O Menino Jesus

Toda poesia de Alberto Caeiro

Num meio-dia de fim de Primavera

Tive um sonho como uma fotografia.

Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte

Tornado outra vez menino,

A correr e a rolar-se pela erva

E a arrancar flores para as deitar fora

E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.

Era nosso demais para fingir

De segunda pessoa da Trindade.

No céu era tudo falso, tudo em desacordo

Com flores e árvores e pedras.

No céu tinha que estar sempre sério

E de vez em quando de se tornar outra vez homem

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer

Com uma coroa toda à roda de espinhos

E os pés espetados por um prego com cabeça,

E até com um trapo à roda da cintura

Como os pretos nas ilustrações.

Nem sequer o deixavam ter pai e mãe

Como as outras crianças.

O seu pai era duas pessoas —

Um velho chamado José, que era carpinteiro,

E que não era pai dele;

E o outro pai era uma pomba estúpida,

A única pomba feia do mundo

Porque não era do mundo nem era pomba.

E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala

Em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que ele, que só nascera da mãe,

E nunca tivera pai para amar com respeito,

Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modelo às outras.

Depois fugiu para o Sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz ao braço direito,

Chapinha nas poças de água,

Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.

Atira pedras aos burros,

Rouba a fruta dos pomares

E foge a chorar e a gritar dos cães.

E, porque sabe que elas não gostam

E que toda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas

Que vão em ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me todas as coisas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.

Diz que ele é um velho estúpido e doente,

Sempre a escarrar no chão

E a dizer indecências.

A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.

E o Espírito Santo coça-se com o bico

E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada

Das coisas que criou —

“Se é que ele as criou, do que duvido.” —

“Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,

Mas os seres não cantam nada.

Se cantassem seriam cantores.

Os seres existem e mais nada,

E por isso se chamam seres.”

E depois, cansado de dizer mal de Deus,

O Menino Jesus adormece nos meus braços

E eu levo-o ao colo para casa.

……

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina

É esta minha quotidiana vida de poeta,

E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.

E que o meu mínimo olhar

Me enche de sensação,

E o mais pequeno som, seja do que for,

Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segredo comum

Que é o de saber por toda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.

A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.

O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro,

Mas vivemos juntos e dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas

No degrau da porta de casa,

Graves como convém a um deus e a um poeta,

E como se cada pedra

Fosse todo um universo

E fosse por isso um grande perigo para ela

Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens

E ele sorri, porque tudo é incrível.

Ri dos reis e dos que não são reis,

E tem pena de ouvir falar das guerras,

E dos comércios, e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos mares.

Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer

E que anda com a luz do Sol

A variar os montes e os vales

E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.

Levo-o ao colo para dentro de casa

E deito-o, despindo-o lentamente

E como seguindo um ritual muito limpo

E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com os meus sonhos.

Vira uns de pernas para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sozinho

Sorrindo para o meu sono.

……

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

……

Esta é a história do meu Menino Jesus.

Por que razão que se perceba

Não há-de ser ela mais verdadeira

Que tudo quanto os filósofos pensam

E tudo quanto as religiões ensinam?

s.d.

“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). – 32.

“O Guardador de Rebanhos”. 1ª publ. in Presença, nº 30. Coimbra: Jan.-Fev. 1931.

As Edições Textos para Reflexão voltam a publicar Fernando Pessoa, ou melhor, Mestre Caeiro. Em Toda poesia de Alberto Caeiro temos ao todo 3 livros – O Guardador de Rebanhos, O Pastor Amoroso e Poemas Inconjuntos –, além de diversos textos adicionais.

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O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

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Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-menino-jesus

Magia na corte da Rainha Elizabeth

O presente estudo é destinado a estudantes aos adeptos do chamado Sistema Enoquiano de Magia e aos pesquisadores da história do ocultismo em geral. Faz-se aqui um apanhado da corte Elizabetâna e sobre como o ocultismo floresceu durante o reinado da Rainha Virgem. O mérito da biografia aprofundade de John Dee e Edward Kelley será deixado para uma outra oportunidade visto que a compreensão do background histórico onde atuaram trata-se de um conhecimento mais básico e necessário num primeiro momento.

A Dinastia Tudor

O Rei Henrique VIII, como todo rei, desejava um filho homem para se tornar o herdeiro do trono da Inglaterra. A então Rainha Catherine de Aragão, que havia lhe dado uma filha, Mary, foi substituída por Anne Boleyn na esperança de com ela conseguir o filho que Catherine não lhe deu, mas em setembro de 1533, no Palácio Greenwich suas esperanças vão por água a baixo: nasce sua segunda filha, Elizabeth. Anne chegou a ter um filho homem, mas natimorto. Henrique, cansado já da rainha, começou a planejar sua queda e em 1536, antes de Elizabeth completar três anos de idade, a rainha, acusada de incesto, é decapitada.

Por ser uma lembrança constante da mãe, Elizabeth é afastada da corte. Henrique se casa novamente com Jane Seymour que dá a luz ao tão esperado filho, Edward (que viria a se tornar Edward VI), morrendo logo depois.

A última madrasta de Elizabeth foi Katherine Parr, a sexta esposa de Henrique VIII, foi a responsável por trazer de volta à corte inglesa Elizabeth e sua meio-irmã Mary. Henrique morre em 1547 mas seu filho Edward ainda era muito jovem para assumir a coroa, então Edward Seymor (irmão da Rainha e tio do jovem herdeiro) se torna Senhor Protetor da Inglaterra. A Rainha Katherine estava grávida de seu novo marido, Lorde Almirante Thomas Seymor, e morreu um tempo depois de dar a luz a uma filha.

O jovem Edward nunca foi uma criança saudável e caiu vítima de uma doença desconhecida na época, que hoje se supõe ter sido tuberculose. Quando se tornou aparente que Edward estava prestes a morrer sem deixar um herdeiro, a luta pela coroa teve início.

Quando Edward morreu em 1553 Jane foi proclamada Rainha por seu pai e por seu sogro que a apoiaram com a ajuda do exércio; entretanto haviam muitos outros que apoiavam Mary, a filha de henrique VIII e Katherine de Aragão sua primeira esposa, e desejavam que ela subisse ao trono. Nove dias após a posse da Rainha Jane, Mary foi para Londres levando Elizabeth com ela. Jane Grey e seu marido foram aprisionados na Torre.

Logo após se tornar Rainha, Mary se casou com o príncipe Felipe da Espanha, o que a tornou muito impopular. Mary era católica e todos os Protestantes que começaram a ser perseguidos começaram a enxergar em Elizabeth sua salvadora. Ela era um ícone da “Nova Fé”, já que foi para se casar com sua mãe que Henrique enfrentou Roma e transformou o Protestantismo na religião oficial do reino. Por causa disso inúmeras rebeliões e levantes foram realizados em nome de Elizabeth.

A Rainha Mary morreu em novembro de 1558, acredita-se hoje, por causa de um enorme cisto no ovário. Elizabeth finalmente se tornou rainha da Inglaterra.

Elizabeth nunca se casou. Os últimos anos de seu reinado ficaram conhecidos como a Era de Ouro da Inglaterra. Após sua morte em março de 1603 foi sucedida por James I (James VI da Escócia), o filho de sua prima Mary, Rainha da Escócia.

A Igreja da Inglaterra Elisabetana

Antes de Henrique VIII se desentender com o Papa e estabelecer a Igreja da Inglaterra, o seu país foi durante séculos um país Católico. O próprio Henrique VIII, antes de enfrentar Roma para anular seu primeiro casamento, era um fiel Católico e ganhou o título de “Defensor da Fé” após escrever um tratado contra a nova religião protestante.

Quando ficou claro para o Rei que ele não teria um filho com Catherine de Aragão ele decidiu que anularia seu casamento com ela e arranjaria outra esposa. Catherine não concordou com a anulação dizendo que era esposa legítima do Rei, na época existiam poucos recursos para terminar um casamento, a anulação era o reconhecimento de que nem o Rei nem a Rainha haviam sido realmente casados, as únicas circunstâncias que permitiam a anulação eram: se um ou ambos os cônjuges tivessem sido muito jovens para se casar ou que a cerimonia não houvesse sido conduzida corretamente ou ainda se o casal tivesse laços sanguineos.

Henrique usou o fato de Catherine ter sido esposa de seu irmão para fazer uma apelação para o Papa com base na relação sanguínea de ambos mas não obteve a resposta que desejava. Catherine era a sobrinha do grande Imperador Charles V, o homem mais influente da Europa, e sabendo das convicções dela o Papa não ousou ofendê-la. Durante anos Henrique tentou conseguir a anulação, mas o Papa foi irredutível, o Rei decidiu então que para se casar novamente com outra mulher ele teria que buscar outra maneira de anular o casamento, e essa maneira foi o estabelecimento da Igreja da Inglaterra, totalmente independente do poder Papal. Como Protestantes não reconheciam o poder do Papa, Henrique, como Rei, poderia moldar a igreja de acordo com sua vontade. Ele se tornou “Chefe Supremo da Igreja na Inglaterra” e assim conseguiu anular seu casamento.

Como chefe da Igreja ele se tornou responsável pelos Arquebispos, Bispos e todo clérigo que a Igreja da Inglaterra ainda possuía. Por um lado a nova Igreja Inglesa era muito similar à velha Igreja Católica, por ter sido criado como Católico realizou muito poucas mudanças nas crenças religiosas; mas por outro lado a mudança da religião na Inglaterra causou enormes repercussões através do país.

O filho tão esperado de Henrique VIII morreu com 16 anos deixando o trono para sua filha mais velha, Mary. Mary era uma Católica devota e estava determinada a reestabelecer a sua fé na Inglaterra.

Muitas pessoas estavam desconfortáveis com os planos da nova Rainha, tendo ganho riquezas e terras com as dissoluções de conventos e monastérios temiam perder tudo o que tinham. Também a fé Protestante havia secularizado certos aspectos da política local e os oficiais não tinham nenhum interesse em perder sua influência e prestígio para a Igreja Romana. Entretanto a maior parte da população inglesa ainda era Católica e havia muito entusiasmo na restauração de sua antiga fé.

Teve então início a perseguição aos Protestantes. Mary substituiu o clero Protestante por um Católico, prendendo vários Protestantes proeminentes como Cranmer, Latimer e Ridley. O Parlamento de 1553 repugnou a maior parte das legislações Protestantes, o Ato de Supremacia de 1554 devolveu o país à obediência Papal. Em 1555 aqueles que se recusavam a aderir ao Catolicismo eram queimados como hereges, mais de 300 pessoas foram queimadas entre 1555 e 1558. Nesta época Mary de tornou uma figura extremamente impopular, muitas pessoas se horrorizavam com a violência da perseguição, ninguém era poupado, mulheres grávidas eram queimadas até a morte, enquanto Elizabeth foi se tornando cada vez mais admirada, como mostra um poema dedicado a ela:

“When these with violence were burnt to death,
We prayed to God for our Elizabeth””Quando violentamente eram queimados até a morte,
Nós rezávamos para Deus por nossa elizabeth”

Quando Elizabeth se tornou Rainha em novembro de 1558 todos achavam que ela fosse restaurar a fé Protestante na Inglaterra, a perseguição feita por Mary havia maculado o Catolicismo existente no país e a população Protestante crescia a cada dia. Mesmo tendo aderido à fé Católica durante o reinado de sua irmã, Elizabeth teve uma criação Protestante e se mostrou incrivelmente tolerante dizendo que acreditava que tanto os Católicos quanto os Protestantes faziam parte da mesma fé: “Existe apenas um Cristo, Jesus, uma fé.” Durante seu reinado sua principal preocupação foi a de manter a paz e a estabilidade do reino e perseguição só era usada quando certos grupos religiosos ameaçavam essa paz. Elizabeth desejava uma igreja que tivesse apelo para ambos os grupos e não tinha planos de tornar a igreja mais ou menos Protestante desfavorecendo um grupo ou outro, ela queria uma igreja popular e se o Catolicismo fosse se extinguir na Inglaterra que fosse de forma natural conforme o povo fosse se convertendo.

Elizabeth tinha capelas particulares em quase todos os seus palácios e rezava nelas todos os dias, em sua visão ela era o veículo de Deus na terra e rezava para que a Vontade Divina se revelasse para que pudesse levá-la a diante.

Não existem evidências concretas de suas crenças pessoais mas podemos observar alguns detalhes em suas atitudes e gestos: suas capelas eram conservadoras, todas possuíam crucifixos, ela também gostava de velas e música. Ela não gostava dos longos sermões Protestantes assim como não gostava de vários rituais Católicos como a comunhão, o que mostrava que ela rejeitava a crença Católica da transubstanciação. Ela também não aprovava o casamento dentro do clero, um aspecto integral do protestantismo. Uma indicação mais pessoal de suas crenças podem ser encontradas nas orações que escrevia para o povo e nas cartas que escrevia para amigos e conhecidos, nessas cartas era comum se referir a Deus e à necessidade de aceitar Sua Vontade.

Após sua morte em 1603 a Inglaterra era um pais de maioria dominante Protestante, os Católicos se tonaram a grande minoria.

A Ciência e a Magia Elizabetâna

A Rainha Elizabeth herdou um reino despedaçado: discordância entre Católicos e Protestantes abalavam as bases da sociedade, o tesouro real, graças à Rainha Mary e a seus conselheiros, havia sido gasto completamente, Mary ainda contribuiu para a falência da Inglaterra com a perda de Calais, o último território Inglês no continente. Além do descontentamento por parte do povo (principalmente os Católicos) havia problemas envolvendo a Europa. A França possuia um controle forte na Escócia e a Espanha, a mais forte nação da época, era uma ameaça para a segurança inglesa. Mas a nova Rainha provou ser mestre nas ciências políticas, empregando homens capazes e distintos para levar adiante as prerrogativas reais.

O Reinado Elizabetano foi um dos períodos mais construtivos na história da Inglaterra. A literatura florescia através dos trabalhos de Spenser, Marlowe e Shakespeare. A influência inglesa se espalhou pelo Novo Mundo através de Francis Drake e Walter Raleigh.

Antes do século XVII, que estabeleceu a visão científica moderna do mundo, a relação entre magia e ciência era muito diferente da que temos hoje, elas se complementavam e nem sempre era possível dizer onde uma terminava e a outra começava. Astrologia e Alquimia eram disciplinas muito respeitadas, e a Rainha Elizabeth possuia ocultistas iniciados entre seus conselheiros, ela havia sido avisada da data de sua coroação por astrólogos e seu respeito pela arte era tamanho que chegava a impedir que navios partissem dos portos até que as influências astrológicas fossem favoráveis.

Mantendo em mente que a palavra ciência, que significa literalmente conhecimento só começou a ser usada popularmente como nós a conhecemos após o século XIX. Na época existia a divisão entre magia e a filosofia natural, a magia ainda era dividida em natural e sobrenatural.

A magia natural não precisava de nenhum auxílio sobrenatural para acontecer, ela era compreendida como uma sabedoria natural porém oculta, enquanto a Filosofia Natural (a ciência) lidava com aquilo que era evidente para os sentidos a Magia Natural lidava com aquilo que estava distante da vista do homem comum, com aquilo que era “escondido”.

O magnetismo era considerado um fenômeno oculto, forças magnéticas eram consideradas como “laços simpáticos” existentes entre objetos magnéticos, uma harmonia que não podia ser vista, e a crença era a de que existiam muito mais dessas forças ocultas, o trabalho do mago era descobri-las. Existia uma ênfase na idéia de que Deus havia criado o mundo usando essas forças e harmonias naturais, o homem era um micro cosmo vivendo em um macro cosmo e haviam inúmeras relações interessantes entre o micro e o macro cosmo. Era através da Vontade Divina e da interpretação dos desígnios divinos que era possível encontrar esses laços harmônicos.

E claro havia a magia sobrenatural, onde o mago lidava com eventos que não faziam parte da natureza. Praticantes usavam feitiços para evocar espíritos, demônios e anjos. O mago John Dee se tornou famoso por suas conversações com anjos. Hoje se acredita que na época existiu uma “rede” de comunicação entre magos, cientistas e ocultistas que se correspondiam como Nostradamus, Agrippa von Nettesheim, o próprio Dee, Giordano Bruno e Paracelso entre outros, trocando experiências e “segredos científicos” adquiridos em peregrinações.

Rev. Obito, Templo de Satã

Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/magia-na-corte-da-rainha-elizabeth/

Charles Webster Leadbeater

Assim como Madame H. P. Blavatsky é tida como uma das maiores ocultistas do século XIX, Charles Webster Leadbeater é considerado um dos grandes ocultistas do século XX. Não apenas isso, mas para muitas pessoas ele é o autor responsável por tornar a obra de Blavatsky mais clara e compreensível. Quem quer que tenha tentado ler a Doutrina Secreta ou Ísis sem Véu sabe que as referências usadas e a cultura erudita de Blavatsky tornam sua leitura bastante dificil. Leadbeater por outro lado fornece um rosto simpático à teosofia com sua forma clara e didática de escrever. Mas esta é apenas uma de suas características.

Leadbeater nasceu em Stockport, Cheshire, Inglaterra em 1854, filho único de Charles e Emma. Aos sete anos sua família se mudou para Londres, onde seu pai trabalho como balconista ferroviário, vindo a falecer dois anos depois. O começo da vida de Leadbeter foi difícil não apenas por ser orfão, mas também porque o banco onde estavam as economias da família faliu deixando-os na pobreza completa. Sem dinheiro para os estudos Leadbeter começou a trabalhar bem cedo para prover o próprio sustento e o de sua mãe. De manhã prestava serviços clericais a Igreja Anglicana, e de tarde estudava por conta própria. Assim aprendeu Francês, Latim, Grego e em determinada altura da juventude comprou um telescópio para estudar astronomia. Seu tio  William Wolfe Capes, sacerdote da Igreja Anglicana influenciou Leadbeater a ser ordenado como padre em 1879 na cidade de Winchester. Em 1881 morava com sua mãe em Bramshott em uma choupana construída por seu tio e vivia como professor e ministro da Igreja.

Em meados da década de 1880 começou a ler e se interessar por espiritualismo e mediunidade, inicialmente por meio da obra de Daniel Dunglas Home. Ele entrou na Sociedade teosófica dia 21 de novembro de 1883 onde conquistou o afeto de  H. P. Blavatsky. Em uma cópia autografada pata Leadbeater de Voz e Silêncio, H.P.B. se refere a ele como “Meu sinceramente apreciado e amado irmão e amigo.” e em uma dedicatória de “A chave da Teosofia” ela escreve: “Ao meu velho e bem amado amigo.”. Estas pequenas notas servem para indicar a afeição de Blavatsky por Leadbeater e talvez seu conhecimento futuro sobre seu importante papel na socieadade que ela fundou seguindo a orientação dos Mestres. De fato em 1884 ambos viajaram juntos para a Índia.

Acesso aos Arquivos Akáshicos

A parte mais importante desta viagem é que nela Leadbeater foi treinado pelos Mestres por trás da Sociedade Teosófica para desenvolver suas habilidades em clarividência.  Por meio de um treinamento árduo que prosseguiu para o resto de sua vida ele passou a ter acesso aos arquivos akashicos, uma espécie de registro no próprio tecido da realidade descrito pela teosofia e tradições orientais como contendo toda experiência humana independente de tempo ou espaço. Os registros akashicos as vezes são descritos como “A Mente de Deus” outras como um supercomputador universal.  Interpretações a parte, o fato é que Leadbeater demonstrava um conhecimento do mundo de uma forma que poucos seres humanos poderiam igualar.

Este Conhecimento Direto mostrou-se tão espetacular que alguns de  seus discipulos o confundiam com Onisciência. Não era este o caso, Leadbeater em pessoa foi quem disse: “Não é porque eu digo que as coisas são assim que vocês devem acreditar; mas se vocês aceitá-las é porque as consideram razoáveis.” Mary Lutyens descreveu este tipo de conhecimento como “uma investigação oculta direta do cosmos, da aurora da humanidade e da constituição dos elementos assim como visitas frequêntes aos mestres por meio de seu corpo astral.” O resultado disso foram cerca de 50 livros escritos e diversos artigos publicados regularmente na revista “Theosophist”.

Conhecimentos a frente de sua época

Desde muito cedo os teosofistas perceberam que ficariam em grande débito com ele, pois se destacou como autor de livros inegavelmente lúcidos e compreensíveis do que os escritos sobre tais assuntos até então. Ele expôs a sabedoria antiga com uma linguagem clara, tornando-a menos misteriosa. Sua clareza foi inclusive responsável por torná-lo um alvo fácil dos detratores durante toda sua vida. Em seu livro “O Homem, de Onde e Como Veio e Para Onde Vai” ele previa por exemplo que, entre outras coisas, no futuro os jornais acabariam desparecendo e que seriam substituídos por “caixas” através das quais as notícias seriam lidas nas residências.

Outro exemplo ainda mais impactante pode ser lido em seu livro momunental “Química Oculta” com co-autoria de Annie Besant que foi amplamente criticado por cerca de 100 anos. Apenas hoje em, dia com a física de particulas começando a descobrir a validade de suas afirmações sobre a estrutura subatômica que ele começou a receber a devida atenção. Segundo alguns autores “Química Oculta” não apenas começou a ser respeitado, mas é , ele mesmo a origem ou “inspiração” de boa parte do conhecimento da química atual que a Ciência ordinária toma para sí. Sobre isso  o físico de particulas Stephen M. Phillips, Ph. D. declarou:

“Ter demonstrar conhecimento de alguns aspectos supra-sensorial do mundo que só agora são confirmados pelos avanços da ciência, muitos anos depois é, sem dúvida, o tipo mais convincente de percepção extra-sensorial. Isso porque esta circunstância não dá ao cético espaço para dúvida ou racionalização quanto as correlações entre os fatos científicos e as observações psíquicas tão numerosas e precisas ou para que considere a possibilidade como um mero golpe de sorte. O trabalho de Leadbeater é um exemplo raro deste tipo de percepção, como mostra as ostensivas, descrições paranormais de átomos e partículas subatômicas publicado há mais de um século e que acabaram por ser confirmada pelos fatos da física nuclear.”

Um de seus alunos, Geoffrey Hodson, comentou os ataques contra a “Química Oculta” de C. W. Leadbeater nos seguintes termos:

“Depois de H.P Blavatsky, dois grandes líderes A. Besant e C. W. Leadbeater, tem desempenhado um importante e nobre papel no processo de desvelar o oculto. O desprezo do mundo era inevitável. Nós os honramos como entre os maiores servidores da Irmandade. Seu azar não foi tanto os erros que cometeram quando as pessoas com quem eles estavam associados, e sobre quem parte do seus planos dependiam. Várias vezes  as canetas humanos – com a qual, em nome da Irmandade, eles tentaram escrever – quebrou como gravetos secos em suas mãos. Mas eles trabalharam incansavelmente, formando Centros ocultos nos modelos ancestrais e deram o melhor de si treinando quem podiam sentarem-se aos seus pés. O mundo ignorante, cego e cruel não reconhece a estatura daqueles que sobrepujava por tanto os grandes homens e mulheres de seu tempo…A dificuldade que os grande ocultistas do mundo devem enfrentar é que seus poderes reais não podem ser revelados. Suas faculdades iniciáticas só pode mostradas em seu trabalho e não em si mesmos. H.P.B. foi concedida a permissão, ou melhor a ordem, para usar suas habilidades para atrair as mentes humanas para a Teosofia e Sociedade Teosófica. Mas a variação na regra só foi um sucesso parcial e assim os seus sucessores escondem seus poderes e deixam o mundo interpretá-los mal quando muitas vezes por um simples ato de vontade eles poderiam alarmar seus críticos mais cruéis…. ”

Pederastia ou Educação Sexual?

Em 1906 Leadbeater enfrentou o momento mais problemático de sua vida ao ser acusado de pederastia, uma palavra que na época trazia a tona os mesmos sentimentos de revolta social que o que chamamos de pedofilia. A verdade é que o conhecimento claro do mundo que o rodeava colocou-o em conflito direto com uma sociedade sexualmente reprimida. Em seu livro sobre Krishnamurti,  Mary Lutyens se refere a este episódio:

Quando voltou para a Inglaterra em 1906, o filho de 14 anos do secretário da seção esotérica de Chicago confessou aos seus pais que Leadbeater o encorajava ao hábito da masturbação. Na mesma época o filho de outro oficial teosófico de Chicago fez a mesma acusação sem nunca ter tido contato com o primeiro garoto.  Foi criada uma comissão na seção Americana para avaliar o assunto, mas Leadbeater desvinculou-se da Sociedade Teosófica para, segundo “salva-la do embaraço.”

A verdade é que Leadbeater vivia na era Vitoriana, mas ainda assim mostrava uma lucidez que só hoje em dia pode ser apreciada. Sobre o assunto ele escreveu em carta a Annie Besant:

“… Então quando os rapazes ficaram sobre meus cuidados, Eu mencionei o assunto [da masturbação], entre outras coisas, sempre tentando evitar todo tipo de falsa vergonha, e fazer parecer algo tão natural e simples quanto possível.”

Leadbeater argumentou posteriormente que a pressão natural e vontades sexuais dos rapazes poderiam levá-los a buscar alívio com prostitutas ou entre si. Demonstrando um conhecimento avançado para a época em termos de educação sexual ele apontou que ao descarregar esta pressão em intervalos regulares por meio da masturbação os rapazes poderiam evitar consequências kármicas e morais muito mais sérias. “Se eles sentirem este tipo de acúmulo, deveriam se aliviar.” e ainda “Esta função natural existe, e por si só não é mais errada do que a vontade de comer e beber.”

Quando Annie Besant se tornou presidente da Sociedade teosófica em 1908 foi novamente admitido como membro.

 

A Igreja Católica Liberal

Em 1906 durante uma missa em que participava Leadbeater, por meio de sua clarevidência testemunhou as energias escondidas por trás dos sacramentos Cristãos. Por outro lado, esta mesma clarividência tornava para ele muito clara toda história de deturpação e controle social dentro da cristandade.  Mas a solução era igualmente clara para ele: revisar toda Liturgia Católica de modo a melhorar o desempenho destas energias.

Esta tarefa ele desempenhou em conjunto com seu amigo e Bispo Wedgwood que foi também quem o consagrou ao Episcopado. Nasceu assim a Igreja católica Liberal, uma igreja que administra todos os sete sacramentos tradicionais instituídos por Cristo, mas que defende também a liberdade intelectual e individual buscando cultivar assim um equilíbrio entre os aspectos cerimoniais, devocionais, científicos e místicos. Para Leadbeater abandonar o poder dos sacramentos por causa da atual situação da Igreja Católica é como jogar o bebê fora junto com a água suja do banho.

Após vários meses de trabalho intenso, a primeira versão da Liturgia foi publicada, mas a primeira celebraçaão pública só aconteceu em 6 de abril de 1917 em Sydney, Austrália. Um Oratório foi instalado no Edifício Penzance, local que desde então serviu de moradia a Leadbeater. A partir deste momento o trabalho com a Igreja Católica Liberal se tornou a principal atividade de sua vida, embora seu trabalho com a Sociedade Teosófica tenha continuada até o fim de sua vida. Além disso continuou sempre organizando palestras informais na casa de seus alunos.

Um ponto importante é que Bispo Leadbeater nunca reinvindicou infalibilidade para si ou a Igreja Católica Liberal.  Nunca impôs seu ponto de vista e sempre deixou seus discípulos todos completamente livres. De fato, muitos de seus ensinamentos (como o vegetarianismo) eram controversos dentro da igreja, mesmo os sacerdotes sentiam-se a vontade para discordar de alguns ensinamentos. Para Leadbeater as forças invisíveis por trás dos sacramentos eram muito mais importantes.

E quanto a nós?

É fácil criticarmos a química do século XIX, a sexualidade vitoriana, ou os dogmas da Igreja Católica hoje em dia. Mas quanto de nossa própria cultura e educação não são também à sua maneira primitivas. É facil aceitar as visões de Charles Webster Leadbeater quando o que ele diz confirma as coisas que sabemos ou acreditamos saber. Mas e quando isso não é verdade, somos diferentes de um católico conservador ou de um moralista vitoriano? Leadbeater disse por exemplo que não só há vida fora da Terra, mas que há vida em absolutamente todos os corpos celestes. Não há planeta inabitado. Ele descreveu civilizações na Lua e em Marte que hoje simplesmente não aceitamos porque o governo e as instituições nos garantem que elas não estão lá.

Esta provocação serve, por si só, de convite à leitura da imensa obra deixada por Leadbeater. Seja em termos de saúde, religião ou física Leadbeater se mostrou a frente de seu tempo. Seu talento em ver as coisas como elas realmente são e sua vontade em transformá-las como realmente deveriam nos deixa em dúvida sobre quanto do mundo moderno na verdade não é também uma quimera.

Charles Webster Leadbeater morreu em 1934 em Perth aos exatos oitenta anos de idade.

1847 – 1934

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/charles-webster-leadbeater/

Krampus

a parte no natal que preferimos esquecer

Todo dia 25 de dezembro ele viaja pelo mundo, entrando em todas as casas. Ele sabem quem foi bonzinho e quem foi malvado – ele perde tempo para checar a lista duas vezes – e não liga a mínima para os bonzinhos.

A figura do Papai Noel hoje é talvez uma das mais conhecidas no ocidente, para as crianças é ele que traz os presentes, para os adultos é o garoto propaganda da Coca-Cola ou uma opção de fantasia em uma sex shop, para os Xamãs ele é o Grande Espírito Rena que viaja em transe pelos céus em um trenó, usando um gorro vermelho pontudo, sendo puxado por renas voadoras; independente de sua cultura ele se tornou um fenômeno popular que tem um papel a cumprir. E é um papel estranho.

Pense. Papai Noel passa a ano fabricando presentes e investigando a vida de todos. Ele precisa saber quem foi bom para ser recompensado. Mas e se você não foi bom? E se foi uma pessoa com altos e muitos baixos. Foi desagradável, mesquinho e egoísta?

De fato, parece que uma figura que só recompensa e não pune não tem muito propósito. Claro, as crianças acostumadas a ganhar presentes podem se sentir mal, ficar tristes, dar chilique se não ganham nada, mas isso não é exatamente uma punição certo? Papai Noel não deveria sujar as mãos e de fato punir quem não entrou na lista dos bonzinhos?

Claro que não! Ele não precisa sujar as mãos porque já existe quem faça isso. Uma figura tão horrível e nefasta que assustou a própria Igreja Católica, e fez com que ela tentasse a todo custo sumir com esse “policial mal” do natal.

Imagine a cena: é noite, você está na cama tem 12 anos de idade. Ouve estalos, alguém anda pela casa. Você se levanta – é véspera de natal – e, pé ante pé, vai até a sala, para tentar pegar o bom velhinho com a mão na massa. Quando chega na porta e olha para a árvore vê uma criatura com mais de dois metros de altura, com chifres, andando nua. O som de passos eram de seus cascos raspando a madeira, seu corpo, coberto de pêlos escuros e sujos fede, ele carrega correntes enferrujadas enroladas no corpo e assim que te vê põe a língua pontuda para fora. Em uma das mãos ele carrega uma vara e começa a vir na sua direção. Neste momento você percebe, apesar da tenra idade, que não devia ter cortado os cabelos da Barbie da sua irmã e que você nunca mais vai ver seus pais.

Se sua imaginação é vívida, parabéns, você acabou de conhecer o Krampus.

O nome Krampus, também escrito Grampus as vezes, se deriva da antiga palavra germânica “garra”. Na Austria ele é chamado de Klaubauf, em outros países e áreas rurais da europa o conhecem como Bartl, Bartel, Niglobartl, e Wubartl.

O Krampus é uma figura antiga na europa, as menções mais antigas precatam o cristianismo na Alemanha. Suas características físicas são semelhantes às dos sátiros da mitologia grega. Na noite conhecida como Krampusnacht, celebrada no dia 5 de dezembro, na Áustria, Itália e outras paisagens européias, hordas de demônios corriam pela noite, intoxicados, carregando tochas, terrificando crianças e adultos, era a Krampuslauf.

Com a chegada do Cristianismo a Igreja começou seu combate a essa criatura, proibindo qualquer menção a ela, a Krampusnacht ou a Krampuslauf. E até o início do século XX, o Krampus foi sufocado, quase foi esquecido; mas todos aqueles que vivem ou viveram no inferno aprendem a ser pacientes, e depois de décadas o Krampus começa a aparecer novamente e mais forte do que nunca.

Para muitos tanto o Krampus, quanto São Nicolau ou mesmo o Papai Noel podem ser mitos, ou apenas figuras comerciais que perderam mesmo seu status de arquétipo cultural, mas nem todos pensam assim.

Nos últimos 3 anos, o projeto Morte Súbita Inc. desejou trazer mais do que um mero artigo sobre mais uma mitologia européia para você e, por isso, enviamos o Prof. Alberto Grosheniark, nosso especialista em deontologia européia freelancer, para vários países nos meses de novembro e dezembro para nos trazer essa criatura, ou ao menos um relatório mais atual de sua existência.

“Para entender o que é, e principalmente o que se tornou, o Krampus, é mister compreender esta celebração a que chamamos Natal”, começa explicando o professor, passemos a ele então as rédeas do texto.

O Nascimento do Natal

É patente que nos dias moderno as celebrações natalinas não passam de um marketing capitalista, uma forma de se conseguir mais lucros do que em qualquer outro mês do ano. Mas essa realidade está presente, obviamente, nas grandes capitais, cidades infladas pelo comercio e que vivem do dinheiro gerado. Longe desses centros urbanos e comerciais o Natal volta a assumir suas características mais religiosas e sociais, famílias se reúnem, freqüentam igrejas, etc.

Este é um exemplo claro e muito interessante de um mecanismo de transição cultural de festividades. Por um lado pessoas desesperadas para gastar seus salários em produtos que elas sabem, serão liquidados por valores mais baixos nos dias que se seguem ao natal. Por outro pessoas menos urbanizadas que ainda vivenciam o espírito natalino. Perceber como uma celebração se transmuda em outra nos mostra como o Natal se formou em seus primórdios.

O Natal foi criado, sim, criado, pela Igreja Católica para celebrar o nascimento de Cristo. A própria palavra Natal se deriva de Natalis, do latim, que se origina do verbo nascor – nasceria, nasci, natus sum – que tem o sentido de nascer. É a mesma origem do Natale italiano, do Noel francês, o Nadal catalão e do natal castelhano, que acabou evoluindo para navidad – com o sentido do nome de um dia religioso.

Quando enfatizei a criação da festividade, não desejava implicar que muitos acreditavam que ela existisse desde os primórdios da humanidade e sim que ela foi desenvolvida de forma anacrônica com uma finalidade bem determinada. Natal seria o nascimento de Cristo, mas foi instituído apenas no século IV. A primeira celebração natalina que se tem notícia hoje ocorreu em Roma no ano 336 d.C – apesar de algumas evidências que apontem para a Turquia pelo menos 2 séculos antes. O ponto é que o Natal só passou a ser atribuído a Cristo ao menos 300 anos depois de sua suposta existência.

Não há evidências hoje que Cristo tenha sido mais real do que o Dr. Griffin ou Roderick Usher. Duramente perseguidos por onde quer que passassem, os cristãos começaram a ser tolerados no decurso do século IV e em breve se tornariam a religião oficial do estado. Teodósio, o imperador romano, por esta época, já ajudava a organizar as estruturas territoriais da nova igreja. Por que criar uma festividade que exaltasse um homem que era praticamente um agitador comunista quando a instituição passava a ganhar poder político que bateria de frente com os supostos ensinamentos de Cristo?

Devemos nos atentar que os primeiros concílios religiosos visavam eliminar aquilo que consideravam heresias entre os cristãos; foi formulada a doutrina da trindade, colocou-se a questão da relação entre as naturezas humana e divina de Cristo definindo-se que era “perfeito Deus e perfeito homem” e que Maria era Theotokos – Aquela que portou Deus – e não Christotokos – Aquela que portou Cristo. As maiores discussões teológicas, em contrapartida à de cunho administrativo, tinham a ver com a divindade de Cristo, tentando limpar de sua figura qualquer aspecto humano. Por que perder tempo então festejando algo tão mundano quanto seu nascimento “na carne”? Sua vida teve inúmeros pontos que logicamente teriam mais força popular como o início de seu ministério, seus milagres, sua ressurreição, sua subida aos céus. O nascimento é justamente o aspecto mais humano de sua vida. Por que haveria de se tornar então a festa mais conhecida e celebrada de todas?

A existência de Cristo sempre foi um assunto que, inclusive, poderia complicar a Igreja Cristã. Seus ensinamentos eram anti-autoridade, anti-institucionais. Se não fossem as cartas de Paulo de Tarso, não haveriam sequer bases para a fundação de uma igreja, e nessas cartas Paulo deixa claro que aquilo que escreve são opiniões suas e não inspirações procedentes de Deus. Além disso os primeiros cristãos não celebravam o nascimento do Nazareno pois consideravam a comemoração de aniversário um costume pagão.

Para entender o Natal devemos recuar no tempo e nas culturas humanas.

Dia 25 dezembro

Não há como como discutir celebrações de Dezembro sem nos atentarmos ao solstício. Praticamente todo texto sobre o assunto o reduz a celebrações solares de povos primitivos.

O Solstício de inverno é um fenômeno astronômico usado para marcar o início do inverno. Como todo fenômeno astronômico ele não tem um dia fixo para ocorrer – geralmente por volta do dia 21 de Junho no hemisfério sul e 22 de Dezembro no hemisfério norte. No dia do solstício, uma derivação latina das palavras sol e sistere – “que não se move” – o Sol atinge a maior distância angular em relação ao plano que passa pela linha do equador. Hoje acredita-se que povos primitivos, ao notarem que o Sol não se movia no céu e que aquele era o dia mais curto do ano, lhe atribuíam grande importância, o associando, de modo geral, simbolicamente a aspectos como o nascimento ou renascimento.

Bem, por mais que abusemos de nossa fé em relação aa inocência dos povos antigos, não faz sentido acreditar que culturas capazes de, em uma época sem dispositivos digitais, anotar com tanta precisão as posições de corpos celestes e a duração da claridade do dia, se degenerariam em culturas que simplesmente acreditavam que o solstício era o renascimento e morte de algo e então voltariam a evoluir para atribuir esse nascimento e morte a algum Deus.

A crença que temos hoje é a de que em certas regiões, bem próximas do pólo norte, no solstício de inverno o sol desaparece da linha do horizonte, justamente por causa da sua inclinação aparente para o sul. Para quem vive nessa região, o sol fica dias sem nascer, trazendo, portanto, uma noite longa. Conhecendo, então, o “sumiço” aparente do sol em certas regiões, fica fácil entender como surgiu o culto ao sol. Dai basta ver qual a representação arquetípica do sol em diferentes culturas – o deus greco-romano Apolo, considerado como “Sol invicto” e seus equivalentes entre outros povos, Ra o deus egípcio; Utu dos babilônicos; Surya da Índia; assim como também Baal e Mitra. Todos estes e as Saturnálias, deram origem ao dia 25 de dezembro, como o dia do sol.

O único problema com essa teoria preconceituosa é que nem o solstício nem as Saturnálias ocorriam no dia 25 de dezembro.

Então o que teria de interessante este dia específico do ano?

Bem, para início de conversa, este dia só passou a existir, como o conhecemos hoje em 1582, com a criação e instituição do Calendário Gregoriano, o calendário atribuído ao Papa Gregório XIII que visava corrigir o antigo Calendário Juliano que tinha uma contagem imprecisa dos dias do ano – quando foi instituído o calendário gregoriano, seu antecessor já apresentava uma discrepância de 10 dias que “não existiam”.

Como segundo ponto veja a seguinte lista e veja se nota algo em comum:

  •  Prometeu, aproximadamente no alvorecer da humanidade
  •  Osiris, aproximadamente 3000 anos antes de Cristo;
  •  Hórus, aproximadamente 3000 anos antes de Cristo;
  •  Átis de Frígia, aproximadamente 1400 anos antes de Cristo;
  •  Krishna, aproximadamente 1400 anos antes de Cristo;
  •  Zoroastro, aproximadamente 1000 anos antes de Cristo;
  •  Héracles, aproximadamente 800 anos antes de Cristo;
  •  Mitra, aproximadamente 600 anos antes de Cristo;
  •  Tammuz, aproximadamente 400 anos antes de Cristo;
  •  Hermes, aproximadamente 400 anos antes de Cristo;
  •  Adonis, aproximadamente 200 anos antes de Cristo;
  •  Dionísio, aproximadamente 186 anos antes de Cristo;

Todas essas figuras se mostraram seres excepcionais, tiveram tamanho impacto sobre a cultura onde viveram que se tornaram precursores de cultos. Eram seres de magia e ciência. Avatares. Todos eles nasceram dia 25 de dezembro. Todos eles enfrentaram as trevas e, mais importante, todos são portas.

Prometeu é um titã, filho de Jápeto e irmão de Atlas, Epimeteu e Menoécio. Foi um defensor da humanidade, conhecido por sua astuta inteligência, responsável por roubar o fogo de Zeus e dá-lo aos mortais, assegurando a superioridade dos homens sobre os outros animais. Por causa disso foi acorrentado pelos deuses no cume do monte Cáucaso, onde todos os dias um pássaro dilacerava o seu fígado que, todos os dias, se regenerava. Esse castigo devia durar 30.000 anos.

Osiris era um deus da mitologia egípcia. Oriundo de Busíris foi um dos deuses mais populares do Antigo Egito, cujo culto remontava às épocas remotas da história egípcia e que continuou até à era Greco-Romana, quando o Egito perdeu a sua independência política. Osíris governou a terra (o Egito), tendo ensinado aos seres humanos as técnicas necessárias à civilização, como a agricultura e a domesticação de animais. É morto e então esquartejado por seu irmão. Seu corpo é reconstruído e ressuscitado, ele então tem um filho com sua irmã/esposa e passa a governar apenas o mundo dos mortos.

Horus é o filho póstumo de Osiris e Isis. Recebeu a missão de sua mãe de proteger o povo do egito de Set, o Deus do deserto, o assassino de seu pai. Após derrotar Seth se tornou o primeiro Deus nacional do Egito e patrono dos Faraós, conhecido como o filho da Verdade. Era visto como um falcão cujo olho direito era o sol e o esquerdo a lua e nesta forma era conhecido como Kemwer, o Negro.

Átis era o consort humano de Cibele, considerado por muitos um semi-Deus. No dia de seu casamento ele enlouquece e se castra. Depois de morto ressuscita e se torna um Deus da vegetação e fertilidade.

Krishna é retratado em várias perspectivas: como um deus do panteão hindu, como uma encarnação de Vishnu ou ainda como a forma original e suprema de Deus. Krishna é o oitavo avatar de Vishnu. Teve um nascimento milagroso, uma infância e juventude pastoris, e a vida como príncipe, amante, guerreiro e mestre espiritual. Ao ser ferido mortalmente por uma flecha diz ao caçador que “tudo isso fazia parte do meu plano”. Dizendo isso, Krishna partiu para Goloka, sua morada celestial.

Zoroastro foi um profeta nascido na Pérsia (atual Irã), fundador do Masdeísmo ou Zoroastrismo após receber a visita de um ser indescritível que se identificou como Vohu Mano, a Boa Mente. Foi abduzido por este ser e teve acesso ao conhecimento e à sabedoria.

Hermes era o Deus das fronteiras, transitando entre o mundo dos mortais e dos deuses.

Tamuz um deus da fertilidade e da vegetação, viajou ao submundo em busca de sua amada.

A lista prossegue. Hoje se sabe que o nascimento de muitas dessas figuras não ocorreu em dezembro, mas passaram a ser comemorado neste mês. Por quê?

 

Os Espancadores

Existem inúmeras criaturas correndo pelo planeta que, apesar de não possuírem relação entre si, podem ser agrupadas graças a sua natureza. São criaturas violentas cujo maior prazer parecer residir em assustar, punir ou simplesmente espancar os infelizes que cruzam seu caminho. O Barrete Vermelho que vive na Escócia e Inglaterra, que espanca até a morte suas vítimas. O Nain Rouge francês. Jack Calcanhar de molas na Inglaterra. O saci e o curupira na américa do sul, etc.

Algumas dessas criaturas são conhecidas por sua sazonalidade, algumas delas agindo no período que se encontra entre o início de dezembro e do final de janeiro.

  • O Belsnickel, um ser que se aparece envolto em trapos imundos e batidos, invade casas nas primeiras semanas de Janeiro para espancar crianças.
  • No dia 6 de dezembro, casas são visitadas pelo Knecht Ruprecht, que espanca crianças que não sabem rezar com um saco de cinzas.
  • A Grýla, uma gigante que visita casas na Groenlândia, durante a última semana de dezembro para seqüestrar e então cozinhar crianças.
  • No Japão, durance as últimas semanas de Janeiro o Namahage, armado de facas e palmatórias caminha pela rua em busca de crianças.
  • O Pai Espancador, caminha no dia 6 de dezembro espancando crianças na França e Bélgica.
  • Na Austria é Bertha que visitas as casas na última semana de Dezembro e primeira de Janeiro procurando crianças mal comportadas para lhes abrir o estômago, remover o intestino e o substituir com palha e pedras.

E dentre essas criaturas temos figuras como o Homem do Saco aqui no Brasil, ou o Krampus no Velho Continente. Hoje muitos o consideram apenas mais uma figura do enorme universo de criaturas que compõe a angústia Infantil, criaturas como a Cuca e o Boi da Cara Preta, que são evocados pelos pais para que as crianças se comportem. Apenas um mito que serve para manter os pequenos na linha. Mas isso não é verdade.

A figura do Krampus, como já foi discutida, é a de um ser bestial que vive nas áreas não civilizadas. Antes da chegada do moralismo Cristão o Krampus possuía um papel de iniciador. Em diferentes regiões da Alemanha, jovens eram enviados munidos apenas de um pequeno saco de provisões, para as áreas selvagens e desabitadas. Depois de um período que variava de jovem para jovem, ele retornava para sua vila ou aldeia, vestido como o Krampus, mostrando que havia encorporado este espírito na época em que viveu como um animal selvagem.

Quando a bravura e a resistência eram qualidades fundamentais para uma pessoa enfrentar as adversidade do meio, Krampus era um espírito temido, mas desejado pelas pessoas. Uma tradição não muito diferente dos Berserkes saxões, que matavam, se alimentavam e depois vestiam a pele de um animal – lobo ou urso – para se tornarem o animal e assim se tornarem adultos – os engraçados chapéus da guarda inglesa são um remanescente deste ritual de passagem.

O Krampus então, era uma presença real, uma presença que deixava a humanidade, o aspecto civilizado ou mesmo “domesticado” se preferir, do indivíduo para que se tornasse algo novo, mais selvagem, mais resistente. Claro que muitos não sobreviviam e muitos não conseguiam se tornar o Krampus, a garra, e simplesmente retornavam para a aldeia como meros humanos, em alguns casos em condição de vergonha.

Com o Cristianismo não veio apenas a crença em um único Deus, mas também uma série de rituais de iniciação, como o batismo, a crisma, etc. Os primeiros embates da Igreja com as crenças locais eram reencenações dos primeiros conflitos do Jeovah Judeu: Não haverão outros Deuses! E assim a Igreja Católica se valia de sua magia para liquidar outros Deuses.

Falar em Magia Católica não é exagero também. Ela foi uma das grandes responsáveis pelo surgimento dos protestantes, que não suportavam ver os ensinamentos de Cristo sendo proferido por “magos pagãos vestidos de padre”.

A Igreja passou a combater essas criaturas iniciáticas não apenas catequizando aqueles que as buscavam, mas criando uma magia mais poderosa. Isso chegou ao ponto de que em muitos lugares as pessoas acreditavam que um simples pedaço do pão usado no ritual de comunhão era o suficiente para curar doenças, espantar maus espíritos e curar o gado de qualquer mal que o afligisse.

Assim, a igreja passou a atacar não apenas a iniciação com o Krampus, mas todo e qualquer ato relacionado a ele como a Krampusnacht e a Krampuslauf.

Paralelo a isso a Igreja também buscou colocar seu próprio porteiro na porta que ligava mundos: Jesus Cristo. Mudando a data de seu nascimento para a última semana de Dezembro.

Claro que quando afirmo que o Krampus era uma figura real, uma presença real, não me refiro a um folclore ou a uma crença compartilhada, mas a uma entidade como eu e você. Krampus é algo físico, uma figura que poderia ser hoje descrita em termos de um elementar ou um semi-deus, como sátiros ou tantas outras figuras associadas com as crenças grego-romanas.

Para começar a acabar com essas figuras, a igreja começou primeiro a designar santos para as acompanharem, assim grande parte delas acabou tendo sua época de comunhão compartilhada com os festejos de São Nicolau e em pouco tempo passou a ser o “acompanhante” do santo. As pessoas não buscavam mais ao Krampus ou a outras figuras, e desta forma o “acordo” cultural que existia foi quebrado. O próprio Krampus passa a ser retratado e descrito como uma entidade presa a correntes.

Isso explica a atitude da grande maioria dessas figuras, buscar atacar especialmente crianças. Como o flautista que se viu logrado de seu pagamento, os antigos iniciadores partem em busca da maior riqueza dos povos, suas crianças. Mas esses ataques não seriam também gratuitos: o medo gera respeito, ainda mais se infligido durante a infância. Antes de cair nas garras intelectuais do cristianismo, os iniciadores buscariam comprovar sua existência às pessoas em uma época em que elas soubessem distinguir que as criaturas são reais.

Claro que mesmo assim, não havia como conseguir novamente pessoas buscando a iniciação, e tais entes ganharam um tatus de meros bichos-papões, sendo relegados à categoria de lendas.

 

A Volta do Krampus

Curiosamente justamente aquilo que o prendeu em correntes de lenda foi o que o trouxe de volta. Com o crescimento do Cristianismo, logo surgiram aqueles fiéis contrários à magia da Igreja. Julgavam que todo e qualquer ritual ou costume mágico era uma afronta a Deus e passaram a combater qualquer coisa que não a fé e a leitura da Bíblia. Nascia assim o protestantismo.

Os primeiros protestantes buscaram acabar com a Missa Católica, com o ritual de comunhão, com o Batizado, fizeram questão de mostrar que os padres eram pessoas comuns sem poderes e o Papa um mero enganador de todos. Eles proibiram o ritual de exorcismo, de crisma, de extrema-unção. Proibiam atos como abençoar o vinho e o pão, abençoar objetos, fossem sagrados ou não, a consagração de terrenos, construções ou qualquer coisa. Os feriados e comemorações católicas foram sendo combatidos, acusados de não passarem de costumes pagãos transvestidos de cristianismo. E assim o poder da Igreja começou a ser minado.

Não é surpresa ver que nos dias de hoje as comemorações dedicadas ao Krampus voltaram e não apenas na Europa. O Krampus hoje corre solto novamente, livre das amarras cristãs.

Visitei algumas dessas comemorações na Finlândia e na França e de fato rodas de demônios correm pelas cidades, embriagados por Krampus schnapps – um licor muito forte -, intimidando crianças e adultos. O aspecto iniciático se foi, hoje nossos rituais de maturidade estão mais ligados a possuir cartões de crédito e poder ter uma conta bancária do que provarmos sermos capazes de sobreviver à vida.

A Noite de Krampus tem início com algumas pessoas se vestindo com peles, botas pesadas e máscaras com chifres, armados de chicotes e varas. Eles visitam as casas, especialmente as que tem crianças, invadindo-as e correndo, assustando a todos. Então recebem o convite para beber, e o fazem. No fim da noite essas pessoas estão embriagadas e por vezes o número de feras “fantasiadas” ligeiramente maior, é então que a corrida de Krampus se torna mais violenta e fora de controle.

Seria muita inocência acreditarmos, quando observamos a balbúrdia causada por aquelas criaturas barulhentas, que todas elas são apenas pessoas com fantasias. Da mesma forma que as virgens da antigüidade recebiam os oráculos, ou que os praticantes do vodu haitiano se tornam cavalos para os deuses, muitas daquelas criaturas deixam de ser humanas, se é que já o foram. Mesmo nesta “Era de Razão” a figura do Krampus é temida como um folclore jamais seria. O governo Austríco chegou a proibir a tradição da Krampusnacht, na década de 1950 panfletos entitulados “Krampus é um Homem Mau” circulavam pelas cidades.

Hoje existem as Krampusfest, também chamada Kränchen, atendidas por mais de 300 pessoas, bêbadas, lascivas e fora de controle.

Os Krampuskarten

Apesar das proibições, no século XIX surgiram os cartões Krampus, eram como cartões postais que mostravam a criatura, geralmente acompanhados da mensagem: Gruß vom Krampus! (Saudações do Krampus)

Com o tempo a imagem do Krampus mudou, seu aspecto bestial foi lentamente mudando. As cenas onde ele ameaçava crianças começaram a ser subtituídas por imagens com um apelo mais sensual, onde o Krampus aparecia à volta com mulheres de curvas voluptuosas. Hoje em muitos cartões o Krampus surge como uma figura fofa e amável, como um pequeno cupido.

 

   

 

Com o fim de suas amarras o Krampus se viu livre para “expandir sua empreitada”, não apenas para o norte da Itália e o sul da França. Hoje o Krampus é celebrado na Inglaterra, Escócia, Estados Unidos. No México é conhecido como Pedro Preto. Logo as Krampusfest e a Krampusnatch serão celebradas como a noite de Halloween, e o Krampus voltará a correr não apenas por cidades, mas por todo o mundo.

por Albertus Grosheniark

Postagem original feita no https://mortesubita.net/criptozoologia/krampus-a-parte-no-natal-que-preferimos-esquecer/

As Origens do Tarô

Tudo começou com o livro Tarô dos Boêmios (Paris, 1889) que seguramente é o primeiro na história do Tarot a abordar os arcanos, tanto sob a ótica da metafísica cabalística quanto dos jogos adivinhatórios numa única obra, pois os outros autores de sua época ou se reportavam a um ou a outro. O livro em questão foi escrito pelo médico espanhol, radicado na França, Gérard Anaclet Vincent Encausse (1865-1917), conhecido como Papus. Encontrei, com suas próprias palavras, toda sua vaidade e arrogância espiritual explicitada nas páginas 273/275 e depois no final da 309 da edição brasileira. Resumindo o conteúdo: Papus dizia que as mulheres eram todas burras o suficiente para não entenderem sua obra cheia de números, letras hebraicas e deduções abstratas, que pertencia aos homens da ciência, mas como era tradição delas jogarem cartas, ele escreveria algumas páginas para não se aborrecerem; esclarece às ignorantes leitoras que o homem tem a razão e a mulher a intuição. Pensei – Homens não jogavam cartas!? Por que ele exultou a cabala e desdenhou a cartomancia?

Tal fato foi uma luz no fim do túnel para começar o que desejava: entender um pouco do passado do Tarot. Como um detetive segui os passos de Papus para entender seu chovenismo; observei a bibliografia do Tarot dos Boêmios e percebi que de consistente e lógico sobre o estudo das cartas de Tarot, ele citava os autores de sua época até, no máximo, um século antes, precisamente, até 1775 sobre as idéias de Antoine Court de Gebelin. Comecei a ler algumas obras possíveis: Etteila (1787), Claude de Saint Martin (1790), Saint Yves d’Alveydre (1830), J.A.Vaillant (1850), Eliphas Lévi (1854), Estanislau Guaita (1886), Mac Gregor Mathers (1888), Piobb (1890), mas não cheguei a lugar nenhum porque observei que todos citavam uns aos outros e todos tinham como ponto de apoio Gebelin e Lévi. Até ai nenhuma novidade, pois todos os estudantes de Tarot já ouviram falar que eles escreveram uma vasta literatura sobre as origens do Tarot. Bem, então o melhor era começar pelo mais antigo.

Ao pesquisar Antoine Court de Gebelin (1725-1784) fiquei estarrecido com a descoberta que foi negligenciada, não sei se proposital, por ingenuidade ou falta de maiores informações dos ditos mestres ocultistas do século 19. Gebelin era filho do famoso pastor evangélico francês Antonie Court (1695-1760) que restaurou a Igreja reformada na França, fundou um importante seminário para a formação de pastores evangélicos, sendo um grande historiador de sua época. Gebelin seguiu os passos do pai, tornando-se um pastor e mais tarde, também influenciado pelo pai, interessou-se por mitologia, história e lingüística. Embora alguns livros o citem como ocultista, talvez, devido a sua obra sobre o Tarot, em sua biografia não encontrei qualquer referência a este respeito; em todo caso é mister esclarecer que ele não teve uma vida dedicada ao esoterismo. Tinha uma obsessão junto com o pai: descobrirem a língua primeva que dera origem a todas as outras e/ou explicaria as várias mitologias conhecidas; também acreditavam que esta língua seriam símbolos, talvez os hieróglifos egípcios.

Certo dia, como ele mesmo diz em sua obra (Le Mond Primitif…), inclusive citado no Tarot do Boêmios, página 231, foi convidado a conhecer um jogo de cartas que desconhecia e em menos de quinze minutos declarou ser um livro egípcio salvo das chamas, explicando, imediatamente, aos presentes, todas as alegorias das cartas. Escreveu, em sua obra, uma retórica do Tarot como sendo a chave dos símbolos da língua primeva e da mitologia; fez uma relação dos arcanos com as letras egípcias e hebraicas e, revelou que a tradução egípcia da palavra “tarot” é “tar” = caminho, estrada e “ot” = rei, real. Para tornar suas teorias pessoais mais contundentes, lançou mão de seu conhecimento em história, abordando a trajetória do Tarot (Tarot dos Boêmios, página 229 e 233), disse que ninguém antes dele desconfiou de sua ilustre origem porque as imagens eram muito comuns e por isso nenhum cientista dignou-se a estudá-las; também revelou que durante os primeiros séculos da Igreja os egípcios, que estavam muito próximos dos romanos (Era Copta, conversão absoluta do Egito ao Cristianismo – 313 a 631 d.C.), ensinaram-lhes o culto de Ísis e os jogos de cartas de seu cerimonial; assim, o jogo de Tarot ficou limitado à Itália e Alemanha (Santo Império Romano); posteriormente, chegou ao sul da França (Provença, Avignon, Marselha) e, ainda desconhecido, no norte (Paris, Lion).

A primeira vez que li sobre essa história, não atentei ao fato de que numa simples olhadela Gebelin descobre ser o Tarot um livro egípcio, que fora ensinado aos romanos pelos próprios egípcios e que ninguém antes dele sabia a respeito – se aceitarmos esta tese como verdadeira, como é possível os romanos (católicos) aprenderem uma devoção (culto de Ísis) considerada pagã aos moldes da época, passando de geração a geração durante mais de 1.500 anos (de 313 a 1775), incólume pela própria Santa Inquisição (1230/1834), sendo disseminada nas regiões que ele cita e absolutamente ninguém escreve ou fala nada a respeito de sua origem egípcia? Então, onde estaria a tradição egípcia do Tarot tão exultada pelos seus conterrâneos posteriores? No período por ele citado, a Itália teve renomados ocultistas, alquimistas, astrólogos, magistas, historiadores, filósofos, arqueólogos, enciclopedistas, todos formadores de opinião e de grande saber – o hermetismo, a gnose e a cabala eram amplamente disseminados -, e Gebelin chama-os de incapazes de observar o que ele, em sua enorme sapiência evangélica, descobriu literalmente em quinze minutos! Observe que Gebelin NÃO descobriu tal fato (a origem egípcia do Tarot) em algum livro perdido no tempo, em algum documento antigo, em alguma ordem esotérica ou revelado por alguma entidade espiritual! Então, tudo o que falamos a respeito da origem egípcia do Tarot surgiu numa simples visita a uma cartomante, numa tarde de sábado, que nem ela e nem a Europa sabiam nada a respeito? Eu me questionava.

Gebelin ficou rico e famoso com suas obras e, a partir de então, o Tarot se tornou uma febre parisiense, todos queriam aprender o jogo egípcio; as ciganas que eram considerados, na época, de origem egípcia, embarcaram na onda e começaram a ler cartas! Ele publicou um Tarot junto com sua obra, mas não se tem notícias de que tenha jogado ou ensinado, pois não se preocupou com jogos ou métodos em seu livro, somente com o Tarot enquanto revelação da escrita egípcia e com os símbolos das cartas como sendo a chave da mitologia. Bem, Gebelin sempre fora uma pessoa respeitada muito antes de falar sobre as origens do Tarot, era filho de um famoso pastor evangélico, historiador reconhecido e amigo pessoal de Benjamim Franklin (!). Com certeza merecia créditos; eu daria, se vivesse naquela época. Tenho que esclarecer mais um fato: Gebelin não escreveu Le Mond Primitif… para o ocultismo, foi em função de sua vaidade em buscar a mesma fama de seu pai que toda a sua obra é voltada em esclarecer a mitologia egípcia e romana e não propriamente o Tarot; embora os ocultistas o citem como tal depois de sua morte, ele era acima de tudo um evangélico! Suas obras e idéias percorreram o mundo da ciência, todos os arqueólogos queriam falar com ele, pois era uma febre francesa descobrir as chaves dos hieróglifos egípcios. Nenhum ocultista esteve com ele ou o citou em alguma obra até alguns anos após sua morte; somente uma pessoa que se tem notícia o procurou em vida para conversar sobre a origem egípcia e fins adivinhatórios: o francês Etteila, anagrama de seu verdadeiro nome Aliette.

Não encontrei muitas referências sobre a vida de Etteila, nome completo ou datas pessoais, além do que está exposto nas obras dos ocultistas do século 19; diziam que ele era um peruqueiro da corte francesa, professor de álgebra, amigo íntimo de Mlle Lenormand (famosa cartomante de Napoleão) e de Julia Orsini (outra famosa cartomante francesa) – não se tem notícias de que tivesse pertencido a alguma ordem ou fraternidade oculta; em todas as suas referências é tido como charlatão. Lévi e Papus revelam que ele se apropriou para benefício próprio das idéias da origem egípcia, da relação das letras hebraicas e egípcias feitas por Gebelin, criando seu próprio Tarot corrigido, compilando as obras de suas amigas, escrevendo onze livros. Instalou-se num dos mais luxuosos hotéis de Paris, Hotel de Crillon, e começou a atender e ensinar a nata parisiense! Voilá, cherry! Gebelin e Etteila devem ter falecido ricos e felizes; um sob a visão da fama científica e o outro do misticismo.

Vamos sair do contexto ocultista e voltar aos historiadores e arqueólogos que devem ter acreditado na figura respeitada, aos olhos parisienses, de Antoine Court de Gebelin, até que Jean-François Champollion (1790-1832) decifrasse os hieróglifos através da Pedra de Roseta. Champollion publicou em 1822 a relação legítima do alfabeto egípcio e seus fonemas; este trabalho lhe rendeu o disputado cargo de curador do departamento egípcio do Museu do Louvre, em Paris, em 1826. Após sua morte, foi publicado, em 1835, seu mais precioso trabalho onde revela toda a gramática e literatura egípcia jamais revelada em toda a história desde o seu desaparecimento na Era Copta. Descobre-se que tudo o que Gebelin escrevera a respeito do Tarot como língua primeva e codificação dos hieróglifos egípcios estava errado, em nada se sustentava perante as verdadeiras revelações da história do Egito – não existe a palavra tarot na língua egípcia (!), muito menos o que supostamente Gebelin disse ter traduzido (!); também, tudo o que ele decifrara de alguns hieróglifos estava absolutamente errado (!) – esta é a parte negligenciada pelos ocultistas, bem como a forma inconsistente da revelação de que precisou de quinze minutos para descobrir a própria origem das cartas de Tarot – Porque? Eu me perguntava frequentemente.

As respostas começaram a surgir quando reli as obras de Eliphas Lévi (1810-1875), pseudônimo de Alphonse Louis Constant, tido como padre por se instalar por algum tempo na ordem franciscana, em Paris, para ter acesso à vasta biblioteca sobre a cabala cristã, mas não era um padre oficializado na Igreja Católica Apostólica Romana, como se pressupõe – a roupa faz o monge, já diz o ditado popular. Um fato incontestável foi que Gebelin e Etteila mexeram com o imaginário popular e, consequentemente, dos esotéricos, pois fica muito claro nas obras de todos os ocultistas do final do século 18 e início do 19 que no âmbito tradicional do universo das ciências ocultas nunca se analisou ou questionou o Tarot – são palavras do próprio Gebelin e de todos posteriores a ele, sem exceção; este é sem dúvida um dos dados mais importantes a serem analisados no que tange à tão exultada expressão “tradição do Tarot”, pois tradição não é algo que se extingue e depois reparece.

Lévi, em seu primeiro livro (1854), Dogma e Ritual, páginas 405 a 421, e no segundo, História da Magia, páginas 76 e 242 a 252, execra as obras e a conduta de Etteila, contesta a origem egípcia de Gebelin e repudia a palavra tar=caminho e ot=real. Vai mais além, introduz o conceito de que Moisés escondeu nos símbolos do Tarot a verdadeira cabala e depois ensinou aos egípcios o jogo de carta; também, pela primeira vez, um ocultista, em toda a história da magia, faz uma acalentada tese de associações das letras hebraicas com os arcanos e diz que a palavra tarot é análoga a palavra sagrada IHVH ( h w h y ), sendo também uma variação das palavras Rota / Ot-tara / Hathor / Ator / Tora / Astaroth / Tika. Assim como no livro de Papus, numa segunda leitura, também encontrei críticas às mulheres na obra de Lévi, um pouco mais cruéis eu diria – desdenha Mlle Lenormand chamando-a de gorda, feia, ininteligível e louca, e duas outras cartomantes, Madame Bouche e Krudener, de prostitutas (coquetes ou Salomé à época) – História da Magia, paginas 346 e 347. Reparei que tanto Lévi quanto Papus condenavam as práticas femininas de cartomancia, achavam que elas usurpavam o poder do homem na ciência oculta… Indagava-me, por quê?

Bem, encontrei duas passagens em seu livro História da Magia, páginas 78 e 251, e uma no Dogma e Ritual, página 420, que me deixaram muito intrigado; pareceu-me que ele sabia da verdade sobre o passado do Tarot, mas não sei se foi por ingenuidade ou se proposital, preferiu não dar importância. Primeiro, ele diz que o Tarot mais antigo que se conhece é o Tarot de Gringonneur (1392) e que a Biblioteca Imperial tem uma vasta coleção de todas as épocas; segundo, ele contesta a origem dos ciganos revelada na obra de J.A.Vaillant – Les Rômes, historie vraie des vrais Bohémiens, 1853; a mesma obra que Papus faria sua apologia do Tarot mais tarde -; Vaillant diz que os ciganos eram egípcios e entraram na Europa no início do século 15, chegando à Paris em agosto de 1427; e Levi diz que ele estava errado pois os ciganos são originários da Índia, fato revelado historicamente à época. Temos três verdades absolutas: os ciganos são indianos, entraram no início do século 15, depois do surgimento do Tarot no fim do século 14. Surgem minhas questões: por que Lévi não questionou o porquê de tanto tempo sem que nenhum renomado ocultista falasse a respeito, visto que as cartas eram amplamente conhecidas? Por que Papus insistiu na idéia de que os ciganos eram egípcios, se já era de conhecimento publico sua origem indiana? Por que todos sustentaram a história egípcia de Gebelin, tanto na tradução da palavra Tarot quanto em sua origem, visto que, com a descoberta de Champollion, nada se descobriu em pergaminhos e papiros que as amparassem?

Antes de continuar é importante salientar que TODOS os conceitos que Lévi descreve sobre o Tarot NÃO são dele, pois Gebelin já havia feito a equiparação das letras hebraicas e o ocultista Claude de Saint Martin (1743-1803) publicou em 1792, na obra Table Natural du Rapports…, o restante que Lévi descreve para o Tarot; se você tiver paciência irá reparar em todos os escritos de Lévi que Saint Martin é constantemente citado. Outro dado impressionante, que também não havia percebido na primeira vez, é que absolutamente tudo o que Lévi e Papus escrevem sobre a cabala e os sistemas ritualísticos, podem ser encontrados nos seguintes livros da mesma época: Magus de Frances Barret (1801), A língua hebraica restituída de Fabre D`Olivet (1825) e A ciência cabalística de Lenan (1825). Vamos observar que da mesma forma que Gebelin, Lévi não se baseou em nenhum escrito antigo, lenda ou fraternidade oculta para estabelecer sua relação entre a cabala e o Tarot, foi a partir das idéias do próprio Gebelin e Saint Martin. Portanto, assim como Gebelin inventou a história egípcia, Lévi inventou a história hebraica, pois não há registros de nenhum ocultista – cabalista, magista, alquimista, gnóstico, hermetista – fraternidade ou ordem mística que tenha comentado, escrito ou usado o Tarot antes das obras deles. Para se entender o passado do Tarot ou o que escreveram sobre ele é mister observar os dados históricos; a crença e o misticismo pessoal, neste caso, somente levará à equívocos e discussões inúteis.

Contudo, verdade seja dita sobre as obras de Éliphas Lévi com relação aos textos de magia, cabala e filosofia: são perfeitos e maravilhosos; o que estou manifestando é a relação histórica do Tarot e a forma que entrou no ocultismo. A esta altura já tinha uma noção bem razoável que nem Gebelin e nem Lévi possuíam, ou seja, nada que sustentasse de forma verossímil o passado do Tarot como encontramos nas outras ciências: alquimia, hermetismo, astrologia, numerologia, i ching, magia, cabala. Está absolutamente claro o círculo vicioso de informações, um compilando do outro; talvez eles estivessem disputando quem seria o “pai da criança”. Mas tudo tem seu lado positivo, o interesse dos ocultistas pelo Tarot cresceu e, cada um ao seu modo contribuiu para a exploração inesgotável dos arcanos. Tudo é válido no âmbito de sua exploração simbólica, mas a consciência de seu surgimento é um passo importante para o seu futuro.

Eliphas Levi, por ter uma linguagem metafísica muito eloqüente e por sua dissertação dos conceitos cabalísticos em associação ao Tarot, chamou a atenção dos ocultistas ingleses, principalmente, Mac Gregor Mathers (1854-1918). Mac Gregor adota o sistema cabalístico de Lévi, mas faz correções segundo seu entendimento pessoal para aplicar, pela primeira vez na história da magia, o Tarot como forma de meditação e monografia para atingir os degraus de uma ordem esotérica: a Golden Dawn, 1888; esta fraternidade mudaria por completo a visão do Tarot no mundo (!) através de seus dissidentes no início do século 20 – Arthur Waite, Carl Zain, Israel Regardie, Aliester Crowley. No mesmo ano da fundação dessa ordem, ele lança um livro, The Tarot, its occult signification, com base no trabalho de Lévi, Guaita, Etteila, Gebelin, acrescentando correções que achou necessárias sobre a relação da cabala com o Tarot.

Voltemos a Papus – depois de estudar os autores citados até o momento, reli o Tarot dos Boêmios (já era a quinta vez!) e finalmente descobri que o livro é uma fonte arqueológica do Tarot! Tudo está absolutamente lá, só não vê quem não quer! Em cada título de seu livro há subtítulos se referindo a todos os demais. Dentre as obras de Tarot que ele possuía em sua biblioteca, Gebelin era o autor mais antigo e Mac Gregor o mais atual em sua época! Então, vamos observar a principal cadeia viciosa sobre as origens do Tarot: Gebelin (1775) – Etteila (1783) – Saint Martin (1792) – Vaillant (1853) – Lévi (1854) – Christian (1854) – d´Alveydre (1884) – Guaita (1886) – Mathers (1888) – Barlet (1889) – Papus (1889) e ponto final! Um se baseou no outro, cada qual colocou sua teoria, fez suas próprias correções e ninguém questionou nada – ingenuidade, manipulação, arrogância, vaidade, eloquência? Não saberia responder. A verdade dói, em mim também doeu. Eles tatearam no escuro para falarem sobre o Tarot; uma realidade bem cruel é que eles não sabiam absolutamente nada sobre o Tarot e suas origens, mas uma coisa eu achei interessante: por mais que fizessem a retórica cabalística e a verborréia para provar seus pontos de vistas, as explicações práticas sobre os jogos do Tarot terminavam nas cartilhas de Etteila e das cartomantes. Por que? Eu continuava a me indagar. Sinceramente, independente das falhas históricas grotescas que estou questionando em suas obras, eu os indicaria como os patronos do Tarot – Gebelin, Etteila, Lévi, Mac Gregor e Papus; foi graças a estes cinco personagens que o Tarot é o que é atualmente.

A esta altura, sentia-me como um órfão, abandonado de pai e mãe! Eu estava quase jogando para o alto minhas convicções de que o Tarot era sagrado, intocável pelo tempo, guardado a sete chaves por homens eruditos e que escondia toda ciência antiga; mas eu podia estar errado, eu queria acreditar em seu aspecto intocável pela profanidade! A forma como chegou a pseudo história egípcia, cigana ou hebraica do Tarot aos nossos ouvidos eu já havia descoberto: a idéia de Antonie Court de Gebelin foi ampliada por Etteila, Lévi e Mac Gregor; Papus fez uma amalgama de todos; chegou ao século 20 através das mãos dos dissidentes da Golden Dawn, que mantiveram as mesmas histórias, também acrescentando outras, todos corrigindo as imagens do Tarot, todos querendo os louros da vitória, e assim por diante… Mas e antes? Estaria, o Tarot, numa arca sagrada aos pés dos guardiões da verdade? Sendo escondido, noite após noite, do famigerado Santo Ofício?…

Durante anos bisbilhotei várias obras, referências históricas, museus, bibliotecas – tudo está detalhado em meu livro -, fiz uma mapa do tempo de tudo o que havia sobre o Tarot. Confesso que ri muito quando comecei a ver os verdadeiros fatos. É uma pena o século 19 ter sido desprovido do telefone, fax, computador, e-mail, internet, avião, pois não estaríamos dois séculos atrasados nos estudos do Tarot, inventando histórias e distorcendo a potencialidade do uso dos arcanos! Os dados históricos destronam qualquer idéia mais romântica a respeito do Tarot, mas em nada invalidam seu potencial; para continuar este manifesto do futuro do Tarot, vamos separar o que é o Tarot do que querem que o Tarot seja!

Minhas convicções sobre a “tradição” do Tarot começaram a ruir quando eu descobri que entre 1583 e 1811 na Espanha, e entre 1769 e 1832 em Portugal, houve estatais na produção de cartas de Tarot, produziam em média 250.000 pacotes por mês para consumo interno e envio para suas colônias ao redor do mundo! Para jogar adivinhação com o Tarot!? Não, para jogos lúdicos! Sim, o Tarot é usado até os dias atuais na Europa como uma jogatina, principalmente, na França, onde há campeonatos anuais; eu mesmo, já tive a oportunidade de observar um em 1998, em Avignon. O ofício de artesão de Tarot era uma profissão (!) em toda a Europa desde 1455 até o fim do século 19! As cartas pintadas à mão (valiosíssimas) constavam do espólio de famílias nobres, com clérigos! O Tarot teve altas tributações ficais em todos os países desde o século 16 até o início do século 20 – uma particularidade que achei fantástica (para acabar de vez com meu misticismo com o Tarot) foi que em 1751, o rei da França, Luiz XV, ordenou que todas as taxas provenientes do Tarot de todo território fosse para o fundo monetário da Academia Militar! E mais: os primeiros registros oficiais de cartomancia datam por volta de 1540 !!!!!

– Meu Deus!… Onde estava a Santa Inquisição que todos dizem ter persiguido o Tarot? Dormindo? O arcano 15, O Diabo, que possivelmente condenaria o Tarot aos olhos da Igreja, sempre esteve presente em todas as mesas da Europa, desde as primeiras cartas que se tem notícia no final do século 14 até os dias atuais! Como as cartomantes passaram incólumes pela fogueira? Por que Gebelin disse desconhecer as cartas de Tarot se havia alta produção de cartas em Paris e por toda Europa? Por que nenhum ocultista renomado da Europa anterior a Gebelin nunca prestou atenção na cartomancia ou nos símbolos das cartas? Por que??? Por que o Tarot não fazia parte do círculo ocultista?

Por fim soube que o Tarot não se chamava Tarot (!) e nem as cartas se chamavam de arcanos (!). – Onde está a tão exultada tradição milenar dita por Lévi e Papus sobre o nome “Tarot”? Foi a última coisa que me lembro perguntar sobre o passado do Tarot, antes de aterrissar meus pés no chão e ver que o Tarot ainda é um bebê se comparado à astrologia, numerologia, cabala, sem nenhum passado extraordinário… Os primeiros registros datam por volta de 1370/90, o que denominamos de Tarot era chamado de Ludus Cartarum (cartas lúdicas) ou Naibis; depois, por volta de 1440/1500, passou a se chamar Trunfos (mais usual à epoca), Tarocco ou Tarochino; por volta de 1550/1600 de Trunfos do Tarocco na Itália e Trunfos do Tarot na França, também outras variações chamadas de Minchiatte ou Florentino; somente por volta de 1850/1900 surge o termo Arcano do Tarot; e no século 20 cada país passa a nacionalizar a palavra: Tarocco (Itália); Taroc (países germânicos); Tarok (leste europeu); Tarot (língua portuguesa) e Tarot (na maioria dos países). Observe os espaços de datas, não são meses, são em média de um século. Imagine seu eu lhe dissesse que você iria casar daqui a cem anos? Sim, esse é o tempo de uma nominação para outra! Uma média de um século! Cadê a tradição? Onde está a base histórica de Gebelin e de todos os outros que o seguiram? A palavra “tarot” surge na França por volta de 1590/95 nos estatutos da Associação de Fabricantes de Cartas Parisienses!

As descobertas subsequentes não me aborreceram mais, muito pelo contrário: comecei a vibrar por ter certeza de que absolutamente ninguém sabe nada além do que está escrito (de certo ou errado) nos livros! Não tive nenhum trauma quando procurei referências dos grandes ocultistas renomados, formadores de opiniões, cátedras das ciências ocultas, e não encontrei nada que tivessem dito sobre o Tarot ou algo que se assemelhasse a ele. Para dizer a verdade, encontrei somente um único ocultista sem grande expressão que fez uma referência aos quatro elementos em relação ao Tarot – Guilleume de Postel (1510-1581) -, mas ninguém deu ouvidos a sua teoria até Lévi e Papus fazerem sua apologia do passado longínquo do Tarot e citá-lo como destaque. Em 400 anos de existência do Tarot, desde os primeiros registros oficiais até a história egípcia de Gebelin (~1370/~1770), somente uma única pessoa fez referências esotéricas!? Este fato corrobora ainda mais o desinteresse pela classe ocultista dos séculos 14 ao 18 pelo Tarot e sua cartomancia.

Porém, encontrei algo surpreendente fora dos círculos esotéricos sobre as cartas do Tarot: crônicas questionando o que seriam aquelas imagens enigmáticas, poesias líricas, óperas, romances, murais, quadros, uma vasta expressão artística a partir do século 15; assim, as cartas do Tarot estavam inseridas no contexto social, sendo conhecidas por todos! Repito: um fato muito curioso é que as cartilhas sobre a taromancia começaram a surgir por volta de 1530-50 e o Tarot começou a ser visto também como algo para predizer a sorte e o futuro. Por que nenhum renomado ocultista sequer comentou sobre isso – Basílio Valentin (1398-1450), Picco della Mirandola (1463-1494), Paracelso (1493-1541), Cornelius Agrippa (1486-1535), John Dee (1527-1608) -, principalmente, Robert Fludd (1574-1637) e Jacob Boehme (1575-1624) que resumiram todos os oráculos de sua época? Os aspectos de jogos lúdicos e adivinhatórios andaram lado a lado e, estes, paralelos com a astrologia, numerologia, cabala, mitologia, hermetismo, alquimia, magia até se juntarem nas obras de Gebelin, Levi. Mac Gregor e Papus. Outro dado curioso que percebi: somente mulheres jogavam o Tarot (ditas cartomantes)!… Comecei a pensar sobre a sociedade até o final do século 19 – era patriarcal e misógina! Será que houve uma descrença no sistema de cartas por causa do contexto feminino? Ou será que pelo fato do Tarot expressar símbolos comuns de sua época não teria nenhum valor ocultista? Neste caso, eu acredito que foram ambos os fatores!

Lembram como comecei minha pesquisa que durou dez anos (1987/97)? Sim, voltemos ao cavalo de Tróia: Gebelin, Lévi e Papus; eles me forneceram as peças de todo o quebra-cabeça. A partir da bizarra história egípcia sobre o Tarot criada por Gebelin, os ocultistas viram uma possibilidade de abarcarem as técnicas de cartomancia, sem caírem no ridículo de usarem “uma arte feminina nos vôos da imaginação”, como disse Papus, ou usaram a arte das “loucas e coquetes”, segundo Lévi. Como? Fizeram uma retórica metafísica impossível delas compreenderem – se reparar na história do ocultismo, da magia, da cabala e da alquimia observará que não há uma única mulher (eram todas consideradas bruxas, ignorantes e maldosas!) que anteceda a Helena Blavatsky (1831-1891)! Ela foi muito “macho” em peitar todos os ocultistas eruditos. Assim, não foi difícil começarem a estudar uma arte feminina, que estava ao lado de todos eles por tantos séculos, mas que nunca ousaram tocar por puro preconceito machista. Os homens (ocultistas eruditos ou não) sempre tiveram a mulher como burra e incapaz, um ser inferior; como eles iriam admitir que o poder feminino descobriria uma arte oracular que somente pertenciam às sábias mentes masculinas?

Afinal, nada melhor do que a imaginação e a intuição feminina para descobrir o significado simbólico das cartas ao invés da razão e da lógica dos eruditos que necessitavam de fórmulas complicadas para tudo. Para mim ficou muito claro o porquê da ausência do estudo do Tarot entre os renomados ocultistas até o século 18 e, principalmente, o porquê de tanto escárnio nas obras de Lévi e Papus sobre as cartomantes ou, no caso de Etteila, um homem que se atreveu a jogar cartas como elas, denegrindo a imagem do “macho esotérico que conjura demônios”… Coisas do século passado… Hoje, homens e mulheres jogam o Tarot; mas você deve ter percebido que ainda temos uma resistência em aceitar os jogos adivinhatórios e tentamos sempre lucubrá-lo com a mais alta metafísica – talvez seja o ranço herdado das obras de Levi, Papus, Mac Gregor e seus dissidentes.

Vamos falar a verdade? Não conheço um só estudante de Tarot, em qualquer lugar do mundo, que se diga “cabalista da tradição em busca do sagrado”, ou que diga “o Tarot é uma arte do autoconhecimento”, que não esteja diariamente se profanando, jogando o Tarot, querendo saber dos acontecimentos e das causas! Vamos ser honestos? No fundo todos querem aprender a abrir o Tarot como qualquer cartomante antiga! Pode falar que é orientação, autoconhecimento, espiritualidade, tradição, não importa, no fundo terminamos onde Etteila começou; aliás, aperfeiçoamos primorosamente as suas cartilhas e de todas as cartomantes! Assim como os ocultistas do século 19, também estamos nos escondendo atrás dos estudos da cabala, mitologia, astrologia, psicologia, para encontrarmos a dignidade e o direito de jogarmos cartas! Estaremos nos enganando, complicando uma arte que poderia ser simples?

Embora o Tarot fosse conhecido e utilizado há séculos na Itália, Alemanha, Suíça, Espanha e França, foi precisamente em Paris que ele criou sua própria luz espiritual, tanto no surgimento de seu nome (tarot), quanto em sua centrifugação com o ocultismo; observe que todos os autores que descrevemos são franceses e publicaram suas obras na Cidade Luz. Bem, no início do século 20, principalmente, depois da 1º Guerra Mundial, tudo mudou para a imagem feminina: elas conquistaram o direito de trabalhar, de votar, de viver sozinha, escolher sua família e, finalmente, começaram a desenhar o Tarot… ôps, esqueci de dizer, somente homens podiam ser artesãos de Tarot até o início do século 20. A primeira mulher a pintar um Tarot foi Pamela Smith que desenhou o Rider-Waite Tarot, publicado em 1910… Hoje elas tomam seu lugar glorioso no pódio das sibilas e pitonisas parisienses, italianas, americanas, espanholas, brasileiras… Avante mulheres tomem as rédeas do Tarot: ele pertence a vocês – agora posso usar a palavra – por tradição!

Quem sabe, talvez, se tivéssemos a humildade e a dignidade de admitir que o Tarot opera perfeitamente no mundo oracular e divino, mas não existe todo esse passado magnífico, mágico e tradicional que nos imputam ou em que queremos acreditar; ou ainda melhor, aceitar uma verdade tão clara e evidente: ele é um oráculo recente, jovem, aberto à exploração, ávido por uma estruturação, que nasceu há poucos séculos e depende de nós preservá-lo, estudá-lo, tomando o devido cuidado em não deformar seus símbolos por puro egocentrismo e perder essa arte maravilhosa, esse alfabeto mágico, que casualmente foi descoberto! Também por quem foi descoberto não saberemos, como não saberemos nada além do que existe de real e concreto a respeito dele; se os verdadeiros homens eruditos que se debruçavam na maravilhosa arte alquímica e hermética ou de toda espécie de filosofia oculta não sabiam, ou não procuraram saber e investigar as cartas do Tarot, nós que perdemos o elo simbólico e a visão filosófico-espiritual do mundo iremos descobrir? Nós que nos baseamos em todo o manancial de cultura simbólica desses eruditos medievais e renascentistas, que não revelaram nada, iremos desvendar? A resposta é um sonoro NÃO; o restante será apenas conjecturas insólitas e inverossímeis. O Tarot é como uma criança que precisa ser alimentada e educada, senão poderá se perder durante sua vida com tantos Tarots corrigidos que surgem e tantas informações desencontradas.

Em todo caso é compreensível o fato dos antigos ocultistas não aceitarem o Tarot no âmbito esotérico, não pelo seu aspecto de pertencer às mulheres, mas pela falta de conhecimento do conceito de “arquétipo” – padrão de comportamento que é intrínseco na vida humana, desenvolvido na metade do século 20! Hoje observamos o símbolo e não propriamente a imagem desenhada, tentamos nos transportar além de sua figura para atingir um sentido de significações. Assim, o Tarot se tornou um conjunto de modelo comportamental humano, adapta-se a qualquer sistema que se queira trabalhar ou estudar. Talvez algum iluminado, um sábio ocultista, realmente o tenha criado, pois sua estrutura não deixa dúvidas de que há elementos bem significativos de toda ciência oculta, porém acredito que não tenha sido inventado para a finalidade que utilizamos atualmente… Coisas do destino… Também observe que se aceitarmos a associação do Tarot-cabala que Levi desenvolveu, o sistema desenvolvido por Mac Gregor ou Waite estarão errados; se aceitarmos o sistema cabalístico de Crowley, o de Mac Gregor, Waite e Levi estarão errados; se aceitarmos o de Mac Gregor e Waite, o de Levi e Crowley, também, estarão errados – o mesmo ocorre com os trabalhos de Juliet S.Burk (mitologia grega), Clive Barret (mitologia nórdica), Falconnier (mitologia egípica), Anna Franklin (mitologia céltica), que se negam um ao outro em analogias! -. Quem está com a razão? Todos! Qualquer sistema se adapta ao Tarot porque ele é um conjunto arquetípico! Isto é que faz o Tarot tão rico em sua expressão e, talvez, confuso à primeira vista.

Tenho lutado para que todos desenvolvam uma elaboração estrutural do Tarot, sem ego pessoal ou assimilação de outras doutrinas, que escrevam ou conceituam mais do que apenas desenhar “seu próprio Tarot”, porque fica evidente sua deformação simbólica à medida que todos querem ter a “revelação mágica dos símbolos”; mas para tal, não podemos nos negar nada, nem que seja o absurdo de começarmos do nada, de inutilizarmos tudo, fazermos uma deliciosa fogueira exorcizando todo devaneio romântico do que foi aprendido sobre os arcanos e recomeçarmos fortes, verdadeiros, rumo a análises confiáveis e livres de dogmas pessoais. Se não partirmos da premissa básica que é o reconhecimento de seu verdadeiro passado, seja ele bom ou mau, mundano ou divino, falso ou real, lazer ou oracular, não será possível termos certeza do que temos nas mãos, nem a convicção do que poderemos fazer com o Tarot. Sei que formulei mais questionamentos, deixei muito mais perguntas do que evidenciei respostas. Também vamos ser práticos, as respostas do passado não existem, somente as do futuro: como vamos estruturar e conceituar definitivamente seus arcanos e, assim, garantir a continuidade do Tarot para futuras gerações?

Notas Importantes

1) Desenhe o Tarot que desejar, expresse sua criatividade, mas nunca deforme sua fonte original simbólica, nominativa, quantitativa e os atributos essenciais de cada carta;

2) Ao consultar tarot escreva e associe o Tarot com qualquer coisa em nosso universo, mas nunca se esqueça de que é do Tarot que está falando ou explicando – sempre deixe essa “outra associação” em segundo plano;

3) Tenha mais consciência do Tarot enquanto significado de seus arcanos e não do significado da cabala, astrologia, mitologia, numerologia, pois cada uma destas ciências tem sua própria história, estrutura e utilização; todas as associações feitas até hoje ainda são discutíveis;

4) Vamos descobrir novas estruturas, explicações e análises para o Tarot, de uma forma mais pura, mais direta, menos abstrata, como ocorre na astrologia ou numerologia: longe dos devaneios místicos;

5) Esqueça do passado tradicional do Tarot, ele não existe; pense em seu futuro!  O tarot on line e o tarot virtual são apenas um rascunho do que está por vir.

6) Diga não a tudo o que não comporte a significação dos 78 arcanos.

7) Tarot é Tarot.

Por Nei Naiff

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/as-origens-do-taro/

Aquisitores: A Breve História Secreta do Brasil

ATENÇÃO: O texto a seguir foi escrito com base em diversas pesquisas que por sua vez não possuem relação ente si nem em nenhum momento algum citam o nome Aquisitores. Para todos os efeitos este artigo deve ser entendido como devaneio literário ou  uma mera obra de ficção.

 

Varre Varre VassourinhaAlguma coisa está fora da ordem. Fora da Nova Ordem Mundial.”
– Caetano Veloso, Fora de Ordem

Cada país tem o Illuminati que merece. Se isso for verdade então o Brasil é um dos país mais desgraçados que existe.

Aquisitores é o nome dado ao braço brasileiro do Governo Oculto Global. O nome Aquisitores é uma referência ao único e principal interesse deste braço que é sua própria prosperidade financeira que só pode ser obtida através da atuação de seus membros na economia e na política do país. A grande diferença entre este grupo e as sociedades secretas internacionais é que aqui eles se desfizeram de qualquer traço ideológico, seja ele bem ou mal intencionado. Como mostrarei a seguir, o único interesse dos “Illuminati brasileiros” é o lucro. Maquinações políticas, culturais e religiosas são abandonadas em prol da fria lógica dos números. Os dois únicos objetivos dos Aquisitores é proteger a própria riqueza e ficar ainda mais ricos.

Embora seja verdade que os membros Aquisitores sejam formados pelas famílias mais ricas do Brasil, o inverso não é verdadeiro, nem todas as famílias ricas fazem parte do grupo; não basta ter dinheiro para adentrar na ordem. Uma pessoa ser rica não quer dizer que ela é Aquisitora. Já uma família que, apesar dos altos e baixos da economia consegue não apenas se manter rica, mas prosperar cada vez mais é outra história. Como as fortunas do país passam na forma de herança, na prática os mesmos sobrenomes compõem a cúpula da organização com o passar dos anos. Qualquer leitor que acompanha minimamente as notícias conhece alguns destes sobrenomes.

Teóricos conspiracionistas afirmam que o grupo, através de métodos diversos, controla as principais instituições de poder do país, como estabelecimentos de ensino, grupos religiosos, partidos políticos e associações de classe. Estas instituições contudo são um meio e não um fim para que consolidem cada vez mais fortemente seu poder económico no Brasil. Através de suas táticas eficientes, silenciam qualquer oposição, mesmo porque o conhecimento, por parte da população, da existência de tal grupo é quase nenhuma e se resume a pessoas que, por interesse ou curiosidade, pesquisam sobre conspirações e técnicas de dominação de massa. Sua esfera de influencia portanto, se adaptaria e mudaria conforme o tempo avança. Em uma época estariam diretamente vinculados à Maçonaria e o Alto Clero da Igreja Católica, tempos depois estariam puxando as cordinhas em Brasília e orquestrando o impacto cultural da Tropicália. Hoje sua força se extenderia principalmente as grandes redes de comunicação, grandes igrejas neo-pentecostais e, é claro, ao governo federal.

Mascaram-se como defensores da liberdade de pensamento, mas, na realidade, a única liberdade que defendem é a de sua própria ideologia de dominação. Na cultura popular brasileira, podemos interpretar certa músicas e filmes como referências aos Aquisitores como na música “Forças Ocultas” escrita por Marcelo Nova do grupo Camisa de Vênus e veladas em algumas músicas de cunho político de Cazuza, Chico Buarque e Marcelo D2. Existem ainda breves citações nos filmes de Lima Barreto gravados em companhia Vera Cruz, além de referências claras na série Os Seis do autor Hélio do Soveral.

Desfazendo alguns enganos

Como toda teoria da conspiração não é difícil existirem várias versões para um mesmo fato. Portanto, antes de explorarmos os indícios, vamos apresentar algumas coisas que ficaram claras em nossa investigação e desmistificar alguns boatos que nos parecem sem fundamento. Isso acontece parcialmente devido aos resultados obtidos por fontes e pesquisadores diferentes mas parcialmente também como uma maneira de encobrir o que realmente esta acontecendo em um plano mais elevado.

Aquisitores são maçons

Em primeiro lugar,  ao contrário do que alguns escritores colocam, (geralmente escritores do meio evangelico), não existe qualquer indício de que os Aquisitores sejam uma organização ao estílo maçonico. Embora, realmente possamos afirmar que alguns deles possam ser ou ter sido maçons, eles não são nem de perto uma organização iniciática. Em um momento histórico anterior houve uma forte influência maçônica, especialmente a partir do processo de Independência do pais, mas isso parece ter sido superado. Pessoalmente, não acho que este tipo de especulação mereça qualquer crédito.

Aquisitores são satanistas

Da mesma forma, algumas pessoas alegam que os Aquisitores nasceram dentro do corpo de jesuítas do Brasil Colonial, que seriam os responsáveis pela divulgação da obra conhecida como Monita Secreta. Essa teoria, sem qualquer fundamento, alega que por alguma razão, certos padres se desviaram e adotaram uma espécie de culto diabólico, sugerindo ainda que nos anos 1960 foi realizado um pacto demoníaco coletivo com algumas famílias importantes do país, especialmente na região nordeste. Se isso for verdade, e provavelmente NÃO É, este seria o maior pacto coletivo já realizado na América do Sul.


Os Grandes Partidos Políticos estão por trás dos Aquisitores

Dificilmente poderiamos aceitar tal afirmação. Os Aquisitores como veremos possuem uma natureza apolítica, sem ideologia e apartidária. É possível que utilizem ou mesmo criem alguns partidos políticos para seus próprios fins, entretanto sua esfera de poder é bem mais ampla. Os Grandes Partidos Políticos não estão por trás dos Aquisitores, mas os Aquisitores podem estar atrás de qualquer lugar.

Os Aquisitores nasceram em 1985

Outra grande bobagem que se diz é que os Aquisitores nasceram no final da Ditadura Militar, tendo inclusive dado fim a ela. A verdade mais provável parece ser que o grupo é bem mais antigo do que isso. Além disso não existe um único grupo Aquisitor, mas pelo menos dois grupos atuantes que podem receber esta nomenclatura. Estes dois grupos são em geral antagônicos, mas podem se unir caso vejam seu balanço de poder ameaçado. Exporei de forma clara a seguir evidências de que este grupo é muito mais antigo do que esta data.

 

O presidente que se matou

O suicídio do então presidente Getúlio Vargas é uma prova de que a grande conspiração de nosso país é bem anterior a 1985. Sua carta-testamento, endereçada ao povo brasileiro possui algumas pistas do que estava acontecendo na balança de poder do Brasil naquele momento. Este documento é forte e curto o bastante para podermos mencionar alguns excertos a seguir, os destaques em negrito são por conta do autor. Ao lado ilustra-se um fragmento do documento original, hoje em posse do Memorial Getúlio Vargas no Rio de Janeiro.

“Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.

Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.”

“E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte.

Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.

Assina Getúlio Vargas, 24 de agosto de 1954″

O documento na íntegra pode ser lido no site do Memorial em http://www0.rio.rj.gov.br/memorialgetuliovargas/conteudo/expo8.html . Ele possui uma carga emocional forte que não pode ser ignorada, mas não devemos deixar de pensar que tipo de poder poderia fazer o homem mais poderoso de um país tirar sua própria vida. Com seu suicídio iniciou-se um novo capitulo na história secreta no Brasil e aquilo que as escolas ensinam ser a Ditadura Militar é na verdade a gestação e parto da atual elite dominante de nosso país. Se você acha tudo isso estranho, considere a entrevista dada a Roberto Canázio, da Rádio Globo em 2007 onde a vedete Virginia Lane, com quem Getúlio se relacionava intimamente declara que ele não se suicidou. Foi sim, executado.

Confira aqui a entrevista: http://www.mortesubita.org/sociedades-secretas-e-conspiracoes/textos-conspiracionais/virginia_lane_getulio_vargas.wma

A entrevista foi ao vivo e pegou até o jornalista de surpresa. Questionada em outras ocasiões sobre o assunto tão bombástico ela declarou que foi proibida judicialmente de tocar nesse assunto outra vez. Segundo ela, Getúlio sabia que iria morrer por mãos alheias e deixou sua carta testamento preparada. Contudo é possível que até sua esta carta tenha sido forjada ou por seus assassinos ou por alguém com desejoso de vingança. Caso tudo isso seja verdade, provavelmente Getúlio não foi o primeiro presidente a ser morto pelas mãos dos Aquisitores.

Operação Condor

É importantíssimo lembrar que os Aquisitores não são reconhecidos como grupo por nenhum historiador sério, e não existe sequer um trabalho acadêmico que confirme sua existência. Um exemplo típico deste tipo de elocubração está nas suspeitas levantadas na estranhíssima renuncia de Jânio Quadros, o presidente que renunciou por não aguentar o peso das “Forças terríveis” como ele mesmo declarou em sua carta de renúncia e na instauração do Regime Militar em 1964. O mesmo ocorre com as suspeitas levantadas no inicio dos anos 90 sobre a morte de Juscelino Kubitschek ou a investigação iniciada em 2007 no Rio Grande do Sul sobre a morte de João Goulart, que oficialmente morreu de doença cardíaca.

Sobre a Morte dos Presidentes leia:

Todos estes eventos se relacionam com a chamada “Operação Condor”, uma série de ações arquitetada pelos Aquisitores para tomar o poder político. Esta operação seria controlada remotamente por sociedades estrangeiras e encabeçadas pela elite financeira nacional. O objetivo da Operação Condor seria então dar poder político a quem já tinha poder economico e criar assim um governo facilmente controlado pelas “forças terríveis” internacionais. Até o momento nenhuma dessas investigações apresentou qualquer prova palpável, mas a coincidência alimenta a curiosidade dos teóricos da conspiração: Jango, JK e Lacerda, os três grandes nomes da oposição ao regime militar morreram todos em espaço de meses entre o fim de 1976 e início de 1977. Um sozinho em sua fazenda, outro num acidente mal explicado de carro e o outro de uma doença aguda que o matou de um dia para o outro.

Numa carta dirigida, em agosto de 1975, ao Gen. João Batista Figueiredo – e divulgada pelo jornalista norte-americano Jack Anderson – o chefe da polícia secreta de Pinochet, Manuel Contreras, comunicou o “decisivo apoio” da ditadura chilena a um “Plano” de Figueiredo para “coordenar a ação contra certas autoridades eclesiásticas e políticas da América Latina”. Na carta a seu homólogo brasileiro, chefe do SNI de Geisel, Contreras citou o chileno Orlando Letelier (morto por uma bomba que mandou pelos ares o seu carro em Washington, em 21 de setembro de 1976, 30 dias depois de Juscelino) e JK como a indicá-los como candidatos à “vendetta” dos regimes militares do cone sul, ou seja, a “Operação Condor”.

Embora não cite os Aquisitores em nenhum momento o jornalista Élio Gaspari revelou em publicação recente declarações gravadas de Ernesto Geisel – considerado integrante da área castelista, “moderada”, do golpe – admitindo o assassinato como método de ação política. Gaspari revelou a gravação de conversas de Geisel com o general Dale Coutinho, seu futuro ministro do Exército, a um mês de sua posse na Presidência. ‘Esse negócio de matar é uma barbaridade, mas tem que ser’, afirma Geisel, em uma de várias demonstrações de que sabia da morte de opositores sob custódia do regime.

O Grupo de Roma x O Ramo de Ouro

Durante a ditadura militar o grupo se manteve relativamente coeso, principalmente porque ainda eram bastante submissos aos poderes internacionais, em especial o braço Estadunidense do governo oculto global, os Bilderburgers. Mas a partir de 1985, os membros brasileiros do Governo Oculto se organizaram em dois grupos inimigos e teoricamente independentes dos Illuminati. A partir de então, não faz mais sentido chamá-los de Illuminati, mas devemos dar uma palavra sobre esta “independência.”

A matemática é simples, um país desenvolvido economicamente não pode ser controlado, um pais onde a política é mais forte do que a economia pode ser facilmente manipulado, através de leis e impostos que não permitam o desenvolvimento e acúmulo de riquezas por qualquer um. Poder e dinheiro não conhecem fronteiras. Dizer que os Aquisitores são independentes dos Illuminati é algo bastante ingênuo. Dizer que eles nasceram do nada em 1985 é mais ingênuo ainda. Na verdade o que ocorreu é que depois da Ditadura Militar o cenário político mudou. Houve então uma espécie de troca. De um lado os “Aquisitores” teriam liberdade regional para explorar o povo financeiramente e em contra partida apoiariam o governo oculto global e sustentariam a construção da chamada Nova Ordem Mundial. Não existem conspirações locais, apenas consequências locais da Conspiração.

Na ausência de um poder superior que controlasse cada um de seus passos os grupos nacionais passaram a reinvidicar sua legitimidade e esta disputa se polarizou em dois grupos principais, cada um deles  considerando-se os únicos “Aquisitores” legítimos. Um desses grupos, e talvez o mais poderoso conhecido como “Ramo de Ouro” se estabeleceu inicialmente na  região de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, região que havia experimentado uma próspera fase na década de 70 e que conheceu, por conta disso, o  movimento metalúrgico e culminou na posterior eleição do insuspeito Presidente Lula. O segundo grupo fez base no Rio de Janeiro e é chamado de “Grupo de Roma” supostamente relacionado com o famoso Clube de Roma. Essa polarização explica, entre outras coisas, porque o foco midiático e econômico dificilmente sai do eixo São Paulo/Rio de Janeiro e também como grandes centros econômicos e políticos do passado, como Minas Gerais, sairam de cena tão rapidamente.

O Ramo de Ouro e o Grupo de Roma recebem cada um deles apoio de forças internacionais próprias. Estas forças por sua vez não são, nenhuma delas, o Governo Oculto Global, mas também são movimentados por este como tem sido desde o fim da Segunda Guerra Mundial.  Num primeiro momento parece difícil entender como grupos antagônicos dentro e fora do Brasil e que vivem brigando possam possuir uma mesma raiz de poder. Antes de prosseguirmos, permita-me leitor fazer uma breve citação do Dr. Walter K. Buhler sobre a questão: “Talvez alguns ainda se lembrem de que foi a elite de banqueiros, no fim da Primeira Guerra Mundial, que facilitou e depois mandou financiar a Revolução Comunista. A começar por Lenin que foi enviado da Suíça, em vagão lacrado da estrada de ferro, através da Alemanha para a Rússia”. O ápice de uma conspiração é fazer o povo apoiá-la como se fosse algo revolucionário. O objetivo do poder não é o controle, pessoas que pensam que são livres e que podem se rebelar são as mais produtivas, as mais facilmente exploradas.

Desde esta formação bipolar podemos ligar cada um dos os escândalos políticos que ocorreram no pais desde a ditadura militar a estes dois grupos de Roma e de Ouro e a seus jogos de poder. A briga entre os dois grupos de Aquisitores durou cerca de dez anos e quem pagou a conta foi a economia nacional. A rivalidade só foi amenizada  (mas não extinta) com a criação do chamado “Comando Delta”. Ao contrário do que muitos teóricos suspeitam, o Comando Delta não é uma sociedade secreta em si, mas uma espécie de “acordo de cavalheiros” onde os dois grupos de Aquisitores definem de tempos em tempos quem será o próximo presidente da nação, uma nova versão da antiga política do café com leite que já dominou o país.

O Comando Delta

O Comando Delta só veio oficialmente a tona quatro anos depois com a publicação em março de 2000 na Revista Caros Amigos de uma entrevista com o Presidente da Associação Brasileira dos Agentes da Polícia Federal, O Sr Francisco Carlos Garisto. Não é preciso dizer que em menos de uma semana a revista simplesmente desapareceu das bancas e dos estoques da editora. Sr. Garisto reforça que se trata de um acordo informal entre os grupos de poder que dominam o nosso país.

Nas palavras do próprio:

“O Comando Delta é a fábrica de presidentes, é o que comanda o sistema brasileiro, que fez a reunião para escolher o Fernando Henrique, que já deve estar fazendo reunião para convidar outro.””Uma vez dei uma entrevista na televisão e falei: “O Comando Delta acaba escolhendo um presidente aí”. Só falei isso, e a entrevistadora, na hora: “Quem é o Comando Delta?” Eu: “As pessoas ‘de bem’ do país, pessoas que comandam a economia, o mercado”. Rapaz, deu um bode desgraçado! Ela me ligou depois de dois dias e disse: “Garisto, o que tem de gente ligando querendo saber do Comando Delta”. Falei: “Isso é coisa do Chuck Norris, Comando Delta 2, 3, pára com isso! Tô fora, porque eles são muito fortes”.

“São unidos, ricos e inteligentes. Aquela operação toda feita no seqüestro do Diniz, organizado, bonitinho, vocês da mídia são os donos dela através do representante maior de vocês — daqui a pouco estou falando o nome, que já ganhou a segunda tartaruga agora. Ele ganhou a segunda tartaruga porque a outra morreu. (risos)”

Para direcionar melhor seus esforços e recursos desde a formação do Comando Delta, os dois grupos de Aquisitores negociam entre si, com antecedência quem serão os próximos Presidentes da república, bem como quem ficará em cargos decisivos como o Presidente do Congresso Nacional  e o Chefe da Casa Civil. Foi assim que em 1995 Fernando Henrique Cardoso foi eleito, segundo alguns teóricos da conspiração com verba da CIA. Não é coincidência que na mesma época iniciou-se a implantação das Urnas Eletrônicas.


Conclusão

Os Aquisitores hoje em dia não são uma sociedade secreta nos moldes tradicionais. Para começo de conversa eles mesmos estão dividos em dois grupos de poder e portanto são também vítimas do jogo sujo um do outro. Além disso, não se trata de um grupo preocupado em direcionar o futuro do nosso país para este ou aquele destino. Isso, eles deixam por conta de seus “Superiores” em troca de uma relativa liberdade para sugar nossas riquezas e recursos para seus próprios fins. Os Aquisitores são uma entidade cuja única razão de existir é garantir que os ricos continuem ricos. Se  considerarmos que o povo em geral vive na miséria, com um salário que é imoral, temos que dar a mão a palmatória. Eles estão fazendo um ótimo trabalho.

Alberto Grosheniark

Texto fascinante! Muito bem escrito e demonstra que o autor pesquisou bem e de fontes fidedignas! Gostaria de ler outros textos do autor na mesma linha!

Enquanto pobres não buscarem a educação libertadora a materia prima da morte serão sempre nós.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/aquisitores-a-breve-historia-secreta-do-brasil/

As origens do culto de Cosme e Damião

Júlio Cesar Tavares Dias
juliocesartdias@hotmail.com

“Aqui queremos lembrar
Dois Dois a biografia
Pouco vamos encontrar
Porque pouco se escrevia
O que pude pesquisar
Só resolvi publicar
Porque muitos me pediam”
– Frei Urbano de Souza (1991, p. 7)

Nós compartilhamos o sentimento de Frei Urbano de Souza expresso nos seus versos de cordel que vêm à epígrafe deste artigo. No Brasil existe a prática de distribuir balas e doces como pagamento de promessas aos Santos Cosme e Damião, padroeiros das crianças. Em 2010, quando resolvemos escrever sobre este tema (Dias, 2010), frisávamos que o modo de distribuir o doce de Cosme e Damião vem sofrendo mudanças devido à recusa dos evangélicos em receber o doce. Mas, além do fato de que Cosme e Damião foram sincretizados no Brasil com os Ibeji e que os evangélicos rejeitavam o doce justamente por conta desse sincretismo, praticamente nada sabíamos sobre essa devoção e suas origens. Pesquisar as origens do culto desses santos é encarado por nós, então, como um desafio.

Celeno de Figueiredo (1953, p. 5), na introdução de sua obra, afirma que escrever sobre os santos gêmeos é um desejo da mocidade, não realizado há mais tempo, “em virtude da inegável escassez de literatura”. Acreditamos que, ainda hoje, embora passadas décadas desde o seu trabalho, há escassa biografia sobre esse tema em relação à força que essa devoção continua demonstrando no Brasil.

O culto aos santos

Como sabemos, nos inícios do cristianismo, o termo “santo” (que significa separado) era usado de forma geral para se referir aos cristãos. Para se verificar isso basta dar uma olhada rápida nas saudações das epístolas (BÍBLIA, 1993, 1 Coríntios 1: 2 e Efésios 1: 1, e. g.). Com o tempo, esse termo passou a designar as pessoas na comunidade cristã dignas de admiração por alguma virtude ou feito particular. O problema, como coloca Bárbara Lucas (1969, p. 417), ocorre porque “com o tempo, grande número de lendas […] começou a envolver alguns dos santos”, como resultado disso, “a Igreja decidiu que no futuro só se deveriam aceitar como santas as pessoas que fossem formalmente declaradas como tais pelo Papa. Dá-se a isso o nome de Canonização”. O processo visa constatar se o candidato possui uma “virtude verdadeiramente heroica” (Lucas, 1969, p. 418).

As honrarias católicas dos santos e o próprio processo de canonização, a nosso ver, devem-se muito a heroização que os romanos faziam de seus entes falecidos: “tais crenças eram largamente tributárias aos usos tradicionais por meio dos quais os pagãos honravam seus defuntos e especialmente aquêles que criam promovidos à heroização” (Danieloo; Marrou, 1966, p. 320, sic).

O culto dos mártires

Luiz Mott (1994, p. 4) propõe uma tipologia dos santos adorados no Brasil Colonial: “Mártires, Clérigos e Religiosos, Santas Mulheres, concluindo com uma relação dos que tiveram a má sorte de serem considerados Falsos Santos”. A devoção a Cosme e Damião se enquadra no culto aos mártires, pois “chama-se mártir quem derrama seu sangue pela causa de Cristo” (Martins, 1954, p. 5). Claro que não só no cristianismo existem mártires, o mártir cristão seria caracterizado por uma atitude especial ao enfrentar o martírio. Mondoni (2001, p. 56) procede à caracterização do mártir cristão:

[…] não procurava o perigo, mas quanto possível o evitava, […] enfrenta a morte não como cortejo triunfal, mas numa via solitária e em pleno abandono […]; sua fortaleza aparecia não do desejo do sofrimento, mas da serenidade com que ia ao encontro do fim inevitável.

Para o estudo da vida dos mártires, podemos contar com os seguintes documentos: Acta, Passio, Gesta (narrações posteriores às perseguições com justaposição de elementos históricos e lendários) (Mondoni, 2001, p. 56). São critérios para historicidade de um mártir: testemunho direto (Acta, Passio3), inscrição tumular com o qualificativo ‘mártir’, traços seguros de um antigo culto (basílica, cemiterial), menção nos antigos martirológios (Mondoni, 2001, p. 56-57).

Martirológio era, basicamente, “um fichário ou catálogo daqueles que com, com sangue, abonaram o testemunho de sua fé em Cristo. Os antigos martirológios constituíam uma espécie de calendário litúrgico” (Martins, 1954, p. 5). O Martirológio Romano consiste da junção dos vários martirológios regionais, sendo considerado definitivo o texto de Barônio, que depois foi muitas vezes revisto, corrigido e ampliado, tendo sido atualizado pela última vez em 1922, por ordem de Bento XV. Ele é um dos livros litúrgicos oficias da igreja, os quais são, a saber: Missal, Breviário, Ritual Pontifical, Cerimonial e Martirológio.

Claro que no Martirológio Romano “Alguns dados são passíveis de revisão histórica […]. A Santa Igreja desde muito procura escoimá-lo de erros e inexatidões históricas” (Martins, 1954, p. 6). Aliás, “A Igreja é a primeira a querer a verdade histórica. Mas convenhamos. Corrigir não é arrasar, sem mais nem menos, textos venerandos” (Martins, 1954, p. 7).

Foxe4 (2005, p. 13) lembra que ao fundar sua igreja Cristo deixou claro que haveria perseguição, mas que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela. Assim deve-se ler a história dos mártires como “proveito do leitor e da edificação da fé cristã” (Foxe, 2005, p. 14). Para esse autor:

As causas de tanta perseguição aos Cristãos por parte dos imperadores romanos foram principalmente estas: o medo e o ódio. Primeiro o medo, porque os imperadores e o senado, por ignorância cega, […] temiam e desconfiavam que ele (Cristo) pudesse subverter o seu império. Por isso buscaram todos os meios possíveis […] para extirpar totalmente o nome e a memória dos cristãos. Em segundo lugar, o ódio em parte porque este mundo […] sempre odiou e tratou com maldade o povo de Deus […] Em parte, porque os cristãos, tendo uma natureza e uma religião contrária às dos imperadores […] desprezavam os seus falsos deuses […] e muitas vezes detiveram o poder de Satanás que agia nos seus líderes […]. Por isso, Satanás […] instigou os príncipes romanos e os idólatras cegos a nutrir contra eles um ódio e despeito cada vez maiores (Foxe, 2005, p. 25)

O mais seguro documento acerca de um mártir são as atas: “Para nosso objeto é importante notar uma formalidade que não faltava em nenhum processo: as atas”5 (Bueno, 2003, p. 136, tradução livre). Convém-nos aqui esclarecer, portanto, de que se constitui esse documento:

“As atas dos mártires não são outra coisa que a transcrição exata, ou pouco menor, dos processos verbais redigidos pelos pagãos e conservados nos arquivos oficiais, transcrição que os cristãos recuperavam por diversos meios, por exemplo, a compra a os agentes do tribunal”6 (Bueno, 2003, p. 136, tradução livre).

Essas atas eram obtidas pelas comunidades cristãs através da compra. Mas uma ata, claro, como tudo que é valioso, “era objeto de engano e falsificação”7 (Bueno, 2003, p. 137, tradução livre).

Para Danieloo e Marrou (1966, p. 320), “não resta dúvida que já se conhecia [o culto aos mártires] […] desde o final do segundo século, e de alguma forma se oficializara na Igreja Cristã”, mas sublinham que no quarto século “O fato mais considerável é o desenvolvimento realmente exuberante do culto dos mártires”, desenvolvimento motivado pelo fim das grandes perseguições e pela paz constantiniana.

O arquétipo dos gêmeos

Divindades duplas, gêmeas ou não, aparecem na cultura e na literatura de muitos povos da Antiguidade: Castor e Polux entre os gregos, Osíris e Seth no Egito, Rômulo e Remo em Roma, Vishnu e Lakshmi, na Índia (cf. Araújo, 2010, p. 1); “estes seres costumam ser divindades benfeitoras” (Cirlot, 1984, p. 274). Aliás, “todos os heróis gêmeos da cultura indo-européia são benéficos” (Chevalier, 1997, p. 466). No Candomblé também existe o orixá Ibeji, “representado pelos gêmeos na África, sendo estes sagrados” (Cacciatore, 1988, p. 141), com quem Cosme e Damião foram sincretizados. Ibeji8 significa gêmeos, sendo o orixá Ibeji, o único permanentemente duplo.

Então, Cosme e Damião seriam mais uma manifestação do arquétipo dos gêmeos, presente “na maioria de tradições primitivas e de mitologias relativas às altas culturas” (Cirlot, 1984, p. 273), o que haveria permitido seu sincretismo com os Ibeji. Isso nos levaria a pensar o sincretismo, como fez Pedro Iwashita (1991), a partir de conceitos jungianos. Mais exatamente a partir da psicologia dos arquétipos. Isso significa que foi possível o sincretismo entre os santos e orixás, por serem equivalentes “para a experiência humana, no seu sentido profundo e existencial” (Iwashita, 1991, p. 247). Assim, perguntar pelas origens do culto de Cosme e Damião não significaria apenas estabelecer e fixar uma data, mas verificar a força desse arquétipo.

Para Cirlot (1984, p. 274), “O sentido simbólico mais geral dos gêmeos é que um significa a porção eterna do homem […], a alma; e o outro a porção mortal”. Isso faz muito sentido em relação a Cosme e Damião, pois se, como médicos, buscavam a cura do corpo, essas curas objetivavam a conversão, ou seja, a cura também da alma.

Essa recorrência da figura dos gêmeos em várias lendas e mitologias teria origem em personagens históricos que foram depois mitologizados? Acreditamos que possa ter tido origem em diversos personagens históricos em diversas culturas. Entendemos que a pergunta pela motivação dessa recorrência possa ser respondida não na perspectiva histórica, mas na esfera existencial. “Todas as culturas e mitologias testemunham um interesse particular pelo fenômeno dos gêmeos” (Chevalier, 1997, p. 465). O nascimento de gêmeos envolvia um mistério que causava espanto nos povos antigos.

A Vida de Cosme e Damião

Cosme e Damião são santos católicos que foram médicos9 e, por isso, são tidos como protetores das crianças. Eles teriam exercido a medicina sem nunca cobrar nada, por isso são chamados de “anargiros”, ou seja, que não são comprados por dinheiro. Conforme Figueiredo (1953, p. 7), teriam conhecido o cristianismo através de sua mãe Teódota, que os criou na fé cristã. Nos livros litúrgicos ocidentais10 sua festa foi fixada a 27 de setembro11. Uma reforma litúrgica no ano de 1969 moveu sua comemoração para o dia 26 de setembro, contudo o povo mantém a devoção no dia 27. O padre Michelino Roberto explica que “pelo calendário oficial da igreja, a festa é celebrada no dia 26. Mas o povo prefere 27, data da inauguração da basílica que o papa Félix IV mandou erguer para os dois em Roma, no ano 500” (Roberto, 2000). Na fala do padre Josevaldo, pároco da Igreja de Cosme e Damião na Liberdade, Salvador (BA), parece haver a necessidade de frisar a diferença das datas para combater o sincretismo com as religiões afro:

No candomblé, explica o padre, o dia de homenagear as crianças ou seja a falange de Ibejí é dia 27, enquanto que na igreja católica o dia de Cosme e Damião é 26. Mas, no imaginário popular ficou marcado mesmo o dia 27, explicou o padre. (Sodré, 2012).

São santos do século III cuja data de nascimento é incerta, como, aliás, vários outros aspectos de suas vidas. “Devemos, pois, contentar-nos com as poucas noticias que a seu respeito se extrahiram de varios autores de reconhecida probidade”, como lemos na obra Vidas de S. Cosme e Damião e S. Cesário, Médicos da Federação das Congregações Marianas de São Paulo (1935, p. 3, sic), na qual temos essa descrição de como eles procediam para ocorrer a cura: “começavam por fervorosa oração. Informando-se da natureza do mal, faziam sobre o enfermo o signal da cruz, e com isto, em geral, sem necessidade de remédios, […] o paciente via-se restituído a saúde” (Federação de…, 1935, p. 4, sic) . Essa obra, de cunho devocional, tem, na verdade, por pressuposto, que “As enfermidades do corpo vêm por castigo das desordens da alma”, assim, “Aplaque-se a ira de um Deus ofendido e recobrará saúde o enfermo” (Federação…, 1935, p. 6), e, assim, seu intento é o incentivo à prática da confissão.

Seus atos caridosos que eram motivo de conversões ao cristianismo “não passaram despercebidos aos inimigos da fé cristã” (Basacchi, 2003, p. 7). Denunciados pelo procônsul Lísias, acusados de serem “inimigos dos deuses”, foram mortos por ordem do imperador Diocleciano por não se curvarem diante dos deuses pagãos. Uma tradição diz que foram alvejados por dardos, mas miraculosamente os dardos se desviaram deles, por isso depois foram decapitados12. “O Passio descreve-os como sendo queimados, apedrejados, serrados, e finalmente decapitados13, mas isto é pura lenda14” (Cosmas…, 1967, p. 361, tradução livre). Outra tradição conta que eles foram atirados de sobre um despenhadeiro. “Seus restos mortais, segundo consta, encontram- se em Ciro na Síria, repousando numa basílica a eles consagrada. Da Síria o seu culto alcançou Roma e dali se espalhou por toda a Igreja do Ocidente” (Cosme…, 2013, s/p). Depois, no século VI, uma parte das Relíquias foi levada a Roma e está na igreja que adotou seus nomes. “Outra parte foi guardada no altar-mor da igreja de São Miguel, em Munique, na Baviera” (Encyclopedia…, 1997, p. 449).

Embora muitas lendas tenham sido agregadas a história de seu martírio, podemos acreditar que tenham realmente sofrido muitas torturas15, conforme afirma Foxe (2005, p. 26):

Os tiranos […] não se contentavam apenas com a morte […]. Tudo o que a crueldade da invenção do homem pudesse conceber para castigar o corpo humano era posto em prática contra os cristãos […] os seus corpos eram amontoados e junto a eles deixavam cães para guardá-los a fim de que ninguém pudesse vir dar-lhes sepultura.

Mas a ênfase dada nos relatos da igreja sobre a intensidade do sofrimento por que eles passaram mostra a clara intenção de impressionar os fiéis. No Martirológio Romano (Vaticano, 1954, p. 222), sobre o dia 27 de setembro, lê-se sobre eles:

Em Egéia, o natalício dos santos irmãos mártires Cosme e Damião, que, com o auxílio de Deus, aturaram muitos tormentos, grilhões, cárceres, águas, fogueiras, cruzes, pedras, e flechas, antes de serem degolados na perseguição de Diocleciano. Conta-se que, com eles, padeceram três irmãos seus: Ântimo, Leôncio e Euprébio.

Conforme Danieloo e Marrou (1966, p. 400, 401), “Nos anos que seguem ao Concílio de Éfeso16, desenvolve-se o culto, até então estritamente local dos Santos Cosme e Damião”. Assim, o desenvolvimento dessa devoção segue o grande crescimento do culto aos mártires, ocorrido com o fim das grandes perseguições.

Conforme a historiadora Ignez Aquiar o culto aos irmãos foi introduzido no catolicismo pelo papa São Félix que mandou trazer os corpos dos santos para Roma, colocando-os no cemitério da igreja de Santa Cecília, dando início à veneração dos santos na Itália e por toda a Europa. A fé dos devotos nos santos gêmeos era tanta, que apareceu uma relíquia curadora – o óleo de São Cosme e Damião, cuja distribuição nas igrejas católicas predominou até 1780. Como ritual para curar-se, […] o doente ia à igreja, expunha a parte afetada diante da imagem junto ao altar dos santos, uma rezadeira esfregava o óleo no local doente, rezando: Per intencessionem beati Cosmi, liberetabomni malo. Amém, destaca a pesquisadora. (Aquiar apud Pernambuco…, 2011, s/p).

O óleo também serviria para dar filhos a mulheres estéreis (Basacchi, 2003, p.8

O culto na Europa e a Basílica de Cosme e Damião em Roma

Ainda que seja difícil precisar uma data de início do culto, “Sabemos que o culto aos dois irmãos é muito antigo, pois no século V já existiam escritos sobre eles” (Basacchi, 2003, p. 8). Conforme o Dicionário Patrístico (Di Berardino, 2002, p. 347), “Teodoreto de Ciro (458 d. C.) é o primeiro a falar do culto dos santos ‘anárgiros’, culto prestado na cidade sede de seu episcopado”, conforme ele menciona em uma carta, havia, em 434, um local dedicado aos santos em Ciro, no norte da Síria (Harrold, 2007, 28). Harrold (2007, p. 26, tradução livre) considera que:

Sem nenhuma prova histórica dos verdadeiros santos denominados Cosme e Damião, as origens do culto são impossíveis de identificar com absoluta certeza, mas um quadro pode ser construído da evidência proveniente pelas notações litúrgicas, documentos históricos e os primeiros lugares de adoração e as coleções associadas de milagres. Além disso, o rápido alastramento do culto popular obscureceu suas origens17.

A primeira data disponível aos hagiógrafos é, portanto, uma omissão (Harrold, 2007, p. 27). Mas sabe-se que “os santos doutores eram certamente conhecidos bem o bastante no início do século quinto para um santuário ter sido construído em honra deles18” (Harrold, 2007, p. 28, tradução livre). A autora segue citando várias construções feitas aos gêmeos e, então, levanta uma hipótese:

[…] dentre estas primeiras dedicações é possível levantar a hipótese de um ponto geográfico inicial para o culto […] há alguma evidência apoiando a crença na existência da tumba dos dois na região de Ciro, no norte da Síria de uma data antiga”19 (Harrold, 2007, p. 30, tradução livre).

Daí, a “adoção dos santos em muitos lugares seguiu rapidamente. Por exemplo, por meados do século V, ao mínimo duas igrejas dedicadas aos SS. Cosme e Damião tinham sido erguidas em Constantinopla20” (Harrold, 2007, p. 28, tradução livre).

Porém, como se sabe, há uma basílica que o “papa Félix IV mandou construir em honra deles no Foro Romano […]. Da Síria o seu culto alcançou Roma e dali se espalhou por toda a Igreja do Ocidente”, sendo que com a “meta mais de turistas que de devotos, pelo esplêndido mosaico que lhe decora a abside” (Cosme…, 2013, s/p). Assim, a Basílica de SS. Cosme e Damião em Roma21 é importante para o estudo do desenvolvimento e expansão da devoção. Teodorico, o Grande, rei dos Ostrogodos e a sua filha Amalasunta, doou ao papa Félix IV, em 527 d. C., a biblioteca do Templo da Paz (Bibliotheca Pacis) e também uma parte do Templo de Rómulo. Félix IV uniu os dois edifícios e criou a basílica dedicada aos dois santos gregos Cosme e Damião, um contraste ao culto pagão a Castor e Pólux, outrora adorados num templo situado no Fórum Romano (Basilica…, s/d)22. A fundação da igreja está descrita no LiberPontificalis:

“Aqui ele erigiu a basílica dos Santos Cosme e Damião no lugar chamado Via Sacra, perto do templo da cidade de Roma”(apud Harrold, 2007, 34, tradução livre)23.

Como coloca Harrold (2007, p. 34, 35), não se sabe as razões exatas porque essa igreja foi construída nessa área, mas podem-se levantar algumas especulações. Aliás, a área em que foi construída a Basílica não era populosa. No começo do quinto século mostrava-se interesse pelos santos orientais (uma igreja à Santa Anastácia é dedicada também nessa época). Acreditamos que é bom o argumento de que a igreja intencionava competir e combater cultos pagãos de cura que ocorriam na mesma área. “A locação da igreja, no lado oposto do fórum para os centros devocionais dedicados a Dioscuri e Asclépio, pode ter intentado providenciar uma alternativa cristã a  estes lugares” 24 (Harrold, 2007, p. 35, tradução livre).

O culto de Cosme e Damião em Portugal

Augusto da Silva Carvalho, em 1928, escreveu O Culto de Cosme e Damião em Portugal e no Brasil – História das Sociedades Médicas Portuguesas. Segundo ele, a devoção a esses santos em Portugal está muito  ligada ao  fato das confrarias se constituírem naquele país principalmente reunindo pessoas de uma mesma profissão em volta de um santo protetor. A escolha pelos médicos dos santos Cosme e Damião como patronos entre tantos outros santos médicos (Carvalho faz uma longa lista) deve-se ao fato de que eles, além de terem sido médicos, foram santos. Por isso, para Carvalho, acompanhar essa devoção em Portugal termina por desembocar em falar da história das sociedades médicas.

Conforme Carvalho (1928, p. 3), “Nos séc. XII e XIII o culto dos dois santos espalhou-se pela Europa Central e Ocidental”. Como padroeiros dos médicos, nota-se que o prestígio da medicina e dos santos estão relacionados. Carvalho (1928, p. 7) nota que “Na Itália o culto dos dois irmãos foi muito extenso”, extensão relacionada “a alta consideração que na Itália tinham pelos médicos”. Assim, a manutenção do culto dos santos e crescimento por obra de confrarias não é algo peculiar ao país lusitano.

Por serem padroeiros dos médicos, um dos materiais para pesquisa dessa devoção em Portugal é um tanto inusitado: os livros de medicina. “Nos livros de medicina publicados em Portugal encontram-se muitas referências aos patronos dos médicos e algumas vezes até esses livros lhes foram dedicados” (Carvalho, 1928, p. 17). Contudo, estudar em Portugal esse culto a partir da devoção às relíquias não é tão promissor porque Portugal é “muito pobre em relíquias dos dois santos” (Carvalho, 1928, p. 15).

Conforme Carvalho (1928, p. 9), “Em Portugal o culto dos dois santos data dos primeiros tempos da monarquia, ou melhor, começou antes da constituição do nosso reino”. Vestígios disso são quadros, monumentos e documentos, incluindo testamentos onde o falecido deixava alguma imagem de santos para um herdeiro. Devoção realmente muito antiga, já em 568, numa freguesia de Azar ou Azere, “no actual concelho dos Arcos de Val houve um mosteiro de frades bentos dedicado a Cosme e Damião” (Carvalho, 1928, p. 21, sic). Em Portugal também “Foi uso em tempos dar a gémeos os nomes dos dois santos” (Carvalho, 1928, p. 17), uso que continua no Brasil. Parece mesmo que os pais portugueses destinavam os filhos à medicina desde o berço dando-lhes o nome desses santos, e “Algumas vezes os médicos e cirurgiões escolhiam para seus filhos os mesmos nomes” (Carvalho, 1928, p. 18), demonstrando não só sua devoção aos santos, mas o desejo de que os filhos seguissem na mesma devoção. Assim, uma família de médicos seria também uma família de devotos.

No entanto, a veneração dos patronos dos médicos não é encontrada somente nos grandes centros, onde haveria concentração tanto de médicos como dos cursos de medicina, mas também “nas mais humildes aldeias, em tôscas e pobres capelas, onde os oragos são representados por ingénuas imagens, em que os sapateiros de província consubstanciaram as lendas e tradições do povo humilde daqueles lugarejos” (Carvalho, 1928, p. 20, sic). Assim, outros profissionais responsáveis pela popularidade dos santos são os sapateiros, que se não têm o mesmo prestígio que os médicos estão mais próximos do povo das aldeias do que aqueles.

Carvalho segue em seu livro listando várias localidades, pequenas aldeias, com nomes dos gêmeos ou nomes derivados dos deles (Cosmode, por exemplo), assim, ele nos mostra que a toponomia e a antroponomia são estudos importantes para acompanhar a expansão da devoção, o que serve certamente também para o caso brasileiro. Aliás, “No Brasil ha várias localidades com o nome dos dois mártires” e “Nos nomes de homens tambêm se encontra vestígio do culto dos mesmos santos” (Carvalho, 1928, p. 54, sic).

A origem do culto de Cosme e Damião em Igarassu e no Brasil

Como sabemos o catolicismo brasileiro é santorial, a ponto de que em “certas casas mais devotas, podemos encontrar folhetos de cordel, quadros ou até imagens reproduzindo a figura de alguns destes santos mais populares” (Mott 1994, p. 3). E catolicismo santeiro brasileiro tem suas origens na religiosidade ibérica, pois “Portugal e Espanha costumavam disputar entre si para saber qual dos reinos ostentava o maior número de santos e beatos reconhecidos” (Mott, 1994, p. 4). Assim, é um tanto natural que a devoção aos santos gêmeos, trazida pelos portugueses, tenha se fixado e se expandido em solo brasileiro.

A Matriz dos Santos Cosme e Damião de Igarassu25, Pernambuco, de 1535, “considerada uma das principais relíquias da arte colonial brasileira” (Basacchi, 2003, p. 9), é a igreja mais antiga26 do Brasil ainda em atividade.

No dia 27 de setembro de 1530, dia dos Santos Cosme e Damião, com a expulsão dos índios, pelos portugueses, das terras margeantes ao Rio Igarassu, inicia-se o processo de ocupação de Pernambuco. A Construção da Vila de Igarassu é, assim, a marca original da cultura portuguesa nesta região do país. (Programa…, 1979, p. 15).

As despesas para sua edificação correram por conta do Capitão Afonso Gonçalves, que, em carta ao rei de Portugal, datada de 10 de maio de 1548, diz textualmente: “Senhor eu quisera os dízimos desta igreja para os gastar nela e em coisas necessárias para o culto divino e ornamentos, pois sou fundador dela e a fiz à minha custa própria” (Pereira da Costa, 1983, p. 248, 249).

A capela primitiva, provavelmente em taipa, ruiu por volta de 1590/94, segundo informação contida no livro “Primeira Visitação do Santo Ofício: Denunciações e Confissões de Pernambuco”. No mesmo sítio e obedecendo a um alvará real datado de 11 de novembro de 1595, foi construída entre 1595/97, uma nova capela, desta vez de pedra e cal. Hoje, após processo de restauração iniciado em 1958, a igreja recuperou suas características primitivas (Prefeitura de Igarassu, 2010, p. 9).

O professor C. Smith, titular da Cadeira de História da Arte na Universidade da Pensilvânia, nos informa: “A igreja paroquial dos Santos Cosme e Damião, fundada em 1535, foi ampliada no século XVIII por ter sido considerada como a mais antiga do Brasil e o dinheiro usado proveio dos cofres reais” (Biblioteca…, 2011, p. 14). Nos Anais Pernambucanos lemos acerca da conquista dessa terra e acerca dessa igreja:

Dêste porto dos marcos, escreve Jaboatão, saiu Duarte Coelho, e deixando esse braço do rio que cerca a ilha de Itamaracá pelo poente e buscando outra vez o mesmo rio para o sul pouco mais de uma légua, navegando por êle acima duas ao mesmo poente ou meio dia, deram fundo e saltaram em terra, não sem grande oposição do gentio, que no alto, à margem daquele porto tinha uma mui forte e abastada aldeia, que depois de larga resistência, combates e pelejas, foram vencidos e afugentados os seus habitadores. Foi a última vitória a vinte e sete de setembro, dia dos gloriosos mártires Santos Cosme e Damião, e a sua memória consagraram logo aquêle lugar, levantando nêle igreja sua e dando princípio a uma povoação, que depois passou a vila com os nomes dos santos mártires, e foi a primeira da capitania de Pernambuco. […] Aquela igreja, com a invocação dos referidos santos, já estava construída em 1548, como se vê de uma carta de Afonso Sanches, seu fundador, dirigida ao rei a 10 de maio daquele ano, e teve depois a categoria de matriz com a criação da paróquia de Igarassu, em época porém desconhecida; mas como se vê da Informação da Província do Brasil, do Padre José de Anchieta, escrita em 1585, já então estava ereta e canônicamente provida […].(Pereira da Costa, 1983, p. 170-176, sic).

Num dos painéis27 da igreja28 retratando a vitória sobre os índios caetés lê-se:

Vencidos os índios pelos Portuguezes em o dia dos Santos Cosme e Damião, em reconhecimento de tão grande benefício, no mesmo lugar da vitória, que he este de Iguaraçú, fundarão logo este templo, o primeiro que houve em Pernambuco, e o consagrarão aos gloriosos Santos, d’onde forão sempre continuas suas victorias e maravilhas, e debaixo da proteção dos mesmos Santos fundarão esta villa, que também foi a primeira que houve (Igreja…, 1729, s/p, sic).

Augusto da Silva Carvalho (1928), porém, no seu O Culto de S. Cosme e S. Damião em Portugal e no Brasil, não faz nenhuma referência a essa igreja, o que é uma grande falha em sua pesquisa, que a respeito do culto desses santos em Portugal é tão rica de detalhes. Uma das riquezas da obra de Carvalho, no entanto, sobre essa devoção no Brasil, é recuperar a memória da existência de confrarias dedicadas aos gêmeos. Conforme ele, as confrarias “constituíram-se e mantiveram-se durante muito tempo com a designação do santo patrono de cada profissão” (Carvalho, 1928, p. 1).

A escolha dos santos gêmeos para serem os patronos dos médicos no meio de tantos santos que também se dedicaram a medicina (entre os quais S. Lucas, evangelista) explica- se por serem eles mártires. Por extensão, se tornaram santos de todos profissionais da área da saúde. Interessante terem sido tomados também como padroeiros dos sapateiros. Jaime Sodré, em vídeo a TVE Bahia, explica que isso se deve a eles, como médicos, terem feito botas de funções ortopédicas (na azulejaria portuguesa do interior da capela do Convento de Santo Antônio em Igarassu, há a figura deles cuidando da perna de um homem usando desse artifício). Acreditamos que também se deva a associação feita entre Cosme e Damião e Crispim e Crispiniano29, mártires também do século III, patronos dos sapateiros devido a um trocadilho feito entre seus nomes e a palavra grega para sapatos (Di Berardino, 2002, p. 358).

Diferente de Portugal, no Brasil não perecia ter havido confrarias dedicadas a Cosme e Damião, já que o autor não encontrara memória30 delas na população que investigara; “no entanto existem documentos que provam sua existência” (Carvalho, 1928, p. 56). Trata-se dos documentos do Santo Ofício referentes a Manuel Mendes Morforte e Francisco de Siqueira Machado. O primeiro veio à baía em 1698, e lá se tornou irmão da Confraria de S. Cosme e S. Damião e mandou dourar o retábulo da capela desses santos. O segundo, cristão novo, natural do Rio de Janeiro, para provar sua crença na religião católica, lembra, durante o interrogatório, que quando no Rio de Janeiro estava quase extinta a irmandade dos gêmeos, ele que se esforçou para que ela se restabelecesse (Carvalho, 1928, p. 56,57). Em entrevista, o professor Jorge Barreto, diretor do Museu Histórico de Igarassu, afirmou-nos haver nas dependências do Museu, onde funciona o Departamento de Pesquisa Histórica, uma prestação de contas, datada de 1854, da Irmandade de São Cosme e Damião, já dando sinais de falência. Segundo ele, a Irmandade não alcançou a República31.

No Rio de Janeiro32 pareceria “haver uma devoção por estes santos na Igreja de Gonçalo Garcia e S. Jorge, sita na Praça da República. Mas noutros estados a devoção é mais viva e sobretudo na população portuguesa é conservada como grande amor” (Carvalho, 1928, p. 57). É na Bahia, contudo, onde a devoção é mais intensa, onde “não ha casa de gente do povo que não tenha as imagens dos santos, muito tóscas e ingénuas” (Carvalho, 1928, p. 58, sic). Em Salvador, a devoção aparece ligada ao candomblé, onde se distribui o caruru, iguaria feita de quiabo e camarão. Como explica o professor Jaime Sodré (apud Caruru…, 2012), por serem vistos como meninos nas religiões afro, Cosme e Damião têm uma ligação muito especial com os orixás, pois “não tem orixá que não vá ouvir o canto de um menino”. Na zona rural da Bahia, como mostra o documentário Bahia Singular e Plural (Cosme…, 2012), é comum a prática do “Lindro Amor”, quando homens e mulheres saem33 de casa em casa cantando, usando chapéus enfeitados com folhas de seda, e duas crianças à frente levando uma caixa enfeitada contendo a imagem dos santos e flores, para arrecadar donativos (dinheiro, mantimentos, velas…) para fazer a festa.

Como frisamos, a devoção foi trazida ao Brasil de Portugal, onde em muitas de suas localidades “os santos eram invocados para proteger os que faziam longas viagens”, como a devoção aqui chegou “pelos que os tinham como patronos dos navegantes […] o seu culto se radicou sobretudo na beira-mar” (Carvalho, 1928, p. 58). Devoção trazida pelos portugueses e que se espalhou pelo litoral, depois se interiorizou com o garimpo. Os negros eram a grande “máquina” produtiva do garimpo, e, reduzidos a “coisa”, tinham que – como forma de resistência cultural – “sincretizar seus orixás com os santos católicos que lhe foram impostos” (Araújo, 2010, p. 2). Sincretismo esse que perdurou até os dias de hoje, fazendo parte da religiosidade popular do povo brasileiro.

Conclusão

Como no início deste texto, gostaríamos de novamente lembrar a literatura de cordel do Frei Urbano de Souza (1991, p. 23):

É religiosidade
De roupagem popular
Espiritualidade
Com certeza aí está
Toda a criatividade
De nossa modernidade
Muito tem a escutar

O que achamos importante destacar, ao chegar agora ao final desse texto, é que a devoção a Cosme e Damião, tão antiga, como mostramos, no Brasil ainda permanece viva, principalmente na religiosidade popular.

Notas:

Notas:

1 Texto referente a uma comunicação apresentada na 2ª Semana de Ciência da Religião da UFJF realizada entre os dias 16 e 19 de setembro de 2013.

2 Doutorando em Ciência da Religião pela UFJF. Bolsista CNPq

3 Interessante que Acta e Passio sejam atribuídos como os “verdadeiros” nomes de Cosme e Damião.

4 Foxe escreve de dentro do seio protestante, assim, é claro que ele assume o pensamento de o protestantismo é o verdadeiro herdeiro da fé dos mártires, por isso, ele inclui no seu “livro dos mártires” nomes como os de William Tyndale, John Wyclif e John Huss.

5“Para nuestro objeto es importante notar uma formalidade que no faltaba em ningún processo: las actas”.

6 “Las actas de los mártires no son otra cosa que la transcripcion exacta, o poco menor, de los procesos verbales redactados por los paganos y conservados em los archivos oficiales, transcripción que los cristianos reprocuraban por diversos médios, por ejemplo, la compra a los agentes del tribunal”

7“era objeto de trampa e falsificación”

8 Conforme Cacciatore (1988, p. 141) o termo advém do iorubá: “ìbi” – parto; “èji” – dois. A Enciclopédia Barsa (Encyclopedia…, 1997, p. 449) informa que “No Rio Grande do Sul, os Ibejis são denominados Beifes”.

9 Conforme Figueiredo (1953, p. 8), eles se dedicaram a curar não apenas os homens, mas também os animais.

10 Estes são “O Liberorationum visigodo, dos inícios do séc. VIII, o sacramentário Leonino, o Gregoriano de Pádua, o Calendário de Nápoles” (Di Berardino, 2002, p. 347).

11 Já “O sinaxário de Constantinopla contém a 1º de julho três pares de santos homônimos”, ao passo que numa paixão grega sua data aparece como 25 de novembro (Di Berardino, 2002, p. 347).

12 Na imaginação do poeta Frei Urbano de Souza (1991, p. 18), eles morreram abraçados: “Eles então se abraçam/ No auge da santidade/ A Deus do céu adoraram/ Em espírito e em verdade”. Lembrando a clássica distinção aristotélica entre poesia e história, como poeta, ele tem o direito de cantar o que poderia ter sido, diferente do historiador, que tem o dever de contar o que foi.

13 Um dos milagres dos santos doutores teria sido que após serem decapitados, a cabeça deles voltou a se encaixar sobre o pescoço. Esse milagre seria para gente “não perder a cabeça”, ou seja, não perder o juízo.

14 “The Passio describes them as being burnt, stoned, sawed, and finally decapitated, but it is pure legend”

15 Harrold (2007, p. 26) propõe dividir o estudo sobre esses santos entre a tradição latina e bizantina, conforme Harrold (2007, p. 28), no Ocidente desenvolveram-se menos lendas do que na tradição do Oriente.

16 O Primeiro Concílio de Éfeso foi realizado em 431 na Igreja de Maria em Éfeso, na Ásia Menor. Foi convocado pelo imperador Teodósio II e debateu sobre os ensinamentos cristológicos e mariológicos.

17“With no historical proof of actual saints named Cosmas and Damian, the beginnings of the cult are impossible to identify with absolute certainty, but a picture can be built up from the evidence provided by liturgical notices, historical documents and the earliest locations of worship and associated collections of miracles. The rapid spread of the popular cult further obscured its origins”.

18 “doctor saints were certainly known well enough by the early fifth century for a sanctuary to have been built in their honour”

19 “From amongst these early dedications it is possible to hypothesize a geographic starting point for the cult (…) there is quite a bit of evidence supporting the belief in the existence of the tomb of the saints in the region of Cyrrhus in northern Syria from an early date”.

20“The adoption of the saints in many places quickly followed. For example by the mid fifth century at least two churches dedicated to SS. CosmasandDamianhadbeenbuilt in Constantinople.”

21                       Há                       várias                       imagens                          disponíveis         em:

<http://www.franciscanfriarstor.com/archive/theorder/Basilica/index.htm>. Acesso em 21 nov. 2014.

22 As pinturas e o texto desta página da internet são a reprodução permitida do livro The Basilica of Santi Cosma e Damiano e é propriedade da FranciscanFriars.

23″Hic fecit basilicam sanctorum Cosmae et Damiani in urbe Roma, in loco qui appellatur II Via Sacra, iuxta templum urbis Romae.”

24“The location of the church, on the opposite side of the forum to devotional centres dedicated to the Dioscuri and Asklepios, could have been intended to provide a Christian alternative to these places”

25 “A localidade que recebeu o nome de Igarassu, corruptela de Ygara-açu, barco grande, navio, canoa grande, originário dos índios, vem do fato, como escreve Teodoro Sampaio, de ser o porto, desde os primeiros anos da colônia, visitado por barcos que o atingiam com o percurso da maré” (Silva; Alheiros, 1986, p. 10).

26 Silva (2011) haverá de negar essa afirmação advogando em favor da Igreja de Nossa Senhora do Monte em Olinda.

25 “A localidade que recebeu o nome de Igarassu, corruptela de Ygara-açu, barco grande, navio, canoa grande, originário dos índios, vem do fato, como escreve Teodoro Sampaio, de ser o porto, desde os primeiros anos da colônia, visitado por barcos que o atingiam com o percurso da maré” (Silva; Alheiros, 1986, p. 10).

26 Silva (2011) haverá de negar essa afirmação advogando em favor da Igreja de Nossa Senhora do Monte em Olinda.

27 São quatro painéis, todos de 1729: o primeiro retrata vitória sobre os índios caetés, marco da fundação da cidade; o segundo, a construção da Igreja; o terceiro, a invasão e saque de Igarassu pelos holandeses, (ocorrida em 1632, os holandeses ao terem tentado saquear as telhas do telhado da Igreja de Cosme e Damião, teriam sido surpreendidos pela aparição dos santos numa nuvem e, pelo esplendor dos santos, caíram cegos); o quarto painel retrata a peste de febre amarela de 1685 (Igarassu, diferente das cidades suas vizinhas, esteve ilesa a esta peste, o painel retrata várias cidades sendo invadidas pela morte – retratada como tradicionalmente com um esqueleto com uma foice, enquanto em Igarassu os santos, postos nas fronteiras, barram a entrada da morte na cidade. Esses painéis foram transferidos para o Museu Pinacoteca de Igarassu, que funciona no Convento de Santo Antônio, em 1969, para fins de melhor preservação.

28 Não é acessível a todos viajar para Igarassu para conhecer essa igreja, mas é possível “visitar” seu interior         virtualmente   através    de              um                        vídeo                       disponível       em:

<http://www.youtube.com/watch?v=8szLsX1HV2M>. Acesso em 21 nov. 2014.

29 Na Bahia, Crispim e Crispiniano também foram sincretizados com os Ibêjis, por isso, no dia 25 de outubro, dia desses santos, ocorre comemorações como as feitas a Cosme e Damião, porém, com menor intensidade.

30 Seria o caso de perguntarmos quais forças operaram ou contribuíram para que operasse esse esquecimento. Quais razões e circunstâncias motivaram o apagamento das reminiscências?

31 Não pude ter acesso a esse documento porque quando estive em Igarassu (19/09/2013 – 28/09/2013) para minha pesquisa de campo, o acesso ao Departamento de Pesquisa Histórica estava suspenso devido às festividades dos santos. As visitas ao museu aumentam nessa época.

32 No Rio de Janeiro, como o policiamento é feito por duplas de soldados, essas duplas ganharam do povo a alcunha de “Cosme e Damião”, gesto que foi recebido com simpatia pelos policiais, assim “os santos gêmeos tornaram-se também patronos da Polícia Civil da Guanabara” (Basacchi, 2003, p. 9).

33 Já que São Cosme e Damião são vistos como crianças, é natural que eles gostem de passear. Uma das músicas de tradição do “Lindro Amor” chama a dona da casa: “Ô minha senhora/ abra essa porta/ porque São Cosme é tradição/ é coisa nossa”. Como a caixa é levada ao interior da residência ninguém fica sabendo o valor exato que a pessoa depositou, o que evita constrangimento.

Referências

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Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/as-origens-do-culto-de-cosme-e-damiao/

Uma Introdução Inicial aos Mistérios Matemágicos – que são muito interessantes

Não vos percais com os preceitos da Ordem
– O LIVRO DO ÚTERO 1:5

NO PRINCÍPIO

Olhe para o céu em um dia ensolarado, sem núvens e diga o que vê. Se conseguir descrever algo é porque está olhando para o lugar errado. Procure no céu algo que perturbe o olhar, é uma forma esférica e luminosa, quando a encontrar, olhe diretamente para ela e diga o que vê. É o Caos. A Maçã da Discórdia em sua forma mais pura. É o sorriso da Deusa. Os macacos chamam esse Glorioso Explendor simplesmente de sol, ou ainda estrela, ou ainda astro, numa tentativa cada vez maior de enterrar Sua Sorriso Esquisofrenicamente Belo. Mas para poder compreender os macacos, temos que falar sua língua, e assim nós começamos nosso mergulho.

Macacos, perdão, cientistas, acreditam que o sol, e outras estrelas, mas vamos nos focar apens no sol, nada mais é do que uma bola gigante de gás. Mas não bastando acreditar nisso eles foram além, eles acreditam que os gases que formam essa bola ficam no lugar por causa do próprio peso. De cara já percebemos que existem duas palavras que não se encaixam em um descritivo de uma dama: bola e peso. Mesmo assim, continuemos.

Cada parcela do sol é atraída para todas as parcelas restantes pela força da gravidade[1], se precisar de uma imagem para conseguir entender isso, pense na atmosfera da terra sendo atraída para a terra. Agora, se temos uma quantidade discretamente chamativa, de gases sendo forçados em direção a um único ponto, o lógico seria que o sol fosse do tamanho da cabeça de um alfinete, certo? Isso poderia ser o caso, caso não fosse por outra força.

Imagine que está em um show. Imagine que é um show do AC/DC e você quer chegar perto da banda para vê-los tocar. Você tem duas opções:

A) Chega cedinho, assim que abrem os portões corre para a grade perto do palco, abraça a grade e espera.

B) Chega minutos antes da banda entrar, com o estádio lotado e força caminho rumo a grade.

Estou falando por experiência própria. Num show cheguei cedo e fui para a grade. A Banda entrou. Em dois minutos estava sendo pisoteado e meu braço estava sendo quebrado. Foi um show do cacete. No outro cheguei logo antes da banda entrar, forçando passagem consegui assistir a tudo a menos de 3 metros de distância do palco. Qual a licão que tirei dessas duas experiências?

No jogo da vida é melhor ser o gás sendo levado rumo ao centro do sol do que o gás que está no centro e não tem por onde sair.

Para o sol não desmontar sobre si mesmo a pressão em seu interior cresce de acordo com a força pela qual os gases são atraídos para o centro. Isso faz com que no centro a temperatura seja mais alta, a pressão maior, o número de coisas ocorrendo ao mesmo tempo loucamente incalculável. Faz com que quem está fora queira entrar e quem está dentro comece a desejar não estar naquele miolo. O sol de fato é muito semelhante a um show do AC/DC. Todo astrofísico deveria realizar este experimento para se aproximar daquilo que estuda de longe.

Aumente a pressão de algo, a temperatura aumenta, e qualquer pessoa que já esqueceu uma panela de pressão no fogão ligado conhece um dos fatos básicos da vida: você pode estar cercado de alumínio, pode estar cercado por ferro, pode estar cercado por uma liga metálica criada pela NASA, quando o calor resolve sair, ele sai. Assim essa energia que existe dentro do sol de pressão empurrando pra fora, gravidade puxando para dentro resulta, num primeiro momento em luz e calor. Mas num segundo momento resulta em muito mais.

Para resumir uma longa e chata história esse ciclo é cíclico, muito gás, muito peso, muita pressão no núcleo, essa pressão empurra tudo para fora, onde o peso faz voltar para o núcleo, etc… Mas afirmarmos que o sol é feito de gás é um erro, e como já demos várias explicações científicas desde o começo do texto vamos corrigí-la. O calor dentro do sol é tão descomunal e a pressão tão fodasticamente forte que, como no show do AC/DC, qualquer coisa lá no meio não tem forma. Se não possui uma forma básica que seja composta de alguma coisa menor não podemos nem dizer que aquilo é um gás. Por isso usam o nome plasma ou, trocando em miudos, aquilo que quando for deixado em paz vai virar a base para se formar átomos. O centro do sol é uma enorme sopa de energia nem em estado líquido, nem gasoso, nem sólido.  Quando se afastam do centro essas partículas começam a se formar e do meio do Caos surge a primeira forma, poderíamos chamar de a primeira informação. Só que essas partículas estão alucinadas, como se tivessem passado o dia numa fissura atrás de crack e tivesse acabado de cheirar meio quilo de cocaína cada uma. Isso faz com que essas partículas recém formadas já saiam para bater cabeça umas com as outras, novamente, como no show. Quando partículas sub atômicas batem uma de frente com a outra numa velocidade grande o bastante o que acontece?

Bem, poderíamos dizer agora que Chernobyll foi não um acidente, mas uma homenagem à Deusa.

O núcleo do sol é como um reator nuclear boiando no espaço. Mas nem tudo é simplesmente bate cabeça. Quanto mais distantes do núcleo, mas as formas aparecem. Eventualmente várias partículas fogem do núcleo do sol, vários prótons e neutrons e elétrons, assim que a força do núcleo diminui um pouco sobre eles, graças à distância as forças nucleares fortes e fracas e o eletromagnetismo entra em ação e voilá, um elétrom fica preso na órbita de um prótom e ai você tem seu primeiro átomo da tabela periódica, o Sr. Hidrogênio. Quando eventulamente as estrelas entram em colapso, suas áreas cheias de hidrogênio são esmagadas em cima de si mesmas, o sol explode e nisso começa a fabricar hélio, que tem dois prótons e dois elétrons, e a coisa continua, cada vez que uma estrela entra em colapso ela começa a fazer os átomos que a constituem se fundir em átomos mais pesados, chegando no urânio que é a baleia dos átomos e serve pra fazer bombas. Eventualmente esses átomos são cuspidos para longe das estrelas quando elas explodem e vão para o universo, onde sob certas condições começam a se combinar em moléculas, e as moléculas se combinam em coisas maiores e logo logo surgem gases, líquidos e minérios. Por isso, sim! A culpa de você estar sem ter o que fazer na frente do computador é do sol – isso do ponto de vista do macaco. Do ponto de vista correto isso significa que todos viemos d’Ela, cada micro parte de nosso ser, vomitado por suas maçãs espalhadas pelos cosmos.

Esse processo explica como um bando de matéria solta se une, forma uma estrela e começa a cuspir átomos que viram outras coisas como gasosas, planetas e você ou eu. Acredita-se que no início do universo havia apenas hidrogênio e hélio, por um lado esses dois elementos partiram de uma sopa violenta de energia, que só existia por causa do Caos e por outro esses dois elementos, depois de milhões e milhões de anos de abuso, foram transformados em outros elementos. Como a Deusa sorri para sua criação de todos os ângulos que podemos perceber não é surpresa descobrir que isso vem acontecendo pelos últimos 17 bilhões de anos.

Se chegou até aqui ótimo, você acabou de me ver explicando dois processos interessantes:

1- Fusão Nuclear

2- Matemática

APÓS O PRINCÍPIO

Resolvi sair na rua e brincar um pouco. Escolhi a rua porque ela fica mais longe da wikipedia do que a casa e locais de trabalho dos outros. Também escolhi a rua porque vivemos em uma sociedade onde as pessoas tendem a despirocar quando aparece dentro de suas casas e locais de trabalho uma pessoa estranha. E assim sai pelas calçadas com uma prancheta na mão, um crachá no bolso do paletó e meu melhor sorriso de vendedor de carros usados perguntando para as pessoas coisas como nome, número do rg, endereço, idade, telefone, grau de escolaridade e o que é matemática. Descobria algumas coisas interessantes com isso.

Primeiramente descobri que mesmo vivendo em uma sociedade onde as pessoas despirocam quando aparece dentro de suas casas e locais de trabalho uma pessoa estranha, elas não tem problemas para dar seus dados para uma pessoa estranha se ela está segurando uma prancheta e sorrindo para elas.

Segundamente descobri que quanto mais velhas e supostamente instruidas, mais estúpidas ficam as pessoas. Vejam, as pessoas mais velhas e com maior grau de instrução respondiam que a matemática é O ESTUDO DOS NÚMEROS. As mais jovens e com menos instrução respondiam que a matemática é A CIÊNCIA DOS NÚMEROS. As crianças de até 7 anos que responderam a pesquisa afirmaram que NÃO SEI O QUE É MATEMÁTICA, mesmo quando o responsável presente insistia em querer contaminar a jovem mente com a idiotice da maturidade.

Ponto para as crianças. Não há como explicar o que é a matemática.

Cientistas são por definição pessoas preguiçosas. Sempre que vão fazer estudos com animais perdem anos ensinando a eles como se comunicar de forma humana para tentar entender o que os bichos pensam ao invés de simplesmente aprender a línguagem dos bichos e experienciar o que eles pensam. Tente ler Finnegan’s Wake do Joyce em qualquer tentativa de tradução e logo vai entender o problema com essa preguiça científica.

Para evitar cair no mesmo erro eu dediquei horas e dias aprendendo a linguagem dos macacos e transcrevo aqui exatamente o que eles pensam sem traduções grosseiras.

O Dogma Simiesco afirma que:

“É fato sabido que a espécie humana já conhece os números abstratos há cerca de 8.000 anos. A matemática formal, simbólicam com equações, teoremas e provas, tem pouco mais de 2.500 anos. O cálculo infinitesimal foi desenvolvido no século 17; os números negativos passaram a ser usados comumente no século 18, e a álgebra abstrata moderna, onde símbolos como x,y e z denotam entidades arbitrárias, tem apenas 150 anos.”

O macaco que disse isso não é um macaco qualquer, ele é Keith Devlin, um macaco que atingiu o cargo de diretor executivo do Centro de Estudos de Linguagem e Informação, além de professor do Departamento de Matemática da Universidade de Stanford, assim como pesquisador da Universidade de Pittsburgh, nas horas vagas ele é membro da American Association for the Advencement of Science. Como eu disse, parece qu equanto mais velha e instruída, mais estúpidas ficam as pessoas.

Nosso amigo prossegue com uma rápida linha do tempo da matemática que tenta explicar do que ela se trata:

Até 500 a.C. a matemática era algo que tratava de números. A matemática do antigo Egito, Babilônia e China consistia quase que inteiramente em aritmética. Era largamente utilitária e de uma variedade bem do tipo “livro de receitas” (Faça isso e aquilo com um número e você terá a resposta).

– Entre 500 a.C. e 300 d.C. a matemática se expandiu além do estudo dos números. Os matemáticos da antiga ©récia se preocupavam mais com a geometria. Na verdade eles viam os números de uma perspectiva geométrica, como medidas de comprimento, e quando descobriram que havia comprimentos aos quais não correspondiam seus números (chamados comprimentos irracionais), o estudo do assunto praticamente estancou. Para os gregos, com sua ênfase em geometria, a matemática era números e forma. Foi somente com os gregos que a mamtemática realmente passou de um conjunto de técnicas para se medir, contar e calcular para uma disciplina acadêmica, que tinha tanto elementos estéticos quanto religiosos.

– Depois dos gregos, embora a matemática progredisse em diversas partes do mundo – notavelmente na Arábia e na China -, sua natureza não mudou até meados do século 17, quando sir Isaac Newton (na Inglaterra) e Gottfried Leibniz (na Alemanha) inventaram, independentemente, o cálculo infinitesimal. O cálculo infinitesimal, em essência, é o estudo do movimento e da mudança. A matemática tornou-se o estudo dos números, da forma, do movimento, da mudança e do espaço.

– A partir de 1750 houve um interesse crescente na teoria matemática, não apenas em suas aplicaçnoes, à medida que os matemáticos procuravam compreender o que estava por trás do enorme poder do cálculo infinitesimal. Ao final do século 19, a matemática havia se transformado no estudo dos números, forma, movimento, mudança, espaço e das ferramentas matemáticas que são usadas nesse estudo. Este foi o início da matemática moderna.

Bem, vocês sentiram esse cheiro? Parece comida digerida, descolorada e largada ao vento? Aquele cheiro fresco de merda?

SIM!!! É chegado o momento do selo.

Como qualquer um pode ver, toda essa exposição é uma grande pilha de merda. Mas não há motivos para nos chatearmos. Qualquer jardineiro sabe que é na merda que crescem as flores.

Vejamos que flores podemos colher dai.

1ª Flor

No post anterior vimos que números são coisas sinistras, vamos expandir aqui essa noção baseadas em fatos. Números são invenção de nossas mentes, a matemática, como veremos, não precisa em absoluto de números para ser conduzida.

2ª Flor

Não houve um período em que a matemática adquiriu elementos religiosos, ela teve sua origem na religião, como veremos.

3ª Flor

Essa evolução da matemática parte de um ponto de vista técnico e não natural. Veja porque agora.

Muitos construtores, fossem arquitetos, engenheiros, agrimensores, artesãos, perceberam que para se fazer qualquer coisa é preciso se trabalhar com proporções. Para se erguer uma coluna de tantos metros precisamos de pedras de tal tamanho. Para se fazer uma ponte assim e assado, precisamos de tanta madeira e tanta corda. Para se construir pássaros metálicos autômatos que cantam sozinhos, precisamos de tanta água e tanto metal, e as coisas precisam ser montadas de tal forma para que o sopro do ar imite o canto dos pássaros.

Logo eles descobriram que a matemática tinha uma forma de fazer essas proporções se tornarem perceptíveis e maleáveis, e passarma a usá-la como ferramenta de trabalho, da mesma forma que a Igreja Católica passou a usar Deus e Jesus e Maria como ferramentas de trabalho.

Assim não é de se espantar que quando Newton e Leibnitz começaram a brincar de cálculo que os cientistas da época resolvessem criar uma modinha de se usar matemática pra tudo. Como a física era o ramos da ciência que mais dava status, todos queriam ser físicos, e assim a matemática, coitada, ficou presa à física. Veja que na época quase tudo que era considerado matemática tinha a ver com a física. Depois disso ela evoluiu e tomou outros rumos, como matemática pura por exemplo, que descarta a necessidade de um mundo para a ciência existir.

Por isso, sempre que procuramos uma história da matemática, quase sempre encontramos uma descrição de seu desenvolvimento e evolução do ponto de vista que vai do primitivo e supersticioso, e também inteiramente prático até o século XVII e XVIII, e ai se torna uma arte física, e a partir dai o quanto ela se distancia da física. Assim temos uma noção primitiva e mística/supersticiosa de matemática, temos a criação da matemática moderna por homens brancos e religiosos e depois temos a evolução da matemática nas mãos desses homens brancos e religiosos que agora gostam de se intitular de Ateus para poder dizer que eles inventam a matemática, e não algum Deus de barbas brancas.

Bom, em um ponto esses homens brancos acertaram, a matemática não veio de um Deus de barbas brancas, veio de uma Deusa com sérios problemas bipolares – como toda deusa que se preze tem que ter.

4ª Flor

E talvez a mais importante. Por mais cavalhereisco que você seja, nunca foda com um alemão que inventa uma forma nova de se usar a matemática. Ele com certeza vai descobrir onde sua mãe mora. A fama nem sempre vale o preço que estamos dispostos a pagar.

Amarrando nosso lindo buquê

Temos então a visão clara de que grande parte do estudo matemático e da história da matemática é racista e chauvinista. Mas não se preocupe, vamos começar a corrigir isso agora.

Já vimos que um dos efeitos colaterais de nosso sistema nervoso, isso para não dizer da vida, é a capacidade de reconhecer pequenos grupos e notar pequenas diferenças de mudanças nesses grupos. Essa capacidade é aquilo que evoluindo se torna a capacidade de contar. Essa capacidade de reconhecer grupos e mudanças é facilmente confundida não apenas com contagem como com uma persepção ou senso de números. Vejamos alguns experimentos interessantes realizados com bebês e pessoas acidentadas.

Em 1967 Jacques Mehler e Tom Bever decidiram brincar com crianças. Não de uma forma suja e bizarra, mas cientificamente. Até então muitas pessoas não sabiam se bebês podiam contar ou tinham uma mínima noção de grandezas. Até então não havia testes que pudessem dar respostas claras do que os bebês achavam ou pensavam. Até os dois supracitados cientistas perceberem algo.

Eles reuniram crianças entre dois e quatro anos, e apresentaram para elas dois grupos de doces. Ao invés de testes onde haveria qualquer necessidade de comunicação a coisa foi resolvida da seguinte maneira. Na frente de cada criança colocavam dois grupos de doces, um com seis M&Ms, agrupados juntos e outro com quatro M&Ms espaçados. A idéia era criar um grupo de aparência menor, com mais docês e um que ocupasse mais espaço e tivesse menos doces. Então diziam para as crianças escolherem qual grupo de doces queriam. A grande maioria das crianças não pensava duas vezes antes de atacar o grupo mais compacto porém com mais doces.

Em 1980 resolveram ir além e testar crianças ainda mais novas. Prentice Starkey, na Universidade da Pensilvânia, fez um teste com 72 bebês com idades variando entre 16 e 30 semanas de vida. Ela colocou os bebês no colo da mãe e ambos na frente de um monitor. Sem avisar o bebê, como se ele estivesse em uma pegadinha do Mallandro, Prentice filmava os olhos dos bebês para poder cronometrar o tempo que ele investia observando algo. A lógica é muito boa, simples e muito MUITO boa. Se um bebê encara algo por muito tempo está prestando atenção – da forma que bebês prestam atenção – se os olhos ficam vagando de um lado para outro é porque perderam o interesse.

Nas telas exibiam slides, sempre que os olhos do bebê perdiam o interesse um novo slide era mostrado. E o que era mostrado era o seguinte: uma tela com dois pontos dispostos mais ou menos horizontalmente. Assim que o olhar mudava de direção surgia um novo slide com dois pontos em direções diferentes. Ela notou que a cada novo slide o tempo de atenção era menor. De repente, sem aviso, mostravam três pontos. Imediatamente o bebê voltava a se interessar, encarando o monitor por um período grande de tempo de 1.9 segundos, subia para 2.5 segundos.

A mesma experiência era feita ao contrário. Três pontos em posições aleatórias eram mostrados, sendo detectada uma crescente falta de interesse. Assim que era substituído por dois pontos o interesse voltava.

Algum tempo depois foram feitos experimentos que comprovaram que bebês com 2 ou 3 dias de vida conseguiam descriminar mudanças em no tamanho de conjuntos.

Essas e inúmeras outras experiências do tipo provaram que bebês conseguem lidar com mudanças em conjuntos que contenham 1, 2 ou 3 objetos. As crianças com menos de um ano parecem não saber distinguir 4 objetos de qualquer número maior. Mas o interessante é que essa habilidade não é exclusividade de crianças e bebês, em experimentos onde adultos tem que responder quantos pontos, arranjados de maneira aleatória, aparecem em uma tela, o tempo necessário para darem a resposta quando surgem um ou dois pontos é praticamente idêntico, para reconhecer três pontos levam pouco mais de meio segundo, mas quando o número de pontos ultrapassa o três o tempo de reconhecimento começa a subir, e conforme o número de pontos cresce o número de erros cresce também. Isso deixa claro que as respostas são resultados de dois processos cerebrais completamente diferentes. Até três nós reconhecemos imediatamente a quantidade, além de três nós contamos quantos objectos estão presentes. Quando o número de pontos nos slides aumenta, o tempo requerido para que a cobaia cuspa o resultado também aumenta. Linearmente. Ou seja, demora mais porque está contando, e números maiores precisam de mais tempo para serem contados. Duvida? Conte até 10 mentalmente. Que número chega antes? o 7 ou o 3?

1, 2 e 3 são “valores”, “quantidades”, “padrões” que reconhecemos instintivamente. Sem pensar. Da mesma forma que a vespa talvez não fique imaginando que precisa arranjar a raiz quadrado de 25 lagartas para deixar com seus ovos. Isso me faz crer que 1, 2 e 3 não sejam números de fato. Numeração começa além do quatro. Se preferir podemos inverter e eu afirmo que os únicos números que existem em nosso cérebro são o 1, o 2 e o 3, e a partir do 4 são outra coisa qualquer. Desenvolverei essa ideia com o tempo.

Bem, além de preguiçosos, cientistas e homens da razão em geral tem uma diversão depravada curiosa: adoram passar décadas reinventando a roda.

Releia os experimentos antes de prosseguir. Para facilitar a compreensão vamos seguir certa ordem cronológica.

1- A moda hoje é afirmar que o Antigo Testamento foi escrito na época do rei Salomão, que afirmam ter sido por volta de 1009a.C. a 922 a.C. No livro Gênesis 1:26-27 (negritos meus)

E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.

E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.

2- Lao-tsé, em seu Tao-te king, escreveu, na China, no ano 500 a.C:

“Tau a Razão criou Um. Este Um tornou-se Dois, e o Dois produziu o Três, e o Três produziu todos os outros seres”.

3- Platão, que viveu entre os anos 427 a.C. e 348 a.C. (dando ou tirando um ou dois anos), escreveu:

“O ser humano foi criado no início com o homem e a mulher não formando mais do que um só corpo.

Cada corpo tinha quatro braços e quatro pernas. Os corpos eram redondos e rolavam por toda parte, servindo-se dos braços e pernas para se mover. Acabaram por desafiar os deuses. Um deus disse então: “Matemo-los, pois são muito perigosos‖! Um outro disse: “Não, tenho uma idéia melhor.

Vamos dividi-los em dois; assim não terão mais que dois braços e duas pernas; não serão mais redondos. Não poderão rolar; sendo dois oferecerão o dobro de sacrifícios e, o que é mais importante, cada metade estará tão ocupada procurando a outra que não terão tempo para nos desafiar”.

4- Manava Dharma Sastra, antigo livro hindu datado do século 1 a.C. traz o seguinte texto:

“No começo só existia o infinito, chamado aditi. No infinito se encontrava A U M, razão pela qual deve preceder toda prece ou invocação”.

O Livro de Manu, antiga obra hindu, diz: “A sigla A U M significa terra, céu e paraíso”.

5- Uma tábua de argila encontrada por William Niven no México datadas de ?! e batizada como tábua número 150, lemos uma lenda Nacal de como a terra foi povoada:

“O Criador criou Um, Um se tornou Dois”.
“Dois produziram três”.
“Destes três descende toda a humanidade”.

digo datadas de ?! porque alguns entusiastas do impossível chegam a datar as tábuas de mais de 12.000 anos atrás. Investigaremos isso a fundo e talvez coloquemos a data correta.

Ainda entre os Nacals existe o seguinte símbolo:

Ele é um dos três símbolos formando um parágrafo que significa:

O criador é Uno. Ele é dois em um, Lahun. Esses dois formam o Filho – o Homem Mehen.

Este gráfico é chamado também de “o texto misterioso”, porque de qualquer maneira em que seja lido, começando-se de qualquer ponto do triângulo formado pelos símbolos, o significado permanece o mesmo: um, dois,
três.

6- Em 1967 John Lennon compôs uma epifania musical, que se inicia com:

I am he as you are he as you are me and we are all together.

Para ilustrar melhor eu costumo dividir em:

|I am he| as |you are he| as |you are me| and |we are all| to get her!

Agora tentem notar alguma similaridade entre aquilo que foi descoberto com crianças e esses textos citados.

Alguém?

Nos diz muito a respeito de nosso cérebro como podemos pensar “que coincidência a religião e a filosofia tratarem de trindades e termos uma capacidade inata de distinguir grupos de três” mas não achamos coincidência que os isótopos de ferro que são cuspidos por super-novas como isótopos radioativos de níquel e cobalto nas proporções exatas que encontramos no ferro usado para fazer martelos aqui na terra.

Em um primeiro momento essa conexão pode parecer estranha. Mas vamos analisar outras coisas que não tem nada a ver com isso por hora.

Dê uma olhada com calma na figura abaixo. Me diga o que acha que ela é.

O engraçadinho que respondeu que isso se parece com o raio X da mochila de alguma senhora  embarcando para o Paraguai terá a cabeça sodomizada mais tarde. Isso é um Mattang, um mapa. Ele é confeccionado com fibras de palmeira, gravetos ou qualquer coisa que possa ser usada para traçar linhas e curvas.

Para dar uma idéia do que exatamente é uma dessas coisas chamaremos Pablo.

PABLO! TRAGA O MATTANG!

Como podem ver, o Mattang de cima é uma versão do que Pablo, nosso Travesti de estimação segura. Espere.

PABLO! SUA BESTA, VIRE ELE!

Pronto, agora dá pra reconhecer aquele padrão de folha na parte superior direita, as duas retas paralelas no centro e as linhas curvas na esquerda em baixo.

Falemos sobre mattangs agora.

Os ilhéus do pacífico costumavam navegar bastante de uma ilha para outra. Vai ver eles se enchiam das pessoas presas com eles na própria ilha, vai ver eles ouviam sobre festas nas ilhas visinhas. Algumas das ilhas eram próximas umas das outras, algumas estavam distantes centenas de quilómetros. Esses ilhéus eram o que você provavelmente chamaria hoje de “índios”, ou seja, suas viagens eram realizadas em pequenos barcos e sem a ajuda de qualquer  instrumentos de navegação moderno. Por serem “índios” eles não dispunham de bússolas, sextantes, ou mesmo de cartas de navegação. Latitude e longitude deveriam soar como marcas concorrentes de refrigerante para eles. Mesmo assim, eles pegavam seus barquinhos de “índio” e se metiam no mar para ir atrás das outras ilhas. E acredite, eles chegavam onde queriam.

Na falta de civilização para os entreter, esses ilhéus se ocupavam com outras coisas que estavam por perto, como por exemplo o mar. Na verdade o mar não estava apenas por perto, ele estava em volta, se estendia até o infinito e em algumas épocas também estava por cima. Com o tempo esses ilhéus aprenderam a reconhecer o padrão formado pelas ondas. Não apenas as que rebentavam em suas praias, mas as ondas no meio do caminho. Pelo movimento das águas na superfície do mar, mesmo que não houvesse qualquer vestígio de terra à vista, eles sabiam exatamente onde estavam por saber que desenho as ondas se formavam lá.

Como eles dependiam da navegação para muitas coisas, eles tinham “escolas de índios” que ensinavam os jovens a reconhecer esses padrões. Um dos “livros didáticos de índios” que eles usavam eram os mattangs. No mattang eles colocavam a posição de onde estavam, dos desenhos das ondas ao redor, no meio e no final dos vários percursos. Também contavam com a ajuda do sol e das constelações, além de pássaros, mas o mattang era o simulador de vôo que eles dispunham.

Agora pense no seguinte. Se o mar fosse sempre o mesmo, nós seríamos estúpidos de não nos guiar por seus padrões, mas ele não é o mesmo. Para começar ele é feito de água, e água, diferente de concreto, costuma ter uma natureza muito mais maleável e insconstante. Além disso se venta um dia num canto, ou tem um tsunami do outro lado do mundo, as ondas são afetadas e mudam de forma certo? Como conseguir se guiar por padrões que estão constantemente sujeitos a mudanças? Como gravar esses padrões em muttangs para que eles pudessem ser ensinados a jovens e crianças para que eles os reconhecessem quando os vissem? Se o mar muda o tempo todo, como um navegador índio da Oceania consegue saber onde está, a qualquer momento, apenas olhando para o mar?

Deixemos os índios de lado, vamos voltar para a civilização pelo momento. Claramente vocês se lembram de eu ter citado “pessoas acidentadas” mais acima. Vamos a elas.

Esta é Signora Gaddi. Ela sofreu um derrame. Mas males o menor e o derrame deixou sua faculdade de fala e de rascioncíneo, mas fudeu completamente com sua capacidade de reconhecer números. Ela literalmente não conseguia determinar ou avaliar o número de objetos em qualquer conjunto. Ela também só conseguia repetir os “nomes” dos números até o 4, e assim só conseguia contar os elementos de um grupo de quatro ou menos objetos.

Esta é Frau Huber. Ela teve que fazer uma operação. Enquanto a maioria das mulheres de hoje opera para tirar um pouco de gordura ou colocar muito silicone, Frau Huber queria retirar uma parte de seu lobo pariental esquerdo; não era exatamente vaidade, ela tinha um tumor lá. Depois da cirurgia, sua inteligência e capacidade de falar pareciam ter permanecido bastante boas, mas os números não. Ela também conseguiu foder sua capacidade de reconhecer números. Ela não conseguia somar nem multiplicar nem mesmo usando os dedos. Ela repetia a tabuada de multiplicação, mas era como se estivesse recitando um poema, nada daquilo fazia sentido. Ela continuava capaz de aprender que a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa, mas apenas como você consegue decorar que a energia é a massa vezes a velocidade da luz ao quadrado. Não fazia sentido nenhum, se mostrasse um triIangulo retângulo de catetos igual a 3 e 4 e pedisse para dizer quanto media a hipotenusa ela repetiria a fórmula, mas não saberia calcular ou dizer ou entender aquilo.

Em Paris, algum tempo atrás, uma pessoa que vamos identificar aqui como “o paciente” sofreu um acidente. Sim, ele deve ter recebido flores. Sim, ele deve ter usado um daqueles aventais de hospital que deixa a bunda de fora. Não ele não morreu. Na verdade para deixar mais misterioso nem vou dizer se O Paciente é ele ou ela. Ao invés de morrer seu cérebro sofreu uma lesão que deixou o cérebro basicamente intacto, a não ser por sua capacidade de contar. Ele conseguiu foder sua capacidade de reconhecer números. Isso não significa que O Paciente não conseguia somar 2 mais 2. Isso significa que se você colocasse cinco objetos na frente d’Ele, Ele não saberia dizer quantos eram. Se colocasse dez objetos a mesma coisa. Curiosamente quando 3 pontos eram mostrados para ele em um slide ele conseguia repetir corretamente o número de pontos.

Claro que apenas usar acidentados para conseguir ibope pode parecer de mal gosto. Vamos ver pessoas que não precisaram foder sua capacidade de reconhecer números, elas já nasceram com a capacidade fodida.

Este é Charles. Ele é um jovem muito inteligente. Ele é graduado em psicologia. Ele precisa de uma calculadora para somar 2+2. Vejam, ele é de fato inteligente. Ele se graduou em psicologia e não em frentistologia, e ele não consegue somar 5+8. Isso não quer dizer que ele não consiga, ele usa a calculadora, lembra-se? Ele consegue usar a calculadora para fazer as contas e percebe o resultado, mas nada do que ele digita nela ou ela lhe mostra faz sentido algum. Quando a conta é simples e ele tem tempo ele usa os dedos, conhece os nomes dos números, mas não os enxerga. Dê dois números a ele como 20 e 2, ou 14 e 10.937.498 e pergunte qual o maior. Ele não saberá dizer, ele começa a contar nos dedos e vê qual chega primeiro, esse, logicamente, é o menor. Em um teste ele levou oito segundos para somar 8 e 6, em outro levou doze segundos para subtrair 2 de 6. Ele não conseguiu realizar contas mais complexas como 7+5 e 9+4. Obviamente ele levou mais tempo do que seus amigos para se formar, mas se formou.

Aquela ao lado de Charles é Julia. Não eles não tem qualquer parentesco, nem se conhecem. Como Charles, Julia também se graduou e não apenas isso, ela fez pós graduação. Como Charles ela também só conseguia contar usando os dedos e quando os números iam além do 10 ela suava frio e sentia os olhos se encherem de lágrimas, quando os dedos terminavam, também terminava a contagem. Frações para ela eram algo incompreensível, apesar dela ser capaz de cortar um bolo de aniversário em pedaços. Ela não consegue contar de 3 em 3, a não ser na mão, um a um e enfatizando cada terceiro nome: um, dois, TRÊS, quatro, cinco, SEIS, sete, oito, NOVE, etc., etc., ETC. Diferente de Charles, Julia conseguia dizer se um número era maior do que outro.

Que lições podemos tirar disso? Em primeiro lugar parece que um daltonismo para números é possível. Depois que chamamos pessoas que não percebem cores, pessoas que não percebem números, pessoas que não percebem dor de deficientes, mas pessoas que não percebem a Deus de Ateus, e por algum motivo esses “ateus” parecem se colocar em um grupo acima ao dos daltônicos, das pessoas com deficiência no senso numérico e das pessoas acometidas de Alopecia.

Há uma terceira lição que pode ser interessante. As pessoas lesionadas ou que não tem esse senso de número mostram que aquilo que chamamos de números parecem parasitar uma área específica do cérebro. Uma área diferente da parasitada pela linguagem. Dito isso podemos também afirmar que… ok, bando de covardes.

Dito isso eu afirmo que a matemática, assim como a linguagem, possuem circuitos próprios que já vem instalados em nosso sistema nervoso. Quando essas placas de circuito se quebram deixamos de contar ou de falar. Isso separa a matemática de nós, de cara. Nós somos equipados com o hardware, mas o software não vem de nós, nós apenas a descobrimos. E digo mais. Não precisamos de números para realizar matemática. E vou além! Aquilo que chamamos de números, não são o que você acha que são.

Caso você ainda pense que a matemática é inventada ou criada pela mente superior do homem moderno, pense nisso antes de dormir: se o teorema dos quadrados dos catetos não tivesse sido “inventado” antigamente para você calcular uma hipotenusa, ele eventualmente seria inventado em algum ponto da história, exatamente igual. O mesmo para teoremas e fórmulas mais complexas. Se um teorema ou fórmula não depende da mente superior de um “homem” específico para vir a existir como a compartilhamos? Se a matemática é uma invenção da mente, de quem é a mente que a cria?


eis sua MÃO!!!

Por LöN Plo

Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/uma-introducao-inicial-aos-misterios-matemagicos-que-sao-muito-interessantes/

Mapa Astral de Paulo Coelho

Paulo Coelho nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 24 de agosto de 1947. Filho do engenheiro Pedro Paulo Coelho e de Lígia Coelho. Fez seus estudos no Rio de Janeiro. É casado, desde 1981, com a artista plástica Christina Oiticica. Antes de dedicar-se inteiramente à literatura, trabalhou com diretor e autor de teatro, jornalista e compositor. Escreveu letras de música para alguns dos nomes mais famosos da musica brasileira, como Elis Regina e Rita Lee. Seu trabalho mais conhecido, porém, foram as parcerias musicais com Raul Seixas, que resultou em sucessos como “Eu nasci há dez mil anos atrás”, “Gita”, “Al Capone”, entre outras 60 composições com o grande mito do rock no Brasil.

Seu fascínio pela busca espiritual, que data da época em que, como hippie, viajava pelo mundo, resultou numa série de experiências em sociedades secretas, religiões orientais, etc. O Alquimista é um dos mais importantes fenômenos literários do século XX. Chegou ao primeiro lugar da lista dos mais vendidos em 18 países. Tem sido elogiado por pessoas tão diferentes como o Prêmio Nobel de Literatura Kenzaburo Oe, o prêmio Nobel da Paz Shimon Peres, a cantora Madonna e Julia Roberts, que o consideram seu livro favorito. A edição ilustrada pelo famoso desenhista Moebius (autor, entre outros, dos cenários de O Quinto Elemento e Alien) já foi publicada em vários países. The Graduate School of Business of the University of Chicago recomenda o romance no seu currículo de leitura. Também foi adotado em escolas da França, Itália, Brasil, Estados Unidos, dentre outros países.

Mapa Astral

Com Sol, Mercúrio e Vênus cravados na posição Leão-Virgem (Rei de Moedas); Lua em Sagitário; Ascendente em Touro e Caput-Draconis em Touro-Gêmeos (Rei de Espadas); Marte em Câncer; Júpiter em Escorpião e Saturno em Conjunção com Plutão em Leão.

A combinação das Energias de Leão e Virgem (Rei de Moedas), que são as mais fortes no Mapa de Paulo Coelho, foi descrita por Vicky Noble como “Uma pessoa que aprendeu a trabalhar no plano físico de tal maneira que será bem sucedido no que quer que faça. Saber aonde ir e como chegar lá”. Mistura o brilhar leonino com o trabalhar virginiano. Seu Planeta mais forte é Mercúrio (por que não estou surpreso?)

A Lua em Sagitário é a lua dos otimistas, das pessoas capazes de observar o mundo ao seu redor e formular regras, leis e interpretações a respeito dele. Paulo Coelho poderia ter sido um filósofo bem sucedido (na verdade, ele nunca deixou de sê-lo) mas a energia de Júpiter em Escorpião o levou para a área do hermetismo, magia e do ocultismo, onde provavelmente conseguiu travar contato com seu Sagrado Anjo Guardião.

Saturno em Leão nas oitavas mais altas implica em responsabilidade com o que se comunica; a restrição e o cuidado com que se trabalha a própria imagem e o que se quer expor… É uma energia indispensável a reis e pessoas que estarão servindo como exemplo para outras.

Seu Caput-Draconis é o resultado destas decisões e o que ele está realizando agora: o Rei de Espadas, senhor das palavras que reúne a curiosidade e comunicabilidade geminiana com a profundidade taurina. Posso afirmar com toda a certeza que ele conhece muito sobre magia e ordens iniciáticas. Muito mais do que 99% dos manés que o criticam…

Se a Alquimia é realizar a Verdadeira Vontade e ser bem sucedido no que se ama fazer; e magia é a arte de concretizar em Malkuth o que se projeta em Yesod, não resta a menor sombra de dúvida que Paulo Coelho é um dos maiores magos deste século. Os pseudo-céticos e babacas de plantão costumam xingar a sua obra sem ler (engraçado que só aqui no Brasil, reino da Igreja Católica e Evangélica, os criticos do resto do mundo sempre o elogiaram bastante) simplesmente porque ele teve a ousadia de se declarar mago em público.

Seus textos, em linguagem coloquial e facilmente compreensíveis, trouxeram milhões de pessoas em contato com o universo da espiritualidade (pessoas com bem menos oportunidades do que os leitores deste blog, diga-se de passagem, que de outra maneira nunca teriam sequer descoberto este caminho) e ajudaram muito a melhorar o karma do planeta.

#Astrologia #Biografias

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/mapa-astral-de-paulo-coelho

Uma Introdução Inicial aos Mistérios Matemágicos – que são muito interessantes

Não vos percais com os preceitos da Ordem
– O LIVRO DO ÚTERO 1:5

NO PRINCÍPIO

Olhe para o céu em um dia ensolarado, sem núvens e diga o que vê. Se conseguir descrever algo é porque está olhando para o lugar errado. Procure no céu algo que perturbe o olhar, é uma forma esférica e luminosa, quando a encontrar, olhe diretamente para ela e diga o que vê. É o Caos. A Maçã da Discórdia em sua forma mais pura. É o sorriso da Deusa. Os macacos chamam esse Glorioso Explendor simplesmente de sol, ou ainda estrela, ou ainda astro, numa tentativa cada vez maior de enterrar Sua Sorriso Esquisofrenicamente Belo. Mas para poder compreender os macacos, temos que falar sua língua, e assim nós começamos nosso mergulho.

Macacos, perdão, cientistas, acreditam que o sol, e outras estrelas, mas vamos nos focar apens no sol, nada mais é do que uma bola gigante de gás. Mas não bastando acreditar nisso eles foram além, eles acreditam que os gases que formam essa bola ficam no lugar por causa do próprio peso. De cara já percebemos que existem duas palavras que não se encaixam em um descritivo de uma dama: bola e peso. Mesmo assim, continuemos.

Cada parcela do sol é atraída para todas as parcelas restantes pela força da gravidade[1], se precisar de uma imagem para conseguir entender isso, pense na atmosfera da terra sendo atraída para a terra. Agora, se temos uma quantidade discretamente chamativa, de gases sendo forçados em direção a um único ponto, o lógico seria que o sol fosse do tamanho da cabeça de um alfinete, certo? Isso poderia ser o caso, caso não fosse por outra força.

Imagine que está em um show. Imagine que é um show do AC/DC e você quer chegar perto da banda para vê-los tocar. Você tem duas opções:

A) Chega cedinho, assim que abrem os portões corre para a grade perto do palco, abraça a grade e espera.

B) Chega minutos antes da banda entrar, com o estádio lotado e força caminho rumo a grade.

Estou falando por experiência própria. Num show cheguei cedo e fui para a grade. A Banda entrou. Em dois minutos estava sendo pisoteado e meu braço estava sendo quebrado. Foi um show do cacete. No outro cheguei logo antes da banda entrar, forçando passagem consegui assistir a tudo a menos de 3 metros de distância do palco. Qual a licão que tirei dessas duas experiências?

No jogo da vida é melhor ser o gás sendo levado rumo ao centro do sol do que o gás que está no centro e não tem por onde sair.

Para o sol não desmontar sobre si mesmo a pressão em seu interior cresce de acordo com a força pela qual os gases são atraídos para o centro. Isso faz com que no centro a temperatura seja mais alta, a pressão maior, o número de coisas ocorrendo ao mesmo tempo loucamente incalculável. Faz com que quem está fora queira entrar e quem está dentro comece a desejar não estar naquele miolo. O sol de fato é muito semelhante a um show do AC/DC. Todo astrofísico deveria realizar este experimento para se aproximar daquilo que estuda de longe.

Aumente a pressão de algo, a temperatura aumenta, e qualquer pessoa que já esqueceu uma panela de pressão no fogão ligado conhece um dos fatos básicos da vida: você pode estar cercado de alumínio, pode estar cercado por ferro, pode estar cercado por uma liga metálica criada pela NASA, quando o calor resolve sair, ele sai. Assim essa energia que existe dentro do sol de pressão empurrando pra fora, gravidade puxando para dentro resulta, num primeiro momento em luz e calor. Mas num segundo momento resulta em muito mais.

Para resumir uma longa e chata história esse ciclo é cíclico, muito gás, muito peso, muita pressão no núcleo, essa pressão empurra tudo para fora, onde o peso faz voltar para o núcleo, etc… Mas afirmarmos que o sol é feito de gás é um erro, e como já demos várias explicações científicas desde o começo do texto vamos corrigí-la. O calor dentro do sol é tão descomunal e a pressão tão fodasticamente forte que, como no show do AC/DC, qualquer coisa lá no meio não tem forma. Se não possui uma forma básica que seja composta de alguma coisa menor não podemos nem dizer que aquilo é um gás. Por isso usam o nome plasma ou, trocando em miudos, aquilo que quando for deixado em paz vai virar a base para se formar átomos. O centro do sol é uma enorme sopa de energia nem em estado líquido, nem gasoso, nem sólido.  Quando se afastam do centro essas partículas começam a se formar e do meio do Caos surge a primeira forma, poderíamos chamar de a primeira informação. Só que essas partículas estão alucinadas, como se tivessem passado o dia numa fissura atrás de crack e tivesse acabado de cheirar meio quilo de cocaína cada uma. Isso faz com que essas partículas recém formadas já saiam para bater cabeça umas com as outras, novamente, como no show. Quando partículas sub atômicas batem uma de frente com a outra numa velocidade grande o bastante o que acontece?

Bem, poderíamos dizer agora que Chernobyll foi não um acidente, mas uma homenagem à Deusa.

O núcleo do sol é como um reator nuclear boiando no espaço. Mas nem tudo é simplesmente bate cabeça. Quanto mais distantes do núcleo, mas as formas aparecem. Eventualmente várias partículas fogem do núcleo do sol, vários prótons e neutrons e elétrons, assim que a força do núcleo diminui um pouco sobre eles, graças à distância as forças nucleares fortes e fracas e o eletromagnetismo entra em ação e voilá, um elétrom fica preso na órbita de um prótom e ai você tem seu primeiro átomo da tabela periódica, o Sr. Hidrogênio. Quando eventulamente as estrelas entram em colapso, suas áreas cheias de hidrogênio são esmagadas em cima de si mesmas, o sol explode e nisso começa a fabricar hélio, que tem dois prótons e dois elétrons, e a coisa continua, cada vez que uma estrela entra em colapso ela começa a fazer os átomos que a constituem se fundir em átomos mais pesados, chegando no urânio que é a baleia dos átomos e serve pra fazer bombas. Eventualmente esses átomos são cuspidos para longe das estrelas quando elas explodem e vão para o universo, onde sob certas condições começam a se combinar em moléculas, e as moléculas se combinam em coisas maiores e logo logo surgem gases, líquidos e minérios. Por isso, sim! A culpa de você estar sem ter o que fazer na frente do computador é do sol – isso do ponto de vista do macaco. Do ponto de vista correto isso significa que todos viemos d’Ela, cada micro parte de nosso ser, vomitado por suas maçãs espalhadas pelos cosmos.

Esse processo explica como um bando de matéria solta se une, forma uma estrela e começa a cuspir átomos que viram outras coisas como gasosas, planetas e você ou eu. Acredita-se que no início do universo havia apenas hidrogênio e hélio, por um lado esses dois elementos partiram de uma sopa violenta de energia, que só existia por causa do Caos e por outro esses dois elementos, depois de milhões e milhões de anos de abuso, foram transformados em outros elementos. Como a Deusa sorri para sua criação de todos os ângulos que podemos perceber não é surpresa descobrir que isso vem acontecendo pelos últimos 17 bilhões de anos.

Se chegou até aqui ótimo, você acabou de me ver explicando dois processos interessantes:

1- Fusão Nuclear

2- Matemática

APÓS O PRINCÍPIO

Resolvi sair na rua e brincar um pouco. Escolhi a rua porque ela fica mais longe da wikipedia do que a casa e locais de trabalho dos outros. Também escolhi a rua porque vivemos em uma sociedade onde as pessoas tendem a despirocar quando aparece dentro de suas casas e locais de trabalho uma pessoa estranha. E assim sai pelas calçadas com uma prancheta na mão, um crachá no bolso do paletó e meu melhor sorriso de vendedor de carros usados perguntando para as pessoas coisas como nome, número do rg, endereço, idade, telefone, grau de escolaridade e o que é matemática. Descobria algumas coisas interessantes com isso.

Primeiramente descobri que mesmo vivendo em uma sociedade onde as pessoas despirocam quando aparece dentro de suas casas e locais de trabalho uma pessoa estranha, elas não tem problemas para dar seus dados para uma pessoa estranha se ela está segurando uma prancheta e sorrindo para elas.

Segundamente descobri que quanto mais velhas e supostamente instruidas, mais estúpidas ficam as pessoas. Vejam, as pessoas mais velhas e com maior grau de instrução respondiam que a matemática é O ESTUDO DOS NÚMEROS. As mais jovens e com menos instrução respondiam que a matemática é A CIÊNCIA DOS NÚMEROS. As crianças de até 7 anos que responderam a pesquisa afirmaram que NÃO SEI O QUE É MATEMÁTICA, mesmo quando o responsável presente insistia em querer contaminar a jovem mente com a idiotice da maturidade.

Ponto para as crianças. Não há como explicar o que é a matemática.

Cientistas são por definição pessoas preguiçosas. Sempre que vão fazer estudos com animais perdem anos ensinando a eles como se comunicar de forma humana para tentar entender o que os bichos pensam ao invés de simplesmente aprender a línguagem dos bichos e experienciar o que eles pensam. Tente ler Finnegan’s Wake do Joyce em qualquer tentativa de tradução e logo vai entender o problema com essa preguiça científica.

Para evitar cair no mesmo erro eu dediquei horas e dias aprendendo a linguagem dos macacos e transcrevo aqui exatamente o que eles pensam sem traduções grosseiras.

O Dogma Simiesco afirma que:

“É fato sabido que a espécie humana já conhece os números abstratos há cerca de 8.000 anos. A matemática formal, simbólicam com equações, teoremas e provas, tem pouco mais de 2.500 anos. O cálculo infinitesimal foi desenvolvido no século 17; os números negativos passaram a ser usados comumente no século 18, e a álgebra abstrata moderna, onde símbolos como x,y e z denotam entidades arbitrárias, tem apenas 150 anos.”

O macaco que disse isso não é um macaco qualquer, ele é Keith Devlin, um macaco que atingiu o cargo de diretor executivo do Centro de Estudos de Linguagem e Informação, além de professor do Departamento de Matemática da Universidade de Stanford, assim como pesquisador da Universidade de Pittsburgh, nas horas vagas ele é membro da American Association for the Advencement of Science. Como eu disse, parece qu equanto mais velha e instruída, mais estúpidas ficam as pessoas.

Nosso amigo prossegue com uma rápida linha do tempo da matemática que tenta explicar do que ela se trata:

Até 500 a.C. a matemática era algo que tratava de números. A matemática do antigo Egito, Babilônia e China consistia quase que inteiramente em aritmética. Era largamente utilitária e de uma variedade bem do tipo “livro de receitas” (Faça isso e aquilo com um número e você terá a resposta).

– Entre 500 a.C. e 300 d.C. a matemática se expandiu além do estudo dos números. Os matemáticos da antiga ©récia se preocupavam mais com a geometria. Na verdade eles viam os números de uma perspectiva geométrica, como medidas de comprimento, e quando descobriram que havia comprimentos aos quais não correspondiam seus números (chamados comprimentos irracionais), o estudo do assunto praticamente estancou. Para os gregos, com sua ênfase em geometria, a matemática era números e forma. Foi somente com os gregos que a mamtemática realmente passou de um conjunto de técnicas para se medir, contar e calcular para uma disciplina acadêmica, que tinha tanto elementos estéticos quanto religiosos.

– Depois dos gregos, embora a matemática progredisse em diversas partes do mundo – notavelmente na Arábia e na China -, sua natureza não mudou até meados do século 17, quando sir Isaac Newton (na Inglaterra) e Gottfried Leibniz (na Alemanha) inventaram, independentemente, o cálculo infinitesimal. O cálculo infinitesimal, em essência, é o estudo do movimento e da mudança. A matemática tornou-se o estudo dos números, da forma, do movimento, da mudança e do espaço.

– A partir de 1750 houve um interesse crescente na teoria matemática, não apenas em suas aplicaçnoes, à medida que os matemáticos procuravam compreender o que estava por trás do enorme poder do cálculo infinitesimal. Ao final do século 19, a matemática havia se transformado no estudo dos números, forma, movimento, mudança, espaço e das ferramentas matemáticas que são usadas nesse estudo. Este foi o início da matemática moderna.

Bem, vocês sentiram esse cheiro? Parece comida digerida, descolorada e largada ao vento? Aquele cheiro fresco de merda?

SIM!!! É chegado o momento do selo.

Como qualquer um pode ver, toda essa exposição é uma grande pilha de merda. Mas não há motivos para nos chatearmos. Qualquer jardineiro sabe que é na merda que crescem as flores.

Vejamos que flores podemos colher dai.

1ª Flor

No post anterior vimos que números são coisas sinistras, vamos expandir aqui essa noção baseadas em fatos. Números são invenção de nossas mentes, a matemática, como veremos, não precisa em absoluto de números para ser conduzida.

2ª Flor

Não houve um período em que a matemática adquiriu elementos religiosos, ela teve sua origem na religião, como veremos.

3ª Flor

Essa evolução da matemática parte de um ponto de vista técnico e não natural. Veja porque agora.

Muitos construtores, fossem arquitetos, engenheiros, agrimensores, artesãos, perceberam que para se fazer qualquer coisa é preciso se trabalhar com proporções. Para se erguer uma coluna de tantos metros precisamos de pedras de tal tamanho. Para se fazer uma ponte assim e assado, precisamos de tanta madeira e tanta corda. Para se construir pássaros metálicos autômatos que cantam sozinhos, precisamos de tanta água e tanto metal, e as coisas precisam ser montadas de tal forma para que o sopro do ar imite o canto dos pássaros.

Logo eles descobriram que a matemática tinha uma forma de fazer essas proporções se tornarem perceptíveis e maleáveis, e passarma a usá-la como ferramenta de trabalho, da mesma forma que a Igreja Católica passou a usar Deus e Jesus e Maria como ferramentas de trabalho.

Assim não é de se espantar que quando Newton e Leibnitz começaram a brincar de cálculo que os cientistas da época resolvessem criar uma modinha de se usar matemática pra tudo. Como a física era o ramos da ciência que mais dava status, todos queriam ser físicos, e assim a matemática, coitada, ficou presa à física. Veja que na época quase tudo que era considerado matemática tinha a ver com a física. Depois disso ela evoluiu e tomou outros rumos, como matemática pura por exemplo, que descarta a necessidade de um mundo para a ciência existir.

Por isso, sempre que procuramos uma história da matemática, quase sempre encontramos uma descrição de seu desenvolvimento e evolução do ponto de vista que vai do primitivo e supersticioso, e também inteiramente prático até o século XVII e XVIII, e ai se torna uma arte física, e a partir dai o quanto ela se distancia da física. Assim temos uma noção primitiva e mística/supersticiosa de matemática, temos a criação da matemática moderna por homens brancos e religiosos e depois temos a evolução da matemática nas mãos desses homens brancos e religiosos que agora gostam de se intitular de Ateus para poder dizer que eles inventam a matemática, e não algum Deus de barbas brancas.

Bom, em um ponto esses homens brancos acertaram, a matemática não veio de um Deus de barbas brancas, veio de uma Deusa com sérios problemas bipolares – como toda deusa que se preze tem que ter.

4ª Flor

E talvez a mais importante. Por mais cavalhereisco que você seja, nunca foda com um alemão que inventa uma forma nova de se usar a matemática. Ele com certeza vai descobrir onde sua mãe mora. A fama nem sempre vale o preço que estamos dispostos a pagar.

Amarrando nosso lindo buquê

Temos então a visão clara de que grande parte do estudo matemático e da história da matemática é racista e chauvinista. Mas não se preocupe, vamos começar a corrigir isso agora.

Já vimos que um dos efeitos colaterais de nosso sistema nervoso, isso para não dizer da vida, é a capacidade de reconhecer pequenos grupos e notar pequenas diferenças de mudanças nesses grupos. Essa capacidade é aquilo que evoluindo se torna a capacidade de contar. Essa capacidade de reconhecer grupos e mudanças é facilmente confundida não apenas com contagem como com uma persepção ou senso de números. Vejamos alguns experimentos interessantes realizados com bebês e pessoas acidentadas.

Em 1967 Jacques Mehler e Tom Bever decidiram brincar com crianças. Não de uma forma suja e bizarra, mas cientificamente. Até então muitas pessoas não sabiam se bebês podiam contar ou tinham uma mínima noção de grandezas. Até então não havia testes que pudessem dar respostas claras do que os bebês achavam ou pensavam. Até os dois supracitados cientistas perceberem algo.

Eles reuniram crianças entre dois e quatro anos, e apresentaram para elas dois grupos de doces. Ao invés de testes onde haveria qualquer necessidade de comunicação a coisa foi resolvida da seguinte maneira. Na frente de cada criança colocavam dois grupos de doces, um com seis M&Ms, agrupados juntos e outro com quatro M&Ms espaçados. A idéia era criar um grupo de aparência menor, com mais docês e um que ocupasse mais espaço e tivesse menos doces. Então diziam para as crianças escolherem qual grupo de doces queriam. A grande maioria das crianças não pensava duas vezes antes de atacar o grupo mais compacto porém com mais doces.

Em 1980 resolveram ir além e testar crianças ainda mais novas. Prentice Starkey, na Universidade da Pensilvânia, fez um teste com 72 bebês com idades variando entre 16 e 30 semanas de vida. Ela colocou os bebês no colo da mãe e ambos na frente de um monitor. Sem avisar o bebê, como se ele estivesse em uma pegadinha do Mallandro, Prentice filmava os olhos dos bebês para poder cronometrar o tempo que ele investia observando algo. A lógica é muito boa, simples e muito MUITO boa. Se um bebê encara algo por muito tempo está prestando atenção – da forma que bebês prestam atenção – se os olhos ficam vagando de um lado para outro é porque perderam o interesse.

Nas telas exibiam slides, sempre que os olhos do bebê perdiam o interesse um novo slide era mostrado. E o que era mostrado era o seguinte: uma tela com dois pontos dispostos mais ou menos horizontalmente. Assim que o olhar mudava de direção surgia um novo slide com dois pontos em direções diferentes. Ela notou que a cada novo slide o tempo de atenção era menor. De repente, sem aviso, mostravam três pontos. Imediatamente o bebê voltava a se interessar, encarando o monitor por um período grande de tempo de 1.9 segundos, subia para 2.5 segundos.

A mesma experiência era feita ao contrário. Três pontos em posições aleatórias eram mostrados, sendo detectada uma crescente falta de interesse. Assim que era substituído por dois pontos o interesse voltava.

Algum tempo depois foram feitos experimentos que comprovaram que bebês com 2 ou 3 dias de vida conseguiam descriminar mudanças em no tamanho de conjuntos.

Essas e inúmeras outras experiências do tipo provaram que bebês conseguem lidar com mudanças em conjuntos que contenham 1, 2 ou 3 objetos. As crianças com menos de um ano parecem não saber distinguir 4 objetos de qualquer número maior. Mas o interessante é que essa habilidade não é exclusividade de crianças e bebês, em experimentos onde adultos tem que responder quantos pontos, arranjados de maneira aleatória, aparecem em uma tela, o tempo necessário para darem a resposta quando surgem um ou dois pontos é praticamente idêntico, para reconhecer três pontos levam pouco mais de meio segundo, mas quando o número de pontos ultrapassa o três o tempo de reconhecimento começa a subir, e conforme o número de pontos cresce o número de erros cresce também. Isso deixa claro que as respostas são resultados de dois processos cerebrais completamente diferentes. Até três nós reconhecemos imediatamente a quantidade, além de três nós contamos quantos objectos estão presentes. Quando o número de pontos nos slides aumenta, o tempo requerido para que a cobaia cuspa o resultado também aumenta. Linearmente. Ou seja, demora mais porque está contando, e números maiores precisam de mais tempo para serem contados. Duvida? Conte até 10 mentalmente. Que número chega antes? o 7 ou o 3?

1, 2 e 3 são “valores”, “quantidades”, “padrões” que reconhecemos instintivamente. Sem pensar. Da mesma forma que a vespa talvez não fique imaginando que precisa arranjar a raiz quadrado de 25 lagartas para deixar com seus ovos. Isso me faz crer que 1, 2 e 3 não sejam números de fato. Numeração começa além do quatro. Se preferir podemos inverter e eu afirmo que os únicos números que existem em nosso cérebro são o 1, o 2 e o 3, e a partir do 4 são outra coisa qualquer. Desenvolverei essa ideia com o tempo.

Bem, além de preguiçosos, cientistas e homens da razão em geral tem uma diversão depravada curiosa: adoram passar décadas reinventando a roda.

Releia os experimentos antes de prosseguir. Para facilitar a compreensão vamos seguir certa ordem cronológica.

1- A moda hoje é afirmar que o Antigo Testamento foi escrito na época do rei Salomão, que afirmam ter sido por volta de 1009a.C. a 922 a.C. No livro Gênesis 1:26-27 (negritos meus)

E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.

E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.

2- Lao-tsé, em seu Tao-te king, escreveu, na China, no ano 500 a.C:

“Tau a Razão criou Um. Este Um tornou-se Dois, e o Dois produziu o Três, e o Três produziu todos os outros seres”.

3- Platão, que viveu entre os anos 427 a.C. e 348 a.C. (dando ou tirando um ou dois anos), escreveu:

“O ser humano foi criado no início com o homem e a mulher não formando mais do que um só corpo.

Cada corpo tinha quatro braços e quatro pernas. Os corpos eram redondos e rolavam por toda parte, servindo-se dos braços e pernas para se mover. Acabaram por desafiar os deuses. Um deus disse então: “Matemo-los, pois são muito perigosos‖! Um outro disse: “Não, tenho uma idéia melhor.

Vamos dividi-los em dois; assim não terão mais que dois braços e duas pernas; não serão mais redondos. Não poderão rolar; sendo dois oferecerão o dobro de sacrifícios e, o que é mais importante, cada metade estará tão ocupada procurando a outra que não terão tempo para nos desafiar”.

4- Manava Dharma Sastra, antigo livro hindu datado do século 1 a.C. traz o seguinte texto:

“No começo só existia o infinito, chamado aditi. No infinito se encontrava A U M, razão pela qual deve preceder toda prece ou invocação”.

O Livro de Manu, antiga obra hindu, diz: “A sigla A U M significa terra, céu e paraíso”.

5- Uma tábua de argila encontrada por William Niven no México datadas de ?! e batizada como tábua número 150, lemos uma lenda Nacal de como a terra foi povoada:

“O Criador criou Um, Um se tornou Dois”.
“Dois produziram três”.
“Destes três descende toda a humanidade”.

digo datadas de ?! porque alguns entusiastas do impossível chegam a datar as tábuas de mais de 12.000 anos atrás. Investigaremos isso a fundo e talvez coloquemos a data correta.

Ainda entre os Nacals existe o seguinte símbolo:

Ele é um dos três símbolos formando um parágrafo que significa:

O criador é Uno. Ele é dois em um, Lahun. Esses dois formam o Filho – o Homem Mehen.

Este gráfico é chamado também de “o texto misterioso”, porque de qualquer maneira em que seja lido, começando-se de qualquer ponto do triângulo formado pelos símbolos, o significado permanece o mesmo: um, dois,
três.

6- Em 1967 John Lennon compôs uma epifania musical, que se inicia com:

I am he as you are he as you are me and we are all together.

Para ilustrar melhor eu costumo dividir em:

|I am he| as |you are he| as |you are me| and |we are all| to get her!

Agora tentem notar alguma similaridade entre aquilo que foi descoberto com crianças e esses textos citados.

Alguém?

Nos diz muito a respeito de nosso cérebro como podemos pensar “que coincidência a religião e a filosofia tratarem de trindades e termos uma capacidade inata de distinguir grupos de três” mas não achamos coincidência que os isótopos de ferro que são cuspidos por super-novas como isótopos radioativos de níquel e cobalto nas proporções exatas que encontramos no ferro usado para fazer martelos aqui na terra.

Em um primeiro momento essa conexão pode parecer estranha. Mas vamos analisar outras coisas que não tem nada a ver com isso por hora.

Dê uma olhada com calma na figura abaixo. Me diga o que acha que ela é.

O engraçadinho que respondeu que isso se parece com o raio X da mochila de alguma senhora  embarcando para o Paraguai terá a cabeça sodomizada mais tarde. Isso é um Mattang, um mapa. Ele é confeccionado com fibras de palmeira, gravetos ou qualquer coisa que possa ser usada para traçar linhas e curvas.

Para dar uma idéia do que exatamente é uma dessas coisas chamaremos Pablo.

PABLO! TRAGA O MATTANG!

Como podem ver, o Mattang de cima é uma versão do que Pablo, nosso Travesti de estimação segura. Espere.

PABLO! SUA BESTA, VIRE ELE!

Pronto, agora dá pra reconhecer aquele padrão de folha na parte superior direita, as duas retas paralelas no centro e as linhas curvas na esquerda em baixo.

Falemos sobre mattangs agora.

Os ilhéus do pacífico costumavam navegar bastante de uma ilha para outra. Vai ver eles se enchiam das pessoas presas com eles na própria ilha, vai ver eles ouviam sobre festas nas ilhas visinhas. Algumas das ilhas eram próximas umas das outras, algumas estavam distantes centenas de quilómetros. Esses ilhéus eram o que você provavelmente chamaria hoje de “índios”, ou seja, suas viagens eram realizadas em pequenos barcos e sem a ajuda de qualquer  instrumentos de navegação moderno. Por serem “índios” eles não dispunham de bússolas, sextantes, ou mesmo de cartas de navegação. Latitude e longitude deveriam soar como marcas concorrentes de refrigerante para eles. Mesmo assim, eles pegavam seus barquinhos de “índio” e se metiam no mar para ir atrás das outras ilhas. E acredite, eles chegavam onde queriam.

Na falta de civilização para os entreter, esses ilhéus se ocupavam com outras coisas que estavam por perto, como por exemplo o mar. Na verdade o mar não estava apenas por perto, ele estava em volta, se estendia até o infinito e em algumas épocas também estava por cima. Com o tempo esses ilhéus aprenderam a reconhecer o padrão formado pelas ondas. Não apenas as que rebentavam em suas praias, mas as ondas no meio do caminho. Pelo movimento das águas na superfície do mar, mesmo que não houvesse qualquer vestígio de terra à vista, eles sabiam exatamente onde estavam por saber que desenho as ondas se formavam lá.

Como eles dependiam da navegação para muitas coisas, eles tinham “escolas de índios” que ensinavam os jovens a reconhecer esses padrões. Um dos “livros didáticos de índios” que eles usavam eram os mattangs. No mattang eles colocavam a posição de onde estavam, dos desenhos das ondas ao redor, no meio e no final dos vários percursos. Também contavam com a ajuda do sol e das constelações, além de pássaros, mas o mattang era o simulador de vôo que eles dispunham.

Agora pense no seguinte. Se o mar fosse sempre o mesmo, nós seríamos estúpidos de não nos guiar por seus padrões, mas ele não é o mesmo. Para começar ele é feito de água, e água, diferente de concreto, costuma ter uma natureza muito mais maleável e insconstante. Além disso se venta um dia num canto, ou tem um tsunami do outro lado do mundo, as ondas são afetadas e mudam de forma certo? Como conseguir se guiar por padrões que estão constantemente sujeitos a mudanças? Como gravar esses padrões em muttangs para que eles pudessem ser ensinados a jovens e crianças para que eles os reconhecessem quando os vissem? Se o mar muda o tempo todo, como um navegador índio da Oceania consegue saber onde está, a qualquer momento, apenas olhando para o mar?

Deixemos os índios de lado, vamos voltar para a civilização pelo momento. Claramente vocês se lembram de eu ter citado “pessoas acidentadas” mais acima. Vamos a elas.

Esta é Signora Gaddi. Ela sofreu um derrame. Mas males o menor e o derrame deixou sua faculdade de fala e de rascioncíneo, mas fudeu completamente com sua capacidade de reconhecer números. Ela literalmente não conseguia determinar ou avaliar o número de objetos em qualquer conjunto. Ela também só conseguia repetir os “nomes” dos números até o 4, e assim só conseguia contar os elementos de um grupo de quatro ou menos objetos.

Esta é Frau Huber. Ela teve que fazer uma operação. Enquanto a maioria das mulheres de hoje opera para tirar um pouco de gordura ou colocar muito silicone, Frau Huber queria retirar uma parte de seu lobo pariental esquerdo; não era exatamente vaidade, ela tinha um tumor lá. Depois da cirurgia, sua inteligência e capacidade de falar pareciam ter permanecido bastante boas, mas os números não. Ela também conseguiu foder sua capacidade de reconhecer números. Ela não conseguia somar nem multiplicar nem mesmo usando os dedos. Ela repetia a tabuada de multiplicação, mas era como se estivesse recitando um poema, nada daquilo fazia sentido. Ela continuava capaz de aprender que a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa, mas apenas como você consegue decorar que a energia é a massa vezes a velocidade da luz ao quadrado. Não fazia sentido nenhum, se mostrasse um triIangulo retângulo de catetos igual a 3 e 4 e pedisse para dizer quanto media a hipotenusa ela repetiria a fórmula, mas não saberia calcular ou dizer ou entender aquilo.

Em Paris, algum tempo atrás, uma pessoa que vamos identificar aqui como “o paciente” sofreu um acidente. Sim, ele deve ter recebido flores. Sim, ele deve ter usado um daqueles aventais de hospital que deixa a bunda de fora. Não ele não morreu. Na verdade para deixar mais misterioso nem vou dizer se O Paciente é ele ou ela. Ao invés de morrer seu cérebro sofreu uma lesão que deixou o cérebro basicamente intacto, a não ser por sua capacidade de contar. Ele conseguiu foder sua capacidade de reconhecer números. Isso não significa que O Paciente não conseguia somar 2 mais 2. Isso significa que se você colocasse cinco objetos na frente d’Ele, Ele não saberia dizer quantos eram. Se colocasse dez objetos a mesma coisa. Curiosamente quando 3 pontos eram mostrados para ele em um slide ele conseguia repetir corretamente o número de pontos.

Claro que apenas usar acidentados para conseguir ibope pode parecer de mal gosto. Vamos ver pessoas que não precisaram foder sua capacidade de reconhecer números, elas já nasceram com a capacidade fodida.

Este é Charles. Ele é um jovem muito inteligente. Ele é graduado em psicologia. Ele precisa de uma calculadora para somar 2+2. Vejam, ele é de fato inteligente. Ele se graduou em psicologia e não em frentistologia, e ele não consegue somar 5+8. Isso não quer dizer que ele não consiga, ele usa a calculadora, lembra-se? Ele consegue usar a calculadora para fazer as contas e percebe o resultado, mas nada do que ele digita nela ou ela lhe mostra faz sentido algum. Quando a conta é simples e ele tem tempo ele usa os dedos, conhece os nomes dos números, mas não os enxerga. Dê dois números a ele como 20 e 2, ou 14 e 10.937.498 e pergunte qual o maior. Ele não saberá dizer, ele começa a contar nos dedos e vê qual chega primeiro, esse, logicamente, é o menor. Em um teste ele levou oito segundos para somar 8 e 6, em outro levou doze segundos para subtrair 2 de 6. Ele não conseguiu realizar contas mais complexas como 7+5 e 9+4. Obviamente ele levou mais tempo do que seus amigos para se formar, mas se formou.

Aquela ao lado de Charles é Julia. Não eles não tem qualquer parentesco, nem se conhecem. Como Charles, Julia também se graduou e não apenas isso, ela fez pós graduação. Como Charles ela também só conseguia contar usando os dedos e quando os números iam além do 10 ela suava frio e sentia os olhos se encherem de lágrimas, quando os dedos terminavam, também terminava a contagem. Frações para ela eram algo incompreensível, apesar dela ser capaz de cortar um bolo de aniversário em pedaços. Ela não consegue contar de 3 em 3, a não ser na mão, um a um e enfatizando cada terceiro nome: um, dois, TRÊS, quatro, cinco, SEIS, sete, oito, NOVE, etc., etc., ETC. Diferente de Charles, Julia conseguia dizer se um número era maior do que outro.

Que lições podemos tirar disso? Em primeiro lugar parece que um daltonismo para números é possível. Depois que chamamos pessoas que não percebem cores, pessoas que não percebem números, pessoas que não percebem dor de deficientes, mas pessoas que não percebem a Deus de Ateus, e por algum motivo esses “ateus” parecem se colocar em um grupo acima ao dos daltônicos, das pessoas com deficiência no senso numérico e das pessoas acometidas de Alopecia.

Há uma terceira lição que pode ser interessante. As pessoas lesionadas ou que não tem esse senso de número mostram que aquilo que chamamos de números parecem parasitar uma área específica do cérebro. Uma área diferente da parasitada pela linguagem. Dito isso podemos também afirmar que… ok, bando de covardes.

Dito isso eu afirmo que a matemática, assim como a linguagem, possuem circuitos próprios que já vem instalados em nosso sistema nervoso. Quando essas placas de circuito se quebram deixamos de contar ou de falar. Isso separa a matemática de nós, de cara. Nós somos equipados com o hardware, mas o software não vem de nós, nós apenas a descobrimos. E digo mais. Não precisamos de números para realizar matemática. E vou além! Aquilo que chamamos de números, não são o que você acha que são.

Caso você ainda pense que a matemática é inventada ou criada pela mente superior do homem moderno, pense nisso antes de dormir: se o teorema dos quadrados dos catetos não tivesse sido “inventado” antigamente para você calcular uma hipotenusa, ele eventualmente seria inventado em algum ponto da história, exatamente igual. O mesmo para teoremas e fórmulas mais complexas. Se um teorema ou fórmula não depende da mente superior de um “homem” específico para vir a existir como a compartilhamos? Se a matemática é uma invenção da mente, de quem é a mente que a cria?


eis sua MÃO!!!

Por LöN Plo

Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/uma-introducao-inicial-aos-misterios-matemagicos-que-sao-muito-interessantes-2/