Ares e Afrodite

Ares, deus da guerra, foi concebido por Hera sem a semente masculina. Alegrava-se com a luta e junto com seus dois filhos, Deimos – o espanto e Phobos – o terror, estavam sempre em batalhas. Ares era oposto a Atena, a divindade guerreira representada pela estratégia e coragem refletida, enquanto Ares amava o calor da batalha e exultava em derrotar o inimigo. Ares sempre foi repelido pelos deuses pois estava sempre associado aos conflitos e guerras sangrentas, usando sua força bruta e sem refinamento.

Afrodite era casada com Hefesto, irmão de Ares, um deus ferreiro, doente e deformado. Porém, impressionada pelo vigor do jovem guerreiro, correspondia aos encantos de Ares. Hefesto descobriu o adultério e planejou uma terrível vingança. Em segredo forjou uma rede muito fina, quase invisível, porém muito forte que não podia ser destruída, e pendurou-a sobre o leito.

Quando Ares e Afrodite adormeceram, Hefesto soltou a rede sobre ambos e chamou todos os deuses para testemunhar o adultério. A paixão de Ares jamais foi suplantada pela vergonha. Tempos depois nasceu Harmonia, estabelecendo uma ligação equilibrada entre o amor e a paixão.

Ares é a imagem dos instintos guiados pela vontade do consciente. Ares, nascido sem o pai, representa a competição do ser humano, sem o arquétipo do pai, para lhe oferecer um código de ética ou uma visão adequada da situação. Porém, sua vontade e coragem são imensuráveis necessária à personalidade humana, pois apenas a visão espiritual não garante a sobrevivência num mundo competitivo.

Após o conflito como resultado de suas escolhas, aprende-se que com a utilização dos ímpetos irrefletidos deverá assumir as consequências de seus atos. Na mitologia, Ares sempre estava envolvido num conflito ou numa disputa. Apesar das humilhações e da derrota, ele conseguiu a serenidade, através da harmonia, conduzida com criatividade e firmeza.

Ares simboliza a luta necessária e, embora haja o comprometimento espiritual, os impulsos existem. Podem ser suprimidos a nivel inconsciente, mas surgirão mais tarde na forma de problemas ou então projetados nos outros que descarregarão sua agressividade sobre nós. Quando conseguimos enfrentar o desafio de Ares, podemos conter e direcionar essa força para nos desenvolvermos com maturidade.

Por Lúcia de Belo Horizonte.

#Mitologia #MitologiaGrega

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/ares-e-afrodite

Reflexões místicas com Joseph Campbell (parte 1)

Joseph Campbell

Uma entrevista com Joseph Campbell, por Tom Collins
Originalmente publicada na revista The New Story (1985)

Tradução de Rafael Arrais

Joseph Campbell talvez seja o acadêmico mais proeminente no estudo da mitologia. Entre os seus diversos livros podemos destacar O herói de mil faces, As máscaras de Deus (série) e o célebre O poder do mito. O entrevistador, Tom Collins, é um escritor e editor de Los Angeles, que já trabalhou com Steven Spielberg.

1. A importância dos mitos

[Tom] O que os mitos fazem por nós? Por que a mitologia é tão importante?

[Joseph] Ela lhe põe em contato com um plano de referência que vai além da sua mente e adentra profundamente o seu próprio ser, até as vísceras. O mistério definitivo do ser e do não ser transcende todas as categorias de pensamento e conhecimento. Ainda assim, isto que transcende toda a linguagem é a própria essência do seu ser; então você está descansando sobre ela, e sabe disso.

A função dos símbolos da mitologia é nos levar a uma espécie de insight, “Aha! Sim, eu sei o que é isto, isto sou eu mesmo”. É disto que se trata a mitologia, e através dessa vivência você se sente em contato com o centro do seu próprio ser, cada vez mais, e todo o tempo. E tudo o que você faz dali em diante pode ser relacionado com tal grau de verdade. No entanto, falar sobre isso como “a verdade” por ser um pouco enganoso, pois quando pensamos na “verdade”, pensamos em algo que pode ser conceitualizado. E tal vivência vai além disso.

[Tom] Heinrich Zimmer disse, “As melhores verdades não podem ser ditas…”

[Joseph] “E as segundas melhores são mal interpretadas.”

[Tom] E então você adicionou alguma coisa ali…

[Joseph] As terceiras melhores fazem parte da conversação usual – ciência, história, sociologia.

[Tom] Por que nos confundimos com estas verdades?

[Joseph] Porque as imagens que precisam ser usadas para falar sobre o que não pode ser dito, as imagens simbólicas, são compreendidas e interpretadas não de forma simbólica, mas de forma empírica, como fatos concretos. É algo natural, mas é também todo o problema com as religiões do Ocidente. Todos os símbolos mitológicos são interpretados como se fossem referências históricas. Eles não são. E acaso fossem, e daí, o que viria a seguir?

[Tom] Vamos tomar cuidado aqui. O que você está chamando de símbolo?

[Joseph] Eu estou chamando de símbolo um signo que aponta para algo além dele mesmo, para um campo de significado e vivência que se encontra unificado com a consciência do observador. O que você está aprendendo na mitologia diz respeito ao sentido de você ser uma parte do ser que preenche o mundo.

Se um mito não lhe toca e não fala sobre você, mas sobre algo lá fora, então ele é um mito superficial; ou que foi interpretado superficialmente. Há esta frase maravilhosa que eu anotei de Karlfried Graf Durkheim, “transparência para o transcendente”. Se uma doutrina bloqueia a transcendência, e lhe corta o acesso à divindade para lhe manter preso ao seu eu mundano, ela lhe transforma num devoto, num adorador, e não lhe encaminha a abrir o mistério que há dentro do seu próprio ser.

[Tom] Você já chamou a isto de “a patologia da teologia”.

[Joseph] É como ainda chamaria hoje.

[Tom] Walter Huston Clark diz que a igreja é como uma vacinação contra a coisa real.

[Joseph] C. G. Jung diz que a religião é uma defesa contra a experiência de Deus. Eu digo que as nossas religiões [igrejas] o são.

[Tom] O que fazer então, se a experiência não é encontrada na religião [igreja]?

[Joseph] Você a encontra no misticismo, e entra em contato com místicos que leem tais formas simbólicas simbolicamente. Místicos são pessoas que não são teólogos; teólogos são pessoas que interpretam o vocabulário das escrituras como se elas se referissem a fatos sobrenaturais.

Há uma pletora de místicos na tradição cristã, mas nós não ouvimos muito sobre eles. Ainda assim, de vez em quando alguns esbarram no misticismo. Mestre Eckhart foi uma pessoa assim. Thomas Merton também experienciou o misticismo, assim como Dante Alighieri e Dionísio, o Aeropagita. João da Cruz alternou momentos de contato com o misticismo com momentos de recaída mundana.

Eu penso que James Joyce é pleno de misticismo, e Thomas Mann também o alcançou na escrita, embora não tão profundamente quanto Joyce. É estranho como, desde a morte de Mann, o misticismo tenha desaparecido da literatura.

» Na próxima parte da entrevista, o mito como a dinâmica da vida…

***

Crédito da imagem: Google Image Search/Divulgação (Joseph Campbell)

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

» Comprar livro impresso, PDF, ou versão para Amazon Kindle

***

» Ver todos os posts da coluna Textos para Reflexão no TdC

» Veja também nossa página no Facebook

#Mitologia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/reflex%C3%B5es-m%C3%ADsticas-com-joseph-campbell-parte-1

Dhikr e Darshan

O único pecado praticado pela humanidade é o esquecimento, 7,2 bilhões de pessoas e poucas delas realmente tem alguma ideia do que é viver como um humano de fato. Nossa sociedade estimula uma rotina totalmente contrária a natureza humana, nós que buscamos internamente as respostas para as dúvidas universais (Quem sou? Da onde Eu vim? Para onde Eu vou? Qual o sentido da vida? Entre outros) rapidamente percebemos que o estilo de vida moderno dificulta a resposta dessas perguntas e até nos oferece respostas muito rasas.

Por que o mundo moderno falha ao responder essas perguntas?

Falha, pois ao indicar respostas no mundo externo, mostra que seus valores são temporais e for a de nosso controle, fala sobre uma realidade material e isso é uma grande mentira. Mentira essa que nos aprisiona.

O que é Dhikr?

Dhikr é um termo da tradição Sufi, porém esse conceito foi muito bem exposto pelos platonistas de forma de direta e todas as tradições mistico-religiosas de uma forma ou de outra tem alguma doutrina que pode ser chamada de Dhikr. Dhikr é praticar conscientemente a lembrança da nossa natureza divina até que isso se torne nosso estado de vigília.

No contexto religioso Dhikr é lembrar o nome de Deus sempre, os muçulmanos eles tem dois mantras principais para isso “La Ilaha Illallah” (Não há divindade além de Allah, ou numa tradução mais livre, Não há divindade além de Deus) e quando o praticante começa a ter as experiências extáticas esse mantra é substituído por “Allah”, onde o nome do Senhor será repetido sempre. Tais técnicas advém da crença de que os anjos vivem num estado eterno de adoração a Deus e que a encarnação na Terra tem como objetivo fazer os humanos lembrarem de Deus.

No contexto místico o foco da lembrança é despertar a consciência na Alma, que é o local adequado para um humano. De acordo com a tradição grega a Alma é pura e incorruptível, contudo é de sua natureza corrigir tudo que é inferior e isso que nos levou ao esquecimento dela, pois a natureza da matéria (com seus apegos, desejos, etc) dificulta a comunicação com estados superiores de consciência.

Agora, vamos falar sobre Darshan.

É compreensível a onda crescente de ateísmo, por diversos fatores, entre eles gostaria destacar a falta de uma conexão com o divino. Muitas pessoas vão para as suas congregações, missas, cultos, etc. contudo poucos apresentam sinais de terem vidas diferentes das pessoas que não fazem o mesmo e o fato é que poucas estão tendo experiências válidas. Talvez a pista para o porquê disso ocorrer esteja no meu post anterior.

Diferentemente da nossa situação, as culturas mais antigas guardam registros de fatos extraordinários ocorridos com os devotos sinceros e hoje pretendo lançar luz sobre uma doutrina interessante. Darshan é o nome na filosofia Indiana para “visão”, visão de algo que abençoe aquele que vê. O termo é extremamente vago, contudo meu interesse aqui é falar sobre Teofania (Theophaneia, em grego significa aparição de deus).

Certa vez ouvi falar de um sábio que disse “Até que você tenha uma experiência direta com Deus, a melhor escolha é ser um agnóstico, afinal você não tem certeza da existência ou da inexistência de algo divino”. É razoável dizer que essa postura é uma postura equilibrada, porém o paradoxo mora em que é, de certo modo, difícil ter uma experiência poderosa como uma Teofania sem estar aberto para isso. Por aberto eu me refiro a sinceridade e entrega completa.

Dito isso, é correto supor que uma experiência de tamanha magnitude não pode ser colocada em palavras, contudo Darshan sempre é acompanhado de uma mudança de vida que tem como raiz a mudança mental (metanoia) profunda que ocorre. Afinal é naturalmente inevitável uma transformação quando o véu cai.

Texto de Aurílio Santos, um dos autores do blog O Alvorecer.

#Religiões

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/dhikr-e-darshan

Reflexões místicas com Joseph Campbell (parte 3)

Uma entrevista com Joseph Campbell, por Tom Collins
Originalmente publicada na revista The New Story (1985)

Tradução de Gabriel Fernandes Bonfim; Revisão de Rafael Arrais

« continuando da parte 2

3. A transcendência dos mitos

[Tom] O que o termo “transcendente” significa, na frase de Durkheim, “transparência para o transcendente”?

[Joseph] O significado simples do termo é aquilo que vai além de todos os conceitos e conceituações, ou aquilo que está além de toda conceituação.

[Tom] De onde vem esta experiência?

[Joseph] A sua vida é a sua experiência de energias transcendentes, porque você não sabe de onde sua vida vem, mas você pode experimentá-la. Estamos experimentando estas energias bem aqui, apenas por estarmos sentados nelas, sentindo-as borbulhar.

[Tom] Você está usando o “transcendente” como um outro termo para Deus?

[Joseph] Se você quiser personificar o termo. Brahman é a maneira sânscrita de falar sobre isso. Manitou é a forma dos Algonquin, Orinda a dos Iroquois, Owacan é a dos Sioux.

[Tom] Javé?

[Joseph] Javé é a personificação. Ele é isto que está além da conceituação.

[Tom] Não podemos falar o nome, no entanto…

[Joseph] Bem, assim deveria ser, mas sabemos tudo sobre ele, ou ele nos contou tudo sobre si mesmo e como devemos nos comportar. O conceito básico da mitologia é a transcendência da personificação. A personificação é uma concessão à consciência humana, de modo que possamos falar sobre essas coisas.

[Tom] Você quer dizer que, se o infinito se revela para você, sua pequena mente responde dizendo, “Deus falou comigo”, porque ela só pode entender o que aconteceu em seus termos limitados?

[Joseph] Isso mesmo.

[Tom] Eu percebo que você não é um grande amante da Bíblia.

[Joseph] Nem um pouco! É o livro mais excessivamente anunciado do mundo. É muito pretensioso para ser reivindicado como a palavra de Deus, ou ser aceito como tal e perpetuar essa mitologia tribal, justificando todos os tipos de violência a pessoas que não são membros da tribo.

O que eu vejo de mais lamentável no uso que fazem da Bíblia é que, apesar dela tratar de uma mitologia tribal circunscrita a um determinado local do mundo, e de lidar com um determinado povo em um determinado momento, os cristãos ampliaram isto para serem incluídos. Em seguida, tal interpretação coloca esta sociedade contra todas as outras, ao passo que a condição do mundo de hoje é que esta sociedade em particular, que é apresentada na Bíblia, não é nem mesmo a mais importante. Essa coisa é como um peso morto. Ela está nos puxando de volta, porque ela pertence a um período antigo. Não conseguimos nos soltar e nos mover para uma teologia moderna.

Uma das grandes promessas da mitologia é a que o leva a se perguntar: Com qual grupo social eu me identifico? E quanto ao planeta? Agora, afirmar que os membros deste grupo social em particular são a elite do mundo de Deus é uma boa maneira de manter tal grupo unido, mas olhe para as consequências! Acho que o que poderia ser chamado de chauvinismo santificado da Bíblia é uma das maldições do planeta nos dias atuais.

Nota do tradutor: “chauvinismo” é o termo dado a todo tipo de opinião exacerbada, tendenciosa ou agressiva em favor de um país, grupo ou ideia.

[Tom] Há muito material interessante no Antigo Testamento, não é? Por exemplo, ele diz que Deus criou tudo, exceto a água.

[Joseph] Você colocou o dedo na ferida. A água é a deusa, consegue ver? O que acontece no Antigo Testamento é que o princípio masculino permanece personificado e o princípio feminino é reduzido a um elemento. O primeiro verso diz que quando Deus criou, o sopro de Deus pairava sobre as águas. E a água é a deusa.

[Tom] Eu suponho que você não acredite em um real e literal “sete dias da criação”.

[Joseph] Claro que não. Isso não tem nada a ver com a história evolutiva real como agora a entendo.

[Tom] Como você reconcilia esses dois relatos?

[Joseph] Por que alguém deveria se preocupar com isso? Mais do que, por exemplo, em procurar reconciliar a história dos índios Navajos?

[Tom] Eu me lembro de ouvir uma palestra maravilhosa do falecido Louis Leakey em que ele insistiu que não havia conflito entre o relato de Gênesis sobre a criação e o que ele havia descoberto.

[Joseph] Bem, ele pode não ter lido com o cuidado devido. Há dois relatos bíblicos sobre a criação no mesmo Gênesis, um no primeiro capítulo e um no segundo, e eles são muito contrários um ao outro.

Já era tempo de havermos parado com esta ideia de, “Ó, nós temos de acreditar na Bíblia”. Eu teria ido logo trabalhar com a questão dos Navajo, onde eles se elevam através de quatro mundos. Um é vermelho, outro amarelo…

[Tom] Mas se você jogar fora a Bíblia como historia, não é também jogá-la fora como um imperativo moral?

[Joseph] Sim. Eu não acho que a Bíblia seja o imperativo moral de ninguém, a não ser que você queira ser um judeu tradicional. Isso é o que a Bíblia lhe diz.

[Tom] Ela não lhe diz como ser uma boa pessoa?

[Joseph] Não.

[Tom] Muitas pessoas pensam assim.

[Joseph] Basta lê-la. Talvez ela lhe dê algumas dicas, mas a Bíblia também lhe diz para matar todos na terra de Canaã, até mesmo os ratos.

[Tom] Como foi a passagem que você citou para justificar as ideias de exclusividade [dos judeus]?

[Joseph] “Não há Deus em todo o mundo senão em Israel”. Isso deixa todos de fora, exceto os judeus. Esta é uma das interpretações mais chauvinistas da moralidade.

Um dos grandes textos está em Êxodo, quando os judeus são instruídos a matar os cordeiros e colocar o sangue em sua porta para que o anjo da morte não mate nenhum dos seus filhos, e em seu lugar ele deve matar os filhos dos egípcios. E na noite anterior eles saem para pedir aos seus amigos egípcios que lhe emprestem as suas joias, e assim por diante. Então, na noite seguinte, eles fogem com as joias, e o texto diz que assim eles espoliaram os egípcios. Você chama a isto de boa ética?

[Tom] Qual é o enredo de algo como Caim e Abel?

[Joseph] Há um diálogo sumério muito interessante que apareceu cerca de 1.500 anos antes da história de Caim e Abel. Trata-se de um pastor e um agricultor competindo pelo favor da deusa. A deusa escolhe dar preferencia ao agricultor e a sua oferta. Bem, os judeus chegam nesta região, e eles não são agricultores, eles são pastores. E eles não têm uma deusa, eles têm um deus. Então, eles viraram a coisa toda de cabeça para baixo, e fazem Deus favorecer o pastor contra o agricultor.

O interessante é que por todo o Antigo Testamento, é o irmão mais novo que derruba o irmão mais velho em favor de Deus. Acontece diversas vezes. Isto é simplesmente em função do fato de que os judeus chegam aquela região como “o irmão mais novo”. Eles vêm como bárbaros beduínos do deserto, e chegam em áreas agrícolas altamente sofisticadas; e eles estão declarando que, embora os outros sejam os mais velhos – como Caim o era, o fundador das cidades e todas estas coisas –, eles são os preferidos de Deus. É apenas uma outra forma de chauvinismo santificado.

Você consegue entender o ponto de vista das religiões exclusivistas, não consegue? – “Você adora a Deus da sua maneira, eu vou adorar a Deus na maneira dele.”

» Em seguida, na parte final da entrevista, a modernidade e a carência de mitos…

***

Crédito da imagem: Android Jones

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). 

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

» Comprar livro impresso, PDF, ou versão para Amazon Kindle

#Mitologia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/reflex%C3%B5es-m%C3%ADsticas-com-joseph-campbell-parte-3

Hermes, Benedito e a Cadeira

Agora que sou um colunista neste Portal, estive pensando no que seria o conceito principal que procuraria defender e elaborar aqui. Como tendo a ver a espiritualidade de forma ecumênica, acredito que essa “conciliação de pensamentos”, esse ponto de encontro de diversas doutrinas e filosofias diferentes, parece ser uma causa nobre a ser buscada. Mesmo ateus e agnósticos, quando seres de certa espiritualidade, hão de concordar que o Cosmos é um lugar sagrado, que a Natureza é divina, e nesse caso não é necessário erguer um “deus barreira” entre nós… Talvez, o verdadeiro Deus esteja exatamente no entendimento, no movimento de um em direção ao outro, enfim, no amor possível entre todos nós – os seres da Criação.

Bem, e este diálogo é em homenagem a esta ideia:

(Hermes) Vê aquela cadeira, Benedito?

(Benedito) Claro, um belo exemplar talhado em madeira nobre.

(H.) Você sabe quem a talhou?

(B.) Certamente algum carpinteiro, mas não o conheci…

(H.) Do que necessitou para fazer esta obra?

(B.) Bem, além da madeira, provavelmente as ferramentas para o entalhe.

(H.) Ignoremos as ferramentas, você concordaria comigo em que o material principal foi à própria madeira, certo? Pois bem, imaginemos este nobre carpinteiro prestes a executar o entalhe, o que diria se no seu ateliê não existisse nenhuma madeira?

(B.) Bem, que ele certamente precisaria ir a alguma madeireira para comprar mais madeira…

(H.) Mas e se não existissem madeireiras?

(B.) Como assim? Nesse caso teria ele mesmo que ir derrubar árvores e extrair a madeira.

(H.) E se não existissem árvores? E se não existisse nenhuma madeira no mundo?

(B.) Porque suas conversas sempre ficam tão estranhas?

(H.) Isso não importa agora, o que importa é que você pense no que lhe falei…

(B.) Bem, supondo que não existissem árvores, nós tampouco existiríamos, e esse carpinteiro subitamente se torna alguma espécie de deus, ao meu entender.

(H.) Mas pensemos na cadeira: mesmo que não houvesse madeira nenhuma, ainda assim ela já estaria pronta, concorda?

(B.) Pronta aonde?

(H.) Na mente do carpinteiro. Ou você acredita que um carpinteiro possa dar sequer o primeiro entalhe nalgum bloco de madeira antes de ter a cadeira pronta em sua mente?

(B.) Compreendo. De fato: mesmo que não existisse madeira nenhuma no ateliê, o carpinteiro já poderia ter a cadeira pronta na própria mente, apenas esperando a madeira para construí-la.

(H.) Mas se não existisse madeira nenhuma, ela antes teria de ser inventada…

(B.) Aonde quer chegar?

(H.) Ora, e não é óbvio? Para se construir uma cadeira à partir do nada, antes é necessário inventar todo o Cosmos!

***

Posts relacionados a este tema, no meu blog:

» Como criar um universo (trecho do Projeto Ouroboros)

» Reflexões sobre o nada (em 3 partes)

» Maldito Benedito (em 2 partes)

***

Crédito da imagem: Photo2217

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph). Também faz parte do Projeto Mayhem.

» Ver todos os posts da coluna Textos para Reflexão no TdC

#ecumenismo #Espiritualidade #hermetismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/hermes-benedito-e-a-cadeira

Baba Yaga

Baba Yaga é o arquétipo da bruxa eslava presente no folclore russo e de todo Leste Europeu. Ela é um personagem muito mais profunda e intrincada do que as bruxas presentes nos mitos da Europa Ocidental, uma figura que inspira sentimentos contraditórios de medo, respeito e esperança.

Seu nome é um testemunho de sua identidade, assim como as muitas lendas que a cercam. O termo russo “Baba” é geralmente considerado ofensivo entre os eslavos. Ele serve para designar um tipo de mulher vingativa, que vive reclamando, que é grosseiramente desgrenhada, uma verdadeira matrona que jamais casou ou foi realmente amada ao longo de sua existência. Seria o equivalente a uma solteirona, uma velha que é consumida pela inveja de todos que são felizes e que vai se tornando cada vez mais amarga, perversa e cruel com o passar dos anos. “Yaga” é mais frequentemente traduzido como “bruxa”, mas tem vários outros significados, como “feiticeira”, “malvada”, “traiçoeira” e até “serpente”, algumas vezes a palavra também é usada para descrever uma situação de perigo, de medo ou até de fúria.

Em suas lendas, Baba Yaga vive nas profundezas de uma floresta selvagem quase inacessível. A vegetação nesse lugar cresce de maneira incomum, não natural. A copa das árvores impede a entrada dos raios de sol, os troncos são tomados de fungos venenosos e mesmo os arbustos são cheios de espinhos. Erva daninha e urtiga cresce selvagem. Os animais silvestres evitam esse bosque maligno; onde haveria o canto de pássaros e o zumbido de insetos, repousa apenas um silêncio sepulcral.

Em geral, existe um único caminho através dessa floresta erma, que se oferece como uma rota segura. Essa estrada de terra conduz até uma cabana arruinada de madeira. Trata-se de uma construção rústica, típica dos camponeses, com ripas de madeira engendradas umas sobre as outras e uma chaminé de tijolo sempre cuspindo fumaça. Através das janelas sujas pode ser vista uma luz amarelada de candeeiro. As telhas no alto parecem velhas, precisando de reparos, tudo é antigo e com uma aparência de flagrante abandono.

Ao redor da casa há um indicativo do perigo que reside nessa morada. Uma cerca baixa feita de ossos circunda toda a propriedade, crânios humanos servem de vigias no alto da murada macabra e à noite, órbitas vazias brilham com uma luminosidade fosforescente. O portão de entrada é feito de costelas arqueadas pendendo em postes erguidos com ossos compridos e amarelados. A fechadura fica na boca de uma caveira em meio aos seus dentes perolados. A campainha é um chocalho com falanges penduradas numa corda de cabelos que quando agitada emite um ruído de tilintar.

Por alguma razão, a porta de entrada da cabana sempre está voltada para o lado oposto da estrada. Quem deseja entrar precisa bater palmas ou chamar a atenção do dono em seu interior. Na realidade, Baba Yaga está sempre ciente quando há visitantes no seu alpendre, ela decide se quer receber visitas. Segundo a lenda, se esse for o caso, a cabana inteira estremece se erguendo artriticamente do chão de terra. Imensas pernas de galinha que servem como base de sustentação para o casebre se encarregam de posicioná-la corretamente, fazendo com que a porta fique diante de quem planeja entrar. Se por algum motivo o visitante se comportar de maneira desrespeitosa enquanto chama pelo dono da casa, a bruxa simplesmente comanda os pés da cabana a pisoteá-lo até esmagar cada osso de se corpo. Mas em geral, Baba Yaga concede ao visitante o direito de adentrar o seu pavoroso covil.

A bruxa em si é uma visão medonha, uma velha magra com um longo nariz em forma de anzol, tomado por verrugas e um queixo pontudo. Longos cabelos cinzentos e oleosos, por não serem lavados há anos, descem pelos ombros e pelas costas encarquilhadas. Sua coluna é tão encurvada que ela anda abaixada dando a impressão de que o nariz vai tocar o chão. Mas isso é um artifício para esconder seu sinistro sorriso composto de fileiras de dentes extremamente afiados. O corpo da bruxa é tão magro que os andrajos remendados que ela veste pendem soltos na sua silhueta esquálida. Apesar de parecer extremamente frágil, Baba Yaga é rápida e extremamente forte, sendo capaz de subjugar um homem adulto com suas próprias mãos.

Algumas lendas mencionam que ela possui serviçais que protegem a sua cabana . São eles um grande e feroz cão de caça, um gato preto de olhos verdes extremamente malignos e uma espécie de árvore (alimentada com sangue) que cresce na frente de sua casa e cujos galhos se estendem como tentáculos. Essas criaturas são criadas magicamente e portanto dotadas de inteligência, obedecendo com intensão assassina a todas as ordens de sua mestra. Em algumas estórias eles cumprem tarefas como enviar mensagens, seguir vítimas ou proteger a casa na ausência da bruxa. Há ainda horríveis mãos decepadas de cadáveres que são enterradas na entrada da casa da bruxa e que servem de guardiões contra invasores. Quando alguém tenta forçar a entrada, essas mãos irrompem do chão para agarrar pés e tornozelos detendo o avanço. Haveria ainda três cavaleiros enigmáticos que cavalgam montarias fantasmagóricas e servem a bruxa em todos os seus desígnios.

Baba Yaga raramente deixa a sua cabana, na maioria das vezes ela aguarda pacientemente (como uma aranha no centro de sua teia) que alguma presa venha até ela. Ela é capaz de disfarçar seu covil através de um encantamento místico bastante real, fazendo com o aspecto sinistro dê lugar a uma casa confortável e convidativa. A própria bruxa pode assumir outras duas formas humanas mais agradáveis. A primeira é a de uma jovem mulher de cabelos negros e pele muito branca que anda descalça sobre a neve, protegida apenas por um manto de pele de raposa. Ela é escolhida quando a bruxa deseja atrair um homem valendo-se de luxúria. A outra forma é de uma mulher de meia idade, com roupas de camponesa e com o olhar reconfortante de uma mãe cheia de candura. Quando usa esse aspecto a casa exala um odor convidativo de comida recém preparada, de doces ou guloseimas. É claro, essas duas formas escondem a verdadeira face da bruxa que se diverte ao mostrar sua aparência decrépita antes de capturar suas vítimas.

Nas raras ocasiões em que ela deixa a segurança de sua cabana, ela utiliza uma espécie de pilão de madeira voador que a propele pelo ar, enquanto ela manobra a coisa com uma vassoura de palha que lhe dá rumo. Nas culturas eslavas, nada pode ser sinal de maior azar do que derrubar um pilão de moagem no chão, pois dizia-se que tal coisa podia atrair a raiva da Baba Yaga. Da mesma maneira, uma vassoura usada para varrer os dois pés de uma pessoa ao mesmo tempo funcionava como uma espécie de maldição, marcando o indivíduo para encontrar a terrível bruxa mais cedo ou mais tarde.

Os visitantes que entram na cabana, por vontade própria ou de alguma forma ludibriados, estão destinados a terminar no grande forno à lenha da bruxa. Ao menos esse é o fim da maioria das pessoas. Esses infelizes podem ser atacados de surpresa, simplesmente empurrados para dentro do forno ou desacordados após ingerir alguma poção, se fartar com uma ceia ou compartilhar da cama da bruxa (quando ela assume a forma da jovem dadivosa).

Como em todas as fábulas, existem algumas regras que podem salvar a pessoa de se tornar comida da feiticeira canibal. Oferecer-se para rachar lenha, varrer a casa, moer grãos ou preparar alguma refeição pode salvar o indivíduo da morte certa. Em algumas circunstâncias demonstrar amabilidade, esperteza ou bravura pode resultar em um presente. Infelizmente, fazer perguntas inconvenientes, agir com grosseria ou desacatar a dona da casa é o caminho mais rápido para a perdição.

Presente em todo Leste Europeu e na Rússia, a Baba Yaga sempre foi (e ainda é) uma entidade extremamente popular que domina o folclore local. Mesmo durante os anos mais rígidos impostos pelo regime comunista da União Soviética, os velhos mitos que cercavam a bruxa não foram inteiramente esquecidos. Durante os pogrons impostos pelo regime, muitas mulheres foram poupadas de serem desalojadas de suas cabanas, não pela bondade repentina dos comissários sovietes, mas porque muitos temiam que a cabana pudesse ser a morada da feiticeira. Da mesma maneira, relatos de soldados que supostamente encontraram ou até se aventuraram na cabana de Baba Yaga, se tornaram recorrentes tanto na Primeira quanto na Segunda Guerra Mundial. O próprio Exército Vermelho espalhou um boato para conter uma onda de deserções que Baba Yaga atacava soldados solitários nas florestas. Diante da perspectiva de enfrentar a máquina de guerra nazista ou a bruxa faminta, muitos soldados preferiam tentar a sua sorte contra o exército alemão.

Apesar de ser uma criatura essencialmente maligna, Baba Yaga em alguns momentos está disposta a ajudar quem a procura, especialmente se a pessoa tiver sofrido uma injustiça ou perseguição. Não raramente ela sabe de algum problema ou aflição e tenta a pessoa com uma solução para seu dilema oferecendo algum talismã, amuleto ou feitiço miraculoso. Confiar demasiadamente na velha, entretanto pode ser fatal, seu humor é tão volúvel quanto o clima e de uma hora para outra, um aliado pode acabar lançado no forno.

Poucas coisas são capazes de machucar Baba Yaga, ela é imune a armas e a maioria dos ataques físicos simplesmente não resultam em nada em seu corpo. Contudo, ferro frio (não moldado) é capaz de feri-la e talvez até matá-la. Magias também podem ser um trunfo, embora ela conheça a maioria dos abascantos que neutralizam ou anulam feitiços.

Como muitas figuras do folclore, Baba Yaga é mais uma força da natureza do que um símbolo de morte, maldade e destruição. Ainda que seja uma criatura de comportamento imprevisível ela é uma boa juíza de caráter e quando percebe algum atributo ou virtude digna de nota em uma vítima em potencial, prefere ouvir o que ela tem a dizer antes de simplesmente devorá-la. Ainda que esteja sempre faminta, característica por si só assustadora, os povos eslavos vêem nela uma fonte de sabedoria que não pode ser preterida.

Publicado originalmente no excelente blog Mundo Tentacular, de Luciano Paulo Giehl

#boardgames #Mitologia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/baba-yaga

A Pedra do Destino e o Trono Escocês

Por Walter Whitton Harris

A formação rochosa mais comum do Reino Unido é o arenito. Por onde quer que se viaje, encontrará casas, edifícios, estátuas e palácios revestidos com essa pedra.
Talvez a pedra mais famosa da Grã-Bretanha seja a Pedra do Destino, também conhecida por Pedra de Scone. A disputa dessa pedra tornou-se uma questão de honra para os escoceses, pois representa para eles um dos mais importantes símbolos de sua pátria.
A pedra à qual me refiro é de um pedaço de arenito, uma rocha cortada em formato retangular, irregular e tosco, medindo 67 x 42 cm, com 26 cm de altura, e pesando 152 kg.
Conta-se que a Pedra serviu de travesseiro para Jacó, o rochedo onde repousou sua cabeça quando sonhou da escada que se erguia aos Céus. A lenda continua, afirmando que a Pedra foi levada para a Escócia por descendentes de Scota, filha do faraó do Egito, e instalada num local chamado Scone por um rei que uniu o reino dos escoceses com o de outro grupo autóctone, no séc. IX.

No entanto, o arenito da Pedra do Destino é do tipo que se encontra na área de Perthshire, um condado a leste da Escócia. Fica difícil separar ficção de realidade.
Por aproximadamente 400 anos, os reis dos escoceses eram coroados, sentados na Pedra do Destino. Com o passar dos anos, a realeza escocesa foi se enfraquecendo, e a inglesa se fortalecendo, a ponto dos reis ingleses encararem os escoceses como seus vassalos, inaceitável para os escoceses até os dias de hoje.
Nos finais do séc. XIII, a Inglaterra se via em guerra com a França e convocou forças escoceses para participar. Desafiaram a convocação e ainda procuraram um tratado com os franceses. Isto bastou como desculpa para uma invasão da Escócia. O rei escocês foi aprisionado e enviado para a Torre de Londres. Os símbolos nacionais, a coroa, o cetro, a espada e também a Pedra do Destino foram confiscados e enviados para Londres em 1296, na tentativa de esmagar a identidade daquele povo.
Por 700 anos, os reis da Inglaterra e, posteriormente, da Grã-Bretanha e Irlanda, foram coroados sobre a Pedra na Abadia de Westminster, em Londres. Durante todos estes anos, a Pedra de Scone ficou debaixo do Trono de Coroação inglês. Entretanto, um rei escocês sentaria novamente na Pedra do Destino: em 1603, Jaime IV da Escócia tornou-se Jaime I da Inglaterra, assim unindo as duas Coroas. A última coroação foi em 1953, quando subiu ao trono a Rainha Elizabeth II. Aberta para visitação pública, tivemos ocasião de ver a Pedra na Abadia de Westminster em 1992.
A ausência dos símbolos nacionais da Escócia jamais mitigou os escoceses de sua cidadania. Até a união das nações no séc. XVII, continuaram coroando seus reis e estabelecendo suas próprias leis e tratados.
No dia de Natal de 1950, estudantes escoceses conseguiram remover a Pedra da Abadia de Westminster e levá-la para a Escócia. Alguns meses depois foi descoberta e novamente instalada sob o Trono de Coroação. Este ato foi ilegal, mas os estudantes não foram sequer processados. Porém, o incidente demonstrou como muitos escoceses do séc. XX se sentiam em relação aos símbolos de sua nação em poder dos ingleses.
Foi totalmente inesperado o discurso do Primeiro-ministro britânico, ao se levantar na Casa dos Comuns do Parlamento, em 3 de julho de 1996:
“A Pedra do Destino é o símbolo mais antigo da realeza escocesa. Foi utilizada na coroação dos reis escoceses até o fim do século XIII. Exatamente 700 anos atrás, em 1296, o Rei Eduardo I a trouxe da Escócia para hospedá-la na Abadia de Westminster. A Pedra é de propriedade da Coroa. Quero informar a esta Casa que, aconselhada pelos seus ministros, a Rainha concordou que a Pedra deva ser devolvida para a Escócia. É claro, a Pedra continuará sendo usada nas tradicionais cerimônias de coroação dos futuros soberanos do Reino Unido.
“A Pedra do Destino tem um lugar muito especial no coração dos escoceses. Nesta data de 700 anos da remoção da Escócia, é apropriado que retorne a seu lar. (…) A Pedra será colocada num local apropriado na Escócia (…) ao lado das Honras da Escócia, as jóias da coroa mais antigas da Europa (…).”
No dia 30 de novembro de 1996, Dia de Santo André, padroeiro da Escócia, num cerimonial rico em pompa e circunstância, a Pedra foi instalada no Castelo de Edimburgo, na Sala da Coroa, construída por Jaime IV da Escócia (depois Jaime I da Inglaterra), que uniu as Coroas dos dois países em 1603. Se não bastasse, foi também autorizada a formação do Parlamento Escocês, inexistente por muitos séculos.
Foi com enorme satisfação e emoção que pudemos ver a Pedra do Destino naquele local, em 2002, acompanhada das coroas escocesas, a espada e o cetro, os maiores símbolos do povo escocês.

#Mitologia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-pedra-do-destino-e-o-trono-escoc%C3%AAs

A Nuvem sobre o Santuário – Carta 1

Por Karl von Eckartshausen.

O nosso século é de preferência a qualquer outro o mais notável para o observador imparcial e sereno. Por toda parte existe fermentação tanto na alma como no coração do homem; encontra-se a cada passo o combate da luz e das trevas, de idéias mortas e idéias vivas, da vontade morta e inerte com a força viva e ativa; se vê por todo lado enfim, a guerra entre o homem animal e o homem espiritual que desperta.

Homem natural renuncia às tuas últimas forças; até teu próprio combate revela a tua natureza superior que repousa em teu seio. Presentes a tua dignidade, tu a sentes mesmo; porém tudo é ainda obscuro ao teu redor e a lâmpada da tua pálida razão não é suficiente para iluminar os objetos aos quais deverias aspirar.

Diz-se que vivemos no século das luzes e seria mais justo dizer que vivemos no século do crepúsculo: aqui e ali, o raio luminoso penetra através da nuvem das trevas, mas ele não ilumina ainda com toda a sua pureza nossa razão e nosso coração. Os homens não estão de acordo sobre as suas concepções: sábios disputam; e onde há disputa, não existe a luz nem se conhece a verdade.

Os objetos mais importantes para a humanidade são ainda indeterminados. Não se está de acordo nem sobre o princípio da razão, nem sobre o princípio da moralidade ou do móbil da vontade. Isto prova que mau grado estejamos na grande época das luzes, ainda não sabemos bem o que ela representa em nosso cérebro e em nosso coração.

Seria possível que nós soubéssemos tudo isto mais cedo, se não imaginássemos que temos já a flama do conhecimento em nossas mãos, ou se pudéssemos lançar um olhar sobre a nossa fraqueza e reconhecer que ainda nos falta uma luz mais elevada.

Nós vivemos nos tempos da idolatria da razão, depositamos uma tocha sobre o altar, proclamamos em altas vozes que a aurora está despontando e que por toda parte o dia aparece realmente, e deste modo o mundo se eleva cada vez mais da obscuridade à luz e a perfeição, pelas artes, as ciências, gosto refinado ou mesmo por uma perfeita compreensão da religião.

Pobres homens! até onde haveis exaltado a felicidade dos homens?

Existiu jamais um século que tivesse custado tantas vítimas como o presente? Existiu jamais um século no qual a imoralidade e o egoísmo tenham predominado mais do que neste? Conhece-se a árvore pelos seus frutos.

Insensatos!… Com o vosso falso raciocínio… onde obtivesses a luz com a qual quereis esclarecer os outros? Será que todas as vossas idéias não são tiradas dos sentidos, que não vos dão qualquer verdade mas somente os fenômenos externos?

Tudo aquilo que dá o conhecimento no tempo e no espaço não é relativo? Tudo aquilo que nós podemos chamar verdadeiro, não é apenas uma verdade relativa?… Não se pode achar a verdade absoluta na esfera dos fenômenos externos.

Assim sendo, vosso raciocínio não possui a “Essencialidade” mas somente a aparência da verdade e da Luz; assim é que, quanto mais esta aparência aumenta e se expande, mais a “Essência da luz” decresce no interior, e o homem se perde na aparência e tateia para atingir as fantásticas imagens despidas de realidade.

A filosofia do nosso século eleva a fraca razão natural a objetividade independente; atribuindo-lhe mesmo um poder legislativo, isentando-a de uma autoridade superior. Torna-a autônoma e a diviniza, suprimindo entre Deus e ela toda relação, toda comunicação, e esta razão deificada, que não tem outra lei que a sua própria, deve governar os homens e torná-los felizes!… As trevas devem expandir a luz!… A pobreza deve dar a riqueza!… E a morte deve dar a vida!…

A verdade conduz os homens à felicidade… Podeis vós dá-la?

O que, vós chamais verdade é uma forma de concepção vazia de substância cujo conhecimento foi adquirido externamente, pelos sentidos; o entendimento coordena-os por uma síntese das relações observadas em ciência ou em opiniões. Vós não tendes absolutamente verdade material, o princípio espiritual e material é para vós um Número.

Retirais das Escrituras e da tradição a verdade moral, teórica e prática; mas como a individualidade é o princípio de vossa razão, e o egoísmo é o móbil da vossa vontade, não vedes a vossa luz interior, a lei moral que governa todas as coisas, ou a rechaçais com a vossa vontade. É até lá que as luzes atuais foram conduzidas. A individualidade sob o manto da hipocrisia filosófica, é a filha da corrupção.

Quem pode afirmar que o sol está em pleno meio dia, se nenhum raio luminoso alegra a terra e nenhum calor vivifica as plantas? Se a sabedoria não melhora os homens e o amor não os torna mais felizes, bem pouca coisa se fez ainda para o todo.

Oh! se somente o homem natural ou o homem dos sentidos pudesse perceber que o principio de sua razão e o móbil de sua vontade, são somente a individualidade, e que por isto mesmo, ele devia ser extremamente miserável, procuraria um princípio mais elevado no seu interior, e aproximar-se-ia da única fonte que pode saciar a todos, porque ela é a “Sabedoria na sua própria essência”.

J.C. é a Sabedoria, a Verdade e o Amor. Como Sabedoria Ele é o princípio da razão, a fonte do conhecimento, a mais pura. Como Amor Ele é o princípio da moralidade, o móbil essencial e puro da vontade.

O Amor e a Sabedoria engendram o Espírito da Verdade, a luz interior, esta luz ilumina em nós os objetos sobrenaturais e os torna objetivos.

É inconcebível observar até que ponto o homem cai no erro quando ele abandona as verdades simples da fé, e a elas opõe a sua própria opinião.

Nosso século procura definir cerebralmente o princípio da razão e da moralidade, ou do móbil da vontade; se os senhores sábios estivessem atentos, veriam que estas coisas encontrariam melhor resposta no coração do homem, mais simples, que em todos os seus brilhantes raciocínios.

O cristão prático encontra este móbil da vontade, princípio de toda imoralidade, objetiva e realmente no seu coração e este móbil se exprime na seguinte fórmula:

“Ama a Deus sobre todas as coisas e ao teu próximo como a ti mesmo”.

O amor de Deus e do próximo é, o móbil da vontade do cristão; e a essência do próprio amor é Jesus Cristo em nós.

Assim é que o princípio da razão é a sabedoria em nós; e, a essência da sabedoria, a sabedoria em sua substância é ainda J.C. – a Luz do Mundo. Assim encontramos nele o principio da razão e da moralidade.

Tudo o que eu digo aqui não é, uma extravagância hiperfísica, é a realidade, a verdade absoluta que cada um pode comprovar experimentalmente desde que recebe em si o princípio da razão e da moralidade, J.C. como sendo a Sabedoria e o Amor essenciais.

Mas a visão do homem dos sentidos é profundamente inapta para captar a base absoluta de tudo aquilo que é verdadeiro o transcendental. Mesmo a razão que nós queremos elevar hoje sobre o trono como legisladora, é tão somente a razão dos sentidos, cuja luz difere da luz transcendental, como a fosforescência do fogo-fátuo difere do esplendor do sol.

A verdade absoluta não existe para o homem dos sentidos mas somente para o homem interior e espiritual que possui um sensorium próprio; ou, para dizer mais precisamente, que possui sentido interior para perceber a verdade absoluta do mundo transcendental; um sentido espiritual que percebe os objetos espirituais tão naturalmente em objetividade, como o sentido exterior percebe os objetos exteriores.

Este sentido interior do homem espiritual, este sensorium de um mundo metafísico não é, infelizmente ainda conhecido de todos, é um mistério do reino de Deus.

A incredulidade atual para todas as coisas onde a razão dos nossos sentidos não encontra ponto de objetividade sensível, é a causa que nos faz desconhecer as verdades, as mais importantes para o homem.

Mas, como poderia ser de outra forma? Para ver é necessário ter olhos; para ouvir, ouvidos. Todo objeto sensível requer seu sentido. Assim é que o objeto transcendental requer também seu sensorium, – e este mesmo sensorium está fechado para a maioria dos homens. Desta forma o homem dos sentidos julga o mundo metafísico como o cego julga as cores, e como o surdo julga o som.

Existe um princípio objetivo e substancial da razão e um móbil objetivo e substancial da vontade. Estes dois conjuntos formam o novo princípio da vida cuja imoralidade, é essencialmente inerente. Esta substância pura da razão e da vontade reunidas é o divino e o humano em nós; J.-C. a Luz do mundo que deve entrar em relação direta conosco para ser realmente conhecida.

Este conhecimento real é a fé viva onde tudo se passa em espírito e em verdade.

Assim, deve existir necessariamente para essa comunicação um sensorium organizado e espiritual, um órgão espiritual e interior, susceptível de receber essa luz, mas que está fechado na maioria dos homens pela espessura dos sentidos.

Esse órgão interior é o sentido intuitivo do mundo transcendental, e antes que esse sentido de intuição seja aberto em nós, não podemos ter nenhuma certeza objetiva da verdade mais elevada. Este órgão foi fechado por conseqüência da queda, que atirou o homem no mundo dos sentidos.

A matéria grosseira que envolve esse sensorium interior é uma catarata, ou véu que cobre a visão interior, tornando a visão exterior inapta à visão do mundo espiritual. Esta mesma natureza ensurdece nosso ouvido interior, de maneira que não ouvimos mais os sons do mundo metafísico; ela paralisa nossa língua interior, de maneira que nós não podemos mais nem mesmo balbuciar as palavras de força do espírito que pronunciávamos outrora pelas quais nós governávamos a natureza exterior e os elementos.

A abertura desse sensorium espiritual é o mistério do Novo Homem, o mistério da Regeneração e da união a mais íntimo do homem com Deus; é a meta mais elevada da religião aqui em baixo, desta religião cuja finalidade mais sublime é de unir os homens a Deus em Espírito e Verdade.

Podemos facilmente perceber por meio disto, porque a religião tende sempre à sujeição do homem material. Ela age assim porque quer tornar o homem espiritual dominante, afim de que o homem espiritual ou verdadeiramente racional governe o homem dos sentidos.

O filósofo sente também esta verdade; seu erro somente consiste em não conhecer o Verdadeiro princípio da razão e querer colocar em seu lugar a sua individualidade, sua razão dos sentidos.

Como o homem possui em seu interior um órgão espiritual e um sensorium para receber o principio real da razão ou a Sabedoria divina, e o móbil real da vontade, ou o Amor divino, ele possui também no seu exterior, um sensorium físico e material para receber “a aparência” da, luz e da verdade. Como a natureza exterior não possui a verdade absoluta, mas somente a verdade relativa do mundo fenomenal, assim também a razão humana não pode mais adquirir verdades inteligíveis, mas somente a aparência do fenômeno que apenas excita nela, para móbil de sua vontade, a concupiscência, no que consiste a corrupção do homem sensorial e a degradação da natureza.

O sensorium externo do homem é composto de matéria corruptível, enquanto que o sensorium interior tem por substrato fundamental, substância incorruptível, transcendental e metafísica.

O primeiro é causa de nossa depravação e nossa mortalidade; o segundo é o princípio de nossa incorruptibilidade e imortalidade.

Nos domínios da natureza material e corruptível, a mortalidade esconde a imortalidade e a causa de nosso estado miserável é a matéria corruptível e perecível. Para que o homem seja libertado desta angústia, é necessário que o princípio imortal e incorruptível que está em seu íntimo se exteriorize e absorva o princípio corruptível, a fim de que o invólucro dos sentidos seja destruído e que o homem possa aparecer na sua pureza original.

Este invólucro da natureza sensível é uma substância essencialmente corruptível, que se encontra em nosso sangue, forma as ligações da carne e escraviza nosso espírito imortal a essa carne mortal.

É possível romper mais ou menos esse envoltório em cada homem e em conseqüência conceder a seu espírito, uma liberdade mais ampla, para que ele chegue a um conhecimento mais preciso do mundo transcendental.

Há três graus sucessivos de abertura em nosso sensorium espiritual.

O primeiro apenas nos eleva ao plano moral e o mundo transcendental, aí age em nós por impulsos interiores, chamados inspirações.

O segundo grau, mais elevado, abre nosso sensorium para a recepção do espiritual e do intelectual, e o mundo metafísico age em nós por iluminações interiores.

O terceiro é mais alto grau – o mais raramente alcançado – desperta o homem interior por completo. Ele nos revela o Reino do Espírito e nos torna susceptíveis de experimentar objetivamente as realidades metafísicas e transcendentais; daí todas as visões são explicadas fundamentalmente. Assim sendo, nós temos no interior, o sentido e a objetividade, como no exterior. Somente os objetos e os sentidos são diferentes. No exterior, existe o móbil animal e sensual que age sobre nós, e a matéria corruptível dos sentidos sofre a ação. No interior, é a substância indivisível e metafísica que se introduz em nós, e o ser incorruptível e imortal do nosso espírito recebe suas influências. Mas, em geral, no interior, as coisas se passam tão naturalmente como no exterior; a lei é por toda parte a mesma.

Portanto, como o espírito, ou nosso homem interior tem um senso completamente diferente e uma outra objetividade do homem natural, não devemos de maneira alguma surpreender-nos que ele fique um enigma para os sábios do nosso século, que não conhecem estes sentidos, e não tiveram jamais a percepção objetiva do mundo transcendental e espiritual. Eis aí porque eles medem o sobrenatural com a medida dos sentidos, confundem a matéria corruptível com a substância incorruptível, e seus julgamentos são necessariamente falsos sobre um assunto para a percepção do qual eles não possuem nem sentidos nem objetividade, e, por conseguinte, nem verdade relativa nem verdade absoluta. No que concerne as verdades que anunciamos aqui, temos que agradecer infinitamente à filosofia de Kant.

Kant incontestavelmente provou que a razão em seu estado natural, não sabe absolutamente nada do sobrenatural, do espiritual e do transcendental, e que ela nada pode conhecer, nem analiticamente, nem sinteticamente, e que assim sendo, ela não pode provar nem a possibilidade nem a realidade dos espíritas, das almas e de Deus.

Isto é uma grande verdade, elevada e benéfica para os nossos tempos; é verdade que São Paulo já a havia estabelecido (primeira epístola aos Coríntios Cap. I, V. 2-24); mas a filosofia pagã dos sábios cristãos soube ignorá-la até Kant.

O benefício desta, verdade é duplo. Primeiramente ela põe limites intransponíveis ao sentimento, ao fanatismo e à extravagância da razão carnal.

Em seguida põe na mais resplandecente luz a necessidade e a divindade da Revelação. O que prova que a nossa razão humana, em seu estado obtuso não tem nenhuma fonte objetiva para o sobrenatural sem a revelação; nenhuma fonte para instruir-se de Deus, do mundo espiritual, da alma e da sua imortalidade; de onde se segue que seria absolutamente impossível sem revelação, saber ou conjeturar nada sobre essas coisas.

Por isto nós somos devedores a Kant por ter provado nos nossos dias aos filósofos, corno já o havia sido desde muito tempo em escola mais elevada da comunidade da Luz, que “SEM REVELAÇÃO, NENHUM CONHECIMENTO DE DEUS E NENHUMA DOUTRINA SOBRE A ALMA SERIAM POSSÍVEIS”.

Por onde, é claro que uma revelação universal deve servir de base fundamental a todas as religiões de mundo.

Assim, segundo Kant está provado que o mundo inteligível é inteiramente inacessível à razão natural, e que Deus habita uma luz na qual nenhuma especulação da razão limitada pode penetrar.

Desta forma o homem dos sentidos ou homem natural não tem nenhuma objetividade do transcendental; daí, à revelação de verdades mais elevadas lhe é necessária e por isto também a fé na revelação, porque a fé lhe dá os meios de abrir seu sensorium interior, pelo qual as verdades inacessíveis ao homem natural lhe podem ser perceptíveis.

É perfeitamente plausível que com os novos sentidos possamos adquirir novas realidades. Estas realidades existem já, mas nós não as distinguimos porque nos falta o órgão da receptividade.

É assim que, embora as cores existam, o cego não as vê; o som também existe, mas o surdo não o escuta. Não devemos procurar a falta no objeto perceptível mas no órgão receptor.

Com o desenvolvimento de um novo órgão nós temos uma nova percepção, novas objetividades.

O mundo espiritual não existe para nós porque o órgão que o torna objetivo em nós não está desenvolvido. Com o desenvolvimento deste novo órgão, a cortina levanta-se imediatamente, o véu impenetrável até o momento, é rasgado, a nuvem à frente do santuário é dissipada, um novo mundo surge num relance para nós; as vendas tombam dos olhos e nós somos, no mesmo instante, transportados da legião dos fenômenos para a da verdade.

Só Deus é Substância, Verdade absoluta, Ele só é aquele que É, e nós somos aquilo que Ele nos fez.

Para Ele, tudo existe na unidade; para nós, tudo existe na multiplicidade.

Muitos homens não têm a menor idéia deste despertar do sensorium interior como também não a têm para o “objeto” verdadeiro e interior da “Vida do Espírito”, que não conhecem; nem sequer pressentem de nenhuma maneira.

Daí, ser-lhes impossível saber que se pode perceber o espiritual e o transcendental e que se pode ser levado ao sobrenatural até à visão.

A verdadeira edificação do templo consiste unicamente em destruir a miserável cabana adâmica e construir a templo da divindade; isto é, em outros termos, desenvolver em nós o sensorium interior ou órgão que recebe Deus; depois deste desenvolvimento, o principio metafísico e incorruptível reina sobre o princípio terrestre e o homem começa a viver, não mais no princípio do amor próprio, mas no Espírito e na Verdade de que ele é o templo.

A lei moral passa então a ser amor ao próximo e, o mais puro, enquanto que, ela não é para o homem natural exterior dos sentidos, senão uma simples forma de pensamento; e o homem espiritual regenerado no espírito, vê tudo no ser, do qual o homem natural tem somente formas vazias do pensamento, o som vazio, os símbolos e a letra, que são todos imagens mortas, sem o espírito interior.

O fim mais elevado da religião é a união a mais íntima do homem com Deus, e esta união já é possível mesmo aqui em baixo, mas ela não o é senão pela abertura de nosso sensorium interior e espiritual que torna nosso coração susceptível de receber Deus.

Aí estão os grandes mistérios dos quais a nossa filosofia não duvida, e cuja chave não pode ser encontrada entre os sábios de escola.

Contudo sempre existiu uma escola mais elevada, à qual este depósito de toda ciência foi confiado, e esta escola era a comunidade interior e luminosa do Senhor, a sociedade dos Eleitos que se propagou, sem interrupção, desde o primeiro dia da criação até aos tempos presentes; seus membros, é verdade, estão dispersas pelo mundo, mas eles estiveram sempre unidos por um espírito e por urna verdade, e não tiveram jamais senão um só conhecimento, uma única fonte de verdade, um senhor, um doutor e um mestre, em que reside substancialmente a plenitude Universal de Deus, e que os iniciou, Ele só, nos mistérios elevados da natureza e do Mundo Espiritual.

Esta comunidade da luz foi denominada em todos os tempos a Igreja invisível e interior, ou a comunidade, a mais antiga, da qual nós vos falaremos mais detalhadamente na próxima carta.

#Martinismo #Ocultismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-nuvem-sobre-o-santu%C3%A1rio-carta-1

Podcast Mayhem – 05 – Vikings, Runas e Mitologia Nórdica

Neste episódio, Frater Qos, Rodrigo Grola, Cussa Mitre e Marcelo Del Debbio conversam sobre Mitologia Nórdica, tradições Vikings, Origens e usos das Runas, poesias das Edas e a cristianização dos fragmentos da mitologia; um pouquinho sobre os principais Deuses Nórdicos e muito mais.

Podcast do Projeto Mayhem

Faça parte do Projeto Mayhem!

#Podcast

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/podcast-mayhem-05-vikings-runas-e-mitologia-n%C3%B3rdica