Homens de Preto – A Realidade por trás da Ficção

“Queimando discos, queimando livros, Soldados sagrados, visual nazista” – Holy Smoke, Iron Maiden

 “Não os temais, pois; porque nada há de escondido que não venha à luz, nada de secreto que não se venha a saber.” – Mateus 10:26

Homens de preto e Ufologia

 

Milhões de pessoas ao redor do mundo assistiram ao filme “Homens de Preto” e suas sequências, mas poucas sabem de onde foi tirada a inspiração para fazê-los. Como muitos filmes, ele foi baseado numa HQ, e esta num livro escrito em 1956 pelo estadunidense Gray Barker, intitulado “Eles Sabiam Demais sobre Discos Voadores” . Livro este no qual pela primeira vez o mundo ouve falar dos Homens de Preto, um grupo que “sugere” a indivíduos silenciar sobre suas incomuns experiências. Sua alcunha deve-se não apenas a cor que trajam, mas a seu estranho e total anonimato: não revelariam seus nomes, de onde vieram ou por quem foram enviados, daí nenhuma outra forma de referir-se a eles ou descrevê-los. Os carros que dirigem, contudo, teriam aparência oficial.

Antes de escrever este que foi seu primeiro livro, Barker já escrevia artigos do gênero para a revista Space Review, publicada por Albert K. Bender e seu Escritório Internacional de Discos Voadores. Em 1953, Bender abruptamente dissolveu sua organização, alegando que não poderia continuar a escrever sobre OVNIs devido a “ordens de fonte superior”. Após ser pressionado por Barker a revelar maiores detalhes, Bender relatou seus supostos encontros com os Homens de Preto, o que teria motivado Barker a escrever seu livro. É claro que tudo pode não ter passado de um conluio entre os dois, dizem até que o próprio Barker não acreditava no que escrevia, só queria ganhar dinheiro. Mas isto também pode não passar de um boato forjado e espalhado pelos Homens de Preto.

Seja qual for a verdade, isto foi no meio do século passado, época onde a informação sobre tais assuntos deveria ser escassa em relação a hoje, e a Internet apenas uma utopia para a população global. Então, se os Homens de Preto queriam ocultar da humanidade este tipo de relato, podemos dizer que neste âmbito falharam miseravelmente, pois hoje abundam livros e sites sobre o tema. Perante este fato, é claro que muitos vão pensar algo do tipo: “Bem, se isso aconteceu, estes Homens de Preto não devem existir, pois não teriam permitido.” Mas, ora, se existissem, não seria exatamente isto que iriam querer que você pensasse?

Uma hipótese que não podemos esquecer é que a coisa pode não ter acontecido com a permissão deles; talvez eles simplesmente não puderam controlá-la. Eles podem ser poderosos, mas não invencíveis – e certamente teriam alguns inimigos. Isso sem falar que, entre aqueles que conhecem um segredo, às vezes há os que querem revelá-lo. Além disso, como se pode deduzir o trabalho deles teria sido fácil por muito tempo, portanto talvez não estivessem preparados para enfrentar as novas armas na difusão do conhecimento que surgiram junto com os tempos modernos: a invenção da imprensa[1], fotografia (pois esta também reproduz texto), a já citada Internet, etc. Para não falar na TV, é claro. Ao redor de todo o globo, muitos telejornais e diversos programas já apresentaram relatos de avistamentos, abduções, etc. Mas não se pode hipnotizar, drogar ou matar praticamente um país inteiro (pois através da hipnose ou drogas pode-se causar amnésia, mas logicamente não de modo seguro e matematicamente exato como o prático flash do filme).

Então, perante este quadro, nada restaria aos Homens de Preto e seus superiores senão negar e ridicularizar tais testemunhos, esperando assim desacreditá-los – pois uma das coisas que o homem comum mais teme, além da morte, é cair no ridículo, a opinião alheia importa-lhe mais que a própria. Ademais, o governo e a Aeronáutica dos países onde OVNIs são avistados só poderiam negar mesmo, seria grande ingenuidade esperar que admitissem tal coisa. Que governo assumiria ser incapaz de proteger sua população de incontroláveis e desconhecidos invasores? Afinal, boa parte dos impostos pagos destina-se exatamente a este fim. A única razão de existir da Aeronáutica é proteger o espaço aéreo de seu respectivo país, então ela não pode assumir que não consegue cumprir sua tarefa plenamente, que há invasores contra os quais nada pode fazer. Seria como o zelador de um prédio dizer que há um tipo especial de pessoa a qual ele não pode impedir de entrar e sair ao seu bel-prazer. Também não podemos esquecer a hipótese dos OVNIs não serem nada mais que aeronaves ultra-sofisticadas de determinados países. Qualquer um sabe, por exemplo, que os EUA gastam zilhões de dólares em tecnologia militar, então não seria nenhuma surpresa se eles tivessem coisas que nem imaginamos nesse campo (e tudo indica que tenham, vide Área 51). Nesse caso, alguns se perguntariam por que manter secreta a existência destas fabulosas armas e, ao mesmo tempo, algo com que poderia-se inclusive lucrar muito. Bem, a resposta é simples: para que seus vizinhos não sintam-se ameaçados e tentem desenvolver coisa parecida. Não é preciso ser Maquiavel ou Sun Tzu para perceber que só se deve permitir o acesso a uma arma quando já se dispõe de uma arma superior. E no caso dos OVNIs serem aeronaves comandadas por humanos, admitir uma invasão contra a qual nada pode se fazer seria ainda mais vergonhoso – para ambas as partes.

Portanto, apesar de tantos mistérios e dúvidas, um fato ergue-se e permanece indiscutível: os OVNIs, seja lá o que forem, realmente existem. Aliás, vários pilotos de avião já relataram tê-los avistado. Desnecessário dizer, estes são pessoas instruídas que deveriam saber identificar qualquer coisa que surja nos céus (e astrônomos mais ainda). Alguns destes relatos, é claro, permanecem confidenciais, pois são de pilotos militares. Falando nisso, a edição de setembro de 2013 da revista Super Interessante traz uma matéria de capa sobre a abertura de arquivos no Brasil. Então, já sabemos que OVNIs existem, mas não o que são (ou não teriam esse nome, afinal). A pergunta que fica é: Existirá alguém querendo impedir que saibamos o que são? No caso deles terem origem humana, como na hipótese recém explanada acima, obviamente que sim. E se sua origem não for humana, restam-nos duas hipóteses: ou o homem ainda é simplesmente incapaz de descobrir e explicar o que são os OVNIs, ou alguns descobriram mas não quiseram (ou foram impedidos de) revelar ao mundo.

Quanto a extraterrestres, talvez uma pergunta interessante a ser feita seja: Se eles existem, será que iriam querer que soubéssemos? Provavelmente não, ou já teríamos provas disso.

Mas agora vamos mudar de assunto, pois essa é  só a ponta do iceberg.

 

Escondendo mais do que você imagina… Homens de Preto e outros Segredos

“Existe uma história escrita para gente comum, e outra invisível aos olhos do povo, escrita por nós, que fizemos a história acontecer. Assim é a vida, assim somos nós e vocês: os que fazem a história e os que a aprendem com obediência, como nós desejamos.” – Serrano Suner em “A Fórmula da Eterna Juventude e outros Experimentos Nazistas”, de Carlos Nápoli

“Somente os pequenos segredos precisam ser guardados; os grandes, ninguém acredita.” – Herbert Marshall

De qualquer forma, quer extraterrestres existam ou não, não se pode, como nos mostra a própria História, negar a existência de grupos – interligados ou não – cujo objetivo é suprimir e/ou monopolizar o conhecimento (este, definitivamente, ainda não é e nunca foi livre). Assim, extraterrestres podem até não existir, mas creio que o mesmo não pode ser dito, como veremos a seguir, dos Homens de Preto. “Mas então, o que eles escondem de nós?” Bem, se eu soubesse seria um deles, mas não é preciso ter uma imaginação de Julio Verne para fazer algumas suposições.

Só para citar alguns exemplos, Mussolini assim como Hitler tinha seus conselheiros místicos, e sob ordens de dois deles, em 1944 foram queimados 80.000 (sim, 80 mil, mas espere até ler sobre Alexandria) livros e manuscritos da Sociedade Real do Saber de Nápoles, visando impedir que documentos mágicos importantes caíssem nas mãos dos Aliados. Entre eles, encontravam-se manuscritos inéditos de Leonardo Da Vinci, como também documentos apreendidos de Aleister Crowley na sua abadia em Cefalu, Sicília. Todos já ouviram falar da famosa Biblioteca de Alexandria, segundo a Wikipédia “ela continha praticamente todo o saber da Antiguidade em cerca de 700.000 rolos de papiros e pergaminhos” – também não é para menos, pois seu lema era “adquirir um exemplar de cada manuscrito existente na face da Terra”. Mas ao contrário do que tantos pensam, ela não foi destruída por acidente em decorrência de batalhas. Ela continha inúmeros documentos alquímicos que foram roubados ou destruídos, não só pela cobiça e avareza como também pelo fanatismo religioso dos arábes, que seguiam as absurdas máximas “não há necessidade de outros livros senão O Livro (Alcorão)” e “o livro de Deus é-nos suficiente”. Mas isto, é claro, pode ter sido apenas um pretexto. Afinal, é fácil entender o medo, ou mesmo desespero, dos poderosos perante a Alquimia. Se todos pudessem fabricar ouro em casa, obviamente ele perderia o seu valor e, assim, impérios ruiriam. Portanto, não é difícil entender por que a Igreja Católica combateu tão fortemente a Alquimia. (Sobre a Magia de modo geral, poderia-se dizer que ela supostamente permitiria ao homem comandar a Natureza e seu próprio destino, e às vezes o dos outros também, assim “brincando de deus”.) Em 1897, herdeiros de Stanislas de Guaita foram ameaçados de morte se não destruíssem quatro manuscritos inéditos do autor que versavam sobre “Magia negra”, assim como todo seu arquivo. A instrução foi cumprida.

Em 1971, um russo radicado na França, Jacques Bergier[2] escreveu “Os Livros Malditos”, no qual relata não só os casos acima descritos como também outros semelhantes, e diz estar convencido da existência de uma antiga sociedade secreta destinada a ocultar certos conhecimentos da humanidade. Bergier refere-se a ela como – adivinhe? – “os Homens de Preto”. De sua existência (ou, pelo menos, de algo parecido) há muitos indícios e estou inclinado a concordar com Bergier. A História está cheia de exemplos de livros ou documentos que são censurados ou mesmo avidamente procurados, e a cujos proprietários às vezes acontecem estranhos acidentes – daí também o adjetivo “malditos” para descrever os livros que Bergier aborda em cada capítulo. Parafraseando o próprio, é preciso ler “Os Livros Malditos”, assim, não me estenderei muito sobre seu conteúdo aqui.

Num mundo ignorante como o nosso, certamente será taxado de paranóico ou esquizofrênico quem alegue existir um grupo de homens cujo principal objetivo é esconder certas coisas da humanidade. Mas há uma enorme prova, a qual todos conhecem só não se apercebem, de que um tal grupo, pelo menos, existiu: A Inquisição. E infelizmente, não se pode negar que ainda existe coisa semelhante, pois é bem sabido que os Arquivos do Vaticano contém inúmeros documentos secretos e únicos. E tal supressão do conhecimento é ainda mais evidente em certos cantos mais atrasados do mundo, que parecem continuar na Idade das Trevas ou coisa até pior, chegando ao extremo de proibir as mulheres de aprender a escrever e estudar – às vezes, até de falar. Perante estes fatos, é difícil refutar a existência de uma espécie de “fraternidade negra” inimiga da luz do conhecimento – os místicos e ocultistas chamam-na “a loja negra”. Mas, num mundo feito de cegos, aqueles que enxergam são taxados de loucos.

Veja onde o homem chegou, já querem enviar pessoas a Marte – o que não muito tempo atrás, também seria loucura. Agora considere, por um momento, que nossa civilização tenha sido de alguma forma aniquilada, mas alguns poucos tiveram a sorte – ou o azar, pelas condições em que o mundo se encontraria – de sobreviver (sim, exatamente como naquela imbecil dinâmica de grupo. Aliás qual não é?) Suponha que, com alguma sorte e muito sexo, estes poucos remanescentes tenham conseguido dar continuidade à raça humana. Seus descendentes nasceriam num mundo devastado, onde as coisas que consideramos mais triviais tornariam-se as mais incríveis lendas: televisores, automóveis, aviões, computadores, telefones, armas de fogo e qualquer outro tipo de máquina ou tecnologia. Os primeiros, os que sobreviveram à catástrofe, saberiam que tais coisas um dia existiram e contariam a seus filhos, dos quais talvez alguns acreditariam, outros não. E se ninguém fosse capaz de recriar estas coisas um dia (ou se fossem recriadas mas mantidas em segredo), tais “lendas” passariam de geração em geração tornando-se cada vez mais desacreditadas, podendo até mesmo caírem no esquecimento. E se eles encontrassem qualquer um de nossos “misteriosos artefatos”, não saberiam como nem para que foram feitos – hei, isso não parece familiar? Tal descrição se aplica, por exemplo, aos Crânios de Cristal

Então, quem pode nos garantir que já não aconteceu coisa semelhante?

Ou melhor, e se eu lhe disser que há provas de que existiu uma prodigiosa ciência perdida?

Provas estas, aliás, muito grandes e concretas que todos conhecem.

Do que eu estou falando?

Das Pirâmides do Egito. (Não disse que eram grandes e concretas?)

Mas por que as Pirâmides do Egito seriam provas de que um dia houve uma ciência perdida?

Ora, por uma razão muito simples: curiosamente é um fato pouco divulgado, mas ao menos por enquanto é impossível reproduzí-las com perfeita exatidão. Ainda mais pelo mesmo método, qualquer que tenha sido. Existem variadas teorias sobre como foram construídas as pirâmides, mas nenhuma delas plenamente satisfatória – não à toa, não há nem sombra de consenso. Ou seja, atualmente, o homem é incapaz de repetir um feito de milhares de anos atrás, porque o conhecimento necessário para tal se perdeu (ou foi preservado em segredo). Como se isso não bastasse, também não se sabe POR QUE elas foram construídas, isto é, sua verdadeira finalidade. Não, não foi para servirem de tumba ou cofre de tesouros, como surpreendentemente veremos a seguir. Àqueles interessados em maiores detalhes, recomendo a leitura dos textos de Marcelo Del Debbio sobre o assunto (além daqueles citados aqui, o divertido “A Pirâmide do Faraó Del Debbio I”). Todavia, alguns destes detalhes são tão impressionantes que não poderei deixar de citá-los. É bem conhecida e justificada a predileção dos mais céticos por números, então vamos a eles:

(Dentro das aspas, coloquei meus comentários ou cortes do texto entre colchetes, aqueles entre parênteses são do próprio Del Debbio)

“A base da pirâmide [de Queops] é perfeitamente plana, com desnível de apenas 0,075cm/100m (para quem não é arquiteto ou engenheiro esses números não dizem muita coisa, mas para ter uma idéia comparativa do quão preciso foi o nivelamento das pirâmides, basta dizer que edifícios modernos de alta tecnologia chegam a 15-20cm/100m em desnível). As 3 pirâmides alinham-se com a constelação de Órion [3 Marias] com margem de erro de 0,001% quando comparadas com a posição destas estrelas no céu em 10.500 AC.” – Extraído do texto “Pirâmides, Pirâmides… – parte II”

“Assim como são ‘coincidências’ […] as pirâmides encontradas na China alinharem perfeitamente com a constelação de Gêmeos, os Templos astecas de Tecnochtitlan estarem alinhados com a constelação de Urso, Angkor Wat (aqueles templos que a Lara Croft explora no Cambodja) estarem alinhados com a constelação do Dragão e assim por diante…” – Extraído do texto “Pirâmides Submersas no Japão – parte 1”

“E eu nem comecei ainda a falar sobre a Câmara do Rei, cuja configuração e proporção das pedras do chão refletem as medidas/translações dos seis primeiros planetas do Sistema Solar (Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno). […] apesar de todo este cuidado milimétrico de projeto da pirâmide, o ‘sarcófago’ é PEQUENO DEMAIS para caber uma pessoa deitada dentro dele. […] As otoridades egípcias afirmam que a pirâmide é a tumba de um faraó. Embora NUNCA se tenha encontrado sequer uma múmia em NENHUMA das 111 pirâmides catalogadas. Também nunca foram encontrados NENHUM tesouro de faraó algum. Todas as múmias foram encontradas em cemitérios localizados aos pés das pirâmides ou em templos adequados para tal (Mastabas). Todos os tesouros encontrados estavam nos templos e antecâmaras, mas nunca dentro das estruturas. A explicação oficial é que ‘ladrões de tumbas’ saquearam todos os tesouros e as múmias. Embora, voltando a Khufu [nome egípcio de Queops], os exploradores tiveram de DINAMITAR a passagem para entrar, e nada encontraram lá dentro. Ou seja, se houvessem ‘ladrões de tumba’ eles entraram, levaram TUDO (tudo tudo tudo) e ainda tiveram a paciência de recolocar todas as pedras na entrada de modo a deixá-la do mesmo modo que ela estava antes deles chegarem, com direito a mesma precisão milimétrica dos encaixes.” – Extraído do texto “Pirâmides, Pirâmides… – parte II”

“As medidas internas oficiais [do sarcófago] são 1,68m x 68,1cm x 87,4cm. A menos que o faraó fosse bem anãozinho, não poderia ser colocado junto com seu ‘chapéu de faraó’ e ‘ornamentos de faraó’ dentro de um sarcófago tão pequeno. Teriam nossos amigos escravos egípcios, que empurraram tantas pedras tão pesadas ladeira acima e construíram uma pirâmide com erro de 58mm em 230m, errado tão idiotamente logo no ‘coração’ da tumba?” – Extraído do texto “Pirâmides parte III – A Câmara dos Reis”

Embora o complexo de templos Abu Simbel não tenha nada a ver com as pirâmides, eu também não poderia deixar de citar o estranho caso de sua “mudança” aqui, pois talvez o método usado no transporte de seus blocos tenha sido o mesmo das pirâmides. Se você acha que as coisas não podem ficar mais estranhas, prepare-se para o gran finale:

“…existia um enorme complexo de templos chamados Abu Simbel no Egito. As otoridades precisavam construir uma grande barragem e uma mega-hiper operação mundial foi organizada para desmontar e transportar o templo de Abu Simbel para uma montanha a salvo das águas da barragem. Pois bem. A grande maioria das pedras esculpidas no templo de Ramsés II foi retirada das pedreiras de Assuã, distantes cerca de 120km do templo, incluindo a cabeça do faraó, que foi transportada e esculpida em UM ÙNICO bloco de pedra. Quando os técnicos e engenheiros suíços e alemães foram transportar estes blocos para o local seguro, apesar dos GUINDASTES e HELICÓPTEROS envolvidos na operação, tiveram de fragmentar diversas estátuas e blocos de construção do templo para transportá-los. Vamos escrever mais devagar para os que não entenderam: blocos de pedra que os egípcios (os ‘escravos seminus de 6.000 anos atrás’ haviam conseguido manobrar, esculpir e encaixar intactos) tiveram que ser divididos, pois a tecnologia do século XX não conseguiu repetir o feito.” – Extraído do texto “Dilúvio, Pirâmides e Stonehenge”

As implicações disto são tão óbvias quanto espantosas: ou eles dispunham de guindastes e helicópteros de maior capacidade que os atuais, ou… ou o quê? Que dizer diante disto?

Perante estes fatos, a introdução do misterioso “Livro da Perdição” da O.A.I. já não parece mais tão fantástica:

“1.1. Eons atrás, muito antes da humanidade vagar por este planeta, existe uma irmandade de feiticeiros.

1.2. Eles são mestres em sabedoria, ciência e conhecimento até então ignorado pela história da humanidade.”

Para os mais céticos, é claro que a palavra “feiticeiros” pode ser substituída por “cientistas”. Afinal, que é a ciência aos olhos da ignorância, senão feitiçaria? A Igreja Católica que o diga. “Feitiçaria”, “Magia” e etc. nada mais são do que palavras inventadas para descrever aquilo que não conseguimos compreender COMO e POR QUE acontece, entretanto todo efeito tem sua causa, mesmo que oculta e ignorada. Um homem primitivo, ao ver você apertar uma tecla e acender uma lâmpada consideraria isto Magia, porque ele não compreende e ignora o porquê da lâmpada acender-se. Assim é com todas as coisas. Para produzir determinado efeito, é preciso saber como causá-lo, e os que não sabem consideram-no “mágico” por parecer inexplicável. Mas como todo efeito tem sua causa, não existe NADA realmente inexplicável, apenas coisas cuja explicação desconhecemos.

Laurence Gardner, em seu instigante livro “Os Segredos Perdidos da Arca Sagrada – Revelações Surpreendentes sobre o Incrível Poder do Ouro” alega que o ouro monoatômico, um pó extraído do ouro, possibilita tornar objetos mais leves, dentre outras propriedades especiais, e seria a verdadeira Pedra Filosofal. (No filme Alone In The Dark, é dito que a humanidade já não se lembra mais do real motivo que torna o ouro tão valioso. Ao contrário do que se comumente pensa ele até tem utilidade prática, não só ornamental, mas nada que justifique seu exacerbado valor aos olhos do bom senso. Outros metais, muito mais úteis e necessários, não deveriam valer mais?)

Antes de prosseguirmos, uma incômoda e desconcertante questão merece ser posta:

Se não há uma espécie de conspiração destinada a esconder estes surpreendentes fatos sobre as pirâmides, por que eles são tão pouco divulgados? Se eles não forem dignos de menção, então eu não sei o que é. Não é o tipo de coisa que deveria inclusive ser ensinado nas escolas?

Somos ensinados que aqueles que habitaram o globo antes de nós eram primitivos, selvagens e ignorantes. Mas este parece ser apenas um lado da História – o que querem que conheçamos. Afinal, nada impede que dois ou mais grupos com diferentes graus de evolução (tanto científica como moral) co-habitem o planeta. Ficou complicado? Não tem problema, Tamosauskas descomplica em “A Improvável História do Macaco que Virou Gente”:

“Quando os Tasmanianos foram contatados pelos europeus no século XVI eles não tinham descoberto o fogo, não tinham escrita, crenças, nem qualquer conceito de música. Era cerca de 1600 depois de Cristo, mas isolados do resto do mundo eles não tinham sequer desenvolvido ferramentas feitas de pedras. E eles tinham o mesmo cérebro e corpo que o nosso e muitas, muitas pedras.”

Este tipo de situação discrepante é uma realidade ainda hoje. Da mesma forma, alguns dos antigos poderiam ser muito evoluídos, mais do que podemos imaginar, e tudo indica que tenham sido mesmo. Aparentemente, e em alguns casos comprovadamente, eles já sabiam de coisas que o homem só descobriu recentemente, ou nem descobriu ainda. No capítulo de “Os Livros Malditos” que aborda o livro “A Dupla Hélice”, Bergier nos chama a atenção para uma coincidência que, não considero exagero descrever como espantosa: A grande semelhança entre a molécula do DNA e o caducéu de Hermes, antigo símbolo da Medicina (anterior ao bastão de Asclépio).

 

(Interessante lembrar que a descoberta do DNA possibilita a engenharia genética, motivo pelo qual segundo algumas lendas Atlântida foi castigada. Alguns chegam a dizer que o porco, animal muito semelhante ao ser humano, foi resultado de experiências deste tipo. Isto também explicaria, é claro, quaisquer seres híbridos da mitologia.)

As duas serpentes representam as forças opostas (embora eu prefira o termo complementares) do Universo em equilíbrio. Afinal, uma pilha com dois pólos positivos ou negativos não funciona, sem vida não haveria morte e sem morte não haveria vida, sem trevas não haveria luz e assim por diante. Não obstante, alguns devem estar se perguntando por que tal figura foi adotada como símbolo da Medicina. A estes respondo com outra pergunta: Não poderíamos dizer que saúde é, numa palavra, equilíbrio?

No caso, o equilíbrio dos elementos presentes em nosso corpo.

Ainda, devido ao fato de trocar de pele, a serpente era considerada um símbolo do rejuvenescimento e saúde. Como as coisas mudam, não? De símbolo da saúde a símbolo do mal, infelizmente parece que Goebbels estava certo: “Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade.” Por isso devemos sempre nos questionar e procurar conhecer a verdade por nós mesmos, ao invés de aceitar tudo que nos empurram goela abaixo como verdadeiro. Claro que isto pode soar paranóico, mas talvez a paranóia ainda seja preferível à ignorância. Aliás, não é exatamente isto que os formadores de opinião desejam que se pense? Ainda sobre a injustiçada serpente, é engraçado como não enxergamos o que está bem embaixo de nosso nariz; poucos notam, mas a serpente é também o símbolo de um famosíssimo herói bastante vigoroso e, digamos, com uma “saúde de aço”:

Alguns podem ter se lembrado da Kundalini, a energia adormecida no chakra mais baixo que, se despertada eleva-se como uma serpente ao longo da coluna vertebral e concederia poderes paranormais ao Iniciado. Talvez isso explique por que os Faraós eram considerados deuses e tinham a cabeça adornada por uma serpente.

E falando nisso, é também extremamente semelhante à molécula do DNA a posição dos canais Ida e Pingala, presentes em nosso corpo sutil segundo a sabedoria oriental:

 

A também extrema semelhança entre o caducéu de Hermes – uma representação do equilíbrio universal – e os três principais nadis, como são chamados estes canais da ilustração, lembra-nos da máxima “o que está acima é como o que está abaixo”. E também da afirmação de que o homem foi criado “à imagem e semelhança de deus”, sendo deus, neste caso, apenas outra palavra para designar o Universo.

Outra coisa que suscita a existência de um antigo saber são os chamados “ooparts”, sigla de Out Of Place Artifacts, artefatos fora de lugar ou época. Há bastante controvérsia sobre eles, mas talvez possamos dizer que o mais famoso e legítimo seja a Máquina de Anticítera (ilha grega), capaz de prever com precisão o movimento de astros e apontada como o primeiro computador do mundo. Sua datação foi estimada em 87 a.C.. Utilizando-se tal máquina, seria possível prever eclipses, então não é preciso muita imaginação para perceber que ela poderia ser usada pela classe dominante para convencer o povo de que ela “conversa com os deuses”. O fato de só ter sido encontrado até hoje apenas UM exemplar da Máquina de Anticítera torna a questão ainda mais embaraçosa. O que eu disse antes sobre Ciência e Magia se aplica muito bem aqui. Enquanto ignoramos como se dá determinado processo, ele permanece (na verdade aparenta ser) simplesmente mágico. Uma arma de fogo, por exemplo, certamente também seria vista como “mágica” por um homem de outra época, ainda mais porque ninguém é capaz de enxergar uma bala percorrendo o ar no momento do disparo. Então você pode imaginar a reação e espanto das pessoas. Você não seria visto como um grande feiticeiro… seria visto como um DEUS. Afinal, como alguém poderia inflingir dor ou mesmo matar alguém a metros de distância sem nem tocá-lo?! Na verdade, poderia alguma coisa ser mais espantosa, assustadora e mágica do que isso? Quem sabe um Theremin, um instrumento musical que emite som sem que seja necessário contato físico direto com ele. Não, você não entendeu errado:

“Obra do Diabo!” Podemos rir da ignorância de nossos antepassados, mas provavelmente também rirão de nós daqui alguns milhares de anos, ou talvez menos. Provavelmente temos “certezas” tão erradas como a de que a Terra era plana.

Mas o exemplo recém exposto nos leva à uma conclusão curiosa, e talvez a própria razão da existência dos Homens de Preto. Quando o conhecimento é compartilhado (no caso o conhecimento de como fabricar e usar uma arma), advém a igualdade. Mas quem disse que a igualdade é sempre boa? Imagine um mundo onde todos tivessem uma arma, e estou falando de uma arma igual (e com munição infinita, para tornar o jogo mais divertido). Será que nesse mundo haveria mais respeito pelo próximo ou mais violência e caos? Disto concluímos algo simples e evidente: A manutenção da ordem depende da desigualdade de poder, esta infelizmente parece ser um mal necessário. Mas aqui nos deparamos com outro sério problema. Se para manter a ordem é preciso que o poder esteja nas mãos de uns em detrimento de outros, o ideal seria que apenas os bons e justos detivessem o poder. Mas são estes que governam o mundo? Ninguém é estúpido o suficiente para crer nisso. Os detentores do poder deveriam usá-lo para defender os desprotegidos que não o possuem, fazer justiça e manter a ordem. Entretanto, o que mais vemos é ele ser usado apenas em benefício próprio, escravizando os mais fracos – às vezes sutilmente, como no caso do dinheiro, a mais poderosa arma de dominação em massa projetada pela mente humana. Disto não há maior exemplo do que o próprio capitalismo, pois seu único objetivo é o aumento do próprio poder, o que não pode ser feito sem tirar de outrem. Para que uns tenham mais, é preciso que outros tenham menos, para um lado da balança subir o outro tem que descer. Talvez até possa ser dito que Cristo profetizou o capitalismo ao dizer que “os ricos ficarão mais ricos e os pobres mais pobres”. A palavra “capital” deriva do latim “caput” que significa “cabeça”, ou seja, capital é aquilo que comanda todo o resto. E como sabemos, capital é apenas um eufemismo para dinheiro, ou seja, o dinheiro comanda o mundo, isto é, aqueles que o possuem em maior quantidade. O que move este mundo é o dinheiro – literalmente, se não fosse por ele as pessoas não sairiam de casa todos os dias para ir ao trabalho. Como diria David Icke com toda razão, a melhor tirania é a invisível, a menos que ela queira ser derrubada.

De qualquer forma, infelizmente alguns seres humanos só respeitam o que temem, o que pode lhes causar dano e é mais poderoso do que eles. Enquanto isto continuar, a desigualdade de poder também continuará extremamente necessária para o bem geral, pois os maus nada respeitam senão a ameaça de uma força maior. Mas o que fazer quando os maus estão no poder? Uma luta desigual vale a pena ser lutada?

Mas dilemas morais à parte, se houve um saber antigo em alguns aspectos igual ou mesmo superior ao atual, como ele se perdeu?

Bem, temos de admitir que nem só de mentiras é feita a Bíblia; pois já foram encontradas o que podemos chamar de provas que o dilúvio, se não total então parcial, realmente aconteceu. Já foram encontradas pirâmides submersas no Japão e próximas à Cuba. Lembremos que certas profundidades do oceano, devido à alta pressão, ainda são inacessíveis para o homem ou qualquer máquina, então talvez ainda haja muito mais lá – Cthullu, você está aí? Veja só como somos ignorantes, não conhecemos nem nossa própria casa por completo. Mas como se isto não bastasse, lembremos que o dilúvio está presente na “mitologia” de muitos povos que nunca tiveram nenhum contato entre si. A Wikipédia nos fornece até mesmo uma “lista de dilúvios”:

  • Dilúvio sumério
  • Dilúvio africano
  • Dilúvio hindu
  • Dilúvio grego
  • Dilúvio mapuche
  • Dilúvio pascuenses
  • Dilúvio maia
  • Dilúvio asteca
  • Dilúvio inca
  • Dilúvio uro

Esqueceram de incluir também o dilúvio nórdico, no qual todas as criaturas choram pela morte do mais amado e belo dos deuses, Balder (ou Baldur). Ainda segundo a Wikipédia:

“Antropólogos dizem que há mais de 1.000.000 (isso mesmo, um milhão!) de narrativas do dilúvio em povos e culturas diferentes do mundo e todas elas, coincidentemente ou não, são no início destas civilizações.”

Agora, se houve uma Ciência de alguma forma superior à nossa, terá ela se perdido por completo ou tido alguns resquícios preservados? Vejamos o que nos diz Del Debbio:

“…a Bíblia deve ser lida de maneira alegórica. Quando escrevemos que Noé levou dentro da Arca dois elefantes, queremos dizer que ‘os conhecimentos da civilização hindu foram preservados’, quando escrevemos que ele levou duas girafas, quer dizer que ‘os conhecimentos da civilização africana’ foram preservados e assim por diante. Não existe e nem nunca existiu barquinho algum. A ‘Arca’ de Noé é a mesma ‘Arca’ da Aliança, a fuga das águas e a fuga do Egito são apenas metáforas diferentes para a mesma situação: a preservação do conhecimento oculto.” – Extraído do texto “Dilúvio, Pirâmides e Stonehenge”

Ainda segundo ele:

“…o ato de imergir o corpo do candidato dentro de um rio ou banheira com água em uma iniciação (‘Baptizem’ em grego) representa simbolicamente que, apesar das águas terem coberto toda a civilização antiga e destruído tudo, sempre haverá alguém – o iniciado – para guardar e proteger estes segredos. Além disto, está ligado intimamente aos ritos de morte e renascimento (as doutrinas da reencarnação)…”

Mas… por que guardar esse conhecimento em segredo?

Como explanarei a seguir, suspeito de outras nem tão nobres, mas Bergier aponta-nos a possibilidade de uma boa razão:

“…se outras civilizações existiram antes da nossa e foram destruídas por abusos dos poderes da ciência e da técnica, a lembrança delas e de sua morte podem inspirar uma conspiração que visaria evitar que tais catástrofes tornassem a reproduzir-se. Uma ideologia dessa natureza pode, talvez, ser encontrada sem dificuldade nos escritos de Joseph de Maistre, Saint-Yves d’Alveydre ou René Guénon. Tal ideologia consiste em admitir a existência de uma Tradição mais antiga que a História, de centros detentores dessa Tradição e poderosamente protegidos; para ela, a ciência, as técnicas e os conhecimentos de toda natureza constituem um perigo permanente.”

Conclusão – As Duas Faces da Moeda

“…loucos jogam com palavras e fazem todos dançarem sua música
Afinada com milhões de famintos, para criar um tipo melhor de arma
(…) Enquanto os responsáveis pelo massacre cortam sua carne e lambem o molho
Lubrificamos os dentes da máquina de guerra e a alimentamos com nossos filhos” – 2 Minutes To Midnight, Iron Maiden

“Estou persuadido de que é possível escrever cinco linhas apenas que bastariam para destruir a civilização.” – Fred Hoyle, Os Homens e as Galáxias

Portanto, apesar de todos os pesares, devemos enxergar o quadro todo, isto é, ser imparciais e até mesmo fazer o papel de “advogado do Diabo” ou, no caso, dos Homens de Preto. Pois o conhecimento por si só não é mau nem perigoso, mas as pessoas que se apoderam dele podem sê-lo, assim como seu uso ou abuso. Infelizmente, podemos dizer que Hoyle estava certo: é possível “varrer” todo o planeta com armas nucleares, e o número de armas nucleares existentes já é suficiente para fazer isso até mais de uma vez. Então, dizer que o homem pode deflagar o Apocalipse[3] não é uma afirmação simbólica ou exagerada. Isto demonstra o lamentável grau de evolução em que o homem se encontra: ele já inventou algo capaz de fazer o mal a todos, mas ainda não inventou nada que possa beneficiar toda a humanidade (será que um dia inventará?). Mas mais assustador e preocupante do que o fato do homem ter desenvolvido uma arma capaz de aniquilar a si mesmo, é o fato de que ele tende, mais ou cedo ou mais tarde, a utilizar as armas que desenvolve. Uma civilização cujo grau de evolução científica é muito superior a seu grau de evolução moral talvez esteja fadada à auto-destruição. O ideal seria que caminhassem juntas, mas não é o que vemos. A corrida armamentista é um perigoso círculo vicioso onde, uma vez dado o pontapé inicial, não há mais volta. Uma vez que seu semelhante tenha desenvolvido determinada arma, é preciso pelo menos ficar em pé de igualdade para defender-se e não ser subjugado. E quando o conhecimento é usado para subjugar ao invés de beneficiar a todos, talvez ele deva mesmo ser proibido. Bergier também aborda esta importante questão em “Os Livros Malditos”:

“…o problema da aplicação das ciências e das técnicas para a guerra continua. A maior parte dos congressos científicos chegam cada vez mais à conclusão de que é preciso esconder certas descobertas e adotar atitude semelhante a dos antigos alquimistas; senão o mundo perecerá.” (Lembrem-se que isto foi escrito em 1971.)

Logo a seguir, ele vai ainda mais longe:

“Do mesmo modo, é evidente que os segredos da Alquimia não possam ser divulgados. Se é possível fabricar uma bomba de hidrogênio em um forno a gás, o que creio possível, pessoalmente, é preferível que o processo de fabricação não seja dado a público. (…) Não esqueçamos que em nossos dias qualquer um pode, com investimentos mínimos, construir um laboratório que Curie ou Pasteur teriam invejado. Pessoas já fabricam, em suas casas, o LSD ou a fenilciclidina, droga ainda mais perigosa. Se qualquer um, hoje, conhecesse o segredo de Filippov, poderia certamente encontrar no comércio todas as peças necessárias para construir o aparelho e, sem nenhum risco pessoal, fazer explodir, a muitos quilômetros de distância, pessoas (ou coisas) que lhe desagradassem.”

Cientista russo, em 1903 Filippov foi “encontrado morto em seu laboratório. (…) A polícia apreendeu todos os trabalhos do sábio, notadamente o manuscrito de um livro que deveria ser sua 301ª publicação. O Imperador Nicolau II examinou, ele mesmo, o processo, depois o laboratório foi completamente destruído e os papéis queimados.”

Então, quando nos lembramos do quão maligno o homem pode ser (ou, no fundo, é) fica difícil não dar pelo menos um pouco de razão aos Homens de Preto. O que é uma lástima, pois diz-se que tudo tem dois lados, e o conhecimento/poder também é uma faca de dois gumes: pode ser usado em prol do bem geral, ou para escravizar. O mesmo se aplicaria à descoberta de Filippov:

“Gorki publicou uma entrevista que teve com Filippov, e o que marcou o escritor foi a possibilidade de transmitir a energia à distância e industrializar, dessa forma, mais depressa o país que precisasse disso. Glenn Seaborg, presidente da comissão americana de energia atômica, evocou, o ano passado (1970), possibilidades análogas: uma energia que viria do céu sobre um feixe de ondas e que permitiria industrializar quase instantaneamente um país em vias de desenvolvimento, isto sem criar nenhuma poluição.”

Mas, se o conhecimento é uma faca de dois gumes, seu ocultamento também o é. O que nos deixa com a pergunta:

Através da ocultação do conhecimento somos mais protegidos ou dominados? Serão os Homens de Preto protetores da humanidade ou tiranos inescrupulosos que visam o monopólio do conhecimento e, assim, do poder? Talvez um pouco de cada, pois, parafraseando um amigo de Bergier, a porcentagem de cretinos talvez seja a mesma em todos os lugares.

A questão acima lembra-nos do significado de um famoso símbolo frequentemente mal interpretado como “satânico”, o Olho na Pirâmide. Como nos ensina o sábio Sr. Meias: “O cume é a elite, esclarecida pelo olho da consciência que tudo vê, e domina uma base cega feita de tijolos idênticos, que seria a população.” (O que também lembra-nos, é claro, de uma famosa canção de rock progressivo.)

Quem guardará os guardiões?

Para finalizar, é importante deixar claro que o termo “Homens de Preto” não refere-se a um grupo específico, mas é absolutamente genérico designando qualquer grupo cujo objetivo seja suprimir qualquer conhecimento. E agora tome cuidado, porque o Sr. J e o Sr. K podem bater à sua porta. E como nos ensina o Teste de Fidelidade, não confie em ninguém.

Notas:

[1] Na verdade a imprensa (máquina) é mais antiga do que muitos imaginam: segundo a Wikipédia, foi inventada em 1439 pelo alemão Gutenberg. Contudo, a impressão em escala industrial só surgiu no séc. XIX, possibilitada pela substituição da imprensa operada manualmente por prensas rotativas inicialmente movidas a vapor.

[2] Nascido Yakov Mikhailovich Berger, Bergier é mais conhecido por sua obra em parceria com Louis Pauwels, “O Despertar dos Magos”.

[3] Para outras possibilidades apocalípticas, leia “Projeto HAARP: A Máquina do Apocalipse”

Por Fenix Konstant

Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/homens-de-preto-a-realidade-por-tras-da-ficcao/

Espiritismo e Consciência de Krishna

Um Estudo Comparativo em Transmigração da Alma, Posição dos Espíritos (Bhutas), Epistemologia e Objeto de Culto.

Lembro-me como se fosse hoje. Em minhas mãos, aquele livro que comprei sob a propaganda de que desdobraria os temas da palestra que eu havia acabado de ouvir com grande interesse. Na capa da obra, ao fundo, o topo de vários templos no que parecia ser o amanhecer ou o entardecer. Quando cheguei em casa, deitei em minha cama ainda com a roupa do corpo e li novamente na capa o título do livro, o qual me dizia muito, pois era o que eu vivia. Seu título: Em Busca da Verdade. Seu autor: A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, fundador da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna

Devorei cada página como se estivesse com muita fome. Tanto aprendi que mentalmente agradecia a Deus por aquele livro. Fui introduzido a temas como a impossibilidade de ser obediente a Deus sem uma descrição clara de Seus desejos e ordens, a necessidade fundamental de conhecermos em detalhes a personalidade de Deus para podermos amá-lO, a compreensão derradeira da ordenação do universo com base nos três modos da natureza material, a inutilidade de tentar ser honesto sem ter o conhecimento de que Deus é o proprietário de tudo e vários outros temas que, tamanha sua profundidade, sequer sabia de sua existência, menos ainda que haveria alguém capaz de apresentá-los de maneira tão acessível como o autor que agora eu lia.

Nem tudo me foi alegria ao término da leitura, no entanto. Em meu coração, além do contínuo agradecimento a Deus, estava o desejo de divulgar esse livro tanto quanto eu pudesse, a tantos amigos quanto eu tivesse. Porém, uma única página desta obra me desmotivava. Pensei então em comprar vários desse livro e presenteá-lo a amigos sem essa página que me incomodava, porém veriam que uma folha havia sido arrancada. Uma segunda ideia: Fotocopiá-lo tirando essa página e apagando os números das páginas, de modo que ninguém saberia do excerto. Por fim, não tomei nenhuma de minhas medidas cogitadas, pois minha ocupação em distribuir esse conhecimento teria de aguardar um pouco mais meu amadurecimento.

A referida passagem, enfim, era esta: “Como espíritos puros, todas as almas são iguais, inclusive nos animais”*. (p. 34) Ai de mim, como dizem os poetas. Por que a vida não pode ser mais fácil? Por que um autor que julguei conhecer tudo perfeitamente tinha essa “mácula” de tamanho contrassenso de afirmar que a alma que anima os animais e os homens é a mesma, com o agravante que descobri mais tarde, de que é a mesma alma também que pode passar inclusive por corpos vegetais?

*PRABHUPADA, A.C. Bhaktivedanta Svami. Perguntas Perfeitas Respostas Perfeitas. São Paulo: BBT, 2012, p. 34. Perguntas Perfeitas Respostas Perfeitas é o novo título que em português que se deu ao então Em Busca da Verdade, esta edição agora com tradução literal do título original da obra, Perfect Questions Perfect Answers.

Minha dificuldade se dava por minha formação espírita, a qual, embora me tenha conduzido a buscar a reunião que assisti sobre a consciência de Krishna, em virtude de utilizar termos da mesma, como karma e chakra*, tinha diferentes concepções acerca destes conceitos e outros, e, como foi o espiritismo a religião que me convenceu da existência de Deus, livre-arbítrio, transmigração da alma e outros tópicos, era-me difícil lidar com os conflitos entre ela e meu novo achado da consciência de Krishna.

*Karma e chakra não são, a rigor, conceitos doutrinários do espiritismo. Seu uso entre os espíritas é considerado fruto de hibridismo com religiões orientais. Tais termos não se encontram na obra kardeciana, sendo encontrados apenas em obras subsidiárias.

Hoje, passados oito anos desde este meu primeiro contato com a consciência de Krishna, graduei-me em Bhakti-sastri* após residência no Seminário de Filosofia e Teologia Hare Krishna de Campina Grande e traduzi para a ISKCON mais de dez livros, cem artigos e outros materiais, além de ter-me dado a leituras diversas sobre o assunto da consciência de Krishna. Esse acúmulo de conhecimento de minha parte tanto da doutrina espírita quanto da consciência de Krishna faz-me sentir obrigado a produzir este material de estudo comparado, para o benefício tanto dos espíritas quanto dos adeptos da consciência de Krishna. Para os primeiros, uma oportunidade de diálogo inter-religioso não muito explorada. Embora os espíritas promovam sua religião em conflito com religiões que duvidam do contato com os espíritos; a consciência de Krishna é um desafio inteiramente novo, dado que acredita plenamente nesta comunicação, mas a tem como irrelevante para investigações acerca de Deus, da alma e da matéria inerte. Aos adeptos da consciência de Krishna, este tenta esclarecer algumas das zonas de conflito entre as duas religiões para fortalecimento da fé de tais adeptos com argumentos científicos, lógicos e teológicos. As zonas de conflito a serem analisadas são reencarnação em oposição a metempsicose, conhecimento descendente em oposição a conhecimento ascendente, equivalência de espíritos de luz e almas espirituais semipiedosas identificadas com o corpo, e culto a tais indivíduos e adoração exclusiva a Deus.

*Título obtido pelo sucesso em uma prova internacional a que se submetem os membros do Movimento Hare Krishna e outros interessados após estudo básico de sânscrito e estudo profundo das obras O Bhagavad-gita Como Ele É, Isopanisad, Néctar da Devoção (Bhakti-rasamrta-sindhu) e Néctar da Instrução (Upadesamrta).

Transmigração da Alma: Reencarnação e Metempsicose

Ambas as religiões em análise têm como princípio básico que a alma espiritual indestrutível tem a faculdade de transmigrar para um corpo novo ante a destruição do corpo em que se encontrava anteriormente. Em O Livro dos Espíritos*, encontramos: “Chamamos alma ao ser imaterial e individual que em nós reside e sobrevive ao corpo” (Introdução, p. 15), “A alma passa então por muitas existências corporais? ‘Sim, todos contamos muitas existências’” (2.4.166b), e, em seguida, afirma-se que “vivemo-las em diferentes mundos” (2.4.172).

*KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1995

Todos estes três pontos são comuns à consciência de Krishna, como evidenciamos por estes versos introdutórios do Bhagavad-gita*. No atinente à continuidade da alma após a morte do corpo: “Para a alma, em tempo algum existe nascimento ou morte. Ela não passou a existir, não passa a existir e nem passará a existir. Ela é não nascida, eterna, sempre existente e primordial. Ela não morre quando o corpo morre”. (2.20) No atinente às múltiplas existências: “Assim como alguém veste roupas novas, abandonando as antigas, a alma aceita novos corpos materiais, abandonando os velhos e inúteis” (2.22), e também “Assim como, neste corpo, a alma corporificada seguidamente passa da infância à juventude e à velhice; do mesmo modo, chegando a morte, a alma passa para outro corpo. Uma pessoa ponderada não fica confusa com tal mudança”. (2.13) No atinente à existência em diferentes planetas: “Aqueles situados no modo da bondade gradualmente elevam-se aos planetas superiores; aqueles no modo da paixão vivem nos planetas terrestres; e aqueles no abominável modo da ignorância descem para os mundos infernais”. (14.18)

*Todas as citações do Bhagavad-gita aqui contidas são as traduções de O Bhagavad-gita Como Ele É, disponível gratuitamente e em português em vedabase.com/pt-br/bg.

Os pontos de conflito entre o espiritismo e a consciência de Krishna, como analisaremos aqui, estão no fato de que o espiritismo advoga, ou parece advogar, que a alma que ocupa os corpos humanos jamais habitou corpos animais ou então que, uma vez que tenha deixado os corpos animais em sua evolução a partir de sua criação por Deus “simples e ignorantes” (Livro dos Espíritos 2.1.115), jamais poderia retornar a um corpo animal dado que isto contradiz a lei do progresso, lei esta que dá título ao capítulo sexto da obra O Livro dos Espíritos. Tal ensinamento é chamado “reencarnação”, em oposição a “metempsicose”, cuja transmigração de uma mesma categoria de alma – categoria única, distinta apenas de Deus e da matéria inerte – se dá por todos os corpos.

Nesta passagem de O Livro dos Espíritos, nega-se a transmigração de uma mesma espécie de alma por corpos humanos e animais, atribuindo a eles “almas diferentes”:

Pois que os animais possuem uma inteligência que lhes faculta certa liberdade de ação, haverá neles algum princípio independente da matéria?

“Há e que sobrevive ao corpo”.

Será esse princípio uma alma semelhante à do homem?

“É também uma alma, se quiserdes, dependendo isto do sentido que se der a esta palavra. É, porém, inferior à do homem. Há entre a alma dos animais e a do homem distância equivalente à que medeia entre a alma do homem e Deus”. (2.11.597 e 597a)

A alma animal, ainda segundo a mesma obra (2.11.601), evolui por diferentes corpos animais, tal como a alma humana:

Os animais estão sujeitos, como o homem, a uma lei progressiva?

“Sim; e daí vem que nos mundos superiores, onde os homens são mais adiantados, os animais também o são, dispondo de meios mais amplos de comunicação. São sempre, porém, inferiores ao homem e se lhe acham submetidos, tendo neles o homem servidores inteligentes.”

A consciência de Krishna, baseada nos Vedas, declara, no entanto, que existe uma só alma que habita por diferentes corpos, passando por todas as formas inferiores até atingir a forma humana. No Brahma Vaivarta Purana, por exemplo, figura os seguintes versos: “Atinge-se a forma humana de vida após a transmigração por milhões de espécies ao longo do processo gradual de evolução, e essa vida humana é arruinada pelos tolos orgulhosos que não se refugiam nos pés de lótus de Govinda [Deus]”*. O Padma Purana descreve esse número de formas antecedentes à forma humana pelas quais passa a alma: “Em todo o universo, existem 900.000 espécies aquáticas; 2.000.000 de entidades vivas imóveis, como árvores e plantas; 1.100.000 espécies de insetos e répteis, e 1.000.000 de espécies voadoras. No que diz respeito aos animais terrestres, existem em número de 3.000.000, e as espécies humanas existem em número de 400.000”**.

*VedaBase: 25. Song, Prayer and Verse Books / Srila Prabhupada Slokas / Selected Verses From the Puranas / Brahma Vaivarta Purana. info.vedabase.com. O verso original diz: asitim caturas caiva laksams tan jiva-jatisu/ bhramadbhih purusaih prapyam manusyam janma-paryayat/ tad apy abhalatam jatah tesam atmabhimaninam/ varakanam anasritya govinda-carana-dvayam.

**VedaBase: 25. Song, Prayer and Verse Books / Srila Prabhupada Slokas / Selected Verses From the Puranas / Padma Purana. O verso original diz: jalaja nava-laksani sthavara laksa-vimsati/ krmayo rudra-sankhyakah paksinam dasa-laksanam/ trimsal-laksani pasavah catur-laksani manusah.

No Srimad-Bhagavatam* (3.29.28-32), encontramos uma descrição ainda mais detalhada, a qual nos informa que o tato é o primeiro sentido que se experimenta, o qual se desenvolve ao se ter um corpo de árvore. Em seguida, experimenta-se paladar ao se obter um corpo de peixe. Após o corpo de peixe, pode-se obter um corpo como de abelha e desenvolver olfato. A audição então se faz presente rudimentarmente em um corpo de cobra, e, mais adiante, pode-se ter um corpo que tem todos os sentidos e ainda é capaz de distinguir formas, como os corpos de algumas aves e, por fim, de quadrupedes. Finalmente, tem-se o corpo humano. Os seres humanos ainda são divididos entre diferentes níveis de estruturação social e rendição a Deus, partindo dos seres humanos incivilizados e indo até “o devoto puro de Deus, que Lhe presta serviço devocional sem nenhuma expectativa”.

*As citações do Srimad-Bhagavatam são traduções minhas da tradução inglesa de Srila Prabhupada, disponível em vedabase.com/en/sb.

O leitor mais arguto deve ter atentado que, na ocasião em que eu disse que o espiritismo advoga que a alma que ocupa os corpos humanos jamais habitou corpos animais ou então que, uma vez que tenha deixado os corpos animais em sua evolução a partir de sua criação, jamais poderia retornar a um corpo animal, eu intercalei o seguimento “ou parece advogar”. A explicação para isto é que, como veremos em discussões acerca de epistemologia, a revelação dos espíritos não é um sistema fechado e concluído como o da consciência de Krishna, isto porque seus reveladores são investigadores no modelo de investigação científico-filosófico, isto é, baseado respectivamente na percepção dos sentidos e da mente, motivo pelo qual certamente terão conflitos entre si como têm os cientistas e filósofos encarnados. Assim é que um mesmo espírito pode ter diferentes opiniões em diferentes momentos ou variados espíritos terem diferentes opiniões contemporâneas, e encontramos no Livro dos Espíritos (p. 303) que isso de fato se dá com a dicotomia reencarnação e metempsicose e acerca da relação entre os homens e os animais:

O ponto inicial do espírito é uma dessas questões que se prendem à origem das coisas e de que Deus guarda o segredo. Dado não é ao homem conhecê-las de modo absoluto, nada mais lhe sendo possível a tal respeito do que fazer suposições, criar sistemas mais ou menos prováveis. Os próprios espíritos longe estão de tudo saberem e, acerca do que não sabem, também podem ter opiniões pessoais mais ou menos sensatas. É assim, por exemplo, que nem todos pensam da mesma forma quanto às relações existentes entre o homem e os animais. Segundo uns, o espírito não chega ao período humano senão depois de se haver elaborado e individualizado nos diversos graus dos seres inferiores da Criação*. Segundo outros, o espírito do homem teria pertencido sempre à raça humana, sem passar pela fieira animal. O primeiro desses sistemas apresenta a vantagem de assinar um alvo ao futuro dos animais, que formariam então os primeiros elos da cadeia dos seres pensantes. O segundo é mais conforme à dignidade do homem. (grifo nosso)

*Emmanuel, por exemplo, em várias psicografias de Chico Xavier, defende esta primeira teoria contra a opinião daqueles que compuseram O Livro dos Espíritos: “O animal caminha para a condição do homem tanto quanto o homem evolui no encalço do anjo”. (Alvorada do Reino, Na Senda da Ascensão) Em sua obra Emmanuel: Dissertações Mediúnicas sobre Importantes Questões que Preocupam a Humanidade, encontramos:

“Como o objetivo desta palestra é o estudo dos animais, nossos irmãos inferiores, sinto-me à vontade para declarar que todos nós já nos debatemos no seu acanhado círculo evolutivo. São eles os nossos parentes próximos, apesar da teimosia de quantos persistem em o não reconhecer. Considera-se, às vezes, como afronta ao gênero humano a aceitação dessas verdades. E pergunta-se como poderíamos admitir um princípio espiritual nas arremetidas furiosas das feras indomesticadas, ou como poderíamos crer na existência de um rio de luz divina na serpente venenosa ou na astúcia traiçoeira dos carnívoros. Semelhantes inquirições, contudo, são filhas de entendimento pouco atilado”. (XAVIER, Chico. FEB. p. 119)

Interessante notar que o espiritismo diz que sua validade está em não haver contradição entre os espíritos: “Uma só garantia séria existe para o ensino dos espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares”. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, p. 31)

Assim, não há uma base sólida acerca do posicionamento dos espíritos em relação a se a alma anima primeiramente corpos animais ou começa já em corpos humanos, logo não há um posicionamento absoluto acerca de se a alma animal progride unicamente por corpos animais ou se é a mesma sorte de alma que anima agora corpos humanos. Contudo, como a obra O Livro dos Espíritos mostra predileção pela teoria de que existem dois tipos de almas, humanas e animais, ou mais precisamente, três, uma também apenas a animar vegetais*, tomaremos isso como o fundamento espírita e o iremos expor aos ensinos conscientes de Krishna.

A primeira dificuldade para sustentar a teoria espírita de que os animais sempre serão animais e sempre foram animais é que ela é contraditória com o senso de justiça vinculado a que alguém sofre por mau uso de seu livre-arbítrio e que alguém tem conforto por bom uso de seu livre-arbítrio, o que é aceito por ambas as religiões em estudo. No entanto, como os animais não têm livre-arbítrio (Livro dos Espíritos 2.11.599), o que ambas as religiões concordam, Deus Se torna injusto na teoria espírita, pois todo o sofrimento excruciante pelo qual passam, por exemplo, as vacas, porcos, galinhas e outros animais em fazendas-fábricas e abatedouros* é um sofrimento desmerecido, não decorrente de nenhuma escolha ruim, tampouco há justiça ou justificativa em uma vaca viver livremente e outra não. Deste modo, Deus torna-Se alguém horrendo que criou almas animais apenas para animarem corpos animais inferiores e irem progredindo por corpos animais superiores sempre sofrendo as dores do nascimento, da morte, da velhice e da doença mesmo não tendo feito nenhuma má escolha ou ato contrário à vontade de Deus. Tais almas animais são submetidas a um processo automático (idem. 2.11.602) de evolução por diferentes corpos – reitero, dolorosíssimo – e evoluem sem nenhum mérito para chegarem ao estágio máximo delas, estágio máximo este no qual não conhecem Deus (idem. 2.11.603)**.

*Aqueles que não estão inteirados deste “avanço” da civilização podem se inteirar do mesmo assistindo ao documentário Terráqueos [Earthlings] ou similares. O referido documentário está disponível neste weblink: terraqueos.org. Outros documentários similares se encontram na mesma página.

**Desenvolvi, a princípio, estar argumentação sob o norteamento de Santo Anselmo, que diz que o conceito perfeito de Deus é, entre outras coisas, de um ser absolutamente justo e infinitamente bom, e que o conceito em que se tenha uma justiça e uma bondade insuperáveis é o conceito verdadeiro. Semelhante argumentação que apresento, no entanto, parece também estar inteiramente em A Gênese (3.12), onde se diz: “Se os animais são dotados apenas de instinto, não tem solução o destino deles e nenhuma compensação os seus sofrimentos, o que não estaria de acordo nem com a justiça, nem com a bondade de Deus”.

A única maneira de se conciliar existir sofrimento no mundo e Deus ser onipotente e bom é a exigência do amor ser precedido por livre-arbítrio, haja vista que um amor forçado não é amor, dado que amar exige a espontaneidade de ter o direito de não amar. Agora, se os animais jamais conhecerão Deus para amá-lO e não têm livre-arbítrio, por que os criar e os submeter a uma evolução dolorosa e sem sentido até o estágio de perfeição em que não conhecem seu criador? Certamente é absurdo atribuir a Deus tamanho capricho, em virtude do que o Livro dos Espíritos só pode dizer sobre isso as palavras com que encerra o capítulo nono da parte segunda: “Quanto às relações misteriosas que existem entre o homem e os animais, isso, repetimos, está nos segredos de Deus”.

O conhecimento da consciência de Krishna, no entanto, mantém Deus como justo ao colocar que os animais sofrem porque as almas que habitam tais animais que estão sofrendo com nascimento, morte, doenças e velhice fizeram mau uso de seu livre arbítrio, isto é, não procederam de acordo com a vontade de Deus, quando possuíam corpos humanos ou no ato de se desconectarem de Deus. Assim é que um açougueiro ou aqueles que comem carne terão de nascer, pelas reações de seus pecados, em corpos de animais que serão brutalmente criados e abatidos. Os corpos animais para as almas também têm um propósito muito amável, que é que uma alma em condição pecaminosa pode dar vazão a suas tendências pecaminosas sem criar novo mau karma. Deste modo, alguém afeito a dormir excessivamente pode ter um corpo de urso; alguém afeito a comer carne, um corpo de tigre; alguém afeito à promiscuidade, um corpo de macaco e assim por diante. Caso se fizesse tais atos no corpo humano, incorreria em grandes reações pecaminosas. Porém, com a oportunidade de fazer tais coisas em corpos animais, o indivíduo dá vazão a seus pecados e pode, quando Deus considerar apropriado, habitar novamente um corpo humano já esgotado desse hábito. Assim é que o Garuda Purana (2.46.9-10) afirma sobre as almas pecaminosas que estão deixando os planetas infernais: “Quando as torturas expiatórias e restringentes cessam, as entidades vivas nascem novamente na forma humana ou em uma forma animal com os traços característicos de seus pecados”. Por traços característicos dos pecados, entende-se uma pessoa incestuosa nascer cão ou alguém que não discrimina o que comer e o que não comer nascer como porco.

Com a metempsicose, a justiça de Deus é preservada, pois o sofrimento da alma no corpo animal tem um porquê imediato, isto é, suas ações passadas, e tem um propósito futuro: uma vez que atinja a perfeição em um dos 400.000 tipos de corpos humanos que propiciam o livre-arbítrio de poder render-se a Deus, conhecerá Deus e se relacionará com Ele em serviço devocional e bem-aventurança eterna.

Embora o espiritismo diga, como citado anteriormente, que talvez as almas que hoje habitam os corpos humanos tenham sim habitado corpos animais, o espiritismo em momento algum assume que a alma possa involuir, o que eles acreditam acontecer na metempsicose. Isto é um erro, no entanto; ao menos na metempsicose mais antiga que se conhece – a metempsicose consciente de Krishna. No Bhagavad-gita (2.40), Krishna diz: “Neste caminho [o caminho da gradual rendição a Deus] não há perda nem diminuição, e um pequeno esforço neste caminho pode proteger a pessoa do mais perigoso tipo de medo”. Em outras palavras, como explica Prabhupada em seu comentário, qualquer avanço que uma alma tenha feito em se render a Deus está eternamente no crédito dela, e ela sempre continuará daquele ponto, e Krishna diz que, desde que ela continue fazendo o mínimo progresso (pequeno esforço) ela estará livre do mais perigoso tipo de medo (cair em uma forma sub-humana). Aqui pode parecer haver uma contradição: Não há perda nem diminuição, ou involução, mas, se ela parar de progredir, cairá em corpos animais. Isso não é uma contradição assim como os espíritas aceitam que alguém que foi doutor em Letras pode, caso aja pecaminosamente, nascer como alguém cego, surdo, mudo e paralítico. Tal aparente involução, isto é, alguém antes pesquisador acadêmico sequer ter sentidos e consciência o bastante para interagir ou se movimentar, é um estado temporário de “inferioridade” à vida passada, o qual, quando superado e terminado, terá sido um grande aprendizado para o doutor, que poderá então continuar seu progresso novamente em um corpo com inteligência, mas temeroso de pecar e reconsiderando se o mero conhecimento acadêmico realmente constitui progresso.

Assim é que, quando alguém cai em um corpo animal após ter tido um corpo humano, ao deixar o corpo animal – ou os vários corpos animais, a depender de seus atos –, retoma sua vida com livre-arbítrio do ponto de rendição a Deus em que estava, e sua experiência em determinado corpo animal serve-lhe de lição ou de esgotamento de alguma tendência animalesca que tinha mesmo no corpo humano.

A história do rei Bharata, por exemplo, relatada no Quinto Canto do Srimad-Bhagavatam – para o qual já fornecemos um weblink – relata a história de um rei que renunciou seu reino quando mais velho e se recolheu para a floresta para se dedicar a práticas espirituais. Contudo, porque negligenciou sua vida espiritual tendo-se atraído por um veadinho na floresta, adquiriu um corpo de veado na vida seguinte. No corpo de veado, intuitivamente rumou para a casa de grandes devotos de Deus e lá ficou até morrer. Uma vez de volta ao corpo humano, na vida seguinte, ele retomou sua vida espiritual com muito mais seriedade e cuidado. Assim, é evidente que, embora tenha adquirido um corpo sub-humano após ter tido um corpo humano, não houve involução da consciência, mas uma experiência chocante tal qual alguém que alguma vez enxergou porém teve um nascimento cego. Assim, negar a metempsicose porque a mesma pressupõe a involução da consciência é ignorância de todos os sistemas de metempsicose*, visto que a metempsicose dos Vedas, escrituras estas que formam a base do movimento Hare Krishna, conciliam perfeitamente a transmigração por diferentes corpos sem aceitar a involução da consciência. Tal aparente “involução” pode ser comparada a alguém que estava caminhando para frente e, ao se deparar com um buraco à sua frente, recua um pouco para saltá-lo. Tal recuo não é um retrocesso em seu caminhar para frente, mas parte de seu progresso.

*Parece que o espírito que se posiciona contra a metempsicose se informou insuficientemente, apenas em fontes semelhantes àquelas consultadas por Jung, que também possuía conhecimento incompleto da metempsicose: “O conceito de renascimento é multifacetado. Em primeiro lugar destaco a metempsicose, a transmigração da alma. Trata-se da ideia de uma vida que se estende no tempo, passando por vários corpos, ou da sequência de uma vida interrompida por diversas reencarnações. O budismo especialmente centrado nessa doutrina – o próprio Buda vivenciou uma longa série de renascimentos – não tem certeza se a continuidade da personalidade é assegurada ou não; em outras palavras, pode tratar-se apenas de uma continuidade do karma. Os discípulos perguntaram ao mestre, quando ele ainda era vivo, acerca desta questão, mas Buda nunca deu uma resposta definitiva sobre a existência ou não da continuidade da personalidade”. (JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 119). Quando tal afirmação de Jung, que não conseguiu estender-se para a psicose mais antiga que se conhece, a metempsicose védica ou pré-budista, foi apresentada a Srila Prabhupada, este comentou:

“Srila Prabhupada: Uma personalidade está sempre presente, e mudanças corpóreas não mudam isso. A pessoa, entretanto, identifica-se de acordo com o seu corpo. Quando, por exemplo, a alma está dentro do corpo de um cachorro, ela pensa de acordo com aquela construção corpórea particular. Ela pensa: “Sou um cachorro, e tenho minhas atividades particulares”. Na sociedade humana, a mesma concepção está presente. Por exemplo, quando alguém nasce na América, ele pensa: “Sou americano, e tenho meu dever”. De acordo com o corpo, a personalidade se manifesta, mas, em todos os casos, a personalidade está presente. Discípulo: Mas essa personalidade é contínua? Srila Prabhupada: Certamente a personalidade é contínua. À morte, a alma passa para outro corpo grosseiro juntamente com suas identificações mentais e intelectuais. O sujeito obtém diferentes tipos de corpos, mas a pessoa é a mesma”. (Beyond Illusion and Doubt. Cap. 15. vedabase.com/en/bid/15)

Então, porque o espiritismo não possui uma resposta clara sobre se a alma que atualmente ocupa corpos humanos já ocupou corpos animais, e porque seu argumento de que a metempsicose não pode ser real porque implica a involução da consciência é produto de ignorância da metempsicose consciente de Krishna, temos aqui, acredito, bastante espaço para reflexão.

Algo muito interessante é que Krishna deixou-nos já uma fórmula no Bhagavad-gita, cinco mil anos atrás, que nos informa que a opinião de quem reside onde residem aqueles que conversaram com Allan Kardec é, em geral, de que existem diferentes tipos de almas. Tal fórmula é dada no Bhagavad-gita (18.20-22):

Você deve compreender que está no modo da bondade aquele conhecimento com o qual se percebe uma só natureza espiritual indivisa em todas as entidades vivas, embora elas se apresentem sob inúmeras formas. O conhecimento com o qual se vê que em cada corpo diferente há um tipo diferente de entidade viva, você deve entender que está no modo da paixão. E o conhecimento pelo qual alguém se apega a um tipo específico de trabalho como se fosse tudo o que existe, sem conhecimento da verdade, e que é muito escasso, diz-se que está no modo da ignorância.

O universo, segundo os Vedas, é regido por três cordas, ou modos da natureza material, os quais se chamam bondade, paixão e ignorância. Assim, classifica-se tudo nos três modos, como alimentação, caridade etc. Pode-se ler sobre os mesmos nos capítulos 14, 17 e 18 do Bhagavad-gita. Aqui Krishna está dizendo que, quando alguém está no modo da ignorância, esse alguém quer apenas trabalhar, sendo indiferente a discussões se a alma existe ou não existe, se ela é a mesma tramitando por diferentes corpos ou se cada tipo de corpo comporta um tipo de alma. Em seguida, superiores são as pessoas controladas pelo modo da paixão, as quais já aceitam a existência da alma, embora, por seus sentidos imperfeitos e por seu desejo de explorar os outros, digam que a alma da mulher, do índio, do negro ou dos animais é inferior. Por fim, existem aqueles no modo da bondade, o melhor de todos, os quais percebem que é a mesma alma que aparece em diferentes corpos, assim como a mesma luz branca às vezes parece azul, vermelha ou amarela a depender da cor do invólucro que recebe.

Assim, as escrituras conscientes de Krishna dizem que onde residem aqueles que conversaram com Allan Kardec é uma morada no modo da paixão (Srimad-Bhagavatam 4.29.28, significado), a qual se chama, em sânscrito, Antariksa, daí a opinião deles. A tese espírita ser prevista milênios antes do surgimento do espiritismo e ainda propor uma tese superior é certamente algo que deve promover buscadores sinceros a considerarem se não há livros na Terra mais avançados do que os cinco livros codificados por Kardec e similares. A leitura do Bhagavad-gita Como Ele É, na companhia daqueles que já o estudam há mais tempo, é um começo recomendável. Acerca da localização das colônias espíritas e sua identificação com o modo da paixão, falaremos mais adiante, na seção denominada “Uma análise da posição dos espíritos segundo a consciência de Krishna”.

Ainda nos argumentos na dicotomia reencarnação e metempsicose, além dos argumentos da questão do sofrimento a quem nunca teve livre-arbítrio para fazer algo que merecesse sofrimento e de que Krishna previu esse argumento para aqueles que habitam Antariksa, há o argumento moral, possivelmente o mais forte, de que perceber outras entidades vivas como ontologicamente inferiores é a inconsciência fundamental para se explorar o outro. Só me é possível explorar o negro, a mulher, o judeu ou o índio, por exemplo, depois que eu me convencer de que são menos importantes para Deus ou inferiores a mim, pois, se são iguais a mim, dou o direito de que façam comigo o mesmo que faço com eles, e se são tão importantes para Deus quanto eu sou, Deus me punirá de alguma forma. Assim, vê-se rotineiramente que, conquanto os espíritas se apiedem de seres humanos em sofrimento, são promotores do sofrimento dos animais em seus hábitos alimentares, de vestes etc., hábitos estes tendo em vista o gozo dos sentidos. No Movimento Hare Krishna, todo membro faz o voto vitalício de não comer carne, peixe ou ovos, e as verduras e outros alimentos também são ingeridos apenas após serem consagrados a Deus. Assim, é visível a superioridade moral e caridosa naqueles possuidores da visão de que a alma que anima os animais e plantas não é por natureza inferior ou sem o propósito de um dia alcançar Deus, mas uma alma tal como nós que agora estamos em corpos humanos*.

*Esta questão de que o fundamento para não explorarmos os animais ou humanos de diferentes categorias se encontra na necessidade de os vermos como indivíduos na mesma categoria que nós, uma categoria única abaixo de Deus, fica evidente caso contrastemos, por exemplo, espíritos que acreditam que os animais possuem almas constitucionalmente inferiores e aqueles que pensam diferente. Vemos, por exemplo, que os reveladores do Livro dos Espíritos, partidários da ideia de que a alma em um corpo animal é distinta, e eternamente distinta, da alma em um corpo humano, não promovem o vegetarianismo e o consequente bem-estar dos animais: “Dada a vossa constituição física, a carne alimenta a carne, do contrário o homem perece. A lei de conservação lhe prescreve, como um dever, que mantenha suas forças e sua saúde, para cumprir a lei do trabalho. Ele, pois, tem que se alimentar conforme o reclame a sua organização” (O Livro dos Espíritos 3.5.723). O já mencionado espírito Emmanuel, partidário da ideia de que as almas que ocupam corpos animais e humanos são as mesmas, defende o vegetarianismo: “A ingestão das vísceras dos animais é um erro de enormes consequências, do qual derivaram numerosos vícios da nutrição humana. É de lastimar semelhante situação, mesmo porque, se o estado de materialidade da criatura exige a cooperação de determinadas vitaminas, esses valores nutritivos podem ser encontrados nos produtos de origem vegetal, sem nenhuma necessidade dos matadouros e frigoríficos… Consolemo-nos com a visão do porvir, sendo justo trabalharmos, dedicadamente, pelo advento dos tempos novos em que os homens terrestres poderão dispensar da alimentação os despojos sangrentos de seus irmãos inferiores”. (O Consolador, questão 129) Assim fica aparente que, por trás do empenho em categorizar o outro como ontologicamente inferior, está o desejo e o ato degradado de explorá-lo.

Deste modo, apresentado o sistema de metempsicose do Movimento Hare Krishna, que remonta mais de 50 séculos na história registrada, sistema este que não nega a evolução permanente da consciência e que a evolução da alma pelos animais é progressiva, a metempsicose passa a ser verdadeira segundo estes dizeres da página 303 do Livro dos Espíritos: “Seria verdadeira a metempsicose se indicasse a progressão da alma, passando de um estado a outro superior, onde adquirisse desenvolvimentos que lhe transformassem a natureza”.

Uma análise da posição dos espíritos segundo o espiritismo

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo*, o espiritismo promove-se como sucessor de Jesus em ensinamentos, valendo-se das passagens bíblicas que se referem ao “Espírito de verdade”, a saber, João 14:17, 15:26 e 16:13: “O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós. Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito de verdade, que procede do Pai, ele testificará de mim. Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir”**.

*KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 1996
**bibliahabil.com.br

Podemos identificar quatro atributos (mais do que isso tornaria este muito longo) para análise do Espírito de Verdade segundo os referidos versos bíblicos: O Espírito de Verdade procede do Pai; não ensinará algo diferente do que Jesus disse; guiará as pessoas em toda a verdade; e não falará de si mesmo, mas antes do que houver ouvido.

O Consolador é identificado nas obras canônicas do espiritismo como o próprio espiritismo, como em A Gênese* (1.42): “O espiritismo realiza todas as promessas do Cristo a respeito do Consolador anunciado”, e o Espírito de Verdade é aquele que inspira (1.39) e preside (1.40) essa doutrina. Em termos práticos, podem-se analisar os quatro atributos no espiritismo como uma análise paralela do Espírito de Verdade, pois, uma vez que o espiritismo, o Consolador, é “inspirado” e “presidido” pelo Espírito de Verdade, não pode haver diferença ou contradição doutrinária entre os dois.

*KARDEC, Allan. A Gênese. Brasília: FEB, 1995

Então, um estudo esmerado do espiritismo mostra os quatros atributos que selecionamos acima? Analisemos cada um.

O Espírito de Verdade “procede do Pai” significa que ele já esteve com o Pai, isto é, já O viu e O conhece, o que é possível segundo o Livro dos Espíritos (1.1.11): “Será dado um dia ao homem compreender o mistério da Divindade? ‘Quando não mais tiver o espírito obscurecido pela matéria. Quando, pela sua perfeição, se houver aproximado de Deus, ele O verá e compreenderá’”. Assim, o Espírito de Verdade, que procede do Pai, deve ser alguém que viu Deus e O conhece, o que nenhum espírito que se comunicou conosco disse ter feito. Dizer que “vem do Pai” significa que os espíritos são partes de Deus e criados por Ele, daí “virem do Pai”, seria algo sem sentido, pois os espíritos em estado encarnado também veem do pai, de modo que “vir do Pai” não pode ser uma questão ontológica.

O Espírito de Verdade não ensinará algo diferente do que Jesus ensinou. No velho testamento, aceito por Jesus, visto que não veio negar a lei, mas cumpri-la (Mateus 5:17), encontramos: “Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro. Nem encantador, nem quem consulte a um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos. Pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao SENHOR; e por estas abominações o SENHOR teu Deus os lança fora de diante de ti”. (Deuteronômio 18:10-14)

Jesus também ensinou que o mandamento maior é Amar a Deus, e o segundo mandamento é amar o próximo: “Mestre, qual é o grande mandamento na lei? E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:36-39). O capítulo do Evangelho Segundo o Espiritismo que trata deste assunto, curiosamente, traz o título do segundo mandamento mais importante, Amar o Próximo como a Si Mesmo. Embora seja citada toda a passagem bíblica que aqui citei, quando os espíritos a comentam, eles não dizem absolutamente nada sobre o primeiro mandamento, que Jesus disse ser o mais importante, mas comentam apenas o segundo. Seu comentário completo a estes dois mandamentos é este:

“Amar o próximo como a si mesmo: fazer pelos outros o que quereríamos que os outros fizessem por nós” é a expressão mais completa da caridade, porque resume todos os deveres do homem para com o próximo. Não podemos encontrar guia mais seguro, a tal respeito, que tomar para padrão, do que devemos fazer aos outros aquilo que para nós desejamos. Com que direito exigiríamos dos nossos semelhantes melhor proceder, mais indulgência, mais benevolência e devotamento para conosco, do que os temos para com eles? A prática dessas máximas tende à destruição do egoísmo. Quando as adotarem para regra de conduta e para base de suas instituições, os homens compreenderão a verdadeira fraternidade e farão que entre eles reinem a paz e a justiça. Não mais haverá ódios, nem dissensões, mas, tão-somente, união, concórdia e benevolência mútua. (Evangelho Segundo o Espiritismo 11.4)

Assim, fica claro que o espiritismo estabelece a comunicação com os mortos, tida pelo velho testamento como “abominação ao Senhor”, e coloca o segundo mandamento de Jesus como o primeiro, alteração esta facilmente assimilável à primeira constatação de não conhecerem Deus, prerrogativa para amá-lO. A adoração a Deus é irrelevante em uma religião cuja lei de ação e reação é soberana, haja vista que um ateu caridoso tem o mesmo destino de um teísta caridoso que louva a Deus em oração e cânticos. Deus é mero dador das reações, quer boas, quer ruins, o que O torna mecânico ou impessoal e, logo, irrelevante*.

*As primeiras perguntas de Allan Kardec são sobre Deus, e as respostas são descrições meramente mecânicas: “Que é Deus? ‘Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas’. Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus? ‘Num axioma que aplicais às vossas ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá’”. (Livro dos Espíritos 1.1.1 e 4)

O Espírito de Verdade também guiará as pessoas em toda a verdade. Contudo, se os espíritos não conhecem tudo, como já citamos – “Os próprios espíritos longe estão de tudo saberem e, acerca do que não sabem, também podem ter opiniões pessoais* mais ou menos sensatas” (Livro dos Espíritos p. 303) – como poderão ensinar tudo? O Espírito de Verdade tem mesmo de ser alguém que vem do Pai, pois apenas semelhante pessoa pode tudo saber, ou então ser o próprio Pai, como defendem os Católicos, que afirmam o Espírito de Verdade ser o Espírito Santo, termo este equivalente na consciência de Krishna a Paramatma**.

*Não haveria problema algum nessa divisão de opiniões caso o espiritismo se reduzisse à posição de pesquisa científica e filosófica, como por vezes faz. Contudo, ao se atribuir valor divino, como ter vindo do Pai e só dizer o que ouve, a existência de diversas opiniões lança-lhe descrédito. Os mestres do Movimento Hare Krishna também atribuem a si o valor divino de só dizerem o que ouviram de Deus – como registradas Suas palavras pelo avatara Vyasadeva no Bhagavad-gita – porém, em coerência, jamais se vê que tenham opiniões diferentes, pois todos respondem as perguntas pelo que ouviram do Bhagavad-gita; no caso da transmigração da alma, que a alma que habita corpos humanos atualmente pode e passa por corpos animais. Sobre isso, Srila Prabhupada comenta:

“Mediante avanço especulativo, ninguém é capaz de chegar à plataforma real de conhecimento. No presente momento, muitíssimos filósofos, cientistas, estão tentando avançar em conhecimento através da especulação: ‘Eu acho’, ‘Na minha opinião’, ‘Talvez’ e assim por diante. Isso continua. Grandessíssimos filósofos, cientistas, eles dão sua opinião. Todos estão achando. ‘Eu acho…’. E isso está sendo apoiado. Conhecimento tornou-se sinônimo de poder pensar de qualquer maneira, e, no momento atual, isso está sendo aceito”. (palestra em 19 de abril de 1974, Hyderabad)

Sobre o guru, ou mestre, fidedigno, diz:

“O guru [mestre] é um. Embora centenas e milhares de acaryas [mestres exemplares] tenham ido e vindo, a mensagem é a mesma. Portanto, o guru não pode ser dois. O verdadeiro guru não falará algo diferente. Alguns gurus dizem: ‘Na minha opinião, você deve ser assim’, e alguns gurus dirão: ‘Na minha opinião, faça assim’ – eles não são gurus; são todos velhacos. O guru não tem opinião pessoal. O guru tem apenas uma opinião: a opinião que foi expressa por Krishna [Deus]”. (Palestra em 22 de agosto de 1973, Londres)

**Palestra de Srila Prabhupada em Londres sobre o Bhagavad-gita 1.15, em 15 de julho de 1973

Outro atributo do Espírito de Verdade é que “não falará de si mesmo, mas antes do que houver ouvido”. Este é o atributo essencial de um mestre espiritual segundo a consciência de Krishna, que ele tem de ter ouvido de uma autoridade, que ouviu de outra autoridade e assim por diante até que a primeira autoridade tenha sido alguém que ouviu do próprio Deus, como descrito no já citado Livro dos Espíritos 1.1.11. Para maior credibilidade, é importante também que essa ordem de Deus que é transmitida adiante também possa ser uma fonte primária para quem a recebe, isto é, deve-se poder consultar tanto o mestre que traz o conhecimento acerca de Deus como Deus diretamente na obra que registra as palavras de Deus, ou, caso contrário, a relação com o mestre será de mera fé em alguém cuja autenticidade não se pode determinar. Vemos que os espíritos, no entanto, não têm essa posição de que receberam instruções superiores e assim por diante até alguém que está em contato com Deus, supostamente o Espírito de Verdade, senão que têm opiniões e investigam o universo, Deus etc. através de suas experiências. Por exemplo, o estudo da origem do Universo e dos mundos se dá pela disciplina da Ciência, e não por revelação de uma autoridade infalível:

A história da origem de quase todos os povos antigos se confunde com a da religião deles, donde o terem sido religiosos os seus primeiros livros. E como todas as religiões se ligam ao princípio das coisas, que é também o da Humanidade, elas deram, sobre a formação e o arranjo do Universo, explicações em concordância com o estado dos conhecimentos da época e de seus fundadores. Daí resultou que os primeiros livros sagrados foram ao mesmo tempo os primeiros livros de ciência, como foram, durante largo período, o código único das leis civis.

Nas eras primitivas, sendo necessariamente muito imperfeitos os meios de observação, muito eivadas de erros grosseiros haviam de ser as primeiras teorias sobre o sistema do mundo. Mas, ainda quando esses meios fossem tão completos quanto o são hoje, os homens não teriam sabido utilizá-los. Aliás, tais meios não podiam ser senão fruto do desenvolvimento da inteligência e do consequente conhecimento das leis da Natureza. À medida que o homem se foi adiantando no conhecimento dessas leis, também foi penetrando os mistérios da criação e retificando as ideias que formara acerca da origem das coisas.

Impotente se mostrou ele para resolver o problema da criação, até ao momento em que a Ciência lhe forneceu para isso a chave. Teve de esperar que a Astronomia lhe abrisse as portas do espaço infinito e lhe permitisse mergulhar aí o olhar; que, pelo poder do cálculo, possível se lhe tornasse determinar com rigorosa exatidão o movimento, a posição, o volume, a natureza e o papel dos corpos celestes; que a Física lhe revelasse as leis da gravitação, do calor, da luz e da eletricidade; que a Química lhe mostrasse as transformações da matéria e a Mineralogia os materiais que formam a superfície do globo; que a Geologia lhe ensinasse a ler, nas camadas terrestres, a formação gradual desse mesmo globo. À Botânica, à Zoologia, à Paleontologia, à Antropologia coube iniciá-lo na filiação e sucessão dos seres organizados. Com a Arqueologia pode ele acompanhar os traços que a Humanidade deixou através das idades. Numa palavra, completando-se umas às outras, todas as ciências houveram de contribuir com o que era indispensável para o conhecimento da história do mundo. Em falta dessas contribuições, teve o homem como guia as suas primeiras hipóteses.

Por isso, antes que ele entrasse na posse daqueles elementos de apreciação, todos os comentadores da Gênese, cuja razão esbarrava em impossibilidades materiais, giravam dentro de um círculo, sem conseguirem dele sair. Só o lograram, quando a Ciência abriu caminho, fendendo o velho edifício das crenças. Tudo então mudou de aspecto. Uma vez achado o fio condutor, as dificuldades prontamente se aplanaram. Em vez de uma Gênese imaginária, surgiu uma Gênese positiva e, de certo modo, experimental. O campo do Universo se distendeu ao infinito. Acompanhou-se a formação gradual da Terra e dos astros, segundo leis eternas e imutáveis, que demonstram muito melhor a grandeza e a sabedoria de Deus, do que uma criação miraculosa, tirada repentinamente do nada, qual mutação à vista, por efeito de súbita ideia da Divindade, após uma eternidade de inação.

Pois que é impossível se conceba a Gênese sem os dados que a Ciência fornece, pode dizer-se com inteira verdade que: a Ciência é chamada a constituir a verdadeira Gênese, segundo a lei da Natureza. (A Gênese 4.1-3)

É claro que, assim como os atuais cientistas acreditam que, embora todos os cientistas antes deles estivessem errados, eles agora não o estarão pelo aprimoramento de suas ferramentas; serão muitos aqueles, na mentalidade cientificista da contemporaneidade, a acreditarem que as ferramentas dos espíritos desencarnados serão suficientes para esse exame. Em todo caso, não é possível atribuir a tais espíritos o caráter de “falam o que ouvem”.

Assim, parece evidente que o espiritismo não tem todos ou nenhum dos atributos que se espera no que Jesus descreveu como Espírito de Verdade e Consolador, fazendo parecer, destarte, que o uso bíblico é apenas um artifício de autopromoção com a atitude de aproveitar de um corpo textual bem estruturado e famoso para isso, tal qual fez Gandhi em relação ao Bhagavad-gita. Contudo, façamos outra reflexão. Se o espiritismo veio para adicionar aos ensinamentos de Jesus a explicação de como as pessoas sofrem por reações a atos de vida passada*, o que não podia ser explicado 2.000 anos atrás onde Jesus pregou, o que podemos esperar dos ensinamentos da Índia, onde se falou o Bhagavad-gita 5.000 anos atrás, no qual se fala claramente de tudo o que o espiritismo fala apenas hoje? No Bhagavad-gita, temos instruções claras sobre caridade, reencarnação, amor a Deus e assim por diante. Se 5.000 anos atrás, 3.000 anos antes de Jesus poder falar limitadamente, e quase 5.000 anos antes do espiritismo poder falar o que fala hoje, o povo da Índia estava pronto para esse conhecimento, o que será que podemos aprender com a Índia hoje, especialmente em uma sucessão ininterrupta de mestres e discípulos desde o Bhagavad-gita 5.000 anos atrás, sucessão esta representada, entre outros, por Prabhupada, o fundador do Movimento Hare Krishna?

*“[O espiritismo] vem, finalmente, trazer a consolação suprema aos deserdados da Terra e a todos os que sofrem, atribuindo causa justa e fim útil a todas as dores”. (Evangelho Segundo o Espiritismo 6.4)

Sobre caridade, entre outros versos, Krishna, ou Deus, diz no Bhagavad-gita (17.20-22, 18.22,68):

A caridade dada por dever, sem expectativa de recompensa, no local e hora apropriados e dada a alguém digno, está no modo da bondade. Mas a caridade executada com expectativa de alguma recompensa, ou com desejo de resultados fruitivos, ou com má vontade, diz-se que é caridade no modo da paixão. E a caridade executada em lugar impuro, em hora imprópria e feita a pessoas indignas ou sem a devida atenção e respeito diz-se que está no modo da ignorância. Os atos de sacrifício, caridade e penitência não devem ser abandonados, mas sim executados. Na verdade, sacrifício, caridade e penitência purificam até as grandes almas. Para aquele que explica aos devotos este segredo supremo, o serviço devocional puro está garantido, e, no final, ele voltará a Mim. Não há neste mundo servo que Me seja mais querido do que ele, tampouco jamais haverá alguém mais querido.

Sobre reencarnação, diz (22.12-17, 20-25 e 28-30):

Nunca houve um tempo em que Eu não existisse, nem você, nem todos esses reis, e, no futuro, nenhum de nós deixará de existir. Assim como a alma encarnada passa seguidamente, neste corpo, da infância à juventude e à velhice, da mesma maneira, a alma passa para outro corpo após a morte. Uma pessoa sóbria não se confunde com tal mudança. Ó filho de Kunti, o aparecimento temporário da felicidade e da aflição, e o seu desaparecimento no devido tempo, são como o aparecimento e o desaparecimento das estações de inverno e verão. Eles surgem da percepção sensorial, ó descendente de Bharata, e precisa-se aprender a tolerá-los sem se perturbar. Ó melhor entre os homens [Arjuna], quem não se deixa perturbar pela felicidade ou aflição e permanece estável em ambas as circunstâncias, está certamente qualificado para a liberação. Aqueles que são videntes da verdade concluíram que não há continuidade para o inexistente [o corpo material] e que não há interrupção para o existente [a alma]. Eles concluíram isto estudando a natureza de ambos. Saiba que aquilo que penetra o corpo inteiro é indestrutível. Ninguém é capaz de destruir a alma imperecível. Para a alma, em tempo algum existe nascimento ou morte. Ela não passou a existir, não passa a existir e nem passará a existir. Ela é não nascida, eterna, sempre existente e primordial. Ela não morre quando o corpo morre. Assim como alguém veste roupas novas, abandonando as antigas, a alma aceita novos corpos materiais, abandonando os velhos e inúteis. A alma nunca pode ser cortada em pedaços por arma alguma, nem pode ser queimada pelo fogo, ou umedecida pela água ou definhada pelo vento. Esta alma individual é inquebrável e indissolúvel, e não pode ser queimada nem seca. Ela é permanente, está presente em toda a parte, é imutável, imóvel e eternamente a mesma. Diz-se que a alma é invisível, inconcebível e imutável. Sabendo disto, você não deve se afligir por causa do corpo. Todos os seres criados são imanifestos no seu começo, manifestos no seu estado intermediário, e de novo imanifestos quando aniquilados. Então, qual a necessidade de lamentação? Alguns consideram a alma como surpreendente, outros descrevem-na como surpreendente, e alguns ouvem dizer que ela é surpreendente, enquanto outros, mesmo após ouvir sobre ela, não podem absolutamente compreendê-la. Ó descendente de Bharata, aquele que mora no corpo nunca pode ser morto. Portanto, você não precisa afligir-se por nenhum ser vivo.

Sobre o amor a Deus, diferentemente do espiritismo, a consciência de Krishna sabe conciliá-la com a lei do karma, sem retirar o panorama de misericórdia e a importância do louvor exclusivo a Deus. Na consciência de Krishna, não se alcança Deus através do acúmulo de bom karma, senão que este conduz a alma apenas a dimensões superiores de conforto, conhecimento e bondade. Contudo, a lei do karma é a resposta de Deus às almas que não quiseram morar no reino dEle, onde Ele controla tudo. Assim, rebeldes do controle de Deus, Deus cria-lhes o mundo material – que inclui a morada dos espíritos –, onde elas mesmas são as controladoras e Ele nada faz, isto é, os atos das almas condicionadas determinam sua ventura ou desventura, não Deus. Querer chegar a Deus pelo acúmulo de bom karma é manter a mentalidade de ser o controlador e autossuficiente: “Sou alguém que pode sair do mundo material por meu próprio esforço e mérito”. Quando alguém se rende a Deus, ele se livra tanto do bom karma quanto do mau karma, tornando-se akarma*, isto é, tornando-se alguém que não terá mais nenhuma existência promovida por seus próprios atos, mas existirá no reino de Deus, onde Deus é o controlador direto. Estas e outras instruções estão no Bhagavad-gita claramente.

*“Aquele ocupado em serviço devocional se livra tanto das boas quanto das más reações, mesmo nesta vida. Esforça-te, portanto, pelo yoga, que é a arte de todo trabalho”. (Bhagavad-gita 2.50)

Em resumo, pode-se ver o espiritismo como uma revelação inválida porquanto não sustenta os atributos que diz ter, lembrando, proceder do Pai; não ensinar algo diferente do que Jesus disse; guiar as pessoas em toda verdade; e não falar de si mesmo, mas antes do que houver ouvido.

Neste ponto, algumas perguntas interessantes podem estar visitando a inteligência do leitor. Por exemplo, o Bhagavad-gita não descreve com toda a lucidez de detalhes as colônias e planetas superiores, como faz o espiritismo. Isto não faria do espiritismo superior? O Bhagavad-gita possui uma justificativa para não fazer semelhante descrição. Os Vedas o fizeram profusamente, e a crítica de Krishna, no Bhagavad-gita (2.27), é esta: “Os homens de pouco conhecimento estão muitíssimo apegados às palavras floridas dos Vedas, que recomendam várias atividades fruitivas àqueles que desejam elevar-se aos planetas celestiais, com o consequente bom nascimento, poder e assim por diante. Por estarem ávidos por gozo dos sentidos e vida opulenta, eles dizem que isto é tudo o que existe”. E completa, em Bhagavad-gita 8.16, dizendo que mesmo a morada de Brahma, a morada mais elevada que existe, em seis camadas superiores à residência dos espíritos, ou bhutas, é miserável. Assim, ouvir as descrições de tais lugares apenas aumenta o nosso desejo de tentarmos ser felizes longe de Deus: “Aqui está ruim, mas lá, apesar de Deus não residir lá pessoalmente, vai ser bom”. Contudo, na opinião de Krishna, lá também é ruim, até a residência de Brahma, sendo bom apenas onde Ele mora em Seu aspecto pessoal*, morada esta chamada Vaikuntha. Krishna chama as descrições de tais lugares de “linguagem florida” porque aqueles que os descrevem não os descrevem de modo justo, senão que descrevem impressionados em ter um local onde têm mais conforto do que tinham na superfície da Terra ou em outros lugares.

*“Transcendentalistas doutos, os quais conhecem a Verdade Absoluta, chamam essa substância não dual de Brahman [a refulgência de luz que emana do aspecto pessoal de Deus], Paramatma [Deus como a testemunha e o mestre espiritual residente no coração do corpo sutil] ou Bhagavan [Deus em Si, em Seu aspecto pessoal com o qual interage sobretudo com as almas liberadas de todo condicionamento grosseiro e sutil]”. (Srimad-Bhagavatam 1.2.11)

No filme Nosso Lar, por exemplo, encontramos:

“Aos poucos, tudo começava a fazer sentido. Nosso Lar era a vida real, e a Terra apenas uma passagem”. (36:00) Se o espírito progride por várias moradas, por que o Nosso Lar não é tratado apenas como passagem, tal como se chamou de passageira a Terra? Em outra cena, André Luiz diz: “Eu ainda era o mesmo homem, preso aos meus próprios erros, ao meu egoísmo, ao meu passado”. (36:40) Diante disso, não é possível ter os moradores de tal local como autoridades, o que dizer de autoridades livres de todo erro, embora eles se vejam assim, com na cena em 1:04:00, onde uma servidora da colônia Nosso Lar leva para André Luiz o registro de orações feitas a ele, gravadas em uma espécie de pen drive, e diz que ali não há erros:

– Nossa, demorei a achar. Faz tempo não é? Só tem dois arquivos.

– Como assim?

– O registro de duas pessoas.

– Só duas? Você colocou meu nome correto? “André Luiz”.

– Não há erros aqui, senhor.

Como pode não haver erros em um local onde trabalha pessoas presas em seus próprios erros, egoísmo e passado? Se ela teve dificuldade em encontrar – como aponta com os dizeres “Nossa, demorei a achar” – as duas pessoas que oraram a André Luiz, como pode não haver possibilidade de erros ou de não encontrar? Isto é o que define linguagem florida: Descrever um local temporário, com sofrimento e pessoas imperfeitas como sendo “Nosso Lar, a vida real, um local onde não há erros, etc.”; é precisamente o que Krishna diz ser produto de pessoas que estão ávidas por conforto e gozo dos sentidos.

O Bhagavad-gita e as escrituras que o sucedem, no entanto, após condenarem semelhante audição ou leitura, descrevem com minúcias o mundo onde Deus reside com as almas puras e toda a interação que se dá entre os mesmos. Destacamos a obra Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, de Srila Prabhupada, a leitura da qual se recomenda após a leitura de O Bhagavad-gita Como Ele É, do mesmo autor.

Uma análise da posição dos espíritos segundo a consciência de Krishna

Hare krishna hare RamaAntes de colocarmos a posição dos espíritos na consciência de Krishna, esclareçamos questões conceituais. A consciência de Krishna chama de espiritual aquilo que é eterno, pleno de conhecimento e pleno de bem-aventurança, de modo que jamais chamará a colônia Nosso Lar, por exemplo, de espiritual, haja vista que, segundo a obra homônima, foi fundada no século XVI, é a residência de pessoas egoístas que precisam renascer etc. e é um local onde há variados sofrimentos. Temporariedade: “‘Nosso Lar’ é antiga fundação de portugueses distintos, desencarnados no Brasil, no século XVI”. (p. 48) Ignorância: “Notando-me a dificuldade para apreender todo o conteúdo do ensinamento, com vistas à minha quase total ignorância dos princípios espirituais, Lísias procurou tornar a lição mais clara”. (p. 66) Tristeza: “Notando que a senhora Laura entristecera subitamente ao recordar o marido, modifiquei o rumo da palestra” (p. 116).

*XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Brasília: FEB, 1996.

Assim, as colônias também são chamadas de materiais por nós. A morada de Deus, Krishna, sim é chamada espiritual, haja vista que não possui data de fundação nem se a deixa uma vez que se a tenha alcançado, todos lá possuem conhecimento perfeito acerca de tudo simplesmente por lá estarem e desconhecem qualquer espécie de sofrimento. Residência eterna para os que a alcançam: “Essa Minha morada suprema não é iluminada pelo Sol ou pela Lua, nem pelo fogo ou pela eletricidade. Aqueles que a alcançam jamais retornam a este mundo material”. (Bhagavad-gita 15.6) A morada em si: “Quando todo este mundo é aniquilado, aquela região [a morada de Deus] permanece inalterada. Aquilo que os vedantistas descrevem como imanifesto e infalível, aquilo que é conhecido como o destino supremo, aquele lugar do qual jamais se retorna após alcançá-lo – essa é Minha morada suprema”. (idem. 8.20-21)

Aqueles que se comunicam com os médiuns não são chamados de espíritos, pois eles não estão na morada espiritual de Deus, de modo que seus corpos têm que ser feitos da mesma substância da morada deles. Aqueles que moram na morada de Deus, que é eterna, plena de conhecimento e de bem-aventurança, têm um corpo dessa natureza, chamado em sânscrito de siddha-deha, ao passo que aqueles que residem na parte sutil do mundo material possuem corpos sutis materiais. Para se entrar no reino de Deus, é preciso abandonar também o corpo sutil, o que se chama liberação, ou moksha. Caso se abandone o corpo sutil sem o desejo de servir Deus, mas apenas por se atingir um estágio de não possuir nenhum desejo egoísta, a alma, sem nenhum corpo, funde-se na refulgência do corpo de Deus (Brahman). Caso abandone o corpo sutil, tendo atingido a perfeição de não ter nenhum desejo egoísta, mas possuindo o desejo de servir Deus, recebe um corpo da mesma natureza do corpo de Deus, lembrando, um corpo eterno, pleno de conhecimento e de bem-aventurança.

Aqueles chamados pelo espiritismo de espíritos de luz e espíritos de pouca luz são chamados ambos de bhutas, que significa “apegados ao passado”. Quando errantes, ficam nesta condição:

Aqueles que são muito pecaminosos e apegados à sua família, casa, vila ou país não recebem um corpo grosseiro feitos dos elementos materiais, senão que permanecem em um corpo sutil, composto de mente, ego e inteligência. Aqueles que vivem em tais corpos sutis são chamados de fantasmas (ghosts*). Essa posição fantasmagórica é muito dolorosa, porque um fantasma tem o corpo sutil e quer desfrutar da vida material, mas, porque ele não tem um corpo material grosseiro, tudo o que ele pode fazer é criar perturbações** devido à falta de satisfação material. (Srimad-Bhagavatam 4.18.18, significado)

*A palavra que Prabhupada usa em inglês é ghost, a qual parece ser cognato com a palavra sânscrita guha. Guha significa literalmente tanto “conhecido por poucos” como “residente no coração”. A palavra que atualmente traduz ghost nos livros de Prabhupada em português, no entanto, é bastante infeliz, porque a raiz de fantasma é fantasia, isto é, algo que não existe fatualmente. Por ora, utilizaremos “fantasma”, embora um termo mais apropriado em português esteja em debate pelos responsáveis pelas traduções em português das obras de Prabhupada e outras.

**Algumas de tais perturbações são descritas no Garuda Purana (2.9.57-62): “Falar-te-ei agora acerca dos tormentos ocasionados pelos fantasmas contra as pessoas na Terra. Quando uma mulher menstrua em vez de engravidar, não havendo crescimento da família apesar de vida sexual saudável, isso é influência de fantasmas. Também é influência de fantasmas quando alguém morre jovem, perde repentinamente seu emprego, é objeto de insultos, quando há repentino incêndio em uma casa, vê-se que em uma casa há constante desunião e brigas, falsos elogios, sofrimento devido à ganância, e doenças que suscitam vergonha. Quando o dinheiro investido da maneira correta não rende, mas se perde, isso se deve à perseguição de um fantasma. Quando safras se perdem mesmo após chuva apropriada, quando atividades comerciais fracassam, quando a esposa ou o esposo se mostra irritado, isso se deve à influência de fantasmas”.

Quando se enfartam de causar perturbações, caso tenham algum mérito piedoso, podem ir para Antariksa, ou podem ir diretamente para lá caso sejam semipiedosos, como descreve o Srimad-Bhagavatam (5.24.5): “Abaixo de Vidyadhara-loka, Caranaloka e Siddhaloka, no céu conhecido como Antariksa, estão os locais de desfrute dos yaksas, raksasas, pisacas, bhutas e assim por diante”. Estes são diferentes nomes para designar aqueles que não têm corpos grosseiros. O mais comum é bhuta. Parece-me seguro dizer que essa morada descrita como Antariksa é a mesma descrita pelos espíritas, tanto por ser a morada paradisíaca dos bhutas, aqueles apegados à família e com algum envolvimento mais ou menos recente com pecados, e por sua descrição espacial mais adiante no mesmo verso: “Antariksa se estende até onde o vento sopra e as nuvens flutuam no céu. Acima de Antariksa, não há mais ar”, o que coincide com a maior parte das descrições espíritas.

Assim, a condição de não ter um corpo grosseiro é tida como algo negativo, e embora tenham uma morada confortável destinada para eles, essa morada continua sendo a morada de pessoas identificadas com o corpo, apegadas à família, sujeitas aos defeitos das almas condicionadas – a saber, a tendência a enganar os outros, a enganar a si mesmos, possuir sentidos imperfeitos e cometer erros*. Logo não é uma posição desejável estar com eles, tampouco suas instruções devem ser tidas como de pessoas abalizadas nos entendimentos acerca de Deus e de Sua vontade. O conhecimento consciente de Krishna então divide as moradas acima de Antariksa, todas também materiais na definição consciente de Krishna, em seis agrupamentos: Bhuvarloka, Svargaloka, Maharloka, Janaloka, Tapoloka e Satyaloka.

*Cf. Sri Caitanya-caritamrta Adi-lila 7.107 e 2.86. (vedabase.com/en/cc)

Há aqui, no entanto, duas divergências entre a consciência de Krishna e o espiritismo. Primeiramente, não se chega a essas moradas apenas com o corpo sutil, corpo de bhuta, no sentido de que das colônias, ou de Antariksa, evolui-se mais e se continua sutilizando o corpo até as moradas superiores. Tais moradas possuem corpos grosseiros refinadíssimos para seus residentes, os quais lhe dão mais oportunidades do que possui o corpo sutil sozinho*. Em Satyaloka reside Brahma, que é a entidade viva mais poderosa e pura do mundo material, o qual preside todos os planetas, e Brahma possui um corpo grosseiro. Outra divergência é que nenhum dos moradores destes planetas, para não falar dos residentes de Antariksa, com seu peculiar apego aos laços familiares, pode estabelecer o caminho religioso para os terrestres ou qualquer outra pessoa. Isso é declarado no Srimad-Bhagavatam (6.3.19): “Os verdadeiros princípios religiosos são enunciados pela Suprema Personalidade de Deus. Embora completamente situados no modo da bondade, nem mesmo grandes sábios que ocupam os planetas mais elevados podem determinar os princípios religiosos verdadeiros, tampouco o podem os devas [residentes de Svargaloka] ou os líderes de Siddhaloka [um planeta da esfera Bhuvarloka], isso para não falar dos asuras [literalmente, pessoas sem (a-) luz (sura)], dos seres humanos comuns, os Vidyadharas e Caranas [outros residentes de outros dois planetas de Bhuvarloka]”.

*Uma vez que não obter um corpo grosseiro é prerrogativa dos pecadores, não é possível aceitar que Brahma, por exemplo, a entidade que preside a morada material [material na acepção daqueles conscientes de Krishna] mais elevada não tenha um corpo grosseiro dado que, apenas para residir em seu planeta, para não falar de ter o seu cargo, exige-se que, ao longo de 100 vidas, o indivíduo aspirante não se desvie de nenhum dever prescrito (Brhad-bhagavatamrta 1.2.49, dig-darsini). Além disso, vê-se que personalidades como Indra, de Svargaloka; Hanuman, de Bhuvarloka, e Manu e outros interagem com os seres humanos sem qualquer dificuldade ou necessidade de um médium ou algo similar. Em 28 de dezembro de 1972, em Bombaim, transcorreu a seguinte conversa entre Prabhupada e seus discípulos:

“Devota: Na Lua, há corpos de uma natureza mais sutil de modo que, se fôssemos lá, não seríamos capazes de vê-los? Prabhupada: Não. Você pode vê-los. Eles têm corpo material. Devota: Poderíamos vê-lo com nossos olhos? Prabhupada: Sim. Por que não? Na água, por exemplo, os corpos dos aquáticos são diferentes, mas você pode vê-los. Por que não? Se não fosse visível, como você está vendo a Lua? Se você está vendo a Lua, então não é invisível. A Lua é uma morada celestial [Svargaloka]; os semideuses [devas] vivem lá. Temos essas informações. Eles também são inteligentes: ‘Essas pessoas [os astronautas] estão vindo do planeta terrestre desautorizadamente. Então, divirjamo-los para a porção desértica’. Se a Lua é celestial, seus habitantes são mais inteligentes do que vocês; logo, se vocês têm uma máquina para chegar lá, eles têm uma máquina para divergi-los. ‘Esses sujeitos infames estão vindo aqui sem nenhuma licença de imigração. Que eles sejam divergidos para a porção desértica e, desapontados, irão embora’. Devoto: Há terra nos corpos deles ou seus corpos são feitos de ar? Prabhupada: Não. Estes corpos têm cinco elementos: terra, ar, água, fogo e éter. O corpo sutil: mente, inteligência e ego. Em algum planeta, a porção de terra pode ser maior ou a porção de fogo ou a porção de éter, mas são todos corpos materiais; não são corpos espirituais. O corpo espiritual está dentro. A qualquer lugar que você vá dentro do universo, você obtém o corpo material, e, segundo o corpo, a duração de vida é diferente”.

Assim fica evidente que ter apenas o corpo sutil é desprivilegio, não sintoma de estado de consciência superior. Segundo citado anteriormente, a não obtenção de um corpo grosseiro decorre de apego familiar, ou do passado de modo geral, e acúmulo de pecados, e não de sintoma de “evolução da consciência”.

Enquanto as escrituras descrevem os residentes de Antariksa como bhutas, “pecadores apegados à família imediata ou estendida”, as escrituras descrevem os residentes de planetas superiores, por exemplo, como indivíduos com o seguinte mérito: “Vosso mundo [Brahmaloka] pode ser auferido somente por pessoas santas que observam sem nenhum pecado seus deveres sociais prescritos, livres de orgulho e outros vícios, ao longo de cem vidas”. (Brhad-bhagavatamrta 1.2.49, dig-darsini) Se mesmo tais pessoas muito superiores não podem estabelecer códigos de religião, certamente não o podem os bhutas.

Neste ponto talvez já tenha surgido um questionamento muito interessante no leitor. “Você, um membro da Sociedade Internacional para a consciência de Krishna, está negando a autoridade dos espíritos, ou bhutas, bem como de personalidades mais elevadas do que eles em dimensões superiores, mas, acaso, você também não é alguém falível, tanto você quanto Srila Prabhupada? O verso supracitado do Srimad-Bhagavatam diz que os devas, siddhas etc. não podem estabelecer os princípios religiosos, mas também menciona que não o podem os ‘seres humanos comuns’”.

Certamente Prabhupada, como apenas uma centelha de Deus, e não Deus em pessoa, é falível. Contudo, diferentemente dos bhutas, ou espíritos, ele assume sua condição de não poder chegar a algum conhecimento perfeito através de seus sentidos e deduções, isto é, através de ciência e filosofia. Algumas vezes, acredita-se que os espíritos que ditam estão em contato com outro espírito mais elevado que está em contato com outro espírito mais elevado e assim por diante até alguém perfeito em contato com Deus. Contudo, analisando as obras, sabemos que não é isso o que acontece. Em A Gênese (17.32), por exemplo, encontramos a ideia de que o espiritismo se tornará a religião mundial de todos por meio da razão e da ciência:

Entretanto, a unidade se fará em religião, como já tende a fazer-se socialmente, politicamente, comercialmente, pela queda das barreiras que separam os povos, pela assimilação dos costumes, dos usos, da linguagem. Os povos do mundo inteiro já confraternizam, como os das províncias de um mesmo império. Pressente-se essa unidade e todos a desejam. Ela se fará pela força das coisas, porque há de tornar-se uma necessidade, para que se estreitem os laços da fraternidade entre as nações; far-se-á pelo desenvolvimento da razão humana, que se tornará apta a compreender a puerilidade de todas as dissidências; pelo progresso das ciências, a demonstrar cada dia mais os erros materiais sobre que tais dissidências assentam e a destacar pouco a pouco das suas fiadas as pedras estragadas. Demolindo nas religiões o que é obra dos homens e fruto de sua ignorância das leis da Natureza, a Ciência não poderá destruir, malgrado a opinião de alguns, o que é obra de Deus e eterna verdade. Afastando os acessórios, ela prepara as vias para a unidade.

Interessante notar a analogia de que haverá uma só religião pela força da ciência e da razão humana assim como os povos estão se unindo social e politicamente. Algumas décadas após esses dizeres, irrompeu-se a primeira guerra mundial, e algumas décadas mais à frente, com a ciência e a dita razão em seu auge, a segunda guerra mundial, na qual se conseguiu matar muito mais do que na primeira. Hoje a globalização comercial se mostra um evento que tornou o mundo um grande supermercado de futilidades e artigos degradantes – com a grandiosa internet tendo como dois terços de seu conteúdo pornografia – e o sucesso em reproduzir a alimentação e o entretenimento americanos é o parâmetro de se um país é desenvolvido ou não. Se o espírito for tão feliz em sua previsão do espiritismo como a religião que unirá todos os religiosos do mundo quanto foi feliz em dizer que o mundo caminhava para uma união social, política e comercial, então certamente a ciência e a razão não são meios para se conhecer os desígnios de Deus e unificar as crenças. A razão e a ciência da pós-modernidade mostram como algo percebido com os sentidos, a mente e a inteligência sempre será subjetivo e, logo, jamais unificador, mas produtor das mais diferentes teorias, todas necessariamente falhas.

Que os espíritos usam de seus sentidos e inteligência falíveis para suas conclusões já foi exposto em suas conclusões permeadas de dúvidas, e que se valem de ciência e especulação é algo que expressam com frequência e vaidade, sobretudo em A Gênese. É interessante notar que Allan Kardec se opõe à razão e à percepção direta como meios válidos, mas falhou em perceber que, embora os espíritos tenham melhores recursos – supostamente – para poderem perceber a reencarnação como fato, têm recursos insuficientes para dizerem tudo o que dizem, como falar sobre Deus ou a origem e o propósito do Universo.

O homem que julga infalível a sua razão está bem perto do erro. Mesmo aqueles, cujas ideias são as mais falsas, se apoiam na sua própria razão e é por isso que rejeitam tudo o que lhes parece impossível. Os que outrora repeliram as admiráveis descobertas de que a Humanidade se honra, todos endereçavam seus apelos a esse juiz, para repeli-las. O que se chama razão não é muitas vezes senão orgulho disfarçado e quem quer que se considere infalível apresenta-se como igual a Deus. Dirigimo-nos, pois, aos ponderados, que duvidam do que não viram, mas que, julgando do futuro pelo passado, não creem que o homem haja chegado ao apogeu nem que a Natureza lhe tenha facultado ler a última página do seu livro. (Livro dos Espíritos, p. 30)

Soube muito bem Allan Kardec determinar os percalços da razão e da vaidade, mas não os soube identificar nesses mesmos homens esses defeitos depois de mortos – algo bastante próprio para alguém deslumbrado ante o conhecimento da reencarnação, o que jamais aconteceria se fosse nascido na Índia e estudioso da consciência de Krishna. Neste caso, poderia analisar tudo sem deslumbramento, haja vista a popularidade do conhecimento das existências múltiplas – mero pressuposto.

Sobre a questão epistemológica, os Vedas dizem que a ciência e a filosofia, ou o conhecimento ascendente, sempre será imperfeito, em especial no que diz respeito a Deus, uma vez que Deus é inalcançável pelos esforços das almas em corpos materiais*, o que inclui os bhutas, em virtude dos já mencionados quatro defeitos das almas condicionadas. No entanto, os Vedas falam de uma terceira epistemologia, chamada sabda-pramana, ou o conhecimento revelado – revelado necessariamente por Deus, é claro. Assim é que, embora Prabhupada e eu sejamos seres humanos comuns, superamos toda a nossa condição precária ao não expressarmos nenhuma opinião reunida de pesquisas, reflexões pessoais ou revelações de pessoas falíveis. Srila Prabhupada diz:

*“Adoro Govinda, o Senhor primordial, aquele além da concepção material, aquele cuja ponta dos dedos dos pés de lótus é tudo o que abordam os yogis que aspiram ao transcendente e recorrem a pranayama exercitando a respiração, ou o que abordam os jnanis que tentam encontrar o Brahman não-diferenciado por meio do processo de eliminação do mundano, alongando-se nisso por milhares de milhões de anos”. (Brahma-samhita 5.34)

Porque eles são todos infames e néscios, o que eles [aqueles que adotam o método científico como epistemologia] podem descobrir? Eles simplesmente teorizam com base em sua necedade – isto é tudo. Esse é o afazer deles. Não há fatos. E aqueles que são infames acreditam neles – isto é tudo. Então, não somos semelhantes sujeitos, porque o nosso conhecimento é recebido a partir do maior cientista, Krishna [Deus]. Eu, pessoalmente, posso ser um patife, mas, porque sigo o maior cientista, minha proposição é científica.

Prabhupada aceita que ele, pessoalmente, possa ser um “patife”, mas, diferentemente dos espíritos reveladores, ele não dá vazão à sua “patifaria” ao tentar produzir algum conhecimento por suas reflexões e observações, senão que aceita Krishna, Deus, o cientista supremo e infalível, e repete apenas o que Ele diz. Eu, do mesmo modo, repito o que Prabhupada diz.

O Movimento Hare Krishna, no entanto, não é uma religião de algum “velhinho indiano” que recebeu uma revelação magnífica de Deus e passou a liderar as pessoas. A revelação de Deus, ou do cientista supremo, a que se refere Prabhupada está inteiramente registrada no Bhagavad-gita e outras obras similares, às quais todos têm acesso direto para constatar como Prabhupada e seus seguidores estão ensinando e fazendo apenas o que Deus falou. Por que aceitar que esse livro é infalível e realmente revelado por Deus? Quanto a isso, Krishna diz que a religião se dá por experiência direta (Bhagavad-gita 9.2), ou seja, cada leitor deste terá de tirar sua conclusão após ler o Bhagavad-gita como o próprio Gita diz que ele deve ser lido: Na companhia dos devotos de Deus e com os esclarecimentos de um devoto de Deus entendido. Não tenho interesse no “eu acredito que seja realmente revelada”, tampouco podemos agrupar o Bhagavad-gita em “todas as outras obras ditas reveladas que li sei que não eram”, pois seria um preconceito.

Em resumo, analisando as obras canônicas do espiritismo, encontramos que parece que os espíritos não são quem dizem ser, e, segundo a consciência de Krishna, apenas Deus pode revelar a religião à humanidade, e quem quiser ensinar às pessoas o caminho da religião deverá conhecê-lo diretamente com Deus ou, mais possivelmente, com alguém que esteja em uma sucessão que comece com o próprio Deus e não subordine a revelação de Deus ao que se pode entender com os sentidos e a mente, independente de quão refinado seja o corpo que reveste a alma pura. As almas que atualmente se encontram no estado de bhutas não possuem nenhuma qualificação especial que lhes permita esclarecer outros acerca de vedanta, a conclusão de todo conhecimento, salvo caso digam apenas o que Deus falou ou o que disse alguém que ouviu diretamente de Deus. Não se vê isso nos reveladores do espiritismo.

No Srimad-Bhagavatam e, mais sinteticamente, na introdução do Bhagavad-gita Como Ele É, de Srila Prabhupada, encontramos como o conhecimento perfeito da consciência de Krishna chegou à Terra, tendo sido ensinado por Deus a Brahma, que o ensinou a Narada, que, com seu corpo especial, veio à Terra e o ensinou a Vyasadeva, que o escreveu sobretudo no Srimad-Bhagavatam, cuja introdução é o Bhagavad-gita*.

*Embora o Bhagavad-gita e o Srimad-Bhagavatam abordem os mesmos temas, o Srimad-Bhagavatam é considerado superior porque seus ouvintes eram sábios autocontrolados e santos, com tempo disponível para desdobramento de muitos assuntos, ao passo que o Bhagavad-gita foi falado a um guerreiro pouco tempo antes do começo de uma guerra.

Entre os espíritas às vezes se acredita que desencarnados piedosos são em geral superiores a piedosos encarnados. Contudo, isso pode ser mera crença, pois, afinal, não era Jesus, encarnado, mais elevado do que todos os Espíritos*? Assim, não há fundamento para dizer que os mestres encarnados que seguem a sucessão discipular que começa com o próprio Krishna, Deus, sejam inferiores por terem misericordiosamente vindo a este mundo. Além disso, há a vantagem de que não é possível ser alguém passando por outrem, como frequentemente acontece em psicografias. Insisto no ponto anterior. Se os cristãos apenas agora estão prontos para a temática da reencarnação, por que um buscador sincero não beberia do Bhagavad-gita e do Srimad-Bhagavatam, falado a um povo que, 3.000 anos antes do nascimento de Jesus, já estava pronto para esse conhecimento, analisado a fundo, bem como prontos para tópicos jamais explorados pelos espíritas, como as dinâmicas da vida junto a Deus, a Personalidade de Deus, os três modos da natureza material, uma descrição completa do Universo de uma perspectiva revelada, desde o planeta mais baixo ao mais elevado?

*À pergunta de se Jesus seria médium, isto é, alguém cujas palavras e obras decorrem de inspiração de Espíritos, é dada a seguinte resposta, que atesta que a visão espírita é que alguém encarnado pode ser superior a todos os Espíritos e unicamente prestar-lhes serviço, sem receber deles nenhum: “Não, porquanto o médium é um intermediário, um instrumento de que se servem os Espíritos desencarnados, e o Cristo não precisava de assistência, pois que era ele quem assistia os outros. Agia por si mesmo, em virtude do seu poder pessoal… Que Espírito, ao demais, ousaria insuflar-lhe seus próprios pensamentos e encarregá-lo de os transmitir? Se algum influxo estranho recebia, esse só de Deus lhe poderia vir. Segundo definição dada por um Espírito, ele era médium de Deus”. (A Gênese 15.2)

Caso alguém insista que a consciência de Krishna não descreve as colônias e outras residências materiais tão bem quanto o espiritismo, julgo válido citar este verso do Bhagavad-gita (8.6): “Qualquer que seja o estado de existência de que alguém se lembre ao deixar o corpo, ó filho de Kunti, esse mesmo estado ele alcançará impreterivelmente”. Deste modo, caso Krishna Se detivesse a descrever a fundo moradas que não são o verdadeiro lar eterno das almas, nem um local onde elas finalmente encontrarão o néctar pelo qual sempre ansiaram, de ter uma existência contínua, plena de conhecimento e plena de bem-aventurança junto a Deus, Ele estaria encaminhando as almas para uma nova situação material pós-morte. Ele diz: “Aqueles que adoram os semideuses nascerão entre os semideuses, aqueles que adoram os ancestrais irão ter com os ancestrais, aqueles que adoram espíritos [bhutani] nascerão entre tais seres, e aqueles que Me adoram viverão coMigo”.

Quanto à inferioridade de nascer entre os bhutas, Krishna sequer se detém em fazê-lo, senão que o faz apenas em relação aos semideuses, pois, sendo muito mais elevados e residentes de planetas muito superiores*, dizer que ir ter com eles após a morte não é uma atitude inteligente basta para que entendamos que o destino junto aos bhutas é igualmente ruim. “Homens de pouca inteligência adoram os semideuses, e seus frutos são limitados e temporários. Aqueles que adoram os semideuses vão para os planetas dos semideuses, mas Meus devotos acabam alcançando Meu planeta supremo”. (Bhagavad-gita 7.23) Planeta este sobre o qual já citamos ser um planeta do qual jamais se retornará após ter sido alcançado e ser um planeta livre de qualquer sofrimento e permissor de contato direto com Deus.

*”Abaixo de Vidyadhara-loka, Caranaloka e Siddhaloka, no céu conhecido como Antariksa, estão os locais de desfrute dos Yaksas, Raksasas, Pisacas, Bhutas e assim por diante”. (Srimad-Bhagavatam 5.24.5) (grifo nosso)

Que não se pode morar eternamente nos planetas dos semideuses, para não falar da dimensão dos bhutas, é confirmado por este verso, também do Bhagavad-gita: “Após desfrutarem desse imenso prazer celestial dos sentidos e terem esgotado os resultados de suas atividades piedosas, eles regressam a este planeta mortal” (9.21). Aqui é preciso mais um esclarecimento aos espíritas, que, ao confundirem a evolução da consciência em rendição a Deus com o acúmulo de bom karma, acreditam que o acúmulo de bom karma jamais se perde. É verdade que o progresso da consciência jamais se perde, mas esse nada tem a ver com onde se reside – não era Jesus superior a todos os atuais desencarnados residentes das melhores colônias? –, daí que o bom karma, o grande fator a determinar onde se reside, ser algo que se esvai, como explicado por Krishna neste verso. Krishna conclui Seu parecer sobre aqueles que buscam comprar residência em tais moradas temporárias, portanto, dizendo que são “homens de pouca inteligência”. (7.23)

Como apenas a residência de Deus, ou Krishna, pode nos satisfazer, e onde quer que esteja a nossa consciência na hora da morte, para lá iremos, Krishna recomenda: “Ocupa tua mente em pensar sempre em Mim, torna-te Meu devoto, oferece-Me reverências e Me adora. Estando absorto por completo em Mim, com certeza virás a Mim”. (9.34) É o mesmo mandamento maior, como ensinado por Jesus, “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento”, o qual os espíritas caprichosamente colocam em segundo plano, absorvem seu pensamento, seu coração e sua alma em bhutas, superestimam a morada celestial dos mesmos e consideram que chegarão a Deus acumulando méritos cármicos, comprando Deus assim como se compra uma morada material.

Esse caminho de ascensão pelo bom karma é chamado em sânscrito de karma-kandha, sobre o qual Bhaktivinoda, um mestre da sucessão discipular a que pertence a Sociedade Internacional para a consciência de Krishna, comenta: “Não é possível utilizar a causa de uma doença para curar essa mesma doença. O processo karma-kandha é a causa da doença material das entidades vivas. Tal processo jamais produzirá o fruto de destruir a existência material das entidades vivas”. (Sri Manah-Siksa, capítulo 10) A causa da doença das entidades vivas não estarem mais morando com Deus, de onde vieram, é que desejaram ser independentes dEle, para o que Ele lhes deu a lei do karma, uma lei automática, ou seja, que não depende de Sua presença ou intervenção pessoal. As entidades vivas quererem se elevar por meio de seus atos e pelas instruções de outras almas falíveis, e não se rendendo a Deus, é apenas um sintoma de que preservam sua doença de quererem ser independentes do controle de Deus.

Objeto de Culto

Alguém talvez diga: “Mas os seguidores de karma-kandha também adoram a Deus”. No concernente a isso, Bhaktivinoda comenta: “Karma não é nada senão atividades egoístas. Os karmis [seguidores do caminho karma-kandha] não buscam exclusivamente a misericórdia de Krishna. Embora respeitem Krishna, seu propósito principal é obter alguma sorte de felicidade”. (Sajjana Tosani 11.11)

Certamente os seguidores de karma-kandha nunca buscam exclusivamente a misericórdia de Krishna, ou Deus, mas é possível inclusive que indivíduos desenvolvam até mesmo o pensamento ateísta conhecido como karma-mimamsa, o qual, já mencionado antes, diz que, se alguém adora Deus, mas não age piedosamente, ele é castigado pela lei do karma, ao passo que alguém que não adora a Deus, mas age piedosamente, é elevado pela lei do karma. Diante desta fórmula, adorar ou não a Deus se torna irrelevante, logo a existência ou inexistência de Deus também se torna irrelevante. Seria este o pensamento que conduziu os espíritos a promoverem o “fazer ao próximo o que desejaria para si” acima do “adorar a Deus de toda sua alma”?

Neste ponto, o amigo leitor talvez tenha três possíveis questionamentos, os quais responderemos antes de chegarmos às considerações finais. “O espiritismo, ao menos, não aprimorou o conhecimento católico? Não é injusto categorizar os trabalhadores das colônias com os obsessores ambos sob o mesmo título de bhutas? Krishna diz que aqueles que adoram os bhutas vão ter com os bhutas, mas os espíritas não adoram os bhutas”.

O espiritismo teria aprimorado o catolicismo caso houvesse apenas adicionado a lei do karma a este e houvesse mantido a salvação por misericórdia de Deus por render-se inteiramente a Ele. Contudo, deslumbrados com a lei do karma, ofuscaram a adoração a Deus por esta. Além do mais, se o progresso se faz por conduta moral, e não por inteligência, de que adianta os espíritas terem mais conhecimento do que os católicos, supostamente, mas não terem projetos de caridade ou princípios morais superiores aos primeiros? Embora desconhecedores da lei do karma, os católicos nem se dão à prática proibida no velho testamento, de interrogar os mortos, nem querem alcançar Deus por seus próprios méritos, salvo o mérito de se renderem. Onde está o aprimoramento do espiritismo, então, que não soube conciliar lei do karma e rendição a Deus?

Krishna exemplifica de maneira simples que aqueles que adoram os bhutas irão ter com os bhutas, mas disse mais amplamente também que onde quer que esteja nosso estado de consciência, para lá iremos. Assim, aqueles que se absorvem em pensar e servir bhutas que tomam corpos para beber e fumar irão ter com tais bhutas, ao passo que aqueles que pensam e servem os bhutas que residem em Antariksa, irão para Antariksa. Há diferentes nomenclaturas sim em sânscrito para designar diferentes bhutas. Pode-se chamar alguns de yaksas, traduzidos no Srimad-Bhagavatam da BBT, a editora do Movimento Hare Krishna, como “superprotetores” (3.10.28) e “espíritos semipiedosos” (10.85.41), e outros de raksasas, “aqueles contra quem temos de nos proteger”. Contudo, dentro da dicotomia ir para Deus ou ir para os bhutas; diante de Deus, tanto os bhutas de mais luz quanto os de menos luz são apenas bhutas: Quem compararia o prazer de estar com eles com o prazer de estar com Deus?

Quanto ao espiritismo não adorar bhutas, teremos de analisar qual acepção da palavra adorar comportaria essa negação. A etimologia de adorar, “oferecer ouro”, certamente é algo mais peculiar a escolas de herança africana; contudo, se entendermos adorar como ensinam a Bíblia e o Bhagavad-gita, respectivamente “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu pensamento” e “Ocupa tua mente em pensar sempre em Mim”, os espíritas sim adoram os bhutas, conferindo-lhes parte do pensamento que Deus exige inteiramente para Si.

Considerações Finais

Enfim, aqueles adeptos da consciência de Krishna não devem se confundir nem se dar a sincretismos ou duplas pertenças com o espiritismo, haja vista que a consciência de Krishna explica-o inteiramente e vai além. Alguém consciente de Krishna deve estar convicto desta declaração de modo a não desejar elevação a moradas superiores dentro do mundo material:

O nascimento como um ser humano é o melhor de todos. Mesmo o nascimento entre os semideuses nos planetas celestiais não é tão glorioso quanto o nascimento como um ser humano na Terra. Qual é a utilidade da posição de um semideus? Nos planetas celestiais, devido a profusos confortos materiais, não há possibilidade de associação com os devotos. (Srimad-Bhagavatam 5.13.21)

Assim, é aqui na Terra, na companhia dos devotos que adoram exclusivamente Deus em completo esclarecimento pelas escrituras reveladas por Deus, companhia esta facilitada pela Sociedade Internacional para a consciência de Krishna, que nos valeremos dos meios para, no momento da morte, estarmos inteiramente absortos em Deus para com Ele irmos estar. Assim como alguém que acumula mau karma é obrigado a sofrer, aquele que acumula bom karma é obrigado a experimentar felicidade, saúde e bem-estar aqui neste mundo material, o que o faz achar que é feliz e que pode obter felicidade por seu próprio esforço, mesmo desconectado de Deus – certamente necedade.

Não há dúvidas que obter o estado de consciência de Krishna é difícil*, porém devemos dar o nosso melhor certos de que, onde o nosso melhor não chegue, chega a misericórdia de Krishna**. É válido lembrar que caso, neste esforço de estarmos absortos em Krishna, ou Deus, no momento de nossa morte, não sejamos bem-sucedidos, Krishna diz que não há perda, porque Ele próprio nos coloca nos planetas superiores, para terminarmos nossos desejos de tentarmos ser felizes mesmo morando em um local onde Ele não está pessoalmente presente, e, após essa residência, faz o arranjo para que nasçamos novamente na Terra em uma família que facilitará nossas práticas religiosas da consciência de Krishna*** quer provendo-nos as necessidades materiais sem que precisemos trabalhar arduamente, quer dando-nos diretamente o conhecimento espiritual.

*“Dentre muitos milhares de homens, talvez haja um que se esforce por obter a perfeição, e, dentre aqueles que alcançaram a perfeição, é difícil encontrar um que Me conheça de verdade”. (Bhagavad-gita 7.3) Certamente quase todas as pessoas se tornarão bhutas no momento da morte com a formação que se possui atualmente no mundo, salvo as pessoas deveras religiosas. Quase todos se tornarem bhutas à hora da morte, quer errantes (com muito pecado), quer residentes de Antariksa (semipiedosos), certamente reforçará a convicção dos residentes de Antariksa de que esse é o estado normal que se alcança à hora da morte, e aqueles que acreditavam diferente, que acreditavam que se pode alcançar a morada de Deus a partir desta vida na Terra; por não terem a conduta capaz de lhes dar esse resultado de ir ter com Deus, serão doutrinados a acreditarem que tal evento de tornar-se fantasma é normal, e não produto de iniquidade. Vejamos como são praticamente universais na atualidade as condições que tornam alguém bhuta à hora da morte, segundo o Garuda Purana (2.22.68-74):

“Se um homem come alimento oferecido por um homem caído e morre com esse alimento dentro de seu estômago antes de ter sido digerido, ele se torna fantasma. Um sacerdote que preside o sacrifício de uma pessoa indigna e negligencia aquele de um sacrificante digno, e um homem que vive na companhia de pessoas desprezíveis, ambos se tornam fantasmas. Aquele que se dá à companhia de bêbados e tem relação com uma mulher viciada em vinho ou que come carne sem qualquer culpa torna-se um fantasma. Aquele que rouba a propriedade de um brahmana [intelectual religioso] ou de um templo ou de seu preceptor se torna fantasma. Aquele que abandona sua mãe, sua irmã, sua esposa, sua filha ou sua cunhada, apesar de serem inocentes, torna-se um fantasma. Todos estes certamente se tornam fantasmas: Um homem que toma posse de algo ilegitimamente, um homem traiçoeiro para com seus amigos, alguém que se atrai pela mulher de outrem, um homem infiel e um canalha mentiroso. Um homem que odeia seus irmãos, o assassino de um brahmana, aqueles que matam vacas, alguém viciado em bebidas alcoólicas, alguém que deprava a cama de seu preceptor, alguém que negligencia ritos tradicionais, alguém afeito a contar mentiras, aqueles que roubam dinheiro e indivíduos que roubam terra – todos estes tornam-se fantasmas”.

Perguntas e Respostas

As perguntas aqui apresentadas são paráfrases de questões apresentadas por diferentes leitores e respondidas pelo autor do artigo.

O artigo completo, juntamente com esta seção de perguntas e respostas, pode ser acessado online clicando aqui e obtido em formato pdf clicando aqui. (links corrigidos e em funcionamento)

PERGUNTAS DE ADEPTOS DO ESPIRITISMO

1. Será que o senhor comparar reencarnação e metempsicose não é sinal de que o senhor tem pouca convicção pessoal no que diz acreditar, a metempsicose?

Quanto a compararmos nossa crença com o que não acreditamos, o espiritismo faz bastante isso, sobretudo com o catolicismo. O senhor deve estar ciente disso, mas cito apenas duas passagens que exemplifiquem. O espiritismo não acredita nem no diabo nem em milagres, e assim fala dessas crenças católicas:

“Cumpre também colocar entre as causas da loucura o pavor, sendo que o do diabo já desequilibrou mais de um cérebro. Quantas vítimas não têm feito os que abalam imaginações fracas com esse quadro, que cada vez mais pavoroso se esforçam por tornar, mediante horríveis pormenores? O diabo, dizem, só mete medo a crianças, é um freio para fazê-las ajuizadas. Sim, é do mesmo modo que o papão e o lobisomem”. (Livro dos Espíritos, Introdução 15)

“O que, para a Igreja, dá valor aos milagres é, precisamente, a origem sobrenatural deles e a impossibilidade de serem explicados. Ela se firmou tão bem sobre esse ponto que assimilarem-se os milagres aos fenômenos da Natureza constitui para ela uma heresia, um atentado contra a fé, tanto assim que excomungou e até queimou muita gente por não ter querido crer em certos milagres. Daí vem a Igreja distinguir os bons milagres, que procedem de Deus, dos maus milagres, que procedem de Satanás. Mas, como diferençá-los? Seja satânico ou divino um milagre, haverá sempre uma derrogação de leis emanadas unicamente de Deus. Se um indivíduo é curado por suposto milagre, quer seja Deus quem o opere, quer Satanás, não deixará por isso de ter havido a cura. Forçoso se torna fazer pobríssima ideia da inteligência humana para se pretender que semelhantes doutrinas possam ser aceitas nos dias de hoje”. (A Gênese 13.16)

Assim, o contraste pode ser falta de convicção pessoal, como o senhor colocou. No meu caso específico, acho que não é o caso. Acho que é mesmo como fazem os espíritas com a igreja católica: comparação com fim de argumentação lógica para quem tiver interesse nessa modalidade de estudo comparado. O senhor deve ter notado no meu texto, no entanto, que não uso tratamentos como nos livros espíritas, que chamam uma crença central do catolicismo de “bicho papão”, uma invenção que “só mete medo a crianças”, e sua crença em milagres de uma tentativa de “fazer pobríssima ideia da inteligência”.

2. Deus é castigador? É um castigo de Deus alguém que come carne nascer como tigre?

O senhor perguntou se seria um castigo alguém nascer como tigre. A resposta depende do entendimento que o senhor tenha da palavra castigo. Se castigo é uma maldade, então não. Não é possível entender que Deus faça alguma maldade com as almas, pois, no conceito védico de Deus, como Ele próprio Se apresenta no Bhagavad-gita (5.29), Deus é “o melhor amigo de todas as entidades vivas”. Se castigo é entendido no valor verdadeiro da palavra, que é “tornar casto”, quer dizer, “tornar puro”, então sim: é um castigo. A alma se torna mais casta ou pura ao esgotar uma tendência animalesca em corpos animais em vez de o fazer em corpos humanos, e, uma vez em corpos humanos, pode prosseguir em seu empenho de render-se exclusivamente a Deus. Mesmo em termos de saúde é algo melhor para ela, pois o consumo de carne no corpo humano acarreta, além de reações pecaminosas sutis, várias doenças imediatas, como câncer, ao passo que o corpo de tigre é uma máquina bastante poderosa para digerir esse tipo de alimento.

Em relação à alma vir em condições materialmente inferiores, encontramos vários espíritos cogitando isso. Em Exilados de Capela, encontramos que os residentes dessa morada superior foram enviados de volta para a Terra, não por castigo, mas porque chegaram àquele planeta e não tiveram a condição moral de ficar nele, tal como uma alma que chega a um corpo humano porém é “exilada” dele por não corresponder ao que se espera de um humano civilizado. Isso é um castigo? Não, tais pessoas apenas não mantiveram a consciência que as levou para aquele estado, assim como alguém que foi aprovado no vestibular de Medicina pode ser jubilado do curso por excesso de faltas ou sucessivas reprovações. Quando um ser humano desenvolve todos os sentidos plenamente, não é possível que nasça surdo, mudo e tetraplégico? Isto é um castigo de Deus? Não, é um castigo do próprio homem não ter usado o corpo humano apropriadamente. Assim, por analogia a isso e contando que os espíritos “longe estão de tudo saberem”, por que não considerar a possibilidade da opinião védica estar certa? Esta é a reflexão que proponho.

3. Se o Tigre tem espírito, ele não poderia se alimentar de algum outro alimento, sem ter de fazer tantas crueldades? Por que tantas maldades e crueldades?

Salvo engano, entendo que o argumento do senhor é que onde está o espírito não há maldades e crueldades; logo, maldades e crueldades estarem presentes em animais selvagens, como o tigre, é um indício da não presença do espírito, é isso? Se crueldades e maldades são indício de ausência do espírito, então o que dizer de Hitler, muito mais cruel do que milhares de tigres? O que dizer do prolongado sofrimento aos animais que os homens promovem nas fazendas fábricas, muito mais cruel do que a morte rápida que promove o tigre às suas presas? O homem moderno é muito mais cruel do que o tigre. O tigre, por exemplo, jamais promove o aborto de seus filhos, ao passo que o homem é responsável por 126.000 abortos por dia. O tigre mata o que ele vai comer, ao passo que o homem mata seus próprios filhos apenas para, segundo a maioria dos abortistas entrevistados, “ter mais dinheiro” e “não atrapalhar minha carreira”. Não haver maldade e crueldade, portanto, não é distinção entre o homem e o tigre em favor do homem, mas em favor do tigre. O tigre é muito menos cruel do que o homem; e não estamos falando de tribos canibais, mas dos países mais desenvolvidos, haja vista que o total de aborto do mundo se concentra 78 por cento nos países de primeiro mundo e 22 por cento nos países de terceiro mundo. Vamos comparar o índice de estupro entre os humanos e entre os animais? Armas de destruição em massa? Escravidão? O já mencionado antisemitismo? O homem é muito mais cruel e maldoso do que o instintivo tigre. Assim como não negamos a presença do espírito nos escravistas, antisemitas, abortistas, estrupadores etc., esse argumento de que o tigre não pode ter um espírito porque se alimenta de carne não faz sentido, ao meu entender.

4. Em relação a Emmanuel ensinar algo diferente do que os primeiros espíritos ensinaram, os espíritos do pentateuco espírita, pode ser entendido como algo análogo a Jesus não ter ensinado tudo, mas deixado para esclarecimento posterior. Assim, Emmanuel dá mais um passo na revelação espírita.

Jesus pode não ter ensinado tudo, mas tampouco ensinou algo errado, senão que apenas ensinou algo que precisa de esclarecimento para entendermos como é certo. Se o começo do espiritismo ensinou que “o espírito da ostra não se torna sucessivamente o do peixe” (O Livro dos Espíritos 2.11.613), e Emmanuel e outros espíritos mais atuais estão certos em dizer que se tornam sucessivamente sim, então o espiritismo ensinou algo errado, e não algo certo porém velado, como fez Jesus, pois não é possível interpretar os dizeres sublinhados como uma parábola que quer dizer o contrário do que claramente dizem. Assim, todo ensino espírita é duvidoso, ao meu entender, tanto por contradições como pelos espíritos dizerem o que observam, e não o que ouvem de uma fonte infalível, como disse Jesus que faria o seu sucessor Espírito de Verdade: “Não falará de si, mas do que houver ouvido”. Se todos os espíritos ouvissem de uma mesma autoridade infalível, supostamente o Espírito de Verdade, então não haveria opiniões diferentes.

No meu entendimento, não haveria problema caso o espiritismo mudasse de opinião caso fosse apenas ciência e filosofia, mas, como se atribui valor infalível ao se dizer “vindo do Pai”, “ensinará todas as coisas” e os outros atributos analisados no artigo, essas contradições e revisões dos textos primários do espiritismo lançam-lhe descrédito, a meu ver.

5. Por que irmãos devotados ao amor a Deus, entendidos no espiritismo como espíritos de luz, não são igualmente estimados na consciência de Krsna, mas tratados pelo pejorativo termo bhuta?

A etimologia da palavra que designa aqueles que têm apenas o corpo sutil vem da raiz bheu/bhu, que é o verbo ser do sânscrito, que aparece em várias línguas, como irlandês (bha), inglês (be), letão (but) e persa (budan). Bhuta é ser no passado, daí a tradução de bhuta como “ligados ao passado”. Tais pessoas são assim entendidas porque, mesmo após a morte, preservam as impressões que tinham durante a vida – forma, nome, identificação familiar etc. – o que, para os Vedas, é uma condição anormal. O normal é que a alma, ao ter um corpo humano, deve desenvolver inteiramente sua consciência de Krsna, o que tem por consequência que ela vai para o Reino de Deus, onde obtém sua forma eterna, seu nome eterno, não tem nenhuma identificação familiar material etc. e de onde nunca mais renasce (Bhagavad-gita 8.16). Aqueles que são mal sucedidos em desenvolver amor puro por Deus, mas morrem após terem feito bom progresso no caminho, nascem, isto é, obtêm um corpo grosseiro, nos planetas superiores, chamados svarga (Bhagavad-gita 6.41), e de lá nascem na Terra, e não de antariksa, as colônias, que são inferiores a svarga.

Aqueles que antes de novamente nascerem ficam apenas no corpo sutil são tidos como pessoas que fizeram pouco desenvolvimento no amor a Deus, ao menos no amor a Deus entendido não como sentimento, mas como observação de Suas leis. As leis que foram quebradas para a pessoa ficar apenas no corpo sutil são estas, segundo o Garuda Purana: “Se um homem come alimento oferecido por um homem caído e morre com esse alimento dentro de seu estômago antes de ter sido digerido, ele se torna fantasma. Um sacerdote que preside o sacrifício de uma pessoa indigna e negligencia aquele de um sacrificante digno, e um homem que vive na companhia de pessoas desprezíveis, ambos se tornam fantasmas. Aquele que se dá à companhia de bêbados e tem relação com uma mulher viciada em vinho ou que come carne sem qualquer culpa torna-se um fantasma. Aquele que rouba a propriedade de um brahmana [intelectual religioso] ou de um templo ou de seu preceptor se torna fantasma. Aquele que abandona sua mãe, sua irmã, sua esposa, sua filha ou sua cunhada, apesar de serem inocentes, torna-se um fantasma. Todos estes certamente se tornam fantasmas: Um homem que toma posse de algo ilegitimamente, um homem traiçoeiro para com seus amigos, alguém que se atrai pela mulher de outrem, um homem infiel e um canalha mentiroso. Um homem que odeia seus irmãos, o assassino de um brahmana, aqueles que matam vacas, alguém viciado em bebidas alcoólicas, alguém que deprava a cama de seu preceptor, alguém que negligencia ritos tradicionais, alguém afeito a contar mentiras, aqueles que roubam dinheiro e indivíduos que roubam terra – todos estes tornam-se fantasmas”.

Assim, pode-se entender muitos espíritos como amantes de Deus no sentido sentimental, mas todos eles, segundo o Garuda Purana, infringiram alguma das leis de Deus acima relatadas. Com efeito, quantas pessoas, enquanto encarnadas, conhecemos que seguem todas estas regras? Assim, é tão frequente a quebra dessas leis de Deus que praticamente todos ficam em corpos sutis após a morte, daí o espiritismo entender que é uma condição normal. Segundo os Vedas, os espíritos, ou aqueles que têm apenas o corpo sutil, podem ser classificados entre ímpios e semipiedosos, porém, até onde estudo, nunca encontrei a descrição de um espírito santo (sadhu). São ímpios porque, por má conduta, não receberam a oportunidade de nascer novamente, quer na Terra, quer em planetas superiores, e são semipiedosos porque, apesar de terem tido alguma má conduta, são bem-intencionados, tementes a Deus, esperançosos em Jesus etc. Contudo, segundo os Vedas, se alguém é verdadeiramente santo, ele vai para o Reino de Deus ou, se quase santo, nasce em planetas superiores para esgotar seus desejos por conforto, saúde etc. e então termina sua purificação na Terra.

O espiritismo preza mais a distinção entre bhutas de luz e bhutas de pouca luz, no meu entender, porque entende que os bhutas de luz, até onde entendo o espiritismo, são os indivíduos mais esclarecidos que os humanos têm para contato e, logo, para esclarecimento. Na consciência de Krsna, diferentemente, entende-se que Deus veio à Terra como Vyasadeva e deixou todo o conhecimento conclusivo, logo qualquer um que se proponha rever os Vedas será mal visto, o que em geral fazem os espíritos.

Por exemplo:

Sobre a metempsicose, dogma que percorre todas as tradições ortodoxas da Índia, encontramos:

Entre a metempsicose dos antigos e a moderna doutrina da reencarnação, há, como também se sabe, profunda diferença, assinalada pelo fato de os Espíritos rejeitarem, de maneira absoluta, a transmigração da alma do homem para os animais e reciprocamente. Ensinando o dogma da pluralidade das existências corporais, os Espíritos renovam uma doutrina que teve origem nas primeiras idades do mundo e que se conservou no íntimo de muitas pessoas, até aos nossos dias. Simplesmente, eles a apresentam de um ponto de vista mais racional, mais acorde com as leis progressivas da Natureza e mais de conformidade com a sabedoria do Criador, despindo-a de todos os acessórios da superstição. (Livro dos Espíritos 5.222)

Sobre astrologia, encontramos:

Donde vem a expressão: Nascer sob uma boa estrela? “Antiga superstição, que prendia às estrelas os destinos dos homens. Alegoria que algumas pessoas fazem a tolice de tomar ao pé da letra.” (Livro dos Espíritos 3.10.867)

Sobre a cosmologia védica, que divide as moradas celestiais em sete (antariksa, bhuvarloka, svargaloka, maharloka, janaloka, tapoloka, satyaloka), e coloca a morada de Deus para além delas, na transcendência, encontramos:

Segundo a opinião mais comum, havia sete céus e daí a expressão – estar no sétimo céu – para exprimir perfeita felicidade. As diferentes doutrinas relativamente ao paraíso repousam todas no duplo erro de considerar a Terra centro do Universo, e limitada à região dos astros. É além desse limite imaginário que todas têm colocado a residência afortunada e a morada do Todo-Poderoso. Singular anomalia que coloca o Autor de todas as coisas, Aquele que as governa a todas, nos confins da criação, em vez de no centro, donde o seu pensamento poderia, irradiante, abranger tudo! A Ciência, com a lógica inexorável da observação e dos fatos, levou o seu archote às profundezas do Espaço e mostrou a nulidade de todas essas teorias. (O Céu e o Inferno 3.1-2)

Sobre os deuses, ou devas, encontramos:

A mitologia dos antigos se fundava inteiramente em ideias espíritas, com a única diferença de que consideravam os Espíritos como divindades. Representavam esses deuses ou esses Espíritos com atribuições especiais. Assim, uns eram encarregados dos ventos, outros do raio, outros de presidir ao fenômeno da vegetação, etc. Semelhante crença é totalmente destituída de fundamento? “Tão pouco destituída é de fundamento, que ainda está muito aquém da verdade”. (Livro dos Espíritos 2.9.537)

Assim, não me parece possível a alguém que tenha os Vedas como revelados por Deus aceitar que ao menos estes espíritos que foram aceitos por Kardec como de luz, tendo passado pelo CUEE (Controle Universal do Ensino dos Espíritos) aplicado por Kardec, sejam-no, ao menos não no nível que o Evangelho Segundo o Espiritismo coloca: “Ensinarão tudo”, “veem do Pai” (6.3), “concluirão o que Moisés e Jesus começaram” (1.9). Contudo, se um Espírito se submete à autoridade dos Vedas e encaminha alguém ao estudo dos mesmos tal como os próprios Vedas ensinam, então esse espírito deve ser prezado como um vartma-pradarshaka-guru autêntico, isto é, o guru que mostra o caminho correto, em virtude do que ofereço meus respeitos aos espíritos que a encaminham seus interrogadores para o estudo da consciência de Krsna.

Parece-me que o valor que Jesus deu às escrituras submete todos à infalível autoridade escritural, e não o contrário, isto é, que os espíritos podem dizer o que nas escrituras é certo e o que não é, segundo suas experiências sensoriais e mentais.

No novo testamento, por exemplo, encontramos: “À lei [de Moisés] e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles”. (Isaías 8.20)

Contudo, os espíritos no espiritismo se libertam da revelação mosaica, aceita por Jesus, e colocam-na como humana:

“Em face dos progressos da Física e da Astronomia, é insustentável semelhante doutrina. Entretanto, Moisés atribui ao próprio Deus aquelas palavras. Ora, visto que elas exprimem um fato notoriamente falso, uma de duas: ou Deus se enganou em a narrativa que fez da sua obra, ou essa narrativa não é de origem divina. Não sendo admissível a primeira hipótese, forçoso é concluir que Moisés apenas exprimiu suas próprias ideias”. (A Gênese 12.10)

Assim, o espiritismo coloca Moisés como duplamente ruim: Ruim por ter inventado algo insustentável, e, o que acho ainda pior, ter atribuído sua história inventada a Deus. O espiritismo faz o mesmo com a revelação védica.

Outra hipótese que tenho de por que o espiritismo trabalha mais com a dicotomia espírito bom e espírito de pouca luz do que o vaisnavismo é que o leque de indivíduos com os quais o primeiro trabalha é menor do que na consciência de Krsna. A consciência de Krsna hierarquiza as entidades vivas até Brahma, que é a entidade viva mais elevada dentro do mundo material, e entendemos que podemos ter contato com Brahma pelas obras que são atribuídas a ele, como o Brahma-samhita. Assim, se temos acesso a Brahma, a entidade viva mais elevada, para esclarecimentos doutrinários, bem como a Deus, os residentes da parte sutil de nosso planeta não são nada além de “impiedosos” e “semipiedosos”. O espiritismo, em contrapartida, tende a duvidar, até onde entendo, que Deus tenha feito realmente alguma revelação pessoalmente, e tampouco que uma alma tão elevada como Brahma possa vir à Terra tão simplesmente e falar um conhecimento perfeito, daí o espiritismo, em seu primórdio lidando com encarnados que não sabiam nem que existe vida após a morte, terem os espíritos como autoridades dignas de reverências.

Outra hipótese que tenho para os espíritas prezarem mais os bhutas de luz, ou yaksas semipiedosos, do que os vaisnavas é que o espiritismo tende a acreditar que os anjos da Bíblia e os deuses (devas) dos Vedas são espíritos de luz, o que os vaisnavas não aceitam. Para os vaisnavas, os anjos, entendidos como análogos aos gandharvas da literatura védica, e os devas, dirigentes de vários departamentos do universo, são indivíduos que residem em outros planetas e têm corpo grosseiro próprio, corpo grosseiro este que lhes permite se comunicarem sem a necessidade de um médium, necessidade esta própria daqueles que têm apenas o corpo sutil, isto é, uma instrumentária incompleta. Assim, a grandiosa personalidade que falou com Maria que ela teria um filho, por exemplo, não é entendida por nós como alguém que só tem o corpo sutil, um espírito, mas alguém que possui um corpo grosseiro com poderes especiais para vir à Terra e ficar invisível e inaudível ou não à sua vontade. O mesmo para os devas.

Outra hipótese para por que a tradição védica tende a atribuir impiedade, ou, no máximo, semipiedade, a todos aqueles que têm apenas o corpo sutil, é o fato de que, no tempo em que os Vedas foram escritos, segundo eles próprios e aparentemente pela longevidade que a Bíblia atribui a pessoas antigas (vivendo quase 1000 anos), os humanos no passado eram mais avançados e esclarecidos espiritualmente. Assim, os humanos, orientados pelos Vedas, aprendiam em vida que não eram o corpo, que existe a reencarnação, que Deus é assim e assado, que devemos nos desapegar do que é temporário à hora da morte etc. Então, se alguém morre em tal condição que está identificado com seu estado material passado ou tem algum dos desvios morais enumerados acima, no Garuda Purana, ela é vista como caída por assumir a posição de bhuta. Na atualidade, os homens mais bondosos que conhecemos no mínimo comem alguma carne, comem alimento preparado sem consciência espiritual entre outras coisas que deixam a pessoa apenas no corpo sutil na hora da morte. Assim, quando alguém, apenas no corpo sutil, conhece pelo menos a reencarnação, o que não exige nenhuma piedade, mas apenas a observação, se comunica com os encarnados ignorantes dos Vedas e praticamente de qualquer conhecimento, tal pessoa parece uma autoridade ilustre, sobretudo se, junto do conceito de reencarnação, traz consigo alguma integridade herdada dos ensinamentos morais de Jesus, para colocá-la na posição semipiedosa de ter comido pouca carne, por exemplo na semana santa, ter bebido apenas socialmente, ter tentado perdoar de vez enquanto etc. Vale apontar, no entanto, que os ensinamentos morais de Jesus foram todos comunicados por Jesus encarnado, e não é mérito de espíritos. Ao contrário, haver espíritos piedosos o bastante para estruturarem o espiritismo é mérito do mestre encarnado Jesus – o que a senhora certamente sabe. Assim, se somarmos os ensinamentos de Jesus com os de Vyasadeva, parece mesmo que os encarnados ensinam mais do que os desencarnados, o que adiciona ao conceito védico de que nascer na Terra é melhor do que estar em sua dimensão sutil em um corpo apenas sutil.

Bem. A pergunta da senhora é muito difícil: Por que os Vedas não estimam os espíritos, isto é, as entidades vivas que estão apenas no corpo sutil. Minhas hipóteses para isso, em resumo, são estas: (1) O Espiritismo parece aceitar a possibilidade de espíritos serem superiores às escrituras (mosaicas e védicas), podendo dizer qual parte delas é fidedigna e qual não é e revelar coisas novas, logo são indivíduos de grande interesse para os encarnados. O vaisnavismo, em contrapartida, tem as escrituras como perfeitas e revelas por Deus, logo todos, mesmo o espírito mais elevado, tem de se submeter a elas, daí preferirmos ler as escrituras a ouvi-los, sobretudo caso sejam espíritos, como os do pentateuco espírita, que criticam os ensinamentos védicos sob vários adjetivos pejorativos, como apontado acima. (2) No espiritismo, analisam-se os indivíduos com os quais podemos ter contato entre espíritos de luz e de pouca luz, e, obviamente, preza-se os espíritos de luz como guias, os quais são entendidos como os anjos, arcanjos, deuses etc. em tradições variadas. No vaisnavismo, entretanto, anjos, arcanjos e deuses não são espíritos, isto é, não são residentes do plano sutil, mas de planetas superiores e indivíduos que não podem ser incorporados, pois têm corpo grosseiro próprio. Assim, o vaisnavismo, ao considerar possível a comunicação com indivíduos entendidos como superiores aos espíritos de luz, e a comunicação até mesmo direta com Deus através das escrituras que são entendidas como as exatas palavras dEle próprio, mostra desinteresse nos contatos mediúnicos.

6. Há muitos casos provados cientificamente de que tratamentos com espíritos curam pessoas de doenças, e os romances espíritas estão cheios de relatos de pessoas que foram promovidas para as superiores colônias à hora da morte por terem seguido as instruções dos espíritos.

Krsna não diz que é mentira que o refúgio em tais indivíduos pode trazer resultados como saúde e promoção a planetas superiores; na verdade, diz até mesmo que tais indivíduos – semideuses, espíritos de luz etc. – dão resultados muito rapidamente (Bhagavad-gita 4.12). A crítica de Krsna é que tais personalidades, diferentemente dEle, dão coisas limitadas e temporárias (Bhagavad-gita 7.23); por exemplo, são limitadas as respostas dos espíritos de luz, pois dão respostas incompletas, imperfeitas e contraditórias, pois “longe estão de tudo saberem”, como coloca o Livro dos Espíritos, e promovem seus discípulos a moradas onde não se pode permanecer eternamente feliz.

7. Por que os Hare Krsnas não podem seguir os ensinamentos do Bhagavad-gita, e os cristãos, os ensinamentos da Bíblia? A Bíblia traz várias descrições de comunicações mediúnicas, como os anjos em Gênese 16.7-10 e o anjo que anuncia a Maria que terá um filho e deverá chamá-lo Jesus.

Prabhupada aceita Jesus como um mestre inteiramente qualificado para guiar as pessoas, e certamente julgo bem encaminhados aqueles que o seguem. Contudo, tenho minhas dúvidas quanto a se todos os espíritas são fundamentalmente cristãos. Um espírita que conheci recentemente, empolgadíssimo com a leitura de Exilados de Capela, me dizia que os egípcios foi uma das civilizações mais avançadas que já esteve na Terra. Fiquei me perguntando como alguém pode ser cristão e, ao mesmo tempo, considerar que os egípcios sejam avançados espiritualmente. Segundo a religião de Jesus, o judaísmo, cuja escritura Jesus aceitava como revelada por Deus, até onde entendo, os egípcios eram tão degradados que Deus os puniu pessoalmente. Os egípcios foram um povo politeísta, idólatra e construíram grandes edificações para tal idolatria politeísta com o sangue de 400 anos de escravidão aos hebreus, cujo objeto de culto Jesus aceitou como o Pai, o Deus único e supremo. Prabhupada não ensina que seja necessário seguir os Vedas para seguir Deus, mas disse que se pode seguir sim seguir o cristianismo e o judaísmo. Um de meus questionamentos é precisamente este: O espiritismo é realmente o que Jesus idealizou para a continuação de seus ensinos na Terra ou o espiritismo não se encaixa no que Jesus chamou de Espírito de Verdade e Consolador?

A senhora apresentou exemplos bíblicos falando de aparição de anjos, mas esse conceito, até onde entendo, não se confunde com “mortos” e “espíritos” na Bíblia. Encontro na Bíblia que há casos em que pessoas são possuídas por espíritos, mas nunca por anjos. Podemos ver também que o anjo aparece para Maria e fala com ela, mas Maria nunca viu ninguém mais, de modo que não é possível aceitá-la como médium vidente e auditiva. Se fosse médium vidente e auditiva, veria e ouviria espíritos frequentemente, e não apenas o anjo. Prabhupada explica que anjos são indivíduos chamados gandharvas, e os gandharvas podem aparecer para quem quiserem quando quiserem pelos poderes místicos que têm, siddhis, e não dependentes de que quem os veja seja médium vidente e menos ainda “entrando” em um corpo alheio para que se psicografem ou ouçam sua mensagem.

8. O espiritismo não adora os espíritos.

No final do Gita, Krsna diz que devemos abandonar tudo (sarva-dharma parityajya) e buscar unicamente (eka) a Ele como refúgio (saranam). Essa rendição, ou sarana, é entendida como variadas práticas: Contar que Deus nos levará para Seu reino na hora da morte, tê-lO como aquele que nos esclarece em momentos de dúvidas e assim por diante. Assim, se alguém, à hora da morte, fica na expectativa de que um semideus o levará para o seu planeta, ou que um espírito de luz o levará para uma colônia, isso pode ser entendido como adoração a semideuses ou a espíritos de luz, nesta definição de adoração. Se, quando alguém quer entender algo, busca por um filósofo, cientista, doutor em direito – encarnado ou desencarnado –, em vez de buscar pela revelação de Deus, isso é entendido como adoração a tais indivíduos: a busca deles por refúgio doutrinário. Certamente os espíritas não adoram espíritos no sentido etimológico de “adorar”, isto é, “oferecer ouro”, e um espírita que busque o refúgio de espíritos de luz por acreditar plenamente que eles são dotados de poder por Deus para dar refúgio, e a morada deles e as instruções deles são, respectivamente, a máxima morada que Deus reservou para alguém que morrerá agora na Terra e a revelação máxima à humanidade, então não posso dizer que são espíritas que não adoram a Deus, mas apenas discordar de que o máximo que Deus permite à humanidade, a partir do estado encarnado da Terra, seja o alcance dessas moradas e dessas revelações. Entendo que só poderia ser justo dizer que algum espírita adora os espíritos caso esse espírita acreditasse que a revelação de Moisés é perfeita, que é possível, a partir da Terra, alcançar a morada perfeita de Deus, onde Deus mora pessoalmente, e ainda assim preferir as revelações dos espíritos e ainda assim querer ir para a morada deles.

9. Os espíritos e a Bíblia ensinam que nossa evolução é gradual, em virtude do que é impossível ir da Terra para onde Deus mora pessoalmente.

Os espíritos certamente ensinam que a evolução é gradual, pois, pela experiência deles, não chegaram ao Reino de Deus após a morte. Na Bíblia, entretanto, é fundamentável a possibilidade de irmos da Terra para o Reino de Deus, assim como é fundamentável pelos Vedas. Na Bíblia (João 8.29), encontramos que quem enviou Jesus para a Terra foi o Pai, Deus: “Aquele que me enviou está comigo. O Pai não me tem deixado só, porque eu faço sempre o que Lhe agrada”. Assim, não é aceitável dizer que Jesus foi enviado por outrem senão diretamente por Deus. Em João (7.33), encontramos: “Disse-lhes, pois, Jesus: Ainda um pouco de tempo estou convosco, e depois vou para aquele que me enviou”. Assim, pela autoridade da Bíblia, Jesus não voltará para nenhuma morada, sutilíssima ou grosseira, mas para aquele que o enviou, o qual – já colocamos com a citação de João (8.29) – é Deus, o Pai. Por fim, em Lucas (23.43), encontramos que Jesus se dirige ao ladrão que estava ao seu lado, também sendo crucificado, com estas palavras: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso”. Não é possível deturpar esse “Paraíso” dizendo que é outro lugar senão onde Deus mora, pois, relembrando, Jesus disse que, quando fosse embora da Terra, iria para aquele que o enviou, e “hoje” não permite nenhuma interpretação para fundamentar “evolução gradual”.

PERGUNTAS DE PESSOAS SEM VÍNCULOS RELIGIOSOS

10. É fácil entender que alguém que fica no corpo sutil, ou em condição de fantasma, na casa onde viveu é alguém bhuta, “ligado ao passado”. Contudo, os espíritos que ficam vagando ou fazendo travessuras pela Terra também carregam consigo essa marca de serem ligados ao passado?

A etimologia da palavra que designa aqueles que têm apenas o corpo sutil é bhuta. Bhu vem da raiz bheu/bhu, que é o verbo ser do sânscrito, que aparece em várias línguas, como irlandês (bha), inglês (be), letão (but) e persa (budan). Bhuta é ser no passado, daí a tradução de bhuta como “ligados ao passado”.

Krsna diz que onde quer que esteja nosso estado de consciência na hora da morte, para lá iremos (Bhagavad-gita 8.6). Assim, o devoto não tem nenhuma absorção em seu passado no sentido de se identificar com “este é o meu corpo, esta é a minha família, esta é a minha casa, este é o meu país, este é o meu planeta, esta é a minha vida” etc. O devoto pensa: “Eu não sou este corpo, e o senso de posse a esta família, casa, país e planeta tem ligação apenas com este corpo, e minha vida não é estar aqui, mas estar no mundo espiritual com Krsna”. Assim, quando o devoto morre, ele não se torna bhuta, isto é, alguém que fica no corpo sutil com a mesma mentalidade que tinha em vida – “este é o planeta onde moro, este sou eu, este é o meu nome” – senão que ele está pronto para o futuro que construiu segundo as instruções de Krsna: “Deixei de ser o Thiago de Alcântara, brasileiro, branco, o que nunca fui, e agora sou o que sou eternamente: uma gopi aos pés de Krsna”, ou “deixei de ser a Joana e agora sou um vaqueirinho amigo de Krsna, o que eu havia me esquecido”. O devoto também não ficará vagando pelo “seu” planeta atormentando as pessoas, pois já abandonou a ideia de que ele é deste planeta, senão que estará colhendo no mundo espiritual os frutos de sua consciência de Krsna, a consciência de que ele não é deste mundo.

Assim, embora menos evidente do que alguém que fica em sua casa após a morte, alguém que está no corpo sutil errando por vários lugares “fazendo travessuras” também exibe o sintoma de apego ao passado por carregar consigo o mesmo nome que tinha antes, em geral a mesma forma, residir no mesmo planeta e, sobretudo, ter o desejo de interagir com os mesmos objetos materiais.

O devoto está pronto para o futuro, isto é, pronto para deixar seu corpo material porque mesmo enquanto no corpo material se treinou a interagir com objetos espirituais: os nomes de Deus, as escrituras reveladas, como o Bhagavad-gita e o Srimad-Bhagavatam, os templos, as almas liberadas, como Prabhupada, e assim por diante. Aqueles que se tornam bhutas, entretanto, embora estejam sendo punidos na forma de não ter um corpo grosseiro, ainda estão mentalmente com a impressão passada de que precisam e querem interagir com os objetos materiais. “Precisam” porque sentem fome – segundo o Garuda Purana, eles sentem tanta fome que quando os antepassados oferecem alimento santificado (prasada) para a purificação deles, eles veem muito rapidamente –, e “querem” porque gostam de bebidas alcoólicas e outras atividades desconectadas da manutenção do corpo grosseiro.

Prabhupada explica assim o que é fantasma: “O fantasma também é um indivíduo. Contudo, porque os fantasmas não obtêm este corpo material, eles são invisíveis. Eles criam perturbações por falta deste corpo. Aqueles que têm experiência de algum fantasma em alguma casa, o fantasma está lá, ele é uma alma individual, mas, porque ele não tem esta cobertura material, isso é uma punição. Para a pessoa mais pecaminosa, essa é a punição, que ele não obtém este corpo, embora ele queira este corpo, porque, para o desfrute, queremos este corpo. O corpo é a combinação dos sentidos, o instrumento. Se quero tocar você, preciso da mão, e, através desta mão, sentirei o prazer de tocá-lo. Assim, o fantasma quer tocar, mas ele não tem o instrumento. Isso é fantasma… Enquanto estivermos contaminados materialmente, precisamos deste corpo material para desfrutarmos dos sentidos. E, no mundo espiritual, obtemos nosso corpo espiritual”. (12/12/76, Hyderabad, Bhagavad-gita 2.12)

Assim, acho que podemos entender que o fantasma é apegado à sua passada atividade de interagir com os objetos materiais do planeta grosseiro onde viveu. O devoto, por outro lado, como coloquei, é apegado ao desfrute de objetos espirituais, e, quando sua consciência se absorve por inteiro nesses objetos – Deus na forma de Seu nome, Deus na forma de Sua escritura – ele deixa de bom grado seu passado de ter um corpo grosseiro para interagir com o gozo material e obtém seu corpo espiritual para interagir com Deus.

Sobre eles ficarem, como o senhor disse, “vagando e fazendo travessuras pela Terra”, eles os fazem, como também explicam os espíritas, para poderem interagir com os objetos materiais através daqueles que têm corpos materiais, o que os espíritas chamam de obsessão e nós de “graha-grasto” ou “preta-dosa”. Assim, quando vagam pelos bares, bordéis, churrascarias e cassinos, eles mantêm as pessoas nesses locais e hábitos para poderem interagir com tais coisas através dessas pessoas que têm corpos materiais. Prabhupada explica:

Prabhupada: …Algumas vezes, o fantasma ataca um homem. Porque ele não tem corpo material, ele quer agir através do corpo de outrem… Devoto: Srila Prabhupada, a alma, o fantasma, entre no corpo de outra pessoa? A alma está ocupando um corpo, e o fantasma, como outra alma, entra verdadeiramente naquele corpo? Há duas almas em um corpo? Prabhupada: Não exatamente entra, mas ele pega o corpo. Mas porque o fantasma não tem corpo grosseiro – ele tem seu corpo sutil: mente, inteligência e ego –, você não o pode ver, como ele atacou aquele corpo. Você não pode ver o corpo da mente, da inteligência. Você sabe que eu tenho minha mente; eu sei que você tem sua mente. Mas você não vê a minha mente; eu não vejo sua mente. Assim, o fantasma está dentro do corpo sutil: mente, inteligência e ego. Então, com esse corpo sutil, ele ataca o homem, mas você não pode ver. Ele não entra nele. Quem está dentro é a alma dentro do corpo. (12 de maio de 1975)

Em conclusão, os espíritos que vagueiam fazendo travessuras querem interagir com os hábitos pecaminosos que tinham no passado, porém, não o podendo fazer por não terem um corpo grosseiro, fazem suas “travessuras” pela Terra através de pessoas que estão usando seus corpos nessas mesmas atividades pecaminosas. Esta classe de bhutas errantes talvez não esteja apegada à sua família ou casa, mas estão apegados ao hábito que desenvolveram no passado, enquanto vivos, de gozar da interação com objetos materiais.

11. Na lógica de não fazer ao outro o que não gostaria que fosse feito a você, não seria prudente o senhor não sugerir que os espíritas devem buscar outra fonte de conhecimento senão sua própria revelação? O senhor gostaria caso eles dissessem para o senhor buscar outro guru em vez de Prabhupada?

A minha sugestão aos espíritas de que estudem outro guru tem valor apenas caso a pessoa aceite que o guru dela não é o que ele dizia ser, isto é, se um espírita se convencer de que os espíritos não são organizados pelo Espírito de Verdade, enviado por Jesus, e os outros atributos discutidos no artigo. Caso se convençam disso, eles naturalmente quererão buscar outro guru. Eu buscaria outro guru caso fosse convencido de que Prabhupada não é quem diz ser, isto é, não é um devoto exemplar de Krsna, não é alguém que não mudou nada dos ensinamentos de Krsna etc. Coloco-me inteiramente aberto a semelhante discussão da posição de Prabhupada porque sei que posso fundamentar toda a vida e todos os ensinamentos de Prabhupada nos ensinamentos de Krsna. Se um espírita, da mesma maneira, consegue colocar todos os atributos do Consolador bíblico no espiritismo, então ele não precisa se perturbar com meu artigo. Meu artigo será, neste caso, um fortalecimento da fé dos espíritas, que, ao defenderem a posição do espiritismo contra os argumentos que apresentei, terão uma base sólida para sua crença.

12. Gostei do conteúdo de seu artigo, mas não sei se a linguagem foi a mais adequada. Acho que há um tom depreciativo que poderia ser evitado.

Muito embora eu discorde da possibilidade do Espiritismo ter o caráter de infalível que se atribuiu ao se colocar como “ensinará tudo” – para o que é necessário onisciência (Krsna diz no Gita que ensina tudo e, coerentemente, diz-Se onisciente) – entre outros atributos que reivindica para si, sobretudo em virtude de usar essa prerrogativa para fazer análises categóricas de ensinamentos védicos e de outras tradições, como o catolicismo e o judaísmo, análises estas muito questionáveis, a meu ver, é muito importante que eu diga algo da importância do Espiritismo também.

Aqueles que se propõem a cantar o santo nome de Krsna deve fazê-lo evitando dez ofensas, entre as quais figura a ofensa de número quatro, que é sruti-sastra-ninda. Esta ofensa consiste em ter predileção fanática pelas escrituras smrtis, como o Srimad-Bhagavatam e o Ramayana, em virtude destes terem um conceito teísta claro, com claras instruções da vontade e da personalidade de Deus, bem como por colocarem a supremacia do serviço devocional sobre o processo de atividades fruitivas com vista à ascensão a planetas superiores (karma) e sobre o processo de especulação filosófica (jnana), entre outros. É sabido que nas escrituras srutis, como os Vedas e Upanisads, o aspecto pessoal de Deus é pouco discutido e se prima karma e jnana. Apesar de haver a predileção pelos smrtis nos ensinamentos do vaisnavismo gaudiya (dentro do que está o Movimento Hare Krsna) – Caitanya e Seus discípulos primam o Srimad-Bhagavatam acima de qualquer sruti – é uma ofensa, também segundo os ensinamentos deles, não reconhecer o valor das outras revelações, o que é uma ofensa porque, segundo Visvanatha Cakravarti, essas obras que “propõem o processo do conhecimento empírico e da ação fruitiva […] muito misericordiosamente ajudam as pessoas mais desqualificadas, que não estão seguindo nenhuma regra ou regulação védica e que estão cegas pelos desejos materiais, a se elevarem ao caminho do serviço devocional seguindo suas leis divinas”. (Madhurya Kadambini, capítulo 3)

Assim, embora eu entenda o espiritismo como uma religião que adicionou à bhakti, ou devoção, de Jesus o conhecimento empírico, isto é, submetem a revelação à mental análise científica, e promovam a ação fruitiva, isto é, a caridade com vista à ascensão pessoal, tenho de reconhecer aqui que ajudam pessoas que as escrituras védicas entendem como desqualificadas – a saber, pessoas com fé na ciência humana e na faculdade especulativa da mente, e pessoas com o desejo de terem nascimentos mais confortáveis em moradas mais confortáveis – a seguirem normas de conduta próprias de santos, como a propensão a perdoar, o autocontrole sexual, a abstinência de drogas e outras, e mesmo a adorarem a Deus, embora, no meu entender, sem um entendimento claro do que é bhakti pura, a saber, bhakti livre de karma e jnana.

Enfim, aproveito esta oportunidade para reconhecer que os espíritas são pessoas compassivas e interessadas no bem-estar daqueles que estão confusos por estarem no estado de possuírem apenas o corpo sutil, e são pessoas que, tanto quanto entendem, promovem a bondade entre as criaturas e projetos sociais de beleza ímpar.

Peço desculpas a todos a quem levei mal-estar com a linguagem do meu texto e peço que saibam que isso é uma deficiência minha em obedecer às ordens de Krsna, e não algo que Krsna promova, pois Krsna ensina que as falas de Seus servos devem ter os seguintes atributos: “A austeridade da fala consiste em proferir palavras verazes, agradáveis, benéficas e que não perturbam os outros”. (Bhagavad-gita 17.15) Tanto quanto possível, tentarei reescrever o presente artigo em uma segunda edição de forma a me conformar às diretrizes cobradas por Krsna e por alguns leitores do meu artigo. Conto com as bênçãos de todos.

PERGUNTAS DE ADEPTOS DO MOVIMENTO HARE KRSNA

13. Conheço um devoto Hare Krsna que se descobriu médium vidente e auditivo. O que ele deve fazer?

A principal característica do devoto Hare Krsna é que ele tem o Srimad-Bhagavatam como a autoridade suprema, autoridade esta apontada cientificamente pela primeira vez por Jiva Gosvami em seu Tattva-sandarbha e aceita, desde então, por todo devoto Hare Krsna. Assim, o devoto Hare Krsna tem como autoridade unicamente aquela pessoa que ensina o que o Srimad-Bhagavatam ensina, logo um devoto médium jamais se submeterá a indivíduos desencarnados que queiram ensinar algo a mais do que o Srimad-Bhagavatam ou esclarecê-lo melhor do que o próprio avatara de Krsna na atualidade, Sri Caitanya, e seus discípulos diretos, os Seis Gosvamis, esclareceram. Se o indivíduo desencarnado fizer o papel de guru autêntico de dizer que o Srimad-Bhagavatam é perfeito e nada nele precisa ser revisto, basta ao devoto continuar estudando o Bhagavatam como o Bhagavatam ensina, isto é, através da sucessão discipular que começa com o próprio Krsna e atualmente termina, entre outras bifurcações, em Prabhupada e em seu Movimento Hare Krsna.

Deste modo, parece-me inimaginável que um devoto utilize sua mediunidade para ser esclarecido por espíritos. Por outro lado, a mediunidade de um devoto pode ser utilizada para esclarecer os espíritos que querem conhecer a consciência de Krsna ou ocupar em serviço devocional aqueles que já a conhecem e a aceitam. No Padma Purana, por exemplo, na seção das glórias do Srimad-Bhagavatam, encontramos um devoto médium vidente e auditivo, Gokarna, que utilizou essas faculdades mediúnicas para purificar seu irmão, Dhundhukari, perdido em um corpo de fantasma, através da audição do Srimad-Bhagavatam. Encontramos no Padma Purana que eles conversaram:

O fantasma Dhundhukari observou Gokarna retornar [para casa], em razão do que assumiu formas muito violentas e apareceu perante ele… Com coragem e paciência, ele falou: “Quem é você? Por que você está exibindo todas essas formas assustadoras? Como você caiu nessa condição?”… Quando Gokarna o questionou, o fantasma chorou sonoramente. Ele não conseguia falar [havia sido morto sendo incendiado a partir da boca], em virtude do que gesticulava com suas mãos. Gokarna chuviscou um pouco de água sagrada no fantasma. Isto o aliviou de reações pecaminosas o suficiente para ser capaz de falar. “Sou seu irmão, Dhundhukari”, disse o fantasma. “Por causa de meus erros, caí de meu nascimento respeitável como um brahmana. Em decorrência de completa ignorância, matei muitas pessoas. Não é possível contar meus pecados. Eu era viciado ao convívio com cinco prostitutas, as quais, por fim, mataram-me, e, como resultado, estou sofrendo as reações de minhas atividades perversas e assim obtive esta forma de fantasma… Meu querido irmão, você é um oceano de misericórdia. Por favor, de uma maneira ou outra, livre-me desta forma fantasmagórica”.

Esse devoto médium vidente e auditivo salvou seu irmão da condição em que estava recitando para ele, por sete dias, o Srimad-Bhagavatam. Ao término da leitura, descreve-se que “o céu ficou refulgente, e um aeroplano de Vaikuntha apareceu transportando associados do Senhor. Diante de toda a assembleia, Dhundhukari embarcou no aeroplano”.

Assim, as escrituras védicas não deixam os devotos médiuns desamparados, senão que têm, entre outros, este Gokarna como exemplo. O exemplo de Gokarna nos ensina que um devoto que tem contato com desencarnados deve organizar recitações do Srimad-Bhagavatam em locais sagrados e com devotos puros e convidar aqueles que têm interesse em serem ajudados pela consciência de Krsna a ouvirem o Srimad-Bhagavatam e seguir as práticas gerais da consciência de Krsna, como ouvir os santos nomes, reverenciar os templos de Krsna, oferecer orações a Krsna sentindo-se caído etc.

Quanto aos espíritos que não têm interesse na consciência de Krsna, há práticas para os evitarmos, assim como evitamos os encarnados que não têm fé, a condição preliminar para aproximação da consciência de Krsna. A prática mais fundamental que Prabhupada ensinou para evitar tais desencarnados impiedosos é cantar puramente os santos nomes:

Se você vai a uma casa mal-assombrada, se você canta o mantra Hare Krsna, eles vão embora… Na minha vida, houve vários casos assim. Na minha vida como chefe de família, eu estava fazendo negócios em Lucknow. Assim, havia uma casa, uma casa muito grande, cujo aluguel custaria milhares de rúpias, mas era mal-assombrada. Então, ninguém morava naquela casa. Eu passei a morar nela pagando duzentas rúpias (risos), e era uma casa muito grande… Todos os criados se queixavam: “Senhor, há um fantasma”. Então, eu estava cantando. Ele estava vivendo em vários locais, especialmente perto do portão. Então, eu pude entender que ele estava ali, mas eu cantava Hare Krsna, e fui salvo. Todos foram salvos. (Havaí, 03/02/75, aula do Bhagavad-gita 16.7)

Estas são instruções que apuro das escrituras, mas, obviamente, um devoto que se descubra médium deve, antes de qualquer coisa, consultar seu mestre espiritual iniciador ou um mestre espiritual instrutor que ele entenda ser um mestre fidedigno e esclarecido.

14. Prabhupada tem uma postura bem mais cortês com as outras religiões do que o seu texto. Não lhe seria apropriado, como seguidor de Prabhupada, apontar as qualidades do espiritismo?

Certamente algo que aprendi com as repostas que recebi a este artigo é que, infelizmente, não tenho essa virtude de Prabhupada de buscar pelas qualidades. Tentarei, na medida do possível, reescrever o artigo de forma a não ser ofensivo. Os espíritas que entraram em contato comigo, apesar de questionados em sua doutrina, mostraram-se pessoas educadíssimas e estudiosas de sua própria tradição religiosa, duas qualidades dos espíritas que posso começar por apontar. Independente de o espiritismo ser ou não coordenado pelo Espírito de Verdade, é notável que seus adeptos têm um amor muito grande por Jesus, que Prabhupada disse ser um devoto completamente puro, logo é inaceitável que algum seguidor de Prabhupada diga que os espíritas não têm, ao menos da parte de que aceitam Jesus, um princípio de norteamento infalível. Também são dignos de menção os projetos sociais dos espíritas, desde atendimento a famílias carentes, auxílio a deficientes, pessoas com depressão e toda sorte de indivíduos, encarnados ou não, que buscam por ajuda. Peço desculpas pelo meu texto não ter enfatizado estas qualidades, mas faço-o agora oportunamente e peço em troca as bênçãos de todos os meus leitores para que eu desenvolva a visão apropriada, com as bênçãos de Krsna, de Seus planos, muitas vezes insondáveis, na pluralidade religiosa. Hare Krsna!

Fonte: Amigos de Krishna

Quem, senão Srila Prabhupada e outros propagadores da consciência de Krishna, ensina a evitação de tudo isto, desde o não consumo de carne e a não alimentação em estabelecimentos mundanos até a castidade e a abstinência de todo intoxicante, quer lícito, quer ilícito nas diferentes constituições dos diferentes países do mundo? E ainda, quem, senão a consciência de Krishna, fornece gosto superior suficiente nas práticas espirituais para que tais atos não sejam meramente reprimidos?

**“Embora ocupado em todas as espécies de atividades, Meu devoto puro, sob Minha proteção, alcança, por Minha graça, a morada eterna e imperecível”. (Bhagavad-gita 18.56)

***“Após muitos e muitos anos de gozo nos planetas habitados por entidades vivas piedosas, o yogi [aquele que está tentando se reconectar com Deus] malogrado nasce em uma família de pessoas virtuosas ou em uma família aristocrata e rica. Ou [se fracassa após longa prática] ele nasce numa família de transcendentalistas que com certeza têm muita sabedoria. É claro que semelhante nascimento é raro neste mundo”. (Bhagavad-gita 6.41-42)

Os irmãos adeptos do espiritismo, por sua vez, valendo-se de sua qualidade de aceitar ouvir de autoridades e de aceitar a possibilidade de sempre progredir estão convidados a conhecerem a fundo a consciência de Krishna, e, quer com a ajuda da consciência de Krishna, quer por outro recurso que achem sensato, analisar se não há na Terra ensinamentos superiores aos trabalhos psicografados dentro da doutrina espírita. O que há de se perder?

Sobre o Autor

Bhagavan Dasa Adhikari (Thiago Costa Braga) é mestrando em Letras pela PUC-Minas e graduando em Filosofia pela UFJF. Possui a titulação internacional Bhakti-sastri, adquirida após residência no Seminário de Filosofia e Teologia Hare Krishna de Campina Grande, onde foi iniciado por Sua Santidade Dhanvantari Swami. Ministra palestras regulares sobre a consciência de Krishna desde 2005. Já traduziu mais de 10 livros e mais de 100 artigos sobre filosofia e teologia gaudiya-vaishnava e atualmente é chefe do departamento de tradução e revisão da BBT Brasil, a maior editora no Ocidente de livros sobre o pensamento indiano.

Contato

Aqueles interessados em conversar com o autor acerca da temática deste podem se corresponder pelo e-mail bgdasa@hotmail.com. Pede-se a cortesia da leitura prévia das obras O Bhagavad-gita Como Ele É e Krsna, a Suprema Personalidade de Deus .

por Thiago Costa Braga (Bhagavan Dasa Adhikari Bhakti-sastri)

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/espiritismo-e-consciencia-de-krishna/

Aspectos Ocultos da Pedofilia no Catolicismo Romano

Mais uma vez nos deparamos com denúncias envolvendo padres supostamente envolvidos com pedofilia. O nome de Júlio Lancelotti pode ser encontrado dia sim outro também em jornais, revistas, internet, no rádio, na TV; ora sendo acusado ora sendo defendido.

Mais uma vez as pessoas se perguntam o por quê; homens que vivem a falar e pregar a palavra de Deus são capazes de cometer tais atrocidades ? E qual a razão da igreja católica simplesmente não puní-los; dificultar investigações e dar abrigo em Roma a cada um dos acusados ao invés de simplesmente entregá-los a polícia ?

Dentre os padres que não respeitam o celibato (entre 40% e 65%), uma ínfima parte é praticante de pedofilia no termo mais comum associado a estes casos; o que sempre mostrou que a batina jamais foi um problema pois a maioria opta pelo heterossexualismo. Opta ? Então vamos ver:

Em abril de 2002, em Ohio, Estados Unidos, um padre foi encontrado morto com um tiro na cabeça dentro do próprio carro. Don Rooney então com 48 anos, cometeu suicídio e deixou um bilhete que teve seu conteúdo não revelado para o público.

Meses antes de sua morte, Rooney vinha sendo investigado por acusações de supostas vítimas, entre elas, um menino de 13 anos chamado Richard Carson, coroinha na paróquia onde atendia o padre Rooney. Ninguém jamais se deu ao trabalho de perguntar a razão pela qual em um dos depoimentos, Carson teria feito menção a uma estranha prática do padre Rooney:

“Ele pedia para que eu me despisse depois de me dar vinho. Quando eu ficava zonzo ele começava a me molestar. Então trazia um cálice com mais vinho e que continha um cheiro muito forte de ervas; então ele me masturbava até que eu ejaculasse dentro daquele líquido. Uma vez ele me esbofeteou porquê eu não tinha esperma o suficiente. Quando questionado sobre o que ocorria depois, Carson diz não se lembrar de nada, exceto de que isso ocorria sempre após as missas noturnas dominicais”.

Não se sabe por qual razão, os depoimentos da mãe e do padrasto de Richard Carson não foram levados em consideração; quando Rooney recebeu uma intimação judicial para se apresentar no tribunal dia 11 de Maio de 2002. Aos próximos, Rooney parecia deprimido e apavorado, mas não em relação as acusações e suspeitas de que era alvo e sim, pela proibição do prelado regional de que nunca mais voltasse a realizar missas negras na paróquia. Esse parecia ser o conteúdo do bilhete que jamais foi revelado para o público. O caso como sempre acontece, foi tratado como lenda e que na verdade, os crimes dos padres tinham e têm a ver unicamente com o celibato.

Chegamos então, ao ponto crucial da história que parece ter sido enterrado pelo tempo e pela descrença; como pura fantasia ou mera objeção de demonólogos nos processos de perseguição ao catolicismo. Em 1580, o respeitabilíssimo Jean Bodin publica um grosso volume intitulado Demonomania dos Feiticeiros. O livro é uma magistral coletânea de material retido pela Igreja Católica durante os tribunais da Inquisição. Nele Jean Bodin, como católico, não apenas desmascara o sacerdócio; padres, bispos, madres superiores e freiras em suas mais variadas práticas de feitiçaria no interior da igreja, como também derruba a tese falsa de que Roma foi a maior inimiga da bruxaria.

Bodin nos deixa claro que a prática da Missa Negra pelo catolicismo é muito mais comum do que podemos imaginar, e que para a igreja, os abusos não existem já que não há a prática sexual em si. Os rituais são “necessários” na liturgia da igreja e por isso não há expulsão nem condenação prevista. Os padres aprendem a realizar a missa negra antes mesmo dos votos de obediência, pobreza e castidade.

É um fato real que na ampla maioria dos casos não há realmente relações sexuais na prática; mas tão somente a manipulação dos órgãos genitais: seja para a obtenção de esperma e outras secreções ou o uso do corpo da criança como altar, semelhante ao que ocorre nas Missas Negras convencionais praticadas por satanistas tradicionalistas, em que uma virgem ou um menino na puberdade é utilizado.

Em Dogma e Ritual de Alta Magia, Eliphas Lévi faz uma menção do livro em que  detalha um horrendo ritual chamado Oráculo Sangrento; em que um menino é degolado sob um altar católico enquanto se preparava para a primeira comunhão; praticado por um bispo francês sob encomenda do Rei Carlos IX e Catarina de Médici. Embora naquela época o uso de secreções corporais como suor, urina, sangue e principalmente esperma e secreções vaginais já fossem de uso corrente, do século VII para cá, os rituais foram ficando cada vez menos violentos, onde a magia sexual substituiu gradativamente os sacrifícios sangrentos. Qualquer domonologista moderno sabe que atualmente, via regra litúrgica do cripto-catolicismo, a violação de um corpo puro, virgem, é tão agradável aos demônios quanto um sacrifício sangrento.

A igreja obviamente não foi a criadora dos rituais e sim os roubou de livros e grimórios confiscados durante a inquisição, principalmente dos magos de origem semita e babilônica onde rituais utilizando crianças como oráculos são encontrados aos montes, especialmente para necromancia. Para aqueles que questionam os rombos financeiros que a igreja tem de arcar por causa dos processos por pedofilia contra ela, o Arcebispo Emmanuel Milingo, exorcista e autor do best seller “Cara a Cara com o Diabo” afirma:

“A terceira dimensão do mal na Igreja é a adoração a Satanás e as Missas Negras que profanam nossa santidade. Desde que a igreja passou a flertar com a Maçonaria, parece que estamos a trilhar um caminho sem volta. Para cada dólar perdido em processos, a igreja ganha três em lucrativos acordos espirituais com grandes industriais, empresários e políticos maçons.”

Os acordos espirituais a que Milingo se refere são Missas Negras encomendadas e realizadas numa mistura com rituais tão antigos quanto secretos de lojas maçônicas tradicionais. Claramente nem todos os padres trabalham para estes meios e fins, a maioria pratica Missas Negras em proveito próprio, o elixir dos elixires sexuais como dizia o marquês de Sade; dezenas de exemplos podem ser encontrados em obras como “O Livro Negro dos Demônios”, Dicionário Diabólico” e “Demonomoania dos Feiticeiros”.

Lamentavelmente não há uma tradução decente para o português desta magnífica obra; essencial para quem quer e precisa se aprofundar nos estudos ocultos. Quanto as denúncias, a igreja mostra que não tem sido o suficientemente hábil em manter a excitação e o silêncio de seus homens. Conventos e mosteiros são antros de feitiçaria, capazes de fazer inveja aos mais sábios dos iniciados. Mas sua saúde financeira também comprova que a suposta união com a maçonaria denunciada pelo arcebispo Milingo, têm sido altamente saudável a seus cofres.

É por razões como essas e outras, que um dos comportamentos mais tolos daqueles que seguem o caminho da mão esquerda, é atacar gratuitamente o Catolicismo, como já apregoava Aleister Crowley. Podemos e devemos questioná-los, aproveitarmos seus segredos e aquilo que realmente nos diz respeito e nos interessa, e deixar que os membros das religiões ditas divinas acusem-se e matem-se uns aos outros.. Atirar para todos os lados neste caso, simplesmente seguindo o que a TV e os concorrentes de fé falam seria matar a nossa própria galinha dos ovos de ouro, ou pior ainda, é imolar o nosso cordeiro de ouro.

Paulie Hollefeld

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/aspectos-ocultos-da-pedofilia-no-catolicismo-romano/

Candomblé de Caboclo e Omolocô

O Candomblé é uma religião de origem africana, com seus rituais e (em algumas casas) sacrifícios; através dos rituais é que se cultuam os Orixás.

O Candomblé é dividido em nações, que vieram para o Brasil na época da escravidão. São duas nações com suas respectivas ramificações:

Nação Sudanesa: Ijexá, Ketu, Gêge, Mina-gêge, Fom e Nagô
Nação Bantu: Congo, Angola-congo, Angola.

Desde muito cedo, ainda no século XVI, constata-se na Bahia a presença de negros bantu, que deixaram a sua influência no vocabulário brasileiro (acarajé, caruru, amalá, etc.). Em seguida verifica-se a chegada de numeroso contingente de africanos, provenientes de regiões habitadas pelos daomeanos (gêges) e pelos iorubás (nagôs), cujos rituais de adoração aos deuses parecem ter servido de modelo às etnias já instaladas na Bahia.

Os navios negreiros transportaram através do Atlântico, durante mais de 350 anos, não apenas mão-de-obra destinada aos trabalhos de mineração, dos canaviais e plantações de fumo, como também sua personalidade, sua maneira de ser e suas crenças.

As convicções religiosas dos escravos eram entretanto, colocadas às duras penas quando aqui chegavam, onde eram batizados obrigatoriamente “para salvação de sus almas” e deviam curvar-se às doutrinas religiosas de seus “donos”.

Primeiros Terreiros de Candomblé:

A instituição de confrarias religiosas, sob a ordem da Igreja Católica, separava as etnias africanas. Os negros de Angola formavam a Venerável Ordem Terceira do Carmo, fundada na igreja de Nossa Senhora do Rosário do Pelourinho. Os daomeanos reuniam-se sob a devoção de Nosso Senhor Bom Jesus das Necessidades e Redenção dos Homens Pretos, na Capela do Corpo Santo, na Cidade Baixa. Os nagôs, cuja maioria pertencia a nação Ketu, formavam duas irmandades: uma de mulheres, a de Nossa Senhora da Boa Morte, outra reservada aos homens, a de Nosso Senhor dos Martírios.

Através dessas irmandades (ou confrarias), os escravos ainda que de nações diferentes, podiam praticar juntos novamente, em locais situados fora das igrejas, o culto aos Orixás.

Várias mulheres enérgicas e voluntariosas, originárias de Ketu, antigas escravas libertas, pertencentes à Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte da Igreja da Barroquinha, teriam tomado a iniciativa de criar um terreiro de candomblé chamado Iyá Omi Asé Airá Intilé, numa casa situada na ladeira do Berquo, hoje visconde de itaparica.

As versões sobre o assunto são controversas, assim como o nome das fundadoras: Iyalussô Danadana e Iyanasso Akalá segundo uns e Iyanassô Oká, segundo outros.

O terreiro situado, quando de sua fundação, por trás da Barroquinha, instalou-se sob o nome de Ilê Iyanassô na Avenida Vasco da Gama, onde ainda hoje se encontra, sendo familiarmente chamado de Casa Branca de Engenho Velho, e no qual Marcelina da Silva (não se sabe se é filha carnal ou espiritual de Iyanassô) tornou-se a mãe-de-santo após a morte de Iyanassô.

O primeiro “toque” deste candomblé foi realizado num dia de Corpus Christi e o Orixá reverenciado foi Oxóssi.

CANDOMBLÉ DE CABOCLO

O Candomblé, ao desembarcar no País com os escravos, encontrou aqui um outro culto de natureza mediúnica, chamado “Pajelança”, praticado pelos índios nativos em variadas formas. Em ambos os cultos havia a comunicação de Espíritos.

Com o tempo, alguns terreiros começaram a misturar os rituais do Candomblé com os da Pajelança, dando origem a um outro culto chamado “Candomblé de Caboclo”. Naturalmente, os Espíritos que se manifestavam eram os de índios e negros, que o faziam com finalidades diversas.

A exemplo de toda nossa cultura, o candomblé de caboclo é um a miscigenação de europeus, africanos e ameríndios, uma verdadeira mistura de crenças e costumes que suas entidades trazem em suas passagens pela terra conforme suas falanges ou linhas que se dividem em Caboclos de Pena, a linha só há índios brasileiros, Caboclo de couro que pertence a linha dos homens que lidavam com gado, marujos que são aqueles que viviam no mar e outras como os famosos baianos que é a linha que representa o trabalhador nordestino que padeceu nos sertões brasileiros, assim como falange de Zé Pilintra que a história conta que foi um “malandro” injustiçado que se tornou encantado. Estes últimos são mais comuns nos cultos de umbanda da a região sudeste do país.

Influências Ketu, Gêge, Catolicismo, Ameríndia.

Usam dentro da ritualística o gongá ou peiji (palavra de origem indígena qu quer dizer altar), onde misturam imagens de todos os tipos: santos da Igreja Católica, pretos-velhos, crianças, índios, sereias, etc.

Trazem do Candomblé as festividades que louvam os Orixás e utilizam os atabaques (ilus); no lugar das sessões realizam as giras. A vestimenta é igual à do Candomblé; usam roncó, camarinha, feitura e na saída ocorre a personificação do Orixá (o médium sai com a vestimenta do Orixá); utilizam sacrifício (matança) de animais.

Nas sessões normais os caboclos utilizam cocares, arcos, flechas e no que se refere aos trabalhos, o nome dado é “Mandinga”.

Utilizam o ipadê ou padê, exigência dos Exús; os cântigos são denominados orikis e misturam cântigos em português e em iorubá.

OMOLOCÔ

Influências: Angola, Congo, Ketu, Gêge, Catolicismo, Ameríndia. Também denominado de Umbanda Mista, Umbanda Cruzada, Umbanda Traçada. É o mais próximo da Umbanda do Caboclo das Sete Encruzilhadas; segundo pesquisadores, este Candomblé estaria em transição para a Umbanda.

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Fonte:

SOCIEDADE ESPIRITUALISTA MATA VIRGEM. “Candomblé”. “Candomblé de Caboclo”. “Omolocô”. In. Outras Religiões Afro-Brasileiras. Curso de Umbanda.

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Texto revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/candomble-de-caboclo-e-omoloco/

Carta a um Maçom

Rio de Janeiro, 9 de julho de 1963.

Caro Dr. G.:

Faze o que tu queres há de saer tudo da Lei.

Li, com maior prazer, a entrevista concedida ao Diário de Notícias, através da qual o Grande Oriente do Brasil manifesta à nação a sua intenção de, finalmente, fazer com que a Maçonaria venha a ocupar na vida brasileira o papel que lhe cabe e sempre lhe coube desde a Independência – que, como todos sabemos, foi feita por maçons.

Relembrei nessa ocasião minha conversa com o senhor, e as nossas palavras de despedida, nas quais buscou o senhor gentilmente trazer à minha atenção o fato de que (na sua opinião) a Igreja Católica Romana é uma boa introdução à vida adulta para crianças. Eu lhe disse então: “Mas a Maçonaria é infinitamente melhor”, e aproveito esta oportunidade para repetir e ampliar estas palavras.

Eu não quis discutir a validade ou falta de validade da Igreja Romana como campo de treino para crianças, porque não é assunto que se possa, propriamente, discutir. É assunto que deve — repito, deve – – ser pesquisado por todo homem consciencioso e responsável, principalmente por maçon de alto grau e no Brasil, onde essa Igreja teve tanta influência na formação psíquica do povo — com os resultados que estamos vendo no presente.

Para esta pesquisa, vitalmente necessária a todos os maçons neste momento de transição, é necessário uma análise cuidadosa da evidência espalhada pelas obras de muitos pesquisadores imparciais e fidedignos; e isto não pode ser resumido numa breve discussão. Eu estou a par dos fatos; o senhor não estava, na ocasião; e afirmativas de minha parte teriam forçosamente de parecer ao senhor opiniões arbitrárias e caprichosas, principalmente por o senhor, com certeza, suspeitar de mim e de minhas intenções. Thelemitas não são mais benquistos no momento do que o foram os gnósticos e os essênios em seu tempo! A finalidade desta carta é expor, de maneira mais ordeira e clara, minhas conclusões, e citar as obras nas quais me baseio; de forma que o senhor possa, se quiser, consulta-las e tirar suas próprias conclusões, que podem ou não virem a coincidir com as minhas. Peço-lhe apenas que, tendo lido a minha carta; examinado, se lhe aprouver, as fontes nela citadas; e chegado, porventura, à conclusão de que são ambas de valor a seus irmãos maçons, transmita-lhes a carta assim como as fontes, para que, por sua vez, tenham a oportunidade de examinar, ponderar, e julgar.

Devo começar por repetir-lhe o que lhe disse por ocasião de nossa conversa, e que tanto chocou seus bons sentimentos e sua honesta devoção: que o homem chamado “Jesus Cristo” nos Evangelhos nunca existiu. Suas peripécias são fictícias; não padeceu sob nenhum Pôncio Pilatos; não foi nem poderia jamais ser a única Encarnação do Verbo; e qualquer Igreja, seita ou pessoa que diga o contrário ou está enganada ou enganando. Não quero dizer com isto que um homem assim não pudesse ter nascido, pregado, e padecido. Pelo contrário: tais homens nascem continuamente, e continuarão a nascer por todos os tempos: Encarnações do Logos, Templos do Espírito Santo, Cruzes de Matéria coroadas pela chama do Espírito.

Direi mais: houve, em certa ocasião, um homem que alcançou no mais alto grau a consciência de sua própria Divindade; e este homem morreu em circunstâncias análogas (porém não idênticas!) àquelas narradas nos Evangelhos. Seu nascimento perdeu-se na noite dos tempos: ele foi o original do “Enforcado” ou “sacrificado” no Taro, e os egípcios o conheciam pelo nome de Osiris. Foi esse Iniciado quem formulou na carne a fórmula do Deus Sacrificado. Esta é a fórmula da Cerimônia da Morte de Asar na Pirâmide, que foi reproduzida nos mistérios de fraternidades maçônicas da tradição de Hiram, das quais o exemplo mais perfeito foi o Antigo e Aceito Rito Escocês. O Graus 33º desse rito indicava uma Encarnação do Logos; a descida do espírito Santo; a manifestação, na carne, de um Cristo; a presença do Deus Vivo.

Para os fatos que servem de base às asserções acima, indico ao senhor as seguintes obras, de maçons ilustres e merecedores:

LA MISA Y SUS MISTERIOS, de J.M. Ragón.

THE ARCANE SCHOOLS, de John Yarker.

DO SEXO À DIVINDADE, do Dr. Jorge Adoum.

CURSO FILOSÓFICO DE LAS INICIACIONES ANTIGUAS Y MODERNAS, de J.M.Ragón.

ISIS DESVELADA, de Helena Blavatsky, seção sobre o Cristianismo. Mme Blavatsky não era dos vossos, mas era dos Nossos…

Na minha opinião, Dr. G., um maçon de alto grau, com tempo a seu dispor, faria um grande benefício a seus irmãos ao traduzir para o português as obras acima citadas, principalmente as duas primeiras.

Os documentos incluídos no assim-chamado “Novo Testamento” (a saber, os Quatro Evangelhos, os Atos, as Cartas e o Apocalipse) são falsificações perpetradas pelos patriarcas da Igreja Romana na época de Constantino, por eles chamado “o Grande” porque permitiu esta contrafação, colaborando com ela. Constantino não teve sonho algum de “In Hoc Signo Vinces”. Tais lendas são mentiras desavergonhadas inventadas pelos patriarcas romanos dos três séculos que se seguiram, durante os quais todos os documentos dos primórdios da assim- chamada “Era Cristã” existentes nos arquivos do Império Romano foram completamente alterados.

O que realmente aconteceu na época de Constantino foi que, aliados, os presbíteros de Roma e Alexandria, com a cumplicidade dos patriarcas das igrejas locais, dirigiram-se ao Imperador, fizeram-lhe ver que a religião oficial era seguida apenas por uma minoria de patrícios, que a quase totalidade da população do Império era cristão ( pertencendo às várias seitas e congregações das províncias ); que o Império se estava desintegrando devido à discrepância entre a fé do povo e a dos patrícios; que as investidas constantes das seitas guerreiras essênias da Palestina incitavam as províncias contra a autoridade de Roma; e que, resumindo, a única forma de Constantino conservar o Império seria aceitar a versão Romano-Alexandrina do Cristianismo. Então os bispos aconselhariam o povo a cooperar com ele; em troca, Constantino ajudaria os bispos a destruírem a influência de todas as outras seitas cristãs! Constantino aceitou este pacto político, tornando a versão romano- alexandrina de Cristianismo na religião oficial do Império.

Conseqüentemente, a liderança religiosa passou às mãos dos patriarcas romano-alexandrinos, que, auxiliados pelo exército do Imperador, começaram uma “purgação” bem nos moldes daquelas da Rússia moderna. Os cabeças das seitas cristãs independentes foram aprisionados; seus templos, interditados; e congregações inteiras foram sacrificadas nas arenas das províncias de Roma e Alexandria. Os gnósticos gregos, herdeiros dos Mistérios de Eleusis, foram acusados de práticas infames por padres castrados como Orígenes e Irineu (a castração era um método singular de preservar a castidade, derivado do culto de Atis, do qual se originou a psicologia romano-alexandrina). Os essênios foram condenados através do hábil truque de fazer dos judeus os vilões do Mistério da Paixão; e com a derrota e dispersão finais dos judeus pelos quatro cantos do Império, a Igreja Romano- Alexandrina respirou desafogada e pode dedicar-se completamente ao que tem sido sua especialidade desde então: ajudar os tiranos do mundo a escravizarem os homens livres.

Para o escrito acima, indico ao senhor os seguintes livros:

ISIS DESVELADA, de Blavatsky, seção sobre o Cristianismo OUTLINES ON THE ORIGIN OF DOGMA, de Adolf von Harnack.

DECLINE AND FALL OF THE ROMAN EMPIRE, de Gibbon.

THE AGE OF CONSTANTINE THE GREAT, de Burckhardt.

Quanto às falsificações da Igreja Romano-Alexandrina, indico ao senhor as palavras do grande erudito americano Moses Hadas, em suas notas à tradução do livro de Burckhardt, à página 367, que passo a traduzir:

“A História Augusta apresenta biografias de imperadores, cézares e usurpadores, de Afriano a Numério (117-284), com uma lacuna no período de 244 a 253. Pretende ser o trabalho de seis autores (Aelius Spartianus, Vulcacius Gallicanus, Aelius Lampridius, Julius Capitolinus, trebellius Pollius e Flavius Vopiscus), e ter sido escrita entre os reinados de Diocleciano e Constantino, ou cerca de 330. Alguns estudiosos creêm tais asserções verdadeiras, mas outros mantêm que a obra foi escrita um século mais tarde, e por uma só pessoa. Em tal caso o nome dos seis autores terá sido adicionado para tornar mais convincente o que foi escrito.

Trocando em miúdos, o que ele quer dizer é o seguinte: os patriarcas romanos, ansiosos por esconder seus crimes (especialmente a perseguição a cristãos de outras seitas ou igrejas) e por se declararem os únicos cristãos verdadeiros, destruíram todos os documentos autênticos nos quais conseguiram por as mãos. (Isto lhes era particularmente fácil já que, desde a era de Constantino, eles foram os guardiães de tais manuscritos.) Feito isto, substituíram os destruídos por outros, forjados, que descreviam a sua clique como oprimida pelos imperadores e outras seitas cristãs como inexistentes ou obscenas. (Na realidade, ela bajulara os imperadores desde o começo: o culto de Átis era o único em Roma ao qual os patrícios podiam ir legalmente.) Um pouco mais tarde, Romanos e Alexandrinos brigaram. Isto porque cada facção queria fazer de sua cidade o centro político e religioso do Império. Foi então que um dos poucos historiadores pagãos que escaparam à atenção dos Patriarcas escreveu: “As atrocidades dos cristãos uns contra o outros ultrapassa a fúria das bestas selvagens contra o homem.”(Ammianus Marcellinus) O capítulo final da disputa foi a divisão do Império em Romano e Bizantino. Desde então, a Igreja Romana tem se chamado “Católica”, e a Bizantina, “Ortodoxa”.

Ambas, é claro, um amontoado de mentiras.

Qual o motivo, o senhor perguntará, para essa perseguição impiedosa às seitas gnósticas e essênias? No caso dos essênios, as razões foram políticas e dogmáticas.

Aproximadamente um século antes do assim-chamado “Ano Um” nascera na Palestina um rabi, cujo nome é desconhecido (embora alguns estudiosos presumam ter sido Ionas, ou Jonas). Ele criou um novo sistema de Essenismo, fundando muitos ramos dessa fraternidade judeo-cóptica, e adquirindo um grande número de seguidores na Ásia Menor. Muitos documentos foram escritos acerca dos incidentes de sua vida e doutrina. Foi um Adepto Cristão, ou seja, defendeu a tese de que todo homem é um Templo do Deus Vivo; deu testemunho do Logos e do Espírito Santo, e tal foi seu impacto no pensamento religioso de sua época que os patriarcas romano-alexandrinos, ao escreverem a “história de Jesús Cristo”, foram forçados a incluí-lo, para evitar suspeitas. Chamaram-no de “João Batista”…

Acerca deste: THE DEAD SEA SCROLLS, AN INTRODUCTION, de R.K.Harrison.

Também este livro deveria ser traduzido para o português por um maçon! Abaixo, cito uma passagem atribuída a esse iniciado, extraída de um manuscrito cóptico intitulado “Evangelho de Maria”, apócrifo, desde 1896 no Museu de Berlim. Depois de haver explicado vários pontos de sua doutrina, ele se despede de seus discípulos:

“… Quando o Abençoado havia dito isto, ele saudou a todos, dizendo: ‘Paz seja convosco. Recebei minha paz para vós mesmos. Cuidai-vos de que nenhum vos desvie com as palavras “olha alí” ou “olha lá”, pois o Filho do Homem está dentro de vós. Seguí-o: aqueles que o buscam o encontrarão. Ide, pois, e pregai a Boa Nova do Reino. Eu não vos deixo nenhuma regra, salvo o que vos recomendei (Amai-vos uns aos outros), e eu não vos dei nenhuma lei, qual fez o legislador (Moisés), para evitar que vos sentísseis obrigados por ela.’ E quando acabou de dizer isto, ele foi embora.” (Gnosticism, An Anthology, ed. Robert M. Grant, Collins, London, pp.65-66, “The Gospel of Mary”)

Esta passagem pode ser comparada a muitas outras nos Evangelhos nas quais, quando interrogado, “Jesús” diz explicitamente: “O Reino de Deus está dentro de vós.” E que razão tinham os Romanos e Alexandrinos para perseguir e exterminar os gnósticos gregos? Desta feita o motivo era puramente dogmático. Na época posteriormente atribuída pelos patriarcas ao “nascimento de Jesús Cristo”, um iniciado grego deu vida nova aos mistérios de Apolo e Diôniso, restabeleceu o culto ao Sol Espiritual e ao Logos, praticou maravilhas taumatúrgicas e, em suma, causou tal impressão que os Romano-Alexandrinos foram forçados a incorporar diversos “milagres” em sua miscelânia evangélica, de forma que o seu “Jesus” pudesse igualar os prodígios atribuídos a Apolônio de Tyana. Ao mesmo tempo, afirmaram que Apolônio de Tyana havia sido enviado por “Satã” para reproduzir os milagres de “Jesús” e assim desviar as pessoas do “verdadeiro Cristo”. destruíram também, sistematicamente, todos os documentos autênticos da vida de Apolônio, salvo um, a fantástica e inacreditável Vita, atribuída a um pretenso “discípulo” desse grande Adepto.

Novamente lhe indico ISIS DESVELADA, e o artigo “Apollonius” na Enciclopédia Britânica.

Devo aqui, Dr. Gastão, apender um parêntese um pouco prolongado, de forma a estabelecer a maneira pela qual o Catoliscismo Romano difere do verdadeiro Cristianismo. Para este fim, começarei por apresentar um dos poucos textos que nos chegaram quase sem alterações cometidas pelos patriarcas de Roma e Alexandria. As modificações relevantes vão comentadas entre parênteses, e o texto, apresento o original, intacto. É o Intróito do Evangelho de “São João”:

“No princípio era o Verbo. E o verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

“Ele estava no princípio com Deus.

“Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez.

“A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens.

“A luz resplandece nas trevas, e as trevas não o escondem ( isto é, não escondem o fato que a luz brilha nelas!).

“Houve um homem enviado por Deus, cujo nome foi Jonas (Johannes no original em grego).

“Ele veio como testemunha da luz, a fim de todos virem a crer por intermédio dele.

“Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz: a saber, a verdadeira luz que, vinda ao mundo, ilumina todo homem.

“Estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dela, mas o mundo não a conheceu ( no masculino na Vulgata, para sugerir “Jesús”).

“Veio para o que era seu, e os seus não a receberam ( idem).

“Mas, a todos quanto a (idem) receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus ( e aqui os Romanos-Alexandrinos acrescentaram: a saber, os que crêem no seu nome, isto é, no “Jesús” que eles inventaram para servir aos seus propósitos), os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.

“E o Verbo se fez carne, e habitou em nós ( a Vulgata aqui põe “entre”, o que muda totalmente o sentido da passagem) cheio de graça e verdade, e vimos a sua glória, glória como a do primogênito do Pai ( o primogênito do Pai é, claro, Chokmah, o Verbo Espiritual, a Primeira Emanação do Ancião dos Dias, Kether. “Primogênito” também traz à lembrança o “mais velho dos filhos de Deus”, Lúcifer ou Satã.” Na versão acima, original, desse documento cristão, e nas interpolações introduzidas pelos romanos-alexandrinos, Dr. G., tem o senhor o sumário e a base do dógma católico romano.

Jonas, Apolônio, Simão ( Simão Pedro e Simão o Mago; a isto aludiremos depois), Adeptos cristãos, ensinaram todos os três: “Vós sois o Templo do Deus Vivo. Contemplai a Luz dentro de vós, e sabei que sois Filhos da Luz!” Repetidamente esta mensagem é encontrada nos Evangelhos; mas sempre deformada, condicionada ou “explicada” pelas interpolações e teologismos romano- alexandrinos. O resultado é que, algumas vezes, “Jesús” fala como um santo, como uma verdadeira Encarnação do Verbo; o mais das vezes, porém, como fanático e sectarista.

Contradições deste tipo abundam.

Este é o resultado das alterações a interpolações dos romanos e alexandrinos. Copiaram, adaptando-os às suas necessidades político- financeiras, os documentos essênios que descreviam as pregações de Jonas ( entre outros, o “Sermão da Montanha”). Inseriram “milagres” do tipo atribuído a Apolônio de Tyana. Arranjaram um Mistério da Paixão em drama nos moldes dos cultos de Mitras, de Adonis, de Átis, de Diôniso e de Oannes — o que era necessário para tornar o seu “Jesús” numa Encarnação do Logos do Aeon de Osiris, o Deus Sacrificado. Tão cuidadosamente misturaram a verdade e mentira que durante quase mil e seiscentos anos todo cristão que procurou encontrar o Verbo em si mesmo — o único lugar onde pode ser encontrado — deparou, nos portais de sua alma, com este fantasma insidioso, esta blásfema quimera, este pesadelo teológico: “Nosso Senhor Jesus Cristo”.

“Adora-me!” — diz o Egrégora — “Eu sou o filho de Deus. Tu não és nada mais que uma criatura sem valor e pecadora, condenada desde o nascimento e destinada ao inferno não fosse por meu sacrifício; e sem mim nunca alcançarás o céu.” Talvez o senhor comece a compreender agora, Dr. G., a natureza daquilo a que nós chamamos a Grande feitiçaria? Após mil e seiscentos anos de vitalização por multidões de adorantes, e a absorção das cascas vazias de padres, freiras e fanáticos que se deixaram vampirizar por ele, o Egrégora existe no assim-chamado plano astral; e é um demônio, quer dizer, uma entidade ilusória. Não é um verdadeiro Microcosmo, mas uma gestalt de cascões vitalizados, um foco para tudo que há de negativo, derrotista, piegas, preconceituoso e introvertido na natureza dos cristãos: um lodaçal completamente hostíl ao progresso e á evolução espiritual deles.

E, no entanto, nada há mais sagrado ou puro do que está oculto neste nome, “Jesus Cristo”… É um híbrido dos títulos pelos quais os cabalistas essênios e os gnósticos gregos, respectivamente, chamavam o Iniciado que alcançasse a esfera de Tiphareth, o Filho — ou seja, a “sephira”, ou “plano” de consciência que em Nosso sistema corresponde ao grau de Adeptus Minor, e, no Rito Escocês, ao 33º grau.

Cristo, Chrestos, significa “Bom” e “ungido”. Este era um título nobre nos Mistérios de Eleusis. O Iniciado tem sempre sido um sacerdote-rei desde a antiguidade; a superstição absurda do “direito divino hereditário” dos reis foi outra adulteração dos romanos- alexandrinos para ajudar aos tiranos que os apoiavam. Seria realmente fácil se a verdadeira realeza, dura recompensa da Iniciação, pudesse ser transmitida por métodos dinásticos, ou conferida por um papa! Para fazer justiça a este tema um volume inteiro seria necessário; diremos apenas que os símbolos tradicionais da realeza são os símbolos da completa iniciação. O Cetro representa o Falo, a imagem material do Verbo; o Globo e a Cruz são formas da Cruz Ansata, o símbolo da imortalidade conferida pela Iniciação ( mostra a mulher “dominada” pelo homem, ou seja, satisfeita pelo homem….); a Coroa é Kether, o Sahashara Cakkram em completo funcionamento, a Primeira Sephira, o Ancião dos Dias, o Pai; o Manto Púrpura ornado de estrelas ou flores representa o Céu Noturno, a Aura do Sacerdote de Nuit; e finalmente, as roupagens rubro-douradas são o símbolo do Corpo Solar, o Corpo de Glória do Iniciado — vermelho e ouro sendo as cores heraldicas do sol.

Quanto ao nome “Jesús”, é escrito em hebraico IHShVH ( pronuncia- se Jehêshua). Note que isto é IHVH ( Tetragrammaton ) com Shin (Sh) intercalada. Shin é a letra que representa a um só tempo os elementos Fogo e Espírito, e, estando no centro de IHVH, equilibra as Quatro Forças Elementais Cegas do Demiurgo. Jeová — a Palavra de Moisés — torna-se Jeheshua — a Palavra de Jonas. Nesta Palavra o senhor tem o Deus Crucificado, Dr. G.: nela o Pentagrama, o Sinal do Homem, a Estrela Flamejante do Santuário; nela a chave cabalistica do Tetragrammaton Cristão, INRI, que significa, entre outras coisas, Igne Natura Renovatur Integra, ou seja: Pelo Fogo (do Espírito Santo) a natureza se Renova Inteiramente…

A diferença básica entre o Cristianismo e as religiões que o precederam é que o Mistério de Osíris, até então revelado apenas a aspirantes cuidadosamente selecionados nos mais profundos recônditos dos mais remotos santuários, foi abertamente oferecido ao mundo.

Antes do Aeon de Osíris, no Aeon de Isis, os homens adoravam a Deus em uma de Suas múltiplas imagens (adaptadas à visão espiritual de indivíduos diversos em nações diversas) da mesma forma que uma criança ama e adora sua mãe: como Alguém que protege, alimenta, conforta e ocasionalmente corrige e castiga, mas sempre como alguém exterior a si mesmos.

Foi a revelação do Mistério da Morte de Osíris que acordou os homens para a consciência de que eles, em si mesmos, são a divindade encarnada. Tampouco podemos ir muito longe neste assunto, pois é matéria para outro volume. O Aeon de Virgo-Pisces, com suas vibrações, adaptava-se às idéias de devoção e auto-sacrifício, tornando a Iniciação Racial possível em larga escala; mas é necessário que o senhor compreenda, Dr.G., que o Mistério de Osíris data da mais remota antiguidade. O Deus Sacrificado é fórmula anterior à destruição da Atlântida, quando o verdadeiro significado dos símbolos, até então geralmente conhecido, tornou-se o privilégio de alguns poucos iniciados. Um sacrifício humano anual, para ajudar a colheita, era um rito genérico entre todas as tribos agricultoras da Europa e da Ásia Menor há cinco mil anos atrás; e mesmo nos primórdios do Romanismo ainda era praticado por tribos indo- européias. O sacrificado era, originalmente, o rei da tribo; reinava durante o ano, e era executado nos Ritos da Primavera, ou Páscoa (em ingles Easter, corruptela de Ishtar). Era tratado como encarnação do deus tribal, e adorado até o momento de sua morte. Com seu sangue os campos de cultivo eram salpicados; sua carne era comida por nobres e sacerdotes; e o povo tinha de contentar-se em respirar a fumaça de certas partes queimadas e oferecidas à divindade que ele havia encarnado (estas partes variavam: algumas tribos queimavam os órgãos sexuais, outras o coração).

Eventualmente, com o desenvolvimento da inteligência, a fórmula tornou-se mais conveniente para os reis: algum gênio tribal concebeu a idéia de um vicário; e desde então, um rei substituto era simbolicamente ungido para a ocasião, para ser sacrificado no lugar do rei verdadeiro. Primeiro usaram voluntários, depois velhos e doentes ou criancinhas, a seguir inimigos, e por último animais.

Em muitas tribos os pais, em vez de se sacrificarem, sacrificavam seus primogênitos (neste caso eram os pais os chefes ou patriarcas das tribos). Na Bíblia, a história do primogênito de Abraão é uma hábil fábula que marca a transição, entre os primeiros judeus, do sacrifício dos primogênitos a Jeová para aquele dos bodes expiatórios.

Sacrifícios humanos, acompanhados de antropofagia ritual, eram costume no continente indoeuropeu, na Austrália, no continente africano e no Novo Mundo. A presença universal de tal rito, numa época em que a arte da navegação era praticamente nula, indica uma origem comum na Antiguidade, Esta foi a Atlantida, se bem que o senhor deva notar que seus habitantes não praticavam sacrifícios humanos. Foi precisamente a destruição desta civilização (devida não a “castigo divino”, mas a um dos grandes movimentos periódicos da crosta terrestre a intervalos de vinte mil anos) que, havendo deixado apenas algumas colônias em outras terras, resultou na volta à barbárie que ali ocorreu quando o símbolos passaram a ser interpretados da forma mais grosseira. Alguns mais avançados da cultura atlante mantiveram o verdadeiro significado. Entre eles, o Egípto, onde os Mistérios Menores ( de Isis e Osíris ) eram celebrados com pleno conhecimento de seu significado verdadeiro (é suficiente que o senhor recorde que no Livro dos Mortos a alma do morto ou da morta é sempre chamada Osíris), e os Mistérios Maiores ( de Nuit-Hadit-Hoor ) preservados com o máximo segredo.

Foi do Egito que veio a Corrente de Osíris, a qual, devido à diversidade de povos e línguas, e às dificuldades de comunicação no plano material, manifestou-se em pontos diferentes do continente indoeuropeu sob formas diversas, embora seguindo sempre a fórmula do Deus sacrificado. A corrente começou aproximadamente no ano 500 A.C.

Um estático da Ásia Menor, cujas aventuras tornaram-se lendárias, e que eventualmente ficou conhecido pelo nome de Diôniso, viajou pela Grécia, Ásia Menor e India, ensinando a nova fórmula de Iniciação Racial. Este iniciado, o original verdadeiro do “Jesús Cristo” evangélico, foi um filho espiritual de Krishna, ou antes, de Vishnu, de quem foi Krishna o principal avatar; e sua Palavra era INRI, que é uma modificação da Palavra de Krishna, AUM. Citamos aqui o Capítulo 71 de LIBER ALEPH, um dos mais profundos trabalhos do Mestre Therion: “Krishna tem inumeráveis nomes e formas, e não conheço seu verdadeiro Nascimento humano. Pois sua Fórmula é de alta Antiguidade. Mas Sua Palavra espalhou- se por muitas terras, e hoje a conhecemos como INRI com o IAO secreto aí oculto. E o significado desta Palavra é a Maneira de Trabalho da Natureza em Suas Mutações: isto é, é a Fórmula de Magia pela qual todas as Coisas se reproduzem e recriam a si mesmas. Porém, esta Extensão e Especialização foi antes a Palavra de Diôniso; pois a verdadeira Palavra de Krishna era AUM(OM), implicando antes numa asserção da Verdade da Natureza do que numa Instrução prática sobre Operações Detalhadas de Magia. Mas Diôniso, pela palavra INRI, estabeleceu a fundação de toda Ciência, da forma como hoje entendemos a palavra Ciência em seu senso particular, ou seja, o de causar a Natureza externa a mudar em Harmonia com nossas Vontades.” Este Iniciado, cujo nome carnal é hoje desconhecido, mas que conhecemos por Diôniso (o qual pode ter sido seu nome, pois se tornou bastante comum na Ásia e na Grécia depois de sua morte), viveu e trabalhou aproximadamente quinhentos anos antes da assim-chamada “era cristã”. Foi mencionado por um dos profetas judeus — Isaias — em várias passagens do Livro de Isaías. Estas eram estudadas com veneração profunda pelos velhos Essênios, que sabiam do seu sentido oculto. A passagem principal é citada aqui (parênteses meus):

“Quem acreditou em nossa pregação? A quem foi mostrado o braço de Adonai? (braço é um eufemismo para o falo, o órgão material do Verbo.

Coxa, braço, quafril, chifre, etc., são eufemismos para penis, usados tanto no Novo quanto no Velho Testamento para apaziguar as mentes prurientes dos tradutores que, projetando seus próprios traumas psíquicos, acharam que o povo ficaria chocado ao ouvir uma pica chamada de pica. Este tipo de “censura bem intencionada” ainda hoje é praticado: os cristãos todos parecem achar-se capazes de “proteger a virtude” de seus semelhantes!) . Porque foi subindo como um rebento novo ( ou seja, como uma Palavra nova, necessariamente mal-entendida e temida a princípio) perante Ele, e sua raiz em uma terra seca; não tinha presença nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza tinha ele que nos agradasse.

“Foi desprezado, o mais rejeitado entre os homens; homem que sofrera, e sabia o que é padecer; como um de quem os homens se desviam, foi desprezado, e dele não fizemos caso.

“Em verdade ele tomou sobre si nossas mazelas; as nossas dores carregou sobre si; e por isto o considerávamos, aflito, ferido de Deus, e opresso; “Ele foi golpeado, mas por nossas transgressões; moído, mas por nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe a paz caíu sobre ele, e pelas suas pisaduras nós fomos sarados.

“Andávamos todos desgarrados, como ovelhas; cada um se desviava do caminho, mas Adonai fez caír sobre ele a iniquidade de nós todos”.

“Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e como ovelha, muda perante seus tosquiadores, manteve silêncio.

“Por decreto tirânico nos foi arrebatado, e sua linhagem, quem dela cogitou? Pois ele foi cortado da terra dos vivos; por causa da transgressão do meu povo foi ele ferido.

“Deram-lhe sepultura com os perversos, mas com o rico habitou em sua morte; pois nunca fez injustiça, nem dolo algum se achou em sua boca.

“Todavia, a Adonai agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando ele deu a sua alma (a Vulgata tem der , para sugerir que isto é uma profecia sobre — claro — “Jesús Cristo”) como oferta pelo pecado, viu a sua posteridade ( isto é, seus filhos mágicos ) e prolongará seus dias; a vontade de Adonai prosperará em sua mãos.

“Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma, e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com a sua compreensão ( isto é, Binah; a “entrega da alma” corresponde à Passagem do Abismo ) justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si.

“Por isso eu lhe darei muitos como a sua parte ( isto é, como seus discípulos ), e com os poderosos (isto é, os Reis ou Potestades — uma das hierarquias celestiais ) repartirá ele os despojos; porquanto derramou a sua alma ( isto é, o seu sangue — vinho de IAO — na Taça de BABALON, que contém o sangue dos santos ) na morte; foi contado com os transgressores ( isto é, considerado malígno ); contudo levou sobre si os pecados de muitos, e pelos transgressores ( isto é, os malígnos entre os quais foi contado, os quais eram na realidade os que o condenavam ) intercedeu.”

LIVRO DE ISAÍAS, III, vv. 1 – 12.

Talvez o senhor compreenda melhor o acima se eu citar aqui alguns raros versos de um dos Livros Santos de Télema:

“46. Ó meu Deus, mas o amor em Me rebenta sobre os laços de Espaço e Tempo; meu amor é derramado entre aqueles que não amam o amor.

“47. Meu vinho é servido àqueles que nunca provaram vinho.

“48. Os fumos dele os intoxicarão, e o vigor do meu amor engendrará bebês pujantes em suas virgens.”

LIBER VII, vii, vv. 46 – 48.

Há certos segredos iniciáticos, Dr. G., que não podem ser revelados pela simples razão que apenas aqueles que os experimentaram em si mesmos são capazes de compreender referências a eles feitas.

Portanto limitar-me-ei a dizer que a história simples contada nos versos de Isaías descreve a carreira de todo Adepto Cristão. Isto, em teoria, seria também a história de todo maçon do grau 33º; mas na prática, embora não tenham os srs. perdido a Palavra, mantêm a letra mas não o espírito. Os senhores maçons caíram bem aquém do que era intencionado por seu sistema — isto principalmente devido ao constante ataque da Igreja de Roma.

Os patriarcas romanos-alexandrinos que escreveram o Novo Testamento copiaram palavras de verdadeiros Iniciados; resulta que, encerradas em seus evangelhos adulterados, ainda há várias chaves que aqueles que “tiverem ouvidos de ouvir” (isto é, percepção espiritual: o sentido da audição corresponde ao Akasha hindu, o Elemento do Espírito) podem usar para encontrar a Medicina Universal e o Elixir da Vida …

No entanto, os romanos-alexandrinos erraram tristemente ao tentar usar de métodos profanos para expandir um cristianismo viciado por interpretações dogmáticas e ambições temporais de poder político e financeiro. Falharam por não fazerem o preconizado por Jonas aos essênios: “Dar a Cesar o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Invariavelmente, quando quer que na história da humanidade um sistema de teurgia é conspurcado e se torna uma religião organizada, sofrem os elos entre o sistema e sua fonte espiritual. Os planos não podem ser misturados, e acreditando-se movidos pelas melhores intenções, os romanos-alexandrinos foram na verdade impelidos por vaidade e orgulho — sentimentos enraizados no ego, precisamente a faculdade que o homem deve destruir na passagem do Abismo.

O resultado foi que, perdendo contato com o Logos do Aeon de Osíris, a igreja romano-alexandrina tornou-se instrumento de forças demoníacas — isto é, de forças ilusórias, egóicas — e deu-se desde então a erros espantosos, a crueldades indizíveis.

Consequentemente, os verdadeiros cristãos retiraram-se daquela igreja no momento mesmo em que ela triunfava sobre suas “rivais” gnósticas e essênias, e aliava-se aos príncipes do mal deste mundo.

Retiraram-se, e silenciosamente continuaram seu trabalho através de todo o abuso e perseguição que se seguiram; e eventualmente, para contrafazer mais eficientemente os efeitos da Grande Feitiçaria, criaram a Maçonaria.

O senhor sabe, é claro, que o Rito Antigo, ou melhor, a Grande Loja da Inglaterra, foi organizada ( e o Rito inteiro reformado ) por um certo Elias Ashmole, judeu, e Irmão da R.C. A R.C. (que só existe neste mundo com este nome desde que o grande iniciado que se ocultou sob o nome de “Cristian Rosenkreutz” começou o movimento que resultou na Renascença, na Reforma e nas revoluções Francesa e Americana ) é responsável pelo Mistério do Logos — o Mistério do cristo. É tarefa dela zelar para que este Mistério jamais seja perdido pela humanidade. Quando quer que, por erros humanos, por oscilações do karma terrestre, ou pelas leis do acaso, a transmissão da Palavra e do Sinal (isto é, a sucessão apostólica) é ameaçada, é a R.C., sob um de seus muitos véus (ela nunca usa abertamente o nome de R.C.!), através de um ou mais de seus Irmãos, que lembra a humanidade o significado espiritual da Encarnação; da promessa da Ressurreição; da Grande Obra, isto é: o estabelecimento do Reino de Deus sobre a Terra.

A R.C. nunca interfere de forma alguma com a organização ou direção de ritos maçônicos; nem seus Adeptos, necessáriamente, ingressam em tais ritos. Apenas, informação em quantidades suficientes é outorgada, e fontes de pesquisa são sugeridas ao exame dos maçons, para que o significado espiritual dos ritos seja reestabelecido pelos próprios maçons.

A R.C. está abaixo do Abismo: a Grande Ordem que não tem nome é simbolizada pelo Olho no Triângulo, e este é o Collegium Summum, ou a S.S., da A.•.A.•.

A A.•.A.•. é apenas uma das Fraternidades Iniciáticas, e abaixo do Abismo é das mais novas. Foi organizada em sua forma presente na primeira década deste século.

Quanto à S.S., é a mesma para todas as fraternidades iniciáticas.

Isto é fonte de surpresa, às vezes, para iniciados de graus mais baixos, pois, chegando a certas consecuções, verificam que Mestres que pareceram pregar doutrinas completamente opostas ( como, por exemplo, Maomé e Jonas ) estão sentados lado a lado no Areópago dos Adeptos.

Recapitulando: Quem é “São João Batista”? É Jonas, Ionas, Jon, Johannes, João, o Mestre de retidão dos essênios, cujos sermões são postos nos Evangelhos na boca de “Jesús”.

Quem é “Jesús”? É qualquer indivíduo que tenha atingido o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião, o Paracleto.

Quem é “Jesús Cristo”? É o nome dado pelos Romano-Alexandrinos à sua versão fictícia do Logos do Aeon de Osíris, cuja Palavra foi INRI, e a quem Nós conhecemos por Diôniso.

Quem é o “Pai” a quem “Jesús” sempre se refere nos Evangelhos? É o Logos, a LVX, o Verbo, cuja Sephira é Chokmah, o Primogênito de Kether.

Quem é o Cristo? Tecnicamente é todo e qualquer Adepto, desde que, no simbolismo grego, o nome corresponde ao essênio Jeheshua; mas na prática o título é usado para designar o LOGOS AIONOS.

Do ponto de vista místico, “ninguém atinge o Pai a não ser pelo Filho”; consequentemente, desde que todo Adepto Cristão é uma Encarnação do Verbo, a distinção entre o Cristo Solar e o Cristo Interno é mera ilusão do profano. Ego sum qui sum, diz o Iniciado: AHIH, EU SOU O QUE SOU.

Quando Aleister Crowley estava sendo “julgado” (foi nesta ocasião que o juiz presidindo o chamou de “o pior homem do mundo”), o promotor lhe perguntou: “Não é verdade que o senhor se chama a si mesmo de A Besta do Apocalipse?” Crowley, que já estava acostumado a esperar o pior de seus semelhantes, respondeu com a paciência e agudeza de humor que lhe eram característicos: “Esse nome significa apenas O Sol. O senhor pode me chamar de Raio-de-Sol, se quizer.” Isto é: chamá-lo de Adepto, ou seja, Jeheshua, ou seja, Maçon 33º, Dr. G.: Sol em miniatura, isto é, Tiphareth…

Esta confusão entre o Adepto e seu Pai aparece até em “João Batista”, quando ele diz: “Eu sou a Voz (ou seja, o Verbo) que clama no Deserto ( isto é, no Abismo).” O mais antigo símbolo conhecido para o Logos é o Olho dos Egípcios; e o Olho está no Abismo; este é o Olho no triângulo, e este é o verdadeiro Baphomet, o Chefe Secreto de todos os maçons.

Abaixo do Abismo, Ele é representado por dois Adeptos, um do Pilar Branco, o outro do Pilar Negro. O do Pilar Branco é o Adepto Exempto, e ele promulga a Lei; o do Pilar Negro é o Adepto Maior, e ele faz com que as promulgações do Adepto Exempto sejam cumpridas.

Os judeus, depois que pararam de sacrificar primogênitos, tinham dois bodes sagrados para os festivais, um branco e outro negro. O branco era sacrificado a IAO ( o nome mais antigo de Jeová); o negro, carregado com as maldições dos sacerdotes, era impelido para o deserto…

Compreende o senhor melhor agora, Dr. G., por que razão a Sala dos Maçons é chamada a Sala do Bode Preto? O Olho no Abismo é o Olho do Sol, o Olho de Hoor, que, por certas razões ocultas, é identificado com o anus. É por isto que se dizia, dos iniciados de Satã, que eles “beijavam o anus de um bode preto”…. No Egito antigo, em certo ritual onde cada parte do corpo do Iniciado era colocada em relação com cada parte correspondente de algum ser divino, o Iniciado dizia em dado momento: “Minhas nádegas são as Nádegas do Olho de Hoor.” Mas quem diabo — perdoe o trocadilho — é na verdade este notório Satã que os padres romanos nos acusam de adorar, e a quem eles culpam por seus fracassos (ao invés de culparem a sua estupidez preconceituosa)? Quando a Igreja Romana começou a “catequização” das províncias, encontrou continuamente deuses locais. Aprendendo as peripécias lendárias de tais deuses, os engenhosos padres romanos fabricavam um “santo” com as mesmas proezas, e diziam aos ignorantes pagãos: “Esse seu deus não é mais que um demônio que tenta lhes desviar de Nosso Senhor Jesús Cristo, e para este fim imita as façanhas de nosso amado mártir Fulano. E se vocês não me acreditam, ouçam a história da vida de nosso santo mártir…” Desta forma, a Igreja Romana assimilou em sua liturgia um panteão inteiro de deuses pagãos que eram transformados em santos e santas e mártires imaginários — os únicos mártires cristãos do início do cristianismo foram os essênios e os gnósticos, a quem os romanos- alexandrinos acusaram, caluniaram, e denunciaram aos imperadores.

Exemplos: aqueles que adoravam o Cristo sob a forma de um asno ( Príapus ), os que adoravam o Cristo sob a forma de um peixe ( Oannes ); os que adoravam o Cristo sob seu nome de Baco ou Diôniso…

Mas houve um deus pagão que os romanos não conseguiram absorver, porque suas peripécias eram por demais virís para serem atribuídas a um “santo romano”, que era necessariamente um castrado, no corpo ou no espírito. Por outro lado, seus ritos eram tão vitais, tão universalmente populares nas províncias, que era impossível esperar que o povo o esquecesse: depois de seis séculos de tirania romano- alexandrina, ele ainda era conhecido e adorado: o deus PÃ, o deus de chifres e de cascos de bode…

Portanto, não podendo fazer dele um santo, Dr.G.’fizeram dele o diabo.

Uma profusão de dados sobre tudo o que foi escrito acima pode ser encontrado nos seguintes livros:

THE GOD OF THE WITCHES, de Margaret Murray O LIVRO DOS MORTOS, trauzido do egípcio por Sir Wallis Budge.

THE GOLDEN BOUGH, de Sir James Frazer, na edição completa em vários volumes. Neste trabalho monumental o senhor encontrará um estudo detalhado dos deuses pagãos tornados em “santos” e “mártires” do calendário romano…

Mas voltando ao deus PÃ: a igreja Romana lutou contra os ritos deste deus durante vários séculos. Os festivais de Pã eram orgiásticos — daí sua popularidade — e celebrados nos Equinócios e Solstícios. Eventualmente, a Igreja Romana foi forçada a incorporar estes rituais em sua liturgia, visto ser impossível eliminá-los; e sabiamente fez deles os festivais mais importantes do culto a “Nosso Senhor Jesus Cristo”: a Páscoa ( com Corpus Christi ), o “Natal”, o dia de “São João Batista” e o dia de “São João Apóstolo”.

Eventualmente, a reforma gregoriana mudou o “Natal”, que a princípio era oscilável como a Páscoa e Corpus Christi, e caía no Solstício; e tendo finalmente absorvido o rito orgiástico que então tinha lugar, os padres fixaram a data de 25 de dezembro (dava muito na vista, um aniversário oscilante…). Então os católicos romanos, seus derivados posteriores e muitas ordens ocultistas espúreas celebram nessa data a “ressurreição” ou “nascimento” do Sol: isto porque o solstício de inverno é o momento em que o Sol, tendo alcançado seu máximo declínio meridional na eclítica, começa sua volta para o Norte, levando o calor que renovará a vida da vegetação na Primavera.

Mas, do ponto de vista iniciático, quem era este Pã? Como qualquer deus de toda e qualquer terra em todo e qualquer período da história do mundo, era uma das formas pelas quais ou o Sol espiritual, que é o Pai verdadeiro, ou o seu primogênito, que é a “Bêsta”, são adorados. Esta Besta varia segundo a precessão dos equinócios, pois o Equinócio de Primavera se move ( devido ao deslocamento de ponto vernal ) de signo para signo no Zodíaco aproximadamente em cada dois mil e quinhentos anos; e no Zodíaco os signos são alternadamente representados sob a forma humana e animal.

No Aeon Passado, os pontos vernais caíam respectivamente em Virgo e Pisces, a Virgem e o Peixe; no que lhe antecedeu, caíam em Áries e Libra, o Carneiro e a Justiça (a mulher com a espada e a balança dos romanos antigos); no presente os pontos vernais caem em Aquarius, ou seja, a Mulher com a Taça (BABALON) e em Leo, ou seja, a Grande Besta Selvagem (THERION).

O deus Pã é simplesmente a fórmula do Logos que data do Aeon de Câncer- Capricórneo. Aí está o “diabo” dos padres romanos reduzido a suas verdadeiras proporções. Reduzido?… Bem, é uma questão de ponto de vista…

Não podemos nos aprofundar nesta questão do deus Pã, nem no simbolismo dos chifres, nem mesmo na história completa da luta da Igreja Romana contra o culto do “Diabo”; um culto que, diga-se de passagem, Roma jamais conseguiu destruir, a despeito de seus esforços sinistros. O senhor encontrará os dados fundamentais para tal estudo num livro precioso, publicado pela primeira vez no Século XVIII, mas recentemente republicado nos Estados Unidos e Inglaterra:

TWO ESSAYS ON THE WORSHIP OF PRIAPUS, de Payne Knight.

Limitar-nos-emos a dizer aqui que este era o deus adorado por “bruxos” e “feiticeiros”, que preservaram seus ritos orgiásticos apesar de toda a perseguição implacável, das calúnias absurdas e do terrível risco de tortura e morte na fogueira, alem de outras punições impostas pela Igreja de Roma não só na Idade Média como até ao Século XVIII — e que só não são impostas até hoje devido ao trabalho paciente e silencioso dos maçons, representantes dos verdadeiros cristãos…

Depois que Romanos e Alexandrinos estabeleceram seu domínio teológico no Concílio de Nicéia (disto falaremos depois) e instituiram o dógma de “Jesus Cristo” como personagem histórico e “única” encarnação do Verbo, os poucos essênios e gnósticos que sobreviveram à “purgação” continuaram, sob o maior segredo, a tradição pura e original dos Mistérios Menores do Egito e da Fórmula de Diôniso.

Várias vezes, no curso destes mil e quinhentos anos, os Iniciados tentaram reconstituir abertamente os ensinamentos essênios e gnósticos. Em toda ocasião em que isto aconteceu, a Igreja Romana interveio com fúria demoníaca, assassinando homens, mulheres, velhos e até criancinhas, sem a mínima compunção; ao ponto mesmo ( como no caso dos Albigenses ) de capitães medievais, homens supostamente embrutecidos pela violência das batalhas selvagens da época, terem ficado tão fartos da chacina que foram perguntar ao papa se, por ventura, não estariam exterminando inocentes com os culpados (essa gente morria tão virtuosamente, o senhor compreende!). E foi em tal ocasião que o Bispo de Roma honrou a tradição cristã de sua igreja com as seguintes palavras: “Matai a todos; Deus distinguirá os seus.”

A matança, Dr. G.. incluía até recém-nascidos.

E não é que se tratasse de fé cega, por parte do Bispo de Roma, na crassa teologia do seu credo. Não é que ele acreditasse realmente na existência de um “salvador” chamado “Jesus”, e no fato dos Albigenses serem “criaturas do Diabo”. Não, DR. G., não havia sequer a justificativa do fanatismo – se de justificativa podemos chamá-la – pois os papas romanos sabem, e sempre souberam, que nunca houve nenhum “Jesus Cristo!”.

Talvez lhe seja difícil crer no que digo? Pois lembre-se das palavras históricas, proferidas num momento de descuido por um dos mais cínicos e mais prósperos dos papas, Leão X:

“Quantum nobis prodeste haec fabula Christi!”.

Ou seja: “Quanto nos ajuda esta fábula de Cristo!”.

O senhor deve se lembrar de que os documentos originais daquilo que os Romanos chamavam de “Cristianismo” estão preservados na Biblioteca Secreta, do Vaticano. É bastante simples para os pouquíssimos prelados a quem a Cúria dá acesso aos documentos mais antigos, verificarem onde acabam os fatos e começa a ficção.

Creio que já falamos suficientemente da história passada da Igreja de Roma. Não deve ser necessário que eu lhe lembre Joana D’Arc, nem Gilles de Rais (contra o qual foram feitas as acusações mais horrendas, mas contra o qual jamais apresentaram evidências – nem sequer um ossinho! – das centenas de crianças que ele havia, supostamente, sacrificado; e seus acusadores, e juizes, dividiram entre si, seus consideráveis bens), nem os Templários, nem o Imperador Frederico Hohenstaufen, nem João Huss, nem Michel Servent, nem Henrique IV (assassinado por ordem dos Jesuítas), nem os Cátaros, nem os Albigenses, nem os Huguenotes, nem os Judeus e Árabes de Portugal e Espanha, nem os Gnósticos franceses, alemães, escoceses, irlandeses e ingleses que foram chamados de “feiticeiros” e forçados a confessar obscenidades sob torturas diabólicas, nem Cagliostro, nem uma quantidade imensa de Maçons cujos ossos branquejam a estrada que leva à Roma. Creio que, a um Maçon, não deve ser necessário falar mais do passado dessa igreja infame.

Falemos então do presente – desta época de “reforma” e do “Papa da Paz”. Mudou a Igreja de Roma? Dr. G., o senhor acha, certamente que essa propalada reforma romana, que esse muito propagandizado concílio ecumênico, que as duas bulas de João XXIII (na realidade João XXIV: houve uma época, entre outras da história do papado, em que havia três papas. Um deles chamou-se João XXIII, foi forçado a renunciar ao papado quando os dois outros fizeram um pacto contra ele, e pouco após morreu envenenado – por quem, deixamos ao senhor ponderar) – o senhor acha que tudo isso fará da Igreja de Roma algo mais humano, mais próximo de Deus e do Seu Logos? Muito bem; tenho diante de mim, neste instante em que lhe escrevo, um catecismo católico romano chamado “Doutrina Cristã”. É publicado pelas Edições Paulinas e leva o nº. 1; é destinado, portanto, ao condicionamento das mais tenras criancinhas. O senhor me disse que, na sua opinião, a Igreja Romana era uma boa introdução à vida adulta para crianças. Se assim é. Considere as seguintes passagens que transcreverei desse livreto infame (os parênteses são meus):

“Eu gosto do meu catecismo.” (Auto-sugestão inconsciente).

“O catecismo me ensina o caminho do céu.”(Do outro lado, o inferno).

“O caminho do céu é: conhecer a Deus”(pela boca dos padres), “amar a Deus” (de acordo com a definição de “amor” por parte dos homens que evitam todas as manifestações sadias desse sentimento), “e obedecer a Deus”(pela boca dos padres, seus únicos representantes legítimos; os demais são servos do diabo, e se alguém tentar definir por si mesmo a obediência a Deus, esse alguém na Idade Média era queimado vivo, e hoje em dia é culpado de orgulho, um dos pecados mortais).

“Eu irei sempre ao catecismo para conhecer o caminho do céu” (a ameaça velada é que, se a criança não for ao catecismo para aprender o caminho do céu, acabará no inferno).

“Estudarei sempre direitinho o meu catecismo”(e há quem diga que os comunistas inventaram a lavagem cerebral!).

Isto, apenas como introdução. Seguem-se as seguintes notáveis “verdades”: “Jesus morreu na cruz para nos salvar” (falsidade histórica; mas a implicação dogmática é que, desde que somos criaturas condenadas ao inferno desde o nascimento não fosse por “Jesus”, precisamos, mesmo na infância, de salvação. Que distância entre isto e “Deixai virem a mim as criancinhas, pois delas é o reino dos céus…”.

“As criancinhas gostam muito de Nossa Senhora” (se isto fosse uma cartilha usa, e em vez de “Nossa Senhora” estivesse Lênin, nós chamaríamos este tipo de propaganda de atentado contra a mente humana; no entanto, Lênin, pelo menos, realmente existiu!…) “Nossa Senhora é a mãe de Jesus”. (De fato, BABALON é a Mãe de Adepto; mas não é assim que eles interpretam!…) Mais adiante, o “Credo”, com a nota: “O Credo é o resumo da religião que Jesus nos ensinou.” Isto é uma mentira deslavada, pois nem Jon nem Dioniso, os originais de “Jesus Cristo” evangélico, ensinaram religiões. Buda não pregou o Budismo, nem Lao-Tsé o Taoísmo, nem Maomé o Islamismo; nenhum guia espiritual de vulto estabeleceu qualquer dogma formal, com exceção de Moisés; e ele, ao menos, tinha a desculpa de precisar criar uma cultura do nada, de fazer uma nação daquela multidão de ex- escravos superticiosos e rebeldes que o seguia. São sempre os sucessores dos Magos (diga-se de passagem, os falsos sucessores) que organizam religiões e dissociam o Espírito da Letra, mais cedo mais tarde comportando-se de forma completamente oposta àquela recomendada pelo Instrutor.

No entanto, no caso presente, a mentira é dupla; pois além do fato de que Jon não deixou “religião” a ser seguida, o Credo de Nicéia, que é o credo a que o catecismo em questão se refere, não era sequer um sumário da religião que começava a se cristalizar em redor dos ensinamentos de Jon. Este credo era antes um códice dos dogmas que os Romano- Alexandrinos consideravam essenciais ao estabelecimento de sua dominação política, material, temporal, sobre as muitas congregações – igrejas – fundadas na Ásia Menor e na península romana por seguidores e discípulos de Jon, cada qual com variações de doutrina e temperamento determinadas por condições locais e idiossincrasias do discípulo fundador. Estes discípulos foram os originais dos “apóstolos” dos “Atos” (os “Atos” são uma antologia cuidadosamente censurada; e deturpada pela introdução de incidentes e nomes altamente imaginários, de alguns dos discípulos de Jon. As mais gritantes falsidades lá se encontram misturadas a fatos históricos. O propósito de tais falsificações foi a afirmação da autoridade da Igreja Romana, a qual, longe de ser a mais velha das igrejas Cristãs, era a mais nova e certamente a menos Cristã, de todas. Um exemplo interessante é “Simão Pedro”, que é o mesmo “Simão o Mago” que a ele se opõe nos Atos… Era um Gnóstico a quem a Igreja Romana teve que atribuir a sua fundação, pois ele pregara em Roma e era universalmente respeitado por todas as congregações; mas ao mesmo tempo, teve que ser atacado devido as doutrinas que tinha em comum com os Gnósticos Gregos e os Essênios Hebreus. “Pedro” e “Paulo” são, possivelmente a mesma pessoa, mas só pesquisas futuras, empreendidas por investigadores sem preconceitos que tenham acesso a verdadeira documentação, poderão esclarecer tal ponto). A história da maneira pela qual os Romano-Alexandrinos forçaram o Concílio de Nicéia a votar neste Credo é um pântano de horrores. Tal era a situação que os patriarcas visitantes não ousavam andar pelas ruas de Nicéia, Roma ou Alexandria, sem terem ao menos uma dúzia de guarda-costas, por medo de serem assassinados por ordem dos patriarcas Romano-Alexandrinos.

(Vide OUTLINES ON THE ORIGIN OF DOGMA, DECLINE AND FALL OF THE ROMAN EMPIRE e LA MESSE ET SES MYSTERES para uma discussão detalhada deste assunto).

Mas examinemos esse “resumo da religião que Jesus nos ensinou”! “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra…” (Já começa deturpado, pois o “Pai” a quem Jon se refere em seus sermões era Dionísio, o Logos do Aeon, o pai espiritual de Jon. O Criador do Céu e da Terra” era, na verdade, “Criadores”, no plural. A Gênese, um trabalho cabalístico, é sempre mal traduzida. Os “Elohim”, criadores do céu e da terra, eram literalmente “deuses macho-fêmea”, ou seja, uma hoste divina andrógina. Então, o senhor talvez perguntará, quem era Jeová? Era o Pai de Moisés, da mesma forma que Dionísio era o Pai de Jon!…) Mas continuemos: “…e em Jesus Cristo, um só seu filho, Nosso Senhor…” (Estas dez palavras causaram mais mortes no Concílio de Nicéia do que quaisquer outras. Houve ocasiões em que patriarcas Romano- Alexandrinos provocaram com insultos pessoais outros patriarcas que se opunham a este “um só seu filho” ou a este “Nosso Senhor” até que os ofendidos reagissem – e fossem imediatamente apunhalados por assassinos previamente instruídos. Quanto a parte de “Jesus Cristo” ninguém a ela se opôs seriamente, visto que os verdadeiros Iniciadores Cristãos nem sequer se deram ao trabalho de ir ao Concílio, sabendo tratar-se de caso fraudulento, como quaisquer outros concílios convocados pelos Romano-Alexandrinos antes ou depois deste. Os Iniciados Cristãos já começavam a organizar (prevendo a necessidade premente que para eles haveria) as irmandades secretas que apareceriam abertamente na Idade Média, como Franco-Maçonaria – o grêmio maçon que construiu as grandes catedrais Góticas. Esses franco- maçons formavam uma classe social a parte, pois, não sendo nobres nem padres, nem militares, não eram camponeses ou vassalos, tampouco. A Igreja Romana os protegia porque deles precisava para a construção – sendo ela, até hoje, incapaz de construir coisa alguma… E foi através dessas associações de pedreiros que o verdadeiro Cristianismo foi transmitido de reino a reino, de cidade a cidade, e isto, ironicamente, sob a proteção dos romanos… Veja-se THE ARCANE SCHOOLS, ou qualquer bom compêndio de história da maçonaria para maiores detalhes).

“…o qual foi concebido do Espírito Santo…” (Outra fonte de muitos assassinatos foi este dogma. Sobre ele não faremos comentários: padres romanos certamente lerão esta carta, e não temos qualquer intenção de dar a eles quaisquer dados sobre a natureza do Espírito Santo. Já que eles o invocam tanto, devem saber o que Ele é!…) “…nasceu da Virgem Maria…” (esta Virgem Maria é também a Grande Puta do Apocalipse. É a Grande puta porque Ela se dá a tudo o que vive; e é a Virgem porque permanece intocada por tudo a que se entrega. Quem é Ela? É a Casa de Deus, a Natureza, a Grande Mãe, e as leis naturais são as únicas leis realmente divinas… Ísis-Urânia, NUIT, Nossa Senhora das Estrelas, é a concepção dessa Mãe Grande e Eterna, copulando desavergonhadamente e avidamente com todas as suas criaturas, pois em cada uma delas Seu Senhor se manifesta e A ocupa.

É também a mais alta e mais verdadeira forma de PÃ. A Ísis eternamente inviolada e esta Virgem Imaculada, e as imagens de Virgem com o Menino Jesus nas Igrejas Romanas são cópias das múltiplas imagens de Ísis com o Menino Hoor, que podem ser examinadas na seção de Egiptologia de qualquer museu).

“…padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos…”(pessoa altamente questionável esse Pôncio Pilatos, do ponto de vista histórico.

Recentemente foram “descobertas” e “reveladas” nos E.U.A umas “cartas da mulher de Pilatos a uma amiga”. Estas relatam como a vida do casal tornou-se puro melodrama depois de haverem lavado as mãos no caso “Cristo Jesus”. Mais conversa fiada jesuítica, sem dúvida…) “…foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos, ao terceiro dia ressurgiu dos mortos, está sentado a mão de Deus Pai Todo Poderoso donde há de vir julgar os vivos e os mortos” (Tudo isto tem um significado esotérico, e é verdade de todo Cristo, de todo Adepto; mas os padres de Roma profanam estes símbolos quando os interpretam da forma mais crassa).

“Creio no Espírito Santo… (eles nem sabem o que Ele é, não tendo merecido Sua presença sequer uma vez, ao longo de mil e seiscentos anos!) “…na Santa Igreja Católica… ” (esta é a única e verdadeira Igreja acima do Abismo, e inclui todos os cultos dos homens; mas os padres romanos querem aludir, naturalmente a igreja de Roma).

“…na remissão dos pecados…”(esta “remissão dos pecados”, que faz da humanidade uma raça suja e maldita é, de todas as blasfêmias deste credo, a menos perdoável. Esta é precisamente a razão pela qual a Igreja de Roma nunca mereceu a manifestação do Espírito Santo!) “…na ressurreição da carne…” (isto se refere a doutrina da regeneração, isto é, da Medicina Universal; mas tendo este e outros segredos do Cristianismo primitivo sido perdido pelos romanos, eles interpretam esta frase da forma mais grosseira. Veja-se o RITUAL DA MAÇONARIA EGÍPCIA de Cagliostro para maiores detalhes.) “…na vida Eterna…”(isto se refere ao Elixir da Vida, novamente mal interpretado).

“…Amém”.

Agora, por favor, atente bem para esta passagem que se segue: “Um dia, alguns anjos fizeram pecado.” (Mais adiante explicam o que é pecado.) “Os anjos maus são chamados demônios.” “Os anjos maus foram para o inferno.” (É necessário que haja inferno. Pondere como essas criancinhas eram felizes, sem saberem que havia inferno antes de entrarem em contacto com a Igreja de Roma!…) “Para que Deus nos criou? Deus nos criou para conhecê-Lo… (na versão de Roma) “…para amá-lo e serví-lo neste mundo… (os pais têm filhos porque precisam de admiradores e escravos, nenhum ser sobrehumano poderia ter outra motivação…) “… e depois ir com Ele ao Céu.” (todo cachorro bem treinado merece uma recompensa) Convenhamos: a versão romana do Criador mostra bem pouca imaginação criadora! Mas a insensatez continua:

“Adão e Eva eram felizes no Paraíso.

“Um dia, porém, fizeram pecado.

“Que é pecado? “O pecado é uma desobediência voluntária à lei de Deus ou LEI DA IGREJA.” (a ênfase é nossa. Note, por gentileza, que os astuciosos roupetas estão duplamente assegurados: primeiro, porque foram eles que escreveram “a lei de Deus”; segundo, porque são eles que escrevem a lei da igreja!) “Jesus morreu na cruz para nos salvar do pecado.” (eles nem sabem mais o que é “Jesus”, e nunca souberam o que é a Cruz) “Deus dá o prêmio aos bons e o castigo aos maus.

“O prêmio para os bons é o céu.

“O castigo para os maus é o inferno.

“O céu e o inferno NÃO TERÃO FIM. (a ênfase é nossa. Deus não é apenas destituído de imaginação, é também destituído de misericórdia, para não falar em senso de humor. Este “Deus” é um demônio — feito à imagem daqueles que o promovem!) “Quem vai para o céu? “Vai para o céu quem morre sem pecado grave.” Note que não é necessário ser virtuoso, alegre, corajoso, honrado, para ir para o céu. As virtudes positivas não têm sentido para as criancinhas “cristãs” à moda romana: é suficiente “morrer sem pecado grave”. Veja o senhor, no Apocalípse, o que o Amém tem a dizer à Igreja em Laodicéia, Cap. III, vv. 14-22.

“Quem vai para o inferno? “Vai para o inferno quem morre em pecado grave.” Desta forma, os cavaleiros de Roma podem manter seu bolo e comê-lo ao mesmo tempo. Se o senhor não é batizado ( por eles ) ao nascer, está destinado ao menos ao purgatório (favor lembrar que o purgatório é uma invenção relativamente recente, promulgada quando o povo começou a reclamar que Roma mostrava pouca caridade para com os homens: no começo, o inferno era a única alternativa para o céu). A vida do senhor, do nascimento à morte, é completamente subordinada a eles: comunhão, sacramento, confirmação, casamento, confissão….

Lembre-se, dr. G., que toda esta teologia que ameaça de tormento eterno aos que não a aceitam, toda esta síndrome de repressão, de escravidão psíquica e social, toda esta maquinação, está baseada nas mentiras deliberadas e conscientes dos patriarcas de Roma e Alexandria! Verdadeiramente, eles podem se gabar: “Quantum nobis prodest haec fabula Christi!” Mas, infelizmente para eles, Dr. G., o Cristo não é uma fábula.

E o Verbo se fez carne, e habitou em nós.

Tu que és eu mesmo, além de tudo meu; Sem natureza, inominado, ateu; Que quando o mais se esfuma, ficas no crisol; Tu que és o segredo e o coração do Sol; Tu que és a escondida fonte do universo; Tu solitário, real fogo no bastão imerso, Sempre abrasando; tu que és a só semente; De liberdade, vida, amor e luz, eternamente; Tu, além da visão e da palavra; Tu eu invoco, e assim meu fogo lavra! Tu eu invoco, minha vida, meu farol, Tu que és o segredo e o coração do Sol E aquele arcano dos arcanos santo Do qual eu sou veículo e sou manto Demonstra teu terrível, doce brilho: Aparece, como é lei, neste teu filho!

Os versos acima, Dr. G., foram escritos por Aleister Crowley, o “pior homem do mundo” de acordo com a opinião dos padres que organizaram a campanha difamatória que o seguiu por toda a vida.

Estes versos deveriam ser cantados com orgulho por todo Filho da Luz, ou seja, por cada ser humano, cada Filho de Deus! O senhor ainda acha que a Igreja Romana pode ser encarregada, por homens responsáveis, honrados e ajuizados, da educação de crianças? Dr. G., enquanto esta igreja não reconhecer publicamente seus crimes contra Deus e a humanidade; enquanto não renunciar para sempre a essa ameaça de inferno e a esse dógma de pecado com os quais forças negativas, que se opõem à evolução da humanidade, tentam impedir ao homem e à mulher que se tornem Deus por meio do ato sexual (veja o Evangelho de “João”, Cap. IV, vv. 13-16); enquanto ela for a causadora de masturbação e autismo entre os seus assim-chamados monges e freiras, em vez de permitir que se expressem livremente como homossexuais (qual são frequentemente) ou como heterosexuais (qual são algumas vezes); enquanto o Bispo de Roma não admitir que ele é um entre muitos, e herdeiros de uma história acumulada de erros; em suma, enquanto a Igreja de Romana existir (pois no dia em que renunciar a todas as suas infâmias não será mais “Romana”, mas finalmente parte da verdadeira Igreja Católica, a Humanidade), a ela se aplicam as palavras de Jon, o filho da Luz, copiadas por ela em seus assim-chamados “Evangelhos”: “Cuidado com os falsos profetas, que a vós se mostram como cordeiros, mas que internamente são lobos vorazes.

“Pelos seus frutos os conhecereis.

“Nem todo aquele que me diz Senhor! Senhor! entrará no reino dos céus, mas só aqueles que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus.

“Muitos, naquele dia, me dirão: Senhor! Senhor! Não temos nós profetizado em Teu nome, não temos expelido demônios em Teu nome, e em teu nome não realizamos muitos milagres? “Então eu lhes direi claramente: nunca vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais a iniquiade.” – Mateus”, VIII, vv. 15-23.

Francamente, Dr.G., não posso entender como um maçon, como um homem sensato e honrado pode, por um momento, defender uma instituição que é uma nódoa na história da humanidade. Nós, verdadeiros herdeiros do Cristo, temos sido acusados de odiar a Igreja de Roma. Sabe Deus que não a odiamos: nós a abominamos e desprezamos com a intensidade devida àquilo que não só é vil em si mesmo, como aviltante para tudo que é sagrado e valoroso no homem.

Dizem que o diabo corre da Igreja de Roma, e é verdade. Mas não é que nós a temamos: ela nos enoja. É inútil proclamar o efeito maravilhoso que o Romanismo tem exercido sobre a civilização ocidental. A verdade é precisamente o oposto. Roma tem combatido toda reforma e todo progresso a cada passo, aceitando-os apenas no último minuto, e então fingindo — aos incautos — tê-los inventado. A renovação das artes, das ciências, da liberdade humana, jamais veio de Roma; veio dos maçons, dos árabes, dos judeus, da herança pagã redescoberta na Renascença, dos protestantes alemães, franceses e ingleses, das invasões dos piratas normandos e até das hordas de tártaros e turcos: nunca de Roma.

Considere a evidência histórica, Dr. G.! Durante mil anos, o sistema feudal, tornado odioso justamente pelos abusos decorridos da aliança da igreja com os senhores feudais, oprimiu a população da Europa. Veio a reforma — e em um século o sistema havia praticamente desaparecido. A Inglaterra católica romana era uma ilhota insignificante perdida no mapa da Europa: veio Henrique VIII, expulsou os jesuítas, criou o Anglicanismo — e em duas gerações a Inglaterra derrotava a Espanha católica romana, tornava-se o maior poder naval do mundo e estava prestes a construir um império mais poderoso do que o dos Césares. A França decaíu com os Valois católicos romanos: veio Henrique IV, protegeu os huguenotes, foi assassinado por isto, mas em um século a França de Luis XIV deslumbraria o mundo. Os protestantes colonizaram a América do Norte; compare o progresso da civilização da América do Norte com a situação das Américas Central e do Sul, colonizadas por padres jesuítas! Os países onde, no momento, prevalece o dógma romano, estão atrasados de cinquenta a cem anos em progresso material, e moralmente, em certa áreas, o atraso é de quinhentos a mil anos. Os países protestantes têm sina muito melhor. Mas infelizmente, mesmo os protestantes não estão livres da mancha do “pecado original” e do complexo de culpa, como tampouco de crença na necessidade de “salvação”, já que usam os textos evangélicos fabricados pelos romano-alexandrinos; e não foi à toa que Ambrose Bierce, por muitos considerado um dos maiores iniciados americanos, escreveu, como parte da definição da palavra “cristão” em seu impagável e realista “O Dicionário do Diabo”:

“Sonhei-me no alto dum morro, e vejam só: Em baixo, pias multidões, com ar de dó

Triste e devoto, andavam de cá para lá, Domingadas em suas roupas de sabá, Enquanto na igreja os sinos gemiam Solenes, alertando os que em falta viviam.

Foi então que pessoa alta e magra eu vi Vestida de branco, a olhar para ali Com a face tranquila, suave, simbólica, E os olhos repletos de luz melancólica.

‘Deus te abençoe, estranho!’ — exclamei.

‘Inda que, por teu diverso traje, bem sei Que vens sem dúvida de longínquo cantão, Espero sejas, como essa gente, cristão.’ Ele os olhos ergueu, com tão severo ardor Que senti meu rosto a queimar de rubor, E respondeu com desdém: ‘Como! O que é isto?! Eu um cristão? Na verdade não! Eu sou cristo.’”

Se o senhor quiser ler um magnífico estudo psicológico do Romanismo, leia “O Anticristo” de Nietzsche, e quando quer que o senhor encontre escrita a palavra “cristão”, substitua-a por “católico romano”. O senhor terá a Igreja de Roma exatamente como é.

Resumindo o conteúdo desta carta: Todos os homens são filhos de Deus. Todos os homens são capazes de realizar sobre a terra o Reino dos Céus, que está dentro de nós.

Somos todos membros do Corpo de Deus, todos Templos do Espírito Santo, e basta limpar o Templo — o que não significa castrar- se física ou psicologicamente! — para que a Presença se manifeste.

Não há nenhum “Jesús, Filho Único de Deus” para ser adorado; e quaisquer pessoas que afirmem o contrário ou estão enganadas ou estão enganando.

Está escrito nos “Evangelhos”: Vós conhecereis a verdade, e a verdade vos fará livres.

E também está escrito, nos originais santos, blasfemados e traídos pelas perpetrações romano-alexandrinas, que Jon olhou sorridente para a multidão e, abrindo os braços, lhes bradou:

“Vós sois o Caminho, a Ressurreição e a Vida!

Pois é eternamente verdade que o Verbo se faz carne; e neste exato momento, habita em nós.

Amor é a lei, amor sob vontade.

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NOTA BIBLIOGRÁFICA E ADDENDUM

Esta carta foi originalmente escrita no dia 9 de julho de 1963 e.v., endereçada a um maçom osiriano, médico, o Dr. Luiz Gastão da Costa e Souza, clinicando em Petrópolis, RJ. Foi-nos posteriormente dito, por outro maçom osiriano e ex-aspirante, Euclydes Lacerda de Almeida, que o Dr. Gastão cuidadosamente guardou a carta, mas se absteve por completo de mostrá-la a outros maçons.

Após o Primeiro de Abril de 1964 e.v., a carta foi copiada a carbono pelo autor, e distribuída livremente nas ruas do Rio de Janeiro a pessoas a quem ele se sentia impulsionado a entregá-la. A segunda versão foi consideravelmente ampliada na parte bibliográfica e histórica. O presente documento representa a terceira, e, esperamos, final versão.

A carta original terminava com os seguintes dizeres: “Doutor Gastão, este momento é dos mais graves da história da humanidade. Dos quatro cantos do mundo, forças das mais hediondas, das mais diabólicas, forças desalmadas se concentram em um ataque ao Homem, a Deus, à Justiça e à Verdade. Os comunistas encarnam um dos aspectos destas forças; as religiões organizadas do Aeon passado encarnam outros. No momento presente, são pouquíssimos os homens que conservam contacto com os planos espirituais; e no entanto eu levanto a minha voz em profecia e lhe digo:

Esta é a escuridão da Passagem dos Aeons.

No Novo Aeon, serão os bodes que organizarão a Igreja.

A maçonaria é a chave do Templo de Deus.

Eu avisei o senhor quando nos vimos: se os maçons brasileiros tentarem honestamente limpar a maçonaria das forças malignas que tentam infiltrar-se nela; se eles se despertarem novamente para a luta espiritual e para a luta cívica, eles terão todo o auxílio que for necessário. O Olho ainda está no Triângulo. MAS SE VÓS FIZERDES PACTOS COM DEMÔNIOS O OLHO SE FECHARÁ SOBRE VÓS.

Não é possível ser maçon e ser católico romano.

Não é possível ser marxista e ser maçon.

Não é possível ser maçon sem ser cristão.

Limpai as Lojas! Ou o Olho se fechará sobre vós.

Calafatai as Lojas! Ou a energia espiritual que nelas se acumula se escoará (esta é a razão pela qual o vosso segredo é a vossa força).

Serví o Brasil antes de mais nada; acima de toda outra nação; sois brasileiros, e o progresso como a caridade começa em casa.

Daí aos pobres do vosso excesso, mas não da vossa substância.

Sede verdadeiros maçons: maçons dignos dos que vos precederam, maçons dignos dos que fizeram a Independência, o Segundo Império e a República.

Nunca tenhais medo de lutar pela Verdade e pela Justiça, e perdoai os vossos adversários mas vencei-os, antes! Não agradeçais à Igreja de Roma as concessões que ela vos “faz”. Ó meus Irmãos pois como homens, somos todos Irmãos essas “concessões”, vós já as conquistastes: não ouvis os gemidos de dor? Não vedes os oceanos de sangue, não percebeis a legião de mártires maçônicos, não sentis ainda o cheiro e o clarão das fogueiras? A Igreja de Roma nunca fez concessões de ordem teológica a não ser por razões econômicas e políticas; ela sempre se aliou aos tiranos contra os oprimidos, e aliar-se-á aos marxistas, se necessário, para combater-vos; mas sede fiéis ao olho e o olho vos servirá.

Todo o progresso humano; toda lei humanitária; toda proteção à ciência pura; toda tolerância religiosa que existe no mundo presente foi o resultado do trabalho dos maçons! Nunca vos esqueçais disto! Não deveis agradecer ao inimigo oculto aquilo que ele nunca te concedeu, mas que vós conquistastes pelo sacrifício de muitos e pelo paciente trabalho de incontáveis outros.

Repito-vos: sede dignos do Olho, ou o Olho se fechará sobre vós.” O Primeiro de Abril de 1964 e.v. não teria ocorrido se os maçons tivessem cumprido as condições desta profecia. Em vez de fazer isto, a maçonaria brasileira deu os seguintes passos para trás nos anos que se seguiram a esta carta:

1) – Dividiu a sua direção em duas facções antagônicas.

2) – Permitiu a publicação em jornais de fotografias do interior das Lojas, inclusive em funcionamento.

3) – Promoveu declarações públicas de aliança com a Igreja de Roma.

4) – Espionou-nos e cooperou em armar-nos ciladas e na busca por desvendar os nossos “segredos”. Infelizmente, não temos segredos.

Ponde um tratado sobre o cálculo tensorial nas

mãos de um estudante primário e deixai-o ler o livro a vontade: de nada lhe adiantará.

O “esoterismo” é uma farsa: verdadeiros segredos NÃO PODEM ser revelados, pela simples razão que sem vivência é impossível compreende-los, mesmo quando são explicados da forma mais simples e mais franca.

Devido ao desleixo ou a inércia dos maçons, a profecia da carta se cumpriu e continua se cumprindo. Como consequência, a maçonaria brasileira só está viva agora na O.T.O. e na Ordem de Télema. Nós não reconhecemos nenhum movimento maçônico do Velho Aeon.

A bom entendedor, meia palavra basta; aos maus entendedores, milhares de discursos não surtirão efeito.

Não existe Lei além de faze o que tu queres.

Fraternalmente

Marcelo Motta

#Maçonaria #Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/carta-a-um-ma%C3%A7om

Drácula Histórico

Em um sentido geral, Stoker estava absolutamente certo ao situar sua história de Drácula na Transilvânia, embora localizando seu castelo de ficção a nordeste, muitos quilômetros distante do verdadeiro, na fronteira ao sul. O Drácula de verdade nasceu em 1431 na Transilvânia, na cidade fortificada alemã de Schassurg (Sighsoara, na Romênia). Um dos burgos saxônios mais encantadores, certamente o mais medieval, Schassburg está localizado cerca de quarenta quilômetros ao sul de Bistrita.

Esse castelo fica no local estratégico que domina o vale do rio Tirnava. É circundado por finas muralhas de defesa em pedra e tijolos, de novecentos metros de comprimento, e quatorze torres na muralha, cada uma delas com o nome da guilda que a custeou – as dos alfaiates, joalheiros, peleteiros, açougueiros, ourives, ferreiros, barbeiros, cordoeiros. Com suas ruas estreitas, tortuosas e de paralelepípedos, suas escadas`ligando a famosa torre do relógio às torres mais altas na crista da colina, a cidade fortificada servia às necessidades de uma próspera comunidade de comerciantes alemães que negociavam com Nuremberg e outras cidades alemãs Ela funcionava como depósito de mercadorias que eram levadas e trazidas entre a Alemanha ocidental e Constantinopla; além disso, servia de rota comercial pelo nordeste para a Polônia, o mar Báltico e as cidades germânicas ligadas à União Aduaneira Hanseática.

A casa em que Drácula e seu irmão Radu nasceram é identificada por uma pequena placa mencionando o fato de que seu pai, Drácul, morou ali de 1431 a 1435. O edifício é uma construção de pedra de três andares em tom amarelo-escuro, com um teto de telhas e pequenas janelas, e aberturas apropriadas para a pequena guarnição que servia a Vlad Dracul. Recente restauração do segundo andar revelou uma pintura mural representando três homens e uma mulher sentados a uma mesa. Somente a figura central sobreviveu inteiramente intacta. O retrato de um homem rotundo com um queixo duplo, um longo bigode bem untado, sobrancelhas arqueadas e nariz bem torneado. A semelhança dos olhos castanhos e amendoados com os do famoso retrato de Drácula preservado no Castelo Ambras, sugere que esse pode ser o único retrato sobrevivente do pai de Drácula, Vlad Dracul. A mãe de Drácula, princesa Cneajna, da dinastia Musatin da vizinha Moldávia, criou o jovem Drácula com o auxílio de suas damas de companhia dentro de casa. A amante de seu pai, Caltuna, deu a Dracul um filho também chamado Vlad. Ela finalmente entrou para um mosteiro e ali tomou o nome de Eupráxia. Seu filho mais tarde tornou-se conhecido como Vlad o Monge, porque seguiu os passos de sua mãe e encaminhou-se para a vida religiosa. Drácula passou sua juventude numa atmosfera tipicamente germânica; seu pai exerceu autoridade sobre todas as cidades alemãs da região e defendia a Transilvânia inteira contra ataques potenciais dos turcos. Vlad Dracul recebia sua autoridade do sacro imperador romano Sigismundo de Luxemburgo, em cuja corte em Nuremberg foi educado por monges católicos. Suas ambições políticas ganharam forma quando em 8 de fevereiro de 1431 dois importantes eventos tiveram lugar em Nuremberg: sua entrada na prestigiosa Ordem do Dragão, juntamente com o rei Ladislau da Polônia e o príncipe Lazarevic da Sérvia, e sua investidura como príncipe da Valáquia. O imperador germânico Sigismundo de Luxemburgo e sua segunda mulher, Bárbara von Cilli, haviam fundado a Ordem do Dragão em 1387 como uma fraternidade secreta militar e religiosa com o fim de proteger a Igreja Católica contra heresias tais como as dos hussitas, que punham em perigo a Europa Central.

Outro objetivo da Ordem era a organização de uma cruzada contra os turcos que haviam invadido grande parte da península balcânica. A segunda investidura, presidida pelo próprio imperador, encarregou Dracul da tarefa arriscada de buscar o inseguro trono valáquio (que incluía os ducados transilvanos de Amlas e Fagaras), governados na época pelo príncipe Alexandru Aldea, meio-irmão de Drácula. Isso marcaria o começo de uma prolongada contenda entre membros rivais da família principesca Besarab, dela decorrendo inúmeros crimes.

Quando o há pouco investido “dragão” estava enfim apto a fazer valer o seu título de príncipe expulsando Alexandru Aldea da Valáquia durante o inverno de 1436/37, a sede do poder valáquio continuava próxima da fronteira da Transilvânia, onde Dracul tinha sua base. Historicamente, a Transilvânia sempre foi ligada à Moldávia e aos principados valáquios. Depois que as legiões romanas evacuaram a mais recentemente conquistada província da Adácia, em 271 d.C., a maioria da população romanizada retirou-se para as montanhas, tentando escapar das desordens decorrentes da invasão pelo leste do planalto da Transilvânia. Desse modo, os dácio-romanos sobreviveram intocados pelas avalanches gótica, huna, eslava ou mesmo húngara e búlgara, que teriam certamente destruído sua língua e seus costumes latinos, tivessem permanecido na região. Só depois que a torrente de invasões diminuiu puderam os romenos descer para a planície, mas cautelosamente, conservando seu abrigo na montanha. Cada geração de romenos do século XIII avançou um pouco mais na planície. Finalmente eles alcançaram o Danúbio e o mar Negro ao sul, o Prut e o Dniester a nordeste – em outras palavras, os limites da moderna Romênia e também parte dos limites anteriores da antiga Dácia. No caso da Valáquia, nada mais típico da sua tendência em se voltar para a Transilvânia em busca de segurança, e nada demonstra melhor a excitação em abandonar as montanhas como um abrigo Seguro do que a escolha de antigas capitais do principado. A primeira, antiga capital do século XVI, Cimpulung, limita-se com os Alpes da Transilvânia.

A capital de Drácula, Tirgoviste, fica a baixa altura nas colinas, mas ainda assim permite um acesso fácil às montanhas. A escolha desse sítio marca um período de crescente autoconfiança na história do país. Boatos diziam que o mais jovem irmão de Drácula, Radu o Belo, devido a sua longa permanência na capital turca, também queria estar perto de Constantinopla, uma vez que ele não era imune aos prazeres do harém do sultão. Mexericos o acusavam, muito por causa de sua boa aparência, de ser um dos favoritos do harém masculino de Mehemed, herdeiro do trono otomano, o que o obrigava a ficar constantemente à disposição do seu mestre. Em todo caso, o reino de Radu marcou o recuo do período heróico da história da Valáquia e o começo da rendição condicional ao sultão. Condicional porque a relação da Valáquia com Constantinopla continuava a ser regulada por um tratado, com os príncipes locais como vassalos do sultão.

Quando seguro do seu trono, Dracul, um político esperto, sentiu que a tênue balança do poder estava rapidamente oscilando a favor do ambicioso sultão Murad II. Os turcos haviam então destruído sérvios e búlgaros, e o sultão estava planejando um ataque final contar os gregos. Assim, Dracul promoveu a primeira de suas numerosas imposturas, assinando traiçoeiramente um acordo com os turcos contra os sucessores de seu protetor, o sacro imperador romano Sigsmundo, que morreu em 1437. Em 1438, em circunstâncias inegavelmente difíceis, Dracul e seu filho Mircea, acompanharam o sultão Murad II numa de suas freqüentes incursões na Transilvânia, assassinando, pilhando e queimando pelo caminho, como era da tradição turca. Essa foi a primeira das muitas ocasiões em que os Dráculas, que se consideravam transilvanos, voltaram a sua pátria como inimigos ao invés de amigos. Mas as vilas e cidades da Transilvânia, embora cruelmente devastadas e pilhadas, ainda acreditavam num acordo melhor com um cidadão seu do que com os turcos. Isso serviu de justificativa para a avidez do administrador e dos cidadãos de Sebes em se renderem especificamente aos Dráculas, com a condição de que suas vis seriam poupadas e eles não acabariam escravizados pelos turcos. Dracul, que havia jurado proteger os cristãos, pôde ao menos nessa ocasião salvar uma cidade da destruição completa.

Muitos desses incidentes fizeram com que os turcos suspeitassem da lealdade do príncipe romeno. Em conseqüência, o sultão Murad II levou Dracul a um confronto pessoal na primavera de 1442. Sem perceber a armadilha, Dracul atravessou o Danúbio com seu segundo filho Drácula e seu filho mais moço Radu, sendo em seguida “preso em cadeias de ferro” e levado à presença de quem o acusara de deslealdade. Para salvar seu pescoço e recuperar seu trono, após um breve aprisionamento em Gallipoli Dracul jurou renovar fidelidade a Murad II, e como prova de sua lealdade deixou Drácula e Radu como reféns. Os dois meninos foram colocados sob prisão domiciliar no palácio do sultão em Gallipoli e mais tarde foram mandados, por razões de segurança, à distante Egrigoz, na Ásia Menor. Drácula permaneceu cativo dos turcos até 1448; Radu tornou-se aliado de Murad II e, devido ao seu caráter fraco, submeteu-se mais facilmente às técnicas de doutrinação daqueles que eram, até certo ponto, seus carcereiros. Radu se tornou um favorito do futuro sultão Mehmed II e eventualmente candidato oficial turco ao trono da Valáquia, no qual, na devida ocasião, sucedeu seu irmão Drácula.

A reação de Drácula há esses anos perigosos foi exatamente oposta. De fato, esse tempo como prisioneiro dos turcos ofereceu um bom estímulo à sua personalidade ardilosa e perversa. A partir dessa época, Drácula passou a ter a natureza humana em baixa estima. A vida era coisa desprezível – além do mais, sua própria vida estaria em perigo se seu pai se mostrasse desleal ao sultão – e a moralidade não era essencial em assuntos de estado. Ele não precisou de Maquiavel para se informar sobre a amoralidade dos políticos. Os turcos ensinaram a Drácula a língua turca, entre outras coisas, e ele a manejava como um nativo; ele foi aproximado dos prazeres do harém, porque suas condições de confinamento não eram tão estritas; e completaram seu treinamento no cinismo bizantino, que os turcos herdaram dos gregos. Como foi relatado por seus carcereiros turcos durante aqueles anos, ele também desenvolveu uma reputação como trapaceiro, manhoso, insubordinado e brutal, inspirando medo aos seus próprios guardas. Isso em contraste agudo com a dócil subserviência de seu irmão. Dois outros traços se entrincheiravam na pisque de Drácula devido à trama em que pai e filho se enrascaram. Um era a suspeição; nunca de novo ele confiaria nos turcos ou em homem algum. O outro era o sabor da vingança; Drácula jamais se esqueceria ou perdoaria os que o traíram – esse fato tornou-se um traço da família.

Em dezembro de 1447, Dracul pai morreu, vítima de sua própria trama. Seu assassínio foi ordenado por João Hunyadi, que ficou irritado com as relações do Dragão com os turcos. A política de Dracul a favor dos turcos era facilmente explicável, se não por outro motivo, para salvar seus filhos de uma inevitável vingança e possível morte. O filho mais velho de Dracul, Mircea, fora cegado com ferro em brasa e queimado vivo por seus inimigos políticos em Tirgoviste. Essas mortes e as circunstâncias traiçoeiras que cercaram a morte de seu irmão revelaram ter deixado fortes marcas no príncipe Drácula, logo após a sua ascensão ao poder. O assassínio de Drácul teve lugar nos pântanos de Baltenir, próximos a um velho monastério que ainda existe ali. Houve, no entanto, alguma justificativa para a premeditação desse assassínio por Hunyadi.

Ao tempo de sua prisão em Adrianópolis, Dracul havia jurado que jamais tomaria armas contra os turcos, uma flagrante violação de seu juramento anterior como membro da Ordem do Dragão. Uma vez seguro na sua posição de príncipe, e não obstante o fato de seus filhos serem reféns dos turcos, Dracul reavaliou in extremis seu juramento ao sacro imperador romano, e junto-se à luta contra os turcos, sendo ele mesmo absolvido do seu juramento a vafor dos turcos, pelo papa. Isso significava que podia participar das cruzadas dos Balcãs organizadas por Hunyadi contra o sultão Murad II. O príncipe sérvio Brankovic teve seus dois filhos cegados pelos turcos quando fora desleal com o sutão, e Dracul temeu o mesmo destino trágico para seus próprios filhos. Ele escreveu desconsolado aos chefes de Brasov no fim de 1443: “Por favor entendam que permiti que meus filhos fossem massacrados em favor da paz cristã, de modo que eu e meu país pudéssemos continuar vassalos do Sacro Império Romano”. De fato, foi quase um milagre que os turcos não tenham decapitado Drácula e Radu. O irmão mais velho de Drácula, Mircea, não Dracul, teve efetivamente o papel mais ativo no que foi descrito como “a longa campanha” de 1443. Do ponto de vista valáquio, essa campanha teve imenso sucesso. Ela permitiu a captura da cidade de Giurgiu (construída a um alto custo para a Valáquia pelo avô de Drácula), e ameaçou o poder turco na Bulgária. No entanto, a campanha de Hunyadi em Varna em 1444, que foi organizada em escala muito ambiciosa e chegou até o mar Negro, acabou em desgraça. O jóvem e inesperiete rei da Polônia, Ladislau III, e o núncio papal Juliano Cesarini morram na ocasião.

Hunyadi conseguiu fugir e sobreviveu apenas porque os valáquios conheciam suficientemente o terreno para conduzi-lo em segurança. Nas inevitáveis recriminações que se seguiram, Dracul e Mircea atribuem pessoalmente a Hunyadi a responsabilidade pela magnitude da derrota. Um conselho de guerra reunido em algum lugar na Dobrogea julgou Hunyadi responsável pelo fracasso cristão, e por maioria, embora parte devido à insistência de Mircea, sentenciou-o à morte. Mas os servissos prestados por Hunyadi e sua grande reputação como cavaleiro branco das forças cristãs poupara-lhe a vida e Dracul assegurou sua passagem a salvo para a Transilvânia.

Todavia, a partir do momento em que os Hunyadis contrariaram os Dráculas, particularmente Mircea, surgiu um grande ódio entre eles. A sede de vingança que decorreu de tudo isso foi afinal aplacada com as mortes de Drácula e Mircea. Depois de 1447, Hunyadi pôs a coroa valáquia nas mãos mais confiáveis de um pretendente Danesti, Vladslav I (a família rival Danesti tinha ligações de sangue com o príncepe Dan, um dos tios-avós de Drácula.)

O mais difícil de entender é a atitude de Drácula na sua fuga do cativeiro turco em 1448. Sabemos que os turcos, inegavelmente impressionados com a ferocidade e a bravura de Drácula, e obviamente adversários dos príncepes Danesti, que eram identificados com a corte húngara, tentaram colocar Drácula no trono valáquio a partir de 1448, enquanto Vladislav II e Hunyadi combatiam ao sul do Danúbio. Esse golpe corajoso foi eficaz por apenas dois meses. Drácula, então com cerca de vinte anos, temeroso dos assassinos transilvanos de seu pai e igualmente relutante em voltar para os seus captores turcos, fugiu para a Moldavia, o mais ao norte possível dos principados romenos, governada nesse tempo pelo príncepe Bogdan, cujo filho, príncipe Estêvão, era primo de Drácula. Durante esses anos de exílio moldavio, Drácula e Estêvão desenvolveram uma estreita e duradoura amizade, cada um deles prometendo ao outro que aquele que primeiro ascendesse ao trono do seu principado levaria o outro imediatamente ao poder – à força de armas, se preciso. A sede do principado moldávio era então em Suceava, uma antiga cidade onde Drácula e Estêvão continuavam sua educação eclesiástica bizantina sob a supervisão de monges eruditos.

Dracula permaneceu na Moldávia até 1451, quando Bogdan foi brutalmente assassinado por seu rival Petru Aron. Talvez devido à falta de alternativa, Drácula então reapareceu na transilvânia, onde se entregou à misericórdia de João Hunyadi. Estava então tentando a sorte, embora nessa época, devido à pressão turca, o príncepe Danesti da Valáquia, Ladislau II, estivesse adotando uma política favorável aos turcos, distanciando-se dos seus protetores húngaros.

Era interessante para os Hunyadis, uma vez mais, ter um instrumento flexível, um príncepe de reserva, para o caso de o príncipe Danesti voltar-se para os turcos completamente. Assim, interesses mútuos em lugar de qualquer confiança, aproximaram Drácula e João Hunyadi de 1451 a 1456, quando Hunyadi morreu em Belgrado. Durante esse tempo, Hunyadi foi o último tutor de Drácula, seu mentor político e mais importante educador militar. Hunyadi introduziu seu protegido na corte do rei absburgo da Hungria, Ladislau V. Ali ele conheceu o filho de Hunyadi, Matias Corvinus, seu futuro adversário político. Drácula não podia ter melhor preparação de campo da estratégia antiturca. Como nobre vassalo, tomou parte pessoalmente em muitas das campanhas de Hunyadi contra os turcos nas regiões onde no século XX surgiria a Iugoslávia. E ele se envolveu, como seu pai o fizera, com os ducados de Fagaras e de Almas. Além disso, Drácula também se fez pretendente do trono valáquio. Foi por essa razão que ele não acompanhou seu suserano na campanha de Belgrado de 1456, quando Hunyadi foi finalmente vencido pela peste. Por esse tempo, Drácula recebeu afinal permissão para atravessar as montanhas da transilvânia e desalojar o infiel príncipe Danesti do trono valáquio.

Durante os anos 1451-56, Drácula residiu novamente na Transilvânia. Abandonando a casa da família em Sighisoara passou a residir em Sibiu, principalmente para ficar próximo da fronteira valáquia. Em Sibiu, Drácula foi informado pelo administrador da cidade e por muitos outros refugiados da capital do império grego sobre um acontecimento que teve o efeito de uma bomba no mundo cristão: Constantinopla havia sido tomada pelos turcos e o imperador Constantino XI Paleólogo (em cuja corte Drácula viveu temporariamente como pajem em 1430), morrera no combate corpo a corpo, defendendo as muralhas da capital. Um refugiado romeno, bispo Samuil, informou Drácula de que o próximo objetivo do sultão Mehmed II era a conquista da Transilvânia e que ele planejava um ataque à própria Sibiu, local estratégico que podia servir de base a uma conquista posterior do reino húngaro. Drácula pelo menos podia sentir-se confortado com o fato de Sibiu ser considerada a mais inexpugnável das cidades da Transilvânia. Isso pode ter influído na sua decisão de lá permanecer. Mas numa daquelas decisões que tornaram ainda mais misteriosa sua personalidade, em 1460, apenas quatro anos depois que ele deixara a cidade de Sibiu, Drácula devastou impiedosamente essa região com um contingente valáquio de vinte mil homens e matou, mutilou, empalou e torturou cerca de dez mil de seus antigos vizinhos. Ele achava que os alemães de Sibiu haviam se envolvido em práticas de comércio desonesto às expensas dos mercados valáquios. A pilhagem e o saque tiveram lugar em escala mais feroz do que a feita pelos turcos em 1438.

Isso nos leva a considerar um dos aspectos mais ambivalentes da carreira de Drácula na Transilvânia, onde de amigo ele se transformou em inimigo para os seus companheiros e aliados. (Isso será descrito em detalhes na análise das histórias de horror alemães.) Essa rixa vai durar três anos violentos, de 1458 a 1460, durante os quais Drácula foi príncipe na vizinha Valáquia. A primeira investida relâmpago na área de Sibiu teve lugar em 1457, quando Drácula queimou e pilhou cidades e vilarejos, destruindo tudo no seu caminho. Somente a própria cidade de Sibiu, assim mesmo uma pequena parte dentro de suas poderosas muralhas de defesa, escapou da destruição. O propósito do ataque pode ter sido a captura do meio irmão de Drácula e rival político Vlad o Monge, e para servir de advertência aos cidadãos de Sibiu para não darem abrigo e proteção a candidatos rivais. Outra cidade ligada ao nome de Drácula é Brasov (Kronstadt para os alemães). Brasov tinha a duvidosa honra de haver testemunhado em suas colinas próximas mais vítimas de empalamento ordenado por Drácula, apodrecendo no sol e mutiladas pelos abutres dos Cárpatos, do que outro lugar do principado. Conta-se que foi numa dessas colinas que Drácula jantou e tomou vinho entre cadáveres. E foi numa dessas ocasiões que Drácula deu prova do seu senso de humor pervertido. Uma narrativa russa fala de um boiardo que tendo chegado para uma festa em Brasov, e não suportando o horrível cheiro de sangue coagulado, fechou com os dedos suas narinas num gesto de repulsa. Drácula mandou que se trouxesse uma grande estaca e a exibiu ao visitante, dizendo: “Fica ali, bem afastado, onde o mau cheiro não vai incomodar-te”. E mandou empalar imediatamente o boiardo. Depois do ataque a Brasov, Drácula continuou queimando e aterrorizando outros vilarejos na vizinhança da cidade, mas ele não foi capaz de capturar a fortaleza de Zeyding (Codlea em romeno), ainda hoje existente em parte, tendo então mandado executar o capitão responsável pelo fracasso. Durante o inverno de 1458-1459 as relações de Drácula com os saxões da Transilvânia mudaram para pior na Valáquia. Drácula decidiu aumentar as tarifas dos bens na Transilvânia, a favor de manufatureiros locais, em violação do tratado por ele assinado no início do seu reinado. Obrigou também os alemães a voltarem ao antigo costume de expor seus produtos apenas em determinadas cidades, como Cimpulung, Tirgoviste e Tirgsor. Essa decisão fechou subitamente muitas cidades ao comércio alemão onde os saxões tinham feito negócios proveitosos, inclusive na tradicional estrada para o Danúbio. Quando os habitantes de Brasov ignoraram essas medidas, Drácula iniciou outra ação terrorista.

A vingança e a violência de Drácula se estenderam pela primavera e o verão de 1460. Em abril, ele pôde finalmente pegar e matar seu oponente Dan III; somente sete dos segidores de Dan puderam escapar. No começo de julho, Drácula capturou a fortaleza de Fagarras e empalou seus cidadãos – homens mulheres e crianças. Embora as estatísticas desse período sejam muito difíceis de estabelecer, na cidade de Almas vinte mil pessoas foram mortas na noite de São Bartolomeu de 24 de agosto de 1460, mais do que foram assassinadas por Catarina de Médices em Paris, cerca de um século depois. O massacre de São Bartolomeu de Drácula escapou, de certo modo, da atenção dos historiadores, enquanto o de Catarina de Médicis fez dela alvo de grande reprovação moral.

Depois de 1460, os ataques e ações na Transilvânia contra os alemães da Valáquia diminuíram, e a renovação de tratados permitiu aos alemães privilégios comerciais, quando assinados juntamente com obrigações prévias ou quando outros acontecimentos concorriam para preencher a atenção de Drácula em outro lugar. No entanto, os saxões exercitaram sua vingança contribuindo para a prisão de Drácula como “inimigo da humanidade”, no outono de 1462, e a mais longo prazo arruinando sua reputação para a posteridade.

Reexaminando esse catálogo de horrores, percebe-se que havia dois lados na personalidade de Drácula. Um era o do torturador e inquisidor que aterrorizava deliberadamente como método político, às vezes inclinando-se à piedade para aliviar a própria consciência. O outro revelava um precursor de Maquiavel, um racionalista pioneiro e um surpreendente estadista moderno que justificava suas ações de acoedo com alguma raison d’état. Os cidadãos de Brasov e de Sibiu eram afinal estrangeiros que tentavam perpetuar seu monopólio de comércio com os principados romenos. Gostavam, a seu modo, também de uma intriga. Os saxões, conscientes do autoritarismo de Drácula, estavam ansiosos para subverter sua autoridade na Transilvânia e garantir asilo a possíveis contestadores do trono valáquio. É fácil demais explicar a personalidade de Drácula, como alguns fizeram, com base só na crueldade.

Havia um método na sua aparente loucura.

Embora Drácula tivesse governado o principado romeno da Valáquia em três diferentes ocasiões e morrido perto da cidade de Bucareste, seu lugar de nascimento, sua propriedade familiar e os dois ducados feudais a ele sujeitos, Almas e Fagaras, ligaram seu nome à Transilvânia. Drácula amava seu lugar de nascimento e finalmente se instalou em Sibiu, após Ter feito as pazes com os alemães. Mesmo seu famoso castelo no rio Arges, embora tecnicamente localizado no lado valáquio da fronteira, era vizinho dos Alpes da Transilvânia. Nesse sentido a tradição confirma que a história de Stoker é absolutamente correta. O nome de Drácula está inexorável e historicamente ligado à romântica Transilvânia.

Um Cruzado Contra os Turcos

Durante o inverno de 1461, Drácula lançou um desafio a ninguém menos do que o orgulhoso conquistador de Constantinopla, o sultão Mehemed II. As campanhas que se seguiram no Danúbio e na Valáquia, e que duraram do inverno de 1461 até o outono de 1462, inegavelmente constituem o episódio mais discutido na carreira de Drácula. Sua habilidade, seus feitos de valor, suas táticas e estratégia, trouxeram-lhe tanta notoriedade na Europa quanto o horrível tratamento que dava a seus súditos. Enquanto seus empalamentos eram evocados nas narrativas populares, os atos de heroísmo a ele atribuídos na luta contra os turcos foram preservados nos registros oficiais da época.

Com a morte do grande Hunyadi em 1456, as forças remanescentes cristãs precisavam desesperadamente de uma liderança. As disputas amargas que haviam ficado desde o assassínio do pai de Drácula ainda não estavam superadas. Essa ausência de unidade dos cristãos contribuiu muito para a causa turca e ajudou na captura de Constantinopla em 1453, três anos antes da segunda subida de Drácula ao trono da Valáquia. Com o desaparecimento dos últimos vestígios da independência sérvia e búlgara, e a queda do império grego, circunstâncias geográficas colocaram a Valáquia na vanguarda da cruzada antiturca. A Moldávia, aliada da Valáquia, estava salva nas mãos de Estêvão, primo de Drácula que surgiu como herói no mundo cristão depois de Hunyadi. Após o assassínio de seu pai, Bogdan, Estêvão acompanhou Drácula no seu exílio na Transilvânia. Lá, enquanto ambos residiam no castelo dos Hunyadis em Hunedoara, Drácula fez um pacto com Estêvão: Quem subisse ao trono primeiro, ajudaria o outro a ganhar o principado irmão. Em 1457, exatamente um ano após sua subida ao trono, Drácula coerente com sua promessa, mandou um contingente valáquio para ajudar Estêvão a reconquistar a coroa de seus antepassados. Desse modo, Drácula ajudou a iniciar a brilhante carreira do maior soldado, estadista e homem de cultura que a Renascença romena produziu. Porque Estêvão o Grande, ou Santo Estêvão como é ele hoje chamado após a sua canonização pela Igreja Ortodoxa em 1972, foi soldado e amante das artes. O número de mosteiros que sobreviveram na região de Suceava, capital de Estêvão, é eloqüente testemunho do brilho cultural e arquitetônico da sua época.

Quando Drácula finalmente ascendeu ao trono em julho de 1456, os astrônomos chineses e europeus documentaram uma aparição celestial incomum – um cometa “tão grande quanto a metade do céu, com duas caudas, uma apontando o Ocidente e a outra o Oriente, cor de ouro e parecendo uma chama ondulante no horizonte noturno”. O cometa tornou-se mais tarde tema de estudo do astrônomo Edmund Halley, e tornou-se conhecido então como Cometa de Halley.

No século XV, como hoje, as pessoas supersticiosas viam nos cometas anúncios de catástrofes naturais, pestes ou ameaças de invasão. Com a morte de Hunyadi em Belgrado, esses augúrios aumentaram muito. Mas os videntes e astrólogos de Drácula interpretaram o cometa como um símbolo de vitória. Um especialista romeno em numismática descobriu recentemente uma pequena moeda de prata cunhada pelo príncipe, mostrando a águia Valáquia de um lado e a estrela puxando seis raios ondulantes de outro, uma representação tosca do famoso cometa.

Após a queda de Constantinopla, os poderes remanescente da Europa Central e Oriental dedicaram-se a libertar as terras dos Bálcãns conquistadas pelos turcos. Uma das grandes figuras da Renascença, Enea Silvio Piccolominio, um astuto diplomata e especialista em Europa Ocidental, tornou-se o papa Pio II em 1458. Ele percebeu o imenso perigo para todo o mundo cristão das ambições imperialistas do sultão Mehmed II. Pio II lançou sua cruzada no Concílio de Mântua em 1459, advertindo os governantes incrédulos de que, a menos que os cristãos se unissem todos para se opor a Mehemed, o sultão destruiria seus inimigos um a um. O papa pedia aos cristãos que tomassem a si a cruz e angariassem cem mil ducados de ouro.

Em seguida à morte de Hunyadi e ao assassinato de seu filho mais velho, Ladislau, a luta pela coroa húngara continuou entre os Hunyadi e os Habsburgos. Drácula permaneceu leal aos Hunyadis em suas lutas com os alemães da Transilvânia, inicialmente a Ladislau e após sua morte ao filho mais jovem de Hunyadi, Matias, e ao cunhado Michael Szilagy. Do lado oposto estavam os Habsburgos: Albert I, que governou pouco tempo, sua esposa Elizabete e Ladislau V. A coroa sagrada de Santo Estêvão, guardada na fortaleza de Visegrad, esperava ser reclamada pelo próximo legítimo Habsburgo. O sacro imperador romano Frederico III estava tão preocupado com seus assuntos internos que o império não se animou a responder ao apelo do papa. O filho de Hunyadi, Matias, manobrou para tornar-se rei da Hungria em 1458. Drácula, que conheceu Matias ainda jovem, esperava que ele se juntasse à cruzada. Quanto a isso ele se desapontou, tal como o papa. Matias nunca deu seu inteiro apoio à cruzada papal contra os turcos, devido ao seu vacilante apoio ao trono da Hungria. O sacro imperador romano Frederico III; George de Podebrady, rei da Boêmia; Casimir IV, da Polônia; o Grão-Duque de Moscou, Ivan III; os governantes das repúblicas italianas; e um número de potentados orientais que participaram do concílio, limitou-se a enviar palavras de encorajamento ao papa. Estavam todos envolvidos em suas pequenas querelas e preferiram descartar logo o apelo papal.

Drácula foi o único soberano que respondeu imediatamente à conclamação do papa. Sua ação corajosa foi reconhecida nos comentários favoráveis dos representantes oficiais de Veneza, Gênova, Milão e Ferrara e mesmo do papa Pio II. Embora ainda desaprovasse algumas das cruéis táticas que ele usava, todos admiravam a coragem de Drácula e elogiavam sua disposição de combater pela cristandade.

Apesar do seu juramento ao rei húngaro e ao papa, as relações de Drácula com os turcos permaneciam acomodadas. Ele cumpria suas obrigações de vassalagem, que incluíam pagamento de tributo e uma visita ocasional a Constantinopla. A primeira indicação de que podia haver problemas na preservação de relações amigáveis veio do próprio Drácula. Em carta datada de 10 de setembro de 1456, dirigida aos dignitários de Brasov, Drácula revelou seu real pensamento, apenas alguns dias depois da sua investidura como príncipe:

Estou vos dando notícias… de que o embaixador dos turcos veio agora até nós. Tende no espírito e o conservai com firmeza o que tratei previamente convosco acerca de fraternidade e paz… O tempo e a hora chegaram afinal, a respeito do que antes vos havia dito. Os turcos querem pôr em nossos ombros… responsabilidades insuportáveis e… compelir-nos a não mais viver em paz (convosco)… Eles estão buscando um modo de saquear nosso país passando sobre nós. Além disso, eles nos forçam a trabalhar contra nossa fé católica. Nosso desejo é nada fazer contra vós, nem vos abandonar, como vos disse e jurei. Asseguro-vos que continuarei vosso irmão e amigo fiel, e por isso retive os enviados turcos aqui, de modo a que tivesse tempo de mandar-vos essas notícias.
Seguem-se aqui preceitos típicos que antecipam Maquiavel:

Tendes de refletir … quando um príncipe é poderoso e valente ele pode fazer a paz como desejar. Se, no entanto, ele foi enfraquecido, alguém mais poderoso que ele há de conquista-lo e ditar-lhe sua vontade.

Levando em conta sobretudo à tensa situação turco-valáquia resultante da dupla posição de Drácula, as causas do corte final de relações e do início das hostilidades devem ser buscadas nas tentativas turcas de se beneficiar da infringência dos tratados. Os tributos foram pagos regularmente por Drácula apenas durante os primeiros três anos do seu reinado. De 1459 a 1461. Daí por diante, no entanto, porque estava preocupado com os problemas dos saxões da Transilvânia, Drácula violou o contrato e deixou de comparecer à corte turca. Por isso, quando as negociações foram retomadas, os turcos exigiram o pagamento dos tributos devidos.

Havia uma outra nova exigência que nunca fora estipulado antes e que representava uma clara violação dos trados anteriores. Ela envolvia a cobrança do tributo infantil – nada menos do que quinhentos jovens destinados aos regimentos de janízaros. Essa infantaria de elite era composta de recrutas de várias províncias dos Nálcãs, sob o controle do sultão. De fato, oficiais recrutadores de vez em quando invadiam as planícies da Valáquia, onde sentiam que a qualidade dos jovens era melhor.

Drácula havia resistudo a tal incursão pela força das armas, e cada turco que fosse pego nessa tarefa podia ser levado à estaca. Tais violações do território por ambos os lados somaram-se às provocações e contribuíram para azedar as relações turco-valaquias. Ataques, pilhagem e saques tornaram-se endêmicos, de Giurgiu até o mar Negro. Os turcos conseguiram assegurar o controle de várias fortalezas e comunas no lado romeno do Danúbio.

Para complicar as coisas, Radu o Belo, que fielmente residira em Constantinopla desde sua libertação em 1447, foi encorajado pelos turcos a se considerar candidato ao trono da Valáquia. Antes do corte de relações, o sultão Mehemed II deu a Drácula uma última opotunidade. Ele o convidou a ir a Niocópolis, no Danúbio, para se encontrar com Isaac Pasha, o governante da Rumélia e representante do sultão, que foi intruido a persuadir Drácula de ir pessoalmente a Constantinopla e explicar suas violações de vassalagem dos últimos anos.Drácula respondeu que estava preparado para viajar, levando presentes, até Constantinopla, e concordou em discutir o não-pagamento dos tributos e até ajustamentos de fretes na fronteira, mas continuava inflexível a respeito do recrutamento de crianças pelos turcos.

Na verdade, em hipótese nenhuma ele viajaria até a corte do sultão, porque se lembrava de como seu pai fora traído. O pretexto oficial para sua recusa de ir a Constantinopla era o receio de que se fizesse isso seus inimigos na Transilvânia ficariam mais fortes na sua ausência.

Uma vez que não havia base sincera e genuína para as negociações, pode se entender melhor a reação do sultão. A recusa de Drácula de viajar até Constantinopla confirmava as suspeitas dos turcos de que ele estava negociando simultaneamente uma aliança com os húngaros. Por isso, os turcos planejaram uma emboscada. Os homens encarregados de levar avante o plano não podiam ter sido mais bem escolhidos – um demônio de esperteza grego, Thomas Catavolinos, e Hamza Pasha, chefe dos falcoeiros da corte, governador de icópolis e homem conhecido por sua mente sutil. O pretexto ostensivo era encontrar Drácula para discutir uma fronteira mutuamente aceita e para persuadi-lo a ir a Constantinopla. Logo que eles souberam que Drácula recusaria esta última proposta, suas instruções secretas eram de capturar o príncipe Valáquio morto ou vivo. Temos a sorte de possuir um relato claro e dramático das precisas circunstâncias nas quais Drácula venceu seus oponentes. A história é contada pelo próprio Drácula em carta datada de 11 de fevereiro de 1462, dirigida ao rei Matias Corvinus: Em outras cartas que enviei a Vossa Alteza, narrei o modo pelo qual os turcos, cruéis inimigos da Cruz de Cristo, mandaram seus emissários até mim visando quebrar nossa mútua paz e aliança, e destruir nossa união, de forma que eu me aliasse com eles e viajasse até o soberano turco, o que equivale dizer sua corte, e a menos que eu recusasse a abandonar a paz e os tratados e a união com Vossa Alteza, os turcos não manteriam a paz comigo. Eles também enviaram um importante conselheiro do sultão, Hamza Pasha, de Nicópolis, para determinar a fronteira do Danúbio, com o intento de que Hamza Pasha, se pudesse, me tomasse de algum modo por engano ou boa-fé, ou de alguma outra maneira, levando-me para o porto, ou então tentando me manter cativo. Mas pela graça de Deus, quando eu viajava pela fronteira descobri suas intenções e astúcia, e fui eu quem capturou Hamza Pasha num distrito e numa terra turca, próxima a uma fortaleza chamada Giurgiu. Quando os turcos abriram os portões da fortaleza, a pedido dos nossos homens, imaginando que apenas os seus entrariam, nossos soldados se misturaram com eles e invadiram a fortaleza, conquistando a cidade que em seguida mandei incendiar.

Nessa mesma carta, Drácula descreve a campanha que se seguiu e que teve lugar ao longo do Danúbio até o mar Negro durante o inverno de 1461, que se constituiu no começo real das hostilidades, sem que tenha havido uma declaração formal de guerra. Desse modo, Drácula pode ser visto como agressor. A campanha do Danúbio foi a bem-sucedida fase inicial da guerra turco-valáquia. Drácula estava na ofensiva, tentando duplicar a bem-sucedida guerra anfíbia de Hunyadi na decada de 40 daquele século. A maior parte da campanha teve lugar em solo búlgaro controlado pelos turcos. Pela menção de nomes de locais é possível reconstituir o avanço das forças de Drácula ao longo do Danúbio, e Drácula conta com precisão o número de baixas infligidas:

Matei homens e mulheres, velhos e jovens que viviam em Oblucitza e Novoselo, onde o Danúbio flui para o mar até Rahova, que fica perto de Chilia desde o baixo (Danúbio) até lugares como Samovit e Ghighen (ambos localizados na moderna Bulgária). (Matamos) 23.884 turcos e búlgaros sem contar aqueles que foram queimados em suas casas ou aquelas cabeças que não foram cortadas por nossos soldados… E assim Vossa Alteza deve saber que quebrei a paz com o sultão.

Seguem-se algumas espantosas estatísticas de pessoas assassinadas: em Oblucitza e Novoselo, 1.350; em Dirstor (Durostor, Silistria), Cirtal e Dridopotrom, 6.840; em Orsova, 343; em Vectrem, 840; em Turtucaia, 630, em Marotim, 210, na propria Giurgiu, 6.414; em Turnu, Batin e Novigrad, 384, em Sistov, 410; em Nicóplis, Samovit e Ghighen, 1.138; em Rahova, 1.460. Para melhor impressionar o rei Matias com os detalhes do seu relato, Dracula mandou até ele seu enviado Radu Farma, com dois sacos contendo cabeças, narizes e orelhas.

A campanha de inverno terminou na costa do mar Negro, sob as vistas da poderosa força dos turcos que havia atravessado o Bósforo para uma invasão em grande escala da Valáquia. Com seu flanco desprotegido, Drácula fora obrigado a abandonar a ofensiva. Ele havia queimado todas as fortalezas turcas que não conseguira de fato ocupar. Não tinha muito mais o que fazer; o ponto alto da ofensiva tinha se esgotado.

A campanha do Danúbio havia estabelecido a reputação de Drácula como cruzado e guerreiro da cristandade. Através da Europa Central e Ocidental, e de um eram cantados e os sinos tocavam de Gênova a Paris em gratidão pela cruzada, com um novo ânimo de viver e a louvação da liderança de Hunyadi. A corajosa ofensiva de Drácula enviou também uma nova esperança de liberdade aos povos escravizados da Bulgária, Sérvia e Grécia. Em Constantinopla pairava uma atmosfera de consternação, melancolia e medo, e alguns dos chefes turcos, temendo o Empalador, consideravam a hipótese de fuga pelo Bósforo para a Ásia menor. Mehmed II decidiu lançar sua invasão da Valáquia na primavera de 1462; Drácula não havia dado ao sultão outra alternativa. Desafiar o sultão com o fracasso de um provável plano de assassínio era uma coisa; ridiculariza-lo e instilar esperanças de libertação entre os súditos cristãos era outra, muito mais perigosa para seu império recentemente estabelecido. Em cada movimento que fez dali em diante, Mehmed quis reduzir a Valáquia a uma província turca. Com esse formidável desafio em mente, o sultão reuniu as mais poderosas forças que até então tinham se juntado desde a queda de Constantinopla em 1453. Um imenso contingente comandado pelo próprio sultão foi transportado ao longo do Bósforo por uma vasta frota de barcaças. Outra força poderosa, reunida em Nicópolis, na Bulgária, devia cruzar o Danúbio, recapturar a fortaleza de Giurgiu e então se unir com o contingente principal num ataque combinado a Tirgoviste.

Drácula esperava reforços de Matias da Hungria, de maneira a equilibrar a disparidade dos números. De acordo com as narrativas eslavas, ele não dispunha de mais de 30.900 homens. Drácula apelou aos seus compatriotas. Como era costume a independência do país era ameaçado, todo o homem válido, inclusive meninos de mais de doze anos, e até mulheres eram convocados. Uma testemunha ocular turca afirma que a travessia do Danúbio foi completada na noite do sexto dia do jejum de Ramadã (sexta-feira, 4 de junho de 1462), os soldados turcos sendo transportados em setenta barcos e barcaças. Outras testemunhas oculares turcas dão-nos conta em detalhes e gráficos de toda a operação. A travessia tornou-se possível graças ao fogo dos canhões turcos dirigidos contra posições valáquias na margem direita: (Quando a noite começou a cair) subimos nos barcos e descemos pelo Danúbio e chegamos à outra margem, muitas léguas abaixo do lugar onde o exército de Drácula havia estacionado. Ali cavamos nós mesmos trincheiras instalando os canhões ao nosso redor. Escondemo-nos nas trincheiras de modo que os cavaleiros não nos atingissem. Depois disso cruzamos de volta para a outra margem e aí transportamos soldados através do Danúbio. E quando o conjunto de nossa infantaria havia atravessado, preparamo-nos e saímos aos poucos em direção ao exército de Drácula, juntamente com a artilharia e outros componentes que trouxéramos também. Havendo parado, acertamos os canhões, mas antes que pudéssemos usá-los, trezentos dos nossos foram mortos. O sultão ficou muito entristecido com o fato, vendo aquela batalha do outro lado do Danúbio e sentindo-se incapaz de chegar até nós. Ele temia que todos os soldados fossem mortos, uma vez que o imperador não podia pessoalmente cruzar o rio. Depois disso, vendo que nosso lado foi muito enfraquecido e tendo conosco cento e vinte armas, defendemo-nos e atiramos repetidamente com elas, repelimos o exército do príncipe nesse local e nos fortalecemos a nós mesmos. Então o imperador, tendo ganhado a confiança, transportou outros soldados. E Drácula, vendo que não podia evitar a travessia, retirou-se das nossas proximidades. Então, depois de o imperador haver cruzado o Danúbio seguindo-nos com todo o exército, distribuiu entre nós trinta moedas de ouro.

Pouco depois houve escaramuças preliminares ao longo dos pântanos do Danúbio, que visavam basicamente retardar a junção dos dois grandes exércitos turcos. Drácula abandonou o rio e iniciou sua retirada para o norte. A partir desse ponto, Drácula recorreu ao que é conhecido como retirada estratégica, um recurso invariavelmente usado pelos exércitos com inferioridade numérica. Os romenos dependiam da variedade do terreno para sua defesa: o solo pantanoso perto do Danúbio, a densa floresta de Vlasi aprofundando-se na planície e as montanhas impenetráveis. De acordo com a tradição romena, era a floresta “louca” e as montanhas “irmãs do povo” que haviam assegurado a sobrevivência da nação através das épocas. À medida que as tropas Valáquianas deixavam seu território aos turcos, Drácula usava táticas de terra devastada, e esgotava seus inimigos criando um vasto deserto no caminho das forças invasoras. Enquanto o exército de Drácula batia em retirada para o norte, abandonando território aos turcos, ele despovoava a área, queimava seus próprios vilarejos e punha fogo nos grandes centros, reduzindo-os a cidades-fantasmas. Boiardos, camponeses e citadinos acompanhavam os exércitos em retirada, a menos que encontrassem refúgios em montanhas isoladas ou mosteiros inacessíveis, como os de Snagov, onde os mais ricos buscavam proteção. Além disso, Drácula ordenou que as colheitas fossem sistematicamente queimadas; e envenenados todos os poços e exterminado o gado e todos os outros animais domésticos que não pudessem ser levados para as montanhas. O povo cavara longos buracos e havia coberto com galhos e folhas, de maneira a fazer grandes armadilhas para homens, camelos e cavalos. Drácula determinou mesmo que represas fossem construídas para secar a água de pequenos rios e para criar pântanos que pudessem impedir o avanço dos canhões turcos, atolando-os todos em lama. Fontes contemporâneas confirmam o cenário de desolação que esperava os exércitos turcos. Um historiador grego, por exemplo, conta: “Drácula escondeu as mulheres e crianças numa área muito pantanosa, protegida por defesas naturais, cobertas por uma densa floresta de carvalhos e ordenou a seus homens que se ocultassem nessa floresta de carvalhos e ordenou a seus homens que se ocultassem nessa floresta, que era inacessível a qualquer estranho que a penetrasse”. Do lado turco, os comentários são exatamente os mesmos. Um veterano da campanha queixava-se de que “o melhor dos homens entre os turcos não encontrava fontes… (nenhuma) água potável”. Mahmud Pasha, um dos comandantes que foram mandados à frente do exército principal com um pequeno contingente, pensou ter encontrado finalmente um lugar para descansar. “Mas mesmo ali”, escreveu o veterano, “numa distância de seis léguas não era encontrada uma gota de água. A intensidade de calor causado pelo sol ardente era tão grande que a armadura parecia derreter numa forja. Na planície ressecada, rachavam os lábios dos combatentes do Islã. Os africanos e asiáticos, acostumados a condições do deserto, usavam seus escudos para cozinhar carne ao sol.”
Certamente um fator que contribuiu para o sofrimento e a morte que atingiu o exército turco foram o fato de o verão de 1462 ter sido um dos mais quentes já registrados. Ao lado das medidas de terra devastada, Drácula usou táticas de guerrilha nas quais o elemento surpresa e o íntimo conhecimento do terreno eram as chaves do sucesso. Um viajante italiano relatou que a cavalaria de Drácula podia freqüentemente surgir de trilhas relativamente desconhecidas e atacar saqueadores turcos distanciados das forças militares. Às vezes Drácula atacava mesmo o grosso das tropas, quando elas menos esperavam, e antes que pudessem se recuperar ele voltava para a floresta sem dar ao inimigo a oportunidade de combater em igualdade de condições. Os desgarrados do principal corpo das forças turcas que ficavam para trás eram invariavelmente isolados e mortos, a maioria por empalamento. Uma tática mais insidiosa, quase desconhecida nesse período, era uma versão do século XV da guerra bacteriológica. Drácula teria encorajado todos os doentes vítimas de lepra, tuberculose e peste bubônica a se vestirem como os turcos e a se misturarem com os soldados. Se de algum modo sobrevivessem depois de contaminar e matar os turcos com sucesso, os Valáquios infectados seriam ricamente recompensados. Do mesmo modo, Drácula libertava criminosos empedernidos que eram encorajados a assassinar os turcos desgarrados.

O ataque conhecido como a Noite do Terror foi um exemplo da ousadia e da mestria de Drácula em táticas de surpresa. Em um dos muitos vilarejos próximos de Tirgoviste, perto do acampamento dos turcos na floresta, Drácula reuniu um conselho de guerra. A situação de Tirgoviste era desesperada e Drácula apresentou um plano corajoso para salvar sua indefesa capital. O conselho concordou em que somente o assassínio do sultão poderia desmoralizar suficientemente o exército turco, a ponto de produzir uma retirada rápida.

A execução desse plano foi admiravelmente registrada por um soldado sérvio que experimentou todo o impacto da investida audaciosa de Drácula. Seu relato descreve o complexo acampamento turco: o som dos guardas vigilantes gritando ordens ocasionais, o cheiro do carneiro assado na brasa, a conversa de soldados que partem, as risadas das mulheres e de outros visitantes, o cântico lamentoso dos escravos dos turcos, o ruído dos camelos, as incontáveis tendas e finalmente aquela bordada em ouro em que dormia o sultão, bem no centro do acampamento. Menhemed havia acabado de se retirar depois de uma pesada refeição. De repente, ouviu-se o pio de uma coruja, sinal de Drácula para o ataque, seguido do tropel da cavalaria. Os invasores atravessaram o círculo de defesa dos guardas galopando livremente entre as tendas dos soldados mal despertos. A espada e a lança valáquias – com Drácula à frente – abriam um atalho sangrento. “Kaziku Bey!, o Empalador”, gritava fieiras de soldados turcos, gemendo e morrendo na trilha da avalanche romena. Os clarins turcos finalmente chamaram os homens às armas. Um corpo de guarda aos poucos se formou, determinado, em torno da tenda do sultão. Drácula havia calculado que a abrupta surpresa e o ímpeto do ataque podiam levar sua cavalaria até a cama do sultão. Mas enquanto ele buscava essa meta, a guarda do sultão reuniu-se, deteve a ofensiva valáquia e de fato começou a fazer recuar os atacantes. Percebendo que corria o risco de ser envolvido e capturado, Drácula, embora com relutância, deu ordens de retirada. Ele havia matado vários milhares de turcos; ferido muito mais, criado pânico, caos e terror dentro do acampamento turco, mas havia perdido muitas centenas de seus guerreiros mais corajosos e o ataque havia fracassado. O sultão Mehemed tinha sobrevivido e a estrada para Tirgoviste estava aberta.

O grande vizir Machumet prendeu um valáquio e sob tortura começou a interroga-lo sobre a localização e os planos de Drácula. O prisioneiro permaneceu em silêncio e foi provavelmente cerrado em dois. Admirado com esta demonstração de coragem, o vizir disse ao sultão: “Se este homem estivesse no comando de um exército, poderia ter conquistado grande poder”. Os turcos chegaram finalmente a Tirgoviste mas não encontraram homem ou gado; comida ou bebida. A capital valáquia apresentava de fato um aspecto desolador aos turcos que chegavam. Os portões da cidade foram deixados abertos e um véu leve de fumaça se confundia com a luz da madrugada. A cidade fora esvaziada de praticamente todas as suas relíquias sagradas e tesouros, do palácio fora levado tudo que havia ali de aproveitável, e o resto queimado. Por toda parte, os poços estavam envenenados. Os turcos foram recebidos por uns poucos disparos de canhão feitos por alguns valáquios que ainda se escondiam nas ameias. Mehemed II resolveu não se deter na capital mas continuou sua marcha atrás do ardiloso Empalador. A umas tantas milhas ao norte, o sultão foi surpreendido por um espetáculo ainda mais desolador: numa estreita garganta de cerca de um quilômetro e meio ele encontrou uma verdadeira “floresta de cadáveres empalados, talvez 20.000 ao todo”. O sultão examinou o que restava dos homens, mulheres e crianças, sua carne devorada pelos corvos que faziam ninhos em seus crânios e entre suas costelas. Entre eles o sultão encontrou os cadáveres de prisioneiros que Drácula havia conservado desde o começo da campanha, no inverno anterior. Num pico mais alto estavam as carcaças dos dois assassinos que haviam tentado apanhar Drácula antes do início das hostilidades. Ao longo de muitos meses os elementos da natureza e os corvos haviam feito o seu trabalho. Era uma cena horrível o bastante para desencorajar até mesmo o homem mais frio. Impressionado por esse espetáculo, Mehemed II ordenou que o acampamento turco fosse cercado por uma profunda trincheira naquela mesma noite. Logo, pensando sobre o que tinha visto, o sultão perdeu o ânimo. Como registra um historiador, “mesmo o sultão, tomado de pasmo, admitiu que ele não podia tomar a terra de um homem que faz tais coisas, e acima de tudo lida com seus súditos desse modo. Um homem capaz de fazer tais coisas seria capaz de coisas mais terríveis!” O sultão deu então ordens de retirada para a maior parte das forças turcas, e pôs-se em marcha para o leste em busca de um porto no Danúbio onde sua frota havia ancorado.

Após a retirada do contingente de Mehemed, o caráter da guerra mudou radicalmente. de fato, esse último capítulo pode ser descrito com maior propriedade como uma guerra civil, ao invés de uma guerra estrangeira, muito embora soldados turcos ainda continuassem envolvidos. Antes da partida, o sultão Mehemed nomeou formalmente Radu comandante-em-chefe, com a missão de destruir Drácula e tomar conta oficialmente do principado. O contingente turco, sob o comando do paxá de Cilistria, apoiaria as relações de Radu, mas o novo comandante devia confiar principalmente no apoio dos valáquios. Os turcos alimentavam deliberadamente esse conflito de modo a confundir os valáquios e a evitar a impressão de uma guerra nacional contra um adversário comum, de fato abandonando seu plano anterior de conquistar a Valáquia para converte-la num estado vassalo obediente. O que eles deixaram de conseguir pela força das armas obtinham pela diplomacia. Assim, em última análise, era menos uma questão de tática do que de política. As últimas batalhas opunham Drácula não tanto aos turcos, mas aos poderosos boiardos romenos que afinal apoiavam decisivamente a causa de Radu. “Os boiardos romenos, entendendo que os turcos eram mais fortes, abandonaram Drácula e se associaram a seu irmão que chegava como sultão turco.” Terminava assim o relato de um janízaro sérvio. Havia uma outra razão mais forte para a retirada turca. A peste havia aparecido nas hostes do sultão e as primeiras vítimas da terrível doença foram registradas em Tirgoviste. Talvez a tentativa de Drácula de fazer guerra bacteriológica tivesse funcionado. O pedido desesperado de ajuda feito por Drácula a seu parente Estêvão foi respondido com a traição. Em junho o governante moldavo atacou a importante fortaleza valáquia de Chilia, vindo do norte, enquanto poderosos contingentes turcos atacavam-na simultaneamente pelo sul. Apesar disso, esse extraordinário duplo assalto fracassou. Os turcos levantaram o sítio. Estêvão foi ferido por um tiro disparado pela fortaleza e retirou-se para a Moldávia. Ele não renovou o ataque a chilia até 1465. E então ele a capturou, enquanto seu primo Drácula vivia em segurança numa prisão húngara, alguns quilômetros Danúbio acima, em Visegrad. Durante a última fase da guerra turco-valáquia, Drácula governou de seu castelo no Arges superior, o ponto final do refúgio do príncipe quando os turcos avançavam. Uma vez que os cronistas da campanha turca haviam retornado a Constantinopla com o sultão e o grosso do exército, só restava aos historiadores confiar nas baladas populares da região do castelo pra obter suas informações. Os camponeses dos vilarejos vizinhos do Castelo Drácula relatam histórias relativas ao fim do segundo reinado no outono de 1462. Todas essas histórias terminam quando Drácula atravessa a fronteira da Transilvânia e se torna prisioneiro dos húngaros. Elas recomeçam em 1476, quando Drácula volta à Valáquia para seu terceiro reinado. Uma das narrativas mais clássicas dos últimos momentos da resistência de Drácula aos turcos em 1462 apresenta-se assim: Após a queda de Tirgoviste, Drácula e uns poucos fiéis seguidores seguiram para o norte; evitando os passos mais conhecidos que levavam à Transilvânia, chegaram ao seu retiro na montanha. Os turcos que foram mandados em sua perseguição acamparam no escarpado de Poenari, que domina uma vista admirável do Castelo Drácula na margem oposta do Arges. Ali eles instalaram seus canhões de cerejeira. O grupo de soldados turcos desceu para o rio e o atravessou a vau, acampando do outro lado. O bombardeio ao Castelo Drácula começou, mas sem sucesso, devido ao pequeno calibre dos canhões turcos e à solidez das muralhas do castelo. As ordens para o assalto final ao castelo foram preparadas para ser dadas na manhã seguinte.

Naquela noite, um escravo romeno dos turcos, de acordo com uma narrativa local, que era um parente distante de Drácula, advertiu o príncipe valáquio sobre o grande perigo em que se encontrava. Sem ser percebido na noite sem lua, o escravo subiu as escarpas do Poenari e fazendo cuidadosa pontaria disparou uma flecha para uma das janelas da torre principal, onde ele sabia que ficavam os aposentos de Drácula. Presa à flecha ia uma mensagem advertindo Drácula para escapar enquanto ainda era tempo. A flecha apagou um candelabro dentro da torre. O escravo pôde ver a sombra da mulher de Drácula e conseguiu talvez perceber que ela lia a mensagem. O resto dessa história só pode ter sido transmitido por conselheiros íntimos de Drácula dentro do castelo. A esposa de Drácula informou o marido sobre o aviso. Ela lhe disse que preferia ter seu corpo devorado pelos peixes lá em baixo no rio Arges a ser capturada pelos turcos. Drácula sabia por sua própria experiência em Egrigoz o que, no caso, significava ser prisioneiro. Percebendo o quanto era desesperadora sua situação, e antes de qualquer outra interferência, a mulher de Drácula subiu correndo as escadas e se atirou da torre. Esse ponto do rio é hoje conhecido como Riul Doannei, rio da Princesa. Essa narrativa trágica é praticamente a única menção à primeira mulher de Drácula. Drácula imediatamente fez planos para sua própria fuga; não importava o quanto as circunstâncias fossem desfavoráveis, o suicídio não era uma opção. Ele ordenou que os seus líderes mais corajosos do vilarejo vizinho de Arefu fossem trazidos ao castelo, e durante a noite eles discutiram as várias rotas de fuga para a Transilvânia. Drácula tinha esperança de que Matias da Hungria, ao qual havia enviado muitos apelos desde uma primeira carta de fevereiro de 1462, pudesse acolhê-lo como um aliado e assegurar sua volta ao trono valáquio. De fato, sabia-se que o rei húngaro, dispondo de um poderoso exército, havia estabelecido quartéis além das montanhas, em Brasov. Chegar até ele supunha o desafio de atravessar os Alpes da Transilvânia num ponto onde não havia estradas ou passos. Os despenhadeiros no alto dessas montanhas são rochosos e traiçoeiros, em geral cobertos de neve e gelo mesmo durante o verão. Drácula não poderia ter tentado essa travessia sem o auxílio de guias locais. As narrativas populares ainda identificam vários rios, clareiras, florestas e mesmo rochedos junto aos quais passou Drácula em sua fuga. Tentamos usar essa narrativa para reconstituir o verdadeiro caminho de Drácula, mas a tarefa mostrou-se difícil, porque os nomes dos lugares mudaram com o passar dos anos.

Tão longe quanto conseguimos saber, Drácula, uma dúzia de subordinados, seu filho ilegítimo e cinco guias deixaram o castelo antes da madrugada pela escada em espiral que desce para o seio da montanha e leva até uma caverna na margem do rio. Ali, o grupo de fugitivos podia ouvir os ruídos do acampamento turco e cerca de um quilômetro ao sul. Algumas das montarias mais rápidas haviam sido trazidas do vilarejo; os cavalos eram equipados com ferraduras invertidas de modo a deixar as marcas aparentes de uma cavalaria que chegava. Para distrair a atenção da fuga, durante a noite os canhões do castelo dispararam repetidamente. Os turcos em Poenari respondiam quase automaticamente. Devido ao ruído, assim conta à história, a montaria do próprio Drácula mostrou-se nervosa, e seu filho que estava amarrado na sela caiu ao solo e se perdeu na confusão. A situação era desesperadora demais para que alguém iniciasse uma busca e Drácula estava acossado demais e tinha o coração frio o bastante para se deixar perder por seu filho.

Essa pequena e trágica vinheta teve, entretanto,um final feliz. O menino, por volta de seus dez anos, foi encontrado na manhã seguinte por um pastor, que o tomou e o levou até sua cabana, onde cresceu como se fosse alguém de sua família. Quando Drácula voltou como príncipe quatorze anos depois, o camponês que havia descoberto a verdadeira identidade de seu adotado, levou o rapaz até o castelo. A essa altura ele havia se transformado em um esplêndido jovem. Contou a seu pai tudo o que o pastor havia feito por ele, e como prova de gratidão Drácula compensou o camponês com o oferecimento de terras nas vizinhanças e eventualmente se tornado governador do castelo. Quando o grupo fugitivo finalmente atingiu a crista das montanhas, pôde presenciar o assalto final dos turcos ao sul, que destruiu parcialmente o Castelo Drácula. Ao norte ficavam as muralhas fortificadas de Brasov, onde se esperava que os exércitos do rei Matias estivessem manobrando para vir em auxílio a Drácula. Em um lugar chamado Plaiul Oilor, ou planície do Carneiro; o grupo de Drácula, agora salvos dos turcos, reuniram-se e fizeram planos para a descida pelo norte.

Convocando seus corajosos companheiros, Drácula lhes perguntou de que modo ele poderia recompensá-los por lhe ter salvado a vida. Eles lhe disseram que apenas haviam cumprido seu dever com o príncipe e com o país. O príncipe, no entanto, insistiu: “O que desejais? Dinheiro ou terras?” E eles responderam: “Dai-nos terras, alteza”. Em um bloco de pedra conhecido como Mesa do Príncipe, Drácula atendeu seus desejos escrevendo em algumas peles de lebres caçadas no dia anterior. Entregou aos cinco guias vastas glebas de terra nas montanhas e um rico suprimento de florestas, pescado e ovelhas, tudo por volta talvez de oitenta mil metros quadrados. Drácula mais tarde estipulou a respeito que nenhuma dessas terras podia jamais ser tirada deles por príncipe, boiardo ou chefe eclesiástico. Eram de suas famílias, para ser usufruídas através das gerações.

Diz uma antiga tradição que essas peles de lebre são ainda carinhosamente guardadas pelos descendentes daqueles cinco homens, mas a despeito de muitos esforços e persuasão, nenhum descendente quis esclarecer o paradeiro exato de tais documentos. Ainda assim temos razões para supor que, escondidas em algum sótão ou enterradas num subterrâneo, as peles de coelho de Drácula ainda existem. Um historiador romeno tentou encontrar os pergaminhos, mas os camponeses da área permaneceram reservados e intratáveis. Nem mesmo grandes somas em dinheiro puderam persuadi-los a partilhar tais preciosas lembranças dos tempos heróicos de Drácula.

por Shirley Massapust

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/dracula-historico/

O Manuscrito de Mathers

O manuscrito Mathers, como a Steganographie e o manuscrito Voynich, está em código. Mas tem o bom gosto de estar em código de dupla transposição relativamente simples, o que permitiu us decifração rapidamente. Vi muitas folhas dessa decifração que me pareceu correta. Essa decifração mostra a aventura oculta mais extraordinária de nossa época, a da Ordem Golden Dawn.

Mostra, também, a redação de um conjunto de documentos mágicos, logo malditos, que, pelo que sei, nunca foi publicado, mas que já provocou muitas catástrofes.

Comecemos do início.

Um clérigo inglês, Rev. A. F. A. Woodford, passeava em Londres, ao longo da Farrington Street. Entrou na loja de um vendedor de livros de ocasião e aí encontrou manuscritos cifrados e uma carta em alemão. Isto se passou em 1880. O Rev. Woodford começou lendo a carta em alemão. Essa carta dizia que aquele que decifrasse o manuscrito podia comunicar-se com a sociedade secreta alemã Sapiens Donabitur Astris (S. D. A.), através de uma mulher, Anna Sprengel. Outras informações lhe seriam, então, comunicadas se ele fosse digno delas.

O Rev. Woodford, maçon e Rosa-Cruz, falou de sua descoberta a dois de seus amigos, o Dr. Woodman e o Dr. Winn Westcott, todos os dois eruditos eminentes e, além do mais, cabalistas. Ocupavam postos elevados na maçonaria. O Dr. Winn Westcott era “coroner”, posto jurídico muito conhecido dos leitores de romances policiais ingleses. Um “coroner” desempenha ao mesmo tempo o cargo de médico legista e de juiz de instrução. Em caso de morte suspeita, reunia um júri que pronunciava um veredicto, podendo, eventualmente, haver intervenção da justiça e da polícia. Um desses seus veredictos foi célebre no século XIX; o júri concluíra que um desconhecido encontrado morto num parque londrino havia sido assassinado “por pessoas ou coisas desconhecidas”. Seria bom poder afirmar que foi o Dr. Westcott quem redigiu esse veredicto, e de forma verdadeiramente estranha. Não podemos, no entanto, provar, isso, mas veremos, mais tarde, que o Dr. Westcott perdeu seu posto em circunstâncias singulares.

Em todo caso, Woodman e Westcott ouviram falar da Sapiens Donabitur Astris. Trata-se de uma sociedade secreta alemã composta sobretudo de alquimistas. Essa sociedade, graças aos medicamentos de alquimia, salvou a vida de Goethe que os médicos comuns haviam desistido de curar.

O fato é perfeitamente conhecido e a Universidade de Oxford publicou um livro: “Goethe, o Alquimista”. A SDA parece existir ainda em nossos dias; estava ligada aos “círculos cósmicos” organizados por Stephan George, que combateram Hitler. O Conde von Stauffenberg, organizador do atentado de 20 de julho de 1944, fazia parte desses círculos cósmicos. O último representante conhecido da SDA foi o Barão Alexander von Bernus, morto recentemente.

Westcott e Woodman decifraram facilmente o manuscrito e escreveram à Anna Sprengel. Receberam instruções para prosseguir nos trabalhos. Foram auxiliados por um outro maçon, um personagem indeterminado, de nome Samuel Liddell Mathers, casado com a irmã de Henri Bérgson. Era um homem de cultura espantosa, mas de idéias muito vagas. Redigiu o conjunto inédito dos “rituais Mathers”. Tais rituais se compõem de extratos do documento alemão original, de outros documentos de posse de Mathers, e mensagens recebidas pela Srª Mathers, pela clarividência. O conjunto foi submetido à SDA na Alemanha que autorizou o pequeno grupo inglês a fundar uma sociedade oculta exterior, isto é, aberta. A sociedade chamou-se Order of the Golden Dawn in the Outher: Ordem da Aurora Dourada no Exterior. Em 1º de março de 1888, essa autorização foi dada a Woodman, Mac Gregor Mathers e ao Dr. Westcott. Samuel Liddell Mathers acrescenta ao seu nome o título de Conde de mac Gregor, e anuncia que é a reencarnação de uma boa meia dúzia de nobres e de magos escoceses.

Em 1889, o nascimento dessa sociedade foi anunciado oficialmente. É interessante notar que foi a única vez no século XIX, assim como no século XX, que uma autoridade esotérica qualificada, a SDA, dá uma autorização para fundar uma sociedade exterior. Tal autorização nunca foi dada novamente, e não aconselho ninguém a lançar uma sociedade desse gênero sem autorização: isto seria atrair os mais sérios inimigos.

Após a morte, ao que tudo indica natural, do Dr. Woodman, a Ordem foi dirigida por Westcott e Mathers. Em 1897, Wescott teve a infelicidade de esquecer, dentro de um táxi, documentos internos sobre a Ordem. Tais documentos acabaram na polícia que não achou recomendável um “coroner” se ocupara de tais atividades, pois poderia ficar tentado a utilizar os cadáveres que são postos à sua disposição, para operações de necromancia. Westcott demitiu-se da Ordem, achando isto preferível.

A sociedade começou a se desenvolver e atraiu homens de inteligência e cultura indiscutíveis. Citemos Yeats, que deveria obter o prêmio Nobel de Literatura, Arthur Machen, Algernon Blackwood, Sax Rohmer, o historiador A. E. Waite, a célebre atriz Florence Farr e outros. Os melhores espíritos da época, na Inglaterra, faziam parte da Golden Dawn. O centro ficava em Londres. Seu chefe, o Imperador, era W. B. Yeats.

Havia outros centros na província inglesa, e em Paris, onde Mathers passa a residir, de preferência.

A ordem tem dois níveis:

– O primeiro, dividido em nove degraus, onde se ensina;

– O segundo, sem degraus nem graus, onde se pesquisa.

O ensinamento diz respeito à linguagem enoquiana de John Dee, cuja tradução é dada desde o primeiro grau do primeiro nível. Infelizmente, tais traduções foram destruídas ou escondidas. Não resta senão textos em enoquiano, particularmente um texto que permite ficar invisível: “Ol sonuf vaorsag goho iad balt, lonsh calz vonpho. Sobra Z-ol ror I ta nazps”. Isto não se parece com nenhuma língua conhecida. Parece que se recita corretamente tal ritual, é-se envolto por uma elipsóide de invisibilidade a uma distância média de 45 centímetros do corpo. Não vejo objeção.

O ensinamento era em língua enoquiana; sobre alquimia, e sobretudo sobre a dominação de si mesmo.

Desde o segundo degrau do primeiro nível, o candidato era tratado de maneira a eliminar todos os seus males mentais e todas as suas fraquezas. Conhecem-se cinqüenta tratamentos desse tipo que parecem ter bons efeitos.

Durante cinco ou seis anos, a Ordem deu satisfações a todo mundo, e todos que dela participavam dizem que mentalmente ficaram enriquecidos. Depois Mathers se pôs a fazer das suas. Em 29 de outubro de 1896, publicou um manifesto afirmando que existia um terceiro nível na Ordem. O terceiro nível era, segundo ele, constituído de seres sobre-humanos, dos quais dizia:

“Creio, no que me concerne, que eles são humanos e que vivem nesta terra. Mas possuem espantosos poderes sobre-humanos. Quando os encontro em lugares freqüentados, nada em suas aparências ou vestimentas os separa do homem comum, salvo a sensação de saúde transcendente e de vigor físico.

Em outros termos, a aparência física que deve dar, segundo a tradição, a posse do elixir da longa vida. Ao contrário, quando os encontro em lugares inacessíveis ao exterior, trajam roupas simbólicas e as insígnias de suas ordens.”

Evidentemente, pode-se pensar diversamente quanto ao conteúdo desse manifesto, e perceber a loucura de Mathers, mas é preciso pensar que ele talvez não estivesse mentindo. Tudo o que se pode dizer é que seria muito melhor que ele se calasse. De um lado, foi a partir daí sujeito a uma perseguição que o conduziu à morte em 1917. De outro lado, seu manifesto atraiu pessoas pouco recomendáveis à sociedade, como o célebre Aleister Crowley.

Personagem sinistro e sem dúvida megalomaníaco, em todo caso, delirante, Crowley apareceu um belo dia de 1900 na Loja de Londres. Trazia uma máscara negra e um costume escocês. Declarou ser enviado de Mathers, designado para dirigir a Loja de Londres. A reação foi violenta. Yeats, Imperador da Loja, depôs Mathers e expulsou Crowley. A. E. Waite pôs em dúvida a existência do terceiro nível e de superiores desconhecidos.

Em 1903, Waite e um certo número de amigos demitiram-se e constituíram uma outra ordem chamada igualmente Golden Dawn. Essa ordem se manteve até 1915, depois desapareceu. O restante dos membros da Golden Dawn continuaram até 1915, depois Yeats, Arthur Manchen e Winn Westcott se demitiram.

A ordem continuou bem ou mal sob a direção de um tal Dr. Felkin, depois caiu no esquecimento e se extinguiu. Assim terminou o que Yeats chamara de “a primeira revolta da alma contra o intelecto, mas não a última”. Parece que Mathers retirou o conjunto de rituais que permitiram reproduzir certos fenômenos. Todas as tentativas para publicá-los foram interrompidas, pois os manuscritos pegavam fogo ou ele mesmo caía doente. Morreu em 1917 completamente alquebrado. Alguns dizem que Crowley foi seu principal perseguidor, mas Crowley pareceu, com efeito, ser apenas um megalomaníaco bem pouco perigoso.

Se o conjunto de rituais de Mathers desapareceu, um certo número de rituais ou de trabalhos feitos pela Golden Dawn foi publicado. Notadamente, em quatro volumes, nos Estados Unidos, pelo Dr. Israel Regardie, e no início do ano de 1971, “The Golden Dawn its inner teachings” de R. G. Torrens BA (editor Neville Spearman, Londres).

Esse último livro tem a dupla vantagem de ser escrito de maneira racional e de dar, ao fim de cada capítulo – e ele tem quarenta e oito – uma biblioteca breve e precisa.

Por outro lado, possui-se muitos testemunhos sobre a Golden Dawn.

É possível chegar à uma conclusão. O que choca, desde logo, é um notável nível de inteligência e cultura da maioria de seus participantes. A Golden Dawn contava não somente com grandes escritores, mas também com físicos, matemáticos, peritos militares, médicos. O que é certo é que todos os que passaram pela experiência da Golden Dawn de lá saíram enriquecidos. Todos insistiram sobre o embelezamento de suas vidas, nova plenitude, senso e beleza que a Golden Dawn lhes deu.

Gustav Meyrinck escreveu: “Sabemos que existe um despertar do eu imortal.”

Parece certo que a Golden Dawn sabia provocar esse despertar, e que ela realizara esse sonho eterno dos alquimistas, dos gnósticos, dos cabalistas e dos Rosa-Cruzes, para citar apenas algumas direções de procura: a transmutação do próprio homem.

Qualquer que seja o ceticismo que se possa manifestar a respeito da magia – e meu ceticismo pessoal é bastante considerável – não resta dúvida de que a Golden Dawn chegou a uma experiência mágica melhor do que qualquer outra na história da humanidade, de nosso conhecimento. Não somente logrou conseguí-la, mas ainda foi capaz de ensiná-la.

Durante milênios o homem sonhou um estado de consciência mais desperto que seu próprio despertar. A Golden Dawn chegou a isso. O que parece não tão certo, mas pelo menos provável, foi que a Golden Dawn chegou a traduzir o alfabeto enoquiano de John Dee, e que seus dirigentes leram a obra de John Dee, a de Trithème e, talvez, o manuscrito Voynich, se é que possuíam uma cópia. Isto não é de todo impossível, pois John Dee fez muitas.

Isto admitido, a questão evidente é saber-se porque um tal acúmulo de conhecimentos e de poder não chegou a constituir uma verdadeira central de energia, uma cidadela fulgurante que teria dominado o século XX. É certo que a Golden Dawn suscitou hostilidades, mas é certo também que ela se decompôs internamente antes de sua destruição externa.

Quis-se atirar a responsabilidade dessa destruição sobre Aleister Crowley. Que este pretenso mágico era um louco varrido, é indiscutível. Além de sua loucura, que era constituída por um tipo clássico de delírio sexual, Crowley tinha o dom extraordinário de meter-se em histórias incríveis. Durante a Primeira Guerra Mundial, colocou-se ao lado da Alemanha, denunciando, violentamente, a Inglaterra. Alguns pretendem que foi ele quem, através de informações fornecidas aos serviços secretos alemães, permitiu que um submarino colhesse o transatlântico Lusitânia, cujo torpedeamento fez com que os Estados Unidos entrassem na guerra. Crowley teve um certo número de inimigo nos Estados Unidos e partiu para Sicília, onde criou uma abadia em Cefalu (atualmente, tal lugar é uma vila do clube Mediterrâneo).

Um incidente deplorável aconteceu na abadia de Crowley. Um poeta oxfordiano, chamado Raul Loveday, bebeu, durante uma cerimônia de missa negra, o sangue de um gato, e morreu instantaneamente, o que não estava previsto. Sua viúva fez um escândalo, e sob pressão da imprensa Crowley foi expulso da Sicília em 1923.

Em seguida, viveu na Inglaterra onde tentou processar a imprensa por difamação. Os juízes decidiram que Crowley era o personagem mais detestável, que jamais haviam encontrado antes, e recusaram conceder-lhe um centavo sequer de perdas e danos morais. Caiu, em seguida, numa miséria profunda, para morrer numa pensão de família, em Hastings, em 1947. a impressão que se depreende de sua vida e obra, é a de um infeliz que poderia perfeitamente receber cuidados, e não a de um personagem perigoso. Crowley não era, aliás, o único escroque nas mãos dos quais Mathers caiu.

Por volta de 1900, foi vítima de uma dupla chamada Horos, que se dizia representante de Superiores desconhecidos, e que foi condenada, no ano seguinte, como escroques, simplesmente. A Golden Dawn foi, então, bastante mencionada na imprensa, e isto deve ter provocado certas demissões.

A imprensa ocupou-se, igualmente, da Golden Dawn em 1910, quando Mathers tentou impedir a saída do jornal de Crowley, Equinox, que publicava, sem autorização, rituais da Golden Dawn. Um tribunal inglês decidiu sobre o caso e o número do jornal apareceu.

O que, evidentemente, não melhorou o prestígio de Mathers; numerosos foram os que observaram que se Mathers realmente tinha poderes, poderia exterminar Crowley, ou que se Crowley os tivesse, poderia exterminar Mathers. Conhecem-se, aliás, muitos exemplos modernos de duelos de feiticeiros que não dão, geralmente, bons resultados. É certo que a ingenuidade de Mathers o prejudicou, mas não parece ser essa a causa principal do declínio da Golden Dawn.

Segundo o que pude recolher, a partir de fontes pessoais, o exercício de um certo número de poderes, e notadamente da clarividência, tornou-se uma verdadeira droga para os membros da Ordem, e desde 1905 toda espécie de pesquisa havia cessado. Parece-me que é nisto que devemos buscar a causa do mau êxito dessa aventura que poderia ter sido mais extraordinária ainda do que foi.

As diversas sociedades secundárias fundadas por dissidentes, sem autorização, como a Stella Matutina, fundada pelo Dr. Felkin, a Sociedade da Luz Interior, fundada pelo escritor Dion Fortune, pseudônimo de Mme. Violette Firth, não parecem ter prosperado.

Essa última sociedade ainda existe ainda, e Mme. Firth escreveu novelas e romances muito interessantes.

Para ser mais completo, é necessário dizer que a Golden Dawn tinha elementos cristãos em seus seio, pertencentes à Igreja Católica anglicana, notadamente o grande escritor Charles Williams, autor de “A guerra do Graal”, e o místico Evelyn Underhill.

Certos documentos da Golden Dawn dizem respeito ao esoterismo cristão e são considerados, por especialistas no campo, como extremamente sérios.

Restam, de outro lado, as obras místicas ou traduções de Mathers: A Kabala (1889), Salomão, o Rei (1889), A Magia Sagrada de Abramelin (1898). Este último livro é tradução de um manuscrito que Mathers encontrou na Biblioteca do Arsenal, verdadeira mina de documentos estranhos. Um texto bastante completo foi editado recentemente em Paris, por volta de 1962.

Temos à nossa disposição uma quantidade de elementos muito interessantes, mas o que nos falta é o ritual completo de Mathers. Esse ritual devia ser o cômputo dos livros malditos, resumindo a maior parte desses livros e abrindo as portas a todos os fatos extraordinários. Que Mathers realizou, dessa forma, uma espécie de consciência superior que ele interpretou como um contato com Superiores desconhecidos não me parece absurdo. Que tenha havido perseguição a Mathers, também não é tão espantoso.

Entretanto, toda essa história se passa em nossa época, e Mathers dispunha da fotografia. Não é impossível que tenha tirado um bom número de fotos e que elas não tenham sido todas destruídas. Em 1967, pensou-se ter achado os rituais do Mathers. Naquele ano, uma colina às margens do Canal da Mancha deslizou, minada pelas águas, e objetos provindo da Golden Dawn, que aí haviam sido enterrados, foram tragados pelo mar. Infelizmente, o exame desses objetos provou que se tratava de instrumentos de trabalho e textos de lições, assim como notas tomadas ao curso de exposições. Nenhum documento vinha de Mathers.

Discutiram-se muito as influências que se exerceram nas redações de diversos cursos da Golden Dawn. Notamos, já, influências cristãs. Encontra-se, também, e sem dúvida introduzidas por Yeats, idéias de Blake. Encontra-se grande número de referências à Kabala, que provém visivelmente dos estudos de Mathers.

O que não se encontra é a tradução da língua enoquiana em linguagem corrente e sua aplicação às experiências. O termo enoquiano, ele próprio, é curioso. Os diversos Livros de Enoch são relativamente recentes e contam as viagens miraculosas do profeta Enoch a outros planetas, e mesmo a outros universos. Encontram-se edições que datam de 1883 e 1896.

A linguagem enoquiana de John Dee é uma outra história. Dee conhecia a lenda de Enoch, levado a outros planetas por uma criatura luminosa, e deu o nome de linguagem enoquiana à linguagem da criatura luminosa que lhe apareceu. Mas não existe o Livro de Enoch contemporâneo à Bíblia, como certos ingênuos crêem. Não há razões sérias para se crer que os dois livros de Enoch datem dos gnósticos. Mesmo em estado de manuscrito, não aparece antes do século XVIII.

Algumas testemunhas sobreviventes da Golden Dawn contam, com relação à linguagem enoquiana, coisas muito curiosas que não se é obrigado a crer. Falam, por exemplo, de um jogo, As Peças de Xadrez Enoquianas, um jogo semelhante ao xadrez, mas onde as peças assemelhavam-se aos deuses egípcios. Jogava-se com um adversário invisível, as peças colocadas numa metade do tabuleiro especial, movimentando-se sozinhas.

Mesmo que se descrevesse tal experiência como um tipo de escrita automática ou de telecinesia, ela tem uma certa beleza poética. Tudo nos faz lamentar ainda mais a desaparição dos rituais Mathers.

Tudo o que se pode esperar é que a desaparição não seja definitiva. Se Mathers tomou suas precauções, deve ter dissimulado em Londres ou em Paris jogos de fotografias que, um dia, reaparecerão. A menos que a misteriosa sociedade alemã SDA não se manifeste.

Alexandre Von Bernus, na Alquimia e Medicina, parece indicar que essa sociedade não está morta. Tal era, igualmente, a opinião de meu falecido amigo Henri Hunwald, que era o homem da Europa que conhecia melhor esse tipo de problema. Talvez um dia, uma nova autorização para fundar uma sociedade exterior seja dada.

por Jacques Bergier

Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/o-manuscrito-de-mathers/

Hecate – Druidas, Oráculos e Allan Kardec

Publicada no S&H dia 20/jun/2008,

“Três deveres de um druida:
– curar a si mesmo;
– curar a comunidade;
– curar a Terra.
Pois se assim não fizer, não poderá ser chamado de druida”.
(Tríades da Ilha da Bretanha)

Durante nossas matérias anteriores, falamos sobre Matrix, o Plano Astral e as diversas maneiras de se interagir com a esfera de Yesod, o estado de consciência representado pelo Mundo Subterrâneo nas antigas mitologias. Falamos sobre os Psychopompos (os famosos “condutores de almas”) das mitologias antigas e o que eles realmente representam e finalmente fizemos cinco anotações em nossos cadernos, que passaremos a decifrar nesta coluna.
Semana passada falamos sobre Thanatos, deus dos mortos, e sua relação com o Astral. Continuando a linha de raciocínio, falaremos hoje sobre Hecate, a deusa tríplice, representação da mediunidade.

Hecate
Hecate (ou Hécate) é uma divindade grega, filha dos titãs Perses e Astéria. A origem de seu nome se deve à palavra egípcia Hekat que significaria “Todo o poder”.
Em sua versão original, Hecate está associada a Ártemis (irmã gêmea de Apolo, o Sol, representando a luz da lua cheia) e a Perséfone (filha de Zeus e Demeter, personificação do sagrado feminino e das faculdades associadas à sensualidade feminina). Juntas, as três simbolizavam as 4 fases da Lua. Enquanto Ártemis representava a lua cheia e o fulgor feminino (girl power), Perséfone, em suas duas caracterizações (a doce Coré e a sombria Perséfone) representava respectivamente as fases Crescente e Minguante da lua e, finalmente, Hecate representava a Lua Nova, ou sombria.

Ok… pausa para explicar a lenda de Perséfone:
Na mitologia grega, Perséfone ou Coré (correspondente à deusa romana Proserpina e Cora). Era filha de Zeus e da deusa Deméter, da agricultura, tendo nascido antes do casamento de seu pai com Hera.
Quando os sinais de sua grande beleza e feminilidade começaram a brilhar, em sua adolescência, chamou a atenção do deus Hades (Demeter representa Malkuth, o Plano Material, Hades representa Yesod, o Plano Astral, Perséfone a feminilidade relacionada com a intuição feminina, que transita entre estas duas esferas) que a pediu em casamento.
Zeus, sem sequer consultar Deméter, aquiesceu ao pedido de seu irmão. Hades, impaciente, emergiu da terra e raptou-a levando-a para seus domínios (o Mundo Subterrâneo), desposando-a e fazendo dela sua rainha.
Sua mãe, ficando inconsolável, acabou por se descuidar de suas tarefas: as terras tornaram-se estéreis e houve escassez de alimentos. Deméter, junto com Hermes, foi buscá-la ao mundo dos mortos (ou segundo fontes posteriores, Zeus ordenou que Hades devolvesse a sua filha). Como, entretanto, Perséfone tinha comido algo (uma semente de romã, a mesma fruta que coincidentemente era cultivada nos jardins do Templo de Salomão) concluiu-se que não tinha rejeitado inteiramente Hades. Assim, estabeleceu-se um acordo: ela passaria metade do ano junto a seus pais, quando seria Coré, a eterna adolescente, e o restante com Hades, quando se tornaria a sombria Perséfone. Este mito justifica ao mesmo tempo o ciclo anual das colheitas e as duas representações da lua e seus aspectos na magia cerimonial.

Voltando a Hecate:
Hecate é venerada como “a mais próxima de nós”, pois se acreditava que, nas noites de lua nova, ela aparecia com sua horrível matilha de cachorros fantasmas diante dos viajantes que por ali cruzavam. Ela enviava aos humanos os terrores noturnos e aparições de fantasmas espectros. Também era considerada a deusa da magia e da noite, mas em suas vertentes mais terríveis e obscuras. Era associada a Ártemis, mas havia a diferença de que Ártemis representava a luz lunar e o esplendor da noite. Também era associada à deusa Perséfone, a rainha dos infernos, lugar onde Hécate vivia.
Dada a relação entre os feitiços e a obscuridade, os magos e bruxas da Antiga Grécia lhe faziam oferendas com cachorros e cordeiros negros no final de cada lua nova. Era representada com três corpos e três cabeças, ou um corpo e três cabeças. Levava sobre a testa o crescente lunar (tiara chamada de pollos), uma ou duas tochas nas mãos e com serpentes enroladas em seu pescoço. Como já estudamos em matérias anteriores, Tochas simbolizam o FOGO, sinal da sabedoria divina, e cobras representam o despertar da Kundalini, o fogo sagrado dentro de cada um.

Deusas Tríplices
Com a associação clara entre o feminino e a Lua, existiam muitas deusas tríplices, que carregavam consigo certas atribuições e que agiam como se fossem uma única entidade. Entre elas podemos destacar as Moiras, as Erínias e as Parcas, assim como as Norms (nórdicas), Bridghit (três deusas com o mesmo nome) e Morrigan (que com suas irmãs Badb e Macha faziam as vezes das Fúrias celtas).
Dos cultos egípcios e gregos, a representação do Sagrado Feminino na forma de “deusas tríplices” espalhou-se pela Europa. Os celtas possuíam a representação da mulher associada a três deusas chamadas Bridgith (Ou Brigid, ou Brígida, ou posteriormente Santa Brígida na Igreja Católica).
A Deusa Tríplice representa os mesmos aspectos gregos do feminino: donzela, mãe e anciã. Bridgit era filha de Dagda (e, portanto, meia irmã de Cermait, Aengus, Midir e Bodb Derg – um dia no futuro eu falo sobre eles… é uma história muito interessante) e suas sacerdotisas estavam associadas à chama sagrada, da mesma maneira que as Virgens Vestais gregas e egípcias. Suas 19 sacerdotisas permaneciam no Templo de Kildare, cercadas por um fosso natural que nenhum homem poderia cruzar. O Templo de Kildare foi uma das principais fontes usadas na criação da lenda de Avalon. Morrigan, por sua vez, foi a deusa utilizada como base para a criação de Morgana, meia irmã do mítico Rei Arthur (falaremos sobre isso mais para a frente).

As deusas e as Incorporações
Retornando no tempo até os cultos de Astarte, era extremamente comum (para não dizer mandatório) que a principal sacerdotisa de cada culto, em determinado momento do ritual, incorporasse a Deusa. Quando digo “incorporar”, quero dizer EXATAMENTE da maneira como vemos diariamente em centros espíritas, Kardecistas e templos de Umbanda/Candomblé.
A sacerdotisa possuía todos os atributos e características necessárias (além de um treinamento espiritual, emocional e mental) para deixar seu corpo limpo e preparado; entrava em transe ritualístico profundo e utilizava sua condição de médium para incorporar a deusa, que conversava com seus seguidores dando-lhes informações e conselhos.
Isto faz nossa segunda ligação com os Psycopompos e seus profundos significados esotéricos: Hecate representa esta conexão entre os médiuns e o Plano Astral.

Os druidas
Druidas (e druidesas) eram pessoas encarregadas das tarefas de aconselhamento, ensino, jurídicas e filosóficas dentro da sociedade celta. A palavra Druida significa “Aquele que tem conhecimento do Carvalho”.
O carvalho, nesta acepção, por ser uma das mais antigas e destacadas árvores de uma floresta, representa simbolicamente todas as demais. Ou seja, quem tem o conhecimento do carvalho possui o saber de todas as árvores. Está intimamente ligado ao título de “Aquele que trabalha com a madeira” vindo dos tempos do Rei Salomão e da Arca e, para quem não caiu a ficha ainda, o mesmo título de “Mestre Carpinteiro” dos antigos Essênios. A ritualística druida é muito parecida com o cristianismo primitivo da doutrina Cátara.

É importante dissociar as palavras “Druida” de “Celta” porque muita gente faz confusão. Celta é o nome do povo, enquanto Druida é o nome dado a uma casta de sacerdotes especiais que viviam entre os celtas e agiam como conselheiros destes. É a mesma relação entre “judeus” e “rabinos”.

Origens da Távola Redonda e o Elemento Terra.

Druidas e Mediunidade
A conexão entre Druidas e Mediunidade vem do Xamanismo (que é uma das origens de toda a magia celta) e das incorporações dos xamãs com os Espíritos dos Antigos (ou Espíritos Ancestrais). Da mesma maneira que os xamãs incorporam os espíritos ancestrais, os grandes sacerdotes druidas não apenas incorporavam os Deuses em seus rituais, mas também estudavam estas interações entre o Plano Material e o Plano Espiritual.

Com o advento da Igreja católica, estas práticas ficaram cada vez mais secretas e mais restritas, sob pena de fogueira; e muitos dos conhecimentos ocultistas da antiguidade tiveram de se refugiar nas Ordens Secretas, especialmente sob a proteção Templária e Rosacruz. O Sagrado feminino, a intuição e a mediunidade foram esmagados e permaneceram em dormência até o Renascimento. Neste período (que falaremos em detalhes na seqüência “Queima Ele, Jesus”), qualquer manifestação de mediunidade era vista como “coisa do demônio” e passível de fogueiras e exorcismos. Existem diversos casos na literatura medieval que retratam casos de mediunidade como sendo tratados como “possessão demoníaca” e afins. O mundo permanecia (passado?) em uma Idade das Trevas.

Dos druidas aos maçons
Nascia em Lyon a 3 de Outubro de 1804 Hippolyte Léon Denizard Rivail, um professor, pedagogo e escritor francês que se notabilizou como o codificador do chamado “Espiritismo”, denominado “Doutrina Espírita”.
Nascido numa antiga família de orientação católica com tradição na magistratura e na advocacia, desde cedo manifestou propensão para o estudo das ciências e da filosofia.
Fez os seus estudos na Escola de Pestalozzi, no Castelo de Zahringenem, em Yverdun, na Suíça (país protestante), tornando-se um dos seus mais distintos discípulos e ativo propagador de seu método, que tão grande influência teve na reforma do ensino na França e na Alemanha. Aos quatorze anos de idade já ensinava aos seus colegas menos adiantados.
Concluídos os seus estudos, o jovem Rivail retornou ao seu país natal. Profundo conhecedor da língua alemã, traduzia para este idioma diferentes obras de educação e de moral, com destaque para as obras de François Fénelon, pelas quais manifestava particular atração.
Era membro de diversas ordens, entre as quais da Academia Real de Arras, que, em concurso promovido em 1831, premiou-lhe uma memória com o tema “Qual o sistema de estudos mais de harmonia com as necessidades da época?”.
existe uma grande suspeita que Leon Denizard tenha feito parte da Maçonaria, pertencente à Grande Loja da França. Se não foi iniciado, passou sua vida inteira cercado por amigos membros desta sublime ordem. Deve ter conhecido as teorias básicas de Astrologia (pelo contato e estudo com Camille Flammarion, um dos maiores astrônomos franceses de todos os tempos, fundador em 1887 da Sociedade Astronômica da França). Camille Flamarion era tão seu amigo que fez o discurso durante o enterro de Kardec. Para os espíritas que acompanham a coluna terem uma idéia da importância de Flamarion para o espiritismo, procurem nos textos da Gênese, uma das obras básicas do Kardecismo, o texto “Uranografia Geral – Estudo do Espaço e Tempo”, pelo médium CF. CF são as iniciais de Camille Flamarion.

Cético e estudioso, Léon teve contato com os estudos a respeito das “mesas girantes” em 1855, paralelamente a cientistas e ocultistas como Sir William Crookes (membro do Royal College of Chemistry, pai da Espectrologia), Alfred Russel Wallace (um dos precursores da teoria da evolução das espécies), John Willian Strutt (prêmio Nobel da física de 1904), Michael Faraday (físico, que apesar de não ser ocultista também estudou estes fenômenos), Oliver Lodge (membro da Royal Society, inventor do telégrafo sem fio), entre muitos outros. Interessante notar que as pessoas que estudavam seriamente estes fenômenos eram cientistas importantíssimos, ganhadores do Nobel de Física e outros pesquisadores voltados para áreas da física e da química.

Os tipos de mediunidade:
Como o irmão Denizard já teve todo o trabalho de compilar e codificar os tipos de mediunidade de uma forma majestosa, o tio Marcelo fará apenas a referência aos seus textos.
Começamos os estudos através da Manifestação dos Espíritos sobre a Matéria, através da vontade (Thelema) dos seres espirituais, combinados com a energia plasmada do médium, rompem a barreira entre os campos vibracionais e permitem manifestações no Plano Material. A partir disto, surgem as famosas “mesas girantes” que são uma manifestação grosseira desta força, suficiente apenas para erguer as mesas no ar e fazê-las girar. A partir das manifestações grosseiras (que também são a origem de barulhos em casas ditas “mal assombradas” e outros fenômenos), surgem os estudos a respeito de Manifestações Inteligentes (ou seja, pancadas rítmicas, respondendo a perguntas como “sim” ou “não”, barulhos indicando princípios rudimentares de comunicação entre Planos e assim por diante). Neste sentido, ele também estudou a criação de ruídos, movimentos e suspensões e aumento e diminuição do peso dos corpos.
Na segunda etapa, estudaram as manifestações físicas espontâneas, ou seja, a criação de ruídos mais específicos, arremessos de objetos e fenômenos de transporte, bem como as manifestações visuais, aparições e aparições dos espíritos de pessoas vivas. Estudaram também os lugares assombrados, linguagem dos sinais, tiptologia alfabética, escrita direta e pneumatofonia.
Na área da psicografia, estudaram a psicografia indireta, através de cestas e pranchetas, e a psicografia direta, através dos médiuns.
O capítulo XIV do seu “Livro dos Médiuns” trata especificamente sobre as mediunidades, listando as 72 mediunidades diferentes, entre elas os médiuns de efeitos físicos, elétricos, sensitivos, audientes, falantes, videntes, sonambúlicos, curadores, pneumatógrafos, etc. Entre os médiuns escreventes temos os médiuns mecânicos, intuitivos, semimecânicos, inspirados e de pressentimento e assim por diante. Recomendo que vocês leiam os dois livros básicos (Livro dos Espíritos e Livro dos Médiuns).
Léon adotou o pseudônimo de Allan Kardec, uma de suas encarnações passadas como druida, e é considerado o fundador do Espiritismo, uma das filosofias que eu considero mais sérias.

Termino a matéria citando o professor Waldo Vieira e um livro fantástico chamado 700 Experimentos de Conscienciologia (1994) onde, com o auxílio de laboratórios, foram feitas diversas experiências dentro do método científico para comprovar e estudar os fenômenos parapsicológicos. Hoje o IIPC é um dos institutos mais sérios no estudo destes fenômenos de forma científica e laica.

No Brasil, o espiritismo acabou adotando um pouco do viés religioso e cristão ao invés de sua proposição original científica. Infelizmente o sincretismo religioso, os misticóides da dita “Nova Era”, os charlatões e as chamas violetas da vida transformaram a palavra “espiritismo” em uma mixórdia tão grande que os espíritas originais precisam se denominar “Kardecistas” para evitar confusões, tamanha a quantidade de loucuras que inventaram por ai.

Enquanto isso, neste curral chamado Brasil, os coletores de dízimos fazem a festa com suas charlatanices de desencapetamento, exorcismos da madrugada, óleos de Jerusalém, água do Rio Jordão e afins, deixando a ciência e o ocultismo sério como pequenos oásis neste imenso mar de créu.

Perdidos no meio de assuntos religiosos e esotéricos que não têm nenhuma idéia a respeito, as Igrejas caça-níqueis seguem por ai Vandalizando Templos de Umbanda e de outras religiões “Em nome de Jesus”.

Como este assunto é muito extenso, queria que vocês postassem suas dúvidas na parte de comentários, como fizemos semana passada. Estava olhando com calma as perguntas novamente… acho que nunca fui tão sabatinado em toda a minha vida. E as dúvidas estavam de alto nível !!! Parabéns para o pessoal e queria agradecer aos colegas que ajudaram nas respostas

MacBeth!

#Kabbalah

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/hecate-druidas-or%C3%A1culos-e-allan-kardec

As Raízes do Anti-Maçonismo

Introdução:

A Maçonaria foi e é perseguida pelos governos totalitários e diversas ordens religiosas. É acusada de subversão à ordem pública e culto ao demônio. O anti-maçonismo é antigo, singular e fantasioso e há muito é público.

Na História surgiram poderosos detratores da Ordem Maçônica, imbuídos de preconceitos dissimulados, aproveitando-se do nível de ignorância e crendices, como meio de gerar adeptos às suas inverdades. O método antigo, mas que infelizmente ainda existente.

O anti-maçonismo religioso.

Sustentam os anti-maçons religiosos, que a tolerância religiosa é incompatível com a respectiva doutrina. Outros, sob alegação de combate ao “culto às imagens”, acusam a maçonaria de culto a símbolos demoníacos.

Mas, o pano de fundo do anti-maçonismo religioso surge com o anglicanismo. Henrique VIII, rei da Inglaterra, desobedece o papa e divorcia-se de sua primeira mulher, casando-se com Ana Bolena, sendo excomungado. Posteriormente, em 1534, numa disputa de poder com o Papa, o Parlamento inglês aprovou o Ato de Supremacia, que, colocou a Igreja sob a autoridade real: nascia a igreja anglicana.

A Maçonaria especulativa sempre foi aceita pelo catolicismo. Tanto é que eram os maçons operativos quem construiam as antigas Igrejas e Catedrais, adornadas com inúmeros símbolos maçônicos.

Posteriormente, de iniciativa dos pastores protestantes ingleses James Anderson e J. T. Desaguliers surge a Grande Loja da Inglaterra. No ano de 1723, Anderson elabora a primeira Constituição maçônica. Criava-se um sistema de regularidade para a Maçonaria e só quem fosse reconhecido pela Grande Loja da Inglaterra pudesse ser considerado maçom regular. Para tanto era preciso ter como princípio, dentre outros, a tolerância religiosa.

Por isso mesmo, o conflito entre anglicanos e católicos, num movimento de contra-reforma da Igreja Católica, fez com que a intolerância religiosa transpirasse para a Maçonaria. Em 24 de abril de 1738, o papa Clemente XII condenou abertamente a maçonaria pela primeira vez (encíclica In Eminenti). A partir dessa palavra oficial da Igreja, foi proibido aos católicos pertencer á maçonaria.

A questão se agravou com o movimento da Reunificação da Itália (período que foi de 1848-1870). O governo da Itália estava fragmentado e dividido entre bispos católicos, que eram proprietários de grandes propriedades de terras. Esse governo se via envolvido em escândalos e corrupção, e se sustentava explorando o misticismo medieval e no fundamentalismo religioso.

O movimento iluminista que combatia o misticismo, aproveitando-se do segredo e sigilo maçônico, reunindo-se em segredo nas Lojas Maçônicas, coordenou uma verdadeira revolução que retomou as propriedades das mãos da Igreja, destacando-se dentre eles Giuseppe Garibaldi, que dedicou sua vida à luta contra a tirania.

Esse episódio despertou o ódio do clero católico contra a maçonaria, a ponto do papa Leão XIII (1846), redigir a encíclica HUMANUM GENUS, dizendo: “a Igreja católica e a maçonaria são como dois reinos em guerra” e que “a finalidade da maçonaria é destruir toda ordem religiosa e política do mundo inspirada pelos ensinamentos cristãos e substituí-las por uma nova ordem de acordo com suas idéias”, estimulando “o sincretismo religioso, isto é, a mistura das mais diferentes crenças”.

O anti-maçonismo político.

Conhecedores da história e da participação da Maçonaria no processo da Reunificação da Itália, inúmeros os governantes, tanto de direta quanto de esquerda, se tornaram anti-maçons.

O caráter discreto e sigiloso das reuniões maçônicas causou sempre o temor da “conspiração” e “subversão política” e estimulou a fantasia popular acerca do “culto ao demônio”.

Essas sempre foram as acusações dissimuladas de seus perseguidores, aproveitando-se da ignorância de muitos e da crendice popular. Todavia, os ideais maçônicos de liberdade de expressão do pensamento e a liberdade de crença religiosa, sempre foram os reais motivos pelos de sua perseguição e de seus membros.

Com a expansão do comunismo no início do século XIX, a maçonaria foi proibida na Rússia (1917) e na Hungria (1919). A reação ao comunismo fez surgir o nazismo e facismo, que também proibiram a Maçonaria (Mussolini na Itália-1925, Hitler na Alemanha-1933, Salazar em Portugal – 1935, Getúlio Vargas-Brasil, 1937, Franco na Espanha-1940).

General Francisco Franco, ditador espanhol, decretou em 1940, todos Maçons de seu país estavam condenados a 10 anos de prisão.

Joseph Goebbels, ministro da propaganda regime nazista, inaugurou em 1937 uma “Campanha Anti-Maçônica”, sob alegação de as Lojas Maçônicas estavam impregnadas de judaísmo. Outro apóstolo nazista, Alfred Rosenberg, exaltando a superioridade da raça alemã, acusou a Maçonaria de disseminadora da idéia de igualdade.

Os maçons sempre ignoraram seus detratores achando que o silêncio era a melhor arma. Lamentavelmente esse silencio muitas vezes foi usado contra a Fraternidade. Durante Segunda Guerra Mundial, as tropas nazistas que ocuparam a Bélgica, pilhariam as Loja Maçônicas e destruíram o que eles não puderam roubar.

Entre os reféns tomados nos povoados, na média 15%, eram Maçons, que era uma proporção enorme consideram isso há só um Maçom a cada mil habitantes em Bélgica! (Revista de Philalethes, 1947 de maio)

Conclusão.

Dois fatos determinaram a ruptura entre a Igreja e a Maçonaria, dando origem ao anti-maçonismo. O primeiro foi a disputa política entre o papa e o rei da Inglaterra (século XVIII), o segundo a disputa de terras entre bispos católicos e italianos (Século XIX). Maçons envolvidos nesses dois episódios determinaram a ruptura entre a Maçonaria e a Igreja Católica.

Nem o anti-maçonismo religioso, nem o político foram capazes de acabar com a Maçonaria. Mesmo perseguida, a influência da maçonaria na história tem sido grande. Hoje são cerca de 6 milhões de maçons, em mais de 164 países, sendo cerca de 150 mil no Brasil. Há grande quantidade de parlamentares, altos funcionários do governo, líderes religiosos, muitos empresários e membros de outras elites.

Vivemos atualmente um regime democrático, e por isso, a Maçonaria sobrevive abertamente. Por exemplo, na inauguração do novo Palácio Maçônico de Brasília do Grande Oriente do Brasil, compareceram 120 parlamentares, além do então Ministro da justiça, Maurício Correia.

Mas o anti-maçonismo não desiste. Além do anti-maçonismo religioso e político, uma nova ordem de anti-maçons surge no sistema democrático: o anti-maçom degenerado. Esse grupo é composto pelos descontentes com resultados políticos ou jurisdicionais e quando vencidos em suas pretensões, como último recurso, acusam as autoridades de favorecimento maçônico. Polemizam o ingresso de juízes, delegados, políticos e outras autoridades na maçonaria, argumentando que a fraternidade se incompatibiliza com tais cargos, que requerem imparcialidade, mas a maçonaria pressupõe o favorecimento, a parcialidade.

É verdade que o maçom tem o dever de socorrer todos os necessitados, especialmente membros da fraternidade. Isso não pode ser confundido com favoritismo, pois esse dever significa dever de caridade para com o próximo. Antes de tudo, o Maçom faz juramento solene de obedecer as leis, agir sempre com ética e com os bons costumes, amar a família e defender a pátria com a própria vida.

A corrupção permeia todas as instituições sejam religiosas, políticas ou associativas e necessita ser combatida. Isso porque a corrupção é vício humano, tão combatido pela maçonaria. Apesar disso, a maçonaria não está imune a ela. Todavia, possui mecanismos de se livrar dos corruptos e desonestos. Consta das normas internas, que aquele que estiver envolvido em corrupção ou desonestidade, será processado internamente, previsto como pena, a exclusão da ordem, com sua inscrição no “Livro Negro”, impedindo definitivamente seu retorno.

Exerço o cargo de Juiz e tenho orgulho em pertencer a tão nobre e digna ordem, composta em sua essência, de homens livres, puros e de bons costumes.

por Marco Mendes

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/as-raizes-do-anti-maconismo/

A Maçonaria Paládio: A Farsa de Léo Taxil

A fraude de Taxil foi uma farsa de exposição de 1890 por “Léo Taxil” destinada a zombar não apenas da Maçonaria, mas também da oposição da Igreja Católica a ela.

Léo Taxil e a Maçonaria:

Léo Taxil era o pseudônimo de Marie Joseph Gabriel Antoine Jogand-Pagès, que havia sido acusado anteriormente de difamação em relação a um livro que escreveu chamado The Secret Loves of Pope Pius IX (Os Amores Secretos do Papa Pio IX). Em 20 de abril de 1884, o Papa Leão XIII publicou uma encíclica, Humanum genus (O Gênero Humano), que dizia que a raça humana era:

“[…] separada em duas partes diversas e opostas, das quais uma defende firmemente a verdade e a virtude, a outra daquelas coisas que são contrárias à virtude e à verdade. Um é o reino de Deus na terra, ou seja, a verdadeira Igreja de Jesus Cristo… O outro é o reino de Satanás… Neste período, no entanto, os partidários do mal parecem estar se unindo e sendo lutando com veemência unida, liderados ou assistidos por aquela associação fortemente organizada e difundida chamada Maçons.”

Após esta encíclica, Taxil passou por uma conversão pública fingida ao catolicismo romano e anunciou sua intenção de reparar o dano que havia causado à verdadeira fé.

O primeiro livro produzido por Taxil após sua conversão foi uma história da Maçonaria em quatro volumes, que continha testemunhas oculares fictícias de sua participação no Satanismo. Com um colaborador que publicou como “Dr. Karl Hacks”, Taxil escreveu outro livro chamado Le Diable au XIXe siècle (O Diabo no Século XIX), que introduziu um novo personagem, Diana Vaughan, uma suposta descendente do alquimista rosacruz Thomas Vaughan. O livro continha muitos contos sobre seus encontros com demônios encarnados, um dos quais deveria ter escrito profecias em suas costas com sua cauda, ​​e outro que tocava piano na forma de um crocodilo.

A chamada “Diana Vaughan”, vestida como “Inspetora Geral do Paládio”. Fotografia de Van Bosch, publicada no livro Memoirs of a Perfect, Initiated, Independent Ex-Palladist (Memórias de uma Perfeita, Iniciada e Independente Ex-Paladista, 1895)

Diana estava supostamente envolvida na Maçonaria Satânica, mas foi redimida quando um dia ela professou admiração por Joana d’Arc, em cujo nome os demônios foram postos em fuga. Como Diana Vaughan, Taxil publicou um livro chamado Eucharistic Novena (Novena Eucarística), uma coleção de orações que foram elogiadas pelo Papa.

Os Paladistas:

Na fraude de Taxil, os Paladistas eram membros de um suposto culto satanista teísta dentro da Maçonaria. De acordo com Taxil, o Paladismo era uma religião praticada dentro das mais altas ordens da Maçonaria. Os adeptos adoravam Lúcifer e interagiam com demônios.

Em 1891 Léo Taxil (Gabriel Jogand-Pagès) e Adolphe Ricoux afirmaram ter descoberto uma Sociedade Paladiana. Um livro francês de 1892, Le Diable au XIXe siècle (O Diabo no Século 19″, 1892), escrito por “Dr. Bataille” (na verdade o próprio Jogand-Pagès) alegou que os Paladistas eram satanistas com sede em Charleston, Carolina do Sul, liderados pelo maçom americano Albert Pike (autor do famoso Morals and Dogma) e criados pelo patriota e autor liberal italiano Giuseppe Mazzini.

Arthur Edward Waite, desmascarando a existência do grupo em Devil-Worship in France, or The Question of Lucifer (Adoração ao Diabo na França, ou A Questão de Lúcifer), cap. II: “The Mask of Masonry (A Máscara da Maçonaria)” (Londres, 1896), relata de acordo com “os trabalhos de Domenico Margiotta e Dr. Bataille” que “[a] Ordem de Paládio fundada em Paris 20 de maio de 1737 ou Sovereign Council of Wisdom (Soberano Conselho da Sabedoria)” foi um “Ordem diabólica maçônica”. Dr. Bataille afirmou que as mulheres seriam supostamente iniciadas como “Companions of Penelope (Companheiras de Penélope)”. Segundo o Dr. Bataille, a sociedade tinha duas ordens, “Adelph (Adelfo)” e “Companion of Ulisses (Companheiro de Ulisses)”; no entanto, a sociedade foi desmembrada pela aplicação da lei francesa alguns anos após sua fundação. Uma suposta Diana Vaughan publicou Confessions of an Ex-Palladist (Confissões de uma Ex-Paladista) em 1895.

Confissão:

Em 19 de abril de 1897, Léo Taxil convocou uma entrevista coletiva na qual, segundo ele, apresentaria Diana Vaughan à imprensa. Na conferência, em vez disso, ele anunciou que suas revelações sobre os maçons eram fictícias. Ele agradeceu ao clero católico por sua ajuda em dar publicidade às suas reivindicações selvagens.

A confissão de Taxil foi impressa, na íntegra, no jornal parisiense Le Frondeur, em 25 de abril de 1897, intitulada: Twelve Years Under the Banner of the Church, The Prank Of Palladism. Miss Diana Vaughan–The Devil At The Freemasons. A Conference held by M. Léo Taxil, at the Hall of the Geographic Society in Paris (Doze Anos sob a Bandeira da Igreja, a Fraude do Paladismo. Senhorita Diana Vaughan – O Diabo nos Maçons. Conferência realizada por M. Léo Taxil, no Salão da Sociedade Geográfica em Paris).

O material falso ainda é citado até hoje. O tratado da Chick Publications, The Curse of Baphomet (A Maldição de Baphomet), e o livro de Randy Noblitt sobre abuso ritual satânico, Cult and Ritual Abuse (Culto e Abuso Ritual), ambos citam as alegações fictícias de Taxil.

O escritor cristão William Schnoebelen, em seu livro, Lúcifer Destronado, apresenta certificados nos quais consta que ele foi membro de uma “Ordem do Paládio”, o que mostra sua dependência das obras de Léo Taxil. O autor apresenta um “Pirâmide Ocultista” que tem na base a Loja Azul da Maçonaria, Rito Escocês e o Rito de York da Maçonaria, The Shrine, o Grau de Soberano Grande Inspetor-Geral (33º Grau), o Supremo Conselho dos Soberanos Grandes Inspetores-Gerais, A Ordem do Trapezoide, Antigo e Primitivo Rito (97 Graus), Ordo Templo Orientis (O.T.O.), A Ordem Paládio, A Ordem Illuminatti, Os 9 “Desconhecidos”, Os Sete (“Demônios”, com o ápice no T.G.A.T.U. (“O Grande Arquiteto do Universo”, Ain Soph Aur, que ele identifica com Lúcifer), mas esse escritor e as bizarrices contidas em suas obras são assuntos para um outro artigo.

Uma Entrevista Posterior com Taxil:

Na revista National Magazine, an Illustrated American Monthly, Volume XXIV: abril – setembro de 1906, páginas 228 e 229, Taxil é citado como dando suas verdadeiras razões por trás da farsa. Dez meses depois, em 31 de março de 1907, Taxil morreu.

Os membros das ordens maçônicas entendem a falsa exposição acumulada sobre essa organização nas guerras antimaçons. A Igreja Católica e muitas outras ordens religiosas foram vítimas desses ataques semiescritos e muitas vezes venenosos. A confissão de Taxil, o livre-pensador francês, que primeiro expôs os católicos e depois os maçons, faz uma leitura interessante sobre a situação atual hoje. Motivos semelhantes acionam alguns dos “ancinhos” de hoje, como indicado na seguinte confissão:

“O público me fez o que sou; o arquimentiroso da época”, confessou Taxil, “pois quando comecei a escrever contra os maçons meu objetivo era diversão pura e simples. Os crimes que dei à sua porta eram tão grotescos, tão impossíveis, tão amplamente exagerados, que pensei que todos veriam a piada e me dariam crédito por originar uma nova linha de humor. Mas meus leitores não aceitaram; eles aceitaram minhas fábulas como a verdade do evangelho, e com o propósito de mostrar que eu menti, mais convencidos ficaram de que eu era um modelo de veracidade.”

“Então me ocorreu que havia muito dinheiro em ser um (Barão de) Munchausen do tipo certo, e por doze anos eu dei a eles quente e forte, mas nunca muito quente. que escrevia profecias nas costas de Diana com a ponta do rabo, às vezes eu dizia a mim mesmo: ‘Espere, você está indo longe demais’, mas não o fiz. Meus leitores até aceitaram com carinho a história do diabo que, em ao se casar com um maçom, transformou-se em crocodilo e, apesar do baile de máscaras, tocava piano maravilhosamente bem.”

“Certo dia, ao dar uma palestra em Lille, disse à plateia que acabara de ter uma aparição de Nautilus, a mais ousada afronta à credulidade humana que eu havia arriscado. Mas meus ouvintes nunca viraram um fio de cabelo. “Ouça, o médico viu Nautulius”, disseram eles com olhares de admiração. Claro que ninguém tinha uma ideia clara de quem era Nautilus, eu não tinha, mas eles presumiram que ele era um demônio.”

“Ah, as noites alegres que passei com meus colegas autores inventando novas tramas, novas, inauditas perversões da verdade e da lógica, cada uma tentando superar a outra na mistificação organizada. Achei que ia me matar de rir de algumas coisas propostas, mas deu tudo certo; não há limite para a estupidez humana”.

A Citação Luciferiana:

Uma série de parágrafos sobre Lúcifer são frequentemente associados à farsa de Taxil. Eles leem:

“O que devemos dizer ao mundo é que adoramos um deus, mas é o deus que se adora sem superstição. A vós, Soberanos Grandes Inspetores Gerais, dizemos isto, para que o repitais aos irmãos dos graus 32, 31 e 30: A Religião Maçônica deve ser, por todos nós iniciados dos graus superiores, mantida na Pureza da doutrina luciferiana. Se Lúcifer não fosse Deus, Adonay e seus sacerdotes o caluniariam?

Sim, Lúcifer é Deus, e infelizmente Adonay também é deus. Pois a lei eterna é que não há luz sem sombra, nem beleza sem feiura, nem branco sem preto, pois o absoluto só pode existir como dois deuses; sendo a escuridão necessária para que a luz sirva de contraste, como o pedestal é necessário para a estátua, e o freio para a locomotiva…

Assim, a doutrina do satanismo é uma heresia, e a verdadeira e pura religião filosófica é a crença em Lúcifer, igual a Adonay; mas Lúcifer, Deus da Luz e Deus do Bem, está lutando pela humanidade contra Adonay, o Deus das Trevas e do Mal.”

Embora esta citação tenha sido publicada por Abel Clarin de la Rive em seu Woman and Child in Universal Freemasonry (A Mulher e a Criança na Maçonaria Universal), ela não aparece nos escritos de Taxil propriamente, embora seja originada em uma nota de rodapé de Diana Vaughan, a criação de Taxil.

Na Cultura Popular:

Os Paladistas são o nome da sociedade satanista de Greenwich Village no filme de Val Lewton, A Sétima Vítima (1943).

Os Paladistas desempenham um papel importante na última parte do romance de Umberto Eco, O Cemitério de Praga (2011).

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Principal fonte:

Melior, Alec (1961). “A Hoaxer of Genius-Leo Taxil (1890-7)”. Our Separated Brethren, the Freemasons. trans. B. R. Feinson. London: G. G. Harrap & Co. pp. 149–55.

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Revisão final: Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/a-maconaria-paladio-a-farsa-de-leo-taxil/