As Rainhas Dragão

Lord A .’. (RedeVamp)
Excerto do livro Mistérios Vampyricos

Existe um relato intitulado “As Rainhas Dragão” que fala sobre os mitos de origem da Transilvânia, o qual descobri ainda na década passada, escrito pelo pesquisador David Wilson – mais conhecido como Awo Falokun Fatunmbi, um oraculista especializado no “Ifa” dos africanos. O artigo foi escrito como uma revelação recebida da parte de seus parentes, originários de Arad na Transilvânia, e que tinham o sobrenome Fenyes, cujo significado é “portador da luz”, mais ou menos como o “cohen” hebreu – tal sobrenome pode indicar uma função ritual nas respectivas culturas citadas. Logo no começo do artigo, somos apresentados ao avô Carlos Fenyes, advogado da família Habsburg, e seu filho Adelbert (Adelburt), que era médico da mesma família nos tempos que antecederam a Primeira Guerra Mundial – este também foi embaixador austríaco no Egito. Para quem não conhece os Hapsburg, eles foram a última família que ocupou o trono do Sacro Império Romano-Germanico; alegavam descendência de Cristo, bem como lhes era atribuída a posse da lança de Longinus, a qual inclusive teria perfurado o peito do Messias crucificado e tornava invencível quem a detivesse, tanto que na Segunda Guerra o próprio Hitler não sossegou até consegui-la. A lança também pertence aos mistérios do Graal e tem muita história – sua aparição mais recente foi na trama do filme Constantine, com Keanu Reeves.

Segundo consta, o título de Sagrado Imperador doado à tal família Hapsburg pela Igreja Católica comprou o silêncio deles em sua peculiar história familiar. Particularmente, dado o tom germânico, eu pensaria em Balder como ancestral totêmico e deus sacrificado, mas isso não importa. Segundo o próprio autor, ele detém provas externas acumuladas ao longo de quatro décadas de pesquisa e acredita que a história como nos é ensinada nas escolas, condicionada por interesses de controle político e filtrada pelo academismo e o pensar moderno, e bastante diferente daquilo que realmente aconteceu – e isso tem a ver com a posse de uma tecnologia espiritual que deveria ser um presente para todos e jamais monopolizada em benefício de poucos. E tudo isso pode ser encontrado na história da própria Transilvânia.

Historiadores dizem que a linguagem escrita começou na Europa há quase 5 mil anos; na Transilvânia, há amostras encontradas em sítios arqueológicos que datam de 10 mil anos atrás – estranho intervalo que parece ser ignorado pelos acadêmicos por romper a conformidade de suas ideias. Na mesma região, também foi encontrado um mapa de porcelana com características topográficas exatas. O mapa é impossível de ser datado, mas itens que estavam enterrados juntamente ao mapa foram datados como tendo 20 mil anos de idade. Então, no tempo em que os europeus supostamente estariam fabricando ferramentas toscas de pedra, também estariam forjando mapas em ajuste exato de escala. Alguma coisa está faltando aí, pois o mito da Criação da Transilvânia diz que um caçador seguia um antílope do norte da África até a região das montanhas do que agora é a Roménia.

Segundo David Wilson, existem evidências de que essa região era uma colônia de mineração do antigo Egito. Os egípcios sabiam, compreendiam e usavam os segredos da alquimia como base para o processamento do metal e a transformação do espírito humano. A história acadêmica tende a dispensar a noção da alquimia como uma ciência real, e a matéria recebe pouco estudo sério nos tempos de hoje. Alquimia, da palavra alkemit ou Ala kemit, significa “luz da terra de kemit” ou “luz da terra negra”. A terra do Egito ao longo do Rio de Nilo é rica em platina. Por um processo de fundição, os egípcios conseguiam extrair irídio da platina e, para Wilson, tal elemento assumia importante caráter sagrado nos ritos iniciáticos – permitindo que os adeptos pudessem ver Deus em um arbusto ardente, ou seja, ver através dos véus e realizar jornadas em duplo etéreo.

Na Transilvânia, os segredos da alquimia e desses mistérios eram guardados pelas misteriosas “Rainhas Dragão”, assim como no Egito – um curioso sacerdócio que se mistura com os dragonistas (escrevia assim há quase 20 anos, mas hoje prefiro draconiano) nesse estranho artigo. Suas origens jazem no imaginário atribuído aos “vigias” e “anjos caídos”, para os místicos, e nas estrelas cadentes e meteoritos, para os míticos.

Aparentemente, houve um dilúvio universal que teria exterminado tais sacerdotisas ou quem sabe uma raça com sangue de dragão. Mas aquelas que moravam na Transilvânia conseguiram escapar para as regiões que atualmente pertencem ao Iraque e ao Egito, conforme é narrado no próprio mito da criação da Transilvânia.

Todo mito de criação tende a ser etnocêntrico e especulativo. Em todo caso, a tradição das Rainhas Dragão existia nas regiões montanhosas da Romênia, na antiga cultura acadiana da Suméria e no começo das dinastias egípcias.

Bárbara von Cilli

David também aponta que o escopo de influência dessas mulheres abrangeu o sul da Europa, o norte da África e porções do Oriente Médio, que possuíam uma cultura única, composta de uma confederação solta de Cidades-Estados. Essa cultura recebeu nomes diferentes por historiadores pronomes que refletem a influência do deslocamento de poder entre Cidades-Estados mas falham na precisão da apreciação espiritual comum, ligações científicas e culturais que sustentaram o desenvolvimento desta região. As Rainhas Dragão eram responsáveis pela consagração ritual de reis na Bacia Mediterrânea. Elas possuíam templos no atual Iêmen, no oeste da Nigéria e no sul da França.

Antigamente um rei não podia reinar a menos que fosse ungido pelas Rainhas Dragão, o processo de unção era feito com uma mistura de gordura de crocodilo e sangue menstrual. As Rainhas Dragão tinham abundância de certos hormônios, que podiam ser usados para abrir o terceiro olho, dando ao rei ungido o dom da clarividência. A habilidade de se produzirem os hormônios necessários era considerada genética, então para ser uma Rainha Dragão era necessário também ser filha de uma Rainha Dragão.

Essas mulheres tinham poder de veto efetivo sobre aquele que iria reinar e, como consequência, a tradição desenvolvida fez com que as Rainhas Dragão se tornassem a primeira esposa do rei e, para proteger sua herança genética, elas se casariam com seus irmãos. Esta é a origem do termo sangue azul. Para manter o terceiro olho aberto, os reis ungidos precisavam ingerir regularmente um ritual preparado de sangue menstrual das Rainhas Dragão, assim eles fariam parte do tribunal real.

No Oriente Médio, as Rainhas Dragão viviam em comunidades chamadas Haréns, mas não eram as rameiras descritas na literatura ocidental. A tradição de beber sangue menstrual era chamada “fogo da estrela”, e tal cerimônia foi denegrida pela Igreja Católica pelas histórias de vampiros.

As Rainhas Dragão não eram mordidas por regentes demoníacos; elas preparavam suas poções com carinho e gostavam de beneficiar a comunidade. Acreditava-se que se o rei estivesse alinhado com seu mais alto self como resultado de contato com outras dimensões, ele reinaria em benefício do povo para manter-se alinhado com o plano original da Criação. Em outras palavras, a vida era feita para o benefício de todos. As Rainhas Dragão também eram as guardiãs do mistério da alquimia. A arte ancestral da alquimia foi tanto usada para transformar o metal quanto como medicina para iniciação. A alquimia é essencialmente o aquecimento da platina para fazer irídio.

Na Bíblia o “irídio” é chamado “maná”, que significa “o que é?”. O irídio ou mana era ingerido como parte de um processo ritual. O iniciado jejuava por 30 dias e ingeria mana por dez dias. No fim do processo, o iniciado era descrito como aquele que podia ver Deus em um arbusto em chamas. Essa iniciação é descrita no Livro do Gênesis, quando Moisés recebe os Dez Mandamentos. O processamento do “maná” exige fornos que geram grande calor, e as Rainhas Dragão podiam abrir portais interdimensionais para criar uma chama azul usada para fazer o “mana”. Essa chama tinha um tremendo calor, mas não queimava a carne humana, era chamada de “a chama eterna” e, uma vez acesa, não se apagava. O processo para fazer tal chama é descrito na literatura alquímica como a linguagem dos pássaros. Quando um portal interdimensional é criado vem a relampejar como um flash de câmera, e este lampejo é simbolicamente descrito como um espírito de pássaro. As Rainhas Dragão tiveram vários nomes que dependiam da cultura e região em que elas atuavam.

Esses nomes incluíam Isis, Hator, Maria e Sheba (como a Rainha de Sabá). Acredito que tenha existido um Jesus histórico, mas sua vida não possui uma precisão refletida na Bíblia. “Messias” quer dizer o “Ungido”, e esta é a palavra hebraica usada para descrever as iniciações das Rainhas Dragão.

Na cultura judaica, as Rainhas Dragão eram chamadas de “Maria”. Então, Jesus foi iniciado por Maria, sua mãe, e por Maria Madalena, sua irmã e esposa. Se olharmos para as tumbas dos faraós egípcios, notaremos que seus órgãos internos eram colocados em jarros separados. As Rainhas Dragão usavam esses órgãos como parte do processo de unção. A alquimia do “mana” é tal que, se você ingerir um órgão interno de alguém que faleceu, absorverá suas memórias e experiências de vida. Esta era a base para a crença de que os reis eram divinos. Eles literalmente recebiam a experiência coletiva de todos os seus predecessores. Por essa razão, o corpo de um rei ungido era importante para a instalação do próximo rei.

Alguns filmes e romances vampirescos até hoje trazem releituras dessa curiosa ideia ligada à antropofagia ritualística de certas culturas – incluindo algumas previamente mencionadas em outras páginas, tais como Schytes (Cítas) e os Getae.

Conforme anunciei é, sem dúvida alguma, um artigo que explora a mitologia e a história de forma audaciosa, embora duvido de que haja acadêmicos dispostos a fundamentá-lo ou oferecer algum detalhamento sobre os muitos tópicos lá presentes.

Reproduzi apenas a parte mais convergente para nosso estudo e com o tema deste livro. Mas aqueles que encontrarem o artigo na íntegra observarão apontamentos do autor que demonstram como o Império Romano decidiu criar imperadores sem a dependência das Rainhas Dragão o que os levou às suas políticas de extermínio ao longo do Crescente Fértil e da região da Galileia, para assegurar que nenhum novo rei ungido surgisse naquela região.

O autor também acredita que o corpo de Jesus foi removido da região e levado para o sul da França, para evitar que este caísse nas mãos romanas, o segredo da atual posse do corpo inclusive é guardado pela família do autor, no caso o David Wilson. Ele também explica que a história europeia é pautada no conflito entre os que regiam por iniciação obtida com as Rainhas Dragão e aqueles que regiam sob as bênçãos do papa que comandava a nova regra divina – sua aceitação levou um milênio e meio de confrontos e programas de extermínio em massa daqueles que estiveram reunidos com as “Rainhas Dragão”. Todas as cruzadas e mesmo a caça inquisitorial às bruxas teriam sido os tentáculos desse plano para assegurar o extermínio de todas as Rainhas Dragão e suas descendências.

Mas elas sobreviveram, mesmo que poucas, e seu alcance era longo, Wilson acredita que os Templários e algumas Ordens Monásticas ou de Cavalaria tenham sido criações veladas delas para preservar descendentes e recuperar artigos importantes do seu culto.

Eleanor de Aquitania

Gosto de pensar que talvez algumas rainhas, como Eleanor de Aquitânia (velada criadora do romance de cavalaria e por extensão do tantra ocidental incluso nessas obras) tivesse sido uma delas. Bem como muitas outras damas que vestiram o manto azul de Nossa Senhora e foram patronas de muitas dessas ordens; sincretismo é sempre uma ferramenta curiosa ao lançarmos nossos olhares rumo ao passado. Sábias dragonistas, hábeis em sua invisível arte, jamais se deixariam pegar fácil e certamente estariam por detrás dos meandros do poder. O que não me deixa esquecer de Bárbara von Cilli e até mesmo Elizabeth e Zsofia, da Famila Bathory, ao menos próximo do contexto vampírico que exploramos neste livro.

Como atribuir elementos míticos e místicos às chamadas Catedrais Góticas é tema recorrente no ocultismo, e próprio David Wilson aponta que elas foram construídas para guardar os segredos dessa alquimia das Rainhas Dragão e que sua grande Deusa era Ísis, velada nos subsolos como uma Madona Negra, onde povos nômades da Transilvânia secretamente iam rezar em suas rotas de peregrinação pelo mundo.

A beleza e a importância do culto das Madonas Negras bem como sua expressão da força maior são exploradas no blog Cosmovisão Vampyrica, em, www.redevamp.com.

Infelizmente, os Templários foram destruídos, como bem sabemos, e seu legado e sabedoria tomados pelos membros ávidos de poder do clero e da monarquia não iniciada nos mistérios das “Rainhas Dragão” e acabaram sendo desvirtuados em muitos lugares. O sacrifício de garotas virgens (e que ainda não houvessem menstruado) atos de pedofilia acabaram sendo algumas das práticas erróneas e criminosas mais comuns associadas com esse contexto.

As acusações de nobres beberem o sangue de terceiros – comum da parte dos protestantes para com algumas famílias no Leste Europeu – podiam ser verdadeiras, talvez fossem apenas propaganda política para intimidar adversários ou, ainda, quem sabe, tentativas posteriores dos descendentes do “Sangue do Dragão” tentando recuperar fundamentos que apenas sentiam o potencial para obter, mas que agora estavam fragmentados ou não acessíveis.

Em todo caso, o artigo de David Wilson se encerra com o autor em tom pesaroso pelo descaso dos administradores do museu criado por seu avô na velha mansão Fenyen em Pasadena, Califórnia, para com a rica história de sua família, que tem no brasão a imagem do Dragão Alado, das antigas Rainhas Dragão.

Um fato relevante é que no transcorrer dos séculos tanto a Igreja Católica romana, como a Reforma e o Protestantismo, e mais recentemente o partido comunista fizeram o possível para denegrir e destruir a herança pré-cristã da Transilvânia. Há uma perene influência ou sincronicidade com a cultura dos dragões da Suméria através dos Cárpatos.

O próprio David Wilson aponta em uma das postagens do seu blog que atualmente existem mais de 26 famílias que carregam o dragão vivendo na região. Vale observar que dragões e povos serpentes intervindo e interagindo com humanos existem em diversas eras e culturas – mais recentemente esses mitos são explicados como os anunnaki e outros alienígenas reptilianos na linguagem moderna – será que eles passaram por Marte antes de chegarem aqui?

Particularmente prefiro o tom conotativo dos mitos e ritos mais antigos.

Um epílogo ao Morte Súbita

Lord A:. em 31.05.2022

Meu livro Mistérios Vampyricos foi pesquisado e redigido entre os anos de 2003-2012 e publicado em agosto de 2014 como sabem. Ainda hoje o lançamento dele no stand da Madras Editora na Bienal do livro, em São Paulo, foi uma marca indelével – lembramos até o sabor do vinho chileno da festa. A obra foi bem sucedida. Reencontrar este trecho do livro em 2022 (quase uma década depois da minha última revisão) é como achar uma garrafa selada com uma mensagem dentro a beira mar. Agradeço ao Thiago Tamosauskas por reviver este trecho aqui no Morte Súbita.

Dragões, anjos caídos ou simplesmente estrelas cadentes e meteoritos? Todos são fascinantes per se! Eles encarnam aqueles relatos atribuídos a “Memória” ou a “Ancestralidade” que é escrita na pedra e no sangue; diametralmente oposta à história escrita em papel ou pergaminho.Que sempre serviu na maior parte das vezes para justificar alguns babacas possuírem as chaves do arsenal, da biblioteca, da prisão e do palácio – e quase sempre essa última chave sempre foi a mais importante para eles. Sem tudo isso esses caras são e sempre serão o que foram um bando de estúpidos. Essa abstração chamada humanidade sempre e em sua maioria foi composta por eles. Desde o neolítico e estes serviam para morrerem como água. E para alguns dos “nossos” transmitirem e ressurgirem através de nós em tempos melhores. Dizem que todas obras ocultistas da modernidade oscilam entre dois pólos – Phil Hine e Michael W Ford para iniciantes versus Kenneth Grant e Michael Bertiaux para quem manja. É o que dizem. No entanto, se ouvidam de uma Maria de Naglowska da vida e outras mulheres muito mais interessantes.

Ainda hoje uma taça de vinho a beira de uma fogueira na floresta em noite de lua negra oferece algo; que jurisprudentes e sacerdotes (abraâmicos) da história escrita pelos povos do livro jamais conseguirão apagar.Sejam generosos com o que lhes direi: ainda assim prefiro interpretar tais assuntos por viés do conotativo, do subjetivo, da alegoria, do simbólico e metafórico tão caro e precioso a alquimia. Então, ao concluírem a apreciação dos meus livros ou este texto não saiam por aí buscando no Mercado Livre por irídio, banha de crocodilo ou fazendo propostas pouco usuais para vossas mulheres. Sejam, digamos, mais razoáveis. Saber o mito não implica ter a receita do rito e do seu preparo ou condução. A vida adulta implica saber disso. E saboreiem mais noites de vinho e a luz de uma fogueira, com limões vermelhos jogados dentro dela antes de acender as chamas.

No livro falei e pontuei bastante o relato do grande David Wilson, ele usava seu nome civil nas redes sociais, na época que escrevi Mistérios Vampyricos; mas hoje é mais conhecido por seu nome religioso como Awo Falokun Fatunmbi e tem um trabalho extraordinário promovendo o Ifá e sendo babalawo na América do Norte. Para investigar e entender as origens de sua família húngara, seguiu curiosas visões de seus ancestrais que o levaram inesperadamente à África. Dentre muitos de seus livros Ancestral Memories, aprofunda seu relato sobre as Rainhas Dragões. Todas as suas obras publicadas falam por si e se encontram disponíveis, lá na Amazon e podem ser conhecidas neste link.

As tais Rainhas Dragões foram aquelas que nos primórdios eram avatares de grandes deusas em tribos notáveis e impérios destacáveis.Sua descendência, sua criação e suas dinastias eram de outra estirpe. O que nos leva a um “Sangue” ou ainda o papo de “Sangue-Bruxo” caro aos tradicionalistas bruxos ingleses. Também falamos de uma raça humana em aparência que figura em histórias de Lovecraft, Yeats, Machen e antes deles nas fábulas onde há seres feéricos. E que depois da idade média foram sintetizadas meramente como bruxas ou vampiras. É uma história talhada na pedra e no “Sangue”, não em pergaminhos delicados ou feitos para evitarem diálogos com o velho norte. O que mais posso lhes dizer sobre tais diálogos é o seguinte – quando o resultado dele parecer biografia e cronologia da editora Marvel, você já perdeu o fio da meada. É sobre lampejos e conexões.

Vocês podem chamar as Rainhas Dragões por outros nomes também, elas estarão lá como sempre estiveram. Estão aqui desde o início, como me confessaram incontáveis vezes.

Contos de fadas antigos e o folclore podem falar melhor disso do que textos acadêmicos – ou tabelas de ocultistas protestantes que juram saber até o cep de Lúcifer na Vila Madalena em São Paulo. Parem com isso! Falamos do que vem desde (pelo menos) o neolítico e jaz nos estratos e camadas cerebrais igualmente primitivas que habitam a camada dos imperativos do nosso cérebro, desvelando como somos mais irracionais e movidos por desejos realizados (ou não realizados) do que gostamos de pontuar e assumir nas redes sociais. Curtam o calor e a luz da fogueira, em uma floresta nas noites sem luar – saboreiem o vinho! Quem sabe no céu escuro anjos caídos, dragões ou estrelas cadentes e meteoritos não lhe contem tudo que estiver preparado para receber?


Lord A.’. é autor de diversos livros entre eles, Mistérios Vampyricos, Deus é um Dragão e a série Codex Strigoi. Desenvolve ainda uma série de iniciativas e eventos culturais para a divulgação da Cosmovisão Vampyrica e da comunidade vamp no Brasil bem como as transmissões da RedeVamp, o site redevampyrica.com, o podcast Vox Vampyrica, e a comunidade Campus Strigoi

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/as-rainhas-dragao/

A Teoria da Conspiração por trás das duas Guerras do Golfo

Para quem acredita em Teoria da Conspiração, isto é fascinante; para quem não, será ao menos interessante e para os matemáticos representará toda uma explicação de como podem haver tantas casualidades numa mesma coincidência:

Existe uma imensa companhia chamada The Carlyle Group avaliada nuns 14 bilhões de dólares , a qual é propriedade de um grupo de poderosos e influentes republicanos de Washington DC. Esta companhia é basicamente uma holding que agrupa e tem enormes interesses financeiros em companhias dos ramos de engenharia civil, energia, hotelaria, defesa e operações…

Apenas citando as que nos interessam hoje, existem várias companhias dentro de Carlyle: The Bin Laden Group com sede em Riyadh, Arábia Saudita, e as companhias norte-americanas United Defense Industries (Virginia), Raytheon (Massachusetts) e Arbusto Energy Oil Co (Texas). Ainda que não tenha nada a ver com esta história, e apenas como curiosidade, mencionaremos outra muito famosa dentro da Carlyle: Enron.

Voltando ao tema: The Bin Laden Group é o gigante empreiteiro de engenharia civil do oriente médio. Recordemos que Osama Bin Laden amealhou grande parte de sua fortuna no negócio da construção, ainda que também, e isto não vem ao caso, mas como curiosidade, como o principal fornecedor de goma arábica para a Coca-Cola, com sede em Atlanta (talvez se tivessem pensado em não tomar Coca Cola não acontecesse a guerra?).

Enfim, dentro da Carlyle,as famílias Bush e Bin Laden têm sido oficialmente sócios comerciais desde 1989.O irmão mais velho de Osama bin Laden, Salem bin Laden e George Bush pai, criaram uma companhia petroleira no Texas em 1989, a Arbusto Energy Oil Co. (arbusto=bush), e foram sócios por vários anos até a morte de Salem com a queda do seu jato particular nas cercanias de Houston em 1993. George Bush pai é agora acionista majoritário dessa companhia, com investimentos multimilionários e interesses dentro do gigante petroleiro Chevron-Texaco.

Raytheon, localizada em Massachusetts, (a umas 40 milhas a oeste de Boston), fabrica o sistema de guia para os mísseis Tomahawk (quem não viu as cenas nos noticiários destes mísseis decolando de barcos e atingindo alvos com precisão cirúrgica, como se fosse um vídeo game), sistemas de posicionamento global por satélite (GPS) e sistemas integrados de radar para todas as forças armadas dos EUA.

Outra das companhias dentro do grupo, é a United Defense, localizada na Virginia, em Washington DC, a qual fabrica sistemas de lançamento de mísseis (hardware e software) para a US Navy e a USAF. Para que entendamos: os mísseis Tomahawk da Raytheon, são lançados de plataformas fabricadas pela United Defense instalados em cada barco e submarino da marinha dos EUA e na maioria dos bombardeiros B-52,
B-1 Lancer e B-2 Spirit da força aérea.

O Bin Laden Group, foi o principal contratante civil para a reconstrução do Kuwait após a Guerra do Golfo e, como dissemos, é o maior contratante de engenharia civil no oriente médio atualmente.

A esta companhia também se ajudiciaram a construção e remodelação das bases aéreas para a USAF, RAF (Royal Air Force) e a RAAF (Royal Arabian Air Force) durante a guerra do Golfo na Arábia e nos Emirados Árabes Unidos, assim como a ampliação da base da USAF em Incirlik, Turquia.

Que benefícios há para The Carlyle Group, e suas associadas e seus acionistas com o início da guerra?: A Chevron-Texaco, e por conseguinte, Arbusto Energy obteriam cifras gigantescas quando a guerra disparasse o preço do petróleo e das ações destas companhias (direto para o bolso da família Bush).

A Raytheon e United Defense elevariam o valor de suas ações na NASDAQ e suas vendas poderiam quintuplicar- se com a guerra somente em um quarto do ano fiscal gerando lucros astronômicos para seus acionistas. De fato, e curiosamente, a United Defense acaba de colocar no mês passado na NASDAQ, 300 milhões de dólares em ações que foram praticamente arrebatadas por compradores prevendo a alta no seu preço (direto para o bolso da família Bush).

The Bin Laden Group sem dúvida alguma, seria o principal contratado civil para a reconstrução de Bagdá e a construção de bases militares e infra-estruturas para as mesmas, controladas pelos EUA no Iraque, fecharia contratos bilionários (direto para o bolso da família Bin Laden).

Dois dos executivos de maior porte no The Carlyle Group são George Bush pai, e John Major, ex – primeiro – ministro britânico, protagonistas principais da guerra no Golfo no início dos anos 90. O CEO de Carlyle e Frank C. Carlucci, ex-secretário de defesa durante a administração Reagan, ex-chefe da CIA, e ex-companheiro de escola de Donald H. Rumsfeld, atual secretário de defesa. Também é amigo pessoal de Dick Cheney, atual Vice – Presidente e ex-chefe Adjunto do Staff de George Bush pai durante a guerra do Golfo. Dick Cheney era o chefe direto do General Norman Schwarzkpoff, Comandante-em-Chefe das forças aliadas durante a guerra.

Ou seja, há 10 anos e hoje, são os mesmos personagens envolvidos na guerra contra o Iraque. George Bush filho, é só um títere neste circo.

Coincidência?? Afinal de contas, duas famílias permanecem unidas e ganhando cifras de 7 zeros com a guerra: Bush e Bin Laden. É por isso que ainda que o Iraque cumpra com todas e cada uma das resoluções da ONU, de qualquer forma haverá guerra. Há muito dinheiro envolvido. Dentro deste lodaçal, não é de se estranhar que o mesmo Saddam Hussein seja parte do teatro e possa obter benefícios com esta guerra pré-fabricada.

Outro dado de interesse geral:
PS.: Sabiam que a firma Morgan, Stanley, Dean, Witter & Co ganhou 1.2 milhões de dólares e a firma Merril Lynch ganhou 5.5 milhões de dólares mediante a execução de uma ferramenta burocrática chamada Put Option, com ações da American Airlines, duas semanas depois dos atentados de 11/09?…bom, e o que há de estranho?….resposta: a Put Option é uma opção que cobre riscos; se você compra uma ação a 1 dólar e uma semana depois ela regressa ao emissor e a ação vale 0.8, o emissor está obrigado a pagar os 0.2 de diferença mais o dólar que custou a ação.

Esta é uma ferramenta financeira usada por muitas companhias dentro de NASDAQ e a NYSE para manter seu capital fresco.

Aqui vai algo surpreendente: ambas companhias estavam localizadas nas torres gêmeas do WTC (uma em cada torre), ambas compraram ações da American Airlines entre o dia 6 e o dia 10 de setembro mediante Put Options e ambas se voltaram a vender a American Airlines mediante a execução do contrato entre o 29 de Setembro e o 10 de Outubro, quando o valor da ação havia caído quase uns 40%…..em 11/09, ninguém dos altos executivos de ambas companhias se encontravam em seus escritórios na hora dos atentados. Casualmente estavam em juntas de negócios na área do Central Park, no distrito financeiro de upper Manhattan.

Coincidência?Em ambas companhias, perderam-se as vidas de uns 350 empregados em ambas torres.

Outro dado curioso:
Atualmente, um dos irmãos menores de Osama bin Laden, está por concluir seus estudos na escola de leis de Harvard, em Boston, onde tem vivido por 5 anos. Por certo que de Boston, partiram os 2 aviões que derrubaram as torres gêmeas.Outra coincidência?

Este é o negocio da guerra!…

Toda a informação contida aqui, foi investigada e obtida e pode ser verificada nas seguintes fontes: The Carlyle Group, The Washington Post, The Baltimore Chronicle, The New York Times, CNN, CNN Money e em suas respectivas páginas na Internet. Isto não é um conto, é a pura realidade.

Interessante, não?

Traduzido por Patrick Berlinck.
Publicado originalmente por Sabo

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/a-teoria-da-conspiracao-por-tras-das-duas-g… […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/a-teoria-da-conspiracao-por-tras-das-duas-guerras-do-golfo/

Crônicas de Carneiros e Ratos

Magia+do+Caos

Aqui está o PDF e aqui está a versão impressa!

O nome de cada povo no livro corresponde aos 12 signos da astrologia chinesa. Porém, este é apenas um pano de fundo da história. Eu me aprofundo mais em debates a respeito do papel do destino e do livre-arbítrio, assim como dilemas éticos.

Aqui vai a sinopse:

“O povo dos carneiros e dos ratos estão em guerra. Os ratos acreditam ser os escolhidos para matar em nome de Deus e causar o fim do mundo. Os carneiros desejam evitar que isso aconteça. A religião de cada povo possui uma profecia a respeito de como será o fim dos tempos. O Guardião da Ratoeira será aquele que morrerá pela salvação do mundo.

Wara vive numa pequena cidade do interior sem nome, conhecida por ‘Esquecida’. Os sacerdotes declaram, através da interpretação de seu mapa astral, que ele poderá ser um dos últimos sobreviventes no fim do mundo, conforme a profecia. O exército é enviado para retirar os habitantes da cidade, e talvez eliminar alguns deles. Kalaros, o melhor amigo de Wara, se recusa a sair e é capturado. Nas décadas seguintes, enquanto estuda numa universidade de magia, Wara se pergunta onde estará seu amigo Kalaros. Ele acredita que ele pode ter sobrevivido”.

Embora o livro seja grande (500 páginas) convido-os a ler ao menos o primeiro capítulo para sentir a atmosfera. Minha intenção foi realizar diversos debates sobre magia, religião e filosofia de forma divertida. Espero que gostem!

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/cr%C3%B4nicas-de-carneiros-e-ratos

Hipátia de Alexandria

Quando tive a idéia de escrever sobre a vida das Grandes Mulheres do Passado a primeira personagem real que me veio à cabeça foi Hipátia de Alexandria. Me lembro do dia que li sobre ela em um de meus livros relacionado ao Império Romano. Havia apenas um pequeno parágrafo… a sensação que passava era de que só estava ali para preencher espaço e dizia apenas: Hipátia de Alexandria, matemática e filósofa, foi diretora da Academia de Alexandria (Biblioteca de Alexandria) e morreu em 415. Nada mais, apenas essa curta frase, porém foi o suficiente para despertar em mim a curiosidade. Afinal, quem fora essa mulher que não só fora matemática e filósofa numa época impensável para as mulheres exercerem tais funções, como chegou a ser diretora de uma das maiores escolas da antiguidade?! Dali para frente procurei pesquisar tudo o que podia. Infelizmente não nos chegou muito sobre a vida dessa Grande Mulher, mas o que temos vale como lição para se carregar para sempre.

Hipátia nasceu em Alexandria por volta do ano 370 D.C. Para aqueles que não lembram, Alexandria é uma cidade do Egito e foi fundada por Alexandre da Macedônia, popularmente conhecido como Alexandre, O Grande.

Na antiguidade Alexandria foi um grande pólo de cultura e livre expressão, mas, na época em que Hipátia nasceu, a cidade encontrava-se em uma disputa entre a Igreja Católica, que crescia em poder rapidamente, e as correntes filosóficas que punham em cheque as doutrinas da nova religião.

Filha de Theon, filósofo, matemático e astrônomo, diretor do Museu de Alexandria; Hipátia creceu em um ambiente cercado de cultura sendo guiada por seu pai nos estudos da Matemática e Filosofia. Ele acreditava no ideal grego da “mente sã em um corpo sadio” (“men sana in corpore sano”) estimulando a filha a exercitar tanto a mente como o corpo, contam as lendas que ele desejava torna-la “um ser perfeito”.

Ainda jovem viajou a Atenas para complementar seus estudos. Era conhecida na Grécia como “A Filósofa”, já demonstrando cedo sua profunda sabedoria. Sócrates Escolástico relata:

“Havia em Alexandria uma mulher chamada Hipátia, filha do filósofo Theon, que fez tantas realizações em literatura e ciência que ultrapassou todos os filósofos de seu tempo. Tendo progredido na escola de Platão e Plotino, ela explicava os princípios da filosofia a quem a ouvisse, e muitos vinham de longe para receber seus ensinamentos.”

Ainda em Atenas tornou-se discípula na Escola de Plutarco e professava ensinamentos Neoplatônicos. Ao retornar a sua pátria, foi convidada para assumir uma cadeira na Academia de Alexandria como professora. Por volta dos 30 anos, tornou-se diretora da Academia. Seus conhecimentos abrangiam a Filosofia, a Matemática, Astronomia, Religião, poesia e artes. Era versada em oratória e retórica. Escreveu diversos livros e tratados sobre álgebra e aritmética. Seu interesse por mecânica e tecnologia a levaram a conceber instrumentos utilizados na Física e na Astronomia, como o astrolábio plano, o planisfério e um hidrômetro. Infelizmente suas obras foram perdidas durante o incêndio que destruiu a Biblioteca de Alexandria. Tudo o que chegou-nos vem através de suas correspondências.

Um de seus alunos Hesíquio o hebreu, escreveu:

“Vestida com o manto dos filósofos, abrindo caminho no meio da cidade, explicava publicamente os escritos de Platão e de Aristóteles, ou de qualquer filósofo a todos os que a quisessem ouvi-la… Os magistrados costumavam consulta-la em primeiro lugar para administração dos assuntos da cidade”.

Hipátia foi uma Grande Mulher que nasceu na época errada. Sua defesa fervorosa ao livre pensamento, seus ensinamentos Neoplatônicos, sua observação de que o universo era regido pela leis da matemática a caracterizaram como herege em um momento onde o Cristianismo triunfava sobre o Paganismo. Enquanto Orestes, um ex-aluno, fora prefeito da cidade, sua vida estivera protegida. Mas quando Cirilo tornou-se bispo de Alexandria, determinado a destruir todo o movimento pagão, sua morte foi anunciada.

Em uma tarde de 415 D.C. retornando a sua casa, Hipátia foi abordada por uma turba de cristãos furiosos que a arrancaram de sua carruagem, arrastaram-na para uma igreja e lá rasgaram-lhe as roupas deixando-a completamente nua e assim puseram-se a retalhar seu corpo esfolando-lhe a carne de seus ossos utilizando para isso cascas de ostras afiadas. Por fim desmembraram-lhe o corpo e os atiraram as chamas.

Morria com ela toda uma era de liberdade e florescimento filosófico e cultural em Alexandria e certamente para todos que viviam sobre a espada afiada da nova religião.

Carl Sagan escreveu em seu livro Cosmos:

“Há cerca de 2000 anos, emergiu uma civilização científica esplêndida na nossa história, e sua base era em Alexandria. Apesar das grandes chances de florescer, ela decaiu. Sua última cientista foi uma mulher, considerada pagã. Seu nome era Hipátia. Com uma sociedade conservadora a respeito do trabalho da mulher e do seu papel, com o aumento progressivo do poder da Igreja, formadora de opiniões e conservadora quanto à ciências, e devido a Alexandria estar sob o domínio romano, após o assassinato de Hipátia, em 415, essa biblioteca foi destruída. Milhares dos preciosos documentos dessa biblioteca foram em grande parte queimados e perdidos para sempre, e com ela todo o progresso científico e filosófico da época.”

Essa Grande Mulher nutriu toda uma época com a luz do conhecimento e do saber. Calaram-lhe a voz e empurraram sua lembrança para as profundezas do esquecimento. Mas, dois milênios não foram suficientes para apagá-la da memória de todos os famintos pela verdade. Hipátia retorna forte e vibrante ao alcance daqueles que buscam por seus ensinamentos. Ainda há pouco, enquanto terminava minha última pesquisa para esse artigo, me deparei com a notícia de que o diretor Alejandro Amenábar recentemente lançou no festival de Cannes o filme Ágora, que conta ao mundo a vida de Hipátia de Alexandria.

Texto da coluna Alma Mater, do Nerd Somos Nozes

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/hip%C3%A1tia-de-alexandria

Fausto, de Goethe

Após muita reflexão e planejamento, as Edições Textos para Reflexão decidiram que era hora de trazer para vocês os maiores clássicos da literatura mundial, pelo preço de um café!

Decidimos começar com a obra-prima de Johann Wolfgang von Goethe, Fausto. Nesta edição digital revisamos cuidadosamente a gramática da célebre e secular tradução de Antônio Feliciano de Castilho, de modo a tornar o português antigo o mais legível possível, sem no entanto interferir no contexto dos versos. Você já pode começar a ler em poucos minutos:

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***

À seguir, explicamos melhor do que se trata a nossa nova coleção:

Embora tenhamos escrito incontáveis obras desde o advento da escrita, há alguma arte que parece vencer o próprio fluxo do tempo, algumas histórias que se tornaram já mitologia por onde passaram, e que já foram lidas e encenadas pelas mentes de milhões e milhões de seres humanos.

A Coleção clássicos eternos reconhece a importância de trazer esta luz para ser refletida no maior número de espelhos possível, e cada um de nós é um espelho, e a luz foi criada para ser refletida.

Assim sendo, temos o compromisso de trazer edições cuidadosamente elaboradas dos grandes gênios de outrora, por um preço acessível – principalmente por se tratar de material em domínio público.

Também os tradutores são citados e lembrados. Ora, visto que nos valemos de traduções em linguagem já secular, foi necessário revisar o português, sobretudo com relação à gramática, procurando interferir o mínimo no contexto original da tradução.

Compreendemos que o português antigo pode trazer alguma complexidade no entendimento da obra, mas recomendamos que aproveitem dos recursos tecnológicos modernos dos e-readers ou aplicativos de leitura de e-books, que já possuem dicionários embutidos, assim geralmente basta clicar na palavra desconhecida para aprender o que significa. Se tudo correr bem, além da leitura de uma obra grandiosa, ainda sairão desta aventura sabendo um pouco mais acerca do seu próprio idioma.

Nalguns casos, onde a gramática pode ser aplicada tanto no português de Portugal quanto no do Brasil, preferimos manter o original – por exemplo, entre “génio” e “gênio”, optamos por manter a grafia original, isto é, “génio”.

E agora, fiquem com mais um clássico da literatura humana…

O editor.

#eBooks

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/fausto-de-goethe

Como se tornar uma Súcubo e atacar um homem enquanto ele dorme

Texto Anton LaVey, trecho de Satanic Witch

Uma súcubo é um demônio feminino que visita os homens durante a noite enquanto eles estão dormindo para ter com eles relações sexuais. Um homem sabe que foi atacado por um súcubo quando acorda pela manhã e noite e seu calção está repleto de sêmen seco. É muito provável que ele passe o dia seguinte cheio de pensamentos lascivos em sua mente, geralmente com a mulher cuja aparência é a mesma da  súcubo que o atacou.

Se ele é um “bom homem”, santo e casto, ele não vai deixar isso passar batido. Vai procurar o seu padre para contar sua experiência no pesadelo e pode até levar seu pijama endurecido como prova. Ele vai descrever o sonho que teve com a visita monstruosa e lembrar com toda sua capacidade dos detalhes deste encontro. O padre, um homem sábio, vai entender, ele sabe que esse mal existe e já ouviu muitas histórias parecidas e inspecinou muitos calções incrustados de sêmem. O fato de que muitas dos demônios descritos para ele correspondem aos rostos e corpos de algumas das mulheres da cidade não lhe passa apercebido. Algo deveria ser feito a respeito.

Houve muito barulho quanto a isso séculos atrás. Hoje, finalmente, é seguro se tornar uma súcobo e entrar nos sonhos do homem que você deseja. Tudo que você precisa é uma imagem mental indelével de seus atributos físicos, um desejo ardente, um lugar para trabalhar, e alguma ajuda de outros homens!

Escolha um momento em que ele já esteja dormindo por pelo menos quatro horas. Exercite sua sensualidade saindo mais cedo de forma a excitar os outros homens, mesmo que apenas visualmente, empregando a Lei do Proibido e as Virtudes de Constrangimento. Não dependa apenas do desejo para com o homem, por forte que seja ele  não é o suficiente. É importante que você gere o desejo da energia sexual de outros homens, pois eles fornecerão facilmente a você através de suas fantasias sexuais esta noite, dando o equilíbrio adequado para fechar o círcuito de energia magica necessária.

Entre em sua câmara ritual na hora prescrita e comece a se masturbar. Se você conseguir forçar sua imagem mental no exato momento do clímax é altamente provável que ele receberá a sua visita. Agora, se um homem estiver se masturbando com sua imagem em mente ou se a pessoa que estiver tendo relação com você e também chegar ao climax enquanto você estiver visualizando o objeto do seu desejo, então pode ter certeza que conseguiu visitar sua mente enquanto ele dorme.

Se quiser, pode adicionar alguns encantamentos ou queimar um incenso ou velas para fazer o seu encantamento mais “magico”. Mulheres são em geral românticas e bruxas são, afinal de contas, mulheres, por isso estes acessórios serão sempre muito populares. Em termos de apetrechos, tudo o que faz você se sentir como uma bruxa, lançando um poderoso feitiço, vai fazer a sua magia mais forte. Se o homem que você visitou não vier até você, isso é  só porque ele precisa ser evocado e não porque você já não esteja em sua mente.

Como uma súcobo, a finalidade do seu trabalho é o de entrar em sua mente e corpo enquanto ele dorme, embora tais coisas freqüentemente tirem o sono e faça-o durante o dia sonhar acordado com um nó em seu plexo solar. Depois de ter visitado ele desta maneira e invadir a sua mente, tudo o que você precisa fazer é evocá-lo.

A razão de um feitiço de luxúria falhar para bruxas despreparadas é porque a vítima não foi amaciada corretamente, antes do ritual, que é na verdade uma espécie de evocação. Para esta evocação, muitos rituais podem ser empregadas. Aqui está um exemplo: Poucos dias após a sua visita como  súcubo ou logo no dia seguinte se você estiver ansiosa, realize o ritual, conforme descrito no capítulo sobre “Sex Magic.” (The Satanic Witch). Olhe-se no espelho e se estimule, mas ao invés de conceber a excitação que busca no homem que visitou, fique de frente e imagine a si mesma como sendo o homem que você deseja evocar e conversar no espelho. Conforme ele se apresenta em seu corpo, ele ouve você comanda-lo a vir até você. Torne o momento tão convincente quanto você puder, usando o mesmo procedimento e atingindo seu clímax como você faria se estivesse praticando este ritual como um “reforço” ao invés de uma evocação.

Execute os rituais de súcubo e evocação quantas vezes você desejar. Se perseverar seu “amante dos sonhos” se tornará uma realidade física. Mas ao menos que você conheça a magia menor você não tem nenhum direito se sua evocação durar menos do que gostaria. Lembre-se sempre que existe muito mais mágica na bruxaria do que aquele que acontece durante as cerimônias.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/como-se-tornar-uma-sucubo-e-atacar-um-homem-enquanto-ele-dorme/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/como-se-tornar-uma-sucubo-e-atacar-um-homem-enquanto-ele-dorme/

Antonin Artaud

1896 -1948

Rodrigo Emanoel Fernandes com Liege Seraphin e Maíra Silvestre

Artigo originalmente escrito para a disciplina “Interpretação II” do curso de Graduação em Artes Cênicas da Universidade Estadual de Londrina – UEL, sob orientação da Prof. Thaís D’Abronzo.

Onde outros propõem obras eu não pretendo senão mostrar o meu espírito.

A vida é queimar perguntas.

Não concebo uma obra isolada da vida. Não amo a criação isolada. Também não concebo o espírito isolado de si mesmo. Cada uma de minhas obras, cada um dos planos de mim próprio, cada uma das florações glaciares da minha alma interior goteja sobre mim.

Reconheço-me tanto numa carta escrita para explicar o estreitamento íntimo do meu ser e a castração insensata da minha vida, como num ensaio exterior a mim próprio, que me surja como uma gestação indiferente do meu espírito.

Sofro por o espírito não estar na vida e por a vida não ser o espírito, sofro por causa do espírito-órgão, do espírito-tradução ou do espírito-intimidação das coisas para as fazer entrar no espírito.

Este livro, suspendo-o na vida, quero que seja mordido pelas coisas exteriores, e em primeiro lugar por todos os sobressaltos cortantes, todas as cintilações do meu eu por vir.

Todas estas páginas se arrastam como pedaços de gelo no espírito. Perdoe-se-me a minha liberdade absoluta. Recuso-me a estabelecer diferenças entre qualquer um dos momentos de mim mesmo. Não reconheço no espírito nenhum plano.

É preciso acabar com o espírito, tal como com a literatura. Afirmo que o espírito e a vida comunicam a todos os níveis. Gostaria de fazer um livro que perturbasse os homens, que fosse como uma porta aberta e os conduzisse onde nunca teriam consentido ir, uma porta simplesmente conectada com a realidade.

E isso é tão pouco um prefácio a um livro, quanto, por exemplo, os poemas que o balizam ou a enumeração de todas as raivas do mal-estar.

Isto não é senão um pedaço de gelo mal digerido.

(Artaud: O Umbigo dos Limbos, in: O Pesa-Nervos; 1991, pg.13-14)

1. DOR… TEATRO… SOLIDÃO…

Antonin Maria Joseph Artaud (um nome completo raramente mencionado e surpreendentemente sugestivo), nasceu em 4 de setembro de 1896 na cidade de Marselha. Primogênito de uma família de nove irmãos, dos quais apenas três chegaram a idade adulta, em 1901 é acometido de uma grave meningite, da qual não se salvará sem seqüelas. Apenas o início de uma vida de constantes sofrimentos físicos e psíquicos originados de distúrbios no sistema nervoso central. Esse sofrimento, que Artaud nunca desistiu de tentar descrever das mais variadas formas, é de fundamental importância para a compreensão de seu teatro e suas idéias. Constantemente afligido por dores e uma sensação de opressão na cabeça, ombros e pescoço, Artaud afirmava ter sérias dificuldades em ordenar seus pensamentos e dar-lhes uma forma exterior.

A horrível compressão da cabeça e do alto da coluna vertebral, o peito opresso, as visões de sangue e de morte, os torpores, as fraquezas sem nome, o horror geral em que me encontro mergulhado com um espírito no fundo intacto, tornam inútil esse espírito.

(Artaud citado por Virmaux: Artaud e o Teatro;1978, pg10)

Esse “espírito intacto” era o que lhe garantia a lucidez necessária para a criação e para a capacidade de expor seu mal sem, entretanto, conseguir alivia-lo. Com o passar dos anos, Artaud torna-se obcecado com a idéia de que sua agonia (que não deixou de ser um estímulo cruel à sua necessidade imperativa de expressão que acabaria por leva-lo à arte e ao teatro) tinha uma origem metafísica:

Eu não tenho vida!!! Minha efervescência interna está morta! (…) Asseguro-te que não há nada em mim, nada naquilo que constitui a minha pessoa, que não seja produzido pela existência de um mal anterior a mim mesmo, anterior à minha vontade, nada em nenhuma das minhas mais hediondas reações, que não venha unicamente da doença e não lhe seja, em qualquer dos casos, imputável.

(Artaud citado em: Artaud e o Teatro;1978, pg.11)

Essa deterioração corporal e psíquica tornava extremamente difícil seu convívio social e a criação de elos verdadeiros com seus semelhantes. Artaud usa o teatro e sua capacidade única de expressão física, intelectual e – como não cansa de reiterar – metafísica, como seu meio privilegiado de comunicação, de grito. Sua prática teatral é permanentemente voltada para a idéia de uma “cura cruel”, para si mesmo e para a raça humana. Seu “corpo sem órgãos”, seu corpo novo, reconstruído, imortal, finalmente senhor de seu próprio destino e de sua própria anatomia.

Os primeiros passos no teatro dão-se a partir de 1920, quando muda-se para Paris, depois de passar por constantes internamentos em sanatórios, particularmente para desintoxicações, necessárias para manter em níveis aceitáveis a dependência do ópio, adquirida por ocasião dos primeiros tratamentos.

Preciso encontrar uma certa quantidade cotidiana de ópio. (…) pois tenho o corpo ferido nos nervos das medulas e isto é irremediável, incurável, absolutamente irremissível, não existe operação cirurgical que possa restituir ao organismo os nervos que ele perdeu.

(Artaud citado em: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg.79)

Apesar de seu estado de quase miséria, sobrevivendo muitas vezes graças à cortesia de amigos que lhe ofereciam abrigo e comida, Artaud mantém uma atividade intelectual e profissional frenética, atuando em diversos espetáculos, publicando artigos e poesias e obtendo uma posição de destaque no movimento surrealista (que, posteriormente, criticaria por seu posicionamento político, de forma lúcida, porém cortante). O período de 1920 até 1932 viu o nome da Artaud crescer como uma figura ímpar e polêmica do teatro e da poesia francesas. Trabalhou em todas as frentes da atividade teatral: ator, encenador, cenógrafo, iluminador, escritor, sonoplasta e produtor, participando de inúmeras companhias sem pertencer realmente a nenhuma, exceto – em termos – o conhecido experimento do “Teatro Alfred Jarry”, cujos frutos foram quatro espetáculos e oito representações, entre 1926 e 1930. Além disso, não lhe faltaram oportunidades para trabalhar no cinema, em filmes notórios e raros como “A Paixão de Joana d’Arc”, de Dreyer (1928) e “Napoleão”, de Gance (1925-1927), interpretando Marat. Sem contar o desenvolvimento de roteiros de sua própria autoria, como “A Concha e o Clérigo”, mas suas relações com cinema serão sempre tumultuadas e frustrantes.

Em meros doze anos, Artaud notabilizou-se como um artista enérgico ao defender suas idéias. Suas críticas ao teatro de cunho psicológico, centrado no texto, deixando a encenação em último plano, eram correntemente reiteradas em seus artigos e manifestos, publicados nos periódicos artísticos da época.

(…) apresso-me em dize-lo desde já, um teatro que submete ao texto a encenação e a realização, isto é, tudo o que é especificamente teatral, é um teatro de idiota, louco, invertido, gramático, merceeiro, antipoeta e positivista (…)

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1993, pg.35)

Evidentemente, idéias defendidas de forma tão apaixonada e agressiva raramente passavam despercebidas, mesmo quando rechaçadas por críticos tão veementes quanto antiquados. Apesar das polêmicas, Artaud era um artista respeitado, muito embora esse reconhecimento não tornasse as coisas mais fáceis para um homem eminentemente solitário, morando em quartos alugados e tendo pouquíssimos amigos e, muito menos, amores (seu relacionamento com a atriz Génica Athanasiou teria sido sua paixão mais intensa e, em muitos aspectos, a mais frustrante).

Evocando o comportamento quotidiano de Artaud durante a época de sua participação no grupo surrealista, André Masson enfatizou “seu lado dandy, seu lado não gregário que o fazia chegar após os outros, partir antes de todo mundo, sempre só” (…). É também o testemunho de Anaïs Nin: “Irritável. Gagueja em alguns momentos. Sempre sentado em algum canto isolado, ele se afunda em uma poltrona como em uma caverna, como se estivesse na defensiva”(…)

(Virmaux: Artaud e o Teatro; 1978, pg. 161)

Esses fatores contribuíram para que, até o fim de sua vida, as cartas fossem uma de suas formas favoritas de expressão e onde sutilezas de sua obra podem ganhar aspectos esclarecedores.

2. CRUELDADE… ORIENTE… PESTE… TEATRO… E SEUS DUPLOS…

Mas foi a partir de 1931 que a crescente carreira de Antonin Artaud começou a tomar o rumo que o tornaria uma figura única na História do Teatro. Durante a Exposição Colonial, em Paris, assiste a uma apresentação de um grupo teatral de Bali. Esse contato com o Teatro Oriental marcará profundamente seu pensamento, quase como uma revelação. Nas evoluções dos “atores/bailarinos”, nos gestos perfeitamente codificados e nas temáticas de caráter metafísico e arquetípico, Artaud encontra os elos que faltam na formulação de suas próprias idéias sobre o Teatro e seu papel na Arte. Para Artaud, um teatro eficaz é aquele capaz de refazer a vida, o que não seria possível sem refazer profundamente a cultura no Ocidente. Toda a sua obra é guiada pelo desejo incessante de reencontrar um ponto de utilização mágica das coisas, recusando uma consciência estética fundada em simulacros e aparências face à realidade empírica das coisas. Ele coloca a questão da linguagem e da manipulação de signos em termos de forças mágicas e da relação mantida, através deles, com o cosmos e com o divino. Para Artaud, o Ocidente europeu é doente pois perdeu sua ligação com o divino, com a consciência cósmica.

Entre 1932 e 1935 publica em diversas revistas os textos que seriam futuramente organizados na forma do livro “O Teatro e Seu Duplo”, editado em 1938. Neles Artaud desenvolve seu projeto maior de refazer o Teatro Ocidental, apontando de maneira contundente os seus vícios, camisas de força e denunciando o abandono dos espetáculos por um público ansioso por emoções verdadeiras que não mais consegue encontrar num teatro que não representa verdadeiramente sua época.

O teatro de Bali revelou-nos uma noção de teatro física, não verbal, na qual o teatro está contido nos limites de tudo o que pode acontecer num palco, independentemente do texto escrito, enquanto que, tal como nós o concebemos no Ocidente, o teatro se aliou ao texto e por ele se encontra limitado. Para o teatro ocidental a Palavra é tudo e não há, sem ela, possibilidade de expressão; o teatro é um dos ramos da literatura, uma espécie sonora da linguagem e mesmo que admitamos uma diferença entre o texto falado no palco e o texto lido pelos olhos, se restringirmos o teatro ao que acontece entre as deixas, não conseguimos, mesmo assim aparta-lo da noção de um texto representado.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1999, pg. 75)

Diante dessa “ditadura do texto”, Artaud responde com uma proposta ampla de reestruturação da linguagem teatral, devolvendo ao teatro os elementos que considera “naturais” (no sentido de “primordiais”) na encenação e que foram, pouco a pouco, abandonados por um ocidente por demais atado às limitações do racionalismo.

Para mim, a questão que se impõe é de se permitir ao teatro reencontrar sua verdadeira linguagem, linguagem espacial, linguagem de gestos, de atitudes, de expressões e de mímicas, linguagem de gritos e onomatopéias, linguagem sonora, mas que terá a mesma importância intelectual e significação sensível que a linguagem das palavras. As palavras serão apenas empregadas em momentos determinados e discursivos da vida como uma luz mais preciosa e objetiva aparecendo na extremidade de uma idéia”

(Artaud:Linguagem e Vida; 2004, pg. 80)

Refazer a linguagem teatral para trazer o teatro de volta as suas origens ritualísticas. Nada de espetáculos de entretenimento, nada de psicologismos e narrativas sobre indivíduos. Artaud concebe um teatro para além do imediatismo político, social, psicológico ou moral, um teatro que expresse questões metafísicas (termo constantemente empregado em “O Teatro e Seu Duplo”).

Enquanto a alquimia, através de seus símbolos, é como um duplo espiritual de uma operação que só tem eficácia no plano da matéria real, também o teatro deve ser considerado como o duplo não dessa realidade cotidiana e direta da qual ele aos poucos se reduziu a ser apenas uma cópia inerte, tão inútil quanto edulcorada, mas de uma outra realidade perigosa e típica, onde os Princípios, como os golfinhos, assim que mostram a cabeça apressam-se a voltar à escuridão das águas.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1999, pg 49)

No “Manifesto do Teatro da Crueldade”, Artaud propõe a sua visão à comunidade teatral. De forma compacta e desconcertantemente direta, oferece os enunciados básicos de uma prática teatral que sempre se apressou a considerar “mais fácil de fazer do que de dizer”. Um teatro que utilizaria de uma linguagem de imagens e signos para oferecer uma “cura cruel” ao público, numa experiência mágica coletiva, na qual cada elemento da encenação – voz, corpo, iluminação, som, figurino, cor – seria meticulosamente planejado para levar o espectador a um estado de transe, uma transformação. Artaud concebe um espetáculo circular, através de um palco giratório, onde os espectadores ficam no centro e toda ação se dá ao redor, não havendo espaços vazios, integrando o espectador à própria encenação. Temas de caráter universal, uso de textos clássicos (como tragédias) como uma simples base para uma total re-criação em cena, personagens ampliadas à dimensão de deuses, de heróis, monstros, presença no palco de manequins gigantes, máscaras e objetos desproporcionais representando os duplos de ações, eventos e personagens acentuando o caráter metafísico da encenação, um jogo cuidadosamente planejado aonde nada pode ser deixado ao acaso, sob pena de sacrificar os efeitos mágicos específicos que o espetáculo deve provocar. Artaud, portanto, defende veementemente o domínio do encenador para orquestrar cada pequeno aspecto de uma montagem, numa época em que aquilo que se refere como parte da encenação, em contrapartida ao texto, costumava ser alvo de desprezo pela comunidade teatral. Para além dos temas e objetivos, o teatro de Artaud é um teatro que começa e se realiza no palco, com uma linguagem que se dá exclusivamente no palco, sendo o encenador (e não o autor de um texto pré-escrito) o responsável pela “escrita” dessa linguagem.

Nesse contexto, o ator é um elemento essencial mas passivo, já que sua iniciativa pessoal deve estar submetida às exigências da encenação.

O ator é, ao mesmo tempo um elemento de primeira importância, pois é da eficácia de sua interpretação que depende o sucesso do espetáculo, e uma espécie de elemento passivo e neutro, pois toda iniciativa pessoal lhe é rigorosamente recusada. Este é, aliás, um domínio em que não há regras precisas; e, entre o ator a quem se pede uma simples qualidade de soluço e aquele que deve pronunciar um discurso com suas qualidades de persuasão pessoais, há toda a distância que separa um homem de um instrumento.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1995, pg. 95)

Nos capítulos “Um atletismo afetivo” e “O Teatro de Seraphin”, Artaud procura esboçar as técnicas e qualidades que o ator do Teatro da Crueldade deve buscar. No ator existe uma musculatura de atleta físico e uma outra musculatura que corresponde a localizações físicas dos sentimentos. Essa musculatura afetiva funciona como um duplo da outra, embora não atue no mesmo plano, e deve ser exercitada através da respiração. Para cada alteração dos sentimentos, existe uma respiração apropriada.

O ator, ao mostrar um sentimento, um estado de espírito, fisicamente pode parecer estar delirando, mas na verdade está consciente de tudo o que está fazendo, mantendo o controle através da respiração. O uso da memória emotiva ocorre apenas num primeiro momento, guardando as imagem das reações físicas e da respiração provocadas no corpo para usa-las num segundo, num terceiro, e em vários momentos, constituindo um repertório para o ator. Os sentimentos não devem ser interpretados como abstrações, mas como elementos “materiais”, palpáveis, sob as quais ele pode ter um domínio. “Através da respiração o ator pode representar um sentimento que ele não tem”, ou seja, ele pode chegar num sentimento através da respiração, e a respiração pode nascer de um sentimento.

Saber que a paixão é matéria, que ela está sujeita às flutuações plásticas da matéria (…) Alcançar as paixões através de suas forças ao invés de considerá-las como puras abstrações, confere ao ator um domínio que o iguala a um verdadeiro curandeiro. Saber que existe uma saída corporal para a alma permite alcançar essa alma num sentido inverso e reencontrar o seu ser através de uma espécie de analogia matemática.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1995, pg. 131)

Saber reconhecer o tempo do sentimento é saber reconhecer o tempo da respiração, e essa respiração pode ser dividida em três tempos, que Artaud denominou NEUTRO, MASCULINO e FEMININO.

A respiração FEMININA é uma respiração mais prolongada, interiorizada, baseada no diafragma, que se localiza na região do plexo solar, tendo várias características que essa região contém, como abandono, angústia, apelo, invocação, súplica. A respiração MASCULINA ou melhor, de tempo masculino, é uma respiração mais pesada, rápida, torácica, focada na localização dos rins, que é fisicamente, onde o homem joga a força multiplicada de seus braços. As características que correspondem aos rins, no físico afetivo são: culpa, depressão, humor, impaciência, indecisão, isolamento, obsessão, paranóia, solidão, vitimização e heroísmo.

Esse treinamento baseado na respiração, que Artaud formulou tanto a partir de suas experimentações pessoais quanto de seus estudos da cabala, alquimia e disciplinas orientais, foi constantemente praticado por Artaud até o fim de sua vida e através dele o ator seria capaz de reconstruir não apenas sua arte mas sua própria constituição física e espiritual, tornando possível as visões de Artaud para seu Teatro.

Como Craig, Artaud baseia a sua teoria do ator no princípio da despersonalização. Não só o personagem, no sentido tradicional da palavra, é expulso desse teatro, mas também a personalidade do ator é ocultada pelo tipo de intervenção (não se ousa mais falar em desempenho) que ele exige. Em última instância, o ator artaudiano não é mais um indivíduo de carne e emoções, mas suporte e veículo de um complexo sistema semiótico articulado em torno de uma convenção hieroglífica – a expressão é freqüentemente repetida nos escritos de Artaud – do figurino, do gesto, da voz, etc.

(Roubine: A Linguagem da Encenação Teatral;1998, pg189)

Paralelamente à escrita e organização desses textos, Artaud dedica-se de maneira apaixonada a pôr em prática seu projeto, mas esbarra constantemente nas crescentes dificuldades. Primeiramente as de cunho filológico, os mal-entendidos e acusações a respeito do uso do termo “crueldade”, que Artaud responde de maneira clara na primeira das “Cartas sobre a Crueldade” em “O Teatro e Seu Duplo”. Mas o pior e mais incisivo são as dificuldades técnicas e financeiras de uma proposta teatral de tamanha complexidade. Desde as montagens do Teatro Alfred Jarry até as tentativas frustradas de tirar do papel sua encenação de “A Conquista do México”, mencionada no “Segundo Manifesto do Teatro da Crueldade”, suas tentativas de convencer o público (e, particularmente, os investidores) eram constantemente mal-entendidas embora representassem experimentos “performáticos” notáveis numa visão retroativa, particularmente a conferência que resultaria no texto de “O Teatro e a Peste” que foi relatada por Anaïs Nin, em seus diários:

De forma quase imperceptível Artaud largava o fio que seguíamos e começava a interpretar o papel de um homem a morrer de peste. Ninguém viu em que momento começou a faze-lo. Para ilustrar a conferência, representava uma agonia. (…) Tinha o rosto em convulsões e os cabelos ensopados de suor. (…) Estava em plena tortura. Berrava. Delirava. Representava a sua própria morte, a sua própria crucificação. As pessoas começaram a ficar com a respiração cortada. Depois desataram a rir. Toda a gente ria! Assobiava. Por fim as pessoas foram saindo uma a uma em meio a um grande ruído, a falar alto, a protestar. Ao saírem batiam com a porta. (…) Mais protestos. E vaias também. Mas Artaud continuava até o último suspiro. E lá ficou, no chão.

(Nin citada por Virmaux em sua introdução para: História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg.17)

Tudo isso para fazer a platéia compreender – fisicamente, portanto efetivamente – o que linhas como essas pretendem expressar:

Tal como a peste, o teatro é uma crise, que tem o desenlace na morte ou na cura. E a peste é um mal superior porque é crise completa e depois da qual não resta mais nada do que a morte ou uma extrema purificação. De igual forma, o teatro é um mal porque equilíbrio supremo só alcançável com destruição. Convida o espírito a um delírio que lhe exalta as energias; e, para terminar, podemos ver que a ação do teatro, como a da peste, sob o ponto de vista humano é benéfica porque levando os homens a verem-se como são faz cair a máscara, põe a mentira à mostra, e a baixeza, a hipocrisia; sacode a inércia asfixiante da matéria que tudo ganha até às mais claras certezas dos sentidos; e revelando às coletividades o seu poder sombrio, a sua força oculta, convida-as a assumir perante o destino uma atitude heróica e superior que, sem isso, nunca teriam tido.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1999, pg 28-29)

O ápice dessas tentativas de materialização do “Teatro da Crueldade” foi a montagem de “Os Cenci” (1935), projeto ambicioso de uma tragédia na qual os preceitos da visão artaudiana de um teatro que constituísse uma “cura cruel” revelou-se uma grande decepção, para o público, para os envolvidos e, acima de tudo, para o próprio Artaud, que viu-se incapaz de enfrentar os inúmeros percalços financeiros, materiais e humanos que se interpuseram à realização de seus ideais numa montagem real.

3. PEYOTE… MAGIA… ELETRICIDADE… TEATRO… JULGAMENTO DE DEUS…

Essa frustração acabou servindo de combustível para a concretização de um antigo sonho: uma viagem ao México em busca de contato com o culto do Peyote com os índios Tarahumaras, que resultaria na publicação do apaixonado livro “Viagem ao País do Tarahumaras”, editado em 1945. Artaud desde cedo dedicara-se ao estudo de disciplinas esotéricas, cabala, alquimia, magia (estudos que sempre apareceram de maneira clara e sem disfarces nas suas atividades teatrais, sendo largamente citados em “O Teatro e Seu Duplo”) e sua estadia entre os Tarahumaras foi quase uma conseqüência natural desse pensamento, bem como uma tentativa violenta de encontrar respostas para seus tormentos existenciais indizivelmente vivenciados no plano físico.

E foi no México, no alto da montanha, entre Agosto e Setembro de 1936, que eu comecei a me encontrar completamente…Eu procurava o peyote não como um curioso mas, ao contrário, como um desesperado…, contrariamente ao que se podia pensar, eu nunca busquei o supra-normal. Ora, eu não ia ao peyote para entrar, mas para sair… sair de um mundo falso. Vivemos num odioso atavismo fisiológico que faz com que mesmo no nosso corpo, e sozinhos, nós não somos mais livres, pois, cem pai-mãe pensaram e viveram por nós, antes de nós, o que poderíamos em um dado momento, na idade da razão, encontrar por nós mesmos, a religião, o batismo, os sacramentos, os rituais, a educação, o ensino, a medicina, a ciência se apressam em nos tirar. Eu ia, pois, ao peiote para me lavar.

(Artaud citado em: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg.96-97)

Recebido com simpatia pelos escritores mexicanos, Artaud faz conferências em universidades e, após vários percalços consegue participar das cerimônias sagradas com os índios. A experiência leva-o a um processo que os místicos chamariam de transfiguração, uma iniciação nos mistérios sagrados, um retorno a um vazio primordial do qual ele retorna permanentemente transformado.

Enquanto isso, na França, amigos dão prosseguimento à editoração de “O Teatro e Seu Duplo”, livro que, mesmo em meio às suas viagens místicas, Artaud nunca relega ao abandono, tendo oportunidade, inclusive, de corrigir os originais quando de seu retorno à Paris. A obra, uma vez publicada, torna-se uma referência importante para os realizadores de teatro, para o bem ou para o mal, alimentando de maneira incontrolável o chamado “mito-artaud” que começara a crescer desde o momento em que partiu da França até muito além de sua morte. Artaud, o “homem-teatro”, Artaud, o bruxo, Artaud, o louco, Artaud que ganhou uma espada mágica de um feiticeiro em Cuba, Artaud que vagou entre os índios e viu a face de Deus, Artaud, o profeta da fecalidade, Artaud que empunhou o cajado mágico de São Patrick, patrono dos irlandeses, na cidade de Dublin.

Anaïs Nin fala, no seu Diário, de uma visão que Artaud teve, nessa época, em Paris,no restaurante Dôme: “Ele levanta, vociferando, brandindo sua bengala mágica mexicana, como um bruxo”.

(Lins: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg.98)

Entre o mito e a realidade, sabe-se que Artaud retornou à França, uma figura ainda mais excêntrica e imprevisível do que era então. Suas dores físicas e o consumo de ópio continuam a crescer, obrigando-o a submeter-se a desintoxicações sempre que tem condições de pagar. Seu interesse em astrologia e tarô acentua-se, chegando a fazer consultas para figuras ilustres da intelectualidade parisiense. Em 1937, Artaud parte para a Irlanda “guiado” pelo cajado de São Patrick, afim de devolvê-lo ao seu lugar de origem e de encontrar traços da cultura celta. Vivendo em condições precárias, em um país onde ele mal domina o idioma, Artaud vive pregando nas ruas com seu bastão, em condições de quase indigência.

Passeava eu tranqüilamente ao pé do jardim público de Dublin, quando um polícia provocador à civil me agrediu de repente e esmagou a coluna vertebral e a dividiu em duas com uma terrível pancada de barra de ferro.

Cambaleei mas não caí.

Houve qualquer coisa que deve ter parecido um milagre porque ainda agora pode ver-se em mim a fractura, mas nem sequer caí no chão, e os dois pedaços soltos voltaram instantaneamente a ficar colados.

Voltei-me para trás, com uma bengalada deitei o polícia provocador ao chão e a batalha ficou acesa. Apareceram polícias fardados que tomaram o meu partido contra os polícias à civil e às ordens do Intelligence Service.

(Artaud: História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg.50-51)

Acusado de ser um agitador e vadio, é preso e extraditado para a França. Um incidente ocorrido durante a viagem de barco faz com que seja internado como louco em estabelecimentos psiquiátricos. Do sofrimento pelo isolamento, brutalidades e privações da vida em um manicômio, adicionou-se com a Ocupação alemã em maio de 1940, as carências alimentares. Assim, em Ville-Évrard, além de sua dignidade e de sua liberdade, Artaud começou a ser privado de seu corpo. Subnutrido, ele se torna um esqueleto vivo, uma sombra dolorosa que tenta manter a vida.

Passei nove anos num asilo de alienados.

Fizeram-me ali uma medicina que nunca deixou de me revoltar.

Essa medicina chama-se eletro-choque, consiste em meter o paciente num banho de eletricidade, fulmina-lo

e pô-lo bem esfolado a nu

e expor-lhe o corpo tão externo como interno à passagem de uma corrente

que vem do lugar onde se não está nem deveria estar para lá estar.

O eletro-choque é uma corrente que eles arranjam sei lá como,

Que deixa o corpo, o corpo sonâmbulo interno, estacionário

para ficar sob a alçada da lei

arbitrária do ser,

em estado de morte

por paragem do coração.

(Artaud: Eu, Antonin Artaud; 1988, pg.76)

Artaud passou por diversos asilos até ser transferido para Rodez, em 1943 de onde só foi libertado três anos depois. Durante esse período escreveu as célebres “Cartas de Rodez”, na maioria endereçadas ao seu médico e diretor do asilo, Dr. Gaston Ferdière.

No Hospital Psiquiátrico de Rodez, quando esteve internado por três anos, depois de passar por vários manicômios franceses, Artaud escreve cartas a seu médico, dr. Ferdière. Aprisionado e maltratado por eletrochoques que prejudicaram sua memória, seu corpo e seu pensamento, “as cartas escritas de Rodez são, para Artaud, um recurso para não perder a lucidez. São o diálogo de um desesperado com seu médico e, através dele, com toda sociedade”.

(Programa da peça “Cartas de Rodez”, dirigida por Ana Teixeira, com atuação de Stephane Brodt. Prêmio Shell, direção e ator, e Mambembe, melhor espetáculo 98.)

Até sua chegada em Rodez o paradeiro de Artaud era desconhecido na França. Sua mãe visitou a maioria dos sanatórios do país em busca do filho desaparecido, os amigos escreveram cartas às autoridades buscando notícias. A guerra assolava a Europa e Antonin Artaud (cujo “Teatro da Crueldade” espalhava-se pelas ruínas, quartéis e campos de concentração) jazia isolado entre loucos e tratamentos desumanos que mais torturavam do que curavam. Até mesmo o psiquiatra Jacques Lacan estudou o “caso Artaud” e seu veredicto não poderia ser mais catedrático: “Viverá até oitenta anos, não escreverá mais uma linha”. Futuramente, o autor de “Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus” fez cair por terra as previsões lacanianas.

Apesar das condições em Rodez serem um tanto quanto mais toleráveis (principalmente por Ferdière ser um admirador da obra de seu paciente e procurar encoraja-lo a produzir – embora isso não o tenha impedido de também aplicar-lhe sessões de eletrochoque), foi com horror que os amigos reencontraram um Artaud completamente distinto da figura insolente e carismática de outrora.

Marthe e eu decidimos ir visitar Antonin Artaud, esquecido por todos, isolado no hospício de Rodez desde o começo da guerra. Encontramos Artaud muito fraco, aterrado. A certa altura caem à nossa frente alguns livros que pertencem ao Dr. Ferdière (…), Artaud quer apanhar os livros mas não consegue, todo seu corpo treme, temos que ajuda-lo. Conta-nos seu cotidiano em Rodez, acusa o Dr. Ferdière de o aterrorizar: – “Se não se porta bem, Sr. Artaud, temos de voltar a dar-lhe eletrochoques”. No trem de regresso Marthe chora e juramos tirar Artaud de Rodez.

(Arthur Adamov citado por Lins: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg. 108)

Finalmente, em 28 de maio de 1946, Artaud foi libertado e retornou a Paris onde procurou dar continuidade aos escritos e práticas já iniciados em Rodez. Seu projeto de um “Teatro da Cura Cruel”, evolução natural de seu “Teatro da Crueldade” crescia e assumia novas formas em meio à uma prática vocal intensa e quotidiana, na qual Artaud exercitava sua respiração e seu corpo, praticando cantos e giros conjuratórios (que também lhe serviam como proteção contra as “bruxarias” de que sentia-se vítima). A energia que ele produzia, as forças que emanavam de seu corpo enfraquecido, as incríveis variações de altura que obtinha de sua voz, a intensidade e a duração dos gritos aconteciam como um fenômeno de operação mágica. Uma prática teatral que dispensava tanto o palco quanto os recursos técnicos que Artaud sempre quis utilizar de maneira plena e constituir como parte de uma legítima linguagem para o Teatro, mas cujo controle escapou de suas mãos nos tempos do Teatro Alfred Jarry e “Os Cenci”. Cantos, gritos, gestos que pareciam absolutamente insanos para os médicos dos hospitais psiquiátricos, ignorantes das teorias que o próprio Artaud já tentara esboçar nos anos 30 nos textos “Um Atletismo Afetivo” e “O Teatro de Seraphin”, avidamente lidos por uma classe teatral que, pouco a pouco, transformava “O Teatro e Seu Duplo” em objeto de culto enquanto seu autor permanecia isolado do mundo. Não foram poucas as ocasiões em que essas práticas serviram de justificativa para as alegações de insanidade de médicos, autoridades e mesmo de leigos, fato que enfurecia Artaud, mas que, após sua libertação, levou-o a assumir tal “carapuça”. De fato, Artaud não deixou de divertir-se fazendo-se de louco e usando do choque e do horror (que ele sempre apreciou utilizar para tirar seu público da apatia, sendo num palco, num restaurante ou na rua) para dizer as verdades que acreditava.

Afirmaria que o próprio corpo do Homem, “desconectado” de suas origens, é o resultado de uma manipulação perpétua e perversa de forças malignas que oprimem a espécie humana (tais forças podem ser entendidas de várias maneiras, podem ser interpretadas como políticas, sociais, culturais, morais, enfim, mas fica claro em seus escritos que Artaud as entendia de maneira mais absoluta e cósmica, num sentido metafísico), em conseqüência a anatomia humana, ao deixar de corresponder à sua natureza, deve ser refeita. No fim de sua vida, Artaud amplia suas concepções do “Teatro da Crueldade” para um grandioso projeto ético-político de insurreição física: trata-se de transformar não apenas o Teatro, mas o Homem. A revolução não é apenas social ou cultural, mas física. O ator (e o Homem) torna-se senhor de seu destino, capaz de refazer sua própria anatomia, juntamente com seu espírito, erigir o “corpo sem órgãos”, invulnerável aos miasmas e “feitiços” do mundo contra a essência individual do ator. Decomposição e recomposição do corpo, desarticulação dos automatismos que condicionam e bloqueiam o indivíduo e o impedem de agir realmente, de modo consciente e voluntário, em cena ou na vida.

A necessidade de afirmar seu pensamento foi o combustível que moveu Artaud nesses últimos anos. Por sua própria natureza, esse pensamento não pode ser expresso meramente com palavras, verdade que Artaud sempre repetiu desde a juventude ao denunciar a limitação do texto como centro da encenação e do discurso. Suas pesquisas de linguagem ganham um ímpeto novo, a busca de uma expressão vocal primitiva, anterior à linguagem articulada, sons que remetem a sentimentos, idéias e forças metafísicas. São inúmeros os exemplos registrados dessa pré-linguagem:

ratara ratara ratara

atara tatara rana

otara otara katara

otara retara kana

ortura ortura konara

kokona kokona koma

kurbura kurbura kurbura

kurbata kurbata keyna

pesti anti pestantum putara

pest anti pestantum putra

São poemas que vão além da significação, apelando para a força dos sons e vocábulos por si mesmos, constituindo verdadeiros “encantamentos” que Artaud utilizava de maneira mística e causava um efeito profundo nas testemunhas. Durante a gravação de sua novela radiofônica “Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus”, em 1948, Artaud deu grandes mostras de seu “humor louco”, um humor que provocava medo. Maria Casarès, testemunha da gravação, deixou o seguinte depoimento:

Artaud começou a gritar. Começou a falar como “um cachorro” ou como um “galo” e Roger Blin respondia-lhe, imperturbavelmente, na mesma linguagem. Tudo isso deveria fazer rir a platéia. Ora, nem mesmo um só técnico ria. Estavam paralisados. Num canto da sala, uma mulher chorava.

(Casarès citada por Lins: O Artesão do Corpo sem Órgãos; 1999, pg.120)

A emissão da novela radiofônica foi proibida pela censura pouco antes de ir ao ar. Mais um dos inúmeros fracassos das tentativas de Artaud de tornar real o seu pensamento e seu Teatro. Mas, como Alain Virmaux continuamente repete em seu livro “Artaud e o Teatro”, o fracasso, em Artaud, é tão revelador quanto o sucesso poderia ser. Mesmo interditada, a novela constitui um elemento importantíssimo no “mito-Artaud”, tanto quanto foi “Os Cenci” ao ser visto retroativamente e guardando as limitações impostas pelas circunstâncias. Depois dos internamentos, Artaud tornou-se uma quase vedete da intelectualidade francesa. Mostras foram realizadas em sua homenagem, o “Teatro e Seu Duplo” era reeditado e ganhava cada vez mais atenção, nunca antes Artaud foi tão ouvido, embora o estado doentio em que se encontrava tenha causado o afastamento de velhos amigos que não suportavam lidar com sua presença e o efeito que provocava. Ainda assim, como a solidão já era parte integrante de sua existência desde jovem, Artaud trabalhava freneticamente, escrevendo, compondo, ciente de que a morte rondava, aos 50 anos de idade, com um estado de saúde cada vez mais precário. “Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus” foi seu projeto concreto mais ambicioso no período. Na gravação é possível identificar, de maneira subjetiva e indistinta (como não poderia deixar de ser) o essencial de seu pensamento: o trabalho do ator, a visão do encenador, o feiticeiro, o peregrino regresso das terras do tarahumaras. No “Rito do Sol Negro”, na “Procura da Fecalidade”, Artaud expressa seu ideal de reconstrução do homem e do corpo.

Onde cheirar a merda

cheira a ser.

O homem poderia muito bem deixar de cagar,

deixar de abrir a bolsa anal,

mas preferiu cagar

como poderia ter preferido viver

em vez de consentir em viver morto.

É que para não fazer cocô

teria que aceder

a não ser,

mas ele é que não foi capaz de se resolver a perder o ser,

isto é a morrer vivo.

(Artaud: Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus; 1975, pg 29)

Idéias indigestas, expressas de modo ainda mais indigesto, que Artaud já havia desistido de, tentar explicar verbalmente desde a histórica conferência no Vieux-Colombier, um ano antes, quando um recém libertado Antonin Artaud surgiu diante de um público parisiense de artistas, intelectuais e curiosos (entre os quais, Sartre, Picasso, Camus, além dos amigos Blin, Adamov e Gide) num evento preparado para reintroduzi-lo no universo das letras francesas. O texto dessa conferência sobreviveu e foi editado como “A História Vivida de Artaud-Momo”, narrando desde as experiências com o peyote até a violência dos tratamentos nos sanatórios e suas idéias metafísicas. Mas Artaud jamais terminou a conferência, abandonando-a quando os papéis caíram de suas mãos e ele não quis (ou não pôde) reorganiza-los, partindo para um aparente improviso recheado de silêncios, ofensas, gritos e feitiços. O que ocorreu nessa conferência é assunto controverso. Fala-se tanto de um fracasso deprimente quanto de um êxito soberbo. Virmaux (que assina o texto introdutório de “A História Vivida de Artaud-Momo”) defende que foi no Vieux-Colombier que Artaud, pela primeira e única vez, encenou o “Teatro da Crueldade”, vivido por um único homem, o personagem Antonin Artaud, e todas as testemunhas concordam que, entre vaias e ovações, ninguém saiu indiferente do teatro. Em um testemunho célebre, Gide descreve o evento com as seguintes palavras:

A razão batia em retirada; não unicamente a sua mas a razão de toda a assistência, de todos nós, espectadores desse drama atroz, reduzidos ao papel de comparsas malévolos, debochados e grosseiros. Oh! não, mais ninguém na platéia, tinha vontade de rir (…) Artaud nos havia atraído para seu jogo trágico de revolta contra tudo aquilo que, admitido por nós, para ele permanecia mais puro e inadmissível:

Nós ainda não nascemos.

Ainda não estamos no mundo.

Ainda não existe mundo.

As coisas ainda não se fizeram.

A razão de ser não foi achada…”

Ao sair dessa memorável sessão o público se calava. Que se poderia dizer? Acabávamos de ver um homem miserável, atrozmente sacudido por um deus, como que no liminar de uma gruta profunda, antro secreto da sibila, onde nada de profano é tolerado, onde, como em um Carmelo poético, um vate é exposto, oferecido aos raios, aos abutres vorazes, ao mesmo tempo sacerdote e vítima… Todos se sentiam envergonhados de retomar lugar em um mundo no qual o conforto é formado de compromissos.

(Gide in Virmaux: Artaud e o Teatro; 1978, pg 366)

Embora talvez supervalorizando os fatos através de uma veia poética, o testemunho passa uma noção do impacto da sessão, que o próprio Artaud em parte teria explicado numa carta ao amigo André Breton:

Não creio que o palco do Vieux-Colombier ou outro palco de teatro já tivesse visto o que mostrei e dei a ouvir naquela noite; tanto mais que acresce o facto de toda a gente ter podido verificar, de se ter podido ver como o suposto conferencista que eu realmente não era, de qualquer forma o suposto homem de teatro, renunciava ao seu espetáculo, fazia as malas e ia-se embora; porque, na verdade, eu tinha reparado que já bastava de palavras e até mesmo de rugidos, e o necessário eram bombas; ora, eu não as tinha nas mãos nem nos bolsos.

(Artaud: A História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg 26)

Um basta às palavras, portanto, um último ato em “Para Acabar com o Juízo de Deus”, um recolhimento para aguardar o fim. Diagnosticado um câncer inoperável no reto, Artaud sabia que tinha seus dias contados. Ainda assim não deixava de trabalhar e fomentar projetos, mesmo sofrendo cada vez mais agudamente com as dores. A morte, que Artaud nunca deixou de afirmar ser um estado inventado, apenas mais uma máscara a que o homem se submete por renunciar a ser o senhor de seu destino, chegou num quarto da clínica de Ivry, em 14 de março de 1948, poucos meses após a proibição da peça radiofônica. O fim através de um câncer – uma falência do organismo que muitos médicos e místicos afirmam ter uma origem psicossomática – ou, talvez por um suposto suicídio, parece fazer um estranho sentido para um homem que afirmava ter tido a espinha partida e depois recomposta na Irlanda e ter morrido e voltado numa mesa de eletro-choque em Rodez:

(…) Simplesmente te disse e repito que eu, Antonin Artaud, com os cinqüenta que já cá cantam, me lembro do Gólgota. Lembro-me dele como me lembro de estar no asilo de Rodez no mês de Fevereiro de 1943, morto por um eletrochoque que me foi imposto contra vontade.

– Se estivesse morto, não continuaria lá.

– Estou morto, realmente morto, e a minha morte foi clinicamente verificada

E voltei depois, como um homem que regressa do além.

Eu também me lembro desse além.

(Artaud: A História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg 53)

De qualquer forma, Artaud faleceu deixando um legado praticamente mítico. Suas idéias, seus textos, especialmente “O Teatro e Seu Duplo” se tornaram uma referência obrigatória para encenadores do mundo inteiro, sendo aceitas ou não. Os anos 60 e 70 testemunharam o surgimento de um verdadeiro culto à imagem do criador do “Teatro da Crueldade”, um culto muitas vezes exagerado e desprovido de bases sólidas, movido muito mais pela paixão e o pseudo-misticismo ligado ao pensamento artaudiano do que a uma real compreensão de suas idéias. As últimas décadas testemunharam uma releitura mais atenta e menos delirante de sua obra, devolvendo as contribuições de Artaud, tanto para o Teatro quanto para os estudos de linguagem, de volta à sua real proporção.

São inúmeros os grupos, atores e teóricos que deram continuidade aos trabalhos de Artaud, de forma direta ou indireta. Autores como Ionesco e Beckett mostram uma clara influência, bem como às origens do conceito de happening. Peter Brook e o Living Theatre desenvolveram grandes espetáculos assumidamente dentro de uma estética artaudiana, bem como o teatro-laboratório de Jerzy Grotowski, que de forma hábil e lúcida, ajudou a criticar e esclarecer muitas das propostas teatrais de Artaud e lhe dedicou um dos capítulos de “Em Busca de Um Teatro Pobre”: “Ele não era inteiramente ele”.

Deve-se repetir mais uma vez: se Artaud tivesse tido à sua disposição o material necessário, suas visões teriam se desenvolvido do indefinido para o definido. Ele poderia tê-las convertido numa forma, ou, melhor ainda, inclusive numa técnica. Estaria então em condições de antecipar todos os reformadores, pois teve a coragem e o poder de ir além da corrente lógico-discursiva. Tudo isso poderia ter acontecido, mas não aconteceu.

(Grotowski: Em Busca de um Teatro Pobre; 1976, pg.71-72)

Mas aconteceu nos anos que seguiram a morte do “homem-teatro”. É fascinante notar que hoje muito do que era polêmico e alvo de estranhamento nas propostas de Artaud é prática corrente e “comum” nas atividades teatrais: o uso de espaços alternativos, o cuidado especial na composição da iluminação e sonoplastia, o domínio do encenador como regente máximo do espetáculo, o fim do domínio absoluto do texto, o uso de signos, a integração do público à cena, enfim, se o Teatro da Crueldade” só pôde se tornar real em raríssimas e pontuais ocasiões (se é que realmente o foi, ao menos na forma pura que Artaud pregava) ao menos seus diversos elementos integraram-se de maneira efetiva no fazer teatral.

Assim, as palavras finais de Artaud a respeito do Teatro, escritas na “Última Carta Sobre o Teatro”, endereçada à Paule Thévenin em 25 de fevereiro de 1948 (tendo Artaud morrido em 4 de março), definitivamente não ficaram sem um eco:

Paule, estou muito triste e desesperado

meu corpo dói de todos os lados

mas sobretudo tenho a impressão de que todos se decepcionaram

com a minha emissão radiofônica.

Lá onde está a máquina

é sempre o abismo e o nada

há uma interposição técnica que deforma e aniquila aquilo que se faz.

As críticas de M. e A. são injustas mas devem ter tido sua base em um defeito de transmissão

é por isso que eu jamais voltarei ao Rádio

e consagrarei doravante exclusivamente ao teatro

como o concebo

um teatro de sangue

um teatro que a cada representação proporcionará

corporalmente

alguma coisa a quem representa

como a quem vem assistir a representação

aliás,

não se representa,

age-se

o teatro é na realidade a gênese da criação.

Isto se fará.

Tive uma visão hoje à tarde

vi aqueles que me seguirão e aqueles que ainda não tem um corpo

porque os porcos como aqueles dos restaurante de ontem a noite comem demais.

Existe quem como demais

e outros como eu que não podem mais comer sem escarrar

em vocês.

(Artaud citado em Virmaux: Artaud e o Teatro, 1978, pg 334-335)

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

ARANTES, Urias Corrêa. Artaud: Teatro e Cultura. Campinas: Editora da UNICAMP. 1988. 212 p.

ARTAUD, Antonin (1896-1948). Linguagem e Vida. Org. J. Guinsburg, Sílvia Fernandes Telesi, Antonio Mercado Neto. São Paulo: Perspectiva. 2004

ARTAUD, Antonin (1896-1948). O Pesa-Nervos. Trad. Joaquim Afonso. Lisboa: Hiena Editora. 1991. 91p.

ARTAUD, Antonin (1896-1948). O Teatro e Seu Duplo. Trad. Teixeira Coelho. 2.ªed. São Paulo: Martins Fontes. 1999.

ARTAUD, Antonin (1896-1948). Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus – seguido de O Teatro da Crueldade. Trad. Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes. Lisboa: Publicações Culturais. 1975.

ARTAUD, Antonin (1986-1948). Eu, Antonin Artaud. Trad. Aníbal Fernandes. Lisboa: Hiena Editora. 1988. 111 p.

ARTAUD, Antonin (1986-1948). História Vivida de Artaud-Momo. Lisboa: Hiena Editora. 1995. 73 p.

ARTAUD, Antonin (1986-1948). Os Sentimentos Atrasam. Trad. Ernesto Sampaio. Lisboa: Hiena Editora. 1993. 73 p.

ASLAN, Odette. O Ator no Século XX. São Paulo: Perspectiva, 1994

COELHO, Teixeira. Antonin Artaud – Posição da Carne. São Paulo: Brasiliense. 1982, 120p. (Coleção Encanto Radical; 16)

FELÍCIO, Vera Lúcia. A Procura da Lucidez em Artaud. São Paulo: Perspectiva, FAPESP. 1996, 202p. (Coleção Estudos; 148)

GROTOWSKI, Jerzy. Ele não era inteiramente ele, in: Em Busca de um Teatro Pobre. Trad. Aldomar Conrado. 2.ªed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1976. (Coleção Teatro Hoje, Série: Autores Estrangeiros/Vol.19)

LINS, Daniel. Antonin Artaud: O Artesão do Corpo Sem Órgãos. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999. (Coneções/2)

ROUBINE, Jean-Jacques. As Metamorfoses do Ator, in: A Linguagem da Encenação Teatral. Trad. Yan Michalski. 2.ªed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1998.

SONTAG, Susan. Abordando Artaud, in: Sob o Signo de Saturno. São Paulo: L&PM. 2.ªed. 1973.

VIRMAUX, Alain. Artaud e o Teatro. Trad. Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Perspectiva, FAPESP. 1978, 388p. (Coleção Estudos; 58)

“Quem sou eu?

De onde venho?

Sou Antonin Artaud

e basta que eu o diga

Como só eu o sei dizer

e imediatamente

hão de ver meu corpo

atual,

voar em pedaços

e se juntar

sob dez mil aspectos

diversos.

Um novo corpo

no qual nunca mais

poderão esquecer.

Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,

meu pai,

minha mãe,

e eu mesmo.

Eu represento Antonin Artaud!

Estou sempre morto.

Mas um vivo morto,

Um morto vivo.

Sou um morto

Sempre vivo.

A tragédia em cena já não me basta.

Quero transportá-la para minha vida.

Eu represento totalmente a minha vida.

Onde as pessoas procuram criar obras

de arte, eu pretendo mostrar o meu

espírito.

Não concebo uma obra de arte

dissociada da vida.

Eu, o senhor Antonin Artaud,

nascido em Marseille

no dia 4 de setembro de 1896,

eu sou Satã e eu sou Deus,

e pouco me importa a Virgem Maria.”

 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/antonin-artaud/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/antonin-artaud/

Um antropólogo em Vênus

» Parte 2 da série “Xamãs ancestrais” ver parte 1

Ayahuasca é uma bebida produzida a partir de duas plantas amazônicas: Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis. O nome significa, literalmente, a “Videira dos Mortos”. Os cientistas sabem que a ayahuasca produz visões, principalmente por ser rica em DMT, um alucinógeno de ação extremamente rápida. Entretanto, os xamãs ancestrais têm conhecimento considerável do que ocorre após bebermos a ayahuasca, enquanto os cientistas não, principalmente porque a maioria jamais experimentou.

O tempo passa sem que eu tenha noção. Fecho meus olhos, e um grande desfile de visões subitamente se inicia… Começo a prestar atenção em uma imagem em particular, ou, mais exatamente, a uma área de meu campo visual interno, onde complexos padrões geométricos entrelaçados provam, numa inspeção mais cuidadosa, ser parte de uma grande serpente, aparentemente viva, com sua cabeça e sua cauda afastadas de mim. Posso distinguir as escamas individuais, retangulares, como janelas… Existe um círculo no centro de cada retângulo, círculos púrpura, girando como fogos de artifício, brilhando com a luz escura de um outro mundo onde agora estou… Aqui? Onde é aqui? Por que é um lugar onde vejo cores que não existem na vida cotidiana?

O xamã recomeça a entoar seu ritual. A cantoria inicia em tom mais baixo, mas aumenta, e aumenta… As serpentes são muito grandes, e todo corpo, da cabeça à cauda, é claramente visível para mim. Agora as cores castanho e amarelo predominam. Lendo sobre o assunto, antes de vir a Amazônia, aprendi que pessoas em regiões e culturas diversas, de todo o mundo, encontram serpentes na jornada da ayahuasca… Elas agora formam padrões de rodas e espirais entrelaçados, se fundem e depois se dividem em duplas individuais serpenteando em volta uma da outra, como a dupla hélice do DNA… A náusea chega com força e estou agora vomitando na escuridão…

Saio do círculo ritual e volto após vomitar, agora minha cabeça está aliviada. Então, de repente, dois seres completamente feitos de luz branca surgem a minha frente. São pequeninos – cerca de 1,20m de altura –, mas estou ciente apenas da parte superior de seus corpos, não vejo os pés. Sua faces têm mais ou menos o formato de um coração, com grandes testas e queixos estreitos e pontudos. Narinas e bocas, se é que as tem, são apenas fendas em suas feições suaves. Seus olhos são completamente negros e aparentemente sem pupilas… Eles parecem querer se comunicar. A tentativa de comunicação, que me parece telepática, não está funcionando por alguma razão. Sinto ansiedade e… frustração da parte deles. A náusea retorna, os seres de luz se vão, eu volto a vomitar na escuridão…

Os três últimos parágrafos são trechos (selecionados por mim) dos depoimentos de Graham Hancock [1], pesquisador e escritor britânico que resolveu participar dos rituais xamânicos de povos indígenas da Amazônia e de regiões da África. Em seu monumental Sobrenatural, Hancock parte da análise dos signos e símbolos pictóricos da arte rupestre para fazer uma associação fortuita desse tipo de imagem com as visões “psicodélicas” usualmente experimentadas em tais rituais, pelo menos por aqueles que efetivamente experimentam a ayahuasca, a iboga, e outras bebidas rituais que “trazem visões do outro mundo”. Esta associação não foi ideia original sua, mas sim de David Lewis-Williams, um professor, antropólogo e pesquisador de arqueologia cognitiva sul africano.

Segundo o modelo neuropsicológico de Lewis-Williams, a real origem da arte rupestre e, por conseguinte, da religião primal dos povos da pré-história, poderia ser mais profundamente explicada e compreendida se levarmos em consideração que o que estava sendo ali representado eram visões provenientes de estados de transe e consciência alterada, originários de experiências rituais extremadas (como danças até a exaustão e/ou a repetição de ritmos musicais durante horas e horas de ritual) e, principalmente, da ingestão de bebidas e substâncias naturais alucinógenas. Esta era, segundo sua teoria, a maneira mais simples e lógica de justificar o porquê da arte rupestre ter características tão enigmáticas, não encontradas na natureza, mas que estão representadas tanto em cavernas europeias quanto em inúmeras regiões africanas, distantes milhares de quilômetros, e milhares de anos na história, umas das outras.

Diferentemente das outras teorias propostas pelos antropólogos em quase um século, esta está baseada em evidências bastante sólidas… Que por muito pouco não se perderam para sempre.

Até 1927, ano em que foi dada a última permissão oficial para se caçar bosquímanos, era legal para os brancos da África do Sul assassinar os san, cujas partes dos corpos eram exibidas orgulhosamente como troféus pelos matadores… Não, os bosquímanos, os san, não eram animais, eram seres humanos, como nós. Na realidade, faziam parte de uma das culturas mais ancestrais e persistentes de nossa história, e até meados do final do séc. XIX, ainda praticavam a arte rupestre. Os san eram, portanto, os continuadores de um estilo de arte que perdurou por dezenas de milhares de anos, até que fossem praticamente extintos pelos “grandes colonizadores racionais”. Poderíamos saber, afinal, se a teoria de Lewis-Williams faz mesmo sentido, desde que encontrássemos algum xamã san ainda vivo, e que ainda conhecesse os antigos rituais que originavam as visões representadas na arte rupestre. Alguns xamãs, algum conhecimento, ainda restou, mas o povo san não é mais o mesmo – seu espírito se foi, e com ele, qualquer esperança para que a arte rupestre pudesse continuar sua longa jornada.

Felizmente, alguma evidência restou, mais precisamente cerca de cem cadernos com notas escritas a mão, descrevendo a cultura e os rituais do povo san no final do séc. XIX, quando ainda praticavam sua arte nas pedras e cavernas. As entrevistas foram conduzidas pelo filólogo alemão Wilhelm Bleek e sua cunhada, Lucy Lloyd, dois acadêmicos muito adiante do seu tempo, que anteciparam com muita clareza a aniquilação que então pairava sobre o povo e a cultura san. O conteúdo de seu estudo permaneceu oculto da Academia até a década de 1930, quando um jornal sul africano fez uma breve referência aos cadernos. Apenas em meados das décadas de 1960 e 1970 os cadernos foram novamente mencionados na mídia especializada, até que Lewis-Williams finalmente colocou seus olhos neles: “mas que estranha experiência, folhear 12 mil páginas de cadernos de notas ancestrais, sobrenaturais” – descreveu o antropólogo acerca do evento.

De posse dos registros de uma cultura ancestral perdida, Lewis-Williams finalmente tinha a evidência que faltava para talvez a única teoria científica sólida jamais postulada acerca da real origem dos signos rupestres. Ainda assim, quando Hancock encontrou pessoalmente com o professor sul africano, não resistiu a lhe indagar:

“Afinal, o senhor já experimentou entrar em transe por meio de danças e batuques ritmados de tambor, ou jejuou por 40 dias até delirar, ou tomou o chá da ayahuasca ou qualquer outra substância natural psicoativa?”

Diante da negação veemente, Hancock perguntou o porquê, e Lewis-Williams deu de ombros:

“Não quero fundir minha cuca e não estou nem um pouco interessado na experiência.”

Vênus, com sua superfície uniforme e seu brilho incomparável no céu noturno, sempre despertou o sonho da humanidade. A estrela vespertina parecia, certamente, um céu prometido, um mundo de luz… Entretanto, hoje sabemos que sua superfície é inóspita e, na realidade, bem mais próxima dos lagos de enxofre do inferno. Assim, também sabemos, ocorre com as drogas: num primeiro momento são estupendas, maravilhosas, mas depois viciam, e podem nos levar a ruína psíquica… Por tudo o que sabemos acerca delas, não é difícil compreender os motivos que levaram Lewis-Williams a evitar os chás alucinógenos e os estados de transe.

A questão é: os povos antigos sabem muito bem desse perigo, e por isso mesmo jamais se utilizaram de suas plantas sagradas como diversão ou mera busca do prazer. Seus rituais sempre foram controlados, e seus xamãs sempre foram raros, escolhidos a dedo por sabe lá qual entidade… E, exatamente por isso, por terem sido tão poucos e tão especiais, hoje praticamente não existem mais.

Os xamãs ancestrais já se foram há muito, e nem mesmo entre os san restou algum. O espírito de um povo desaparece, e o deixa perdido, atordoado, procurando o suicídio, há menos que tal espírito retorne para os auxiliar, como a estrela da manhã… Mas não é fugindo de Vênus que vamos vislumbrar qualquer esperança de um dia os compreender melhor. Tal qual a ciência enviou sondas robô a estrela vespertina, e hoje a compreende muito mais do que há séculos atrás, os exploradores da mente não têm outra alternativa que não mergulhar neste outro mundo, repleto de serpentes, padrões geométricos, seres de luz e armadilhas na escuridão…

Mas, para tal, sondas e robôs não nos servem, precisamos realizar a travessia por nós mesmos. Graham Hancock teve a coragem de mergulhar no próprio lago em que empreendeu seu extensivo estudo – ele é o nosso antropólogo em Vênus.

» Na continuação: Quimeras mentais, homens feridos, e o delicioso Vin Mariani…

***

Leitura recomendada: Sobrenatural, de Graham Hancock (Nova Era).

[1] Retirados do livro recomendado acima.

***

Crédito das imagens: [topo] Susan Seddon Boulet (mulher xamã dançando em ritual); [ao longo] Pinturas do xamã peruano Pablo Amaringo, que serviu também como “guia” de Hancock nos rituais com ayahuasca.

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

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#Antropologia #sabedoriaindígena #xamanismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/um-antrop%C3%B3logo-em-v%C3%AAnus

Engenharia Social

Engenharia Social significa entender o funcionamento do comportamento social humano e aplicar esse conhecimento para conseguir algum benefício. Se você já viu alguém fingindo falar no telefone para escapar de uma reunião já sabe do que se trata. Esse termo nasceu dentro da cultura hacker nos anos 90 mas que cresceu a ponto de ser incorporado no arsenal de técnicas da espionagem industrial/governamental.

A premissa por trás da engenharia social é a de que os seres humanos são, de longe, o elo mais fraco de qualquer sistema de segurança. Assim antes de um hacker fazer qualquer ataque aos sistemas passa um bom tempo garimpando todas as informações úteis que conseguir sobre seu alvo ao ponto de muitas vezes nem precisar de ferramentas tecnológicas para conseguir os segredos que procurava. Sendo assim um engenheiro social é basicamente alguém que sabe stalkear como um profissional.

De fato um dos hackers mais famosos de todos os tempos tinha como principal habilidade a boa conversa. Kevin Mitnick com talento para a dissimulação enganou empresas como Nokia e Samsung e até o FBI. Ele começou sua carreira simplesmente se fazendo passar por funcionários de empresas de telefonia para convencer a telefonista a fazer ligações gratuitas mas suas técnicas foram avançando ao ponto de infiltrar funcionários em grandes corporações afim de extrair informações. Entre outros gênios da trapaça podemos citar o nova yorquino Frank Abagnale Jr e o brasileiro Marcelo Nascimento da Rocha.

Mas antes de tudo devemos ter em mente que muitas vezes, mas nem sempre, o engenheiro social é um criminoso. Isso porque ele tende a apelar para fraude, impostura e falsidade ideológica para conseguir o que quer. Muitos engenheiros sociais são enquadrados como estelionatários. Nesses casos a pena é de reclusão de 1 a 5 anos além da multa. Por outro lado entender as técnicas utilizadas é importante tanto para se proteger como para pensar nas possibilidades de usá-las de outro modo. Vamos a elas.

Pesquisa Prévia

O primeiro passo é fazer uma varredura e conhecer tudo o que puder sobre o alvo. Esse alvo pode ser uma pessoa ou uma organização. Se for uma organização, o primeiro passo é conhecer ela por meio de uma visita ao seu site e contato com seus integrantes. Mas seja como for a verdadeira engenharia social se dá com seres humanos. Então a maior parte da pesquisa prévia será focada em descobrir quais são os membros importantes desta coletividade e em seguida se aprofundar neles.

Redes Sociais

As redes sociais facilitam muito a vida dos engenheiros sociais. É possível conhecer muito de uma pessoa simplesmente xeretando seu perfil público. A primeira regra é nunca stalkear em público, por exemplo no seu ambiente de trabalho ou educacional. Não se limite a uma única rede social, uma pessoa pode ser mais presente no instagram, outra no twitter. Além disso cada rede tem informações diferentes para passar:

  • Twitter – Personalidade, visão política
  • Instagram – Interesses pessoais
  • Facebook – Vida pessoal, laços parentescos
  • Linkedin – Situação profissional, contatos profissionais, empresas em que trabalhou

Lembre-se de verificar não só os dados publicados, mas especialmente os relacionamentos com outras pessoas, seguidores e conexões interpessoais existentes. Liste os contatos mais participativos que geralmente são familiares e pessoas mais íntimas.

Sites de Pesquisa

Além das redes sociais alguns sites podem oferecer muitas informações relevantes.  O Google sozinho pode falar muito sobre a história e presença online de uma pessoa, sem falar de menção em diários oficiais e na imprensa. Mas não se limite a buscar o nome da pessoa. Buscar se email por exemplo pode revelar sites, fóruns em que a pessoa está registrada e reclamações que ela possa ter feito em sites de serviços.

Além do google outros sites podem oferecer informações complementares:

Pesquisa Material

Outro ataque de engenharia social é feito pela pesquisa material que é a aquisição de todo material que pode conter informações relevantes do alvo e geralmente se inicia com uma boa espiada nas redes sociais e na presença online da pessoa. Nesse caso se coleta nomes de pessoas importantes, datas de nascimento, endereços e outros dados pessoais.

O lixo também é uma grande fonte de informações. É muito comum pessoas jogarem fora pedaços de papel com senhas depois de term memorizado ou passado para as agendas pessoais. Em empresas o lixo pode conter informações sobre fornecedores, funcionários, patrimônio e sistemas usados. O mesmo é claro vale para o lixo eletrônico quando pode ser recuperado da lixeira.

No caso de pessoas isso inclui:

  • Correspondências
  • Contas a pagar
  • Notas fiscais
  • Anotações
  • Cópias de documentos
  • Recados telefonicos
  • Etiquetas de revistas de assinatura

Para empresas temos adicionalmente:

  • Relatórios anuais
  • Lista de pagamentos
  • Organogramas
  • Fluxogramas
  • Lista de ramais/telefones

Ataques de engenharia social

Até aqui o engenheiro social fez o máximo para conhecer tudo o que puder sobre seu alvo. No caso das empresas e organizações maiores ele já deve saber é o depositário das  informações que procura. Após determinar quais são as informações relevantes e  quem  são as pessoas com essas informações é hora de pensar nos meios para se extrair esses dados. Os ataques a seguir tem justamente este objetivo.

Inflitração

A técnica da infiltração não é propriamente um tipo de ataque, mas um facilitador para os ataque seguintes. Consiste em criar a sensação de confiança por parte do alvo. Em geral envolve integrar-se a ao alvo de modo a ganhar segurança ou desinteresse/negligência, sempre que possível protegendo a verdadeira identidade do atacante. Uma pessoa surgir do nada é pedir uma informação é algo bem diferente e muito mais suspeito do que uma pessoa surgir e depois de muita interação ela “por acaso” precisar de uma informação relevante.

A infiltração, quando eficaz não precisa ser demorada. Um caso clássico é a do falso cliente que liga elogiando um atendimento extraordinário que teve. De fato uma experiência tão boa que gostaria de enviar uma carta de agradecimento. Uma infiltração rápida e muito mais eficiente do que ligar para a loja do nada e pedir o nome completo e endereço do gerente.

De posse desses dados ele pode ganhar ainda mais confiança de uma outra filiar da rede. Veja o exemplo dado por Mitnick em seu livro “A Arte de Enganar”

“Obrigada por ligar para a Studio Video. Meu nome é Ginny, posso ajudar?”

“Oi, Ginny”, disse o interlocutor com voz entusiasmada, como se ele falasse com Ginny todas as semanas. “Aqui é Tommy Allison, gerente da Loja 863, Forest Park. Temos
um cliente aqui que quer alugar Rocky 5 e estamos sem nenhuma cópia. Você pode
verificar se vocês têm uma?”

Após alguns momentos ela voltou ao telefone e confirmou: “Sim, temos três cópias.”

“Muito bem. Vou ver se ele quer passar aí. Olha, obrigado. Se precisar de alguma ajuda
da nossa loja. é só ligar e pedir para falar com Tommy. Vou ficar feliz em ajudar
como puder.”

Três ou quatro vezes nas próximas semanas Ginny recebeu ligações de Tommy pedindo
ajuda com uma ou outra coisa….

Com o tempo ele migrou para conversa informal perguntando sobre o tempo e comentando trivialidades para o caixa do outro lado.  Veremos mais sobre esse tipo de teatro mais a frente neste artigo. Estes são alguns dos métodos personificação remota usados para se ganhar confiança das vítimas.

Para pessoas:

  • Fingir ser uma das prestadora de serviços (empresa telefônica, internet, etc..)
  • Fingir interesse romântico ou pessoal
  • Fingir ser do RH de uma empresa interessada em contratar a pessoa
  • Fingir ser um vizinho novo
  • Fingir ser um membro novo do grupo que participa (igreja, clube, etc.)

Para organizações:

  • Fingir ser um colega de trabalho (empresas grandes)
  • Fingir ser de uma consultoria importante (empresas pequenas)
  • Fingir ser um representante de autoridade legal
  • Fingir ser um cliente que precisa de ajuda
  • Fingir ser um empregado de um fornecedor
  • Fingir ser alguém da alta hierarquia
  • Fingir ser um parente de um colega em emergência
  • Fingir ser um empregado novo que solicita ajuda

Websites

Uma outra forma de se conseguir informações é por meio de emails falsos ou formulários na internet oferecendo brindes, prêmios e promoções. Assim geralmente é possível conseguir dados como CPF, RG, Telefone, perfis em redes sociais e em alguns casos até números de cartão de crédito. Não é necessário mais do que oferecer um brinde ou desconto interessante para conseguir estas e outras informações.

Outra ferramenta utilizada é conhecida como Evil twin ou Gêmeo Maligno. Consiste na criação de emails e sites falsos que se passam por sites que a pessoa conhece e confia e que lhes leve a uma falsa página de login que na verdade reconhe informações antes de direcionar ao site verdadeiro. Os profissionais do ramo criam seus próprios gêmeos malignos, mas sites como https://xploitz.net fornecem ferramentas que permitem emular entradas de redes sociais e serviços de email famosos.

Ataque por telefone

Um típico ataque por telefone envolve a ideia de se fazer passar por alguém para ter acesso a informações restritas. Se você já conhece a cultura e organização de uma empresa pode simplesmente ligar se passando por alguém de outro setor e solicitar as informações que precisa. Lembra do exemplo do falso gerente dado acima? Um dia ele, no exemplo de Mitnick soando um pouco mais estressado:

Ele perguntou: Vocês estão tendo problemas com seus computadores?”

“Não”. Ginny respondeu. “Por quê?”

“Alguém bateu o carro contra um telefone público e o pessoal da empresa de telefonia disse que grande parte da cidade vai perder seus telefones e conexão com a Internet até eles resolverem o problema.”

“Ah, não. O homem se machucou?”

“Eles o levaram em uma ambulância. De qualquer maneira, você poderia me ajudar?

Tenho um cliente seu aqui que queria alugar O poderoso chefão II e está sem o cartão. Você poderia verificar essas informações para mim?”

“Sim, é claro.”

Tommy deu o nome e endereço do cliente e Ginny o encontrou no computador, Ela deu
a Tommy o número da conta.

“Ele tem alguma devolução a fazer ou saldo devedor?, tommy perguntou.

“Não consta nada”

“Muito bem, ótimo. Vou abrir uma conta para ele aqui a mão e o coloco no nosso banco de dados mais tarde quando os computadores voltarem a funcionar. Ele quer pagar com o cartão Visa que ele usa na sua loja e também está sem ele. Qual é  o número do seu cartão e dada de vencimento?

“Ela também forneceu essas informações. Tommy agradeceu: “olha obrigado pela ajuda. Falo com você depois, e desligou.”

Mas nem toda personificação precisa ser complicada. Muitas vezes, uma vez que você tenha dedicado tempo a técnica da infiltração basta agora pedir as informações de modo natural. É da natureza humana confiar em nossos colegas, se seu pedido não for nenhum absurdo as informações serão tranquilamente passadas para você.

Um exemplo clássico é ligar para um funcionário de uma grande corporação e fazer se passar pelo administrador de sistema explicando que houve um problema com sua conta. A vítima é solicitada a deslogar e relogar sua estação de trabalho. O empregado enfatiza que não parece haver nada errado então depois de várias tentativas o falso administrador começa a parecer frustrado e pede a senha do usuário para que possa verificar o problema com a conta. Após mais um pouco de teatro o empregado é informado que o problema foi resolvido.

Outro exemplo típico é usado por criminosos para roubar informações de cartão de crédito. O ladrão liga para a pessoa e explica que é da operadora do seu cartão e que recentemente várias compras suspeitas foram feitas com o seu cartão. O falso operador então inicia o ataque dando algumas informações da vítima como se quisesse confirmar alguns dados como nome, endereço e cpf e outras informações que podem ser adquiridas por pesquisa prévia. Então ele tenta confirmar algumas compras fictícias. Quando a pessoa explica que não comprou um televisor pela internet o falso funcionário então diz que terá que confirmar algumas informações como número do cartão e data de expiração ou outra informação que desejar. Como requinte de crueldade a pessoa pode ser solicitada a destruir seu cartão e informada que um novo será enviado por correio.

Ataque presencial

O último recurso do engenheiro social é a personificação ao vivo. Ela envolve a visita real ao ambiente da pessoa que está sendo atacada. O engenheiro social deve ser um bom ator. Ele deve entrar em contato seja por e-mail, telefone ou redes sociais e conseguir se fazer passar por outra pessoa. Deve ter talento para conseguir se fazer passar por cliente em potencial ou CEO e saber interpretar várias idades, níveis de maturidade, contextos culturais e gêneros.  A forma mais simples de personificação ao vivo é vestir uma roupa social, pegar uma prancheta e caneta e tocar a campainha da pessoa fingindo estar fazendo uma pesquisa para o IBOPE ou IBGE. No caso da vítima ser uma pessoa conhecida será necessário nesses casos a contratação de alguém para fazer a pesquisa para você.

Muitas empresas por exemplo recebem consultores de empresas famosas e nestes casos um terno basta para convencer a maioria das pessoas. Um uniforme e um crachá pode ser outra boa abordagem dependendo do caso.  Este ataque é particularmente eficaz em médias e pequenas empresas. Além disso muitas vezes senhas genéricas e informações de uso interno podem ser vistas em lousas ou anotações fáceis de ver uma vez que você esteja dentro.

Shoulder Surfing

Não há mistério nesse ataque, mas ele só está disponível depois de um ataque presencial bem sucedido ou se você está atacando a própria organização a qual de fato pertence. Ele consiste em simplesmente assistir a vítima incluir em algum sistema suas informações pessoais, inclusive senhas de cartão e PIN de cartão de crédito. A ideia deste tipo de aproximação é que as pessoas, especialmente em ambiente corporativo, geralmente tendem a evitar conflitos e assim não questionam as intenções de outros funcionários. Raramente alguém questiona e reclama quando precisa entrar com seu usuário e senha pessoal na presença de outra pessoa. Para evitar um ambiente hostil as pessoas assumem que as intenções do atacante são benignas.

O mesmo vale para o que é dito. Um homem sábio pode ouvir o lucro no vento diz um antigo provérbio árabe. Realmente em muitos casos basta um bom ouvido e paciência para conseguir informações relevantes. Nos casos de ataques internos vindo de funcionários de dentro das organizações não é difícil escutar por exemplo funcionários insatisfeitos falando algo que pode prejudicar seus superiores. É importante contudo saber ler o discurso nas entrelinhas.

Conclusão

Os métodos da engenharia social estão sempre a disposição. Não há tecnologia capaz de controlá-las pois o elemento humano sempre está presente em sua fragilidade. Com eles você pode descobrir tudo sobre uma pessoa, incluindo seus segredos íntimos, senhas pessoais e dados bancários. Ninguém está completamente a salvo.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/engenharia-social/

Arcano 6 – Zain – Os Enamorados

Um homem, entre duas mulheres, é visado por uma flecha que parece pronta para ser disparada por um anjo, Cupido, à frente de um disco solar. O homem, no centro do grupo, olha para a mulher da esquerda. Ele tem cabelos louros, as pernas descobertas, e sua vestimenta é uma túnica de listas verticais, com mangas e um cinto amarelo. Vê-se apenas uma das suas mãos, a direita, à altura do cinto.

A mulher da direita, com os cabelos louros soltos sobre os ombros, tem um rosto jovem, fino. A mão esquerda está pousada sobre o peito do homem, enquanto a direita aponta para baixo, de modo que os braços estão cruzados.

A outra mulher, a da esquerda, está representada de costas, mas o rosto aparece de perfil. Tem cabelos que escapam livremente de um curioso chapéu. Dirige a mão direita para a terra e pousa a esquerda sobre o ombro do jovem.

O anjo, de cabelos louros e asas azuis, segura uma flecha branca com uma das mãos enquanto com a outra segura um arco da mesma cor.

Do disco solar surgem 24 raios pontiagudos, um dos quais é superposto pela asa do anjo.

Significados simbólicos

Sentimento. Livre arbítrio. Maioridade. Prova. Escolha.

Encadeamento, enredo, abraço, luta, antagonismo, combinação, equilíbrio.

Matrimônio, ligação, união. Integração de ambos os sexos ao poder gerador do universo.

Interpretações usuais na cartomancia

Decisão voluntária, eleição. Votos, aspirações, desejos. Exame, deliberações, responsabilidades. Afetos.

Mental: Amor pelas belas formas e pelas artes plásticas.

Emocional: Dedicação e sacrifícios.

Físico: Os desejos, o amor, o sacrifício pela pátria ou pelos ideais sociais, assim como todos os sentimentos manifestados fortemente no plano físico.

É a carta da união e do matrimônio. Representa para os consulentes de ambos os sexos, também, a infidelidade; em certos casos, a iminência de uma escolha a ser realizada.

Sentido negativo: Ruptura, separação, corte, desordem. Divórcio. Prova a ser suportada. Dúvida, falta de resolução. Tentação perigosa, risco de ser seduzido. Má conduta, libertinagem. Debilidade, falta de heroísmo.

Infidelidade, maus relacionamentos, indecisão e impotência.

História e iconografia

Em vasos e quadros da época romana, encontra-se com freqüência a imagem de um casal de namorados ante uma terceira pessoa ou elemento (em geral um Cupido).

O Arcano VI parece referir-se de forma alegórica a uma idéia diferente: a famosa parábola de Hércules na encruzilhada entre a Virtude e o Vicio, tal como conta Xenofonte nas suas lembranças de Sócrates. É bem provável que esta parábola – e suas variantes, como a de Luciano, o Jovem, disputado pela Arte e pela Ciência, entre as mais conhecidas – tenha sido popular na Idade Média, visto que é citada por vários autores dessa época (Cícero, no Tratado dos Deveres; São Basílio, no seu Discurso aos Jovens).

A idéia fundamental deste tema – ou seja, a necessidade de escolha entre dois caminhos – encontra-se igualmente em muitas imagens cristãs. Pode-se citar como exemplo uma miniatura bizantina do século X, onde Davi está representado entre duas mulheres que simbolizam a Sabedoria e a Profecia: a pomba que pousa sobre a cabeça do rei lembra em muito o Cupido do Arcano VI.

A antiguidade desta parábola é indiscutível, mesmo que as suas representações gráficas mais remotas não tenham chegado até nos. Na vida de Apolônio de Tiana, narrada por Filostrates no final do século II, há uma curiosa passagem em que um sábio egípcio diz a Apolônio:

Davi, entre a Sabedoria e a Profecia

“Tu conheces, nos livros de imagens, a representação de Hércules em que ele, jovem, ainda não escolheu o seu caminho. O Vício e a Virtude o rodeiam, tentam atraí-lo, cada um o quer para si…”

É preciso remontar mais uma vez aos pitagóricos para encontrar o simbolismo gráfico do tema, representado entre eles pela letra Y, emblema da escolha vital que todo homem realiza no final da infância.

O traço da metade inferior da letra Y representaria precisamente a infância, isenta de vícios ou virtudes; os braços que partem da bifurcação da letra representariam cada uma dessas tendências, enquanto que o ponto onde a bifurcação se produz seria o momento exato em que a puberdade se manifesta.

É comum encontrar nos manuscritos medievais esta referência à letra Y: “bifurcação, ou letra de Pitágoras”. Não é casual, assim, que alguns desenhos modernos do Tarô mencionem esta lâmina como A Dúvida ou A Prova.

Esse mesmo significado é mencionado no Antigo Testamento – no Deuteronômio, no primeiro dos Salmos, e mais explicitamente ainda em Jeremias. A idéia não reaparece no Novo Testamento, mas sim no começo dos Ensinamentos dos Doze Apóstolos, texto não canônico, presumivelmente composto por volta do século II: “Dois são os caminhos; um leva à Vida e outro à Morte”.

Uma interpretação totalmente diferente vê nessa estampa o ato do compromisso matrimonial dos noivos diante do sacerdote. Alguns dos célebres pintores renascentistas – Rafael, Perugino – deram testemunho dessa cerimônia na vida da Virgem.

Wirth vê no Enamorado a primeira fase individual da trajetória iniciática, quando o homem terminou a sua formação, mas não começou ainda o seu trabalho.

Outra vertente de interpretação menciona o simbolismo sexual do “senário”, partindo do sentido literal do nome da Carta.

“Entre os pitagóricos – disse Clemente de Alexandria – o seis é um numero sexual, chamando-se por esta razão O Matrimônio”.

Nas analogias geométricas, o Enamorado se identifica ao selo de Salomão, ou seja, tem claro vínculo com cópula dos triângulos entrelaçados.

Do ponto do vista psicológico, é sem dúvida a metáfora mais transparente do caminho para a identidade, que só se realiza no conflito e no intercâmbio com o mundo e com os outros.

Por Constantino K. Riemma
http://www.clubedotaro.com.br/

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/arcano-6-zain-os-enamorados