Full Metal Alchemist e a Kabbalah

FMA é um anime baseado em magia e alquimia. Como tal, a autora coloca em seus personagens principais as características de cada parte da Árvore da Vida. Veja a explicação de cada esfera abaixo (AVISO: contém pequenos spoilers):

– Malkuth – Amestris = O desenho do mapa de Amestris representa Malkuth, com as quatro divisões representando os quatro elementos. O nome do país remete a Hermes Trismesgistos.

– Yesod – Izumi Curtis = A mestra dos irmãos Elric, representando a sacerdotisa, o inicio da caminhada espiritual, a iniciação. Depois de muita insistência por parte dos irmãos Elric, Izumii decide treiná-los e lhes ensinar alquimia, mas primeiro os deixa sozinhos em uma ilha. (Os testes dos iniciados.)

– Hod – Winry Rockbell = A esfera de Hod por representar o intelecto e estar ligado à tecnologia, Winry expressa essa esfera, pela sua capacidade de aprender com facilidade e colocar em prática (esplendor) a tecnologia dos automails, que são a sua vida, tanto que quando ela chega em Rush Valley, fica encantada com a tecnologia dos automails e fica por um tempo ali para aprender mais.

– Netzach – Alphonse Elric = Calmo, bondoso e paciente, ele representa muito bem Netzach (um dos aspectos da esfera é a tolerância). Com seu comportamento amoroso e carinhoso, ele acaba se deixando levar emocionalmente durante o anime. Todos acham que ele é o Alquimista de Aço por causa da armadura, mas esse título pertence ao irmão dele, Edward, que conseguiu esse título após entrar para o exército.

– Tiphereth – Edward Elric = Mesmo sendo a história dos irmãos Elric, Edward se encaixa em Tiferet, por sempre assumir a responsabilidade de toda a situação que ele encontra (compaixão). Um exemplo disso é depois que eles fazem a transmutação humana, ele se sente responsável pela situação do Alphonse. No final do anime ele se sacrifica mais uma vez, ou seja, sacrifica seu conhecimento sobre alquimia para poder vencer o Homunculo do frasco. Outra parte interessante que pela minha visão se encaixa como “A Noite Negra da Alma”, é quando Edward vai desenterrar os ossos da transmutação humana que ele fez, pensando ser os ossos transmutados de sua mãe.

– Geburah – Roy Mustang = Ele é o estereótipo de Geburah, trabalha tanto com seus defeitos (pavio curto, impaciente) e com sua qualidade (sua ambição é chegar ao posto de Fuhrer – diligência), usa o elemento fogo.

– Chesed – Maes Huge = É o melhor amigo de Roy Mustang, e um pai exemplar. Ele se comprometeu em ajudar Roy a atingir o posto de Fuhrer, ficando logo atrás dele. Sempre trabalharam juntos, porém em postos distintos. Aqui podemos ver o trabalho das duas esferas entre si, a diligência de Geburah – Roy – Posto Fuhrer e Chesed – Maes – Pai Atencioso.

– Daath – Pequenino do Frasco = Tudo aquilo que temos que encarar e trabalhar em nós mesmos, nossos defeitos, representados pelos homunculos criados por ele, os tuneis e os imensos encanamentos que levam ao subterrâneo, ao interior da cidade. As nossas Oitavas Baixas estão representadas pelo Pequenino do Frasco.

– Binah – Scar = Revoltado pela dizimação de seu povo, começa a buscar vingança, e quer destruir a todos os envolvidos no massacre de Ishval, usando sua vingança como uma forma de justiça (pilar da severidade). Após se envolver mais com os outros personagens do anime, passa a usar a alquimia que aprendeu para a construção, para a vida. Aqui vemos o que o anime passa: “A alquimia consiste em três passos: compreensão, destruição e reestruturação”. Depois que Scar “compreende” o que a alquimia significa, ele deixa de “destruir” (o braço de seu irmão transplantado nele) e passa a “construir, reestruturar” (o outro braço coberto de tatuagens).

– Chokmah – Van Hohenheim = Uma figura masculina, barbada (Cabala Mística – Dion Fortune). Representa a Sabedoria, a força bruta que gera vida (no corpo dele contem metade das almas da população de Xerxes). Sábio e muito velho, teve tempo de conversar com todas as almas dentro de si, mais de 3000 almas.

– Kether – A Verdade = Um local branco, sem noção de espaço, tempo, apenas uma figura representa quem acessa essa esfera, com se fosse um negativo da pessoa/ser que a acessa. “Eu sou a existência que vocês chamam de ‘Mundo’. Sou o ‘Universo’. Sou ‘Deus’.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/full-metal-alchemist-e-a-kabbalah

Bruce Dickinson e Aleister Crowley

Por Adriano Camargo.

Todos sabem que o mago inglês Aleister Crowley (1875-1947) tem influenciado o mundo do rock (e as artes em geral). E todos sabem também que o cantor inglês Bruce Dickinson é um cara multitalentoso e uma das personalidades mais inteligentes do heavy metal. Mas é possível que nem todos saibam que Bruce Dickinson sempre teve um grande interesse por história da magia, ocultismo e… Aleister Crowley!

E, ao contrário do que a maioria pensa, Crowley não era satanista, mas sim um filósofo e ocultista praticante assíduo envolvido em diversos ramos da magia (magick) e da filosofia oculta, desde a bruxaria europeia e o paganismo até a cabala, alquimia, magia sexual, hinduísmo, budismo, etc. Contudo, Crowley ficou muito conhecido e mal-afamado devido ao seu comportamento “inadequado” e “chocante” para a época (a Era Vitoriana) e às difamações de fundamentalistas religiosos; nos dias de hoje provavelmente ele não chamaria tanta atenção…

Por outro lado, nos dias de hoje, certamente que Bruce Dickinson chama muita atenção devido ao seu trabalho artístico e suas outras habilidades, interesses e inteligência. Como músico e letrista, o trabalho de Bruce é repleto de referências ao mago inglês e a diversas áreas da filosofia oculta, desde as letras de sua carreira solo e do Iron Maiden até o seu filme Chemical Wedding (2008).

Do álbum solo de Bruce Dickinson Accident of Birth, a música Man of Sorrows fala do próprio Crowley quando menino, profetizando o seu futuro quando iria então estabelecer a vinda de um Novo Mundo, de uma Nova Era. Em Man of Sorrows, podemos encontrar também a frase “do what thou wilt”, que significa “faze o que tu queres”, uma referência mais direta e explícita a Crowley e à sua Lei de Thelema. Entretanto, tal lema thelêmico tem uma origem anterior a Crowley, remontando à obra Gargântua e Pantagruel, do escritor francês François Rabelais (1494-1553), na qual uma abadia fictícia chamada Abadia de Thelema apresenta esse lema como uma de suas “leis”. Esse famoso lema posteriormente também foi adotado por um dos clubes ingleses pseudo-satanistas do século XVIII chamados de Hellfire Club (“Clube do Fogo do Inferno”), no qual se reuniam os aristocratas para praticar orgias, bebedeiras, comilanças, jogatinas e discutir arte e literatura. Porém, na filosofia de Crowley, e de acordo com a letra de Man of Sorrows, “faze o que tu queres” se refere à Vontade do Eu Superior de cada indivíduo e não a meros desejos descontrolados. Esse Eu (ou a Individualidade, o Logos individual, o SAG, o Daimon socrático, etc.), de acordo com a letra da música, supostamente sofre por estar preso em um corpo carnal e por não se fazer conhecido pelo indivíduo que também sofre perdido, desorientado na vida, sem conhecer a Si mesmo e seu verdadeiro destino.

The Chemical Wedding, seguinte álbum de Bruce, é em parte baseado na obra literária e artística do poeta inglês William Blake (1757- 1827), que por sua vez também influenciou a filosofia de Crowley a ponto deste acreditar ser uma reencarnação daquele. Contudo, o título do álbum se refere à outra obra, um manifesto rosacruz intitulado The Chemical Wedding of Christian Rosenkreutz (“O Casamento Alquímico de Christian Rosenkreutz”) publicado em 1616 e que narra o casamento alquímico de um rei e uma rainha. Esse “casamento” é basicamente uma alegoria para a união sexual do masculino com o feminino (Sol e Lua; Fogo e Água; Espada e Cálice) por meio da magia sexual devidamente ritualizada a fim de expandir a consciência, assim como a união das duas partes da alma (psique) conhecidas na psicologia junguiana como animus (masculino) e anima (feminino); a magia sexual era uma prática central na filosofia thelêmica de Aleister Crowley.

Na letra de The Chemical Wedding encontramos no refrão:

“We lay in the same grave/ Our chemical wedding day”

(Nós nos deitamos no mesmo túmulo/Nosso dia do casamento alquímico”).

O túmulo é uma representação para o caldeirão na alquimia, no qual a matéria-prima densa é putrefata, desintegrada, ou seja, transformada, para em seguida dar surgimento a algo novo; ou seja, o casamento do homem e da mulher (os alquimistas) que “morrem” no êxtase alquímico-sexual para dar surgimento a uma nova consciência, expandida, cheia de alegria e livre no infinito.

The Tower, também do álbum The Chemical Wedding, é uma das letras do álbum mais ricas em referências alquímico-sexuais e relativamente crowleyanas. Sendo assim, vamos analisar alguns pontos. A música fala especialmente sobre as imagens alquímicas do tarô e do zodíaco (ambos de suma importância no sistema de Crowley). O próprio título da música se refere a uma das cartas mais “sinistras” do tarô: A Torre, que é referida no Livro da Lei (Liber AL), de Crowley. Na letra da música os versos “There are twelve commandments/ There are twelve divisions” (“Há doze mandamentos/ Há doze divisões”) aludem aos doze signos astrológicos dispostos divididos em casas de 30º no cinturão (imaginário) do zodíaco com seus “mandamentos”. A frase “The pilgrim is searching for blood” (“O peregrino está à procura de sangue”) diz que o alquimista buscador, em sua senda solitária está buscando sua iluminação; o sangue é uma referência à fase “vermelha” da alquimia chamada rubedo. Nessa última fase alquímica a Pedra Filosofal é “encontrada” e o alquimista (ou qualquer iniciado) se torna um sábio “imortal” autoconsciente, realizando sua própria Vontade livre, uma referência direta à Lei de Thelema e que está presente no seguinte verso da letra: “To look for his own free Will” (“Buscar por sua própria Vontade livre”).

E no refrão temos os versos:

“Lovers in the tower/ The moon and sun divided/ the hanged man smiles/ Let the fool decide/the priestess kneels/ the magician laughs”

(“Amantes na Torre/ A Lua e o Sol divididos/ o Enforcado sorri/ Deixe o Louco decidir/ a Sacerdotisa se ajoelha/ o Mago dá risada”),

nos quais podemos encontrar referências diretas a várias cartas do tarô: The Lovers (Os Amantes), The Tower (A Torre), The Moon (A Lua), The Sun (O Sol), The Hanged Man (O Enforcado), The Fool (O Louco), The Priestess (A Sacerdotisa) e The Magician (O Mago). Para não nos alongarmos demais na letra de The Tower, podemos dizer que ela contém alguns segredos alquímico-ritualísticos de magia sexual.

Há outras músicas interessantes em The Chemical Wedding, incluindo aquelas inspiradas diretamente por William Blake: Book of Thel, Gates of Urizen e Jerusalem. Do álbum Tyranny of Souls, podemos destacar alguns versos. O título da música Navigate the Seas of the Sun significa a libertação de restrições e a expansão da consciência, já que o Sol é um símbolo da cabeça humana, da inteligência e da consciência. Nessa letra, encontramos “Our children will GO on and on to navigate the seas of the sun” (“Nossas crianças continuarão a navegar os mares do sol”), que na filosofia thelêmica diz respeito ao arcano d’O Sol no qual duas crianças gêmeas, inocentes e livres “navegam” os raios solares, representando a humanidade em mais uma fase evolutiva, com seus aspectos masculinos e femininos assimilados e harmonizados pelo Eu.

Na música-título A Tyranny of Souls, encontramos os versos

“Who rips the child out from the womb?/ Who raise the dagger, who plays the tune?/At the crack of doom on judgment day”

(Quem arranca a criança do útero?/ Quem ergue a adaga, quem toca a música?/ À beira da condenação no dia do julgamento”).

É uma descrição do Aeon (Era, Idade, Tempo) de Crowley, retratado no arcano O Aeon (no tarô comum é conhecido como O Julgamento). Esse Aeon é marcado pela destruição do velho Aeon de Osíris e pelo nascimento do novo Aeon de Hórus. A criança arrancada do útero, conforme a letra da música, é Hórus, filho de Osíris e Ísis; a adaga erguida significa a morte do Aeon passado, o Aeon de Osíris ou Era de Peixes, considerado tirano, repressor, restritivo e opressor; a música referida nos versos é tocada por meio de uma trombeta tradicionalmente por um ser angélico que anuncia a Nova Era, o Novo Aeon, com o julgamento e condenação do velho. Mas no Novo Aeon, Hórus mantém silêncio para representar a “perfeição” do Novo Tempo. Com relação ao Iron Maiden, Bruce Dickinson tem colaborado razoavelmente nos processos de composição. Do álbum Piece of Mind, a letra de Revelations apresenta alguns “mistérios”. O verso “Just a babe in a Black abyss” (“Apenas um bebê em um abismo negro”) é um referência ao conceito crowleyano de “bebê do abismo”, um termo para designar aquele que mergulha e atravessa o Vazio. Trata-se de um abismo metafísico e psíquico entre o universo real e o universo ilusório, entre a “insana” dimensão do espírito e a igualmente insana (e aparentemente segura) dimensão da matéria; o magista ou iniciado que fracassa em cruzar o Abismo (e em assimilar o conhecimento nele contido) geralmente enlouquece. O verso

“No reason for a place like this”

(“Nenhuma razão para um lugar como este”)

mostra que, uma vez no Abismo, a razão humana como se conhece é completamente abolida.

Do álbum Powerslave a música-título fala sobre um faraó, tido como um deus, que não quer morrer, mas continuar governando no mundo material. Na filosofia thelêmica de Crowley, Osíris representa a Era decadente que insiste em continuar, mas que deve ser destruída para dar lugar ao Aeon de Hórus (filho de Osíris). Por outro lado, o faraó é uma representação de todo mago que fracassa em cruzar o Abismo, tornando-se assim um “escravo do poder da morte” (como diz a letra), psicoespiritualmente. Isso pode ser visto especialmente nos versos

“Into the abyss I’ll fall – the eye of Horus/ Into the eyes of the night – watching me go”

(“no abismo eu cairei – o olho de Hórus/ Nos olhos da noite – olhando-me ir”).

E no verso

“Shell of a man god preserved”

(“A casca de um homem-deus preservado”)

o faraó/deus/magoestá morto fisicamente, com seu cadáver mumificado ou não, ao mesmo tempo em que ele se torna um ser vazio e insano, sem conexão com o seu Eu, ou seja, uma “casca” no mundo qliphótico (do hebraico “qlipha”, que significa “casca”, “concha”) cujos portais estão no próprio Abismo, segundo outro verso: “But open the gates of my hell” (“Mas abra os portais de meu inferno”).

Moonchild, do álbum Seventh Son of a Seventh Son, é uma referência direta a uma das obras de Crowley de mesmo nome. A letra da música fala sobre a união de dois magistas (homem e mulher) e o nascimento de um ser supra-humano (entendido também como uma supraconsciência). Na letra, o homem é representado por Lúcifer, o Portador da Luz, o não-nascido, e a mulher é a Prostituta Escarlate, Babalon (nome derivado de Babylon), como aparece nos versos “The fallen angel watching you/ Babylon, the Scarlet whore” (“O anjo caído observando você/ Babilônia, a prostituta escarlate”).

Os nomes Babalon e Mulher Escarlate, apesar de derivados da Bíblia, são próprios do sistema mágico thelêmico de Crowley e equivalentes à deusa Lilith (mesopotâmica), Hécate (grega), Kali (hindu), entre outras, representando ainda os aspectos femininos da Natureza e a Grande Mãe do universo, livre dos dogmáticos conceitos morais sobre bem e mal. O álbum Seventh Son of a Seventh Son é todo “profético”, com colaborações de outros membros da banda em torno de temas como magia, alquimia, ocultismo, bem e mal, etc.

Por fim, vamos falar sobre alguns trechos do último álbum do Iron Maiden, The Final Frontier, que novamente traz alguns temas sobre alquimia, magia crowleyana e expansão da consciência. Na música Starblind, podemos ler o verso “Let the elders to their parley meant to satisfy our lust” (“deixar os anciãos às suas barganhas significa satisfazer nosso desejo”). Lust é o título de uma das cartas do tarô de Crowley, que se refere, entre outras coisas, a tudo o que é dos sentidos e que provoca êxtase, pois, nas palavras de Crowley, “não tema que deus algum lhe negue isso.” Os anciãos representam a religião dogmática e repressora do Aeon passado, que oferecem “liberdades de carcereiros” e que “parlamentam” aquilo que lhes traz vantagens ilícitas.

Enquanto eles falam e negociam e ficam no passado, os desejos (lust) do novo Aeon, ou seja, a Vontade livre e o desejo pela vida são satisfeitos naqueles que se libertaram do dogmatismo e que estão sem “o dispositivo cruel da religião”, conforme o verso “Religion’s cruel device is gone”. A frase “You are free to choose a life to live” (“Você é livre para escolher uma vida para viver”) é outra referência à Lei de Thelema, ao cumprimento da Vontade. Ainda do álbum The Final Frontier, a letra da música The Alchemist pode parecer óbvia, mas ela fala sobre algo mais do que um mero alquimista. O trecho “My dreams of empire from my frozen queen will come to pass” (“Os sonhos de império da minha rainha congelada irão passar”) refere-se à rainha inglesa Elizabeth, que protegia o também multitalentoso, suposto espião e mago John Dee (1527-1608), citado no verso “Know me, the Magus I am Dr. Dee” (“Conheça-me, o Mago Dr. Dee sou eu”). John Dee é conhecido especialmente por seu trabalho sobre magia enochiana e por sua associação com o alquimista e clarividente Edward Kelley (1555-1597), com quem “criou” esse poderoso sistema de magia, posteriormente praticado por Crowley (que acreditava ser também a reencarnação de Edward Kelley).

A letra da música de modo geral descreve as práticas de John Dee e Edward Kelley com a magia enochiana, considerada um sistema angélico, descrevendo também os contatos com os anjos, isto é, os “demônios”. Enquanto Edward Kelley se comunicava com os seres enochianos, conforme o verso da letra “Know you speak with demons” (“Sei que você fala com demônios”), John Dee ia anotando todo o sistema. O termo “angélico” aqui, entretanto, não diz respeito às imagens populares de anjinhos rechonchudos ou anjos esbeltos e delicados, mas a seres considerados alienígenas terríveis e demoníacos (no sentido original da palavra grega “daimonos”, quer dizer, “espírito”, “gênio”), conhecidos popularmente como “anjos caídos”, os supostos instrutores e doadores do conhecimento nos primórdios da espécie humana. Tais anjos enochianos foram contactados por Crowley, que fez as invocações pelas chaves enochianas, resultando em sua obra chamada Liber 418 – A Visão e a Voz. As invocações enochianas de Dee/Kelley e Crowley são referidas no seguinte verso de Bruce: “Hear the master summon up the spirits by their names” (“Ouça o mestre chamar os espíritos por seus nomes”)…

O Iron Maiden sempre carregou uma forte aura de intelectualismo, profetismo e mistério, contando muitas vezes com as inteligentes e valiosas contribuições de Bruce Dickinson. Por afinidades intelectuais e de interesses, independentemente do tempo cronológico, Crowley sempre esteve presente, ou apenas “pairando”, no trabalho de Bruce. E diferentemente do trabalho de Ozzy Osbourne, cuja letra da música Mr.Crowley é um tanto sarcástica e superficial, Bruce Dickinson tem se interessado muito mais seriamente pelas questões que envolvem a magia de Aleister Crowley. Ambos, Bruce e Crowley, sempre buscaram ir mais além, demonstrando que é possível chegar à “última fronteira” entre a consciência e a supraconsciência…

#LHP

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/bruce-dickinson-e-aleister-crowley

A Verdadeira Arte é um Ato Egoísta

Aos 21 minutos, Higgs pergunta a Alan Moore por quê ele escreveu Jerusalem… um livro ultra-complexo de mais de 1 milhao de palavras, para qual publico?.

A resposta do Moore é “Eu escrevi para mim mesmo. É um ato egoísta”. É algo que confirma algo que fiz minha vida toda e que talvez seja mesmo uma das grandes chaves de se ter sucesso no que se faz… todas as coisas mais legais que ja produzi, produzi para mim mesmo… O Trevas e Arkanun, considerados os melhores RPGs brasileiros de todos os tempos, eu escrevi para o meu grupo jogar; o RPGQuest fiz para poder ensinar matemática para minha filha enquanto ela pegaria gosto pelo RPG; a Enciclopédia de Mitologia, que acabou se tornando um dos mais importantes guias de referência em mitologia comparada no Brasil, eu escrevi porque não existia nada igual em português e eu queria muito ter uma Enciclopédia assim; o Tarot HKT que fiz em conjunto com o Rodrigo Amorim Grola é um tarot que não existe em lugar nenhum do mundo nada com todo aquele material organizado (sem contar que é feito em PVC… eu fiz porque EU precisava de um tarot assim pros meus rituais) e coloquei todos aqueles dados porque EU precisava deles para estudar e para dar aulas… o Pequenas Igrejas Grandes Negocios fizemos porque EU queria um jogo pra sacanear os pastores picaretas; o blog do TdC foi criado porque eu queria um ponto de reunião de pessoas inteligentes que estudassem hermetismo para poder ter com quem conversar sobre as coisas sensacionais que estava pesquisando e nao tinha com quem conversar… o mesmo para Livro de Kabbalah. Eu escrevi este livro porque gostaria que as pessoas tivessem uma compreensão completa do que seja Kabbalah para poder conversar melhor com elas sobre a profundidade dos arquetipos da árvore da Vida em todos os meios de comunicação. Os posters fizemos porque queríamos algo bonito e útil para colocar em nossos escritórios e o RPGQuest novo da Árvore da Vida estou fazendo porque quero um jogo muito foda pra poder jogar com gente que gosta de Hermetismo, que jogava RPG antigamente mas nao tem mais tempo (e queria voltar a sentir o prazer de gerenciar uma campanha de RPG do começo ao fim, pela jornada do herói) e quer algo nesse sentido para jogar… enfim… Alan Moore está coberto de razão, como sempre.

A Arte verdadeira é um ato egoísta mesmo.

#Arte

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-verdadeira-arte-%C3%A9-um-ato-ego%C3%ADsta

Noé – o que merece ser salvo? (parte 1)

Nos primeiros meses de 2014 estreou no país mais um filme supostamente “bíblico”, narrando a famosa história da Arca de Noé. Darren Aronofsky, entretanto, não parecia a primeira vista um diretor ou roteirista com muita inclinação a temas demasiadamente religiosos. E, de fato, o seu Noé passa longe de ser uma história “fiel a Bíblia Sagrada”, tanto que gerou comentários como este, de um missionário cristão “enganado pelo trailer do filme”:

O filme tem muitas coisas de mau gosto e interpretações sem nenhum fundamento religioso ou bíblico. Penso que o autor da obra poderia ter respeitado, pelo menos, o essencial da narração do texto bíblico […] A verdade é que o longa-metragem é uma afronta e uma distorção da beleza da revelação divina. Ele não merece ser visto nem apreciado por quem tem a Bíblia como um Livro Sagrado, fonte da revelação divina e inspiração primeira de fé. Existem filmes mais sérios e de roteiros mais qualificados.

Enquanto, ao mesmo tempo, vimos esta “sinopse do filme Noé, escrita por um ateu” fazer certo sucesso nas mídias sociais:

O filme conta a história de um ancião chamado Noé, de 600 anos, que resolve construir um barco após ouvir Deus dizer que mandaria um dilúvio para afogar toda a humanidade. Noé e seus filhos passam a ser responsáveis por acomodar na embarcação quase 5 milhões de casais de animais, incluindo os de continentes ainda desconhecidos. Após serem os únicos sobreviventes do dilúvio, a família de Noé tem um novo desafio: repovoar o planeta através do incesto, e dar origem a povos de diferentes etnias, como negros, pardos, asiáticos, etc.

Ah, nada como o choque de extremos! Enquanto os fanáticos da crença não suportam ouvir a sua querida história fossilizada num livro milenar com sequer uma vírgula fora do lugar, os fanáticos da descrença caçoam ferozmente de qualquer um que tenha ido ao cinema “ver tamanho absurdo ilógico”.

Pois bem, a vantagem de não sermos fanáticos, senão pelo bom senso, é que podemos muito bem ir ao cinema ver o filme de Aronofsky sem nos sentirmos escandalizados nem pelo fato de o roteiro se afastar em muito do Gênesis, nem pelo fato de a história não ser nem um pouco verossímil – pois que se trata de mitologia!

O Dilúvio

São tantas as mitologias que falam de um Grande Dilúvio que cobriu a Terra, que muitos historiadores creem que, de fato, nossos ancestrais devem ter atravessado não uma, mas diversas inundações catastróficas. Pense numa época sem internet, TV, jornais ou telégrafos, onde muitas vezes tudo o que um povo conhecia eram os arredores de sua floresta ou campina… Ora, qualquer inundação capaz de cobrir uma área extensa o suficiente poderia muito bem lhes parecer como se o mundo todo estivesse sendo inundado!

E, de fato, relatos como este não faltam nos mitos dos mais variados povos – muitos deles mais antigos que os hebreus:

Na Epopéia de Gilgamesh, o mais antigo poema épico de que se tem notícia na história, encontrado no Iraque (que, há cerca de 5 mil anos atrás, foi o berço de uma grandiosa civilização antiga, quando a região era então conhecida como Mesopotâmia) por arqueólogos modernos, temos a passagem onde o herói Gilgamesh pergunta a Siduri (deusa do vinho e da sabedoria) como encontrar Utnapishtim, o sobrevivente do Grande Dilúvio e único humano a receber a imortalidade. Ao finalmente encontrá-lo, ouve de sua boca o relato de como os deuses, zangados com o comportamento barulhento e desregrado dos humanos, resolveram destruir os mortais com um dilúvio. Utnapishtim afirma que só foi salvo porque Ea (deus da água) o visitou num sonho e lhe mandou construir um barco. Como fora o único a sobreviver à grande tempestade, os deuses lhe concederam a vida eterna como prêmio (ele provavelmente trouxe algumas mulheres em seu barco).

O conceito de dilúvio como punição divina aparece também na história clássica da Atlântida. No mito da Grécia Antiga, Zeus enviou um dilúvio para punir a arrogância dos primeiros homens. O titã Prometeu advertiu Deucalião, seu filho, da catástrofe eminente. Ele então construiu uma arca e nela se refugiou com a esposa, Pirra. Por nove dias e nove noites ficaram à mercê das águas (um dilúvio mais curto que o bíblico), até pararem no monte Parnaso. Quando as chuvas cessaram, Deucalião ofereceu um sacrifício a Zeus, que em troca lhe concedeu um desejo. O seu desejo foi simplesmente pedir por mais homens e mulheres para os ajudar a repovoar e Terra (um homem prático).

Há muitos mitos parecidos espalhados pelos povos antigos. Em muitos mitos de criação o mundo era formado por um oceano quando em seu estado primitivo; dessa forma, pela sua inundação, os deuses o devolvem ao seu estado inicial, permitindo um recomeço.

Nos contos dos chewongs da Malásia, o criador Tohan transforma o mundo de tempos em tempos, quando submerge todas as pessoas, exceto as que foram prevenidas, e cria uma nova Terra no fundo das águas. Na mitologia nórdica, temos o conto do Choro de Baldur, quando o malvado Loki faz o arqueiro cego e sua flecha de visgo assassinarem o benevolente Baldur, e todas as coisas que existem choraram por ele, causando um dilúvio. Na mitologia hindu, um peixe disse a Manu que as águas cobririam a terra e, novamente, temos uma arca salvando a continuidade da humanidade. Entre os celtas, os poemas do Ciclo de Finn narram a ocupação da Ilha após o Grande Dilúvio. Nos índios americanos, temos a história de Kwi-wi-sens e como ele e seu amigo corvo escaparam do dilúvio causado pelos deuses dos céus… Acho que já deu para entender né? Essa história simplesmente não será esquecida…

O mito de cada um

O que nos leva a questão de compreender o que diabos é exatamente a mitologia. Segundo Joseph Campbell, “um mito é algo que não existe, mas existe sempre”. Com isso, ele queria dizer que os mitos são nada mais que os fatos da mente, os sonhos e pesadelos do consciente e inconsciente humano, encenados “do lado de fora”. O lado exterior, que um cético poderia, quem sabe, chamar de “mundo real”, é o lado que existe no tempo. Mas o lado interior, apesar de também computar a passagem dos dias e noites, faz algo que vai além da capacidade das máquinas e tecnologias mais avançadas: os interpreta!

É na interpretação da vida que sentimos emoções como o amor, o medo, a raiva, a tranquilidade e a angústia. É na constante lembrança e reinterpretação de tais emoções que terminamos por produzir a arte, e toda arte precisa contar uma história – e toda grande arte acaba por tocar na essência atemporal do ser humano, acaba por conceber um mito…

No entanto, como também dizia Campbell, “qualquer deus, qualquer mitologia ou qualquer religião são verdadeiros num sentido – como uma metáfora do mistério humano e cósmico: Quem pensa que sabe, não sabe.

Quem sabe que não sabe, este sim, sabe. Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual… Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é. Todos os símbolos da mitologia se referem a você: Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana? Você venceu o Grande Dilúvio para recomeçar numa nova Terra? Na sua mais profunda identidade, você é um desses heróis, você é também um deus”.

Dessa forma, quando uma criança ouve falar do Homem-Aranha ou do Super-Homem, e logo quer uma fantasia para poder brincar de ser o Homem-Aranha ou o Super-Homem, isto diz mais sobre a mente humana e sobre a mitologia do que julga a vã filosofia.

O que Aronofsky fez em seu filme foi nada mais do que reinterpretar o mito da Arca de Noé. Podemos não gostar da sua interpretação, mas seria realmente infantil (no mal sentido) julgarmos a sua obra “heresia” ou “absurdo ilógico” de antemão, apenas porque, provavelmente, ainda não fazemos a mais vaga ideia do que vem a ser, de verdade, a mitologia.

A mensagem ecológica do filme é clara e evidente. Se no Gênesis a humanidade era punida pelo Criador pelo fato de haverem procriado com “os filhos de Deus” e de, por alguma razão, a maldade haver se espalhado pelo mundo (Ge 6:1-5), no Noé do cinema o homem arrasou com os recursos naturais do planeta, ao ponto de não vermos sequer uma única árvore remanescente até que Noé tenha plantado uma das sementes do Éden que foram guardadas pelo seu avô.

Além disso, Aronofsky também incorre em uma arriscada crítica ao fanatismo religioso, a tornar o próprio Noé um advogado do fim de toda a raça humana, desejando deixar apenas os animais “inocentes” para o novo mundo. A maneira como este enredo de desenrola no filme é um dos pontos mais originais e que mais se afastam da narrativa bíblica – no entanto, se formos analisá-lo do ponto de vista da nossa época atual, se trata de uma adição totalmente válida ao mito.

Que bom que Aronofsky soube interpretar a história do Dilúvio a sua maneira. Porque não podemos, então, fazer o mesmo?

» Em seguida, os mares internos da alma…

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Bibliografia: Guia Ilustrado Zahar de Mitologia (Philip Wilkinson e Neil Philip); Enciclopédia de Mitologia (Marcelo Del Debbio); O Poder do Mito (Joseph Campbell e Bill Moyers)

Crédito da imagem: Noé – O filme (Divulgação)

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

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Madame Blavatsky e a História da Sociedade Teosófica – Carlos Brasilio Conte

Bate-Papo Mayhem 137 – gravado dia 09/02/2021 (Terça) Marcelo Del Debbio bate papo com Carlos Brasilio Conte – Madame Blavatsky e a História da Sociedade Teosófica

Os bate-Papos são gravados ao vivo todas as 3as, 5as e sábados com a participação dos membros do Projeto Mayhem, que assistem ao vivo e fazem perguntas aos entrevistados. Além disto, temos grupos fechados no Facebook e Telegram para debater os assuntos tratados aqui.

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Mulher Objeto

Com o recente debate iniciado no post “Feminismo: um delírio“, achei por bem trazer um texto sobre o tema (todos os links no texto abrem novas janelas)…

Vamos ser honestos e ir direto ao ponto: faz muito tempo que o mundo ocidental é machista – no mínimo, desde que o culto a Deusa foi destroçado pela Igreja, mas isso não vem ao caso no momento…

Sim, já foi pior, já foi muito pior. Houve época em que mulheres “não tinham alma”. Houve época em que não podiam nem estudar nem trabalhar “porque sua única função era cuidar da casa e dos filhos”. Houve época em que não podiam votar e muito menos se eleger… Mas graças aos anticoncepcionais e aos movimentos de emancipação do século passado, as mulheres hoje estão em situação bem mais digna.

Ou melhor, elas sempre estiveram em situação digna. Os homens é que eram indignos das mulheres, pois por muito tempo foram educados para as tratar como seres secundários, às vezes serviçais.

Dizem que a humanidade não evoluiu moralmente. Os dogmáticos do apocalipse adoram lembrar que nossa evolução tecnológica nada fez por nossa moral. Dizem que “não há nada de novo abaixo do céu”… Eu não concordo.

Não concordo, porque há 2 mil anos o povo ia ver feras devorarem homens no Coliseu de Roma. E aplaudiam… Hoje o povo vai a um estádio de futebol (mesmo em Roma) para ver uma disputa esportiva, e raramente aplaude algum derramamento de sangue – é claro que os hooligans estão aí para nos lembrar do quão ignorante parte de nós ainda é, mas eles são a minoria, felizmente…

Os homens diziam que o mercado de trabalho não comportaria o afluxo de mulheres, que isso provocaria desemprego e conflitos e caos generalizado… Não, o apocalipse não chegou porque uma mulher assumiu a gerência de uma multinacional, ou a presidência de um país. Elas não são tão diferentes assim dos homens, e em muitas áreas são estatisticamente melhores – como na direção de automóveis, por exemplo; Se não acredita basta verificar em qualquer seguradora quanto custa o seguro para homens, e quanto custa o mesmo seguro para mulheres.

Mas há homens inteligentes e sensíveis o suficiente para reconhecer todas as potencialidades femininas… Vejamos o presidente da França, por exemplo, que certamente não deve ter muitas reclamações acerca da belíssima ex-modelo com quem se casou – uma artista de mão cheia, que não deixou de ser musicista e nem escritora por ser uma “primeira-dama”. Quantos homens não se sentiriam intimidados por uma Carla Bruni? Alguém tão bela, tão dona de si mesma, tão deliciosamente poética… Seria “muita areia para o caminhãozinho dele”? Certamente, talvez exatamente por isso ele esteja com ela – “o mais improvável dos relacionamentos”. “Improvável”, isto é, para os machistas que ainda se sentem melhor com as mulheres serviçais, as secundárias, as que não os podem ofuscar…

Porém, os ecos da barbárie medieval e a sombra da ignorância humana ainda se fazem presentes na época atual. Há algo de obscuro enterrado no cerne de nossa educação precária. Uma idéia de que homens são provedores e mulheres são “alguma espécie de bem material” – e que os homens devem ter muito, muito dinheiro, para poder “usufruir” dessas mulheres. Eis o absurdo conceito de mulher objeto (não estou me referindo a parafilia, mas simplesmente ao conceito em si), tão absurdo que se oculta longe da racionalidade, de modo que muitas vezes ele está no inconsciente, e não no consciente. Mulheres objeto no inconsciente coletivo de homens, e também de mulheres… Não acredita?

Se não acredita, dê uma breve olhada em comerciais de cerveja, em revistas masculinas, em sites pornô – ou melhor, talvez seja mais simples ir direto ao ponto, direto na “ferida”…

Clipes de música americana! Eles infestam as mentes de jovens e adolescentes – e mesmo de crianças e pré-adolescentes… Eu poderia citar vários exemplos, mas vamos direto a um ícone, do Black Eyed Peas (vale lembrar que não tenho nada contra a música em si, mas contra a idéia que os levou a escrever uma letra que, no fim das contas, resume muito bem o conceito de mulher objeto):

» Ver clipe de “My Humps” (Black Eyed Peas) no YouTube

Na música acima, chamada “My Humps”, temos praticamente uma relação comercial estabelecida: o homem deve prover a mulher com dinheiro e jóias caras, e ela deve prover ele (com o perdão da palavra) com “muita bunda dentro do seu jeans” – eu estou apenas traduzindo a letra!

Algumas mulheres perceberam o absurdo estabelecido na cultura musical “pop” americana… Alanis Morissette nos brindou com sua brilhante paródia da mesma música, em que ela usa a mesmíssima letra, mas com outro ritmo (ela certamente não pretendia lançar um hit com esse clipe):

» Ver clipe da paródia de “My Humps” (Alanis Morissette) no UOL+

Isso dá uma pequena idéia geral de como o conceito de mulher objeto penetra em nossa cultura desde praticamente o berço – e nem sempre nossos adolescentes percebem por onde esse tipo de pensamento adentrou suas vidas (e até mesmo alterou o funcionamento cerebral)… Infelizmente não somos educados para pensar por nós mesmos, e dá no que dá: “conceitos enlatados goela adentro” – muitos de nós são praticamente gansos com cérebro inchado (ao invés do fígado).

E como mudar? Como fazer com que as mulheres escapem dessa sina – e de quebra reduzir (muito) a violência contra a mulher, causa direta de muitos traumas e assassinatos, mesmo nas “melhores famílias” –?

Simples: não aceite. Não compre essas idéias. Analise a si mesmo, conheça aos próprios pensamentos, e questione-se até que ponto eles são seus, e até que ponto são fruto de uma sociedade algo decadente, onde o deus do consumo faz o que quer e aonde quer… E todos o aplaudem, ou quase todos.

Mas, sobretudo, homens e mulheres, não desanimem! Quem sabe o dia em que nos chamaremos não de homens e de mulheres – mas de seres, de almas, de consciências –, não esteja tão distante assim… Era após era. Século após século… Hoje melhor do que ontem. Amanhã melhor do que hoje. Passo a passo.

***

» Tradução da música “My Humps” (atenção: a leitura pode fazer você perder a fé na humanidade)

Nota: Não desconsidero a possibilidade da própria banda Black Eyed Peas ter feito uma grande sátira da nossa sociedade atual com a sua música. No entanto, seja porque a sátira tenha sido “sutil demais”, seja porque a grande maioria das pessoas não a entendeu, a crítica permanece válida. E, se for o caso de ter sido mesmo uma sátira, é possível que o próprio Black Eyed Peas também concorde com a crítica feita aqui…

***

Crédito das fotos: Anônimo/Divulgação.

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

» Ver todos os posts da coluna Textos para Reflexão no TdC

#Música #sexo #sociedade

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/mulher-objeto

Pactum Pactorum

pactum-pactorum

Venha Participar de um ritual de Alta Magia que tem por objetivo abrir os portais da Riqueza e da Prosperidade para o praticante. Este é um ritual sério que nada tem a ver com Pactos Demoníacos e entidades maléficas.

Só que não!

Praticamente uma vez por mês recebo estes SPAMS inúteis vindo de Estelionatários ávidos por separar os trouxas de seu dinheiro, prometendo pactos mirabolantes, cursos de magia e rituais de riqueza fantasiosas. P.T.Barnum estava coberto de razão quando dizia que “Nasce um otário a cada minuto!”. No caso de Pactos com Lúcifer, parece que essa cota aumenta…

Vamos observar o email:

Sabemos que existem muitos mitos que rodeiam sobre rituais de Alta Magia e Pactos e que assim povoam o consciente da maioria das pessoas com pensamentos assustadores e tenebrosos. Não são medos infundados, pois desde a Inquisição muitas estórias foram inventadas para colocar medo naqueles que ousassem desobedecer as ordens da Igreja Romana. Além disso, são comuns em nossos tempos, pessoas praticarem ritos absurdos com entidades do plano inferior oferecendo a própria alma em troca de poucos anos de riqueza.

Nosso Ritual não tem nada a ver com isso!

Trata-se de um ritual sério, bonito, fundamentado em conhecimento, não na fé cega. Nosso Ritual não ofende a nenhuma religião, não blasfema contra nenhum Deus, não é um ritual de cunho sexual, não há nudismo, não há venda de almas e nem sacrifícios de sangue. E, além disso, funciona melhor que qualquer outro ritual que se possa ter notícias. Simplesmente porque não há nenhuma entidade superior à do nosso ritual na função de distribuir riquezas em nosso planeta -Nosso Ritual é para Reis – Venha Reinar Conosco!

Podemos perceber a marmotagem logo no primeiro parágrafo… o cara é mais escorregadio que um pastor evangélico. Não fala quem faz o ritual, o que faz, o que fará, nada… a idéia de que exista um ritual “que não blasfema contra nenhum Deus” ou “que não ofenda nenhuma religião” já mostra a total picaretagem do sujeito e já deveria levantar todas as bandeiras de suspeita… mesmo os bananas satanistas de orkutbook e seus “rituais de prosperidade do diabo” sabem que os crentes se melindram até com as velas dos rituais dos wiccas.

Outra indicação forte de picaretagem está em anunciar “segredos proibidos, rituais de reis, coisas que apenas o nosso grupinho secreto sabe para dominar o mundo”. Curiosamente, continuam pobres e desesperados por vender pactos da prosperidade.

Ora, qualquer meio-cérebro sabe que, se um ritual de prosperidade luciferiana funcionasse, a pessoa só precisaria fazê-lo uma vez e seria próspero… se a pessoa tem de mandar spams vendendo pactos a cada dois meses, é mais do que óbvio que eles não funcionam.

· O ritual é realizado individualmente em nosso Castelo (de forma secreta), ou seja, sem que ninguém mais necessite saber que vós realizou o ritual (isso será entre você e os Mestres Magos possuidores do Rito (e somente com tal discrição existirá o retorno esperado – não prossiga sem total discrição) ’Para obter algo que você nunca teve, precisa fazer algo que nunca fez’. Através desse ritual, nós vos apresentamos à uma Poderosa Entidade Espiritual, incumbindo-lhe a missão de trazer-lhe riquezas e bens materiais. Você obterá também aumento da percepção, da influência, do poder e fortuna pessoal.

Mesmo porque imagine a vergonha alheia de voce ter de ir na polícia reclamar que foi feito de trouxa porque queria “fazer um pactum pactorum com lucifugo rocambole para ficar rico, mas eles roubaram seu dinheiro e não te deram nada”… o delegado ia mijar de rir da sua cara… Muitos desses pilantras esquisotericos utilizam-se dessa cobertura de “sigilo e segredo” para criar uma aura de mistério e amedrontar os trouxas. Quem os vê no youtube até poderia dar alguma credibilidade (ainda mais porque o alvo desses espertalhões geralmente é a pessoa que não entende nada de hermetismo). Depois, quando nada der certo, o otário vai reclamar com quem? com Satã? hauahauaha

continuando:

O nosso Rito possui alta tensão mágicka e não meras formalidades teatrais ou simbólicas. O que pode ser descrito (é bem limitado, pois não deve ser exposto). Em sua iniciação você passará por algumas preparações fundamentais, que seguem toda uma tradição ritualística, essa cerimônia é individual e realizada somente com sua presença em nosso Castelo, na região de xxxxxxxxxxx; em data específica, com absoluto sigilo. Seu corpo astral receberá ”marcas” que serão reconhecidas por outros seres astrais, além do recebimento de alguns ”itens” (que não podemos descrever aqui).

Para participar do ritual é preciso antes fazer o Curso Preparatório e também uma preparação pessoal antes do rito. Além disso, nós temos que confeccionar a jóia ritualística, os utensílios mágickos, vestimenta e pergaminho sagrado que será usado por vós na realização do ritual.

Dercy Gonçalves, grande illuminati, dizia sempre que “alta tensão mágicka de cu é rola!” e, na verdade, todo o teatrinho desses vigaristas era feito pensando justamente em deixar o infeliz assustado. Os crentes em suas centenas de anos de propaganda já criaram um diabo super-hiper-duper-poderoso, e nada mais bacana do que aproveitar dessa fama para pegar alguns trouxas. Além do mais, se o camarada já ficar com medo, melhor ainda, porque não vai reclamar depois. O lance de inventar um “curso preparatório para ritual de prosperidade” é coisa de Jênio! Espremer cada trocado da carteira do mané.

*Existem diversos custos que envolvem esse forte ritual e portanto esse custo é repassado ao interessado(a) que também deve contribuir com o Grande Templo, assim sendo, a taxa de participação é um investimento único de R$3.000,00 (Três Mil Reais) = um único investimento para uma nova vida de absoluto sucesso.

*pagamento no valor acima à vista e antecipado ao agendamento do ritual.

*consulte opções de parcelamento da taxa – com cheque – valor diferenciado.

Aceitamos vale-transporte e ticket restaurante também!

O nosso ritual é um rito de Alta Magia somente para os Reis!

Os Reis são aqueles que tem a mente aberta e têm coragem de encarar o mundo como ele realmente é!

Os Reis são aqueles que se responsabilizam pelos seus atos ao invés de compadecer-se de suas próprias dôres!

Os Reis são guerreiros, conquistadores e ambiciosos…

Os Reis compreendem que não ser escravo da matéria não significa viver na pobreza e sim possuir e dominar todo o qualquer bem que vier a desejar. Os Reis reinarão sobre todas as coisas materiais. E os escravos servirão!

Se você realmente tem interesse e está preparado para vir reinar conosco;

Obviamente, qualquer um que tenha o mínimo dessas qualidade passa longe dos picaretas. A única coisa certa que disseram é que os escravos servirão…

Felizmente, a polícia já começou a desbaratar essas quadrilhas de espertalhões. Alguns já foram, outros continuam agindo por ai. Fique esperto!

#Fraudes

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/pactum-pactorum

Sincronicidades: Física Quântica e Psicologia Analítica

Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma, todo o universo conspira a seu favor”

– Goethe

Quem nunca passou por uma situação na qual parecia que o universo estava tentando falar alguma coisa? Você pensa em alguém e essa pessoa te liga. Você sonha com alg

uém e depois esbarra com ela na rua. Na mesma semana te falam de uma música, filme ou livro e parece que ele está em todos os lugares. E aquela ligação estranha entre irmãos gêmeos, exploradas pelo cinema, em que um sofre um acidente e o outro sente dor? Esse tipo de situação normalmente é chamada de coincidência. Mas será que é só isso,

um evento arbitrário?

Esse tipo de fenômeno está sendo cada vez mais estudado dentro dos campos da parapsicologia e afins, e parece que agora a ciência começa a entender um pouco melhor isso e explicar essas coisas de forma ‘científica’. Mas se voltarmos um pouco na história, essas situações já eram vividas e entendidas pelos místicos.

No hermetismo, um antigo sistema filosófico e mágico atribuído ao misterioso Hermes Trismegisto, autor da famosa “Tábua de Esmeralda” entre outros textos, existem algumas concepções que explicam o funcionamento do Universo. Segundo o livro Caibalion, um clássico da literatura her

mética, a primeira dessas concepções é a lei do mentalismo: “O todo é mente, e o Universo é mental”. Se considerarmos essa concepção da natureza, tudo esta interligado, como se fosse uma grande mente universal.

O psiquiatra suíço Carl Jung desenvolveu, em sua teoria Analítica, um conceito que pode ajudar a explicar esses tipos de fenômenos e essa realidade de interconectividade: o “Inconsciente Coletivo”. Grosso modo, para Jung, além do nosso consciente, subconsciente e inconsciente (postulado por Freud), existe uma camada ainda mais profunda compartilhada por todos os indivíduos, portanto coletiva, a qual todos estamos sujeitos. É como se fosse uma grande rede, que está presente em cada um de nós, e em todos nós.

“Uma camada mais ou menos superficial do inconsciente é indubitavelmente pessoal. Nós a denominamos inconsciente pessoal. Este porém repousa sobre uma camada mais profunda, que já não tem sua origem em experiências ou aquisições pessoais, sendo inata. Esta camada mais profunda é o que chamamos inconsciente coletivo. Eu optei pelo termo “coletivo” pelo fato de o inconsciente não ser de natureza individual, mas universal; isto é, contrariamente à psique pessoal ele possui conteúdos e modos de comportamento, os quais são ‘cum grano salis’ os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos. Em outras palavras, são idênticos em todos os seres humanos, constituindo portanto um substrato psíquico comum de natureza psíquica suprapessoal que existe em cada indivíduo”. (JUNG, 2000, p.15)

Considerando este conceito, podemos entender o fenômeno das coincidências como algo que o próprio Jung denominou sincronicidade, que seria a “simultaneidade de um estado psíquico com um ou vários acontecimentos que aparecem como paralelos significativos de um estado subjetivo momentâneo e, em certas circunstâncias, também vice-versa” (JUNG, 1991, par. 818). Em outras palavras, é a percepção de um fenômeno que contém geralmente um significado simbólico, através de situações que não compartilham nenhum tipo de relação aparente, ou seja, acausais, e exprimem um estado psíquico interno compartilhado com um evento objetivo e externo.

O interesse de Jung por esse tipo fenômeno sempre causou certo desconforto para a comunidade científica, no entanto, as novas concepções de realidade apresentadas pela moderna física quântica começam a explicar essa interligação de forma científica, corroborando com as concepções Junguianas destes fenômenos. Vale a pena dizer que Jung era amigo de Wolfgang Pauli, um dos primeiros estudiosos da física quântica*.

Em resumo, a física quântica trabalha com partículas atômicas e sub-atomicas, ou seja, átomos, moléculas, elétrons, prótons, nêutrons, etc, e estuda as dinâmicas interações destas partículas. Dentre essas partículas, podemos citar os fótons, que são as menores partículas envolvidas numa radiação eletromagnética. Aparentemente, fugimos um pouco do tema, mas cientistas contemporâneos já realizaram experimentos nos quais, apesar de separados por grandes distâncias, dois fótons interagem entre si, mesmo sem apresentar uma conexão causal, ou seja, é como se houvesse algo que os conecta, que vai além da realidade física e observável.

“Se utilizarmos o exemplo de dois fótons correlacionados, onde é possível alterar o estado de um deles, alterando-se o estado do outro e de modo instantâneo, então seria possível haver uma correlação não-local entre os inconscientes de todos os seres humanos, o que resultaria no Inconsciente Coletivo de Jung e na sua Psicologia Analítica”. (NUNES, 2009, p.8)

Toda essa interconexão da consciência já não é mais teórica e esta sendo comprovada. Existe um experimento, realizado em entre os anos de 1993 e 1994 por Jacobo Grinberg, um neurofisiologista da Universidade do México que consistiu em colocar duas pessoas para meditar juntas, com a intenção de se comunicarem diretamente, sem troca de sinais ou conversa. Essas pessoas eram isoladas uma da outra em “gaiolas Faraday”, câmaras eletromagneticamente impermeáveis, e seus respectivos cérebros conectados a máquinas de eletroencefalograma.

Após um breve tempo de meditação, foram mostrados flashes de luz para apenas um dos sujeitos, cuja atividade elétrica cerebral era alterada em resposta aos flashes. É ai que a coisa fica interessante. No eletroencefalograma do outro sujeito que não recebeu nenhum flash de luz, foi constatado que seu cérebro recebeu um potencial, virtualmente igual em intensidade e força, variando em atividades elétricas de 65% a 75%. Esse é um valor muito substancial e a conclusão do experimento é que a atividade elétrica de um cérebro se transfere para outro cérebro, sem conexão ou contato elétrico nenhum. Este experimento foi replicado por Peter Fenwick em Londres e Leanna Standish e seu grupo na universidade de Bastyr, em Seattle. Todos concluíram a mesma coisa: existe uma transferência de informação de cérebro a cérebro, sem nenhuma conexão eletromagnética.

Essas conclusões são muito interessantes e significativas, e acabam por explicar, mesmo que parcialmente, os fenômenos de sincronicidades. No entanto, apesar de explicarem uma comunicação não-local entre sujeitos, pouco se sabe sobre o motivo destas manifestações acontecerem em determinados momentos, ou com determinadas pessoas. No romance best seller americano “A Profecia Celestina”, James Redfield conta a história de um manuscrito encontrado no Peru que contém nove visões, ou nove etapas, que os seres humanos precisam desenvolver afim de evoluir individualmente como sujeitos e coletivamente como espécie. A primeira etapa deste processo é descrita como a tomada de consciência das “coincidências” que nos cercam. É defendido, que para evoluirmos, o primeiro passo a ser dado é perceber essas sincronicidades e não considerá-las como mero acaso, mas uma forma intuitiva de buscar informações no dia-a-dia que nos impulsionam a melhorar e expandir a consciência.

Acho pertinente, por tanto, encerrar dizendo que devemos prestar atenção a nossa volta e analisar essas coincidências, entender o que elas nos dizem e para onde elas apontam. Quando fazemos isso, cada vez mais essas situações acontecem e nos indicam que estamos no caminho certo. Aos poucos, vamos integrando destino e livre arbítrio, expandindo nossa consciência e nos aproximando dos horizontes da jornada da alma.

* Para saber mais sobre essa amizade, leia “A permuta dos sábios: um estudo sobre as correspondências entre Carl Gustav Jung e Wolfgang Pauli” de Cesar Rey Xavier

Ricardo Assarice é Psicólogo, Reikiano, Mestrando em Ciências da Religião e Escritor. Para mais artigos, informações e eventos sobre psicologia e espiritualidade acesse www.antharez.com.br ou envie um e-mail para contato@antharez.com.br

Imagens:

Representação de Hermes Trismegisto de Viridarium chymicum, D. Stolcius von Stolcenbeerg, 1624

Encontrada na internet

Encontrada na internet

Bibliografia:

CAMAYSAR, R. O Caibalion. São Paulo, Pensamento. 2000.

JUNG, C. G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis, Vozes. 2000.

JUNG, C. G. Sincronicidade. Petrópolis, Vozes. 1991.

NUNES, A. L. Física e Psicologia: Um diálogo interdisciplinar. XVIII Simpósio nacional de ensino de Física. 2009.

#físicaquântica

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Tarot, Xamanismo Urbano e a Arte de Contar Histórias – Raphael Fernandes

Bate-Papo Mayhem 141 – 25/02/2021 (Quinta) Com Raphael Fernandes – Tarot, Xamanismo Urbano e a Arte de Contar Histórias

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#Batepapo

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HermetiCAOS – Tradição, Ciência, Arte e Cultura

PARTE 1: TRADIÇÃO*

Você quer praticar Magia. Quer se tornar um Mago. Tomou a decisão e está determinado.

Ótimo, que bom pra você. Mas e agora? Qual o próximo passo?

Descobrir que diabos é “Magia” e como é que se pratica isso é, logicamente, o caminho a seguir. E daqui a pouco você vai entender por quê. O que interessa agora é que as respostas mais acessíveis — seja em livrarias, seja na internet — vão te levar, conforme aponta o mago inglês Alan Chapman, ao “quase impenetrável transcendentalismo de textos mágicos do início do século XX, o moralismo ambientalista do movimento Pagão moderno, o sentimentalismo ingênuo e popular da Nova Era e o materialismo prático e bobo de alguns autores pós-modernos”. A escolha é difícil. O que existe por detrás das cortinas da realidade que dá fundamento à Magia e se encontra na base de qualquer “Tradição”? E por que elas são tão diferentes entre si? Este é o primeiro de uma série de textos que buscarão responder a essas e outras perguntas.

Antes de mais nada, é preciso esclarecer um ponto: qualquer coisa que se diga a respeito do assunto aqui tratado é, no fim das contas, uma interpretação pessoal. Cada indivíduo vive a partir de uma perspectiva que foi construída nele/por ele/com ele durante toda a sua vida, como um conjunto de suas impressões psíquicas derivadas de experiências vividas. É aquilo que o psicólogo e romancista (e mago) discordiano Robert Anton Wilson chamou de “túnel de realidade”. As experiências com a realidade podem se dar de forma direta ou indireta: quando a porção de realidade experienciada vai além de nossa capacidade de traduzí-la, para nós mesmos, a partir de uma lógica que nos pareça coerente, estamos diante de uma experiência direta; a indireta acontece quando, por conta de paradigmas que adotamos (consciente ou inconscientemente), já experienciamos a realidade a partir de uma leitura, ou explicação, prévia do fenômeno observado, ou seja, antes de obtermos o resultado de nossa experiência, já sabíamos exatamente o que esperar dela.

Pois bem. Ocorre que, mesmo na forma direta, a experiência é interpretada com a linguagem que conhecemos. Parece-me que está além da capacidade humana viver uma experiência sem elaborar uma explicação para ela. Por que isso aconteceu? Como aconteceu? Quais são as condições de possibilidade dessa experiência? Tudo isso vai ser elaborado a posteriori, sempre a partir do jogo de linguagem da pessoa, para usar uma expressão do filósofo Ludwig Wittgenstein. Vamos analisar um exemplo qualquer.

Algo na vida de uma determinada pessoa vai muito mal. Pode ser em qualquer âmbito: financeiro/profissional, sentimental/amoroso, saúde física ou mental, ou sei lá mais o quê. Se a pessoa é cristã — e especialmente se for evangélica –, é bem provável que ela atribuirá a culpa dos seus males ao Diabo ou a alguns de seus demônios enviados à Terra para espalhar o Mal (aquele, com letra maiúscula). Se, entretanto, o indivíduo foi criado dentro da crença espírita (e concorda com ela, veja bem), então será natural que ela atribua a origem de seus males a algum espírito obsessor que se alimenta de seu sofrimento (o famoso “encosto”) e não passa de alguém que morreu, mas se encontra num estado de ignorância sobre sua condição e como melhorá-la, seja, como “evoluir espiritualmente”. Ainda existe a possibilidade, mais complexa e rara, do indivíduo em questão ser um psicólogo junguiano ou transpessoal; se for esse o caso, a chance é a de que ele compreenda as dificuldades que está passando como uma projeção externa de complexos inconscientes que se colocam como obstáculos ao processo de individuação.

Cada um deles pode ter tido a mesma experiência. Entretanto, a interpretam de forma radicalmente diferente. Por que essa volta toda? Para esclarecer que, mesmo em Magia do Caos, as diferentes explicações para os diferentes fenômenos podem variar em abordagem. Mais sobre isso será discutido em textos vindouros. O que interessa aqui é que, no tocante à palavra MAGIA, ela diz respeito, diretamente, a uma determinada tradição sagrada de ensinamentos sobre a Mente e o Universo, típica do Ocidente. Em seu famoso diagrama, Peter Carroll liga os Grandes Mistérios Antigos diretamente ao Xamanismo, supostamente o Pai de toda a Magia. A partir daí, passamos pelas Escolas de Mistérios do Egito, da Babilônia e da Grécia, como os Pitagóricos, Órficos, Elêusis e Essênios. As transformações seguem, com influência do Cristianismo Primitivo (Gnosticismo) e do Sufismo, uma doutrina derivada do Islã.

A partir daí, passa pela Idade Média, através dos Cavaleiros Templários e da Alquimia, escondendo-se nas sociedades secretas rosacruzes e maçônicas, até encontrar Aleister Crowley e Austin Osman Spare.

Essas associações procedem muito mais por uma relação temática do que propriamente com base em evidências históricas (exceto talvez nos documentos secretos das Ordens iniciáticas, acessíveis a poucos — mas isso, por óbvio, é mera especulação). Os conhecimentos do passado parecem nunca haver estado completamente à disposição de todas as pessoas; o poder estabelecido geralmente encontra uma forma de exterminar aqueles que tentem libertar o povo da ignorância, tão necessária ao exercício da dominação das massas. Na Modernidade, com o advento do Estado laico, o problema parece ter mudado: como aprendemos no filme Matrix, as pessoas carregam o Sistema dentro de si e lutarão por ele quando o perceberem ameaçado. As pessoas lutam para se manterem aprisionadas. Assim, os conhecimentos que foram ocultos em sociedades secretas e transmitidos por baixo dos panos para sobreviver aos períodos mais sombrios da civilização, agora estão mais acessíveis que nunca. Só não os alcança quem não quer.

Na essência dos ensinamentos está a compreensão de que nossa realidade é moldada pela nossa mente e, a partir daí, a utilização de fórmulas, símbolos, palavras, rituais, canto, música, meditação, dança e até mesmo substâncias psicoativas para provocar impressões na mente e obter mudanças de acordo com a Vontade. O que muda de uma Tradição para a outra é a escolha de que elementos serão utilizados e de que maneira. O que determina essa escolha? Os fatores variam e têm diferentes graus de complexidade. Os mais simples apontam para uma mera apreciação estética, ou seja, pratica-se a Tradição que se considera mais bonita; os mais complexos sugerem um comprometimento ideológico a partir da dinâmica da crença. Em textos futuros pretendo abordar a questão da crença, sua função e sua disfunção.

No fim das contas, qual a importância de se adotar uma determinada Tradição e como escolher entre elas? Esse é, afinal, o objetivo desse texto. O objetivo de uma Tradição é oferecer um conjunto de associações simbólicas coerentes, testadas ao longo do tempo por determinado grupo de pessoas e, por isso, com condições de oferecer ao praticante um método de alcançar a sabedoria. Não se comprometer com uma Tradição pode significar, em muitos casos, uma vida inteira de doloroso aprendizado no esquema tentativa-erro, sem nunca atingir um bom nível de proficiência em Magia.

Seguem minhas recomendações pessoais para uma boa decisão:

Primeiramente, escolha uma Tradição pela estética. Pode parecer um motivo superficial, mas é fundamental que você veja beleza na sua prática mágica. Isso influencia diretamente no quanto o seu ato mágico é capaz de te impressionar e provocar os efeitos desejados na sua mente. Em segundo lugar, certifique-se que sua relação com a Tradição escolhida não impossibilite que você experimente coisas que não se encaixam necessariamente no paradigma escolhido; ou seja, esteja aberto para a possibilidade de estar errado sobre o que quer que seja. Três: atente-se para a possibilidade de a Tradição te oferecer o devido amparo nos momentos de dificuldade, sem que ela precise te escravizar por isso. Busque conhecer os fundamentos da Tradição ANTES de se comprometer com ela. Se houver liderança do tipo “sacerdotal”, desconfie severamente. A enorme maioria dos sacerdotes busca um séquito de admiradores e bajuladores; preste atenção, por exemplo, à enorme quantidade deles que afirma que você vai se dar muito mal se abandonar aquela Tradição. Não se meta em nenhum grupo que tenta se promover desvalorizando outro.

E, por último, confie sempre na sua intuição e na sua experiência acima de qualquer dogma. O que significa dizer que, se a sua experiência contradiz o dogma da sua Tradição, o melhor a fazer é, geralmente, abandonar a Tradição.

Uma vez que você tenha escolhido, é necessário também fazer alguns apontamentos:

Leve a sério sua escolha; conduzí-la de forma leviana significa desrespeitá-la e desvalorizá-la. Se isso acontecer, ela não poderá fazer mais nada por você. Estude bastante; somente um conhecimento aprofundado te dará a segurança necessária para conduzir um ritual que produza os efeitos desejados. Não desconsidere nenhum requisito da sua Tradição até que entenda perfeitamente seu sentido e propósito; as consequências podem ser nefastas.

No mais, tudo o que você leu aqui eu aprendi com minhas próprias experiências e erros e acertos, com experiências de amigos e conhecidos e, também, com relatos de pessoas em quem eu aprendi a confiar. Nesse último caso, essas pessoas não sabem o quanto sou grato pela disposição que elas tiveram em compartilhar com o mundo (e comigo, por tabela) aquilo que aprenderam. Minha forma de expressar essa gratidão é passar o ensinamento adiante. Por isso, se a Tradição que você escolheu (ou vier a escolher) for a Magia do Caos ou o Hermetismo, apareça por aí toda segunda-feira que vai ter texto novo.

É minha Vontade que minhas palavras levem Luz. Assim seja!

* Essa é a Parte 1 do texto em 4 partes abordando a Magia enquanto Tradição, Ciência, Arte e Cultura. Cada conceito desse, um texto. Mas não sei se eles serão publicados em sequência, porque pode ser que segunda que vem eu escreva sobre outra coisa, se me der na telha.

Publicado originalmente no Blog HermetiCaos

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/hermeticaos-tradi%C3%A7%C3%A3o-ci%C3%AAncia-arte-e-cultura