A Gnose Afro-Americana e o Candomblé Gnóstico

Uma visão moderna dos Cultos-Afro e de suas potencialidades mágicas.

O MOTIVO PELO QUAL ESTE CURSO FOI ELABORADO: Durante meus mais de vinte anos de estudos teóricos e experiências práticas no Ocultismo, tenho travado contato com as mais variadas correntes de pensamento Esotérico.

Como pesquisador que sou, não me contento em permanecer na superfície da questão, como a grande maioria de interessados no tema; muito pelo contrário, pois eu procuro me aprofundar sobremaneira no assunto que me desperta interesse, adquirindo a maior quantidade de informações possível, sejam relatos pessoais, sejam escritos de que natureza forem, para, então, colocar em prática os ensinamentos de dito Sistema.

Tenho experimentado de tudo um pouco, em se tratando de Magia, sofrendo, por assim dizer, “na própria carne”, os resultados de minhas experiências e, porque não dizer, de minha ousadia.

Após algum tempo de militância em determinado Sistema de Magia, coloco os resultados obtidos numa balança imaginária, pesando os prós e os contras, até que me tenho por satisfeito com uma resposta clara e sem evasivas, obtida entre duas únicas opções: tal Sistema FUNCIONA, ou NÃO FUNCIONA.

Assim, concluindo definitivamente minhas pesquisas em tal Sistema, passo a incluí-lo em minhas práticas pessoais (meu próprio Sistema, se assim quiserem), caso a conclusão de meus estudos seja de que tal Sistema funciona; ou, então, descarto tal Sistema em definitivo, caso conclua que o mesmo não funciona.

Muitos dos Sistemas de Magia tidos em elevada conta por especialistas diversos, funcionam a contento. Outros, entretanto, ficam muito a desejar.

Como este não é o momento de abordar tal assunto (o que faço em detalhes no meu livro “CURSO DE MAGIA”), deter-me-ei a examinar os Cultos- Afro, sob um prisma Gnóstico e Esotérico.

Voltando ao assunto de Sistemas que funcionam ou não, vamos falar do Candomblé e seus congêneres.

Tenho observado, ao passar dos anos, que muitas pessoas, interessadas em Ocultismo, nutrem um forte preconceito contra o Candomblé e assemelhados.

Apesar disso, quando encontram-se “no aperto”, buscam, de imediato, “socorro” dentro das práticas mágicas candomblecistas.

Socorridos, entretanto, e mais, sanado o problema que os afligia, “dão as costas” para a tal de “macumba”, coisa que não compreendem mas sabem que funciona, voltando aos seus cristais e florais.

Atitude simplista, para dizer o mínimo.

A “macumba”, designação genérica de tudo quanto seja de origem Afro, manteve a fama de ser infalível; apesar disso, poucos estudiosos do assunto se deteviram a examinar o assunto a luz da ciência experimental, para concluir como funciona a “macumba” e, mais ainda, quando funciona, e por qual motivo, assim como compreender suas falhas e deficiências, que aumentam no mesmo passo em que o assunto é difundido – mas não explicado.

Interessante observar que, nos últimos anos, houve uma verdadeira explosão de livros sobre “macumba”, muitos dos quais ensinando trabalhos para os mais diversos fins, tal qual fossem receitas de bolo.

Assim, sem explicar nem justificar, passam adiante ensinamentos que exigem, para serem postos em prática, um profundo conhecimento dos Cultos- Afro, sem o que tais práticas tornar-se-iam perigosas para todos os envolvidos.

Mais ainda, incentivam ao leitor realizar tal trabalho, sem alertar para os cuidados que devem cercar tais práticas.

Dessa forma, indivíduos inescrupulosos, pouco conhecedores do assunto, mas sabedores das necessidades humanas, travestem-se de “Pais-de-Santo” ou “Mães-de-Santo”, realizando todo tipo de trabalhos, jogando búzios, interferindo na vida de todo e qualquer cidadão, sem o menor cuidado ou escrúpulo.

O resultado? Fracasso, desilusão, além da sensação de que “macumba não funciona”.

Eis o motivo deste curso – explicar tudo, tirar todos os véus, trazer o conhecimento mágico-místico-religioso à luz da ciência experimental, para que todos, admiradores ou não do assunto, possam compreender no que consistem tais práticas, tirando, assim, suas próprias conclusões.

Vamos, portanto, ao curso.

“INTRODUÇÃO AOS SISTEMAS DE MAGIA DE ORIGEM AFRO”

“CANDOMBLÉ, VUDÚ, HOODOO, PETRO, RADA, LUCUMÍ, SANTERÍA, PALO-MAYOMBE, UMBANDA, QUIMBANDA E CATIMBÓ: SUAS SEMELHANÇAS, DIFERENÇAS, TABÚS E FUNDAMENTOS.”

Visão moderna dos Sistemas do Candomblé, do Vudú, da Umbanda e da Quimbanda.

Muitas vezes, quando se fala em Magia, as pessoas pensam imediatamente nas práticas executadas nos Cultos Afro-Brasileiros, Afro-Americanos e Afro- Ameríndios.

Diversas pessoas tem visões semelhantes desses Cultos, mas os conceitos difundidos são preconceituosos, misteriosos e dogmáticos, o que faz, pouco a pouco, com que a Realidade Mágica desses Cultos se perca para sempre.

Para começar, o Candomblé, o Vudú, a Santería, o Palo-Mayombe e o Lucumí são cultos muito semelhantes, de origem africana, mas tremendamente desenvolvidos nas Américas. Já a Umbanda é um culto muito distinto, com bem poucas semelhanças com os outros dois, enquanto a Quimbanda é algo totalmente diferente. O Catimbó é uma espécie de meio-caminho entre a Umbanda e a Quimbanda. O Hoodoo reúne características do Vudú, porém tem diversas peculiaridades, sendo a mais importante delas trabalhar apenas com Elementais, Elementares, Sombras, Cascarões, Larvas e “Almas”. Petro e Rada são duas raízes diferentes do Vudú haitiano, sendo o culto Rada mais voltado às Entidades do panteão Afro original, enquanto o Petro é mais voltado ao culto de Loas semelhantes aos Guias de nossas Umbanda e Quimbanda. O Voudon Gnóstico, apesar do nome, e da nítida influência do Vudú e do Hoodoo, é mais uma Ordem Hermética (uma vez que é ligado à O.T.O.A. – Ordo Templi Orientis Antiqua) do que um culto ou uma religião, razão pela qual está fora deste texto. Todos, porém, tem entre si uma semelhança marcante e de suma importância: são todas “Religiões Thelêmicas”, ou “Cultos Thelêmicos”, como queiram. E o que significa uma religião ser “Thelêmica”? Significa que cada indivíduo, dentro dela, tem sua própria religião, seu próprio Deus, distintos dos de qualquer outro indivíduo. E foi por isso que os cultos africanos sobreviveram na mudança para o novo mundo, cresceram e se multiplicaram.

Sendo assim, vamos começar a definir a Quimbanda.

A Quimbanda é um culto mágico às Entidades malévolas, denominadas Exus, Pombas-Giras, Caboclos Quimbandeiros, Pretos-Velhos Quimbandeiros, e assim por diante. Na Quimbanda não há nenhum tipo de “Iniciação”, quer seja mágica, mística ou religiosa. Basicamente, há duas formas de se praticar a Quimbanda – a Evocação e a Invocação das Entidades. Qualquer que seja o meio escolhido, normalmente desenha-se o “Sigilo” (chamado “Ponto Riscado” na Umbanda e na Quimbanda) da Entidade no chão, pedindo-se, em seguida, sua intervenção. No caso da Invocação, a pessoa que “receber” a Entidade (chamado “Cavalo” ou “Burro” na Umbanda ou na Quimbanda) passa a ter os poderes da mesma; são então feitos pedidos à pessoa “incorporada”, que pedirá então algumas coisas para a execução do “trabalho de magia” . Em geral, na Quimbanda só se trabalha para o mal de alguém, ou então para submeter-se uma pessoa à vontade de outra. Quando se Evoca Entidades na Quimbanda, porém, faz-se oferendas simples, visando obter a intervenção da Entidade para obter o que se deseja, normalmente alguma maldade. Na Umbanda, o que acontece é a mesmíssima coisa, com uma diferença essencial: só se “trabalha” para o bem, pois as Entidades que “baixam” na Umbanda são somente benéficas. Em alguns “terreiros” de Umbanda foram implantados “Rituais Iniciáticos”, herdados de culturas diversas. Na Umbanda, vê-se uma nítida influência do Kardecismo, bem como da mentalidade católico-cristã, além do público e notório sincretismo religioso entre os Orixás da Umbanda (que só comungam dos nomes com os Orixás do Candomblé) e os Santos Católicos. O Catimbó é uma mistura completa entre a Umbanda e a Quimbanda, com algumas diferenças: as Entidades que “baixam” são chamadas de “Mestres”; se são benfazejos, diz-se que “fazem fumaça às direitas”, e dos malévolos se diz que “fazem fumaça às esquerdas”. Concluí-se daí que no Catimbó se “trabalha” indistintamente para o bem e para o mal. Além disso, no Catimbó não se cultuam Deuses ou outras Entidades de grande envergadura de poder, apenas “baixam” Entidades com especial identificação social no grupo aonde se desenvolve a “mesa” do Catimbó. Na Santería ocorrem práticas semelhantes às dos cultos descritos acima, mas há também um culto aos Orixás, no estilo do Candomblé, só que com toda a influência Católico-Cristã imaginável.

Mas existem sutis diferenças entre esses cultos. Na Umbanda, as Entidades são “espíritos” de pessoas desencarnadas (mortas); na Quimbanda, “baixam” indistintamente “espíritos” de pessoas mortas (normalmente de pessoas perniciosas ou criminosas), ou Demônios mesmo. No Catimbó só “baixam” os “espíritos” de mortos.

Mas, será que o que “baixa” em todas essas “sessões” é mesmo uma “alma”? E será que todas essas “almas” são sábias, sinceras e magicamente capazes? Não creio. Para mim, o que ocorre muitas das vezes, é o seguinte: A) o “médium”, desejoso de “receber um guia”, induzido pelo “chefe do terreiro” de que ele/ela “tem mediunidade, precisa desenvolvê-la”, acaba por criar uma Imagem Telemática correspondente a sua idéia do “guia”, que, então, cria “vida”, passando a agir como desejado…

B) cena “A”: alguém morre; seu corpo físico jaz inerte, seu corpo astral separa-se do cadáver físico e, em pouco tempo, o corpo mental do falecido separa-se também do corpo astral, ficando este último também destinado a morrer, a decompor-se; cena “B”: um Elementar Artificial, um Íncubo, um Súcubo, um Vampiro, uma Larva Astral, alguma dessas Entidades simples, busca sobreviver …vampirizando alguém! É porém difícil “sugar vitalidade a força” de alguém; cena “C”: a Larva da “cena B” encontra um cadáver de corpo astral (Cascarão Astral), penetra nele e o “aviva”; cena “D”: o “Cascarão Avivado” encontra uma pessoa receptiva, um “médium”, e começa o ataque; o “médium” acaba por ir a um “terreiro” ou “centro”, aonde “seu guia” o levou, e aonde irá “desenvolver sua mediunidade”; cena “E”: o “médium” já “desenvolvido”, recebendo seu “guia”, dá consultas, passes, faz trabalhos, aconselha…e o “guia” (o Cascarão Avivado) vampiriza o “médium” e as pessoas que vão consultá-los.

É claro que existem incorporações ou possessões reais, mas são muito raras na Umbanda e no Kardecismo. Ocorrem muito freqüentemente no Candomblé e correlatos, mas são raríssimos nos cultos à desencarnados.

Sem mais comentários sobre o assunto.

Agora, Candomblé, Vudú, Palo-Mayombe e Lucumí.

O que digo a seguir é minha experiência e enfoque pessoais. Quem desejar aprofundar-se no assunto deve consultar as obras dos seguintes autores, colocados em ordem de importância: Pierre “Fatumbí” Verger, Fernandes Portugal, Caribé, Bernard Maupoil, William Bascon, Michael Bertiaux, Luis Manuel Nuñes, Jorge Alberto Varanda, Roger Bastide, Juana Elbein dos Santos, Courtney Willis, Ogã Jimbereuá, Babalorixá Ominarê, Lydia Cabrera, Migene Gonzalez-Wippler e João Sebastião das Chagas Varella. Já os apreciadores de Mitologia em geral, deverão conhecer a obra de Joseph Campbell, o mais importante autor do assunto. A Editora Pallas tem bons títulos sobre Candomblé e Vudú. Este texto trata dos aspectos reais das Práticas Mágicas dos Cultos em questão. Desculpem a crueza, mas a verdade é cruel, e dói.

Muitos estudiosos de Magia, bem como inúmeros autores do gênero, colocam os Deuses dos diversos panteãos como Arquétipos. Considerando-os assim, alguns praticantes da Magia Ritual creem que pode-se trabalhar magicamente com os Deuses Internos, como se trabalhassemos com os Arquétipos Universais. Aqui existe um enorme equívoco, pois os Deuses Internos englobam aspectos arquetípicos, não se limitando, porém, a serem Arquétipos simplesmente.

Na verdade, há uma obra muito boa sobre Magia Planetária (Planetary Magick, editora Llewellyn), que, porém, considera os Deuses de diversos panteãos como a mesma coisa que os Arquétipos. Eu particularmente discordo desse prisma, pois considero que os Arquétipos são acessíveis a qualquer pessoa, enquanto que os Deuses só são acessíveis aos que tenham alguma identificação e familiaridade com os mesmos. Na verdade, a experiência chamada de “União com Os Arquétipos Universais”, quando a pessoa entra em “transe” e sofre a “possessão” da Divindade, é o contato que ocorre da pessoa com seu Microcosmos, ou seja, com seu “Universo Interior”, portanto, somente com os Arquétipos Universais, e não com o todo da Egrégora dos Deuses Internos do Homem. A diferença é, portanto, patente, no que diz respeito ao “transe” do sujeito “possuído” pelo Orixá (aonde são despertados poderes latentes dentro do próprio indivíduo), e da Evocação ou Invocação da energia do Orixá como um todo, uma Entidade de existência independente da psique do Mago. O que ocorre entre os profanos, os não-iniciados, o “bolar” no Santo, é somente a “União com O Arquétipo”; o que ocorre na Invocação, feita pelo Mago de forma consciente, é “abrir sua mente” para uma energia externa, de vida autônoma, externa ao Microcosmos do Mago. Portanto, podemos concluir que o Arquétipo Universal existe num nível sub-consciente de cada indivíduo, mas somente manifesta-se no Microcosmos; já o Deus Interno existe num nível Macrocósmico e, após uma iniciação, num nível Macro-Micro-Cósmico, isto é, pode manifestar-se dentro ou fora do indivíduo. Com isso quero dizer que um Orixá pode manifestar-se fora da psique do Mago, até mesmo fora de seu corpo, inclusive, algumas vezes, a um nível social. O poder de um Arquétipo é o de despertar talentos latentes na psique do indivíduo, enquanto que o poder de um Deus Interno (sendo uma Egrégora), é amplo, de uma envergadura bem maior que a psique de um indivíduo apenas, incomensurável em termos humanos. Com isto quero dizer que uma Egrégora antiga e poderosa como a dos Deuses Internos pode quase tudo. Sem exagero. E em se tratando de Deuses Internos (ou Panteônicos), podemos distinguir duas categorias: os Deuses adormecidos, cujo culto inexiste na atualidade, e os Deuses ativos, cujos cultos existem. Nessa última categoria estão os Deuses e Deusas cultuados no Candomblé, no Vudú, no Palo-Mayombe e no Lucumí. Fico, inclusive, muito curioso com a atitude de certos grupos de ocultistas, que cultuam Deuses adormecidos, e torcem o nariz para os Deuses do panteão Afro, talvez considerando-os algo inferior, muito provavelmente pelo motivo de que esses Deuses são cultuados pelo povo, não pelas elites culturais…preconceito e ignorância de sobra! Esses Deuses e Deusas dos Cultos Mágico-Religiosos Afro-Americanos são designados da seguinte forma: na “Fé Indígena” (Indigenous Faith), como o Culto é chamado na Nigéria (África), são chamados de Orixás e Odus, o mesmo ocorrendo nos Candomblés de origem Nigeriana ou Yorubana (“Nação” Keto ou Alaketo); nos Candomblés de origem Daomeana (Fon ou Gêge), são chamados Voduns e Odus; nos Candomblés de origem Angolana (“Nação” Angola), são conhecidos por Inkices ou Santos, e Odus; na Santería, praticada nos Estados Unidos (Puerto Rico, New Orleans, Miami, etc), são chamados de Orichás ou Santos, e Odus; no Vudú, praticado no Haiti e na França, são conhecidos como Loas e Odus; no Lucumí, praticado em Cuba e nos Estados Unidos (Miami), são os Nganga, Orichás, Padrinhos, Prenda, Ndoki, Odus, entre outros nomes, ocorrendo o mesmo no Palo-Mayombe.

Veja-se que o nome do panteão altera-se de região para região, e assim também se alteram as características das Entidades. É interessante notar que o nome Odu (Odus no plural), está presente em todas as “Nações” de Candomblé, e suas atribuições são idênticas em todas as citadas culturas.

Pois Odus são Entidades objetivas que personificam, de forma antropomórfica, as energias das figuras geomânticas. Vê-se que, quando o simbolismo e a energia não sofrem alterações, os nomes permanecem idênticos. O contrário ocorreu com a vinda dos Orixás da África para o Brasil, pois na África os Orixás não possuem as subdivisível ditas “qualidades”, fato que ocorreu no Brasil. Por isso é que o Culto aos Orixás, no Brasil, é mais rico e complexo do que na Nigéria atual, sem nenhuma conotação pejorativa quanto ao Culto praticado na Nigéria. Apenas digo que, no Brasil, cultua-se doze variedades de Xangô, enquanto na Nigéria há somente uma; aqui cultua-se onze Oyá, dezesseis Oxum, dez Oxalá, nove Yemanjá, vinte e um Exu, enquanto na Nigéria há um de cada. É bem verdade que a troca de informações entre Nigerianos e Brasileiros, do Culto, está levando “qualidades” de Orixás para lá, e trazendo para cá as práticas mais modernas do Culto. Assim, em breve, graças às trocas de informações, o Culto aos Orixás estará aprimorado e talvez até estandardizado no Brasil e na Nigéria. Mas aqui o assunto é outro.

Vide os Apêndices desta obra relativos a “Arquétipos” e “Deus, As Egrégoras Coletivas e Os Deuses Internos do Homem”, para compreender a mecânica de que falamos acima.

Somente recomendo, aos que pretendem praticar a Magia Planetária, a Magia Evocativa, a Magia Invocativa ou o “Casamento dos Homens com Os Deuses” (conceito de Aleister Crowley, uma das práticas secretas da O.T.O., revelada no livro “The Secret Rituals of the O.T.O.”, de autoria de Francis X. King)) com os Deuses dos panteãos Afro, que estudem a respectiva mitologia, familiarizem-se com as suas energias, para não sofrerem revezes nem decepções. Estejam avisados que essas energias são incomensuráveis, além de extremamente ativas, pois há, em todo o mundo, pessoas cultuando-os dioturnamente, vivendo para o Culto, alimentando a Egrégora a cada momento, ampliando sua envergadura de poder.

Apesar disso tudo, há muita gente que duvida das potencialidades mágicas dos Cultos-Afro; há também os que creem que tudo quanto se faz nesses Cultos funciona a contento, independentemente dos Fundamentos Mágicos que sejam ou não aplicados às práticas rituais. Pensando nisso gostaria de abordar alguns aspectos importantes desses cultos, muitas vezes mal interpretados pelas pessoas em geral. E é justamente visando separar o joio do trigo, embora revelando muitos segredos guardados com zêlo por muito tempo, que descrevo, a seguir, os Fundamentos Mágicos Racionais das Práticas Mágico-Místico-Liturgicas dos Cultos-Afro.

Espero estar contribuído assim, de alguma forma, para a preservação desse culto que tanto me atrai, e que estudo e pesquiso fazem anos. Afinal, em 1988, fui consagrado Babalaô (Nação Alaketo) – sacerdote de Ifá – , além de ter sido iniciado no culto de Yiá-Mí Oxorongá.

Iniciação

é tipicamente shamânica, quanto a parte do Iniciando, com práticas primitivas (raspar os cabelos da cabeça, esfregar folhas na cabeça e outras partes do corpo, fazer cortes em diversas partes do corpo – cabeça, testa, mãos, pés, língua, braços – para passar “pós mágicos” nos cortes abertos – Kuras – , sacrificar animais deixando o sangue escorrer sobre a região do Chakra Coronário, colocação de substâncias vegetais e animais sobre o Chakra Coronário – o Adoxú, no formato de um cone – , colocação de uma pena de alguma ave no local do Chakra Frontal – Terceiro Olho – , entre outras coisas), requerendo total submissão do Iniciando – Iaô – ao Sacerdote ou Sacerdotisa – Pai ou Mãe de Santo, Babalorixá ou Yialorixá – , que guarda os cabelos daquele, tendo assim, meios de impor sua autoridade à força…

A Iniciação no Candomblé é lenta (21 dias no mínimo) e penosa (a pessoa terá de se submeter aos ditames do Sacerdote, devendo comer o que lhe é permitido – com algumas restrições por toda a vida – , falar quando lhe é permitido, usar as roupas nas cores autorizadas – mais uma vez com restrições para o resto da vida – , até mesmo quais atividades sociais e profissionais poderá ter dali para diante). Uma das partes mais curiosas do Ritual Iniciático reside na pintura da cabeça e do corpo do Iniciando com pontos coloridos, feitos com pós coloridos, numa espécie de Cromo-Punctura rudimentar.

Vê-se aí, nesse conjunto de práticas antiquadas, o aspecto da autoridade do Mestre, inquestionável, sobre a vida do Discípulo, traço típico das iniciações em sociedades primitivas.

Quando, porém, observarmos a parte do Iniciador, do Sacerdote ou da Sacerdotisa, veremos uma enorme quantidade de práticas típicas da feitiçaria, portanto, de caráter muito distinto das práticas shamânicas.

Eis um dos mais flagrantes aspectos da ambiguidade do Candomblé.

Como disse o brilhante ocultista norte-americano Robert North, o que falta aos Cultos-Afro é uma “Auto-Iniciação”. Concordo plenamente. Seguindo as orientações dele, o iniciando deverá praticar uma técnica conhecida nos meios ocultistas como “visualizar uma imagem como se fosse uma porta e mentalmente atravessar a porta”. Daí, o iniciando travará contato com as Entidades que habitam o plano correspondente vibratoriamente à dita imagem.

Mas que imagem é essa? Os desenhos dos Vevés, Pontos-Riscados, Sigilos das Entidades, Figuras Geomânticas (Odus), entre outras. Essa técnica permite uma auto-iniciação com menos riscos que a Invocação Mágica (a “incorporação” da Entidade na pessoa), que evoca riscos óbvios de acidentes.

O que deve, porém, ficar claro, é que ninguém é “filho” desse ou daquele Orixá, ou de qualquer outra Entidade, nem tem tal ou qual Odu. Na verdade, as pessoas identificam-se com um Arquétipo, em geral composto, isto é, com qualidades mescladas de várias Entidades, o que caracteriza o Orixá e suas qualidades, bem como os outros Orixás da pessoa. Identificando-se com o Arquétipo, a pessoa passa a louvá-lo ou cultuá-lo, atraindo então a Entidade Egregórica correspondente ao Arquétipo da identificação pessoal. Fica claro, agora, o motivo pelo qual há pessoas com “santo forte”, outras sempre “acompanhadas” pelo seu Orixá ou Guia, e assim por diante? Lembrem-se de que a energia que flui no contato do Mago com a Egrégora é mutual e simbiótico, isto é, se recebe o tanto que se dá…

No caso dos Odu, eles apresentam-se e manifestam-se em cada momento, mudando de acordo com as chamadas “marés tatwicas”, as marés elementais.

Somente ocasionalmente cristalizam-se num local, situação ou espécie de atividade, promovendo constante sucesso ou fracasso. E os remédios já são conhecidos.

 

Sacudimento

Dá-se esse nome às Práticas Mágicas que são realizadas quando existe uma presença energética intrusa (em pessoas, objetos ou lugares) – Exus ou Egums, isto é, Entidades Demoníacas, Vampiros, Íncubos, Súcubos, Larvas, Espíritos de Desencarnados, entre outras – ; passa-se pelo corpo da pessoa atingida uma série de plantas, folhas, grãos crus, pipocas, legumes, verduras, até mesmo aves (pombo, frango); esses componentes tem atribuições diversas em se tratando de elementos naturais – presentes por analogia nos componentes do sacudimento – , impregnando-se-os com o fluído magnético, que tem a propriedade de sugar energia (no caso, a intrusa), o que então providenciará a remoção das energias intrusas. É prática primitiva que, porém, tem seus méritos; na verdade, há um elemento de grande importância, que não pode faltar, pois é o que faz o “Trabalho” funcionar: o ovo! Sim, um simples ovo de galinha é o suficiente para o “Trabalho” funcionar. Com um ovo e a atitude mental adequada, consegue-se resultados espetaculares.

Na simplicidade está a chave dos grandes mistérios. Quer dizer, a Energia intrusa, nefasta, é transferida para os elementos passados pelo corpo da pessoa; em seguida, esses elementos são deixados em local determinado (praia, cachoeira, rio, praça, encruzilhada, estrada, enterrados, atirados barranco abaixo, cruzeiro do cemitério, etc.), aonde a Energia tornar-se-á inofensiva, ou atingirá curiosos que porventura toquem o material energeticamente contaminado.

 

Ebós

Dá-se esse nome aos sacrifícios ou oferendas, dedicados a alguma Entidade, consistindo nas comidas, bebidas e animais votivos da mesma Entidade; quer dizer, todas as práticas mágicas convencionais do Camdomblé tem o nome de Ebós. Os Ebós funcionam por causa do uso de Condensadores Líquidos e Sólidos, infundidos da vontade do Mago, além de, algumas vezes, a Energia Vital que se desprende de um animal sendo imolado, além da própria Energia do sangue de dito animal. Este é o segredo para a eficiência dos Ebós. E também da ineficiência de muitas bobagens batizadas de Ebó, mas que, na verdade, não são nada, magicamente falando. Para os interessados, basta consultar um dos numerosos livros sobre Ebós – do Ogã Gimbereuá, do Babalorixá Ominarê, de Fernandes Portugal e de Antony Ferreira, por exemplo – para verificar o uso constante de Condensadores Líquidos e Sólidos (pimentas, cebolas e alhos, atribuídas ao Elemento Fogo, por exemplo).

Existem três espécies de Ebós: A) Periódico: dado em períodos de tempo regulares, para fortalecer o elo com a Entidade, ou para fortalecer uma Entidade Artificial criada pelo próprio grupo ou operador; B) Propiciatório: dado quando se deseja obter algo de uma Entidade, dando-se-lhe algo, esperando o favor almejado em troca; C) Expiatório: dado quando se necessita reparar alguma falta para com a Entidade que, aborrecida com o indivíduo, passa a prejudicá-lo; nos três tipos deve haver uma analogia adequada.

Só para ilustrar, incenso é uma oferenda que, além de agradar as Entidades (desde que de aroma análogo à Esfera da Entidade), pode permitir sua materialização (com sua possível aparição espectral); para Entidades Negativas ou perigosas/nefastas, o sangue (quente) de sacrifício animal faz efeito semelhante; a cebola constitui um elemento de grande vibração quando ofertada à alguma Entidade, o mesmo podendo dizer-se dos ovos; as velas são parte importante de qualquer ofertório, as de cera de abelha adequadas às Entidades Positivas, e as de cebo adequadas às Entidades Negativas.

Devemos sempre buscar as leis de analogia ao desejarmos ofertar algo para qualquer Entidade. Seguindo estes princípios, qualquer Mago poderá elaborar seus próprios Ebós, se esse for seu desejo.

 

Pós Mágicos

Também chamados de Atim (Alaketo), Pemba (Angola), Zorra (para o mal), são diversas substâncias misturadas e posteriormente reduzidas a pó; são usadas para atrair boas coisas (saúde, amizade, amor respeito, bons negócios, dinheiro, proteção contra maus fluidos, paz, etc.), espalhando-se nas mãos, pés, sapatos, roupas, cabeça e utensílios da pessoa, ou soprando-o na residência, veículo, local de trabalho, Templo, etc.; ou então para levar desgraças aos desafetos (doenças, acidentes, maus fluidos, ruína, morte), espalhando-se nos locais, ou soprando-se/jogando-se sobre a vítima.

Respeitando-se as leis de analogia, pode-se compor pós mágicos respectivos aos quatro elementos da natureza, que serão Condensadores Sólidos da vontade do Mago. Para maiores detalhes do assunto, ver o livro de Franz Bardon “Initiation Into Hermetics”, citado na bibliografia desta obra.

 

Azeite de Dendê

 

Elemento que constantemente é utilizado nas práticas ritualísticas Afro-Negras, constituindo poderoso Condensador Líquido; Condensador é um elemento capaz de condensar a vontade e os desejos do Mago.

 

Pólvora

Muito utilizada nos Cultos Afro, ao incandescer ou explodir libera tremenda energia ígnea (do Elemento Fogo), podendo ser utilizada para curar, livrar de alguma influência maléfica, criar embaraços ou até mesmo matar, tudo em analogia completa ao Elemento Fogo, isto é, ao seu campo de ação.

Recebe o nome de “Ponto-de-Fogo”. Nas obras do autor N.A.Molina encontra-se constante referência a ditas práticas, o mesmo ocorrendo nos livros de Antônio de Alva e Antônio Alves Teixeira Neto.

 

Nome Mágico

 

Chamado também de Orukó, é o Nome Mágico que a pessoa adota após a Iniciação no Culto; também os Templos (Ilê) recebem um Orukó.

Folhas Mágicas

Camdomblé e seus similares tem como grande fundamento o uso mágico, litúrgico e medicinal das ervas, folhas, frutos, raízes e outros elementos vegetais. Portanto, seria necessário um volume de centenas de páginas para abordar, de forma adequada, o assunto. De qualquer forma, selecionei algumas folhas e frutos especiais, devido às suas particularidades: A) Folha de Pinhão Branco (Jatrofa Curcas) – usada para substituir o sangue animal nas oferendas a Exu; B) Folha de Acocô (Naelvia Boldos) – usada da mesma forma que a anterior, inclusive sobre a cabeça das pessoas, quando falta o animal a ser imolado para o Orixá; C) Folha de Iroco (Clorophora Excelsa) – usada como substituto do sangue animal nas oferendas, iniciações e assentamentos de Orixás; D) Noz de Cola ou Obi (Sterculia Acuminata) – usada em todos os rituais iniciáticos do Camdomblé, exceto no culto à Xangô, que recebe, ao invés desta, o E) Orobô, Orogbo ou Falsa Noz de Cola (Garcínea Guinetóides).

Tendo-se em vista o que foi dito acima, poderemos tornar nosso Camdomblé mais moderno, utilizando as Essências de Flores e de Ervas (Essências Florais) como se utilizam as folhas, frutos, Flores, raízes, etc.

E, também, substituindo muitos elementos por uma substância sua, dinamizada homeopaticamente. Creio que dinamizações de D-1 ou D-3 combinadas com dinamizações de 10MM seriam o mais adequado, unindo presença física e energética. E, para evitar o sacrifício animal ou a destruição de elementos naturais, pode-se preparar tais substâncias pelos meios radiestésico ou radiônico (ver a obra intitulada “MATERIALIZAÇÕES Radiestésicas”, de autoria dos Irmãos Servranx, que trata do uso do Decágono para reproduzir magicamente a energia de qualquer substância).

 

Banhos Energéticos

Abô ou Omieró (banho pronto e, em geral, putrefato) e Amací (banho fresco feito com ervas maceradas com água da chuva), são um dos mais ricos, complexos e deturpados (magicamente falando) aspectos dos Cultos Afro- Negros; os banhos devem ter apenas duas finalidades: Atração e Repulsão.

Conhecendo-se a natureza dos elementos a serem utilizados no banho, através do conhecimento das leis de analogia, pode-se preparar um banho dotado das características de Atração ou de Repulsão de qualquer tipo de energia. Só isso. Basta escolher qual (ou quais) o elemento da natureza adequado (água, ar, terra, fogo), impregná-lo (o banho) com o fluído Elétrico (para Repulsão) ou Magnético (para Atração), e está tudo pronto. De qualquer forma, a obra de Franz Bardon aborda o assunto com maestria.

Defumação

Vale aqui o que foi dito relativamente aos Banhos.

Podem atrair ou repulsar energias.

 

Assentamentos (de Orixás, Exus, Egums, Odus, etc.)

Chamadas em ioruba “Igbas” pu “Ibás”, os Assentamentos são essencialmente uma construção de um corpo físico não-animado, para receber determinada energia. Cria-se um Elementar Artificial com corpo físico.

Assenta-se Orixás, Exus, Egums (Cascarões de desencarnados), Odus, além de outras Entidades cultuadas no Camdomblé – Ikú, a Morte; Yiá-Mi-Oxorongá, o pássaro negro que personifica todas as feiticeiras e suas energias, entre outras -.

Os elementos, vegetais (folhas, ervas, raízes, madeiras, folhas, cascas, frutos, nozes, caroços), minerais (águas, argilas, barros, terras, rochas, cristais, gemas, metais, areias, calcário), animais – insetos, répteis, mamíferos, aves, peixes, aracnídeos, batráquios, etc – (sangue, peles, chifres, garras, unhas, falanges de dedos, pêlos, olhos, dentes, prêsas, línguas, víscera, ossos, testículos, fluidos, cabeças, etc.) e humanos (sangue de aborto, sangue de acidentado, sangue de morto, feto, unhas, crânios, falanges de dedos, dentes, cérebros, línguas, fluidos corpóreos – até mesmo sêmen e fluidos vaginais -, cabelos, fezes, urina, sangue menstrual, placenta, testículos, víscera, tíbias, ossos diversos, corações, etc.), além de objetos variados (facas, lâminas, navalhas, pembas, giletes, cacos de vidro, ladrilhos, pó ou poeira de lugares variados, folhas de jornais e revistas, pedaços de veículos acidentados, bebidas variadas, condimentos, tinturas naturais, o pó produzido pelos cupins, etc.), são colocados num jarro, porrão, panela ou vaso, misturados com cimento e água, posteriormente assentados em camadas. Daí, sacrificam-se os animais votivos sobre o assentamento, decora-se o mesmo com as insígnias ou os paramentos da Entidade, além de enfeitar os elementos de decoração com pedaços dos animais sacrificados – cabeça, asas, penas, patas, etc -, além de praticar-se atos litúrgicos diversos, incluindo orações, cânticos e louvações.

Tudo isso é muito forte, além de Energeticamente eficiente. Apenas creio que podemos realizar coisa melhor sem todo esse trabalho.

Francis King descreve, em diversas obras suas, coisas interessantíssimas e de grande utilidade mágica, como “O Casamento dos Homens com Os Deuses” e o “The Homunculus”; Aleister Crowley no seu “MAGICK” dá os fundamentos do Mistério da Eucaristia, entre outras preciosidades; Franz Bardon no seu “Initiation Into Hermetics” versa sobre os mesmos Mistérios Eucarísticos, além da criação de Elementares e Elementais Artificiais, Animação Mágica de Figuras e Esculturas, além de muito, muito mais; Pascal Beverly Randolph no seu “Magia Sexualis” (em especial na edição espanhola) descreve também a Animação Mágica de Figuras (imagens, pinturas, fotografias, desenhos); Peter James Carroll nos seus “Liber Null & Psychonaut” e “Liber Kaos”, descreve didaticamente outras práticas de muito interesse. Com esse material em mãos, o Mago tem condições plenas de criar seus próprios Assentamentos, sem ter de realizar práticas ou rituais primitivos, nem sacrificar animais ou trabalhar com materiais orgânicos perecíveis.

Para aqueles que desejarem realizar um assentamento no melhor sistema africano, purgando as bobagens, dou a minha versão da conjuração chamada de “Evocação ao nível da Feitiçaria”, de autoria de Peter James Carroll: Construir um boneco, de material proveniente da natureza, com as próprias mãos (contando, é óbvio, com as ferramentas adequadas); dar forma humanóide ou de algum ser real ou mitológico; utilizar, para a escultura, argila, ou tabatinga, ou barro, ou madeira, ou pedra; anexam-se gemas, cristais, rochas e metais que possuam correspondência energética com a energia que desejamos obter do assentamento; todos os materiais utilizados deverão ser purificados com água mineral, sumo de ervas Energeticamente compatíveis, defumação com substâncias adequadas, além de eventuais desimpregnações por meio de gráficos emissores de Ondas-de-Forma; o interior do boneco deverá ser ôco, aonde deverá ser derramado um condensador líquido universal, o que permitirá a “Animação Mágica” da figura, fato este que dará à mesma movimento…(ver Initiation into Hermetics, de Franz Bardon); vasos com flores energeticamente compatíveis poderão ser mantidos próximos do assentamento, o que manterá energia viva perto de nossa criação; símbolos geomânticos ativos, gravados no boneco, ajudarão a definir e manter a energia definida e sob controle; a decoração externa ou acabamento do homúnculo é livre, devendo-se, porém, evitar materiais perecíveis, derivados ou extraidos de cadáveres de animais ou seres humanos, pois, caso contrário, o assentamento emitirá energias nocivas no ambiente; tomar muito cuidado com o formato do boneco, para que o mesmo não emita RADIAÇÕES nocivas – deveremos, durante a execução do corpo físico da entidade, verificar radiestésicamente, todo o tempo, a qualidade das EMISSÕES; utilizando-nos dos pêndulos cabalísticos para efetuar esse controle, nosso boneco deverá emanar “A Terra”, “Sôpro de Vida”, “Espírito” e “Shin”, além de poder emanar (embora devamos ter cuidado com essa energia) “Magia”; quanto as EMANAÇÕES nefastas, que deveremos evitar a qualquer custo, estão “V-e” (Verde Negativo Elétrico), “Matar” (Vermelho Elétrico), “Necromancia”, “Forças-do-Mal”, “O Adversário”, “Shin” invertido, “Iavê” invertido, “Ilha-de-Páscoa”, “A Terra” invertido, figuras geomânticas nefastas, entre outras coisas; seria muito bom que nossa criação emitisse, além das energias harmônicas, a energia-invertida das energias nefastas; se nossa figura destinar-se a causar influência em terceiros, provavelmente emitirá “Magia” – nesse caso, mantê-la longe de áreas de repouso, trabalho ou lazer, num local aonde somente tenhamos acesso quando quisermos realizar um ato mágico, e não um local aonde se realize outras atividades; isto é, no quarto ou escritório, nem pensar!; a entidade trabalhará somente para o Mago, portanto, só deverá emitir radiações benéficas; realizado o corpo físico da entidade, dirigir-se a ela como se a mesma tivesse vida, conversando com a mesma, afirmando e reafirmando nossos desejos e pedidos, sempre dentro do mesmo âmbito; poderemos realizar vários assentamentos, para ter paz e harmonia, para repelir a má-sorte e acidentes, para proteger contra inimigos e malfeitores, para evitar acidentes e enfermidades, para atrair amor e amizade, para obter conhecimento de planos ocultos ou pessoas distantes, para atrair a prosperidade e a riqueza, entre muitas outras coisas; para melhor definir a envergadura de poder de cada entidade, podemos tomar por base as casas astrológico-geomânticas, que contém em si a energia de uma Egrégora poderosa; tudo isso feito, mentalizar a existência de nosso boneco também no mundo da mente, criando uma Imagem Telemática idêntica em aparência e atribuições ao boneco; e, para terminar, tudo quanto existe deve ter um nome, motivo pelo qual nosso boneco deverá ter um nome, se possível análogo às suas quantidades e qualidades, escolhido ou montado com cuidados numerológicos, visando evitar, entre outras coisas, que a criatura se volte contra o criador…

Tudo feito adequadamente, essa entidade artificial poderá, inclusive, ser invocada e evocada pelo seu criador. Agirá então, a entidade, como qualquer inteligência original. Obviamente, poderão ser criadas entidades artificiais para as mais diversas finalidades, mas, coisas nefastas atraem energias perigosas, e assim por diante. Bom senso faz bem.

Para os que preferem “assentar” Entidades não-antropomórficas, podemos utilizar um cristal de quartzo para “corpo” de nossa criação, uma vasilha de cristal translúcido como receptáculo (à lá Dr. Edward Bach). Areia no fundo, para firmar a base do cristal, condensador sólido sob o cristal, condensador líquido pincelado ou espargido sobre o cristal. Pode-se utilizar de Essências Florais para enriquecer o condensador líquido; sigilo ou pantáculo consagrado são uma boa idéia para potencializar o conjunto. Um “Cofrinho Emissor de Raio PY” para colocar-se os “pedidos” à Entidade. Uma pirâmide, que mantenha todo o conjunto dentro de sua geometria, pode manter a energia num nível surpreendente. Substâncias homeopaticamente dinamizadas poderão tornar o Elementar poderoso e versátil. Pode-se utilizar gráficos moduladores de ondas-de-forma para definir melhor a natureza e a envergadura da Entidade. Por outro lado, ao se querer cultuar os Orixás, pode-se realizar rituais simples como a queima de velas coloridas (compatíveis, é claro), ou até mesmo oferendas de ovos ou de rodelas de cebola, com uma vela acesa no centro da rodela de cebola. Só não se deve tentar “assentar” um Orixá, ou cultuar um assentamento, pois são coisas totalmente distintas e que não devem jamais ser misturadas. Por aí é que se vê que muita coisa que se faz no Camdomblé é cultuar Elementares, suponde se estar cultuando o próprio Orixá.

Para os desejosos em se aprofundar no assunto, ver a obra de Franz Bardon, “Initiation into Hermetics”, e a obra de Peter James Carroll, “Liber Kaos”.

A indicação da utilização de materiais orgânicos perecíveis, freqüentemente encontrada nas instruções para a construção do GOLEM, não trará nenhuma vantagem ao Mago que deseje executar assentamentos de Energias Afro; há exceções, mas devem ser deixadas para quem sabe o que está fazendo.

Para terminar o assunto, evitando induzir alguém em erro, é conveniente lembrar que não devemos tratar um assentamento como se fosse um ídolo. O assentamento não pode ser louvado como uma imagem sacra num altar de Igreja.

O assentamento é, na realidade, uma poderosa “Imagem Talismânica”, criada para tornar mais efetiva a concentração quando da “chamada” (Invocação ou Evocação) da respectiva Entidade.

 

Águas

São utilizadas em praticamente todos os tipos de rituais, tendo especial importância devido a procedência (de poço, de chuva, de praia, de alto mar, de rio, de vala, de cachoeira, de lago, de açude, etc.). Seu uso é tanto interno quanto esterno.

 

Pedras

São importantes devido ao uso litúrgico, sendo o elemento principal da maioria dos assentamentos (são chamadas Otá ou Okutá). Nas pedras reside a força dos Orixás, e nelas devem concentrar-se o Culto, segundo a tradição religiosa. Pena não haverem utilizações mais amplas e práticas das pedras no Camdomblé, além da falta de conhecimento relativo às virtudes terapêuticas e mágicas das mesmas. De qualquer forma, há um Culto às Pedras, e isso é importante! E os cristais de quartzo são pedras! – Metais: diferentemente das pedras, os metais, no Camdomblé, tem papel coadjuvante apenas, tendo cada Entidade seus metais correspondentes, mas o conhecimento do assunto no meio é tão superficial que nada há para dizer.

 

As receitas (inflexíveis e complexas)

Peter James Carroll, brilhante autor e ocultista britânico, diz, em suas obras, que, se um ritual é tão complexo que precisamos escrevê-lo detalhadamente para não cometermos deslizes, esse ritual precisa, urgentemente, ser simplificado, de forma que caiba todo na cabeça! É exatamente assim que penso. Os Ebós utilizados no Camdomblé são como receitas de bolo: detalhados até na quantidade de cada elemento! Claro está que a tradição tem seu lugar, mas esse lugar é no folclore ou na religião, não na Magia e no Hermetismo. Para elaborar as próprias “receitas mágicas” seja lá do que for, o Mago deve conhecer as leis de analogia, bastando decidir se deseja atrair uma Energia, repulsá-la, influenciar alguém (ou a si mesmo) com a Energia Elemental escolhida, ou tratar uma enfermidade pelos fluidos eletro-magnéticos. Para aprofundar-se no assunto, ver as obras de Franz Bardon.

Só para deixar claro, os tópicos para que um “trabalho” funcione são: 1) vontade do operador; 2) invocação ou evocação de alguma Entidade cuja envergadura e natureza do poder permita realizar o que se deseja; 3) direcionamento da energia invocada, evocada ou criada.

Divinação

No Camdomblé, é feita utilizando-se da Geomancia. Há o Jogo da Alobaça (praticada com uma cebola cortada em quatro), o Jogo de Búzios (praticado com quatro ou dezesseis búzios da espécie “Ciprae Moneta” e seus semelhantes) e o Opelê-Ifá (praticado com o Opelê). Dividi-se essas práticas em divinações litúrgicas e profanas. O método Afro, apesar de rudimentar, é preciso e com ele obtem-se bons resultados. Só é necessário ater-se à interpretação da Geomancia Racional, descartando a interpretação clássica, por esta última ser insuficiente e inadequada, além de basear-se em parâmetros equivocados.

 

Criação de Zumbis

Aviva-se um cadáver físico de alguém, cria-se um Elementar Artificial, colocando-se o mesmo “dentro” do cadáver, que então terá novamente vida, muito embora de forma distinta. Mas esse processo é trabalhoso, perigoso e de conseqüências imprevisíveis.

 

Paramentos

São as roupas e insígnias dos Orixás e outros, que mostram clara distinção dos Arquétipos aos quais se deseja vinculá-los.

 

Armas

Vale aqui o que disse no item “paramentos”.

 

Fundamentos de Ifá

São os fundamentos da Geomancia e da Magia Geomântica.

 

Animais

Os Animais Sagrados são considerados Animais Votivos, e imolados em holocausto aos Orixás e Exus; uma deturpação do sentido verdadeiro tanto das correspondências das Entidades com os animais, quanto com relação a função dos sacrifícios animais.

 

Plantas

O mais importante item da cultura mágica Afro, pois as plantas são usadas em todos os rituais, da Iniciação aos funerais, da Magia à terapêutica. Há muito o que aprender sobre fitoterapia com o Camdomblé.

 

Efó

São os encantamentos recitados em Ioruba, que acompanham todos os rituais. Podem ser recitados ou cantados.

 

Evocação, Louvação

É o que se pratica quando se oferece algo (Ebó) à Entidade, pedindo sua proteção ou intervenção.

 

Invocação

É o que se chama “virar no santo” ou “bolar no santo”. Consiste em “receber” a Energia do Orixá de forma passiva, deixando-se usar como instrumento da Entidade.

Talismãs

São os “fios de contas”, “Axés” – breves -, alianças de cobre, pós mágicos dentro de saquinhos de tecido, entre outras coisas. A Magia Pantacular inesiste no Camdomblé.

Mangaka

É o bonequinho todo cravejado de pregos. Consiste simplesmente numa estátua animada magicamente, que contém, em seu interior, um condensador líquido. São cravejados nela inúmeros pregos. Quando se tira um prego, se condensa o desejo no mesmo, enfiando-se a seguir de volta no bonequinho.

Assim, o Homúnculo agirá de acordo com a vontade do Mago. É originário do Congo, atual Zaire.

Música, Ritmos e Cantos

Elementos de suma importância nos rituais Afro, aonde as emoções são expressadas livre e primitivamente, facilitando a atuação da Energia Evocada ou Invocada.

Consagrações

São práticas litúrgicas usadas sempre, em tudo. Os rituais em geral são simples, mas eficazes.

Ebós com Animais

São feitos com partes dos animais (intestinos, por exemplo), que recebem o testemunho da vítima, Condensadores Sólidos e/ou Líquidos, sendo posteriormente enterrados; aí, passado um tempo, o efeito se fará sentir por ação do Elemento Terra (por decomposição).

Há alguns tipos de Ebós que utilizam animais vivos (sapo com a boca costurada, cabra, porco ou coelho com caranguejo vivo costurado dentro do ventre, lagartixa ou caranguejo enrolado em filó), aonde se colocam o testemunho da vítima junto com elementos que farão o animal sofrer lenta e terrível agonia; aí, o que ocorre, é que o animal (sempre) emite Ondas Biológicas (as Ondas utilizadas para diagnóstico e tratamento em Tele- Terapias, Radiestesia e Radiônica), emitindo-as, no caso, permeadas de dor e sofrimento terríveis. Junta-se nessa emissão de Ondas Biológicas do animal a Energia também de Ondas Biológicas da vítima, através de seu testemunho (o Testemunho liga-se a seu “dono” por meio do Raio-Testemunho, o raio que liga a pessoa aos seus pedaços ou imagens). Atingido o alvo, é claro que o resultado será desastroso.

 

Assentamentos de Odus

Assenta-se a Energia das Figuras Geomânticas, da mesma forma que se faz com as outras Energias. O principal problema que se enfrenta aqui é que as interpretações das figuras geomânticas dentro do Camdomblé (e seus similares) é sempre ambíguo, tendo sempre aspectos bons e ruins. Uma reformulação é necessária, para desmanchar esse verdadeiro labirinto.

Só uma dica: pode-se fazer a fixação da energia das figuras geomânticas por meio de um simples Pantáculo! Para que tanto trabalho? Sobre Pantáculos, ver a obra de Franz Bardon.

 

Magia Sexual

Inexiste nos cultos Afro, exceto no Vudú Haitiano. Mesmo assim, está muito aquém de algo realmente prático e eficiente. Ver a obra “Magia Sexualis” de Pascal Beverly Randolph.

 

FT e FPA

Forças das Trevas e Forças Psíquicas Assassinas são dois conceitos metafísicos que definem a Energia da Magia maléfica Afro. Desse prisma, podem ser eliminadas pela Radiônica ou Ondas-de-Forma.

 

Boneco Vodu

 

O clássico bonequinho cheio de alfinetes é simplesmente um boneco de cera, madeira ou pano, com diversos elementos da vítima, que, por práticas ritualísticas, passa a ser um Testemunho Artificial Vivo da vítima; deve ser Animado Magicamente, batizado (utilizando-se da Egrégora do Batismo), posteriormente deixado para “Saturar de Energia” (deixado enterrado por toda uma lunação), o que fará com que o que for feito ao bonequinho cause algum efeito na vítima; daí, se espeta o boneco com alfinetes de aço, devidamente impregnadas com nosso desejo. E o desejado deve ocorrer, em breve. Quando se deseja a morte da vítima, se enterra o bonequinho, com caixão e tudo, reproduzindo um verdadeiro funeral (utiliza-se da Egrégora do Funeral, Enterro). Todas essas práticas podem ser classificadas como de “transplantação” ou “Magia Mumíaca”. Sobre o assunto, ver a obra completa de Franz Bardon (em especial o capítulo VIII do “Initiation Into Hermetics” e o “The Practice of Magical Evocation” em sua totalidade).

Podem ser utilizados, também, em magia benéfica, ou até mesmo em magia de proteção – criando-se, por exemplo, várias égides nossas, deixando-as em locais diversos, visando dispersar ataques mágicos desferidos contra nós.

Sobre isso, ver os livros de Frater U.D., sobre Sigilização Mágica e Magia Sexual.

 

Ferros dos Assentamentos

Usados sobre a massa do assentamento, emitem Ondas-de-Forma análogas às qualidades da Entidade.

 

Importância do Ovo

 

É um dos principais fundamentos da Cultura Mágica Afro, conforme disse antes. Só por curiosidade, o ôvo tem a capacidade de sugar Energias nocivas das pessoas, locais e objetos, quer seja pela colocação do mesmo junto a um testemunho da vítima, ou por passá-lo na própria pessoa (ou colocado no local) alvo da Energia nefasta. Se, após impregnado e saturada de dita Energia, for enterrado, o efeito da Energia some, e a mesma se dissipa nos Elementos. Se, porém, for atirado longe, de forma a espatifar-se, a Energia retorna a quem a enviou…e bem rápido! É importante, porém, frisar, que a Energia “sugada” pelo ovo pode, facilmente, passar para o operador, num instante! Além disso, há práticas místicas que transmutam a Energia natural do ovo em outra coisa; por exemplo, há uma “cantiga” que permite dar, ao ovo, a mesma Energia de um galo vivo! Dessa forma, ao se ofertar o ovo, se entrega à Entidade um galo! Só um alerta importante: NÃO TRABALHEM COM OVOS, sem um prévio conhecimento sobre o assunto.

Estejam avisados!

Troca-de-Cabeça

É a troca da vitalidade do enfermo ou do moribundo pela energia de outro ser, saudável e vigoroso.

Eu aconselho fazer-se com ovos, pedras ou plantas; no Camdomblé se faz com animais; há quem faça com pessoas…

Círculo Mágico

Só aparece na divinação, quer seja na peneira ou no colar de contas (Jogo dos Búzios), ou ainda no Opón, tábua de madeira usada na divinação por Ifá.

 

Tarot

 

 

Inexiste a tradição do uso de cartas para divinação ou meditação, mas já existe um Tarot do Voodoo de New Orleans, e um Tarot dos Orixás, da editora Pallas.

 

Proteção contra ataques psíquicos

 

 

Práticas inexistentes nos Cultos Afro.

 

Espelhos Mágicos

 

 

Existem, mas muito rudimentares, e em pequeno número; são mais comuns em Cuba. Ver obra de Franz Bardon e Pascal Beverly Randolph.

Uso de Testemunhos

 

Nos Cultos Afro, se utiliza muito, para Magia a distância, algum Testemunho (no sentido radiestésico) da pessoa visada. Para os Camdomblecistas, são testemunhos válidos quaisquer sinais da pessoa (sangue, urina, fezes, cabelos, aparos de unhas, esperma, SECREÇÕES vaginais, saliva, suor), sua foto (apesar que muitos Sacerdotes do Culto não gostam muito de trabalhar com fotos, enquanto outros exigem fotos novas – tudo bobagem, pois foto é um excelente testemunho, não importa a idade nem o tamanho), a roupa usada e suja (em especial as roupas íntimas e as meias), fronha do travesseiro, sapatos, palmilhas, assinatura, e, até mesmo, a pegada da pessoa – a terra aonde ela pisou ou o pó do local aonde pisou – , o que eu acho muito arriscado para um uso sério.

De qualquer modo, mesmo em se tratando de testemunhos válidos, a falta de cuidados no manuseio dos mesmos pode invalidar o ato mágico. Muito melhor contruir-se testemunhos artificiais do que trabalhar com um testemunho de valor energético duvidoso.

Assim, podemos observar que o Camdomblé navega num mar da mais profunda ambiguidade.

Enquanto suas práticas iniciáticas são decididamente shamânicas do lado do Iniciando ou Iniciado (ao menos durante seu período como Iaô), as mesmas práticas, isto é, as práticas complementares àquelas, mas realizadas pelo Iniciador, são claramente do nível da feitiçaria.

Na Geomancia, rica e elaborada, com um panteão próprio (uma vez que todos os Odus tem suas representações antropomórficas), o método de praticála é sempre simplificado, utiliza-se de instrumentos primitivos sem nenhum significado oculto, ignora-se as fusões das figuras, que portanto são 256 ao invés de apenas 16; essas, por sua vez, variam quanto a natureza da energia a todo momento, ora significando benesses, ora o oposto – e isto a mesma figura! Por exemplo, tomemos a melhor figura geomântica, no domínio energético e sutil, “Laetitia”, 1222; no Camdomblé, é o melhor Odu, “Obará”, 1222. No Camdomblé, Obará prenuncia riquezas (atribuição de Fortuna Major, 2211), promete que seus filhos nascem pobres mas morrem ricos. Obará só tem um aspecto nefasto: seus filhos são os mais sujeitos a feitiços, inveja, olho-grande e coisas afins. Laetitia significa “alegria”, simbolizada por uma barraca, que provê a proteção do céu. Ou a bobagem foi pura burrice, ou é coisa de painhos querendo faturar…

A Geomancia Afro é mais uma forma de Astrologia Horária; como todas essas, não possui um “evolutivo”. Somente a nossa “Nova Geomancia” a Geomancia Racional, possuí o “evolutivo”, obtido através da rotação das casas, resultado do resto na operação de divisão do total de traços obtidos por doze (ver obra do Panisha sobre o assunto).

Outras figuras de manifesta ambiguidade são o Odu Oxé e a figura Amissio (perda), 1212; como Odu, significa riqueza, mas como figura geomântica significa empobrecimento e, até mesmo, a morte. O Odu Oyekú, o Odu da morte (Oyá-Ikú), em nada corresponde a Populus, embora ambas tenham a mesma figura numérica, 2222. O Odu Odí é tido como o pior dos Odus, enquanto que a figura de Carcer é uma figura de entraves, tendo seu aspecto bom na casa 12 (entrava os acidentes, obstáculos e doenças), e algumas vezes bom na casa 8 (entrava as mudanças, mas também a morte). Isso só para começar. Mas basta de Geomancia.

O Camdomblé possuí um dos mais belos e ricos panteãos de Deuses jamais conhecidos, embora muitos aspectos de relevância tenham se perdido ao longo do tempo. E com a ausência desses elementos fica muito complicado encontrar as corretas atribuições com Deuses de outros panteãos, bem como com a Árvore da Vida. Aspectos relativos a sexualidade, tão patentes entre os Deuses da Índia, são praticamente ausentes entre os Deuses Afro, ou, quando presentes, seus dados são por demais perfunctórios, tornando sua utilização mágica muito arriscada. Creio que o resgate do “elo perdido” é necessitado com urgência.

Como se não bastasse o que relatei acima, temos, no Camdomblé, práticas mágicas do nível da feitiçaria, com alguns poucos toques de shamanismo. Curioso é que muitos praticantes do Camdomblé creem que, para que a Magia funcione, é necessário ter-se o auxílio de um “parceiro astral”, um Exu ou um Egum, devidamente assentado, com todos os Ossé (tratamentos e obrigações) em dia (portanto, potencializado). Quer dizer, o Exu (ou o Egum) deve existir tanto no plano físico, através do assentamento (ver Evocação ao nível da Feitiçaria), como nos planos sutis, pela manutenção da imagem mental da entidade (ver Evocação ao nível do Shamanismo).

E, para encerrar com “Chave-de-Ouro” o assunto, uma verdadeira barbaridade, prova cabal da profunda ignorância daqueles que se dizem detentores dos Fundamentos do Culto: definem os Orixás como sendo Elementais! Seria bom que essas pessoas estudassem um pouco de Mitologia, Arquétipos, Egrégoras e Elementais, para saírem do poço de ignorância que está destruindo o último Culto Vivo aos Deuses Internos do Homem, o Camdomblé!

Trocando em miúdos, na Umbanda e na Quimbanda, se pratica e Invocação Mágica (a qual se chama de Incorporação), e a Evocação Mágica – quando se busca, pelas oferendas compostas de velas coloridas, bebidas, charutos e outras coisas, criar uma atmosfera propícia à manifestação da Entidade – , quando então se pede à Entidade o que se deseja.

Já as oferendas no Candomblé – Ebós – tem dois aspectos distintos, o primeiro sendo a criação de uma atmosfera propícia à manifestação da Entidade, e o segundo a criação de Elementares, para a execução de operações mágicas. Nada, aliás, que não se consiga repetir por outras dezenas de métodos mais simples, práticos e baratos – o que, porém, não invalida a tradição. Praticar o Camdomblé com artigos importados da África ou da Nigéria é tão absurdo quanto importar gêlo das geleiras dos polos ou neve da América do Norte ou Europa para realizar rituais da Wicca adequados ao inverno…

É lamentável constatar que o Candomblé, religião Thelêmica, Sistema de Magia antes de tudo Pragmático, foi transformado num culto vazio, pobre, custoso e dominado por pessoas ignorantes, inescrupulosas e mercantilistas.

Apêndices

 

 

“CAMPO DE ATUAÇÃO, CORES VOTIVAS E SAUDAÇÕES AOS ORIXÁS

 

 

OXALÁ: paz, harmonia, longevidade, velhice, vitória;
– “XEU EU BABÁ!” (para o Velho – OXALUFÃ)
– “ÊPA BABÁ!” (para o Moço – OXAGUIÃ, e outras qualidades)
> branco, algumas vezes branco e azul;

XANGÔ: justiça, conquista, vitória, amor, sexo, lar, trabalho, riqueza;
– “OXÉ CAÔ CABIECILE!”
> branco e vermelho, algumas vezes só vermelho;

XANGÔ AFONJÁ: ídem Xangô.
> branco e vermelho;

XANGÔ AYRÁ: ídem Xangô, além de intelectualidade.
> branco, algumas vezes branco e vermelho;

XANGÔ AGANJÚ: ídem Xangô.
> marrom e vermelho;

OGUM: guerra, vitória, trabalhos manuais, habilidades;
– “OGUNHÊ PATACURÍ!”
> azul-escuro, azulão;

ABALUAIÊ: saúde, doenças, morte;
– “AJUBERÚ, ATÔTÔ!”
> branco e preto, preto e vermelho, preto e amarelo, branco-preto-vermelho;

OXUMARÉ: riqueza, boa sorte;
– “ARRÔBÔBÔI!”
> preto e amarelo;

EXÚ, BÁRA, ELEGBARÁ, LEGBÁ, BOMBOMGIRA: tudo;
– “LARÔIÊ EXÚ, EXÚ É MOJIBÁ!”
> preto, vermelho, branco e roxo, algumas vezes preto e vermelho, ou branco;

ERÊ: alegria, paz, harmonia, infância;
– “ERÊ-MIM!”
> azul-claro, ou rosa-claro, ou branco, ou dourado, ou verde-claro;

OXÓSSI: caça, amor, fartura, agricultura;
– “OKÊ ARÔ!”
> azul-claro;

NANÃ: morte, saúde, longevidade;
– “SALÚBA, NÂN!”
> roxo e branco, algumas vezes só branco;

OXUM: amor, sexo, boa sorte, riqueza, prosperidade;
– “ÓRÁIÊIÊO!”
> dourado, algumas vezes dourado e branco;

IEMANJÁ: harmonia, paz, lar, prosperidade, fartura;
– “ÔDÔIÁ!”
> branco ou incolor, algumas vezes azul-claro, outras azul e branco;

OBÁ: justiça, amor;
– “ÔBÁ XIRÊE!”
> vermelho, algumas vezes coral;

OYÁ: sexo, amor, guerra, os mortos;
– “ÊPARRÊI!”
> coral, algumas vezes vermelho, outras vermelho e coral, ou coral e branco;

IRÔCO: hemorragias;
– “IRÔDEGÍ!”
> cinza;

YEWÁ: visão, vidência;
– “RIRÓ!”
> amarelo e vermelho;

OSSÃE: ervas, saúde, medicina, alquimia, magia;
– “EUEU ASSA!”
> branco e verde;

TEMPO: o tempo, as forças da natureza;
– “ZÁRA, TEMPO!”
> amarelo e vermelho;

LOGUM-EDÉ: amor, sexo, caça;
– “LÓSSI, LÓSSI, LOGUM!”
> azul-claro e dourado;

IFÁ: destino, futuro, segredos;
– “ODÚDÚA DÁDÁ ÔRÚMILÁ – AXÉ IFÁ!”
> verde e amarelo;

YIÁ-MÍ-OXORONGÁ: magia-negra;
– “AXÉ!”
> preto;

AJÊ: riqueza, fartura, prosperidade;
– “AXÉ!”
> dourado e prateado;

EXÚ DE QUIMBANDA/POMBA-GIRA DE QUIMBANDA: tudo;
– “LARÔIÊ!”
> preto e vermelho, algumas vezes preto-branco-vermelho

 

CORRELAÇÃO DE NOMES NOS CULTOS AFROS

 

Segue os nomes respectivamente de ORIXÁ (ALAKETU) VODUM (GÊGE) e INKICE (ANGOLA)

OXALÁ OLISASSA LEMBA-DI-LÊ
XANGÔ SOBÔ, BADÊ ZAZE
OGUM GU ROXIMOCUMBI
IBÊJE ERÊ VUNJI
EXÚ BÁRA, ELEGBARA, LEGBÁ BOMBOMGIRA
OMOLÚ, OMULÚ {XAPANÃ, SAPATÁ, AZOANÍ, KIKONGO, CAJANJÁ
{BABALUAIÊ, INTÔTO
OXUMARÉ, OXUMARÊ {BESSÉM, ABESSÉM, SIMBÍ, {ANGOROMÉIA,
{DAMBALAH, SOBOADÃ {ANGORÔ
OXÓSSI, ODÉ ODÉ, AGUÊ KIBUCOMOTOLOMBO
{NANÃ, NANÃ BURUKÚ, TABOSSI RADIALONGA
{ANÃBURUKÚ
OXUM AZIRÍ KISSIMBÍ
{IEMANJÁ, YEMONJÁ, INAÊ, MARBÔ {JANAÍNA, MUCUNÃ,
{YIÊMÔNDJÁ {KAIALA, KIANDA,
{OLOXUM
YANSÃ OYÁ KAIONGO
TEMPO TEMPO KATENDE
IRÔCO LÔCO LÔCO
IFÁ FÁ IFÁ
YEWÁ YEWÁ YEWÁ
YIÁ-MÍ-OXORONGÁ AJÉ, ADJÉ, OXÔ ADJÉ
AJÊ, ADJÊ ADJÊ-XALÚGA AJÊ

 

OS ARCANOS MAIORES DO TAROT E OS ORIXÁS

 

ARCANO ORIXÁ
0 O LOUCO IAÔ – O INICIANDO
I O MAGO OSSAIN
II A GRÃ-SACERDOTISA NANÃ
III A IMPERATRIZ IEMANJÁ
IV O IMPERADOR XANGÔ
V O PAPA/O HIEROFANTE OXALÁ
VI OS NAMORADOS OXÓSSI
VII O CARRO OGUM
VIII A JUSTIÇA OBÁ
IX O HEREMITA/O HERMITÃO OMOLU
X A RODA DA FORTUNA IFÁ
XI A FORÇA OYÁ
XII O PENDURADO/O ENFORCADO LOGUM-EDÉ
XIII A MORTE ÉGUM
XIV A TEMPERANÇA OXUMARÊ
XV O DIABO EXÚ
XVI A TORRE TEMPO
XVII A ESTRELA OXUM
XVIII A LUA YEWÁ
XIX O SOL IBEJI
XX O RENASCIMENTO/O JUÍZO BABÁ-ÉGUM
XXI O MUNDO O ÔVO CÓSMICO DE DAMBALLAH E AYIDA

 

OS ODÚS E O JOGO DOS BÚZIOS

Segue i jogo com dezesseis búzios – “merindilogum”

nº de búzios abertos * figura geomântica * nome em latim  * nome em yoruba

0 * nenhuma * nenhum * Opira
1 * 1111 * Via * Ogbé ou Ejí-Onile
2 * 1112 * Cauda Draconis * Ogundá
3 * 1121 * Puer * Iretê ou Mejioco
4 * 1122 * Fortuna Minor * Irossum
5 * 1211 * Puela * Oturá ou Ejí-Oligbon
6 * 1212 * Amissio * Oxé
7 * 1221 * Carcer * Odí
8 * 1222 * Laetitia * Obará
9 * 2111 * Caput Draconis * Ossá
10 * 2112 * Conjunctio * Iwóri ou Obetegundá
11 * 2121 * Aquisitio * Ofum
12 * 2122 * Albus * Iká
13 * 2211 * Fortuna Major * Owanrin
14 * 2212 * Rubeus * Eji-Laxeborá ou Oturupon
15 * 2221 * Tristitia * Okaran
16 * 2222 * Populus * Aláfia ou Oyekú

 

por J. R. R. Abrahão

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/a-gnose-afro-americana-e-o-candomble-gnostico/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/a-gnose-afro-americana-e-o-candomble-gnostico/

Podcast Mayhem – 11 – Cabala Judaica, com Rafael Daher

Neste episódio, Soror Tiamat, Frater Qos, Marcelo Del Debbio e Kayque Girão conversam com Rafael Daher, tradutor dos livro “Sepher Yetzirah”, “Zohar” “Livro das Reencarnações das Almas” e “Livro de Raziel” e conversam sobre Cabala judaica, nomes, números e letras; diferenças entre a Cabala e a Kabbalah Hermética, dificuldades nas traduções de línguas tão complexas e outros assuntos cabalísticos.

Podcast do Projeto Mayhem

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#cabala #Podcast

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/podcast-mayhem-11-cabala-judaica-com-rafael-daher

A História Da Atlântida

Um Esboço Geográfico, Histórico e Etnológico

A amplitude do assunto que se nos apresenta será mais bem compreendida considerando-se a quantidade de informações que podem ser obtidas a respeito das várias nações que constituem nossa grande quinta raça ou raça árica.

Desde a época dos gregos e dos romanos tem-se escrito continuas obras* sobre os povos que, sucessivamente, ocuparam o palco da História. As instituições políticas, as crenças religiosas, os hábitos e costumes domésticos e sociais, tudo tem sido analisado e catalogado em inúmeras obras que, em muitas línguas, registram, para nosso benefício, a marcha do progresso.

Além do mais, é preciso lembrar que, da história dessa quinta raça, possuímos apenas um fragmento – o registro dos últimos descendentes da sub-raça céltica e das primeiras linhagens do nosso tronco teutônico.

Porém, as centenas de milhares de anos que decorreram desde a época em que os primeiros áricos deixaram sua terra natal, nas costas do mar asiático central, até a época dos gregos e dos romanos testemunharam a ascensão e queda de inúmeras civilizações. Da primeira sub-raça da nossa raça árica, que habitou a índia e colonizou o Egito em épocas pré-históricas, não sabemos praticamente nada, e o mesmo pode-se dizer dos povos caldeu, babilônico e assírio, que constituíram a segunda sub-raça – pois os fragmentos à nossa disposição, obtidos a partir de hieróglifos ou de inscrições cuneiformes, encontrados em tumbas egípcias e em placas babilônicas, decifrados recentemente, por certo não podem ser considerados como formadores da História. Os persas, que pertenceram à terceira sub-raça ou sub-raça iraniana, deixaram, é verdade, alguns poucos traços mais, mas das civilizações mais primitivas da quarta sub-raça, ou sub-raça céltica, não temos absolutamente nenhum registro. Somente com o surgimento dos últimos ramos deste tronco céltico, a saber, os povos grego e romano, é que chegamos aos períodos históricos.

A um período em branco do passado soma-se também um do futuro, pois das sete sub-raças necessárias para completar a história de uma grande raça-raiz, somente cinco, até agora, chegaram a existir. A nossa própria quinta sub-raça, ou sub-raça teutônica, já se desdobrou em muitas nações, mas ainda não completou seu curso, enquanto as sexta e sétima sub-raças, que se desenvolverão nos continentes da América do Norte e do Sul, terão milhares de anos de história a dar ao mundo.

Sintetizar, em poucas páginas, informações a respeito do progresso do mundo durante um período que, no mínimo, deve ter sido tão extenso quanto o acima referido é, por esse motivo, uma tentativa que, necessariamente, não pode ultrapassar os limites de um ligeiro esboço.

Um registro do progresso da Humanidade durante o período da quarta raça ou raça atlante deve abarcar a história de muitas nações, bem como registrar a ascensão e queda de muitas civilizações.

Além disso, durante o desenvolvimento da quarta raça, em mais de uma ocasião ocorreram catástrofes, numa escala que ainda não foi experimentada durante a existência da nossa atual quinta raça. A destruição da Atlântida foi motivada por uma série de catástrofés das mais variadas espécies, desde grandes cataclismos, onde territórios e populações inteiras pereceram, até os comparativamente insignificantes deslizamentos de terra, tais como os que ocorrem hoje em dia em nossas costas. Uma vez iniciada a destruição, pela primeira grande catástrofe, não houve mais intervalos entre os deslizamentos menores que, lenta porém incessantemente, continuaram a destruir o continente. Quatro grandes catástrofes sobressaem, em magnitude, a todas as outras. A primeira ocorreu durante o mioceno, cerca de 800.000 anos atrás. A segunda, de menor consequência, ocorreu há, aproximadamente, 200.000 anos. A terceira, há cerca de 80.000 anos, foi a mais descomunal e destruiu tudo o que restava do continente atlante, com exceção da ilha à qual Platão deu o nome de Posseidones e que, por sua vez, submergiu na quarta e última grande catástrofe, no ano de 9564 a.C.

As declarações dos mais antigos escritores e da pesquisa científica moderna igualmente confirmam a existência de um antigo continente, ocupando o local da Atlântida desaparecida.

Antes de passar ao exame do assunto em si, convém analisar rapidamente as fontes em geral reconhecidas por fornecerem dados corroborativos. Elas podem ser agrupadas nas cinco categorias seguintes:

Primeira Categoria

As provas das sondagens do fundo do mar. Segunda, a distribuição da fauna e da flora. Terceira, a similaridade de língua e do tipo etnológico. Quarta, a similaridade de crença, ritual e arquitetura religiosas. Quinta, os depoimentos dos antigos escritores, as tradições de raças primitivas e as antigas lendas a respeito do dilúvio.

Portanto, em primeiro lugar, temos as provas das sondagens do fundo do mar, que podem ser resumidas em poucas palavras. Graças principalmente às expedições das canhoneiras britânica e americana, a Challenger e a Dolphin (embora a Alemanha também tenha participado desta exploração científica), o fundo do Oceano Atlântico está agora totalmente mapeado, tendo-se constatado a existência de uma imensa cordilheira de grande altitude no médio Atlântico. Esta cordilheira estende-se para o sudoeste, mais ou menos a partir de 50°, latitude norte, em direção à costa da América do Sul; em seguida, para o sudeste, em direção à costa da África, mudando outra vez de direção, perto da ilha da Ascensão, seguindo então diretamente para o sul, rumo a Tristão da Cunha. A cordilheira ergue-se, de forma quase perpendicular, cerca de 2.743 m acima das profundezas do oceano, enquanto Açores, São Paulo, Ascensão e Tristão da Cunha formam os picos dessa terra que ainda continuam acima das águas. Para sondar as mais profundas regiões do Atlântico, foi necessário um prumo de 3.500 braças, ou seja, 6.400 m, mas as partes mais altas da cordilheira estão apenas a uns 200 m, ou pouco mais, abaixo da superfície.

As sondagens também demonstraram que a cordilheira está coberta de detritos vulcânicos, cujos vestígios foram encontrados de um lado a outro do oceano, até as costas americanas. Na verdade, o fato de que o fundo do oceano, particularmente perto dos Açores, foi palco de distúrbios vulcânicos numa escala gigantesca, e isso dentro de um período perfeitamente mensurável da era geológica, está conclusivamente provado pelas investigações realizadas durante as expedições acima citadas.

O sr. Starkie Gardner é da opinião que, durante o eoceno, as ilhas Britânicas faziam parte de uma imensa ilha ou continente, que estendia-se na direção do Atlântico, e “que uma grande extensão de terra existiu outrora onde hoje existe o mar, e que a Cornualha, as ilhas Scilly e Anglo-Normanda, a Irlanda e a Bretanha formam o que restou de seus cumes mais altos” (Pop. Sc. Review, julho de 1878).

Segunda Categoria

A comprovada existência, em continentes separados por vastos oceanos, de espécies idênticas ou similares de fauna e flora constitui o constante enigma dos biólogos e botânicos. Contudo, se existiu no passado uma ligação entre esses continentes, permitindo a natural migração desses animais e plantas, o enigma está decifrado. Atualmente, os fósseis de camelos são encontrados na índia, África, América do Sul e Kansas; no entanto, uma das hipóteses dos naturalistas, geralmente aceita, é a de que todas as espécies de animais e plantas originaram-se em apenas uma parte do globo e, deste centro, gradualmente invadiram as outras regiões. Sendo assim, como explicar a ocorrência desses fósseis, sem a existência de uma passagem por terra em alguma época remota? As descobertas nas camadas fósseis do Nebraska parecem também provar que o cavalo originou-se no hemisfério ocidental, pois essa é a única parte do mundo onde se tem descoberto fósseis demonstrativos das várias formas intermediárias, identificadas como precursoras do cavalo atual. Portanto, seria difícil explicar a presença do cavalo na Europa, exceto pela hipótese da existência de uma passagem por terra entre os dois continentes, já que não resta dúvida quanto à presença do cavalo, em estado selvagem, na Europa e na Ásia, antes de sua domesticação pelo homem, a qual poderia remontar praticamente à Idade da Pedra. O gado e o carneiro, como agora sabemos, possuem ancestrais igualmente remotos. Darwin descobre gado domesticado na Europa, pertencente à mais remota era da Idade da Pedra, e que, num período muito anterior, teria evoluído de formas selvagens, semelhantes ao búfalo da América. Fósseis do leão descobertos nas cavernas da Europa também foram encontrados na América do Norte.

Passando agora do reino animal ao vegetal, parece que a maior parte da flora européia, da época miocena – encontrada, principalmente, nas camadas fósseis da Suíça -, existe até hoje na América e, algumas espécies, na África. Contudo, deve-se ressaltar que, enquanto a maior incidência dessas espécies ocorra no leste americano, muitas delas não são encontradas na costa do Pacífico. Isso parece demonstrar que essas espécies penetraram no continente americano pelo lado do Atlântico. O professor Asa Gray afirma que dos 66 gêneros e das 155 espécies existentes na floresta a leste das Montanhas Rochosas, somente 31 gêneros e 78 espécies são encontradas a oeste dessas elevações.

Todavia, o maior de todos os problemas é a bananeira. O professor Kuntze, eminente botânico alemão, pergunta: “De que maneira esta planta” (nativa da Ásia tropical e da África), “que não poderia resistir a uma viagem através da zona temperada, foi transportada para a América?” Como ele assinala, a planta não tem sementes, não pode ser propagada através de chantões e tampouco possui um tubérculo que pudesse ser transportado facilmente. Sua raiz é semelhante a uma árvore. Para transportá-la, seria necessário um cuidado especial, e ela não resistiria a uma viagem longa. A única maneira pela qual ele pode explicar o aparecimento desta planta na América é supondo que ela deve ter sido transportada pelo homem civilizado, numa época em que as regiões polares possuíam um clima tropical! Ele acrescenta: “Uma planta cultivada que não possui sementes deve ter sido submetida a um processo de cultivo durante um período muito longo . . . talvez seja correio inferir que essas plantas foram cultivadas já no início do período diluviano.” Por que – pode-se perguntar – esta inferência não nos deveria remeter a tempos ainda mais remotos, e quando existia a necessária civilização para o cultivo da planta, ou condições climáticas e materiais para o seu transporte, a menos que houvesse, em alguma época, uma ligação entre o Velho Mundo e o Novo?

O professor Wallace, em sua deleitável obra Island Life, assim como outros autores, em obras muito importantes, formulou engenhosas hipóteses para explicar a identidade da flora e da fauna em terras bastante distantes entre si, e para o seu transporte através do oceano, mas nenhuma é convincente e todas apresentam diversas lacunas.

Sabe-se muito bem que o trigo, tal como o conhecemos, nunca existiu num estado verdadeiramente selvagem, e não há nenhuma evidência de que tenha se originado de espécies fósseis. Cinco variedades de trigo já foram cultivadas na Europa, na Idade da Pedra -uma delas, descoberta nos “povoados lacustres”, conhecida como trigo egípcio, fez Darwin argumentar que os lacustres “ou ainda mantinham relações comerciais com algum povo do sul, ou tinham originalmente vindos do sul como colonos”. Ele conclui que o trigo, a cevada, a aveia, etc. são provenientes de várias espécies hoje extintas, ou de tal modo alteradas que escapam à identificação; neste caso, afirma ele: “O homem deve ter cultivado cereais desde um período consideravelmente remoto.” Tanto as regiões em que essas espécies extintas floresceram, como a civilização que as cultivou por meio de inteligente seleção, foram ambas supridas pelo continente perdido, cujos colonizadores transportavam-nas para o leste e para o oeste.

Terceira Categoria

Da flora e da fauna, voltamo-nos agora para o homem:

Língua

O idioma basco mantém-se isolado entre as línguas européias, não tendo afinidade com nenhuma delas. De acordo com Farrar, “nunca houve alguma dúvida de que esta língua diferente, preservando sua identidade num recanto ocidental da Europa, entre dois poderosos reinos, assemelha-se, em sua estrutura, às línguas aborígines do vasto continente oposto (América), e apenas a estas” (Families of Speech, p. 132).

Ao que parece, os fenícios foram o primeiro povo do hemisfério oriental a usar o alfabeto fonético, sendo seus caracteres considerados simples sinais para os sons. É um fato curioso que, em data igualmente remota, encontremos um alfabeto fonético na América Central, entre os maias do Yucatán, cujas tradições atribuem a origem de sua civilização a uma terra situada do outro lado do mar, para leste. Lê Plongeon, a maior autoridade neste assunto, escreve: “Um terço desta língua (o maia) é puro grego. Quem levou o dialeto de Homero para a América? Ou quem levou para a Grécia o dos maias? O grego descende do sânscrito. O maia também? Ou seriam eles contemporâneos?” Mais surpreendente ainda é encontrar treze letras do alfabeto maia apresentando uma nítida relação com os sinais hieroglíficos egípcios, referentes às mesmas letras. E provável que a forma mais primitiva do alfabeto fosse hieroglífica, “a escrita dos deuses”, como os egípcios a chamavam, que, mais tarde, na Atlântida, desenvolveu-se em fonética. Seria natural admitir que os egípcios foram uma antiga colônia da Atlântida (como realmente foram) e que levaram consigo o tipo primitivo de escrita, que assim deixou seus traços em ambos os hemisférios, ao passo que os fenícios, que eram navegadores, obtiveram e assimilaram a forma posterior do alfabeto durante suas viagens comerciais aos povos do oeste. Há mais um detalhe que deve ser mencionado, a saber, a extraordinária semelhança entre muitas palavras da língua hebraica e palavras, que mantêm exatamente o mesmo significado, do idioma dos Chiapenecs – um ramo da raça maia, entre os mais antigos da América Central. A lista dessas palavras encontra-se em North Americans of Antiquity, p. 475.

A similaridade de língua entre os diversos povos selvagens das ilhas do Pacífico foi utilizada como argumento por escritores que tratam desta matéria. A existência de línguas semelhantes entre raças separadas por léguas de oceano, que, no período histórico, não possuíam nenhum meio de transporte para atravessá-las, é certamente um argumento a favor da descendência de uma única raça, que ocupava um único continente. Contudo, este argumento não pode ser utilizado aqui, pois o continente em questão não era a Atlântida, mas a ainda mais remota Lemúria.

Tipos Etnológicos

Dizem que a Atlântida, como veremos, foi habitada pelas raças vermelha, amarela, branca e negra. Está agora provado, pelas pesquisas de Lê Plongeon, de De Quatrefages, de Bancroft e outros, que populações negras do tipo negróide existiram, até mesmo em épocas recentes, na América. Muitos dos monumentos da América Central são decorados com rostos negros, e alguns dos ídolos encontrados destinaram-se, nitidamente, a representar negros, com crânios pequenos, cabelos curtos e crespos e lábios grossos. O Popul Vuh, discorrendo sobre a primeira pátria do povo guatemalteco, diz que “homens negros e brancos” viviam juntos nessa terra feliz, “em grande paz”, falando “uma só língua”. (Ver Bancroft, Native Roces, p. 547.) O Popul Vuh prossegue, relatando como o povo emigrou de sua pátria ancestral, como sua língua se alterou e como alguns se dirigiram para o leste, enquanto outros viajaram para o oeste (para a América Central).

O professor Retzius, em seu Smithsonian Report, considera que os primitivos dolicocéfalos da América são quase parentes dos guanchos das ilhas Canárias e dos habitantes do litoral atlântico da África, aos quais Latham chama de atlantidae-egípcios. O mesmo formato de crânio é encontrado nas ilhas Canárias, distantes da costa africana, e nas Pequenas Antilhas, afastadas da costa americana, embora, em ambas, a cor da pele seja pardo-avermelhada.

Os antigos egípcios descreviam a si mesmos como homens vermelhos, com um aspecto muito semelhante ao encontrado atualmente entre algumas tribos de índios americanos.

“Os antigos peruanos”, diz Short, “pelos numerosos exemplares de cabelos encontrados em suas tumbas, parecem ter sido uma raça ruiva.”

Um fato notável a respeito dos índios americanos, que constitui um enigma constante para os etnólogos, é a grande variação de cor e de compleição verificada entre eles. Da cor branca das tribos Me-nominee, Dacota, Mandan e Zuni, muitas das quais possuem cabelos ruivos e olhos azuis, até quase a negrura da raça negra dos Karos do Kansas e das já extintas tribos da Califórnia, as raças índias passam por todas as variações de vermelho-acastanhado, cobre, verde-oliva, canela e bronze. (Ver Short, North Amerícans of Antiquity, Win-chell, Pre-Adamites e, Catlin, Indians of North America’, ver também Atlantis, de Ignatius Donnelly, que coletou grande número de dados sobre este e outros assuntos.) Veremos dentro em pouco como a diversidade de compleição no continente americano é explicada pelos originais matizes da raça da Atlântida, o continente materno.

Quarta Categoria

No México e no Peru, nada parece ter surpreendido mais os primeiros aventureiros espanhóis do que a extraordinária similaridade entre as crenças religiosas, os rituais e os emblemas, estabelecidos no Novo Mundo, e aqueles do Velho Mundo. Os padres espanhóis viam essa similaridade como uma obra do demônio. O culto da cruz pelos nativos, bem como sua presença constante em todas as edificações e cerimônias religiosas, era a causa principal do seu assombro; na verdade, em parte alguma – nem mesmo na índia e no Egito – este símbolo era motivo de tanta veneração do que entre as tribos primitivas dos continentes americanos, embora o significado básico de seu culto fosse idêntico. No Ocidente, como no Oriente, a cruz era o símbolo da vida – às vezes, da vida física, mais amiúde, da vida eterna.

Do mesmo modo, em ambos os hemisférios os cultos do disco ou círculo solar e da serpente eram universais. Mais surpreendente ainda é a similaridade do significado da palavra “Deus” nas principais línguas do Oriente e do Ocidente. Compare o sânscrito “Dy-aus” ou “Dyauspitar”, o grego “Theos” e Zeus, o latino “Deus” e Júpiter, o celta “Dia” e “Ta”, pronunciado “Thyah” (aparentando afinidade com o egípcio Tau), o hebraico “Jah” ou “Yah” e, por fim, o mexicano “Teo” ou “Zeo”.

Os rituais de batismo foram praticados por todas as nações. Na Babilônia e no Egito, os candidatos à iniciação nos Mistérios eram, antes de tudo, balizados. Tertuliano, em seu De Baptismo, afirma que, aos balizados era prometido “a regeneração e o perdão de todos os perjúrios”. As nações escandinavas praticavam o batismo de crianças recém-nascidas; e se nos voltarmos para o México e o Peru, encontraremos o batismo de crianças como um cerimonial solene, consistindo de aspersão de água, do sinal da cruz e de orações para que o pecado fosse levado (lavado) pela água (ver Humboldt, Mexican Researches, e Prescott, México).

Além do batismo, as tribos do México, da América Central e do Peru assemelhavam-se às nações do Velho Mundo em seus rituais de confissão, absolvição, jejum e casamento, realizados por sacerdotes através da união das mãos. Elas praticavam até mesmo uma cerimônia semelhante à Eucaristia, na qual comiam bolos com a marca do Tau (uma forma egípcia de cruz). O povo chamava esses bolos de carne de seu Deus, o que os assemelha aos bolos sagrados do Egito e de outras nações orientais. Do mesmo modo que essas nações, os povos do Novo Mundo também possuíam ordens monásticas, masculinas e femininas, nas quais a quebra dos votos era punida com a morte. Tal como os egípcios, eles embalsamavam seus mortos, cultuavam o sol, a lua e os planetas, mas, além disso, adoravam uma Divindade “onipresente, conhecedora de todas as coisas… invisível, incorpórea, um Deus de completa perfeição” (ver Sa-hagun, Historia de Nueva Espana, livro VI).

Também tinham sua deusa virgem-mãe, a “Nossa Senhora”, cujo filho, o “Senhor da Luz”, era chamado “Salvador”, o que vem estabelecer uma correspondência exata com Isis, Béltis e muitas outras deusas-virgens do Oriente, com seus filhos divinos.

Seus rituais do sol e culto do fogo assemelhavam-se aos dos antigos celtas da Grã-Bretanha e da Irlanda – e, tal como estes últimos, denominavam-se “filhos do sol”. Uma arca, ou argha, era um dos símbolos sagrados universais, que encontramos tanto na índia, na Caldéia, na Assíria, no Egito e na Grécia, como entre os povos celtas. Lord Kingsborough, em sua obra Mexican Antiquities (vol. VIU, p. 250), afirma: “Assim como entre os hebreus a arca era uma espécie de templo portátil, onde, acreditava-se, a divindade estava continuamente presente, também entre os mexicanos, cheroquis e índios de Michoacán e Honduras, a arca era objeto da mais profunda veneração, considerada tão sagrada que só os sacerdotes podiam tocá-la.”

Quanto à arquitetura religiosa, descobrimos que, em ambas as margens do Atlântico, uma das mais antigas edificações sagradas é a pirâmide. Por mais obscuros que sejam os usos para os quais essas construções foram originalmente projetadas, uma coisa é certa: estavam estreitamente vinculadas a alguma idéia ou conjunto de idéias religiosas. A identidade do traçado entre as pirâmides do Egito e as do México e da América Central é por demais surpreendente para ser uma simples coincidência. De fato, algumas das pirâmides americanas – a maioria – terminam abruptamente, com um topo achatado; contudo, segundo Bancroft e outros, muitas das pirâmides encontradas em Yucatán, particularmente aquelas próximas a Palenque, possuem um topo pontiagudo, no mais genuíno estilo egípcio, ao passo que, por outro lado, temos algumas pirâmides egípcias em forma de escada e com o topo achatado. Cholula foi comparada aos grupos de Dachour, de Sakkara e à pirâmide escalonada de Mé-dourn. Semelhantes em orientação, em estrutura e mesmo nas galerias e câmaras internas, esses misteriosos monumentos do Oriente e do Ocidente atestam uma origem comum, a partir da qual seus construtores traçaram seus projetos.

As imensas ruínas de cidades e templos no México e Yucatán estranhamente também se assemelham às do Egito, sendo as ruínas de Teotihuacán freqüentemente comparadas às de Karnak. O “arco falso” – fiadas de pedras, levemente sobrepostas umas às outras – é encontrado, com a mesma forma, na América Central, nas mais antigas construções da Grécia e nas ruínas etruscas. Os maund builders, tanto dos continentes orientais como ocidentais, ergueram túmulos semelhantes para seus mortos, os quais foram depositados em esquifes de pedra também semelhantes. Ambos os continentes possuem seus enormes mounds da serpente; compare-se o do condado de Adams, em Ohio, com o primoroso mound da serpente descoberto em Argyllshire, ou com o exemplar menos perfeito de Avebury, em Wilts. Até mesmo a escultura e a decoração dos templos da América, do Egito e da índia têm muito em comum, enquanto algumas das decorações murais são absolutamente idênticas.

Quinta Categoria

Só resta agora resumir alguns depoimentos prestados pelos antigos e alguns dados extraídos das tradições de povos primitivos e das antigas lendas diluvianas.

Aelian, em sua Varia Historia (vol. Hl, cap. XVm) afirma que Teopompo (400 a.C.) registrou um encontro entre o rei da Frigia e Sileno, no qual este último referiu-se à existência de um grande continente do outro lado do Atlântico, maior que a Ásia, a Europa e a Líbia juntas.

Proclo cita um trecho de um antigo escritor que se refere às ilhas existentes no mar que ficava do outro lado das Colunas de Hércules (Estreito de Gibraltar), afirmando que os habitantes de uma dessas ilhas possuíam uma crença, que lhes fora legada por seus antepassados, a respeito de uma enorme ilha, chamada Atlântida, que, por um longo tempo, governou todas as ilhas do oceano Atlântico.

Marcelo menciona sete ilhas no Atlântico e afirma que seus habitantes conservam a lembrança de uma ilha muito maior, a Atlântida, “a qual, por longo tempo, exerceu domínio sobre as ilhas menores”.

Diodoro de Sicília relata que os fenícios descobriram “uma grande ilha no oceano Atlântico, além das Colunas de Hércules, a vários dias de viagem da costa africana”.

Contudo, a maior autoridade nesse assunto é Platão. No Timeu ele alude ao continente insulano, enquanto o Crítias ou Atlântico é nada menos que um relato detalhado da história, artes, usos e costumes do povo. No Timeu ele menciona “uma poderosa força bélica, partindo do mar Atlântico e alastrando-se com fúria hostil por toda a Europa e Ásia. Por esse tempo, o mar Atlântico era navegável e havia uma ilha antes da desembocadura que é chamada por vocês de Colunas de Hércules. Mas essa ilha era muito maior do que a Líbia e toda a Ásia juntas, e proporcionava fácil acesso às outras ilhas vizinhas. Além disso, era igualmente fácil passar daquelas ilhas para todos os continentes que se limitavam com o mar Atlântico”.

O Crítias fornece tantos dados valiosos que se torna difícil selecioná-los; o trecho abaixo, por exemplo, menciona as riquezas materiais do país: “Eles também tinham todas as coisas necessárias à subsistência, as quais, tanto numa cidade como em qualquer outro lugar, são tidas como benéficas aos propósitos da vida. Na verdade, em virtude de seu extenso império, supriam-se de muitas coisas provenientes dos países estrangeiros; mas a ilha fornecia-lhes a maior parte de tudo o que necessitavam. Em primeiro lugar, a ilha provia-os de minerais extraídos do solo em estado sólido, dos quais alguns eram fundidos; o oricalco, que hoje em dia raramente é mencionado, mas que outrora era muito conhecido, também era extraído do solo em muitas partes da ilha, sendo considerado o mais nobre dos metais, à exceção do ouro. Além disso, tudo quanto as florestas forneciam para os construtores, a ilha produzia em abundância. Havia, outrossim, suficientes pastagens para animais selvagens e domésticos, bem como um número prodigioso de elefantes. Havia pastagens para todos esses animais, que se alimentavam nos lagos, rios, montanhas e planícies. Do mesmo modo, havia alimento suficiente para as espécies maiores e mais vorazes de animais. Além disso, todos os tipos de odoríferos que a terra, atualmente, nutre, sejam raízes, gramíneas, bosques, sucos, resinas, flores ou frutos – isso tudo a ilha produzia, e fartamente.”

Os gauleses possuíam costumes da Atlântida, os quais foram compilados pelo historiador romano Timagenes, que viveu no século I a.C. Parece que três povos distintos habitaram a Gália. A princípio, populações indígenas (provavelmente os remanescentes de alguma raça lemuriana); em segundo lugar, os invasores provenientes da longínqua ilha de Atlântida e, em terceiro, os gauleses áricos (ver Pre-Adamites, p. 380).

Os toltecas do México reconstituíram seu próprio passado a partir de um marco inicial chamado Atlan ou Aztlan; os astecas também sustentaram ter se originado de Aztlan (ver Bancroft, Native Roces, vol. 5, pp. 221 e 321).

O Popul Vuh (p. 294) menciona uma visita que os três filhos do rei dos Quichés fizeram a uma terra “no leste, situada nas costas do mar de onde tinham vindo seus pais”, da qual trouxeram, entre outras coisas, “um sistema de escrita” (ver também Bancroft, vol. V, p. 553).

Entre os índios da América do Norte, há uma lenda muito popular, segundo a qual seus antepassados vieram de uma terra situada “na direção do nascer do sol”. Segundo o Major J. Lind, os índios de lowa e Dacota acreditavam que “todas as tribos de índios tinham sido, outrora, uma só tribo e que, juntas, haviam habitado uma ilha . situada na direção do nascer do sol”. Dali, elas atravessaram o mar “em enormes esquifes, nos quais os dacotas do passado flutuaram durante semanas, para finalmente alcançarem a terra firme”.

Os livros centro-americanos afirmam que uma parte do continente americano estendia-se para bem distante, oceano Atlântico adentro, e que essa região foi destruída por uma série de terríveis cataclismos, separados por longos intervalos. Três deles são freqüentemente mencionados (ver Baldwin, Anciení America, p. 176). Uma curiosa confirmação disso encontra-se numa lenda dos celtas da Grã-Bretanha, segundo a qual uma parte de seu país, que outrora estendia-se Atlântico adentro, foi destruída. Três catástrofes são mencionadas nas tradições galesas.

Diz-se que Quetzalcóatl, a divindade mexicana, veio do “oriente distante”. Ele é descrito como um homem branco, com uma enorme barba (os indígenas da América do Norte e do Sul são imberbes). Ele criou as letras e organizou o calendário mexicano. Depois de ensinar-lhes muitas artes e lições pacíficas, ele partiu para o leste, numa canoa feita de couro de serpente (ver Short, North Americans of Antiquity, pp. 268-271). A mesma história é contada a respeito de Zamna, o criador da civilização em Yucatán.

Resta apenas tratar da admirável uniformidade das lendas diluvianas em todas as partes do globo. Quer sejam antigas versões da história da Atlântida desaparecida e de sua submersão, ou eco de uma importante parábola cósmica outrora ensinada e mantida em reverência em algum centro comum, de onde se difundiram por todo o mundo, isso não nos diz respeito no momento. Por enquanto, basta-nos demonstrar a aceitação universal dessas lendas. Seria um desperdício inútil de tempo e espaço examinar, minuciosamente e uma a uma, essas lendas diluvianas. Basta dizer que na índia, na Caldéia, na Babilônia, na Média, na Grécia, na Escandinávia, na China, entre os hebreus e entre as tribos celtas da Grã-Bretanha, a lenda é absolutamente idêntica em seus pontos essenciais. E o que encontraremos, se nos voltarmos para o Ocidente? A mesma história, preservada em todos os detalhes pelos mexicanos (cada tribo tendo a sua versão), pelos povos da Guatemala, Honduras, Peru e por quase todas as tribos de índios norte-americanos. Seria ingênuo sugerir que a mera coincidência explicaria essa identidade fundamental.

O trecho abaixo transcrito, extraído da tradução de Lê Plongeon do célebre Manuscrito Troano, que pode ser visto no Museu Britânico, certamente proporcionará uma conclusão adequada a esta questão. O Manuscrito Troano parece ter sido escrito há cerca de 3.500 anos, entre os maias do Yucatán, e sua descrição da catástrofe que submergiu a ilha de Posseidones é a seguinte: “No ano 6 Kan, no II9 Muluc do mês Zac, ocorreram terríveis terremotos, que con- tinuaram, sem interrupção, até o 13- Chuen. A região das colinas de lodo, a terra de Mu, foi sacrificada: sendo erguida por duas vezes, desapareceu de súbito durante a noite, enquanto a bacia era continuamente sacudida por forças vulcânicas. Estas, confinadas, fizeram a terra afundar e erguer-se diversas vezes e em vários lugares. Por fim, a superfície cedeu e dez regiões foram violentamente separadas e dizimadas. Incapazes de resistir à força das convulsões, afundaram, com seus 64.000.000 de habitantes, 8.060 anos antes de este livro ser escrito.”

Hoje, porém, tem sido devotado espaço suficiente aos fragmentos de depoimentos – todos mais ou menos convincentes – que estão, até agora, em poder da Humanidade. Aos interessados em se dedicar a uma Unha especial de investigação, as várias obras acima mencionadas ou citadas poderão ser consultadas.

O assunto em questão agora poderá ser abordado. Os fatos aqui coletados, extraídos, como foram, de registros contemporâneos que, por sua vez, foram compilados e transmitidos através das épocas que teremos de abordar, não se baseiam em hipóteses ou conjecturas. O autor pode não ter alcançado uma compreensão exata dos fatos e, portanto, pode tê-los desfigurado parcialmente. Contudo, os registros originais poderão ser examinados por aqueles que se encontram devidamente qualificados, e os que estão dispostos a empreender o treinamento necessário poderão conseguir licença para examinar e conferir.

Todavia, ainda que todos os registros ocultos fossem acessíveis à nossa inspeção, é preciso compreender que um esboço que tenta resumir numas poucas páginas a história de raças e nações, cujo desenvolvimento se estende, pelo menos, durante centenas de milhares de anos, não poderia deixar de ser fragmentário. Entretanto, qualquer relato acerca desse assunto – ainda que desconexo – não deixa de ser algo inédito e, portanto, de amplo interesse para a Humanida- de em geral.

Entre os documentos acima mencionados, há mapas referentes a vários períodos da história da Humanidade, e a permissão de obter cópias – mais ou menos completas – de quatro desses mapas foi o grande privilégio do autor. Todos os quatro retraíam a Atlântida e as terras adjacentes em diferentes épocas da sua história. Essas épocas correspondem, aproximadamente, aos períodos que medeiam as catástrofes acima mencionadas e, a esses períodos assim representados pelos quatro mapas associar-se-ão, naturalmente, os registros da raça atlante.

Entretanto, antes de iniciar a história da raça, seriam úteis algumas observações a respeito da geografia das quatro diferentes épocas:


O primeiro mapa representa a superfície terrestre do globo há cerca de um milhão de anos, quando a raça atlante estava em seu apogeu e antes da ocorrência da primeira grande submersão, cerca de 800.000 anos atrás. O próprio continente da Atlântida, como se pode observar, estendia-se desde um ponto situado alguns graus a leste da Islândia até mais ou menos o local onde hoje fica o Rio de Janeiro, na América do Sul. Abrangendo o Texas e o golfo do México, os estados do sul e do leste da América, inclusive o Labrador, ele estendia-se através do oceano até as ilhas européias – Escócia e Irlanda e uma pequena porção do norte da Inglaterra, formando um de seus promontórios -, enquanto suas regiões equatoriais abrangiam o Brasil e toda a extensão do oceano, até a Costa do Ouro, na África. Os fragmentos dispersos de que, finalmente, se formaram os continentes da Europa, da África e da América, bem como os vestígios do ainda mais antigo e outrora extenso continente da Lemúria, também podem ser vistos nesse mapa. Os vestígios do ainda mais remoto continente hiperbóreo, que foi habitado pela segunda raça-raiz, também são visíveis e, tal como a Lemúria, em cor azul.

Como se pode observar pelo segundo mapa, a catástrofe de 800.000 anos atrás provocou grandes alterações na configuração terrestre do globo. O grande continente está agora despojado de suas regiões setentrionais, e sua porção remanescente encontra-se mais dilacerada ainda. O continente americano, agora em fase de crescimento, está separado de seu continente materno, por uma falha, a Atlântida, e esta já não abrange as terras ora existentes, mas ocupa a maior parte da depressão atlântica, desde mais ou menos 50° de latitude norte até uns poucos graus ao sul do equador. Os assentamentos e elevações da superfície terrestre em outras partes do globo também foram consideráveis – as ilhas Britânicas, por exemplo, agora fazem parte de uma imensa ilha, que também abrange a península escandinava, o norte da França, todos os mares intermediários e alguns mares circundantes. Pode-se constatar que as extensões dos vestígios da Lemúria sofreram mutilações ainda maiores, enquanto a Europa, a África e a América tiveram seus territórios acrescidos.

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O terceiro mapa mostra os efeitos da catástrofe ocorrida há mais ou menos 200.000 anos. Com exceção das fendas nos continentes atlante e americano e a submersão do Egito, pode-se observar como os assentamentos e as elevações da superfície terrestre nessa época foram relativamente insignificantes; na verdade, o fato de esta catástrofe nunca ter sido considerada como uma das maiores transparece no trecho acima transcrito do livro sagrado dos guatemaltecos -onde apenas três grandes catástrofes são mencionadas. Contudo, a ilha escandinava aparece, agora, unida ao continente. A Atlântida encontra-se agora dividida, formando duas ilhas, conhecidas pelos nomes de Ruta e Daitya.

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O caráter extraordinário da convulsão natural que ocorreu há cerca de 80.000 anos fica evidenciado pelo quarto mapa. Daitya, a menor e mais meridional das ilhas, já desapareceu quase totalmente, ao passo que, de Ruta, apenas resta uma ilha relativamente pequena, Posseidones. Este mapa foi compilado há cerca de 75.000 anos e, sem dúvida, representa razoavelmente a superfície terrestre do globo, desde esse período até a submersão definitiva de Posseidones, em 9564 a.C., embora, durante esse período, devam ter ocorrido pequenas alterações. Notar-se-á que os contornos da superfície terrestre começaram, então, a assumir, aproximadamente, a mesma aparência que possuem hoje, embora as ilhas Britânicas ainda estivessem unidas ao continente europeu, o mar Báltico não existisse e o deserto do Saara formasse uma parte do fundo do oceano.

Quando se aborda a formação de uma raça-raiz é indispensável alguma referência à temática bastante mística acerca dos Manus. No Relatório nº 26 da Loja Maçônica de Londres, fez-se uma referência ao trabalho realizado por esses Seres sublimes, que abrange não só o planejamento dos tipos de todo o Manvantara como também supervisiona a formação e educação de cada raça-raiz, sucessivamente. O seguinte trecho refere-se a esse plano: “Também há os Manus, cujo dever consiste em atuar de modo semelhante em cada raça-raiz de cada Planeta do Círculo, o Manu-Semente, planejando o aperfeiçoamento do tipo que cada sucessiva raça-raiz inaugura, e o Manu-Raiz, realmente encarnando entre a nova raça na qualidade de guia e mestre, a fim de dirigir o desenvolvimento e garantir o aperfeiçoamento.”

A maneira pela qual a necessária segregação das espécimes selecionadas é efetuada pelo Manu encarregado, bem como seu subsequente cuidado com a comunidade em desenvolvimento, pode ser abordada num futuro relatório. Uma informação bastante simples quanto ao modo de proceder será suficiente aos nossos propósitos.

Foi, naturalmente, de uma das sub-raças da terceira raça-raiz, que habitava o continente conhecido pelo nome de Lemúria, que se efetuou a segregação destinada a produzir a quarta raça-raiz.

A fim de acompanhar as principais etapas do processo histórico dessa raça, através dos quatro períodos representados pelos quatro mapas, convém dividir o assunto nos seguintes tópicos:

1. Origem e localização territorial das diferentes sub-raças.
2. As instituições políticas que, respectivamente, elas desenvolveram.
3. Suas migrações para outras partes do mundo.
4. As artes e ciências desenvolvidas.
5. Os usos e costumes adotados.
6. O desenvolvimento e o declínio de idéias religiosas.

Em primeiro lugar, portanto, uma lista dos nomes das diferentes sub-raças:

1. Rmoahal
2. Tlavatli
3. Tolteca
4. Turaniana primitiva
5. Semita original
6. Acadiana
7. Mongólica

Faz-se necessária uma explicação acerca do princípio pelo qual esses nomes são escolhidos. Nos casos em que os etnólogos atuais descobriram vestígios de uma dessas sub-raças, ou mesmo identificado pequena parte de uma delas, o nome que lhes deram é utilizado a bem da clareza; contudo, no caso das duas primeiras sub-raças, dificilmente foram deixados quaisquer vestígios para que a ciência deles se apoderasse e, desse modo, foram adotados os nomes pelos quais elas mesmas se designavam.

O período representado pelo Mapa nº l mostra como era a superfície terrestre do globo há cerca de um milhão de anos, mas a raça rmoahal surgiu há quatro ou cinco milhões de anos, no período em que grandes porções do vasto continente meridional da Lemúria ainda existiam, enquanto o continente da Atlântida não havia assumido as dimensões que, finalmente, atingiria. Foi num contraforte desta terra lemuriana que a raça rmoahal nasceu. Pode-se localizá-lo, aproximadamente, a 7° de latitude norte e 5° de longitude oeste, e uma consulta a qualquer atlas moderno revelará que sua localização coincide com a atual costa de Achanti. Era uma região quente e chuvosa, habitada por enormes animais antediluvianos, que viviam em pântanos juncosos e florestas tímidas. Os fósseis dessas plantas atualmente são encontrados nas jazidas de carvão. Os nnoahals eram uma raça morena – sendo sua pele da cor do mogno. Sua altura, naqueles tempos remotos, era de, aproximadamente, 3 a 3,5 m – na verdade, uma raça de gigantes – mas, ao longo dos séculos, sua estatura foi gradualmente diminuindo, tal como se deu com todas as outras raças, e, mais tarde, vamos encontrá-los reduzidos à estatura do “homem de Furfooz”. Por fim, migraram para as costas meridionais da Atlântida, onde travaram contínuos combates com as sexta e sétima sub-raças dos lemurianos, que então habitavam essa região. Em seguida, uma grande parte da tribo mudou-se para o norte, enquanto o restante estabeleceu-se no local e uniu-se aos aborígines lemurianos negros. Como consequência, não restou, neste período – o período do primeiro mapa -, nenhuma linhagem pura no sul e, como veremos, foi dessas raças morenas, que habitavam as regiões equatoriais e o extremo sul do continente, que os conquistadores toltecas subseqüentemente se abasteciam de escravos. Contudo, o restante da raça alcançou os promontórios do extremo nordeste, contíguos à Islândia, e, vivendo nessa região por incontáveis gerações, foi aos poucos assumindo uma coloração mais clara, até que, no final do período do primeiro mapa, deparamo-nos com um povo razoavelmente louro. Posteriormente, seus descendentes tornaram-se súditos, ao menos nominalmente, dos reis semitas.

O fato de terem habitado nessa região por inúmeras gerações não implica que aí se tenham estabelecido ininterruptamente, pois certos fatores os obrigavam, de tempos em tempos, a se dirigirem para o sul. Sem dúvida, o frio das épocas glaciais influiu de modo semelhante sobre as outras raças; contudo, a fim de evitar digressões, apenas algumas informações devem ser aqui incluídas.

Sem entrar na questão das diferentes rotações que a Terra executa, ou da variação de graus da deslocação de sua órbita, cuja combinação é, às vezes, considerada a causa das épocas glaciais, o fato é que – como já foi admitido por alguns astrônomos – uma curta época glacial ocorre, aproximadamente, a cada 30.000 anos. Além dessas, porém, houve duas ocasiões na história da Atlântida em que a grande extensão de gelo despovoou, não só as regiões setentrionais, como também, ao invadir a maior parte do continente, forçou todos os seres vivos a migrar para as terras equatoriais. A primeira delas ocorreu durante a época dos rmoahals, há cerca de 3.000.000 de anos, e a segunda, durante o domínio dos toltecas, cerca de 850.000 anos atrás.

No que se refere a todas as épocas glaciais, deve-se dizer que, embora os habitantes das terras setentrionais tenham sido forçados a migrar, durante o inverno, para o sul, afastando-se da zona de gelo, era nessa zona que ficavam os grandes povoados, para os quais podiam retomar no verão e onde, devido à caça, acampavam até que o frio do inverno os forçasse a se dirigir novamente para o sul.

O lugar de origem dos tlavatli, ou segunda sub-raça, foi uma ilha ao largo da costa ocidental da Atlântida. O local está assinalado no primeiro mapa com o algarismo 2. Dali eles se espalharam pela Atlântida propriamente dita, sobretudo através do centro do continente, deslocando-se, contudo, gradualmente para o norte, em direção à faixa litorânea voltada para o promontório da Groenlândia. Fisicamente, constituíam uma raça robusta e resistente, de cor vermelho- acastanhada, mas não tão altos quanto aos rmoahals, a quem impeliram mais ainda para o norte. Sempre foram um povo amante das montanhas, e seus principais povoados situavam-se nas regiões montanhosas do interior. Comparando-se os Mapas l e 4, verificar-se-á que sua localização era mais ou menos contínua à região que, mais tarde, tornou-se a ilha de Posseidones. Neste período do primeiro mapa, eles também ocuparam – como já foi mencionado – as costas setentrionais, enquanto uma mistura de raça tlavatli com a tolteca habitava as ilhas ocidentais, que, mais tarde, participaram da formação do continente americano.

A seguir, temos a raça tolteca, ou terceira sub-raça, que constituiu um desenvolvimento esplêndido. Governou todo o continente da Atlântida por milhares de anos, com grandes recursos materiais e muito brilho. Na verdade, esta raça era de tal modo dominante e dotada de vitalidade, que as uniões com as sub-raças vizinhas não conseguiram alterar-lhe o tipo, que ainda permaneceu essencialmente tolteca; e, centenas de milhares de anos mais tarde, encontramos uma de suas remotas linhagens governando, magnificamente, no México e Peru, muito., anos antes que seus degenerados descendentes fossem conquistados pelas mais ferozes tribos astecas do norte.

Essa raça também tinha uma pele vermelho-acastanhada, embora fosse mais vermelha, ou mais acobreada, que a dos tlavatli. Sua estatura também era elevada, medindo em torno de 2,5 m durante o período de seu domínio absoluto; contudo, assim como ocorreu com todas as raças, foi sofrendo uma redução, até atingir o tamanho médio de hoje em dia. O tipo foi um aperfeiçoamento das duas sub-raças anteriores, possuindo uma feição séria, bastante acentuada, bem parecida com a dos antigos gregos. O lugar aproximado de origem dessa raça pode ser observado no primeiro mapa, assinalado com o algarismo 3. Sua localização ficava perto da costa ocidental da Atlântida, a cerca de 30° de latitude norte, e, toda a região circunvizinha, incluindo a maior parte da costa ocidental do continente, foi habitada por uma raça tolteca pura. Contudo, como veremos ao tratarmos da organização política, seu território finalmente ampliou-se por todo o continente, e foi de sua grande capital, situada na costa oriental, que os imperadores toltecas estenderam seu domínio a quase todas as nações.

Essas três primeiras sub-raças são conhecidas como as “raças vermelhas” e, entre elas e as quatro seguintes, não houve, a princípio, muita mistura de sangue. Essas quatro, embora diferindo consideravelmente entre si, foram chamadas de “amarelas”, e esta cor pode caracterizar de maneira apropriada a tez dos turanianos e mongólicos, mas os semitas e acadianos eram brancos.

A turaniana, ou quarta sub-raça, originou-se no lado oriental do continente, ao sul da região montanhosa habitada pelo povo tlavatli. Esse local está assinalado, no Mapa n2 l, com o algarismo 4. Desde sua origem, os turanianos eram colonizadores e muitos deles migraram para as terras situadas a leste da Atlântida. Nunca foram uma raça completamente dominante no seu continente de origem, embora algumas de suas tribos e linhagens tenham se tornado razoa- velmente poderosas. As grandes regiões centrais do continente, situadas a oeste e ao sul da região montanhosa dos tlavatlis, constituíam seu habitat especial, embora não exclusivo, pois repartiam essas terras com os toltecas. As curiosas experiências políticas e sociais realizadas por essa sub-raça serão abordadas mais adiante.

Quanto à semita original, ou quinta sub-raça, os etnólogos têm estado um tanto confusos, como de fato é extremamente natural que estejam, considerando os dados por demais insuficientes que possuem para se orientar. Essa sub-raça surgiu na região montanhosa que formava a mais meridional das duas penínsulas nordésteas, as quais, como vimos, correspondem, atualmente, à Escócia, à Irlanda e a alguns dos mares adjacentes. No Mapa n- l, o local está assinalado com o algarismo 5. Nesta menos atraente porção do grande continente a raça se desenvolveu e floresceu, mantendo-se durante séculos independente dos agressivos reis sulistas, até que, aos poucos e em grupos, começaram a se espalhar em várias direções e a colonizar outras regiões. É preciso lembrar que, na época em que os semitas subiram ao poder, centenas de milhares de anos haviam transcorrido e o período do segundo mapa já havia sido atingido. Eram uma raça turbulenta e descontente, sempre em guerra com seus vizinhos, sobretudo com o império cada vez mais amplo dos acadianos.

O lugar de origem da sub-raça acadiana, ou sexta sub-raça, será encontrado no Mapa nº 2 (assinalado com o algarismo 6), pois foi após a grande catástrofe de 800.000 anos atrás que esta raça surgiu. O local ficava na região oriental da Atlântida, mais ou menos no centro da grande península, cuja extremidade sudeste estendia-se em direção ao velho continente. Pode-se localizá-lo aproximadamente a 42° de latitude norte e a 10° de longitude leste. Contudo, os acadianos não permaneceram por muito tempo em sua terra de origem, invadindo o continente da Atlântida, que, nessa época, já sofrera uma redução de suas dimensões. Eles travaram inúmeras batalhas terrestres e navais com os semitas, onde foi utilizado um grande número de frotas pelos dois combatentes. Por fim, há cerca de 100.000 anos, derrotaram definitivamente os semitas e, a partir de então, estabeleceram uma dinastia acadiana na antiga capital semita e, durante séculos, governaram o país com sabedoria. Tornaram-se grandes comerciantes, navegadores e colonizadores, estabelecendo muitos núcleos que serviam de pontos de ligação com terras distantes.

A sub-raça mongólica, ou sétima sub-raça, parece ter sido a única que não teve absolutamente nenhum contato com seu continente de origem. Originária das planícies da Tartária (local assinalado com o algarismo 7, no segundo mapa), a cerca de 63° de latitude norte e 140° de longitude leste, desenvolveu-se diretamente dos descendentes da raça turaniana, a quem suplantou paulatinamente por quase toda a Ásia. Essa sub-raça multiplicou-se de tal modo que, hoje em dia, a maior parte dos habitantes da Terra pertencem, tecnicamente, a ela, embora muitas de suas subdivisões estejam tão profundamente alteradas com o sangue de raças mais primitivas que mal se distinguem delas.

Instituições Políticas

Num resumo como este seria impossível descrever como cada sub-raça se subdividiu, posteriormente, em nações, cada qual com seu tipo e características distintos.

Tudo o que se pode tentar aqui é esboçar, em linhas gerais, a variedade de instituições políticas que se sucederam ao longo das grandes épocas da raça.

Embora reconhecendo que cada sub-raça, bem como cada raça-raiz, está destinada a permanecer, em alguns aspectos, num nível mais elevado do que aquela que a antecedeu, a natureza cíclica do desenvolvimento deve ser compreendida como um condutor da raça à semelhança do homem que, passando pela infância, juventude e atingindo a maturidade, retorna de novo à infância da velhice. Evolução significa, necessariamente, máximo progresso, ainda que o retrocesso de sua espiral ascendente pareça fazer da história da política ou da religião um relato não só do desenvolvimento e do progresso, mas também da degradação e da decadência.

Portanto, quando se afirma que a primeira sub-raça iniciou-se sob a mais perfeita forma de governo concebível, deve-se compreender que isso se deu antes em virtude das necessidades de sua infância do que dos méritos de sua maturidade. Os rmoahals eram incapazes de desenvolver um programa de governo fixo, e tampouco atingiram um nível de civilização tão elevado quanto o alcançado pelas sexta e sétima sub-raças lemurianas. Contudo, o Manu que efetuou a segregação encarnou, de fato, na raça e governou-a como rei. Até mesmo quando deixava de ter uma participação efetiva no governo da raça, governantes Adeptos ou Divinos, quando os tempos assim o exigiam, ainda garantiam o futuro da comunidade em sua tenra idade. Como é do conhecimento dos estudantes de Teosofia, nossa humanidade ainda não atingira o necessário estágio de desenvolvimento que lhe permitisse gerar Adeptos inteiramente iniciados. Portanto, os governantes acima mencionados, inclusive o próprio Manu, eram, necessariamente, fruto da evolução em outros sistemas de mundos.

O povo tlavatli mostrou alguns sinais de avanço na arte de governar. Suas várias tribos ou nações eram governadas por chefes ou reis que, geralmente, eram investidos de sua autoridade através da aclamação do povo. Naturalmente, os indivíduos mais vigorosos e os guerreiros mais destemidos eram, então, os escolhidos. Um império considerável finalmente se estabeleceu entre eles, onde um rei tornou-se o chefe nominal, embora sua suserania consistisse mais num título honorário do que numa autoridade real.

Foi a raça tolteca que desenvolveu o mais alto grau de civilização e organizou o mais poderoso império de todos os povos atlantes, estabelecendo pela primeira vez o princípio da sucessão hereditária. A princípio, a raça dividiu-se em vários e pequenos reinos independentes, que lutavam constantemente entre si, e todos em guerra com os rmoahals-lemurianos do sul. Estes últimos foram gradualmente conquistados e dominados – muitas de suas tribos foram escravizadas. Entretanto, cerca de um milhão de anos atrás, esses reinos independentes uniram- se numa grande federação e reconheceram um imperador como chefe. Naturalmente, isso se deu através de grandes guerras, mas resultou em paz e prosperidade para a raça.

Deve ser lembrado que a Humanidade sempre foi dotada, em sua grande maioria, de atributos psíquicos e, nessa época, os indivíduos mais desenvolvidos tinham se submetido ao aprendizado necessário nas escolas de ocultismo, tendo obtido vários estágios de iniciação – alguns, inclusive, haviam alcançado o grau de Adeptos. O segundo desses imperadores era um Adepto e, por milhares de anos, a dinastia Divina governou não só todos os reinos nos quais a Atlântida estava dividida, mas também as ilhas ocidentais e a porção meridional do território adjacente, situado a leste. Quando necessário, essa dinastia era fornecida pela Casa de Iniciados mas, por via de regra, o poder era legado de pai para filho, sendo todos mais ou menos qualificados; em alguns casos, o filho recebia um grau adicional das mãos do pai. Durante todo esse período, os governantes Iniciados mantiveram-se vinculados à Hierarquia Oculta que governa o mundo, submetendo-se às suas leis e atuando em harmonia com seus desígnios. Essa foi a idade de ouro da raça tolteca. O governo era justo e generoso; as artes e ciências eram cultivadas – na verdade, aqueles que trabalhavam nesses setores, guiados como foram pela ciência oculta, alcançaram resultados extraordinários; as crenças e rituais religiosos ainda eram relativamente puros – na verdade, a civilização da Atlântida alcançara, nessa época, seu apogeu.

Mais ou menos 100.000 anos após esta idade de ouro, iniciou-se a degeneração e o declínio da raça. Muitos dos reis tributários, e um grande número de sacerdotes e súditos, deixaram de usar suas faculdades e poderes de acordo com as leis estipuladas por seus governantes Divinos, cujos preceitos e conselhos eram agora desrespeitados. Seus vínculos com a Hierarquia Oculta se romperam. O engrandecimento pessoal, a obtenção de riqueza e poder, a humilhação e ruína de seus inimigos tornaram-se, cada vez mais, o alvo para o qual seus poderes ocultos estavam dirigidos: desse modo, afastados de seu emprego lícito e utilizados para a obtenção de todos os tipos de propósitos egoístas e malévolos, inevitavelmente esses poderes conduziram ao que devemos chamar de bruxaria.

Envolta como esta palavra está pelo ódio, cuja associação foi gradualmente produzida, durante séculos de superstição e ignorância, pela credulidade, por um lado, e pela impostura, por outro, consideremos por um momento seu significado real e as terríveis consequências que sua prática sempre acaba trazendo ao mundo.

Em parte por suas faculdades psíquicas, que ainda não tinham se extinguido nas profundezas da materialidade, para a qual a raça em seguida decaiu, e em parte por seus conhecimentos científicos, obtidos durante esse apogeu da civilização atlante, os membros mais intelectuais e vigorosos da raça foram aos poucos alcançando uma compreensão cada vez maior acerca da atuação das leis da Natureza, bem como um controle cada vez maior de algumas de suas forças ocultas. A profanação desse saber e seu emprego para fins egoístas é o que constitui a bruxaria. As terríveis consequências de tal profanação também estão suficientemente exemplificadas pelas horríveis catástrofes que se desencadearam sobre a raça. A partir do momento em que a magia negra foi posta em prática, ela estava destinada a se propagar em círculos cada vez mais amplos. Assim, uma vez afastado o guia espiritual supremo, o princípio kâmico, que era o quarto, atingiu naturalmente seu zênite durante a quarta raça-raiz, afirmando-se cada vez mais na Humanidade. A luxúria, a brutalidade e a ferocidade foram aumentando, e a natureza animal do homem foi assumindo seu aspecto mais abjeto. Desde os primórdios, o que dividiu a raça atlante em duas facções inimigas foi uma questão moral, e o que já havia começado na época dos rmoahals acentuou-se terrivelmente na era tolteca. A batalha de Armagedon é travada repetidas vezes em cada idade da história do mundo.

Deixando de se submeter ao sábio governo dos imperadores Iniciados, os seguidores da “magia negra” sublevaram-se e elegeram um imperador rival que, depois de muitas lutas e conflitos, expulsou o imperador branco de sua capital, a “Cidade dos Portais Dourados”, e assumiu o trono.

O imperador branco, expulso para o norte, reinstalou-se numa cidade fundada originalmente pelos tlavatli, na extremidade meridional da região montanhosa que, nessa época, era a sede de um dos reis tributários toltecas. Esse rei recebeu com alegria o imperador branco e colocou a cidade à sua disposição. Havia outros reis tributários que também permaneceram leais a ele, mas a maioria transferiu sua vassalagem ao novo imperador, que reinava na antiga capital. Entretanto, essa lealdade não durou muito tempo. Os reis tributáveis constantemente reivindicavam sua independência, e contínuas batalhas eram travadas em diferentes pontos do império, recorrendo-se largamente à prática de bruxaria a fim de suplementar os poderes de destruição que os exércitos possuíam.

Esses eventos ocorreram cerca de 50.000 anos antes da primeira grande catástrofe.

Dessa época em diante as coisas foram de mal a pior. Os bruxos usavam seus poderes de um modo cada vez mais arrojado, e um grupo cada vez maior de pessoas adquiria e praticava essa terrível “magia negra”.

Veio então a horrível punição, onde pereceram milhões e milhões de pessoas. A grande “Cidade dos Portais Dourados” tornara-se, nessa época, um perfeito antro de iniquidade. As ondas precipitaram-se sobre ela e exterminaram seus habitantes, e o imperador “negro” e sua dinastia caíram para sempre. O imperador do norte e os sacerdotes iniciados, de todas as partes do continente, há muito tempo estavam conscientes dos funestos dias que se aproximavam, e as páginas seguintes falarão das muitas migrações, lideradas pelos sacerdotes, que precederam esta catástrofe, bem como das que se deram em épocas posteriores.

O continente estava, então, bastante dilacerado. Mas a porção atual de território submerso de modo algum representava o dano provocado, pois os vagalhões varreram grandes extensões de terra, transformando-as em pântanos abandonados. Regiões inteiras tornaram-se estéreis, permanecendo desertas e sem plantações por muitas gerações.

Além disso, a população restante recebera uma terrível advertência. Levaram-na a sério e, durante certo tempo, a bruxaria foi menos freqüente entre eles. Passou-se um longo período, antes que se estabelecesse um novo governo eficaz. Por fim, depararemos com uma dinastia semita de bruxos entronizada na “Cidade dos Portais Dourados”, mas nenhuma autoridade tolteca destacou-se durante o período do segundo mapa. Ainda havia um número considerável de populações toltecas, mas pouco restava de seu puro sangue no continente de origem.

Entrementes, na ilha de Ruta, no período do terceiro mapa, uma dinastia tolteca novamente ascendeu ao poder e governou, através de seus reis tributários, uma grande porção da ilha. Essa dinastia devotava-se à magia negra. E importante salientar que essa prática tomou-se, durante todos os quatro períodos, cada vez mais predominante, até culminar na inevitável catástrofe que, em grande medida, purificou a terra do mal monstruoso. Deve-se também ter em mente que, até a destruição final, quando Posseidones desapareceu, um imperador ou rei Iniciado – ou ao menos alguém que conhecia a “boa lei” -, governou em alguma parte do continente insular, atuando sob a orientação da Hierarquia Oculta, a fim de refrear, onde fosse possível, os bruxos malignos e orientar e instruir a pequena minoria que ainda estava disposta a levar uma vida pura e saudável. Nos últimos dias, esse rei “branco” era, via de regra, eleito pelos sacerdotes – ou seja, pelos poucos que ainda seguiam a “boa lei”.

Pouco resta a ser dito sobre os toltecas. Em Posseidones, a população de toda a ilha era mais ou menos mesclada. Dois reinos e uma pequena república, localizada a oeste, dividiam a ilha entre si. A região norte era governada por um rei Iniciado. No sul, o princípio hereditário também fora substituído pela eleição popular. As dinastias raciais aristocráticas estavam acabando, mas reis de linhagem tolteca ocasionalmente subiam ao poder, tanto no norte quanto no sul, embora o reino setentrional fosse constantemente invadido pelo seu rival sulista, que conquistava para si uma parte cada vez maior de seu território.

Esta abordagem, até certo ponto minuciosa, da situação política na época dos toltecas, exime-nos de uma análise pormenorizada das principais características políticas das quatro sub-raças seguintes, já que nenhuma delas atingiu o apogeu alcançado pelos toltecas – na verdade, a degeneração da raça já havia começado.

Ao que tudo indica, foi a tendência inata da raça turaniana que a levou a desenvolver uma espécie de sistema feudal. Cada chefe era supremo em seu próprio território e o rei era apenas o primas inter pares. Os chefes que compunham o conselho de estado ocasionalmente assassinavam o rei, substituindo-o por um deles. Eram uma raça violenta e bárbara, bem como brutal e cruel. O fato de que, em alguns períodos de sua história, uma grande quantidade de mulheres participassem de suas guerras é indicativo dessas características.

Contudo, o fato mais interessante de sua história está na estranha experiência que empreenderam em sua vida social, que, não fosse por sua origem política, melhor se enquadraria na seção destinada aos “usos e costumes”. Os turanianos sofriam constantes derrotas nas batalhas travadas com seus vizinhos toltecas, muito mais numerosos; assim, tinham como meta principal o aumento da população. Para tanto promulgaram leis que retiravam de cada homem a responsabilidade de sustentar a família. O Estado cuidava e provia a subsistência das crianças, que eram consideradas propriedade sua. Isso contribuiu, sem dúvida, para o aumento do coeficiente de natalidade entre os turanianos, e a cerimônia do casamento passou a ser desprezada. Os laços da vida familiar e o sentimento de amor entre pais e filhos logicamente foram destruídos, o que levou o sistema a um verdadeiro fracasso total, sendo finalmente abandonado. Outras tentativas de encontrar soluções socialistas para problemas econômicos, que até hoje nos afligem, foram experimentadas e abandonadas por essa raça.

Os semitas originais, que eram uma raça belicosa, saqueadora e enérgica, sempre teve uma inclinação pela forma patriarcal de governo. Seus colonizadores, que geralmente levavam uma vida nômade, adotaram essa forma de governo de modo quase exclusivo, mas, como vimos, desenvolveram um considerável império durante o período do segundo mapa e invadiram a grande “Cidade dos Portais Dourados”. Entretanto, acabaram sendo obrigados a recuar diante do crescente poder dos acadianos.

Foi no período do terceiro mapa, cerca de 100.000 anos atrás, que os acadianos afinal derrotaram o poderio semita. Essa sexta sub-raça era um povo muito mais obediente às leis do que seus predecessores. Mercadores e navegadores, viviam em comunidades sedentárias e, naturalmente, criaram uma forma oligárquica de governo. Uma de suas características, da qual Esparta é o único exemplo recente, era o sistema dual de governo, onde dois reis governam a mesma cidade. Talvez em consequência de sua aptidão naval, o estudo das estrelas tomou-se uma atividade característica, tendo essa raça realizado grandes progressos na astronomia e na astrologia.

O povo mongólico foi um aperfeiçoamento de seus vizinhos ancestrais, originários do selvagem tronco turaniano. Nascidos, como eram, nas vastas estepes da Sibéria Oriental, nunca tiveram qualquer contato com o continente-mãe e, sem dúvida por causa de seu ambiente, tornaram-se um povo nômade. Mais psíquicos e mais religiosos do que os turanianos, de quem descendiam, a forma de governo para a qual tenderam exigia um suserano que exercesse o poder supremo, não só como governante territorial mas também como sumo sacerdote.

Emigrações

Três causas contribuíram para provocar as emigrações. A raça turaniana, como vimos, estava, desde sua origem, imbuída do espírito de colonização, o que ela levou a cabo numa escala considerável. Também os semitas e acadianos eram, até certo ponto, raças colonizadoras.

Com o passar do tempo, a população também tendia cada vez mais a ultrapassar os limites de subsistência. Por conseguinte, a miséria se instalava, de modo semelhante, entre os menos prósperos de cada raça, que se viram obrigados a procurar um meio de vida em países menos populosos. Deve-se ter em mente que, quando os atlantes atingiram seu apogeu na era tolteca, a proporção de habitantes por quilômetro quadrado no continente da Atlântida provavelmente era comparável, embora não excedesse, à que se verifica atualmente na Inglaterra e Bélgica. De qualquer modo, é claro que os espaços vagos disponíveis para colonização eram mais abundantes naquela época do que na nossa, embora a população total do mundo – que no momento [1986], não deve ser superior a 1,2 ou 1,5 bilhão de habitantes – atingisse naqueles dias a grande cifra de aproximadamente 2 bilhões de habitantes.

Por fim, havia as emigrações lideradas por sacerdotes, que ocorreram antes de cada catástrofe – e as quatro grandes catástrofes, acima mencionadas, não foram as únicas. Os reis e sacerdotes Iniciados que observavam a “boa lei” estavam, de antemão, cientes das calamidades iminentes. Portanto, cada um deles tornou-se um centro de advertência profética, acabando por liderar grupos de colonizadores. Deve-se observar aqui que, nos últimos dias, os governantes do país indignaram-se profundamente com essas emigrações lideradas pelos sacerdotes, as quais tendiam a empobrecer e despovoar seus reinos, e os emigrantes eram obrigados a embarcar secretamente durante a noite.

Acompanhando, mais ou menos, as rotas de emigração que, sucessivamente, foram seguidas por cada sub-raça, inevitavelmente acabaremos chegando às terras que seus respectivos descendentes hoje ocupam.

Quanto às emigrações mais antigas, temos de recuar até a época dos rmoahals. É preciso lembrar que apenas a porção da raça que habitava as costas nordésteas conservava seu sangue puro. Atacados em suas fronteiras meridionais e expulsos mais para o norte pelos guerreiros tlavatlis, começaram a penetrar no território vizinho, situado a leste, e no promontório da Groenlândia, que ficava mais próximo ainda. No período do segundo mapa, não havia mais nenhum rmoahal de sangue puro no já então reduzido continente-mãe, mas o promontório setentrional do continente, que se erguia a oeste, bem como o já mencionado cabo da Groenlândia e o litoral ocidental da grande ilha escandinava estavam ocupados por eles. Havia também uma colônia, na região situada ao norte do mar asiático central.

Naquele tempo, a Grã-Bretanha e a Picardia faziam parte da ilha escandinava, embora a própria ilha se tornasse, no período do terceiro mapa, parte do crescente continente europeu. Atualmente, é na França que os restos mortais desta raça têm sido encontrados, nos estratos quaternários, e o espécime braquicéfalo, de cabeça arredondada, conhecido como o “homem de Furfooz”, pode ser considerado como uma degeneração do tipo da raça em seu declínio.

Muitas vezes obrigados, devido às inclemências de uma época glacial, a se dirigirem para o sul, muitas vezes impelidos para o norte pela ganância de seus vizinhos mais poderosos, os remanescentes dessa raça, dispersos e degradados, podem ser encontrados hoje entre os atuais lapões, embora mesmo neste caso tenha havido uma mistura de sangue. Contudo, estes enfraquecidos e atrofiados espécimes da Humanidade são descendentes diretos da raça negra de gigantes que surgiu nas terras equatoriais da Lemúria, há quase cinco milhões de anos.

Os colonizadores tlavatlis parecem ter se espalhado por todas as direções. No período do segundo mapa, seus descendentes estavam instalados nas costas ocidentais do então crescente continente americano (Califórnia), bem como nas costas do extremo sul (Rio de Janeiro). Também podemos encontrá-los nas regiões litorâneas orientais da ilha escandinava, embora muitos deles se tivessem aventurado pelo oceano, contornando a costa da África e alcançando a índia, onde, num processo de miscigenação com a população indígena lemuriana, formaram a raça dravídica. Mais tarde, essa raça misturou-se, por sua vez, com a raça árica, ou quinta raça, de onde a complexidade tipológica encontrada hoje na índia. De fato, temos aqui um claro exemplo da dificuldade extrema de decidir qualquer questão de raça pela evidência meramente física, pois seria perfeitamente possível que egos da quinta raça encarnassem entre os brâmanes, egos da quarta raça entre as castas inferiores, e alguns retardatários da terceira raça entre as tribos montesas.

No período do quarto mapa, encontramos uma nação tlavatli ocupando as regiões meridionais da América do Sul, de onde se pode deduzir que os patagônios provavelmente tiveram uma remota ascendência tlavatli.

Restos mortais dessa raça, assim como dos rmoahals, têm sido encontrados nos estratos quaternários da Europa central, e o doli-cocéfalo “homem de Cro-Magnon”* pode ser considerado um típico espécime da raça em sua decadência, ao passo que os “povos lacustres” da Suíça constituíam um ramo ainda mais primitivo e não totalmente puro. Atualmente, os únicos povos que podem ser citados como espécimes de sangue razoavelmente puro dessa raça são algumas tribos pardas de índios da América do Sul. Os birmaneses e siameses também possuem sangue tlavatli nas veias, embora tenham se misturado com a estirpe mais nobre de uma das sub-raças ancas, cujo sangue é, portanto, dominante.

Chegamos, assim, aos toltecas. Eles emigraram sobretudo para o oeste. As costas próximas do continente americano estavam, no período do segundo mapa, povoadas por uma raça tolteca pura, enquanto a maioria dos que permaneceram no continente-mãe tinha o sangue muito misturado. Foi nos continentes da América do Norte e do Sul que essa raça se disseminou e floresceu; aí, milhares de anos mais tarde, os impérios do México e do Peru seriam fundados. A grandeza desses impérios é um assunto da História, ou ao menos da tradição, que tem à sua disposição inúmeras evidências, entre as quais as magníficas ruínas arquitetônicas. Pode-se notar aqui que, embora o império mexicano tenha sido, durante séculos, vasto e poderoso em todos os aspectos que nossa civilização atual considera como tal, ele nunca atingiu o apogeu alcançado pelos peruanos há cerca de 14.000 anos, sob o governo dos soberanos inças. No que diz respeito ao bem-estar geral do povo, à justiça e beneficência do governo, à divisão igualitária da posse da terra e à vida simples e religiosa dos habitantes, o império peruano daquela época poderia ser considerado como um eco tradicional, porém débil, da idade de ouro dos toltecas no continente-mãe da Atlântida.

O índio pele-vermelha típico da América do Norte ou do Sul, é o melhor representante atual do povo tolteca, mas naturalmente não se compara ao indivíduo altamente civilizado da raça em seu apogeu.

O Egito deve ser agora mencionado, e o estudo dessa matéria deve fornecer um importante esclarecimento a respeito de sua primitiva história. Embora o primeiro povoamento desse país não tenha sido, no sentido estrito da palavra, uma colônia, foi da raça tolteca que, posteriormente, foi aliciado o primeiro grande contingente de emigrantes, destinados a se misturarem com o povo aborígine e a dominá-lo.

Em primeiro lugar, houve a transferência de uma grande Loja de Iniciação, cerca de 400.000 anos atrás. A idade de ouro dos toltecas há muito terminara. A primeira grande catástrofe já ocorrera. A degradação moral do povo e a conseqüente prática das “magias negras” estavam se tornando mais acentuadas e se disseminavam por toda parte. Fazia-se necessário um ambiente mais puro para a Loja Branca. O Egito estava isolado e sua população era escassa. Por isso, foi escolhido. A colonização servia, assim, ao seu propósito e, não perturbada por condições adversas, a Loja de Iniciados realizou seu trabalho por, aproximadamente, 200.000 anos.

Cerca de 210.000 anos atrás, no tempo propício, a Loja Oculta fundou um império – a primeira “Dinastia Divina” do Egito – e principiou a ensinar o povo. Foi então que o primeiro grande grupo de colonizadores foi trazido da Atlântida e, em alguma época, durante os 10.000 anos que precederam a segunda catástrofe, as duas grandes pirâmides de Giseh foram construídas, em parte para proporcionar Salas de Iniciação permanentes, mas também para atuar como casa do tesouro e santuário de algum grande talismã de poder durante a submersão, que os Iniciados sabiam ser iminente. O Mapa nº 3 retrata o Egito nessa época, submerso. E ele assim permaneceu por um considerável período, mas quando tornou a emergir foi outra vez povoado pelos descendentes de muitos de seus antigos habitantes, que tinham se refugiado nas montanhas abissínias (que no Mapa D- 3 aparecem como uma ilha), bem como por novos grupos de colonos atlantes, vindos de várias regiões do mundo. Uma considerável imigração de acadianos ajudou, então, a alterar o tipo egípcio. Esta é a era da segunda “Dinastia Divina” do Egito – na qual os Adeptos Iniciados foram, novamente, os governantes do país.

A catástrofe de 80.000 anos atrás deixou, uma vez mais, o país submerso, mas dessa vez foi apenas uma onda temporária. Quando esta refluiu, a terceira “Dinastia Divina” – mencionada por Maneio — começou seu governo, e foi durante o reinado dos primeiros reis dessa dinastia que o grande templo de Karnak, e uma grande parte das mais antigas construções que ainda podem ser vistas no Egito, foram erigidas. Na verdade, excetuando-se as duas pirâmides, nenhuma outra construção no Egito é anterior à catástrofe de 80.000 anos atrás.

A submersão definitiva de Posseidones fez com que um outro vagalhão atingisse o Egito. Essa calamidade também foi apenas temporária, mas pôs fim às “Dinastias Divinas”, pois a Loja de Iniciados transferira suas sedes para outras terras.

Vários aspectos não mencionados aqui já foram tratados em Transaction of the London Lodge, “The Pyramids and Stonehenge”.

Os turanianos, que no período do primeiro mapa colonizaram as regiões setentrionais do território situado logo a leste da Atlântida, ocuparam, no período do segundo mapa, suas regiões litorâneas meridionais (que incluíam o Marrocos e a Argélia atuais). Também vamos encontrá-los vagando em direção ao oriente, povoando tanto as costas ocidentais como orientais do mar asiático central. Finalmente, seus grupos deslocaram-se ainda mais para o leste e, nos dias de hoje, o chinês do interior é o tipo que mais se aproxima dessa raça. Um curioso capricho do destino, a respeito de uma das ramificações ocidentais desta raça, deve ser mencionado. Apesar de dominados durante séculos pelos seus vizinhos toltecas, mais poderosos, estava reservado a um pequeno ramo do tronco turaniano a conquista e a ocupação do último grande império construído pelos toltecas, pois os brutais e pouco civilizados astecas possuíam o puro sangue turaniano.

Houve dois tipos de emigrações semitas: primeiro, as motivadas pelo impulso natural da raça; segundo, aquela emigração especial, efetuada sob direta orientação do Manu; pois, por mais estranho que possa parecer, o núcleo destinado a ser desenvolvido na nossa grande raça árica, ou quinta raça, não foi escolhido dentre os toltecas, mas sim, entre os dessa sub-raça violenta e anárquica, embora vigorosa e energética. A razão, sem dúvida alguma, repousa na característica manásica, com a qual o número 5 é sempre associado. A sub-raça desse número foi inevitavelmente desenvolvendo o poder e a inteligência de seu cérebro físico, embora à custa das percepções psíquicas; contudo, esse desenvolvimento do intelecto, em níveis infinitamente mais elevados, é ao mesmo tempo a glória e a meta prefixada de nossa quinta raça-raiz.

Analisando, em primeiro lugar, as emigrações naturais, constatamos que, no período do segundo mapa, enquanto ainda restavam nações poderosas no continente-mãe, os semitas espalharam-se tanto para o oeste como para o leste – a oeste, para as terras que hoje formam os Estados Unidos, explicando o porquê de o tipo semítico ser encontrado em algumas das raças índias; e a leste, para as costas setentrionais do continente vizinho, que formava tudo o que então havia da Europa, da África e da Ásia. O tipo dos egípcios antigos, bem como de outras nações adjacentes, foi, até certo ponto, alterado por essa linhagem semita original; contudo, com exceção dos judeus, os cabilas menos escuros das montanhas argelinas são, no momento, os únicos representantes da raça relativamente pura.

As tribos resultantes da segregação efetuada pelo Manu para a formação da nova raça-raiz finalmente encontraram seu caminho para as regiões litorâneas meridionais do mar asiático central, onde foi fundado o primeiro grande reino árico. Quando o Relatório acerca da origem de uma raça-raiz for escrito, verificar-se-á que muitos dos povos aos quais costumeiramente chamamos semíticos, na verdade são, quanto ao sangue, áricos. O mundo também será esclarecido a respeito do que consiste a reivindicação dos hebreus de serem considerados um “povo escolhido”. Em poucas palavras, pode-se afirmar que eles representam um vínculo anormal e artificial entre as quarta e quinta raças-raízes.

Os acadianos, apesar de se tornarem, finalmente, os governantes supremos no continente-mãe da Atlântida, originaram-se, como vimos no período do segundo mapa, no continente vizinho – seu habitat específico ficava na região ocupada pela bacia do Mediterrâneo, mais ou menos onde atualmente fica a ilha da Sardenha. A partir deste centro, avançaram para o oriente, ocupando as regiões que, posteriormente, formaram as costas do Levante, e chegaram até a Pérsia e a Arábia. Como já vimos, eles também ajudaram a povoar o Egito. Os antigos etruscos, os fenícios, incluindo os cartagineses e os sumério-acadianos, eram ramificações desta raça, embora os bascos de hoje, provavelmente, tenham uma porcentagem bem maior de sangue acadiano correndo em suas veias.

Uma referência aos antigos habitantes de nossas ilhas pode ser oportuna aqui, pois foi na primitiva era acadiana, cerca de 100.000 anos atrás, que a colônia dos Iniciados, que fundaram Stonehenge, desembarcaram nessas praias – sendo “essas praias”, naturalmente, as praias da parte escandinava do continente da Europa, como demonstra o Mapa nº 3. Parece que os sacerdotes iniciados e seus discípulos pertenciam a uma linhagem bastante antiga da raça acadiana – eram mais altos, mais bonitos e mais espertos do que os aborígines da região, que eram uma raça muito miscigenada e, em sua grande maioria, remanescentes degenerados dos rmoahals. Como os leitores do Transaction of the London Lodge, em “Pyramids and Stonehenge”, devem saber, a rude simplicidade de Stonehenge foi planejada para servir de protesto contra os ornamentos extravagantes e a exagerada decoração dos templos existentes na Atlântida, onde os habitantes prosseguiam com o degradante culto de suas próprias imagens.

Os mongóis, como vimos, nunca tiveram nenhum contato com o continente-mãe. Nascidos nas vastas planícies da Tartána, durante muito tempo suas emigrações se limitaram às grandes extensões dessas regiões; por mais de uma vez, porém, tribos de origem mongólica atravessaram o estreito de Bering, passando, assim, do norte da Ásia para a América. A última dessas emigrações – a dos k’i-tans, há uns 1.300 anos – deixou rastos, que alguns cientistas ocidentais puderam seguir. A presença de sangue mongol em algumas tribos de índios norte-americanos também foi admitida por vários etnólogos. Sabe-se que tanto os húngaros como os malaios são ramificações dessa raça, enobrecida, no primeiro caso, por uma estirpe de sangue árico, degradada, no segundo, pela miscigenação com os exaustos lemurianos. Contudo, o fato interessante sobre os mongóis é que seus últimos descendentes ainda estão em pleno vigor – na verdade, ainda não atingiram seu apogeu – e a nação japonesa ainda tem muita história a oferecer ao mundo.

* Os estudiosos de geologia e paleontologia devem saber que essas ciências consideram o “homem de Cro-Magnon” anterior ao “homem de Furfooz”, e considerando-se que essas duas raças seguiram lado a lado, por vastos períodos de tempo, pode muito bem ser possível que o esqueleto do indivíduo de “Cro-Magnon”, embora representativo da segunda raça, tenha se sedimentado nos estratos quaternários milhares de anos antes que o “homem de Furfooz” vivesse na Terra.

Artes e Ciências

Deve-se, antes de tudo, reconhecer que nossa própria raça árica tem, naturalmente, conquistado resultados muito maiores, em quase todos os campos de atividade, do que os atlantes. No entanto, mesmo onde eles fracassaram em alcançar o nosso nível, o relato de seus feitos serve para demonstrar o alto grau de desenvolvimento atingido pela sua civilização. Por outro lado, a qualidade de suas conquistas científicas, nas quais nos excederam, são de uma natureza tão deslumbrante que não podemos deixar de nos surpreender diante desse desenvolvimento desproporcional.

As artes e ciências, tal como praticadas pelas duas primeiras raças, eram, naturalmente, bastante rudimentares, mas não é nosso propósito seguir o progresso alcançado por cada sub-raça em separado. A história da raça atlante, bem como da raça árica, foi entremeada com períodos de progresso e de decadência. Às épocas de cultura seguiram-se períodos anárquicos, durante os quais todo o desenvolvimento artístico e científico se perdia, e esses períodos eram, por sua vez, sucedidos por civilizações que atingiam níveis ainda mais elevados. Naturalmente, serão desses períodos de cultura que tratarão as observações seguintes, entre os quais se distingue, sobretudo, a grande era tolteca.

A arquitetura, a escultura, a pintura e a música eram praticadas na Atlântida. A música, mesmo nos períodos de maior brilho, era rudimentar e os instrumentos bastante primitivos. Todas as raças atlantes gostavam das cores, e matizes brilhantes decoravam o interior e o exterior de suas casas. Contudo, a pintura, enquanto arte pura, nunca se firmou realmente, embora se ensinasse, nos últimos dias, algum tipo de desenho e pintura nas escolas. Por outro lado, a escultura, que também era ensinada nas escolas, era muito praticada e sua qualidade foi excepcional. Como veremos mais adiante, na seção destinada à “Religião”, tornou-se uma prática comum, desde que se tivesse recursos para tanto, colocar num dos templos uma imagem de si próprio. Essas imagens eram, algumas vezes, esculpidas em madeira ou numa pedra resistente e escura, semelhante ao basalto; entre os ricos, porém, tornou-se moda esculpir suas estátuas em metais preciosos, tais como o oricalco, o ouro ou a prata. Geralmente, conseguia-se uma imagem razoável do indivíduo e, em alguns casos, alcançava-se uma semelhança notável.

Contudo, a arquitetura era, sem dúvida, uma das artes mais praticadas. Suas construções consistiam em estruturas maciças, de proporções gigantescas. As moradias nas cidades não eram como as nossas, compactamente aglomeradas nas ruas, uma ao lado da outra. Do mesmo modo que suas casas rurais, algumas erguiam-se cercadas por jardins, outras separadas por lotes de terrenos comuns, mas todas eram estruturas isoladas. No caso dos edifícios mais importantes, quatro blocos circundavam um pátio central, no meio do qual geralmente erguia-se uma das fontes, cuja quantidade na “Cidade dos Portais Dourados” fez com que esta recebesse uma segunda denominação, a de “Cidade das Águas”. Não havia, como hoje, mercadorias expostas nas ruas para venda. Todas as transações de compra e venda eram efetuadas de modo particular, exceto em datas estabelecidas, quando se realizavam grandes feiras públicas nos espaços livres das cidades. Todavia, a principal característica da habitação tolteca era a torre que se erguia em um dos cantos ou no centro de um dos blocos. Uma escada espiral, construída do lado externo, conduzia aos andares superiores, e uma cúpula pontiaguda encimava a torre – esta parte mais elevada geralmente era usada como observatório. Como já foi mencionado, as casas eram decoradas com cores brilhantes. Algumas eram ornamentadas com esculturas, outras com afrescos ou desenhos decorativos. Os espaços das janelas eram preenchidos com algum artigo Manufaturado, semelhante ao vidro, mas menos transparente. Os interiores não eram guarnecidos com os elaborados detalhes de nossas habitações modernas, mas a vida era altamente civilizada em seu gênero.

Os templos eram edifícios enormes, assemelhando-se, mais do que quaisquer outros, às gigantescas construções egípcias, porém construídos num estilo ainda mais prodigioso. As colunas que sustentavam o teto raramente eram circulares, sendo, em sua maioria, quadradas. Na época da decadência, os corredores estavam rodeados por inúmeras capelas, onde se encontravam as estátuas dos habitantes mais importantes. Essas capelas laterais eram às vezes de um tamanho considerável, a fim de comportar toda uma comitiva de sacerdotes, que alguns homens especialmente importantes tinham a seu serviço para o culto cerimonial de sua imagem. Tal como as residências particulares, os templos nunca estavam completos sem as torres encimadas por domos, que naturalmente guardavam suas respectivas proporções em tamanho e magnificência. Elas eram utilizadas como observatórios astronômicos e para o culto do sol.

Os metais preciosos eram muito usados na decoração dos templos, cujos interiores eram freqüentemente não apenas marchetados mas chapeados de ouro. Valorizava-se altamente o ouro e a prata mas, como veremos mais adiante, ao abordarmos o assunto da moeda corrente, a finalidade do uso desses metais era artística e nada tinha que ver com o sistema monetário, embora a enorme quantidade então fabricada pelos químicos – ou devíamos hoje em dia chamá-los alquimistas -, deva tê-los afastado da categoria de metais preciosos. Esse poder de transmutação de metais não era universal, mas era tão largamente conhecido que se fabricavam enormes quantidades. Na verdade, a fabricação dos metais almejados pode ser considerada como um dos empreendimentos industriais daquela época, através dos quais os alquimistas ganhavam a vida. O ouro era bem mais admirado do que a prata e, conseqüentemente, fabricado numa escala muito maior.

Educação

Algumas palavras acerca do idioma introduzirá adequadamente um comentário a respeito da instrução ministrada nas escolas e nas faculdades da Atlântida. Durante o período do primeiro mapa, o tolteca era a língua universal, não apenas em todo o continente, mas também nas ilhas ocidentais e naquela porção do continente oriental que reconhecia o governo do imperador. Vestígios dos idiomas rmoahal e tlavatli sobreviviam, é verdade, em regiões remotas, assim como os idiomas celta e galês sobrevivem hoje entre nós, na Irlanda e no País de Gales. A língua tlavatli foi a base usada pelos turanianos, que introduziram tantas modificações que, com o tempo, criaram uma língua inteiramente diversa; por sua vez, os semitas e acadianos, adotando uma base tolteca, modificaram-na, cada um a seu modo, e criaram, assim, duas variações divergentes. Desse modo, nos últimos dias de Posseidones, havia várias línguas inteiramente distintas – embora todas pertencessem a um tipo aglutinante -, pois só na época da quinta raça é que os descendentes dos semitas e acadianos desenvolveram uma língua flexiva. Entretanto, através de todas as épocas, a língua tolteca manteve razoavelmente sua pureza, e o mesmo idioma falado na Atlântida, na época de seu esplendor, foi usado, com ligeiras alterações, milhares de anos mais tarde, no México e no Peru.

As escolas e faculdades da Atlântida, na grande era tolteca, bem como nos posteriores períodos de cultura, eram mantidas pelo Estado. Embora se exigisse que todas as crianças passassem pelas escolas primárias, a educação subsequente diferia bastante. As escolas primárias constituíam uma espécie de processo de seleção. As crianças que demonstrassem verdadeira aptidão para o estudo, juntamente com as crianças das classes dominantes, que naturalmente possuíam maiores habilidades, eram escolhidas para as escolas superiores, mais ou menos com doze anos de idade. A leitura e a escrita, consideradas como simples preliminares, já lhes tinham sido ensinadas nas escolas primárias.

Mas a leitura e a escrita não eram consideradas necessárias à maioria dos habitantes, que tinham de passar a vida cultivando a terra, ou então nos ofícios Manuais, cuja prática era requerida pela comunidade. Por essa razão, a grande maioria das crianças era imediatamente conduzida às escolas técnicas que melhor conviessem às suas diversas aptidões. Entre as escolas técnicas, as principais eram as agrícolas. Alguns ramos da mecânica também faziam parte da educação, ao passo que nas regiões mais afastadas e próximas do litoral incluíam-se a caça e a pesca. Desse modo, todas as crianças recebiam a educação ou treinamento que lhes fosse mais apropriado.

As crianças com aptidões superiores que, como vimos, tinham aprendido a ler e a escrever, recebiam uma educação mais elaborada. As propriedades das plantas e suas qualidades de cura constituíam um importante ramo de estudo. Nessa época não havia médicos reconhecidos como tais – todo homem Instruído sabia alguma coisa de medicina, bem como de cura magnética. Também ensinavam-se química, matemática e astronomia. O treinamento nessas matérias en- contra sua analogia entre nós, mas o objetivo para o qual os esforços dos professores se dirigiam era o desenvolvimento das faculdades psíquicas dos alunos e sua instrução acerca das forças ocultas da Natureza. As propriedades ocultas das plantas, dos metais e das pedras preciosas, bem como os processos alquímicos de transmutação, estavam incluídos nessa categoria. Com o passar do tempo, porém, isso tornou-se cada vez mais o poder individual, ao qual Bulwer Lytton dá o nome de vril, descrevendo exatamente sua ação em The Corning Roce, que as faculdades destinadas ao ensino superior dos jovens da Atlântida ocupavam-se particularmente em desenvolver. A mudança marcante, ocorrida por ocasião da decadência da raça, consistiu em que, em vez de o mérito e a aptidão serem considerados decisivos para a promoção aos mais altos graus de instrução, as classes dominantes, que se tomavam cada vez mais exclusivistas, apenas permitiam que seus próprios filhos se graduassem no mais alto nível de ensino, o que lhes proporcionava um grande poder.

Num império como o dos toltecas, era natural que a agricultura recebesse especial atenção. Não só os trabalhadores aprendiam seu ofício nas escolas técnicas, como também havia faculdades onde se ministrava, aos estudantes habilitados, o conhecimento necessário para levar a cabo experiências de cruzamentos de animais e de plantas.

Como os leitores de literatura teosófica devem saber, o trigo não tem sua origem neste planeta. Foi uma dádiva do Manu, que o trouxe de outro planeta, situado além de nosso sistema solar. Mas a aveia e alguns de nossos outros cereais são resultados dos cruzamentos entre o trigo e as ervas nativas da terra. Ora, as experiências que produziram esses resultados foram realizadas nas escolas agrícolas da Atlântida. Essas experiências foram, sem dúvida, orientadas por um conhecimento superior. Contudo, a mais notável façanha dos agricultores atlantes foi o desenvolvimento da pacobeira ou bananeira. No seu estado selvagem original, ela era um melão alongado, com pouquíssima polpa, porém repleta de sementes, como é o caso do melão. Naturalmente, só após séculos (se não milhares de anos) de continua seleção e eliminação que a atual planta sem sementes foi desenvolvida.

Entre os animais domesticados da era tolteca, havia uma espécie semelhante a uma anta muito pequena. Naturalmente, alimentava-se de raízes ou ervas; mas, como os porcos de hoje, com os quais se assemelhavam em vários aspectos, não era lá muito limpo e comia tudo o que aparecesse em seu caminho. Animais maiores, semelhantes ao gato, e ancestrais do cachorro, parecidos com um lobo, também podiam ser encontrados ao redor das habitações humanas. Parece que os carros toltecas eram puxados por animais um pouco parecidos com pequenos camelos. Os atuais lhamas peruanos provavelmente são seus descendentes. Os ancestrais do alce irlandês também vagavam pelas encostas dos morros, do mesmo modo que nosso gado montanhês, demasiado selvagem para permitir uma aproximação fácil mas, mesmo assim, sob o controle do homem.

Constantes experiências eram feitas relativas à criação e ao cruzamento de diferentes espécies de animais e, por mais curioso que nos possa parecer, o calor artificial era muito utilizado para estimular seu desenvolvimento a fim de que os resultados do cruzamento de raças e da hibridação pudessem ser verificados num espaço de tempo mais curto. Também foi adotado o uso de diferentes luzes coloridas nos compartimentos onde se realizavam essas experiências, a fim de se obter resultados variados.

Esse controle e moldagem das formas animais, sujeitos à vontade humana, leva-nos a um tema bastante surpreendente e muito misterioso. Já mencionamos o trabalho realizado pelos Manus. Pois bem, é na mente do Manu que se originam todos os aperfeiçoamentos no tipo e as potencialidades latentes em cada forma de vida. A fim de desenvolver minuciosamente os aperfeiçoamentos nas formas de vida animal, a ajuda e a cooperação do homem foram requeridas. As espécies anfíbias e os répteis, que então existiam em abundância, tinham quase completado seu curso e estavam prontas para adotar a forma de um tipo mais desenvolvido, pássaro ou mamífero. Essas formas constituíam a matéria-prima rudimentar que se encontrava à disposição do homem, e a argila estava pronta para assumir qualquer formato que as mãos do oleiro conseguissem moldar. As experiências acima mencionadas foram empreendidas principalmente com os animais que se encontravam num estágio intermediário; e, sem dúvida, os animais domesticados, tal como o cavalo, que hoje prestam tanto serviço ao homem, são o resultado dessas experiências, nas quais os homens daquela época aluaram em cooperação com o Manu e seus ministros. Todavia, não demorou para que essa cooperação se desfizesse. O egoísmo acabou prevalecendo, e a guerra e a discórdia puseram fim à Idade de Ouro dos toltecas. No momento em que os homens, em vez de trabalharem lealmente, com o mesmo objetivo, sob a orientação de seus reis Iniciados, começaram a se atacar mutuamente, os animais que, sob os cuidados do homem, poderiam assumir aos poucos formas cada vez mais úteis e domesticadas, abandonados à orientação de seus próprios instintos, acabaram seguindo o exemplo de seus monarcas e começaram a se atacar. Na verdade, alguns já haviam sido treinados e utilizados pelos homens em suas expedições de caça; assim, os animais semidomesticados semelhantes ao gato, acima mencionados, tornaram-se naturalmente os ancestrais do leopardo e do jaguar.

Um exemplo daquilo que algumas pessoas podem se sentir tentadas a considerar uma teoria fantástica, que embora não venha talvez elucidar a questão, chamará pelo menos a atenção para a moral encerrada neste suplemento ao nosso conhecimento quanto ao modo misterioso pelo qual se deu nossa evolução. Parece que o leão poderia ter uma natureza mais dócil e um aspecto menos feroz se os homens dessa época tivessem concluído a tarefa que lhes fora dado executar. Se ele está ou não destinado a, finalmente, “deitar-se com o cordeiro e a comer palha como o boi”, o destino que lhe estava reservado, tal como foi imaginado por Manu, ainda não tinha sido realizado, pois a imagem era a de um animal possante, porém domesticado – um animal forte, com a espinha dorsal em linha horizontal, olhos grandes e inteligentes, projetado para atuar como um servo muito possante do homem em trabalhos de tração.

A “Cidade dos Portais Dourados” e seus arredores devem ser descritos antes de passarmos à apreciação do maravilhoso sistema pelo qual seus habitantes se supriam de água. Situava-se, como já vimos, na costa oriental do continente, próxima do mar, e cerca de 15° ao norte do equador. Um campo lindamente arborizado, semelhante a um parque, circundava a cidade. Espalhadas por uma ampla área dessa região ficavam as casas de campo das classes mais abastadas. A oeste, estendia-se uma cadeia de montanhas, de onde vinha a água que abastecia a cidade. A própria cidade foi construída nas encostas de uma colina que se erguia cerca de 152 m acima da planície. No topo dessa colina ficava o palácio e os jardins do imperador, de cujo centro jorrava da terra um fluxo incessante de água, que, depois de abastecer o palácio e as fontes dos jardins, fluía em todas as direções, despencando em forma de cachoeiras e formando um canal ou fosso que circundava as terras adjacentes ao palácio, separando-as, assim, da cidade, que se estendia mais abaixo, em cada face da colina. A partir desse canal, quatro regos conduziam a água, passando pelas quatro zonas da cidade, até as cachoeiras que, por sua vez, formavam outro canal circundante, situado num nível mais baixo. Havia três desses canais dispostos em círculos concêntricos, entre os quais o mais exterior e inferior ainda se encontrava acima do nível da planície. Um quarto canal situado nesse nível mais inferior, porém com um traçado retangular, recebia os constantes fluxos de água e, por seu turno, despejava-os no mar. A cidade alcançava uma parte da planície, estendendo-se até a margem desse enorme fosso mais exterior, que a circundava e a defendia através de uma linha de pequenos canais, cuja extensão abrangia uns 200 km2.

Veremos, assim, que a cidade se dividia em três grandes zonas, cada uma cercada por seus canais. A zona mais alta, abaixo dos jardins do palácio, caracterizava-se por uma pista circular de corridas e amplos jardins públicos. A maioria das casas dos funcionários da corte também ficava nessa zona, onde havia ainda uma instituição da qual não temos paralelo nos tempos modernos. O termo “Casa dos Estrangeiros”, entre nós, dá uma impressão de desprezo e sugere um ambiente sórdido; tratava-se, porém, de um palácio que hospedava todos os estrangeiros que porventura chegassem à cidade, onde eram tratados, pelo tempo que desejassem ficar, como hóspedes do Governo. As casas separadas dos habitantes e os diversos templos espalhados pela cidade ocupavam as outras duas zonas. No período áureo da civilização tolteca, parece não ter havido uma pobreza propriamente dita – até mesmo os escravos que, em grande número, estavam à disposição de quase todas as famílias, alimentavam-se e vestiam-se muito bem – mas havia algumas famílias relativamente pobres, que moravam ao norte da zona mais baixa, bem como além dos limites do canal mais exterior, perto do mar. Os habitantes dessa região dedicavam-se, em sua grande maioria, à navegação, e suas casas, embora separadas, eram construídas mais perto umas das outras do que nas demais regiões.

Pode-se deduzir, do que foi dito acima, que os habitantes dispunham de um abundante estoque de água pura e limpa, que circulava incessantemente por toda a cidade, enquanto as zonas mais altas e o palácio do imperador eram protegidos por uma série de fossos, cada um num nível mais alto que o outro à medida que se aproximavam do centro.

Assim sendo, não é necessário um conhecimento profundo de mecânica para perceber quão estupendas devem ter sido as obras necessárias para fornecer esse abastecimento, pois a “Cidade dos Portais Dourados”, em seu período áureo, abrigava, dentro do espaço compreendido por seus quatro fossos circulares, mais de dois milhões de habitantes. Nenhum sistema semelhante de abastecimento de água foi alguma vez empreendido, quer na Grécia, em Roma, ou mesmo nos tempos modernos – de fato, é bastante duvidoso que nossos mais hábeis engenheiros, mesmo às custas de imensas fortunas, conseguissem produzir tal resultado.

Será interessante descrever algumas de suas principais características. O abastecimento era extraído de um lago situado entre as montanhas a oeste da cidade, numa altitude acima de 792 m. O aqueduto principal, que era de seção oval e media 15 m por 9 m, levava a água, através do subsolo, a um enorme reservatório em forma de coração, situado bem abaixo do palácio – na verdade, na própria base da colina onde se erguiam a cidade e o palácio. A partir desse reservatório, um poço perpendicular, com cerca de 152 m de altura, atravessava a rocha maciça e dava passagem à água, que jorrava nos jardins do palácio, de onde era distribuída por toda a cidade. Do reservatório central, também partiam diversos canos, destinados a fornecer água potável e a suprir as fontes públicas de vários setores da cidade. Naturalmente, também havia sistemas de comportas para controlar ou interromper o abastecimento das diferentes regiões.

Pelo acima mencionado, qualquer pessoa com algum conhecimento de mecânica deduzirá que a pressão no aqueduto subterrâneo e no reservatório central, de onde a água naturalmente subia até o pequeno lago nos jardins do palácio, devia ser enorme e, por conseguinte, o poder de resistência do material utilizado na sua construção era extraordinário.

Se o sistema de abastecimento de água na “Cidade dos Portais Dourados” era maravilhoso, deve-se admitir que os métodos atlantes de locomoção eram muito mais magníficos, pois era utilizado uma espécie de veículo-voador, embora não fosse um meio de transporte público que pudesse ser usado a qualquer hora. Os escravos, os servos e as classes inferiores, cujo trabalho era Manual, tinham de percorrer a pé as rotas que levavam à zona rural, ou fazer esse percurso em carroças primitivas, de rodas grossas, puxadas por estranhos animais. Os barcos aéreos podem ser considerados como os transportes particulares dessa época, ou melhor, os iates particulares, levando-se em conta o número relativo dos que os possuíam, pois a produção desses veículos deve ter sido sempre difícil e dispendiosa. Por via de regra, não eram planejados para acomodar muitas pessoas. Muitos deles eram construídos com apenas dois lugares; outros tinham espaço para seis ou oito passageiros. Nos últimos dias, quando a guerra e a discórdia puseram fim à Idade de Ouro, navios de guerra aéreos substituíram em grande escala os navios de guerra normais – à medida que o potencial de destruição daqueles revelou-se muito mais eficaz. Esses navios eram planejados para transportar o equivalente a cinqüenta combatentes e, em alguns casos, comportavam até cem homens.

O material com que esses barcos aéreos eram construídos era madeira ou metal. Os primeiros foram construídos de madeira – as tábuas utilizadas eram muitíssimo finas, mas a injeção de alguma substância, que, embora não lhes aumentasse materialmente o peso, fornecia-lhes uma resistência análoga à do couro, proporcionava a necessária combinação de leveza e rijeza. Quando o metal foi utilizado, geralmente era uma liga – dois metais brancos e um vermelho entravam nessa mistura. O resultado era um metal branco, semelhante ao alumínio, e até mesmo mais leve no peso. Sobre a estrutura básica do barco aéreo estendia-se uma folha grande desse metal, que, em seguida, era ajustada à forma e, onde necessário, soldada eletricamente. Contudo, quer fossem construídos de metal ou de madeira, a superfície exterior era aparentemente inconsútil e perfeitamente lisa; além disso, brilhavam no escuro, como se tivessem sido revestidos por uma tinta fosforescente.

Quanto à forma, assemelhavam-se a um barco, mas eram invariavelmente cobertos, pois, quando no auge da velocidade, não seria nada cômodo, mesmo que fosse seguro, permanecer no convés superior. Seu mecanismo de propulsão e de direção podia ser acionado em ambas as extremidades.

Mais curioso ainda, porém, é a energia que os impulsionava. A princípio, parece que o vril pessoal supria a força motriz – se era usado em combinação com algum dispositivo mecânico, pouco importa -, sendo substituído, mais tarde, por uma força que, embora gerada de um modo que desconhecemos, operava, não obstante, através de dispositivos mecânicos. Na verdade, essa força era de uma natureza etérica. Sem dúvida, os dispositivos mecânicos não eram exatamente idênticos em cada uma das embarcações. A seguinte descrição refere-se a um barco aéreo, no qual, em certa ocasião, três embaixadores do rei que governava a região setentrional de Posseidones viajaram até o palácio do reino meridional. Uma forte e pesada arca de metal, situada no centro do barco, era o gerador. Dali a força fluía através de dois grandes tubos flexíveis até as duas extremidades da embarcação, bem como através de oito tubos suplementares que, fixados nas amuradas, iam da proa até a popa. Estes tinham aberturas duplas, uma voltada para cima e a outra para baixo. Quando a viagem estava prestes a se iniciar, abriam-se as válvulas dos oito tubos da amurada que estavam voltadas para baixo – as demais válvulas permaneciam fechadas. Precipitando-se através dessas válvulas, a corrente chocava-se tão violentamente contra a terra, que impelia o barco para cima, enquanto o próprio ar continuava a fornecer o suporte necessário. Quando se alcançava uma altitude suficiente, acionava-se o tubo flexível dessa extremidade da embarcação voltada para a direção oposta à desejada, ao mesmo tempo que, pelo fechamento parcial das válvulas, reduzia-se a corrente que se precipitava através dos oito tubos verticais, até se obter o mínimo de corrente necessário à Manutenção da altitude alcançada. A grande intensidade da corrente, sendo agora dirigida através do amplo tubo voltado na direção da popa, com uma inclinação de aproximadamente 45°, além de ajudar a manter a altitude, também fornecia a grande força motriz que impulsionava a embarcação através do ar. A pilotagem se efetuava pela descarga da corrente ao longo desse tubo, pois a menor alteração do sentido dessa corrente provocava uma alteração imediata no rumo da embarcação. Mas não era necessário uma inspeção constante. No caso de uma viagem longa, o tubo podia ser fixado, de modo que não era preciso manejá-lo até que o percurso estivesse quase concluído. A velocidade máxima alcançada era de mais ou menos 160 km por hora; o percurso nunca era feito em linha reta, mas sempre em forma de longas ondulações, ora aproximando-se, ora afastando-se do solo. A altitude em que as embarcações faziam seu percurso era de apenas poucas centenas de metros – na verdade, quando altas montanhas surgiam na Unha de rota, era necessário mudar o curso e contorná-las. O ar mais rarefeito não fornecia o suporte necessário por muito tempo. Os morros de cerca de 300 m eram os mais altos que conseguiam transpor. O modo pelo qual se detinha a embarcação, quando esta chegava ao seu destino -o que também podia ser feito em pleno voo -, era através da liberação de uma quantidade da corrente pelo tubo que ficava na extremidade do barco voltada para o local de chegada; a corrente, chocando-se com o solo ou com o ar frontal, atuava como um freio, enquanto a força propulsora de trás era gradualmente reduzida pelo fechamento da válvula. Resta ainda explicar a razão da existência dos oito tubos, fixados nas amuradas, voltados para cima. Estavam mais relacionados com os combates aéreos. Tendo uma força tão poderosa à sua disposição, os navios de guerra, naturalmente, dirigiam a corrente uns contra os outros. Entretanto, isso podia destruir o equilíbrio do navio atingido e virá-lo de borco – sem dúvida, uma situação que permitia à embarcação inimiga desferir ataques com seu esporão. Havia também o perigo de ser precipitado ao solo, a menos que se providenciasse, imediatamente, o fechamento e a abertura das válvulas necessárias. Em qualquer posição que a embarcação se encontrasse, os tubos voltados para o solo eram, naturalmente, aqueles pelos quais a corrente deveria se precipitar, ao passo que os tubos voltados para cima deviam permanecer fechados. O modo pelo qual a embarcação virada de cabeça para baixo podia ser endireitada, retomando à posição original; era através do uso dos quatro tubos num dos lados da embarcação apontados para baixo, enquanto os outros quatro, do lado oposto, eram mantidos fechados.

Os atlantes também tinham embarcações marítimas que eram impulsionadas por uma energia análoga à acima mencionada, mas a força da corrente que, neste caso, demonstrou ser mais eficaz era menos densa do que a utilizada nos barcos aéreos.

Usos e Costumes

Houve, sem dúvida, tanta variedade nos usos e costumes dos atlantes, em diferentes épocas de sua história, quanto tem havido entre as várias nações que compõem a nossa raça árica. Não vamos acompanhar aqui a variação dos padrões durante o passar dos séculos. Os comentários que seguem procurarão abordar apenas as características principais que diferenciam seus hábitos dos nossos, e estes serão selecionados, na medida do possível, entre a grande era tolteca.

Com respeito ao casamento e ao relacionamento entre os dois sexos, já mencionamos as experiências realizadas pelos turanianos. Os costumes polígamos prevaleceram, em diferentes períodos, entre todas as sub-raças; na época dos toltecas, porém, embora a lei permitisse duas esposas, um grande número de homens tinha apenas uma. Tampouco as mulheres – como ocorre nos países onde atualmente prevalece a poligamia – eram consideradas inferiores, e não eram nem um pouco oprimidas. Sua posição social era perfeitamente igual à dos homens, embora a aptidão que muitas delas manifestavam para adquirir a energia vril, elevassem-nas à mesma categoria, e até acima, do outro sexo. Na verdade, essa igualdade era reconhecida desde a infância, e nas escolas ou faculdades os dois sexos não eram separados. Meninos e meninas aprendiam juntos. Além disso, essa era a regra, e não a exceção, para que a completa harmonia imperasse nas famílias duplas, e as mães ensinavam seus filhos a procurar amor e proteção nas outras esposas do pai, sem discriminação. Tampouco as mulheres eram impedidas de participar do governo. Às vezes participavam das assembléias administrativas e, ocasionalmente, eram escolhidas pelo imperador Adepto para representá-lo nas diversas províncias, como soberanas regionais.

O material de escrita dos atlantes consistia em finas lâminas de metal, com uma superfície branca semelhante à porcelana, sobre a qual eram escritas as palavras. Também tinham recursos para reproduzir o texto, colocando sobre a lâmina escrita uma outra chapa fina de metal previamente mergulhada em algum Líquido. Desse modo, o texto impresso na segunda chapa podia ser reproduzido à vontade em outras lâminas, e um grande número delas, agrupadas, formava um livro.

Em seguida, devemos citar um costume que difere consideravelmente do nosso no que concerne à escolha do alimento. Trata-se de um assunto desagradável, mas que não pode ser omitido. Geralmente a carne dos animais era posta de lado, embora devorassem as partes que nós nos abstemos de comer. Também bebiam o sangue -muitas vezes ainda quente do animal -, bem como preparavam vários cozidos com ele.

Entrementes, não se deve pensar que eles não tivessem alimentos mais leves e mais saborosos ao nosso paladar. Os mares e rios forneciam-lhes peixes, cuja carne comiam, embora muitas vezes num grau tão adiantado de decomposição que nos causaria náusea. Cultivavam em larga escala os mais diversos cereais, com os quais faziam pães e bolos. Também bebiam leite e comiam frutas e vegetais.

É verdade que uma pequena minoria dos habitantes jamais adotou os repulsivos costumes acima mencionados. Tal era o caso, por todo o império, dos reis e imperadores Adeptos, bem como dos sacerdotes iniciados. Estes tinham hábitos inteiramente vegetarianos, muito embora um grande número de conselheiros do imperador e de funcionários da corte apenas fingissem preferir essa alimentação mais pura, pois freqüentemente satisfaziam às escondidas seus gostos mais grosseiros.

As bebidas fortes não eram desconhecidas nessa época. Durante algum tempo, uma bebida alcoólica fermentada e muito forte esteve em voga. Mas era capaz de provocar em quem a ingerisse uma excitação tão perigosa que se promulgou uma lei proibindo, em absoluto, o seu consumo.

As armas de guerra e a caça diferiram consideravelmente, de acordo com a época. Em geral, as espadas e lanças, arcos e flechas foram suficientes aos rmoahals e aos tlavatlis. Os animais que caçavam, nesse período bastante remoto, eram os mamutes de pelos longos e lanosos, os elefantes e os hipopótamos. Também havia muitos marsupiais, bem como sobreviventes de tipos intermediários – alguns semi-répteis e semimamíferos, outros semi-répteis e semipássaros.

O uso de explosivos foi adotado numa época antiga e, em épocas posteriores, foi sendo aperfeiçoado. Parece que alguns eram feitos para explodir através do choque e outros depois de um certo intervalo de tempo mas, nos dois casos, a destruição da vida resultava, provavelmente, da liberação de algum gás venenoso, e não do impacto de projéteis. De fato, esses explosivos devem ter se tornado tão poderosos nos últimos tempos da Atlântida que temos notícias de companhias inteiras de homens destruídas em combate pelo gás nocivo produzido pela explosão de uma dessas bombas acima de suas cabeças, lançadas por alguma espécie de alavanca.

Vamos considerar agora o sistema monetário. Durante as três primeiras sub-raças, pelo menos, não se conhecia um sistema monetário oficial. Havia, é verdade, pequenas peças de metal ou de couro, estampadas, com um determinado valor, que eram usadas como fichas. Eram perfuradas no centro, amarradas juntas, de modo a formarem um cinto e geralmente usadas ao redor da cintura. Mas cada homem era, por assim dizer, o seu próprio cunhador e a ficha de metal ou de couro por ele fabricada e trocada com outro homem, pela aquisição de alguma mercadoria, significava apenas um reconhecimento pessoal da dívida, tal como existe, entre nós, a nota promissória. Nenhum homem estava autorizado a fabricar essas fichas em quantidade maior do que fosse capaz de compensar através da transferência dos bens em seu poder. As fichas não circulavam como moedas, embora o portador da ficha tivesse meios de avaliar, com exatidão, os recursos de seu devedor através da faculdade de clarividência que, em maior ou menor grau, todos possuíam; em caso de dúvida, essa faculdade era utilizada na apuração da veracidade dos fatos.

Contudo, é preciso registrar que, nos últimos dias de Posseidones, foi adotado um sistema semelhante à nossa circulação monetária, e a montanha tríplice, que podia ser avistada da grande capital meridional, era a imagem favorita na cunhagem oficial.

No entanto, o sistema fundiário é o assunto mais importante desta Seção. Entre os rmoahals e os tlavatlis, que viviam sobretudo da caça e da pesca, a questão da terra praticamente não existia, embora houvesse um sistema de cultivo aldeão na época dos tlavatlis.

Foi com o aumento da população e com o desenvolvimento da civilização, nos primeiros anos da era tolteca, que a terra, pela primeira vez, tornou-se algo pelo qual valia a pena lutar. Não é nosso propósito reconstituir o sistema ou descrever a pobreza do sistema predominante nos períodos turbulentos anteriores ao advento da Idade de Ouro. Mas os registros dessa época proporcionam matéria de reflexão do maior interesse e importância, não só aos economistas políticos, mas a todos os que estimam o bem-estar da raça.

Deve-se ter em mente que a população vinha aumentando de modo constante e que, sob o governo dos imperadores Adeptos, chegara à enorme cifra já citada; naqueles dias, porém, a pobreza e a miséria eram coisas jamais imaginadas e esse bem-estar social devia-se, sem dúvida, em parte ao sistema fundiário.

Não só a terra e seus produtos eram considerados propriedades do imperador, mas também todos os rebanhos e animais. O país dividia-se em diversas províncias ou regiões, e cada província tinha, à sua frente, um dos reis auxiliares, ou vice-reis nomeados pelo imperador. Cada vice-rei era responsável pelo governo e bem-estar de todos os habitantes sob o seu domínio. O cultivo da terra, a colheita dos produtos e a pastagem dos rebanhos eram de sua alçada, bem como a administração daquelas experiências agrícolas anteriormente mencionadas.

Cada vice-rei tinha à sua volta um conselho de consultores e coadjutores agrícolas, que, entre outras coisas, deviam ser versados em astronomia, pois, nessa época, esta não era uma ciência improdutiva. Estudava-se e tirava-se o maior proveito possível das influências ocultas sobre a vida vegetal e animal. Também o poder de produzir chuva à vontade não era, então, algo incomum, e os efeitos de uma era glacial em mais de uma ocasião foram parcialmente neutralizados nas regiões setentrionais do continente, através da ciência oculta. O dia apropriado para o início de cada atividade agrícola era, é claro, devidamente calculado e o trabalho era realizado por funcionários, cuja função consistia em supervisionar cada detalhe.

Os produtos colhidos em cada região ou reino eram, em geral, ali consumidos, embora, às vezes, os governantes organizassem trocas de alguns produtos.

Depois que se separava uma pequena porção para o imperador e para o governo central da “Cidade de Portais Dourados”, os produtos de toda a região ou reino eram divididos entre os habitantes -o vice-rei local e sua comitiva de funcionários recebiam naturalmente as maiores porções, mas o mais inferior dos trabalhadores agrícolas recebia o bastante para assegurar-lhe a subsistência e o bem-estar. Qualquer aumento da capacidade produtiva da terra ou de suas riquezas minerais era proporcionalmente dividido entre todos os interessados – desse modo, era do interesse geral tomar o fruto do trabalho coletivo tão lucrativo quanto possível.

Esse sistema foi bastante eficaz durante muito tempo. Contudo, à medida que o tempo passava, a negligência e o egoísmo foram se insinuando. Os que tinham o dever de supervisionar foram transferindo cada vez mais suas responsabilidades para seus funcionários subalternos e, com o tempo, tornou-se raro os imperadores interferirem ou interessarem-se por alguma atividade. Esse foi o início dos maus tempos. Os membros da classe dominante, que a princípio dedicavam todo o seu tempo aos devedores públicos, começaram a imaginar um modo de tornar suas vidas particulares mais agradáveis. A intemperança estava a caminho.

Um motivo em particular causou grande descontentamento entre as classes mais baixas. Já mencionamos o método pelo qual os jovens da nação eram selecionados para as escolas técnicas. Ora, era sempre a alguém da classe superior, cujas faculdades psíquicas tinham sido devidamente desenvolvidas, que cabia a seleção das crianças, a fim de que cada uma recebesse a devida instrução e, finalmente, se dedicasse à ocupação para a qual fosse mais qualificada. Mas quando os que eram dotados de visão clarividente, a única que tornava possível essa seleção, transferiram suas funções para subalternos destituídos desses atributos psíquicos, resultou que as crianças eram muitas vezes forçadas a rotinas injustas, e aquelas cuja aptidão se inclinava em determinada direção viam-se, freqüentemente, destinadas a uma ocupação que as desgostava e na qual, por conseguinte, raramente obtinham sucesso.

Foram muitos e variados os sistemas fundiários que se seguiram, em diferentes partes do império, à dissolução da grande dinastia tolteca. Mas não é necessário descrevê-los. Nos últimos dias de Posseidones, quase todos haviam sido substituídos pelo sistema de propriedade particular, que tão bem conhecemos.

Já nos referimos, no tópico “Emigrações”, ao sistema fundiário prevalecente no glorioso período da história peruana durante o poderio Inça, cerca de 14.000 anos atrás. Um pequeno resumo desse assunto pode ser interessante para demonstrar a fonte de onde sem dúvida derivaram as bases desse sistema, bem como para citar as variações adotadas neste sistema um tanto mais complexo.

Todos os direitos sobre a terra eram, em primeiro lugar, conferidos ao Inça, mas metade dela era cedida aos agricultores, que logicamente constituíam a maioria da população. A outra metade era dividida entre o Inça e os sacerdotes, que observavam o culto do sol.

Com a renda de suas terras, especialmente divididas, o Inça tinha de sustentar o exército, conservar as estradas de todo o império e manter todo o mecanismo de governo. Este era administrado por uma classe dirigente especial, em sua maioria composta por parentes do próprio Inça, representantes de uma civilização e de uma cultura bem superiores às da maior parte da população.

A quarta parte restante – “as terras do sol” – não só provia a subsistência dos sacerdotes, que dirigiam o culto público em todo o império, como também se destinava à educação do povo nas escolas e colégios; além disso, garantia o futuro de todas as pessoas doentes e fracas e de cada habitante (afora, é claro, a classe dirigente, para quem não havia interrupção de trabalho) que atingia a idade de quarenta e cinco anos, idade estipulada para a suspensão do árduo trabalho da vida e para o início do lazer e do divertimento.

Religião

O único assunto que ainda nos resta tratar é a evolução das idéias religiosas. Entre a aspiração espiritual de uma raça simples porém rude e o ritual degenerado de um povo intelectualmente culto, mas espiritualmente morto, existe um abismo que só o termo religião, usado no seu sentido mais amplo, pode transpor. Todavia, é o processo consecutivo de geração e degeneração que tem de ser investigado na história do povo atlante.

Deve-se ter em mente que o governo sob o qual surgiram os rmoahals foi descrito como o mais perfeito dos governos concebíveis, pois o próprio Manu atuou como rei. A lembrança desse governante divino foi, naturalmente, preservada nos anais da raça e, no devido tempo ele chegou a ser considerado um deus entre um povo que era, por natureza, psíquico e tinha, portanto, vislumbres daqueles estados de consciência que transcendem nosso estado de vigília habitual. Conservando esses atributos superiores, era muito natural que esse povo primitivo adotasse uma religião que, embora de modo algum representasse uma filosofia elevada, nada tinha de ignóbil. Mais tarde, essa fase de crença religiosa tomou-se uma espécie de culto aos antepassados.

Os tlavatlis, embora herdeiros da reverência e do culto tradicionais a Manu, foram ensinados pelos instrutores Adeptos sobre a existência de um Ser Supremo, cujo símbolo era reconhecido como o sol. Assim, desenvolveram uma espécie de culto ao sol, cuja pratica era celebrada no alto dos morros. Nesses locais, eles construíram enormes círculos de monolitos aprumados, que se destinavam a simbolizar o curso anual do sol, embora também fossem utilizados para observar o curso dos astros, sendo dispostos de tal modo que, para quem estivesse no altar-mor, o sol nasceria, no solstício de inverno, atrás de um desses monolitos e, no equinócio da primavera, atras de outro, e assim por diante, durante o ano todo. Esses círculos de pedra também eram usados em observações astronômicas ainda mais complexas, relacionadas com as mais distantes constelações.

Já vimos, no tópico referente às emigrações, como uma sub-ra-ça posterior – os acadianos – retornou a essa primitiva construção de monolitos, na edificação do Stonehenge.

Embora os tlavatlis fossem dotados de uma capacidade de desenvolvimento intelectual um tanto maior do que a da sub-raça anterior, seu culto ainda era de um tipo muito primitivo.

Na época dos toltecas, com a difusão mais ampla de conhecimentos e, mais particularmente, com o posterior estabelecimento de um sacerdócio iniciado e de um imperador Adepto, crescentes oportunidades foram oferecidas ao povo para a obtenção de uma concepção mais verdadeira do divino. A minoria que estava disposta a tirar total proveito do ensino oferecido, após ser posta à prova e apreciada, sem dúvida era admitida nas ordens dos sacerdotes, que então constituíam uma grande confraria oculta. Contudo, não estamos interessados aqui nesses poucos que sobrepujaram a grande maioria da humanidade e estavam dispostos a enveredar pelos caminhos das ciências ocultas; o tema geral do nosso estudo é, antes, as religiões praticadas pelos habitantes da Atlântida.

As classes inferiores da sociedade daquela época não tinham, é claro, o poder de se alçar às alturas filosóficas do pensamento – como, aliás, não o tem a grande maioria dos habitantes do mundo atual. A abordagem mais aproximada que um professor, por talentoso que fosse, poderia fazer, ao tentar transmitir qualquer idéia a respeito da inominável essência do Cosmos, presente em todas as coisas, era necessariamente comunicada na forma de símbolos e, como era de se esperar, o sol foi o primeiro símbolo adotado. Como ocorre também em nossos dias, o indivíduo mais culto e com inclinações espiritualistas veria através do símbolo e poderia, às vezes, divisar, com as asas da devoção, o Pai de nossos espíritos,

A razão e o centro do anseio de nossas almas,
Objeto e refúgio do fim da nossa jornada —

enquanto os mais vulgares não veriam outra coisa senão o símbolo, e o cultuariam, assim como a Madona esculpida ou a imagem de madeira do crucificado são hoje veneradas em toda a Europa católica.

A adoração do sol e do fogo tornaram-se então o culto, e para sua celebração construíram-se templos magníficos nos quatro cantos do continente da Atlântida, mais particularmente, porém, na grande “Cidade dos Portais Dourados” – o ofício era executado pela comitiva de sacerdotes mantida pelo Estado para esse fim.

Nessa época remota não se permitia nenhuma imagem da Divindade. O disco solar era considerado o único emblema apropriado de Deus e, como tal, era usado em todos os templos, onde em geral colocava-se um disco dourado de modo a captar os primeiros raios do sol nascente durante o equinócio da primavera ou o solstício de verão.

Um exemplo interessante da sobrevivência quase intata desse culto ao disco solar pode ser visto nas cerimônias xintoístas do Japão. Segundo essa doutrina, qualquer outra representação da Divindade é considerada ímpia, e até mesmo o espelho circular de metal polido fica oculto ao olhar do público, salvo por ocasião das cerimônias. Contudo, ao contrário das suntuosas decorações dos templos da Atlântida, os templos xintoístas caracterizam-se por uma total ausência de decoração – a uniformidade do requintado acabamento da singela carpintaria não é quebrada por nenhum entalhe, pintura ou adorno.

No entanto, o disco solar não permaneceu como o único emblema admissível da Divindade. A imagem de um homem – um homem arquetípico – foi, em épocas posteriores, colocada nos templos e adorada como a mais sublime representação do divino. De certo modo, isso poderia ser considerado um retorno ao culto rmoahal de Manu. Até então, a religião era relativamente pura e a confraria oculta da “Boa Lei” naturalmente fazia o possível para conservar no coração do povo o ardor pela vida espiritual.

Contudo, estava se aproximando a época maligna na qual não restaria nenhuma idéia altruística para salvar a raça das profundezas do egoísmo, onde estava fadada a submergir. A deterioração do conceito ético foi o prelúdio inevitável da perversão do espírito. As mãos de cada homem lutavam unicamente por ele próprio e seus conhecimentos serviam apenas a fins egoístas, até tornar-se uma crença estabelecida a de que, no universo, não havia nada que fosse maior ou superior aos próprios homens. Cada um era a sua própria “Lei, Senhor e Deus”, e o próprio culto nos templos deixou de ser o culto a algum ideal para tornar-se a mera adoração do homem, tal como ele era conhecido e visto. Como está escrito no Livro de Dzyan, “Então a

Quarta cresceu em orgulho. Dizia: nós somos os reis; somos os Deuses. . . . Construíram enormes cidades. Construíram-nas de terras e metais raros, e dos fogos vomitados, da pedra branca das montanhas e da pedra preta modelaram suas próprias imagens em seu tamanho e semelhança, e adoraram-nas.” Capelas foram dispostas nos templos, nas quais a estátua de cada homem, feitas de ouro ou prata, ou esculpida em pedra ou madeira, era venerada por ele próprio. Os homens mais ricos dispunham de séquitos inteiros de sacerdotes para o culto e a Manutenção de suas capelas, e faziam-se oferendas a essas estátuas, como se fossem deuses. A apoteose do eu não poderia ir mais longe.

É preciso lembrar que toda idéia religiosa verdadeira que alguma vez penetrou na mente do homem foi-lhe conscientemente sugerida pelos instrutores divinos ou pelos iniciados das Lojas ocultistas, os quais, ao longo de todos os períodos históricos, têm sido os guardiões dos mistérios divinos e das ocorrências dos estados supra-sensíveis de consciência.

Geralmente, só de um modo muito lento é que a humanidade se torna capaz de assimilar algumas dessas idéias divinas, ao passo que os crescimentos monstruosos e as terríveis distorções, exemplificadas por cada religião existente, têm sua origem na própria natureza mais inferior do homem. Na verdade, tem-se a impressão de que nem sempre ele esteve em condições de receber o conhecimento acerca dos simples símbolos sob os quais se ocultava a compreensão da Divindade, pois na época da hegemonia turaniana parte desse conhecimento foi erroneamente divulgada.

Vimos como a vida e a luz, enquanto atributos do sol, foram, em tempos remotos, usados como símbolo para despertar na mente das pessoas tudo o que elas fossem capazes de conceber acerca do grande Criador. Contudo, outros símbolos de maior profundidade e significado mais real eram conhecidos e guardados pelos sacerdotes. O conceito de uma Trindade na Unidade era um desses símbolos. As Trindades de significação mais sagrada nunca foram reveladas ao povo, mas a Trindade que personificava os poderes cósmicos do universo como Criador, Preservador e Destruidor tornou-se publicamente conhecida na época dos turanianos de um modo um tanto irregular. Essa idéia foi ainda mais materializada e degenerada pelos semitas, que a transformaram numa Trindade estritamente antropomórfica, consistindo de pai, mãe e filho.

É preciso mencionar ainda um outro fato bastante terrível que ocorreu na época dos turanianos. Com a prática da bruxaria, muitos dos habitantes, é claro, tornaram-se conscientes da existência de elementais poderosos – criaturas que tinham sido criadas ou ao menos animadas pelas próprias e poderosas vontades dos habitantes, as quais, à medida que eram direcionadas para fins maléficos, produziram naturalmente os elementais de poder e malignidade. Os sentimentos humanos de reverência e culto tinham degenerado tanto que os homens realmente começaram a adorar essas criações semiconscientes de seu próprio pensamento maligno. O ritual pelo qual se cultuava esses seres foi, desde o início, manchado de sangue e, sem dúvida, cada sacrifício oferecido em seus altares conferia vitalidade e persistência a essas criações vampirescas – a tal ponto que, mesmo hoje em dia, em várias partes do mundo, os elementais formados pela vontade poderosa desses antigos bruxos atlantes ainda continuam a exigir seu tributo de inocentes comunidades aldeãs.

Embora iniciado e largamente praticado pelos brutais turanianos, parece que esse ritual manchado de sangue nunca se difundiu entre as outras sub-raças; todavia, os sacrifícios humanos parecem não ter sido raros entre alguns ramos semitas.

No grande império tolteca do México, o culto do sol – praticado por seus antepassados – ainda era a religião nacional, embora as oferendas incruentas à sua Divindade benéfica, Quetzalcóatl, consistissem simplesmente de flores e frutos. Só com o advento dos astecas selvagens é que se acrescentou, ao inocente ritual mexicano, o sangue de sacrifícios humanos, que banhava os altares de seu deus da guerra, Huitzilopochtli, e a extração do coração das vítimas no cume do Teocáli pode ser vista como uma sobrevivência direta do culto aos elementais de seus ancestrais turanianos da Atlântida.

Pode-se observar então que, tal como em nossos dias, a vida religiosa do povo abrangia as mais variadas formas de crença e culto. Desde a pequena minoria que aspirava à iniciação e tinha contato com a mais elevada vida espiritual – que sabia que a boa vontade para com todos os homens, o controle do pensamento e a pureza de vida e ações eram as preliminares necessárias à obtenção dos mais elevados estados de consciência e dos mais amplos campos de visão -, inumeráveis estágios de decadência conduziram desde o culto mais ou menos irracional das energias cósmicas, ou dos deuses antropomórficos, até os ritos sangrentos do culto aos elementais, passando pelo ritual degenerado, porém de grande aceitação, no qual cada homem adorava sua própria imagem.

Não se deve esquecer que estamos tratando apenas da raça atlante, de modo que seria inoportuna qualquer referência relativa ao culto ainda mais infame do fetiche que então existiu – como ainda existe – entre os degradados representantes dos povos lemurianos.

Ao longo dos séculos, portanto, os vários rituais constituídos para celebrar essas diversas formas de culto continuaram existindo, até a submersão derradeira de Posseidones, quando um grande número de emigrantes atlantes já haviam estabelecido, em terras estrangeiras, os vários cultos do continente-mãe.

Reconstituir a ascensão e acompanhar minuciosamente o progresso das religiões antigas, que no período histórico floresceram em formas tão diversas e antagônicas, seria uma tarefa bastante difícil, mas o esclarecimento que isso traria às questões de importância transcendente poderá, algum dia, induzir à tentativa.

Concluindo, seria inútil tentar resumir o que já está por demais resumido. Antes, vamos esperar que o precedente possa servir como texto, a partir do qual seja possível desenvolver histórias acerca dos diversos ramos das várias sub-raças – histórias que possam, analiticamente, abordar as evoluções políticas e sociais que, aqui, foram expostas de modo bastante fragmentário.

Todavia, uma palavra ainda pode ser dita sobre essa evolução da raça – esse progresso que toda criação, com a humanidade à frente, está sempre destinada a alcançar, século a século, milênio a milênio, manvantara a manvantara e kalpa a kalpa.

A descida do espírito à matéria – esses dois pólos da substância eterna una – é o processo que abrange a primeira metade de cada ciclo. Ora, o período estudado nas páginas anteriores – o período durante o qual a raça atlante estava percorrendo sua trajetória – foi exatamente o ponto médio ou crítico deste manvantara atual.

O processo de evolução que se tem estabelecido em nossa atual quinta raça – isto é, o retorno da matéria ao espírito – manifestou-se, nessa época, em apenas uns poucos casos individuais isolados -precursores da ressurreição do espírito.

Mas o problema, que todos os que têm se dedicado de algum modo a esta matéria devem ter constatado estar ainda à espera de uma solução, está no surpreendente contraste verificado nas características da raça atlante. Ao lado de suas paixões brutais, de suas inclinações animais degradadas, estavam suas faculdades psíquicas, sua intuição divina.

A solução deste enigma aparentemente insolúvel repousa no fato de que a construção da ponte fora então apenas iniciada – a ponte do manas, ou mente, destinada a ligar, no indivíduo aperfeiçoado, as forças do animal, que se dirigem para o alto, ao espírito do Deus, que, num movimento crítico dirige-se para baixo. O atual reino animal revela um campo da natureza onde a construção dessa ponte ainda não se iniciou e, mesmo entre a humanidade nos tempos da Atlântida, a conexão era tão frágil que os atributos espirituais tinham pouco poder de controle sobre a natureza animal mais inferior. O tipo de mente que possuíam era capaz de acrescentar prazer à satisfação dos sentidos, mas não tinha o poder de vitalizar as faculdades espirituais ainda adormecidas que, no indivíduo aperfeiçoado, precisarão tornar-se o monarca absoluto. Nossa metáfora da ponte pode levar-nos um pouco mais além, se a considerarmos atualmente em processo de construção, porém destinada a permanecer incompleta, para a humanidade em geral, durante incontáveis milênios – na verdade, até que a Humanidade tenha completado mais um ciclo dos sete planetas e o grande Quinto Curso esteja a meio caminho de sua trajetória.

Embora tenha sido durante a segunda metade da terceira raça-raiz e o início da quarta que o Manasaputra desceu para dotar de mente a maior parte da Humanidade, que ainda estava sem a centelha, foi tão fraco o fogo que ardeu durante toda a era atlante que se pode dizer que foram poucos os que atingiram os poderes do pensamento abstraio. Por outro lado, os atlantes conseguiram um ótimo desempenho mental no campo da realidade concreta e, como vimos, foi nas atividades práticas do seu cotidiano, especialmente quando suas faculdades psíquicas eram direcionadas para os mesmos objetos, que eles alcançaram resultados notáveis e estupendos.

É preciso também lembrar que o Kama, o quarto princípio, alcançou sem dúvida o ápice do seu desenvolvimento durante a quarta raça. Isso explicaria os níveis de vulgaridade animal em que mergulharam, enquanto o ciclo, aproximando-se de seu nadir, inevitavelmente acentuou esse movimento decadente, de modo que há pouco para se surpreender quanto à perda gradual das faculdades psíquicas da raça e sua degradação rumo ao egoísmo e ao materialismo.

Tudo isso deve ser visto como parte do grande processo cíclico, em obediência à lei eterna.

Nós todos atravessamos aqueles péssimos dias, e as experiências que então acumulamos contribuíram para formar as qualidades que ora possuímos.

Contudo, um sol mais radiante brilha agora sobre a raça anca, mais do que aquele que iluminava a vereda de seus antepassados atlantes. Menos dominados pelas paixões dos sentidos, mais abertos à influência da mente, os homens da nossa raça obtiveram, e estão obtendo, um controle mais firme do conhecimento, um alcance intelectual mais amplo. Este arco ascendente do grande ciclo manvantárico naturalmente conduzirá um número cada vez maior de pessoas rumo à entrada do Caminho Oculto e emprestará um encanto cada vez maior às oportunidades transcendentes que ela oferece ao contínuo fortalecimento e purificação do caráter – fortalecimento e purificação não mais dirigidos pelo mero esforço espasmódico e constantemente interrompidos por atrações enganosas, mas orientados e vigiados, a cada passo, pelos Mestres da Sabedoria, de modo que a escalada, uma vez iniciada, não será mais hesitante e incerta, mas conduzirá direto à meta gloriosa.

Também as faculdades psíquicas, bem como a intuição divina, perdidas por um tempo, mas ainda heranças legítimas da raça, aguardam apenas o esforço individual para serem readquiridas, o que fornecerá ao caráter da espécie uma compreensão ainda mais profunda e poderes mais transcendentes. Desse modo, as ordens dos instrutores Adeptos – os Mestres da Sabedoria – sempre devem ser fortalecidas e renovadas, e mesmo entre nós, hoje, certamente estão alguns deles, indistinguíveis, salvo pelo imortal entusiasmo que os impulsiona, e que, antes que se estabeleça a próxima raça-raiz neste planeta, erguer-se-ão como Mestres da Sabedoria para ajudar a raça em seu progresso ascendente.

William Scott-Elliot

Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/a-historia-da-atlantida/

A Mitologia do Necronomicon e a Magia Moderna

ALEISTER CROWLEY

Os escritos de Aleister Crowley mostram muitos paralelos com a mitologia do Necronomicon. Alguns destes paralelos são listados abaixo. Yog-Sothoth cotérmino com todo espaço e tempo. (veja Parte Um sobre Yog-Sothoth). A Nuit de Crowley é o “espaço infinito”. Azathoth é o infinitamente compacto “Caos nuclear no centro do infinito”. O Habit de Crowley é o ponto “infinitamente pequeno e atômico”. Aqui nós vemos que dois dos mais importantes deuses do Necronomicon correspondem exatamente com os dois mais importantes deuses de Crowley. Crowley recebeu o LIVRO DA LEI, que previa o retorno de divindades antigas, do mensageiro dos Deuses Aiwass.

O Necronomicon afirma que o retorno dos Antigos será anunciado por Nyarlathotep, o Poderoso Mensageiro. Crowley afirma que a ascensão e a queda dos deuses são governadas por um processo que ele chama de Equinócio dos Deuses. O Necronomicon afirma que ressurgimento e a queda dos Antigos também são governados por um ciclo rotacional de Éons (Depois do verão vem o inverno, depois do inverno, o verão). O Dragão (fluxo draconiano) é importante para a magia de Crowley. Cthulhu, o deus semelhante à um dragão, é de grande importância no Necronomicon. Crowley as vezes refere à Estela da Revelação como CTH^H666. Note a similaridade entre CTH^H e CTHULHU. Existem muitas outras similaridades mas estas podem dar a você a idéia geral.

 

ANTON SZANDOR LAVEY

Anton LaVey é a cabeça fundadora da Igreja de Satã. Na “A Bíblia Satânica” LaVey assevera que a shew-stone usada por Dr, John Dee é a mesma coisa que o Trapezoedro Brilhante da Mitologia do Necronomicon. Sr. LaVey também fala em “A Bíblia Satânica” que o Deus Bode venerado através dos éons é A Cabra Negra dos Bosques com Mil Jovens do Necronomicon.

Na seqüência da Bíblia Satânica, “The Satanic Rituals”, LaVey apresenta dois rituais concernindo inteiramente dos mitos de HPL. O primeiro é a Chamada de Cthulhu. O segundo é a Cerimônia dos Nove Anjos Ângulos:

“CELEBRANTE: Kzs’nath r’n As-Athoth bri’nwe sz’g elu’khnar rquorkwe w’ragu mfancgh’ tiim’br vau. Januf a wrugh kod’rf kpra kybini sprn’aka ty’knu El-aka gryenn’h krans huehn

TRADUZIDO: Azathoth, grande centro do cosmos, toque tuas flautas para nós, acalmando-nos frente aos terrores de teus domínios. Tua alegria sustenta nossos medos, e em teu nome nós regozijamos no Mundo dos Horrores.

PARTICIPANTES: Ki’q Az-Athoth r’jyarh wh’fagh zhasa phr-tga nyena phragn’glu

TRADUÇÃO: Honra a Azathoth, sem cuja gargalhada este mundo não existiria.”

Em “As Leis do Trapezóide” LaVey menciona as “Feras do Tempo” e em alguns rituais menciona os Antigos.

 

KENNETH GRANT

Kenneth Grant é o diretor da filial britânico da O.’.T.’.O.’.. O sistema mágico de Grant é apenas isto: O sistema de Grant. Sua Cabala é altamente única à ele. Grant sente que os Antigos e os Outros Deuses são bem reais. Ele desenvolve uma nova interpretação dos livros do Livro da Lei de Crowley na luz do que ele chama de “Gnose do Necronomicon”.
Grant é talvez conhecido pelas suas propostas únicas para o controle dos sonhos e magia sexual. A interpretação de Grant do Roba el Khaliye (Rub al Khali) é bem próxima do que é pregado entre os Muqarribun. “Hecates Fountain” de Grant contêm muito do material relacionado à HPL/Necronomicon de todos os seus livros. Grant foi amigo de Austin Spare. Spare era um brilhante artista e ocultista. Grant uma vez deu a Spare uma cópia de um dos livros de Lovecraft Spare ficou muito perturbado com o que leu. Ele sentiu que haviam forças muito sombrias ligadas às histórias de HPL. Spare criou várias peças de arte mágicas baseadas em HPL. É pensado que Spare tenha dito que HPL tenha escrito muito mais que ele saiba.

 

MAGIA ENOQUIANA

Magia enoquiana foi descoberta por John Dee no século dezesseis. É aparentemente baseado em uma língua previamente desconhecida. Muitos magos asseveram que a língua enoquiana pré-data todas as línguas humanas. Geral J. Schueler é amplamente considerado um dos primeiros especialistas em magia enoquiana. Sr. Schueler afirma que magia enoquiana “o poderoso sistema de magia usado por Aleister Crowley, pelo Amanhecer Dourado, e do Necronomicon para contatar inteligências de outras dimensões.” É dito que John Dee talvez tenha estabelecido contato pela primeira vez com entidades enoquianas usando magia adaptada do Necronomicon.

O sistema enoquiano tem muitos paralelos com HPL. Schueler assevera que a tradição enoquiana propõe a existência de um Deus ou Força que é a manifestação do Espaço Infinito similar à Nuit de Crowley e ao Yog-Sothoth de HPL. Schueler também sustenta que a Manisfestação Divina do ponto nuclear no centro do infinito (equivalente à Hadit ou Azathoth) é também importante para a magia enoquiana. As Chaves Enoquianas afirmam que o mundo está se aproximando de um ciclo rotacional de éons em que os Deuses Anciãos retornarão e o mundo será para sempre mudado. Estas chaves também mencionam um dragão encarcerado (Cthulhu?). O fato de que as chaves estão em uma língua sobrenatural que pré-data a humanidade também é em si bem Lovecraftiano.

Texto Texto Parker Ryan, Tradução A. Valente

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/a-mitologia-do-necronomicon-e-a-magia-moderna/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/a-mitologia-do-necronomicon-e-a-magia-moderna/

Aisha

Por Aysha A. Hidayatullah.

Aisha bint Abi Bakr ibn Abi Quhafa (ca. 614-ca. 678), foi uma das esposas favoritas de Muhammad e membra principal da comunidade muçulmana primitiva.

Aisha (Aysha) nasceu em Meca, ela era filha de Abu Bakr (d. 634), o amigo próximo de Muhammad e primeiro califa do Islã.

Aisha ficou noiva de Muhammad no ano 623 em Medina, quando ela tinha nove anos de idade.

Aisha foi a única virgem com quem Muhammad se casou, e ela nunca deu à luz nenhuma criança.

Ela é frequentemente lembrada como a esposa mais próxima e mais amada de Muhammad, como a pessoa que tem a mais íntima compreensão das práticas do Profeta.

Como resultado, Aisha é creditada pelos sunitas como a transmissora de mais de 2.000 relatos de hadith.

Após a morte de Muhammad, ela foi consultada como uma autoridade sobre seus hábitos e recomendações.

Em 627, Aisha foi acusada por alguns muçulmanos habitantes de Medina de cometer adultério.

Durante uma jornada com Muhammad e sua caravana, ela havia se separado do grupo enquanto procurava por um colar perdido.

Um jovem a encontrou e a acompanhou de volta a Medina em segurança.

Os rumores começaram a circular, acusando-a de ter tido relações ilícitas com o homem.

Em resposta a esta calúnia, o Alcorão defende a inocência de Aisha em Alcorão 24:11-20:

“11 Aqueles que lançam a calúnia, constituem uma legião entre vós; não considereis isso coisa ruim para vós; pelo contrário, é até bom. Cada um deles receberá o castigo merecido por seu delito, e quem os liderar sofrerá um severo castigo.

12 Por que, quando ouviram a acusação, os fiéis, homens e mulheres, não pensaram bem de si mesmos e disseram: É uma calúnia evidente?

13 Por que não apresentaram quatro testemunhas? Se não as apresentarem, serão caluniadores ante Deus.

14 E se não fosse pela graça de Deus e pela Sua misericórdia para convosco, nesse mundo e no outro, haver-nos-ia açoitado um severo castigo pelo que propalastes.

15 Quando a receberdes em vossas línguas, e dissestes com vossas bocas o que desconhecíeis, considerando leve o que era gravíssimo ante Deus.

16 Deveríeis, ao ouvi-la, ter dito: Não nos compete falar disso. Glorificado sejas! Essa é uma grave calúnia!

17 Deus vos exorta a que jamais reincidais em semelhante (falta), se sois fiéis.

18 E Deus vos elucida os versículos, porque é Sapiente, Prudentíssimo.

19 Sabei que aqueles que se comprazem em que a obscenidade se difunda entre os fiéis, sofrerão um doloroso castigo, neste mundo e no outro; Deus sabe e vós ignorais.

20 E se não fosse pela graça de Deus e pela Sua misericórdia para convosco…e Deus é Compassivo, Misericordiosíssimo”.

Muhammad morreu quando Aisha tinha 18 anos de idade; consta que ele morreu em seus braços nos seus aposentos.

Após a morte do terceiro califa, Uthman ibn Affan em 655, ela se opôs à sucessão de Ali ibn Abi Talib ao califado, lutando contra ele na Batalha do Camelo, a primeira guerra civil do Islã, em 656.

Por este desafio a Ali, ela é frequentemente considerada pelos muçulmanos xiitas com desdém.

Embora Ali tenha sido vitorioso, os esforços de Aisha refletem seu caráter desafiador e franco, assim como o papel ativo que ela desempenhou em assuntos políticos.

Após sua derrota militar, Aisha voltou para Medina, passando o resto de sua vida transmitindo seus relatos sobre o Profeta.

Ela morreu lá em 678 aos 66 anos de idade e foi enterrada no cemitério de al-Baqi.

Leitura adicional:

– O Significado dos Versos do Alcorão Sagrado, traduzido por Samir El Hayek;

– Leila Ahmed, Women and Gender in Islam: Historical Roots of a Modern Debate (New Haven, Conn.: Yale University Press, 1992);

– Denise A. Spellberg, Politics, Gender, and the Islamic Past: The Legacy
of Aisha bint Abi Bakr (New York: Columbia University Press, 1994).

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Fonte:

Encyclopedia of Islam

Copyright © 2009 by Juan E. Campo

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/aisha/

Ísis

Na continuidade, queremos reproduzir uma oração à deusa egípcia Isis, esposa de Osíris, associada à primeira iniciação, lunar, enquanto seu parceiro se encontra vinculado com a segunda iniciação, solar, e ambos os dois se acham conjugados na terceira e última iniciação, a polar, que faz possível a realização do supracósmico, do não humano. Apuleio a inclui em sua obra “As Metamorfoses” (ou O Asno de Ouro, século II d.C.) onde nos dá notícias de que este antigo mito egípcio sobrevivia incólume na Roma de seu tempo. Esta invocação é pronunciada uma vez que se efetua o descenso aos infernos, onde se percebe diretamente e de modo potencial tudo o que seguirá, do qual este descenso é só uma prova. Lembremos por último a vinculação da deusa Isis com o arcano do Tarot, chamado “A Papisa” ou “A Sacerdotisa”.

“Tu, em verdade santa, perpétua protetora do gênero humano, sempre generosa em favorecer os mortais, Tu tens pelas tribulações dos desafortunados um doce afeto de mãe. Não há um dia, uma noite, nem sequer um pequeno instante que passe, sem que hajas prodigalizado teus benefícios, sem que hajas protegido os homens na terra e no mar, sem ter alongado tua salvadora mão, após afastar os embates da vida. E com essa mão desfazes a inextricável e retorcida urdidura da Fatalidade, aplacas as tempestades da Fortuna e neutralizas a influência funesta dos astros. Veneram-te as divindades do céu, respeitam-te as do inferno; Tu dás o movimento de rotação ao mundo; ao Sol, tua luz; ao mundo, tuas leis, com teus pés pisas o Tártaro. A ti respondem os astros; por ti voltam as estações, alegram-se os deuses, mostram-se dóceis os elementos. A uma indicação tua sopram os ventos, incham-se as nuvens, germinam as sementes, crescem os germes. Temem a tua majestade os pássaros que cruzam os céus, os animais selvagens que vão errantes pelos morros, as serpentes que se ocultam sob terra, os monstros do oceano. Mas eu possuo um pobre talento para cantar teus louvores, e um reduzido patrimônio para oferecer-te dignos sacrifícios; não possuo a facúndia necessária para expressar os sentimentos que me inspira tua majestade; não possuo nem mil bocas, outras tantas línguas, nem um inesgotável manancial de infatigáveis palavras, mas terei sempre diante de minha imaginação, guardando-os no mais recôndito de meu coração, teu rosto divino e teu santíssimo númen.”

Isis é associada ao princípio feminino (e, portanto, vinculada à Terra e à Lua), presente em todas as coisas, e se manifesta com as roupagens da energia passiva, imanente e potencial. Diz-nos Plutarco num dos títulos de seu “Ethika”:

“Isis é, pois, a natureza considerada como mulher e apta para receber toda geração. Este é o sentido em que Platão a chama ‘Nodriza’ e ‘Aquela que a tudo contém’. A maior parte a chama ‘Deusa de infinitos nomes’, porque a divina Razão a conduz a receber toda espécie de formas e aparências. Sente amor inato pelo primeiro princípio, pelo princípio que exerce, sobre todo supremo poder, e que é idêntico ao princípio do bem; deseja-o, persegue-o, fugindo e rejeitando toda participação com o princípio do mal. Ainda que seja tanto para um como para o outro matéria e habitáculo, inclina-se sempre voluntariamente para o melhor princípio; a ele se oferece para que a fecunde, para que semeie em seu seio o que dele emana e o semelhante a ele. Regozija-se ao receber estes germes e treme de alegria quando se sente prenhe e cheia de germes produtores. Efetivamente, toda geração é imagem na matéria da substância fecundante, e a criatura se produz a imitação do ser que lhe deu a vida.”

#Poemas #Tarot

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/_%C3%ADsis

12 livros que moldaram o Cristianismo Contemporâneo

Verdade seja dita, na cultura popular hoje a imagem do cristão é a de um ser bem intencionado e ignorante sem qualquer senso crítico. Um “Mr. Flanders” supersticioso, cabeça-fechada, alienado, e parado no tempo que nada tem a acrescentar. Contudo devemos lembrar que a figura do ‘cristão’ é uma figura que muda e se transforma no decorrer da história. De maltrapilhos e pedintes à reis abastados dos sacro-impérios; de escravos jogados aos leões de Roma aos severos mestres da Inquisição.

No século XX a subcultura cristã cresceu ainda mais como um movimento de massas, especialmente com a ascensão do tele-evangelismo e o surgimentos dos templos relâmpagos. Isso causou duas coisas com a imagem do cristianismo contemporâneo:

I. Fez com que a imagem dos cristãos se tornasse a de ignorantes que fazem tudo por um pouco de consolo espiritual e conforto material

II. Deu as igrejas a imagem de máquinas de fazer dinheiro.

Mas de certa forma isso foi bom também, pois mostrou deu a oportunidade para muitas pessoas de provarem que a metafísica Cristã continua única e que sua ética continua tão revolucionária quando nos seus primeiros dias. Este novo surgimento do Cristianismo de massas deu margem para o surgimento de uma contra-cultura Cristã, digna dos primeiros portadores da Palavra, aqueles que independente dos costumes criados ou pregados traziam não apenas aquilo que foi dito por Cristo, mas também a criatividade e a sabedoria que emanavam dele. Isso se transformou em uma explosão testemunhada por todos na segunda metade do século XX.

Bandas como o U2, Pod, Cranberries e Creed, entre outras, emergiram de um background cristão e são amplamente celebrados, inclusive por muitos dos que criticam o cristianismo.  Teólogos como Paul Tillich tiveram a coragem de rever alguns conceitos importantes e apontar o dedo de volta para a cara dos filósofos existencialistas e hoje muitos crentes falam abertamente sobre sexo, arte e filosofia, tornando o Cristianismo uma das religiões mais inclusivas e atuante do mainstream cultural do ocidente.

Por estes motivos, celebramos abaixo os 12 Livros mais importantes na história recente do cristianismo. Eles são testemunhas solitárias que se erguem contra o estereótipo do crente tapado, mostrando que o Cristianismo não se resume a ternos, bíblia debaixo do braço e cabelos e saias longas. A lista é parcialmente baseada numa classificação feita pela revista Christianity Today em 2004. Sempre que possível será indicado a Editora que trouxe o livro em questão para a língua portuguesa, e um link para entrar em contato direto com ela caso deseje adquirir algum deles:

 

12 – Cristianismo Criativo

F. F. Bruce
W4 Editora

O livro que abre a lista é um tapa na cara da imensa maioria dos “artistas cristãos’. Ele demonstra como a produção artística e cultural entre os cristãos se tornou uma enorme prisão criativa e conclama pela necessidade de tornar a arte produzida pelos discipulos de Jesus algo realmente relevante para a sociedade.

11 –  Em Seus Passos Que Faria Jesus?

Charles M. Sheldon
Editora: HAGNOS

O que aconteceria se os cristãos de uma igreja em uma certa cidade se comprometessem durante um ano inteiro a não fazer nada sem antes perguntar? Que faria Jesus em meu lugar? É esta a situação apresentada por este livro. Seguir os passos de Jesus que trouxe muita alegria a inúmeros cristãos, mas também causou incompreensão, conflito e sofrimento para alguns. Afinal, tal decisão significava uma total dedicação de bens materiais, talentos e carreiras pelo amor a Cristo.

10 – Uma vida com propósitos

Rick Warren
Ed. Vida

Muitas vezes o dia a dia no trabalho, o culto pessoal e a comunhão na igreja parecem três coisas separadas. Este livro se propõe a ser uma ferramenta útil em tornar uma a vida do cristão na criação de um relacionamento mais intimo com Deus, seu próximo e com a Igreja que freqüenta.

9 – Cordeiros que Rugem

Robert Briner
W4 Editora

De volta ao início dos anos 90, quando ser “engajado” não estava na moda, “Cordeiros que Rugem” promoveu uma explosão criativa sem precedentes que livrou de vez incontáveis cantores evangélicos dos guetos mentais das suas próprias igrejas.

8 – O Ato Conjugal

Ed. Betânia 

Tim and Beverly LaHaye

Um manual explícito de como os casais podem se satisfazer sexualmente. Na lista por mostrar que o cristão não precisa se envergonhar para falar de seu amor sexual e que ele também pode (e deve) se divertir.

7 – Maravilhosa Graça

Philip Yancey
Ed. Vida

Deus ama o criminoso condenado a pena de morte tanto quanto o cobrador de impostos do tempo de Jesus. Deus perdoa o cônjuge infiel? O racista? O corruptor de crianças? Este livro abriu as portas de muitas igrejas. “A Graça vem sem custo nenhum e para pessoas que não a merecem. Eu sou uma dessas pessoas.”

6 – Cristianismo Básico

John Stott
Ed. Vida Nova

Nas palavras de John Stott: Eles se opõem a qualquer coisa que aparente institucionalismo. Eles detestam o status quo e seus benefícios estabelecidos. E rejeitam a igreja – não sem certa razão – porque a consideram como irremediavelmente corrupta por esses males. Porém o que eles rejeitaram é a igreja contemporânea, não Jesus Cristo.

5 – Evangelismo explosivo

D. James Kennedy
Ed. JUERP

Mais do que qualquer outro livro, considerando que as “Quatro Leis Espirituais” é apenas um folheto, esta obra deu aos crentes uma maneira sistemática de compartilhar sua fé. Ele fez a pergunta que criou a abordagem mais conhecida na pregação contemporânea: “Se você fosse morrer hoje, você teria a certeza de ir para o céu?

4 – Cristãos Ricos em um Mundo com fome

Ronald J. Sider

Este é o único livro desta lista que não tem edição em português ainda. Talvez porque aqui a histórica “opção pelos pobres” encabeçada pela esquerda cristã, já tenha dito o mesmo de maneira mais prática e direta. Jesus sempre esteve do lado dos miseráveis, tanto na pregação quanto na assistência. Sider lembra sem papas nas línguas que negligenciar isso é negligenciar o evangelho em si.

3 – O Deus que intervém

Francis A. Schaeffer
Ed. Cultura Cristã

Este livro e seus volumes seguintes começaram algo extremamente necessário: tornou a história intelectual da humanidade uma parte vital da visão de mundo evangélico. O livro abriu o mundo da arte de vanguarda e da filosofia moderna para uma subcultura (a cristandade) até então ignorante de ambos.

2 – A Bíblia Viva

Kenneth N. Taylor
Ed. Mundo Cristão
Uma das primeiras bíblias na linguagem de hoje. Após anos de escuridão milhares de pessoas entenderam o que quer dizer por exemplo: “A criança de peito brincará sobre a toca da áspide e o já desmamado meterá a mão na cova do basilisco.” Mais do que qualquer coisa este trabalho começou uma verdadeira mania leiga pelo sentido primeiro por trás das palavras das escrituras .

1 – Cristianismo Puro e Simples

C. S. Lewis
Martins Fontes

Talvez o livro mais influênte entre os evangêlicos nos últimos 100 anos. Qualquer um que tenha lido este livro, não precisa de qualquer explicação do porque C.S Lewis, (Sim, é o autor de Crônicas de Narnia) é considerado um dos maiores apologistas cristãos de nossa era.

[…] Este livro é a adaptação de uma série de entrevistas feitas pela BBC entre 1941 e 1944 com C.S.Lewis. O escritor das Crônicas de Narnia foi também um dos maiores e mais divertidos apologistas do cristianismo no século XX.  Sua escrita é leve e cheia de humor e lembra bastante o estilo de G. K. Chesterton. O livro tornou-se um clássico instantâneo e considerado pela revista Christianity Today um dos  12 Livros mais importantes na história recente do cristianismo. […]

[…] O livro tornou-se um clássico instantâneo e considerado pela revista Christianity Today um dos 12 Livros  mais importantes na história recente do cristianismo. Sua escrita é leve e cheia de humor e […]

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/12-livros-que-moldaram-o-cristianismo-contemporaneo/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/12-livros-que-moldaram-o-cristianismo-contemporaneo/

Almas Vintage

Shirlei Massapust

Em mandarim yāo (妖) significa um monstro, geralmente de origem exógena, com corpo formado de ectoplasma modelável, como o ātman (आत्म) do hinduísmo. Este termo passou para o nihongo como prefixo de palavras tais como yōkai (妖怪) ou monstro misterioso, yōma (妖魔) ou monstro mágico, yōtō (妖刀) ou kataná monstruosa, etc. Menos frequentemente yāo pode designar um humano que se tornou feiticeiro ou até um fantasma. Geralmente os imaginamos com má aparência, embora a partícula ocorra também em termos venturosos como yōen (妖艶), que designa uma personagem encantadora, sensual. A palavra utilizada para traduzir o inglês faery (fada) é geralmente yāojing (妖精), em mandarim, yojeong (요정) em hangul e yōsei (妖精) em nihongo.

Um ponto leva a outro. Pelas sílabas de yōkai (妖怪) obtemos os sinônimos yōbutsu (妖物) e kaibutsu (怪物), designando poder de mutação; algo que nos leva em trilha semântica ao bakemono (化け物), um ser com poder de metamorfose, apto a assumir ao menos duas formas distintas. Outras combinações do superlativo honorífico o (お) com bake (化け, mudando, corrompendo)[1] e o substantivo mono (物, objeto) dão-nos as variantes sinônimas obake (お化け) e obakemono (お化け物).[2]

No Japão uma casa mal assombrada é uma bakemono-yashiki (化物屋敷). No folclore oriental o ser humano tem ki (氣), uma força vital que nos sustenta e se espalha pelo meio-ambiente do mesmo modo que deixamos fios de cabelo, células mortas, fragmentos de unhas, suor, etc., para traz. Enquanto nossos restos matérias atraem ácaros que produzem fezes, nossos restos de carga atraem yōkai que, por sua vez, recarregam o ambiente com rastros de sua potência mutagênica e vivificante.

Casas repletas de mobília antiga e objetos que nunca são renovados acumulam carga até as coisas entrarem num estado de existência animista[3] indicativo da corrupção ou mudança, chamado de tamashī (魂), reikon (靈魂), konpaku (魂魄) e hakurei (魄霊)[4] em diferentes épocas. Isto que hoje conhecemos por bakemono é um corpo material (objeto, animal ou pessoa) que prodigiosamente muda daquilo que era antes para algo que vem a ser. Um exemplo: No templo budista Mannenji, localizado em Iwamizawa, Hokkaido, existe uma boneca chamada Okiku (お菊人形), antiga e já bastante erodida.

A tradição oral revela que este item foi comprado por Eikichi Suzuki, um rapaz de dezessete anos, no ano 1918, em Tanuki-Koji, na ilha Sapporo. Eikichi Suzuki deu Okiku à sua irmã de três anos, chamada Kikuko ou Kiyoko. A menina amou o presente e não se separou da boneca até morrer de virose no ano seguinte. Após a cremação do corpo da menina, Okiku foi posta no oratório da família bem ao lado da urna funerária. Com o passar do tempo o corte de cabelo em estilo okappa, antes nos ombros, alongou visivelmente. A família interpretou a mudança como sinal de que a sombra da morta penetrou naquele objeto por osmose, vivificando-o.

Em 1938 a família Suzuki se mudou para Sakhalin e doou Okiku ao templo, onde permanece exposta até hoje, junto à urna contendo as cinzas da falecida. Todos os anos romeiros participam duma cerimônia em memória de Okiku. Dizem que os olhos da boneca causam sensação de vigilância real. Dizem que sua boca abriu e que cabelos continuam a crescer. Graças à boneca, este templo acabou virando atração turística.[5]

É triste quando o bonequeiro, ningyōshi (kanji 人形師, kana にんぎょうし), fabrica o boneco, ningyō (kanji 人形, kanaにんぎょう), com propósitos artísticos e o item acaba na fogueira porque alguém julgou aquele objeto como algo capaz de absorver a moléstia e curar uma criança adoentada quando posto no leito onde ela dorme.

No Japão as bonecas não são apenas brinquedos infantis e muitas vezes representam símbolo da história dos costumes do país. Elas são chamadas de ningyō e ao longo de toda a história do Japão foram sofrendo pequenas modificações. As primeiras referências de bonecos são os haniwa, estatuetas de barro encontradas em tumbas pré-históricas, onde o que menos contava era o apelo decorativo. No período Heian (794-1185) eram usados para afastar demônios.

Inicialmente as bonecas eram muito simples, moldadas em palha ou papel sendo que as primeiras serviam para afastar epidemias e eram colocadas nas fronteiras das antigas aldeias. E para purificar corpo e alma, se usavam bonecas feitas de papel que depois eram jogadas no rio para levar embora os maus fluídos. (…) Durante o fechamento do país para o mundo, no período Edo (1603-1868), o país desenvolveu uma cultura própria. Neste período as bonecas ainda carregavam uma forte superstição pois muitas pessoas as tinham como amuleto para afastar pragas de plantações ou para garantir um bom parto. Mas foi em meio a esta mentalidade que surgiram as karakuri, bonecas que tocavam instrumentos e dançavam através de um sistema simples de cordas retorcidas, roldanas e fios.[6]

Noutro artigo já mencionamos a lenda da yōtō (妖刀), espada de uso bélico que se apega à sua função social, tem sede de sangue e induz qualquer usuário a continuar matando mesmo em tempos de paz. Outros artefatos de uso militar também podem ganhar vida, conforme narrativas folclóricas e artísticas. O abumi-guchi (鐙口) é o estribo de hipismo, utilizado por um comandante militar, que com o tempo se transforma numa criatura peluda.[7] Certa vez Ozamu Tezuka preencheu uma página do gibi Dororo (どろろ) com um único quadro onde equinos sem cabeça, de pescoços flamejantes, galopam assustando o protagonista. Parecem com a mula-sem-cabeça do folclore brasileiro.

Não é normal num gibi que o desenhista gaste uma página inteira com apenas um quadro, especialmente contendo uma cena desprovida de pertinência temática com o roteiro. Na página seguinte o menino sonha com o passado, lembrando de como ele se tornou um órfão predestinado à vida de ladrão.[8] Seriam aqueles cavalos de guerra decapitados anunciadores de pesadelos?[9] Na esperança de obter mais informações procurei pela primeira versão animada de Dororo (どろろ; 1969) cuja música da abertura e encerramento é pausada pela recitação de poemas por uma voz feminina. Na primeira interrupção ela fala sobre as posses do samurai moeru yoroini (燃えるよろいに) ou “armadura flamejante” e moeru uma (燃える馬) ou “cavalo flamejante”:

赤い夕日に照り映えて

燃えるよろいに燃える馬

天下めざしてつきすすむ

 

No crepúsculo vermelho

Armadura em chamas, cavalo em chamas

Correndo veloz, galopando pelo mundo[10]

Na abertura do remake de Dororo (どろろ; 2019) vemos a cena do quadrinho onde vários cavalos sem cabeça galopam numa fração de segundo e não tornam a aparecer no seriado em si, assim como nunca vemos a cena da putrefação do cadáver do protagonista igualmente presente naquela amostragem.

Nossa energia impregna num animal doméstico mimado em excesso do mesmo modo que entra em objetos estimados. Por isso a forma primária dum bakemono pode ser um ser vivo, como o bakeneko (化け猫, gato metamorfo). Um animal selvagem que atinge idade avançada para muito além do normal também se transforma, como o bake-danuki (化け狸, tanuki metamorfo). Isso é o contrário das lendas ocidentais de homens que viram animais (lobisomem, capelobo, etc.) pois no caso nipônico é o gato, o tanuki, a raposa, etc., que vira gente temporariamente ou reencarna como gente.

Quando itens domésticos ganham vida e senciência eles ainda estão apegados aos velhos usos e atuam de modo obsessivo compulsivo. Sendo assim, na China uma zhǒu shén (箒 神), chamada no Japão de wawakigami (ははきがみ), é uma vassoura que, descontroladamente, varre sozinha as folhas que caem em dias de vento frio.[11]

Objetos domésticos de uso regular só se tornam agressivos quando passionais, podendo buscar vingança contra pessoas que os inutilizaram ou os jogaram no lixo. Por conta disso, alguns santuários oferecem o serviço de “consolar” objetos quebrados ou que não são mais usados.[12] Muitos países como a Tailândia, por exemplo, constroem templos para alguns objetos com fama ou origem sobrenatural.[13] No Japão cerimônias de consolação são realizadas em templos budistas e xintoístas. Por exemplo, existe o festival hari kuyō (針供養), celebrado em 8 de fevereiro na região de Kanto, mas em 8 de dezembro nas regiões de Kyoto e Kansai, onde as costureiras levam suas agulhas quebradas para agradecer os préstimos antes do descarte.[14] Assim elas não as furam.

Ningyō kuyō (人形供養) é um serviço de memorial para bonecas antigas, com presença de gueixas e monges, onde as famílias agradecem os préstimos dos objetos que cumpriram sua função social fazendo companhia e protegendo suas crianças, mas que perderam a utilidade e foram entregues à cremação. Isto ocorre desde sempre no templo zen-budista Hōkyō-ji (宝慶寺), em Kyoto, conhecido como Templo dos Bonecos devido ao seu acervo de peças imperiais coletadas e acumuladas durante séculos.[15] Posteriormente o mesmo costume foi introduzido no templo Kiyomizu Kannon-dō (清水観音堂), em Tokyo, e virou matéria da revista Superinteressante (agosto de 1992).

No Japão, até hoje as duas definições (boneca e ídolo) se misturam tanto quanto se misturavam entre romanos e gregos. Há pelo menos 900 anos, todo dia 3 de março, as meninas reverenciam a casa imperial reunindo suas bonecas prediletas numa grande festa. Uma a uma, todas as bonequinhas são visitadas, apresentadas às amigas e, durante o chá, têm o privilégio de serem servidas em primeiro lugar. (…) Para os japoneses, bonecas têm espírito. (…) Ainda hoje, muitos japoneses acreditam que, colocada no leito de uma criança doente, a boneca pode levar a moléstia embora. Se presenteadas no dia do casamento, são consideradas símbolo de prosperidade e felicidade conjugal para o jovem casal. Há pouco mais de vinte anos, o sindicato dos fabricantes e comerciantes de Tóquio aproveitou a deixa dessa crença para promover um grande lance comercial chamado ningyō kuyō. Tradução: “consolo da alma das bonecas”, ritual de cremação que se tornou tradicional na capital japonesa. Todo dia 25 de setembro, as mulheres estéreis que obtiveram a graça de ter um filho levam uma boneca para ser cremada no templo Kiyomizu-Kannon-dō. A ideia é que, queimando a boneca, seu espírito carregado do desejo de maternidade vai embora com a fumaça e a criança pode crescer em paz. Vai-se o espírito infantil, fica o comercial.[16]

Na antologia de poemas Ise monogatari (伊勢物語), seção 63, datada do século IX, lemos a palavra tsukumogami (つくも髪) referente aos cabelos brancos, kami (髪), duma idosa. Setecentos anos depois o autor-ilustrador do pergaminho Tsukumogami emaki (付喪神絵巻) explicou que o intraduzível prefixo tsukumo na palavra tsukumogami (desta vez 付喪神) também poderia ser escrito com o kanji 九十九, que significa um período de noventa e nove anos. Sendo assim uma ferramenta ou utensílio doméstico desenvolveria um espírito evoluído após a passagem de noventa e nove anos. Mas há um problema: A truncagem de kami (髪, cabelo) por kami (神, divindade) sugere que ele não entendia o sentido original de tsukumogami ou formulou um homônimo homófono.            Segundo o pergaminho do século XVI, à época as pessoas descartavam objetos antes de completarem o período chamado de susu-harai (煤払い). Conforme exposto, se demorassem mais a ferramenta “mudaria e adquiriria um espírito, e enganaria o coração das pessoas”. Tal ensinamento constaria no livro Onmyō Zakki (陰陽雑記), livro que também informaria sobre a coisa vivificada que assume aparência humana, tanto masculina quanto feminina, tanto idosa quanto jovem; bem como “a semelhança de chimi akki” (aparência de oni) e “a forma de korō yakan” (forma de animais), entre outras. Seu aspecto após a mutação é referido com palavras como youbutsu (妖物).[17]

Há dúvidas sobre se o susu-harai é, de fato, um período de exatos noventa e nove anos porque tsukumo (九十九) pode se referir literalmente a um número ou, menos precisamente, a uma hipérbole no sentido de muito tempo. A boneca Okiku só precisou de um ano para adquirir uma natureza espiritual pois isso representou um terço da vida de sua dona, que a amou com intensidade, agonizou e morreu com ela. No primeiro volume do romance gráfico Tokyo Babylon (東京BABYLON), do grupo CLAMP, editado pela Shinshokan, em 1990, uma personagem adoece e apresenta comportamentos estranhos após comprar uma jaqueta numa liquidação de roupas. Subaru descobre que a jaqueta ficou carregada de energia negativa por conta da competição da clientela por aquele objeto, ao ponto de aquilo necessitar de exorcismo.[18]

Papéis encantados

No Japão, em templos da religião xintó, são vendidos ofuda (御札), que são amuletos de papel produzidos por monges para atrair o amor, a saúde, a prosperidade financeira e até proteger contra mal olhado e fantasmagorias. Do mesmo modo, no taoísmo e noutras religiões chinesas, existe o jufu (呪符) ou gofu (護符), amuleto de papel ou madeira produzido para finalidades que mudam conforma a inscrição.

Os ofuda tem efeito imediato porque o monge xintó é competente para canalizar a energia dos kami (神) aos quais ele presta culto. Porém existem métodos para o leigo carregar papel com os eflúvios energéticos de origem humana, de modo voluntário ou involuntário. Hoje há todo um ritual construído em torno da tradição de confeccionar, expor e descartar o washi ningyō (和紙人形); um ningyō (人形) ou boneco feito de washi (和紙), tipo de papel artesanal feito a partir das cascas das árvores das amoreiras.

Livro de arte com fotografias de washi ningyō produzidos pela artesã japonesa Eika Ito.[19]

Dizem que o washi ningyō teria o poder de remover a dor quando posto no leito dum enfermo que dorme. Logo depois, o boneco descartável carregado pela energia da enfermidade deve ser cremado ou levado para longe e dissolvido em água.

Fotos: 1) washi ningyō produzidos pela fábrica Kyugetsu representando Shinzo Abe, o Primeiro Ministro do Japão, e Caroline Kennedy, Embaixatriz dos Estados Unidos no Japão. (Foto © 2014, The Japan Times). 2) Monges levando um barco cheio de bonecos para o rio.

Com o passar dos séculos este rito individual originou uma festa coletiva. Hina-ningyō (雛人形) é um washi ningyō introduzido no festival Hinamatsuri (雛祭り), o “Dia das Meninas”, realizado anualmente por japoneses e italianos descendentes de japoneses. Neste festival inúmeros bonecos são expostos sobre carpete vermelho.

Bonecos de papel ou palha representando a corte imperial, com roupinhas em estilo antigo, são levados para templos onde ficam expostos ao público desde meados de fevereiro até o dia três de março. Depois o excesso é cremado pelos monges. Contudo, muitos ainda chegam ao fim do procedimento onde as pequenas figuras humanas são postas para navegar à deriva em barquinhos de madeira, empurrados pela correnteza dos rios ou pelo movimento das ondas.  Estes se tornam hina-nagashi (雛流し), bonecos flutuantes, que levam as doenças e problemas com eles para longe.

No Brasil existe um costume parecido onde, no dia do Réveillon, os umbandistas pulam sete ondas na Praia de Copacabana e enviam oferendas para Iemanjá dentro de réplicas de barcos em miniatura que podem ou não conter uma imagem da santa.

No Japão até um maço de papel pode ser imbuído de poder mágico. Kyōrinrin ( 経凛々) é um bakemono resultado da transmutação de pergaminhos, livros, etc., que foram negligenciados e deixados sem leitura[20] por bastante tempo. Antigamente o papel branco era produzido com fibras da planta chamada asa (麻) ou o (苧), conhecida em botânica como Cannabis sativa. Havia grandes campos de plantações destinadas a este fim. Na ausência de nanquim a tinta era obtida de materiais biológicos, como gema de ovo e sangue animal. Segundo Aline Ribeiro, durante o shogunato de Tokugawa (1853-1867) os samurais eram submetidos a um rito de passagem:

A lealdade tinha certos rituais muito profundos, como um “contrato” firmado entre o guerreiro e seu daimyō. O documento era escrito com o sangue do próprio samurai, assinado e, logo em seguida, queimado. As cinzas eram dissolvidas em água e bebidas, fazendo com que se criasse um laço eterno entre a linhagem do samurai e a do senhor.[21]

Coisas estranhas acontecem quando um papel impregnado de energia aleatória não é cremado nem exposto aos elementos. Muitos acreditam que o shōji – tipo de porta deslizante feita de papel de arroz, – assim como as fechaduras e outras benfeitorias necessárias do lar, se transmutam em mokumokuren (目目連) e tendem a criar muitos olhos quando deteriorados e esburacados pelo tempo ou pela má conservação.[22]

A lanterna chōchin (提灯お), feita de bambu ou papel de seda, é um objeto de grande beleza, onipresente na decoração nipônica. O yóuzhǐ sǎn (油纸伞), um guarda chuva de papel em estilo chinês, é estruturalmente semelhante ao kasa (傘), o guarda-chuva comum, porém se trata dum item decorativo que os noivos carregam na cerimônia de casamento. Se alguém decidir guardar estes apetrechos perecíveis e descartáveis, em algumas décadas eles se tornarão os monstros folclóricos chōchin-obake (提灯お化け) e kasa-obake (傘おばけ)[23]. Assim como um gato doméstico muito mimado pode se tornar um bakeneko (化け猫), um tanuki eventualmente evolui para bake-danuki (化け狸) e outros animais da fauna local se convertem nas mais variadas fantasmagorias.

Um kasa-obake não precisa necessariamente evoluir de um yóuzhǐ sǎn, mas suponhamos que assim seja. Como todo bakemono ele é um objeto imbuído da força vital projetada por alguém que congelou sentimentos experimentados à época de sua posse. Quem não deseja mudar de atitude ou de opinião faria bem em ter um bakemono amigo. As emoções impregnadas na memorabilia nupcial carregariam e vivificariam o objeto de estimação que transmuta a haste de sua alma artificial num corpo sutil e abre as asas na forma do animal que lhe é mais semelhante: Um elegante morcego.

Este quiróptero etéreo promoveria a união do casal evocando a lembrança daqueles momentos felizes. Enquanto o objeto existisse, ele faria tudo para não deixar seus proprietários se separarem, brigarem ou pararem de desejar um ao outro. Contudo, se fosse jogado fora ou acabasse nas mãos de outrem, por herança ou mero acaso, tumultuaria a vida alheia tentando controlar sua vontade para realizar sua função social. Enfim, o novo dono viraria um mulherengo, um libertino, ou se apressaria a casar.

Ilustração de Hokusai representando um chōchin-obake (1826/1837) e detalhe de uma ilustração de Yoshitoshi (1839-1892) figurando um provável kasa-obake ou morcego associado ao guarda-chuva. Ele pode ser a alma do objeto porque, em nihongo, uma das palavras sinônimas tanto de quirópteros quanto de guarda-chuvas é kōmori (コウモリ ou こうもり), por causa dos dedos e estruturas que suportam tecidos esticados. Cesar Gordon observou que em mebêngôkre, o idioma dos indígenas Kayapó, os guarda-chuvas também são chamados de morcegos (njêp).[24]

No início não havia nenhuma padronização da aparência de objetos mutantes na arte nipônica. E nem seria lógico se houvesse; afinal, eles têm poder de mutação. Hoje, contudo, a variação na aparência depende do tipo de item que os originou, assim como as condições de como o objeto estava. [25] Imagens da lanterna chōchin-obake (提灯お化け), do guarda-chuva kasa-obake (傘おばけ), do chinelo de palha bakezōri (化け草履) e doutros objetos que viram obake muitas vezes os mostram fazendo careta, com língua de fora, certamente por influência do padrão iconográfico estabelecido na era Kanei (1848-1853) pelo bonequeiro Hikoshichi Nishijinya (西陣屋彦七), natural da cidade Kumamoto, criador do boneco mecânico obake no Kinta (おばけの金太).

Arte em de papel machê: 1) Cabeças vermelhas e outros brinquedos obake no Kinta que exibem as línguas na Loja de Bonecos Atsuga (厚賀人形店), em Kumamoto, Japão.[26] 2) Máscara “O Linguarudo” representando o diabo, produzia por Dionísio (1909-2007), em Niterói, RJ, Brasil.

Este brinquedo folclórico tem aspecto duma cabeça humana ou animal de papel machê, fixada sobre haste de bambu, com engrenagens internas que permitem mover os globos oculares, abrir a boca e mostrar a língua quando puxamos uma corda.[27] Os descendentes de Hikoshichi Nishijinya ainda fabricam o brinquedo e explicam que seu nome era Kinta, porém alguém se assustou com o movimento e supôs ser um obake.

Oposição entre valores morais e pecuniários

Uma antiga lenda diz que Bodhidharma () atingiu o nirvana meditando durante nove anos numa caverna. Durante esse exercício meditativo ele permanecia imóvel, observando fixamente o vazio numa posição chamada bìguān (壁觀) ou “olhar perene” até suas pupilas ficarem reduzidas ao tamanho mínimo. Depois que o fundador do zen-budismo na China se mumificou em vida, os chineses começaram a esculpir santos e brinquedos verdadeiros sem pupilas em sua homenagem, transmitindo a tradição aos japoneses que hoje fabricam o boneco-amuleto Darumá (だるま).

Diz a lenda que Bodhidharma meditou em uma caverna por 9 anos sem nem ao menos piscar. Sua persistência foi tão forte, que ele continuou sem parar mesmo depois de seus braços, pernas e pálpebras caírem. Essa lenda (…) é a origem do formato redondo do Darumá. Os Darumás possuem mais peso na parte inferior para que fiquem de pé, não importa quantas vezes sejam derrubados.[28]

Na tradição zen-budista japonesa o devoto compra o Darumá cego, pinta uma pupila no olho esquerdo e faz um desejo. Quando o Bodhidharma atende este desejo o devoto retribui concedendo a visão do olho direito, desenhando a pupila que falta. Esses são bonecos inarticulados, humildes, feitos de materiais baratos, geralmente vendidos em feiras e festivais religiosos, mas também em lojas de souvenir. Ao fim de um ano é preciso devolver o Darumá para qualquer templo, onde ele será queimado num ritual, liberando o seu espírito. Esse ritual pode ser individual ou coletivo. Em razão da enorme demanda, desde 1954 o templo budista Nishiarai Daishi (西新井大師) promove o festival Darumá kuyō (だるま供養) onde milhares de exemplares são queimados juntos.

No Japão, China e Coréia do Sul é comum encontrar bonequeiros e vidraceiros produtores de olhos para bonecos de Resina PU com opções de íris monocromática, sem pupilas, disponíveis inclusive em cores fantasia como salmão e vermelho vivo. A artesã chinesa Heise Jin Yao (黑色禁药) é uma entre os muitos comerciantes de olhos para BJD que parodiam a iconografia do Darumá. Porém seus bonecos não são santos conservadores e ninguém os queimaria em sã consciência, pois hoje cada um chega a valer mil dólares americanos. Eles são personagens fantásticos de novelas de temática BDSM. Um deles, Huika (毁卡), teve o nome inspirado por Huìkě (慧可), discípulo de Bodhidharma, segundo patriarca da escola de zen-budismo na China, historicamente conhecido por haver sido um nobre de pouca virtude, pouca sabedoria, coração raso e mente arrogante, descendente direto de Sidarta Gautama.

O filme de horror coreano The Doll Master (인형사; 2004), dirigido por Yong-ki Jeong, foi patrocinado pela Ai Dolls, atual Custom House. Imagine como seria se a indústria estadunidense Mattel, produtora da boneca Barbie, patrocinasse um filme protagonizado por uma Bárbie assassina. Foi exatamente isto que a Custom House fez com seus preciosos produtos! Estariam decretando a obsolescência e recomendando aos proprietários que cremem todos os modelos antigos, a serem substituídos pela nova coleção? No Brasil juristas formulariam hipóteses de crime contra a economia popular; pois, se não destruir, papões com mãos geladas puxarão seus pés para baixo da cama!

Verificamos que o filme The Doll Master retrata fielmente a antiquíssima crença oriental de que certos objetos inanimados podem prejudicar seus donos quando tratados de modo irregular. Ou seja, que “se você se apegar a um objeto e andar sempre com ele a coisa pode formar uma alma”, e que objetos inanimados “como uma rocha, uma boneca ou uma casa” pela qual alguém se apega desmesuradamente, obsessivamente, acabam carregados de sentimentos deletérios que eles reproduzem e irradiam.

Esta obra de ficção apresenta vários resultados para o que acontece quando objetos feitos de Resina PU desenvolvem alma por culpa de seus donos: Damian, um boneco articulado por elásticos internos (BJD), foi adotado e transportado pela mesma pessoa durante dezenove anos, sete meses e vinte e oito dias. Esta mulher tímida se tornou ouvidora de vozes e dialogava com a coisa. Virou uma excluída social. No mesmo filme uma designer de bonecos encontrou um manequim sentado sobre um túmulo. O espírito vingativo do manequim passou para o corpo da mulher e começou a perseguir todos os descendentes do assassino do seu criador. A artesã possessa disse:

Eu acredito que meu trabalho da vida aos objetos inanimados. (…) Você nunca possuiu coisas às quais era apegado? Você já ficou triste após perder aquelas coisas? Eu penso que quando os objetos perdem seus donos, eles ficam tristes também. Você sabia que quando algo está perdido, há algumas ocasiões em que parece que ele nunca desapareceu do seu local de origem? Eles retornam para os seus antigos donos.

Mina, outra BJD, ganhou alma quando sua dona sofreu um acidente. Com o tempo a menina enjoou da boneca e jogou fora, mas a boneca não enjoou da menina. Mina passou a perseguir sua dona, inconformada com o descarte e esquecimento. A boneca era capaz de projetar seu espírito em forma humana diante da antiga proprietária, fazendo-a acreditar que dialogava com uma menina de verdade enquanto os outros a viam falar sozinha. Por isso aquela mulher deixou de ser uma modelo desinibida e bem sucedida. Ela acabou igualmente rotulada como louca.

O exemplo da BJD Mina, de The Doll Master, é idêntico ao da pequena boneca de porcelana Mary, que aparece no episódio 11 do anime Histórias de Fantasmas (学校の怪談; Japão, 2000), Mary reencontrou o caminho de casa e voltou, querendo brincar, mas só achou a filha órfã da sua falecida dona, que era bastante madura e não gostava de bonecas. O brinquedo problemático assombrou a adolescente até ser entregue a um templo budista onde um monge explicou que o certo teria sido cremar os pertences da falecida junto ao corpo na data do óbito. Enfim, nestas obras de ficção as almas dos brinquedos amados sempre requerem mais amor e as dos brinquedos maltratados devolvem a violência às pessoas. Assim todos continuam absorvendo energia alheia.

Propaganda da microempresa sul-coreana HyperManiac, onde são comercializados personagens da designer de bonecos Ka-Hyun.

No sexto episódio da série Witch Hunter Robin (2002), criada por Sunrise e pelo diretor de animação Shūkō Murase, uma jovem bruxa diagnosticada com transtorno de personalidade múltipla transfere suas personalidades para várias bonecas até restar só uma delas em sua mente.  No seriado Another (アナザー; 2012) a filha duma bonequeira extrai um olho tomado pelo câncer e equipa um olho de vidro, um olho de boneca, que transmuta e lhe dá capacidade de ver o mundo sob a perspectiva de um bakemono.

No segundo episódio da primeira versão do seriado Vampire Princess Miyu (吸血姫美夕; 1988), de Narumi Kakinouchi e Toshiki Hirano, algumas pessoas foram transformadas em bonecos articulados por uma criatura de mesma espécie que lhes prometeu beleza eterna. A energia emitida pelos embonecados sustentava o bakemono, porém a Princesa Miyu nada obteve ao mordiscar um aparentemente saboroso menino de plástico. No meio de tudo um personagem coadjuvante se recusou a comprar um brinquedo para sua filha: “Você não acha que as bonecas japonesas são assombradas? O folclore diz que o cabelo das bonecas cresce, e outras coisas deste tipo”.

No desenho animado Dantalian no Shoka (ダンタリアンの書架), sexto capítulo Funsho kan (焚書官), que foi ao ar no Japão pelo canal TV Tokyo, em 19/08/2011, os personagens protagonistas descobrem que todos os coadjuvantes moradores duma cidade misteriosa são bonecos articulados transformados por meios mágicos em shikigami (式神) para servirem de receptáculo das almas dos mortos.[29]

Isto parece uma versão em roteiro de horror da história real da aldeia Nagoro, situada na ilha de Shikoku, Japão, onde a artesã Tsukimi Ayano (月見綾乃) enfeitou áreas públicas e prédios vazios com centenas de bonecos de pano forrados com palha, jornal, etc., para combater a solidão, de modo que sua arte ocupa hoje os lugares dos mortos e dos moradores abduzidos pelo êxodo rural. Esses bonecos são mantidos limpos e substituídos quando se deterioram. Quando a quantidade de falsas pessoas superou a população humana na proporção de dez para um, agências de turismo passaram a chamar Nagoro de Kakashi No Sato (かかしの里), a Vila dos Espantalhos.[30]

Bonecos para um vampiro

Na primeira vez em que assisti ao filme Higanjima (彼岸島; Japão, 2010) pensei que Miyabi (雅) fosse um baquemono tsukumogami pois este personagem, interpretado pelo ator e modelo fashion Louis Kurihara (栗原 類), têm uma presença estética bastante diferenciada da dos demais vampiros. O seu nome significa elegância, refinamento ou cortesania, podendo designar um metrossexual, um destruidor de corações. Enfim, ele parece um boneco e foi achado num templo repleto de bonecos. Além do mais, o jogo Ragnarök Online apresenta uma versão da futa-kuchi-onna (二口女) chamada Miyabi Ningyō (雅人形) vivendo num mapa que obviamente inspirou a criação do labirinto que aparece no capítulo 295 do primeiro romance gráfico da outra franquia.

Miyabi (Louis Kurihara) em Higanjima (彼岸島; Japão, 2010).

Porém tudo se explica no capítulo 39 do romance gráfico, com roteiro e desenho de Kōji Matsumoto (松本 光司).[31] Uma mutação genética ocorrida numa família nobre criou os vampiros. Miyabi foi aprisionado num frigorífico. Durante os cinquenta e sete anos em que esteve preso os ilhéus oraram e construíram ao seu redor. Fizeram um altar para oferendas de alimentos e prosseguiram com as benfeitorias até o local virar um templo ornamentado com estantes de bonecos representando vampiros. No exterior erigiram um torii[32], uma escadaria e tudo que um templo tem direito. Enfim, tentou-se de tudo para apaziguar o vampiro exceto deixa-lo escapar do confinamento.  Foi assim até que um turista desinformado e curioso cometeu o erro de abrir a prisão.

Às vezes os seres humanos imaginam que deuses abstratos precisam de olhos e corpos para representação. O mesmo acontece com fantasmas. Em Chihuahua, México, uma loja de roupas chamada La Popular se transformou em atração turística por ostentar a mesma manequim na vitrine desde 25 de março de 1930. Esta manequim com olhos de vidro está sempre vestida de noiva e foi chamada de Pascualita por parecer com Pascuala Esparza, filha da primeira proprietária da loja, que morreu envenenada pela picada duma aranha viúva negra bem no dia do seu casamento.

Desde o início as pessoas espalharam a lenda urbana de que Pascualita observa os clientes da loja e muda de posição à noite. No Japão, a desenhista Naoko Takeucki parodiou uma lenda urbana semelhante: Até 1992 existia uma loja de vestidos de noiva num shopping de Minami Aoyama, que, para chamar atenção, posava uma manequim prestes a pular da janela do terceiro andar. Muitos transeuntes se assustaram pensando ser uma suicida e contaram estórias. Na versão fictícia do quinto ato do romance gráfico Sailor Moon esta noiva manequim[33] foi animada pela yōma (妖魔) do corpo redivivo do avatar dum shitenōu (四天王) controlado por poderes das trevas e pulava da sacada à noite procurando noivos para extrair energia (精力) e, com isso, nutrir o Dark Kingdom[34].

O sepultamento da cultura

Na vida real enquanto milhares de pessoas comparecem ao Darumá kuyō, dispondo peças para consolação e cremação, e bastante gente leva washi ningyō ao festival Hinamatsuri, como deve ser, somente poucas dezenas participam do ningyō kuyō. E mesmo assim a maioria leva washi ningyō, evitando o desapego de bens duráveis e dispendiosos que são o verdadeiro foco desta bonita cerimônia religiosa.

Fica óbvio que japoneses têm dó de entregar qualquer item superior a bichos de pelúcia. Coisas boas são revendidas, pois a maioria entende que o ideal é cremar no templo aquilo que se faz pelo templo e para o templo. Ou então os próprios monges preservam brinquedos seletos para a não-cremação conforme critérios misteriosos.

Se o problema ainda não ficou claro observem o polêmico artesão chinês Ryo Yoshida (吉田 凌) cremando duas bonecas de terracota que ele mesmo esculpiu, numa ilustração da monografia Articulated Doll, Anatomy of the Ball-Jointed Maiden (2007). Tenha em mente que seis bonecas articuladas, em tamanho humano, esculpidas por Ryo Yoshida entre os anos 1986 e 1999 constam na exposição permanente 球体関節人形展・Dolls of Innocence, do Museu Nacional do Japão.[35] Estando o artista vivo e atuante, o valor mínimo para essa categoria de arte gira em torno do equivalente a quatro mil dólares americanos. Então são pelo menos oito mil dólares em obras de arte com qualidade de museu crepitando no fogo. (Pense no Coringa queimando dinheiro).

O que acontece quando monges pedem para cremar uma categoria de bonecos que custa vários salários mínimos? O homem médio obedece ou questiona? Um artista consagrado como Ryo Yoshida pode se dar ao luxo de capitalizar a religião vendendo livro e postais com foto do rito secular, porém os colecionadores guardam itens valiosos mesmo que sejam objetos agourentos. Geralmente, quando solicitado, o colecionador leva qualquer treco dizendo “este é meu boneco”, os monges educadamente fingem que foram enganados e os bonequeiros se divertem desconstruindo o dogma.

A ideia duma dimensão espiritual intrinsecamente relacionada à produção de bonecos aparece ludicamente sugerida nos nomes-fantasia de microempresas sul-coreanas e chinesas, surgidas no século XXI, fabricantes de peças em Resina PU, a exemplo da Loong Soul (龙魂人形社; alma de dragão), Immortality of Soul (imortalidade da alma), Resin Soul (alma de resina), Souldoll (boneca com alma), Angel Studio (fábrica de anjos), Illusion Spirit (espírito ilusório), etc. No catálogo da Souldoll o nome do modelo Kagel vem de kage (影, sombra) e ele existe nas versões humano e vampiro.

O ateliê chinês ★ANother Secret★ produz cabeças para montagem de bonecos e possui uma coleção chamada Hyakki Yakō (百鬼夜行) que leva o nome duma folclórica parada onde uma centena de yōkai percorre as ruas à noite, aterrorizando os humanos.

Esses bonecos orientais de Resina PU destinados ao nicho do hobby específico já não são tão enormes e dispendiosos quanto as peças de terracota e porcelana fria em escala 1/1, mas ainda são maiores que a escala 1/6 adotada perlo padrão ocidental, custando em média de trezentos a setecentos dólares, salvo casos excepcionais.

Por que os bonequeiros do século XXI descontroem e subvertem a religiosidade popular? Quem fabrica peças para consumo em território nacional e internacional são predominantemente mulheres vivendo em países onde a lei e os costumes estabelecem salário diferenciado para o sexo masculino, a fim de assegurar a posição hierárquica do homem como arrimo de família. A existência de artistas de sexo feminino ganhando mais do que o homem médio nas indústrias de publicação de mangás shoujo e josei, nas fábricas de bonecos, etc., quebra todos os tabus. Elas chefiam os seus negócios.

A classe conservadora se mostra hostil às mulheres trabalhadoras e seus iguais, que retribuem com deboche e – no caso das bonequeiras – chegam a utilizar o ônus do folclore como propaganda indireta ao promover produções de horror, como The Doll Master (2004) e Rozen Maiden – Träumend (2005). Afinal, já dizia o velho bordão: “falem mal, mas falem de mim”. Entretanto, não podemos descartar a possibilidade de às vezes estarmos importando objetos feitos por algumas pessoas que sinceramente acreditam na tradição local e tiveram a intenção de nos vender seus receptáculos de programação energética sujeitos ao ganho de vida artificial.

Resumo geral: fluxo e refluxo energético

A queima de artefatos não é uma realidade apagada no ocidente. No Brasil, nos Estados Unidos e noutros lugares onde organizações religiosas cristãs possuem grande influência no ambiente cultural, existe uma ostensiva propaganda de “batalha espiritual” ordenando o exorcismo de pessoas e a queima de determinados objetos passíveis de canalizar a possessão demoníaca (normalmente brinquedos, revistas em quadrinhos, filmes, discos de vinil, camisetas com estampa de banda musical, livros de biologia lecionando sobre os princípios da seleção natural e da ancestralidade comum, etc.).

Isso é diferente do que acontece no oriente porque o cristão queima os objetos proscritos com desdém, em nome Jesus, lutando contra o Diabo, enquanto o zen-budista crema com respeito. O bakemono do folclore nipônico não é um objeto possuído por anjo rebelde. Ele ficou impregnado de energia desprendida por um ou mais humanos e fixou-a como uma espécie de programação, passando então a reproduzi-la e irradiá-la. Ou seja, qualquer objeto pode adquirir o poder de congelar sentimentos havidos à época de seu uso. Por isso quando qualquer coisa absorve um malefício o prejuízo se torna parte da coisa e ela precisa ser destruída, mesmo que seja uma estátua de santo.

A sabedoria oriental aconselha a consolar e cremar, como se morto fosse, quase tudo que vira bakemono porque não é possível transformar tantas coisas em artigos de devoção. Se uma coisa dessas for doada para caridade ou jogada no lixo ela continuará amando e sofrendo, ficará ressentida e retornará ao usuário, podendo expressar desejo de vingança. Depois, em caso de morte do usuário, a herança buscará os herdeiros.

O ser humano exala grandes quantidades de energia durante momentos de angústia, stress, paixão, etc. A energia exalada por um estressado, por exemplo, ficaria impregnada na casa como a poeira que se acumula atrás dos móveis. Isso faria com que os objetos inanimados se transformassem em verdadeiros depósitos de stress. Visitas que sentassem num sofá estressado perderiam a alegria e ficariam estressadas em decorrência da contaminação. Nem o proprietário da coisa conseguiria melhorar e mudar de humor, pois ele continuaria a absorver e exalar o seu próprio baixo astral.

Todos nós conhecemos contos folclóricos sobre imóveis que influenciam novos habitantes porque, no passado, houve ali algum crime violento ou alguém morreu de doença grave, em intensa agonia. Antigos hospícios enlouquecem visitantes. Antigas prisões e cemitérios geralmente são mal assombrados. Museus também. Todavia nem todos as coisas são tão grandes ou carregam experiências tão intensas. A diferença entre uma boneca carregada, uma memorabilia nupcial e uma espada de guerra é que a boneca quer brincar, a memorabilia quer presenciar o amor e a espada quer matar.

Várias narrativas descrevem coisas dotadas de pouca inteligência, emotividade excessiva e inclinação ao cometimento de crimes passionais. Quem descarta algo que foi um dia muito amado deixa a coisa saudosa, indignada, ciumenta e enraivecida.  Um bakemono criado a partir dum objeto superestimado será intensamente passional. Quando um homem vive intensamente a paixão por uma companheira ele está feliz, mas quando o sentimento acaba e a mulher rejeitada demonstra um ciúme doentio, ela o persegue e o faz infeliz. Com bakemono é a mesma situação.

Um objeto dotado de espírito precisa ser consolado em sinal de agradecimento e, depois, diluído em água corrente ou cremado para que descanse em paz após a prestação de serviços. Depois que um item não descartável promove uma cura absorvendo um malefício por osmose, a energia negativa absorvida se torna parte da coisa e o objeto precisa receber limpeza espiritual para não causar um refluxo, um efeito reverso, contaminando o ambiente.

Quem não deseja mudar de atitude ou opinião não precisa cremar o bakemono. Ele é literalmente sua alma gêmea (a menos que esteja possuído por um yōkai). Tem gente que programa cristais para catalisar a energia canalizada pelo Eu superior na intenção de auxiliar a si mesmo a manter o foco no serviço ou num objetivo a ser alcançado. Tudo bem se você se apaixonar por um brinquedo, permanecer com ele durante setenta anos e alguém depositar isto no seu túmulo. Provavelmente vocês serão felizes para sempre. O problema não existirá até que você deixe de ter prazer na interação com algo que passou a lhe causar vergonha e incômodo, que te deixa infeliz e escraviza como um vício. Desse jeito este velho amigo pode paralisar a vida do dono.

Não importa se o folclore alerta sobre a possibilidade de o espírito do vampiro de brinquedo sair do baú à noite para penetrar nos seus sonhos e mordiscar seu pescoço. As vezes a carga mitológica só agrega valor ao item de estimação, assim como histórias de fantasmas incitam a curiosidade sobre prédios históricos. Certa vez, no programa Trato Feito, o proprietário duma estátua de cavalo forjada no velho oeste estadunidense ficou feliz por encontrar nela um furo porque no que diz respeito às antiguidades do velho oeste “buracos de bala sempre deixam a coisa interessante”.

Bibliografia recomendada:

AMBROSIUS, Mario. 球体関節人形展・Dolls of Innocence. Tokyo, Nippon Television Network Corporation, 2004. 152p.

ITO, Eika (伊藤 叡香). Washi ningyō o tsukuru和紙人形を創る」. Japão, MPC (エムピーシー), 01/06/2002. 140p

YOSHIDA, Ryo. Articulated Doll, Anatomy of the Ball-Jointed Maiden.解体人形 吉田良人形作品集」. Japão, Editions Treville, 2007. 152p.

Notas:

[1] O termo bake (化け), “transformando”, é a forma ren’yōkei (連用形), correspondente ao nosso gerúndio, do verbo bakeru (化ける), “transformar” ou “mudar”.

[2] Todos os catálogos virtuais de folclore escritos em idiomas ocidentais classificam o bakemono dentro da categoria ontológica yōkai (妖怪). Porém na série Natsume Yūjinchō (夏目友人) o protagonista explica que existem diferenças entre bakemono e yōkai. “Se você conseguir beber sem se embebedar, você deve ser um bakemono…”.

[3] O animismo é a cosmovisão em que entidades não humanas possuem uma essência espiritual.

[4] WIKTIONARY, verbete 「霊魂」. URL: <https://en.wiktionary.org/wiki/%E9%9C%8A%E9%AD%82>. Acessado em 19/04/2022 14h16.

[5] TRAVI, Mauricio. A misteriosa lenda da boneca japonesa Okiku. Em: DANJOU, publicado em 08/06/2018. URL: <https://www.danjou.com.br/post/2018/06/08/a-misteriosa-lenda-da-boneca-japonesa-okiku>.

[6] NINGYOO – BONECAS. © 2003 Aliança Cultural Brasil Japão de Joinville. Texto salvo do Geocities em outubro de 2009. Acessado em 28/04/2022 às 19h. <URL: http://www.oocities.org/br/japaojoinville/ningyoo.htm>.

[7] ABUMI-GUCHI. Em: Yōkai Wiki. Acessado em 14/05/2022. URL: <https://yokai.fandom.com/wiki/Abumi-Guchi>.

[8] TEZUKA, Osamu. 無残帖Cruel. Em: TEZUKA, Osamu. Dororo: Volume 2. São Paulo, New Pop, 2011, p 07.

[9] Talvez não seja inútil mencionar o MMORPG coreano Ragnarök Online onde os avatares do jogador combatem cavalos pegando fogo chamados “pesadelos sombrios”.

[10] DORORO WIKI, verbete Dororo no Uta. URL: <https://dororo.fandom.com/wiki/Dororo_no_Uta#English>. Acessado em 18/04/2022 16h02.

[11] TUZI. Tsukumogami: yōkai de objetos antigos. Publicado na Radio Hero em 18/03/2021, 01h23. URL: <https://radiojhero.com/tsukinousagi/2021/03/tsukumogami-yokai-de-objetos-antigos/>.

[12] PAN. O que são os Tsukumogami: Os Objetos Possuídos. Publicado no blog Suco de Manga em 31/10/2021. URL: <https://sucodemanga.com.br/saiba-o-que-sao-os-tsukumogami-os-objetos-possuidos/>.

[13] TUZI. Tsukumogami: yōkai de objetos antigos. Publicado na Radio Hero em 18/03/2021, 01h23. URL: <https://radiojhero.com/tsukinousagi/2021/03/tsukumogami-yokai-de-objetos-antigos/>.

[14] TSUKUMO-GAMI: OS ESPÍRITOS ZOMBETEIROS DE ANTIGOS ARTEFATOS JAPONESES. Publicado em Caçadores De Lendas, 06/2013. URL: <https://cacadoresdelendas.com.br/japao/tsukumo-gami-espirito-de-artefato/>.

[15] DAVE, Ronin. Japanese Doll Memorial with Geisha in Kyoto – Ningyo Kuyo 人形供養. Publicado no canal do autor no Youtube em 16/10/2015. URL: <https://www.youtube.com/watch?v=JwiDg7mMU5Q>.

[16] A MAGIA DAS BONECAS. Em: Super Interessante. Publicado em 31/07/1992, 22h00. Atualizado em 31/10/2016. URL: <Leia mais em: https://super.abril.com.br/historia/a-magia-das-bonecas/>.

[17] WIKIPEDIA, verbete Tsukumogami. URL: <https://en.wikipedia.org/wiki/Tsukumogami>. Acessado em 27/04/2022 17h06.

[18] PAN. O que são os Tsukumogami: Os Objetos Possuídos. Publicado no blog Suco de Manga em 31/10/2021. URL: <https://sucodemanga.com.br/saiba-o-que-sao-os-tsukumogami-os-objetos-possuidos/>.

[19] ITO, Eika (伊藤 叡香). Washi ningyō o tsukuru和紙人形を創る」. Japão, MPC (エムピーシー), 01/06/2002, p 30-31.

[20] Tsundoku (積ん読) é o hábito de comprar livros e deixá-los de lado sem ler.

[21] RIBEIRO, Aline. Guia Conhecer Fantástico Extra: Samurai & Ninja. São Paulo, OnLine, 2015, p 31.

[22] TUZI. Tsukumogami: yōkai de objetos antigos. Publicado em Rádio Hero, em 18/03/2021, 01h23. URL: <https://radiojhero.com/tsukinousagi/2021/03/tsukumogami-yokai-de-objetos-antigos/>.

[23] Um Kasa Obake (傘お化け) é também chamado Karakasa Obake (唐傘お化け) ou Karakasa Kozo (唐傘小僧).

[24] GORDON, Cesar. Economia selvagem: Ritual e mercadoria entre os índios Xikrin – Mebêngôkre. São Paulo SciELO – Editora UNESP, 2006, p 356-357.

[25] TSUKUMO-GAMI: OS ESPÍRITOS ZOMBETEIROS DE ANTIGOS ARTEFATOS JAPONESES. Publicado em Caçadores De Lendas, 06/2013. URL: <https://cacadoresdelendas.com.br/japao/tsukumo-gami-espirito-de-artefato/>.

[26] SHIRAISHI, Yuta (白石雄太). Kumamoto no kyōdo omocha “obakenokinta” (熊本の郷土玩具「おばけの金太」). Publicado em Story Nakagawa, 27/08/2019. URL: <https://story.nakagawa-masashichi.jp/104515>.

[27] OBAKE NO KINTA お化けの金太 KINTA THE GHOST. Publicado na Daruma Pedia, em 26/05/2015. URL: <https://darumapedianews.blogspot.com/2015/05/mingei-kyushu-obake-no-kinta.html>.

[28] NISISHIMA, Leandro. A surpreendente história do boneco Daruma. Em: GO! GO! NIHON, 12/01/2022. URL: <https://gogonihon.com/pt/blog/boneco-daruma/>

[29] ANIME REVIEW: DANTALIAN NO SHOKA – 6. Publicado no blog Population GO, no Tumblr, em 24/08/2011. URL: <https://populationgo.tumblr.com/post/9338032459/anime-review-dantalian-no-shoka-6>.

[30] CONHEÇA NAGORO, A VILA JAPONESA ONDE BONECOS SUBSTITUEM OS MORTOS. Publicado no portal de notícias Mega Curioso. Acessado em 18/05/2022. URL: <https://www.megacurioso.com.br/artes-cultura/114824-conheca-nagoro-a-vila-japonesa-onde-bonecos-substituem-os-mortos.htm>.

[31] Higanjima (彼岸島) foi originalmente publicada na antologia de quadrinhos Shukkan Young Magazine (週刊ヤングマガジン), pela editora Kōdansha (講談社), desde 04/04/2003 até 06/12/2010.

[32] Um torii (鳥居) é um portão tradicional japonês encontrado na entrada ou dentro de um santuário xintoísta, onde simbolicamente marca a transição do mundano para o sagrado.

[33] NAVOK, Jay e RUDRANATH, Sushil K. Warriors of Legend: Reflections of Japan in Sailor Moon. South Carolina, BookSurge, 2006, p 51

[34] TAKEUCHI, Naoko. コードネームはセーラーV— 1. Japão, Kodansha Comics, 1993, ato 5, p 172-173.

[35] AMBROSIUS, Mario. 球体関節人形展・Dolls of Innocence. Tokyo, Nippon Television Network Corporation, 2004, p 66-71.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/almas-vintage/

‘Liber Al vel Legis

Tecnicamente chamado LIBER AL vel LEGIS svb figura CCXX
qual foi ditado por XCIII = 418 a DCLXVI

A.’. A.’.

Publicação em Classe A – B

COMENTO

Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.

O estudo deste Livro é proibido. É sábio destruir esta cópia após a primeira leitura.

Quem não presta atenção a isto incorre em perigo e risco pessoais. Estes são dos mais pavorosos.

Aqueles que discutem o conteúdo deste Livro devem ser evitados por todos, como focos de pestilência.

Todas as questões da Lei devem ser decididas apenas por apelo aos meus escritos, cada qual por si mesmo.

Não existe lei além de Faze o que tu queres.

Amor é a lei, amor sob vontade.

O sacerdote dos príncipes,
ANKH-F-N-KHONSU

I

1 – Had! A manifestação de Nuit.

2 – A desvelação da companhia do céu.

3 – Todo homem e toda mulher é uma estrela.

4 – Todo número é infinito; não há diferença.

5 – Ajuda-me, ó guerreiro senhor de Tebas, em minha desvelação diante das Crianças dos homens!

6 – Sê tu Hadit, meu centro secreto, meu coração e minha língua!

7 – Vede! É revelado por Aiwass o ministro de Hoor-paar-kraat.

8 – O Khabs está no Khu, não o Khu no Khabs.

9 – Identificai-vos pois com o Khabs, e vede minha luz derramada sobre vós!

10 – Que meus servidores sejam poucos e secretos: eles regerão os muitos e conhecidos.

11- Estes são tolos que os homens adoram; seus Deuses e seus homens são tolos.

12 – Aparecei, ó crianças, sob as estrelas, e tomai vossa fartura de amor!

13 – Eu estou sobre vós e em vós. Meu êxtase está no vosso. Minha alegria é ver vossa alegria.

14 –
Acima, o enfeitado azul
É de Nuit o esplendor nu
Curvado em prazer taful;
Hadit secreto é beijado.
Céu de estrela e globo alado
São meus, Ó Ankh-af-na-Khonsu!

15 – Agora sabereis que o escolhido vate e apóstolo do espaço infinito é o sacerdote-príncipe a Besta; e em sua mulher chamada a Mulher Escarlate é todo poder dado. Eles juntarão minhas crianças em seu cercado: eles trarão a glória das estrelas para dentro dos corações dos homens.

16 – Pois ele é sempre um sol, e ela uma lua. Mas a ele é a alada chama secreta, e ela a descendente luz estrelar.

17 – Mas vós não sois assim escolhidos.

18 – Queima sobre suas testas, ó serpente esplendorosa!

19 – Ó mulher de pálpebras azuis, curva-te sobre eles!

20 – A chave dos rituais está na palavra secreta que eu dei a ele.

21 – Com o Deus e o Adorante eu nada sou; eles não me vêem. Eles são como sobre a terra; eu sou no Céu, e não há ali outro Deus além de mim, e meu senhor Hadit.

22 – Agora, portanto, eu vos sou conhecida por meu nome Nuit, e dele por um nome secreto que eu lhe darei quando ele por fim me conhecer. Desde que eu sou o Espaço Infinito e as Infinitas Estrelas de lá, fazei vós assim também. Nada amarreis! Que não haja nenhuma diferença feita entre vós entre qualquer uma coisa e qualquer outra coisa; pois daí vem dor.

23 – Mas quem quer que valha nisto, seja ele o chefe de tudo!

24 – Eu sou Nuit, e minha palavra é seis e cinqüenta.

25 – Dividi, somai, multiplicai e compreendei.

26 – Então diz o profeta e escravo da bela: Quem sou eu, e qual há de ser o sinal? Assim ela lhe respondeu, curvando-se, uma lambente chama azul, tudo-tocando, tudo penetrando, suas mãos amoráveis sobre a terra negra, e seu corpo flexível arqueado para o amor, e seus pés macios não machucando as pequeninas flores: Tu sabes! E o sinal será meu êxtase, a consciência da continuidade da existência, a onipresença do meu corpo.

27 – Então o sacerdote respondeu e disse à Rainha do Espaço, beijando sua amoráveis sobrancelhas, e o orvalho da luz dela banhando o corpo inteiro dele em um doce perfume de suor: Ó Nuit, contínua mulher do Céu, que seja assim sempre; que os homens não falem de Ti como Uma mas como Nenhuma; e que eles não falem de ti de todo, desde que Tu és contínua!

28 – Nenhuma, respirou a luz, tênue e encantada, das estrelas, e dois.

29 – Pois eu estou dividida por amor ao amor, pela chance de união.

30 – Esta é a criação do mundo, que a dor de divisão é como nada, e a alegria da dissolução tudo.

31 – Por estes tolos dos homens e suas penas de todo não te cuides! Eles sentem pouco; o que é, é balançado por fracas alegrias; mas vós sois meus escolhidos.

32 – Obedecei meu profeta! Cumpri as ordálias do meu conhecimento! Buscai-me apenas! Então as alegrias do meu amor vos redimirão de toda a pena. Isto é assim; eu juro pela cúpula do meu corpo; por meu sagrado coração e língua; por tudo que eu posso dar, por tudo que eu desejo de vós todos.

33 – Então o sacerdote caiu em um profundo transe ou desmaio, e disse à Rainha do Céu; escreve para nós as ordálias; escreve para nós os rituais; escreve para nós a lei!

34 – Mas ela disse: as ordálias eu não escrevo: os rituais serão metade conhecidos e metade escondidos: a Lei é para todos.

35 – Isto que tu escreves é o tripartido livro de Lei.

36 – Meu escriba Ankh-af-na-Khonsu, o sacerdote dos príncipes, não mudará este livro em uma só letra; mas para que não haja tolice, ele comentará a respeito pela sabedoria de Ra-Hoor-Khu-it.

37 – Também os mantras e encantamentos; o obeah e o wanga; o trabalho da baqueta e o trabalho da espada; estes ele aprenderá e ensinará.

38 – Ele deve ensinar; mas ele pode fazer severas as ordálias.

39 – A palavra da Lei Q E L H M A Q E L H M A.
(Thelema, formada pelas letras gregas teta-epsilon-lambda-eta-mu-alfa).

40 – Quem nos chama Thelemita não fará erro, se ele olhar bem de perto na palavra. Pois há ali Três Graus, o Eremita, e o Amante, e o Homem da Terra. Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.

41 – A palavra de Pecado é Restrição. Ó homem! Não recuses tua esposa, se ela quer! Ó amante, se tu queres, parte! Não existe laço que possa unir os divididos a não ser o amor: tudo mais é maldição. Maldito! Maldito! Seja para os eons! Inferno.

42 – Deixa estar aquele estado de multiplicidade amarrado e odiando. Assim com teu tudo: tu não tens direito a não ser fazer a tua vontade.

43 – Faze aquilo, e nenhum outro dirá não.

44 – Pois vontade pura, desembaraçada de propósito, livre da ânsia de resultado, é toda via perfeita.

45 – O Perfeito e o Perfeito são um Perfeito e não dois; não, são nenhum!

46 – Nada é uma chave secreta desta Lei. Sessenta e um os Judeus a chamam; eu a chama oito, oitenta, quatrocentos e dezoito.

47 – Mas eles têm a metade: une por tua arte para que tudo desapareça.

48 – Meu profeta é um tolo com seu um, um, um; não são eles o Boi, e nenhum pelo Livro?

49 – Abrogados estão todos os rituais, todas as ordálias, todas as palavras e sinais. Ra-Hoor-Khuit tomou seu assento no Oriente ao Equinócio dos Deuses; e que Asar seja com Isa, que também são um. Mas eles não estão em mim. Que Asar seja o adorador, Isa o sofredor; Hoor em seu secreto nome e esplendor é o Senhor iniciando.

50 – Existe uma palavra a dizer a respeito do trabalho Hierofântico. Vede! Existem três ordálias em uma, e pode ser dada em três caminhos. O grosseiro deve passar por fogo; que o fino seja provado em intelecto, e os elevados escolhidos, no altíssimo. Assim vós tendes estrela e estrela, sistema e sistema; que nenhum conheça bem o outro!

51 – Há quatro portões para um palácio; o chão daquele palácio é de prata e ouro; lápis-lazúli e jaspe estão ali; e todos os perfumes raros; jasmim e rosa, e os emblemas da morte. Que ele entre sucessiva ou simultaneamente pelos quatro portões; que ele fique de pé no chão do palácio. Não afundará ele? Amn. Ho! Guerreiro, se teu servo afunda? Mas há meios e meios. Sede bons portanto: vesti-vos finamente; comei comidas ricas e bebei vinhos doces e vinhos que espumejam! Também, tomai vossa fartura e vontade de amor como quiserdes, quando, onde e com quem quiserdes! Mas sempre em mim.

52 – Se isto não for correto; se confundis as marcas do espaço, dizendo: Elas são uma; ou dizendo Elas são muitas; se os ritual não for sempre para mim: então esperai os terríveis julgamentos de Ra-Hoor-Khuit!

53 – Isto regenerará o mundo, o mundozinho minha irmã, meu coração e minha língua, a quem eu mando este beijo. Também, ó escriba e profeta, se bem que tu és dos príncipes, isto não te redimirá nem absolverá. Mas êxtase seja teu e alegria da terra: sempre a mim! A mim!

54 – Não mudes nem mesmo o estilo de uma letra; pois vê! Tu, ó profeta, não verás todos estes mistérios escondidos aí.

55 – A criança das tuas entranhas, ele os verá.

56 – Não o esperes do Oriente, nem do Ocidente; pois de nenhuma casa esperada vem aquela criança. Aum! Todas as palavras são sagradas e todos os profetas verdadeiros; salvo apenas que eles compreendem um pouco; resolvem a primeira metade da equação, deixam a segunda inatacada. Mas tu tens tudo na luz clara e algo, mas não tudo, na escuridão.

57 – Invocai-me sob minhas estrelas! Amor é a lei, amor sob vontade. Nem confundam os tolos o amor; pois existem amor e amor. Existe o pombo, e existe a serpente. Escolhei bem! Ele, meu profeta, escolheu, conhecendo a lei da fortaleza, e o grande mistério da Casa de Deus.

Todas essas velhas letras de meu Livro estão certas; mas * não é a Estrela. Isto também é secreto: meu profeta o revelará aos sábios.

(o símbolo * é a letra Hebraica Tzaddi)

58 – Eu dou alegrias inimagináveis sobre a terra; certeza, não fé, enquanto em vida, sobre a morte; paz inominável, descanso, êxtase; nem exijo eu coisa alguma em sacrifício.

59 – Meu incenso é de madeiras resinosas e gomas; e não existe sangue ali: por causa de meu cabelo as árvores da Eternidade.

60 – Meu número é 11, como todos os seus números que são de nós. A Estrela de Cinco Pontas, com um Círculo no Meio, e o círculo é Vermelho. Minha cor é negra para os cegos, mas azul e ouro são vistos dos videntes. Também eu tenho uma glória secreta para aqueles que me amam.

61 – Mas amar-me é melhor que toda a coisa: se sob as estrelas da noite no deserto tu presentemente queimas meu incenso diante de mim, invocando-me com um coração puro, e a chama Serpentina ali contida, tu virás deitar-te em meu seio um bocadinho. Por um beijo tu então quererás dar tudo; mas quem quer que dê uma partícula de pó perderá tudo naquela hora. Vós ajuntareis mercadorias e quantidade de mulheres e espécies; vós usareis ricas jóias; vós excedereis as nações da terra em esplender e orgulho; mas sempre no meu amor, e assim vireis à minha alegria. Eu te urjo seriamente a que venhas diante de mim em uma vestimenta única, e coberto com um rico diadema. Eu te amo! Eu te desejo! Pálido ou púrpura, velado ou voluptuoso, eu que sou todo prazer e púrpura, e embriaguez do senso mais íntimo, te desejo. Põe as asas, e acorda o esplendor enroscado dentro de ti: vem a mim!

62 – Em todos os meus encontros convosco a sacerdotisa dirá – e seus olhos queimarão com desejo enquanto ela está de pé nua e regozijante em meu templo secreto – A mim! A mim! Evocando a flama dos corações de todos em seu cântico de amor.

63 – Cantai a canção de amor feliz para mim! Queimai perfumes para mim! Usai jóias para mim! Bebei a mim, pois eu vos amo! Eu vos amo!

64 – Eu sou a filha do Poente, de pálpebras azuis; eu sou o brilho nu do voluptuoso Céu noturno.

65 – A Mim! A Mim!

66 – A manifestação de Nuit está em um fim.

II

1 – Nu! O esconderijo de Hadit.

2 – Vinde! Todos vós, e aprendei o segredo que ainda não foi revelado. Eu, Hadit, sou o complemento de Nu, minha noiva. Eu não sou estendido, e Khabs é o nome de minha Casa.

3 – Na esfera eu sou em toda a parte o centro, enquanto Ela, a circunferência, em parte alguma é encontrada.

4 – No entanto ela será conhecida e eu nunca.

5 – Vede! Os rituais do velho tempo são negros. Que os ruins sejam jogados fora; que os bons sejam purgados pelo profeta! Então este Conhecimento irá corretamente.

6 – Eu sou a flama que queima em todo coração de homem, e no âmago de toda estrela. Eu sou Vida, e o doador de Vida, no entanto por isto conhecer-me é conhecer a morte.

7 – Eu sou o Mago e o Exorcista. Eu sou o eixo da roda, e o cubo no círculo. “Vinde a mim” é uma palavra tola; pois sou eu que vou.

8 – Quem adorou Heru-pa-kraath adorou-me; erro, pois eu sou o adorador.

9 – Lembrai-vos todos vós de que existência é pura alegria; de que todos os sofrimentos são apenas como sombras; eles passam e estão acabados; mas existe aquilo que resta.

10 – Ó profeta! Tu tens má vontade de aprender esta escritura.

11 – Eu te vejo odiar a mão e a pena; mas eu sou mais forte.

12 – Por causa de Mim em ti que tu não conhecias.

13 – Por que? Porque tu eras o conhecedor, e eu.

14 – Agora haja um velar deste sacrário: agora que a luz devore os homens e os engula com cegueira!

15 – Pois eu sou perfeito, não sendo; e meu número é nove pelos tolos; mas o justo eu sou oito, e um em oito: o que é vital, pois eu nenhum sou de fato. A Imperatriz e o Rei não sou eu; pois existe um outro segredo.

16 – Eu sou a Imperatriz e o Hierofante. Assim onze, como minha noiva é onze.

17 –
Ouvi, vós que suspirais!
As dores de pena infinda
Queda aos mortos e mortais,
Quem me não conhece ainda.

18 – Estes são mortos, esta gente; eles não sentem. Nós não somos para os pobres e tristes: os senhores da terra são nossos parentes.

19 – Há um Deus de viver em um cão? Não! Mas os mais elevados são de nós. Eles se regozijarão, nossos escolhidos: quem se amargura não é de nós.

20 – Beleza e vigor, rigor contínuo e delicioso langor, força e fogo, são de nós.

21 – Nós nada temos com o incapaz e o expulso: deixai-os morrer em sua miséria. Pois eles não sentem. Compaixão é o vício dos reis: calcai aos pés os desgraçados e os fracos: esta é a lei do forte: esta é a nossa lei e a alegria do mundo. Não penses, ó rei, naquela mentira: Que Tu Deves Morrer: em verdade, tu não morrerás, mas viverás. Agora seja isto compreendido: Se o corpo do Rei se dissolve, ele permanecerá em puro êxtase para sempre. Nuit! Hadit! Ra-Hoor-Khuit! O Sol, Força e Visão, Luz; estes são para os servidores da Estrela e da Cobra.

22 – Eu sou a Cobra que dá Conhecimento e Deleite e brilhante glória, e movo os corações dos homens com embriaguez. Para adorar-me tomai vinho e estranhas drogas das quais eu direi ao meu profeta, e embriagai-vos deles! Eles não vos farão mal de forma alguma. É uma mentira, esta tolice contra si mesmo. Sê forte, ó homem! Arde, usufrui todas as coisas de senso e raptura: não temas que qualquer Deus te negará por isto.

23 – Eu sou só: não existe Deus onde eu sou.

24 – Vede! Estes são graves mistérios; pois há também de meus amigos quem são eremitas. Agora não penseis encontrá-los na floresta ou na montanha; mas em camas de púrpura, acariciados por magníficas bestas de mulheres com longos membros, e fogo e luz em seus olhos, e massas de cabelo flamejante em volta delas; lá vós os encontrareis. Vós os vereis governando, em exércitos vitoriosos, em toda a alegria; e haverá neles uma alegria um milhão de vezes maior que isto. Cuidado para que algum não force outro, Rei contra Rei! Amai-vos uns aos outros com corações ardentes; nos homens baixos pisai no enérgico ímpeto do vosso orgulho, no dia de vossa cólera.

25 – Vós sois contra o povo, ó meus escolhidos!

26 – Eu sou a secreta Serpente enroscada a ponto de pular: em minhas roscas há alegria. Se eu levanto minha cabeça, eu e minha Nuit somo um. Se eu abaixo minha cabeça, e ejaculo veneno, então há raptura da terra, e eu e a terra somos um.

27 – Existe um grande perigo em mim; pois quem não compreende estas runas fará uma grande falha. Ele cairá dentro do mundéu chamado Porque, e lá ele perecerá com os cães da Razão.

28 – Agora uma maldição sobre Porque e seus parentes!

29 – Seja Porque amaldiçoado para sempre!

30 – Se a Vontade pára e grita Por Que, invocando Porque, então a Vontade pára e nada faz.

31 – Se o Poder pergunta Por Que, então o Poder é fraqueza.

32 – A Razão também é uma mentira; pois existe um fator infinito e desconhecido; e todas as suas palavras são meandros.

33 – Bastante de Porque! Seja ele danado para um cão!

34 – Mas vós, ó meu povo, levantai-vos e acordai!

35 – Que os rituais sejam retamente executados com alegria e beleza!

36 – Há rituais dos elementos e festas das estações.

37 – Uma festa para a primeira noite do Profeta e sua Noiva!

38 – Uma festa para os três dias da escritura do Livro da Lei!

39 – Uma festa para Tahuti e a criança do Profeta-Secreta, ó Profeta!

40 – Uma festa para o Supremo Ritual, e uma festa para o Equinócio dos Deuses!

41 – Uma festa para o fogo e uma festa para a água; uma festa para a vida e uma festa maior para a morte!

42 – Uma festa diária em vossos corações na alegria de minha raptura!

43 – Uma festa toda noite para Nu, e o prazer do mais transcendente deleite!

44 – Sim! Festejai! Regozijai-vos! Não existe pavor no além. Existe a dissolução, e eterno êxtase nos beijos de Nu.

45 – Há morte para os cães.

46 – Falhas? Arrependes-te? Há medo em teu coração?

47 – Onde eu sou estes não são.

48 – Não tenhais piedade dos caídos! Eu nunca os conheci. Eu não sou para eles. Eu não consolo: eu odeio o consolado e o consolador.

49 – Eu sou único e conquistador. Eu não sou dos escravos que perecem. Sejam eles danados e mortos! Amém. (Isto é dos 4: existe um quinto que é invisível, e ali sou eu como um bebê em um ovo.)

50 – Azul sou eu e ouro na luz de minha noiva: mas o brilho vermelho está nos meus olhos; e minhas escamas são púrpuras e verde.

51 – Púrpura além do púrpura: é a luz mais alta que a visão.

52 – Existe um véu; e este véu é negro. É o véu da mulher modesta; e o véu de sofrimento, e o companheiro da morte: e nenhum sou eu. Rasgai abaixo aquele mentiroso espectro dos séculos: não veleis vossos vícios em palavras virtuosas: estes vícios são meu serviço; vós fazeis bem, e eu vos recompensarei aqui e no além.

53 – Não temas, ó profeta, quando estas palavras forem ditas, tu não te arrependerás. Tu és enfaticamente meu escolhido; e abençoados são os olhos que tu contemplares com alegria. Mas eu te esconderei em uma máscara de sofrimento: eles que te verem recearão que tu és caído: mas eu te levanto.

54 – Nem valerão aqueles que gritam alto sua tolice que tu não significas nada; tu o revelarás; tu vales: eles são os escravos de Porque: eles não são eu. A pontuação como quiseres; as letras? Não as mudes em estilo ou valor!

55 – Tu obterás a ordem e valor do Alfabeto Inglês: tu acharás novos símbolos aos quais atribuí-las.

56 – Ide! Vós escarnecedores; apesar de que rides em minha honra vós não rireis longamente: então quando estiverdes tristes sabei que eu vos abandonei.

57 – Ele que é correto será correto ainda; ele que é imundo será imundo ainda.

58 – Sim! Não penseis em mudança: vós sereis como sois, e não outro. Portanto os reis da terra serão Reis para sempre: os escravos servirão. Nenhum existe que será derrubado ou elevado: tudo é sempre como foi. No entanto existem uns mascarados meus servidores: pode ser que aquele mendigo ali seja um Rei. Um Rei pode escolher sua roupa como quiser: não existe teste certo: mas um mendigo não pode esconder sua pobreza.

59 – Cuidado portanto! Amai a todos, pois pode ser que haja um Rei escondido! Dizeis assim? Tolo! Se ele é um Rei, tu não podes feri-lo.

60 – Portanto, golpeia duro e baixo, e para o inferno com eles, mestre!

61 – Existe uma luz diante dos teus olhos, ó profeta, uma luz indesejada, muito desejável.

62 – Eu estou erguido em teu coração; e os beijos das estrelas chovem forte no teu corpo.

63 – Tu estás exausto na fartura voluptuosa da inspiração; a expiração é mais doce que a morte, mais rápida e cheia de riso que uma carícia do verme do Inferno.

64 – Ó! Tu estás sobrepujado: nós estamos sobre ti; nosso deleite está sobre tu todo: salve! Salve: Profeta de Nu! Profeta de Had! Profeta de Ra-Hoor-Khu! Agora regozija-te! Agora vem em nosso esplendor e raptura! Vem em nossa paz apaixonada, e escreve doces palavras para os Reis!

65 – Eu sou o Mestre: tu és o Santo Escolhido.

66 – Escreve, e encontra êxtase na escrita! Trabalha, e sê nossa cama trabalhando! Freme com a alegria de vida e morte! Ah! Tua morte será linda: quem a ver se alegrará. Tua morte será o selo da promessa do nosso anciente amor. Vem! Levanta teu coração e regozija-te! Nós somos um; nós somos nenhum.

67 – Firma! Firma! Agüenta em tua raptura; não se perca com os beijos supremos!

68 – Endurece! Conserva-te a prumo! Levanta tua cabeça! Não respires tão fundo – morre!

69 – Ah! Ah! Que sinto eu? Está a palavra exausta?

70 – Existe auxílio e esperança em outros encantamentos. Sabedoria diz: sê forte! Então tu podes suportar mais alegria. Não sejas animal; refina tua raptura! Se tu bebes, bebe pelas oito e noventa regras de arte: se tu amas, excede em delicadeza; e se tu fazes o que quer que seja de alegre, que haja sutileza ali contida!

71 – Mas excede! Excede!

72 – Esforça-te sempre por mais! E se tu és verdadeiramente meu – e não o duvides, e se tu és sempre alegre! – a morte é a coroa de tudo.

73 – Ah! Ah! Morte! Morte! Tu ansiarás pela morte. Morte está proibida, ó homem, para ti.

74 – A duração da tua ânsia será a força da sua glória. Aquele que vive longamente e deseja muito a morte é sempre o Rei entre os Reis.

75 – Sim! Escuta os números e as palavras.

76 – 4 6 3 8 A B K 2 4 A L G M O R 3 Y X 24 89 R P S T O V A L. Que significa isto, ó profeta? Tu não sabes; nem nunca saberás. Vem um para te seguir: ele o exporá. Mas lembra-te, ó escolhido, de ser eu; de seguir o amor de Nu no céu iluminado de estrelas; de contemplar os homens, de dizer-lhes esta palavra alegre.

77 – E sejas orgulhoso e poderoso entre os homens!

78 – Levanta-te! Pois nenhum existe como tu entre homens ou entre Deuses! Levanta-te, ó meu profeta, tua estatura sobrepassará as estrelas. Elas adorarão teu nome, quadrangular, místico, maravilhoso, o número do homem; e o nome de tua casa 418.

79 – O fim do esconderijo de Hadit; e bênção e veneração ao profeta da amável Estrela!

 

III

1 – Abrahadabra: a recompensa de Ra Hoor Khut.

2 – Existe divisão daqui em direção ao lar; existe uma palavra não conhecida. Soletrar é ineficaz; tudo não é alguma coisa. Cuidado! Espere! Levantai o encanto de Ra-Hoor-Khuit!

3 – Agora seja primeiramente compreendido que eu sou um Deus de Guerra e de Vingança. Eu lidarei duramente com eles.

4 – Escolhei uma ilha!

5 – Fortificai-a!

6 – Cercai-a de engenharia de guerra!

7 – Eu vos darei uma máquina de guerra.

8 – Com ela vós golpeareis os povos; e nenhum ficará de pé diante de vós.

9 – Espreitai! Retirai-vos! Sobre eles! Esta é a Lei da Batalha de Conquista: assim será meu culto em volta de minha casa secreta.

10 – Toma os mandamentos da própria revelação; coloca-os em teu templo secreto – e aquele templo já está corretamente disposto – e eles serão o vosso Kiblah para sempre. Eles não desbotarão, mas cor miraculosa voltará a eles dia após dia. Fechai-os em vidro trancado como uma prova para o mundo.

11 – Esta será vossa única prova. Eu proíbo argumento. Conquistai! Isso basta. Eu farei fácil para vós a abstrução da casa mal-ordenada na Cidade Vitoriosa. Tu a transportarás tu mesmo com veneração, ó profeta, se bem que tu não gostas. Tu terás perigo e tribulação. Ra-Hoor-Khu está contigo. Adorai-me com fogo e sangue; adorai-me com espadas e com lanças. Que a mulher seja cingida com uma espada diante de mim; que sangue corra em meu nome. Calcai aos pés os Gentios; sede sobre eles, ó guerreiro, eu vos darei da carne deles para comer!

12 – Sacrificai gado, pequeno e grande: depois uma criança.

13 – Mas não agora.

14 – Vós vereis aquela hora, ó Besta abençoada, e tu a Concubina Escarlate do desejo dele!

15 – Vós ficareis tristes por isto.

16 – Não penseis demasiado avidamente em apossar-vos das promessas; não temais incorrer nas maldições. Vós, mesmo vós, não conheceis este significado todo.

17 – De todo não temais; não temais nem homens nem Fados, nem Deuses, nem coisa alguma. Dinheiro não temais, nem risada da tolice do povo, nem qualquer outro poder no céu ou sobre a terra ou debaixo da terra. Nu é vosso refúgio como Hadit vossa luz; e eu sou a potência, força, vigor, de vossas armas.

18 – Misericórdia esteja fora: amaldiçoai os que se apiedam! Matai e torturai; não poupeis; sede sobre eles!

19 – Aos mandamentos eles chamarão de Abominação da Desolação; contai bem seu nome, e será para vós tal qual 718.

20 – Por que? Por causa da queda do Porque, que ele não é lá novamente.

21 – Coloca minha imagem no Este: tu te comprarás uma imagem que eu te mostrarei, especial, não dessemelhante àquela que tu conheces. E será subitamente fácil para ti o fazer isto.

22 – As outras imagens agrupa em volta minha para suportar-me: sejam todas adoradas, pois elas se reunirão para exaltar-me. Eu sou o objeto visível de adoração; os outros são secretos; para a Besta e sua Noiva são eles: e para os vencedores da Ordenamemto x. O que é isto? Tu saberás.

23 – Para perfume misturai farinha e mel e grossa borra de vinho tinto: então óleo de Abramelin e óleo de oliva, e depois amolecei e amaciai com rico sangue fresco.

24 – O melhor sangue é da lua, mensal: então o sangue fresco de uma criança, ou pingando da hóstia do céu: então de inimigos: então do sacerdote ou dos adoradores: por último de alguma besta, não, importa qual.

25 – Isto queimai: disto fazei bolos e comei em minha homenagem. Isto tem também um outro uso; seja depositado diante de mim, e conservado impregnado com perfumes de vossa prece: encher-se-á de escaravelhos como já o foi e de coisas rastejantes sagradas para mim.

26 – Estes matai, nomeando vossos inimigos; e eles cairão diante de vós.

27 – Também estes criarão o desejo e o poder do desejo em vós ao serem comidos.

28 – Também sereis fortes na guerra.

29 – Ou então, sejam eles longamente conservados, é melhor; pois incham com minha força. Tudo diante da minha presença.

30 – Meu altar é de latão rendado: queimai sobre ele prata ou ouro.

31 – Vem um homem rico do Oeste que derramará seu ouro sobre ti.

32 – Do ouro forja aço!

33 – Sê pronto a fugir ou a golpear!

34 – Mas vosso lugar santo será intocado através dos séculos: ainda que com fogo e espada ele seja queimado e despedaçado, uma casa invisível está de pé ali, e estará de pé até a queda do Grande Equinócio; quando Hrumachis se erguerá e o que possui duas varas assumirá meu trono e lugar. Outro profeta se erguerá, e trará febre nova dos céus; outra mulher despertará o ardor e adoração da Serpente; outra alma de Deus e da besta misturar-se-á no sacerdote englobado; outro sacrifício manchará a tumba; outro rei reinará; e que benção nenhuma seja mais servida ao místico Senhor de Cabeça de Falcão!

35 – A metade da palavra de Heru-ra-ha, chamado Hoor-pa-kraat e Ra-Hoor-Khut.

36 – Então disse o profeta ao Deus:

37 –
Eu te adoro na canção –
Eu sou o Senhor de Tebas, e eu
O vate inspirado de Mentu.
Para mim desvela o véu do céu,
O sacrificado Ankh-af-na-Khonsu
Cujo verbo é lei. Deixa que eu incite
Tua presença aqui, Ó Ra-Hoor-Khuit!
Unidade extrema demonstrada!
Adoro Teu poder, Teu sopro forte,
Deus terrível, suprema flor do nada,
Tu que fazes com que os deuses e a morte
Tremam diante de Ti:
Eu, eu adoro a ti!
Aparece no trono de Ra!
Abre os caminhos do Khu!
Ilumina os caminhos do Ka!
Nas rotas do Khabs sê tu,
Para mover-me ou parar-me!
Aum! Deixe que me preencha!

38 – De forma que tua luz está em mim; e sua flama rubra é como uma espada em minha mão para empurrar tua ordem. Existe uma rota secreta que eu farei para estabelecer tua rota em todos os quadrantes (estas são as adorações, como tu escreves-te), como é dito:

É minha a luz; faz que eu me vá
Com os seus raios. Sou o autor
De oculta porta ao Lar de Ra
E Tum, de Kephra e de Ahathoor.

Eu sou teu Tebano, Ó Mentu,
O profeta Ankh-af-na-Khonsu!
Por Bes-na-Maut bato no peito;
E por Ta-Nech lanço o feitiço.

Brilha, Nuit, ó céu perfeito!
Alada cobra, luz e viço,
Abre-me tua Casa, Hadit!
Mora comigo, Ra-Hoor-Khuit!

39 – Tudo isto e um livro para dizer como tu chegaste aqui e uma reprodução desta tinta e papel para sempre – pois nisto está a palavra secreta e não apenas no Inglês – e teu comento sobre este o Livro da Lei será impresso belamente em tinta vermelha e negra sobre belo papel feito à mão; e a cada homem e mulher que tu encontras, fosse apenas para jantar ou beber a eles, esta é a Lei a dar. Então talvez eles decidam permanecer nesta felicidade ou não; não tem importância. Faze isto rápido!

40 – Mas o trabalho do comento? Aquilo é fácil; e Hadit ardendo em teu coração fará célere e segura tua pena.

41 – Estabelece em tua Kaaba um escritório; tudo deve ser bem feito e com jeito de negócios.

42 – As ordálias tu fiscalizarás tu mesmo, salvo apenas as cegas. Não recuses ninguém, mas tu conhecerás e destruirás os traidores. Eu sou Ra-Hoor-Khuit; e eu sou poderoso para proteger o meu servo. Sucesso é tua prova; não discutas; não convertas; não fales demais! Aqueles que buscam armar-te uma cilada, derrubar-te, esses ataca sem dó nem trégua; e destrói-os por completo. Célere como uma serpente pisada vira-te e dá o bote! Sê tu mais mortífero ainda que ele! Puxa para baixo suas almas a tormento horrível: ri do medo deles: cospe sobre eles!

43 – Que a Mulher Escarlate se precavenha! Se piedade e compaixão e ternura visitarem seu coração; se ela deixar meu trabalho para brincar com velhas doçuras; então minha vingança será conhecida. Eu matarei sua criança eu mesmo: eu alienarei seu coração: eu a expelirei dos homens: como uma encolhida e desprezada rameira ela rastejará por ruas molhadas e escuras, e morrerá fria e faminta.

44 – Mas que ela se erga em orgulho! Que ela me siga em meu caminho! Que ela obre a obra da maldade! Que ela mate seu coração! Que ela seja gritona e adúltera! Que ela esteja coberta de jóias, e ricas roupas, e que ela seja sem vergonha diante de todos os homens!

45 – Então eu a levantarei a pináculos de poder: então eu irei gerar nela uma criança mais poderosa  que todos os reis da terra. Eu a encherei de alegria: com minha força ela verá e  não perderá tempo para adorar Nu: ela alcançará o  Hadit.

46 – Eu sou o guerreiro Senhor dos Quarentas: os Oitenta se acovardam diante de mim, e são afundados. Eu vos trarei a vitória e alegria: eu estarei nas vossas armas em batalha e vós se deleitareis em matar. Sucesso é vossa prova; coragem é nossa armadura; avante, avante em minha força; e vós não retrocedereis diante de ninguém!

47 – Este livro será traduzido em todas as línguas: mas sempre com o original pela mão da Besta; pois na forma ao acaso das letras e sua posição umas com as outras: nestas há mistérios que nenhuma Besta adivinhará. Que ele não procure tentar: mas um vem após ele, de onde eu não digo, que descobrirá a Chave disso tudo. Então esta linha traçada é uma chave; então este círculo esquadrado em seu fracasso é uma chave também. E Abrahadabra. Será sua criança e isso estranhamente. Que ele não procure por isto; pois dessa forma apenas pode ele cair.

48 – Agora este mistério das letras está acabado, e eu quero prosseguir para o lugar mais santo.

49 – Eu estou em uma secreta palavra quádrupla, a blasfêmia contra todos os deuses dos homens.

50 – Maldição sobre eles! Maldição sobre eles! Maldição sobre eles!

51 – Com minha cabeça de Falcão eu bico os olhos de Jesus enquanto ele se dependura da cruz.

52 – Eu bato minhas asas na face de Mohammed e cego-o.

53 – Com minhas garras eu dilacero e puxo fora a carne do Hindu e do Budista, Mongol e Din.

54 – Bahlasti! Ompheda! Eu cuspo nos vossos credos crapulosos.

55 – Que Maria inviolada seja despedaçada sobre rodas: por causa dela que todas as mulheres castas sejam completamente desprezadas entre vós!

56 – Também por causa da beleza e do amor!

57 – Desprezai também todos os covardes; soldados profissionais que não ousam lutar, mas brincam; todos os tolos desprezai!

58 – Mas os mordazes, aqueles que são sutis e os altivos, a realeza e os elevados; vós sois irmãos!

59 – Lutai como irmãos!

60 – Não existe lei além de Faze o que tu queres.

61 – Há um fim da palavra do Deus entronado no assento de Ra, tornando leves as vigas da alma.

62 – A mim reverenciai! Vinde a mim através de tribulações da ordenação, que é o deleite.

63 – O tolo lê este Livro da Lei, e seus comentários; e ele não o compreende.

64 – Que ele passe pela primeira ordenação, e será para ele como prata.

65 – Pela segunda, ouro.

66 – Pela terceira, pedras de água preciosa.

67 – Pela quarta, as extremas fagulhas do fogo íntimo.

68 – No entanto a todos ele parecerá belo. Seus inimigos que não dizem assim, são meros mentirosos.

69 – Existe sucesso.

70 – Eu sou o Senhor de Cabeça de Falcão do Silêncio e da Força; minha nêmesis cobre o céu azul-noturno.

71 – Salve! Vós gêmeos guerreiros em volta dos pilares do mundo! Pois vossa hora está próxima.

72 – Eu sou o Possuidor Das DUas Varas de Poder, a vara da Força de Coph Nia – mas minha mão esquerda está vazia, pois eu esmaguei um Universo; e nada resta.

73 – Juntai as folhas da direita para a esquerda e do topo ao pé: então contemplai!

74 – Existe um esplendor em meu nome oculto e glorioso, como o sol da meia-noite é sempre o filho.

75 – O fim das palavras é a Palavra Abrahadabra.

 

O Livro da Lei está Escrito
e Escondido.

 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/liber-al-vel-legis/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/liber-al-vel-legis/

A Cura Sexual Através da Magia Sexual

Por Christopher Penczak

Sexo. É um dos mistérios espirituais. Não se pode realmente explicá-lo. Você tem que vivenciá-lo diretamente, como todos os mistérios de expansão de consciência das tradições orientais e ocidentais. Tantas histórias de criação têm o universo nascendo através do amor do casal divino. Mas ao contrário dos estados profundos da meditação iogue e dos rituais cabalísticos em línguas secretas, a maioria das pessoas comuns têm a chance de explorar os mistérios do sexo, e encontrar seu poder curativo e transformador. Todos nós o buscamos. Embora seja um impulso primordial, em um nível superior, também buscamos experiências sexuais para explorar os mistérios da divindade.

Através da atividade sexual, estimulamos os centros de energia do corpo e podemos experimentar uma profunda sensação de consciência alterada. Você encontra a sexualidade na yoga tântrica oriental e nas práticas taoístas, na magia cerimonial ocidental e no Grande Rito Wiccano. Você vê dicas de uma tradição de magia sexual nos mistérios de Ísis e Osíris, o Canto de Salomão, e, alguns especulariam, os mistérios gnósticos de Cristo e Maria Madalena. A ideia de união e cura através da sexualidade é universal.

Mesmo que não saibamos nada sobre energia, meditação, ou ritual, ativamos a corrente sexual e experimentamos estes estados de ser. O sexo é muito poderoso e por causa disso, muitas emoções, sentimentos e expectativas se envolvem em nossa sexualidade, tornando-a uma de nossas maiores forças e alegrias, mas também criando alguns de nossos maiores problemas. Ter uma compreensão dos componentes esotéricos da sexualidade pode influenciar profundamente nosso desenvolvimento espiritual, cura e atitudes em relação à sexualidade, transformando-nos.

De todas as tradições da sexualidade sagrada, a palavra mais fortemente ligada à prática é tantra. O tantra é um sistema esotérico oriental, enraizado nas religiões da Índia, e inclui uma variedade de práticas, incluindo aquelas associadas à sexualidade sagrada, mas seria negligente pensar que o tantra é apenas sobre sexualidade. Alguns traduzem a palavra tantra para significar ou “tear” ou “texto”, referindo-se a uma tradição maior. Embora grande parte desta tradição tenha tradicionalmente permanecido escondida de olhos abertos, ela felizmente veio à tona e foi disponibilizada ao público. Qualquer pessoa que deseje encontrar mais informações sobre a sexualidade espiritual pode fazê-lo com bastante facilidade.

O mais famoso destes manuais sexuais é o amplamente conhecido Kama Sutra. Um texto da Índia, a mais famosa tradução de Sir Richard Francis Burton apareceu em 1883. O Kama Sutra causou muita agitação por causa de seus diagramas que detalham várias posições sexuais, mas em geral, a maioria do livro não é sobre sexo, mas cobre tópicos de relacionamentos, casamento e como ser um bom cidadão, no contexto da cultura indiana na época em que foi escrito.

Os místicos modernos levaram seus próprios empreendimentos para a sexualidade sagrada e escreveram sobre suas experiências e ensinamentos. Eles estão se baseando em fontes tântricas tradicionais, assim como as da alquimia taoísta quando se aproximam dela a partir de uma visão oriental. As tradições mágicas ocidentais analisam o papel da alquimia ocidental, e a imagem do casamento divino, em suas práticas rituais. Elas se expandiram sobre as explorações do moderno renascimento ocultista que combinou teorias e ensinamentos tanto do Oriente como do Ocidente.

Um dos clássicos modernos a partir do qual se pode olhar a magia sexual de uma perspectiva ocidental é a Magia Sexual Moderna de Donald Michael Kraig. Como seu predecessor, Modern Magick, este texto fornece um manual minucioso e detalhado nas artes da magia sexual ocidental. Kraig traça a história a partir de uma variedade de tradições e inovadores, e cobre a prática real da magia sexual usando terminologia e um estilo que são fáceis de entender. Kraig tem uma extensa preparação para quem procura explorar a magia sexual. Uma de suas sugestões envolve o uso do Exercício de Kegel:

Este exercício, cujo nome vem de seu inventor, tonifica os músculos usados durante o ato sexual. Uma maneira fácil de aprender este exercício é parar o fluxo quando você urina. Permitir que o fluxo seja retomado e interrompido novamente. É esta contração e relaxamento que compreende o exercício. Certifique-se de que você não está apenas contraindo o esfíncter anal. Repita o exercício várias vezes. Você pode praticar este exercício em quase qualquer momento e em qualquer lugar. Trabalhe até fazer isso pelo menos cem vezes por dia.

– Modern Sex Magick, p. 72.

Os exercícios de Kegel podem ajudar uma mulher a ser orgástica, e também ajudar com alguns problemas em torno do fluxo urinário e incontinência. A construção deste músculo ajuda a preparar um para os rituais de magia sexual.

O contato sexual com entidades espirituais nos coloca em contato com a divindade aparentemente intangível, mas descobrimos através da sexualidade que a divindade também está dentro dela. Através de experiências sexuais individuais, duplas ou grupais, encontramos o divino dentro dos participantes, vendo os deuses dentro da humanidade, e encontramos nossa própria centelha divina interior. Ao encontrar esta centelha, temos epifanias e revelações espirituais que transformam nossas vidas.

Para uma visão mais ortodoxa sobre o assunto a partir de uma perspectiva taoísta oriental, temos a Yoga Taoísta & Energia Sexual de Eric Steven Yudelove. Este é um curso de 14 semanas apresentado pelo autor para incorporar a yoga taoísta, Chi Kung, alquimia taoísta e kung fu sexual em um sistema transformacional. Os iniciantes e os experientes nestas artes serão beneficiados com o livro.

O primeiro exercício na Semana Um do curso é chamado de Respiração Capilar. Envolve a retirada de energia excedente para dentro do corpo. O cabelo é um depósito de energia excedente.

Isto pode não parecer um exercício sexual, mas muitos dos exercícios preliminares de uma tradição devem ser dominados para se passar para as práticas mais exóticas. As tradições orientais estão focalizadas nos centros energéticos e refinando a energia que passa por esses centros, na vida diária e durante a interação sexual. O poder da energia sexual que passa por esses caminhos nos cura em vários níveis, aumentando nossa vitalidade, ajudando o sistema imunológico, curando doenças e, finalmente, expandindo a consciência.

Aqueles que procuram instruções mais diretas nas tradições tântricas podem se beneficiar do CD Yoga Nidra: Meditação Tântrica e Visualização pelo Dr. John Mumford e Jasmine Riddle. O Dr. Mumford é um renomado especialista em artes orientais e instrutor experiente em seus mistérios. Yoga Nidra é uma técnica de desenvolvimento que lhe permite progredir para um estado refinado de sono psíquico. Os elementos gêmeos que a yoga tântrica utiliza são a sensação e a visualização do corpo. Dr. Mumford e Jasmine Riddle guiam você através de estágios de desenvolvimento, movendo sua consciência através de diferentes partes de seu corpo. O componente de visualização permite que você entre em contato com seus centros psíquicos, ou chakras. Como exemplo, o Enigma nos guia através da sintonia sensacional em cada mão, concentrando-se individualmente em cada dedo. Nós nos movemos pela ponta, o prego, a primeira articulação seguida do nó, a segunda articulação seguida do nó, a terceira articulação seguida do nó, e terminamos com a almofada na palma de sua mão.

Depois de guiá-lo pelos centros de consciência de seu corpo com consciência sensacional, as visualizações avançam em direção aos diferentes sentidos. Luz, calor, frio e alegria são sentidos, seguidos por exercícios de chakra que se movem da base para a coroa e para trás novamente. Acompanhada de música meditativa, a voz suave de Jasmine Riddle dá uma sensação relaxante que o acompanhará ao longo de sua viagem. Em última análise, você pode alcançar um estado de movimento consciente através das sensações corporais usando exercícios de visualização que culminam em uma perspectiva iluminada.

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Fonte: https://www.llewellyn.com/journal/article/1037

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/a-cura-sexual-atraves-da-magia-sexual/