Candomblé, Origem e Liturgia

Candomblé é uma palavra derivada da língua bantu: ca [ka]=uso, costume, ndomb=negro, preto e =lugar, casa, terreiro e/ou pequeno atabaque. A reunião dos três vocábulos resulta em “lugar de costume dos negros”, por extensão, lugar de tradições negras, tradições entre as quais, destacam-se, no sentido atual as práticas religiosas que incluem a música percussiva [A TARDE, 1980]. Outra interpretação informa que kandombele significa “adorar” [Ngunz’tala, 2006].

Hoje reconhecido como religião, no passado, o Candomblé teve seus dias de marginalidade. No período do Estado Novo, por exemplo, entre 1937 e 1945, foi proibido por lei, seus adeptos perseguidos e presos pela polícia. Quando se fala em Candomblé um dos aspectos mais destacados é o sincretismo entre religiosidade africana e catolicismo. Todavia, em geral, a tal religiosidade africana é vista como algo monolítico, homogêneo.

Trata-se de uma visão estereotipada da África e de seus povos. O sincretismo do Candomblé, na verdade, tem sua origem na própria África, onde existiu, na época da colonização, e antes, e atualmente, uma enorme diversidade de povos e culturas interagentes. O panteão africano reúne mais de 400 divindades.

No Candomblé, forjado em terras brasileiras, esse panteão, atualmente, é composto de 16 orixás [ou Òrìsà, em ioruba] principais, numa significativa condensação das forças metafísicas que levou mais de um século para se definir no processo de integração das diferentes nações cujos representantes chegaram ao Brasil durante o período da escravidão. Não obstante, “correndo por fora”, contam-se ainda, outros 14 orixás reconhecidos em diferentes centros de culto. Entre as nações que contribuíram na formação do panteão principal relacionam-se: os bantu, nativos de Angola, Moçambique, Congo; Gana, Benin, Nigéria [Ioruba ou Nagôs]; Sudaneses, da Costa do Marfim, os Ewe, muitos, muçulmanos; os Fon e os Ashanti. Todos esses, falando línguas diferentes e cultuando seus próprios deuses.

Liturgia do Candomblé

Apesar das contradições do candomblé, especialmente no que se refere ao número dos Orixás, a teologia não é complicada: um Deus criador de todas as coisas e deuses menores regentes da Natureza, da personalidade e da vida dos homens. Entretanto, a liturgia ou seja, as práticas rituais, de iniciação, cultos e sobretudo o oráculo, esta liturgia é extremamente complexa.

O Candomblé não é uma religião “caseira”. Um católico, depois de ser catequizado, depois de aprender princípios básicos, pode se sentir perfeitamente livre [apesar das admoestações do vaticano] para dispensar a freqüência às missas, pode rezar o Terço em casa, até acompanhando pela televisão [Rede Vida]. Um muçulmano também: estende seu tapete cinco vezes ao dia para orar voltado para Meca em qualquer lugar. O budista segue o caminho do meio, medita sobre as oito verdades do Buda Sakyamuni e tudo está bem. Os evangélicos, não obstante a insistência dos pastores para que freqüentem a igreja, uma vez que tomam consciência da força da fé em Deus-Jesus Cristo [a técnica] pode igualmente” dar um tempo das reuniões. É verdade que judeus e hinduístas são mais cobrados em suas obrigações religiosas porém nada que se compare à rígida disciplina exigida dos adeptos do Candomblé.

No Candomblé não existe autodidata nem auto-iniciação. Para ser um Filho [a] de Santo um longo tempo de Iniciação é indispensável e se o interessado em Candomblé pretende se utilizar do oráculo africano, o Jogo de Búzios, foco de interesse de muita gente, a religião se mostra ainda mais inacessível. Apesar dos inúmeros oráculos online [softwares, programas] disponíveis na internet; apesar, ainda, de existir até um Tarô do Búzios ou Tarô dos Orixás [Tarô dos Orixás: Senhores do Destino ─ Editora Palas], inovações recentes, o oráculo afro-brasileiro, o Jogo de Búzios [Ifá], somente é confiável quando “operado” pelas mãos credenciadas dos sacerdotes, o Babalorixá [Pai ou Zelador de Santo] ou Yalorixá [Mãe ou Zeladora de Santo]. Este é um ponto indiscutível entre os especialistas.

por Ligia Cabús

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/candomble-origem-e-liturgia/

Afinidades Metal-Planetárias: o Padrão Sétuplo

Nick Kollerstrom

“Sabedoria já edificou a sua casa, já lavrou as suas sete colunas”
– Provérbios 9,1

Desde a antiguidade até meados do século XVIII, o número de metais conhecidos e reconhecidos como tal era de sete. Eram: chumbo, estanho, ferro, ouro, cobre, mercúrio e prata. O latão foi usado ocasionalmente, mas as pessoas não perceberam que era uma liga de cobre com zinco, até a segunda metade do século XVIII. O metal que finalmente quebrou o mito milenar dos sete vezes  (em 1752) foi a platina, chamada de “oitavo metal”, ao ser descoberta nas minas de ouro de Columbia.

A crença na ligação desses sete metais com os ‘sete planetas’ remonta à pré-história: não houve época em que a Prata não estivesse associada à Lua, nem o Ouro ao Sol. Essas ligações definiram as identidades dos metais. O Ferro, usado sempre para instrumentos de guerra, estava associado a inteligência militar de Marte, o Cobre macio e maleável estava ligado a sensibilidade de Vênus, e o metal camaleão Mercúrio tinha o mesmo nome de seu planeta. Chumbo, o único dos metais reconhecido com tóxico, foi ligado a Saturno (Mercúrio só foi identificado como tóxico no séc 19). Então, por volta do início do século 18, essas velhas imaginações cósmicas foram varridas pela emergente ciência da química. As características dos metais não eram mais explicadas em termos de suas origens cósmicas, mas sim em termos de uma estrutura atômica subjacente. Novos metais começaram a ser descobertos, o que fez com que a visão antiga parecesse limitada.

Ouro - Divindade
Prata - Mística e religiosidade
Mercúrio - Psicopompo
Estanho - Realeza e liderança
Ferro - Inteligência militar
Cobre - Sensibilidade amorosa
Chumbo - Morte e matéria

No século XX, abrem-se novas linhas de abordagem a este velho tema através do trabalho realizado no seio do movimento antroposófico fundado por Rudolf Steiner, e aqui recorremos especialmente aos trabalhos de Rudolf Hauschka (Rudolf Hauschka,The Nature of Substance) e Wilhelm Pelikan (Wilhelm Pelikan, The Secrets of Metals). Eles viam os sete metais tradicionais como expressando mais plenamente os sete caracteres planetários, de uma maneira que muitos outros metais conhecidos hoje não o fazem:

“Os sete metais fundamentais representam algo como as sete notas de uma escala. Como existe uma grande variedade de tons intermediários dentro da escala, pode-se reconhecer tons intermediários entre os metais” (Walter Cloos, The Living Earth).

O lítio metálico extra-leve é ​​usado para bombas de hidrogênio, pílulas antidepressivas e graxa para eixos de bicicletas. Assim, pode-se sentir sua ‘leveza de ser’, mas isso não nos daria uma afinidade planetária a ela. O magnésio emite uma luz brilhante ao queimar, usado para lanternas fotográficas, então isso lhe dá uma afinidade solar? É usado ainda para ligas ultraleves em aeronaves supersônicas, etc., e é o principal metal usado na clorofila, pela qual a energia solar é metabolizada pelas plantas. Wilhelm Pelikan sugeriu que deveria ser visto como um metal solar, e vamos ver isso como uma possibilidade.

I. Propriedades físicas

Nós experimentamos os metais como diferentes dos não-metais em virtude de seu brilho, sua ressonância, sua maleabilidade e condutividade – essas são suas principais propriedades físicas. Os metais podem ser polidos para brilhar (brilho), produzirão tons quando tocados, ou seja, soam (ressonância), quando martelados não quebram, podem ser moldados e rapidamente se tornarão quentes se  forem aquecidos. Os sete metais tradicionais podem ser organizados em uma escala, por essas propriedades físicas fundamentais. Para grande espanto moderno essa escala tem a mesma ordenação de seus planetas associados, em termos de velocidade de movimento. A Tabela abaixo expressa a condutividade metálica tanto como térmica (conduzindo calor) quanto como elétrica, dimensionada por conveniência para prata = 100 (Kaye and Laby, Physical and Chemical Constants).

Os planetas são ordenados por algo que se pode experimentar diretamente, ou seja, quão rápido eles se movem pelo céu – da Lua como o movimento mais rápido para Saturno como o mais lento. Isso significa usar uma perspectiva geocêntrica, pois vemos suas velocidades angulares médias da Terra, e na ordenação tradicional como costumava ser atribuída aos planetas no antigo sistema ptolomaico – por quase dois mil anos. Essa ordenação era quase universalmente aceita, até a época de Copérnico, e tinha a esfera de Mercúrio mais próxima da Terra do que Vênus (matematicamente, esse pode ser o caso: ou seja, Mercúrio em alguns momentos está mais próximo de nós do que Vênus (NK, ‘Interface, Astronomical Essays for Astrologers’, 1997)).

Para citar o bioquímico moderno Dr. Frank McGillion,

“O movimento orbital do planeta correlaciona-se em sequência com a condutividade do seu metal correspondente… Quanto mais lento um planeta se move, menos capaz seu metal correspondente é de conduzir eletricidade!” (Frank McGillian, The Opening Eye, 1982, p.94. The standard electrode potentials are given to the most common valence condition.).

Para os alquimistas antigos, todos os metais tinham essas propriedades em diferentes graus. Eles não os viam como elementos separados, mas aceitavam que tinham essas propriedades experienciais em comum. Além disso, um metal tinha que ser purificável em uma fornalha, onde derreteria, mas não queimaria. É por isso que eles nunca poderiam levar o zinco a sério como um metal, porque ele simplesmente queimava ao ser aquecido. Este critério os colocava em uma situação difícil quanto ao mercúrio, uma vez que era geralmente reconhecido como metálico, embora paradoxalmente.

Essa definição experimental nos limita ao que chamaremos de metais ‘reais’, enquanto a definição moderna de um metal é totalmente abstrata – em termos de átomos que são doadores de elétrons – e inclui substâncias que não se assemelham a elas: por  exemplo, o potássio é uma substância cerosa que explode em chamas ao simples contato com a água. Hoje em dia, as crianças, mesmo nas aulas de ciências elementares, recebem esses conceitos bastante abstratos e dificilmente podem experimentar as propriedades primárias dos metais comuns. Aqui nos concentramos em coisas que são elementares. Vamos passar pelo que estamos chamando aqui de propriedades físicas principais:

Condutividade: O cobre é usado para fiação elétrica sendo um bom condutor, já o chumbo é usado para fusíveis porque é um condutor muito ruim. O mercúrio não está incluído nesta tabela sendo um líquido – as condutividades dos metais quando líquidos são muito menores do que quando sólidos.

Brilho (ou refletância): a prata é o metal mais perfeitamente refletivo dos sete e, portanto, é usado para fazer espelhos. Mercúrio também tem um brilho muito alto e também é usado para isso: esses são os dois metais-espelho. Na antiguidade, eram usados ​​espelhos de cobre ou bronze. Os outros metais apresentam uma gradação aproximada do brilho até o chumbo, que tem uma superfície muito embotada.

Ressonância: o cobre é muito usado em instrumentos musicais por causa de sua alta ressonância, embora os instrumentos de prata tenham os tons mais claros e puros – ‘sinos de prata’, e essa propriedade novamente diminui na escala até o som maçante que o chumbo faz ao ser tocado.

Maleabilidade: Hauschka descreveu como os metais no topo da lista são altamente maleáveis, mas não podem ser bem fundidos, enquanto aqueles na parte inferior podem ser fundidos, mas não forjados. O ouro que ele descreveu como mantendo uma posição de equilíbrio na medida em que poderia igualmente ser fundido ou forjado.

Essas escalas mostram um aumento na mobilidade interna do chumbo, o mais inerte, até a prata, que acompanha o aumento das velocidades angulares dos planetas. Hauschka, que primeiro descreveu isso, concluiu de forma memorável:

“Vemos então que o movimento planetário é metamorfoseado nas propriedades dos metais terrestres”

II. Atividade Química

“Isso não é apenas um encontro, é química”
– There’s Something About Mary

Valência: A valência é a razão de combinação: o hidrogênio tem uma valência de um, o oxigênio de dois e o carbono, quatro. Ele diz quantos “braços” cada elemento tem, por meio dos quais ele se une a outros. Um átomo de carbono se liga a quatro hidrogênios para dar metano (CH4), enquanto o oxigênio se liga a apenas dois hidrogênios, para formar água como H2O.

A maioria dos metais tem mais de um estado de valência possível. A Tabela mostra as valências que os sete metais normalmente apresentam, enquanto quaisquer outros que podem se formar são raros e sem importância. Curiosamente, suas valências se alinham com a tradicional ordenação ptolomaica das esferas celestes:

A prata, que apresentou a maior condutividade e deu o som mais puro, tem apenas uma única valência para todas as ligações que forma com outros elementos. Como cisnes que permanecem monogâmicos e fiéis a um parceiro por toda a vida, a prata metal lunar tem apenas um braço de valência. Em contraste, aqueles que pontuaram mais baixo em suas propriedades físicas, estanho e chumbo, sendo menos condutores, etc., são mais ativos e gananciosos em suas proporções de combinação.

Reatividade: Alguns metais são inertes, por exemplo, o ouro dificilmente se combina, e estes são chamados de metais ‘nobres’ (platina, prata); enquanto o estanho e o chumbo são reativos e se dissolvem mesmo em ácidos fracos. Podemos colocar os metais clássicos em uma seqüência de sua atividade química, que é convenientemente medida pelo que os químicos chamam de seu ‘potencial de eletrodo’. Isso nos diz o quão reativos seus íons estão em solução. Metais inativos que não liberam hidrogênio de um ácido são chamados de ‘eletronegativos’, enquanto os metais mais ativos que liberam hidrogênio são ‘eletropositivos’. Isso fornece uma escala útil de atividade química para metais, medida pelo “potencial de eletrodo padrão” de uma solução em uma determinada concentração.

Vamos começar (como McGillian aqui defendeu) com a ordem dos planetas saindo do Sol, e então os potenciais de eletrodos correspondentes dos metais são:

Assim, McGillian comparou os metais mais reativos e “eletronegativos” ligados a planetas dentro da órbita da Terra com íons eletropositivos que correspondem àqueles fora da órbita da Terra (McGillian). O potencial do eletrodo é medido em relação ao da terra, o que indica a relevância do ponto de vista geocêntrico aqui envolvido. Ele concluiu:

“O universo centrado na Terra dos alquimistas é polarizado em positivo e negativo. É quimicamente yin e yang.’

Uma ordenação mais tradicional teria a prata no topo da lista e o ouro-sol no meio, que é como Hauschka o descreveu; que tem que usar a noção de planetas ‘acima do Sol’, Marte, Júpiter e Saturno tendo metais eletropositivos, enquanto vice-versa para planetas ‘abaixo do Sol’, mas este não é um conceito muito moderno! O potencial de eletrodo padrão da prata é -0,8. De qualquer forma, as correlações são impressionantes.

III. Pesos Atômicos

Cada elemento tem um ‘peso atômico’, e a Tabela Periódica dos Elementos os organiza na sequência desses pesos atômicos. Começa com o hidrogênio tendo um peso atômico de um, então, por exemplo, o carbono é 12 e o oxigênio tem 16. Essa ordenação por pesos atômicos fornece informações sobre as propriedades químicas de cada elemento. Quando Mendeleev descobriu a tabela periódica, organizando os elementos dessa maneira, ele conseguiu prever as propriedades químicas de vários elementos que ainda não haviam sido descobertos, e sua teoria passou a ser aceita à medida que foram confirmadas.

A Tabela de Mendeleev tem sete linhas ou “períodos”, desde a primeira linha que contém apenas os elementos mais leves, hidrogênio e hélio, até a sétima que contém os elementos radioativos extrapesados, como urânio e plutônio. Verticalmente, tem sete ou oito colunas (a oitava e última coluna com os gases inertes geralmente é dada como a coluna 0, as outras são contadas como 1-7): então, de certo modo, também tem sete colunas. Os chamados elementos do ‘grupo um’ pertencem à sua primeira coluna e são todos univalentes, como o sódio. Grupo dois (a segunda coluna) são bivalentes como cálcio, grupo três são trivalentes, por exemplo, alumínio. Assim, o número sete aparece nesta Tabela como bastante dominante, controlando as possibilidades de quais elementos podem existir.

Quando o planeta Urano foi descoberto em 1781, por William Herschel, isso definitivamente eliminou a noção de que havia algo sete vezes maior nos céus. Até então, havia sete esferas que podiam ser vistas se movendo pelo céu. Ainda existiam, de fato, mas um extra invisível havia sido adicionado. Depois de sua descoberta, não havia mais nada sétuplo no mundo! Esse terrível estado de coisas persistiu por quase um século, até que o professor de química Dmitri Mendeleev formulou sua Tabela Periódica. Um padrão de sete dobras então reapareceu na matéria, na ciência da química. Tendo isso em mente, pode ser interessante olhar para o momento em que essa nova síntese foi criada: a tarde de 1º de março de 1869.

Havia nada menos que seis aspectos séptil presentes no céu, entre os planetas. Eles eram:

LUA-SATURNO (1°),  VÊNUS-JÚPITER (1° 10′),  LUA-URANO (0° 10′),   MERCÚRIO-NETUNO (1° 40′),   VÊNUS-NETUNO (0° 30′), SATURNO-URANO (1°)

(O séptil é um aspecto celestial formado pela divisão do círculo em sete partes. Dá o ângulo de inclinação da Grande Pirâmide, 51 1/2°) O cosmos estava em um modo bastante sétuplo naquele momento, quando a novo síntese ocorreu em Mendeleev. Era uma situação clássica do tipo eureca: ele havia recortado cartões para cada elemento conhecido, estava tentando organizá-los por seus números atômicos no tapete da sala, cochilou e, quando acordou, a ideia veio a ele! O que aqui nos interessa é a noção de que um padrão sétuplo é discernido na matéria, durante um período em que estes estão mais fortemente presentes nos céus.

A ordenação dos sete metais clássicos por seus pesos atômicos deriva de nossa ordenação anterior usando um padrão de heptágono: coloque os sete metais em um círculo na sequência de suas propriedades físicas, conforme indicado acima, então comece com o ferro, como tendo o menor valor atômico, peso, e pontue alternadamente, e isso dá a ordenação por pesos atômicos (10).

Um significado mais profundo dessa transformação aparece dentro de um processo de três estágios, como segue. Começa-se com os dias da semana dispostos em círculo. Os dias da semana têm nomes de divindades planetárias, e as línguas européias (exceto o português) concordam a esse respeito. Assim, quinta-feira deriva do ‘dia de Thor’, enquanto o jeudi francês é o ‘dia de Júpiter’, mas o Thor empunhando o trovão sendo um equivalente nórdico a Júpiter. Da mesma forma, há uma analogia entre nossa sexta-feira, como ‘dia de Freya’, e Vendredi, ‘dia de Vênus’, com Freya como uma divindade de Vênus, e assim por diante.

Partindo desse círculo dos sete dias da semana e selecionando alternadamente temos o antigo ordenamento ptolomaico dos planetas. Esta sequência começa na Lua, como a esfera mais próxima da Terra, e termina com Saturno como a mais distante das sete. Vimos anteriormente como isso se refere às suas velocidades de movimento no céu, mas também à ordem de valências de seus metais correspondentes, bem como suas propriedades físicas.

Livros antigos de astronomia costumavam descrever essa transformação sétupla, desde a sequência dos Dias da Criação, ou seja, os sete dias da semana, até a antiga ordenação dos planetas. Eles o chamavam de ‘Hebdomad’ (C.Leadbetter, A Complete System of Astronomy). Então, no início do século XX, o surpreendente terceiro passo desse argumento foi discernido (Sephariel, Cosmic Symbolism). Traçando uma a cada três pontas (ver abaixo) podemos traçar um heptágono estrelar, que dá a mesma ordenação por peso atômico ou número atômico dos metais! O exemplo começa a partir do ferro, como tendo o menor peso atômico dos sete clássicos:

Assim temos um padrão sétuplo ou mandala com os nomes dos deuses do céu ligados aos dias da semana, que pode ser derivados das sequências de propriedades físicas e químicas dos seus respectivos metais. Pelikan parece ter sido o primeiro a descrever esses padrões de heptágono, embora não na sequência aqui apresentada. De uma maneira bela e misteriosa, eles unem os conceitos da química moderna e as antigas tradições do cosmos. De uma fonte totalmente inesperada, recebemos a confirmação de que há de fato algo especial nos ‘sete metais’ conhecidos na antiguidade clássica.

Um acadêmico americano, Derek de Solla Price (Elwell, Astrol. Assoc. Jnl, review of ‘Astrochemistry’, Winter), ficou impressionado com o fato de que a mesma figura geométrica, o heptagrama, explicava tanto a ordem da semana planetária quanto a relação entre os pesos atômicos dos sete metais e o revolucionário período de seus respectivos planetas. Ele foi levado a escrever:

“Parece bastante plausível que grande parte da teoria astrológica possa repousar exatamente sobre essa base de racionalidade figurada, e não sobre conhecimento empírico ou de presságio especial. Nesse sentido, a astrologia… desenvolveu-se numa base muito racional, com uma teoria figurativa e o simbolismo associado em seu centro.’

IV. Uma abordagem sensata

Vimos aqui as concordâncias primárias, o que se poderia chamar de Sete Pilares da Sabedoria, de uma perspectiva matemática/numerológica, para ligar a Terra e o Céu, a estrela e a pedra, a psique e o cosmos. A nossa abordagem tem sido racional, no sentido de olhar para as razões envolvidas. Outros arquivos aqui descrevem uma experiência mais qualitativa: retratos astrais dos arquétipos do planeta metal. Os astrólogos, ao descrever seus arquétipos, usam muito os antigos deuses gregos. Sem dúvida são bons, mas aqui é feito um buscamos uma base mais material e experiencial no reino da química inorgânica. Isso pode parecer difícil para a credulidade, mas vamos ver o que pode ser feito.

Qualquer resposta à pergunta: ‘Do que é feita a matéria?’ tende ao Quatro. A velha teoria da matéria dos quatro elementos desmoronou-se no século XVII e reapareceu no século XX com o reconhecimento dos quatro estados da matéria (sólido, líquido, gasoso e plasma, sendo este último muito quente). Então, na década de 1990, depois que hordas de estranhas partículas subatômicas foram descobertas, surgiu uma simetria de doze vezes, com seis quarks e seis léptons – bastante análoga aos doze signos do zodíaco, com suas três famílias de quatro. Para citar o New Scientist,

‘Hoje, os físicos acreditam que toda a matéria é composta de 12 partículas.’ Começa a parecer que a física de alta energia (o que costumava ser chamada de física de partículas) requer uma base na metafísica pitagórica, em termos do significado dos diferentes padrões numéricos que estão surgindo.

Atualmente falamos das quatrp forças fundamentais da natureza: força gravitacional, força eletromagnética, força nuclear forte e força nuclear fraca, mas estamos aqui preocupados com coisas sensíveis, ou seja, o que pode ser experimentado e é perceptível aos sentidos. Em contraste, os físicos de partículas estão preocupados com o oculto, ou seja, com o que está oculto, pois nenhuma das coisas com as quais lidam pode ser vistas. Suas partículas ficam menores e mais estranhas à medida que os orçamentos crescem. Houve um parlamentar britânico que visitou o enorme anel subterrâneo em Genebra, para ver onde as partículas  aceleradas estavam alegando entender o que era um ‘bóson de Higgs’, uma partícula que eles descobriram recentemente, que dura um milionésimo de segundo ou mais. Ao longo dos anos, o projeto internacional de construir esses aceleradores gigantes não conseguiu produzir nada que o público pudesse entender (o recente ‘quark top’ foi descoberto no Fermilab, EUA, não na Europa).

Toda via distinguimos assim um contraste importante entre os números doze e sete. Padrões de doze e quatro da física moderna dizem respeito à própria estrutura da matéria: ao passo que vimos como as estruturas sétuplas demonstram de uma maneira mais mística uma concordância terra/céu – de uma maneira que valida as correspondências tradicionais. Esses sete metais se entrelaçaram com a história da humanidade. É certo que há mais a dizer em relação aos planetas exteriores, e especialmente à terrível ligação Plutão/Plutônio.

V. Parentesco Metálico

As propriedades periódicas que conhecemos hoje dos metais nos permite agora falar de “grupos de parentesco” entre elementos que compartilham as mesmas caracteristicas.  Os ‘Irmãos do Ferro’ por exemplo são o Cobalto, Níquel, Cromo e Manganês pois mostram uma forte afinidade com o Ferro, e assim possuem uma natureza semelhante a Marte. Eles têm propriedades semelhante de ressonância e brilho, e o ferro pode ser endurecido por aços com traços desses metais. 95% da produção de Manganês vai para a fabricação de aço. O Níquel e o cobalto se comportam como ferro quando estão em um campo magnético. A Tabela compara algumas de suas propriedades físicas de interesse:

A frase que Pelikan usou para esses metais foi: ‘temos fortes razões para suspeitar que o impulso ferro-Marte cooperou em sua formação.’ (Wilhelm Pelikan, The Secrets of Metals). Vale notar que todos são quimicamente mais ativos que o ferro, sendo seus potenciais divalentes de eletrodos +1,2,  para manganês, +0,28 para o cobalto e +0,25 níquel  o que explicaria porque os mesmos foram encontrados muito tempo depois do ferro.

Fonte: Astrochemistry: A study of metal-planet affinities,
Nick Kollerstrom

Tradução: Thiago Tamosauskas

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/afinidades-metal-planetarias-o-padrao-setuplo/

Espiritismo e Consciência de Krishna

Um Estudo Comparativo em Transmigração da Alma, Posição dos Espíritos (Bhutas), Epistemologia e Objeto de Culto.

Lembro-me como se fosse hoje. Em minhas mãos, aquele livro que comprei sob a propaganda de que desdobraria os temas da palestra que eu havia acabado de ouvir com grande interesse. Na capa da obra, ao fundo, o topo de vários templos no que parecia ser o amanhecer ou o entardecer. Quando cheguei em casa, deitei em minha cama ainda com a roupa do corpo e li novamente na capa o título do livro, o qual me dizia muito, pois era o que eu vivia. Seu título: Em Busca da Verdade. Seu autor: A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, fundador da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna

Devorei cada página como se estivesse com muita fome. Tanto aprendi que mentalmente agradecia a Deus por aquele livro. Fui introduzido a temas como a impossibilidade de ser obediente a Deus sem uma descrição clara de Seus desejos e ordens, a necessidade fundamental de conhecermos em detalhes a personalidade de Deus para podermos amá-lO, a compreensão derradeira da ordenação do universo com base nos três modos da natureza material, a inutilidade de tentar ser honesto sem ter o conhecimento de que Deus é o proprietário de tudo e vários outros temas que, tamanha sua profundidade, sequer sabia de sua existência, menos ainda que haveria alguém capaz de apresentá-los de maneira tão acessível como o autor que agora eu lia.

Nem tudo me foi alegria ao término da leitura, no entanto. Em meu coração, além do contínuo agradecimento a Deus, estava o desejo de divulgar esse livro tanto quanto eu pudesse, a tantos amigos quanto eu tivesse. Porém, uma única página desta obra me desmotivava. Pensei então em comprar vários desse livro e presenteá-lo a amigos sem essa página que me incomodava, porém veriam que uma folha havia sido arrancada. Uma segunda ideia: Fotocopiá-lo tirando essa página e apagando os números das páginas, de modo que ninguém saberia do excerto. Por fim, não tomei nenhuma de minhas medidas cogitadas, pois minha ocupação em distribuir esse conhecimento teria de aguardar um pouco mais meu amadurecimento.

A referida passagem, enfim, era esta: “Como espíritos puros, todas as almas são iguais, inclusive nos animais”*. (p. 34) Ai de mim, como dizem os poetas. Por que a vida não pode ser mais fácil? Por que um autor que julguei conhecer tudo perfeitamente tinha essa “mácula” de tamanho contrassenso de afirmar que a alma que anima os animais e os homens é a mesma, com o agravante que descobri mais tarde, de que é a mesma alma também que pode passar inclusive por corpos vegetais?

*PRABHUPADA, A.C. Bhaktivedanta Svami. Perguntas Perfeitas Respostas Perfeitas. São Paulo: BBT, 2012, p. 34. Perguntas Perfeitas Respostas Perfeitas é o novo título que em português que se deu ao então Em Busca da Verdade, esta edição agora com tradução literal do título original da obra, Perfect Questions Perfect Answers.

Minha dificuldade se dava por minha formação espírita, a qual, embora me tenha conduzido a buscar a reunião que assisti sobre a consciência de Krishna, em virtude de utilizar termos da mesma, como karma e chakra*, tinha diferentes concepções acerca destes conceitos e outros, e, como foi o espiritismo a religião que me convenceu da existência de Deus, livre-arbítrio, transmigração da alma e outros tópicos, era-me difícil lidar com os conflitos entre ela e meu novo achado da consciência de Krishna.

*Karma e chakra não são, a rigor, conceitos doutrinários do espiritismo. Seu uso entre os espíritas é considerado fruto de hibridismo com religiões orientais. Tais termos não se encontram na obra kardeciana, sendo encontrados apenas em obras subsidiárias.

Hoje, passados oito anos desde este meu primeiro contato com a consciência de Krishna, graduei-me em Bhakti-sastri* após residência no Seminário de Filosofia e Teologia Hare Krishna de Campina Grande e traduzi para a ISKCON mais de dez livros, cem artigos e outros materiais, além de ter-me dado a leituras diversas sobre o assunto da consciência de Krishna. Esse acúmulo de conhecimento de minha parte tanto da doutrina espírita quanto da consciência de Krishna faz-me sentir obrigado a produzir este material de estudo comparado, para o benefício tanto dos espíritas quanto dos adeptos da consciência de Krishna. Para os primeiros, uma oportunidade de diálogo inter-religioso não muito explorada. Embora os espíritas promovam sua religião em conflito com religiões que duvidam do contato com os espíritos; a consciência de Krishna é um desafio inteiramente novo, dado que acredita plenamente nesta comunicação, mas a tem como irrelevante para investigações acerca de Deus, da alma e da matéria inerte. Aos adeptos da consciência de Krishna, este tenta esclarecer algumas das zonas de conflito entre as duas religiões para fortalecimento da fé de tais adeptos com argumentos científicos, lógicos e teológicos. As zonas de conflito a serem analisadas são reencarnação em oposição a metempsicose, conhecimento descendente em oposição a conhecimento ascendente, equivalência de espíritos de luz e almas espirituais semipiedosas identificadas com o corpo, e culto a tais indivíduos e adoração exclusiva a Deus.

*Título obtido pelo sucesso em uma prova internacional a que se submetem os membros do Movimento Hare Krishna e outros interessados após estudo básico de sânscrito e estudo profundo das obras O Bhagavad-gita Como Ele É, Isopanisad, Néctar da Devoção (Bhakti-rasamrta-sindhu) e Néctar da Instrução (Upadesamrta).

Transmigração da Alma: Reencarnação e Metempsicose

Ambas as religiões em análise têm como princípio básico que a alma espiritual indestrutível tem a faculdade de transmigrar para um corpo novo ante a destruição do corpo em que se encontrava anteriormente. Em O Livro dos Espíritos*, encontramos: “Chamamos alma ao ser imaterial e individual que em nós reside e sobrevive ao corpo” (Introdução, p. 15), “A alma passa então por muitas existências corporais? ‘Sim, todos contamos muitas existências’” (2.4.166b), e, em seguida, afirma-se que “vivemo-las em diferentes mundos” (2.4.172).

*KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1995

Todos estes três pontos são comuns à consciência de Krishna, como evidenciamos por estes versos introdutórios do Bhagavad-gita*. No atinente à continuidade da alma após a morte do corpo: “Para a alma, em tempo algum existe nascimento ou morte. Ela não passou a existir, não passa a existir e nem passará a existir. Ela é não nascida, eterna, sempre existente e primordial. Ela não morre quando o corpo morre”. (2.20) No atinente às múltiplas existências: “Assim como alguém veste roupas novas, abandonando as antigas, a alma aceita novos corpos materiais, abandonando os velhos e inúteis” (2.22), e também “Assim como, neste corpo, a alma corporificada seguidamente passa da infância à juventude e à velhice; do mesmo modo, chegando a morte, a alma passa para outro corpo. Uma pessoa ponderada não fica confusa com tal mudança”. (2.13) No atinente à existência em diferentes planetas: “Aqueles situados no modo da bondade gradualmente elevam-se aos planetas superiores; aqueles no modo da paixão vivem nos planetas terrestres; e aqueles no abominável modo da ignorância descem para os mundos infernais”. (14.18)

*Todas as citações do Bhagavad-gita aqui contidas são as traduções de O Bhagavad-gita Como Ele É, disponível gratuitamente e em português em vedabase.com/pt-br/bg.

Os pontos de conflito entre o espiritismo e a consciência de Krishna, como analisaremos aqui, estão no fato de que o espiritismo advoga, ou parece advogar, que a alma que ocupa os corpos humanos jamais habitou corpos animais ou então que, uma vez que tenha deixado os corpos animais em sua evolução a partir de sua criação por Deus “simples e ignorantes” (Livro dos Espíritos 2.1.115), jamais poderia retornar a um corpo animal dado que isto contradiz a lei do progresso, lei esta que dá título ao capítulo sexto da obra O Livro dos Espíritos. Tal ensinamento é chamado “reencarnação”, em oposição a “metempsicose”, cuja transmigração de uma mesma categoria de alma – categoria única, distinta apenas de Deus e da matéria inerte – se dá por todos os corpos.

Nesta passagem de O Livro dos Espíritos, nega-se a transmigração de uma mesma espécie de alma por corpos humanos e animais, atribuindo a eles “almas diferentes”:

Pois que os animais possuem uma inteligência que lhes faculta certa liberdade de ação, haverá neles algum princípio independente da matéria?

“Há e que sobrevive ao corpo”.

Será esse princípio uma alma semelhante à do homem?

“É também uma alma, se quiserdes, dependendo isto do sentido que se der a esta palavra. É, porém, inferior à do homem. Há entre a alma dos animais e a do homem distância equivalente à que medeia entre a alma do homem e Deus”. (2.11.597 e 597a)

A alma animal, ainda segundo a mesma obra (2.11.601), evolui por diferentes corpos animais, tal como a alma humana:

Os animais estão sujeitos, como o homem, a uma lei progressiva?

“Sim; e daí vem que nos mundos superiores, onde os homens são mais adiantados, os animais também o são, dispondo de meios mais amplos de comunicação. São sempre, porém, inferiores ao homem e se lhe acham submetidos, tendo neles o homem servidores inteligentes.”

A consciência de Krishna, baseada nos Vedas, declara, no entanto, que existe uma só alma que habita por diferentes corpos, passando por todas as formas inferiores até atingir a forma humana. No Brahma Vaivarta Purana, por exemplo, figura os seguintes versos: “Atinge-se a forma humana de vida após a transmigração por milhões de espécies ao longo do processo gradual de evolução, e essa vida humana é arruinada pelos tolos orgulhosos que não se refugiam nos pés de lótus de Govinda [Deus]”*. O Padma Purana descreve esse número de formas antecedentes à forma humana pelas quais passa a alma: “Em todo o universo, existem 900.000 espécies aquáticas; 2.000.000 de entidades vivas imóveis, como árvores e plantas; 1.100.000 espécies de insetos e répteis, e 1.000.000 de espécies voadoras. No que diz respeito aos animais terrestres, existem em número de 3.000.000, e as espécies humanas existem em número de 400.000”**.

*VedaBase: 25. Song, Prayer and Verse Books / Srila Prabhupada Slokas / Selected Verses From the Puranas / Brahma Vaivarta Purana. info.vedabase.com. O verso original diz: asitim caturas caiva laksams tan jiva-jatisu/ bhramadbhih purusaih prapyam manusyam janma-paryayat/ tad apy abhalatam jatah tesam atmabhimaninam/ varakanam anasritya govinda-carana-dvayam.

**VedaBase: 25. Song, Prayer and Verse Books / Srila Prabhupada Slokas / Selected Verses From the Puranas / Padma Purana. O verso original diz: jalaja nava-laksani sthavara laksa-vimsati/ krmayo rudra-sankhyakah paksinam dasa-laksanam/ trimsal-laksani pasavah catur-laksani manusah.

No Srimad-Bhagavatam* (3.29.28-32), encontramos uma descrição ainda mais detalhada, a qual nos informa que o tato é o primeiro sentido que se experimenta, o qual se desenvolve ao se ter um corpo de árvore. Em seguida, experimenta-se paladar ao se obter um corpo de peixe. Após o corpo de peixe, pode-se obter um corpo como de abelha e desenvolver olfato. A audição então se faz presente rudimentarmente em um corpo de cobra, e, mais adiante, pode-se ter um corpo que tem todos os sentidos e ainda é capaz de distinguir formas, como os corpos de algumas aves e, por fim, de quadrupedes. Finalmente, tem-se o corpo humano. Os seres humanos ainda são divididos entre diferentes níveis de estruturação social e rendição a Deus, partindo dos seres humanos incivilizados e indo até “o devoto puro de Deus, que Lhe presta serviço devocional sem nenhuma expectativa”.

*As citações do Srimad-Bhagavatam são traduções minhas da tradução inglesa de Srila Prabhupada, disponível em vedabase.com/en/sb.

O leitor mais arguto deve ter atentado que, na ocasião em que eu disse que o espiritismo advoga que a alma que ocupa os corpos humanos jamais habitou corpos animais ou então que, uma vez que tenha deixado os corpos animais em sua evolução a partir de sua criação, jamais poderia retornar a um corpo animal, eu intercalei o seguimento “ou parece advogar”. A explicação para isto é que, como veremos em discussões acerca de epistemologia, a revelação dos espíritos não é um sistema fechado e concluído como o da consciência de Krishna, isto porque seus reveladores são investigadores no modelo de investigação científico-filosófico, isto é, baseado respectivamente na percepção dos sentidos e da mente, motivo pelo qual certamente terão conflitos entre si como têm os cientistas e filósofos encarnados. Assim é que um mesmo espírito pode ter diferentes opiniões em diferentes momentos ou variados espíritos terem diferentes opiniões contemporâneas, e encontramos no Livro dos Espíritos (p. 303) que isso de fato se dá com a dicotomia reencarnação e metempsicose e acerca da relação entre os homens e os animais:

O ponto inicial do espírito é uma dessas questões que se prendem à origem das coisas e de que Deus guarda o segredo. Dado não é ao homem conhecê-las de modo absoluto, nada mais lhe sendo possível a tal respeito do que fazer suposições, criar sistemas mais ou menos prováveis. Os próprios espíritos longe estão de tudo saberem e, acerca do que não sabem, também podem ter opiniões pessoais mais ou menos sensatas. É assim, por exemplo, que nem todos pensam da mesma forma quanto às relações existentes entre o homem e os animais. Segundo uns, o espírito não chega ao período humano senão depois de se haver elaborado e individualizado nos diversos graus dos seres inferiores da Criação*. Segundo outros, o espírito do homem teria pertencido sempre à raça humana, sem passar pela fieira animal. O primeiro desses sistemas apresenta a vantagem de assinar um alvo ao futuro dos animais, que formariam então os primeiros elos da cadeia dos seres pensantes. O segundo é mais conforme à dignidade do homem. (grifo nosso)

*Emmanuel, por exemplo, em várias psicografias de Chico Xavier, defende esta primeira teoria contra a opinião daqueles que compuseram O Livro dos Espíritos: “O animal caminha para a condição do homem tanto quanto o homem evolui no encalço do anjo”. (Alvorada do Reino, Na Senda da Ascensão) Em sua obra Emmanuel: Dissertações Mediúnicas sobre Importantes Questões que Preocupam a Humanidade, encontramos:

“Como o objetivo desta palestra é o estudo dos animais, nossos irmãos inferiores, sinto-me à vontade para declarar que todos nós já nos debatemos no seu acanhado círculo evolutivo. São eles os nossos parentes próximos, apesar da teimosia de quantos persistem em o não reconhecer. Considera-se, às vezes, como afronta ao gênero humano a aceitação dessas verdades. E pergunta-se como poderíamos admitir um princípio espiritual nas arremetidas furiosas das feras indomesticadas, ou como poderíamos crer na existência de um rio de luz divina na serpente venenosa ou na astúcia traiçoeira dos carnívoros. Semelhantes inquirições, contudo, são filhas de entendimento pouco atilado”. (XAVIER, Chico. FEB. p. 119)

Interessante notar que o espiritismo diz que sua validade está em não haver contradição entre os espíritos: “Uma só garantia séria existe para o ensino dos espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares”. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, p. 31)

Assim, não há uma base sólida acerca do posicionamento dos espíritos em relação a se a alma anima primeiramente corpos animais ou começa já em corpos humanos, logo não há um posicionamento absoluto acerca de se a alma animal progride unicamente por corpos animais ou se é a mesma sorte de alma que anima agora corpos humanos. Contudo, como a obra O Livro dos Espíritos mostra predileção pela teoria de que existem dois tipos de almas, humanas e animais, ou mais precisamente, três, uma também apenas a animar vegetais*, tomaremos isso como o fundamento espírita e o iremos expor aos ensinos conscientes de Krishna.

A primeira dificuldade para sustentar a teoria espírita de que os animais sempre serão animais e sempre foram animais é que ela é contraditória com o senso de justiça vinculado a que alguém sofre por mau uso de seu livre-arbítrio e que alguém tem conforto por bom uso de seu livre-arbítrio, o que é aceito por ambas as religiões em estudo. No entanto, como os animais não têm livre-arbítrio (Livro dos Espíritos 2.11.599), o que ambas as religiões concordam, Deus Se torna injusto na teoria espírita, pois todo o sofrimento excruciante pelo qual passam, por exemplo, as vacas, porcos, galinhas e outros animais em fazendas-fábricas e abatedouros* é um sofrimento desmerecido, não decorrente de nenhuma escolha ruim, tampouco há justiça ou justificativa em uma vaca viver livremente e outra não. Deste modo, Deus torna-Se alguém horrendo que criou almas animais apenas para animarem corpos animais inferiores e irem progredindo por corpos animais superiores sempre sofrendo as dores do nascimento, da morte, da velhice e da doença mesmo não tendo feito nenhuma má escolha ou ato contrário à vontade de Deus. Tais almas animais são submetidas a um processo automático (idem. 2.11.602) de evolução por diferentes corpos – reitero, dolorosíssimo – e evoluem sem nenhum mérito para chegarem ao estágio máximo delas, estágio máximo este no qual não conhecem Deus (idem. 2.11.603)**.

*Aqueles que não estão inteirados deste “avanço” da civilização podem se inteirar do mesmo assistindo ao documentário Terráqueos [Earthlings] ou similares. O referido documentário está disponível neste weblink: terraqueos.org. Outros documentários similares se encontram na mesma página.

**Desenvolvi, a princípio, estar argumentação sob o norteamento de Santo Anselmo, que diz que o conceito perfeito de Deus é, entre outras coisas, de um ser absolutamente justo e infinitamente bom, e que o conceito em que se tenha uma justiça e uma bondade insuperáveis é o conceito verdadeiro. Semelhante argumentação que apresento, no entanto, parece também estar inteiramente em A Gênese (3.12), onde se diz: “Se os animais são dotados apenas de instinto, não tem solução o destino deles e nenhuma compensação os seus sofrimentos, o que não estaria de acordo nem com a justiça, nem com a bondade de Deus”.

A única maneira de se conciliar existir sofrimento no mundo e Deus ser onipotente e bom é a exigência do amor ser precedido por livre-arbítrio, haja vista que um amor forçado não é amor, dado que amar exige a espontaneidade de ter o direito de não amar. Agora, se os animais jamais conhecerão Deus para amá-lO e não têm livre-arbítrio, por que os criar e os submeter a uma evolução dolorosa e sem sentido até o estágio de perfeição em que não conhecem seu criador? Certamente é absurdo atribuir a Deus tamanho capricho, em virtude do que o Livro dos Espíritos só pode dizer sobre isso as palavras com que encerra o capítulo nono da parte segunda: “Quanto às relações misteriosas que existem entre o homem e os animais, isso, repetimos, está nos segredos de Deus”.

O conhecimento da consciência de Krishna, no entanto, mantém Deus como justo ao colocar que os animais sofrem porque as almas que habitam tais animais que estão sofrendo com nascimento, morte, doenças e velhice fizeram mau uso de seu livre arbítrio, isto é, não procederam de acordo com a vontade de Deus, quando possuíam corpos humanos ou no ato de se desconectarem de Deus. Assim é que um açougueiro ou aqueles que comem carne terão de nascer, pelas reações de seus pecados, em corpos de animais que serão brutalmente criados e abatidos. Os corpos animais para as almas também têm um propósito muito amável, que é que uma alma em condição pecaminosa pode dar vazão a suas tendências pecaminosas sem criar novo mau karma. Deste modo, alguém afeito a dormir excessivamente pode ter um corpo de urso; alguém afeito a comer carne, um corpo de tigre; alguém afeito à promiscuidade, um corpo de macaco e assim por diante. Caso se fizesse tais atos no corpo humano, incorreria em grandes reações pecaminosas. Porém, com a oportunidade de fazer tais coisas em corpos animais, o indivíduo dá vazão a seus pecados e pode, quando Deus considerar apropriado, habitar novamente um corpo humano já esgotado desse hábito. Assim é que o Garuda Purana (2.46.9-10) afirma sobre as almas pecaminosas que estão deixando os planetas infernais: “Quando as torturas expiatórias e restringentes cessam, as entidades vivas nascem novamente na forma humana ou em uma forma animal com os traços característicos de seus pecados”. Por traços característicos dos pecados, entende-se uma pessoa incestuosa nascer cão ou alguém que não discrimina o que comer e o que não comer nascer como porco.

Com a metempsicose, a justiça de Deus é preservada, pois o sofrimento da alma no corpo animal tem um porquê imediato, isto é, suas ações passadas, e tem um propósito futuro: uma vez que atinja a perfeição em um dos 400.000 tipos de corpos humanos que propiciam o livre-arbítrio de poder render-se a Deus, conhecerá Deus e se relacionará com Ele em serviço devocional e bem-aventurança eterna.

Embora o espiritismo diga, como citado anteriormente, que talvez as almas que hoje habitam os corpos humanos tenham sim habitado corpos animais, o espiritismo em momento algum assume que a alma possa involuir, o que eles acreditam acontecer na metempsicose. Isto é um erro, no entanto; ao menos na metempsicose mais antiga que se conhece – a metempsicose consciente de Krishna. No Bhagavad-gita (2.40), Krishna diz: “Neste caminho [o caminho da gradual rendição a Deus] não há perda nem diminuição, e um pequeno esforço neste caminho pode proteger a pessoa do mais perigoso tipo de medo”. Em outras palavras, como explica Prabhupada em seu comentário, qualquer avanço que uma alma tenha feito em se render a Deus está eternamente no crédito dela, e ela sempre continuará daquele ponto, e Krishna diz que, desde que ela continue fazendo o mínimo progresso (pequeno esforço) ela estará livre do mais perigoso tipo de medo (cair em uma forma sub-humana). Aqui pode parecer haver uma contradição: Não há perda nem diminuição, ou involução, mas, se ela parar de progredir, cairá em corpos animais. Isso não é uma contradição assim como os espíritas aceitam que alguém que foi doutor em Letras pode, caso aja pecaminosamente, nascer como alguém cego, surdo, mudo e paralítico. Tal aparente involução, isto é, alguém antes pesquisador acadêmico sequer ter sentidos e consciência o bastante para interagir ou se movimentar, é um estado temporário de “inferioridade” à vida passada, o qual, quando superado e terminado, terá sido um grande aprendizado para o doutor, que poderá então continuar seu progresso novamente em um corpo com inteligência, mas temeroso de pecar e reconsiderando se o mero conhecimento acadêmico realmente constitui progresso.

Assim é que, quando alguém cai em um corpo animal após ter tido um corpo humano, ao deixar o corpo animal – ou os vários corpos animais, a depender de seus atos –, retoma sua vida com livre-arbítrio do ponto de rendição a Deus em que estava, e sua experiência em determinado corpo animal serve-lhe de lição ou de esgotamento de alguma tendência animalesca que tinha mesmo no corpo humano.

A história do rei Bharata, por exemplo, relatada no Quinto Canto do Srimad-Bhagavatam – para o qual já fornecemos um weblink – relata a história de um rei que renunciou seu reino quando mais velho e se recolheu para a floresta para se dedicar a práticas espirituais. Contudo, porque negligenciou sua vida espiritual tendo-se atraído por um veadinho na floresta, adquiriu um corpo de veado na vida seguinte. No corpo de veado, intuitivamente rumou para a casa de grandes devotos de Deus e lá ficou até morrer. Uma vez de volta ao corpo humano, na vida seguinte, ele retomou sua vida espiritual com muito mais seriedade e cuidado. Assim, é evidente que, embora tenha adquirido um corpo sub-humano após ter tido um corpo humano, não houve involução da consciência, mas uma experiência chocante tal qual alguém que alguma vez enxergou porém teve um nascimento cego. Assim, negar a metempsicose porque a mesma pressupõe a involução da consciência é ignorância de todos os sistemas de metempsicose*, visto que a metempsicose dos Vedas, escrituras estas que formam a base do movimento Hare Krishna, conciliam perfeitamente a transmigração por diferentes corpos sem aceitar a involução da consciência. Tal aparente “involução” pode ser comparada a alguém que estava caminhando para frente e, ao se deparar com um buraco à sua frente, recua um pouco para saltá-lo. Tal recuo não é um retrocesso em seu caminhar para frente, mas parte de seu progresso.

*Parece que o espírito que se posiciona contra a metempsicose se informou insuficientemente, apenas em fontes semelhantes àquelas consultadas por Jung, que também possuía conhecimento incompleto da metempsicose: “O conceito de renascimento é multifacetado. Em primeiro lugar destaco a metempsicose, a transmigração da alma. Trata-se da ideia de uma vida que se estende no tempo, passando por vários corpos, ou da sequência de uma vida interrompida por diversas reencarnações. O budismo especialmente centrado nessa doutrina – o próprio Buda vivenciou uma longa série de renascimentos – não tem certeza se a continuidade da personalidade é assegurada ou não; em outras palavras, pode tratar-se apenas de uma continuidade do karma. Os discípulos perguntaram ao mestre, quando ele ainda era vivo, acerca desta questão, mas Buda nunca deu uma resposta definitiva sobre a existência ou não da continuidade da personalidade”. (JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 119). Quando tal afirmação de Jung, que não conseguiu estender-se para a psicose mais antiga que se conhece, a metempsicose védica ou pré-budista, foi apresentada a Srila Prabhupada, este comentou:

“Srila Prabhupada: Uma personalidade está sempre presente, e mudanças corpóreas não mudam isso. A pessoa, entretanto, identifica-se de acordo com o seu corpo. Quando, por exemplo, a alma está dentro do corpo de um cachorro, ela pensa de acordo com aquela construção corpórea particular. Ela pensa: “Sou um cachorro, e tenho minhas atividades particulares”. Na sociedade humana, a mesma concepção está presente. Por exemplo, quando alguém nasce na América, ele pensa: “Sou americano, e tenho meu dever”. De acordo com o corpo, a personalidade se manifesta, mas, em todos os casos, a personalidade está presente. Discípulo: Mas essa personalidade é contínua? Srila Prabhupada: Certamente a personalidade é contínua. À morte, a alma passa para outro corpo grosseiro juntamente com suas identificações mentais e intelectuais. O sujeito obtém diferentes tipos de corpos, mas a pessoa é a mesma”. (Beyond Illusion and Doubt. Cap. 15. vedabase.com/en/bid/15)

Então, porque o espiritismo não possui uma resposta clara sobre se a alma que atualmente ocupa corpos humanos já ocupou corpos animais, e porque seu argumento de que a metempsicose não pode ser real porque implica a involução da consciência é produto de ignorância da metempsicose consciente de Krishna, temos aqui, acredito, bastante espaço para reflexão.

Algo muito interessante é que Krishna deixou-nos já uma fórmula no Bhagavad-gita, cinco mil anos atrás, que nos informa que a opinião de quem reside onde residem aqueles que conversaram com Allan Kardec é, em geral, de que existem diferentes tipos de almas. Tal fórmula é dada no Bhagavad-gita (18.20-22):

Você deve compreender que está no modo da bondade aquele conhecimento com o qual se percebe uma só natureza espiritual indivisa em todas as entidades vivas, embora elas se apresentem sob inúmeras formas. O conhecimento com o qual se vê que em cada corpo diferente há um tipo diferente de entidade viva, você deve entender que está no modo da paixão. E o conhecimento pelo qual alguém se apega a um tipo específico de trabalho como se fosse tudo o que existe, sem conhecimento da verdade, e que é muito escasso, diz-se que está no modo da ignorância.

O universo, segundo os Vedas, é regido por três cordas, ou modos da natureza material, os quais se chamam bondade, paixão e ignorância. Assim, classifica-se tudo nos três modos, como alimentação, caridade etc. Pode-se ler sobre os mesmos nos capítulos 14, 17 e 18 do Bhagavad-gita. Aqui Krishna está dizendo que, quando alguém está no modo da ignorância, esse alguém quer apenas trabalhar, sendo indiferente a discussões se a alma existe ou não existe, se ela é a mesma tramitando por diferentes corpos ou se cada tipo de corpo comporta um tipo de alma. Em seguida, superiores são as pessoas controladas pelo modo da paixão, as quais já aceitam a existência da alma, embora, por seus sentidos imperfeitos e por seu desejo de explorar os outros, digam que a alma da mulher, do índio, do negro ou dos animais é inferior. Por fim, existem aqueles no modo da bondade, o melhor de todos, os quais percebem que é a mesma alma que aparece em diferentes corpos, assim como a mesma luz branca às vezes parece azul, vermelha ou amarela a depender da cor do invólucro que recebe.

Assim, as escrituras conscientes de Krishna dizem que onde residem aqueles que conversaram com Allan Kardec é uma morada no modo da paixão (Srimad-Bhagavatam 4.29.28, significado), a qual se chama, em sânscrito, Antariksa, daí a opinião deles. A tese espírita ser prevista milênios antes do surgimento do espiritismo e ainda propor uma tese superior é certamente algo que deve promover buscadores sinceros a considerarem se não há livros na Terra mais avançados do que os cinco livros codificados por Kardec e similares. A leitura do Bhagavad-gita Como Ele É, na companhia daqueles que já o estudam há mais tempo, é um começo recomendável. Acerca da localização das colônias espíritas e sua identificação com o modo da paixão, falaremos mais adiante, na seção denominada “Uma análise da posição dos espíritos segundo a consciência de Krishna”.

Ainda nos argumentos na dicotomia reencarnação e metempsicose, além dos argumentos da questão do sofrimento a quem nunca teve livre-arbítrio para fazer algo que merecesse sofrimento e de que Krishna previu esse argumento para aqueles que habitam Antariksa, há o argumento moral, possivelmente o mais forte, de que perceber outras entidades vivas como ontologicamente inferiores é a inconsciência fundamental para se explorar o outro. Só me é possível explorar o negro, a mulher, o judeu ou o índio, por exemplo, depois que eu me convencer de que são menos importantes para Deus ou inferiores a mim, pois, se são iguais a mim, dou o direito de que façam comigo o mesmo que faço com eles, e se são tão importantes para Deus quanto eu sou, Deus me punirá de alguma forma. Assim, vê-se rotineiramente que, conquanto os espíritas se apiedem de seres humanos em sofrimento, são promotores do sofrimento dos animais em seus hábitos alimentares, de vestes etc., hábitos estes tendo em vista o gozo dos sentidos. No Movimento Hare Krishna, todo membro faz o voto vitalício de não comer carne, peixe ou ovos, e as verduras e outros alimentos também são ingeridos apenas após serem consagrados a Deus. Assim, é visível a superioridade moral e caridosa naqueles possuidores da visão de que a alma que anima os animais e plantas não é por natureza inferior ou sem o propósito de um dia alcançar Deus, mas uma alma tal como nós que agora estamos em corpos humanos*.

*Esta questão de que o fundamento para não explorarmos os animais ou humanos de diferentes categorias se encontra na necessidade de os vermos como indivíduos na mesma categoria que nós, uma categoria única abaixo de Deus, fica evidente caso contrastemos, por exemplo, espíritos que acreditam que os animais possuem almas constitucionalmente inferiores e aqueles que pensam diferente. Vemos, por exemplo, que os reveladores do Livro dos Espíritos, partidários da ideia de que a alma em um corpo animal é distinta, e eternamente distinta, da alma em um corpo humano, não promovem o vegetarianismo e o consequente bem-estar dos animais: “Dada a vossa constituição física, a carne alimenta a carne, do contrário o homem perece. A lei de conservação lhe prescreve, como um dever, que mantenha suas forças e sua saúde, para cumprir a lei do trabalho. Ele, pois, tem que se alimentar conforme o reclame a sua organização” (O Livro dos Espíritos 3.5.723). O já mencionado espírito Emmanuel, partidário da ideia de que as almas que ocupam corpos animais e humanos são as mesmas, defende o vegetarianismo: “A ingestão das vísceras dos animais é um erro de enormes consequências, do qual derivaram numerosos vícios da nutrição humana. É de lastimar semelhante situação, mesmo porque, se o estado de materialidade da criatura exige a cooperação de determinadas vitaminas, esses valores nutritivos podem ser encontrados nos produtos de origem vegetal, sem nenhuma necessidade dos matadouros e frigoríficos… Consolemo-nos com a visão do porvir, sendo justo trabalharmos, dedicadamente, pelo advento dos tempos novos em que os homens terrestres poderão dispensar da alimentação os despojos sangrentos de seus irmãos inferiores”. (O Consolador, questão 129) Assim fica aparente que, por trás do empenho em categorizar o outro como ontologicamente inferior, está o desejo e o ato degradado de explorá-lo.

Deste modo, apresentado o sistema de metempsicose do Movimento Hare Krishna, que remonta mais de 50 séculos na história registrada, sistema este que não nega a evolução permanente da consciência e que a evolução da alma pelos animais é progressiva, a metempsicose passa a ser verdadeira segundo estes dizeres da página 303 do Livro dos Espíritos: “Seria verdadeira a metempsicose se indicasse a progressão da alma, passando de um estado a outro superior, onde adquirisse desenvolvimentos que lhe transformassem a natureza”.

Uma análise da posição dos espíritos segundo o espiritismo

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo*, o espiritismo promove-se como sucessor de Jesus em ensinamentos, valendo-se das passagens bíblicas que se referem ao “Espírito de verdade”, a saber, João 14:17, 15:26 e 16:13: “O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós. Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito de verdade, que procede do Pai, ele testificará de mim. Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir”**.

*KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 1996
**bibliahabil.com.br

Podemos identificar quatro atributos (mais do que isso tornaria este muito longo) para análise do Espírito de Verdade segundo os referidos versos bíblicos: O Espírito de Verdade procede do Pai; não ensinará algo diferente do que Jesus disse; guiará as pessoas em toda a verdade; e não falará de si mesmo, mas antes do que houver ouvido.

O Consolador é identificado nas obras canônicas do espiritismo como o próprio espiritismo, como em A Gênese* (1.42): “O espiritismo realiza todas as promessas do Cristo a respeito do Consolador anunciado”, e o Espírito de Verdade é aquele que inspira (1.39) e preside (1.40) essa doutrina. Em termos práticos, podem-se analisar os quatro atributos no espiritismo como uma análise paralela do Espírito de Verdade, pois, uma vez que o espiritismo, o Consolador, é “inspirado” e “presidido” pelo Espírito de Verdade, não pode haver diferença ou contradição doutrinária entre os dois.

*KARDEC, Allan. A Gênese. Brasília: FEB, 1995

Então, um estudo esmerado do espiritismo mostra os quatros atributos que selecionamos acima? Analisemos cada um.

O Espírito de Verdade “procede do Pai” significa que ele já esteve com o Pai, isto é, já O viu e O conhece, o que é possível segundo o Livro dos Espíritos (1.1.11): “Será dado um dia ao homem compreender o mistério da Divindade? ‘Quando não mais tiver o espírito obscurecido pela matéria. Quando, pela sua perfeição, se houver aproximado de Deus, ele O verá e compreenderá’”. Assim, o Espírito de Verdade, que procede do Pai, deve ser alguém que viu Deus e O conhece, o que nenhum espírito que se comunicou conosco disse ter feito. Dizer que “vem do Pai” significa que os espíritos são partes de Deus e criados por Ele, daí “virem do Pai”, seria algo sem sentido, pois os espíritos em estado encarnado também veem do pai, de modo que “vir do Pai” não pode ser uma questão ontológica.

O Espírito de Verdade não ensinará algo diferente do que Jesus ensinou. No velho testamento, aceito por Jesus, visto que não veio negar a lei, mas cumpri-la (Mateus 5:17), encontramos: “Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro. Nem encantador, nem quem consulte a um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos. Pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao SENHOR; e por estas abominações o SENHOR teu Deus os lança fora de diante de ti”. (Deuteronômio 18:10-14)

Jesus também ensinou que o mandamento maior é Amar a Deus, e o segundo mandamento é amar o próximo: “Mestre, qual é o grande mandamento na lei? E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:36-39). O capítulo do Evangelho Segundo o Espiritismo que trata deste assunto, curiosamente, traz o título do segundo mandamento mais importante, Amar o Próximo como a Si Mesmo. Embora seja citada toda a passagem bíblica que aqui citei, quando os espíritos a comentam, eles não dizem absolutamente nada sobre o primeiro mandamento, que Jesus disse ser o mais importante, mas comentam apenas o segundo. Seu comentário completo a estes dois mandamentos é este:

“Amar o próximo como a si mesmo: fazer pelos outros o que quereríamos que os outros fizessem por nós” é a expressão mais completa da caridade, porque resume todos os deveres do homem para com o próximo. Não podemos encontrar guia mais seguro, a tal respeito, que tomar para padrão, do que devemos fazer aos outros aquilo que para nós desejamos. Com que direito exigiríamos dos nossos semelhantes melhor proceder, mais indulgência, mais benevolência e devotamento para conosco, do que os temos para com eles? A prática dessas máximas tende à destruição do egoísmo. Quando as adotarem para regra de conduta e para base de suas instituições, os homens compreenderão a verdadeira fraternidade e farão que entre eles reinem a paz e a justiça. Não mais haverá ódios, nem dissensões, mas, tão-somente, união, concórdia e benevolência mútua. (Evangelho Segundo o Espiritismo 11.4)

Assim, fica claro que o espiritismo estabelece a comunicação com os mortos, tida pelo velho testamento como “abominação ao Senhor”, e coloca o segundo mandamento de Jesus como o primeiro, alteração esta facilmente assimilável à primeira constatação de não conhecerem Deus, prerrogativa para amá-lO. A adoração a Deus é irrelevante em uma religião cuja lei de ação e reação é soberana, haja vista que um ateu caridoso tem o mesmo destino de um teísta caridoso que louva a Deus em oração e cânticos. Deus é mero dador das reações, quer boas, quer ruins, o que O torna mecânico ou impessoal e, logo, irrelevante*.

*As primeiras perguntas de Allan Kardec são sobre Deus, e as respostas são descrições meramente mecânicas: “Que é Deus? ‘Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas’. Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus? ‘Num axioma que aplicais às vossas ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá’”. (Livro dos Espíritos 1.1.1 e 4)

O Espírito de Verdade também guiará as pessoas em toda a verdade. Contudo, se os espíritos não conhecem tudo, como já citamos – “Os próprios espíritos longe estão de tudo saberem e, acerca do que não sabem, também podem ter opiniões pessoais* mais ou menos sensatas” (Livro dos Espíritos p. 303) – como poderão ensinar tudo? O Espírito de Verdade tem mesmo de ser alguém que vem do Pai, pois apenas semelhante pessoa pode tudo saber, ou então ser o próprio Pai, como defendem os Católicos, que afirmam o Espírito de Verdade ser o Espírito Santo, termo este equivalente na consciência de Krishna a Paramatma**.

*Não haveria problema algum nessa divisão de opiniões caso o espiritismo se reduzisse à posição de pesquisa científica e filosófica, como por vezes faz. Contudo, ao se atribuir valor divino, como ter vindo do Pai e só dizer o que ouve, a existência de diversas opiniões lança-lhe descrédito. Os mestres do Movimento Hare Krishna também atribuem a si o valor divino de só dizerem o que ouviram de Deus – como registradas Suas palavras pelo avatara Vyasadeva no Bhagavad-gita – porém, em coerência, jamais se vê que tenham opiniões diferentes, pois todos respondem as perguntas pelo que ouviram do Bhagavad-gita; no caso da transmigração da alma, que a alma que habita corpos humanos atualmente pode e passa por corpos animais. Sobre isso, Srila Prabhupada comenta:

“Mediante avanço especulativo, ninguém é capaz de chegar à plataforma real de conhecimento. No presente momento, muitíssimos filósofos, cientistas, estão tentando avançar em conhecimento através da especulação: ‘Eu acho’, ‘Na minha opinião’, ‘Talvez’ e assim por diante. Isso continua. Grandessíssimos filósofos, cientistas, eles dão sua opinião. Todos estão achando. ‘Eu acho…’. E isso está sendo apoiado. Conhecimento tornou-se sinônimo de poder pensar de qualquer maneira, e, no momento atual, isso está sendo aceito”. (palestra em 19 de abril de 1974, Hyderabad)

Sobre o guru, ou mestre, fidedigno, diz:

“O guru [mestre] é um. Embora centenas e milhares de acaryas [mestres exemplares] tenham ido e vindo, a mensagem é a mesma. Portanto, o guru não pode ser dois. O verdadeiro guru não falará algo diferente. Alguns gurus dizem: ‘Na minha opinião, você deve ser assim’, e alguns gurus dirão: ‘Na minha opinião, faça assim’ – eles não são gurus; são todos velhacos. O guru não tem opinião pessoal. O guru tem apenas uma opinião: a opinião que foi expressa por Krishna [Deus]”. (Palestra em 22 de agosto de 1973, Londres)

**Palestra de Srila Prabhupada em Londres sobre o Bhagavad-gita 1.15, em 15 de julho de 1973

Outro atributo do Espírito de Verdade é que “não falará de si mesmo, mas antes do que houver ouvido”. Este é o atributo essencial de um mestre espiritual segundo a consciência de Krishna, que ele tem de ter ouvido de uma autoridade, que ouviu de outra autoridade e assim por diante até que a primeira autoridade tenha sido alguém que ouviu do próprio Deus, como descrito no já citado Livro dos Espíritos 1.1.11. Para maior credibilidade, é importante também que essa ordem de Deus que é transmitida adiante também possa ser uma fonte primária para quem a recebe, isto é, deve-se poder consultar tanto o mestre que traz o conhecimento acerca de Deus como Deus diretamente na obra que registra as palavras de Deus, ou, caso contrário, a relação com o mestre será de mera fé em alguém cuja autenticidade não se pode determinar. Vemos que os espíritos, no entanto, não têm essa posição de que receberam instruções superiores e assim por diante até alguém que está em contato com Deus, supostamente o Espírito de Verdade, senão que têm opiniões e investigam o universo, Deus etc. através de suas experiências. Por exemplo, o estudo da origem do Universo e dos mundos se dá pela disciplina da Ciência, e não por revelação de uma autoridade infalível:

A história da origem de quase todos os povos antigos se confunde com a da religião deles, donde o terem sido religiosos os seus primeiros livros. E como todas as religiões se ligam ao princípio das coisas, que é também o da Humanidade, elas deram, sobre a formação e o arranjo do Universo, explicações em concordância com o estado dos conhecimentos da época e de seus fundadores. Daí resultou que os primeiros livros sagrados foram ao mesmo tempo os primeiros livros de ciência, como foram, durante largo período, o código único das leis civis.

Nas eras primitivas, sendo necessariamente muito imperfeitos os meios de observação, muito eivadas de erros grosseiros haviam de ser as primeiras teorias sobre o sistema do mundo. Mas, ainda quando esses meios fossem tão completos quanto o são hoje, os homens não teriam sabido utilizá-los. Aliás, tais meios não podiam ser senão fruto do desenvolvimento da inteligência e do consequente conhecimento das leis da Natureza. À medida que o homem se foi adiantando no conhecimento dessas leis, também foi penetrando os mistérios da criação e retificando as ideias que formara acerca da origem das coisas.

Impotente se mostrou ele para resolver o problema da criação, até ao momento em que a Ciência lhe forneceu para isso a chave. Teve de esperar que a Astronomia lhe abrisse as portas do espaço infinito e lhe permitisse mergulhar aí o olhar; que, pelo poder do cálculo, possível se lhe tornasse determinar com rigorosa exatidão o movimento, a posição, o volume, a natureza e o papel dos corpos celestes; que a Física lhe revelasse as leis da gravitação, do calor, da luz e da eletricidade; que a Química lhe mostrasse as transformações da matéria e a Mineralogia os materiais que formam a superfície do globo; que a Geologia lhe ensinasse a ler, nas camadas terrestres, a formação gradual desse mesmo globo. À Botânica, à Zoologia, à Paleontologia, à Antropologia coube iniciá-lo na filiação e sucessão dos seres organizados. Com a Arqueologia pode ele acompanhar os traços que a Humanidade deixou através das idades. Numa palavra, completando-se umas às outras, todas as ciências houveram de contribuir com o que era indispensável para o conhecimento da história do mundo. Em falta dessas contribuições, teve o homem como guia as suas primeiras hipóteses.

Por isso, antes que ele entrasse na posse daqueles elementos de apreciação, todos os comentadores da Gênese, cuja razão esbarrava em impossibilidades materiais, giravam dentro de um círculo, sem conseguirem dele sair. Só o lograram, quando a Ciência abriu caminho, fendendo o velho edifício das crenças. Tudo então mudou de aspecto. Uma vez achado o fio condutor, as dificuldades prontamente se aplanaram. Em vez de uma Gênese imaginária, surgiu uma Gênese positiva e, de certo modo, experimental. O campo do Universo se distendeu ao infinito. Acompanhou-se a formação gradual da Terra e dos astros, segundo leis eternas e imutáveis, que demonstram muito melhor a grandeza e a sabedoria de Deus, do que uma criação miraculosa, tirada repentinamente do nada, qual mutação à vista, por efeito de súbita ideia da Divindade, após uma eternidade de inação.

Pois que é impossível se conceba a Gênese sem os dados que a Ciência fornece, pode dizer-se com inteira verdade que: a Ciência é chamada a constituir a verdadeira Gênese, segundo a lei da Natureza. (A Gênese 4.1-3)

É claro que, assim como os atuais cientistas acreditam que, embora todos os cientistas antes deles estivessem errados, eles agora não o estarão pelo aprimoramento de suas ferramentas; serão muitos aqueles, na mentalidade cientificista da contemporaneidade, a acreditarem que as ferramentas dos espíritos desencarnados serão suficientes para esse exame. Em todo caso, não é possível atribuir a tais espíritos o caráter de “falam o que ouvem”.

Assim, parece evidente que o espiritismo não tem todos ou nenhum dos atributos que se espera no que Jesus descreveu como Espírito de Verdade e Consolador, fazendo parecer, destarte, que o uso bíblico é apenas um artifício de autopromoção com a atitude de aproveitar de um corpo textual bem estruturado e famoso para isso, tal qual fez Gandhi em relação ao Bhagavad-gita. Contudo, façamos outra reflexão. Se o espiritismo veio para adicionar aos ensinamentos de Jesus a explicação de como as pessoas sofrem por reações a atos de vida passada*, o que não podia ser explicado 2.000 anos atrás onde Jesus pregou, o que podemos esperar dos ensinamentos da Índia, onde se falou o Bhagavad-gita 5.000 anos atrás, no qual se fala claramente de tudo o que o espiritismo fala apenas hoje? No Bhagavad-gita, temos instruções claras sobre caridade, reencarnação, amor a Deus e assim por diante. Se 5.000 anos atrás, 3.000 anos antes de Jesus poder falar limitadamente, e quase 5.000 anos antes do espiritismo poder falar o que fala hoje, o povo da Índia estava pronto para esse conhecimento, o que será que podemos aprender com a Índia hoje, especialmente em uma sucessão ininterrupta de mestres e discípulos desde o Bhagavad-gita 5.000 anos atrás, sucessão esta representada, entre outros, por Prabhupada, o fundador do Movimento Hare Krishna?

*“[O espiritismo] vem, finalmente, trazer a consolação suprema aos deserdados da Terra e a todos os que sofrem, atribuindo causa justa e fim útil a todas as dores”. (Evangelho Segundo o Espiritismo 6.4)

Sobre caridade, entre outros versos, Krishna, ou Deus, diz no Bhagavad-gita (17.20-22, 18.22,68):

A caridade dada por dever, sem expectativa de recompensa, no local e hora apropriados e dada a alguém digno, está no modo da bondade. Mas a caridade executada com expectativa de alguma recompensa, ou com desejo de resultados fruitivos, ou com má vontade, diz-se que é caridade no modo da paixão. E a caridade executada em lugar impuro, em hora imprópria e feita a pessoas indignas ou sem a devida atenção e respeito diz-se que está no modo da ignorância. Os atos de sacrifício, caridade e penitência não devem ser abandonados, mas sim executados. Na verdade, sacrifício, caridade e penitência purificam até as grandes almas. Para aquele que explica aos devotos este segredo supremo, o serviço devocional puro está garantido, e, no final, ele voltará a Mim. Não há neste mundo servo que Me seja mais querido do que ele, tampouco jamais haverá alguém mais querido.

Sobre reencarnação, diz (22.12-17, 20-25 e 28-30):

Nunca houve um tempo em que Eu não existisse, nem você, nem todos esses reis, e, no futuro, nenhum de nós deixará de existir. Assim como a alma encarnada passa seguidamente, neste corpo, da infância à juventude e à velhice, da mesma maneira, a alma passa para outro corpo após a morte. Uma pessoa sóbria não se confunde com tal mudança. Ó filho de Kunti, o aparecimento temporário da felicidade e da aflição, e o seu desaparecimento no devido tempo, são como o aparecimento e o desaparecimento das estações de inverno e verão. Eles surgem da percepção sensorial, ó descendente de Bharata, e precisa-se aprender a tolerá-los sem se perturbar. Ó melhor entre os homens [Arjuna], quem não se deixa perturbar pela felicidade ou aflição e permanece estável em ambas as circunstâncias, está certamente qualificado para a liberação. Aqueles que são videntes da verdade concluíram que não há continuidade para o inexistente [o corpo material] e que não há interrupção para o existente [a alma]. Eles concluíram isto estudando a natureza de ambos. Saiba que aquilo que penetra o corpo inteiro é indestrutível. Ninguém é capaz de destruir a alma imperecível. Para a alma, em tempo algum existe nascimento ou morte. Ela não passou a existir, não passa a existir e nem passará a existir. Ela é não nascida, eterna, sempre existente e primordial. Ela não morre quando o corpo morre. Assim como alguém veste roupas novas, abandonando as antigas, a alma aceita novos corpos materiais, abandonando os velhos e inúteis. A alma nunca pode ser cortada em pedaços por arma alguma, nem pode ser queimada pelo fogo, ou umedecida pela água ou definhada pelo vento. Esta alma individual é inquebrável e indissolúvel, e não pode ser queimada nem seca. Ela é permanente, está presente em toda a parte, é imutável, imóvel e eternamente a mesma. Diz-se que a alma é invisível, inconcebível e imutável. Sabendo disto, você não deve se afligir por causa do corpo. Todos os seres criados são imanifestos no seu começo, manifestos no seu estado intermediário, e de novo imanifestos quando aniquilados. Então, qual a necessidade de lamentação? Alguns consideram a alma como surpreendente, outros descrevem-na como surpreendente, e alguns ouvem dizer que ela é surpreendente, enquanto outros, mesmo após ouvir sobre ela, não podem absolutamente compreendê-la. Ó descendente de Bharata, aquele que mora no corpo nunca pode ser morto. Portanto, você não precisa afligir-se por nenhum ser vivo.

Sobre o amor a Deus, diferentemente do espiritismo, a consciência de Krishna sabe conciliá-la com a lei do karma, sem retirar o panorama de misericórdia e a importância do louvor exclusivo a Deus. Na consciência de Krishna, não se alcança Deus através do acúmulo de bom karma, senão que este conduz a alma apenas a dimensões superiores de conforto, conhecimento e bondade. Contudo, a lei do karma é a resposta de Deus às almas que não quiseram morar no reino dEle, onde Ele controla tudo. Assim, rebeldes do controle de Deus, Deus cria-lhes o mundo material – que inclui a morada dos espíritos –, onde elas mesmas são as controladoras e Ele nada faz, isto é, os atos das almas condicionadas determinam sua ventura ou desventura, não Deus. Querer chegar a Deus pelo acúmulo de bom karma é manter a mentalidade de ser o controlador e autossuficiente: “Sou alguém que pode sair do mundo material por meu próprio esforço e mérito”. Quando alguém se rende a Deus, ele se livra tanto do bom karma quanto do mau karma, tornando-se akarma*, isto é, tornando-se alguém que não terá mais nenhuma existência promovida por seus próprios atos, mas existirá no reino de Deus, onde Deus é o controlador direto. Estas e outras instruções estão no Bhagavad-gita claramente.

*“Aquele ocupado em serviço devocional se livra tanto das boas quanto das más reações, mesmo nesta vida. Esforça-te, portanto, pelo yoga, que é a arte de todo trabalho”. (Bhagavad-gita 2.50)

Em resumo, pode-se ver o espiritismo como uma revelação inválida porquanto não sustenta os atributos que diz ter, lembrando, proceder do Pai; não ensinar algo diferente do que Jesus disse; guiar as pessoas em toda verdade; e não falar de si mesmo, mas antes do que houver ouvido.

Neste ponto, algumas perguntas interessantes podem estar visitando a inteligência do leitor. Por exemplo, o Bhagavad-gita não descreve com toda a lucidez de detalhes as colônias e planetas superiores, como faz o espiritismo. Isto não faria do espiritismo superior? O Bhagavad-gita possui uma justificativa para não fazer semelhante descrição. Os Vedas o fizeram profusamente, e a crítica de Krishna, no Bhagavad-gita (2.27), é esta: “Os homens de pouco conhecimento estão muitíssimo apegados às palavras floridas dos Vedas, que recomendam várias atividades fruitivas àqueles que desejam elevar-se aos planetas celestiais, com o consequente bom nascimento, poder e assim por diante. Por estarem ávidos por gozo dos sentidos e vida opulenta, eles dizem que isto é tudo o que existe”. E completa, em Bhagavad-gita 8.16, dizendo que mesmo a morada de Brahma, a morada mais elevada que existe, em seis camadas superiores à residência dos espíritos, ou bhutas, é miserável. Assim, ouvir as descrições de tais lugares apenas aumenta o nosso desejo de tentarmos ser felizes longe de Deus: “Aqui está ruim, mas lá, apesar de Deus não residir lá pessoalmente, vai ser bom”. Contudo, na opinião de Krishna, lá também é ruim, até a residência de Brahma, sendo bom apenas onde Ele mora em Seu aspecto pessoal*, morada esta chamada Vaikuntha. Krishna chama as descrições de tais lugares de “linguagem florida” porque aqueles que os descrevem não os descrevem de modo justo, senão que descrevem impressionados em ter um local onde têm mais conforto do que tinham na superfície da Terra ou em outros lugares.

*“Transcendentalistas doutos, os quais conhecem a Verdade Absoluta, chamam essa substância não dual de Brahman [a refulgência de luz que emana do aspecto pessoal de Deus], Paramatma [Deus como a testemunha e o mestre espiritual residente no coração do corpo sutil] ou Bhagavan [Deus em Si, em Seu aspecto pessoal com o qual interage sobretudo com as almas liberadas de todo condicionamento grosseiro e sutil]”. (Srimad-Bhagavatam 1.2.11)

No filme Nosso Lar, por exemplo, encontramos:

“Aos poucos, tudo começava a fazer sentido. Nosso Lar era a vida real, e a Terra apenas uma passagem”. (36:00) Se o espírito progride por várias moradas, por que o Nosso Lar não é tratado apenas como passagem, tal como se chamou de passageira a Terra? Em outra cena, André Luiz diz: “Eu ainda era o mesmo homem, preso aos meus próprios erros, ao meu egoísmo, ao meu passado”. (36:40) Diante disso, não é possível ter os moradores de tal local como autoridades, o que dizer de autoridades livres de todo erro, embora eles se vejam assim, com na cena em 1:04:00, onde uma servidora da colônia Nosso Lar leva para André Luiz o registro de orações feitas a ele, gravadas em uma espécie de pen drive, e diz que ali não há erros:

– Nossa, demorei a achar. Faz tempo não é? Só tem dois arquivos.

– Como assim?

– O registro de duas pessoas.

– Só duas? Você colocou meu nome correto? “André Luiz”.

– Não há erros aqui, senhor.

Como pode não haver erros em um local onde trabalha pessoas presas em seus próprios erros, egoísmo e passado? Se ela teve dificuldade em encontrar – como aponta com os dizeres “Nossa, demorei a achar” – as duas pessoas que oraram a André Luiz, como pode não haver possibilidade de erros ou de não encontrar? Isto é o que define linguagem florida: Descrever um local temporário, com sofrimento e pessoas imperfeitas como sendo “Nosso Lar, a vida real, um local onde não há erros, etc.”; é precisamente o que Krishna diz ser produto de pessoas que estão ávidas por conforto e gozo dos sentidos.

O Bhagavad-gita e as escrituras que o sucedem, no entanto, após condenarem semelhante audição ou leitura, descrevem com minúcias o mundo onde Deus reside com as almas puras e toda a interação que se dá entre os mesmos. Destacamos a obra Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, de Srila Prabhupada, a leitura da qual se recomenda após a leitura de O Bhagavad-gita Como Ele É, do mesmo autor.

Uma análise da posição dos espíritos segundo a consciência de Krishna

Hare krishna hare RamaAntes de colocarmos a posição dos espíritos na consciência de Krishna, esclareçamos questões conceituais. A consciência de Krishna chama de espiritual aquilo que é eterno, pleno de conhecimento e pleno de bem-aventurança, de modo que jamais chamará a colônia Nosso Lar, por exemplo, de espiritual, haja vista que, segundo a obra homônima, foi fundada no século XVI, é a residência de pessoas egoístas que precisam renascer etc. e é um local onde há variados sofrimentos. Temporariedade: “‘Nosso Lar’ é antiga fundação de portugueses distintos, desencarnados no Brasil, no século XVI”. (p. 48) Ignorância: “Notando-me a dificuldade para apreender todo o conteúdo do ensinamento, com vistas à minha quase total ignorância dos princípios espirituais, Lísias procurou tornar a lição mais clara”. (p. 66) Tristeza: “Notando que a senhora Laura entristecera subitamente ao recordar o marido, modifiquei o rumo da palestra” (p. 116).

*XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Brasília: FEB, 1996.

Assim, as colônias também são chamadas de materiais por nós. A morada de Deus, Krishna, sim é chamada espiritual, haja vista que não possui data de fundação nem se a deixa uma vez que se a tenha alcançado, todos lá possuem conhecimento perfeito acerca de tudo simplesmente por lá estarem e desconhecem qualquer espécie de sofrimento. Residência eterna para os que a alcançam: “Essa Minha morada suprema não é iluminada pelo Sol ou pela Lua, nem pelo fogo ou pela eletricidade. Aqueles que a alcançam jamais retornam a este mundo material”. (Bhagavad-gita 15.6) A morada em si: “Quando todo este mundo é aniquilado, aquela região [a morada de Deus] permanece inalterada. Aquilo que os vedantistas descrevem como imanifesto e infalível, aquilo que é conhecido como o destino supremo, aquele lugar do qual jamais se retorna após alcançá-lo – essa é Minha morada suprema”. (idem. 8.20-21)

Aqueles que se comunicam com os médiuns não são chamados de espíritos, pois eles não estão na morada espiritual de Deus, de modo que seus corpos têm que ser feitos da mesma substância da morada deles. Aqueles que moram na morada de Deus, que é eterna, plena de conhecimento e de bem-aventurança, têm um corpo dessa natureza, chamado em sânscrito de siddha-deha, ao passo que aqueles que residem na parte sutil do mundo material possuem corpos sutis materiais. Para se entrar no reino de Deus, é preciso abandonar também o corpo sutil, o que se chama liberação, ou moksha. Caso se abandone o corpo sutil sem o desejo de servir Deus, mas apenas por se atingir um estágio de não possuir nenhum desejo egoísta, a alma, sem nenhum corpo, funde-se na refulgência do corpo de Deus (Brahman). Caso abandone o corpo sutil, tendo atingido a perfeição de não ter nenhum desejo egoísta, mas possuindo o desejo de servir Deus, recebe um corpo da mesma natureza do corpo de Deus, lembrando, um corpo eterno, pleno de conhecimento e de bem-aventurança.

Aqueles chamados pelo espiritismo de espíritos de luz e espíritos de pouca luz são chamados ambos de bhutas, que significa “apegados ao passado”. Quando errantes, ficam nesta condição:

Aqueles que são muito pecaminosos e apegados à sua família, casa, vila ou país não recebem um corpo grosseiro feitos dos elementos materiais, senão que permanecem em um corpo sutil, composto de mente, ego e inteligência. Aqueles que vivem em tais corpos sutis são chamados de fantasmas (ghosts*). Essa posição fantasmagórica é muito dolorosa, porque um fantasma tem o corpo sutil e quer desfrutar da vida material, mas, porque ele não tem um corpo material grosseiro, tudo o que ele pode fazer é criar perturbações** devido à falta de satisfação material. (Srimad-Bhagavatam 4.18.18, significado)

*A palavra que Prabhupada usa em inglês é ghost, a qual parece ser cognato com a palavra sânscrita guha. Guha significa literalmente tanto “conhecido por poucos” como “residente no coração”. A palavra que atualmente traduz ghost nos livros de Prabhupada em português, no entanto, é bastante infeliz, porque a raiz de fantasma é fantasia, isto é, algo que não existe fatualmente. Por ora, utilizaremos “fantasma”, embora um termo mais apropriado em português esteja em debate pelos responsáveis pelas traduções em português das obras de Prabhupada e outras.

**Algumas de tais perturbações são descritas no Garuda Purana (2.9.57-62): “Falar-te-ei agora acerca dos tormentos ocasionados pelos fantasmas contra as pessoas na Terra. Quando uma mulher menstrua em vez de engravidar, não havendo crescimento da família apesar de vida sexual saudável, isso é influência de fantasmas. Também é influência de fantasmas quando alguém morre jovem, perde repentinamente seu emprego, é objeto de insultos, quando há repentino incêndio em uma casa, vê-se que em uma casa há constante desunião e brigas, falsos elogios, sofrimento devido à ganância, e doenças que suscitam vergonha. Quando o dinheiro investido da maneira correta não rende, mas se perde, isso se deve à perseguição de um fantasma. Quando safras se perdem mesmo após chuva apropriada, quando atividades comerciais fracassam, quando a esposa ou o esposo se mostra irritado, isso se deve à influência de fantasmas”.

Quando se enfartam de causar perturbações, caso tenham algum mérito piedoso, podem ir para Antariksa, ou podem ir diretamente para lá caso sejam semipiedosos, como descreve o Srimad-Bhagavatam (5.24.5): “Abaixo de Vidyadhara-loka, Caranaloka e Siddhaloka, no céu conhecido como Antariksa, estão os locais de desfrute dos yaksas, raksasas, pisacas, bhutas e assim por diante”. Estes são diferentes nomes para designar aqueles que não têm corpos grosseiros. O mais comum é bhuta. Parece-me seguro dizer que essa morada descrita como Antariksa é a mesma descrita pelos espíritas, tanto por ser a morada paradisíaca dos bhutas, aqueles apegados à família e com algum envolvimento mais ou menos recente com pecados, e por sua descrição espacial mais adiante no mesmo verso: “Antariksa se estende até onde o vento sopra e as nuvens flutuam no céu. Acima de Antariksa, não há mais ar”, o que coincide com a maior parte das descrições espíritas.

Assim, a condição de não ter um corpo grosseiro é tida como algo negativo, e embora tenham uma morada confortável destinada para eles, essa morada continua sendo a morada de pessoas identificadas com o corpo, apegadas à família, sujeitas aos defeitos das almas condicionadas – a saber, a tendência a enganar os outros, a enganar a si mesmos, possuir sentidos imperfeitos e cometer erros*. Logo não é uma posição desejável estar com eles, tampouco suas instruções devem ser tidas como de pessoas abalizadas nos entendimentos acerca de Deus e de Sua vontade. O conhecimento consciente de Krishna então divide as moradas acima de Antariksa, todas também materiais na definição consciente de Krishna, em seis agrupamentos: Bhuvarloka, Svargaloka, Maharloka, Janaloka, Tapoloka e Satyaloka.

*Cf. Sri Caitanya-caritamrta Adi-lila 7.107 e 2.86. (vedabase.com/en/cc)

Há aqui, no entanto, duas divergências entre a consciência de Krishna e o espiritismo. Primeiramente, não se chega a essas moradas apenas com o corpo sutil, corpo de bhuta, no sentido de que das colônias, ou de Antariksa, evolui-se mais e se continua sutilizando o corpo até as moradas superiores. Tais moradas possuem corpos grosseiros refinadíssimos para seus residentes, os quais lhe dão mais oportunidades do que possui o corpo sutil sozinho*. Em Satyaloka reside Brahma, que é a entidade viva mais poderosa e pura do mundo material, o qual preside todos os planetas, e Brahma possui um corpo grosseiro. Outra divergência é que nenhum dos moradores destes planetas, para não falar dos residentes de Antariksa, com seu peculiar apego aos laços familiares, pode estabelecer o caminho religioso para os terrestres ou qualquer outra pessoa. Isso é declarado no Srimad-Bhagavatam (6.3.19): “Os verdadeiros princípios religiosos são enunciados pela Suprema Personalidade de Deus. Embora completamente situados no modo da bondade, nem mesmo grandes sábios que ocupam os planetas mais elevados podem determinar os princípios religiosos verdadeiros, tampouco o podem os devas [residentes de Svargaloka] ou os líderes de Siddhaloka [um planeta da esfera Bhuvarloka], isso para não falar dos asuras [literalmente, pessoas sem (a-) luz (sura)], dos seres humanos comuns, os Vidyadharas e Caranas [outros residentes de outros dois planetas de Bhuvarloka]”.

*Uma vez que não obter um corpo grosseiro é prerrogativa dos pecadores, não é possível aceitar que Brahma, por exemplo, a entidade que preside a morada material [material na acepção daqueles conscientes de Krishna] mais elevada não tenha um corpo grosseiro dado que, apenas para residir em seu planeta, para não falar de ter o seu cargo, exige-se que, ao longo de 100 vidas, o indivíduo aspirante não se desvie de nenhum dever prescrito (Brhad-bhagavatamrta 1.2.49, dig-darsini). Além disso, vê-se que personalidades como Indra, de Svargaloka; Hanuman, de Bhuvarloka, e Manu e outros interagem com os seres humanos sem qualquer dificuldade ou necessidade de um médium ou algo similar. Em 28 de dezembro de 1972, em Bombaim, transcorreu a seguinte conversa entre Prabhupada e seus discípulos:

“Devota: Na Lua, há corpos de uma natureza mais sutil de modo que, se fôssemos lá, não seríamos capazes de vê-los? Prabhupada: Não. Você pode vê-los. Eles têm corpo material. Devota: Poderíamos vê-lo com nossos olhos? Prabhupada: Sim. Por que não? Na água, por exemplo, os corpos dos aquáticos são diferentes, mas você pode vê-los. Por que não? Se não fosse visível, como você está vendo a Lua? Se você está vendo a Lua, então não é invisível. A Lua é uma morada celestial [Svargaloka]; os semideuses [devas] vivem lá. Temos essas informações. Eles também são inteligentes: ‘Essas pessoas [os astronautas] estão vindo do planeta terrestre desautorizadamente. Então, divirjamo-los para a porção desértica’. Se a Lua é celestial, seus habitantes são mais inteligentes do que vocês; logo, se vocês têm uma máquina para chegar lá, eles têm uma máquina para divergi-los. ‘Esses sujeitos infames estão vindo aqui sem nenhuma licença de imigração. Que eles sejam divergidos para a porção desértica e, desapontados, irão embora’. Devoto: Há terra nos corpos deles ou seus corpos são feitos de ar? Prabhupada: Não. Estes corpos têm cinco elementos: terra, ar, água, fogo e éter. O corpo sutil: mente, inteligência e ego. Em algum planeta, a porção de terra pode ser maior ou a porção de fogo ou a porção de éter, mas são todos corpos materiais; não são corpos espirituais. O corpo espiritual está dentro. A qualquer lugar que você vá dentro do universo, você obtém o corpo material, e, segundo o corpo, a duração de vida é diferente”.

Assim fica evidente que ter apenas o corpo sutil é desprivilegio, não sintoma de estado de consciência superior. Segundo citado anteriormente, a não obtenção de um corpo grosseiro decorre de apego familiar, ou do passado de modo geral, e acúmulo de pecados, e não de sintoma de “evolução da consciência”.

Enquanto as escrituras descrevem os residentes de Antariksa como bhutas, “pecadores apegados à família imediata ou estendida”, as escrituras descrevem os residentes de planetas superiores, por exemplo, como indivíduos com o seguinte mérito: “Vosso mundo [Brahmaloka] pode ser auferido somente por pessoas santas que observam sem nenhum pecado seus deveres sociais prescritos, livres de orgulho e outros vícios, ao longo de cem vidas”. (Brhad-bhagavatamrta 1.2.49, dig-darsini) Se mesmo tais pessoas muito superiores não podem estabelecer códigos de religião, certamente não o podem os bhutas.

Neste ponto talvez já tenha surgido um questionamento muito interessante no leitor. “Você, um membro da Sociedade Internacional para a consciência de Krishna, está negando a autoridade dos espíritos, ou bhutas, bem como de personalidades mais elevadas do que eles em dimensões superiores, mas, acaso, você também não é alguém falível, tanto você quanto Srila Prabhupada? O verso supracitado do Srimad-Bhagavatam diz que os devas, siddhas etc. não podem estabelecer os princípios religiosos, mas também menciona que não o podem os ‘seres humanos comuns’”.

Certamente Prabhupada, como apenas uma centelha de Deus, e não Deus em pessoa, é falível. Contudo, diferentemente dos bhutas, ou espíritos, ele assume sua condição de não poder chegar a algum conhecimento perfeito através de seus sentidos e deduções, isto é, através de ciência e filosofia. Algumas vezes, acredita-se que os espíritos que ditam estão em contato com outro espírito mais elevado que está em contato com outro espírito mais elevado e assim por diante até alguém perfeito em contato com Deus. Contudo, analisando as obras, sabemos que não é isso o que acontece. Em A Gênese (17.32), por exemplo, encontramos a ideia de que o espiritismo se tornará a religião mundial de todos por meio da razão e da ciência:

Entretanto, a unidade se fará em religião, como já tende a fazer-se socialmente, politicamente, comercialmente, pela queda das barreiras que separam os povos, pela assimilação dos costumes, dos usos, da linguagem. Os povos do mundo inteiro já confraternizam, como os das províncias de um mesmo império. Pressente-se essa unidade e todos a desejam. Ela se fará pela força das coisas, porque há de tornar-se uma necessidade, para que se estreitem os laços da fraternidade entre as nações; far-se-á pelo desenvolvimento da razão humana, que se tornará apta a compreender a puerilidade de todas as dissidências; pelo progresso das ciências, a demonstrar cada dia mais os erros materiais sobre que tais dissidências assentam e a destacar pouco a pouco das suas fiadas as pedras estragadas. Demolindo nas religiões o que é obra dos homens e fruto de sua ignorância das leis da Natureza, a Ciência não poderá destruir, malgrado a opinião de alguns, o que é obra de Deus e eterna verdade. Afastando os acessórios, ela prepara as vias para a unidade.

Interessante notar a analogia de que haverá uma só religião pela força da ciência e da razão humana assim como os povos estão se unindo social e politicamente. Algumas décadas após esses dizeres, irrompeu-se a primeira guerra mundial, e algumas décadas mais à frente, com a ciência e a dita razão em seu auge, a segunda guerra mundial, na qual se conseguiu matar muito mais do que na primeira. Hoje a globalização comercial se mostra um evento que tornou o mundo um grande supermercado de futilidades e artigos degradantes – com a grandiosa internet tendo como dois terços de seu conteúdo pornografia – e o sucesso em reproduzir a alimentação e o entretenimento americanos é o parâmetro de se um país é desenvolvido ou não. Se o espírito for tão feliz em sua previsão do espiritismo como a religião que unirá todos os religiosos do mundo quanto foi feliz em dizer que o mundo caminhava para uma união social, política e comercial, então certamente a ciência e a razão não são meios para se conhecer os desígnios de Deus e unificar as crenças. A razão e a ciência da pós-modernidade mostram como algo percebido com os sentidos, a mente e a inteligência sempre será subjetivo e, logo, jamais unificador, mas produtor das mais diferentes teorias, todas necessariamente falhas.

Que os espíritos usam de seus sentidos e inteligência falíveis para suas conclusões já foi exposto em suas conclusões permeadas de dúvidas, e que se valem de ciência e especulação é algo que expressam com frequência e vaidade, sobretudo em A Gênese. É interessante notar que Allan Kardec se opõe à razão e à percepção direta como meios válidos, mas falhou em perceber que, embora os espíritos tenham melhores recursos – supostamente – para poderem perceber a reencarnação como fato, têm recursos insuficientes para dizerem tudo o que dizem, como falar sobre Deus ou a origem e o propósito do Universo.

O homem que julga infalível a sua razão está bem perto do erro. Mesmo aqueles, cujas ideias são as mais falsas, se apoiam na sua própria razão e é por isso que rejeitam tudo o que lhes parece impossível. Os que outrora repeliram as admiráveis descobertas de que a Humanidade se honra, todos endereçavam seus apelos a esse juiz, para repeli-las. O que se chama razão não é muitas vezes senão orgulho disfarçado e quem quer que se considere infalível apresenta-se como igual a Deus. Dirigimo-nos, pois, aos ponderados, que duvidam do que não viram, mas que, julgando do futuro pelo passado, não creem que o homem haja chegado ao apogeu nem que a Natureza lhe tenha facultado ler a última página do seu livro. (Livro dos Espíritos, p. 30)

Soube muito bem Allan Kardec determinar os percalços da razão e da vaidade, mas não os soube identificar nesses mesmos homens esses defeitos depois de mortos – algo bastante próprio para alguém deslumbrado ante o conhecimento da reencarnação, o que jamais aconteceria se fosse nascido na Índia e estudioso da consciência de Krishna. Neste caso, poderia analisar tudo sem deslumbramento, haja vista a popularidade do conhecimento das existências múltiplas – mero pressuposto.

Sobre a questão epistemológica, os Vedas dizem que a ciência e a filosofia, ou o conhecimento ascendente, sempre será imperfeito, em especial no que diz respeito a Deus, uma vez que Deus é inalcançável pelos esforços das almas em corpos materiais*, o que inclui os bhutas, em virtude dos já mencionados quatro defeitos das almas condicionadas. No entanto, os Vedas falam de uma terceira epistemologia, chamada sabda-pramana, ou o conhecimento revelado – revelado necessariamente por Deus, é claro. Assim é que, embora Prabhupada e eu sejamos seres humanos comuns, superamos toda a nossa condição precária ao não expressarmos nenhuma opinião reunida de pesquisas, reflexões pessoais ou revelações de pessoas falíveis. Srila Prabhupada diz:

*“Adoro Govinda, o Senhor primordial, aquele além da concepção material, aquele cuja ponta dos dedos dos pés de lótus é tudo o que abordam os yogis que aspiram ao transcendente e recorrem a pranayama exercitando a respiração, ou o que abordam os jnanis que tentam encontrar o Brahman não-diferenciado por meio do processo de eliminação do mundano, alongando-se nisso por milhares de milhões de anos”. (Brahma-samhita 5.34)

Porque eles são todos infames e néscios, o que eles [aqueles que adotam o método científico como epistemologia] podem descobrir? Eles simplesmente teorizam com base em sua necedade – isto é tudo. Esse é o afazer deles. Não há fatos. E aqueles que são infames acreditam neles – isto é tudo. Então, não somos semelhantes sujeitos, porque o nosso conhecimento é recebido a partir do maior cientista, Krishna [Deus]. Eu, pessoalmente, posso ser um patife, mas, porque sigo o maior cientista, minha proposição é científica.

Prabhupada aceita que ele, pessoalmente, possa ser um “patife”, mas, diferentemente dos espíritos reveladores, ele não dá vazão à sua “patifaria” ao tentar produzir algum conhecimento por suas reflexões e observações, senão que aceita Krishna, Deus, o cientista supremo e infalível, e repete apenas o que Ele diz. Eu, do mesmo modo, repito o que Prabhupada diz.

O Movimento Hare Krishna, no entanto, não é uma religião de algum “velhinho indiano” que recebeu uma revelação magnífica de Deus e passou a liderar as pessoas. A revelação de Deus, ou do cientista supremo, a que se refere Prabhupada está inteiramente registrada no Bhagavad-gita e outras obras similares, às quais todos têm acesso direto para constatar como Prabhupada e seus seguidores estão ensinando e fazendo apenas o que Deus falou. Por que aceitar que esse livro é infalível e realmente revelado por Deus? Quanto a isso, Krishna diz que a religião se dá por experiência direta (Bhagavad-gita 9.2), ou seja, cada leitor deste terá de tirar sua conclusão após ler o Bhagavad-gita como o próprio Gita diz que ele deve ser lido: Na companhia dos devotos de Deus e com os esclarecimentos de um devoto de Deus entendido. Não tenho interesse no “eu acredito que seja realmente revelada”, tampouco podemos agrupar o Bhagavad-gita em “todas as outras obras ditas reveladas que li sei que não eram”, pois seria um preconceito.

Em resumo, analisando as obras canônicas do espiritismo, encontramos que parece que os espíritos não são quem dizem ser, e, segundo a consciência de Krishna, apenas Deus pode revelar a religião à humanidade, e quem quiser ensinar às pessoas o caminho da religião deverá conhecê-lo diretamente com Deus ou, mais possivelmente, com alguém que esteja em uma sucessão que comece com o próprio Deus e não subordine a revelação de Deus ao que se pode entender com os sentidos e a mente, independente de quão refinado seja o corpo que reveste a alma pura. As almas que atualmente se encontram no estado de bhutas não possuem nenhuma qualificação especial que lhes permita esclarecer outros acerca de vedanta, a conclusão de todo conhecimento, salvo caso digam apenas o que Deus falou ou o que disse alguém que ouviu diretamente de Deus. Não se vê isso nos reveladores do espiritismo.

No Srimad-Bhagavatam e, mais sinteticamente, na introdução do Bhagavad-gita Como Ele É, de Srila Prabhupada, encontramos como o conhecimento perfeito da consciência de Krishna chegou à Terra, tendo sido ensinado por Deus a Brahma, que o ensinou a Narada, que, com seu corpo especial, veio à Terra e o ensinou a Vyasadeva, que o escreveu sobretudo no Srimad-Bhagavatam, cuja introdução é o Bhagavad-gita*.

*Embora o Bhagavad-gita e o Srimad-Bhagavatam abordem os mesmos temas, o Srimad-Bhagavatam é considerado superior porque seus ouvintes eram sábios autocontrolados e santos, com tempo disponível para desdobramento de muitos assuntos, ao passo que o Bhagavad-gita foi falado a um guerreiro pouco tempo antes do começo de uma guerra.

Entre os espíritas às vezes se acredita que desencarnados piedosos são em geral superiores a piedosos encarnados. Contudo, isso pode ser mera crença, pois, afinal, não era Jesus, encarnado, mais elevado do que todos os Espíritos*? Assim, não há fundamento para dizer que os mestres encarnados que seguem a sucessão discipular que começa com o próprio Krishna, Deus, sejam inferiores por terem misericordiosamente vindo a este mundo. Além disso, há a vantagem de que não é possível ser alguém passando por outrem, como frequentemente acontece em psicografias. Insisto no ponto anterior. Se os cristãos apenas agora estão prontos para a temática da reencarnação, por que um buscador sincero não beberia do Bhagavad-gita e do Srimad-Bhagavatam, falado a um povo que, 3.000 anos antes do nascimento de Jesus, já estava pronto para esse conhecimento, analisado a fundo, bem como prontos para tópicos jamais explorados pelos espíritas, como as dinâmicas da vida junto a Deus, a Personalidade de Deus, os três modos da natureza material, uma descrição completa do Universo de uma perspectiva revelada, desde o planeta mais baixo ao mais elevado?

*À pergunta de se Jesus seria médium, isto é, alguém cujas palavras e obras decorrem de inspiração de Espíritos, é dada a seguinte resposta, que atesta que a visão espírita é que alguém encarnado pode ser superior a todos os Espíritos e unicamente prestar-lhes serviço, sem receber deles nenhum: “Não, porquanto o médium é um intermediário, um instrumento de que se servem os Espíritos desencarnados, e o Cristo não precisava de assistência, pois que era ele quem assistia os outros. Agia por si mesmo, em virtude do seu poder pessoal… Que Espírito, ao demais, ousaria insuflar-lhe seus próprios pensamentos e encarregá-lo de os transmitir? Se algum influxo estranho recebia, esse só de Deus lhe poderia vir. Segundo definição dada por um Espírito, ele era médium de Deus”. (A Gênese 15.2)

Caso alguém insista que a consciência de Krishna não descreve as colônias e outras residências materiais tão bem quanto o espiritismo, julgo válido citar este verso do Bhagavad-gita (8.6): “Qualquer que seja o estado de existência de que alguém se lembre ao deixar o corpo, ó filho de Kunti, esse mesmo estado ele alcançará impreterivelmente”. Deste modo, caso Krishna Se detivesse a descrever a fundo moradas que não são o verdadeiro lar eterno das almas, nem um local onde elas finalmente encontrarão o néctar pelo qual sempre ansiaram, de ter uma existência contínua, plena de conhecimento e plena de bem-aventurança junto a Deus, Ele estaria encaminhando as almas para uma nova situação material pós-morte. Ele diz: “Aqueles que adoram os semideuses nascerão entre os semideuses, aqueles que adoram os ancestrais irão ter com os ancestrais, aqueles que adoram espíritos [bhutani] nascerão entre tais seres, e aqueles que Me adoram viverão coMigo”.

Quanto à inferioridade de nascer entre os bhutas, Krishna sequer se detém em fazê-lo, senão que o faz apenas em relação aos semideuses, pois, sendo muito mais elevados e residentes de planetas muito superiores*, dizer que ir ter com eles após a morte não é uma atitude inteligente basta para que entendamos que o destino junto aos bhutas é igualmente ruim. “Homens de pouca inteligência adoram os semideuses, e seus frutos são limitados e temporários. Aqueles que adoram os semideuses vão para os planetas dos semideuses, mas Meus devotos acabam alcançando Meu planeta supremo”. (Bhagavad-gita 7.23) Planeta este sobre o qual já citamos ser um planeta do qual jamais se retornará após ter sido alcançado e ser um planeta livre de qualquer sofrimento e permissor de contato direto com Deus.

*”Abaixo de Vidyadhara-loka, Caranaloka e Siddhaloka, no céu conhecido como Antariksa, estão os locais de desfrute dos Yaksas, Raksasas, Pisacas, Bhutas e assim por diante”. (Srimad-Bhagavatam 5.24.5) (grifo nosso)

Que não se pode morar eternamente nos planetas dos semideuses, para não falar da dimensão dos bhutas, é confirmado por este verso, também do Bhagavad-gita: “Após desfrutarem desse imenso prazer celestial dos sentidos e terem esgotado os resultados de suas atividades piedosas, eles regressam a este planeta mortal” (9.21). Aqui é preciso mais um esclarecimento aos espíritas, que, ao confundirem a evolução da consciência em rendição a Deus com o acúmulo de bom karma, acreditam que o acúmulo de bom karma jamais se perde. É verdade que o progresso da consciência jamais se perde, mas esse nada tem a ver com onde se reside – não era Jesus superior a todos os atuais desencarnados residentes das melhores colônias? –, daí que o bom karma, o grande fator a determinar onde se reside, ser algo que se esvai, como explicado por Krishna neste verso. Krishna conclui Seu parecer sobre aqueles que buscam comprar residência em tais moradas temporárias, portanto, dizendo que são “homens de pouca inteligência”. (7.23)

Como apenas a residência de Deus, ou Krishna, pode nos satisfazer, e onde quer que esteja a nossa consciência na hora da morte, para lá iremos, Krishna recomenda: “Ocupa tua mente em pensar sempre em Mim, torna-te Meu devoto, oferece-Me reverências e Me adora. Estando absorto por completo em Mim, com certeza virás a Mim”. (9.34) É o mesmo mandamento maior, como ensinado por Jesus, “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento”, o qual os espíritas caprichosamente colocam em segundo plano, absorvem seu pensamento, seu coração e sua alma em bhutas, superestimam a morada celestial dos mesmos e consideram que chegarão a Deus acumulando méritos cármicos, comprando Deus assim como se compra uma morada material.

Esse caminho de ascensão pelo bom karma é chamado em sânscrito de karma-kandha, sobre o qual Bhaktivinoda, um mestre da sucessão discipular a que pertence a Sociedade Internacional para a consciência de Krishna, comenta: “Não é possível utilizar a causa de uma doença para curar essa mesma doença. O processo karma-kandha é a causa da doença material das entidades vivas. Tal processo jamais produzirá o fruto de destruir a existência material das entidades vivas”. (Sri Manah-Siksa, capítulo 10) A causa da doença das entidades vivas não estarem mais morando com Deus, de onde vieram, é que desejaram ser independentes dEle, para o que Ele lhes deu a lei do karma, uma lei automática, ou seja, que não depende de Sua presença ou intervenção pessoal. As entidades vivas quererem se elevar por meio de seus atos e pelas instruções de outras almas falíveis, e não se rendendo a Deus, é apenas um sintoma de que preservam sua doença de quererem ser independentes do controle de Deus.

Objeto de Culto

Alguém talvez diga: “Mas os seguidores de karma-kandha também adoram a Deus”. No concernente a isso, Bhaktivinoda comenta: “Karma não é nada senão atividades egoístas. Os karmis [seguidores do caminho karma-kandha] não buscam exclusivamente a misericórdia de Krishna. Embora respeitem Krishna, seu propósito principal é obter alguma sorte de felicidade”. (Sajjana Tosani 11.11)

Certamente os seguidores de karma-kandha nunca buscam exclusivamente a misericórdia de Krishna, ou Deus, mas é possível inclusive que indivíduos desenvolvam até mesmo o pensamento ateísta conhecido como karma-mimamsa, o qual, já mencionado antes, diz que, se alguém adora Deus, mas não age piedosamente, ele é castigado pela lei do karma, ao passo que alguém que não adora a Deus, mas age piedosamente, é elevado pela lei do karma. Diante desta fórmula, adorar ou não a Deus se torna irrelevante, logo a existência ou inexistência de Deus também se torna irrelevante. Seria este o pensamento que conduziu os espíritos a promoverem o “fazer ao próximo o que desejaria para si” acima do “adorar a Deus de toda sua alma”?

Neste ponto, o amigo leitor talvez tenha três possíveis questionamentos, os quais responderemos antes de chegarmos às considerações finais. “O espiritismo, ao menos, não aprimorou o conhecimento católico? Não é injusto categorizar os trabalhadores das colônias com os obsessores ambos sob o mesmo título de bhutas? Krishna diz que aqueles que adoram os bhutas vão ter com os bhutas, mas os espíritas não adoram os bhutas”.

O espiritismo teria aprimorado o catolicismo caso houvesse apenas adicionado a lei do karma a este e houvesse mantido a salvação por misericórdia de Deus por render-se inteiramente a Ele. Contudo, deslumbrados com a lei do karma, ofuscaram a adoração a Deus por esta. Além do mais, se o progresso se faz por conduta moral, e não por inteligência, de que adianta os espíritas terem mais conhecimento do que os católicos, supostamente, mas não terem projetos de caridade ou princípios morais superiores aos primeiros? Embora desconhecedores da lei do karma, os católicos nem se dão à prática proibida no velho testamento, de interrogar os mortos, nem querem alcançar Deus por seus próprios méritos, salvo o mérito de se renderem. Onde está o aprimoramento do espiritismo, então, que não soube conciliar lei do karma e rendição a Deus?

Krishna exemplifica de maneira simples que aqueles que adoram os bhutas irão ter com os bhutas, mas disse mais amplamente também que onde quer que esteja nosso estado de consciência, para lá iremos. Assim, aqueles que se absorvem em pensar e servir bhutas que tomam corpos para beber e fumar irão ter com tais bhutas, ao passo que aqueles que pensam e servem os bhutas que residem em Antariksa, irão para Antariksa. Há diferentes nomenclaturas sim em sânscrito para designar diferentes bhutas. Pode-se chamar alguns de yaksas, traduzidos no Srimad-Bhagavatam da BBT, a editora do Movimento Hare Krishna, como “superprotetores” (3.10.28) e “espíritos semipiedosos” (10.85.41), e outros de raksasas, “aqueles contra quem temos de nos proteger”. Contudo, dentro da dicotomia ir para Deus ou ir para os bhutas; diante de Deus, tanto os bhutas de mais luz quanto os de menos luz são apenas bhutas: Quem compararia o prazer de estar com eles com o prazer de estar com Deus?

Quanto ao espiritismo não adorar bhutas, teremos de analisar qual acepção da palavra adorar comportaria essa negação. A etimologia de adorar, “oferecer ouro”, certamente é algo mais peculiar a escolas de herança africana; contudo, se entendermos adorar como ensinam a Bíblia e o Bhagavad-gita, respectivamente “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu pensamento” e “Ocupa tua mente em pensar sempre em Mim”, os espíritas sim adoram os bhutas, conferindo-lhes parte do pensamento que Deus exige inteiramente para Si.

Considerações Finais

Enfim, aqueles adeptos da consciência de Krishna não devem se confundir nem se dar a sincretismos ou duplas pertenças com o espiritismo, haja vista que a consciência de Krishna explica-o inteiramente e vai além. Alguém consciente de Krishna deve estar convicto desta declaração de modo a não desejar elevação a moradas superiores dentro do mundo material:

O nascimento como um ser humano é o melhor de todos. Mesmo o nascimento entre os semideuses nos planetas celestiais não é tão glorioso quanto o nascimento como um ser humano na Terra. Qual é a utilidade da posição de um semideus? Nos planetas celestiais, devido a profusos confortos materiais, não há possibilidade de associação com os devotos. (Srimad-Bhagavatam 5.13.21)

Assim, é aqui na Terra, na companhia dos devotos que adoram exclusivamente Deus em completo esclarecimento pelas escrituras reveladas por Deus, companhia esta facilitada pela Sociedade Internacional para a consciência de Krishna, que nos valeremos dos meios para, no momento da morte, estarmos inteiramente absortos em Deus para com Ele irmos estar. Assim como alguém que acumula mau karma é obrigado a sofrer, aquele que acumula bom karma é obrigado a experimentar felicidade, saúde e bem-estar aqui neste mundo material, o que o faz achar que é feliz e que pode obter felicidade por seu próprio esforço, mesmo desconectado de Deus – certamente necedade.

Não há dúvidas que obter o estado de consciência de Krishna é difícil*, porém devemos dar o nosso melhor certos de que, onde o nosso melhor não chegue, chega a misericórdia de Krishna**. É válido lembrar que caso, neste esforço de estarmos absortos em Krishna, ou Deus, no momento de nossa morte, não sejamos bem-sucedidos, Krishna diz que não há perda, porque Ele próprio nos coloca nos planetas superiores, para terminarmos nossos desejos de tentarmos ser felizes mesmo morando em um local onde Ele não está pessoalmente presente, e, após essa residência, faz o arranjo para que nasçamos novamente na Terra em uma família que facilitará nossas práticas religiosas da consciência de Krishna*** quer provendo-nos as necessidades materiais sem que precisemos trabalhar arduamente, quer dando-nos diretamente o conhecimento espiritual.

*“Dentre muitos milhares de homens, talvez haja um que se esforce por obter a perfeição, e, dentre aqueles que alcançaram a perfeição, é difícil encontrar um que Me conheça de verdade”. (Bhagavad-gita 7.3) Certamente quase todas as pessoas se tornarão bhutas no momento da morte com a formação que se possui atualmente no mundo, salvo as pessoas deveras religiosas. Quase todos se tornarem bhutas à hora da morte, quer errantes (com muito pecado), quer residentes de Antariksa (semipiedosos), certamente reforçará a convicção dos residentes de Antariksa de que esse é o estado normal que se alcança à hora da morte, e aqueles que acreditavam diferente, que acreditavam que se pode alcançar a morada de Deus a partir desta vida na Terra; por não terem a conduta capaz de lhes dar esse resultado de ir ter com Deus, serão doutrinados a acreditarem que tal evento de tornar-se fantasma é normal, e não produto de iniquidade. Vejamos como são praticamente universais na atualidade as condições que tornam alguém bhuta à hora da morte, segundo o Garuda Purana (2.22.68-74):

“Se um homem come alimento oferecido por um homem caído e morre com esse alimento dentro de seu estômago antes de ter sido digerido, ele se torna fantasma. Um sacerdote que preside o sacrifício de uma pessoa indigna e negligencia aquele de um sacrificante digno, e um homem que vive na companhia de pessoas desprezíveis, ambos se tornam fantasmas. Aquele que se dá à companhia de bêbados e tem relação com uma mulher viciada em vinho ou que come carne sem qualquer culpa torna-se um fantasma. Aquele que rouba a propriedade de um brahmana [intelectual religioso] ou de um templo ou de seu preceptor se torna fantasma. Aquele que abandona sua mãe, sua irmã, sua esposa, sua filha ou sua cunhada, apesar de serem inocentes, torna-se um fantasma. Todos estes certamente se tornam fantasmas: Um homem que toma posse de algo ilegitimamente, um homem traiçoeiro para com seus amigos, alguém que se atrai pela mulher de outrem, um homem infiel e um canalha mentiroso. Um homem que odeia seus irmãos, o assassino de um brahmana, aqueles que matam vacas, alguém viciado em bebidas alcoólicas, alguém que deprava a cama de seu preceptor, alguém que negligencia ritos tradicionais, alguém afeito a contar mentiras, aqueles que roubam dinheiro e indivíduos que roubam terra – todos estes tornam-se fantasmas”.

Perguntas e Respostas

As perguntas aqui apresentadas são paráfrases de questões apresentadas por diferentes leitores e respondidas pelo autor do artigo.

O artigo completo, juntamente com esta seção de perguntas e respostas, pode ser acessado online clicando aqui e obtido em formato pdf clicando aqui. (links corrigidos e em funcionamento)

PERGUNTAS DE ADEPTOS DO ESPIRITISMO

1. Será que o senhor comparar reencarnação e metempsicose não é sinal de que o senhor tem pouca convicção pessoal no que diz acreditar, a metempsicose?

Quanto a compararmos nossa crença com o que não acreditamos, o espiritismo faz bastante isso, sobretudo com o catolicismo. O senhor deve estar ciente disso, mas cito apenas duas passagens que exemplifiquem. O espiritismo não acredita nem no diabo nem em milagres, e assim fala dessas crenças católicas:

“Cumpre também colocar entre as causas da loucura o pavor, sendo que o do diabo já desequilibrou mais de um cérebro. Quantas vítimas não têm feito os que abalam imaginações fracas com esse quadro, que cada vez mais pavoroso se esforçam por tornar, mediante horríveis pormenores? O diabo, dizem, só mete medo a crianças, é um freio para fazê-las ajuizadas. Sim, é do mesmo modo que o papão e o lobisomem”. (Livro dos Espíritos, Introdução 15)

“O que, para a Igreja, dá valor aos milagres é, precisamente, a origem sobrenatural deles e a impossibilidade de serem explicados. Ela se firmou tão bem sobre esse ponto que assimilarem-se os milagres aos fenômenos da Natureza constitui para ela uma heresia, um atentado contra a fé, tanto assim que excomungou e até queimou muita gente por não ter querido crer em certos milagres. Daí vem a Igreja distinguir os bons milagres, que procedem de Deus, dos maus milagres, que procedem de Satanás. Mas, como diferençá-los? Seja satânico ou divino um milagre, haverá sempre uma derrogação de leis emanadas unicamente de Deus. Se um indivíduo é curado por suposto milagre, quer seja Deus quem o opere, quer Satanás, não deixará por isso de ter havido a cura. Forçoso se torna fazer pobríssima ideia da inteligência humana para se pretender que semelhantes doutrinas possam ser aceitas nos dias de hoje”. (A Gênese 13.16)

Assim, o contraste pode ser falta de convicção pessoal, como o senhor colocou. No meu caso específico, acho que não é o caso. Acho que é mesmo como fazem os espíritas com a igreja católica: comparação com fim de argumentação lógica para quem tiver interesse nessa modalidade de estudo comparado. O senhor deve ter notado no meu texto, no entanto, que não uso tratamentos como nos livros espíritas, que chamam uma crença central do catolicismo de “bicho papão”, uma invenção que “só mete medo a crianças”, e sua crença em milagres de uma tentativa de “fazer pobríssima ideia da inteligência”.

2. Deus é castigador? É um castigo de Deus alguém que come carne nascer como tigre?

O senhor perguntou se seria um castigo alguém nascer como tigre. A resposta depende do entendimento que o senhor tenha da palavra castigo. Se castigo é uma maldade, então não. Não é possível entender que Deus faça alguma maldade com as almas, pois, no conceito védico de Deus, como Ele próprio Se apresenta no Bhagavad-gita (5.29), Deus é “o melhor amigo de todas as entidades vivas”. Se castigo é entendido no valor verdadeiro da palavra, que é “tornar casto”, quer dizer, “tornar puro”, então sim: é um castigo. A alma se torna mais casta ou pura ao esgotar uma tendência animalesca em corpos animais em vez de o fazer em corpos humanos, e, uma vez em corpos humanos, pode prosseguir em seu empenho de render-se exclusivamente a Deus. Mesmo em termos de saúde é algo melhor para ela, pois o consumo de carne no corpo humano acarreta, além de reações pecaminosas sutis, várias doenças imediatas, como câncer, ao passo que o corpo de tigre é uma máquina bastante poderosa para digerir esse tipo de alimento.

Em relação à alma vir em condições materialmente inferiores, encontramos vários espíritos cogitando isso. Em Exilados de Capela, encontramos que os residentes dessa morada superior foram enviados de volta para a Terra, não por castigo, mas porque chegaram àquele planeta e não tiveram a condição moral de ficar nele, tal como uma alma que chega a um corpo humano porém é “exilada” dele por não corresponder ao que se espera de um humano civilizado. Isso é um castigo? Não, tais pessoas apenas não mantiveram a consciência que as levou para aquele estado, assim como alguém que foi aprovado no vestibular de Medicina pode ser jubilado do curso por excesso de faltas ou sucessivas reprovações. Quando um ser humano desenvolve todos os sentidos plenamente, não é possível que nasça surdo, mudo e tetraplégico? Isto é um castigo de Deus? Não, é um castigo do próprio homem não ter usado o corpo humano apropriadamente. Assim, por analogia a isso e contando que os espíritos “longe estão de tudo saberem”, por que não considerar a possibilidade da opinião védica estar certa? Esta é a reflexão que proponho.

3. Se o Tigre tem espírito, ele não poderia se alimentar de algum outro alimento, sem ter de fazer tantas crueldades? Por que tantas maldades e crueldades?

Salvo engano, entendo que o argumento do senhor é que onde está o espírito não há maldades e crueldades; logo, maldades e crueldades estarem presentes em animais selvagens, como o tigre, é um indício da não presença do espírito, é isso? Se crueldades e maldades são indício de ausência do espírito, então o que dizer de Hitler, muito mais cruel do que milhares de tigres? O que dizer do prolongado sofrimento aos animais que os homens promovem nas fazendas fábricas, muito mais cruel do que a morte rápida que promove o tigre às suas presas? O homem moderno é muito mais cruel do que o tigre. O tigre, por exemplo, jamais promove o aborto de seus filhos, ao passo que o homem é responsável por 126.000 abortos por dia. O tigre mata o que ele vai comer, ao passo que o homem mata seus próprios filhos apenas para, segundo a maioria dos abortistas entrevistados, “ter mais dinheiro” e “não atrapalhar minha carreira”. Não haver maldade e crueldade, portanto, não é distinção entre o homem e o tigre em favor do homem, mas em favor do tigre. O tigre é muito menos cruel do que o homem; e não estamos falando de tribos canibais, mas dos países mais desenvolvidos, haja vista que o total de aborto do mundo se concentra 78 por cento nos países de primeiro mundo e 22 por cento nos países de terceiro mundo. Vamos comparar o índice de estupro entre os humanos e entre os animais? Armas de destruição em massa? Escravidão? O já mencionado antisemitismo? O homem é muito mais cruel e maldoso do que o instintivo tigre. Assim como não negamos a presença do espírito nos escravistas, antisemitas, abortistas, estrupadores etc., esse argumento de que o tigre não pode ter um espírito porque se alimenta de carne não faz sentido, ao meu entender.

4. Em relação a Emmanuel ensinar algo diferente do que os primeiros espíritos ensinaram, os espíritos do pentateuco espírita, pode ser entendido como algo análogo a Jesus não ter ensinado tudo, mas deixado para esclarecimento posterior. Assim, Emmanuel dá mais um passo na revelação espírita.

Jesus pode não ter ensinado tudo, mas tampouco ensinou algo errado, senão que apenas ensinou algo que precisa de esclarecimento para entendermos como é certo. Se o começo do espiritismo ensinou que “o espírito da ostra não se torna sucessivamente o do peixe” (O Livro dos Espíritos 2.11.613), e Emmanuel e outros espíritos mais atuais estão certos em dizer que se tornam sucessivamente sim, então o espiritismo ensinou algo errado, e não algo certo porém velado, como fez Jesus, pois não é possível interpretar os dizeres sublinhados como uma parábola que quer dizer o contrário do que claramente dizem. Assim, todo ensino espírita é duvidoso, ao meu entender, tanto por contradições como pelos espíritos dizerem o que observam, e não o que ouvem de uma fonte infalível, como disse Jesus que faria o seu sucessor Espírito de Verdade: “Não falará de si, mas do que houver ouvido”. Se todos os espíritos ouvissem de uma mesma autoridade infalível, supostamente o Espírito de Verdade, então não haveria opiniões diferentes.

No meu entendimento, não haveria problema caso o espiritismo mudasse de opinião caso fosse apenas ciência e filosofia, mas, como se atribui valor infalível ao se dizer “vindo do Pai”, “ensinará todas as coisas” e os outros atributos analisados no artigo, essas contradições e revisões dos textos primários do espiritismo lançam-lhe descrédito, a meu ver.

5. Por que irmãos devotados ao amor a Deus, entendidos no espiritismo como espíritos de luz, não são igualmente estimados na consciência de Krsna, mas tratados pelo pejorativo termo bhuta?

A etimologia da palavra que designa aqueles que têm apenas o corpo sutil vem da raiz bheu/bhu, que é o verbo ser do sânscrito, que aparece em várias línguas, como irlandês (bha), inglês (be), letão (but) e persa (budan). Bhuta é ser no passado, daí a tradução de bhuta como “ligados ao passado”. Tais pessoas são assim entendidas porque, mesmo após a morte, preservam as impressões que tinham durante a vida – forma, nome, identificação familiar etc. – o que, para os Vedas, é uma condição anormal. O normal é que a alma, ao ter um corpo humano, deve desenvolver inteiramente sua consciência de Krsna, o que tem por consequência que ela vai para o Reino de Deus, onde obtém sua forma eterna, seu nome eterno, não tem nenhuma identificação familiar material etc. e de onde nunca mais renasce (Bhagavad-gita 8.16). Aqueles que são mal sucedidos em desenvolver amor puro por Deus, mas morrem após terem feito bom progresso no caminho, nascem, isto é, obtêm um corpo grosseiro, nos planetas superiores, chamados svarga (Bhagavad-gita 6.41), e de lá nascem na Terra, e não de antariksa, as colônias, que são inferiores a svarga.

Aqueles que antes de novamente nascerem ficam apenas no corpo sutil são tidos como pessoas que fizeram pouco desenvolvimento no amor a Deus, ao menos no amor a Deus entendido não como sentimento, mas como observação de Suas leis. As leis que foram quebradas para a pessoa ficar apenas no corpo sutil são estas, segundo o Garuda Purana: “Se um homem come alimento oferecido por um homem caído e morre com esse alimento dentro de seu estômago antes de ter sido digerido, ele se torna fantasma. Um sacerdote que preside o sacrifício de uma pessoa indigna e negligencia aquele de um sacrificante digno, e um homem que vive na companhia de pessoas desprezíveis, ambos se tornam fantasmas. Aquele que se dá à companhia de bêbados e tem relação com uma mulher viciada em vinho ou que come carne sem qualquer culpa torna-se um fantasma. Aquele que rouba a propriedade de um brahmana [intelectual religioso] ou de um templo ou de seu preceptor se torna fantasma. Aquele que abandona sua mãe, sua irmã, sua esposa, sua filha ou sua cunhada, apesar de serem inocentes, torna-se um fantasma. Todos estes certamente se tornam fantasmas: Um homem que toma posse de algo ilegitimamente, um homem traiçoeiro para com seus amigos, alguém que se atrai pela mulher de outrem, um homem infiel e um canalha mentiroso. Um homem que odeia seus irmãos, o assassino de um brahmana, aqueles que matam vacas, alguém viciado em bebidas alcoólicas, alguém que deprava a cama de seu preceptor, alguém que negligencia ritos tradicionais, alguém afeito a contar mentiras, aqueles que roubam dinheiro e indivíduos que roubam terra – todos estes tornam-se fantasmas”.

Assim, pode-se entender muitos espíritos como amantes de Deus no sentido sentimental, mas todos eles, segundo o Garuda Purana, infringiram alguma das leis de Deus acima relatadas. Com efeito, quantas pessoas, enquanto encarnadas, conhecemos que seguem todas estas regras? Assim, é tão frequente a quebra dessas leis de Deus que praticamente todos ficam em corpos sutis após a morte, daí o espiritismo entender que é uma condição normal. Segundo os Vedas, os espíritos, ou aqueles que têm apenas o corpo sutil, podem ser classificados entre ímpios e semipiedosos, porém, até onde estudo, nunca encontrei a descrição de um espírito santo (sadhu). São ímpios porque, por má conduta, não receberam a oportunidade de nascer novamente, quer na Terra, quer em planetas superiores, e são semipiedosos porque, apesar de terem tido alguma má conduta, são bem-intencionados, tementes a Deus, esperançosos em Jesus etc. Contudo, segundo os Vedas, se alguém é verdadeiramente santo, ele vai para o Reino de Deus ou, se quase santo, nasce em planetas superiores para esgotar seus desejos por conforto, saúde etc. e então termina sua purificação na Terra.

O espiritismo preza mais a distinção entre bhutas de luz e bhutas de pouca luz, no meu entender, porque entende que os bhutas de luz, até onde entendo o espiritismo, são os indivíduos mais esclarecidos que os humanos têm para contato e, logo, para esclarecimento. Na consciência de Krsna, diferentemente, entende-se que Deus veio à Terra como Vyasadeva e deixou todo o conhecimento conclusivo, logo qualquer um que se proponha rever os Vedas será mal visto, o que em geral fazem os espíritos.

Por exemplo:

Sobre a metempsicose, dogma que percorre todas as tradições ortodoxas da Índia, encontramos:

Entre a metempsicose dos antigos e a moderna doutrina da reencarnação, há, como também se sabe, profunda diferença, assinalada pelo fato de os Espíritos rejeitarem, de maneira absoluta, a transmigração da alma do homem para os animais e reciprocamente. Ensinando o dogma da pluralidade das existências corporais, os Espíritos renovam uma doutrina que teve origem nas primeiras idades do mundo e que se conservou no íntimo de muitas pessoas, até aos nossos dias. Simplesmente, eles a apresentam de um ponto de vista mais racional, mais acorde com as leis progressivas da Natureza e mais de conformidade com a sabedoria do Criador, despindo-a de todos os acessórios da superstição. (Livro dos Espíritos 5.222)

Sobre astrologia, encontramos:

Donde vem a expressão: Nascer sob uma boa estrela? “Antiga superstição, que prendia às estrelas os destinos dos homens. Alegoria que algumas pessoas fazem a tolice de tomar ao pé da letra.” (Livro dos Espíritos 3.10.867)

Sobre a cosmologia védica, que divide as moradas celestiais em sete (antariksa, bhuvarloka, svargaloka, maharloka, janaloka, tapoloka, satyaloka), e coloca a morada de Deus para além delas, na transcendência, encontramos:

Segundo a opinião mais comum, havia sete céus e daí a expressão – estar no sétimo céu – para exprimir perfeita felicidade. As diferentes doutrinas relativamente ao paraíso repousam todas no duplo erro de considerar a Terra centro do Universo, e limitada à região dos astros. É além desse limite imaginário que todas têm colocado a residência afortunada e a morada do Todo-Poderoso. Singular anomalia que coloca o Autor de todas as coisas, Aquele que as governa a todas, nos confins da criação, em vez de no centro, donde o seu pensamento poderia, irradiante, abranger tudo! A Ciência, com a lógica inexorável da observação e dos fatos, levou o seu archote às profundezas do Espaço e mostrou a nulidade de todas essas teorias. (O Céu e o Inferno 3.1-2)

Sobre os deuses, ou devas, encontramos:

A mitologia dos antigos se fundava inteiramente em ideias espíritas, com a única diferença de que consideravam os Espíritos como divindades. Representavam esses deuses ou esses Espíritos com atribuições especiais. Assim, uns eram encarregados dos ventos, outros do raio, outros de presidir ao fenômeno da vegetação, etc. Semelhante crença é totalmente destituída de fundamento? “Tão pouco destituída é de fundamento, que ainda está muito aquém da verdade”. (Livro dos Espíritos 2.9.537)

Assim, não me parece possível a alguém que tenha os Vedas como revelados por Deus aceitar que ao menos estes espíritos que foram aceitos por Kardec como de luz, tendo passado pelo CUEE (Controle Universal do Ensino dos Espíritos) aplicado por Kardec, sejam-no, ao menos não no nível que o Evangelho Segundo o Espiritismo coloca: “Ensinarão tudo”, “veem do Pai” (6.3), “concluirão o que Moisés e Jesus começaram” (1.9). Contudo, se um Espírito se submete à autoridade dos Vedas e encaminha alguém ao estudo dos mesmos tal como os próprios Vedas ensinam, então esse espírito deve ser prezado como um vartma-pradarshaka-guru autêntico, isto é, o guru que mostra o caminho correto, em virtude do que ofereço meus respeitos aos espíritos que a encaminham seus interrogadores para o estudo da consciência de Krsna.

Parece-me que o valor que Jesus deu às escrituras submete todos à infalível autoridade escritural, e não o contrário, isto é, que os espíritos podem dizer o que nas escrituras é certo e o que não é, segundo suas experiências sensoriais e mentais.

No novo testamento, por exemplo, encontramos: “À lei [de Moisés] e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles”. (Isaías 8.20)

Contudo, os espíritos no espiritismo se libertam da revelação mosaica, aceita por Jesus, e colocam-na como humana:

“Em face dos progressos da Física e da Astronomia, é insustentável semelhante doutrina. Entretanto, Moisés atribui ao próprio Deus aquelas palavras. Ora, visto que elas exprimem um fato notoriamente falso, uma de duas: ou Deus se enganou em a narrativa que fez da sua obra, ou essa narrativa não é de origem divina. Não sendo admissível a primeira hipótese, forçoso é concluir que Moisés apenas exprimiu suas próprias ideias”. (A Gênese 12.10)

Assim, o espiritismo coloca Moisés como duplamente ruim: Ruim por ter inventado algo insustentável, e, o que acho ainda pior, ter atribuído sua história inventada a Deus. O espiritismo faz o mesmo com a revelação védica.

Outra hipótese que tenho de por que o espiritismo trabalha mais com a dicotomia espírito bom e espírito de pouca luz do que o vaisnavismo é que o leque de indivíduos com os quais o primeiro trabalha é menor do que na consciência de Krsna. A consciência de Krsna hierarquiza as entidades vivas até Brahma, que é a entidade viva mais elevada dentro do mundo material, e entendemos que podemos ter contato com Brahma pelas obras que são atribuídas a ele, como o Brahma-samhita. Assim, se temos acesso a Brahma, a entidade viva mais elevada, para esclarecimentos doutrinários, bem como a Deus, os residentes da parte sutil de nosso planeta não são nada além de “impiedosos” e “semipiedosos”. O espiritismo, em contrapartida, tende a duvidar, até onde entendo, que Deus tenha feito realmente alguma revelação pessoalmente, e tampouco que uma alma tão elevada como Brahma possa vir à Terra tão simplesmente e falar um conhecimento perfeito, daí o espiritismo, em seu primórdio lidando com encarnados que não sabiam nem que existe vida após a morte, terem os espíritos como autoridades dignas de reverências.

Outra hipótese que tenho para os espíritas prezarem mais os bhutas de luz, ou yaksas semipiedosos, do que os vaisnavas é que o espiritismo tende a acreditar que os anjos da Bíblia e os deuses (devas) dos Vedas são espíritos de luz, o que os vaisnavas não aceitam. Para os vaisnavas, os anjos, entendidos como análogos aos gandharvas da literatura védica, e os devas, dirigentes de vários departamentos do universo, são indivíduos que residem em outros planetas e têm corpo grosseiro próprio, corpo grosseiro este que lhes permite se comunicarem sem a necessidade de um médium, necessidade esta própria daqueles que têm apenas o corpo sutil, isto é, uma instrumentária incompleta. Assim, a grandiosa personalidade que falou com Maria que ela teria um filho, por exemplo, não é entendida por nós como alguém que só tem o corpo sutil, um espírito, mas alguém que possui um corpo grosseiro com poderes especiais para vir à Terra e ficar invisível e inaudível ou não à sua vontade. O mesmo para os devas.

Outra hipótese para por que a tradição védica tende a atribuir impiedade, ou, no máximo, semipiedade, a todos aqueles que têm apenas o corpo sutil, é o fato de que, no tempo em que os Vedas foram escritos, segundo eles próprios e aparentemente pela longevidade que a Bíblia atribui a pessoas antigas (vivendo quase 1000 anos), os humanos no passado eram mais avançados e esclarecidos espiritualmente. Assim, os humanos, orientados pelos Vedas, aprendiam em vida que não eram o corpo, que existe a reencarnação, que Deus é assim e assado, que devemos nos desapegar do que é temporário à hora da morte etc. Então, se alguém morre em tal condição que está identificado com seu estado material passado ou tem algum dos desvios morais enumerados acima, no Garuda Purana, ela é vista como caída por assumir a posição de bhuta. Na atualidade, os homens mais bondosos que conhecemos no mínimo comem alguma carne, comem alimento preparado sem consciência espiritual entre outras coisas que deixam a pessoa apenas no corpo sutil na hora da morte. Assim, quando alguém, apenas no corpo sutil, conhece pelo menos a reencarnação, o que não exige nenhuma piedade, mas apenas a observação, se comunica com os encarnados ignorantes dos Vedas e praticamente de qualquer conhecimento, tal pessoa parece uma autoridade ilustre, sobretudo se, junto do conceito de reencarnação, traz consigo alguma integridade herdada dos ensinamentos morais de Jesus, para colocá-la na posição semipiedosa de ter comido pouca carne, por exemplo na semana santa, ter bebido apenas socialmente, ter tentado perdoar de vez enquanto etc. Vale apontar, no entanto, que os ensinamentos morais de Jesus foram todos comunicados por Jesus encarnado, e não é mérito de espíritos. Ao contrário, haver espíritos piedosos o bastante para estruturarem o espiritismo é mérito do mestre encarnado Jesus – o que a senhora certamente sabe. Assim, se somarmos os ensinamentos de Jesus com os de Vyasadeva, parece mesmo que os encarnados ensinam mais do que os desencarnados, o que adiciona ao conceito védico de que nascer na Terra é melhor do que estar em sua dimensão sutil em um corpo apenas sutil.

Bem. A pergunta da senhora é muito difícil: Por que os Vedas não estimam os espíritos, isto é, as entidades vivas que estão apenas no corpo sutil. Minhas hipóteses para isso, em resumo, são estas: (1) O Espiritismo parece aceitar a possibilidade de espíritos serem superiores às escrituras (mosaicas e védicas), podendo dizer qual parte delas é fidedigna e qual não é e revelar coisas novas, logo são indivíduos de grande interesse para os encarnados. O vaisnavismo, em contrapartida, tem as escrituras como perfeitas e revelas por Deus, logo todos, mesmo o espírito mais elevado, tem de se submeter a elas, daí preferirmos ler as escrituras a ouvi-los, sobretudo caso sejam espíritos, como os do pentateuco espírita, que criticam os ensinamentos védicos sob vários adjetivos pejorativos, como apontado acima. (2) No espiritismo, analisam-se os indivíduos com os quais podemos ter contato entre espíritos de luz e de pouca luz, e, obviamente, preza-se os espíritos de luz como guias, os quais são entendidos como os anjos, arcanjos, deuses etc. em tradições variadas. No vaisnavismo, entretanto, anjos, arcanjos e deuses não são espíritos, isto é, não são residentes do plano sutil, mas de planetas superiores e indivíduos que não podem ser incorporados, pois têm corpo grosseiro próprio. Assim, o vaisnavismo, ao considerar possível a comunicação com indivíduos entendidos como superiores aos espíritos de luz, e a comunicação até mesmo direta com Deus através das escrituras que são entendidas como as exatas palavras dEle próprio, mostra desinteresse nos contatos mediúnicos.

6. Há muitos casos provados cientificamente de que tratamentos com espíritos curam pessoas de doenças, e os romances espíritas estão cheios de relatos de pessoas que foram promovidas para as superiores colônias à hora da morte por terem seguido as instruções dos espíritos.

Krsna não diz que é mentira que o refúgio em tais indivíduos pode trazer resultados como saúde e promoção a planetas superiores; na verdade, diz até mesmo que tais indivíduos – semideuses, espíritos de luz etc. – dão resultados muito rapidamente (Bhagavad-gita 4.12). A crítica de Krsna é que tais personalidades, diferentemente dEle, dão coisas limitadas e temporárias (Bhagavad-gita 7.23); por exemplo, são limitadas as respostas dos espíritos de luz, pois dão respostas incompletas, imperfeitas e contraditórias, pois “longe estão de tudo saberem”, como coloca o Livro dos Espíritos, e promovem seus discípulos a moradas onde não se pode permanecer eternamente feliz.

7. Por que os Hare Krsnas não podem seguir os ensinamentos do Bhagavad-gita, e os cristãos, os ensinamentos da Bíblia? A Bíblia traz várias descrições de comunicações mediúnicas, como os anjos em Gênese 16.7-10 e o anjo que anuncia a Maria que terá um filho e deverá chamá-lo Jesus.

Prabhupada aceita Jesus como um mestre inteiramente qualificado para guiar as pessoas, e certamente julgo bem encaminhados aqueles que o seguem. Contudo, tenho minhas dúvidas quanto a se todos os espíritas são fundamentalmente cristãos. Um espírita que conheci recentemente, empolgadíssimo com a leitura de Exilados de Capela, me dizia que os egípcios foi uma das civilizações mais avançadas que já esteve na Terra. Fiquei me perguntando como alguém pode ser cristão e, ao mesmo tempo, considerar que os egípcios sejam avançados espiritualmente. Segundo a religião de Jesus, o judaísmo, cuja escritura Jesus aceitava como revelada por Deus, até onde entendo, os egípcios eram tão degradados que Deus os puniu pessoalmente. Os egípcios foram um povo politeísta, idólatra e construíram grandes edificações para tal idolatria politeísta com o sangue de 400 anos de escravidão aos hebreus, cujo objeto de culto Jesus aceitou como o Pai, o Deus único e supremo. Prabhupada não ensina que seja necessário seguir os Vedas para seguir Deus, mas disse que se pode seguir sim seguir o cristianismo e o judaísmo. Um de meus questionamentos é precisamente este: O espiritismo é realmente o que Jesus idealizou para a continuação de seus ensinos na Terra ou o espiritismo não se encaixa no que Jesus chamou de Espírito de Verdade e Consolador?

A senhora apresentou exemplos bíblicos falando de aparição de anjos, mas esse conceito, até onde entendo, não se confunde com “mortos” e “espíritos” na Bíblia. Encontro na Bíblia que há casos em que pessoas são possuídas por espíritos, mas nunca por anjos. Podemos ver também que o anjo aparece para Maria e fala com ela, mas Maria nunca viu ninguém mais, de modo que não é possível aceitá-la como médium vidente e auditiva. Se fosse médium vidente e auditiva, veria e ouviria espíritos frequentemente, e não apenas o anjo. Prabhupada explica que anjos são indivíduos chamados gandharvas, e os gandharvas podem aparecer para quem quiserem quando quiserem pelos poderes místicos que têm, siddhis, e não dependentes de que quem os veja seja médium vidente e menos ainda “entrando” em um corpo alheio para que se psicografem ou ouçam sua mensagem.

8. O espiritismo não adora os espíritos.

No final do Gita, Krsna diz que devemos abandonar tudo (sarva-dharma parityajya) e buscar unicamente (eka) a Ele como refúgio (saranam). Essa rendição, ou sarana, é entendida como variadas práticas: Contar que Deus nos levará para Seu reino na hora da morte, tê-lO como aquele que nos esclarece em momentos de dúvidas e assim por diante. Assim, se alguém, à hora da morte, fica na expectativa de que um semideus o levará para o seu planeta, ou que um espírito de luz o levará para uma colônia, isso pode ser entendido como adoração a semideuses ou a espíritos de luz, nesta definição de adoração. Se, quando alguém quer entender algo, busca por um filósofo, cientista, doutor em direito – encarnado ou desencarnado –, em vez de buscar pela revelação de Deus, isso é entendido como adoração a tais indivíduos: a busca deles por refúgio doutrinário. Certamente os espíritas não adoram espíritos no sentido etimológico de “adorar”, isto é, “oferecer ouro”, e um espírita que busque o refúgio de espíritos de luz por acreditar plenamente que eles são dotados de poder por Deus para dar refúgio, e a morada deles e as instruções deles são, respectivamente, a máxima morada que Deus reservou para alguém que morrerá agora na Terra e a revelação máxima à humanidade, então não posso dizer que são espíritas que não adoram a Deus, mas apenas discordar de que o máximo que Deus permite à humanidade, a partir do estado encarnado da Terra, seja o alcance dessas moradas e dessas revelações. Entendo que só poderia ser justo dizer que algum espírita adora os espíritos caso esse espírita acreditasse que a revelação de Moisés é perfeita, que é possível, a partir da Terra, alcançar a morada perfeita de Deus, onde Deus mora pessoalmente, e ainda assim preferir as revelações dos espíritos e ainda assim querer ir para a morada deles.

9. Os espíritos e a Bíblia ensinam que nossa evolução é gradual, em virtude do que é impossível ir da Terra para onde Deus mora pessoalmente.

Os espíritos certamente ensinam que a evolução é gradual, pois, pela experiência deles, não chegaram ao Reino de Deus após a morte. Na Bíblia, entretanto, é fundamentável a possibilidade de irmos da Terra para o Reino de Deus, assim como é fundamentável pelos Vedas. Na Bíblia (João 8.29), encontramos que quem enviou Jesus para a Terra foi o Pai, Deus: “Aquele que me enviou está comigo. O Pai não me tem deixado só, porque eu faço sempre o que Lhe agrada”. Assim, não é aceitável dizer que Jesus foi enviado por outrem senão diretamente por Deus. Em João (7.33), encontramos: “Disse-lhes, pois, Jesus: Ainda um pouco de tempo estou convosco, e depois vou para aquele que me enviou”. Assim, pela autoridade da Bíblia, Jesus não voltará para nenhuma morada, sutilíssima ou grosseira, mas para aquele que o enviou, o qual – já colocamos com a citação de João (8.29) – é Deus, o Pai. Por fim, em Lucas (23.43), encontramos que Jesus se dirige ao ladrão que estava ao seu lado, também sendo crucificado, com estas palavras: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso”. Não é possível deturpar esse “Paraíso” dizendo que é outro lugar senão onde Deus mora, pois, relembrando, Jesus disse que, quando fosse embora da Terra, iria para aquele que o enviou, e “hoje” não permite nenhuma interpretação para fundamentar “evolução gradual”.

PERGUNTAS DE PESSOAS SEM VÍNCULOS RELIGIOSOS

10. É fácil entender que alguém que fica no corpo sutil, ou em condição de fantasma, na casa onde viveu é alguém bhuta, “ligado ao passado”. Contudo, os espíritos que ficam vagando ou fazendo travessuras pela Terra também carregam consigo essa marca de serem ligados ao passado?

A etimologia da palavra que designa aqueles que têm apenas o corpo sutil é bhuta. Bhu vem da raiz bheu/bhu, que é o verbo ser do sânscrito, que aparece em várias línguas, como irlandês (bha), inglês (be), letão (but) e persa (budan). Bhuta é ser no passado, daí a tradução de bhuta como “ligados ao passado”.

Krsna diz que onde quer que esteja nosso estado de consciência na hora da morte, para lá iremos (Bhagavad-gita 8.6). Assim, o devoto não tem nenhuma absorção em seu passado no sentido de se identificar com “este é o meu corpo, esta é a minha família, esta é a minha casa, este é o meu país, este é o meu planeta, esta é a minha vida” etc. O devoto pensa: “Eu não sou este corpo, e o senso de posse a esta família, casa, país e planeta tem ligação apenas com este corpo, e minha vida não é estar aqui, mas estar no mundo espiritual com Krsna”. Assim, quando o devoto morre, ele não se torna bhuta, isto é, alguém que fica no corpo sutil com a mesma mentalidade que tinha em vida – “este é o planeta onde moro, este sou eu, este é o meu nome” – senão que ele está pronto para o futuro que construiu segundo as instruções de Krsna: “Deixei de ser o Thiago de Alcântara, brasileiro, branco, o que nunca fui, e agora sou o que sou eternamente: uma gopi aos pés de Krsna”, ou “deixei de ser a Joana e agora sou um vaqueirinho amigo de Krsna, o que eu havia me esquecido”. O devoto também não ficará vagando pelo “seu” planeta atormentando as pessoas, pois já abandonou a ideia de que ele é deste planeta, senão que estará colhendo no mundo espiritual os frutos de sua consciência de Krsna, a consciência de que ele não é deste mundo.

Assim, embora menos evidente do que alguém que fica em sua casa após a morte, alguém que está no corpo sutil errando por vários lugares “fazendo travessuras” também exibe o sintoma de apego ao passado por carregar consigo o mesmo nome que tinha antes, em geral a mesma forma, residir no mesmo planeta e, sobretudo, ter o desejo de interagir com os mesmos objetos materiais.

O devoto está pronto para o futuro, isto é, pronto para deixar seu corpo material porque mesmo enquanto no corpo material se treinou a interagir com objetos espirituais: os nomes de Deus, as escrituras reveladas, como o Bhagavad-gita e o Srimad-Bhagavatam, os templos, as almas liberadas, como Prabhupada, e assim por diante. Aqueles que se tornam bhutas, entretanto, embora estejam sendo punidos na forma de não ter um corpo grosseiro, ainda estão mentalmente com a impressão passada de que precisam e querem interagir com os objetos materiais. “Precisam” porque sentem fome – segundo o Garuda Purana, eles sentem tanta fome que quando os antepassados oferecem alimento santificado (prasada) para a purificação deles, eles veem muito rapidamente –, e “querem” porque gostam de bebidas alcoólicas e outras atividades desconectadas da manutenção do corpo grosseiro.

Prabhupada explica assim o que é fantasma: “O fantasma também é um indivíduo. Contudo, porque os fantasmas não obtêm este corpo material, eles são invisíveis. Eles criam perturbações por falta deste corpo. Aqueles que têm experiência de algum fantasma em alguma casa, o fantasma está lá, ele é uma alma individual, mas, porque ele não tem esta cobertura material, isso é uma punição. Para a pessoa mais pecaminosa, essa é a punição, que ele não obtém este corpo, embora ele queira este corpo, porque, para o desfrute, queremos este corpo. O corpo é a combinação dos sentidos, o instrumento. Se quero tocar você, preciso da mão, e, através desta mão, sentirei o prazer de tocá-lo. Assim, o fantasma quer tocar, mas ele não tem o instrumento. Isso é fantasma… Enquanto estivermos contaminados materialmente, precisamos deste corpo material para desfrutarmos dos sentidos. E, no mundo espiritual, obtemos nosso corpo espiritual”. (12/12/76, Hyderabad, Bhagavad-gita 2.12)

Assim, acho que podemos entender que o fantasma é apegado à sua passada atividade de interagir com os objetos materiais do planeta grosseiro onde viveu. O devoto, por outro lado, como coloquei, é apegado ao desfrute de objetos espirituais, e, quando sua consciência se absorve por inteiro nesses objetos – Deus na forma de Seu nome, Deus na forma de Sua escritura – ele deixa de bom grado seu passado de ter um corpo grosseiro para interagir com o gozo material e obtém seu corpo espiritual para interagir com Deus.

Sobre eles ficarem, como o senhor disse, “vagando e fazendo travessuras pela Terra”, eles os fazem, como também explicam os espíritas, para poderem interagir com os objetos materiais através daqueles que têm corpos materiais, o que os espíritas chamam de obsessão e nós de “graha-grasto” ou “preta-dosa”. Assim, quando vagam pelos bares, bordéis, churrascarias e cassinos, eles mantêm as pessoas nesses locais e hábitos para poderem interagir com tais coisas através dessas pessoas que têm corpos materiais. Prabhupada explica:

Prabhupada: …Algumas vezes, o fantasma ataca um homem. Porque ele não tem corpo material, ele quer agir através do corpo de outrem… Devoto: Srila Prabhupada, a alma, o fantasma, entre no corpo de outra pessoa? A alma está ocupando um corpo, e o fantasma, como outra alma, entra verdadeiramente naquele corpo? Há duas almas em um corpo? Prabhupada: Não exatamente entra, mas ele pega o corpo. Mas porque o fantasma não tem corpo grosseiro – ele tem seu corpo sutil: mente, inteligência e ego –, você não o pode ver, como ele atacou aquele corpo. Você não pode ver o corpo da mente, da inteligência. Você sabe que eu tenho minha mente; eu sei que você tem sua mente. Mas você não vê a minha mente; eu não vejo sua mente. Assim, o fantasma está dentro do corpo sutil: mente, inteligência e ego. Então, com esse corpo sutil, ele ataca o homem, mas você não pode ver. Ele não entra nele. Quem está dentro é a alma dentro do corpo. (12 de maio de 1975)

Em conclusão, os espíritos que vagueiam fazendo travessuras querem interagir com os hábitos pecaminosos que tinham no passado, porém, não o podendo fazer por não terem um corpo grosseiro, fazem suas “travessuras” pela Terra através de pessoas que estão usando seus corpos nessas mesmas atividades pecaminosas. Esta classe de bhutas errantes talvez não esteja apegada à sua família ou casa, mas estão apegados ao hábito que desenvolveram no passado, enquanto vivos, de gozar da interação com objetos materiais.

11. Na lógica de não fazer ao outro o que não gostaria que fosse feito a você, não seria prudente o senhor não sugerir que os espíritas devem buscar outra fonte de conhecimento senão sua própria revelação? O senhor gostaria caso eles dissessem para o senhor buscar outro guru em vez de Prabhupada?

A minha sugestão aos espíritas de que estudem outro guru tem valor apenas caso a pessoa aceite que o guru dela não é o que ele dizia ser, isto é, se um espírita se convencer de que os espíritos não são organizados pelo Espírito de Verdade, enviado por Jesus, e os outros atributos discutidos no artigo. Caso se convençam disso, eles naturalmente quererão buscar outro guru. Eu buscaria outro guru caso fosse convencido de que Prabhupada não é quem diz ser, isto é, não é um devoto exemplar de Krsna, não é alguém que não mudou nada dos ensinamentos de Krsna etc. Coloco-me inteiramente aberto a semelhante discussão da posição de Prabhupada porque sei que posso fundamentar toda a vida e todos os ensinamentos de Prabhupada nos ensinamentos de Krsna. Se um espírita, da mesma maneira, consegue colocar todos os atributos do Consolador bíblico no espiritismo, então ele não precisa se perturbar com meu artigo. Meu artigo será, neste caso, um fortalecimento da fé dos espíritas, que, ao defenderem a posição do espiritismo contra os argumentos que apresentei, terão uma base sólida para sua crença.

12. Gostei do conteúdo de seu artigo, mas não sei se a linguagem foi a mais adequada. Acho que há um tom depreciativo que poderia ser evitado.

Muito embora eu discorde da possibilidade do Espiritismo ter o caráter de infalível que se atribuiu ao se colocar como “ensinará tudo” – para o que é necessário onisciência (Krsna diz no Gita que ensina tudo e, coerentemente, diz-Se onisciente) – entre outros atributos que reivindica para si, sobretudo em virtude de usar essa prerrogativa para fazer análises categóricas de ensinamentos védicos e de outras tradições, como o catolicismo e o judaísmo, análises estas muito questionáveis, a meu ver, é muito importante que eu diga algo da importância do Espiritismo também.

Aqueles que se propõem a cantar o santo nome de Krsna deve fazê-lo evitando dez ofensas, entre as quais figura a ofensa de número quatro, que é sruti-sastra-ninda. Esta ofensa consiste em ter predileção fanática pelas escrituras smrtis, como o Srimad-Bhagavatam e o Ramayana, em virtude destes terem um conceito teísta claro, com claras instruções da vontade e da personalidade de Deus, bem como por colocarem a supremacia do serviço devocional sobre o processo de atividades fruitivas com vista à ascensão a planetas superiores (karma) e sobre o processo de especulação filosófica (jnana), entre outros. É sabido que nas escrituras srutis, como os Vedas e Upanisads, o aspecto pessoal de Deus é pouco discutido e se prima karma e jnana. Apesar de haver a predileção pelos smrtis nos ensinamentos do vaisnavismo gaudiya (dentro do que está o Movimento Hare Krsna) – Caitanya e Seus discípulos primam o Srimad-Bhagavatam acima de qualquer sruti – é uma ofensa, também segundo os ensinamentos deles, não reconhecer o valor das outras revelações, o que é uma ofensa porque, segundo Visvanatha Cakravarti, essas obras que “propõem o processo do conhecimento empírico e da ação fruitiva […] muito misericordiosamente ajudam as pessoas mais desqualificadas, que não estão seguindo nenhuma regra ou regulação védica e que estão cegas pelos desejos materiais, a se elevarem ao caminho do serviço devocional seguindo suas leis divinas”. (Madhurya Kadambini, capítulo 3)

Assim, embora eu entenda o espiritismo como uma religião que adicionou à bhakti, ou devoção, de Jesus o conhecimento empírico, isto é, submetem a revelação à mental análise científica, e promovam a ação fruitiva, isto é, a caridade com vista à ascensão pessoal, tenho de reconhecer aqui que ajudam pessoas que as escrituras védicas entendem como desqualificadas – a saber, pessoas com fé na ciência humana e na faculdade especulativa da mente, e pessoas com o desejo de terem nascimentos mais confortáveis em moradas mais confortáveis – a seguirem normas de conduta próprias de santos, como a propensão a perdoar, o autocontrole sexual, a abstinência de drogas e outras, e mesmo a adorarem a Deus, embora, no meu entender, sem um entendimento claro do que é bhakti pura, a saber, bhakti livre de karma e jnana.

Enfim, aproveito esta oportunidade para reconhecer que os espíritas são pessoas compassivas e interessadas no bem-estar daqueles que estão confusos por estarem no estado de possuírem apenas o corpo sutil, e são pessoas que, tanto quanto entendem, promovem a bondade entre as criaturas e projetos sociais de beleza ímpar.

Peço desculpas a todos a quem levei mal-estar com a linguagem do meu texto e peço que saibam que isso é uma deficiência minha em obedecer às ordens de Krsna, e não algo que Krsna promova, pois Krsna ensina que as falas de Seus servos devem ter os seguintes atributos: “A austeridade da fala consiste em proferir palavras verazes, agradáveis, benéficas e que não perturbam os outros”. (Bhagavad-gita 17.15) Tanto quanto possível, tentarei reescrever o presente artigo em uma segunda edição de forma a me conformar às diretrizes cobradas por Krsna e por alguns leitores do meu artigo. Conto com as bênçãos de todos.

PERGUNTAS DE ADEPTOS DO MOVIMENTO HARE KRSNA

13. Conheço um devoto Hare Krsna que se descobriu médium vidente e auditivo. O que ele deve fazer?

A principal característica do devoto Hare Krsna é que ele tem o Srimad-Bhagavatam como a autoridade suprema, autoridade esta apontada cientificamente pela primeira vez por Jiva Gosvami em seu Tattva-sandarbha e aceita, desde então, por todo devoto Hare Krsna. Assim, o devoto Hare Krsna tem como autoridade unicamente aquela pessoa que ensina o que o Srimad-Bhagavatam ensina, logo um devoto médium jamais se submeterá a indivíduos desencarnados que queiram ensinar algo a mais do que o Srimad-Bhagavatam ou esclarecê-lo melhor do que o próprio avatara de Krsna na atualidade, Sri Caitanya, e seus discípulos diretos, os Seis Gosvamis, esclareceram. Se o indivíduo desencarnado fizer o papel de guru autêntico de dizer que o Srimad-Bhagavatam é perfeito e nada nele precisa ser revisto, basta ao devoto continuar estudando o Bhagavatam como o Bhagavatam ensina, isto é, através da sucessão discipular que começa com o próprio Krsna e atualmente termina, entre outras bifurcações, em Prabhupada e em seu Movimento Hare Krsna.

Deste modo, parece-me inimaginável que um devoto utilize sua mediunidade para ser esclarecido por espíritos. Por outro lado, a mediunidade de um devoto pode ser utilizada para esclarecer os espíritos que querem conhecer a consciência de Krsna ou ocupar em serviço devocional aqueles que já a conhecem e a aceitam. No Padma Purana, por exemplo, na seção das glórias do Srimad-Bhagavatam, encontramos um devoto médium vidente e auditivo, Gokarna, que utilizou essas faculdades mediúnicas para purificar seu irmão, Dhundhukari, perdido em um corpo de fantasma, através da audição do Srimad-Bhagavatam. Encontramos no Padma Purana que eles conversaram:

O fantasma Dhundhukari observou Gokarna retornar [para casa], em razão do que assumiu formas muito violentas e apareceu perante ele… Com coragem e paciência, ele falou: “Quem é você? Por que você está exibindo todas essas formas assustadoras? Como você caiu nessa condição?”… Quando Gokarna o questionou, o fantasma chorou sonoramente. Ele não conseguia falar [havia sido morto sendo incendiado a partir da boca], em virtude do que gesticulava com suas mãos. Gokarna chuviscou um pouco de água sagrada no fantasma. Isto o aliviou de reações pecaminosas o suficiente para ser capaz de falar. “Sou seu irmão, Dhundhukari”, disse o fantasma. “Por causa de meus erros, caí de meu nascimento respeitável como um brahmana. Em decorrência de completa ignorância, matei muitas pessoas. Não é possível contar meus pecados. Eu era viciado ao convívio com cinco prostitutas, as quais, por fim, mataram-me, e, como resultado, estou sofrendo as reações de minhas atividades perversas e assim obtive esta forma de fantasma… Meu querido irmão, você é um oceano de misericórdia. Por favor, de uma maneira ou outra, livre-me desta forma fantasmagórica”.

Esse devoto médium vidente e auditivo salvou seu irmão da condição em que estava recitando para ele, por sete dias, o Srimad-Bhagavatam. Ao término da leitura, descreve-se que “o céu ficou refulgente, e um aeroplano de Vaikuntha apareceu transportando associados do Senhor. Diante de toda a assembleia, Dhundhukari embarcou no aeroplano”.

Assim, as escrituras védicas não deixam os devotos médiuns desamparados, senão que têm, entre outros, este Gokarna como exemplo. O exemplo de Gokarna nos ensina que um devoto que tem contato com desencarnados deve organizar recitações do Srimad-Bhagavatam em locais sagrados e com devotos puros e convidar aqueles que têm interesse em serem ajudados pela consciência de Krsna a ouvirem o Srimad-Bhagavatam e seguir as práticas gerais da consciência de Krsna, como ouvir os santos nomes, reverenciar os templos de Krsna, oferecer orações a Krsna sentindo-se caído etc.

Quanto aos espíritos que não têm interesse na consciência de Krsna, há práticas para os evitarmos, assim como evitamos os encarnados que não têm fé, a condição preliminar para aproximação da consciência de Krsna. A prática mais fundamental que Prabhupada ensinou para evitar tais desencarnados impiedosos é cantar puramente os santos nomes:

Se você vai a uma casa mal-assombrada, se você canta o mantra Hare Krsna, eles vão embora… Na minha vida, houve vários casos assim. Na minha vida como chefe de família, eu estava fazendo negócios em Lucknow. Assim, havia uma casa, uma casa muito grande, cujo aluguel custaria milhares de rúpias, mas era mal-assombrada. Então, ninguém morava naquela casa. Eu passei a morar nela pagando duzentas rúpias (risos), e era uma casa muito grande… Todos os criados se queixavam: “Senhor, há um fantasma”. Então, eu estava cantando. Ele estava vivendo em vários locais, especialmente perto do portão. Então, eu pude entender que ele estava ali, mas eu cantava Hare Krsna, e fui salvo. Todos foram salvos. (Havaí, 03/02/75, aula do Bhagavad-gita 16.7)

Estas são instruções que apuro das escrituras, mas, obviamente, um devoto que se descubra médium deve, antes de qualquer coisa, consultar seu mestre espiritual iniciador ou um mestre espiritual instrutor que ele entenda ser um mestre fidedigno e esclarecido.

14. Prabhupada tem uma postura bem mais cortês com as outras religiões do que o seu texto. Não lhe seria apropriado, como seguidor de Prabhupada, apontar as qualidades do espiritismo?

Certamente algo que aprendi com as repostas que recebi a este artigo é que, infelizmente, não tenho essa virtude de Prabhupada de buscar pelas qualidades. Tentarei, na medida do possível, reescrever o artigo de forma a não ser ofensivo. Os espíritas que entraram em contato comigo, apesar de questionados em sua doutrina, mostraram-se pessoas educadíssimas e estudiosas de sua própria tradição religiosa, duas qualidades dos espíritas que posso começar por apontar. Independente de o espiritismo ser ou não coordenado pelo Espírito de Verdade, é notável que seus adeptos têm um amor muito grande por Jesus, que Prabhupada disse ser um devoto completamente puro, logo é inaceitável que algum seguidor de Prabhupada diga que os espíritas não têm, ao menos da parte de que aceitam Jesus, um princípio de norteamento infalível. Também são dignos de menção os projetos sociais dos espíritas, desde atendimento a famílias carentes, auxílio a deficientes, pessoas com depressão e toda sorte de indivíduos, encarnados ou não, que buscam por ajuda. Peço desculpas pelo meu texto não ter enfatizado estas qualidades, mas faço-o agora oportunamente e peço em troca as bênçãos de todos os meus leitores para que eu desenvolva a visão apropriada, com as bênçãos de Krsna, de Seus planos, muitas vezes insondáveis, na pluralidade religiosa. Hare Krsna!

Fonte: Amigos de Krishna

Quem, senão Srila Prabhupada e outros propagadores da consciência de Krishna, ensina a evitação de tudo isto, desde o não consumo de carne e a não alimentação em estabelecimentos mundanos até a castidade e a abstinência de todo intoxicante, quer lícito, quer ilícito nas diferentes constituições dos diferentes países do mundo? E ainda, quem, senão a consciência de Krishna, fornece gosto superior suficiente nas práticas espirituais para que tais atos não sejam meramente reprimidos?

**“Embora ocupado em todas as espécies de atividades, Meu devoto puro, sob Minha proteção, alcança, por Minha graça, a morada eterna e imperecível”. (Bhagavad-gita 18.56)

***“Após muitos e muitos anos de gozo nos planetas habitados por entidades vivas piedosas, o yogi [aquele que está tentando se reconectar com Deus] malogrado nasce em uma família de pessoas virtuosas ou em uma família aristocrata e rica. Ou [se fracassa após longa prática] ele nasce numa família de transcendentalistas que com certeza têm muita sabedoria. É claro que semelhante nascimento é raro neste mundo”. (Bhagavad-gita 6.41-42)

Os irmãos adeptos do espiritismo, por sua vez, valendo-se de sua qualidade de aceitar ouvir de autoridades e de aceitar a possibilidade de sempre progredir estão convidados a conhecerem a fundo a consciência de Krishna, e, quer com a ajuda da consciência de Krishna, quer por outro recurso que achem sensato, analisar se não há na Terra ensinamentos superiores aos trabalhos psicografados dentro da doutrina espírita. O que há de se perder?

Sobre o Autor

Bhagavan Dasa Adhikari (Thiago Costa Braga) é mestrando em Letras pela PUC-Minas e graduando em Filosofia pela UFJF. Possui a titulação internacional Bhakti-sastri, adquirida após residência no Seminário de Filosofia e Teologia Hare Krishna de Campina Grande, onde foi iniciado por Sua Santidade Dhanvantari Swami. Ministra palestras regulares sobre a consciência de Krishna desde 2005. Já traduziu mais de 10 livros e mais de 100 artigos sobre filosofia e teologia gaudiya-vaishnava e atualmente é chefe do departamento de tradução e revisão da BBT Brasil, a maior editora no Ocidente de livros sobre o pensamento indiano.

Contato

Aqueles interessados em conversar com o autor acerca da temática deste podem se corresponder pelo e-mail bgdasa@hotmail.com. Pede-se a cortesia da leitura prévia das obras O Bhagavad-gita Como Ele É e Krsna, a Suprema Personalidade de Deus .

por Thiago Costa Braga (Bhagavan Dasa Adhikari Bhakti-sastri)

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/espiritismo-e-consciencia-de-krishna/

Conselhos para Iniciantes no Caminho

O texto que segue é uma adaptação de textos de Veos, Prophecy, Rawn Clark e Bardonista e destina-se a quem está começando na senda. Outras dicas para quem está começando podem ser encontradas em Três Conselhos Úteis em Magia Prática, Conselhos aos que desejam estudar o Oculto, Conselhos para as Práticas Mágica e Dez Conselhos de Magia Prática. Se é novo aqui no site, recomendo que veja esta lista de links. E se está procurando uma ótima ordem hermética/alquímica, dê uma olhada na Arcanum Arcanorum. Vamos à lista de conselhos.

1. MOTIVE-SE CONSTANTEMENTE!

A fonte para a prática continuada é a sua motivação. Baixe ou compre livros sobre Magia e Ocultismo e comprometa-se a lê-los frequentemente.

Nessa fase, não é errado aspirar aos poderes que um mago possa vir a ter – na verdade, é até saudável, porque faz com que o estudante prossiga no treinamento. No início, o mago aspirante tem apenas uma noção grosseira do que é a verdadeira união com a divindade e precisa de metas mais concretas para se motivar, como, por exemplo, as habilidades mágicas como a clarividência, a clariaudiência, a sensitividade, etc.

Deve haver uma mudança na sua perspectiva. “Seja um mago que estuda e trabalha, não um cara normal que estuda, trabalha e faz um pouco de magia nas horas vagas”, como Veos diz. O praticante deve se estabelecer firmemente como um mago aspirante, que está destinado à mais elevadas alturas e poderes espirituais – um mago que não deixa o mundo ao seu redor dominá-lo, mas que o domina com uma vontade de ferro. Pode-se até recitar uma pequena frase, logo após de acordar, ou uma prece reafirmando a si mesmo a importância do treinamento e as recompensas possíveis.

Outra boa maneira de manter esse estado mental seria decorar o local de trabalho ou descanso com fotos, imagens ou objetos que lhe lembrem constantemente as suas práticas. Você deve posicionar esses objetos de modo a serem frequentemente notados em sua rotina diária. Isso seria ideal se você tivesse um quarto ou lugar visitado apenas por você mesmo. Caso a sua família não apoie ou acredite nas suas práticas, seria melhor não exibir tais objetos à vista de todos os membros da sua casa. Pensamentos desfavoráveis de outros podem negativar as suas práticas e desacelerar o seu progresso. É por esse mesmo princípio que Bardon recomendou, em seu segundo livro, que o mago, quando estiver praticando a evocação mágica, esconda da vista dos “profanos” (pessoas que não são adeptos ou pessoas que não acreditam ou combatem a magia) os seus instrumentos e vestes, de modo a não serem influenciados negativamente.

Ao mesmo tempo, se atividades de lazer (Internet, filmes, jogos, música etc.) atrapalharem com a sua motivação de praticar magia ou até mesmo subjugá-la, você deve reduzir ou cortar tais hábitos de modo que eles não interfiram mais e você possa continuar a praticar.

2. COMECE POR BAIXO

Os resultados dos exercícios místicos podem ser demorados e difíceis. Algumas escolas e ordens colocam exercícios difíceis cedo para poder separar aqueles que querem “brincar de magia” daqueles estudantes sérios. Você se confrontará com muitas coisas que vão contra o seu atual estilo de vida e precisa se acostumar a elas de forma natural, sem correria. Se você praticar durante longos períodos de tempo logo do início, não importando a sua vontade e motivação, é mais provável que você se canse e desista.“É preciso aprender a andar antes de correr”, diz o ditado.

Utilize tempos de práticas pequenos e aumente lentamente a cada semana, a fim de que você possa estabelecer o hábito e se acostumar à rotina. Dessa maneira, terá muito mais chances de ter sucesso com o passar do tempo.

Algumas coisas interessantes a se fazer neste ponto são:

Obter um caderno ou computador no qual anotará diariamente as práticas. Sempre anote os resultados de suas práticas em grande detalhe. Sinta-se como um cientista entusiasmado que quer manter um registro completo de suas experiências – e na verdade é isso mesmo que você é. A única diferença é que você está fazendo experiências em si mesmo. Só com esse registro completo você saberá onde está melhorando ou piorando, se está praticando demais ou de menos, e o que fazer para consertar problemas na sua prática.

Conseguir um japa mala ou um cordão de nós, preferivelmente de 108 contas. Você usará esse cordão tanto para o japa quanto para manter o registro das suas interrupções nos exercícios, ou, se preferir, compre ou monte dois, um para cada coisa. Se não conseguir, um terço poderia ser adaptado.

Conseguir um relógio ou um celular que possua despertador ou alarme – o último é preferível, e, se possível, o celular não deveria ter um alarme alto ou inconveniente. Eu uso na minha prática um Nokia que desperta usando não o som, mas apenas a sua vibração – que, se colocado no chão ou uma mesinha próxima, produz barulho na medida certa para me fazer abrir os olhos e parar meu exercício. Para fazer o celular despertar apenas com vibração, sem som, tente mexer nas configurações do celular ou fazer download de um arquivo de som que seja completamente silencioso. No caso do Nokia, o celular vibra mesmo se o arquivo sendo tocado como alarme não tenha som e isso funciona muito bem.

Montar o cronograma da semana. Estabeleça os horários de suas práticas. De preferência, divida as práticas em duas sessões distintas – uma de manhã, logo após acordar e outra à noite, antes de dormir. Esse cenário seria o melhor, porque distribui melhor as práticas e não cansa tanto o estudante quanto uma longa prática uma vez só ao dia. Casos excepcionais deverão ser adaptados.

Pratique todo dia na mesma hora. Isso estabelece o hábito e o circuito magnético do treinamento mágico.

Alguns horários são especiais. Não pratique das 13h às 15h quando possível, porque a energia desse período do dia não é ótima. Faça o treinamento ao nascer do sol, pôr do sol ou meia-noite. De 1h às 3h é particularmente bom, bem como 3h às 5h (aos que estudam Yoga, lembrem-se da importância de praticar às 4h particularmente). Em noites de lua cheia, treine à luz da lua. A Fraternidade Branca lhe enviará energia para lhe ajudar. Gaste 15 a 30 minutos na luz do sol todos os dias, preferivelmente enquanto treina.

3. APRIMORE-SE

Eu disse antes que magos controlam o mundo ao seu redor. Por que não começar na sua vida diária, que é a mais próxima a você? Existem decisões simples que você pode tomar que podem mudar não só a visão e o impacto de sua atuação no mundo, mas também a visão que as outras pessoas têm sobre você. Eu enumerei várias coisas:

Como e o quanto você fala. Investigue o conteúdo e quantidade da sua fala (se tem expressões chulas ou inúteis, se você conversa muito ou pouco demais etc.). Preste atenção também na tonalidade da sua voz. Já encontrou alguém que fala de jeito arrastado, insolente ou preguiçoso? Você pode ser uma dessas pessoas, mas pode nem perceber. Fale sempre com uma voz firme, segura, e fale apenas o que for necessário. Não fale mal de outras pessoas, nem expresse sua opinião quando não for perguntado. Diminua ou, o que é melhor, elimine as críticas negativas sobre as coisas ao seu redor. Tente falar sobre coisas boas e interessantes, e não sobre coisas negativas e mal-feitas. Sempre fale sobre coisas e histórias proveitosas. Controle-se para não doutrinar ninguém e passar a sua opinião como se ela fosse a verdadeira e absoluta.

Sua postura, seja em pé, sentado ou deitado. Esforce-se para manter a coluna reta em todas as situações, seja em pé ou sentado. Pesquise no Google como dormir na posição certa – geralmente a posição de lado, com um travesseiro entre as pernas, é a mais correta – e reeduque-se para não ter problemas de coluna mais tarde. Além disso, uma pessoa com um porte reto e imponente causa uma impressão muito melhor do que alguém todo encolhido e torto.

Tenha uma forte atenção e seja perfeccionista. Ao fazer as suas tarefas diárias, tanto na casa quanto na escola, concentre toda a sua energia mental e atenção para elas. Isso fará com que você faça as coisas muito mais rapida e eficientemente, e, além disso, de forma muito mais perfeita. Esforce-se para ser o melhor em tudo que se propor fazer. Um mago não deve ser preguiçoso nem descuidado. Fique sempre alerta! Não permita a sua mente viajar em pensamentos inúteis. Adote uma agenda para anotar os seus compromissos de modo que você não precise pensar constantemente neles. Evite ao máximo o uso de fones de ouvido e música, porque essas músicas grudam no fundo da sua mente, atrapalhando as suas práticas. Permita-se raramente exceções a essa regra, é claro.

Atente para a sua alimentação. Leia no Google noções básicas de nutrição e faça um plano alimentar balanceado para você. De preferência, neste caso, procure um nutricionista. Se você não controlar o que entra na sua cozinha, tome suplementos vitamínicos – Centrum é uma boa escolha até mesmo para as pessoas que tenham uma alimentação balanceada. Centrum não precisa de receita e oferece todas as vitaminas necessárias no dia-a-dia. Se possível na sua região, busque informações sobre o melhor suplemento alimentar para você com o seu nutricionista ou farmacêutico. Fora de casa, tente comer coisas mais saudáveis, como sanduíches naturais, saladas etc.

Faça atividades físicas. Segundo o Centers for Disease Control and Prevention, um centro de saúde ligado ao governo americano, adultos precisam de pelo menos 150 minutos de uma atividade aeróbica de intensidade moderada (por exemplo, caminhada) por semana e atividades de fortalecimento de músculos em 2 ou mais dias por semana que trabalhem em todos os grupos maiores de músculos (pernas, quadris, costas, abdômen, peito, ombros e braços). Os efeitos da atividade física na vida diária não precisam nem ser enumerados, porque são evidentes a todos.

Modere o consumo de carne vermelha. Carne vermelha (bovina e suína) é destrutiva para o seu corpo, é ruim para o meio ambiente, uma injustiça quanto aos animais (que, segundo algumas doutrinas, são tão filhos de Deus quanto nós, mas em estados diferentes de evolução) e ela atrapalha até mesmo suas práticas espirituais, tornando o progresso muito devagar. Animais com carne vermelha são de inteligência mais elevada e, portanto, capazes de expressar uma profundidade mais intensa de emoção que impregnará sua carne. Essa energia emocional se transfere para você depois da refeição. Lembre-se sempre, o segredo está na moderação. Evite carne vermelha ao máximo que a sua saúde permitir. Se você come carne, coma primariamente aves e peixes que eram selvagens ou mantidos em fazendas de uma forma boa e saudável sem química, e com boas condições de vida. Não evite a carne simplesmente pelo idealismo. Os corpos de algumas pessoas simplesmente precisam de carne para manterem uma boa saúde. Se você deseja ser vegetariano, mas sê-lo o afeta negativamente, então espere até que esteja mais avançado no seu treinamento para gradualmente retirar a carne. Resumindo, o segredo é a moderação.

Pare de fumar e de beber. Além de serem hábitos destrutivos, eles também desaceleram o seu progresso nas práticas espirituais. Se você não conseguir parar imediatamente, pare pouco a pouco, através de etapas. Busque na Internet métodos para parar de fumar ou de beber, ou procure ajuda em instituições para esse fim. No caso das bebidas alcoólicas, novamente digo que o segredo está na moderação.

Controle a atividade sexual. Quando em uma relação estável e monogâmica, o sexo deve ser controlado. Uma ou duas vezes por semana é um bom número. O celibato também é uma boa opção. A masturbação e a autoestimulação sexual devem ser totalmente proibidas para quem deseja obter um sucesso mais rápido e completo. O sexo pode constituir um vício tanto quanto as outras coisas, e portanto as regras de parar pouco a pouco aplicam-se aqui também. Repetindo novamente, o segredo está na moderação.

Seja uma pessoa culta. Os magos desta ciência devem aspirar sempre à perfeição – o intelecto também está na lista. Tente obter um conhecimento geral das ciências materiais, da história, literatura, artes e espiritualidade (incluindo os sistemas religiosos do mundo). Para saber como o meio acadêmico trata da magia e da espiritualidade, seria interessante ler sobre a Antropologia da Religião (ou Religiosa). A maioria das pessoas sai do Ensino Fundamental e Ensino Médio e esquece totalmente de tudo que aprendeu. Claro, coisas são ensinadas que não têm nenhum valor prático para grande parte das pessoas, como fórmulas e teorias complexas da Física, Matemática e Química, mas é útil manter pelo menos um conhecimento geral sobre essas ciências. Tudo isso é facilmente acessível hoje através da Internet, ainda mais se você souber inglês – o que nos leva ao próximo tópico.

Aprenda pelo menos uma língua estrangeira. Se você quiser aprender uma língua estrangeira, aprenda o inglês. Isso vai lhe abrir um campo extremamente grande de informação sobre tudo que você desejar saber. Grande parte do conhecimento do mundo está disponível ou traduzido para o inglês. Além disso, você poderá se comunicar com muito mais pessoas ao redor do mundo e isso será muito útil em possíveis viagens para o exterior. Inglês é, definitivamente, uma língua mais fácil que o português brasileiro – o vocabulário é extenso e a pronúncia desafiadora no começo, mas quando você aprender as palavras mais usadas os textos se abrirão pra você e você será capaz de compreendê-los. Existem muitos cursos por aí, mas para a pessoa sem tempo nem dinheiro, eu aconselho o seguinte: Baixe o programa Rosetta Stone. Esse programa de aprendizado de línguas é fantástico. Contudo, apesar de ajudar imensamente, ele não é tudo. Além de fazer lições do Rosetta sempre que puder, traduza textos do seu interesse para o português – o seu vocabulário vai aumentar imensamente e você ganhará fluência muito mais rapidamente. Na Internet tudo pode ser feito fácil e sem pagar absolutamente nada. Quando você tiver bastante fluente no inglês, você ficará impressionado com a quantidade de conteúdo que vai ser capaz de absorver, sem contar que a maioria dos livros de esoterismo e magia está em inglês. Só quando ganhar fluência no inglês, prossiga para outras línguas, se tiver o interesse de se tornar poliglota.

Controle o que você aprende pela Internet. É fácil se engajar em assuntos fúteis, discussões que chegam a lugar algum e conhecimentos inúteis caso você não tenha discernimento disso. Passe a fazer o tempo que você passa na frente do computador um pouco mais instrutivo de agora em diante.

Humildade. Quando estudantes brigam entre si, não há vencedor. O vitorioso é aquele que humildemente se desculpa em nome da harmonia do grupo. Não se vanglorie, ou diminua outrem.

Não faça nada em excesso. Até praticar em excesso (6 ou mais horas por dia) é prejudicial no começo. De todas as coisas que podem ser feitas em excesso, as mais prejudiciais são comer, dormir e desperdício de energia sexual.

Não se associe demais com pessoas negativas. Se o ambiente do seu trabalho é negativo, é altamente aconselhável obter um novo emprego (quando possível) para o bem do seu treinamento. Não gaste tempo demais com amigos que seguem um caminho contrário ao progresso espiritual, porque eles são grandes tentadores. Preciso repetir sobre moderação? Se você precisar treinar depois de um longo dia de trabalho ou após estar com pessoas negativas, tome um banho frio primeiro e visualize a negatividade saindo de você na medida em que se lava. O treinamento será melhor. Um banho de banheira é melhor que o de chuveiro para esse objetivo.

Nunca profane objetos ou nomes sagrados. Nunca profane outra religião. Não discrimine entre religiões.

Reze ao acordar e antes de dormir.

Pratique o distanciamento ou desapego. O “distanciamento” ocorre quando o estudante se distancia das coisas materiais e passa a observá-las como elas realmente são: transitórias. Quando os sentidos desejam algo, vitalidade preciosa é gasta.

Não se preocupe demais sobre as coisas. Ansiedade e nervosismo gastam energia preciosa.

Não pense mal dos outros.

Sempre execute suas tarefas. Não renuncie, pensando secretamente que é o caminho fácil enquanto proclama externamente que é o mais difícil.

Tenha fé no Deus de seu coração e de sua compreensão e no treinamento mágico.

Pratique amor e compaixão.

Não se veja como melhor do que o próximo simplesmente por causa do seu treinamento. Desenvolva a compaixão àqueles que não têm a Teurgia ou outro caminho em direção à Deus.

Pratique a abnegação.

4. EXERCITE O SILÊNCIO SEMPRE!

“Quanto mais [o mago] se calar sobre as próprias experiências e conhecimentos, sem se isolar das outras pessoas, tanto mais poderes ele obterá da fonte primordial.” – Franz Bardon, CVA

No tópico 1, falamos do efeito negativo que parentes e amigos podem ocasionar em nossas práticas caso sejam desfavoráveis ou descrentes quanto ao caminho que estamos trilhando. A primeira e mais essencial maneira de evitar esse efeito é não dizer absolutamente nada aos seus pais, seus membros da família ou até mesmo seus melhores amigos sobre a sua prática na magia. Eu posso falar da minha própria experiência, e posso dizer qual será a reação deles em 99,9% dos casos quando você os contar:

1) Eles não acreditarão em magia e, consequentemente…

2) … Se você for jovem, dirão que é uma “fase”. Se for mais velho, acharão que você é um imbecil por acreditar nisso. Em alguns casos, eles vão achar ambas as coisas.

3) Não lhe apoiarão, mesmo que você tente explicar que a magia na verdade é uma ciência divina e válida tanto quanto as outras religiões. Não importa o quanto você escreva, fale ou mostre a eles, não espere que eles entendam ou aceitem o que você diz. Não fique com falsas esperanças de que eles vão aceitar o que você diz, porque eles NÃO VÃO. Não importa o que você disser, e isso é a coisa mais verdadeira de todas, os seus amigos e parentes sempre estarão certos de suas opiniões, geralmente infectadas não pela pesquisa ou estudo deles próprios sobre o que você diz, mas por preconceito, ignorância e (até mesmo) de materialismo. Em alguns casos, eles podem até não dizer nada sobre isso, como se aceitassem calados, mas na menor oportunidade vão mostrar o quanto eles não acreditam nem lhe apoiam.

4) O que é pior, eles poderão rir de você quando ouvirem você dizer alguma coisa sobre o assunto. Imagine todos na sua família, na hora do almoço aos domingos, vão discutir sobre o “bobo” e nas “bobeiras” que ele diz. Dependendo de como você reage a isso, você pode quebrar laços e piorar a sua relação com eles.

Nos casos mais extremos, de pais de religiões cristãs como o Catolicismo e o Protestantismo, pode acontecer o seguinte:

5) Eles proibirão você de fazer essas coisas e passarão a vigiá-lo mais de perto. Talvez até lhe mandem confessar isso num padre ou chamarão uma “autoridade de religião” para conversar ou consertar o seu problema à força.

É por isso que digo que é melhor você deixar a sua prática para si mesmo. O melhor seria se manter totalmente calado e, se eles descobrirem acidentalmente, diga que é apenas uma espécie de prece ou de meditação bem simples. Planeje as suas práticas de modo que eles não percebam o que você está praticando exatamente. Tranque sempre a porta do seu local de prática e pratique em horários em que eles estejam fora ou dormindo, se possível.

É evidente o impacto negativo que as opiniões e sensações de outras pessoas podem causar em suas práticas. Esse impacto ocorre invisivelmente, sem mesmo a consciência deles próprios, e de repente você não está conseguindo progredir nem mais um milímetro na sua prática. É por isso que Bardon adverte sobre isso em seu livro. A humanidade ainda não está pronta para aceitar certas verdades – segundo Emil Stejnar, o próprio Bardon dizia constantemente que tinha escrito O Caminho do Verdadeiro Adepto 600 anos mais cedo do que deveria. Seria melhor confiarmos no que o mestre diz em sua obra do que acreditarmos em nossas falsas (e ingênuas) esperanças.

5. PREMIE-SE E PUNA-SE

Uma outra prática que pode lhe ajudar seria um sistema de auto-recompensa pelo seu esforço na magia. Parece irônico, mas o mundo material pode lhe ajudar no começo a manter sua perseverança. Escolha algo que você goste muito de fazer ou de ter e prometa a si mesmo que, se você continuar a praticar por um período determinado, vai se dar o que você tanto deseja.

Ao mesmo tempo, também obrigue-se a passar por certas “provações” caso a sua determinação diminua. A sua própria personalidade lhe dirá do que você gosta ou desgosta, e assim você pode criar punições e recompensas de acordo.

Por fim, “o discípulo deve ser mais rápido em escutar do que o Mestre em falar.” (Hermes)

Esta lista poderia continuar por um bom tempo, mas eu acho que esses são bons pontos básicos para ajudar a assegurar o progresso espiritual.

EU TENHO QUE PARAR DE FUMAR, BEBER, COMER CARNE OU FAZER SEXO?

Não, você não TEM que fazer nada. Mas, se você quiser ter sucesso no trabalho inicial é aconselhável que você temporariamente elimine todas as substâncias que afetem a mente. Essas substâncias ficam na sua corrente sanguínea por períodos estendidos de tempo e vão agir no controle que você tem de mentalizar. A ideia de uma iniciação mágica é que você deve aprender como alcançar os estados alterados equivalentes, espontaneamente e sem precisar de um apoio artificial. O mago bem treinado pode ter qualquer estado que uma droga pode induzir – e controlar a natureza e a duração da experiência.

Uma vez que você tenha dominado a sua própria mente, não há razão pela qual você não possa conceder-se a estados mentais alterados e prazerosos com moderação. Normalmente, o único problema é se o estado mental alterado interfere com sua prática mágica. Com a atenção com o tempo, isso pode ser abolido.

No que diz respeito a desistir de toda a expressão sexual, isso não é nem necessário nem aconselhável a longo período para o mago que procura por equilíbrio. A abstinência sexual produz desequilíbrio. Invocar esse certo tipo de desequilíbrio pode, algumas vezes, ser útil para o mago avançado, mas apenas por períodos de curta duração e para tarefas muito específicas. Se você tem o que agora é chamado de “vício sexual”, então uma abstinência temporária pode ser um componente auxiliar de sua recuperação. Mas, sozinha, a negação não resolve um vício – o indivíduo tem de alcançar a raiz de um vício e trabalhar nele por dentro E por fora.

Sobre ser vegetariano. Na melhor das hipóteses, é uma boa ideia, se seu corpo se sente confortável comendo apenas uma dieta vegetariana e você se sente confortável ao preparar apenas refeições vegetarianas. Mas não é obrigatório. Os benefícios em potencial à saúde de uma pessoa são inegáveis, mas isso não é uma parte essencial ao se aprender magia. Alguns autores até recomendam que o vegetarianismo apenas aconteça em curtos períodos de tempo.

O que é muito mais importante é comer uma dieta bem balanceada. Basta uma dieta que forneça ao seu corpo os nutrientes e fontes de energia que ele precisa. Tente evitar comer em excesso ou pouco demais.

#Exercícios #hermetismo #MagiaPrática

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/conselhos-para-iniciantes-no-caminho

Como a religião mata Deus

“A pergunta diante de tudo e de todas as coisas, ‘Você quer isto mais uma vez e incontáveis vezes?’”
– Nietzsche

“Em geral, chamamos de destino as asneiras que cometemos.“
– Schopenhauer

E somos todos crianças do Iluminismo, netos, bisnetos e tataranetos do Século das Luzes, um nome que deixa claro que a idade das trevas, da ignorância – a Idade Média – não apenas ficou para trás mas foi Iluminada, deixando de existir. E com ela toda a ignorância e superstição, a mitologia que se contrapunha a razão foram, ou começaram a ser, erradicadas.

A filosofia de fins do século XIX pareceu pregar o último prego no caixão do cristianismo na figura do – tão propriamente apelidado – Martelo de Bigodes, que deu sentença última ao cristianismo escrevendo em seu O Anticristo que “O Evangelho morreu na cruz”.

A biologia não ficou para trás neste apedrejamento digno da Bíblia, afirmou que o homem não havia sido criado mas sim evoluído, como todos os outros animais. Em Dawkins Darwin encontrou a pedra sobre a qual sua igreja foi edificada, o papa transviado do ateísmo.

Cada nova década trazia evidências observadas em microscópios eletrônicos e confirmadas por cálculos matemáticos que os mitos primitivos de nossos antepassados não passavam de coisas vãs, tentativas simplórias de pessoas rústicas para explicar o desconhecido mundo que as continha. E hoje religião, especialmente a cristã e a islâmica, se tornam sinônimos de crenças desesperadas de se acreditar no inacreditável, no invisível e no impossível com o objetivo de fazer o crente se sentir, ao menos, importante – já que um ser onipotente se preocupa em lhe ouvir as preces (e quiçá realizá-las).

Mas qualquer pessoa que deixe este novo orgulho cientifista, tão grande e amargo quanto o orgulho religioso, logo percebe que o Iluminismo não foi o remédio contra a doença da beatitude e sim o resultado inevitável dela.

Por anos a Igreja não apenas coletou e guardou o conhecimento como o distribuiu de maneira cada vez mais eficiente pela europa. Todos os astros do Iluminismo foram educados pela igreja e todo ícone pop da época era devoto – mesmo que tentemos fingir não se passar de um teatro para não atrair a fúria romana. A ciência e filosofia, assim como a matemática e a música existem hoje por causa da igreja e do catolicismo e seus cismas.

E para aqueles que acreditam que caminhamos a um futuro onde a ciência prove que Deus não existe, nos livrando de um onipresente e severo Juiz que a cada ato nosso está atento, pensem novamente. Esta época que vivemos não é a primeira – e provavelmente nem será a última – a tentar sepultar um ou vários Deuses. Como pragas eles sempre voltam a nos atormentar.

Toda a cultura ocidental que existe hoje nasceu na Grécia antiga, e então – como um vírus – chegou a Roma e então se espalhou pela europa como uma praga.

Na Grécia antiga o mito não era visto como uma mera representação, uma fábula ou parábola. Mitos tinham o peso da lei, da moral e dos costumes. Os gregos caminhavam lentamente para fora de sua pré-história e esse mitos eram passados de geração a geração, de povoado a povoado de forma oral graças a poetas ou bardos.

Quando o mito era reduzido a uma obra de arte (uma canção ou poesia, por exemplo) ocorre uma cristalização: o que antes vivia em variantes começa a se tornar um cânon, sua diversidade e seus nuances começam a se transmutar em uma versão oficial aceita por todos. Claro que esse cânon não surgia apenas da mente do poeta, a variante apresentada por um vate de prestígio impunha-se à consciência pública e se tornava, com o devido tempo, o mito canônico que atravessava e educava gerações.

E desta forma poetas e artistas recolhiam várias crenças espalhadas por ilhas e continentes e as compilavam, destilavam e usavam de sua arte e engenho para criar algo mais próximo do real – sempre inspirado por musas que lhe faziam cantar a Verdade.

Mas essas não foram as únicas alterações que essas verdades coletivas sofreram, por mais que poetas e artistas reduzissem e recriassem os mitos de acordo com as novas exigências estéticas e artísticas, eles as aceitavam e as mantinham.

O pensamento racional, ao contrário do que muitos pensam, não é um modismo atual e contemporâneo. Na época pré-Socrática muitos pensadores tentaram encarar com visão crítica os mitos e por consequência os desmitizar e dessacralizar em nome do lógos – a razão.

Mircea Eliade afirmou que: “Em nenhuma outra parte vemos, como na Grécia, o mito inspirar e guiar não só a poesia épica, a tragédia e a comédia, mas também as artes plásticas; por outro lado, a cultura grega foi a única a submeter o mito a uma longa e penetrante análise, da qual ele saiu radicalmente ‘desmitizado’. A ascensão do racionalismo jônico coincide com uma crítica cada vez mais corrosiva da mitologia ‘clássica’, tal qual é expressa nas obras de Homero e Hesíodo. Se em todas as línguas européias o vocábulo ‘mito’ denota uma ‘ficção’, é porque os gregos o proclamaram há vinte e cinco séculos”.

O que primeiro despertou a atenção dos pensadores Jônicos não foi a essência do mito em si, mas as atitudes e a moral dos Deuses. Xenófanes (576-480 a.C.) já dizia que um Deus verdadeiro jamais poderia ser concebido como injusto, vingativo, adúltero e ciumento.

“No dizer de Homero e de Hesíodo os deuses fazem tudo quanto os homens considerariam vergonhoso: adultério, roubo, trapaças mútuas” (Frgs. B11, B12). Repele a concepção de que os deuses tenham tido um princípio e se assemelhem aos homens: “Mas os mortais acreditam que os deuses nasceram, que usam indumentária e que, como eles, têm uma linguagem e um corpo” (Frg. B14). O antropomorfismo, iniciado com Homero e aperfeiçoado por Hesíodo, é violentamente censurado: “Se os bois, os cavalos e os leões tivessem mãos e pudessem, com suas mãos, pintar e produzir as obras que os homens realizam, os cavalos pintariam figuras de deuses semelhantes a cavalos, os bois semelhantes a bois e a eles atribuiriam os corpos que eles próprios têm” (Frg. B15).

E isso não era afirmar que Xenófanes fosse algum tipo de primeiro ateu, seus pensamentos eram muito mais sérios – e sacros:

“Há um deus acima de todos os deuses e homens: nem sua forma nem seu pensamento se assemelham aos dos mortais” (Frg. B23).

As críticas dos nacionalistas cresciam e se tornavam mais poderosas e Demócrito (520-440a.C.) acertou no caixão dos Mitos um prego talvez mais poderoso que o de Nietzsche mais de dois mil anos depois. O filósofo de Abdera afirma que tudo o que existe é a manifestação do choque entre partículas indivisíveis: os átomos.

“Por necessidade da natureza, os átomos movem-se no vácuo infinito com movimento retilíneo de cima para baixo e com desigual velocidade. Daí entrechoques atômicos e formação de imensos vórtices ou turbilhões de que se originam os mundos”

Assim tudo o que existia, fosse o objeto mais concreto – como uma rocha – ou o mais sútil – o ar, a alma, os deuses – está inevitavelmente sujeito à Lei da Morte.

E quanta gente não acha que a ciência de hoje é que foi a responsável pelo funeral dos deuses.

Demócrito pôs em xeque não a moralidade ou a humanização dos deuses, mas algo mais fundamental: por um lado afirmava que os deuses vulgares e a mitologia nasceram da fantasia popular e por outro, embora não descartando a existência de deuses reais, “Superiores”, os sujeitava à Lei funesta: “Deus verdadeiro e natureza imortal não existem”. Era a imortalidade que ele matava.

Na esteira de Demócrito outros vieram.

Píndaro (521-441a.C.) – um dos maiores e mais religiosos poetas de Helade – começou a filtrar o mito. Para ele todas as variantes de um mitologema tem como origem um único mito verdadeiro, todo o resto são devaneios estéticos criação de poetas.

“O mundo está repleto de maravilhas e, não raro, as afirmativas dos mortais vão além da verdade; mitos, ornamentados de hábeis ficções, nos iludem. .. As Graças, a quem os mortais devem tudo quanto os seduz, tributam-lhes honras e, as mais das vezes, fazem-nos crer no incrível!” … “O homem não deve atribuir aos deuses a não ser belas ações. Este é o caminho mais seguro”.

Os deuses deveriam apenas nos mostrar o correto, e para isso o maior dos líricos da Grécia truncou, moldou, cortou, e alterou mitos para que se tornassem espelhos de suas exigências morais.

E não foi o único grande nome a fazer isso. Esquilo (525-456 a.C.) destilou do mito apenas seus aspectos sadio. Junito Brandão de Souza, em seu Teatro Grego, Origem e Evolução, afirma “O dever do poeta, diz Ésquilo a respeito do mito de Fedra, é ocultar o vício, não propagá-lo e trazê-lo à cena. Com efeito, se para as crianças o educador modelo é o professor, para os jovens o são os poetas. Temos o dever imperioso de dizer somente coisas honestas”.

Eurípides (480-406 a.C.) foi outro gigante que trilhou pela senda de Xenófanes.

Outro ponto interessante que serviu como ir minguando o poder dos antigos deuses foi a politização! Veja, Atenas, a acrópole, se tornou o centro do mundo que era a Grécia e logo os mitos, quase todos, passam a sofrer de uma deslocação fazendo com que acabassem passando, em um momento ou outro, pela cidade. As peregrinações dos heróis os levam a Atenas, o desejo de defender a hegemonia política ateniense faz com que seus poetas começam a tomar certas liberdades criativas com certos mitos, incluindo neles genealogias duvidosas, dando à cidadela importantes fatos históricos que deformavam a cronologia de acontecimentos míticos ao mesmo tempo que denegriam heróis e feitos das cidades vizinhas e concorrentes. Admeto da Tessália, Édipo de Tebas, Adrasto de Sicione, Orestes de Argos… a lista dos que desfilaram pelas ruas atenienses é enorme.

O século V a.C. viu o desabrochar de ilustres discípulos da crítica racionalista. Tucidides (460-395 a.C.) – ao contrário de Heródoto (480-425 a.C.) – o pai dos historiadores – expulsa os deuses de sua História da Guerra do Peloponeso, foi ele o responsável por transformar o adjetivo mythôdes, que tem por significado aquilo que é “semelhante ao mito”, em sinônimo de “fabuloso”.

Assim os sofistas, tomando partido das condições políticas e sociais, abalaram os nervos da pólis, tirando vantagem da senda aberta a golpes de machete pela ceticismo, varrendo todo o conceito de mito da mente de seus jovens discípulos.

E assim ao chegarmos ao século IV a.C. os deuses e deusas do passado não passam a ser compreendidos como alegorias ou tentativas de explicar o processo de apoteose de homens ilustres. Eles não eram mais verdadeiros mas sim suposições com significações ocultas. Outrora deuses passam a ser meros fenômenos naturais e suas leis e histórias mera poesia e entretenimento.

Mas os deuses não permanecem mortos novamente, com o império romano voltaram, e novamente foram enterrados pelo ceticismo até que o império ruísse e um novo Deus surgisse, tão real e palpável quanto as catedrais que erigiam em sua homenagem.

O que muitos não percebem ao chegar a este ponto é que não era a razão científica que atirava pedras nas divindades, rotulando-as de superstições, era homens de religião que tentavam se aproximar de uma Divindade insondável que tentavam se livrar das alegorias humanas, criadas por humanos para tentar compreendê-los. Ao questionar que Deus não podia ser onipotente e onipresente, não levantavam dúvidas a respeito de sua existência, mas o despiam de conceitos humanos, tentando enxergar mais longe além do véu.

Não pense agora que nossa ciência e inteligência hodiernas serão o fim daquilo que tão orgulhosamente consideramos ser apenas mitos, estórias e metáforas. Ela apenas se apoia de forma capenga e não criativa em questionamentos filosóficos que os papagaios que os repetem sequer compreendem. Estamos, enquanto sociedade iluminada, apenas usando o conhecimento que recebemos dos sacerdotes e crentes de uma divindade para solapar seu Deus. Tal qual Cronos fez com seu pai Urano e Zeus fez com seu pai Cronos. Da mesma maneira que incontáveis “homens da razão” fizeram antes de nós com a mesma convicção que os mais notórios biólogos que a mídia nos trazem tem.

E encerro apenas com o lembrete quase profético que o poeta John Donne escreveu, inspirado talvez pelas mesmas musas que inspiraram Hesíodo e Homero, em 1609 e que talvez a muitos fãs de Howard Phillips Lovecraft pareça familiar:

“Após curto sono, acorda eterno o que jaz,
E a morte já não é; morte, tu morrerás.”

 

 

 

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/como-a-religiao-mata-deus/

Carta a um Maçom

Rio de Janeiro, 9 de julho de 1963.

Caro Dr. G.:

Faze o que tu queres há de saer tudo da Lei.

Li, com maior prazer, a entrevista concedida ao Diário de Notícias, através da qual o Grande Oriente do Brasil manifesta à nação a sua intenção de, finalmente, fazer com que a Maçonaria venha a ocupar na vida brasileira o papel que lhe cabe e sempre lhe coube desde a Independência – que, como todos sabemos, foi feita por maçons.

Relembrei nessa ocasião minha conversa com o senhor, e as nossas palavras de despedida, nas quais buscou o senhor gentilmente trazer à minha atenção o fato de que (na sua opinião) a Igreja Católica Romana é uma boa introdução à vida adulta para crianças. Eu lhe disse então: “Mas a Maçonaria é infinitamente melhor”, e aproveito esta oportunidade para repetir e ampliar estas palavras.

Eu não quis discutir a validade ou falta de validade da Igreja Romana como campo de treino para crianças, porque não é assunto que se possa, propriamente, discutir. É assunto que deve — repito, deve – – ser pesquisado por todo homem consciencioso e responsável, principalmente por maçon de alto grau e no Brasil, onde essa Igreja teve tanta influência na formação psíquica do povo — com os resultados que estamos vendo no presente.

Para esta pesquisa, vitalmente necessária a todos os maçons neste momento de transição, é necessário uma análise cuidadosa da evidência espalhada pelas obras de muitos pesquisadores imparciais e fidedignos; e isto não pode ser resumido numa breve discussão. Eu estou a par dos fatos; o senhor não estava, na ocasião; e afirmativas de minha parte teriam forçosamente de parecer ao senhor opiniões arbitrárias e caprichosas, principalmente por o senhor, com certeza, suspeitar de mim e de minhas intenções. Thelemitas não são mais benquistos no momento do que o foram os gnósticos e os essênios em seu tempo! A finalidade desta carta é expor, de maneira mais ordeira e clara, minhas conclusões, e citar as obras nas quais me baseio; de forma que o senhor possa, se quiser, consulta-las e tirar suas próprias conclusões, que podem ou não virem a coincidir com as minhas. Peço-lhe apenas que, tendo lido a minha carta; examinado, se lhe aprouver, as fontes nela citadas; e chegado, porventura, à conclusão de que são ambas de valor a seus irmãos maçons, transmita-lhes a carta assim como as fontes, para que, por sua vez, tenham a oportunidade de examinar, ponderar, e julgar.

Devo começar por repetir-lhe o que lhe disse por ocasião de nossa conversa, e que tanto chocou seus bons sentimentos e sua honesta devoção: que o homem chamado “Jesus Cristo” nos Evangelhos nunca existiu. Suas peripécias são fictícias; não padeceu sob nenhum Pôncio Pilatos; não foi nem poderia jamais ser a única Encarnação do Verbo; e qualquer Igreja, seita ou pessoa que diga o contrário ou está enganada ou enganando. Não quero dizer com isto que um homem assim não pudesse ter nascido, pregado, e padecido. Pelo contrário: tais homens nascem continuamente, e continuarão a nascer por todos os tempos: Encarnações do Logos, Templos do Espírito Santo, Cruzes de Matéria coroadas pela chama do Espírito.

Direi mais: houve, em certa ocasião, um homem que alcançou no mais alto grau a consciência de sua própria Divindade; e este homem morreu em circunstâncias análogas (porém não idênticas!) àquelas narradas nos Evangelhos. Seu nascimento perdeu-se na noite dos tempos: ele foi o original do “Enforcado” ou “sacrificado” no Taro, e os egípcios o conheciam pelo nome de Osiris. Foi esse Iniciado quem formulou na carne a fórmula do Deus Sacrificado. Esta é a fórmula da Cerimônia da Morte de Asar na Pirâmide, que foi reproduzida nos mistérios de fraternidades maçônicas da tradição de Hiram, das quais o exemplo mais perfeito foi o Antigo e Aceito Rito Escocês. O Graus 33º desse rito indicava uma Encarnação do Logos; a descida do espírito Santo; a manifestação, na carne, de um Cristo; a presença do Deus Vivo.

Para os fatos que servem de base às asserções acima, indico ao senhor as seguintes obras, de maçons ilustres e merecedores:

LA MISA Y SUS MISTERIOS, de J.M. Ragón.

THE ARCANE SCHOOLS, de John Yarker.

DO SEXO À DIVINDADE, do Dr. Jorge Adoum.

CURSO FILOSÓFICO DE LAS INICIACIONES ANTIGUAS Y MODERNAS, de J.M.Ragón.

ISIS DESVELADA, de Helena Blavatsky, seção sobre o Cristianismo. Mme Blavatsky não era dos vossos, mas era dos Nossos…

Na minha opinião, Dr. G., um maçon de alto grau, com tempo a seu dispor, faria um grande benefício a seus irmãos ao traduzir para o português as obras acima citadas, principalmente as duas primeiras.

Os documentos incluídos no assim-chamado “Novo Testamento” (a saber, os Quatro Evangelhos, os Atos, as Cartas e o Apocalipse) são falsificações perpetradas pelos patriarcas da Igreja Romana na época de Constantino, por eles chamado “o Grande” porque permitiu esta contrafação, colaborando com ela. Constantino não teve sonho algum de “In Hoc Signo Vinces”. Tais lendas são mentiras desavergonhadas inventadas pelos patriarcas romanos dos três séculos que se seguiram, durante os quais todos os documentos dos primórdios da assim- chamada “Era Cristã” existentes nos arquivos do Império Romano foram completamente alterados.

O que realmente aconteceu na época de Constantino foi que, aliados, os presbíteros de Roma e Alexandria, com a cumplicidade dos patriarcas das igrejas locais, dirigiram-se ao Imperador, fizeram-lhe ver que a religião oficial era seguida apenas por uma minoria de patrícios, que a quase totalidade da população do Império era cristão ( pertencendo às várias seitas e congregações das províncias ); que o Império se estava desintegrando devido à discrepância entre a fé do povo e a dos patrícios; que as investidas constantes das seitas guerreiras essênias da Palestina incitavam as províncias contra a autoridade de Roma; e que, resumindo, a única forma de Constantino conservar o Império seria aceitar a versão Romano-Alexandrina do Cristianismo. Então os bispos aconselhariam o povo a cooperar com ele; em troca, Constantino ajudaria os bispos a destruírem a influência de todas as outras seitas cristãs! Constantino aceitou este pacto político, tornando a versão romano- alexandrina de Cristianismo na religião oficial do Império.

Conseqüentemente, a liderança religiosa passou às mãos dos patriarcas romano-alexandrinos, que, auxiliados pelo exército do Imperador, começaram uma “purgação” bem nos moldes daquelas da Rússia moderna. Os cabeças das seitas cristãs independentes foram aprisionados; seus templos, interditados; e congregações inteiras foram sacrificadas nas arenas das províncias de Roma e Alexandria. Os gnósticos gregos, herdeiros dos Mistérios de Eleusis, foram acusados de práticas infames por padres castrados como Orígenes e Irineu (a castração era um método singular de preservar a castidade, derivado do culto de Atis, do qual se originou a psicologia romano-alexandrina). Os essênios foram condenados através do hábil truque de fazer dos judeus os vilões do Mistério da Paixão; e com a derrota e dispersão finais dos judeus pelos quatro cantos do Império, a Igreja Romano- Alexandrina respirou desafogada e pode dedicar-se completamente ao que tem sido sua especialidade desde então: ajudar os tiranos do mundo a escravizarem os homens livres.

Para o escrito acima, indico ao senhor os seguintes livros:

ISIS DESVELADA, de Blavatsky, seção sobre o Cristianismo OUTLINES ON THE ORIGIN OF DOGMA, de Adolf von Harnack.

DECLINE AND FALL OF THE ROMAN EMPIRE, de Gibbon.

THE AGE OF CONSTANTINE THE GREAT, de Burckhardt.

Quanto às falsificações da Igreja Romano-Alexandrina, indico ao senhor as palavras do grande erudito americano Moses Hadas, em suas notas à tradução do livro de Burckhardt, à página 367, que passo a traduzir:

“A História Augusta apresenta biografias de imperadores, cézares e usurpadores, de Afriano a Numério (117-284), com uma lacuna no período de 244 a 253. Pretende ser o trabalho de seis autores (Aelius Spartianus, Vulcacius Gallicanus, Aelius Lampridius, Julius Capitolinus, trebellius Pollius e Flavius Vopiscus), e ter sido escrita entre os reinados de Diocleciano e Constantino, ou cerca de 330. Alguns estudiosos creêm tais asserções verdadeiras, mas outros mantêm que a obra foi escrita um século mais tarde, e por uma só pessoa. Em tal caso o nome dos seis autores terá sido adicionado para tornar mais convincente o que foi escrito.

Trocando em miúdos, o que ele quer dizer é o seguinte: os patriarcas romanos, ansiosos por esconder seus crimes (especialmente a perseguição a cristãos de outras seitas ou igrejas) e por se declararem os únicos cristãos verdadeiros, destruíram todos os documentos autênticos nos quais conseguiram por as mãos. (Isto lhes era particularmente fácil já que, desde a era de Constantino, eles foram os guardiães de tais manuscritos.) Feito isto, substituíram os destruídos por outros, forjados, que descreviam a sua clique como oprimida pelos imperadores e outras seitas cristãs como inexistentes ou obscenas. (Na realidade, ela bajulara os imperadores desde o começo: o culto de Átis era o único em Roma ao qual os patrícios podiam ir legalmente.) Um pouco mais tarde, Romanos e Alexandrinos brigaram. Isto porque cada facção queria fazer de sua cidade o centro político e religioso do Império. Foi então que um dos poucos historiadores pagãos que escaparam à atenção dos Patriarcas escreveu: “As atrocidades dos cristãos uns contra o outros ultrapassa a fúria das bestas selvagens contra o homem.”(Ammianus Marcellinus) O capítulo final da disputa foi a divisão do Império em Romano e Bizantino. Desde então, a Igreja Romana tem se chamado “Católica”, e a Bizantina, “Ortodoxa”.

Ambas, é claro, um amontoado de mentiras.

Qual o motivo, o senhor perguntará, para essa perseguição impiedosa às seitas gnósticas e essênias? No caso dos essênios, as razões foram políticas e dogmáticas.

Aproximadamente um século antes do assim-chamado “Ano Um” nascera na Palestina um rabi, cujo nome é desconhecido (embora alguns estudiosos presumam ter sido Ionas, ou Jonas). Ele criou um novo sistema de Essenismo, fundando muitos ramos dessa fraternidade judeo-cóptica, e adquirindo um grande número de seguidores na Ásia Menor. Muitos documentos foram escritos acerca dos incidentes de sua vida e doutrina. Foi um Adepto Cristão, ou seja, defendeu a tese de que todo homem é um Templo do Deus Vivo; deu testemunho do Logos e do Espírito Santo, e tal foi seu impacto no pensamento religioso de sua época que os patriarcas romano-alexandrinos, ao escreverem a “história de Jesús Cristo”, foram forçados a incluí-lo, para evitar suspeitas. Chamaram-no de “João Batista”…

Acerca deste: THE DEAD SEA SCROLLS, AN INTRODUCTION, de R.K.Harrison.

Também este livro deveria ser traduzido para o português por um maçon! Abaixo, cito uma passagem atribuída a esse iniciado, extraída de um manuscrito cóptico intitulado “Evangelho de Maria”, apócrifo, desde 1896 no Museu de Berlim. Depois de haver explicado vários pontos de sua doutrina, ele se despede de seus discípulos:

“… Quando o Abençoado havia dito isto, ele saudou a todos, dizendo: ‘Paz seja convosco. Recebei minha paz para vós mesmos. Cuidai-vos de que nenhum vos desvie com as palavras “olha alí” ou “olha lá”, pois o Filho do Homem está dentro de vós. Seguí-o: aqueles que o buscam o encontrarão. Ide, pois, e pregai a Boa Nova do Reino. Eu não vos deixo nenhuma regra, salvo o que vos recomendei (Amai-vos uns aos outros), e eu não vos dei nenhuma lei, qual fez o legislador (Moisés), para evitar que vos sentísseis obrigados por ela.’ E quando acabou de dizer isto, ele foi embora.” (Gnosticism, An Anthology, ed. Robert M. Grant, Collins, London, pp.65-66, “The Gospel of Mary”)

Esta passagem pode ser comparada a muitas outras nos Evangelhos nas quais, quando interrogado, “Jesús” diz explicitamente: “O Reino de Deus está dentro de vós.” E que razão tinham os Romanos e Alexandrinos para perseguir e exterminar os gnósticos gregos? Desta feita o motivo era puramente dogmático. Na época posteriormente atribuída pelos patriarcas ao “nascimento de Jesús Cristo”, um iniciado grego deu vida nova aos mistérios de Apolo e Diôniso, restabeleceu o culto ao Sol Espiritual e ao Logos, praticou maravilhas taumatúrgicas e, em suma, causou tal impressão que os Romano-Alexandrinos foram forçados a incorporar diversos “milagres” em sua miscelânia evangélica, de forma que o seu “Jesus” pudesse igualar os prodígios atribuídos a Apolônio de Tyana. Ao mesmo tempo, afirmaram que Apolônio de Tyana havia sido enviado por “Satã” para reproduzir os milagres de “Jesús” e assim desviar as pessoas do “verdadeiro Cristo”. destruíram também, sistematicamente, todos os documentos autênticos da vida de Apolônio, salvo um, a fantástica e inacreditável Vita, atribuída a um pretenso “discípulo” desse grande Adepto.

Novamente lhe indico ISIS DESVELADA, e o artigo “Apollonius” na Enciclopédia Britânica.

Devo aqui, Dr. Gastão, apender um parêntese um pouco prolongado, de forma a estabelecer a maneira pela qual o Catoliscismo Romano difere do verdadeiro Cristianismo. Para este fim, começarei por apresentar um dos poucos textos que nos chegaram quase sem alterações cometidas pelos patriarcas de Roma e Alexandria. As modificações relevantes vão comentadas entre parênteses, e o texto, apresento o original, intacto. É o Intróito do Evangelho de “São João”:

“No princípio era o Verbo. E o verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

“Ele estava no princípio com Deus.

“Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez.

“A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens.

“A luz resplandece nas trevas, e as trevas não o escondem ( isto é, não escondem o fato que a luz brilha nelas!).

“Houve um homem enviado por Deus, cujo nome foi Jonas (Johannes no original em grego).

“Ele veio como testemunha da luz, a fim de todos virem a crer por intermédio dele.

“Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz: a saber, a verdadeira luz que, vinda ao mundo, ilumina todo homem.

“Estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dela, mas o mundo não a conheceu ( no masculino na Vulgata, para sugerir “Jesús”).

“Veio para o que era seu, e os seus não a receberam ( idem).

“Mas, a todos quanto a (idem) receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus ( e aqui os Romanos-Alexandrinos acrescentaram: a saber, os que crêem no seu nome, isto é, no “Jesús” que eles inventaram para servir aos seus propósitos), os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.

“E o Verbo se fez carne, e habitou em nós ( a Vulgata aqui põe “entre”, o que muda totalmente o sentido da passagem) cheio de graça e verdade, e vimos a sua glória, glória como a do primogênito do Pai ( o primogênito do Pai é, claro, Chokmah, o Verbo Espiritual, a Primeira Emanação do Ancião dos Dias, Kether. “Primogênito” também traz à lembrança o “mais velho dos filhos de Deus”, Lúcifer ou Satã.” Na versão acima, original, desse documento cristão, e nas interpolações introduzidas pelos romanos-alexandrinos, Dr. G., tem o senhor o sumário e a base do dógma católico romano.

Jonas, Apolônio, Simão ( Simão Pedro e Simão o Mago; a isto aludiremos depois), Adeptos cristãos, ensinaram todos os três: “Vós sois o Templo do Deus Vivo. Contemplai a Luz dentro de vós, e sabei que sois Filhos da Luz!” Repetidamente esta mensagem é encontrada nos Evangelhos; mas sempre deformada, condicionada ou “explicada” pelas interpolações e teologismos romano- alexandrinos. O resultado é que, algumas vezes, “Jesús” fala como um santo, como uma verdadeira Encarnação do Verbo; o mais das vezes, porém, como fanático e sectarista.

Contradições deste tipo abundam.

Este é o resultado das alterações a interpolações dos romanos e alexandrinos. Copiaram, adaptando-os às suas necessidades político- financeiras, os documentos essênios que descreviam as pregações de Jonas ( entre outros, o “Sermão da Montanha”). Inseriram “milagres” do tipo atribuído a Apolônio de Tyana. Arranjaram um Mistério da Paixão em drama nos moldes dos cultos de Mitras, de Adonis, de Átis, de Diôniso e de Oannes — o que era necessário para tornar o seu “Jesús” numa Encarnação do Logos do Aeon de Osiris, o Deus Sacrificado. Tão cuidadosamente misturaram a verdade e mentira que durante quase mil e seiscentos anos todo cristão que procurou encontrar o Verbo em si mesmo — o único lugar onde pode ser encontrado — deparou, nos portais de sua alma, com este fantasma insidioso, esta blásfema quimera, este pesadelo teológico: “Nosso Senhor Jesus Cristo”.

“Adora-me!” — diz o Egrégora — “Eu sou o filho de Deus. Tu não és nada mais que uma criatura sem valor e pecadora, condenada desde o nascimento e destinada ao inferno não fosse por meu sacrifício; e sem mim nunca alcançarás o céu.” Talvez o senhor comece a compreender agora, Dr. G., a natureza daquilo a que nós chamamos a Grande feitiçaria? Após mil e seiscentos anos de vitalização por multidões de adorantes, e a absorção das cascas vazias de padres, freiras e fanáticos que se deixaram vampirizar por ele, o Egrégora existe no assim-chamado plano astral; e é um demônio, quer dizer, uma entidade ilusória. Não é um verdadeiro Microcosmo, mas uma gestalt de cascões vitalizados, um foco para tudo que há de negativo, derrotista, piegas, preconceituoso e introvertido na natureza dos cristãos: um lodaçal completamente hostíl ao progresso e á evolução espiritual deles.

E, no entanto, nada há mais sagrado ou puro do que está oculto neste nome, “Jesus Cristo”… É um híbrido dos títulos pelos quais os cabalistas essênios e os gnósticos gregos, respectivamente, chamavam o Iniciado que alcançasse a esfera de Tiphareth, o Filho — ou seja, a “sephira”, ou “plano” de consciência que em Nosso sistema corresponde ao grau de Adeptus Minor, e, no Rito Escocês, ao 33º grau.

Cristo, Chrestos, significa “Bom” e “ungido”. Este era um título nobre nos Mistérios de Eleusis. O Iniciado tem sempre sido um sacerdote-rei desde a antiguidade; a superstição absurda do “direito divino hereditário” dos reis foi outra adulteração dos romanos- alexandrinos para ajudar aos tiranos que os apoiavam. Seria realmente fácil se a verdadeira realeza, dura recompensa da Iniciação, pudesse ser transmitida por métodos dinásticos, ou conferida por um papa! Para fazer justiça a este tema um volume inteiro seria necessário; diremos apenas que os símbolos tradicionais da realeza são os símbolos da completa iniciação. O Cetro representa o Falo, a imagem material do Verbo; o Globo e a Cruz são formas da Cruz Ansata, o símbolo da imortalidade conferida pela Iniciação ( mostra a mulher “dominada” pelo homem, ou seja, satisfeita pelo homem….); a Coroa é Kether, o Sahashara Cakkram em completo funcionamento, a Primeira Sephira, o Ancião dos Dias, o Pai; o Manto Púrpura ornado de estrelas ou flores representa o Céu Noturno, a Aura do Sacerdote de Nuit; e finalmente, as roupagens rubro-douradas são o símbolo do Corpo Solar, o Corpo de Glória do Iniciado — vermelho e ouro sendo as cores heraldicas do sol.

Quanto ao nome “Jesús”, é escrito em hebraico IHShVH ( pronuncia- se Jehêshua). Note que isto é IHVH ( Tetragrammaton ) com Shin (Sh) intercalada. Shin é a letra que representa a um só tempo os elementos Fogo e Espírito, e, estando no centro de IHVH, equilibra as Quatro Forças Elementais Cegas do Demiurgo. Jeová — a Palavra de Moisés — torna-se Jeheshua — a Palavra de Jonas. Nesta Palavra o senhor tem o Deus Crucificado, Dr. G.: nela o Pentagrama, o Sinal do Homem, a Estrela Flamejante do Santuário; nela a chave cabalistica do Tetragrammaton Cristão, INRI, que significa, entre outras coisas, Igne Natura Renovatur Integra, ou seja: Pelo Fogo (do Espírito Santo) a natureza se Renova Inteiramente…

A diferença básica entre o Cristianismo e as religiões que o precederam é que o Mistério de Osíris, até então revelado apenas a aspirantes cuidadosamente selecionados nos mais profundos recônditos dos mais remotos santuários, foi abertamente oferecido ao mundo.

Antes do Aeon de Osíris, no Aeon de Isis, os homens adoravam a Deus em uma de Suas múltiplas imagens (adaptadas à visão espiritual de indivíduos diversos em nações diversas) da mesma forma que uma criança ama e adora sua mãe: como Alguém que protege, alimenta, conforta e ocasionalmente corrige e castiga, mas sempre como alguém exterior a si mesmos.

Foi a revelação do Mistério da Morte de Osíris que acordou os homens para a consciência de que eles, em si mesmos, são a divindade encarnada. Tampouco podemos ir muito longe neste assunto, pois é matéria para outro volume. O Aeon de Virgo-Pisces, com suas vibrações, adaptava-se às idéias de devoção e auto-sacrifício, tornando a Iniciação Racial possível em larga escala; mas é necessário que o senhor compreenda, Dr.G., que o Mistério de Osíris data da mais remota antiguidade. O Deus Sacrificado é fórmula anterior à destruição da Atlântida, quando o verdadeiro significado dos símbolos, até então geralmente conhecido, tornou-se o privilégio de alguns poucos iniciados. Um sacrifício humano anual, para ajudar a colheita, era um rito genérico entre todas as tribos agricultoras da Europa e da Ásia Menor há cinco mil anos atrás; e mesmo nos primórdios do Romanismo ainda era praticado por tribos indo- européias. O sacrificado era, originalmente, o rei da tribo; reinava durante o ano, e era executado nos Ritos da Primavera, ou Páscoa (em ingles Easter, corruptela de Ishtar). Era tratado como encarnação do deus tribal, e adorado até o momento de sua morte. Com seu sangue os campos de cultivo eram salpicados; sua carne era comida por nobres e sacerdotes; e o povo tinha de contentar-se em respirar a fumaça de certas partes queimadas e oferecidas à divindade que ele havia encarnado (estas partes variavam: algumas tribos queimavam os órgãos sexuais, outras o coração).

Eventualmente, com o desenvolvimento da inteligência, a fórmula tornou-se mais conveniente para os reis: algum gênio tribal concebeu a idéia de um vicário; e desde então, um rei substituto era simbolicamente ungido para a ocasião, para ser sacrificado no lugar do rei verdadeiro. Primeiro usaram voluntários, depois velhos e doentes ou criancinhas, a seguir inimigos, e por último animais.

Em muitas tribos os pais, em vez de se sacrificarem, sacrificavam seus primogênitos (neste caso eram os pais os chefes ou patriarcas das tribos). Na Bíblia, a história do primogênito de Abraão é uma hábil fábula que marca a transição, entre os primeiros judeus, do sacrifício dos primogênitos a Jeová para aquele dos bodes expiatórios.

Sacrifícios humanos, acompanhados de antropofagia ritual, eram costume no continente indoeuropeu, na Austrália, no continente africano e no Novo Mundo. A presença universal de tal rito, numa época em que a arte da navegação era praticamente nula, indica uma origem comum na Antiguidade, Esta foi a Atlantida, se bem que o senhor deva notar que seus habitantes não praticavam sacrifícios humanos. Foi precisamente a destruição desta civilização (devida não a “castigo divino”, mas a um dos grandes movimentos periódicos da crosta terrestre a intervalos de vinte mil anos) que, havendo deixado apenas algumas colônias em outras terras, resultou na volta à barbárie que ali ocorreu quando o símbolos passaram a ser interpretados da forma mais grosseira. Alguns mais avançados da cultura atlante mantiveram o verdadeiro significado. Entre eles, o Egípto, onde os Mistérios Menores ( de Isis e Osíris ) eram celebrados com pleno conhecimento de seu significado verdadeiro (é suficiente que o senhor recorde que no Livro dos Mortos a alma do morto ou da morta é sempre chamada Osíris), e os Mistérios Maiores ( de Nuit-Hadit-Hoor ) preservados com o máximo segredo.

Foi do Egito que veio a Corrente de Osíris, a qual, devido à diversidade de povos e línguas, e às dificuldades de comunicação no plano material, manifestou-se em pontos diferentes do continente indoeuropeu sob formas diversas, embora seguindo sempre a fórmula do Deus sacrificado. A corrente começou aproximadamente no ano 500 A.C.

Um estático da Ásia Menor, cujas aventuras tornaram-se lendárias, e que eventualmente ficou conhecido pelo nome de Diôniso, viajou pela Grécia, Ásia Menor e India, ensinando a nova fórmula de Iniciação Racial. Este iniciado, o original verdadeiro do “Jesús Cristo” evangélico, foi um filho espiritual de Krishna, ou antes, de Vishnu, de quem foi Krishna o principal avatar; e sua Palavra era INRI, que é uma modificação da Palavra de Krishna, AUM. Citamos aqui o Capítulo 71 de LIBER ALEPH, um dos mais profundos trabalhos do Mestre Therion: “Krishna tem inumeráveis nomes e formas, e não conheço seu verdadeiro Nascimento humano. Pois sua Fórmula é de alta Antiguidade. Mas Sua Palavra espalhou- se por muitas terras, e hoje a conhecemos como INRI com o IAO secreto aí oculto. E o significado desta Palavra é a Maneira de Trabalho da Natureza em Suas Mutações: isto é, é a Fórmula de Magia pela qual todas as Coisas se reproduzem e recriam a si mesmas. Porém, esta Extensão e Especialização foi antes a Palavra de Diôniso; pois a verdadeira Palavra de Krishna era AUM(OM), implicando antes numa asserção da Verdade da Natureza do que numa Instrução prática sobre Operações Detalhadas de Magia. Mas Diôniso, pela palavra INRI, estabeleceu a fundação de toda Ciência, da forma como hoje entendemos a palavra Ciência em seu senso particular, ou seja, o de causar a Natureza externa a mudar em Harmonia com nossas Vontades.” Este Iniciado, cujo nome carnal é hoje desconhecido, mas que conhecemos por Diôniso (o qual pode ter sido seu nome, pois se tornou bastante comum na Ásia e na Grécia depois de sua morte), viveu e trabalhou aproximadamente quinhentos anos antes da assim-chamada “era cristã”. Foi mencionado por um dos profetas judeus — Isaias — em várias passagens do Livro de Isaías. Estas eram estudadas com veneração profunda pelos velhos Essênios, que sabiam do seu sentido oculto. A passagem principal é citada aqui (parênteses meus):

“Quem acreditou em nossa pregação? A quem foi mostrado o braço de Adonai? (braço é um eufemismo para o falo, o órgão material do Verbo.

Coxa, braço, quafril, chifre, etc., são eufemismos para penis, usados tanto no Novo quanto no Velho Testamento para apaziguar as mentes prurientes dos tradutores que, projetando seus próprios traumas psíquicos, acharam que o povo ficaria chocado ao ouvir uma pica chamada de pica. Este tipo de “censura bem intencionada” ainda hoje é praticado: os cristãos todos parecem achar-se capazes de “proteger a virtude” de seus semelhantes!) . Porque foi subindo como um rebento novo ( ou seja, como uma Palavra nova, necessariamente mal-entendida e temida a princípio) perante Ele, e sua raiz em uma terra seca; não tinha presença nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza tinha ele que nos agradasse.

“Foi desprezado, o mais rejeitado entre os homens; homem que sofrera, e sabia o que é padecer; como um de quem os homens se desviam, foi desprezado, e dele não fizemos caso.

“Em verdade ele tomou sobre si nossas mazelas; as nossas dores carregou sobre si; e por isto o considerávamos, aflito, ferido de Deus, e opresso; “Ele foi golpeado, mas por nossas transgressões; moído, mas por nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe a paz caíu sobre ele, e pelas suas pisaduras nós fomos sarados.

“Andávamos todos desgarrados, como ovelhas; cada um se desviava do caminho, mas Adonai fez caír sobre ele a iniquidade de nós todos”.

“Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e como ovelha, muda perante seus tosquiadores, manteve silêncio.

“Por decreto tirânico nos foi arrebatado, e sua linhagem, quem dela cogitou? Pois ele foi cortado da terra dos vivos; por causa da transgressão do meu povo foi ele ferido.

“Deram-lhe sepultura com os perversos, mas com o rico habitou em sua morte; pois nunca fez injustiça, nem dolo algum se achou em sua boca.

“Todavia, a Adonai agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando ele deu a sua alma (a Vulgata tem der , para sugerir que isto é uma profecia sobre — claro — “Jesús Cristo”) como oferta pelo pecado, viu a sua posteridade ( isto é, seus filhos mágicos ) e prolongará seus dias; a vontade de Adonai prosperará em sua mãos.

“Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma, e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com a sua compreensão ( isto é, Binah; a “entrega da alma” corresponde à Passagem do Abismo ) justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si.

“Por isso eu lhe darei muitos como a sua parte ( isto é, como seus discípulos ), e com os poderosos (isto é, os Reis ou Potestades — uma das hierarquias celestiais ) repartirá ele os despojos; porquanto derramou a sua alma ( isto é, o seu sangue — vinho de IAO — na Taça de BABALON, que contém o sangue dos santos ) na morte; foi contado com os transgressores ( isto é, considerado malígno ); contudo levou sobre si os pecados de muitos, e pelos transgressores ( isto é, os malígnos entre os quais foi contado, os quais eram na realidade os que o condenavam ) intercedeu.”

LIVRO DE ISAÍAS, III, vv. 1 – 12.

Talvez o senhor compreenda melhor o acima se eu citar aqui alguns raros versos de um dos Livros Santos de Télema:

“46. Ó meu Deus, mas o amor em Me rebenta sobre os laços de Espaço e Tempo; meu amor é derramado entre aqueles que não amam o amor.

“47. Meu vinho é servido àqueles que nunca provaram vinho.

“48. Os fumos dele os intoxicarão, e o vigor do meu amor engendrará bebês pujantes em suas virgens.”

LIBER VII, vii, vv. 46 – 48.

Há certos segredos iniciáticos, Dr. G., que não podem ser revelados pela simples razão que apenas aqueles que os experimentaram em si mesmos são capazes de compreender referências a eles feitas.

Portanto limitar-me-ei a dizer que a história simples contada nos versos de Isaías descreve a carreira de todo Adepto Cristão. Isto, em teoria, seria também a história de todo maçon do grau 33º; mas na prática, embora não tenham os srs. perdido a Palavra, mantêm a letra mas não o espírito. Os senhores maçons caíram bem aquém do que era intencionado por seu sistema — isto principalmente devido ao constante ataque da Igreja de Roma.

Os patriarcas romanos-alexandrinos que escreveram o Novo Testamento copiaram palavras de verdadeiros Iniciados; resulta que, encerradas em seus evangelhos adulterados, ainda há várias chaves que aqueles que “tiverem ouvidos de ouvir” (isto é, percepção espiritual: o sentido da audição corresponde ao Akasha hindu, o Elemento do Espírito) podem usar para encontrar a Medicina Universal e o Elixir da Vida …

No entanto, os romanos-alexandrinos erraram tristemente ao tentar usar de métodos profanos para expandir um cristianismo viciado por interpretações dogmáticas e ambições temporais de poder político e financeiro. Falharam por não fazerem o preconizado por Jonas aos essênios: “Dar a Cesar o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Invariavelmente, quando quer que na história da humanidade um sistema de teurgia é conspurcado e se torna uma religião organizada, sofrem os elos entre o sistema e sua fonte espiritual. Os planos não podem ser misturados, e acreditando-se movidos pelas melhores intenções, os romanos-alexandrinos foram na verdade impelidos por vaidade e orgulho — sentimentos enraizados no ego, precisamente a faculdade que o homem deve destruir na passagem do Abismo.

O resultado foi que, perdendo contato com o Logos do Aeon de Osíris, a igreja romano-alexandrina tornou-se instrumento de forças demoníacas — isto é, de forças ilusórias, egóicas — e deu-se desde então a erros espantosos, a crueldades indizíveis.

Consequentemente, os verdadeiros cristãos retiraram-se daquela igreja no momento mesmo em que ela triunfava sobre suas “rivais” gnósticas e essênias, e aliava-se aos príncipes do mal deste mundo.

Retiraram-se, e silenciosamente continuaram seu trabalho através de todo o abuso e perseguição que se seguiram; e eventualmente, para contrafazer mais eficientemente os efeitos da Grande Feitiçaria, criaram a Maçonaria.

O senhor sabe, é claro, que o Rito Antigo, ou melhor, a Grande Loja da Inglaterra, foi organizada ( e o Rito inteiro reformado ) por um certo Elias Ashmole, judeu, e Irmão da R.C. A R.C. (que só existe neste mundo com este nome desde que o grande iniciado que se ocultou sob o nome de “Cristian Rosenkreutz” começou o movimento que resultou na Renascença, na Reforma e nas revoluções Francesa e Americana ) é responsável pelo Mistério do Logos — o Mistério do cristo. É tarefa dela zelar para que este Mistério jamais seja perdido pela humanidade. Quando quer que, por erros humanos, por oscilações do karma terrestre, ou pelas leis do acaso, a transmissão da Palavra e do Sinal (isto é, a sucessão apostólica) é ameaçada, é a R.C., sob um de seus muitos véus (ela nunca usa abertamente o nome de R.C.!), através de um ou mais de seus Irmãos, que lembra a humanidade o significado espiritual da Encarnação; da promessa da Ressurreição; da Grande Obra, isto é: o estabelecimento do Reino de Deus sobre a Terra.

A R.C. nunca interfere de forma alguma com a organização ou direção de ritos maçônicos; nem seus Adeptos, necessáriamente, ingressam em tais ritos. Apenas, informação em quantidades suficientes é outorgada, e fontes de pesquisa são sugeridas ao exame dos maçons, para que o significado espiritual dos ritos seja reestabelecido pelos próprios maçons.

A R.C. está abaixo do Abismo: a Grande Ordem que não tem nome é simbolizada pelo Olho no Triângulo, e este é o Collegium Summum, ou a S.S., da A.•.A.•.

A A.•.A.•. é apenas uma das Fraternidades Iniciáticas, e abaixo do Abismo é das mais novas. Foi organizada em sua forma presente na primeira década deste século.

Quanto à S.S., é a mesma para todas as fraternidades iniciáticas.

Isto é fonte de surpresa, às vezes, para iniciados de graus mais baixos, pois, chegando a certas consecuções, verificam que Mestres que pareceram pregar doutrinas completamente opostas ( como, por exemplo, Maomé e Jonas ) estão sentados lado a lado no Areópago dos Adeptos.

Recapitulando: Quem é “São João Batista”? É Jonas, Ionas, Jon, Johannes, João, o Mestre de retidão dos essênios, cujos sermões são postos nos Evangelhos na boca de “Jesús”.

Quem é “Jesús”? É qualquer indivíduo que tenha atingido o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião, o Paracleto.

Quem é “Jesús Cristo”? É o nome dado pelos Romano-Alexandrinos à sua versão fictícia do Logos do Aeon de Osíris, cuja Palavra foi INRI, e a quem Nós conhecemos por Diôniso.

Quem é o “Pai” a quem “Jesús” sempre se refere nos Evangelhos? É o Logos, a LVX, o Verbo, cuja Sephira é Chokmah, o Primogênito de Kether.

Quem é o Cristo? Tecnicamente é todo e qualquer Adepto, desde que, no simbolismo grego, o nome corresponde ao essênio Jeheshua; mas na prática o título é usado para designar o LOGOS AIONOS.

Do ponto de vista místico, “ninguém atinge o Pai a não ser pelo Filho”; consequentemente, desde que todo Adepto Cristão é uma Encarnação do Verbo, a distinção entre o Cristo Solar e o Cristo Interno é mera ilusão do profano. Ego sum qui sum, diz o Iniciado: AHIH, EU SOU O QUE SOU.

Quando Aleister Crowley estava sendo “julgado” (foi nesta ocasião que o juiz presidindo o chamou de “o pior homem do mundo”), o promotor lhe perguntou: “Não é verdade que o senhor se chama a si mesmo de A Besta do Apocalipse?” Crowley, que já estava acostumado a esperar o pior de seus semelhantes, respondeu com a paciência e agudeza de humor que lhe eram característicos: “Esse nome significa apenas O Sol. O senhor pode me chamar de Raio-de-Sol, se quizer.” Isto é: chamá-lo de Adepto, ou seja, Jeheshua, ou seja, Maçon 33º, Dr. G.: Sol em miniatura, isto é, Tiphareth…

Esta confusão entre o Adepto e seu Pai aparece até em “João Batista”, quando ele diz: “Eu sou a Voz (ou seja, o Verbo) que clama no Deserto ( isto é, no Abismo).” O mais antigo símbolo conhecido para o Logos é o Olho dos Egípcios; e o Olho está no Abismo; este é o Olho no triângulo, e este é o verdadeiro Baphomet, o Chefe Secreto de todos os maçons.

Abaixo do Abismo, Ele é representado por dois Adeptos, um do Pilar Branco, o outro do Pilar Negro. O do Pilar Branco é o Adepto Exempto, e ele promulga a Lei; o do Pilar Negro é o Adepto Maior, e ele faz com que as promulgações do Adepto Exempto sejam cumpridas.

Os judeus, depois que pararam de sacrificar primogênitos, tinham dois bodes sagrados para os festivais, um branco e outro negro. O branco era sacrificado a IAO ( o nome mais antigo de Jeová); o negro, carregado com as maldições dos sacerdotes, era impelido para o deserto…

Compreende o senhor melhor agora, Dr. G., por que razão a Sala dos Maçons é chamada a Sala do Bode Preto? O Olho no Abismo é o Olho do Sol, o Olho de Hoor, que, por certas razões ocultas, é identificado com o anus. É por isto que se dizia, dos iniciados de Satã, que eles “beijavam o anus de um bode preto”…. No Egito antigo, em certo ritual onde cada parte do corpo do Iniciado era colocada em relação com cada parte correspondente de algum ser divino, o Iniciado dizia em dado momento: “Minhas nádegas são as Nádegas do Olho de Hoor.” Mas quem diabo — perdoe o trocadilho — é na verdade este notório Satã que os padres romanos nos acusam de adorar, e a quem eles culpam por seus fracassos (ao invés de culparem a sua estupidez preconceituosa)? Quando a Igreja Romana começou a “catequização” das províncias, encontrou continuamente deuses locais. Aprendendo as peripécias lendárias de tais deuses, os engenhosos padres romanos fabricavam um “santo” com as mesmas proezas, e diziam aos ignorantes pagãos: “Esse seu deus não é mais que um demônio que tenta lhes desviar de Nosso Senhor Jesús Cristo, e para este fim imita as façanhas de nosso amado mártir Fulano. E se vocês não me acreditam, ouçam a história da vida de nosso santo mártir…” Desta forma, a Igreja Romana assimilou em sua liturgia um panteão inteiro de deuses pagãos que eram transformados em santos e santas e mártires imaginários — os únicos mártires cristãos do início do cristianismo foram os essênios e os gnósticos, a quem os romanos- alexandrinos acusaram, caluniaram, e denunciaram aos imperadores.

Exemplos: aqueles que adoravam o Cristo sob a forma de um asno ( Príapus ), os que adoravam o Cristo sob a forma de um peixe ( Oannes ); os que adoravam o Cristo sob seu nome de Baco ou Diôniso…

Mas houve um deus pagão que os romanos não conseguiram absorver, porque suas peripécias eram por demais virís para serem atribuídas a um “santo romano”, que era necessariamente um castrado, no corpo ou no espírito. Por outro lado, seus ritos eram tão vitais, tão universalmente populares nas províncias, que era impossível esperar que o povo o esquecesse: depois de seis séculos de tirania romano- alexandrina, ele ainda era conhecido e adorado: o deus PÃ, o deus de chifres e de cascos de bode…

Portanto, não podendo fazer dele um santo, Dr.G.’fizeram dele o diabo.

Uma profusão de dados sobre tudo o que foi escrito acima pode ser encontrado nos seguintes livros:

THE GOD OF THE WITCHES, de Margaret Murray O LIVRO DOS MORTOS, trauzido do egípcio por Sir Wallis Budge.

THE GOLDEN BOUGH, de Sir James Frazer, na edição completa em vários volumes. Neste trabalho monumental o senhor encontrará um estudo detalhado dos deuses pagãos tornados em “santos” e “mártires” do calendário romano…

Mas voltando ao deus PÃ: a igreja Romana lutou contra os ritos deste deus durante vários séculos. Os festivais de Pã eram orgiásticos — daí sua popularidade — e celebrados nos Equinócios e Solstícios. Eventualmente, a Igreja Romana foi forçada a incorporar estes rituais em sua liturgia, visto ser impossível eliminá-los; e sabiamente fez deles os festivais mais importantes do culto a “Nosso Senhor Jesus Cristo”: a Páscoa ( com Corpus Christi ), o “Natal”, o dia de “São João Batista” e o dia de “São João Apóstolo”.

Eventualmente, a reforma gregoriana mudou o “Natal”, que a princípio era oscilável como a Páscoa e Corpus Christi, e caía no Solstício; e tendo finalmente absorvido o rito orgiástico que então tinha lugar, os padres fixaram a data de 25 de dezembro (dava muito na vista, um aniversário oscilante…). Então os católicos romanos, seus derivados posteriores e muitas ordens ocultistas espúreas celebram nessa data a “ressurreição” ou “nascimento” do Sol: isto porque o solstício de inverno é o momento em que o Sol, tendo alcançado seu máximo declínio meridional na eclítica, começa sua volta para o Norte, levando o calor que renovará a vida da vegetação na Primavera.

Mas, do ponto de vista iniciático, quem era este Pã? Como qualquer deus de toda e qualquer terra em todo e qualquer período da história do mundo, era uma das formas pelas quais ou o Sol espiritual, que é o Pai verdadeiro, ou o seu primogênito, que é a “Bêsta”, são adorados. Esta Besta varia segundo a precessão dos equinócios, pois o Equinócio de Primavera se move ( devido ao deslocamento de ponto vernal ) de signo para signo no Zodíaco aproximadamente em cada dois mil e quinhentos anos; e no Zodíaco os signos são alternadamente representados sob a forma humana e animal.

No Aeon Passado, os pontos vernais caíam respectivamente em Virgo e Pisces, a Virgem e o Peixe; no que lhe antecedeu, caíam em Áries e Libra, o Carneiro e a Justiça (a mulher com a espada e a balança dos romanos antigos); no presente os pontos vernais caem em Aquarius, ou seja, a Mulher com a Taça (BABALON) e em Leo, ou seja, a Grande Besta Selvagem (THERION).

O deus Pã é simplesmente a fórmula do Logos que data do Aeon de Câncer- Capricórneo. Aí está o “diabo” dos padres romanos reduzido a suas verdadeiras proporções. Reduzido?… Bem, é uma questão de ponto de vista…

Não podemos nos aprofundar nesta questão do deus Pã, nem no simbolismo dos chifres, nem mesmo na história completa da luta da Igreja Romana contra o culto do “Diabo”; um culto que, diga-se de passagem, Roma jamais conseguiu destruir, a despeito de seus esforços sinistros. O senhor encontrará os dados fundamentais para tal estudo num livro precioso, publicado pela primeira vez no Século XVIII, mas recentemente republicado nos Estados Unidos e Inglaterra:

TWO ESSAYS ON THE WORSHIP OF PRIAPUS, de Payne Knight.

Limitar-nos-emos a dizer aqui que este era o deus adorado por “bruxos” e “feiticeiros”, que preservaram seus ritos orgiásticos apesar de toda a perseguição implacável, das calúnias absurdas e do terrível risco de tortura e morte na fogueira, alem de outras punições impostas pela Igreja de Roma não só na Idade Média como até ao Século XVIII — e que só não são impostas até hoje devido ao trabalho paciente e silencioso dos maçons, representantes dos verdadeiros cristãos…

Depois que Romanos e Alexandrinos estabeleceram seu domínio teológico no Concílio de Nicéia (disto falaremos depois) e instituiram o dógma de “Jesus Cristo” como personagem histórico e “única” encarnação do Verbo, os poucos essênios e gnósticos que sobreviveram à “purgação” continuaram, sob o maior segredo, a tradição pura e original dos Mistérios Menores do Egito e da Fórmula de Diôniso.

Várias vezes, no curso destes mil e quinhentos anos, os Iniciados tentaram reconstituir abertamente os ensinamentos essênios e gnósticos. Em toda ocasião em que isto aconteceu, a Igreja Romana interveio com fúria demoníaca, assassinando homens, mulheres, velhos e até criancinhas, sem a mínima compunção; ao ponto mesmo ( como no caso dos Albigenses ) de capitães medievais, homens supostamente embrutecidos pela violência das batalhas selvagens da época, terem ficado tão fartos da chacina que foram perguntar ao papa se, por ventura, não estariam exterminando inocentes com os culpados (essa gente morria tão virtuosamente, o senhor compreende!). E foi em tal ocasião que o Bispo de Roma honrou a tradição cristã de sua igreja com as seguintes palavras: “Matai a todos; Deus distinguirá os seus.”

A matança, Dr. G.. incluía até recém-nascidos.

E não é que se tratasse de fé cega, por parte do Bispo de Roma, na crassa teologia do seu credo. Não é que ele acreditasse realmente na existência de um “salvador” chamado “Jesus”, e no fato dos Albigenses serem “criaturas do Diabo”. Não, DR. G., não havia sequer a justificativa do fanatismo – se de justificativa podemos chamá-la – pois os papas romanos sabem, e sempre souberam, que nunca houve nenhum “Jesus Cristo!”.

Talvez lhe seja difícil crer no que digo? Pois lembre-se das palavras históricas, proferidas num momento de descuido por um dos mais cínicos e mais prósperos dos papas, Leão X:

“Quantum nobis prodeste haec fabula Christi!”.

Ou seja: “Quanto nos ajuda esta fábula de Cristo!”.

O senhor deve se lembrar de que os documentos originais daquilo que os Romanos chamavam de “Cristianismo” estão preservados na Biblioteca Secreta, do Vaticano. É bastante simples para os pouquíssimos prelados a quem a Cúria dá acesso aos documentos mais antigos, verificarem onde acabam os fatos e começa a ficção.

Creio que já falamos suficientemente da história passada da Igreja de Roma. Não deve ser necessário que eu lhe lembre Joana D’Arc, nem Gilles de Rais (contra o qual foram feitas as acusações mais horrendas, mas contra o qual jamais apresentaram evidências – nem sequer um ossinho! – das centenas de crianças que ele havia, supostamente, sacrificado; e seus acusadores, e juizes, dividiram entre si, seus consideráveis bens), nem os Templários, nem o Imperador Frederico Hohenstaufen, nem João Huss, nem Michel Servent, nem Henrique IV (assassinado por ordem dos Jesuítas), nem os Cátaros, nem os Albigenses, nem os Huguenotes, nem os Judeus e Árabes de Portugal e Espanha, nem os Gnósticos franceses, alemães, escoceses, irlandeses e ingleses que foram chamados de “feiticeiros” e forçados a confessar obscenidades sob torturas diabólicas, nem Cagliostro, nem uma quantidade imensa de Maçons cujos ossos branquejam a estrada que leva à Roma. Creio que, a um Maçon, não deve ser necessário falar mais do passado dessa igreja infame.

Falemos então do presente – desta época de “reforma” e do “Papa da Paz”. Mudou a Igreja de Roma? Dr. G., o senhor acha, certamente que essa propalada reforma romana, que esse muito propagandizado concílio ecumênico, que as duas bulas de João XXIII (na realidade João XXIV: houve uma época, entre outras da história do papado, em que havia três papas. Um deles chamou-se João XXIII, foi forçado a renunciar ao papado quando os dois outros fizeram um pacto contra ele, e pouco após morreu envenenado – por quem, deixamos ao senhor ponderar) – o senhor acha que tudo isso fará da Igreja de Roma algo mais humano, mais próximo de Deus e do Seu Logos? Muito bem; tenho diante de mim, neste instante em que lhe escrevo, um catecismo católico romano chamado “Doutrina Cristã”. É publicado pelas Edições Paulinas e leva o nº. 1; é destinado, portanto, ao condicionamento das mais tenras criancinhas. O senhor me disse que, na sua opinião, a Igreja Romana era uma boa introdução à vida adulta para crianças. Se assim é. Considere as seguintes passagens que transcreverei desse livreto infame (os parênteses são meus):

“Eu gosto do meu catecismo.” (Auto-sugestão inconsciente).

“O catecismo me ensina o caminho do céu.”(Do outro lado, o inferno).

“O caminho do céu é: conhecer a Deus”(pela boca dos padres), “amar a Deus” (de acordo com a definição de “amor” por parte dos homens que evitam todas as manifestações sadias desse sentimento), “e obedecer a Deus”(pela boca dos padres, seus únicos representantes legítimos; os demais são servos do diabo, e se alguém tentar definir por si mesmo a obediência a Deus, esse alguém na Idade Média era queimado vivo, e hoje em dia é culpado de orgulho, um dos pecados mortais).

“Eu irei sempre ao catecismo para conhecer o caminho do céu” (a ameaça velada é que, se a criança não for ao catecismo para aprender o caminho do céu, acabará no inferno).

“Estudarei sempre direitinho o meu catecismo”(e há quem diga que os comunistas inventaram a lavagem cerebral!).

Isto, apenas como introdução. Seguem-se as seguintes notáveis “verdades”: “Jesus morreu na cruz para nos salvar” (falsidade histórica; mas a implicação dogmática é que, desde que somos criaturas condenadas ao inferno desde o nascimento não fosse por “Jesus”, precisamos, mesmo na infância, de salvação. Que distância entre isto e “Deixai virem a mim as criancinhas, pois delas é o reino dos céus…”.

“As criancinhas gostam muito de Nossa Senhora” (se isto fosse uma cartilha usa, e em vez de “Nossa Senhora” estivesse Lênin, nós chamaríamos este tipo de propaganda de atentado contra a mente humana; no entanto, Lênin, pelo menos, realmente existiu!…) “Nossa Senhora é a mãe de Jesus”. (De fato, BABALON é a Mãe de Adepto; mas não é assim que eles interpretam!…) Mais adiante, o “Credo”, com a nota: “O Credo é o resumo da religião que Jesus nos ensinou.” Isto é uma mentira deslavada, pois nem Jon nem Dioniso, os originais de “Jesus Cristo” evangélico, ensinaram religiões. Buda não pregou o Budismo, nem Lao-Tsé o Taoísmo, nem Maomé o Islamismo; nenhum guia espiritual de vulto estabeleceu qualquer dogma formal, com exceção de Moisés; e ele, ao menos, tinha a desculpa de precisar criar uma cultura do nada, de fazer uma nação daquela multidão de ex- escravos superticiosos e rebeldes que o seguia. São sempre os sucessores dos Magos (diga-se de passagem, os falsos sucessores) que organizam religiões e dissociam o Espírito da Letra, mais cedo mais tarde comportando-se de forma completamente oposta àquela recomendada pelo Instrutor.

No entanto, no caso presente, a mentira é dupla; pois além do fato de que Jon não deixou “religião” a ser seguida, o Credo de Nicéia, que é o credo a que o catecismo em questão se refere, não era sequer um sumário da religião que começava a se cristalizar em redor dos ensinamentos de Jon. Este credo era antes um códice dos dogmas que os Romano- Alexandrinos consideravam essenciais ao estabelecimento de sua dominação política, material, temporal, sobre as muitas congregações – igrejas – fundadas na Ásia Menor e na península romana por seguidores e discípulos de Jon, cada qual com variações de doutrina e temperamento determinadas por condições locais e idiossincrasias do discípulo fundador. Estes discípulos foram os originais dos “apóstolos” dos “Atos” (os “Atos” são uma antologia cuidadosamente censurada; e deturpada pela introdução de incidentes e nomes altamente imaginários, de alguns dos discípulos de Jon. As mais gritantes falsidades lá se encontram misturadas a fatos históricos. O propósito de tais falsificações foi a afirmação da autoridade da Igreja Romana, a qual, longe de ser a mais velha das igrejas Cristãs, era a mais nova e certamente a menos Cristã, de todas. Um exemplo interessante é “Simão Pedro”, que é o mesmo “Simão o Mago” que a ele se opõe nos Atos… Era um Gnóstico a quem a Igreja Romana teve que atribuir a sua fundação, pois ele pregara em Roma e era universalmente respeitado por todas as congregações; mas ao mesmo tempo, teve que ser atacado devido as doutrinas que tinha em comum com os Gnósticos Gregos e os Essênios Hebreus. “Pedro” e “Paulo” são, possivelmente a mesma pessoa, mas só pesquisas futuras, empreendidas por investigadores sem preconceitos que tenham acesso a verdadeira documentação, poderão esclarecer tal ponto). A história da maneira pela qual os Romano-Alexandrinos forçaram o Concílio de Nicéia a votar neste Credo é um pântano de horrores. Tal era a situação que os patriarcas visitantes não ousavam andar pelas ruas de Nicéia, Roma ou Alexandria, sem terem ao menos uma dúzia de guarda-costas, por medo de serem assassinados por ordem dos patriarcas Romano-Alexandrinos.

(Vide OUTLINES ON THE ORIGIN OF DOGMA, DECLINE AND FALL OF THE ROMAN EMPIRE e LA MESSE ET SES MYSTERES para uma discussão detalhada deste assunto).

Mas examinemos esse “resumo da religião que Jesus nos ensinou”! “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra…” (Já começa deturpado, pois o “Pai” a quem Jon se refere em seus sermões era Dionísio, o Logos do Aeon, o pai espiritual de Jon. O Criador do Céu e da Terra” era, na verdade, “Criadores”, no plural. A Gênese, um trabalho cabalístico, é sempre mal traduzida. Os “Elohim”, criadores do céu e da terra, eram literalmente “deuses macho-fêmea”, ou seja, uma hoste divina andrógina. Então, o senhor talvez perguntará, quem era Jeová? Era o Pai de Moisés, da mesma forma que Dionísio era o Pai de Jon!…) Mas continuemos: “…e em Jesus Cristo, um só seu filho, Nosso Senhor…” (Estas dez palavras causaram mais mortes no Concílio de Nicéia do que quaisquer outras. Houve ocasiões em que patriarcas Romano- Alexandrinos provocaram com insultos pessoais outros patriarcas que se opunham a este “um só seu filho” ou a este “Nosso Senhor” até que os ofendidos reagissem – e fossem imediatamente apunhalados por assassinos previamente instruídos. Quanto a parte de “Jesus Cristo” ninguém a ela se opôs seriamente, visto que os verdadeiros Iniciadores Cristãos nem sequer se deram ao trabalho de ir ao Concílio, sabendo tratar-se de caso fraudulento, como quaisquer outros concílios convocados pelos Romano-Alexandrinos antes ou depois deste. Os Iniciados Cristãos já começavam a organizar (prevendo a necessidade premente que para eles haveria) as irmandades secretas que apareceriam abertamente na Idade Média, como Franco-Maçonaria – o grêmio maçon que construiu as grandes catedrais Góticas. Esses franco- maçons formavam uma classe social a parte, pois, não sendo nobres nem padres, nem militares, não eram camponeses ou vassalos, tampouco. A Igreja Romana os protegia porque deles precisava para a construção – sendo ela, até hoje, incapaz de construir coisa alguma… E foi através dessas associações de pedreiros que o verdadeiro Cristianismo foi transmitido de reino a reino, de cidade a cidade, e isto, ironicamente, sob a proteção dos romanos… Veja-se THE ARCANE SCHOOLS, ou qualquer bom compêndio de história da maçonaria para maiores detalhes).

“…o qual foi concebido do Espírito Santo…” (Outra fonte de muitos assassinatos foi este dogma. Sobre ele não faremos comentários: padres romanos certamente lerão esta carta, e não temos qualquer intenção de dar a eles quaisquer dados sobre a natureza do Espírito Santo. Já que eles o invocam tanto, devem saber o que Ele é!…) “…nasceu da Virgem Maria…” (esta Virgem Maria é também a Grande Puta do Apocalipse. É a Grande puta porque Ela se dá a tudo o que vive; e é a Virgem porque permanece intocada por tudo a que se entrega. Quem é Ela? É a Casa de Deus, a Natureza, a Grande Mãe, e as leis naturais são as únicas leis realmente divinas… Ísis-Urânia, NUIT, Nossa Senhora das Estrelas, é a concepção dessa Mãe Grande e Eterna, copulando desavergonhadamente e avidamente com todas as suas criaturas, pois em cada uma delas Seu Senhor se manifesta e A ocupa.

É também a mais alta e mais verdadeira forma de PÃ. A Ísis eternamente inviolada e esta Virgem Imaculada, e as imagens de Virgem com o Menino Jesus nas Igrejas Romanas são cópias das múltiplas imagens de Ísis com o Menino Hoor, que podem ser examinadas na seção de Egiptologia de qualquer museu).

“…padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos…”(pessoa altamente questionável esse Pôncio Pilatos, do ponto de vista histórico.

Recentemente foram “descobertas” e “reveladas” nos E.U.A umas “cartas da mulher de Pilatos a uma amiga”. Estas relatam como a vida do casal tornou-se puro melodrama depois de haverem lavado as mãos no caso “Cristo Jesus”. Mais conversa fiada jesuítica, sem dúvida…) “…foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos, ao terceiro dia ressurgiu dos mortos, está sentado a mão de Deus Pai Todo Poderoso donde há de vir julgar os vivos e os mortos” (Tudo isto tem um significado esotérico, e é verdade de todo Cristo, de todo Adepto; mas os padres de Roma profanam estes símbolos quando os interpretam da forma mais crassa).

“Creio no Espírito Santo… (eles nem sabem o que Ele é, não tendo merecido Sua presença sequer uma vez, ao longo de mil e seiscentos anos!) “…na Santa Igreja Católica… ” (esta é a única e verdadeira Igreja acima do Abismo, e inclui todos os cultos dos homens; mas os padres romanos querem aludir, naturalmente a igreja de Roma).

“…na remissão dos pecados…”(esta “remissão dos pecados”, que faz da humanidade uma raça suja e maldita é, de todas as blasfêmias deste credo, a menos perdoável. Esta é precisamente a razão pela qual a Igreja de Roma nunca mereceu a manifestação do Espírito Santo!) “…na ressurreição da carne…” (isto se refere a doutrina da regeneração, isto é, da Medicina Universal; mas tendo este e outros segredos do Cristianismo primitivo sido perdido pelos romanos, eles interpretam esta frase da forma mais grosseira. Veja-se o RITUAL DA MAÇONARIA EGÍPCIA de Cagliostro para maiores detalhes.) “…na vida Eterna…”(isto se refere ao Elixir da Vida, novamente mal interpretado).

“…Amém”.

Agora, por favor, atente bem para esta passagem que se segue: “Um dia, alguns anjos fizeram pecado.” (Mais adiante explicam o que é pecado.) “Os anjos maus são chamados demônios.” “Os anjos maus foram para o inferno.” (É necessário que haja inferno. Pondere como essas criancinhas eram felizes, sem saberem que havia inferno antes de entrarem em contacto com a Igreja de Roma!…) “Para que Deus nos criou? Deus nos criou para conhecê-Lo… (na versão de Roma) “…para amá-lo e serví-lo neste mundo… (os pais têm filhos porque precisam de admiradores e escravos, nenhum ser sobrehumano poderia ter outra motivação…) “… e depois ir com Ele ao Céu.” (todo cachorro bem treinado merece uma recompensa) Convenhamos: a versão romana do Criador mostra bem pouca imaginação criadora! Mas a insensatez continua:

“Adão e Eva eram felizes no Paraíso.

“Um dia, porém, fizeram pecado.

“Que é pecado? “O pecado é uma desobediência voluntária à lei de Deus ou LEI DA IGREJA.” (a ênfase é nossa. Note, por gentileza, que os astuciosos roupetas estão duplamente assegurados: primeiro, porque foram eles que escreveram “a lei de Deus”; segundo, porque são eles que escrevem a lei da igreja!) “Jesus morreu na cruz para nos salvar do pecado.” (eles nem sabem mais o que é “Jesus”, e nunca souberam o que é a Cruz) “Deus dá o prêmio aos bons e o castigo aos maus.

“O prêmio para os bons é o céu.

“O castigo para os maus é o inferno.

“O céu e o inferno NÃO TERÃO FIM. (a ênfase é nossa. Deus não é apenas destituído de imaginação, é também destituído de misericórdia, para não falar em senso de humor. Este “Deus” é um demônio — feito à imagem daqueles que o promovem!) “Quem vai para o céu? “Vai para o céu quem morre sem pecado grave.” Note que não é necessário ser virtuoso, alegre, corajoso, honrado, para ir para o céu. As virtudes positivas não têm sentido para as criancinhas “cristãs” à moda romana: é suficiente “morrer sem pecado grave”. Veja o senhor, no Apocalípse, o que o Amém tem a dizer à Igreja em Laodicéia, Cap. III, vv. 14-22.

“Quem vai para o inferno? “Vai para o inferno quem morre em pecado grave.” Desta forma, os cavaleiros de Roma podem manter seu bolo e comê-lo ao mesmo tempo. Se o senhor não é batizado ( por eles ) ao nascer, está destinado ao menos ao purgatório (favor lembrar que o purgatório é uma invenção relativamente recente, promulgada quando o povo começou a reclamar que Roma mostrava pouca caridade para com os homens: no começo, o inferno era a única alternativa para o céu). A vida do senhor, do nascimento à morte, é completamente subordinada a eles: comunhão, sacramento, confirmação, casamento, confissão….

Lembre-se, dr. G., que toda esta teologia que ameaça de tormento eterno aos que não a aceitam, toda esta síndrome de repressão, de escravidão psíquica e social, toda esta maquinação, está baseada nas mentiras deliberadas e conscientes dos patriarcas de Roma e Alexandria! Verdadeiramente, eles podem se gabar: “Quantum nobis prodest haec fabula Christi!” Mas, infelizmente para eles, Dr. G., o Cristo não é uma fábula.

E o Verbo se fez carne, e habitou em nós.

Tu que és eu mesmo, além de tudo meu; Sem natureza, inominado, ateu; Que quando o mais se esfuma, ficas no crisol; Tu que és o segredo e o coração do Sol; Tu que és a escondida fonte do universo; Tu solitário, real fogo no bastão imerso, Sempre abrasando; tu que és a só semente; De liberdade, vida, amor e luz, eternamente; Tu, além da visão e da palavra; Tu eu invoco, e assim meu fogo lavra! Tu eu invoco, minha vida, meu farol, Tu que és o segredo e o coração do Sol E aquele arcano dos arcanos santo Do qual eu sou veículo e sou manto Demonstra teu terrível, doce brilho: Aparece, como é lei, neste teu filho!

Os versos acima, Dr. G., foram escritos por Aleister Crowley, o “pior homem do mundo” de acordo com a opinião dos padres que organizaram a campanha difamatória que o seguiu por toda a vida.

Estes versos deveriam ser cantados com orgulho por todo Filho da Luz, ou seja, por cada ser humano, cada Filho de Deus! O senhor ainda acha que a Igreja Romana pode ser encarregada, por homens responsáveis, honrados e ajuizados, da educação de crianças? Dr. G., enquanto esta igreja não reconhecer publicamente seus crimes contra Deus e a humanidade; enquanto não renunciar para sempre a essa ameaça de inferno e a esse dógma de pecado com os quais forças negativas, que se opõem à evolução da humanidade, tentam impedir ao homem e à mulher que se tornem Deus por meio do ato sexual (veja o Evangelho de “João”, Cap. IV, vv. 13-16); enquanto ela for a causadora de masturbação e autismo entre os seus assim-chamados monges e freiras, em vez de permitir que se expressem livremente como homossexuais (qual são frequentemente) ou como heterosexuais (qual são algumas vezes); enquanto o Bispo de Roma não admitir que ele é um entre muitos, e herdeiros de uma história acumulada de erros; em suma, enquanto a Igreja de Romana existir (pois no dia em que renunciar a todas as suas infâmias não será mais “Romana”, mas finalmente parte da verdadeira Igreja Católica, a Humanidade), a ela se aplicam as palavras de Jon, o filho da Luz, copiadas por ela em seus assim-chamados “Evangelhos”: “Cuidado com os falsos profetas, que a vós se mostram como cordeiros, mas que internamente são lobos vorazes.

“Pelos seus frutos os conhecereis.

“Nem todo aquele que me diz Senhor! Senhor! entrará no reino dos céus, mas só aqueles que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus.

“Muitos, naquele dia, me dirão: Senhor! Senhor! Não temos nós profetizado em Teu nome, não temos expelido demônios em Teu nome, e em teu nome não realizamos muitos milagres? “Então eu lhes direi claramente: nunca vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais a iniquiade.” – Mateus”, VIII, vv. 15-23.

Francamente, Dr.G., não posso entender como um maçon, como um homem sensato e honrado pode, por um momento, defender uma instituição que é uma nódoa na história da humanidade. Nós, verdadeiros herdeiros do Cristo, temos sido acusados de odiar a Igreja de Roma. Sabe Deus que não a odiamos: nós a abominamos e desprezamos com a intensidade devida àquilo que não só é vil em si mesmo, como aviltante para tudo que é sagrado e valoroso no homem.

Dizem que o diabo corre da Igreja de Roma, e é verdade. Mas não é que nós a temamos: ela nos enoja. É inútil proclamar o efeito maravilhoso que o Romanismo tem exercido sobre a civilização ocidental. A verdade é precisamente o oposto. Roma tem combatido toda reforma e todo progresso a cada passo, aceitando-os apenas no último minuto, e então fingindo — aos incautos — tê-los inventado. A renovação das artes, das ciências, da liberdade humana, jamais veio de Roma; veio dos maçons, dos árabes, dos judeus, da herança pagã redescoberta na Renascença, dos protestantes alemães, franceses e ingleses, das invasões dos piratas normandos e até das hordas de tártaros e turcos: nunca de Roma.

Considere a evidência histórica, Dr. G.! Durante mil anos, o sistema feudal, tornado odioso justamente pelos abusos decorridos da aliança da igreja com os senhores feudais, oprimiu a população da Europa. Veio a reforma — e em um século o sistema havia praticamente desaparecido. A Inglaterra católica romana era uma ilhota insignificante perdida no mapa da Europa: veio Henrique VIII, expulsou os jesuítas, criou o Anglicanismo — e em duas gerações a Inglaterra derrotava a Espanha católica romana, tornava-se o maior poder naval do mundo e estava prestes a construir um império mais poderoso do que o dos Césares. A França decaíu com os Valois católicos romanos: veio Henrique IV, protegeu os huguenotes, foi assassinado por isto, mas em um século a França de Luis XIV deslumbraria o mundo. Os protestantes colonizaram a América do Norte; compare o progresso da civilização da América do Norte com a situação das Américas Central e do Sul, colonizadas por padres jesuítas! Os países onde, no momento, prevalece o dógma romano, estão atrasados de cinquenta a cem anos em progresso material, e moralmente, em certa áreas, o atraso é de quinhentos a mil anos. Os países protestantes têm sina muito melhor. Mas infelizmente, mesmo os protestantes não estão livres da mancha do “pecado original” e do complexo de culpa, como tampouco de crença na necessidade de “salvação”, já que usam os textos evangélicos fabricados pelos romano-alexandrinos; e não foi à toa que Ambrose Bierce, por muitos considerado um dos maiores iniciados americanos, escreveu, como parte da definição da palavra “cristão” em seu impagável e realista “O Dicionário do Diabo”:

“Sonhei-me no alto dum morro, e vejam só: Em baixo, pias multidões, com ar de dó

Triste e devoto, andavam de cá para lá, Domingadas em suas roupas de sabá, Enquanto na igreja os sinos gemiam Solenes, alertando os que em falta viviam.

Foi então que pessoa alta e magra eu vi Vestida de branco, a olhar para ali Com a face tranquila, suave, simbólica, E os olhos repletos de luz melancólica.

‘Deus te abençoe, estranho!’ — exclamei.

‘Inda que, por teu diverso traje, bem sei Que vens sem dúvida de longínquo cantão, Espero sejas, como essa gente, cristão.’ Ele os olhos ergueu, com tão severo ardor Que senti meu rosto a queimar de rubor, E respondeu com desdém: ‘Como! O que é isto?! Eu um cristão? Na verdade não! Eu sou cristo.’”

Se o senhor quiser ler um magnífico estudo psicológico do Romanismo, leia “O Anticristo” de Nietzsche, e quando quer que o senhor encontre escrita a palavra “cristão”, substitua-a por “católico romano”. O senhor terá a Igreja de Roma exatamente como é.

Resumindo o conteúdo desta carta: Todos os homens são filhos de Deus. Todos os homens são capazes de realizar sobre a terra o Reino dos Céus, que está dentro de nós.

Somos todos membros do Corpo de Deus, todos Templos do Espírito Santo, e basta limpar o Templo — o que não significa castrar- se física ou psicologicamente! — para que a Presença se manifeste.

Não há nenhum “Jesús, Filho Único de Deus” para ser adorado; e quaisquer pessoas que afirmem o contrário ou estão enganadas ou estão enganando.

Está escrito nos “Evangelhos”: Vós conhecereis a verdade, e a verdade vos fará livres.

E também está escrito, nos originais santos, blasfemados e traídos pelas perpetrações romano-alexandrinas, que Jon olhou sorridente para a multidão e, abrindo os braços, lhes bradou:

“Vós sois o Caminho, a Ressurreição e a Vida!

Pois é eternamente verdade que o Verbo se faz carne; e neste exato momento, habita em nós.

Amor é a lei, amor sob vontade.

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NOTA BIBLIOGRÁFICA E ADDENDUM

Esta carta foi originalmente escrita no dia 9 de julho de 1963 e.v., endereçada a um maçom osiriano, médico, o Dr. Luiz Gastão da Costa e Souza, clinicando em Petrópolis, RJ. Foi-nos posteriormente dito, por outro maçom osiriano e ex-aspirante, Euclydes Lacerda de Almeida, que o Dr. Gastão cuidadosamente guardou a carta, mas se absteve por completo de mostrá-la a outros maçons.

Após o Primeiro de Abril de 1964 e.v., a carta foi copiada a carbono pelo autor, e distribuída livremente nas ruas do Rio de Janeiro a pessoas a quem ele se sentia impulsionado a entregá-la. A segunda versão foi consideravelmente ampliada na parte bibliográfica e histórica. O presente documento representa a terceira, e, esperamos, final versão.

A carta original terminava com os seguintes dizeres: “Doutor Gastão, este momento é dos mais graves da história da humanidade. Dos quatro cantos do mundo, forças das mais hediondas, das mais diabólicas, forças desalmadas se concentram em um ataque ao Homem, a Deus, à Justiça e à Verdade. Os comunistas encarnam um dos aspectos destas forças; as religiões organizadas do Aeon passado encarnam outros. No momento presente, são pouquíssimos os homens que conservam contacto com os planos espirituais; e no entanto eu levanto a minha voz em profecia e lhe digo:

Esta é a escuridão da Passagem dos Aeons.

No Novo Aeon, serão os bodes que organizarão a Igreja.

A maçonaria é a chave do Templo de Deus.

Eu avisei o senhor quando nos vimos: se os maçons brasileiros tentarem honestamente limpar a maçonaria das forças malignas que tentam infiltrar-se nela; se eles se despertarem novamente para a luta espiritual e para a luta cívica, eles terão todo o auxílio que for necessário. O Olho ainda está no Triângulo. MAS SE VÓS FIZERDES PACTOS COM DEMÔNIOS O OLHO SE FECHARÁ SOBRE VÓS.

Não é possível ser maçon e ser católico romano.

Não é possível ser marxista e ser maçon.

Não é possível ser maçon sem ser cristão.

Limpai as Lojas! Ou o Olho se fechará sobre vós.

Calafatai as Lojas! Ou a energia espiritual que nelas se acumula se escoará (esta é a razão pela qual o vosso segredo é a vossa força).

Serví o Brasil antes de mais nada; acima de toda outra nação; sois brasileiros, e o progresso como a caridade começa em casa.

Daí aos pobres do vosso excesso, mas não da vossa substância.

Sede verdadeiros maçons: maçons dignos dos que vos precederam, maçons dignos dos que fizeram a Independência, o Segundo Império e a República.

Nunca tenhais medo de lutar pela Verdade e pela Justiça, e perdoai os vossos adversários mas vencei-os, antes! Não agradeçais à Igreja de Roma as concessões que ela vos “faz”. Ó meus Irmãos pois como homens, somos todos Irmãos essas “concessões”, vós já as conquistastes: não ouvis os gemidos de dor? Não vedes os oceanos de sangue, não percebeis a legião de mártires maçônicos, não sentis ainda o cheiro e o clarão das fogueiras? A Igreja de Roma nunca fez concessões de ordem teológica a não ser por razões econômicas e políticas; ela sempre se aliou aos tiranos contra os oprimidos, e aliar-se-á aos marxistas, se necessário, para combater-vos; mas sede fiéis ao olho e o olho vos servirá.

Todo o progresso humano; toda lei humanitária; toda proteção à ciência pura; toda tolerância religiosa que existe no mundo presente foi o resultado do trabalho dos maçons! Nunca vos esqueçais disto! Não deveis agradecer ao inimigo oculto aquilo que ele nunca te concedeu, mas que vós conquistastes pelo sacrifício de muitos e pelo paciente trabalho de incontáveis outros.

Repito-vos: sede dignos do Olho, ou o Olho se fechará sobre vós.” O Primeiro de Abril de 1964 e.v. não teria ocorrido se os maçons tivessem cumprido as condições desta profecia. Em vez de fazer isto, a maçonaria brasileira deu os seguintes passos para trás nos anos que se seguiram a esta carta:

1) – Dividiu a sua direção em duas facções antagônicas.

2) – Permitiu a publicação em jornais de fotografias do interior das Lojas, inclusive em funcionamento.

3) – Promoveu declarações públicas de aliança com a Igreja de Roma.

4) – Espionou-nos e cooperou em armar-nos ciladas e na busca por desvendar os nossos “segredos”. Infelizmente, não temos segredos.

Ponde um tratado sobre o cálculo tensorial nas

mãos de um estudante primário e deixai-o ler o livro a vontade: de nada lhe adiantará.

O “esoterismo” é uma farsa: verdadeiros segredos NÃO PODEM ser revelados, pela simples razão que sem vivência é impossível compreende-los, mesmo quando são explicados da forma mais simples e mais franca.

Devido ao desleixo ou a inércia dos maçons, a profecia da carta se cumpriu e continua se cumprindo. Como consequência, a maçonaria brasileira só está viva agora na O.T.O. e na Ordem de Télema. Nós não reconhecemos nenhum movimento maçônico do Velho Aeon.

A bom entendedor, meia palavra basta; aos maus entendedores, milhares de discursos não surtirão efeito.

Não existe Lei além de faze o que tu queres.

Fraternalmente

Marcelo Motta

#Maçonaria #Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/carta-a-um-ma%C3%A7om

Os Mantras e Bija Mantras

Mantras

A palavra mantra provém do sânscrito e tem muitas diferenças sutis de significado “instrumento da mente”, “linguagem divina” e “linguagem da fisilogia espiritual humana” são apenas algumas de suas conotações. O mantra é um instrumento para curar os problemas que todos nós enfrentamos na vida. Como afirma o mestre místico sufi Vilayat Inayat Khan: “A prática do mantra literalmente amassa a carne do corpo com a repetição de sons. As células delicadas dos complexos feixes de nervos são submetidas a um martelar constante, um ataque à carne pelas vibrações do som divino”.

A prática do mantra pode ajudar você a se sentir mais calmo e energizado. Pode ajudá-lo a lidar com situações difíceis ou desagradáveis, propiciando uma ideia do que fazer ou ajudando-o a ter paciência e perspectiva para simplesmente deixar que as coisas aconteçam. Pode ajudá-lo a realizar seus desejos e transformar seus sonhos em realidade. O mantra é um método pessoal ativo e pacífico de enfrentar as situações que você deseja mudar. São fórmulas antigas de sons divinos registrados pelos antigos sábios da Índia e mantidos em confiança e segredos durante séculos, tanto na Índia como no Tibete.

Mas o mantra não é nenhuma panaceia. Não é o único nem o melhor meio de resolver todos os problemas humanos. Sua vida e seu karma – o efeito acumulado de todos os pensamentos e atos de muitas encarnações – são demasiadamente complexos para serem dominados inteiramente por algumas semanas de trabalho com fórmulas espirituais, por mais poderosas que elas possam ser. Mas a prática do mantra pode solucionar totalmente muitos dos problemas que enfrentamos e proporcionar alívio considerável a outros.

A prática de mantras pode ajudar você a lidar com os problemas e necessidades materiais da vida. Todos nós queremos ou necessitamos de algo, ou desejamos realizar mudanças em nossa vida. Algumas pessoas querem encontrar um parceiro. Outras estão em busca de um novo trabalho ou carreira. Muitos de nós já tivemos problemas de saúde ou conhecemos alguém que tenha. Todos nós passamos por dificuldades financeiras em uma ou outra fase da vida. Temos desejos que podem ser tão simples como a compra de um carro novo ou tão complexo como aparar das arestas nas relações familiares.

Muitos de nós também queremos ajuda para lidar com emoções e conflitos interiores. Deparamo-nos com situações que provocam reações automáticas que gostaríamos de evitar. Ficamos frustrados, tristes, furiosos e enciumados. Às vezes, nossas reações podem ser mais problemáticas do que as situações que as provocaram. Algumas palavras ditas com raiva podem causar danos enormes a uma relação de amizade ou de amor. A depressão pode tornar-se tão profunda que afasta todos e tudo de nós. Os anseios e as obsessões nos isolam. A prática dos mantras pode ajudá-lo a obter clareza tanto com respeito ao propósito da sua vida quanto de si mesmo.

Às vezes, gostaríamos simplesmente de poder ajudar os outros, mas não sabemos exatamente como. Um membro da família ou colega de trabalho passando por alguma dificuldade, ou gostaríamos de poder dar uma contribuição para melhorar a comunidade ou o mundo em que vivemos – se apenas soubéssemos o que fazer. A prática de mantras pode ajudá-lo a encontrar o meio certo de promover mudanças efetivas.

Bija Mantras

Existem certos mantras, de uma única sílaba, que são extremamente potentes. Eles são conhecidos como mantras seminais, sem nenhuma conotação específica. Em sânscrito, são conhecidos como mantras bija e, na literatura védica, são abundantes os contos e lendas de seres que os praticaram e conquistaram elevados níveis de poder espiritual e material. No Rig Veda, por exemplo, o espírito da terra Kubera tornou-se o rei da prosperidade simplesmente por ter recitado alguns desses poderosos mantras seminais por um longo (sobrenaturalmente longo) período de tempo.

Diferentemente das palavras da fala corriqueira, os mantras bija são por si mesmos experiências de energia. Não são símbolos de outros objetos ou experiências do mundo. A palavra “cadeira” denota um objeto de quatro pernas, mas os mantras seminais não representam objetos e nem mesmo sentimentos. São como o perfume de uma flor ou o sabor de uma maça. Não existem palavras para definir essas experiências. As experiências é que definem as palavras.

Existem mantras bija de gênero neutro para ajudar a ativar cada um dos chakras e prepará-lo para lidar com a energia que é processada e usada em seu respectivo centro.

Lam

É o som seminal do chakra Muladhara, localizado na base da coluna. Ele é regido pelo elemento terra e tem a qualidade do olfato. Quando um devoto medita sobre o som Lam, diz-se que surge uma fragrância mística como indício de progresso espiritual.

Vam

É o som seminal do Chakra Swadhisthana, localizado no centro genital. Seu elemento é a água e sua qualidade é o paladar. Ao recitar o bija Vam visualiza uma lua crescente sobre a água. A paciência começará a se manifestar, bem como um maior controle sobre o apetite e outros sentidos.

Ram

É o som seminal do Chakra Manipura, localizado no plexo solar. É regido pelo elemento fogo e sua qualidade é a forma. Concentre-se no Ram e você verá um fogo “amigável” que é parte de você. Quando essa energia é equilibrada, desaparecem os distúrbio estomacais e problemas digestivos.

Yam

É o som seminal do Chakra Anahata, situado no centro do coração. O elemento que o rege é o ar e sua qualidade predominante é o tato. Se você concentra-se no som Yam, o som seminal do elemento ar, você poderá ouvir música ou vozes de seres divinos. (como diz a Bíblia, se você encontrar espíritos, não deixe de testá-los) A prática deste mantra bija pode ajudar a aliviar muitos os sintomas de asmas e de outras doenças pulmonares.

Ham

É o som seminal do Chakra Vishuddha, situado na região da garganta. Seu elemento é o éter e sua qualidade o som. Quando você se concentra no Hum, os problemas da garganta são curados e fica fácil aprender outras línguas.

Om (Aum)

É o som seminal correspondente ao Chakra Ajna, localizado no centro da terceira visão. As energias masculina e feminina encontram-se no centro da terceira visão. Portanto, este som seminal contém o Princípio da Unidade. Este mantra seminal está relacionado a uma qualidade de inteligência cósmica. Pela prática do Om, elimina-se as preocupações e a mente fica serena.

Cada mantra seminal tem um poder único que você mesmo terá de descobrir. Os modos como eles podem funcionar e manifestar-se para você são muito diferentes dos modos como funcionam para outros praticantes; isso é de se esperar em função das muitas e profundas diferenças kármicas pessoais. Seja receptivo a quaisquer imagens ou resultados que o mantra lhe proporcionar. Quaisquer mudanças que ocorram em sua vida podem conter o germe para a solução do problema ou o motivo pelo qual você decidiu praticar o mantra.

#Chakras #Espiritualidade #karma #Mantras

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/os-mantras-e-bija-mantras

Asmodeus – Adornado em Chamas

7 Aconteceu que, precisamente naquele dia, Sara, filha de Raguel, em
Ecbátana na Média, teve também de suportar os ultrajes de uma serva

de seu pai.

8 Ela tinha sido dada sucessivamente a sete maridos. Mas logo que eles  5
se aproximavam dela, um demônio chamado Asmodeu os matava.

9 Tendo Sara repreendido a jovem criada por alguma falta, esta
respondeu-lhe: Não vejamos jamais filho nem filha nascidos de ti sobre
a terra! Foste tu que assassinaste os teus maridos.

Livro de Tobias (3: 7-8-9)

asmodeus1Os três Sacerdotes do Templo de Satã, dedicam esse texto como uma homenagem a ti, Katlyn Babalon, nossa Musa do Apocalipse 

Parabéns e aprecie, e relembre tudo que Asmoday já te trouxe.

Quando falamos de demonologia, um dos principais nomes, é Asmodai, o trigésimo terceiro demonio da goetia, tão famoso por ter construído o templo de Salomão. Eu comecei a trabalhar com ele, no meio de 2008 e de lá pra cá, comecei a passar pra outras pessoas, sobre ele, e sobre como trabalhar com este demônio. Afinal, o inferno é free pass ? Ou não ?

Senhor de toda a Luxuria, ASMODAI, ASMODEUS, ACHENEDAY, SIDONAI, ASHMODAY, ASMODÉÉ, é o mais sedutor de todos os demônios, sem duvida alguma, por causa de seus domínios, acaba aprisionando os incautos em teus jogos de possessão. Ele é alimentado com álcool puro, fluidos sexuais, jóias masculinas, Absinto, maçã, enxofre, pimenta (todos os tipos) velas vermelhas e todos os incensos afrodisíacos podem ser dedicados á ele. Além de luxuria, ele trabalha fornecendo sabedoria, riquezas, une e desune casais, mata destrói, enlouquece, é um senhor da Loucura,  acendendo ou apagando paixões, causando dor e sofrimento, tornando homens ignorantes, perturbando-os.

É o senhor da Ira, do Caos.

Cuida também de virilidade, dando ou retirando de um homem, e de fertilidade, regendo a sensualidade, os jogos, o adultério, a homossexualidade, discórdia, engano. Um dos demônios mais intensos que já convoquei.

Em uma das minhas brincadeiras, eu e uma amiga, convocamos ele, ao meio da madrugada, na praia vazia, somente para acender a paixão de duas pessoas para nós. Ela morava comigo na época, e foi uma época rica de demonologia – que serão detalhadas aqui. Usamos apenas o que tínhamos, que era somente incenso de almíscar. Foi magnifico a invocação, olhando pro mar, pequenos globos de energia se formavam e desapareciam,  terminada a conjuração, os dois, se sentiam possuídos,  rindo a toa, e sentindo uma força sobrenatural dentro de si. Assim perdurou por dois dias. Quando estavamos brincando com o tarot, uns dias após, o telefone toca. Uma garota, a qual o demônio foi enviado, acabara de ligar desesperada. Ela acordou com um homem a sua frente, a sombra de um, se sentindo paralisada. Começou a ter crises de choro fortes, e só pensava em mim, no caso, e me ligou pedindo tanto ajuda como segundas intenções, reveladas somente mais tarde, no ápice da lascívia. E esta mania de se mostrar, é tipica do Asmoday, quando mandei ele separar duas pessoas, uma delas um amigo intimo e sua ex namorada, ele me contou que a sua ex, também acordou com esse homem, vestido de negro ao lado da sua cama, e a sensação de desespero também a fez ligar para seu namorado e contar. E ele me contou logo em seguida, sem saber que era uma brincadeira demoníaca minha.

Já pra ela, Asmoday agiu de outra forma. Ela o invocou para um rapaz a qual veio a namorar um tempo, ela ganhou fascínio com o Asmoday, por ver, que o rapaz falava exatamente, segundo ela, exatamente tudo que ela pediu pro Asmoday. Ele se tornou uma casca, com o Asmoday dentro, jogando com seus sentimentos. A cada vez que mantinham relações, ela mentalizava o nome do Asmoday, e assim alimentava o demônio. Até que a coisa perdeu o controle. Tudo se iniciou por sonhos perturbadores do rapaz, que ficava desordenado, e se rebatia na cama. Até o ponto, que numa madrugada ela me ligou me sem saber o que fazer. O garoto tava se rebatendo demais, além de gritar o tempo todo, falando em línguas que ela não entendia, ela não conseguia acorda-lo, e ele se batia violentamente, e em algumas vezes, parecia q ele se levantara meio sonambulo, quase vindo pra cima dela, e logo em seguida caindo. Ela estava assustada, me ligou. Em posse de fios de cabelo dele, eu comecei a exorcizar o demônio, ainda bêbado de sono, assim que desliguei o telefone com ela. Uma hora após, ela tornou-me a me ligar relatando que ele caíra num sono tranquilo. Asmodai foi embora, junto com ele, toda a obsessão amorosa que o rapaz tinha por ela.  Ela logo terminou o namoro, assim que notou a diferença gritante que aconteceu da noite pro dia, literalmente.

Já outro rapaz, Lipe, convocou para uma garota a qual estava interessado. Ele começou a invocar toda semana, dando fluidos sexuais para o demônio, depositando-os sobre o selo do mesmo. Em um mês e pouco, tudo mudou radicalmente. Em questão de dias, a garota começou a demonstrar uma paixão louca por ele. E enlouqueceu a ponto de ela ter visões dele pela casa, sonhar com ele diariamente, ter crises de choro sentindo a falta dele, ela perdia o sentido, tinha falta de ar, parecia que perdia a próprio controle. Ela tinha visões dele, alucinações com o rapaz, vindo e se envolvendo com ela. Ela sentia fisicamente isso.  Ele fazia apenas dois pedidos, cada vez que dava seus fluidos pro Asmodai – Enlouquece-la de paixão, traze-la até á ele.E as coisas aconteciam de modo brusco, se não, violento. Asmoday fez a garota delirar, literalmente, perder o próprio controle. Ele teve que mudar de demônio, quando ela começou a ter complicações respiratórias, além das alucinações mais frequentes.

Sexo com demônios não é um assunto novo, tão antigo quanto a minha própria bissexualidade, e por isso, em uma projeção astral eu o convoquei para tal proposito. Voltei completamente exausto, tonto, não conseguindo me manter em pé direito. As mesmas experiencias, uma amiga minha Hydra, teve com ele. As quais estarei descrevendo. Adiante no texto;

Eu conheci Asmodai através do meu amigo Inkubus e estava muito tentada a trabalhar com ele dentro da demonologia porque queria a aproximação de uma pessoa. Encontrei uma linda foto de Asmodeus e a imprimi, e trabalhava com energia sexual alimentando-o e buscando sua presença com fluidos sexuais. Em poucos das eu estava fascinada por Asmodeus, que se mostrou muito sedutor e comecei a buscar incessantemente sua materialização. Um belo dia eu acordo e vejo Asmodeus pairando sobre mim, como que flutuando… minha respiração estava ofegante e a excitação sexual muito intensa. Sentia que o corpo sutil dele ganhava forma e conteúdo enquanto ele penetrava em mim. Isso levou alguns poucos minutos e então ele se dissipou. Terminei por mim mesma este “ritual” sexual entre eu e ele e ofertei a energia desprendida desse ato à ele. Asmodeus respondeu positivamente aos meus pedidos e desse dia em diante se tornou um dos demônios com os quais eu mais me identifico. 

Lupus aeternos, me descreveu este cavalheiro desta forma;

Asmoday é um rei reservado e calmo, porem quando evocado ele pode deixar um rastro de discórdia e perversões sexuais. Na mitologia semítica encontramos que Asmodeus nasceu para se tornar o rei dos shedim (espíritos malignos) e na mitologia cristã cabalista ele pode ser identificado com o anjo Asmodel. Seu ofício é o confronto, a destruição e a luxuria. 

Sendo um demônio do fogo e marido da jovem Lilith(Na’amah mãe e esposa dele) ele foi conhecido por auxiliar feiticeiros no Negev e matar hebreus através de pragas, loucura e violência. 

A ele podemos associar animais como o galo, touro, serpente e o cão. 

Não posso dizer que tive experiencias tranquilas com ele mas algumas forma muito positivas e outras muito conturbadas. A energia dele leva a um estado de consciência que pode “simular” uma possessão  e as vezes nos induzir à momentos de insanidade, ao mesmo tempo que parece ser um estimulante sexual e também aumenta o vigor e a força física do mago ou feiticeiro.

Ele buscou no Asmoday outra coisa; queria vingança – untando uma vela em sangue, ele começou a fazer a seguinte invocação, de forma poética, expressando teu desejo;

“Abra a tua boca Asmodeus e deixa o enxofre sair,
Rei de toda ira e luxuria deixa tua força fluir,
Pela minha ira e meu desejo de vingança destroi o corpo deX,
Lança tuas legiões a cada hora de vida para para assolar “X” até que ele esteja morto!
Deixa tua discórdia fluir e destruir a vida e a mente deste que me feriu,
E tudo que ele mais gosta na vida se volte contra ele,
Eu invoco a tua ira e tua força e ordeno ao céu, a terra e aos mares que se voltem contra ele!
E por todos os shedim sobre o teu comando que a peste e a desgraça caiam sobre ele,
A loucura e a insanidade venha a tona, para que ele engasgue com os proprios ossos!
Asmodeus, pela minha voz destroi o corpo, a mente e o espirito de “X’ com  a tua ferocidade!”

Formas variadas de se trabalhar com esse demônio, nos levam a crer, que magia é mais pessoal que formal, que não existem receitas para que a magia aconteça, por que ela, simplesmente acontece. Asmoday nesses 4 anos ao meu lado, me mostrou claramente que demônios são vivos, tem personalidade, e muitas vezes além de pedir o que se deseja, deve –se pedir o que se não deseja – para que se evite resultados desastrosos.  Talvez o Inferno seja um grande professor, ou até mais que isso. Pouco importa hoje em dia a origem dos mitos, o que nos vale, é como usa-los. E aqui está Aeshma Daeva, em uma entrevista completa e participações em vidas pessoais. Usem bem.

Excitação, domínio e magia. Achenaday, um dos príncipes da Escuridão, este é um trabalho dedicado á ti.

Por Inkubus

Postagem original feita no https://mortesubita.net/demonologia/asmodeus-adornado-em-chamas/

Experimento Filadélfia

Transcrito em 12 de outubro de 1991 por Clay Tippen, 7809 Cypress St. West Monroe, L.A 71291-8282. A advertência a seguir foi feita por Rick Andersen. Nota do tradutor: Todas notas entre “[ ]” são do tradutor.

“Este documento pode ser publicado livremente*. Serve ao propósito daquelas partes interessadas em aumentar a sua informação sobre o Experimento Filadélfia. Por favor, sinta-se à vontade para levar este documento para qualquer BBS [ou site] que desejar. Mas por favor, não o aumente ou diminua. No momento, ele não tem nenhuma alteração.

Este documento foi transcrito de um fita de vídeo. Recebi o tape por volta de maio ou junho de 1990. Depois de assisti-lo e revisá-lo cerca de uma dúzia de vezes, mostrei-o a alguns amigos, e como eu, eles ficaram espantados. Alguns acreditaram nele, e outros não. Agora, vocês poderão tomar a sua própria decisão. Alfred Bielek é um dos sobreviventes do Experimento Filadélfia.

Vários dos nomes e lugares que o senhor Bielek menciona, não puderam ser entendidos corretamente, devido aos níveis de áudio, e por terem sido apenas murmurados. Claro, havia muitos lugares e coisas que eu nunca tinha ouvido falar, e não tinha a menor idéia de como eram soletrados. Tentei pesquisar alguns deles para ter certeza que estava tudo correto. Igualmente, algumas das palavras soam um pouco estranhas, em um inglês pouco apropriado, com palavras e sentenças duplas [este documento está exatamente como foi deixado por Rick Andersen, em outubro de 92].

Esta conferência foi realizada na Mufon Metroplex em Dallas, Texas, em uma reunião sobre UFOs. A data desta conferência foi 13 de janeiro de 1990. O nome do locutor é Alfred Bielek, e isto é como ele explica a começo e o assim chamado término do experimento”.

Anfitrião:

Alfred Bielek é nosso locutor esta noite, e eu o ouvi na conferência sobre UFOs em Phoenix, em setembro, e penso que todos concordam que ele foi o mais interessante de todos os locutores, ao menos no material subjetivo. Então, que eu saiba, não há muitos por aí que tenham estado envolvidos no Experimento Filadélfia e que ainda possam contar sobre esta experiência. Ele está. Então, acho que este é realmente um excitante programa.

Agora, há muitas conexões sobre UFOs em um sentido que, bem … vou deixá-lo contar-lhes um pouco sobre isso, mas um dos projetos no qual ele estava trabalhando ainda é altamente classificado, envolve os UFOs, e ele realmente não pode falar muito sobre isto; esta noite, ele poderá somente tocar brevemente no assunto. Mas eu penso que é realmente interessante que há tantos segredos governamentais sobre isto quanto há sobre UFOs, e o governo sempre nega que isto tenha acontecido.

Então, quanto a esta relação, eu penso que isto é realmente interessante, e isto certamente tem uma conexão com as coisas que discutimos aqui em nosso grupo. Então, com tudo isso, apresento Alfred Bielek.

O Experimento Filadélfia

Como foi anunciado, meu nome é Alfred Bielek, eu sou um sobrevivente do Experimento Filadélfia. Antes de começar, vou perguntar: quanto às pessoas que estão aqui, quantos de vocês sabem sobre o que era, realmente, o assim chamado Experimento Filadélfia?

Eu não vejo muitas mãos se levantando. Então, provavelmente a segunda pergunta é um pouco supérflua. Quantos de vocês tem qualquer idéia sobre se este experimento começou nos anos da guerra? É isto, Segunda guerra Mundial, eu diria 41 ou 42. Quantos de vocês pensam que isto começou aí? Muitos poucos se informaram sobre isto…. Umas poucas mãos se levantaram. Ou quem pensa que isto começou mais cedo? Bem, aqueles que disseram mais cedo estão corretos.

Isto teve a sua gênese em 1931-1932, em uma estranha e pequena cidade onde ventava muito, chamada Chicago, em Illinois. Por esta época, pelos anos vinte e trinta, houve muita especulação na literatura popular, ou seja, na literatura popular do tipo “Popular Science”, “Popular Mechanics”, “Science Illustrated”, sobre assuntos como invisibilidade, tentativas de fazer um objeto ou uma pessoa desaparecer, e até em teletransporte. Eu penso nas pessoas daquela época, escrevendo e achando que talvez estivessem perto disso, em termos de realização científica, mas havia muita especulação, e muito pouco, se havia, sendo feito neste sentido. Por volta de 1931, algumas pessoas decidiram que era tempo de fazer alguma coisa a este respeito, e foram todos à Universidade de Chicago. Os três principais envolvidos eram o dr. Nikola Tesla, o dr. John Hutchinson, deão da Universidade de Chicago, mais tarde chanceler, e o dr. Kirtenauer, que era um físico austríaco, que tinha vindo da Áustria e estava no corpo docente da Universidade de Chicago. Eles fizeram uma pequena pesquisa…. um estudo de plausibilidade, tipo coisa daquela época, que não realizou muito, naquele momento em particular, naquele período. Um pouco mais tarde, o projeto inteiro foi levado para o Instituto de Estudos Avançados de Princeton.

O Instituto de Estudos Avançados era uma organização interessante. Não era parte do sistema da universidade, nem era parte de Princeton. Ficava em sua área, mas era uma entidade independente. Foi fundado em 1933, sob os auspícios de quem, ou para qual propósito, não poderia realmente dizer, outros do que alguém poderia desejar, um instituto para estudos muito adiantados, pesquisa pós-doutoral e este tipo de coisas. Entre as primeiras pessoas que vieram se juntar estava uma pessoa bastante interessante e bem conhecida, Albert Einstein. Não entrarei em detalhes sobre ele, porque sua história é bem conhecida, mas ele uniu-se à equipe em 1933. Ele era, claro, de Bonn, Alemanha, e depois de deixar este país em 1930 (alguns dos biógrafos dizem que ele saiu em 1933, mas foi em 1930), ele veio para os Estados Unidos, e foi para Pasadena, Califórnia. Ele estava ensinando em Cal-Tech. Ele esteve lá por cerca de três anos, e foi então convidado a unir-se ao Instituto, o que ele fez em 1933, e ele permaneceu lá até a sua morte. Sua função principal era como físico teórico, um pensador, estritamente matemático, na área da física. Tornou-se bem conhecido por sua Teoria Especial da Relatividade, sua Teoria Geral da Relatividade e sua especulativa Teoria do Campo Unificado.

Outras pessoas vieram unir-se, pela mesma época. Um dos mais importantes foi o dr. John von Neumann, nascido em Budapeste, Hungria, que tinha vindo da Europa. Ele graduou-se em matemática, e teve seu PhD em matemática em 1925, em Budapeste. Ele ensinou no sistema universitário alemão por aproximadamente quatro anos, em dois diferentes cargos. Durante este período ele encontrou o dr. Robert Oppenheimer, que estava na Europa na mesma época e que veio a tornar-se importante após este projeto, e inúmeras outras pessoas. Agora, von Neumann era bastante interessante. Ele era um teórico, um matemático teórico. Mas ele era também um “crânio”, o que significa que ele sabia como aplicar a teoria pura. Einstein não sabia, e isto é muito importante. Então, uma das outras pessoas dirigiu-se para aquela universidade, uma onde alguém estava ensinando à época, era um homem muito importante, se puder ler minhas notas aqui, era um homem chamado David Hilbert. Provavelmente nenhum de vocês jamais ouviu falar sobre ele. Um doutor em matemática, ele era considerado na Europa como o matemático de maior projeção; que eu saiba, ele nunca deixou a Europa. Ele nasceu, cresceu e morreu na Alemanha. Ele morreu lá por volta de 1965, aproximadamente. Mas ele estava no círculo de contatos do dr. von Neumann. Hilbert é mais conhecido e lembrado pelo fato de ter desenvolvido uma forma muito exótica de matemática, chamada Espaço de Hilbert. Ele foi o primeiro homem a definir matematicamente realidades múltiplas, espaços múltiplos e o que tudo isto significava em termos de um ponto de vista da matemática. Para a maioria de nós isto é quase sem sentido, e para a pessoa comum isto é sem sentido, mas é importante para os físicos e para os matemáticos, porque ele traçou o caminho para o que veio a tornar-se o Experimento Filadélfia.

Hilbert e von Neumann o fizeram juntos. Von Neumann escreveu um ensaio na Alemanha, em alemão, sobre Hilbert e alguns de seus trabalhos. E von Neumann, sendo ele mesmo bastante conhecido, tomou o trabalho de Hilbert e “deu-lhe uma melhorada”, como se costuma dizer, desenvolvendo um completo e novo sistema de matemática. Von Neumann é bem conhecido nos círculos matemáticos, como também Hilbert, e teve publicados trabalhos, alguns discretos, pós-Experimento Filadélfia. Uma das coisas pelas quais ele tornou-se conhecido foi a Teoria dos Jogos. Ele também desenvolveu um sistema de operadores de anéis [ring operators], uma espécie muito exótica de álgebra, mas nada que signifique algo para qualquer um, exceto para aquele altamente graduado em matemática e que seja matemático puro.

Outras pessoas tornaram-se importantes para este projeto à medida que o tempo corria. Aproximadamente em 1934, eles mudaram o projeto para o Instituto, e o dr. Tesla entra aqui. Tesla é um homem muito importante. Toda a sua história é bem conhecida. Há um filme, feito por Segrabe Productions na Iugoslávia, descrevendo a sua vida. Ele nasceu em 1856. Ele foi para a escola, a escola regular, um ginásio, que era o colégio deles, ele começou em uma universidade. Ele estava lá há um ano quando o seu pai morreu. Ele ficou sem dinheiro, e assim não podia continuar sua educação formal, mas ele fez um acordo com os professores, que o deixavam sentar-se nas salas de aula. Ele então buscou trabalho onde podia encontrar, na Europa, e trabalhou para a Western Union por um período de tempo. Depois, uniu-se às Edison Corps. da Europa. E, quando decidiu mudar-se para os Estados Unidos em 1884, ele tinha uma carta de apresentação de um homem de Edison, que gerenciava as Edison Corps. na Europa. Então ele chegou aos Estados Unidos em 1884, e como se diz, com um bom conhecimento de onze línguas, quatro centavos no bolso, um livro de poesia, e uma carta de apresentação para Thomas Edison. Isto era o mais importante que ele tinha, a carta de apresentação, porque ela tornou-se, por um período de tempo, o seu sustento.

Ele foi apresentado a Edison, e imediatamente entrou em discussão com ele sobre as diferenças em sua abordagem básica da eletricidade. Edison era partidário da DC [direct current – corrente contínua], e Tesla, como é bem sabido, era partidário da AC [alternate current – corrente alternada]. Edison não podia ver nada na AC, nem queria ter nada com ela. Ele tinha interesse em investir, se o quiserem, no maquinário DC o qual ele tinha projetado e construído, e nos sistemas de energia que ele tinha montado. Bem, ele trabalhou, quer dizer, Tesla trabalhou para Edison por cerca de seis meses. Eles entraram em uma violenta discussão sobre dinheiro, isto é, sobre uma promessa que Edison tinha feito a Tesla, de que, se ele resolvesse um determinado problema, dentro de um certo limite de tempo, ele, Edison, lhe daria US$50.000,00 como bônus. Bem, Tesla fez o trabalho no prazo e foi a Edison perguntar-lhe pelo bônus. Edison riu, isto era uma grande piada, era o senso de humor americano e tudo isso. Tesla não pensava assim, que aquilo era uma grande piada, fez suas malas e deixou-o imediatamente, indo de novo cavar fossas.

Depois disso ele encontrou várias pessoas, fez várias coisas, uma delas sendo para o presidente da Western Union, tendo trabalhado para ele por um período de tempo. Este cavalheiro ajudou-o a instalar o seu primeiro laboratório. Com o tempo, tornou-se um cidadão americano, e começou a dar uma série de palestras no antigo Instituto de Engenheiros Eletricistas, o qual, entre os anos de 1880 e final da década de 1890, era muito famoso em Nova Iorque, tendo Tesla se tornado um locutor regular e proeminente, sobre vários assuntos e cursos envolvendo teoria sobre AC, energia elétrica e tudo aquilo que ele pensava que era importante. Com o apoio de todos lá, tudo que ele apresentava era importante.

Certa vez, ele deu uma demonstração sobre teoria elétrica e energia AC, e um dos freqüentadores era o senhor George Westinghouse. Então, aproximadamente em 1889, Westinghouse comprou todas as patentes de Tesla, 20 delas sobre sistemas de geração e distribuição de energia elétrica em AC, pagando-lhe um milhão de dólares em dinheiro vivo, e um royalty de um dólar por cada cavalo-vapor, ou seja, por cada cavalo-vapor produzido pelas maquinas, a partir daquele instante e enquanto durassem as patentes. Isto colocou Tesla completamente nos negócios.

Em 1893, Tesla ganhou um prêmio por ter fornecido a energia para a Exposição Mundial de Chicago. Era a primeira vez que uma grande exposição tinha qualquer aparelho de geração de energia AC; anteriormente, era a energia DC, quando havia energia disponível, e isto não agradou em nada o senhor Edison, mas, não obstante, Tesla ganhou-a. Ele foi apoiado por J.P. Morgan. E ele também fez algo de notável nesta exposição: demonstrou pela primeira vez, publicamente, um modelo de barco rádio-controlado, em uma doca. Ele repetiu esta demonstração em 1898, no Madison Square Garden, na cidade de Nova Iorque.

Neste meio tempo, houve uma competição sobre o desenvolvimento de alta tensão e transmissão de energia a longas distâncias, e Tesla ganhou a concessão para construir a estação elétrica do Niágara, a primeira e maior estação de energia hidrelétrica nos Estados Unidos a ser equipada com energia AC. Ele ganhou-a porque ele prometeu que podia transportar energia até a cidade de Nova Iorque, sem perdas, e provou-o. Em 1899, Tesla foi para Colorado Springs para fazer um monte de pesquisas, e neste período ele estava intrometendo-se em várias áreas básicas envolvendo eletricidade em alta tensão e raios elétricos — a bobina de Tesla, se desejarem. Já estava lá há dois anos, quando fez alguns anúncios para a imprensa. Uma delas, em 1899, foi que ele tinha estado em contato com pessoas de fora do planeta Terra, et’s, se quiserem, em nossa terminologia moderna. A imprensa tomou bastante notas de tudo aquilo, e os colegas cientistas viram aquilo com desagrado, na época. Aquele não era um assunto popular; eles pensavam que ele era talvez um pouco ‘biruta’, o mesmo que pensariam dele muito mais tarde, um par de décadas mais tarde. Mas ele manteve suas opiniões.

Bem, em 1906, com JP Morgan apoiando-o de novo, ele desenvolveu um sistema para transmissão de sinais de rádio e televisão [sic – não existia televisão, na época – NT], e a Torre Wardencliff foi construída em Long Island, em 1906. Cerca de um ano antes de sua conclusão, ele foi até JP Morgan e disse, “Realmente, senhor Morgan, eu pretendo usar esta torre para a produção de ENERGIA LIVRE [grátis], para todo mundo. ENERGIA ELÉTRICA LIVRE”. E o senhor Morgan disse a ele, “O que o senhor quer me dizer, senhor Tesla, é que qualquer um pode esticar uma vara de antena na terra, e outra no ar, e pegar toda ENERGIA LIVRE que quiser, e eu não posso colocar um medidor lá para medir isto e cobrar?”. E Tesla disse, “Isto é correto”. JP Morgan disse, “Eu vou responder-lhe, senhor Tesla, quando estiver pronto para o senhor”. Obviamente, o senhor Morgan nunca chamou-o de novo, e cortou-lhe todo os fundos. A Torre Wardencliff ficou lá até 1914, quando foi dinamitada por alguém. E esse foi o fim daquele projeto. Neste meio tempo, Tesla iniciou outras coisas. Eu serei mais breve agora, porque estamos entrando na parte principal disto tudo.

Em 1917, é claro, teve início uma guerra – a Primeira Guerra Mundial. Tesla foi abordado por Franklin Delano Roosevelt, então secretário da Marinha, para fazer algum trabalho para o governo, com o que ele concordou prazerosamente. Ele também envolveu-se à época com a American Marconi Co., e esta companhia foi confiscada durante a Primeira Guerra Mundial, porque poderia ser um possível rincão de atividades estrangeiras, e vocês conhecem a paranóia usual que existe em tempos de guerra. E a companhia inteira foi absorvida pelo governo, Tesla com ela. Tesla desenvolveu um número de coisas interessantes nesta época, uma das quais foi o Sistema de Antenas Rogers [Rogers Antenna System].

O Sistema Rogers para transmissão sem fio, tornou isto possível para os militares da época — a patente esteve classificada [secreta] por muitos anos ¾ transmitir comunicações por voz para a Europa, a partir dos Estados Unidos, sem estática e sem ruído, um feito inédito para a época. O sistema ainda é usado hoje em dia pelos militares.

Em 1919 uma nova corporação foi formada, a RCA, e Tesla tornou-se parte dela. Ela foi formada a partir do antigo núcleo da American Marconi. Tesla permaneceu com a RCA, primeiro como engenheiro, depois como diretor de engenharia, e depois de 1935 como o diretor mundial de toda engenharia e pesquisa para a RCA, onde permaneceu até 1939, época em que se aposentou.

Durante todo este período de tempo, ele teve uma impecável trilha de recordes em produzir maquinário que trabalhava e nunca falhava, i. é, ele nunca falhava em produzir alguma coisa que funcionasse. Ele era também bem conhecido como alguém capaz de visualizar as coisas em sua cabeça antes de colocá-las no papel, ou em dizer a alguém o que construir, descendo aos menores detalhes. O que é importante é saber isto, e compreender que a abordagem de Tesla aos projetos era largamente intuitiva, não sem uma base matemática, porque ele a tinha, mas a sua matemática era aquela do século passado, dos anos 1880. E havia um monte de coisas conhecidas sobre teoria elétrica na época, mas ainda não foi nesta época que eles desenvolveram o rádio. Hertz entrou nisto entre os anos 1880 e 1890. Tesla nunca concordou com Hertz sobre o que seria uma onda de rádio.

Mas em 1933 Roosevelt tornou-se presidente dos Estados Unidos. Ele chamou seu velho amigo Nikola Tesla para ir até Washington, e perguntou-lhe, “Você gostaria de fazer mais algum trabalho para o governo?”, e Tesla disse, “Claro!”. Então Roosevelt disse, “Nós temos um projeto para você”. Ele iria tornar-se o diretor do que seria mais tarde conhecido como o Projeto Filadélfia. E foi assim que Tesla basicamente veio a envolver-se com esse projeto. Ele foi nomeado pelo presidente, até onde podemos determinar agora. Ele foi o primeiro diretor, isto é mostrado em alguns registros, e eles prosseguiram.

Em 1936, houve um primeiro teste de algumas máquinas, e isto teve um sucesso moderado. Isto teve como resultado uma invisibilidade parcial, o bastante para encorajá-los e mostrar-lhes que estavam no caminho e na trilha certa, e a Marinha ficou muito interessada; este interesse começou no início de 1931, o que fez aparecer algum dinheiro para pesquisa. E em 1936 eles forneceram mais, e o projeto expandiu-se. Bem, as coisas continuaram se expandindo a partir deste ponto, e mais pessoas vieram trabalhar no projeto.

Um tal dr. Gustave Le Bon veio a tornar-se um íntimo associado do dr. von Neumann, e juntou-se à equipe. Não pude encontrar nenhum registro dele hoje, mas não obstante ele estava lá, e um outro homem, um tal dr. Clarkston, que veio aproximadamente em 1940. Agora, já não era apenas este projeto que estava sendo desenvolvido no Instituto. Havia outras pessoas lá, fazendo variadas coisas. O único homem que sabia tudo que estava acontecendo lá, era, é claro, o dr. Einstein; ele era considerado como um general. Se você tinha um problema, ia ver o general. Ele era um general de consultas para todos, qualquer que fosse o projeto. Agora, a coisa continuava a crescer.

Não entrarei ainda em detalhes sobre como me envolvi nisto, não disse ainda o suficiente para isso. Eu entrei muito mais tarde. Mas acho que o que quero agora é fazer um ligeiro intervalo do lado teórico, e mostrar-lhes um fita de vídeo, parte dele, produzido pela EMI Thorn Corp. da Inglaterra. Este filme foi produzido basicamente em 1983, e ele foi distribuído nos Estados Unidos em 1984 a partir da Inglaterra, para ser exibido em cinemas, para ficar em cartaz até meados de agosto de 84, e o filme só permaneceu por DUAS SEMANAS.

Cerca de três dias antes do filme ser lançado, a EMI Thorn recebeu uma carta do governo dos Estados Unidos dizendo “não queremos que este filme seja exibido nos Estados Unidos”. Eles decidiram, depois de alguma deliberação, ignorar a carta, porque eles já tinham planejado as datas de lançamento, e eles disseram, bem, só três dias antes, nós podemos dizer que jamais recebemos a carta. Então eles lançaram o filme, e ele foi mostrado em vários lugares; Nova Iorque, Filadélfia, e como se esperava, houve enorme filas para vê-lo, em várias outras cidades dos EUA; Phoenix, Sedona, AZ., Chicago, Los Angeles, onde estivesse.

Uma outra carta chegou à EMI Thorn, na Inglaterra, logo depois disso ¾ e bem rigorosa, “Nós não queremos este filme exibido nos Estados Unidos”. Então a EMI Thorn não podia ignorar a segunda carta. Então eles expediram outra de volta para o governo, dizendo ‘se vocês quiserem interromper a exibição deste filme, terão que fazer uma injunção judicial para isto’. E o governo dos EUA disse ‘nós o faremos’, e eles o fizeram. Eles conseguiram uma ordem judicial proibindo a exibição do filme nos Estados Unidos. Aquela ordem judicial foi cumprida um pouco antes de setembro, e o filme desapareceu completamente por dois anos. Neste meio tempo, a EMI Thorn foi em frente e decidiu que iriam lutar, o que fizeram com sucesso. Dois anos depois eles conseguiram uma contra-injunção, derrubando a primeira, e o filme ficou disponível em fita de vídeo. Eu não acredito que ele tenha sido exibido em algum cinema depois disso, mas a fita de vídeo está disponível.

Agora o filme, a fita de vídeo, “O Experimento Filadélfia” é o título atual. Ele é relativamente preciso na primeira parte do filme, mas eles o embelezaram, eles queriam fazer um filme bem interessante, uma história de amor, e distorceram alguns das partes no final, não obstante, eu gostaria de mostrar-lhes a primeira parte dele, porque é muito apropriado para o que vem a partir deste ponto.

{O senhor Bielek mostrou um curto excerto do filme (agora disponível em locadoras de vídeo), chamado “O Experimento Filadélfia”. O filme começa do início e continua até os dois rapazes saltarem sobre a amurada do navio. Se vocês ainda não viram este filme, “O Experimento Filadélfia”, valeria a pena fazê-lo}.

O senhor Bielek continua…

Até este ponto a história é relativamente precisa; eles mudaram uma coisa: a data. Isto ocorreu em 12 de agosto de 1943. Foi uma experiência verdadeiramente desastrosa, mas um pouco aconteceu no intervalo, e isto conduzirá eventualmente ao resto da história.

Agora, como eu tinha falado, em 1936 eles tiveram um grau moderado de sucesso, mas nada além disto. A intenção original era produzir um campo de invisibilidade em volta de um objeto. Então eles seguiram trabalhando, e em 1940 eles conseguiram o seu primeiro sucesso real sob a direção de Tesla, num estaleiro da Marinha, em Brooklyn. Era um pequeno navio, sem ninguém a bordo. O equipamento especial foi colocado no navio. Ele foi energizado a partir de dois navios, um de cada lado, que o supriam de energia através de cabos de força; no caso de alguma coisa sair errada, eles podiam cortar os cabos, e se as coisas ficassem irremediáveis, poderiam afundar o navio. Mas eles não precisavam ficar apreensivos, aquelas eram precauções que a Marinha sempre tomava.

Foi um sucesso completo. O pequeno navio tornou-se invisível. Não havia ninguém a bordo desta vez, porque isto seria feito mais tarde, como parte do teste. Bem, aquilo foi declarado como um sucesso. A Marinha estava radiante, eles sentiam isso e liberaram enormes montantes de dinheiro para a pesquisa, e o projeto foi classificado em setembro de 1940, tendo sido denominado “Projeto Rainbow” [Projeto Arco-Íris]. As coisas começaram a engrenar, deste ponto em diante.

Agora, acho que neste ponto deveria dizer onde entro nisto, eu e meu irmão. Nasci a 4 de agosto de 1916, em uma área de Nova Iorque, de um senhor Alexander Duncan Cameron, Sr., o pai, e uma mãe que não acredito fosse casada, a partir da pequena pesquisa que pudemos fazer. Tive uma vida bastante monótona, embora agradável, porque havia dinheiro na família. Meu irmão nasceu em maio de 1917. E nós seguimos nosso caminho feliz. Nós estávamos com tudo, não tínhamos qualquer preocupação com dinheiro. Quando vieram os anos da Depressão, nós decidimos ir para a escola e obter educação. Meu irmão foi para a universidade de Edimburgo, em Edimburgo, na Escócia, até graduar-se em 1939, no verão de 39, com um PhD em Física. Eu fui para Princeton, onde tirei o bacharelado e o mestrado; fui para Harvard para o meu doutorado. Anteriormente, von Neumann me falara, “Você não deve tirar o seu doutorado aqui em Princeton. Vá para Harvard, é uma escola melhor”. Então eu tirei o meu doutorado em Harvard; acho que foi em agosto de 39. Neste meio tempo, eu deveria acrescentar, houve algumas outras coisas acontecendo nos bastidores, e o que aconteceu estava relacionado ao nosso pai.

Ele tinha servido na Marinha durante a Primeira Guerra Mundial. Ele era marinheiro, pelas fotos que temos em nosso álbum de família. Quando ele engajou-se e quando deixou a Marinha, não sabemos exatamente. Estes documentos se perderam. Mas, até onde sabemos, ele passou vinte anos lá, tendo se reformado no início dos anos 30. Não sabemos qual patente ele atingiu, nem quais conexões ele tinha, mas ele devia ter várias e interessantes conexões com a inteligência, devido ao que aconteceu a partir daí.

Agora, os anos 30. A partir daí, ele nunca mais trabalhou um dia em sua vida… a propósito, ele não precisava disto. Agora, nos anos 30 ele tinha um passatempo, que era a construção de enormes barcos a vela, os quais ele usava para disputar várias regatas, em volta de Long Island, o que era muito comum então.

Ganhou um ou dois troféus. Quando se cansava do barco, vendia-o e construía outro. Neste meio tempo, ele veio também a tornar-se muito ativo em outras coisas. Estas outras coisas eram o contrabando de cientistas fugitivos do nazismo e da Alemanha, trazendo-os para os Estados Unidos. Esta é uma longa história, e eu não necessito realmente alongar-me nela. Mas isto cessou em 1939, quando a guerra começou. Em setembro de 1939, devido aos arranjos de meu pai, que aparentemente tinha muita influência na Marinha, ficou combinado que nos alistaríamos nesta, o que fizemos nesta data. Fomos então comissionados e enviados para uma escola especial de treinamento naval em Providence, Rhode Island, por 90 dias. Nós estávamos, provavelmente, entre os primeiros a passar pelo que seria mais tarde chamado de “os 90 dias maravilhosos” na Marinha. Em 90 dias você era treinado como oficial, e era suposto que saberíamos de tudo. Seja como for, estávamos então ao final de 1939, começo de 1940. Nós fomos designados para o instituto. Agora, neste meio tempo, tínhamos tido algum contato com ele, e íamos lá periodicamente. Eu mesmo tinha estado lá por um período de tempo, porque estava em Princeton. Mas fomos designados para o instituto em tempo integral, e nosso trabalho era representar o interesse da Marinha neste projeto. Eles queriam duas pessoas que tivessem experiência científica e treinamento para relatar acuradamente, na teoria e na prática, tudo o que se fizera, estava sendo feito ou iria se fazer.

E este era o nosso principal trabalho. Tínhamos sido designados para o instituto, e tínhamos também escritórios no estaleiro da Marinha, em Filadélfia. Agora em 1940, como eu tinha dito, um teste tivera sucesso. O projeto fora classificado. Foram dados fundos ilimitados a Tesla, em companhia do grupo, o qual continuou a se expandir. Não me lembro de todas as pessoas envolvidas, mas tivemos uma outra estrutura que veio a ser criada, uma estrutura da Marinha. Até agora eu toquei em grande parte na parte civil disto. Agora, há uma parte da Marinha.

No topo estava o Office of Naval Engineering [Escritório de Engenharia Naval]. Naqueles dias, eles não tinham um Office of Naval Research [Escritório de Pesquisas Navais]. Este era o Office of Naval Engineering, e Hal Bowen, Sr., Almirante, era o encarregado. Ele não somente era o supervisor da Marinha para este projeto, mas para todos os projetos de desenvolvimento de engenharia desta natureza, durante a guerra. Este escritório, a propósito, foi fechado em 1946, e substituído pelo Office of Naval Research, do qual Hal Bowen foi novamente o diretor até reformar-se em 1947. Mas durante aquele período ele foi, pode se dizer, o manda-chuva na Marinha. Abaixo dele havia várias outras pessoas. Havia um comando firmemente estabelecido. Não entrarei em detalhes, mas havia um tenente-comandante, Alan Batchelor, que tornou-se uma espécie de chefe da equipe, e cuidava do pessoal que iria trabalhar no projeto de invisibilidade, o qual era então desenvolvido em duas fases.

Alan Batchelor, a propósito, ainda está vivo; ele reformou-se da Marinha como tenente-comandante. Eu o conheci pessoalmente. Eu não sabia, por um longo período de tempo, se haveriam outros sobreviventes, e então repentinamente descobri sobre este cavalheiro através de outros amigos em Nova Iorque, e conversei com ele, eventualmente indo visitá-lo. E ele se lembrava, essencialmente, de todo o projeto. De fato, ele identificou-me pelo telefone, na conversação telefônica. Ele disse, “Sim, você trabalhou no projeto, eu me lembro de você. Não, seu nome não era Bielek”. Eu disse, “Bem, e qual era, então?”. Eu queria ver se ele se lembrava. Ele me disse o nome, e se lembrou de meu irmão. Isto tudo apenas margeia a história principal.

Agora, uma das outras coisas que tinham que ser feitas era desenvolver uma equipe especial. Isto veio a ser feito um pouco mais tarde. Em janeiro de 41, a Marinha decidiu que eu e meu irmão necessitávamos de alguma experiência marítima, então eles nos transferiram para o estaleiro da Marinha no Brooklin, e cerca de um mês ou mais depois, fomos designados para o Pensilvânia, uma conservada galera de guerra, e saímos em direção ao Pacífico. Ficamos por lá por todo o ano de 1941. Por volta de outubro de 41, quando o Pensilvânia foi levado para Pearl Harbor, para um dique seco para realizar alguns reparos, nós tiramos uma licença e fomos para São Francisco. Estávamos com tudo na São Francisco daqueles dias, e ficamos lá durante os meses de outubro e novembro, início de novembro; e neste mês finalmente decidiu-se que nós íamos voltar para Pearl Harbor. Nossas ordens eram breves, e em 5 de dezembro já estávamos na pista para tomar o avião, na Base Aérea Naval, para sermos mandados de volta para Pearl Harbor, quando fomos interceptados por um capitão da Marinha, que nos cumprimentou e falou, “Suas ordens foram canceladas. Venham comigo”. Nós o seguimos subindo as escadas para uma sala da Base Naval, e encontramos Hal Bowen, Sr., que falou, Cavalheiros, suas ordens foram canceladas. Talvez vocês saibam que estaremos em guerra com o Japão dentro de 48 a 72 horas. Nós esperamos um ataque a Pearl Harbor. Vocês são muito valiosos para serem mandados de volta a Pearl Harbor; vocês permanecerão aqui na área de São Francisco. Vocês podem trabalhar com papelada. Vocês serão designados para o Pensilvânia; ele está lotado em São Francisco. Podem terminar o seu turismo aqui em São Francisco. Depois, voltarão para o Instituto, para continuarem o seu trabalho. Apreciem enquanto podem, porque depois não haverá mais tempo, e lá não haverá nada além de trabalho pesado para vocês”. E fizemos isso, e gostamos muito. E voltamos para lá em janeiro de 42.

Mas neste ponto, um monte de coisas tinham acontecido. Tesla tinha conseguido um navio de guerra, através de um amigo. Eu acho que era Franklin Delano Roosevelt, que estava na Casa Branca. Ele disse, “você pode ter este navio; vá em frente, torne-o invisível”. Havia plena confiança de que ele podia fazê-lo. Daí, este estava prosseguindo com a construção do maquinário. Havia vários, três transmissores de RF [radio-frequency], um gerador principal, acredito eu, então havia dois. O plano geral de ataque, sem me tornar altamente técnico, era uma série de bobinas magnéticas alimentadas por estes geradores, as quais produziriam um campo magnético muito intenso, e inicialmente elas eram enroladas em volta do casco do navio. Depois, isto foi mudado para bobinas montadas no convés, quatro delas. E campos de RF, todos sincronizados com freqüências especiais, e com uma modulação de formas de onda desenvolvida por Tesla, as quais iriam produzir o campo de invisibilidade.

Ao longo de todo este tempo (terei de preenchê-lo um pouco com Tesla), ele fez um outro anúncio para a imprensa, em 1923, acerca de conversação com et’s fora do planeta, o que caiu em alguns ouvidos interessados, mas em muitos ouvidos moucos, também. E ele afirmava estar em comunicação com et’s. Depois de ter-se aposentado da RCA, ele se tornou mais ativo neste projeto, mas ele também mantinha um laboratório em seu refúgio no Hotel Nova Iorque, em Nova Iorque, no último andar. Ele tinha um outro laboratório em Nova Iorque, não muito importante, em um lugar separado. Sem que muita gente soubesse, ele mantinha um segundo laboratório, o qual aparentemente era o principal, no topo do Wardolf Astória, em ambos os terraços. Ele mantinha um transmissor instalado no Wardolf, e suas antenas receptoras e os receptores, que tinham sido construídos pela RCA sob a sua direção, estavam no New Yorker. E sei de duas pessoas que trabalharam com Tesla, durante aquele período, que dizem que ele estava usando aquele equipamento, ele estava conversando com alguém, quase todo dia, e um deles foi enfático: era alguém de fora do planeta. Falando claramente, ele estava se comunicando com et’s!

Quem? Não tenho idéia. Isto nunca foi revelado. Mas durante aquele período ele conseguiu mais informações, porque foi repentinamente até a Marinha e disse, “Nós iremos ter problemas. Iremos ter um problema realmente sério. Vocês não poderão gerar a quantidade de energia necessária para fazer um navio enorme desaparecer sem ter efeitos sobre os tripulantes. Eu preciso de mais tempo. Preciso desenvolver contramedidas, para evitar que o pessoal sofra danos”. A Marinha disse, “Você não pode. Você tem prazo final. Há uma guerra em andamento. Faça isto funcionar. Você pode fixar a data, mas não pode mudá-la”.

Faça-o funcionar, em outras palavras. Havia um prazo limite, que aconteceu de ser março de 42. A data do teste se aproximava; ele ficou apreensivo com aquilo, e finalmente decidiu, se não houve prorrogação no tempo e ele não pudesse modificar o maquinário para corrigir o problema, só restaria uma saída. E isto seria sabotar o equipamento, não destruindo-o fisicamente, mas certificando-se de que ele nunca iria funcionar, quando fosse ligado, e isto é o que ele faria na data do teste, em março de 42. O navio de guerra não teria uma tripulação especial. Ele tinha a tripulação regular, muito embora tivesse o equipamento especializado. As chaves foram viradas e nada aconteceu. O senhor Tesla inclinou-se, e falou, “Bem, cavalheiros, o experimento falhou, e é hora de deixá-los. Há uma pessoa aqui que pode tomar conta disso e fazer as coisas funcionarem para vocês. E aqui está o dr. John von Neumann. Adeus!”.

Como a história conta, ele foi despedido. Há uma outra história, que diz assim, “Vocês não podem despedir-me, eu renuncio”. Qualquer que seja o caso, ele se foi. Havia algum outro interesse, e ele fez outras pesquisas a partir deste dia até a data de sua morte, em 7 de janeiro de 1943, as quais figuram entre as outras coisas que aconteceram mais tarde, mas que não estavam diretamente relacionadas com o experimento, à época.

Agora, naquele período, um monte de outros projetos estavam em andamento. Um deles, que estava sendo desenvolvido e já estava funcional, anterior a este projeto, e que estava sendo feito basicamente no estaleiro da Marinha e também no Instituto, sob a direção específica de Einstein, eram as experiências com desmagnetização [Degaussing]. Eu não sei quantos de vocês sabem disso, mas anterior à Segunda Guerra Mundial , em 1938, os alemães desenvolveram um novo tipo de mina, chamada mina magnética. Ela não explodia por contato, ela explodia ao detetar a massa magnética do casco de aço do navio que se aproximava. Isto distorcia o campo magnético da Terra, o que era usado pelos elementos sensíveis desta mina; e quando ela estava bastante perto do navio, ou embaixo dele, sem qual quer contato sendo feito, o mecanismo disparava, a mina explodia e abria um buraco no fundo do navio, e este era o fim dele. A Marinha dos EUA sabia disto, e eles queriam desenvolver contramedidas, o que fizeram. Eles tiveram bastante sucesso. Tanto sucesso, de fato, que os alemães abandonaram a mina magnética em 1943, e voltaram às minas comuns, as quais, se vocês não sabem, não é afetada por este tipo de equipamento. O formato tradicional deste equipamento envolvia enrolar dois conjuntos de cabos em volta do navio, e colocar geradores especiais a bordo; não havia nenhuma intenção de produzir invisibilidade, radar ou outra coisa qualquer, era estritamente uma forma de explodir aquelas minas magnéticas alemãs. Eles explodiram montes delas, e salvaram muitos navios como resultado disto, e o projeto foi um completo sucesso. Acho que neste ponto devemos mostrar os slides.

Neste momento, o senhor Bielek mostra alguns slides da faculdade de Princeton. Estes slides incluem vistas da escola, i. é, a sala onde ele ensinava, o pátio interno, algumas árvores, e outros itens em volta da escola. Mas ele também mostrou um slide do prédio onde eles primeiro conduziram a experiência de tornar as coisas invisíveis opticamente invisíveis! O senhor Bielek apresentou outros slides do equipamento original do Experimento Filadélfia, do Eldridge, o navio no qual o experimento foi realizado. Alguns dos slides mostravam geradores especiais, e controles. Ele também mencionou que ele sabia que este equipamento viera do Eldridge, por causa das VIBRAÇÕES, que estavam em volta deste equipamento.

E o senhor Bielek continua…

Ok, uma vez a experiência tendo falhado devido à preocupação de Tesla, o dr. von Neumann tomou conta. Agora, algumas das outras pessoas em segundo plano que tomaram parte neste projeto são bem conhecidas.

Uma delas é T. Townsend Brown. Ele tem uma longa história; muitas pessoas o conhecem pelo fato de ter ele trabalhado no campo dos UFOs, com eletrostática, tentando provar que pode-se fazer um objeto mover usando apenas a alta tensão de campos eletrostáticos. E ele fez muitos funcionarem, e isto está muito bem pesquisado e documentado. Ele trabalhou na universidade com alguém chamado dr. Bifield [Biefeld], e o efeito tornou-se conhecido como o efeito Bifield-Brown.

Eventualmente, ele foi descoberto pela Marinha. Ele uniu-se à Reserva Naval em 1933, e tomou parte em vários pequenos projetos. Em 1939 eles o indicaram para o serviço ativo, e ele foi para a Marinha. Lá, eles lhe deram o projeto de desenvolvimento de contramedidas para minas. E este era, basicamente, o seu departamento.

Havia várias áreas de especialidade, ele trabalhou no projeto mina magnética. Ele também era considerado um especialista em RF, então ele também trabalhou no Experimento Filadélfia, pelo menos no âmbito de projeto de um transmissor especial de rádio, e uma torre para suportar as antenas, que era a torre alta que se podia ver depois no Eldridge, e que é mostrada no filme, e isto está correto, que ela estava quebrada, e por isto caiu. Este foi o seu trabalho, não quebrá-la, mas montá-la e testá-la.

Antes que o dr. von Neumann pudesse completar o seu trabalho, ele disse à Marinha: “Tenho que reestudar esta coisa. Obviamente, ela não funciona, tenho que voltar atrás e descobrir o motivo”. E ele precisava de muito tempo. A Marinha não teve escolha, a não ser dar o tempo que ele precisava. Então foi em 42, uma boa parte de 42, de muito estudo teórico. Por volta de maio de 42, eles decidiram que iriam precisar de um navio especial. O navio de guerra não estava mais disponível; ele voltara ao serviço. Eles decidiram que queriam construir um veículo de teste a partir do zero. Então por volta de junho ou julho decidiram ir às pranchetas de desenho para escolher que navios poderiam estar disponíveis, entre os que estavam sendo construídos, e eles escolheram um “DE 173”, o qual foi mais tarde batizado como “Eldridge”. Ele não era conhecido nesta época por este nome.

E em julho eles modificaram os desenhos. Decidiram onde iriam querer os dois geradores. A razão porque tiveram que fazer a modificação era que o destróier, o ‘DE’, era uma navio muito pequeno. Seu deslocamento normal era de 1.500 toneladas, e não 30.000. Como conseqüência, eles tinham que montar o equipamento, que era muito pesado, com muito cuidado. O que eles decidiram fazer foi deixar de fora a torreta de canhão frontal, e em seu lugar colocariam os dois geradores. Então eles montaram os dois geradores dentro deste espaço onde iria normalmente a torreta, o depósito de pólvora e tudo mais. O motor de alimentação dos geradores, o sistema diesel elétrico para alimentar o sistema todo, e quatro transmissores foram eventualmente montados no convés. Mas o navio tinha que ser primeiro construído. Ele ficou pronto por volta de outubro de 42, e então foi levado a um dique seco, onde começaram as montagens de várias peças do equipamento. Por volta de janeiro de 43 ele estava virtualmente pronto.

Agora, à medida que a “equação humana” era considerada, o que ele iriam fazer com a tripulação… por volta de junho 42 eles decidiram que teriam uma tripulação especial. Todos voluntários, escolhidos a dedo, que seriam, como o foram, essencialmente marcados pelo resto de suas vidas. Eles eram voluntários, eles não seriam responsabilizados, e por aí, e iriam dizer a eles que iriam participar de uma experiência exótica, na qual havia algum perigo possivelmente envolvido. “Você quer ser voluntário?”.

Bem, eles conseguiram o tipo de gente que queriam, cerca de 33, e eles foram para uma escola especial de treinamento em Groton, Connecticut, uma Academia da Guarda Costeira. Foram cerca de três meses de treinamento. Eles se graduaram em dezembro de 42, e quem era o instrutor da classe, que aparece naquela foto, onde se vê também a classe inteira que estava se graduando? Está ainda nos álbuns de fotos da família, acreditem ou não, era o nosso pai, em seu uniforme naval. Como ele voltou para a Marinha, nós não sabemos, a menos que fosse um uniforme da Guarda Costeira, mas parecia-me um uniforme da Marinha. E todas as pessoas que se alistaram, incluindo dois oficiais de alta patente, eles foram então, pode-se dizer, carregados para Filadélfia, para onde estavam designados, não sabendo, é claro, quando o navio ficaria pronto. E eles ficaram ali em disponibilidade até que fossem necessários. Aqueles trinta e três foram até o fim do treinamento, e foram avisados de certas coisas, mas ninguém esperava o que aconteceu então. Desde que uma tripulação especial estava disponível, o navio foi sendo aparelhado, tudo indo em frente, e em janeiro de 43 foram iniciados alguns testes, de sistemas separados. Nada foi jamais testado em conjunto, e não poderia ser, porque aquele era o teste final.

Então vários subsistemas foram testados; os geradores, os transmissores de RF. Tesla tinha usado três, von Neumann aumentou para quatro, e ele finalmente decidiu a potência dos transmissores selecionados por Tesla, que eram General Electric. 500 kilowats de CW [continuous-wave – onda contínua, não modulada] não eram suficientes. Ele colocou boosters [dínamos de reforço; amplificadores] neles para elevar cada um até 2 megawats de CW, e os dois geradores permaneceram essencialmente o mesmo, 75 KVA cada. Baixa freqüência regulada, alimentação dos motores, circuitos especiais de sincronização, para ter certeza que os dois geradores estariam em absoluta sincronia, caso contrário não funcionariam. Um sistema especial de geração foi construído com um outro estranho dispositivo herdado diretamente de Tesla e que era o gerador de Referência de Tempo Zero.

Agora, o que é uma Referência de Tempo Zero? Este é um termo que vocês nunca verão nos livros didáticos. Este é um sistema o qual simplesmente fecha com o campo da Terra, a estrutura do campo magnético da Terra, e também sua ressonância de massa através de um sistema muito engenhoso projetado por Tesla. Agora, todos os planetas em nosso sistema e todos os planetas através da galáxia estão basicamente fechados cosmologicamente, e tendo o que podem chamar uma Referência de Tempo Zero, o qual é o centro de nossa galáxia. Tudo tem de ter uma referência com este ponto de Tempo Zero, ele é uma referência real. Com relação ao tempo local, você deve colocá-lo em referência a isto, para fazer tudo funcionar. E Tesla encontrou os meios para fazê-lo, de um modo bastante simples. Estes geradores de referência existem em cada sistema FAA [Federal Aviation Administration – Administração Federal de Aviação] já construídos para a rampa inclinada (sic?), nossos sistemas em terra, e isto era parte do sistema. Todos os geradores, tais como um que eu lhes mostrei, e vários outros equipamentos. Foram usadas cerca de 3.000 válvulas a vácuo ‘6L6’ para alimentar as bobinas de campo dos dois geradores, esta seria uma estimativa acurada; a propósito, talvez não fosse exatamente isto, senão no sentido de que era um grande número de válvula a vácuo, cerca de 3.000 no total.

Por volta de março de 43 von Neumann começou a ficar abalado. Ele não acreditava em Tesla, que ficava dizendo, “Haverá um problema com o pessoal”; ele não acreditava nisto. Bem, eu e meu irmão acreditávamos em Tesla, porque tínhamos grande respeito por ele, e começamos e entrar na matemática e nas equações e nas coisas que Tesla nos dizia. Finalmente, concordamos com ele, e ficamos dizendo a von Neumann que, ‘você não pode ligar este sistema do modo como está. Você terá um problema, como Tesla avisou’. Bem, a simples menção do nome de Tesla fazia von Neumann explodir, ele ficava muito perturbado quando este nome era mencionado. Eventualmente, no entanto, ele captou a mensagem. Ele disse, “Pode ser que haverá um problema. Bem, vamos ver o que podemos fazer sobre isto”.

Ele decidiu adicionar um terceiro gerador. Eles projetaram e construíram um e o colocaram por volta de abril, começo de maio. Aqui, não estou realmente certo de onde o colocaram, pode ter sido no convés ou embaixo dele, porque ele não podia ficar muito tempo. Eles tiveram problemas, problemas muito sérios, eles não conseguiam sincronizá-lo com os outros dois. A propósito, nesta mesma época, início de 43, um terceiro homem, meu irmão e eu fomos os escolhidos para operar o equipamento, e fomos treinados para operar todo o sistema, porque nós sabíamos o que ele era, e tínhamos os antecedentes educacionais para apreciar o que se estava tentando fazer.

Mas como o filme mostra, e isto está correto, nós estávamos em uniformes de marinheiro. Tínhamos o posto de especialista de primeira classe [oficiais], mas quando estávamos entre o resto da tripulação, nós usávamos estes uniformes, e estávamos trabalhando com eles a maior parte do tempo. Naqueles dias, havia um sistema de castas muito forte na Marinha. Novos oficiais não se misturavam com os outros homens, a não ser para dar-lhes ordens. Você não trabalharia com eles dessa maneira, nesses uniformes, naqueles dias. Eles o fazem agora, e também nos submarinos. Mas foi-nos dito para usar estes uniformes quando estivéssemos trabalhando com a tripulação, ou fazendo testes no navio.

Um terceiro homem foi-nos dado, um ajudante de nome Jack, e ele era um técnico eletrônico de primeira classe que conhecia de tudo um pouco, e tinha os antecedentes corretos. Por volta de junho, meio de junho, em um dos testes, este terceiro gerador ficou ligeiramente furioso. Começou a emitir enormes arcos, e Jack foi atingido por um deles, e ele caiu como um animal atingido. Pensamos que ele estivesse morto, e os médicos entraram e o puxaram para fora; ele estava em coma. Ele permaneceu assim por quatro meses, recuperando-se mais tarde. Ele nunca mais fez parte do projeto.

Então von Neumann olhou aquilo e disse ‘o gerador não é bom, removam-no’. Ele foi removido e nos voltamos para os outros dois geradores. Ele coçou sua cabeça, e voltou-se para o que não estava em ordem. ‘Bem, o que nós fazemos agora?’. Decidimos continuar. A Marinha, é claro, o estava pressionando neste meio tempo, ‘Você tem que levar esta coisa adiante’. Eles fizeram um monte de testes. Eventualmente, em fins de junho, começo de julho, eles decidiram, o navio ali há tempos saiu do dique seco e foi assentado na zona portuária, no estaleiro da Marinha em Filadélfia. Nós, a propósito, tínhamos um escritório lá, no topo de um dos prédios. De alta segurança, com uma vista para o porto. Eles decidiram que o Eldridge iria para o mar para ser experimentado, o que era normal. Então ele passou três dias no mar. No meio de junho, num cruzeiro de adaptação. Tudo estava certo. Ele não tinha levado sua tripulação especial desta vez. Levou uma tripulação normal. E ele voltou, tudo estava ótimo. Ele foi para o porto, para o teste final.

Finalmente, a 20 de julho, eles decidiram que o navio estava pronto para o teste final. Então a tripulação especial de teste foi reunida, o capitão que iria comandar o navio, um homem de nome Hangle, Capitão Hangle, um capitão da Marinha, foi a bordo. Ele não era o capitão definitivo. Todos os 22 foram para bordo, nós inclusive. Como o filme mostrou, o navio saiu para sua posição, sua localização no porto. Às 09:00 horas mandaram-nos virar as chaves, na verdade uma série completa delas. Havia somente dois geradores, então o filme é ligeiramente pouco preciso a este respeito. Então eles funcionaram e o navio tornou-se invisível, de acordo com os observadores. Eles o deixaram assim por cerca de 15 a 20 minutos. Disseram-nos para desligá-los e para trazer o navio de volta para o porto, e nós o fizemos. E foi somente quando fomos de volta para o porto que percebemos que havia um sério problema.

O pessoal, aquele que estava sobre o convés (havia alguns acima, e outros por baixo do convés), estavam totalmente desorientados, nauseados, vomitando, quase delirando e obviamente nada bem. Então a Marinha viu o estado das coisas, eles disseram para a tripulação sair, que eles nos dariam uma nova. Von Neumann sabia então com certeza que tínhamos problema com o pessoal, e foi dizer à Marinha “Preciso de mais tempo para estudar este problema. Precisamos descobrir o que aconteceu, e corrigir”. A Marinha disse, “Você tem uma data-limite, e ela é o dia 12 de agosto de 1943. Ou você faz o teste até lá, ou então esqueça!”. Eles não lhe deram uma razão para isso. Nem a nenhum de nós. Eu fui a Hal Bowen e perguntei-lhe de onde esta ordem viera. Ele nos dera a ordem. Ele disse ‘Eu não sei, mas descobrirei de onde ela veio’. E finalmente ele descobriu, através da cadeia de comando, que ela viera da CNO, ou seja, do Chefe de Operações Navais (Chief of Naval Operations), o que ele achou algo peculiar. O Chefe de Operações Navais incumbia-se de conduzir a guerra, onde os navios iam, o que eles fariam. Ele não se preocupava com os detalhes de um projeto de engenharia realizado em um estaleiro em Filadélfia. Eu vou dizer-lhes, se há um projeto de engenharia de alguma espécie, então alguma coisa está acontecendo. Ela provavelmente veio de um nível ainda maior. Bem, nós tínhamos a data, von Neumann e todos mais trabalhavam dia e noite tentando fazer as correções. A Marinha decidiu, neste meio tempo, que eles não queriam invisibilidade total. Eles queriam somente invisibilidade ao radar. O raciocínio por trás disto era que, à época, claro, nós não tínhamos coisas tais como sistemas de guia por inércia, ou sistemas mundiais de navegação Loran e Shoran. Um é em baixa freqüência, e o outro em freqüência média. Tudo que você precisava para navegar era a luz do sol, o olho e o radar. Se você fizer o navio invisível ao radar à noite, você não pode dizer onde ele está, a menos que ele esteja opticamente visível. Se ele estiver opticamente invisível, você pode abalroar um navio que esteja perto. Este era o pensamento, e eles disseram, não queriam mais invisibilidade óptica. Von Neumann disse que podíamos modificar o equipamento para isto, e ele o fez.

E a data fatal chegou, 12 de agosto de 1943. Voltamos outra vez para o porto. Todos estavam um pouco inseguros, meu irmão e eu em particular. Então nós fomos para a base, as ordens vieram para abaixar as chaves, para ligar o equipamento. Por cerca de 60 a 70 segundos, tudo parecia bem. Eles tinham a sua invisibilidade ao radar, você ainda podia ver o navio, o seu contorno.

Então, houve um relâmpago azul, e o navio desapareceu totalmente. Neste momento, claro, von Neumann entrou em pânico. O navio desapareceu completamente, e eles não sabiam o que tinha acontecido com ele. Cerca de quatro horas mais tarde o navio reapareceu no porto, no mesmo lugar onde ele estava. Era bastante óbvio, quando ele reapareceu, que alguma coisa estava errada. Eles enviaram uma equipe em uma lancha, porque eles não tinham tido respostas aos sinais de rádio. Eles tiveram indicações de que alguma coisa estava seriamente errada. Eles já podiam ver isto, porque a antena na superestrutura estava quebrada. Então a equipe foi para lá, e quando subiram a bordo, encontraram o seguinte:

Dois homens embutidos no aço do convés; dois homens embutidos no aço do anteparo; o quinto homem estava com mão embutida no aço do anteparo ¾ ,ele estava vivo. Eles cortaram sua mão fora e lhe deram uma mão artificial. Pessoas andando de um lado para outro, completamente malucos, realmente insanos, fora de si.

Pessoas que apareciam e desapareciam. Alguns estavam em chamas, se vocês se lembram da história bíblica acerca do arbusto ardente, que queimava sem se consumir. Alguns homens estavam assim. E todos estavam seriamente desorientados. As únicas pessoas que escaparam a esta desorientação foram os que estavam sob o convés, o que incluía a mim e ao meu irmão. É aqui que entra a parte mais interessante da história.

O que aconteceu ao navio e o que deu errado. Nós saltamos sobre a amurada esperando cair na água; ao invés disso, nós caímos em 1983, 12 de agosto de 1983, em meio de um outro projeto chamado Projeto Fênix (Phoenix Project), em Montauk, Long Island, à noite, do lado de dentro de suas cercas periféricas. Eles tinham conseguido tornar aquilo operacional, à época, e tinham guardas, cães, e um helicóptero regular de patrulha. Nós fomos iluminados pelo holofote de um helicóptero; nós não sabíamos o que era um helicóptero. Os guardas vieram, agarraram-nos, e nos levaram por umas escadas abaixo. Havia cinco níveis no subterrâneo até Montauk, e era lá onde a maior parte do equipamento estava. E nós fomos apresentados ao dr. von Neumann. ‘Bem, quem é você?’. ‘Eu sou o dr. von Neumann’. Nós estávamos mais do que chocados, porque tínhamos acabado de deixá-lo, em 1943 ele era um homem relativamente jovem, e ali estava um homem bem mais velho se apresentando como von Neumann. Ele disse rapidamente para nós o que tinha acontecido, o que estava acontecendo, porque ele possuía os relatórios finais. Aquilo era uma longa história. Como isto acontecera? E ele disse, “Cavalheiros, vocês precisam voltar e desligar o equipamento no Eldridge; isto já aconteceu, de acordo com os nossos registros, mas ainda não aconteceu na realidade, não tinha acontecido ainda, mas vocês precisam voltar lá e fazê-lo. Nós não podemos desligá-lo daqui. Não podemos desligar esta estação; o que tinha acontecido era que as duas experiências no tempo, distanciadas exatamente quarenta anos no tempo, tinham se acoplado uma à outra, o que criou um buraco no Hiperespaço, que sugou o Eldridge para dentro dele.

“Em um sentido vocês tiveram sorte; vocês saltaram do navio e caíram aqui”. A outra pessoa, a propósito, ainda está a bordo, fechada dentro de uma bolha de energia que rodeia o navio. Ele disse, “Esta bolha no Hiperespaço está se expandindo, e vai criar alguns sérios problemas; não sabemos quão longe isto irá, se não o desligarmos. Poderia engolir parte do planeta”. Havia um monte de especulações; ele percebeu que isto era uma coisa da qual estes não tinham nenhum conhecimento, e eles tinham que estabelecer o controle pelo desligamento do elemento principal que estava gerando o campo, e este era o Eldridge. O Projeto Fênix — não vou contar sua história aqui, mas neste momento, que acontecera ser o último dia que ele estava on-line, tinha a capacidade, naquele momento, já tinha tido há ano e meio para dois anos um total controle do tempo, e eles podiam mandar-nos de volta ao Eldridge, o que eles fizeram. Eles disseram, você tem que fazer o que for necessário para desligar o equipamento, esmagá-lo, se for preciso. Foi o que fizemos. Nós pegamos os machados e esmagamos tudo que estava à vista. Os bastidores com válvulas a vácuo, as chaves de energia, tudo que formava o circuito de controle, e os geradores pararam, eles vagarosamente pararam de girar, até pararem por completo, e as coisas começaram a se restabelecer e a voltar ao normal, i.é, o navio voltou ao seu lugar no porto. Ao mesmo tempo, um outro após uma passagem de cerca de três ou quatro horas, naquele momento, eu fiquei no navio. Meu irmão decidiu, de fato, como me lembro, que ele tinha ordens para retornar a 83, então ele saltou sobre a sua amurada de novo. Ele acabou em 83.

Eles abordaram o navio; encontraram, é claro, a antena quebrada. O equipamento no convés estava intacto. O equipamento abaixo do convés, no buraco, estava desmantelado, conforme eu disse, e eles viram o estado terrível que estava o pessoal. Bem, eles não podiam levar o navio de volta com o pessoal. Trouxeram outra tripulação, e levaram o navio à base, e tiveram reuniões por quatro dias com von Neumann, Le Bon, Hal Bowen, Batchelor, e inúmeras outras pessoas. “Bem, o que fazemos agora”. Então eles decidiram que fariam mais um teste, eles reconstruiriam o equipamento, mas desta vez o teste seria sem pessoas a bordo, como tinham feito da primeira vez com outro navio. Eles reconstruiriam e refariam a fiação elétrica no Eldridge. Então, no final de outubro, eles levaram o navio para a parte mais exterior do porto, à noite, levaram-no com uma tripulação comum, que logo deixou o navio. Eles tinham milhares de metros de cabo, então eles podiam ligar o equipamento, e tinham esperança de poder desligá-lo. Na hora apropriada, por volta de 10:00 horas da noite, ou 22:00 horas pelo horário da Marinha, eles ligaram o equipamento e o navio imediatamente desapareceu. Agora, isto leva às lendas, às histórias apócrifas do Eldridge aparecendo no porto de Norfolk, Virgínia, e muitas pessoas relataram isto, ele foi visto lá por dez ou quinze minutos, e desapareceu. Então ele voltou ao porto em Filadélfia. Quando ele voltou, eles não tiveram que desligar o equipamento, pois já estava desligado, e metade dele tinha desaparecido. Eles viram que dois gabinetes transmissores e um dos geradores tinham desaparecido. A sala de controle estava em ruínas fumegantes. Ninguém havia feito aquilo, mas estava assim. A Marinha concluiu que aquilo era algo do qual eles não nada conheciam, e eles decidiram descartar totalmente o projeto, naquele ponto. Mandaram o Eldridge de volta para o estaleiro, retiraram tudo, reequiparam-no como um navio normal, o que ele era, e ele foi mandado para o mar como um navio normal, com um capitão normal, o qual tinha sido designado em agosto, em 22 de agosto ele foi batizado após o segundo teste, o qual foi o desastre real.

Ele teve uma ação normal no mar durante a guerra. Em 1946, ele foi ancorado e deixado às traças, junto com muitos outros navios. Em 1950, o presidente Truman fez a transferência de cerca de cinqüenta destróieres para a Grécia e outras nações da Europa. O Eldridge era um deles. Ele foi para os gregos. A Marinha rebatizou-o de Leão. A Marinha tido tido repetidos problemas com todos eles, e eles tiveram que despojá-los, repintá-los e reequipá-los, e fora isto eles não tinham mais problemas. Ele pode ainda estar em serviço na Marinha grega, pelo que sei. Eles não descartam navios tão rápido como nós fazemos. Mas eles também herdaram o diário de bordo, o diário de bordo do Eldridge. Como as leis marítimas declaram, o diário de bordo deve ir com o navio. Bem, ele foi. Quando eles o abriram, encontraram uma coisa muito interessante. Todas as páginas do diário anteriores ao dia 1 de janeiro de 1944 estavam desaparecidas, e não havia nenhuma história do que tinha acontecido ao navio. No que concerne ao diário de bordo, os gregos não podiam fazer nada sobre isto. Eles não podiam reclamar à Marinha, senão esta não mais faria o favor de dar sobras para eles. Então, este foi o fim da saga do Eldridge.

O projeto foi fechado. Neste momento, há um outro aspecto interessante que eu esqueci de mencionar, e que figura na história toda. Aproximadamente seis dias antes do teste final com o Eldridge, em agosto, aquele que foi um completo desastre, três UFOs apareceram sobre o Eldridge. A que altitude, eu não sei. Não me lembro de tê-lo visto. Meu irmão o viu, assim como outras pessoas. E ficaram por ali, imóveis. Agora, o que eles estavam fazendo, nada sabemos, apenas que eles estavam lá, observando. No momento do teste, quando o navio desapareceu para dentro do Hiperespaço, um daqueles UFOs desapareceu com ele. Ele ficou encerrado em um subterrâneo, em Montauk. Ele foi sugado através do Hiperespaço, e terminou no subterrâneo, intacto! Mais tarde, ele foi desmontado.

Agora, depois de o projeto ter sido fechado, von Neumann mudou-se, é claro, para Los Alamos, no Novo México, porque ele foi trabalhar com Oppenheimer no projeto da Bomba Atômica. O projeto foi um sucesso, é claro. Eles também tiveram problemas, mas não é necessário falar sobre isto. E a disputa que havia existido por vários anos entre a Marinha e o Exército, sobre de quem seriam as armas secretas que seriam usadas para ganhar a guerra, foi ganha pelo Exército e o projeto da Bomba Atômica. Leslie Groves espalhou isso. Nós somente podemos especular, agora, sobre o que poderia ter acontecido se o teste da Marinha tivesse sido bem sucedido: eles provavelmente teriam recebido todos os fundos, e provavelmente teriam despachado peças do equipamento para todos os navios da Marinha, e até talvez da Marinha Mercante, porque esta estava também muito interessada, à época. Um cavalheiro de nome Carl Allende, comumente chamado, de acordo com as histórias que tem circulado por anos, “Carlos Miguel Allende”, era um observador no SS Furuseth, um barco mercante na época daquele teste em agosto. Muitas histórias são contadas sobre ele; ele tem sido entrevistado muitas vezes, e certas coisas não colam, nas histórias que ele conta. Ele pode muito bem ter estado lá, mas ninguém conseguiu descobrir ainda a sua verdadeira história.

m 47, a Marinha decidiu reabrir o projeto. Neste meio tempo, aconteceu uma pequena reorganização de toda a estrutura militar. Foi criado o Ministério da Defesa você tinha o Ministério do Exército, o Ministério da Marinha, o Ministério da Força Aérea e isto aconteceu em 1947. Você tinha Chefes do Estado Maior, Chefias Adjuntas do Estado Maior, e, é claro, o enorme edifício chamado Pentágono. Bem, a infra-estrutura da Marinha mudou, e um monte de gente fardada foi reformada. Algum deles veio ao Escritório de Pesquisas Navais, e disse para o dr. von Neumann, “vamos reabrir este projeto, ‘Projeto Arco-Íris’ (Project Rainbow). Descubra o que realmente aconteceu, e veja se há alguma coisa nisso que possamos salvar”.

Então ele fez isso, quer dizer, começou a fazer, e eu fui chamado para Los Alamos, para um lugar chamado Camp Hale, no Colorado, em companhia do dr. Vannevar Bush; e o que estava ele fazendo? Ele e Vannevar Bush eram da equipe científica a cargo da recuperação do UFO destroçado em Aztec, Novo México, em 1947. Isto foi totalmente sem o meu conhecimento, porque, no meio tempo, a Marinha tinha me encostado; e ele foi lá novamente em 1948, devido a uma outra queda, ou duas quedas de UFOs; todos os corpos estavam mortos, nestes casos. Em 1949, houve uma queda e o UFO ficou mais ou menos intacto, e eles recuperaram um vivo. Ele foi chamado “EBE-1”, e foi encontrado vagando pelos campos. Eles o capturaram, e cuidaram dele, e tentaram descobrir o que o fazia “funcionar”. Eles se comunicaram com ele ele ou aquilo. Não puderam determinar o seu sexo individual. Eles chamaram os médicos, porque obviamente ele não estava bem. Ele estava ficando pior a cada dia. Os doutores não puderam fazer muito por ele, eles não sabiam o que estava errado. Eles chamaram um botânico, um PhD em botânica. Ele encontrou o que estava errado. Aquele rapaz tinha CLOROFILA em suas veias. Ele tinha cerca de um metro e vinte de altura. Ele se parece com aqueles descritos como os pequenos cinzentos (Gray), exceto que ele não era um cinzento. Mas ele tinha clorofila em suas veias, e ele vivia da luz do sol. Então eles tiveram que conservá-lo ao sol, pelo menos uma parte do tempo. E o resto do tempo eles o mantinham oculto, e eles também o mantinham bem guardado, porque ele possuía uma característica muito estranha: eles descobriram não somente que ele era completamente telepata, e capaz de se comunicar com seus semelhantes, membros de seu grupo, mas também descobriram que ele tinha uma muita estranha e interessante propriedade ¾ ele podia caminhar através das paredes! Então eles descobriram como poderiam segurá-lo. Eles o conservavam em uma gaiola de Faraday a maior parte do tempo, e aconteceu que este se tornou o modo de transportá-los, eles e aqueles que mais tarde aconteceram de ser os cinzentos. E esta é outra história na qual não quero entrar, mas não obstante, ele foi capturado vivo e eventualmente morreu dentro de um ano e meio a dois anos depois. Eles tiraram dele um monte de informações.

Mas antes dele morrer, um monte de coisas estranhas aconteceu. Ele se comunicou. Foi-me dito, por alguém que era do governo, que ele deu as bases para o moderno transistor para o dr. von Neumann e o dr. Vannevar Bush. Se isto é verdade ou não, eu não sei, porque os Laboratórios Bell tinham já anunciado o transistor em 1947. Mas este era um dispositivo diferente. Ele era um tablete de germânio, com fios finíssimos de ligação, e, é claro, foi desenvolvido a partir daí, se você está familiarizado com a história dos transistores. Mas, supostamente, ele deu-lhes a informação e croques para um transistor mais rudimentar, baseado em seus próprios sistemas de comunicação, o qual não era compreendido — nada era compreendido, a bordo de suas naves. Mas ele também falou ao dr. von Neumann sobre o seu problema. O problema com o Eldridge, e como basicamente, ele poderia resolvê-lo. Ele não iria lhe dizer exatamente como resolver o problema, mas disse-lhe o que estava errado, deu-lhe alguns indícios, e disse, “você tem de voltar à prancheta e resolvê-lo você mesmo. Eu não vou resolvê-lo para você!”.

Ele o fez, finalmente, por volta de 1949, depois de ‘fazer o seu dever de casa’ e depois de estudar um monte de metafísica [ocultismo]. Vocês podem imaginar um matemático cabeçudo sendo forçado a estudar metafísica e matérias do oculto; de início aquilo era odioso para ele, mas eventualmente ele tornou-se bastante versado no assunto, reconheceu o problema e foi trabalhar em cima dele.

Agora, qual era a natureza do problema, que ele finalmente veio a dominar? Era realmente básico. O navio voltou ao seu ponto de referência devido a que ele tinha um Gerador de Tempo Zero, a referência do sistema que o traria de volta. Aquilo permaneceu intacto; foram os geradores e alguns outros equipamentos que foram destruídos, mas aquele dispositivo de referência zero trouxe o navio de volta ao seu ponto de referência original, apesar dele ter andando ligeiramente no tempo.

Os humanos nascem, ou, eu diria, não somente eles nascem, mas ao tempo da concepção, como ele descobriu em sua pesquisa, com suas próprias CHAVES DE TEMPO. Agora, você teria que entrar em uma física muito obscura, deixarei de lado a matemática e tentarei simplificar. Nós não moramos em um universo com três dimensões. Nós moramos em um universo com cinco dimensões. A quarta e a quinta dimensões são o TEMPO. A quarta dimensão, claro, tem sido freqüentemente mencionada por Einstein e por outros. O conceito de quinta dimensão apareceu em 1931, em um livro de P. D. Auspinski [Ouspensky], “Tertium Organum, um novo modelo do universo”, em inglês. E ele falava de cinco dimensões em nossa realidade. Ele chama a quarta de tempo; ele nunca veio a dar nome à quinta.

Mas von Neumann percebeu, como é sabido hoje por alguns físicos, que a quinta dimensão é também tempo; é um rotator, um vetor, que gira em volta de um primeiro vetor primário, o qual indica o fluxo e a direção do tempo. O fluxo é imaterial. Podemos dizer que ele está se movendo para a frente no tempo, e isso devido ao seu aspecto, e à nossa referência. Nós não sentimos o tempo, mas ele flui a uma razão razoavelmente estável. E este outro vetor girando à sua volta, não nos concerne… normalmente.

Contudo, a cada pessoa, no tempo de sua concepção, é dado um conjunto de chaves, se vocês desejam (é parte da estrutura genética), para o ponto no tempo ao qual aquele indivíduo está ligado pela concepção, de forma que aquele indivíduo flui com o tempo e ele nasce e vive uma vida que está ligada a cada coisa em volta dele, tudo que ele vem a conhecer, todos seus amigos, família, escola, o que seja, e ele não desliza nem para a frente nem para trás deste ponto de referência [no tempo] que é usado para ele. Assim é, normalmente.

No caso do experimento com o Eldridge, a potência era tão gigantesca que rompeu esta referência temporal daqueles indivíduos que estavam diretamente expostos aos campos, ou seja, os que estavam sobre o convés. Eles perderam sua referência temporal. Uma vez tendo o navio voltado, foi quando o problema começou. Contanto que ele estivesse no Hiperespaço e os geradores estivessem ligados, eles estariam encerrados dentro do campo. Até onde sei, nenhum outro saltou da amurada, exceto nós dois. Em retrospecto, eu me pergunto se nós tínhamos mesmo feito aquilo, mas não obstante nós o fizemos, e os eventos que aconteceram, aconteceram. Quando os campos entraram em colapso, aqueles indivíduos, tendo perdido sua referência temporal correta para aquele ponto, e que estavam seguros e contidos pelo campo, ficaram à deriva. Alguns deles deslizaram totalmente para fora da realidade, outros ficaram à sua margem, e tiveram sorte se conseguiram pôr os pés no convés, e alguns deslizaram e finalmente se materializaram, como aconteceu, dois no convés, dois nos anteparos, e um com sua mão na parede, e isto foi devido ao fato de que eles tinham perdido sua referência temporal, e eles deslizaram, e sucedeu de deslizarem de volta. Alguns jamais voltaram de todo! Outros, estranhamente, desapareciam e se rematerializavam, repetidamente!

E houve aqueles estranhos casos dos que estavam em fogo, tal como na história bíblica do arbusto ardente que não se consumia. Houve vários indivíduos nesta condição. A Marinha gastou uma fortuna em equipamento eletrônico para corrigir o problema. Eventualmente, eles o fizeram, mais ou menos. Mas todos ficaram de quarentena por um longo período.

A Marinha jamais admitirá que este experimento aconteceu. A Marinha fez um monte de inquéritos. O Ministério da Marinha expediu muitas cartas padronizadas, negando que tivesse acontecido um experimento deste tipo. Eles não negaram a existência do Eldridge, mas eles negavam que o experimento tivesse acontecido. E, em 1979, quando William Moore e Berlitz escreveram seu livro e o distribuíram, Moore estimou que até ali a Marinha tinha gasto um total de dois milhões de dólares somente respondendo perguntas sobre o Experimento Filadélfia, com cartas padronizadas que eram enviadas. Eles ainda negam que aquilo aconteceu.

Em todo caso, von Neumann fez o seu dever de casa, percebendo que ele precisava de um computador para resolver os problemas relacionados com o pessoal. Então ele voltou à prancheta, como se diz, para o Instituto, e ele desenvolveu o primeiro computador completamente eletrônico. Naquela época não havia computadores eletrônicos. Von Neumann é o pai do moderno computador eletrônico. Isto é bem conhecido e bem documentado. Por volta de 1950 ele tinha alguma coisa funcionando, e em 52 eles já tinham um modelo completo funcionando, e livros estão ainda nas prateleiras do Instituto, a (maior parte?) de seu desenvolvimento foi com o dr. Goldsten, que está ainda em Filadélfia, cuja ligação com o Instituto era recente. Eu conversei com Goldsten. E em 53, aproximadademente ele liberou um novo sistema para a Marinha, com um computador, com a total correção dos fatores. Precisamente o que ele fez, eu não sei. Mas eles conduziram outro teste com um navio diferente, uma tripulação diferente, com sucesso total, nenhum efeito colateral. A Marinha ficou exultante. Claro, a guerra tinha acabado, mas eles imediatamente classificaram este projeto, desistiram do nome “Projeto Arco-Íris”, e reclassificaram-no como “Projeto Fênix”.

A partir daí eles desenvolveram outros sistemas, outro maquinário, o que entra em áreas muito sensíveis; não entrarei nisto publicamente. Mas muitas coisas saíram daquilo. Entre elas vários estudos médicos, pelo menos quatro relatórios médicos foram escritos. Sei deles através de George Hoover, que era parte da comissão do Escritório de Pesquisas Navais que investigou o assunto quando ele surgiu novamente em 55 (devido às “Cartas de Allende” e ao envolvimento do dr. Morris K. Jessup). Mas Hoover me falou por telefone, ele agora está aposentado e mora na California ¾ ele disse, bem, é claro que ele percebeu, e ele disse, Moore não não tinha percebido, que havia muitos outros projetos sendo realizados à época, e, é claro, ele sabia sobre as experiências de desmagnetização [degaussing experiments].

Ele disse também que, como resultado do Experimento Filadélfia, ou Projeto Arco-Íris, um monte de estudos médicos foram feitos. Ele disse, nunca antes na história tinham sido a mente e o corpo humanos sido sujeitos a tão intenso campos magnéticos, a tão poderosos campos eletromagnéticos. Eles não sabiam quais seriam as conseqüências. Ele disse, eles descobriram, como conseqüência daqueles estudos, que as conseqüências eram enormes. Ele disse, havia muitos relatórios valiosos. E certamente havia; muitas outras coisas vieram dali. Bem, a Marinha resolveu o problema, eventualmente, e von Neumann permaneceu por lá.

O que aconteceu comigo? O que aconteceu com meu irmão? Eu não esqueci, mas deixarei isto para o fim. Meu irmão tinha retornado para 1983! Logo após ele ter perdido suas ‘chaves temporais’ devido a um acidente, ele envelheceu muito, muito rápido, a uma razão de um ano por hora. Ele morreu dentro de poucos dias. Eles tentaram mantê-lo vivo com outro maquinário que eles tinham desenvolvido. Mas não conseguiram, e ele morreu. Mas era muito importante, por razões que não citarei agora, conservá-lo vivo. Então, se aceitarem o ponto de vista metafísico ou não, foi-me permitido ajudá-lo. Porque eu tinha voltado a 43, e houve algum trânsito de idas e vindas devido a Montauk, que estava ainda on-line por um período de tempo. Voltar ao pai e dizer, ‘Hei cara, apronte-se, precisamos de outro filho, alguma coisa aconteceu a Duncan’. Então um novo filho, o último, nasceu em 1951, e de 83 sua alma caminhou para dentro do corpo, em 12 de agosto de 1963. Tinha de ser em 12 de agosto. E ele é o homem que vocês viram naquela foto hoje. Ele tem a memória de todas as coisas, mais ou menos. Há buracos e há falhas.

Há outro elemento envolvido nisto, do porquê os dois navios ficarem presos. Tivesse aquele experimento não sido conduzido em 12 de agosto, se ele tivesse acontecido no dia 10 ou 14 de agosto, ou fosse o caso, em julho, consideravelmente mais cedo, ou tivesse sido adiado, digamos para setembro, e nós nunca teríamos ficado presos ao Projeto Fênix. Por que? Há um ponto fundamental envolvido aqui. Não são somente os homens que possuem biocampos; isto está muito bem documentado hoje. Eles começam no nascimento. Mas o planeta Terra tem o seu próprio conjunto de biocampos. Isto foi descoberto bem recentemente, aproximadamente na última década. Quatro deles, e eles atingem um pico máximo a cada vinte anos. Adivinhem em qual dia? A 12 de agosto de 1963, 1983, 1943, vocês podem ir para frente ou para trás, sempre vinte anos. E isto cria um conjunto de condições muito estranhas no planeta Terra, onde há um pico de energia, um pico de energias magnéticas, e a capacidade de acoplamento, e foi isto o que aconteceu devido à culminação de datas dos dois experimentos, em 12 de agosto, e à subida ao máximo dos biocampos da Terra neste momento. As energias foram suficientes para criar o campo no Hiperespaço e o acoplamento, o que de outra maneira não teria ocorrido, e o Eldridge deslizou para dentro dele junto com o UFO, e tudo isto veio a acontecer. Isto tudo está registrado nos documentos da Marinha, nos arquivos da Marinha. Eles não os perderam. Eu sei que eles existem, eu sei de gente que teve acesso a eles, e é por isto que eu sei que eles existem. E eles não querem liberar a história, eles não querem que o público, até hoje, saiba quão desastroso foi aquilo.

Agora, existe uma interessante, podemos dizer, anedota ‘pós mortem’ desta história. William Moore, escrevendo seu livro (e a propósito, como mostrarei, houve dois livros escritos. O primeiro foi editado em 1978, “Thin Air”, era uma ficção, foi escrito por duas pessoas que eu nunca ouvi falar, George E. Simpson e Neil R. Burger. Não temos idéia de quem eles são. Não existem créditos no livro que digam quem são os autores, é uma publicação padronizada, e há muito que desapareceu)… Cerca de um ano a um ano e meio depois veio um livro mais definitivo, não-ficção (pelo menos, não havia intenção de ser ficção), escrito por Berlitz e Moore, basicamente por William R. Moore, intitulado “O Experimento Filadélfia”, originalmente encadernado, e depois, claro, em brochura. ele tornou-se bastante popular, eles venderam mais de dez milhões de exemplares até agora. Eu não sei quem o está imprimindo agora, mas é uma co-edição.

Moore, em sua pesquisa, nunca poderia extrair a data exata da última experiência; ele jamais teve qualquer noção do “Projeto Fênix” ou do acoplamento, ou da natureza real do desastre. Ele entrevistou o dr. von Neumann. Ele entrevistou-o, e chamou de “dr. Reinhardt”, no livro. De um modo bastante interessante, eles também entrevistam um dr. Reinhardt. Alguém com o mesmo nome! O dr. von Neumann.

Von Neumann não está morto! Ele ainda está vivo, nesta data. A Marinha e os registros oficiais do governo dizem que ele morreu de câncer em 1957. Bem, se ele tinha câncer, o que não sei, se ele tinha eles encontraram um modo e uma maneira de curá-lo. Eles o fizeram. Eles precisavam dele por perto. Eles o conservaram no projeto. Ele foi o diretor do Projeto Fênix até 77, quando ele desenvolveu uma muito pronunciada personalidade separada [esquizofrenia?], a qual tornou-se pior com o tempo. E ele renunciou à sua posição como diretor do projeto, e um outro o assumiu, o dr. Herman C. Unterman, da Alemanha. E ele tornou-se um consultor. Ele não está morto, ele ainda vive, mas agora ele dividiu totalmente sua personalidade, e usualmente o alter-ego, um senhor Howard E. Decker, que é bem conhecido em Nova Iorque como um negociante de sobras eletrônicas, é a única pessoa que agora se mostra, no mesmo corpo. Eu passei três horas conversando com Howard Decker, então eu sei que o homem está vivo, pelo menos até novembro de 1989. E estas fotos foram feitas em sua casa, nesta data, e a mostram em bastante mau estado. Ele se tornou, podemos dizer, um péssimo dono-de-casa, desde que sua esposa morreu.

A coisa inteira morreu, e ressurgiu em essência com o Projeto Fênix. Meu irmão tinha renascido. Fui enviado para 83. Eles decidiram que não me queriam mais por perto, por quaisquer que fossem as razões. E eles me encostaram Uma completa lavagem cerebral estabeleceu uma nova personalidade, lançaram-me de volta ao passado, e eu me tornei Alfred Bielek. Com novos pais, uma falsa certidão de nascimento e uma completa história de cobertura pendurados juntos, e lembranças, as quais podem ou não ser completamente verdadeiras, mas que não obstante, estão aí. Fui bem doutrinado. Eu não tinha a mais leve idéia de que tinha alguma vez me envolvido no Experimento Filadélfia, muito menos no Projeto Fênix, pelo menos alguma vez em 86. A razão pela qual lembrei-me disso foi porque eu revisitei Long Island, que há muito tempo deixara. Fui até Montauk, com alguns amigos. Eventualmente, algumas da lembranças começaram a voltar. Elas diziam, “Você foi parte disto”. Eu dizia, “Não, não fui”. Eventualmente, lembrei-me que tinha sido.

Mas em janeiro de 88 eu comecei a lembrar-me do Experimento Filadélfia, e minha memória só fez aumentar desde então. Meu irmão lembrou-se, também. E isto foi um horrendo desperdício, eu diria, de uma carreira acadêmica que tive uma vez. As peças foram se encaixando aos poucos. Mas a personalidade básica agora permanece bastante estável como Al Bielek, e as lembranças de Edward A. Cameron vem e vão, mas elas estão muito mais agora lá, particularmente dos anos anteriores, e que vão até e por todo o experimento. De 43 a 47, uma boa parte está em branco. Eu não sei o que mais aconteceu. Exceto que sei que em 47 eles decidiram que eu não era mais útil. De fato, eles se livraram de mim. Então esta é, basicamente, a história do que aconteceu.

Mas há outra interessante anedota a qual William Moore descobriu em sua pesquisa: ele estava também interessado em UFOs; em 1975, no final de dezembro, ou começo de janeiro de 76, ele foi visitar uma família no Canadá, que, acredito que foi em 12 de setembro, tinha tido um encontro com um UFO na província de Ontário. Um fazendeiro bem comum. Ele estava se dirigindo para casa uma noite em sua camioneta, e encontrou um UFO estacionado na rodovia, ocupando o lado pelo qual ele iria passar. Não havia ninguém, nenhuma luz, nada. Ele olhou aquilo, “que ‘inferno’ é isto?”, e desviou para o outro lado, e o que ele fez? Ele praticamente atropelou um ufonauta, que deveria ter cerca de um metro e vinte de altura, em um traje prateado, que estava no meio da rodovia. Ele pisou os freios com força, por pouco não o atingindo; havia cascalho ali e ele derrapou, e aquele pequeno ufonauta, o que ou quem quer que fosse, saltou sobre a cerca a desapareceu.

Aproximadamente no dia 12 de dezembro, de acordo com Moore foi nesta data, esta família, veio a ter um monte de aborrecimentos com os vizinhos, devido aos UFOs que continuavam a aparecer na área. Estes vinham em busca de souvenires e tudo o mais, e eles não sabiam mais o que fazer para manter as coisas em paz. Eles foram visitados por três oficiais de alta patente, um dos Serviços Armados do Canadá (Canadian Armed Services), representando a província de Ottawa; um general da Força Aérea, do Pentágono; e um oficial da Marinha, do Escritório de Inteligência Naval (Office of Naval Intelligence). Eles lhes pediram desculpas. Eles disseram que o que tinha acontecido, não deveria ter acontecido. “Bem, o que vocês querem dizer, que não deveria ter acontecido?”. “Foi um acidente”. “Bem, o que vocês querem dizer com acidente?”. “Bem, não deveria ter acontecido. Fomos enviados aqui para lhes pedir desculpas formais, e para responder a quaisquer perguntas que possam ter. O que gostariam de saber?”. Esta foi provavelmente uma das poucas vezes que o governo fez isto, e eles disseram, de acordo com o relato de William Moore, que tiveram suas perguntas respondidas durante as próximas duas horas seguintes, ou mais. E entre todas aquelas inesperadas revelações do Escritório de Inteligência Naval, o oficial soltou um comentário muito interessante. Ele disse, “Oh, nós temos tido contatos com os ETs desde 1943. Foi devido a um acidente em uma experiência que a Marinha estava fazendo na época, sobre invisibilidade!”.

Fim da exposição

Então, com isto eu encerro a apresentação formal, e se vocês tiverem quaisquer perguntas, farei o melhor que puder para respondê-las. (A pessoa que fez esta fita, que gravou a conferência, perdeu a primeira parte das perguntas e das respostas. Quanto ele perdeu, não tenho idéia).

Pergunta: (?)

Resposta: O experimento se expandiu. Eles tentaram em 1948, a Força Aérea Naval (Naval Air Armed) tentou ver se eles conseguiriam por este projeto para funcionar antes que von Neumann ressuscitasse o seu, em um avião. Eles tinham um F-80 disponível para isto. Eles ligaram a ele algum equipamento mais leve. Bem, você não precisa de toneladas e toneladas de equipamento em um avião, então eles o encolheram. Colocaram um sistema a bordo do F-80, colocaram nele um piloto e um rádio-controle por terra, foram para uma determinada área e ligaram o equipamento, e depois de ele ter ficado invisível ao radar por um certo período de tempo, eles o desligaram. Tudo estava ótimo. Eles retornaram à base. Eles disseram, ok.. Bem, parecia que tinha sido. Mas não estavam seguros disso!

Eles deixaram o oficial, o piloto e o avião, de quarentena por cerca de um ano. Cerca de um ano depois, eles disseram, “Ok, leve-o de novo para cima, mas vamos mandar um observador com você desta vez. E nós vamos tentar isto de novo na mesma área”. Então eles subiram e tudo correu bem até eles ligarem o equipamento. O piloto desapareceu e nunca mais foi visto outra vez. O observador não era um piloto treinado para um F-80. Ele não podia controlar o avião, e este caiu. O corpo do observador foi recuperado, mas o corpo do piloto nunca o foi. Então, este foi o fim das tentativas de usar avião, pelo menos nesta fase. Desde então, eu entendo, eles tem feito o equipamento pequeno o bastante para colocá-lo em um avião grande. Mas isto é altamente classificado.

Pergunta: Você poderia dizer se há alguma experiência [sendo feita] em viagem controlada no tempo?

Resposta: Sim. Tem sido feita, e isto é novamente um conhecimento altamente classificado pelo governo, mas isto definitivamente tem sido feito. A viagem no tempo existe. Você aí, tem uma pergunta?

Pergunta: Esta era uma das minhas questões, se a viagem no tempo existe. Mas ela ainda existe? Eles a estão usando? Você sabe disto?

Resposta: Ela ainda existe, e só o que direi.

Pergunta: Quando você estava falando sobre a invisibilidade do navio, falou que a primeira experiência foi ótima, e que a segunda foi aquele na qual desapareceu. O que quer dizer, acho que quis dizer isso, tanto invisibilidade em si quanto invisibilidade ao radar foi conseguida, mesmo da primeira vez?

Resposta: Isto está correto. Em termos de maquinário, foi um sucesso. Em termos do pessoal não foi, foi um completo desastre. Agora, um pouco não foi um completo desastre no primeiro teste de 22 de julho, não foi muito ruim porque eles mudaram a tripulação, e perceberam que havia um sério problema. O segundo teste poderia ter sido um sucesso completo se eles não o tivessem acoplado ao Projeto Fênix; isso em termos de maquinário. Mas ele foi um completo desastre, tanto em termos de maquinário quanto de pessoal.

Pergunta: Você disse que eles tinham que ter o seu irmão de volta. Isto era alguma coisa apenas do seu conhecimento pessoal, que eles precisavam dele ainda, ou era aquilo uma espécie, uma grade semelhante ao tempo, ou o entusiasmo comum que se poderia ouvir deles, ou os cientistas deixaram aquilo escapar, ou foi algo que eles inventaram?

Resposta: Ele precisava voltar por razões que são extremamente sensíveis, mas ele tinha de permanecer vivo tanto quanto eu e um terceiro sujeito. A única maneira de dizer isto, é que, se ele tivesse morrido e não renascesse depois dos equipamentos e projetos chegarem ao fim, poderia ter havido um problema muito sério. Então, estávamos estabilizando os fatores, colocarei desta maneira, e não irei além deste ponto. Mas ele tinha que estar vivo, e ele está vivo.

Pergunta: Você ficou entusiasmado por ter viajado através do tempo e mudado alguma coisa que aconteceu? Poderia isto causar algo que eles receassem?

Resposta: Entusiasmo, você poderia chamar assim. Eu não sei se há um termo ou expressão que já tenha visto, que descreva isto como você a viu, ou leu em algum lugar. Eu realmente não posso responder isso com um sim ou não. Eu não sei.

COMENTÁRIO: Ah, você não poderia fazê-lo! Ha! Ha! Ha!

Resposta: Perdão?

COMENTÁRIO: Você não poderia responder isto porque você provavelmente não saberia. Isto porque, se alguma coisa séria realmente acontecesse, você não poderia estar aqui para contar-nos!

Resposta: Está certo. Alguma muito séria aconteceu, claro; esta viagem não foi um passeio.

Pergunta: Assumindo que o governo está testando tecnologia desta natureza, quero saber por que não a está colocando para ajudar o planeta, para ajudar ao público e a todos neste planeta. Nós temos tantos problemas difíceis, e eles não estão usando nada disso para ajudar. Por que?

Resposta: Bem… para responder a esta questão, terei de dar-lhe uma resposta em duas partes.

1- Nós temos tido uma tecnologia dupla por pelo menos um século, talvez mais, na qual há desenvolvimentos tecnológicos que tem sido negados ao público, e que tem se mantido nas mãos de uma elite controladora, se vocês quiserem, por pelo menos um século, ou talvez um século em meio, porque esta base tecnológica vem desde 1800 ou antes. E na medida do por quê isto não foi liberado nesta época, ou não o é agora devido aos problemas que temos. Se você tem os meios para fazer as coisas, como por exemplo, viajar no tempo, ou desenvolver novos sistemas de energia, ou novos sistemas de comunicação, ou então viajar para outros planetas; se você encerrar estes desenvolvimentos dentro de um pequeno grupo, um grupo controlador, você pode literalmente controlar o planeta e humanidade. E se você não deixar o resto do público saber o que está acontecendo, você pode então controlá-lo, de dentro deste grupo.

2- Há um outro problema, chamado enfraquecimento econômico. Se você for liberar alguns destes novos desenvolvimentos, muito rapidamente, e muito cedo, você quebra totalmente a nossa atual base econômica, que é baseada em combustíveis fósseis, geração de energia elétrica através de fios e transformadores e coisas assim, comunicações como as conhecemos, aviões a jato como os conhecemos, e foguetes químicos para levar-nos à Lua. tudo isto está baseado em nossa atual indústria, nossa atual sociedade e nossa atual economia. Você não pode substituir isto rapidamente da noite para o dia. Por outro lado, você pode destruir a base econômica. Estou certo que isto será liberado, em algum tempo. Mas não está sendo liberado agora. Esta é uma das razões porque você não pode brincar com a base econômica. E, além do mais, aqueles que são beneficiados com isto, em termos de lucros gigantescos, como as companhias de petróleo, não vão distribuir seus lucros conosco. Este é somente um exemplo. Não significa que só existam estes.

Pergunta: Você pode, com esta tecnologia, voltar no tempo, para, digamos, 1843?

Resposta: Você pode ir no passado tão longe quanto queira, ou ir para o futuro tão distante quanto queira, contanto que o equipamento o leve lá. Sim.

Pergunta: Isto agora é parte também da tecnologia do bombardeiro Stealth?

Resposta: Existem alguns rumores neste sentido. Isto é uma parte dele. Sim.

Pergunta: Você disse que não tinha nenhuma lembrança disto até 83 ou por aí?

Resposta: 88.

Pergunta: Ok. De onde vieram a informação para o livro e também para o filme?

Resposta: O primeiro livro nós realmente não sabemos. Para o outro, o dr. Reinhardt, definitivamente identificado como dr. John von Neumann, que foi entrevistado e deu um monte de informações. De onde as outras vieram? Eu não sei. Eles não foram muito longe nos arquivos, porque a Marinha não os está liberando. Quanta informação está perdida por aí, eu não sei. Moore andou muito, e fez um bom trabalho de pesquisa para nós, sob a Lei de Liberdade de Informação (FOIA – Freedom of Information Act), liberando algumas das informações; ele realmente não conseguiu muito da Marinha, porque a Lei de Liberdade de Informação não estava em vigor, acho, até cerca de 1981. E ele passou muito tempo tentando tirar o que pudesse de quem encontrava.

 … : Ivan T. Sanderson, ele nunca escreveu um livro sobre este assunto, ele morreu em 1973, era muito interessado no Experimento Filadélfia em si; de fato, algum material seu caiu nas mãos de Moore, e foi aí onde este conseguiu alguma coisa. Mas onde ele obteve basicamente a informação, eu não sei. Uma ou outra entrevista, uma entrevista em algum lugar por telefone com Allende e quem quer que fosse. Eu nunca conversei com Moore, eu não sei onde ele arranjou sua fonte, ou as suas fontes de informação.

Pergunta: E que tal o filme?

Resposta: O filme foi produzido pela EMI Thorn. A Thorn Industries existe desde alguma época entre 1820 e 1830, no século 19. Era uma indústria inglesa que produzia instrumentos científicos para a Inglaterra e para a Europa. Ela foi assumida em 1850 pelos irmãos Wilson, que a herdaram de sua mãe. E eles ficaram lá até a virada do século, quando morreram. Por volta de 1980, final dos 70, começo dos anos 80, eu não sei a data exata, mas houve uma fusão entre a Thorn Industries e a EMI Corporation. E esta indústria eletrônica, com a etiqueta e os discos EMI é bem conhecida na Inglaterra, aqui, e em todo o mundo. Houve uma fusão. Quem comprou quem? Eu não sei. E eles decidiram que iriam fazer um filme. E decidiram que iriam fazer o Experimento Filadélfia!

… : Agora, durante aquele período em que estavam filmando, ou talvez um pouco antes, um certo amigo meu, de Long Island foi questionado, perguntado repetidamente, por um ator bastante conhecido, que tornou-se diretor do filme mas que não aparece nos créditos. Seu logotipo da New World Pictures esta lá, então eu sei quem ele é. Meu amigo falou que ele fez milhares de perguntas acerca do Experimento Filadélfia. Ele certamente sabia um pouco, mas não sabia tudo sobre isto. Nós achamos que ele supriu o material básico para o filme. E não foi só isto! De acordo com uma história bastante bizarra, que vocês podem aceitar ou não, em fevereiro de 1989, eu estava em Nova Iorque, junto com meu irmão e um cavalheiro por nome Preston Nichols, que fez uma apresentação para a Divisão de Nova Iorque (New York Chapter) da USPA, a Associação de Psicotrônica dos Estados Unidos (United States Psychotronics Association), que tem Clarence Robinson como presidente. Ele falou sobre o Projeto Fênix, eu falei sobre o Projeto Filadélfia, e foi feito uma fita de vídeo privado disto tudo. Nós sabíamos que alguém estava filmando. E não era para ser exibido mais tarde.

A história que Preston me contou, alguns meses mais tarde, foi bastante interessante. Ele disse que por volta de julho, ele foi visitado uma noite em seu laboratório. Alguém bateu à porta, e falou, “Preston Nichols?”. “Sim”! Eu sou Bill… tal & tal da EMI Thorn Industries da Inglaterra. Sou chefe dos arquivistas. Eu achei que você gostaria de conhecer a história. Nós temos estado procurando por você há algum”. Ele disse, “O que você quer dizer, procurando por mim?”. “Posso mostrar-lhe porque”. E ele mostrou-lhe uma foto, tirada de um álbum de família, dos Irmãos Wilson em 1890, em companhia de uma terceira pessoa, Aleister Crowley. Este é muito conhecido no meio metafísico, apesar do que possam pensar dele. Ele era aparentemente um investidor pesado da corporação, e ele viveu até os anos 50, 1950; havia também uma quarta pessoa. O quarto sujeito era a cara do meu amigo Preston, aparentando ter aproximadamente dez anos mais do que agora. Ele disse, “Nós tínhamos esta foto quando vimos a sua fita de vídeo, de você em Nova Iorque fazendo sua apresentação; nós sabíamos que finalmente o tínhamos encontrado”. Ele disse, “Posso ficar com esta foto?”. “Não”. Ele disse, “Bem, qual é a história?”.

“A história é que Crowley disse que você não era desta época (referindo-se a 1890). Você era do FUTURO! E você deu-nos a história inteira do Experimento Filadélfia, e ela tem estado em nossos arquivos desde 1890. Nós já conhecíamos a história, e tínhamos decidido somente agora, recentemente” (isto em 1983) “produzi-la”.

Bem, eles foram ao governo dos EUA pedir para filmarem em Long Island, porque eles sabiam que o outro terminal estava em Long Island, em Montauk. O governo dos EUA recusou totalmente permissão para eles chegarem perto do lugar. Foi então que eles foram para Wendover, Utah, para o outro terminal do 84, como eles o chamavam, experimento 84. Eu conheço Wendover, Utah, porque trabalhei em Salt Lake City, e visitei-a um monte de vezes; é a velha Base da Força Aérea de Wendover, a qual foi usada intensamente durante a Segunda Guerra Mundial. Mas foi assim, acreditem ou não (Ripley* adoraria esta), a história de como eles conseguiram o roteiro, ou o material básico para fazer o roteiro do Experimento Filadélfia. Eles o enfeitaram, é claro. Ele admitiu isto. Colocaram mais coisas para tornar mais interessante a história. O lado amoroso, as viagens à Califórnia e tudo o mais. Então, uma boa parte dele é ficção, mas a história básica foi um fato real, que eles aumentaram para fazer o filme.

Pergunta: Você estava um pouco relutante em falar sobre outros altamente classificados projetos que  conheceu, mas obviamente o Experimento Filadélfia é altamente classificado também. Por que?

Resposta: Teoricamente, o Experimento Filadélfia foi desclassificado. Existe uma lei, um estatuto que diz que qualquer projeto do governo que não seja classificado, é automaticamente desclassificado após quarenta anos. Agora, aquele experimento tomou lugar em 43, ele foi terminado em 43, como conseqüência, quarenta anos se passaram até 83. Então, teoricamente ele foi desclassificado em 83. Agora, um projeto qualquer pode ser desclassificado, mas o governo tem meios de esconder as referências a ele que existam nos arquivos, de modo que você só pode encontrá-lo se souber os códigos numéricos apropriados. Manuais ou relatórios técnicos podem não ser desclassificados. Há uma lei que diz, se for no interesse da segurança nacional, relatórios técnicos e outras informações pertencentes a projetos desclassificados podem não ser liberados. Como um exemplo típico, depois que a Segunda Guerra Mundial terminou, alguns anos depois, as bombas Norton K2 começaram a ser mostrados nas lojas de excedentes de guerra, em Nova Iorque e em todo lugar. Eles as estavam vendendo com preços que variavam de 2.500 até 200 dólares cada uma. Você podia comprar a coisa completa, intacta! Mas você não podia colocar as mãos nos manuais, dizer o que elas faziam, ou como usá-las, porque eles estavam classificados como altamente confidenciais, e ainda estão. Mas o equipamento em si está totalmente desclassificado.

Pergunta: Eu tenho duas perguntas. Uma delas tem a ver com sua viagem ao futuro, onde viu o doutor que estava encarregado do Experimento Fênix, e que estava encarregado também do Experimento Filadélfia. Você sabia que tinha ido, e então você voltou. Você sabia que estava no futuro, mas na época o doutor não sabia. Isto está correto?

Resposta: Não, não, ele sabia, ele em 83 sabia onde ele estava.

Pergunta: Ah, mas em 43 ele não sabia.

Resposta: Não, ele não sabia disto na época. eu eventualmente disse-lhe o que estava acontecendo, e é por isto que ele escreveu um relatório, porque ele veio a conhecer os fatos.

Pergunta: Quando isto foi escrito, em 43 ou em 83?

Resposta: Em 43 houve uma série de relatórios que foram escritos, e ele conhecia os fatos, sabia o que tinha dado errado no acoplamento do futuro. E foi-lhe pedido em 47 que ele ressuscitasse o experimento.

Pergunta: Mas é sobre isto que eu estou curioso: se você teve de contar-lhe que o havia visto no futuro, e ele estava quase o mesmo…

Resposta: Ele não acreditou nisto. Ele muito certamente não acreditou nisto no início; eventualmente, ele passou a acreditar!

Pergunta: Você o persuadiu disto?

Resposta: Perdão?

Pergunta: Foi devido à sua persuasão que ele acreditou em você?

Resposta: Nããoo! Não foi inteiramente devido a isto, havia outros elementos envolvidos.

Pergunta: A segunda pergunta tem a ver com o comentário daquela outra pessoa sobre Pearl Harbor, dizendo que dentro de algum tempo nós iríamos estar em guerra com o Japão, e eles estavam vindo bombardear Pearl Harbor. Eu não sei, pode ser que esteja errada, mas eu pensava que Pearl Harbor tinha sido uma completa surpresa para nós.

[……A audiência ri e se manifesta com algum barulho….]

Resposta: Desculpe, senhora; não foi nenhuma surpresa para a administração, eles levaram as coisas de tal modo para os japoneses nos bombardearem, e pudéssemos entrar na guerra. Isto foi planejado pelo presidente e por George C. Marshall. Os únicos no escuro sobre isto era o almirante Kenwell e o general Short, que estavam em Pearl Harbor, na época. Não lhes foi dito o que iria acontecer. Eles pediram uma Corte Marcial imediatamente depois. Eles foram afastados de seus postos, e isso quando eles pediram a Corte Marcial, porque eles sabiam que alguma errada estava acontecendo, e eles não tiveram o seu pedido atendido senão depois que a guerra terminou.

   NOTA: Eu não pude compreender os nomes orientais aqui mencionados.

E quando, claro, colocados frente aos registros, dos registros capturados dos japoneses em =ininteligível= e todo o gabinete de paz, e Tojo, e a coisa toda, e o modo como eles foram incessantemente empurrados por Roosevelt, até eles procurarem lavar sua honra, eles começaram a deslocar a sua frota para atacar. Eles queriam chegar a um acordo com os EUA, sem guerra!

Pergunta: Isto é de conhecimento comum?….

…Bielek continua falando…

Roosevelt não queria assim. Agora, houve alguns militares que não fizeram nada, que sabiam o que estava acontecendo. Algumas altas patentes, mas não o pessoal estacionado em Pearl Harbor.

Pergunta: Eu tenho uma pergunta. Você lembra se um dr. Harry Woo estava ligado ao Projeto Arco-Íris?

Resposta: Qual era o nome?

Pergunta: Harry Woo. Ele era um cavalheiro da quarta geração de chineses; ele era um físico ligado a R&D, a Marinha e ao Pentágono.

Resposta: Harry Wood?

Pergunta: WOO! W… O… O

Resposta: Oh! Woo. Não, não me lembro ninguém com este nome, não neste ponto. Se ele tinha alguma conexão com o projeto, é possível que estivesse em Princeton, ou algum outro lugar. Você vê, havia um monte de pessoas ligadas com esse projeto, e que não pertenciam à equipe. Quer dizer, formalmente ligados à equipe de Princeton, e eles nunca apareceriam nos registros, e eu procurei em todos os que estavam disponíveis nos arquivos. Claro, o dr. Von Neumann está lá; Tesla não, ele nunca esteve na equipe; hum, Gustave Le Bon não está lá, não encontramos nenhum registro dele, embora ele pertencesse a ela, pelo que eu sabia. Clarkston estava na equipe, mas sob um nome diferente, naquela época. Clarkston era um pseudônimo, uma cobertura; não Clarkston, ele atendia por um nome diferente, pois Clarkston era então um pseudônimo. Exatamente como Reinhardt era um pseudônimo para von Neumann. Nunca ouvi sobre este nome, não.

Pergunta: O dr. Woo, que foi designado pela Marinha para investigar os relatos de UFOs; era isto…

Resposta: Podia ser…

Pergunta: Bem, ele mencionou Rupelt. Ele encontrou e conversou com Rupelt, e ele mencionou algumas outras pessoas, e eu penso talvez que ele poderia estar ligado…

Resposta: Eu não estava envolvido neste ponto com qualquer investigação sobre UFOs, e eu estava em outro departamento da Marinha, que surgiu, aparentemente de modo simultâneo, e obviamente numa época muito posterior a agosto de 43.

Hum, você aí tem uma pergunta?

Pergunta: Sim! Você disse que em 1943 você foi para 83, e voltou para 43. E quando sua memória voltou em 88, isto mostraria que, nesta dimensão em particular, você estaria possivelmente em algum lugar em 83…. Você sabe o que estou falando? Você estava em dois lugares, em 83.

Resposta: É verdade. Em 1983, Eu era Alfred Bielek; estava trabalhando em Los Angeles, Califórnia. Eu fui mandado para bem longe da Costa Leste.

Pergunta: Então, o universo é como um holograma, no qual você pode ir para diferentes lugares no tempo, isto é somente um outro…

Resposta: Você entra aqui em alguns problemas bastante complexos, em termos de tempo. O homem que fez um grande trabalho sobre isso foi o dr. Norman Levinson (Nota: de outras vezes, Bielek chamou este personagem de HENRY Levinson, ou Levenson. Teria ele mudado de idéia, ou quem transcreveu isto bobeou? – R.A.) que não aparece em qualquer das biografias do Quem é Quem, na ciência da matemática. Ele é americano. Eu sei que ele escreveu três livros. Ele era um professor assistente de matemática no MIT [Massachusetts Institute of Technology – NT] em 1955, quando então tornou-se professor titular. E foi assim até morrer, em 1974. Ele nasceu em 1912. E ele figurou com destaque nos bastidores do Experimento Filadélfia, porque ele desenvolveu as equações de tempo de um trabalho previamente feito, e elas são totalmente classificadas. Você terá muito trabalho para encontrar seus livros. Ele escreveu um livro intitulado “Equações Diferenciais Ordinárias”, publicado pela McGraw Hill, acredito que em 1974. Tenho todos os dados, se você estiver interessado. Eu tenho os nomes, e os títulos, e os números usuais dos livros. Mas eu nunca os encontrei em qualquer das livrarias em Phoenix. Finalmente, em minha última viagem de volta ao Leste, fui até Princeton. Eu digo, se eles existem em algum lugar, só pode ser em Princeton. Bem, eles os tinham, nos cartões de arquivo. Mas não nas estantes da biblioteca da faculdade, mas no Instituto eles tinham os livros nas estantes.

Pergunta: Bem, você sabe como isso aconteceu, então você pode me dizer, ou isto é….

Resposta: Não, ele tornou-se um escritor maldito, não porque fosse uma má pessoa, mas devido, aparentemente, à natureza do seu trabalho. É por isto que não existem referências a ele, na literatura científica, eu não posso compreender isto, a não ser que seja deliberado.

Pergunta: O que eu estava dizendo é, você sabe como você estava em dois lugares… no mesmo lugar… quero dizer, em dois lugares diferentes, no mesmo ano. Você compreende que, como…

Resposta: Bem, em termos de tempo temporal, você pode dizer que eu estava em dois lugares ao mesmo tempo. Eles estavam separados. Mas em termos do meu eu, eu estava em um único lugar, no qual você terá de seguir o progresso do indivíduo através do tempo nos laços de retorno [loop-backs], quais lugares seguir, e este é um conceito muito difícil, difícil para compreender, a menos que você soubesse alguma coisa de matemática. Mesmo a matemática é muito difícil. Mas isto pode ser expresso em termos de viagem através do tempo através de vários laços [loops], você pode seguir… se você não atravessar o seu próprio caminho no mesmo lugar, senão você terá uma situação bastante desastrosa.

Pergunta: Isto acontece de uma vez?

Resposta: Perdão…

Pergunta: Isto acontece realmente, não são apenas palavras, então isto tudo acontece de uma vez? Não consigo pensar sobre isto.

Resposta: Se você estiver para atravessar o seu próprio caminho, você teria um sério problema: você pode desaparecer. Mas contanto que você não atravesse o seu próprio caminho, no mesmo lugar físico onde possa alcançar e tocar a si mesmo, então, digo, não há nenhum problema real.
Você aí, tem uma pergunta?

Pergunta: Sim, tenho duas perguntas. A primeira, é sobre a data de 12 de agosto. O modo como compreendo isto, depois de ouvir você, era que seria pura coincidência que o desastre tivesse ocorrido em 12 de agosto, e que era também uma segunda coincidência que a conexão com o Fênix também tenha sido realizada a 12 de agosto? Se nenhum delas tivesse sido realizado naquelas datas, então você não teria ligação com o Hiperespaço? Isto está correto?

Resposta: Está correto. Se não na extensão que o Projeto Fênix estava, é preocupante, por causa das séries de experiências que estavam sendo feitas há dois anos e meio, e pelo que entendi, dos registros que foram capturados, se vocês quiserem assim, por um certo amigo quando fomos lá naquela área, depois deles a terem abandonado, eles deixaram um monte de documentos e livros para trás. Eles iniciaram uma operação no dia 1 de agosto de 1983, vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana. Agora, devido ao primeiro dos picos de biocampo em 12 de agosto, o qual a propósito, não é uma data exata, devido ao sistema de calendário, que não é absolutamente preciso, e os picos não ocorreram com traços de precisão no tempo dado aquele dia. Atualmente, poderia ser mais um dia ou menos um dia; naquele ponto não era. Se o Eldridge não tivesse feito aquele experimento no dia 12, e esperasse dois dias, com toda probabilidade não teria havido aquela ligação. Mas alguém insistia que ele tinha de ser no dia 12. Acidente? Nós questionamos isto seriamente, em retrospecto, se foi um acidente que aquela data nos tivesse sido dada. Eles sabiam muito bem que von Neumann iria espremer cada minuto e segundo que pudesse, para conseguir fazer mais testes e modificações. E portanto eles sabiam, ele faria dia 12, ou que esquecesse. E ele não era o tipo de pessoa que iria esquecer aquilo. Ele estava esperando pelo melhor, e colheu o pior.

Pergunta: Da segunda vez foi também coincidência, que eles não tinham deliberadamente montado aquilo para tentar recebê-lo, naquele momento? Ou eles sabiam que você estava vindo?

Resposta: Você está falando sobre 43 ou 83?

Pergunta: 83.

Resposta: Este foi um projeto totalmente diferente, e se a operação no tempo àquela época foi devido a algum conhecimento prévio do que estava acontecendo em 43, ou não, eu não sei. Eu não posso responder isso, porque simplesmente não sei.

Pergunta: A outra pergunta que eu tenho, parece uma espécie de objeção, nós abordamos mais cedo o bombardeiro Stealth, mas isto parece um pouco ridículo, que nós gastamos tanto em cada aeronave, por achar que aquilo funcionaria perfeitamente, provou-se que isto funciona perfeitamente, eles não podiam ter moderado (?) isto agora, e cortar os custos tremendamente?.

Resposta: Eles provavelmente adaptaram este tipo de maquinário para outra aeronave. Você se lembra da história do ataque dos israelenses a Entebe, na África, para resgatar algumas centenas de judeus que estavam sendo mantido prisioneiros lá, na época? Existe um filme documentário de longa metragem feito sobre isto. Os fatos são que quando o estado de Israel conduziu seus aviões através da África, todos os radares estavam operacionais à época. Nenhum apanhou os aviões atravessando a África. Eles atingiram Entebbe de surpresa, sem nenhum aviso prévio. Eles tinham sistemas para bloquear o radar.

Pergunta: O que você experimentou, o que você viu, quando se moveu através do tempo?

Resposta: Desculpe?

Pergunta: O que você experimentou quando se moveu através do tempo?

Resposta: É algo do qual não se tem muita experiência. É uma sensação de queda, é como você saltar de um edifício muito alto, e você não pode ver o fundo, não sabe onde está indo, ou se você cairá em um abismo, algumas centenas de metros abaixo. Você está caindo, e você sabe que está caindo, e tem o sentimento de queda, e não sabe onde está indo, ou o que o está realmente acontecendo. É algo similar a isto. Nós não sabíamos o que estava acontecendo à época, não tínhamos nenhuma idéia naquele instante, quando isto aconteceu pela primeira vez.

Este parece ter sido o fim da conferência. A anfitriã que conduzia a conferência agradeceu ao senhor Bielek por ter gasto seu tempo ali, e compartilhado a informação que ele tinha sobre o Experimento Filadélfia. Este foi o fim desta fita.

Houve uma fita anterior a esta, de dezembro de 1989, como foi dito acima na transcrição de Alfred Bielek. Parece que a EMI Thorn fez esta fita de vídeo. Se ela existe, e alguém tem as conexões certas para receber esta fita, por favor, me contate (Rick Andersen).

Uma coisa mais, se você pensa tentar localizar esta pessoa. Como foi mencionado antes, Preston Nichols parece que irá ele mesmo fazer uma viagem no tempo! Da transcrição, pelo que entendi, ele foi visitado em 1983-84 por um representante da Thorn EMI. Na foto, ele parecia cerca de dez anos mais velho. Muito bem, nós estamos agora em 1991! Mais ou menos dez anos depois de 1983-84, que ele teve esta visita da EMI! Muito em breve, este homem, Preston Nichols estará indo fazer alguma viagem no tempo. Se pudermos juntar nossos esforços, e tentar, ou localizar este homem, ou então o senhor Bielek, nós poderemos finalmente ir até o fundo da verdade destes quarentas e oito anos de mistério.

Conclusão

Eu espero que vocês tenham apreciado isto, e sendo assim gostaria de ouvir seus comentários com relação ao Experimento Filadélfia, UFOs e outras coisas que serão mencionadas neste documento. Também gostaria de saber de vocês, se alguém fez mais pesquisas sobre esta experiência. Gostaria também de saber o paradeiro de Alfred Bielek.

]Por favor, contatem-me:

]CRC Technology, Inc. Att. Clay Tippen ]7809 Cypress St., West Monroe, LA 71291-8282

]VOICE (318) 397-2723 begin_of_the_skype_highlighting              (318) 397-2723      end_of_the_skype_highlighting ] MODEM (318) 361-5080 begin_of_the_skype_highlighting              (318) 361-5080      end_of_the_skype_highlighting The Jolly Roger BBS Robotics HST

A atual fita de vídeo da qual este documento foi transcrito estava à venda em Phoenix, Arizona, em uma LIVRARIA! Pelo que entendo, o proprietário da livraria esteve na conferência sobre UFOs, e gravou-a. A qualidade da fita é muito pobre, mas isto realmente não importa. O que é importante é a conferência em si. Eu espero que o autor desta fita não se importe que eu a tenha transcrito para este documento. Não havia nenhuma indicação de copyright na fita, e ao invés de copiá-la, decidi transcrevê-la para este documento, e compartilhá-lo com as partes interessadas.

Se qualquer de vocês puder contatar, ou William Moore, ou Charles Berlitz, espero que dêem uma cópia para eles. Pode ser que isto os ajude em suas pesquisas, e finalmente cheguemos à verdade sobre o Experimento Filadélfia. Pode ser que eles tenham mais sorte em tentar ir no encalço do senhor Bielek.

NOTA DO CORRETOR DESTE ARQUIVO, RICK ANDERSEN:

Enquanto fazia a correção gramática e ortográfica deste arquivo, em outubro de 1992, eu topei com a seguinte informação:

Al Bielek reside em Phoenix, Arizona. Seu número de telefone não está no catálogo.

Preston Nichols vive East Islip, Long Island, NY. Seu telefone normalmente está ligado a uma secretária eletrônica, que diz que ele “não está mais recebendo chamadas”, a menos que ele sinta que você merece falar com ele.

Não estou certo do paradeiro de Duncan Cameron, mas acredito que ele ainda viva em Long Island.

William Moore, que foi “excomungado” há alguns anos, se querem assim, por uma parte da comunidade de pesquisadores de UFOs em razão de algumas dúvidas sobre a sua credibilidade, está atualmente editando uma revista chamada FAR OUT! Um número recente continha artigos sobre Groom Lake/Área 51, T. Townsend Brown, a lenda do “demônio de Jersey”, e variadas pinceladas sobre mistérios de UFOs.

Existe outra fita de vídeo por aí, chamada “A Verdade Sobre O Experimento Filadélfia”, disponível através de Bill Knell de Long Island Skywatch, Flushing, NY. Esta é a fita que apresentou-me à versão de Bielek/Cameron/Nichols do Exp. Fil. Ela contém a mesma informação, até onde diz respeito ao relato de Bielek, mas vai um pouco mais sobre o suposto “Projeto Fênix”, na base de radar de Montauk Point, em Long Island, e como aquele projeto supostamente cresceu a partir de uma síntese do Exp. Fil., os dispositivos de “controle de clima” de Wilhelm Reich, e o desenvolvimento dos transmissores da Rádiosonda pelos Laboratórios Nacionais de Brookhaven (Brookhaven National Labs), em Long Island, durante os anos 50. (Preston Nichols é o narrador, nesta fita).

Também, Brad Steiger, conhecido nos círculos dos ufólogos por muitos anos, escreveu um livro intitulado “The Philadelphia Experiment & Other UFO Conspiracies”, no qual a história de Al Bielek tem o maior destaque. O livro foi publicado por Timewalker Productions, c. 1990; Inner Light Publications, Box 753, New Brunswick, New Jersey 08903. (ISBN: 0-948395-97-0).

Finalmente, Nichols mesmo publicou (ou sua história apareceu em) um livro chamado o “The Montauk Project” – o qual eu estou ainda esperando recebê-lo pelo correio, então não posso dar nenhum detalhe ainda.

Aqueles de vocês que possuem uma bagagem técnica em física ou eletrônica estarão, claro, interessados nos pequenos detalhes da TECNOLOGIA supostamente usada para criar o Experimento Filadélfia e o Projeto Montauk. Eu sou técnico em eletrônica, e estou tentando coletar e juntar cada pedaço de informação que puder, e determinar de uma vez por todas se estas histórias são verdadeiras ou não. Descarreguei recentemente meu arquivo ASCII TECH-1 em várias BBSs; foi uma tentativa de conseguir pensadores sérios, ou seja, pessoas mais espertas do que eu, e espertas o suficiente para enfrentar seriamente Bielek e Nichols nos pontos técnicos. Contanto que não estejamos ouvindo apenas anedotas bem boladas, nós iremos correndo ouvir cada história que aparecer. Nós precisamos começar a pensar acerca da ciência por trás disto, e precisamos chamar os narradores para contarem suas histórias. Se eles vão enfiar a mão no nosso bolso, cobrando 10 dólares de nós, que vamos às suas palestras, então vamos perguntar-lhes pelos detalhes técnicos, não é? Se eles ficarem relutantes em revelar-nos estes detalhes, então qual é o problema em “quebrar o seu silêncio”, e contar-nos o que aconteceu em um projeto classificado ha quarenta anos atrás? Podemos nós, seus ouvintes, fazer algo sobre isto? Não – tudo que podemos fazer trocar nosso dinheiro pelos seus livros, por freqüentar suas palestras. Se eles têm a “necessidade” altruística ou compulsão de “fanfarronear-se” e contar ao mundo acerca de governo sobre experiências de viagens no tempo, teletransporte, etc, então eu insisto que nós temos o direito de exigir alguns detalhes técnicos. O que mais podemos fazer?

Al Bielek e seus associados contam histórias fascinantes. Será que eles podem contar histórias tão valiosas para os físicos e engenheiros quanto as que eles contam para as pessoas leigas que freqüentam suas palestras?

Se alguém estiver interessado em trocar informações sobre estes assuntos, eu posso ser encontrado no endereço abaixo:

Rick Andersen R.D. 1, Box 50A Newport, Pennsylvania 17074

A Palestra de Al Bielek na Conferência da MUFON, em 13 de janeiro de 1990

Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/experimento-filadelfia/

As Origens de Lilith

 

Lilith (em hebraico: לִילִית, romanizado: Līlīṯ) é uma figura feminina na mitologia mesopotâmica e judaica, alternativamente a primeira esposa de Adão e supostamente a demônio primordial. Lilith é citada como tendo sido “banida” do Jardim do Éden por não obedecer e obedecer a Adão. Ela é mencionada no hebraico bíblico no Livro de Isaías, e na Antiguidade Tardia na mitologia mandeana e nas fontes da mitologia judaica a partir de 500 EC. Lilith aparece em historiolas (encantamentos que incorporam uma pequena história mítica) em vários conceitos e localidades que dão descrições parciais dela. Ela é mencionada no Talmude Babilônico (Eruvin 100b, Niddah 24b, Shabat 151b, Baba Bathra 73ª), no Livro de Adão e Eva como a primeira esposa de Adão, e no Zohar, Levítico 19a como “uma mulher ardente e quente que primeiro coabitou com o homem”.

O nome Lilith deriva de lilû, lilîtu e (w)ardat lilî. A palavra acadiana lilu está relacionada à palavra hebraica lilith em Isaías 34:14, que é considerada um pássaro noturno por alguns estudiosos modernos, como Judit M. Blair. Na antiga religião da Mesopotâmia, encontrada em textos cuneiformes da Suméria, Assíria e Babilônia, Lilith significa um espírito ou demônio.

A Lilith bíblica inspirou a autora e a primeira teóloga feminista judia Judith Plaskow a escrever, ‘The Coming of Lilith (A Vinda de Lilith)’ examinando o domínio patriarcal no judaísmo e no cristianismo, e a escrita de ‘Which Lilith (Qual Lilith)’ explorando as diversas identidades desse personagem por feministas, incluindo Enid Dame.

Lilith continua a servir como fonte de material na cultura popular de hoje, cultura ocidental, literatura, ocultismo, fantasia e horror, muitas vezes retratada como uma mulher lutando pela igualdade e pela justiça.

A HISTÓRIA DE LILITH:

No folclore judaico, como no satírico Alfabeto de Sirach (c. 700–1000 d.C.), Lilith aparece como a primeira esposa de Adão, que foi criada na mesma época e do mesmo barro que Adão. Compare esse relato com Gênesis 1:27, em que isso contrasta com Eva, que foi criada de uma das costelas de Adão). A lenda de Lilith desenvolveu-se extensivamente durante a Idade Média, na tradição da Aggadah, do Zohar e do misticismo judaico. Por exemplo, nos escritos do século 11 de Isaac on Jacob ha-Cohen, Lilith deixou Adão depois que ela se recusou a se tornar subserviente a ele e depois não retornou ao Jardim do Éden depois de se casar com o arcanjo Samael.

As interpretações de Lilith encontradas em materiais judaicos posteriores são abundantes, mas pouca informação sobreviveu sobre a visão suméria, acadiana, assíria e babilônica dessa classe de demônios. Embora os pesquisadores quase universalmente concordem que existe uma conexão, estudos recentes contestaram a relevância de duas fontes anteriormente usadas para conectar a lilith judaica a uma lilītu acadiana – o apêndice de Gilgamesh e os amuletos de Arslan Tash. (veja abaixo a discussão dessas duas fontes problemáticas). Em contraste, alguns estudiosos, como Lowell K. Handy, sustentam a opinião de que, embora Lilith deriva da demonologia mesopotâmica, a evidência da Lilith hebraica estar presente nas fontes frequentemente citadas – o fragmento sumério de Gilgamesh e o encantamento sumério de Arshlan-Tash sendo duas de tais evidencias – é escassa, se estiver presente.

Em textos de língua hebraica, o termo lilith ou lilit (traduzido como “criaturas da noite”, “monstro da noite”, “bruxa da noite” ou “coruja”) ocorre pela primeira vez em uma lista de animais em Isaías 34. A referência a Lilith em Isaías 34:14, não aparece na maioria das traduções comuns da Bíblia, como a KJV (Versão do Rei James) e a NIV (Nova Versão Internacional). Comentaristas e intérpretes muitas vezes imaginam a figura de Lilith como um perigoso demônio da noite, que é sexualmente libertina e que rouba bebês na escuridão. Nos Manuscritos do Mar Morto 4Q510-511, o termo ocorre pela primeira vez em uma lista de monstros. Inscrições mágicas judaicas em tigelas e amuletos do século VI Dc identificam Lilith como um demônio feminino e fornecem as primeiras representações visuais dela.

ETIMOLOGIA DA PALAVRA LILITH:

Na língua acadiana da Assíria e Babilônia, os termos lili e līlītu significam espíritos. Alguns usos de līlītu estão listados no Dicionário Assírio do Instituto Oriental da Universidade de Chicago (CAD, 1956, L.190), em Akkadisches Handwörterbuch de Wolfram on Soden (Ahw, p. 553), e Reallexikon der Assyriologie (RLA, página 47).

Os demônios femininos sumérios lili não têm relação etimológica com o acadiano lilu, “noite”.

Archibald Sayce (1882) considerou que o lilit hebraico (ou lilith) לילית e o anterior līlītu acadiano são derivados do proto-semítico. Charles Fossey (1902) traduz literalmente para “ser/demônio da noite feminino”, embora existam inscrições cuneiformes da Mesopotâmia onde Līlīt e Līlītu se referem a espíritos do vento portadores de doenças.

LILITH NA MITOLOGIA MESOPOTÂMICA:

Lilu:

Um lilu ou lilû é uma palavra acadiana masculina para um espírito ou demônio.

História:

Jo Ann Scurlock e Burton R. Andersen (2005) veem a origem do lilu no tratamento de doenças mentais.

Na Literatura Suméria e Acadiana:

Na literatura acadiana ocorre hlilu. Na literatura suméria ocorre lili. A datação de textos específicos acadianos, sumérios e babilônicos que mencionam lilu (masculino), lilitu (feminino) e lili (feminino) é casual. Em estudos mais antigos, como The Devils and Evil Spirits of Babylonia (Os Diabos e Espíritos Malignos da Babilônia, 1904), de R. Campbell Thompson, raramente são dadas referências de texto específicas. Uma exceção é K156 que menciona um ardat lili. Heinrich Zimmern (1917) identificou provisoriamente vardat lilitu KAT3, 459 como amante de lilu.

Uma inscrição cuneiforme lista lilû ao lado de outros seres perversos da mitologia e folclore da Mesopotâmia:

Os perversos Utukku que matam o homem vivo na planície.

Os perversos Alû que cobrem (o homem) como uma roupa.

Os perversos Edimmu, os perversos Gallû, que amarram o corpo.

Os Lamme (Lamashtu), os Lammea (Labasu), que causam doenças no corpo.

Os Lilû que vagueiam na planície.

Eles chegaram perto de um homem sofredor do lado de fora.

Eles provocaram uma doença dolorosa em seu corpo.

— Stephen Herbert Langdon 1864.

Na Lista de Reis Sumérios:

Na Lista de Reis Sumérios, diz-se que o pai de Gilgamesh é um lilu.

O ‘Espírito na Árvore’ no Ciclo Gilgamesh:

A Tabuinha XII, datada de c. 600 Ac, é uma tradução acadiana assíria posterior da última parte do sumeriano Epopeia de Gilgamesh. Ele descreve um ‘espírito na árvore’ referido a um ki-sikil-lil-la-ke.

Traduções sugeridas para a Tabuinha XII ‘espírito na árvore’ incluem ki-sikil como “lugar sagrado”, lil como “espírito” e lil-la-ke como “espírito da água”. Mas também simplesmente “coruja”, já que a pequena constrói uma casa no tronco da árvore.

O ki-sikil-lil-la-ke está associado a uma serpente e a um pássaro zu. Kramer traduz o zu como “coruja”, mas na maioria das vezes é traduzido como “águia”, “abutre” ou “ave de rapina”. Em Gilgamesh, Enkidu e Netherworld, uma árvore huluppu cresce no jardim de Inanna em Uruk, cuja madeira ela planeja usar para construir um novo trono. Depois de dez anos de crescimento, ela vem para colhê-lo e encontra uma serpente vivendo em sua base, um pássaro Zu criando filhotes em sua copa, e que um ki-sikil-lil-la-ke fez uma casa em seu tronco. Diz-se que Gilgamesh matou a cobra, e então o pássaro zu voou para as montanhas com seus filhotes, enquanto o ki-sikil-lil-la-ke com medo destrói sua casa e foge para a floresta.

Relação de Lilu com a Lilith Hebraica e com as Lilin:

É contestado se, se é que a palavra acadiana lilu ou seus cognatos estão relacionados com a palavra hebraica lilith em Isaías 34:14, que é considerada um pássaro noturno por alguns estudiosos modernos, como Judit M. Blair. O conceito babilônico de lilu pode estar mais fortemente relacionado ao conceito talmúdico posterior de Lilith (feminino) e lilin (feminino).

Samuel Noah Kramer (1932, publicado em 1938) traduziu ki-sikil-lil-la-ke como Lilith na “Tabuinha XII” da Epopeia de Gilgamesh. A identificação de ki-sikil-lil-la-ke como Lilith é indicada no Dictionary of Deities e Demons in the Bible (Dicionário de Divindades e Demônios na Bíblia, 1999). De acordo com uma nova fonte da Antiguidade Tardia, Lilith aparece em uma história de magia mandaica onde ela é considerada como representando os galhos de uma árvore com outras figuras demoníacas que formam outras partes da árvore, embora isso também possa incluir vários “Liliths”.

Uma conexão entre o ki-sikil-lil-la-ke em Gilgamesh e a Lilith judaica foi rejeitada por motivos textuais por Sergio Ribichini (1978).

A Mulher com Pés de Pássaro no Burney Relief (Relevo de Burney):

 

O Relevo de Burney, Babilônia (1800-1750 a.C.).

A tradução de Kramer do fragmento de Gilgamesh foi usada por Henri Frankfort (1937) e Emil Kraeling (1937) para apoiar a identificação de uma mulher com asas e pés de pássaro no disputado Burney Relief relacionado a Lilith. Frankfort e Kraeling identificaram a figura no relevo com Lilith. Pesquisas modernas identificaram a figura como uma das principais deusas dos panteões mesopotâmicos, provavelmente Ereshkigal, a deusa do submundo mesopotâmico, mais isso é assunto para um outro artigo.

Os Amuletos Arslan Tash:

Os amuletos Arslan Tash são placas de calcário descobertas em 1933 em Arslan Tash, cuja autenticidade é contestada. William F. Albright, Theodor H. Gaster e outros aceitaram os amuletos como uma fonte pré-judaica que mostra que o nome Lilith já existia no século VII a.C., mas Torczyner (1947) identificou os amuletos como uma fonte judaica posterior.

LILITH NA BÍBLIA HEBRAICA:

A palavra lilit (ou lilith) aparece apenas uma vez na Bíblia hebraica, em uma profecia sobre o destino de Edom, enquanto os outros sete termos da lista aparecem mais de uma vez e, portanto, são mais bem documentados. A leitura de estudiosos e tradutores é muitas vezes guiada por uma decisão sobre a lista completa de oito criaturas como um todo. [Veja Os animais mencionados na Bíblia, por Henry Chichester Hart, 1888, e fontes mais modernas; também entradas Brown Driver Briggs Hebrew Lexicon para tsiyyim, ‘iyyim, sayir, liylith, qippowz e dayah.] ​​Citando Isaías 34 (NAB):

(12) Seus nobres não existirão mais, nem reis serão proclamados ali; todos os seus príncipes se foram.

(13) Seus castelos serão cobertos de espinhos, suas fortalezas de cardos e sarças. Ela se tornará uma morada para chacais e um refúgio para avestruzes.

(14) Os gatos selvagens se encontrarão com as feras do deserto, os sátiros chamarão uns aos outros; Ali a Lilith descansará e encontrará para si um lugar para descansar.

(15) Ali a coruja aninha e põe ovos, choca-os e recolhe-os à sua sombra; Ali se reunirão os abutres, nenhum faltará ao seu companheiro.

(16) Olhem no livro do Senhor e leiam: Nenhum destes faltará, porque a boca do Senhor o ordenou, e o seu espírito os reunirá ali.

(17) É Ele quem lança a sorte para eles, e com Suas mãos Ele marca suas partes dela; Eles a possuirão para sempre, e habitarão ali de geração em geração.

Lilith no Texto Hebraico Massorético:

No Texto Massorético:

Hebraico:

u-pagšu ṣiyyim et-ʾiyyim, w-saʿir ʿal-rēʿēhu yiqra; ʾak-šam hirgiʿa lilit, u-maṣʾa lah manoaḥ

34:14 “E encontrarão gatos selvagens com chacais

o bode que ele chama de seu companheiro

lilit (lilith) ela descansa e ela encontra descanso [מנוח, manoaḥ, usado para pássaros como a pomba de Noé, Gen.8:9 e também humanos como o povo de Israel, Deut.28:65; Noemi, Rute 3:1.]

34:15 ali ela aninhará a grande coruja, e ela põe (ovos), e ela choca, e ela ajunta sob sua sombra: falcões [abutres, milhafres] também eles se reúnem, cada um com seu companheiro.

Nos Manuscritos do Mar Morto, entre os 19 fragmentos de Isaías encontrados em Qumran, o Grande Rolo de Isaías (1Q1Isa) em 34:14 apresenta a criatura no plural liliyyot (ou liliyyoth).

Eberhard Schrader (1875) e Moritz Abraham Levy (1855) sugerem que Lilith era um demônio da noite, conhecido também pelos exilados judeus na Babilônia. A visão de Schrader e Levy é, portanto, parcialmente dependente de uma datação posterior de Deutero-Isaías no século VI a.C., e a presença de judeus na Babilônia, que coincidiria com as possíveis referências ao Līlītu na demonologia babilônica. No entanto, essa visão é contestada por algumas pesquisas modernas, como Judit M. Blair (2009), que considera que o contexto indica animais impuros.

Lilith na Septuaginta, a Tradução Grega da Bíblia:

A Septuaginta traduz tanto a referência a Lilith quanto a palavra para chacais ou “animais selvagens da ilha” dentro do mesmo verso para o grego como onokentauros, aparentemente assumindo-os como referindo-se às mesmas criaturas e omitindo “gatos selvagens / animais selvagens do deserto” (assim, em vez dos gatos selvagens ou bestas do deserto se encontrarem com os chacais ou bestas da ilha, a cabra ou “sátiro” chorando “para seu companheiro” e lilith ou “coruja” descansando “lá”, é a cabra ou “sátiro” , traduzido como daimonia “demônios”, e os chacais ou bestas da ilha “onocentauros” se encontrando e gritando “um para o outro” e o último descansando ali, na tradução). Isaías 34:14: καὶ συναντήσουσιν δαιμόνια ὀνοκενταύροις καὶ βοήσουσιν ἕτερος πρὸς τὸν ἕτερον ἐκεῖ ἀναπαύσονται ὀνοκένταυροι εὗρον γὰρ αὑτοῖς ἀνάπαυσιν  Tradução: E os daemons encontrarão com os onocentauros, e eles irão gritar um ao outro: ali descansarão os onocentauros, tendo encontrado para si [um lugar de] descanso.]

Lilith na Vulgata, a Tradução Latina da Bíblia:

A Vulgata do início do século V traduziu a mesma palavra como lâmia, ou seja, lâmia.

et ocorrerent daemonia onocentauris et pilosus clamabit alter ad alterum ibi cubavit lamia et invenit sibi requiem

— Isaías (Isaías Propheta) 34.14, Vulgata.

A tradução é: “E demônios se encontrarão com monstros, e um peludo clamará ao outro; ali a lâmia se deitou e encontrou descanso para si mesma”.

Lilith nas Traduções da Bíblia para o Inglês:

A Bíblia de Wycliffe (1395) preserva a tradução latina lamia:

Is 34:15 Lamya viverá ali, e ali descansa para si mesma.

A Bíblia dos Bispos de Matthew Parker (1568) do latim:

Is 34:14 ali a Lâmia se deitará e terá o seu alojamento.

A Bíblia Douay-Rheims (1582/1610) também preserva a tradução latina lamia:

Is 34:14 E demônios e monstros se encontrarão, e os peludos clamarão uns aos outros; ali a lâmia se deitou, e encontrou descanso para si.

A Bíblia de Genebra de William Whittingham (1587) do hebraico:

Is 34:14 e ali descansará a coruja, e achará para si uma morada sossegada.

Em seguida, a versão King James (Versão do Rei James, 1611):

Isaías 34:14 As feras do deserto também se encontrarão com as feras da ilha, e o sátiro clamará ao seu companheiro; a coruja noturna também descansará ali, e achará para si um lugar de descanso.

A tradução “coruja noturna (screech owl)” da versão King James é, junto com a “coruja” (yanšup, provavelmente uma ave aquática) em 34:11 e a “grande coruja” (qippoz, propriamente uma cobra) de 34:15, uma tente traduzir a passagem escolhendo animais adequados para palavras hebraicas difíceis de traduzir.

Traduções posteriores incluem:

  • A coruja da noite (Young, 1898).
  • O espectro noturno (Rotherham, Emphasized Bible, 1902).
  • O monstro da noite (ASV, 1901; JPS 1917, Good News Translation, 1992; NASB, 1995).
  • Os vampiros (Moffatt Translation, 1922; Knox Bible, 1950).
  • A bruxa da noite (Versão Padrão Revisada, 1947).
  • Lilith (Bíblia de Jerusalém, 1966).
  • (a) lilith (New American Bible, 1970).
  • Lilith (Nova Versão Padrão Revisada, 1989).
  • (a) demônio da noite Lilith, maligna e voraz (A Mensagem (Bíblia), Peterson, 1993).
  • A criatura da noite (New International Version, 1978; New King James Version, 1982; New Living Translation, 1996, Today’s New International Version).
  • As aves noturnas (Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, 1984).
  • O pássaro noturno (versão padrão em inglês, 2001).
  • O pássaro noturno (NASB, 2020).
  • Os animais noturnos (New English Translation (NET Bible)).

LILITH NA TRADIÇÃO JUDAICA:

As principais fontes na tradição judaica sobre Lilith em ordem cronológica incluem:

  1. 40–10 a.C. Os Manuscritos do Mar Morto – Canções para um Sábio (4Q510–511).
  2. 200 A Mishná – não mencionada.
  3. 500 A Gemara do Talmude.
  4. 700-1000 O Alfabeto de Ben-Sira.
  5. 900 Midrash Abkir.
  6. 1260 O Tratado sobre a Emanação Esquerda, Espanha.
  7. 1280 O Zohar, Espanha.

Lilith nos Manuscritos do Mar Morto:

 

Reprodução fotográfica do Grande Rolo de Isaías, que contém uma referência ao plural lilyyot.

Os Manuscritos do Mar Morto contêm uma referência indiscutível à Lilith em Songs of the Sage (As Canções do Sábio, 4Q510-511) fragmento 1:

E eu, o Instrutor, proclamo Seu glorioso esplendor para assustar e aterrorizar todos os espíritos dos anjos destruidores, espíritos dos bastardos, demônios, Lilith, uivadores e habitantes do deserto… e aqueles que caem sobre os homens sem aviso prévio para desviá-los de um espírito de entendimento e para tornar seu coração e seu… desolados durante o presente domínio da maldade e tempo predeterminado de humilhações para os filhos da luz, pela culpa dos séculos dos que foram feridos pela iniquidade – não para a destruição eterna, mas para uma era de humilhação por transgressão.

Tal como acontece com o texto massorético de Isaías 34:14, e, portanto, diferente do plural liliyyot (ou liliyyoth) no rolo de Isaías 34:14, lilit em 4Q510 é singular, este texto litúrgico adverte contra a presença de malevolência sobrenatural e assume familiaridade com Lilith; distinta do texto bíblico, no entanto, esta passagem não funciona sob nenhuma agenda sociopolítica, mas serve na mesma capacidade de Um Exorcismo (4Q560) e Canções para Dispersar Demônios (11Q11). O texto é assim, para uma comunidade “profundamente envolvida no domínio da demonologia”, um hino de exorcismo.

Joseph M. Baumgarten (1991) identificou a mulher sem nome de A Sedutora (4Q184) como relacionada ao demônio feminino. No entanto, John J. Collins considera essa identificação como “intrigante”, mas é “seguro dizer” que (4Q184) é baseado na mulher estranha do Livro de Provérbios, capítulos 2, 5, 7, 9:

Sua casa afunda até a morte,

E seu caminho leva às sombras.

Todos que vão até ela não podem voltar

E reencontrar os caminhos da vida.

— Provérbios 2:18–19.

As suas portas são portas da morte, e desde a entrada da casa

Ela parte em direção ao Sheol.

Nenhum dos que ali entram jamais voltará,

E todos os que a possuem descerão ao Poço.

— 4Q184.

Lilith na Literatura Rabínica Primitiva:

Lilith não ocorre na Mishná. Existem cinco referências a Lilith no Talmude Babilônico na Gemara em três tratados separados da Mishná:

  • “Rav Judah citando Samuel decidiu: Se um aborto tivesse a semelhança de Lilith, sua mãe é impura por causa do nascimento, pois é uma criança, mesmo que tenha asas.” (Talmude Babilônico no Tratado Nidda 24b).
  • “[Explicando sobre as maldições da feminilidade] Em um Baraitha foi ensinado: As mulheres crescem cabelos compridos como Lilith, sentam ao urinar como uma fera e servem de travesseiro para o marido.” (Talmude Babilônico no Tratado Eruvin 100b).
  • “Para gira, ele deve pegar uma flecha de Lilith e colocá-la com a ponta para cima e derramar água sobre ela e beber. Alternativamente, ele pode pegar a água que um cachorro bebeu à noite, mas deve tomar cuidado para que não tenha sido exposta.” (Talmude Babilônico, tratado Gittin 69b). Neste caso em particular, a “flecha de Lilith” é provavelmente um fragmento de meteorito ou fulgurita, coloquialmente conhecido como “relâmpago petrificado” e tratado como medicamento antipirético.
  • “Rabbah disse: Eu vi como Hormin, filho de Lilith, estava correndo no parapeito da muralha de Mahuza, e um cavaleiro, galopando abaixo a cavalo não podia alcançá-lo. Uma vez eles selaram para ele duas mulas que estavam em duas pontes do rio Rognag; e ele pulou de uma para a outra, para trás e para frente, segurando em suas mãos duas taças de vinho, derramando alternadamente de uma para outra, e nem uma gota caiu no chão.” (Talmude Babilônico, tratado Bava Bathra 73a-b). Hormin que é mencionado aqui como o filho de Lilith é provavelmente o resultado de um erro de escriba da palavra “Hormiz” atestado em alguns dos manuscritos talmúdicos. A própria palavra, por sua vez, parece ser uma distorção de Ormuzd, a divindade da luz e da bondade no Zend Avesta, o livro sagrado do Zoroastrismo. Se assim for, é um tanto irônico que Ormuzd se torne aqui o filho de um demônio noturno.
  • “R. Hanina disse: Não se pode dormir em uma casa sozinho [em uma casa solitária], e quem dorme em uma casa sozinho é capturado por Lilith.” (Talmude Babilônico no Tratado de Shabat 151b).

A afirmação acima de Hanina pode estar relacionada à crença de que as emissões noturnas engendraram o nascimento de demônios:

  • “R. Jeremiah b. Eleazar declarou ainda: Em todos aqueles anos [130 anos após sua expulsão do Jardim do Éden] durante os quais Adão estava sob a proscrição, ele gerou fantasmas e demônios masculinos e demônios femininos [ou demônios noturnos], pois isso é dito nas Escrituras: E Adão viveu cento e trinta anos e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem, do que se segue que até aquele momento ele não gerou conforme a sua própria imagem… sua morte foi ordenada como punição ele passou cento e trinta anos em jejum, desvinculou-se de sua esposa por cento e trinta anos, e vestiu roupas de figo em seu corpo por cento e trinta anos. – Essa declaração [de R. Jeremiah] foi feito em referência ao sêmen que ele emitiu acidentalmente.” (Talmude Babilônico no Tratado Eruvin 18b).

A coleção Midrash Rabbah contém duas referências a Lilith. A primeira está presente em Gênesis Rabá 22:7 e 18:4: de acordo com Rabi Hiyya Deus passou a criar uma segunda Eva para Adão, depois que Lilith teve que retornar ao pó. No entanto, para ser exato, as referidas passagens não empregam a palavra hebraica lilith em si e, em vez disso, falam da “primeira Eva” (Heb. Chavvah ha-Rishonah, analogamente à frase Adam ha-Rishon, ou seja, o primeiro Adão). Embora na literatura e no folclore hebraico medieval, especialmente aquele refletido sobre os amuletos protetores de vários tipos, Chavvah ha-Rishonah fosse identificada com Lilith, deve-se ter cuidado ao transpor essa equalização para a Antiguidade Tardia.

A segunda menção de Lilith, desta vez explícita, está presente em Números Rabá 16:25. O midrash desenvolve a história da súplica de Moisés depois que Deus expressa raiva pelo mau relato dos espiões. Moisés responde a uma ameaça de Deus de que Ele destruirá o povo israelita. Moisés implora diante de Deus, que Deus não deve ser como Lilith que mata seus próprios filhos. Moisés disse:

[Deus,] não faça isso [ou seja, destruir o povo israelita], para que as nações do mundo não o considerem um Ser cruel e digam: ‘A Geração do Dilúvio veio e Ele os destruiu, a Geração da Separação veio e Ele os destruiu, os sodomitas e os egípcios vieram e Ele os destruiu, e também estes, a quem chamou de Meu filho, Meu primogênito (Êxodo IV, 22), Ele agora está destruindo! Como aquela Lilith que, quando não encontra mais nada, se volta contra seus próprios filhos, porque o Senhor não foi capaz de trazer este povo para a terra… Ele os matou’ (Núm. XIV, 16)!

Lilith nas Tigelas de Encantamento:

Uma tigela de encantamento com uma inscrição aramaica ao redor de um demônio, de Nippur, Mesopotâmia, entre o sexto e o sétimo século.

Uma Lilith individual, junto com Bagdana “rei dos lilits”, é um dos demônios a aparecer com destaque em feitiços de proteção nas oitenta tigelas de encantamentos ocultos judaicos sobreviventes da Babilonia, sob o Império Sassânida (séculos 4 a 6 d.C.) com influência da cultura iraniana. Essas tigelas eram enterradas de cabeça para baixo abaixo da estrutura da casa ou no terreno da casa, a fim de prender o demônio ou demônio. Quase todas as casas tinham essas tigelas protetoras contra demônios e demônios femininos.

O centro do interior da tigela retrata Lilith, ou a forma masculina, Lilit. Ao redor da imagem está a escrita em forma de espiral; a escrita geralmente começa no centro e segue até a borda. A escrita é mais comumente uma escritura ou referências ao Talmude. As taças de encantamento que foram analisadas estão inscritas nas seguintes línguas: aramaico judaico babilônico, siríaco, mandaico, persa médio e árabe. Algumas taças são escritas em uma escrita falsa que não tem significado.

A tigela de encantamento corretamente redigida era capaz de afastar Lilith ou Lilit da casa. Lilith tinha o poder de se transformar nas características físicas de uma mulher, seduzir seu marido e conceber um filho. No entanto, Lilith (feminina) se tornaria odiosa em relação aos filhos nascidos do marido e da esposa e tentaria matá-los. Da mesma forma, Lilit (masculino) se transformaria nas características físicas do marido, seduziria a esposa, daria à luz um filho. Tornar-se-ia evidente que a criança não foi gerada pelo marido, e a criança seria desprezada. Lilit iria se vingar da família matando os filhos nascidos do marido e da esposa.

As principais características da representação de Lilith ou Lilit incluem o seguinte. A figura é frequentemente representada com braços e pernas acorrentados, indicando o controle da família sobre o(s) demônio(s). O(s) demônio(s) é(são) representado(s) em posição frontal com toda a face à mostra. Os olhos são muito grandes, assim como as mãos (se retratadas). O(s) demônio(s) é totalmente estático.

Uma tigela contém a seguinte inscrição encomendada a um ocultista judeu para proteger uma mulher chamada Rashnoi e seu marido de Lilith:

Vós liliths, lili masculino e lilith feminina, bruxa e ghool, eu vos conjuro pelo Forte de Abraão, pela Rocha de Isaque, pelo Shaddai de Jacó, por Yah Ha-Shem por Yah seu memorial, para se afastarem deste Rashnoi b. M. e de Geyonai b. M. seu marido. [Aqui está] seu divórcio e mandado e carta de separação, enviados por meio de santos anjos. Amém, Amém, Selá, Aleluia! (imagem)

— Trecho da tradução em Aramaic Incantation Texts from Nippur (Textos de Encantamentos Aramaicos de Nippur), por James Alan Montgomery 2011, p. 156.

Lilith no Alfabeto de Ben Sira:

 

 

Lilith, ilustração por Carl Poellath, de 1886 ou anterior.

O pseudepigráfico Alfabeto de Ben Sira dos séculos VIII a X é considerado a forma mais antiga da história de Lilith como a primeira esposa de Adão. Não se sabe se esta tradição em particular é mais antiga. Os estudiosos tendem a datar o alfabeto entre os séculos 8 e 10 d.C. O trabalho tem sido caracterizado por alguns estudiosos como satírico, mas Ginzberg concluiu que foi feito com seriedade.

No texto, um amuleto é inscrito com os nomes de três anjos (Senoy, Sansenoy e Semangelof) e colocado no pescoço dos meninos recém-nascidos para protegê-los dos lilin até a circuncisão. Os amuletos usados ​​contra Lilith que se pensava derivar desta tradição são, de fato, datados como sendo muito mais antigos. O conceito de Eva ter uma antecessora não é exclusivo do Alfabeto, e não é um conceito novo, como pode ser encontrado em Gênesis Rabbá. No entanto, a ideia de que Lilith foi a antecessora pode ser exclusiva do Alfabeto.

A ideia no texto de que Adão teve uma esposa antes de Eva pode ter se desenvolvido a partir de uma interpretação do Livro de Gênesis e seus relatos de criação dual; enquanto Gênesis 2:22 descreve a criação de Eva por Deus da costela de Adão, uma passagem anterior, Gênesis 1:27, já indica que uma mulher havia sido feita: “Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” O texto do alfabeto coloca a criação de Lilith após as palavras de Deus em Gênesis 2:18 que “não é bom que o homem esteja só”; neste texto, Deus forma Lilith do barro do qual ele fez Adão, mas ela e Adão brigam. Lilith afirma que, como ela e Adão foram criados da mesma forma, eles eram iguais e ela se recusa a se submeter a ele:

Depois que Deus criou Adão, que estava sozinho, Ele disse: “Não é bom que o homem esteja só”. Ele então criou uma mulher para Adão, da terra, como Ele mesmo havia criado Adão, e a chamou de Lilith. Adão e Lilith imediatamente começaram a brigar. Ela disse: “Eu não vou deitar embaixo”, e ele disse: “Eu não vou ficar embaixo de você, mas apenas em cima. Pois você só serve para estar na posição inferior, enquanto eu sou o superior”. Lilith respondeu: “Somos iguais um ao outro, pois ambos fomos criados da terra”. Mas eles não ouviriam um ao outro. Quando Lilith viu isso, ela pronunciou o Nome Inefável e fugiu voando para o ar.

Adão ficou em oração diante de seu Criador: “Soberano do universo!” ele disse, “a mulher que você me deu fugiu.” Imediatamente, o Santo, bendito seja Ele, enviou esses três anjos Senoy, Sansenoy e Semangelof, para trazê-la de volta.

Disse o Santo a Adão: “Se ela concordar em voltar, o que foi feito é bom. Se não, ela deve permitir que cem de seus filhos morram todos os dias.” Os anjos deixaram Deus e perseguiram Lilith, a quem alcançaram no meio do mar, nas águas impetuosas onde os egípcios estavam destinados a se afogar (ou seja, o Mar Vermelho). Disseram-lhe a palavra de Deus, mas ela não quis voltar. Os anjos disseram: “Nós a afogaremos no mar”.

“Deixem-me!’ ela disse. “Eu fui criada apenas para causar doenças às crianças. Se a criança for do sexo masculino, eu tenho domínio sobre ele por oito dias após seu nascimento, e se for do sexo feminino, por vinte dias.”

Quando os anjos ouviram as palavras de Lilith, eles insistiram que ela voltasse. Mas ela jurou a eles pelo nome do Deus vivo e eterno: “Sempre que eu vir você ou seus nomes ou suas formas em um amuleto, não terei poder sobre aquela criança”. Ela também concordou em que cem de seus filhos morressem todos os dias. Assim, todos os dias, cem demônios perecem e, pela mesma razão, escrevemos os nomes dos anjos nos amuletos das crianças. Quando Lilith vê seus nomes, ela se lembra de seu juramento e a criança se recupera.

O pano de fundo e o propósito do Alfabeto de Ben-Sira não são claros. É uma coleção de histórias sobre heróis da Bíblia e do Talmude, e pode ter sido uma coleção de contos folclóricos, uma refutação de movimentos cristãos, caraítas ou outros movimentos separatistas; seu conteúdo parece tão ofensivo aos judeus contemporâneos que chegou a ser sugerido que poderia ser uma sátira antijudaica, embora, em qualquer caso, o texto tenha sido aceito pelos místicos judeus da Alemanha medieval.

O Alfabeto de Ben-Sira é a fonte sobrevivente mais antiga da história, e a concepção de que Lilith foi a primeira esposa de Adão só se tornou amplamente conhecida com o Lexicon Talmudicum do século XVII do estudioso alemão Johannes Buxtorf.

Nesta tradição popular que surgiu no início da Idade Média, Lilith, um demônio feminino dominante, tornou-se identificada com Asmodeus, o Rei dos Demônios, como sua rainha. Asmodeus já era bem conhecido nessa época por causa das lendas sobre ele no Talmude. Assim, a fusão de Lilith e Asmodeus era inevitável. O segundo mito de Lilith cresceu para incluir lendas sobre outro mundo e, segundo alguns relatos, este outro mundo existia lado a lado com este, Yenne Velt é a palavra em iídiche para este descrito “Outro Mundo”. Neste caso, acreditava-se que Asmodeus e Lilith procriavam infinitamente descendentes demoníacos e espalhavam o caos a cada passo.

Duas características primárias são vistas nessas lendas sobre Lilith: Lilith como a encarnação da luxúria, fazendo com que os homens sejam desencaminhados, e Lilith como uma bruxa assassina de crianças, que estrangula neonatos indefesos. Esses dois aspectos da lenda de Lilith pareciam ter evoluído separadamente; dificilmente há um conto em que ela englobe os dois papéis. Mas o aspecto do papel de bruxa que Lilith desempenha amplia seu arquétipo do lado destrutivo da bruxaria. Tais histórias são comumente encontradas no folclore judaico.

Lilith e a Influência das Tradições Rabínicas:

 

 

Adão agarra uma criança na presença da sequestradora Lilith. Fresco por Filippino Lippi, Basílica de Santa Maria Novella, Florença.

Embora a imagem de Lilith do Alfabeto de Ben Sira não tenha precedentes, alguns elementos em seu retrato podem ser rastreados até as tradições talmúdicas e midráshicas que surgiram em torno de Eva.

Em primeiro lugar, a própria introdução de Lilith na história da criação repousa no mito rabínico, motivado pelos dois relatos separados da criação em Gênesis 1:1-2:25, de que havia duas mulheres originais. Uma maneira de resolver a aparente discrepância entre esses dois relatos era supor que deve ter havido alguma outra primeira mulher, além daquela posteriormente identificada com Eva. Os rabinos, notando a exclamação de Adão, “desta vez (zot hapa’am) [esta é] osso do meu osso e carne da minha carne” (Gênesis 2:23), tomaram como uma insinuação de que já deve ter havido um ” primeira vez”. De acordo com Gênesis Rabbá 18:4, Adão ficou enojado ao ver a primeira mulher cheia de “poeira e sangue”, e Deus teve que lhe fornecer outra. A criação subsequente é realizada com as devidas precauções: Adão é feito dormir, para não testemunhar o processo em si (Sinédrio 39a), e Eva é adornada com joias finas (Gênesis Rabbá 18:1) e trazida a Adão pelos anjos Gabriel e Miguel (ibid. 18:3). No entanto, em nenhum lugar os rabinos especificam o que aconteceu com a primeira mulher, deixando o assunto aberto para mais especulações. Esta é a lacuna na qual a tradição posterior de Lilith poderia se encaixar.

Em segundo lugar, esta nova mulher ainda é recebida com duras alegações rabínicas. Novamente jogando com a frase hebraica zot hapa’am, Adão, de acordo com o mesmo midrash, declara: “é ela [zot] que está destinada a tocar o sino [zog] e falar [em contenda] contra mim, como você lê: ‘um sino de ouro [pa’amon] e uma romã’ [Êxodo 28:34] … é ela quem me perturbará [mefa’amtani] a noite toda” (Gênesis Rabbá 18:4). A primeira mulher também se torna objeto de acusações atribuídas ao rabino Josué de Siknin, segundo o qual Eva, apesar dos esforços divinos, acabou sendo “egoísta, sedutora, bisbilhoteira, fofoqueira, propensa ao ciúme, desonesta e farrista” (Gênesis Rabá 18:2). Um conjunto semelhante de acusações aparece em Gênesis Rabbá 17:8, segundo o qual a criação de Eva da costela de Adão e não da terra a torna inferior a Adão e nunca satisfeita com nada.

Terceiro, e apesar da concisão do texto bíblico a esse respeito, as iniquidades eróticas atribuídas à Eva constituem uma categoria separada de suas deficiências. Diz-se em Gênesis 3:16 que “seu desejo será para o seu marido”, ela é acusada pelos rabinos de ter um desejo sexual superdesenvolvido (Gênesis Rabbá 20:7) e constantemente seduzir Adão (Gênesis Rabbá 23:5). No entanto, em termos de popularidade e disseminação textual, o motivo de Eva copulando com a serpente primitiva tem prioridade sobre suas outras transgressões sexuais. Apesar do caráter pitoresco bastante inquietante desse relato, ele é transmitido em vários lugares: Gênesis Rabá 18:6 e BT Sotah 9b, Shabat 145b–146a e 156a, Yevamot 103b e Avodah Zarah 22b.

Lilith na Cabala:

 

 

A Queda do Homem, por Cornelis van Haarlem (1592), mostrando a serpente no Jardim do Éden como uma mulher.

O misticismo cabalístico tentou estabelecer uma relação mais exata entre Lilith e Deus. Com suas características principais bem desenvolvidas no final do período talmúdico, após seis séculos decorridos entre os textos de encantamento aramaico que mencionam Lilith e os primeiros escritos cabalísticos espanhóis no século XIII, ela reaparece, e sua história de vida torna-se conhecida em maiores detalhes mitológicos. Sua criação é descrita em muitas versões alternativas.

Uma versão menciona sua criação como anterior à de Adão, no quinto dia, porque as “criaturas viventes” com cujos enxames Deus encheu as águas incluíam Lilith. Uma versão semelhante, relacionada às primeiras passagens talmúdicas, relata como Lilith foi moldada com a mesma substância que Adão, pouco antes. Uma terceira versão alternativa afirma que Deus originalmente criou Adão e Lilith de uma maneira que a criatura feminina estava contida no homem. A alma de Lilith estava alojada nas profundezas do Grande Abismo. Quando Deus a chamou, ela se juntou a Adão. Depois que o corpo de Adão foi criado, mil almas do lado esquerdo (mal) tentaram se unir a ele. No entanto, Deus as expulsou. Adão foi deixado deitado como um corpo sem alma. Então uma nuvem desceu e Deus ordenou que a terra produzisse uma alma vivente. Este Deus soprou em Adão, que começou a ganhar vida e sua mulher foi anexada ao seu lado. Deus separou a mulher do lado de Adão. O lado feminino era Lilith, então ela voou para as Cidades do Mar e atacou a humanidade.

Ainda outra versão afirma que Lilith emergiu como uma entidade divina que nasceu espontaneamente, seja do Grande Abismo Superno ou do poder de um aspecto de Deus (o Gevurah de Din). Esse aspecto de Deus era negativo e punitivo, assim como um de seus dez atributos (Sefirot), em sua manifestação mais baixa tem afinidade com o reino do mal e é a partir disso que Lilith se fundiu com Samael.

Uma história alternativa liga Lilith com a criação de luminares. A “primeira luz”, que é a luz da Misericórdia (uma das Sefirot), apareceu no primeiro dia da criação quando Deus disse: “Haja luz”. Esta luz ficou escondida e a Santidade ficou cercada por uma casca do mal. “Uma casca (klippa) foi criada ao redor do cérebro” e essa casca se espalhou e trouxe outra casca, que era Lilith.

Lilith na Cabala Luriânica:

Nos ensinamentos do rabino Isaac Luria, diz-se que existem muitas Liliths. Manasseh Matlub Sithon disse que “muitos Liliths e demônios estão no exterior, e sobem e descem”.

A maior delas é a esposa de Adam Qadmon, um ser que Deus usou como avatar para criar o Universo em todas as suas dez ou mais dimensões, daí um multiverso.

Outra Lilith, mais demoníaca, conhecida como a mulher da prostituição, é encontrada no livro do Zohar 1:5a. Ela é a contraparte feminina de Samael (Satanás).

A Lilith com a qual a maioria está familiarizada é a esposa de Adão no alfabeto de Ben Sira (8 a 10 séculos EC), conhecido como Adam haRishon, “o primeiro homem”, entre os cabalistas.

Existem visões mistas de Lilith no Zohar. Em um relato ela é a contraparte de Samael e uma mãe de demônios. Em outro ela é vista seduzindo os anjos caídos como Naamah; os anjos Azza e Azazael depois de desafiarem a Shekhinah (a presença feminina de Deus) sobre a criação do homem. Isto é mencionado no livro do Zohar 1:19a-b, 23a-b, 27a-b respectivamente. Quando Lilith e Naamah (outro aspecto de Lilith) estavam com Adão em sua separação de 130 anos de Eva após a queda, elas tiveram filhas nascidas de sua união. Estas foram as nashiym, as liliyot(F), os espíritos liloth que foram os que seduziram os Vigilantes. Essas filhas, juntamente com Lilith e Naamah, são restauradas a Adão através da Sabedoria de Salomão, o aspecto da Shekhinah (referida como as duas prostitutas e as Nashiym nos capítulos 4 e 5 do Zohar, o Livro da Ocultação, o Sifri D Tsri-nita).

De acordo com a tradução do rabino Isaac Luria, Isaías 34:14-15 significa “O gato selvagem se encontrará com os chacais, E o sátiro clamará ao seu companheiro, Sim, Lilith descansará lá E encontrará para ela um lugar de descanso”. A partir dessas passagens, o rabino Isaac Luria acreditava que Lilith seria restaurada a Adão através do casamento de Lia com Jacó – Jacó era Adão, Lia era Lilith e Raquel era Eva. Esta deve ser entendida como uma das muitas interpretações sobre o Zohar e de Lilith.

Lilith no Midrash Abkir:

A primeira fonte medieval a retratar Adão e Lilith na íntegra foi o Midrash A.B.K.I.R. (c. século 10), que foi seguido pelo Zohar e outros escritos cabalísticos. Diz-se que Adão é perfeito até que reconheça ou seu pecado ou o fratricídio de Caim, que é a causa de trazer a morte ao mundo. Ele então se separa da santa Eva, dorme sozinho e jejua por 130 anos. Durante este tempo “Pizna”, um nome alternativo para Lilith ou uma filha dela, deseja sua beleza e o seduz contra sua vontade. Ela dá à luz multidões de djinns e demônios, o primeiro deles sendo chamado de Agrimas. No entanto, eles são derrotados por Matusalém, que mata milhares deles com uma espada sagrada e força Agrimas a dar-lhe os nomes dos restantes, após o que os lança longe para o mar e as montanhas.

Lilith no Tratado sobre a Emanação Esquerda:

A escrita mística de dois irmãos Jacob e Isaac Hacohen, o Tratado sobre a Emanação Esquerda, que antecede o Zohar em algumas décadas, afirma que Samael e Lilith têm a forma de um ser andrógino, de dupla face, nascido da emanação do Trono da Glória e correspondendo no reino espiritual a Adão e Eva, que também nasceram como hermafroditas. Os dois casais andróginos gêmeos se pareciam e ambos “eram como a imagem do Acima”; isto é, que eles são reproduzidos em uma forma visível de uma divindade andrógina.

  1. Em resposta à sua pergunta sobre Lilith, explicarei a você a essência do assunto. Sobre este ponto há uma tradição recebida dos antigos Sábios que fizeram uso do Conhecimento Secreto dos Palácios Menores, que é a manipulação de demônios e uma escada pela qual se ascende aos níveis proféticos. Nesta tradição fica claro que Samael e Lilith nasceram como um só, semelhante à forma de Adão e Eva que também nasceram como um só, refletindo o que está acima. Este é o relato de Lilith que foi recebido pelos Sábios no Conhecimento Secreto dos Palácios.

Outra versão que também era corrente entre os círculos cabalísticos na Idade Média estabelece Lilith como a primeira das quatro esposas de Samael: Lilith, Naamah, Eisheth e Agrat bat Mahlat. Cada uma delas é mãe de demônios e tem suas próprias hostes e espíritos imundos em grande número, para não dizer inumeráveis. O casamento do arcanjo Samael e Lilith foi arranjado pelo “Dragão Cego”, que é a contrapartida do “dragão que está no mar”. O Dragão Cego atua como intermediário entre Lilith e Samael:

O Dragão Cego monta (isto é, tem relações sexuais com) Lilith, a Pecadora – que ela seja extirpada rapidamente em nossos dias, Amém! – E este Dragão Cego traz a união entre Samael e Lilith. E assim como o Dragão que está no mar (Isaías 27:1) não tem olhos, assim também o Dragão Cego que está em cima, em aparência de forma espiritual, não tem olhos, ou seja, não tem cores… (Patai 81:458) Samael é chamado de Serpente Inclinada, e Lilith é chamada de Serpente Tortuosa.

O casamento de Samael e Lilith é conhecido como o “Anjo Satanás” ou o “Outro Deus”, mas não foi permitido que durasse. Para evitar que os filhos demoníacos de Lilith e Samael, os Lilin, enchessem o mundo, Deus castrou Samael. Em muitos livros cabalísticos do século XVII, isso parece ser uma reinterpretação de um antigo mito talmúdico onde Deus castrou o Leviatã masculino e matou o Leviatã feminino para impedí-los de acasalar e, assim, destruir a Terra com seus descendentes. Com Lilith sendo incapaz de fornicar com Samael, ela procurou acasalar com homens que experimentam emissões noturnas de sêmen. Um texto da Cabala do século 15 ou 16 afirma que Deus “esfriou” a Leviatã feminina, o que significa que ele tornou Lilith infértil e que ela é uma mera fornicação.

O Tratado da Emanação Esquerda também diz que existem duas Liliths, sendo a menor casada com o grande demônio Asmodeus.

A Lilith Matrona é a companheira de Samael. Ambos nasceram na mesma hora à imagem de Adão e Eva, entrelaçados um no outro. Asmodeus o grande rei dos demônios tem como companheira a Lilith Menor (mais jovem), filha do rei cujo nome é Qafsefoni. O nome de sua companheira (de Qafsefoni) é Mehetabel filha de Matred, e sua filha é Lilith (Menor).

Outra passagem acusa Lilith de ser uma serpente tentadora de Eva.

E a Serpente, a Mulher da Prostituição, incitou e seduziu Eva através das cascas de Luz que em si é santidade. E a Serpente seduziu a Santa Eva, e o suficiente é dito para quem entende. E toda essa ruína aconteceu porque Adão, o primeiro homem, se juntou a Eva enquanto ela estava em sua impureza menstrual – esta é a sujeira e a semente impura da Serpente que montou Eva (isto é, teve relações sexuais com ela) antes que Adão a montasse (isto é, tivesse relações sexuais com ela). Eis que aqui está diante de você: por causa dos pecados de Adão, o primeiro homem, todas as coisas mencionadas vieram a existir. Pois a Lilith Maligna, quando ela viu a grandeza de sua corrupção, tornou-se forte em suas cascas, e veio a Adão (isto é, teve relações sexuais com ele) contra sua vontade, e ficou quente com ele (ou seja, ficou grávida dele) e deu-lhe muitos demônios e espíritos e Lilin. (Patai 81:455f).

Lilith no Zohar:

As referências à Lilith no Zohar incluem o seguinte:

Ela vagueia à noite, e vai por todo o mundo e faz esporte com os homens e faz com que eles emitam sementes. Em todo lugar onde um homem dorme sozinho em uma casa, ela o visita e o agarra e se apega a ele e tem seu desejo dele, e carrega dele. E ela também o aflige com doença, e ele não sabe disso, e tudo isso acontece quando a lua está minguante.

Esta passagem pode estar relacionada à menção de Lilith no Talmude, Shabbath 151b (veja acima), e também ao Talmude, Eruvin 18b onde as emissões noturnas estão conectadas com a geração de demônios.

De acordo com Rapahel Patai, fontes mais antigas afirmam claramente que após a estada de Lilith no Mar Vermelho, mencionada também em Legends of the Jews (As Lendas dos Judeus, de Louis Ginzberg), ela retornou a Adão e gerou filhos dele, forçando-se sobre ele (ou seja, tendo relações sexuais com ele). Antes de fazer isso, ela se apega a Caim e lhe dá numerosos espíritos e demônios. No Zohar, no entanto, diz-se que Lilith conseguiu gerar descendentes de Adão mesmo durante sua curta experiência sexual. Lilith deixa Adão no Éden, pois ela não é uma companheira adequada para ele. Gershom Scholem propõe que o autor do Zohar, o Rabi Moisés de Leon, estava ciente tanto da tradição folclórica de Lilith quanto de outra versão conflitante, possivelmente mais antiga.

O Zohar acrescenta ainda que dois espíritos femininos em vez de um, Lilith e Naamah, desejaram Adão e o seduziram. O objetivo dessas uniões eram (a geração de) demônios e espíritos chamados de “as pragas da humanidade”, e a explicação usual adicionada era que foi através do próprio pecado de Adão que Lilith o subjugou a ter relações sexuais com ela contra sua vontade.

Lilith nos Amuletos Mágicos Hebraicos do Século XVII:

 

 

Amuleto hebraico medieval destinado a proteger uma mãe e seu filho de Lilith,

Uma cópia da tradução de Jean de Pauly do Zohar na Biblioteca Ritman contém uma folha hebraica impressa do final do século XVII inserida para uso em amuletos mágicos onde o profeta Elias confronta Lilith.

A folha contém dois textos dentro das bordas, que são amuletos, um para um homem (‘lazakhar’), o outro para uma mulher (‘lanekevah’). As invocações mencionam Adão, Eva e Lilith, ‘Chavah Rishonah’ (a primeira Eva, que é idêntica a Lilith), também demônios ou anjos: Sanoy, Sansinoy, Smangeluf, Shmari’el (o guardião) e Hasdi’el (o misericordioso). Algumas linhas no idioma iídiche são seguidas pelo diálogo entre o profeta Elias e Lilith quando ele a encontrou com seu exército de demônios para matar a mãe e levar seu filho recém-nascido que desejavam (‘beber seu sangue, chupar seus ossos e comer sua carne’), provavelmente no episódio da Viúva de Sarepta (1 Reis 17:8-24). Lilith diz a Elias que perderá seu poder se alguém usar seus nomes secretos, que ela revela no final: lilith, abitu, abizu, hakash, avers hikpodu, ayalu, matrota

Em outros amuletos, provavelmente informados pelo Alfabeto de Ben-Sira, ela é a primeira esposa de Adão. (Yalqut Reubeni, Zohar 1:34b, 3:19)

A porção do dicionário de Charles Richardson da Encyclopædia Metropolitana acrescenta à sua discussão etimológica da palavra lullaby (canção de ninar) “uma nota manuscrita escrita em uma cópia da Etymologicon Linguæ Anglicanæ de 1671, de Stephen Skinner, que afirma que a palavra lullaby (canção de ninar) se origina de Lillu abi abi, um encantamento hebraico que significa “Vá embora, Lilith!” recitado por mães judias no berço de uma criança. Richardson não endossou a teoria e os lexicógrafos modernos a consideram como uma etimologia falsa.

LILITH NA MITOLOGIA GRECO-ROMANA:

 

 

Lâmia (primeira versão), por John William Waterhouse, 1905.

No livro da Vulgata Latina de Isaías 34:14, Lilith é traduzida como lâmia.

De acordo com Augustine Calmet, Lilith tem conexões com visões iniciais sobre vampiros e feitiçaria:

Alguns eruditos pensaram ter descoberto alguns vestígios de vampirismo na mais remota antiguidade; mas tudo o que dizem sobre isso não chega nem perto do que está relacionado aos vampiros. As lâmias, as strigas, os feiticeiros que eles acusavam de sugar o sangue de pessoas vivas e assim causar sua morte, os magos que diziam causar a morte de crianças recém-nascidas por encantos e feitiços malignos, nada mais são do que o que entendemos pelo nome de vampiros; mesmo que se admita que essas lâmias e strigas realmente existiram, o que não acreditamos que possa ser bem provado. Admito que esses termos [lâmia e striga] são encontrados nas versões da Sagrada Escritura. Por exemplo, Isaías, descrevendo a condição à qual Babilônia deveria ser reduzida após sua ruína, diz que ela se tornará a morada de sátiros, lâmias e strigas (em hebraico, lilith). Este último termo, segundo os hebreus, significa a mesma coisa, como os gregos expressam por strix e lâmias, que são feiticeiras ou magos, que procuram matar os recém-nascidos. De onde vem que os judeus estão acostumados a escrever nos quatro cantos da câmara de uma mulher que acabou de dar à luz: “Adão, Eva, saia daqui, lilith”. … Os antigos gregos conheciam essas feiticeiras perigosas pelo nome de lâmias, e acreditavam que devoravam crianças ou sugavam todo o seu sangue até morrerem.

De acordo com Siegmund Hurwitz, a Lilith talmúdica está ligada à Lâmia grega, que, de acordo com Hurwitz, também governava uma classe de demônios-lâmias que roubavam crianças. Lâmia tinha o título de “assassina de crianças” e era temida por sua malevolência, como Lilith. Ela tem diferentes origens conflitantes e é descrita como tendo um corpo humano da cintura para cima e um corpo serpentino da cintura para baixo. Uma fonte afirma simplesmente que ela é filha da deusa Hécate, outra, que Lâmia foi posteriormente amaldiçoada pela deusa Hera para ter filhos natimortos por causa de sua associação sexual com Zeus; alternativamente, Hera matou todos os filhos de Lâmia (exceto Cila) com raiva por Lâmia ter dormido com seu marido, Zeus. A dor fez com que Lâmia se transformasse em um monstro que se vingava das mães roubando seus filhos e os devorando. Lâmia tinha um apetite sexual vicioso que combinava com seu apetite canibal por crianças. Ela era notória por ser um espírito vampírico e adorava sugar o sangue dos homens. Seu dom era a “marca de uma Sibila”, um dom da segunda visão. Zeus disse ter lhe dado o dom da visão. No entanto, ela foi “amaldiçoada” para nunca ser capaz de fechar os olhos para que ela ficasse para sempre obcecada por seus filhos mortos. Com pena de Lâmia, Zeus deu a ela a capacidade de remover e recolocar os olhos das órbitas.

LILITH NO MANDEÍSMO:

Nas escrituras mandeanas, como Ginza Rabba e Qolasta, as liliths são mencionadas como habitantes do Mundo das Trevas.

LILITH NA CULTURA ÁRABE:

O escritor ocultista Ahmad al-Buni (d. 1225), em seu Sol do Grande Conhecimento (árabe: الكبرى المعارف شمس), menciona um demônio chamado “a mãe dos filhos” (الصبيان  ام), um termo também usado para “colocar em um lugar”. Tradições folclóricas registradas por volta de 1953 falam sobre um gênio chamado Qarinah, que foi rejeitada por Adão e acasalou com Iblis (O “Satã” do Islã). Ela deu à luz uma série de demônios e ficou conhecida como a mãe deles. Para se vingar de Adão, ela persegue crianças humanas. Como tal, ela mataria o bebê de uma mãe grávida no útero, causaria impotência aos homens ou atacava crianças pequenas com doenças. De acordo com as práticas ocultas da feitiçaria árabe, ela estaria sujeita ao rei demônio Murrah al-Abyad, que parece ser outro nome para Iblis usado em escritos mágicos. Histórias sobre Qarinah e Lilith se fundiram no início do Islã.

LILITH NA LITERATURA OCIDENTAL:

Lilith na Literatura Alemã:

 

 

Fausto e Lilith, por Richard Westall (1831).

A primeira aparição de Lilith na literatura do período romântico (1789-1832) foi na obra de Goethe de 1808, Fausto: A Primeira Parte de uma Tragédia.

Fausto:

Quem é aquela ali?

Mefistófeles:

Dê uma boa olhada.

Lilith.

Fausto:

Lilith? Quem é aquela?

Mefistófeles:

A esposa de Adão, sua primeira. Cuidado com ela.

O único orgulho de sua beleza é seu cabelo perigoso.

Quando Lilith enrola em torno de jovens

Ela não os solta tão cedo.

—  Tradução de Greenberg de 1992, linhas 4206–4211.

Depois que Mefistófeles oferece esse aviso a Fausto, ele, ironicamente, encoraja Fausto a dançar com Lilith, “a Bruxa Bonita”. Lilith e Fausto travam um breve diálogo, onde Lilith conta os dias passados ​​no Éden.

Fausto: [dançando com a jovem bruxa]

Um lindo sonho que sonhei um dia

Eu vi uma macieira de folhas verdes,

Duas maçãs balançavam em um caule,

Tão tentadoras! Subi para elas.

A Bruxa Bonita (Lilith):

Desde os dias do Éden

Maçãs têm sido o desejo do homem.

Como estou feliz em pensar, senhor,

Maçãs também crescem no meu jardim.

—  Tradução de Greenberg de 1992, linhas 4216 – 4223.

Lilith na Literatura Inglesa:

 

 

Lady Lilith por Dante Gabriel Rossetti (1866-1868, 1872-1873).

A Irmandade Pré-Rafaelita, que se desenvolveu por volta de 1848, foi muito influenciada pelo trabalho de Goethe sobre o tema de Lilith. Em 1863, Dante Gabriel Rossetti, da Irmandade, começou a pintar o que mais tarde seria sua primeira versão de Lady Lilith, uma pintura que ele esperava ser sua “melhor imagem até agora”. Os símbolos que aparecem na pintura aludem à fama de “femme fatale” da Lilith romântica: papoulas (morte e frio) e rosas brancas (paixão estéril). Acompanhando sua pintura Lady Lilith de 1866, Rossetti escreveu um soneto intitulado Lilith, que foi publicado pela primeira vez no panfleto-revisão de Swinburne (1868), Notes on the Royal Academy Exhibition.

Da primeira esposa de Adão, Lilith, conta-se

(A bruxa que ele amava antes da dádiva de Eva,)

Que, antes da serpente, sua doce língua pudesse enganar,

E seu cabelo encantado foi o primeiro ouro.

E ela ainda está sentada, jovem enquanto a terra é velha,

E, sutilmente contemplativa de si mesma,

Atrai homens para observar a teia brilhante que ela pode tecer,

Até que o coração, o corpo e a vida estejam em seu poder.

A rosa e a papoula são sua flor; Para onde

Ele não é encontrado, ó Lilith, a quem derramou perfume

E os beijos suaves e o sono suave aprisionarão?

Eis! Como os olhos daquele jovem queimaram nos seus, assim foi

Teu feitiço através dele, e deixou seu pescoço reto dobrado

E em volta de seu coração um cabelo dourado estrangulado.

— Collected Works, 216.

O poema e a imagem apareceram juntos ao lado da pintura de Rossetti, Sibylla Palmifera e do soneto Soul’s Beauty (A Beleza da Alma). Em 1881, o soneto de Lilith foi renomeado “Body’s Beauty (A Beleza do Corpo)” para contrastá-lo com a Soul’s Beauty (A Beleza da Alma). Os dois foram colocados sequencialmente na coleção The House of Life (A Casa da Vida, sonetos número 77 e 78).

Rossetti escreveu em 1870:

Lady [Lilith] … representa uma Lilith Moderna penteando seus abundantes cabelos dourados e olhando para si mesma no espelho com aquela auto-absorção por cujo estranho fascínio tais naturezas atraem outros para dentro de seu próprio círculo.

— Rossetti, W. M. ii.850, ênfase de D. G. Rossetti.

Isso está de acordo com a tradição folclórica judaica, que associa Lilith tanto com cabelos longos (um símbolo do perigoso poder sedutor feminino na cultura judaica), quanto com o poder de possuir mulheres entrando nelas através de espelhos.

O poeta vitoriano Robert Browning reimaginou Lilith em seu poema “Adão, Lilith e Eva”. Publicado pela primeira vez em 1883, o poema usa os mitos tradicionais em torno da tríade de Adão, Eva e Lilith. Browning retrata Lilith e Eva como sendo amigáveis ​​e cúmplices uma com a outra, enquanto se sentam juntas em ambos os lados de Adão. Sob a ameaça de morte, Eva admite que nunca amou Adão, enquanto Lilith confessa que sempre o amou:

Como o pior dos venenos deixou meus lábios,

Eu pensei: ‘Se, apesar dessa mentira, ele se despir

A máscara da minha alma com um beijo – eu rastejo

Sua escrava — alma, corpo e tudo!

— Browning 1098.

Browning concentrou-se nos atributos emocionais de Lilith, em vez das de suas antigas predecessores demoníacas.

O autor escocês George MacDonald também escreveu um romance de fantasia intitulado Lilith, publicado pela primeira vez em 1895. MacDonald empregou o personagem de Lilith a serviço de um drama espiritual sobre pecado e redenção, no qual Lilith encontra uma salvação duramente conquistada. Muitas das características tradicionais da mitologia de Lilith estão presentes na descrição do autor: longos cabelos escuros, pele pálida, ódio e medo de crianças e bebês e uma obsessão por se olhar no espelho. A Lilith de MacDonald também tem qualidades vampíricas: ela morde as pessoas e suga seu sangue para se sustentar.

O poeta e estudioso australiano Christopher John Brennan (1870–1932), incluiu uma seção intitulada “Lilith” em sua obra principal “Poems: 1913” (Sydney: G. B. Philip and Son, 1914). A seção “Lilith” contém treze poemas explorando o mito de Lilith e é central para o significado da coleção como um todo.

A história de 1940 de C. L. Moore, Fruit of Knowledge (O Fruto do Conhecimento), é escrita do ponto de vista de Lilith. É uma releitura da Queda do Homem como um triângulo amoroso entre Lilith, Adão e Eva – com Eva comendo o fruto proibido sendo nesta versão o resultado de manipulações equivocadas da ciumenta Lilith, que esperava que sua rival fosse desacreditada e destruída por Deus e assim recuperar o amor de Adão.

A coleção Full Blood (Plena de Sangue) de 2011 do poeta britânico John Siddique tem um conjunto de 11 poemas chamado The Tree of Life (A Árvore da Vida), que apresenta Lilith como o aspecto feminino divino de Deus. Vários dos poemas apresentam Lilith diretamente, incluindo a peça Unwritten (Não-Escrita), que lida com o problema espiritual do feminino sendo removido pelos escribas da Bíblia.

Lilith também é mencionada no livro As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, de C.S.Lewis. O personagem Sr. Castor atribui a ascendência do principal antagonista, Jadis, a Feiticeira Branca, à Lilith.

Lilith é um poema de Vladimir Nabokov, escrito em 1928. Muitos o conectaram à Lolita, mas Nabokov nega veementemente: “Leitores inteligentes se absterão de examinar essa fantasia impessoal em busca de qualquer ligação com minha ficção posterior”.

LILITH NO ESOTERISMO OCIDENTAL E NO OCULTISMO MODERNO:

A representação de Lilith no Romantismo continua a ser popular entre os Wiccanos e em outros Ocultismos modernos. Existem algumas ordens mágicas dedicadas à subcorrente de Lilith, apresentando iniciações especificamente relacionadas aos arcanos da “primeira mãe”. Duas organizações que usam iniciações e magias associadas à Lilith são a Ordo Antichristianus Illuminati e a Order of Phosphorus. Lilith aparece como uma súcubo em De Arte Magica de Aleister Crowley. Lilith também foi um dos nomes do meio da primeira filha de Crowley, Nuit Ma Ahathoor Hecate Sappho Jezebel Lilith Crowley (1904–1906), e Lilith às vezes é identificada com Babalon nos escritos thelêmicos. Muitos dos primeiros escritores ocultistas que contribuíram para a Wicca moderna expressaram uma reverência especial por Lilith. Charles Leland, no apêndice do livro Aradia, ou o Evangelho das Bruxas, associou Aradia à Lilith: Aradia, diz Leland, é Herodias, que era considerada no folclore da stregheria como associada à Diana como a líder das bruxas. Leland observa ainda que Herodias é um nome que vem do oeste da Ásia, onde denotava uma forma primitiva de Lilith.

Gerald Gardner afirmou que havia adoração histórica contínua de Lilith até os dias atuais, e que seu nome às vezes é dado à deusa sendo personificada no coven pela sacerdotisa. Esta ideia foi ainda atestada por Doreen Valiente, que a citou como uma deusa que preside a Bruxaria: “a personificação dos sonhos eróticos, o desejo reprimido por prazeres”.

Em alguns conceitos contemporâneos, Lilith é vista como a personificação da Deusa, uma designação que se acredita ser compartilhada com o que essas religiões acreditam serem suas contrapartes: Inanna, Ishtar, Asherah (Aserá), Anath, Anahita e Ísis. De acordo com uma visão, Lilith era originalmente uma deusa mãe suméria, babilônica ou hebraica do parto, das crianças, das mulheres e da sexualidade.

Raymond Buckland afirma que Lilith é uma deusa da lua escura a par com a deusa hindu Kali.

Muitos satanistas teístas modernos consideram Lilith como uma deusa. Ela é considerada uma deusa da independência por aqueles satanistas e muitas vezes é adorada por mulheres, mas as mulheres não são as únicas pessoas que a adoram. Lilith é popular entre os satanistas teístas por causa de sua associação com Satanás ou Satã. Alguns satanistas acreditam que ela é a esposa de Satanás e, portanto, pensam nela como uma figura materna. Outros baseiam sua reverência por ela em sua história como súcubo e a elogiam como uma deusa do sexo. Uma abordagem diferente para uma Lilith satânica afirma que ela já foi uma deusa da fertilidade e da agricultura.

A tradição de mistério ocidental associa Lilith com as Qliphoth da Cabala. Samael Aun Weor em seu livro, A Pistis Sophia Desvelada escreve que os homossexuais são os “sequazes de Lilith”. Da mesma forma, as mulheres que se submetem ao aborto voluntário e as que apoiam essa prática são “vistas na esfera de Lilith”. Dion Fortune escreve em sua Autodefesa Psíquica que: “A Virgem Maria é refletida em Lilith”, e que Lilith é a fonte de “sonhos luxuriosos”.

Devido ao fato do tema de Lilith no Esoterismo Ocidental e no Ocultismo Moderno ser bastante amplo e diverso, o mesmo será abordado em outros artigos.

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Fontes:

  • Charles Fossey, La Magie Assyrienne, Paris: 1902.
  • Siegmund Hurwitz, LilithSwitzerland: Daminon Press, 1992. Jerusalem Bible. New York: Doubleday, 1966.
  • Samuel Noah Kramer, Gilgamesh and the Huluppu-Tree: A reconstructed Sumerian Text.(Kramer’s Translation of the Gilgamesh Prologue), Assyriological Studies of the Oriental Institute of the University of Chicago 10, Chicago: 1938.
  • Raphael Patai, Adam ve-Adama, tr. as Man and Earth; Jerusalem: The Hebrew Press Association, 1941–1942.
  • Patai, Raphael(1990) [1967]. “Lilith”. The Hebrew Goddess. Raphael Patai Series in Jewish Folklore and Anthropology (3rd Enlarged ed.). Detroit: Wayne State University Press. pp. 221–251. ISBN 9780814322710OCLC 20692501.
  • Archibald Sayce, Hibbert Lectures on Babylonian Religion
  • Schwartz, Howard, Lilith’s Cave: Jewish tales of the supernatural, San Francisco: Harper & Row, 1988.
  • Campbell Thompson, Semitic Magic, its Origin and Development, London: 1908.
  • Augustin Calmet, (1751) Treatise on the Apparitions of Spirits and on Vampires or Revenantsof Hungary, Moravia, et al. The Complete Volumes I & II. 2016. ISBN 978-1-5331-4568-0.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cabala/as-origens-de-lilith/