O Santo Graal e a Linhagem Sagrada

Publicado no S&H em 04/03/09

Na Semana anterior começamos finalmente uma das séries mais empolgantes aqui no Teoria da Conspiração: Os Mitos do Rei Arthur e suas relações com a Mitologia, o Ocultismo, a Alquimia e com os Cavaleiros Templários.
Semana passada falamos sobre Excalibur e o simbolismo da Espada dentro da Alquimia e ocultismo, bem como das origens de uma das mais famosas armas mágicas de todos os tempos. Esta semana, nos aventuraremos na origem e significado do Cálice Sagrado.

A Cornucópia
Um dos amuletos mais comuns e conhecidos no mundo são os pedaços de chifres e cornos (ou metais e corais moldados à forma de um chifre). Este amuleto é também chamado de Cornucópia de Amaltea e sua origem data das celebrações gregas.
E quem era Amaltea?
Amaltea era uma cabra descendente do Sol que vivia numa gruta no monte Ida, em Creta. Ou segundo outras fontes, era uma ninfa, filha de Meliseo, que alimentou Zeus com o leite de uma cabra.
Segundo as lendas, quando Zeus era pequeno e estava escondido de seu pai, Saturno (Chronos) e era tratado por Amaltea, num ataque de ira, o deus menino agarrou com força o corno da cabra, puxou-o e arrancou-o, produzindo uma enorme dor à sua cuidadora. Quando Zeus ficou adulto, ele concedeu ao chifre arrancado o dom da abundância; a partir desse momento o chifre estaria sempre cheio de alimentos e bens que o seu dono possa desejar.
Quando Amaltea morreu, foi levada a Zeus, que a transformou na constelação de Capricórnio. O chifre ficou conhecido como “a cornucópia” ou “o corno da abundância”. Desta maneira, ao mesmo tempo, este símbolo representava o poder fálico dos deuses criadores e o ventre gerador da vida feminino. Traçando um paralelo com a Kabbalah hermética, temos o Caminho de Daleth, entre Hochma e Binah.

Cornu Copiae
Já na mitologia romana, a cornucópia deriva do latim “Cornu copiae”. A cornucópia ou corno da abundância é um dos cornos do deus-rio Aqueloo, metamorfoseado em touro, que lhe foi arrancado por Hércules, quando lutava contra ele.
Segundo outros textos romanos, a lenda segue a original grega: é um chifre da cabra com cujo leite, a ninfa Amaltea, amamentou Júpiter na sua infância, quando se escondeu de seu pai, Saturno, para que este não o devorasse. Diz-se que Júpiter arrancou o corno à cabra enquanto brincava, e ofereceu-o a Amaltea, asseguran-do-lhe que o corno se encheria de frutos cada vez que ela o desejasse. A cornucópia é um atributo muito mostrado nas moedas romanas, nas mãos de divindades benéficas, como Ceres e Cibeles, ou de alegorias como a Abundância e a Fortuna.
Como curiosidade, a cornucópia é usada atualmente como símbolo do Mestre de Banquetes em algumas ordens cavaleirescas e na maçonaria.

O Chifre de Epona e o Unicórnio
Entre os povos gauleses, a principal divindade relacionada com os equídeos é a deusa gaulesa, ou melhor, galo-romana, chamada Epona (ou Epona Regina), cujo nome deriva do gaulês epo, que significa cavalo. O seu culto difundiu-se até à Bretanha e ao leste da Europa, especialmente na região de Borgonha. Na Península Ibérica foram documenta dos alguns vestígios epigráficos que testemunham o seu culto.
Epona possui diversas referências e numerosas imagens da deusa, geralmente montada sobre um cavalo. A deusa era representada muitas vezes com uma série de atributos, como a cornucópia ou a patera (espécie de bacia de cerâmica onde eram feitas as oferendas, semelhante a um caldeirão raso), que a relacionam com a abundância e a prosperidade. Também estava vinculada com as fontes e ao mundo espiritual.
Da fusão destas duas características da mesma deusa surgem os primeiros relatos medievais de uma criatura encantada que vocês já devem estar imaginando quem seja: o Unicórnio. O Cavalo Branco, símbolo sagrado para a Deusa Epona, associado ao chifre mágico que tudo produz. Claro que esta criatura não existe no Plano Físico, embora muitos picaretas ao longo dos milênios tenham tentado forjar unicórnios com esqueletos de cavalos e narvais, além de rinocerontes e de uma criatura particular chamada Orix.
Até então, o Unicórnio estava associado a um BOI de um único chifre, não a um cavalo. Na Bíblia, em Números 23:22 e no Deuteronômio 33:17, é citado o unicórnio como um animal de força extraordinária. Nos ritos antigos, era costume cortar um dos chifres do maior e mais viril touro do rebanho para ser usado como taça cerimonial para beber o vinho sagrado ao final dos rituais egípcios, junto com o Pão (e qualquer semelhança com a Santa Ceia e o Cálice Sagrado NÃO é mera coincidência!).
O Touro, agora considerado sagrado, era chamado de Uni-corno. Somente com os gauleses e com Epona esta associação passou a ser feita com cavalos. Uma curiosidade é que durante todo este tempo, na história grega, o unicórnio não aparecia em textos de Mitologia, mas sim em textos de biologia, pois os gregos estavam convencidos de que era uma criatura real.
E desta relação surgem as lendas a respeito da pureza necessária para se tocar o chifre de um unicórnio. Embora o primeiro escritor a descrever que “somente uma virgem poderia cavalgar um unicórnio” foi o Grão Mestre Leonardo DaVinci, em suas anotações datadas de 1470, para o quadro “Jovem sentada com unicórnio”.

Mimisbrunnr
Um dos chifres que também é famoso na mitologia é o Gjallarhorn, narrado nas Prosas Eddas do século XIII, que originalmente é o chifre usado por Odin para beber a água da sabedoria da fonte que fica debaixo de Yggdrasil, a Árvore da Vida. De acordo com a história, qualquer um que seja capaz de beber deste chifre terá vida eterna e abundância material. Para vocês terem uma idéia de como este conhecimento é valioso, de acordo com a lenda, Odin sacrificou um de seus olhos em troca da oportunidade de beber destas águas (a razão pela qual Odin sempre é retratado com um tapa-olhos nas imagens nórdicas).
Este chifre acaba se tornando a posse de maior valor de Heimdall, o guardião da Ponte do Arco-Íris que liga Aasgard à Terra (que simbolicamente representa o caminho de Tav na Kabbalah, unindo Yesod a Malkuth, com todas as simbologias associadas a este caminho). O Gjallahorn é a trombeta que será tocada no dia do Juízo Final para anunciar o Ragnarok.

O Caldeirão de Dagda
O deus supremo do panteão celta é chamado de Dagda (esposo da deusa da natureza e prosperidade, Danu). O Dagda é uma figura paternal, protetor da tribo e o deus “básico” do qual outros deuses masculinos podem ser considerados variantes. Também associado com Cernunnos e outros deuses “chifrudos” tanto do panteão celta quanto do panteão grego. Os Contos irlandeses descrevem Dagda como uma figura de força imensa, armado de uma clava e associado a um caldeirão (o Caldeirão de Sangue, que continha diversas propriedades mágicas).
E adivinhem o que este caldeirão fazia?
O Caldeirão de Dagda estava sempre cheio de sopa, vegetais e frutas, providenciando abundância e alimentos para todos a seu redor, sem nunca se esgotar. Poderia servir a toda uma tribo durante um banquete e nunca estaria vazio. O Caldeirão de Dagda é considerado um dos quatro tesouros da Irlanda (os outros são a Espada de Nuada, a Lança de Lugh e a Pedra de Fal). Note que, mais uma vez, fazem-se referências aos quatro elementos da Alquimia e aos quatro naipes do Tarot, quase seiscentos anos antes do tarot aparecer “oficialmente” na forma de cartas. Mas falarei sobre isso depois que acabar esta série sobre o Rei Arthur.

O Mabinogion
Nas lendas posteriores, o Caldeirão de Cerridwen passa a ter sua localização nos Reinos Subterrâneos, mas mantém suas propriedades de sabedoria, vidência e prosperidade, culminando no famoso poema “The Spoils of Annwn”, onde o conhecemos como o “Caldeirão do rei Odgar”. Este caldeirão mágico é roubado do rei Odgar pelo Rei Arthur e seus homens, no poema “Culhwch and Owen” (onde estavam os celtas quando distribuíram as vogais?).
Neste poema, temos o primeiro contato com uma “jornada aos reinos Subterrâneos” em busca de um “Caldeirão Mágico”. O caldeirão é, então, levado por Arthur para a casa de Llwydeu, filho da deusa Rhiannon. Até ai tudo bem, mas Rhiannon é outro nome para Epona, “A Grande e Divina Rainha”, que se torna, então, proprietária do tal caldeirão mágico (que em algumas pinturas é retratado como uma espécie de vasilha rasa usada para oferecer comida aos deuses, a já mencionada patera). A mesma deusa Epona dos chifres mágicos, etc, etc etc.
Estas histórias acabam entrando em uma coletânea de livros galeses, que se tornaram famosas a partir do século XIII e traçam as bases das lendas mais conhecidas do rei Arthur.
A Jornada ao Reino Subterrâneo eu já descrevi em colunas anteriores, quando falei sobre Yesod e o Reino dos Mortos simbólico.

O Caldeirão e o Sangreal
A partir das cruzadas e dos Templários agindo mais abertamente, algumas destas lendas acabaram sendo recontadas sob o ponto de vista dos cavaleiros e dos cátaros, os protetores da linhagem Sagrada, que aproximaram as narrativas a respeito do Graal.
Para entender a próxima etapa, recomendo a leitura dos seguintes textos, na seguinte ordem:
– Perceval, de Chrétien de Troyes
– Lancelot ou le chevalier de la charrette, versos de Chrétien de Troyes
– Yvain ou le chevalier au lion, versos de Chrétien de Troyes
– Perceval ou le Conte du Graal, versos de Chrétien de Troyes
– Parzival, de Wolfram von Eschenbach
– Joseph d’Arimathie de Robert de Boron
– La Mort D´Arthur, de Thomas Malory

Eles foram publicados em um espaço de tempo relativamente curto e formataram a lenda do Rei Arthur e da Távola Redonda tal qual a conhecemos hoje. Sei que, como os 4 elementos da narrativa fluem juntos (o Graal, Excalibur, o Cajado de Merlin/Lança do rei Pecador e a Távola Redonda/Cavaleiros), talvez algumas partes deste texto ainda vão gerar dúvidas. Eu recomendo a vocês relerem cada matéria novamente antes de avançar para as próximas, e tudo vai fazer mais e mais sentido a cada novo elemento, ok?

Perceval ou Lê Conte du Graal
Nesta série de poemas, estamos finalmente dando uma forma para o Graal, da maneira como ele é mais conhecido pelo público leigo: A forma de um cálice ou, mais precisamente, o Cálice usado na Santa Ceia.
Perceval ou le Conte du Graal (Perceval, o Conto do Graal) é um romance inacabado de Chrétien de Troyes escrito provavelmente entre 1181 e 1191, dedicado ao patrono do escritor, Filipe da Alsácia, conde de Flandres e cavaleiro Templário. Chrétien havia trabalhado na obra a partir de escrituras iniciáticas fornecidas por Filipe e relata as aventuras do jovem cavaleiro Perceval.
O poema é iniciado com o jovem Perceval encontrando cavaleiros e percebendo que também gostaria de ser um. Sua mãe o havia criado fora dos domínios da civilização, nas florestas do País de Gales, desde a morte de seu pai. A contragosto de sua mãe, o garoto parte para a corte do Rei Artur, onde uma garota prevê grandes conquistas na vida dele. Ele é caçoado por Kay, mas torna-se cavaleiro e parte para aventuras. Perceval salva e apaixona-se pela jovem princesa Brancaflor, e treina com o experiente Gornemant.
Em um momento de sua vida conhece o Rei Pescador, que convida Perceval a permanecer em seu castelo. Enquanto estava lá, o cavaleiro presenciou uma procissão em que jovens carregam objetos magníficos entre cômodos, passando por ele em cada fase do evento. Primeiro aparece um jovem carregando uma lança coberta por sangue, e depois dois jovens carregando candelabros. Por fim, uma jovem aparece trazendo consigo um decorado cálice (o Graal). O objeto contém uma alimento que miraculosamente sustém o pai ferido do Rei Pescador.
Tendo sido aconselhado para tal, o jovem cavaleiro permanece em silêncio durante todo a cerimônia, apesar de não entender seu significado. No dia seguinte, ele volta para a corte do Rei Artur.
Antes de se manifestar no local, uma dama furiosa com trejeitos celtas entra na corte e clama a falha de Perceval em perguntar sobre o Graal, já que a pergunta apropriada curaria o Rei Ferido. Ela então anuncia que os Cavaleiros da Távola Redonda já haviam se prontificado a buscar o Cálice.
E o poema termina ai, sem um final…

O Rei Pescador aparece originalmente neste poema. Nem sua ferida nem a ferida de seu pai são explicadas, mas Perceval descobre posteriormente que os reis seriam curados se ele perguntasse sobre o Graal. Percival descobre que ele próprio é da linhagem dos Reis do Graal através de sua mãe, que é filha do rei ferido. Entetanto, o poema é terminado antes que Perceval retornasse ao castelo do Graal.
A associação entre “Pescador” e “Pecador” (no original Pêcheur e Pécheur respectivamente) é proposital, pois faz diversas associações entre o símbolo do Pescador, da linhagem de Yeshua e sua associação com a multiplicação dos peixes e com os apóstolos “pescadores” em diversas passagens do Novo Testamento.

Chrétien não chegou a usar o adjetivo “sagrado” para o Graal, assumindo que sua audiência (templária) já estaria familiarizada como o termo. Neste poema, Chrétien deixava implícito que havia uma dinastia descendente direta de Jesus, isso mais de 700 anos antes do Dan Brown!

Associação direta do Graal ao Sangue de Jesus
O próximo trabalho sobre o tema “Linhagem Sagrada” foi apresentado no poema Joseph d’Arimathie de Robert de Boron, o primeiro a associar diretamente o Graal à Jesus Cristo. Nesta obra, o “Pescador Rico” chama-se Bron, e ele é dito ser cunhado de José de Arimatéia, que havia usado o Graal para armazenar o sangue de Cristo antes de o deitar na tumba. José então encontra uma comunidade religiosa que viaja para a Bretanha, confiando o Graal à Bron (falarei sobre a relação entre José de Arimatéia, ou Yossef Rama-Teo e Merlin na próxima coluna).

Segundo a lenda, José de Arimatéia teria recolhido no Cálice usado na Última Ceia (o Cálice Sagrado), o sangue que jorrou de Cristo quando ele recebeu o golpe de misericórdia, dado pelo soldado romano Longinus, usando uma lança, depois da crucificação. Boron conta ainda que, certa noite, José é ferido na coxa por uma lança (perceba também, sempre presente, as referências às lanças, símbolos do fogo, tanto nas histórias de Jesus como de Arthur). Em outra versão, a ferida é nos genitais e a razão seria a quebra do voto de castidade (este fato mais tarde dará origem ao desenvolvimento literário do affair entre Lancelot e Guinevere, que precisa ainda ser mais detalhado).

Somente uma única vez Boron chama a taça de Graal (ou SanGreal). Em um inciso, ele deduz que o artefato já tinha uma história e um nome antes de ser usado por Jesus: “eu não ouso contar, nem referir, nem poderia fazê-lo (…) as coisas ditas e feitas pelos grandes sábios. Naquele tempo foram escritas as razões secretas pelas quais o Graal foi designado por este nome”.
Em outra versão do poema, teria sido a própria Maria Madalena, segundo a Bíblia a única mulher além de Maria (a mãe de Jesus) presente na crucificação de Jesus, que teria ficado com a guarda do cálice e o teria levado para a França, onde passou o resto de sua vida, dando origem à já conhecida “linhagem Sagrada”.

O cavaleiro e escritor Wolfram von Eschenbach baseia-se na história de Chrétien e a expande em seu épico Parzival. Ele re-interpreta a natureza do Graal e a comunidade que o cerca, nomeando os personagens, algo que Chrétien não havia feito; o rei pai é chamado de “Titurel” e o rei filho de “Anfortas”.

Sarras e São Corentin
Outro aspecto muito importante a respeito do Santo Graal é Sarras, a cidade mítica para onde o Graal é levado ao término do poema. A Cidade mítica de Sarras. Sarras é a “Cidade nos confins do Egito, onde está armazenada toda a sabedoria antiga”, que está associada às terras bíblicas de Seir. Porém, ao analisarmos o nome do rei de Sarras, Sir (Es)corant, chegamos a um personagem muito importante do século VI, chamado São Corentin.
Corentin, ou Corenti em alguns textos, foi um monge da Cornualha cujo monastério ficava justamente na península de Sarzeu Uma das lendas a respeito de Corentin é a de que ele teria vivido durante um período na floresta sendo alimentado apenas por um peixe. Ele comia um pedaço do peixe e, no dia seguinte, o peixe estava vivo e inteiro novamente. É muito simples perceber a associação entre Sarras/Sarzeu, Es-Corant/St Corentin e o rei pescador/monge pescador neste poema.

O Graal-pedra
Em “Parzifal”, o cavaleiro alemão Wolfram Von Eschenbach coloca na mão dos Templários a guarda do Graal que não é uma taça, mas sim uma pedra: o poema fala sobre uma gema verde esmeralda.

Ela trazia o desejo do Paraíso: era objeto que se chamava o Graal!
(Parzifal)

Para Eschenbach, o Graal era realmente uma pedra preciosa, pedra de luz trazida do céu pelos anjos. Ele imprime ao nome do Graal uma estreita dependência com as força cósmicas. A pedra é chamada Exillis ou Lapis exillis, Lapis ex coelis, que significa “pedra caída do céu”.

É a referência à esmeralda na testa de Lúcifer, que representava seu Terceiro Olho. Quando Lúcifer, o anjo de Luz, se rebelou e desceu aos mundos inferiores, a esmeralda partiu-se pois sua visão passou a ser prejudicada. Uma dos três pedaços ficou em sua testa, dando-lhe a visão deformada, que foi a única coisa que lhe restou. Outro pedaço caiu ou foi trazido à Terra pelos anjos que permaneceram neutros durante a rebelião. Mais tarde, o Santo Graal teria sido escavado neste pedaço.

Façamos agora uma comparação entre o Graal-pedra de Eschenbach com a não menos mítica Pedra Filosofal, que transformava metais comuns em ouro, homens em reis, iniciados em adeptos; matéria e transmutação, seres humanos e sua transformação. O alemão têm como modelo de fiéis depositários do cálice sagrado os Cavaleiros Templários (de novo!).

Seria Wolfran von Eschenbach um Templário? Certamente que sim. Era a época em que Felipe de Plessiez estava à frente da ordem quase centenária. O próprio fato de ser a pedra uma esmeralda se relaciona com a cavalaria. Os cavaleiros em demanda usavam sobre sua armadura a cor verde, sinônimo de vitalidade e esperança. Malcom Godwin, escritor rosacruz, refere-se a Parzifal da seguinte maneira: “Muitos comentadores argumentaram que a história de Parzifal contém, de modo oculto, uma descrição astrológica e alquímica sobre como um indivíduo é transformado de corpo grosseiro em formas mais e mais elevadas”.
Nesta obra, que é um retrato da Idade Média – feito por quem sabia muito bem sobre o que estava falando – reconhece-se uma verdadeira ordem de cavalaria feminina, na qual se vê Esclarmunda, a virgem guerreira cátara, trazendo o Santo Graal, precedida de 25 cavaleiros segurando tochas, facas de prata e uma mesa talhada em uma esmeralda (mais para a frente, voltarei a este assunto quando for falar de Joana D´Arc).

Na descrição do autor da cena de Parzifal no castelo do rei-pescador (que, assim como Jesus, saciara a fome de muitas pessoas multiplicando um só peixe) lemos:

“Em seguida apareceram duas brancas virgens, a condessa de Tenabroc e uma companheira, trazendo dois candelabros de ouro; depois uma duquesa e uma companheira, trazendo dois pedestais de marfim; essas quatro primeiras usavam vestidos de escarlate castanho; vieram então quatro damas vestidas de veludo verde, trazendo grandes tochas, em seguida outras quatro vestidas de verde (…). “Em seguida vieram as duas princesas precedidas por quatro inocentes donzelas; traziam duas facas de prata sobre uma toalha. Enfim apareceram seis senhoritas, trazendo seis copos diáfanos cheios de bálsamo que produzia uma bela chama, precedendo a Rainha Despontar de Alegria; esta usava um diadema, e trazia sobre uma almofada de achmardi verde (uma esmeralda) o Graal, ‘superior a qualquer ideal terrestre’”.

As histórias que fazem parte do chamado “ciclo do Graal” foram redigidas de 1180 até 1230, o que nos inclina a relacioná-las com a repressão sangrenta da heresia cátara (mas terei de fazer um post paralelo só sobre a Cruzada contra os Cátaros para explicar como tudo isto está intimamente relacionado).

Conta-se que durante o assalto das tropas do rei Filipe II de França à fortaleza de Montsegur, apareceu no alto da muralha uma figura coberta por uma armadura branca que fez os soldados recuarem, temendo ser um guardião do Graal. Alguns historiadores admitem que, prevendo a derrota, os cátaros emparedaram o Graal em algum dos muros dos numerosos subterrâneos de Montsegur e lá ele estaria até hoje.

A “Mesa de Esmeralda” evocada pelas histórias de fundo cátaro relacionam-se de maneira óbvia com outra “mesa”: a Tábua de Esmeralda atribuída a Hermes Trimegistos. A partir daí o Graal-pedra cede lugar ao Graal-livro.

O Graal-livro
O Graal-taça é tido como um episódio místico e o Graal-pedra como a matéria do conhecimento cristalizado em uma substância. Já o Graal-livro é a própria tradição primordial, a mensagem escrita. Em “José de Arimatéia”, Robert de Boron diz que “Jesus Cristo ensinou a José de Arimatéia as palavras secretas que ninguém pode contar nem escrever sem ter lido o Grande Livro no qual elas estão consignadas, as palavras que são pronunciadas no momento da consagração do Graal”. De fato, em “Le Grand Graal”, continuação da obra de Boron por um autor anônimo, o Graal é associado – ou realmente é – um livro escrito de próprio punho por Jesus, o qual a leitura só pode entender – ou iluminar – quem está nas graças de Deus. E por conta disso temos uma noção de que “segredos Templários” o Vaticano estaria atrás todo este tempo.

“As verdades de fé que este contém não podem ser pronunciadas por língua mortal sem que os quatro elementos sejam agitados. Se isso acontecesse realmente, os céus diluviariam, o ar tremeria, a terra afundaria e a água mudaria de cor”.

Semana que vêm, Merlin, Cajados, Lanças, José de Arimatéia e os Reis Pescadores.
Qualquer dúvida, mandem nos comentários que eu tento responder.

PS: o Sedentário está com a CSS zoada, então não aparece nem negrito e nem itálico nos textos.

————————————-
– O Tarot, a Kabbalah e a Alquimia
– Os Illuminati
– A História de Gilgamesh
– Belém institui o “Dia do Dizimista”
– História da Umbanda
– O Círculo Mágico
– Raul Seixas, Paulo Coelho e a Sociedade Alternativa
– Arcano 13 – a Morte
– Pai Nosso em Aramaico
– o Bode na Maçonaria

#ReiArthur

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-santo-graal-e-a-linhagem-sagrada

Entrevista com Ville Valo, líder do H.I.M

A seguinte transcrição trata-se originalmente de uma vídeo-entrevista concedida por Ville Valo a GothicBeauty. Nela, Ville fala sobre os últimos discos da Banda e ainda faz uma análise da atual cena Gótica mundial.

Você está em uma turnê promocional certo ?

Valo: Sim. Graças a Deus já está no fim. Eu tenho apenas duas semanas de folga desde que começamos a gravação de Venus Doom, quase um ano atrás. Fico feliz em poder voltar para minha casa e encontrar todas as minhas coisas, todos os meus livros espalhados pelo chão. Mudei de apartamento recentemente e ainda não tive tempo de arrumar as coisas no lugar certo. O lugar está todo bagunçado.

O quê você está lendo no momento ?

Valo: Um livro chamado “Rat Scabies and the Holy Grail.” Sabe aquela banda punk dos anos 70 chamada The Damned ? Rats Scabies era o baterista dos caras. É mais ou menos um tratamento dado a Código da Vinci segundo as premissas punks.

É muito divertido. Alguns ingleses piraram nessa loucura de encontrar o Santo Graal na França enquanto se empanturram de vinho e procuram pelo tesouro. Ótimo entretenimento para as horas intermináveis de vôo.

Poderia descrever o novo disco em poucas palavras ?

Valo: Amor, Metal, De novo. Nossos conhecidos por Love Metal desde que começamos. Temos uma queda por coisas como Elvis Presley, Roy Orbinson e Chris Isaac e esse tipo de som. Mas ao mesmo tempo, nós crescemos ouvindo Kiss, então, tentamos juntar numa coisa só o melhor dos dois mundos.

Existe alguma canção em particular em Venus Doom que te deixa mais orgulhoso?

Valo: Estou muito contente com o disco como um todo. É provavelmente a primeira vez que todos temos a mesma sensação de que enfim conseguimos o que queríamos. “Sleepwalking Past Hope” é provavelmente a preferida de todo mundo. Em termos vocais é algo totalmente novo para mim.

Muito interessante. Quando tratamos sobre as letras, vai levar muito tempo para que eu fique livre dos sentimentos em que foram compostas as canções. Não estava muito bem quando estava compondo este disco. Então prefiro ficar distante destes sentimentos por enquanto já que terei de passar muito tempo cantando estas coisas.

Provavelmente pelo resto da vida. Não estou a fim de lidar com estas coisas, com estes sentimentos justo agora. Prefiro fazer coisas mais divertidas como lavar meus pratos e lavar as roupas.

A primeira demo de vocês: Witches and Other Night Fears ainda verá a luz do dia ou você já decidiu destruí-la de vez ?

 

Penso nisso muito frequentemente mas não tomei uma decisão. É difícil, talvez nós poderíamos masterizá-la, regravar algumas coisas, mas sinceramente eu não creio que isso possa acontecer. Éramos amadores demais, muito jovens.

Suas músicas são como seu diário particular certo ?

Valo: Mais ou menos sim. Boa música deve ser algo incapaz de ser tratada como um mero álbum ou coisa desse tipo. Esse disco é um passo adiante em relação à Dark Light. Nosso disco anterior foi super produzido, polido, cheio de firulas, mas era aquilo que queríamos fazer. Dessa vez foi diferente; Venus Doom é mais uma porrada na cara, mais direto, mais sombrio.

Qual a diferença entre os fãs Americanos e os fãs Europeus ?

Valo: Eu acho que, por exemplo, quando tocamos na Escandávia as pessoas são mais reservadas. Batem palmas e acompanhas as músicas. Elas não se divertem no sentido literal da palavra. O público Americano é diferente, eles vão a loucura até deixar as cordas vocais estouradas.

Temos tido sorte nisso. Na Grécia nosso público também age assim. Ainda é algo novo excursionar pelos EUA. Este segundo album está sendo mais bem promovido, até mais aqui do que na Europa. E pela primeira vez estarei fazendo uma turnê inteiramente sóbrio.

Alguém na banda têm um ritual  antes de entrar no palco ?

Valo: Fumo o máximo de cigarros possíveis. Não, basicamnte alguns caras da banda preferm jogar xadrez. O mais ridículo é quando nós convidamos os melhores enxadristas locais  para vir até nosso camarim e  então podemos jogar algumas partidas. É algo bem nerd mas nós somos meio xaropes em relação a essas coisas.

Quanto a mim, não faço nehum tipo de merda, execto fumar bastante, e rir bastante com os outros caras. Nós somos bons meninos, não sacrificamos criancinhas ou algo do tipo.

Quando voltar a Los Angeles pretende dar uma passada na sua amiga Kat Von D e arrumar uma outra tatoo ?

Valo: Sim, vamos estar por LA por alguns dias. Ainda tenho algumas partes no corpo que ainda não foram tatuadas. Não a vejo desde o último verão passado. Ela têm estado muito ocupada com o programa de TV e seria ótima arrancá-la de lá e pagar um jantar pelo menos.

Há quanto tempo vocês se conhecem ?

Vallo: Quatro anos. Tive um contato mais direto com ela durante as gravações de Dark Light. É uma longa história. Supostamente deveríamos usar uma tatuagem como arte de capa para o disco; foi quando alguém mencionou o nome dela. Isso foi antes de o programa de TV começar. Eu a conheci no Rainbow Bar & Grill.

Nos divertimos muito na ocasião. Ela já esteve na Finlândia duas vezes e estamos sempre juntos. Sempre que podemos. Nesse mundo todos se conhecem. É um mundo bem pequeno para falar a verdade.

O hertagrama é um logotipo muito popular; quem vê logo se lembra do H.I.M; existe alguma banda que tenha um logotipo que teve um grande efeito em você ?

Valo: Não há atualmente bandas que façam grande uso de símbolos. A língua dos Stones é algo bem poderoso, as máscaras que o Kiss costumava usar e lógico: o Iron Maiden. Bandas como Twisted Sister e Wasp também tiveram logotipos poderosos e fáceis de lembrar. Mas hoje em dia as bandas não dão muita importância para isso.

Como lida nos dias de hoje com as acusações de que você pratica rituais satanistas com fãs adolescentes ? E é verdade que vocês tocarão Stigmata Diaboli nesta turnê ? A faixa fara parte do set-list habitual ?

Isso só acontece na Escandinávia. Acho que a cultura latente do paganismo, que na verdade jamais foi substituída pelo cristianismo naquelas terras levam a isso. Não vejo isso como algo ruim, só não é verdade.

Também não é verdade que tocaremos Stigmata Diaboli. Nunca gostei muito da atmosfera dessa música. Tem uma morbidez estranha demais, e olha que eu gosto de morbidez, mas não deste tipo.

Tantas citações ao satanismo, símbolos, digressões, coisas diabólicas e canções tão depressivas não levam os outros a considerar o H.I.M uma banda satanista ?

( risos ) Isso é algo que um dia será explicado devidamente, posso dizer que temos dois satanistas na banda, mas ligados ao satanismo vampírico propriamente do que ao convencional, mas isso é algo que o tempo revelara.

A atual cena do Gothic Metal finlandês está estagnada ?

Acho que não só na Finlândia. É um importante momento de transição que naturalmente vai passar. As pessoas estão mais preocupadas em copiar se mutuamente do que explorar novos caminhos, sabe, é difícil sair da comodidade, mas para quem está começando é importante tentar algo novo, como aquilo que fizemos, mas demorou para termos um bom resultado.

A cena gótica da Europa depende demais da cena alemã, e neste momento ela vive uma transição complicada mas benéfica na minha opinião, é preciso renovar os line-ups de vestivais, está previsível demais.

O Dani Filth disse que o Black Metal é uma prisão; o Gothic Rock também é ?

Infelizmente sim. Você nunca tm uma margem de manobra muito segura, uma mudança pequena e lá vm a gritaria de fãs, imprensa. Se você muda reclamam, se segue o caminho em que já está, também reclamam.

Se você deixasse de ser um músico hoje, o que pensaria em fazer de amanhã em diante ?

Valo: Depois de algum tempo de folga, provavelmente eu iria trabalhar com o meu pai. Já fiz isso quando era mais jovem e tinha de pagar o aluguel. Eram tempos difíceis entre a gente e também financeiramente. Hoje as coisas estão melhores. A indústria pornográfica é um lugar legal para estar. ( gargalhadas gerais )

Um monte de adolescentes te adoram, te veneram; muitos deles se referem a você como um “Deus do Rock”. Quando você tinha 14 anos, quem era o seu Deus do Rock ?

Valo: Jim Morrison provavelmente. Iggy Pop também. Iggy ainda está em excelente forma apesar de todos os exageros que cometeu durante toda a sua carreira. O Black Sabbath e os caras do Kiss também foram meus deuses do Rock.

Mas eu tinha tantos favoritos. Eu comecei a deixar crescer meus dreadlocks quando eu tinha 14 anos, era um grande fã de reagge. Tenho um monte de ídolos jamaicanos. E então começamos a banda e eu amei Peter Steele do Type-O. Eu era muito fã da Madonna nessa época.

Você têm muitos fetiches ?

Valo: Pra dizer a verdade não. Eu acho que é legal ser surpreendido. Então, quando estou me divertindo com alguém ou com uma de minhas ex-namoradas… Elas têm sido bem diferentes umas das outras.

Eu acho tenho um certo fetiche por óculos. Eu acho extremamente sexy. Mas não exijo o uso deles… ( risos ) Eu não me importo desde que a pessoa tenho senso de humor e muita paciência comigo.

Você têm algum conselho aos seus jovens fãs ?

Valo: Uma pessoa mais velha e experiente na vida disse certa vez: “Os mais sábios são aqueles que optam por manter a boca fechada”. Eu ainda sou jovem para dizer as pessoas o que é certo ou o que é errado. Leia bons livros e trate seus pais bem, é o ótimo conselho que eu posso dar.

É um bom conselho.

Valo: É bem conservador mas é um começo.

Especialmente para os mais jovens.

Valo: Para os mais velhos também. Muitas pessoas mais velhas se esquecem dos pais… mas manter a leitura é algo bastante apreciável. Muita gente confia demais na Wikipedia. Eu não troco o conhecimento humano por nada.

O convívio e o aprendizado do dia a dia. Eu não confio no mundo digital. Dividir experiências pessoais é algo que não se consegue na internet.

Para terminar, antes das perguntas dos fãs, como lidou com as críticas dos fãs antigos em relação a Dark Light ?

Valo: Fizemos o que queríamos fazer. Ninguém colocou uma arma em nossa cabeça dizendo: façam um disco pop, ou, façam um disco de black metal senão vocês perderão o contrato conosco. Eu não me importo nem um pouco com as críticas. Isso não faz diferença para mim.

Mas é sempre assim, se você ganha atenção do público americano, logo vira uma anátema na Europa e em outros lugares do mundo. Recebi centenas de e-mails e cartas de fãs irritados com nossa presença nos Estados Unidos.

Tenho perguntas de fãs para você, que foram enviadas ao nosso site, pode responder algumas:

Sem Problemas.

Pergunta de Stephen G. de Ohio: É verdade que você faz exames de HIV a cada seis meses ?

Não. Faço exames de sangue para saber se não fui infectado por algum vírus de microfone. Dividimos os mesmos em vários festivais e conheço histórias terríveis de gente que foi infectado com viroses dessa forma, o Rob Halford por exemplo.
Pergunta de Alex Hart da Pensilvania: Você foi mesmo estuprado e assaltado em Minneapolis?
Ainda não sei. ( risos ) Saí para beber com pessoas que tinha acabado de conhecer e acordei drogado, nu e roubado na manhã seguinte num motel de beira de estrada. Tenho hemorróidas, então não sei se essa dor veio dela ou de um estupro.

Para finalizar, pergunta de Michelle 6/6/6 de Nevada: Você beijou mesmo o Dani Filth na boca ?

( risos ) Foi uma brincadeira da minha namorada. Mas foi só um selinho, um french kiss. ( risos )

Obrigado Ville.

Vocês são sempre bem-vindos.

Para Saber Mais

http://www.contactmusic.com/new/xmlfeed.nsf/mndwebpages/valo%20i%20dont%20know%20if%20i%20was%20raped

http://www.ultimate-guitar.com/news/upcoming_releases/cradle_of_filth_more_album_details.html

http://www.musik.terrorverlag.de/interviews.php?id=419

http://www.youtube.com/watch?v=LAyuV1XOeAA

http://www.quizilla.com/users/DrunkOnShadows/quizzes/~~~HIS%20LOVE%20IS%20A%20RAZORBLADE%20KISS~~~VILLE%20VALO~~~PART%2019~~~/ 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/musica-e-ocultismo/entrevista-com-ville-valo-lider-do-h-i-m/

Entrevista com um Hare Krishna (Ramananda Das)

Apresente-se por favor para nosso público.

Sou Ramananda Das (Felipe D´Aviz), iniciado na tradição Gaudiya Vaishnava de bhakti-yoga. Participei de diversos grupos espiritualistas, incluindo grupos esotéricos e mágickos. Hoje em dia me dedico mais a prática e divulgação da bhakti-yoga, tal como foi me passada por meus mestres espirituais.

Como você conheceu inicialmente o movimento Hare Krishna?

Recebi uma certa vez um livrinho chamado “A Fórmula da Paz” que continha conversas de Srila Prabhupada (que trouxe o movimento Hare Krishna para o ocidente) com George Harrison (que chegou a doar uma mansão ao movimento), John Lennon e Yoko Ono. Depois disso encontrei na biblioteca da minha cidade (Santos-SP) um exemplar do “Bhagavad Gita como ele é” traduzido e comentado por Srila Prabhupada. Fiquei encantado com o sânscrito e a profundidade da filosofia védica.

Uma certa vez passando pela rua, encontrei os devotos cantando e dançando, distribuindo “simplesmente maravilhosa” (um doce de leite em pó) de manga. Meu amigo perguntou se tinha que pagar e eles responderam que não. Depois daquela bolinha, nunca mais minha vida seria a mesma! Manga sempre foi minha fruta predileta e Krishna soube usar o artificio perfeito para me atrair até Ele. Depois disso fiquei querendo conhecer o templo Hare Krishna. Quem sabe assim poderia adquirir mais dessas bolinhas?

Então um amigo Straight Edge que gostava dos Hare Krishna e eu combinamos de ir ao templo. Ele não apareceu, mas eu comecei a frequentar toda semana. Se não me engano isso tudo foi em 2000, logo após o grupo Shelter (grupo de Krishnacore) ter feito um show em Santos ao qual eu fui, sem conhecer ainda os devotos de Krishna, alguns dos quais estavam lá.

 

Como e porque você se decidiu participar deste movimento? 

Tudo se encaminhou para tal. Devido a uma doença de pele, a dermatologista pediu que eu evitasse comer carne. Parei de comer carne logo após comer o primeiro prato de prasada (alimento oferecido a Krishna) no templo.  Minhas práticas em Thelema me indicavam “Inflama-te em oração!”, o estudo do Gita e a prática de Bhakti (Liber Astarte vel Berylli). Isso junto ao que relatei na pergunta anterior, fez com que quisesse me aprofundar no assunto.

Existe alguma forma de oficialização da entrada no movimento, como é o batismo entre os cristãos?

Sim, isso se chama harinama (primeira iniciação). Quando você encontra um guru fidedigno, pede-se dele as bençãos para o cantar do maha-mantra Hare Krishna nas contas de tulasi (japa). Ele também dará um nome de servo (Das) ou serva (Dasi) de Krishna ou Radharani e um colar de tulasi (kanti), uma planta que aumenta a devoção por Krishna. Para receber essa iniciação existe alguns pré-requisitos que podem variar de acordo com o guru. Em geral deve-se tornar completamente vegetariano, não consumindo nenhuma tipo de carne (peixe é carne!) e ovos. Dessa forma é pedido que se dedique ao cantar do maha-mantra Hare Krishna na japa diariamente e vá progredindo em sua prática.

No que sua rotina mudou desde então?

Desde então tenho me dedicado diariamente a prática do cantar do maha-mantra na japa, cuidar das deidades de Krishna (imagens para adoração no altar), divulgar essa filosofia, entre outros. Tenho procurado aceitar tudo que é favorável nesse caminho e rejeitar tudo que é desfavorável, ainda que como uma alma condicionada eu tenha diversos apegos materiais.

O “Hinduísmo” é uma invenção do ocidente?

Pode-se dizer que é uma construção teórica deformada do que seria o Sanatana-Dharma, ou principio espiritual eterno da cultura védica. A palavra “Hinduísmo” não é proveniente do sânscrito e vêem do persa “Hindu”, uma outra maneira de designar o rio Sindhu, um rio ao noroeste da Índia e que agora pertence ao Paquistão. A palavra “Hindu” foi utilizado primeiramente para designar o povo que vivia as margens desse rio Sindhu e que seguiam as tradições que ficaram sendo conhecidas como Hinduísmo. No movimento Hare Krishna não usamos esse termo para nos designar enquanto seguidores do Sanatana-Dharma.

Qual a diferença entre o movimento Hare Krishna e as muitas escolas e praticas religiosas indianas?

Dentro do Sanatana-Dharma existem uma enorme variedade de processos para pessoas de naturezas diversas como havia dito anteriormente. No entanto, no movimento Hare Krishna (também conhecido como Gaudiya Vaishnavismo) procuramos seguir apenas a essência da cultura védica, tal como exposta no Srimad Bhagavatam, Bhagavad Gita e outras escrituras de bhakti. Essas escrituras foram comentadas por uma sucessão discipular que revelam os conteúdos confidenciais das escrituras e as práticas a serem realizadas para a auto-realização. O movimento Hare Krishna é um dos ramos do Vaishnavismo. No Vaishnavismo adora-se Krishna, Vishnu ou alguma de suas encarnações como a verdade suprema. No ramo Gaudiya Vaishnava adoramos ao Casal Divino Radha e Krishna, e vemos a Chaitanya Mahaprabhu como a encarnação de Krishna experimentando o amor que Radha sente por Ele.

O Movimento Hare Krishna é monoteísta ou politeísta?

Difícil encaixar em somente um desses conceitos. Pode-se dizer monoteísta pois acreditamos que existe apenas uma Suprema Personalidade de Deus – Krishna, mas que se manifesta em diversas expansões. Krishna engaja ainda diversos semideuses que regem esse mundo material, mas no movimento não adoramos esses semideuses, como é o caso de muitos que se dizem “Hindus”.

Os Hare Krishna devem se vestir como indianos? Quais as exigências e restrições feitas aos adeptos?

As vestes deverão ser utilizadas em ocasiões especificas como a adoração no altar, entre outras. Fora isso, o uso ou não das vestes indianas fica a critério da pessoa. É pedido que as pessoas sigam 4 princípios regulativos que são: 1) não comer carne, nem peixe e ovos, buscando comer somente prasada (alimentos oferecidos), 2) não jogar jogos de azar, 3) não se intoxicar (incluindo álcool, café, chá preto etc), 4) não realizar sexo ilícito (sexo deve ser apenas para procriação).

Os Hare Krishnas acreditam no céu e no inferno? Eles são diferentes dos da visão judaico-cristã?

Sim, tudo isso é descrito de maneira detalhada nas escrituras védicas, em especial no Srimad Bhagavatam. Seria necessário um estudo mais detalhado para comparar a visão judaico-cristã, o que não tenho capacidade para discorrer sobre no momento.

No que os ensinamentos dos vedas difere do espiritismo kardecista?

O kardecismo ao contrário da visão védica, não acredita que a alma possa voltar a encarnar em um corpo de um animal. Já as escrituras védicas afirmam que você obtêm um corpo adequado ao nível de consciência que se tem na hora de abandonar o corpo. O espiritismo é todo baseado na revelação dada por espíritos, que de acordo com a visão védica estão sujeitos as imperfeições das almas condicionadas. Já as escrituras védicas foram reveladas por Vyasadeva, a encarnação literária de Krishna que veio transmitir o conhecimento de maneira pura e que nos é passada através da sucessão discipular. O kardecismo descreve apenas os planos sutis que também são materiais, enquanto as escrituras védicas descrevem tanto os diversos planos materiais quanto espirituais. Essas e outras comparações poderão ser encontradas em: Espiritismo e Consciência de Krishna

Não te incomoda o sistema ser aberto a qualquer um que queira um almoço grátis?

Claro que não! Dessa forma muitos se atraem e acabam virando devotos. Talvez as pessoas tenham dificuldade em aceitar um ou outro aspecto da filosofia, mas rejeitar um delicioso prato de prasada, preparado com todo amor e devoção, ainda estou para conhecer. Analisando sob outro aspecto, simplesmente por honrar essa prasada de Krishna, a pessoa já está praticando serviço devocional e dessa maneira ela irá estar se graduando para realizar outros tipos de serviço ao Casal Divino Radha-Krishna.

Qual a importância de ter um guru? Como identificar um confiável?

Para a maioria dos empreendimentos que vamos realizar, geralmente buscamos as instruções de alguém com maior experiencia no assunto para ser nosso professor. De tal forma, no caminho espiritual isso não é diferente. O que acontece é que nossa visão está obscurecida pelo véu de maya (ilusão) e o guru, sendo uma alma auto-realizada, não sofre desse mal, podendo abrir nossos olhos com o archote do conhecimento espiritual. As escrituras indicam quem é um guru confiável/fidedigno. Ele tem que ter realizado a conclusão das escrituras, ser hábil em convencer os outros dessas conclusões e ser completamente livre de apegos materiais.

Quem é o seu guru? Fale um pouco sobre ele

É um grande prazer essa oportunidade para falar sobre meu guru Srila Narayana Goswami Maharaj, cujo aparecimento (aniversário) se comemora hoje. Srila Narayana Goswami Maharaj nasceu em uma família de brahmanas vaishnavas em Tiwaripur, no estado de Bihar, Índia. Na sua família, adora-se Sita-Rama e portanto desde pequeno gurudeva apegou-se as histórias do Ramayana de Tulsi Das e o kirtan (cantar) de Sita-Rama. Mais tarde conheceu os devotos da linha Gaudiya Vaishnava (Hare Krishna) e largou tudo para se dedicar completamente a essa prática e seus ensinamentos. Mais tarde a pedido de Srila Prabhupada veio ao ocidente ajudar os devotos que desconheciam a profundidade do sidhanta (conclusões filosóficas) a restabelecer o sentido original da missão iniciada por Sri Chaitanya Mahaprabhu. Em virtude disso deu a volta mais de 30 vezes ao mundo espalhando esse conhecimento, vindo 3 vezes ao Brasil, sendo que seu ultimo aniversário em vida foi comemorado aqui em 2010. Srila Gurudeva é um grande cirurgião que remove a impurezas do coração e coloca a semente do amor espontâneo a Sri Chaitanya Mahaprabhu e o Casal Divino Radha-Krishna. Sua mensagem é muito importante pois revela os segredos mais confidenciais de bhakti de uma maneira acessível ao mundo inteiro.

Outras informações mais detalhadas poderão ser consultadas em um dos blogs que construí para sua missão (IPBYS) no Brasil: http://ipbysbrasil.blogspot.com.br/p/srila-narayana-gosvami-maharaj.html

O que é o movimento Krishna West? Qual sua opinião sobre ele?

O movimento Krishna West é um movimento dentro da ISKCON que visa ocidentalizar a divulgação do movimento Hare Krishna. Vejo com bons olhos qualquer inovação que facilite o acesso das pessoas a consciência de Krishna e o cantar do maha-mantra. Mesmo não sendo mais um membro ativo da ISKCON, participei de algumas discussões nesse sentido e tenho a opinião que as pessoas deveriam ter liberdade de escolher o tipo de apresentação que lhe atraem mais, seguindo sua inspiração. De qualquer forma, os praticantes devem se aprofundar na filosofia de nossa tradição e passar a essência da mensagem de Sri Chaitanya Mahaprabhu sem alteração.

Vocês aceitam a existência de vida em outros planetas?

Sim, a literatura védica descreve que existe vida nos diversos planetas do mundo material e do mundo espiritual. No livro “Fácil viajem a outros planetas” Srila Prabhupada descreve que yogis viajam a esses diversos planetas. No entanto, o bhakta (devoto) está interessado somente em viajar ao planeta de Krishna e lá residir servindo Radha-Krishna eternamente. O processo para tal também é descrito nesse livro.

São a favor ou contra a pena de morte?

Esse é um tema muito polemico que exige uma análise cuidadosa. Com base no Código de Manu, Srila Prabhupada afirma sim que é possível aplicar a pena de morte em caso de homicídio. No entanto, devemos levar em consideração também a misericórdia aos criminosos que se arrependem sinceramente dos crimes cometidos. Afim de levar uma luz aos encarcerados nas penitenciárias (tal como estamos encarcerados no mundo material) devotos tem programas de distribuição de livros nas penitenciárias e se correspondem com os presos. Essa é misericórdia dos devotos que pode levar a uma transformação de consciência dos presos e uma possível mudança de vida.

E o aborto, condenam?

Toda forma de vida é sagrada e pode somente ser retirada em casos de auto-defesa, por kshatriyas (guerreiros) em guerra (Arjuna no Gita por exemplo) ou como no caso da pena de morte. O aborto é uma grande irresponsabilidade de pessoas que não conseguem enxergar essa sacralidade e na maioria das vezes surge como medida emergencial de pessoas que quiseram desfrutar do gozo dos sentidos mas não querem assumir a responsabilidade de gerar uma criança. Srila Prabhupada costumava dizer que o grande mal da civilização é a prole indesejada e como solução para tal indicava que as crianças fossem geradas dentro do ritual védico de procriação.

Segundo os ensinamentos, qual a influência dos desencarnados em nossas vidas? Estes são vistos como espíritos, demônios ou o que?

Existem espíritos de desencarnados e existem demônios, uma coisa não te a ver com a outra.  Os espíritos podem atuar de diversas maneiras a influenciarem os seres humanos, sendo que algumas vezes tentam prejudicar alguma pessoa. Para isso, o cantar em voz alta do maha-mantra, a presença da planta tulasi e a leitura das escrituras são eficazes para remover esses espíritos que queiram nos prejudicar.

Haribol!

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/entrevista-com-um-hare-krishna-ramananda-das/

Drácula Histórico

Em um sentido geral, Stoker estava absolutamente certo ao situar sua história de Drácula na Transilvânia, embora localizando seu castelo de ficção a nordeste, muitos quilômetros distante do verdadeiro, na fronteira ao sul. O Drácula de verdade nasceu em 1431 na Transilvânia, na cidade fortificada alemã de Schassurg (Sighsoara, na Romênia). Um dos burgos saxônios mais encantadores, certamente o mais medieval, Schassburg está localizado cerca de quarenta quilômetros ao sul de Bistrita.

Esse castelo fica no local estratégico que domina o vale do rio Tirnava. É circundado por finas muralhas de defesa em pedra e tijolos, de novecentos metros de comprimento, e quatorze torres na muralha, cada uma delas com o nome da guilda que a custeou – as dos alfaiates, joalheiros, peleteiros, açougueiros, ourives, ferreiros, barbeiros, cordoeiros. Com suas ruas estreitas, tortuosas e de paralelepípedos, suas escadas`ligando a famosa torre do relógio às torres mais altas na crista da colina, a cidade fortificada servia às necessidades de uma próspera comunidade de comerciantes alemães que negociavam com Nuremberg e outras cidades alemãs Ela funcionava como depósito de mercadorias que eram levadas e trazidas entre a Alemanha ocidental e Constantinopla; além disso, servia de rota comercial pelo nordeste para a Polônia, o mar Báltico e as cidades germânicas ligadas à União Aduaneira Hanseática.

A casa em que Drácula e seu irmão Radu nasceram é identificada por uma pequena placa mencionando o fato de que seu pai, Drácul, morou ali de 1431 a 1435. O edifício é uma construção de pedra de três andares em tom amarelo-escuro, com um teto de telhas e pequenas janelas, e aberturas apropriadas para a pequena guarnição que servia a Vlad Dracul. Recente restauração do segundo andar revelou uma pintura mural representando três homens e uma mulher sentados a uma mesa. Somente a figura central sobreviveu inteiramente intacta. O retrato de um homem rotundo com um queixo duplo, um longo bigode bem untado, sobrancelhas arqueadas e nariz bem torneado. A semelhança dos olhos castanhos e amendoados com os do famoso retrato de Drácula preservado no Castelo Ambras, sugere que esse pode ser o único retrato sobrevivente do pai de Drácula, Vlad Dracul. A mãe de Drácula, princesa Cneajna, da dinastia Musatin da vizinha Moldávia, criou o jovem Drácula com o auxílio de suas damas de companhia dentro de casa. A amante de seu pai, Caltuna, deu a Dracul um filho também chamado Vlad. Ela finalmente entrou para um mosteiro e ali tomou o nome de Eupráxia. Seu filho mais tarde tornou-se conhecido como Vlad o Monge, porque seguiu os passos de sua mãe e encaminhou-se para a vida religiosa. Drácula passou sua juventude numa atmosfera tipicamente germânica; seu pai exerceu autoridade sobre todas as cidades alemãs da região e defendia a Transilvânia inteira contra ataques potenciais dos turcos. Vlad Dracul recebia sua autoridade do sacro imperador romano Sigismundo de Luxemburgo, em cuja corte em Nuremberg foi educado por monges católicos. Suas ambições políticas ganharam forma quando em 8 de fevereiro de 1431 dois importantes eventos tiveram lugar em Nuremberg: sua entrada na prestigiosa Ordem do Dragão, juntamente com o rei Ladislau da Polônia e o príncipe Lazarevic da Sérvia, e sua investidura como príncipe da Valáquia. O imperador germânico Sigismundo de Luxemburgo e sua segunda mulher, Bárbara von Cilli, haviam fundado a Ordem do Dragão em 1387 como uma fraternidade secreta militar e religiosa com o fim de proteger a Igreja Católica contra heresias tais como as dos hussitas, que punham em perigo a Europa Central.

Outro objetivo da Ordem era a organização de uma cruzada contra os turcos que haviam invadido grande parte da península balcânica. A segunda investidura, presidida pelo próprio imperador, encarregou Dracul da tarefa arriscada de buscar o inseguro trono valáquio (que incluía os ducados transilvanos de Amlas e Fagaras), governados na época pelo príncipe Alexandru Aldea, meio-irmão de Drácula. Isso marcaria o começo de uma prolongada contenda entre membros rivais da família principesca Besarab, dela decorrendo inúmeros crimes.

Quando o há pouco investido “dragão” estava enfim apto a fazer valer o seu título de príncipe expulsando Alexandru Aldea da Valáquia durante o inverno de 1436/37, a sede do poder valáquio continuava próxima da fronteira da Transilvânia, onde Dracul tinha sua base. Historicamente, a Transilvânia sempre foi ligada à Moldávia e aos principados valáquios. Depois que as legiões romanas evacuaram a mais recentemente conquistada província da Adácia, em 271 d.C., a maioria da população romanizada retirou-se para as montanhas, tentando escapar das desordens decorrentes da invasão pelo leste do planalto da Transilvânia. Desse modo, os dácio-romanos sobreviveram intocados pelas avalanches gótica, huna, eslava ou mesmo húngara e búlgara, que teriam certamente destruído sua língua e seus costumes latinos, tivessem permanecido na região. Só depois que a torrente de invasões diminuiu puderam os romenos descer para a planície, mas cautelosamente, conservando seu abrigo na montanha. Cada geração de romenos do século XIII avançou um pouco mais na planície. Finalmente eles alcançaram o Danúbio e o mar Negro ao sul, o Prut e o Dniester a nordeste – em outras palavras, os limites da moderna Romênia e também parte dos limites anteriores da antiga Dácia. No caso da Valáquia, nada mais típico da sua tendência em se voltar para a Transilvânia em busca de segurança, e nada demonstra melhor a excitação em abandonar as montanhas como um abrigo Seguro do que a escolha de antigas capitais do principado. A primeira, antiga capital do século XVI, Cimpulung, limita-se com os Alpes da Transilvânia.

A capital de Drácula, Tirgoviste, fica a baixa altura nas colinas, mas ainda assim permite um acesso fácil às montanhas. A escolha desse sítio marca um período de crescente autoconfiança na história do país. Boatos diziam que o mais jovem irmão de Drácula, Radu o Belo, devido a sua longa permanência na capital turca, também queria estar perto de Constantinopla, uma vez que ele não era imune aos prazeres do harém do sultão. Mexericos o acusavam, muito por causa de sua boa aparência, de ser um dos favoritos do harém masculino de Mehemed, herdeiro do trono otomano, o que o obrigava a ficar constantemente à disposição do seu mestre. Em todo caso, o reino de Radu marcou o recuo do período heróico da história da Valáquia e o começo da rendição condicional ao sultão. Condicional porque a relação da Valáquia com Constantinopla continuava a ser regulada por um tratado, com os príncipes locais como vassalos do sultão.

Quando seguro do seu trono, Dracul, um político esperto, sentiu que a tênue balança do poder estava rapidamente oscilando a favor do ambicioso sultão Murad II. Os turcos haviam então destruído sérvios e búlgaros, e o sultão estava planejando um ataque final contar os gregos. Assim, Dracul promoveu a primeira de suas numerosas imposturas, assinando traiçoeiramente um acordo com os turcos contra os sucessores de seu protetor, o sacro imperador romano Sigsmundo, que morreu em 1437. Em 1438, em circunstâncias inegavelmente difíceis, Dracul e seu filho Mircea, acompanharam o sultão Murad II numa de suas freqüentes incursões na Transilvânia, assassinando, pilhando e queimando pelo caminho, como era da tradição turca. Essa foi a primeira das muitas ocasiões em que os Dráculas, que se consideravam transilvanos, voltaram a sua pátria como inimigos ao invés de amigos. Mas as vilas e cidades da Transilvânia, embora cruelmente devastadas e pilhadas, ainda acreditavam num acordo melhor com um cidadão seu do que com os turcos. Isso serviu de justificativa para a avidez do administrador e dos cidadãos de Sebes em se renderem especificamente aos Dráculas, com a condição de que suas vis seriam poupadas e eles não acabariam escravizados pelos turcos. Dracul, que havia jurado proteger os cristãos, pôde ao menos nessa ocasião salvar uma cidade da destruição completa.

Muitos desses incidentes fizeram com que os turcos suspeitassem da lealdade do príncipe romeno. Em conseqüência, o sultão Murad II levou Dracul a um confronto pessoal na primavera de 1442. Sem perceber a armadilha, Dracul atravessou o Danúbio com seu segundo filho Drácula e seu filho mais moço Radu, sendo em seguida “preso em cadeias de ferro” e levado à presença de quem o acusara de deslealdade. Para salvar seu pescoço e recuperar seu trono, após um breve aprisionamento em Gallipoli Dracul jurou renovar fidelidade a Murad II, e como prova de sua lealdade deixou Drácula e Radu como reféns. Os dois meninos foram colocados sob prisão domiciliar no palácio do sultão em Gallipoli e mais tarde foram mandados, por razões de segurança, à distante Egrigoz, na Ásia Menor. Drácula permaneceu cativo dos turcos até 1448; Radu tornou-se aliado de Murad II e, devido ao seu caráter fraco, submeteu-se mais facilmente às técnicas de doutrinação daqueles que eram, até certo ponto, seus carcereiros. Radu se tornou um favorito do futuro sultão Mehmed II e eventualmente candidato oficial turco ao trono da Valáquia, no qual, na devida ocasião, sucedeu seu irmão Drácula.

A reação de Drácula há esses anos perigosos foi exatamente oposta. De fato, esse tempo como prisioneiro dos turcos ofereceu um bom estímulo à sua personalidade ardilosa e perversa. A partir dessa época, Drácula passou a ter a natureza humana em baixa estima. A vida era coisa desprezível – além do mais, sua própria vida estaria em perigo se seu pai se mostrasse desleal ao sultão – e a moralidade não era essencial em assuntos de estado. Ele não precisou de Maquiavel para se informar sobre a amoralidade dos políticos. Os turcos ensinaram a Drácula a língua turca, entre outras coisas, e ele a manejava como um nativo; ele foi aproximado dos prazeres do harém, porque suas condições de confinamento não eram tão estritas; e completaram seu treinamento no cinismo bizantino, que os turcos herdaram dos gregos. Como foi relatado por seus carcereiros turcos durante aqueles anos, ele também desenvolveu uma reputação como trapaceiro, manhoso, insubordinado e brutal, inspirando medo aos seus próprios guardas. Isso em contraste agudo com a dócil subserviência de seu irmão. Dois outros traços se entrincheiravam na pisque de Drácula devido à trama em que pai e filho se enrascaram. Um era a suspeição; nunca de novo ele confiaria nos turcos ou em homem algum. O outro era o sabor da vingança; Drácula jamais se esqueceria ou perdoaria os que o traíram – esse fato tornou-se um traço da família.

Em dezembro de 1447, Dracul pai morreu, vítima de sua própria trama. Seu assassínio foi ordenado por João Hunyadi, que ficou irritado com as relações do Dragão com os turcos. A política de Dracul a favor dos turcos era facilmente explicável, se não por outro motivo, para salvar seus filhos de uma inevitável vingança e possível morte. O filho mais velho de Dracul, Mircea, fora cegado com ferro em brasa e queimado vivo por seus inimigos políticos em Tirgoviste. Essas mortes e as circunstâncias traiçoeiras que cercaram a morte de seu irmão revelaram ter deixado fortes marcas no príncipe Drácula, logo após a sua ascensão ao poder. O assassínio de Drácul teve lugar nos pântanos de Baltenir, próximos a um velho monastério que ainda existe ali. Houve, no entanto, alguma justificativa para a premeditação desse assassínio por Hunyadi.

Ao tempo de sua prisão em Adrianópolis, Dracul havia jurado que jamais tomaria armas contra os turcos, uma flagrante violação de seu juramento anterior como membro da Ordem do Dragão. Uma vez seguro na sua posição de príncipe, e não obstante o fato de seus filhos serem reféns dos turcos, Dracul reavaliou in extremis seu juramento ao sacro imperador romano, e junto-se à luta contra os turcos, sendo ele mesmo absolvido do seu juramento a vafor dos turcos, pelo papa. Isso significava que podia participar das cruzadas dos Balcãs organizadas por Hunyadi contra o sultão Murad II. O príncipe sérvio Brankovic teve seus dois filhos cegados pelos turcos quando fora desleal com o sutão, e Dracul temeu o mesmo destino trágico para seus próprios filhos. Ele escreveu desconsolado aos chefes de Brasov no fim de 1443: “Por favor entendam que permiti que meus filhos fossem massacrados em favor da paz cristã, de modo que eu e meu país pudéssemos continuar vassalos do Sacro Império Romano”. De fato, foi quase um milagre que os turcos não tenham decapitado Drácula e Radu. O irmão mais velho de Drácula, Mircea, não Dracul, teve efetivamente o papel mais ativo no que foi descrito como “a longa campanha” de 1443. Do ponto de vista valáquio, essa campanha teve imenso sucesso. Ela permitiu a captura da cidade de Giurgiu (construída a um alto custo para a Valáquia pelo avô de Drácula), e ameaçou o poder turco na Bulgária. No entanto, a campanha de Hunyadi em Varna em 1444, que foi organizada em escala muito ambiciosa e chegou até o mar Negro, acabou em desgraça. O jóvem e inesperiete rei da Polônia, Ladislau III, e o núncio papal Juliano Cesarini morram na ocasião.

Hunyadi conseguiu fugir e sobreviveu apenas porque os valáquios conheciam suficientemente o terreno para conduzi-lo em segurança. Nas inevitáveis recriminações que se seguiram, Dracul e Mircea atribuem pessoalmente a Hunyadi a responsabilidade pela magnitude da derrota. Um conselho de guerra reunido em algum lugar na Dobrogea julgou Hunyadi responsável pelo fracasso cristão, e por maioria, embora parte devido à insistência de Mircea, sentenciou-o à morte. Mas os servissos prestados por Hunyadi e sua grande reputação como cavaleiro branco das forças cristãs poupara-lhe a vida e Dracul assegurou sua passagem a salvo para a Transilvânia.

Todavia, a partir do momento em que os Hunyadis contrariaram os Dráculas, particularmente Mircea, surgiu um grande ódio entre eles. A sede de vingança que decorreu de tudo isso foi afinal aplacada com as mortes de Drácula e Mircea. Depois de 1447, Hunyadi pôs a coroa valáquia nas mãos mais confiáveis de um pretendente Danesti, Vladslav I (a família rival Danesti tinha ligações de sangue com o príncepe Dan, um dos tios-avós de Drácula.)

O mais difícil de entender é a atitude de Drácula na sua fuga do cativeiro turco em 1448. Sabemos que os turcos, inegavelmente impressionados com a ferocidade e a bravura de Drácula, e obviamente adversários dos príncepes Danesti, que eram identificados com a corte húngara, tentaram colocar Drácula no trono valáquio a partir de 1448, enquanto Vladislav II e Hunyadi combatiam ao sul do Danúbio. Esse golpe corajoso foi eficaz por apenas dois meses. Drácula, então com cerca de vinte anos, temeroso dos assassinos transilvanos de seu pai e igualmente relutante em voltar para os seus captores turcos, fugiu para a Moldavia, o mais ao norte possível dos principados romenos, governada nesse tempo pelo príncepe Bogdan, cujo filho, príncipe Estêvão, era primo de Drácula. Durante esses anos de exílio moldavio, Drácula e Estêvão desenvolveram uma estreita e duradoura amizade, cada um deles prometendo ao outro que aquele que primeiro ascendesse ao trono do seu principado levaria o outro imediatamente ao poder – à força de armas, se preciso. A sede do principado moldávio era então em Suceava, uma antiga cidade onde Drácula e Estêvão continuavam sua educação eclesiástica bizantina sob a supervisão de monges eruditos.

Dracula permaneceu na Moldávia até 1451, quando Bogdan foi brutalmente assassinado por seu rival Petru Aron. Talvez devido à falta de alternativa, Drácula então reapareceu na transilvânia, onde se entregou à misericórdia de João Hunyadi. Estava então tentando a sorte, embora nessa época, devido à pressão turca, o príncepe Danesti da Valáquia, Ladislau II, estivesse adotando uma política favorável aos turcos, distanciando-se dos seus protetores húngaros.

Era interessante para os Hunyadis, uma vez mais, ter um instrumento flexível, um príncepe de reserva, para o caso de o príncipe Danesti voltar-se para os turcos completamente. Assim, interesses mútuos em lugar de qualquer confiança, aproximaram Drácula e João Hunyadi de 1451 a 1456, quando Hunyadi morreu em Belgrado. Durante esse tempo, Hunyadi foi o último tutor de Drácula, seu mentor político e mais importante educador militar. Hunyadi introduziu seu protegido na corte do rei absburgo da Hungria, Ladislau V. Ali ele conheceu o filho de Hunyadi, Matias Corvinus, seu futuro adversário político. Drácula não podia ter melhor preparação de campo da estratégia antiturca. Como nobre vassalo, tomou parte pessoalmente em muitas das campanhas de Hunyadi contra os turcos nas regiões onde no século XX surgiria a Iugoslávia. E ele se envolveu, como seu pai o fizera, com os ducados de Fagaras e de Almas. Além disso, Drácula também se fez pretendente do trono valáquio. Foi por essa razão que ele não acompanhou seu suserano na campanha de Belgrado de 1456, quando Hunyadi foi finalmente vencido pela peste. Por esse tempo, Drácula recebeu afinal permissão para atravessar as montanhas da transilvânia e desalojar o infiel príncipe Danesti do trono valáquio.

Durante os anos 1451-56, Drácula residiu novamente na Transilvânia. Abandonando a casa da família em Sighisoara passou a residir em Sibiu, principalmente para ficar próximo da fronteira valáquia. Em Sibiu, Drácula foi informado pelo administrador da cidade e por muitos outros refugiados da capital do império grego sobre um acontecimento que teve o efeito de uma bomba no mundo cristão: Constantinopla havia sido tomada pelos turcos e o imperador Constantino XI Paleólogo (em cuja corte Drácula viveu temporariamente como pajem em 1430), morrera no combate corpo a corpo, defendendo as muralhas da capital. Um refugiado romeno, bispo Samuil, informou Drácula de que o próximo objetivo do sultão Mehmed II era a conquista da Transilvânia e que ele planejava um ataque à própria Sibiu, local estratégico que podia servir de base a uma conquista posterior do reino húngaro. Drácula pelo menos podia sentir-se confortado com o fato de Sibiu ser considerada a mais inexpugnável das cidades da Transilvânia. Isso pode ter influído na sua decisão de lá permanecer. Mas numa daquelas decisões que tornaram ainda mais misteriosa sua personalidade, em 1460, apenas quatro anos depois que ele deixara a cidade de Sibiu, Drácula devastou impiedosamente essa região com um contingente valáquio de vinte mil homens e matou, mutilou, empalou e torturou cerca de dez mil de seus antigos vizinhos. Ele achava que os alemães de Sibiu haviam se envolvido em práticas de comércio desonesto às expensas dos mercados valáquios. A pilhagem e o saque tiveram lugar em escala mais feroz do que a feita pelos turcos em 1438.

Isso nos leva a considerar um dos aspectos mais ambivalentes da carreira de Drácula na Transilvânia, onde de amigo ele se transformou em inimigo para os seus companheiros e aliados. (Isso será descrito em detalhes na análise das histórias de horror alemães.) Essa rixa vai durar três anos violentos, de 1458 a 1460, durante os quais Drácula foi príncipe na vizinha Valáquia. A primeira investida relâmpago na área de Sibiu teve lugar em 1457, quando Drácula queimou e pilhou cidades e vilarejos, destruindo tudo no seu caminho. Somente a própria cidade de Sibiu, assim mesmo uma pequena parte dentro de suas poderosas muralhas de defesa, escapou da destruição. O propósito do ataque pode ter sido a captura do meio irmão de Drácula e rival político Vlad o Monge, e para servir de advertência aos cidadãos de Sibiu para não darem abrigo e proteção a candidatos rivais. Outra cidade ligada ao nome de Drácula é Brasov (Kronstadt para os alemães). Brasov tinha a duvidosa honra de haver testemunhado em suas colinas próximas mais vítimas de empalamento ordenado por Drácula, apodrecendo no sol e mutiladas pelos abutres dos Cárpatos, do que outro lugar do principado. Conta-se que foi numa dessas colinas que Drácula jantou e tomou vinho entre cadáveres. E foi numa dessas ocasiões que Drácula deu prova do seu senso de humor pervertido. Uma narrativa russa fala de um boiardo que tendo chegado para uma festa em Brasov, e não suportando o horrível cheiro de sangue coagulado, fechou com os dedos suas narinas num gesto de repulsa. Drácula mandou que se trouxesse uma grande estaca e a exibiu ao visitante, dizendo: “Fica ali, bem afastado, onde o mau cheiro não vai incomodar-te”. E mandou empalar imediatamente o boiardo. Depois do ataque a Brasov, Drácula continuou queimando e aterrorizando outros vilarejos na vizinhança da cidade, mas ele não foi capaz de capturar a fortaleza de Zeyding (Codlea em romeno), ainda hoje existente em parte, tendo então mandado executar o capitão responsável pelo fracasso. Durante o inverno de 1458-1459 as relações de Drácula com os saxões da Transilvânia mudaram para pior na Valáquia. Drácula decidiu aumentar as tarifas dos bens na Transilvânia, a favor de manufatureiros locais, em violação do tratado por ele assinado no início do seu reinado. Obrigou também os alemães a voltarem ao antigo costume de expor seus produtos apenas em determinadas cidades, como Cimpulung, Tirgoviste e Tirgsor. Essa decisão fechou subitamente muitas cidades ao comércio alemão onde os saxões tinham feito negócios proveitosos, inclusive na tradicional estrada para o Danúbio. Quando os habitantes de Brasov ignoraram essas medidas, Drácula iniciou outra ação terrorista.

A vingança e a violência de Drácula se estenderam pela primavera e o verão de 1460. Em abril, ele pôde finalmente pegar e matar seu oponente Dan III; somente sete dos segidores de Dan puderam escapar. No começo de julho, Drácula capturou a fortaleza de Fagarras e empalou seus cidadãos – homens mulheres e crianças. Embora as estatísticas desse período sejam muito difíceis de estabelecer, na cidade de Almas vinte mil pessoas foram mortas na noite de São Bartolomeu de 24 de agosto de 1460, mais do que foram assassinadas por Catarina de Médices em Paris, cerca de um século depois. O massacre de São Bartolomeu de Drácula escapou, de certo modo, da atenção dos historiadores, enquanto o de Catarina de Médicis fez dela alvo de grande reprovação moral.

Depois de 1460, os ataques e ações na Transilvânia contra os alemães da Valáquia diminuíram, e a renovação de tratados permitiu aos alemães privilégios comerciais, quando assinados juntamente com obrigações prévias ou quando outros acontecimentos concorriam para preencher a atenção de Drácula em outro lugar. No entanto, os saxões exercitaram sua vingança contribuindo para a prisão de Drácula como “inimigo da humanidade”, no outono de 1462, e a mais longo prazo arruinando sua reputação para a posteridade.

Reexaminando esse catálogo de horrores, percebe-se que havia dois lados na personalidade de Drácula. Um era o do torturador e inquisidor que aterrorizava deliberadamente como método político, às vezes inclinando-se à piedade para aliviar a própria consciência. O outro revelava um precursor de Maquiavel, um racionalista pioneiro e um surpreendente estadista moderno que justificava suas ações de acoedo com alguma raison d’état. Os cidadãos de Brasov e de Sibiu eram afinal estrangeiros que tentavam perpetuar seu monopólio de comércio com os principados romenos. Gostavam, a seu modo, também de uma intriga. Os saxões, conscientes do autoritarismo de Drácula, estavam ansiosos para subverter sua autoridade na Transilvânia e garantir asilo a possíveis contestadores do trono valáquio. É fácil demais explicar a personalidade de Drácula, como alguns fizeram, com base só na crueldade.

Havia um método na sua aparente loucura.

Embora Drácula tivesse governado o principado romeno da Valáquia em três diferentes ocasiões e morrido perto da cidade de Bucareste, seu lugar de nascimento, sua propriedade familiar e os dois ducados feudais a ele sujeitos, Almas e Fagaras, ligaram seu nome à Transilvânia. Drácula amava seu lugar de nascimento e finalmente se instalou em Sibiu, após Ter feito as pazes com os alemães. Mesmo seu famoso castelo no rio Arges, embora tecnicamente localizado no lado valáquio da fronteira, era vizinho dos Alpes da Transilvânia. Nesse sentido a tradição confirma que a história de Stoker é absolutamente correta. O nome de Drácula está inexorável e historicamente ligado à romântica Transilvânia.

Um Cruzado Contra os Turcos

Durante o inverno de 1461, Drácula lançou um desafio a ninguém menos do que o orgulhoso conquistador de Constantinopla, o sultão Mehemed II. As campanhas que se seguiram no Danúbio e na Valáquia, e que duraram do inverno de 1461 até o outono de 1462, inegavelmente constituem o episódio mais discutido na carreira de Drácula. Sua habilidade, seus feitos de valor, suas táticas e estratégia, trouxeram-lhe tanta notoriedade na Europa quanto o horrível tratamento que dava a seus súditos. Enquanto seus empalamentos eram evocados nas narrativas populares, os atos de heroísmo a ele atribuídos na luta contra os turcos foram preservados nos registros oficiais da época.

Com a morte do grande Hunyadi em 1456, as forças remanescentes cristãs precisavam desesperadamente de uma liderança. As disputas amargas que haviam ficado desde o assassínio do pai de Drácula ainda não estavam superadas. Essa ausência de unidade dos cristãos contribuiu muito para a causa turca e ajudou na captura de Constantinopla em 1453, três anos antes da segunda subida de Drácula ao trono da Valáquia. Com o desaparecimento dos últimos vestígios da independência sérvia e búlgara, e a queda do império grego, circunstâncias geográficas colocaram a Valáquia na vanguarda da cruzada antiturca. A Moldávia, aliada da Valáquia, estava salva nas mãos de Estêvão, primo de Drácula que surgiu como herói no mundo cristão depois de Hunyadi. Após o assassínio de seu pai, Bogdan, Estêvão acompanhou Drácula no seu exílio na Transilvânia. Lá, enquanto ambos residiam no castelo dos Hunyadis em Hunedoara, Drácula fez um pacto com Estêvão: Quem subisse ao trono primeiro, ajudaria o outro a ganhar o principado irmão. Em 1457, exatamente um ano após sua subida ao trono, Drácula coerente com sua promessa, mandou um contingente valáquio para ajudar Estêvão a reconquistar a coroa de seus antepassados. Desse modo, Drácula ajudou a iniciar a brilhante carreira do maior soldado, estadista e homem de cultura que a Renascença romena produziu. Porque Estêvão o Grande, ou Santo Estêvão como é ele hoje chamado após a sua canonização pela Igreja Ortodoxa em 1972, foi soldado e amante das artes. O número de mosteiros que sobreviveram na região de Suceava, capital de Estêvão, é eloqüente testemunho do brilho cultural e arquitetônico da sua época.

Quando Drácula finalmente ascendeu ao trono em julho de 1456, os astrônomos chineses e europeus documentaram uma aparição celestial incomum – um cometa “tão grande quanto a metade do céu, com duas caudas, uma apontando o Ocidente e a outra o Oriente, cor de ouro e parecendo uma chama ondulante no horizonte noturno”. O cometa tornou-se mais tarde tema de estudo do astrônomo Edmund Halley, e tornou-se conhecido então como Cometa de Halley.

No século XV, como hoje, as pessoas supersticiosas viam nos cometas anúncios de catástrofes naturais, pestes ou ameaças de invasão. Com a morte de Hunyadi em Belgrado, esses augúrios aumentaram muito. Mas os videntes e astrólogos de Drácula interpretaram o cometa como um símbolo de vitória. Um especialista romeno em numismática descobriu recentemente uma pequena moeda de prata cunhada pelo príncipe, mostrando a águia Valáquia de um lado e a estrela puxando seis raios ondulantes de outro, uma representação tosca do famoso cometa.

Após a queda de Constantinopla, os poderes remanescente da Europa Central e Oriental dedicaram-se a libertar as terras dos Bálcãns conquistadas pelos turcos. Uma das grandes figuras da Renascença, Enea Silvio Piccolominio, um astuto diplomata e especialista em Europa Ocidental, tornou-se o papa Pio II em 1458. Ele percebeu o imenso perigo para todo o mundo cristão das ambições imperialistas do sultão Mehmed II. Pio II lançou sua cruzada no Concílio de Mântua em 1459, advertindo os governantes incrédulos de que, a menos que os cristãos se unissem todos para se opor a Mehemed, o sultão destruiria seus inimigos um a um. O papa pedia aos cristãos que tomassem a si a cruz e angariassem cem mil ducados de ouro.

Em seguida à morte de Hunyadi e ao assassinato de seu filho mais velho, Ladislau, a luta pela coroa húngara continuou entre os Hunyadi e os Habsburgos. Drácula permaneceu leal aos Hunyadis em suas lutas com os alemães da Transilvânia, inicialmente a Ladislau e após sua morte ao filho mais jovem de Hunyadi, Matias, e ao cunhado Michael Szilagy. Do lado oposto estavam os Habsburgos: Albert I, que governou pouco tempo, sua esposa Elizabete e Ladislau V. A coroa sagrada de Santo Estêvão, guardada na fortaleza de Visegrad, esperava ser reclamada pelo próximo legítimo Habsburgo. O sacro imperador romano Frederico III estava tão preocupado com seus assuntos internos que o império não se animou a responder ao apelo do papa. O filho de Hunyadi, Matias, manobrou para tornar-se rei da Hungria em 1458. Drácula, que conheceu Matias ainda jovem, esperava que ele se juntasse à cruzada. Quanto a isso ele se desapontou, tal como o papa. Matias nunca deu seu inteiro apoio à cruzada papal contra os turcos, devido ao seu vacilante apoio ao trono da Hungria. O sacro imperador romano Frederico III; George de Podebrady, rei da Boêmia; Casimir IV, da Polônia; o Grão-Duque de Moscou, Ivan III; os governantes das repúblicas italianas; e um número de potentados orientais que participaram do concílio, limitou-se a enviar palavras de encorajamento ao papa. Estavam todos envolvidos em suas pequenas querelas e preferiram descartar logo o apelo papal.

Drácula foi o único soberano que respondeu imediatamente à conclamação do papa. Sua ação corajosa foi reconhecida nos comentários favoráveis dos representantes oficiais de Veneza, Gênova, Milão e Ferrara e mesmo do papa Pio II. Embora ainda desaprovasse algumas das cruéis táticas que ele usava, todos admiravam a coragem de Drácula e elogiavam sua disposição de combater pela cristandade.

Apesar do seu juramento ao rei húngaro e ao papa, as relações de Drácula com os turcos permaneciam acomodadas. Ele cumpria suas obrigações de vassalagem, que incluíam pagamento de tributo e uma visita ocasional a Constantinopla. A primeira indicação de que podia haver problemas na preservação de relações amigáveis veio do próprio Drácula. Em carta datada de 10 de setembro de 1456, dirigida aos dignitários de Brasov, Drácula revelou seu real pensamento, apenas alguns dias depois da sua investidura como príncipe:

Estou vos dando notícias… de que o embaixador dos turcos veio agora até nós. Tende no espírito e o conservai com firmeza o que tratei previamente convosco acerca de fraternidade e paz… O tempo e a hora chegaram afinal, a respeito do que antes vos havia dito. Os turcos querem pôr em nossos ombros… responsabilidades insuportáveis e… compelir-nos a não mais viver em paz (convosco)… Eles estão buscando um modo de saquear nosso país passando sobre nós. Além disso, eles nos forçam a trabalhar contra nossa fé católica. Nosso desejo é nada fazer contra vós, nem vos abandonar, como vos disse e jurei. Asseguro-vos que continuarei vosso irmão e amigo fiel, e por isso retive os enviados turcos aqui, de modo a que tivesse tempo de mandar-vos essas notícias.
Seguem-se aqui preceitos típicos que antecipam Maquiavel:

Tendes de refletir … quando um príncipe é poderoso e valente ele pode fazer a paz como desejar. Se, no entanto, ele foi enfraquecido, alguém mais poderoso que ele há de conquista-lo e ditar-lhe sua vontade.

Levando em conta sobretudo à tensa situação turco-valáquia resultante da dupla posição de Drácula, as causas do corte final de relações e do início das hostilidades devem ser buscadas nas tentativas turcas de se beneficiar da infringência dos tratados. Os tributos foram pagos regularmente por Drácula apenas durante os primeiros três anos do seu reinado. De 1459 a 1461. Daí por diante, no entanto, porque estava preocupado com os problemas dos saxões da Transilvânia, Drácula violou o contrato e deixou de comparecer à corte turca. Por isso, quando as negociações foram retomadas, os turcos exigiram o pagamento dos tributos devidos.

Havia uma outra nova exigência que nunca fora estipulado antes e que representava uma clara violação dos trados anteriores. Ela envolvia a cobrança do tributo infantil – nada menos do que quinhentos jovens destinados aos regimentos de janízaros. Essa infantaria de elite era composta de recrutas de várias províncias dos Nálcãs, sob o controle do sultão. De fato, oficiais recrutadores de vez em quando invadiam as planícies da Valáquia, onde sentiam que a qualidade dos jovens era melhor.

Drácula havia resistudo a tal incursão pela força das armas, e cada turco que fosse pego nessa tarefa podia ser levado à estaca. Tais violações do território por ambos os lados somaram-se às provocações e contribuíram para azedar as relações turco-valaquias. Ataques, pilhagem e saques tornaram-se endêmicos, de Giurgiu até o mar Negro. Os turcos conseguiram assegurar o controle de várias fortalezas e comunas no lado romeno do Danúbio.

Para complicar as coisas, Radu o Belo, que fielmente residira em Constantinopla desde sua libertação em 1447, foi encorajado pelos turcos a se considerar candidato ao trono da Valáquia. Antes do corte de relações, o sultão Mehemed II deu a Drácula uma última opotunidade. Ele o convidou a ir a Niocópolis, no Danúbio, para se encontrar com Isaac Pasha, o governante da Rumélia e representante do sultão, que foi intruido a persuadir Drácula de ir pessoalmente a Constantinopla e explicar suas violações de vassalagem dos últimos anos.Drácula respondeu que estava preparado para viajar, levando presentes, até Constantinopla, e concordou em discutir o não-pagamento dos tributos e até ajustamentos de fretes na fronteira, mas continuava inflexível a respeito do recrutamento de crianças pelos turcos.

Na verdade, em hipótese nenhuma ele viajaria até a corte do sultão, porque se lembrava de como seu pai fora traído. O pretexto oficial para sua recusa de ir a Constantinopla era o receio de que se fizesse isso seus inimigos na Transilvânia ficariam mais fortes na sua ausência.

Uma vez que não havia base sincera e genuína para as negociações, pode se entender melhor a reação do sultão. A recusa de Drácula de viajar até Constantinopla confirmava as suspeitas dos turcos de que ele estava negociando simultaneamente uma aliança com os húngaros. Por isso, os turcos planejaram uma emboscada. Os homens encarregados de levar avante o plano não podiam ter sido mais bem escolhidos – um demônio de esperteza grego, Thomas Catavolinos, e Hamza Pasha, chefe dos falcoeiros da corte, governador de icópolis e homem conhecido por sua mente sutil. O pretexto ostensivo era encontrar Drácula para discutir uma fronteira mutuamente aceita e para persuadi-lo a ir a Constantinopla. Logo que eles souberam que Drácula recusaria esta última proposta, suas instruções secretas eram de capturar o príncipe Valáquio morto ou vivo. Temos a sorte de possuir um relato claro e dramático das precisas circunstâncias nas quais Drácula venceu seus oponentes. A história é contada pelo próprio Drácula em carta datada de 11 de fevereiro de 1462, dirigida ao rei Matias Corvinus: Em outras cartas que enviei a Vossa Alteza, narrei o modo pelo qual os turcos, cruéis inimigos da Cruz de Cristo, mandaram seus emissários até mim visando quebrar nossa mútua paz e aliança, e destruir nossa união, de forma que eu me aliasse com eles e viajasse até o soberano turco, o que equivale dizer sua corte, e a menos que eu recusasse a abandonar a paz e os tratados e a união com Vossa Alteza, os turcos não manteriam a paz comigo. Eles também enviaram um importante conselheiro do sultão, Hamza Pasha, de Nicópolis, para determinar a fronteira do Danúbio, com o intento de que Hamza Pasha, se pudesse, me tomasse de algum modo por engano ou boa-fé, ou de alguma outra maneira, levando-me para o porto, ou então tentando me manter cativo. Mas pela graça de Deus, quando eu viajava pela fronteira descobri suas intenções e astúcia, e fui eu quem capturou Hamza Pasha num distrito e numa terra turca, próxima a uma fortaleza chamada Giurgiu. Quando os turcos abriram os portões da fortaleza, a pedido dos nossos homens, imaginando que apenas os seus entrariam, nossos soldados se misturaram com eles e invadiram a fortaleza, conquistando a cidade que em seguida mandei incendiar.

Nessa mesma carta, Drácula descreve a campanha que se seguiu e que teve lugar ao longo do Danúbio até o mar Negro durante o inverno de 1461, que se constituiu no começo real das hostilidades, sem que tenha havido uma declaração formal de guerra. Desse modo, Drácula pode ser visto como agressor. A campanha do Danúbio foi a bem-sucedida fase inicial da guerra turco-valáquia. Drácula estava na ofensiva, tentando duplicar a bem-sucedida guerra anfíbia de Hunyadi na decada de 40 daquele século. A maior parte da campanha teve lugar em solo búlgaro controlado pelos turcos. Pela menção de nomes de locais é possível reconstituir o avanço das forças de Drácula ao longo do Danúbio, e Drácula conta com precisão o número de baixas infligidas:

Matei homens e mulheres, velhos e jovens que viviam em Oblucitza e Novoselo, onde o Danúbio flui para o mar até Rahova, que fica perto de Chilia desde o baixo (Danúbio) até lugares como Samovit e Ghighen (ambos localizados na moderna Bulgária). (Matamos) 23.884 turcos e búlgaros sem contar aqueles que foram queimados em suas casas ou aquelas cabeças que não foram cortadas por nossos soldados… E assim Vossa Alteza deve saber que quebrei a paz com o sultão.

Seguem-se algumas espantosas estatísticas de pessoas assassinadas: em Oblucitza e Novoselo, 1.350; em Dirstor (Durostor, Silistria), Cirtal e Dridopotrom, 6.840; em Orsova, 343; em Vectrem, 840; em Turtucaia, 630, em Marotim, 210, na propria Giurgiu, 6.414; em Turnu, Batin e Novigrad, 384, em Sistov, 410; em Nicóplis, Samovit e Ghighen, 1.138; em Rahova, 1.460. Para melhor impressionar o rei Matias com os detalhes do seu relato, Dracula mandou até ele seu enviado Radu Farma, com dois sacos contendo cabeças, narizes e orelhas.

A campanha de inverno terminou na costa do mar Negro, sob as vistas da poderosa força dos turcos que havia atravessado o Bósforo para uma invasão em grande escala da Valáquia. Com seu flanco desprotegido, Drácula fora obrigado a abandonar a ofensiva. Ele havia queimado todas as fortalezas turcas que não conseguira de fato ocupar. Não tinha muito mais o que fazer; o ponto alto da ofensiva tinha se esgotado.

A campanha do Danúbio havia estabelecido a reputação de Drácula como cruzado e guerreiro da cristandade. Através da Europa Central e Ocidental, e de um eram cantados e os sinos tocavam de Gênova a Paris em gratidão pela cruzada, com um novo ânimo de viver e a louvação da liderança de Hunyadi. A corajosa ofensiva de Drácula enviou também uma nova esperança de liberdade aos povos escravizados da Bulgária, Sérvia e Grécia. Em Constantinopla pairava uma atmosfera de consternação, melancolia e medo, e alguns dos chefes turcos, temendo o Empalador, consideravam a hipótese de fuga pelo Bósforo para a Ásia menor. Mehmed II decidiu lançar sua invasão da Valáquia na primavera de 1462; Drácula não havia dado ao sultão outra alternativa. Desafiar o sultão com o fracasso de um provável plano de assassínio era uma coisa; ridiculariza-lo e instilar esperanças de libertação entre os súditos cristãos era outra, muito mais perigosa para seu império recentemente estabelecido. Em cada movimento que fez dali em diante, Mehmed quis reduzir a Valáquia a uma província turca. Com esse formidável desafio em mente, o sultão reuniu as mais poderosas forças que até então tinham se juntado desde a queda de Constantinopla em 1453. Um imenso contingente comandado pelo próprio sultão foi transportado ao longo do Bósforo por uma vasta frota de barcaças. Outra força poderosa, reunida em Nicópolis, na Bulgária, devia cruzar o Danúbio, recapturar a fortaleza de Giurgiu e então se unir com o contingente principal num ataque combinado a Tirgoviste.

Drácula esperava reforços de Matias da Hungria, de maneira a equilibrar a disparidade dos números. De acordo com as narrativas eslavas, ele não dispunha de mais de 30.900 homens. Drácula apelou aos seus compatriotas. Como era costume a independência do país era ameaçado, todo o homem válido, inclusive meninos de mais de doze anos, e até mulheres eram convocados. Uma testemunha ocular turca afirma que a travessia do Danúbio foi completada na noite do sexto dia do jejum de Ramadã (sexta-feira, 4 de junho de 1462), os soldados turcos sendo transportados em setenta barcos e barcaças. Outras testemunhas oculares turcas dão-nos conta em detalhes e gráficos de toda a operação. A travessia tornou-se possível graças ao fogo dos canhões turcos dirigidos contra posições valáquias na margem direita: (Quando a noite começou a cair) subimos nos barcos e descemos pelo Danúbio e chegamos à outra margem, muitas léguas abaixo do lugar onde o exército de Drácula havia estacionado. Ali cavamos nós mesmos trincheiras instalando os canhões ao nosso redor. Escondemo-nos nas trincheiras de modo que os cavaleiros não nos atingissem. Depois disso cruzamos de volta para a outra margem e aí transportamos soldados através do Danúbio. E quando o conjunto de nossa infantaria havia atravessado, preparamo-nos e saímos aos poucos em direção ao exército de Drácula, juntamente com a artilharia e outros componentes que trouxéramos também. Havendo parado, acertamos os canhões, mas antes que pudéssemos usá-los, trezentos dos nossos foram mortos. O sultão ficou muito entristecido com o fato, vendo aquela batalha do outro lado do Danúbio e sentindo-se incapaz de chegar até nós. Ele temia que todos os soldados fossem mortos, uma vez que o imperador não podia pessoalmente cruzar o rio. Depois disso, vendo que nosso lado foi muito enfraquecido e tendo conosco cento e vinte armas, defendemo-nos e atiramos repetidamente com elas, repelimos o exército do príncipe nesse local e nos fortalecemos a nós mesmos. Então o imperador, tendo ganhado a confiança, transportou outros soldados. E Drácula, vendo que não podia evitar a travessia, retirou-se das nossas proximidades. Então, depois de o imperador haver cruzado o Danúbio seguindo-nos com todo o exército, distribuiu entre nós trinta moedas de ouro.

Pouco depois houve escaramuças preliminares ao longo dos pântanos do Danúbio, que visavam basicamente retardar a junção dos dois grandes exércitos turcos. Drácula abandonou o rio e iniciou sua retirada para o norte. A partir desse ponto, Drácula recorreu ao que é conhecido como retirada estratégica, um recurso invariavelmente usado pelos exércitos com inferioridade numérica. Os romenos dependiam da variedade do terreno para sua defesa: o solo pantanoso perto do Danúbio, a densa floresta de Vlasi aprofundando-se na planície e as montanhas impenetráveis. De acordo com a tradição romena, era a floresta “louca” e as montanhas “irmãs do povo” que haviam assegurado a sobrevivência da nação através das épocas. À medida que as tropas Valáquianas deixavam seu território aos turcos, Drácula usava táticas de terra devastada, e esgotava seus inimigos criando um vasto deserto no caminho das forças invasoras. Enquanto o exército de Drácula batia em retirada para o norte, abandonando território aos turcos, ele despovoava a área, queimava seus próprios vilarejos e punha fogo nos grandes centros, reduzindo-os a cidades-fantasmas. Boiardos, camponeses e citadinos acompanhavam os exércitos em retirada, a menos que encontrassem refúgios em montanhas isoladas ou mosteiros inacessíveis, como os de Snagov, onde os mais ricos buscavam proteção. Além disso, Drácula ordenou que as colheitas fossem sistematicamente queimadas; e envenenados todos os poços e exterminado o gado e todos os outros animais domésticos que não pudessem ser levados para as montanhas. O povo cavara longos buracos e havia coberto com galhos e folhas, de maneira a fazer grandes armadilhas para homens, camelos e cavalos. Drácula determinou mesmo que represas fossem construídas para secar a água de pequenos rios e para criar pântanos que pudessem impedir o avanço dos canhões turcos, atolando-os todos em lama. Fontes contemporâneas confirmam o cenário de desolação que esperava os exércitos turcos. Um historiador grego, por exemplo, conta: “Drácula escondeu as mulheres e crianças numa área muito pantanosa, protegida por defesas naturais, cobertas por uma densa floresta de carvalhos e ordenou a seus homens que se ocultassem nessa floresta de carvalhos e ordenou a seus homens que se ocultassem nessa floresta, que era inacessível a qualquer estranho que a penetrasse”. Do lado turco, os comentários são exatamente os mesmos. Um veterano da campanha queixava-se de que “o melhor dos homens entre os turcos não encontrava fontes… (nenhuma) água potável”. Mahmud Pasha, um dos comandantes que foram mandados à frente do exército principal com um pequeno contingente, pensou ter encontrado finalmente um lugar para descansar. “Mas mesmo ali”, escreveu o veterano, “numa distância de seis léguas não era encontrada uma gota de água. A intensidade de calor causado pelo sol ardente era tão grande que a armadura parecia derreter numa forja. Na planície ressecada, rachavam os lábios dos combatentes do Islã. Os africanos e asiáticos, acostumados a condições do deserto, usavam seus escudos para cozinhar carne ao sol.”
Certamente um fator que contribuiu para o sofrimento e a morte que atingiu o exército turco foram o fato de o verão de 1462 ter sido um dos mais quentes já registrados. Ao lado das medidas de terra devastada, Drácula usou táticas de guerrilha nas quais o elemento surpresa e o íntimo conhecimento do terreno eram as chaves do sucesso. Um viajante italiano relatou que a cavalaria de Drácula podia freqüentemente surgir de trilhas relativamente desconhecidas e atacar saqueadores turcos distanciados das forças militares. Às vezes Drácula atacava mesmo o grosso das tropas, quando elas menos esperavam, e antes que pudessem se recuperar ele voltava para a floresta sem dar ao inimigo a oportunidade de combater em igualdade de condições. Os desgarrados do principal corpo das forças turcas que ficavam para trás eram invariavelmente isolados e mortos, a maioria por empalamento. Uma tática mais insidiosa, quase desconhecida nesse período, era uma versão do século XV da guerra bacteriológica. Drácula teria encorajado todos os doentes vítimas de lepra, tuberculose e peste bubônica a se vestirem como os turcos e a se misturarem com os soldados. Se de algum modo sobrevivessem depois de contaminar e matar os turcos com sucesso, os Valáquios infectados seriam ricamente recompensados. Do mesmo modo, Drácula libertava criminosos empedernidos que eram encorajados a assassinar os turcos desgarrados.

O ataque conhecido como a Noite do Terror foi um exemplo da ousadia e da mestria de Drácula em táticas de surpresa. Em um dos muitos vilarejos próximos de Tirgoviste, perto do acampamento dos turcos na floresta, Drácula reuniu um conselho de guerra. A situação de Tirgoviste era desesperada e Drácula apresentou um plano corajoso para salvar sua indefesa capital. O conselho concordou em que somente o assassínio do sultão poderia desmoralizar suficientemente o exército turco, a ponto de produzir uma retirada rápida.

A execução desse plano foi admiravelmente registrada por um soldado sérvio que experimentou todo o impacto da investida audaciosa de Drácula. Seu relato descreve o complexo acampamento turco: o som dos guardas vigilantes gritando ordens ocasionais, o cheiro do carneiro assado na brasa, a conversa de soldados que partem, as risadas das mulheres e de outros visitantes, o cântico lamentoso dos escravos dos turcos, o ruído dos camelos, as incontáveis tendas e finalmente aquela bordada em ouro em que dormia o sultão, bem no centro do acampamento. Menhemed havia acabado de se retirar depois de uma pesada refeição. De repente, ouviu-se o pio de uma coruja, sinal de Drácula para o ataque, seguido do tropel da cavalaria. Os invasores atravessaram o círculo de defesa dos guardas galopando livremente entre as tendas dos soldados mal despertos. A espada e a lança valáquias – com Drácula à frente – abriam um atalho sangrento. “Kaziku Bey!, o Empalador”, gritava fieiras de soldados turcos, gemendo e morrendo na trilha da avalanche romena. Os clarins turcos finalmente chamaram os homens às armas. Um corpo de guarda aos poucos se formou, determinado, em torno da tenda do sultão. Drácula havia calculado que a abrupta surpresa e o ímpeto do ataque podiam levar sua cavalaria até a cama do sultão. Mas enquanto ele buscava essa meta, a guarda do sultão reuniu-se, deteve a ofensiva valáquia e de fato começou a fazer recuar os atacantes. Percebendo que corria o risco de ser envolvido e capturado, Drácula, embora com relutância, deu ordens de retirada. Ele havia matado vários milhares de turcos; ferido muito mais, criado pânico, caos e terror dentro do acampamento turco, mas havia perdido muitas centenas de seus guerreiros mais corajosos e o ataque havia fracassado. O sultão Mehemed tinha sobrevivido e a estrada para Tirgoviste estava aberta.

O grande vizir Machumet prendeu um valáquio e sob tortura começou a interroga-lo sobre a localização e os planos de Drácula. O prisioneiro permaneceu em silêncio e foi provavelmente cerrado em dois. Admirado com esta demonstração de coragem, o vizir disse ao sultão: “Se este homem estivesse no comando de um exército, poderia ter conquistado grande poder”. Os turcos chegaram finalmente a Tirgoviste mas não encontraram homem ou gado; comida ou bebida. A capital valáquia apresentava de fato um aspecto desolador aos turcos que chegavam. Os portões da cidade foram deixados abertos e um véu leve de fumaça se confundia com a luz da madrugada. A cidade fora esvaziada de praticamente todas as suas relíquias sagradas e tesouros, do palácio fora levado tudo que havia ali de aproveitável, e o resto queimado. Por toda parte, os poços estavam envenenados. Os turcos foram recebidos por uns poucos disparos de canhão feitos por alguns valáquios que ainda se escondiam nas ameias. Mehemed II resolveu não se deter na capital mas continuou sua marcha atrás do ardiloso Empalador. A umas tantas milhas ao norte, o sultão foi surpreendido por um espetáculo ainda mais desolador: numa estreita garganta de cerca de um quilômetro e meio ele encontrou uma verdadeira “floresta de cadáveres empalados, talvez 20.000 ao todo”. O sultão examinou o que restava dos homens, mulheres e crianças, sua carne devorada pelos corvos que faziam ninhos em seus crânios e entre suas costelas. Entre eles o sultão encontrou os cadáveres de prisioneiros que Drácula havia conservado desde o começo da campanha, no inverno anterior. Num pico mais alto estavam as carcaças dos dois assassinos que haviam tentado apanhar Drácula antes do início das hostilidades. Ao longo de muitos meses os elementos da natureza e os corvos haviam feito o seu trabalho. Era uma cena horrível o bastante para desencorajar até mesmo o homem mais frio. Impressionado por esse espetáculo, Mehemed II ordenou que o acampamento turco fosse cercado por uma profunda trincheira naquela mesma noite. Logo, pensando sobre o que tinha visto, o sultão perdeu o ânimo. Como registra um historiador, “mesmo o sultão, tomado de pasmo, admitiu que ele não podia tomar a terra de um homem que faz tais coisas, e acima de tudo lida com seus súditos desse modo. Um homem capaz de fazer tais coisas seria capaz de coisas mais terríveis!” O sultão deu então ordens de retirada para a maior parte das forças turcas, e pôs-se em marcha para o leste em busca de um porto no Danúbio onde sua frota havia ancorado.

Após a retirada do contingente de Mehemed, o caráter da guerra mudou radicalmente. de fato, esse último capítulo pode ser descrito com maior propriedade como uma guerra civil, ao invés de uma guerra estrangeira, muito embora soldados turcos ainda continuassem envolvidos. Antes da partida, o sultão Mehemed nomeou formalmente Radu comandante-em-chefe, com a missão de destruir Drácula e tomar conta oficialmente do principado. O contingente turco, sob o comando do paxá de Cilistria, apoiaria as relações de Radu, mas o novo comandante devia confiar principalmente no apoio dos valáquios. Os turcos alimentavam deliberadamente esse conflito de modo a confundir os valáquios e a evitar a impressão de uma guerra nacional contra um adversário comum, de fato abandonando seu plano anterior de conquistar a Valáquia para converte-la num estado vassalo obediente. O que eles deixaram de conseguir pela força das armas obtinham pela diplomacia. Assim, em última análise, era menos uma questão de tática do que de política. As últimas batalhas opunham Drácula não tanto aos turcos, mas aos poderosos boiardos romenos que afinal apoiavam decisivamente a causa de Radu. “Os boiardos romenos, entendendo que os turcos eram mais fortes, abandonaram Drácula e se associaram a seu irmão que chegava como sultão turco.” Terminava assim o relato de um janízaro sérvio. Havia uma outra razão mais forte para a retirada turca. A peste havia aparecido nas hostes do sultão e as primeiras vítimas da terrível doença foram registradas em Tirgoviste. Talvez a tentativa de Drácula de fazer guerra bacteriológica tivesse funcionado. O pedido desesperado de ajuda feito por Drácula a seu parente Estêvão foi respondido com a traição. Em junho o governante moldavo atacou a importante fortaleza valáquia de Chilia, vindo do norte, enquanto poderosos contingentes turcos atacavam-na simultaneamente pelo sul. Apesar disso, esse extraordinário duplo assalto fracassou. Os turcos levantaram o sítio. Estêvão foi ferido por um tiro disparado pela fortaleza e retirou-se para a Moldávia. Ele não renovou o ataque a chilia até 1465. E então ele a capturou, enquanto seu primo Drácula vivia em segurança numa prisão húngara, alguns quilômetros Danúbio acima, em Visegrad. Durante a última fase da guerra turco-valáquia, Drácula governou de seu castelo no Arges superior, o ponto final do refúgio do príncipe quando os turcos avançavam. Uma vez que os cronistas da campanha turca haviam retornado a Constantinopla com o sultão e o grosso do exército, só restava aos historiadores confiar nas baladas populares da região do castelo pra obter suas informações. Os camponeses dos vilarejos vizinhos do Castelo Drácula relatam histórias relativas ao fim do segundo reinado no outono de 1462. Todas essas histórias terminam quando Drácula atravessa a fronteira da Transilvânia e se torna prisioneiro dos húngaros. Elas recomeçam em 1476, quando Drácula volta à Valáquia para seu terceiro reinado. Uma das narrativas mais clássicas dos últimos momentos da resistência de Drácula aos turcos em 1462 apresenta-se assim: Após a queda de Tirgoviste, Drácula e uns poucos fiéis seguidores seguiram para o norte; evitando os passos mais conhecidos que levavam à Transilvânia, chegaram ao seu retiro na montanha. Os turcos que foram mandados em sua perseguição acamparam no escarpado de Poenari, que domina uma vista admirável do Castelo Drácula na margem oposta do Arges. Ali eles instalaram seus canhões de cerejeira. O grupo de soldados turcos desceu para o rio e o atravessou a vau, acampando do outro lado. O bombardeio ao Castelo Drácula começou, mas sem sucesso, devido ao pequeno calibre dos canhões turcos e à solidez das muralhas do castelo. As ordens para o assalto final ao castelo foram preparadas para ser dadas na manhã seguinte.

Naquela noite, um escravo romeno dos turcos, de acordo com uma narrativa local, que era um parente distante de Drácula, advertiu o príncipe valáquio sobre o grande perigo em que se encontrava. Sem ser percebido na noite sem lua, o escravo subiu as escarpas do Poenari e fazendo cuidadosa pontaria disparou uma flecha para uma das janelas da torre principal, onde ele sabia que ficavam os aposentos de Drácula. Presa à flecha ia uma mensagem advertindo Drácula para escapar enquanto ainda era tempo. A flecha apagou um candelabro dentro da torre. O escravo pôde ver a sombra da mulher de Drácula e conseguiu talvez perceber que ela lia a mensagem. O resto dessa história só pode ter sido transmitido por conselheiros íntimos de Drácula dentro do castelo. A esposa de Drácula informou o marido sobre o aviso. Ela lhe disse que preferia ter seu corpo devorado pelos peixes lá em baixo no rio Arges a ser capturada pelos turcos. Drácula sabia por sua própria experiência em Egrigoz o que, no caso, significava ser prisioneiro. Percebendo o quanto era desesperadora sua situação, e antes de qualquer outra interferência, a mulher de Drácula subiu correndo as escadas e se atirou da torre. Esse ponto do rio é hoje conhecido como Riul Doannei, rio da Princesa. Essa narrativa trágica é praticamente a única menção à primeira mulher de Drácula. Drácula imediatamente fez planos para sua própria fuga; não importava o quanto as circunstâncias fossem desfavoráveis, o suicídio não era uma opção. Ele ordenou que os seus líderes mais corajosos do vilarejo vizinho de Arefu fossem trazidos ao castelo, e durante a noite eles discutiram as várias rotas de fuga para a Transilvânia. Drácula tinha esperança de que Matias da Hungria, ao qual havia enviado muitos apelos desde uma primeira carta de fevereiro de 1462, pudesse acolhê-lo como um aliado e assegurar sua volta ao trono valáquio. De fato, sabia-se que o rei húngaro, dispondo de um poderoso exército, havia estabelecido quartéis além das montanhas, em Brasov. Chegar até ele supunha o desafio de atravessar os Alpes da Transilvânia num ponto onde não havia estradas ou passos. Os despenhadeiros no alto dessas montanhas são rochosos e traiçoeiros, em geral cobertos de neve e gelo mesmo durante o verão. Drácula não poderia ter tentado essa travessia sem o auxílio de guias locais. As narrativas populares ainda identificam vários rios, clareiras, florestas e mesmo rochedos junto aos quais passou Drácula em sua fuga. Tentamos usar essa narrativa para reconstituir o verdadeiro caminho de Drácula, mas a tarefa mostrou-se difícil, porque os nomes dos lugares mudaram com o passar dos anos.

Tão longe quanto conseguimos saber, Drácula, uma dúzia de subordinados, seu filho ilegítimo e cinco guias deixaram o castelo antes da madrugada pela escada em espiral que desce para o seio da montanha e leva até uma caverna na margem do rio. Ali, o grupo de fugitivos podia ouvir os ruídos do acampamento turco e cerca de um quilômetro ao sul. Algumas das montarias mais rápidas haviam sido trazidas do vilarejo; os cavalos eram equipados com ferraduras invertidas de modo a deixar as marcas aparentes de uma cavalaria que chegava. Para distrair a atenção da fuga, durante a noite os canhões do castelo dispararam repetidamente. Os turcos em Poenari respondiam quase automaticamente. Devido ao ruído, assim conta à história, a montaria do próprio Drácula mostrou-se nervosa, e seu filho que estava amarrado na sela caiu ao solo e se perdeu na confusão. A situação era desesperadora demais para que alguém iniciasse uma busca e Drácula estava acossado demais e tinha o coração frio o bastante para se deixar perder por seu filho.

Essa pequena e trágica vinheta teve, entretanto,um final feliz. O menino, por volta de seus dez anos, foi encontrado na manhã seguinte por um pastor, que o tomou e o levou até sua cabana, onde cresceu como se fosse alguém de sua família. Quando Drácula voltou como príncipe quatorze anos depois, o camponês que havia descoberto a verdadeira identidade de seu adotado, levou o rapaz até o castelo. A essa altura ele havia se transformado em um esplêndido jovem. Contou a seu pai tudo o que o pastor havia feito por ele, e como prova de gratidão Drácula compensou o camponês com o oferecimento de terras nas vizinhanças e eventualmente se tornado governador do castelo. Quando o grupo fugitivo finalmente atingiu a crista das montanhas, pôde presenciar o assalto final dos turcos ao sul, que destruiu parcialmente o Castelo Drácula. Ao norte ficavam as muralhas fortificadas de Brasov, onde se esperava que os exércitos do rei Matias estivessem manobrando para vir em auxílio a Drácula. Em um lugar chamado Plaiul Oilor, ou planície do Carneiro; o grupo de Drácula, agora salvos dos turcos, reuniram-se e fizeram planos para a descida pelo norte.

Convocando seus corajosos companheiros, Drácula lhes perguntou de que modo ele poderia recompensá-los por lhe ter salvado a vida. Eles lhe disseram que apenas haviam cumprido seu dever com o príncipe e com o país. O príncipe, no entanto, insistiu: “O que desejais? Dinheiro ou terras?” E eles responderam: “Dai-nos terras, alteza”. Em um bloco de pedra conhecido como Mesa do Príncipe, Drácula atendeu seus desejos escrevendo em algumas peles de lebres caçadas no dia anterior. Entregou aos cinco guias vastas glebas de terra nas montanhas e um rico suprimento de florestas, pescado e ovelhas, tudo por volta talvez de oitenta mil metros quadrados. Drácula mais tarde estipulou a respeito que nenhuma dessas terras podia jamais ser tirada deles por príncipe, boiardo ou chefe eclesiástico. Eram de suas famílias, para ser usufruídas através das gerações.

Diz uma antiga tradição que essas peles de lebre são ainda carinhosamente guardadas pelos descendentes daqueles cinco homens, mas a despeito de muitos esforços e persuasão, nenhum descendente quis esclarecer o paradeiro exato de tais documentos. Ainda assim temos razões para supor que, escondidas em algum sótão ou enterradas num subterrâneo, as peles de coelho de Drácula ainda existem. Um historiador romeno tentou encontrar os pergaminhos, mas os camponeses da área permaneceram reservados e intratáveis. Nem mesmo grandes somas em dinheiro puderam persuadi-los a partilhar tais preciosas lembranças dos tempos heróicos de Drácula.

por Shirley Massapust

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/dracula-historico/

A Moeda de Satã

Memento Mori

Dizem que o Satã tem duas caras. Grande engano. Ele tem mais caras do que se pode contar. O príncipe das trevas já foi retratado como um dragão, uma serpente, um homem, uma mulher, uma criança e uma estrela dentre tantas outras formas. O que isso nos diz sobre sua identidade? Através de uma simples análise da história da humanidade que, em sua maior parte, envolve política e religião, é possível constatarmos que o ser humano médio sempre está desesperado por certezas e, assim, sempre divide o mundo entre bons e maus, certos e errados, sábios e ignorantes, anjos e demônios. Isso culmina em uma polarização filosófica, sociológica, política e, na maioria das vezes, religiosa.

Todos sabemos que a polarização, em sentido amplo, é caracterizada por fanatismos muitas vezes inexplicáveis e atitudes extremistas que, pelos intelectualmente lúcidos, são incompreendidas e, inclusive, repugnantes. Nessa esteira se encontra o maniqueísmo, que consiste, basicamente, na estúpida criação de dualidades como algo fixo e eternamente separado em vez de forças dinâmicas em constante transformação.

Em outras palavras, o maniqueísmo é um poderoso e ardiloso instrumento sociológico utilizado por indivíduos e/ou grupos influentes para moldar pensamentos e criar hordas de seguidores cegos e de mentalidade extremamente volúvel, impondo-lhes, seja subliminar ou explicitamente, códigos de condutas éticas e morais a serem seguidos sem qualquer espécie de questionamento inteligível e minimamente inteligente por parte de quem a eles está submetido.

Assim, o maniqueísmo encontra um ótimo aliado: o cômodo subterfúgio, frequentemente utilizado pela maioria da população mundial, que consiste em ser parte de uma dicotomia ideológica, ou seja, dar gênese a uma batalha de ideias tomando partido somente de um lado – neste momento podemos invocar a metáfora dos “lados da moeda” –, sem refletir sobre outros prismas, o que tem como principal consequência a criação e a manutenção de uma histeria generalizada. Contudo, adivinhe… a moeda do diabo nunca cai. Quando lançada ela fica incansavelmente rodando no chão considerando todas as alternativas.

Uma alusão que pode ser feita para melhor ilustrar o exposto é um tabuleiro de xadrez. Por quê? Porque num jogo de xadrez há dois lados diferentes com um propósito em comum: aniquilar os que não estão ao seu lado. Porém, as coisas não são bem assim, pois na vida real o bispo branco dorme com a rainha negra, os cavalos não sabem o que estão fazendo e os peões de ambos os lados odeiam todos os reis.

Utilizando-se de tal alusão, podemos afirmar, portanto, que a ideia de dois lados opostos digladiando pela predominância de somente um ideal é tola, chula e primitiva. Afinal, quem se rotula se limita, ou seja, o indivíduo que somente se permite acreditar naquilo que é dito – em outras palavras, o indivíduo que pertence a uma massa de manobra e disso não se dá conta – e impede que seus horizontes se expandam e o véu da ignorância seja retirado de seus olhos, está contribuindo diretamente para a perpetuação de práticas maniqueístas.

É a partir da ignorante e infindável luta entre os dois lados da moeda que surge a Terceira Opção: a alternativa que incomoda. Aquela alternativa que é advinda do Satanismo Moderno e que analisa o caso concreto e não dá razão a nenhum dos dois lados da moeda e, concomitantemente, deles não discorda. A Terceira Opção consiste na aplicação de uma solução sensata e integralmente provida de razão, pois não macula os ideais de nenhum dos lados da moeda. Ademais, a Terceira Opção é o lado satânico; é a alternativa que os lúcidos possuem para se enveredar nos pensamentos das massas, destes separarem o joio do trigo e terem como resultado o que mais apraz a Terceira Opção e, inclusive, os dois tolos lados da moeda.

Um exemplo que podemos trazer à tona no intuito de ilustrar os devaneios acima (afinal, nada é verdadeiro e tudo é permitido) tem ocorrido na Índia: mulheres da região da Bengala Ocidental optaram por venerar a Corona Mai, também conhecida como deusa Corona. Para essas mulheres, os rituais que elas praticam em prol da deusa Corona “as ajudará a se livrarem do coronavírus de uma vez por todas”. Indago-lhes: ao confrontarmos o poder das egrégoras com as limitações fisiológicas do ser humano – incluindo-se, neste caso, sua resposta imunológica a corpos estranhos – e sua capacidade para sempre remodelar a ciência – leia-se “a criação de uma vacina segura” –, estaríamos diante de uma hipótese que urge pela invocação da Terceira Opção?

Enfim, o satanista deve sempre desconfiar de quem divide o mundo em dois. Lúcifer é um anjo, ao passo que Jeová é um genocida. Tudo depende da sua perspectiva, mas quando toda uma programação mental é colocada em um único pacote, pode ter certeza que você está sendo enganado. Lembre-se que Cérbero, o cão que guarda o inferno, não é um cão normal: ele tem três cabeças. A primeira consegue ver todos como inimigos; a segunda consegue ver todos como heróis; e a terceira sabe que as duas estão certas, mas que ninguém tem a verdade.

O maniqueísmo é uma doença que nos ataca sem que percebamos e está presente até entre muitos satanistas que usam os termos caminho da mão esquerda ou caminho da mão direita como rótulos de pessoas em vez de linhas de pensamento desconsiderando as história pessoais e as particularidades dos indivíduos. Se como diz Shakespeare a vida é um teatro, não nos esqueçamos: a esquerda do palco é a direita da plateia.

Excelente texto!

Bravo 👏🏻👏🏻👏🏻
Muito bom!
Hail Satan 🤘🏻🤘🏻🤘🏻

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/a-moeda-de-sata/

O Grau da Marca na Maçonaria

A cada um é dado um estojo de ferramentas

Uma massa disforme e um livro de regras,

E cada um deve fazer seu tempo fluir.

Uma pedra de tropeço, ou uma pedra de degrau.

(anônimo, século XVIII)

Esse é apenas um pequeno resumo escrito por Wagner Veneziani Costa, Grão Mestre da Grande Loja da Marca no Brasil, retirado das obras intituladas “O Grau da Marca” de David Mitchell e da obra: Conte-me Mais Sobre o grau da Marca do Rev. Neville Barker Cryer, ambas da Madras Editora, contando um pouco da História do Grau da Marca, agora apresento a Cronologia retirada da mesma fonte…

“Senhor, um homem deveria manter a sua amizade em constante reparo”.

(Dr. Samuel Johnson, 1755)

O Grau da Marca tornou-se uma Ordem Independente (Regular) na Inglaterra.

Podemos afirmar que o Grau da Marca é uma sequência do terceiro grau, contendo profundos significados simbólicos e filosóficos e esta ligado a construção do Templo do Rei Salomão. Apesar que a escolha da Marca era uma parte importante em acréscimo ao Grau de Companheiro.

Na construção do Templo do Rei Salomão foram empregados mais de 110 mil operários e para que eles pudessem ser identificados por seus Oficiais Superiores – para que cada porção de seu trabalho pudesse passar pelo mais cuidadoso exame e para que cada Artífice pudesse receber com pontualidade a recompensa pela sua obra e habilidade – esse grupo imenso de trabalhadores foi dividido em 1.100 Lojas de Companheiros e de Aprendizes, estando estes últimos sob a superintendência dos primeiros, que lhes ensinavam o ofício; e a todos estes presidiam 3.000 Menatschim, Supervisores ou Mestres – Três em cada Loja.

Cada um desses homens (Aprendizes, Companheiros e Mestres) recebia um salário. E para que não recebessem em duplicidade, ou que não recebessem mais do que lhes era devido, criaram uma Marca para cada um dos operários e esses por sua vez, tinham que esculpi-las ou gravá-las numa pedra talhada. Os Mestres da marca eram conhecidos como “Artífices Perfeitos”. Deste seleto grupo eram escolhidos os Supervisores. Adoniran, que era Supervisor, foi selecionado para preencher a vaga decorrente da morte de Hiram Abiff. Adonhiram era, de fato, o Supervisor Chefe dos operários empregados nas florestas do Líbano.

Tantos os Artífices como os demais, certamente, recebiam seus salários no Templo: Os Aprendizes recebiam seus pagamentos em trigo, vinho e óleo; os Artífices em espécie.

O Supervisor conhecia “bem” a Marca de cada um dos seus operários. Era assim, que o exame do trabalho apresentado era comparado com as plantas. Se a pedra estivesse correta e em conformidade às plantas, o Supervisor colocava sua própria Marca sobre a peça examinada e aprovada. Que logo era içada e instalada em seu lugar. Além da Marca do Supervisor indicar a exata localização da pedra, um malho de madeira era tudo o que era necessário para alinhá-la, firme e permanentemente, em sua devida posição.

Assim, as Marcas dos Maçons (pedreiros) representavam uma ajuda fundamental no gerenciamento das funções administrativas, financeiras, produtivas e de controle de qualidade. A Marca era portanto a identidade (assinatura) daquele operário específico. Os progressos e a eficiência na construção dependiam então, de uma boa comunicação e de bom relacionamento entre os trabalhadores, do respeito aos administradores, além do entusiasmo e prazer no trabalho. Todas estas qualidades dependiam, por sua vez, da Marca dos Maçons.

A história antiga nos dá conta de que a colocação de uma marca em um produto acabado não era uma prática restrita aos pedreiros. Podemos encontrá-las facilmente nas Cerâmicas gregas, egípcias, romanas; em obras de ouro e de prata etc. Na Irlanda, Inglaterra e País de Gales, Marcas de Maçons podem ser encontradas em pedras de Catedrais, Igrejas, Castelos e outras edificações medievais.

Douglas Knoop descreveu: “Ponte entre a Maçonaria (da Marca) Operativa e a Especulativa, com uma das pontas – a do lado Operativo – bem apoiada na Escócia, e a outra – a Especulativa – na Inglaterra.”

A herança da Maçonaria Operativa e da Maçonaria da Marca é tão brilhante e empolgante como uma Arte, principalmente devotada a propósitos religiosos e a criação de belas edificações, e sempre tendo em mente a perfeição. O Juramento feito pelos nossos antigos Irmãos nos Colégios ou Guildas em Roma, comprometendo-se a se ajudarem mutuamente e a socorrer qualquer Membro em ­necessidade ainda consta de nosso Ritual. Essa é a mensagem predominante dirigida a cada novo Mestre Maçom da Marca ao ser felicitado pelo Venerável Mestre por ocasião de seu Avançamento a esse respeitável e honroso Grau na Maçonaria.

O Grau de Mestre Maçom da Marca continua vivo como um perene monumento aos antigos operários e artífices que iniciaram a Obra do Grande Supervisor com a construção do Templo do Rei Salomão, e àqueles que assim ainda continuam fazendo, não apenas na Pedra, mas na construção e na consolidação nas relações entre homens de bem e nas amizades duradouras.

Pouquíssimos Maçons do Simbolismo conhecem a rica História do Grau da Marca e a sua legendária ligação com Jerusalém; ou por que esse Grau mereceu a reputação de “Grau Amigável”. Como Mestres Maçons da Marca, podemos ajudar na divulgação e na informação das razões que originaram esta merecida reputação, ao dedicarmos uma atenção especial ao nosso trabalho no Templo, tendo um bom conhecimento de sua História e desenvolvimento, e uma amistosa ânsia de oferecer respostas permissíveis àqueles verdadeiramente interessados.

Possivelmente, todos os Maçons que lerem este texto acharão bastante interessante a relação apresentada a seguir, que assinala alguns importantes eventos no Desenvolvimento e Progresso da Maçonaria a partir da construção do Templo do Rei Salomão até a formação da Grande Loja da Marca. Algumas datas são controversas; no entanto, elas se baseiam em confiáveis documentos escritos por ilustres Maçons, tais como: R. F. Gould, L. Vibert, R. C. Davies, D. Knoop e D. P. Jones, bem como no Masonic Year Book (o Anuário Maçônico) e, assim, podem ser aceitas como razoavelmente corretas.

Cronologia

a.C.

957 — Concluída a construção do Templo do Rei Salomão.

714 — Collegia Artificium — o Colégio dos Artífices, Guildas Romanas, ou Corporações de Artífices, instituída em Roma.

587 — Destruição do Templo do Rei Salomão por Nabuzardã sob ordens de Nabucodonossor. Ao todo, os cercos a Jerusalém somam um período de vinte anos. Estima-se que um total entre 500 mil e 1 milhão de israelitas tenham sido deportados para a Babilônia.

539 — Ciro liberta os judeus de seu cativeiro. De acordo com Josephus, somente 50 mil retornaram a Jerusalém, sob o comando de Zorobabel, para a reconstrução do Templo; destes, cerca de 30 mil eram homens adultos; os demais eram ­mulheres e crianças. Muitos teriam optado em ficar na Babilônia. Estima-se que 150 mil se dispersaram por todos os países vizinhos, onde haveriam de se estabelecer, construindo suas casas e Sinagogas.

169 — O Templo de Zorobabel literalmente destruído por Antiochus Epiphanes, irmão do rei da Síria.

d.C.

20-26 — Herodes – o Grande, pai de Herodes Antipas (sob quem sofreu Cristo), era um famoso construtor. Ele assumiu o ambicioso desafio de restaurar o Templo à sua antiga glória. O Segundo Templo reconstruído ficou conhecido como o Terceiro Templo e foi, finalmente, destruído pelos romanos, sob o império de Tito, em 70 d.C.

45-107 — Ocupação da Bretanha pelos romanos.

800-1500 — As Sociedades de Arquitetos Livres e Operativos, conhecidos como Franco-Maçons (não os Artesãos comuns), oriundos dos Collegia Artificium, surgiram como Freemasons na Inglaterra, como Steinmetzen na Alemanha, e como Compagnonnage na França. Essas Sociedades eram secretas e operativas, engajadas nas construções eclesiásticas e em outras construções. A Franco-Maçonaria, tal como hoje é praticada, remonta àquela Fraternidade.

Os Monges agiam conforme a capacidade dos Arquitetos e dos Mestres na planificação e planejamento dos edifícios, e supervisionavam a sua construção. Dessa forma, tanto os não-operativos, como os operativos, se tornaram “Aceitos”.

926 — Assembléia Anual de Maçons Operativos, realizada em York, sob a presidência de Edwin, filho de Athelstan. A Antiga Loja de York alega ter a sua origem nesta Assembléia. (vide 1726)

1292 — Primeira referência conhecida denominando como “Loja” o local de trabalho dos Maçons Ingleses.

1390 — (+/-) Manuscrito Regius (ou Poema Regius), contendo as “Antigas Instruções”. Primeira menção conhecida da palavra “Franco-Maçom”.

1410 — (+/-) Manuscrito Cooke, contendo as “Antigas Instruções”.

1530— Os Estatutos de Edward III mencionando a palavra “Franco- Maçom”.

1563 — Aparece, pela primeira vez, a palavra “Franco-Maçom” impressa um livro; livro este intitulado “Dives Pragmaticus”.

1598 — Descoberto o mais antigo registro da Franco Maçonaria no Livro de Atas da Loja Escocesa Aichison Haven,

1646 — Elias Ashmole feito Franco-Maçom uma Loja de Warrington. Ele escreve em seu diário que nas Guildas (Operativas) da Pedra e Franco-Maçons, o Candidato tinha de ser “Iniciado” antes de poder aprender o seu Ofício.

1650 — (+/-) O Manuscrito Sloane e o Manuscrito Harleian fazem referência à “Palavra de Maçom”.

1705 — Os Registros da Grande Loja de York mostram que, já naquela data, existia uma Constituição separada, com um Presidente e um Vice-Presidente.

1714 — Marca um período de transição, quando os Maçons Especulativos se tornaram tão numerosos e importantes, que chegaram a sobrepujar a Organização dos Operativos.

1717 — Citada e convocada a Grande Loja, tendo Anthony Sayer como Grão-Mestre. Esta Grande Loja ficou, mais tarde, conhecida como a dos “Modernos”.

1718 (+/-) — Os Graus de Aprendiz e de Companheiro reunidos em um só Grau, ou ambos os Graus trabalhando em conjunto. Estes dois Graus compondo toda a Maçonaria Simbólica.

1723 — Primeiro exemplar da Constituição (modernos), publicado pelo Dr. Anderson, no qual apenas dois Graus são mencionados: Primeiro, o de Aprendiz, e o Segundo, o de Companheiro ou Mestre. As Instruções e Preleções corrigidas, omitindo referências diretas ao Cristianismo e com uma visão mais ampla sobre as qualificações religiosas.

1725 (+/-) — Reconhecido o Terceiro Grau como um Rito Aceito, com os seus assuntos separados dos Graus anteriores e das suas lendas. Incorporação da lenda de Hiram Abiff ao Ritual. Criada a Comissão de Caridade.

1726 — Encontrados registros desse ano mostrando a Grande Loja de York reivindicando a sua origem a partir da Grande Assembléia de York, em 926 d.C.; portanto de maior antiguidade do que a Grande Loja de Londres (de Modernos), de 1717. A Antiga Loja de York precede a própria Grand Lodge of all England.

1738 — Edição revisada do Livro de Constituições (Modernos) publicada pelo dr. Anderson, no qual os três Graus são reconhecidos: Primeiro Grau, o de Aprendiz; Segundo Grau, o de Companheiro; Terceiro Grau, o de Mestre.

1744 — O Arco Real sendo trabalhado, pela primeira vez, como uma cerimônia em separado.

1751 — Uma “Grande Loja da Inglaterra” é formada em concordância à antiga Instituição. Os seus Membros se autodenominavam “York”, “Atholl”, ou “Antigos”. “York” porque diziam preservar as verdadeiras tradições, tal como os Maçons da velha Loja de York, das Lojas Operativas e das suas Antigas Instruções; “Atholl” em razão de seu Grão-Mestre, o Duque de Atholl; e “Antigos” por se declararem bem mais antigos do que os “Modernos”. Uma guerra aberta foi declarada pelos “Modernos” (Grande Loja original, de 1717) aos ­“Antigos”.

1755 — Publicada a Edição Revisada do Livro de Constituições (“Modernos”).

1756 — Laurence Dermott publica o primeiro Livro de Leis, ou Constituição dos “Antigos”, sob o título de Ahiman Rezon or a Help to a Brother (mais corretamente: Voluntary Brethren)

1766 — Edição revisada do Livro de Constituições (Modernos).

1769 — Primeiro Registro da Maçonaria da Marca em um Corpo de Maçonaria Especulativa; aparece nas Atas de Abertura do Capítulo da Amizade, ora com o nº 257, em Portsmouth; presente o Pró-Grão-Mestre Thomas Dunckerley, que investiu diversos Irmãos como Maçons da Marca, fazendo com que cada um deles fizesse a sua “Escolha da Marca”.

1776 — Sagração do ‘Freemasons’ Hall, na Great Queen Street, Londres.

1781 — HRH Henry Frederick – Duque de Cumberland, é eleito Grão-Mestre.

1789 — Os “Modernos” elaboram um detalhado Ritual de ensinamento moral, baseado no LSE e em seu primeiro Livro de Constituições.

1790 — HRH George – Príncipe de Gales (posteriormente, Rei George IV), é eleito Grão-Mestre.

1809 — Uma base de acordo encontrada entre “Modernos” e “Antigos”.

1813 — HRH George, príncipe regente (posteriormente, rei George IV) renuncia ao Grão-Mestrado, assumindo o título de Grão- Patrono. O HRH duque de Sussex é eleito Grão-Mestre. Sessão de União de “Modernos” e “Antigos”. Em 25 de novembro, o HRH Grão-Mestre duque de Sussex, e o HRH duque de Kent — Grão-Mestre da Grande Loja Antiga ou Atholl, assinam os Artigos da União.

1851 — A Loja de Mestres da Marca Bon-Accord realizam a sua primeira Sessão em Londres.

1856 — Formação da Grande Loja da Marca.

1857 — Lorde Leigh, Primeiro Grão-Mestre da Grande Loja da Marca.

Fraternalmente,

Wagner Veneziani Costa

Grão-Mestre da Grande Loja da Marca

do Grande Oriente do Brasil – GOB

#Maçonaria

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-grau-da-marca-na-ma%C3%A7onaria

O Tarot e o Machismo

Segundo Nei Naiff, sua pesquisa a respeito das origens do tarot começou com o livro Tarô dos Boêmios (Paris, 1889) que seguramente é o primeiro na história do tarô a abordar os arcanos, tanto sob a ótica da metafísica cabalística quanto dos jogos adivinhatórios em uma única obra, pois os outros autores de sua época ou se reportavam a um ou a outro aspecto. O livro em questão foi escrito pelo médico espanhol, radicado na França, Gérard Anaclet Vincent Encausse (1865-1917), conhecido como Papus.

Apesar da grande quantidade de mulheres daquela época que jogavam cartas e faziam adivinhações sobre o futuro, nem Papus nem nenhum outro ocultista de sua época faz qualquer menção a elas ou a estes jogos de azar. Por quê?

Não adianta alegar que estes jogos eram secretos e raros. Para se ter uma idéia, entre 1583 e 1811 na Espanha, e entre 1769 e 1832 em Portugal, haviam empresas estatais que produziam cartas de tarô para consumo interno e nas colônias ao redor do mundo… dezenas de milhares de cartas por mês! Para jogar adivinhação com o tarô?! Não, nos museus portugueses constavam que eles eram feitos para os jogos lúdicos (e prestem atenção nisso, pois será importante no final deste texto).

Papus e os outros ocultistas/cientistas não reconheciam o papel da mulher, achando que elas eram todas burras e limitadas para entender algo tão complexo quanto a Kabbalah, a Astrologia, letras hebraicas e todas aquelas deduções abstratas que obviamente eram terreno dos homens da ciência! Como os bons céticos de hoje, achavam que “intuição” e “sincronicidade” não existiam.

Eu sempre me perguntei por quê os ocultistas do final do século XIX exaltavam a kabbalah e, ao mesmo tempo, ignoravam solenemente as milhares de ciganas, prostitutas e damas da corte que liam abertamente jogos de cartomancia desde meados de 1500. O baralho tem sido rigorosamente o mesmo desde o século XII, quando os mamelucos trouxeram os jogos de Tarokko do Egito para as terras dos Cruzados e os Templários os trouxeram para a Itália, onde durante o Renascimento existiram escolas dedicadas a ilustrá-los (algo que era feito em sua quase totalidade por HOMENS). Quando e como ocorreu esta transição entre o Tarot como instrumento de autoconhecimento e a profanação nas casas de leitura das cortes francesas?

Na bibliografia do Tarô dos Boêmios, Papus citava os autores de sua época até, no máximo, um século antes: Antoine Court de Gebelin (1775). Etteilla (1787), Claude de Saint Martin (1790), Saint Yves d’Alveydre (1830), J.A.Vaillant (1850), Eliphas Levi (1854), Stanislas Guaita (1886), Mac Gregor Mathers (1888), Piobb (1890), mas não se chega a lugar algum porque todos citavam uns aos outros e todos possuíam como ponto de partida Gebelin e Lévi.

Court de Gebelin e o tarô “egípcio”

Antoine Court de Gebelin (1725-1784) era filho do famoso pastor evangélico francês Antoine Court (1695-1760) que restaurou a Igreja reformada na França, fundou um importante seminário para a formação de pastores evangélicos, sendo um grande historiador de sua época. Gebelin seguiu os passos de seu pai tornando-se um pastor e, mais tarde, também influenciado, interessou-se por mitologia, história e lingüística.

Certo dia, como ele mesmo diz em sua obra (Le Mond Primitif…), “foi convidado a conhecer um jogo de cartas que desconhecia e em menos de quinze minutos declarou ser um livro egípcio salvo das chamas, explicando, imediatamente, aos presentes, todas as alegorias das cartas”. Escreveu, em sua obra, uma retórica do tarot como sendo a chave dos símbolos da língua primeva e da mitologia; fez uma relação dos arcanos com as letras egípcias e hebraicas e revelou que a tradução egípcia da palavra “tarot” é “tar” = caminho, estrada e “ot” = rei, real.

Mas esta história tem um pouco de Dan Brown nela… segundo ele, durante os primeiros séculos da Igreja, os egípcios, que estavam muito próximos dos romanos (Era Copta, conversão absoluta do Egito ao Cristianismo – 313 a 631 d.C.), ensinaram-lhes o culto de Ísis e os jogos de cartas de seu cerimonial. Assim, o jogo de tarô ficou limitado à Itália e Alemanha (Santo Império Romano); posteriormente, chegou ao sul da França (Provença, Avignon, Marselha) e, ainda desconhecido, no norte (Paris, Lion).

Realmente, este foi o caminho, mas o Tarot não possuía a forma de cartas nesta época, pelo simples fato que o papel era algo caro demais para ser feito e delicado demais para sobreviver ao deserto.

Dados, Dominós e a Kabbalah

Neste período, não se usavam cartas e a função de adivinhação estava restrita às bruxas e videntes. Por conta da divisão entre cultos Solares e lunares, homens e mulheres trabalhavam facetas diferentes do conhecimento ocultista. Enquanto os homens se dedicavam à matemática, geometria, astrologia, gematria e kabbalah, as mulheres eram treinadas nas danças iniciáticas, oráculos e magia sexual. Desta maneira, os dados foram o instrumento utilizado pelos magistas com uma função oracular, mas que foram rapidamente profanados e passaram a ser usados pelo povão para jogos de azar (o mesmo aconteceria com os arcanos do Tarot mais tarde). Os dados evoluíram para o que chamamos de Dominós. A versão com o zero (de 28 peças, a que usamos hoje) só aparece bem mais para frente… lembremos que nesta época o zero nem sequer havia sido “inventado” ainda, só aparecendo com os árabes muitos séculos depois.

Basicamente, os dominós representavam os 21 Arcanos Maiores do tarot. Ficava faltando o Louco e esta é a explicação verdadeira razão pela qual este arcano não possui um número. Alguns autores o colocaram como número zero, outros como 22 e outros ainda como Arcano 78… alguns até o deixam sem número. Eu já li textos onde se dizia que os dados eram arremessados dentro de um círculo traçado na areia e este arcano se manifestava quando algum dos dados caia fora do local demarcado (tal qual alguns jogos de Runas) mas não existem registros garantidos disto, visto que toda a tradição iniciática era oral.

O pesquisador e historiador especializado na história do tarot Kris Hadar defende que a origem do tarô na Europa pode ser encontrada no século 12 na região de Oc ou Provence, no sul da França (por isso a data simbólica 1181 na carta do 2 de Ouros encontrada em um dos baralhos); e que a criação do baralho foi uma maneira encontrada para ocultar e preservar, na forma de cartas de jogar, a cultura e o conhecimento daquela região (onde nasceu a cultura trovadoresca), que a Igreja e os reis de França da época procuraram exterminar por ser “herética”. Considera ainda que o tarô foi “o primeiro livro que permitiu que os analfabetos fossem capazes de refletir e meditar sobre sua salvação eterna e a busca de si mesmos”. A história dos Tarots, dados e jogos de azar acompanha o caminho percorrido pelas Ordens Gnósticas (Sul da França e Norte do Egito).

Em 1392, surge na Europa o Tarô de Gringonneur, até hoje conhecido como o tarot mais antigo que se tem notícias (Charles Poupart em Registre de la Chambre des Comptes, 1392).

Entre 1392 e o Famoso “Tarot de Marselha” (1761) surgem diversos tarots, dos quais temos apenas algumas poucas cartas remanescentes, como o Poema descrevendo os 22 arcanos, escrito por Matteo boiardo (1494), o Tarot de mantegna (1465), o sola Busca Tarot (1491), Francesco Marcolini (1540), Catelin Geoffroy (1557). No começo do século XVI, há um texto da inquisição acusando uma mulher de usar o Arcano do Diabo em uma Adoração Satânica, mas por algum motivo, o tarot é meio que deixado de lado pela Inquisição.

Na França, temos o Tarot de Paris (1650), o tarot de Jean Noblet (1650) e o Tarot de Jacques Vieville (1643), na Itália temos predominantemente o Tarocchino de Mitteli (1662). Mitteli era um rosacruz italiano, da mesma escola de Gabriel Ferrantini, Girolamo Curti e Angelo Colonna, o que nos traz novamente a ligação entre Ordens esotéricas e o tarot.

Em 1761, Nicolas Convert, conhecido como “Mestre da Guilda dos Fabricantes de Baralhos de Marselha”, produziu a versão mais famosa e mais popular de todos os tarots, o “Baralho de Marselha”.

Gebelin foi o primeiro a atribuir a origem Egípcia ao baralho. A partir de então, o tarô se tornou uma febre parisiense. Todos queriam aprender o jogo egípcio. As ciganas que eram consideradas, à época, de origem egípcia, aproveitaram a onda e Créu! Começaram a ler cartas e ganhar o the Money fazendo previsões!

Etteilla, discípulo de Gebelin

Etteilla, pseudônimo de Alliette, era professor de álgebra, amigo íntimo de Madame Lenormand (famosa cartomante de Napoleão, que criou seu próprio baralho também) e de Julia Orsini, outra famosa cartomante francesa. Não se tem notícias de que tivesse pertencido a nenhuma ordem ou fraternidade oculta. Em todas as referências é tido como charlatão. Lévi e Papus revelam que ele se apropriou para benefício próprio das idéias da origem egípcia, da relação das letras hebraicas e egípcias feitas por Gebelin, criando seu próprio tarô corrigido, compilando as obras de suas amigas e escrevendo onze livros. Instalou-se em um dos mais luxuosos hotéis de Paris, Hotel de Crillon, e começou a atender e ensinar a nata parisiense! Voilá, cherry! Gebelin e Etteilla devem ter falecido ricos e felizes, um sob a visão da fama científica e o outro do misticismo.

Eliphas Levi, o senhor da Kabbalah

Tanto Gebelin quanto Ettteilla mexeram com o imaginário popular da época e, conseqüentemente, dos esotéricos e exotéricos; pois fica muito claro nas obras de todos os ocultistas do final do século XVIII e início do XIX que no âmbito tradicional do universo das ciências ocultas nunca se analisou ou questionou o tarô — são palavras do próprio Gebelin e de todas as pessoas posteriores a ele, sem exceção.

Lévi, em seu primeiro livro (1854), Dogma e Ritual, e no segundo, História da Magia, detona as obras e a conduta de Etteilla, contesta a origem egípcia de Gebelin e repudia a palavra tar=caminho e ot=real. Vai mais além: Introduz o conceito de que Moisés escondeu nos símbolos do tarô a verdadeira Kabbalah.

Também, pela primeira vez, um ocultista, em toda a história da magia, faz uma acalentada tese de associações das letras hebraicas com os arcanos e diz que a palavra tarot é análoga a palavra sagrada IHVH, sendo também uma variação das palavras Rota / Ot-tara / Hathor / Ator / Tora / Astaroth / Tika.

Assim como no livro de Papus, numa segunda leitura, igualmente encontrei críticas às mulheres na obra de Lévi, um pouco mais cruéis eu diria — desdenha Mlle Lenormand chamando-a de gorda, feia e chata e duas outras cartomantes, Madame Bouche e Krudener, de prostitutas (coquetes ou Salomé à época) (História da Magia, páginas 346 e 347). Tanto Lévi quanto Papus condenavam as práticas femininas de cartomancia, achavam que elas usurpavam o poder do homem na ciência oculta…

Eu também sempre havia me perguntado o que eles teriam contra as mulheres, visto que nenhum deles tinha características gays nem nunca ninguém chegou a levantar esta possibilidade. Quem levantou a melhor idéia foi o pesquisador Nei Naiff, autor do livro “Tarô, ocultismo e Modernidade”:

“Comecei a pensar sobre a sociedade até o fim do século XIX: era patriarcal e misógina! Será que houve uma descrença no sistema de cartas por causa do contexto feminino? Ou será que pelo fato do tarô expressar símbolos comuns de sua época não teria nenhum valor ocultista? Neste caso, eu acredito que foram ambos os fatores!

A partir da história egípcia sobre o tarô criada por Gebelin, os ocultistas viram uma possibilidade de abarcarem as técnicas de cartomancia, sem caírem no ridículo de usarem “uma arte feminina nos vôos da imaginação”, como disse Papus, ou usaram a arte das “loucas e coquetes”, segundo Lévi. Como? Fizeram uma retórica metafísica impossível delas compreenderem.

Se reparar na história do ocultismo, da magia, da cabala e da alquimia observará que não há uma única mulher (eram todas consideradas bruxas, ignorantes e maldosas!) que anteceda a Helena Blavatsky (1831-1891)! Ela foi muito “macho” em peitar todos os ocultistas eruditos. Assim, não foi difícil começarem a estudar uma arte feminina, que estava bem debaixo do nariz deles por tantos séculos, mas que nunca ousaram tocar por puro preconceito machista.

Afinal, nada melhor do que a imaginação e a intuição feminina para desvendar o significado simbólico das cartas em vez da razão e da lógica dos eruditos que necessitavam de fórmulas complicadas para tudo.

Para mim ficou muito claro o porquê da ausência do estudo do tarô entre os renomados ocultistas até o século XVIII e, principalmente, o porquê de tanto escárnio nas obras de Lévi e Papus sobre as cartomantes ou, no caso de Etteilla, um homem que se atreveu a jogar cartas como elas, denegrindo a imagem do “macho esotérico que conjura demônios”… Coisas do século passado…

Embora o tarô fosse conhecido e utilizado há séculos na Itália, Alemanha, Suíça, Espanha e França, foi precisamente em Paris que ele criou sua própria luz espiritual, tanto no surgimento de seu nome (tarot), quanto em sua centrifugação com o ocultismo. Observe que todos os autores que descrevemos são franceses e publicaram suas obras na Cidade Luz”.

#Tarot

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-tarot-e-o-machismo

Manuscrito Voynich

O Manuscrtio Voynich entrou para a história como um misterioso livro ilustrado com figuras desconhecidas e um conteúdo incompreensível. Imagina-se que tenha sido escrito há aproximadamente 400 anos por um autor misterioso que se utilizou de um sistema de escrita não-identificado e uma linguagem ininteligível.

Este livro por si só inflamou a mente de todos que se dedicaram a tentar descobrir o que seu texto diz ou de onde vieram suas gravuras, alguns afirmam que o manuscrito é apenas a brincadeir ade alguém, uma brincadeira extremamente bem elaborada com mais de 200 páginas, outros chegam ao outro extremo dizendo que as figuras retratadas nele assim como a língua e alfabetos utilizados não são meramente “alienígenas” eles de fato reproduzem e possivelmente vem de outro planeta ou outra dimensão. Alguns acreditam que o texto não passa de descrições de plantas imaginárias, outros encontram em seu conteúdo evidências de que a ciência na época de Roger Bacon já permitia ao homem observar as estrelas e as células, alguns inclusive afirmam que o livro traz um conhecimento tão poderoso que a existências da raça humana depende de que ele permaneça desconhecido, inclusive com agências obscuras tratando de lidar com qualquer um que consiga decifrar seu código.

O fato é que nem mesmo com a tecnologia e conhecimentos contemporâneos alguém foi capaz de decifrar o segredo que suas páginas escondem. E não apenas isso, sua história permanece um retalho de especulações que vão do fantástico ao impensável. Mas o que existe por trás deste livro que já atingiu um valor de mercado de U$ 160.000,00 dólares e hoje se encontra disponível a todos na universidade de Yale? Muito de sua história o tornaria um irmão caçula do Necronomicon, com a diferença do Manuscrito Voynich estar à disposição de qualquer um que desejar encontrá-lo.

Para tentar responder algumas dessas perguntas a Morte Súbita Inc. reuniu neste estudo os mais recentes exames forenses realizados para tentar solucionar este mistério, especulações de estudiosos, teorias sobre sua origem e uma biografia detalhada do homem que o trouxe à luz no século XX. Quem o escreveu, por que foi escrito, quem o manipulou? Nenhuma resposta é certa, mas várias portas para responder a estas questões foram e continuam sendo abertas.

O objetivo da Morte Súbita Inc. não é apenas disponibilizar uma cópia completa das páginas deste tomo misterioso, mas apresentar um estudo completo e meticuloso inédito sobre tudo o que pode ser dito sobre o seu conteúdo e origem.

Antes de tudo

Comece clicando aqui para baixar o documento do arquivo em pdf  em alta resolução do códice e então nos acompanhe em nosso texto.

ÍNDICE

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/manuscrito-voynich/

Histórias de Fantasmas Europeus

 

Na Europa pré-cristã, entre os pagãos, os fantasmas já assombravam as populações bárbaras e tal como em todo o mundo eram, em geral, considerados como desordens da natureza, um desvio das almas que permaneciam no mundo dos vivos quando deveriam estar em seu próprio universo e, na terra, eram responsáveis por toda espécie de males. Tal como em outras nações, os rituais mais primitivos consistiam sacrifícios e cerimônias que buscavam aplacar os rancores e as mágoas das almas penadas. O cristianismo trouxe a associação dos fantasmas com o diabo e logo foram incluídos entre os fenômenos infernais.

No século X [anos 900], a Igreja já tinha se encarregado de definir que os espíritos bons iam para o céu ou para o purgatório enquanto os maus, naturalmente, deveriam estar no inferno. O fenômeno da possessão não era atribuído somente aos servos de Satanás, íncubos e súcubos mas, também, como a tentativa de um fantasma de voltar à vida apropriando-se do corpo de outrem. Na mente do povo, consolidou-se a idéia de que o mundo sobrenatural era dominado pelos espíritos dos santos católicos e pelos espíritos errantes, os fantasmas, tanto quanto pelos anjos e demônios.

O fato de alguém se tornar um fantasma depunha contra sua vida e sua morte não raro suscitando comentários desabonadores sobre o morto ou sobre membros de sua família posto que a condição fantasmagórica devia ter uma causa que somente poderia se enquadrar em circunstâncias específicas. Exceto pelo puro inconformismo do defunto, que poderia ter morrido de repente, ainda apegado aos seus amores e outros afetos, o fantasma deveria ter sofrido vida e/ou morte “ruins”: teria sido profundamente infeliz, guardava mágoas de pessoas próximas, fora assassinado ou suicidara-se. No ambiente puritano do cristianismo medieval essas suspeitas constituíam mancha vergonhosa na reputação dos envolvidos.

No Reino Unido, as crenças e o interesse por fantasmas são tradições cultivadas desde épocas remotas mas no século XIX [anos 1800] o interesse nos fenômenos dos desencarnados se intensificou, com a popularização do fenômeno das mesas girantes e advento espiritismo kardecista, consolidando-se em prestigiadas instituições dedicadas ao assunto como o Ghost Club of Great Britain, fundado em 1862 e que existe até hoje promovendo suas reuniões no The Victory Services Club, centro de Londres.

Entre seus membros, figuram personalidades como Charles Dickens, W.B. Yeats [poeta], Sir William Crookes [químico e físico], A.A. Watts, famoso medium, além de outros acadêmicos e homens da Igreja, como o Reverendo Staiton Moses. Um dado curioso, mas muito natural em uma instituição dessa natureza, é que os membros falecidos continuam sendo considerados membros ativos. Um dos casos de maior repercussão investigados pelo Club foi o da Borley Rectory [Paróquia de Borley], considerada “a casa mais assombrada da Inglaterra” [veja no tópico Europa]. O site do Ghost Club [www.ghostclub.org.uk] mostra que o grupo se encontra em plena atividade e segue investigando casos de fantasmas e assombrações bem atuais, utilizando equipamentos para o registro de imagens, sons e mudanças ambientais.

Em 1882, surgiu a SPR ─ Society For Psychichal Research [Sociedade de Pesquisa Psíquica – www.spr.ac.uk], um grupo de estudiosos notáveis que firmaram o propósito de investigar, com bases científicas, fenômenos como o mesmerismo [hipnose], parapsicologia e espiritualismo. A Sociedade atraiu cientistas não somente no Reino Unido: rapidamente encontrou simpatizantes e afiliados norte-americanos, como o psicólogo William James, que presidiu a Sociedade entre 1894 e 1895. O filósofo francês Henri Bergson também foi presidente da instituição, em 1913. Entre 1963 e 1965, a presidência estava com Donald James West, psiquiatra e criminologista, que voltou a ocupar o posto nas décadas de 1980 e 1990.

Alguns Fantasmas Europeus famosos

A Dama Branca: ou Dama de Branco, é uma assombração de um antigo castelo da Boêmia [República Tcheca, próxima à Alemanha] que pertenceu ao clã dos Rosenberg-Neahaus. De tempos em tempos, ela aparece em outros castelos de famílias amigas, como os Bradenburg, mas também já foi vista em Berlim. Muito alta, veste-se de branco e usa um véu de viúva adornado com fitas através do qual pode-se distinguir uma luz tênue. Ela desliza através dos corredores e aposentos daqueles castelos e lugares onde morreram membros de sua família. Dizem que é o espírito de Perchta Von Rosenberg, nascida em data incerta, entre 1420 e 1430. Foi casada com John Von Lichtensteis, barão rico e libertino. A Dama Branca teve, assim, uma vida infeliz, socorrendo-se com os parentes. Morreu em profundo desgosto, sucumbindo às indescritíveis afrontas que teve de suportar. Em dezembro de 1628, em uma de suas aparições, em Berlim, ouviram-na exclamar: “Veni, judica vivos et mortus: judicium mihi adhus superest!” ─ Venham! Julguem os vivos e os mortos; meu destino ainda não está decidido! [RADCLIFF, 1854].

A Dama Marrom de Raynham Hall [Inglaterra]: A Dama Marrom, The Brown Lady é, além de famosa, o fantasma cuja foto é a mais divulgada na história da fotografia de almas do outro mundo. Ninguém conhece sua identidade; sabe-se, apenas, que está relacionada a Raynham Hall. Sua primeira aparição data de 1835. Foi vista duas vezes por um cavalheiro que visitava a casa, Coronel Loftus cujo relato descreve-a usando um vestido de cetim marrom tendo somente cavidades negras no lugar dos olhos. Em outra ocasião, apareceu para o Capitão Frederick Marryat que, intencionalmente, resolveu dormir no “quarto assombrado” mas encontrou o fantasma no alto da escada onde, percebeu uma fraca luminosidade. Sua descrição, semelhante à de Loftus, acrescenta que na ocasião a Dama tinha na mão uma lanterna [antigo lampião]. Marryat, que tinha uma pistola à mão, disparou na direção da figura mas as balas atravessaram seu diáfano “corpo”. Em 1926, dois garotos também viram a Dama. Em 1932, a célebre fotografia foi obtida por Indre Shira e pelo Capitão Provand que trabalhavam em reportagem sobre o assunto para a revista Country Life. [FAMOUS MONSTROS]

A Mulher de Luto [Klage-weib]: é um tipo de fantasma internacional no se refere a sua conduta. A expressão Klage-weib é alemã, significando “Mulher que se lamenta” e refere-se a uma mulher grande; uma aparição alemã. Quando se aproxima uma tempestade e a lua brilha debilmente, sua sombra gigantesca pode ser vista em roupas esvoaçantes e funéreas, os olhos cavernosos e o olhar congelante. Ela estende seu longo braço e chora sobre as casas marcadas pela morte que se aproxima. Mas a “Mulher de Luto” também existe South Gloucestershire, [PARANORMAL DATABASE] Inglaterra, assombrando o cemitério de Charfield. Na versão inglesa, ela cobre o rosto com as mãos, demonstrando sua tristeza. Teria sido a mãe de duas crianças mortas em um acidente de trem ocorrido em 1929 que fez mais oito vítimas cujos restos mortais não permitiram identificação e, por isso, foram enterradas em uma cova coletiva. Em Tyrol [região entre a Itália e a Áustria], também existe uma mulher de branco cujo vulto pode ser visto nas janelas das casas prenunciando que, ali, alguém vai morrer.

por Ligia Cabús

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/historias-de-fantasmas-europeus/

Breves Considerações sobre Exu Orixá e Exu de Umbanda

Exu orixá é um dos Deuses africanos que representa a dinâmica e o inicio de tudo, este Orixá tem vários nomes só diversificando de região o pais ao qual ele foi ou é cultuado. Veja os mais comuns ao qual este ser é chamado: Eleguá, Elebara, Bara (aquele que habita o corpo), Akesan (exu de ifá), Iangi (exu do inicio da criação), Onan (Exu senhor dos caminhos), Exu Tiriri (aquele que enxerga tudo), este são apenas alguns de muitos nomes aos quais este Orixá é conhecido dentro da religião africana e também no Candomblé.

Conta uma das lendas que Exu Yangi fez parte da criação do mundo, tendo como papel de mensageiro de Deus (olodumaré), assim foi ordenado que viesse a terra para saber se ela já poderia ser habitada pelos seres humanos e os Orixás. Chegando aqui não quis mais voltar a Orun (céu), então percebe-se que logo este orixá novamente foi o primeiro orixá e ser a chegar na terra, por isso ele é o primeiro a ser reverenciado no Culto como: Agrados, Matanças, Primeiro do Xirê (cânticos), etc. As Cidades africanas que ele é mais cultuado são: Ekiti, Ketu (onde se tornou rei), Ondo, Inebu, etc.

Exu de Umbanda ” De Trabalho”

Exu de Umbanda não é Exu Orixá. Por que? Exu na Umbanda são entidades ou espíritos de luz que tem por missão ajudar seus protegidos dando lhes orientação em forma de consultas de adivinhação, pois estes incorporados em seus médiuns respondem com a verdade aquilo que o consulente quer saber com a finalidade de lhe avisar de algum mal ou bem que esteja preste a acontecer, com o intuito de impedir algum mal ou lhe mostrar algum bem em seus caminhos (sua vida).

No Candomblé esses Exus que não são Orixás são conhecidos como Ecuru ou Ekuru (próprios Eguns ancestrais) que no Candomblé já pertencem a outro típico de culto, na África existe um culto típico somente para este tipo de espírito (O culto aos Eguns ou Elesé Egum). Então como podem ver

Exu Orixá não se manifesta em Giras de Exu na Umbanda, porém, algumas casas de candomblé cultuam Exus Ekurus (entidades), pois alguns devotos já vieram antes de se iniciar dentro do culto ao Orixá (candomblé) da religião da Umbanda, então já traziam estas entidades que as vezes não querem deixar de dar suas consultas e orientações aos seus devotos. Casas de Santo como na nação de Angola tem por natureza cultuar essas entidades, mas hoje em dia é muito comum dentro do candomblé assentar estes Exus no Ketu, Jeje, Engenho velho, etc.

Esses exus tem nomes e histórias bem diferentes uma das outras. Na Umbanda eles são conhecidos como: Exu tranca rua,  Exu Caveira, Exu tiriri, Marabô, Zé pelintra, Calunga, Exu mirin, Lodo, Reis das Sete Encruzilhadas, Exu veludo, Toquinho, Pinga fogo, Meia noite,  etc..

***

Fonte: https://umbandaedeus.blogspot.com/2014/05/o-misterio-exu-exu-orixa-e-exu-de.html?view=sidebar

***

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/breves-consideracoes-sobre-exu-orixa-e-exu-de-umbanda/