Devoradores de Maçãs

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Parte final da série “A ciência da inspiração” ver parte 1 | ver parte 2

Metáfora: Figura de linguagem em que há a substituição de um termo ou conceito por outro, criando-se uma dualidade de significado.

Um dos mitos mais conhecidos da humanidade trata de jardim do Éden, onde os primeiros humanos criados por Deus, a sua imagem e semelhança, viviam imortais, ociosos e aparentemente felizes. Isso foi até que eles resolveram comer os frutos (o mito fala em maçãs) da árvore do conhecimento do bem e do mal, da qual Deus havia alertado que eles não deveriam comer, ou conheceriam a morte. E o resto todos já sabem: Deus ficou furioso e os expulsou do Éden apenas com alguns trapos feitos de couro de animais, pois que agora um se envergonhava da nudez do outro. E Adão e Eva povoaram o mundo, muito embora o pecado de Eva tenha nos amaldiçoado por muitos e muito anos, até que Jesus veio pagá-lo para nós.

Joseph Campbell, grande estudioso do assunto, dizia que “o mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre”. Ele provavelmente queria dizer que os mitos tratam de verdades que existem fora do tempo, ou seja, que existem sempre. Todo grande mito da humanidade fundamenta-se em uma ou mais dessas verdades, dessa partícula de essência que emana da eternidade. Foi exatamente por isso que os sábios antigos tiveram o cuidado de popular suas histórias com vários desses mitos. Eles sabiam, certamente, que muitos aldeãos e camponeses ignorantes de sua época iriam interpretar tais histórias ao pé de letra, de forma literal – mas sem dúvida também tinham a esperança de tocar a alma dos outros sábios que viriam a Terra em épocas posteriores.

O mito do Éden é repleto de metáforas. Talvez a mais interessante delas seja exatamente o paradoxo do pecado pelo qual Eva foi condenada. Ora, antes de devorar a maçã, ela era sem dúvida ignorante do conhecimento (seja do bem, seja do mal). Se nunca houvesse comido o fruto proibido, estaria ociosa e imortal, por toda eternidade, em um jardim onde poucas coisas interessantes acontecem – mas seria feliz, acredita-se. Animais ignorantes também são “felizes” vivendo no meio selvagem; Entretanto, as pressões do meio-ambiente nunca os deixaram relaxar: na guerra do sofrimento e da fome, mesmo em meio a sua “felicidade”, presas e predadores lutaram pela sobrevivência por longos e longos anos. Não fosse por essa pressão da natureza, talvez a Terra estivesse até hoje populada por hominídios, ou nem mesmo isso, por roedores e outros pequenos mamíferos…

Pois foi exatamente quando adquiriu à consciência e o conhecimento do bem e do mal que o ser humano se tornou quem é. Por um lado, portanto, a metáfora do fruto proibido é apenas uma história fantasiosa, por outro, é uma explicação surpreendentemente avançada para a época em que foi escrita. Será que os rabinos judeus tinham ideia de que estavam a antecipar um dos grandes mistérios da evolução das espécies? Será que tinham pleno conhecimento daquilo que escreviam talvez guiados pela pura intuição? Acredito que a resposta não esteja nem tanto lá, nem tanto cá. Certamente os sábios antigos tinham noção de que lidavam com assuntos sagrados, e que os estavam passando adiante “cifrados” em metáforas dentro de mitos. Mas da mesma forma eles certamente tinham consciência de que não tinham como saber tudo, e é exatamente por isso que passavam tais símbolos para as gerações futuras – como uma mensagem numa garrafa arremessada no oceano, a espera de alguma praia onde existam seres mais sábios para decifrar seus enigmas.

Nós já ficamos com nós na cabeça ao abordarmos o conceito de programação genética. E, da mesma forma, já consideramos com carinho a possibilidade da mente humana ser o resultado da interseção de módulos mentais (naturalista, técnico e social). Além disso, também falamos sobre como a neurologia compreende a criatividade: o foco mental em novos estímulos e ideias, em fluxo e trocas constantes com as ideias que já dominamos em nossas respectivas artes ou disciplinas… Ora, em posse dessas informações, talvez o processo misterioso dos algoritmos genéticos não seja mais tão insondável.

Vamos falar, por exemplo, de poesia: da mesma forma que gerações de algoritmos se digladiam no meio-ambiente do problema a ser resolvido, todos os estímulos que os poetas enviam para suas mentes – através de seus olhares sempre atentos aos menores detalhes da natureza à volta – nada mais são do que algoritmos em busca da solução de sua próxima poesia. A grande diferença é que, ao contrário dos programadores, os poetas geralmente sequer tem ideia de qual é o problema a ser resolvido – de certa forma, para eles, as soluções chegam junto com os problemas, embora nenhuma solução seja realmente a derradeira, e todos os problemas sejam quase sempre infinitos. Nessa batalha mental travada por estímulos ambíguos e aparentemente sem relação uns com os outros, ninguém sai derrotado, pois o fruto é sempre uma nova legião de metáforas. E estas maçãs são divinas, jamais proibidas… Os poetas são verdadeiros devoradores de maçãs!

Vejamos uma dessas “soluções”, pelo grande poeta místico, Gibran Khalil Gibran:

Na floresta só existe lembrança dos amorosos
Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram,
seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos
Conquistador entre nós é aquele que sabe amar
Dá-me a flauta e canta!
E esquece a injustiça do opressor
Pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue

Neste belo trecho do poema “A floresta”, é impossível chegar a uma compreensão efetiva do que o poeta quis dizer sem usar ao menos parte de nossa emoção e nossa intuição juntamente com nossa razão… Mesmo assim, ficará sempre aquela dúvida se realmente compreendemos todo o bem e todo o mal deste belo fruto da inspiração de Gibran. O lírio é uma taça para o orvalho, e não para o sangue – quantas e quantas interpretações e conceitos contidos em apenas uma frase.

Há ainda outros poetas que conseguem inserir metáforas dentro de metáforas dentro de ainda outras metáforas… Quando Fernando Pessoa diz que “o poeta é um fingidor, finge ser dor a dor que deveras sente”, ele está nos trazendo para uma análise existencial da qual a solução jamais será algo racional, objetivo, tal qual 2+2=4. Nesse sentido, é possível que os algoritmos genéticos sejam extensões de nossa racionalidade, aplicadas a problemas descobertos por nossos cientistas e matemáticos, e que tudo o que fazem é poupar seus cérebros de rodar trilhões de cálculos, antecipando uma solução que em séculos passados seria inviável. Entretanto, na poesia pode ser mais depressa ainda: a solução chega junto com o problema. A diferença é que na poesia a solução jamais será final, e após termos devorado todas as maçãs do Éden, teremos de sair nós mesmos em busca de mais conhecimento – ainda que o velho barbudo tenha se esquecido de nos expulsar…

Muito do debate acerca da existência de Deus se resume ao ancião das metáforas do antigo testamento bíblico – sim, pois o Deus de Jesus é sempre um coadjuvante, que intervém apenas por emanação de pensamentos, e não de forma “direta”. Esses debates se parecem mais com debates entre crianças que brincam em uma praia – uma delas constrói um castelo de areia e diz que “esta é a cidade de deus”… Enquanto outras crianças com senso crítico mais desenvolvido esperam as ondas da maré chegar e destruir os castelos, e então bradam convictas: “Viram! Não lhes disse que este deus tinha pés de barro?”.

Ora, mas e se o reino de Deus estiver em sua volta? E se ele abarcar não só os castelos de areia, como cada grão de areia da praia, e cada gota de água do mar, e cada nuvem e cada pássaro a planar pelo céu, e cada sol a flutuar pelo Cosmos, e cada partícula a bailar por nosso cérebro e nossa alma?

Einstein dizia que “a ciência sem a religião é manca; a religião sem a ciência é cega”. Ora, um dos grandes cientistas de nosso tempo, em sua maturidade, defendia uma “religiosidade cósmica”, baseada na presença de um poder racional superior, revelado no universo ainda oculto ao conhecimento da ciência. Muitos outros cientistas e filósofos foram teístas, deístas, panteístas, agnósticos, etc. Para quem possuí muita ciência, fica muito difícil apostar que tudo o que há surgiu do nada como numa “passe de mágica cósmico”. No mínimo, é preciso admitir que tal questão não pode ser compreendida hoje, e talvez jamais possa… De qualquer forma, pela lógica, também se faz necessário concordar com Espinosa (como Einstein, aliás, concordou) quando este afirma em sua “Ética” que “uma substância não pode criar a si mesma”…

E se Deus for um grande programador cósmico? E se nós formos parte dos algoritmos divinos que ele inseriu em sua criação? E se no núcleo de cada átomo, nos filamentos de cada DNA, em cada um de nosso neurônios, nas partículas etéreas de nossa alma, não estiverem inscritos códigos sagrados que ditam que este Cosmos nada mais é do que um problema em solução? E se formos nós mesmos os personagens e co-criadores desta poesia infinita? Navegando dentre raios cósmicos e poeira de estrelas, é impossível participar deste problema sem estarmos encharcados de Deus por todos os lados e a todos os momentos…

O reino de Deus sempre esteve a nossa volta. Nós jamais fomos expulsos do Éden. Tudo o que falta é compreendermos isso – que o Éden jaz, antes de mais nada, em nossa consciência… E que Deus ou o Cosmos jamais foram uma solução, jamais uma muleta na qual pudéssemos nos acomodar, mas sim um grandioso problema que vem sendo solucionado passo a passo, inspiração por inspiração. Nós devoramos uma maçã de cada vez…

Na floresta não existe nem rebanho, nem pastor

Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera

Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão

Se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão
Dá-me a flauta e canta!

O canto é o pasto das mentes,

e o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor

Gibran Khalil Gibran, trecho de “A floresta”.

***

Crédito das fotos: [topo] Guto Lacaz (exposição “Einstein no Brasil”); [ao longo] Marcos Homem

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

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#Religião #Mitologia #Ciência #Criatividade #poesia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/devoradores-de-ma%C3%A7%C3%A3s

4 Deuses Lovecraftianos mais poderosos que Cthulhu

Lovecraft é um autor que não precisa mais apresentações. Hoje poucos não conhecem esse fantástico universo criado por sua mente poderosa e alimentado por seu talento literário e mais tarde explorado por muitos outros autores que também contribuiram grandiosamente com histórias macabras das entidade mais horrendas que já habitaram a imaginação humana.

Porém, poucas pessoas compreendem a profundidade deste universo e em especial, a vasta profundidade do panteão e personagens cósmicos no qual, Cthulhu ocupa o primeiro lugar em popularidade, mas não em poder. Sua fama lhe deu o status de ser mais poderoso nos canários lovecraftanos, mas um conhecimento mais aprofundado deste universo revelará seres ainda mais terrivelmente poderosos.

Porque então seria Cthulhu o mais famoso destes seres tão maiores que a humanidade? Simples porque ele vive na Terra. Está dormindo no fundo do nosso oceano. Além disso está destinado a ser o carrasco de tudo aquilo que é, tudo aquilo que foi e tudo aquilo que poderá ser em nossa esfera. Contudo disso resulta que essa entidade de 10 quilometros de altura não é nem maior, nem mais poderosa e nem mais relevante e nem tão pouco o que ocupa o lugar mais alto na pirâmide de deuses do universo lovecraftiano.

De fato, espalhado por todo universo Cthulhu tem incontáveis colegas, inimigos e hermanos e seres em geral que estão em seu mesmo nível de grandiosidade. E vários níveis acima estão os deuses como os Grande Antigos que são sem exagero, milhões de vezes mais poderosos e importantes do que ele. Comparar estes deuses com Cthulhu é como comparar uma formiga com um Mamute. Uma brisa com um furação.

Vamos pinçar aqui pelo menos quatro deuses lovecraftianos mais poderosos que Cthulhu:

Shub-Niggurath

Como toda entidade poderosa que existe desde os tempos imemoriais e que sobrepassam em tudo a criação deste mundo, Shub-Niggurath foi conhecida por muitos nomes, em muitas eras e em muitos mundos diferentes, adorada em alguns e temida em outros. Um deste nomes é a ‘Cabra Negra do Bosque com Dez Mil Crias’.

Criada pelo mestre em 1928 para o conto ” A Útima Prova” essa horrível deusa nunca foi descrita com muitos detalhes. Artistas e mentes criativas ao redor do mundo tomaram para si o desafio e a liberdade de representá-la adequadamente com a pouca informação que há sobre ela. Mais tarde,  descrições foram feitas por outros autores como Robert Bloch e Ramsey Campbel e então aceitas como consenso pelos leitores e fãs, tornando-se consagradas no universo lovecraftiano.

“Uma enorme massa nebulosa da qual sobressaem tentáculos negros, bocas escorrendo saliva e apêndices curtos e retorcidos.” Sem dúvida, seu título que sobressai de seus nomes e que fala sobre nada menos do que 10 mil crias não é gratuito nem tão pouco despropositado. Shub-Niggurath é uma deusa da fertilidade e constantemente da a luz a criaturas grotescas de indisiveis realidades..

Um de seus muito cultos que floresceram no planeta Terra ergueu a ela um templo colossal em sua honra, e conta-se que quando lhes invocava aparecia como uma divindade que atravessava um portal dimensional e com uma de suas muitas boca engolia seu sacerdote favorito para vomitâ-lo como formas desfiguradas como a de um sátiro, mas tendo como recompensa a vida eterna.

Como muitos monstros de Lovecraft, Shub-Niggurath transcendeu seu criador e até hoje, várias décadas depois de sua criação é mencionada em histórias de terror de muitos autores diferentes, incluindo Stephen King em seu conto “Pesadelos e Alucinações”. Sendo parte dos Grandes Antigos Shub-Niggurath foi redescoberta na era moderna graças ao Necronomicon, livro fictício criado por Lovecraft que faz menção a ela em uma frase impronunciável “Ia! Shub Niggurath!”

Sendo objeto de culto universal em incontáveis planetas, e recebendo a adoração de infinitas civilizações e raças inferiores, incluindo muitas das encarnações humanas de civilizações já esquecidas, Shub-Niggurath, e uma onda tsunamica de bocas, pústulas e vaginas parindo sem parar é assim vai para o quarto lugar de nossa lista.

Nyarlathotep

Para todos os entendidos em mitologia lovecraftiana Nyarlathotep é sem dúvida um dos mais malígnos, mais perigosos e mais terríveis deuses com quem qualquer pessoa racional pode ter a infinita e hórrida desgraça de encontrar. E a razão é simples: Seres como Cthulhu, Shub-Niggurath e mesmo os outros que ainda serão listados neste artigo, são descritos como criaturas extraterrestres de idades imortavelmente incompressíveis  para o intelecto humano. Com milhões de anos e tecnologia tão avançada que é confundida com magia, e cujo poder é tal que são temidos como deuses. Aos seus olhos a existência humana é microscópica e a forma como a mente humana funciona, seus anseios e moralidade são por definição incompatível com a forma como pensam. Como a vida de um ácaro é para nós. Por esta razão, Nyarlathotep é muito especial entre os deuses, pois é um dos poucos, senão o único, que tem certo grau de compreensão da mente humana e assim pode fazer coisas que os outros deuses não podem,  como por exemplo conversar com pessoas ou adquirir a forma humana.

Se você acredita que o que foi dito antes é algo bom, lamento desapontar. Não é bom.  Nyarlathotep entende realmente a moralidade humana, mas escolheu mal. Terrivelmente mal. Ele é cruel, ruim e extremamente poderoso. Ele pode conduzir qualquer um a loucura não apenas com seu poder psiquico, mas com sua mera aparência. Com ele a escola lovecraftiana ganhou seu ímpeto mais sinistro que impera até os dias de hoje nas mentes criativas. Um exemplo é Zalgo, um mito nascido na internet mas indubitavelmente influênciado pela figura de Nyarlathotep.

Criado em 1920 por Lovecraft, Nyarlathotep apareceu pela primeira vez em um poema que leva seu nome. Ele não é um dos Grandes Antigos mas pertence a categoria dos Outros Deuses mais baixos. Contudo,  seu poder está muito acima do de Cthulhu. Diz-se que Nyarlathotep têm mil formas distintas, o que é simplesmente uma forma de dizer que pode adotar a aparência que quiser. Seus avatares variam muito, dependendo se ele quer destruir por completo, torturar, fascinar ou simplesmente conversar para induzir você a um destino que provavelmente, será muito obscuro.

Já foi relatado como um imperador egípcio, um homem elegante com o poder de controlar animais, uma monstruosidade de vários quilometros de altura com uma língua gigante no lugar da cabeça, como um furacão de ventos negros, uma mulher chinesa obesa, ou simplesmente, como um deus sem rosto.

Por sua presença entre humanos é talvez o mais adorado deus cósmico da terra. Existem muitas seitas que o adoram sob vários nomes espalhadas pelo mundo, especialmente na África, e muitas delas já foram destruídas por ele depois que perderam suas utilidades. Para algumas pessoas a presença deste ser nefasto em nosso planeta foi de fato a origem de todos os mitos de deuses malignos, desde Ahrimam e Seth até o inexplicavelmente mal Diabo cristão. Sem dúvida,  Nyarlathotep é o deus mais perverso, malicioso e maldoso de todo panteão lovecraftiano.

Azathoth

Azathoth é conhecido na mitologia lovecraftiana por ser o mais poderoso dentre todos os deuses. Azathoth é tão reconhecidamente poderoso, que os mais versados nas narrativas lovecraftianas estranharão ele não estar no topo de nossa lista. Peço que tenham um pouco de paciência. Conheçamos esta terrível entidade cósmica.

Este deus é descrito como o Caos Nuclear, não porque tenha qualquer coisa relacionada com energia atômica, mas porque na palavra nuclear está implícita a palavra núcleo, ou seja, principal, essencial. Diz-se que ele criou acidentalmente o universo e quando despertar o destruirá com a mesma facilidade com que lhe originou.

Criado em 1919, Azathoth apareceu pela primeira vez em uma simples nota de papel de lovecraft, onde escreveu Azathoth – o nome horrível. Era óbvio que lovecraft havia tido uma ideia para uma história que alguns anos depois viraria seu livro “A busca onírica por Kadath”.

A posição de Azathoth está sem sombra de dúvida acima de todas as outras, inclusive de todos os outros Grandes Antigos, sendo descrito como “O motor principal do caos, a antítese da criação, o Sultão retardado de todos os demônios. Aquele que morde, geme e baba no centro do vazio final e absoluto.”

É descrito como um Deus idiota pela simples razão de que carece de qualquer raciocínio. Assim, as vezes, é difícil descrevê-lo como uma deidade, pois se trata de uma força suprema do cosmos e assim é chamado de o Caos Criativo e Infinito do Universo. O Deus Supremo dos mitos de Cthulhu não faz a mínima ideia do que está fazendo. É perturbador como isso explica melhor o cosmos indiferente e insano que vemos daqui de baixo.

Dizem que ao seu redor dançam o resto dos deuses mais antigos, seguindo as suas dementes melodias, entre eles ninguém menos que Shub-Niggurath e Nyarlathotep. A presença de Azathoth vem acompanhada do som de uma flauta, que sem dúvida tocará a melodia que causará o fim, não apenas da desprezível raça humana, mas de toda a criação.

Yog-Shothoth

Sendo que o universo é uma sopa intragável criada por acidente por um ente cósmico chamado Azathoth, o que pode sobrar de mais poderoso para um deus lovecraftiano? Bom, esta é uma questão de opinião, mas não se confundam, o deus que está em primeiro lugar é extremamemente poderoso. Após conversar com pessoas versadas na mitologia lovecraftiana, comparar dados, pesquisar e ponderar muito não tenho dúvida que o primeiro lugar deve ir a Yog-Shothoth.

Criado em 1927 pelo mestre Lovecraft, nascendo na obra “O Caso de Charles Dexter Ward”, Yog-Shothoth é descrito com as seguintes palavras, que não deixam nenhum espaço para dúvidas sobre sua posição de destaque: “Ele é a Chave e a Porta.”, “Além do mais além.” “O morador do Umbral” e o “Um em tudo e o tudo em um.”

Descrito como um conglomerado de esferas de esplendor maligno que podem ser tanto do tamanho da abobada celeste, ou de tamanhos infinitos, é uma entidade que representa o Espaço e o Tempo, o Infinito, e que assim pode existir para além deste mesmo Universo

Yog-Shothoth tudo vê e tudo sabe. Ele enxerga com clareza não apenas todos os universos, mas também todos os pontos de vista de cada um destes universos. Desta era, das eras passadas, das eras antes dos tempos e de todas as que estão por vir. Não se sabe se os cultistas que tentam agradá-lo, realmente o agradam mediante rituais ou se levam a cabo experimentos praeter-naturais e tem vislumbres de coisas muito além da capacidade de entendimento humano
Yog-Shothoth é transcedente a tudo que existe, inclusive possui alguns deuses que são como apêndices de Yog-Shothoth ou avatares menores,  como é o caso de Zathog, que tem o poder de viajar livremente pelo espaço e pelo tempo. Em  O horror de Dunwich,  Lovecraft como um narrador onisciente, descreve este ente supremo como “A porta, o guardião da porta e a chave dela mesma”, “O passado, o presente e o futuro convergem a ele.. Ele sabe como e quando tudo acontece, sabendo inclusive como foi o princípio de tudo. Isso não é pouco, mas não é tudo. Ele sabe também como e quando será o final e quantos ciclos de tudo e nada houveram antes e haverão depois.

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=mKtlvdQnn_E

DrossRotzank

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/4-deuses-lovecraftianos-mais-poderosos-que-cthulhu/

Exemplos de Contradições Bíblicas

Os estudiosos calcularam que a Bíblia contém mais de duas mil contradições explícitas ou implícitas. Esta lista é somente uma pequena seleção. Obs: As contradições serão mais bem entendidas se houver o devido acompanhamento das passagens bíblicas citadas.

Os Gigantes existiam antes da inundação (Gênesis 6:4).

Somente Noé, sua família, e os animais da Arca sobreviveram à inundação (Gênesis 7:23).

Mesmo depois da Inundação os gigantes continuaram existindo (Números 13:33).

Toda a terra tinha uma só língua e as mesmas palavras, até que Deus criou vários idiomas diferentes, fazendo com que ninguém entendesse um ao outro (Gênesis 11:1,6-9).

Anterior a isto, a Bíblia fala de diversas nações, cada um com sua própria língua (Gênesis 10:5).

Deus admitiu que Ele é a causa da surdez e da cegueira (Êxodo 4:11).

Contudo, Deus não aflige os homens por vontade própria (Lamentações 3:33).

Deus envia Moisés para o egito resgatar os filhos de Israel (Êxodo 3:10. 4:19-23).

No caminho, Deus ameaçou Moisés de morte. Não proveu de explicação (Êxodo 4:24-26).

Deus mata todos os animais dos egípcios com uma forte pestilência. Nenhum sobreviveu a pestilência (Êxodo 9:3-6).

Deus mata todos os animais dos egípcios com uma chuva de granizo (Mas eles já não haviam morrido com a pestilência?) (Êxodo 9:19-21,25).

Deus não foi conhecido por Abraão, Isaac e Jacó pelo nome de Javé (Êxodo 6:2-3).

O nome do Senhor já era conhecido (Gênesis 4:26).

Deus proibe que seja feito a escultura de qualquer ser (Êxodo 20:4).

Deus ordenou a fabricação de estátuas de ouro (Êxodo 25:18).

Proibição do assassinato (Êxodo 20:13).

Deus manda Moisés matar todos os homens de Madiã (Números 31:7).

Proibição do roubo (Êxodo 20:15).

Deus manda roubar os egípcios (Êxodo 3:21-22).

Proibição da mentira (Êxodo 20:16)

Deus permite a mentira (I Reis 22:22)

Deus não pode mentir (Números 23:19).

Deus deliberadamente enviou um “espírito” mentiroso (I Reis 22:20-30) (II Crônicas 18:19-22).

Deus faz pessoas acreditarem em mentiras (II Tessalonicenses 2:11-12).

O Senhor engana os profetas (Ezequiel 14:9).

Aarão morreu no monte Hor. Imediatamente depois disso, os israelitas foram para Salmona e Finon (Números 33:38).

Aarão morreu em Mosera. Depois disso, os isralelitas foram para Gadgad e Jetebata (Deuteronômio 10:6-7).

Deus diz a Moisés que Aarão morreu no monte Hor (Deuteronômio 32:50).

Nós temos que amar Deus (Deuteronômio 6:5) (Mateus 22:37).

Nós temos que temer Deus (Deuteronômio 6:13) (I Pedro 2:17).

Deus escreveu nas tábuas as dez palavras da aliança (Deuteronômio 10:1-2,4).

Deus ditou e Moisés escreveu (Êxodo 34:27-28).

Josué queimou a cidade de Hai e reduziu-a a um monte de ruínas para sempre (Josué 8:28).

Hai ainda existe como uma cidade (Neemias 7:32).

Josué destruiu totalmente os habitantes de Dabir (Josué 10:38-39).

Os habitantes de Dabir ainda existem (Josué 15:15).

Saul destruiu completamente os amalecitas (I Samuel 15:7-8,20).

David destruiu completamente os amalecitas (I Samuel 27:8-9).

Finalmente os amalecitas são mortos (I Crônicas 4:42-43).

Isaí teve sete filhos além de seu mais jovem, David (I Samuel 16:10.11).

David foi o sétimo filho (I Crônicas 2:15).

Saul tentou consultar o Senhor (I Samuel 28:6).

Saul nunca fez tal coisa (I Crônicas 10:13-14).

Saul cometeu suicídio (I Samuel 31:4-6) (I Crônicas 10:4-5).

Saul foi morto por um amalecita (II Samuel 1:8-10).

Saul foi morto pelos filisteus (II Samuel 21:12).

Davi tomou 1.700 cavaleiros de Adadezer (II Samuel 8:4).

Davi tomou 7.000 cavaleiros de Adadezer (I Crônicas 18:4).

Davi matou aos arameus 700 parelhas de cavalos e 40.000 cavaleiros (II Samuel 10:18).

Davi matou aos arameus 7.000 cavalos e 40.000 empregados (I Crônicas 19:18).

Israel dispõe de 800.000 homens aptos para manejar espadas, enquanto que Judá dispõe de 500.000 homens (II Samuel 24:9).

Israel dispõe de 1.100.000 homens aptos para manejar espadas, enquanto que Judá dispõe de 470.000 homens (I Crônicas 21:5).

Satã provocou Davi a fazer um censo de Israel (I Crônicas 21:1).

Deus sugeriu Davi a fazer um censo de Israel (II Samuel 24:1).

Davi pagou 50 siclos de prata por gados e pelo terreno (II Samuel 24:24).

Davi pagou 600 siclos de ouro pelo mesmo terreno (I Crônicas 21:25).

Rei Josias foi morto em Magedo. Seus servos o levam morto para Jerusalém (II Reis 23:29-30).

Rei Josias foi ferido em Magedo e pediu para seus servos o levarem para Jerusalém, onde veio a falecer (II Reis 23:29-30).

Foram levados 5 homens dentre os mais íntimos do rei (II Reis 25:19-20).

Foram levados 7 homens dentre os mais íntimos do rei (Jeremias 52:25-26).

São citados os nomes de 10 pessoas que vieram com Zorobabel (Esdras 2:2)

São citados os nomes de 11 pessoas que vieram com Zorobabel (Neemias 7:7)

(Esdras 2:3 & Neemias 7:8) Estas passagens pretendem mostrar a quantidade de pessoas que voltaram do cativeiro babilônico. Compare o número para cada família: 14 deles discordam.

Jesus foi filho de José, que o foi de Jacob (Mateus 1:16).

Jesus foi filho de José, que o foi de Heli (Lucas 3:23).

O pai de Salathiel foi Jeconias (Mateus 1:12).

O pai de Salathiel foi Neri (Lucas 3:27)

Abiud é filho de Zorobabel (Mateus 1:13).

Resa é filho de Zorobabel (Lucas 3:27).

São citados os nomes de todos os filhos de Zorobabel, mas nem Resa e nem Abiud estão entre eles (I Crônicas 3:19-20).

Jorão era o pai de Ozias que era o pai de Joathão (Mateus 1:8-9).

Jorão era o pai de Occozias, do qual nasceu Joás, que gerou Amazias, que foi pai de Azarias que, finalmente, gerou Joathão (I Crônicas 3:11-12).

Josias era o pai de Jeconias (Mateus 1:11).

Josias era o avô de Jeconias (I Crônicas 3:15-16).

Zorobabel era filho de Salathiel (Mateus 1:12) (Lucas 3:27).

Zorobabel era filho de Fadaia. Salathiel era tio dele (I Crônicas 3:17-19).

Jesus curou um leproso depois de visitar a casa de Pedro e Simão (Marcos 1:29,40-42).

Jesus curou o leproso antes de visitar a casa de Pedro e Simão (Mateus 8:2-3,14).

O Diabo levou Jesus primeiro ao topo do templo e depois para um lugar alto para ver todos os reinos do mundo (Mateus 4:5-8).

O Diabo levou Jesus primeiro para o lugar alto e depois para o topo do templo (Lucas 4:5-9).

O centurião se aproximou de Jesus e pediu ajuda para um criado doente (Mateus 8:5-7).

O centurião não se aproximou de Jesus. Ele enviou amigos e os anciões dos judeus (Lucas 7:2-3,6-7).

Jairo pediu a Jesus que ajudasse a sua filha, que estava morrendo (Lucas 8:41-42).

Ele pediu para que Jesus salvasse a filha dele que já havia morrido (Mateus 9:18).

Deus confiou o julgamento a Jesus (João 5:22) (João 5:27,30 8:26) (II Coríntios 5:10) (Atos 10:42).

Jesus, porém, disse que não julga ninguém (João 8:15,12:47).

Os santos hão de julgar o mundo (I Coríntios 6:2).

A transfiguração de Jesus ocorreu 6 dias após a sua profecia (Mateus 17:1-2).

A transfiguração ocorreu 8 dias após (Lucas 9:28-29).

A mãe de Tiago e João pediu a Jesus para que eles se assentassem ao seu lado no reino (Mateus 20:20-21).

Tiago e João fizeram o pedido, ao invés de sua mãe (Marcos 10:35-37).

Ao sair de Jericó, Jesus se encontrou com dois homens cegos (Mateus 20:29-30).

Ao sair de Jericó, Jesus se encontrou com somente um homem cego (Marcos 10:46-47).

Dois dos discípulos levaram uma jumenta e um jumentinho para Jesus da aldeia de Bethfagé (Mateus 21:2-7).

Eles levaram somente um jumentinho (Marcos 11:2-7).

Jesus amaldiçoou a árvore de figo depois de ter deixado o templo (Mateus 21:17-19).

Ele amaldiçoou a árvore antes de ter entrado no templo (Marcos 11:14-15,20)

Um dia após Jesus ter amaldiçoado a figueira, os discípulos notaram que ela havia secado (Marcos 11:14-15,20)

A figueira secou imediatamente após a maldição ser posta (Mateus 21:19).

Jesus disse que Zacarias era filho de Baraquias (Mateus 23:35).

Zacarias era filho de Joiada (II Crônicas 24:20-22).

#Bíblia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/exemplos-de-contradi%C3%A7%C3%B5es-b%C3%ADblicas

‘Resumo As 48 Leis do Poder

Existem duas forças universais travando uma antiga batalha.

O movimento ecológico e globalização, embora tenham trazido novidades relevantes, vendem hoje a idéia de que o progresso só acontece quando estamos em harmonia com a natureza e o mundo. Mas o mundo não está muito interessado no seu sucesso.

A antiga batalha descrita em praticamente todas as mitologias conhecidas ainda é verdadeira. De um lado, o cosmos, a natureza e as leis universais regem tudo o que existe. Do outro está você. Quando Robert Greene escreveu as “48 leis do Poder” seu objetivo era listar de forma sistemática quais estratégias você pode usar para impor a sua vontade frente a um mundo indiferente e a pessoas tão egoístas quanto você.

Este é, na verdade um dos conceitos chaves de Nicolau Maquiavel. A idéia de que o destino é guiado pela Fortuna e pela Virtù. Fortuna seria tudo aquilo que acontece que você não tem nenhum controle. Os “atos de deus”, o rio indomável da vida. O nome vem de Fortuna da deusa romana da sorte. Às vezes uma princesa, às vezes uma vadia. Do outro lado do ringue está Virtù, cujo nome remete ao antigo conceito Romano de Virtude. (não confundir com a deturpação crista do mesmo). Virtù é tudo aquilo que você faz de propósito. Quando Virtú é feita de modo coerênte com fins bem esclarecidos ela se torna idêntica ao conceito Thelemita de Verdadeira Vontade.

Essa é a exata mesma idéia por trás de toda Bíblia Satânica, especialmente do Livro de Satã. Contudo, enquanto o a Bíblia do Lavey ou o Might is Right tratam da Lei do forte de modo emocional e idealista, as 48 Leis tratam da metodologia racional com a qual esta mesma força deve ser exercida.

Assim o livro de Greene, aqui resumido, é uma coletânea de estratégias comuns aos homens que decidem tomar as rédeas do seu destino e fazer alguma coisa por si mesmos. Não é a toa que este livro é parte da lista de leituras obrigatórias do Temple of Seth. São as leis dos homens que Maquiavel chamaria de Virtuosos, Lavey chamaria de Bem Aventurados, e nós de sensatos. Boa Leitura.

 

As 48 Leis do Poder

 

LEI 1
NÃO OFUSQUE O BRILHO DO MESTRE

Faça sempre com que as pessoas acima de você se sintam confortavelmente superiores. Querendo agradar ou impressionar, não exagere exibindo seus próprios talentos ou poderá conseguir o contrário inspirar medo e insegurança. Faça com que seus mestres pareçam mais brilhantes do que são na realidade e você alcançará o ápice do poder.

 

LEI 2
NÃO CONFIE DEMAIS NOS AMIGOS, APRENDA A USAR OS INIMIGOS

Cautela com os amigos, eles o trairão mais rapidamente, pois são com mais facilidade levados à inveja. Eles também se tornam mimados e tirânicos. Mas contrate um ex-inimigo e ele lhe será mais fiel do que um amigo, porque tem mais a provar. De fato, você tem mais o que temer por parte dos amigos do que dos inimigos. Se você não tem inimigos, descubra um jeito de tê-los.

 

LEI 3
OCULTE AS SUAS INTENÇÕES

Mantenha as pessoas na dúvida e no escuro, jamais revelando o propósito de seus atos. Não sabendo o que você pretende, não podem preparar uma defesa. Leve-as pelo caminho errado até bem longe, envolva-as em bastante fumaça e, quando elas perceberem as suas intenções, será tarde demais.

 

LEI 4
DIGA SEMPRE MENOS DO QUE O NECESSÁRIO 

Quando você procura impressionar as pessoas com palavras, quanto mais você diz, mais comum aparenta ser, e menos controle da situação parece ter. Mesmo que você esteja dizendo algo banal, vai parecer original se você o tornar vago, amplo e enigmático. Pessoas poderosas impressionam e intimidam falando pouco. Quanto mais você fala, maior a probabilidade de dizer uma besteira.

 

LEI 5
MUITO DEPENDE DA REPUTAÇÃO DÊ A PRÓPRIA VIDA PARA DEFENDÊ-LA

A reputação é a pedra de toque do poder. Com a reputação apenas você pode intimidar e vencer; um deslize, entretanto, e você fica vulnerável, e será atacado por todos os lados. Torne a sua reputação inexpugnável. Esteja sempre alerta aos ataques em potencial e frustre-os antes que aconteçam. Enquanto isso aprenda a destruir seus inimigos minando as suas próprias reputações. Depois, afaste-se e deixe a opinião pública acabar com eles.

 

LEI 6
CHAME ATENÇÃO A QUALQUER PREÇO

Julga-se tudo pelas aparências; o que não se vê não conta. Não fique perdido no meio da multidão, portanto, ou mergulhado no esquecimento. Destaque-se. Fique visível, a qualquer preço. Atraia as atenções parecendo maior, mais colorido, mais misterioso do que as massas tímidas e amenas.

 

LEI 7
FAÇA OS OUTROS TRABALHAREM POR VOCÊ, MAS SEMPRE FIQUE COM O CRÉDITO 

Use a sabedoria, o conhecimento e o esforço físico dos outros em causa própria. Não só essa ajuda lhe economizará um tempo e uma energia valiosos, como lhe dará uma aura divina de eficiência e rapidez. No final, seus ajudantes serão esquecidos e você será lembrado. Não faça você mesmo o que os outros podem fazer por você.

 

LEI 8
FAÇA AS PESSOAS VIREM ATÉ VOCÊ USE UMA ISCA, SE FOR PRECISO

Quando você força os outros a agir, é você quem está no controle. É sempre melhor fazer o seu adversário vir até você, abandonando seus próprios planos no processo. Seduza-o com a possibilidade de ganhos fabulosos – depois ataque. É você quem dá as cartas.

 

LEI 9
VENÇA POR SUAS ATITUDES, NÃO DISCUTA

Qualquer triunfo momentâneo que você tenha alcançado discutindo é na verdade uma vitória de Pirro: o ressentimento e a má vontade que você desperta são mais fortes e permanentes do que qualquer mudança momentânea de opinião. É muito mais eficaz fazer os outros concordarem com você por suas atitudes, sem dizer uma palavra. Demonstre, não explique.

 

LEI 10
FUJA DO CONTÁGIO: EVITE O INFELIZ E AZARADO

A miséria alheia pode matar você. Estados emocionais são tão contagiosos quanto as doenças. Você pode achar que está ajudando o homem que se afoga, mas só está precipitando o seu próprio desastre. Os infelizes às vezes provocam a própria infelicidade; vão provocar a sua também. Associe-se, ao contrário, aos felizes e afortunados.

 

LEI 11
APRENDA A MANTER AS PESSOAS DEPENDENTES DE VOCÊ

Para manter a sua independência você deve sempre ser necessário e querido. Quanto mais dependerem de você, mais liberdade você terá. Faça com que as pessoas dependam de você para serem felizes e prósperas, e você não terá nada o que temer. Não lhes ensine o bastante a ponto de poderem se virar sem você.

 

LEI 12
USE A HONESTIDADE E A GENEROSIDADE SELETIVA PARA DESARMAR A SUA VÍTIMA

Um gesto sincero e honesto encobrirá dezenas de outros desonestos. Até as pessoas mais desconfiadas baixam a guarda diante de atitudes francas e generosas. Uma vez que a sua honestidade seletiva as desarma, você pode enganá-las e manipulá-las à vontade. Um presente oportuno, um cavalo de Tróia – será igualmente útil.

 

LEI 13
AO PEDIR AJUDA, APELE PARA O EGOÍSMO DAS PESSOAS, JAMAIS PARA A SUA MISERICORDIA OU GRATIDAO

Se precisar pedir ajuda a um aliado, não se preocupe em lembrar a ele a sua assistência e boas ações no passado. Ele encontrará um meio de ignorar você. Em vez disso, revele algo na sua solicitação, ou na sua aliança com ele, que o vá beneficiar, e exagere na ênfase. Ele reagirá entusiasmado se vir que pode lucrar alguma coisa com isso.

 

LEI 14
BANQUE O AMIGO, AJA COMO ESPIÃO

Conhecer o seu rival é importantíssimo. Use espiões para colher informações preciosas que o colocarão um passo à frente. Melhor ainda: represente você mesmo o papel de espião. Em encontros sociais, aprenda a sondar. Faça perguntas indiretas para conseguir que as pessoas revelem seus pontos fracos e intenções. Todas as ocasiões são oportunidades para uma ardilosa espionagem.

 

LEI 15
ANIQUILE TOTALMENTE O INIMIGO

Todos os grandes líderes, desde Moisés, sabem que o inimigo perigoso deve ser esmagado totalmente. (Às vezes, eles aprendem isso da maneira mais difícil.) Se restar uma só brasa, por menor que seja, acabará se transformando numa fogueira. Perde-se mais fazendo concessões do que pela total aniquilação: o inimigo se recuperará, e quererá vingança. Esmague-o, física e espiritualmente.

 

LEI 16
USE A AUSÊNCIA PARA AUMENTAR O RESPEITO E A HONRA

Circulação em excesso faz os preços caírem: quanto mais você é visto e escutado, mais comum vai parecer. Se você já se estabeleceu em um grupo, afastando-se temporariamente se tomará uma figura mais comentada, até mais admirada. Você deve saber quando se afastar. Crie valor com a escassez.

 

LEI 17
MANTENHA OS OUTROS EM UM ESTADO LATENTE DE TERROR: CULTIVE UMA ATMOSFERA DE IMPREVISIBILIDADE

Os homens são criaturas de hábitos com uma necessidade insaciável de ver familiaridade nos atos alheios. A sua previsibilidade lhes dá um senso de controle. Vire a mesa: seja deliberadamente imprevisível. O comportamento que parece incoerente ou absurdo os manterá desorientados, e eles vão ficar exaustos tentando explicar seus movimentos. Levada ao extremo, esta estratégia pode intimidar e aterrorizar.

 

LEI 18
NÃO CONSTRUA FORTALEZAS PARA SE PROTEGER O ISOLAMENTO É PERIGOSO

O mundo é perigoso e os inimigos estão por toda a parte – todos precisam se proteger. Uma fortaleza parece muito segura. Mas o isolamento expõe você a mais perigos do que o protege deles – você fica isolado de informações valiosas, transforma-se num alvo fácil e evidente. Melhor circular entre as pessoas, descobrir aliados, se misturar. A multidão serve de escudo contra os seus inimigos.

 

LEI 19
SAIBA COM QUEM ESTÁ LIDANDO NÃO OFENDA A PESSOA ERRADA

No mundo há muitos tipos diferentes de pessoas, e você não pode esperar que todas reajam da mesma forma às suas estratégias. Engane ou passe a perna em certas pessoas e elas vão passar o resto da vida procurando se vingar de você. São lobos em pele de cordeiro. Cuidado ao escolher suas vítimas e adversários, portanto jamais ofenda ou engane a pessoa errada.

 

LEI 20
NÃO SE COMPROMETA COM NINGUÉM

Tolo é quem se apressa a tomar um partido. Não se comprometa com partidos ou causas, só com você mesmo. Mantendo-se independente, você domina os outros colocando as pessoas umas contra as outras, fazendo com que sigam você.

 

LEI 21
FAÇA-SE DE OTÁRIO PARA PEGAR OS OTÁRIOS PAREÇA MAIS BOBO DO QUE O NORMAL

Ninguém gosta de se sentir mais idiota do que o outro. O truque, portanto, é fazer com que suas vítimas se sintam espertas – e não só espertas, mas mais espertas do que você. Uma vez convencidas disso, elas jamais desconfiarão que você possa ter segundas intenções.

 

LEI 22
USE A TÁTICA DA RENDIÇÃO: TRANSFORME A FRAQUEZA EM PODER

Se você é o mais fraco, não lute só por uma questão de honra; é preferível se render. Rendendo-se, você tem tempo para se recuperar, tempo para atormentar e irritar o seu conquistador, tempo para esperar que ele perca o seu poder. Não lhe dê a satisfação de lutar e derrotar você – renda-se antes. Oferecendo a outra face, você o enraivece e desequilibra. Faça da rendição um instrumento de poder.

 

LEI 23
CONCENTRE AS SUAS FORÇAS

Preserve suas forças e sua energia concentrando-as no seu ponto mais forte. Ganha-se mais descobrindo uma mina rica e cavando fundo, do que pulando de uma mina rasa para outra – a profundidade derrota a superficialidade sempre. Ao procurar fontes de poder para promovê-lo, descubra um patrono-chave, a vaca cheia de leite que o alimentará durante muito tempo.

 

LEI 24
REPRESENTE O CORTESÃO PERFEITO

O cortesão perfeito prospera num mundo onde tudo gira em torno do poder e da habilidade política. Ele domina a arte da dissimulação; ele adula, cede aos superiores, e assegura o seu poder sobre os outros da forma mais gentil e dissimulada. Aprenda e aplique as leis da corte e não haverá limites para a sua escalada na corte.

 

LEI 25
RECRIE-SE

Não aceite os papéis que a sociedade lhe impinge. Recrie-se forjando uma nova identidade, uma que chame atenção e não canse a platéia. Seja senhor da sua própria imagem, em vez de deixar que os outros a definam para você. Incorpore artifícios dramáticos aos gestos e ações públicas – seu poder se fortalecerá e sua personagem parecerá maior do que a realidade.

 

LEI 26
MANTENHA AS MÃOS LIMPAS

Você deve parecer um modelo de civilidade e eficiência: suas mãos não se sujam com erros e atos desagradáveis. Mantenha essa aparência impecável fazendo os outros de joguete e bode expiatório para disfarçar a sua participação.

 

LEI 27
JOGUE COM A NECESSIDADE QUE AS PESSOAS TÊM DE ACREDITAR EM ALGUMA COISA PARA CRIAR UM SÉQUITO DE DEVOTOS

As pessoas têm um desejo enorme de acreditar em alguma coisa. Tornese o foco desse desejo oferecendo a elas uma causa, uma nova fé para seguir. Use palavras vazias de sentido, mas cheias de promessas; enfatize o entusiasmo de preferência à racionalidade e à clareza de raciocínio. Dê aos seus novos discípulos rituais a serem cumpridos, peça-lhes que se sacrifiquem por você. Na ausência de uma religião organizada e de grandes causas, o seu novo sistema de crença lhe dará um imensurável poder.

 

LEI 28
SEJA OUSADO

Inseguro quanto ao que fazer, não tente. Suas dúvidas e hesitações contaminarão os seus atos. A timidez é perigosa: melhor agir com coragem. Qualquer erro cometido com ousadia é facilmente corrigido com mais ousadia. Todos admiram o corajoso; ninguém louva o tímido.

 

LEI 29
PLANEJE ATÉ O FIM

O desfecho é tudo. Planeje até o fim, considerando todas as possíveis conseqüências, obstáculos e reveses que possam anular o seu esforço e deixar que os outros fiquem com os louros. Planejando tudo até o fim, você não será apanhado de surpresa e saberá quando parar. Guie gentilmente a sorte e ajude a determinar o futuro pensando com antecedência.

 

LEI 30
FAÇA AS SUAS CONQUISTAS PARECEREM FÁCEIS

Seus atos devem parecer naturais e fáceis. Toda a técnica e o esforço necessários para sua execução, e também os truques, devem estar dissimulados. Quando você age, age sem se esforçar, como se fosse capaz de muito mais. Não caia na tentação de revelar o trabalho que você teve – isso só despertará dúvidas. Não ensine a ninguém os seus truques ou eles serão usados contra você.

 

LEI 31
CONTROLE AS OPÇÕES: QUEM DÁ AS CARTAS É VOCÊ

As melhores trapaças são as que parecem deixar ao outro uma opção: suas vítimas acham que estão no controle, mas na verdade são suas marionetes. Dê às pessoas opções que sempre resultem favoráveis a você. Force-as a escolher entre o menor de dois males, ambos atendem ao seu propósito. Coloque-as num dilema: não terão escapatória.

 

LEI 32
DESPERTE A FANTASIA DAS PESSOAS

Em geral evita-se a verdade porque ela é feia e desagradável. Não apele para o que é verdadeiro ou real se não estiver preparado para enfrentar a raiva que vem com o desencanto. A vida é tão dura e angustiante que as pessoas capazes de criar romances ou invocar fantasias são como oásis no meio do deserto: todos correm até lá. Há um enorme poder em despertar a fantasia das massas.

 

LEI 33
DESCUBRA O PONTO FRACO DE CADA UM

Todo mundo tem um ponto fraco, uma brecha no muro do castelo. Essa fraqueza em geral é uma insegurança, uma emoção ou necessidade incontrolável; pode também ser um pequeno prazer secreto. Seja como for, uma vez encontrado esse ponto nevrálgico, é ali que você deve apertar.

 

LEI 34
SEJA ARISTOCRÁTICO AO SEU PRÓPRIO MODO AJA COMO UM REI PARA SER TRATADO COMO TAL

A maneira como você se comporta em geral determina como você é tratado: em longo prazo, aparentando ser vulgar ou comum, você fará com que as pessoas o desrespeitem. Pois um rei respeita a si próprio e inspira nos outros o mesmo sentimento. Agindo com realeza e confiança nos seus poderes, você se mostra destinado a usar uma coroa.

 

LEI 35
DOMINE A ARTE DE SABER O TEMPO CERTO

Jamais demonstre estar com pressa – a pressa trai a falta de controle de si mesmo, e do tempo. Mostre-se sempre paciente, como se soubesse que tudo acabará chegando até você. Torne-se um detetive do momento certo; fareje o espírito dos tempos, as tendências que o levarão ao poder. Aprenda a esperar quando ainda não é hora, e atacar ferozmente quando for propício.

 

LEI 36
DESPREZE O QUE NÃO PUDER TER: IGNORAR É A MELHOR VINGANÇA

Reconhecendo um problema banal, você lhe dá existência e credibilidade. Quanto mais atenção você der a um inimigo, mais forte você o torna; e um pequeno erro às vezes se torna pior e mais visível se você tentar consertá-lo. Às vezes, é melhor deixar as coisas como estão. Se existe algo que você quer, mas não pode ter, mostre desprezo. Quanto menos interesse você revelar, mais superior vai parecer.

 

LEI 37
CRIE ESPETÁCULOS ATRAENTES

Imagens surpreendentes e grandes gestos simbólicos criam uma aura de poder – todos reagem a eles. Encene espetáculos para os que o cercam, repletos de elementos visuais interessantes e símbolos radiantes que realcem a sua presença. Deslumbrados com as aparências, ninguém notará o que você realmente está fazendo.

 

LEI 38
PENSE COMO QUISER, MAS COMPORTE-SE COMO OS OUTROS 

Se você alardear que é contrário às tendências da época, ostentando suas idéias pouco convencionais e modos não ortodoxos, as pessoas vão achar que você está apenas querendo chamar atenção e se julga superior. Acharão um jeito de punir você por fazê-las se sentir inferiores. É muito mais seguro juntar-se a elas e desenvolver um toque comum. Compartilhe a sua originalidade só com os amigos tolerantes e com aqueles que certamente apreciarão a sua singularidade.

 

LEI 39
AGITE AS ÁGUAS PARA ATRAIR OS PEIXES

Raiva e reações emocionais são contraproducentes do ponto de vista estratégico. Você precisa se manter sempre calmo e objetivo. Mas, se conseguir irritar o inimigo sem perder a calma, você ganha uma inegável vantagem. Desequilibre o inimigo: descubra uma brecha na sua vaidade para confundi-lo e é você quem fica no comando.

 

LEI 40
DESPREZE O QUE VIER DE GRAÇA

O que é oferecido de graça é perigoso – em geral é um ardil ou tem uma obrigação oculta. Se tiver valor, vale a pena pagar. Pagando, você se livra de problemas de gratidão e culpa. Também é prudente pagar o valor integral com a excelência e não se economizar. Seja pródigo com seu dinheiro e o mantenha circulando, pois a generosidade é um sinal e um ímã para o poder.

 

LEI 41
EVITE SEGUIR AS PEGADAS DE UM GRANDE HOMEM

O que acontece primeiro sempre parece melhor e mais original do que o que vem depois. Se você substituir um grande homem ou tiver um pai famoso, terá de fazer o dobro do que eles fizeram para brilhar mais do que eles. Não fique perdido na sombra deles, ou preso a um passado que não foi obra sua: estabeleça o seu próprio nome e identidade mudando de curso. Mate o pai dominador, menospreze o seu legado e conquiste o poder com a sua própria luz.

 

LEI 42
ATAQUE O PASTOR E AS OVELHAS SE DISPERSAM

A origem dos problemas em geral pode estar num único indivíduo forte – o agitador, o subalterno arrogante, o envenenador da boa vontade. Se você der espaço para essas pessoas agirem, outros sucumbirão a sua influência. Não espere os problemas que eles causam se multiplicarem, não tente negociar com eles – eles são irredimíveis. Neutralize a sua influência isolando-os ou banindo-os. Ataque à origem dos problemas e as ovelhas se dispersarão.

 

LEI 43
CONQUISTE CORAÇÕES E MENTES

A coerção provoca reações que acabam funcionando contra você. É preciso atrair as pessoas para que queiram vir até você. A pessoa seduzida torna-se um fiel peão. Seduzem-se os outros atuando individualmente em suas psicologias e pontos fracos. Amacie o resistente atuando em suas emoções, jogando com aquilo de que ele gosta muito ou teme. Ignore os corações e as mentes dos outros e eles o odiarão.

 

LEI 44
DESARME E ENFUREÇA COM O EFEITO ESPELHO

O espelho reflete a realidade, mas também é a ferramenta perfeita para a ilusão. Quando você espelha os seus inimigos, agindo exatamente como eles agem, eles não entendem a sua estratégia. O Efeito Espelho os ridiculariza e humilha, fazendo com que reajam exageradamente. Colocando um espelho diante das suas psiques, você os seduz com a ilusão de que compartilha os seus valores; ao espelhar as suas ações, você lhes dá uma lição. Raros são os que resistem ao poder do Efeito Espelho.

 

LEI 45
APREGOE A NECESSIDADE DE MUDANÇA, MAS NÃO MUDE MUITA COISA AO MESMO TEMPO

Teoricamente, todos sabem que é preciso mudar, mas na prática as pessoas são criaturas de hábitos. Muita inovação é traumática, e conduz à rebeldia. Se você é novo numa posição de poder, ou alguém de fora tentando construir a sua base de poder, mostre explicitamente que respeita a maneira antiga de fazer as coisas. Se a mudança é necessária, faça-a parecer uma suave melhoria do passado.

 

LEI 46
NÃO PAREÇA PERFEITO DEMAIS

Parecer melhor do que os outros é sempre perigoso, mas o que é perigosíssimo é parecer não ter falhas ou fraquezas. A inveja cria inimigos silenciosos. É sinal de astúcia exibir ocasionalmente alguns defeitos, e admitir vícios inofensivos, para desviar a inveja e parecer mais humano e acessível. Só os deuses e os mortos podem parecer perfeitos impunemente.

 

LEI 47
NÃO ULTRAPASSE A META ESTABELECIDA; NA VITÓRIA, APRENDA A PARAR

O momento da vitória é quase sempre o mais perigoso. No calor da vitória, a arrogância e o excesso de confiança podem fazer você avançar além da sua meta e, ao ir longe demais, você conquista mais inimigos do que derrota. Não deixe o sucesso lhe subir à cabeça. Nada substitui a estratégia e o planejamento cuidadoso. Fixe a meta e, ao alcançá-la, pare.

 

LEI 48
EVITE TER UMA FORMA DEFINIDA

Ao assumir uma forma, ao ter um plano visível, você se expõe ao ataque. Em vez de assumir uma forma que o seu inimigo possa agarrar, mantenha-se maleável e em movimento. Aceite o fato de que nada é certo e nenhuma lei é fixa. A melhor maneira de se proteger é ser tão fluido e amorfo como a água; não aposte na estabilidade ou na ordem permanente. Tudo muda.

por Robert Greene e Jost Elffers

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/as-48-leis-do-poder/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/as-48-leis-do-poder/

A Chave de Prata – O Ritual do Décimo Nono Portal

Morbitvs Vividvs

“Zin se encontra na Terra dos Sonhos, sob uma ancestral cidade sem nome, habitada por aterradores gigantes que também se lembram da era das Antigas Criaturas, mas não se lembram do Símbolo dos Deuses Mais Antigos…As Portas são uma caminho alternativo para a Terra dos Sonhos, o outro sendo os setecentos degraus para o Portal do Sono Profundo. O número de Portas a serem transpostas não é conhecido, mas você deve permanecer caminhando até que as trevas de Zin se manifestem, o que pode acontecer após se ter atravessado por apenas duas portas, ou se estender à travessia de não menos de oito delas. Sabe-se também que possuindo a chave correta as Portas podem levar o mago para o lugar que desejar na Terra dos Sonhos.”  – O Livro da Chave 

Este é sem dúvida o ritual mais poderoso que já compartilhei. A operação que mostrarei seguir fez parte do processo criativo que culminou em boa parte de todos os meus livros e em porção substancial de meus textos. Ela faz parte de um ensinamento oculto do do círculo interno do Templo de Satã que só agora está sendo aberto.

O objetivo desta operação é permitir ao celebrante adentrar dentro de todos os Aethyrs e de lá extrair visões. Os 30 Aethyres desenham o mapa do universo conhecido na forma de anéis concêntricos. Sendo que o 30º TEX é o mais interno e o 1º LIL é mais externo. Se você precisa de um forte influxo de inspiração e criatividade este é o mais potente caminho a seguir, em especial se busca conhecimentos do chamado Oculto ainda não disponíveis na literatura atual ou de difícil acesso.

Trata-se do mesmo mecanismo usado por John Dee, Aleister Crowley e Michael Aquino. Boa parte do currículo da Golden Dawn foi criado de ensinamentos extraídos de visitas aos Aethyres.  Aleister Crowley também buscou entrar neles e descreveu seus resultados em “A Visão e a Voz”, Liber 418 onde afirma que “O conhecimento dos Éteres é mais profundo do que o das Sephiroth, pois nos Éteres está o conhecimento dos aeons e de Thelema”. Não é segredo que às principais ideias do seu sistema de magia sexual vieram desta operação. Michael Aquino também utilizou um método semelhante na invocação chamada por ele de “Palavras de Set” e daquilo que obteve criou muitos materiais usados tanto na Church of Satan como no Temple of Set. 

Requisitos para o ritual 

Deve se garantir antes de começar vocês terá bastante tempo disponível e não será interrompidos. O ideal é realizar a operação em algum lugar afastado longe das poluições sonoras próprias das cidades.  

Tenha decorado o nome do Aethyrs que se quer chamar bem como o de seus governantes. Os nomes são aqueles encontrados nas tábuas enoquianas, para facilitar eles serão relacionados em um tópico mais a frente. 

O jejum é recomendado para aumentar os resultados das visões. O estado ideal é aquele em que o corpo já parou de reclamar de fome caso contrário a própria fome será uma distração. Se o jejum não for usado uma refeição leve é feita cerca de uma hora antes da operação. refeições pesadas devem ser evitadas de qualquer forma. 

Uma cerimônia noturna é mais indicada pois o estado de leve sonolência é apropriado. a posição rija garantirá que não se caia no sono.  Não deveria ser preciso ressaltar, mas o treinamento adequado de concentração e visualização mental são pré-requisitos.

A Chave de Prata

 

A Chave de Prata não é requisito para a operação mas mostrou-se muito útil como ferramenta de proteção. Criá-la não é difícil. O praticante deve deitar em um lugar confortável e silencioso, podendo acender um incenso se desejar. Após relaxar alguns instantes o corpo se tornará pesado e a mente enxergando as trevas deve tranquilamente dar a forma, tendo antes guardado na memória sua aparência.  

Ele deve então enxergar os raios da Lua sendo refletidos na Chave, gradualmente a tornando Prateada. O procedimento deve ser repetido por alguns dias para que a chave se torne facilmente visualizada com detalhes sempre que se quiser. 

Os Governantes dos Aethyrs 

Não é sábio avançar para Aethyrs mais externo sem passar pelos anteriores sendo que o início óbvio é TEX. Um retiro de um mês dedicado a invocação dos 30 Aethyrs é algo absolutamente transformador. 

  1. LIL

Occodon Pascomb Valgars     

  1. ARN

Doagnis Pacasna Dialioa     

  1. ZOM

Samapha Virooli Andispi     

  1. PAZ

Thotanp Axziarg Pothnir     

  1. LIT

Lazdixi Nocamal Tiarpax     

  1. MAZ

Saxtomp Vavaamp Zirzid     

  1. DEO

Opmacas Genadol Aspiaon     

  1. ZID

Zamfres Todnaon Pristac     

  1. ZIP

Oddiorg Cralpir Doanzin     

  1. ZAX

Lexarph Comanan Tabitom     

  1. ICH

Molpand Usnarda Ponodol     

  1. LOE

Tapamal Gedoons Ambriol     

  1. ZIM

Gecaond Laparin  Docepax     

  1. UTA

Tedoond Vivipos Ooanamb     

  1. OXO

Tahamdo Nociabi   Tastoxo     

  1. LEA

Cucarpt Lauacon Sochial     

  1. TAN

Sigmorf  Avdropt  Tocarzi     

  1. ZEN

Nabaomi  Zafasai Yalpamb     

  1. POP

Torzoxi  Abriond Omagrap     

  1. CHR

Zildron Parziba Totocan     

  1. ASP

Chirzpa Toantom Vixpalg     

  1. LIN

Ozidaia Paraoan Calzirg     

  1. TOR

Ronoomb Onizimp Zaxanin     

  1. NIA

Orcanir  Chialps Soageel     

  1. UTI

Mirzind Obvaors Ranglam     

  1. DES

Pophand Nigrana Bazchim     

  1. ZAA

Saziami Mathula Krpanib     

  1. BAG

Labnixp Poclsni Oxlopar     

  1. RII

Vastrim Odraxti Gmziam     

  1. TEX

Taoagla Gemnimb Advorpt  Doxmael Laxdizi  

O RITUAL 

 1 – O altar satânico é arranjado como de costume com uma cadeira em sua frente e os sete primeiros passos descritos na Bíblia Satânica são seguidos. Os nomes infernais lidos devem ser os nomes dos governadores do Aethry. 

 3 – Leitura em voz alta da  Décima Nona Chave Enoquiana (em português). 

 *O celebrante então deve sentar-se confortavelmente em uma cadeia com as costas retas, os pés firmes no chão e as mãos sobre as coxas.

 4 –  Fazer nove respirações profundas enquanto dá forma em sua mente a uma Chave de Prata..  

 5 – Entoe a Décima Nona Chave Enoquiana (em enoquiano). O celebrante deve permitir que seu senso estético o guie na entoação. É importante é que a terceira palavra da chave LIL, seja substituída pelo nome do Aethyrs que se está abrindo. 

 6 – Em seguida feche os olhos e esvaziar a mente para que possa enxergar às trevas.  

 7 – Com a imagem da chave criada na mente deve ser vista agora uma Porta atrás dela, o desenho da porta não importa, basta que seja grande o bastante para se passar por ela.  A Chave deve ser colocada sobre a porta para que esta se abra e possa ser atravessada. 

 8 – Ao atravessar deixe a mente tão receptiva quanto possível para quaisquer imagens, sons ou ideias e sentimentos que irão surgir. A experiência deverá ser semelhante a um sonho, com a diferença que você estará no controle e acordado. As coisas mais belas, estranhas e horríveis e maravilhosas poderão agora ser encontradas.  

 Caso a visão se enfraqueça, fique confusa demais veja a Chave de Prata aumentar seu brilho para limpar a mente e aumentar seu foco. Crie uma nova porta e entre por ela como fez. Se a situação complicar e você cair nas garras do medo você deve abandonar viagem o mais rápido antes de se encontrar em uma situação de real perigo 

 7 – Para encerrar a viagem você deve uma vez mais apanhar a Chave de Prata e deixar seu brilho se irradiar com cada vez mais intensidade até que nada além de sua luz prateada possa ser visto. Então o brilho deve ir reduzindo sua intensidade e você estará a salvo para retornar à sua próprias esfera. Por fim de olhos abertos entoe mais uma vez os nomes dos governantes. 

 8 –  Ritual do Pentagrama invertido em banimento.

 9 – Se encerra a cerimônia de acordo com o procedimento padrão, tocar o sino e dizendo as palavras  “Assim está feito”. 

 Conselhos práticos 

 A paciência é uma chave no momento da visualização. Para ajudar a mente após atravessar você pode imaginar outras portas sendo abertas, um imenso labirinto ou uma floresta por exemplo criando assim um ambiente para às manifestações. Mas este deve ser o máximo que a imaginação ativa deve criar. 

 Você pode não ver nada nos primeiros dez ou mesmo vinte minutos. Qualquer sentimento de se estar perdendo tempo ou se esforçando de mais pode arruinar a operação. Mantenha a postura relaxada, a mente quieta e aguarde. 

 Em grupos algumas pessoas terão mais facilidade com a prática do que outras. Nestes casos uma delas pode assumir o papel de escriba enquanto a outra descreve as imagens e impressões que surgem em sua mente. Em praticantes solitários não se deve fazer anotações para não se perde o foco, pois interromper as visões é semelhante a interromper sonhos e raramente são recuperados.  

 Nestes casos uma gravação para transcrição futuro é mais adequada. 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/a-chave-de-prata-o-decimo-nono-portal/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/a-chave-de-prata-o-decimo-nono-portal/

7 Passos Para Se Conectar Com As Fadas

Por Emily Carding.

No século XXI, o reino das Fadas é tão popular como sempre; ainda assim, em nossa cultura de gratificação instantânea e plataformas de mídia não moderadas, existem muitos caminhos falsos e armadilhas ilusórias para nos distrair e nos direcionar mal. Como, então, o verdadeiro buscador das Fadas pode ter certeza de que não está seguindo algum metafórico (ou às vezes literal) Fogo-fátuo em um pântano perigoso? Aqui estão os sete passos que você precisa seguir para ter certeza de que está vivendo autenticamente e em sincronia com nossas primas Fadas.

1. Conhecimento:

Leia amplamente e com sabedoria! É claro que os livros não são a única fonte de conhecimento, mas são um bom lugar para começar (e continuar – nunca devemos parar de aprender!), em equilíbrio com os passos mais experienciais a seguir. Encontre recomendações de pessoas que você respeita e familiarize-se com o folclore e a mitologia tradicionais, principalmente irlandeses, escoceses e galeses. Qualquer bom livro sobre as Fadas também deve ter uma boa bibliografia, que você pode explorar para leitura adicional e exploração mais profunda. Quanto mais variada for sua leitura, mais forte será seu discernimento e menos provável será que você seja desviado do verdadeiro caminho para a ilusão. Também é importante perceber que muitos seres feéricos são hostis e/ou imprevisíveis. Quanto mais você souber, mais preparado estará.

2. Expanda sua Consciência:

Pode ser muito fácil ficar preso em nossas cabeças e confundir o pensamento ilusório e a imaginação destreinada com a experiência real. Portanto, um dos passos mais importantes para a verdadeira conexão com as Fadas é expandir sua consciência energética fora de seu próprio corpo e no mundo ao seu redor. Aqui está um exercício que é apresentado tanto no Faery Craft (A Bruxaria das Fadas) quanto no meu novo livro, Seeking Faery (Procurando as Fadas).

“Exercício: Tornando-se a Árvore das Fadas:

Este exercício é projetado para conectá-lo às energias da terra e abrir o centro do seu coração para aumentar a sensibilidade à presença e às comunicações dos seres Fadas. Dependendo de suas capacidades físicas, isso pode ser feito em pé ou sentado, mas em ambos os casos você deve idealmente ter os pés descalços e no chão, em um espaço o mais natural possível, idealmente onde você não será perturbado. Mantendo-se ereto e relaxado, com os pés a uma pequena distância e as mãos ao lado do corpo, faça sete respirações lentas e profundas (pelo nariz, segure por três segundos e expire lentamente pela boca), enquanto permite a tensão e as preocupações de o dia para derreter.

Na próxima respiração, com as palmas das mãos voltadas para baixo, imagine seus pés lentamente se transformando em raízes de árvores e cavando a terra abaixo de você. Sinta a força da terra e a estabilidade e nutrição que as raízes lhe proporcionam. Mantenha isso por sete respirações profundas dentro e fora.

Agora, nas próximas sete respirações, mantendo suas raízes, levante lentamente os braços em forma de “v” e levante as palmas das mãos para o céu. Imagine que seus braços estão se tornando grandes galhos, alcançando a luz do Sol, da Lua e das Estrelas. Mantenha as raízes e os galhos por mais sete respirações profundas.

Mantendo os braços erguidos na posição “v”, agora imagine que suas raízes estão atraindo a luz verde esmeralda da terra em direção ao seu coração. Inspire e desenhe com sete respirações profundas. Agora imagine que seus galhos estão atraindo a luz prateada dos céus para o seu coração. Desenhe-o com sete respirações profundas. A luz verde e prateada se encontra em seu coração e se torna dourada e rodopiante, abrindo seu coração para as energias da Terra e conectando você acima e abaixo.

Para iniciantes, mantenha isso enquanto estiver confortável e, em seguida, libere as energias de volta através de seus galhos e para baixo através de suas raízes, abaixe lentamente os braços e lentamente puxe as raízes de volta para os pés e torne-se seu eu normal novamente. Sete respirações profundas para se recuperar. À medida que você se acostumar com este exercício, poderá descobrir que pode fazer versões mais curtas ou mais longas, conforme desejar.”

3. Oferendas:

Além de expandir sua consciência energeticamente, é possível alcançar e conectar-se de uma maneira mais tangível com ofertas apropriadas. Isso não apenas ajuda a formar uma ponte energética entre os mundos, mas também mostra sua vontade de colaborar e não simplesmente esperar presentes ou orientação sem esforço de sua parte. A escolha da oferta é significativa, assim como a certeza de limpar depois. É uma boa ideia, se possível, encontrar um local ao ar livre para suas oferendas, onde você sinta instintivamente que sua conexão com as Fadas é forte e onde você não será perturbado. Embora este possa ser um local sagrado estabelecido, pode ser mais poderoso encontrar uma conexão pessoal em um caminho menos trilhado. Considere o valor das ofertas que você traz e o impacto no meio ambiente. Se deixar comida de qualquer tipo, certifique-se de verificar se ela está limpa e não simplesmente deixada para apodrecer. Muitas vezes, essas oferendas serão consumidas por animais, o que é absolutamente bom (os seres Fadas às vezes emprestam essas formas físicas para aceitar oferendas) desde que você tenha certeza de que elas não contêm nada tóxico para a vida animal (por exemplo, chocolate).

4. Ética e Honra:

Você pode pensar que são as Fadas que geralmente são invisíveis, mas a verdade é que elas também podem ver através de você! Se houver qualquer engano ou falsidade em seu coração, eles o sentirão e o tratarão de acordo. Como qualquer caminho mágico, é de extrema importância conhecer a si mesmo e estabelecer um forte código de honra e ética que você siga em todos os aspectos de sua vida, não apenas em seu trabalho com as Fadas.

5. Expressão:

Para muitos, inclusive eu, a comunicação com as Fadas vem através da expressão criativa. Esta é uma comunicação direta de coração para coração ou de espírito para espírito, e esses canais devem ser livres e abertos para receber. Quaisquer pensamentos negativos sobre sua própria criatividade precisam ser superados simplesmente criando de qualquer maneira que você se sinta movido, seja arte, dança, poesia. Ninguém irá julgá-lo, a menos que você escolha compartilhar com o mundo, mas sua alma e seus aliados feéricos agradecerão.

6. Imaginação:

Ao trabalhar com seres e forças do Outro Mundo, a imaginação torna-se um sentido extra através do qual podemos perceber as coisas que estão ocultas aos nossos sentidos terrenos. As armadilhas aqui são claras e, portanto, é importante treinar a imaginação por meio de técnicas de visualização, meditação e jornada para que ela se torne um tradutor confiável de energias, em vez de um autoengano fantasioso.

7. Aterramento:

Sempre volte a isso. Após qualquer encontro ou trabalho com as Fadas, certifique-se de se ancorar em seu corpo e no mundo físico ao seu redor. Libere as energias do outro mundo para sua fonte, sinta seus pés na terra, saboreie boa comida e beba água. Regularmente, reserve um tempo para simplesmente estar na Natureza, ver a maravilha que é o mundo em que habitamos, e você não terá necessidade de ilusão – você simplesmente aprenderá a ver a magia em verdades mais profundas enquanto trilha o caminho das Fadas em paz, verdade e aproveite.

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Fonte:

7 Steps to Connect with Faery, by Emily Carding.

https://www.llewellyn.com/journal/article/2993

COPYRIGHT (2022) Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/criptozoologia/7-passos-para-se-conectar-com-as-fadas/

Abe no Seimei 

Abe no Seimei (japonês 安倍 晴明) é o onmyōji mais famoso da história japonesa. Um onmyōji é um especialista na prática do Onmyōdō, cosmologia esotérica tradicional do Japão que mistura ciência natural e ocultismo. Descendente do famoso poeta Abe no Nakamaro, Seimei viveu no Japão durante o período Heian, entre 921 e 1005. Devido ao seu sucesso como um astrólogo e adivinho, ele era amplamente creditado como um gênio e portador de poderes mágicos e conhecimentos secretos.

Seimei foi discípulo dos onmyōjis Kamo no Tadayuki e Kamo no Yasunori, e sucedeu Yasunori como astrólogo e adivinho da corte imperial. Os deveres de Seimei incluíam determinar o sexo de um feto, encontrar objetos perdidos ou ausentes, dar conselhos sobre como levar sua vida pessoal, conduzir exorcismos, criar defesas contra magia negra e espíritos malignos e analisar e interpretar eventos, como por exemplo fenômenos celestes. Ele escreveu vários livros, dentre eles o Senji Ryakketsu (占 事略 决, lit. “O Resumo de Julgamentos de Divindades”), que contém seis mil previsões e trinta e seis técnicas de adivinhação usando espíritos familiares conhecidos como shikigami, e uma tradução do Hoki Naiden, detalhando técnicas secretas de adivinhação.

Abe no Seimei era tão renomado que a família Abe continuou no controle do Onmyōryō (ministério do governo de onmyōdō) até ele ser encerrado, em 1869. Após sua morte, as histórias sobre Seimei começaram a se espalhar rapidamente e continuaram por centenas de anos. Eventualmente, os detalhes de sua vida tornaram-se tão entrelaçados com inúmeras lendas que já não era mais possível distinguir o que é verdade e o que é mito.

Acreditava-se que a aptidão mágica de Abe no Seimei era derivada de uma linhagem sobrenatural. Dizia-se que sua mãe era uma kitsune, fazendo dele um Hanyō (meio-yokai). O pai de Seimei, Abe no Yasuna, salvou uma raposa branca que estava sendo perseguida por caçadores. A raposa então se transformou em uma bela mulher e disse que seu nome era Kuzunoha. Em agradecimento por salvar sua vida, Kuzunoha se tornou a esposa de Yasuna, e deu-lhe um filho, Seimei.

Aos cinco anos de idade, a linhagem yokai de Abe no Seimei começou a se tornar evidente. Nessa idade, ele já era capaz de comandar um Oni fraco e forçá-lo a cumprir suas ordens. Um dia, ele testemunhou sua mãe em sua forma de raposa. Kuzunoha explicou a Seimei que ela era a raposa branca que seu pai havia salvado no passado. Após a revelação, ela fugiu para a floresta, para nunca mais voltar. Kuzunoha confiou seu filho ao onmyōji Kamo no Tadayuki, a fim de garantir que ele não se tornaria uma pessoa má.

Abe no Seimei teve muitos rivais. Um deles foi um famoso sacerdote chamado Chitoku Hōshi. Chitoku era um feiticeiro habilidoso, e certa vez quis testar Seimei para ver se ele era realmente tão bom quanto as pessoas diziam que ele era. Chitoku se disfarçou como um viajante e visitou a casa de Seimei, pedindo para que lhe ensinasse magia. Seimei percebeu o disfarce de Chitoku instantaneamente. Além disso, ele também viu que os dois servos que Chitoku havia trazido consigo eram na verdade shikigamis disfarçados.

Seimei decidiu se divertir um pouco com Chitoku. Ele concordou em treiná-lo, mas lhe disse que aquele não era um bom dia, e pediu-lhe  para voltar no dia seguinte. Chitoku então voltou para sua casa, enquanto Seimei libertou os seus dois shikigamis sem que ele percebesse. No dia seguinte, Chitoku percebeu que seus criados haviam desaparecido, e voltou até a casa de Seimei, pedindo para que ele devolvesse seus shikigami. Seimei riu dele, o repreendendo duramente por tentar enganá-lo. Seimei lhe disse que qualquer outra pessoa não seria tão bondosa a ponto de devolver shikigamis que foram empregados contra ela. Chitoku então percebeu que estava muito acima de sua cabeça; Seimei não foi só capaz de enxergar através de seu disfarce, mas ele foi capaz de manipular todos os seus feitiços também. Chitoku então Inclinou-se perante Seimei, clamou pelo seu perdão e ofereceu-se para se tornar seu servo.
O principal rival de Abe no Seimei foi um feiticeiro chamado Ashiya Dōman. Dōman era muito mais velho que Seimei, e acreditava que não havia ninguém no mundo que fosse um onmyōji melhor do que ele. Ao ouvir sobre o talento de Seimei, ele o desafiou para um duelo mágico.

No dia do duelo, os dois feiticeiros se encontraram nos jardins imperiais para a competição, onde muitos funcionários e testemunhas estavam presentes para assisti-los. Primeiro, Dōman pegou um punhado de areia, concentrou-se sobre ele por um momento, e o jogou para o alto. As partículas de areia se transformaram em inúmeras andorinhas que começaram a voar ao redor do jardim. Seimei então pegou seu leque, e balançando-o apenas uma vez, fez com que todas as andorinhas se transformassem em grãos de areia novamente.

Em seguida, Seimei recitou um feitiço. Um dragão apareceu acima deles no céu, e uma fina chuva começou a cair. Dōman recitou seu feitiço, no entanto, ele não foi capaz de fazer com que o dragão desaparecesse. Em vez disso, a chuva tornou-se mais forte, enchendo o jardim com água até a cintura de Dōman. Finalmente, Seimei lançou seu feitiço outra vez. A forte chuva parou, e o dragão desapareceu.

A terceira e última competição foi um desafio de adivinhação: os competidores tiveram que adivinhar o conteúdo de uma caixa de madeira. Dōman, indignado por ter perdido a rodada anterior, desafiou Seimei: “Quem perder essa rodada se tornará o servo do outro!”. Dōman declarou confiantemente que haviam 15 laranjas dentro da caixa. Seimei o contradisse, dizendo que haviam 15 ratos na caixa. O imperador e seus acompanhantes que haviam preparado o teste sacudiram a cabeça, pois puseram 15 laranjas na caixa. Eles anunciaram que Seimei tinha perdido. No entanto, quando abriram a caixa, 15 ratos pularam para fora! Seimei não havia só adivinhado o conteúdo da caixa, mas transformou o mesmo em ratos, enganando Dōman e toda a corte e assim vencendo o duelo.

Ashiya Dōman continuou a guardar rancor contra Abe no Seimei, e continuou a conspirar contra ele. Ele seduziu a esposa de Seimei e a convenceu a lhe contar os segredos mágicos de Seimei. Ela lhe mostrou a caixa de pedra na qual Seimei guardava o Hoki Naiden, seu livro de feitiços. Hoki Naiden era um livro de segredos que foram transmitidos desde tempos imemoriais da Índia para Tang, na China. Ele chegou à posse do enviado japonês, Kibi no Makibi, que ao retornar ao Japão, apresentou o livro aos familiares de seu amigo Abe no Nakamaro, que permaneceu na China. De lá foi transmitido de geração em geração, e eventualmente foi herdado por Abe no Seimei.

Uma noite, após Seimei voltar para casa, encontrou Dōman, vangloriou-se de ter adquirido o livro mágico secreto de Seimei. Seimei repreendeu-o, dizendo que isso era impossível, mas tão impossível, que se Dōman tivesse o livro, ele poderia cortar sua garganta.Triunfante, Dōman apresentou o livro a Seimei, que ao perceber que tinha sido traído por sua esposa, ofereceu sua garganta a Dōman. Dōman alegremente cortou a garganta de Seimei, que acabou morrendo.

Quando Seimei foi assassinado, Saint Hokudō – o mago chinês que havia dado o Hoki Naiden a Kibi no Makibi – sentiu a perda de um grande feiticeiro. Ele viajou pelo mar até o Japão, recolheu os ossos de Seimei e o trouxe de volta a vida. Os dois então se prepararam para se vingar de Dōman e da ex-esposa de Seimei, que agora estava casada com Dōman.

Saint Hokudō fez uma visita à casa de Seimei, onde Dōman e sua esposa agora viviam juntos. Ele perguntou a  Dōman se Seimei estava em casa, e Dōman lhe respondeu que, infelizmente, ele havia sido assassinado há algum tempo. Saint Hokudō disse que isso era impossível, pois ele tinha visto Seimei naquele mesmo dia. Dōman riu dele, dizendo que isso era impossível, mas tão impossível, que se Seimei estivesse realmente vivo, ele poderia cortar sua garganta. Saint Hokudō então gritou para Abe no Seimei, que se apresentou e prontamente cortou as gargantas de Dōman e sua esposa.

Seimei também figura em inúmeros outros contos. Ele aparece como um personagem menor no épico Heike Monogatari, sendo responsável por adivinhar a localização de Shuten-doji, um poderoso oni supostamente morto por Minamoto no Yorimitsu. As vezes ele é dito ser o onmyoji que descobriu a verdadeira natureza da lendária kitsune Tamamo-no-Mae, embora a época da história da Tamamo-no-Mae não coincida com o período de vida de Seimei. Essa descoberta muitas vezes creditada a um de seus descendentes, Abe no Yasuchika.

Hoje, Abe no Seimei é adorado como um deus em muitos santuários em todo o Japão. Seu santuário principal está localizado em Kyōto, e fica no local ficava sua antiga casa.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/abe-no-seimei/

‘Os Jogos da Vida

Eric Berne

Jogos da Vida é o livro best seller do psiquiatra Eric Berne. Aqui ele apresenta de maneira bem didática os princípios e aplicações práticas da Análise Transacional, uma teoria psico-analitica e um método terapêutico que ele ajudou a desenvolver durante sua carreira. Trata-se de um guia universal para interpretar as interações sociais.

Ele descreve os três papéis ou estados do ego conhecidos como o Pai, o Adulto e a Criança e postula que muitos dos comportamentos disfuncionais que podem ser entendidos pela confusão entre estes três papéis em uma série de jogos mentais desonestos que costumamos jogar.

O livro trás um verdadeiro catálogo destes jogos da vida. É uma coleção de transações pelas quais as pessoas interagem que devido sua descrição e suas consequências muitas vezes são prejudiciais às partes envolvidas. O livro usa uma série de casos ilustrativos e frases com as quais se pode facilmente identificar quando um jogo em particular está sendo jogado e qual a melhor forma de solucionar a situação.

Por exemplo, no jogo intitulado “Agora eu te peguei filho da mãe.” alguém descobre que outra pessoa cometeu um pequeno erro. Em vez de resolver o problema o indivíduo então usa esse erro para alimentar uma série de animosidades. Todos nós em algum momento da vida vamos jogar estes jogos. Este livro pode ser um poderoso mapa para nos tornarmos conscientes deles de maneira a poder substituí-los por relações humanas menos prejudiciais, mais verdadeiras e sadias

A fome por transações

Crianças privadas por tempo prolongado do contato físico de suas mães ou equivalentes tendem a enfraquecer. Elas podem até mesmo morrer em consequência desse isolamento. Um fenômeno correlato é observado em adultos submetidos a privação sensorial em que ficam sem nenhum contato com outros seres humanos ou estímulos externos. Tal provação pode dar origem a psicoses passageiras semelhante a encontrada em indivíduos condenados a prisão em solitária. Além disso a privação emocional e sensorial pode produzir modificações degenerativas nas células nervosas que podem comprometer de maneira relativa ou definitiva todo o sistema nervoso.

Essa dependência do contato humano começa durante a gestação e se prolonga o resto da vida. Após um período de intensa intimidade com a mãe inicia-se a luta constante para conseguir esse sentimento de volta. A maioria das pessoas aprende a se satisfazer com formas de contato físico mais sutis e mesmo simbólicas. Até um simples aceno de reconhecimento pode servir a este propósito.  Mas por toda vida a fome por estímulos de relacionamento se mantém comparada a nossa fome por comida. Não é a toa que termos como desnutrição, saciedade, apetite, gourmet, jejum, entre outros são facilmente usados tanto no campo na nutrição como na psicologia. De forma semelhante, relacionamentos doentios são para o ser humano melhor do que a total ausência de relacionamentos. Preferimos o sofrimento ao não-reconhecimento, da mesma maneira que preferimos uma comida ruim a morrer de fome. Neste livro chamamos de transação a unidade básica de interação social que alimenta os relacionamentos humanos.

A Estruturação do Tempo

 

O objetivo de todo membro de um conjunto social é conseguir satisfazer-se tanto quanto possível de suas transações com os demais. Quanto mais sociável ele for, maior o número de transações que poderá obter. Por essa razão, as transações geralmente ocorrem em séries planejadas e não por mero acaso. Os seres humanos estruturam o tempo disponível no dia para saciar sua fome por transações assim como faz com os demais imperativos biológicos.

 

Existem basicamente quatro formas de se organizar o tempo em busca de transações: o trabalho, os rituais, os passatempos e os jogos. O trabalho é o método mais comum, mais conveniente. Uma tarefa útil, emprego ou projeto precisam de uma longa série de transações para serem realizadas e possuem naturalmente um reconhecimento final a ser obtido.

Os rituais por sua vez são os roteiros sociais que seguimos para adquirir transações previamente aceitas pela sociedade. Esportes, cultos religiosos e cerimônias como casamentos e aniversários podem ser rituais, mas o ritual mais conhecido são as boas maneiras. As boas maneiras variam de sociedade para sociedade mas em todas elas apresentam roteiros adequados e conhecidos por todos para cumprimentar, comer, ir ao banheiro, namorar, chorar  ou conduzir uma conversação. Alguém espirra, outra pessoa diz “Saúde” e ambas saem um pouco mais satisfeitas.

Já os passatempos são transações simples e complementares montadas em torno do objetivo básico em comum aos participantes. Passatempos são usados tipicamente em festas e reuniões sociais. Uma mesma festa pode haver um grupo se divertindo com “Fofocas” outro com “Educação dos Filhos” enquanto outro se entretém com Automóveis ou Receitas. O início e o fim dos passatempos são geralmente marcados por algum tipo de ritual.

Os Jogos

 

Apesar da importância do trabalho, dos rituais e dos passatempos, a maior parte da atividade social consiste em uma quarta categoria que chamaremos de jogos. Um jogo é um  pobre substituto para a verdadeira intimidade e se compõe de uma série de transações encadeadas e enfadonhas que se desenrolam com uma motivação oculta. A natureza desonesta dos jogos e seu desfecho previsível e geralmente dramático são o que os diferenciam dos passatempos.

Vale dizer que os jogos que formam a maior parte da vida social em todo o mundo são jogos inconscientes e os jogadores geralmente não percebem totalmente o que estão fazendo. Como veremos a própria percepção lúcida de seus mecanismos faz parte do processo para se vencer e abandonar estes jogos.

Uma boa forma de entender isso são os jogos de galanteio. Um amante diz para o outro: “Vamos na minha casa ouvir música” e a outra responde “Claro, desde criança que eu gosto de música.”. No nível social essa é uma conversa sobre música, no nível psicológico uma conversa sobre sexo. Outro exemplo fácil de entender é o do bullying, onde o perseguidor é na verdade uma pessoa carente em busca de aprovação. Existem várias outras possíveis abordagens e motivações ocultas para os jogos psicológicos. Para entendê-los melhor teremos que entender um pouco sobre os estados do ego.

Os Estados do Ego

Na Análise Transacional entendemos que a mente se manifesta por meio dos três estados de Ego correspondentes, que são eles o Pai, o Adulto e a Criança. Uma mudança de estado se reflete em mudanças na postura,pontos de vista, vocabulário e outros aspectos do comportamento.

O estado de ego Criança surge durante a primeira infância e perdura por toda vida como resíduos arcaicos. Quando a pessoa está neste modo suas reações e objetivos são os mesmos que teria se ainda fosse criança.

O estado de ego Pai é formada a partir da influência de pais e outras figuras de autoridade e é o reservatório de normas e valores, de conceitos e modelos de conduta, surge no indivíduo por volta dos 3 anos de idade. Neste modo a pessoa tem as mesmas reações, posturas, gestos e sentimentos da imagem que fez de seus pais.

O estado de ego Adulto é a parte da personalidade que são autonomamente dirigidos para uma avaliação objetiva da realidade. É a parte racional do ser humano, que pensa de forma independente desprovidos de preconceitos e influências sentimentais.

Estes são fenômenos normais e todo mundo carrega uma criança, um pai e um adulto dentro de si. Na Criança reside a intuição, a criatividade, o impulso espontâneo e o prazer. O Adulto é necessário para a sobrevivência. Atravessar a rua, por exemplo, exige uma série complexa de análises. O Pai por sua vez torna muitas das reações automáticas e isso poupa muito do tempo e energia do Adulto que pode se dedicar a situações não previsíveis.

É apenas quando um destes modos perturba o equilíbrio saudável do conjunto que uma reorganização da personalidade é necessária. Por exemplo, um chefe que porta com sua equipe como um pai controlador irá geralmente engendrar comportamentos infantis em sua equipe com birra e crises de ciúmes. Estas confusões acontecem em uma série de jogos psicológicos que veremos a seguir. Os verdadeiros vencedores destes jogos são as pessoas que conseguem reassumir seu papel de Adulto.

Estágios do Jogo

Uma característica essencial dos jogos é que eles seguem rumo a um desfecho, em geral prejudicial a um parcela ou todos os envolvidos.  Um jogo no primeiro estágio é aquele que é socialmente aceitável no círculo do jogador, podem causar algum embaraço mas nenhum dano sério.Os jogos de segundo estágio são aqueles que ainda não chegam a causar danos irremediáveis ou permanentes mas machucam emocionalmente e os jogadores já o preferem ocultá-los. Por fim no terceiro estágio estão os jogos que chegam ao seu caráter  definitivo e termina numa sala de operações, num tribunal ou no necrotério.

No primeiro estágio estão muitos jogos que não são prejudiciais. O trabalho voluntário, as boas ações e os cortejos podem todos ter razões ocultas muitas egoístas, mas não necessariamente efeitos danosos aos seus jogadores. Neste livro daremos ênfase aos jogos que tendem ao estágio dois e três.

A seguir veremos os principais jogos detalhados no livro:

O Alcoólatra

Tese: “Tenho me comportado mal: veja se pode fazer algo a respeito.”

Papéis: Alcoólatra, Perseguidor, Otário, Salvador, Conexão

Este é um jogo que pode envolver muitas pessoas. Essencialmente a pessoa se comporta mal para se tornar alvo de censura, preocupação ou generosidade. Como Criança espera que alguém tome a posição de Pai. Pode ser como Perseguidor que condena e pune, como Salvador, que suplica para que se comporte ou como Otário que se deixa agredir e o protege das consequências.

O jogo não é jogado apenas por viciados em álcool, jogo ou brigas de rua podem seguir o mesmo padrão. Mesmo crianças, em especial filhas de alcoólatras se entregam a este jogo sem beber comportando-se mal para conseguir a atenção que desejam.

Antítese: ser franco e tomar uma posição contratual Adulta se recusando a interpretar qualquer papel. Deve-se combinar que a pessoa também seja capaz de tolerar a abstinência tanto de beber como de jogar. Se não se mostrar capaz é melhor ser mandada a um Salvador profissional como os Alcoólicos Anônimos.

Agora eu te peguei seu filho de mãe.

Tese: Agora eu te peguei, seu filho da mãe.

Papéis: Vítima, Agressor

Este jogo envolve alguém dando a si mesmo a posição de Pai na tentativa de despertar a Criança ou um pai antagonista em outra pessoa. Ele pode ser visto nas mesas de poker. Um jogador recebe uma mão imbatível e em vez de se interessar na partida se interessa em ter algum outro jogador a sua mercê. Um marido pode usar uma conversa que lhe despertou ciúmes para repreender sua mulher a fim de libertar uma raiva  antiga, com sua mãe teria feito em uma situação análoga. Outro exemplo é um encanador que apresenta uma nota de pagamento levemente superior a combinada e em vez de negociar uma solução de modo digno e encontrar uma maneira adequada ambos aproveitam para criticar a qualidade do trabalho e mesmo o estilo de vida e caráter da cada um.

Antítese: A solução desse jogo é o comportamento correto.  Deve ser explicitado um contrato detalhado na primeira oportunidade e as regras devem ser estritamente seguidas.

Veja só o que você me fez fazer

Tese: Foi você que me colocou nessa situação. Eu não tenho culpa.

Papéis: Inocente, Culpado.

O objetivo deste jogo é a justificação do jogador como uma criança que se revolta contra os pais em vez de assumir responsabilidades. Na sua forma clássica é um jogo conjugal que em termos sexuais pode ser relacionada a reações como quando a ejaculação é prematura ou existe ansiedade de castração. Contudo também é jogado por pais e filhos  e no ambiente de trabalho

Antítese: Deixar o jogador em paz, sozinho se for um caso isolado ou delegar a ele todas as decisões caso tente fazer do jogo um modo de vida. Em alguns casos graves pode ser necessário buscar os benefícios da psicoterapia.

Mulher Fria

Tese: “Eu tentarei se você não deixar.”

Papéis: Esposa Decorosa, Marido sem consideração.

O marido procura a esposa e é repelido. Depois de várias tentativas ela diz que não é amada e todos os homens são animais que só querem sexo. O marido desiste por um tempo e tenta de novo com o mesmo resultado até que finalmente acaba por desistir. A mulher percebendo se faz provocante colocando uma camisola transparente por exemplo, ou se beber pode buscar flertar com outros homens. O marido reage e tenta de novo e é novamente repelido. O padrão escala e se repete até resultar na briga do casal. O ponto a ser ressaltado é que o marido também receia a intimidade e escolheu exatamente como companheira alguém que minimiza o perigo. Ambos reproduzem o padrão Criança-Pai/Mãe da sua primeira infância.

Antítese: Este é um jogo perigoso. Se um dos dois arranjar um amante o outro ganhará munição para jogar o “Agora eu te peguei seu filho da mãe.”. Os jogadores devem buscar psicoterapia individual ou , ainda melhor, um grupo de tratamento para casais.

Tribunal

Tese: Você precisa dizer que eu estou com a razão.

Papéis: Acusador, Acusado, Juiz

Este jogo pode se desenrolar em família, grupos de terapia, consultórios e mesmo em programas de televisão. Neste jogo duas Crianças procuram a intervenção de um Pai que seja o juiz e que diga que um dos dois tem razão.

Antítese: Recusar-se a assumir o papel de juiz e expor a verdade da situação apresentada.

Veja como eu me Esforcei

Tese: “Vejam só quanto me esforcei.”

Papéis: Obstinado, Perseguidor, Autoridade

Este outro jogo conjugal pede também três jogadores que em seu modo clássico são o marido, a esposa e o terapeuta. O marido quer se separar mas declara enfaticamente o contrário. A esposa  é sincera em seu desejo de conservar o casamento.  Ele vai contrariado ao consultório mas com o passar do tempo exibe ressentimento crescente contra o terapeuta. Seu comportamento piora até que ele se recusa a continuar. A esposa é levada a considerar a possibilidade da separação e o marido não precisa mais se sentir culpado pois foi ela que tomou a iniciativa e ele inclusive demonstrou boa fé indo ao terapeuta.  Este jogo é também observado em crianças que ao realizar uma de suas obrigações ou deveres e não os faz alegando desconhecimento ou os faz tão mal que necessita ser chamada atenção. Quando isso acontece se sente livre da culpa de não fazer o combinado.

Antítese: O marido deve ser mandado para casa com a explicação de que está menos preparado para a terapia, que continua com a esposa. Ele ainda poderá conseguir o divórcio mas às custas de abandonar o jogo. No caso dos pais devem mostrar a criança que seu esquema foi descoberto e não pode mais ser usado.

Desastrado

Tese: “Você tem que desculpar coisas que parecem acidentais”

Papéis: Agressor, Vítima

Um convidado em uma festa derruba coquetel no vestido da anfitriã que sente raiva mas se controla. O convidado pede desculpas e a anfitriã ou resmunga ou deixa claro seu perdão. O problema é que neste jogo o jogador continua quebrando as coisas e a anfitriã continua perdoando. O objetivo do jogo não é destruir mas obter o perdão ou a raiva da pessoa e transições entre o desastrado que se coloca como uma Criança e um Pai que tem que lidar com ela.

Antítese: No caso de repetição incômoda do jogo a solução é não oferecer a absolvição pedida, mas tornar o jogo as claras com algo do tipo “Você pode derrubar os copos e molhar o tapete, mas, por favor, não fique pedindo desculpas.”

Só estou querendo ajudar

Tese: “Ninguém faz o que eu digo.”

Papéis: Pessoa que ajuda, Pessoa que é ajudada.

Este jogo pode ser jogado em qualquer situação profissional. O jogador dá um conselho vago ou difícil de ser executado a alguém que mais tarde retorna dizendo que não obteve o efeito desejado. O jogador tenta de novo e o ciclo se repete. Se o outro jogador for hostil pode tentar jogar um “Olha o que você me fez fazer” e é nesse ponto que o profissional assume que a pessoa não seguiu suas exatas instruções e perplexo com a ingratidão explode em “Eu só estava tentando ajudar”. Note que para o jogo ocorrer a pessoa que ajuda precisa ter certeza que seu auxílio não será aceito ou que levem muito tempo para fazê-lo. Isso porque o jogador se frustraria com resultados rápidos e prefere saborear  aos poucos a vitória psicológica de ser a pessoa que ajuda. A pessoa se coloca como um Pai que precisa ser sempre consultado mas nunca é escutado.

Antítese: A pessoa que realmente quer ajudar em vez de desconfiar e se revoltar que seus conselhos não sao seguidos procura saber o que realmente está acontecendo em vez de escolher a saída fácil e a dependência infrutífera.

Sim, mas..

Tese: Veja se consegue achar uma solução em que eu não consiga descobrir um defeito.

Papéis: Pessoa com problema, Conselheiros

Este jogo pode ser jogado por várias pessoas ao mesmo tempo e consiste em um jogador que apresenta um problema para então encontrar um defeito em cada solução apresentada. Existe ganho em cada resposta mas seu objetivo é o silêncio que tem lugar quando todos se cansam de quebrar a cabeça tentando imaginar soluções. Este silêncio significa que o jogador ganhou demonstrando que todos são incompetentes. Às vezes o silêncio é disfarçado por uma mudança de assunto. É como uma criança que se recusa a aceitar as instruções do Pai para que ele continue lhe dando orientações e atenção.

Antítese: Este jogo é o exato oposto do “Só estou querendo ajudar”, sua antítese é assim se recusar a fazer o papel de conselheiro. Contudo em situações sociais  se o jogo é amistoso e inofensivo não há razão para não participar.

Bandido e Mocinho

Tese: “Pegue-me se for capaz!”

Papéis: Bandido e Mocinho.

Existem dois tipos de criminosos: os que visam o lucro e os que querem viver este jogo. Muitos criminosos são indivíduos que odeiam a polícia a tal ponto de obter tanta ou maior satisfação superando sua inteligência e esforços quanto o que obtêm materialmente com seus crimes. Curiosamente este é um jogo que as crianças aprendem bem cedo a jogar. O brincadeira de “Esconde-Esconde” oferece as mesmas transações da emoção de ser achado. Se são encontradas muito facilmente não há a mesma satisfação.

Antítese: A antítese deste jogo cabe mais aos criminologistas que aos psicólogos. Infelizmente este aspecto é raramente levado em conta na pesquisa criminal. Nos casos puramente sociais a recusa, a procura ou caçada pode mostrar que você não está disposta a entrar neste jogo.

Além dos Jogos

Existem vários jogos além dos que foram mencionados aqui. Para muitas pessoas a vida não passa de um processo de encher o tempo disponível com jogos destinados a saciar essa necessidade por transições. Entretanto para algumas pessoas afortunadas existe algo além: a Consciência, a Espontaneidade e a Intimidade.

Consciência significa viver a vida no aqui e agora e não em qualquer outra parte no passado ou no futuro. Uma pessoa consciente consegue ouvir o canto dos pássaros ou um bulé de café  de sua própria maneira e não do modo como foi obrigado.

Espontaneidade significa liberdade de escolher e de exprimir sentimentos existentes na coleção que cada indivíduo tem, seja ela do Pai, do Adulto ou da Criança. Significa portanto estar liberto da compulsão de ter apenas os sentimentos que aprendeu a ter.

Intimidade, por fim, é mais gratificante do que todos os jogos. É a sinceridade e liberação da Criança perceptiva e incorrupta em toda sua ingenuidade vivendo no aqui e agora.

Estes podem parecer objetivos perigosos para os despreparados, mas não são inatingíveis. É uma meta para os que acreditam que mesmo que não existe esperança para a raça humana, ela existe para os indivíduos que a compõem.

Conclusões

  • Uma transação é a unidade básica de interação social. Sem elas o ser humano pode-se  degenerar física e psicologicamente. Desta forma temos todos uma fome natural pelos relacionamentos sociais.
  • A mente se manifesta em três estados do ego: a criança, o pai e o adulto.
  • Um jogo é uma tentativa de estabelecer uma série de transações desonestas onde aparentemente um adulto fala, mas onde a motivação oculta alimenta os estados de criança e pai dos jogadores.
  • Jogos são um conjunto de transações desonestas que as pessoas usam para estimular outras pessoas a se relacionarem.
  • A única forma de vencer estes jogos é recusar os papéis que são impostos e  reassumir o ego Adulto com uma visão clara e objetiva da situação para restabelecer um relacionamento honesto e sadio.
  • Jogos são pobres substitutos para a intimidade. Por mais difícil que pareça é possível construir relacionamentos livres do vício de jogar com a vida.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/os-jogos-da-vida-games-people-play/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/os-jogos-da-vida-games-people-play/

A Espiritualidade Queer na China

 

INTRODUÇÃO À ESPIRITUALIDADE QUEER NO LESTE ASIÁTICO:

Como todas as partes do corpo, da mente e do espírito anseiam pela integração do yin e yang, a relação sexual angélica é conduzida pelo espírito e não pelos órgãos sexuais.

O Huahujing, versículo 69.

O Leste Asiático Queer é uma mudança de paradigma em relação a muitas das regiões exploradas até agora. Para os ocidentais, a comunidade LGBT+ é frequentemente mantida sob controle por meio do conceito de culpa. Uma pessoa queer deve se sentir culpada por sua orientação sexual e identidade porque os atos queer são pessoalmente imorais.

Os orientais queer, no entanto, são mantidos sob controle principalmente por vergonha. Enquanto a culpa é um sentimento privado e autonegativo sobre ações pessoais que você fez, a vergonha está mais focada em se sentir mal por causa de como os outros percebem você e suas ações pessoais. No Oriente, uma pessoa não se sente necessariamente culpada por ser LGBT+ porque as ações queer são moralmente erradas, mas sim, elas se sentem envergonhadas porque a natureza queer é socialmente inaceitável. Assim, ser um membro queer de uma família do Leste Asiático é muitas vezes visto como “ruim” porque traz vergonha para a família e, consequentemente, para aqueles que fazem negócios ou têm associações com a família. Portanto, há muita pressão extrafamiliar e externa sobre as pessoas LGBT+ para suprimir sua natureza queer. Mas, como estamos prestes a ver, nem todas as partes do leste da Ásia sempre se sentiram assim.

A ESPIRITUALIDADE QUEER NO TAOÍSMO:

A China é uma das poucas nações do mundo cujas antigas religiões ancestrais ainda são praticadas pela maioria de seus cidadãos modernos. Oficialmente, a República Popular da China é ateísta devido à preferência nietzschiana da ciência e da razão do comunismo sobre as superstições percebidas da religião que têm sido usadas há séculos pela burguesia para manter as classes trabalhadoras subservientes. Mas isso ainda não impede as pessoas comuns da prática religiosa. Para os chineses, predominam três escolas filosóficas de pensamento: o Taoísmo, o Confucionismo e o Budismo Mahayana. Na maioria das vezes, todos eles são misturados para formar uma fé híbrida amalgamada, mas passaremos por cada um individualmente para destacar suas implicações queer, começando com o que se acredita ser o mais antigo: o Taoísmo.

O Taoísmo é frequentemente considerado mais uma filosofia do que uma religião. Seu fundador é Lao Tzu, que, cansado do mundo e cansado de uma vida inteira assistindo a humanidade lutar entre si durante o século VI a.C., foi obrigado a escrever sua sabedoria antes de deixar a China devastada pela guerra para partes desconhecidas. Seus escritos são conhecidos como o Tao Te Ching, um pequeno manual que explica a maneira natural das coisas e como navegar na corrente da vida em vez de remar inutilmente contra ela e tornar a vida difícil para si mesmo. Este modo natural de coisas é conhecido como o Tao; assim, seguir o Tao é essencialmente seguir o caminho natural do universo em geral. 160

Não há divindades, nenhuma discussão sobre o que acontece após a morte, apenas um foco no aqui e agora, e como seguir o exemplo da natureza é a chave para uma vida tranquila. Por causa disso, não há menção à natureza queer ou mesmo à sexualidade. Não há mesmo nenhum ditado para o que é e o que não é moral, mas sim um aviso de que desviar-se do fluxo natural do universo resultará em tempos ruins. E é aí que as coisas ficam complicadas para o taoísta LGBT+: a interpretação do que constitui ser “natural”. A natureza queer pode ser testemunhada na natureza, mas a incapacidade de procriar parece ir contra a forma como a vida se sustenta naturalmente. Como não há mandatos divinos, a resposta à “naturalidade” da comunidade LGBT+ depende muito da perspectiva.

Até mesmo o símbolo taoísta yin-yang (chamado de taijitu) foi interpretado como a favor e contra a “naturalidade” queer. Todos conhecemos o símbolo; é o círculo dividido em duas metades curvas iguais, uma preta (yin) e outra branca/vermelha (yang), e dentro de cada metade há um círculo menor da cor oposta. Juntos, os dois lados representam a dicotomia do universo natural e o fato de que dentro de cada lado existe um pouco do outro. Yin é o lado feminino, passivo, emocional, frio e criativo da natureza, e yang é o lado masculino, ativo, lógico, quente e destrutivo da natureza. Juntos, eles trazem equilíbrio ao mundo, e cada um não pode existir sem o outro.

Para alguns praticantes, o yin-yang prova que ser queer não é natural, pois há uma divisão clara de apenas dois gêneros, e sua união cria a perfeição harmoniosa da vida. Yang não se mistura com yang e yin não se mistura com yin; cada um precisa de seu oposto para ser completo. Para outros praticantes, no entanto, o yin-yang é a prova de que ser queer é bastante natural em dois níveis separados.

No primeiro nível, mais superficial, um casal do mesmo sexo é uma conclusão de yin e yang, pois há um parceiro passivo “receptivo” e um parceiro ativo “dominador” ao fazer amor. Mesmo que ambos sejam versáteis, os dois se revezam sendo o yin passivo e o yang ativo ou estão simultaneamente recebendo e dando e, portanto, cada um sendo o yin e o yang ao mesmo tempo.

No nível mais espiritual, yin e yang não são tão representativos de feminino e masculino, mas da feminilidade e masculinidade do espírito. Os pequenos círculos dentro de cada metade do yin-yang são os principais pontos de referência para este lado do argumento. Individualmente, um homem gay e uma mulher transgênero pré-operatória podem ser vistos como um corpo yang com um yin interno, e uma lésbica e um homem transgênero pré-operatório seriam vistos como um corpo yin com um yang interno. Uma pessoa intersexo seria uma autocompletude do yin-yang expresso em si mesmo, e um bissexual seria uma autocompletude do yin-yang expresso em relação aos outros.

Para dar um passo adiante, argumenta-se que o yin-yang é um símbolo proponente de ser fluido de gênero, uma vez que é representativo da natureza sempre fluida e não estática de todas as coisas. E, em certo sentido, afirma sutilmente que todo mundo é um pouco bissexual, já que tanto o yin quanto o yang não são preto puro nem branco/vermelho puro. Cada lado tem um pouco do outro dentro de seu centro.

Além da simbologia do yin-yang, a filosofia do Taoísmo admite que a verdadeira natureza do Tao espiritual é incognoscível. A lógica é que se os humanos pudessem entender completamente a complexidade espiritual total do Tao, então não seria o Tao. Como a mente humana é limitada e o Tao é ilimitado, é impossível colocar quaisquer limites ou rótulos sobre o que o Tao é ou não. A sexualidade e a identidade humana são semelhantes ao Tao nesse sentido. Há um amplo e ilimitado espectro de possibilidades, mas não importa como nos definamos ou nos identifiquemos ou aos outros, nunca poderá representar toda a amplitude de possibilidades que é a sexualidade e a identidade humana. Além disso, nossos gostos podem mudar, então qualquer resposta que dermos agora nunca será permanente para sempre.

Ainda assim, a filosofia do Taoísmo eventualmente o levou a se tornar uma prática mágica semelhante à alquimia hermética no Ocidente. O ramo mais místico do Taoísmo muitas vezes se concentrava na vida eterna; para isso, a homossexualidade masculina era vista como uma espécie de remédio, ajudando a garantir a imortalidade (a sexualidade das mulheres era vista como sem importância ao longo da história chinesa até o estabelecimento de um governo comunista por Mao Zedong). Em suma, o sêmen de um homem era visto como sua essência de vida, e se ele ejaculasse, ele estava essencialmente disparando parte de seu elixir mágico, sustentador da vida, como “evidenciado” pelo quão cansado um homem ficaria depois de esfregar um (isto é, depois de se masturbar e ejacular). Mas, claro, aquele elixir branco cremoso parecia ser produzido apenas durante a excitação sexual. Portanto, produzir mais elixir da vida através da estimulação sexual sem perder nada através da ejaculação era visto como um método lógico para prolongar a vida. Isso era especialmente importante se a excitação fosse entre dois homens. A energia yang produzida por um amante masculino aumentava a potência yang do elixir da própria vida – desde que ninguém ejaculasse, é claro. 161

A CONTRIBUIÇÃO TAOÍSTA:

Seguindo o Fluxo da Vida:

Facilmente, a lição mais imediata do Taoísmo é seguir o fluxo natural da vida. Ironicamente, embora isso seja literalmente a coisa mais natural do mundo, nós humanos gostamos de complicar as coisas porque não podemos acreditar que as coisas são tão simples ou que nossos problemas não são tão únicos ou tão complexos quanto gostaríamos. pensam que são.

A natureza queer também é uma coisa natural. Muitos de nós desperdiçamos tempo e energia preciosos se preocupando com “Por que sou assim?” ou “Como posso suprimir minhas tendências queer naturais para me encaixar?” Somos como somos por uma razão.

Confie que você é queer por uma razão. A vida sabe o que está fazendo, e se você parar de suprimir suas tendências naturais, você pode descobrir que a vida é mais fácil quando você segue o fluxo natural do universo.

E pense na arte do feitiço, o ato de manipular as forças naturais do mundo para produzir um resultado específico. Muitas vezes não confiamos que a natureza sabe o que está fazendo ou não sentimos que está trabalhando a nosso favor, então temos que interferir e mudar as coisas para nosso benefício pessoal. Mas vou te contar um segredo: a vida está sempre funcionando para um bem maior. Quanto mais você estuda magia e ciências naturais, mais você percebe que a vida tem uma maneira de se desenvolver em seu próprio tempo e de acordo com sua própria vontade. O problema é que queremos as coisas como queremos quando as queremos, e às vezes nossos desejos pessoais são incompatíveis com o bem maior. Mas quanto mais poderosos e sábios nos tornamos em nossa magia, percebemos que a vida tem tudo sob controle e não precisamos microgerenciar tudo com magia o tempo todo. A magia pode ser útil, mas nunca é necessária para uma vida saudável e feliz.

Portanto, para esta atividade mágica, tente evitar a magia na próxima vez que sentir que é necessário recorrer a um problema específico. Sim, a magia é uma ajuda poderosa, mas se formos imediatamente a ela para resolver todos os nossos problemas o tempo todo, perderemos contato com o fluxo natural do universo tentando microgerenciar tudo. E às vezes coagir uma vitória pessoal resulta na perda do bem maior de maneiras que não podemos ver.

A vida envolve dor. Se você nunca luta, experimenta perda pessoal ou sente dor, então você não está realmente experimentando a vida, está apenas vivendo em uma bolha separada do mundo. Então, da próxima vez que você sentir a necessidade instintiva de fazer mágica, espere um segundo, pare e veja não apenas o que a existência do problema está tentando lhe ensinar, mas também como o fluxo natural da vida pode resolvê-lo para um bem maior, sem manipulação mágica.

A ESPIRITUALIDADE QUEER NO CONFUCIONISMO:

O Confucionismo nasceu, como o Taoísmo, de tempos difíceis. Confúcio, seu fundador homônimo, foi profundamente e pessoalmente afetado pelas intermináveis guerras civis que assolam a China. No entanto, ao contrário de Lao Tzu, que deixou a sociedade e usou a natureza como modelo de vida harmoniosa, Confúcio permaneceu no meio das coisas e acreditava que uma hierarquia social rígida que ditava as interações humanas era a chave para a estabilidade harmoniosa. Assim, como uma panaceia para os acontecimentos durante sua vida (551-479 a.C.), Confúcio estabeleceu um código ético e moral que acabaria com o caos e traria a paz de volta à terra se todos o seguissem. Sua falta de divindades, espiritualidade, discussão sobre a vida após a morte e o Divino fazem com que tecnicamente não seja uma religião, ainda menos que o Taoísmo.

A propagação do Confucionismo demorou um pouco para ganhar força e contrastava fortemente com o Taoísmo. O Taoísmo tinha uma atitude mais mística, laissez-faire, interpretativa e moralmente ambígua em relação ao mundo, concentrando-se na natureza. O Confucionismo, como alternativa, deu às pessoas um conjunto direto e direto de regras sociais conservadoras a seguir e a promessa de retornar aos bons velhos tempos. Como os tempos recentes nos mostraram, esse tipo de mensagem em tempos incertos provou ser muito popular.

Deve-se dizer, porém, que Confúcio nunca viveu para ver a popularidade de seus ensinamentos. Ele morreu acreditando ser um fracasso anônimo, e seus ensinamentos nunca foram totalmente compilados até séculos após sua morte. Coincidentemente, nos séculos imediatos após a morte de Confúcio, as guerras internas da China só se intensificaram. Uma vez que a Dinastia Han chegou oficialmente ao poder em 206 a.C., porém, eles prontamente propagaram o pensamento confucionista para ajudar a normalizar a paz e a ordem de volta à sociedade. O conservadorismo social do Confucionismo também teve o benefício de estabelecer um sistema de pseudo castas em que todos sabiam seu lugar; em tal sociedade, a aristocracia han poderia consolidar seu lugar no topo. 162

Então, qual foi a palavra de Confúcio sobre os indivíduos LGBT+? Nada. Mas, ao contrário do silêncio do Taoísmo em relação à comunidade queer geralmente interpretado de forma positiva, o silêncio do Confucionismo tem sido mais frequentemente interpretado de forma negativa. A razão para isso são os nossos velhos amigos e a vergonha da família. Confúcio ensinava que a família era o modelo ideal para a ordem social e, além de delinear o lugar de cada parente na hierarquia familiar patriarcal, ele a usava como metáfora do bom governo.

Tão poderosamente icônico foi o uso do Confucionismo de um bom governo baseado em uma boa estrutura familiar que foi usado pelo juiz Anthony Kennedy na opinião majoritária da Suprema Corte dos EUA sobre a lendária decisão Obergefell v. Hodges em 2015 (a que legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo os EUA). Especificamente, ele escreveu: “A centralidade do casamento para a condição humana não surpreende que a instituição exista há milênios e entre civilizações…. Confúcio ensinou que o casamento está na base do governo.” 163

Ironicamente, foi essa mesma lógica confucionista que a China pré-comunista usou para suprimir os direitos LGBT+. Uma boa família era aquela que cumpria seus deveres. Para os filhos, era obedecer inquestionavelmente aos pais até se tornarem adultos, quando então se casariam e teriam seus próprios filhos, somando-se à família e fortalecendo-a. Se uma dessas crianças fosse queer, então uma chave seria lançada no sistema por sua relutância em se casar com uma pessoa do sexo oposto e/ou sua incapacidade de gerar filhos se tivessem um amante do mesmo sexo. Uma criança bissexual foi forçada a se casar apenas com o sexo oposto. Ser transgênero estava simplesmente fora de questão, pois desafiava a rígida e conservadora hierarquia de gênero do Confucionismo, onde você fica no seu lugar e não deseja ser outra coisa. E, claro, a vergonha era o chicote que mantinha todos na linha. 164

Embora algo vergonhoso, ser LGBT+ não foi crime em grande parte da história da China. Isso tudo mudou após as Guerras do Ópio de meados do século XIX, quando ficou dolorosamente claro para a derrotada Dinastia Qing que a China precisava se modernizar para ter alguma chance de ser levada a sério pelas potências imperiais ocidentais. Assim, junto com muitas outras coisas, a China adotou a moral ocidental moderna em um esforço para imitar o Ocidente e parecer igualmente moderna. Isso significava que todas as coisas queer não seriam mais toleradas legalmente, assim como na Europa. A homossexualidade permaneceu ilegal na China até que o Partido Comunista a legalizou em 1997 e a removeu da lista oficial de doenças mentais em 2001. 165

A CONTRIBUIÇÃO DO CONFUCIONISMO:

A Prevenção da Guerra Civil:

O objetivo original do Confucionismo para o qual foi criado era um código de conduta para reprimir a guerra civil. Há uma guerra civil semelhante acontecendo em nossa comunidade queer. Brigamos entre nós por tudo. Algumas das reclamações internas são legítimas; alguns são frívolos. Mas há tantas brigas internas de todos os lados que o frívolo às vezes parece legítimo e o legítimo às vezes parece frívolo.

Os direitos civis são um processo longo e lento. A maioria das pessoas neste planeta não vai acordar de repente um dia e perceber que todas as pessoas queer são iguais em todos os sentidos às pessoas não-queer. Em nenhum lugar da história do mundo isso foi o caso de qualquer questão social. Temos que vencer batalha por batalha, mas brigar entre si sobre como cada batalha deveria ser travada ou poderia ter sido melhor vencida só cria animosidade. Temos que apreciar cada vitória; desde que seja uma vitória para a comunidade queer, por menor que seja e por qualquer letra da sigla LGBT+, merece apoio e reconhecimento. O objetivo é vencer a guerra, não apenas a batalha pessoal que resolve o problema para você pessoalmente. A vitória total é uma maratona, não um sprint ou uma corrida de velocidade. Leva tempo. Até lá, todas as vitórias contam e temos de nos manter unidos.

A comunidade mágica está em apuros semelhantes. Certas tradições são tão rápidas em menosprezar outras tradições como não sendo magia real ou magia frívola ou como sendo de uma tradição que não tem raízes antigas ou “autênticas”. Os praticantes de magia já são uma minoria difamada por um grande número de pessoas. Precisamos nos manter unidos e edificar uns aos outros. Contanto que a magia de alguém seja eficaz e funcione para eles, quem se importa se não for do seu agrado ou dos padrões de sua tradição? Deixe as pessoas viverem suas próprias vidas; promulgar uma guerra civil não validará suas próprias opiniões. As guerras civis nunca mudam de opinião, apenas eliminam as mentes do lado perdedor.

Então, para sua próxima atividade mágica, escolha uma tradição mágica com a qual você sente que tem problemas e faça uma pesquisa imparcial sobre ela. Encontre algo sobre essa tradição que ressoe com você e, em seguida, incorpore-o em seu próximo feitiço. Ao encontrar algum terreno comum e realmente provar a si mesmo a eficácia de uma tradição que você não necessariamente gosta, isso ajudará a diminuir a divisão.

A ESPIRITUALIDADE QUEER NO BUDISMO MAHAYANA:

O Budismo foi a última das três principais religiões a se firmar e influenciar grandemente a cultura chinesa, chegando durante o primeiro século d.C. de missionários indianos muitos séculos após o Taoísmo (século VI a.C.) e a morte de Confúcio (479 a.C.). Especificamente, o Budismo Mahayana foi o ramo mais bem sucedido do Budismo. Atraiu a China densamente povoada por causa de sua ênfase na libertação espiritual universal para todos e não simplesmente na iluminação pessoal, que era vista apenas como um meio para ajudar melhor todos a alcançar a iluminação.

Como o Budismo estava atrasado para a festa religiosa, encontrou forte resistência. Sua chegada durante o pró-confucionismo da Dinastia Han o tornou inicialmente impopular, já que o Confucionismo era sobre o lugar e o dever de cada um na sociedade, enquanto o Budismo defendia uma fuga da sociedade por meio do desapego pessoal dos problemas sociais. Os dois não se misturavam muito bem e, como o Budismo era uma religião estrangeira, estava associado à barbárie e ao atraso. Era, no entanto, mais semelhante à religião nativa e antiga favorita do Taoísmo, pois ambas tinham visões de mundo liberais e uma aversão a hierarquias sociais estritas. Assim, os missionários indianos tentaram aumentar as semelhanças entre o Budismo e o Taoísmo. Isso levou o Budismo a se afastar de suas origens mais estoicas e ímpias na Índia e se fundir em uma tradição mais mística com um panteão de bodhisattvas sobrenaturais que, depois de atingir a iluminação, perderam a felicidade do nirvana para ajudar as massas a alcançar a iluminação também. 166

A vastidão da China e sua enorme quantidade de tribos amplamente diferentes de pessoas forçaram o Budismo a se adaptar e mudar quando necessário. É por isso que existem tantas visões únicas da filosofia budista em todo o país. Em relação a onde a comunidade LGBT+ se encaixa no Budismo chinês, a resposta está em todos os lugares e em nenhum lugar. Embora alterado e adaptado aos gostos chineses, o Budismo Mahayana tem as mesmas crenças e filosofias fundamentais originadas pelo próprio Buda na Índia. Tudo existe na mente, e tudo fora da mente são apenas rótulos que colocamos em nosso eu infinito, incluindo sexualidade e gênero. Nós somos o que somos, e qualquer coisa mais é uma rotulação da mente para dar sentido e interagir com o mundo ao nosso redor.

A CONTRIBUIÇÃO DO BUDISMO MAHAYANA:

Precedendo o Nirvana:

O Budismo Mahayana é de longe o mais popular dos três ramos budistas, reivindicando um pouco mais da metade de todos os adeptos globais. Não surpreendentemente, também é o mais popular em nações com grandes centros urbanos e condições de vida densamente povoadas, particularmente China e Japão. Em tais lugares é difícil escapar da sociedade, e só o foco social do Budismo Mahayana é relacionável.

Em um nível queer, nós, às vezes, queremos nos afastar do mundo. Queremos escapar da sociedade problemática e sua discriminação e fugir para viver entre nossa própria espécie, onde todos nos entendem. Mas isso é impossível. Mesmo enclaves altamente populosos de pessoas queer como West Hollywood e Castro District, em São Francisco, não são 100% queer nem tolerantes.

E por isso muitas vezes nos isolamos dentro de nossa comunidade. Só vamos a lugares queer, só permitimos que outras pessoas queer sejam amigas íntimas e só interagimos com pessoas cisgênero no trabalho ou quando necessário. Fabricamos um paraíso isolado para que nunca nos sintamos desconfortáveis.

Mas isso vai contra a mentalidade de libertação universal do Budismo Mahayana. Ao contrário de outros ramos budistas, o objetivo do Mahayana não é fugir do mundo para um paraíso pessoal, mas sim trazer o mundo inteiro para esse paraíso. Estar na linha de frente da defesa LGBT+ e alcançar a heterossociedade pode não ser confortável, mas é a única maneira de trazer toda a nossa comunidade para um mundo melhor. Afinal, é por causa dessas pessoas que renunciam à paz pessoal para estar no meio das batalhas pelos direitos civis que temos o nível de paz e aceitação que desfrutamos hoje.

Na comunidade mágica, estando mais em contato com o mundo natural, há uma fantasia idealizada comum de fugir das cidades e viver em meio à natureza, onde os problemas das cidades densamente povoadas não existem. Por causa disso, muitos de nós menosprezamos a vida urbana entre pessoas não-mágicas como um modo de vida menos idealizado que as circunstâncias nos forçam a viver. Mas isso só funciona contra nós em nossa magia. Como podemos criar um feitiço com as forças naturais ao nosso redor se estamos constantemente derrubando as forças naturais nas quais vivemos nossas vidas cotidianas, as forças do urbanismo?

Então, para sua próxima atividade mágica, entre em contato com o deva espiritual da cidade em que você vive, e então comece um relacionamento com essa entidade. Compreendam-se e comuniquem-se. Praticantes de magia geralmente fazem o mesmo ao entrar em lugares “naturais” como florestas, desertos e corpos d’água, então por que não a cidade em que você vive e passa a maior parte de sua vida? Como qualquer relacionamento, levará tempo para que a confiança e a amizade se desenvolvam, mas quando isso acontecer, você começará a perceber que a cidade e sua sociedade estarão ajudando você proativamente com o que você precisa.

DIVINDADES E LENDAS QUEER:

O Alquimista Raposa:

A história do Alquimista Raposa é um antigo conto popular chinês com uma forte mensagem LGBT+ que combina as filosofias taoísta e budista sobre o amor transcendente. Conforme a história, um estudioso idoso é visitado em sua casa solitária uma noite por um homem vestido de preto pedindo para fazer amor com ele. O estudioso fica desconfiado, mas o estranho explica que eles já foram amantes em uma vida anterior e que ele está procurando por sua alma gêmea desde então.

O estudioso começa a se lembrar de seu amor trágico de uma vida passada – como ele tinha sido uma jovem e o estranho seu jovem marido. Eles juraram amar um ao outro para sempre, mas durou pouco, pois eles se apaixonaram durante uma das guerras civis da China e tiveram um fim horrível ainda jovens. A esposa foi sequestrada por soldados rebeldes e tirou a própria vida para não ser estuprada. O marido juntou-se aos soldados rebeldes e morreu na batalha.

Para cada uma de suas ações, o karma os premia adequadamente. A esposa, por sua lealdade ao marido e imperador ao cometer suicídio antes que os soldados pudessem estuprá-la, foi autorizada a reencarnar como homem — não qualquer homem, mas um sábio literato. (Porque, lembre-se, esta é a China antiga e o valor patriarcal dos homens sobre as mulheres ainda era muito forte.) O homem, por sua deslealdade ao imperador e vontade de lutar pelos soldados rebeldes, reencarnou como um animal menor, uma raposa.

Mesmo sendo uma raposa, o marido ainda amava sua esposa e desejava cumprir seu voto de amá-la para sempre. Então, depois de descobrir que ela havia reencarnado em um estudioso do sexo masculino, ele estudou alquimia taoísta e encontrou a mistura mágica que o transformaria novamente em humano para que pudessem ficar juntos, com a ressalva de que os efeitos da poção durariam apenas um ano.

Agora, com a enxurrada de memórias voltando ao estudioso, ele reconhece seu ex-marido no estranho, mas ele não sabe como eles poderiam fazer amor um com o outro agora que ambos são homens. O estranho garante ao estudioso que confie nele e lhe diz que, enquanto os dois se amarem, sempre haverá um caminho.

Os dois aproveitam o tempo e fazem amor todas as noites durante 365 dias consecutivos. Inicialmente, depois que acabou e o estranho voltou a ser uma raposa, o estudioso idoso se perguntou se tudo não tinha sido um sonho, mas ele lembrou que seu amante lhe disse que a evidência de seu amor estaria para sempre nos pilares de sua casa. E assim ficaram: 365 marcas de mordidas feitas durante a agonia da paixão foram embutidas nos pilares de madeira.

Além da misoginia neste conto, é antigo como o amor não conhece limites. Está além do gênero, da idade física e até do próprio tempo. O conceito do próprio espírito é defendido como fluido de gênero, mas o amor é mostrado como sempre constante. 167

Guanyin:

Guanyin (também escrito Quan Yin ou Kwan Yin) é a bodhisattva da compaixão. De acordo com sua lenda, ela alcançou a iluminação, mas porque ela tinha tanta compaixão pela humanidade, ela se recusou a entrar no nirvana feliz até que todos os humanos pudessem vir com ela. Ela reencarnou como uma bodhisattva e se dedicou a ajudar a acabar com o sofrimento das pessoas em todos os lugares.

Seu lugar entre as divindades queer-positivas vem de ela ser uma mulher transgênero e um ícone do movimento LGBT+ na China. Historicamente, quando os missionários indianos espalharam o Budismo na China, Guanyin era o aspecto feminino do bodhisattva masculino Avalokiteshvara, mas esse aspecto feminino se tornou mais popular entre os chineses, levando Guanyin a se tornar seu próprio bodhisattva folclórico separado.

Sua identidade transgênero, no entanto, foi apoiada e mantida por taoístas e budistas, com os taoístas vendo Guanyin como uma harmonia divina das energias yin femininas e yang masculinas, e os budistas a vendo como a perfeição de um homem que aceitou sua compaixão interior e feminilidade que ele alcançou a plena feminilidade.

Por muitos séculos, Guanyin foi um símbolo sutil adotado pelas lésbicas chinesas, não apenas porque ela era uma protetora das mulheres, mas também porque ela supostamente defendia o casamento heterossexual para buscar uma vida mais espiritual. Para a maioria dos movimentos queer e feministas na China, Guanyin é um símbolo do tipo de paz, felicidade e harmonia que pode ser alcançada se a sociedade não enfatizar seu culto à masculinidade e abraçar sua feminilidade auto-suprimida, bem como amor e amor. compaixão por todas as pessoas, independentemente de quem elas sejam. 168

Os Imperadores Queer:

Enquanto muitos imperadores chineses são registrados como tendo tendências queer, nenhum foi tão lendariamente queer quanto o imperador Wu e o imperador Ai.

O imperador Wu, embora belicista, foi um grande defensor do Confucionismo, estabelecendo as primeiras universidades oficiais do país para ensiná-lo ao povo. Apesar do conservadorismo social do Confucionismo, o imperador Wu teve vários amantes do sexo masculino ao longo de sua vida. Seu amor mais forte era por um ex-colega de classe chamado Han Yun. Eles começaram um caso de amor juntos ainda jovens e, após a ascensão ao imperador, Wu lhe concedeu títulos e cargos de prestígio no governo. O favoritismo óbvio causou muita tensão na corte e fez dele um hipócrita, já que ele era o imperador que havia implementado a regra de promover e outorgar patente com base na excelência acadêmica em vez de nepotismo e ter as conexões certas. Em última análise, a pressão de todos os lados forçou Wu a ordenar que Han Yun tirasse a própria vida, encerrando o caso e o lugar indevido de seu amante no governo. 169

O outro monarca gay da China Han, o imperador Ai, é provavelmente o mais conhecido. Ai não tentou esconder sua preferência sexual por homens e teve um romance público de longa duração com um de seus funcionários menores, Dong Xian. O relacionamento deles acabou levando o eufemismo chinês da homossexualidade a ser referido como “a paixão da manga cortada”. Isso se originou de um famoso incidente em que, enquanto se aconchegava na cama, o imperador Ai queria se levantar, mas isso arriscaria acordar seu amante, que dormia profundamente em cima de uma de suas grandes mangas de corte. Então, em vez de correr esse risco, Ai simplesmente cortou sua manga.

Como o imperador Wu, no entanto, Ai mostrou grande favoritismo a Dong Xian, promovendo-o a comandante das forças armadas. Infelizmente para seu amante, o imperador Ai morreu repentina e inesperadamente, deixando Dong Xian como o oficial de alto escalão socialmente desprezado em uma corte sem imperador. Ele acabou sendo expulso e forçado a cometer suicídio. 170

Bibliografia:

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  1. Derek Lin, Tao Te Ching: Annotated & Explained (Woodstock: SkyLight Illuminations, 2006).
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  1. Justice Anthony Kennedy, “Read the Opinion: Supreme Court Rules States Cannot Ban Same-Sex Marriage,” CNN Politics, June 6, 2015, http://www.cnn.com/2015/06/26/politics/scotus-opiniondocument-obergefell-hodges/#document/p8p8 (accessed Nov. 19, 2016).
  1. Martin Weber, “Move Over, Confucius!” The Hufftngton Post, Jan. 30, 2012, http://www.huffingtonpost.com/marten-weber/move-overconfucius_b_1240939.html (accessed Nov. 19, 2016).
  1. Associated Press, “China Decides Homosexuality No Longer Mental Illness,” South China Morning Post, Mar. 8, 2001, http://www.hartford-hwp.com/archives/55/325.html (accessed Nov. 19, 2016); Bret Hinsch, Passions of the Cut Sleeve: The Male Homosexual Tradition in China (Berkeley: University of California Press, 1992).
  1. Kang-nam Oh, “The Taoist Influence on Hua-yen Buddhism: A Case of the Sinicization of Buddhism in China,” Chung-Hwa Buddhist Journal 13 (2000), https:// web.archive.org/web/20100323000712/http://www.chibs.edu.tw/publication/chbj/13/chbjl338.htm (accessed Nov. 21, 2016).
  1. Xiaomingxiong, GLBTQ Archives, http://www.glbtqarchive.com/literature/chin ese_myth_L.pdf.
  1. Kayla Wheeler, “Women in Religion: Does Gender Matter?” in Controversies in Contemporary Religion: Education, Law, Politics, Society, and Spirituality, edited by Paul Hedges (Santa Barbara: Praeger, 2014).
  1. Hinsch, Passions of the Cut Sleeve: The Male Homosexual Tradition in China.
  1. Hinsch, Passions of the Cut Sleeve.

Fonte: Queer Magic, por Tomás Prower.

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/a-espiritualidade-queer-na-china/

‘Louis Claude de Saint-Martin

Louis Claude de Saint-Martin, o “Filósofo Desconhecido”, pensador profundo e grande iniciado, nasceu a 18 de janeiro de 1743 em Amboise, Tourraine, no centro da França, no seio de uma família nobre, mas pouco abastada e desconhecida. Logo depois do nascimento de Saint-Martin, sua mãe faleceu, e ele foi criado pelo pai e por uma madrasta, pessoa amável e de bom coração, que o iniciou na leitura de Jacques Abbadie, ministro protestante de Genebra. Com esse autor, apreendeu a conhecer a si mesmo, relegando a um plano secundário a análise decepcionante e estéril dos filósofos em voga na época.

“É à obra de Abbadie, A Arte de Conhecer a Si Mesmo, que devo meu afastamento das coisas mundanas; é a Burlamaqui que devo minha inclinação pelas bases naturais da razão; é a Martinez de Pasqually que devo meu ingresso nas verdades superiores; é a Jacob Böehme que devo meus passos mais importantes nos caminhos da Verdade.”(1)

Outro autor que influenciou o Filósofo Desconhecido desde sua juventude foi Pascal. Aos 18 anos, em meio às discussões filosóficas dos livros que lia, deu-se conta de que, existindo o Criador do Universo e uma alma, nada mais seria necessário para ser sábio. (2) Foi com base nessas concepções que fundou sua doutrina posterior. Na época de seus estudos no Colégio de Pontlevoi, o Ocultismo já fazia parte de suas meditações. Na Faculdade, igualmente, eram os estudos metafísicos que o atraíam. Estudou Direito conforme a vontade de seu pai, e esse ambiente proporcionou-lhe maior contato com o mundo filosófico e literário da época. Conheceu as obras de Voltaire, Rousseau, Montesquieu e outros autores não iniciados, mas sem ceder à inclinação dos enciclopedistas. “Li, vi e escutei os filósofos da matéria e os doutores que devastam o mundo com suas instruções; nenhuma gota de seus venenos penetrou-me; nem as mordidas de uma só dessas serpentes prejudicaram-me.”(3)

O jovem estudante procurava tudo o que pudesse conduzi-lo ao conhecimento da Verdade, particularmente as ciências e princípios exatos. Dedicou-se assim ao estudo filosófico dos números e, por algum tempo, esteve ligado a Lalande e sua escola filosófica, sintetizada em Ciência dos Números. Esse convívio, entretanto, não foi longo, pois seus pontos de vista eram divergentes e nosso Filósofo passou a estudar Jean Jacques Rousseau. Como ele, pensava ser o homem naturalmente bom; mas entendia que as virtudes perdidas originalmente, em razão da Queda, poderiam ser reconquistadas desde que o homem o desejasse ardentemente. Acreditava que o naufrágio no materialismo era conseqüência mais das associações viciosas e desvirtuadas do que do pecado original. E, nisso, afirma-nos seu discípulo Gence(4), ele se diferenciava de Rousseau, a quem considerava um misantropo por sua excessiva sensibilidade, ao olhar os homens, não como eram, mas como gostaria que fossem.

Saint-Martin amava a humanidade e considerava-a melhor do que parecia ser; e o encanto da sociedade da época levou nosso Filósofo a pensar que a vivência nas rodas sociais poderia levá-lo ao melhor conhecimento do homem e conduzi-lo à intimidade mais perfeita com os seus princípios. Assim, agiu conforme seu pensamento: freqüentou os saraus musicais e toda sorte de recreações da alta nobreza, desde os passeios ao campo até as conversas com amigos; os atos de gentileza eram a manifestação de sua própria alma.

“Foram de sua intimidade as pessoas da mais alta classe, dentre as quais podemos citar o Marquês de Lusignan, o Marechal de Richelieu, o Duque de Orléans, a Duquesa de Bourbon, o Cavaleiro de Fouflers e tantos outros que seria longo enumerar. Devotou-se inteiramente à busca da Verdade e à prática das Virtudes, que foram o objeto constante de seus estudos, dos seus trabalhos e das suas realizações.”(5)

Iniciado, pois no estudo das leis e da jurisprudência, aplicou-se mais à pesquisa das bases naturais da Justiça, relegando a um plano secundário as regras da jurisprudência. Paralelamente, desenvolvia seus estudos sobre os mistérios ocultos e logo descobriu que não poderia dedicar-se inteiramente à magistratura, como desejava sua família. Não encontrando sua vocação no Direito, abandonou a magistratura que exerceu em Tours durante seis meses. Alistou-se aos 22 anos de idade no Regimento de Foix, então aquartelado em Boudeaux, onde pode encontrar mais tempo para dedicar-se ao estudo do Ocultismo, que era sua verdadeira vocação. Após ter lido os autores mais em evidência no gênero, procurou a iniciação de uma maneira mais efetiva.

Foi graças a um colega do Regimento, Grainville, que bateu às portas do Templo. Grainville era iniciado em uma sociedade oculta muito importante, cujo chefe era Martinez de Pasqually. Este era casado com uma sobrinha do maior, comandante do Regimento, que se encontrava na mesma cidade de residência de Martinez. A Escola de Pasqually, seu iniciador nas práticas teúrgicas, era a Ordem dos Elus Cohens do Universo (Sacerdotes Eleitos), revigorada mais tarde pela ação de Saint-Martin e Jean Baptiste Willermoz, sob a inspiração das obras de M. Pasqually e de J. Böehme e a partir de suas próprias pesquisas.

Em fins de 1768, Saint-Martin foi iniciado nos três primeiros graus simbólicos da referida Ordem pela espada de Balzac, avô de Honoré de Balzac, o famoso romancista francês das primeiras décadas do século XIX. Com efeito, em carta de 12 de agosto de 1771, dirigida a seu colega Willermoz, de Lyon, confirmou ter sido iniciado por Balzac e que recebera de uma só vez os três graus simbólicos. “Não é comum darem-se os três graus simbólicos ao mesmo tempo; deixam-se, ao contrário”, prosseguiu Saint-Martin na referida carta, “grandes intervalos de tempo entre um grau e outro, segundo o progresso de cada um.”(6)

Assim, Saint-Martin submeteu-se em seguida ao método iniciático de Pasqually, de quem se tornou secretário particular e discípulo zeloso. Mas não deixou, logo depois, de criticar seu primeiro Mestre, por não concordar com tudo o que era feito em tal sistema. Considerava supérfluas todas as manifestações físicas exteriores e todos os detalhes do cerimonial Cohen: “São necessárias todas essas coisas para orar a Deus?”, perguntou Saint-Martin a seu mestre Martinez. “É preciso que nos contentemos com o que temos”(7), respondeu o Grão-Mestre.

Na realidade, era necessário trabalhar mais profundamente no sentido interior para produzir a luz. Isso certamente Martinez teria feito dentro de seu próprio sistema, se não tivesse partido da França e falecido em seguida. Sua semente ficou, no entanto, e coube a Saint-Martin e a Willermoz cuidar da planta que deveria nascer. A Providência Divina não os deixou abandonados; inspirou-os constantemente, colocando em seu caminho homens que os ajudaram, direta ou indiretamente, e proporcionando-lhes o conhecimento do sistema de Jacob Böehme. Esse sistema confirmou as descobertas que tinham feito e abriu as portas para a obtenção das chaves ainda não encontradas.

Na época em que conheceu Pasqually, tinha pouco mais de vinte e cinco anos e acabava de debutar no Ocultismo, de sorte que nem todas verdades da Iniciação pode receber de seu primeiro mestre, com o qual permaneceu cinco anos. Soube reconhecer mais tarde sua grandeza (porque é bom que se afirme que Martinez de Pasqually foi um adepto de grande iluminação).

“Havia coisas preciosas em nossa primeira Escola”, relata Saint-Martin a seu discípulo Kircheberger. “Sou mesmo induzido a pensar que o Sr. Martinez de Pasqually, que era nosso mestre, possuía a chave ativa referente a tudo o que nosso prezado Jacob Böehme expõe em suas teorias, mas não julgava que fôssemos capazes de entender tão altas verdades, naquela época. Ele era sabedor de alguns pontos que nosso amigo Böehme não conhecia, ou pelo menos não revelou, como a resipiscência do ser perverso, contra o qual o primeiro homem teria tido a missão de trabalhar… Quanto à Sofia e ao Rei do Mundo, ele nada nos revelou, deixando-nos com as noções comuns de Maria e do Demônio. Mas não afirmarei que ele não teve conhecimento delas e estou convicto de que chegaríamos a esse conhecimento, se o tivéssemos conosco por mais tempo…”(8)

Saint-Martin nunca concordou com a iniciação realizada fora do silêncio e da realidade invisível, que chamava de centro ou via interior. Para ele, o interior deve ser o termômetro, a verdadeira pedra de toque do que passa fora…; e o estudo da Natureza exterior só teria sentido se conduzisse à senda interior, ativa. Esse estudo poderia, pois, ser útil na medida em que conduzisse à Verdade, mas a Iniciação, explicava ele a Kircheberger, deve agir no ser central.

“Não lhe ocultarei que anteriormente entrei nesse caminho externo, e através dele me foi aberta a porta de minha carreira. Meu condutor era um homem de muitas virtudes ativas, e a maioria daqueles que o seguiram, inclusive eu, receberam confirmações que talvez tenham sido úteis para nossa instrução e desenvolvimento. Todavia, em todos os instantes, eu sentia forte inclinação para o caminho intimamente secreto, o externo nunca me seduziu, nem em minha juventude.”(9)

Entendia Saint-Martin que todo o aparato exterior não era necessário para encontrar Deus e que, ao contrário, em muitas ocasiões dificultava essa busca. Discordava das numerosas e freqüentes comunicações sensíveis de todos os tipos, manifestadas nos trabalhos de que tomava parte na sua primeira Escola, embora o signo do Reparador sempre estivesse presente, manifestando a ação da Causa Ativa e Inteligente no mundo objetivo. Afirmava, no entanto, que sua senda interior, desenvolvida depois, proporcionava-lhe resultados mil vezes superiores aos produzidos pela senda que denominava exterior e que era preconizada por Pasqually.

Afirmava, no entanto, e é bom repetir, que deveria haver trabalhos internos da Ordem que não lhes foram transmitidos por causa de sua curta passagem pelo sistema e por não terem ainda passado pelos estágios iniciais. O Mestre não poderia ter agido de modo diferente, revelam-lhes os mistérios de ordem mais elevada. Acreditava, ademais, que os Princípios Divinos poderiam mesmo nascer naquele sistema, mas os trabalhos para esse efeito deveriam ser mais alguns anos com Pasqually.

Não apenas Saint-Martin discordava do sistema de Martinez, uma vez que os resultados não se produziam de imediato; todos os discípulos reclamavam resultados espirituais que, em verdade, dependiam deles próprios. Willermoz parece ter sido o primeiro a manifestar a Saint-Martin seu descontentamento no que dizia respeito ao desenvolvimento das faculdades adormecidas do ser humano; é o que constatamos através da leitura de uma carta endereçada por Saint-Martin, do Oriente de Bordeaux, com data de 25 de março de 1771.

“Quanto à confiança que vos dignais a testemunhar-me, abrindo-me sem escrúpulos vosso pensamento sobre nossas cerimônias, não me compete, tendo em vista nossa dignidade, fazer qualquer observação a respeito; e, diante de meu juiz, eu só deveria escutar e calar. Entretanto, as disposições puras que trazeis à Sabedoria fazem-me supor que poderíeis perdoar-me antecipadamente se ouso acrescentar, às vossas, algumas idéias próprias. Procuro, como vós, esclarecer-me… Confesso que o objetivo que buscamos na iniciação parece-me muito difícil de ser atingido.

Acredito que, mesmo nos encontrando nas melhores condições, quando todas as cerimônias são empregadas com a maior regularidade, a Coisa pode ainda guardar seu véu para nós tanto quanto quiser; ela está tão pouco à disposição do homem que ele não pode, jamais, apesar de seus esforços, estar certo de obtê-la. Ele deve esperar e orar sempre, eis nossa condição. O espírito conduz seu sopro onde quer, quando quer, sem que saibamos de onde vem e para onde vai… Se o poder não se manifesta agora, ele poderá ocorrer mais tarde; se não se opera pela visão, ele prepara a forma daquele que se mantém puro para receber as impressões salutares, quando o espírito assim quiser. Não atribuais, então, o estado em que vos encontrais a algum problema de vossa parte ou à invalidade das cerimônias.”(10)

Willermoz procurava obter por carta maiores esclarecimentos acerca dos problemas que iam surgindo no transcorrer de sua jornada iniciática. Pelo que constatamos, os resultados práticos da iniciação não apareciam tão rapidamente como os discípulos desejavam. Era necessário muito trabalho, como em qualquer sistema de iniciação, para que surgisse alguma manifestação de aprimoramento espiritual.

A correspondência entre Saint-Martin e Willermoz, iniciada em 1768, estendeu-se até 1773. Em 1771, Saint-Martin abandonou a carreira militar para dedicar-se exclusivamente ao Ocultismo. Durante dois anos empregou todo o tempo disponível para trabalhar ao lado do mestre; foi durante esse período que se familiarizou com a ritualística dos Cohens e com a doutrina de Martinez, bem como com todas as suas práticas iniciáticas.

Partiu de Bordeaux em maio de 1773, na ocasião em que Martinez preparava-se para viajar para as Antilhas. Antes de se despedir, entretanto, Saint-Martin foi recebido no último grau dos Cohens, aquele de Réaux-Croix, como atesta uma carta de Martinez, datada de 17 de abril de 1772: “Após ter examinado e reexaminado os candidatos Saint-Martin e Seres, por nossa votação ordinária e em conseqüência das ordens que recebemos, nós os ordenamos Réaux-Croix…”(11)

Em 1773, finalmente, Saint-Martin conheceu Willermoz, em Lyon, após terem trocado correspondência durante cinco anos. Seu círculo de amizade limitava-se aos irmãos da Ordem: Grainville, Balzac, Hauterive, Bacon de la Chevalerie, o Abade Fournier e Willermoz. Permaneceu um ano em Lyon, seguindo para sua cidade natal e, posteriormente, para Paris. Em abril de 1785, Willermoz obteve sucesso com suas operações: a “Coisa ativa e inteligente” finalmente mostrou-se aos homens.

Saint-Martin, sabendo da notícia, partiu de Paris em junho do mesmo ano, com destino a Lyon, levando consigo uma bíblia em hebraico e um dicionário, para entreter-se na viagem. Ficou seis meses em Lyon, partindo mais tarde para Nápoles e Londres, onde tomou conhecimento das publicações de Willian Law, morto em 1761, e que pertencia à tradição de Jacob Böehme.

“Seríamos excessivamente prolixos se procurássemos seguir as pegadas do nosso Filósofo Desconhecido, ao longo de sua jornada terrena, onde a cada passo, não obstante, encontraríamos o exemplo dignificante e o traço indelével da imensa esteira de luz que marcou sua trajetória neste mundo. Difícil ainda seria penetrarmos na profundeza do seu pensamento, da sua filosofia, da sua doutrina de elevação e regeneração do homem na busca da iluminação e da paz…”(12)

Foi inicialmente de Lyon que o Filósofo Desconhecido procurou irradiar a luz, após a partida de Martinez para o Oriente Eterno. A direção da Ordem dos Elus Cohen não ficou com Saint-Martin nem com Willermoz, mas nas mãos de pessoas menos preparadas para levar adiante um sistema que ainda necessitava de aperfeiçoamento. Coube a Saint-Martin e a Willermoz a resignação de continuarem ocultamente a pesquisa da Verdade por suas próprias forças. O “Agente Incógnito” teria ditado inúmeras instruções e partes de um livro que Louis Claude de Saint-Martin publicou, destinado a lutar contra o materialismo vigente na época. (13)

Talvez por esse motivo Saint-Martin tenha iniciado uma série de viagens, verdadeiros apostolados, para realizar propaganda das idéias espiritualistas, recolher dados e informações iniciáticas e entrar em contato com discípulos e homens de ciência. Em todos esses contatos sempre conquistava novas amizades e discípulos para continuarem sua obra. Saint-Martin tinha uma conversa muito agradável, uma vez que seu verbo não fazia senão expressar sua paz interior, seus conhecimentos e a nobreza de sua alma.

Os salões mais aristocráticos de Paris disputavam sua presença. Essas qualidades eram agradáveis às mulheres, que não hesitavam em convidá-lo para as festas, pensando em casar suas filhas. Mas o Filósofo Desconhecido quis dedicar-se integralmente à sua obra de divulgação do Espírito. Em 1778, em Toulouse, esteve prestes a se casar; contudo, esse projeto desvaneceu-se como todos os demais a esse respeito. Afirmava sentir uma voz no seu interior que lhe dizia ser ele originário de um lugar onde não existem mulheres.

Agente Incógnito desapareceu de cena em 1788, época em que Saint-Martin retornou à Lyon, mas reapareceu em 1790 para destruir uma série de cadernos de instruções por ele próprio ditados: “Eu devolvi ao Agente“, conta-nos Willermoz, “a seu pedido, mais de 80 cadernos manuscritos inéditos, que destruiu.”

Com a morte de Pasqually, ocorrida em 1774 em São Domingos, o centro oculto da iniciação Cohen passou a Lyon e foi lá, como contam seus biógrafos, “que o Filósofo Desconhecido, armado com a Sabedoria Divina, passou a fazer oposição à doutrina materialista dos Enciclopedistas. Combatendo o materialismo revolucionário e sua doutrina errônea inserida em uma pretensa filosofia da natureza e da história, Saint-Martin chamou o homem de volta à Verdade, fundamentando-se no princípio do conhecimento de si mesmo e na natureza do ser inteligente”.(14)

Saint-Martin, entretanto, nunca ficou muito ligado ao rigor das instituições iniciáticas, mas, em razão da problemática da época, em pleno desenvolvimento da Revolução Francesa, procurou, para a salvaguarda das suas próprias doutrinas e das tradições de que então já era depositário, unir-se a grupos ou formar grupos cujos membros desejassem, sinceramente, dedicar-se ao culto da Verdade e à prática das Virtudes. Estudava, paralelamente, as doutrinas de Pasqually e de Swedenborg, as primeiras mostrando-lhe a ciência do Espírito e as segundas a ciência da Alma.

“A Revolução, em todas as suas fases, encontrou Saint-Martin sempre o mesmo, dedicado a seu objetivo. Por princípio, esteve acima das considerações de nascimento e opiniões, por isso não emigrou; enquanto se mantinha ao seu redor todo o horror das desordens e dos excessos, acreditou sempre que o bem podia surgir do terrível advento da Revolução Francesa, pela intermediação da Divina Providência; pensou ver um grande instrumento temporal no homem que se levantou para suprimir seus excessos.

“Foi em 1793, quando a família e a sociedade dissolviam-se, que vendeu as suas últimas posses para manter e cuidar de seu pai, velho e paralítico. Na mesma época, não obstante os estreitos limites a que ficou reduzida a sua fortuna, contribuiu para as necessidades públicas de sua comunidade. Retornando à capital, foi atingido pelo decreto de expulsão dos nobres. Saint-Martin submeteu-se e deixou Paris.(15)

Durante o terror revolucionário, era necessária muita prudência, mesmo para os assuntos iniciáticos. Saint-Martin recebeu um mandado de prisão, embora vivesse mergulhado nos estudos e na meditação, sem nunca ter feito política. Não subiu ao cadafalso porque Robespierre caiu em seguida. Havia a proteção do Alto, que o guiava na terra, obscurecida pela agitação dos homens.

“Uma corrente de prestígios inundou a inteligência humana em geral, e a dos parisienses em particular, porque a cidade, que comporta sábios e doutores de toda espécie, possui poucos que orientam seu pensamento na direção dos conhecimentos verdadeiros, e há menos ainda que buscam esses conhecimentos com um espírito reto. A maior parte deles não fazem mais que dissecar as cascas da Natureza, medir, pesar e enumerar todas as suas moléculas. Eles tentam, insensatos, a conquista de tudo que se encontra em composição no Universo, como se isso lhes fosse possível. Esses sábios, tão célebres e tão ruidosos, não sabem que o Universo (ou o Templo) é a imagem reduzida da indivisível e universal eternidade; eles podem contemplar e admirar, pelo espetáculo de suas propriedades e de suas maravilhas, … mas jamais poderão conquistar o segredo de sua existência.”(16)

Saint-Martin, para cumprir seu dever cívico, serviu na Guarda Nacional e, em Amboise, foi escolhido para ser um dos instrutores da Escola Normal Superior, que formava jovens professores; tomou parte em 1795 da primeira Assembléia Eleitoral, sem contudo tornar-se membro efetivo de qualquer corpo legislativo. O que buscava era o Conhecimento e a difusão de suas doutrinas. Jamais fez proselitismo e procurava ter por discípulos amigos fiéis da Verdade. Quem visse seu jeito humilde jamais poderia suspeitar de sua elevada espiritualidade. Sua docilidade para com o tratamento, sua serenidade, manifestava no entanto o sábio, O Novo Homem formado pela filosofia profunda do aperfeiçoamento moral e espiritual. A luz que irradiava de seu centro fazia justiça à sua condição de Homem-Espírito, o grande sol da transição ao século XIX.

Foi em 1788, em Estrasburgo, que Saint-Martin tomou conhecimento das obras de Jacob Böehme, o Teósofo Teutônico, através de Rodolphe de Salzmann. Surpreso, constatou que essa doutrina combinava com a de seu antigo mestre Martinez de Pasqually, sendo idênticas em essência.. Coube a ele a tarefa de fazer o feliz casamento das duas correntes doutrinárias, elaborando um sistema sintático, capaz de satisfazer seus anseios e colocar à disposição de todos os Homens de Desejo um caminho seguro para chegar à Iluminação.

A síntese iniciática foi obtida em poucos anos de trabalho pelo nosso Filósofo Desconhecido, secundado que foi por seu colega Jean Baptiste Willermoz. Necessitava, entretanto, de uma transmissão iniciática da corrente de Böehme para associar à sua, advinha de Pasqually. Essa corrente alemã de Jacob Böehme foi obtida ao ser iniciada pelo Barão de Salzmann, em Estrasburgo, e confirmada na linha mais antiga dos Templários, ao associar-se com a Estrita Observância Templária, do Barão de Hund.

Willermoz foi o encarregado, em Lyon, de organizar o sistema maçônico do Rito Escocês Retificado, fruto do Convento de Wilhelmsbad de 1782. Coube a Saint-Martin a chefia e a realização de iniciações individuais da Ordem Interior dos Filósofos Desconhecidos. Vários alemães foram iniciados no novo sistema (muitos dos quais já eram discípulos de Martinez de Pasqually), ingressando na iniciação real que conduz à Iluminação e à Reintegração a partir deste mundo na Unidade Divina.

Saint-Martin considerava as obras de Jacob Böehme de uma profundidade e de um valor inestimáveis e não se achava digno nem de desatar as sandálias de Jacob Böehme; entendia que seria necessário que o homem se tivesse tornado pedra ou demônio para não tirar proveito de tais obras. (17)

Foi assim que passou a estudar o alemão, com quase 50 anos de idade, para melhor penetrar no sentido oculto e no pensamento do autor. Procurou traduzir para o francês as principais obras do Mestre. A partir de então, sempre que se referia a Jacob Böehme dizia que o Iluminado teutônico foi a maior luz que veio a este mundo depois daquele que era a própria Luz, isto é, o Cristo.

Após ter percorrido parte da Europa, estabeleceu seu apostolado em Toulouse, Versailles e Lyon, sempre lançando a semente espiritual em uma terra que se tornou fecunda, recolhendo ele próprio as doutrinas mais apropriadas para o seu espírito e seu sistema. Mais tarde, centralizou sua ação em três cidades: Estrasburgo, Amboise e Paris, que eram, como confessou, seu paraíso, seu inferno e seu purgatório. Fora dessas cidades possuía membros correspondentes de sua sociedade, como o Barão de Kircheberger, que não chegou a conhecer, mas a quem enviou um emissário, o Conde Divonne, para certamente lhe transmitir a iniciação. Kircheberger era grande admirador das obras de Saint-Martin; pertencia à Escola de Böehme, da qual tomaram parte igualmente Khunrath e Gichtel.

Kircheberger escreveu a Saint-Martin que, segundo uma lenda corrente em sua Escola, a Virgem Celeste, a Divina Sofia, nos dias das núpcias compareceu com seu corpo celeste de Glória e escolheu Gichtel, vindo à sua casa, colocando em ordem seus papéis e completando com seu próprio punho os manuscritos por ele deixados inacabados. Em vida teria igualmente recebido favores de sua esposa celeste, pois como general venceu o exército de Luiz XIV, que pretendia conquistar Amsterdã, cidade onde o adepto residia. Durante toda a batalha, o general não teria saído do quarto.(18)

Não somente Saint-Martin acreditava no relato de Kircheberger, como lhe pedia maiores detalhes sobre Gichtel. “Se estivéssemos um perto do outro, escreveu-lhe Saint-Martin, eu também teria uma história de casamento para vos contar. Os mesmos passos foram dados por mim, mas de um modo um pouco diferente, embora chegando aos mesmos resultados. Creio, com efeito, ter conhecido a esposa de Gichtel…, mas não de modo tão particular como ele. Eis o que me aconteceu por ocasião do casamento de que falei: eu estava orando… e me foi dito intelectualmente, mas de modo muito claro, o seguinte: Depois que o Verbo é feito carne, nenhuma carne deve dispor dela própria sem que Ele o permita. Essas palavras penetram profundamente em meu ser; ainda que não tenham significado uma proibição formal, recusei-me a toda negociação posterior.”(19)

Acredita-se que a chave da iniciação está no desejo do homem de purificar-se, de evoluir e de atingir a iluminação. Essa evolução é necessária para remediar a degradação a que o homem se submeteu após a Queda Original. Antes, o homem podia obrar em conformidade com a Vontade do Pai, sendo dessa maneira poderoso, mas após ter se revestido de um envoltório material, suas capacidades espirituais atrofiaram-se e a Vontade e a pureza de outrora aniquilaram-se. Foi na cidade de Estrasburgo que Saint-Martin deu a um discípulo a chave de O Homem de desejo, que, por extensão, serve para a própria Iniciação:

A Chave do Homem de Desejo.

Avant qu’Adam mangeât la pomme,
Sans effort nous pouviouns oeuvrer.
Depouis, L’oeuvre ne se consomme.
Qu’au edu pur d’un ardent supir;
La Clef de l’Homme de Désir
Doit naître du désir de l’homme.

Isto é, antes de Adão ter comido a maçã, o homem podia realizar sua obra sem esforço; depois, a obra não se concretiza a não ser com a ajuda do fogo puro, emanado de um ardente suspiro, advindo do grande esforço individual. Assim, a chave do Homem de Desejo deve nascer do desejo do homem.

Seu livro O Homem de Desejo, publicado pela primeira vez em 1790, são litânias no estilo do salmista, nas quais a alma humana evolui para o seu primeiro estágio, num caminho que o Espírito pode ajudá-la a percorrer.

Saint-Martin escreveu este livro por sugestão do filósofo religioso Thiaman, durante suas viagens a Estrasburgo e a Londres. Lavater, então clérico em Zurique, elogiou essa obra como um dos livros que mais tinha gostado, embora reconhecesse não ter tido condições de penetrar nas bases da doutrina exposta. Kircheberger, mais familiar aos princípios do livro, considerou-o como o mais rico em pensamentos iluminados. O próprio Saint-Martin concordou que nesse livro encontram-se os germes do conhecimento que ignorava até a leitura das obras de Jacob Böehme.

O objetivo de seu livro O Homem de Desejo é mostrar que o homem deve confiar na Regeneração, chamando sua atenção para a necessidade de retorno ao Mundo Divino de onde saiu e ao trabalho que deverá realizar para alcançar esse objetivo, isto é, concentrando suas forças pelo desejo ardente de aperfeiçoar-se e tornar-se um homem de vontade forte.

“Não há nenhum outro mistério para se chegar a essa sagrada iniciação, senão penetrando cada vez mais no fundo de nosso ser e não esmorecendo até que possamos produzir a viva e edificante raiz; porque, então, todos os frutos que haveremos de gerar, conforme nossa espécie, serão produzidos dentro de nós e sem nós, naturalmente; é o que ocorre com nossas árvores terrestres, porque elas aderem às próprias raízes e, incessantemente, retiram sua seiva.”(20)

Compreende-se, assim, que o ensinamento deixado por Saint-Martin, e que veio de Martinez de Pasqually e de Jacob Böehme, era muito profundo e de natureza divina. Constitui-se uma Escola de Homens de Desejo, ávidos por adquirirem conhecimentos, uma elite do pensamento, embaçada em um sistema filosófico iniciático, tendo como objetivo o desenvolvimento moral e espiritual do homem. Não é uma Escola de especulação abstrata, mas um centro onde os membros procuram conhecer a doutrina e a experiência dos mestres e onde procuram vivê-la na vida diária, para atingir a perfeição interior, através de um processo de autotransformação.

Os grupos de homens livres eram formados por um pequeno número de pessoas inteligentes e de mente sã, escrupulosamente examinadas, Saint-Martin dizia que as grandes verdades só podem ser bem ensinadas no silêncio. Todos aqueles que não sabem calar, que falam mais do que observam, não podem ser recebidos na senda interior. Saber guardar o silêncio é condição indispensável para que o homem se torne digno de receber outros ensinamentos cada vez mais profundos, emanados não apenas de seu iniciador, como do próprio Mundo Invisível. Para isso, necessitamos de treinamento, que se efetua guardando-se o silêncio em relação às pequenas coisas, mesmo profanas. Qualquer sociedade iniciática não pode ser aberta, pois assim perderia a força que porventura tivesse recebido do Alto. Guardar o silêncio significa fechar-se às influências exteriores, às opiniões contrárias que só trazem ações conflitantes. Fechar-se em torno de si mesmo é magnetizar-se; é evitar que as próprias forças divinas se dispersem na Natureza, passando por nós. É criar um pólo de atração; é tornar-se um receptáculo das influências celestes; é tornar-se a taça que recebe o influxo divino.

A Iniciação é um processo interior de aperfeiçoamento do homem, tornando-o apto a receber as forças divinas. O homem é a soma de todos os problemas da existência; é a síntese, o enigma dos enigmas, a pedra bruta que deve ser talhada e aperfeiçoada. Esse desenvolvimento deve ocorrer de tal modo que o ser criado se religue ao Criador, através da aproximação da natureza impura com a natureza pura. Por isso, a primeira deve ser trabalhada até ficar quase no mesmo estado da segunda; somente depois haverá uma atração tal, que a Natureza Superior descerá até a inferior, purificando-a em definitivo e deixando-a conforme ela mesma: é a Iluminação do Iniciado.

Aquele que possuir o conhecimento de si mesmo terá acesso à ciência do mundo, dos demais seres. O conhecimento de si próprio é somente em si que deve buscar. É no espírito do homem que se devem encontrar as leis que dirigem sua origem. É preciso, pois, que o iniciado encontre seu centro iniciático, a divindade em si, para adquirir o pleno conhecimento de si mesmo. É necessário conhecer suas fraquezas para melhor dominá-las e não voltar a praticar os mesmos erros. Jesus Cristo dizia aos homens para não pecarem mais menos, até o dia em que, tendo encontrado seu equilíbrio iniciático, possam chegar a não pecar mais. Sua luta deve ser constante, contra as paixões, suas contrariedades internas e a ira. A docilidade representa a presença de Deus no centro iniciático; a ira representa a sua ausência.

“O homem não pode ser integralmente livre da ira e do pecado porque os movimentos do abismo deste mundo tampouco são totalmente puros ante o coração de Deus; o amor e a ira sempre lutam entre si.”(21)

A doutrina de Saint-Martin difundiu-se na Alemanha e na Rússia, através de seus discípulos. Na Rússia, a doutrina martinista encontrou um grande divulgador em Joseph de Maistre, que afirmava a existência de Deus no interior de cada indivíduo e, por conseguinte, que o segredo de toda a iniciação consistia em descobrir o centro iniciático próprio, a senda interior, a fim de proceder ao próprio desenvolvimento espiritual. Assim, a iniciação é uma senda real, interior, individual, e não se encontra no exterior, nas sociedades ou no Enciclopedismo.

Em 1803, o Filósofo Desconhecido dava seus últimos passos em direção à Eternidade, pois sua saúde mostrava-se débil. Mas não se afligiu com essa perspectiva; ao contrário, dizia que a Providência sempre lhe havia dispensado muito cuidado, de modo que só poderia render-lhe graças.

Conta-nos Gence que certa vez, visitando um amigo comum, Saint-Martin confessou-lhe que estava partindo para o Oriente Eterno e no dia seguinte, visitando seu amigo o Conde Lenoir la Roche, em Aulnay, após leve refeição, retirou-se para o quarto; sofreu um ataque de apoplexia e partiu. Era o dia 13 de outubro de 1803. Foi então que seus discípulos e amigos perderam a convivência física com o Mestre, mas ganharam a eterna e permanente proteção espiritual que nos envia do Reino da Glória, através dos Mundos Invisíveis.

Hoje, a obra de Louis Claude de Saint-Martin continua através dos Grupos de Iniciados que seguem sua doutrina. A Conquista da Iluminação é o objetivo último de todos os Homens de Desejo, que encontram nas obras do Mestre e no seu exemplo, como Homem e como Iniciado, o respaldo necessário para prosseguir na senda sem desânimo.

Que cada um possa transformar-se em um Novo Homem, renascido pela Luz, que resplandece na alma de todos, e que engendrará, no futuro, o Homem-Espírito, o novo Sol que acalentará os corações de todos com seu procedimento e com sua serenidade.

OBRAS DE LOUIS CLAUDE DE SAINT-MARTIN

1-) Des Erreurs et de la Vérité, ou les Hommes Rappelés au Principe Universel de la Science. Edimbourg, 1775, 2 vol.

2-) Suite des Erreurs et de la Vérité. A Salomonopolis, Androphile, 1784.

3-) Tableau Naturel des Rapports qui Existent entre Dieu, l’Homme et l’Univers. Édimbourg. 1782.

4-) L’Homme de Désir. Lyon, 1790.

5-) Ecce Homo. Paris, Cercle Social, 1792.

6-) Le Nouvel Homme. Paris, Cercle Social, 1792.

7-) Letre à un Ami, ou Considérations Philosophiques et Religieuses sur la Révolution Française. Paris, Louvet, Palais, Égalité, 1796.

😎 Éclair sur l’Association Humaine. Paris, Marais, 1797.

9-) Le Crocodille ou la Guerre du Bien et du Mal, Arrivée sous le Règne de Louis XV. Paris, Cercle Social, 1798.

10-) Réflexiones d’un Observateur sur la Question Proposée por l’Institut: “Quelles sont les Institutions les plus Propres à Fonder la Morale d’un Peuple?. Paris, 1798.

11-) De l’Influence des Signes sur la Pensée (inserido incialmente no Crocodile). Paris, 1799.

12-) L’Esprit des Choses ou Coup d’Deil Philosophique sur la Nature des Étres et sur l’Objet de leur Existence. Paris, 1800, 2 vol.

13-) Le Ministère de l’Homme-Esprit. Paris, 1802.

14-) Oeuvres Posthumes de Saint-Martin. Tours, 1807, 2vol.

15-) Traité des Nombres. S/1, M. Léon, 1844.

16-) Correspondence de Saint-Martin avec Kircheberger, Baron de Liebisdorf, des annèes 1792 a 1799, S. n. t.

TRADUÇÕES DAS OBRAS DE JACOB BÖEHME

17-) L’Aurore Naissante ou la Racine de la Philosophie, de l’Astrologie et de la Théologie. Paris, 1800.

18-)Des Trois Principes de l’Essence Divine ou de l’Eternel Engendrement sans Origine de l’Homme, d’où il a été Crée et pour quelle Fin. Paris, 1802, 2 vol.

19-)Quarente Questions sur l’Origine, l’Essence, l’Etre, la Nature et la Propriété de l’Âme, suivies des “Six Poit”. Paris, 1807.

20-) De la Triple Vie de l’Homme selon de Mystère des Trois Principes de la Manifestation Divine. Paris, 1809.

NOTAS

1- SAINT-MARTIN, L. C. Oeuvres Posthumes; Portrait Historique et Phisosophique de Saint-Martin fait par lui-même, p. 58-59.

2- Id., t.1, p.5.

3- Id., t.1, p.78-9.

4- J. B. M. Gence foi discípulo de Saint-Martin e com ele conviveu longos anos: seu relato encontra-se no prefácio de Teosophic Correspondence between L. C. de Saint-Martin and Kircheberger, Baron de Liebistorf, P. V.

5- Id., p. VI.

6- PAPUS. L’Illuminismo en France, 1771-1803: Louis-Claude de Saint-Martin, as Vie, as Voie Theurgique, ses Oeuvrages, son Oeuvre, ses Disciples, suivi de la Publicatino de 50 Letters Inédites, p. 109.

7- MATER, M. Saint-Martin, le Philosophe Inconnu. Ed. d’Aujourd’hui, p. 20.

8- SAINT-MARTIN, L. C. Theosophic Correspondense, op. Cit. Carta XCII.

9- Id. Carta IV.

10- PAPUS. Louis Claude de S. Martin. 1902.

11- Id., p. 12.

12- Comentário deixado por Ary Ilha Xavier, profundo conhecedor das obras de Saint-Martin.

13- Des Erreurs et de la Vérité. Edimbourg, 1775, 2v.

14- Gence. Op. Cit., p. IV.

15- Id., p. VII.

16- SAINT-MARTIN, L.C. Le Crocodile, Canto XV, p.53.

17- SAINT-MARTIN, L.C. Mont Portrait. Op. Cit., p. 42.

18- SAINT-MARTIN, L.C. Theosophic Correspondence. Op. Cit. Carta LVIII.

19- SAINT-MARTIN, L.C. Theosophic Correspondence Op. Cit. Carta LXII.

20- SAINT-MARTIN, L.C. Theosophic Correspondence. Carta número CX.

21- BÖEHME, J. Confesiones, p. 44.

Original foi retirado do site da Sociedade das Ciências Antigas.

1743 – 1803

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/louis-claude-de-saint-martin/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/louis-claude-de-saint-martin/