar ou 32o Caminho que conduz de volta de Malkuth (consciência mundana) até as esferas astrais de Yesod.

As tradições orientais tem tipificado esta descida de Consciência nos termos dos três estados de consciência sushupti (sono), svapna (sonho), e jagrat (vigília), e sua reintegração em um quarto estado – turiya – que não é realmente um estado definitivamente, mas o substrato dos outros três e o único elemento real naqueles três. Turiya se iguala com Kether (Consciência Indiferenciada), Sushupti se iguala com Daäth, Svapna com Yesod, e Jagrat com Malkuth. Este esquema se iguala à doutrina cabalista: O estado de sono profundo e sem sonhos (sushupti) é um estado no qual a mente não está consciente do universo objetivo ou fenomenal. Ele é vazio no sentido em que está isento de pensamento (imagens), e escuro no sentido em que dentro deste a luz está ausente. Sushupti funde-se em Svapna, o estado de objetividade subjetiva, ou sonho, porque Kether cria no vazio de Sushupti uma tensão que se manifesta como vibração. Esta tensão é refletida no mundo dos sonhos (Yesod) como sensibilidade latente nas zonas de poder micro cósmicas (chakras) nos quais ela assume formas elementais de éter, fogo, ar, água, e terra. Em outras palavras, esta vibração se manifesta como os seis sentidos que, por sua vez, são projetados como fenômenos objetivos no estado de vigília (jagrat; Malkuth). Desta maneira um estado ou mundo de consciência funde-se em outro. Similarmente, um estado ou nível de Consciência Cósmica se desenvolve e evolui em outro até que o Princípio de Consciência original seja objetivado com densidade crescente. Desta maneira o mundo do ‘nome e forma’ parece ao ego (o pseudo sujeito) como ‘realidade’, enquanto que no fato real a Realidade se retira enquanto o Princípio de Consciência retrocede e retorna ao ponto de sua ausência original.

Daäth como [sendo] o ego é a sombra-shakti ou poder ocultador de Kether no momento ultra rápido (como o raio) de sua bifurcação em Chokmah (sujeito) e Binah (objeto). O ego é uma sombra, mas ele é a sombra da realidade. É impossível expressar este conceito na linguagem da dualidade. Realidade é Não-Ser, e o ego é o reflexo ou reverso da Realidade nas águas do Abismo; mas a imagem não está apenas revertida, ela está também invertida. [74] Nos termos da Tradição Draconiana o ego é a miragem que aparece no Deserto de Set.

A exaltação do ego em Daäth e sua reivindicação em ser a Coroa [75] é a blasfêmia contra a divindade, e aqueles que estabeleceram este falso ídolo tem sido chamados de Irmãos Negros (Black Brothers). Por este ato eles banem a si mesmos para o Deserto de Set pela duração de um aeon; ou, se profundamente comprometidos com a hierarquia inversa, eles podem manter esta soberania de sombra durante ‘um aeon e um aeon e um aeon’, um kalpa inteiro ou Grande Ciclo de Tempo. O falso rei dura até que o kalpa seja eliminado por um Mahapralaya. [76] Contudo, tais Irmãos Negros não devem ser confundidos com os Irmãos Negros cujo ídolo não é o ego mas um certo Chefe secreto de uma hierarquia verdadeiramente inversa que resume todos os 777 [77] caminhos na parte posterior da Árvore. Eliphas Lévi indicou esta hierarquia em termos de ‘magia negra’ e do Chefe Bafomético iluminado com o enxofre do inferno e adorado pelos Templários. Outra Adepta que teve um breve vislumbre desta Hierarquia Negativa foi H.P.Blavatsky, embora sua imensa luta para retirar através do véu algum fragmento(?) de seus negros mistérios resultou apenas na confusão volumosa de suas duas obras monumentais. [78] Talvez a Ísis que ela buscou desvelar não fosse a Ísis da natureza manifesta na matéria, mas a Nova Ísis do Não Natural, da antimatéria, com seus vazios do ser e buracos negros no espaço. Antes de explorar os Túneis de Set temos que estabelecer o fato de que os mistérios do Não Ser, embora não interpretados nos tempos antigos no modo pelo qual nós os interpretamos hoje, foram não obstante considerados como possuindo um significado que era tanto vital como ameaçador. Isso é o mais surpreendente uma vez que é apenas dentro dos cinqüenta anos passados ou mais que estes assuntos obscuros tem sido iluminados através de descobertas surpreendentes nos campos da física nuclear e sub-nuclear e psicologia, nenhuma das quais tendo sido demonstrada cientificamente quando a doutrina cabalística estava sendo evoluída.

Ainda assim outro adepto dos tempos recentes, Salvador Dali, sugeriu através das ausências negras que surgem abruptamente em algumas de suas pinturas a doutrina do não-ser, do negativo,do numênico que é a Realidade subjazendo a existência fenomenal. [79]

Embora haja uma solução de continuidade entre os dois mundos – representados pelas partes anterior e posterior da Árvore – existe nada mais do que uma copula, e ela reside em uma função peculiar da sexualidade. Ela não é uma ponte em qualquer sentido positivo, e portanto ela não pode ser descrita, contudo ela pode ser pressagiada através da analogia de um raio brilhando entre eletrodos invisíveis de eletricidade positiva e negativa. As dimensões interiores do não-ser podem ser iluminadas pelo brilho ofuscante liberado pela energia sexual descarregada em conexão com certas técnicas de magia(k) Tifoniana na qual a energia pré- conceitual é capturada pelos mais tênues tentáculos da consciência assim que ela vaza através do véu do vazio a partir do olho transplutônico (Ain) além de Kether.

O Livro de Dzyan, O Livro da Lei, e os Livros Sagrados Thelêmicos, todos os quais tem sido disponibilizados durante o século passado, contém fórmulas mágicas que tem sido utilizada desde tempos imemoriais, mas não existe ainda nenhum comentário adequado à qualquer um deles, pois ambos Blavatsky e Crowley – avançados como eles indubitavelmente eram – estavam limitados por uma atitude basicamente de velho aeon perante o Vazio. Crowley, talvez em virtude de uma identificação consciente com a Corrente Draconiana (através dos mistérios do número 666), tinha compreendido intuitivamente a possibilidade de um anti-Cristo e um anti-Espírito embora ele não pudesse, ao que parece, confrontar a idéia de anti-Logos! Isto é evidenciado pelo horror com que ele se referiu ao Aeon que não possui nenhuma Palavra, um aeon ainda por vir ao qual ele atribui a letra Zain. [80] Apenas um Adepto, que eu saiba, estava atento ao fato de que Crowley não pronunciou uma Palavra, porque, sendo identificado com a Besta ele era incapaz de formulá-la [81]. Mas a reversão à falta de fala e incapacidade bestial de pronunciar uma palavra não explica a falha de Crowley que estava enraizada em sua inabilidade de sondar a dimensão atemporal onde a verdadeira anti-palavra (anti-cristo) verdadeiramente se obteve. [82]

Um exame sobre a versão de Dion Fortune sobre a Doutrina Cósmica revela uma relutância similar, ou talvez uma inabilidade genuína em perceber interiormente (insee_?) a questão a qual é a de que a Magia(k) da Luz (LVX) não se relaciona nem com magia branca nem com magia negra mas com uma corrente oculta que, como Austin Spare corretamente assumiu, vibra nos espaços intermediários [entre os espaços]; nos interstícios, por assim dizer, da ausência de espaço espiritual que existe em um vazio necessariamente atemporal por detrás, ou em algum lugar fora, da Árvore.

Se Daäth, cujo número é onze, [83] for contada junto com as quatro sephiroth remanescentes do Pilar do Meio, [84] o número 37 será obtido. Este é um número primo significando a plena manifestação da corrente mágica simbolizada por Set ou Shaitan. [85]

Aquilo que era conhecido pelos Cabalistas como a Árvore da Morte era de fato o outro lado da Árvore da Vida, e as qliphoth eram forças ‘demoníacas’, os anti-poderes ocultados nos túneis de Set que formavam a rede interior e reflexo reverso dos Caminhos.

O célebre Cabalista Isaac Luria (1534-1572) compôs as seguintes linhas as quais Gershom Scholem [86] descreve como um ‘exorcismo dos “cães insolentes”, os poderes do outro lado’:

Os cães insolentes devem ficar do lado de fora e não podem entrar, Eu chamo o ‘Antigo dos Dias’ à noite até que eles sejam dispersados, Até que sua vontade destrua as ‘conchas’. Ele os lança de volta para dentro de seus abismos, eles devem se esconder profundamente em suas cavernas. [87]

Os cães insolentes são, em um sentido muito especial, ‘os cães da Razão’ (i.e. de Daäth) mencionados em AL, capítulo 2, verso 27. A atribuição do cão aos reinos infernais deriva do Egito onde o chacal ou raposa do deserto é o típico habitante do Abismo, sendo ambos estes animais totens de Set. O simbolismo ilumina o capítulo 2, verso 19: ‘Deve um Deus viver em um cão? Não! mas os mais elevados são de nós . . .’ Cão, que é a palavra Deus ao contrário, indica o Pylon de Daäth através do qual o cão da razão entra no Abismo e ‘perece’. Um deus não deve ‘viver em um cão’, mas os ‘mais elevados são de nós’. O mais elevado é a altura representada pela oitava cabeça da Serpente que habita no Abismo. Os ‘mais elevados são de nós’ implica que existem outros três: a tríada superna ou mais elevada da Árvore, consistindo de Kether, Chokmah e Binah. Junto com o oitavo (ou mais elevado) estes três formam onze. A deusa Nuit (que é Não) proclama no capítulo 1, verso 60: ‘Meu número é 11, como todos os seus números que são de nós’. Estas palavras fornecem a chave para o mistério do Oito e do Três, ou o Um e o Três, [88] pois a Serpente é Uma embora ela tenha oito cabeças. [89] Onze é o número da magia(k), ou ‘energia tendendo à mudança’, e é no pylon de Daäth que esta morte ou modificação mágica ocorre. Daäth é o único ponto na Árvore que dá acesso ao mundo de Nuit (Não). A palavra ‘nós’, em ambos os versos, é cabalisticamente igual a 66 que é o ‘Número Místico das Qliphoth e da Grande Obra’. [90] Então aqui há uma chave para o real significado das Qliphoth que tem iludido cabalistas e ocultistas do mesmo modo, pois poucos tem sondado a função das qliphoth com relação à Grande Obra. Entretanto quando se percebe que o ‘mundo das conchas’ é formado pelo lado reverso da Árvore é possível compreender porque ele tem sido considerado como inteiramente maligno.

As qliphoth não são apenas as conchas dos ‘mortos’ mas, de forma mais importante elas são as anti-forças por trás da Árvore e o substrato negativo que subjaz toda vida positiva. Como no caso do Livro dos Mortos egípcio, cujo título significa seu oposto preciso, [91] assim também a Árvore da Morte judaica é a fonte numênica da existência fenomenal. É a última que é falsa pois o mundo fenomenal é o mundo das aparências, como seu nome implica. A fonte numênica por si É, porque ela NÃO é. Uma vez que esta verdade seja compreendida torna-se evidente que os antigos mitos sobre o mal, com sua demoníaca e terrificante parafernália de morte, inferno, e o Demônio, são sombras distorcidas do Grande Vazio (o Ain) que persistentemente assombra a mente humana. Estes mistérios são explicados em termos cabalísticos pelo número 66 que é a soma da série de números de um a onze. 66 é o número da palavra LVL que significa ‘torcer’ ou ‘circundar’(o outro lado da Árvore). Como já foi notado, a humanidade está ‘reservada a fazer um giro ao redor das costas da Árvore’ durante o Aeon de Zain. Este é o Aeon que não possuirá nenhuma Palavra porque este é o Aeon do anti-logos que será vivido no reino do cão, o que é um modo simbólico de denotar as costas da Árvore. Além do mais, Zain está conectado com o simbolismo ‘gêmeo’ de Gemini, e uma espada denotou a mulher, ou o que parte em dois (?), como mostrado na oitava chave do Taro. Esta chave também contém a fórmula do Amor através da polarização, pois no Aeon de Zain a humanidade terá transcendido as ilusões de tempo e espaço, tendo compreendido a base numênica da consciência fenomenal.

Segundo a tradição oculta o homem alcançará a iniciação final pelo Fogo antes do fechamento ou retirada final do presente Mahakalpa. [92] Sessenta e seis é também o número de DNHBH, o nome de uma Cidade de Edom que é a sombra da Cidade das Pirâmides (Binah, ) no Deserto de Set (). Seu pylon, Daäth, é o santuário daquele Chefe Secreto (o Oitavo) que os Templários adoravam sob a imagem de Baphomet, o Deus do Nome Óctuplo, Octinomos. Crowley assumiu a forma-deus de Baphomet como ‘Chefe’ da O.T.O. [93] Oito mais três (a Tríada Superna) constitui o Sagrado Onze: o número daqueles ‘que são de nós’. ‘Nós’ (66) é também o número de ALHIK que é interpretado em Deuteronômio, iv, 24, como ‘O Senhor teu Deus (é um fogo que consome)’. Pode ser demonstrado que este fogo é a Serpente de Fogo ou Corrente Ofidiana. 66 é o número de Gilgal (GLGL) ‘uma roda’ ou ‘espiral’ e é instrutivo notar que a tradição hindu dos chakras, ou rodas de força, confirma a interpretação egípcio-caldaica dos mistérios de Daäth.

Se um diagrama da Árvore da Vida for superposto de ponta cabeça sobre uma forma correta desta, vários fatos significativos virão à tona. Tiphareth permanece central, o pivô ao redor do qual nós giramos a Árvore invertida; mas ao invés do Fogo Branco do Sol nós agora temos o Fogo Negro de sua anti-imagem; e Kether se tornou Malkuth como se para ilustrar, literalmente, o texto ‘Kether está em Malkuth e Malkuth está em Kether, mas de uma maneira diferente’. Esta ‘maneira diferente’ se refere à um modo mágico associado com a fórmula do cão que, segundo meu conhecimento, foi indicada apenas em um exemplo – a saber: no Liber Trigrammaton. [94] Este livro é descrito por Crowley como um informe sobre o processo cósmico correspondente às stanzas de Dzyan em outro sistema’. [95] Finalmente, porém mais significativamente, Yesod agora cobre Daäth. Yesod é o assento das forças sexuais e do aspecto mais denso das energias eletromagnéticas da Serpente de Fogo. Ele é a morada de Shakti e o local ou centro especial de culto dos devotos de Shaitan (Set) entre os Yezidis. [96] Daäth potencializada por Yesod se torna portanto a Palavra energizada, o linga ao invés da língua, pois Daäth se equaciona com o Visuddha Chakra, como Yesod se equaciona com o Muladhara. [97] A ligação entre linguagem, [98] representada pela Palavra (Visuddha Chakra) e o linga, representado pelo Muladhara, é óbvia porque o Logos é a forma assumida pelo linga quando ele pronuncia sua Palavra suprema. [99]

A característica peculiar de Daäth sózinha é que as condições de iniciação obtidas nesta esfera requerem a total desintegração da Palavra. Em outras palavras: O Muladhara encontra seu anti-estado em Daäth, e a Palavra permanece não pronunciada. Isto em si mesmo inicia o Aeon de Zayin, que é um aeon subjetivo que começa se e quando um Adepto salta os vazios por trás da Árvore. Esta é a Grande Obra implicada pela fórmula de viparita como tipificada pelo reverso da Árvore.

Notas:

68 Isso é descrito no Liber LXV (verso 56, capítulo IV) como o ‘Erro do Início’. Esta é a falha essencial notada pelos Árabes, a ‘Queda’ original.

69 No Hinduísmo, este Jogo é descrito como um ‘Lila’ que tem sido traduzido como ‘esporte divino’, ‘máscara’ ou a eterna Dança de Shiva e Shakti. Esta ilusão básica mais tarde fez surgir o conceito de ‘pecado original’ que foi pervertido pelos cristãos se tornando uma doutrina de importância moral.

70 i.e. Consciência ou Sujeito em todos os objetos.

71 A LVX ou Luz da Gnose.

72 O número de Chokmah é 2; o de Daäth, 11; e Binah é 3; 16 kalas no total.

73 Chokmah (sujeito) e Binah (objeto).

74 Vide o Grande Símbolo de Salomão; figura 1 em Magia Transcendental de Eliphas Lévi.

75 Um título de Kether.

76 Literalmente, Grande Dissolução. O retrocesso para dentro do Vazio [por parte] do Universo após sua manifestação na matéria. Um Mahapralaya ocorre após cada sete fases de existência manifesta. Vide Aleister Crowley e o Deus Oculto, capítulo 4.

77 O número total de Caminhos e Sephiroth da Árvore da Vida.

78 Ísis Sem Véu e A Doutrina Secreta. Estas obras estão repletas com alusões à mistérios que são iluminados pela Tradição Draconiana e são explicadas no presente volume.

79 Vide em particular a pintura entitulada ‘Acomodação dos Desejos’, reproduzida em A Vida Secreta de Salvador Dali, e em outros lugares.

80 Vide capítulo anterior.

81 O adepto em questão era Charles Stansfeld Jones (1886-1950), conhecido como Frater Achad. Vide Cultos da Sombra, capítulo 8.

82 Frater Achad, com sua fórmula de reversão e negação, parece ter chegado mais próximo do verdadeiro significado de AL do que o próprio Crowley, pois os comentários de Crowley revelam uma abordagem consistentemente positiva e consequentemente fenomenal ao seu significado.

83 Daäth é 11 e 20, e portanto 31, AL, a Palavra Chave do Aeon de Hórus. 84 10 + 9 + 6 + 11 + 1 = 37.

85 Três, o número de Set ou Saturno, multiplicado por 37 resulta em 111 que é o número de Samael (Satã), Pan, e Baphomet.

86 A Kabbalah e seu Simbolismo (Routledge, 1965).

87 Velho dos Dias’, usualmente traduzido como ‘Antigo dos Dias’, é um título de Kether. As ‘Conchas’ são as qliphoth.

88 Existe um mistério maior aqui que concerne a letra de fogo – Shin. De acordo com o Sefer há-Temunah esta letra em sua forma completa possui quatro, não três, línguas. Scholem observa (ibid, pagina 81) ‘Em nosso aeon esta letra não é manifestada e portanto não ocorre em nosso Torah’. Também, ‘Todo aspecto negativo está conectado com esta letra ausente’. Shin, é a tripla língua de fogo, e a letra de Set ou Shaitan, também de Chozzar o deus da Magia(k) Atlante, e de Choronzon, a Besta do Abismo.

89 Hadit diz no capítulo 2, verso 30: ‘Eu sou oito, e um em oito’.

90 Liber D. (Vide O Equinócio, volume I, No.8).

91 i.e. O Livro dos Sempre Imortais.

92 Fogo = a chama de 3 línguas representada pela letra Shin. Segundo Crowley (Diário Mágico, p.144) ‘Shin é o Fogo de Pralaya, o “Juízo Final” ‘.

93 Ordo Templi Orientis, A Ordem do Templo do Oriente, da qual Crowley foi em uma ocasião o Grão Mestre.

94 Vide Os Comentários Mágicos e Filosóficos sobre o Livro da Lei. (Ed.Symonds and Grant; 93 Publishing, Montreal, 1974).

95 A referência é ao sistema exposto por H.P.Blavatsky.

96 Vide a Trilogia Tifoniana (Grant/Muller, 1972-75) para um informe completo sobre esta zona de poder.

97 As regiões da garganta e dos genitais respectivamente.

98 Mais corretamente, langage, no sentido de uma língua sagrada.

99 i.e. no momento do orgasmo.

***

Revisão final: Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/a-luz-que-nao-e/

Antonin Artaud

1896 -1948

Rodrigo Emanoel Fernandes com Liege Seraphin e Maíra Silvestre

Artigo originalmente escrito para a disciplina “Interpretação II” do curso de Graduação em Artes Cênicas da Universidade Estadual de Londrina – UEL, sob orientação da Prof. Thaís D’Abronzo.

Onde outros propõem obras eu não pretendo senão mostrar o meu espírito.

A vida é queimar perguntas.

Não concebo uma obra isolada da vida. Não amo a criação isolada. Também não concebo o espírito isolado de si mesmo. Cada uma de minhas obras, cada um dos planos de mim próprio, cada uma das florações glaciares da minha alma interior goteja sobre mim.

Reconheço-me tanto numa carta escrita para explicar o estreitamento íntimo do meu ser e a castração insensata da minha vida, como num ensaio exterior a mim próprio, que me surja como uma gestação indiferente do meu espírito.

Sofro por o espírito não estar na vida e por a vida não ser o espírito, sofro por causa do espírito-órgão, do espírito-tradução ou do espírito-intimidação das coisas para as fazer entrar no espírito.

Este livro, suspendo-o na vida, quero que seja mordido pelas coisas exteriores, e em primeiro lugar por todos os sobressaltos cortantes, todas as cintilações do meu eu por vir.

Todas estas páginas se arrastam como pedaços de gelo no espírito. Perdoe-se-me a minha liberdade absoluta. Recuso-me a estabelecer diferenças entre qualquer um dos momentos de mim mesmo. Não reconheço no espírito nenhum plano.

É preciso acabar com o espírito, tal como com a literatura. Afirmo que o espírito e a vida comunicam a todos os níveis. Gostaria de fazer um livro que perturbasse os homens, que fosse como uma porta aberta e os conduzisse onde nunca teriam consentido ir, uma porta simplesmente conectada com a realidade.

E isso é tão pouco um prefácio a um livro, quanto, por exemplo, os poemas que o balizam ou a enumeração de todas as raivas do mal-estar.

Isto não é senão um pedaço de gelo mal digerido.

(Artaud: O Umbigo dos Limbos, in: O Pesa-Nervos; 1991, pg.13-14)

1. DOR… TEATRO… SOLIDÃO…

Antonin Maria Joseph Artaud (um nome completo raramente mencionado e surpreendentemente sugestivo), nasceu em 4 de setembro de 1896 na cidade de Marselha. Primogênito de uma família de nove irmãos, dos quais apenas três chegaram a idade adulta, em 1901 é acometido de uma grave meningite, da qual não se salvará sem seqüelas. Apenas o início de uma vida de constantes sofrimentos físicos e psíquicos originados de distúrbios no sistema nervoso central. Esse sofrimento, que Artaud nunca desistiu de tentar descrever das mais variadas formas, é de fundamental importância para a compreensão de seu teatro e suas idéias. Constantemente afligido por dores e uma sensação de opressão na cabeça, ombros e pescoço, Artaud afirmava ter sérias dificuldades em ordenar seus pensamentos e dar-lhes uma forma exterior.

A horrível compressão da cabeça e do alto da coluna vertebral, o peito opresso, as visões de sangue e de morte, os torpores, as fraquezas sem nome, o horror geral em que me encontro mergulhado com um espírito no fundo intacto, tornam inútil esse espírito.

(Artaud citado por Virmaux: Artaud e o Teatro;1978, pg10)

Esse “espírito intacto” era o que lhe garantia a lucidez necessária para a criação e para a capacidade de expor seu mal sem, entretanto, conseguir alivia-lo. Com o passar dos anos, Artaud torna-se obcecado com a idéia de que sua agonia (que não deixou de ser um estímulo cruel à sua necessidade imperativa de expressão que acabaria por leva-lo à arte e ao teatro) tinha uma origem metafísica:

Eu não tenho vida!!! Minha efervescência interna está morta! (…) Asseguro-te que não há nada em mim, nada naquilo que constitui a minha pessoa, que não seja produzido pela existência de um mal anterior a mim mesmo, anterior à minha vontade, nada em nenhuma das minhas mais hediondas reações, que não venha unicamente da doença e não lhe seja, em qualquer dos casos, imputável.

(Artaud citado em: Artaud e o Teatro;1978, pg.11)

Essa deterioração corporal e psíquica tornava extremamente difícil seu convívio social e a criação de elos verdadeiros com seus semelhantes. Artaud usa o teatro e sua capacidade única de expressão física, intelectual e – como não cansa de reiterar – metafísica, como seu meio privilegiado de comunicação, de grito. Sua prática teatral é permanentemente voltada para a idéia de uma “cura cruel”, para si mesmo e para a raça humana. Seu “corpo sem órgãos”, seu corpo novo, reconstruído, imortal, finalmente senhor de seu próprio destino e de sua própria anatomia.

Os primeiros passos no teatro dão-se a partir de 1920, quando muda-se para Paris, depois de passar por constantes internamentos em sanatórios, particularmente para desintoxicações, necessárias para manter em níveis aceitáveis a dependência do ópio, adquirida por ocasião dos primeiros tratamentos.

Preciso encontrar uma certa quantidade cotidiana de ópio. (…) pois tenho o corpo ferido nos nervos das medulas e isto é irremediável, incurável, absolutamente irremissível, não existe operação cirurgical que possa restituir ao organismo os nervos que ele perdeu.

(Artaud citado em: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg.79)

Apesar de seu estado de quase miséria, sobrevivendo muitas vezes graças à cortesia de amigos que lhe ofereciam abrigo e comida, Artaud mantém uma atividade intelectual e profissional frenética, atuando em diversos espetáculos, publicando artigos e poesias e obtendo uma posição de destaque no movimento surrealista (que, posteriormente, criticaria por seu posicionamento político, de forma lúcida, porém cortante). O período de 1920 até 1932 viu o nome da Artaud crescer como uma figura ímpar e polêmica do teatro e da poesia francesas. Trabalhou em todas as frentes da atividade teatral: ator, encenador, cenógrafo, iluminador, escritor, sonoplasta e produtor, participando de inúmeras companhias sem pertencer realmente a nenhuma, exceto – em termos – o conhecido experimento do “Teatro Alfred Jarry”, cujos frutos foram quatro espetáculos e oito representações, entre 1926 e 1930. Além disso, não lhe faltaram oportunidades para trabalhar no cinema, em filmes notórios e raros como “A Paixão de Joana d’Arc”, de Dreyer (1928) e “Napoleão”, de Gance (1925-1927), interpretando Marat. Sem contar o desenvolvimento de roteiros de sua própria autoria, como “A Concha e o Clérigo”, mas suas relações com cinema serão sempre tumultuadas e frustrantes.

Em meros doze anos, Artaud notabilizou-se como um artista enérgico ao defender suas idéias. Suas críticas ao teatro de cunho psicológico, centrado no texto, deixando a encenação em último plano, eram correntemente reiteradas em seus artigos e manifestos, publicados nos periódicos artísticos da época.

(…) apresso-me em dize-lo desde já, um teatro que submete ao texto a encenação e a realização, isto é, tudo o que é especificamente teatral, é um teatro de idiota, louco, invertido, gramático, merceeiro, antipoeta e positivista (…)

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1993, pg.35)

Evidentemente, idéias defendidas de forma tão apaixonada e agressiva raramente passavam despercebidas, mesmo quando rechaçadas por críticos tão veementes quanto antiquados. Apesar das polêmicas, Artaud era um artista respeitado, muito embora esse reconhecimento não tornasse as coisas mais fáceis para um homem eminentemente solitário, morando em quartos alugados e tendo pouquíssimos amigos e, muito menos, amores (seu relacionamento com a atriz Génica Athanasiou teria sido sua paixão mais intensa e, em muitos aspectos, a mais frustrante).

Evocando o comportamento quotidiano de Artaud durante a época de sua participação no grupo surrealista, André Masson enfatizou “seu lado dandy, seu lado não gregário que o fazia chegar após os outros, partir antes de todo mundo, sempre só” (…). É também o testemunho de Anaïs Nin: “Irritável. Gagueja em alguns momentos. Sempre sentado em algum canto isolado, ele se afunda em uma poltrona como em uma caverna, como se estivesse na defensiva”(…)

(Virmaux: Artaud e o Teatro; 1978, pg. 161)

Esses fatores contribuíram para que, até o fim de sua vida, as cartas fossem uma de suas formas favoritas de expressão e onde sutilezas de sua obra podem ganhar aspectos esclarecedores.

2. CRUELDADE… ORIENTE… PESTE… TEATRO… E SEUS DUPLOS…

Mas foi a partir de 1931 que a crescente carreira de Antonin Artaud começou a tomar o rumo que o tornaria uma figura única na História do Teatro. Durante a Exposição Colonial, em Paris, assiste a uma apresentação de um grupo teatral de Bali. Esse contato com o Teatro Oriental marcará profundamente seu pensamento, quase como uma revelação. Nas evoluções dos “atores/bailarinos”, nos gestos perfeitamente codificados e nas temáticas de caráter metafísico e arquetípico, Artaud encontra os elos que faltam na formulação de suas próprias idéias sobre o Teatro e seu papel na Arte. Para Artaud, um teatro eficaz é aquele capaz de refazer a vida, o que não seria possível sem refazer profundamente a cultura no Ocidente. Toda a sua obra é guiada pelo desejo incessante de reencontrar um ponto de utilização mágica das coisas, recusando uma consciência estética fundada em simulacros e aparências face à realidade empírica das coisas. Ele coloca a questão da linguagem e da manipulação de signos em termos de forças mágicas e da relação mantida, através deles, com o cosmos e com o divino. Para Artaud, o Ocidente europeu é doente pois perdeu sua ligação com o divino, com a consciência cósmica.

Entre 1932 e 1935 publica em diversas revistas os textos que seriam futuramente organizados na forma do livro “O Teatro e Seu Duplo”, editado em 1938. Neles Artaud desenvolve seu projeto maior de refazer o Teatro Ocidental, apontando de maneira contundente os seus vícios, camisas de força e denunciando o abandono dos espetáculos por um público ansioso por emoções verdadeiras que não mais consegue encontrar num teatro que não representa verdadeiramente sua época.

O teatro de Bali revelou-nos uma noção de teatro física, não verbal, na qual o teatro está contido nos limites de tudo o que pode acontecer num palco, independentemente do texto escrito, enquanto que, tal como nós o concebemos no Ocidente, o teatro se aliou ao texto e por ele se encontra limitado. Para o teatro ocidental a Palavra é tudo e não há, sem ela, possibilidade de expressão; o teatro é um dos ramos da literatura, uma espécie sonora da linguagem e mesmo que admitamos uma diferença entre o texto falado no palco e o texto lido pelos olhos, se restringirmos o teatro ao que acontece entre as deixas, não conseguimos, mesmo assim aparta-lo da noção de um texto representado.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1999, pg. 75)

Diante dessa “ditadura do texto”, Artaud responde com uma proposta ampla de reestruturação da linguagem teatral, devolvendo ao teatro os elementos que considera “naturais” (no sentido de “primordiais”) na encenação e que foram, pouco a pouco, abandonados por um ocidente por demais atado às limitações do racionalismo.

Para mim, a questão que se impõe é de se permitir ao teatro reencontrar sua verdadeira linguagem, linguagem espacial, linguagem de gestos, de atitudes, de expressões e de mímicas, linguagem de gritos e onomatopéias, linguagem sonora, mas que terá a mesma importância intelectual e significação sensível que a linguagem das palavras. As palavras serão apenas empregadas em momentos determinados e discursivos da vida como uma luz mais preciosa e objetiva aparecendo na extremidade de uma idéia”

(Artaud:Linguagem e Vida; 2004, pg. 80)

Refazer a linguagem teatral para trazer o teatro de volta as suas origens ritualísticas. Nada de espetáculos de entretenimento, nada de psicologismos e narrativas sobre indivíduos. Artaud concebe um teatro para além do imediatismo político, social, psicológico ou moral, um teatro que expresse questões metafísicas (termo constantemente empregado em “O Teatro e Seu Duplo”).

Enquanto a alquimia, através de seus símbolos, é como um duplo espiritual de uma operação que só tem eficácia no plano da matéria real, também o teatro deve ser considerado como o duplo não dessa realidade cotidiana e direta da qual ele aos poucos se reduziu a ser apenas uma cópia inerte, tão inútil quanto edulcorada, mas de uma outra realidade perigosa e típica, onde os Princípios, como os golfinhos, assim que mostram a cabeça apressam-se a voltar à escuridão das águas.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1999, pg 49)

No “Manifesto do Teatro da Crueldade”, Artaud propõe a sua visão à comunidade teatral. De forma compacta e desconcertantemente direta, oferece os enunciados básicos de uma prática teatral que sempre se apressou a considerar “mais fácil de fazer do que de dizer”. Um teatro que utilizaria de uma linguagem de imagens e signos para oferecer uma “cura cruel” ao público, numa experiência mágica coletiva, na qual cada elemento da encenação – voz, corpo, iluminação, som, figurino, cor – seria meticulosamente planejado para levar o espectador a um estado de transe, uma transformação. Artaud concebe um espetáculo circular, através de um palco giratório, onde os espectadores ficam no centro e toda ação se dá ao redor, não havendo espaços vazios, integrando o espectador à própria encenação. Temas de caráter universal, uso de textos clássicos (como tragédias) como uma simples base para uma total re-criação em cena, personagens ampliadas à dimensão de deuses, de heróis, monstros, presença no palco de manequins gigantes, máscaras e objetos desproporcionais representando os duplos de ações, eventos e personagens acentuando o caráter metafísico da encenação, um jogo cuidadosamente planejado aonde nada pode ser deixado ao acaso, sob pena de sacrificar os efeitos mágicos específicos que o espetáculo deve provocar. Artaud, portanto, defende veementemente o domínio do encenador para orquestrar cada pequeno aspecto de uma montagem, numa época em que aquilo que se refere como parte da encenação, em contrapartida ao texto, costumava ser alvo de desprezo pela comunidade teatral. Para além dos temas e objetivos, o teatro de Artaud é um teatro que começa e se realiza no palco, com uma linguagem que se dá exclusivamente no palco, sendo o encenador (e não o autor de um texto pré-escrito) o responsável pela “escrita” dessa linguagem.

Nesse contexto, o ator é um elemento essencial mas passivo, já que sua iniciativa pessoal deve estar submetida às exigências da encenação.

O ator é, ao mesmo tempo um elemento de primeira importância, pois é da eficácia de sua interpretação que depende o sucesso do espetáculo, e uma espécie de elemento passivo e neutro, pois toda iniciativa pessoal lhe é rigorosamente recusada. Este é, aliás, um domínio em que não há regras precisas; e, entre o ator a quem se pede uma simples qualidade de soluço e aquele que deve pronunciar um discurso com suas qualidades de persuasão pessoais, há toda a distância que separa um homem de um instrumento.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1995, pg. 95)

Nos capítulos “Um atletismo afetivo” e “O Teatro de Seraphin”, Artaud procura esboçar as técnicas e qualidades que o ator do Teatro da Crueldade deve buscar. No ator existe uma musculatura de atleta físico e uma outra musculatura que corresponde a localizações físicas dos sentimentos. Essa musculatura afetiva funciona como um duplo da outra, embora não atue no mesmo plano, e deve ser exercitada através da respiração. Para cada alteração dos sentimentos, existe uma respiração apropriada.

O ator, ao mostrar um sentimento, um estado de espírito, fisicamente pode parecer estar delirando, mas na verdade está consciente de tudo o que está fazendo, mantendo o controle através da respiração. O uso da memória emotiva ocorre apenas num primeiro momento, guardando as imagem das reações físicas e da respiração provocadas no corpo para usa-las num segundo, num terceiro, e em vários momentos, constituindo um repertório para o ator. Os sentimentos não devem ser interpretados como abstrações, mas como elementos “materiais”, palpáveis, sob as quais ele pode ter um domínio. “Através da respiração o ator pode representar um sentimento que ele não tem”, ou seja, ele pode chegar num sentimento através da respiração, e a respiração pode nascer de um sentimento.

Saber que a paixão é matéria, que ela está sujeita às flutuações plásticas da matéria (…) Alcançar as paixões através de suas forças ao invés de considerá-las como puras abstrações, confere ao ator um domínio que o iguala a um verdadeiro curandeiro. Saber que existe uma saída corporal para a alma permite alcançar essa alma num sentido inverso e reencontrar o seu ser através de uma espécie de analogia matemática.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1995, pg. 131)

Saber reconhecer o tempo do sentimento é saber reconhecer o tempo da respiração, e essa respiração pode ser dividida em três tempos, que Artaud denominou NEUTRO, MASCULINO e FEMININO.

A respiração FEMININA é uma respiração mais prolongada, interiorizada, baseada no diafragma, que se localiza na região do plexo solar, tendo várias características que essa região contém, como abandono, angústia, apelo, invocação, súplica. A respiração MASCULINA ou melhor, de tempo masculino, é uma respiração mais pesada, rápida, torácica, focada na localização dos rins, que é fisicamente, onde o homem joga a força multiplicada de seus braços. As características que correspondem aos rins, no físico afetivo são: culpa, depressão, humor, impaciência, indecisão, isolamento, obsessão, paranóia, solidão, vitimização e heroísmo.

Esse treinamento baseado na respiração, que Artaud formulou tanto a partir de suas experimentações pessoais quanto de seus estudos da cabala, alquimia e disciplinas orientais, foi constantemente praticado por Artaud até o fim de sua vida e através dele o ator seria capaz de reconstruir não apenas sua arte mas sua própria constituição física e espiritual, tornando possível as visões de Artaud para seu Teatro.

Como Craig, Artaud baseia a sua teoria do ator no princípio da despersonalização. Não só o personagem, no sentido tradicional da palavra, é expulso desse teatro, mas também a personalidade do ator é ocultada pelo tipo de intervenção (não se ousa mais falar em desempenho) que ele exige. Em última instância, o ator artaudiano não é mais um indivíduo de carne e emoções, mas suporte e veículo de um complexo sistema semiótico articulado em torno de uma convenção hieroglífica – a expressão é freqüentemente repetida nos escritos de Artaud – do figurino, do gesto, da voz, etc.

(Roubine: A Linguagem da Encenação Teatral;1998, pg189)

Paralelamente à escrita e organização desses textos, Artaud dedica-se de maneira apaixonada a pôr em prática seu projeto, mas esbarra constantemente nas crescentes dificuldades. Primeiramente as de cunho filológico, os mal-entendidos e acusações a respeito do uso do termo “crueldade”, que Artaud responde de maneira clara na primeira das “Cartas sobre a Crueldade” em “O Teatro e Seu Duplo”. Mas o pior e mais incisivo são as dificuldades técnicas e financeiras de uma proposta teatral de tamanha complexidade. Desde as montagens do Teatro Alfred Jarry até as tentativas frustradas de tirar do papel sua encenação de “A Conquista do México”, mencionada no “Segundo Manifesto do Teatro da Crueldade”, suas tentativas de convencer o público (e, particularmente, os investidores) eram constantemente mal-entendidas embora representassem experimentos “performáticos” notáveis numa visão retroativa, particularmente a conferência que resultaria no texto de “O Teatro e a Peste” que foi relatada por Anaïs Nin, em seus diários:

De forma quase imperceptível Artaud largava o fio que seguíamos e começava a interpretar o papel de um homem a morrer de peste. Ninguém viu em que momento começou a faze-lo. Para ilustrar a conferência, representava uma agonia. (…) Tinha o rosto em convulsões e os cabelos ensopados de suor. (…) Estava em plena tortura. Berrava. Delirava. Representava a sua própria morte, a sua própria crucificação. As pessoas começaram a ficar com a respiração cortada. Depois desataram a rir. Toda a gente ria! Assobiava. Por fim as pessoas foram saindo uma a uma em meio a um grande ruído, a falar alto, a protestar. Ao saírem batiam com a porta. (…) Mais protestos. E vaias também. Mas Artaud continuava até o último suspiro. E lá ficou, no chão.

(Nin citada por Virmaux em sua introdução para: História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg.17)

Tudo isso para fazer a platéia compreender – fisicamente, portanto efetivamente – o que linhas como essas pretendem expressar:

Tal como a peste, o teatro é uma crise, que tem o desenlace na morte ou na cura. E a peste é um mal superior porque é crise completa e depois da qual não resta mais nada do que a morte ou uma extrema purificação. De igual forma, o teatro é um mal porque equilíbrio supremo só alcançável com destruição. Convida o espírito a um delírio que lhe exalta as energias; e, para terminar, podemos ver que a ação do teatro, como a da peste, sob o ponto de vista humano é benéfica porque levando os homens a verem-se como são faz cair a máscara, põe a mentira à mostra, e a baixeza, a hipocrisia; sacode a inércia asfixiante da matéria que tudo ganha até às mais claras certezas dos sentidos; e revelando às coletividades o seu poder sombrio, a sua força oculta, convida-as a assumir perante o destino uma atitude heróica e superior que, sem isso, nunca teriam tido.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1999, pg 28-29)

O ápice dessas tentativas de materialização do “Teatro da Crueldade” foi a montagem de “Os Cenci” (1935), projeto ambicioso de uma tragédia na qual os preceitos da visão artaudiana de um teatro que constituísse uma “cura cruel” revelou-se uma grande decepção, para o público, para os envolvidos e, acima de tudo, para o próprio Artaud, que viu-se incapaz de enfrentar os inúmeros percalços financeiros, materiais e humanos que se interpuseram à realização de seus ideais numa montagem real.

3. PEYOTE… MAGIA… ELETRICIDADE… TEATRO… JULGAMENTO DE DEUS…

Essa frustração acabou servindo de combustível para a concretização de um antigo sonho: uma viagem ao México em busca de contato com o culto do Peyote com os índios Tarahumaras, que resultaria na publicação do apaixonado livro “Viagem ao País do Tarahumaras”, editado em 1945. Artaud desde cedo dedicara-se ao estudo de disciplinas esotéricas, cabala, alquimia, magia (estudos que sempre apareceram de maneira clara e sem disfarces nas suas atividades teatrais, sendo largamente citados em “O Teatro e Seu Duplo”) e sua estadia entre os Tarahumaras foi quase uma conseqüência natural desse pensamento, bem como uma tentativa violenta de encontrar respostas para seus tormentos existenciais indizivelmente vivenciados no plano físico.

E foi no México, no alto da montanha, entre Agosto e Setembro de 1936, que eu comecei a me encontrar completamente…Eu procurava o peyote não como um curioso mas, ao contrário, como um desesperado…, contrariamente ao que se podia pensar, eu nunca busquei o supra-normal. Ora, eu não ia ao peyote para entrar, mas para sair… sair de um mundo falso. Vivemos num odioso atavismo fisiológico que faz com que mesmo no nosso corpo, e sozinhos, nós não somos mais livres, pois, cem pai-mãe pensaram e viveram por nós, antes de nós, o que poderíamos em um dado momento, na idade da razão, encontrar por nós mesmos, a religião, o batismo, os sacramentos, os rituais, a educação, o ensino, a medicina, a ciência se apressam em nos tirar. Eu ia, pois, ao peiote para me lavar.

(Artaud citado em: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg.96-97)

Recebido com simpatia pelos escritores mexicanos, Artaud faz conferências em universidades e, após vários percalços consegue participar das cerimônias sagradas com os índios. A experiência leva-o a um processo que os místicos chamariam de transfiguração, uma iniciação nos mistérios sagrados, um retorno a um vazio primordial do qual ele retorna permanentemente transformado.

Enquanto isso, na França, amigos dão prosseguimento à editoração de “O Teatro e Seu Duplo”, livro que, mesmo em meio às suas viagens místicas, Artaud nunca relega ao abandono, tendo oportunidade, inclusive, de corrigir os originais quando de seu retorno à Paris. A obra, uma vez publicada, torna-se uma referência importante para os realizadores de teatro, para o bem ou para o mal, alimentando de maneira incontrolável o chamado “mito-artaud” que começara a crescer desde o momento em que partiu da França até muito além de sua morte. Artaud, o “homem-teatro”, Artaud, o bruxo, Artaud, o louco, Artaud que ganhou uma espada mágica de um feiticeiro em Cuba, Artaud que vagou entre os índios e viu a face de Deus, Artaud, o profeta da fecalidade, Artaud que empunhou o cajado mágico de São Patrick, patrono dos irlandeses, na cidade de Dublin.

Anaïs Nin fala, no seu Diário, de uma visão que Artaud teve, nessa época, em Paris,no restaurante Dôme: “Ele levanta, vociferando, brandindo sua bengala mágica mexicana, como um bruxo”.

(Lins: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg.98)

Entre o mito e a realidade, sabe-se que Artaud retornou à França, uma figura ainda mais excêntrica e imprevisível do que era então. Suas dores físicas e o consumo de ópio continuam a crescer, obrigando-o a submeter-se a desintoxicações sempre que tem condições de pagar. Seu interesse em astrologia e tarô acentua-se, chegando a fazer consultas para figuras ilustres da intelectualidade parisiense. Em 1937, Artaud parte para a Irlanda “guiado” pelo cajado de São Patrick, afim de devolvê-lo ao seu lugar de origem e de encontrar traços da cultura celta. Vivendo em condições precárias, em um país onde ele mal domina o idioma, Artaud vive pregando nas ruas com seu bastão, em condições de quase indigência.

Passeava eu tranqüilamente ao pé do jardim público de Dublin, quando um polícia provocador à civil me agrediu de repente e esmagou a coluna vertebral e a dividiu em duas com uma terrível pancada de barra de ferro.

Cambaleei mas não caí.

Houve qualquer coisa que deve ter parecido um milagre porque ainda agora pode ver-se em mim a fractura, mas nem sequer caí no chão, e os dois pedaços soltos voltaram instantaneamente a ficar colados.

Voltei-me para trás, com uma bengalada deitei o polícia provocador ao chão e a batalha ficou acesa. Apareceram polícias fardados que tomaram o meu partido contra os polícias à civil e às ordens do Intelligence Service.

(Artaud: História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg.50-51)

Acusado de ser um agitador e vadio, é preso e extraditado para a França. Um incidente ocorrido durante a viagem de barco faz com que seja internado como louco em estabelecimentos psiquiátricos. Do sofrimento pelo isolamento, brutalidades e privações da vida em um manicômio, adicionou-se com a Ocupação alemã em maio de 1940, as carências alimentares. Assim, em Ville-Évrard, além de sua dignidade e de sua liberdade, Artaud começou a ser privado de seu corpo. Subnutrido, ele se torna um esqueleto vivo, uma sombra dolorosa que tenta manter a vida.

Passei nove anos num asilo de alienados.

Fizeram-me ali uma medicina que nunca deixou de me revoltar.

Essa medicina chama-se eletro-choque, consiste em meter o paciente num banho de eletricidade, fulmina-lo

e pô-lo bem esfolado a nu

e expor-lhe o corpo tão externo como interno à passagem de uma corrente

que vem do lugar onde se não está nem deveria estar para lá estar.

O eletro-choque é uma corrente que eles arranjam sei lá como,

Que deixa o corpo, o corpo sonâmbulo interno, estacionário

para ficar sob a alçada da lei

arbitrária do ser,

em estado de morte

por paragem do coração.

(Artaud: Eu, Antonin Artaud; 1988, pg.76)

Artaud passou por diversos asilos até ser transferido para Rodez, em 1943 de onde só foi libertado três anos depois. Durante esse período escreveu as célebres “Cartas de Rodez”, na maioria endereçadas ao seu médico e diretor do asilo, Dr. Gaston Ferdière.

No Hospital Psiquiátrico de Rodez, quando esteve internado por três anos, depois de passar por vários manicômios franceses, Artaud escreve cartas a seu médico, dr. Ferdière. Aprisionado e maltratado por eletrochoques que prejudicaram sua memória, seu corpo e seu pensamento, “as cartas escritas de Rodez são, para Artaud, um recurso para não perder a lucidez. São o diálogo de um desesperado com seu médico e, através dele, com toda sociedade”.

(Programa da peça “Cartas de Rodez”, dirigida por Ana Teixeira, com atuação de Stephane Brodt. Prêmio Shell, direção e ator, e Mambembe, melhor espetáculo 98.)

Até sua chegada em Rodez o paradeiro de Artaud era desconhecido na França. Sua mãe visitou a maioria dos sanatórios do país em busca do filho desaparecido, os amigos escreveram cartas às autoridades buscando notícias. A guerra assolava a Europa e Antonin Artaud (cujo “Teatro da Crueldade” espalhava-se pelas ruínas, quartéis e campos de concentração) jazia isolado entre loucos e tratamentos desumanos que mais torturavam do que curavam. Até mesmo o psiquiatra Jacques Lacan estudou o “caso Artaud” e seu veredicto não poderia ser mais catedrático: “Viverá até oitenta anos, não escreverá mais uma linha”. Futuramente, o autor de “Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus” fez cair por terra as previsões lacanianas.

Apesar das condições em Rodez serem um tanto quanto mais toleráveis (principalmente por Ferdière ser um admirador da obra de seu paciente e procurar encoraja-lo a produzir – embora isso não o tenha impedido de também aplicar-lhe sessões de eletrochoque), foi com horror que os amigos reencontraram um Artaud completamente distinto da figura insolente e carismática de outrora.

Marthe e eu decidimos ir visitar Antonin Artaud, esquecido por todos, isolado no hospício de Rodez desde o começo da guerra. Encontramos Artaud muito fraco, aterrado. A certa altura caem à nossa frente alguns livros que pertencem ao Dr. Ferdière (…), Artaud quer apanhar os livros mas não consegue, todo seu corpo treme, temos que ajuda-lo. Conta-nos seu cotidiano em Rodez, acusa o Dr. Ferdière de o aterrorizar: – “Se não se porta bem, Sr. Artaud, temos de voltar a dar-lhe eletrochoques”. No trem de regresso Marthe chora e juramos tirar Artaud de Rodez.

(Arthur Adamov citado por Lins: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg. 108)

Finalmente, em 28 de maio de 1946, Artaud foi libertado e retornou a Paris onde procurou dar continuidade aos escritos e práticas já iniciados em Rodez. Seu projeto de um “Teatro da Cura Cruel”, evolução natural de seu “Teatro da Crueldade” crescia e assumia novas formas em meio à uma prática vocal intensa e quotidiana, na qual Artaud exercitava sua respiração e seu corpo, praticando cantos e giros conjuratórios (que também lhe serviam como proteção contra as “bruxarias” de que sentia-se vítima). A energia que ele produzia, as forças que emanavam de seu corpo enfraquecido, as incríveis variações de altura que obtinha de sua voz, a intensidade e a duração dos gritos aconteciam como um fenômeno de operação mágica. Uma prática teatral que dispensava tanto o palco quanto os recursos técnicos que Artaud sempre quis utilizar de maneira plena e constituir como parte de uma legítima linguagem para o Teatro, mas cujo controle escapou de suas mãos nos tempos do Teatro Alfred Jarry e “Os Cenci”. Cantos, gritos, gestos que pareciam absolutamente insanos para os médicos dos hospitais psiquiátricos, ignorantes das teorias que o próprio Artaud já tentara esboçar nos anos 30 nos textos “Um Atletismo Afetivo” e “O Teatro de Seraphin”, avidamente lidos por uma classe teatral que, pouco a pouco, transformava “O Teatro e Seu Duplo” em objeto de culto enquanto seu autor permanecia isolado do mundo. Não foram poucas as ocasiões em que essas práticas serviram de justificativa para as alegações de insanidade de médicos, autoridades e mesmo de leigos, fato que enfurecia Artaud, mas que, após sua libertação, levou-o a assumir tal “carapuça”. De fato, Artaud não deixou de divertir-se fazendo-se de louco e usando do choque e do horror (que ele sempre apreciou utilizar para tirar seu público da apatia, sendo num palco, num restaurante ou na rua) para dizer as verdades que acreditava.

Afirmaria que o próprio corpo do Homem, “desconectado” de suas origens, é o resultado de uma manipulação perpétua e perversa de forças malignas que oprimem a espécie humana (tais forças podem ser entendidas de várias maneiras, podem ser interpretadas como políticas, sociais, culturais, morais, enfim, mas fica claro em seus escritos que Artaud as entendia de maneira mais absoluta e cósmica, num sentido metafísico), em conseqüência a anatomia humana, ao deixar de corresponder à sua natureza, deve ser refeita. No fim de sua vida, Artaud amplia suas concepções do “Teatro da Crueldade” para um grandioso projeto ético-político de insurreição física: trata-se de transformar não apenas o Teatro, mas o Homem. A revolução não é apenas social ou cultural, mas física. O ator (e o Homem) torna-se senhor de seu destino, capaz de refazer sua própria anatomia, juntamente com seu espírito, erigir o “corpo sem órgãos”, invulnerável aos miasmas e “feitiços” do mundo contra a essência individual do ator. Decomposição e recomposição do corpo, desarticulação dos automatismos que condicionam e bloqueiam o indivíduo e o impedem de agir realmente, de modo consciente e voluntário, em cena ou na vida.

A necessidade de afirmar seu pensamento foi o combustível que moveu Artaud nesses últimos anos. Por sua própria natureza, esse pensamento não pode ser expresso meramente com palavras, verdade que Artaud sempre repetiu desde a juventude ao denunciar a limitação do texto como centro da encenação e do discurso. Suas pesquisas de linguagem ganham um ímpeto novo, a busca de uma expressão vocal primitiva, anterior à linguagem articulada, sons que remetem a sentimentos, idéias e forças metafísicas. São inúmeros os exemplos registrados dessa pré-linguagem:

ratara ratara ratara

atara tatara rana

otara otara katara

otara retara kana

ortura ortura konara

kokona kokona koma

kurbura kurbura kurbura

kurbata kurbata keyna

pesti anti pestantum putara

pest anti pestantum putra

São poemas que vão além da significação, apelando para a força dos sons e vocábulos por si mesmos, constituindo verdadeiros “encantamentos” que Artaud utilizava de maneira mística e causava um efeito profundo nas testemunhas. Durante a gravação de sua novela radiofônica “Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus”, em 1948, Artaud deu grandes mostras de seu “humor louco”, um humor que provocava medo. Maria Casarès, testemunha da gravação, deixou o seguinte depoimento:

Artaud começou a gritar. Começou a falar como “um cachorro” ou como um “galo” e Roger Blin respondia-lhe, imperturbavelmente, na mesma linguagem. Tudo isso deveria fazer rir a platéia. Ora, nem mesmo um só técnico ria. Estavam paralisados. Num canto da sala, uma mulher chorava.

(Casarès citada por Lins: O Artesão do Corpo sem Órgãos; 1999, pg.120)

A emissão da novela radiofônica foi proibida pela censura pouco antes de ir ao ar. Mais um dos inúmeros fracassos das tentativas de Artaud de tornar real o seu pensamento e seu Teatro. Mas, como Alain Virmaux continuamente repete em seu livro “Artaud e o Teatro”, o fracasso, em Artaud, é tão revelador quanto o sucesso poderia ser. Mesmo interditada, a novela constitui um elemento importantíssimo no “mito-Artaud”, tanto quanto foi “Os Cenci” ao ser visto retroativamente e guardando as limitações impostas pelas circunstâncias. Depois dos internamentos, Artaud tornou-se uma quase vedete da intelectualidade francesa. Mostras foram realizadas em sua homenagem, o “Teatro e Seu Duplo” era reeditado e ganhava cada vez mais atenção, nunca antes Artaud foi tão ouvido, embora o estado doentio em que se encontrava tenha causado o afastamento de velhos amigos que não suportavam lidar com sua presença e o efeito que provocava. Ainda assim, como a solidão já era parte integrante de sua existência desde jovem, Artaud trabalhava freneticamente, escrevendo, compondo, ciente de que a morte rondava, aos 50 anos de idade, com um estado de saúde cada vez mais precário. “Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus” foi seu projeto concreto mais ambicioso no período. Na gravação é possível identificar, de maneira subjetiva e indistinta (como não poderia deixar de ser) o essencial de seu pensamento: o trabalho do ator, a visão do encenador, o feiticeiro, o peregrino regresso das terras do tarahumaras. No “Rito do Sol Negro”, na “Procura da Fecalidade”, Artaud expressa seu ideal de reconstrução do homem e do corpo.

Onde cheirar a merda

cheira a ser.

O homem poderia muito bem deixar de cagar,

deixar de abrir a bolsa anal,

mas preferiu cagar

como poderia ter preferido viver

em vez de consentir em viver morto.

É que para não fazer cocô

teria que aceder

a não ser,

mas ele é que não foi capaz de se resolver a perder o ser,

isto é a morrer vivo.

(Artaud: Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus; 1975, pg 29)

Idéias indigestas, expressas de modo ainda mais indigesto, que Artaud já havia desistido de, tentar explicar verbalmente desde a histórica conferência no Vieux-Colombier, um ano antes, quando um recém libertado Antonin Artaud surgiu diante de um público parisiense de artistas, intelectuais e curiosos (entre os quais, Sartre, Picasso, Camus, além dos amigos Blin, Adamov e Gide) num evento preparado para reintroduzi-lo no universo das letras francesas. O texto dessa conferência sobreviveu e foi editado como “A História Vivida de Artaud-Momo”, narrando desde as experiências com o peyote até a violência dos tratamentos nos sanatórios e suas idéias metafísicas. Mas Artaud jamais terminou a conferência, abandonando-a quando os papéis caíram de suas mãos e ele não quis (ou não pôde) reorganiza-los, partindo para um aparente improviso recheado de silêncios, ofensas, gritos e feitiços. O que ocorreu nessa conferência é assunto controverso. Fala-se tanto de um fracasso deprimente quanto de um êxito soberbo. Virmaux (que assina o texto introdutório de “A História Vivida de Artaud-Momo”) defende que foi no Vieux-Colombier que Artaud, pela primeira e única vez, encenou o “Teatro da Crueldade”, vivido por um único homem, o personagem Antonin Artaud, e todas as testemunhas concordam que, entre vaias e ovações, ninguém saiu indiferente do teatro. Em um testemunho célebre, Gide descreve o evento com as seguintes palavras:

A razão batia em retirada; não unicamente a sua mas a razão de toda a assistência, de todos nós, espectadores desse drama atroz, reduzidos ao papel de comparsas malévolos, debochados e grosseiros. Oh! não, mais ninguém na platéia, tinha vontade de rir (…) Artaud nos havia atraído para seu jogo trágico de revolta contra tudo aquilo que, admitido por nós, para ele permanecia mais puro e inadmissível:

Nós ainda não nascemos.

Ainda não estamos no mundo.

Ainda não existe mundo.

As coisas ainda não se fizeram.

A razão de ser não foi achada…”

Ao sair dessa memorável sessão o público se calava. Que se poderia dizer? Acabávamos de ver um homem miserável, atrozmente sacudido por um deus, como que no liminar de uma gruta profunda, antro secreto da sibila, onde nada de profano é tolerado, onde, como em um Carmelo poético, um vate é exposto, oferecido aos raios, aos abutres vorazes, ao mesmo tempo sacerdote e vítima… Todos se sentiam envergonhados de retomar lugar em um mundo no qual o conforto é formado de compromissos.

(Gide in Virmaux: Artaud e o Teatro; 1978, pg 366)

Embora talvez supervalorizando os fatos através de uma veia poética, o testemunho passa uma noção do impacto da sessão, que o próprio Artaud em parte teria explicado numa carta ao amigo André Breton:

Não creio que o palco do Vieux-Colombier ou outro palco de teatro já tivesse visto o que mostrei e dei a ouvir naquela noite; tanto mais que acresce o facto de toda a gente ter podido verificar, de se ter podido ver como o suposto conferencista que eu realmente não era, de qualquer forma o suposto homem de teatro, renunciava ao seu espetáculo, fazia as malas e ia-se embora; porque, na verdade, eu tinha reparado que já bastava de palavras e até mesmo de rugidos, e o necessário eram bombas; ora, eu não as tinha nas mãos nem nos bolsos.

(Artaud: A História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg 26)

Um basta às palavras, portanto, um último ato em “Para Acabar com o Juízo de Deus”, um recolhimento para aguardar o fim. Diagnosticado um câncer inoperável no reto, Artaud sabia que tinha seus dias contados. Ainda assim não deixava de trabalhar e fomentar projetos, mesmo sofrendo cada vez mais agudamente com as dores. A morte, que Artaud nunca deixou de afirmar ser um estado inventado, apenas mais uma máscara a que o homem se submete por renunciar a ser o senhor de seu destino, chegou num quarto da clínica de Ivry, em 14 de março de 1948, poucos meses após a proibição da peça radiofônica. O fim através de um câncer – uma falência do organismo que muitos médicos e místicos afirmam ter uma origem psicossomática – ou, talvez por um suposto suicídio, parece fazer um estranho sentido para um homem que afirmava ter tido a espinha partida e depois recomposta na Irlanda e ter morrido e voltado numa mesa de eletro-choque em Rodez:

(…) Simplesmente te disse e repito que eu, Antonin Artaud, com os cinqüenta que já cá cantam, me lembro do Gólgota. Lembro-me dele como me lembro de estar no asilo de Rodez no mês de Fevereiro de 1943, morto por um eletrochoque que me foi imposto contra vontade.

– Se estivesse morto, não continuaria lá.

– Estou morto, realmente morto, e a minha morte foi clinicamente verificada

E voltei depois, como um homem que regressa do além.

Eu também me lembro desse além.

(Artaud: A História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg 53)

De qualquer forma, Artaud faleceu deixando um legado praticamente mítico. Suas idéias, seus textos, especialmente “O Teatro e Seu Duplo” se tornaram uma referência obrigatória para encenadores do mundo inteiro, sendo aceitas ou não. Os anos 60 e 70 testemunharam o surgimento de um verdadeiro culto à imagem do criador do “Teatro da Crueldade”, um culto muitas vezes exagerado e desprovido de bases sólidas, movido muito mais pela paixão e o pseudo-misticismo ligado ao pensamento artaudiano do que a uma real compreensão de suas idéias. As últimas décadas testemunharam uma releitura mais atenta e menos delirante de sua obra, devolvendo as contribuições de Artaud, tanto para o Teatro quanto para os estudos de linguagem, de volta à sua real proporção.

São inúmeros os grupos, atores e teóricos que deram continuidade aos trabalhos de Artaud, de forma direta ou indireta. Autores como Ionesco e Beckett mostram uma clara influência, bem como às origens do conceito de happening. Peter Brook e o Living Theatre desenvolveram grandes espetáculos assumidamente dentro de uma estética artaudiana, bem como o teatro-laboratório de Jerzy Grotowski, que de forma hábil e lúcida, ajudou a criticar e esclarecer muitas das propostas teatrais de Artaud e lhe dedicou um dos capítulos de “Em Busca de Um Teatro Pobre”: “Ele não era inteiramente ele”.

Deve-se repetir mais uma vez: se Artaud tivesse tido à sua disposição o material necessário, suas visões teriam se desenvolvido do indefinido para o definido. Ele poderia tê-las convertido numa forma, ou, melhor ainda, inclusive numa técnica. Estaria então em condições de antecipar todos os reformadores, pois teve a coragem e o poder de ir além da corrente lógico-discursiva. Tudo isso poderia ter acontecido, mas não aconteceu.

(Grotowski: Em Busca de um Teatro Pobre; 1976, pg.71-72)

Mas aconteceu nos anos que seguiram a morte do “homem-teatro”. É fascinante notar que hoje muito do que era polêmico e alvo de estranhamento nas propostas de Artaud é prática corrente e “comum” nas atividades teatrais: o uso de espaços alternativos, o cuidado especial na composição da iluminação e sonoplastia, o domínio do encenador como regente máximo do espetáculo, o fim do domínio absoluto do texto, o uso de signos, a integração do público à cena, enfim, se o Teatro da Crueldade” só pôde se tornar real em raríssimas e pontuais ocasiões (se é que realmente o foi, ao menos na forma pura que Artaud pregava) ao menos seus diversos elementos integraram-se de maneira efetiva no fazer teatral.

Assim, as palavras finais de Artaud a respeito do Teatro, escritas na “Última Carta Sobre o Teatro”, endereçada à Paule Thévenin em 25 de fevereiro de 1948 (tendo Artaud morrido em 4 de março), definitivamente não ficaram sem um eco:

Paule, estou muito triste e desesperado

meu corpo dói de todos os lados

mas sobretudo tenho a impressão de que todos se decepcionaram

com a minha emissão radiofônica.

Lá onde está a máquina

é sempre o abismo e o nada

há uma interposição técnica que deforma e aniquila aquilo que se faz.

As críticas de M. e A. são injustas mas devem ter tido sua base em um defeito de transmissão

é por isso que eu jamais voltarei ao Rádio

e consagrarei doravante exclusivamente ao teatro

como o concebo

um teatro de sangue

um teatro que a cada representação proporcionará

corporalmente

alguma coisa a quem representa

como a quem vem assistir a representação

aliás,

não se representa,

age-se

o teatro é na realidade a gênese da criação.

Isto se fará.

Tive uma visão hoje à tarde

vi aqueles que me seguirão e aqueles que ainda não tem um corpo

porque os porcos como aqueles dos restaurante de ontem a noite comem demais.

Existe quem como demais

e outros como eu que não podem mais comer sem escarrar

em vocês.

(Artaud citado em Virmaux: Artaud e o Teatro, 1978, pg 334-335)

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

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ARTAUD, Antonin (1896-1948). Linguagem e Vida. Org. J. Guinsburg, Sílvia Fernandes Telesi, Antonio Mercado Neto. São Paulo: Perspectiva. 2004

ARTAUD, Antonin (1896-1948). O Pesa-Nervos. Trad. Joaquim Afonso. Lisboa: Hiena Editora. 1991. 91p.

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ARTAUD, Antonin (1986-1948). Os Sentimentos Atrasam. Trad. Ernesto Sampaio. Lisboa: Hiena Editora. 1993. 73 p.

ASLAN, Odette. O Ator no Século XX. São Paulo: Perspectiva, 1994

COELHO, Teixeira. Antonin Artaud – Posição da Carne. São Paulo: Brasiliense. 1982, 120p. (Coleção Encanto Radical; 16)

FELÍCIO, Vera Lúcia. A Procura da Lucidez em Artaud. São Paulo: Perspectiva, FAPESP. 1996, 202p. (Coleção Estudos; 148)

GROTOWSKI, Jerzy. Ele não era inteiramente ele, in: Em Busca de um Teatro Pobre. Trad. Aldomar Conrado. 2.ªed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1976. (Coleção Teatro Hoje, Série: Autores Estrangeiros/Vol.19)

LINS, Daniel. Antonin Artaud: O Artesão do Corpo Sem Órgãos. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999. (Coneções/2)

ROUBINE, Jean-Jacques. As Metamorfoses do Ator, in: A Linguagem da Encenação Teatral. Trad. Yan Michalski. 2.ªed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1998.

SONTAG, Susan. Abordando Artaud, in: Sob o Signo de Saturno. São Paulo: L&PM. 2.ªed. 1973.

VIRMAUX, Alain. Artaud e o Teatro. Trad. Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Perspectiva, FAPESP. 1978, 388p. (Coleção Estudos; 58)

“Quem sou eu?

De onde venho?

Sou Antonin Artaud

e basta que eu o diga

Como só eu o sei dizer

e imediatamente

hão de ver meu corpo

atual,

voar em pedaços

e se juntar

sob dez mil aspectos

diversos.

Um novo corpo

no qual nunca mais

poderão esquecer.

Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,

meu pai,

minha mãe,

e eu mesmo.

Eu represento Antonin Artaud!

Estou sempre morto.

Mas um vivo morto,

Um morto vivo.

Sou um morto

Sempre vivo.

A tragédia em cena já não me basta.

Quero transportá-la para minha vida.

Eu represento totalmente a minha vida.

Onde as pessoas procuram criar obras

de arte, eu pretendo mostrar o meu

espírito.

Não concebo uma obra de arte

dissociada da vida.

Eu, o senhor Antonin Artaud,

nascido em Marseille

no dia 4 de setembro de 1896,

eu sou Satã e eu sou Deus,

e pouco me importa a Virgem Maria.”

 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/antonin-artaud/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/antonin-artaud/