A Lenda dos Tatus Brancos

Shirlei Massapust

Mutantes existem. Todos nós somos mutantes. Assumindo que a vida humana começou no continente africano, deduzimos que os negros que lá vivem estão mais próximos da configuração original do código genético do Homo sapiens, embora nunca hajam parado de evoluir. Sempre, ao mudar de ambiente, os membros de nossa espécie sofrem adaptações. Para sobreviver em cenários climáticos mais frios, caucasianos perderam melanina e ganharam gordura. Nos olhos dos orientais a inserção do músculo reto superior é mais baixa na pele palpebral provocando diferenciação ou ausência, em 50% dos casos, da prega supra tarsal. Pessoas da tribo Huaorani desenvolveram pés planos com dedos mais curtos, em número de seis em cada membro, o que os tornam melhores para escalar árvores. Povos andinos sofreram mutação no gene AS3MT possibilitando que o organismo metabolize arsênio. Os povos Bajaus sofreram uma mutação no gene PDE10A e outra no gene BDKRB2, que resultou em mais hemácias oxigenadas e melhor reflexo de mergulho. Por este motivo eles conseguem permanecer submersos por até treze minutos em profundidades de até sessenta metros.

Sempre que dois ou mais grupos humanos se reencontram, após uma separação por tempo e espaço consideráveis, as pessoas ficam curiosas diante das diferenças étnicas e culturais desenvolvidas cá e acolá. No continente europeu os viajantes do mundo antigo costumavam exagerar e até fantasiar as características de povos vivendo nos rincões mais distantes de sua terra. Alguns acreditavam em blêmias (pessoas sem cabeça, com olhos, nariz e boca no busto) e temiam pigmeus (termo pejorativo utilizado para vários grupos étnicos cuja altura média é invulgarmente baixa, cerca de 1,50 cm).

Os portugueses transmitiram aos brasileiros o gosto por bestiários e crônicas de viagens extraordinárias, de modo que o poeta Bernardo Guimarães (1825-1884) acabou inspirado a descrever uma tribo hostil e exótica no conto O pão de Ouro (1879). As adaptações dos membros da tribo Tatu Branco são: Baixa estatura, brancura excessiva, cegueira diurna, visão noturna e unhas curvas como as dos animais carnívoros.

Todos os numerosíssimos integrantes são ágeis e robustos, apesar de “quase anões[1]”. Eles fazem caça humana e comem crus àqueles que capturam em seu território, porém não praticam endocanibalismo. Ou seja, não comem os mortos de sua própria tribo e etnia mesmo que estejam famintos e que haja muitos corpos disponíveis.

Seus bens culturais se resumem à linguagem exclusiva de seu grupo étnico, pois não pintam grafismos corporais, não produzem artesanato e desconhecem até o fogo. Suas ferramentas são paus que quebram pelo mato e pedras que encontram pelo chão. Seus lares são cavernas escavadas com as unhas. Eles conseguiram criar um grande e complexo sistema espeleológico artificial numa região do Estado de Goiás.

Em O pão de Ouro o autor romanceia histórias pitorescas sobre as expedições dos bandeirantes paulistas trilhando em busca de riquezas no interior do Brasil desde o século XVII até o meado do XVIII. Tudo termina quando Gaspar Nunes, o último chefe de expedição, encontra uma nativo-americana que lhe informa sobre a proximidade dos jardins de Tupã onde “o cascalho dos rios é de diamantes, e os rochedos das montanhas são de ouro, e o que há de mais extraordinário ainda, é um grande penedo todo inteiro do mais puro ouro, que existe encima de uma serra”.[2]

Nenhum intruso jamais sobreviveu ao pernoite nesta localidade porque a região é dominada pela temida tribo Tatu Branco. É a personagem indígena quem os define:

Uma casta de gente terrível, que vive debaixo da terra como o tatú durante o dia, e só de noite sai do buraco. São brancos, brancos como o leite d’estes meus peitos, e numerosos como as formigas, e ai de quem lhes cai nas garras; não deixam ficar nem os ossos. Tupã não quer que ninguém pise nos seus jardins, e pôs lá essa raça maldita para vigiá-lo.[3]

Hélio Lopes e Alfredo Bosi interpretam essa “raça de índios pigmeus”, como um dos “obstáculos alimentados pela imaginação” que dificultaram o desbravamento do sertão.[4] Sem atribuir autoria ao poeta, Afonso Arinos de Mello Franco (1905-1990), apresentou, em sua coletânea de palestras Lendas e tradições Brasileiras (1917), o resumo da “lenda bandeirante” rememorada a partir dum impresso lido na infância.

Imortal que ocupou a cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras, Afonso Arinos foi um dos fundadores do partido União Democrática Nacional (UDN) em 1945 e deputado federal a partir de 1947. É de sua autoria a Lei no 1.3901, aprovada pelo Congresso Nacional em 03/07/1951, pioneira na tipificação da discriminação racial como contravenção penal no Brasil. Este homem exerceu diversas atividades ao longo da vida, dentre elas as de crítico literário, historiador, memorialista, biógrafo e jurista, sendo que a preocupação em se apoiar em vasta documentação caracterizou sua produção bibliográfica. Luís da Câmara Cascudo confiou na boa-fé de tão respeitável autor e reproduziu a sua versão da lenda da tribo Tatu Branco nos livros Antologia do folclore brasileiro (1944) e Lendas brasileiras (1945). A jornalista Maria Rosa Moreira Lima também reescreveu a palestra, apresentando-a na qualidade de “lenda paulista”, publicada no Diário de São Paulo, edição do dia 09/08/1975.

Verificamos poucas, porém significativas, diferenças entre O pão de Ouro e a lenda de Afonso Arinos. O cenário esvaziado de suas riquezas maravilhosas foi transferido de Goiás para uma região agreste de Minas Gerais, “conhecida pela grande quantidade de furnas e cavernas temerosas”.[5] Quem adverte os bandeirantes sobre o desaparecimento de pessoas já não é uma jovem e elegante personagem de sexo feminino, de etnia indígena, falante dum idioma do tronco linguístico tupi, mas sim um “caboclo velho da escolta” conhecedor das tradições do sertão.

Na descrição de Bernardo Guimarães, os tatus brancos são apenas canibais que fazem caça noturna e dizimam todos os aventureiros: “A carne humana parece que era para eles finíssima iguaria por isso mesmo que raras vezes podiam obtê-la”[6].

Na lenda de Afonso Arinos os cavernícolas são definidos como “índios vampiros” com poderes quase mágicos, pois “enxergavam como as corujas” e farejavam a carne humana tão bem quanto os melhores cães de caça. [7]  (Sim, eles tinham sentidos aguçados na versão anterior, mas não conforme tal mesura). Na variante posterior de Miranda Santos, compilada no livro didático Lendas e mitos do Brasil (1955), editado pela prestigiosa Companhia Nacional[8], estes ainda são “índios vampiros, que moravam em cavernas daquela região, e que só saíam à noite para atacar os viajantes”. Enfim, o conhecimento da área já não pertence a índia ou caboclo, mas a “um velho sertanejo”.[9]

Em todas as variantes da narrativa a única forma de escapar da horda esfaimada é caindo nas graças duma fêmea que faz de Gaspar Nunes o seu brinquedo sexual, ao invés de permitir que ele seja canibalizado tal como os demais prisioneiros. Quando a mulher sem nome chega no banquete, enxota seus iguais como a um bando de urubus.

sentou-se depois outra vez junto de Gaspar, tocou-lhe o corpo com as mãos, encostou as faces em suas faces, os lábios em seus lábios, e pousou seu peito sobre o dele. Gaspar reconheceu, que era uma mulher, e sentiu um horror e um asco irresistível. Essa mulher, que assim o afagava, tinha as mãos e a boca besuntadas do sangue de seu camarada a pouco devorado, e seu hálito tresandava um cheiro infecto e nauseabundo de sangueira. Gaspar sentiu as entranhas se lhe revolverem em ânsias cruéis. Se ele se visse com o pescoço enleado entre as roscas de uma serpente, que com a farpada língua lhe lambesse as faces e os lábios, não sentiria tanto horror e repugnância, como ao ver-se enlaçado nos braços de tão repulsiva criatura.[10]

No conto de Bernardo Guimarães a mulher que toma Gaspar para si percebe o nojo do bandeirante, não se apresenta mais babada de sangue e lhe oferece frutas ao invés de carne humana. Ainda assim é irremediavelmente asquerosa. Coabitar com ela na murrinha duma toca mal arejada pareceu-lhe um destino pior do que a morte.

Quando o sol dardejou seus primeiros raios, Gaspar (…) contemplou pela primeira vez à luz do dia aquele corpo, que não era mal feito, porém de alvura tão excessiva, que fazia repugnância; os cabelos eram finos, corredios e de um louro quase branco; o rosto era irregular, mas não inteiramente destituído de graça; porém as unhas curvas e compridas, e os dentes aguçados, que se viam por entre os lábios entreabertos, davam-lhe um ar feroz e repulsivo. Gaspar depois de ter lançado um último olhar de comiseração sobre aquela infeliz selvagem, pôs-se a fugir a bom andar para longe daqueles sítios fatais.[11]

A índia vampira da lenda de Afonso Arinos não entra em combustão espontânea quando exposta à luz solar, mas ainda encontra dificuldade de locomoção. Ela é uma princesa! Algumas imperfeições anatômicas desapareceram. Seus cabelos ganharam volume. Mesmo assim, durante a fuga, Gaspar só olha momentaneamente para traz para se certificar que sua perseguidora não o alcançará.

Era pequenina e branca; cabelos longos, de um louro embaçado, caíam-lhe abundantes sobre as costas. Quanto mais clareava o dia, maior parecia a angústia da princesinha dos “tatus brancos” que tapava com as mãos os olhos gázeos, bracejava e gemia, incapaz de caminhar, às tontas, como inteiramente cega. O bandeirante olhou uma última vez para a triste selvagem, e fugiu da terra maldita.[12]

Na variante de Theobaldo Miranda Santos – à época considerada adequada para leitura por alunos da terceira série primaria e crianças com mais de oito anos, – Gaspar parece tão pouco preocupado com o cárcere privado quanto a personagem protagonista do conto de fadas francês A Bela e a Fera; porque eles amam suas feras.

A madrugada encontrou fora da caverna a salvadora do bandeirante. (…) Era branca e loura. E linda como um anjo. O bandeirante ficou com pena de abandonar a princesinha. Mas não teve outro remédio.[13]

Confesso que essa monstra me causa mais embrolhos agora que é nobre, bela e virtuosa do que quando ela oferecia o braço do cadáver do colega para o cativo comer. O próximo passo para a desconstrução do antagonismo índio nesta lenda equivocada seria reconstruir elementos de terror como horror ou contágio sobrenatural de um mal europeu pelo nativo-americano. Assim surgiu a variante do imponente romance gráfico Papa-Capim – Noite Branca (2016), a 11ª edição do selo Graphic MSP, com roteiro de Marcela Godoy e desenho de Renato Guedes, publicada pela Panini.

Os extras do álbum informam que Marcela Godoy realizou “uma rica pesquisa” antes de criar vilões inspirados na lenda da tribo Tatu Branco.[14] Neste roteiro o leitor é apresentado à Noite Branca, tribo de índios possessos com poderes de desdobramento no universo onírico, onde geram pesadelos. Todo indivíduo integrado à Noite Branca se transforma num horrendo monstro albino capaz de resistir a qualquer ferimento, exceto à perfuração do coração por flechas de madeira. Somente o religar de seu Eu com a natureza, da qual se afastou, pode lhe devolver a humanidade. O fundador da Noite Branca seria um pajé imortalizado pelo consumo do coração de um vampiro europeu.

A fonte de Marcela Godoy é Câmara Cascudo que, conforme exposto, compilou um texto de Afonso Arinos. Este último certamente resumiu Bernardo Guimarães, sendo que antes imperava o silêncio… Que a verdade seja dita: Poderíamos passar um pente fino em todos os trabalhos arqueológicos e antropológicos realizados no centro-oeste e sudeste do Brasil sem localizar quaisquer menções no folclore nativo-americano a uma tribo denominada Abati Tatu, ou mesmo a um mero xingamento peē tatu.

Profissionais ocupados com pesquisa de campo fazem chacota do tema; a exemplo da ironia de Gilmar Pinheiro ao comentar o achado duma estatueta de tatu (Dasypodidae) quando buscavam por vestígios de ocupação humana em cavernas mineiras: “A análise das fontes primárias dos séculos XVI e XVII, aliada aos recentes dados que vêm sendo levantados pelo PASF, deixa uma certeza incontestável: é mais fácil crer na existência dos Tatus Brancos de Câmara Cascudo, que nos temíveis Cataguá de Diogo de Vasconcellos e seus discípulos”.[15]

Apesar de tudo, talvez não seja inútil rememorar a proposta de um personagem de Bernardo Guimarães, em O pão de Ouro, que planejou, mas não executou, um modo de vencer a tribo Tatu Branco: “O melhor é ajuntar bastante lenha na boca de cada furna, e deitar fogo; assim os sufocaremos e os mataremos todos, como se matam as formigas cabeçudas lá em nossa terra”.[16] É assim que vários povos nativo-americanos caçam morcegos. E foi assim que heróis do folclore Apinajé e Kayapó-Xikrin derrotaram a tribo dos homens-morcego kupẽ nhêp, caçadora de homens, que abduzia todos que pernoitavam nos arredores de sua caverna, numa área misteriosa no Alto Tocantins.

Faça download gratuito das fontes primárias:

GUIMARÃES, Bernardo. A Ilha Maldita. O pão de ouro. Rio de Janeiro, B. L. Garnier, 1879. URL: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/3079

ARINOS, Affonso. Lendas e Tradições Brasileiras. São Paulo, Typographia Levi, 1917, p 23-27. URL: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?id=145784

Notas:

[1] GUIMARÃES, Bernardo. A Ilha Maldita. O pão de ouro. Rio de Janeiro, B. L. Garnier, 1879, p 280.

[2] GUIMARÃES, Bernardo. A Ilha Maldita. O pão de ouro. Rio de Janeiro, B. L. Garnier, 1879, p 260.

[3] GUIMARÃES, Bernardo. A Ilha Maldita. O pão de ouro. Rio de Janeiro, B. L. Garnier, 1879, p 261.

[4] LOPES, Hélio & BOSI, Alfredo. Letras de Minas e outros ensaios. São Paulo, EdUSP, 1997, p 23.

[5] ARINOS, Affonso. Lendas e Tradições Brasileiras. São Paulo, Typographia Levi, 1917, p 23.

[6] GUIMARÃES, Bernardo. A Ilha Maldita. O pão de ouro. Rio de Janeiro, B. L. Garnier, 1879, p 281.

[7] ARINOS, Affonso. Lendas e Tradições Brasileiras. São Paulo, Typographia Levi, 1917, p 23-24.

[8] A Companhia Editora Nacional é uma editora brasileira que foi fundada por Monteiro Lobato em 1925 e, em 1980, passou a fazer parte do Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas.

[9] SANTOS, Theobaldo Miranda. Lendas e mitos do Brasil. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1955, p 86.

[10] GUIMARÃES, Bernardo. A Ilha Maldita. O pão de ouro. Rio de Janeiro, B. L. Garnier, 1879, p 287-288.

[11] GUIMARÃES, Bernardo. A Ilha Maldita. O pão de ouro. Rio de Janeiro, B. L. Garnier, 1879, p 261.

[12] ARINOS, Affonso. Lendas e Tradições Brasileiras. São Paulo, Typographia Levi, 1917, p 26.

[13] SANTOS, Theobaldo Miranda. Lendas e mitos do Brasil. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1955, p 87.

[14] GODOY, Marcela e GUEDES, Renato. Papa-Capim – Noite Branca. São Paulo, Panini, abril de 2016, p 76.

[15] JÚNIOR, Gilmar Pinheiro. Arqueologia Regional da Província Cárstica do Alto São Francisco: um estudo das tradições ceramistas Uma e Sapucaí. (Dissertação de Mestrado). Belo Horizonte, MAE-USP, Março de 2006, p 20-21.

[16] GUIMARÃES, Bernardo. A Ilha Maldita. O pão de ouro. Rio de Janeiro, B. L. Garnier, 1879, p 276.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/a-lenda-dos-tatus-brancos/

A História Suprimida do Planeta Terra

Parte 1 – Introdução

Eu me chamo  “Morning Sky” ( Estrela da Manhã).  Cresci ouvindo as histórias que meu avô contava sobre um Ser do Espaço que ele ajudou a resgatar. Meu avô era um dos seis jovens Nativos Americanos que testemunharam o acidente com uma espaçonave em 1947, pouco depois do agora famoso incidente de Roswell.

Quando eles chegaram ao local, acharam um dos seres ainda vivo. Eles o tomaram consigo para seu acampamento, esconderam-no e cuidaram dele para que se restabelecesse. Chamaram-no “Ancião Estelar” (“Star Elder”), por respeito; mas com o passar do tempo ele revelou seu nome. Chamava-se Bek’Ti. Revelou a eles a história da Raça Humana e do Planeta Terra.

No final dos anos 60, quando eu comecei a faculdade, me entretia com a possibilidade de que estas histórias pudessem não ser verdadeiras. Assim, envolvi-me em Estudos Religiosos, um programa de estudos independente que poderia me permitir ter a oportunidade de pesquisar antigos arquivos para provar ou negar as muitas histórias do Ancião Estelar.

Submeti ao meu Professor de Estudos Religiosos uma tese que era uma síntese dos meus três anos de pesquisa. Chamava-se “Terra, a História Oculta do Planeta Terra”. Em poucos dias ele o rotulou como “um trabalho de blasfêmia e ultraje!”. Isto quase me fez ser expulso da escola.

Não tendo tido sucesso no campo acadêmico, decidi contactar organizações e pesquisadores sobre UFO então existentes. A resposta geral foi rotular o trabalho como “um material mitológico e de lendas dos Nativos Americanos, não adequado para estudos sérios de fenômenos científicos”.

A rejeição total fez com que eu ficasse muito irritado. Por aproximadamente trinta anos eu me recusei até mesmo a pegar um livro sobre UFO ou Fenômenos da Nova Era. Eu religiosamente me recusava a ler ou ouvir o que havia lá fora.

As circunstâncias mudaram. Meu avô se foi, mas não sem antes me arrancar a promessa de tentar contar a história mais uma vez.

A História da Humanidade e da Terra, como revelada por Bek’Ti é tanto excitante quando apavorante. A Criação do Homem e seu lugar na galáxia é tornado claro, mas no processo tanto a nobreza quanto o orgulho do Homem ficam feridos. O fenômeno da abdução e seres cinzentos observadores são partes integrais da história da Raça Humana, e explicadas contra o que é dito dos propósitos dos Seres das Estrelas para a Raça Humana.

As fontes das religiões dos Homens e as origens de figuras legendárias como Zeus, Osíris, Ísis, o Minotauro e um número de outros seres “mitológicos” são explicados e também colocados no referencial da História da Terra.

Parte 2 – A História da Criação do Homem

Em nossa galáxia existem bilhões de Seres das Estrelas. As raças humanóides são a regra, não a exceção. Estas raças descendem de muitas formas de vida: répteis, insetos, dinossauros, pássaros e outras formas de vida que a humanidade nem consegue começar a imaginar.

Uma das mais antigas Raças das Estrelas neste setor do Universo é a reptiliana Ari-An, a qual descende dos ancestrais dinossauros no sistema de estrelas de Órion. Governados por rainhas, criaram o mais poderoso império da galáxia. Os guerreiros Ari-An eram inigualáveis em ferocidade e bravura, e o Império Ari-An insuperável em poder e tamanho.

Milhões de anos de incontáveis batalhas tinham permitido a esse Império desenvolver estratégias avançadas de guerra. Entre estas, os Ari-An praticavam “condicionamento” ou “reprogramação” para controlar populações conquistadas e fazer delas propriedades em vez de responsabilidades. Os inimigos tornavam-se servos obedientes do trono das rainhas reptilianas. Desta forma os Ari-Ans eliminavam a resistência.

Uma evolução inesperada de outra raça no Sistema Estelar de Sírius tornou-se uma ameaça ao Império Ari-An. Mesmo não tão antiga ou evoluída como a dos reptilianos, os guerreiros do Império Kanus, uma raça canina (similar aos lobos) preencheram suas  falhas com sua ferocidade. Mesmo o mais disciplinado dos guerreiros Ari-An temia estes cruéis e bárbaros guerreiros Sirianos, que paravam para devorar a carne de seus inimigos no campo de batalha.

Um rápido avanço dos guerreiros Sirianos ameaçou a existência do Império Ari-An. Como resultado as rainhas procuraram os reis de Sírius para oferecer uma aliança. Um tratado foi acordado, de acordo com o qual ficou delineado quais setores da Galáxia deveriam ser regidos por cada império, e por algum tempo, os guerreiros de ambos os impérios lutaram lado a lado.

Com o nascimento de um novo sistema o Rei de Sírius foi rápido em reclamá-lo. Assim que os sirianos começaram a explorar seus recursos, este novo sistema tornou-se um posto avançado tanto para o Império Ari-An como para o Império Siriano, e o poder e a riqueza de ambos continuou a crescer. Mas eventualmente a guerra começou novamente, dessa vez entre Reis Sirianos rivais. No final, as forças Ari-An se juntaram ao Rei An. Mundos inteiros mantidos pela oposição foram totalmente destruídos, incluindo suas luas e colônias.

Muito mais tarde, o Rei An mandou seu filho, o Príncipe Ea e sua filha, a Princesa Nin-Hur-Sag (ambos cientistas geneticistas) para reconstruir o mundo destruído de Eridu, e mais uma vez explorar os recursos necessários e valiosos achados lá. Eles restauraram com sucesso a atmosfera; colocaram vida nos mares; recriaram plantas, árvores e flores; e hibridizaram diferentes tipos de seres. O planeta Eridu (Terra) renasceu.

Novas criaturas foram produzidas para habitar o planeta. Uma destas criaturas, Apa-Mus, era um híbrido macaco-besta cujo único propósito era o de servir e ser escravo nos campos e minas. Mas este animal era diferente dos outros, Ele podia entender ordens e podia se comunicar. A Princesa Nin-Hur-Sag tinha construído geneticamente o macaco-besta híbrido usando seu próprio DNA.  A inteligência das bestas aumentou e começaram a se multiplicar rapidamente e a ensinar sua própria prole.

Quando outra espécie de trabalhadores criados geneticamente, os intraterrenos Sheti Lizards (Lagartos), revoltaram-se e tomaram o poder, os governantes dos Seres da Estrelas debandaram do planeta. Com a oposição fora do caminho, os Sheti usaram controle da mente e técnicas de programação que aprenderam de seus mestres para alterar as memórias dos descendentes remanescentes dos Seres das Estrelas. O conhecimento da raça humana sobre Seres das Estrelas foi substituído por mitos e lendas.

A dominância Sheti foi e continua a ser desafiada por muitas outras raças das estrelas tentando reconquistar o controle da Terra – e da raça Humana – para seus próprios propósitos. A luta pelo poder continua.

Parte 3 – Tentativas de Golpe – Passado, Presente e Futuro

A raça reptiliana Ari-An tem feito várias tentativas para derrubar o atual poder na Terra. No começo do século 20, o movimento global Ariano quase teve sucesso na conquista de um mundo “dócil”. Se, como o autor sugere, eles estão continuando com seus esforços, novos movimentos irão aparecer nos grupos de supremacia. Répteis aparecerão em todos os setores da mídia como seres amigáveis ou heróicos, lutando em favor do homem. Super-heróis reptilianos se tornarão modelos para crianças.

Levantes religiosos têm vindo à cena através da História da Terra pelos sirianos. A Inquisição, as Guerras Papais, os numerosos “Messias” e “visões milagrosas” têm sido fabricados para trazer a raça humana de volta à sua influência. Se eles também estão tentando assumir o controle da Terra, como o autor sugere, então um retorno ao fundamentalismo também ocorrerá, assim como um aparecimento crescente de anjos e ocorrências milagrosas.

Padrões mostram esforços contínuos para direcionar o povo do Planeta Terra e também para predizer eventos vindouros: A Raça Humana será logo rodeada com imagens de asteróides e de cometas ardentes caindo. Porcos negros serão vistos em todas as partes do mundo, assim como figuras angelicais e milagres. Dinossauros irão tornar-se os heróis das crianças e a violência será a base de suas brincadeiras. Aparecerão novas doenças transmitidas através do ar, imunes aos tratamentos existentes. A NASA tornar-se-á fraca e impotente ou terminará.

Uma guerra galáctica de conquista acontece violentamente sobre nossas cabeças. A Terra – e o Homem – são o prêmio.

Círculos nas Plantações – Comunicações Visuais

Em uma tentativa de se comunicar com os descendentes dos Seres das Estrelas – especialmente aqueles que são capazes de se lembrar das “pistas” – sinais visuais estão sendo enviados na forma de círculos em plantações. Sinais para os descendentes de Sírius usualmente têm uma forte semelhança com os antigos glifos egípcios, designes em formato de bola de futebol, formas de círculos com cruzes ou círculos com um ponto no centro. Podem também aparecer como fórmulas matemáticas.

Os círculos dos Ari-Ans frequentemente têm forma de cobra, ou a criaturas semelhantes a insetos. Qualquer que seja a forma, estes círculos nas plantações são sinais para os descendentes que eles não foram esquecidos.

Como um sinal de que uma nave estelar foi mandada para o sistema solar e para a Terra, imagens de enormes naves planetárias e tripulações compostas de heróis “salvadores” da humanidade estarão em toda parte. Para neutralizar esta imagem de “bons” corpos celestiais, imagens de asteróides caindo e cometas em colisão serão usadas como justificativa de se possuir mísseis anti-asteróides apontados para o céu com propósitos defensivos.


Parte 4  – Formas de Controle

Enquanto isso, para manter o controle da raça humana, os Sheti introduziram novos dispositivos para continuar a nos bomtardear com uma cobertura eletrônica controladora e entorpecente. Muitos destes instrumentos eletrônicos são portados pessoalmente: aparelhos de CD e fitas com fones de ouvido, equipamentos de realidade virtual, pagers, jogos eletrônicos, celulares, bips, etc., são usuais atualmente.

Drogas de todos os tipos, legais e ilegais (incluindo álcool, tabaco e narcóticos) são parte do programa de controle para manter a raça humana dócil.

Modificação comportamental para prevenir que sejamos motivados a lutar por nós mesmos irá requerer que a nenhum homem seja dado o status de herói. Aqueles que não se defendem, mas suportam grandes sofrimentos, serão os novos “heróis” e modelos: vítimas, mártires, prisioneiros de guerra torturados e pessoas que morrem a serviço de seus países.

O controle populacional aumentará e apenas os selecionados serão autorizados a continuar. Desaparecimentos e abducções aumentarão, especialmente de mulheres e crianças novas. Novas doenças trazidas pelo ar aparecerão. A obesidade aumentará, a disfunção sexual aumentará nos homens, e os ciclos menstruais na mulheres cairão de 28 para 25 dias.

Para manter o controle da raça humana e nos manter desamparados na Terra, a NASA será eliminada ou fortemente restringida em seu trabalho. Qualquer evidência de vida extraterrestre será estritamente suprimida e negada.

A Esperança da Humanidade: Sangue real

As linhas de batalha foram delimitadas para uma vindoura guerra galáctica de dominação do planeta Terra. Enquanto a raça humana buscar salvação “lá fora”, ela estará pavimentando o caminho para os seres que estão competindo para se tornarem seus Senhores. Mas a raça humana tem uma outra opção.

Embora nascida de bestas e criada para servir, a raça humana foi criada por cientistas geneticistas, o Príncipe EA e a Princesa Nin-Hur-Sag, usando seu próprio DNA e seu próprio sangue real. A linha real de Sangue Siriano confere à humanidade o direito de reivindicar a Terra como sua. Esta é a História que tem sido suprimida, a verdade que foi mantida escondida.

Enquanto a raça humana aceitar Senhores e Deuses, nós estaremos aceitando uma existência da servidão. Quando nós finalmente lembrarmos que nosso próprio reino foi tomado, quando finalmente olharmos para nós mesmos como nosso próprio Mestre ou Deus, então e só então estaremos livres de extraterrestres.

O autor pede ao leitor para investigar por si mesmo as informações apresentadas aqui. Não aceite nenhuma, desafie todas elas. Decida por si mesmo se as palavras de Bek’Ti são verdadeiras. Você é seu próprio deus, você é o mestre de seu destino – se você puder lembrar A Verdade.

Esta versão de “Terra Papers: Hidden History of Planet Earth”, de Robert Morning Sky, foi condensada especialmente para Percepções, por Betty Bland, que mora e trabalha em Seattle. Ela é a diretora executiva da Light House Promotions, e está envolvida na produção anual da “Ocean Shores Convergente Psychic Fair on Memorial Weekend”, em Ocean Shores, Washington.

Traduzido  por:

Mariana – mariana@umanovaera.com e

Izabel da Costa – isabel@umanovaera.com

Condensado do trabalho de Robert Morning Sky: “Documentos da Terra: A História Secreta do Planeta Terra”

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/a-historia-suprimida-do-planeta-terra/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/a-historia-suprimida-do-planeta-terra/

Metraton

Todos os povos, desde a mais remota Antigüidade, conservaram a realidade do mito como um componente essencial de sua concepção do mundo, de sua Cosmogonia e Teogonia. Por muito longe que nos remontemos na história das civilizações tradicionais, sempre encontramos nelas uma rica profusão de relatos e lendas relacionados com seres míticos, que servem de comunicação entre a Terra e o Céu, entre o de baixo e o de cima. A tradição cabalística também conserva um grande número de gestas míticas vinculadas com o descenso à Terra das energias celestes, angélicas ou espirituais. Assim, na Cabala se acha com freqüência o nome de Metatron, que se identifica com o arcanjo Miguel, também chamado o “Príncipe das Milícias Celestes”.

A Cabala considera o Metatron como o princípio ativo e espiritual de Kether, a Unidade, que com as tropas divinas sob seu comando (as sefiroth de construção cósmica) empreendem a luta contra as potências do mal e das trevas (que constituem seu próprio reflexo escuro e invertido, as “cascas”, “escórias” ou keliphoth) dissipando a dúvida e a ignorância no coração do homem, fecundando-o, simultaneamente a essa mesma ação, com a influência espiritual que transmitem. Em algumas representações da iconografia cristã e Hermética pode se ver este combate mítico nas figuras do arcanjo Miguel e das hostes angélicas, lutando contra os demônios e Satã, o “príncipe deste mundo”, segundo a conhecida expressão evangélica.

Com o mesmo significado, mas a nível humano, encontramos o cavaleiro São Jorge combatendo o Dragão terrestre, símbolo das paixões inferiores e do “caos”. Precisamente, a lança ou espada (símbolos do eixo) de São Jorge atravessando o corpo do monstro, sugere a “penetração” das idéias celestes, verticais e ordenadoras, em dito “caos”. Esta variante do mito é análoga à luta que o homem acomete na busca do Conhecimento, o que lhe dá a possibilidade de viver um processo mítico idêntico ao dessas mesmas energias cósmicas e telúricas, celestes e infernais, em permanente luta e conciliação.

Relacionado em certo modo com as origens da Tradição Hermética, e intimamente vinculado com o que vimos dizendo, encontra-se o mito dos “anjos caídos”, que igualmente é relatado no Gênesis bíblico. Considerado desde o ponto de vista da Ciência esotérica –que tende a resolver os opostos e, portanto, exclui, por insuficientes, o simplesmente moral e sentimental, bem como as leituras demasiado literais das coisas, que estão incluídas no ponto de vista simplesmente religioso e exotérico– a “queda dos anjos” representa, ante tudo, um símbolo do descenso das influências espirituais no seio da própria vida e da natureza humana.

Certos anjos caíram acesos pelo amor que professavam às filhas dos homens às quais, diz-se, “encontraram formosas e belas”. De seu casamento, nasceram seres semidivinos (os antepassados míticos), que revelaram aos homens as ciências e as artes teúrgicas, mágicas e naturais, ou seja, todas aquelas disciplinas que, como já sabemos, integram os textos sagrados dos “Hermética” e do “Corpus Hermeticum”.

#hermetismo

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O que Sócrates não disse

Para Cármides, Sócrates diz que se tornou um xamã durante a batalha de Potidéia, quando ainda era um jovem soldado grego [1]. Para a grande maioria dos estudiosos, entretanto, não é crível que Sócrates tenha passado por uma iniciação espiritual em meio à guerra. Tais coisas, supõe-se, não teriam como ocorrer nesse tipo de ambiente. Será mesmo?

No Banquete, Alcibíades relata, talvez, o êxtase socrático de maior duração, 24 horas ininterruptas de transe: Sócrates imóvel, insensível às exigências normais do corpo e a tudo o que ocorre em torno dele, totalmente ausente. Ora, mas Alcibíades era um companheiro de Sócrates na batalha da Potidéia, e tal relato se refere à experiência mística socrática bem no meio da guerra!

Dizem então, os estudiosos, que o xamanismo socrático é nada mais que uma metáfora: Sócrates é capaz de curar a alma pela palavra, assim como os xamãs curam por seus encantamentos. Na verdade, os estudiosos tem razão em dizer que Sócrates curava a alma pela palavra, mas isto não é somente uma metáfora: é a essência da magia. Sócrates era, portanto, um xamã, um feiticeiro, exatamente porque sabia “curar pela palavra”.

Nem tudo que o homem com olhos de touro experienciava em seus êxtases podia, no entanto, ser dito… Conta-nos Alcebíades que, após um dia em transe na Potidéia, Sócrates volta a “realidade normal”, faz uma prece ao sol, e depois age normalmente, como se absolutamente nada tivesse transcorrido. Essa maneira de retomar contato com a realidade ordinária denota o caráter místico da experiência. Mesmo o destinatário da oração, o sol, indica uma relação de Sócrates com a natureza e os elementos que não provém da religião grega clássica [2].

Esta iniciação xamãnica tampouco foi o único êxtase socrático. No caminho para a festa organizada por Agatão no Banquete, Sócrates estava a seguir com outro convidado, Aristodemos, mas durante o caminho “isola-se em seus pensamentos” e fica para trás. Aristodemos chega sozinho a casa de Agatão, que envia um criado para buscar Sócrates. O escravo o encontra de pé, sobre o pórtico da casa vizinha, mas o filósofo não responde aos seus chamados. Aristodemos explica que é inútil insistir: o fenômeno é habitual em Sócrates; isso se apodera dele em qualquer lugar, mas após um tempo ele acaba por retornar. Os outros não esperam por “seu retorno a esta realidade”, e quando Sócrates “chega”, já estão no meio da refeição.

Hoje em dia um sujeito como Sócrates seria taxado de “completamente lunático”, mas em sua época foi conhecido como um dos homens mais sábios de toda Grécia, ou pelo menos entre os seus seguidores e amigos, que como sabemos não foram poucos; e podemos contar dentre eles alguns dos maiores filósofos da história do Ocidente. Porque, afinal, seguiam aos ensinamentos, a “palavra xamãnica”, de um “homem louco”?

Pode-se questionar, claro, se o transe socrático se impunha à força, ou se Sócrates tinha como escapar dele. Não temos, é evidente, uma resposta precisa. Talvez Sócrates, sentindo vir o êxtase, não pudesse evitá-lo, talvez considerasse esse estado tão superior às convenções sociais que achava absurdo privar-se dele. Apesar disso, de acordo com os relatos dos livros de Platão, Sócrates não parece ter “o controle da situação”: é arrebatado sem ter desejado nem previsto, por vezes, literalmente, no meio da estrada.

É evidente que gostaríamos de saber o que vivenciava o sábio grego durante esses longos arrebatamentos, que visões lhe poderiam ser oferecidas, que conhecimento tiraria delas. Quando chegou ao banquete, Agatão lhe pediu para que ele tomasse o lugar a seu lado, e lhe contasse sobre “as descobertas” que acabara de fazer. Mas Sócrates esquiva-se, e encerra o incidente com uma ironia: “Basta estar perto de um sábio para participar de sua ciência, e vou pôr-me ao lado de ti, que acabas de obter tal sucesso com [a análise da] tragédia”. Agatão não se engana, sabe que nada mais vai saber acerca do “incidente”.

Em realidade, ninguém ousava insistir nestes questionamentos… Um pudor compreensível diante do inconcebível. Não se fala dessas experiências, pois estão ligadas ao incomunicável, ao que nem a “palavra mágica” de Sócrates era capaz de dar conta. Esse saber, a sophia, não passa de um espírito para o outro, é um conhecimento que não se transmite e do qual Sócrates jamais se refere diretamente.

O encantador ateniense teve a honestidade de não explorar seus êxtases para apresentar-se como detentor de saberes divinos, o que significa que jamais pretendeu transmitir uma revelação ou um conhecimento “superior”. Paradoxalmente, afirmam outros estudiosos, vê-se Sócrates sempre repetir que “nada sabe”.

Mas a verdadeira questão em jogo é: “nada sabe em relação ao que?”. Vemos no pensamento socrático inúmeras referências aos mitos antigos dos reinos das almas [3], embora ele certamente jamais afirme “ter alguma certeza em relação a isso”. Mesmo ao ser condenado a morte, se pergunta “se estaria em situação melhor ou pior do que aqueles que ficariam do lado de cá”. Mas se a morte não fosse nada, no entanto, ele nada teria de se preocupar, afinal… Sócrates, porém, parecia se lembrar, parecia saber de algo que poucos homens na história compreenderam. No relato de sua morte, todos os seus amigos próximos estavam aos prantos, e ele parecia tratar a ocasião como “algo trivial” ou, quem sabe, apenas mais um de seus êxtases a se aproximar – só que este seria mais longo.

Aquele que se julga “normal” não encontra outra alternativa que não julgar Sócrates como “um louco”, da mesma maneira que muitos céticos de hoje em dia julgam as práticas místicas “uma loucura coletiva”. Mas, afinal, o que seria exatamente esta loucura em que as pessoas podem “entrar e sair”, e depois disso seguirem com suas “vidas normais”, sem terem nenhum tipo de incapacidade mental relacionada à prática em si? Sócrates foi um soldado, serviu bem sua pátria, e depois tornou-se um sábio, um filósofo, e encantou aos jovens, e enfeitiçou ao pensamento ocidental, muito embora pudesse muito bem ser julgado, segundo os padrões da “normalidade”, um perfeito lunático!

Não é sua culpa que tenham se usado de seu pensamento para construírem dogmas. Sócrates, afinal, não deixou nada escrito [4], e tampouco afirmou que tinha certezas. Todo o seu pensamento é baseado nas suas próprias dúvidas, sobretudo na maior delas, aquela que se colocava frente a algo em que não quis acreditar por toda a vida: “Que era, realmente, o maior sábio da Grécia” [5]… Passou a vida buscando por alguém efetivamente sábio, mas se viu cada vez mais solitário na empreitada.

Houvesse Sócrates encontrado alguém que tivesse, como ele, subido por breves momentos no alto da caverna, e visto ao sol diretamente, talvez pudesse ter com quem falar acerca do indizível. Talvez não, pois afinal as palavras, estas cascas de sentimento, estas cascas de êxtases pregressos, talvez estas sejam mesmo incapazes de explicar a inconcebível natureza da Natureza. Aquele que acha que sabe, não sabe. Aquele que sabe que não sabe, este começou, finalmente, a saber…

“Medita agora e examina a fundo, gira teu pensamento em todas as direções, recolhido sobre ti mesmo. Depressa, se cais em um impasse, salta para outra ideia de teu espírito; e que o sono doce ao coração esteja ausente de teus olhos”. (Sócrates em As nuvens, de Aristófanes, 700-705)

***

Bibliografia recomendada
Sócrates ou o despertar da consciência, de Jean-joël Duhot (Edições Loyola); Sócrates, o feiticeiro, de Nicolas Grimaldi (Edições Loyola).
[1] Em Cármides, de Platão.
[2] De fato, uma das acusações que levaram a sua pena de morte foi exatamente a de ateísmo: não seguir aos deuses locais, mas “à um outro deus desconhecido”.
[3] Ele também foi iniciado nos chamados Mistérios de Elêusis, embora muito pouco, ou quase nada para ser mais exato, nos tenha chegado acerca do significado oculto, esotérico, destes rituais.
[4] Há uma célebre e profundamente irônica crítica de Sócrates a escrita descrita no Fedro, de Platão.
[5] A pitonisa do Oráculo de Delfos uma vez lhe afirmou isso quando ele perguntou quem seria o homem mais sábio da Grécia. Ora, era ele mesmo!

Crédito das imagens: [topo] Wikipedia (Jacques-Louis David, A morte de Sócrates); [ao longo] Google Image Search

#Espiritualidade #Sócrates #xamanismo

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‘Satanomicon

Lord Ahriman – Registrado na FBN

Direitos cedidos ao Morte Súbita Inc.

Lord Ahriman poderia ser chamado sem medo de errarmos de o pai do satanismo no Brasil. Ele foi o fundador da Igreja de Lúcifer, IDL a primeira organização satânica a se erguer do lado de baixo da linha do equador. Também guarda o mérito de ter trazido para os trópicos a primeira cópia da Bíblia Satânica e o de ter sido o mestre primeiro de toda uma geração de satanistas, entre eles Bastard Obito, Betopataca e Morbitvs Vividvs, que vos escreve este prefácio.

Sua maior façanha, entretanto foi ele mesmo. Poucas pessoas foram aquelas que eu verdadeiramente admirei e respeitei já que em geral os seres humanos não possuem muito a chance de erguerem-se do lamaçal de mediocridade em que foram colocados. A maioria dos que admirei foi de uma maneira distante, pois ou estavam mortos a séculos ou separados pela barreiras da distância.  Mas neste hall da fama de pessoas admiráveis tive o prazer de conhecer Lord Ahriman.

Minha própria descoberta do satanismo foi causada diretamente pela fundação da IDL, onde eu e outros irmãos vivemos momentos únicos de saber e sabor, afinal este homem além de versado em filosofia e ocultismo foi também um grande cozinheiro. Infelizmente com esta obra o leitor não poderá provar nenhum macarrão a putanesca, mas poderá ter a mesma sensação de conversar e aprender com o autor, que tivemos naquela época.

Um livro no fundo é sempre isso. Um portal de invocação, com o qual podemos nos encontrar com pessoas que viveram em outras épocas e lugares. Não há melhor forma de invocar um ser do mundo dos mortos do que folhear páginas escritas por ele e manter no silêncio de nossa mente um diálogo interno como se ele estivesse bem ali na nossa frente.

O Satanomicon foi escrito entre Fevereiro de 2000 e Setembro de 2001 e trata de diversos pontos importantes sobre o modo de vida satanista. Ele reúne e apresenta aos que se aventurarem na sua leitura as mesmas sementes que fertilizaram o que já poderíamos chamar de um pensamento genuinamente satânico e independente latino-americano.

Hail Lord Ahriman! Hail Satan!

Morbitvs Vividvs,

Anno Satanas XLI

Índice

I.  Um grito no Estige

II. Um pouco de história

III. Gnose da sombra

IV. O plano astral

 

V. Os arquétipos infernais

VI. Palavras da escuridão

 

 

 

 

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Natureza Imperfeita

» Parte 1 da série “Reflexões sobre a perfeição”

A perfeição é um estado de completude e ausência de falhas. Normalmente atribuímos a perfeição a um Criador, um Ser Perfeito ou as Leis da Natureza.

Ante a grandiosa perplexidade que a observação profunda da natureza nos imprime a alma, somos inexoravelmente levados a crer que o Cosmos – tudo o que há, que foi ou que será – é perfeito. Apesar de ser muitas vezes complexo para nós definir tal perfeição, quase sempre a associamos com a beleza, a simetria, a homogeneidade das formas naturais.

Na geometria a perfeição parece estar associada ao círculo: um espaço onde todos os pontos estão à mesma distância do centro, e conseqüentemente não temos nenhum ponto em posição privilegiada em relação aos demais. Essa igualdade nos parece sublime, e muitas vezes a tentamos traduzir para a realidade, tanto que muitos símbolos e signos da geometria sagrada se baseiam ou contém o círculo… Entretanto, ainda temos o ponto central do círculo – este está em posição privilegiada, na medida em que está a mesma distância de todos os demais. O centro é necessário para que os outros pontos se sintam em igualdade. Retire o centro e teremos novamente uma guerra em busca do ponto de superioridade. É mais simples supor que Deus está no centro. A mente de Deus, o motor inicial do Cosmos, a essência da natureza – aí está a perfeição!

Porém, quando aplicamos essa noção ao espaço-tempo, não temos o resultado que esperaríamos. Segundo a cosmologia, é impossível definir um “centro espacial” do universo. Certamente segundo a teoria do Big Bang, toda a matéria e energia cósmica foi catapultada de um mesmo “ponto inicial”, mas o espaço-tempo cresceu por igual em todas as direções. É como se o próprio centro crescesse ele mesmo, e não os pontos que estavam a sua volta… Nenhum ponto do universo está “em torno de algum centro”, pois que todo o espaço-tempo é ele mesmo um único ponto original que simplesmente cresceu rumo ao infinito. Não há nada fora nem além do universo – e, se é que há, haverá de ser o que o criou.

Costuma-se imaginar que a natureza é perfeita. Perfeita, simplesmente porque é o que havia já aqui muito antes de nós chegarmos (ou pelo menos, muito antes de nossa lembrança de estarmos conscientes da chegada). Como imaginar uma natureza imperfeita? Como imaginar falhas no projeto da criação? A ciência tem descoberto algumas…

Por exemplo: a grama é verde por causa do pigmento clorofila, que absorve as regiões azuis e vermelhas do espectro eletromagnético da luz solar. Por causa dessas absorções a luz que a grama reflete nos parece verde. Entretanto, as regiões verdes e amarelas do espectro da luz solar são as mais energéticas. Portanto, se formos pensar em perfeição no sentido de funcionalidade, a fotossíntese das plantas traria muito mais energia química caso a clorofila absorve-se as regiões verdes e amarelas do espectro, ao invés de absorver as regiões azuis e vermelhas. Seria isso um “erro de design” da natureza?

Não paremos por aqui. Se a grama parece ter “escolhido a cor errada”, mesmo o tão aclamado “projeto homo sapiens” parece ter os seus erros… Soluços, por exemplo, que variam de um aborrecimento passageiro a uma doença que pode durar meses ou, em raríssimos casos, anos. O soluço é provocado por um espasmo de músculos na garganta e no peito. O som característico é produzido quando inspiramos ar repentinamente enquanto a epiglote, uma aba de tecido macio localizada no fundo da garganta, se fecha. Todos esses movimentos são involuntários; soluçamos sem nem pensar no assunto. Os soluços revelam pelo menos duas camadas da nossa história evolutiva: uma parte compartilhada com os peixes e outra com os anfíbios, de acordo com uma teoria bem fundamentada [1].

Herdamos dos peixes os nervos principais usados na respiração. Um desses conjuntos de nervos (frênico) estende-se da base do crânio ao tórax e ao diafragma. Esse caminho sinuoso cria alguns problemas; qualquer coisa que interrompa o trajeto desses nervos pode interferir na respiração. Uma simples irritação pode deflagrar os soluços. Um projeto arquitetônico mais radical do homo sapiens teria colocado o início dos nervos frênicos em local mais próximo do diafragma e não do pescoço.

Já o soluço em si parece ter vindo do passado em comum com os anfíbios. Quando usam a respiração braquial, eles enfrentam um grande problema – precisam bombear água para a boca e garganta e depois para as brânquias, mas essa água não pode entrar nos pulmões. Como conseguem isso? Enquanto inspiram, eles fecham a glote, impedindo que a água escoe pelas vias respiratórias. Pode-se dizer que eles respiram com as brânquias usando uma forma estendida de soluço. Remexendo em nossa história evolutiva, vemos que uma boa parte dela se deu em oceanos, córregos e savanas – e não em cidades, igrejas ou academias.

Para muitos religiosos, essa “ousadia” em se criticar a natureza suscita um senso de ingratidão, de falta de respeito… Provavelmente são os mesmos que criticam qualquer tentativa dos biólogos e geneticistas de “intervir” na natureza – clonando, modificando, até mesmo adicionando informações a obra divina.

Louis Pasteur dizia que “uma pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima”. Eu gostaria de estender essa citação a religião: “um pouco de religião nos esconde a Deus. Muito, nos mostra-O em todo o Seu esplendor”… Para tentar lhes demonstrar o que eu quero dizer com isso, é preciso primeiro falar sobre o paradoxo da perfeição…

» Na continuação, as imperfeições que geraram o Cosmos, e uma visão mais aprofundada do que é realmente a perfeição.

***
[1] Para saber mais consultar “A história de quando éramos peixes”, de Neil Shubin (Ed. Campus).

Crédito da foto: James L. Amos/Corbis

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

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#Filosofia #Geometria #natureza #perfeição

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A Roda da Paixão

Keith Dowman estudou com S. S. Dudjom Rinpoche, é o tradutor da biografia de Yeshe Tsogyel (retirada do ciclo de termas descobertos por Taksham Nuden Dorje e publicada em inglês com o título “Sky Dancer”), e atualmente organiza peregrinações pelos lugares sagrados do Budismo Vajrayana. Neste excelente ensaio retirado de seu site na Internet (http://www.keithdowman.com) ele fala com muita propriedade da sexualidade humana no contexto dos venenos mentais.

Há muitos ciclos no fluxo de nossa experiência. Os ciclos macrocósmicos são os incontáveis renascimentos, o ciclo do nascimento até a morte, ciclos (ou uma espiral) de sete anos de amadurecimento do corpo-mente, o ciclo anual das estações, o ciclo lunar com seu ciclo feminino correspondente, o ciclo diário, etc. Os ciclos internos microcósmicos são a rotação entre atração, aversão, desinteresse e de novo atração, da felicidade até a tristeza e de volta, da aberta extroversão social à introversão anti-social. Todos estes ciclos de experiência compõe a roda da vida, também chamada de roda do tempo, já que as mudanças da vida têm origem no tempo em constante mutação. A roda externa gira devagar, a roda interna muito rápido. A velocidade giratória da roda interna é determinada por muitos fatores diferentes. Emoções voláteis aceleram a roda, consciência plena de cada momento de experiência emocional a retarda. Ações impulsivas a aceleram, paciência a retarda. Indulgência acelera, disciplina retarda. Gira depressa na juventude, quando as mudanças acontecem em rápida sucessão, e paulatinamente fica mais devagar enquanto envelhecemos e as mudanças diminuem. Independente da velocidade, a roda da vida compõe nossa vida interior e nossa experiência, e dentro dela somos controlados por nossas emoções.

É simples ilusão acreditar que estamos em controle da roda, que o ego que pensa a domina, olhando de perto fica evidente que nossos pensamentos são reflexos de nossos sentimentos. É como se o volante fosse guiado pelas curvas na estrada, não pelas mãos que o seguram. O rabo do cachorro é o nosso pensamento, o cachorro é nossa emoção, e é o cachorro que abana o rabo, não o rabo que abana o cachorro. Mesmo quando nossos sentimentos são profundamente reprimidos e a mente racional domina, ainda assim nossos pensamentos são determinados de forma sutil por nossos sentimentos inconscientes.

A roda da vida gira veloz e furiosa especialmente na juventude, quando podemos estar sentados no topo do mundo em um minuto e logo nos encontramos jogados num espaço alienado solitário de raiva e ódio. Particularmente na adolescência as oscilações emocionais do processo são ativadas pelos impulsos sexuais e a carga emocional tem uma fonte sexual. O sentimento de autoconfiança num mundo colorido surge mais freqüentemente de uma sensação de satisfação sexual no qual um corpo-mente juvenil é lisonjeado pelo amor, pela concessão de simpatia e sensualidade. Quanto maior a sensação de auto-admiração e auto-congratulação mais intensa a dor e perda quando nosso objeto de amor está compartilhando prazer com outra pessoa. A inveja obceca a mente completamente. Retirado do objeto de amor e sem nenhuma chance de satisfação, o estado de mente equivocado em que estamos recebe reações negativas de outros parceiros, e a frustração aumenta. A angústia dessas algemas torna o mundo inteiro negro e mesmo amigos parecem inimigos, seus comentários comuns tornam-se dardos ameaçadores. Ira e violência inconscientes contra pessoas ou coisas é geralmente uma saída possível dessa armadilha, e giramos num mundo frio fechado em si mesmo onde somos presas igualmente de nossos amigos e inimigos. Quando essa catarse completa-se, a energia desgasta-se, podemos retornar a humanidade novamente para encontrar a possibilidade do amor e da comunicação. São estágios no ciclo do amor-apego adolescente e a roda pode girar completa em um minuto, uma hora ou um dia.

Então a roda da vida pode ser articulada como a roda do desejo sexual e apego. Força vital, luxúria pela vida e sexo com um apetite voraz por prazer são seus mecanismos, e toda a gama de emoções é posta em movimento. Enquanto envelhecemos nossos padrões de hábitos sexuais estabelecem-se, nossas preferências sexuais ficam mais explícitas, e torna-se evidente qual emoção, qual disposição de mente na roda do apego sexual nos domina. Podemos ficar presos num mesmo estado por dias, meses ou mesmo anos, e de acordo com nossas personalidades sexuais aproximamo-nos dos arquétipos que nos definem sexual e socialmente. Somos a vítima ou virgem eterna, o sensualista, o competidor, o viciado em sexo, o demônio ou terrorista sexual, o predador — ou o iogue do amor búdico. Estes rótulos denotam tipos psicossexuais, tipos de personalidade sexual. Cada personalidade é dominada por uma emoção daninha particular, que colocadas na vida sexual geram um complexo psicossexual tirânico. Estas emoções são especificamente ansiedade, orgulho, luxúria, inveja, raiva e medo.

A Eterna Virgem

A ansiedade está na raiz da psique de todos nós e o medo é o veneno da mente. Todas nossas respostas sexuais surgem da ansiedade. Esta é estabelecida de nosso sentido de separação, de nossa solidão, que surge no nascimento com o fim de nossa unidade com a mãe no útero e a entrada num mundo alienígena. Enquanto crescemos e nossa consciência amadurece, ficamos mais e mais conscientes de nossa separação e isolamento do exterior. Há um rompimento entre o “Eu” e o outro, “Nós” e “o inimigo”, e, olhando para o mundo de dentro de uma bolha, a ansiedade surge com todas as percepções. Quando algo ameaçador é percebido fora, quando “o outro”, “o desconhecido”, ameaça invadir nosso espaço, então a ansiedade gira rápido e a adrenalina jorra em nosso corpo-mente. Quando o desconhecido é um homem ou mulher excitado ameaçando a invasão de nossos corpos, o medo cria um muro de proteção que nos “protege” de seus avanços.

A virgem, incerta de sua identidade sexual, é muito consciente desse mecanismo, mas ele aflige — e protege — todos nós. Quando encontramo-nos num estado de ansiedade, inseguros de nossa identidade pessoal, social e sexual, a ansiedade surge na mente. Se temos egos imaturos, como na juventude, então precisamos escalar uma montanha de mente de forma a ganhar um sentido de quem somos. Não podemos nos engajar sexualmente ao menos que haja confiança suficiente para banir essa ansiedade básica. E a perda do ego só é possível depois que o ego formou-se e possui um forte sentido individual e, da mesma forma, o orgasmo não é atingível até que um limiar de tensão seja alcançado onde o relaxamento permita alívio e ejaculação. Se nossos egos estão formados, como quando somos adultos, mas um sentido de inferioridade ou baixa auto-estima nos contamina, novamente somos presas da ansiedade que inibe o ato sexual.

Abuso sexual na infância, experiências dolorosas ou traumáticas na adolescência, repetida rejeição, relacionamentos infelizes, qualquer um destes pode induzir a ansiedade que reforça uma resposta habitual negativa aos avanços sexuais. O desejo não é forte o bastante para romper através da resistência e a rejeição torna-se uma resposta automática. O desejo é reprimido e um celibato indesejável, ou pelo menos equivocado, é forçado. Porém podem surgir circunstâncias externas em que as barreiras se rompem — através do álcool, pelo sentimento de segurança completa com um determinado parceiro que gera aumento incomum na autoconfiança — e a paralisia enfim relaxa. A perda da virgindade pode então ocorrer, mas neste caso impotência, ejaculação prematura e incapacidade para alcançar o orgasmo podem acontecer. Tire todas as condições externas e estamos de volta à velha síndrome da virgindade perpétua e da mentalidade “chá de cadeira”. Se nossa excitação heterossexual é freqüentemente frustrada pela ansiedade, se o medo do sexo oposto é um obstáculo insuperável à realização, então o fluxo do desejo pode desviar-se para a opção menos ameaçadora do apego ao mesmo sexo, e forma-se um hábito homossexual. Falta de experiência pode levar a atrasar nosso desenvolvimento sexual e podemos ficar presos numa prática pré-adolescente aparentemente inofensiva que leva ao sexo com crianças. Podemos também tomar refúgio no auto-amor e narcisismo que torna a masturbação o escape comum.

A ansiedade vem juntamente com cada resposta sexual, mas a irrepreensível, inegável, emoção da luxúria, alimentada pelo orgulho e inveja, geralmente a dissolve e supera. Se fatores de inibição evitam este processo, a excitação heterossexual desvia-se. Mas há outra forma de desvio — a síndrome de vítima. Virgens eternas de ambos os sexos podem cair nesta armadilha, mas como a natureza fez a mulher com uma psique mais frágil e a fazem mais propensa a passividade e a submissão, sua vulnerabilidade maior torna-a mais suscetível. A vítima não precisa mais do que obedecer, permitindo que suas tendências de rejeitora sejam ofuscadas, sem tomar responsabilidade por suas ações. Se ela tem uma história de abuso na infância, estupro ou tratamento indelicado de corpo ou de mente em algum ponto de sua existência —qualquer experiência sexual que destrua a auto-estima — então a síndrome já está parcialmente formada. Ela pode cair vítima de qualquer dos tipos psicossexuais: ao sensualista que a utilizará como um brinquedo ou como um estimulante erótico, ao competidor que exige total obediência e a mantém sob seu completo domínio, ao viciado em sexo que nela despeja sua frustração, ao demônio sádico que pode levá-la as mais baixas de suas espúrias inclinações, e ao predador que a possui e abandona de acordo com sua vontade. A vítima pode fazer um casamento desigual, onde ela é usada e abusada ou pode ser forçada à opção mais torpe — prostituição.

Os Sensualistas ou Deuses do Amor

Amor é um meio eficaz de dissolver a ansiedade e romper a paralisia dos efeitos do medo. É um antídoto eficaz contra o veneno mental do medo. Ser amado é sentir-se seguro sexualmente e induz a confiança na qual mutualidade sexual pode surgir. Perdemos todas as inibições. Estar amando é um estado aberto onde o dar e receber físico são uma alegria. Neste estado podemos preencher as necessidades sexuais tanto nossas quanto de nosso parceiro e entregarmo-nos a nossos caprichos sexuais. Pode não ser na primeira noite, no leito de núpcias, que as coisas se ajeitem, mas na lua-de-mel de um casamento ou de um caso amoroso, há tempo e meios para experimentações e explorações que levem a uma compreensão e resposta física às necessidades e preferências mútuas. As preferências eróticas são reveladas, zonas erógenas exploradas, posições sexuais testadas, e os parâmetros mais satisfatórios de tempo e espaço são determinados — tudo isto como um fim em si mesmo, não como um meio de estabelecer um padrão físico de comportamento. Com o conhecimento crescente dos corpos-mente de cada um, nossas identidades sexuais são focalizadas, e isto aumenta a auto-confiança, incrementa a auto-estima e cria um ambiente para o desenvolvimento dos elementos básicos do amor erótico que já foram estabelecidos.

Talvez, neste ponto, se somos confiantes o suficiente em nós mesmos, então o elemento emocional no relacionamento torna-se menos significativo. Somos apanhados pela simples intensidade sensorial do toque e da sensação nas preliminares e união física que se prolongam por horas em múltiplas sessões diárias de brincadeiras sensuais. Sexo e amor são a razão para existir e tornam-se prioridade. Apreciamos e elogiamos a beleza um do outro. Nossos corpos respondem de maneiras anteriormente inimagináveis. Nos completamos através da comunicação entre nossos corpos e da troca de fluidos sexuais. O orgasmo nos dá um gostinho de prazer divino, e a satisfação mútua insinua a totalidade divina do ser. Fantasias são realizadas — o que quer que façamos é nossa fantasia realizada instantaneamente. A adoração mútua amplifica a sensação de ser um deus e uma deusa num paraíso sensual. Porque não podemos prevenir um fluxo de felicidade para fora de nossa bolha de união — e todos amam um amante — nosso estado paradisíaco de ser reforça-se socialmente.

Até quando isto durará? Quando começará a apodrecer? Quanto demora para virar rotina? Quanto demora até que o amor seja contaminado por incompatibilidades de personalidade? Quanto demorará até que a rotina e diminuição da interação diária criem dúvidas mesquinhas, medos e sementes de desconfiança? Pode ser uma hora ou uma vida inteira, mas eventualmente aquele brilho inicial de prazer inocente declina. Geralmente é um sentido de “eu” que anuncia esta perda. Tornamo-nos empanturrados de ego, pensando que é um “eu” que cria a situação. A vaidade introduz-se. Perdemos a vergonha ao fazer amor, todo sentido de humildade a frente do grande enigma do amor é perdido, e ostentamos nosso sexo para nosso parceiro e para o mundo em geral. Já não há frescor e pureza na exploração sensual e o desabrochar do amor se dissolve. Levados por um hábito condicionado e pela ânsia de reconquistar as alturas da fase de lua-de-mel, continuamos com a mesma paixão desinibida, mas nossos sentidos estão cansados. Aos outros nossa persona é feia e perdemos credibilidade e apoio social.

Ainda com um orgulho e autoconfiança inabaláveis, recebendo continuamente prazer, permanecemos neste reino de prazer divino, e juntamo-nos aos muitos sensualistas de carreira. Não mais precisamos de nosso primeiro e pequeno amante e a variedade da experiência sexual torna-se o tempero do prazer. Então ficamos presos em um paraíso sensual com uma sucessão de amantes — ou cônjuges — que concedem-nos mais da mesma satisfação e também, até certo ponto, satisfação emocional. Tornamo-nos aristocratas sexuais, prima donnas e estrelas, experimentados e fáceis num ambiente sibarítico, alguém com sorte no amor. Este é o mundo do playboy, da cortesã e da gueisha. Tomamos isto como garantido e ficamos desdenhosos de um parceiro que ainda tenha um mínimo de vergonha e conseqüente inibição. A massa dos neuróticos sexuais é tratada com desprezo e ao sibarita entediado a vontade de fazer jogos de poder com deuses menores e meros mortais suscetíveis à inveja ou levados a competição é um prazer. Nenhuma pena ou compaixão modifica essas atitudes ou ameniza as regras dos jogos, e nossos parceiros sofrem. Usamos e abusamos do sexo oposto como brinquedos, como prostitutas ou gigolôs. Uma sem-vergonhice que pode parecer aos outro como obscena ou lasciva distingue nossa atividade sexual. Ficamos com múltiplos parceiros ou programamos orgias para maior estímulo erótico. Qualquer orifício é tão bom quanto qualquer outro para penetração e gratificação. A bissexualidade é um recurso para o apetite entediado, e o sexo anal ou oral se tornam finalidades e não meros aspectos de preliminares. Os charmes de virgens, jovens, e parceiros exóticos podem ser particularmente tentadores ou atraentes. Os dogmas do Maquês de Sade podem tornar-se nosso credo como uma fuga do declínio inevitável do corpo envelhecido e da desilusão mental.

Os Competidores

A fase lua-de-mel dura somente o enquanto o tecido do relacionamento permanece inteiro. Quando aparecem rupturas na mutualidade da vivência sexual, quando desigualdades percebidas surgem, fracassos no dar e receber recíprocos, desentendimentos de motivo e intenção, o amor está envenenado e a desconfiança dá espaço para ciúmes reais ou imaginários. O ciúme desenvolve-se de nossa desconfiança. Aqui não há necessidade de um terceiro. Se duvidamos da motivação de nosso parceiro então nosso ciúme primeiro surge simplesmente como uma constante vigilância acompanhada de uma atitude de defesa. Se os fracassos em nosso amor persistem então a atenção ansiosa torna-se possessividade, que pode ser criada pelo amor, mas é contraproducente e aumenta a tensão no espaço entre nós e nosso parceiro. Neste espaço a competitividade se desenvolve. Se somos objeto de ciúmes, percebemos uma vantagem emocional perante nosso parceiro possessivo e defensivo e a exploramos. Se somos aquele marcado pelos ciúmes, então o domínio de nosso parceiro aumenta a desconfiança, nossos ciúmes exacerbam-se e precisamos da sensação de controle para contra-atacar a insegurança presente. O palco agora está pronto para uma guerra dos sexos por controle e dominação. Alguma forma de amor degenerado ainda está presente, ela nos gruda ao relacionamento, e esse apego —talvez seja apenas a memória de uma fase mais generosa de relacionamento — exclui a possibilidade de apenas ir-se embora.

Ainda lembrando a sensação de poder e saciedade divina da fase de lua-de-mel, ainda auto-satisfeitos e convencidos pela memória destes momentos de divindade, ficamos amargos por sua perda. Sentido-se ameaçados no espaço da separação, procuramos nosso ego como refúgio, elevando-nos e colocando o parceiro e adversário para baixo com desprezo e desdenho. Confrontação física e verbal marcam nosso relacionamento. Tecemos redes de intriga alistando aliados para a guerra. A mulher— com maior suscetibilidade aos ciúmes — e o inferno não conhece fúria igual a de uma mulher traída — corroendo seu coração nesta era de feminismo, pode alistar um exército de mulheres a seu lado e o relacionamento torna-se uma guerra dos sexos na qual o caminho da opção pelo lesbianismo pode tornar-se uma desagradável arma estratégica. Outros objetos de amor ou parceiros sexuais podem ser trazidos para o relacionamento como armas táticas. O macho, porém, retirado de sua equanimidade, crescentemente toma refúgio numa atávica mente masculina para combater as trapaças da mulher, o que por sua vez leva a ainda maiores excessos da parte dela.

Toda essa castração ciumenta pode impedir a prática sexual. Mas logo ontem estávamos satisfazendo um ao outro todas as noites com resposta mútua intuitiva e sensível, e a partir do hábito e do desejo energizados pelo combate, a batalha pode tomar formas físicas e emocionais na cama. Aqui a paixão do ciúmes transporta-se para o desejo, e a amargura mútua torna-se estímulo e satisfação recíprocos. A ânsia para controlar focaliza a atenção em técnicas de sedução, excitação e fuga, que refinam e sofisticam as preliminares e a união. Tais técnicas podem refinar-se em jogos sadomasoquistas nos quais ambos parceiros conseguem gratificação em posições de submissão e dominação. Mas tais momentos de reaproximação e gratificação mútua tornam-se menos freqüentes a medida que a espiral de combate alarga-se e cada mais aumenta a distância entre os parceiros, o que causa uma desconfiança idêntica a uma paranóia, e então chega o momento da separação ou do divórcio.

O hábito da competição nos seguirá após o relacionamento de origem até a arena da procura por outro parceiro. Aqui a energia de nossa ambição de dar-se bem e vencer, não só numa competição sexual, mas em todos os aspectos da vida, será vista como uma qualidade desejável por um parceiro igualmente ambicioso. Mas se nossa sorte acabar e se somos rejeitados por nosso escolhido, trocados por um amigo talvez, e então nossa outra melhor escolha nos abandona por um par na corrida dos ratos, a velha propensão para o ciúme é inflamada num espaço sem amor, solitário, onde podemos facilmente virar presas de um ciúmes obsessivo. A inveja daqueles que ainda nadam em seus ambientes sibaríticos de gratificação mútua é sentida como arames-farpados em nossa carne. Aqui somos os amargos cínicos que de caso pensado incendiam os balões de outras pessoas, frustramos seus planos, afundamos seus negócios, promovemos a motivação negativa e tentamos desviá-los a cada momento num jogo constante de um homem só. A política sexual e o próprio sexo são aqui um jogo sem amor, jogado com uma desconsideração sem misericórdia pelos sentimentos envolvidos na competição. Acumulando habilidades verbais e políticas nesta dança de ciúmes e inveja tornamo-nos o político da cama, o manipulador sexual, o jogador obcecado pela derrota do competidor e pelo troféu, ou nosso parceiro. Mas durante os procedimentos uma paranóia assustadora nos compele a olhar repetidas vezes sobre nossos ombros vigiando atrás, e nos entupimos de suspeitas. Estamos alienados constantemente, e com esta sensação de exclusão da sociedade e do sexo oposto, nossa frustração e ansiedade aumentam paulatinamente.

Viciados em Sexo

O viciado em sexo pensa no assunto como se fosse o elixir da vida. Ele é obcecado por seu desejo ao ponto da exclusão de todo o resto. Mas ele não consegue se dar bem. Ele precisa, mas não consegue. A intensidade dessa ânsia insaciável impede a gratificação. Se através da intervenção divina ele consegue, não encontra satisfação alguma. Ele divaga invisivelmente numa busca constante de alívio num deserto sexual sem romance, erotismo ou estímulo sensual. A intensidade grosseira de sua necessidade o torna repugnante aos parceiros potenciais. Se ele encontra uma mulher que tem pena dele o suficiente, ou que não tem discernimento, e que concederá para ele, sua luxúria indiscriminada, sua obsessão auto-direcionada e focalizada, a deixarão frígida. Se ela consegue ignorar sua urgência patética, as preliminares são um ritual pálido auto-consciente e seu desejo nervoso o deixa impotente. Se seu mecanismo sexual automático permite uma ereção, ele não consegue penetrá-la. Se eventualmente consegue, seu orgasmo é prematuro ou mesmo com esforço árduo e prolongado ele não consegue ter um. Se ele ejacula não há satisfação no ato, nenhuma gratificação e nenhuma diminuição do desejo. Sua parceira fica angustiada e insatisfeita e ele volta a divagar solitário novamente num deserto com um desgosto miserável. Apesar de virtualmente invisível aos outros, ele pode observar seus romances, suas brincadeiras eróticas, suas gratificações mútuas, o que aumenta ainda mais sua luxúria inquietável. Seu recurso a masturbação é ameaçado pelos mesmos mecanismos, e também pela ineficácia de suas fantasias sexuais, e ela deixa-o somente com um desejo ainda maior.

A viciada sexual é afligida de forma semelhante, divagando pelos terrenos baldios sexuais em busca de gratificação. Sua ânsia inibe a demonstração de sinais sutis e linguagem corporal que poderiam atrair os parceiros apropriados. Sua obsessão única a torna feia e repugnante. Mas já que seu papel na dança sexual é mais passiva e os homens estão menos interessados em seu estado mental do que em seus genitais ela ainda consegue atrair parceiros potenciais. Suas respostas verbais grosseiras, de mau-gosto, auto-piedosas ou lascivas, eliminam a excitação de muitos dos que ela atrai, mas ainda assim ela tem oportunidades de engajar-se sexualmente. Mas ela é completamente insaciável e nenhuma quantidade ou intensidade a gratificarão. Para ela um orgasmo ou catarse satisfatórios são impossíveis, apesar de todas as mínimas potencialidades de prazer a levarem em busca de satisfação. A urgência de sua necessidade física é acompanhada de comandos autoritários. Inflamada e insatisfeita com um ato sexual, com ou sem um parceiro, ela imediatamente busca outro. Sexo é a única coisa que substancia sua sensação de existência. Ela é a ninfomaníaca.

A causa dessa ânsia sexual frustrada não parece surgir do medo — embora o medo possa estar em sua raiz — mas sim como uma separação dos outros. Nos sentimos cortados, ilhados, isolados além dos relacionamentos. Quando nossa energia sexual é estimulada e intensificada por uma ligação emocional e sexual e então nos vemos privados da fonte de nossa gratificação por uma rejeição no amor ou fracasso sexual, ou apenas por um tempo dado em um relacionamento, somos deixados com uma sensação amplificada de eu e uma consciência hipertrofiada das diferenças que separam-nos de nosso amante anterior. A infidelidade é a forma mais eficiente de aumentar o espaço entre nós e um parceiro com quem estamos comprometidos. Ao procurar restabelecer um relacionamento, através do prender e agarrar, nós apenas empurramos o objeto de amor para mais longe e criamos um ciclo vicioso de apego — quanto mais ansiamos e buscamos, maior a distância entre nós e maior a necessidade pela união. O viciado em sexo equivoca-se entre uma necessidade espiritual e emocional e uma satisfação sexual, e já que alguma comunicação humana precisa anteceder a prática sexual, a união é sempre inatingível.

Mas antes que a luxúria obsessiva nos domine completamente, e antes que a satisfação seja calculadamente ameaçada por uma busca unidirecional de orgasmo e alívio sexual, podemos apenas recorrer aos extremos do estímulo sexual para nos excitar. A conexão entre sexo e violência pode ser explorada em sadomasoquismo, e no extremo da impotência e frustração, infligir ou sofrer dor física é um meio de excitação. A realização de fantasias sexuais, como amarras ou regressão infantil, pode ser utilizada pelo viciado em sexo para excitar os sentidos entediados ou a sexualidade inibida de forma a sugar um pouquinho de alívio sexual e gratificação. Nosso parceiro pode ser um viciado de outro sexo que está suscetível a nossas necessidades e que de fato dará boas-vindas a atenção que damos, mas ele também pode ser uma vítima vulnerável sobre a qual podemos despejar a força completa da luxúria frustrada.

O Terrorista Sexual

A ânsia frustrada é aliviada pelo relaxamento a um nível de consciência humana onde a comunicação com os outros seres é restaurada e a mutualidade num relacionamento sexual torna-se possível novamente. Mas e se o relaxamento nos escapa e o ciclo vicioso de separação e desejo continua a focalizar a consciência de nosso eu como uma entidade isolada, secionada? Já que ninguém e nada nos dá nenhuma sensação de liberdade e somos incapazes de discernir até mesmo uma diminuta partícula de simpatia, uma aversão pelo mundo inteiro surge. A raiva pela injustiça de nossa situação miserável comparada com a felicidade dos outros deixa-nos ainda mais amargos e mordazes. Solitários e alienados do mundo e da humanidade ficamos apavorados, e um grão de medo entra a cada momento de percepção envenenando-nos contra qualquer estímulo positivo. Começamos a odiar, não somente o que é odioso, mas o que quer que surja em nossos sentidos. A paranóia estabelece-se.

Se ainda estamos em um relacionamento quando o medo e a raiva nos possuem então nosso parceiro vai ter de agüentar a maior parte de nossa dor. Confundimos as atitudes de nosso parceiro solidário com o relho de um inimigo e reagimos cruelmente. Queremos punir nosso amante por criar este estado. “O outro” é o culpado. Expressamos nossa alienação, nossa raiva e medo, em abuso verbal, perseguição mental, o/a excomungando sexualmente, nos recusando e negando comunicação. Projetando nosso próprio estado mental sobre nosso parceiro reagimos como se ele/ela tivesse conscientemente nos infectado com AIDS, percebendo ele/ela como um demônio, nos torturando, procurando nos infligir o máximo de dor. Esta é a reação reflexo de um paranóico incapaz de distinguir entre o inferno ilusório que ele/ela mesmo/a fez e a realidade externa. Se possuímos uma noção da miserável impropriedade de nossas ações, odiamos as amarras em que estamos, causando ainda mais uma volta de comportamento violento.

Neste estado de aversão e medo crônicos não há possibilidade de contato sexual mútuo. É um estado de paralisia sexual. Mas esta dormência da resposta sexual pode ser facilmente quebrada. Quando medo e ódio entram em espiral além da tolerância da consciência nossa raiva torna-se violência física — aqui estão o homem que bate na mulher, o amante esbofeteador que perde as estribeiras —a violência torna-se um estímulo sexual e o estupro é a forma que toma. Perdendo o controle, o terrorista sexual é o sádico, o estuprador, o assassino sexual e o produtor de filmes snuff (N. do T. — filmes onde violência, estupros e mortes reais acontecem.).

Os Predadores

O inferno do medo e da raiva paranóicos também passa. A roda gira, e emergindo daquele buraco escuro no chão, rastejamos da aversão excessiva para dentro do mundo negro do predador. Nossa raiva já queimou a si própria, e nossos impulsos e ânsias destrutivas estão saciados. Em seu lugar há uma energia instintiva pela sobrevivência e uma astúcia grosseira. Nossa ânsia sexual é desinibida e descontrolada. Não temos auto-estima e não temos nenhuma responsabilidade moral ou discriminação, então homem ou mulher, sexo anal ou oral, são igualmente aceitáveis nesta esfera bissexual. O homem pode utilizar sua força bruta para conseguir o que quer. Um traço implícito de violência física é suficiente para efetuar uma intimidação física inicial. Este tipo de sexo é luxúria bruta, fisicamente grosseira. Neste mundo crepuscular a virgem eterna é particularmente vulnerável.

O macho predador possui qualquer fêmea que consegue dominar. Sua parceira é a vítima mais acessível. Se ele não tem uma parceira, então uma mulher com uma ausência parecida de auto-estima num estado similar de excitação é acessível, já que neste estado instintivo somos muito sensíveis aos ferormônios e somos naturalmente atraídos a parceiros de mentalidade similar — o predador não é necessariamente um estuprador. Prostitutas e prostitutos, e trabalhadores sexuais em geral atendem ao predador que têm alguma sensibilidade para relações. Qualquer parceira será usada sem remorso ou restrição alguma, num nível instintivo de sexo grosseiro, com o orgasmo e a ejaculação como única finalidades. O homem preso neste estado aprende a usar sua força física, identifica a vítima como um leão a sua presa, rejeita qualquer preliminar, e conclui o ato sexual em muito pouco tempo, provavelmente com ejaculação prematura.

A predadora fêmea neste estado é a desvairada mulher pornográfica, grosseiramente expondo seu sexo e focalizada unicamente na satisfação de ser inseminada. Mas ela pode ser tão ardilosa quanto o homem em sua caça, uma víbora que alimenta-se de homens inocentes e burros. A força física não é sua arma, embora o tamanho e a energia possam igualmente servir para intimidar sua vítima masculina. Mas é mais provável que seja com sua fria e penetrante mente que o seduza, como uma aranha atraindo a mosca para a teia. Uma vez que seu desejo for saciado ele é abandonado, jogado na pilha de seus rejeitados. Como uma vampira ela suga os fluidos sexuais que lhe dão vitalidade e então o descarta, e como a vítima de um vampiro, ele é condicionado a seguir o mesmo método no futuro.

A Oportunidade do Iogue

Da mesma forma que alguns animais podem ser domesticados e seu instinto “sobrevivência do mais forte”, “mate ou seja morto” subjugado por uma promessa de segurança e estabilidade, o predador sexual pode ser socializado pela promessa de um maior prazer a ser alcançado através da sensibilidade e conseqüente mutualidade de um relacionamento. Seguimos um processo parecido quando temos estado perdidos numa neblina de inércia e preguiça, onde nossas respostas sexuais são lentas e diretas, nosso prazer abreviado, e onde os relacionamentos são difíceis de cultivar. Através da intervenção de um novo parceiro potencial uma janela abre-se para os prazeres de uma sexualidade refinada, erótica, com uma sensibilidade moral e um aspecto emocional satisfatório, e esta cenoura balançando a nossa frente é suficiente para revitalizar nossa sexualidade e nos conduzir para uma nova dimensão de satisfação.

Nesta dimensão absolutamente humana há segurança emocional, e podemos relaxar e explorar as promissoras possibilidades de um relacionamento sexual. Podemos treinar fisicamente, com ioga ou algum tipo de exercício, e experimentar diferentes posições sexuais, estilos, respirações, aumentando ou diminuindo o tempo da atividade sexual e assim por diante. Dentro e fora do quarto estamos mais conscientes das nuanças do relacionamento entre os sexos e os benefícios que uma resposta sensível e altruísta pode conceder, e nossa consciência desta dimensão da sexualidade é alargada e amplificada. Neste processo de sensibilização e socialização alguma culpa e vergonha por nosso passado de grosserias, egoísmos e crueldades pode ser útil ao nos motivar para um estado onde a mutualidade desabroche. Algumas pessoas ficarão presas neste processo de treinamento sexual, onde a atividade sexual é um ritual físico agradável sem qualquer chance de espontaneidade. Mas se este poço é evitado, nossa sexualidade desenvolvida e amadurecida através do autodesenvolvimento, chegamos em um lugar onde um parceiro potencial acena de um paraíso de sensualidade, prazer elevado e alegre satisfação. A maioria de nós seguirá esta opção e mover-se-á para um outro ciclo na roda da paixão sexual. Mas alguns dirão, “De novo não!”, “Nunca mais!” e tomarão o caminho do Amor Vajra.

Traduzido do inglês por Padma Dorje.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/a-roda-da-paixao/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/a-roda-da-paixao/

A Verdadeira História do Necronomicon

“basta que um livro seja possível para que exista.”
– Jorge Luis Borges

Escrevendo sonhos…

 

Dentro dos contos que formam o Mito de Cthulhu, o leitor se depara com duas dimensões: o mundo humano normal e o Exterior infestado. É a tensão ontológica entre essas duas dimensões que dá poder ao Realismo Mágico Lovecraftiano. Apesar de Cthulhu e seus amigos possuírem aspectos materiais, a sua realidade é horrenda quando paramos para escutar o que ela diz a respeito do universo. Como o estudioso de Lovecraft, T.S. Joshi observa, os narradores dos contos de Lovecraft freqüentemente enlouquecem “não por causa de qualquer tipo de violência física nas mãos de entidades sobrenaturais, mas pela mera realização da existência de uma tal raça de deuses e seres”. Diante de “reinos cuja mera existência atordoa o cérebro”, eles experienciam graves dissonâncias cognitivas – precisamente os tipos de ruptura desorientadoras buscadas pelos magos do Caos.

O jogo RPG “O Chamado de Cthulhu” expressa maravilhosamente a violência desta mudança de paradigma Lovecraftiana. Em jogos de aventura como “Dungeons & Dragons”, uma das medidas mais significativas do seu personagem são seus pontos de dano – um número que determina quanto de punição física seu personagem pode receber antes de se ferir ou morrer. “O Chamado de Cthulhu” substitui esta característica física pela categoria psíquica da sanidade. Encontros face-a-face com Yog-Sothoth ou os insetos de Shaggai tira pontos de sua sanidade, e o mesmo acontece com a sua descoberta de mais informações sobre os Mito – quanto mais você descobrir a partir de livros ou cartas astrológicas, maior a chance de você acabar no Asilo de Arkham. Poder mágico também vêm com um preço irônico, um preço diante do qual os magos lovecraftianos deveria se acautelar. Se você usar qualquer um dos rituais presentes no De Vermis Mysteriis ou nos Manuscritos Pnakóticos, você necessariamente vai aprender mais sobre o Mito e, assim, perder mais um pouco da sua sanidade.

Os heróis acadêmicos de Lovecraft investigam o Mito não apenas se utilizando de leitura e pensamento mas também de movimentos através do espaço físico, e esta exploração psicológica atrai a mente do leitor diretamente para o loop. Normalmente, os leitores suspeitam que a verdade sombria do Mito enquanto o narrador ainda se apega a uma atitude cotidiana – uma técnica que sutilmente força o leitor a se identificar mais com o “Exterior” do que com a visão de mundo convencional do protagonista. Sob um ponto de vista mágico, a cegueira dos heróis de Lovecraft corresponde a um elemento crucial da teoria ocultista desenvolvida por Austin Osman Spare: o de que a magia age sobre e contra a mente consciente, que o pensamento comum deve ser silenciado, distraído, ou completamente perturbado para que a vontade ctônica possa se expressar.

Para conseguir invadir nosso plano, as entidades Lovecraftianas precisam de um portal, uma interface entre os mundos, e Lovecraft enfatiza dois: livros e sonhos. Para invadir o nosso avião, entidades de Lovecraft precisa de um portal, uma interface entre os mundos, e Lovecraft enfatiza dois: livros e sonhos. Em “Sonhos na Casa da Bruxa”, “A Sombra Fora do Tempo” e “A Sombra sobre Innsmouth”, sonhos infectam seus hospedeiros com uma virulência que se assemelha às posses psíquicas mais evidentes que ocorrem em “O Assombro Nas Trevas” e o “Caso de Charles Dexter Ward”. Como os próprios monstros, os sonhos de Lovecraft são forças autônomas rompendo do Exterior e engendrando sua própria realidade.

Mas esses sonhos também evocam um “Exterior” mais literal: a estranha vida de sonhos do prórpiro Lovecraft, uma vida que (como o fã informado sabe) inspirou diretamente alguns de seus contos. Semeando seus textos com seus próprios pesadelos, Lovecraft cria uma homologia autobiográfica entre ele e seus protagonistas. As próprias histórias começam a sonhar, o que significa que também o leitor situa-se no caminho da infecção.

Lovecraft se coloca em seus contos devárias maneiras – os protagonistas em primeira pessoa refletem aspectos de seu próprio estilo de vida recluso e livresco, a forma epistolar do “Um Sussurro nas Trevas” ecoa seu próprio compromisso com a troca regular de correspondência; nomes de personagens são tirados de amigos e a paisagem da Nova Inglaterra que é a sua própria. Esta auto-reflexão psíquica parcialmente explica por que os fãs de Lovecraft geralmente tornam-se fascinados com o próprio homem, um solitário recluso que tinha a correspondência como forma de socialização, exaltava o século XVIII e adotou a aparência e os maneirismos de um velho ranzinza. A vida de Lovecraft e, certamente, sua volumosa correspondência pessoal fazem parte de seu Mito.

Desta forma, Lovecraft solidifica assim sua realidade virtual ao adicionando elementos autobiográficos ao seu mundo compartilhado de criaturas, livros e mapas. Ele também cria uma aura de documentário ao tornar seus contos mais densos com manuscritos, recortes de jornais, citações eruditas, entradas de diário, cartas, e bibliografias que listam livros falsos ao lado de clássicos reais. Tudo isso produz a sensação de que “fora” de cada conto indivídual encontra-se um mundo meta-ficcional que paira à beira do nosso próprio, um mundo que, como os próprios monstros, está constantemente tentando romper nossa realidade para se tornar atual. E graças aos escritores que expandiram o Mito, aos RPG’s e magos sinistros, ele está conseguindo.

 

… e sonhando o Livro

 

Em “A Sombra Fora do Tempo”, Lovecraft torna explícita uma das equações fantásticas que impulsiona seu Realismo Mágico: a equivalência entre sonhos e livros. Por cinco anos o narrador, um professor de economia chamado Nathaniel Wingate Peaslee, é tomado por uma misteriosa “personalidade secundária.” Depois de recuperar sua identidade original, Peaslee é atormentado por sonhos poderosos em que ele se encontra em uma cidade estranha, habitando um enorme corpo brotando repleto de tentáculos, escrevendo a história do mundo ocidental moderno em um livro. No clímax do conto, Peaslee viagensja para o deserto australiano para explorar ruínas antigas enterradas sob as areias, lá ele descobre um livro escrito em Inglês, de próprio punho: o mesmo volume de que ele havia produzido dentro de seu corpo de sonho monstruoso.

Embora não tenhamos conhecimento de seu conteúdo, a não ser pequenos fragmentos, os grimórios diabólicos de Lovecraft são tão pestilentos que até mesmo olhar para os seus sigilos sinistros se mostra perigoso. Tal como acontece com os seus sonhos , estes textos se tornam obsessões para os protagonistas estudiosos de Lovecraft, chegando a um ponto em que os volumes, nas palavras de Christopher Frayling, “vampirizam o leitor”. Seus títulos, por si só, são palavras mágicas, os encantamentos alucinógenos de um antiquário excêntrico: os manuscritos Pnakóticos, o Papiro Ilarnet, o texto de R’lyeh, os Sete Livros Enigmáticos de Hsan. Os amigos de Lovecraft contribuiram com o De Vermis Mysteriis e o Unaussprechlichen Kulten de von Junzt, e Lovecraft batizou o autor de seu Cultes Des Goules de conde d’ Erlette, homenageando seu jovem fã August Derleth. Pairando sobre todos esses tomos sombrios está o “temível” e “proibido” Necronomicon, um livro de invocações blasfemas para acelerar o retorno dos Antigos. O fetiche intertextual supremo de Lovecraft, o Necronomicon, se destaca como um dos poucos livros míticos na literatura que tenham absorvido tanta atenção imaginativa que conseguiram se materializar, publicados, em nossa realidade.

Se os livros devem a sua vida não para os seus conteúdos individuais, mas para a rede intertextual de referências e citações dentro do qual são criados, então o temido Necronomicon claramente possui vida própria. Além de estudos literários, o Necronomicon tem gerado numerosas análises pseudo-eruditas, incluindo a “História do Necronomicon”, escrita pelo próprio Lovecraft. Uma série de perguntas frequentes podem ser encontrados na Internet – onde guerras costumam estourar periodicamente entre magos, os fãs de horror e especialistas em mitologia – sobre a realidade do livro. A entidade morta-viva à qual se refere o famoso par de versos do Necronomicon:

“Não está morto o que pode eternamente jazer,
Ainda, em eras estranhas, até a morte pode morrer”

pode ser nada mais nada menos do que o próprio texto em si, sempre à espreita nas margens da realidade.

 

A breve “História”, escrita por Lovecraft, foi aparentemente inspirada pelo primeiro Necronomicon falso: um estudo de uma edição do tomo temido, submetido ao Massachusetts Branford’s Review em 1934. Décadas mais tarde, cartões de índice para o livro começaram a aparecer em catálogos de bibliotecas universitárias .

É talvez o princípio do Realismo Mágico de Lovecraft,que torne possível que todas essas referências fantasmagóricas finalmente tenham manifestado o livro. Em 1973, uma edição de Al Azif (nome árabe do Necronomicon) apareceu, composto por oito páginas de uma imitação detexto sírio repetidas 24 vezes. Quatro anos depois Satanistas nova iorquinos da de Magickal Childe publicaram o Necronomicon de Simon, um saco de gatos repleto de mitos sumérios e quase nenhum material Lovecraftiano (embora o livro traga um aviso que porções foram “propositadamente deixadas de fora” para a “segurança do leitor” ). O Necronomicon de George Hay – também uma criança dos anos 1970, conhecido como O Livro dos Nomes Mortos, se mostrou o mais complexo, intrigante e lovecraftiano de sua época. No espírito pseudoerudito do mestre, Hay pareia as invocações fabulosas de Yog-Sothoth e Cthulhu com um conjunto de ensaios analíticos, literários e históricos.

Embora sejam comuns os magos que afirmam que mesmo o livro Simon faz maravilhas, as pseudo histórias dos vários Necronomicons são muito mais atraentes do que os próprios textos. O próprio Lovecraft ofereceu as bases sobre as quais a história do livro seria erguida: o texto foi escrito em 730 dC por um poeta, o louco árabe Abdul Al-hazred, recebendo seu nome dos sons noturnos dos insetos. Posteriormente, foi traduzido por Theodorus Philetas para o grego, por Olaus Wormius para o latim e por John Dee para o Inglês. Lovecraft lista várias bibliotecas e coleções particulares, onde fragmentos do volume residem, e insunua que o escritor de fantasia R.W. Chambers derivou o livro monstruoso e suprimido, citado em seu romance “O Rei de Amarelo” a partir de rumores do Necronomicon (Lovecraft chegou a dizer que obteve sua inspiração nos trabalhos de Chambers).

Todos os subseqüentes pseudo-histories do Necronomicon colocam e removem o livro da história real do ocultismo, com John Dee desempenhando um papel particularmente notável. Segundo Colin Wilson, a versão do texto publicado no Necronomicon de Hay fazia parte do texto cifrado em enoquiano de Dee, o Liber Logoaeth. O FAQ sobre o Necronomiconm escrito por Colin Low, afirma que Dee descobriu o livro na corte do rei Rodolfo II em Praga, e que foi sob a influência do livro que Dee e seu vidente, Edward Kelly, conseguiram seus mais poderosos encontros astrais. Nunca publicada, a tradução de Dee tornou-se parte da coleção célebre de Elias Ashmole, abrigado na Biblioteca Britânica. Foi lá que Crowley o leu, tirando livremente dele várias das passagens que usaria para escrever “O Livro da Lei”, de onde, finalmente, teria chegado até Lovecraft, graças a uma amante em comum que teria tido com Crowley: Sophia Greene – que chegou a se casar com Lovecraft. O papel de Crowley no conto de Low é apropriado, já que Crowley certamente conhecia o poder mágico de se combinar farsa com história.

A história do ocultismo é uma confabulação , ela se encontra apegada às suas genealogias, suas “verdades eternas e imutáveis”, fabricadas por revisionistas, loucos e gênios, suas tradições esotéricas são uma conspiração de influências em constante metamorfose. O Necronomicon não é a primeira ficção de gerar atividade mágica real dentro dessa zona de penumbra potente que se encontra entre a filologia e a fantasia.

Para dar um exemplo de uma época anterior, os manifestos Rosacruzes anônimos que apareceram pela primeira vez no início de do século XVII afirmavam se originar de uma irmandade secreta de Cristãos Herméticos que, finalmente, julgaram ser aquele o momento de sair da obscuridade. Muitos leitores imediatamente desejaram juntar-se ao grupo, no entanto é improvável que tal grupo tenha existido na época. Mas essa farsa trabalhou o desejo esotérico da época e inspirou uma explosão de grupos Rosacruzes “reais”. Apesar de um dos dois autores suspeitos dos manifestos, Johann Valentin Andreae, nunca ter assumido ou negado nada, ele fez referências veladas ao Rosacrucianismo como um “jogo engenhoso que uma pessoa disfarçada poderia gostar de brincar no cenário literária, especialmente em uma época apaixonada por tudo que fugisse do ordinário”. Tal como os manifestos Rosacruzes ou o Livro de Dzyan de Blavatsky, o Necronomicon de Lovecraft é o equivalente oculto da transmissão de rádio de Orson Welles da “Guerra dos Mundos”. Como o próprio Lovecraft escreveu: “Nenhuma história bizarra pode realmente causar terror se não for planejada com todo o cuidado e verossimilhança de uma farsa real”.

No “O Pêndulo de Foucault”, Umberto Eco sugere que a verdade esotérica é, talvez, nada mais do que uma teoria da conspiração semiótica, nascida de uma literatura auto-referencial infinitamente requentada – o tecido inter textual que Lovecraft tanto compreendia. Para aqueles que precisam fixar seus estados profundos de consciência em versões correspondentes objetivas, esta é uma acusação grave de “tradição”. Mas como os magos do caos continuam a nos relembrar, a magia não é nada mais do que a experiência subjetiva interagindo com uma matriz internamente consistente de sinais e efeitos. Na ausência de ortodoxia, tudo o que temos é o tantra dinâmico entre o texto e a percepção, da leitura e de sonho. Nos dias atuais a Grande Obra pode ser nada mais nada menos do que este “jogo engenhoso”, fabricando-se a si mesmo sem encerramento ou descanso, tecendo-se para fora do vazio resplandecente onde Azazoth se contorce em seu trono de Mandelbrot.

 

por Shub-Nigger, A Puta dos Mil Bodes

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/a-verdadeira-historia-do-necronomicon/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/a-verdadeira-historia-do-necronomicon/

A Verdade Sobre a Loira do Banheiro

Imagine viver em um mundo onde com o aperto de um botão, você tem a sua disposição uma mulher loira linda, surgindo para você, disposta a deixar cada pêlo do seu corpo arrepiado. Bem, e o que você diria se nós afirmássemos que você vive em um mundo exatamente assim?

Duvida? Basta ir para o banheiro, colocar uma tesoura sobre o ralo, apertar três vezes o botão da descarga, se virar para o espelho e então apagar a luz. Espere diante do espelho e ela surgirá.

Motivo de risos e piadas depois da adolescência a loira do banheiro é o terror de muitas crianças. Muitas das quais acabavam se molhando para não ter que entrar no banheiro.

Você pode achar essa história uma estupidez, pode dizer que é coisa de criança, pode dizer que é a pior lenda urbana do mundo, mas neste momento, enquanto você lê o texto, existem crianças espalhadas pelo país entrando em banheiros querendo apertar três vezes o botão da descarga enquanto seus colegas esperam do lado de fora do banheiro para ver se a infeliz desafiada tem coragem e mais, conseguir uma prova da existência da loira.

Mesmo que acredite que tudo não passa de besteira de crianças, por que esse mito é tão popular e continuar a ser espalhado? A resposta é simples. Porque uma vez que entre no banheiro e aperte três vezes a descarga, a pessoa vai ver algo surgir para ela. Para entender o porquê, vamos desmembrar essa “brincadeira” em partes.

Quem é a Loira do Banheiro?

Taxonomicamente a Loira do Banheiro faz parte de um grupo bem conhecido de assombrações conhecidas como Mulher da Meia-Noite. Este nome varia de cultura para cultura, são também conhecidas como Belas da Noite, Mulheres de Branco, etc. Curiosamente suas descrições são basicamente a mesma no mundo todo, menos na América do Sul, onde os relatos a seu respeito e suas diferents formas são relatadas.

Uma Mulher da Meia-Noite é o fantasma de uma mulher que morreu de forma tão violenta que produziu um espírito perturbado e psicopata que busca algum tipo de retaliação, seja vingança, seja matar as pessoas em busca de companhia. Neste segundo caso o problema é que dificilmente um espírito se prenderá a uma Mulher da Meia-Noite, o que a obriga a continuar matando.

Os registros sobre esse tipo de aparição são tão antigos quanto o homem, mas ganharam uma atenção especial graças à novela The Woman in White de Wilkie Collins, escrita em 1859.

No Brasil a Mulher de Branco recebe o nome de Mulher da Meia-Noite, Bela da Noite, também é conhecida como Mulher de Branco (ou de vermelho, ou de preto, de acordo com as roupas que usa na ocasião de sua aparição). Na Venezuela é conhecida como La Sayona, no México de La Llorona, nos Andes é conhecida e temida como Paquita Muñoz.

A origem de cada versão da lenda varia não apenas de país para país, como de estado para estado e cidade para cidade. Isso acontece porque diferente de outros tipos de fantasmas, como o Holandês Voador, não existe uma única Mulher da Meia-Noite ou uma que originou tudo, onde há uma mulher morrendo de forma violenta o suficiente para se perturbar seu espírito, ou quebrar seu espírito como muitos dizem, nascerá uma nova Mulher da Meia-Noite.

Assim não existe uma Loira do Banheiro, mas sim assombrações de Mulheres da Meia-Noite que podem ter um Modus Operandi que envolva banheiros ou o ritual de chamada.

Mulheres da Meia-Noite Famosas

Ao redor do Braisl existem muitos relatos e lendas de Mulheres da Meia-Noite, alguns sérios outros risíveis.

Caminhoneiros e motoristas que dirigem muito pelas estradas parecem sempre conhecer alguém que já viu a Mulher de Branco, eternamente pedindo carona e uma vez dentro do carro ou caminhão se mostrava com uma face horrível, fazendo com que assustados, os motoristas perdessem o controle sobre seu veículo e saíssem da estrada morrendo posteriormente.

Em Belo Horizonte existe a Loura do Bonfim, que vive no cemitério do Bonfim.

Outro relato conhecido é a morte de uma loira que sofreu um grave acidente de carro com o filho na estrada que liga a BR-381 à cidade de Caetá, em Minas Gerais, ambos morreram no local. A Loira, desesperada até hoje fica á beira da estrada, pedindo carona que a leve à cidade para buscar ajuda para o filho. Existem a partir dai dois tipos de relatos, os que páram para acudi-la e a vêem desaparecer no ar, e aqueles que não páram. Os do segundo tipo dizem que durante a viagem, se olham para o retrovisor, a vêem sentada no banco traseiro para então desaparecer. Muitos afirmam que alguns acidentes que resultaram em morte neste trecho de estrada foram causados por ela, é conhecida como a Loira do Caeté

Em Porto Alegre existe a Maria Degolada, uma mulher que viveu na capital do Rio Grande do Sul e após a noite de núpcias foi degolada pelo marido no que é hoje conhecido como Morro da Conceição.

E chegamos à Loira do Banheiro.

A Lenda da Loira

Não existe um registro original sobre a Loira que possa ser averiguado. A história varia muito, alguns dizem que era uma aluna de colêgio que por inúmeras razões se escondeu no banheiro de um colégio. Alguns afirmam que ela foi ao banheiro apra fumar escondida, outros para poder “namorar” algum colega, outros simplesmente que ela foi matar aula. Nesta versão a aluna, cuja idade varia dos 12 aos 17 anos, escorregou no chão, bateu a cabeça no chão ou na privada e morreu.

Uma outra versão fala de uma professora que teve um caso com um aluno e durante uma sessão de “namoro” no banheiro foi assassinada pelo marido que desconfiando da esposa a seguiu.

Seja aluna ou professora, muitos relatos dizem que ela tenta seduzir os garotos ou garotas que ficam sozinhos no banheiro. Isso talvez seja um indicativo de que sua morte teve algo a ver de fato com um relacionamento.

Talvez a lenda da Loira do Banheiro desaparecesse com o tempo se permanecesse apenas entre crianças, mas ela já foi vista fora de escolas em centros comerciais e hospitais. Caminhoneiros falam de histórias da loira que surge em banheiros de beira de estrada. Conseguem ver seu reflexo quando estão de frente para o espelho, e lá está ela, de costas, linda, corpo e pernas perfeitos, mas quando se viram para encarar o homem mostram um rosto deformado e coberto de sangue.

Esse aspecto da sedução é recorrente a várias Mulheres de Meia-Noite, que para buscar vingança ou companhia usam a promessa de sexo para atrair suas vítimas. Muitas pessoas que já viram a Loira do Banheiro afirmam que ela se mostra cínica, primeiro tentando seduzir com beijos e olhares e uma vez cativada a confiança ela ataca. Vale dizer que as pessoas não percebem que estão na presença de um espírito até ser tarde demais.

Loiras Regionais

Catalogamos a seguir, algumas variações das lendas que envolvem uma Loira do Banheiro, buscando, sempre que possível incluir dados mais sólidos, como nomes locais e datas, para auxiliar qualquer um que deseje iniciar uma pesquisa paranormal mais séria sobre o assunto ou para aqueles que desejem simplesmente bater um papo com a loira.

Loira Paulista

São Miguel Paulista

No local onde seria construída a escola Prof. Adolpho Pluskat, em São Miguel Paulista, havia uma casa habitada por uma jovem e seus pais. Após um acidente de carro, os pais da jovem morreram. O acidente a colocou em choque, variando seu humor entre a catatonia e a histeria, desenvolvendo o que hoje poderia ser chamado de síndrome do pânico, não deixando mais a casa.

Com o passar do tempo o governo da região decidiu construir ali a escola e se ofereceu para comprar o terreno ou pagar a ela uma indenização, ela aceitou o acordo e no dia programado derrubaram a casa, sem saberem que ela havia permanecido ali, esperando apra ser morta.

Obviamente que a lenda diz que o quarto onde ela se escondeu calhou de se localizar onde posteriormente foi erguido o banheiro da escola.

Já, em quase todas as escolas públicas do estado parece haver uma homogenidade entre os relatos.

Na escola, seja ela qual for, estudava uma garota loira linda de aproximadamente 15 anos. Ela adorava matar aula, em uma dessas aventuras entrou no banheiro, escorregou bateu a cabeça e morreu, alguns envolvem um período de coma antes da morte. O interessante nesses relatos é que ela surge com uma bola de algodão em cada narina para evitar que o sangue escorra.

No Instituto de Ensino Cecília Meireles, em Santo André, os alunos também a descrevem como uma loira com algodão no nariz e roupa branca.

Loira Carioca

No Rio de Janeiro, um dos points da Loira do Banheiro é a Escola Municipal José Veríssimo.

Não existe um consenso de como ela foi parar lá, mas a crença é de que se uma pessoa para diante do espelho do banheiro, que ocupa grande parte da parede, e chamar 3 vezes o nome catarina, ela surgiria no espelho e ofereceria duas opções a quem a chamou: Faca ou Maçã, escolhendo faca ela mataria a pessoa, escolhendo maçã ela a puxaria para dentro do espelho, de onde a vítima só fugiria após realizar alguma prenda pedida por ela.

Loira Sergipana

Em Aracajú, logo antes de seu casamento, uma loira encontra o seu noivo com outra mulher, uma de suas amigas, na cama. Ela corre para a igreja onde iria ter sua cerimônia e se joga do alto da torre, enquanto caia seu vestido de noiva se torna preto. Depois da morte voltou e matou o marido, a amiga. Apesar de sua morte não ter conexão direta com um banheiro, ela pode ser vista em banheiros. Quando surge arranha o rosto de quem estiver na sua presença e odeia homens infiéis.

Loira Paranaense

Em 1997 começou a circular uma história na Escola Estadual Leonor Castelano que afirma que dentro do último banheiro feminino existe uma mulher cheia de facas na cabeça e uma no peito. Quando surge ela mata quem estiver em sua frente, se a pessoa tentar fugir ela lhe arranca a cabeça.

Encontros com a Loira

De crianças de 8 anos como J. G. do Instituto de Ensino Cecília Meireles que diz que suas “amigas contam que viram a loira no banheiro do segundo andar, agora só usamos o do andar de baixo”, a Maria Luiza de Carvalho, 67, avó que relembra: “Diziam que era um espírito abandonado que vagava pela escola com algodão no nariz e na boca. A única que sei que existiu de verdade foi uma que vi da janela de casa quando tinha 7 anos”, os casos de avistamento da loira seriam o suficiente para encher centenas de páginas de livros.

Curiosamente grande parte dos relatos tem a ver primeiramente com um reflexo da loira, seja em janelas, na água da provada, em espelhos ou em superfícies similares. E todo relato termina com a pessoa fugindo assim que a loira aparece, obviamente se não fugisse não sobreviveria para contar a história.

Mas esses encontros são reais? Existem mesmo fantasmas de mulheres loiras vagando por banheiros tentando atacar pessoas? O número de relatos diferentes poderia sugerir que parte da burocracia ao se abrir um colégio, após se conseguir um alvará da prefeitura, seria matar uma menina loira em um dos banheiros da construção.

Podemos dizer então que grande parte dos banheiros são assombrados? A resposta obviamente é não, grande parte, talvez a maioria absoluta dos banheiros de escola, casas e etc. não possuem um fantasma psiceotico de estimação.

Então podemos afirmar que os relatos são todos falsos, certo?

Errado.

O fato de alguém ver um fantasma quando não há um fantasma para ser visto não significa que a pessoa não viu nada.

A Loira sob o Microscópio

Como todo Rosa-Cruz sabe, se você encarar um espelho por tempo o suficiente, você vai ver coisas que te farão cagar tijolos.

Isso significa que existe algo no espelho?

Um teste psicológico foi realizado, tempos atrás que consistia em colocar pessoas defronte do espelho em um lugar à meia luz e simplesmente encarar o espelho por 10 minutos.

Terminada a experiência as pessoas tinham que escrever em um papel o que haviam visto, se é que haviam visto algo.

Antes de colocarmos aqui os resultados tenha em mente que isso não era uma brincadeira onde a pessoa esperava encarar um espírito, era um teste psicológico neutro.

66% dos participantes disseram ter visto o próprio rosto extremamente deformado. 18% viram um de seus pais com alguns traços alterados – 10% desses pais já haviam morrido. 28% viram o rosto de um estranho, como uma criança ou uma mulher velha. Computando os dados, quase metade dos participantes viram seres monstruosos e fantásticos.

Mas porque isso acontece?

Ao invés de respondermos vamos propor algo. Hoje, quando tiver um tempo livre vá para frente de um espelho e encare ele, não apenas olhe para ele, encare-o com toda a atenção e veja o que seu cérebro faz com o que você está vendo. A culpa disso é de Ignaz Paul Vital Troxler, que em 1804 deduziu que o nosso sistema nervoso tem um mecanismo de adaptação a estímulos contínuos, ou seja, se uma coisa acontece de maneira constante por muito tempo você passa a ignorâ-la. Por acha que aquele alarme de carro que dispara na madrugada toca toca toca toca e pára, para então começar a tocar tocar tocar tocar e parar de novo? Se ele simplesmente tocasse sem parar, em determinado momento você não repararia mais nele, as pausas são para que o estímulo cesse antes de você o ignorar e recomece.

Outro exemplo do Efeito Troxler: coloque o dedo na sola do pé de alguém que sente cócegas. A pessoa pode reagir ao primeiro toque, mas após alguns instantes, se você não movimentar o dedo, ela não o sente mais. Diferente do que acontecerá se você ficar movendo o dedo de um lado para o outro. Da mesma forma que se você colocar um pedaço de papel na parte interna do seu antebraço você o sente apenas por um breve período de tempo, mas se agitar o braço volta a senti-lo até que ele caia. Por que isso acontece?

Esse mecanismo existe pra impedir que você enlouqueça. Imagine ser consciente de cada ruído, de cada movimento ao seu redor. Imagine ouvir o som da própria respiração ou sentir o próprio coração batendo o tempo todo.

E o que isso tem a ver com a Loira do Banheiro e outras aparições do tipo?

Se não houver mesmo uma assombração no seu banheiro, e isso pode facilmente ser verificado, como veremos a baixo, ao que tudo indica é que um cérebro já estimulado para ver algo fantasmagórico, quando encara um ponto por muito tempo, como um espelho, uma janela ou um lugar aleatório qualquer, depois de certo tempo interpretará qualquer mudança repentina no ambiente como uma presença.

Caso você esteja encarando o espelho, como seu rosto não possui um ponto onde se focar, como o + na imagem acima, ele todo começa a se deformar, se trasnformando em algo assustador. Obviamente assim que o cérebro percebe isso você se assusta e os estímulos voltam ao normal, fazendo a deformação sumir. E assim os relatos de “assim que a vi ela desapareceu”.

Chamando a Loira para um Encontro

Diferente de outras espécias de Mulheres da Meia-Noite a Loira do Banheiro, assim como sua versão americana Blood Mary – ou Mary Sangrenta -, pode ser evocada. Por se tratar de um fenômeno popular, o ritual de evocação varia praticamente de bairro para bairro mas em linhas gerais ocorre da seguinte forma:

Entre no banheiro sozinho ou sozinha.

Vá para o vaso sanitário e acione três vezes a descarga.

Vá para a frente do espelho e espere.

Pronto.

Variações pedem que se chame o nome do espírito três ou cinco vezes. Se coloque uma tesoura sobre o ralo, ou fios de cabelo na privada. Se fale cinco palavrões ou três. As combinações são infinitas.

Saindo Para o Abraço

Mas de fato pode calhar de haver de fato um espírito no seu banheiro. Como saber se o que está refletido no espelho ou abrindo a janela não é um fragmento de sua imaginação.

Fantasmas e espíritos tem assinaturas específicas que podem ser percebidas. Usando aparelhos como detectores de campos elétro magnéticos pode-se conseguir leituras dos campos que nos cercam e perceber mudanças. Da mesma forma câmeras térmicas e outros apetrechos de medição, mas para queles que não dispõe desses aparelhos aqui vai uma técnica Morte Súbita Inc. simples para detectar os espíritos.

A primeira é o uso de uma bússola simples. Muitos espíritos quando de manifestam causam mudanças nos campos eletro-magnéticos que podem afetar a agulha imantada. Se você levar a bússola com você e durante a evocação a agulha começar a se mover é melhor se preparar para um encontro. O importante a se lembrar neste método de detecção é se lembrar de deixar a bússola em uma superfícia estática sem que ela se incline para qualquer lado, nem seja movimentada. A pia do banheiro é uma boa opção.

Outra opção é levar uma câmera fotográfica digital comum, se tiver visão noturna melhor ainda. Chame a loira e assim que notar qualquer coisa diferente comece a fotografar, se sua câmera tiver opção de filmagem melhor ainda.

Por último, construa o seu próprio eletroscópio caseiro. O eletroscópio é um aparelho que se destina a indicar a existência de cargas elétricas, ou seja, identificar se um corpo está eletrizado. Os eletroscópios mais comuns são o pêndulo eletrostático e o eletroscópio de folhas. Fantasmas costumam se manifestar como campos elétricos sem um corpo, assim caso haja um campo eletrostático por perto ele pode não ser visto mas sim detectado. Aqui vai uma receita de como criar um eletroscópio de folhas em casa e como usá-lo:

Material:

– Frasco de vidro – O frasco pode ser qualquer um, mas é necessário que seja de vidro e que tenha tampa de preferência de plástico. O mais fácil de ser encontrado assim é um pote de maionese. Caso tenha paciência e habilidade o suficiente faça um buraco no centro da tampa com a largura do seu dedão.

– Fio metálico condutor – Qualquer fio condutor serve. O ideal é um fio de cobre esmaltado, mas na falta de um fio pode-se usar outros objetos metálicos: arame, prego fino, clips de papel etc. Estes fios são encontrados em casa de materiais elétricos, ou retirados de aparelhos elétricos velhos. São fios de cobre recobertos com um verniz.

– Papel alumínio – Papel usado para embalar comida, ou encontrado em embalagens de barras de chocolates ou de cigarros.

– Fita isolante

– Rolha – A rolha será enfiada no buraco que você fez na tampa de plástico do pote. Pode se ruma rolha usada ou uma comprada em armazéns, supermercados ou bares. Caso queira sofisticar em farmácias ou lojas que fornecem materiais para farmácias e hospitais você encontra rolhas de borracha.

– Uma bola de ping-pong, ou de isopor, caso não tenha sem problemas.

Montagem:

– Corte um pedaço de fio esmaltado de forma que ele vá até o centro do pote e ainda sobre uns 3 cm para fora da rolha;

– Com uma lixa, de parede, de unha ou de canivete, raspe 3 cm do fio em uma extremidade e 3 cm de fio na outra, até que todo o verniz à volta dessas áreas seja totalmente retirado;

– Enrole a bola de ping-pong ou de isopor com o papel alumínio, caso não tenha as bolas apenas amasse o papel. Atravesse a bola na extremidade do fio que ficará para fora do pote.

– faça um pequeno furo no centro da rolha. Tente não deixar o furo muito maior do que a espessura do fio; depois de passado o fio pela rolha, dobre a extremidade inferior do fio como indicado na figura abaixo, na forma de um “U” horizontal, perpendicularmente ao fio que desce da rolha; caso não tenha a rolha faça o furo na tampa do pote pequeno o suficiente para que o fio fique preso nele.

– recorte duas tiras de papel alumínio com aproximadamente 5 cm de comprimento e de 3 a 5mm de espessura; faça uma pequena dobra em cada uma, dando o formato de bengala, como mostra a figura acima (na figura acima a lâmina de papel alumínio está sendo mostrada de lado);

– coloque as lâminas sobre o fio raspado da parte inferior de forma que elas fiquem paralelas (veja a figura no final);

– Ajuste este conjunto (fio rolha e lâminas) no frasco;

Você deve ter isso em mãos:

Ou algo bem parecido, dependendo do frasco que usar.

Ele funciona de maneira simples. A bola de aluimnio na ponta absorve cargas elétricas e as leva pelo fio até o papel alumínio de dentro. Como a carga é a mesma as folhas de papel se repelem, se separando. Para fazer um teste coloque a bola perto do monitor da sua televisão e a ligue e desligue. Observe as folhas de papel no interior. Outro meio de testar é pegando uma régua de acrílico e a esfregar no seu cabelo ou em um casaco de lã e então aproximar a régua da bola. Para rebootar o sistema encoste o seu dedo na bola de papel alumínio e as folhas voltam ao normal.

Leve seu eletroscópio ao banheiro e chame a loira, ande de um lado para o outro. Caso as folhas se movam, BINGO. Detectou algo.

Essas tecnicas são simples e podem ser realizadas por qualquer pessoa. Tenha em mente que caso não detecte nenhuma presença não significa que ela não esteja lá, mas caso alguma dessas tentativas indique um resultado positivo pode apostar que alguém está olhando sobre seu ombro, neste momento vale a pena tentar se lembrar como tudo isso é besteira e só foi inventado para assustar crianças.

por Reverendo Obito

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/a-verdade-sobre-a-loira-do-banheiro/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/a-verdade-sobre-a-loira-do-banheiro/

A história dos Pretos-velhos

As grandes metrópoles do período colonial: Portugal, Espanha, Inglaterra, França, etc; subjugaram nações africanas, fazendo dos negros mercadorias, objetos sem direitos ou alma.

Os negros africanos foram levados a diversas colônias espalhadas principalmente nas Américas e em plantações no Sul de Portugal e em serviços de casa na Inglaterra e França.

Os traficantes coloniais utilizavam-se de diversas técnicas para poder arrematar os negros:

Chegavam de assalto e prendiam os mais jovens e mais fortes da tribo, que viviam principalmente no litoral Oeste, no Centro-oeste, Nordeste e Sul da África.

Trocavam por mercadoria: espelhos, facas, bebidas, etc. Os cativos de uma tribo que fora vencida em guerras tribais ou corrompiam os chefes da tribo financiando as guerras e fazendo dos vencidos escravos.

No Brasil os escravos negros chegavam por Recife e Salvador, nos séculos XVI e XVII, e no Rio de Janeiro, no século XVIII.

Os primeiros grupos que vieram para essas regiões foram os bantos; cabindos; sudaneses; iorubás; geges; hauçá; minas e malês.

A valorização do tráfico negreiro, fonte da riqueza colonial, custou muito caro; em quatro séculos, do XV ao XIX, a África perdeu, entre escravizados e mortos 65 a 75 milhões de pessoas, e estas constituiam uma parte selecionada da população.

Arrancados de sua terra de origem, uma vida amarga e penosa esperava esses homens e mulheres na colônia: trabalho de sol a sol nas grandes fazendas de açúcar. Tanto esforço, que um africano aqui chegado durava, em média, de sete a dez anos! Em troca de seu trabalho os negros recebiam três “pês”: Pau, Pano e Pão. E reagiam a tantos tormentos suicidando-se, evitando a reprodução, assassinando feitores, capitães-do-mato e proprietários. Em seus cultos, os escravos resistiam, simbolicamente, à dominação. A “macumba” era, e ainda é, um ritual de liberdade, protesto, reação à opressão. As rezas, batucadas, danças e cantos eram maneiras de aliviar a asfixia da escravidão. A resistência também acontecia na fuga das fazendas e na formação dos quilombos, onde os negros tentaram reconstituir sua vida africana. Um dos maiores quilombos foi o Quilombo dos Palmares onde reinou Ganga Zumba ao lado de seu guerreiro Zumbi (protegido de Ogum).

Os negros que se adaptavam mais facilmente à nova situação recebiam tarefas mais especializadas, reprodutores, caldeireiro, carpinteiros, tocheiros, trabalhador na casa grande (escravos domésticos) e outros, ganharam alforria pelos seus senhores ou pelas leis do Sexagenário, do Ventre livre e, enfim, pela Lei Áurea.

A Legião de espíritos chamados “Pretos-Velhos” foi formada no Brasil, devido a esse torpe comércio do tráfico de escravos arrebanhados da África.

Estes negros aos poucos conseguiram envelhecer e constituir mesmo de maneira precária uma união representativa da língua, culto aos Orixás e aos antepassados e tornaram-se um elemento de referência para os mais novos, refletindo os velhos costumes da Mãe África. Eles conseguiram preservar e até modificar, no sincretismo, sua cultura e sua religião.

Idosos mesmo, poucos vieram, já que os escravagistas preferiam os jovens e fortes, tanto para resistirem ao trabalho braçal como às exemplificações com o látego. Porém, foi esta minoria o compêndio no qual os incipientes puderam ler e aprender a ciência e sabedoria milenar de seus ancestrais, tais como o conhecimento e emprego de ervas, plantas, raízes, enfim, tudo aquilo que nos dá graciosamente a mãe natureza.

Mesmo contando com a religião, suas cerimônias, cânticos, esses moços logicamente não poderiam resistir à erosão que o grande mestre, o tempo, produz sobre o invólucro carnal, como todos os mortais. Mas a mente não envelhece, apenas amadurece.

Não podendo mais trabalhar duro de sol a sol, constituíram-se a nata da sociedade negra subjugada. Contudo, o peso dos anos é implacavelmente destruidor, como sempre acontece.

O ato final da peça que encarnamos no vale de lágrimas que é o planeta Terra é a morte. Mas eles voltaram. A sua missão não estava ainda cumprida. Precisavam evoluir gradualmente no plano espiritual. Muitos ainda, usando seu linguajar característico, praticando os sagrados rituais do culto, utilizados desde tempos imemoriais, manifestaram-se em indivíduos previamente selecionados de acordo com a sua ascendência (linhagem), costumes, tradições e cultura. Teriam que possuir a essência intrínseca da civilização que se aprimorou após incontáveis anos de vivência.

Formação da Falange dos Pretos-Velhos na Umbanda

Depois de mortos, passaram a surgir em lugares adequados, principalmente para se manifestarem. Ao se incorporarem, trazem os Pretos-Velhos os sinais característicos das tribos a que pertenciam.

Os Pretos-velhos são nossos Guias ou Protetores, mas no Candomblé, são considerados Eguns (almas desencarnadas), e decorrente disso, só têm fio de conta (Guia) na Umbanda. Usam branco ou preto e branco. Essas cores são usadas porque, sendo os Pretos-Velhos almas de escravos, lembram que eles só podiam andar de branco ou xadrez preto e branco, em sua maioria. Temos também a Guia de lágrima de Nossa Senhora, semente cinza com uma palha dentro. Essa Guia vem dos tempos dos cativeiros, porque era o material mais fácil de se encontrar na época dos escravos, cuja planta era encontrada em quase todos os lugares.

O dia em que a Umbanda homenageia os Pretos-Velhos é 13 de maio, que é a data em que foi assinada a Lei Áurea (libertação dos escravos).

O Nomes dos Pretos-Velhos

Há muita controvérsia sobre o fato de o nome do Preto-Velho ser uma miscelânea de palavras portuguesas e africanas. Voltemos ao passado, na época que cognominamos “A Idade das Trevas” no Brasil, dos feitores e senhores, senzalas e quilombos, sendo os senhores feudais brasileiros católicos ferrenhos (devido à influência portuguesa) não permitiam a seus escravos a liberdade de culto. Eram obrigados a aprender e praticar os dogmas religiosos dos amos. Porém eles seguiram a velha norma: contra a força não há resistência, só a inteligência vence. Faziam seus rituais às ocultas, deixando que os déspotas em miniatura acreditassem estar eles doutrinados para o catolicismo, cujas cerimônias assistiam forçados.

As crianças escravas recém-nascidas, na época, eram batizadas duas vezes. A primeira, ocultamente, na nação a que pertenciam seus pais, recebendo o nome de acordo com a seita. A segunda vez, na pia batismal católica, sendo esta obrigatória e nela a criança recebia o primeiro nome dado pelo seu senhor, sendo o sobrenome composto de cognome ganho pela Fazenda onde nascera (Ex.: Antônio da Coroa Grande), ou então da região africana de onde vieram (Ex.: Joaquim D’Angola).

O termo “Velho”, “Vovô” e “Vovó” é para sinalizar sua experiência, pois quando pensamos em alguém mais velho, como um vovô ou uma vovó subentendemos que essa pessoa já tenha vivido mais tempo, adquirindo assim sabedoria, paciência, compreensão. É baseado nesses fatores que as pessoas mais velhas aconselham.

No mundo espiritual é bastante semelhante, a grande característica dessa linha é o conselho. É devido a esse fator que carinhosamente dizemos que são os “Psicólogos da Umbanda”.

Eis aqui, como exemplo, o nome de alguns Pretos-Velhos:

Pai Cambinda (ou Cambina), Pai Roberto, Pai Cipriano, Pai João, Pai Congo, Pai José D’Angola, Pai Benguela, Pai Jerônimo, Pai Francisco, Pai Guiné, Pai Joaquim, Pai Antônio, Pai Serafim, Pai Firmino D’Angola, Pai Serapião, Pai Fabrício das Almas, Pai Benedito, Pai Julião, Pai Jobim, Pai Jobá, Pai Jacó, Pai Caetano, Pai Tomaz, Pai Tomé, Pai Malaquias, Pai Dindó, Vovó Maria Conga, Vovó Manuela, Vovó Chica, Vovó Cambinda (ou Cambina), Vovó Ana, Vovó Maria Redonda, Vovó Catarina, Vovó Luiza, Vovó Rita, Vovó Gabriela, Vovó Quitéria, Vovó Mariana, Vovó Maria da Serra, Vovó Maria de Minas, Vovó Rosa da Bahia, Vovó Maria do Rosário, Vovó Benedita.

Obs: Normalmente os Pretos-Velhos tratados por Vovô ou Vovó são mais “velhos” do que aqueles tratados por Pai, Mãe, Tio ou Tia).


Atribuições

Eles representam a humildade, força de vontade, a resignação, a sabedoria, o amor e a caridade. São um ponto de referência para todos aqueles que necessitam: curam, ensinam, educam pessoas e espíritos sem luz. Não têm raiva ou ódio pelas humilhações, atrocidades e torturas a que foram submetidos no passado.

Com seus cachimbos, fala pausada, tranqüilidade nos gestos, eles escutam e ajudam àqueles que necessitam, independentes de sua cor, idade, sexo e de religião. São extremamente pacientes com os seus filhos e, como poucos, sabem incutir-lhes os conceitos de karma e ensinar-lhes resignação

Não se pode dizer que em sua totalidade esses espíritos são diretamente os mesmos Pretos-Velhos da escravidão. Pois, no processo cíclico da reencarnação passaram por muitas vidas anteriores foram: negros escravos, filósofos, médicos, ricos, pobres, iluminados, e outros. Mas, para ajudar aqueles que necessitam escolheram ou foram escolhidos para voltar a terra em forma incorporada de Preto-Velho. Outros, nem negros foram, mas escolheram como missão voltar nessa pseudo-forma.

Outros foram até mesmo Exus, que evoluíram e tomaram as formas de um Pretos-Velhos.

Este comentário pode deixar algumas pessoas, do culto e fora dele, meio confusas: “então o Preto-Velho não é um Preto-Velho, ou é, ou o que acontece???”.

Esses espíritos assumem esta forma com o objetivo de manter uma perfeita comunicação com aqueles que os vão procurar em busca de ajuda.

O espírito que evoluiu tem a capacidade de assumir qualquer forma, pois ele é energia viva e conduzente de luz, a forma é apenas uma conseqüência do que eles tenham que fazer na terra. Esses espíritos podem se apresentar, por exemplo, em lugares como um médico e em outros como um Preto-Velho ou até mesmo um caboclo ou exu. Tudo isso vai de acordo com o seu trabalho, sua missão. Não é uma forma de enganar ou má fé com relação àqueles que acreditam, muito pelo contrário, quando se conversa sinceramente, eles mesmos nos dizem quem são, caso tenham autorização.

Por isso, se você for falar com um Preto-Velho, tenha humildade e saiba escutar, não queira milagres ou que ele resolva seus problemas, como em um passe de mágica, entenda que qualquer solução tem o princípio dentro de você mesmo, tenha fé, acredite em você, tenha amor a Deus e a você mesmo.

Para muitos os Pretos-Velhos são conselheiros mostrando a vida e seus caminhos; para outros, são pisicólogos, amigos, confidentes, mentores espirituais; para outros, são os exorcistas que lutam com suas mirongas, banhos de ervas, pontos de fogo, pontos riscados e outros, apoiados pelos exus desfazendo trabalhos. Também combatem as forças negativas (o mal), espíritos obssessores e kiumbas.


A Mensagem dos Pretos-Velhos

A figura do Preto-Velho é um símbolo magnífico. Ela representa o espírito de humildade, de serenidade e de paciência que devemos ter sempre em mente para que possamos evoluir espiritualmente.

Certa vez, em um centro do interior de Minas, uma senhora consultando-se com um Preto-Velho comentou que ficava muito triste ao ver no terreiro pessoas unicamente interessadas em resolver seus problemas particulares de cunho material, usando os trabalhos de Umbanda sem pensar no próximo e, só retornavam ao terreiro, quando estavam com outros problemas. O Preto-Velho deu uma baforada com seu cachimbo e respondeu tranquilamente: “Sabe filha, essas pessoas preocupadas consigo próprias, são escravas do egoísmo. Procuramos ajudá-las, resolvendo seus problemas; mas, aquelas que podem ser aproveitadas, depois de algum tempo, sem que percebam, estarão vestidas de roupa branca, descalças, fazendo parte do terreiro. Muitas pessoas vem aqui buscar lã e saem tosqueadas; acabam nos ajudando nos trabalhos de caridade”.


Essa é a sabedoria dos Pretos-Velhos…

Os Pretos-Velhos levam a força de Deus (Zambi) a todos que queiram aprender e encontrar uma fé. Sem ver a quem, sem julgar, ou colocando pecados. Mostrando que o amor a Deus, o respeito ao próximo e a si mesmo, o amor próprio, a força de vontade e encarar o ciclo da reencarnação podem aliviar os sofrimentos do karma e elevar o espírito para a luz divina. Fazendo com que as pessoas entendam e encarem seus problemas e procurem suas soluções da melhor maneira possível dentro da lei do dharma e da causa e efeito.

Eles aliviam o fardo espiritual de cada pessoa fazendo com que ela se fortaleça espiritualmente. Se a pessoa se fortalece e cresce consegue carregar mais comodamente o peso de seus sofrimentos. Ao passo que se ela se entrega ao sofrimento e ao desespero enfraquece e sucumbe por terra pelo peso que carrega. Então cada um pode fazer com que seu sofrimento diminua ou aumente de acordo como encare seu destino e os acontecimentos de sua vida:

“Cada um colherá aquilo que plantou. Se tu plantaste vento colherás tempestade. Mas, se tu entenderes que com luta o sofrimento pode tornar-se alegria vereis que deveis tomar consciência do que foste teu passado aprendendo com teus erros e visando o crescimento e a felicidade do futuro. Não sejais egoísta, aquilo que te fores ensinado passai aos outros e aquilo que recebeste de graça, de graça tu darás. Porque só no amor, na caridade e na fé é que tu podeis encontrar o teu caminho interior, a luz e DEUS” (Pai Cipriano).

Características:

Linha e Irradiação

Todos os Pretos-Velhos vem na linha de Obaluaiê, mas cada um vem na irradiação de um Orixá diferente.

Fios de Contas (Guias)

Muitos dos Pretos-Velhos Gostam de Guias com Contas de Rosário de Nossa Senhora, alguns misturam favas e colocam Cruzes ou Figas feitas de Guiné ou Arruda.

Roupas

Preta e branca; carijó (xadrez preto e branco). As Pretas-Velhas às vezes usam lenços na cabeça e/ou batas; e os Pretos-Velhos às vezes usam chapéu de palha.

Dia da semana: Segunda-feira

Chakra atuante: básico ou sacro

Planeta regente: Saturno

Cor representativa: preto e branco;

Fumo: cachimbos ou cigarros de palha.

Obs: Os Pretos-Velhos às vezes usam bengalas ou cajados.


Formas Incorporativas e Especialidade Dos Pretos-Velhos:

Sua forma de incorporação é compacta, sem dançar ou pular muito. A vibração começa com um “peso” nas costas e uma inclinação de tronco para frente, e os pés fixados no chão. Se locomovem apenas quando incorporam para as saudações necessárias (atabaque, gongá, etc…) e depois sentam e praticam sua caridade (Podemos encontrar alguns que se mantém em pé).

É possível ver Pretos-Velhos dançando, mais esse dançando é sutíl, e apenas com movimentos dos ombros quando sentados.

Essa simplicidade se expande, tanto na sua maneira de ser e de falar. Usam vocabulário simples, sem palavras rebuscadas.

A linha é um todo, com suas características gerais, ditas acima, mas diferenças ocorrem porque os Pretos-Velhos são trabalhadores de orixás e trazem para sua forma de trabalho a essência da irradiação do Orixá para quem eles trabalham.

Essas diferenças são evidenciadas na incorporação e também na maneira de trabalhar e especialidade deles. Para exemplificar, separaremos abaixo por Orixás:

Pretos-Velhos De Ogum

São mais rápidos na sua forma incorporativa e sem muita paciência com o médium e as vezes com outras pessoas que estão cambonando e até consulentes.

São diretos na sua maneira de falar, não enfeitam muito suas mensagens, as vezes parece que estão brigando, para dar mesmo o efeito de “choque”, mais são no fundo extremamente bondosos tanto para com seu médium e para as outras pessoas.

São especialistas em consultas encorajadoras, ou seja, encorajando e dando segurança para aqueles indecisos e “medrosos”. É fácil pensar nessa característica pois Ogum é um Orixá considerado corajoso.

Pretos-Velhos De Oxum

São mais lentos na forma de incorporar e até falar. Passam para o médium uma serenidade inconfundível.

Não são tão diretos para falar, enfeitam o máximo a conversa para que uma verdade dolorosa possa ser escutada de forma mais amena, pois a finalidade não é “chocar” e sim, fazer com que a pessoa reflita sobre o assunto que está sendo falado.

São especialistas em reflexão, nunca se sai de uma consulta de um Preto-Velho de Oxum sem um minuto que seja de pensamento interior. As vezes é comum sair até mais confuso do que quando entrou, mas é necessário para a evolução daquela pessoa.


Pretos-Velhos De Xangô

Sua incorporação é rápida como as de Ogum.

Assim como os caboclos de Xangô, trabalham para causas de prosperidade sólida, bens como casa própria, processo na justiça e realizações profissionais.

Passam seriedade em cada palavra dita. Cobram bastante de seus médiuns e consulentes.


Pretos-Velhos De Iansã

São rápidos na sua forma de incorporar e falar. Assim como os de Ogum, não possuem também muita paciência para com as pessoas.

Essa rapidez é facilmente entendida, pela força da natureza que os rege, e é essa mesma força lhes permite uma grande variedade de assuntos com os quais ele trata, devido a diversidade que existe dentro desse único Orixá.

Geralmente suas consultas são de impacto, trazendo mudança rápida de pensamento para a pessoa. São especialistas também em ensinar diretrizes para alcançar objetivos, seja pessoal, profissional ou até espiritual.

Entretanto, é bom lembrar que sua maior função é o descarrego. É limpar o ambiente, o consulente e demais médiuns do terreiro, de eguns ou espíritos de parentes e amigos que já se foram, e que ainda não se conformaram com a partida permanecendo muito próximos dessas pessoas.


Pretos-Velhos De Oxossi

São os mais brincalhões, suas incorporações são alegres e um pouco rápidas.

Esses Pretos-Velhos geralmente falam com várias pessoas ao mesmo tempo.

Possuem uma especialidade: A de receitar remédios naturais, para o corpo e a alma, assim como emplastros, banhos e compressas, defumadores, chás, etc… São verdadeiros químicos em seus tocos. – Afinal não podiam ser diferentes, pois são alunos do maior “químico” – Oxossi.


Pretos-Velhos De Nanã

São raros, sua maneira de incorporação é de forma mais envelhecida ainda. Lenta e muito pesada. Enfatizando ainda mais a idade avançada.

Falam rígido, com seriedade profunda. Não brincam nas suas consultas e prezam sempre o respeito, tanto do médium quanto do consulente, e pessoas a volta como: cambonos e pessoas do terreiro em geral e principalmente do pai ou da mãe de santo.

Cobram muito do seu médium, não admitem roupas curtas ou transparentes. Seu julgamento é severo. Não admite injustiça.

Costumam se afastar dos médiuns que consideram de “moral fraca”. Mas prezam demais a gratidão, de uma forma geral. Podem optar por ficar numa casa, se seu médium quiser sair, se julgar que a casa é boa, digna e honrada.

É difícil a relação com esses guias, principalmente quanto há discordância, ou seja, não são muito abertos a negociação no momento da consulta.

São especialistas em conselhos que formem moral, e entendimento do nosso karma, pois isso sem dúvida é a sua função.

Atuam também como os de Inhasã e Obaluaiê, conduzindo Eguns.

Pretos-Velhos De Obaluaiê

São simples em sua forma de incorporar e falar. Exigem muito de seus médiuns, tanto na postura quanto na moral.

Defendem quem é certo ou quem está certo, independente de quem seja, mesmo que para isso ganhem a antipatia dos outros.

Agarram-se a seus “filhos” com total dedicação e carinho, não deixando no entanto de cobrar e corrigir também. Pois entendem que a correção é uma forma de amar.

Devido a elevação e a antiguidade do Orixá para o qual eles trabalham, acabam transformando suas consultas em conselhos totalmente diferenciados dos demais Pretos-Velhos. Ou seja, se adaptam a qualquer assunto e falam deles exatamente com a precisão do momento.

Como trabalha para Obaluaiê, e este é o “dono das almas”, esses Pretos-Velhos são geralmente chefes de linha e assim explica-se a facilidade para trabalhar para vários assuntos.

Sua “visão” é de longo alcance para diversos assuntos, tornando-os capazes de traçar projetos distantes e longos para seus consulentes. Tanto pessoal como profissional e até espiritual.

Assim exigem também fiel cumprimento de suas normas, para que seus projetos não saiam errado, para tanto, os filhos que os seguem, devem fazer passo a passo tudo que lhes for pedido, apenas confiando nesses Pretos-Velhos.

Gostam de contar histórias para enriquecer de conhecimento o médium e as pessoas a volta.


Pretos-Velhos De Yemanjá

São belos em suas incorporações, contudo mantendo uma enorme simplicidade. Sua fala é doce e meiga.

Sua especialidade maior é sem dúvida os conselhos sobre laços espirituais e familiares.

Gostam também de trabalhar para fertilidade de um modo geral, e especialmente para as mulheres que desejam engravidar.

Utilizando o movimento das ondas do mar, são excelentes para descarregos e passes.


Pretos-Velhos De Oxalá

São bastante lentos na forma de incorporar, tornam-se belos principalmente pela simplicidade contida em seus gestos.

Raramente dão consulta, sua maior especialidade é dirigir e instruir os demais Pretos-Velhos.

Cobram bastante de seus médiuns, principalmente no que diz respeito a prática de caridade, bom comportamento moral dentro e fora do terreiro, ausência de vícios, humildade; enfim o cultivo das virtudes mais elevadas.

Extraído da Comunidade de Umbanda S. Sebastião

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/a-historia-dos-pretos-velhos/