Propaganda: Ideologia e Manipulação

Propaganda comercial, eleitoral e ideológica

Ao assistir à televisão, ler um jornal ou revista, ouvir rádio ou olhar um cartaz de rua, tem-se a atenção despertada para mensagens que convidam a experimentar um determinado produto ou a utilizar algum serviço. São anúncios que pedem para usar um sabonete, fumar cigarros de certa marca, depositar dinheiro numa caderneta de poupança e inúmeros outros. Outras vezes, embora sem se referir especificamente aos produtos ou serviços, os anúncios mencionam uma determinada empresa ou instituição, falam de sua importância para a sociedade, dos empregos que ela propicia ou de sua contribuição para o progresso do país. Procuram, dessa forma, criar uma imagem positiva da entidade para que se a considere com simpatia. Trata-se, em todos esses exemplos, de publicidade, também denominada propaganda comercial.

A propaganda eleitoral, geralmente, é realizada em vésperas de eleições. Suas mensagens, veiculadas pelos meios de comunicação ou divulgadas diretamente através de discursos e apelos pessoais, convidam a votar em determinado candidato, enaltecem suas qualidades positivas e informam sobre as obras que realizou no passado e as que irá fazer no futuro, se eleito.

A produção desses anúncios envolve diversas e diferentes etapas. A empresa que deseja aumentar as vendas, o número de usuários de seus serviços, ou o candidato que quer ser eleito, contrata uma agência de propaganda. A partir daí, profissionais especializados passam a estudar cuidadosamente os diversos aspectos que lhes permitam adquirir um perfeito conhecimento da situação. Verificam as características do produto ou serviço, formas de distribuição, preços e informam-se sobre os concorrentes. No caso de candidatos a cargos políticos, analisam suas qualidades, aspectos físicos, idéias que defendem etc. Obtido o maior número possível de informações, a agência passa a investigar os prováveis consumidores ou eleitores. Pesquisa seus hábitos, expectativas, motivações, desejos e todos aqueles elementos necessários para prever as atitudes que poderão assumir em face das propostas a serem apresentadas. Verifica, ainda, os hábitos de leitura, locais que freqüentam, canais de televisão e estações de rádio que preferem e os respectivos horários. De posse de todos esses dados, relativos ao que deve ser anunciado, às pessoas que devem receber as mensagens e aos veículos de divulgação, a agência prepara a campanha. Tem condição, assim, de criar os comerciais e anúncios de forma atrativa e convincente para, em seguida, difundi-los nos locais, veículos e horários mais adequados à consecução dos objetivos que tem em vista.

A pessoa que recebe a comunicação não encontra nenhuma dificuldade em perceber que se trata de propaganda, ou seja, de que existe o fim específico de gerar uma predisposição para a compra ou utilização da serviço, criar uma imagem favorável da empresa ou obter votos. Pode, inclusive, evitar os apelos desligando a TV, mudando a estação do rádio ou simplesmente não prestando atenção.

Há uma outra forma de propaganda que se desenvolve de maneira bem mais complexa. Nos casos até agora mencionados a meta era estimular apenas a prática de um ou alguns atos isolados. Promovia-se, como vimos, a escolha de bens ou serviços de certas empresas ou a opção de voto para o candidato de determinado partido. A propaganda ideológica ao contrário, é mais ampla e mais global. Sua função é a de formar a maior parte das idéias e convicções dos indivíduos e, com isso, orientar todo o seu comportamento social. As mensagens apresentam uma versão da realidade a partir da qual se propõe a necessidade de manter a sociedade nas condições em que se encontra ou de transformá-la em sua estrutura econômica, regime político ou sistema cultural.

Não é mais tão fácil perceber que se trata de propaganda e que há pessoas tentando convencer outras a se comportarem de determinada maneira. As idéias difundidas nem sempre deixam transparecer sua origem nem os objetivos a que se destina. Por trás delas, contudo, existem sempre certos grupos que precisam do apoio e participação de outros para a realização de seus intentos e, com esse objetivo, procuram persuadi-los agir numa certa direção. E eles conseguem, muitas vezes, controlar todos os meios e formas de comunicação, manipulando o conteúdo das mensagens, deixando passar algumas informações e censurando outras, de tal forma que só é possível ver e ouvir aquilo que lhes interessa.

Os noticiários de jornais, rádio e televisão e os documentários cinematográficos transmitem as informações como se fossem neutras, mera e simples descrição dos fatos ocorridos. Mas, em verdade, essa neutralidade é apenas aparente, pois as notícias são previamente selecionadas e interpretadas de molde a favorecer determinados pontos de vista. Os filmes de ficção, romances, poesias, as letras de músicas e expressões artísticas de maneira geral parecem resultar da livre imaginação dos mais variados artistas. Todavia, a distribuição a promoção das obras são controladas de modo a só tronar conhecidas aquelas cujo conteúdo não contrarie as idéias dominantes. As denominações de ruas e praças, as placas comemorativas e de sinalização, as estátuas e efígies de pessoas, colocadas nos mais diversos logradouros, aparentemente se destinam apenas a servir de orientação ou a decorar os ambientes. Porém, na maioria dos casos, cuja vida deva servir de exemplo, com o objetivo de que sejam imitadas em benefício da realização dos interesses promovidos pela propaganda. Professores extravasam sua função de transmitir conhecimentos científicos para divulgar concepções comprometidas com certas posições. Líderes religiosos, que se propõe a orientar seus adeptos pelos caminhos da paz espiritual e da salvação eterna, acabam empurrando-os para ações que favorecem lucros materiais e ambições terrenas.

Por toda a parte e em todos os momentos são propagadas idéias que interferem nas opiniões das pessoas sem que elas se apercebam disso. Desse modo, são levadas a agir de uma outra forma que lhes é imposta, mas que parece por elas escolhida livremente. Obrigadas a conhecer a realidade somente naqueles aspectos que tenham sido previamente permitidos e liberados, acabam tão envolvidas que não têm outra alternativa senão a de pensar e agir de acordo com o que pretendem delas. Um exemplo concreto, dentro da história brasileira, permitirá esclarecer melhor essa amplitude da propaganda ideológica.

Em abril de 1964, alguns militares, com apoio de políticos, empresários e segmentos da classe média, tomaram o poder através de um golpe de estado. O novo regime político foi redefinido no sentido de restringir a participação popular, impedindo quaisquer reivindicações, movimentos ou conflitos. Paralelamente, propunha-se a reorientação do sistema econômico para um modelo de desenvolvimento que, diferentemente das propostas nacionalistas anteriores, permitiria maior penetração de capital externo no país.

Essas diretrizes eram fixadas em função dos interesses das empresas multinacionais, dos grandes proprietários de terras, industriais, comerciantes e banqueiros. Através delas, estimulava-se a acumulação de capital sem os incômodos das tensões causadas pela luta reivindicatória dos trabalhadores.

Mas esses objetivos não poderiam ser realizados sem o apoio e a colaboração dos trabalhadores em geral e da classe média. Necessitavam-se dos operários nas fábricas, dos colonos nas fazendas e dos funcionários nas repartições. Era preciso que todos trabalhassem e se esforçassem o mais possível, sem grandes exigências, para promover a expansão econômica. É claro que tal apoio não seria conseguido se as pessoas visadas não estivessem convencidas de que atuavam em função de seus próprios interesses e benefícios. Para isso o governo promoveu uma intensa campanha de propaganda ideológica, que se resolveu durante vários anos.

Inicialmente improvisada e pouco sistemática, a propaganda logo passaria a ser orientada por órgãos especialmente criados para coordenar as campanhas. A Assessoria Especial de Relações Públicas da Presidência de República (AERP) encarregou-se da propaganda nos governos de Costa e Silva e Médici. Geisel teve a Assessoria de Imprensa e Relações Públicas (AIRP), depois desmembrada em duas. Figueiredo criou a Secretaria da Comunidade Social (SECOM), posteriormente substituída pela Secretaria de Imprensa e Divulgação (SID).

Organizou-se, em todo o país, um sistema de censura de tal forma rigoroso que quase nada podia ser divulgado sem prévia autorização. Qualquer informação ou notícia que não estivesse de acordo com a ideologia oficial do governo era proibida e podia acarretar a punição do responsável. Estabelecido, dessa forma, o controle absoluto das informações, a propaganda passava a desenvolver-se sem nenhum obstáculo. O primeiro passo foi justificar o golpe do estado e o regime implantado. Explicava-se que o militares haviam tomado o poder porque o Brasil era um país desorganizado pelas crises econômicas e distúrbios políticos constantes que os governantes e administradores corruptos não conseguiam solucionar. A dramática ameaça de subversão e guerra revolucionária, orientada por comunistas portadores de ” ideologias exóticas e alienígenas”, era o pretexto anunciado para justificar o caráter autoritário e repressivo do governo.

Procurando legitimar o regime, a propaganda encarregou-se de enaltecer os presidentes, apresentando-os como líderes os mais indicados para serem chefes de governo. Com a construção de uma imagem positiva dos presidentes, esperava-se conseguir despertar a confiança da população para as suas decisões, explicações e esclarecimentos. Pretendia-se obter, também, a submissão às convocações de mobilização para o trabalho e apoio ao governo.

Mas não bastavam imagens; era preciso alguns fatos concretos que mostrassem governos atuantes, e a propaganda se encarregou de difundi-los. Todas as realizações, pequenas ou grandes, eram divulgadas para todo o Brasil com insistência e repetição. A todo o momento, na imprensa, rádio, televisão ou cinema, se mencionavam a industrialização do Nordeste, a Transamazônica, os milhões alfabetizados pelo Mobral e tantos outros.

Muitos feitos foram exagerados e dramatizados ao extremo, com o objetivo de sugestionar os ouvintes. Sugeria-se que naquele período se fizera mais que em toda a história anterior do país; inúmeras construções eram apresentadas como as maiores do mundo. Afirmava-se que todas a realizações visavam ao bem estar da população em geral, ocultando-se que os maiores beneficiados eram os detentores do grande capital.

Apelava-se para o orgulho patriótico da população, mas o amor à pátria passou a ser sinônimo de submissão ao governo. Quem contestasse o regime militar passava a ser considerado antibrasileiro, e o “slogan” de 1970 impunha: “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Em seguida, a propaganda procurava instilar o espírito de fé no país para que a população, confiando no futuro, aguardasse chegada de dias melhores e suportasse calmamente as dificuldades. Diziam que o Brasil era uma grande extensão de terras férteis cujas inúmeras riquezas permitiriam que viesse a se transformar em grande potência. Prometia-se a produção de ouro, urânio, ferro, petróleo e alimentos em grandes quantidades, quando então não haveria mais problemas nem sofrimentos.

Otimismo e confiança passaram a ser a tônica das mensagens. “Chegou a hora de crescer sem inflação” (Castelo Branco). “Confiamos no Brasil” ( Costa e Silva). ” Ninguém segura o Brasil” (Médici). ” Este é um país que vai pra frente” (Geisel). ” O Brasil encontrou a saída. Vamos todos crescer” (Figueiredo). Foram épocas e slogans diferentes, mas sempre o mesmo sentido.

Legitimados o golpe e o regime, construída a boa imagem dos presidentes e suas realizações, estimulados o patriotismo e a confiança, restava pedir apoio e convocar para o trabalho. ” Participação”, a idéia-chave da segunda metade dos anos 60 continuaria um lema a ser repetido pelos anos afora. ” Pague seus impostas” (Castelo Branco). ” A ordem do Brasil é o progresso. Marche conosco” (Costa e Silva). ” Você está convidado a participar das duzentas milhas” (Médici). ” O Brasil é o trabalho e participação de todos” (Geisel). Todos esses slogans, cada um na sua época, foram intensa e sistematicamente repetidos em todos os meios de comunicação.

A propaganda deu resultados. Grande parte da população acreditou no que ouvia confiando em que os governos militares eram legítimos e defendiam seus interesses. Submeteu-se às decisões políticas e colaborou com o seu trabalho. Os objetivos foram alcançados em sua maior parte. O país superou a crise em que se encontrava em 1964, expandiu-se o sistema financeiro, o capital estrangeiro investiu em todos os setores, diversificou-se a agricultura e se desenvolveu a indústria. As fábricas, as fazendas e os bancos cresceram e com eles os lucros. Os grandes beneficiados foram os proprietários do grande capital. Uma pequena parte da população recebeu alguns poucos frutos desse desenvolvimento, mas os capitalistas viram sua riqueza multiplicar-se rapidamente, ficando com a maior parte. Para as classes trabalhadoras, contudo, a pior conseqüência foi a alienação produzida pela propaganda, a ignorância sobre suas próprias condições de vida e seu papel na sociedade. Mistificadas, perderam grande parte da sua capacidade de organização e luta em defesa de seus próprios interesses, e só ao final dos anos 80 é que viriam a recuperar parte de sua força.

Esses exemplos são simplificativos para mostrar a força de expansão da propaganda ideológica. Ela foi empregada em todas as épocas conhecidas da história, pelos mais diversos grupos e líderes. Uns para manter o status quo e garantir seu poder, outros para transformar a sociedade todos procuraram envolver as massas na consecução de determinados objetivos e realização de certos interesses. Inúmeras vezes a propaganda foi total, utilizada não apenas para divulgar alguns idéias e princípios, mas para incutir toda uma visão do mundo e sua história, de idéias e respeito do papel de cada indivíduo e sua família, da posição dos grupos e classes na sociedade e para impor valores e padrões de comportamento como os mais adequados e mais justos.

A propaganda nem sempre se desenvolveu da mesma maneira, mas variou conforme o momento histórico que foi realizada. Em cada época, o modo de produção econômico vigente, o estádio em que se encontravam as forças produtivas, a posição e capacidade das classes sociais em conflito é que determinaram a forma, o conteúdo e o grau de intensidade das campanhas. Mas há alguns aspectos que permanecem constantes, repetem-se na história, e podem ser considerados princípios gerais. É o que se verá a seguir.

Classes Sociais, Ideologia e Propaganda

As ações humanas se definem e se distinguem pelo fato de que são realizadas com um caráter eminentemente social, baseadas na cooperação entre diversos indivíduos. Para que possam satisfazer às suas necessidades, as pessoas dependem de bens e produtos os mais diversos. A produção e distribuição desses bens exigem o trabalho integrado de vários homens, colaborando uns com os demais. Para que essa colaboração seja possível, é indispensável que haja certas idéias orientadoras, partilhadas pela maioria, que a oriente numa mesma direção, permitindo a consecução dos objetivos comuns. Cada indivíduo precisa ter concepções a respeito do meio em que vive, dos objetivos que devem ser atingidos e do seu papel no conjunto das relações sociais. Somente quando essas idéias coincidem com as dos demais membros da sociedade é que lhes é possível agir e participar de forma harmônica e integrada.

As idéias não surgem fortuitamente na mente humana, mas são produzidas a partir da percepção da realidade concreta, tal como vivida pelos membros da sociedade. Ocorre que as pessoas não vivem da mesma forma. Embora se encontrem perante uma mesma realidade, inserem-se nela de maneiras diferentes, advindo daí diversas e distintas formas de pensar. Em outras palavras, as idéias são determinadas pela posição que se ocupa no contexto social. Resta verificar como se caracterizam as diferenças de participação dos indivíduos em uma mesma sociedade.
A forma como os homens se encontram integrados na produção econômica determina os limites de sua atuação e participação em todos os níveis sociais, estabelecendo o seu “espaço”. A expressão “espaço”, no aspecto social, tem um sentido específico. É a área, definida por certos limites, dentro dos quais os indivíduos e grupos podem agir. Não se trata de uma área física ou geográfica, mas de um conjunto de relações. Isto significa dizer que as pessoas, em suas relações com os objetos matérias e imateriais e com outros indivíduos, estão condicionadas por certas barreiras que restringem suas possibilidades de ação. É o caso das classes sociais. Uma classe social se constituem pelo conjunto daqueles indivíduos que têm uma mesma posição e ocupam o mesmo espaço no plano da produção econômica, situação que lhes determina uma mesma forma de participação a nível político e cultural. Quando a produção se encontra organizada em moldes capitalistas, a sociedade se caracteriza pela divisão em duas classes fundamentais: os trabalhadores de um lado e os capitalistas do outro. Essas duas classes vivem em condições totalmente diversas e antagônicas.

Os trabalhadores têm o seu espaço delimitado pelo fato de que entram na produção apenas com sua força de trabalho, participando dos resultados através de um salário que lhes garantem, exclusivamente, o mínimo necessário à própria subsistência. Refletindo essa marginalização econômica, em nível político, os trabalhadores são apenas os sujeitos passivos das decisões e medidas geradas no seio do Estado. Essas decisões são tomadas e implementadas através de órgãos governamentais, onde os representantes dos trabalhadores não existem ou constituem uma minoria insignificante. No plano cultural, da mesma forma, a situação reflete a realidade econômica, sendo mínimas as possibilidades de acesso aos produtos culturais para qualquer trabalhador. Poucos podem estudar em escolas além de determinado grau, não têm condições de adquirir livros, discos ou quadros, nem de freqüentar concertos, cinema ou teatro.

Por outro lado, o espaço dos patrões, dos capitalistas, é bem mais amplo. Eles são os proprietários dos meios de produção: as terras, máquinas, ferramentas. Nessa condição, apropriam-se da maior parte dos bens produzidos, fato que se concretizam no seu crescente enriquecimento. Conseguem controlar órgãos do governo para que as decisões e medidas sejam favoráveis aos seus interesses e têm grande acesso à produção cultural que, inclusive, ajudam a financiar.

Essa diversidade de posições, frente a uma mesma realidade, determinam as concepções a respeito dela sejam igualmente distintas. Se para os mais privilegiados trata-se de uma sociedade bem organizada e justa, para os demais ela lhes parece absurda e desumana.

Todavia, os limites que definem os espaços das classes sociais não são estáticos nem eternos. Em determinados momentos históricos surgem possibilidades, para uma classe ou parte dela, de ampliar seu campo de ação. A possibilidade aparece, geralmente, quando um grupo adquire maior força em virtude do aumento numérico de sues membros, ou por se ter organizado melhor, ou qualquer outra razão que permita visualizar uma alternativa de lutar e conquistar melhores condições de existência. É o que tem ocorrido com os operários da maioria dos países de economia capitalista. O desenvolvimento econômico faz com que sejam necessários trabalhadores com melhor habilitação profissional. Pelo próprio fato de serem mais qualificados e, portanto, intelectualmente melhor preparados, esses operários encontram-se com mais condições de entender a situação e perceber a contradição entre o baixo nível salarial e os altos lucros das empresas. A partir do momento em que passam a trocar informações e discutir sua situação, começam a adquirir maior capacidade de organização e mobilização, que lhes permite lutar o obter melhores condições de vida.

Ocorre, contudo, que devido às dissidências e antagonismos existentes entre as classes sociais, a ampliação do espaço de atuação de uma, geralmente, implica a redução do espaço da outra. Realmente, a possibilidade de os trabalhadores obterem um aumento salarial resulta na igual possibilidade de redução dos lucros dos patrões. Da mesma forma, a participação política através da eleição de alguns representantes operários significaria uma diminuição do número equivalente de representantes dos patrões e assim por diante.

É nessa contradição que se definem os interesses das classes sociais. O espaço passível de ser ocupado pelos trabalhadores constitui, ao mesmo tempo, uma área passível de ser perdida pelos patrões. Esse espaço corresponde, nesse momento, aos “interesses” dos setores em conflito. Isso significa dizer que o “interesse” de uma classe social corresponde à possibilidade que ela tem de ampliar o espaço que ocupa ou à necessidade de defendê-lo contra as ameaças de outra classe. Nesse caso, para a classe operária trata-se de um interesse de transformação, com menor ou maior mudança de suas condições. Para a classe patronal, significa um interesse de manutenção, de conservar a sociedade na forma como se encontra organizada, impedindo uma mudança que signifique a perda de uma área já ocupada e das vantagens e privilégios que ela representa. A intensidade da mudança varia de acordo com as condições concretas em que se encontra a sociedade naquele momento. Pode haver pequenas mudanças quantitativas, com maior índice salarial, mais representantes políticos, direito de freqüentar escolas de grau mais elevado. Pode, também, traduzir-se em radicais transformações qualitativas, como a mudança do sistema econômico ou do regime político. Voltemos, agora, à análise da forma como se desenvolvem as idéias dos agentes sociais.

Qual a primeira condição necessária para que uma classe consiga realizar seus interesses, atuando no sentido de ampliar ou manter seu espaço? Antes de mais nada é preciso que seus membros percebam que essa possibilidade existe. Para tanto é importante que tenham conhecimento da situação em que vivem, saibam qual a sua força e quais as condições em que se encontram os membros de outras classes. Só então têm condições fixar objetos e traçar os caminhos mais adequados para atingi-los, que podem ser desde uma reivindicação perante um tribunal até uma greve geral e mesmo uma revolução armada. Em outras palavras, é preciso que a classe adquira consciência das suas reais condições de existência e das possibilidades de mudança ou da necessidade de manutenção nessas mesmas condições. Essa consciência nada mais é que um conjunto de idéias a respeito da realidade social, ou seja, uma ideologia.

Uma ideologia contém três tipos básicos de idéias, que são as representações, os valores e as normas.

Representações são idéias a respeito de como é a realidade: como está organizada a sociedade, em que classes se divide, se há ou não exploração de uma pela outra, como ocorre a exploração etc. Valores são idéias a respeito de como deve ser a realidade: a organização social deve ser diferente, sem classes e sem exploração ou, então, tudo deve permanecer como está. Finalmente, normas são aquelas idéias a respeito do que deve ser feito para transformar a realidade ou mantê-la nas condições em que se encontra: votar no candidato que torne a sociedade menos injusta, organizar uma greve para forçar o governo a providenciar mudanças ou, para aqueles que querem manter a situação, usar força policial para reprimir reivindicações, demitir operários grevistas etc.

Uma vez definida, a ideologia serve como modelo para a compreensão da realidade e guia orientador da conduta de todo o grupo e de cada indivíduo em particular. Resta verificar de que forma essa ideologia é propagada, tornando-se conhecida pelos diversos membros de uma classe social ou, até mesmo, por toda a sociedade.

Uma ideologia nunca surge, ao mesmo tempo, para todos os membro de uma determinada classe. Geralmente são apenas uns poucos, um pequeno grupo que consegue adquirir consciência e visualizar um quadro completo de sua realidade. Todavia, sua atuação isolada pode não ser suficiente. De nada adiantaria se apenas alguns líderes sindicais fizessem uma greve. Se os operários de um único setor da indústria lutarem por seus interesses, podem ser despedidos sem nada obter, sem realizar nenhuma mudança. Os empresários, também, pouco conseguiriam se apenas alguns reagissem contra as ameaças aos seus privilégios ou só uns poucos procurassem obter medidas que assegurassem maiores lucros. Daí a importância do apoio, senão de todos, ao menos de uma grande maioria dos membros de uma mesma classe, para que possam atingir qualquer resultado. Por essa razão que um grupo, percebendo possibilidades de progresso ou a necessidade de defesa contra certas ameaças, procura difundir suas idéias. Sua expectativa a de integrar o maior número de pessoas que, aceitando os mesmos valores e normas, atuem numa mesma direção, permitindo que os objetos sejam atingidos. Senão houver idéias comuns, torna-se impossível coordenar, integrar as ações, organizar as lutas e os movimentos.

Ocorre também, muitas vezes, que determinado objetivos que podem ser atingidos por certa classe se a outra resistir e impedir as ações. Nesse caso se torna necessário que a outra classe dê seu apoio e, até mesmo, colabore ativamente para a consecução daqueles objetivos, o que exige que a ideologia seja aceita também pelos seus membros. Os patrões querem manter ou aumentar seus lucros, precisam do trabalho de seus empregados, sem o qual lhes é impossível realizar esse intento. Para os trabalhadores, também, é mais fácil conquistar melhores condições se puderem contar com o apoio dos empresários, situação que raras vezes ocorre na realidade concreta. Por essas razões é que os grupos sociais procuram difundir suas idéias, não só para aqueles que pertencem à mesma classe social como aos de outras. Essa difusão da ideologia se faz pela propaganda ideológica.

O Desenvolvimento da Propaganda

A propaganda ideológica envolve um processo complexo, com termos e fases distintas. O “emissor”, grupo que pretende promover a difusão de determinadas idéias, ao visar outros com interesses diversos, realiza a “elaboração” de sua ideologia para que as idéias nela contidas pareçam corresponder àqueles interesses. Feito isso, procede um trabalho de “codificação”. pelo qual transforma as idéias em mensagens que atraiam a atenção e sejam facilmente compreensíveis e memorizáveis. Através do “controle ideológico” o emissor manipula todas as formas de produção e difusão de idéias, garantindo a exclusividade na emissão das sua próprias. Procura, dessa forma, evitar a possibilidade de que os receptores venham a receber, ou mesmo produzir, outra ideologia que os oriente contra os interesses do emissor. A partir daí as mensagens são emitidas através da “difusão”, que procura atingir o mais rapidamente possível um maior número de pessoas.

Elaboração

Quando a propaganda ideológica se faz entre os membros de uma mesma classe social, as idéias a serem propagadas não precisam sofrer nenhum tipo de elaboração mais significativo. Isto porque se trata de pessoas que, por pertencerem à mesma classe, ocupam uma mesma posição, donde se segue que tenham interesses comuns.

Nesta caso, as idéias defendidas por uns dificilmente seriam rejeitadas pelos demais.

Não haveria grandes dificuldades para operários transmitirem a outros a idéia de que sua situação é precária e da necessidade de se mobilizarem para conquistar melhores condições. Podem surgir divergências quanto à forma e ao momento da mobilização, mas dificilmente quanto à idéia em si. Um grupo de empresários tampouco teria dificuldades para mostrar aos demais a importância de se ajustar certas medidas econômicas, de forma a aumentar os lucros de todos. Nesses casos, praticamente não há necessidade de convencer, de persuadir, pis que a apresentação clara das idéias já deve ser suficiente para que os receptores dêem sua adesão e apóiem as propostas. A propaganda adquire, nesses casos, um caráter de demonstração e conscientização. Procura explicar a realidade existente, mostrar a necessidade de mudá-la ou mantê-la e indicar formas de realizar interesses que são comuns.
Se a propaganda é realizada de uma classe social para outra que tem interesses diversos, a simples difusão da ideologia já não é suficiente para gerar adesão. Nesse caso, o grupo emissor, antes de difundir suas idéias, elabora-as para que se adaptem às condições dos receptores, criando a impressão de que atendem a seus interesses. Mas a verdade é que as idéias contêm apenas os objetivos do emissor, e a impressão contrária só é possível se, ao se reportar à realidade, as mensagens ocultem ou deformem alguns de seus aspectos. Nesse caso, convencidos de que as propostas atendem às suas necessidades, os receptores não têm razão para discordar delas. A elaboração, dessa forma, esconde quais são os interesses reais existentes por trás da ideologia, ao mesmo tempo que oculta a realidade vivida pelos receptores, para que estes não possam formular outras idéias que melhor correspondam à sua posição. Neste caso, a propaganda não tem mais o caráter de conscientização, mas de mistificação, manipulação e engano.

A forma mais utilizada na elaboração das ideologias é a universalização. As idéias, que na realidade se referem aos interesses particulares de uma classe ou grupo, são apresentadas como propostas que visam a atender a todos e satisfazer às necessidades da maioria. No Brasil, isto tem sido constantemente feito com relação às medidas governamentais, apresentadas através de fórmulas do tipo: “benefícios para o povo”, “progresso do país”, “desenvolvimento nacional”, “para o bem de todos”, “para todos os brasileiros”.
A elaboração também tem sido feita por transferência, em que os interesses contidos na ideologia são transferidos e atribuídos diretamente aos receptores. Um dos primeiros a adotar ostensivamente essa fórmula, no Brasil, foi Getúlio Vargas. Seus inúmeros discursos começavam dirigidos aos “Trabalhadores do Brasil” e seguiam com a enumeração das medidas tomadas pelo governo como tendo sido adotadas para beneficiar os operários. Ajudava-se os industriais com incentivos, empréstimos e subsídios. Mas a propaganda transferia as vantagens para os trabalhadores alegando que, com o estímulo às indústrias, estas teriam condições de oferecer melhores empregos.

A universalização e a transferência também se processam de forma mais sutil. Há expressões que não têm significado muito preciso, de tal forma que cada pessoa lhes dá uma interpretação. É o que ocorre com os conceitos de “democracia”, “igualdade”, “justiça”, “liberdade” e tantos outros. Quando alguém fala em “democracia” a um grande número de pessoas, cada uma entende a palavra num sentido relacionado à sua própria condição. Pequenos empresários pensam em maior abertura para decidir sobre seus próprios negócios ou na possibilidade de concorrer com as multinacionais em igualdade de condições. Operários pensam em liberdade de lutar eficazmente por melhores condições de trabalho. Estudantes imaginam maior participação dos alunos nas decisões e atividades escolares, e assim por diante. E a palavra democracia é insistentemente utilizada pelos políticos e homens de governo, que raramente explicitam a que se referem concretamente. A propaganda age, assim, resumindo as idéias em expressões ambíguas dos tipos mencionados. Consegue-se, com isso, que cada um dos que ouvem a mensagem concorde com ela, por acreditar que diga respeito a si e a seus interesses e necessidades, e acabe apoiando o sistema econômico e o regime político.

A universalização e a transferência são feitas, ainda, de forma indireta. Ao invés de apresentar propostas como possíveis de atender a todos, mascara-se a diferença entre os indivíduos, grupos e classes sugerindo-se a igualdade. Mostra-se a sociedade como um todo homogêneo onde não há diferenças de posições e interesses. Tal imagem acaba por levar à conclusão de que quaisquer medidas beneficiam a todos sem discriminação, já que são iguais. Expressões do tipo “todos são iguais perante a lei”; teses sobre o Brasil ser um país cordial onde todos falam a mesma língua e professam a mesma religião, a propalada afirmação de que no Brasil não há racismos nem preconceitos, são argumentos empregados com aquele objetivo. Ao serem convencidas de que são cidadãos de um país onde todos são tratados igualmente, as pessoas acabam por não perceber a exploração de que são vítimas. As divergências com países estrangeiros, até mesmo em caso de guerras, têm permitido manipular a população para que esta sinta participar de um todo único. A única diferença passa a ser entre nacionais amigos e estrangeiros inimigos. Nesse contexto, todas as idéias e propostas são recebidas como visando ao interesse geral.

Quando não é possível ocultar as diferenças existentes na sociedade, procuram minimizá-las, torná-las insignificantes. A fórmula mais comumente empregada para tal tipo de sugestão é a do chamado “mito do esforço pessoal”. A idéia é divulgada alegando-se que a diferença entre ricos e pobres corresponderia a uma distinção entre pessoas mais e menos esforçadas. Afirma-se que os que detêm grande quantidade de bens conseguiram adquiri-los porque trabalharam muito para isso, e que qualquer pessoas que se exerça o suficiente pode atingir altos cargos e ganhar muito bem. Tomam-se alguns exemplos de pessoas bem-sucedidas, apesar de sua origem bastante humilde, alegando que progrediram porque estudaram com afinco e se esforçaram muito. Embora esses exemplos raramente ultrapassem uma dezena, num país de milhões, fica a idéia de que qualquer um, com tenacidade, pode atingir a nível dos mais privilegiados na sociedade. Essa idéia parece anular a contradição entre as classes, em que uma é explorada pela outra e não tem alternativas para fugir à dominação. Todavia, oculta um aspecto importante dos países subdesenvolvidos. Nesses, a grande massa populacional, devido à subnutrição, doenças, necessidade de trabalhar desde criança, não tem condições de se esforçar ou estudar.

Há outras situações em que as diferenças e contradições entre as classes sociais são muito gritantes. Quando se vê, numa mesma região, favelas e mansões luxuosíssimas, famintos ao lado de indivíduos ostensivamente poderosos, não há meios de se ocultar ou minimizar as diversidades. A propaganda recorre, então, à ocultação dos efeitos da exploração. Não nega a pobreza existente, mas esconde que ela existe para garantir o enriquecimento de alguns. È assim que a elaboração se faz, no sentido de desvalorizar os benefícios recebidos pela classe dominante. Formulam-se argumentos de que as pessoas não podem comer além de um certo limite, não podem utilizar mais de um automóvel ao mesmo tempo, para concluir que a riqueza não é tão significativa nem tão atraente. Afirmam-se serem tão poucos os privilegiados que a redistribuição de sua riqueza sã daria uma pequena e insignificante parte para cada um. Ou, então, procura-se apresentar a riqueza como desvantajosa sob argumentos do tipo “dinheiro não traz a felicidade”, “dinheiro acarreta preocupações”, “rico morre de enfarte”, “os ricos, para manter sua fortuna, precisam trabalhar mais que os pobres e não têm tempo de aproveitar a vida”, “Natal de pobre é mais humano e não tão formal quanto o dos ricos”.

Aproveita-se a diferença de costumes, onde os hábitos das classes mais abastadas são postos como desagradáveis e cansativos. “Rico não pode comer à vontade por ter de obedecer a regras de etiqueta” ou então “tem de comer pouco por educação”. Sugere-se, com isso, que a condição dos explorados é menos desagradável que a dos exploradores.

Quando não é possível ocultar os benefícios para as classes dominantes, disfarçam-se os prejuízos para os dominados. Nega-se, por exemplo, que os salários sejam tão baixos como de fato são. Diz-se que assistência médica garantida pelos Institutos de Previdência, a existência de produtos a preços mais baixos por subsídio do governo, a construção de estradas e avenidas, a assistência das Delegacias do Trabalho, a segurança policial, tudo deve ser considerado como um salário indireto, já que são vantagens que independem de pagamento direto dos empregados e custariam caríssimas se não fosse assim. Tenta-se, também, sugerir que se a situação não é tão boa, resta o consolo de que poderia ser pior. Exemplo sugestivo dessa tática ocorreu em fins de 1976, quando o governo brasileiro lançou uma campanha que, entre outras coisas, afirmava: “Se você está triste porque perdeu seu amor, lembre-se daquele que não teve uma amor para perder (…); se você está cansado de trabalhar, lembre-se daquele angustiado que perdeu o seu emprego; se você reclama de uma comida mal feita, lembre-se daquele que morre faminto (…), lembre-se de agradecer a Deu, porque há muitos que dariam tudo para ficar no seu lugar”.

Para disfarçar os efeitos da dominação procura-se, também, atribuí-los a um “bode expiatório”, um elemento, muitas vezes externo, que é responsabilizado pelos problemas. Crises internacionais, alto preço de produtos importados, ação de empresas e grupos estrangeiros, corrupção de alguns políticos, infiltração comunista até mesmo misteriosas “forças ocultas” passam a ser apresentados como responsáveis por todos os males. Fatos e pessoas do passado, também, costumam ser responsabilizados por problemas presentes, ocultando-se, dessa forma, a real origem dos males. Assim é que a colonização portuguesa teria sido a causa original do subdesenvolvimento brasileiro e das precárias condições econômicas atuais. Ou então foi o sistema de monocultura da economia cafeeira, adotado nos começos do século, que gerou a atual crise econômica. Com tudo isso, a classe dominante disfarça sua exploração sobre os demais e neutraliza a possibilidade de que lutem por melhores condições de vida.

Chega-se, mesmo, a atribuir a culpa da pobreza aos próprios pobres. Por não se interessarem em estudar, por não ferverem as águas contaminadas, é que são incompetentes, pobres e doentes.

Dessa forma, grande parte da população, que não tem nenhum acesso à assistência médica e educacional, vê inverter-se a relação para se tornar culpada pelo que não tem condições de fazer. É em parte com esse objetivo que os textos de certas campanhas repetem tão insistentemente: “você também é responsável”, “O Brasil é feito por nós”, “não deixe de vacinar seu filho”. De tanto ouvir tais apelos, os receptores acabam sentindo-se culpados pelos problemas, com a impressão de que, se eles existem, é porque não tomaram alguma providência para a qual foram alertados. Por toda a parte, na sociedade, estão pessoas a afirmar que se tivessem estudado mais, ou trabalhado com mais afinco, ou feito isso e aquilo, poderiam encontrar-se em melhores condições. Sequer percebem que sua situação é fruto do fato de pertencerem a uma classe à qual não são dadas outras alternativas e a s poucas apresentadas são ilusórias.

Mascara-se, também, a dominação e a exploração de classes atribuindo-se a algumas pessoas ou a certos órgãos e instituições toda a responsabilidade pelas medidas tomadas e implementadas. Apregoa-se, por exemplo, que o governo, o presidente, ou alguns burocratas é que detêm o poder e se encarregam de todas as decisões. Oculta-se que, na verdade, eles não detêm o poder, mas apenas o exercem na defesa dos interesses dos detentores do capital. esse disfarce permite sugerir que todas as decisões são tomadas por pessoas ou grupos neutros e desinteressados, cuja única preocupação é progresso do país.

Na maioria dos países da América Latina, as classes dominantes, as que realmente detêm o poder da decisão, são compostas por proprietários de capital financeiro, latifundiários, empresários nacionais associados aos de empresas multinacionais. com a plena consciência dessa situação, as populações talvez não apoiassem seus governos, porque perceberiam que a participação do povo é insignificante e seus interesses não são atendidos. Por essa razão, deformam a realidade, atribuindo todo o poder de decisão ais militares ou tecnocratas. Como estes não são banqueiros nem latifundiários, podem afirmar que os interesses visados são os do povo. Na verdade, estes militares e tecnocratas são instrumentos – de boa ou má-fé – de grupos cujos interesses não podem deixar de realizar. Estes, a propaganda esconde e não deixa aparecer como os realmente beneficiados.

Tática muito empregada é a de construir a imagem de um líder, responsável por todas as medidas, único detentor do poder. Enquanto a população acreditar nele não percebe quem são os verdadeiros privilegiados que se encontram por trás das decisões. Além disso, há sempre a possibilidade de se substituir um líder por outro, em épocas de crise econômica ou política, convencendo a população de que o substituto poderá solucionar todos os problemas. São os chamados líderes carismáticos, homens que parecem possuir dotes e atributos excepcionais. A propaganda cuida de propalar insistente e repetidamente as qualidades daquele que dirige. Gênio político, inteligente, hábil, de inusitada memória, e superior a todos os demais, a ele deve caber o exercício pleno do poder. Mas não bastam as qualidades excepcionais; os líderes só são seguidos se forem capazes de compreender a condição de seus liderados. A propaganda cuida deste aspecto também, apresentando-o como popular, simples, acessível e, portanto, capaz de compreender melhor que ninguém os problemas da maioria.

A elaboração da ideologia também tem sido feita pela negação de quaisquer possibilidades de mudanças que possam beneficiar os receptores, como forma de fazer com que estes aceitem as propostas apresentadas como as únicas possíveis. Assim, quando trabalhadores pretendem maior participação nos resultados econômicos através de aumentos salariais, argumentam que é impossível melhorar os salários, porque haveria tal aumento de custos para as empresas que as levaria à falência, deixando os operários em situação ainda pior: a do desemprego. Outras vezes, procuram demonstrar que as contradições e desigualdades são naturais e inevitáveis, que sempre haverá pessoas privilegiadas e outras destituídas de quaisquer recursos, de nada adiantando lutar contra isso. Afirmam mesmo que a realidade é de tal ou qual forma porque Deus quis assim e é inútil pretender transformar a natureza em que só o “Todo Poderoso” pode decidir. Ou então se utiliza a técnica de criar uma imagem das pessoas que seja incompatível com qualquer proposta de mudança social. Sob o rótulo de “caráter nacional brasileiro” se atribui uma série de características à população, onde se diz que o homem brasileiro se define pelo individualismo, pela emotividade, pela vocação pacifista e outros. Daí concluem e argumentam que, sendo individualista, pouco dado ao trabalho em conjunto e em cooperação, é incapaz de se organizar em partidos políticos, justificando o controle autoritário dos partidos pelo governo. Sendo emotivo, de comportamento pouco racional, alega-se que não deve ter maior participação política pelo voto direto, que exige senso crítico e tirocínio. Apoiando-se na idéia de que o povo brasileiro é cordial e pacífico, afirma-se que é contrário aos conflitos e se proíbem as greves e movimentos de contestação, porque seriam insuflados por agentes comunistas estrangeiros.

Chega-se a falsificar e deformar fatos da história, a fim de esconder a capacidade de uma classe para obter a realização de seus interesses. Uma das formas de os indivíduos melhor conhecerem suas condições de existência, sua posição na sociedade, é a compreensão do passado histórico. Importa ter noção das próprias raízes, das origens e do desenvolvimento da classe social a que se pertence, das lutas e conquistas obtidas pelos antepassados. São aspectos importantes para que os membros de uma sociedade possam localizar-se no tempo, compreendendo o processo de desenvolvimento em que estão inseridos. Daí a preocupação daqueles que detém o poder em interpretar a história a seu favor, deformando o passado histórico de certos grupos, para que não adquiram consciência a respeito de sua própria força.

A atuação das classes média e trabalhadora teve um papel importante na evolução de todos os países capitalistas. Suas exigências determinaram uma série de medidas que permitiriam uma organização mais racional e eficiente do trabalho. Todavia, a história universal foi escrita e ensinada nas escolas como um conjunto de fatos resultantes das decisões de apenas alguns homens, ora heróis, ora tiranos. A história passou a ser um conjunto de atos e comportamentos das elites, como se a maioria das populações não tivesse nenhum papel no processo. Essa interpretação, quando disseminada, gera um impressão de que os povos são incapazes de decidir sua própria vida, necessitando das elites para cuidar de seus interesses.

Mas nem sempre é possível ocultar totalmente os interesses dos receptores ou a sua capacidade de escolher seu próprio destino. Nesse caso a elaboração tem sido feita pelo adiamento, para um futuro vago, das satisfação de certas necessidades. As elites e os governantes costumam prometer futuros grandiosos quando haverá bem-estar para todos. Sugerem que se deve suportar alguns problemas e aceitar sacrifícios, em função dos melhores dias que virão. As descobertas de riquezas, os avanços tecnológicos, têm sido constantemente alardeados, de forma dramática, como as novas fontes que trarão o progresso e desenvolvimento para todos. Com tudo isso se faz que as pessoas, confiando no amanhã, no dia melhor para seus filhos, aceitem passivamente suas agruras.

Todos os casos acima mencionados constituem fórmulas de apresentação das idéias e propostas de grupos que deformam a realidade, ocultando o fato de que elas se referem exclusivamente à satisfação de seus objetivos. Adequando-as, assim, aos interesses de todos ou, mais especificamente, dos receptores, tornam possível fazer com que se submetam e até mesmo colaborem para a realização daqueles intentos. Existem ainda outras possibilidades de elaboração de ideologia, cada momento histórico determinando quais são as mais eficazes.

Codificação

A realidade social é extremamente complexa. São indivíduos, grupos menores ou maiores e classes sociais interando-se uns com os outros e se defrontando com objetos que podem ou não satisfazer as suas necessidades. Integram-se econômica, política e culturalmente, compondo toda uma trama de relações altamente diversificada. Por participarem de formas diferentes dessas relações os homens têm conhecimentos e experiências igualmente diversas. Sua capacidade de compreensão variável. Enquanto uns têm mais facilidade para entender certos fenômenos, outros não conseguem sequer percebê-los. Outros, ainda, nem chegam dar atenção a um grande número de fatos e acontecimentos, por não considerá-los importantes, embora possam interferir profundamente em suas vidas. Uma ideologia, por refletir a realidade, reflete também grande parte de sua complexidade e, para muitos, dificilmente é compreensível em seu todo. Nessa condições a propaganda, para transmitir a ideologia, precisa adaptar e adequar as idéias nela contidas às condições e à capacidade dos receptores de tal forma que tenham sua atenção despertada para as mensagens e consigam entender seu significado. Pois bem, codificação é processo pelo qual as idéias são transformadas em mensagens passíveis de serem transmitidas e entendidas.

Há inúmeras formas pelas quais as idéias são codificadas antes de sua divulgação. Em primeiro lugar, levando-se em conta aquelas pessoas que têm dificuldade em entender certas idéias complexas, procura-se simplificá-las. Essa simplificação pode ser maior ou menor, em função do grau de compreensão daqueles que deverão recebê-las. Lenin, procurando definir a maior forma de organizar a propaganda socialista, afirmava que o agitador para atingir uma grande massa, deveria transmitir uma só idéia ou um pequeno número delas. Hitler, por sua vez, entendendo que a capacidade de compreensão do povo era limitada, considerava que a propaganda deveria restringir-se a poucos pontos repetidos como estribilhos. A propaganda, dessa forma, procura difundir apenas o essencial do conteúdo de uma ideologia, selecionando algumas idéias fundamentais, restringindo-se a uma ou se limitando a um mero sinal simbólico.

As declarações, programas e manifestos, entre outros, constituem formas de simplificação em que se encontram selecionadas e destacadas as idéias centrais de uma determinada ideologia. O “Credo” contém as idéias básicas defendidas pela Igreja Católica.

O “Manifesto Comunista” constitui uma síntese das principais conclusões contidas no pensamento socialista tal como formulado por Marx e Engels.

Procurando obter simplificação ainda maior, a propaganda utiliza fórmulas curtas que contenham uma ou alguma das idéias mais importantes de uma dada corrente ideológica. A “palavra de ordem” contém, em uma expressão curta, o principal objetivo a ser atingido em determinado momento.

Quando, durante os movimentos estudantis ocorridos ao final dos anos 60, defendia-se a idéia de que era necessário reduzir a verba destinada às Forças Armadas para que fosse possível atender às necessidades básicas do povo, adotou-se, para difundi-la, a palavra de ordem “Mais pão, menos canhão”.

O slogan, outra forma de simplificação muito semelhante à palavra de ordem, contém um apelo aos sentimentos de amor, ódio, indignação ou entusiasmo daqueles a quem se dirige. “Aqui começa o país da liberdade”, escreviam os revolucionários franceses na fronteira de seu país. Esses mesmos revolucionários adotavam o lema “Liberdade, igualdade e fraternidade” para representar suas idéias e despertar a emoção dos ouvintes.

A fórmula mais sintética que se pode utilizar para exprimir uma idéia é o símbolo, breve sinal que resume uma ideologia ou que a representa. Justamente por ser bastante simples, é usado constantemente pela propaganda. Impresso em jornais, panfletos, nas bandeiras, pintando nas paredes e muros, utilizando como distintivo nas roupas, permite difundir a idéia a que se refere de forma ampla e rápida.

Os símbolos são formados por sinais gráficos, gestos ou expressões e cumprimentos repetidos pelos adeptos de uma determinada corrente. Foram empregados em todas as épocas e, dentre os conhecidos, o adotado pelos aliados durante a Segunda Guerra Mundial pode ser considerado dos mais perfeitos. O “V” era bastante simples: apenas dois traços retos que podiam ser rapidamente reproduzidos, com qualquer instrumento de escrita, em papéis, paredes, no chão ou em quaisquer objetos. Além disso, era suficientemente sugestivo por ser a letra inicial da palavra Vitória ( Victory), que representava o principal objetivo dos aliados. Importa lembrar que a palavra vitória começa com a letra “V” tanto em inglês, como em francês, espanhol ou português, o que lhe dava um grande valor para ser difundida em nível internacional. Era um sinal versátil, que podia passar de gráfico para plástico e ser feito com os dedos indicador e médio ou com os dois braços erguidos. Além disso, tornou-se sonoro, porque a letra V, em código Morse, formada por três pontos e um traço, e passou a ser associada ao trecho inicial da Quinta Sinfonia de Beethoven, que tem três notas curtas e uma longa.

Além da simplificação, as idéias tornam-se mais acessíveis quando associadas a outras mais simples. Essa associação é feita por semelhança, se a idéia transmitida é explicitada por outra diferente, mas com a qual guarda alguma similitude de forma ou estrutura e que seja mais simples. Para transmitir as idéias relativas à organização política do país e à estrutura dos órgãos de governo, tem sido muito utilizado o recurso de compará-las a um sistema familiar. A família é uma realidade mais conhecida e vivida pelos receptores, que nem sempre conseguem compreender toda a complexidade das instituições governamentais. Durante o Estado Novo, procurou-se uma fórmula para apresentar a idéia de que o Brasil era uma só nação, unida sob a direção de Getúlio Vargas, líder absoluto a quem deveriam ser atribuídas todas as decisões e toda responsabilidade. Para tanto, dizia-se: “A nação é uma grande família”, ” Getúlio, o pai dos pobres”, ” Getúlio, o pai dos trabalhadores”.

As ideologias geralmente se referem a certas situações que, por jamais terem sidos presenciadas pelos receptores, são pouco compreensíveis. Como explicar o valor e a importância de um regime liberal e democrático a quem tenha vivido apenas sob sistemas autoritários ? Nesse caso a associação da idéia é feita por contraste, em que se compara a situação a ser explicada a outra contrária, porém mais conhecida. Essa é a fórmula constantemente empregada por grupos de oposição que apresentam suas propostas recorrendo a imagens de um regime “sem censura”, “sem violência policial” etc.

A ilustração de idéias com exemplos concretos conhecidos é outra forma comum de codificação. Aqueles que defendem a necessidade de que a direção da economia fique a cargo da iniciativa privada costumam apoiar-se na tese da incompetência administrativa e gerencial do governo. Para demonstrá-la recorrem freqüentemente a exemplos bem conhecidos de empresas e repartições públicas desorganizadas e ineficientes. A existência de favelas serve para ilustrar a idéia de que o governo deve investir antes na solução do problema habitacional que na construção de obras suntuárias. Lenin, para explicar essa forma de apresentar as mensagens, levantava a hipótese de se ter de explicar uma greve. Segundo ele, para defini-la em suas características mais importantes, o agitador deveria ilustrar a noção de greve tomando um fato bastante conhecido por seus ouvintes, como o de uma família de grevistas pobre e faminta. A partir desse exemplo é que procuraria mostrar o absurdo da contradição entre a riqueza de uns em oposição à miséria absoluta de outros. Só então é que seria possível explicar a greve como uma conseqüência da forma de organização econômica do sistema capitalista.

Outro aspecto importante a ser considerado na codificação é o fato de que as pessoas já carregam consigo uma série de concepções a respeito da realidade em que vive. Ideologias já existentes, idéias e crenças as mais diversas, mitos e superstições dão aos indivíduos que vivem em uma cultura uma versão de seu ambiente e de sua vida, uma explicação da realidade, que lhes permitem integrar-se ao meio e exercer um determinado papel. A propaganda não deve deixar de considerar, ao difundir novas idéias, o fato de que elas podem chocar-se com as já existentes, por serem diversas e mesmo contraditórias. Nesse caso, ao mesmo tempo que se apresentam certas idéias, pode-se negar as já existentes, procurando mostrar que são falsas e não correspondem à realidade. É o que ocorre com alguns pregadores protestantes ao difundir suas idéias aos adeptos da fé católica combatendo a prática da adoração dos santos e criticando a utilização de imagens como as existentes nas igrejas católicas.

Essa orientação, contudo, nem sempre é eficaz, porque as pessoas tendem a se apegar emocionalmente a certas concepções que, às vezes, trazem consigo desde a infância e rejeitam qualquer nova explicação. Outra possibilidade, nesse caso, é a de fundir a idéia a ser propagada com as concepções já existentes, solução que inclusive facilita a aceitação das mensagens, porque baseadas em idéias já aceitas como verdadeiras. A propaganda hitlerista pregava a pureza da raça ariana, destinada a dominar o mundo, ao mesmo tempo que condenava e combatia os judeus. Essas idéias, contudo, não foram criadas pelos nazistas, mas já se encontravam disseminadas pela Alemanha. A propaganda nazista se apropriou delas, combinando-as com as propostas do partido para torná-las mais convincentes.

Controle ideológico

Por mais que um grupo elabore sua ideologia, ocultando que se refere exclusivamente a seus objetivos, para obter o apoio dos demais, é possível que estes acabem por adquirir consciência de sua própria posição na sociedade e de que seus interesses são diversos. Nessa hipótese, poderiam formular outra ideologia, mais adequada às suas condições, que os levaria a agir em sentido diverso daquele pretendido pelos emissores da propaganda. Por essa razão, os grupos que propagam suas idéias, geralmente procuram evitar que os receptores possam perceber a realidade por outro prisma que não aquele que lhes é proposto. Fazem isso tanto impedindo a formação de outras ideologias como neutralizando a difusão das já existentes. O controle ideológico compreende todas as formas utilizadas para que determinados indivíduos e grupos não tenham condições de perceber sua realidade e, assim, fiquem impedidos de formar sua própria opinião.

Os indivíduos e grupos só podem adquirir consciência de suas reais condições de vida por duas vias: a observação direta do meio em que vivem ou através das informações obtidas de outros, seja pessoalmente, seja pelos meios de comunicação. Daí o controle ideológico se realizar sobre o meio ambiente, sobre os meios de comunicação e sobre as pessoas.

A remodelação do ambiente físico permite torná-lo mais adequado às idéias difundidas pela propaganda. Procuram, assim, fazer com que as imagens percebidas confirmam as idéias apresentadas. Desde a Antiguidade se encontram momentos em que os grupos detentores do poder procuraram moldar a decoração do meio, de forma a apoiar suas idéias. Inúmeros reis, imperadores e dirigentes políticos mandaram construir grandes monumentos para reforçar a idéia de seu poder e prestígio.

No Brasil, Getúlio Vargas foi um dos que mais se preocuparam com a forma do ambiente urbano como instrumento de confirmação das suas idéias. A eficiência e modernidade de suas medidas eram sugeridas através de inúmeras construções que indicavam um governo organizado e empreendedor. A idéia do seu carisma e de sua personalidade forte era reforçada através das suas fotografias, obrigatoriamente afixadas em todas as escolas, fábricas, repartições públicas, bares e restaurantes, vagões de trens. Sua efígie estava nas moedas, selos, placas comemorativas e de inauguração. Bustos de bronze foram erigidos em diversos locais. Seu nome foi atribuído a inúmeras ruas e logradouros públicos. Sua imagem, dessa forma, impregnava todos os lugares e ambientes durante todo o tempo.

As idéias e concepções, contudo, nem sempre provêm da percepção direta do meio ambiente. Devido à complexidade do contexto em que vivem as pessoas, elas só têm condições de se informar e se conscientizar a respeito de sua sociedade através dos meios de comunicação. O controle desse meio se faz, principalmente, pela sua utilização direta. Dado o fato de que a comunicação depende, cada vez mais, de aparelhagem sofisticada e bastante cara, torna-se inevitável que os meios sejam controlados por pessoas e grupos da classe economicamente mais forte. Ele os utilizam exclusivamente para a difusão das idéias e opiniões que lhes são favoráveis, não permitindo que se propaguem ideologias contrárias ou fatos que contestem seus interesses. A população fica, desse modo, impossibilitada de ter acesso à maior parte dos aspectos de sua realidade e, assim, impedida de compreender exatamente sua posição e seu interesses, termina por ser envolvida na única ideologia que lhe é apresentada.

A censura oficial, realizada por órgãos governamentais, também é um instrumento de controle ideológico. Através dela se definem os limites do que pode ou não ser divulgado, neutralizando-se as possibilidades de manifestações contrárias aos valores defendidos pelos governos.

Sem acesso às informações que lhe possam fornecer uma visão dos diversos aspectos do mundo em que vive, a população acaba tendo uma visão deformada da realidade, que a conduz a se comportar dentro dos estritos limites traçados a partir dos interesses da classe dominante.

O controle ideológico se exerce, também, diretamente sobre as pessoas, seja reprimindo ou corrompendo líderes para que desistam ou sejam impedidos da tentativa de conscientizar seus liderados, seja exercendo pressões constantes par que os receptores não tenham condições psicológicas de julgar, analisar e avaliar as idéias que recebem.

Geralmente surgem, no seio das classes dominadas, alguns indivíduos que, apesar de toda a censura e manipulação dos meios de comunicação, conseguem perceber melhor certos aspectos da realidade e procuram transmitir sua compreensão aos demais, conscientizando-os. É o caso dos líderes operários, estudantes, religiosos e intelectuais. Nesses casos, a classe dominante, diretamente ou através dos órgãos do governo, procura neutralizar esses líderes através de ameaças, prisões, torturas ou exílio. Outras vezes, a neutralização se faz de forma não tão violenta através da cooptação. Cooptação é o processo pelo qual um indivíduo ou pequeno grupo recebe concessões e privilégios, em troca dos quais deva deixar de defender os interesses da classe social à qual pertence, para defender aquele que lhe fez as concessões. É o caso de trabalhadores e intelectuais que são contratados para exercer certos cargos privilegiados no governo ou em empresas privadas.

A pressão sobre as pessoas pode, também, concretizar-se através de perseguições, denúncias e acusações insistentes contra aqueles que não seguem determinada orientação. É o caso das “patrulhas ideológicas”, expressão muito empregada no Brasil, a partir de 1978, para qualificar os grupos que criticam repetidamente alguns artistas, intelectuais e pessoas muito populares que não aderem às idéias defendidas por aqueles grupos. O cineasta Carlos Diegues e o cantor Caetano Veloso já se queixaram por serem exageradamente criticados ao não assumirem as posturas exigidas por militantes esquerdistas. Pelé afirmou ser perseguido e criticado por grupos que não admitiam sua recusa em assumir a liderança na luta contra o racismo. A mesma forma de pressão tem sido feita, desde os começos do século, sobre aqueles que defendem a necessidade de se dar maior atenção aos problemas sociais como o analfabetismo, a miséria, o alto índice de enfermidades etc. Inúmeros são os que estão prontos a acusá-los de anarquistas, comunistas, agentes russos ou cubanos, antipatriotas. Trata-se de uma forma de perseguição que visa, senão obter a adesão do pressionado, ao menos conseguir seu silêncio para que não expresse idéias julgadas inconvenientes.

A pressão psicológica é uma das formas mais interessantes de controle. Atua diretamente sobre os receptores, afetando sua capacidade de análise, para que recebam as mensagens da propaganda dentro de uma postura passiva e submissa.

As pessoas, em condições normais, ao receberem uma informação ou assistirem a um fato, procuram compreender a situação, analisar os prós e contras, verificar se se trata de algo que lhes diga respeito diretamente assim por diante. É o que se chama senso crítico. Todavia, em determinadas situações de envolvimento emocional, tensão nervosa, temor, cansaço físico e mental, os indivíduos tendem a ter o seu senso crítico diminuído. Nesses momentos, ouvem as afirmações ou assistem aos fatos sem avaliá-los, aceitando passivamente o que lhes apresenta. A propaganda utiliza inúmeras formas de pressão para neutralizar o senso crítico dos receptores e lograr convencê-los. O recurso mais empregado é a organização de grandes concentrações de massas. Nessas ocasiões, as marchas, as músicas e cânticos ampliados por alto-falantes, as luzes, o lançamento de folhetos e papéis, o ritmo dos tambores, as bandeiras, estandartes, os discursos inflamados, tudo reflete sobre os presentes. Envolvem as pessoas com tal intensidade que, quase hipnotizadas, tornam-se mais sugestionáveis às mensagens que recebem. Foi com o emprego constante desses recursos que Adolf Hitler conseguia manter as multidões em contínuo estado de exaltação e conduzi-las ao delírio.

Algumas práticas religiosas também são empregadas como instrumentos de pressão psicológica para obter a adesão fanática dos receptores. Produzem esgotamento físico, fazendo as pessoas ficarem muito tempo em pé, ajoelhadas ou participando de longas e cansativas danças. Geram ansiedade através da espera do sacerdote que se atrasa, da escuridão ou luz muito intensa, palmas, músicas e cantos ritmados, da repetição dos sons de tambores. Embriagam com incenso, álcool, fumo e drogas inebriantes. Despertam temor com ameaças de infernos, monstros e demônios. Em meio a tudo isso fazem-se as pregações, conseguindo não só convencer os receptores. como levá-los a verdadeiros estados de possessão e transe. São os recursos adotados por diversos cultos místicos praticados no Brasil e na África e, embora de forma menos profunda e pouco intensa, por quase todas as seitas religiosas existentes na face da terra.

Dentre as formas de pressão psicológica conhecidas, a mais intensa e, talvez, a mais eficaz é a denominada “lavagem cerebral”. É realizada com indivíduos ou grupos que são conduzidos a locais afastados, de onde não podem sair durante algumas semanas ou meses, ocasião em que são freqüentemente bombardeados com novas idéias. Baseia-se essa técnica no fato de que os conhecimentos, idéias e reflexos dos indivíduos servem para que possam adaptar-se e manter-se em equilíbrio como o seu meio. Conseqüentemente, ao se criar um novo ambiente onde os hábitos e reações costumeiras são insuficientes para obtenção do equilíbrio, torna-se mais fácil incutir novas orientações. Se, além disso, forem feitas pressões que diminuem o senso crítico, a possibilidade de persuasão é ainda maior.

Há ainda, uma técnica de controle ideológico que procura impedir que as pessoas adquiram consciência de suas condições de vida, distraindo sua atenção. Através dos meios de comunicação, bombardeia-se a sociedade com notícias sobre fatos suficientemente atrativos para que os indivíduos tenham sua atenção desviada dos problemas econômicos e sociais. Baseia-se no fato de que as pessoas têm um limite de percepção e atenção e que, saturadas por um certo número de informações que apelam para as emoções e sentimentos, não lhes sobra espaço nem tempo para receber outras idéias. Grandes torneios desportivos, crimes cometidos com crueldade, têm sido constantemente alardeados para envolver os receptores em sua discussão e distraí-los das questões mais graves.

Contrapropaganda

Quando não conseguem obter o monopólio das informações através do controle ideológico, os grupos procuram neutralizar as idéias contrárias através da contrapropaganda.

Ela se caracteriza pelo emprego de algumas técnicas que visam amenizar o impacto das mensagens opostas, anulando seu efeito persuasivo. Procura colocar as idéias dos adversários em contradição com a realidade dos fatos, com outra idéias defendidas por eles próprios ou em desacordo com certos princípios e valores aceitos e arraigados entre os receptores. Outra vezes, atua de forma indireta, tentando desmoralizar as idéias, não pela crítica à personalidade ou ao comportamento daqueles que as sustentam. Critica-se o sacerdote para desmerecer o conteúdo de suas pregações, ataca-se alguns dirigentes políticos para combater a filosofia adotada pelo governo e assim por diante.

A contrapropaganda, na prática, se concretiza através da emissão de mensagens que, associadas aos argumentos ou à personalidades dos adversários, despertam reações negativas.

A apresentação de fatos que estejam em contradição com as mensagens adversárias, sugerindo sua falsidade, irrealidade ou absurdo, é realizada com o intuito de despertar dúvida em relação a elas. A contrapropaganda dos defensores do sistema capitalista procura neutralizar as idéias socialistas difundindo, dramaticamente e com estardalhaço, notícias sobre fugas de pessoas que viviam em países comunistas. O objetivo desse procedimento é o de sugerir que não deve ser bom aquele regime, se a pessoas que nele vivem querem fugir de lá.

Os fatos que se contrapõem às idéias da propaganda adversária costumam ser totalmente forjados. Não tendo condições de verificar, através de fonte segura, a veracidade ou não das informações, os receptores tendem a aceitá-las ou, ao menos, permanecem indecisos. Durante a Segunda Guerra Mundial os aliados criaram uma estação de rádio que se fazia passar por alemã e irradiava notícias para a Alemanha. Um dos informes, apresentado como comunicado oficial do governo nazista e transmitido quando Hitler insistia em que estava vencendo a guerra, gerava certa perplexidade. A notícia dizia que alguns soldados alemães estavam desertando do front e deveriam ser denunciados por qualquer pessoa que conhecesse seu paradeiro. Suscitava-se, assim, dúvidas em relação à vitória de um exército cujos soldados estavam fugindo.
A contrapropaganda também atua sobre o temor, mostrando que as idéias adversárias, se concretizadas, podem causar graves prejuízos e malefícios às pessoas. As campanhas anticomunistas constituem os exemplos mais significativos.

Nos países do “bloco ocidental”, inclusive o Brasil, ainda se repete a técnicas que vem sendo posta em prática há anos de divulgar notícias de atrocidades cometidas na União Soviética, China, Cuba, Nicarágua, e países africanos. Fala-se em crianças e mulheres fuziladas, homens cruelmente torturados, degolados e queimados. Ao mesmo tempo insiste-se que tais fato serão sempre inevitáveis para qualquer país que opte pelo sistema socialista. Com isso, conseguem incutir um tal medo na população que as convencem a apoiar o governo em sua ação repressiva contra os adeptos de idéias igualitárias, sejam socialistas ou apenas superficialmente semelhantes.

A contrapropaganda também é realizada no sentido de despertar desprezo pelos adversários e suas idéias, associando-os a situações contrárias aos princípios e valores respeitados pelos receptores. Os comentários que se fazem a respeito de alguns dirigentes governamentais, acusando-os de desonestos, corruptos, homossexuais e, até mesmo, de traídos pelas esposas, visam desmoralizá-los e gerar desprezo pelas propostas e idéias que defendem.

Com o objetivo de desmoralizar as manifestações estudantis, afirmou-se que se tratava de “filhinhos de papai”que, ao invés de estudar e cumprir suas obrigações, permaneciam fazendo “badernas” e “arruaças”, prejudicando o trânsito, gerando insegurança para o povo e criando dificuldades para todos. Conseguiam, dessa forma, despertar a hostilidade e desprezo de grande parte da população contra os movimentos e, assim, abafar a questão dos problemas sociais que estavam sendo levantados pelos universitários.

As questões de natureza econômica ou política são extremamente significativas para maioria das pessoas, já que se relacionam intimamente com suas condições de vida. Por essa razão, a propaganda procura apresentar as idéias dentro de um clima de grande seriedade, às vezes até solene, que torne possível despertar a atenção para a importância dos assuntos abordados. Daí grande parte da contrapropaganda atuar através do humor, da sátira ou da piada, ridicularizando as idéias e pessoas que as defendem. Procuram, assim, gerar desinteresse pelo conteúdo das mensagens e desvalorizar sua importância.

Os veículos de comunicação, constantemente, difundem charges, apelidos e sátiras que desmoralizam e desfiguram dirigentes e líderes políticos, tornando-os engraçados ou mesmo ridículos. Quebram, assim, a imagem de respeito que estes pretendam impor e afetam o conteúdo de suas afirmações.

Os slogans também são ridicularizados, para perder seu efeito persuasivo e de impacto. No Brasil, os temas das campanhas governamentais têm sido automaticamente ironizados com sugestiva criatividade. Para a frase “Brasil, ame-o ou deixe-o” criou-se a resposta “O último, apague a luz do aeroporto”. Quando se disse “O Brasil deu um passo à frente”, contestou-se rapidamente “E estava à beira do abismo”. Contra o tema “O Brasil é feito por nós” respondia-se “O difícil é desatá-los”.

A contrapropaganda, portanto, é o instrumento utilizado por um grupo através das formas e recursos mencionados, visando neutraliza a força das teses e argumentos da propaganda adversária. Dessa forma, amenizando o efeito persuasivo das idéias contrárias às suas, o grupo pode desenvolver sua própria campanha de propaganda, sem a necessidade de recorrer a outros artifícios e precauções que esclareçam a razão das diferenças entre suas propostas e as alheias.

Difusão

Elaborada a ideologia, realizada sua codificação e estruturado o sistema de controle ideológico, procede-se à difusão sistemática das mensagens.

Dentre as formas de difusão utilizadas pela propaganda ideológica, a oral, através da palavra falada, ainda é das mais importantes. Empregada desde a antiguidade, foi a forma preferida por inúmeros líderes. Hitler considerava que todos os acontecimentos importantes e todas as revoluções foram produzidas pela palavra falada. Lenin dizia que o agitador, antes de mais nada, deveria agir de viva voz. Os discursos políticos, pregações religiosas, declarações de líderes e homens de governo têm sido, em grande parte, os maiores responsáveis pela propagação das ideologias em todos os recantos do mundo. Uma de suas grandes vantagens é permitir ao orador observar diretamente a reação dos seus ouvintes e, a partir dela, reforçar certos argumentos, insistir em determinados aspectos, dar maior ou menor ênfase às palavras, repetir afirmações, aumentar ou diminuir pausas, sublinhar as idéias com gestos e expressões fisionômicas. Além disso, o discurso e a pregação constituem as únicas formas que permitem reunir um grande número de pessoas, até mesmo em grande praças públicas, de tal forma que cada indivíduo sinta sua personalidade diluir-se na multidão, percebendo-se como parte de um todo e tendendo a acompanhar as manifestações da maioria. Tem-se aí a possibilidade de produzir uma impressão de unanimidade tão persuasiva quanto os argumentos do orador. Esse clima pode ainda ser reforçado pela preparação das claques, grupos de pessoas previamente encarregadas de aplaudir e ovacionar o orador. Outra vantagem da palavra falada, quando proferida diretamente pelos líderes, é a sua maior credibilidade. O orador pode impor uma imagem de sinceridade, impossível de ser transmitida por outro meio; suas afirmações têm mais calor e se tornam mais humanas.

Se a expressão oral encontrava limites restritos de tempo e espaço no passado, hoje, com a evolução tecnológica dos meio de comunicação de massa, adquiriu uma amplitude quase infinita. Os satélites têm possibilitado que muitas declarações do papa ou do presidente dos EUA, dentre outros, sejam divulgadas imediatamente à maioria dos países do globo terrestre.

A imprensa, o mais antigo dos meios materiais de comunicação, exerce um papel importante em propaganda. Jornais e revistas, por informarem constantemente sobre os fatos regionais e internacionais, contribuem em alto grau para fornecer aos leitores uma determinada visão da realidade em que vivem. Dessa maneira transmitem os elementos fundamentais para a formação de um conceito da sociedade e do papel que cada um deve exercer nela. Por trabalhar com fenômenos apresentados de maneira aparentemente objetiva, como se fosse a mera e simples apresentação dos fatos puros, tais como realmente ocorreram, adquire uma aparência de neutralidade que assegura a confiança da maioria dos leitores. Mas essa neutralidade não é real. As notícias internacionais são distribuídas por agências especializadas, principalmente as norte-americanas Associated Press e United Press International, onde se selecionam as informações segundo os critérios estabelecidos pelos interesses econômicos e políticos dos grupos que as controlam. Essas informações são enviadas às redações, onde, juntamente com as notícias locais, são novamente selecionadas, agora com observância de outros critérios, determinados pelo interesse dos proprietários dos jornais ou dos que neles anunciam. Dessa forma, a imprensa acaba por constituir um elemento de manipulação de grupos internacionais e nacionais que só permitem a transmissão daquelas mensagens que possam reforçar sua ideologia.

Além da seleção de informações, há outros meios de manipulação dos fatos. Um deles é a fragmentação da realidade, implícita na própria forma como são apresentadas as notícias. Para se adquirir consciência da realidade social, é necessário que se percebam as relações entre os diversos fenômenos, obtendo-se a visão de conjunto necessária para ver a sociedade como um todo integrado, em que os fatos econômicos, políticos e culturais sejam vistos tal como se determinam reciprocamente. A grande imprensa, ao contrário, aponta os fatos isolados uns dos outros, mantendo ocultas aquelas relações. O leitor, em relativamente pouco tempo, acaba lendo notícias as mais variadas sobre esportes, crimes, cotações de bolsa, inflação, desastres, guerras externas, declarações de brasileiros e estrangeiros. Recebe uma visão caótica da realidade, sem perceber os efeitos que os fatos têm uns sobre os outros.

Outra forma de manipulação é realizada pelo maior ou menor destaque que se dá à notícia. A página em que é colocada, a dimensão do texto, o título, o maior ou menor número de pormenores contidos na descrição permitem dar aos fatos um outro significado. As greves organizadas pelos sindicatos operários, por exemplo, que têm uma enorme repercussão econômica e política, geralmente são tratadas pela grande imprensa como um simples fato acidental sem maior significação. O Estado de S. Paulo, por exemplo, menciona-as em pequenos espaços nas páginas de economia, ao lado de outras informações, como posição de preços no mercado, cotações de bolsa, dando a impressão de um simples fenômeno corriqueiro sem maiores conseqüências.

Há também a interpretação das informações, geralmente realizada dentro de uma linha preestabelecida pela direção do jornal, que é determinada pelos interesses ali defendidos. As notícias a respeito dos países socialistas são selecionadas a interpretadas de forma altamente negativa. Pouco se mencionam as providências bem-sucedidas, tomadas na China e em Cuba, para melhoria dos níveis de educação e saúde. Mas um grande destaque é dado às prisões políticas e torturas, mostrando-se apenas o lado negativo daqueles sistemas. Já em relação aos Estados Unidos, insiste-se no desenvolvimento econômico, na “perfeição” do sistema “democrático”. Mas pouco se menciona a exploração dos povos subdesenvolvidos por aquele país, ou a intervenção norte-americana em países onde se fazem revoluções e se depõem homens de governo que não aceitam certas imposições. Silencia-se sobre a corrupção política existente. Pouco se fala sobre a vida cada vez mais angustiada da juventude americana, que vai buscar nas drogas o único consolo para suas crises existenciais.

Além dos aspectos mencionados, que fazem parte da rotina dos periódicos, estes também são empregados para difundir a declaração dos homens públicos. O próprio governo usa espaço dos jornais para relacionar suas realizações. Grupos particulares também aproveitam a imprensa, pagando o espaço, para apresentar suas idéias.

Até agora falamos da imprensa vinculada aos interesses dos grupos econômicos mais fortes. Mas ela também é adotada, algumas vezes, por grupos minoritários não ligados aos detentores do poder. A História do Brasil registra o aparecimento de inúmeros jornais e pequenas revistas da imprensa operária e estudantil que procuram evidenciar as contradições do sistema vigente e transmitir propostas alternativas. Geralmente são periódicos de vida curta, logo obrigados a fechar em virtude de dificuldades financeiras resultantes de pressões dos grupos econômicos mais fortes ou mesmo por imposição policial, que não permite que se excedam limites preestabelecidos por setores da classe dominante.

A propaganda emprega ainda o cinema, tanto com filmes documentários quanto de ficção. Os documentários têm a grande vantagem, para os que o utilizam, de que é montado com imagens verdadeiras, extraídas diretamente da realidade, fato que lhes dá extrema credibilidade. Todavia, a possibilidade de selecionar, dentre as imagens possíveis, aquelas que confirmem e reforcem uma determinada idéia, permite uma grande oportunidade de manipulação. No Brasil, os documentários cinematográficos são obrigatoriamente exibidos nas telas dos cinemas por imposição legal. São sistematicamente utilizados para engrandecer o regime político vigente e enaltecer a capacidade dos dirigentes e empresários. O conteúdo mais constante desses filmes documentários é a apresentação de grandes realizações governamentais ou de setores privados da agricultura, indústria e comércio.

Quase sempre trazem cenas que sugerem apoio e unanimidade pela presença sorridente e confiante das autoridades civis, militares e eclesiásticas ou de multidões populares que aplaudem. Os documentários podem ser falsificados, montados com sons e cenas verdadeiros, mas sem nenhuma relação uns com os outros, fato que raramente é perceptível para a maioria dos espectadores. Pode-se acrescentar sons de gritos, tiros, aplausos a cenas eu que na verdade não ocorreram. Multidões podem ser associadas a reuniões onde não há mais de uma dezena de pessoas. Essa possibilidade de associar e fundir trechos diversos de filmes e sons permite ao produtor transmitir a idéia que lhe aprouver.

Os filmes de ficção, sendo produzidos não com cenas reais e objetivas, mas interpretadas e montadas, não têm o mesmo ar de autenticidade e o poder persuasivo dos documentários. Mas, através da trama de situações que se pode criar, da variedade imensa de ritmo de som e imagens possíveis de se obter, permitem criar um clima de envolvimento emocional que facilita a inculcação de idéias e valores. Além disso, projetados em salas escuras, podem contar com maior receptividade, já que não existem outros fatos que possam distrair a audiência.

O roteiro padrão dos filmes de aventura americanos permite avaliar bem seu valor como instrumento de transmissão de idéias. Geralmente são compostos de três idéias essenciais. Uma primeira mostra uma situação de paz e harmonia. Em seguida há o aparecimento de uma ameaça para, finalmente, se sucederem as tentativas de defesa que culminam com um final heróico. O espectador, envolvido pelo clima harmonioso inicial, é levado a indignar-se contra o sujeito da ameaça, que pode ser um indígena, um criminoso ou um espião russo. Afinal, acaba identificando-se com o herói ou heróis que vêm proporcionar a solução feliz. Todo filme acaba reduzido a uma proposta maniqueísta em que se apresentam apenas duas alternativas: a certa ou a errada, a boa ou a má. Todo esse contexto é permeado de cenas de amor e ódio, atos de maldade ou bondade, violência e carinho intensos, alguns toques eróticos. O ritmo das cenas se alterna da lentidão à rapidez extrema, as músicas acompanham o crescendo e variam da doce suavidade de um coro celestial à veemência das marchas de guerra, tudo para conduzir o receptor a um clímax.

Foi através desses recursos que o cinema norte-americano conseguiu impor ao mundo ocidental certas imagens estereotipadas como a do indígena selvagem e assassino, dos alemães e japoneses frios e calculistas da Segunda Guerra Mundial, ou do agente russo desumano, traiçoeiro e criminoso. E tudo isso em contraste com a figura do norte-americano bom, leal, corajoso e honesto.

O cinema também pode ser utilizado para conscientizar o espectador acerca das contradições sociais, embora nem sempre esses filmes consigam vencer os obstáculos da censura e das pressões econômicas. No Brasil, tivemos o período do chamado “Cinema Novo”, entre o final dos anos 50 e começo dos 60, onde se produziram alguns filmes que mostravam a miséria dos sertões e o drama das favelas brasileiras. Mais recentemente, fizeram-se alguns filmes sobre a corrupção policial e a violência urbana.

O rádio também é um instrumento da propaganda, com a grande vantagem de poder transmitir as mensagens com rapidez e amplitude, permitindo mesmo que certos fatos sejam divulgados imediatamente após ocorrerem.

Permite dirigir-se às camadas mais humildes da população, inclusive analfabetos, que muitas vezes não têm acesso a outros meios de informação. Permite também o estabelecimento de um clima de intimidade, onde o locutor sussurra opiniões para o ouvinte, criando uma situação de amizade e de descontração informal bastante sugestiva. Por ser tratar de concessão governamental que pode ser cassada a qualquer momento, induz seus proprietários e funcionários a evitar a difusão de mensagens em desacordo com a ideologia proclamada oficialmente. Além disso, pelo fato de, como a imprensa, depender de anúncios comerciais para se manter, o rádio se torna um instrumento passível de ser controlado pelos interesses das classes dominantes que pagam esses anúncios. É largamente empregado para a divulgação dos discursos, declarações e mensagens dos dirigentes e órgãos governamentais. A irradiação oficial chamada “Hora do Brasil” foi criada por Getúlio Vargas com esse objetivo e, embora reformulada, permanece até hoje com o nome de “A voz do Brasil”.

A televisão serve antes de mais nada para e difusão de notícias, o telejornalismo. Como a imprensa escrita, passa por processos de seleção e interpretação, depende de anúncios pagos e de concessão governamental, o que a transforma em instrumento de difusão das ideologias dos grupos econômicos ou do governo. A forma como são produzidos os programas deu à televisão o caráter de instrumento para tornar a população mais passiva. Novelas, programas de auditório, shows de variedades, apresentação de cantores, jogos, disputas, esportes e sorteios absorvem grande parte da capacidade crítica do espectador, conduzindo-o a uma espécie de fuga da realidade. Desviando sua atenção das questões sociais, induz à alienação. Tome-se o exemplo do programa Sílvio Santos, há anos sendo veiculado aos domingos, desde a manhã até a noite. Toda a produção é caracterizada por um clima constante de suspense e de agitação crescentes, com enorme variedade de apresentações. Os sorteios, anunciados desde o início do programa, são realizados ao final quando, em alguns segundos, alguém pode tornar-se um milionário. Envolve-se a audiência de tal forma e com tal ritmo que lhe é impossível raciocinar sobre o que vê e ouve. E não faltam os elogios e enaltecimentos a políticos e governantes.

O teatro teve papel importante na divulgação dos ideais da Revolução Francesa e na preparação da Revolução Russa. Os revolucionários bolchevistas, por exemplo, o empregavam para a apresentação de peças rápidas onde se criticavam a nobreza, a decadência do capitalismo e se enalteciam os operários, camponeses e o regime socialista. No Brasil o teatro tem-se desenvolvido bastante e é muito empregado como instrumento de crítica e contestação dos valores e costumes vigentes. Contudo, devido ao alto preço dos ingressos, a maioria das peças atinge apenas a uma pequena elite econômica e cultural. Dessa forma, pelo pequeno público a quem se dirige, perde grande parte do seu valor como meio de transmissão de idéias e de conscientização.
Os cartazes, ilustrados ou não, em cores ou em branco e preto, são bastante utilizados para afixação em muros e paredes visando transmitir algumas idéias fundamentais através de um impacto rápido. Além deles, inúmeros outros impressos se prestam a auxiliar na difusão de mensagens. Os “manifestos” explicam e defendem uma determinada posição perante certos fatos econômicos e políticos. Os “panfletos” divulgam fatos, notícias ou críticas a determinadas idéias e propostas. Os “volantes” servem para difundir nomes, frases, slogans, palavras de ordem e símbolos ou para anunciar e convocar reuniões e movimentos.

Distribuídos diretamente para os receptores ou lançados do alto de edifícios ou de aviões, são mais freqüentemente adotados por aqueles que, por se oporem aos detentores do poder e contestarem a ideologia dominante, não conseguem ter acesso à imprensa, rádio ou televisão. O livro, por suas próprias características, se destina a levar idéias apenas a um pequeno número de pessoas: aquelas que têm grau de instrução mais elevado.

As idéias nazistas na Alemanha tiveram no livro “Minha Luta”, de Adolf Hitler, um dos seus mais importantes instrumentos de divulgação. No Brasil, foi durante a ditadura de Getúlio Vargas que mais se produziram livros com o objetivo específico de apoiar a propaganda. Centenas de obras elogiosas ao regime e enaltecedoras da personalidade de Vargas foram escritas, em linguagem simples a acessível, para que fossem lidas pelo maior número possível de pessoas.

Além dos meios de comunicação propriamente ditos, a propaganda também se apóia em inúmeros outros suportes. Qualquer objeto ou espaço que possa ser visto por um razoável número de pessoas é aproveitado. As paredes são pichadas com frases, slogans e símbolos. As placas de inauguração e sinalização difundem realizações, prestigiam líderes políticos e homens públicos. As cédulas e moedas, os selos postais, contêm mensagens e efígies de homens públicos. Faixas e estandartes ostentam mensagens e símbolos. Estátuas e bustos concretizam o prestígio daqueles que devem ser considerados heróis. Alto-falantes auxiliam a ampliar o alcance dos discursos e declarações. Aviões escrevem mensagens de fumaça nos céus.

Há, ainda, uma outra forma de difusão de idéias que se caracteriza pelo anonimato: o rumor. A informação, geralmente falsa, circula de pessoa, podendo atingir grande parte de uma população. Como é muito difícil descobrir a fonte inicial da informação, o rumor constitui um instrumento muito útil para aqueles que, por qualquer razão, pretendem transmiti-la sem serem identificados.

Efeitos da Propaganda Ideológica

A propaganda ideológica permite disseminar, de forma persuasiva, para toda a sociedade, as idéias de determinado grupo. Depois de emitida através dos diversos meios e suportes de comunicação, elas passam a ser retransmitidas, direta ou indiretamente, no seio das diversas instituições sociais, ampliando e reforçando o processo de difusão. A ideologia, dessa forma, se espalha e impregna todas as camadas da sociedade. Na família, na escola ou no trabalho, em todas as partes e por todos os meios, todos passam a ser orientados para os mesmos fins e enquadrados dentro dos mesmos princípios.

Nas famílias, os pais, que sofrem o efeito persuasivo da propaganda, acabam transferindo para seus filhos as concepções e normas de conduta que lhes foram inculcadas. Acreditam, na maioria das vezes, que a experiência adquirida lhes dá condições de orientar seus filhos, de forma neutra e objetiva, para que julgam ser o “melhor caminho”. Impõem regras de respeito e obediência, indicam os cursos que devem realizar e as profissões que podem exercer. Dessa maneira, moldam seus filhos para que ingressem no contexto social da forma mais adequada à realização dos interesses da classe ideologicamente dominante. Em cada classe social as famílias produzem os novos membros que deverão entrar, disciplinadamente, no sistema econômico, político e cultural, reproduzindo o papel de seus antecessores. Criam os operários esforçados e submissos, os gerentes hábeis e obedientes, e, até mesmo, os novos privilegiados que deverão saber como manter e reforçar o poder e a dominação adquiridos por herança.

A escola, em princípio, tem o objetivo de orientar o desenvolvimento dos alunos, ao mesmo tempo que fornece as informações e fórmulas práticas que lhes permitirão integrar-se ao meio. Nesse processo, acabam por receber o conteúdo da ideologia aceita por seus professores ou imposta pelos administradores escolares. Aprendem as normas de disciplina que devem cumprir e os conhecimentos que os levarão a integrar-se na sociedade, observando os estritos limites definidos pela ideologia dominante. São condicionados a respeitar hierarquias e obedecer os superiores, aprendem qual é “o seu lugar” e o papel que devem exercer. Há, inclusive, as matérias e disciplinas criadas e programadas com o fito exclusivo de transmitir determinadas ideologias de forma direta. É o caso de cursos como os de “Educação Moral e Cívica” etc.

Nas igrejas e templos, também, os sacerdotes e pastores, além do seu escopo confessado, que é o de transmitir paz e conforto espiritual, ultrapassam os limites das idéias próprias à religião que professam. Defendendo os interesses e valores ideológicos vigentes na sociedade em que atuam, transformam-se em instrumento de sua divulgação. Durante séculos, a Igreja procurou induzir seus fiéis a permanecerem passivos perante os abusos e arbitrariedades em troca da felicidade a ser obtida no “reino dos céus”. Algumas vezes, inclusive, esse papel é previamente orientado pela pressão dos detentores do poder. Merecem ser lembrados os exemplos de Napoleão Bonaparte e Getúlio Vargas que, embora em épocas e países diferentes, utilizaram a mesma tática de impor aos sacerdotes a obrigação de, em suas pregações, afirmar que o “bom cristão” deveria observar as leis e obedecer às ordens e decisões do governo.

Esse processo de retransmissão da ideologia, difundida inicialmente pela propaganda, ocorre, da mesma forma, em todos os tipos de instituições, sejam elas religiosas, políticas ou mesmo culturais e recreativas. Nos partidos, sindicatos, empresas, clubes e associações, a todo momento se está defendendo e disseminando as idéias incutidas pela propaganda.

As conseqüências da difusão de uma ideologia e seu esforço em nível institucional são diversos em função da direção e do plano em que se realiza. Em primeiro lugar, há aquela realizada entre indivíduos e grupos de uma mesma classe social, onde emissores e receptores ocupam uma mesma posição no conjunto das relações econômicas. Nesse caso, as idéias de uns, refletindo suas condições, refletem, ao mesmo tempo, a realidade dos demais. A difusão dessas idéias permitirá que um maior número adquira consciência do espaço que ocupa na sociedade e das possibilidades de ampliação de seus limites. A propaganda adquire aí um papel de instrumento de conscientização, permitindo a cada um dos envolvidos compreender melhor o contexto que o cerce e orientar sua ação em sentido adequado ao sue próprio desenvolvimento. Além disso, a propaganda se transforma em instrumento de união da classe social em torno de metas comuns, permitindo que ela se torne mais organizada e que sua ações sejam mais coerentes. Impede-se que os indivíduos e grupos caminhem em sentido diversos, o que acabaria por obrigá-los a retornar ao ponto de partida e recomeçar o trabalho.

Assegurando, dessa maneira, a atuação coesa numa mesma direção, a propaganda propicia o fortalecimento da classe em questão, que passa a ter maiores possibilidades de se defender de eventuais ameaças e mesmo de ampliar os limites que restringem sua atuação. É através da propaganda, por exemplo, que os empresários conseguem difundir, entre si, uma mesma concepção da realidade econômica em que vivem, através da qual orientam sua ações e integram seis esforços para assegurar a realização dos interesses comuns. Entre operários, somente quando alguns deles conseguem compreender o sistema em que estão inseridos e propagam essa percepção aos demais é que surge maior união. Conscientes do fato de que ocupam posição idêntica no contexto social é que podem organizar-se e mobilizar-se na luta pela melhoria de sua situação. Só com essa consciência e organização é que adquirem força e condições para avançar e progredir econômica, política e culturalmente.

A situação assume outras características quando a propaganda se faz de uma classe social para outra. Pode ocorrer que o emissor apresente suas idéias sem pressão ou imposição. Simplesmente expõe suas convicções e argumentos a té mesmo confessa que se referem a seus próprios interesses, deixando aos demais a liberdade de aderir ou não. Estes, analisando as propostas, têm condições de avaliar até que ponto partilham os mesmos interesses, podendo apoiar ou sugerir outras alternativas. Essa seria a forma normal de transmissão de ideologias dentro de uma sociedade ideal, pluralista e democrática. Todavia, à medida que um dos lados tem possibilidade de exercer o controle absoluto das vias de acesso à realidade, acaba por impor seus objetivos aos demais. As pessoas, a maior parte delas, passam a viver, como sua, uma realidade que lhes é estranha e a lutar pela realização de interesses que se opões aos seus. Inconscientemente, trabalham e se esforçam em benefício de um capital que as explora e propiciam um desenvolvimento que se realiza às expensas de sua miséria. Convencidos de assumir uma personalidade que lhes é imposta e acreditando que essa é a maneira de participar e desenvolver-se, sofrem e se frustam quando não obtêm qualquer recompensa que tenha alguma significação. São membros das classes médias, envolvidos pela ânsia de possuir e consumir bens que não lhes dão a satisfação e bem-estar prometidos. Estudantes, que após anos de esforço, quando logram obter uma colocação, utilizam seus conhecimentos e habilidades na realização dos objetivos de uma minoria que nem sempre conseguem identificar. Agricultores e colonos que ajudam a produzir milhares de toneladas de alimentos, mas não conseguem escapar da ignorância e da miséria. Operários que jamais conseguem adquirir um único, dentre os milhares de objetos que produzem diariamente. Envolvidos, assim, em um modo de vida vazio de sentido, procuram refugir-se em distrações momentâneas e fugazes que conduzem a uma alienação ainda maior. E a propaganda impinge futebol e carnavais que passam a ser algumas das poucas compensações para um longo e estafante período de trabalho.

O controle ideológico, estabelecendo os limites do que pode ou não ser divulgado e reprimindo toda manifestação contrária aos valores vigentes, acaba por gerar um conservantismo obscurantista que atinge a sociedade em todos os seus aspectos. Todos passam a viver em função de um mesmo conjunto de idéias que ficam congeladas e emperram o progresso cultural. Impede-se a evolução da ciência, o desenvolvimento de novas técnicas e o aprimoramento das formas de expressão artística. Intelectuais e artistas são reprimidos e amordaçados. E essas é uma das principais razões pelas quais, em diversas áreas do conhecimento, nós nos encontramos com anos de atraso em relação a outras culturas.

Mas essa situação, se pode ser mantida e reproduzida por longo tempo, não é eterna. No afã de aumentar sua riqueza e acumular mais capital, a classe economicamente dominante precisa ampliar e desenvolver seus negócios. Para tanto, depende de mais apoio e colaboração das subalternas. Em troca, se vê obrigada a ceder e fazer concessões. Os setores dominados, pela própria exigência do desenvolvimento econômico e político, também se desenvolvem e se tornam menos sugestionáveis e vacinados contra certas formas de mistificação. Gradativamente, a manipulação ideológica precisa sofisticar-se, sob pena de perder a eficácia. Cada vez se acredita menos em propostas triunfalistas e promessas demogógicas. Começa-se a exigir maior participação real e efetiva. Embora com um ou outro retrocesso, os esquemas de controle e persuasão vêm perdendo sua força e eficiência e tendem a desmoronar mais cedo ou mais tarde. O futuro deverá trazer formas mais democráticas na transmissão das ideologias.

Por Nélson Jahr Garcia

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/propaganda-ideologia-e-manipulacao/

Para ser feliz (parte 3)

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Quando um rio é muito jovem, de modo que ainda corre por rochas sólidas, pouco desgastadas por sua passagem, em seu rumo ao mar há muitos trechos que, antes córregos pacatos, logo viram excitantes corredeiras, de água turbulenta, ideais para serem descidas por aventureiros em seus botes!

Imagine que você é um deles, em seu bote magnífico, quicando pela superfície enquanto mal há tempo de desviar dos pedregulhos maiores com seu remo. Enquanto tudo vai bem, o caminho é deveras divertido e cheio de adrenalina, e decerto não há muito tempo para se pensar e refletir sobre outra coisa que não aquela corredeira serpenteando morro abaixo. Mas, e se o seu bote é finalmente vencido pelas pedras pontiagudas no leito do rio? E se ele simplesmente fura, e você é obrigado a encostar na margem?

Há muitos que, nos dias atuais, correm para fazer pequenos remendos nos furos que, exatamente por terem sido feitos as pressas, logo logo estouram de novo, de modo que a tão sonhada descida até o mar, que era para ser uma grande brincadeira, logo se torna algo cruel e dolorido, e as pedras pontiagudas do rio passam a furar não somente o bote, como o próprio navegante desavisado.

Para prosseguir nessa corredeira que serpenteia pela vida, é preciso conhecer a arte de se remendar botes. Ou, como bem explicou meu amigo Caciano Camilo Compostela, um monge rosacruz:

Cuidado, a tristeza é uma esfinge estranha… Se você lhe decifra os enigmas ela te abençoa, caso não, lhe arranca a cabeça! Não tema, seu objetivo é lhe apontar o vazio, conduzir a reflexão e ao aprofundamento. Se no lugar do questionamento, meditação e reencontro, optar por tapar o buraco em romances imaginários, compras desnecessárias, diversões frívolas ou vícios alucinantes em vã tentativa de fugir de si mesmo, cuidado, pois ela lhe penetra mais fundo, se alastra, domina e consome.

Desnecessário dizer que a arte de se remendar botes também tem muito do estoicismo do qual vínhamos falando: ora, aqueles que não consertam seus botes são ainda mais afetados pelas corredeiras, de modo que, além de não conseguirem se guiar da melhor forma pelas águas turbulentas, geralmente são dilacerados por muitas das pedras pontiagudas no caminho.

Já aqueles que passam, quem sabe, a noitinha remendando seus botes, têm a divina oportunidade de contemplar as estrelas, e ver a neblina passar, e ouvir os primeiros pássaros a cantarolar para a manhã, e assim, observando ao mundo a sua volta, e percebendo a si mesmos como parte dele, acabam por reconhecer esta verdade: que o mundo inteiro, assim como os botes e seus navegantes, corre morro abaixo, rumo ao mar.

E assim, aquele que compreende e aceita tamanho fluxo incomensurável de vidas e seres, aceita também que há diversas formas de descer o rio, e diversos formatos de botes e remos, e inúmeras técnicas de remendo, e é impossível saber ao certo qual caminho é o mais rápido, em qual nos machucaremos menos, em qual seremos mais felizes…

Dizem os ocultistas que é nosso dever encontrar nossa verdadeira vontade, e alcançar a grande realização da vida. Mas para ser feliz não faz sentido pensar nesta vontade como algo extremamente oculto, precioso e único, que uma vez desvelado, nos conduzirá a alguma espécie de “iluminação instantânea”.

Não, meus irmãos, para ser feliz é preciso reconhecer que a verdadeira vontade é mais como esta corredeira que temos descido há tanto custo. Pode ser que as águas tenham sido turbulentas no início da queda, mas é certo que em algum momento mesmo este rio raivoso irá encontrar as grandes vias que rumam para o oceano há milênios, onde os pedregulhos já se verteram em areia, e onde o curso segue mais como uma procissão sagrada do que uma aventura esportiva.

Assim, é bem provável que nós todos já estejamos a navegar por tal vontade, embora muitos a contra gosto, seja porque não se dedicaram a arte de se remendar botes, seja porque um dia acreditaram piamente que o rio poderia ser parado, represado com dogmas e ideias fossilizadas, para que então pudessem subir no alto de alguma pedra e bradar:

É aqui, chegamos ao Paraíso, podem abandonar seus botes!

Mas a ânsia da vida por si mesma é como a corredeira que vence qualquer represa. Quando pensamos que enfim havíamos descoberto um paraíso, quando optamos por encostar nas margens e simplesmente descansar, logo ficou claro que aquele charco não era o mar, não era o oceano, mas tão somente um pântano de vontades que se dissociaram da verdade.

É por isso que os grandes profetas não são como viajantes cansados que já desistiram de brincar em seus botes, mas antes como aqueles que caminham sobre as águas, rompem todas as represas, fendem os maiores pedregulhos, e sorridentes, ainda nos dizem:

Dia virá em que farão tudo o que tenho feito, e ainda muito mais, pois sois navegantes divinos!

No fim, só há uma vontade, e todas as demais se tornam verdadeiras na medida em que a espelham, a refratam e refletem adiante: há esta corredeira morro abaixo, e há o mar para onde tudo corre – um está a buscar o outro, e não há nada que possa realmente ficar por muito tempo em seu caminho.

» Em seguida encerramos com quatro poetas convidados…

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Crédito da imagem: ki-rafting.com

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

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#Felicidade #Ocultismo #VerdadeiraVontade

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/para-ser-feliz-parte-3

A primeira lâmina de Abraham o Judeu

Rubellus Petrinus

A interpretação das imagens com simbolismo alquímico não é uma tarefa fácil porque cada um tem a sua própria interpretação mas a Primeira Lâmina de Abraham o Judeu não é difícil de interpretar se conhecerdes as matérias e o modus operandi da obra de Flamel. As outras lâminas não são assim tão fáceis de interpretar no que respeita ao modus operandi.

A via de Flamel é uma via mista ou via do amálgamas assim, o velho empunhando um gadanho simboliza Saturno tal como nas Doze Chaves de Basílio Valentim. Saturno como todos os alquimistas sabem não é um mineral ou metal volátil, por isso o velho alado não pode ser Saturno porque ter asas significa voar e, por isso, ele terá de ser um metal ou mineral volátil.

Flamel chama-lhe Saturnia e não Saturno. Saturnia na obra de Flamel é o régulo de antimónio. Qualquer alquimista sabe que o régulo de antimónio é um metal volátil isto é, pode ser sublimado assim, o velho alado não simboliza Saturno mas o régulo de antimónio.

Aqui, o velho alado tenta cortar os pés de Mercúrio, isto é cortar a volatilidade do mercúrio. Como?

Com as devidas precauções numa pequena tigela de aço inoxidável tentai amalgamar o régulo de antimónio em pó com o azougue comum. Nunca o conseguireis! Nem com a ajuda de Vulcano o podereis fazer!

Então, como o velho alado pode cortar os pés ao Mercúrio? Ele só o poderá fazer com a ajuda da areia vermelha do relógio de areia que tem sobre a sua cabeça. A areia é vermelha e do lado direito do relógio podereis ver dois símbolos espagíricos da areia ou pó. O pó vermelho é a chave para amalgamar o régulo de antimónio em pó e o azougue; isto é o Sol ou ouro.

Isto é a primeira parte da obra de Flamel: fazer um régulo solar e reduzi-lo a pó e em seguida amalgamá-lo com o azougue e destilar o amalgama numa retorta desmontável de aço inoxidável.

Descrevemos isto em linguagem clara porque o Mestre também o fez no seu livro.

Flamel no Testamento ou no Breviário não se refere a tempo astrológico ou estações do ano ou outras coisas deste género, pelo menos não nos demos conta disso.

Simbologia Alquímica

Eis aqui um motivo interessante para reflectirmos sobre a simbologia alquímica. A Primeira Lâmina de Abraão o Judeu que já comentámos anteriormente.

Le Livre Des Figures Hieroglyphiques de Flamel, Retz, Paris, p. 74: «Quanto ao interior, as suas folhas de cascas foram gravadas com grande habilidade, escritas com um buril de ferro, em belas e muito nítidas letras Latinas coloridas».

P.77: «Primeiramente, na quarta Lâmina ele pintou um jovem Homem com asas nos calcanhares, tendo uma Vara (caduceu) na mão, com duas Serpentes enroscadas o qual tem um Capacete que lhe cobre a cabeça. A meu ver simboliza o Deus Mercúrio dos Pagãos. Contra ele vem correndo e voando de asas abertas um grande Velho que tem sobre a cabeça um Relógio e nas suas mãos uma foice como a Morte a qual terrível e furiosa ele quer cortar os pés do Mercúrio.»

Ora, conforme Flamel refere no texto, a imagem seria colorida como a que foi publicada por Molinier.

Na imagem a cor há um pormenor muito importante. Junto ao relógio que Saturno “alado” tem colocado sobre a cabeça está o símbolo espagírico da areia de cor vermelha que poderá, e muito bem, simbolizar o ouro. Dada a via em causa, o ouro em pó, por meio do qual Saturno (Satúrnia) poderá cortar os pés ao Mercúrio.

Se verificardes a imagem a preto e branco, além das figuras de Saturno alado não com as asas colocadas nos ombros mas na cabeça o que simbolicamente representa o mesmo, vemos também em baixo um dragão que, só por si, vem reforçar a simbologia do Saturno alado que aqui não representa Saturno mas, como Flamel diz e nós o referimos na explicação desta Lâmina anteriormente, é a Satúrnia que é completamente diferente. Daí que na Lâmina a preto e branco de origem alemã, publicada em Uraltes Chymiches, Werk, Leipzing, 1760, ter em baixo a imagem de um dragão que a Lâmina a cor não mostra.

Na nossa opinião, nesta imagem, falta a representação simbólica com a qual a Satúrnia poderá cortar os pés ao Mercúrio isto é, o amalgama com o Mercúrio.

Resumindo, qual das imagens nos merece maior confiança? Não o sabemos exactamente porque não conhecemos as imagens originais do livro de Abraão o Judeu.

É isto que causa e causará aos estudantes de alquimia a maior das confusões porque cada artista representa o simbolismo alquímico conforme o seu entendimento.

Felizmente, para nós, que conhecemos o modus operandi da via de Flamel sabemos que Saturno representado nestas Lâminas com asas nunca poderá ser Saturno mas sim Satúrnia que é um mineral completamente diferente e que, por ter sido representado com asas, é volátil e tem a propriedade de purgar o ouro tal como foi descrito na Primeira Chave das Doze Chaves de Basílio Valentim.

Para poder “cortar” os pés do Mercúrio a Satúrnia deverá ser primeiro fundida com o Sol ou com a Lua e depois sim, poderá cortar os pés de Mercúrio (amalgamado) com o Jovem alado mensageiro dos Deuses.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-primeira-lamina-de-abraham-o-judeu/

Blecaute

O procedimento normal, como muitos indubitavelmente estarão familiarizados, (e este é apenas uma de suas utilizações) é que um sigilo/glifo do desejo é mantido na visão mental enquanto permanece no que todos nós nos referimos como postura da morte. Uma técnica que têm sido repetidamente empregada por mim em tais ocasiões é baseada nos mesmos princípios da postura da morte, além do que eu achei-a um pouco mais fácil e sem as armadilhas que uma pessoa pode experimentar com a técnica de A.O.Spare. Destaca-se, são técnicas diferentes.

Esta técnica é uma estranha mistura de gnose inibitória e excitante, respiração forçada, danças ou giros e, é óbvio, exaustão. O resultado final é de necessidade para este processo o blecaute, que é como nós sabemos, da gnose inibitória. Agora explicarei como esta técnica é empregada por alguém para a inserção de sigilos para qualquer propósito que a pessoa sinta necessidade.

Primeiro a pessoa deve sigilizar o desejo em qualquer forma que ela possa desejar, mas em todos os casos e especificamente este, o sigilo deve ser bem fácil de visualizar. Uma vez que isso tenha sido feito, a pessoa pode então começar a criar o ritual para aquele propósito particular em mente. Exorcismos e invocações podem ser empregadas, se assim desejar, isto não é, entretanto, uma necessidade para o sucesso vir a termo deste processo. Na culminação do ritual, o indivíduo começa a respirar de forma rápida e profunda e ao mesmo tempo visualizando o sigilo tão vividamente quanto for possível para você, brilhante, intenso e bem límpido a medida que a respiração continua. Então quando você sentir que o momento é propício, comece a girar ao seu redor, ainda respirando e mantendo o seu sigilo visualizado na visão mental. Uma música pode ser tocada como um fundo para dançar, tambores ou qualquer outro instrumento de batida são os melhores instrumentos de sons de fundo para este propósito. Quando o indivíduo tiver alcançado um estado de completa exaustão, bem atordoado, suando e disposto à cair, ele ou ela então, ainda girando, respirando e mantendo o sigilo visualizado na mente, dirige o seu caminho para o centro do círculo ou área de trabalho.

Aí um parceiro, ativo ou passivo, (em outras palavras, se um trabalhador solitário, tentar ter alguma pessoa para ajudá-lo com esta parte) para o seu giro e agarra-o em um “abraço de urso” erguendo-o do solo e apertando-o em seu plexo solar, onde uma grande rede de nervos está situada. Neste momento preciso a música, se alguma tiver sido empregada, é interrompida, e um silêncio mortal é mantido. O praticante prende a sua respiração enquanto está sendo “apertado” e o sigilo é visualizado como se estivesse queimando com um brilho, um fogo branco como se a sua imagem estivesse queimando em sua mente. Dentro de segundos o blecaute ocorrerá e o sigilo será perdido para a mente. Neste ponto é importante que o seu parceiro deixe-o cair ao solo, a menos que você deseje retornar ao caos primal!

Ao retornar, na maioria dos casos, você deve evocar o riso para banir o sigilo e todos os pensamentos afim, sua risada quebrará o silêncio e o rito é finalizado da forma desejada.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/blecaute-a-postura-da-morte/

A Egrégora e a Ordem Demolay

Por Hamal

Os Rituais DeMolay e Maçom lidam com energias que habitam não somente o mundo material, mas também com forças espirituais, sendo que a principal delas que guiam, ordenam e protegem nossos trabalhos e seus membros, é a Egrégora.

Começamos a ver no post sobre o Ocultismo a importância do estudo e compreensão dos planos astrais e espirituais, e a egrégora é um dos mais famosos exemplos da interação entre os planos metafísicos e o físico.

Vamos fazer uma breve apresentação sobre Egrégora e seu funcionamento.

Pedimos que deem uma devida importância a esse estudo, pois tentaremos simplificar ao máximo o funcionamento dos planos extrafísicos e sua relação com a Maçonaria e o DeMolay, conforme nos é passado. Comecemos a juntar o estudo do Hermetismo e a prática do Ocultismo.

EGRÉGORA

Egrégora pode ser definida como “coletividade de pensamentos, objetivos e ações”.

Por exemplo a egrégora DeMolay está vinculada a todo pensamento que corresponde as sete virtudes e três baluartes, seus membros são aqueles que pensam de acordo com essas virtudes e agem em suas vidas com essa postura. Mesmo para a Maçonaria que possuí uma egrégora de liberdade, igualdade e fraternidade e guia seus membros ao estudo e ao lapidar espiritual.

As egrégoras são formadas por uma afinidade de objetivos entre as pessoas, mas não somente entre os que estão encarnados. O plano astral e espiritual também são atingidos por nossas vibrações emocionais e de pensamentos, assim como nós somos atingidos pela energia desses planos.

Incrementando a definição de egrégora: “coletividade de pensamentos, objetivos e ações que estão em sintonia energética de pensamentos e emoções de espíritos e homens”.

Portanto egrégoras são energias que existem nos planos atrais e são formadas por espíritos e homens que possuem a mesma afinidade de pensamentos e desejos. Astralmente estão os espíritos vinculados a esses pensamentos que trabalham em prol da egrégora, protegendo e guiando seus membros.

Como vimos no texto Simbolismo e a Liberdade Religiosa, o símbolo é a conexão existente entre o visível e o invisível, e toda egrégora possuí pelo menos um símbolo que pode representá-la. São através desses símbolos que nós podemos acessá-las e compartilhar da sua energia. Por esse motivo que existem todos os Rituais, e por isso que eles possuem uma variedade de símbolos de acordo com o seus objetivos. Dentro dos rituais estão os símbolos relacionados com o propósito da egrégora, e estão as determinações a serem dadas aos integrantes espirituais dessa egrégora. Lembram-se da importância da Intenção?

Por exemplo, quando emitimos um pensamento benéfico a alguém através de um ritual de magia (como na Cerimônia das Nove Horas), essas ondas de pensamentos ligam-se a uma energia espiritual de mesmo objetivo por meios dos símbolos utilizados no Ritual, e esta leva sua ação até onde lhe foi determinado.

Recomendado a leitura dos textos DeMolay e Magia Cerimonial parte I e parte II.

Devemos entender que a egrégora por si só tem vida e, assim como acontece com nós quando temos algum vírus maléfico, ela elimina os membros que estão fazendo mau a ela. É por esse motivo que quando uma pessoa que frequenta um Capítulo ou uma Loja “saem do ritmo” e não se encaixam no objetivo da egrégora, esta o elimina e a pessoa deixa de ir nas reuniões pelos mais diversos motivos. Assim também como acontece ao contrário, quando alguém que nunca ouviu falar em DeMolay ou Maçonaria acaba entrando em seu quadro e se torna um exemplo a ser seguido.

Existem duas maneiras de uma egrégora nascer: a primeira é com um agrupamento de pessoas que se reúnem com um objetivo em comum, atraindo a elas energias espirituais que possuem o mesmo padrão de vibração; a segunda ocorre quando a egrégora é formada no astral por seus integrantes espirituais, é planejada e arquitetada, e então pessoas no plano material se afinam com essa egrégora e começam a criar sua estrutura.

A Egrégora da Ordem DeMolay é um exemplo que foi formada no astral e veio ao material através dos nossos fundadores, não é atoa que os rituais “brotaram” da cabeça de Arthur Marshal durante uma noite e sua expansão alcançou limites inimagináveis, e da mesma maneira acontece com a Egrégora da Maçonaria Simbólica. E ambas fazem parte de uma egrégora ainda maior.

Portanto como Iniciados, não façamos caso do que está escritos em nossos Rituais. E como pessoas, não sejam simplesmente mais um em meio a sociedade.

A jornada espiritual contêm os mais belos mistérios da existência.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-egr%C3%A9gora-e-a-ordem-demolay

Dez Características da Misericórdia do Senhor Chaitanya

Os devotos puros do Senhor Krishna ficam extáticos e extremamente alegres por prestarem serviço devocional amoroso a Ele. Conforme revelado por Srila Krishnadasa Kaviraja Goswami no Sri Chaitanya-charitamrita, Krishna uma vez desejou experimentar a felicidade que Seus devotos sentem. Ele concluiu que, a menos que adotasse o humor de um devoto, não poderia experimentar essa felicidade. O devoto mais elevado do Senhor Krishna é Srimati Radharani. Assim, o Senhor Krishna aceitou a emoção e a compleição de Radharani e se tornou o Senhor Sri Krishna Chaitanya Mahaprabhu.

O Senhor Chaitanya é o próprio Krishna, mas na forma e humor de um devoto. Ao se tornar um devoto, o Senhor realizou bhakti-yoga e o ensinou à humanidade. Como Senhor Chaitanya, o Senhor Krishna é especialmente misericordioso ( maha-vadanya ), mesmo para com as pessoas mais pecadoras. Krishna matou pessoas sem escrúpulos, mas o Senhor Chaitanya as transformou. Ele concedeu nama (o nome de Deus) e prema ( amor de Deus) mesmo aos mais caídos, e nenhuma outra encarnação exibiu um nível tão alto de misericórdia divina.

Svarupa Damodara Goswami, um dos associados mais confidenciais do Senhor Chaitanya Mahaprabhu, ofereceu uma oração ao Senhor quando chegou para servi-Lo em Jagannatha Puri. Nessa oração, ele descreveu dez características da misericórdia divina do Senhor Chaitanya:

heloddhunita -khedaya vishadaya pronmilad – amodaya

shamyach – chastra-vivadaya rasa-daya chittarpitonmadaya
shashvad -bhakti-vinodaya sa-madaya madhurya-maryadaya

shri-chaitanya daya-nidhe tava daya bhuyad amandodaya (Chaitanya-charitamrta, Madhya 10.119, Sri Chaitanya-chandrodaya- nataka 8.10)

Tradução:

Que haja a Misericórdia do Senhor Chaitanya ( shri-chaitanya daya-nidhe tava daya bhuyad ), que:

  1. afasta a lamentação material ( hela uddhunita khedaya )
  1. purifica tudo ( vishadaya )
  1. desperta a bem-aventurança transcendental ( pronmilat amodaya )
  1. atenua as divergências das escrituras ( shamyat shastra vivadaya )
  1. distribui todas as doçuras transcendentais ( rasa-daya )
  1. causa júbilo do coração ( citta arpita unmadaya )
  1. sempre estimula o serviço devocional ( shashvat bhakti vinodya )
  1. junto com êxtase e alegria ( sa-madaya )
  1. glorifica o limite do amor amoroso ( madhurya maryadaya )
  1. desperta a boa sorte ( amanda udaya )

O que se segue é uma breve descrição dos dez aspectos acima da misericórdia divina do Senhor Chaitanya.

  1. Afasta A Lamentação:

Uma das características de bhakti , ou serviço devocional puro, é klesha-ghni , ou seja, afasta todas as misérias ( kleshas ). O Senhor Chaitanya desceu para ensinar a todos o processo de bhakti-yoga . Sarvabhauma Bhattacharya, um devoto erudito do Senhor Chaitanya, O louva em seu Shacisutashtakam :

satatam janata-bhava-tapa-haram

paramartha-parayana-loka-gatim

nava-leha-karam jagat-tapa-haram

pranamami shachi-suta-gaura-varam

 

“Ele está sempre removendo o sofrimento da existência material para a humanidade. Ele é o objetivo da vida para as pessoas que se dedicam ao seu interesse supremo. Ele inspira os homens a se tornarem como abelhas (ansiosas pelo mel de krishna-prema ). Ele remove a febre ardente do mundo material. Eu me curvo a Gaura, o lindo filho da mãe Shachi.”

brahmana espiritualmente elevado chamado Vasudeva sofria de lepra, seu corpo cheio de vermes vivos. Sua compaixão pelo sofrimento de todas as entidades vivas era tão grande que assim que um verme caía de seu corpo, ele o pegava e o colocava de volta no mesmo local. Ouvindo que o Senhor Chaitanya havia chegado ao lugar sagrado chamado Kurmakshetra, Vasudeva foi vê-Lo na casa de um brahmana chamado Kurma. Quando Vasudeva soube que o Senhor Chaitanya já havia partido, ele caiu no chão inconsciente, e o Senhor imediatamente veio até aquele local e o abraçou. Assim, sua lepra e sua angústia foram embora, e seu corpo ficou belo.

Vasudeva orou: “Ó meu misericordioso Senhor, tal misericórdia não é possível para entidades vivas comuns. Tal misericórdia só pode ser encontrada em Você. Ao me ver, até mesmo uma pessoa pecadora vai embora devido ao meu mau odor corporal. No entanto, você me tocou. Tal é o comportamento independente da Suprema Personalidade de Deus.” ( Chaitanya-charitamrita , Madhya 7.144-145 )

Sendo muito compassivo com Vasudeva, o Senhor Chaitanya o curou da lepra e o transformou em um belo homem satisfeito com o serviço devocional. Assim, o Senhor Chaitanya ficou conhecido como Vasudevamrita-prada – “o doador de néctar para Vasudeva. ”

  1. Purifica Tudo:

A próxima faceta da misericórdia do Senhor Chaitanya é vishadaya – ela purifica tudo. O Senhor Chaitanya mostrou o método supremo de purificação para as pessoas em Kali-yuga, inaugurando o processo de cantar os santos nomes de Krishna. Ceto-darpana-marjanam : pelo cantar dos nomes de Krishna, o coração da pessoa é purificado.

Srila Narottama Dasa Thakura canta as glórias do Senhor Chaitanya. Patita-pavana-hetu tava avatara : “Ó meu Senhor, Você apareceu apenas para libertar todas as almas caídas.” Mo-sama patita prabhu na paibe ara : “E entre todas as almas caídas, eu sou a mais baixa.” Assim, aquele que busca purificação e elevação de sua condição decaída deve se abrigar no Senhor Chaitanya. Krishnadasa Kaviraja Goswami escreve no Sri Chaitanya-charitamrita ( Adi 15.1):

ku -manah su-manastvam hi yati yasya padabjayoh
su-mano-‘rpana-matrena tam chaitanya-prabhum bhaje

“Ofereço minhas respeitosas reverências aos pés de lótus do Senhor Chaitanya porque simplesmente oferecendo uma flor a Seus pés de lótus, mesmo o materialista mais ardente se torna um devoto.”

  1. Desperta A Bem-Aventurança Transcendental:

Outro aspecto da misericórdia do Senhor Chaitanya é pronmilat amodaya – desperta a bem-aventurança transcendental. O Senhor Chaitanya, junto com Seus associados, realizou sankirtana , ou o canto congregacional dos santos nomes de Krishna. Kaviraja Goswami diz que eles “saquearam o depósito do amor de Deus” e distribuíram seu conteúdo a todos indiscriminadamente. A devoção amorosa a Sri Krishna é alcançada através de sankirtana , que é a essência de toda bem-aventurança ( nama-sankirtana – saba ananda-svarupa, Adi 1.96) Sri Chaitanya Mahaprabhu diz:

krishna -name ye ananda-sindhu-asvadana
brahmananda tara age khatodaka-sama

“Comparado ao oceano de bem-aventurança transcendental que se saboreia cantando o mantra Hare Krishna, o prazer derivado da realização impessoal do Brahman [ brahmananda ] é como a água rasa em um canal.” ( Adi 7,97 )

Durante Sua viagem ao sul da Índia, o Senhor Chaitanya encontrou várias pessoas e as libertou, induzindo-as a cantar os santos nomes de Krishna em êxtase. Quando as pessoas que se tornaram devotas encontraram outras pessoas, elas também as induziram a cantar em êxtase. Assim, milhares e milhares de pessoas cantaram alegremente os santos nomes de Krishna pela misericórdia do Senhor Chaitanya.

  1. Atenua Os Desacordos Das Escrituras:

Outra característica maravilhosa da misericórdia de Chaitanya Mahaprabhu é shamyat shastra vivadaya – ela atenua as divergências das escrituras. As escrituras védicas às vezes apresentam abheda-vakyas , ou declarações afirmando que todas as coisas são uma com Deus, sendo Suas expansões dependentes. Mas as escrituras também contêm muitos bheda-vakyas , ou declarações que afirmam as qualidades únicas e distintivas do Senhor Supremo, indicando que Ele é diferente de Suas expansões e energias. Assim, alguns mantras Upanishadic enfatizam a semelhança de Deus e Sua criação, enquanto outros falam sobre sua diferença.

Diferentes filósofos consideram essas afirmações de acordo com suas próprias concepções. Os impersonalistas lêem os abheda-vakyas literalmente e aceitam os bheda-vakyas apenas de forma figurada. Por outro lado, alguns filósofos enfatizam apenas os bheda-vakyas e explicam que o Senhor Supremo é totalmente diferente da criação e das entidades vivas.

Conciliando essas aparentes contradições nas declarações das escrituras, Sri Chaitanya Mahaprabhu propôs o achintya-bhedabheda-tattva, o princípio da unidade e diferença simultâneas do Senhor e Suas energias, o que é inconcebível. O Senhor Supremo é a pessoa energética original, e Dele emanam todas as Suas energias, incluindo a criação e as entidades vivas. Sem a pessoa energética, a energia não existe. E sem energia, “uma pessoa enérgica” não tem significado. Assim, a energia e o energético são um. No entanto, eles existem separadamente. E isso é inconcebível para mentes influenciadas pela energia material.

Srila Prabhupada escreve,

Somos todos um com Ele [o Senhor Supremo], assim como os ornamentos de ouro são um em qualidade com o ouro de estoque, mas o ornamento de ouro individual nunca é igual em quantidade com o ouro de estoque. O estoque de ouro nunca se esgota, mesmo que haja inúmeros ornamentos que emanam do estoque, porque o estoque é purnam , completo; mesmo que purnam seja deduzido do purnam , ainda assim o purnam supremo permanece o mesmo purnam . Este fato é inconcebível para nossos atuais sentidos imperfeitos. O Senhor Chaitanya, portanto, definiu Sua teoria da filosofia como achintya (inconcebível), e como confirmado no Bhagavad-gita , bem como no Bhagavatam , a teoria do Senhor Chaitanya de achintya-bhedabheda-tattva é a filosofia perfeita da Verdade Absoluta. ( Bhagavatam 2.6.13-16, Significado)

  1. Distribui Doçura Transcendental:

Por Sua misericórdia sem causa ( daya ), Caitanya Mahaprabhu desceu para distribuir as doçuras transcendentais ( rasa ) para as pessoas neste mundo. Assim em Vidagdha-madhava (1.2) Srila Rupa Goswami ora,

anarpita -charim chirat karunayavatirnah kalau
samarpayitum unnatojjvala-rasam sva-bhakti-shriyam

“O Senhor Chaitanya apareceu na Era de Kali por Sua misericórdia sem causa para conceder o que nenhuma encarnação jamais ofereceu antes: a mais sublime e radiante doçura do serviço devocional, a doçura do amor conjugal .” (citado em Cc. Adi 1.4)

Krishnadasa Kaviraja Goswami escreve,

Antes da criação desta manifestação cósmica, o Senhor iluminou o coração do Senhor Brahma com os detalhes da criação e manifestou o conhecimento védico. Exatamente da mesma forma, o Senhor, ansioso por reviver os passatempos de Vrindavana do Senhor Krishna, impregnou o coração de Rupa Goswami com potência espiritual. Por esta potência, Srila Rupa Goswami pôde reviver as atividades de Krishna em Vrindavana, atividades quase perdidas na memória. Desta forma, Ele espalhou a consciência de Krishna por todo o mundo. ( Madhya 19.1)

rasas primárias e secundárias , ou doçuras (sabores) transcendentais no relacionamento com Krishna, juntamente com seus sintomas. Em Benares, o Senhor Chaitanya deu ensinamentos mais elaborados a Sanatana Goswami, esclarecendo-o sobre rasas e outros aspectos de bhakti . Assim, o Senhor Chaitanya distribuiu o conhecimento de rasas para o mundo através de Rupa e Sanatana Goswamis, que os explicaram ainda mais escrevendo escrituras devocionais.

  1. Causa O Júbilo Do Coração:

A misericórdia do Senhor Chaitanya também causa júbilo no coração ( chitta arpita unmadaya ). Ouvir sobre todas as Suas atividades cheias de compaixão e afeição causa a maior felicidade ao ouvinte. Assim, Kaviraja Goswami exorta os leitores do Sri Chaitanya-charitamrita , repleto de descrições das atividades misericordiosas do Senhor Chaitanya, a estudá-lo e ouvi-lo com grande atenção para obter júbilo: “Ó devotos, que a vida transcendental e as características de Sri Chaitanya Mahaprabhu sejam sempre ouvidas , cantado e meditado com grande felicidade.” ( Antya 12.1 )

  1. Sempre Estimula O Serviço Devocional:

A misericórdia do Senhor Chaitanya sempre estimula o serviço devocional ( shashvat bhakti vinodaya ) nos corações daqueles que entram em contato com Ele. Cada entidade viva tem um relacionamento eterno com o Supremo Senhor Krishna. No entanto, devido à cobertura de maya , ou a energia ilusória, a alma condicionada esqueceu esse relacionamento. Pela execução de bhakti yoga pode-se reviver esse relacionamento. E o Senhor Chaitanya misericordiosamente desceu para ensinar bhakti-yoga , pelo qual a pessoa se identifica como um servo eterno do Senhor Krishna e age de acordo. Assim Sarvabhauma Bhattacharya O exalta:

vairagya-vidya-nija-bhakti-yoga

shikshartham ekah purushah puranah

shri-krishna-chaitanya-sharira-dhari

kripambudhir yas tam aham prapadye

 

“Deixe-me abrigar-me na Suprema Personalidade de Deus, Sri Krishna, que desceu na forma do Senhor Chaitanya Mahaprabhu para nos ensinar o verdadeiro conhecimento, Seu serviço devocional e desapego de tudo que não promova a consciência de Krishna. Ele desceu porque Ele é um oceano de misericórdia transcendental. Deixe-me render-me aos Seus pés de lótus.” ( Madhya 6.254)

O Senhor Chaitanya pregou bhakti , especialmente bhakti realizado seguindo os passos dos residentes de Vrindavan, sob a orientação dos Seis Goswamis. Sempre que o Senhor Chaitanya se despedia de Seus devotos, Ele os exortava fervorosamente a prestar serviço devocional a Krishna, que inclui cantar Seus nomes e adorá-Lo.

  1. Concede Êxtase E Alegria Completos:

Como o Senhor Chaitanya estimula o serviço devocional no coração de uma alma condicionada e sofredora neste mundo, Ele simultaneamente concede o êxtase e a alegria ( sa-madaya ) que acompanham bhakti . A entidade viva condicionada se identifica artificialmente como o mestre, desfrutador, controlador e proprietário neste mundo. No entanto, pela misericórdia do Senhor Chaitanya, pode-se desistir de tal falsa identificação realizando krishna-bhakti. Ser um servo amoroso de Krishna é a posição constitucional original de toda entidade viva, como o próprio Senhor Chaitanya ensinou: jivera ‘svarupa’ haya – krishnera ‘nitya-dasa’ ( Madhya 20.108). Uma gota de alegria e êxtase de servir a Krishna não pode ser comparada a um oceano de felicidade que se obtém ao fundir-se no Brahman impessoal ( Adi 6.44). O próprio Senhor Chaitanya prova o néctar de krishna-prema e inspira outros a provarem o mesmo. Kaviraja Goswami escreve,

vande shri-krishna-chaitanyam

krishna-bhavamritam oi yah

asvadyasvadayan bhaktan

prema-diksham ashikshayat

 

“Deixe-me oferecer minhas respeitosas reverências a Sri Chaitanya Mahaprabhu, que pessoalmente provou o néctar do amor extático por Krishna e então instruiu Seus devotos como saboreá-lo. Assim, Ele os iluminou sobre o amor extático de Krishna para iniciá-los no conhecimento transcendental.” ( Antya 16.1)

  1. Glorifica O Limite Do Amor Amoroso:

Outro aspecto da misericórdia do Senhor Chaitanya é madhurya maryadaya – glorificando o limite do amor amoroso . Existem cinco rasas primários em conexão com o Senhor Krishna, a saber, shanta (neutralidade) , dasya (servidão ), sakhya (amizade), vatsalya (fraternidade) e madhurya (amor amoroso). Por uma comparação imparcial, descobre-se que madhurya rasa é o mais alto. E Srimati Radharani é o epítome de todos os devotos em madhurya rasa . Mesmo Krishna deseja compreender a grandeza de Seu amor e experimentar a felicidade que Ela obtém ao servi-Lo. Assim Krishna desceu como Senhor Chaitanya, aceitando o humor de Radharani.

A própria aparição do Senhor Chaitanya com as emoções de Srimati Radharani é o maior testemunho da rasa amorosa . Durante Suas discussões com Ramananda Raya ( Madhya, capítulo 8), o Senhor Chaitanya estabeleceu a supremacia de madhurya rasa através das palavras de Ramananda Raya. O Senhor Chaitanya ensinou que a maior aspiração ou objetivo ( sadhya ) para um Gaudiya Vaishnava é adorar Krishna seguindo os passos das Vraja-gopis, porque não há modo de adoração melhor do que o deles. Em Seus passatempos manifestos, especialmente nos últimos dezoito anos de Sua estada em Jagannatha Puri, o Senhor Chaitanya estava constantemente absorto no humor das gopis e experimentava sentimentos extáticos de separação de Krishna. Assim Ele declarou ao mundo inteiro a glória das gopis de Vrindavan, os devotos mais elevados de Krishna em sentimentos madhurya .

  1. Desperta A Boa Sorte:

Svarupa Damodara Goswami menciona a característica final da misericórdia do Senhor Chaitanya como amanda udayam – ela desperta toda boa sorte. Através de Seus ensinamentos, atividades e interações, o Senhor Chaitanya misericordiosamente desperta a maior fortuna na vida dos devotos. Perto do fim de Seus passatempos manifestos, o Senhor Chaitanya disse a Svarupa Damodara Goswami e Ramananda Raya: “Simplesmente cantando o santo nome do Senhor Krishna, pode-se libertar de todos os hábitos indesejáveis. Este é o meio de despertar toda boa fortuna e iniciar o fluxo de ondas de amor por Krishna.” ( Antya 20.11)

O Senhor Misericordioso:

Assim, a aparência e as atividades do Senhor Chaitanya estão repletas de misericórdia incomparável sobre as entidades vivas neste mundo – os inteligentes, os tolos, os nobres, os humildes, homens, mulheres, crianças ou mesmo espécies não humanas. O Senhor Chaitanya concedeu Sua misericórdia aos animais na Floresta Jharikhand e os fez cantar os nomes de Krishna em êxtase. A suprema misericórdia do Senhor Chaitanya atua como a suprema bênção sobre as pessoas neste mundo em vários níveis – desde libertá-las dos sofrimentos da existência material até fazê-las experimentar o júbilo transcendental do amor por Krishna. E essa misericórdia é como um rio nectáreo fluindo rio abaixo e acessível até mesmo para as pessoas mais caídas e pecadoras deste mundo ( Adi 16.1 ). more — para nós; dayä — misericórdia; kari’ — mostrando; kara — fazer; sva-day€ — Sua própria misericórdia; sa-phala — bem- sucedido; akhila — por toda parte ; brahmäëòa — o universo; dekhuka — que seja visto; tomära — Seu; dayä-bala — poder de misericórdia. Assim, Kaviraja Goswami exorta os leitores do Chaitanya-charitamrita a usar sua lógica e raciocínio para entender a misericórdia do Senhor Chaitanya como “surpreendentemente maravilhosa” (Adi 8.15).

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Fonte:

Ten Characteristics of Lord Chaitanya’s Mercy.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/dez-caracteristicas-da-misericordia-do-senhor-chaitanya/

O Som do Silêncio

Por Gilberto Antônio Silva

Hoje estava estudando um livro sobre aperfeiçoamento pessoal. Ao longo da leitura me dei conta do ruído do relógio de parede: tique-taque-tique-taque. Quando você consegue escutar o barulhinho desse tipo de relógio você percebe que existe um grande silêncio ao seu redor. De fato, é frequente que não se ligue rádio nem tv em minha casa. Simplesmente desfrutamos de algum livro ou trabalhamos no computador, sem ruídos externos. Talvez você estranhe esse procedimento, pois nossa cultura atual procura encher nossas vidas de barulho. Em geral a primeira coisa que se faz ao chegar em casa é ligar o rádio, colocar um CD ou ligar a TV (mesmo que ninguém vá assistir diretamente a ela).

Nesse tipo de cultura barulhenta, ficar quieto parece coisa do outro mundo. Vários alunos já manifestaram sua surpresa quando mencionei isso em aula. Ficar sentado, lendo, sem nenhum aparelho ligado tocando música ou outra coisa, se tornou algo raro. Acredito que meu prazer pelo silêncio se deva em grande parte à minha dedicação à cultura oriental e ao Taoismo. Os orientais procuram no silêncio as respostas que não aparecem no barulho. Quando silenciamos os ouvidos, a mente começa a prestar atenção nos pensamentos. A introspecção é parte fundamental das práticas orientais, pois é mais fácil procurar a Verdade dentro de nós do que no mundo exterior. Se muitas pessoas se voltassem para dentro de si mesmas ao invés de procurar respostas fora, teriam vidas mais tranquilas e fáceis.

Quando eu digo “silêncio” não quero dizer uma ausência absoluta de sons. Sabemos que isso é quase impossível, especialmente em nossos dias. Os ruídos externos são naturais e tendem a desaparecerem quando deixamos de prestar atenção neles. Os barulhos que nós provocamos é que causam grande transtorno. Silêncio total é muito raro. Me lembro de algumas vezes, quando era pequeno e passava férias na fazenda de parentes, de ficar parado no campo já arado e pronto para o plantio, e meus ouvidos zumbiam de tanto silêncio. É interessante, mas quando existe um silêncio tremendo escutamos nosso próprio corpo. Foi uma experiência que me marcou muito essa ausência quase total de som. Uma plantação já crescida tem muitos barulhos, de folhas ao vento, por exemplo. Mas na terra nua, arada e ainda vazia, nada perturba o silêncio.

O silêncio é importante na compreensão do Tao, pois nos remete ao Wuji, o Vazio Primordial. Sempre que se começa e termina uma forma de Tai Chi Chuan ou de Qigong, se permanece alguns instantes em pé (semelhante à posição militar de “sentido” para os ocidentais), mas relaxado, com os braços soltos ao longo do corpo e os olhos mirando à frente. Isso se deve ao fato de que começamos e terminamos as formas a partir do Vazio, começo e fim de cada ciclo. Um de meus mestres dizia que se deve “ouvir atrás” quando se coloca nessa posição, querendo dizer para se prestar atenção no mundo ao nosso redor, uma atenção passiva, vazia, como se isso tudo nada tivesse a ver conosco.

Quando ficamos em silêncio podemos contemplar nossa mente e compreender melhor nossos pensamentos, sentindo-nos ao mesmo tempo mais próximos do Tao. A importância disso deveria ser óbvia, pois somos o que pensamos. Procure diminuir o barulho ao seu redor e fique alguns minutos por dia, sentado no silêncio. Não precisa “meditar” propriamente dito, mas uma simples contemplação de seus pensamentos. Meditação nada mais é do que a ausência de “ruídos” em nossa mente. Existem três níveis para se atingir a hiperconsciência, segundo a filosofia indiana, que se aplicam perfeitamente ao Taoismo: Dharánna, Dhyanna e Samádhi – sucessivamente contemplação, meditação e transcendência. Comece pelo começo. Será uma experiência bastante enriquecedora.

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Gilberto Antônio Silva é Parapsicólogo, Terapeuta e Jornalista. Como Taoista, atua amplamente na pesquisa e divulgação desta fantástica cultura chinesa através de cursos, palestras e artigos. É autor de 14 livros, a maioria sobre cultura oriental e Taoismo. Sites: www.taoismo.org e www.laoshan.com.br

#Tao

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-som-do-sil%C3%AAncio

Controle Mental Vampírico

por Ferox

A maioria das pessoas não controlará suas mentes. Eles evitam freneticamente a dor física e emocional, muitas vezes sem perceber que estão fazendo isso. Eles se preocupam e se afligem, lamentam sobre o passado, tornam-se defensivos ou agressivos quando insultados e reclamam mecanicamente de suas vidas em vez de passar pelo desconforto de mudar sua situação. Eles raramente veem a realidade como ela é, em vez disso, julgam o que verão antes mesmo de a luz atingir seus olhos.

Apesar de não parecer, isso é realmente uma coisa muito sensata para os mortais fazerem.

O conhecimento comum sustenta que o envelhecimento e a morte são inevitáveis. Todas as pessoas apodrecerão primeiro em seus ossos e depois apodrecerão abaixo do solo. Isso é obviamente horrível, mas como é inevitável, faz sentido esquecer isso o máximo possível.

Infelizmente, tudo está contaminado por isso. Aconteça o que acontecer, a crença é que cem anos farão com que tudo o que um mortal faça não passe de uma memória. O que importa qualquer conquista em uma carreira se você deixar de existir? Por que aprender uma nova habilidade se essa habilidade simplesmente desaparecerá um dia, não fazendo diferença? Que sentido faz , fazer qualquer coisa se tudo chegará ao fim?

Os seres humanos abordaram esse horror de duas maneiras principais. A primeira é tentar se convencer de que a morte é realmente boa. Eles falam de viver em uma vida após a morte ou nas memórias daqueles que sobrevivem a eles, e muitas vezes argumentam que a imortalidade seria indesejável mesmo se fosse possível. Eles traem seus verdadeiros sentimentos sempre que suas vidas são ameaçadas, mas desde que seja uma questão intelectual eles falarão da morte como uma bênção. Referimo-nos a essa perspectiva como deathismo.

A outra maneira pela qual os humanos abordaram isso é se dedicando a alucinar constantemente. Enquanto não perceberem a realidade como ela é, não terão que enfrentar o horror do esquecimento eventual que é uma aparente inevitabilidade da vida.

No entanto, esse comportamento não faz sentido para os imortais. Podemos escolher focar nossa mente na realidade como ela é, e isso nos revela a glória e o prazer da vida eterna.

Isso fornece o núcleo da serenidade viva que ilude os mortais que buscam desesperadamente a paz mental enquanto se apegam ao seu deathismo.

Abaixo, fornecemos três Segredos para desenvolver um comando tão poderoso de sua mente. Detalhamos cada um deles nas seções posteriores deste capítulo.

No entanto, é importante notar que isso apenas  funcionará apenas até um certo ponto caso você não saiba que viverá para sempre. Crença e fé não lhe farão bem. Você precisa tomar medidas para obter uma certeza razoável a fim de afetar as partes de sua mente que importam. Portanto, enfatizamos novamente que é vital que você tome as medidas descritas no fórum Segredos da Imortalidade para receber todos os benefícios do que oferecemos aqui.

  • Experimente o estado habitual de sua mente. Isso requer ir além da linguagem para um sentido somático de como você vive momento a momento e durante momentos de estresse. Isso é necessário para que você possa reconhecer o sentimento e escolher como responder.
  • Pratique meditações saudáveis. Isso fortalecerá seu domínio da mente e ensinará maneiras de pensar que são úteis para a vida eterna. Nem todas as formas de meditação são saudáveis, então vamos delinear o que procurar e dar alguns exemplos.
  • Desenvolva sua capacidade de usar a razão. Isso fornecerá uma ferramenta poderosa para criar os efeitos que você pretende em sua vida. A razão, na verdade, funciona um pouco diferente do que a maioria das pessoas imagina, como será explicado.

 

Estado mental habitual

As alucinações que a maioria das pessoas imaginam fazem com que acionem os instintos vitais do corpo. À medida que o corpo reage, várias sensações físicas tornam-se disponíveis para a experiência consciente. Isso significa que, se você puder reconhecer essas sensações físicas, poderá perceber quando está acionando esses instintos desnecessariamente.

Os instintos desencadeados vêm essencialmente em duas formas: excitação e rendição. A excitação ocorre quando a resposta de luta ou fuga é aproveitada até certo ponto. Isso se manifesta como medo, nervosismo, aborrecimento, raiva, júbilo, mania e uma série de outras experiências subjetivas que tendem a causar tensão física e agitação mental. Qualquer emoção que primeiro o energiza e depois o cansa é resultado desse instinto de excitação.

A rendição é um instinto social que torna o corpo flácido e a mente embotada e obediente. Isso evoluiu nos humanos para que os indivíduos que a comunidade condenasse à morte aceitassem seu destino em vez de representar qualquer ameaça. Desesperança, apatia, tristeza e vários outros estados que acompanham a lentidão física e mental são manifestações comuns desse impulso. Isso também é frequentemente desencadeado quando as pessoas “vai com calma”, resultando em exaustão após um dia de descanso manco.

É vital que você aprenda a reconhecer essas reações em seu corpo. Isso lhe dará uma maneira razoavelmente objetiva de discernir o estado de sua mente, proporcionando-lhe assim o poder de escolha.

  • Sinta seu corpo durante a reação de excitação. Encontre uma maneira de se agitar, como lembrar de algo frustrante ou preocupante. Pense no que poderia torná-lo ainda pior. Se você tem uma fobia ou sente ódio por alguém ou alguma coisa, pense no que inspira essa reação em você. Realmente sinta. Então observe como seu corpo se sente.

Quais músculos estão tensos? Qual é a sua postura? Como é a sua respiração?

Apenas tome nota dessas experiências. Você só precisa fazer isso uma vez para ter a sensação, embora deva retornar a ela sempre que tiver dificuldade em lembrar-se da sensação.

  • Sinta seu corpo durante a reação de rendição. Observe como você se sente quando desmaia de exaustão, como se jogar na frente da TV ou na cama depois de um longo dia. Se você consegue se lembrar de um momento em que se sentiu cansado por ter que admitir a derrota, pense nisso. Em seguida, preste atenção novamente à tensão muscular, postura e respiração. Tal como acontece com a tomada de consciência da resposta de excitação, uma vez deve ser suficiente, desde que você esteja consciente de como se sente fisicamente a rendição.
  • Observe essas reações físicas no seu dia-a-dia. Estes ocorrem em graus variados quase constantemente para a maioria das pessoas. É importante que você observe as reações do seu corpo em vez de se concentrar nas palavras que você diz a si mesmo ou em seu estado emocional. Esta é uma habilidade mental que levará tempo para se desenvolver. Não tente mudar esse estado quando ocorrer, pois isso tende a desencadear a reação de excitação na forma de lutar contra si mesmo. Basta observar. Isso combinado com os Segredos da meditação lhe dará força mental e paz ao longo do tempo.

 

Meditações eficazes

Boas meditações fortalecerão sua capacidade de relaxar em uma consciência de seu ambiente físico imediato. Os métodos de meditação que a maioria das pessoas usa dependem de fazer exatamente o oposto. Eles encorajam as pessoas a alucinar. Por exemplo, uma forma comum de meditação pobre é imaginar a luz dourada celestial derramando-se no corpo e acalmando toda a negatividade. No entanto, não existe essa luz dourada na experiência física imediata, portanto, fazer isso requer sintonizar o ambiente em favor da experiência imaginada. Isso é relaxante para aqueles para quem a realidade promete a morte, mas distraindo-os em vez de fortalecer suas mentes.

Em vez disso, qualquer meditação que você praticar deve ajudá-lo a se tornar mais consciente das informações que seus sentidos estão lhe dizendo. Também deve ajudá-lo a se estabelecer em um estado de relacionamento com a Vontade Vampírica que é distintamente diferente de excitação e rendição. A diferença entre a consciência calma e essas duas reações instintivas fica mais clara com a prática contínua ao longo do tempo.

Abaixo, fornecemos algumas boas meditações. Você está convidado a experimentar qualquer um ou todos eles. Você também pode praticar o seu próprio, mas nós o encorajamos a perguntar sobre eles neste fórum antes de fazer uma prática regular com eles.

Também é possível combinar meditações, mas certifique-se de que, ao fazer isso, você só precisa se concentrar em uma coisa de cada vez. Independentemente de quais práticas você escolher, você deve praticá-las no BTE todos os dias sem falhas. No mínimo, passe dez minutos logo pela manhã e dez antes de dormir fazendo uma boa meditação. Você pode achar mais fácil começar com apenas um minuto de cada vez e depois aumentar em um minuto por semana. Isso o ajudará a desenvolver o hábito sem tornar a exigência de tempo muito assustadora no início.

Esteja ciente de que você provavelmente não verá benefícios imediatos disso. Leva tempo para cultivar esse tipo de força interior. Comece agora e seja diligente. Você também pode reservar um momento durante os momentos estressantes de sua vida diária para praticar uma boa meditação para recuperar esse equilíbrio e acalmar a excitação e as respostas de entrega.

  • Simplesmente ficar parado pode ter um efeito poderoso quando feito BTE. Sente-se ereto com as costas sem apoio e a cabeça equilibrada na coluna vertebral. Role os ombros para trás para abrir o peito. Ajuste a pélvis para que o sacro fique perpendicular ao chão. Olhe para frente e um pouco para baixo.

Em seguida, relaxe em absoluta quietude. Não mova nada. Comece fazendo isso por apenas dez segundos e aumente dez segundos por dia. Não faça isso por mais de noventa segundos consecutivos, a menos e até que você tenha recebido instruções pessoais indicando o contrário. Geralmente é muito difícil ir mais de noventa segundos fazendo isso corretamente sem orientação.

  • Se você relaxar e se mover devagar o suficiente, há uma espécie de graça suave que aparece naturalmente. Esta é a velocidade na qual sua mente pode acompanhar seu corpo. Você aumentará essa velocidade se praticar esse movimento.

Passe algum tempo movendo-se dessa maneira para trabalhar o equilíbrio, carregando recipientes cheios de água até a borda ou praticando qualquer outra habilidade física que você ache que vale a pena desenvolver.

  • Qualquer prática que faça com que você continue focando em seu entorno através de um processo infinito pode ser bom. Um exemplo disso envolve a consciência espacial que permite que você saiba sem olhar onde estão seus dedos.

Comece respirando fundo e deixando de lado todo o excesso de tensão física na expiração. Então sinta a posição do seu corpo. Expanda essa consciência para observar as paredes, o teto, o espaço atrás de você e a estrutura sob o piso que o sustenta.

Expanda sua consciência novamente para estar ciente de toda a cidade, da terra abaixo de você e do céu acima de você. Expanda-o novamente para estar ciente do planeta flutuando no espaço. Expanda-o novamente para incluir o sistema solar.

Para fazer isso corretamente, a taxa na qual a consciência se estende ao seu redor deve aumentar a cada passo. Então, depois de um segundo você está ciente da sensação de estar em uma sala, depois de dois segundos de estar em uma cidade na superfície da Terra, depois de três segundos de estar em um planeta flutuando no espaço, e assim por diante. Essa expansão da consciência deve ocorrer muito rapidamente.

Você quer que sua experiência seja do BTE e não baseada na visualização. Você quer expandir sua consciência de onde você está. Os dois erros mais comuns são (1) visualizar sua consciência como uma esfera que você vê de fora em expansão e (2) imaginar a si mesmo em expansão. Não faça nenhum. Apenas esteja ciente de onde você está, e deixe essa consciência crescer.

Eventualmente, você chegará a um ponto em que não poderá mais pensar no processo de expansão porque é simplesmente muito grande e muito rápido. Apenas deixe a sensação de expansão da consciência continuar. Esse é o ponto em que sua mente está ficando mais forte e mais calma. Se você está ficando frustrado ou se preocupando se está fazendo certo, você parou. Apenas comece de novo e deixe o sentimento continuar.

 

Desenvolvendo a razão

Quase todas as tradições místicas, religiosas ou espirituais levam seus seguidores a acreditar no que é ensinado. Raramente há qualquer evidência fornecida para suas afirmações, mas eles ainda insistirão que sabem que o que dizem é verdade e que você deve confiar na palavra deles. Essa cerimônia ou essa meditação supostamente o aproximará de Deus, da iluminação ou da pureza. Jesus ou Buda ou seus ancestrais ou deuses mágicos supostamente irão protegê-lo como pais sobrenaturais.

Porque todos os outros nessa tradição dizem a mesma coisa, os recém-chegados à fé são varridos por um mar de crença cega. O que falta é razão. A razão é a disposição de reconhecer a evidência, independentemente das crenças que ela apóia ou desafia.

Em outras palavras, é a identificação não contraditória dos fatos da realidade. Esta é uma habilidade que esperamos que todos os membros aqui desenvolvam porque é a única maneira de você saber o que é útil para você. É também a ferramenta mais poderosa que você pode desenvolver para se defender contra o absurdo.

Doravante, sempre que encontrar uma perspectiva ou afirmação com a qual discorde, considere-a uma oportunidade de fortalecer sua capacidade de usar a razão. Esteja aberto à possibilidade de estar errado. Explore evidências para a posição com a qual você discorda ou contra a que você mantém. Preste atenção à natureza dos argumentos que você encontra, principalmente se eles apelam para a autoridade ou o que “todo mundo sabe”. Faça o seu melhor para provar que está errado. Se a sua posição original ainda faz sentido, então você tem uma confiança ainda maior de que está certa.

Se você mudar de ideia, então você aprendeu algo e descartou uma ideia que simplesmente não era tão útil. De qualquer forma você fez um favor a si mesmo. Agora, pense em algo sobre o qual você tem uma opinião, mas nem todos necessariamente concordam com você. Pode ser alguma questão política, uma afirmação sobre a realidade dos fenômenos psi, algo sobre a experiência de abdução alienígena, ou qualquer outra coisa sobre a qual você se posicione. Então procure provas contra sua posição. Leia os argumentos de um campo oposto. Esteja aberto para estar errado.

Isso pode resultar em você não saber mais o que é certo em sua situação escolhida devido ao reconhecimento de que não tem informações suficientes. Considere isso uma marca de sabedoria. Isso significa que você está aberto a aprender os fatos da realidade. Este é um exercício que deve ser repetido com frequência. É especialmente vital que você faça isso quando se sentir tentado a acreditar nas afirmações que este Templo faz. O sucesso ao longo da vida e especialmente no Vampirismo requer o desenvolvimento de conhecimento ao invés de crença.

Para isso, apresentamos a seguir três ensaios que pretendem ajudá-lo a assumir uma perspectiva que encoraje o uso da razão. A primeira aborda a religião, a segunda a filosofia e a terceira a própria razão.

 

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/controle-mental-vampirico/

Sobre a Alquimia presente na Alma Ancestral Brasileira

“É como se no Brasil desse para fazer uma obra Alquímica, em que você coloca na mesma panela um monte de ingredientes e você trabalha aquilo e no fim há uma metamorfose e surge uma coisa preciosa para fora”

Com esse pensamento e outras metáforas interessantes, Roberto Gambini apresenta nesta palestra sua perspectiva a cerca da essência do povo brasileiro, do sujeito à nação. O cientista social e analista junguiano entende que nosso país precisa tomar consciência da diversidade, da imensidão e da riqueza das terras brasileiras e deve resgatar a essência indígena. Pautada na coletividade, nossa cultura deve ser geradora de colaboração.

Estamos nos deslocando para o que éramos antes de sermos interrompidos, atualizando tudo que foi conquistado pela contemporaneidade. Esse retorno nos permitirá identificar nossa antiga meta: viver com simplicidade.

É nossa missão retomar uma energia que “brota da terra e conduz sem erro para sermos o que tínhamos que ter sido desde o começo”. Amparados pela simplicidade, devemos reaprender a viver com pouco. Saber ter vida interior, ou seja, uma subjetividade atuante, expressa e livre. Devemos “saber ver a beleza desde o pequeno até o infinito”.

O resgate da alma indígena e as concepções tribais de sociedade, que englobam a ausência de propriedade privada e papéis bem integrados socialmente se mostra a alternativa ao maior desafio do Brasil: a injustiça.

É impossível separar as problemáticas socioeconômicas das problemáticas psicológicas e culturais. Elas andam juntas e a transmutação deve ocorrer internamente assim como externamente.

Injustiça essa que não é de nossa natureza, uma vez que os povos indígenas traziam consigo a capacidade de comungar coletivamente a natureza. Desigualdade e exclusão são provenientes da sociedade de classes, pois apenas o modo de produção que permite que pouquíssimos tenham exacerbados privilégios, e uma massa enorme não tenha acesso aos bens elementares.

Considerando a perspectiva alquímica, existe um conceito chamado multiplicatio, ou multiplicação. Tudo vem e provém de um. Considerando essa máxima hermética, a multiplicatio diz respeito ao processo de aumentar a potência da pedra filosofal. Aquela que tudo toca e transforma em ouro é uma metáfora para nossa consciência mais elevada. Quando transcendemos a esfera do ego e equilibramos nossas polaridades, acessamos camadas mais profundas do Self.

Tal mergulho nas águas do inconsciente é transformador e, ao retornarmos ao mundo exterior, aqueles que foram tocados pela luz, acabam iluminando os outros também. A Multiplicatio é o processo alquímico em que permite que a luz seja disseminada, sendo luz, aqui entendida como discernimento, como consciência.

Para Gambini, quem se conscientiza, ganha uma força e dela se obtém o poder da multiplicação. Instruir as crianças, expô-las a uma mentalidade que valoriza nossos raízes seria uma opção para a mudança. Isto permitiria não só a construção de uma nova identidade social, mas comportaria a construção de uma história “que pode correr livre e sem ser distorcida”. Só assim seria possível resignificar em nosso imaginário nosso complexo de inferioridade, ou de vira-latas, como diria Nelson Rodrigues.

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Ricardo Assarice é Psicólogo, Reikiano, Mestrando em Ciências da Religião e Escritor. Para mais artigos, informações e eventos sobre psicologia e espiritualidade acesse www.antharez.com.br ou envie um e-mail para contato@antharez.com.br

Imagens:

“A Primeira Missa no Brasil” de Victor Meireles (1860)

Criança Patajó (esquerda), bebê moderno mexendo num iPad (centro) e indíos Kuikuros (direita)

Respectivamente: “Multiplicatio”, encontrado na Coleção Alquímica de Manuscritos de Manley Palmer Hall e “Multiplicatio”, encontrado em Philosophia Reformata, de Johann Daiel Mylius (1628)

#Alquimia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/sobre-a-alquimia-presente-na-alma-ancestral-brasileira

Entrevista com John Mack

John Mack (1928 – 2004) foi médico, escritor ganhador do Prêmio Pulitzer e professor chefe do departamento de psiquiatria da Harvard Medical School. Foi também o maior pesquisador de sua geração sobre os impactos psicológicos das experiências de abdução por alienígenas. A entrevista foi cedida a revista eletrônica NOVA Online em 2002.

NOVA: Vamos falar sobre sua evolução pessoal, talvez do ceticismo à crença…

MACK: Quando eu encontrei esse fenômeno pela primeira vez, ou particularmente antes de ter visto as próprias pessoas, eu tinha muito pouco espaço em minha mente para levar isso a sério. Eu, como a maioria de nós, fui criado para acreditar que, se quiséssemos descobrir outra inteligência, o faríamos por meio de ondas ou sinais de rádio ou ou algo do gênero.

A ideia de que poderíamos ser alcançados por algum outro tipo de ser, criatura, inteligência que pudesse realmente entrar em nosso mundo e ter efeitos físicos, bem como efeitos emocionais, simplesmente não fazia parte da visão de mundo em que fui criado. Com muita relutância, cheguei à conclusão de que esse era um verdadeiro mistério. Em outras palavras, que eu … fiz tudo o que pude para descartar outras fontes, traumas ou abuso sexual. Algumas dessas pessoas são abusadas. Mas eles são capazes de dizer, distinguir claramente o trauma de abdução de outras formas de abuso.  Há também algumas formas de psicose ou pessoas inventando histórias – mas eu poderia rejeitar isso com base no fato de que não há ganho nisso – inclusive há perdas – para a vasta maioria dessas pessoas.

Já trabalhei intensamente com mais de uma centena de abduzidos. O que envolve uma entrevista inicial de duas horas ou mais antes de fazer qualquer outra coisa. E caso após caso, fiquei impressionado com a consistência da história, a sinceridade com que as pessoas contam suas histórias, o poder dos sentimentos relacionados a isso, a dúvida – todas as respostas apropriadas que essas pessoas tem para suas experiências.

NOVA: Então diga-nos, por favor, quão literalmente você pretende que as pessoas entendam isso? Você está sugerindo que as pessoas estão realmente sendo arrancadas de suas camas por alienígenas e sendo levadas a bordo de uma nave espacial?

MACK: Como interpretar isso literalmente, é um dos aspectos mais interessantes e complexos do assunto. E eu quero passar por isso o mais claramente possível. Existem aspectos  que eu acredito que nos deixa justificados em interpretar literalmente. Ou seja, os OVNIs são de fato observados, filmados por as câmeras ao mesmo tempo que as pessoas estão tendo suas experiências de abdução.

Na verdade, observou-se que havia pessoas desaparecidas no momento em que relatavam suas experiências de abdução. Eles voltam de suas experiências com cortes, úlceras no corpo, lesões triangulares, que seguem a descrição das experiências que eles recuperam, do que foi feito a elas no decorrer da atividade cirúrgica desses seres.

Tudo isso tem um aspecto físico literal e é vivenciado e relatado com sentimento apropriado, pelas pessoas abduzidas, com ou sem hipnose ou exercício de relaxamento.

Há uma – eu acredito – gradação de experiências e que vão desde os tipos físicos mais literais de feridas, cortes, pessoas removidas, espaçonaves que puderam ser fotografadas, até experiências que são mais psicológicas, espirituais, envolvem o extensão da consciência. A dificuldade para a nossa sociedade e para a nossa mentalidade é que temos uma espécie de mentalidade que nos obriga ou isso ou a aquilo. Ou é literalmente físico ou está em outro reino espiritual, o reino invisível. O que parecemos não ter lugar para – ou perdemos o lugar para – são fenômenos que podem começar no reino invisível, e cruzar e se manifestar e aparecer em nosso mundo físico literal.

Portanto, a resposta simples seria: Sim, são os dois. Literalmente, algo fisicamente está acontecendo até certo ponto; e também é algum tipo de experiência psicológica espiritual ocorrendo e se originando talvez em outra dimensão. E assim o fenômeno nos abre, ou nos pede para nos abrir a realidades que não são simplesmente o mundo físico literal, mas para estendermos a possibilidade de que existem outras realidades invisíveis das quais nossa consciência, nossa alma, se você quiser, está aprendendo a experimentar ao longo das últimas centenas de anos.

NOVA: Eu me pergunto, se nesse sentido, você pode falar sobre o que você acha que se trata dessa experiência?

MACK: …. Existem vários efeitos que essas experiências têm para aqueles que passam por encontros de abdução alienígena. O primeiro é o aspecto ou ajuste mais familiar, que é um evento traumático no qual uma luz azul ou algum tipo de energia paralisa a pessoa, esteja ela em sua casa ou dirigindo um carro. Elas não podem se mover.

Eles se sentem removidos de onde quer que estejam. Eles flutuaram através de uma parede ou de um carro, levados por esse feixe de luz para uma nave e lá submetidos a uma série de procedimentos agora familiares que envolvem os seres que os encaram; sondagem de seus corpos e orifícios corporais; e um processo complexo pelo qual eles sentem, no caso dos homens, o esperma removido; nas mulheres, os óvulos são removidos; algum tipo de prole híbrida criada que eles são trazidos de volta os visitar em abduções posteriores. Esse é o tipo de experiência literal.

Agora, o efeito disso é – ou o que parece estar acontecendo lá, em uma série de abduções – não apenas as pessoas que entrevistei, mas aquelas que Budd Hopkins e outras pessoas pesquisaram – é produzir algum tipo de nova espécie ou espécie híbrida que – às vezes é dito aos abduzidos – povoará a terra ou estará lá para levar a evolução adiante, depois que a raça humana tiver concluído o que está fazendo agora, ou seja, a destruição da terra como um sistema vivo. Portanto, é uma espécie de forma futura. É uma reunião estranha com uma espécie menos corporificada do que nós, para um propósito evolutivo.

No entanto, isso pode não ser literalmente verdade. Pode ser que esta seja uma comunicação para nós. Que talvez precisemos mudar nossos hábitos. Pode não ser que sejam literalmente nossos bebês. Pode ser uma espécie de expressão de imagens de bebês; ou pode ser que esses híbridos que nos disseram sejam o que tenhamos que ser. É uma espécie de apólice de seguro se a terra continuar a ser sujeita à exploração de seu ambiente vivo a ponto de não poder sustentar a vida humana e outras como está ocorrendo agora. Mas pode não ser literalmente o que vai acontecer. Então essa é uma área em aberto.

Outra área é todo o aspecto visual, ambiental e informacional disso, em que as pessoas são mostradas nas telas de televisão uma enorme variedade de cenas de destruição ambiental da terra poluída; de uma espécie de cena pós-apocalíptica em que até os espíritos foram expulsos de seu ambiente porque vivem no mesmo ambiente físico e espiritual que nós; e os campos são mostrados com árvores destruídas; pedaços da terra são vistos como se separando, a terra em colapso.

NOVA: ….. Híbrido alienígena. O que isso significa?

MACK: Às vezes, ao longo do caminho, conforme você se aprofunda cada vez mais na consciência da pessoa, na experiência dela, ela descobrirá … o que é chamado de identidade dupla. Em outras palavras, que ambos são humanos – em uma dimensão; mas eles também são eles mesmos, têm uma identidade estranha. Que participam desse programa reprodutivo híbrido, como se fossem parte dele. E que eles podem, de fato, até se sentir como alienígenas. Uma versão sua melhorada que vive em um mundo maior.

Um dos homens em meu livro na verdade foi um participante ativo em levar uma mulher do Texas para uma nave e ser abduzida, e desempenhando a função reprodutiva de um ser alienígena, sentiu que ele próprio era um alienígena. E muitas vezes as abduzidas sentirão que seu trabalho, em termos de desenvolvimento, é integrar essas duas dimensões ou esses dois aspectos de si mesmas: o humano e o alienígena. E que a dimensão alienígena é uma parte de nós mesmos, nossas almas, se você preferir, das quais fomos ou fomos isolados ao longo dos séculos de seres humanos que vivem nesta terra nesta forma densamente incorporada.

NOVA: Você e outros disseram que não há outra explicação psicológica. Mas que há alguma realidade nisso. O que você acha do trabalho de pessoas como Michael Persinger e Robert Baker, que têm essas teorias complicadas sobre neurologia ou afirmam que as alucinações hipnogógicas estão na raiz dessas experiências percebidas?

MACK: Essas experiências geralmente ocorrem na consciência literal. Não em um estado hipnogógico ou onírico. A pessoa pode estar em seu quarto bem acordada. Os seres aparecem. E aí estão eles e a experiência começa. Que está ocorrendo frequentemente não é nenhum estado de sonho. Agora, às vezes eles ocorrem quando uma pessoa está cochilando ou em estado hipnogógico. Mas freqüentemente não.

Além disso, qualquer teoria que considere isso um fenômeno puramente endógeno, ou seja, gerado puramente a partir da psique da própria pessoo é uma espécie de arrogância também. Porque significa que simplesmente não podemos aceitar a noção de que pode haver outra inteligência trabalhando. O que é uma explicação muito mais econômica. Mas se devemos encontrar uma teoria dentro de nós mesmos, devemos ter em mente que qualquer teoria que comece a abordar isso deve levar em consideração cinco fatores:

Número um, a extrema consistência das histórias de pessoa após pessoa. O que você não obteria simplesmente estimulando os lobos temporais. Você obteria respostas idiossincráticas muito variáveis, que diferiam muito de caso em caso.

Número dois, você teria que lidar com o fato de que não existe uma base experiencial comum para isso. Em outras palavras, não há nada em sua experiência de vida que poderia ter dado origem a isso, a não ser o que eles dizem. Em outras palavras, não há nenhuma condição mental que possa explicar isso.

Terceiro, é preciso levar em conta os aspectos físicos: os cortes e outras lesões em seus corpos, que não seguem nenhuma distribuição psicodinâmica, como os estigmas associados à identificação com a agonia de Cristo.

Em quarto lugar, a forte associação com OVNIs, que muitas vezes são observados na comunidade local, pela mídia, independentemente da pessoa que está tendo a experiência de abdução ter ou não avistado o OVNI, mas lê ou vê na televisão no dia seguinte que um OVNI passou perto de onde eles estavam quando tiveram uma experiência de abdução.

E, finalmente, o fenômeno ocorre em crianças a partir de dois, dois e meio, três anos de idade. E qualquer teoria que simplesmente atribua isso à atividade do cérebro, não leva em conta pelo menos três dessas cinco dimensões fundamentais …

NOVA: Você realmente não corre o risco de se prejudicar um pouco, pessoal e profissionalmente, devido as críticas ?

MACK: Acho que, de certa forma, ganhei mais do que perdi em termos de convidar as pessoas para esse mistério, tendo um diálogo com todos os tipos de pessoas maravilhosas, abertas, inteligentes e brilhantes de muitos campos diferentes. Foi muito emocionante. Quer dizer, fui atacado, mas os ataques não foram realmente tão sérios para mim quanto a franqueza que encontrei entre muitas pessoas em toda a cultura e internacionalmente, que estão dizendo: Sim, sempre suspeitei que algo assim era está acontecendo, e fico feliz que você esteja disposto a se apresentar e relatar sobre isso.

Costuma-se dizer que sou um crente e que perdi minha objetividade. Eu realmente contesto isso. Porque não se trata de acreditar em nada. Eu não acreditava em nada quando comecei, eu realmente não acredito em nada agora. Eu vim para onde vim clinicamente. Em outras palavras, trabalhei com pessoas por mais de cem centenas de horas e fiz um trabalho tão cuidadoso quanto pude para ouvir, peneirar e considerar explicações alternativas. E nenhum ase apresentou. Ninguém encontrou uma explicação alternativa em um único caso de abdução.

NOVA: Muitos dizem que isso é apenas uma função de imagens culturais.

MACK: Tenho observado esse fenômeno conforme ele se manifesta nos povos indígenas, nos nativos americanos – os Cherokee, os Hopi, que conhecem esses seres como o povo das estrelas. Já vimos isso na África do Sul, particularmente ao entrevistar em profundidade um importante sangoma sul-africano, ou curandeiro, que chama esses seres de “mandingdas”.

Investigamos isso no Brasil com um fazendeiro em – fora de Belo Horizante, que teve experiências de abdução idênticas ao que foi relatado neste país. Recentemente recebi uma carta sobre experiências de abdução de uma pessoa na Malásia. Em outras palavras, este é – pelo que podemos dizer – um fenômeno mundial. Isso não se restringe, como algumas pessoas pensaram, à cultura ocidental ou, em particular, à cultura americana.

Eu descobri que quanto mais alto ou maior o interesse que uma pessoa tem nesta sociedade, em sua posição ou em seu trabalho, mais relutante ela fica em admitir que teve experiências de abdução. Quando abduzidos foram à televisão comigo durante a primavera de 1994, durante minhas turnês de livros, e queriam se comunicar e educar sobre isso, vários deles receberam ameaças de seus empregos. Alguns deles os perderam, temos um homem em consultoria de gestão que perdeu um contrato importante. Uma mulher que trabalhava para o governo federal, que foi abduzida, foi ameaçada de perder o cargo. Em outras palavras, isso não é algo considerado aceitável.

Entrevistei pilotos de avião que tiveram avistamentos – avistamentos de OVNIs de perto. Eles não vão denunciar, porque serão afastados de seu trabalho. Mesmo que eles tenham tido experiência de abdução, eles não vão falar sobre isso. E 25 a 30 por cento dos pilotos de avião, de acordo com uma pesquisa que uma das pessoas com quem conversei, tiveram avistamentos de perto, mas não vou discutir o assunto.

Isso simplesmente não é algo aceito aceitavel para falar, mas isso pode estar mudando. Recentemente, vi um aluno da Harvard Divinity School e fiz-lhe essas perguntas. Eu disse: você fala sobre isso entre seus colegas estudantes? E ele disse: ‘Oh, sim.’ E descobriu-se que vários deles também tiveram experiências de abdução. E mesmo os que não tinham, ficaram fascinados, interessados, não os ridicularizaram. Então, talvez o clima esteja mudando.

Livros de ou sobre Dr. John Mack, M.D.

  • Abduction: Human Encounters with Aliens
  • Passport to the Cosmos
  • The Believer: Alien Encounters, Hard Science, and the Passion of John Mack

Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/entrevista-com-john-mack/