Um drama persistente

» Parte 1 da série “Intoxicados”

Droga é toda e qualquer substância, natural ou sintética, que quando introduzida no organismo, modifica suas funções de forma considerável; Particularmente alterações nos sentidos, no caso dos entorpecentes.

Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774) é um romance de Johann Wolfgang von Goethe. Marco inicial do romantismo, considerado por muitos como uma obra-prima da literatura mundial, é uma das primeiras obras do autor, de tom autobiográfico. Werther – o protagonista – é marcado por uma paixão profunda e tempestuosa, marcada pelo fim trágico. Com seu suicídio, devido ao amor aparentemente não correspondido, Goethe põe um pouco de sua vida na obra, pois ele também vivera um amor não correspondido, apesar de, evidentemente, não ter cometido o ato de se matar. Em todo caso, tão profundamente descrito foi o drama e o suicídio do jovem Werther, que nos anos seguintes a publicação, diversas pessoas se mataram de forma semelhante na Alemanha e, em vários casos, um exemplar do livro era encontrado ao lado do corpo.

É sempre complexo lidar com os momentos em que a vida simplesmente parece não se desenrolar da maneira que esperávamos, que gostaríamos, particularmente nos casos de sentimentos não correspondidos. Sem dúvida que, quando éramos caçadores nômades, tais angústias provavelmente sequer tinham espaço em nossa mente: era preciso sobreviver, não havia muito tempo para refletir sobre a vida… Estranho de se pensar: foi exatamente quanto nos assentamos em grandes e luxuosas cidades, quando tínhamos comida fresca na geladeira e acesso fácil ao conhecimento elaborado da natureza, que passamos a nos angustiar com a vida. Será que a vida foi feita para vivermos sem exatamente pensarmos sobre ela?

Paradoxalmente, ao termos tempo de sobra para refletir sobre nossa própria vida, por vezes acabamos por, ao invés de celebrá-la e aproveitar o tempo livre para viver, criar uma enorme dramaturgia que insiste em tornar tudo cinza e melancólico, ao nos reafirmar que, ao contrário do que pensávamos, a vida não transcorre sempre da maneira que gostaríamos… Se é assim, vale a pena viver? A grande ironia é que o “mal do século”, a depressão, quase que sempre se caracteriza por um medo persistente da morte. Então, por nos angustiarmos com a vida, principalmente por temer a morte, acabamos por deixar de aproveitar este precioso momento do existir. Então, parafraseando o Dalai Lama, vivemos como se não fôssemos morrer, mas com grande medo da morte, e por fim morremos como se não houvéssemos sequer vivido, pois que foi uma vida de medo.

A primeira causa de morte por atos de violência no mundo não são os acidentes de trânsito, os homicídios nem os conflitos armados, mas o suicídio. Esse dado desconcertante foi revelado em 2002, numa reunião da Organização Mundial de Saúde (OMS) em Bruxelas. Ao lê-las (aparentemente pela primeira vez) para os convidados da cerimônia, o então primeiro-ministro da Bélgica, Guy Verhofstadt, não conteve o susto e, quebrando o protocolo, indagou incrédulo: “É isso mesmo?”. Sim, é isso mesmo, a pós-modernidade tem nos relegado esta herança macabra, em que uns optam por findar sua dramaturgia encerrando a própria vida, enquanto outros optam por viverem como se nem mesmo estivessem por aqui…

Ao longo do tempo, muitos encontraram refúgio dessa angústia na anestesia da própria alma… A lista das substâncias que deveriam vencer as depressões, mas que sempre ajudaram apenas alguns afetados, é muito longa. No decorrer dos séculos, os médicos testaram quase tudo o que influenciava o cérebro de alguma forma. O ópio já era considerado na antiga China um meio eficaz contra as doenças do ânimo. O “tratamento com ópio” devia curar a melancolia, mas devido ao seu enorme risco de vício, ao longo dos séculos as pessoas desistiram da droga (mas nem todas), sendo que ela há muito deixou de ser compreendida como um remédio para a angústia.

Em 1802, um médico londrino recomendava um pesado Borgonha contra a melancolia. A cannabis e a cocaína também eram comumente utilizadas no século 19 como medicamento. Nos anos 50, entraram em voga as anfetaminas estimulantes. Em 1953, causou sensação uma notícia que dizia que o medicamento utilizado para tuberculose, a iproniazida, também tinha efeito antidepressivo. Alguns anos mais tarde, porém, ele foi tirado do mercado, pois pode causar graves efeitos colaterais no organismo. De lá para cá, entretanto, temos observado uma grande corrida da indústria farmacêutica mundial em busca de antidepressivos cada vez mais eficazes e com menos efeitos colaterais… Ou, pelo menos, é o que o grande mercado da melancolia gostaria que vocês acreditassem.

Em 2008, o psicólogo Irving Kirsch, da universidade britânica de Hull, examinou os documentos americanos da autorização de quatro novos depressivos. Os produtos, aparentemente ajudavam apenas pacientes com depressão grave. À primeira vista, parecia que as substâncias mitigavam os sintomas da patologia independentemente de sua gravidade. Ora, formas mais amenas de melancolia costumam regredir naturalmente após certo tempo. Essas “curas espontâneas” são tanto mais comuns quanto mais leves forem os estados depressivos. Nos estudos de Kirsch comprovou-se que nos estágios de depressão leve, faz pouquíssima diferença se os pacientes usaram antidepressivos ou placebo (por exemplo, pílulas de farinha). Somente em depressões mais sérias a diferença estatística entre o preparado e o placebo se torna realmente relevante.

Não quero aqui, obviamente, dizer que depressivos devem deixar de se medicar. Muito pelo contrário, estou, como Kirsch, enaltecendo que os remédios são de grande auxílio, contanto que o paciente esteja efetivamente depressivo… A indústria farmacêutica é, ironicamente, junto com a indústria do comércio ilegal de drogas, um dos grandes mercados mundiais, provavelmente com as taxas de lucro mais elevadas – ao lado da indústria de armamentos. Estamos, pois, vivendo na era do culto ao lucro, capitaneada pelo deus do consumo. Não é nenhuma surpresa, portanto, que o seu grande profeta, o deus da tarja-preta, surja como o grande agente de barganhas por todas as partes do mundo capitalista.

É fácil compreender: se as indústrias deixam de visar apenas o auxílio à cura efetiva, e passam a dar prioridade às margens de lucro, me parece óbvio que seja cada vez mais comum às pessoas serem diagnosticadas apressadamente como depressivas. E, igualmente compreensível, que cada vez mais remédios antidepressivos sejam facilmente recomendados, mesmo nos casos em que não têm eficácia muito distante de uma pílula de farinha… Cada vez mais, o tratamento psicoterápico, tão essencial, é relegado a uma mera medição mecânica onde supostamente se mede um estado de tristeza e se receita antidepressivos X ou Y como tratamento. Cada vez mais, somos que tratados como máquinas complexas que, por alguma estranha razão, estão preferindo se anestesiar a encarar a própria melancolia, e viverem como se não estivessem mais aqui… Para o deus tarja-preta, no entanto, tudo está perfeitamente bem, contanto que não se matem, contanto que não parem de comprar suas maravilhosas “pílulas de felicidade comprimida”.

Mas, as estatísticas da OMS não mentem: não tem dado certo. As máquinas tristes continuam se matando, continuam preferindo se desligar a enfrentar o drama persistente da vida… Talvez fosse a hora de voltarmos a uma medicina de vida, e não de anestesia da vida. A um entendimento de que somos, afinal, seres, e não máquinas, por mais que isso contrarie o materialismo em voga. No fim, o que parece nos salvar da angústia do mundo é algo que sempre esteve dentro de nós mesmos, mas que em nossa dramaturgia encenada cuidadosamente para que continuássemos a buscar algo lá fora, e não aqui dentro, acabamos por ignorar, e a viver como se não tivéssemos uma alma para tomar conta.

Tomar conta de uma alma é uma grande responsabilidade. Requer a compreensão dos eventos da vida que podemos mudar e, sobretudo, daqueles que não podemos. Requer o olhar para si mesmo, e encarar de frente os momentos de tristeza… Não como o jovem Werther, que apostou toda a sua felicidade, toda a sua vida, no sentimento de outro alguém, mas como todo ser que está em via de desenvolvimento, e de lenta aquisição de sabedoria, e que aposta toda a sua vida na própria vida, na existência em si, neste divino momento, e apenas nele.

Há outros, porém, que foram ainda mais iludidos: que aprenderam a se entorpecer, e se tornarem insensíveis para a melancolia, ainda antes que ela viesse…

» Na continuação – o grande dilema do combate às drogas: reprimir ou tratar?

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Bibliografia

As informações científicas e estatísticas do artigo foram retiradas dos artigos Antidepressivos são mesmo eficazes?, pelo psicólogo e jornalista Jochen Paulus, que foi matéria de capa da revista Scientific American – Mente & Cérebro #226 (Duetto); e Escalada do suicídio, pela jornalista científica Luciana Christante, autora do blog Efeito Adverso.

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Crédito da imagem: Corbis

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A Teurgia

Introdução ao estudo da Kabala mística e prática, e a operatividade de suas Tradições e seus Símbolos, visando a Teurgia, de Robert Ambelain. 

Robert Ambelain nasceu no dia 2 de setembro de 1907, na cidade de Paris. No mundo profano, foi historiador, membro da Academia Nacional de História e da Associação dos Escritores de Língua Francesa.´ Foi iniciado nos Augustos Mistérios da Maçonaria em 26 de março (o Dictionnaire des Franc-Maçons Français, de Michel Gaudart de Soulages e de Hubert Lamant, não diz o ano da iniciação, apenas o dia e o mês), na Loja La Jérusalem des Vallés Égyptiennes, do Rito de Memphis-Misraïm. Em 24 de junho de 1941, Robert Ambelain foi elevado ao Grau de Companheiro e, em seguida, exaltado ao de Mestre. Logo depois, com outros maçons pertencentes à Resistência, funda a Loja Alexandria do Egito e o Capítulo respectivo. Para que pudesse manter a Maçonaria trabalhando durante a Ocupação, Robert Ambelain recebeu todos os graus do Rito Escocês Antigo e Aceito, até o 33º, todos os graus do Rito Escocês Retificado, incluindo o de Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa e o de Professo, todos os graus do Rito de Memphis-Misraïm e todos os graus do Rito Sueco, incluindo o de Cavaleiro do Templo. Robert Ambelain foi, também, Grão-Mestre ad vitam para a França e Grão-Mestre substituto mundial do Rito de Memphis-Misraïm, entre os anos de 1942 e 1944. Em 1962, foi alçado ao Grão-Mestrado mundial do Rito de Memphis-Misraïm. Em 1985, foi promovido a Grão-Mestre Mundial de Honra do Rito de Memphis-Misraïm. Foi agraciado, ainda, com os títulos de Grão-Mestre de Honra do Grande Oriente Misto do Brasil, Grão-Mestre de Honra do antigo Grande Oriente do Chile, Presidente do Supremo Conselho dos Ritos Confederados para a França, Grão-Mestre da França – do Rito Escocês Primitivo e Companheiro ymagier do Tour de France – da Union Compagnonnique dês Devoirs Unis, onde recebeu o nome de Parisien-la-Liberté.

“Uma Força mágica, adormecida pela
Queda, está latente no Homem. Ela pode
ser despertada, pela Graça de DEUS, ou
pela Arte da KABALA…”

[J.R. VAN HELMONT: “Hortus Medicinae – Leyde 1667].

1. Definição

A Teurgia [do grego theos: deus, e ergon: obra], é o aspecto mais elevado, mais puro, e também o mais sábio, disso que o vulgo denomina a Magia. Definir esta, reter a essência e o aspecto mais depurado, é chegar a primeira.

Pois bem, segundo Charles Barlet, “A Magia Cerimonial é uma operação através da qual o Homem busca forçar, pelo próprio jogo das Forças Naturais, as potências Invisíveis de diversas ordens a agirem conforme o que ele requer Delas. A esse efeito, ele as surpreende, as agarra, por assim dizer, projetando [pelo efeito das “correspondências” analógicas que supõe a Unidade da Criação], Forças das quais ele mesmo não é senhor, mas as quais ele pode abrir caminhos extraordinários, no próprio seio da Natureza. Daí esses Pantáculos, essas Substâncias especiais, essas condições rigorosas de Tempo e de Lugar, que é necessário observar sob pena dos mais graves perigos. Pois, se a direção buscada está por pouco que seja errada, o audacioso fica exposto a ação de “potências” junto as quais ele não é mais que um grão de pó…” [Charles Barlet: A Iniciação, n° de janeiro de 1897].

A Magia conforme se viu, não é mais que uma Física Transcendental.

Dessa definição, a Teurgia retém somente a aplicação prática: aquela da lei de “correspondências” analógicas, subentendendo:

1° – A unidade do Mundo, em todos seus componentes;

2° – A identidade analógica do Plano Divino e do Universo material, este sendo criado “a imagem” daquele e permanecendo seu reflexo, inferior e imperfeito;

3° – Uma relação permanente entre ambos, relação decorrente dessa identidade analógica, e podendo ser exprimida, ao mesmo tempo que estabelecida, por uma ciência secundária, chamada de Simbolismo.

Quanto ao “domínio” no qual vão se exercer esses princípios secundários, a Teurgia se separa claramente de Magia.

Esta somente aciona Forças Naturais, terrestres ou cósmicas, se exercendo só no domínio puramente material que é o Universo, e, por consequência, não sendo mesmo Causas Secundárias, no máximo “intermediárias”, de “Causas terciárias” pelo menos. Por consequência a ação da Magia perturbando a intenção das Causas Segundas, estas não fazendo mais do que exprimir a da Causa Primeira, se exercendo por uma de suas “possibilidades”. Daí esse restabelecimento inevitável do equilíbrio rompido, denominado “choque de retorno”, e que se segue a toda realização mágica, a violência desse efeito contrário é proporcional a amplidão e a duração da realização obtida. Pois é uma lei imprescritível, que o Mago deve pagar na dor, as alegrias que sua Arte tiver arrancado às “Imagens Eternas”, saídas do ABSOLUTO, depois orientadas e fixadas pelas Causas segundas.

É completamente diferente o domínio da Teurgia e das faculdades que ela movimenta, fatores puramente metafísicos e jamais cósmicos ou hiperfísicos. Pois é no próprio seio da Arquétipo, nas “possibilidades” que passam – imagens fugidias – na INTELIGÊNCIA PRIMORDIAL, que o Teurgo operará. Definamos pois esse domínio.

O Teurgo crê necessáriamente na existência de um só SER, Único, Eterno, Onipotente, Infinitamente Sábio, Infinitamente bom, Fonte e Conservação de todos os Seres emanados, e de todas as Criaturas passageiras. Esse SER único, ele o designará sob múltiplos Nomes, exprimindo por cada um dos “Raios” de Sua Glória, e que chamaremos aqui simplesmente: DEUS.

Porque DEUS em si é infinito em potências e possibilidades, o Bem e o Mal coexistem e se equilibram eternamente. Mas, porque Ele é também infinitamente Sábio, e é o Bem Absoluto, contemplando desde toda eternidade, em Sua Onisciência, todas as futuras possibilidades, opera entre eles eternamente, e por sua Onisciência, uma Discriminação que é eterna. Essa Discriminação constitui pois, face a face, o Bem e o Mal.

O que DEUS admite, retém, deseja, realiza e conserva, constitui um Universo Ideal, ou Arquetípico. É o “Mundo do Alto”, o Céu. O que Ele refuta, rejeita, reprova, e tende a destruir, constitui o “Mundo de Baixo”, o Inferno. E o Inferno é eterno, como o Mal que exprime, agora o compreendemos.

Como Deus é eterno, e contém em Si todas as “possibilidades” o Mal é eterno e Ele não pode destruí-lo. E como Ele é infinitamente bom, Ele não quer destruí-lo.

Então, como Ele é também o Infinitamente Sábio, Deus o transforma em Bem…

Mas , como o Mal também é eterno, como “princípio”, eterna é essa obra de Redenção dos elementos rejeitados, assim como é eterno o Bem que ele manifesta e realiza.

O Homem, como toda a criatura, leva em si uma centelha divina, sem a qual não poderia existir. Essa centelha, é a VIDA mesma. Esse “Fogo” divino, leva nele todas as possibilidades, assim como FOGO INICIAL de onde ele emana.. As boas como as más.

Pois ele não é mais que um reflexo, e entre o braseiro e a centelha, não há nenhuma diferença de natureza!

Esse “fogo” é pois suscetível de “refletir” o Bem ou de “Refletir” o Mal. Quando o Homem tende a se reaproximar de DEUS, ele sopra e anima em si o “fogo claro”, o fogo divino, o “fogo de alegria”. Quando ele tende a se afastar de DEUS, ele sopra e acende em si o “fogo sombrio”, o fogo infernal, o “fogo da Cólera”. Assim ele gera em si, como DEUS o faz no grande TODO, o Bem ou o Mal, o Céu ou o Inferno. E é em nós que levamos a raiz de nossas dores, e de nossas alegrias.

É a essa Obra de Redenção Universal e comum, que faz do Homem o auxiliar de DEUS, que a Teurgia convida o Adepto.

Talvez ele não venha a fazer milagres aparentes, e talvez ele ignore o Bem que tiver realizado. Mas, nessa própria ignorância, sua obra será cem vezes maior que aquela do mago negro, mesmo se este realizasse espantosos prestígios.

Pois estes últimos não farão mais que exprimir a realidade do Mal arquetípico e com eles colaborar. Dessa realidade, ninguém duvida, e essa colaboração lhe é bem inútil…

A Magia nos demonstra pois que nada se perde, que tudo se reencontra, e retoma seu lugar. “Cada um semeia o que colhe, e colhe o que semeou”, nos dizem as Escrituras.

O mago negro, no fundo, é um ignorante, que joga um jogo de tolo !

Seus desejos ou seus ódios envenenam seus dias, e representam o tempo perdido para o Conhecimento Verdadeiro. Ao entardecer de sua vida, ele poderá refletir. Nem Amor, nem a Fortuna, nem a Juventude, nem a Beleza, estarão mais em seu leito para justificar as Horas mal gastas. Somente lhe restará uma coisa: uma dívida a pagar, nesta ou em outra vida, e que nenhuma criatura no Mundo poderá pagar por ele.

Pois, querendo submeter “Forças” tão potentes quanto desconhecidas, tão misteriosas quanto terríveis, à seus desejos e a suas fantasias passageiras, ele terá talvez se tornado escravo inconsciente, mas jamais seu senhor!… Sem o saber, ele as terá servido…

“Quando mentimos e enganamos, diz Mephistópheles, damos o que nos pertence!…”. Pela voz de Goethe, é a multidão anônima dos Iniciados de todos os tempos que nos adverte!

Aqueles “princípios” que DEUS conserva, porque os deseja, desde toda eternidade, Ele os emana. Eles então se individualizam, depois se manifestam, por sua vez, e conforme sua natureza própria que é o Ideal inicial divino. O conjunto dessas “Emanações” constitui o Plano Divino ou Aziluth. Cada uma delas é um Atributo Metafísico. Há assim a “Justiça”, o “Rigor”, a “Misericórdia”, a “Doçura”, a “Força”, a “Sabedoria”, etc…

Como ele são de essência divina, se concebe que os metafísicos orientais, após os ter designado e dotado de um nome próprio, os tenham acrescido os finais “El” ou “Iah”, que significa “DEUS”, feminino ou masculino. Se obtém então essas denominações convencionais: “Justiça de Deus”, “Rigor de Deus”, etc…

Cada uma dessas Emanações, pois que são elas mesmas parte constituinte da DIVINDADE-UNIDADE , emana por sua vez modalidades secundárias de sua própria essência. E assim a seguir.

Assim se constituem esses seres particulares que chamamos de Anjos, Gênios ou Deuses, seres que as teodicéias agruparam em dez divisões convencionais. São os nove coros angélicos, aos quais se acrescenta aquele das “almas glorificadas”, da Teologia judeo-cristã e da Kabala.

No “Mundo de Baixo”, que DEUS rejeita [os Quliphoth, ou “Escórias”, da Kabala], cada um deles tem sua antítese, um ser absolutamente oposto, emanado por um dos Atributos Contrários, e que DEUS tende a fazer evoluir para Melhor e o Bem.

Há pois a “Injustiça”, a “Fraqueza”, a “Crueldade”, a “Insensibilidade”, e o “Erro”, e também aí se acresce os finais correspondentes, El ou Iah, se obtendo os Nomes Demoníacos: “Injustiça Suprema”, “Fraqueza Suprema”, “Crueldade Suprema”, etc…

Todas as “possibilidades”, rejeitadas “em baixo”, são destinadas a virem a ser “criaturas”, e, emergindo do Abismo pela Graça e o Amor de DEUS, elas constituem então o Mundo da prova e da Necessidade, a “Terra”, em hebreu Aretz, único reflexo superior desse Abismo.

Todos os Seres que não são, desde toda eternidade, os “Deuses Atributos” do ABSOLUTO, nascem no seio do Abismo, conjunto do que a Eterna Sabedoria rejeita eternamente. Da mesma maneira, os seres vindos de Baixo devem finalmente chegar “Ao Alto”, no “Palácio do Rei”, religados a uma das Dez Esferas antes citadas, mas aperfeiçoadas, evoluídas, se tornam por fim tais como DEUS o deseja eternamente, e ricas da totalidade de suas lembranças e de suas experiências passadas.

Todos esses seres se elevando pois outrora através de todas as “formas” possíveis e imagináveis da Vida, nesse vasto caleidoscópio que é a NATUREZA ETERNA; formas sucessivamente visíveis ou invisíveis, minerais ou vegetais, animais ou hominais. Chegadas a esse último estado, encruzilhada onde os espera a Liberdade moral e sua Responsabilidade, eles constituem então esse Mundo de Prova e de Fatalidade que é a “Terra”, precursor dos “Céus” simbólicos.

Em virtude dessa Liberdade e dessa Escolha, e se encontrando no plano de Aretz [“Terra”], submissos à Experiência, consequêntemente ao Sofrimento e a Morte transmutadora, os Homens podem, por sua aceitação ou recusa, sua escolha inteligente ou desarazoável, se elevar ou descer na Escala, escala dos “devires”.

Se notará que a Kabala dá o mesmo valor numeral a palavra Sinai e a palavra Soulam, significando escala [130]. A Guematria nos mostra aí uma das chaves principais da metafísica kabalística. Em efeito, essa “escala” está ligada a lenda do patriarca Jacó, palavra significando “que suplanta”. Para uma alma, subir, é, para uma outra descer. [Ver nos “Mabinoggion”, ou “Contos para o Discípulo”, o ensinamento bárdico a esse respeito, no conto de Peredur ab Ewrach]. E sobre a Roda Eterna, todas as almas passam sucessivamente por todos os estados [Ver a “Revolução da Almas” do rabino Issac Loriah]. Nessa subida sobre a escala , uma alma é o “suplantador” enquanto que uma outra é o degrau…

Pois, tendo chegado uma primeira vez no “Palácio Celeste”, mundo da plenitude, onde ele encontra por fim o conjunto de suas lembranças e de suas faculdades, o Ser pode tornar a descer voluntariamente sobre a “Terra”, em Aretz, e aí se encarnar, seja visando novas experiências e do benefício que daí decorre, seja com a finalidade altruística de ajudar os outros seres a se desprender do Abismo, a sair do Sheol [“Sepultura”]. E isso tantas vezes quantas ele desejar, protegido pelo Esquecimento.

Concebemos o inferno mental que seria a Vida se nos lembrássemos de tudo o que fomos ? Imaginemos o nosso eu imortal animando por exemplo uma aranha ? Nos vermos, como aranha, metida em um buraco infecto, dançando sobre uma teia, receptáculo de todas as sanies ou imundices, e devorando com as mandíbulas os cadáveres de moscas decompostos ? “O Esquecimento das vidas precedentes é um benefício de DEUS…” nos diz a tradição lamaica!

E porque a eternidade e o Infinito Divinos fazem com que o ABSOLUTO permaneça sempre inacessível ao Ser, mesmo tendo chegado ao “Palácio dos Céus”, eternos em duração, infinitos em possibilidades são “experiências” da Criatura, e assim, a Sabedoria e o Amor Divinos a fazem participar de uma eternidade e de um infinito relativos imagens e reflexos da eternidade e do infinito divinos, e por si mesmo, geradoras de um eterno vir a ser.

Mas não devemos confundir os Seres em curso de evolução para o Plano Celeste, e os Atributos do Divino, que são partes constituintes de DEUS.

E é pela onipotência do Verbo, se exprimindo através da prece e as santa Orações, por um caminho que se aproxima, tanto quanto é permitido ao Homem, de suas próprias perfeições, que o Teurgo desperta e põe em ação os Atributos Divinos, e o faz, se elevando até eles…

E é pelo Simbolismo, que lhe permite canalizar e conduzir essa ação, a “situando” no Tempo e no Espaço, que o Teurgo age então indiretamente sobre os Seres do Universo material.

Pois, partindo do princípio iniciático universal que a “parte” vale o “Todo”, e que “o que está em baixo é como o que está no alto”, esse Simbolismo lhe permite então realizar um microcosmo realmente em relação de identidade analógica com o Macrocosmo. Essa teoria se reencontra, degradada, no princípio do Envultamento e aquele do estabelecimento de seu “vulto”.

Pelo Simbolismo, o Teurgo realiza, sobre seu Altar, sobre seus Pantáculos, ou em seus Círculos operatórios, verdadeiros “vultos” do Mundo Celeste, do Universo material, dos seres que aí residem, da Forças que aí estão encerradas.

Mas, ao contrário do praticante da Magia vulgar, realmente ligado as virtudes particulares de seu objetos, de seus ingredientes, aos ritos [tornados fórmulas supersticiosas] de seu Sacramentário, assim como o Físico ou o Químico estão a aquelas de seus aparelhos de laboratório, dos corpos que eles utilizam, a aqueles das fórmulas de seus códex, o Teurgo não tem essa servidão supersticiosa. E ele não utiliza o Simbolismo a não ser como meio de expressão, complemento de seu verbo, este expressão de seu pensamento.

Pois o Simbolismo completa [no domínio das coisas inanimadas] o Gesto do Teurgo, seu Gesto completa sua palavra, sua palavra exprime seu pensamento, e seu pensamento exprime sua Alma. E esse é exatamente o segredo das “Núpcias fecundas do Céu e da Terra”.

Desse modo temos na Trindade Divina e na Trindade Humana :

DEUS UM…………………………..ALMA UNA
Pai………………………………………..Pensamento
Filho……………………………………..Palavra
Espírito Santo…………………………Gesto

Por fim, o Teurgo não pretende submeter, mas obter, o que é muito diferente! Para o Mago, o rito submete inexoravelmente as Forças a quem ele se dirige. Possuir seu “nome”, conhecer os “encantos”, é poder encadear os Invisíveis, afirmam as tradições mágicas universais.

Mas a lógica não admite, à essa pretensão, mais que três hipóteses justificativas:

a) ou as Forças dominadas o são sujeitas porque inferiores em potência ao próprio Mago. E então, nenhum mérito em dominá-las, e nenhum benefício a alcançar. Pois a Ciência oficial, com paciência e tempo, chegará ao mesmo resultado…

b) ou elas se prestam por um momento a esse jogo, aceitando uma servidão momentânea aparentemente, e na espera de uma consequência fatal, que escapa ao homem, mas à que, logicamente deve, seu proveito. Nesse caso o Mago é enganado, a Magia é perigosa, e como tal deve ser combatida…

c) essas Forças são inconscientes, logo sem inteligência e por consequência naturais. Nesse caso , a pretensão do Magista de submeter as “potências” do Além não é mais que uma quimera. Seu ritual, fastidioso, irregular em seus efeitos, imprevisível em suas consequências últimas, deve ser substituído por um estudo científico desses fenômenos, preludiando a sua incorporação no domínio das artes e das ciências profanas. Desde então, não há mais Magia…

Para o Teurgo, nenhuma “explicação” tendente a diminuir seus poderes é temida, pois que ele afasta de primeira todo fator material dotado de qualquer virtude oculta, toda força encerrada ou infundida por ritos em seus auxiliares materiais. Somente, o Simbolismo deve o unir ao Divino, com o elã de sua alma, por veículo. Já de início ele situa o problema: se dirigindo a DEUS pelo canal do Espírito e do Coração, nenhuma defloração do grande arcano deve ser temida, e, o que quer que advenha em suas diversas realizações, o Mistério dessas últimas permanece por inteiro.

O que o Mágico pagará a continuação com dor, o Teurgo completará com alegrias. E assim como dizem as escrituras, o Teurgo acumulará tesouros inalteráveis, enquanto que o Mágico realiza um mau futuro…

Texto retirado de Hermanubis Martinista.

#hermetismo #Maçonaria #Magia #Martinismo #Kabbalah #Rosacruz

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-teurgia

Gato é registrado como hipnoterapeuta

Isso porque a hipnose é considerada “Ciência Ortodoxa” e um ramo sério da Psicologia agora… se as coisas são feitas nas coxas com o que a sociedade considera “medicina séria”, dá pra ver o estrago que fizeram com temas mais complexos como Astrologia, Ervas, Homeopatia, etc… Às vezes dá vontade de fechar as portas e deixar os conhecimentos herméticos trancados dentro das Ordens Invisiveis mesmo…

da BBC Brasil

Um apresentador de um programa da BBC conseguiu registrar seu próprio gato como hipnoterapeuta junto a três organizações que representam o setor no Reino Unido.

Chris Jackson, apresentador do programa Inside Out, descobriu que a regulamentação da atividade de hipnoterapia é tão falha no Reino Unido que ele resolveu registrar seu gato George usando um certificado falso.

Cada uma das três organizações que regulamentam a atividade no país aceitou como prova das credenciais do gato um certificado de uma organização fictícia, a Sociedade Autorizada de Terapeutas Avançados da Mente.

O gato George foi registrado na Diretoria Britânica de Programação em Neuro-Linguística (BBNLP, na sigla em inglês), a Associação Unida de Hipnoterapeutas (UFH) e a Associação de Clínicos Profissionais de Hipnoterapia (PHPA).

Depois da divulgação ao programa da BBC, a UFH admitiu o erro, acrescentando que desde então o problema já foi resolvido.

Um porta-voz da PHPA informou que a organização faz um grande esforço para garantir que cada credenciado seja um hipnoterapeuta qualificado.

Já a BBNLP afirmou que o objetivo da entidade é fornecer benefícios para seus integrantes, e não certificar as credenciais dos candidatos.

Chris Jackson teve a ideia de investigar a concessão de credenciamentos para hipnoterapeutas depois de uma denúncia semelhante feita por um psicólogo americano.

Steve Eichel suspeitou que organizações representantes do setor nos Estados Unidos não checavam as credenciais de seus membros.

“Senti que tinha que testar minha hipótese e resolvi obter certificados para meu gato nas mais importantes organizações de hipnose dos Estados Unidos. Foi um processo assustadoramente simples”, afirmou.

#Ceticismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/gato-%C3%A9-registrado-como-hipnoterapeuta

Jesus Adolescente no Século XXI

Capítulo 1: Jesus estuda na minha classe!

Meu nome é João. Meu sobrenome é Ninguém. Sou João Ninguém no nome e na vida. Moro numa favela, sou feio, vou mal nos estudos e não tenho nenhuma habilidade especial. Como se isso não bastasse, tenho outros três colegas que se chamam João e todos eles são muito populares. Então toda vez que alguém chama:

– Ô, João!

Eu já nem me viro. Nas primeiras três vezes eu me virei, só para ouvir essa adorável resposta:

– Não é com você não, seu idiota!

Por isso, tento ficar na minha. Na boa, eu realmente detesto os outros três Joões. Não sei o que o pessoal enxerga nesses caras. São uns esquisitões.

Tem o João Batista. O sujeito é totalmente antissocial. Ele se veste com pelos de camelo e cinto de couro, mesmo no calorão de quarenta graus. Só come mel e gafanhotos. Tá certo que a gente aqui na favela é pobre, mas também não é pra tanto.

Ele só fica lá paradão do lado do esgoto, batizando todo mundo que passa, e a galera acha o máximo. Sorte dele que o esgoto passa bem no meio do nosso colégio. Assim ele pode continuar os batismos nos intervalos.

– Eu batizo com água! Mas depois vai vir um cara mais forte do que eu que vai batizar com fogo a rapaziada, e eu não vou ser digno nem de desamarrar os tênis dele.

O Batista não para de falar esse negócio e tira notas muito baixas. Ele sempre pega recuperação em biologia, mas o prof Mendel é bonzinho e arredonda a nota. Os dois gostam de conversar sobre mel e abelhas, sabe-se lá o porquê.

Já o João da Cruz tira notas melhores, mas também não é muito sociável. Só quer saber de rezar, ou “contemplar” seja lá o que for isso. Ele não para de falar sobre a “noite escura” mesmo quando está dia.

Ele e um tal de João Clímaco (sim, outro João! Ainda bem que é de outra turma, para não gerar ainda mais confusão) são muito amigos e vivem subindo e descendo juntos os dez degraus da escada da entrada principal do colégio. Não param de filosofar sobre a subida da escada, que chamam de “escada de Jacó”. O Jacó era um aluno antigo que uma vez pegou no sono e dormiu nessa escada. Não vi nada de mais nisso, mas nesse colégio o pessoal cria caso com as menores coisas.

Dizem que o Cruz gosta da Teresa de Ávila, que é outra colega nossa, mas eu acho que eles são apenas amigos. Também está cheio de “Teresas” na nossa classe. Tem a Teresa de Lisieux, que todo mundo chama de “Teresinha”, porque ela é pequena, delicada e não para de falar de flores. E tem a Teresa de Calcutá, que é muito boazinha e sempre quer ajudar todo mundo.

Nenhuma das três se destaca em termos de notas, mas a Calcutá sempre faz uns estudos extras. Não porque quer aumentar as próprias notas, mas para ajudar quem precisa.

O sobrenome do terceiro João é Evangelista. Ele é um aluno modelo: tira ótimas notas e é extremamente educado com todos. Seus hobbies são pescar e escrever. Todos gostam dele, porque é simplesmente impossível não simpatizar com o sujeito. Eu digo que o detesto apenas para manter a minha reputação, já que considero uma questão de princípio desprezar os três Joões.

A estranheza do Evangelista é ao menos respeitável: ele não sai gritando por aí como o Batista e nem fica subindo degraus como o Cruz. Ele anuncia o Juízo Final, mas faz isso de maneira discreta. Ele escreve histórias sobre anjos com trombetas, jogando fogo e sangue na Terra e matando todo mundo.

As histórias dele são muito populares na sala. Todos estão sempre aguardando o próximo capítulo.

– Quando é que sai o próximo capítulo, João?

– O quê? – perguntei.

– Não tô falando contigo, ô abobado! – retrucou Judas, com aspereza – por que é que você acha que todo mundo sempre quer falar com você, hein?

Resolvi deixar quieto. Eu às vezes respondia por reflexo. Uma falha minha.

Não era uma boa ideia bater boca com o Judas Iscariotes. Ele era o bad boy da turma e comprava briga com qualquer um. Se bobear, até com o Evangelista ele brigava. Havia boatos de que ele já havia metido uns socos no Simão e no Francisco, outros colegas nossos, por um motivo banal: eles eram felizes. Judas não.

– Também quero ler a continuação! – exclamou Francisco de Assis, com alegria – adorei os quatro animais cheios de olhos! O que eles significam?

– Somos eu, Mateus, Marcos e Lucas – respondeu João Evangelista, com um sorriso amigável.

Esses três eram grandes amigos de João, mas eram da outra turma. Também gostavam de escrever. Lucas não andava escrevendo muito ultimamente, já que estava estudando que nem um condenado para o vestibular. Ele queria fazer medicina. Era um dos poucos no nosso colégio que pretendia fazer curso superior.

Mas os melhores amigos do Evangelista eram Simão e Tiago. Os três gostavam de pescar juntos.

– O meu primo vai se transferir para nosso colégio na semana que vem – comentou Tiago.

– Qual o motivo da transferência? – perguntou Simão.

– Jesus disse que não pode realizar milagres em sua própria terra, porque lá as pessoas não têm fé, devido à dureza de seus corações – respondeu Tiago.

– Pensei que Jesus fosse seu irmão e não seu primo – observou Martinho Lutero.

– Você sempre adora uma boa polêmica, hein, Martinho! – exclamou Tiago, aborrecido – eu já cansei de dizer que ele é meu primo e não meu irmão. Quantas vezes terei que repetir isso?

– Está bem, está bem! – disse Martinho, com urgência – não precisa ficar zangado. E não é verdade que eu adoro uma boa polêmica. Erros devem ser apontados quando são encontrados.

– Eu concordo plenamente com sua afirmação, meu caro – disse Jerônimo Savonarola – nesse momento, por exemplo, vocês estão conversando em aula, o que é proibido. É melhor que sigam as regras. Não veem que estão sendo rudes com o professor Tomás?

– Estou mais preocupado com outra coisa – comentou o professor Tomás de Aquino.

– Deixe-me adivinhar – disse Jerônimo – o senhor está preocupado que o seu colega, o professor Giordano Bruno, está nos ensinando um monte de heresias nas aulas de física! Eu acho que chegou a hora de conversarmos sobre fogueiras. Ou será que devo denunciar o romance imoral do professor Abelardo com a professora Heloísa?

Jerônimo adorava acender fogueiras nos intervalos, que ele chamava de “Fogueiras da Vaidade”. Mas ele nunca queimava pessoas, apenas objetos que ele considerava ilícitos. As garotas da sala o odiavam, porque ele mandava que elas jogassem os brincos, pulseiras e maquiagem lá dentro, porque aquelas coisas eram do demônio.

– Eu só estou me perguntando o que são essas… criaturas que Francisco está segurando – disse Tomás.

– São apenas nossos irmãos vermes, professor – explicou Francisco – eles estavam num local perigoso do pátio do colégio e poderiam ser pisados a qualquer momento. Então eu os protegi.

Hildegarda de Bingen, a aluna mais inteligente da classe, deu um grito.

– Professor, há hora e lugar para isso – argumentou Hildegarda – não questiono as boas intenções de Francisco, mas isso já é um exagero. Sabemos que os animais devem ser respeitados, mas as Escrituras nos dizem com clareza que eles não estão em primeiro lugar na hierarquia da criação.

– Minha querida irmã Hildegarda – sorriu Franscisco – em respeito à senhorita e ao professor Aquino, irei encontrar uma morada adequada aos nossos irmãos e devolvê-los à natureza. Tenho a sua autorização, mestre?

– Pode ir – disse o professor Aquino, com um aceno de mão.

E Francisco saiu da sala aos pulos e com imensa alegria, cantando.

– Espere! – exclamou Rosa de Lima – deixe alguns deles aqui para usarmos em nossa penitência. Prometo que não irei machucá-los.

– A senhorita pode usar o meu cilício em vez disso – disse Francisco lá da porta, amavelmente – tenho um para você e outro para a sua amiga Catarina. Podem pegar na minha mochila.

– Agradeço imensamente – disse Catarina de Siena.

Rosa e Catarina gostavam muito de fazer penitências rigorosas, a ponto de sangrar. Sinceramente, eu tinha um pouco de medo delas e preferia ficar bem longe. Não entendia como, apesar de tanto sangue, parecia emanar uma grande paz e amor daquelas duas.

A próxima aula foi com o professor Agostinho. Simão sussurrou para Tiago:

– Quando o seu primo chega mesmo?

– Ele acabou de me mandar uma mensagem pelo celular – sussurrou Tiago em resposta – ele chega amanhã.

– Seu primo tem celular? – perguntou Simão, surpreso – pensei que ele havia feito um voto de pobreza.

– Ah, mas o celular dele é um modelo muito antigo – disse Tiago – então não conta. O único jogo que tem nele é o da cobrinha.

Tiago e Simão foram atingidos na cabeça por duas pêras.

– Vocês estão muito barulhentos! – exclamou o professor Agostinho – e estão usando celular no meio da aula?

– Professor, estamos falando sobre algo muito importante – argumentou Simão – é sobre a vinda de Jesus!

– Eu não já avisei a vocês que quem usa celular em aula vai para o inferno? – perguntou Agostinho.

– Nunca li nada disso em seus livros – observou Hildegarda.

– Bem, isso somente porque na época em que eu os escrevi ainda não havia celular – justificou-se o professor – ou de outra forma esse artigo de fé certamente estaria lá.

No dia seguinte, estávamos muito empolgados aguardando a vinda do primo de Tiago. João Batista não se continha de felicidade e batizou muita gente no esgoto naquele dia.

Até que ele adentrou pelos portões do colégio.

Usava calça jeans e tênis. Tinha uma barba respeitável e invejável, rara de se encontrar em adolescentes como nós. Ele vinha acompanhado de outros três rapazes de roupas brancas.

Ele cumprimentou Tiago e cada um apresentou os amigos para o outro.

– Esses são Miguel, Gabriel e Rafael – disse Jesus – eles ficarão um tempo conosco.

Leia a continuação no PDF ou pelo livro impresso.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/jesus-adolescente-no-s%C3%A9culo-xxi

Magia Sexualis de P.B. Randolph

Por Spartakus FreeMann

Nós nos propomos aqui através destas poucas linhas, traçar a vida e ensinamento de um dos principais iniciadores da Magia Sexual. Pascal Beverly Randolph, um homem do século XIX, ousará escrever e publicar livros que tratam da sexualidade e especialmente da magia sexual dentro de uma nação e de um século ainda muito puritanos.

Conteúdo:

P.B. Randolph

Pascal Beverly Randolph nasceu em 8 de outubro de 1825 em Nova York, ele era filho de uma mãe mestiça – de origem franco-malgaxe – Flora Beverly, e de um pai médico, Edmund Randolph. O casamento não duraria e Flora teve que criar o seu filho sozinha. Com a sua morte, ele seria criado por uma meia-irmã que iria negligenciar a sua educação e o deixaria por sua própria conta.

Por volta dos 15 anos, ele saiu de casa para se juntar à marinha. Ele viaja todos os oceanos em poucos anos. Ele forma o seu caráter através de vários contatos com marinheiros de diferentes origens e nações.

Aos 20 anos, Randolph sofre um acidente que o obrigou a deixar a marinha. Começou então a estudar medicina. Ao mesmo tempo, na atmosfera do nascente espiritualismo das irmãs Fox, Randolph começa se interessar pelo magnetismo de Mesmer, cujas reflexões sobre a polaridade animal teriam impacto nas suas próprias teorias sobre condensadores fluídicos e votos.

Em 1850, casou-se com uma índia chamada Mary Jane e ao mesmo tempo foi iniciado na Hermetic Brotherhood of Luxor, a Irmandade Hermética de Luxor, (então chefiada por Peter Davidson). Em 1855, vai para a Alemanha, onde entra em contato com a Fraternidade Rosae Crucis, na qual logo seria iniciado. Parece que não há nenhum documento conhecido sobre esta iniciação. Só se pode adivinhar a data exata e a cerimônia em si. No entanto, de acordo com Clymer, um dos sucessores de Randolph, ninguém poderia atingir o grau de Filósofo Iniciado dentro da F.R.C sem ter sido previamente recebido em uma Cúpula e ter sido reconhecido como Neófito lá e colocado sob a orientação e a instrução de um mestre. Diz-se que Randolph se tornou Supremo Grão-Mestre da Suprema Grande Cúpula na América em 1858.

Randolph passaria alguns meses em Paris em 1854, durante os quais conheceria Eliphas Levi, um dos maiores ocultistas de seu tempo. Ele estudaria as obras de Saint-Germain e Cagliostro. Lá ele descobre as obras escritas sobre os Ansaireth ou Nusairis da Síria, esse povo misterioso que não é judeu, nem cristão, nem mesmo muçulmano. Eles seriam os famosos Yezidis, adoradores do deus Pavão. Segundo o próprio Randolph, o líder dos Ansaireth, Narek El Gebel, que chegou à terceira Cúpula Rosa-Cruz em Paris com cartas de apresentação, reconhecendo em Randolph as aptidões exigidas, o convidou a vir à Síria para lá estudar com os Ansaireth. Pouco depois, Randolph empreendeu uma viagem iniciática na Turquia, Grécia e Oriente Médio para aprofundar os ensinamentos secretos dos Ansaireth.

Em 1860, Randolph fundou seu próprio Conselho Americano da FRC e logo retornou a Londres para ali encontrar Bulwer Lytton e Kenneth Mackenzie. De volta aos Estados Unidos, Randolph participou da Guerra Civil que acabara de estourar ao se alistar nas fileiras da União e levantar uma tropa de soldados negros, conhecida como “Fremont Legion (Legião Fremont)”. Ao final das hostilidades, Randolph milita pelos direitos dos negros. O assassinato de Lincoln o enoja com a política e ele decide se estabelecer como médico em Boston. Ele logo abriu uma nova loja de sua ordem lá.

Começa a escrever suas principais obras: Seership (Vidente), Love and the Master Passion (Amor e a Paixão Mestra), Eulis and the History of Love (Éulis e a História do Amor), bem como sua magistral Magia Sexualis. Em 1872, a publicação deste último livro fez com que fosse preso por incitação ao amor livre, mas foi libertado rapidamente. O grande incêndio que devasta Boston destrói completamente o escritório e o laboratório de Randolph, as placas originais de seus livros se perdem. Ele é denunciado pelos espíritas como libertino e seus próprios amigos começam a se afastar dele.

Em maio de 1873, Randolph sofre um acidente que lhe dá um vislumbre de seu fim iminente. Foi nesse momento mais sombrio de sua vida que ele mais uma vez encontrou o amor na pessoa de uma jovem ativista feminista, Kate Corson. O casamento logo foi celebrado e, em 1874, nasceu um filho, Osíris Budh, a quem Randolph considerava um deus desde que foi concebido segundo seus próprios princípios mágicos. Randolph continua a publicar seus trabalhos e a dar vida a um círculo da Irmandade de Éulis.

Em 29 de julho de 1875, Randolph morre em circunstâncias que permanecem misteriosas: Maria de Naglowska alegará que Blavatsky teria travado uma guerra oculta contra ele causando sua morte, segundo outras pessoas, teria sido um suicídio e, finalmente, para alguns outros, ele teria morrido durante um rito mágico… Parece, no entanto, que quando ele morreu, seu ensinamento mágico de essência puramente sexual desapareceu, oculto, talvez, por aqueles próximos a ele. Quando Clymer faz contato com a esposa e o filho de Randolph, eles alegam não saber nada sobre as instruções especiais e os materiais que tratam de doutrinas sexuais. Eles insistem apenas no caráter espiritual e moral da obra de Randolph, rejeitando o lado sexual mágico.

A Fraternidade de Éulis

A Fraternidade de Éulis foi fundada por volta de 1870 por Randolph como um corpo docente complementar ao da Fraternitas Rosae Crucis.

A chave para entender a Irmandade de Éulis pode estar no panfleto publicado por Randolph em 1875, The Book of the Triplicate Order, Rosicrucia, Eulis, Pythianae, no qual está escrito:

“Somos um organismo triplo, primeiro Rosacruz, pois somos os herdeiros desta Fraternidade e seus sucessores, e como tal cultivamos todas as ciências do conhecimento e para isso nos interessa tudo o que é obscuro, desconhecido e que corresponde ao aspectos mais profundos da natureza e as profundezas mais sutis da insondável alma humana.

Somos Pitianos porque somos pitagóricos que têm a relação mais íntima com a Fundação do Universo – o Deus da Natureza e sua Alma – e com o mundo espiritual e invisível, assim como a sede de maior conhecimento e da amizade mais verdadeira com nossos Irmãos e com o Mundo.

Somos Eulisianos, porque cultivamos os mais preciosos tesouros do pensamento que nos foram transmitidos através dos tempos; e traduzimos nosso nome oriental “Marek Gebel” – Portão da Luz – como Éulis ou o Portão do Amanhecer, nome pelo qual, durante este período o Terceiro Templo, a Ordem Tríplice, a Confraria e a Fraternidade serão doravante conhecidos.”

– Randolph, The Book of the Triplicate Order (O Livro da Ordem Triplicata).

Este texto, destinado ao uso dos membros da Fraternidade e dos candidatos à iniciação, também fornece uma história da Ordem.

Os candidatos são recebidos por votação usando bolas pretas e brancas. A Ordem é mista e tem 3 graus:

•       Construtor,

•       Arquiteto, e Cavaleiro do Templo para homens;

•       Construtora, Matrona e Irmã do Templo para as mulheres.

Há também um corpo supremo: a Loja da Pedra Angular cujo Conselho é composto por Irmãos e Irmãs: Hierarcas ou Melquisedeques, Hierofantes e Senadores.

Após a morte de Randolph em 1875, Freeman B. Dowd assumiu a liderança do F.R.C e da Fraternidade de Eulis. Em 1878, Dowd fundou uma Grande Loja na Filadélfia e em 1907, na época de sua aposentadoria, a sucessão foi assegurada por Edward Brown.

Quando Brown morreu em 1922, R.S. Clymer assumiu. Nascido em 1878, Clymer seria recebido como Neófito dentro da F.R.C e da Fraternidade de Éulis em 1897.

Em 1906 publicou suas duas primeiras obras The Rosicrucians, Their Teachings (Os Rosacruzes, Seus Ensinamentos) e Philosophy of Fire (Filosofia do Fogo).

Em 1911, ele decidiu se estabelecer em Quakertown no local de Beverly Hall, onde estabeleceu a sede da Ordem. Clymer logo entraria em conflito com Lewis e sua A.M.O.R.C. (Antiga e Mística Ordem da Rosa-Cruz). Com outros iniciados, ele cria a F.U.D.O.S.F.I. (Federação Universal das Ordens, Sociedades e Fraternidades Iniciáticas) para combater Lewis e a influência da F.U.D.O.S.I. (Federação Universal das Ordens e Sociedades Iniciáticas).

Magia Sexualis

Nas linhas seguintes, procuraremos descrever muito brevemente alguns pontos da doutrina mágica, ou Magia Sexualis, de Randolph.

“Após uma introdução apresentando os apetites espirituais da comunidade de Éulis, Magia Sexualis oferece inicialmente exercícios que permitem ao mago desenvolver as qualidades necessárias para a prática da magia: volância (emissão de uma intenção por visualização), decretismo (capacidade de emitir ordens peremptórias), posismo (posturas e gestos mágicos) e, finalmente, tirauclairismo, destinado a influenciar uma pessoa à distância. Para isso – que parece ser a obsessão do autor apesar dos grandes discursos sobre a luz celestial e o amor universal -, a parte seguinte intitulada “Magia” é dedicada à confecção de perfumes, cores e números, em adequação ao horóscopo da pessoa que você deseja sugestionar.” – Melmothia, La Magia Sexualis de Pascal B. Randolph

Os Fluidos e a Polarização dos Sexos

O Universo, assim como todos os seres vivos, sem exceção, são regidos pelo princípio das forças contrárias que exercem um poder absoluto de atração uns sobre os outros. Alguns os chamam de força positiva e força negativa e outros redescobrem neles o bom e o mau, a emissão e a recepção, a vida e a morte, o homem e a mulher. Assim, o polo feminino atrai o masculino e pode-se assim atrair para si as coisas desejadas pela criação de seu modelo oposto: criando o negativo para obter o oposto e, portanto, o positivo!

O falo do homem positivamente polarizado e o ktéis negativamente polarizados da mulher e o cérebro do homem é negativamente polarizado e de essência magnética enquanto o da mulher é positivamente e de essência elétrica.

As Operações Sexuais Mágicas ou Magia Sexualis

De acordo com o ensinamento de Randolph, as operações de magia sexual realizadas de acordo com as regras perseguem 7 objetivos principais :

1.      carregamento de condensadores fluídicos e os “Votos”;

2.      produção de uma influência e de um fluido magnético;

3.      realização de um projeto específico;

4.      determinação do sexo da criança a ser concebida;

5.      refinamento dos sentidos;

6.      regeneração da Energia Vital;

7.      provocação de visões sobre-humanas.

Randolph também fornece alguns princípios que são importantes conhecer para melhor entender e realizar os exercícios de magia:

1.      A união sexual considerada como oração. O homem que vive com sua esposa em sutil e perfeita harmonia e que pratica um ato sexual perfeito como casal consegue obter a realização de certos desejos. Mas é necessário que o pedido seja claro e formulado de forma clara pelos dois operadores.

2.      É aconselhável praticar o ato sexual com uma mulher de nível moral elevado, nunca se deve usar uma prostituta ou uma virgem ignorante ou uma menor de 18 anos. Buscaremos sempre realizar esses atos com nossos parceiros. É necessário que o espasmo masculino e feminino ocorram ao mesmo tempo, porque então resulta uma corrente mental que pode modificar o astral. O prazer compartilhado sofre então a lei da polarização oposta do casal: no homem o sexo é positivo e a cabeça negativa e na mulher o sexo é negativo e a cabeça positiva. Assim, o homem fertiliza fisicamente a mulher e a mulher fertiliza espiritualmente o homem.

3.      A união carnal deve ser inocente e não uma simples busca de prazer físico.

4.      O corpo deve ser saudável e a higiene respeitada como uma prática sagrada.

5.      As operações mágicas devem ser mantidas em segredo e deve-se tentar evitar o contato mundano ao se preparar para operações mágicas.

6.      Deve-se formular seus desejos com antecedência e não esquecer de formulá-los na hora do coito.

7.      Antes, durante e depois do ato de amor, deve-se ter em mente uma imagem clara do que se deseja.

8.      É necessário comer de forma simples e preferir alimentos naturais.

9.      Tome o ar duas vezes por semana: inspire profundamente e mantenha o ar o maior tempo possível.

10.     Não procure contato com seu parceiro com muita frequência. Faça amor uma ou duas vezes por semana.

11.     Não procure o ato se estiver doente ou com raiva.

12.     Durma bem.

13.     Nunca se esqueça do axioma: O amor é a base da vida.

14.     O momento em que o esperma entra no corpo da mulher é o momento mais fértil, de maior poder e de maior emoção.

15.     Se um homem deseja algo e o mantém em mente desde o momento em que entra até o momento em que se afasta da mulher, esse desejo será concedido todas as vezes.

16.     Todas as forças e o poder emanam do lado feminino de Deus.

Randolph aconselha 5 posições para atos de magia sexual

1.      O homem estendido sobre a mulher com a sua testa encontrada contra a testa dela. Esta posição destina-se a corrigir os sentidos e as habilidades dos operadores.

2.      De quatro, o homem mantendo o peito reto para penetrar por trás da mulher prostrada. Acredita-se que essa posição favoreça a projeção da influência para fora sobre uma pessoa escolhida, um voto…

3.      O homem e a mulher estão sentados frente a frente, sexos entrelaçados, bustos inclinados para trás enquanto dão as mãos. Esta posição reforça as influências mágicas sobre o exterior.

4.      O homem e a mulher estão sentados de frente um para o outro, a mulher cruzando as pernas ao redor dos lombos do homem, ambos testa com testa. Esta posição permite a realização de desejos comuns.

5.      De quatro, mas o homem se abaixa sobre as costas da mulher e apoia o queixo no pescoço dela. Esta posição permite influenciar a mulher.

Condensadores fluídicos

A magia é uma ciência, a única ciência que estuda, teórica e praticamente, as maiores forças da Natureza, aquelas que estão ocultas. Ela declara e prova que o Universo está, em suas menores partes, sujeito à influência de certos fluidos que são a base de todos os fenômenos físicos e psíquicos.

Para poder operar essas forças, é preciso concentrá-las num determinado ponto e depois redirecioná-las de acordo com a sua vontade. Estas operações de condensação podem ser realizadas de 4 maneiras diferentes:

1.      O operador pode usar sua própria energia;

2.      Pode utilizar as forças externas por indução;

3.      Pode vincular forças externas a um indivíduo que foi escolhido para esse propósito;

4.      Pode vincular essas forças a um objeto fornecido para esse fim.

Este último é conhecido há milênios como a “carga dos votos”. Existem diferentes tipos de materiais que podem ser usados para condensar fluidos: dois líquidos (tintas aplicadas a um talismã e líquidos guardados em garrafas) e um sólido (votos e estatuetas).

Os Votos e estatuetas

A utilização dos votos vem da observação das leis de correspondência, simpatia e polarização.

Votos são estatuetas que são preparadas de uma maneira particular, com a ajuda das leis de correspondência e simpatia, e que são carregadas com a força psíquica de um indivíduo para obter um resultado positivo ou negativo.

Deve-se notar que todas essas operações mágicas não são de forma alguma uma questão de libertinagem ou sexo vulgar ritualizado, mas uma busca espiritual. O orgasmo é santificado e se torna mágico. Segundo Randolph: “…Além da união carnal, busque a união das almas.”

Fonte:

FREEMANN, Spartakus. La Magia Sexualis, de Randolph à Naglowska. EzoOccult, publicado em 2001, atualizado em 2020. Disponível em: https://www.esoblogs.net/3318/la-magia-sexualis. Acesso em: 28 de fev. de 2022.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/a-magia-sexualis-de-pascal-beverly-randolph/

Alquimia segundo Rubellus Petrinus

A alquimia é das ciências ocultas que, atualmente, mais interesse tem despertado, não só pelos inúmeros livros que ao longo dos tempos foram escritos sobre a Arte Hermética, mas também, pela curiosidade de saber algo sobre a veracidade da misteriosa Pedra Filosofal, também conhecida por Medicina Universal.

Durante muito tempo a alquimia foi sinônimo de charlatanismo ou de ignara credibilidade. Muito do descrédito da alquimia era devido à falta de publicações sérias, pois muitas delas são imitações grosseiras, feitas por sopradores, (falsos alquimistas) dos verdadeiros e antigos textos, nas quais se une o absurdo com a ignorância. Atualmente, devido ao grande número de traduções das obras clássicas mais importantes dos grandes Mestres, a opinião de muitas pessoas mudou completamente.

A palavra alquimia, do árabe, al-khimia, tem o mesmo significado de química, só que, esta química, antigamente designada por espagíria, não é a que atualmente conhecemos, mas sim, uma química transcendental e espiritualista. Sabe-se, que al, em árabe, designa Ser supremo o Todo-Poderoso, como Al-lah. O termo alquimia, designa desde os tempos mais recuados, a ciência de Deus, ou seja a química de Al.
A alquimia é a arte de trabalhar e aperfeiçoar os corpos com a ajuda da natureza. No sentido restrito do termo, a alquimia sendo uma técnica é, por isso, uma arte prática. Como tal, ela assenta sobre um conjunto de teorias relativas à constituição da matéria, à formação de substâncias inanimadas e vivas, etc.

Para um alquimista, a matéria é composta por três princípios fundamentais, Enxofre, Mercúrio e Sal, os quais poderão ser combinados em diversas proporções, para formar novos corpos.
No dizer de Roger Bacon, no Espelho da Alquimia, «…A alquimia é a ciência que ensina a preparar uma certa medicina ou elixir, o qual, sendo projetado sobre os metais imperfeitos, lhe comunica a perfeição…»

A alquimia operativa, aplicação direta da alquimia teórica, é a procura da pedra filosofal. Ela reveste-se de dois aspectos principais: a medicina universal e a transmutação dos metais, sendo uma, a prova real da outra.

Um alquimista, normalmente, era também um médico, filósofo e astrólogo, tal como Paracelso, Alberto Magno, Santo Agostinho, Frei Basílio Valentim e tantos outros grandes Mestres hoje conhecidos pelas suas obras reputadas de verdadeiras.

Cada Mestre tinha os seus discípulos a quem iniciava na Arte, transmitindo-lhe os seus conhecimentos. Além disso, para que esse conhecimento perdurasse pelos tempos, transmitiram-no também por escrito, nos livros que atualmente conhecemos, quase sempre escritos sob pseudônimo, de forma velada, por meio de alegorias, símbolos ou figuras.

É isto que dificulta o estudo da alquimia, porque esses símbolos e figuras não têm um sentido uniforme. Tudo era, e atualmente ainda é, deixado à obra e imaginação dos seus autores.

O alquimista não é um fazedor de ouro como muita gente pensa. A transmutação só terá lugar, como já dissemos, como prova provada da veracidade da medicina universal ou pedra filosofal.

Hoje, como no passado, existem também alquimistas. Encontram-se em todos os extractos sociais, tal como diz Cyliani em Hermes Revelado: «…Reis da Terra, se conhecêsseis o grande número de pessoas que se entregam, em segredo, nos nossos dias, à procura da pedra filosofal, ficaríeis admirados…»

Foram escritos milhares de livros sobre a Arte, pois ao que parece, desde fins da Idade Média até ao século XIX, a alquimia esteve na moda, e não só os gentis homens, nobres e cavaleiros, religiosos, clérigos e até alguns reis e papas, não só escreveram tratados sobre a Arte de Hermes, como também frequentemente a praticaram. Como é óbvio, isso deu origem a que fossem escritos muitos livros que nada têm a ver com a verdadeira alquimia.

Atualmente, os livros sobre a Arte Hermética são muito procurados. Infelizmente, existem no mercado muitos livros que aparentam ser obras sérias, mas não passam de pura especulação. Mesmo assim, são adquiridos não só por curiosidade, mas também pelo desejo de deles se poderem extrair alguns conhecimentos que permitam descobrir algo novo.

Não queremos com isto dizer que não foram escritos livros sérios sobre a Arte Hermética. Esses livros existem e são hoje bem conhecidos pelos estudiosos e investigadores da alquimia. Muitos deles estão compilados no Theatrum Chemicum, na Bibliotheca chemica curiosa de Mangeti e na Bibliothéque des Philosophes Chimiques de Salmon.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/alquimia-segundo-rubellus-petrinus/

O Livro Que Leva À Loucura: Excalibur

No momento em que escrevemos, um iate luxuosíssimo percorre os oceanos do globo. Traz bandeira que não é de nenhum país conhecido ou desconhecido. Tem a bordo um certo número de guardas armados, pois muitas vezes tentou-se forçar o cofre-forte do capitão; esse cofre-forte contém um livro muito perigoso cuja leitura torna louco o que lê e se chama Excalibur.

Para que essa história seja compreensível, é preciso referir-se à vida do proprietário do iate, um americano chamado Lafayette Ron Hubbard, e à suas duas descobertas, a dianética e a cientologia. A história de Hubbard foi, geralmente, contada de forma humorística por Martin Gardner no livro “Os mágicos desmascarados” e por mim mesmo em “Rir com os Sábios”. Mas um certo número de fatos novos, aparecidos no curso dos dois últimos anos, tendem a fazer admitir que tal história não é apenas extravagante. Tentarei contá-la de maneira a mais neutra possível.

Lafayette Ron Hubbard é, indiscutivelmente, um explorador e um oficial da marinha americana, extremamente corajoso. Foi também – não escreveu muito no gênero – um dos melhores autores americanos de ficção científica e do fantástico. Entre seus romances traduzidos em francês, citamos Le bras droit de la mort (Hachette).

A melhor parte de sua obra, no que concerne à ficção científica e ao fantástico, foi escrita antes da guerra de 1940. durante essa guerra, em virtude de um ferimento que recebeu num combate com os japoneses, Hubbard sofreu a experiência da morte clínica. Foi reanimando, mas parece ter-se conscientizado que não o fora por vias normais, e ter tido percepções e sensações que nunca pôde suficientemente explicar.

Assim é que, depois da guerra, ele passou a meditar, sistematicamente, sobre o sistema nervoso humano. Acabou concebendo uma nova teoria que batizou de dianética, que comunicou a John Campbell, célebre editor de ficção-científica.

A dianética era uma espécie de psicanálise própria para seduzir os americanos. Estes são, com efeito, ávidos pelo “Faça você mesmo”, e a dianética permitia exercer seus talentos sobre qualquer um, sem necessidade de qualquer prévio estudo.

A teoria geral da dianética admite, como Freud, um inconsciente, mas enquanto o inconsciente freudiano é extremamente astucioso – era copiado do diabo – o inconsciente de Hubbard é sobretudo estúpido. Ele nos obrigava a fazer as piores asneiras, pois era totalmente literal e incapaz de transcender o significante, e composto de registros ou engramas (Hubbard usa esse termo científico num sentido que não lhe é dado normalmente).

O inconsciente de Hubbard forma muito cedo, notadamente durante a vida do feto. E basta, sempre segundo Hubbard, que se diga à uma mulher gestante “você se obstina em andar à esquerda” para que a criança, tornada adulta, cai, sem resistência, para um esquerdismo extremado!

Se chegássemos a desembaraçar um cérebro de todos esses significantes, anuncia triunfalmente Hubbard, produziríamos um sujeito perfeitamente “claro”. Esse sujeito “claro”, desprovido de qualquer complexo, inteiramente são espiritualmente, constituiria o embrião de uma espécie humana nova, próxima ao sobre-humano. Isto poderia ser conseguido através de simples conversa com o sujeito, utilizando técnicas que Hubbard descrevia em seus artigos de “Astounding Science-Fiction” ou em seu livro “Dianetices”, que, imediatamente aparecido, se tornou um best-seller.

Hubbard começou por tratar sua mulher. Logo que se tornou “clara”, ela pediu o divórcio, o que obteve. Tratou, em seguida, de um amigo, que logo que ficou “claro”, matou sua mulher e se suicidou. Então, a popularidade da dianética tornou-se imensa. Por volta de 1955, os americanos que se tratavam pela dianética eram milhares. Os resultados não foram tão sensacionais como no começo, mas esse pequeno jogo de salão fez logo concorrência à psicanálise.

A psicanálise tem, evidentemente, a vantagem de aplicar-se aos animais. Há nos Estados Unidos psicanalistas para cães, e não se conhecem técnicos da dianética para cães. A dianética, ao contrário, tem a vantagem de ser rápida, pouco custosa, e de apresentar a “psique” humana, não em termos complicados, mas segundo diagramas bastante iguais àqueles que permitem a qualquer um instalar em casa uma campainha elétrica. E antes de tudo, é mais reconfortante.

Certos psicanalistas foram também tratados, e sem tornar-se absolutamente “claros”, reconheceram que a tal dianética lhes fazia bem. Quando se lê Hubbard, não se tem a impressão de que ele é mais louco que Reich ou Ferenczi. Talvez menos. E no que concerne às lembranças formadas durante a vida do feto, Hubbard parece ter razão. O fenômeno parece ter sido clinicamente verificado, e põe um problema que não foi resolvido: como o feto, que não tem ainda um sistema auditivo, pode entender o que se diz ao seu redor? No entanto, ele o faz, isto é certo.

O que quer que seja, não se pode dizer que a dianética seja mais ou menos louca que a psicanálise. Todas as duas “caminham” menos bem que os métodos do sacerdote budista primitivo, mas caminham. Há em todo psíquico um tal esforço para o equilíbrio, que não importa qual a técnica usada para amenizar provisoriamente um psiquismo defeituoso. Tal amenização, evidentemente, não é durável, só os métodos químicos realmente podem curar.

A dianética parecia destinada a ser apenas um desses métodos curiosos como existem tantos, e foi assim que todos a consideraram. Somente que a história só estava começando. Tendo refletido sobre os defeitos da dianética, Hubbard chegou à conclusão de que esta não tratava senão das cicatrizes psíquicas devidas aos acontecimentos dessa vida terrestre, e em nenhum caso as feridas adquiridas em vidas anteriores. Criou uma nova disciplina: a cientologia.

A dianética foi um fogo de palha, mas a cientologia, com um desenvolvimento lento e progressivo, conheceu um crescimento constante que fez com que, em 1971, o movimento cientologista constituísse uma força mundial que inquietou muita gente. Tal movimento tem muito dinheiro, não se sabe de que fonte. As partes de Hubbard no trabalho original lhe trouxeram uma riqueza enorme, fala-se em dezenas de milhões de dólares.

Hubbard escreveu outros livros além de “Scientology”. Notou pela informação de amigos próximos, algumas lembranças de suas vidas anteriores. Tais lembranças, segundo ele, provinham de uma grande civilização galáctica da qual somos uma colônia perdida.

Reuniu essas lembranças num livro chamado Excalibur, que deu a ler a alguns voluntários. Estes ficaram loucos e estão, segundo o que sei, internados.

Nem a dianética, nem a psicanálise, nem a cientologia, nem mesmo os medicamentos que se conhece puderam fazer algo por eles. Hubbard continuou a navegar nos oceanos e a tomar notas, enquanto desconhecidos tentavam forçar seu cofre e ler o Excalibur. Durante esse temo, a cientologia desenvolveu-se a um ponto tal que chegou a inquietar. Foi assim que Charles Manson, assassino de Sharon Tate, declarou que era o representante local da cientologia. Os cientólogos negaram e Hubbard mesmo afirmou que denunciara Manson ao FBI como sendo um perigoso diabolista. Os cientólogos são acusados de dominar pessoas, de controlá-las, de teleguiá-las e de visar, com isso, à possessão do mundo.

Respondem com calma, que se dizia a mesma coisa dos primeiros cristãos.

São extremamente numerosos, sem que se possam citar cifras. Mas em 1969, uma associação inglesa que lutava por uma medicina mais racionalista e por uma condenação mais severa às medicinas paralelas, denunciou-os logo todos os cientólogos ingleses se inscreveram na associação e ficaram sendo a maioria rapidamente. O que prova serem eles bastante numerosos.

Certos países falam em proibir a cientologia, mas, pelo que sei, isto nunca foi feito em parte alguma. Os meios materiais enormes de que dispõem os cientólogos lhes permitem inundar literalmente o mundo de jornais, revistas, documentos. A inscrição em um curso de cientologia não é onerosa e não é isto que dá recursos ao movimento. O conselho administrativo da sociedade que, em diversos países, é registrado conforme as leis locais, reconhece que é um bom negócio. Mas sem precisar exatamente como funciona esse bom negócio.

Um dos dirigentes da cientologia inglesa declarou à imprensa: “Se alguém procura atacar-nos, investigamos sobre ele, e encontraremos algo de desfavorável que traremos ao conhecimento público”. Isto efetivamente se produz, o que significa que a cientologia ou possui excelentes recursos de espionagem, ou meios para utilizar as melhores agências de detetives privados.

A cientologia não parece ser política, se bem que se denuncie, periodicamente, tal organismo como um novo nazismo ou, pelo menos, como uma variedade do rearmamento moral. Isto não parece estar provado. O que parece certo é que a cientologia drena para si clientes não somente de cultos marginais e pequenas seitas ocultas, mas de religiões tão bem estabelecidas, como o cristianismo, ou do marxismo. Ela está em progresso no plano do número e no plano do poder. Os que zombaram de Hubbard, e eu me coloco entre esses, estão, talvez, rindo muito cedo. O fenômeno da cientologia é muito curioso, e não foi ainda suficientemente estudado.

A cientologia atraiu muitos escritores de ficção-científica, mormente Van Vogt (autor do famoso best-seller “Le Monde des Ô) que, durante certo tempo, abandonara a ficção-científica para se ocupar, exclusivamente, da cientologia. Esta não renega a dianética, mas acrescenta um conteúdo suplementar que não se pode qualificar senão como visionário. E evidentemente Hubbard, sob seu aspecto exterior de aventureiro positivo e de engenheiro instruído, é um visionário. Parece que teve uma visão quando esteve sob morte clínica, e que teve outras depois. Infelizmente, não disse grande coisa sobre os dirigentes da cientologia, que parecem acolher no movimento homens de negócios, mas também outros personagens.

Ao nível do contato com o público, ao nível, igualmente, do ensinamento elementar da cientologia, encontram-se pessoas extremamente convencidas e, ao que parece, sinceras. Não saberia dizer exatamente o que se passa em nível superior. Em conseqüência da filosofia de Max Weber, chama-se geralmente “efeito carismático” a influência de um ser humano sobre outro. A cientologia agrupa pessoas que possuem efeito carismático muito elevado.

O que quer que seja, a reunião de membros de um grupo de cientologia ao redor de seu chefe, e por causa de cientologia geral, é de uma natureza fanática. A tal ponto que muitas queixas apareceram contra os grupos.

Contrariamente à Golden Dawn, a cientologia tornou-se uma central de energia que exerce um poder real passavelmente inquietante. O que não aconteceu com a dianética. Qualquer coisa foi injetada na estrutura de um movimento que estava declinando e que parecia uma seita dissidente e simplificadora da psicanálise; e esse movimento foi transformado em instrumento utilizado para fins que não sabemos ainda. O período da diversão acabou e podemos perguntar o que foi introduzido na dianética para criar um movimento assim tão dinâmico como é a cientologia.

Como no início de todas as religiões há um Livro, a esta cabe o livro Excalibur que, ao invés de ser difundido, é cuidadosamente guardado como o talismã secreto da nova religião. O fenômeno é curioso, pois em casos análogos como os Mórmons ou os Babistas, o livro-base – livro de Joseph Smith para os Mórmons, Profecias de Bab para os Babistas – foi largamente difundido. No que concerne à cientologia, assiste-se, ao mesmo tempo a um esforço extremamente moderno de propaganda e a uma organização que esconde um livro secreto que se poderia dizer maldito. Não se sabe o que aconteceu às pessoas que o leram: tornaram-se loucos simplesmente lendo-o, ou tentaram certas experiências?

(Respondo aqui à uma questão que me é feita com freqüência: por que não tentei transformar o movimento nascido do “Despertar dos Mágicos” e de “Planète” numa espécie de pára-religião? Responderia simplesmente que num estado de ignorância total da dinâmica dos grupos humanos, pareceu-me extremamente perigoso lançar novos movimentos pára-religiosos. Numa admirável novela de Catherine Mac Lean, “O efeito bola de neve”, que traduzi para o francês para o “Nouveau Planète nº 2”, vê-se um grupo de senhoras que se ocupam, numa pequena vila americana, de coletar vestimentas, arrumá-las e dá-las aos pobres. Sociólogos imprudentes lançaram a esse grupo uma estrutura dinâmica que acabou virando uma bola de neve que foi pegando outros grupos. E esse microcorpúsculo acabou conquistando o mundo… Esse tipo de coisa é, ao meu ver, inteiramente possível, e por isso cuidadosamente cortei qualquer tentativa de formação de uma pára-religião a partir do movimento Planète.)

Ao nível do público, o ensinamento cientológico parece-me bastante com a dianética primitiva, sob uma forma mais razoável. Pretende-se aumentar a intensidade da consciência em pessoas tratadas, e talvez o consiga. Isto não acontece sempre. Por exemplo, o autor de ficção-científica americano Barry Malzberg conta no início de 1971 como tendo visto no metrô de New York, cartazes de propaganda de cientologia, decidiu tomar lições. Isto não o levou adiante, mas talvez não tivesse boas vibrações iniciais…

O que é ensinado em nível superior, ignoro-o. A literatura de promoção diz respeito a informações provenientes de épocas em que a Terra não era ainda uma colônia perdida, mas fazia parte da humanidade galáctica. Isto parece ficção-científica, mas a bomba de hidrogênio e a viagem à Lua pareciam também. Seria preciso ver a coisa mais de perto.

É interessante notar igualmente que a cientologia se declara perseguida por pessoas bastante análogas no fundo, àquelas que chamo Homens de Preto, cuja existência postulo neste livro.

Deixando de lado Hubbard, que parece fora de circuito, voluntariamente ou não, não se sabe muito bem o que está atrás da cientologia. Cai-se num paradoxo bastante curioso: por que os homens e mulheres da Golden Dawn, tão brilhantes e por vezes geniais, não chegaram a criar um centro de energia? E por que os indivíduos anônimos da cientologia conseguiram isto?

Pode-se tirar razões da dinâmica dos grupos. Não se pode, talvez, formar um grupo juntando gente de personalidade poderosa. É preciso, quem sabe, uma hierarquia que parece existir na cientologia e que não parece ter existido de maneira marcante na Golden Dawn.

Pode-se dizer ainda, com certa ironia, que a Golden Dawn dirigia-se a uma elite muito limitada de pessoas excepcionais, enquanto que a cientologia se dirige a pessoas medianas.

Os membros dos grupos cientologistas me sugerem uma terceira resposta: para eles, a cientologia se mantém porque é científica, enquanto a Golden Dawn era um amontoado de superstições e práticas mágicas.

É-me difícil considerar esta resposta válida, pois a leitura de documentação que a própria cientologia difunde, mostra que não se trata de uma ciência, ao menos no sentido habitual do termo. É uma mística análoga ao freudismo. Como o freudismo, é preciso aceitar sem discutir afirmações das quais não se tem nenhuma prova. Ademais, enquanto a Golden Dawn parece ter resolvido o grande mistério do despertar, não se vê nada análogo na cientologia. E, contudo, esta prospera e prospera, segundo uma estrutura que parece aquela pra a qual tendia a Golden Dawn.

Como na Golden Dawn, trata-se de um apelo às forças profundas e desconhecidas que existem nos domínios que a psicologia corrente, mesmo aperfeiçoada por Jung, não pode alcançar e dos quais nega a existência. Para a Golden Dawn, eram os “planos superiores” existentes acima do despertar. Para a cientologia, trata-se de um super-hiper-inconsciente estendendo-se ao passado até épocas que nenhum código genético razoável pode dar conta. Certos documentos cientológicos falam de setenta e dois milhões de anos. Parece muito.

Evidentemente, é fácil taxar esse tipo de idéia de aberração, o que estou tentado a fazer. Entretanto, a existência do fenômeno não é duvidosa, e pode-se perguntar até onde se desenvolverá.

A dinâmica marxista da História não tem mais base científica como o Prêmio Nobel Jacques Monod acaba de mostrar pela nona vez no “O Acaso e A Necessidade”. O que não impede que um homem, em cada dois, viva em regimes marxistas.

Numa mesa-redonda sobre as viagens à Lua, ouvi um erudito do Islão dizer que a Lua era habitada. A viagem lunar não o provou, mas isto não abalou o Islão.

Uma vez que um grupo humano tenha começado a fazer bola de neve sob o efeito de forças dinâmicas das quais tudo ignoramos, é extremamente difícil, e talvez impossível, pará-la. Não está, em todo caso, excluído que a cientologia dá a uma certa juventude o que o esquerdismo e o LSD não puderam dar, e não se vê expandir-se eventualmente sustentada pelas armas.

Por isso, essa questão de saber o que existe exatamente do Excalibur, de saber até que ponto a doutrina secreta da cientologia, se há uma, deriva de um livro maldito, merece ser examinada. E não penso que se possa elucidar esse gênero de problema dizendo simplesmente que Deus está morto, e que é preciso qualquer coisa ou alguém que o substitua. Penso que houve químicos, antes que se descobrisse o átomo e a teoria exata da química baseada sobre a mecânica ondulatória.

Da mesma maneira, estou persuadido de que há praticantes da dinâmica de grupo, incapazes de explicar o que fazem, no entanto obtém resultados, enquanto que um sociólogo médio seria incapaz de eleger-se numa vila de cinqüenta habitantes.

Penso que Hitler ou Hubbard fazem parte desses sociólogos amadores que obtém de maneira empírica resultados espantosos.

No meu entender, entretanto, esses praticantes só podem funcionar se atrás deles houver um grupo de organizadores ou de planificadores. Sabemos muito bem qual o grupo que se encontrava atrás de Hitler, ignoramos tudo sobre o grupo que se encontra atrás de Hubbard, e notadamente sobre o financiamento das operações, e seus objetivos definitivos. Se há, realmente, atrás de Hubbard um livro maldito, seria desejável que ele tivesse feito dele muitas fotocópias e que as tivesse colocado em lugar seguro, espalhando-as pelo mundo. Se não, eu não ficaria surpreso se um dia o seu iate sofresse um acidente.

A teoria de Hubbard é falsa certamente, mas dá, talvez, resultados justos. Não é a primeira vez que esse tipo de coisa acontece.

Não se fez, ainda, estudo sociológico sobre as pessoas atraídas pela cientologia. A dianética, como a psicanálise, atraiu principalmente loucos. Freud mesmo, numa primeira fase de sua carreira, ao que indica, parece ter ficado louco furioso: praticava a numerologia, e acreditava nas piores superstições. Diz-se que ele ficou são em sua segunda fase, depois que fez sua auto-análise, mas tenho dúvidas.

Como diz, justamente, G. K. Chesterton: “O louco não é aquele que perdeu a razão; o louco é aquele que perdeu tudo, menos a razão”. A cientologia começou a entrar numa fase em que atrai em massa pessoas que poderíamos chamar de normais? Em que proporção? Isto seria interessante saber.

Gostaria muito, correndo os devidos riscos e perigos, de dar uma olhada no Excalibur.

por Jacques Bergier

Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/o-livro-que-leva-a-loucura-excalibur/

Entrada Aberta ao Palácio Fechado do Rei

Tratado Alquímico de 1645

Tendo penetrado, eu, Filateto, Filósofo anônimo, os arcanos da medicina, da química e da física, decidi redigir este pequeno tratado, no ano 1645 da Redenção do mundo e o trigésimo terceiro de minha idade, a fim de resgatar o que devo aos Filhos da Arte e para estender a mão aos que estão desencaminhados pelos labirintos do erro. Assim, parecerá aos Adeptos que sou seu par e irmão; quanto àqueles que foram seduzidos pelos vãos discursos dos sofistas, verão e receberão a luz, graças à qual retornarão à rota mais segura. E presságio, em verdade, que numerosos dentre eles serão esclarecidos por meus trabalhos.

Não se trata de fábulas, mas de experiências reais que vi, fiz e conheci: o Adepto o inferirá facilmente lendo estas páginas. Por isso, escrevendo-as pelo bem de meu próximo, basta-me declarar que jamais ninguém falou desta arte tão claramente quanto eu; certamente, minha pena hesitou freqüentemente em escrever tudo, desejoso que estava de esconder a verdade sob zelosa máscara; mas Deus me constrangia, e não pude resistir-lhe, a ele, único que conhece os corações, e a quem se remete a glória no ciclo do Tempo. Donde creio que muitos, nesta última era do mundo, terão a felicidade de possuir este segredo; pois escrevi com franqueza, não impedindo ao noviço sinceramente curioso de apreender nenhuma dúvida sem uma resposta plenamente satisfatória.

E já sei que muitos, assim como eu, detêm este segredo; persuado-me que há muitos mais ainda, com os quais entrarei muito proximamente, por assim dizer, em íntima e cotidiana comunicação. Que a santa Vontade de Deus faça o que lhe aprouver, reconheço-me indigno de operar tais maravilhas: adoro, entretanto, nelas, a santa Vontade de Deus, a quem todas as criaturas devem estar submetidas, pois que é em função dela somente que ele as criou e as mantém criadas.

Da necessidade do mercúrio dos sábios para a obra do elixir

Quem quer que deseje possuir este Tosão de ouro, deve saber que nosso pó aurífico, que chamamos de nossa pedra, é o Ouro, simplesmente alçado ao mais alto grau de pureza e fixidez sutil a que puder ser levado, tanto por sua natureza, quanto pela arte de hábil operador. Este ouro assim essencificado não é o do vulgo: chamamo-lo nosso ouro; ele é o grau supremo deperfeição da natureza e da arte. Poderia, a este respeito, citar todos os filósofos, mas não necessito de testemunhas, pois que sou mesmo Adepto, e que escrevo com mais clareza do que qualquer outro anterior. Crer-me-á quem quiser, desaprovar-me-á quem puder; que se me censure, mesmo, se o deseja; só se chegará a uma profunda ignorância. Os espíritos demasiadamente sutis, afirmo-o, sonham com quimeras, porém, o pesquisador assíduo encontrará a verdade seguindo a via simples da natureza.

O ouro é então o único, exclusivo e verdadeiro princípio a partir do qual se pode produzir ouro. No entanto, o nosso ouro que é necessário à nossa obra é de duas naturezas. Uma levada à maturidade, fixa, é o Latão rubro, cujo coração, ou núcleo, é um fogo puro. É por isso que seu corpo se defende no fogo, que é onde recebe sua purificação, sem nada ceder à violência deste, nem sofrer. Este ouro, em nossa obra, exerce o papel do macho. Une-se-o a nosso ouro branco mais cru (nosso segundo ouro, menos cozido que o precedente), tendo o lugar de semente feminina, com o qual se conjuga e onde deposita seu esperma; e unem-se um ao outro por liame indissolúvel, de onde se faz nosso Hermafrodita, que tem a potência dos dois sexos. Assim, o ouro corporal é morto antes de ser unido à sua noiva, com a qual o enxofre coagulante que, no ouro, é extrovertido, torna-se introvertido. Então, a altura é oculta, e a profundeza, manifestada. Também o fixo se faz volátil por um tempo, a fim de possuir em seqüências, em estado mais nobre por sua herança, graças ao que obterá poderosíssima fixidez.

Vê-se que todo o segredo consiste no Mercúrio, do que o filósofo diz: “No Mercúrio se encontra tudo o que procuram os Sábios”. E Geber declara a seu respeito: “Louvado seja o Altíssimo, que criou nosso Mercúrio e concedeu-lhe natureza que domina o Todo. Decerto, efetivamente, se não existisse, os Alquimistas poderiam se glorificar à vontade, mas a Obra Alquímica seria vã”. Evidencia-se que este Mercúrio não é vulgar, mas aquele dos Sábios, pois todo Mercúrio vulgar é macho, quer dizer, corporal, específico, morto, ao passo que o nosso é espiritual, feminino, vivo e vivificante.

Atenta, pois, a tudo o que disser do Mercúrio, porque, segundo o Filósofo, “Nosso Mercúrio é o Sal dos Sábios, e quem quer que trabalhasse sem ele assemelhar-se-ia ao arqueiro que quisesse, sem corda, lançar flecha”. Não se pode, entretanto, encontrá-lo em nenhum lugar sobre a terra. O Filho tampouco é por nós conformado, nem criado, mas extraído daquelas coisas que o encerram, com a cooperação da natureza, de maneira admirável, e graças a arte sutil.

Dos princípios que compõem o mercúrio dos sábios

O objetivo daqueles que se aplicam a esta arte é purgar o Mercúrio de diferentes maneiras: uns o sublimam pela adjunção de sais, e o limpam de impurezas diversas, outros vivificam-no unicamente por si mesmo, e afirmam ter, pela repetição dessas operações, fabricado o Mercúrio dos Filósofos; mas enganam-se, porque não trabalham pela natureza, que só é aperfeiçoada em sua natureza. Que saibam então que nossa água, composta de numerosos elementos, é no entanto, coisa única feita de diversas substâncias coaguladas a partir de única essência. Eis o que é requerido para a preparação de nossa água (em nossa água, com efeito, encontra-se nosso dragão ígneo): primeiramente, o Fogo que se encontra em todas as coisas, secundariamente, o licor da Satúrnia vegetal; terciariamenta, o liame do Mercúrio.

O fogo é aquele de um enxofre mineral. Porém, não é propriamente mineral e, menos ainda, metálico; mas sem participar destas duas substâncias, tem o meio entre o mineral e o metal. Chaos ou espírito: com efeito, nosso ígneo Dragão, que de tudo triunfa, pode ser penetrado pelo odor da Satúrnia vegetal, e seu sangue se coagula com o suco da Satúrnia num só admirável corpo; entretanto, não é corpo, pois que é totalmente volátil, nem espírito, porque ao fogo, assemelha-se a metal fundido. É então, verdadeiramente, um Chaos, que ocupa o lugar de Mãe de todos os metais; pois sei daqui extrair todas as coisas, mesmo o Sol e a Lua, sem o auxílio do Elixir transmutatório, o que pode ser atestado por quem o viu, tanto quanto eu. Chama-se a este Chaos o nosso Arsênico, nosso Ar, nossa Lua, nosso Imã, nosso Aço, mas sempre sob diversos aspectos, porque nossa matéria passa por diferentes estados, antes que do mênstruo de nossa prostituta seja extraído o Diadema Real.

Aprendei, então, quem são os companheiros de Cadmo e qual a serpente que os devorou, e qual é o carvalho oco onde Cadmo pregou a serpente. Sabei quais são as pombas de Diana, vitoriosa do leão, domesticando-o, este Leão verde, digo-o, que é verdadeiramente o Dragão babilônio, a tudo destruindo por seu veneno. Enfim, sabei o que é o caduceu de Mercúrio, com o qual ela opera maravilhas, e quais são estas Ninfas que ele instruiu com seus encantamentos. Apreendei tudo isso, se quereis atingir o objetivo de vossos desejos.

Por: Irineu Filaleto

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/entrada-aberta-ao-palacio-fechado-do-rei/

Um Dragão na Minha Garagem

Por Carl Sagan e Marcelo Del Debbio

– Um dragão que cospe fogo pelas ventas vive na minha garagem.

Suponhamos (estou seguindo uma abordagem de terapia de grupo proposta pelo psicólogo Richard Franklin) que eu lhe faça seriamente essa afirmação. Com certeza você iria querer verificá-la, ver por si mesmo. São inumeráveis as histórias de dragões no decorrer dos séculos, mas não há evidências reais. Que oportunidade!

– Mostre-me – você diz. Eu o levo até a minha garagem. Você olha para dentro e vê uma escada de mão, latas de tinta vazias, um velho triciclo, mas nada de dragão.

– Onde está o dragão? – você pergunta.

– Oh, está ali – respondo, acenando – É um dragão invisível.

Você propõe espalhar farinha no chão da garagem para tornar visíveis as pegadas do dragão.

– Boa idéia – digo eu –, mas esse dragão é incorpóreo, a farinha não vai aderir.

Então você quer usar um sensor infravermelho para detectar o fogo invisível.

– Boa idéia, mas o fogo invisível é também desprovido de calor.

Você quer borrifar o dragão com tinta para tomá-lo visível.

– Boa idéia, só que é um dragão incorpóreo e a tinta não vai aderir. Já havia dito isso antes.

E assim por diante. Eu me oponho a todo teste físico que você propõe com uma explicação racional de por que não vai funcionar, já que se trata de um dragão incorpóreo. Pessoas muito burras tem uma dificuldade enorme em entender o conceito de incorpóreo, mas vamos supor que você seja uma pessoa inteligente.

Ora, qual é a diferença entre um dragão invisível, incorpóreo, flutuante, que cospe fogo atérmico, e um dragão inexistente? uma pessoa de inteligência mediana acharia que não existe diferença alguma, mas uma pessoa inteligente poderia pensar de outra maneira: a primeira hipótese seria que há algum problema com a minha mente. Você se perguntaria, já que nenhum teste físico se aplica, o que me fez acreditar nisso. A possibilidade de que foi sonho ou alucinação passaria certamente pela sua cabeça.

Mas, nesse caso, por que eu levo a história tão a sério? Talvez eu precise de ajuda.

Vamos supor que no próximo final de semana você e sua esposa venham jantar aqui em casa e sua esposa, ao entrar na garagem para pegar uns refrigerantes na geladeira, volte apavorada dizendo “querido, há um dragão na garagem do Del Debbio!”

Sua esposa é uma médica com doutorado, uma pessoa lúcida e extremamente cética. Você me olha com desconfiança, mas eu nunca havia visto a sua esposa em toda a minha vida.

Você formula algumas hipóteses: a primeira delas tem a ver com o sentimento de corno permanente que todo pseudo-cético parece ter, que acha que todo mundo está tentando enganá-lo o tempo todo (mas, como no exemplo eu disse que você é uma pessoa inteligente, podemos descartar esta hipótese e assumir que sua esposa realmente nunca me viu na vida). A segunda hipótese é que agora são dois malucos.

Depois, na sua casa, sua esposa lhe descreve o dragão nos mesmos detalhes que eu lhe descrevi, sem ter conversado comigo a respeito disso. Inclusive o fato dele ser incorpóreo.

Apesar de nenhum dos testes ter funcionado, imagine que você queira ser escrupulosamente liberal. Você não rejeita de imediato a noção de que há um dragão que cospe fogo na minha garagem. Agora tem em mãos duas testemunhas idôneas, que não se conhecem e que não teriam motivos para enganá-lo. Apenas deixa a idéia cozinhando em banho-maria. As evidências físicas são fortemente contrárias a ela, mas, se surgirem novos dados, você está pronto a examiná-los para ver se são convincentes.

Decerto não é correto de minha parte nem da parte de sua esposa ficarmos ofendidos por não acreditarem em nós; nem podemos criticá-lo por ser chato e sem imaginação – só porque você apresentou o veredicto escocês de “não comprovado”.

Suponha agora que no outro final de semana, o sr. Vieira, amigo em comum, engenheiro formado no ITA, durante um jogo de poker em minha casa, ao retornar da garagem, afirme “olha pessoal, eu acho que estou ficando louco, mas tenho certeza que vi um dragão na garagem do Del Debbio” e, em seguida, descreve o mesmo dragão que a sua esposa descreveu. O sr. Vieira não conhece a sua esposa e é muito mais cético do que eu e você juntos. E agora são três testemunhas e nenhuma prova física.

Durante a semana, o sr. Vieira faz todos os tipos de testes que nós já havíamos pensado e chega à mesma conclusão que você: que não se consegue detectar o dragão por meios físicos… mas ele ainda afirma categoricamente que o dragão está lá e, de certa forma, fica feliz em saber que outras pessoas sãs também vêem o mesmo dragão, sinal que não está maluco.

Na semana seguinte, durante um churrasco, a sra. Lima, veterinária com doutorado na USP, amiga de nossa família há anos e sem nenhuma religião, vem correndo na direção da sua esposa em pânico: ela afirma que havia visto um dragão na minha garagem! Nesse meio tempo, o sr. Vieira já havia pesquisado a respeito disso e visto que, durante toda a história da humanidade existem relatos a respeito de dragões na garagem dos faraós, na garagem dos índios, na garagem dos escravos e até mesmo na garagem dos vikings! Todas estas histórias tem sido tratadas como lendas ou mitologias pelas pessoas de inteligencia mediana, claro. As pessoas comuns confundiam estas manifestações com “deuses” ou acreditavam que eles eram algum tipo de “divindade”.

Qualquer pessoa de bom senso vai concordar com essas afirmações. Onde estao as evidências físicas? Mas, em todas as lendas, as características destes dragões invisíveis são equivalentes, mudando apenas a roupagem da história, de acordo com a cultura de cada povo. Mesmo em povos que nunca se encontraram, como aztecas e chineses, as descrições são rigorosamente as mesmas.

Passado o medo, descobrimos que a sra Lima não apenas era capaz de ver o dragão, mas de conversar com ele! Ela fez algumas perguntas ao dragão e obteve respostas sobre a sua vida pessoal que você nunca havia contado a ninguém! Claro que a primeira reação foi achar que era uma tal de “leitura fria”, mas a sra. Vieira não tem absolutamente nenhum motivo para tentar nos enganar e está tão curiosa a respeito do assunto quanto a gente… além disso, as respostas eram precisas demais sobre assuntos que ela desconhecia para serem apenas chutes… como se o dragão estivesse nos acompanhando por muito tempo… antes mesmo de termos tido conhecimento sobre a sua existência.

Com o tempo, o sr. Vieira também aprendeu a desenvolver sua audição e passou a escutar o dragão também. Nesse momento você poderia até pensar que eram quatro loucos com a mesma loucura, se não fosse o fato que as respostas dadas ao sr. Vieira e à sra. Lima eram exatamente as mesmas, mesmo quando estavam separados. Sua esposa fez uma pesquisa e descobriu que, no século XIX, um sr. chamado Hippolyte Léon Denizard, um educador e escritor francês vencedor de diversos prêmios e méritos por sua seriedade e pesquisa no campo da educação, havia tido as mesmas experiências que nós e, por ter sido membro de Ordens Secretas que tinham acesso aos dragões invisíveis, havia feito um questionário padronizado e pediu que diversos dragões os respondessem em toda a Europa, até mesmo produzido um livro com as respostas de milhares de dragões invisíveis compiladas, que chamou de “Livro dos Dragões Invisíveis na Garagem”. Descobrimos até que existia um nome para o que conseguiam fazer: Mediunidade.

Pesquisando, também descobrimos que a Igreja sempre soube da existência desses dragões e até fazia uso deles na garagem do Vaticano, mas oficialmente considerava qualquer pessoa que conversasse com dragões invisíveis como “Adorador do Diabo”, com direito a ir para a fogueira. Era um excelente motivo para as pessoas que conversavam com dragões mantivessem esta característica em segredo!

Com o tempo, sua esposa encontra mais algumas pessoas capazes de conversar com estes dragões invisíveis, que se reúnem em estacionamentos chamados “terreiros”. Infelizmente, eram poucos os terreiros confiáveis, pois a história dos dragões havia sido divulgada no Globo Reporter e uma infinidade de picaretas abriram estacionamentos prometendo conversar com dragões e trazer a mulher amada em sete dias úteis mas que, quando visitadas pelo nosso grupo, mostravam-se realmente vazios. Como o sr. Vieira ainda não havia conseguido desenvolver um método físico para mostrar evidências físicas destes dragões, ficava impossível para a pessoa comum distinguir onde haviam dragões e onde haviam charlatões. Você teria de confiar na palavra da sua esposa ou amigos idôneos… ou nao.

Os dragões às vezes conseguem elucidar perguntas complicadíssimas sobre nossas vidas, sobre o que viemos fazer no planeta; são muito sábios (muito mais sábios que as próprias pessoas que conversam com eles, que apenas nos retransmitem suas palavras); às vezes os dragões falam em uma língua que os próprios médiuns desconhecem: ao longo do tempo, já vi dragões falando francês, alemão e inglês, ditados por médiuns que não possuíam nenhum conhecimento nessas línguas… às vezes curam doenças consideradas incuráveis, mas como são casos isolados, não se fez nenhum esforço para testar isso em laboratório, já que as pessoas comuns ainda estão discutindo se os dragões existem ou não. Alega-se que foi sorte ou placebo e pronto! E isso torna praticamente impossível de se publicar qualquer estudo sobre o assunto em revistas científicas. Até mesmo se você for o Prêmio Nobel de Medicina, se suas pesquisas apontarem que talvez dragões invisíveis possam existir, você acaba caindo na ridicularização… então é preciso cautela com para quem você irá dizer que é capaz de enxergá-los.

Por conta disso, as pessoas que baseiam seus dogmas apenas no que é publicado nessas revistas continuavam negando a existência dos dragões invisíveis da garagem com toda a sua crença, taxando quem consegue enxergar estes dragões de charlatão ou louco sem nem ao menos fazer um esforço para saber quem são estas pessoas e o que faz com que elas afirmem estas coisas… fazem uma mistureba de conceitos, jogando no mesmo saco a desinformação e ignorância dos crentes com a falta de pesquisa e a visão leiga dos pseudo-céticos.

E nem podemos criticá-las muito, afinal de contas nós, que temos contato com estes dragões e temos experiência em diferenciar dragões de garagem de cobradores de estacionamento vazio, não conseguimos definir um método físico para provar a existência de algo não-físico… ainda.

A solução é continuar pesquisando; correndo atrás, como verdadeiros céticos. Testar e reunir aqueles capazes de conversar com eles e testar as informações. Afastar as crendices e superstições construídas ao redor dos fatos e destrinchar onde está a verdade. Porque a ciência é a busca pelo conhecimento.

#Ceticismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/um-drag%C3%A3o-na-minha-garagem

Referencias Herméticas em Promethea – Parte 2

Por Octávio Aragão

Leia primeiro Referencias Hermeticas em Promethea – Parte 1

As raízes e as ramificações de todos os mundos possíveis
O conceito da “árvore da vida” que serve como esteio do mundo é uma constante em várias mitologias e, além disso, um dos conceitos básicos da cabala. Yggdrasil, a árvore nórdica cuja seiva alimenta os deuses e que sustenta Asgard sobre seus ramos [9], é o conceito sobre o qual Alan Moore estruturou a série Glory, originalmente desenvolvida para a Awesome em 1997, mas apenas publicada em 2001, pela Avatar Press.

A princesa Glorianna, filha da deusa grega Deméter, nada mais era que um clone indisfarçado da Mulher Maravilha, da DC Comics, com sua ilha povoada apenas por mulheres e poderes muito semelhantes à personagem original. Moore repetiu a fórmula bem sucedida com Supreme, assumindo a semelhança entre as duas, mas transcendendo a mera cópia ao acrescentar elementos mitológicos, mais ou menos como Stan Lee e Jack Kirby fizeram em Thor, durante a década de 60. Glory passou a ter uma vida dupla: de dia garçonete de beira de estrada; à noite, princesa guerreira trajando uma escandalosa roupa-armadura colante. Mas a obviedade termina por aí, já que Gloria West, a garçonete, acredita que “sonha” ser Glory, a deusa.

Nada de identidades secretas ou cabines telefônicas para essa heroína, mas a constante dúvida a respeito da própria sanidade. Glory surge quando necessitada e trata Gloria como uma casca, um disfarce útil para seus momentos na Terra, quando não está no reino de sua mãe Deméter ou visitando o pai, o demônio Silverfall.

Moore estabelece Ultima Thule, o reino de Deméter, Ceres, Geb e outras divindades ligadas ao elemento terra, no patamar inferior da árvore da vida, como se Yggdrasil fosse um edifício onde cada andar abrigasse uma esfera de influência elemental relativa aos vários níveis de percepção da realidade. Imediatamente acima de Ultima Thule, está a Esfera Lunar, relativa à inconsciência, aos sonhos, à fantasia, governada por Selene, Diana, Ártemis e outras deusas ligadas à Lua, e logo seguida pela Terra da Magia, da linguagem, da ciência, da comunicação, sob a batuta, mais uma vez, de Hermes, Thot e Odin. Na seqüência, vem o Reino do Amor e das Emoções, território de Vênus, Afrodite, Nike e todas as divindades oriundas da paixão dos sentidos; sucedido pelo lar de Apolo, Horus, Baldur, Osiris e Jesus, as divindades solares. Trata-se do Reino do Espírito, da Unidade, sobreposto pela morada de Marte, Ares e Tyr, os deuses da guerra e do conflito, e pelas terras gerenciadas Júpiter, Thor, Indra e Jove, o território das figuras paternas, do casamento bem-sucedido entre matéria e espírito.

Sobre todos esses feudos espirituais vem o Abismo, e após, as últimas três esferas, sendo que a mais alta de todas é a morada de Yaveh, do Allah islâmico, de todas as divindades supremas, os Deuses Vivos das religiões monoteístas. A árvore da vida ainda abrigaria sobre suas raízes, as terras das sombras, os Hades/Infernos/Submundos, de onde veio o pai de Glory, Silverfall. O governo deste mundo que não é necessariamente ‘mau’, ficaria sob o encargo de Plutão, Hades e outras divindades sombrias, e margeando tudo ainda haveria lugar para um imenso corpo de água, “Chromoceano’, rio de luz presente em várias culturas.

Esse cenário amplo e detalhado serviria como manancial quase inesgotável para várias histórias de Glory, mas, infelizmente, a série foi interrompida no número três, sem previsão de continuidade por causa das baixas vendas. Moore, porém, não abandonaria um trabalho tão complexo que, obviamente, exigiu muita pesquisa e concentração, guardando-o para o futuro. Esse futuro chegou em 1999, encarnado em Promethea.

A outra volta do caduceu
Com a falência definitiva de Liefeld e da Awesome em 1998, Alan Moore descobriu-se cheio de novos conceitos, projetos inéditos e cercado por jovens ilustradores ansiosos para trabalhar em parceria, mas sem um meio para desagüar tantas idéias represadas. Entra em cena Jim Lee, artista contemporâneo de Rob Liefeld na Image Comics, com outra proposta faustiana: Moore teria carta branca para criar os títulos que quisesse, para que fossem englobados num selo próprio, o America’s Best Comics, e publicados pela WildStorm, de Lee, na época ainda sócio da Image. Moore aceitou e começou a trabalhar imediatamente, mas logo o projeto pareceu ameaçado com a venda da WildStorm para a DC Comics, para quem Moore havia jurado nunca trabalhar outra vez.

Desta vez, as condições de trabalho oferecidas a Moore pela DC eram extremamente positivas, mantendo o escritor como detentor dos direitos de todos os personagens concebidos e com uma boa percentagem de retorno advindo de qualquer projeto derivado das séries, tais como produções cinematográficas ou linhas de brinquedos. Era uma proposta irrecusável e o roteirista lançou cinco títulos em 1999: The League of Extraordinary Gentlemen, uma brincadeira steampunk [10] sobre os personagens da literatura vitoriana; Tom Strong, que reaproveitava vários conceitos originalmente pensados para Supreme; Top Ten, uma série policial misto de Hill Street Blues com super-heróis; Tomorrow Stories, uma antologia de várias HQs de estilos diferentes e independentes entre si sob o mesmo título, e Promethea; o título mais ambicioso dos cinco, que Moore utilizaria como palco para uma aula de esoterismo, usando a cabala como vertente principal.

Alexandria, 411 A. D. Uma menina foge de padres fanáticos que acabaram de chacinar seu pai, acusando-o de feitiçaria. Ele, para surpresa de seus algozes, morre feliz, agarrado a seu bordão em forma de caduceu[11].

Nova York, 1999 (não exatamente a Nova York de nossa realidade, mas um lugar onde discos voadores são um meio de transporte trivial, juntamente com táxis munidos de dispositivos antigravitacionais e outros aparelhos nada comuns aos habitantes de qualquer megalópole). Sophie Bangs, jovem estudante, prepara uma pesquisa sobre uma figura folclórica chamada Promethea. Sophie descobriu que o mesmo personagem, em várias épocas diversas que abrangem um período entre 1780 e 1999, foi tema de obras diferentes, em diversas mídias tais como poemas, romances, pulp fiction e até fotonovelas, por autores que nunca se conheceram e agora conseguiu marcar uma entrevista com a viúva do último artista a trabalhar no conceito. A reunião, porém, termina precocemente com um aviso da mulher:

“Listen, kid, you take my advice. You don’t wanna go looking for folklore. And especially don’t want folklore to come looking for you.” [12]

Mas certas palavras já foram ditas, certos nomes pronunciados. O mal está feito e a roda do universo gira em velocidade tal que logo Sophie Bangs é apresentada pessoalmente ao objeto de sua pesquisa: uma mulher obesa e decadente, porém poderosa, que a salva do ataque de um Smee, entidade fantasmagórica e letal enviada para evitar que a pesquisadora vá mais fundo em seu trabalho.

A narrativa dá um salto de volta a Alexandria, em 411 A.D. Vemos a criança fugitiva do início da história, perdida no deserto, confrontando as figuras colossais de Thot, deus egípcio da comunicação, cuja cabeça tem a forma de um pássaro, o íbis, e Hermes, que porta um imenso caduceu ornado por serpentes vivas. Thot, por sua vez, traz na mão um Ankh, símbolo egípcio do deus único Aton. Eles são a encarnação de uma divindade dupla, Thot-Hermes, e oferecem abrigo e segurança à menina, contanto que ela atravesse com eles o véu que separa o mundo físico de seu reino, um lugar chamado Immateria, onde “ela viverá eternamente, como as histórias”.

Immateria, segundo as entidades, não é muito longe, mas está sempre “onde você se encontra” e, uma vez lá, a criança deixará de ser um ser humano e passará a ser uma “história” eterna e que, possivelmente, dentro de determinadas condições, poderá transpor o portal para o mundo físico, pois, afinal, “algumas vezs, se uma história é muito especial, ela pode arrebatar as pessoas”. Só então as divindades gêmeas se lembram de perguntar o nome da criança. “Promethea”, ela responde, antes de desaparecer no ar[13].

Se ela não existisse, teríamos de inventá-la
Podemos ver claramente a conexão entre Glory e Promethea. Immateria nada mais é que a Terra da Magia descrita anteriormente, reino da linguagem, da ciência, da comunicação, governado por Thot-Hermes. A partir daqui, Moore irá aprimorar os conceitos cabalísticos apresentados anteriormente, adaptando-os à genealogia de Promethea numa evolução do que concebeu para Glory, sem medo de utilizar uma linguagem menos acessível ao grande público e distanciando-se cada vez mais da iconografia super-heroística. Assim como o caduceu que herdou de Thot-Hermes, Promethea é uma personagem transcendente e, em conseqüência, rebela-se contra gêneros e catalogações.

O primeiro arco de histórias da série, que vai do número 1 ao 6, além de apresentar Sophie Bangs e o elenco de coadjuvantes, inicia, a partir do terceiro fascículo, a viagem de auto-conhecimento de Promethea, explorando o reino de Immateria. No arco seguinte, as várias esferas já apresentadas na sinopse de Glory serão visitadas. A peregrinação durará até o final do terceiro arco, no episódio 23, mas os primeiros seis números estarão focados nos diversos aspectos da entidade. O primeiro termina explicitando que Sophie é a nova encarnação de Promethea, em substituição à personagem obesa que confronta o Smee. Essa mulher, Barbara Shelley, explica à estudante quem realmente foi a Promethea original, a filha de um acadêmico hermético egípcio – ou melhor, um sacerdote de Hermes – que viveu no século V, e dá os nomes de cinco artistas que serviram como veículo para a conjuração da divindade.

Esses criadores, um poeta, uma cartunista, uma ilustradora, um quadrinista e um romancista, foram o canal por meio da qual a entidade atravessava até o mundo físico, mas o “combustível” que a alimenta é o amor. “Qualquer um com imaginação e entusiasmo suficiente pela personagem pode trazê-la de Immateria, apenas pensando em si próprio ou em outra pessoa encarnando o papel”[14], diz Barbara, viúva do último artista a conjurar Promethea, deixando claro que a mistura de imaginação, talento artístico e amor é o gatilho capaz de materializar um sonho.

Avatares desbocados
Maurice Merleau-Ponty afirma que, diferente da crença geral, a linguagem vira as costas à significação, não se preocupa com ela. Ou seja, há uma independência subjacente à comunicação, cuja característica principal é uma diferenciação e sistematização de signos, seja nos fonemas, nas palavras ou em toda uma estrutura linguística. Uma coisa até pode levar à outra, mas isso não quer dizer que a função primordial dos signos seja estar à disposição dos significados. Os signos, ao que parece, têm uma agenda própria.

“Num certo sentido, a linguagem jamais se ocupa senão de si mesma. Tanto no monólogo interior como no diálogo não há ‘pensamentos’: trata-se de palavras suscitadas por palavras, e, na medida mesmo em que ‘pensamos’ mais plenamente, as palavras preenchem tão exatamente nosso espírito que nele não deixam um canto vazio para pensamentos puros e significações que não sejam de linguagem”[15]

Essa independência entre signo e significado parece ser a mola motriz da série como um todo e aparece muito claramente quando, no terceiro número da série, no capítulo intitulado Misty Magic Land, ao visitar pela primeira vez o reino de Immateria, Promethea encontra uma encarnação física de Chapeuzinho Vermelho, que, apesar de aparecer como uma doce e angelical menina loura de dez anos de idade, fuma muito e fala palavrões como uma prostituta de beira do cais.

Moore parece fascinado por essa contradição já que esta é apenas a primeira de uma série de guias que Promethea irá encontrar em suas diferentes jornadas pelos planos cabalísticos. Esses avatares desbocados serão, em diferentes momentos, velhos feiticeiros garanhões, anjos em forma feminina e roupas masculinas, doces travestis transsexuais e até as duas serpentes do caduceu trocam gracinhas pouco condizentes com sua condição de entidades cósmicas. No capítulo seguinte, A Faerie Romance, somos apresentados às quatro últimas versões de Promethea, todas vivendo em Immateria e cada uma representando uma característica da personagem: musa, guerreira, amante e professora, todas passando a Sophie uma diferente significação para o uso do “verbo” como instrumento transformador. Se brandidas como lâmina, palavras cortam, separam os corpos dos homens de suas cabeças; por outro lado, durante as guerras, palavras podem ser a última inspiração, uma taça de esperança. Mas palavras também pertencem ao mundo material, são moedas para troca, compra, liberação de prazer físico e, finalmente, palavras podem ser um bastão, símbolo fálico masculino, varinha mágica, poder. Lâminas, taças, moedas e varas. Espadas, copas, ouros e paus. As cartas estão na mesa e, a partir do episódio 12, o jogo cósmico começa.

Anagramas arcanos
Depois de dois números, respectivamente 8 e 9, onde combate as forças combinadas do inferno num clima ‘super-heroístico’ – quase como um lembrete aos leitores de que, no fundo, a revista faz parte dessa tradição – , Promethea dá uma guinada sem precedentes nos quadrinhos comerciais publicados nos Estados Unidos. Moore dedica uma revista inteira a uma cena de sexo tântrico entre a heroína e o vilão Jack Faustus na história entitulada Sex, Stars and Serpents. Não que isso fosse alguma novidade para o autor: quem lembra de sua fase áurea em Swamp Thing, da DC, nos anos 80, sabe que ele já havia abordado o tema ‘sexo entre diferentes’ de forma bastante ousada para a conservadora mídia estadunidense, com sucesso. Mas dessa vez Moore, com o auxílio do ilustrador J. H. Williams III, foi bem mais longe, com cenas explícitas de cunilíngüus, variações de posições e orgasmo, sem, contudo, escorregar no mau gosto pornográfico. Essa edição, que narra passo-a-passo um intercurso sexual pautado sobre citações mais ou menos óbvias tais como a serpente kundalini, o poder simbólico de camas e cavernas e como a humanidade pode comungar através do ato, foi indicada ao Eisner 2001 como melhor história individual.

Após a pausa para descanso, temos mais uma aventura do tipo “heroína-derrota-o-vilão-do-mês”, no número 11, que serve de preparação para a grande jornada que virá a seguir, com Promethea percorrendo todos os 12 reinos que congeminam as casas do zodíaco e os arcanos maiores do tarô, um por mês, durante um ano.

Logo no primeiro número da saga, Moore utiliza um artifício para relacionar a personagem a cada carta do tarô, produzindo anagramas com a palavra Promethea relacionados às 21 imagens ou aos conceitos inerentes durante as 24 páginas da edição.Assim, Metaphore é o termo representativo do Louco; Pa Theorem remete ao Mago; Mater Hope é a Sacerdotisa; A Pert Home casa com a Imperatriz e Rope Thema é o Imperador; Ape Mother é o Hierofante; Me Atop Her é a carta dos Amantes; O Mere Path, o Carro; A Pro Theme vem com a Temperança; Here Tempo, o Eremita; Eh, Tempora é a Roda da Fortuna; A carta Força corresponde a O Harem Pet; Hm Operate é oEnforcado, enquanto a Morte é O Reap Them; A Arte é Emote Harp, o Diabo é The Mop Era, a Casa de Deus é Metro Heap; A Estrela é Map O Ether, a Lua, Earth Mope, e o Sol é Meth Opera; O Julgamento é Meet Harpo, e, finalmente, o Mundo é Heart Poem.

Cada uma dessas reescrituras do nome “Promethea” descortina um dos sentidos dos arcanos e ajuda a traçar um resumo da história da humanidade desde seus primórdios até o fim inadiável – que, segundo as serpentes do caduceu, ocorrerá no ano 2017 – até o recomeço, quando o a carta do Louco mais uma vez for descartada do baralho. Sophie, assim como o leitor, tem agora um panorama, um mapa do futuro. Basta decidir que caminho seguir.

Notas
9. “Supunha-se que todo o universo era sustentado pelo gigantesco freixo Yggdrasil, que nascera do corpo de Ymir – o gigante do gelo -e tinha raízes imensas, uma das quais penetrava em Asgard, outra no Jotunheim (morada dos gigantes) e a terceira no Niffleheim (regiões das trevas e do frio). Ao lado de cada raiz havia uma fonte que a regava. A raiz que penetrava em Asgard era cuidadosamente tratada por três Norns, deusas consideradas como donas do destino. Eram Urdur (o passado), Verdande (o presente) e Skuld (o futuro). A fonte ao ldao de Jotunheim era o poço de Ymir, no qual se escondiam a sabedoria e inteligência, mas a do lado de Niffleheim alimentava Nidhogge (escuridão), que corroía a raiz perpetuamente. Quatro veados corriam sobre os ramos da árvore e mordiam os brotos; representavam os quatro ventos. Sob a árvore, ficava estendido o Ymir e, quando ele tentava livrar-se de seu peso, a terra tremia.” BULFINCH, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia, Histórias de Deuses e Heróis. Rio de Janeiro: Ediouro Publicações, 2000 – 9ª edição, p.
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10. Steampunk é um derivado da ficção científica literária, geralmente ligado ao subgênero da história alternativa, que tem como características os cenários vitorianos e as tecnologias de caráter retrô, tais como locomotivas e dirigíveis, geralmente ligadas ao uso do vapor e da eletricidade como fonte de energia. Tem como alguns expoentes literários os autores Tim Powers (The Anubis Gates), Kim Newman (Anno Dracula) e a dupla William Gibson e Bruce Sterling (The Difference Engine), que foram considerados os inventores do Cyberpunk. Já nos quadrinhos, além de Moore, temos Joe Kelly e Chris Bachallo (Steampunk), Boaz e Erez Yakin (The Remarcable Works of Professor Phineas B. Fuddle), Randy e Jean-Mark Lofficier (Robur) entre muitos outros.

11. O caduceu, varinha portada por Hermes em torno da qual duas serpentes aparecem enroladas, é um símbolo de transcendência e terapêutica, tanto que até hoje é considerado um representativo da classe médica, já que Asclépius, filho de Apolo e deus da medicina, também a utilizava como instrumento de cura. O caduceu, ou herma, também é considerado como um símbolo de fertilidade, sendo constantemente associado a falos eretos, mas também à fertilidade do espírito, da transcendência. A mescla da serpente, animal rasteiro, com o capacete e as sandálias aladas ajudam a compreender o caráter composto da divindade Hermes, que faz a comunicação das coisas terrenas com a esfera superior.

12. “Olha, garota, siga o meu conselho. Você não quer ir atrás de folclore. E de preferência não queira que o folclore venha procurar por você.” In: MOORE, Alan. Promethea #1: The Radiant Heavenly City. USA: America’s Best Comics, 1999 – 1ª edição, p. 9.

13. O cerne da lenda de Prometeu, o titã que ousou roubar o fogo celeste e terminou acorrentado e com o fígado picado por uma éguia eternamente, manteve inalterado durante séculos, mas certas evoluções concernentes à personalidade do mito foram notadas a partir do Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, escrito entre 467 e 459 A. C. O dramaturgo helênico foi o primeiro a emprestar ao titã transgressor uma característica civilizatória: ele haveria roubado o fogo de Zeus para cedê-los aos homens, para dar-lhes oportunidade de evolução. Parece-nos que foi esse o viés escolhido por Alan Moore ao construir sua Promethea, que também é portadora de um caduceu, cujas serpentes vivam e convolutas resplandecem com brilho interior. Uma entidade que, apesar de fisicamente superior ao homem comum, se manifesta por meio do princípio criador da humanidade, a chama artística, e se levanta contra o obscurantismo, as forças do caos desordenado, caixa de Pandora representada por vários personagens vilanescos, principalmente o enlouquecido ‘omnipata’ andrógino Painted Doll e o prefeito da cidade, Sonny Baskerville, cuja mente é lar de toda uma comunidade infernal. Ao combater essas forças, a Promethea de Moore não apenas aproxima os céus do homem, mas funciona como termômetro para o caminho contrário, evidenciando a evolução constante da humanidade em direção ao divino.

14. MOORE, Alan. Promethea #1: The Radiant Heavenly City. USA: America’s Best Comics, 1999 – 1ª edição, p. 24

15. MERLEAU-PONTY, Maurice. O Algoritmo e o Mistério da Linguagem, in A Prosa do Mundo. São Paulo, SP: Cosac & Naify Edições, 2002 – 1ª edição, p. 147

#HQ #Kabbalah

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