Catolicismo Negro no Brasil: Santos e Minkisi, uma reflexão sobre miscigenação

Marina de Mello e Souza

(Professora do Departamento de História FFLCH/USP)

Os estudos sobre a inserção dos africanos escravizados e seus descendentes nas Américas têm sido um campo fértil para a reflexão acerca dos processos de sincretismo, aculturação, transculturação, encontro de culturas, miscigenação cultural, entre várias outras noções que buscam dar conta de situações nas quais novas culturas surgem a partir do contato entre povos diferentes. Desde Nina Rodrigues, pesquisador pioneiro dessa área, e principalmente a partir de Melville Herskovits, que muito contribuiu para a reflexão teórica acerca dos processos de aculturação, tem sido destacada a importância de se conhecer as sociedades e culturas de onde vieram os africanos traficados para as Américas, para uma melhor compreensão das chamadas culturas afro-americanas.1 Herskovits é peça central no debate sobre a existência de “africanismos” nas sociedades americanas. Seu livro The myth of the negro past é de 1941, mas nos Estados Unidos seus trabalhos só foram valorizados a partir da década de 1960. No Brasil, depois do pioneirismo de Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Edison Carneiro, Roger Bastide e Pierre Verger foram autores que pensaram sobre o negro na sociedade brasileira.2

Nos anos 1970 Sidney Mintz e Richard Price, fundamentados em suas pesquisas de campo no Caribe e no Suriname, escreveram juntos um ensaio que influenciou toda uma geração de estudiosos da cultura afro-americana.3 A idéia de crioulização é o pano de fundo de suas reflexões, nas quais ocupa primeiro plano a preocupação com a chegada do africano no Novo Mundo, com a formação de novas comunidades e novas culturas. Mesmo priorizando os processos de transformação, os autores aceitam que eles se dão a partir de bases pré-existentes e retomam uma idéia esboçada por Herskovits, de que as culturas têm uma gramática própria que serve de elemento organizador das novas construções, sociais e culturais. Nas Américas, estas construções resultaram da interação entre grupos de escravos pertencentes a etnias diversas, unidos pelos mecanismos do tráfico e pela escravização, e grupos de colonizadores europeus, detentores dos instrumentos de poder.

Do final dos anos 1970 para cá, os sistemas sociais e religiosos criados pelas comunidades negras nas Américas têm atraído a atenção dos pesquisadores e são cada vez mais analisados de uma perspectiva que busca fazer conexões entre as culturas de origem dos escravos trazidos para as Américas e as culturas produzidas nas novas situações. A reflexão aqui proposta se enquadra nessa perspectiva de abordagem da religiosidade das comunidades afrodescendentes, tomando como foco não os chamados cultos afro-brasileiros e sim o catolicismo exercido por algumas dessas comunidades.

Um dos muitos resultados da diáspora africana é a presença de reis negros nas Américas, representantes de grupos étnicos específicos, presentes no interior de quilombos e de irmandades católicas. O estudo das situações em que existiram esses reis ilumina a compreensão de como africanos e europeus interagiram no contexto da colonização americana, sob um regime escravista. Em trabalho anterior sugeri algumas interpretações sobre esses reis, voltando atenção especial para a adoção do catolicismo, ou de alguns de seus elementos, por parte tanto de comunidades na África como de afrodescendentes nas Américas.4 Foram os estudos de John Thornton que me abriram os olhos para a importância do catolicismo na África Centro-ocidental nos séculos XVI, XVII e XVIII, e a partir deles pude perceber o lugar nada desprezível do catolicismo na relação que os africanos e afrodescendentes brasileiros mantinham com as terras de seus antepassados.5 Segundo a análise desenvolvida em meu trabalho, seguindo pistas por ele indicadas, no Brasil em algumas ocasiões o catolicismo, por estar presente na região do antigo reino do Congo desde o final do século XV, serviu de ligação com um passado africano que era importante elemento na composição das novas identidades das comunidades afrodescendentes no contexto da diáspora. Ao estudar os festejos em torno da coroação de reis do Congo que aconteciam no Brasil desde o século XVII, entendi que estas eram manifestações percebidas de formas diferentes pelos que as realizavam, membros da comunidade negra, e por aqueles identificados com a sociedade senhorial, de origem lusitana, que viam aquelas festas acontecerem mantendo atitudes ora condescendentes, ora repressoras. Enquanto para uns as festas em torno de reis remetiam a chefias africanas, a ritos de entronização, à prestação de fidelidades, para outros elas se associavam à noção de um império, que se estendia pelos quatro cantos do mundo: Europa, África, América e Ásia, e que tinha a experiência da catequese na região do antigo reino do Congo como um dos momentos emblemáticos do empenho evangelizador de Portugal.6 No meu entender, a penetração dessa festa entre muitas comunidades negras do Brasil, principalmente do final do século XVIII a meados do XIX, deu-se devido a uma combinação de fatores que fizeram com que as comemorações em torno de um rei congo tivessem significados importantes tanto para a comunidade negra como para o grupo senhorial, que detinha o poder de permitir ou reprimir as manifestações dos negros.7

Ao serem arrancados de seus lugares de origem e escravizados, ao deixarem de pertencer a um grupo social no qual construíam suas identidades, ao viverem experiências de grande potencial traumático, tanto físico como psicológico, ao transporem a grande água e terem que se dobrar ao jugo dos senhores americanos, os africanos eram compelidos a se integrarem, de uma forma ou de outra, às terras às quais chegavam. Novas alianças eram feitas, novas identificações eram percebidas, novas identidades eram construídas sobre bases diversas: de aproximação étnica, religiosa, da esfera do trabalho, da moradia. Assim, reagrupamentos étnicos compuseram “nações”, pescadores e carregadores se organizaram em torno das atividades que exerciam, vizinhos consolidaram laços de compadrio e se juntaram cultuadores dos orixás, os que faziam oferendas aos antepassados e recebiam entidades sobrenaturais sob o toque de tambores. Nesse contexto, os reis negros, presentes em quilombos e grupos de trabalho, mas principalmente em irmandades católicas, serviram de importantes catalisadores de algumas comunidades e foram centrais na construção de suas novas identidades.

Enquanto algumas atividades exercidas por comunidades negras eram proibidas e perseguidas pela administração senhorial e demonizadas pelo discurso cristão (mesmo que delas participassem também brancos católicos e às vezes até mesmo padres), outras eram em grande parte aceitas pelos agentes da administração colonial, pois adotavam formas ibéricas e católicas, ou que por estes eram assim percebidas. No primeiro caso estão os calundus, nos quais ritos eram realizados em torno de altares que abrigavam objetos mágico-religiosos, havendo a oferenda de sangue de animais, bebida e comida, ao som de tambores e com a possessão de algumas pessoas por entidades sobrenaturais.8 No segundo caso estão os cortejos e danças que acompanhavam a coroação de um rei negro pelo padre, por ocasião de festas em torno dos santos padroeiros de irmandades nas quais a comunidade negra se agrupava. Enquanto os primeiros eram no geral seriamente perseguidos, assim como os quilombos e as tentativas de rebelião, os segundos eram quase sempre aceitos e muitas vezes estimulados, uma vez que eram vistos como formas de integração do negro na sociedade colonial escravista. Entretanto, a repressão ou permissão de uns ou outros desses ritos variava em função das posições de cada agente colonial, assim como em função da conjuntura do momento.9

Danças que podem ser associadas aos calundus são descritas pelo conde de Povolide em carta de 1780, na qual explica a diferença entre as “danças supersticiosas” e as “danças que ainda que não sejam as mais santas” não eram por ele consideradas “dignas de uma total reprovação”. Essas últimas eram danças que no século XIX e início do XX eram chamadas de batuques e que ainda existem no seio de algumas comunidades negras, muitas vezes conhecidas como jongos. Nos conta o conde de Povolide que nessa ocasião “os pretos se dividiam em nações e com instrumentos próprios de cada uma, dançam e fazem voltas como arlequins, e outros dançam com diversos movimentos do corpo, que ainda que não sejam as mais inocentes são como fandangos de Castela, e fofas de Portugal, e os lundus dos brancos e pardos daquele país”. Quanto às primeiras, que chamou de “supersticiosas”, deveriam ser proibidas. Explicando a diferença entre as duas danças ele escreve:

Os bailes que entendo serem de uma total reprovação são aqueles que os pretos da costa da Mina fazem às escondidas, ou em casas ou roças, com uma preta mestra com altar de ídolos, adorando bodes vivos e outros feitos de barro, untando seus corpos com diversos óleos, sangue de galo, dando a comer bolos de milho depois de diversas bênçãos supersticiosas, fazendo crer aos rústicos que naquelas unções de pão dão fortuna, fazem querer bem mulheres a homens e homens a mulheres.10

Antes do conde de Povolide, Antonil, jesuíta italiano que viveu no Brasil de 1681 até sua morte em 1716, já havia defendido uma posição de tolerância com relação a certas festas das comunidades negras. Escrevendo para os senhores sobre os escravos diz que:

Negar-lhes totalmente os seus folguedos, que são o único alívio do seu cativeiro, é querê-los desconsolados e melancólicos, de pouca vida e saúde. Portanto, não lhes estranhem os senhores o criarem seus reis, cantar e bailar por algumas horas honestamente, em alguns dias do ano, e o alegrarem-se inocentemente à tarde depois de terem feito pela manhã suas festas de Nossa Senhora do Rosário, de São Benedito e do orago da capela do engenho.11

Essas posições de administradores e pensadores ligados ao governo colonial português na América mostram que havia uma tolerância com relação a manifestações de origem africana quando estas se aproximavam ou se combinavam com elementos da comunidade senhorial, de origem lusitana. Mas muitas das motivações que levavam as pessoas a se envolverem em certas festividades, a se unirem em torno de um rei simbólico, de festa, não eram percebidas por aqueles que não partilhavam as mesmas estruturas culturais. Dessa forma, era desprezada a autoridade que o rei tinha sobre o grupo e a união deste não era vista como ameaçadora, principalmente porque se dava no interior de irmandades de culto a determinados santos, aprovadas pela Igreja e vigiadas pelos senhores e pelo pároco local. O mesmo não se dava com os ritos religiosos de origem africana que mantiveram maior grau de autonomia cultural e organizacional e só deixaram de ser abertamente perseguidos no século XX.

Mas mesmo em celebrações católicas as comunidades negras produziam elementos que chocavam e incomodavam o grupo senhorial e principalmente alguns observadores estrangeiros, que não estavam acostumados com as mestiçagens que se iniciaram com os primeiros contatos, ainda na África, e se intensificaram na sociedade colonial americana. Esse é o caso, por exemplo, das imagens religiosas que madame Otille Coudreau encontrou num povoado de negros, à beira do rio Pacoval, no Pará, na região da floresta amazônica brasileira.

Ao registrar o levantamento hidrográfico que fez no interior da Amazônia no início do século XX, a cientista francesa expressou os mais estereotipados preconceitos contra as populações afrodescendentes, imputando-lhes um estado de selvageria e barbárie, acusando-os de mentirosos e preguiçosos, achando-os fisicamente degenerados. Desaprovou como a vila era construída, com as cabanas jogadas aqui e ali à beira do rio, sem alinhamento e delimitações, uns plantando na porta dos outros. Nessa aldeia de cerca de 15 casas cobertas de palha, que não conhecia a propriedade privada da terra, a qual era usada coletivamente pela comunidade, havia uma pequena igreja, de chão de terra batida e paredes de barro, coberta de telha e com uma cruz de madeira à frente.

O que chamou a atenção da francesa foram os santos multicoloridos dispostos ao redor da igreja, ela não diz se em altares ou não, mas sim que alguns eram brancos, outros morenos e muitos negros, “todos de figura abominável”, que lhe evocaram uma reunião de Quasímodos. Segundo ela, estavam vestidos com restos de saiotes velhos, pedaços de tecidos de cores vistosas, e tinham ao redor do pescoço colares de contas de vidro ou de sementes. Na sua opinião, era um sacrilégio que cada uma dessas criaturas tivesse o nome de um santo, São Pedro, São Benedito, Santa Luzia, Santa Rosa, Santa Sebastiana e uma Nossa Senhora negra. Coudreau conta ainda que teve vontade de destruir todos “aqueles horrores tão pouco artísticos”, estátuas que refletiam os costumes daquela gente, “rebaixada ao menor nível na escala social”.12

Contribuindo ainda mais para a alteração de tradições católicas e sensibilidades estéticas européias, os mocambeiros acompanhavam sempre suas rezas e festas religiosas com danças realizadas em uma construção ao lado da igreja – presente em todos os mocambos que a pesquisadora francesa conheceu na região.13 Essa combinação de ritos religiosos e danças ditas profanas é o padrão da maioria das festas religiosas populares brasileiras, formadas a partir da colonização portuguesa do território, onde os colonos encontraram indígenas e para onde trouxeram africanos. Nesse encontro de povos, culturas, religiões, formas de lidar com as coisas deste e do outro mundo, uma variedade enorme de combinações ocorreram. As festas em torno de reis negros, entre as quais estão as realizadas no Pacoval, são fruto dessas combinações, presentes também na confecção de objetos mágico-religiosos, como as imagens de santos que Coudreau achou um sacrilégio serem assim chamadas.

Assim como elegiam reis no seio de irmandades católicas e realizavam calundus e candomblés em recintos afastados do universo senhorial, comunidades negras também confeccionaram objetos, usados em uns e outros ritos, nos quais incorporaram elementos de suas culturas tradicionais. Os santos, comparados a Quasímodos, certamente foram esculpidos a partir de técnicas e escolhas estéticas próprias dos mocambeiros, que Eurípedes Funes nos ensinou serem descendentes de escravos vindos da África Centro-Ocidental, da região próxima do antigo reino do Congo e de Angola.14 As imagens descritas por Coudreau e chamadas de santos pelos mocambeiros eram componentes de um catolicismo negro e podem ser associadas aos minkisi, objetos usados em cerimônias mágico-religiosas de povos dessa mesma região de onde veio a maioria dos antepassados dos habitantes das margens do rio Curuá.

No mocambo do Pacoval, em que Otille Coudreau encontrou as imagens que a fizeram lembrar de uma figura monstruosa de sua própria cultura, Eurípedes Funes, 95 anos depois, assistiu e documentou uma festa realizada em homenagem a São Benedito, na qual danças, chamadas de Cordão do Marambiré, seguiam as cerimônias realizadas no interior da igreja. Seus constituintes formam uma corte em torno do rei do Congo, composta por rainhas auxiliares, valsares e contramestres, que desempenham papéis específicos na condução das coreografias que regem as danças. A autoridade máxima é a do rei do Congo, podendo essa dança ser associada às congadas. Sua roupa se distingue das outras e ele traz uma coroa na cabeça, feita de papelão, fibra natural ou lata, e uma vara, símbolo do seu poder. As rainhas e valsares têm capacetes feitos dos mesmos materiais e enfeitados com flores de papel colorido. Penas de arara também enfeitam a coroa do rei e os capacetes dos valsares. Uma fotografia tirada por Eurípedes Funes nos mostra uma imagem de São Benedito paramentada com um capacete semelhante ao dos valsares, encimado por penas.

Enfeites de penas em adereços de cabeça também são apontados por observadores das congadas feitas no século XIX em vários lugares do Brasil, principalmente em Minas Gerais. Veja-se, por exemplo, parte da descrição feita por Francis de Castelnau de uma congada que assistiu em Minas Gerais, em 1843:

A corte, em cujo traje se misturam todas as cores e os enfeites mais extravagantes, senta-se de cada lado do casal de reis; vem depois uma infinidade de outros personagens, os mais consideráveis dos quais eram sem dúvida grandes capitães, guerreiros famosos ou embaixadores de potências longínquas, todos paramentados à moda dos selvagens do Brasil, com grandes topetes de penas, sabres de cavalaria ao lado, e escudo no braço.15

Imagem de madeira de São Benedito fotografada por Eurípedes Antônio Funes, em “Nasci nas matas, nunca tive Senhor. História e memória dos mocambos do Baixo Amazonas”, tese de doutoramento apresentada ao departamento de História – FFLCH/USP, 1995, vol 1, Fig 9.

Mesmo que o cônsul francês tivesse percebido corretamente e “os selvagens do Brasil” tenham dado sua contribuição à festa negra, é muito mais plausível acreditar que a presença de penas na cabeça fosse contribuição dos africanos, considerando-se as informações a seguir.

Uma fotografia tirada em Angola ou no Congo belga antes de 1922 nos mostra um nganga, ou sacerdote, com uma imponente coroa de penas. Minkisi, objetos mágico-religiosos utilizados em amplas áreas da África Central, onde recebem nomes diversos dependendo da região, também freqüentemente traziam penas na cabeça. Como nos ensina Zdenka Volavkova, a confecção de um nkisi passava por dois momentos: aquele em que a madeira era esculpida, feita por um artesão, e um outro, no qual o nganga, especialista religioso, tornava a escultura portadora de forças sobrenaturais, nela inserindo, conforme ritos específicos, uma série de substâncias do mundo vegetal, animal e mineral, por meio das quais as forças sobrenaturais agiam.16 Era nesse momento, no qual a um objeto eram atribuídos poderes mágico-religiosos, que as penas eram colocadas nas cabeças das esculturas. Théophile Obenga diz que as penas ornamentando o penteado de algumas figuras com funções religiosas significavam que o objeto havia sido consagrado por um nganga.17 Segundo John Janzen, o uso de penas no alto da cabeça ou saindo fora de uma cabaça ou vasilha (muitos minkisi não eram figuras esculpidas mas recipientes que continham as substâncias que lhes davam os poderes sobrenaturais) é o indicador mais comum de uma aproximação com o mundo dos espíritos. Ainda segundo ele, muitos médiuns usam adereços de penas na cabeça para representar sua ligação com os espíritos.18 Também Wyatt MacGaffey informa que algumas vezes os minkisi eram equipados com penas que formavam um adereço de cabeça semelhante ao que o nganga podia usar, pois forças espirituais eram associadas a pássaros.19 Dessa forma, é evidente o lugar de destaque que as penas têm na confecção de objetos que ajudam a comunicação deste com o outro mundo no âmbito do universo cultural de povos bantos da África CentroOcidental, que engloba também o atual Camarões, já no limite com a região habitada por povos iorubás. Daí uma requintada veste usada em ritos religiosos divinatórios, composta de tecido azul anil arrematado com fios de fibra e enfeitada com conchas e búzios, à qual acompanha uma máscara de crocodilo encimada por uma tiara de penas.20

no130 (1988), p. 3.

Nganga, Angola ou Congo Belga, antes de 1922, em Wyatt Mac Gaffey “The eyes of understanding, Kongo minkisi”, Astonishment and Power (Washington, National Museum of African Art, The Smithsonian Intitution Press, 1993), p. 56.

Uma figura usada em ritos divinatórios entre os senufos, da atual Costa do Marfim, “coroada com uma carreira de penas”, indica que não só na área cultural banto as penas compõem objetos mágico-religiosos. As penas são, em muitas regiões da África, presença constante em ritos que permitem que o mundo dos homens e o dos espíritos se comuniquem. Nessa relação os chefes têm lugar importante, sendo a idéia de realeza sagrada disseminada por toda África sub-saariana. No golfo do Benim, em áreas nas quais predominavam grupos iorubás, como os chamamos agora, pássaros são insígnias de poder bastante freqüentes, estando presentes em telhados de moradias de chefes, em bastões de mando, em adereços de cabeça usados pelos chefes.21

Se lembrarmos ainda a presença constante de penas em cocares e outros adereços ameríndios, também associados a posições de poder temporal e religioso, e ainda a presença de plumas em chapéus de nobres e reis europeus (objetos altamente apreciados pelos chefes africanos e com lugar quase obrigatório nas negociações comerciais entre estes e os europeus), podemos pensar que estas penas, por estarem presentes em lugares equivalentes em diferentes culturas, tendem a manter um espaço na nova cultura que se forma a partir dos contatos encetados.22 Mas como a análise aqui proposta busca apenas fazer conexões entre a comunidade do Pacoval com os povos aos quais pertenceram seus antepassados, fixo meus olhos no mundo banto centro-ocidental, de onde veio, segundo Eurípedes Funes, a maioria dos africanos escravizados que ali se aquilombaram.

Nkisi Mbumba Maza, coletado em Cabinda antes de 1933, acervo do Museu do Homem de Paris. A escultura de madeira contém ingredientes ocultos na barriga e na cabeça, e outros ingredientes nela pendurados, como cabaça, pele de cobra, tiras de tecido, conchas, sementes, garras, chifre, fibra trançada. Cada um desses ingredientes tem uma função mágica que atribui ao nkisi sua força sobrenatural. Em Astonishment and Power, p. 70.

Nksi Nduda, coletado na área bacongo antes de 1893, acervo do Staatliches Museum für Völkerkunde, Munique, Alemanha. A escultura de madeira está coberta por tiras de peles de diversos animais, traz no pescoço uma fieira de pequenas bolsas de pano contendo ingredientes específicos e um adereço de penas atado à cabeça por uma tira de tecido. In Astonishment and Power, p. 72.

Pieu, amuleto da região dos Yakas, em Angola. In Sculpture Angolaise. Mémorial de cultures, Lisboa, Museu Nacional de Etnologia, Electa, 1994, p. 104.

Depois desse passeio por algumas regiões da África percebemos nos panos, cordões, contas e penas adicionadas às imagens encontradas no Pacoval por Otille Coudreau no início do século XX, e por Eurípedes Funes no fim do mesmo século, a expressão do encontro entre o catolicismo e as religiões bantos tradicionais. Se em 1901 as imagens da igreja do Pacoval foram comparadas a Quasímodos pela cientista francesa, o que a fotografia tirada no final do século XX nos mostra é um santo entalhado em madeira por mãos de artistas populares, como uma infini-ade de outros o foram, tendo como traço diferenciador o tufo de penas que enfeita seu capacete, semelhante ao dos valsares. Certamente ao longo dos anos novecentos a comunidade do Pacoval assumiu mais e mais feições brasileiras, distanciando-se de um passado africano que fora mais preservado enquanto o grupo evitou contatos muito intensos com a sociedade circundante, para a qual eram descendentes de escravos fugidos. Hoje em dia o que se destaca na religiosidade afro-católica dos moradores do Pacoval são as danças que acompanham as celebrações dos santos, e que não se restringem às comunidades negras, pois são característica marcante do catolicismo colonial conforme vivido na América portuguesa. Mas específicos das danças realizadas pelas comunidades afrodescendentes são os elementos africanos nelas presentes, como os ritmos, os passos, as letras das músicas, permeadas de palavras de origem africana, e símbolos que mesmo transformados remetem às suas raízes, como as penas na cabeça indicando uma ligação com o mundo do além.

O tema da dominação não pode deixar de estar presente quando falamos de sociedades afrodescendentes nas Américas, e certamente as atitudes dos representantes da sociedade senhorial, entre eles os agentes da Igreja, tiveram um papel fundamental nos processos de constituição de novas identidades e novas formas culturais a partir da diáspora africana. Mas foram os ajustes e opções empreendidos pelos africanos recém-chegados e pelos seus descendentes que definiram as feições das novas culturas que se criaram nas Américas. Nesse processo os santos, imagens do culto católico, absorveram sentidos e papéis das imagens e objetos usados nas religiões bantos tradicionais, o que já havia ocorrido na própria África, a partir da ação de missionários católicos romanos e da conversão ao catolicismo da elite dirigente do antigo reino do Congo, no final do século XV. Com a ocupação portuguesa de algumas áreas do território que ficou conhecido como Angola, missionários continuaram a agir naquelas regiões, sendo alguns dos elementos por eles introduzidos, com destaque para objetos usados em cultos religiosos, incorporados pelas populações nativas, que a eles acoplaram significados pertinentes às suas próprias tradições.

Kafigeledjo, oráculo usado em ritos divinatórios da etnia senufo, Costa do Marfim, final do século XIX, início do XX, acervo do Metropolitan Museum of Art, New York. A escultura de madeira é coberta por um tecido, alguns ingredientes pendem amarrados na altura do pescoço, um gancho de ferro e um osso de pássaro pendurados em parte do pano fazem as vezes de braços e mãos e a cabeça está coroada por penas e espinhos de porco-espinho. In Alisa LaGamma, Art and Oracle. African Art and Rituals of Divination, New York, Metropolitan Museum of Art, 2000, p. 27.

Se em territórios africanos, nos quais era pequeno o espaço ocupado pelos portugueses e seus agentes (entre eles os missionários), o catolicismo deixou discretos vestígios no período pré-colonial, na América portuguesa os africanos muitas vezes a ele se renderam, não sem recheá-lo de contribuições de suas religiões tradicionais. Na América eles eram obrigados pela violência, pela condição de escravos e de estrangeiros, a se sujeitarem às normas dos que mandavam – a administração colonial portuguesa, para a qual a religião católica era importante meio de dominação. Várias foram as formas pelas quais o catolicismo foi adotado por comunidades afrodescendentes, mas essa área de estudos recebeu, no geral, menos atenção do que os cultos religiosos derivados de tradições africanas. Nina Rodrigues e Arthur Ramos tratam com mais vagar das religiões afro-brasileiras e do conjunto cultural iorubano; Roger Bastide, quando aborda o catolicismo negro, é de maneira superficial, ignorando as motivações das comunidades negras e tomando o catolicismo apenas como uma imposição do universo senhorial, incorporada geralmente para servir de disfarce a ritos de origem africana. Também Pierre Verger, por focar apenas a Bahia e a África Ocidental, na qual a penetração das religiões cristãs só se deu após o término do tráfico de escravos, não aborda o cristianismo negro e suas relações com o catolicismo africano dos bantos da África Centro-Ocidental. Só Robert Slenes, mais recentemente, tem se aprofundado no estudo dos povos desta região e chamado a atenção para o fato de que muitos escravos que de lá vieram já tinham incorporado elementos de um catolicismo africano, termo cunhado por John Thornton.23 Eu mesma, seguindo as trilhas abertas principalmente por esses dois autores, venho pensando acerca de alguns aspectos do catolicismo africano e do catolicismo afro-brasileiro.24

É essa preocupação que me faz prestar atenção no espanto e repulsa de Otille Coudreau diante das imagens que viu na igreja do mocambo à beira do rio Curuá, associadas a Quasímodos, aberrações que feriam sua sensibilidade estética educada na Europa, com a qual se orientava no mundo. Bem antes de ela viver essa experiência na Amazônia brasileira, outros europeus tinham tido reações muito parecidas diante dos minkisi, que chamavam de “fetiches”, ou de “imagens demoníacas”, como a essas figuras se referiu Olfer Dapper (cujo livro foi publicado em 1676), “rudemente esculpidas em madeira e cobertas de trapos sujos”, como disse J. K. Tuckey em 1816, e com aparência feroz, no entender de H. M. Stanley, em 1895. O tenente Tuckey comparou essas imagens com espantalhos, e missionários católicos e batistas do final do século XIX chamaram-nas de indecentes e francamente obscenas.25

Um século depois de Coudreau, no Brasil, e de alguns missionários que viveram na África Centro-Ocidental terem tomado conhecimento dessas imagens, podemos tentar nos despir do etnocentrismo existente em todas as culturas e tempos e buscar entender as motivações prováveis por trás das opções feitas pelos grupos e pelas pessoas. Nesse sentido, os estudos sobre os minkisi centro-africanos lançam novas luzes sobre os santos envoltos em panos gastos, com colares de contas e sementes e adereços de penas na cabeça. À maneira das penas colocadas na cabeça dos baganga (plural de nganga) e dos minkisi, o adereço de cabeça do São Benedito fotografado no mocambo do Pacoval reforça a conexão entre este mundo e o outro, a relação dos homens com o além, permitida pelo objeto mágico-religioso, seja ele um santo católico, um nkisi, ou um produto mestiço do encontro entre as diferentes culturas. Na virada do século XIX para o XX, as imagens dos santos católicos cultuados por comunidades afrodescendentes que viviam num grau significativo de isolamento, mantendo tradições e maneiras de pensar e sentir próximas das de suas culturas de origem, deviam guardar mais proximidade dos minkisi do que hoje em dia.

Considerando que desde o século XVI missionários católicos viviam entre povos da região do antigo reino do Congo e de Angola, onde se desenvolveram formas africanas de catolicismo e houve a incorporação de objetos do culto cristão às religiões tradicionais, percebemos que as mestiçagens culturais nas quais o catolicismo é o elemento dominante podiam estar em curso antes da escravização e da travessia do Atlântico. Com isso em mente, não é difícil aceitar que os panos e colares que envolviam os santos dispostos ao redor da igreja do mocambo visitado por Coudreau estavam mais próximos dos elementos equivalentes que compunham os minkisi, atribuindo-lhes certos poderes, do que das vestes e jóias que envolviam os santos que habitavam os altares dos senhores, que por sua vez também se inseriam no pensamento mágico que permeava a vida cotidiana da Europa pré-iluminista. Santos e minkisi eram objetos de ligação com o mundo do além, de onde vinha a solução para os problemas deste mundo.

Enquanto na cultura popular ibérica, na qual o catolicismo se misturou a tradições pagãs, os santos eram invocados para afastar epidemias de peste e pragas das plantações, trazer chuva e curar as pessoas, os minkisi, divididos em várias categorias e com especializações próprias, eram chamados a identificar malfeitores, curar ou provocar doenças, garantir a fertilidade da terra e das mulheres. Constituídos por esculturas, vasilhames ou amarrações, recebiam em ritos conduzidos pelos baganga ingredientes que os tornavam portadores de poderes próprios dos espíritos da natureza ou dos antepassados. A eles os santos católicos levados para a África pelos missionários foram associados. Na América, ao reconstituir suas formas de organização e relação com as coisas do mundo terreno e sobrenatural, os africanos e seus descendentes recorreram aos santos católicos para neles imprimir elementos de suas crenças tradicionais, utilizando-se dos espaços permitidos pela sociedade escravista, tal como fizeram com os festejos em torno de um rei negro.

Ao terem que construir novas instituições, os grupos heterogêneos de africanos escravizados recorreram não apenas aos saberes trazidos por determinados indivíduos, mas também ao que havia de comum aos sistemas cognitivos das pessoas pertencentes a grupos étnicos diversos. Nessa dinâmica entre uma “gramática da cultura” que serviu de base às novas formações e à ação de pessoas particulares, portadoras de conhecimentos adquiridos em suas terras natais, as penas muitas vezes foram mantidas como veículos de ligação entre este mundo e o além. Por outro lado, ao terem que se inserir numa sociedade dominada pelo colonizador cristão, que impunha sua religião, traduziram-na para seus próprios termos, atribuindo aos santos significados inacessíveis àqueles que não partilhavam seus códigos culturais. Dessa forma, os elementos da cultura dominante de origem européia, ao serem incorporados pelas comunidades afrodescendentes, receberam sentidos por elas criados. O caso aqui analisado é exemplo de como o estranhamento pode ser uma boa pista para se alcançar significados não evidentes, como nos ensinou Carlo Ginzburg.

Notas:

1 Nina Rodrigues, Os africanos no Brasil, 3a ed., São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1945; Melville Herskovits, The myth of the negro past, Boston, Beacon Press, 1990.

2   Roger Bastide, Les réligions africaines au Brésil, Paris, Presses Universitaires de France, 1960; e As Américas negras, as civilizações africanas no Novo Mundo, São Paulo, Difel, Editora da Universidade de São Paulo, 1974; Artur Ramos, Introdução à Antropologia Brasileira, Rio de Janeiro, Edição da Casa do Estudante do Brasil, 1943, e As culturas negras no Novo Mundo, 4a ed., São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1979; Edison Carneiro, Antologia do negro brasileiro, Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1962; Pierre Verger, Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo de Benin e a Bahia de Todos os Santos, São Paulo, Corrupio, 1987.

3 Sidney Mintz e Richard Price, The birth of African-American culture, an anthropological perspective, Boston, Beacon Press, 1992.

 

4   Marina de Mello e Souza, Reis negros no Brasil escravista, história da festa de coroação de rei congo, Belo Horizonte, Editora UFMG, 2002.

5 John Thornton é um pesquisador que tem dado contribuição decisiva para o estudo do catolicismo na África Centro-Ocidental. Suas posições, freqüentemente iluminadoras, podem ser conhecidas em diversos artigos e livros sobre o tema como “The development of an African Catholic Church in the Kingdom of Kongo, 1491-1750”, Journal of African History, no 25 (1984), pp. 147-167; “Early Kongo-Portuguese relations: a new interpretation”, in David Henige (org.), History in Africa, a journal of method, nº 8 (1981), pp. 183-204; e Africa and Africans in the Making of the Atlantic World, 1400-1680, Cambridge, Cambridge University Press, 1992.

6 Silvia Lara, em “Significados cruzados: as embaixadas de congos na Bahia setecentista”, in Maria Clementina P. Cunha (org.), Carnavais e outras f(r)estas, (Campinas, Cecult/Editora Unicamp, 2001), pp. 71-100, faz uma análise nessa direção, servindo de guia em alguns aspectos da minha interpretação das festas de reis congos em geral.

7 No livro mencionado eu utilizo a noção de “rei congo” como de um elemento aglutinador de diferentes grupos africanos e afrodescendentes no âmbito do processo de constituição de novas identidades. Manifestação que ganha vigor entre os grupos bantos, os festejos de reis do Congo traziam para os africanos a memória da terra natal, mitificada, e para os colonizadores a lembrança de um império que dominou os mares, o comércio, e que se empenhou em disseminar a palavra de Cristo.

8   Ver entre outros textos, de João José Reis, “Magia jeje na Bahia: a invasão do Calundu do Pasto de Cachoeira, 1785”, Revista Brasileira de História, v. 8, no16 (1988), pp. 57-81, e “Nas malhas do poder escravista: a invasão do candomblé do Accu”, in João José Reis e Eduardo Silva, Negociação e conflito, a resistência negra no Brasil escravista, São Paulo, Companhia das Letras, 1989, pp 32-61; de Luis Mott, “Acotundá: raízes setecentistas do sincretismo afro-brasileiro”, in Escravidão, homossexualidade e demonologia, São Paulo, Ícone Editora, 1988, pp. 87-114; “O calundu-angola de Luzia Pinta: Sabará, 1739”, Revista IAC, no1 (1994), pp.73-82; de Laura de Mello e Souza, “Revisitando o calundu”, in Lina Gorenstein e Maria Luiza Tucci Carneiro (orgs.), Ensaios sobre a intolerância, inquisição, marranismo e anti-semitismo (homenagem a Anita Novinski) (São Paulo, Humanitas, Fapesp, 2002), pp. 293-317.

9 João José Reis é autor que tem pensado sobre o tema da tensão existente entre a permissão e a repressão de práticas das comunidades negras no Brasil em momentos diferentes e sob o mando de administradores com posições diversas, como por exemplo em “Nas malhas do poder escravista”.

10 A carta do conde de Povolide, José da Cunha Grã Ataíde e Mello (1734-1792), está transcrita em nota do artigo de Robert C. Smith, “Décadas do Rosário dos Pretos. Documentos da irmandade”, Arquivos, no 1-2 (1945-1951), sendo que o autor o confunde com Martinho de Mello e Castro (1716-1795), estadista português que sucedeu a Pombal e nunca foi governador de Pernambuco. Atualizei a grafia e pontuação da carta.

11 João Antonio Andreoni (André João Antonil), Cultura e opulência do Brasil, 2a ed., São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1966, p. 164.

12 Otille Coudreau, Voyage au Rio Curua, 20 nov. 1900 7 mars 1901, Paris, A. Lahure ImprimeurEditeur, 1903, p. 19.

13 Aqui mocambo é uma aldeia de negros, geralmente remanescente de quilombos, que também eram conhecidos como mocambos. Para o caso específico do mocambo do Pacoval ver o estudo de Eurípedes Antonio Funes, “‘Nasci nas matas nunca tive senhor’. História dos mocambos do baixo Amazonas” (Tese de Doutorado, Universidade de São Paulo, 1995); e artigo com o mesmo título in João José Reis e Flávio dos Santos Gomes (orgs.), Liberdade por um fio, história dos quilombos no Brasil (São Paulo, Companhia das Letras, 1966), pp. 467-497.

14 Conforme Funes, “‘Nasci nas matas nunca tive senhor’”, p. 34.

15 Francis de Castelnau, Expedição às regiões centrais da América do Sul, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1949, p. 172.

16 Ver Zdenka Volavkova, “Nkisi figures of the Lower Congo”, African Arts, no 5 (2) (1972), p. 56. Para uma explicação sobre os minkisi, ver Wyatt MacGaffey, “The eyes of understanding Kongo minkisi”, in Astonishment and Power (Washington, National Museum of African Art, The Smithsonian Institution Press, 1993), p. 56, e An Anthology of Kongo Religion: primary texts from lower Zaire, Lawrence, University of Kansas, 1974.

17 Théophile Obenga, “Sculpture et société dans l’ancien Congo”, Dossiers Histoire et Arqueologie

18 John M. Janzen, “14 Figure (nkisi)”, in Expressions of Belief, New York, Rizzoli, 1988.

19 Wyatt MacGaffey, “Complexity, astonishment and power: the visual vocabulary of Kongo minkisi”, Journal of Southern African Studies, vol. 14, no 2 (1988), p.193.

20 A roupa está num museu em Dresden e pode ser vista no livro de Alisa LaGamma, Art and Oracle. African Art and Rituals of Divination, New York, Metropolitan Museum of Art, 2000, p. 57.

21 Ver Suzanne Preston Blier, Royal Arts of Africa. The majesty of form, London, Laurence King Publishing, Calman & King, 1998.

 

22 Um dos muitos pontos para os quais o parecerista anônimo da Afro-Ásia abriu meus olhos foi este, relativo à abrangência da presença de penas e pássaros em insígnias de poder.

23 Principalmente em Africa and Africans in the making of the Atlantic World.

24 Em Reis negros no Brasil escravista. História da festa de coroação de rei congo; “Santo Antonio de nó-de-pinho e o catolicismo afro-brasileiro”, Tempo, vol. 6, no 11, (2001) pp. 171188; e “História, mito e identidade nas festas de reis negros no Brasil séculos XVIII e XIX”, in István Jancsó e Iris Kantor (orgs.) Festa. Cultura a sociabilidade na América portuguesa (São Paulo, Hucitec / Edusp, 2001), pp. 249-260.

25 Conforme Volavkova, “Nkisi figures of the Lower Congo”, p. 52.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/catolicismo-negro-no-brasil-santos-e-minkisi-uma-reflexao-sobre-miscigenacao-cultural/

Fernando Pessoa

COMO TUDO COMEÇOU

1888: Nasce Fernando Antônio Nogueira Pessoa, em Lisboa.
1893: Perde o pai.
1895: A mãe casa-se com o comandante João Miguel Rosa. Partem para Durban, África do Sul.
1904: Recebe o Prêmio Queen Memorial Victoria, pelo ensaio apresentado no exame de admissão à Universidade do Cabo da Boa Esperança.
1905: Regressa sozinho a Lisboa.
1912: Estréia na Revista Águia.
1915: Funda, com alguns amigos, a revista Orpheu.
1918/1921: Publicação dos English Poems.
1925: Morre a mãe do poeta.
1934: Publica Mensagem.
1935: Morre de complicações hepáticas em Lisboa

VOLTA AMANHÃ, REALIDADE

Lisboa. 26 de Novembro de 1935. Pessoa encerra o expediente no escritório de import-export e segue para casa. Debaixo do braço, sempre a sua pasta de cabedal. Antes de chegar ao seu andar na rua Coelho da Rocha, passa pelo bar do Trindade, logo na esquina. Rotina. O amigo vende-lhe fiado.

Chega-se ao balcão e diz: – 2, 8 e 6.

Trindade serve-o: fósforos, um maço de cigarros e um cálice de aguardente. No olhar, cumplicidade. Os fósforos custam 20 centavos, os cigarros 80 e um cálice de aguardente 60.

Pessoa simplifica: 2, 8, e 6 tostões. Trindade já está acostumado. O poeta acende um cigarro e bebe o cálice, um trago só. Retira da pasta uma garrafa vazia, preta. Entrega-a ao Trindade que, discretamente, a devolve cheia.

Com a pretinha bem guardada, Pessoa despede-se. Sai aos tropeções e a recitar:

Bêbada branqueia
Como pela areia
Nas ruas da feira,
Da feira deserta,
Na noite já cheia
De sombra entreaberta.
A lua branqueia
Nas ruas da feira
Deserta e incerta…

A MINHA ALMA PARTIU-SE COMO UM VAZO VAZIO

No quarto passa a noite debruçado à secretária. Confundimo-lo com os livros, papéis, também lápis minúsculos que só ele consegue manusear. O cinzeiro cheio de pontas de cigarro.

Escreve, compulsivamente, ao jovem amigo Casais Monteiro:

“…Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos.) Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida-real. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser um eu, tem me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua maneira de encantar.”

A carta vai a todo o vapor quando Pessoa começa a receber visitas inesperadas. Caeiro, Reis Campos e Soares. Têm planos, e querem levá-los ao conhecimento do grande poeta. Chegam um a um. É madrugada e já estão todos reunidos. São surpreendidos por um Pessoa emocionado, papéis em punho.

Terá recebido más notícias? perguntam, preocupados. O poeta tenta desconversar. É confuso, perde-se nas palavras, coisa que nunca acontecera antes. Mas também nunca recebera visitas em tão adiantada hora. Muito menos sem combinação prévia. É obra do “Grande Arquiteto do Universo”, pensa.

Então que se cumpra o destino… Aos solavancos:

– Adiei a verdade quanto pude. É chegada a hora de deixar cair a máscara.

Os quatro ansiosos. Quem está sentado levanta-se, quem está de pé senta-se ou passeia pelo quarto.

Pessoa e o seu discurso enviesado, interrompido por dores e gemidos:

– Numa carta confidenciava a um amigo tudo o que agora sinto que devo dizer-vos.

Um gole de coragem e solta:

– Vocês não existem.

Consternação na assistência.

– É isso, vocês não são mais que personagens da minha criação. Morro e levo-os comigo.

– Só pode ser delírio. Desatino. (diz Álvaro de Campos, ofendido).

– Vou-lhes contar como tudo aconteceu. “Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. (…) E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nesta altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num ato, e à máquina de escrever, sem interrupção, nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro Campos – a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.”

– Então, todo este tempo não passámos de uma mentira? (pergunta Ricardo Reis).

Bernardo Soares responde:

O poeta é um fingidor
Mente tão completamente
Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente. – Pois esta é a chave, explica Pessoa.- Não aceito. Morra em paz o meu criador, porque eu cá continuarei vivinho, poetando como sempre (desafia Álvaro de Campos).

– Arre! Que a criação agora vira-se contra o próprio criador. Deveria ter suspeitado (lamenta-se Pessoa). E quanto a si, Caeiro?

Gosto de tudo que seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,

Porque tudo é real e tudo está certo Álvaro de Campos:

– Não entendo a sua complacência. Não está a ver, Caeiro, que Pessoa usou-nos e, principalmente, usou-o. Compelido a vencer o seu subjetivismo lírico decadentista, venceu-o de forma tão súbita e agressiva que não teve remédio senão dar um nome a esse crítico. É ai que você surge, para salvá-lo.

Caeiro não esconde seu desgosto.

Pessoa então revela:

– Escrevi, com sobressalto e repugnância, o poema oitavo do Guardador de Rebanhos, com a sua blasfêmia infantil e antiespiritualista. A cada personalidade que consegui viver dentro de mim, dei uma índole expressiva, e fiz desta personalidade um autor, com livros, com as ideias, as emoções, e a arte dos quais eu, autor real, nada tenho, salvo o ter sido, no escrevê-las, o médium de figuras que eu próprio criei.

– Você não tinha esse direito (insiste Campos).

Ainda Pessoa:

– Negar-me o direito de fazer isto seria o mesmo que negar a Shakespeare o direito de dar expressão à alma de Lady Macbeth. Se assim é das personagens fictícias de um drama, é igualmente lícito das personagens fictícias sem drama, pois que é lícito porque elas são fictícias e não porque estão num drama. Parece escusado explicar uma cousa de si tão simples e intuitivamente compreensível. Sucede, porém, que a estupidez humana é grande, e a bondade humana não é notável.

Ricardo Reis, que assistira mudo à revelação, pergunta:

– Mas por que é que você nos inventou? Qual a origem de tudo?

Pessoa, pacientemente, tenta explicar-lhe:

– É o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurastênico. Seja como for, a vossa origem mental está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Se eu fosse mulher – na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas – cada poema do Álvaro de Campos (o mais histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem – e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia…

A resposta não convence, não agrada. Longe está o tempo em que fora loquaz. Agora fazem-lhe ouvidos moucos. Pessoa é todo angústia. O silêncio que o rodeia. A incompreensão, mágoa e até o desprezo dos seus outros “eu”. Vira-se para um último apelo. Fica só com a sua verdade.

VOU EXISTIR

Quando pensa deitar-se, já é outro dia. Batem à porta. É o “sô” Manacés, o barbeiro. Pessoa mal lhe dá os bons-dias. O pigarro prende-lhe a fala. Calças a cair do corpo, aponta para a pretinha. Manacés compreende o sinal. Vai ao Trindade enchê-la, ainda nem afiara a navalha. Barba feita, o poeta vai para o escritório. Faz algumas traduções. Almoça no Martinho da Arcada e, antes de voltar ao trabalho, entra numa taberna, meio titubeante. Pensa no seu médico que o proibira de beber.

Então questiona-se:

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! vou existir.
E-xis-tir…
E-xis-tir…
Dêem-me de beber, que não tenho sede!

Noite de 27 para 28 de Novembro. Pessoa encolhido na sua cama, as mãos a pressionarem o abdómen, cólica hepática. Geme, dor. Manhã de 28. Pessoa é transportado para o Hospital de S. Luís dos Franceses. A dor aperta, sufoca. O poeta agoniza. Implora pelo fim de tanto sofrimento. Aplicam-lhe um analgésico. Sob o efeito da droga, reflete sobre a vida que ameaça escapar-lhe agora.

Ó MÁGOA REVISITADA

1888. 13 de Junho. Dia de Santo António, padroeiro da cidade. 15h20. As ruas de Lisboa tomadas por uma procissão. No número 4 do Largo São Carlos a agitação é ainda maior. A açoriana Maria Magdalena Pinheiro Nogueira banhada em suor. Crava os dedos no travesseiro, dores de parto. O marido, Joaquim de Seabra Pessoa, põe-se a ouvir música nas traseiras da casa. Lá fora um Padre reza missa. Dentro do quarto, um bebé a chorar. Nasce Fernando António Nogueira Pessoa. O sol em Caranguejo. “Será uma criança dotada de sensibilidade e humanismo”, arrisca uma das tias.

Aos seis anos perde o pai, funcionário público do Ministério da Justiça e crítico de música do Diário de Notícias. Pouco depois morre o irmão Jorge, com pouco mais de seis meses. Muito cedo a solidão no dia-a-dia de Pessoa.

Inventa um amigo: um certo Chevallier de Pas, por quem escreve cartas dele a ele mesmo.

Aos sete anos muda-se para Durban. A mãe casara, por procuração, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal na colônia inglesa de Natal, África do Sul. Deste casamento nascem cinco filhos. Uma nova família para Pessoa. Viverá naquela cidade até aos 17 anos. Em 1896 entra para West Street, onde tem aulas de inglês e faz a sua primeira comunhão. Em escolas inglesas aprende técnicas de comércio. Destaca-se como um dos melhores alunos. Em 1904 conclui a sua Intermediate Examination em Artes. Ganha o prêmio Rainha Vitória de estilística inglesa no exame de admissão à Universidade do Cabo. Escreve poesia e prosa, sempre em inglês. Lê Milton, Byron, Shelley, Tennyson e Poe. Conhece Pope e a sua escola.

1905. Pessoa decide voltar a Lisboa para fazer o Curso Superior de Letras. Parte a bordo do navio alemão Herzog. Instala-se na casa de sua avó Dionísia. A língua portuguesa revela-se como “estrangeira”, com a novidade do “estranho”, se bem que a entenda perfeitamente. Ou seja, ao seu ouvido o português não está ainda desgastado pelo uso quotidiano, bom dia, boa tarde, como está? passou bem? e a mãezinha está melhor? está melhorzinha, muito obrigado ! É um bloco de mármore que apetece esculpir, literatura. Inscreve-se no curso. Descobre Cesário Verde e Baudelaire.

1907. Desiste do curso.

A avó morre. Com a herança, Pessoa monta uma tipografia: Ibis-Tipográfica Editora-Oficinas a Vapor. Mal chega a funcionar. Frustração.

Falhei em Tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa…

O poeta entra no comércio como tradutor de cartas e depois correspondente estrangeiro. Monotonia. Dá as suas escapadelas sempre que pode.

Levanta-se, pega no chapéu e avisa: “Vou ao Abel”.

O seu chefe descobre que afinal o Abel é o depósito da casa vinícola Abel Pereira da Fonseca, onde Pessoa vai tomar uns copos de aguardente. É apanhado “em flagrante delitro”. O chefe não se importa, pois “volta sempre mais em forma para trabalhar”. O emprego é a meio-tempo.

A outra metade é para a literatura: Camões, António Vieira, Antero de Quental e os simbolistas. Começa a escrever versos em português. Surge a Renascença Portuguesa, movimento saudosista de Teixeira de Pascoaes. No Porto, o grupo funda a revista Águia. Pessoa colabora. Publica uma série de artigos, entre os quais “A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada”.

Também faz crítica no semanário Teatro. Trava amizade com Mário de Sá-Carneiro, Luís de Montalvor, Armando Cortes-Rodrigues, Raul Leal, António Ferro, Alfredo Guisado e o pintor Almada Negreiros.

Não falta às tertúlias: Café Chiado, Montanha, A Brasileira, Os Irmãos Unidos.

Com este grupo Pessoa funda o Orpheu, revista de vanguarda em sintonia com os novos movimentos europeus: futurismo, orfismo, cubismo… A publicação revela nomes como Santa-Rita Pintor e Ângelo de Lima, poeta marginal internado em manicómio. Orpheu não chega ao terceiro número. Porém bastaram dois para afrontar os conservadores das Letras.

Farto do misticismo transcendental, Pessoa sente-se recompensado.

A um amigo escreve: Em ninguém que me cerca eu encontro uma atitude para com a vida que bata certo com a minha íntima sensibilidade, com as minhas aspirações, com tudo quanto constitui o fundamental e o essencial do meu íntimo ser espiritual.

Encontro, sim, quem esteja de acordo com atividades literárias que são apenas dos arredores da minha sinceridade. E isso me basta. De modo que à minha sensibilidade cada vez mais profunda, e à minha consciência cada vez maior da terrível e religiosa missão que todo o homem de génio recebe de Deus com o seu génio, tudo quanto é futilidade literária, mera arte, vai gradualmente soando cada vez mais a oco e a repugnante.

OS OUTROS POETAS

1914. Pessoa conhece Alberto Caeiro, homem “louro sem cor, olhos azuis”. Nascera em Lisboa em 1888, mas vive no Ribatejo. Não tem profissão. Instrução, pouca. Da quinta de uma velha tia lança o seu olhar sobre o mundo. Simples, bucólico, escreve O Guardador de Rebanhos, O Pastor Amoroso e uma parte dos Poemas Inconjuntos.

Em carta a um amigo, Pessoa revela: Desculpe-me o absurdo da frase: Aparecera em mim o meu mestre.

(…) Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me: Aqui estou!

Pessoa respira e transpira poesia, atrai os poetas. Conhece o vanguardista Álvaro de Campos, autor de Ode Triunfal, Ode Marítima e de Ultimatum. Sujeito alto, cabelo pró liso, risca ao lado, monóculo. Nascera em Tavira em 1890. Concluíra o liceu em Portugal e depois seguira para Glasgow na Escócia, onde se formara em engenharia mecânica e naval. Escrevera Opiário, poema irônico sobre o ópio, o exotismo, decadência. Em Lisboa, dedicara-se apenas à literatura, e às polêmicas modernistas. Escrevera também em alguns jornais sobre a atualidade política. Para Pessoa, Álvaro não passava de um tardo-simbolista blasé, burguês culto e entediado. Campos também é discípulo de Caeiro. Mas ao contrário da serenidade de Caeiro, opta pela ética do dinamismo e da violência.

Ah! a selvajaria desta selvajaria! merda
Pra toda a vida como a nossa, que não é nada disto!
Eu pr’aqui engenheiro, prático à força, sensível a tudo,
Pr’aqui parado, em relação a vós, mesmo quando ando;
Mesmo quando ajo, inerte; mesmo quando me imponho, débil;
Estático, quebrado, dissidente, cobarde da vossa Glória,
Da vossa grande dinâmica estridente, quente e sangrenta!

Pessoa dedica-se por inteiro às novas amizades. O convívio com poetas tão distintos dá mais cor ao seu dia-a-dia cinzento. Um outro escritor fará parte deste rol de artistas. Num destes restaurantes de pasto,(…) o poeta conhece um homem que aparentava 30 anos, magro, mais alto que baixo, curvado exageradamente quando sentado. Passaram a cumprimentar-se e logo se tornam amigos. Soares dá ao poeta o seu Livro do Desassossego, um conjunto de escritos, de fronteiras pouco nítidas, entre fragmento autobiográfico, a confissão, a introspecção psicológica, a descrição paisagística, a reflexão, o poema em prosa.

Pessoa tem uma desavença com Campos. A jovem Ophélia Queiroz, que conhecera num dos escritórios da Félix Valadas & Freitas, está na origem do conflito. Aos 20 anos ela desperta logo o interesse no poeta. A relação estremece quando Pessoa e Ophélia começam a namorar. Passeiam de mãos dadas, trocam cartas e bilhetinhos. Ela sente-se hostilizada pelo amigo de Fernando. Campos teme que, por causa de Ophélia, Pessoa se distancie da poesia. Talvez influenciado pelo apelo, Pessoa acaba por desistir do romance.

Ah! a selvajaria desta selvajaria! merda
Pra toda a vida como a nossa, que não é nada disto!
Eu pr’aqui engenheiro, prático à força, sensível a tudo,
Pr’aqui parado, em relação a vós, mesmo quando ando;
Mesmo quando ajo, inerte; mesmo quando me imponho, débil;
Estático, quebrado, dissidente, cobarde da vossa Glória,
Da vossa grande dinâmica estridente, quente e sangrenta!

Junho de 1914. Outro poeta surge na vida de Pessoa. Já soubera da sua existência dois anos antes. Ricardo Reis, estatura média, embora frágil não parecia tão frágil como era, de um vago moreno mate. Um ano mais velho que Pessoa, este médico portuense é defensor da monarquia, passa um tempo exilado no Brasil depois da proclamação da República. Tradicional, conservador, parte do classicismo para abordar a inquietação humana, interrogar o sentido do Universo.

Escreve intensamente: onze odes num mês.

E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade,
Como quem compõe roupas
E outrora compúnhamos
Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando nós pensamos
Naquilo que já fomos.
E há só noite lá fora.

Pessoa dedica-se por inteiro às novas amizades. O convívio com poetas tão distintos dá mais cor ao seu dia-a-dia cinzento. Um outro escritor fará parte deste rol de artistas. Num destes restaurantes de pasto,(…) o poeta conhece um homem que aparentava 30 anos, magro, mais alto que baixo, curvado exageradamente quando sentado. Passaram a cumprimentar-se e logo se tornam amigos. Soares dá ao poeta o seu Livro do Desassossego, um conjunto de escritos, de fronteiras pouco nítidas, entre fragmento autobiográfico, a confissão, a introspecção psicológica, a descrição paisagística, a reflexão, o poema em prosa.

Pessoa tem uma desavença com Campos. A jovem Ophélia Queiroz, que conhecera num dos escritórios da Félix Valadas & Freitas, está na origem do conflito. Aos 20 anos ela desperta logo o interesse no poeta. A relação estremece quando Pessoa e Ophélia começam a namorar. Passeiam de mãos dadas, trocam cartas e bilhetinhos. Ela sente-se hostilizada pelo amigo de Fernando. Campos teme que, por causa de Ophélia, Pessoa se distancie da poesia. Talvez influenciado pelo apelo, Pessoa acaba por desistir do romance.

MISTÉRIO

1916. Mário de Sá-Carneiro suicida-se em Paris. Pessoa atordoado. Em carta à sua tia Anica diz ter sentido o suicídio à distância. Tormentos. Começa a procurar respostas nas ciências ocultas. “Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos e em existências de diversos graus de espiritualidades”, revela. Entusiasma-se com as Sociedades secretas (Rosa-Cruz, Maçonaria, Templários). Conhece o espiritismo, a magia, a cabala. Traduz para o português muitos livros da Coleção Teosófica e Esotérica. Sob a influência do ocultismo escreverá O último sortilégio e Além-Deus. Inicia-se e cultiva, sobretudo, a astrologia. Pensa até em estabelecer-se em Lisboa como astrólogo encartado. Caeiro é contemplado com um mapa astral feito pelo poeta.

A poesia de Pessoa começa a despertar o interesse de críticos. O Times e o Glasgow Herald dedicam espaço às duas plaquettes de poemas ingleses publicados em 1918. Escreve nas mais importantes revistas literárias portuguesas. Em Contemporânea publica O Banqueiro Anarquista, Mar Português, O Menino da Sua Mãe, Lisbon Revisited…

Em 1928 intervém na política. No Interregno (manifesto político do Núcleo de Ação Nacional) o poeta defende a ditadura salazarista. Um equívoco. Pessoa não alinha com o despotismo e o ultranacionalismo do regime vigente. Mais tarde, compõe três textos de sátira ao Estado Novo.

Um deles dirigido ao seu próprio chefe:

António de Oliveira Salazar
Três nomes em sequência regular…
António é António
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está tudo bem.
O que não faz sentido
É o sentido que isso tudo tem.

No mesmo ano Pessoa mete-se na publicidade.

A Coca-Cola acaba de entrar no mercado português e o poeta fica encarregado de criar um slogan para o produto: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. A mercadoria vende como água. Mas proíbem a sua representação em Portugal. A Direção de Saúde entende que o slogan é o próprio reconhecimento da sua toxidade.

Nos anos seguintes Pessoa mergulha na astrologia. Inicia correspondência com o mago inglês Aleister Crowley, famoso em todo o mundo. Crowley vem a Lisboa para conhecer Pessoa e desaparece misteriosamente. Pessoa colabora na solução do que a polícia passa a chamar de crime.

A respeito de toda esta confusão, Pessoa escreve a um amigo: “O Crowley, que depois de suicidar-se passou a residir na Alemanha, escreveu-me há dias e perguntou-me pela tradução, ou antes, pela publicação da tradução.” Pessoa refere-se à poesia do mago, “Hino a Pã”, que ele publica em 1931.

1934. Pessoa publica Mensagem, poema sobre a história de Portugal. Esotérico, místico. Será o único volume dos seus versos em português, publicado durante a sua vida. Ganha o prêmio da segunda categoria do Secretariado de Propaganda Nacional.

DESENCONTRO

1935, 30 de Novembro. Inquieto, a remexer-se na cama, Pessoa arde em febre

Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Estou hoje vencido, como soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer.

O capelão tenta acalmá-lo. Ele insiste em chamar Caeiro, Reis, Campos e Soares. Como que ouvindo o chamamento do seu criador, os poetas seguem para o hospital. Pessoa em agonia. Repuxa o lençol, contrai-se. Dá-me os óculos, os meus óculos, pede. Prepara-se para o último olhar sobre a sua criação. E eles que não chegam. Mas pressente, eles vêm, Ah se vêm.

Caeiro, Reis, Campos e Soares entram de rompante. Porém tarde, já morto o poeta.

Sobram uns rabiscos num papel:

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido,
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo.
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/fernando-pessoa/

Filosofem, Burzum

Até hoje fica difícil entender a filosofia do norueguês Varg Vikernes. Não faltam satanistas que o odeiem ou o idolatrem. Por trás de sua música e de seu comportamento, ninguém ainda foi capaz de decifrar a mente as vezes genial as vezes medíocre deste cara. Para alguns ele é um gênio, para outros um doente mental.  Qualquer que seja sua opinião caso admitirmos que Vargs é um satanista temos que admitir que é um satanista bem dificil de classificar.

Ele nunca dispensou críticas ferozes até para bichos papãos como LaVey e Crowley. Sua visão de mundo enxerga uma decadência tão completa na sociedade moderna que não vê outra escolha senão destruir tudo e recomeçar do zero. Segundo ele não é possível um satanista viver na atual organização de mundo assim como um leão não conseguiria viver em uma aquário.

Sua palavra de ordem é a completa inversão de valores e o desmantelamento de todo o sistema atual dominado pelos pilares da religião, do estado e do capitalismo, cada um a seu modo promovendo a “moralidade-escrava” que ele publicamente odeia. Vikernes pode ser chamado de tudo, menos de hipócrita, em 1993, foi condenado pelo assassinato a machadadas de Euronymous.  Por suas idéias Vargs hoje enfrenta o cárcere.

Que fique bem entendido, Vargs está se lixando para “seus seguidores” e não está interessado em esclarecer ninguém, por isso muito de seus depoimentos são contraditórios e incompletos. As vezes ele rasga elogios a opressão da igreja, as vezes se diz um convicto pagão. Segundo ele isso gera o confusão e tudo o que causa confusão colabora para o caos geral rumo a  destruição que almeja.

A verdade é que a luta de Vikernes tem a ver com o cristianismo grotesco que nos foi empurrado goela abaixo, contra a vontade de tudo e de todos. Para o povo escandinavo que ainda tem nas veias a sangria pagã aberta por séculos e séculos de crenças imaculadas, é de se compreender o sarcasmo inteligente de Vikernes nesta letra, em que trata Cristo como o verdadeiro mal:

Burzum ( Jesu Dod )

En skikkelse lå der på bakken
så vond at de blomster rundt visnet
en dyster sjel lå der på bakken
så kald at alt vann ble til is
En skygge da falt over skogen

da skikkelsens sjel visnet bort
for skikkelsens sjel var en skygge
en skygge av vondskapens makt

Tradução de Jesus Töd
(A Morte de Jesus)

Uma figura deitada no chão
Tão maliciosa, que as flores ao seu redor murcharam
Uma alma sombria deitada no chão
Tão fria, que a água tornou-se gelo
Uma sombra caiu nas floresta
Enquanto a alma da figura murchava
Porque a alma da figura era a sombra
Uma sombra das forças do mal

 

Nº 86 – Os 100 álbuns satânicos mais importantes da história

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/musica-e-ocultismo/filosofem-burzum/

O Paradoxo da Perfeição

» Parte 2 da série “Reflexões sobre a perfeição” ver parte 1

Espinosa nos será de valioso auxílio na definição mais aprofundada da perfeição:

“Quem decidiu fazer alguma coisa e a concluiu, dirá que ela está perfeita, e não apenas ele, mas também qualquer um que soubesse o que o autor tinha em mente e qual era o objetivo de sua obra ou que acreditasse sabê-lo. Por exemplo, se alguém observa uma obra (que suponho estar inconclusa) e sabe que o objetivo de seu autor é o de edificar uma casa, dirá que a casa é imperfeita e, contrariamente, dirá que é perfeita se perceber que a obra atingiu o fim que seu autor havia decidido atribuir-lhe. Mas se alguém observa uma obra que não se parece com nada que tenha visto e, além disso, não está ciente da idéia do artífice, não saberá, certamente, se a obra é perfeita ou imperfeita. Este parece ter sido o significado original desses vocábulos. Mas, desde que os homens começaram a formar idéias universais e a inventar modelos de casas, edifícios, torres, etc., e a dar preferência a certos modelos em detrimento de outros, o que resultou foi que cada um chamou de perfeito aquilo que via estar de acordo com a idéia universal que tinha formado das coisas do mesmo gênero, e chamou de imperfeito aquilo que via estar menos de acordo com o modelo que tinha concebido, ainda que na opinião do artífice, a obra estivesse plenamente concluída. E não aprece haver outra razão para chamar, vulgarmente, de perfeitas ou imperfeitas também as coisas da natureza, isto é, as que não são feitas pela mão humana.”

De acordo com Espinosa, somente as obras humanas podem ser – talvez – perfeitas, porque somente essas estarão algum dia concluídas… Observamos os quadros de Da Vinci ou as esculturas de Michelangelo e somos praticamente obrigados a admitir que ali não falta nenhuma pincelada, nenhuma lasca a ser lapidada. Essas obras são perfeitas não pela sua utilidade prática e/ou física, mas pela impressão que provocam na alma dos admiradores.

Já as obras naturais estão em constante afloramento. Tudo vibra, tudo se movimenta e se influencia mutuamente, tudo evoluí – a matéria rumo a desordem, e a vida rumo a alguma espécie de perfeição… Foi o próprio Darwin que afirmou que o desenvolvimento das espécies tendia a perfeição, e disse mais:

“Há grandeza nesta concepção de que a vida, com suas diferentes forças, foi alentada pelo Criador num curto número de formas ou numa só e que, enquanto este planeta foi girando segundo a constante lei da gravitação, desenvolveram-se e se estão desenvolvendo, a partir de um princípio tão singelo, infinidades de formas as mais belas e portentosas.”

A natureza é, portanto, um eterno “vir a ser”… Uma obra inacabada, sendo esculpida e imaginada pelas leis naturais desde que algo surgiu da substância primeira… A substância que não poderia ter criado a si mesma, e que por isso mesmo – como nos explica tão bem Espinosa em sua “Ética” – há de ter irradiado tudo o que há de si própria, como o pólen exalado pelas flores.

Quando se pensa sobre o início do universo, os primeiros momentos após o Big Bang, e se percebe que se não fosse por uma assimetria entre a matéria e a anti-matéria, além de várias outras assimetrias e/ou “ajustes” mais ocultos, não existiriam estrelas, nem planetas, e muito menos vida biológica, chegamos à conclusão de que nossas utopias acerca da perfeição talvez tenham sido um pouco apressadas…

Afinal, o que há de mais perfeito do que o vácuo, o vazio? Tudo ordenado. Nenhum som. Nenhum movimento brusco. Nenhum pensamento desordenado. Nenhuma luz… Apenas a perfeita escuridão do Grande Nada. Em realidade, nada seria mais terrível e assombroso do que esta perfeição.

Porém, por alguma razão, a substância primeira não irradiou a tudo de forma perfeita, absolutamente simétrica, ordenada… Assim como até hoje podemos perceber – através dos instrumentos que possibilitaram os experimentos da física quântica – que no seu estado mais fundamental a realidade é um baile frenético e caótico de partículas, nada nos diz que essa idéia de perfeição absoluta seja realmente perfeita!

A perfeição é um conceito humano. Como tal, talvez possa ser aplicado as grandes obras de arte, as mais belas músicas e poesias, a mais sofisticada literatura… Mas, no campo natural, tal conceito torna-se um paradoxo. O paradoxo da perfeição: quando o imperfeito é perfeito, e vice-versa.

Afinal, se Deus houvesse criado seres perfeitos, não seriam seres e sim máquinas, robôs programados para uma perfeição artificial… A perfeição da “benção divina”, e não da conquista própria, da edificação de nossa própria obra. O Cosmos é uma obra de arte, sim, não há duvidas… Mas não é humana, é divina – e como tal, ainda está sendo edificada (ao menos dentro do tempo dos homens).

Carl Sagan dizia que nós somos uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo… Ao alcançarmos a consciência, chegamos ao estágio em que podemos caminhar com as próprias pernas, pensar por nós mesmos, e não mais apenas participar da criação como figurantes, mas como verdadeiros agentes criativos.

Aqueles que conheceram pouco da ciência talvez tenham se afastado de um deus humanizado, incompatível com a imensidão cósmica. Da mesma forma, aqueles que conheceram pouco da religião talvez tenham sido ludibriados por um deus que opera por barganhas – prometendo o céu a alguns de seus escolhidos –, incompatível com a infinita diversidade da vida.

Entretanto, aqueles que arriscaram olhar um pouco mais profundamente na noite de sua própria alma talvez tenham achado mais estrelas do que escuridão e vazio… Talvez tenham, como Espinosa, encontrado a evidência da substância primeira, aquela que não pode ter criado a si mesma. Aquela substância que, desde os primórdios do Cosmos, vêm tecendo uma bela teia imperfeita, mas que tende a perfeição…

» A seguir, a busca da perfeição na ciência – seria a matemática uma arte?

***

Crédito da foto: Kenneth Libbrecht/Visuals Unlimited/Corbis (cristal de gelo – não absolutamente simétrico, ademais belo)

#Espinosa #Filosofia #perfeição

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-paradoxo-da-perfei%C3%A7%C3%A3o

Homens de Preto – A Realidade por trás da Ficção

“Queimando discos, queimando livros, Soldados sagrados, visual nazista” – Holy Smoke, Iron Maiden

 “Não os temais, pois; porque nada há de escondido que não venha à luz, nada de secreto que não se venha a saber.” – Mateus 10:26

Homens de preto e Ufologia

 

Milhões de pessoas ao redor do mundo assistiram ao filme “Homens de Preto” e suas sequências, mas poucas sabem de onde foi tirada a inspiração para fazê-los. Como muitos filmes, ele foi baseado numa HQ, e esta num livro escrito em 1956 pelo estadunidense Gray Barker, intitulado “Eles Sabiam Demais sobre Discos Voadores” . Livro este no qual pela primeira vez o mundo ouve falar dos Homens de Preto, um grupo que “sugere” a indivíduos silenciar sobre suas incomuns experiências. Sua alcunha deve-se não apenas a cor que trajam, mas a seu estranho e total anonimato: não revelariam seus nomes, de onde vieram ou por quem foram enviados, daí nenhuma outra forma de referir-se a eles ou descrevê-los. Os carros que dirigem, contudo, teriam aparência oficial.

Antes de escrever este que foi seu primeiro livro, Barker já escrevia artigos do gênero para a revista Space Review, publicada por Albert K. Bender e seu Escritório Internacional de Discos Voadores. Em 1953, Bender abruptamente dissolveu sua organização, alegando que não poderia continuar a escrever sobre OVNIs devido a “ordens de fonte superior”. Após ser pressionado por Barker a revelar maiores detalhes, Bender relatou seus supostos encontros com os Homens de Preto, o que teria motivado Barker a escrever seu livro. É claro que tudo pode não ter passado de um conluio entre os dois, dizem até que o próprio Barker não acreditava no que escrevia, só queria ganhar dinheiro. Mas isto também pode não passar de um boato forjado e espalhado pelos Homens de Preto.

Seja qual for a verdade, isto foi no meio do século passado, época onde a informação sobre tais assuntos deveria ser escassa em relação a hoje, e a Internet apenas uma utopia para a população global. Então, se os Homens de Preto queriam ocultar da humanidade este tipo de relato, podemos dizer que neste âmbito falharam miseravelmente, pois hoje abundam livros e sites sobre o tema. Perante este fato, é claro que muitos vão pensar algo do tipo: “Bem, se isso aconteceu, estes Homens de Preto não devem existir, pois não teriam permitido.” Mas, ora, se existissem, não seria exatamente isto que iriam querer que você pensasse?

Uma hipótese que não podemos esquecer é que a coisa pode não ter acontecido com a permissão deles; talvez eles simplesmente não puderam controlá-la. Eles podem ser poderosos, mas não invencíveis – e certamente teriam alguns inimigos. Isso sem falar que, entre aqueles que conhecem um segredo, às vezes há os que querem revelá-lo. Além disso, como se pode deduzir o trabalho deles teria sido fácil por muito tempo, portanto talvez não estivessem preparados para enfrentar as novas armas na difusão do conhecimento que surgiram junto com os tempos modernos: a invenção da imprensa[1], fotografia (pois esta também reproduz texto), a já citada Internet, etc. Para não falar na TV, é claro. Ao redor de todo o globo, muitos telejornais e diversos programas já apresentaram relatos de avistamentos, abduções, etc. Mas não se pode hipnotizar, drogar ou matar praticamente um país inteiro (pois através da hipnose ou drogas pode-se causar amnésia, mas logicamente não de modo seguro e matematicamente exato como o prático flash do filme).

Então, perante este quadro, nada restaria aos Homens de Preto e seus superiores senão negar e ridicularizar tais testemunhos, esperando assim desacreditá-los – pois uma das coisas que o homem comum mais teme, além da morte, é cair no ridículo, a opinião alheia importa-lhe mais que a própria. Ademais, o governo e a Aeronáutica dos países onde OVNIs são avistados só poderiam negar mesmo, seria grande ingenuidade esperar que admitissem tal coisa. Que governo assumiria ser incapaz de proteger sua população de incontroláveis e desconhecidos invasores? Afinal, boa parte dos impostos pagos destina-se exatamente a este fim. A única razão de existir da Aeronáutica é proteger o espaço aéreo de seu respectivo país, então ela não pode assumir que não consegue cumprir sua tarefa plenamente, que há invasores contra os quais nada pode fazer. Seria como o zelador de um prédio dizer que há um tipo especial de pessoa a qual ele não pode impedir de entrar e sair ao seu bel-prazer. Também não podemos esquecer a hipótese dos OVNIs não serem nada mais que aeronaves ultra-sofisticadas de determinados países. Qualquer um sabe, por exemplo, que os EUA gastam zilhões de dólares em tecnologia militar, então não seria nenhuma surpresa se eles tivessem coisas que nem imaginamos nesse campo (e tudo indica que tenham, vide Área 51). Nesse caso, alguns se perguntariam por que manter secreta a existência destas fabulosas armas e, ao mesmo tempo, algo com que poderia-se inclusive lucrar muito. Bem, a resposta é simples: para que seus vizinhos não sintam-se ameaçados e tentem desenvolver coisa parecida. Não é preciso ser Maquiavel ou Sun Tzu para perceber que só se deve permitir o acesso a uma arma quando já se dispõe de uma arma superior. E no caso dos OVNIs serem aeronaves comandadas por humanos, admitir uma invasão contra a qual nada pode se fazer seria ainda mais vergonhoso – para ambas as partes.

Portanto, apesar de tantos mistérios e dúvidas, um fato ergue-se e permanece indiscutível: os OVNIs, seja lá o que forem, realmente existem. Aliás, vários pilotos de avião já relataram tê-los avistado. Desnecessário dizer, estes são pessoas instruídas que deveriam saber identificar qualquer coisa que surja nos céus (e astrônomos mais ainda). Alguns destes relatos, é claro, permanecem confidenciais, pois são de pilotos militares. Falando nisso, a edição de setembro de 2013 da revista Super Interessante traz uma matéria de capa sobre a abertura de arquivos no Brasil. Então, já sabemos que OVNIs existem, mas não o que são (ou não teriam esse nome, afinal). A pergunta que fica é: Existirá alguém querendo impedir que saibamos o que são? No caso deles terem origem humana, como na hipótese recém explanada acima, obviamente que sim. E se sua origem não for humana, restam-nos duas hipóteses: ou o homem ainda é simplesmente incapaz de descobrir e explicar o que são os OVNIs, ou alguns descobriram mas não quiseram (ou foram impedidos de) revelar ao mundo.

Quanto a extraterrestres, talvez uma pergunta interessante a ser feita seja: Se eles existem, será que iriam querer que soubéssemos? Provavelmente não, ou já teríamos provas disso.

Mas agora vamos mudar de assunto, pois essa é  só a ponta do iceberg.

 

Escondendo mais do que você imagina… Homens de Preto e outros Segredos

“Existe uma história escrita para gente comum, e outra invisível aos olhos do povo, escrita por nós, que fizemos a história acontecer. Assim é a vida, assim somos nós e vocês: os que fazem a história e os que a aprendem com obediência, como nós desejamos.” – Serrano Suner em “A Fórmula da Eterna Juventude e outros Experimentos Nazistas”, de Carlos Nápoli

“Somente os pequenos segredos precisam ser guardados; os grandes, ninguém acredita.” – Herbert Marshall

De qualquer forma, quer extraterrestres existam ou não, não se pode, como nos mostra a própria História, negar a existência de grupos – interligados ou não – cujo objetivo é suprimir e/ou monopolizar o conhecimento (este, definitivamente, ainda não é e nunca foi livre). Assim, extraterrestres podem até não existir, mas creio que o mesmo não pode ser dito, como veremos a seguir, dos Homens de Preto. “Mas então, o que eles escondem de nós?” Bem, se eu soubesse seria um deles, mas não é preciso ter uma imaginação de Julio Verne para fazer algumas suposições.

Só para citar alguns exemplos, Mussolini assim como Hitler tinha seus conselheiros místicos, e sob ordens de dois deles, em 1944 foram queimados 80.000 (sim, 80 mil, mas espere até ler sobre Alexandria) livros e manuscritos da Sociedade Real do Saber de Nápoles, visando impedir que documentos mágicos importantes caíssem nas mãos dos Aliados. Entre eles, encontravam-se manuscritos inéditos de Leonardo Da Vinci, como também documentos apreendidos de Aleister Crowley na sua abadia em Cefalu, Sicília. Todos já ouviram falar da famosa Biblioteca de Alexandria, segundo a Wikipédia “ela continha praticamente todo o saber da Antiguidade em cerca de 700.000 rolos de papiros e pergaminhos” – também não é para menos, pois seu lema era “adquirir um exemplar de cada manuscrito existente na face da Terra”. Mas ao contrário do que tantos pensam, ela não foi destruída por acidente em decorrência de batalhas. Ela continha inúmeros documentos alquímicos que foram roubados ou destruídos, não só pela cobiça e avareza como também pelo fanatismo religioso dos arábes, que seguiam as absurdas máximas “não há necessidade de outros livros senão O Livro (Alcorão)” e “o livro de Deus é-nos suficiente”. Mas isto, é claro, pode ter sido apenas um pretexto. Afinal, é fácil entender o medo, ou mesmo desespero, dos poderosos perante a Alquimia. Se todos pudessem fabricar ouro em casa, obviamente ele perderia o seu valor e, assim, impérios ruiriam. Portanto, não é difícil entender por que a Igreja Católica combateu tão fortemente a Alquimia. (Sobre a Magia de modo geral, poderia-se dizer que ela supostamente permitiria ao homem comandar a Natureza e seu próprio destino, e às vezes o dos outros também, assim “brincando de deus”.) Em 1897, herdeiros de Stanislas de Guaita foram ameaçados de morte se não destruíssem quatro manuscritos inéditos do autor que versavam sobre “Magia negra”, assim como todo seu arquivo. A instrução foi cumprida.

Em 1971, um russo radicado na França, Jacques Bergier[2] escreveu “Os Livros Malditos”, no qual relata não só os casos acima descritos como também outros semelhantes, e diz estar convencido da existência de uma antiga sociedade secreta destinada a ocultar certos conhecimentos da humanidade. Bergier refere-se a ela como – adivinhe? – “os Homens de Preto”. De sua existência (ou, pelo menos, de algo parecido) há muitos indícios e estou inclinado a concordar com Bergier. A História está cheia de exemplos de livros ou documentos que são censurados ou mesmo avidamente procurados, e a cujos proprietários às vezes acontecem estranhos acidentes – daí também o adjetivo “malditos” para descrever os livros que Bergier aborda em cada capítulo. Parafraseando o próprio, é preciso ler “Os Livros Malditos”, assim, não me estenderei muito sobre seu conteúdo aqui.

Num mundo ignorante como o nosso, certamente será taxado de paranóico ou esquizofrênico quem alegue existir um grupo de homens cujo principal objetivo é esconder certas coisas da humanidade. Mas há uma enorme prova, a qual todos conhecem só não se apercebem, de que um tal grupo, pelo menos, existiu: A Inquisição. E infelizmente, não se pode negar que ainda existe coisa semelhante, pois é bem sabido que os Arquivos do Vaticano contém inúmeros documentos secretos e únicos. E tal supressão do conhecimento é ainda mais evidente em certos cantos mais atrasados do mundo, que parecem continuar na Idade das Trevas ou coisa até pior, chegando ao extremo de proibir as mulheres de aprender a escrever e estudar – às vezes, até de falar. Perante estes fatos, é difícil refutar a existência de uma espécie de “fraternidade negra” inimiga da luz do conhecimento – os místicos e ocultistas chamam-na “a loja negra”. Mas, num mundo feito de cegos, aqueles que enxergam são taxados de loucos.

Veja onde o homem chegou, já querem enviar pessoas a Marte – o que não muito tempo atrás, também seria loucura. Agora considere, por um momento, que nossa civilização tenha sido de alguma forma aniquilada, mas alguns poucos tiveram a sorte – ou o azar, pelas condições em que o mundo se encontraria – de sobreviver (sim, exatamente como naquela imbecil dinâmica de grupo. Aliás qual não é?) Suponha que, com alguma sorte e muito sexo, estes poucos remanescentes tenham conseguido dar continuidade à raça humana. Seus descendentes nasceriam num mundo devastado, onde as coisas que consideramos mais triviais tornariam-se as mais incríveis lendas: televisores, automóveis, aviões, computadores, telefones, armas de fogo e qualquer outro tipo de máquina ou tecnologia. Os primeiros, os que sobreviveram à catástrofe, saberiam que tais coisas um dia existiram e contariam a seus filhos, dos quais talvez alguns acreditariam, outros não. E se ninguém fosse capaz de recriar estas coisas um dia (ou se fossem recriadas mas mantidas em segredo), tais “lendas” passariam de geração em geração tornando-se cada vez mais desacreditadas, podendo até mesmo caírem no esquecimento. E se eles encontrassem qualquer um de nossos “misteriosos artefatos”, não saberiam como nem para que foram feitos – hei, isso não parece familiar? Tal descrição se aplica, por exemplo, aos Crânios de Cristal

Então, quem pode nos garantir que já não aconteceu coisa semelhante?

Ou melhor, e se eu lhe disser que há provas de que existiu uma prodigiosa ciência perdida?

Provas estas, aliás, muito grandes e concretas que todos conhecem.

Do que eu estou falando?

Das Pirâmides do Egito. (Não disse que eram grandes e concretas?)

Mas por que as Pirâmides do Egito seriam provas de que um dia houve uma ciência perdida?

Ora, por uma razão muito simples: curiosamente é um fato pouco divulgado, mas ao menos por enquanto é impossível reproduzí-las com perfeita exatidão. Ainda mais pelo mesmo método, qualquer que tenha sido. Existem variadas teorias sobre como foram construídas as pirâmides, mas nenhuma delas plenamente satisfatória – não à toa, não há nem sombra de consenso. Ou seja, atualmente, o homem é incapaz de repetir um feito de milhares de anos atrás, porque o conhecimento necessário para tal se perdeu (ou foi preservado em segredo). Como se isso não bastasse, também não se sabe POR QUE elas foram construídas, isto é, sua verdadeira finalidade. Não, não foi para servirem de tumba ou cofre de tesouros, como surpreendentemente veremos a seguir. Àqueles interessados em maiores detalhes, recomendo a leitura dos textos de Marcelo Del Debbio sobre o assunto (além daqueles citados aqui, o divertido “A Pirâmide do Faraó Del Debbio I”). Todavia, alguns destes detalhes são tão impressionantes que não poderei deixar de citá-los. É bem conhecida e justificada a predileção dos mais céticos por números, então vamos a eles:

(Dentro das aspas, coloquei meus comentários ou cortes do texto entre colchetes, aqueles entre parênteses são do próprio Del Debbio)

“A base da pirâmide [de Queops] é perfeitamente plana, com desnível de apenas 0,075cm/100m (para quem não é arquiteto ou engenheiro esses números não dizem muita coisa, mas para ter uma idéia comparativa do quão preciso foi o nivelamento das pirâmides, basta dizer que edifícios modernos de alta tecnologia chegam a 15-20cm/100m em desnível). As 3 pirâmides alinham-se com a constelação de Órion [3 Marias] com margem de erro de 0,001% quando comparadas com a posição destas estrelas no céu em 10.500 AC.” – Extraído do texto “Pirâmides, Pirâmides… – parte II”

“Assim como são ‘coincidências’ […] as pirâmides encontradas na China alinharem perfeitamente com a constelação de Gêmeos, os Templos astecas de Tecnochtitlan estarem alinhados com a constelação de Urso, Angkor Wat (aqueles templos que a Lara Croft explora no Cambodja) estarem alinhados com a constelação do Dragão e assim por diante…” – Extraído do texto “Pirâmides Submersas no Japão – parte 1”

“E eu nem comecei ainda a falar sobre a Câmara do Rei, cuja configuração e proporção das pedras do chão refletem as medidas/translações dos seis primeiros planetas do Sistema Solar (Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno). […] apesar de todo este cuidado milimétrico de projeto da pirâmide, o ‘sarcófago’ é PEQUENO DEMAIS para caber uma pessoa deitada dentro dele. […] As otoridades egípcias afirmam que a pirâmide é a tumba de um faraó. Embora NUNCA se tenha encontrado sequer uma múmia em NENHUMA das 111 pirâmides catalogadas. Também nunca foram encontrados NENHUM tesouro de faraó algum. Todas as múmias foram encontradas em cemitérios localizados aos pés das pirâmides ou em templos adequados para tal (Mastabas). Todos os tesouros encontrados estavam nos templos e antecâmaras, mas nunca dentro das estruturas. A explicação oficial é que ‘ladrões de tumbas’ saquearam todos os tesouros e as múmias. Embora, voltando a Khufu [nome egípcio de Queops], os exploradores tiveram de DINAMITAR a passagem para entrar, e nada encontraram lá dentro. Ou seja, se houvessem ‘ladrões de tumba’ eles entraram, levaram TUDO (tudo tudo tudo) e ainda tiveram a paciência de recolocar todas as pedras na entrada de modo a deixá-la do mesmo modo que ela estava antes deles chegarem, com direito a mesma precisão milimétrica dos encaixes.” – Extraído do texto “Pirâmides, Pirâmides… – parte II”

“As medidas internas oficiais [do sarcófago] são 1,68m x 68,1cm x 87,4cm. A menos que o faraó fosse bem anãozinho, não poderia ser colocado junto com seu ‘chapéu de faraó’ e ‘ornamentos de faraó’ dentro de um sarcófago tão pequeno. Teriam nossos amigos escravos egípcios, que empurraram tantas pedras tão pesadas ladeira acima e construíram uma pirâmide com erro de 58mm em 230m, errado tão idiotamente logo no ‘coração’ da tumba?” – Extraído do texto “Pirâmides parte III – A Câmara dos Reis”

Embora o complexo de templos Abu Simbel não tenha nada a ver com as pirâmides, eu também não poderia deixar de citar o estranho caso de sua “mudança” aqui, pois talvez o método usado no transporte de seus blocos tenha sido o mesmo das pirâmides. Se você acha que as coisas não podem ficar mais estranhas, prepare-se para o gran finale:

“…existia um enorme complexo de templos chamados Abu Simbel no Egito. As otoridades precisavam construir uma grande barragem e uma mega-hiper operação mundial foi organizada para desmontar e transportar o templo de Abu Simbel para uma montanha a salvo das águas da barragem. Pois bem. A grande maioria das pedras esculpidas no templo de Ramsés II foi retirada das pedreiras de Assuã, distantes cerca de 120km do templo, incluindo a cabeça do faraó, que foi transportada e esculpida em UM ÙNICO bloco de pedra. Quando os técnicos e engenheiros suíços e alemães foram transportar estes blocos para o local seguro, apesar dos GUINDASTES e HELICÓPTEROS envolvidos na operação, tiveram de fragmentar diversas estátuas e blocos de construção do templo para transportá-los. Vamos escrever mais devagar para os que não entenderam: blocos de pedra que os egípcios (os ‘escravos seminus de 6.000 anos atrás’ haviam conseguido manobrar, esculpir e encaixar intactos) tiveram que ser divididos, pois a tecnologia do século XX não conseguiu repetir o feito.” – Extraído do texto “Dilúvio, Pirâmides e Stonehenge”

As implicações disto são tão óbvias quanto espantosas: ou eles dispunham de guindastes e helicópteros de maior capacidade que os atuais, ou… ou o quê? Que dizer diante disto?

Perante estes fatos, a introdução do misterioso “Livro da Perdição” da O.A.I. já não parece mais tão fantástica:

“1.1. Eons atrás, muito antes da humanidade vagar por este planeta, existe uma irmandade de feiticeiros.

1.2. Eles são mestres em sabedoria, ciência e conhecimento até então ignorado pela história da humanidade.”

Para os mais céticos, é claro que a palavra “feiticeiros” pode ser substituída por “cientistas”. Afinal, que é a ciência aos olhos da ignorância, senão feitiçaria? A Igreja Católica que o diga. “Feitiçaria”, “Magia” e etc. nada mais são do que palavras inventadas para descrever aquilo que não conseguimos compreender COMO e POR QUE acontece, entretanto todo efeito tem sua causa, mesmo que oculta e ignorada. Um homem primitivo, ao ver você apertar uma tecla e acender uma lâmpada consideraria isto Magia, porque ele não compreende e ignora o porquê da lâmpada acender-se. Assim é com todas as coisas. Para produzir determinado efeito, é preciso saber como causá-lo, e os que não sabem consideram-no “mágico” por parecer inexplicável. Mas como todo efeito tem sua causa, não existe NADA realmente inexplicável, apenas coisas cuja explicação desconhecemos.

Laurence Gardner, em seu instigante livro “Os Segredos Perdidos da Arca Sagrada – Revelações Surpreendentes sobre o Incrível Poder do Ouro” alega que o ouro monoatômico, um pó extraído do ouro, possibilita tornar objetos mais leves, dentre outras propriedades especiais, e seria a verdadeira Pedra Filosofal. (No filme Alone In The Dark, é dito que a humanidade já não se lembra mais do real motivo que torna o ouro tão valioso. Ao contrário do que se comumente pensa ele até tem utilidade prática, não só ornamental, mas nada que justifique seu exacerbado valor aos olhos do bom senso. Outros metais, muito mais úteis e necessários, não deveriam valer mais?)

Antes de prosseguirmos, uma incômoda e desconcertante questão merece ser posta:

Se não há uma espécie de conspiração destinada a esconder estes surpreendentes fatos sobre as pirâmides, por que eles são tão pouco divulgados? Se eles não forem dignos de menção, então eu não sei o que é. Não é o tipo de coisa que deveria inclusive ser ensinado nas escolas?

Somos ensinados que aqueles que habitaram o globo antes de nós eram primitivos, selvagens e ignorantes. Mas este parece ser apenas um lado da História – o que querem que conheçamos. Afinal, nada impede que dois ou mais grupos com diferentes graus de evolução (tanto científica como moral) co-habitem o planeta. Ficou complicado? Não tem problema, Tamosauskas descomplica em “A Improvável História do Macaco que Virou Gente”:

“Quando os Tasmanianos foram contatados pelos europeus no século XVI eles não tinham descoberto o fogo, não tinham escrita, crenças, nem qualquer conceito de música. Era cerca de 1600 depois de Cristo, mas isolados do resto do mundo eles não tinham sequer desenvolvido ferramentas feitas de pedras. E eles tinham o mesmo cérebro e corpo que o nosso e muitas, muitas pedras.”

Este tipo de situação discrepante é uma realidade ainda hoje. Da mesma forma, alguns dos antigos poderiam ser muito evoluídos, mais do que podemos imaginar, e tudo indica que tenham sido mesmo. Aparentemente, e em alguns casos comprovadamente, eles já sabiam de coisas que o homem só descobriu recentemente, ou nem descobriu ainda. No capítulo de “Os Livros Malditos” que aborda o livro “A Dupla Hélice”, Bergier nos chama a atenção para uma coincidência que, não considero exagero descrever como espantosa: A grande semelhança entre a molécula do DNA e o caducéu de Hermes, antigo símbolo da Medicina (anterior ao bastão de Asclépio).

 

(Interessante lembrar que a descoberta do DNA possibilita a engenharia genética, motivo pelo qual segundo algumas lendas Atlântida foi castigada. Alguns chegam a dizer que o porco, animal muito semelhante ao ser humano, foi resultado de experiências deste tipo. Isto também explicaria, é claro, quaisquer seres híbridos da mitologia.)

As duas serpentes representam as forças opostas (embora eu prefira o termo complementares) do Universo em equilíbrio. Afinal, uma pilha com dois pólos positivos ou negativos não funciona, sem vida não haveria morte e sem morte não haveria vida, sem trevas não haveria luz e assim por diante. Não obstante, alguns devem estar se perguntando por que tal figura foi adotada como símbolo da Medicina. A estes respondo com outra pergunta: Não poderíamos dizer que saúde é, numa palavra, equilíbrio?

No caso, o equilíbrio dos elementos presentes em nosso corpo.

Ainda, devido ao fato de trocar de pele, a serpente era considerada um símbolo do rejuvenescimento e saúde. Como as coisas mudam, não? De símbolo da saúde a símbolo do mal, infelizmente parece que Goebbels estava certo: “Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade.” Por isso devemos sempre nos questionar e procurar conhecer a verdade por nós mesmos, ao invés de aceitar tudo que nos empurram goela abaixo como verdadeiro. Claro que isto pode soar paranóico, mas talvez a paranóia ainda seja preferível à ignorância. Aliás, não é exatamente isto que os formadores de opinião desejam que se pense? Ainda sobre a injustiçada serpente, é engraçado como não enxergamos o que está bem embaixo de nosso nariz; poucos notam, mas a serpente é também o símbolo de um famosíssimo herói bastante vigoroso e, digamos, com uma “saúde de aço”:

Alguns podem ter se lembrado da Kundalini, a energia adormecida no chakra mais baixo que, se despertada eleva-se como uma serpente ao longo da coluna vertebral e concederia poderes paranormais ao Iniciado. Talvez isso explique por que os Faraós eram considerados deuses e tinham a cabeça adornada por uma serpente.

E falando nisso, é também extremamente semelhante à molécula do DNA a posição dos canais Ida e Pingala, presentes em nosso corpo sutil segundo a sabedoria oriental:

 

A também extrema semelhança entre o caducéu de Hermes – uma representação do equilíbrio universal – e os três principais nadis, como são chamados estes canais da ilustração, lembra-nos da máxima “o que está acima é como o que está abaixo”. E também da afirmação de que o homem foi criado “à imagem e semelhança de deus”, sendo deus, neste caso, apenas outra palavra para designar o Universo.

Outra coisa que suscita a existência de um antigo saber são os chamados “ooparts”, sigla de Out Of Place Artifacts, artefatos fora de lugar ou época. Há bastante controvérsia sobre eles, mas talvez possamos dizer que o mais famoso e legítimo seja a Máquina de Anticítera (ilha grega), capaz de prever com precisão o movimento de astros e apontada como o primeiro computador do mundo. Sua datação foi estimada em 87 a.C.. Utilizando-se tal máquina, seria possível prever eclipses, então não é preciso muita imaginação para perceber que ela poderia ser usada pela classe dominante para convencer o povo de que ela “conversa com os deuses”. O fato de só ter sido encontrado até hoje apenas UM exemplar da Máquina de Anticítera torna a questão ainda mais embaraçosa. O que eu disse antes sobre Ciência e Magia se aplica muito bem aqui. Enquanto ignoramos como se dá determinado processo, ele permanece (na verdade aparenta ser) simplesmente mágico. Uma arma de fogo, por exemplo, certamente também seria vista como “mágica” por um homem de outra época, ainda mais porque ninguém é capaz de enxergar uma bala percorrendo o ar no momento do disparo. Então você pode imaginar a reação e espanto das pessoas. Você não seria visto como um grande feiticeiro… seria visto como um DEUS. Afinal, como alguém poderia inflingir dor ou mesmo matar alguém a metros de distância sem nem tocá-lo?! Na verdade, poderia alguma coisa ser mais espantosa, assustadora e mágica do que isso? Quem sabe um Theremin, um instrumento musical que emite som sem que seja necessário contato físico direto com ele. Não, você não entendeu errado:

“Obra do Diabo!” Podemos rir da ignorância de nossos antepassados, mas provavelmente também rirão de nós daqui alguns milhares de anos, ou talvez menos. Provavelmente temos “certezas” tão erradas como a de que a Terra era plana.

Mas o exemplo recém exposto nos leva à uma conclusão curiosa, e talvez a própria razão da existência dos Homens de Preto. Quando o conhecimento é compartilhado (no caso o conhecimento de como fabricar e usar uma arma), advém a igualdade. Mas quem disse que a igualdade é sempre boa? Imagine um mundo onde todos tivessem uma arma, e estou falando de uma arma igual (e com munição infinita, para tornar o jogo mais divertido). Será que nesse mundo haveria mais respeito pelo próximo ou mais violência e caos? Disto concluímos algo simples e evidente: A manutenção da ordem depende da desigualdade de poder, esta infelizmente parece ser um mal necessário. Mas aqui nos deparamos com outro sério problema. Se para manter a ordem é preciso que o poder esteja nas mãos de uns em detrimento de outros, o ideal seria que apenas os bons e justos detivessem o poder. Mas são estes que governam o mundo? Ninguém é estúpido o suficiente para crer nisso. Os detentores do poder deveriam usá-lo para defender os desprotegidos que não o possuem, fazer justiça e manter a ordem. Entretanto, o que mais vemos é ele ser usado apenas em benefício próprio, escravizando os mais fracos – às vezes sutilmente, como no caso do dinheiro, a mais poderosa arma de dominação em massa projetada pela mente humana. Disto não há maior exemplo do que o próprio capitalismo, pois seu único objetivo é o aumento do próprio poder, o que não pode ser feito sem tirar de outrem. Para que uns tenham mais, é preciso que outros tenham menos, para um lado da balança subir o outro tem que descer. Talvez até possa ser dito que Cristo profetizou o capitalismo ao dizer que “os ricos ficarão mais ricos e os pobres mais pobres”. A palavra “capital” deriva do latim “caput” que significa “cabeça”, ou seja, capital é aquilo que comanda todo o resto. E como sabemos, capital é apenas um eufemismo para dinheiro, ou seja, o dinheiro comanda o mundo, isto é, aqueles que o possuem em maior quantidade. O que move este mundo é o dinheiro – literalmente, se não fosse por ele as pessoas não sairiam de casa todos os dias para ir ao trabalho. Como diria David Icke com toda razão, a melhor tirania é a invisível, a menos que ela queira ser derrubada.

De qualquer forma, infelizmente alguns seres humanos só respeitam o que temem, o que pode lhes causar dano e é mais poderoso do que eles. Enquanto isto continuar, a desigualdade de poder também continuará extremamente necessária para o bem geral, pois os maus nada respeitam senão a ameaça de uma força maior. Mas o que fazer quando os maus estão no poder? Uma luta desigual vale a pena ser lutada?

Mas dilemas morais à parte, se houve um saber antigo em alguns aspectos igual ou mesmo superior ao atual, como ele se perdeu?

Bem, temos de admitir que nem só de mentiras é feita a Bíblia; pois já foram encontradas o que podemos chamar de provas que o dilúvio, se não total então parcial, realmente aconteceu. Já foram encontradas pirâmides submersas no Japão e próximas à Cuba. Lembremos que certas profundidades do oceano, devido à alta pressão, ainda são inacessíveis para o homem ou qualquer máquina, então talvez ainda haja muito mais lá – Cthullu, você está aí? Veja só como somos ignorantes, não conhecemos nem nossa própria casa por completo. Mas como se isto não bastasse, lembremos que o dilúvio está presente na “mitologia” de muitos povos que nunca tiveram nenhum contato entre si. A Wikipédia nos fornece até mesmo uma “lista de dilúvios”:

  • Dilúvio sumério
  • Dilúvio africano
  • Dilúvio hindu
  • Dilúvio grego
  • Dilúvio mapuche
  • Dilúvio pascuenses
  • Dilúvio maia
  • Dilúvio asteca
  • Dilúvio inca
  • Dilúvio uro

Esqueceram de incluir também o dilúvio nórdico, no qual todas as criaturas choram pela morte do mais amado e belo dos deuses, Balder (ou Baldur). Ainda segundo a Wikipédia:

“Antropólogos dizem que há mais de 1.000.000 (isso mesmo, um milhão!) de narrativas do dilúvio em povos e culturas diferentes do mundo e todas elas, coincidentemente ou não, são no início destas civilizações.”

Agora, se houve uma Ciência de alguma forma superior à nossa, terá ela se perdido por completo ou tido alguns resquícios preservados? Vejamos o que nos diz Del Debbio:

“…a Bíblia deve ser lida de maneira alegórica. Quando escrevemos que Noé levou dentro da Arca dois elefantes, queremos dizer que ‘os conhecimentos da civilização hindu foram preservados’, quando escrevemos que ele levou duas girafas, quer dizer que ‘os conhecimentos da civilização africana’ foram preservados e assim por diante. Não existe e nem nunca existiu barquinho algum. A ‘Arca’ de Noé é a mesma ‘Arca’ da Aliança, a fuga das águas e a fuga do Egito são apenas metáforas diferentes para a mesma situação: a preservação do conhecimento oculto.” – Extraído do texto “Dilúvio, Pirâmides e Stonehenge”

Ainda segundo ele:

“…o ato de imergir o corpo do candidato dentro de um rio ou banheira com água em uma iniciação (‘Baptizem’ em grego) representa simbolicamente que, apesar das águas terem coberto toda a civilização antiga e destruído tudo, sempre haverá alguém – o iniciado – para guardar e proteger estes segredos. Além disto, está ligado intimamente aos ritos de morte e renascimento (as doutrinas da reencarnação)…”

Mas… por que guardar esse conhecimento em segredo?

Como explanarei a seguir, suspeito de outras nem tão nobres, mas Bergier aponta-nos a possibilidade de uma boa razão:

“…se outras civilizações existiram antes da nossa e foram destruídas por abusos dos poderes da ciência e da técnica, a lembrança delas e de sua morte podem inspirar uma conspiração que visaria evitar que tais catástrofes tornassem a reproduzir-se. Uma ideologia dessa natureza pode, talvez, ser encontrada sem dificuldade nos escritos de Joseph de Maistre, Saint-Yves d’Alveydre ou René Guénon. Tal ideologia consiste em admitir a existência de uma Tradição mais antiga que a História, de centros detentores dessa Tradição e poderosamente protegidos; para ela, a ciência, as técnicas e os conhecimentos de toda natureza constituem um perigo permanente.”

Conclusão – As Duas Faces da Moeda

“…loucos jogam com palavras e fazem todos dançarem sua música
Afinada com milhões de famintos, para criar um tipo melhor de arma
(…) Enquanto os responsáveis pelo massacre cortam sua carne e lambem o molho
Lubrificamos os dentes da máquina de guerra e a alimentamos com nossos filhos” – 2 Minutes To Midnight, Iron Maiden

“Estou persuadido de que é possível escrever cinco linhas apenas que bastariam para destruir a civilização.” – Fred Hoyle, Os Homens e as Galáxias

Portanto, apesar de todos os pesares, devemos enxergar o quadro todo, isto é, ser imparciais e até mesmo fazer o papel de “advogado do Diabo” ou, no caso, dos Homens de Preto. Pois o conhecimento por si só não é mau nem perigoso, mas as pessoas que se apoderam dele podem sê-lo, assim como seu uso ou abuso. Infelizmente, podemos dizer que Hoyle estava certo: é possível “varrer” todo o planeta com armas nucleares, e o número de armas nucleares existentes já é suficiente para fazer isso até mais de uma vez. Então, dizer que o homem pode deflagar o Apocalipse[3] não é uma afirmação simbólica ou exagerada. Isto demonstra o lamentável grau de evolução em que o homem se encontra: ele já inventou algo capaz de fazer o mal a todos, mas ainda não inventou nada que possa beneficiar toda a humanidade (será que um dia inventará?). Mas mais assustador e preocupante do que o fato do homem ter desenvolvido uma arma capaz de aniquilar a si mesmo, é o fato de que ele tende, mais ou cedo ou mais tarde, a utilizar as armas que desenvolve. Uma civilização cujo grau de evolução científica é muito superior a seu grau de evolução moral talvez esteja fadada à auto-destruição. O ideal seria que caminhassem juntas, mas não é o que vemos. A corrida armamentista é um perigoso círculo vicioso onde, uma vez dado o pontapé inicial, não há mais volta. Uma vez que seu semelhante tenha desenvolvido determinada arma, é preciso pelo menos ficar em pé de igualdade para defender-se e não ser subjugado. E quando o conhecimento é usado para subjugar ao invés de beneficiar a todos, talvez ele deva mesmo ser proibido. Bergier também aborda esta importante questão em “Os Livros Malditos”:

“…o problema da aplicação das ciências e das técnicas para a guerra continua. A maior parte dos congressos científicos chegam cada vez mais à conclusão de que é preciso esconder certas descobertas e adotar atitude semelhante a dos antigos alquimistas; senão o mundo perecerá.” (Lembrem-se que isto foi escrito em 1971.)

Logo a seguir, ele vai ainda mais longe:

“Do mesmo modo, é evidente que os segredos da Alquimia não possam ser divulgados. Se é possível fabricar uma bomba de hidrogênio em um forno a gás, o que creio possível, pessoalmente, é preferível que o processo de fabricação não seja dado a público. (…) Não esqueçamos que em nossos dias qualquer um pode, com investimentos mínimos, construir um laboratório que Curie ou Pasteur teriam invejado. Pessoas já fabricam, em suas casas, o LSD ou a fenilciclidina, droga ainda mais perigosa. Se qualquer um, hoje, conhecesse o segredo de Filippov, poderia certamente encontrar no comércio todas as peças necessárias para construir o aparelho e, sem nenhum risco pessoal, fazer explodir, a muitos quilômetros de distância, pessoas (ou coisas) que lhe desagradassem.”

Cientista russo, em 1903 Filippov foi “encontrado morto em seu laboratório. (…) A polícia apreendeu todos os trabalhos do sábio, notadamente o manuscrito de um livro que deveria ser sua 301ª publicação. O Imperador Nicolau II examinou, ele mesmo, o processo, depois o laboratório foi completamente destruído e os papéis queimados.”

Então, quando nos lembramos do quão maligno o homem pode ser (ou, no fundo, é) fica difícil não dar pelo menos um pouco de razão aos Homens de Preto. O que é uma lástima, pois diz-se que tudo tem dois lados, e o conhecimento/poder também é uma faca de dois gumes: pode ser usado em prol do bem geral, ou para escravizar. O mesmo se aplicaria à descoberta de Filippov:

“Gorki publicou uma entrevista que teve com Filippov, e o que marcou o escritor foi a possibilidade de transmitir a energia à distância e industrializar, dessa forma, mais depressa o país que precisasse disso. Glenn Seaborg, presidente da comissão americana de energia atômica, evocou, o ano passado (1970), possibilidades análogas: uma energia que viria do céu sobre um feixe de ondas e que permitiria industrializar quase instantaneamente um país em vias de desenvolvimento, isto sem criar nenhuma poluição.”

Mas, se o conhecimento é uma faca de dois gumes, seu ocultamento também o é. O que nos deixa com a pergunta:

Através da ocultação do conhecimento somos mais protegidos ou dominados? Serão os Homens de Preto protetores da humanidade ou tiranos inescrupulosos que visam o monopólio do conhecimento e, assim, do poder? Talvez um pouco de cada, pois, parafraseando um amigo de Bergier, a porcentagem de cretinos talvez seja a mesma em todos os lugares.

A questão acima lembra-nos do significado de um famoso símbolo frequentemente mal interpretado como “satânico”, o Olho na Pirâmide. Como nos ensina o sábio Sr. Meias: “O cume é a elite, esclarecida pelo olho da consciência que tudo vê, e domina uma base cega feita de tijolos idênticos, que seria a população.” (O que também lembra-nos, é claro, de uma famosa canção de rock progressivo.)

Quem guardará os guardiões?

Para finalizar, é importante deixar claro que o termo “Homens de Preto” não refere-se a um grupo específico, mas é absolutamente genérico designando qualquer grupo cujo objetivo seja suprimir qualquer conhecimento. E agora tome cuidado, porque o Sr. J e o Sr. K podem bater à sua porta. E como nos ensina o Teste de Fidelidade, não confie em ninguém.

Notas:

[1] Na verdade a imprensa (máquina) é mais antiga do que muitos imaginam: segundo a Wikipédia, foi inventada em 1439 pelo alemão Gutenberg. Contudo, a impressão em escala industrial só surgiu no séc. XIX, possibilitada pela substituição da imprensa operada manualmente por prensas rotativas inicialmente movidas a vapor.

[2] Nascido Yakov Mikhailovich Berger, Bergier é mais conhecido por sua obra em parceria com Louis Pauwels, “O Despertar dos Magos”.

[3] Para outras possibilidades apocalípticas, leia “Projeto HAARP: A Máquina do Apocalipse”

Por Fenix Konstant

Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/homens-de-preto-a-realidade-por-tras-da-ficcao/

Movimentos Messiânicos: Os Messias Judeus

O trabalho de Messias não é nada fácil. Nunca foi. Claro que se formos totalmente honestos sobre o assunto, o currículo requerido de alguém que deseja assumir para si este papel não é lá muito exigente, de acordo com a tradição ele deve cumprir cinco requisitos:

1- Ele deve descender do Rei Davi;
2- Deve se tornar soberano sobre o povo de Israel;
3- Deve conseguir reunir os judeus dos quatro cantos do mundo;
4- Uma vez reunidos, deve restaurar sobre eles a total observância da lei da Torah;

e por último, mas não menos importante:

5-Deve trazer a paz para o mundo!

E com isto em mente surge a questão: por que diabos alguém desejaria se tornar um Messias? Se olharmos o exemplo mais famoso isso significava, de forma resumida, fazer afirmações que deixariam o seu povo puto e desconfiado, então sair vagando e conversando com desconhecidos, e nem todos seriam gentis. Eventualmente teria convencido muita gente que você falava sério, e teria deixado muita gente importante puta com você, isso significa que se fosse muito longe se tornaria uma pedra no sapato de gente poderosa, e se isso acontecesse esses poderosos iriam atrás de você e não apenas para te jogar na cadeia ou te matar. Eles te usariam de exemplo, te desmembrariam ou crucificariam depois de um circo público e então iriam atrás de sua família, filhos e herdeiros. Algo nada agradável como você pode supor.

Então porque alguém desejaria se tornar um Messias?

Antes de mais nada um pouco de história. A palavra Messias tem origem judaica, Messias ou מָשִׁיַח ‎[mâshıyach] deriva de משׁח [mâshach], מָשַׁח [maw-shakh] uma raiz linguística primitiva que significa: esfregar com óleo, ungir, pintar. מָשִׁיַח, Mashíach por extenção significa o ungido, aquele é esfregado com óleos. Para compreender o que realmente isso significa devemos procurar no livro do Êxodo as conversas que “EU SOU O DEUS DE ABRAHÃO” tinha com Moisés. Quando Moisés libertou o povo Judeu da escravidão do Egito, além de finalmente dar sossego para o Faraó e o povo dele, que haviam caído vítimas das brincadeiras do Divino que “endurecia o coração de Faraó” apenas para continuar com o desfile de pragas e finalizando com a morte por afogamento de grande parte do exército dele com o objetivo de se exibir para Seu povo [1], também recebeu de Deus as novas leis e regras que deveriam ser observadas e seguidas. No capítulo 30 do livro Êxodo, nos versículos 23 a 25, encontramos uma receita, passada por Deus diretamente a seu servo de como fazer um “um óleo sagrado para unções, um perfume composto segundo a arte do perfumista; este será o óleo sagrado para unções.” (Ex. 30:25). Este óleo tinha uma função muito especial, era o óleo utilizado para se ungir aquilo que era sagrado, as coisas apontadas por Deus. Este óleo então era utilizado pelos sacerdotes, também apontados por Deus, para consagrar algo, ou seja dedicar, tornar sagrado. Como isto é interessante, vamos repetir: algo que era ungido era algo que havia sido escolhido e apontado pelo próprio Deus. A seriedade disso era tanta que O Próprio afirma que “O homem que compuser um perfume como este, ou que com ele ungir a um estranho, será extirpado do seu povo.” (Ex. 30:30), e por extirpado do seu povo podemos ler: “se tornará seu inimigo” – você iria descobrir o que a expressão “estar no sal” significa.

Ser o Ungido, como vimos, simplesmente queria dizer que a pessoa, no caso um líder Judeu, havia recebido a atenção especial de Deus. Aarão foi ungido (Ex. 29:4-8), Salomão (1 Cr 29:22), etc. Mas ao contrário do que pode parecer o ritual da unção não foi criado pelos judeus, esse costume já era muito antigo no Oriente Médio. Na Babilônia e na Assíria, óleo de gergelim era derramado sobre a cabeça de noivas, de pessoas que realizavam certas negociações comerciais e de escravos que haviam sido liberdados. Havia os pašîšû, que eram sacerdotes ungidos, e mesmo a arca no épico Gilgamesh é ungida antes do dilúvio chegar. Mas aparentemente o costume de ungir reis era títipo dos judeus. Um detalhe interessante, que vale a pena ser notado, é que nunca houve uma distinção clara entre sacerdotes, reis e profetas; lembre-se que na antiguidade não havia pessoas votando no próximo rei, muito pelo contrário: a realeza era ligada à religião. Por isso não é surpresa lermos sobre o rei Davi agindo como sacerdote em 2Samuel 6:12-19 ou prevendo o futuro em 2Samuel 23:1-7. Da mesma forma os sumo-sacerdotes podiam se comportar como reis, o exemplo mais famoso é Melquisedeque, que preparou a ceia para Abrahão e lhe serviu pão e vinho em Gênesis 14:18, e a partir de 152 a.C. quando os sumo-sacerdotes eram a mais alta autoridade, combinando autoridade real e sacerdotal.

Mas isso não responde nossa pergunta do porquê alguém gostaria de vestir essa carapuça e para respondê-la nós temos que olhar para dois fatos reais e inegáveis:

1- Embora grande parte dos textos sagrados comentem sobre reis e profetas que foram Ungidos (receberam a atenção do Divino), haviam passagens que falavam de um governante diferente, idealizado, com uma missão maior do que todos os outros goverantes. Por exemplo o Salmo 2:2-9:

“Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o Senhor e contra seu Ungido, dizendo: Rompamos os seus laços e sacudamos de nós suas algemas. Ri-se aquele que habita os céus; o Senhor zomba deles. Na sua ira, a seu tempo, lhes há de falar e no seu furor os confundirá. Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião. Proclamei o decreto do Senhor: Ele me disse ‘Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão. Com vara de ferro as regerás e as despedaçarás como um vaso de oleiro’”

Outras passagens também se referem a um ungido idealizado que destruiria os inimigos de Israel em nome da justiça e em várias passagens, como no Salmo 2, ele é chamado de “filho de Deus”, apesar de textos deste tipo não serem raros naquela região (os faraós egípcios afirmavam descender do Deus Ra e se gabavam de ser capazes de destruir qualquer inimigo com a ajuda dos deuses; os persas possuem a história de como Darius I foi escolhido pelo deus Ahuramazda para destronar o usurpador Gaumâta em 522 a.C).

2- O mundo chegava cada vez mais perto de seu fim. Deus havia criado tudo, e tudo terminaria. A contagem começara com Adão e Eva, e a idéia é que acabaria 6000 anos depois disso. E no século VI a.C. quando o mundo tinha já aproximadamente 4.400 anos, começam as especulações de que o governante especial, aquele que seria conhecido como filho de Deus deveria estar chegando.

E como chegaram a estas conclusões? Simples!

De acordo com o que se acreditava nos séculos I a.C. e I d.C o mundo havia chegado à idade de 5000 anos. O judaismo sempre acreditou que a Tanak era muito mais do um livro resgistrando a história dos judeus e as crenças de seus antepassados, eles “sabiam” que aqueles livros eram o registro feito por Deus sobre a sua criação (o universo, os anjos, o mundo e tudo o que existe nele, incluindo a raça humana) e a Sua relação com o povo escolhido (os próprios judeus). Os livros não apenas são um registro, mas está permeado de informações e “dicas” escondidas no próprio texto, por isso desenvolveram métodos de extrair as informações que não estavam explicitas, com técnicas de gematria, Notaricon e Temurá era possível ao estudar o texto sagrado, palavra por palavra, encontrar relações, significados ocultos e indicações da vontade do Criador. Era como viver em um prédio e estudando a composição de suas paredes, as fiações e encanamentos conseguir recriar a planta usada para construí-lo e com isso não apenas compreender sua estrutura mas prever seu comportamento e descobrir o destino que lhe aguardava, por exemplo ao descobrir que ele era feito de concreto e gesso avaliar sua vida útil, saber que se os encanamentos fossem de metal prever quando eles deveriam ser substituídos e desta forma quando as águas que saíssem das tornerias se tornassem turvas deveriam chamar um encanador para trocar os canos por novos.

Assim, Gematria é uma metatesis da palavra grega Grammateia. É baseada no relativo valor numérico das palavras. As palavras de valores numéricos similares supostamente são interpretadas mutuamente, e esta teoria se estende às orações e frases completas. Notaricon é uma palavra derivada do latim que significa Notario. Do Notaricon derivam duas formas. Na primeira, cada letra de uma palavra é tomada como abreviação de outra palavra, assim, com as letras de uma palavra é construída uma frase, A segunda forma do Notaricon é exatamente o contrário da primeira. Qualquer das letras que formam uma frase podem dar origem a uma palavra ou a outra frase. E a Temurá é a permutação. De acordo com certas regras uma letra pode ser substituída por outra que a anteceda ou que a preceda no alfabeto, e desta maneira dar forma a uma nova palavra.

Um exemplo de exercício para isso é o seguinte: pode-se destacar que as três primeiras letras das primeira palavra da Bíblia, BRAShITH – no princípio -, ou seja, BRA, são as iniciais dos nomes que constituem a Trindade: BN, Ben, o Filho; RVCh, Ruach, o Espírito e AB, Ab, o Pai. Mas ainda, a primeira letra do Antigo Testamento é B, inicial de BRKH, Berakhah, bendição, e não A, que é a inicial de ARR, Arar, condena. O valor numérico da palavra Berashith, em sua máxima expressão, nos indica os anos de medida entre a Criação e o Nascimento de Cristo: B=2000, R=200, A=1000, Sh=300, I=10, Th=400, total=3910 anos em números redondos. Picus de Mirandola fez o seguinte trabalho com Berashith: unindo a terceira letra A, com a primeira B, obteve AB, Ab, o Pai. A primeira letra repetida B, mais a segunda R, dão BBR, Bebar, Através do Filho. Tomando-se todas as letras, tirando a primeira, temos RAShITH, Rashith, o Princípio. Conectando a lera Sh com a primeira B e a última Th, temos ShBTh, Shebeth, o Fim ou o Resto.

Com as três primeiras obtemos BRA, Bera, Criado. Omitindo a primeira e pegando as três seguintes temos RASh, Rash, Cabeça. Se omitimos as duas primeiras e tomamos apenas as duas seguintes temos Ash, Ash, Fogo. Tomando a quarta e a última temos ShTh, Sheth, fundação. Pegando a segunda e colocando-a anteposta a primeira temos RB, Rab, Grande. Colocando antes da terceira colocamos a quinta e a quarta, temos AISh, Aish, Homem. Juntando as duas primeiras com as duas últimas temos ThB, Theb, que comumente é utilizada como TVB, Thob, Bom. [2]

Desta forma ao analisar o livro da Gênesis utilizando estas ferramentas, ficou claro para os estudiosos que se Deus havia criado o mundo em 6 dias, consagrando o último a Si Mesmo, então o mundo duraria 6.000 anos, um período equivalente a 1000 anos para cada dia que levou para ser criado. Isso lhes deixava com apenas mais mil anos de existência. Além disso a crença era de que surgiria um Messias que reinaria por mil anos antes que o mundo acabasse. A matemática era simples, o Messias deveria estar batendo à porta a qualquer instante.

Mas de onde surgiu essa crença? Como vimos, existem algumas menções a um salvador nos textos bíblicos, era tudo uma questão de saber quando ele surgiria.

Uma das tentativas mais intrigantes de datar a vinda exata do prometido pode ser encontrada no Primeiro Livro de Enoque, um texto complexo, organizado em cinco livros que foi composto entre o terceiro século a.C. de  a primeira metade do primeiro século d.C. A primeira parte, conhecida como O Livro das Sentinelas (os anjos que observam), foi escrita no século III a.C. e relata uma descrição da visão que o Patriarca Enoque teve dos céus. No capítulo 10 o autor escreve:

“Quando todos [os anjos caídos e] seus filhos se tiverem matado uns aos outros, e quando eles virem a destruição de seus queridos, aprisiona-os por setenta gerações, sob os montes da terra, até o dia de seu julgamento e de seu fim, até que o julgamento, que é por toda a eternidade, seja consumado.” [1 Enoque 10.12]

Isto implica que existiriam setenta gerações desde Enoque até o Dia do Julgamento (ou setenta e sete gerações desde a criação, já que Enoque é um membro da sexta geração desde Adão). O Primeiro Livro de Enoque era bem conhecido dos judeus, chegando a ser aludido na Epístola de Judas 14: “E destes profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos;”

Acredita-se hoje que o texto que serviu de modelo para esta passagem foi o texto de Daniel 9:24-27, que menciona a vinda do Messias, do príncipe (nasi), sete “semanas” (de sete anos cada) após a ordem de Deus de restaurar Jerusalém. De acordo com Jeremias 30:18, esta ordem foi dada em 586 a.C. e como consequência disso podemos identificar o Messias com Ciro, o rei da Pérsia.

“24 Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa cidade, para cessar a transgressão, e para dar fim aos pecados, e para expiar a iniquidade, e trazer a justiça eterna, e selar a visão e a profecia, e para ungir o Santíssimo. 25 Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém, até ao Messias, o Príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; as ruas e o muro se reedificarão, mas em tempos angustiosos. 26 E depois das sessenta e duas semanas será cortado o Messias, mas não para si mesmo; e o povo do príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será com uma inundação; e até ao fim haverá guerra; estão determinadas as assolações. 27 E ele firmará aliança com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador.” Daniel 9:24-27

O restante da profecia permanece ainda mais difícil de ser interpretada, mas vários estudiosos chegaram a identificar o segundo Messias com Onias, um sumo sacerdote que foi morto em 171 a.C., isso nos mostra um aspecto constante em uma caça de Messias, textos proféticos confusos sendo combinado com fatos históricos, mas de uma forma que contorne alguns “detalhes”, já que se Onias fosse o segundo Messias a destruição do segundo santuário teria que ser associada com a perseguição liderada por Antíoco IV Epifânio, que de fato durou “meia semana” (três anos e meio), mas que tem que ignorar o fato de que entre o retorno do exílio babilônico e a morte de Onias não se passaram “sessenta e duas semanas”.

Então a reposta para a pergunta: “por que diabos alguém desejaria se tornar um Messias?” se torna simples, criou-se a espectativa de um salvador, um enviado. A cada dia que passavam todos se encontravam a um dia mais próximos do fim e por isso a um dia mais próximos da chegada do salvador. E essa espera começou a gerar uma enorme expectativa, e isso começou a pirar muita gente. Era um cargo aberto esperando que algúem o reclamasse, o Messianismo se tornou então, para várias pessoas uma questão de oportunidade, “por que não eu?”. Logo, por que alguém desejaria se tornar um Messias? Simples, porque com alguma ginástica matemática e genealógica qualquer um poderia ser um messias, a resposta se torna: “porque eu posso!”

O povo Judeu sempre teve aqueles que o reunia e o libertava e que restauravam a todos a observância da Torah. Podemos inclusive resumir, sem nenhuma pretensão ou falta de respeito, o Antigo Testamento da seguinte forma: o povo está espalhado. Surge um Patriarca que os une, tem filhos e estabelece a observação das leis, ele é seguido e consegue terras e prosperidade pra seu povo. O tempo passa e o povo se torna desregrado e adota novos deuses, vem a miséria e a servidão. Surge um novo líder que os reúne, lhes mostra que devem seguir ao Senhor, restaura a observância da Lei, todos prosperam e ganham uma terra. O tempo passa, eles deixam os costumes e práticas religiosas de lado e ai se tornam escravos de alguém assumindo as crenças dos captores que os maltratam de forma abusiva; o povo se lamenta, surge um novo líder que o reúne, lhe restitui a observação, o liberta, e uma vez que todos voltam às práticas antigas são guiados para uma nova terra onde prosperam. Esse “loop” é a constante que move os judeus do Antigo Testamento. Mas o tempo está passando e o povo está inquieto. Desde o nascimento de Abrahão os judeus foram cativos no Egito, foram levados para a Babilônia, caíram sob o domínio dos Persas, dos macedônios, dos ptolomeus, dos selêucidas. Conforme os ponteiros do Grande Relógio se aproximam do momento do Grande Fim, o povo clama por sossego, por poder voltar para a terra santa e viver em paz até o fim dos dias, afinal eles são os escolhidos, ou não?

E assim torna-se claro como passagens sobre alguém que seria filho de Deus, seria enviado por Ele para liberar a todos e conquistar os inimigos começam a se tornar populares.

Um reflexo disso fica claro quando nos atentamos para o uso do termo “ungido” aplicado a várias pessoas como os Reis de Israel, os Juízes e mesmo o Sumo Sacerdote, até os patriarcas eram considerados “ungidos” – mesmo antes de Moisés receber a receita o Óleo Sagrado e o ritual de unção. Este termo era bem próximo do termo Messias, mas não era exatamente a mesma coisa. Apesar de “ungido” surgir várias vezes e ser atribuído a várias pessoas (inclusive àlgumas que viveram antes do ritual de unção) o termo específico “Messias” aparece apenas duas vezes no Antigo Testamento, no livro de Daniel, capítulo 9 versículos 25 e 26:

“25 Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém, até ao Messias, o Príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; as ruas e o muro se reedificarão, mas em tempos angustiosos. 26 E depois das sessenta e duas semanas será abatido o Messias, mas não para si mesmo; e o povo do príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será com uma inundação; e até ao fim haverá guerra; estão determinadas as assolações.”

Diferente do que muitos possam imaginar o conceito do Messias não faz parte do judaísmo bíblico e se desenvolveu como um folclore informal que possui muitas variantes e pode ser compreendido de diferentes formas. O Messias é personagem de inúmeros contos folclóricos e músicas hassídicas (Hassídico ou Chassídico é um dos movimentos dentro do Judaísmo que existiu praticamente desde sempre na história judaica). Um dos conceitos do Messias pode ser encontrado nos comentários de Maimonides, como era conhecido o Rabi Moshe ben Maimon, escritos no século XII sobre o Talmude Babilônico:

“A era Messiânica será quando os judeus ganharem novamente sua independência e todos retornarem à terra de Israel. O Messias será um grande rei, ele alcançará grande fama e sua reputação entre as nações gentis será ainda maior do que a do Rei Salomão. Sua bondade, sobriedade e as maravilhas que realizará farão com que todas as pessoas estabeleçam a paz com ele, e todas as terras o servirão… Entretanto nada mudará na era Messiânica, a não ser os judeus que ganharão novamente sua independência. Ricos e pobres, fortes e fracos ainda existirão. Entretanto será muito fácil para as pessoas ganharem a vida e com muito pouco esforço serão capazes de realizar muito… será um tempo quando o número de homens sábios crescerá… não haverá mais guerras e as nações não erguerão mais suas espadas umas contra as outras… A era Messiânica será marcada por uma comunidade formada pelos corretos e dominada pela bondade e sabedoria. Ela será governada pelo Messias, um rei correto e honesto, que se sobressairá através de sua sabedoria e será muito próximo a Deus. Não pense que o mundo ou as leis da natureza mudarão, isto não é verdade. O mundo continuará como é. O profeta Isaias predisse: “o lobo viverá com a ovelha, o leopardo se acomodará aos pés das crianças”. Isto, é claro, não passa de uma alegoria que mostra que os judeus viverão em segurança, mesmo convivendo com nações que outrora foram cruéis. Todas as nações se voltarão para a religião verdadeira (o monoteísmo, mas não necessariamente o judaísmo) e não mais roubarão ou oprimirão. Note que todas as profecias a respeito do Messias são alegóricas – Apenas na era Messiânica nós compreenderemos o significado de cada alegoria e o que virá nos ensinar. Nossos sábios e profetas não esperam pela era Messiânica para reinar sobre o mundo ou dominar os gentis… a única coisa que desejavam era que os judeus fossem livres para se envolver com a Torah e a sabedoria que ela traz.”

É claro que esse não é o consenso geral dentro do judaísmo, um século mais tarde, Maimonides foi contestado por Nachmanides, que rejeitava o nacionalismo do primeiro e afirmava que Isaias estava sendo literal: que quando chegasse a Era Messiânica até mesmo os animais selvagens se tornariam criaturas domésticas de temperamento doce. Outro Judeu, nosso contemporâneo, Woody Allen, complementou essa visão dizendo que: “as ovelhas e os lobos viverão juntos, mas as ovelhas não conseguirão pregar os olhos à noite.”

Agora, nos tempos bíblicos a idéia da restauração de Israel e o fim dos problemas por que passavam ganhava muitos adeptos sempre que a situação ficava preta, e se lembrarmos o nosso resumo do Antigo Testamento podemos ver que o povo hebreu poderia ser comparado a um cardume que sempre nadou dentro de um balde de piche. Quando se tornaram cativos da Babilônia (séc VI a.C.), dos Romanos (séc II a.C.), quando houve o reinado de Hadrianus (séc. I e II), durante a conquista árabe (séc. VII d.C.) e durante mais ou menos toda a Idade Média (séc V ao XV), para citar alguns momentos. E com um agravante, conforme o prazo de validade estipulado para as velhas profecias vencia, surgiam novas idéias para explicar porque o Salvador não havia surgido ainda e para adaptar a influência do Messias e suas características aos novos tempos. Lembre-se que já no século VI a.C. o Filho de Deus era esperado, um erro de alguns séculos poderia ser esperado, afinal não haviam indicações precisas de quando ele viria, mas conforme os séculos passavam a aflição pela espera e a grandiosidade dos seus atos cresciam. Muitos começaram a crer que com o seu surgimento os mortos ressuscitariam, que ele marcaria o início dos Fins dos Tempos e tudo resultaria na supremacia do judaísmo. Com o tempo surgem diferentes categorias de Messias, como o Messias Efraínico, descendente de Efraim que surgiria antes do Messias Davídico, descendente de Davi, para anunciar sua chegada.

Desta forma, criou-se visão sobre-humana daquele que assumiria o papel de Messias no Judaísmo dando-lhe características quase divinas. Lhe atribuíram milagres e maravilhas, a capacidade de converter todos a uma única religião, a criação de paz mundial – esses feitos, ironicamente, posteriormente foram associados ao Anti-Cristo no texto canônico da Revelação de São João, conhecida também como o Apocalipse.

Isso fez com que muitos judeus se tornassem cautelosos em relação ao advento Messiânico e mesmo céticos e cínicos em relação àqueles que o anunciam. O sábio Rabban Yochanan ben Zakkai chegou a dizer no primeiro século: “Se por acaso você estiver com uma muda de planta em sua mão e lhe disserem que o Messias chegou, primeiro plante a muda e então vá para as ruas e saúde o Messias”. Uma velha história judaica também fala de um Judeu russo que recebia um rublo por mês do conselho municipal para aguardar do lado de fora da cidade para que fosse a primeira pessoa a saudar o Messias quando este chegasse. Quando um amigo lhe perguntou por que fazia aquilo já que “o salário era tão baixo” o homem respondeu: “é verdade, mas o trabalho é permanente”.

E com isso chegamos a um grande problema, na verdade um impasse: mesmo com a ironia, as anedotas e o ceticismo, a crença no Messias e na era Messiânica está entranhada no judaísmo. Como então reagir diante destas crenças? O Messias de fato virá? Como reconhecê-lo? Como agir?

A resposta mais simples é: todos os atos atribuídos ao Messias podem apenas ser julgados depois de realizados, não podemos afirmar hoje, diante da presença de alguém que tenha esse status, que ele trará a paz e reunirá o povo de Israel, é apenas com o tempo que veremos se essas coisas de fato aconteceram graças a ele e ai sim afirmar que o papel foi cumprido. No momento presente as pessoas tem apenas a própria crença, ou seja isso se torna uma questão de fé. E é essa crença pessoal, esta fé,  que pode levar uma pessoa a acreditar que alguém, em determinado momento é o Messias fazendo-a seguir essa pessoa, mas não pode servir como afirmação de que aquela pessoa de fato é o prometido. É como dizer que o Messias, por exemplo, será seguido por multidões, mas nem todo aquele que de fato conseguir se seguido por multidões será o Messias, a reação do povo e as ações que ele realizar podem ser um termômetro, mas nunca uma prova final de sua natureza.

O maior exemplo disso tiramos da própria história, nos últimos quatro mil anos o nome “Israel” foi usado para designar não apenas a Terra de Israel como toda a nação judaica. O artefato arqueológico mais antigo a mencionar Israel não como um simples nome vem de uma estela egípcia documentando campanhas militares em Canaã, datada do XIII século a.C. onde se refere a um povo, às pessoas que habitavam aquela terra. A Terra de Israel, Eretz Yisrael, é um local sagrado para os judeus desde a época bíblica, já que foi prometida aos três patriarcas por Deus, para se tornar seu lar. Durante o período dos reinados israelitas e o século das conquistas muçulmanas, séc VII d.C., a Terra de Israel foi conquistada e dominada pelos Assírios, Babilônios, Persas, Gregos, Romanos, Sassânios e Bizantinos. A presença judaica na região diminuiu drasticamente após o fracasso da revolta de Bar Kokhba contra o império romano em 132 d.C. e do massacre conduzido pelo imperador Heraclitus em 628 e 629. Depois de perder a terra para os Muçulmanos em 636 d.C. o domínio da região mudou de mão em mão entre os Omíadas, os Abássidas, os cruzados, os Cosméricos e os Mongóis por mais de seis séculos, até cair nas mãos do sultanato Mameluco em 1260. Em 1516 a Terra de Israel se torna parte do império Otomano que dominou a região até o século XX.

Durante todo este tempo os judeus da diáspora desejavam retornar ao Sião e à Terra Prometida, mas a primeira grande onda de imigração, conhecida como a primeira Aliyah só teve início em 1881. Três anos depois, em 1884 o governo Turco-Otomano emite o documento que ficou conhecido como Édito de Tolerância, permitindo que os judeus retornassem à Terra Santa. A segunda Aliyah ocorreu entre 1904 e 1914 quando mais de 40.000 judeus ocuparam a Palestina e entre 1919 e 1929 ocorreram a terceira e quarta Aliyah, levando mais de 100.000 imigrantes para a região; esta época coincide com o mandato concedido sobre a região da Palestina pela Liga das Nações à Inglaterra, a partir de 1921 a Inglaterra cria cotas de imigração para os judeus. Em 1930 o surgimento do Nazismo acabou criando a quinta Aliyah e um influxo de mais de 250.000 judeus para a Terra Prometida, o que causou a revolta árabe de 1936 a 1939 e fez com que a Inglaterra proibisse as imigrações. Como países ao redor do mundo começaram a não aceitar e a denunciar fugitivos do holocausto teve início um movimento conhecido como Aliyah Bet para levar clandestinamente judeus para a Palestina, com o fim da Segunda Guerra os judeus formavam mais de 33% da população da Palestina. Nesta mesma época o Reino Unido entrou em um conflito violento com os judeus, e chegou à conclusão, em 1947, de que era incapaz de criar uma solução aceitável tanto para os árabes quanto para os judeus, foi então que a recém criada Nações Unidas estabelece em novembro de 1947 a divisão do país em dois estados um para cada povo que habitava a região. A comunidade judaica aceitou a idéia, mas os árabes não. Dois dias após a criação dos estados, os árabes começam a realizar ataques a alvos judeus, e assim teve início uma guerra civil na região. Na década de 1950 começam os conflitos na Faixa de Gaza e a batalha pela conquista do Canal de Suez. Em 1967 o Egito, a Síria e a Jordânia enviaram tropas para fechar todas as fronteiras Israelitas. No período de 1969 a 1970 Israel esteve em guerra contra o Egito. Seguindo esses eventos podemos destacar ainda o ataque Egípcio/Sírio no Yom Kippur em 1973. Em 1981 e 1982 Israel interveio na guerra civil Libanesa. Em 1987 surge a primeira Intifada, um levante Palestino contra Israel; com a guerra do golfo em 1991 muitos Palestinos apoiaram Saddam Hussein e o Iraque fez vários ataques com mísseis a Israel. Em 2006 um grupo de artilharia do Hezbollah realizou ataques contra israelitas.

… e durante toda esta bagunça surgiram várias pessoas que se proclamaram ou foram proclamados Ungidas, as Escolhidas por Deus e que chegaram a atrair multidões.

Com isso podemos ver que mesmo que muitos dos Messias que surgiram tenham afirmado descender do Rei David, embora muitos tenham sido reconhecidos como líderes do povo de Israel, ao menos por parcelas dele, e ainda tenham conseguido, em certos momentos, causar uma imigração de judeus para se reunirem e tenham também afirmado a importância da total observância da lei da Torah, até hoje não temos um que tenha conseguido trazer a paz ao mundo, seja ela uma paz mundial ou simplesmente um sossego para o Povo Escolhido, nem mesmo um consenso entre os vários ramos surgidos dentro do judaísmo, e assim a própria história mostra que nenhum dos Messias conseguiu levar o cargo até o fim, cumprindo os 5 requisitos.

É por esta dificuldade, a de apenas observar e julgar um ato depois dele ter acontecido, aliada à ansiedade que o povo judeu teve por vezes acreditando que o Messias estava a um passo de suas portas, que encontramos inúmeros Messias na história, pessoas que, por um motivo ou por outro, ganhavam a simpatia e confiança de inúmeros seguidores que acreditavam nele e tinham esperanças de estar diante daquele que surgiu para cumprir as profecias, lendas e contos folclóricos.

Como vimos, durante o séc. VI a.C. os judeus exilados na babilônia criaram expectativas sobre um Ungido que os libertariam e os lideraria de volta para seu lar, inúmeras profecias se realizaram quando o rei Persa Ciro o Grande permitiu que eles retornassem a sua terra de origem. No séc. II a.C. os judeus novamente sofreram repressão e as antigas profecias se tornaram relevantes novamente. Algumas pessoas esperavam por um líder militar que derrotaria os inimigos romanos e criaria o reino judaico, outros, como os autores dos Salmos de Salomão, diziam que o Messias seria um professor carismático que ensinaria a todos a interpretação correta da Lei Mosaica, restauraria Israel e julgaria a humanidade.

Graças aos pergaminhos e textos encontrados nas cavernas de Qumran, conhecidos como os manuscritos do Mar Morto, chegou até nós uma cultura messiânica muito rica, nos mostrando inúmeras teorias sobre quem seria o Messias vindouro. No Manuscrito da Guerra o Messias é um profeta e não toma parte na guerra entre “os filhos da luz” contra “os filhos das trevas”, ele seria identificado como “o príndipe da comunidade”. Em outros textos o Messias surge como um senhor da guerra. Isto por si já deixa claro que haviam muita confusão quanto a natureza do Messias esperado.

Ainda existem vários textos atribuídos hoje aos membros da seita de Qumran como, por exemplo, o Documento de Damasco e a Regra Messiânica. Os textos da seita são interessantes porque nos mostram que seus membros não esperavam a vinda de um Messias, mas de dois. Isto pode ser o reflexo de um povo tentando compreender todas as divergências sobre a figura que viria libertá-los.

A origem desta idéia é possivelmente o texto deixado em Zacarias 6:12-13:

“12 E fala-lhe, dizendo: Assim fala e diz o SENHOR dos Exércitos: Eis aqui o homem cujo nome é Renovo; ele brotará do seu lugar e edificará o templo do SENHOR. 13 Mesmo edificará o templo do SENHOR, e levará a glória, e assentar-se-á, e dominará no seu trono, e será sacerdote no seu trono, e conselho de paz haverá entre ambos.”

Apesar deste texto se referir ao príncipe Zerubbabel e ao alto-sacerdote Joshua ele poderia ser compreendido como uma profecia Messiânica no início do período Hasmoneu, como vemos nas passagens do texto Testamentos dos doze patriarcas:

“Minhas crianças, sejam obedientes a Levi e a Judá. Não se exaltem acima destas duas tribos, pois dentra elas surgirá o Salvador enviado por Deus. Pois o Senhor irá erguer de Levi um sumo sacerdote e de Judá um rei. Ele salvará todos os gentis e a tribo de Israel.” (Testamento de Simeão 7:1-2)

“A mim [Judá] Deus entregou um reinado, e para ele [Levi] um sacerdócio. E ele sujeitou o reinado ao sacerdócio. A mim Ele entregou os assuntos terrenos e para Levi os assuntos celestiais. Assim como o céu está acima da terra, o sacerdócio de Deus está acima do reino da terra. (Testamento de Judá 21:2-4a)

Apesar da palavra “Messias” não ser usada, os membros da seita esperavam por um Messias de Israel e um Messias de Davi, que cumprissem a descendência real e sacerdotal de Judá e Levi.

O primeiro texto ao qual daremos atenção é o documento de Damasco, que como acontece com a maioria dos achados de Qumran, é uma combinação de textos. A primeira parte é uma história teológica que prova que a seita, identificada por muitos como os Essênios, é o povo verdadeiro de Israel e que Deus recompensará o fiel; então segue um trecho de lei com uma código penal adicionado como apêndice. A primeira parte não menciona o Messias, mas pode ser interpretada como um texto de tradição Messiânica, já que faz alusão à profecia de Balaão:

“E a estrela é aquele que busca a lei, que veio para Damasco; como está escrito A estrela partiu de sua jornada de Jacó e um cetro de ergue de Israel. O cetro é o Príncipe de toda a congregação, e com sua chegada ele porá por terra todos os filhos de Set.” (Documento de Damasco 7:18-21)

E assim temos a crença em dois Messias vindouros, um o líder militar o outro um sábio, se nos atentarmos ao termo “aquele que busca a lei” encontramos similaridades com o Mestre da Retidão (título dado ao fundador da seita de Qumran), o fato deste título ser usado para apontar o Messias indica a crença da seita de que seu fundador retornaria um dia.

Na primeira citação a palavra “Messias” não é utilizada, mas o documento de Damasco às vezes se mostra mais explícito:

“[…] e durante o período de trevas até o surgimento do Messias de Aarão e Israel […]”(Documento de Damasco 12:23-13:1)

“Este é a afirmação exata das ordenanças que serão seguidas por eles até o Messias de Aarão e Israel apareça e expie sua iniquidade.” (Documento de Damasco 14:18-19)

“Aqueles que atentarem a Ele serão os humildes do rebanho; eles serão salvos no tempo de Sua visitação. Mas os outros serão entregues à espada quando vier o Messias de Aarão e Israel.” (Documento de Damasco 19:33-20.1)

E em pelo menos um texto encontramos um terceiro personagem na Era Messiânica: o profeta. Ele é mencionado no Manual de disciplina. Este texto é curioso por usar o termo plural “os Messias de Aarão e Israel” ao invés de “o Messias de Aarão e Israel” como no Documento de Damasco, com isso temos a crença em pelo menos dois e talvez três Messias:

“E eles não partirão de nenhum concelho da lei para caminhar com teimosia em seus corações, mas serão governados pelas primeiras ordenanças nas quais os membros da comunidade iniciaram suas instruções, até a vinda do profeta e dos ungidos de Aarão e Israel.” (Manual de disciplina 9:9b-11)

Assim como o Messias rei de Israel e o Messias sacerdote de Aarão, o profeta é um personagem Messiânico e não é difícil imaginar que a biblioteca de Qumran possuísse textos de cunho messiânico que defendessem a vinda de três Messias. Afinal de contas reis, sacerdotes e profetas eram os únicos que podiam ser ungidos.

Mas o texto mais interessante de todos pode ser encontrado na Regra Messiânica, também chamada de Regra da congregação. Ele descreve a arrumação da mesa durante uma refeição messiânica sagrada. Uma das particularidades do texto é a hierarquia entre os dois Messias. Esta é a posição dos homens de renome chamados para a assembléia do conselho da comunidade quando Deus lhes enviar o Messias.

“O Sacerdote entra liderando toda a congregação de Israel, então entram todos os líderes dos filhos de Aarão, os sacerdotes, chamados para a assembleia e homens de renome. E eles deverão se sentar diante dele, cada um de acordo com sua posição.”

“Então o Messias de Israel deve entrar, os chefes das tribos de Israel devem se sentar diante dele, cada um de acordo com sua posição nos campos e durante suas marchas, e então todos os líderes das famílias da congregação, juntamente com os sábios, devem se sentar diante deles, todos de acordo com sua posição.”

“E eles devem se reunir na mesa comunal ou para beber o vinho e preparar a mesa e misturar o vinho para o consumo, que ninguém toque o pão ou o vinho antes do Sacerdote. pois é ele que deve abençoar o pão e o vinho. E então o Messias de Israel deve tocar o pão. E então toda a congregação deve abençoar cada um de acordo com sua posição.” (1Q28a 2.11-21)

Vale ressaltar que a idéia de múltiplos Messias não desapareceu com a seita (que teve seu fim durante a guerra entre os judeus e os Romanos entre 66 e 70).

Flávio Joséfo, o historiador e apologista judaico-romano que registrou in loco a destruição de Jerusalém, em 70 d.C., relata em seu Antiguidades Judaicas que no primeiro século antes da destruição do Templo, alguns Messias surgiram, prometendo o alívio da opressão romana e tendo encontrado seguidores:

“Outro corpo de homens malvados também se levantou, mais limpos nas suas mãos, mas mais malvados nas suas intenções, que destruíram a paz da cidade, não menos do que o fizeram estes assassinos os Sicarii. Porque eles eram impostores e enganadores do povo, e, sob a pretensa iluminação divina, eram pela inovação e por mudanças, e conseguiram convencer a multidão a agir como loucos, e caminharam em frente deles pelo descampado, afirmando que Deus lhes iria ali mostrar sinais de liberdade”.

Vamos ver então quem foram esses outros Messias que durante a história do Judaísmo tentaram vestir as sandálias do Salvador.

Judas o Galileu

Um deles foi Judas, o Galileu. Surgiu nos dias do recenseamento, pregando contra a dominação de Roma, criticando a subserviência dos governantes ao Império Romano e incitando o povo a se rebelar, se recusando a pagar tributos, dizendo que a carga tributária cobrada pelo Império era o mesmo que a escravidão, ele conquistou milhares de seguidores. Percorria os vilarejos da Galiléia denunciando as arbitrariedades (e atrocidades) praticadas pelo exército romano contra homens, mulheres e crianças, pressionando todos a lutar pela liberdade política, econômica e administrativa.

Sobre ele Josefo escreve: “[tratava-se de um revolucionário], pois, censurava a população por esta pagar impostos aos romanos e a incitava ao levante, à luta armada”.

Citado pelo rabino Gamaliel I, neto do grande educador judeu Hillel, o Ancião, líder dentre as autoridades do Sinédrio no meio do século I, reconhecido mestre e Doutor da Lei, em um discurso enquanto defendia Pedro, o Pescador e Paulo de Tarso disse: “(…) levantou-se Judas, o Galileu, [contra o Império Romano] nos dias do alistamento, e levou muito povo após si”.

Judas e um fariseu chamado Saduc lideraram várias ações contra o Império, inclusive executando os publicanos, judeus contratados por Roma para cobrar os impostos, que eram chamados de infiéis e traidores. Criaram um grupo que ficou conhecido como Zelotes (significa literalmente alguém que é ciumento em nome de Deus, ou seja, alguém que demonstra excesso de zelo) e os Sicários (por causa de um punhal, chamado “sica”, que usavam), e realizaram inúmeros ataques de sucesso, que só fizeram aumentar a simpatia popular com a sua causa. Foram talvez os pioneiros em táticas de terrorismo e guerrilha na Palestina.

Um dos recursos do qual faziam uso como forma de intimidação era o graffiti. Em vários lugares, em especial nas muralhas e nos arcos das pontes sobre o Tiropeon, grafitavam frases provocadoras contra os romanos. A mais comum delas era “Poncio cattivo” (Pôncio o mau), parodiando o insulto que os habitantes de Cápri dirigiam ao maligno imperador então reinante: Tibério. Outras frases comuns eram “Pôncio, o escravo de Segano”; “Soldado, tua vida vale dez asses?” se referindo ao salário diário de um legionário, fixada por Júlio César de 225 denários anuais ou o equivalente a dez asses por dia.

Ná no séc. V d.C. os Zelotes assumiam o porte de um exército de guerrilheiros contando inclusive com uma facção encarregada de execuções de autoridades romanas e judeus ricos simpatizantes dos romanos. Mas a revolução mudou quando pessoas comuns, comerciantes donas de casas e até crianças se tornaram vítimas desses assassinos tendo inicio assim uma época de medo e terror nas ruas da Palestina, especialmente na região leste.

Os romanos por fim conseguiram sufocar a revolta e crucificaram Judas, os membros de sua família, seus seguidores conservaram vivo o espírito de resistência aos Romanos. Dois de seus filhos foram crucificados pelo procurador Alexandre (c. 46 d.C.), enquanto que um terceiro filho, Manaém, foi o líder da Primeira Rebelião Judaica (66-70 d.C.). O último baluarte Zelote, Massada, caiu em Maio de 73 d.C., mas, mesmo depois, o seu espírito não foi extinto. Os zelotes continuaram a opor-se aos romanos, argumentando que Israel pertencia apenas a um rei judaico descendente do Rei Davi.

Simão, filho de José

Foi um ex escravo de Herodes o Grande se rebelou, e foi morto no ano 4 a.C. Ele foi identificado como o Messias da Revelação de Gabriel, um tablete de pedra de um metro de comprimento contendo uma coleção de profecias curtas, escritas na primeira pessoa e datada do século I a.C.

Conta a história, que Simão de Paraea se corou como rei, afirmando ser o redentor de Israel, o Messias. Ele comandou uma rebelião contra Roma no ano 4 a.C., antes da Páscoa, e ateou fogo a um dos palácios de Herodes e a várias de suas residências reais. Logo após este episódio, Simão foi capturado em um desfiladeiro e então decaptado. Seu corpo foi abandonado para apodrecer entre as pedras, já que para os judeus da época não ter o corpo queimado era uma das maiores humilhações pela qual alguém poderia passar. Depois de sua morte, inúmeros seguidores foram caçados e crucificados.

A seu respeito Flavius Josefus escreveu:

“Também houve Simão, que foi escravo do Rei Herodes, mas que de outra forma era uma pessoa de feições atraentes de corpo alto e robusto; ele era uma pessoa muito superior em relação às outras de sua classe, e tinha muitas responsabilidades. Este homem foi levado a um turbilhão de coisas e foi corajoso o suficiente para colocar em sua própria cabeça um diadema, quando um certo número de pessoas estava em sua presença e por elas foi declarado rei, e ele se considerou mais merecedor daquela dignidade do que qualquer outro.

Ele queimou até a sfundações o palácio de Jericó, e saqueou o que restou nele. Ele ateou fogo também a muitas outras casas do rei em vários lugares do país, as destruindo totalmente, e permitiu que aquilo que sobrasse fosse feito presa por aqueles que o seguiam. Ele teria feito muitas coisas grandiosas, mas foram tomadas medidas para o reprimir imediatamente. (O comandante da infantaria de Herodes) Gratus, se uniu a alguns soldados romanos, e reunindo suas forças foi de encontro a Simão. E após uma longa e grandiosa luta, um grande número daqueles que vieram de Perasea (um grupo desordenado de homens, brigando mais com coragem do que com técnica) foi destruído. E apesar de Simão ter se salvado, fugindo por um vale, foi encontrado por Gratus e então decaptado.”

Athronges

Foi o lider de uma rebelião, seguido por seus quatro irmãos, contra Herodes Arquelaus e os romanos, depois de se proclamar o Messias. Ele e seus irmãos foram eventualmente vencidos.

Assim como Simão, filho de José, Athronges não era uma pessoa eminente, não possuía nenhum antepassado importante nem tinha posses, era um simples pastor desconhecido, mas por ser um homem alto e mais forte do que todos que conhecia ele decidiu se declarar rei. Também se dedicou, com a ajuda de seus irmãos, a atacar os romanos, e os relatos dizem que embora a princípio ele fosse um homem gentil e justo, começou a se tornar violento, não apenas com os romanos, mas com todos.

E assim como Simão acabou tendo seu fim nas mãos de Gratus.

Theudas

Por volta de 44 d.C., surge um homem chamado Theudas, ou Teudas, que afirmava ser um profeta, encorajando que as pessoas o seguissem até o Jordão, que seria dividido por ele para seus seguidores.

Isto é digno de nota, pois apesar de não se declarar o Messias a idéia de profetas também é importante. Um profeta ou profetisa é uma pessoa capaz de predizer o futuro. Antes de receberem o nome de profetas essas pessoas eram chamadas de videntes, como nos mostra o livro I Samuel 9:9. Os profetas eram aqueles que falavam por inspiração divina ou em nome de Deus, e é sempre bom ter em mente que isso acontecia em uma comunidade que levava Deus muito a sério, tanto que de acordo com a Lei Mosaica uma pessoa acusada de ser um falso profeta recebia a pena de morte, e  naquela época não havia câmaras de gás, injeções letais nem nada que transformasse a morte em algo rápido e indolor.

Enquanto o Messias era alguém sagrado por Deus e enviado, o profeta era alguém escolhido por Deus para ser seu porta voz, como vemos na história, assim como onde há fumaça há fogo, Messias e Profetas nunca estiveram muito longe um do outro como veremos adiante.

Com o tempo Theudas conseguiu arrebanhar para si mais de 400 pessoas, todas perseguidas por Cuspius Fadus, que enviou homens a cavalo em perseguição ao  bando e a seu líder. Muitos deles foram mortos e outros foram tomados como cativos, juntamente com o seu líder, que foi decapitado.

Messias Egípcio

Ainda de acordo com Josefo, no séc. I surge um Messias egípcio que supostamente conseguiu agregar mais de 30 000 seguidores. Segundo Flávio Josefo, esse personagem se proclamava um “enviado de Deus”, e apareceu na Judéia no tempo do governador Marco Antônio Félix, arrebanhando um grande número de pessoas, e as levando para o Monte das Oliveiras, onde haveriam de presenciar um milagre: as muralhas de Jerusalém se desmantelariam, abrindo um caminho para a entrada triunfal de Yahweh, que viria para estabelecer seu reino na Terra. Isso, se de fato acontecesse, realizaria a profecia do profeta Zacarias, sobre a proximidade do Dia do Senhor: “Nesse dia, os seus pés [de Yahweh] pousarão sobre o Monte das Oliveiras, que fica em frente e a leste de Jerusalém; e o Monte das Oliveiras vai rachar-se ao meio, formando um vale enorme no sentido do nascente para o poente (…) Então virá Yahweh e todos os santos com ele” (Zc 14,4). Ele também é citado em Atos, no episódio em que Paulo se encontra com um tribuno, nos degraus da Fortaleza Antônia, e este lhe pergunta: “Por acaso você não é o egípcio que, dias atrás, subverteu e arrastou ao deserto quatro mil sicários?” (At 21,38). O governador Félix mandou uma tropa atacar a multidão e muitos foram mortos pelos legionários, mas o egípcio escapou durante a luta e nunca mais foi visto.

Dois outros Messias

Josefo ainda nos fala do surgimento de mais dois Messias naquela época: Um que prometeu ao povo “a libertação das suas misérias” se eles o seguissem até ao descampado. O líder e seus seguidores foram mortos pelas tropas de Festus, o procurador romano.

E outro surgido quando Jerusalém já estava sendo destruída pelos Romanos, um profeta subornado pelos defensores em uma tentativa para evitar que as pessoas desertassem, anunciou que Deus os comandava para virem ao Templo, onde receberiam sinais milagrosos da sua libertação. Ao invés de libertação os seguidores encontraram a a própria morte nas chamas.

Menahem ben Judah

Ao contrário daqueles Messias, que esperavam conseguir a libertação do seu povo através de intervenção divina, surge Menahem ben Judah, o filho de Judas da Galileia, e neto de Hezequiel, o líder dos Zelotes, que tinham irritado o Rei Herodes. Ele era um guerreiro e quando começou a guerra, atacou Masada com o seu grupo, armou os seus seguidores com as armas ali armazenadas, e partiu para Jerusalém, onde capturou a fortaleza Antónia, derrotando as tropas de Agripa II. Encorajado por este sucesso, ele comportou-se como Rei e clamou a liderança de todas as tropas. Espoletou por isso a oposição de Eleazar, outro líder Zelota que alguns historiadores acreditam ser irmão de Menahem, tendo sido assassinado como resultado de uma conspiração. Ele será provavelmente a mesma pessoa mencionada como Menahem ben Hezekiah no Talmud e ali chamado de “provedor de conforto que deverá aliviar”.

Nos Pergaminhos do Mar Morto lemos sobre um Messias que teria existido antes do primeiro século chamado Menahem, o essênio, que morreu em circunstâncias semelhantes às atribuídas a Jesus.

Bar Kochba

Com a destruição do Segundo Templo de Jerusalém em 70 d.C., temos uma pausa com a aparição de Messias. Foi uma época em que os judeus começaram a se espalhar pelo globo em busca de um lugar para viver. Mas sessenta anos mais tarde, um movimento político-messiânico de grandes proporções teve lugar, com Shimeon Bar Kochba (também Bar Kosiba) como líder. Este líder da revolta contra Roma foi saudado como o Rei-Messias pelo Rabi Aquiva, que se referiu a ele, como: “Uma quarta estrela de Jacob virá e o ceptro irá erguer-se fora de Israel, e irá golpear pelos cantos do Reino de Moab,”, e Hag. ii. 21, 22; “Eu irei sacudir os céus e a terra e destronar reinados…”. Apesar de alguns terem duvidado que fosse o Messias, ele parece ter conseguido o apoio generalizado na nação.

A revolta de Bar Kochba , de 133 a 135 d.C., que fez frente ao poder de Roma foi a terceira maior rebelião dos judeus que habitavam a província Iudaea (Judéia) e a última das guerras contra os romanos. A revolta estabeleceu um Estado Judeu sobre algumas regiões da Judéia por dois anos e meio. A função de administrador público foi assumida por Shimeon Bar Kochba, que assumiu o título de Nasi Israel (Governante, ou Príncipe de Israel). A “Era da redenção de Israel” foi anunciada, se criaram contratos e se cunharam moedas. O Rabi Akiva presidia a Sanhedrin e os rituais religiosos eram observados e os sacrifícios (korbanot) era realizados no altar.

Shimeon foi morto perto das muralhas de Bethar. O seu movimento messiânico acabou em derrota e na miséria dos sobreviventes. Em 135, a revolta foi esmagada pelo imperador romano Adriano. De acordo com Cassius Dio, 580,000 judeus foram mortos e 50 cidades fortificadas e mais de 980 vilas foram massacradas. Os sobreviventes dispersaram-se pela diáspora ou foram feitos escravos. Adriano decretou a expulsão de todos os judeus de Jerusalém, autorizando o seu retorno apenas por um dia ao ano, em Tisha Be’av, para demonstrar luto pela destruição do Templo. Após esta tremenda derrota dos judeus, a cidade de Jerusalém seria reconstruída pelos Romanos, tendo o imperador Adriano ordenado a mudança do nome de Jerusalém para Aelia Capitolina, e o nome da Judéia para Síria Palestina, para evitar qualquer associação judaica e com a terra de Israel.

O ocorrido marcou também uma nova etapa do cristianismo. Até então, os cristãos eram sobretudo judeus. A partir de aqui foram obrigados a dispersar-se para outras zonas. Se até então a psicologia dos líderes cristãos tinha uma perspectiva judaica, depois do ano 135 a maioria dos cristãos seriam gentios, e adquiririam uma perspectiva diferente, de pessoas que vivem na Grécia, ou então romanos e que mais facilmente adotariam posições antijudaicas.

Com a derrota de Bar Kochba passam-se alguns séculos em que não temos o registro de novos Messias.

A derrota da guerra de Bar Kochba foi um desastre que afetou negativamente o surgimento de Messias nos séculos seguintes, mas a esperança é a última que morre e de acordo com cálculos baseados no Talmude, o Messias seria esperado no ano 440. Esta expectativa, em ligação com os distúrbios no Império Romano em face das invasões, podem ter levado a incentivar o Messias que apareceu nesta época em Creta e que angariou o apoio da população judaica para o seu movimento.

Moisés de Creta

Em 448 eis que surge o autodenominado Moisés, prometendo liderar o seu povo, como o antigo Moisés, de volta à Palestina. Ele percorreu as comunidades judaicas da ilha anunciando que iria repetir “seu” feito de séculos passados – fazer o mar se abrir para dar passagem aos israelitas -, de maneira a conduzir os judeus cretenses de volta à Terra Prometida. Conseguiu arrebanhar muitos seguidores e os levou até o mar. Os seguidores, que haviam sido convencidos por ele a deixaram para trás suas possessões, aguardavam ansiosos pelo dia prometido, e quando este chegou, sob o  comando do Messias, muitos se lançaram ao mar. Alguns morreram, outros foram salvos. O “Salvador” desapareceu sem deixar rastros.

Após o afogamento em massa de centenas de judeus os Messias que se seguiram surgiram todos no Oriente e eram por vezes reformadores religiosos cujo trabalho influenciaria o Caraismo, uma das ramificações do Judaísmo que defende unicamente a autoridade das Escrituras Hebraicas como fonte de Revelação Divina, defendem a Crença Única e Absoluta em Deus e que sua Revelação Única foi dada através de Moshê (Moisés) na Torá (que não admite adições ou subtrações) e nos profetas da Tanakh. Confiam na Providência divina e esperam a vinda do Messias e a Ressureição dos Mortos. Seguem um calendário baseado no Abib e com ínicio de mês na lua nova vísivel, rejeitam o judaísmo rabínico como por exemplo o Talmud e a Mishná. Não seguem costumes judaicos rabínicos como o uso de kipá, peiot, tefilin e afins.

Ishak da Pérsia

No final do século VII, surgiu na Pérsia Ishak ben Ya’kub Obadiah Abu ‘Isa al-Isfahani de Ispahan. Ele viveu no reino do Califa Omíada Abd al-Malik ibn Marwan (684-705). Afirmou ser o último dos cinco precursores do Messias e ter sido nomeado por Deus para libertar Israel. De acordo com alguns, ele era o próprio Messias. Tendo reunido um grande número de seguidores, ele revoltou-se contra o califa, mas foi derrotado e assassinado em Rai. Os seus seguidores disseram que ele fora inspirado por Deus e mostraram como prova o fato de ter escrito livros apesar de ser analfabeto. Ele fundou a primeira seita a ter surgido do Judaísmo após a destruição do Templo.

O seu discípulo Yudghan, chamado Al-Ra’i (o pastor do rebanho do seu povo), que viveu na primeira metade do século VIII, declarou ser um profeta e foi visto pelos seus discípulos como um Messias. Ele era de Hamadã e ensinava doutrinas que afirmava ter recebido através da profecia. De acordo com Shahristani, ele opôs-se à crença do antropomorfismo, ensinou a doutrina da vontade livre, e sustentou que a Torah tinha um sentido alegórico em adição ao sentido literal. Ele preconizava que os seus seguidores levassem uma vida ascética, se abstivessem de carne e de vinho, e que rezassem e jejuassem frequentemente, seguindo nisto o seu mestre Abu ‘Isa. Ele afirmava que a observância do Shabat e de festividades era meramente uma questão de memorial. Após a sua morte, os seus seguidores formaram uma seita, os Iudghanitas, que acreditavam que o seu Messias não tinha morrido, mas sim que iria regressar.

Serene

Entre 720 e 723 um Sírio conhecido como Serene (o seu nome aparece em várias fontes como Sherini, Sheria, Serenus, Zonoria, Saüra) apareceu como o Messias, no reinado de Yazid II. Seu nome é uma forma latina (Serenus) de Shaáre Zedek; aparece também como Severus na obra Chronicon Syriacum de Gregorius bar Hebraeus.

A ocasião imediata para a sua aparição pode ter sido a restrição das liberdades dos judeus pelo Califa Omar II (717-720) e seus esforços de proselitismo. De uma perspectiva política, este Messias prometia a expulsão dos Muçulmanos e a restauração dos judeus na Terra Santa, de acordo com Isidoro Pacensis, muitos judeus na espanha abandonaram bens e propriedades para se juntarem a Serene. Como Abu ‘Isa e Yudghan, Serene foi também um reformador religioso. Ele era hostil ao Judaísmo Rabínico. Os seus seguidores não observavam as leis da alimentação, as preces instituídas por rabinos e a proibição contra o “vinho de libação”. Eles trabalhavam no segundo dia das festividades, não escreviam documentos para registrar casamentos e divórcios tal como as prescrições do Talmud, e não aceitaram as proibições do Talmud em relação ao incesto.

Serene foi preso e questionado pelo Califa Yazid II sobre suas qualidades messiânicas, não conseguindo responder às questões declarou que nunca teve nenhum plano real contra o Califa e que apenas desejava tirar um sarro dos judeus, aos quais foi entregue posteriormente para ser castigo. Os seus seguidores foram recebidos de volta a suas comunidades religiosas, graças a Natronai Gaon, após terem renunciado à heresia.

Inflamados com as chamas de Allah, após a morte de Maomé em 632 d.C., o exército árabe lançou-se com renovado fervor contra os povos que os dominavam. Após a vitória sobre os bizantinos e os persas, os muçulmanos recebem uma parte da Síria, a Palestina, o Egito e o norte da África, e então seguem para a Índia, ilhas mediterrâneas o sul da Itália e a Penísnula Ibérica. Os muçulmanos criam então um império gigante, marcado pelo desenvolvimento intelectual e artístico que entre em declínio durante o século IX. O domínio dos turcos sobre a Terra Santa já incomodava os cristãos do ocidente como uma ameaça que reprimia as peregrinações e os cristãos que viviam no oriente. Então em 1095, no concílio de Clermont, o papa Urbano II declara que um dos novos objetivos da Cristandade, como forma de penitência para ter deixado a Terra Santa cair nas mãos de muçulmanos, é tomá-la de volta. A multidão presente aceita a tarefa e inflamada pelo fogo do espírito santo monta um pequeno exército, identificado pela cruz vermelha pintada sobre suas roupas, o que lhes deu o nome de cruzados.

Um dos efeitos colaterais das cruzadas foi o aumento do números de Messias que surgiram. Maiomonides em suas cartas aos judeus Iemenitas (Iggeret Teman – אגרת תימן – ou epístola ao Iemen) cita três deles. Em 1087 surge um na França para ser assassinado pelos franceses, outro em 1117 na Província de Córdova e mais um em Fez em 1127.

Menahem

Em 1160 surge um novo movimento Messiânico na Pérsia, liderado por David Alroy.

Nascido em Amadia, no Curdistão, Alroy (também citado como Alrui) se tornou um estudioso da Bíblia e do Talmud, estudando os livros com Hisdai, o Príncipe do Exílio e Ali, o acadêmico chefe em Bagda. Ele era versado em literatura muçulmana e era conhecido por praticar magia.

Graças às cruzadas, o poder do Sultão da Ásia Menor e da Pérsia foi minado, e Alroy aproveitou as condições do Califado para assumir o nome “Menahem” e se declara o Messias enviado por Deus para libertar os judeus da opressão islâmica e levá-los de volta para Jerusalém, onde se tornaria Rei e todos viveriam em liberdade. Em todas as partes da região surgiam líderes muçulmanos criando novos estados independentes, desafiando a liderança do Califa. O surgimento de novas taxas abusivas criadas para serem pagas por todos os judeus homens com mais de 15 anos também foi um fator decisivo, usado por Alroy para fomentar a revolta. Agitando um grupo de judeus guerreiros que viviam nas montanhas de Chaftan no distrito vizinho de Adherbaijan, começou a formar seu grupo, conseguiu o apoio de seus correligionários em Mosul e Bagdá. Seu primeiro alvo foi um forte que existia em sua cidade natal.  A partir deste momento as lendas falam mais alto do que a história. Os pesquisadores da vida de Alroy dão, cada um, uma versão diferente do ocorrido, mas o resultado do ataque foi a derrota dele e de seus seguidores. O seu movimento falhou, e diz-se que teria sido assassinado, enquanto dormia, pelo seu próprio sogro. Mas a sua morte não chegou a destruir a crença em sua missão divina de redenção para o povo Judeu.

Logo após a morte de Alroy surgiram dois impostores, vindo de Bagdá, anunciando que traziam notícias do falecido Messias, que ele havia dito que em determinada noite seus seguidores deveriam se erguer nos ares e voar de Bagdá até Jerusalém e que no meio tempo deveriam entregar aos dois mensageiros suas propriedades. Esta fraude obteve um certo sucesso, mas podemos imaginar como terminou, e mesmo assim muitos seguidores continuaram surgindo em Khof, Salmas, Tauris, e Maragha, dando origem a uma seita conhecida como Menahemistas, para continuar reverenciando a memória do Messias de Amadia.

Doze anos após o surgimento e morte de David Alroy, em 1172, surge um suposto precursor do Messias apareceu no Iêmen. Nesta época os Muçulmanos estavam realizando certos esforços para converter os judeus que ali viviam. Ele declarou que as desgraças deste tempo eram um prognóstico da vinda do Reino Messiânico, e ordenava aos judeus que dividissem a sua propriedade com os pobres. Este pseudo-Messias foi tematizado pelo “Iggeret Teman” de Maimónides. Ele continuou com suas atividades por um ano, tendo depois sido preso pelas autoridades muçulmanas e decapitado após a sua própria sugestão, diz-se, de forma a poder provar a verdade da sua missão ao retornar à vida.

Abraão ben Samuel Abulafia

Com a chegada do século XIII os movimentos Messiânicos ganham uma nova ferramenta que antes não era muito utilizada, a Cabala. Em 1240 nasce na Espanha Abraão ben Samuel Abulafia, cabalista estudioso que, graças aos próprios estudos, acaba acreditando que é um profeta, e, em um livro profético publicado em Urbino em 1279, declara que Deus havia falado com ele. Foi para Messina, na ilha da Sicília, onde foi bem recebido e ganhou discípulos e em um trabalho que publicou em novembro de 1284 se declara o Messias, e anuncia 1290 como o ano do início da Era Messiânica. As pessoas, confusas apelam a Solomon ben Adret para analisar as afirmações de Abulafia, e tem como veredito a condenação do Messias, que passa a ser perseguido na Sicília por algumas congregações tendo que fugir para a ilha de Comino, próxima a Malta, em 1288, ainda convencido por seus estudos que estava em uma missão Messiânica. Dois dos seus discípulos, José Gikatilla e Samuel, ambos de Medinaceli, declararam mais tarde serem profetas e milagreiros. Samuel ficou famoso por profetizar em linguagem mística em Ayllon em Segóvia o advento do Messias.

Nissim bem Abraham

Um outro pretenso profeta foi Nissim ben Abraham, que viveu em Ávila, ele não chegou a se declarar o Messias, mas previu sua chegada. Seus seguidores diziam a seu respeito que apesar de ignorante e analfabeto, tinha sido iluminado subitamente por um anjo, e com o poder que recebeu, escreveu um livro místico “A maravilha da Sabedoria”. Novamente Solomon ben Adret é chamado para dar seu parecer sobre o novo profeta e novamente seu parecer é desfavorável e ele aconselha uma investigação cuidadosa. Nissim continuou com suas atividades e fixou até o último dia do quarto mês, Tammuz, 1295, como a data da vinda do Messias. Os crentes prepararam-se para o evento jejuando e dando para a caridade, e reuniram-se no dia designado. Mas em vez de encontrarem o Messias, encontraram pequenas cruzes presas aos seus vestimentos, talvez colocadas por descrentes para ridicularizar o movimento. Na sua decepção, alguns dos seguidores de Nissim ter-se-iam convertido ao Cristianismo. Não se sabe o que aconteceu ao profeta.

Moisés Botarel

Após o lapso de um século aparece um novo Messias. De acordo com Grätz o nome dele era Moisés Botarel de Cisneros, que teve como um de seus simpatizantes Hascai Crescas. A relação dos dois é discutida por Jerónimo da Santa Fé, o rabino Joshua Harloqui convertido por São Vicente Ferrer e que foi responsável pela Disputa de Tortosa em 1413 onde converteu muitos de seus correligionários.

Asher Lemmlein

Em 1502 surge um novo profeta predizendo a vinda do Messias, desta vez um profeta alemão. Asher Lemmlein (Lämmlein) apareceu em Ístria, perto de Veneza e anunciou a vinda do Messias para aquele mesmo ano, desde que os judeus fossem penitentes e praticassem a caridade, e então um pilar de nuvens e fumaça iria preceder os judeus no seu regresso a Jerusalém. Ele conquistou a simpatia e credibilidade de muitos seguidores, existem inclusive registro de muitos cristãos que acreditaram em suas profecias messiânicas. O cronista Ganz nos deixa o relato de seu avô destruindo um forno que era utilizado para se cozer o Matsá, pão ázimo sem levedura, o único que os judeus podem comer durante os oito dias de Pessah, por acreditar que na próxima celebração ele estaria em companhia do Messias na Palestina. Asher conseguiu reunir muitos seguidores na Itália e na Alemanha, vários deles cristãos. Por onde quer que ele passasse as pessoas jejuavam, rezavam e faziam caridade, aquele ficou conhecido como o “ano da penitência”. E então ele simplesmente desapareceu, e a agitação chegou a um fim.

David Reuveni e Salomão Molko

Em nossa lista de candidatos a Messias não podemos deixar de fora David Reuveni e Salomão Molko. O primeiro afirmou ser o embaixador e irmão do Rei de Khaibar. Khaibar era uma cidade no distrito de Hejaz, se encontrava a quatro dias de caminhada de Medina. Na época de Maomé o nome Khaibar era usado por toda a província e era habitada por inúmeras tribos judaicas, onde os descendentes das “tribos perdidas” de Rubem e Gad supostamente viviam.

Existem inúmeras tradições sobre a fundação da cidade pelos judeus, uma delas afirma que eles chegaram no local na época de Moisés (o patriarca, não o Messias grego), outra afirma que foi na époce de Saulo, que foi enviado para exterminar os Amalekitas), na época de Davi, quando ele fugiou diante de seu filho Absalon, mas a suposiçõa mais provável é a de Rapoport, que os judeus de Haibar são os descendentes de Jonadab b. Rachab, que os fez viver uma vida nômade.

David Reuvani ainda fez um apelo ao Papa e aos países europeus que lhe enviassem canhões e armas de fogo para iniciar uma guerra contra os muçulmanos, que impediam que os judeus que viviam em margens opostas do mar vermelho se reunissem. É interessante frisar que ele mesmo sempre negou veementemente ser um profeta ou um Messias, afirmava a todos que era apenas um guerreiro, mas a boa vontade com que foi acolhido pelo Papa em 1524 e a audiência que lhe foi concedida nas cortes portuguesas em 1525 (a convite do Rei D. João III), onde recebeu pela primeira vez a promessa de ajuda e a pausa temporária na perseguição aos Marranos, fez com que os Marranos Portugueses e Espanhóis acreditassem era aquele que anunciaria a vinda do Messias. Isso fez com que Selaya, o inquiridor de Badajoz, se queixasse ao Rei de Portugal que um Judeu vindo do Oriente vinha suscitando aos Marranos espanhóis a esperança de que o Messias chegaria e iria liderar os filhos de Israel de todas as suas terras de volta à Palestina, e que tinha mesmo encorajado que realizassem manifestações públicas. Um espírito de expectativa cresceu durante a estadia de Reuveni em Portugal. Uma mulher marrana da região de Herara, em Puebla de Alcocer declarou ser uma profeta, teve visões, e prometeu liderar os seus correligionários para a Terra Santa. Como era o costume na época, ela recebeu o tratamento que mulheres que diziam ter visões e causavam agitação recebiam: foi queimada viva, juntamente com quem acreditava nela.

Apesar disso o evento mais importante causado pela presença de Reuvani foi a conversão de Marano Diogo Pires (b. c. 1501; d. 1532) ao judaísmo. Marano nasceu cristão e Portugal, e recebeu o nome de batismo de Diogo Pires. Ele tinha o cargo de secretário em uma das cortes mais importantes em seu pais natal. Quando David Reuvani surgiu, vindo da África para Portugal, em sua missão política, Marano decidiu se unir a ele, e foi rejeitado. Ele então se circuncisou, o que não o fez cair nas graças de Reuvani, e emigrou para a Turquia, com um patrocínio farto. Adotou o nome de Salomão Molko. Era um visionário e acreditava em sonhos, estudou cabala com Joseph Taytazak e conheceu Joseph Caro. Ele então vagou como pregador através da Palestina onde conseguiu uma grande reputação e anunciou que o reino Messiânico chegaria em 1540. Em 1529 Molko publicou alguns de seus sermões sob o título e Derashot – ou Sefer ha-Mefo’ar. Quando rumou para a Itália encontrou a oposição de vários judeus proeminentes que temiam que ele confundisse seus correligionários, mas ele consegue o apoio do Papa Clemente VII, e de alguns cardeais anti-semitas em Roma. Muitos afirmam que ele previu para o Papa uma inundação que atingiu Roma e vários outros lugares.

Graças a seus estudos que envolviam a Cabala e outros tópicos estranhos, Molko sentiu que nada seria mais justo do que se proclamar o Messias, ou ao menos seu precursor. Acompanhado por David Reubeni, que ele conheceu na Itália, rumou para Ratisbon, em 1532 onde o imperador Charles V se encontrava realizando uma dieta. Nesta ocasião Molko carregou uma bandeira com a inscrição מכבי, uma abreviação do versículo 11 do décimo quinto capítulo do livro do Êxodo: O SENHOR, quem é como tu entre os deuses? (em hebraico a tradução desta passagem seria: Quem dentre os poderosos é como Deus?). O imperador aprisionou Molko e Reubeni, e os levou consigo de volta para a Itália. Em Mantua, uma corte eclesiástica sentenciou Molko à morte na fogueira. Quando estava amarrado no tronco o emperador ofereceu o perdão a ele, com a condição de retornar para a igreja, mas Molko recusou, pedindo pela morte de um Mártir.

Isaac Luria,  Hayyim Vital Calabrese e Abraão Shalom

Isaac Luria (Isaac ben Solomon Ashkenazi Luria), juntamente com Ḥayyim Vital Calabrese, seu maior discípulo e sucessor) foi o fundador da escola moderna da Cabala. Luria ensinava em seu sistema místico a transmigração e superfetação (Concepção de novo feto, quando já existe outro no útero) das almas, e acreditava ele próprio possuir a alma do Messias da casa de José e ter como missão apressar a vinda do Messias da linha de David através da evolução mística das almas. Tendo desenvolvido o seu sistema Cabalístico no Egito, sem no entanto conseguir ali muitos seguidores, ele foi para Safed, Israel, por volta de 1569. Foi ali que conheceu Hayyim Vital Calabrese, a quem revelou os seus segredos e através de quem assegurou muitos seguidores. A estes ensinou secretamente o seu messianismo, acreditando que a era messiânica teria início no princípio da segunda metade do segundo dia (do ano 1000) após a destruição do templo de Jerusalém, ou seja, em 1568.

Com a morte de Luria em 1572, Hayyim Vital Calabrese reivindicou ser o Messias Efraíta e pregou o breve advento da era Messiânica. Em 1574, Abraão Shalom, um pretendente a Messias Davídico, enviou um comunicado a Vital, dizendo que ele (Shalom) era o Messias da casa de Davi, enquanto que Vital era o Messias da casa de José. Ele pediu a Vital que fosse a Jerusalém e que ali ficasse pelo menos dois anos, com o que o espírito divino iria chegar-lhe. Shalom ainda disse a Vital, por fim, que não receasse a morte, o destino do Messias Efraíta, já que ele iria tentar salvá-lo dessa perdição.

Após quatro décadas encontramos um registro no “De Pseudo-Messiis”, no capítulo iv, parágrafo 15, outro Messias que teria aparecido em Coromandel em 1615.

Sabbatai Zevi e os Messias Cabalísticos

Um dos movimentos Messiânicos mais importantes surgiu na metade do século VII e em alguns lugares chegou a persistir por mais de 100 anos. Sabbatai Zevi nasceu no nono dia de Ab (dia 23 de julho de 1626), descendente de espanhóis, em Smyrna, e morreu dia trinta de setembro de 1676 em Duleigno, uma pequena cidade da Albânia.

De acordo com os costumes dos judeus orientais da época, Sabbatai deveria se tornar um estudioso do Talmude, quando jovem atendeu o yeshibah sob o tutelado do rabi veterano Joseph Escapa, mas ele nunca demonstrou muito interesse por esses estudos. Ele era fascinado pela Cabala e o sistema desenvolvido por Isaac Luria, especialmente pela Cabala prática com seu ascetismo e mortificação do corpo, práticas que, de acordo com seus praticantes, tornavam possível um contato com Deus e com os anjos, predizer o futuro e realizar todo o tipo de milagre. Ele teve uma infância solitária e de acordo com o costume da época se casou muito jovem, mas se recusou a realizar o ato sexual com sua esposa, de forma que ela pediu um divórcio e ele de boa vontade o garantiu. O mesmo aconteceu com sua segunda mulher. Quando começou a estudar mais profundamente a Cabala começou a se mortificar, a jejuar dia após dia e a viver em um constante estado de êxtase.

Paralelamente um outro fenônemo estava surgindo, desta vez graças aos cristãos. Durante a primeira metade do século XVII teve início a crença sobre a aproximação da Era Messiânica e a da redenção dos judeus e seu retorno a Jerusalém. Essa crença era difundida cada vez mais não apenas por judeus, mas por cristãos também, que acreditavam que o ano do apocalipse seria o de 1666. A crença era tão difundida e aceita que Manasseh ben Israel escreveu uma carta para Cromwell e para o Parlamento Inglês urgindo a readmissão dos judeus na Inglaterra, afirmando que “a opinião de muitos cristãos assim como a minha concordam aqui que ambos acreditamos que o tempo de restauração de nossa nação em seu pais nativo está muito próxima e à mão”. Além disso existe uma passagem muito popular entre os judeus no Zohar, que quando interpolada da maneira correta afirma que o ano da redenção de Israel pelo Messias seria o de 1648.

Esse conjunto de fatos e crenças teve um efeito muito forte na mente extasiada de Sabbatai e o levou à conclusão mais lógica que ele poderia chegar: ele era o Messias esperado por todos. E então com apenas 22 anos, em 1648, ele se revelou em Smyrna para aqueles que, impressionados com seus trabalhos com Cabala, carisma e atos fora do comum, o seguiam como o Redentor Messiânico enviado por Deus para acabar com os governos das nações e liderar Israel de volta para Jerusalém. O método que escolheu para se revelar foi pronunciar o Tetragrammaton em hebreu, um ato que só podia ser realizado pelo sumo sacerdote na Santuário no dia do Yom Kippur, o dia mais sagrado para os judeus. Apesar de sua ousadia a sua pouca idade não lhe garantiu muitos seguidores, mas dentre os primeiros que simpatizaram com sua empreitada estavam Isaac Silveyra and Moses Pinheiro. Sabbatai continuou em Smyrna por alguns anos, levando uma vida pia, mística e com certos atritos com a comunidade, mas quando suas pretensões messiânicas se tornaram muito evidentes o colégio dos Rabinos o baniu junto com seus seguidores.

O que se seguiu não é muito claro, em 1653 ou 1658 ele esteve em Constantinopla, onde conheceu Abraham ha-Yakini (um discípulo de Joseph di Trani, um homem de grande inteligência e reputação), que confirmou as declarações de Sabbatai. Neste época surgiu um documento entitulado “A Grande Sabedoria de Salomão”, que atestava o messianismo de Sabbatai, dizendo:

“Eu, Abrahão, fui confinado em uma caverna por quarenta anos, e ponderei muito sobre o tempo dos milagres, que não havia chegado ainda. Então uma voz se fez ouvir, proclamando: ‘Um filho nascerá no ano de 5386 (1626) para Mordecai Zevi; e ele será chamado de Shabbatai. Ele vencerá o grande dragão;… ele, o verdadeiro Messias, se sentará sobre o trono (de meu Deus).”

Munido deste documento, tido por muitos como uma revelação real, Shabbatai escolheu Salonica, na época um ponto de encontro de Cabalistas, como o seu campo de operações. Ali ele se proclamou novamente como o Messias, e ganhou muitos seguidores. Como consequência os Rabinos de Salonica o baniram da cidade, e ele segue seu caminho passando por Alexandria, Atenas, Constantinopla, Jerusalém, Smyrna e outros lugares, finalmente após uma longa jornada ele chega ao Cairo onde viveu por dois anos. Mas aparentemente Shabbatai não achava que o Egito era o local ideal para os acontecimentos que previa, o ano apocalíptico 1666 se aproximava e algo definitivo deveria ser feito para estabelecer que ele era o Messias sem deixar quaisquer sombras de dúvidas. Ele então deixa o Egito e ruma para Jerusalém, esperando que na cidade santa algum milagre acontecesse e confirmasse seu destino para todos. Chegando lá ele começa a meditar, jejuar, realizar atos de caridade para crianças e passa as noites cantando Salmos, isso faz com que ganhe a simpatia de muitas pessoas. Neste ponto um incidente inesperado o leva de volta ao Cairo, com a missão de arrecadar uma grande soma em dinheiro para reparar uma calamidade engendrada contra  Jerusalém por oficiais turcos. Shabbatai consegue arrecadar o dinheiro, o que lhe garantiu um prestígio ainda maior.

Carregado com o dinheiro e com uma esposa que encontrou no caminho (e um número crescente de seguidores) ele volta triunfante para a Palestina, atravessando a cidade de Gaza ele encontra Nathan Ghazzati, que se torna seu o braço direito e afirmava ser o Elijah, aquele que tomaria o lugar do Messias. Em 1665 Ghazzati proferiu que a Era Messiânica teria inicio no ano seguinte. Essa revelação surgiu com grandes detalhes, ele afirmava que o mundo seria conquistado por ele, O Elijah, sem derramamento de sangue, que então o Messias lideraria para a Terra Santa as dez tribos, “montado em um leão com sete cabeças de dragão em suas mandíbulas”. Tudo isso, é claro, foi aceito por todos. Finalmente no outono de 1665 Shabbatai ele é aclamado como Messias por todos.

No início de 1666 ele se dirige novamente para Constantinopla, esperando pelo milagre que realizasse a profecia de Ghazzati que dizia que Shabbatai colocaria a coroa do Sultão em sua própria cabeça. Tão logo colocou o pé na cidade foi preso ao comando do Grão Vizir, Ahmad Koprilli e foi jogado, acorrentado, na prisão. Seu aprisionamento, entretanto, não teve nenhum efeito negativo, nem para ele, nem para seus seguidores. Ao contrário o tratamento tolerante que recebeu apenas confirmou a fé de todos de que ele era o Messias. Após dois meses de encarceramento em Constantinopla, Shabbadai foi levado à prisão estadual no castelo de Abydos, onde recebeu um tratamento ainda mais condescendente e alguns de seus amigos ainda puderam acompanhá-lo. Em consequência disso os Shabbateanos deram à fortaleza o nome de Migdal ‘Oz (Torre da Força). No dia que foi levado para Abydos abateu um cordeiro para si e seus amigos, já que era o dia antes do Páscoa e o comeu com a gordura, o que era uma violação da Lei, e antes de comer o animal ele pronunciou: “Bendito seja Deus, que fez limpo o que era abominação”. Nesta época acontece um incidente que contribuiria com a queda de Shabbatai, que até o momento estava vivendo como um príncipe na fortaleza.

Dois estudiosos do Talmud, poloneses de Lemberg, que estiveram entre os visitantes de Shabbatai em Abydos, o informaram sobre um profeta originário de Lemberg, Nehemia ha-Kohen, que havia anunciado a vinda do Messias. Shabbatai ordenou que trouxessem o profeta à sua presença. Nehemia obedeceu, e chegou a Abydos em setembro de 1666 e a conferência entre ambos terminou com a insatisfação mútua e dizem que os Shabbateanos fizeram planos de assassinar o profeta rival.

Nehemiah, entretanto, escapou para Constantinopla, onde se converteu, tornando-se maometano e traiu Shabbatai. O Sultão Mohammed IV, foi tirado de Abydos e levado a Adrianopla, onde o médico do Sultão informou a Shabbatai que ele deveria abraçar o Islã como única maneira de se salvar. No dia 16 de Setembro de 1666 ele foi levado diante do sultão onde se desfez de suas vestes judaicas e colocou na cabeça um turbante, se convertendo. O sultão ficou muito satisfeito, e deu a Shabbatai o cargo de Effendi, e o contratou pagando um alto salário. A esposa de Shabbatai e alguns de seus seguidores também se converteram, e alguns dias após sua conversão ele escreveu para Smyrna: “Deus me tornou um ismaelita, Ele comandou e foi feito. O nono dia da minha regeneração”.

Os efeitos da conversão do Messias foram devastadores na comunidade judaica, rabinos proeminentes que era seguidores de Shabbatai se prostravam em vergonha. Entre as massas uma grande confusão reinou.

Por um tempo Shabbatai permaneceu fazendo um jogo duplo, em março afirmando ter sido tomado pelo Espirito Santo disse ter recebido uma revelação. Ele, ou um de seus seguidores, publicou um trabalho místico endereçado para os judeus afirmando entre outras coisas que ele era o Redentor, apesar de sua conversão, cujo objetivo real era converter para o judaísmo milhares de muçulmanos. Para o sultão ele dizia que suas atividades com os judeus eram para convertê-los ao islamismo. Esse jogo duplo entre judeus e muçulmanos não poderia durar muito e pouco tempo depois ele foi deprivado de seu salário e banido. Terminou seus dias em obscuridade em Dulcigno, um lugarejo na Albânia.

Após a morte de Shabbatai seguiu-se uma linha hereditária de Messias. Jacob Querido, filho de Joseph Filosof, e irmão da quarta mulher de Sabbatai, tornou-se líder dos Shabbatheanos em Salônica, sendo visto como a encarnação de Shabbethai. Ele afirmava-se filho de Sabbatai e adotou o nome Jacob Tzvi. Com 400 seguidores converteu-se ao Islã por volta de 1687, formando uma seita chamada Dönmeh. Ele próprio chegou mesmo a peregrinar a Meca (c. 1690). Após a sua morte, o seu filho Berechiah ou Berokia sucedeu-o (c. 1695-1740).

Vários seguidores de Shabbatai declararam-se eles próprios Messias. Miguel Abraham Cardoso (1630 – 1706), nascido de pais marranos, pode ter sido iniciado no movimento Shabbatheano por Moisés Pinheiro em Livorno. Ele tornou-se um profeta do Messias, e quando o último se converteu ao Islão, ele chamou-o de traidor, dizendo que é necessário que o Messias se conte entre os pecadores por forma a expiar a idolatria de Israel.

Ele aplicou a passagem de Isaías LIII a Sabbatai, e enviou epístolas que provariam que ele era o verdadeiro Messias, chegando mesmo a sofrer a perseguição por defender a sua causa. Mais tarde, considerou-se um Messias Efraíta, argumentando com alegadas marcas no seu corpo que o provariam. Pregou e escreveu sobre vinda em breve do Messias, marcando datas diferentes, até que acabou por morrer.

Outro seguidor de Shabbatai que lhe permaneceu fiel, Mordecai Mokia, ou Mordekay Mokiah (“o admoestador”) de Eisenstadt, que também afirmou ser um Messias. O seu período de atividade foi de 1678 a 1682 ou 1683.

Defendeu inicialmente que Shabbatai era o verdadeiro Messias e que a sua conversão tinha sido necessária por motivos místicos. Pregava que este não morrera mas que se iria revelar dentro de três anos após a sua suposta morte, e apontou para as perseguições de judeus em Oran (Espanha), na Áustria, e em França, e a pestilência na Alemanha como presságios da sua vinda.

Encontrou seguidores entre judeus da Hungria, Morávia e da Bohemia. Dando ainda um passo a mais, ele se declarou como o Messias Davídico. Shabbatai, de acordo com ele, passou apenas a ser o Messias Efraíta. Como tinha sido rico, significava que não poderia executar a redenção de Israel. Ele, Mordecai, sendo pobre, era o Messias verdadeiro e ao mesmo tempo a encarnação da alma do Messias Efraíta.

Judeus italianos, ouvindo falar dele, convidaram-no a ir até Itália. Viajou para lá por volta de 1680, tendo sido bem recebido em Reggio e Modena. Falou das preparações messiânicas que teria que fazer em Roma e deu a entender que talvez adotasse o Cristianismo exteriormente. Denunciado à Inquisição ou aconselhado a deixar a Itália, ele regressou à Bohemia, onde se diz que se tornou demente. A partir deste tempo, uma seita começou a tomar forma ali, e persistiu até à era Mendelsoniana.

Judas Leib (Leibele) (Löbele) Prossnitz foi um cabalista nascido no fim do século XVII em Brodi, na Galícia. Ele deixou sua cidade natal e seguiu para Prossnitz, na Morávia, onde se casou. Ele era extremamente pobre, vivendo em uma cabana abandonada, tida como mal assombrada por muitos e em uma noite ele afirmou que iria evocar Shekiná e fazê-la aparecer diante de uma multidão.

Shekiná, שכינה em hebraico, é no judaísmo a faceta da revelação divina aos homens, a “Divina Presença”, sendo também considerada a face “feminina” e “materna” dela. O vocábulo “shechiná” não aparece na Bíblia Judaica nem no Novo Testamento, de acordo com a concepção cabalística e do ramo hassidísmo do judaísmo, a Shechiná é uma energia cósmica poderosíssima em si mesma, que habita no “interior” do Universo e vivifíca-o, sendo a sua “alma” ou “espírito”. Apesar de não constar nas escrituras a Shekiná é uma idéia concreta na literatura rabínica. E para se entender a grandiosidade da promessa de Judas, esta faceta da divindade é o meio comunicativo entre o homem e Deus.

Para realizar o feito, Judas colocou uma cortina, atravessando seu quarto de ponta a ponta, atrás dela ele acendeu uma mistura de de álcool e querosene. Então, vestindo um manto branco ele ficou atrás da cortina e a luz atrás dele fazia a imagem das letras do tetragrammaton, que ele havia dependurado no peito, brilharem. Os espectadores se agitaram, estando na presença de um milagre, até que um dos presentes arrancou a cortina do lugar e revelou a fraude. Judas foi excomungado pelos rabinos da Morávia.

Apesar de tudo, Judas encontrou muitos seguidores dentre os Shabbateanos, ele se autoproclamou o Messias ben Joseph (Messias filho de José) e assinava seu nome como Joseph ben Jacob (José, filho de Jacó) e pregava que desde o surgimento de Shabbatai Zevi, Deus havia dado a ele a missão de guiar o mundo, quando ascendeu aos céus a missão foi passada a Jonathan Eybeschütz e finalmente caia nas mãos de Judas. Perambulou de cidade a cidade na Austria e Alemanha, onde arrecadava dinheiro de muitas pessoas. Em 1725 sua excomunhão foi renovada e ele se mudou para a Hungria. A história registra que ele morreu lá entre os não judeus.

Outro, Isaías Hasid (um cunhado do Shabbatheano Judah Hasid), que vivia em Mannheim, afirmou secretamente ser o Messias ressuscitado apesar de ter publicamente abjurado de quaisquer crenças Shabbatheanas.

Jacob Frank, fundador dos Franquistas, também afirmou ser o Messias. Na sua juventude tinha tido contato com o Dönmeh. Ele ensinava que era uma reencarnação de Shabbatai e do Rei Davi. Tendo conseguido alguns seguidores entre os judeus da Turquia e de Valáquia (na atual Romênia), ele veio em 1755 até a Podolia, onde os Shabbatheanos necessitavam de um líder, e revelou-se como a reencarnação da alma de Berechiah.

Enfatizou a ideia do “rei sagrado” que seria ao mesmo tempo Messias, tendo-se denominado apropriadamente de “santo señor”. Os seus seguidores afirmam que realizou milagres, tendo chegado mesmo a rezar para ele.

O seu objetivo (e o da sua seita) era o de acabar com uma vez por todas com o judaísmo rabínico. Foi forçado a deixar Podolia; e seus seguidores foram perseguidos.

Regressando em 1759, aconselhou os seus seguidores a converterem-se ao cristianismo. Cerca de 1000 deles converteram-se, tornando-se polacos gentios com origens judaicas. Ele próprio converteu-se em Varsóvia em Novembro de 1759.

Mais tarde a sua falta de sinceridade foi exposta e foi emprisionado por heresia, permanecendo no entanto, mesmo encarcerado, o líder de sua seita.

Moises Hayyim Luzzatto, o poeta, também acreditou ser o Messias. Ele havia sido iniciado na Cabala e, desiludido com a sua ocupação com o Zohar e influenciado pela atmosfera Cabalista em que vivia, ele acreditava que um espírito divino lhe havia dado uma iluminação nos mistérios e terminou acreditando que estaria destinado a redimir Israel graças ao “Segundo Zohar” que ele mesmo escreveu. Sua Cabala foi mantida, num primeiro momento, em um círculo fechado de discípulos, mas quando o segredo foi revelado Luzzato fez um juramento de que ele não escreveria, publicaria ou ensinaria mais suas doutrinas a não ser que fosse para a Palestina. Ele retornou com suas atividades Cabalistas e foi excomungado várias vezes. Mais ou menos em 1744 ele foi para a Palestina, onde poderia seguir com seus estudos sem ser incomodado, ou para realizar seu destino de Messias. Ele morreu lá.

Shukr Kuhayl

Shukr ben Salim Kuhayl I também conhecido como Mari (Mestre) foi um Messias do Iemem. Ele se revelou primeiro em San’a em 1861, como um mensageiro do Messias, em uma época que havia uma grande expectativa por parte do povo do surgimento do Prometido. Se divorciando de sua esposa ele deu início a uma vida de pregador intinerante para ter uma vida de pobreza e exortar a todos que se arrependessem. ENo Sabbath de maio de 1861 ele declarou que “Eu venho para avisar a todos e lembrá-los do arrependimento e da redenção”.

Ele aparentemente era um indivíduo pio, asceta e humilde, que se trajava com retalhos e vivia em solidão no Monte Tiyal, mas em algum momento ele começou a dar a entender que não era mais o mensageiro do Messias e sim o próprio. Ele escrevia fórmulas messiânicas em suas mãos e corrigia os textos sagrados, inserindo a si mesmo nas narrativas bíblicas. Um viajante judeu chamado Jacob Saphir registrou que quase todos os judeus do Iemem naquela época acreditavam nas proclamações messiânicas de Shur Kuhayl I.

Kuhayl morreu pouco depois disso, morto por árabes em 1865, supostamente a mando do imã que controlava a capital de San’a e que enxergava uma ameaça em Kuhayl, mas mesmo assim muitos de seus seguidores não aceitaram o seu fim e esperavam que ele retornasse em breve. E essa espera foi recompensada em pouco tempo com o surgimento de Judah ben Shalom, que afirmou a todos ser o mesmo Shur Kuhayl que havia sido morto e estava retornando.

Judah ben Shalom era um artesão de San’a e como seus antecessores era um cabalista. Em março de 1868 ele anunciou que era de fato Shukr Kuhayl I, que havia sido morto e decapitado por árabes três anos antes e ressuscitado por Elias.

O novo Shur Kuhayl continuou pregando as mensagens de arrependimento com que todos já estavam acostumados. Para os Judeus ele proclamava ser o Messias enviado para libertá-los, para os árabes ele anunciava ser um muçulmano enviado para anunciar a chegada do Mahdi. Realizar milagres não fazia parte de seu repertório, e ele chegou a notar isso em algumas de suas correspondências, mas acreditava que a principal causa para isso era que Deus ainda não havia liberado a permissão para a realização de milagres porque aguardava o momento em que todos os judeus se unissem e o aceitassem como seu Messias.

Diferente de sua primeira encarnação, Judah ben Shalom não era um pregador intinerante, ele chegou a desenvolver uma estrutura muito bem organizada que incluia centenas de funcionários, de seu quartel general ele mantinha vasta correspondência com líderes judeus em várias comunidades, principalmente com o propósito de angariar fundos.

Apesar de sua aceitação, Shukr Kuhayl II encontrou resistência de certas pessoas, especialmente aquelas que conhecial o primeiro Shukr e afirmavam que o seu novo estilo de vida cheio de luxos era incompatível com sua vida prévia.

Eventualmente foi Jacob Saphir, que refutou as alegações messiânicas de Judah e contou com apoio de vários rabinos de jerusalem para acabarem com o status de Kuhayl II perante os líderes das comunidades judias que o mantinham financeiramente. Quano o dinheiro parou de chegar ele foi obrigado a fazer empréstimos com os árabes e, por não conseguir pagar esses empréstimos, terminou na cadeia. Liberado depois de um tempo nunca mais foi capaz de reunir seguidores e morreu em estado de pobreza em 1878.

Uma das principais consequências desses movimentos messiânicos causados por Shabbatai e seus seguidores foi o da marginalização da Cabala. Aparente qualquer um que desejasse provar que era um profeta ou mesmo o Messias, com algum conhecimento desta ferramenta, poderia chegar a “provas” de que era legítimo. Depois desta época os estudos da Cabala foram ridicularizados pela maioria das pessoas e ela até hoje é tida como superstição dentre a maioria das comunidades judaicas.

Menachem Mendel Schneerson

Dentro do movimento Chabad Lubavitch do Judaísmo chassídico houve um crescente fervor messiânico nos finais da década de 1980 e princípios da década de 1990, devido à crença que o seu líder, Menachem Mendel Schneerson estaria prestes a revelar-se como o Messias.

Menachem Mendel Schneersohn, nascido em 1902, ficou conhecido por seus seguidores como O Rebe , foi um rabino ortodoxo, o sétimo e último Rebe do movimento Chabad Lubavitch. Em 1950, com a morte de seu sogro, o Rabbi Yosef Yitzchok Schneersohn,  ele recebe a visita de uma delegação de chassidim idosos com uma petição aceitando-o como seu Rebe, ele então colocou a cabeça entre as mãos e começou a chorar. “Por favor, me deixem” – suplicou ele. “Isso nada tem a ver comigo.” Após um ano de episódios como esse, finalmente aceitou o cargo. Assim mesmo, havia uma condição. “Eu ajudarei” – anunciou o Rebe – “mas cada um de vocês terá de cumprir sua própria missão. Não esperem ficar pendurados nas franjas de meu talit.” Desta forma ele assume a liderança do movimento Lubavitchiano até sua morte em 1994.

Em 1991 ele declarou a seus seguidores que: “Eu fiz tudo o que podia (para trazer o Messias), e agora estou passando para vocês (esta missão, façam tudo o que puderem para trazer o Messias.” Tem início então a uma campanha para que a era Messiânica tivesse início através de “atos de bondade e gentileza”.

Pouco antes de sua morte um número considerável de Chabad Hasidim acreditavam que ele logo se manifestaria como o Messias. Segundo seus seguidores, Rav. Menachem Mendel Schneersohn era dotado de grande sensibilidade, o que fazia com que fosse consultado por milhares de pessoas todos os anos, em busca de conselhos para suas vidas pessoais. Muitos destes conselhos e suas consequências acabaram por serem vistos como “milagres” por aqueles que os buscavam.

Surge então um movimento que acreditava ter a missão de convencer o mundo de que o Rebe era de fato o Messias e que assim que todos aceitassem isso ele seria levado à revelação de seu papel. Aqueles que aderiam a esse movimento eram chamados de Meshichistas, e era comum cantarem: “Yechi Adoneinu Moreinu v’Rabbeinu Melech haMoshiach l’olom vo’ed!” (“Vida longa a nosso mestre, professor e Rabi, o Rei Ungido, para sempre e sempre) quando estavam na sua presença.

A morte de Schneerson em 1994 abateu um pouco este sentimento, apesar de muitos seguidores de Schneerson ainda acreditarem que ele é o Messias e que irá regressar em devido tempo.

 

Notas:

[1] Êxodo capítulo 14

Versículo 4 – E eu endurecerei o coração de Faraó, para que os persiga, e serei glorificado em Faraó e em todo o seu exército, e saberão os egípcios que eu sou o SENHOR. E eles fizeram assim.

Versículo 8 – Porque o SENHOR endureceu o coração de Faraó, rei do Egito, para que perseguisse aos filhos de Israel; porém os filhos de Israel saíram com alta mão.

Versículo 17 – E eis que endurecerei o coração dos egípcios, e estes entrarão atrás deles; e eu serei glorificado em Faraó e em todo o seu exército, nos seus carros e nos seus cavaleiros,

Versículo 18 – E os egípcios saberão que eu sou o SENHOR, quando for glorificado em Faraó, nos seus carros e nos seus cavaleiros.

Versículo 26 – E disse o SENHOR a Moisés: Estende a tua mão sobre o mar, para que as águas tornem sobre os egípcios, sobre os seus carros e sobre os seus cavaleiros.

Versículo 28 – Porque as águas, tornando, cobriram os carros e os cavaleiros de todo o exército de Faraó, que os haviam seguido no mar; nenhum deles ficou.

Versículo 29 -Mas os filhos de Israel foram pelo meio do mar seco; e as águas foram-lhes como muro à sua mão direita e à sua esquerda.

Versículo 30 -Assim o SENHOR salvou Israel naquele dia da mão dos egípcios; e Israel viu os egípcios mortos na praia do mar.

Versículo 31 -E viu Israel a grande mão que o SENHOR mostrara aos egípcios; e temeu o povo ao SENHOR, e creu no SENHOR e em Moisés, seu servo.

E nós podemos ouvir as vozes perguntando: Por que, Senhor? Eles já estavam livres? Afogar aquela gente toda a troco de que?

[2] Aleister Crowley LIBER LVIII, GEMATRIA UM ARTIGO SOBRE QABALAH – THE EQUINOX I(5)

por Rev. Obito

Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/movimentos-messianicos-os-messias-judeus/

As Aventuras Reais de um Espião Psíquico

“O Universo não é apenas mais estranho do que imaginamos, ele é mais estranho do que nós podemos imaginar.”

Um ex-militar da Inteligência, o visualizador remoto David Morehouse compartilha suas visões de dentro da realidade multi-dimensional e revela detalhes perturbadores da queda do vôo 800 da TWA.


Por Dentro dos Programas de “Guerra Mental” Militar dos EUA

Em uma localidade altamente secreta em uma base do exército do EUA, homens e mulheres trabalhando para a CIA preparam-se para “cair” dentro da quarta dimensão. Estão em uma sala de paredes cinzas, com carpete, móveis, tudo. Uma música barroca toca enquanto eles se reclinam, relaxando e se preparando para entrar em um estado alterado de consciência. O que eles estão para fazer é acessar o contínuo espaço-tempo, em uma técnica conhecida como “visão remota”. Quando o cérebro registra o estado de onda tetha no equipamento de monitoração, eles estão prontos para “saltar para dentro do éter”, nas palavras de David Morehouse, autor de Psychic Warrior: Inside the CIA’s Stargate Program (Guerreiro Psíquico: Por Dentro do Programa Portão Estelar da CIA) [veja uma resenha em NEXUS 4/02].

Ficção científica? Não exatamente. Esta é uma tecnologia avançada, desenvolvida inicialmente por cientistas e físicos altamente considerados com especialização em laser, tais como o dr. Targ e o dr. Puthoff, e o Instituto de Pesquisas de Stanford (Stanford Research Institute), nos anos 70.

Mais recentemente, o programa foi desenvolvido pela Agência Central de Inteligência do EUA (CIA) e a Agência de Inteligência de Defesa do Pentágono (DIA). Este programa altamente secreto de guerra psíquica foi denominado Projeto Scangate, depois Operação Sun Streak, depois Operação Stargate. Os controladores de Morehouse eufemisticamente o descreviam como um “método de coleta de inteligência”.

Sobrepondo-se à burocracia interna e à supervisão do Congresso, eles eram chamados “Programas Especiais de Acesso” ou “SAPs” (Special Access Programs) – uma abordagem celular e uma organização e compartimentação de todas as atividades que poderiam atrair uma atenção não desejada para o Pentágono, bem como prover uma negação “plausível e racional”.

MAPEANDO O CONTÍNUO ESPAÇO-TEMPO

A habilidade para acessar os mundos “celestes” e outras dimensões foram um presente para a vida de David Morehouse. Igualmente, tem sido sua ruína e maldição. Por que? Porque ele também tem a habilidade de acessar o que poderia ser acuradamente chamado de “inferno”: um mundo infernal contendo os mais sórdidos episódios da história da humanidade.

Por exemplo, como um exercício de treinamento, Morehouse foi enviado de volta para os campos de morte de Dachau, na Alemanha nazista dos anos 40. Imagine-se como era aquilo. Morehouse tem que viver com os mais vívidos pormenores e com as impressões sentidas em suas experiências, por meses depois disso.

Então, como a visão remota funciona? Como você penetra dentro da mente inconsciente, no contínuo espaço-tempo? De acordo com David Morehouse, a visão remota é uma descrição de ” … viajar da dimensão física até o alvo, onde quer que ele esteja, no tempo ou no espaço. Se você está retornando no tempo, se você está viajando através do éter, você está realmente confinado à mente inconsciente, então você está indo para trás ou para a frente. Sempre me refiro a isto como o contínuo espaço-tempo, que é essencialmente parte de, ou o mesmo que o éter”.

¾ Então o éter é o meio através do qual você viaja?

“Não. Esta é uma designação incorreta”, continua Morehouse. “Você não está realmente viajando. É como se o espaço se dobrasse. Você está viajando, mas não está se movendo. Isto faz algum sentido”?

¾ Bem, não realmente. Alguma coisa está indo para algum lugar, você pensaria.

Morehouse tenta explicar outra vez. “Se você tem acesso à mente inconsciente, alcança facilmente o contínuo espaço-tempo. Ele liga toda a humanidade, ou o universo inteiro, ou talvez outros universos e outras dimensões. Ao mesmo tempo, isto tem um aspecto individual, no que é a vontade e o desejo de uma conexão com a mente consciente.

Um dos maiores problemas em comunicar esta experiência parece ser a relativa inadequação da linguagem. Em outra palavras, como você expressa conceitos, experiências e fenômeno em 4D (em quatro dimensões), em uma linguagem 3D? Obviamente, uma nova nomenclatura é necessária, para representar uma realidade que está além do âmbito da realidade consensual das três dimensões comuns.

¾ Daí, então, qual é a diferença entre um estado “alterado” e o assim chamado estado “normal?.

“Nós estamos conversando no estado beta”, diz Morehouse. “Quando você vai dormir à noite, você cai no estado alfa. Em seguida, cai em um estado de ondas tetha. Nesse estado, parece que os canais se abrem É o chamado “estado de incubação de pensamento”, um momento quando aquele “limiar” que separa a mente consciente da mente inconsciente torna-se mais delgado. O “limiar” é somente uma palavra para descrever um plano, ou um separador ou divisão entre estados, mas ninguém sabe o que a mente inconsciente é.

“O estado alterado é um estado estendido de ondas tetha, significando o estágio onde o limiar torna-se transparente”, continua Morehouse. “Outro modo de descrever isto é que portas ou canais começam a se abrir. A dificuldade não é abrir os canais. Isto, em retrospecto, torna-se relativamente fácil. A dificuldade está em ensinar a mente consciente a interpretar, sem análise ou dados. A mente inconsciente, assumindo o papel do eu individual que é a sua personalidade, leva para dentro dados da mente inconsciente coletiva, e começa a lançá-los para dentro, porque quer estabelecer uma conexão com a mente consciente para toda a espécie de dados relevantes para o contínuo espaço-tempo”.

¾ Isto soa caótico e aleatório.

“É caótico e aleatório porque a mente inconsciente deseja estabelecer esta conexão com a mente consciente”, diz Morehouse. “É a mente consciente que focaliza para baixo, para o físico. Eu descobri que o contínuo espaço-tempo tem uma existência em quatro dimensões, enquanto que a mente consciente está em uma existência tridimensional.

“O mundo em quatro dimensões é algo que não posso sequer começar a descrever. É uma omnisciência, uma onipotência, uma onipresença, uma existência que tudo vê e tudo sabe. Se você existe em um mundo de quatro dimensões, então você verdadeiramente torna-se como Deus”.

¾ Conversar sobre estas experiências é como tentar agarrar o que não pode ser agarrado.

“Nós estamos todos – você, eu, minha esposa, meus filhos, todos nós – conectados no inconsciente, em um nível que não podemos ver”, diz Morehouse, falando cada vez mais como um místico. “Quando estava crescendo, lembro as vezes que ia à igreja, e os ouvia dizendo a respeito de Deus, como estando em todos os lugares e em todos os tempos, morando em seu coração e observando cada um; omnisciente, onipotente, onipresente. Como isto acontecia? – eu sempre me perguntava. É impossível. Isto não acontece na dimensão física. Acontece no mundo em quatro dimensões”.

VISÃO REMOTA: UM GUIA DE COMO FAZER

¾ Então, como os visualizadores remotos acessam a quarta dimensão?

“A metodologia – à qual nos referimos como ‘o processo de acalmar-se’ – é qualquer maneira pela qual você possa entrar no estado de ondas tetha”, diz Morehouse. “Nós ensinávamos a ir para um lugar que chamamos ‘santuário’. Era um lugar onde você iria para encontrar os seus propósitos, para aclimatar-se. Cada visualizador individual cria o seu próprio santuário. Para alguns deles, era como uma espécie de jardim, ou uma casa ou um lugar seguro.

“Para mim, era uma caixa transparente no espaço”, continua Morehouse. “Na total escuridão do espaço, com estrelas por todo lado. Quando eu estava lá, nada podia ferir-me”.

¾ O que você visualizava naquela caixa?

“Minha mente consciente; o que eu projetava para fora. Visualizava isto como uma aparição do eu, um fantasma de mim mesmo. Parecia como uma forma humana, somente com uma luz radiante, um eu transparente. Então começaria o que chamo de ‘descer para dentro da área alvo’, e que tornou-se uma nomenclatura que era largamente usada por todo lado”.

¾ E isto é o que era chamado “caindo dentro do éter”, ou “saltando dentro do éter”?

“Eu saía do santuário, e saltava para dentro de um vórtice”, diz Morehouse. “Um túnel de luz começava vagarosamente a se materializar, enquanto eu me preparava no centro do piso do santuário. E quando estava pronto, saltava para dentro do vórtice, e caía. Eu acelerava mais e mais e mais e mais rápido, até atingir uma espécie de membrana. E então eu a atravessava, para dentro da área alvo. Tinha vertigens freqüentemente. Eu lançava primeiro a cabeça, com os braços de fora, e acelerava até que “bum!”, tinha atravessado”.

¾ E o que acontecia na sala cinza, neste momento?

“Eles estavam monitorando os sinais biológicos. Eles gravavam as sessões. Tinham microfones e câmaras. Gravavam tudo em vídeo-tape. Eles queriam saber tudo o que estava acontecendo”.

¾ E você podia manter uma conversação?

“Você podia falar com eles, e eles podiam falar com você”, diz Morehouse. “Uma visão remota coordenada era um regime muito bem disciplinado e estruturado. Você pode estar em um estado de ondas tetha, mas estaria bem consciente. Você poderia desenhar, ou escrever as suas percepções. Você poderia responder ao monitorador.

“Em uma visão remota prolongada, você iria iniciar da mesma maneira. Sua tarefa poderia ser: ‘acesse o alvo e descreva o que acontece lá’. Mas você tem as coordenadas encriptadas. Muitos visualizadores remotos declaram gastar de uma hora a uma hora e meia. Sessões prolongadas gastam duas ou três horas”.

¾ Então, o que realmente acontecia quando Morehouse ‘caía’ dentro do éter; quando ele não estava ‘no controle’, parando ao lado de uma rodovia enquanto dirige, por exemplo?

“Minha análise é que uma vez que você abra o canal, é como tentar fechar as comportas de uma represa. Ela sempre transborda. Existe sempre algo que nunca fecha completamente. Eu acho que há um número de canais que nunca fecham. Quando está normalmente sob controle, você tem a habilidade de reconhecer o que está acontecendo, e você pode verificá-la imediatamente; então você está bem. Mel Riley [outro visualizador remoto e um antigo colega de Morehouse] foi entrevistado na televisão, e disse: ‘Eu sempre tenho canais abertos. Sempre’.

“Uma maneira de descrever isto é que um visualizador remoto tem sempre um pé na matriz consciente da mente, e outro pé na matriz inconsciente, e que, onde e como ele percebe o mundo à sua volta depende de em qual pé ele esteja. E você pode saltar de um pé para outro e voltar, quase sempre sem saber. Mel era hábil em manter o seu equilíbrio porque ele cresceu com isto. Sua primeira experiência ocorreu quando ele tinha 11 anos, então ele cresceu com isto. Assim também Ingo Swann. Eu não tive esta habilidade desde o início. Eu não a queria. Um ferimento por bala fez isto acontecer”.

¾ E o que pode fazer com que o canais fiquem fechados?

“Há um remédio fisiológico para isto”, diz Morehouse. “É chamado Haldol ou Loxitanea. Nós temos montes de camisas-de-força mentais. Então você caminha sobre uma nuvem, e não sabe o seu próprio nome, mas não tem uma doença psicológica dissociativa. E você não pula para dentro do éter contra a sua vontade.

“Eu penso que há um monte de pessoas que são diagnosticadas esquizofrênicas, e que essencialmente possuem canais abertos para dentro do inconsciente. As informações flutuam aleatoriamente até eles, sem que eles saibam de onde elas vêm. E eles ouvem vozes. Estão penetrando em outra dimensão. Só Deus sabe”.

¾ Mas então, como as drogas alucinógenas se relacionam com este fenômeno? Afinal de contas, tomar drogas tem sido descrito como “tomar os céus à força”.

“A indução química de um estado alterado é, em minha opinião, simplesmente a abertura química dos canais”, diz Morehouse. “O problema é que você nunca aprende a fazer isto sem ajuda. Jamais aprende coisa alguma disso porque nunca tem qualquer controle enquanto está acontecendo. Você não possui a habilidade para conduzir isto. Está apenas em um passeio agradável. No entanto, eu acho que a mecânica é a mesma, e que você parte para um passeio mágico e misterioso”.

O MODELO HOLOGRÁFICO DA REALIDADE

Novos modelos de realidade tem sido apresentados afim de correlacionar a evidência recolhida por visualizadores remotos e aquela de outros extraordinários fenômenos.

Por exemplo, de acordo com o teórico da ciência alternativa Bruce Cathie, “… uma analogia grosseira da existência física pode ser feita fazendo referência à fita de um filme. Cada quadro ou figura estática do filme pode ser comparada a um pulso simples de existência física. A divisão entre um quadro e o próximo representa um quadro de anti-matéria. Quando enxergado como uma fita completa, cada quadro poderia ser visto como a dita pintura estática, o primeiro e o último da fita – então, o passado e o futuro poderiam ser visto simultaneamente.

“Contudo, quando o filme é passado no projetor, nós temos a ilusão de movimento e da passagem do tempo. As divisões entre os quadros estáticos não são detectadas por nossos sentidos devido à freqüência ou velocidade da projeção na tela. Mas, acelerando ou retardando o projetor, podemos alterar a razão de tempo aparente da ação mostrada pelo filme…”.

Nos anos 70, uma radicalmente nova teoria da consciência foi proposta pelo neurofisiólogo de Stanford, Karl Pribram, e por um físico da Universidade de Londres, David Bohm, um ex-protegido de Einstein e um mundialmente conhecido físico qüântico. Falando brevemente, eles chegaram à conclusão que o universo em si pode ser estruturado como um holograma – uma espécie de imagem ou construto criado pelo menos em parte pela mente humana.

Como descrito no livro de Michael Talbot, O Universo Holográfico (The Holographic Universe), eles consideram outra forma de olhar para o mundo: “Nossas mentes matemáticas constróem a realidade objetiva interpretando freqüências que são as projeções últimas de uma outra dimensão, uma ordem mais profunda de existência que está além do tempo e do espaço. O cérebro é um holograma envolvido por um universo holográfico”.

O livro de Talbot é uma valiosa introdução ao paradigma. Este modelo também mostra o entrelaçamento entre os assim chamados mundos físico e metafísico, e como vários fenômenos não-físicos e estados de consciência, estados de consciência mística, experiências fora-do-corpo e experiências de quase-morte podem existir e interagir um com o outro.

Mesmo profetizar ou prever o futuro pode ser descrito através deste modelo, confrontando as experiências de visão remota pré-cognitiva de Puthoff e Targ; em outras palavras, “uma visão do futuro como um holograma que é bastante substancial para que possamos percebê-lo, mas maleável o bastante para ser susceptível de mudança. Ingo Swann fala do futuro como “a cristalização das possibilidades”.

Referindo-se à descrição de Morehouse de acessar a quarta dimensão através da visão remota, o falecido Itzhak Bentov, autor de Stalking the Wild Pendulum, diz que o relacionamento entre os estados de consciência normal versus expandida como um constante processo de “liga-desliga” gasto pelo tempo em nossa realidade “sólida”, em oposição às outras realidades, é como fazer uma sintonia fina na freqüência da consciência.

OUTROS MODELOS DE PERCEPÇÃO EXTRASENSORIAL

A descrição de Morehouse da visão remota também se correlaciona com os termos sânscritos siddhis, ou poderes, os quais incluem clariaudiência, clarividência, ou a precipitação da matéria do éter. Os cristãos os chamam “dons espirituais do Espírito Santo” – dons espirituais dados pela graça de Deus.

“Sim, eu não discordo”, ele diz. “É um dom, mas por isso mesmo penso que deve haver uma razão pela qual nós não nascemos com ele.

“Alguns cristãos discordam de minha posição de defender o ensino das técnicas de visão remota. “A posição deles é de que estou ensinando as artes negras, e que não deveríamos fazer este tipo de coisa”, diz Morehouse. “Eu não discordo que isto tenha um lado negro, mas no próximo milênio eventualmente iremos estar em algumas dificuldades terríveis. Iremos ser confrontados com escolhas muito difíceis. Se você sabe que as pessoas de sua relação são boas pessoas, não gostaria que elas se aliassem aos guerreiros que servem a Deus, como você? Você não gostaria que elas tivessem tais poderes?”.

¾ Então, outros assim chamados poderes extra-sensoriais, tais como clarividência ou telepatia, vêm juntas com esta habilidade de visão remota?

Morehouse replica que “… o que acontece é que todas elas são palavras que descrevem a percepção dos indivíduos, que tiveram os seus canais abertos. A coisa mais difícil para a mente consciente é desenvolver esta habilidade. É uma coisa aprendida ou praticada, interpretar os dados apresentados a ela pela mente inconsciente. Como a mente inconsciente viaja para a frente e para trás no contínuo espaço-tempo, ela lança de volta dados brutos, sem análise. Ela quer desenvolver um diálogo, mas o desenvolvimento do diálogo tem de vir da mente consciente. Temos que interpretar conscientemente, não analisar, o que nos está sendo dado pela mente inconsciente. É aprender como viver com aquela silenciosa, pequenina voz dentro de si, e como interpretá-la corretamente”.

¾ E o que é isto, “silenciosa, pequenina voz”? É a voz de Deus? Ou a voz do Espírito Santo?

“Você tem de aprender como interpretá-la, como falar esta linguagem”, diz Morehouse. “Sua mente consciente pode, com verdadeiro êxito, excluir o Espírito Santo”.

Isto poderia ser o que os cristãos chama de “mente carnal”, a mente racional e lógica, contraposta à sensibilidade intuitiva. ¾ E qual é a diferença entre as experiências fora-do-corpo e as técnicas de visão remota?

“Nós tentamos fazer uma experiência fora-do-corpo”, diz Morehouse. “Havia realmente uma experimentação sendo feita, para desenvolver protocolos, para desenvolver a visão remota do OOBE (out-of-the-body). Visão remota é apenas abrir canais, e fora-do-corpo é uma real separação entre o corpo espiritual e o corpo físico. E isto não acontece na visão remota.

“Quando você arranca o corpo espiritual do corpo físico, o que isto quer dizer? É perigoso. Isto significa que você deixa o corpo físico aberto, permitindo que o que quer que seja venha habitá-lo, que queira saltar para dentro dele, porque o corpo espiritual se foi. Não estamos falando acerca de níveis de consciência. Estamos falando sobre separação espiritual. O corpo espiritual fica vagueando, e não há nenhum controle. É como um balão flutuando em uma brisa quente. Ele vai para onde a brisa levá-lo, e somente Deus sabe o que faz esta brisa”.

¾ Que tal a idéia que este corpo espiritual é responsabilidade de cada indivíduo, que o carma pode ser criado, e que coisas destrutivas podem ser realizadas, porque o corpo não está no controle?

“De todo coração eu concordo com isso”, diz Morehouse. “De fato, sei que é verdade. O corpo físico nunca é deixado na visão remota. Há sempre contato, mas o corpo físico começa a manifestar os sinais fisiológicos do que a consciência projetada está experimentando na área alvo”.

¾ Então, qual é o termo para esta projeção da consciência para dentro da área alvo, se não é um corpo?

Morehouse diz, “é chamado bilocação. É uma dobradura do espaço, uma dobradura do tempo e espaço. É como trazer o evento até você sem ir até ele, se você penetra dentro dele. Está onipresente, enquanto atravessa para lá e para cá no contínuo espaço-tempo. O que significa isto? Significa que você está em todo lugar, ao mesmo tempo. Então, a única explicação de você poder estar em todo lugar ao mesmo tempo, é porque tudo está onde você está. Então, a dobradura espacial é a melhor analogia. Posso imaginar isso – como um acordeon que se dobra em si mesmo, onde você não se move. Eu era levado a acreditar que isto era como as páginas de um livro, de uma enciclopédia. Há planos que são separados, ainda que eles estejam conectados pela lombada do livro. A lombada do livro corresponde ao inconsciente”.

PARTES DA REALIDADE (TEMPO)

Em seu livro Psychic Warrior (Guerreiro Psíquico), Morehouse escreveu que “o passado estava trancado, e o futuro era um esguicho ilimitado e tremulante de fogo, constantemente mudando”.

¾ Então pode o tempo passado ser mudado para afetar o tempo futuro?

“Se você volta para observá-lo, é como fazer parar aquele evento como se fosse um slide, e andar dentro dele, revivendo-o. Você fica em uma forma de aparição, mas não está ali realmente, de todo. O que você está experimentando é a temperatura, o som, as visões, os cheiros. Mas você leva isto um passo além na mente inconsciente, em tudo que é intangível, o impacto estético, o impacto emocional. Você sente a dor das pessoas. Sente todas as coisas. Por que? Porque você está observando isto de uma perspectiva de quatro-dimensões, e traduzindo tão rápido quanto a mente pode operar, de volta à consciência física, pondo isto em termos físicos. Então, você está experimentando-o, e isto pode cobrar direitos de você.

“Por exemplo, vá até 1945 e salte para dentro de Hiroshima, sobre o solo. Você pode parar aquele evento e saltar para dentro dele, e todo o tormento das almas sendo arrancadas de seus corpos, todo o horror relevante para aquele evento está vivo. Você pode saltar de volta lá, e experimentá-lo”.

¾ Então este é um registro que permanece para todo o sempre?

“O passado permanece, mas está trancado na parte do contínuo espaço-tempo”, explica Morehouse. “Você pode saltar dentro dele e experimentá-lo, mas não poderia ir lá e chutar alguém na canela, ou fazer que Adolf Hitler tropece para fora da plataforma e quebre o pescoço. Você não pode afetar nada. Você não pode fazer coisa alguma, exceto estar lá, observar e recolher informação”.

ACESSANDO O BANCO DE MEMÓRIA CÓSMICA

Aqui é onde a física e a metafísica se chocam. A descrição de Morehouse da visão remota soa muito similar a acessar o que tem sido chamado de “registros akáshicos”. Akasha é um palavra sânscrita que significa “substância primordial”.

De acordo com os autores de Supermemory, Ostrander e Schroeder, “… este banco cósmico da totalidade dos acontecimentos universais foi definido com sendo um registro em um “éter sutil”, uma espécie de meio invisível que permeia tudo, e através da qual o ‘kasha’, ou luz visível, passa através do espaço como uma manifestação da vibração”.

Em outras palavras, como uma filmadora cósmica 4D, o registro holográfico de cada instante no contínuo espaço-tempo é capturado e mantido lá para sempre.

Um livro intitulado The Human Aura (A Aura Humana) traz uma muito competente descrição deste fenômeno, e que claramente combina com as descrições de Morehouse:

“É da máxima importância que o estudante compreenda que há um processo pelo qual cada observação de seus cinco sentidos é transmitida automaticamente para os níveis subconscientes dentro de si, onde, de modo misterioso, eventos que ele testemunhou ou matérias que estudou são registradas; portanto, a transmissão inteira de dados do mundo externo para o interno jaz nos registros akáshicos de seu próprio corpo.

“O processo de lembrar, de um ponto-de-vista técnico, é quase instantâneo. Fora do depósito da memória, o homem pode evocar bastante facilmente os tesouros do ser. Desafortunadamente, nem todos os eventos são benignos; nem todas as recordações são exemplos de perfeição”.

Os registros akáshicos, então, descrevem “… tudo que acontece na matéria é registrado no akasha – energia etérica vibratória a uma certa freqüência, a fim de assimilar, ou registrar, todas as impressões da vida”.

Aqui está uma outra definição dos registros akáshicos: “os registros de tudo que acontece no mundo do indivíduo são escritos por anjos, que os escrevem sobre uma substância conhecida como akasha”.

“Akasha é uma substância primária; a mais sutil, além dos sentidos, etérea substância que preenche a totalidade do espaço; energia vibrante a uma certa freqüência a fim de assimilar, ou registrar, todas as impressões da vida. Estes registros podem ser lidos por aqueles cujas faculdades da alma foram desenvolvidas”.

Diz-se que Edgar Cayce, “o Profeta Adormecido”, podia entrar em contato com estes registros, quando ele dormia, para buscar informações surpreendentemente precisas sobre o passado, incluindo detalhes históricos relacionados com pessoas e eventos durante a época de Jesus, por exemplo.

Em seu trabalho, Cayce não só receitava prescrições específicas para doenças, como também as razões para elas. Os autores Ostrander e Schroeder escrevem que o mais espantoso dom de Cayce “… ofuscava o fato impressionante de que ele podia tão facilmente mergulhar em um banco de informação invisível, e trazer de volta dados demonstráveis”.

É plausível supor que detalhes históricos podem ser acessados, em uma tentativa de descobrir o que realmente aconteceu – especialmente em eventos de conspiração criminal, negligência e o subsequente acobertamento.

Como, por exemplo, o que realmente aconteceu ao vôo 800 da TWA…

O VÔO 800 DA TWA: UMA PRÁTICA DE TIRO QUE DEU ERRADO

“Foi como colocar um 747 dentro de um forno de microondas”.

É assim que David Morehouse explica o que aconteceu vôo 800 da TWA, depois que ele entregou um relato de visão remota para a CBS News – uma reportagem que jamais foi ao ar.

“Nós originalmente começamos a pedido de um produtor da CBS, que pediu para trabalharmos junto com eles para investigar a queda do vôo 800”, explica Morehouse.

“Nós usamos uma equipe de seis visualizadores remotos. Depois de voltar no tempo e observar o evento, cinco deles não disseram que um míssil foi lançado contra o avião, mas sim que era um raio de energia ou um raio de luz, e que o avião explodiu. Havia um raio de luz que não podia ser visto pelo olho humano. Eram microondas de alta potência.

“Nós fizemos um relatório de 32 páginas sobre isso para a CBS; uma investigação completa. Utilizamos um oficial de ligação, que era um policial aposentado. Eu estava lidando com Ph.D.s que possuíam patentes de cabos de fibra óptica.

“Isto vai direto de volta para aquela coisa do CBW (chemical and biological warfare – guerra química e biológica) da Guerra do Golfo [o acobertamento da guerra químico-biológica pelo Pentágono]. A primeira coisa que veio da Marinha foi, ‘Não temos nenhum exercício em andamento, qualquer que seja’. Eu vi a mensagem do Ministério da Marinha para a FAA [Federal Aviation Administration – Administração Federal de Aviação], que dizia que entre dois momentos específicos – que incluíam a hora da partida do vôo 800 – nenhum exercício foi realizado.

“A microondas que pensamos foi construída pelos Laboratórios Phillips. É do tamanho aproximado de um caminhão basculante Ryder, um basculante móvel daquele tamanho, o qual produz 1,4 gigawatts, um bilhão de watts de potência em um raio concentrado de elétrons, que era orientado por um campo eletromagnético auto-gerado. O foco do raio pode variado à vontade. Eles podem estreitá-lo ou aumentá-lo. Eles podem mudá-lo para ter a largura de uma bola de futebol, ou expandi-lo até ter a largura de um campo de futebol. É claro que, quanto mais você dispersar os elétrons, menos eficaz é o raio, mas mesmo assim ele continua bastante ofensivo”.

Morehouse, claro, tinha que lidar com as negativas usuais. “Os executivos da CBS disseram, ‘Não temos nada que tenha este alcance’. É como o engenheiro que instalou antenas de microondas em toda Nova Iorque e New Jersey, que nos disse que, quando os rapazes que trabalhavam no edifício Empire State subiam em uma plataforma para mudar as luzes de Natal, eles levavam lâmpadas de flash em seus bolsos. A razão para isto estava na energia de todas aquelas antenas de microondas montadas no prédio. Quando eles se aproximavam muito delas, isto fazia estourar os bulbos de flash. É isso, toda aquela energia radiante ambiente que é emitida por aquelas antenas. Se você espetar um frango congelado na ponta de uma vareta de fibra de vidro e colocá-lo em frente de uma antena de microondas, mais rápido do que você poderia piscar o seu olho, ele ficará torrado.

“Devido a todas as antenas de microondas, o prédio próximo ao World Trade Center tinha os 20 andares mais altos recoberto com um filme especial revestindo as janelas, para refletir a energia de microondas. Todos os empregados no edifício estavam se queixando de ouvir sons agudos e de dores de cabeça.

“Nós fomos do começo ao fim desta análise. Nós olhamos o tráfego de mensagens. Existem sete áreas militares operacionais ou áreas de aviso fora da costa de Long Island. Daquelas áreas operacionais militares, três, de quatro delas, estavam ativas. Elas estavam ligadas juntas a uma área operacional que tinha o nome de código ‘Tango Billy’, no Ministério da Marinha. Esta era uma mensagem aberta, sem censura – a Marinha só informou à FAA que aquelas áreas de aviso estavam fora da costa. Quando aquelas áreas de aviso estão ativas, a Marinha avisa a FAA. A FAA estabelece o que é chamado de ‘Corredor de Vôo Betty’.

“Entrevistei pelo menos uma meia dúzia de pilotos da TWA, que disseram, ‘Sim, está certo; tenho voado muitas vezes através de Betty’. Eles vão para um VOR [VHF Omni-directional Radio range – faixa de Rádio VHF Omni-Direcional] em New Jersey. Eles fazem uma curva difícil para a esquerda e voam tomando uma radial sainte, e pegam uma radial entrante VOR na ilha de Nantucket. Eles atingem o VOR em Nantucket e viram à direita e para a frente, para o espaço europeu. Mas eles voam através de um túnel invisível no ar, chamado ‘corredor de vôo’. Supõe-se que seja um corredor seguro, e eles amontoam as aeronaves neste corredor – aviões indo do norte para o sul, e aviões indo do sul para o norte.

“Então o vôo 800 estava no Corredor de Vôo Betty. Estava atrasado. A FAA não notificou a Marinha que ‘Nós temos uma aeronave atrasada para aterrissar’, ou qualquer coisa assim. Havia também o navio USS Normandie, a 35 milhas náuticas além desta área chamada Tango Billy, 10 ou 15 milhas fora da costa de Long Island.

“Existe também o Laboratório Nacional de Brookhaven (Brookhaven National Labs), que foi criado no início do século 20 por Nikola Tesla. É uma versão em miniatura de Los Alamos. Há pessoas lá com autorizações (clearances) Gamma. Há uma usina nuclear, e partículas colidem lá. O governador de Nova Iorque está tentando fechá-la, devido ao vazamento da radiação para a água, que está envenenando o povo. Presume-se que a costa leste possui os mais altos índices de câncer.

“E há também uma área super-secreta de teste de armas naval, ao lado dos Brookhaven National Labs. Eles possuem um muro em comum. Há um campo naval que parece fechado, um aeródromo sem aviões, porque todos eles estão fechados nos hangares. À noite, eles são rolados para fora e são testados, o que quer que eles sejam.

“De lá, eles ficam tentando atirar sobre a água, dentro da área de Tango Billy. Com uma arma de microondas de alta potência, tentam explodir um míssil teleguiado Tomahawk de teste, que é disparado do convés do USS Normandie. Quando o míssil foi disparado, o que todo mundo viu foi um teleguiado ascendendo, nivelando e voando rumo a Tango Billy.

“Mas o que aconteceu foi que o míssil ascendeu, e colocou o vôo 800 da TWA entre ele e a arma. O vôo 800 da TWA ficou na linha de tiro.

“Quando você está testando armas, há um dispositivo que mira o alvo automaticamente, ou, o que é pior, manualmente.

“Então, ele procura por um blip na tela do radar, sabendo que só terá um ‘lançamento’ a partir do USS Normandie. Ele vê aquele blip, o qual agora é realmente dois blips – o míssil Tomahawk e o vôo 800. Ele pressiona um botão, o qual dispara uma arma de microondas de alta potência.

“Nós apresentamos todos os fatos e evidências. Tínhamos imagens de satélite adquiridos dos franceses. Tínhamos dados de autópsia dos franceses, testemunhos dos médicos legistas da municipalidade de Suffolk, onde os rapazes tinham inadvertidamente revelado o fato de que eles tinham visto uma comissária de bordo que tinha uma peça de metal fundida no dorso. Isto não resulta de uma explosão; resulta de uma arma de microondas de alta energia, a qual superaquece o metal e o derrete para dentro do tecido humano. Ele o funde. Havia cavidades cranianas abertas; havia cérebros removidos; havia cavidades oculares ocas. Ele faz tudo isso, porque um raio de microondas em humanos atinge primeiro toda a rede neural ocular. Ele frita o cérebro e frita os olhos. Ele afeta o fluído espinhal, o sangue e a medula. Ele ferve o sangue. Ele realmente transforma o sangue em gel. Isto soa muito repulsivo, mas acontece tão rápido que o cérebro não tem tempo de registrar a dor. Você morre instantaneamente”.

“Ele atingiu todo mundo no avião? Não. O que aconteceu, nós achamos, foi que ele atingiu o centro de massa, que estaria sob a asa esquerda, diretamente para dentro do tanque de combustível na barriga do avião, bem próximo à cozinha. Torrou todo o circuito elétrico da aeronave, porque as armas de microondas de alta potência provocam um pulso eletromagnético, o que significa que ele queima todos os circuitos transistorizados. Tudo que estava funcionando na cabina do 747 era alimentado pelos circuitos elétricos, então todos os mostradores digitais na cabina pararam ao mesmo tempo. E é por isto que as caixas pretas que foram recuperadas não tinham nada que se pudesse ler. Todas as gravações foram apagadas, como se tivessem sido zeradas. É por isso que eles não conseguiram nada das caixa pretas. Lá havia apenas ruído branco (chiado).

“Quando um avião cai por perda de velocidade, como o que caiu no pântano da Flórida, nós podíamos ouvir o que o piloto disse exatamente no ponto acima do solo sobre o qual ele caiu”.

“Por que isto deveria ser acobertado? Se um míssil tivesse derrubado um avião, seguramente o Departamento de Defesa teria dito, ‘Oh Deus, lamentamos muito; fizemos um teste de míssil’ e teriam indenizado os membros da família. Eles teriam se desculpado.

“Mas o que aconteceu foi que, Les Aspin, como parte da atual administração Clinton, disse para o povo americano: ‘Nós estamos agora no fim da era da Guerra nas Estrelas’. Esta é uma citação direta dele. O que ele estava dizendo é que vocês não necessitam mais desta defesa – e com isto encerrou o longo debate de dez anos sobre se seria esperto, seguro ou exeqüível para nós colocar plataforma espaciais com armas, laser de microondas ou outra coisa, em órbita em volta de nosso planeta.

“Mas ele estava mentindo para nós, porque gastamos US$358 bilhões trabalhando em armamentos dessa natureza: tecnologia de Guerra nas Estrelas.

“O que aconteceria dali a quatro meses da queda do vôo 800? As eleições de novembro, com o presidente disputando seu segundo mandato. Seria como levar uma facada nas costas, se as pessoas erradas o pegassem. Eles teriam dito: ‘Você nos disse em 93, quando tomou posse; você mentiu, ao dizer que não estava mais fazendo isto. Mas agora está fazendo; sempre fez isto’.

“Então, depois das eleições de novembro de 96, nas páginas de Jornal Internacional das Forças Armadas (Armed Forces Journal International), nós orgulhosamente exibimos um 747-400 equipado com o novo sistema laser aéreo, o qual é um laser químico a iodo/oxigênio. Toda a primeira classe possui um sistema de rastreamento e mira. E agora vamos construir sete deles, então poderemos voar a 55.000 pés, ter um alcance de 480 milhas náuticas, e poderemos abrir um buraco no que quer que seja – a cabeça de alguém, um tanque de guerra, um aeroplano. Alega-se que seria para proteger-nos de mísseis balísticos intercontinentais dirigidos contra nós, na fase inicial ou final de lançamentos.

“Viu alguns deles voando por aí, ultimamente?”.

psychic-spies.jpgNão apenas um whistleblower (agente que denuncia as tramas da agência para a qual trabalha) comum, David Morehouse, autor de of Psychic Warrior: Inside the CIA’s Stargate Program (Guerreiro Psíquico: Por Dentro do Programa Portão Estelar da CIA), é um profissional realizado, com uma folha de distintos serviços prestados. Um altamente condecorado e respeitado oficial de terceira geração do Exército, Morehouse possui um grau de M.A. em arte e ciência militar, como também um Ph.D. da Universidade LaSalle.

Comissionado como um segundo-tenente da infantaria, ele veio da escola para oficiais do Panamá, onde ele era um líder de pelotão e atingiu a patente de major. Após passar algum tempo nos Rangers, ele os deixou em 1987 para uma série de altamente classificados programas especiais de acesso (special access programs, SAPs) no Comando de Apoio da Inteligência do Exército dos EUA (US Army Intelligence Support Command, INSCOM).

Quando estava na Jordânia, em uma operação de treinamento de rotina, Morehouse foi acidentalmente atingido na cabeça, ou mais especificamente, no capacete. Suas habilidades extra-sensoriais foram abertas, e isto pareceu precipitar episódios recorrentes que poderiam ser chamados “psíquicos”. Ele então tornou-se o principal candidato a ser introduzido à super-secreta Operação Stargate (Portão Estelar), um programa conjunto DIA/CIA no Forte Meade, o qual utilizava a “visão remota” como uma operação de “inteligência”.

Durante a sua carreira militar, Morehouse ganhou numerosas medalhas e comendas por serviços meritórios, como também asas de pára-quedista (condecorações) de seis países estrangeiros. Depois que ele deixou o programa de visão remota em 1991, ele foi designado como oficial executivo de batalhão do Segundo Batalhão do 5065º. Regimento de Infantaria Pára-quedista da 82ª. Divisão Aerotransportada.

Logo depois, Morehouse decidiu expor a operação Stargate e sua tecnologia, com a esperança de que o seu potencial benéfico e uso pacífico pudessem ser levados ao público. Contudo, ele logo percebeu que sair de uma operação secreta não era tão fácil quanto entrar. De fato, sair vivo dela tornou-se seu último exercício de sobrevivência.

O que aconteceu? A fim de desacreditá-lo, e ao seu escrito, o Exército tentou levá-lo à Corte Marcial com manobras fraudulentas. Em dezembro de 1994, Morehouse renunciou a seu comissionamento.

A VIDA DE UM WHISTLEBLOWER

Então, o que acontece aos whistleblowers, no governo dos EUA?

No caso de David Morehouse, falsas acusações foram lançadas contra ele. Os pneus de seu carro foram “furados” para estourar, cortado para causar um acidente na rodovia. Ele e a sua família foram hostilizados por telefonemas anônimos, suas conversações telefônicas foram gravadas. Sua casa teve vazamento de gás e quase explodiu; sua filha quase morreu com a fumaça. A história da vida de Morehouse tomou um rumo estranho, que ele descreve em suas próprias palavras:

“Quando eu estava no hospital, recebi uma chamada telefônica de uma médica agradecendo-me por ter entrado em sua vida. Ela disse que por minha causa, ela fora forçada a deixar o serviço no governo, mas que estava feliz por tê-lo feito. Era uma médica com 18 anos de serviço.

“Eles lhe ordenaram que me diagnosticasse como paranóico esquizofrênico com delírio de perseguição. Ela recusou-se a fazê-lo. ‘Então diagnostique-o como um malingerer (alguém que finge estar doente para não cumprir o seu dever)’, eles disseram. Ela recusou. Ela era uma psiquiatra tenaz, chefe do hospital.

“Ela estava lá no dia em que eles me ataram com correias em uma maca e me colocaram em um avião, que levou-me seis horas distante de minha família, direto ao Forte Bragg, onde fui colocado em uma instituição para viciados em álcool. Então tive que freqüentar turmas de viciados em álcool, embora eu não fosse um deles, e tive que tomar um copo de medicamentos duas vezes por dia, para manter-me quieto e mudo.

“Eles finalmente me tiraram de meu grupo de apoio. Tinham me levado para longe de minha família, porque agora, ao invés de minha esposa dirigir apenas 15 minutos para vir ao hospital, eu estava em Forte Bragg, na Carolina do Norte. Eles me vestiram, drogaram-me e levaram-me para uma audiência na Corte, acusado de infringir o artigo 805, e onde mal consegui ficar de pé. Eu nem podia ouvir nada. Era como ficar de pé em um tanque de água vazio, e ficar ouvindo as pessoas conversando. E eles fizeram-me sofrer tudo aquilo. O golpe de misericórdia final veio quando eles me exoneraram, e me pediram para escrever o Manual de Compreensão Familiar”.

Então, uma campanha orquestrada para desacreditar Morehouse foi iniciada, com cartas anônimas sendo enviadas ao público leitor e à companhia produtora que comprou os direitos de seu livro, Psychic Warrior.

CIA – AÇÕES HOSTIS E DESINFORMAÇÃO

Depois de sua decisão de vir a público, David Morehouse foi submetido a muita hostilidade e a uma campanha de difamação pela CIA. Ele diz que um dos principais responsáveis por esta campanha era um homem de nome John Alexander, objeto de uma entusiasmada reportagem na revista Wired, em 1995.

“Dependendo de com quem você converse, John Alexander tornou-se, muito cedo em sua carreira, um oficial das Forças Especiais no Vietnã”, diz Morehouse. “Ele comandou um batalhão de montanheses vietnamitas (Montagnard battalion), o que significa essencialmente que ele era o seu conselheiro. Algum outro poderia dizer que ele era um membro do Projeto Fênix no Vietnã [o notório programa de assassínio da CIA].

“Quando veio embora, ele trabalhou com a comunidade de inteligência, a qual nunca deixou. Assim, este é um cara que parece ter saído das páginas de ficção científica, o qual veio para a inteligência, e nunca a deixou. Você tem um cara que tem estado ligado à Companhia [a CIA] por um tempo enorme.

“Eu o encontrei através de Ed Dames, que era seu amigo. John Alexander costumava encontrar-se com Ed Dames em Santa Fé, Novo México. Ed Dames estava convencido que havia alienígenas em subterrâneos no Novo México. E então começou um desperdício de dinheiro público – compra de passagens de avião para Albuquerque, sempre que ele quisesse.

“Ed Dames fazia parte da Torn Image, e iria voar para lá. Ele se encontraria com John Alexander, o qual iria passar-lhe uma fotografia, e tentaria fazer uma experiência de visão remota.

“Com a exceção de Jim Schnabel e Ed Dames, John Alexander não tinha amigos na comunidade de visualizadores remotos. Muitos achavam que ele era um crápula, exceto por gente como Russell Targ e Hal Puthoff, que ainda recebiam cheques de pagamento do governo. Ambos eram físicos de laser, que primeiro aceitaram dinheiro da Agência Central de Inteligência (CIA) para os projetos de visão remota.

“Três caras invocaram a Lei de Liberdade de Informação (Freedom of Information Act) antes de meu livro sair: John Alexander, o ex-coronel que ainda trabalhava para a CIA, Jim Schnabel, e Joe McMoneagle. Exceto por Joe, eles passaram a me perseguir. Colocaram meu nome e meu número da Seguridade Social na Internet. Chamaram-me publicamente de criminoso, levando alegações não-fundamentadas do governo e postando-as na Internet”.

– Eles já tinham feito isto com outra pessoa antes?

“Nunca”, diz Morehouse.

INTELIGÊNCIA MILITAR: UM OXÍMORO

“Há resmas e resmas de documentos que mostram que este fenômeno [a VR] existe”, diz Morehouse. “Muitos deles são classificados (secretos). Ed May afirma que tem todos eles. Ele é o físico que chefiava os Laboratórios de Pesquisa de Ciências Cognitivas (Cognitive Sciences Research Laboratories). Esta é uma instituição de pesquisas de visão remota e outros fenômenos paranormais, os quais estudam a mente. Ele afirma que não está na folha de pagamento do governo, mas ainda carrega uma autorização de alta segurança”.

Continuando a hostilidade orquestrada pela CIA, Ed May brandiu documentos contra Morehouse, antes do início de um talkshow no qual ambos apareceriam. Ele ameaçou Morehouse de ter seu caso de corte marcial reaberto, dizendo que o levariam a uma Corte Federal e o processariam por violação da segurança.

Morehouse poderia também ter dito que, “Há pessoas lá que podem fazer isto com você”.

“Este é o caso com todos aqueles caras: Jim Schnabel, John Alexander e Ed May”, diz Morehouse. “Ed May trabalha para a CIA. Ele disse no show de Gordon Elliott que era o responsável pelo programa militar de treinamento de visão remota. Eu nunca vi este cara ou ouvi o seu nome enquanto estive trabalhando lá”.

UMA BATALHA DE NERVOS

– Então, por que eles tornaram isto tão pessoal?

“Você tem uma terceira geração de oficiais do Exército com credibilidade, de cujos oficiais superiores se dizia estarem ‘destinados a usar estrelas’ (serem promovidos a generais), alguém que veio de um batalhão de Rangers e chegou até a comunidade de inteligência”, diz Morehouse, referindo claramente a si mesmo.

– Para arruinar a sua credibilidade?

“Sim, inventando histórias contra mim e minha esposa, por exemplo”, continua Morehouse. “Não há nenhum autor por aí que gaste dias, literalmente dias, postando mensagens para user groups. Schnabel fez centenas de postagens. Então John Alexander entrou na briga, e começou a fazer a mesma coisa. Eles começaram a escrever cartas anônimas para a Interscope, que comprou os direitos de filmagem do livro, e para a Saint Martin’s Press, a editora.

“E há também Paul Smith. Ele realmente falou isto a um repórter: ‘O que eu disse ao Dave foi que, se ele parasse de falar sobre a unidade, nós conseguiríamos para ele uma dispensa médica’. Paul Smith era um visualizadores remotos da unidade que ainda trabalham para a DIA”.

– Então, porque eles levaram isto tão longe, para Morehouse desistir?

“Eu penso que estava enfrentando os desafios e vencendo-os”, ele diz. “Nós olhamos tudo que o governo tinha. Eu não sabia que receberíamos traiçoeiramente outras acusações. Foi quando recebi uma chamada telefônica à noite, de um coronel-brigadeiro amigo meu, que disse, ‘Você ainda tem amigos. Estamos mantendo a porta aberta, mas não podemos mantê-la aberta para sempre. Isto é maior do que nós. É melhor você desistir disso’.

“Este foi o primeiro indício que eu tive sobre o esquema deles. Nenhum dos investigadores estava a meu favor. Toda a Divisão de Investigações Criminais veio atrás de mim. Eles investigaram cada fragmento do meu passado. Entrevistaram cada pessoa que eles achavam ter me conhecido. Por que? Porque eu estava me preparando para contar uma história sobre uma organização governamental super-secreta”.

TENDO UMA VISÃO REMOTA DO ARCO DA ALIANÇA

Psychic Warrior detalha muitos dos encontros de Morehouse com eventos lendários e históricos. Por exemplo, quando ele descreve a visão remota do Arco da Aliança, ele chama a relíquia em si mesma de “abertura dimensional”.

“Quando voltei, expliquei o que havia visto para o diretor do programa”, diz Morehouse. “Ele me falou sobre o cenário teológico por trás do Arco da Aliança. O meu amigo Mel me disse que ele era uma parte do Templo, e havia sido trazido através do deserto que havia sido atravessado pelos Israelitas. Eles colocaram o Arco da Aliança no santuário interior do Santo dos Santos. Aqueles que entravam no interior do santuário, os altos sacerdotes, realmente eram amarrados pelos tornozelos, de modo que pudessem ser puxados de volta.

“A conclusão da comunidade de visualizadores remotos foi que ele era, de fato, um condutor ou propagador (convector) de alguma espécie. Era alguma coisa que canalizava energia para formar uma espécie de portal ou abertura para um mundo de quatro dimensões, que é onde o Criador mora. O alto sacerdote era levado através do portal para dentro do mundo da quarta dimensão”.

MAIOR DO QUE A VIDA EM SI

– E que tal passear livremente na quarta dimensão?

“Esta era uma pesquisa aberta, onde lhe era dito para ir onde o sinal o levasse. Seria análogo a permanecer de pé em uma plataforma na Penn Station em Manhattan, e saltar em qualquer trem que venha estrondeando, e ir para onde ele for. Você não sabe para onde está indo, ou onde vai parar. Algumas vezes é muito apavorante; algumas é instrutivo; algumas vezes é só divertido”.

– Morehouse viu algumas coisa de significativo?

“Só a percepção de que não estamos sós”, ele diz. “Eu nunca vi Deus, Cristo ou Buda. Mas posso dizer-lhe que há outros mundos, outras civilizações e planetas. Estão lá, em outras dimensões. E não apenas em nossa dimensão física, em nosso universo físico. Há outros portais que levam a outros universos, e há universos sobre universos. E é ilimitado, infinito. É de dar vertigens!”.

– Há um engano comum, de que a visão remota tem vínculos com a projeção ou viagem astral.

“Estivemos tentando desenvolver a visão remota fora-do-corpo (OBE-RV, out-of-body remote viewing)”, diz Morehouse. “O que encontramos foi que perdemos a habilidade de fazer a separação ocorrer à vontade, e controlar o corpo separado.

“A visão remota não é baseada na obra de Robert Monroe. Ela se baseou em um protocolo muito disciplinado desenvolvido no SRI, em parte sob a direção de Ingo Swann, Pat Price e Uri Geller. Uri Geller esteve fortemente envolvido no desenvolvimento destes protocolos no SRI. Ele nunca adquiriu realmente crédito por isto. Ele era provavelmente o melhor que eles tinham lá, em minha opinião”.

– Se este dom vem de Deus, então quem está tentando controlá-lo e usá-lo para propósitos negativos, ou seja, o seu abuso pelas agências militares e de inteligência?

“Eu remoía esta questão todo dia”, diz Morehouse. “Eu não sei se o complexo industrial-militar está fazendo isto sem um propósito definido – se eles tropeçando como um cão sem rumo numa loja chinesa – ou se eles o faziam por um motivo oculto, que os fazia desejar esta habilidade para manipular a humanidade.

“A única evidência que tenho é que sei que há algum enigma lá fora. Sei que há alguma coisa maior do que a vida em si, que a domina e controla. Assim, se eu encontrar as respostas, irei falar sobre elas, porque esta é a minha vocação…”.

ENCONTROS COM SERES DE LUZ

– Morehouse encontrou o que se poderia chamar de “seres de luz”?

“Eu tive minhas experiências com o que chamo meu ‘anjo’. Também tive experiências com seres de outros mundos, que tinham consciência de Cristo. Eu nunca vi Jesus Cristo ou Buda. Eles eram muito benevolentes, amorosos, iluminados, indivíduos radiantes. Enquanto permanece em sua presença, você não sente nada além de bondade e cordialidade. Eles reconhecem ou admitem sua presença, mas eles nunca interagem com você. Eles nunca guiam ou dirigem você.

“O monitor diria: “Aproxime-se deles; tente conversar com eles; faça-lhes perguntas; pergunte-lhes quem são’. Eles só sorriam polidamente e iam embora. Eles nos admitiam como intrusos, ainda que inofensivos.

“Este anjo zelava por meu pai, e foi meu pai quem disse para a minha esposa, ‘Dei a David o meu anjo’. Meu pai nunca havia falado comigo sobre isto antes”.

DEMÔNIOS DA QUARTA DIMENSÃO

– Houve ocasiões em que Morehouse sentiu-se ameaçado, ou pensou que ia morrer?

“Sinto que houve várias ocasiões nas quais encontrei o que chamo de seres inferiores, ou demônios”, respondeu Morehouse. “Eles são pessoas que se parecem conosco. São muito amigáveis, e sorriem sempre. Eles querem entrar em uma conversa com você, mas no instante em que você percebe o que eles são, eles o atacam. Em um incidente descrito em meu livro, fui segurado de cabeça para baixo pelos meus tornozelos, e eu pensei que eles iriam me matar. Eles me agarraram e puxaram de volta no círculo. Eu estava gritando a plenos pulmões.

“A próxima coisa de que me lembro, foi que o monitor que me observava estava me chamando de volta, trazendo-me de volta para o físico, mas eu temia pela minha vida. Acho que houve um perigo real neste ataque no nível da quarta dimensão. Eles sabem o que apavora você, e eles amplificam os seus medos. Acho que há elementos do lado escuro que existem com o propósito expresso de tentar habitar o físico. Eles querem se apossar do corpo físico, tomando conta de você por algum tempo”.

O MEIO NÃO É A MENSAGEM

– E que tal a canalização? Ela significa que entidades podem se apossar dos corpos físicos?

“Qualquer canalizador – por exemplo, J. Z. Knight, lhe dirá que Ramtha se apossa de seu corpo físico”, diz Morehouse. “Por outro lado, se você é um médium, tem a habilidade de ouvir além do limiar e traduzir a mensagem.

“Com relação à canalização e às cartas tarot, a atitude na CIA parecia ser, ‘Observe o que eles estão fazendo!’. Quem sou eu para dizer que isto não tem mérito?”.

De fato, Morehouse diz que “o cientista-chefe da CIA, o dr. Jack Verona, um físico, costumava vir duas vezes por mês para fazer leituras pessoais”. Pense só: ele podia ter economizado todo aquele dinheiro de impostos se ele tivesse chamado a Linha Direta Psíquica! (Psychic Hotline).

VISÃO REMOTA DOS CRIMES DA GUERRA DO GOLFO

Um dos mais dramáticos e chocantes episódios de Psychic Warrior é uma ‘missão’ de visão remota que Morehouse fez perto do fim da Guerra do Golfo Pérsico. Na época, três visualizadores remotos independente, incluindo Morehouse, foram ‘enviados’ ao Golfo.

Morehouse recebeu uma ordem para mover-se para uma elevação de cerca de 1700 metros de altura, 32 km ao norte de onde ele tinha ‘aterissado’. Cerca de uma hora mais tarde, em meio à intensa fumaça e fogo próximo aos poços de petróleo, Morehouse localizou “um pequeno objeto prateado na areia”, e observou, “… acho que vejo alguma coisa pouco comum – um pequeno filtro de máscara de gás; parece-se com aço inoxidável”.

Morehouse escreve: “De repente, tudo ficou claro para mim. A DIA queria ter certeza de que um agente químico ou biológico tinha sido lançado nas tropas do EUA, mas eles não queriam que alguém mais soubesse… Uma vez que o uso destas armas não-convencionais fosse confirmado, a DIA podia começar o seu acobertamento, de modo que o povo americano nunca descobrisse isto”.

O historiador Antony Sutton, autor de America’s Secret Establishment (O Estabelecimento Secreto da América) e The Best Enemy Money Can Buy (O Melhor Inimigo Que o Dinheiro Pode Comprar), escreveu em sua revista mensal, Phoenix Letter: “… alguém precisa ler estas páginas [do livro de Morehouse] cuidadosamente. Parece que a DIA sabia onde os filtros seriam colocados. Isto confirma o relato de que a CBW [chemical/biological warfare – guerra químico-biológica] era uma operação conjunta EUA-Iraque dirigida contra as tropas dos EUA”.

Sutton também ressalta que: “… não somente o Iraque fez uso de guerra químico-biológica contra as tropas dos EUA e aliadas, mas o equipamento foi fornecido com o conhecimento, assistência e financiamento do Ocidente.

“O que o Pentágono estava encobrindo era que os agentes da CBW foram legalmente exportados para o Iraque pela administração Bush. A licença foi concedida pelo Departamento de Comércio para o Antrax e um agente desconhecido chamado Micoplasma. O Micoplasma foi fabricado na Flórida e Texas, e testado nos prisioneiros condenados à morte no Texas. Isto foi relatado para a imprensa pelo senador Donald Riegle, de Michigan, e ignorado pela CNN e outras redes (9 de fevereiro de 1994)”.

Morehouse concorda. “Descobri muito cedo o quanto você não pode confiar em que as redes de mídia nos Estados Unidos digam a verdade. Eles são parte do problema, porque pertencem aos contratantes da defesa por uma razão – é que os US$900 bilhões da indústria global de defesa está controlando aqueles que podem fazer-lhes maior dano. Eles sabem que a mídia pode afundá-los, então o que eles fazem? Eles se apropriam dela”.

Sutton continua sua análise para concluir: “… o escândalo e o acobertamento é devido ao fato de que o fornecimento de armas CBW para o Iraque implicava a administração Bush, tanto quanto Prescott Bush, pai de George Bush, estava implicado, através do Union Bank, na ascensão de Hitler nos anos 30”.

Tal pai, tal filho. Ambos traidores.

O ACOBERTAMENTO GOVERNAMENTAL DOS CRIMES DA GUERRA DO GOLFO

Antony Sutton pergunta: “Por que o acobertamento? Morehouse acredita que o governo dos EUA não quer se responsabilizar pelas milhares de baixas militares. Nós sugerimos uma outra razão. Temos um relato de que os EUA permitiram intencionalmente a exportação destes agentes para o Iraque, e que mesmo alguns membros no governo tinham investimentos na firma que os fabricava para o Iraque.

“Lembrem que nenhum inimigo verossímil é deixado de lado pelo complexo industrial-militar, do qual o general Eisenhower nos preveniu que usariam como uma desculpa para fazer grandes gastos com a defesa. Então o quadro inteiro começa a aparecer… Então você vê porque Psychic Warrior é uma peça chave no quebra-cabeças da Tempestade no Deserto. Uma guerra artificial contra um inimigo artificial. Por que? Porque você não pode ter um orçamento de defesa, a menos que tenha um inimigo verossímil. Se não existe nenhum inimigo, você faz um”.

Rodney Stich confirma estas alegações em sua monumental enciclopédia dos crimes e acobertamentos do governo dos EUA, intitulado Defrauding America (Fraudando a América). Ele escreve em grandes detalhes (um capítulo inteiro, intitulado “Bank of Lavoro and Iraqgate”) abordando o escândalo no qual a Banca Nazionale del Lavoro (BNL), através da sua filial de Atlanta, foi usado para enviar mais de US$5 bilhões para o Iraque, um pouco antes da Guerra do Golfo.

Stich escreve: “… em novembro de 1989, oficiais da Casa Branca garantiram o pagamento de empréstimos ao Iraque feito por bancos, para esse comprar cereais dos EUA, sob um programa mantido pelo US Agriculture Department’s Commodity Credit Corporation (Corporação de Crédito e Mercadorias do Ministério da Agricultura dos EUA). A aprovação estipulava que os contribuintes americanos indenizariam os bancos que mandaram dinheiro para que o Iraque comprasse alimentos dos EUA, se este não quitasse os empréstimos feitos…

“Estes empréstimos deram capacidade militar para o Iraque invadir o Kuwait. Com efeito, os contribuintes americanos, através de seus líderes, tornaram possível o terrível banho de sangue da Guerra do Golfo… Um pouco do dinheiro fornecido pelos Estados Unidos foi usado para adquirir o gás venenoso que foi usado nas cidades curdas do Iraque, muito dele comprado através das Cardoen Industries no Chile, uma fachada da CIA. A Cardoen forneceu grande quantidade de material de guerra para o Iraque, sob a orientação da CIA”.

Com relação aos poços de petróleo incendiados, Morehouse escreve: “… cada soldado exposto às emanações vindas das chamas deve ter inalado o bacilo, ou que aquilo fosse”.

As implicações são claras. A assim chamada Síndrome da Guerra do Golfo (Gulf War syndrome – GWS) é um resultado direto desta exposição. O Departamento de Defesa (Department of Defense – DoD) sabia disto, e continua mentindo para os milhares de veteranos contaminados por esta guerra químico-biológica.

– E o que Morehouse pensa sobre isto agora?

“Penso sobre isto todo dia”, ele diz, com voz vacilante. “Nós sabemos que estamos sendo manipulados para (1) podermos confirmar, mas, ao mesmo tempo, (2) não podermos fazê-lo baseados em qualquer registro a que alguém pudesse ter acesso. Eles negaram isto. Eles disseram que isto nunca aconteceu.

“Primeiro, eles disseram que havia alguma coisa assim. Então, nós explodimos o depósito químico. Daí, eles disseram que havia dois depósitos químicos. O problema, é que o povo americano continua a esquecer este tipo de traição. Eles ignoram isto, e por isto se esquecem, e assim permitem que aconteça outra vez.

“Eles ficaram lá, todos os que sabiam, e com a maior cara de pau mentiram para nós, dizendo que isto nunca aconteceu. O general Powell foi perante o Congresso e negou fervorosamente que tivesse qualquer conhecimento ou qualquer evidência disto, o que é outra vez uma “negação plausível”, porque ele não estava sob juramento.

“A CIA estava mantendo registro de todas as cartas de vento pertinentes a este teatro de operações. Deixe-me dizer-lhe algo. Em 18 anos de vida militar, eu nunca passei para a CIA relatórios sobre o tempo. Então, por que a CIA está nos dizendo que elas mostravam isto ou aquilo? Somos tão estúpidos que não podemos ver que aqueles caras estavam preocupados com o que as cartas revelariam, que saltaram lá para dirigir a coisa toda? Eles estão lá dentro enganando e mentindo para todos, dia após dia”.

Antony Sutton elogia abertamente Morehouse e seu livro. Ele escreveu que, “Psychic Warrior é um livro que você deveria ler. Não somente abriria os seus olhos para a nova e estranha tecnologia lá esboçada, mas o deixaria também desgostoso com o Pentágono, cujo principal interesse parece ser manter em Washington generais na luxúria e em cursos de golfe, que nem sequer podem manter seus aviões no ar. E o DoD (Departamento da Defesa) ainda tem tempo para perseguir um oficial que verdadeiramente serviu os Estados Unidos”.

O ATENTADO CONTRA KING E O BODE EXPIATÓRIO

O bode expiatório James Earl Ray foi sentenciado a viver na prisão pelo assassinato do famoso líder dos direitos civis, Martin Luther King, Jr.

O advogado de Ray, William Pepper, autor de Orders to Kill (Ordens para Matar), irá apresentar novas evidências na Corte: dados de visão remota apresentados por David Morehouse, do assassínio do ícone dos anos 60.

– Então, quem matou King?

Morehouse diz: “… eram rufiões contratados, os agentes operacionais de baixo nível da CIA que fizeram isto. Eles eram das Forças Especiais dos EUA, uma equipe de franco-atiradores que veio de uma escola de assassinos. Eles eram distribuídos em áreas onde estivessem ocorrendo motins, ou onde se esperava que ocorressem. Eles tinham uma lista de alvos, uma lista seqüencial de pessoas que eram alvos a serem eliminados. Isto era uma coisa comum nos anos 60.

“Cada vez que havia um distúrbio civil, esta equipe de franco-atiradores eram posicionados e recebiam ordens cifradas que lhes diziam quem, e o que. Eles tinham uma lista permanente de pessoas visadas. Eles receberiam uma informação que diria, ‘Faça isto’, ou ‘Não faça isto’. E se o fizessem, eles tinham uma rota de fuga para sair dali; ou um ‘potted plant’ – alguém que os levaria dali com segurança.

“Os soldados convocados observaram indivíduos como Martin Luther King e outros, que provocavam motins e agitação nos campus universitários contra o governo americano – como inimigos do Estado”.

– Então o que pode o promotor William Pepper fazer com o relatório de visão remota de Morehouse?

“Ele vai levá-lo para a Corte como evidência e usá-lo”, diz Morehouse. “O seu argumento é que o governo dos EUA tem usado isto como um instrumento para coleta de informação por 20 anos. Irá admiti-lo como evidência, verificando a metodologia de recuperação da informação. Ele irá dizer. ‘Vejam, um visualizador remoto militar tem trazido toda esta informação utilizando tecnologia militar’. Pepper telefonou, e agradeceu por todo aquele trabalho”.

Morehouse admite, contudo, que “o que ele [Pepper] está tentando fazer é lutar uma batalha perdida”.

“NÃO-LETALIDADE” – O FUTURO DOS COMBATES

O novo livro de Morehouse tem o nome de Non-Lethal Weapons: War Without Death (Armas Não Letais: Guerra Sem Morte). De acordo com Morehouse, “… o armamento convencional foi projetado para matar. O novo armamento convencional híbrido é projetado para mutilar. Armamento não-letal, por esta definição, deve ser anti-material, e não anti-pessoas.

“O livro faz uma verdadeira abordagem filosófica do conceito de não-letalidade. Ele fala sobre o que as armas convencionais fizeram neste século: tiraram a vida de 170 milhões de seres humanos inocentes. Doutores, advogados, professores, donas-de-casa, crianças, nenhum deles guerreiros – 80 milhões deles foram sumariamente executados por sua recusa em participar, e que o número continua a crescer exponencialmente. Menos de 250.000 destas vidas foram eliminadas através de armas nucleares.

“Na era pós-Guerra Fria, o complexo industrial-militar tem gasto um tempo enorme no desarmamento e abolição do arsenal nuclear desativando cinco ogivas nucleares, de modo a nos congratularmos por isto, dizendo-nos que grande trabalho fizemos, enquanto que, ao mesmo tempo, gastamos US$900 bilhões extras no último ano, para construir e armazenar armas mortais destrutivas. Então este é um jogo viciado.

“A conclusão é de que estamos em uma encruzilhada, nesta nova era estratégica da história humana. Temos de tomar uma decisão. Iremos continuar a construir armas em uma escala sempre crescente? Ou iremos evoluir para uma era na qual iremos re-equipar toda a indústria de defesa para aparelhar-nos com armas que preservam a vida humana mas destróem a máquina de guerra de um inimigo beligerante, incapacitando-o para a guerra?

“Nós temos aquela tecnologia para destruir os tanques. Isto já é sabido. A natureza do homem nunca mudará, assim também a natureza da guerra. Só o modo como elas serão lutadas é que mudará. Toda a assim chamada tecnologia de ‘Guerra nas Estrelas’, a arma de pulsos eletromagnéticos, são letais, e são um armamento convencional de alta tecnologia. E isto é tudo”.

Morehouse continua com a sua análise, dizendo que o livro “… toma 12 tecnologias não letais verdadeiras, e modela-as sobre cenários fictícios construídos sobre eventos mundiais reais – na Bósnia, Somália, etc”.

– Então o complexo industrial-militar tem que ser chamado para prestar contas?

“Exatamente. Isto é o que deveria acontecer”, diz Morehouse. “Temos de nos tornar mais informados sobre estas questões. É por isto que o livro cria esta visão. Aqui está o cenário com armas convencionais, e aqui o que acontece se introduzimos uma forma não letal de tecnologia.

“Vi isto sendo testado nos Campos de Provas de Dugway, em Utah. É chamado de ‘rajada de mortalha anti-tanque’. Alguns milisegundos antes de seu impacto, ele envia um jato de plasma a altíssima temperatura que perfura um buraco através da blindagem mais rapidamente do que o som, e derrama metal derretido para o interior do tanque, transformando tudo dentro dele em gelatina. Foi assim que os tanques do Iraque foram destruídos no deserto.

“O que esta rajada faz é que, milisegundos antes de atingir o alvo, um filme polimerizado de fio reforçado envolve o tanque, tal como um polvo envolve e incapacita a sua vítima. Este polímero cobre tudo e se contrai instantaneamente. Eles o chamam de ‘shrink-wrap round – rajada embrulha-e-contrái’. A resistência total do polímero é suficiente para arrebentar as engrenagens hidráulicas de um tanque M-60, assim que ele tenta mover sua torreta. Ele sela e tranca todas as tampas, e os seus fios impedem as comunicações”.

– Mas por que eles não fizeram alarde disso?

“Porque”, explica Morehouse, “o complexo industrial-militar de US$900 bilhões por ano, estes ambiciosos fomentadores de guerra que fabricam e armazenam armas para os países do Terceiro Mundo, não o querem porque é muito barato. E mais, se você começar a salvar vidas e destruir equipamentos, então você força a diplomacia a tomar o seu lugar de direito para solucionar os conflitos no novo milênio, e começa a desmanchar este mercado perpétuo de morte e destruição.

“Nós agora temos membros do Congresso que retiram dinheiro de impostos destinados ao bem-estar, para os fabricantes de armas. Assim, quando um fabricante as vende para algum tirano do Terceiro-Mundo, que não permite comprar leite em pó para as crianças esfomeadas de seu país, mas compra 12 jatos os quais não precisa, quem paga por elas? O contribuinte dos EUA. Nós agora pagamos aos fabricantes e aos negociantes de armas, e pagamos os empréstimos que os tiranos não pagam”.

Morehouse acentua que este modus-operandi tem certamente funcionado em todos os conflitos militares no século 20. A Guerra do Golfo foi somente a última fraude para gerar lucros torrenciais para os fabricantes de armas e os banqueiros, como também se livrar de excesso de população, i. é, “buchas de canhão” (pessoal militar) e “bocas inúteis” (pessoas não produtivas, que vivem à custa do salário-desemprego).

VISÃO REMOTA COMO UM SERVIÇO PÚBLICO

– Então, qual é o futuro para o “guerreiro psíquico” David Morehouse?

“Tenho estado trabalhando na Remote Viewing Technologies (Tecnologias de Visão Remota), uma companhia privada envolvida em informação e seminários de treinamento para técnicas de visão remota”, responde Morehouse. “Não temos ensinado ninguém do setor privado; somente pessoas na área de comércio e policial. Temos treinado oficiais de polícia em visão remota, porque eles podem fazer prontamente a transição. Olhar por hora e meia nos olhos de um homem morto não perturba um policial ou homem da lei. Oficiais de polícia, de qualquer modo, parecem ter uma visão preconceituosa do mundo. Se estão trabalhando nos detalhes de um homicídio, eles têm uma tendência a não querer nada separado ou desordenado”.

– Então, o que está sendo feito com esta tecnologia como um serviço público, por assim dizer?

“Provavelmente os dois pioneiros somos Lin Buchanan e eu mesmo. Criei uma companhia chamada Remote Viewing Technologies, com oficiais de polícia. Lin tem o que chamo de Assigned Witness Program (Programa de Testemunhas Designadas).

“A Remote Viewing Technologies tem trabalhado em vários casos em New Jersey e em Baltimore. Estamos prontos para treinar um grande número de oficiais em New Jersey, e já treinamos sete oficiais de polícia em Minnesota. As delegacias, os chefes-de-polícia, os detetives – cada um tem aderido ao treinamento de braços abertos. Logo eles compreendem que devem manter uma perspectiva dela e saber que as três regras cardeais da visão remota devem sempre prevalecer:

“Um: ela não é 100% acurada; nunca foi e nunca será.

“Dois: você não pode nunca acreditar nos resultados de um único visualizador remoto operando independentemente de outros; portanto, você não pode trabalhar sozinho. Este é o problema com o qual Courtney Brown e Ed Dames toparam. Eles se restringiram. Courtney Brown senta-se e diz ‘Siga o objeto Hale-Bopp. Descreva-o’. Isto viola todas as regras da visão remota. Não é um estudo feito às cegas. Se você trabalha sozinho, você pode perder seu senso analítico, ou deixar voar sua imaginação. É a mesma violação de protocolo na qual Ed Dames caiu.

“Três: a visão remota não é um empreendimento isolado. Na comunidade de inteligência, é sempre usada em consonância com outras ‘plataformas de coleta’. Na polícia, é sempre usada com outros métodos de investigação”.

NOVAS HABILIDADES PARA O PRÓXIMO MILÊNIO

David Morehouse, autor de Guerreiro Psíquico, deveria ser condecorado por sua coragem em expor estes segredos do mundo da quarta dimensão, e trazer a visão remota para fora do âmbito restrito da inteligência.

Ser um whistleblower pode ser o último desafio. Com grande sacrifício para sua família e para a sua vida, ele tem sofrido inimagináveis processos, atribulações e hostilidade pela CIA e seus patetas. E, apesar de uma bem organizada campanha contra o seu trabalho, ele tem resistido com sucesso a esta barragem de calúnias e ataques pessoais.

A importância da visão remota não deveria ser subestimada. Assim como através da Internet se pode conseguir informação mais rapidamente e mais fácil do que ir à livraria, assim também a visão remota tem o potencial para revolucionar o acesso aos registro históricos e outros que são inacessíveis aos cinco sentidos.

O século 21 irá requerer novos talentos. A visão remota e sua auxiliar, a assim chamada ‘percepção extra-sensorial’ (PES) ou poderes paranormais, podem ser cruciais à sobrevivência e evolução da raça humana.

Sobre o Autor:

Uri Dowbenko é um escritor, fotógrafo e um colunista não sindicalizado. Ele pode ser contatado através da revista NEXUS.

Referências:

–  Bentov, Itzhak, Stalking the Wild Pendulum: On the Mechanics of Consciousness, E. P. Dutton, New York, NY, USA, 1977.

–  Braden, Gregg, Awakening to Zero Point: The Collective Initiation, LL Productions, PO Box 3010, Bellevue, WA 98009, USA, phone 1800 243 1438 (toll-free in USA).

–  Cathie, Bruce L., The Harmonic Conquest of Space, NEXUS Magazine, Mapleton, Qld, Australia, 1994-95.

–  Constantine, Alex, Psychic Dictatorship in the USA, Feral House, Portland, Oregon, USA, 1995. (See especially chapter 2, “Blue Smoke & Lasers: SDI as a Cover Story for the R&D of Electromagnetic/Cybernetic Mind Control Technology”.)

–  King, Godfre Ray, Unveiled Mysteries, Saint Germain Press, 1120 Stonehedge Drive, Schaumburg, Illinois 60194, USA.

–  Langley, Noel, Edgar Cayce on Reincarnation, Warner Books, NY.

–  McMasters, R. E., Jr, The Christ Within, A. N. International, PO Box 84901, Phoenix, Arizona 85071, USA, phone 1800 528 0559 (toll-free).

–  Morehouse, David, Psychic Warrior, St Martin’s Press, New York, 1996; Michael Joseph Ltd, London, UK, 1996. (See pp. 167-71 for reference to DIA Gulf War remote-viewing ‘mission’.)
–  Ostrander, Sheila and Schroeder Lynn, Supermemory: The Revolution, Carroll & Graf Publishers, New York, 1991.

–  Prophet, Mark L., The Human Aura, Summit University Press, Box 5000, Corwin Springs, Montana 59030, USA.

–  Roerich, Nicholas, Brotherhood, Agni Yoga Society, 319 West 107th Street, New York, NY 10025, USA.

–  Stich, Rodney, Defrauding America, Diablo Western Press, PO Box 5, Alamo, California 94507, USA, phone 1800 247 7389.

–  Sutton, Antony C., America’s Secret Establishment, Liberty House Press, Billings, Montana, USA.
–  Sutton, Antony C. (Ed.), Phoenix Letter, 1517 14th Street #216C, Billings, Montana 59102, USA.

–  Talbot, Michael, The Holographic Universe, HarperCollins Publishers, New York, 1991.

Texto com Copyright. Reservados os direitos sobre a tradução. O texto não pode ser reproduzido comercialmente sem licença de Nexus Magazine.

(Texto traduzido por LGA).

Sobre o Autor:

Uri Dowbenko é um escritor, fotógrafo e colunista não sindicalizado. Ele pode ser contatado através de NEXUS Magazine.

Texto com Copyright. Reservados os direitos sobre a tradução. O texto não pode ser reproduzido comercialmente sem licença de Nexus Magazine.

(Texto traduzido por LGA).
Extraído de Nexus Magazine, Volume 4, #5 (Agosto-Setembro de 1997).
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Telefone: ; Fax: +61 (0)7 5442 9381
De nossa web page em: http://www.peg.apc.org/~nexus/
©1997 Todos os Direitos Reservados
por Uri Dowbenko
Uma Entrevista com David Morehouse
Remote Viewing Technologies
64 Whitman Street, Suite 1A
Carteret, NJ 07008, USA
E-mail: remviewtec@aol.com

Por Uri Dowbenko

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/as-aventuras-reais-de-um-espiao-psiquico/

[parte 6/7] Alquimia, Individuação e Ourobóros: Amplificação Simbólica

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Running forward/ Falling back/ Spinning round and round/ Looking outward/ Reaching in/ Scream without a sound/ Leaning over/ Crawling up/ Stumbling all around/ Losing my place/ Only to find I’ve come full circle”

– Dream Theater

Esta é a sexta parte da série de sete artigos “Alquimia, Individuação e Ourobóros”, que é melhor compreendida se lida na ordem. Caso queira acompanhar desde o começo, leia as parte 1, 2, 3, 4 e 5.

Análise

Como descrito anteriormente, o método de amplificação consiste em três etapas principais: contato com o símbolo, associação com outras imagens arquetípicas, e o retorno do símbolo e seu valor individual associado com o valor coletivo e arquetípico.

“Portanto, a amplificação é executada em três fases distintas: a primeira seria o contato com o símbolo e as observações experienciais do analisado; a segunda é a etapa de amplificação coletiva, onde se pega um símbolo específico e o associa com outras imagens arquetípicas, e por isso pode ser denominada de objetividade da imagem; a terceira e última é o retorno ao subjetivo com o auxilio das analogias universais, em outras palavras, o símbolo – primordialmente individual – manifestado passa por uma variedade de possibilidades significativas através da associação com a coletividade, após essa etapa, ele necessita do indivíduo – que utiliza como parâmetro o reconhecimento afetivo dentro dos aspectos coletivos – para dar sentido ao símbolo” (CHAISE E VIANA apud JUNG, 2011, 12).

Contato com o Símbolo

É de valor significativo então explicitar que individualmente, passei a me interessar pela imagem arquetípica do Ourobóros quando situações da minha vida exigiam mudanças de atitude e paradigma. Eu simplesmente enxergava a imagem em tudo que via formas circulares, letras de músicas, poemas, poesias, ou seja, realizei espontaneamente associações que fizeram com que a imagem simplesmente conversasse comigo, chamando minha atenção para algo que, a priori, era nebuloso para o meu eu consciente.

Comecei a procurar em todos os lugares literaturas que pudessem me ajudar a entender o significado desta imagem, e como ela aparecera para mim. Ao meditar sobre a mesma, fui tomado por sentimentos de mudanças e transformações, que eu, intuitivamente, sabia que precisava reavaliar a forma que manifestava minha existência para atingir um crescimento que defino como espiritual, ou seja, me alinhar com a manifestação real que emanava animicamente do meu ser.

Sentia que me encontrava vazio, desorientado e sem forças para tomar qualquer atitude de mudança quanto a minha própria situação. Com o passar do tempo, e incorporando literaturas que variavam de esferas como psicologia, filosofia, mitologia e outras de cunho espiritual, percebi uma pequena faísca de transformação começar a se manifestar em meu âmago. Consegui com o tempo elaborar uma série de questões e embarcar numa aventura mitológica e pessoal que me permitiu acessar aspectos, não só desconhecidos de minha pessoa, como também fantásticos, que me deram forças necessárias para realizar transformações pessoais, que acabaram por afetar toda minha dinâmica social e individual.

No entanto, não é a primeira vez que alguma figura brota do inconsciente, muito menos essa figura da serpente circular. O elemento químico Benzeno que apresenta uma forma cíclica foi descoberto pelo químico August Kekulé. No ano de 1890, numa convenção em Berlim realizada para comemorar os 25 anos da publicação de Kekulé sobre a estrutura do Benzeno, o mesmo relatou um suposto sonho que serviu de ‘insigh’ para sua descoberta:

“Estava sentado escrevendo meu manual, mas o trabalho não progredia; meus pensamentos estavam dispersos. Virei minha cadeira para a lareira e adormeci. Novamente os átomos saltavam à minha frente. Desta vez os grupos menores permaneciam modestamente no fundo. Meu olho mental, aguçado pelas repetidas visões do gênero, discernia estruturas mais amplas de conformação múltipla; longas fileiras às vezes mais estreitamente encaixadas, todas rodando e torcendo-se em movimentos de cobra. Mas veja só! O que é aquilo? Uma das cobras havia agarrado a própria cauda e a forma rodopiava de modo a debochar ante meus olhos. Como se à luz de um relâmpago, despertei; e desta vez, também passei o resto da noite tentando estender as consequências da hipótese. Senhores, aprendamos a sonhar, e talvez então encontraremos a verdade […] mas também vamos ter cuidado para não publicar nossos sonhos até que eles tenham sido examinados pela mente desperta.”

Amplificação Coletiva e Analogias Universais

Cirlot (1974) consegue em seu Diccionario de los símbolos sintetizar a maioria das analogias levantadas no trabalho:

“Este símbolo, que aparece principalmente entre os gnósticos, é um dragão ou serpente que morde a própria cauda. Em sentido mais geral, simboliza o tempo e a continuidade da vida. Em suas representação tem por complemento que diz: Hen to pan (o Um, o Todo. Assim aparece no Codex Marcianus do século II d.C. Foi interpretado como a união do princípio ctônico da serpente e o princípio celeste do pássaro (síntese que se pode aplicar ao dragão)”. (CIRLOT, 1984)

Segundo Ruland, isto o define como variante simbólica de Mercúrio, o deus duplex. Em algumas representação a metade do corpo do animal é clara e a outra escura, aludindo à contraposição sucessiva de princípios, como o símbolo chinês Yang-Yin. Segundo Evola, é a dissolução dos corpos: a serpente universal que, segundo os gnósticos “caminha através de todas as coisas”. O veneno, víbora, dissolvente universal, são símbolos do indiferenciado, do “princípio invariável” ou comum, que passa entre as coisas e as liga. O dragão, como o touro, luta contra o herói solar.

Segundo E. Neuman, em seus estudos sobre o simbolismo matriarcal, o símbolo primordial da criação do mundo é a serpente que morde a sua própria cauda, ato que significa autofecundação. No manuscrito veneziano de alquimia vemos a serpente do Ourobóros com uma metade negra (símbolo da terra) e a outra metade branca e salpicada de pontos que representam estrelas (céu) o que ratifica esse caráter de coniunctio e hierogamia.

Assinala o doutor Sarró, em seu artigo “El mito de la serpiente Ouroboros y el simbolismo letamendiano del organismo”, que este mito se refere a ideia de uma natureza capaz de renovar-se a sí mesma, cíclica e constantemente.

Outras analogias possíveis à imagem arquetípica do Ourobóros é sua semelhança com a simbologia e cultura Hindu, que fora melhor explorada no capítulo anterior através do conceitos de “Kundalini”, que significa ‘enrolada’. Metaforicamente uma serpente enrolada na altura do cóccix esperando para ser despertada (em nível de consciência).

E como já vimos anteriormente, a simbologia egípcia é rica e pertinente no que diz respeito a análise de imagens primordialmente arquetípicas. O ‘Uraeus’ é um adorno de serpente que era utilizado na cabeça dos faraós ou para adornar templos, que representa as características divinas e soberanas do governante, mas principalmente sua imortalidade.

Pode ser associado também ao Arcano 10 do tarô, correspondente à Roda da Fortuna, carta definida pelo tarólogo Constantino Riemma como “os ciclos sucessivos na natureza e na vida humana. As fases da manifestação, o movimento de ascensão e de declínio. A mobilidade das coisas”. O símbolo do Ourobóros aparece também em algumas cartas do Arcano 21: O Mundo. Constantino afirma que esta carta representa “Finalização, realização, recompensa, apoteose. Encontrar o próprio lugar no mundo. Centralizar-se. O equilíbrio inspirado”.

Segundo o psiquiatra Paulo Urban, entre os astecas e outras cultural da América Central e andina, Quetzalcoatl, a serpente emplumada (uma combinação de Quetzal, pássaro e serpente), é uma divindade solar e surge como elo entre os deuses e os homens, podendo ainda estar associada à chuva, ao vento, aos raios e trovões, bem como ao sopro da vida, ou ainda ao tempo incriado.

Na mitologia africana, o Orixá (divindade) Oxumaré é caracterizado segundo Reginaldo Prandi (2001) em “Mitologia dos Orixás” como “símbolo da continuidade e da permanência, algumas vezes, é representado por uma serpente que morde a própria cauda”, podendo representar aspectos tanto masculino quanto femininos, além de representar “a mobilidade, a atividade, uma de suas funções é a de dirigir as forças que dirigem o movimento”.

Encontramos outra referência ao ofídio circular se analisarmos a cultura nórdica, na mesma existe uma serpente chamada Jörmundgander. Segue o relato da lenda tirado de um diálogo da série do History Channel “Vikings”:

“O grande mar é mantido no lugar por Jörmundgander a Serpente, que com seu corpo gigante o circunda e mantém seu rabo em sua boca para completar o círculo e impedir as ondas de se libertarem. Mas um dia, o Deus Thor, filho da Terra, pescava no mar pela Serpente, usando a cabeça de um touro como isca. Jörmundgander levantou e as ondas bateram na praia, enquanto ele se torcia e se retorcia em fúria. Eles combinavam bem, Serpente e Deus, naquela briga furiosa. O mar ferveu ao redor deles, mas, então, o gancho ficou desalojado, a Serpente rastejou livre, e afundou novamente, muito rápida, sob as ondas. E logo, o mar ficou calmo de novo, como se nada tivesse acontecido.”

Na cultura oriental, especificamente no Zen Budismo, existe um conceito chamado “Ensō”, cujo o significado em japonês é ‘círculo’:

“Simboliza iluminação, força, elegância, o universo e o vazio; também pode simbolizar a própria estética japonesa. Como uma “expressão do momento” é frequentemente considerado uma forma de arte expressionista. […] Na pintura zen budista, o ensō simboliza um momento quando a mente está livre para simplesmente deixar os sentidos criarem. Os zen budistas acreditam que o caráter do artista está completamente exposto na forma com a qual desenha um ensō. Apenas uma pessoa mentalmente completa, que tenha percebido sua natureza búdica, consegue desenhar um ensō verdadeiro. Alguns artistas praticam o desenho do ensō diariamente, como uma espécie de exercício espiritual.”

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ens%C5%8D

Além disso o símbolo do Ourobóros é encontrado em diversos materiais ocultistas, gnósticos, esotéricos e alquímicos, sendo representado em gravuras, selos e inclusive como emblemas de algumas sociedades esotéricas, como por exemplo a Sociedade Teosófica, que tem como base os ensinamentos de Helena Pretovna Blavatsky. A teosofia é incrível e não cabe agora comentar sobre a mesma, mas quem tiver interesse: http://pt.wikipedia.org/wiki/Teosofia

Estas foram alguma das analogias universais levantadas ao longo deste trabalho. É possível concluir que a imagem do Ourobóros é extremamente rica e presente em diversas culturas e momentos históricos, podendo ser caracterizada como arquetípica, portanto, universal. Ela representa os ciclos, o eterno, a integração, a completude, a transformação, o desenvolvimento de si-mesmo, a harmonia, o infindável movimento do flerte constante das polaridades que impulsiona a criação e expansão da vida à partir da sua essência.

Referências Bibliográficas

CHAISE E VIANA. Validação do Projeto: Mutus Liber. Disponível em: https://translatioanimae.wordpress.com/. 14/05/2013

CIRLOT, J.-E. Dicionário de símbolos. Trad. Rubens Eduardo Ferreira Frias. São Paulo: Edições Moraes, 1984.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo. Companhia das Letras. 2001.

URBAN, Paulo. A Serpente Emplumada. Disponível em: http://nemdeusesnemastronautas.blogspot.com.br/2011/01/mito-azteca-serpente-emplumada.html. 14/05/2013

Imagens:

Ourobóros num manuscrito judaico (Séc XVIII)

“Fred”, Anão de Jardim da ‘Compania Internacional’

Estrutura de Benzeno envolta por Ourobóros

“The Bitter End” arte digital de Bluefooted (Deviant Art)

‘Ouroboros’, arte plástica

Representação da subida de ‘Kundalini’

‘Uraeus’ adornando a cabeça do deus Hórus em gravura egípcia

Cartas “A Roda da Fortuna” e “O Mundo”, retiradas do tarô alquímico de Robert Place

‘Quetzalcoalt’ de SanMonet

Gravura do Orixá ‘Oxumaré’

Jörmundgander em volta do símbolo de proteção Aegishjálmur e gravura dessa serpente marinha enfrentando o deus Thor

Caligrafia de Kanjuro Shibata (2000)

Emblema da Sociedade Teosófica com os dizeres “Não há Religião maior que a Verdade”

Ricardo Assarice é Psicólogo, Reikiano e Escritor. Para mais artigos, informações e eventos sobre psicologia e espiritualidade acesse www.antharez.com.br

#Alquimia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/parte-6-7-alquimia-individua%C3%A7%C3%A3o-e-ourob%C3%B3ros-amplifica%C3%A7%C3%A3o-simb%C3%B3lica

Como não dormir na missa

Só existe uma forma de uma pessoa normal não pegar no sono durante uma missa soleme: mudá-la completamente.

O movimento Jesus Freak alegra-se em trabalhar incansavelmente na ruptura da lógica centralizadora que tem regido o cristianismo desde a Idade Média.  Esta centralização é reforçada diariamente em diversos templos de diversas dominações nos quais os rituais são dirigidos por uma elite sacerdotal com diferentes graus de interação com o público, mas ainda assim, dividido sempre entre leigos e sacerdotes. Talvez essa divisão possuísse certa coerência na época de Arão no antigo testamento (Números 3:10). Porém, torna-se uma ideia completamente estapafúrdia para a nova aliança, onde segundo I Pedro 4:16 todo aquele que se chama cristão é honrado como sacerdote.

Uma vez que os morcegos das tradições humanas eclipsam o Sol da verdade é necessário que algumas dessas tradições sejam revisadas ou mesmo abolidas. Caso contrário o cristianismo estará fadado ao sono profundo e aos jogos de poder que podemos ver hoje em seus templos. É por este motivo  os Jesus Freaks incentivam a retomada dos verdadeiros valores cristãos de fraternidade deixando para  trás o centralismo e o fanatismo que não apenas foram condenados por Jesus Cristo em sua época como agem hoje como ervas daninhas sufocando o crescimento de um espírito espontâneo de conhecimento e adoração.

Nós propomos que o culto cristão seja revolucionário:

Roteiro Rápido

1 – Ação de graças
2 – Leitura
3 – Comentários
4 – Oração
5 – Comunhão
6 – Bençãos

Roteiro Detalhado

0 – Preparação

Um momento musical pode preceder o culto (ver artigo ‘Transliturgia: Todas as músicas são sagradas’). Deve-se evitar uma disposição no formato altar ou palco. Todos os participantes são absolutamente iguais. Recomenda-se uma mesa ou um circulo no chão. Não é preciso uma grande congregação ou mesmo um templo físico para organizar uma reunião. Um grupo com pelo menos 2 corações sinceros é tão digna da presença de Deus quanto um showmissa em uma catedral. Não recomendamos grupos com mais de 12 pessoas para preservar a organização do culto. Em casos de é comum que entre os Freaks uma divisão em dois novos grupos, estimulando assim o crescimento do movimento.

1 – Ação de Graças

Cientes da presença divina, o grupo inicia a missa com as ações de graças. Uma pessoa de cada vez deve esforçar-se em divulgar aos irmãos presentes algo em sua vida pelo que sinta-se grata. Saúde, amor,prosperidade, sexo com a vizinha, não importa o que for, deve ser compartilhado nesse momento com a comunidade em sincera alegria. Todos os presentes podem expressar-se, mas quem quiser se calar agora também pode fazer isso. Lembre-se, são todos irmãos, não há do que se envergonhar.

2 – Leitura

Esse é o momento em que se inicia a leitura das escrituras sagradas. Esse momento exige um cuidado especial, para evitar a manipulação política e ideológica dos muitos pelos poucos. Desta forma, o aleatório é muito bem vindo. Recomendamos alguns mecanismos de sorteio como dados ou papéis fechados em sacolas que possam decidir o texto e livro a ser lido e quem o lerá. É sensato não prolongar muito a leitura, portanto devem ser lidas apenas porções pequenas mas coesas dos textos que contemplem um ou mais ensinamentos. O Movimento Jesus Freak não faz diferenças entre Livros Canônicos ou Apócrifos deixando o coração de cada um ser o filtro da verdade.

3 – Observações

Após a leitura todos terão a oportunidade de deixar seu testemunho sobre o texto em questão. Os interessados devem manifestar-se levantando uma das mãos ou emitindo algum outro sinal durante a leitura. Este é o belo momento de compartilhar e deixar de lado a contenda. Ninguém deve ser criticado ou julgado pelo que disser, por isso não haverá réplica sobre comentários. Exemplificando: Se um ateu achar que um versículo lido é um indício da inexistência de Deus e expressar-se assim, os demais deverão exercitar a tolerância e o amor cristão em silêncio.

4 – Oração

Para criar uma harmonia no grupo após eventuais tensões nos comentários todos devem fazer uma oração ou no se preferir aguardar em silêncio. Alguns grupos podem optar por um Pai Nosso em unissono, outros podem escolher que esta é a hora de um fervor multi-línguas no qual, ao mesmo tempo, todos farão suas próprias orações outro grupo ainda pode achar mais apropriado que cada um faça sua oração em voz baixa ou apenas com os pensamentos.  Mesmo queo grupo tenha uma prática definida para esta hora, a liberdade de cada um deve ser honrada e cada um pode honrar, pedir reclamar conforme suas próprias crenças ou permanecer em silêncio. Todos devem aguardar até a última oração terminar. Um momento musical pode estar presente nessa etapa e recomendamos que não pare antes do último participante parar de falar.

5 – Comunhão

Tira-se a sorte agora para a decisão de quem presidirá a comunhão. Ela pode ser feita com qualquer alimento e bebida que agradar. O sortudo exibe ambos para os presentes e anuncia que a bebida é o sangue derramado por Cristo e que o alimento é a carne entregue em sacrifício. Após isso todos devem saborear com alegria a eucaristia, fazendo isso em memória D’ELE.

6 – Bençãos

A última etapa é iniciada com um minuto de silêncio que segue a comunhão. Após o término do silêncio, outro participante é escolhido randomicamente para fazer abençoar todos os demais. Não importa a forma, mas sim que seja feita em nome de Jesus. Quem não quiser receber benção nenhuma, porque por exemplo não acredita em nada da Bíblia, pode cruzar os braços em sinal de negação se desejar. Estas pessoas devem sempre ser convidadas mas nunca coagidas a nada. As pessoas que desejarem uma benção específica (saúde, vida pessoal, etc…) deverão dizer o motivo em voz alta e em seguida a receberão.

Conclusão

 

Uso de escolhas randomicas, embora não seja incomum não é uma novidade moderna. Quando Judas morreu ous apóstolos tiveram que escolher uma nova pessoa para ficar em seu lugar entre os 12. Veja em Atos 1:26 como eles decidiram isso. Eles sabiam que Deus conhece o coração de todos e pediu que indicasse o escolhido, lançando a sorte em seguida.  Toda aleatoridade é guiada por Deus. Mesmo no antigo testamento, Exodo 28:30, lemos sobre o Urim e Tumim, que embora de natureza misteriosa indicam ter uma funcão semelhante a uma moeda de cara e coroa.

Sabemos que nossa proposta de missa pode desagradar a muitas pessoas, especialmente aquelas doutrinadas pelas antigas tradições e as interessadas em manter seu rebanho sob controle. De fato, muitas pessoas acreditam que não estão prontas para o tipo de liberdade que o evangelho oferece. Mas caso estas diretrizes lhe causem estranhamento não se incomode, continue no seu culto. Não somos o tipo de cristãos que obrigam as pessoas a fazerem o que elas não querem.


Sentindo-se freak? Conheça Jesus Freak: o Guia de Campo para o Pecador Pós-Moderno


 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/como-nao-dormir-na-missa/

Milagres são Transformações ocultas em Nós

Por Yoskhaz

“O que chamamos de magia em outras Tradições recebe o nome de milagre. Muda-se o nome, mas é a mesma força e poder”, falou Canção Estrelada, ancião nativo do Povo do Caminho Vermelho, enquanto preparava o cachimbo de fornilho de pedra. Estávamos sentados em volta de uma pequena fogueira sob o manto fantástico da Via Láctea a nos provocar indagações sobre os mistérios do universo. Esperei que ele desse uma pequena baforada e, assim, convidasse seus ancestrais que já cavalgam com o vento para participar da nossa conversa. Depois me fitou com as labaredas refletidas em seus olhos e explicou: “Magias ou milagres são como chamamos transformações que ainda não conseguimos explicar. O importante é entender que você é parte do milagre, assim como a semente só germina se encontrar solo fértil. Cada qual é o seu do próprio jardineiro, que sem o devido trabalho nenhuma rosa fará florescer. O sol e a chuva são para todos, porém a semeadura é pessoal e intransferível. O essencial é entender que cada qual tem que fazer a sua parte para se encantar com a magia da vida”.

Explicou, ainda, que existe um intercâmbio incessante entre esferas, porém os aliados do plano invisível somente podem intensificar o trabalho conosco se estivermos preparados: “Somos os pilares da ponte em que atravessam; portanto, quanto mais firmes forem os alicerces, maior o trânsito deles. Sem o aperfeiçoamento de um código moral próprio, onde não se pratique nenhum mal a qualquer coisa ou pessoa, não se chega a lugar nenhum. Tais conceitos são os sólidos fundamentos da alma”, acrescentou.

Não se disse mais palavra. O vagar da noite trouxe a sua sinfonia a nos ajudar no exercício de ver além. O pensamento voou e me trouxe recordações do Velho, o monge mais antigo do mosteiro da Ordem, que me orientou quanto à importância das energias que emanamos. “Tudo no universo é energia. Até o que chamamos de matéria nada mais é do que energia condensada, conceito hoje admitido pela Física Quântica, mas aceito pelos esotéricos há séculos. As energias se alinham por afinidade ou semelhança. Sendo nossos pensamentos, sentimentos e atitudes as fontes geradoras. Assim, se queres a aproximação dos anjos, benfeitores espirituais ou amigos invisíveis – não importa qual o nome que lhes aplique – sutilize a sua energia para, na medida do possível, se aproximar da frequência vibratória deles. Preste atenção em ti. Aperfeiçoe o que pensa, sente e faz. ”.

“Os mais importantes milagres são as pequenas transformações que se dão em nosso íntimo, permitindo uma permeabilidade cada vez maior entre os planos. A espinha dorsal de toda a sabedoria universal se resume a amar a todos como gostamos de ser amados. Fazer o bem ao invés de esperar por ele. Todos os outros conhecimentos são apenas os muitos comentários a respeito desse ensinamento maior. Amar incondicionalmente é ato de profunda sabedoria, pois traz consigo a ampliação de consciência, a libertação da alma e a permissão de ver no escuro. Torne-se uma pessoa melhor a cada dia e desperte o poder adormecido nos porões do ser. O segredo milenar dos alquimistas de transformar chumbo em ouro nada mais era do que iluminar as próprias sombras, alinhando-a à alma. Não há riqueza ou milagre maior”.

Como se adivinhasse os meus pensamentos, o sábio xamã rompeu o silêncio: “Magia é transformação. As mais importantes são as que ocorrem na essência mais íntima do ser. Você é o mago e é também a própria magia. Pois, ao nos transformar modificamos o mundo, operando pequenos milagres do cotidiano, quase imperceptíveis, só visto pelos olhares atentos. Passamos a transbordar as mudanças de maneira natural através do brilho no olhar; da sensibilidade amorosa no sentir; do pensar claro e luminoso, liberto dos automatismos; da melhor palavra; da compaixão pelo não entendimento do outro; do agir sereno e digno. Um ser moral despido de qualquer moralismo. Suas emoções primárias e densas que até então lhe dominavam como reações imediatas diante dos entraves do cotidiano, passam a se transformar em sentimentos nobres e sutis cada vez com mais facilidade, até que um dia seu coração vibrará apenas a pura luz. Sinal de um passo importante, onde traços da evolução individual passam a integrar o espírito como uma estrela a brilhar no firmamento, que, aos poucos, se expande a iluminar a tudo e todos que encontrar, em sintonia com a expansão do próprio Universo, até por tê-lo em si”.

Naquela noite, duas Tradições convergiam para me mostrar que a verdadeira sabedoria é una.

A manhã começava a dar sinais de que não tardaria. Canção Estrelada pegou o seu tambor e tocou em ritmo suave “para entrar em sintonia com a pulsação do planeta que despertava”. A música me fez estampar um sorriso de satisfação. O xamã me olhou, devolveu o sorriso e disse: “Compartilhar com alegria para toda a gente o que há de mais precioso em seu coração é a melhor maneira de agradecer ao Grande Mistério por todas as magias permitidas. Só assim é possível seguir Caminhando em Beleza. Esta é a lição e o poder do sol que ilumina e aquece gerando vida a todos, sem distinção”.

Publicado originalmente em http://yoskhaz.com/pt/2015/08/25/milagres-sao-transformacoes-ocultas-em-nos/

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/milagres-s%C3%A3o-transforma%C3%A7%C3%B5es-ocultas-em-n%C3%B3s