Amigos de Hekate

Tonye Newton enquanto escrevia seu livro – A Demonic Connection – conseguiu o que parecia impossível; arrancar algumas declarações de ex-líderes do movimento Friends of Hekate, (Amigos de Hekate, em português ) e o que estes pensam dos novos agregados da Hekate século XXI como está sendo chamada, ou The Mauve Zone como eles mesmos preferem

Friends of Hekate (FOH) operaram por toda a Inglaterra entre os anos de 1960 e 1980. Considerado extinto por muitos, o grupo continua a operar sob nomes diferentes, como The Mauve Zone e Hekate Disciples em locais como o Norte da Europa, México e até mesmo em recantos escondidos da América do Sul como Colômbia e Brasil, mas neste lugares, o pecado dos Hekates está mais associado com o tráfico de drogas e movimentos pretensamente sociais do que com o ocultismo em si.

Logo que surgiu, em Aston, na cidade britânica de Birmingham, o grupo sempre têm sido associado a uma série de desaparecimentos e mortes que ocorreram em Sussex, também na Inglaterra durante os anos de 1970 e 80. No total, as mortes de cinco pessoas foram conectadas as oferendas ritualísticas oferecidas por eles em rituais de magia negra: um policial, um vigário, um aposentado e duas mulheres desapareceram sob circunstâncias misteriosas durante esse espaço de tempo.

Os desaparecimentos ocorreram sempre nas datas de 31 de outubro – o fato estranho era que os corpos das vítimas eram encontrados em locais onde havia estrita vigilância policial, como se tratasse de uma provocação à Scotland Yard, responsável por monitorar o caso.

O vigário usado no ritual era reitor de duas vilas em Sussex; onde uma série de demonolátras costumavam se reunir para praticar rituais no final dos anos 60. Tonye Newton, examina rigorosamente as atividades dos Amigos de Hekate e faz uma ligação estreita da espécie de satanismo praticado por eles e uma conspiração internacional Satânica, cujas idéias estavam claramente embebidas de Marxismo, Stalinismo e idéias comunistas que vingavam facilmente numa Inglaterra que vivia uma cruel recessão e altos índices de desemprego e violência ao final dos anos 60 até meados da década de 80.

Curiosamente, foi nessa época que os Hekate perderam força nas terras da rainha, para só retomarem suas atividades no século XXI. Outros indícios e acusações de sacrifício humano praticados pelos Hekate, vem de uma carta dirigida a Tonye, então redator da Revista Unexplained.  Nesta carta, o escritor anônimo praticamente confirma que o Reverendo foi ritualmente sacrificado pela Friends of Hekate:

“Há alguns anos atrás um amigo meu se juntou a eles (…) são chamados de amigos de Hekate, se reúnem em vários lugares: bosques, matas, celeiros e até mesmo na igreja e fazem rituais que envolvem sacrifícios humanos ou animais em honra a Orion e ao arqueiro. (sic)”

O escritor anônimo prolonga-se para dizer que o seu amigo:

“… Ficou muito assustado quando a polícia efetuou as primeiras buscas para encontrar o vigário (Rev. Harry Neil Snelling) e quando eu disse que ia ajudar nas buscas ele disse ele não precisava mais, já tinham encontrado-o.”

Embora todos os indícios apontem para os típicos sacrifícios ritualizados pela FOH, pouco se conhecia de seus ritos embora acreditava-se centrar especificamente sobre o culto da antiga deusa grega Hekate.

Se as informações relativas a respeito dos Amigos de Hekate envolvendo sacrifícios humanos e animais sejam tão escassos e hipotéticos, eles jamais foram desacreditados quando sua área de influência se expandiu para além da terra da rainha.

Amigos de Hekate no México

Depois da grande caçada protagonizada pela Scotland Yard contra os líderes da FoH, sabe-se que eles migraram para o Canadá, então movendo-se para os E.U.A até atingirem o norte do México onde se estabeleceram, e lá criaram a primeira cidade verdadeiramente satânica ( nos termos deles ) do Ocidente.

Em Ciudad Juárez, norte do México que faz fronteira com o Texas, mais de 300 mulheres foram assassinadas com um mesmo ritual macabro: seqüestro, tortura, sevícias sexuais, mutilações e estrangulamento. Rituais satânicos? Orgias perversas de narcotraficantes? De sacrifícios humanos ? Uma rápida olhada na história dos amigos de Hekate pode nos dar todas as respostas que procuramos.

Estado de Chihuahua, fronteira com os Estados Unidos. Sua população de 1,3 milhão de habitantes é refém de assassinos sem rosto. Desde 1993, (logo após o desbaratamento da FoH na Inglaterra ) mais de 300 mulheres foram seqüestradas, violentadas e assassinadas.

A maioria não pôde ser identificada: todas foram vítimas de violências sexuais, e, sem exceção, foram todas estranguladas e supostamente usadas em rituais de magia negra levados a cabo pela Amigos de Hekate.

O modus operandi dos assassinos é idêntico ao dos matadores em série. Os assassinatos repetem-se, assemelham-se, as sevícias são as mesmas, e atingem não só mulheres adultas, mas também adolescentes e até meninas de apenas 10 ou 12 anos.

Por que razão os cadáveres são desfigurados e mutilados? Por que razão uma tal brutalidade contra as vítimas, um tal sadismo bárbaro? Será que se trata de rituais satânicos? De orgias perversas de narcotraficantes?

Diversos depoimentos indicam que os assassinos teriam sido protegidos, num primeiro momento, pelos policiais de Chihuahua. Depois, teriam se beneficiado do apoio dos meios do poder ligados ao tráfico de drogas.

Como é sabido, membros da Hekate são ligados ao tráfico de drogas há muito tempo, especialmente em países como Bélgica e Holanda, além de manterem estreitas relações com membros das Farc Colombianas.

Mas conheça um pouco mais sobre eles em suas próprias palavras:

“Bem-vindo ao Amigos de Hekate: Prestem atenção e aprenda. O FoH é a única grande ordem magicka satanista em Birmingham, Inglaterra. Nós somos o OCULTO aqui!

Formados, ou re-formados, em meados dos anos 90; o FoH começou como um núcleo de adesão de não mais de cinco pessoas iniciadas nas artes satânicas, representando um número que cada grupo afiliado não pode ser ultrapassar em membros. Gostaríamos muito de lhes oferecer nossos rituais praticados em Wichbury Hill, os pseudo-satanistas ainda estão tentando ser tão bons como nós somos em magia negra.

O nosso “magcikprop”, o ato de executar rituais aos olhos de quem quiser é uma lenda entre os que recordam de nossos gloriosos dias. Lúcifer em carne, osso e sangue no museu de Birmingham, poucos vão esquecer!

Mas agora o FoH está de volta, mais fortes do que antes, temos enclaves em Manchester e Londres. Estamos crescendo. Isso sem contar nossos poderosos contatos no exterior. Eles nos deixam orgulhosos.

Conheçam a Colheita Maldita – um momento em que o mundo será mudado por quem tiver a vontade Magicka de fazer essa mudança. O FoH têm a Magicka e a Vontade.

Bem-vindo ao verdadeiro Novo Aeon. Estamos tendo sinais do nosso Apocalipse e cada um de vocês é bem-vindo. Lembrem-se daqueles que já conhecem a nossa verdade: 2012 se aproxima mais rápido do que nunca pude imaginar.

 

Manifesto dos amigos de Hekate

Todo homem e mulher é uma estrela, mas algumas estrelas são mais brilhantes do que outras.

Magicka é a Arte e a Ciência de causar mudanças de acordo com a Vontade.

As únicas regras são aquelas que se aplicam a nós.

Apenas aqueles que sentem que precisam ser governados deveriam tomar nota do que o governo lhes diz para fazer.

Faça o que for divertido para você, e esse será o todo da lei.

Este é o nosso credo (sujeito a mudanças a qualquer momento)

Nós somos parte da IOT, mas ela não pode conter tudo aquilo que verdadeiramente somos agora e aquilo que devemos nos tornar até 2012. Procuramos não membros, apenas aliados.

Durante muito tempo, temos sido tratados como loucos por aqueles que por sorte, fortuna, ou atos criminosos adquiriram poder sobre nós. Esta é a hora de voltar a lutar, a pegar em armas da nossa escolha, para derrubar todos os governantes do Mundo.

Nossas armas podem ser, música, cinema, arte, mas principalmente magicka. Essa nossa arma é o poderoso ESOTERRORISMO. Esta é a forma de ruptura através de ações concretas e rituais mágicos.

Os membros da nossa “igreja” podem parecer parte do sistema, mas em nossas mentes, procuramos formas de consumo de droga; injetando Caos e perturbações no sistema que tenta governar nossas vidas.

Nós escrevemos cartas a imprensa, nós criamos distúrbios que causam preocupação para as massas acomodadas, forçando os poderes constituídos a entrarem em ação.

Nós roubamos terras de grandes proprietários de terras, através de nossos direitos. Nós sabotamos grandes empresas, forçando-os a nos pagar grandes quantias de dinheiro para não precisarem se opor a nós. Mas também podemos ser o mendigo na esquina, que vai dormir com a esposa do patrão, o nosso nome é Legião será sempre assim.

O nosso templo é o Mauve Zone. Nossa Magicka está por todo lugar.

Somos a favor de usar a tecnologias para construir nossa utopia, mas não somos dominados por ela. Apoiamos a engenharia genética para a substituição de órgãos. Embora apoiemos os chamados partidos Verdes, Liberais e afins, fazemos-lo apenas porque ele nos dá oportunidades para injetar o vírus do Caos nos sistemas políticos.

Entrevista com Tonye Newton a rádio BBC 6 de Londres

BBC: O que é ou o que foi os Amigos de Hekate ?

Newton: Nos anos 60, 70 e 80 foram um temido grupo de satanistas extremistas com idéias comunistas. Hoje são um bando de garotos pervertidos que utilizam o nome deles para se promoverem.

BBC: O que há de verdade sobre sua conexão mexicana ?

Newton: Que temos membros deles em Ciudad Juarez é inegável, mas atribuir todos os assassinatos de mulheres que lá acontecem a eles é pura bobagem. A questão é que terras de ninguém, terras sem leis como Juarez oferecem a esse tipo de gente, local e ambiente adequado para esse tipo de crime, eles são muito mais esquerdóides machistas do que satanistas. Não vejo muito de satanismo no que estes caras fazem hoje.

BBC: O que os antigos membros, os originais dizem sobre o assunto ?

Newton: Hekate virou uma lenda macabra que ainda apavora muitas mentes no Reino Unido, mas aquele pessoal envelheceu, casou teve filhos e hoje faz parte da classe média acomodada. Tudo aquilo que eles combatiam em seu início.

BBC: Como conheceu membros deles ?

Quando trabalhava na Unexplained, alguns caras frequentavam seus cultos; todos mascarados, ninguém conhecia e jamais conheceu a verdadeira identidade dos líderes. Eram grupos de 5 membros por templo. Todos agregados mas com liberdades para fazerem o que bem entendessem.

BBC: Você os leva a sério hoje ?

Newton: Não aqueles que atuam na Inglaterra, mas os que estão fora do país fazem uso do nome Hekate para ter um certo status, seja no México ou com as Farc. Na verdade os traficantes pouco ligam se eles se dizem satanistas ou zapatistas, o que interessa é que são campo fértil para o crime organizado.

BBC: Mas o próprio site deles:http://www.paganassociationisevil.org.uk/ indica que fazem parte de um grupo de criminosos não ? O tal Satanismo esquerdóide.

Newton: Eles simplesmente repercutem aquilo que ouvem do que vem de fora. Repito, não levo esses moleques idiotas a sério, mas teria o maior prazer em entrevistar os membros da Hekate na América Latina.

BBC: Seria uma aventura perigosa.

Newton: Seria a chance de esclarecer de uma vez por todas o que é lenda e o que é fato sobre eles. Mas se a Scotland Yard não os pegou, quais são as minhas chances ? Até lá,

Ciudad Juárez continuará sendo um local seguro para membros da Hekate, e para os velhos satanistas sanguinolentos da Idade Média.

Paulie Hollefeld

Postagem original feita no https://mortesubita.net/demonologia/amigos-de-hekate/

As Chaves Maiores e as Clavículas de Salomão

por Eliphas Levi Zahed

EDIÇÃO, ORGANIZAÇÃO, COMENTARIOS E TRADUÇÃO por Robson Belli

Creio ser de fundamental importância a tradução comentada deste material, por trazer uma visão magística diferenciada de um de seus grandes autores contemporâneos, Eliphas Levi um dos mais importantes autores da alta magia, e a sua visão de um dos principais grimórios medievais, as “Clavículas de Salomão”.

O fato desta obra ainda não ter uma tradução para o português em pleno ano de 2022, nos mostra o pouco ou nenhum interesse do nosso mercado editorial de nos servir com obras ótimas, e com as diferentes visões do mesmo tomo, estamos exaustos de ver traduções das clavículas traduzidas por Samuel Lidel “McGregor” Mathers, que apesar de ser um ótimo trabalho, expõe apenas uma visão embasada em algumas poucas fontes dos manuscritos das conhecidas Clavículas de Salomão que juntos somam mais do que 144 tomos manuscritos diferentes, só considerando os tomos das chaves maiores, tendo uma miríade muito maior quando consideramos as chaves menores.

Portanto não espere encontrar aqui os tradicionais pantáculos, este livro não é mais do mesmo, e justamente por isso vem a ser a minha primeira clavícula traduzida e publicada, a fim de quebrar os paradigmas impostos a esse tomo.

Muitos talismãs para invocação das forças celestiais estão descritos aqui, contudo é importante mencionar, que além de invocar estes poderes, nos sagrados e poderosos 72 nomes de Deus, esta clavícula nos ensina trabalhar também repelindo as forças malignas de nossas vidas, sendo, portanto, uma das mais puras clavículas no sentido de chamar para si a atenção do divino e do sagrado, afastando de si as forças negativas.

Este não é em definitivo, um tomo para membros do caminho da mão esquerda, este livro é para aqueles que entendendo que devem se ligar aos poderes elevados e aos nomes divinos, o fazem para expurgar de si os poderes das trevas, que apenas atrasam seu desenvolvimento enquanto ser humano e magista.

Este livro não pede sua aceitação ou concordância, ele apenas o é como deveria ser, peço apenas ao leitor a compreensão de obras como “Dogma e ritual da alta magia” e o livro “O grande arcano”, ambos de Levi, para entender melhor que este aqui é o livro referenciado na obra citada e não, as obras que Eliphas Levi considerava espúrias e impuras que visam chamar demônios para si, profanando assim o ideal Cabalístico de evolução do ser.

Esta é na opinião de Levi, a clavícula de Salomão retificada a sua gloria original, dentro de uma proposta muito mais próxima a ideia da cabala, e mesmo que tenha símbolos nos amuletos, a força deles provem na realidade dos nomes divinos e dos números gravados nos mesmos, sendo não um livro de evocação e dialogo com estas forças, este é um livro de magia talismanica, tal qual as Chaves Maiores de Salomão mais conhecidos do grande público, contudo faz uso dos 72 anjos ou 72 nomes divinos para atrair para si estes poderes benignos e afastar de si os 72 demônios, uma clara contra posição ao “Ars Goétia” do “Lemegeton” que Eliphas provavelmente considerou impuro e pagão, um livro corrompido.

Visão que pode ser bem compreendida por aqueles que adentram ao estudo da Cabala judaica, mesmo em seus níveis mais superficiais, creio ter bem referenciado o porquê desta obra ser o que é, e por que Eliphas Levi tentou retificar a tradição Salomônica escrevendo este livro.

Infelizmente este livro não se popularizou tanto quanto suas outras obras, mas finalmente chega agora ao leitor brasileiro que, espero sinceramente faça um maravilhoso uso desta obra a tanto tempo deixada de lado.

~Robson Bélli

23 de maio de 2022.

ADVERTENCIA

Este livro é uma reprodução fiel do manuscrito escrito e desenhado por Eliphas Levi para seu discípulo e amigo, Barão Spedalieri, que, de acordo com o desejo do Mestre, foi posteriormente entregue a J. Charrot, que o entregou a L. Chamuel para ser editado. A primeira edição apareceu em 1895; que está esgotado e raro.

Hoje, o número crescente de discípulos póstumos de Eliphas Levi nos obriga a reimprimi-lo.

As Clavículas de Salomão são um retorno da Doutrina Cabalística em sua pureza primitiva; baseado no Grande Nome Incomunicável, descrevendo com precisão e simplicidade setenta e dois ramos. Eles incluem as figuras de trinta e seis talismãs e os trinta e dois Caminhos da Sabedoria (os dez números e vinte e duas letras hebraicas); finalmente, o ritual é completado com instruções teúrgicas, profecias e um cânone para o uso das Clavículas.

Estas Clavículas são explicadas e discutidas através da correspondência do Mestre com o Barão Spedalieri.

Esta edição foi revisada e atualizada de acordo com o manuscrito original.

~P. Chacornac.

A COMPOSIÇÃO E O USO DESSAS CLAVÍCULAS

Estas clavículas, reestabelecidas em sua pureza original, e desenhadas pela primeira vez por mim, Eliphas Lévi, em 1860, se realizam em sua pureza e sem mescla de símbolos samaritanos ou egípcios, só com ajuda das cifras, dos símbolos hieroglíficos e dos números.

Os hebreus tinham horror ao uso de figuras em imagens sagradas, e é por este motivo que as imagens do Zohar são em sua maioria, quase todas traçadas apenas com letras.

O complemento perfeito deste livro é o jogo de Tarô italiano, cujos talismãs de Salomão explicam e resumem os símbolos.

Os talismãs podem, cada um em particular, servir de instrumento (magico) magnético e representar uma vontade análoga ao nome divino cuja explicação se encontra sob cada talismã.

É preciso observar que as dezenas que se encontram no tarô não são desenhadas nos talismãs porque, sendo a dezena a síntese da unidade, está contida virtualmente na unidade de cada número.

As imagens dos talismãs podem ser gravadas em sete metais ou desenhadas em pergaminho virgem, depois consagradas e magnetizadas segundo uma intenção muito precisa.

Desta forma, serão criados focos de luz astral, perfumados com os perfumes do ritual e mantidos em seda ou em recipientes de vidro para que não percam sua força.

Eles não devem ser emprestados ou dados, a menos que tenham sido feitos em nome de outra pessoa e de acordo com ela.

Servem para afastar ilusões e miragens de luz. Os espíritos errantes estremecem diante deles porque são símbolos fixos, personagens do verbo que é por si mesmo e que comanda vitoriosamente todos os espíritos.

Mas, para usar essas chaves corretamente, é necessário manter uma grande lucidez de espírito e uma grande pureza de coração. Caso contrário, eles se tornariam os instrumentos de uma maldição da qual o operador imprudente ou culpado seria a primeira vítima.

AS CHAVES MAIORES E CLAVÍCULAS

A TAU SAGRADA OU CHAVE UNIVERSAL.

COMENTARIO A RESPEITO DA CHAVE UNIVERSAL

Este símbolo de Levi vem aqui expor algumas questões importantes que podem ajudar ao leitor elucidar algumas ideias que Levi tinha a respeito das clavículas, em seu nível simbólico direto vemos as letras Yod, He, Vav, He, do tetragrama divino expostas cada uma em uma direção, com elementos mágicos bem conhecidos do público atual tanto pelo taro quando pela magia cerimonial.

Yod acima e ao lado da Baqueta representação do fogo e da autoridade divina do comando, o mundo de Aziluth ou ainda o mundo dos arquétipos, e graças a Taça que representa o elemento agua, sabemos que a ponta direita é a sequência e representa o mundo de Briah do mundo formativo ou da criação,  a próxima letra na sequência é Vav ao lado da espada que é um naipe e ferramenta mágica do ar, que também representa o mundo de Yetzirah, o mundo formativo e por fim nos temos ultimo He ao lado da moeda ou Pantáculo que são relacionados ao elemento terra, a realização material, ou ainda o muito material.

A cruz tau para Eliphas Levi estava associada ao Universo, sendo o seu criador (através do seu nome impronunciável) e principio e o universo o fim ou a sua manifestação material, Alfa e Ômega, sendo o magista então uma representação do próprio Deus que o criou sua imagem e semelhança, para dominar todas as coisas, por conta da representação dos quatro elementos que são todas estas coisas.

A seguir e a esquerda vemos um símbolo que parece uma cruz com um P e do seu lado na parte inferior a letra Alfa e Ômega, este símbolo chama-se Tau Rho que é um dos dois monogramas de cristo, sendo o Tau Rho a imagem de Moises com seus braços estendidos e o alfa e o ômega a representação do cristo ajudando o homem, vemos ao mesmo tempo um X pontilhado dando a ideia da transformação do estaurograma (sacrifício) no  cristograma (redenção) também conhecido por Chi Rho, que é o símbolo mais conhecido como monograma do Cristo.

Do lado direito da cruz Tau vemos o símbolo geomantico de conjunctio e dentro dele escrito Bara-Taish ( ) que é uma expressão cabalística que alude a baphometh ou o iniciado, o desperto e conhecedor dos mistérios ou ainda Bereshit ( ) que alude as primeira palavras do início do livro de gênesis “No princípio”, mas essa expressão aos judeus, que por sua vez alude ao bode que foi levado para ser sacrificado pelo patriarca Abraão e está ligada a uma ideia de lascívia (luxuria) divina em sua criação.

O SHEM HA MEPHORASH[1]

Toda a ciência está numa palavra e toda a força num nome.

A inteligência deste nome é a ciência de Salomão e a luz de Abraão.

Ninguém conhece Deus em sua essência, a não ser ele mesmo.

Mas a Ciência absoluta está no conhecimento dos nomes divinos que são todos formados a partir de um único nome.

Esta ciência é o que ela chama, o Shem Há Mephorasch ou nome explicado.

O Esquema ou nome incomunicável é composto de quatro letras.

  • Todo o poder (força) está em um, Yod.
  • Seu reflexo está em outro, He.
  • É explicado pelo terceiro. Vav.
  • É fertilizado pelo quarto. He

É formado com vinte e quatro pontos que são as vinte e quatro alegorias antigas de São João.

  • Cada ponto tem três linhas.
  • Há então sessenta e dois traços.

Sessenta e dois nomes são formados, que são escritos dois a dois em trinta e seis talismãs.

OS TRINTA E SEIS TALISMÃS

Estude cuidadosamente os hieróglifos e as letras sagradas dos trinta e seis talismãs e escreva ao redor de cada um deles um versículo bíblico de sua escolha, aquele que melhor expressa para você[2] a virtude das letras e dos nomes (números).

Esses talismãs fixam o espírito, fortalecem o pensamento e servem de sacramento à (verdadeira) vontade.

Os espíritos de todas as hierarquias estão em comunhão com aquele que entende e usa corretamente esses sinais.

TALISMÃ 01 – O PRIMEIRO PRINCIPIO

01 VEHUIAH/ 04 ELEMIAH [3]

[4]

TALISMÃ 02 – AJUDA DO SALVADOR

02 JELIEL / 05 MAHASIAH

TALISMÃ 03 – ESPERANÇA DIVINA

03 SITAEL / 06 LELAHEL

TALISMÃ 04 – QUATRO VEZES PAI

07 ACHAIAH / 10 ALADIAH

TALISMÃ 05 – RAZÃO DE CULTO

08 CAHETEL / 11 LAOVIAH[5]

TALISMÃ 06 – CONSOLO DIVINO

09 HAZIEL / 12 HAHAIAH

TALISMÃ 07 – BASE DE TODA A GRANDEZA

13 YESALEL[6] / 16 HEKAMIAH[7]

TALISMÃ 08 – PROVIDENCIA

14 MEBAHEL/ 17 LAUVIAH[8]

TALISMÃ 09 – CONSOLADOR

15 HARIEL / 18 CALIEL

TALISMÃ 10 – O AMOR

19 LEUVIAH[9]/ 22 IEIAIEL[10]

TALISMÃ 11 – A SALVAÇÃO

20 PAHALIAH / 23 MELAHEL

TALISMÃ 12 – A BONDADE

21 NELCHAEL / 24 HAHEUIAH[11]

TALISMÃ 13 – A FORÇA DO BEM

25 NITH-HAIAH[12] / 28 SEHEIAH

TALISMÃ 14 – O ARCANO DO AMOR

26 HAAIAH / 29 REYEL[13]

TALISMÃ 15 – PACIENCIA

27 IERATHEL[14] / 30 OMAEL

TALISMÃ 16 – CIENCIA DO AMOR

31 LECABEL / 34 LEHAHIAH

TALISMÃ 17 – AMOR DO JUSTO

32 VASAHIAH[15] / 35 CHAVAKIAH

TALISMÃ 18 – HIERARQUIA DO AMOR

33 IEHUIAH[16] / 36 MENADEL

TALISMÃ 19 – FORÇA QUE FECUNDA

37 ANIEL / 40 IEIAZEL[17]

TALISMÃ 20 – EQUILIBRIO POLITICO

38 HAAMIAH / 41 HAHAHEL[18]

TALISMÃ 21 – PAZ UNIVERSAL

39 REHAEL / 42 MIKAEL[19]

TALISMÃ 22 – IMPERIO DO VERBO

43 VEULIAH[20] / 46 ARIEL[21]

TALISMÃ 23 – A NOVA JERUSALEM

44 YELAIAH[22] / 47 ASALIAH[23]

TALISMÃ 24 – HARMONIA

45 SEALIAH[24] / 48 MIHAEL[25]

TALISMÃ 25 – VITORIA

49 VEHUEL / 52 IMAMAIAH[26]

A PARTIR DESTE PONTO O LIVRO PÁSSA A SER UMA RECONSTRUÇÃO, POIS ESTA PARTE É AUSENTE NO ORIGINAL OS SIGILOS SÃO OS MESMOS USADOS NO LIVRO “the kabbalistic and occult tarot of eliphas levi” E EM “The Science of the Kabbalah” de Lazare Lenain

TALISMÃ 26 – O SEGREDO DO VEICULO

50 DANIEL / 53 NANAEL

TALISMÃ 27 – O SEGEDO DA CRIAÇÃO

51 HAHASIAH / 54 NITHAEL

TALISMÃ 28 – O MAIS SAGRADO

55 MEBAHIAH / 58 IEIALEL

TALISMÃ 29 – OS ANEIS DA ALIANÇA

56 POIEL / 59 HAHAEL

TALISMÃ 30 – OS TRES ANEIS LUMINOSOS

57 NEMAMIAH / 60 MITZRAEL

TALISMÃ 31 – VONTADE

61 UMABEL / 64 MEHIEL

TALISMÃ 32 – SABER

62 IAH-HEL / 65 DAMABIAH

TALISMÃ 33 – OCULTISMO

63 ANAUEL / 66 MANAKEL

TALISMÃ 34 – REALIZAÇÃO

67 AYEL / 70 YABAMIAH

 

TALISMÃ 35 – EQUILIBRIO

68 HABUHIAH / 71 HAIAIEL

TALISMÃ 36 – FORÇA CONTRA OS TERRORES DA MORTE

69 ROCHEL / 72 MUMIAH

A partir deste ponto o este livro volta a ser uma tradução fiel ao original.

AS LETRAS SAGRADAS

Correspondem as figuras simples do Tarô

(O rei de paus, o Pai)

(O rei de copas, o esposo da mãe)

(O rei de espadas, O principe do amor)

(O rei de ouros, o pai de criação)

(A rainha de paus, a esposa de seu pai)

(A rainha de copas, a mulher que é dona de si mesma)

(A rainha de espadas, A princesa do amor)

(A Rainha de ouros, a mãe dos seus filhos)

(O cavaleiro de paus, Conquistador de poder)

(O cavaleiro de Copas, o conquistador da felicidade)

(O cavaleiro de espadas, o conquistador do amor)

(O cavaleiro de ouros,  o conquistador de obras)

(O valete de paus, escravo do homem)

(O valete de copas, o escravo da mulher)

(O valete de espadas, escravo do amor)

(O valete de ouros, o escravo das crianças)

OS NÚMEROS SAGRADOS

Comentário: Eliphas Levi coloca algumas atribuições que para nós estudantes atuais de cabala são completamente estranhas, tal como o Sol e Kether, Chockmah a esquerda sendo a Lua, e Binah a direita sendo Vênus, e isso pode nos causar tamanha estranheza, contudo é exatamente o que está descrito aqui.

AS LETRAS SAGRADAS OU AS CHAVES MAIORES

Os dez nomes e as vinte e duas letras formam trinta e dois caminhos da ciência universal.

A LETRA ALEPH

(Hieróglifo- o menestrel)

(O PENTACULO DO EDEN, PROTOTIPO DAS LETRAS SAGRADAS)

A LETRA BEITH
(A alta sacerdotisa)

(o binário é o primeiro número, é a unidade somada a ela mesma[27])

A LETRA GUIMEL
(O Terciário —  a mãe (gravida) — a geração)

(O primeiro grande número sagrado.

O triangulo de Jeová.
O mercúrio dos sábios.)

A LETRA DALETH

(O quaternario – a quadratura)

(O número do ciclo perfeito.
A cruz filosófica.
O fogo Elemental dos sábios.)

A LETRA HE
(Número cinco das letras e quinze dos caminhos)

(O número da ciência do bem e do mal.
A letra da mulher da religião.
O pentagrama angelico ou diabolico.)

A LETRA VAV
LINGHAM
(A flecha do amor — O lingham[28])

(O número do antagonismo e da liberdade. A união. O trabalho. Semana da criação)

A LETRA ZAÏN
(O septenio sagrado)

(O número completo da cabala. O espirito e a Forma. As três potencias do Ternário e suas quatro relações)

A LETRA HETH
(O equilíbrio universal)

(O tetragrama com seu reflexo. A estaca dupla. O quaternário multiplicado pelo binário)

A LETRA TETH
(O número da hierarquia)

(Nove

O número do iniciado.
o grande número magico.)

A LETRA JOD

(O número da criação do reino)

(Malkuth. O reino de Deus. O universo visível. O princípio natural das coisas sobrenaturais)

A LETRA KAPH
(O número da força)

(A unidade sintética
o homem feito.
A virilidade.
A idade da razão.)

A LETRA LAMED
(O número do ciclo perfeito)

(A realização.
O sacrifício
A consumação.
A crucificação.
O espirito que se desprende da matéria.)

A LETRA MEM
(O número treze, a morte)

(O renascimento
A imortalidade pela mudança.
A transmutação.)

A LETRA NUN
(Os afetos — As misturas)

Fig112

(Formas temperadas pelo equilíbrio.
A harmonia das misturas.)

A LETRA SAMEKH

(O número quinze — a serpente astral)

(A vida física e mortal.
O movimento continuo. O grande agente magico.)

A LETRA GNAYN
(O número dezesseis, o grande equilíbrio)

(Destruição pelo antagonismo.
Equilíbrio dos grandes poderes.)

A LETRA PHE
(O número dezessete)

(A natureza imortal e uma em sua diversidade.
A fecundidade eterna.)

A LETRA TSADE
(O número dezoito)

(Distribuição hierárquica da luz.
O ocultismo.
O dogma.
Os misterios.
O esoterismo.)

A LETRA COPH

(O numero dezenove)

(A verdadeira luz.
A verdade.
A cidade santa.
O ouro filosófico.)

A LETRA RESCH
(O número vinte)

(O reconhecimento de todo o grande arcano da vida eterna.)

A LETRA SCHIN
(nenhum número)

(A fatalidade. A cegueira o louco. A matéria abandonada a si mesma)

A LETRA TAV
(O número vinte um)

(tres vezes o sete, o absoluto, o resumo de toda a ciencia universal.)

OS ESPIRITOS E AS CONJURAÇÕES

OS ESPÍRITOS

Os espíritos são as inteligências secundarias, ou seja, criadas. Eles são de três tipos, fixos, errantes e mistos. Os fixos são puros espíritos libertos das leis que regem a matéria. Os andarilhos são os que flutuam na luz astral. Os mistos são os andarilhos que trabalham e conseguem se fixar em parte. Entre os fixos, pode-se distinguir os muito puros, os mais puros e os mais puros.

Entre os mistos: os dominantes, os militantes e os dominados. Entre os andarilhos: os motoristas, os inconstantes e os animados.

Os fixos são os anjos.

Os mistos” são os homens inteligentes.

Os andarilhos são os homens brutos.

Os espíritos se atraem e se governam hierarquicamente.

Eles estão ligados por correntes e círculos. Entrar em um círculo é jurar com os espíritos do círculo. Ao conjurar espíritos superiores, você não os atrai para você, você se eleva até eles. A conjuração por evocações só pode ser exercida em relação a espíritos inferiores. Para conjurar os espíritos superiores é preciso dar-se a eles, para conjurar os espíritos inferiores por evocação, é preciso constrangê-lo. Para nos dar.

Os Espíritos superiores são evocados fazendo-lhes sacrifícios, ou melhor, comprometendo-se assim a nos evocar. Os espíritos inferiores são evocados ao lisonjear suas avidezes ou suas atrações. As palavras nada mais são do que fórmulas que servem para fixar à vontade.

Os espíritos inferiores ao homem são os elementais e os andarilhos de última ordem. Os antigos teurgistas os chamavam de demônios. Esses demônios são mortais e tentam viver às nossas custas, procuram o esperma e as efusões de sangue, o vapor da carne e temem a ponta e o fio das espadas.

A hierarquia dos espíritos é infinita. Rila começa em Deus que não tem começo em nada – ou seja, ela não começa. As estrelas têm almas astrais, os sóis têm almas solares, e os universos são governados pelos Elohim vivos, os deuses que estão em Deus. A vida dos espíritos é uma contínua ascensão e mutação, sobem e descem na grande escala simbólica de Jacó.

Os anjos, governantes espirituais das estrelas, ascendem ao governo dos sóis e são substituídos pelo chefe das almas.

As cabeças das almas são os sucessivos reis da humanidade. O chefe das almas da terra leva o nome de Métatron Sarpanim, que significa príncipe das luzes. O chefe das almas não morre, ele sobe vivo para o rio. Enoque foi, em tempos após a criação de Moisés, o primeiro elevado ao posto de Metatron Sarpanim.

Depois de Enoque, reinou Moisés.

Depois de Moisés, Elias.

Depois de Elias, Jesus.

Todos os Metatrons devem ter dois reinados, eles retornam à terra depois de passar por todas as esferas do nosso sistema solar. É por isso que o retorno de Enoque e Elias precederá a segunda vinda de Jesus.

Em seu primeiro advento, Jesus se revelou como sumo sacerdote. Em seu segundo advento, ele se revelará como Rei.

Ele era o Cristo.

Ele deve ser o Messias que os judeus têm razão para esperar. Foi Enoque quem, no Sinai, deu a lei divina a Moisés. Moisés e Elias, no Tabor, ensinaram a Jesus os grandes mistérios da revelação cristã. Jesus transmitiu a iniciação a São João Evangelista e é por isso que este apóstolo deve permanecer até o segundo advento de seu mestre. Em tempos de decomposição, os espíritos inferiores se manifestam como vermes em cadáveres.

Eles são evocados pela corrupção e sendo devorados por eles. Estes são os vampiros de almas insalubres. Essas decomposições sempre precedem e anunciam a chegada à terra de um espírito regenerador na pessoa do Metatron Solar. As mesas falantes e os espíritos se debatendo anunciaram o retorno de Enoque. Ele virá quando o papado perder sua autoridade no mundo e os cabalistas brilharem. O advento de Elias seguirá de perto o de Enoque e então Jesus, o Salvador do mundo, virá à terra pela segunda vez.

Ele será precedido pelo Anticristo, cuja missão será preparar o grande império temporal do revelador do Evangelho.

A luz astral formiga nos espíritos elementais, pois uma nova criação está sendo preparada. As chaves de Salomão são encontradas e os mistérios da alta Maçonaria são explicados.

Uma escola, cujos primórdios são ainda mais obscuros e quase invisíveis, será formada no império eslavo, na Alemanha e na França. Em um século, esta escola terá sete mil seguidores e seu último Grão-Mestre será Enoque.

Enoque aparecerá no ano dois mil do mundo cristão. Depois e! O messianismo fiel que ele será o precursor, florescerá na terra por mil anos. Essas previsões são o resumo de todas as profecias e de todos os cálculos cabalísticos… elas devem ser mantidas em segredo para não expor as mais respeitáveis ​​obras do gênio humano e da ciência divina às profanações da ignorância.

Terminou no dia quinze de novembro, o décimo sétimo das calendas de dezembro, o último mês do ano sagrado.

ELIPHAS LEVI

Paris, 1860.

 Notas

Copiado para uso exclusivo e pessoal do Sr. Barão de Spedalieri, em outubro e novembro de 1861.

[1] Eliphas Levi aqui comente um erro estranho a alguém tão letrado em cabala e diz que o shem do inicio do shem há mephorash significa esquema (schem).

[2] Foram usados os versículos originais dos salmos que compõe os nomes dos 72 nomes divinos em cada um dos talismãs, o significado e uso de cada um dos 36 talismas esta no apêndice no final do livro.

[3] Eliphas levi escreve este nome como Chalamiah

[4] Todos os amuletos devem ser feitos dupla face, e são para serem usados no pescoço, são talismãs e não sigilos evocatórios.

[5] Eliphas levi grafa este nome de maneira errada como:

[6] EZALEL segundo Levi

[7] HACKAMIAH segundo Levi

[8] LOVIAH segundo levi

[9] LEVIVIAH segundo Levi

[10] JEJAHEL segundo Levi

[11] HAHUIAH segundo Levi

[12] NITHAIAH segundo Levi

[13] REJAJEL segundo Levi

[14] JERATHEL segundo Levi

[15] VASARIAH segundo Levi

[16] JEHUJAH segundo Levi

[17] JEJAZEL segundo Levi

[18] HAHAEL segundo Levi

[19] MICHAEL segundo Levi

[20] VAVALIAH segundo Levi

[21] NGARIEL segundo Levi

[22] JELAIAH segundo Levi

[23] AZALIAH segundo Levi

[24] SEATHIAH segundo Levi

[25] MEHIEL segundo Levi

[26] IMAMIAH segundo Levi

[27] Em francês falava-se sobre multiplicação, mas no desenho vemos uma adição.

[28] Não encontrei o significado dessa palavra


Robson Belli, é tarólogo, praticante das artes ocultas com larga experiência em magia enochiana e salomônica, colaborador fixo do projeto Morte Súbita, cohost do Bate-Papo Mayhem e autor de diversos livros sobre ocultismo prático.

As Chaves Maiores e as Claviculas de Salomão (pdf)

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/as-chaves-maiores-e-as-claviculas-de-salomao/

Individualização e Verdadeira Vontade

Tradução:Mago implacavel

Revisão: (não) Maga patalógica

Na seção anterior deste ensaio, foi visto como a mente inibe a expressão plena da Vontade. O “fator infinito e desconhecido” é a “Vontade subconsciente”, e, portanto, se podemos eliminar os complexos de pensamento que impedem que essa Vontade se manifeste, conheceremos nossa Vontade. Este processo pelo qual conhecemos e fazemos a nossa Vontade é chamado em alguns lugares “A Grande Obra”. Crowley explica a Grande Obra de conhecer a verdadeira Vontade, de forma concisa quando escreve,

“Não devemos nos considerar como seres básicos, sem cuja esfera é Luz ou” Deus “. Nossas mentes e corpos são véus da Luz interior. O não iniciado é uma “Estrela Negra”, e a Grande Obra para ele é fazer seus véus transparentes “purificando” eles. Esta “purificação” é realmente “simplificação”; não é que o véu esteja sujo, mas que a complexidade de suas dobras torna opaco. O Grande Trabalho consiste, portanto, principalmente na solução de complexos. Tudo em si é perfeito, mas quando as coisas estão confusas, elas se tornam “malvadas”.¹

Este processo da Grande Obra que “consiste principalmente na solução de complexos” também é coincidente com uma frase Crowley freqüentemente usada: Conhecimento e Conversação do Santo Anjo Guardião. Ele afirma essa identidade o mais claramente possível quando escreve: “A Grande Obra é a realização do Conhecimento e Conversação do SAG.”

O processo pelo qual conhecemos e fazemos nossa Vontade é a solução de complexos que inibem o fluxo livre e natural da Vontade. A Grande Obra é simplesmente uma remoção das inibições do eu consciente para permitir que o Eu verdadeiro, que contenha elementos conscientes e subconscientes, reine livremente para fazer o ele Quer. A teoria é que, se só pudermos “limpar as portas da percepção” (como William Blake diz), teremos permissão para manifestar efetivamente a nossa Vontade pura. Crowley escreve: “Nosso próprio Ser silencioso, indefeso e sem palavras, escondido dentro de nós, surgirá, se tivermos arte para soltá-lo para a Luz, avançar rapidamente com seu grito de Batalha, a Palavra de nossas Verdadeiras Vontades. Esta é a Tarefa do Adepto, para ter o Conhecimento e a Conversação de Seu Santo Anjo Guardião, para tomar consciência de sua natureza e seu propósito, cumprindo-os “.³ Aqui Crowley não só faz o Conhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda análogo a tornando-se consciente e cumprindo a natureza e o propósito de alguém, mas ele admite que tudo o que precisamos é de “ofício para soltar” esse “Eu Mágico” e então, naturalmente, a “Palavra de nossas Verdades Vontades” será “brotar luxuriante pra frente”.

As várias formas de Horus encontradas no Liber AL vel Legis (Ra-Hoor-Khuit, Hoor-paar-kraat, Heru-pa-kraath, Heru-ra-ha, etc.) 4 representam uma expressão simbólica do “Silencioso” ou “True Self” e, portanto, também um símbolo do Sagrado Anjo da Guarda. Horus é, portanto, uma expressão arquetípica do Eu a que todos aspiram a se unir ou se identificar com “A Grande Obra”. Isto é falado em Liber AL quando Hórus, o falante do terceiro capítulo, diz: “Fazei a Mim a vossa reverência! vinde vós a mim através da tribulação do ordálio que é êxtase. “.5 Crowley explica:

Vimos que Ra-Hoor-Khuit é, em um sentido, o Eu Silencioso em um homem, um Nome de seu Khabs, não tão impessoal como Hadit, mas a primeira e menos falsa formulação do Ego. Devemos venerar este eu em nós, então, não para suprimir e subordiná-lo. Nem nós devemos evadir, mas para chegar a ele. Isso é feito “através da tribulação da provação”. Esta tribulação é a experiência no processo chamado Psicanálise, agora que a ciência oficial adotou – na medida em que a inteligência inferior permite – os métodos do magus. Mas a “provação” é “êxtase”; a solução de cada complexo por “tribulação” … é o espasmo da alegria, que é o acompanhamento fisiológico e psicológico de qualquer alívio da tensão e congestionamento “.

Crowley identifica Horus como uma expressão simbólica do Eu cuja Vontade não deve ser suprimida, subordinada ou evadida. O mais surpreendente das declarações de Crowley é que ele afirma que a “tribulação da provação” da Grande Obra é coincidente com a Psicanálise, uma conexão direta novamente entre a psicologia e Thelema. Com isso, podemos ver que o processo da psicanálise é análogo ao “Grande Trabalho” e ao “Conhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda”: é uma realização do verdadeiro Eu.

Carl Jung considerou esse mesmo processo de “individuação”. Ele define a individuação como:

“Tornando-se um “in-divíduo”, e na medida em que a “individualidade” abrange a nossa singularidade, última e incomparável unicidade, também implica tornar-se a si próprio. Podemos, portanto, traduzir a individuação como “chegando à individualidade” ou “auto-realização …” Os egotistas são chamados de “egoísta”, mas isso, naturalmente, não tem nada a ver com o conceito de “eu”, como estou usando aqui … Individuação, portanto, só pode significar um processo de desenvolvimento psicológico que satisfaça as qualidades individuais dadas; em outras palavras, é um processo pelo qual um homem se torna o ser definitivo e único, ele é de fato. Ao fazê-lo, ele não se torna “egoísta” no sentido ordinário da palavra, mas está cumprindo apenas a peculiaridade de sua natureza, e isso … é muito diferente do egoísmo ou do individualismo.

Jung aqui afirma que a individuação é uma “auto-realização”, mas garante a qualificação dessa afirmação dizendo que isso não significa um fortalecimento do ego essencial. Este eu que se realiza está além da noção egocêntrica normal de “eu”. Em vez disso, este eu contém tanto o consciente (onde o ego reside) quanto os fatores inconscientes. Jung explica que “o consciente e o inconsciente não são necessariamente opostos um ao outro, mas complementam outro para formar uma totalidade, que é o eu” .8 Este é o Eu que vem a “através da tribulação da provação”. Horus é um símbolo desse Eu em Liber AL vel Legis, e em outros lugares o Sagrado Anjo da Guarda é mencionado como esse símbolo. Crowley escreve: “O anjo é o verdadeiro eu de seu eu subconsciente, a vida escondida de sua vida física” e “seu anjo é a unidade que expressa a soma dos elementos desse eu” 9, um paralelo quase exato de A definição de Jung do “eu”.10

Conforme afirmado anteriormente por Crowley, este processo de individuação ou “A Grande Obra … consiste principalmente na solução de complexos”, e é simplesmente tornar-se consciente e satisfazer a própria natureza. Através desta grande obra de individuação, alguém se identifica com este eu. Em Thelema, faz-se tal sob a figura de Hórus.11 Um vem a saber que “ele [ou ela] é Harpocrates, o Menino Hórus … isto é, ele está em Unidade com sua própria Natureza Secreta”. 12

Pode-se até mesmo afirmar que a Grande Obra é um processo natural da psique humana. Carl Jung diz: “a força motriz [do inconsciente], na medida em que é possível para nós entendê-lo, parece ser, na essência, apenas um impulso para a auto-realização” .13 Nesse sentido, todos os humanos estão participando de o drama da “Grande Obra”, cada um esforçando-se, conscientemente ou inconscientemente, para essa união de naturezas subconscientes e conscientes no Eu, para que eles possam realizar suas Forças de forma mais completa.

1 Crowley, Aleister. The Law is for All, I:8.

2 Crowley, Aleister. Liber Aleph, “De Gradibus ad Magnum Opus.”

3 Crowley, Aleister. The Law is for All, I:7.

4 É interessante notar que Crowley diz em seu comentário do Liber Al, “O Louco tamém é o Grande Louco,Bacchus Diphues, Harpocrates, the Eu Anão, o SAG, enfim,” essencialmente equiparando todos os símbolos. Depois, ele escreve em seu comentário do Liber Al II:8, “Harpocrates é… a Alma Anã, o Self Secreto de cada homem, a serpente com a cabeça de Leão.” Se isso for verdade, e de acordo com o Liber Al i:8 “Hoor-paar-kraat” (um nome para Harpócrates) é dado como a fonte do Liber AL vel Legis como o próprio livro proclama, então Liber AL foi de fato a manifestação do inconsciente de Crowley. O fato é que o inconsciente contém “tanto o conhecimento quanto o poder” maior que a mente consciente e, portanto, é bem possível que o Liver Al vel legis seja uma manifestação do mesmo.

5 Crowley, Aleister. Liber AL vel Legis, III:62.

6 Crowley, Aleister. The Law is for All, III:62.

7 Jung, Carl. “The Function of the Unconscious” from The Collected Works of C.G. Jung vol.7, par.266-267.

8 Jung, Carl. “The Function of the Unconscious” from The Collected Works of C.G. Jung vol.7, par.274.

9 Crowley, Aleister. “Liber Samekh,” Ponto II, Seção G.

10 Por estas considerações será visto que o SAG é mais acertadamente não um ente externo como algum grupos thelemicos dizem. Isto é dito provavelemente devido a uma declaração feita por Crowley no Magick Without Tears, um tratado feito pra iniciantes totais. Temos que entender que o subconsciente pode e aparece um autonomo para a mente consciente. Portanto, alguém pode dizer que o Anjo está “fora” do individuo pois parece que ele funciona autonomamente considerando o ponto de vita do ego, mas em ultima instancia , chega-se a ver que o Anjo é, de fato, o somatório de ambas as naturezas subconscientes e conscientes que compõem o Eu.

11 Numa nota de rodapé do capitulo 90 do Confessions of Aleister Crowley, Symonds escreve sobre uma declaração que Crowley fez para um discípulo Frank Bennett: “Quero explicar-lhe plenamente, e em poucas palavras, o que significa iniciação, e o que se entende quando conversamos sobre o Eu Real e o que o Eu Real é. “E então, Crowley disse a ele que era tudo uma questão de conseguir que a mente subconsciente funcionasse; e quando essa mente subconsciente tem permissão a dominação total da mente, sem interferência da mente consciente, então a iluminação poderia começar; Para a mente subconsciente era nosso Santo Anjo da Guarda. Crowley ilustrou o ponto assim: tudo é experimentado na mente subconsciente, e ele (o subconsciente) está constantemente exortando sua vontade na consciência, e quando os desejos internos são restritos ou suprimidos, o mal de todos os tipos é o resultado “. Embora isso seja diretamente ade acrodo com nossas conclusões, incluí-lo apenas em uma nota de rodapé porque é uma conta de terceiros.

12 Crowley, Aleister. Liber Aleph, “De Gramine Sanctissimo Arabico.”

13 Jung, Carl. “The Function of the Unconscious” from The Collected Works of C.G. Jung vol.7, par.291.

Link texto original: https://iao131.com/2013/03/02/psychology-of-liber-al-pt-5-individuation-and-the-true-will/

#Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/individualiza%C3%A7%C3%A3o-e-verdadeira-vontade

Manifesto Contra o Trabalho

1. O domínio do trabalho morto 

Um defunto domina a sociedade – o defunto do trabalho. Todos os poderes ao redor do globo uniram-se para a defesa deste domínio: o Papa e o Banco Mundial, Tony Blair e Jörg Haider, sindicatos e empresários, ecologistas alemães e socialistas franceses. Todos eles só conhecem um lema: trabalho, trabalho, trabalho !

Os que ainda não desaprenderam a pensar reconhecem facilmente que esta postura é infundada. Pois a sociedade dominada pelo trabalho não passa por uma simples crise passageira, mas alcançou seu limite absoluto. A produção de riqueza desvincula-se cada vez mais, na seqüência da revolução microeletrônica, do uso de força de trabalho humano – numa escala que há poucas décadas só poderia ser imaginada como ficção científica. Ninguém poderá afirmar seriamente que este processo pode ser freado ou, até mesmo, invertido. A venda da mercadoria força de trabalho será no século XXI tão promissora quanto a venda de carruagens de correio no século XX. Quem, nesta sociedade, não consegue vender sua força de trabalho é considerado “supérfluo” e está sendo jogado no aterro sanitário social.

Quem não trabalha, não deve comer ! Este fundamento cínico vale ainda hoje – e agora mais do que nunca, porque tornou-se desesperançosamente obsoleto. É um absurdo: a sociedade nunca foi tanto sociedade do trabalho como nesta época em que o trabalho se faz supérfluo. Exatamente na sua fase terminal, o trabalho revela, claramente, seu poder totalitário, que não tolera outro deus ao seu lado. Até nos poros do cotidiano e nos íntimos da psique, o trabalho determina o pensar e o agir. Não se poupa nenhum esforço para prorrogar artificialmente a vida do deus-trabalho. O grito paranóico por “emprego” justifica até mesmo acelerar a destruição dos fundamentos naturais, já há muito tempo reconhecida. Os últimos impedimentos para a comercialização generalizada de todas as relações sociais podem ser eliminados sem crítica, quando é colocada em perspectiva a criação de alguns poucos e miseráveis “postos de trabalho”. E a frase, seria melhor ter “qualquer” trabalho do que nenhum, tornou-se a confissão de fé exigida de modo geral.

Quanto mais fica claro que a sociedade do trabalho chegou a seu fim definitivo, tanto mais violentamente este fim é reprimido na consciência da opinião pública. Os métodos desta repressão psicológica, mesmo sendo muito diferentes, têm um denominador comum: o fato mundial de o trabalho ter demonstrado seu fim em si mesmo irracional, que tornou-se obsoleto. Este fato vem redefinindo-se com obstinação em um sistema maníaco de fracasso pessoal ou coletivo, tanto de indivíduos quanto de empresas ou “localizações”. A barreira objetiva ao trabalho deve aparecer como um problema subjetivo daqueles que caíram fora do sistema.

Para uns, o desemprego é produto de exigências exageradas, falta de disponibilidade, aplicação e flexibilidade dos desempregados, enquanto outros acusam os “seus” executivos e políticos de incapacidade, corrupção, ganância ou traição do interesse local. Mas enfim, todos concordam com o ex-presidente alemão Roman Herzog: precisa-se de um “arranque”, como se o problema fosse semelhante ao de motivação de um time de futebol ou de uma seita política. Todos têm, “de alguma maneira”, que puxar a carroça, mesmo se ela não existir, e colocar toda energia para arregaçar as mangas, mesmo que não exista nada a ser feito ou somente algo sem sentido. As entrelinhas dessa mensagem infeliz deixam muito claro: quem não encontra a misericórdia do deus-trabalho tem a sua própria culpa e pode ser excluído, ou até mesmo descartado, com boa consciência.

A mesma lei do sacrifício humano vale em escala mundial. Um país após o outro é triturado sob as rodas do totalitarismo econômico, o que comprova sempre a mesma coisa: não atendeu às assim chamadas leis do mercado. Quem não se “adapta” incondicionalmente ao percurso cego da concorrência total, não levando em consideração qualquer dano, está sendo penalizado pela lógica da rentabilidade. Os portadores de esperança de hoje são o ferro-velho econômico de amanhã. Os psicóticos econômicos dominantes não se deixam perturbar em suas explicações bizarras do mundo. Aproximadamente três quartos da população mundial já foram declarados como lixo social. Uma “localização” após a outra cai no abismo. Depois dos desastrosos países “em desenvolvimento” do Hemisfério Sul e do departamento do capitalismo de Estado da sociedade mundial de trabalho no Leste, também os discípulos exemplares da economia de mercado no Sudoeste Asiático desapareceram no orco do colapso. Também na Europa se espalha há muito tempo o pânico social. Os cavaleiros da triste figura da política e do gerenciamento continuam em sua cruzada ainda mais ferrenhamente em nome do deus-trabalho.

“Cada um deve poder viver de seu trabalho: é o princípio posto. Assim, o poder-viver é determinado pelo trabalho e não há nenhuma lei onde esta condição não foi realizada.”
(Johann Gottlieb Fichte – Fundamentos do Direito Natural segundo os Princípios da Doutrina-da-Ciência, 1797)


2. A Sociedade Neoliberal de Apartheid

Uma sociedade centralizada na abstrata irracionalidade do trabalho desenvolve, obrigatoriamente, a tendência ao apartheid social quando o êxito da venda da mercadoria força de trabalho deixa de ser a regra e passa a exceção. Todas as facções do campo de trabalho, trespassando todos os partidos, já aceitaram dissimuladamente essa lógica e ainda a reforçam. Eles não brigam mais sobre se cada vez mais pessoas são empurradas para o abismo e excluídas da participação social, mas apenas sobre como impor a seleção.

A facção neoliberal deixa, confiantemente, o negócio sujo e social-darwinista na “mão invisível” do mercado. Neste sentido, estão sendo desmontadas as redes sócio-estatais para marginalizar, de preferência sem ruído, todos aqueles que não conseguem se manter na concorrência. Só estão sendo reconhecidos como seres humanos os que pertencem à irmandade dos ganhadores globais com seus sorrisos cínicos. Todos os recursos do planeta estão sendo usurpados sem hesitação para a máquina capitalista do fim em si mesmo. Se esses recursos não são mobilizados de uma maneira rentável eles ficam em “pousio”, mesmo quando, ao lado, grandes populações morrem de fome.

O incômodo do “lixo humano” fica sob a competência da polícia, das seitas religiosas de salvação, da máfia e dos sopões para pobres. Nos Estados Unidos e na maioria dos países da Europa Central, já existem mais pessoas na prisão do que na média das ditaduras militares. Na América Latina, estão sendo assassinadas diariamente mais crianças de rua e outros pobres pelo esquadrão da morte da economia de mercado do que oposicionistas nos tempos da pior repressão política. Aos excluídos só resta uma função social: a de ser um exemplo aterrorizante. O destino deles deve incentivar a todos os que ainda fazem parte da corrida de “peregrinação para a Jerusalém” da sociedade do trabalho na luta pelos últimos lugares. Este exemplo deve ainda incitar às massas de perdedores a manterem-se em movimento apressado, para que não tenham a idéia de se revoltarem contra as vergonhosas imposições.

Mas, mesmo pagando o preço da auto-resignação, o admirável mundo novo da economia de mercado totalitária deixou para a maioria das pessoas apenas um lugar, como homens submersos numa economia submersa. Submissos aos ganhadores bem remunerados da globalização, eles têm de ganhar sua vida como trabalhadores ultra baratos e escravos democratas na “sociedade de prestação de serviços”. Os novos “pobres que trabalham” têm o direito de engraxar o sapato dos businessmen da sociedade do trabalho ou de vendê-los hambúrguer contaminado, ou então, de vigiar o seu shopping center. Quem deixou seu cérebro na chapeleira da entrada até pode sonhar com uma ascensão ao posto de milionário prestador de serviços.

Nos países anglo-saxônicos, este mundo de horror já é realidade para milhões, no Terceiro Mundo e na Europa do Leste, nem se fala; e o continente do Euro mostra-se decidido a superar, rapidamente, esse atraso. As gazetas econômicas não fazem mais nenhum segredo sobre como imaginam o futuro ideal do trabalho: as crianças do Terceiro Mundo, que limpam os pára-brisas dos automóveis nos cruzamentos poluídos, são o modelo brilhante da “iniciativa privada”, que deveria servir de exemplo para os desempregados do deserto europeu da prestação de serviço. “O modelo para o futuro é o indivíduo como empresário de sua força de trabalho e de sua própria previdência social”, escreve a “Comissão para o Futuro dos Estados Livres da Baviera e da Saxônia”. E ainda: “a demanda por serviços pessoais simples é tanto maior quanto menos custam, isto é, quanto menos ganham os prestadores de serviço”. Num mundo em que ainda existisse auto-estima humana, uma frase deste tipo deveria provocar uma revolta social. Porém, num mundo de animais de trabalho domesticados, ela apenas provoca um resignado balançar de cabeça.

“O gatuno destruiu o trabalho e, apesar disso, tirou o salário de um trabalhador; agora, deve trabalhar sem salário, mas, mesmo no cárcere, deve pressentir a benção do êxito e do ganho(…) Ele deve ser educado para o trabalho moral enquanto um ato pessoal livre, através do trabalho forçado.”
(Wilhelm Heinrich Riehl – O trabalho alemão, 1861)

3. O Apartheid do Neo-Estado Social

As facções antineoliberais do campo de trabalho social podem não gostar muito desta perspectiva, mas exatamente para elas está definitivamente confirmado que um ser humano sem trabalho não é um ser humano. Fixados nostalgicamente no período pós-guerra fordista de trabalho em massa, eles não pensam em outra coisa a não ser em revitalizar os tempos passados da sociedade do trabalho. O Estado deveria endireitar o que o mercado não consegue mais. A aparente normalidade da sociedade do trabalho deve ser simulada através de “programas de ocupação”, trabalhos comunitários obrigatórios para pessoas que recebem auxílio social, subvenções de localizações, endividamento estatal e outras medidas públicas. Este estatismo de trabalho, agora requentado e hesitante, não tem a menor chance, mas continua como o ponto de referência ideológico para amplas camadas populacionais ameaçadas pela queda. Exatamente nesta total ausência de esperança, a práxis que resulta disso é tudo menos emancipatória.

A metamorfose ideológica do “trabalho escasso” em primeiro direito da cidadania exclui necessariamente todos os não-cidadãos. A lógica de seleção social não está sendo posta em questão, mas só redefinida de uma outra maneira: a luta pela sobrevivência individual deve ser amenizada por critérios étnico-nacionalistas. “Roda-Viva do trabalho nacional só para nativos” clama a alma popular que, no seu amor perverso pelo trabalho, encontra mais uma vez a comunidade nacional. O populismo de direita não esconde essa conclusão necessária. Na sociedade de concorrência, sua crítica leva apenas à limpeza étnica das áreas que encolhem em termos de riqueza capitalista.
Em oposição a isso, o nacionalismo moderado de cunho social-democrata ou verde permite aos antigos imigrantes de trabalho, quando estes se comportam de maneira adequada e inofensiva, tornarem-se cidadãos locais. Mas, a acentuada e reforçada rejeição de refugiados do Leste e do Sul pode, assim, ser legitimada de uma forma mais populista e silenciosa – o que fica obviamente sempre escondido por trás de um palavrório de humanidade e civilidade. A caça aos “ilegais”, que pretendem postos de trabalho nacionais, não deve deixar, se possível, nenhuma mancha indigna de sangue e de fogo em solo europeu. Para isso existe a polícia, a fiscalização militar de fronteira e os países tampões da “Schengenlândia”, que resolvem tudo conforme o direito e a lei e, de preferência, longe das câmeras de televisão.

A simulação estatal de trabalho é, por princípio, violenta e repressiva. Ela significa a manutenção da vontade de domínio incondicional do deus-trabalho, com todos os meios disponíveis, mesmo após sua morte. Este fanatismo burocrático de trabalho não deixa em paz nem aos que caíram fora – os sem-trabalho e sem-chances – nem todos aqueles que com boas razões rejeitam o trabalho, nos seus já horrivelmente apertados nichos do demolido Estado Social. Eles estão sendo arrastados para os holofotes do interrogatório estatal por assistentes sociais e funcionários da distribuição do trabalho e sendo obrigados a prestar reverência pública perante o trono do defunto-rei.

Se na justiça normalmente regera o fundamento “em dúvida, a favor do réu”, agora isso se inverteu. Se os que caíram fora futuramente não quiserem viver de ar ou de caridade cristã, precisam aceitar qualquer trabalho sujo ou de escravo e qualquer programa de “ocupação”, mesmo sendo o mais absurdo, para demonstrar a sua disposição incondicional para com o trabalho. Se aquilo que eles devem fazer tem ou não algum sentido, ou é o maior absurdo, de modo algum interessa. O que importa é que eles fiquem em movimento permanente para que nunca esqueçam a lei que sua existência tem que realizar.

Outrora, os homens trabalhavam para ganhar dinheiro. Hoje, o Estado não poupa gastos e custos para que centenas de milhares de pessoas simulem trabalhos em estranhas “oficinas de treinamento” ou “empresas de ocupação”, para que fiquem em forma para “postos de trabalho regulares” que nunca ocuparão. Inventam-se cada vez mais novas e mais estúpidas “medidas” só para manter a aparência da Roda-Viva do trabalho social que-gira-em-falso funcionando ad infinitum. Quanto menos sentido tem a coerção do trabalho, mais brutalmente insere-se nos cérebros humanos que não haverá mais nenhum pãozinho de graça.

Neste sentido, o “New Labour” e todos os seus imitadores demonstram-se, em todo o mundo, compatíveis inteiramente com o modelo neoliberal de seleção social. Pela simulação de “ocupação” e pelo fingimento de um futuro positivo da sociedade do trabalho, cria-se a legitimação moral para tratar de uma maneira mais dura os desempregados e os recusadores de trabalho. Ao mesmo tempo, a coerção estatal de trabalho, as subvenções salariais e os trabalhos assim chamados “cívicos e honoríficos” reduzem cada vez mais os custos de trabalho.

Desta maneira, incentiva-se maciçamente o setor canceroso de salários baixos e trabalhos miseráveis.

A assim chamada política ativa do trabalho, segundo o modelo do “New Labour”, não poupa nem mesmo doentes crônicos e mães solteiras com crianças pequenas. Quem recebe auxílio estatal só se livra do estrangulamento institucional quando pendura a plaquinha prateada no dedão do pé. O único sentido desta impertinência está em evitar-se o máximo possível que pessoas façam qualquer solicitação ao Estado e, ao mesmo tempo, demonstrar aos que caíram fora que, diante de tais instrumentos terríveis de tortura, qualquer trabalho miserável parece agradável.

Oficialmente, o Estado paternalista só chicoteia por amor, com intenção de educar severamente os seus filhos que foram denunciados como “preguiçosos”, em nome de seu próprio progresso. Na realidade, essas medidas “pedagógicas” só têm como objetivo afastar os fregueses de sua porta. Qual seria o sentido de obrigar os desempregados a trabalharem na colheita de aspargos? O sentido é afastar os trabalhadores sazonais poloneses que só aceitam os salários de fome dadas as relações cambiais, que os transformam em um pagamento aceitável. Mas, aos trabalhadores forçados essa medida é inútil e tampouco abre qualquer “perspectiva” profissional. E mesmo para os produtores de aspargos, os acadêmicos mal-humorados e os trabalhadores qualificados que lhes são enviados só significam um estorvo. Mas, se após a jornada de doze horas nos campos alemães, de repente aparecer como uma luz mais agradável a idéia maluca de ter, por desespero, um carrinho de cachorro-quente, então a “ajuda para a flexibilização” demonstrou seu efeito neobritânico desejável.

“Qualquer emprego é melhor do que nenhum.”
(Bill Clinton, 1998)

“Nenhum emprego é tão duro como nenhum.”
(Lema de uma exposição de cartazes da Divisão de Coordenação Federal da Iniciativa dos Desempregados da Alemanha, 1998)

“Trabalho civil deve ser gratificado e não remunerado… mas quem atua no trabalho civil também perde a mácula do desemprego e da recepção de auxílio social.”
(Ulrich Beck – A alma da democracia, 1997)

4. O agravamento e o desmentido da religião do trabalho

O novo fanatismo do trabalho, com o qual esta sociedade reage perante a morte de seu deus, é a continuação lógica e a etapa final de uma longa história. Desde os dias da Reforma, todas as forças basilares da modernização ocidental pregaram a santidade do trabalho. Principalmente durante os últimos 150 anos, todas as teorias sociais e correntes políticas estavam possuídas, por assim dizer, pela idéia do trabalho. Socialistas e conservadores, democratas e fascistas combateram-se até a última gota de sangue, mas, apesar de toda a animosidade, sempre levaram, em conjunto, sacrifícios ao altar do deus-trabalho. “Afastai os ociosos”, dizia o Hino Internacional do Trabalho – e “o trabalho liberta”, diziam aterrorizantemente os portões de Auschwitz. As democracias pluralistas do pós-guerra juraram ainda mais a favor da ditadura eterna do trabalho. Mesmo a Constituição do Estado da Baviera, arquicatólico, ensina aos seus cidadãos partindo do sentido da tradição luterana: “o trabalho é a fonte do bem-estar do povo e está sob proteção especial do Estado”. No final do século XX, quase todas as diferenças ideológicas desapareceram. Sobrou o dogma impiedoso, segundo o qual, o trabalho é a determinação natural do homem.

Hoje, a própria realidade da sociedade do trabalho desmente este dogma. Os sacerdotes da religião do trabalho sempre pregaram que o homem, por sua suposta natureza, seria um “animal laborans“. Somente tornar-se-ia ser humano na medida em que submetesse, como Prometeu, a matéria natural à sua vontade, realizando-se através de seus produtos. Este mito de explorador do mundo e demiurgo que tem sua vocação desde sempre foi um escárnio em relação ao caráter do processo moderno de trabalho, embora na época dos capitalistas-inventores, do tipo Siemens ou Edison e seus empregados qualificados, tinha ainda um substrato real. Hoje, este gesto é totalmente absurdo.

Quem hoje ainda se pergunta pelo conteúdo, sentido ou fim de seu trabalho vira louco – ou um fator de perturbação do funcionamento do fim em si da máquina social. O “homo faber“, antigamente orgulhoso de seu trabalho e com seu jeito limitado levando a sério o que fazia, hoje é tão fora de moda quanto a máquina de escrever mecânica. A Roda tem que girar de qualquer jeito, e basta. Para a invenção de sentido são responsáveis os departamentos de publicidade e exércitos inteiros de animadores e psicólogas de empresa, consultores de imagem e traficantes de drogas. Onde se balbucia continuamente um blablablá sobre motivação e criatividade, disso nada sobrou, a não ser auto-engano. Por isso, contam hoje as habilidades de auto-sugestão, auto-representação e simulação de competência como as virtudes mais importantes de executivos e trabalhadoras especializadas, estrelas da mídia e contabilistas, professoras e guardas de estacionamento.

Também a afirmação de que o trabalho seria uma necessidade eterna, imposta ao homem pela natureza, tornou-se, na crise da sociedade do trabalho, ridícula. Há séculos está sendo rezado que o deus-trabalho precisaria ser adorado porque as necessidades não poderiam ser satisfeitas por si próprias, isto é, sem o suor da contribuição humana. E o fim de todo este empreendimento de trabalho seria a satisfação de necessidades. Se isto fosse verdade, a crítica ao trabalho teria tanto sentido quanto a crítica da lei da gravidade. Pois, como uma “lei natural” efetivamente real pode entrar em crise ou desaparecer? Os oradores do campo de trabalho social – da socialite engolidora de caviar, neoliberal e maníaca por eficiência até o sindicalista barriga-de-chope – entram, com a sua pseudo-natureza do trabalho, em dificuldade de argumentação. Afinal, como eles querem nos explicar que hoje três quartos da humanidade estejam afundando no estado de calamidade e miséria somente porque o sistema social de trabalho não precisa mais de seu trabalho?

Não é mais a maldição do velho testamento – “comerás teu pão com o suor da tua face” – que pesa sobre os que caíram fora, mas uma nova e implacável condenação: “tu não comerás porque o teu suor é supérfluo e invendível”. E será isto uma lei natural? Não é nada mais que o princípio social irracional que aparece como coerção natural porque destruiu, ao longo dos séculos, todas as outras formas de relação social ou as submeteu e se impôs como absoluto. É a “lei natural” de uma sociedade que se considera muito “racional”, mas que, em verdade, apenas segue a racionalidade funcional de seu deus-trabalho, a cujas “coerções objetivas” está disposta a sacrificar o último resto de humanidade.

“Trabalho está, por mais baixo e mamonístico que seja, sempre em relação com a natureza. Só o desejo de executar trabalho já conduz cada vez mais à verdade e às leis e prescrições da natureza, que são a verdade.”
(Thomas Carlyle – Trabalhar e não desesperar, 1843)

5. Trabalho é um princípio coercitivo social

Trabalho não é, de modo algum, idêntico ao fato de que os homens transformam a natureza e se relacionam através de suas atividades. Enquanto houver homens, eles construirão casas, produzirão vestimentas, alimentos, tanto quanto outras coisas, criarão filhos, escreverão livros, discutirão, farão hortas, música etc. Isto é banal e se entende por si mesmo. O que não é óbvio é que a atividade humana em si, o puro “gasto de força de trabalho”, sem levar em consideração qualquer conteúdo e independente das necessidades e da vontade dos envolvidos, torne-se um princípio abstrato, que domina as relações sociais.

Nas antigas sociedades agrárias existiam as mais diversas formas de domínio e de relações de dependência pessoal, mas nenhuma ditadura do abstractum trabalho. As atividades na transformação da natureza e na relação social não eram, de forma alguma, autodeterminadas, mas também não eram subordinadas a um “gasto de força de trabalho” abstrato: ao contrário, integradas num conjunto de complexo mecanismo de normas prescritivas religiosas, tradições sociais e culturais com compromissos mútuos. Cada atividade tinha o seu tempo particular e seu lugar particular; não existia uma forma de atividade abstrata e geral.

Somente o moderno sistema produtor de mercadorias criou, com seu fim em si mesmo da metamorfose permanente de energia humana em dinheiro, uma esfera particular, “dissociada” de todas as outras relações e abstraída de qualquer conteúdo, a esfera do assim chamado trabalho – uma esfera da atividade dependente incondicional, desconectada e robótica, separada do restante contexto social e obedecendo a uma abstrata racionalidade funcional de “economia empresarial”, para além das necessidades. Nesta esfera separada da vida, o tempo deixa de ser tempo vivido e vivenciado; torna-se simples matéria-prima que precisa ser otimizada: “tempo é dinheiro”. Cada segundo é calculado, cada ida ao banheiro torna-se um transtorno, cada conversa é um crime contra o fim autonomizado da produção. Onde se trabalha, somente pode ser gasto energia abstrata. A vida se realiza em outro lugar, ou não se realiza, porque o ritmo do tempo de trabalho reina sobre tudo. As crianças já estão sendo domadas pelo relógio para terem algum dia “capacidade de eficiência”. As férias também só servem para a reprodução da “força de trabalho”. E mesmo na hora da refeição, na festa e no amor o ponteiro dos segundos toca no fundo da cabeça.

Na esfera do trabalho não conta o que se faz, mas que se faça algo enquanto tal, pois o trabalho é justamente um fim em si mesmo, na medida em que é o suporte da valorização do capital-dinheiro – o aumento infinito de dinheiro por si só. Trabalho é a forma de atividade deste fim em si mesmo absurdo. Só por isso, e não por razões objetivas, todos os produtos são produzidos como mercadorias. Pois somente nesta forma eles representam o abstractum dinheiro, cujo conteúdo é o abstractum trabalho. Nisto consiste o mecanismo da Roda-Viva social autonomizada, no qual a humanidade moderna está presa.

E por isso, o conteúdo da produção é indiferente tanto quanto a utilização dos produtos e as conseqüências sociais e naturais. Se casas são construídas ou campos minados produzidos, se  livros são impressos, se tomates transgênicos são criados, se pessoas adoecem, se o ar está poluído ou se “apenas” o bom gosto é prejudicado – tudo isso não interessa. O que interessa, de qualquer modo, é que a mercadoria possa ser transformada em dinheiro e dinheiro em novo trabalho. Que a mercadoria exija um uso concreto, e que seja ele mesmo destrutivo, não interessa à racionalidade da economia empresarial, para ela o produto só é portador de trabalho pretérito, de “trabalho morto”.

A acumulação de “trabalho morto” como capital, representado na forma-dinheiro, é o único “sentido” que o sistema produtor de mercadorias conhece. “Trabalho morto”? Uma loucura metafísica! Sim, mas uma metafísica que se tornou realidade palpável, uma loucura “objetivada” que prende a sociedade com mão férrea. No eterno comprar e vender os homens não intercambiam enquanto seres sociais conscientes, mas apenas executam como autômatos sociais o fim em si mesmo pré-posto a eles.

“O trabalhador só se sente consigo mesmo fora do trabalho, enquanto que no trabalho se sente fora de si. Ele está em casa quando não trabalha, quando trabalha não está em casa. Seu trabalho, por isso, não é voluntário, mas constrangido, é trabalho forçado. Por isso, não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio de satisfazer necessidades exteriores a ele mesmo. A estranheza do trabalho revela sua forma pura no fato de que, desde que não exista nenhuma coerção física ou outra qualquer, foge-se dele como se fosse uma peste.”
(Karl Marx – Manuscritos Econômico-Filosóficos, 1844)

6. Trabalho e capital são os dois lados da mesma moeda

A esquerda política sempre adorou entusiasticamente o trabalho. Ela não só elevou o trabalho à essência do homem, mas também mistificou-o como pretenso contra-princípio do capital. O escândalo não era o trabalho, mas apenas a sua exploração pelo capital. Por isso, o programa de todos os “partidos de trabalhadores” foi sempre “libertar o trabalho” e não “libertar do trabalho”. A oposição social entre capital e trabalho é apenas uma oposição de interesses diferenciados (é verdade que de poderes muito diferenciados) internamente ao fim em si mesmo capitalista. A luta de classes era a forma de execução desses interesses antagônicos no seio do fundamento social comum do sistema produtor de mercadorias. Ela pertencia à dinâmica interna da valorização do capital. Se se tratava de luta por salários, por direitos, por condições de trabalho ou por postos de trabalho: o pressuposto cego continuava sempre sendo a Roda-Viva dominante com seus princípios irracionais.

Tanto do ponto de vista do trabalho quanto do capital, pouco importa o conteúdo qualitativo da produção. O que interessa é apenas a possibilidade de vender de forma otimizada a força de trabalho. Não se trata da determinação em conjunto sobre o sentido e o fim da própria atividade. Se houve algum dia a esperança de poder realizar uma tal autodeterminação da produção dentro das formas do sistema produtor de mercadorias, hoje as “forças de trabalho” já perderam, e há tempos, esta ilusão. Hoje interessa apenas o “posto de trabalho”, a “ocupação” – já esses conceitos comprovam o caráter de fim em si mesmo de todo esse empreendimento e a menoridade dos envolvidos.

O que, para que e com que conseqüências se produz, no fundo não interessa, nem ao vendedor da mercadoria força de trabalho, nem ao comprador. Os trabalhadores das usinas nucleares e das indústrias químicas protestam ainda mais veementemente quando se pretende desativar as suas bombas-relógio. E os “ocupados” da Volkswagen, Ford e Toyota são os defensores mais fanáticos do programa suicida automobilístico. Não só porque eles precisam obrigatoriamente se vender só para “poder” viver, mas porque eles se identificam realmente com a sua existência limitada. Para sociólogos, sindicalistas, sacerdotes e outros teólogos profissionais da “questão social”, este fato é a comprovação do valor ético-moral do trabalho. Trabalho forma a personalidade. É verdade. Isto é, a personalidade de zumbis da produção de mercadorias, que não conseguem mais imaginar a vida fora de sua Roda-Viva calorosamente amada, para a qual eles próprios se preparam diariamente.

Como tampouco era a classe trabalhadora, enquanto tal, a contradição antagônica ao capital e o sujeito da emancipação humana, tampouco também, por outro lado, os capitalistas e executivos dirigem a sociedade seguindo a maldade de uma vontade subjetiva de explorador. Nenhuma casta dominante viveu, em toda a história, uma vida tão miserável e não livre como os acossados executivos da Microsoft, Daimler-Chrysler ou Sony.

Qualquer senhorio medieval teria desprezado profundamente essas pessoas. Pois, enquanto ele podia se dedicar ao ócio e gastar mais ou menos em orgias a sua riqueza, as elites da sociedade do trabalho não podem se permitir nenhum intervalo. Mesmo fora da Roda-Viva, eles não sabem outra coisa para fazer consigo mesmos que infantilizarem-se. Ócio, gozo no reconhecimento, prazer sensual lhes são tão estranhos quanto o seu material humano. Eles mesmos são servos do deus-trabalho, meras elites funcionais do fim em si mesmo social irracional.
O deus dominante sabe impor sua vontade sem sujeito através da “coerção silenciosa” da concorrência, ao qual precisam se curvar também os poderosos, justamente mais ainda quando são os executivos de centenas de fábricas e transferem somas milionárias pelo globo. Se eles não fizerem isso, são colocados de lado do mesmo modo brutal como as “forças de trabalho” supérfluas. Mas é justamente sua menoridade que faz com que os funcionários do capital sejam tão incomensuravelmente perigosos, e não a sua vontade subjetiva de exploração. Eles têm menos direito de perguntar pelo sentido e pelas conseqüências de suas atividades infatigáveis, sentimentos e considerações não podem permitir a si mesmos. Por isso, eles falam de realismo quando devastam o mundo, fazem as cidades cada vez mais feias e deixam os homens empobrecerem no meio da riqueza.

“O trabalho tem cada vez mais a boa consciência ao seu lado: atualmente a inclinação para a alegria chama-se ‘necessidade de recreação’ e começa a ter vergonha de si mesma. ‘Deve-se fazer isto pela saúde’ – assim se diz quando se é surpreendido num passeio pelo campo. Pois logo poder-se-á chegar ao ponto em que a gente não mais ceda a uma inclinação para a vita contemplativa (isto é, a um passeio com pensamentos e amigos) sem má consciência e desprezo de si.”
(Friedrich Nietzsche – Ócio e Ociosidade, 1882)

7. Trabalho é domínio patriarcal

Mesmo que a lógica do trabalho e da sua metamorfose em matéria-dinheiro insista, nem todas as esferas sociais e atividades necessárias deixam-se embutir sob pressão na esfera do tempo abstrato. Por isso, surgiu junto com a esfera “separada” do trabalho, de certa forma como seu avesso, também a esfera privada doméstica, da família e da intimidade.

Nesta esfera definida como “feminina” restam as numerosas e repetidas atividades da vida cotidiana que não podem ser, a não ser excepcionalmente, transformadas em dinheiro: da faxina à cozinha, passando pela educação das crianças e a assistência aos idosos até o “trabalho de amor” da dona de casa típica ideal, que reconstrói seu marido trabalhador esgotado e que permite-lhe “encher seu tanque com sentimentos”. A esfera da intimidade, como avesso do trabalho, é declarada pela ideologia burguesa da família como o refúgio da “vida verdadeira” – mesmo se na realidade ela é, antes, um inferno da intimidade. Trata-se justamente não de uma esfera de vida melhor e verdadeira, mas de uma forma de existência tão reduzida quanto limitada, só com os sinais invertidos. Essa esfera é ela própria um produto do trabalho, cindida dele, mas só existente em relação a ele. Sem o espaço social cindido das formas de atividade “femininas”, a sociedade do trabalho nunca poderia ter funcionado. Este espaço é seu pressuposto silencioso e ao mesmo tempo seu resultado específico.

Isto vale também para os estereótipos sexuais que foram generalizados no decorrer do desenvolvimento do sistema produtor de mercadorias. Não é por acaso que se fortaleceu o preconceito em massa da imagem da mulher dirigida irracional e emocionalmente, natural e impulsiva, juntamente com a imagem do homem trabalhador, produtor de cultura, racional e autocontrolado. E também não é por acaso que o auto-adestramento do homem branco para as impertinências do trabalho e para sua administração humana estatal foi acompanhado por seculares e enfurecidas “caças às bruxas”. Simultaneamente a estas, inicia-se a apropriação do mundo pelas ciências naturais desde já contaminadas em suas raízes pelo fim em si mesmo da sociedade do trabalho e pelas atribuições de gênero. Dessa maneira, o homem branco, para poder “funcionar” sem atrito, expulsou de si mesmo todos os sentimentos e necessidades emocionais que, no reino do trabalho, só contam como fatores de perturbação.

No século XX, em especial nas democracias fordistas do pós-guerra, as mulheres foram cada vez mais integradas no sistema de trabalho, mas o resultado disso foi apenas a esquizo consciência feminina. Pois, de um lado, o avanço das mulheres na esfera de trabalho não poderia trazer nenhuma libertação, mas apenas o ajuste ao deus-trabalho, como entre os homens. De outro lado, continuou a existir ilesa a estrutura de “cisão”, e assim também as esferas das atividades ditas “femininas”, externas ao trabalho oficial. As mulheres foram submetidas, desta maneira, à carga dupla e, ao mesmo tempo, expostas a imperativos sociais totalmente antagônicos. Dentro da esfera do trabalho elas ficaram até hoje, na sua grande maioria, em posições mal pagas e subalternas.

Disso, nenhuma luta inerente ao sistema, por cotas femininas de carreira e oportunidades, pode mudar alguma coisa. A visão burguesa miserável de “unificação da profissão e família” deixa totalmente intocada a separação de esferas do sistema produtor de mercadorias, e com isso também a estrutura de “cisão” de gênero. Para a maioria das mulheres esta perspectiva não é vivenciável, para a minoria daquelas que “ganham melhor” ela torna-se uma posição pérfida de ganhador no apartheid social, na medida em que pode-se delegar o trabalho doméstico e a criação dos filhos a empregadas mal pagas (e “obviamente” femininas).

Na sociedade como um todo, a sagrada esfera burguesa da assim chamada vida privada e de família está, na verdade, sendo cada vez mais minada e degradada, porque a usurpação da sociedade do trabalho exige da pessoa inteira o sacrifício completo, a mobilidade e a adaptação temporal. O patriarcado não é abolido, mas passa por um asselvajamento na crise inconfessa da sociedade do trabalho. Na mesma medida em que o sistema produtor de mercadorias entra em colapso, as mulheres tornam-se responsáveis pela sobrevivência em todos os níveis, enquanto o mundo “masculino” prolonga simulativamente as categorias da sociedade do trabalho.

“A humanidade teve que se submeter a terríveis provações até que se formasse o eu, o caráter idêntico, determinado e viril do homem, e toda infância ainda é de certa forma a repetição disso”.
(Max Horkheimer & Theodor W. Adorno – Dialética do Esclarecimento )

8. Trabalho é a atividade da menoridade

Não só de fato, mas também conceitualmente, deixa-se demonstrar a identidade entre trabalho e menoridade. Até há poucos séculos, os homens tinham consciência do nexo entre trabalho e coerção social. Na maioria das línguas européias, o termo “trabalho” relaciona-se originalmente apenas com a atividade de uma pessoa juridicamente menor, do dependente, do servo ou do escravo. Nos países de língua germânica, a palavra “Arbeit” significa trabalho árduo de uma criança órfã e, por isso, serva. No latim, “laborare” significava algo como o “balançar do corpo sob uma carga pesada”, e em geral é usado para designar o sofrimento e o mau trato do escravo. As palavras românicas “travail”, “trabajo” etc. derivam-se do latim, “tripalium”, uma espécie de canga utilizada para a tortura e o castigo de escravos e outros não livres. A expressão idiomática alemã – “canga do trabalho” (”Joch der Arbeit”) – ainda faz lembrar este sentido.

“Trabalho”, por conseguinte, pela sua origem etimológica, não é sinônimo de uma atividade humana autodeterminada, mas aponta para um destino social infeliz. É a atividade daqueles que perderam sua liberdade. A ampliação do trabalho a todos os membros da sociedade é, por isso, nada mais que a generalização da dependência servil, e sua adoração moderna apenas a elevação quase religiosa deste estado.

Esta relação pôde ser reprimida com êxito e a impertinência social interiorizada, porque a generalização do trabalho foi acompanhada pela sua “objetivação” por meio do moderno sistema produtor de mercadorias: a maioria das pessoas não está mais sob o chicote de um senhor pessoal. A dependência social tornou-se uma relação abstrata do sistema e, justamente por isso, total. Ela pode ser sentida em todos os lugares, mas não é palpável. Quando cada um tornou-se servo, tornou-se ao mesmo tempo senhor, o seu próprio traficante de escravo e feitor. Todos obedecem ao deus invisível do sistema, o “Grande Irmão” da valorização do capital, que os subjugou sob o “tripalium”.

9. A história sangrenta da imposição do trabalho

A história da modernidade é a história da imposição do trabalho que deixou seu rastro amplo de devastação e horror em todo o planeta. Nunca a impertinência de gastar a maior parte de sua energia vital para um fim em si mesmo determinado externamente foi tão interiorizada como hoje. Vários séculos de violência aberta em grande escala foram precisos para torturar os homens a fim de fazê-los prestar serviço incondicional ao deus-trabalho.

O início, ao contrário do que se diz comumente, não foi a ampliação das relações de mercado com um conseqüente “crescimento do bem-estar”, mas sim a fome insaciável por dinheiro dos aparelhos do Estado absolutista, para financiar as primeiras máquinas militares modernas. Somente pelo interesse desses aparelhos, que pela primeira vez na história sufocaram toda uma sociedade burocraticamente, acelerou-se o desenvolvimento do capital mercantil e financeiro urbano, ultrapassando as formas comerciais tradicionais. Somente desta maneira, o dinheiro tornou-se o motivo social central e o abstractum trabalho uma exigência social central, sem levar em consideração as necessidades.

Não foi voluntariamente que a maioria dos homens passou a uma produção para mercados anônimos e assim a uma economia monetária generalizada, mas antes porque a fome absolutista por dinheiro monetarizou os impostos, aumentando-os simultaneamente de forma exorbitante. Não se precisava “ganhar dinheiro” para si mesmo, mas sim para o militarizado Estado de armas de fogo do início da modernidade, para sua logística e sua burocracia. Assim, e não de outra forma, nasceu o fim em si mesmo absurdo da valorização do capital e do trabalho.

Não demorou muito para que os impostos monetários e as taxas não fossem mais suficientes. Os burocratas absolutistas e os administradores do capital financeiro começaram a organizar coercitivamente os homens diretamente como material de uma máquina social para a transformação de trabalho em dinheiro. O modo tradicional de vida e de existência da população foi destruído; não porque esta população estava se “desenvolvendo” voluntariamente e de maneira autodeterminada, mas porque ela precisava servir como material humano para uma máquina de valorização já acionada. Os homens foram expulsos de suas roças à força de armas para dar lugar à criação de ovinos para as manufaturas de lã. Direitos antigos como a liberdade de caça, pesca e coleta de lenha nas florestas foram extintos. E quando as massas pauperizadas perambularam mendigando e roubando pelo território, foram, então, internadas em casas de trabalho e manufaturas para serem maltratadas com máquinas de tortura de trabalho e para adquirirem a pauladas uma consciência de escravos, a fim de se tornarem animais de trabalho obedientes.

Mas, também a transformação por etapas de seus vassalos em material do deus-trabalho fazedor de dinheiro não foi suficiente para os Estados absolutistas monstruosos. Eles ampliaram suas pretensões também a outros continentes. A colonização interna da Europa foi acompanhada pela colonização externa, primeiro nas duas Américas e em partes da África. Ali, os feitores do trabalho perderam definitivamente seus pudores. Em campanhas militares de roubo, destruição e extermínio sem precedentes, eles assaltaram os mundos recentemente “descobertos” – lá as vítimas nem eram consideradas seres humanos. Em sua aurora, o Poder europeu antropófago da sociedade do trabalho definiu as culturas estrangeiras subjugadas como “selvagens” e antropófagas.

Com isso, foi criada a lei de legitimação para eliminá-los ou escravizá-los aos milhões. A escravidão em sentido literal, que nas economias coloniais de plantation de matérias-primas ultrapassou em dimensões a escravidão antiga, faz parte dos crimes fundadores do sistema produtor de mercadorias. Ali foi utilizado em grande estilo, pela primeira vez, a “destruição através do trabalho”. Isso foi a segunda fundação da sociedade do trabalho. Com os “selvagens”, o homem branco, que já era marcado pelo autodisciplinamento, podia liberar o ódio de si próprio reprimido e seu complexo de inferioridade. Os “selvagens” pareciam-lhe com a “mulher”, isto é, semi-seres entre o homem e o animal, primitivos e naturais. Immanuel Kant supunha, com precisão lógica, que o babuíno saberia falar se quisesse, só não falava porque temia ser recrutado para o trabalho.

Este raciocínio grotesco joga uma luz reveladora sobre o Iluminismo. O ethos repressivo do trabalho da modernidade, que se baseou, em sua versão protestante original, na misericórdia divina e, a partir do Iluminismo, na lei natural, foi mascarado como “missão civilizatória”. Cultura, neste sentido, é submissão voluntária ao trabalho; e trabalho é masculino, branco e “ocidental”. O contrário, o não-humano, a natureza disforme e sem culura, é feminino, de cor e “exótico”, portanto, a ser colocado sob coerção. Numa palavra: o “universalismo” da sociedade do trabalho já é totalmente racista desde sua raiz. O abstractum trabalho universal só pode se autodefinir pelo distanciamento de tudo o que não está fundido a ele.

Não foram os pacíficos comerciantes das antigas rotas mercantis – de onde nasceu a burguesia moderna que, finalmente, herdou o absolutismo – que formaram o húmus social do “empresariado” moderno, mas sim os condottieri das ordas mercenárias do início da modernidade, os administradores do trabalho e das cadeias, os parceiros da coleta de impostos, os feitores de escravos e os agiotas. As revoluções burguesas do século XVIII e XIX não têm nenhuma relação com a emancipação; elas apenas reorganizaram as relações de poder internamente ao sistema de coerção criado, separaram as instituições da sociedade do trabalho dos interesses dinásticos ultrapassados e avançaram a sua objetivação e despersonalização. Foi a gloriosa Revolução Francesa que declarou com pathos específico o dever ao trabalho e introduziu, numa “lei de eliminação da mendicância”, novas prisões de trabalho.

Isto foi exatamente o contrário daquilo que pretendiam os movimentos sociais rebeldes, que cintilaram à margem das revoluções burguesas sem a elas se integrarem. Já muito antes, houve formas autônomas de resistência e rejeição com as quais a historiografia oficial da sociedade do trabalho e da modernização não soube como lidar.

Os produtores das antigas sociedades agrárias, que nunca concordaram completamente sem atritos com as relações de poder feudais, não queriam, de modo algum, conformar-se como “classe trabalhadora” de um sistema externo. Das guerras camponesas do século XV e XVI, até os levantes posteriormente denunciados como Ludditas, ou destruidores de máquinas, e a revolta dos tecelões da Silésia de 1844, ocorre uma seqüência de lutas encarniçadas de resistência contra o trabalho. A imposição da sociedade do trabalho e uma guerra civil – às vezes aberta, às vezes latente – no decorrer dos séculos, foram idênticas.

As antigas sociedades agrárias eram tudo menos paradisíacas. Mas a coerção monstruosa da invasão da sociedade do trabalho foi vivenciada, pela maioria, como piora e como “período de desespero”. Com efeito, apesar do estreitamento das relações, os homens ainda tinham algo a perder. O que, na falsa consciência do mundo moderno aparece inventado como uma calamitosa Idade Média de escuridão e praga foi, na realidade, o terror de sua própria história. Nas culturas pré e não-capitalistas, dentro e fora da Europa, o tempo de atividade de produção diária ou anual era muito mais reduzido do que hoje, para os “ocupados” modernos em fábricas e escritórios. Aquela produção estava longe de ser intensificada como na sociedade do trabalho, pois estava permeada por uma nítida cultura de ócio e de “lentidão” relativa. Excetuando-se catástrofes naturais, as necessidades básicas materiais estavam muito mais asseguradas do que em muitos períodos da modernização, e melhor também do que nas horríveis favelas do atual mundo em crise. Além disso, o poder não entrava tanto nos poros como nas sociedades do trabalho totalmente burocratizadas.

Por isso, a resistência contra o trabalho só poderia ser quebrada militarmente. Até hoje, os ideólogos da sociedade do trabalho dissimulam, afirmando que a cultura dos produtores pré-modernos não era “desenvolvida”, e que ela teria se afogado em seu próprio sangue. Os atuais esclarecidos democratas do trabalho responsabilizam por essas monstruosidades, preferencialmente, as “condições pré-democráticas” de um passado soterrado, com o qual eles não teriam nada a ver. Eles não querem admitir que a história terrorista originária da modernidade revela também a essência da atual sociedade do trabalho. A administração burocrática do trabalho e a integração estatal dos homens nas democracias industriais nunca puderam negar suas origens absolutistas e coloniais. Sob a forma de objetivação de uma relação impessoal do sistema, cresceu a administração repressiva dos homens em nome do deus-trabalho, penetrando em todas as esferas da vida.

Exatamente hoje, na agonia do trabalho, sente-se novamente a mão férrea burocrática, como nos primórdios da sociedade do trabalho. A administração do trabalho revela-se como o sistema de coerção que sempre fora, na medida em que organiza o apartheid social e procura eliminar, em vão, a crise através da democrática escravidão estatal. De modo semelhante, o absurdo colonial regressa na administração econômica coercitiva dos países seqüencialmente já arruinados da periferia através do Fundo Monetário Internacional. Após a morte de seu deus, a sociedade do trabalho relembra, em todos os aspectos, os métodos de seus crimes de fundação, que, mesmo assim, não a salvarão.

“O bárbaro é preguiçoso e diferencia-se do homem culto na medida em que fica mergulhado em seu embrutecimento, pois a formação prática consiste justamente no hábito e na necessidade de ocupação.”
(Georg W.F. Hegel – Princípios da Filosofia do Direito, 1821)

“No fundo agora se sente […], que um tal trabalho é a melhor polícia, pois detém qualquer um e sabe impedir fortemente o desenvolvimento da razão, da voluptuosidade e do desejo de independência. Pois ele faz despender extraordinariamente muita força de nervos, e despoja esta força da reflexão, da meditação, do sonhar, do inquietar-se, do amar e do odiar.”
(Friedrich Nietzsche – Os apologistas do trabalho, 1881)


10. O movimento dos trabalhadores era um movimento a favor do trabalho.

O movimento clássico dos trabalhadores, que viveu a sua ascensão somente muito tempo depois do declínio das antigas revoltas sociais, não lutou mais contra a impertinência do trabalho, mas desenvolveu uma verdadeira hiperidentificação com o aparentemente inevitável. Ele só visava a “direitos” e melhoramentos internos à sociedade do trabalho, cujas coerções já tinha amplamente interiorizado. Em vez de criticar radicalmente a transformação de energia em dinheiro como fim em si irracional, ele mesmo assumiu “o ponto de vista do trabalho” e compreendeu a valorização como um fato positivo e neutro.

Desta maneira, o movimento dos trabalhadores assumiu a herança do absolutismo, do protestantismo e do Iluminismo burguês. A infelicidade do trabalho tornou-se orgulho falso do trabalho, redefinindo como “direito humano”, o seu próprio adestramento enquanto material humano do deus moderno. Os hilotas domesticados do trabalho invertem ideologicamente, por assim dizer, a espada contra si, e desenvolvem um empenho missionário para, de um lado, reclamar o “direito ao trabalho” e de outro, reivindicar o “dever de trabalho para todos”. A burguesia não foi combatida como suporte funcional da sociedade do trabalho, mas ao contrário, insultada como parasitária exatamente em nome do trabalho. Todos os membros da sociedade, sem exceção, deveriam ser recrutados coercivamente nos “exércitos de trabalho”.

O próprio movimento dos trabalhadores tornou-se, assim, o marca-passo da sociedade do trabalho capitalista. Era ele que impunha os últimos degraus de objetivação contra os suportes funcionais burgueses limitados do século XIX e do início do século XX no processo de desenvolvimento do trabalho; de modo semelhante ao que a burguesia havia herdado do absolutismo um século antes. Isso só foi possível porque os partidos de trabalhadores e sindicatos relacionavam-se, no percurso de sua divinização do trabalho, também positivamente com o aparelho do Estado e com as instituições repressivas da administração do trabalho, que, afinal, eles não queriam suprimir, mas sim, numa certa “marcha através das instituições”, ocupar. Deste modo, assumiram, como anteriormente fizera a burguesia, as tradições burocráticas da administração de homens na sociedade do trabalho que vem desde o absolutismo.

Mas a ideologia de uma generalização social do trabalho exigia também uma nova relação política. Em lugar da divisão de estamentos com “direitos” políticos diferenciados (por exemplo, direito eleitoral censitário), na sociedade do trabalho apenas parcialmente imposta foi necessário que aparecesse a igualdade democrática geral do “Estado de trabalho” consumado. E os descompassos no percurso da máquina de valorização, a partir do momento em que esta determinasse toda a vida social, precisavam ser equilibrados por um “Estado Social”. Também para isso, o movimento dos trabalhadores forneceu o paradigma. Sob o nome de “social-democracia”, tornar-se-ia o maior movimento civil na história que, todavia, não poderia senão cavar sua própria cova. Pois na democracia tudo se torna negociável, menos as coerções da sociedade do trabalho que são axiomaticamente pressupostas. O que pode ser debatido são apenas as modalidades e os percursos destas coerções, sempre há apenas uma escolha entre Omo e Minerva em pó, entre peste e cólera, entre burrice e descaramento, entre Kohl e Schröder.

A democracia da sociedade do trabalho é o sistema de dominação mais pérfido da história – é um sistema de auto-opressão. Por isso, esta democracia nunca organiza a livre autodeterminação dos membros da sociedade sobre os recursos coletivos, mas sempre apenas a forma jurídica das mônadas de trabalho socialmente separadas entre si, que levam, na concorrência, sua pele ao mercado de trabalho. Democracia é o oposto de liberdade. E assim, os seres humanos de trabalho democráticos dividem-se, necessariamente, em administradores e administrados, empresários e empreendidos, elites funcionais e material humano. Os partidos políticos, em particular os partidos de trabalhadores, refletem fielmente essa relação na sua própria estrutura. Condutor e conduzidos, VIPs e o povão, militantes e simpatizantes apontam para uma relação que não tem mais nada a ver com um debate aberto e tomadas de decisão. É parte integral desta lógica sistêmica que as próprias elites só possam ser funcionárias dependentes do deus-trabalho e de suas orientações cegas.

No mínimo desde o nazismo, todos os partidos são partidos de trabalhadores e, ao mesmo tempo, partidos do capital. Nas “sociedades em desenvolvimento” do Leste e do Sul, o movimento dos trabalhadores transformou-se num partido de terrorismo estatal de modernização retardatária; no Ocidente, num sistema de “partidos populares” com programas facilmente substituíveis e figuras representativas na mídia. A luta de classes está no fim porque a sociedade do trabalho também está. As classes se mostram como categorias sociais funcionais do mesmo sistema fetichista, na mesma medida em que este sistema vai esmorecendo. Se sociais-democratas, verdes e ex-comunistas destacam-se na administração da crise desenvolvendo programas de repressão especialmente infames, mostram-se, com isto, como os legítimos herdeiros do movimento dos trabalhadores, que nunca quis nada além de trabalho a qualquer preço.

“Conduzir o cetro, deve o trabalho,
servo só deve ser quem no ócio insistir;
Governar o mundo, deve o trabalho,
pois só por ele pode o mundo existir.”
(Friedrich Stampfer, 1903)

11. A crise do trabalho

Após a Segunda Guerra Mundial, por um curto momento histórico pôde parecer que a sociedade do trabalho nas indústrias fordistas tivesse se consolidado num sistema de “prosperidade eterna”, no qual a insuportabilidade do fim em si coercitivo tivesse sido pacificada duradouramente pelo consumo de massas e pelo Estado Social. Apesar desta idéia sempre ter sido uma idéia hilótica e democrática, que só se referiria a uma pequena minoria da população mundial, nos centros ela também necessariamente fracassou. Na terceira revolução industrial da microeletrônica, a sociedade mundial do trabalho alcança seu limite histórico absoluto.

Que este limite seria alcançado mais cedo ou mais tarde, era logicamente previsível. Pois o sistema produtor de mercadorias sofre, desde seu nascimento, de uma autocontradição incurável. De um lado, ele vive do fato de sugar maciçamente energia humana através do gasto de trabalho para sua maquinaria: quanto mais, melhor. De outro lado, contudo, impõe, pela lei da concorrência empresarial, um aumento de produtividade, no qual a força de trabalho humano é substituída por capital objetivado cientificizado.

Esta autocontradição já foi a causa profunda de todas as crises anteriores, entre elas a desastrosa crise econômica mundial de 1929-33. Porém, estas crises podiam sempre ser superadas por um mecanismo de compensação: num nível cada vez mais elevado de produtividade, foram absorvidas em termos absolutos – após um certo tempo de incubação e através da ampliação de mercados integradora de novas camadas de consumidores – maiores quantidades de trabalho do que aquele anteriormente racionalizado. Reduziu-se o dispêndio de força de trabalho por produto, mas foram produzidos em termos absolutos mais produtos, de modo que a redução pôde ser sobrecompensada. Enquanto as inovações de produtos superaram as inovações de processos, a autocontradição do sistema pôde ser traduzida em um movimento de expansão.

O exemplo histórico de destaque é o automóvel: através da esteira e outras técnicas de racionalização da “ciência do trabalho” (primeiramente na fábrica de Henry Ford, em Detroit), reduziu-se o tempo de trabalho para cada automóvel em uma fração. Simultaneamente, o trabalho intensificou-se de maneira gigantesca, isto é, no mesmo intervalo de tempo foi absorvido material humano de forma multiplicada. Principalmente o automóvel, até então um produto de luxo para a alta sociedade, pôde ser incluído no consumo de massa por seu conseqüente barateamento.

Desta maneira, apesar da racionalização da produção em linha, a fome insaciável do deus-trabalho por energia humana foi satisfeita em nível superior. Ao mesmo tempo, o automóvel é um exemplo central para o caráter destrutivo do modo de produção e consumo altamente desenvolvido da sociedade do trabalho. No interesse de produção em massa de automóveis e de transporte individual em massa, a paisagem é asfaltada, impermeabilizada e torna-se feia, o meio ambiente é empestado e aceita-se, de maneira resignada, que nas estradas mundiais, ano após ano, seja desencadeada uma terceira guerra mundial não declarada com milhões de mortos e mutilados.

Na terceira revolução industrial da microeletrônica finda, o até então vigente, mecanismo de compensação pela expansão. É verdade que, obviamente, através da microeletrônica muitos produtos também são barateados e novos são criados (principalmente na esfera da mídia). Mas, pela primeira vez, a velocidade de inovação do processo ultrapassa a velocidade de inovação do produto. Pela primeira vez, mais trabalho é racionalizado do que o que pode ser reabsorvido pela expansão dos mercados. Na continuação lógica da racionalização, a robótica eletrônica substitui a energia humana, ou as novas tecnologias de comunicação tornam o trabalho supérfluo. Setores inteiros e níveis da construção civil, da produção, do marketing, do armazenamento, da distribuição e mesmo do gerenciamento caem fora. Pela primeira vez o deus-trabalho submete-se, involuntariamente, a uma ração de fome permanente. Com isso, provoca sua própria morte.

Uma vez que a sociedade democrática do trabalho é um sistema com o fim em si mesmo amadurecido e auto-reflexivo, não é possível dentro das suas formas uma alteração para uma redução da jornada geral. A racionalidade empresarial exige que massas cada vez maiores tornem-se “desempregadas” permanentemente e, assim, sejam cortadas da reprodução de sua vida imanente ao sistema. De outro lado, um número cada vez mais reduzido de “ocupados” são submetidos a uma caça cada vez maior de trabalho e eficiência. Mesmo nos centros capitalistas, no meio da riqueza voltam a pobreza e a fome, meios de produção e áreas agrícolas intactos ficam maciçamente em “pousio”, habitações e prédios públicos ficam maciçamente vazios, enquanto o número dos sem-teto cresce incessantemente.

Capitalismo torna-se um espetáculo global para minorias. Em seu desespero, o deus-trabalho, agonizante, tornou-se canibal de si mesmo. Em busca de sobras para alimentar o trabalho, o capital dinamita os limites da economia nacional e se globaliza numa concorrência nômade de repressão. Regiões mundiais inteiras são cortadas dos fluxos globais de capital e mercadorias. Numa onda de fusões e “integrações não amigáveis” sem precedentes históricos, os trustes se preparam para a última batalha da economia empresarial. Os Estados e Nações desorganizados implodem, as populações empurradas para a loucura da concorrência pela sobrevivência assaltam-se em guerras étnicas de bandos.

“O princípio moral básico é o direito do homem ao seu trabalho (…) a meu ver, não há nada mais detestável que uma vida ociosa. Nenhum de nós tem direito a isto. A civilização não tem lugar para ociosos.”
(Henry Ford)

“O próprio capital é a contradição em processo, pois tende a reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, enquanto põe, por outro lado, o tempo de trabalho como única medida e fonte de riqueza. (…) Assim, por um lado, evoca para a vida todos os poderes da ciência e da natureza, assim como da combinação e do intercâmbio social, para fazer com que a criação da riqueza seja (relativamente) independente do tempo de trabalho empregado nela. Por outro lado, pretende medir estas gigantescas forças sociais, assim criadas, pelo tempo de trabalho, e as conter nos limites exigidos para manter, como valor, o valor já criado.”
(Karl Marx – “Grundrisse” , 1857/58)

12. O fim da política

Necessariamente, a crise do trabalho tem como conseqüência a crise do Estado e, portanto, a da política. Por princípio, o Estado moderno deve a sua carreira ao fato de que o sistema produtor de mercadorias necessita de uma instância superior que lhe garanta, no quadro da concorrência, os fundamentos jurídicos normais e os pressupostos da valorização – sob inclusão de um aparelho de repressão para o caso de o material humano insubordinar-se contra o sistema. Na sua forma amadurecida de democracia de massa, o Estado no século XX precisava assumir, de forma crescente, tarefas sócio-econômicas: a isso não só pertence a rede social, mas também a saúde e a educação, a rede de transporte e comunicação, infra-estruturas de todos os tipos que são indispensáveis ao funcionamento da sociedade do trabalho industrial e que não podem ser propriamente organizadas como processo de valorização industrial. Pois as infra-estruturas precisam estar, permanentemente, à disposição no âmbito da sociedade total e cobrindo todo o território. Portanto, não podem seguir as conjunturas do mercado de oferta e demanda.

Como o Estado não é uma unidade de valorização autônoma, ele próprio não transforma trabalho em dinheiro, precisa retirar dinheiro do processo real da valorização. Esgotada a valorização esgotam-se também as finanças do Estado. O suposto soberano social apresenta-se totalmente dependente frente à economia cega e fetichizada da sociedade do trabalho. Ele pode legislar o quanto quiser; quando as forças produtivas ultrapassam o sistema de trabalho, o direito estatal positivo, o qual sempre só pode relacionar-se com sujeitos do trabalho, se esvai.

Com o crescente desemprego de massas, resseca-se a renda estatal proveniente dos impostos sobre os rendimentos do trabalho. As redes sociais se rompem logo que se alcança uma massa crítica de “supérfluos”, que apenas podem ser alimentados de modo capitalista através da redistribuição de outros rendimentos monetários. Na crise, com o processo acelerado de concentração do capital, que ultrapassa as fronteiras das economias nacionais, caem fora também as rendas estatais provenientes dos impostos sobre os lucros das empresas. Os trustes transnacionais obrigam os Estados que concorrem por investimentos a fazer dumping fiscal, social e ecológico.

É exatamente este desenvolvimento que permite o Estado democrático transformar-se em mero administrador de crises. Quanto mais ele se aproxima da calamidade financeira, tanto mais se reduz ao seu núcleo repressivo. As infra-estruturas se reduzem às necessidades do capital transnacional. Como antigamente nos territórios coloniais, a logística se limita, crescentemente, a alguns centros econômicos, enquanto o resto fica abandonado. O que dá para ser privatizado é privatizado, mesmo que cada vez mais pessoas fiquem excluídas dos serviços de provimento mais elementares. Onde a valorização do capital concentra-se em um número cada vez mais reduzido de ilhas do mercado mundial, não interessa mais o provimento cobrindo todo o território.

Enquanto não atinge diretamente esferas relevantes para a economia, não interessa se trens andam e as cartas chegam. A educação torna-se um privilégio dos vencedores da globalização. A cultura intelectual, artística e teórica é remetida aos critérios de mercado e padece aos poucos. A saúde não é financiável e se divide em um sistema de classes. Primeiro devagar e disfarçadamente, depois abertamente, vale a lei da eutanásia social: porque você é pobre e “supérfluo”, tem de morrer antes.

Enquanto todos os conhecimentos, habilidades e meios da medicina, educação e cultura estão à disposição em excesso como infra-estrutura geral, ficam reclusos conforme a lei irracional da sociedade do trabalho, objetivada como “restrição financeira”, desmobilizados e jogados no ferro-velho – assim como os meios de produção industriais e agrários que não são mais representáveis de forma rentável. O Estado democrático, transformado num sistema de apartheid, não tem mais nada a oferecer aos seus ex-cidadãos de trabalho além da simulação repressiva do trabalho, sob formas de trabalho coercitivo e barato, com redução de todos os benefícios. Num momento mais avançado, o Estado desmorona totalmente. O aparelho de Estado asselvaja-se sob a forma de uma cleptocracia corrupta, os militares sob a de um bando bélico mafioso e a polícia sob a de assaltante de estradas.
Este desenvolvimento não pode ser parado através de qualquer política do mundo e ainda menos ser revertido. Pois política é em sua essência uma ação relacionada ao Estado que torna-se, sob as condições de desestatização, sem objeto. A fórmula da democracia esquerdista da “configuração política” torna-se, dia após dia, mais ridícula. Fora a repressão infinita, a destruição da civilização e o auxílio ao “terror da economia”, não há mais nada a “configurar”. Como o fim em si mesmo da sociedade do trabalho é o pressuposto axiomático da democracia política, não pode haver nenhuma regulação política democrática para a crise do trabalho. O fim do trabalho torna-se o fim da política.

13. A simulação cassino-capitalista da sociedade do trabalho

A consciência social dominante engana-se, sistematicamente, sobre a verdadeira situação da sociedade do trabalho. As regiões de colapso são ideologicamente excomungadas, as estatísticas do mercado de trabalho são descaradamente falsificadas, as formas de pauperização são dissimuladas pela mídia. Simulação é, sobretudo, a característica central do capitalismo em crise. Isto vale também para a própria economia. Se pelo menos nos países centrais ocidentais até agora parecia que o capital seria capaz de acumular mesmo sem trabalho, e que a forma pura do dinheiro sem substância poderia garantir a contínua valorização do valor, então esta aparência deve-se a um processo de simulação nos mercados financeiros. Como reflexo da simulação do trabalho através de medidas coercitivas da administração democrática do trabalho, formou-se uma simulação da valorização do capital através da desconexão especulativa do sistema creditício e dos mercados acionários da economia real.

A utilização de trabalho presente é substituída pela usurpação da utilização de trabalho futuro, o qual nunca realizar-se-á. Trata-se, de certo modo, de uma acumulação de capital num fictício “futuro do subjuntivo (composto)”. O capital-dinheiro, que não pode mais ser reinvestido de forma rentável na economia real e que, por isso, não pode absorver mais trabalho, precisa se desviar, reforçadamente, para os mercados financeiros.

Já o impulso fordista da valorização, nos tempos do “milagre econômico” após a Segunda Guerra, não era totalmente auto-sustentável. Muito além de suas receitas fiscais, o Estado tomava crédito em quantidades até então desconhecidas, pois as condições estruturais da sociedade do trabalho não eram mais financiáveis de outra maneira. O Estado penhorou todas as suas receitas reais futuras. Desta maneira surgiu, de um lado, uma possibilidade de investimento capitalístico financeiro para o capital-dinheiro “excedente” – emprestava-se ao Estado com juros. O Estado pagava os juros com novos empréstimos e reenviava o dinheiro emprestado imediatamente para o circuito econômico. De outro lado, ele financiava, então, os custos sociais e os investimentos de infra-estrutura, criando uma demanda artificial, no sentido capitalista, pois sem a cobertura de nenhum dispêndio produtivo de trabalho. O boom fordista foi, assim, prolongado além de seu próprio alcance, na medida em que a sociedade do trabalho sangrava o seu próprio futuro.

Este momento simulativo do processo de valorização, aparentemente ainda intacto, já alcançou seus limites junto com o endividamento estatal. Não só no Terceiro Mundo, mas também nos centros, as “crises da dívida” estatais não permitiram mais a expansão deste procedimento. Este foi o fundamento objetivo para a caminhada vitoriosa da desregulação neoliberal que, conforme sua ideologia, seria acompanhada de uma redução drástica da cota estatal no produto social. Na verdade, desregulamentação e redução das obrigações do Estado são compensadas pelos custos da crise, mesmo que seja em forma de custos estatais de repressão e simulação. Em muitos Estados, a cota estatal até aumenta.

Mas a acumulação subseqüente do capital não pode mais ser simulada através do endividamento estatal. Por isso, transfere-se, desde os anos 80, a criação complementar do capital fictício para os mercados de ações. Ali, há tempos, não se trata mais de dividendos, da participação nos ganhos da produção real, mas antes, de ganhos de cotação, por aumento especulativo do valor dos títulos de propriedade em escalas astronômicas. A relação entre a economia real e o movimento especulativo do mercado financeiro virou-se de cabeça para baixo. O aumento especulativo da cotação não antecipa mais a expansão da economia real, mas ao contrário, a alta da criação fictícia de valor simula uma acumulação real que já não existe mais.

O deus-trabalho está clinicamente morto, mas recebe respiração artificial através da expansão aparentemente autonomizada dos mercados financeiros. Há tempos, empresas industriais têm ganhos que já não resultam da produção e da venda de produtos reais – o que já se tornou um negócio deficitário – mas sim, da participação feita por um departamento financeiro “esperto” na especulação de ações e divisas. Os orçamentos públicos demonstram entradas que não resultam de impostos ou tomadas de créditos, mas da participação aplicada da administração financeira nos mercados de cassino. Os orçamentos privados, nos quais as entradas reais de salários reduziram-se dramaticamente, conseguem manter ainda um consumo elevado através dos empréstimos dos ganhos nos mercados acionários. Cria-se, assim, uma nova forma de demanda artificial que, por sua vez, tem como conseqüência uma produção real e uma receita estatal real “sem chão para os pés”.

Desta maneira, a crise econômica mundial está sendo adiada pelo processo especulativo; mas, como o aumento fictício do valor dos títulos de propriedade só pode ser antecipação de utilização ou futuro dispêndio real de trabalho (em escala astronômica correspondente) – o que nunca mais será feito – então, o embuste objetivado será desmascarado, necessariamente, após um certo tempo de encubação. O colapso dos “emerging markets” na Ásia, na América Latina e no Leste Europeu forneceu apenas o primeiro gostinho. É apenas uma questão de tempo para que entrem em colapso os mercados financeiros dos centros capitalistas dos EUA, UE e Japão.

Este contexto é percebido de uma forma totalmente distorcida na consciência fetichizada da sociedade do trabalho e, principalmente, na dos “críticos do capitalismo” tradicionais da esquerda e da direita. Fixados no fantasma do trabalho, que foi enobrecido enquanto condição existencial suprahistórica e positiva, confundem, sistematicamente, causa e efeito. O adiamento temporário da crise, pela expansão especulativa dos mercados financeiros, aparece, assim, de forma invertida, como suposta causa da crise. Os “especuladores malvados”, assim chamados na hora do pânico, arruinariam toda a sociedade do trabalho porque gastam o “bom dinheiro” que “existe de sobra” no cassino, ao invés de investirem de uma maneira sólida e bem comportada em maravilhosos “postos de trabalho”, a fim de que uma humanidade louca por trabalho pudesse ter o seu “pleno emprego”.

Simplesmente não entra nestas cabeças que, de modo algum, a especulação fez os investimentos reais pararem, mas estes já se tornaram não rentáveis em decorrência da terceira revolução industrial, e o decolar especulativo é apenas um sintoma disso. O dinheiro que aparentemente circula em quantidades infinitas já não é, mesmo no sentido capitalista, um “bom dinheiro”, mas apenas “ar quente” com o qual a bolha especulativa foi levantada.

Cada tentativa de estourar esta bolha, via qualquer projeto de medida fiscal (imposto Tobin etc.) para dirigir o capital-dinheiro novamente para as Rodas pretensamente “corretas” e reais da sociedade do trabalho, só pode levá-la a estourar mais rapidamente.

Em vez de compreenderem que nós todos tornaremo-nos, incessantemente, não rentáveis, e que por isso, precisam ser atacados tanto o próprio critério da rentabilidade quanto os fundamentos da sociedade do trabalho, preferem satanizar os “especuladores”. Esta imagem barata de inimigo, cultivam em uníssono radicais da direita e autônomos da esquerda, funcionários sindicalistas pequenos burgueses e nostálgicos keynesianos, teólogos sociais e apresentadores de talk shows, enfim, todos os apóstolos do “trabalho honrado”. Poucos estão conscientes de que se está apenas a um pequeno passo deste ponto até a remobilização da loucura anti-semita. Apelar ao capital real “produtivo” e “de sangue nacional” contra o capital-dinheiro “judaico”, internacional e “usurário” – esta ameaça ser a última palavra da “esquerda dos postos de trabalho”, intelectualmente perdida. De qualquer maneira, esta já é a última palavra da “direita dos postos de trabalho”, desde sempre racista, anti-semita e antiamericana.

“Tão logo o trabalho, na sua forma imediata, tiver deixado de ser a grande fonte de riqueza, o tempo de trabalho deixa, e tem de deixar, de ser a sua medida, e, por isso, o valor de troca (a medida) do valor de uso.(…) Em virtude disso, a produção fundada no valor de troca desmorona e o próprio processo de produção material imediato se despoja da forma do carecimento e da oposição.”
(Karl Marx – “Grundrisse”, 1857/58)

14. Trabalho não se deixa redefinir

Após séculos de adestramento, o homem moderno simplesmente não consegue imaginar uma vida além do trabalho. Como princípio imperial, o trabalho domina não só a esfera da economia no sentido estrito, mas permeia toda a existência social até os poros do cotidiano e da existência privada. O “tempo livre”, que por sua própria semântica já é um termo de presídio, serve, há tempos, para “trabalhar” mercadorias e, assim, garantir a venda necessária.

Mas, mesmo além do dever interiorizado do consumo de mercadorias como fim em si mesmo, a sombra do trabalho põe-se sobre o indivíduo moderno também fora do escritório e da fábrica. Tão somente por levantar-se da poltrona da TV e tornar-se ativo, qualquer ação efetuada transforma-se em algo semelhante ao trabalho. O jogger substitui o relógio de ponto pelo cronômetro. Nas academias reluzentes, a Roda-Viva vivencia o seu renascimento pós-moderno, e os motoristas nas férias fazem tantos e tantos quilômetros como se fossem alcançar a cota anual de um caminhoneiro. E mesmo o trepar se orienta pelas normas DIN (ISO 9000) da pesquisa sexual e pelos padrões de concorrência das fanfarronices dos talk shows.

Se o rei Midas ao menos ainda vivenciava como maldição o fato de que tudo em que tocava virava ouro, o seu companheiro de sofrimento moderno já ultrapassou esse estado. O homem do trabalho nem nota mais que, pela adaptação ao padrão do trabalho, cada atividade perde sua qualidade sensível específica e torna-se indiferente. Ao contrário, ele dá sentido, razão de existência e significado social a alguma atividade somente através desta adaptação à indiferença do mundo da mercadoria. Com um sentimento como o luto, o sujeito do trabalho não sabe o que fazer; todavia, a transformação do luto em “trabalho de luto” faz desse corpo estranho emocional algo conhecido, através do qual se pode intercambiar com seus semelhantes. Até mesmo sonhar torna-se “trabalho de sonho”, o conflito com a pessoa amada torna-se “trabalho de relação” e o trato de crianças é desrealizado e indiferenciado como “trabalho de educação”. Sempre que o homem moderno insiste em fazer algo com “seriedade”, tem na ponta da língua a palavra “trabalho”.

O imperialismo do trabalho tem seus reflexos na linguagem cotidiana. Não só temos o hábito de inflacionar a palavra “trabalho”, mas a usamos em dois níveis de significância totalmente diferentes. Faz tempo que o “trabalho” não significa mais (como seria adequado) a forma de atividade capitalista da Roda do fim em si mesmo, antes este conceito torna-se, escondendo seus rastros, sinônimo de qualquer atividade com objetivo.

A falta de foco conceitual prepara o solo para uma crítica à sociedade do trabalho tão corriqueira e de meia-tigela que opera exatamente de modo oposto, isto é, toma como ponto de partida uma interpretação positiva do imperialismo do trabalho. Por incrível que pareça, a sociedade do trabalho é acusada de ainda não dominar suficientemente a vida com a sua forma de atividade, porque, pretensamente, ela definiria o conceito de trabalho de modo “muito estreito”, isto é, excomungando moralmente o “trabalho para si mesmo” ou o trabalho enquanto “auto-ajuda não-remunerada” (trabalho doméstico, ajuda da vizinhança etc.). Ela aceita, como “efetivo”, apenas o trabalho-emprego, conforme a dinâmica do mercado. Uma reavaliação e uma ampliação do conceito de trabalho deveria eliminar esta fixação unilateral e as hierarquizações ligadas a ela.

Este pensamento não trata da emancipação das coerções dominantes, mas somente de uma correção semântica. A ilimitada crise da sociedade do trabalho deveria ser solucionada pela consciência social através da elevação “efetiva” das formas de atividade, até então inferiores e laterais à esfera da produção capitalista, ao estado do nobre trabalho. Mas a inferioridade destas atividades não é somente resultado de uma determinada maneira ideológica de perceber, mas pertence à estrutura fundamental do sistema capitalista e não pode ser superada por redefinições morais simpáticas.

Numa sociedade dominada pela produção de mercadorias com o fim em si mesmo, só vale como riqueza propriamente dita o que é representável na forma monetária. O conceito de trabalho, assim determinado, brilha de modo imperial sobre todas as outras esferas, mas apenas negativamente, à medida que revela estas esferas como dependentes de si. Assim, as esferas externas à produção de mercadorias ficam necessariamente na sombra da esfera da produção capitalista, porque não são absorvidas pela lógica abstrata empresarial de economia de tempo – mesmo, e exatamente, quando elas são necessárias para a vida, como no caso da esfera de atuação cindida e definida como feminina, doméstica privada, de dedicação pessoal etc.

Ao invés de sua crítica radical, uma ampliação moralizante do conceito de trabalho não só vela o imperialismo social real da economia produtora de mercadorias, mas integra-se também perfeitamente nas estratégias autoritárias da administração estatal da crise. A reivindicação feita desde os anos 70 para que o “trabalho doméstico” e as atividades do “terceiro setor” também devessem ser reconhecidos socialmente como trabalhos válidos, especula, desde o primeiro momento, uma remuneração estatal em dinheiro. O Estado em crise inverte a espada e mobiliza o ímpeto moral desta reivindicação no sentido do afamado “princípio de subsídio”, exatamente contra as suas expectativas materiais.

O cântico dos cânticos da “função honorífica” e do “trabalho voluntário” não trata da permissão de mexer nas panelas financeiras quase vazias do Estado, mas torna-se álibi para a recuada do Estado aos programas, agora em marcha, de trabalho coercitivo e para a tentativa sórdida de passar o peso da crise, principalmente, para as mulheres. As instituições sociais oficiais abandonam a sua responsabilidade social com o apelo tão amigável quanto gratuito a “nós todos”, faça o favor, para combater, por iniciativa privada, tanto a própria miséria quanto a dos outros, sem fazer nenhuma reivindicação material. Assim, mal entendido como programa de emancipação, o malabarismo definidor do santificado conceito de trabalho abre as portas à tentativa estatal de suprimir o trabalho assalariado através da eliminação do salário com a simultânea manutenção do trabalho na terra queimada da economia de mercado. Comprova-se, assim, involuntariamente, que a emancipação social não pode ter como conteúdo a revalorização do trabalho, mas unicamente a consciente desvalorização do trabalho.

“Ao lado dos serviços materiais, também os serviços pessoais e simples podem elevar o bem-estar imaterial. Assim, pode-se elevar o bem-estar de um cliente quando um prestador de serviço retira-lhe trabalho que ele próprio teria de fazer. Ao mesmo tempo, eleva-se o bem-estar dos prestadores de serviço quando o seu sentimento de auto-estima se eleva através da atividade. Exercer um serviço simples e relacionado a uma pessoa é melhor à psique que estar desempregado.”
(Relatório da Comissão para Questões do Futuro dos Estados Livres da Baviera e da Saxônia, 1997)

“Preserve o conhecimento comprovado no trabalho, pois a própria natureza confirma este conhecimento, diz sim a ele. No fundo, você não tem outro conhecimento a não ser aquele que foi adquirido através do trabalho, o resto é uma hipótese do saber.”
(Thomas Carlyle – Trabalhar e não desesperar, 1843).

15. A crise da luta de interesses

Mesmo que a crise fundamental do trabalho seja reprimida ou transformada em tabu, ela cunha todos os conflitos sociais atuais. A transição de uma sociedade de integração de massas para uma ordem de seleção e apartheid não levou a uma nova rodada da velha luta de classes entre capital e trabalho, mas a uma crise categorial da própria luta de interesses imanente ao sistema. Já na época da prosperidade, após a Segunda Guerra Mundial, a antiga ênfase da luta de classes empalideceu. Mas não porque o sujeito revolucionário “em si” foi “integrado” ao questionável bem-estar através de manipulações e corrupção, mas ao contrário, porque veio à tona, no estado de desenvolvimento fordista, a identidade lógica de capital e trabalho enquanto categorias sociais funcionais de uma forma fetichista social comum. O desejo imanente ao sistema de vender a mercadoria força de trabalho em melhores condições possíveis perdeu qualquer momento transcendente.

Se, até os anos 70, tratava-se ainda da luta pela participação de camadas mais amplas possíveis da população nos frutos venenosos da sociedade do trabalho, este impulso foi apagado sob as novas condições de crise da terceira revolução industrial. Somente enquanto a sociedade do trabalho expandiu-se foi possível desencadear a luta de interesses de suas categorias sociais funcionais em grande escala. Porém, na mesma medida em que a base comum desapareceu, os interesses imanentes ao sistema não puderam mais ser reunidos ao nível da sociedade geral. Inicia-se uma dessolidarização generalizada. Os assalariados desertam dos sindicatos, as executivas desertam das confederações empresariais. Cada um por si e o deus-sistema capitalista contra todos: a individualização sempre suplicada é nada mais do que um sintoma de crise da sociedade do trabalho.

Enquanto interesses ainda podiam ser agregados, o mesmo só se dava em escala microeconômica. Pois, na mesma medida em que, ironicamente, a permissão para embutir a própria vida no âmbito econômico empresarial desdobrou-se de libertação social em quase um privilégio, as representações de interesse da mercadoria força de trabalho degeneraram numa política inescrupulosa de lobbies de segmentos sociais cada vez menores. Quem aceita a lógica do trabalho tem, agora, de aceitar a lógica do apartheid. Ainda trata-se, somente, de assegurar a venalidade de sua própria pele para uma clientela restrita, às custas de todos os outros. Há tempos, empregados e membros de conselhos das empresas não encontram mais seus verdadeiros adversários entre os executivos de sua empresa, mas entre os assalariados de empresas e de “localizações” concorrentes, tanto faz se na cidade vizinha ou no Extremo Oriente. E, quando se coloca a questão: quem será sacrificado no próximo impulso da racionalização econômica empresarial, também o departamento vizinho e o colega imediato tornam-se inimigos.

A dessolidarização radical atinge não apenas o conflito empresarial e sindical. Mas, justamente quando na crise da sociedade do trabalho todas as categorias funcionais insistem ainda mais fanaticamente na sua lógica inerente, isto é, que todo o bem-estar humano só possa ser o mero produto residual da valorização rentável, então o princípio de São Floriano domina todos os conflitos de interesse. Todos os lobbies conhecem as regras do jogo e agem conforme tais regras. Cada dólar que a outra clientela recebe, é um dólar perdido para a sua própria clientela. Cada ruptura do outro lado da rede social aumenta a chance de prolongar o seu próprio prazo para a forca. O aposentado torna-se o adversário natural do contribuinte, o doente o inimigo de todos os assegurados e o imigrante objeto de ódio de todos os nativos enfurecidos.

A pretensão de querer utilizar a luta de interesses imanentes ao sistema como alavanca de emancipação social esgota-se irreversivelmente. Assim, a esquerda clássica está no seu fim. O renascimento de uma crítica radical do capitalismo pressupõe a ruptura categorial com o trabalho. Unicamente quando se põe um novo objetivo da emancipação social além do trabalho e de suas categorias fetichistas derivadas (valor, mercadoria, dinheiro, Estado, forma jurídica, nação, democracia etc.), é possível uma ressolidarização a um nível mais elevado e na escala da sociedade como um todo. Somente nesta perspectiva podem ser reagregadas lutas defensivas imanentes ao sistema contra a lógica da lobbização e da individualização; agora, contudo, não mais na relação positiva, mas na relação negadora estratégica das categorias dominantes.

Até agora, a esquerda tenta fugir desta ruptura categorial com a sociedade do trabalho. Ela rebaixa as coerções do sistema a meras ideologias e a lógica da crise a um mero projeto político dos “dominantes”. Em lugar da ruptura categorial, aparece a nostalgia social-democrata e keynesiana. Não se pretende uma nova universalidade concreta da formação social além do trabalho abstrato e da forma-dinheiro, bem ao contrário, a esquerda tenta manter forçosamente a antiga universalidade abstrata dos interesses imanentes ao sistema. Essas tentativas continuam abstratas e não conseguem mais integrar nenhum movimento social de massas porque passam despercebidas nas relações reais de crise.

Em particular, isto vale para a reivindicação de renda mínima ou de dinheiro para subsistência. Em vez de ligar as lutas sociais concretas defensivas contra determinadas medidas do regime de apartheid com um programa geral contra o trabalho, esta reivindicação pretende construir uma falsa universalidade de crítica social, que se mantém em todos os aspectos abstrata, desamparada e imanente ao sistema. A concorrência social de crise não pode ser superada assim. De uma maneira ignorante, continua-se a pressupor o funcionamento eterno da sociedade global do trabalho, pois, de onde deveria provir o dinheiro para financiar a renda mínima garantida pelo Estado senão dos processos de valorização com bom êxito? Quem conta com este “dividendo social” (o termo já explica tudo) precisa apostar, ao mesmo tempo, e disfarçadamente, na posição privilegiada de “seu próprio país” na concorrência global, pois só a vitória na guerra global dos mercados poderia garantir provisoriamente o alimento de alguns milhões de “supérfluos” na mesa capitalista – obviamente excluindo todas as pessoas sem carteira de identidade nacional.

Os reformistas “amadores” da reivindicação de renda mínima ignoram a configuração capitalista da forma-dinheiro em todos os aspectos. No fundo, entre os sujeitos do trabalho e os sujeitos do consumo de mercadorias capitalistas, eles apenas querem salvar este último. Em vez de pôr em questão o modo de vida capitalista em geral, o mundo continuaria, apesar da crise do trabalho, a ser enterrado debaixo de uma avalanche de latas fedorentas, de horrorosos blocos de concreto e do lixo de mercadorias inferiores, para que aos homens reste a última e triste liberdade que eles ainda podem imaginar: a liberdade de escolha ante às prateleiras do supermercado.

Mas mesmo esta perspectiva triste e limitada é totalmente ilusória. Seus protagonistas esquerdistas e analfabetos teóricos esqueceram que o consumo capitalista de mercadorias nunca serve simplesmente para a satisfação de necessidades, mas tem sempre apenas uma função no movimento de valorização. Quando a força de trabalho não pode mais ser vendida, mesmo as necessidades mais elementares são consideradas pretensões luxuosas e desavergonhadas, que deveriam ser reduzidas ao mínimo. E, justamente por isso, o programa de renda mínima funciona como veículo, isto é, como instrumento da redução de custos estatais e como versão miserável da transferência social, que substitui os seguros sociais em colapso. Neste sentido, o guru do neoliberalismo Milton Friedman originalmente desenvolveu a concepção da renda mínima antes que a esquerda desarmada a descobrisse como a pretensa âncora de salvação. E com este conteúdo ela será realidade – ou não.

“Foi comprovado que, conforme as leis inevitáveis da natureza humana, alguns homens estão expostos à necessidade. Estes, são as pessoas infelizes que, na grande loteria da vida, tiraram a má sorte.”
(Thomas Robert Malthus)

16. A superação do trabalho

A ruptura categorial com o trabalho não encontra nenhum campo social pronto e objetivamente determinado, como no caso da luta de interesses limitada e imanente ao sistema. Trata-se da ruptura com uma falsa normatividade objetivada de uma “segunda natureza”, portanto não da repetição de uma execução quase automática, mas de uma conscientização negadora – recusa e rebelião sem qualquer “lei da história” como apoio. O ponto de partida não pode ser algum novo princípio abstrato geral, mas apenas o nojo perante a própria existência enquanto sujeito do trabalho e da concorrência, e a rejeição categórica do dever de continuar “funcionando” num nível cada vez mais miserável.

Apesar de sua predominância absoluta, o trabalho nunca conseguiu apagar totalmente a repugnância contra as coerções impostas por ele. Ao lado de todos os fundamentalismos regressivos e de todos os desvarios de concorrência da seleção social, existe também um potencial de protesto e resistência. O mal-estar no capitalismo está maciçamente presente, mas é reprimido para o subsolo sócio-psíquico. Não se apela a este mal-estar. Por isso, precisa-se de um novo espaço livre intelectual para poder tornar pensável o impensável. O monopólio de interpretação do mundo pelo campo do trabalho precisa ser rompido. A crítica teórica do trabalho ganha, assim, um papel de catalisador. Ela tem o dever de atacar, frontalmente, as proibições dominantes do pensar; e expressar, aberta e claramente, aquilo que ninguém ousa saber, mas que muitos sentem: a sociedade do trabalho está definitivamente no seu fim. E não há a menor razão para lamentar sua agonia.

Somente a crítica do trabalho formulada expressamente e um debate teórico correspondente podem criar aquela nova contra-esfera pública, que é um pressuposto indispensável para construir um movimento de prática social contra o trabalho. As disputas internas ao campo de trabalho esgotaram-se e tornaram-se cada vez mais absurdas. É, portanto, mais urgente, redefinir as linhas de conflitos sociais nas quais uma união contra o trabalho possa ser formada.

Precisam ser esboçadas em linhas gerais quais são as diretrizes possíveis para um mundo além do trabalho. O programa contra o trabalho não se alimenta de um cânon de princípios positivos, mas a partir da força da negação. Se a imposição do trabalho foi acompanhada por uma longa expropriação do homem das condições de sua própria vida, então a negação da sociedade do trabalho só pode consistir em que os homens se reapropriem da sua relação social num nível histórico superior. Por isso, os inimigos do trabalho almejam a formação de uniões mundiais de indivíduos livremente associados, para que arranquem da máquina de trabalho e valorização que-gira-em-falso os meios de produção e existência, tomando-os em suas próprias mãos. Somente na luta contra a monopolização de todos os recursos sociais e potenciais de riqueza pelas forças alienadoras do mercado e Estado, podem ser ocupados os espaços sociais de emancipação.

Também a propriedade privada precisa ser atacada de um modo diferente e novo. Para a esquerda tradicional, a propriedade privada não era a forma jurídica do sistema produtor de mercadorias, mas apenas um poder de “disposição” ominoso e subjetivo dos capitalistas sobre os recursos. Assim, pode aparecer a idéia absurda de querer superar a propriedade privada no terreno da produção de mercadorias. Então, como oposição à propriedade privada aparecia, em regra, a propriedade estatal (”estatização”). Mas o Estado não é outra coisa senão a associação coercitiva exterior ou a universalidade abstrata de produtores de mercadorias socialmente atomizados, a propriedade estatal é apenas uma forma derivada da propriedade privada, tanto faz se com, ou sem, o adjetivo socialista.

Na crise da sociedade do trabalho, tanto a propriedade privada quanto a propriedade estatal ficam obsoletas porque as duas formas de propriedade pressupõem do mesmo modo o processo de valorização. É por isso que os correspondentes meios materiais ficam crescentemente em “pousio” ou trancados. De maneira ciumenta, funcionários estatais, empresariais e jurídicos vigiam para que isto continue assim e para que os meios de produção antes apodreçam do que sejam utilizados para um outro fim. A conquista dos meios de produção por associações livres contra a administração coercitiva estatal e jurídica só pode significar que esses meios de produção não sejam mais mobilizados sob a forma da produção de mercadorias para mercados anônimos.

Em lugar da produção de mercadorias entra a discussão direta, o acordo e a decisão conjunta dos membros da sociedade sobre o uso sensato de recursos. A identidade institucional social entre produtores e consumidores, impensável sobre o ditado do fim em si mesmo capitalista, será construída. As instituições alienadas pelo mercado e pelo Estado serão substituídas pelo sistema em rede de conselhos, nos quais as livres associações, da escala dos bairros até a mundial, determinam o fluxo de recursos conforme pontos de vista da razão sensível social e ecológica.

Não é mais o fim em si mesmo do trabalho e da “ocupação” que determina a vida, mas a organização da utilização sensata de possibilidades comuns, que não serão dirigidas por uma “mão invisível” automática, mas por uma ação social consciente. A riqueza produzida é apropriada diretamente segundo as necessidades, não segundo o “poder de compra”. Junto com o trabalho, desaparece a universalidade abstrata do dinheiro, tal como aquela do Estado.

Em lugar de nações separadas, uma sociedade mundial que não necessita mais de fronteiras e na qual todas as pessoas podem se deslocar livremente e exigir em qualquer lugar o direito de permanência universal.

A crítica do trabalho é uma declaração de guerra contra a ordem dominante, sem a coexistência pacífica de nichos com as suas respectivas coerções. O lema da emancipação social só pode ser: tomemos o que necessitamos! Não nos arrastemos mais de joelhos sob o jugo dos mercados de trabalho e da administração democrática da crise! O pressuposto disso é o controle feito por novas formas sociais de organização (associações livres, conselhos) sobre as condições de reprodução de toda a sociedade. Esta pretensão diferencia os princípios dos inimigos do trabalho de todos os dos políticos de nichos e de todos os dos espíritos mesquinhos de um socialismo de colônias de pequenas hortas.

O domínio do trabalho cinde o indivíduo humano. Separa o sujeito econômico do cidadão, o animal de trabalho do homem de tempo livre, a esfera pública abstrata da esfera privada abstrata, a masculinidade produzida da feminilidade produzida, opondo, assim, ao indivíduo isolado, sua própria relação social como um poder estranho e dominador. Os inimigos do trabalho almejam a superação dessa esquizofrenia através da apropriação concreta da relação social por homens conscientes, atuando auto-reflexivamente.

“O ‘trabalho’ é, em sua essência, a atividade não livre, não humana, não social, determinada pela propriedade privada e que cria a propriedade privada. A superação da propriedade privada se efetivará somente quando ela for concebida como superação do ‘trabalho’.”
(Karl Marx – Sobre o livro “O sistema Nacional da economia política” de Friedrich List, 1845)

17. Um programa de abolições contra os amantes do trabalho

Os inimigos do trabalho serão acusados de não serem outra coisa que fantasistas. A história teria comprovado que uma sociedade que não se baseia nos princípios do trabalho, da coerção da produção, da concorrência de mercado e do egoísmo individual, não poderia funcionar. Vocês, apologistas do status quo, querem afirmar que a produção de mercadorias capitalistas trouxe, realmente, para a maioria dos homens, uma vida minimamente aceitável? Vocês dizem “funcionar”, quando justamente o crescimento saltitante de forças produtivas expulsa milhões de pessoas da humanidade, que podem então ficar felizes em sobreviver nos lixões? Quando outros milhões suportam a vida corrida sob o ditado do trabalho no isolamento, na solidão, no doping sem prazer do espírito e adoecendo física e psiquicamente? Quando o mundo se transforma num deserto só para fazer do dinheiro mais dinheiro? Pois bem, este é realmente o modo como vosso sistema grandioso de trabalho “funciona”.

Estes resultados, não queremos alcançar!

Vossa auto-satisfação se baseia na vossa ignorância e na fraqueza de vossa memória. A única justificativa que encontram para vossos crimes atuais e futuros é a situação do mundo que se baseia em vossos crimes passados.

Vocês esqueceram e reprimiram quantos massacres estatais foram necessários para impor, com torturas, a “lei natural” da vossa mentira nos cérebros dos homens, tanto que seria quase uma felicidade ser “ocupado”, determinado externamente, e deixado que se sugasse a energia de vida para o fim em si mesmo abstrato de vosso deus-sistema.

Precisavam ser exterminadas todas as instituições da auto-organização e da cooperação autodeterminada das antigas sociedades agrárias, até que a humanidade fosse capaz de interiorizar o domínio do trabalho e do egoísmo. Talvez tenha sido feito um trabalho perfeito. Não somos otimistas exagerados. Não sabemos se existe ainda uma libertação desta existência condicionada. Fica em aberto a questão se o declínio do trabalho leva à superação da mania do trabalho ou ao fim da civilização.

Vocês argumentarão que com a superação da propriedade privada e da coerção de ganhar dinheiro, todas as atividades acabam e que se iniciará então uma preguiça generalizada. Vocês confessam portanto que todo vosso sistema “natural” se baseia em pura coerção? E que, por isso, vocês teimam em ser a preguiça um pecado mortal contra o espírito do deus-trabalho? Os inimigos do trabalho não têm nada contra a preguiça. Um dos seus objetivos principais é a reconstrução da cultura do ócio, que antigamente todas as sociedades conheciam e que foi destruída para impor uma produção infatigável e vazia de sentido. Por isso, os inimigos do trabalho irão paralisar, sem compensação, em primeiro lugar, os inúmeros ramos de produção que apenas servem para manter, sem levar em consideração quaisquer danos, o louco fim em si mesmo do sistema produtor de mercadorias.

Não falamos apenas das áreas de trabalho claramente inimigas públicas, como a indústria automobilística, a de armamentos e a de energia nuclear, mas também a da produção de múltiplas próteses de sentido e objetos ridículos de entretenimento que devem enganar e fingir para o homem do trabalho uma substituição para sua vida desperdiçada. Também terá de desaparecer o número monstruoso de atividades que só aparecem porque as massas de produtos precisam ser comprimidas para passar pelo buraco da agulha da forma-dinheiro e da mediação do mercado.

Ou vocês acham que serão ainda necessários contabilistas e calculadores de custo, especialistas de marketing e vendedores, representantes e autores de textos de publicidade quando as coisas forem sendo produzidas conforme a necessidade, ou quando todos simplesmente tomarem o que for preciso? Por que então ainda existir funcionários de secretaria de finanças e policiais, assistentes sociais e administradores de pobreza, quando não houver mais nenhuma propriedade privada a ser protegida, quando não for preciso administrar nenhuma miséria social e quando não for preciso domar ninguém para a coerção alienada do sistema?

Já estamos ouvindo o grito: quantos empregos! Sim senhor. Calculem com calma quanto tempo de vida a humanidade se rouba diariamente só para acumular “trabalho morto”, administrar pessoas e azeitar o sistema dominante. Quanto tempo nós todos poderíamos deitar ao sol, em vez de se esfolar para coisas cujo caráter grotesco, repressivo e destruidor já se encheu bibliotecas inteiras. Mas não tenham medo. De forma alguma acabarão todas as atividades quando a coerção do trabalho desaparecer. Porém, toda a atividade muda seu caráter quando não está mais fixada na esfera de tempos de fluxo abstratos, esvaziada de sentido e com fim em si, podendo seguir, ao contrário o seu próprio ritmo, individualmente variado e integrado em contextos de vida pessoais; quando em grandes formas de organização os homens por si mesmos determinarem o curso, em vez de serem determinados pelo ditado da valorização empresarial. Por que deixar-se apressar pelas reivindicações insolentes de uma concorrência imposta? É o caso de redescobrir a lentidão.

Obviamente, também não desaparecerão as atividades domésticas e de assistência que a sociedade do trabalho tornou invisível, cindiu e definiu como “femininas”. Cozinhar é tão pouco automatizável quanto trocar fraldas de bebê. Quando, junto com o trabalho, a separação das esferas sociais for superada, estas atividades necessárias podem aparecer sob organização social consciente, ultrapassando qualquer definição sexual. Elas perdem seu caráter repressivo quando pessoas não mais subsumem-se entre si, e quando são realizadas segundo as necessidades de homens e mulheres da mesma forma.

Não estamos dizendo que qualquer atividade torna-se, deste modo, prazer. Algumas mais, outras menos. Obviamente há sempre algo necessário a ser feito. Mas a quem isso poderia assustar se a vida não será devorada por isso? E haverá sempre muito o que possa ser feito por decisão livre. Pois a atividade, assim como o ócio, é uma necessidade. Nem mesmo o trabalho conseguiu apagar totalmente esta necessidade, apenas a instrumentalizou e a sugou vampirescamente.

Os inimigos do trabalho não são fanáticos de um ativismo cego, nem de um nada fazer também cego. Ócio, atividades necessárias e atividades livremente escolhidas devem ser colocados numa relação com sentido que se oriente nas necessidades e nos contextos de vida. Uma vez despojadas das coerções objetivas capitalistas do trabalho, as forças produtivas modernas podem ampliar, enormemente, o tempo livre disponível para todos. Por que passar, dia após dia, tantas horas em fábricas e escritórios se autômatos de todos os tipos podem assumir uma grande parte destas atividades? Para que deixar suar centenas de corpos humanos quando algumas poucas ceifadoras resolvem? Para que gastar o espírito com uma rotina que o computador, sem nenhum problema, executa?

Todavia, para esses fins só podem ser utilizados a mínima parte da técnica na sua forma capitalista dada. A grande parte dos agregados técnicos precisa ser totalmente transformada porque foi construída segundo os padrões limitados da rentabilidade abstrata. Por outro lado, muitas possibilidades técnicas não foram ainda nem desenvolvidas pela mesma razão. Apesar da energia solar poder ser produzida em qualquer canto, a sociedade do trabalho põe no mundo usinas nucleares centralizadas e de alta periculosidade. E apesar de serem conhecidos métodos não agressivos na produção agrária, o cálculo abstrato do dinheiro joga milhares de venenos na água, destrói os solos e empesta o ar. Só por razões empresariais, materiais de construção e alimentos estão sendo transportados três vezes em volta do globo, apesar de poderem ser produzidos sem grandes custos localmente. Uma grande parte da técnica capitalista é tão vazia de sentido e supérflua quanto o dispêndio de energia humana relacionada a ela.

Não estamos dizendo-lhes nada de novo. Mas mesmo assim, vocês sabem que nunca tirarão as conseqüências disto tudo, pois recusam qualquer decisão consciente sobre a aplicação sensata de meios de produção, transporte e comunicação e sobre quais deles são maléficos ou simplesmente supérfluos. Quanto mais apressados vocês rezam seu mantra da liberdade democrática, tanto mais aferradamente rejeitam a liberdade de decisão social mais elementar, porque querem continuar servindo ao defunto dominante do trabalho e às suas pseudo “leis naturais”.

“Que o trabalho, não somente nas condições atuais, mas em geral, na medida em que sua finalidade é a simples ampliação da riqueza, quer dizer, que o trabalho por si só seja prejudicial e nefasto – isto sucede, sem que o economista nacional o saiba (Adam Smith), de suas próprias exposições.”
(Karl Marx – Manuscritos Econômico-Filosóficos, 1844)

18. A luta contra o trabalho é antipolítica.

A superação do trabalho é tudo menos uma utopia nas nuvens. A sociedade mundial não pode continuar na sua forma atual por mais cinqüenta ou cem anos. O fato de os inimigos do trabalho tratarem de um deus-trabalho clinicamente morto não quer dizer que sua tarefa torna-se necessariamente mais fácil. Quanto mais a crise da sociedade do trabalho se agrava e quanto mais falham todas as tentativas de consertá-la, tanto mais cresce o abismo entre o isolamento de mônadas sociais abandonadas e as reivindicações de um movimento de apropriação da sociedade como um todo. O crescente asselvajamento das relações sociais em grandes partes do mundo demonstra que a velha consciência do trabalho e da concorrência continuam num nível cada vez mais baixo. A descivilização por etapas parece, apesar de todos os impulsos de mal-estar no capitalismo, a forma do percurso natural da crise.

Justamente, face a perspectivas tão negativas, seria fatal colocar a crítica prática do trabalho ao cabo de um programa amplo em relação à sociedade como um todo e se limitar a construir uma economia precária de sobrevivência nas ruínas da sociedade do trabalho. A crítica do trabalho só tem uma chance quando luta contra a corrente da dessocialização, ao invés de se deixar levar por ela. Os padrões civilizatórios não podem ser mais defendidos com a política democrática, mas apenas contra ela.

Quem almeja a apropriação emancipatória e a transformação de todo o contexto social, dificilmente pode ignorar a instância que até então organizou as condições gerais deste contexto. É impossível se revoltar contra a apropriação das próprias potencialidades sociais sem o confronto com o Estado. Pois o Estado não administra apenas cerca de metade da riqueza social, mas assegura também a subordinação coercitiva de todos os potenciais sociais sob o mandamento da valorização. Se tampouco os inimigos do trabalho podem ignorar o Estado e a política, tampouco podem fazer Estado e política com eles.

Quando o fim do trabalho é o fim da política, um movimento político para a superação do trabalho seria uma contradição em si. Os inimigos do trabalho dirigem reivindicações ao Estado, mas não formam nenhum partido político, nem nunca formarão. A finalidade da política só pode ser a conquista do aparelho do Estado para dar continuidade à sociedade do trabalho. Os inimigos do trabalho, por isso, não querem ocupar os painéis de controle do poder, mas sim desligá-los. A sua luta não é política, mas sim antipolítica.

Na modernidade, Estado e política são inseparavelmente ligados ao sistema coercitivo do trabalho e, por isso, precisam desaparecer junto com ele. O palavreado sobre um renascimento da política é apenas a tentativa de reduzir a crítica do terror econômico a uma ação positiva referente ao Estado. Auto-organização e autodeterminação, porém, são simplesmente o oposto exato de Estado e política. A conquista de espaços livres sócio-econômicos e culturais não se realiza no desvio político, na via oficial, nem no extravio, mas através da constituição de uma contra-sociedade.

Liberdade quer dizer não se deixar embutir pelo mercado, nem se deixar administrar pelo Estado, mas organizar as relações sociais sob direção própria – sem a interferência de aparelhos alienados. Neste sentido, interessa aos inimigos do trabalho encontrar novas formas de movimentos sociais e ocupar pontos estratégicos para a reprodução da vida, para além do trabalho. Trata-se de juntar as formas de uma práxis de oposição social, com a recusa ofensiva do trabalho.

Os poderes dominantes podem declarar-nos loucos porque arriscamos a ruptura com seu sistema coercitivo irracional. Não temos nada a perder senão a perspectiva da catástrofe para a qual eles nos conduzem. Temos a ganhar um mundo além do trabalho.

Proletários de todo mundo, ponham fim nisso!

“Nossa vida é o assassinato pelo trabalho, durante sessenta anos ficamos enforcados e estrebuchando na corda, mas não a cortamos.”
(Georg Büchner – A Morte de Danton, 1835).


Publicado nos Cadernos do Labur – nº 2 (Laboratório de Geografia Urbana/Departamento de Geografia/Universidade de São Paulo. Contatos: Krisis na internet – www.magnet.at/krisis ; e-mail: ntrenkle@aol.com ; Grupo Krisis-Labur-São Paulo: labur@edu.usp.br

Grupo Krisis – Tradução de Heinz Dieter Heidemann com colaboração de Cláudio Roberto Duarte

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/manifesto-contra-o-trabalho/

Gigantes Cabeludos

Uma outra espécie de gigante parece ter sempre existido conosco neste planeta. Ele tem a forma dum ser humano , mas está coberto de pelo e prefere viver nas sossegadas e pouco povoadas florestas do Canadá. No entanto, ele é um tanto vagabundo e foi frequentemente visto por todos os Estados Unidos. Como a maioria  dos nossos monstros , ele tem a pouca  vulgar habilidade de desaparecer no ar logo que o cerco começa a apertar-se. Os nativos dos longínquos Himalaias também estão muito familiarizados com esta criatura e desde há muito a apelidaram de Metoh-Kangmi, que significa “o malvado homem mal cheiroso das neves”. Os exploradores britânicos tomaram liberdades com esta frase e apelidaram o animal de Abominável Homen das Neves , ABNH para abreviarmos.

Existem agora provas consideráveis que o ABNH existe na realidade. E mais, parecem existir variados tipos diferentes a rondar por aí . Vem em vários tamanhos , indo de pequenos com apenas noventa centímetros a gigantes animais cobertos de pelo com três metros de altura. Alguns deles parecem estar diretamente ligados aos objetos voadores não identificados. Outros poderiam ser descendentes atuais de homens pré-históricos de Neanderthal. Como o rinoceronte de Hugh Troy, gostam de espalhar as suas gigantescas pegadas por todo o país. não deixando para trás qualquer outro tipo de provas . Nas florestas da Califórnia ganharam a alcunha de “Pé Grande” (BigFoot).

A primeira referencia publicada sobre o ABNH dos Himalaias apareceu em 1899, num livro chamado Among the Himalayas, pelo major L. A. Wadell. Ele afirmou precisamente que se lhe tinha deparado algumas pegadas gigantes com forma humana no pequeno reino de Sikkin em 1887. Expedições sucessivas a essas montanhas relataram encontrarem regularmente pegadas semelhantes e, em vários casos, grandes personagens cobertos de pêlos. Gerações de cientistas do tipo B ( burocráticos pilotos de escrivaninhas ), sentados confortavelmente entre os seus livros em universidades   —   torres de marfim , zombaram dos relatos e apresentaram uma larga obra de especulações. Era apenas um urso ou um macaco, anunciaram periodicamente , e um grupo de escolares conclui que as pegadas eram espalhadas por Yogis (  o personagem Zé Colméia dos desenhos animados ) nus que vagueavam pelas montanhas em temperaturas abaixo de zero.

Três anos antes do major Wadell ter achado essas pegadas em Sikkin , uma verdadeira criatura tipo ABNH foi capturada no Canadá . Segundo o Daily British Colonist ( 3 de julho de 1884) , um grupo de operários do caminho de ferro que cavava um túnel nas redondezas de Yale, Columbia Britanica, deparou-se com o que parecia à primeira vista ser um homem a dormir nos carris. Provou-se ser um peludo “meio homem, meio animal”, que foi capturado vivo e depois duma perseguição de cinco minutos. “Jacko”, como foi apelidado  pelos seus captores , tinha um metro e trinta e cinco de altura e pesava cinquenta e sete quilos.

“Ele tinha um pelo longo e negro  e assemelhava-se a um ser humano , mas com uma exceção: todo o seu corpo com um pelo
brilhantes com dois centimetros e meio de comprimento ” , afirmava o relatório. “Os seus antebraços são muito maiores do que os
antebraços do homem . . .”

O que aconteceu a “Jacko” não se sabe. Recentemente, em 1946 , um reporter canadiano entrevistou um idoso cavalheiro de Lytton, Columbia Britancia , que disse que o tinha visto. Outros , incluindo o Sr. Alexander Caulfield Anderson, da Hudson’s Bay Company , disseram ter encontrado animais desses desde 1864.

A obra definitiva Abominable Snowman: Legend Come to Life , de Ivan T. Sanderson, sonda esses antigos relatórios em
detalhe e anota as muito lendas e muitos indicios acerca dessas criaturas na América do Norte. Há vários antigos contos índios sobre mulheres terem sido violadas por ABNH e mesmo terem filhos deles. Podemos também mencionar que muitas outras culturas tiveram histórias identicas. Os escolares podem um dia descobrir que o homem frequentemente se cruzou com esses seres peludos como um ser nascido “todo vermelho com uma pele cabeluda”.

A literatura européia antiga contém numerosas  referencias aos “Homens Maus das Florestas” que se pensava existiam escondidos nas densas florestas da Inglaterra, França, Alemanha e muitos outros países. São descritos como homens altos , cobertos de pêlos, com uma extraordinária destreza, capazes de saltar enormes distancias e vencer homens vulgares. No folclore irlandês, segundo o De Animalibus, esses Homines Sylvestris  “habituados a habitarem em deselegantes cho,cas subterraneas, viviam de vegetais e recusavam-se a conviver  de todo com os outros humanos . . . Por mais bondosamente que fossem tratados , era impossivel civiliza-los, porque recusavam-se a reconhecer a lei e a ordem . . . Existiu um número quase infinito deles na Irlanda”.

Na literatura antiga os “Homens Selvagens” europeus tinham uma natureza sensual e atacariam femeas humanas sozinhas que passassem através das florestas, obrigando-as à  força a terem relações sexuais. Talvez esses contos fossem a base para as lendas dos sátiros, e artistas e desenhistas da Playboy interpretaram mal os sátiros, dando-lhes cascos fendidos. Uma vez que os indios americanos têm histórias semelhantes , é possivel que exista alguma verdade nos contos.

Tribos isoladas da América do Sul também têm lendas sobre misturas raciais com uns peludos. Alguns especuladores não
cientificos sugeriram mesmo que as criaturas só podem se reproduzir através de fêmeas humanas. No entanto, ainda não
descobrimos alguma queixa de alguem que tivesse sido rapatado por um monstro peludo, embora sabendo que se tal queixa fosse alguma vez feita não era possivel que aparecesse na imprensa.

Ainda mais incrivel é a prova que se vai acumulando firmemente que sugere fortemente que os cabeludos ABNH estão ligados de alguma maneira peculiar ao fenomeno de objetos voadores não identificados . Nós examinaremos isto mais adiante. Os comicos discos voadores produziram toda a espécie de relatos de monstros, e não estavamos a ser inteiramente facciosos quando propusemos que um gigante patagonio poderia ter sido transplantado para o Michigan em 1897. Quase que parece que as anormais criaturas terrestres foram alistadas ( ou destacadas ) para o serviço pelos discos voadores para cumprirem alguma misteriosa missão. As provas sobre OVNIs , que são discos voadores é uma ultrajante empresa que joga com a nossa credibilidade e é um meio de inspira uma totalmente falsa crença sobre os extraterrestres ( interplanetários ) visitantes.

Um dos principais UFOólogos da América é Brad Steiger, autor de muitos livros sobre o assunto. Steiger recebeu um espantoso diário de James C. Wyatt, de  Menfis, Tennessee. O diário foi escrito pelo avô do Sr. Wyatt e debate em detalhe uma experiencia com um “Urso Louco” no ano de 1888. Dizia-se que um indio teria conduzido o avô Wyatt a uma caverna escondida do Tennessee onde estava guardada uma criatura peluda com formas humanas . Os indios alimentavam o “Urso Louco” em intervalos regulares e diziam que tais criaturas  tinham sido atiradas de “luas” que aterravam periódicamente no vale.

Os indios disseram-lhe que através dos anos foram deixados muitos “Ursos Loucos” nas florestas e muitos do seu povo tinham visto os “homens do céu” a tirarem os “Ursos Loucos” das suas “luas”. Existe portanto uma solução para o nosso mistério. Os discos voadores estão a largar monstros cabeludos por todo o lado! O “Urso Louco” de Wyatt é descrito como uma criatura com um pescoço curto, grandes braços e coberto de um pêlo preto brilhante.

É um fato curioso que discos voadores tenham sido repetidamente vistos em áreas infestadas de ABHN. Uma expedição de montanheiros ao Everest em 1923-24, chefiada pelo general Bruce , não apenas se deparou com as clássicas pegadas gigantes do ABNH , mas também viu “um grande e peludo homem nu correndo através dum campo de neve em baixo ” a uma altitude de 2.000 metros . Subsequentes expedições tiveram mais encontros com a criatura. Durante a tentativa do Everest  em 1933, o alpinista F.S. Smythe estava a subir sozinho quando observou “dois objetos de aspecto curioso flutuando no céu” . Eles pairavam imóveis e pareciam pulsar devagar. Outras expedições aos Himalaias noa anos 20 e 30 relataram várias vezes terem visto “gigantescos discos de prata” e “um bule de chá voador” . A controvérsia dos OVNIs ainda não existia nessa altura, portanto a maioria dos cientistas do tipo B ( burocratas ) olhava essas histórias como alucinações causadas por alta altitudes . Embora os nativos tenham muito a dizer sobre ABN , ou Yeti  , eles consideravam os objetos aéreos como manifestações religiosas. Os discos tinham sempre voado em rotas regulares sobre as montanhas. Eles pertencem a elas como as nuvens , explicaram os nativos aos primeiros exploradores.

Nós ( John Keel ) visitamos a Índia e os Himalaias em 1955-56 e ouvimos muitas histórias de Yeti dos nativos. Esses misteriosos animais são um fato aceito nas vidas dos povos da montanha, da mesma maneira que as capivaras o são para nós. Na altura da nossa visita sómente quatrocentos homens brancos tinham visitado essas regiões em toda a História. Amaioria deles tinham sio missionários religiosos mais interessados em salvar almas do que caçar monstros. Em muitas aldeias remótas nós fomos os primeiros homens brancos a ser alguma vez visto pelos nativos. Desde aí os minusculos reinos do Nepal, Bhutan e Sikkin foram abertos a um turismo limitado. Mas os Chineses Vermelhos ocuparam o Tibete completamente, afastaram o Dalai Lama e os seus seguidores e selaram os caminhos da montanha com tropas e fortificações. É virtualmente impossivel obter um mapa correto dos territórios dos Himalaias . A área é estratégicamente importante para a Ïndia e seria mais fácil obter um mapa das instalações atomicas de Oak Ridge, Tennessee.

Em alguns locais o Yeti é muito temido e há numerosos registros do animal ter atacado e morto seres humanos. Em 1949 um pastor Sherpa chamado Lakhapa Tensing foi partido em dois pelo Yeti na passagem de Nanga Parbat, uma das mais altas passagens do mundo, muito mais para além das possibilidades dos animais vulgares. As mães da montanham assustam os seus filhos mal comportados dizendo-lhes que os Yetis os apanharão se não tiverem cuidado. Lavradores de algumas áreas têm medo de trabalhar de pois do por do sol por causa desta cortina de superstição e de medo. Eles crêem que olhar para o Yeti significa morte, e que a única proteção é cobrir os olhos e correr pelos montes abaixo. Os pés do Yeti estão supostamente colocados ao contrário para facilitar as escaladas , mas isso torna-o muito desajeitado quando corre para baixo nas montanhas.

Uma estranha crença provém dum acidente que alegadamente aconteceu por volta de 1900 quando os ingleses estavam a estender uma linha telegráfica de Kalimpong , na Índia, para Lhasa , no Tibete . Era um grande empreendimento e muitos homens da montanha foram contratados para trabalharem nele. Alguns deles estavam acampados em Chumbithang , a cinco quilometros da passagem de Jele-la, uma das portas para o Tibete. Uma manhã uma dezena de operários saiu e não conseguiu voltar. Na manhã seguinte um esquadrão de soldados britanicos saiu para os procurar.  Encontrara, em vez deles, um estranho animal escondido sob uma s rochas gigantes nas proximidades da passagem . Dispararam contra ele e arrastaram-no para o dak mais próximo ( cabanas mantidas para viajantes ) . Mais tarde Sir Charles Bell, então oficial político britanico de Sikkim , veio e ordenou que embalassem a carcaça e a enviassem para a Inglaterra. Nunca mais foi vista e não há nenhum traço dela.

Esta história tem sido apaixonadamente repetida em vários livros indianos sobre as lendas da montanha, mas parece estar mais baseada num boato do que na verdade. Não existe qualquer referencia a ela nos papéis de Sir Charles . No entanto, um velho de Darjeerling, Bombahadur Chetri, disse ter visto com os seus próprios olhos o animal quando era rapaz. Descreve-o como tendo três metros de altura e coberto com hirsutos pêlos com cinquenta ou sessenta centimetros de comprimento. A sua horrorosa face não tinha cabelos, com uma boca cheia de afiados caninos amarelos e frios olhos vermelhos. Os seus pés estavam  voltados para trás, disse. Mas isto podia ser uma falsa impressão, dependendo de como a carcaça estava deitada. Os seus pés podiam ter forma de mãos , como os dos macacos, pendendo sobre a esquina duma mesa.

É significativo que a lenda do Homem da Neve persista através de toda a cadeia Himalaia de Kasmir a Este, a Assam , longe para o Oeste. Todas as tribos têm histórias sobre a criatura , e todas as linguas da montanha ( existem muitas ) têm uma palavra para ela . todas essas histórias contêm essencialmente os mesmo detalhes e as descrições básicas são universais. Há dois tipos principais. Um tem aproximadamente um metro e vinte de altura e parece-se com um anão humano coberto de pêlos. O outro é muito alto, indo , segundo as descrições , de dois a três metros. Nenhum deles se parece com um urso ou macaco. Os ursos movem-se a quatro a maioria do tempo, exceto quando atacam . E quanto a gorilas , os antropologistas estimam que a população gorila mundial anda à volta dos quatrocentos, e podem apenas encontrar-se numa pequena área funda dentro da Africa Equatorial.

Animais que correspondiam às descrições dos dois tipos de Yeti himalaios têm sido vistos perto de discos voadores aterrados na América do Sul, e mesmo em França. Serão discutidos mais para frente.

Tenzig Norgay, o sherpa que, juntamente com Sir Edmund Hillary, foi o primeiro a chegar ao cume do Monte Everest em 29 de maio de 1953, vive na pitoresca vila da montanha de Darjeerling, India , no sopé dos Himalaias . Nós pudemos passar um tempo consideravel com este homem fantasticamente humilde e simples durante a nossa visita à região. Tenzig gosta de falar do seu cunhado que foi em tempos um dos assistentes do grande Sangay Rimboche, o último Grande lama do mosteiro de Rongbuck, perto do Everest. Ele ia com o Grande Lama nos seus passeios anuais para meditar nos elevados, secretos lugares da montanha . Durante uma dessas viagens um outro lama assistente encontrou um Yeti morto e mostrou a pele a Sangay Rimboche. Parecia-se com a pele dum jovem urso, e o Grande Lama usou-a durante anos para se sentar enquanto meditava. Foi provavelmente colocada no seu Chorten depois da sua morte.

Muitas das lamassarias da montanha guardam pedaços de pêlo do Yeti e ossos como reliquias sagradas. Pensam que os Yetis são demonios colocados à volta das montanhas para guardarem os deuses que supostamente vivem nos cumes. No fim de 1954, uma tribo de caçadores de cabeças de Assam disse ter morto e comido uma criatura com dez metros de altura. Os ossos e o pêlo foram supostamente levados para o mosteiro. Tenzing nunca viu um Yeti pessoalmente , mas não duvida da sua existencia. O seu pai disse ter uma vez encontrado um face a face e conseguiu escapar. Tenzing disse que o seu pai não era mentiroso ou dado a inventar contos do vigário. E as suas descrições correspondem aos relatórios de outras testemunhas oculares.

Quase todas as expedições aos mais remotos setores dos Himalaias nos ultimos cinquenta anos têm visto e fotografado enormes pegadas de ABNH. Geralmente tais pegadas são encontradas na neve em elevadas altitudes que estão para além do raio de ação da maioria dos animais vulgares. Por fim , não é provavel que animais se aventurassem em áreas onde não existe nem comida nem presas. Amostras de restos de Yeti também foram recolhidas e estudadas e indicam que vive de pequenos roedores conhecidos como o rato-lebre. Um grande número de expedições realizou importantes relatos em que eles próprios viram o animal de uma certa distancia. Foi visto a cavar raízes com um pedaço de pau, algo que um animal vulgar não faria . Este uso de um instrumento coloca-o na classe sub-humana.

O que poderá ele ser? Há algumas evidencias que dizem que ele poderia na realidade ser um sobrevivente do antigo homem de Neanderthal. Pegadas que se sabem terem sido feitas por Neanderthaleses foram descobertas e são quase identicas às do ABNH. Em 1948 numa antiga gruta , há muito selada por lava vulcanica , que foi aberta perto de Toirano, Itália , descobriram-se interessantes artefatos, incluindo as pegadas de homens modernos , de ursos e de homens do Neanderthal. As últimas foram imediatamente reconhecidas como sendo quase exatamente as mesmas  pegadas fotografadas pelas várias expedições ao Everest. De igual interesse é o fato de que a descoberta parece indicar que o homem moderno e os Neanderthalenses existiram na mesma era. Um fato que levou os cientistas do Tipo B (burocratas) a depressa esconderem a descoberta por detrás dos seus arquivos.

Em 1950 uma expedição ao Médio Oriente desenterrou restos que mostram que o homem moderno, o homem do Cro-Magnon, e o homem de Neanderthal viveram e existiram ao mesmo tempo. Também isto foi depressa varrido para debaixo do tapete pelos sujeitos da pré-evolução. Na verdade, se essas variadas personagens humanas e sub-humanas tivessem vívido juntas numa época então algo estaria radicalmente errado na nossa há muito tempo aceite escala das evoluções.

As provas que estamos a resumir aqui abrem um  totalmente  novo saco antropológico. Poderiam os “Homens Maus das Florestas” da Europa ser sobreviventes extraviados de algum tempo antigo, gradualmente afastados cada vez mais para as florestas e montanhas, forçados a acasalarem com fêmeas humanas para poderem sobreviver de todo, e, finalmente , empurrados para a extinção quando as fêmeas humanas foram menos acessiveis? Poderiam esses seres peludos ter sobrevivido nas áreas remotas dos Himalaias e nas profundas selvas do Brasil e do Norte do Canadá?

Nós ( John Keel ) próprios vimos pegadas do Yeti. Tentamos perseguir o animal até ao seu refugio. Em “Jadoo”, esta aventura foi completamente descrita. Aqui está um sumário dessa narrativa:

Enquanto viajávamos através do Norte de Sikkin com um guia nativo chamado Norbhu, ouvimos distintamente o grito do Yeti que
“se parecia com um pássaro muito perto, curtos gorgeios com uns pequenos trinados. Parecido com os gritos dos macacos, mas
mais agudos e menos definido.”

“Nós estavamos muito perto da fronteira do Tibete, e cedo encontravamos profundas pegadas de Yeti. “As pegadas eram claras e
espaçadas como se andasse a um passo vagaroso. Não era de maneira alguma um macaco ou um urso, e as pegadas eram
muitos grandes para terem sido feitas por um homem descalço . . . Então, de repente , de algum lugar à nossa frente , ouviu-se um
agudo grito animal; breve, cheio de uma dor chorosa. Norhu deu um enorme salto. Então ficou apenas o silêncio e o barulho da
água nas folhas à nossa frente.”

“Um pouco mais longe um grupo de nativos aparecu e conduziu-nos à sua aldeia na margem de um estreito ribeiro. Eles também
tinham ouvido o grito. Era de uma pantera, diziam. Uma pantera moribunda . . . Eles tinham encontrado uma mancha de sangue
rodeada de pegadas de Yeti . Estavam a correr para a sua aldeia quando esbarraram conosco.

“Poderia um Yeti matar uma pantera, perguntei?

“‘E um dos poucos animais que o pode fazer.”

“Norbhu voltou para Dubdi, e eu ( Jonh Keel ) continuei sózinho. A pista era fácil de se seguir; demasiado fácil. O Yeti era mais ágil
e rápido do que um vagaroso homem branco. Dando razão ao que os lamas me tinham repetidamente dito, o Yeti escolhia o
caminho mais fácil para onde quer que fosse, evitando as mais dificeis áreas da selva, atravessando os lugares mais baixos dos
rios, etc. Às vezes parecia que não o poderia encontrar.”

“Encontrei aldeias e lamassarias em estado de alerta e de medo, tendo ouvido ou visto a minha presa. Todas as descrições eram
as mesmas .tinha mais noventa centimetros do que eu ( tenho um metro e oitenta e cinco ), coberto de um pêlo castanho, com
uma face vermelha sem pelos e uma cabeça sujíssima.

” Num mosteiro acima de Changtthang , os lamas estavam a tocar tambores e trombetas quando chegavamos. Tinham visto o Yeti
apenas umas horas antes , a correr no caminho que eu levava . . .

“Seguindo a quente e fria pista do Yeti, cheguei finalmente à aldeia Norte de Lachem, a 2640 metros acima do nivel do mar, onde
os nativos me receberam excitadamente e me conduziram através de tortuosos caminhos até a um pântano . Um Yeti . . . o meu
Yeti , sem dúvida . . . tinha aí sido visto por um grupo de crianças nessa mesma manhã. O local estava cheio de pegadas.
Enquanto estava parado aí a observar , um estranho guincho ouviu-se, provindo de umas rochas perto. O efeito nos nativos foi
elétrico. Ficaram espantados e assustados; apenas a minha presença os impediu de fugir. Olharam para mim com curiosidade
alarmante, pensando o que eu ia fazer.”

“Eu também estava a pensar.”

“Cautelosamente andei para a frente vacilando num inclinado caminho cheio de seixos gigantes. Finalmente, cheguei à beira de
uma vasta cavidade cheia de agua, onde árvores partidas e arbustos definhados estavam como esquletos.

“Foi aí que o ví!”

“Talvez não fosse umYeti, eu não estava suficientemente perto para estar ompletamente certo. Mas algo estava ali, do outro lado
do lago. Algo grande, enormemente grande, e castanho, e movendo-se rápidamente na direção de uma pilha de seixos. Ao
aproximarmo-nos dele, outra sombra castanha mexeu-se para ir ter com ele e juntos desapareceram para além dos restos de um
abatimento.

“Circulei o lago e encaminhei-me para cima cautelosamente através das rochas e abatimentos. Em poucos minutos cheguei a um
estreito canal nos rochedos . . .

“Repetidamente o agudo grito do Yeti ouviu-se de novo e eu gelei. Vinha dos penhascos em cima. Os Yetis estavam em algum
lugar acima a observarem-me e a gozarem-me! Dobrei o canto do canal e olhei para cima. Muito acima de mim houve um rápido
movimento. Um relampejar de castanho no céu cinzento . . . Os Yetis devem ter trepado para cima, pelas rochas nuas; algo que
nenhum urso ou macaco poderia fazer fácilmente . . .Eu sabia que não poderia trepar esses rochedos. Sabia que não podia me
aproximar desses espertos , evasivos animais sózinho. Permaneci aí tenso um grande momento . . . depois desci devagar para o
canal.”

“Isso foi o mais perto que alguma vez estive do Abominável Homem das Neves.”

A aparição mais recente de pegadas de Abominável foi em Março de 1969. O Sr. Charles Loucks, um montanhes de Center Point, Nova York, estava a alpinar no Nepal quando se deparou com uma fila de pegadas na neve a três mile e seiscentos metros de altura. Tinham dez centimetros de largura, dezessete centimetros de comprimento, e pareciam ter um dedo do meio ligeiramente maior do que os outros quatros. A pista estendia-se por trintametros, conduzindo a um bosque e ignorando um caminho aberto perto.
Extraido do livro Estranhas Criaturas do Tempo e do Espaço de John Keel  –  EDILIVRO –  1980

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/criptozoologia/gigantes-cabeludos/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/criptozoologia/gigantes-cabeludos/

Antonin Artaud

1896 -1948

Rodrigo Emanoel Fernandes com Liege Seraphin e Maíra Silvestre

Artigo originalmente escrito para a disciplina “Interpretação II” do curso de Graduação em Artes Cênicas da Universidade Estadual de Londrina – UEL, sob orientação da Prof. Thaís D’Abronzo.

Onde outros propõem obras eu não pretendo senão mostrar o meu espírito.

A vida é queimar perguntas.

Não concebo uma obra isolada da vida. Não amo a criação isolada. Também não concebo o espírito isolado de si mesmo. Cada uma de minhas obras, cada um dos planos de mim próprio, cada uma das florações glaciares da minha alma interior goteja sobre mim.

Reconheço-me tanto numa carta escrita para explicar o estreitamento íntimo do meu ser e a castração insensata da minha vida, como num ensaio exterior a mim próprio, que me surja como uma gestação indiferente do meu espírito.

Sofro por o espírito não estar na vida e por a vida não ser o espírito, sofro por causa do espírito-órgão, do espírito-tradução ou do espírito-intimidação das coisas para as fazer entrar no espírito.

Este livro, suspendo-o na vida, quero que seja mordido pelas coisas exteriores, e em primeiro lugar por todos os sobressaltos cortantes, todas as cintilações do meu eu por vir.

Todas estas páginas se arrastam como pedaços de gelo no espírito. Perdoe-se-me a minha liberdade absoluta. Recuso-me a estabelecer diferenças entre qualquer um dos momentos de mim mesmo. Não reconheço no espírito nenhum plano.

É preciso acabar com o espírito, tal como com a literatura. Afirmo que o espírito e a vida comunicam a todos os níveis. Gostaria de fazer um livro que perturbasse os homens, que fosse como uma porta aberta e os conduzisse onde nunca teriam consentido ir, uma porta simplesmente conectada com a realidade.

E isso é tão pouco um prefácio a um livro, quanto, por exemplo, os poemas que o balizam ou a enumeração de todas as raivas do mal-estar.

Isto não é senão um pedaço de gelo mal digerido.

(Artaud: O Umbigo dos Limbos, in: O Pesa-Nervos; 1991, pg.13-14)

1. DOR… TEATRO… SOLIDÃO…

Antonin Maria Joseph Artaud (um nome completo raramente mencionado e surpreendentemente sugestivo), nasceu em 4 de setembro de 1896 na cidade de Marselha. Primogênito de uma família de nove irmãos, dos quais apenas três chegaram a idade adulta, em 1901 é acometido de uma grave meningite, da qual não se salvará sem seqüelas. Apenas o início de uma vida de constantes sofrimentos físicos e psíquicos originados de distúrbios no sistema nervoso central. Esse sofrimento, que Artaud nunca desistiu de tentar descrever das mais variadas formas, é de fundamental importância para a compreensão de seu teatro e suas idéias. Constantemente afligido por dores e uma sensação de opressão na cabeça, ombros e pescoço, Artaud afirmava ter sérias dificuldades em ordenar seus pensamentos e dar-lhes uma forma exterior.

A horrível compressão da cabeça e do alto da coluna vertebral, o peito opresso, as visões de sangue e de morte, os torpores, as fraquezas sem nome, o horror geral em que me encontro mergulhado com um espírito no fundo intacto, tornam inútil esse espírito.

(Artaud citado por Virmaux: Artaud e o Teatro;1978, pg10)

Esse “espírito intacto” era o que lhe garantia a lucidez necessária para a criação e para a capacidade de expor seu mal sem, entretanto, conseguir alivia-lo. Com o passar dos anos, Artaud torna-se obcecado com a idéia de que sua agonia (que não deixou de ser um estímulo cruel à sua necessidade imperativa de expressão que acabaria por leva-lo à arte e ao teatro) tinha uma origem metafísica:

Eu não tenho vida!!! Minha efervescência interna está morta! (…) Asseguro-te que não há nada em mim, nada naquilo que constitui a minha pessoa, que não seja produzido pela existência de um mal anterior a mim mesmo, anterior à minha vontade, nada em nenhuma das minhas mais hediondas reações, que não venha unicamente da doença e não lhe seja, em qualquer dos casos, imputável.

(Artaud citado em: Artaud e o Teatro;1978, pg.11)

Essa deterioração corporal e psíquica tornava extremamente difícil seu convívio social e a criação de elos verdadeiros com seus semelhantes. Artaud usa o teatro e sua capacidade única de expressão física, intelectual e – como não cansa de reiterar – metafísica, como seu meio privilegiado de comunicação, de grito. Sua prática teatral é permanentemente voltada para a idéia de uma “cura cruel”, para si mesmo e para a raça humana. Seu “corpo sem órgãos”, seu corpo novo, reconstruído, imortal, finalmente senhor de seu próprio destino e de sua própria anatomia.

Os primeiros passos no teatro dão-se a partir de 1920, quando muda-se para Paris, depois de passar por constantes internamentos em sanatórios, particularmente para desintoxicações, necessárias para manter em níveis aceitáveis a dependência do ópio, adquirida por ocasião dos primeiros tratamentos.

Preciso encontrar uma certa quantidade cotidiana de ópio. (…) pois tenho o corpo ferido nos nervos das medulas e isto é irremediável, incurável, absolutamente irremissível, não existe operação cirurgical que possa restituir ao organismo os nervos que ele perdeu.

(Artaud citado em: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg.79)

Apesar de seu estado de quase miséria, sobrevivendo muitas vezes graças à cortesia de amigos que lhe ofereciam abrigo e comida, Artaud mantém uma atividade intelectual e profissional frenética, atuando em diversos espetáculos, publicando artigos e poesias e obtendo uma posição de destaque no movimento surrealista (que, posteriormente, criticaria por seu posicionamento político, de forma lúcida, porém cortante). O período de 1920 até 1932 viu o nome da Artaud crescer como uma figura ímpar e polêmica do teatro e da poesia francesas. Trabalhou em todas as frentes da atividade teatral: ator, encenador, cenógrafo, iluminador, escritor, sonoplasta e produtor, participando de inúmeras companhias sem pertencer realmente a nenhuma, exceto – em termos – o conhecido experimento do “Teatro Alfred Jarry”, cujos frutos foram quatro espetáculos e oito representações, entre 1926 e 1930. Além disso, não lhe faltaram oportunidades para trabalhar no cinema, em filmes notórios e raros como “A Paixão de Joana d’Arc”, de Dreyer (1928) e “Napoleão”, de Gance (1925-1927), interpretando Marat. Sem contar o desenvolvimento de roteiros de sua própria autoria, como “A Concha e o Clérigo”, mas suas relações com cinema serão sempre tumultuadas e frustrantes.

Em meros doze anos, Artaud notabilizou-se como um artista enérgico ao defender suas idéias. Suas críticas ao teatro de cunho psicológico, centrado no texto, deixando a encenação em último plano, eram correntemente reiteradas em seus artigos e manifestos, publicados nos periódicos artísticos da época.

(…) apresso-me em dize-lo desde já, um teatro que submete ao texto a encenação e a realização, isto é, tudo o que é especificamente teatral, é um teatro de idiota, louco, invertido, gramático, merceeiro, antipoeta e positivista (…)

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1993, pg.35)

Evidentemente, idéias defendidas de forma tão apaixonada e agressiva raramente passavam despercebidas, mesmo quando rechaçadas por críticos tão veementes quanto antiquados. Apesar das polêmicas, Artaud era um artista respeitado, muito embora esse reconhecimento não tornasse as coisas mais fáceis para um homem eminentemente solitário, morando em quartos alugados e tendo pouquíssimos amigos e, muito menos, amores (seu relacionamento com a atriz Génica Athanasiou teria sido sua paixão mais intensa e, em muitos aspectos, a mais frustrante).

Evocando o comportamento quotidiano de Artaud durante a época de sua participação no grupo surrealista, André Masson enfatizou “seu lado dandy, seu lado não gregário que o fazia chegar após os outros, partir antes de todo mundo, sempre só” (…). É também o testemunho de Anaïs Nin: “Irritável. Gagueja em alguns momentos. Sempre sentado em algum canto isolado, ele se afunda em uma poltrona como em uma caverna, como se estivesse na defensiva”(…)

(Virmaux: Artaud e o Teatro; 1978, pg. 161)

Esses fatores contribuíram para que, até o fim de sua vida, as cartas fossem uma de suas formas favoritas de expressão e onde sutilezas de sua obra podem ganhar aspectos esclarecedores.

2. CRUELDADE… ORIENTE… PESTE… TEATRO… E SEUS DUPLOS…

Mas foi a partir de 1931 que a crescente carreira de Antonin Artaud começou a tomar o rumo que o tornaria uma figura única na História do Teatro. Durante a Exposição Colonial, em Paris, assiste a uma apresentação de um grupo teatral de Bali. Esse contato com o Teatro Oriental marcará profundamente seu pensamento, quase como uma revelação. Nas evoluções dos “atores/bailarinos”, nos gestos perfeitamente codificados e nas temáticas de caráter metafísico e arquetípico, Artaud encontra os elos que faltam na formulação de suas próprias idéias sobre o Teatro e seu papel na Arte. Para Artaud, um teatro eficaz é aquele capaz de refazer a vida, o que não seria possível sem refazer profundamente a cultura no Ocidente. Toda a sua obra é guiada pelo desejo incessante de reencontrar um ponto de utilização mágica das coisas, recusando uma consciência estética fundada em simulacros e aparências face à realidade empírica das coisas. Ele coloca a questão da linguagem e da manipulação de signos em termos de forças mágicas e da relação mantida, através deles, com o cosmos e com o divino. Para Artaud, o Ocidente europeu é doente pois perdeu sua ligação com o divino, com a consciência cósmica.

Entre 1932 e 1935 publica em diversas revistas os textos que seriam futuramente organizados na forma do livro “O Teatro e Seu Duplo”, editado em 1938. Neles Artaud desenvolve seu projeto maior de refazer o Teatro Ocidental, apontando de maneira contundente os seus vícios, camisas de força e denunciando o abandono dos espetáculos por um público ansioso por emoções verdadeiras que não mais consegue encontrar num teatro que não representa verdadeiramente sua época.

O teatro de Bali revelou-nos uma noção de teatro física, não verbal, na qual o teatro está contido nos limites de tudo o que pode acontecer num palco, independentemente do texto escrito, enquanto que, tal como nós o concebemos no Ocidente, o teatro se aliou ao texto e por ele se encontra limitado. Para o teatro ocidental a Palavra é tudo e não há, sem ela, possibilidade de expressão; o teatro é um dos ramos da literatura, uma espécie sonora da linguagem e mesmo que admitamos uma diferença entre o texto falado no palco e o texto lido pelos olhos, se restringirmos o teatro ao que acontece entre as deixas, não conseguimos, mesmo assim aparta-lo da noção de um texto representado.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1999, pg. 75)

Diante dessa “ditadura do texto”, Artaud responde com uma proposta ampla de reestruturação da linguagem teatral, devolvendo ao teatro os elementos que considera “naturais” (no sentido de “primordiais”) na encenação e que foram, pouco a pouco, abandonados por um ocidente por demais atado às limitações do racionalismo.

Para mim, a questão que se impõe é de se permitir ao teatro reencontrar sua verdadeira linguagem, linguagem espacial, linguagem de gestos, de atitudes, de expressões e de mímicas, linguagem de gritos e onomatopéias, linguagem sonora, mas que terá a mesma importância intelectual e significação sensível que a linguagem das palavras. As palavras serão apenas empregadas em momentos determinados e discursivos da vida como uma luz mais preciosa e objetiva aparecendo na extremidade de uma idéia”

(Artaud:Linguagem e Vida; 2004, pg. 80)

Refazer a linguagem teatral para trazer o teatro de volta as suas origens ritualísticas. Nada de espetáculos de entretenimento, nada de psicologismos e narrativas sobre indivíduos. Artaud concebe um teatro para além do imediatismo político, social, psicológico ou moral, um teatro que expresse questões metafísicas (termo constantemente empregado em “O Teatro e Seu Duplo”).

Enquanto a alquimia, através de seus símbolos, é como um duplo espiritual de uma operação que só tem eficácia no plano da matéria real, também o teatro deve ser considerado como o duplo não dessa realidade cotidiana e direta da qual ele aos poucos se reduziu a ser apenas uma cópia inerte, tão inútil quanto edulcorada, mas de uma outra realidade perigosa e típica, onde os Princípios, como os golfinhos, assim que mostram a cabeça apressam-se a voltar à escuridão das águas.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1999, pg 49)

No “Manifesto do Teatro da Crueldade”, Artaud propõe a sua visão à comunidade teatral. De forma compacta e desconcertantemente direta, oferece os enunciados básicos de uma prática teatral que sempre se apressou a considerar “mais fácil de fazer do que de dizer”. Um teatro que utilizaria de uma linguagem de imagens e signos para oferecer uma “cura cruel” ao público, numa experiência mágica coletiva, na qual cada elemento da encenação – voz, corpo, iluminação, som, figurino, cor – seria meticulosamente planejado para levar o espectador a um estado de transe, uma transformação. Artaud concebe um espetáculo circular, através de um palco giratório, onde os espectadores ficam no centro e toda ação se dá ao redor, não havendo espaços vazios, integrando o espectador à própria encenação. Temas de caráter universal, uso de textos clássicos (como tragédias) como uma simples base para uma total re-criação em cena, personagens ampliadas à dimensão de deuses, de heróis, monstros, presença no palco de manequins gigantes, máscaras e objetos desproporcionais representando os duplos de ações, eventos e personagens acentuando o caráter metafísico da encenação, um jogo cuidadosamente planejado aonde nada pode ser deixado ao acaso, sob pena de sacrificar os efeitos mágicos específicos que o espetáculo deve provocar. Artaud, portanto, defende veementemente o domínio do encenador para orquestrar cada pequeno aspecto de uma montagem, numa época em que aquilo que se refere como parte da encenação, em contrapartida ao texto, costumava ser alvo de desprezo pela comunidade teatral. Para além dos temas e objetivos, o teatro de Artaud é um teatro que começa e se realiza no palco, com uma linguagem que se dá exclusivamente no palco, sendo o encenador (e não o autor de um texto pré-escrito) o responsável pela “escrita” dessa linguagem.

Nesse contexto, o ator é um elemento essencial mas passivo, já que sua iniciativa pessoal deve estar submetida às exigências da encenação.

O ator é, ao mesmo tempo um elemento de primeira importância, pois é da eficácia de sua interpretação que depende o sucesso do espetáculo, e uma espécie de elemento passivo e neutro, pois toda iniciativa pessoal lhe é rigorosamente recusada. Este é, aliás, um domínio em que não há regras precisas; e, entre o ator a quem se pede uma simples qualidade de soluço e aquele que deve pronunciar um discurso com suas qualidades de persuasão pessoais, há toda a distância que separa um homem de um instrumento.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1995, pg. 95)

Nos capítulos “Um atletismo afetivo” e “O Teatro de Seraphin”, Artaud procura esboçar as técnicas e qualidades que o ator do Teatro da Crueldade deve buscar. No ator existe uma musculatura de atleta físico e uma outra musculatura que corresponde a localizações físicas dos sentimentos. Essa musculatura afetiva funciona como um duplo da outra, embora não atue no mesmo plano, e deve ser exercitada através da respiração. Para cada alteração dos sentimentos, existe uma respiração apropriada.

O ator, ao mostrar um sentimento, um estado de espírito, fisicamente pode parecer estar delirando, mas na verdade está consciente de tudo o que está fazendo, mantendo o controle através da respiração. O uso da memória emotiva ocorre apenas num primeiro momento, guardando as imagem das reações físicas e da respiração provocadas no corpo para usa-las num segundo, num terceiro, e em vários momentos, constituindo um repertório para o ator. Os sentimentos não devem ser interpretados como abstrações, mas como elementos “materiais”, palpáveis, sob as quais ele pode ter um domínio. “Através da respiração o ator pode representar um sentimento que ele não tem”, ou seja, ele pode chegar num sentimento através da respiração, e a respiração pode nascer de um sentimento.

Saber que a paixão é matéria, que ela está sujeita às flutuações plásticas da matéria (…) Alcançar as paixões através de suas forças ao invés de considerá-las como puras abstrações, confere ao ator um domínio que o iguala a um verdadeiro curandeiro. Saber que existe uma saída corporal para a alma permite alcançar essa alma num sentido inverso e reencontrar o seu ser através de uma espécie de analogia matemática.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1995, pg. 131)

Saber reconhecer o tempo do sentimento é saber reconhecer o tempo da respiração, e essa respiração pode ser dividida em três tempos, que Artaud denominou NEUTRO, MASCULINO e FEMININO.

A respiração FEMININA é uma respiração mais prolongada, interiorizada, baseada no diafragma, que se localiza na região do plexo solar, tendo várias características que essa região contém, como abandono, angústia, apelo, invocação, súplica. A respiração MASCULINA ou melhor, de tempo masculino, é uma respiração mais pesada, rápida, torácica, focada na localização dos rins, que é fisicamente, onde o homem joga a força multiplicada de seus braços. As características que correspondem aos rins, no físico afetivo são: culpa, depressão, humor, impaciência, indecisão, isolamento, obsessão, paranóia, solidão, vitimização e heroísmo.

Esse treinamento baseado na respiração, que Artaud formulou tanto a partir de suas experimentações pessoais quanto de seus estudos da cabala, alquimia e disciplinas orientais, foi constantemente praticado por Artaud até o fim de sua vida e através dele o ator seria capaz de reconstruir não apenas sua arte mas sua própria constituição física e espiritual, tornando possível as visões de Artaud para seu Teatro.

Como Craig, Artaud baseia a sua teoria do ator no princípio da despersonalização. Não só o personagem, no sentido tradicional da palavra, é expulso desse teatro, mas também a personalidade do ator é ocultada pelo tipo de intervenção (não se ousa mais falar em desempenho) que ele exige. Em última instância, o ator artaudiano não é mais um indivíduo de carne e emoções, mas suporte e veículo de um complexo sistema semiótico articulado em torno de uma convenção hieroglífica – a expressão é freqüentemente repetida nos escritos de Artaud – do figurino, do gesto, da voz, etc.

(Roubine: A Linguagem da Encenação Teatral;1998, pg189)

Paralelamente à escrita e organização desses textos, Artaud dedica-se de maneira apaixonada a pôr em prática seu projeto, mas esbarra constantemente nas crescentes dificuldades. Primeiramente as de cunho filológico, os mal-entendidos e acusações a respeito do uso do termo “crueldade”, que Artaud responde de maneira clara na primeira das “Cartas sobre a Crueldade” em “O Teatro e Seu Duplo”. Mas o pior e mais incisivo são as dificuldades técnicas e financeiras de uma proposta teatral de tamanha complexidade. Desde as montagens do Teatro Alfred Jarry até as tentativas frustradas de tirar do papel sua encenação de “A Conquista do México”, mencionada no “Segundo Manifesto do Teatro da Crueldade”, suas tentativas de convencer o público (e, particularmente, os investidores) eram constantemente mal-entendidas embora representassem experimentos “performáticos” notáveis numa visão retroativa, particularmente a conferência que resultaria no texto de “O Teatro e a Peste” que foi relatada por Anaïs Nin, em seus diários:

De forma quase imperceptível Artaud largava o fio que seguíamos e começava a interpretar o papel de um homem a morrer de peste. Ninguém viu em que momento começou a faze-lo. Para ilustrar a conferência, representava uma agonia. (…) Tinha o rosto em convulsões e os cabelos ensopados de suor. (…) Estava em plena tortura. Berrava. Delirava. Representava a sua própria morte, a sua própria crucificação. As pessoas começaram a ficar com a respiração cortada. Depois desataram a rir. Toda a gente ria! Assobiava. Por fim as pessoas foram saindo uma a uma em meio a um grande ruído, a falar alto, a protestar. Ao saírem batiam com a porta. (…) Mais protestos. E vaias também. Mas Artaud continuava até o último suspiro. E lá ficou, no chão.

(Nin citada por Virmaux em sua introdução para: História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg.17)

Tudo isso para fazer a platéia compreender – fisicamente, portanto efetivamente – o que linhas como essas pretendem expressar:

Tal como a peste, o teatro é uma crise, que tem o desenlace na morte ou na cura. E a peste é um mal superior porque é crise completa e depois da qual não resta mais nada do que a morte ou uma extrema purificação. De igual forma, o teatro é um mal porque equilíbrio supremo só alcançável com destruição. Convida o espírito a um delírio que lhe exalta as energias; e, para terminar, podemos ver que a ação do teatro, como a da peste, sob o ponto de vista humano é benéfica porque levando os homens a verem-se como são faz cair a máscara, põe a mentira à mostra, e a baixeza, a hipocrisia; sacode a inércia asfixiante da matéria que tudo ganha até às mais claras certezas dos sentidos; e revelando às coletividades o seu poder sombrio, a sua força oculta, convida-as a assumir perante o destino uma atitude heróica e superior que, sem isso, nunca teriam tido.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1999, pg 28-29)

O ápice dessas tentativas de materialização do “Teatro da Crueldade” foi a montagem de “Os Cenci” (1935), projeto ambicioso de uma tragédia na qual os preceitos da visão artaudiana de um teatro que constituísse uma “cura cruel” revelou-se uma grande decepção, para o público, para os envolvidos e, acima de tudo, para o próprio Artaud, que viu-se incapaz de enfrentar os inúmeros percalços financeiros, materiais e humanos que se interpuseram à realização de seus ideais numa montagem real.

3. PEYOTE… MAGIA… ELETRICIDADE… TEATRO… JULGAMENTO DE DEUS…

Essa frustração acabou servindo de combustível para a concretização de um antigo sonho: uma viagem ao México em busca de contato com o culto do Peyote com os índios Tarahumaras, que resultaria na publicação do apaixonado livro “Viagem ao País do Tarahumaras”, editado em 1945. Artaud desde cedo dedicara-se ao estudo de disciplinas esotéricas, cabala, alquimia, magia (estudos que sempre apareceram de maneira clara e sem disfarces nas suas atividades teatrais, sendo largamente citados em “O Teatro e Seu Duplo”) e sua estadia entre os Tarahumaras foi quase uma conseqüência natural desse pensamento, bem como uma tentativa violenta de encontrar respostas para seus tormentos existenciais indizivelmente vivenciados no plano físico.

E foi no México, no alto da montanha, entre Agosto e Setembro de 1936, que eu comecei a me encontrar completamente…Eu procurava o peyote não como um curioso mas, ao contrário, como um desesperado…, contrariamente ao que se podia pensar, eu nunca busquei o supra-normal. Ora, eu não ia ao peyote para entrar, mas para sair… sair de um mundo falso. Vivemos num odioso atavismo fisiológico que faz com que mesmo no nosso corpo, e sozinhos, nós não somos mais livres, pois, cem pai-mãe pensaram e viveram por nós, antes de nós, o que poderíamos em um dado momento, na idade da razão, encontrar por nós mesmos, a religião, o batismo, os sacramentos, os rituais, a educação, o ensino, a medicina, a ciência se apressam em nos tirar. Eu ia, pois, ao peiote para me lavar.

(Artaud citado em: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg.96-97)

Recebido com simpatia pelos escritores mexicanos, Artaud faz conferências em universidades e, após vários percalços consegue participar das cerimônias sagradas com os índios. A experiência leva-o a um processo que os místicos chamariam de transfiguração, uma iniciação nos mistérios sagrados, um retorno a um vazio primordial do qual ele retorna permanentemente transformado.

Enquanto isso, na França, amigos dão prosseguimento à editoração de “O Teatro e Seu Duplo”, livro que, mesmo em meio às suas viagens místicas, Artaud nunca relega ao abandono, tendo oportunidade, inclusive, de corrigir os originais quando de seu retorno à Paris. A obra, uma vez publicada, torna-se uma referência importante para os realizadores de teatro, para o bem ou para o mal, alimentando de maneira incontrolável o chamado “mito-artaud” que começara a crescer desde o momento em que partiu da França até muito além de sua morte. Artaud, o “homem-teatro”, Artaud, o bruxo, Artaud, o louco, Artaud que ganhou uma espada mágica de um feiticeiro em Cuba, Artaud que vagou entre os índios e viu a face de Deus, Artaud, o profeta da fecalidade, Artaud que empunhou o cajado mágico de São Patrick, patrono dos irlandeses, na cidade de Dublin.

Anaïs Nin fala, no seu Diário, de uma visão que Artaud teve, nessa época, em Paris,no restaurante Dôme: “Ele levanta, vociferando, brandindo sua bengala mágica mexicana, como um bruxo”.

(Lins: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg.98)

Entre o mito e a realidade, sabe-se que Artaud retornou à França, uma figura ainda mais excêntrica e imprevisível do que era então. Suas dores físicas e o consumo de ópio continuam a crescer, obrigando-o a submeter-se a desintoxicações sempre que tem condições de pagar. Seu interesse em astrologia e tarô acentua-se, chegando a fazer consultas para figuras ilustres da intelectualidade parisiense. Em 1937, Artaud parte para a Irlanda “guiado” pelo cajado de São Patrick, afim de devolvê-lo ao seu lugar de origem e de encontrar traços da cultura celta. Vivendo em condições precárias, em um país onde ele mal domina o idioma, Artaud vive pregando nas ruas com seu bastão, em condições de quase indigência.

Passeava eu tranqüilamente ao pé do jardim público de Dublin, quando um polícia provocador à civil me agrediu de repente e esmagou a coluna vertebral e a dividiu em duas com uma terrível pancada de barra de ferro.

Cambaleei mas não caí.

Houve qualquer coisa que deve ter parecido um milagre porque ainda agora pode ver-se em mim a fractura, mas nem sequer caí no chão, e os dois pedaços soltos voltaram instantaneamente a ficar colados.

Voltei-me para trás, com uma bengalada deitei o polícia provocador ao chão e a batalha ficou acesa. Apareceram polícias fardados que tomaram o meu partido contra os polícias à civil e às ordens do Intelligence Service.

(Artaud: História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg.50-51)

Acusado de ser um agitador e vadio, é preso e extraditado para a França. Um incidente ocorrido durante a viagem de barco faz com que seja internado como louco em estabelecimentos psiquiátricos. Do sofrimento pelo isolamento, brutalidades e privações da vida em um manicômio, adicionou-se com a Ocupação alemã em maio de 1940, as carências alimentares. Assim, em Ville-Évrard, além de sua dignidade e de sua liberdade, Artaud começou a ser privado de seu corpo. Subnutrido, ele se torna um esqueleto vivo, uma sombra dolorosa que tenta manter a vida.

Passei nove anos num asilo de alienados.

Fizeram-me ali uma medicina que nunca deixou de me revoltar.

Essa medicina chama-se eletro-choque, consiste em meter o paciente num banho de eletricidade, fulmina-lo

e pô-lo bem esfolado a nu

e expor-lhe o corpo tão externo como interno à passagem de uma corrente

que vem do lugar onde se não está nem deveria estar para lá estar.

O eletro-choque é uma corrente que eles arranjam sei lá como,

Que deixa o corpo, o corpo sonâmbulo interno, estacionário

para ficar sob a alçada da lei

arbitrária do ser,

em estado de morte

por paragem do coração.

(Artaud: Eu, Antonin Artaud; 1988, pg.76)

Artaud passou por diversos asilos até ser transferido para Rodez, em 1943 de onde só foi libertado três anos depois. Durante esse período escreveu as célebres “Cartas de Rodez”, na maioria endereçadas ao seu médico e diretor do asilo, Dr. Gaston Ferdière.

No Hospital Psiquiátrico de Rodez, quando esteve internado por três anos, depois de passar por vários manicômios franceses, Artaud escreve cartas a seu médico, dr. Ferdière. Aprisionado e maltratado por eletrochoques que prejudicaram sua memória, seu corpo e seu pensamento, “as cartas escritas de Rodez são, para Artaud, um recurso para não perder a lucidez. São o diálogo de um desesperado com seu médico e, através dele, com toda sociedade”.

(Programa da peça “Cartas de Rodez”, dirigida por Ana Teixeira, com atuação de Stephane Brodt. Prêmio Shell, direção e ator, e Mambembe, melhor espetáculo 98.)

Até sua chegada em Rodez o paradeiro de Artaud era desconhecido na França. Sua mãe visitou a maioria dos sanatórios do país em busca do filho desaparecido, os amigos escreveram cartas às autoridades buscando notícias. A guerra assolava a Europa e Antonin Artaud (cujo “Teatro da Crueldade” espalhava-se pelas ruínas, quartéis e campos de concentração) jazia isolado entre loucos e tratamentos desumanos que mais torturavam do que curavam. Até mesmo o psiquiatra Jacques Lacan estudou o “caso Artaud” e seu veredicto não poderia ser mais catedrático: “Viverá até oitenta anos, não escreverá mais uma linha”. Futuramente, o autor de “Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus” fez cair por terra as previsões lacanianas.

Apesar das condições em Rodez serem um tanto quanto mais toleráveis (principalmente por Ferdière ser um admirador da obra de seu paciente e procurar encoraja-lo a produzir – embora isso não o tenha impedido de também aplicar-lhe sessões de eletrochoque), foi com horror que os amigos reencontraram um Artaud completamente distinto da figura insolente e carismática de outrora.

Marthe e eu decidimos ir visitar Antonin Artaud, esquecido por todos, isolado no hospício de Rodez desde o começo da guerra. Encontramos Artaud muito fraco, aterrado. A certa altura caem à nossa frente alguns livros que pertencem ao Dr. Ferdière (…), Artaud quer apanhar os livros mas não consegue, todo seu corpo treme, temos que ajuda-lo. Conta-nos seu cotidiano em Rodez, acusa o Dr. Ferdière de o aterrorizar: – “Se não se porta bem, Sr. Artaud, temos de voltar a dar-lhe eletrochoques”. No trem de regresso Marthe chora e juramos tirar Artaud de Rodez.

(Arthur Adamov citado por Lins: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg. 108)

Finalmente, em 28 de maio de 1946, Artaud foi libertado e retornou a Paris onde procurou dar continuidade aos escritos e práticas já iniciados em Rodez. Seu projeto de um “Teatro da Cura Cruel”, evolução natural de seu “Teatro da Crueldade” crescia e assumia novas formas em meio à uma prática vocal intensa e quotidiana, na qual Artaud exercitava sua respiração e seu corpo, praticando cantos e giros conjuratórios (que também lhe serviam como proteção contra as “bruxarias” de que sentia-se vítima). A energia que ele produzia, as forças que emanavam de seu corpo enfraquecido, as incríveis variações de altura que obtinha de sua voz, a intensidade e a duração dos gritos aconteciam como um fenômeno de operação mágica. Uma prática teatral que dispensava tanto o palco quanto os recursos técnicos que Artaud sempre quis utilizar de maneira plena e constituir como parte de uma legítima linguagem para o Teatro, mas cujo controle escapou de suas mãos nos tempos do Teatro Alfred Jarry e “Os Cenci”. Cantos, gritos, gestos que pareciam absolutamente insanos para os médicos dos hospitais psiquiátricos, ignorantes das teorias que o próprio Artaud já tentara esboçar nos anos 30 nos textos “Um Atletismo Afetivo” e “O Teatro de Seraphin”, avidamente lidos por uma classe teatral que, pouco a pouco, transformava “O Teatro e Seu Duplo” em objeto de culto enquanto seu autor permanecia isolado do mundo. Não foram poucas as ocasiões em que essas práticas serviram de justificativa para as alegações de insanidade de médicos, autoridades e mesmo de leigos, fato que enfurecia Artaud, mas que, após sua libertação, levou-o a assumir tal “carapuça”. De fato, Artaud não deixou de divertir-se fazendo-se de louco e usando do choque e do horror (que ele sempre apreciou utilizar para tirar seu público da apatia, sendo num palco, num restaurante ou na rua) para dizer as verdades que acreditava.

Afirmaria que o próprio corpo do Homem, “desconectado” de suas origens, é o resultado de uma manipulação perpétua e perversa de forças malignas que oprimem a espécie humana (tais forças podem ser entendidas de várias maneiras, podem ser interpretadas como políticas, sociais, culturais, morais, enfim, mas fica claro em seus escritos que Artaud as entendia de maneira mais absoluta e cósmica, num sentido metafísico), em conseqüência a anatomia humana, ao deixar de corresponder à sua natureza, deve ser refeita. No fim de sua vida, Artaud amplia suas concepções do “Teatro da Crueldade” para um grandioso projeto ético-político de insurreição física: trata-se de transformar não apenas o Teatro, mas o Homem. A revolução não é apenas social ou cultural, mas física. O ator (e o Homem) torna-se senhor de seu destino, capaz de refazer sua própria anatomia, juntamente com seu espírito, erigir o “corpo sem órgãos”, invulnerável aos miasmas e “feitiços” do mundo contra a essência individual do ator. Decomposição e recomposição do corpo, desarticulação dos automatismos que condicionam e bloqueiam o indivíduo e o impedem de agir realmente, de modo consciente e voluntário, em cena ou na vida.

A necessidade de afirmar seu pensamento foi o combustível que moveu Artaud nesses últimos anos. Por sua própria natureza, esse pensamento não pode ser expresso meramente com palavras, verdade que Artaud sempre repetiu desde a juventude ao denunciar a limitação do texto como centro da encenação e do discurso. Suas pesquisas de linguagem ganham um ímpeto novo, a busca de uma expressão vocal primitiva, anterior à linguagem articulada, sons que remetem a sentimentos, idéias e forças metafísicas. São inúmeros os exemplos registrados dessa pré-linguagem:

ratara ratara ratara

atara tatara rana

otara otara katara

otara retara kana

ortura ortura konara

kokona kokona koma

kurbura kurbura kurbura

kurbata kurbata keyna

pesti anti pestantum putara

pest anti pestantum putra

São poemas que vão além da significação, apelando para a força dos sons e vocábulos por si mesmos, constituindo verdadeiros “encantamentos” que Artaud utilizava de maneira mística e causava um efeito profundo nas testemunhas. Durante a gravação de sua novela radiofônica “Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus”, em 1948, Artaud deu grandes mostras de seu “humor louco”, um humor que provocava medo. Maria Casarès, testemunha da gravação, deixou o seguinte depoimento:

Artaud começou a gritar. Começou a falar como “um cachorro” ou como um “galo” e Roger Blin respondia-lhe, imperturbavelmente, na mesma linguagem. Tudo isso deveria fazer rir a platéia. Ora, nem mesmo um só técnico ria. Estavam paralisados. Num canto da sala, uma mulher chorava.

(Casarès citada por Lins: O Artesão do Corpo sem Órgãos; 1999, pg.120)

A emissão da novela radiofônica foi proibida pela censura pouco antes de ir ao ar. Mais um dos inúmeros fracassos das tentativas de Artaud de tornar real o seu pensamento e seu Teatro. Mas, como Alain Virmaux continuamente repete em seu livro “Artaud e o Teatro”, o fracasso, em Artaud, é tão revelador quanto o sucesso poderia ser. Mesmo interditada, a novela constitui um elemento importantíssimo no “mito-Artaud”, tanto quanto foi “Os Cenci” ao ser visto retroativamente e guardando as limitações impostas pelas circunstâncias. Depois dos internamentos, Artaud tornou-se uma quase vedete da intelectualidade francesa. Mostras foram realizadas em sua homenagem, o “Teatro e Seu Duplo” era reeditado e ganhava cada vez mais atenção, nunca antes Artaud foi tão ouvido, embora o estado doentio em que se encontrava tenha causado o afastamento de velhos amigos que não suportavam lidar com sua presença e o efeito que provocava. Ainda assim, como a solidão já era parte integrante de sua existência desde jovem, Artaud trabalhava freneticamente, escrevendo, compondo, ciente de que a morte rondava, aos 50 anos de idade, com um estado de saúde cada vez mais precário. “Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus” foi seu projeto concreto mais ambicioso no período. Na gravação é possível identificar, de maneira subjetiva e indistinta (como não poderia deixar de ser) o essencial de seu pensamento: o trabalho do ator, a visão do encenador, o feiticeiro, o peregrino regresso das terras do tarahumaras. No “Rito do Sol Negro”, na “Procura da Fecalidade”, Artaud expressa seu ideal de reconstrução do homem e do corpo.

Onde cheirar a merda

cheira a ser.

O homem poderia muito bem deixar de cagar,

deixar de abrir a bolsa anal,

mas preferiu cagar

como poderia ter preferido viver

em vez de consentir em viver morto.

É que para não fazer cocô

teria que aceder

a não ser,

mas ele é que não foi capaz de se resolver a perder o ser,

isto é a morrer vivo.

(Artaud: Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus; 1975, pg 29)

Idéias indigestas, expressas de modo ainda mais indigesto, que Artaud já havia desistido de, tentar explicar verbalmente desde a histórica conferência no Vieux-Colombier, um ano antes, quando um recém libertado Antonin Artaud surgiu diante de um público parisiense de artistas, intelectuais e curiosos (entre os quais, Sartre, Picasso, Camus, além dos amigos Blin, Adamov e Gide) num evento preparado para reintroduzi-lo no universo das letras francesas. O texto dessa conferência sobreviveu e foi editado como “A História Vivida de Artaud-Momo”, narrando desde as experiências com o peyote até a violência dos tratamentos nos sanatórios e suas idéias metafísicas. Mas Artaud jamais terminou a conferência, abandonando-a quando os papéis caíram de suas mãos e ele não quis (ou não pôde) reorganiza-los, partindo para um aparente improviso recheado de silêncios, ofensas, gritos e feitiços. O que ocorreu nessa conferência é assunto controverso. Fala-se tanto de um fracasso deprimente quanto de um êxito soberbo. Virmaux (que assina o texto introdutório de “A História Vivida de Artaud-Momo”) defende que foi no Vieux-Colombier que Artaud, pela primeira e única vez, encenou o “Teatro da Crueldade”, vivido por um único homem, o personagem Antonin Artaud, e todas as testemunhas concordam que, entre vaias e ovações, ninguém saiu indiferente do teatro. Em um testemunho célebre, Gide descreve o evento com as seguintes palavras:

A razão batia em retirada; não unicamente a sua mas a razão de toda a assistência, de todos nós, espectadores desse drama atroz, reduzidos ao papel de comparsas malévolos, debochados e grosseiros. Oh! não, mais ninguém na platéia, tinha vontade de rir (…) Artaud nos havia atraído para seu jogo trágico de revolta contra tudo aquilo que, admitido por nós, para ele permanecia mais puro e inadmissível:

Nós ainda não nascemos.

Ainda não estamos no mundo.

Ainda não existe mundo.

As coisas ainda não se fizeram.

A razão de ser não foi achada…”

Ao sair dessa memorável sessão o público se calava. Que se poderia dizer? Acabávamos de ver um homem miserável, atrozmente sacudido por um deus, como que no liminar de uma gruta profunda, antro secreto da sibila, onde nada de profano é tolerado, onde, como em um Carmelo poético, um vate é exposto, oferecido aos raios, aos abutres vorazes, ao mesmo tempo sacerdote e vítima… Todos se sentiam envergonhados de retomar lugar em um mundo no qual o conforto é formado de compromissos.

(Gide in Virmaux: Artaud e o Teatro; 1978, pg 366)

Embora talvez supervalorizando os fatos através de uma veia poética, o testemunho passa uma noção do impacto da sessão, que o próprio Artaud em parte teria explicado numa carta ao amigo André Breton:

Não creio que o palco do Vieux-Colombier ou outro palco de teatro já tivesse visto o que mostrei e dei a ouvir naquela noite; tanto mais que acresce o facto de toda a gente ter podido verificar, de se ter podido ver como o suposto conferencista que eu realmente não era, de qualquer forma o suposto homem de teatro, renunciava ao seu espetáculo, fazia as malas e ia-se embora; porque, na verdade, eu tinha reparado que já bastava de palavras e até mesmo de rugidos, e o necessário eram bombas; ora, eu não as tinha nas mãos nem nos bolsos.

(Artaud: A História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg 26)

Um basta às palavras, portanto, um último ato em “Para Acabar com o Juízo de Deus”, um recolhimento para aguardar o fim. Diagnosticado um câncer inoperável no reto, Artaud sabia que tinha seus dias contados. Ainda assim não deixava de trabalhar e fomentar projetos, mesmo sofrendo cada vez mais agudamente com as dores. A morte, que Artaud nunca deixou de afirmar ser um estado inventado, apenas mais uma máscara a que o homem se submete por renunciar a ser o senhor de seu destino, chegou num quarto da clínica de Ivry, em 14 de março de 1948, poucos meses após a proibição da peça radiofônica. O fim através de um câncer – uma falência do organismo que muitos médicos e místicos afirmam ter uma origem psicossomática – ou, talvez por um suposto suicídio, parece fazer um estranho sentido para um homem que afirmava ter tido a espinha partida e depois recomposta na Irlanda e ter morrido e voltado numa mesa de eletro-choque em Rodez:

(…) Simplesmente te disse e repito que eu, Antonin Artaud, com os cinqüenta que já cá cantam, me lembro do Gólgota. Lembro-me dele como me lembro de estar no asilo de Rodez no mês de Fevereiro de 1943, morto por um eletrochoque que me foi imposto contra vontade.

– Se estivesse morto, não continuaria lá.

– Estou morto, realmente morto, e a minha morte foi clinicamente verificada

E voltei depois, como um homem que regressa do além.

Eu também me lembro desse além.

(Artaud: A História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg 53)

De qualquer forma, Artaud faleceu deixando um legado praticamente mítico. Suas idéias, seus textos, especialmente “O Teatro e Seu Duplo” se tornaram uma referência obrigatória para encenadores do mundo inteiro, sendo aceitas ou não. Os anos 60 e 70 testemunharam o surgimento de um verdadeiro culto à imagem do criador do “Teatro da Crueldade”, um culto muitas vezes exagerado e desprovido de bases sólidas, movido muito mais pela paixão e o pseudo-misticismo ligado ao pensamento artaudiano do que a uma real compreensão de suas idéias. As últimas décadas testemunharam uma releitura mais atenta e menos delirante de sua obra, devolvendo as contribuições de Artaud, tanto para o Teatro quanto para os estudos de linguagem, de volta à sua real proporção.

São inúmeros os grupos, atores e teóricos que deram continuidade aos trabalhos de Artaud, de forma direta ou indireta. Autores como Ionesco e Beckett mostram uma clara influência, bem como às origens do conceito de happening. Peter Brook e o Living Theatre desenvolveram grandes espetáculos assumidamente dentro de uma estética artaudiana, bem como o teatro-laboratório de Jerzy Grotowski, que de forma hábil e lúcida, ajudou a criticar e esclarecer muitas das propostas teatrais de Artaud e lhe dedicou um dos capítulos de “Em Busca de Um Teatro Pobre”: “Ele não era inteiramente ele”.

Deve-se repetir mais uma vez: se Artaud tivesse tido à sua disposição o material necessário, suas visões teriam se desenvolvido do indefinido para o definido. Ele poderia tê-las convertido numa forma, ou, melhor ainda, inclusive numa técnica. Estaria então em condições de antecipar todos os reformadores, pois teve a coragem e o poder de ir além da corrente lógico-discursiva. Tudo isso poderia ter acontecido, mas não aconteceu.

(Grotowski: Em Busca de um Teatro Pobre; 1976, pg.71-72)

Mas aconteceu nos anos que seguiram a morte do “homem-teatro”. É fascinante notar que hoje muito do que era polêmico e alvo de estranhamento nas propostas de Artaud é prática corrente e “comum” nas atividades teatrais: o uso de espaços alternativos, o cuidado especial na composição da iluminação e sonoplastia, o domínio do encenador como regente máximo do espetáculo, o fim do domínio absoluto do texto, o uso de signos, a integração do público à cena, enfim, se o Teatro da Crueldade” só pôde se tornar real em raríssimas e pontuais ocasiões (se é que realmente o foi, ao menos na forma pura que Artaud pregava) ao menos seus diversos elementos integraram-se de maneira efetiva no fazer teatral.

Assim, as palavras finais de Artaud a respeito do Teatro, escritas na “Última Carta Sobre o Teatro”, endereçada à Paule Thévenin em 25 de fevereiro de 1948 (tendo Artaud morrido em 4 de março), definitivamente não ficaram sem um eco:

Paule, estou muito triste e desesperado

meu corpo dói de todos os lados

mas sobretudo tenho a impressão de que todos se decepcionaram

com a minha emissão radiofônica.

Lá onde está a máquina

é sempre o abismo e o nada

há uma interposição técnica que deforma e aniquila aquilo que se faz.

As críticas de M. e A. são injustas mas devem ter tido sua base em um defeito de transmissão

é por isso que eu jamais voltarei ao Rádio

e consagrarei doravante exclusivamente ao teatro

como o concebo

um teatro de sangue

um teatro que a cada representação proporcionará

corporalmente

alguma coisa a quem representa

como a quem vem assistir a representação

aliás,

não se representa,

age-se

o teatro é na realidade a gênese da criação.

Isto se fará.

Tive uma visão hoje à tarde

vi aqueles que me seguirão e aqueles que ainda não tem um corpo

porque os porcos como aqueles dos restaurante de ontem a noite comem demais.

Existe quem como demais

e outros como eu que não podem mais comer sem escarrar

em vocês.

(Artaud citado em Virmaux: Artaud e o Teatro, 1978, pg 334-335)

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

ARANTES, Urias Corrêa. Artaud: Teatro e Cultura. Campinas: Editora da UNICAMP. 1988. 212 p.

ARTAUD, Antonin (1896-1948). Linguagem e Vida. Org. J. Guinsburg, Sílvia Fernandes Telesi, Antonio Mercado Neto. São Paulo: Perspectiva. 2004

ARTAUD, Antonin (1896-1948). O Pesa-Nervos. Trad. Joaquim Afonso. Lisboa: Hiena Editora. 1991. 91p.

ARTAUD, Antonin (1896-1948). O Teatro e Seu Duplo. Trad. Teixeira Coelho. 2.ªed. São Paulo: Martins Fontes. 1999.

ARTAUD, Antonin (1896-1948). Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus – seguido de O Teatro da Crueldade. Trad. Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes. Lisboa: Publicações Culturais. 1975.

ARTAUD, Antonin (1986-1948). Eu, Antonin Artaud. Trad. Aníbal Fernandes. Lisboa: Hiena Editora. 1988. 111 p.

ARTAUD, Antonin (1986-1948). História Vivida de Artaud-Momo. Lisboa: Hiena Editora. 1995. 73 p.

ARTAUD, Antonin (1986-1948). Os Sentimentos Atrasam. Trad. Ernesto Sampaio. Lisboa: Hiena Editora. 1993. 73 p.

ASLAN, Odette. O Ator no Século XX. São Paulo: Perspectiva, 1994

COELHO, Teixeira. Antonin Artaud – Posição da Carne. São Paulo: Brasiliense. 1982, 120p. (Coleção Encanto Radical; 16)

FELÍCIO, Vera Lúcia. A Procura da Lucidez em Artaud. São Paulo: Perspectiva, FAPESP. 1996, 202p. (Coleção Estudos; 148)

GROTOWSKI, Jerzy. Ele não era inteiramente ele, in: Em Busca de um Teatro Pobre. Trad. Aldomar Conrado. 2.ªed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1976. (Coleção Teatro Hoje, Série: Autores Estrangeiros/Vol.19)

LINS, Daniel. Antonin Artaud: O Artesão do Corpo Sem Órgãos. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999. (Coneções/2)

ROUBINE, Jean-Jacques. As Metamorfoses do Ator, in: A Linguagem da Encenação Teatral. Trad. Yan Michalski. 2.ªed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1998.

SONTAG, Susan. Abordando Artaud, in: Sob o Signo de Saturno. São Paulo: L&PM. 2.ªed. 1973.

VIRMAUX, Alain. Artaud e o Teatro. Trad. Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Perspectiva, FAPESP. 1978, 388p. (Coleção Estudos; 58)

“Quem sou eu?

De onde venho?

Sou Antonin Artaud

e basta que eu o diga

Como só eu o sei dizer

e imediatamente

hão de ver meu corpo

atual,

voar em pedaços

e se juntar

sob dez mil aspectos

diversos.

Um novo corpo

no qual nunca mais

poderão esquecer.

Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,

meu pai,

minha mãe,

e eu mesmo.

Eu represento Antonin Artaud!

Estou sempre morto.

Mas um vivo morto,

Um morto vivo.

Sou um morto

Sempre vivo.

A tragédia em cena já não me basta.

Quero transportá-la para minha vida.

Eu represento totalmente a minha vida.

Onde as pessoas procuram criar obras

de arte, eu pretendo mostrar o meu

espírito.

Não concebo uma obra de arte

dissociada da vida.

Eu, o senhor Antonin Artaud,

nascido em Marseille

no dia 4 de setembro de 1896,

eu sou Satã e eu sou Deus,

e pouco me importa a Virgem Maria.”

 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/antonin-artaud/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/antonin-artaud/

O Suicídio pela visão Reencarnacionista

O suicídio é a interrupção da vida (óbvio). Mas nesta frase se encontra a chave de todo o drama que o suicida passa após a morte. Assim como o mais avançado dos robôs, ou simples um radinho de pilha, o corpo também tem sua bateria, e um tempo de vida útil baseado nesta carga. De acordo com nossos planos (traçados do “outro lado”) teremos uma carga X de energia, que pode ser ampliada, se assim for necessário. Então, um atentado contra a vida não é um atentado exatamente contra Deus, mas contra todos os seus amigos, mentores ou engenheiros espirituais que planejaram sua encarnação nos mínimos detalhes, e contra a própria energia Divina que foi “emprestada” para animar seu veículo físico de manifestação: seu corpo. Equivale aos EUA gastar bilhões pra mandar um homem a Marte, e quando ele estivesse lá resolvesse voltar porque ficou com medo ou sentiu saudades de casa. Todos os cientistas envolvidos na missão ficarão P da vida, e com razão. Afinal, quando ele se candidatou para a missão estava assumindo todos os riscos, com todos os ônus e bônus decorrentes de um empreendimento deste tamanho. Quando esse astronauta voltar à Terra vai ter trabalho até pra conseguir emprego de gari. É mais ou menos assim no plano espiritual. Um suicida nunca volta pra Terra em condições melhores do que estava antes de cometer o autocídio.

Segundo Allan Kardec, codificador do espiritismo, “Há as conseqüências que são comuns a todos os casos de morte violenta; as que decorrem da interrupção brusca da vida. Observa-se a persistência mais prolongada e mais tenaz do laço que liga o Espírito ao corpo, porque este laço está quase sempre em todo o vigor no momento em que foi rompido (Na morte natural ele enfraquece gradualmente e, às vezes, se desata antes mesmo da extinção completa da vida). As conseqüências desse estado de coisas são o prolongamento do estado de perturbação, seguido da ilusão que, durante um tempo mais ou menos longo, faz o Espírito acreditar que ainda se encontra no mundo dos vivos. A afinidade que persiste entre o Espírito e o corpo produz, em alguns suicidas, uma espécie de recuperação do estado do corpo sobre o Espírito (ou seja, o espírito ainda sente, de certa forma, as ações que o corpo sofre), que assim se ressente dos efeitos da decomposição, experimentando uma sensação cheia de angústias e de horror. Este estado pode persistir tão longamente quanto tivesse de durar a vida que foi interrompida.

Assim é que certos Espíritos, que foram muito desgraçados na Terra, disseram ter-se suicidado na existência precedente e submetido voluntariamente a novas provas, para tentarem suportá-las com mais resignação. Em alguns, verifica-se uma espécie de ligação à matéria, de que inutilmente procuram desembaraçar-se, a fim de voarem para mundos melhores, cujo acesso, porém, se lhes conserva interditado. A maior parte deles sofre o pesar de haver feito uma coisa inútil, pois que só decepções encontram.”

Algumas máximas do espiritismo para o caso de suicídio:

As penas são proporcionais à consciência que o culpado tem das faltas que comete.

Não se pode chamar de suicida aquele que devidamente se expõe à morte para salvar o seu semelhante.

O louco que se mata não sabe o que faz.

As mulheres que, em certos países, voluntariamente se matam sobre os corpos de seus maridos, obedecem a um preconceito, e geralmente o fazem mais pela força do que pela própria vontade. Acreditam cumprir um dever, o que não é característica do suicídio. Encontram desculpa na nulidade moral que as caracteriza, em a sua maioria, e na ignorância em que se acham.

Os que hajam conduzido/induzido alguém a se matar terão de responder por assassinato, perante as Leis de Deus.

Aquele que se suicida vítima das paixões é um suicida moral, duplamente culpado, pois há nele falta de coragem e bestialidade, acrescidas do esquecimento de Deus.

O suicídio mais severamente punido é aquele que é o resultado do desespero, que visa a redenção das misérias terrenas.

Pergunta – É tão reprovável, como o que tem por causa o desespero, o suicídio daquele que procura escapar à vergonha de uma ação má?

Resposta dos espíritos – O suicídio não apaga a falta. Ao contrário, em vez de uma, haverá duas. Quando se teve a coragem de praticar o mal, é preciso ter-se a de lhe sofrer as conseqüências.

Será desculpável o suicídio, quando tenha por fim impedir a que a vergonha caia sobre os filhos, ou sobre a família?

O que assim procede não faz bem. Mas, como pensa que o faz, isso é levado em conta, pois que é uma expiação que ele se impõe a si mesmo. A intenção lhe atenua a falta; entretanto, nem por isso deixa de haver falta. Aquele que tira de si mesmo a vida, para fugir à vergonha de uma ação má, prova que dá mais apreço à estima dos homens do que à de Deus, visto que volta para a vida espiritual carregado de suas iniqüidades, tendo-se privado dos meios de repará-los aqui na Terra. O arrependimento sincero e o esforço desinteressado são o melhor caminho para a reparação. O suicídio nada repara.

Que pensar daquele que se mata, na esperança de chegar mais depressa a uma vida melhor?

Outra loucura! Que faça ele o bem, e mais cedo irá lá chegar, pois, matando-se, retarda a sua entrada num mundo melhor e terá que pedir lhe seja permitido voltar, para concluir a vida a que pôs termo sob o influxo de uma idéia falsa.

Não é, às vezes, meritório o sacrifício da vida, quando aquele que o faz visa salvar a de outrem, ou ser útil aos seus semelhantes?

Isso é sublime, conforme a intenção, e, em tal caso, o sacrifício da vida não constitui suicídio. É contrária às Leis kármicas todo sacrifício inútil, principalmente se for motivada por qualquer traço de orgulho. Somente o desinteresse completo torna meritório o sacrifício e, não raro, quem o faz guarda oculto um pensamento, que lhe diminui o valor aos olhos de Deus. Todo sacrifício que o homem faça à custa da sua própria felicidade é um ato soberanamente meritório, porque resulta da prática da lei de caridade. Mas, antes de cumprir tal sacrifício, deveria refletir sobre se sua vida não será mais útil do que sua morte.

Quando uma pessoa vê diante de si um fim inevitável e horrível, será culpada se abreviar de alguns instantes os seus sofrimentos, apressando voluntariamente sua morte?

É sempre culpado aquele que não aguarda o termo que Deus lhe marcou para a existência. Não há culpabilidade, entretanto, se não houver intenção, ou consciência perfeita da prática do mal.

Conseguem seu intento aqueles que, não podendo conformar-se com a perda de pessoas que lhes eram caras, se matam na esperança de ir juntar-se a eles?

Muito ao contrário. Em vez de se reunirem ao que era objeto de suas afeições, dele se afastam por longo tempo.

Fonte:

Livro dos espíritos (com algumas alterações)

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Alguns exemplos de efeitos de suicídios na nova vida, como constam no livro As vidas de Chico Xavier:

– Chico, minha filha, de 5 anos, é portadora de mongolismo, mas eu acho que ela está sendo assediada por espíritos.

Chico descartava a hipótese “espiritual” e encaminhava mãe e filha à fila de passes. Elas viravam as costas, e ele confidenciava a um amigo:

– Os espíritos estão me dizendo que essa menina, em vida anterior recente, suicidou-se atirando-se de um lugar muito alto.

Outra mãe se aproximava e reclamava do filho, também de 5 anos:

– Ele é perturbado. Fala muito pouco e não memoriza mais que 5 minutos qualquer coisa que nós ensinamos.

Quando os dois estavam a caminho da sala de passes, Chico confidenciava:

– Na última encarnação, esse menino deu um tiro fatal na própria cabeça.

Outro caso, ainda mais chocante:

– Meu filho nasceu surdo, mudo, cego e sem os dois braços. Agora está com uma doença nas pernas e os médicos querem amputar as duas para salvar a vida dele.

Chico pensava numa resposta, quando ouviu o vozeirão de Emmanuel:

– Explique à nossa irmã que este nosso irmão em seus braços suicidou-se nas dez últimas encarnações e pediu, antes de nascer, que lhe fossem retiradas todas as possibilidades de se matar novamente. Agora que está aproximadamente com cinco anos de idade, procura um rio, um precipício para se atirar. Avise que os médicos estão com a razão. As duas pernas dele serão amputadas, em seu próprio benefício.

#Espiritismo #kardecismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-suic%C3%ADdio-pela-vis%C3%A3o-reencarnacionista

Fantasmas do Japão

No xintoísmo, milenar culto japonês aos ancestrais, a alma, é chamada reikon mas, se a pessoa morre em condições adversas, assassinada, em naufrágio ou por afogamento, suicídio ou quando não tem um funeral apropriado, torna-se um yuurei, um fantasma em busca de vingança. As mulheres são maioria entre os yuurei e convertem-se nestes espectros porque sofreram desilusões amorosas, maus tratos que resultaram em uma vida de tristezas, inveja ou, ainda, porque carregam culpa por terem praticado más ações.

Os yuurei aparecem usando um kimono branco [katabira], a indumentária com que são enterrados os mortos, e não têm pernas. Na testa, ostentam um triângulo de papel ou tecido [hitaikakushi]. A hora das aparições é entre 2 e 3 da madrugada. Um caso famoso de yuurei é Bancho sara-yashiki ou a História de Okiku:

“Okiku era uma criada que trabalhava na casa do samurai Tessan Aoyama. Um dia, enquanto limpava uma coleção de dez preciosas cerâmicas, que eram um tesouro de família, quebrou, acidentalmente uma peça. Aoyama, sentindo-se ultrajado, matou a serviçal e jogou o corpo num velho poço. Todas as noites, o fantasma de Okiku emergia do poço e ficava contando as cerâmicas lentamente em meio a lamentos de desolação. Isso tornou-se um tormento para o samurai que acabou ficando louco. Outra versão, conta que na verdade, o guerreiro Aoyama planejava assassinar o chefe do clã e a criada Okiku ouviu seus planos. Contou tudo para o amante que, por sua vez denunciou a conspiração frustrando os planos do usurpador. Vingativo, Aoyama inventou a história da cerâmica quebrada como pretexto para puni-la com requintes de crueldade. Okiku morreu torturada antes de encontrar sua sepultura no poço”.

Verdade ou não, o poço de Okiku existe: fica no castelo de Himeji, também chamado White Heron Castle [Castelo da Garça Branca], 50 quilômetros a oeste de Kobe. Tem 400 anos e é o mais preservado castelo japonês. Além dos [as] yuurei, os japoneses possuem um elenco de diferentes assombrações com características bem definidas:

Toyol: um bebê morto de trazido ao mundo dos vivos através de um ritual de feitiçaria por aqueles que desejam rever a criança. todavia, o pequeno fantasma aparece com terrível aspecto: pele verde e olhos vermelhos, precisando de sangue. Se não for satisfeito obterá o sangue à força, sugando o dedão do evocador enquanto ele dorme.

Bakechochin: é uma assombração que mora nas lanternas. São espíritos de pessoas que morreram com ódio no coração. Quem acender a lanterna será atacado pelo fantasma.

Buruburu: é um fantasma que vive nas florestas e nos cemitérios. Aparece na forma de mulher ou um velho trêmulo. Provoca calafrios na espinha e mata infundindo puro terror em quem os encontra.

Funayuhrei: é um navio fantasma que surge do nada em noites de densa neblina e, produzindo redemoinhos, afunda outros barcos que encontra desprovidos de guarda.

Gashadokuro: são fantasmas de pessoas que morreram de fome. Sua figura é um esqueleto 15 vezes mais alto que um ser humano normal. Anuncia sua presença, altas horas da noite, emitindo um som de pequenos sinos que somente o assombrado escuta. Se a pessoa não foge rapidamente, morre com a cabeça arrancada.

Konakijiji: “o velho bebê chorão” é o fantasma de uma criança abandonada na na floresta. Se alguém, inadvertidamente, movido por piedade, pega esta criança no colo, não pode mais se salvar. O bebê começa a crescer até esmagar seu benfeitor.

Kubikajiri: é outro fantasma comedor de cabeças. Este, vive em cemitérios e tanto faz se a cabeça é de gente viva ou morta. É possível sentir sua aproximação por seu cheiro característico de sangue fresco.

Nukirabe: é uma parede-fantasma que ameaça os incautos que saem nas horas mortas da noite. Larga e branca, surge na frente da pessoa bloqueando o caminho. Se tentam contorná-la, ela se fecha esmagando os incautos. Se fogem na direção oposta, ela ressurge. Somente pode ser neutralizada se for fortemente golpeada com um bastão.

por Ligia Cabús

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/fantasmas-do-japao/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/fantasmas-do-japao/

Palhaços, Tricksters, Bobos e Xamãs com Wellington Nogueira

Bate-Papo Mayhem #094 – gravado dia 24/10/2020 (Sabado) Marcelo Del Debbio bate papo com Wellington Nogueira – Palhaços, Tricksters, Bobos e Xamãs

Os bate-Papos são gravados ao vivo todas as 3as, 5as e sábados com a participação dos membros do Projeto Mayhem, que assistem ao vivo e fazem perguntas aos entrevistados. Além disto, temos grupos fechados no Facebook e Telegram para debater os assuntos tratados aqui.

Faça parte do Projeto Mayhem aqui:

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#Batepapo

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A linguagem hermética dos alquimistas

A cripto linguagem utilizada pelos alquimistas tem objetivos bem claros. O primeiro deles é confundir os impuros de coração. Quem se aproxima da grande arte com fins poucos ambiciosos, terminará fervendo líquidos tóxicos e lustrando pedras sem valor. O segundo motivo é histórico, pois pretendia proteger os alquimistas de figuras de autoridade ou da ignorância da massa, que não queriam ou sequer podiam entender os objetivos maiores do alquimistas.

Animais normalmente tem um significado especial, como por exemplo, a representação dos quatro elementos. O unicórnio ou o veado representam a terra, peixes a água, pássaros o ar e a salamandra o fogo. O corvo simboliza a fase de putrefação do processo, que fica da cor negra. Enquanto que um tonel de vinho representa a fermentação.

A caverna representa a fase de dissolução, quando a matéria se aprofunda, se racha e se abre. Em muitos textos os metais estão representados pelos planetas correspondentes (veja os sete metais) pois eram preparados elixires de outros metais, além do ouro e da prata. A balança representa o ar, a sublimação, as proporções naturais. A figura de um andrógino ou de Adão e Eva, representam a matéria prima, composta do mercúrio e do enxofre.

O anjo simboliza a água – “Espírito da Pedra” A matéria-prima, bem como o próprio alquimista, podem ser representados pelo bobo, pelo peregrino ou pelo viajante. A imagem de uma rocha, cavernas, montanhas e outras representações de grandes blocos de pedra, sob o qual encontram-se tesouros. A cena ainda pode conter uma árvore, uma nascente, um dragão montando guarda, mineiros trabalhando, isto tudo evoca a matéria-prima, que também é comparada à virgem, pois ainda não recebeu o princípio masculino, ou com uma prostituta que é capaz de receber todos os princípios masculinos, comparando assim a matéria-prima com a facilidade de unir-se aos metais. Ë capaz de abrigar dentro de si todos os metais, apesar de não ser metálica. Os alquimistas também chamavam a matéria-prima de lobo cinzento.

Uma mendiga ou uma velha representa o aspecto desprezível e repulsivo da matéria-prima ou raiz metálica. O leite da virgem designa o mercúrio comum ou primeiro mercúrio por fluir sem cessar de uma coisa a outra, alimentar tudo e passando de um ser a outro, até mesmo da vida para a morte e vice-versa. O eixo do mundo ou o eixo do trabalho do alquimista é representado pela árvore em que a matéria-prima constitui a raiz.

Uma luta entre o dragão alado contra o dragão áptero, de um cão com uma cadela ou da salamandra com a rêmora, representam o combate entre o volátil e o fixo, o feminino e o masculino, ou o mercúrio e o enxofre, os dois princípios que estão contidos na matéria. Enquanto que a união entre estes dois princípios é representada pelo casamento do rei e da rainha, do homem de vermelho com a mulher de branco, do irmão com a irmã (pois eles provém de uma mesma matéria mãe), de Apolo e Diana, do sol e da lua ou juntar a vida à vida. Normalmente a este casamento precede morte e tristeza.

Apanhar um pássaro significa fixar o volátil. O leão verde normalmente é associado ao sal. A pessoa iniciável ou a substância inicial (matéria-prima) pode ser representada pelo filho mais jovem de uma viúva (que representa Ísis) ou de um rei, um soldado que já cumpriu o serviço militar, um aprendiz de ferreiro, um jovem pastor, o filho de um rei em idade de se casar e outros casos semelhantes. O abismo, um recife e outros perigos de uma viagem representam os cuidados ou os perigos que o fogo conduzido inadequadamente podem causar.

O dissolvente universal tanto é associado ao sal como ao mercúrio normalmente é representado por uma fonte, leão verde, água da vida ou da morte, água ígnea, fogo aquoso, água que não molha as mãos, água benta, vento, espada, lanterna, cervo, um velho, um servidor, o peregrino, o louco, mãe louca, dragão, serpente, Diana, cão, dentre outros. Os alquimistas utilizam também alfabetos secretos, codificados, anagramas e criptografia. Além de simples sinais que identificam uma operação, substância ou objeto.

A alquimia além do aspecto espiritual, constituí uma verdadeira ciência que tem como finalidade compreender a matéria e o cosmo, ou seja, o microcosmo e o macrocosmo, além de tentar reproduzir de forma mais rápida o que a natureza leva milênios para conseguir. Como em qualquer área de conhecimento, a alquimia possuía uma linguagem própria. Para tentar transmitir conhecimentos que não haviam palavras específicas para expressar eles utilizaram termos conhecidos, que transmitia uma idéia rudimentar de algum evento. Assim utilizavam os termos Água, Terra, Ar e Fogo para explicar os quatro elementos, correlacionando-os respectivamente com o estados líquido, sólido, gasoso e a energia. O fogo simbolizava todos os tipos de energia, inclusive a energia imaterial dos corpos, o “éter”, ou estado “etéreo”. O conceito de estado gasoso não ficou conhecido pelo ocidente até o século XVIII com as pesquisas de Lavoisier. Isto demonstra o quanto os Alquimistas estavam adiantados em relação aos sábios de seu tempo.

Água – penetrante, dissolvente e nutritiva Terra – solidez que estabiliza a matéria, suporte para o líquido Ar – gasoso, expansivo, volátil Fogo – energia que acelera o processo, aquece, ilumina A Quintessência – Éter – equilibra e penetra nos corpos, é a força viva A terra e a água constituem estados visíveis, enquanto o fogo e o ar são estados invisíveis.

Os quatro elementos porém não eram suficientes para expressar todas as características e assim os alquimistas adotaram os termos Enxofre, Mercúrio e o Sal para expressar os três princípios e, da mesma maneira que os quatro elementos, não representavam as substâncias mencionadas em si, mas sim as suas propriedades materiais que poderiam ser retiradas ou acrescentadas as substâncias, possivelmente por reações químicas ou transmutações.

Enxofre – princípio fixo – representa as propriedades ativas – combustibilidade, a ação corrosiva, o poder de atacar os metais, e também o princípio ativo ou masculino, o movimento, a forma, o quente. É considerado o embrião da pedra e alimentado pelo mercúrio, pois está contido em seu ventre. Também é considerado a energia animadora e constitui o objetivo da Grande Obra.

Mercúrio – princípio volátil – representava as propriedades passivas – maleabilidade, brilho, fusibilidade, a fraca tensão de vapor, o escorregadio que toma várias formas e o fugidio. Além de designar a matéria, designa também outros aspectos como: o princípio passivo ou feminino, o inerte, o frio. O mercúrio também pode designar a matéria-prima, é considerado a mãe dos metais ou a água primitiva que deu origem a todos eles. Este é o mercúrio segundo, mercúrio filosófico ou mercúrio duplo que contém os dois princípios, o mercúrio e o enxofre. O primeiro mercúrio ou mercúrio comum também é chamado de dissolvente universal.

O mercúrio é ao mesmo tempo o caminho e o andarilho, com a Grande Obra representando uma viagem. Estes dois princípios possuem as propriedades contrárias e a mistura de propriedades contrárias é muito importante na alquimia, ou seja, o dualismo enxofre-mercúrio de todas as coisas.

O mercúrio também é chamado de sal dos metais. Na realidade o mercúrio no final da obra adquire a tríplice qualidade. Sal – também conhecido por arsênico – é o meio de união entre as propriedades do Mercúrio e as do Enxofre, como uma força de interação, muitas vezes associado a energia vital, que une a alma ao corpo. No ser humano, o enxofre seria o corpo físico; o mercúrio, a alma e o sal, o espírito mediador. Esse sal normalmente é relatado como sendo um fogo aquoso ou uma água ígnea e é obtido a partir do mercúrio comum em conjunção com o fogo, obtendo assim a chamada “água que não molha as mãos”. Assim como o mercúrio, o sal também é relatado como sendo o dissolvente universal. Na verdade o fixo e o volátil nunca podem estar separados, não existe mercúrio que não contenha o enxofre, por isso, as vezes o sal aparece com o nome de um deles dependendo da fase da operação. O sal protege os metais para que no processo não sejam totalmente destruídos e reste assim a semente, que por seu intermédio nascerá algo novo.
Os sete metais:

Na natureza, a terra contém “sementes” que dão origem aos metais por um processo de evolução e aperfeiçoamento. Todos os metais, com o tempo, transformar-se-ão em ouro que contém o equilíbrio perfeito dos quatro elementos. Na alquimia não existe matéria morta e todas as substâncias, animal, vegetal ou mineral, são dotadas de vida e movimento, ou seja, possuem suas energias características.

Ouro – representado pelo Sol.

Prata – representado pela Lua.

Mercúrio – representado pelo planeta Mercúrio.

Estanho – representado por Júpter.

Chumbo – representado por Saturno, por ser considerado pesado e lento.

Cobre – representado por Vênus, maleabilidade, sossego, beleza e prazer.

Ferro – representado por Marte.

Laboratorio do Alquimista

A prática alquímica, de maneira extremamente resumida, consiste em pegar a prima materia (matéria-prima primordial) eliminar as suas impurezas (morte e renascimento), separar seus componentes (mercúrio e enxofre) e reuni-los novamente (por intermédio do sal) fixando os elementos voláteis, formando assim a pedra filosofal. Seria como “libertar o espírito por meio da matéria e a própria matéria por meio do espírito”, ou ainda, fazer do fixo, volátil e do volátil,o fixo, onde não se pode fazer cada etapa independentemente.

O alquimista é uma peça fundamental nos experimentos e não somente um simples observador. O experimento e o experimentador constituem uma única coisa na alquimia. Este ponto de vista do experimentador como participante está agora sendo retomado pela física quântica, alterando o termo observador para participante. Portanto, mesmo tendo o conhecimento prático do processo, se tiver perdido a pureza do espírito, a Grande Obra não poderá ser concluída.

Vários alquimistas relatam doze processos, em três etapas ou três obras, para a realização da Grande Obra que, contudo, não correspondem literalmente aos nomes conhecidos. São eles: Calcinação – constitui a purificação do primeiro material pelo fogo, sem contudo diminuir seu teor de água. Solução ou dissolução – a parte sólida é dissolvida na água, porém é relatado que esta água não molha a mão. A água pode ser o próprio mercúrio. Esta é uma “dissolução filosófica” em que o solvente mata os metais, portanto esta fase é um símbolo da morte para os três reinos.

Separação – o mercúrio é separado do enxofre. Fornecendo um calor externo adequado, o mercúrio que contém o enxofre interno coagula a si mesmo graças a um artificio que constitui um segredo, o secretum secretorum, que é uma marca divisória entre a alquimia e a química. Este artifício consiste, metaforicamente, em capturar um raio de sol, condensá-lo, aprisioná-lo em um frasco hermeticamente fechado e alimentá-lo com o fogo. A terra fica em baixo enquanto o espírito sobe. Esta etapa completa a primeira obra e quando concluída corretamente pode se ver a formação de uma estrela dentro do frasco. Conjunção – o mercúrio e o enxofre são novamente unidos. Toda a operação deve ser realizada no mesmo recipiente, sendo que nesta fase o frasco é hermeticamente fechado.

Putrefação – o calor mata os corpos e a putrefação ocorre. Aparece uma coloração escura, enegrecida. Congelamento – nesta fase aparece uma coloração esbranquiçada, um calor brando é quem promove esta mudança. Cibação – à matéria seca deve ser adicionado os componentes necessários para alimentá-la.

Sublimação – fase em que o corpo torna-se espiritual e o espírito corporal, ou seja, volatilizar o fixo e fixar o volátil, sendo que um processo depende do outro e não é possível fixar um sem volatilizar o outro. Para esta fase é relatado uma duração de quarenta dias. Porém, todo esse processo que se encerra com a sublimação teve início na conjunção e constitui a segunda obra. Fermentação – adiciona-se ouro para tornar o já existente mais ativo.

Exaltação – processo semelhante a sublimação, seria uma ressublimação. Multiplicação – uma quantidade maior de energia é acrescida nesta etapa, porém não é necessariamente a matéria que aumenta. Projeção – teste final da pedra em seus usos normais, como a transmutação. O agente da dissolução é convertido em paciente que sofre a operação na fase da coagulação. Por isso a operação é comparada a brincadeira de criança de “pular carniça” em que ora um pula o outro e ora é pulado.
A matéria-prima:

Esta primeira matéria que dará origem a pedra filosofal constitui um dos grandes segredos da alquimia. Normalmente é descrita como algo desprezado, inferior e sem valor. Pode ser encontrado em todos os lugares, é conhecido por todos, é varrido para fora de casa, as crianças brincam com ele, porém possui o poder de derrubar soberanos.

Dentre os não iniciados, cada um aposta em um tipo de material tanto do reino animal, vegetal como mineral. ários utilizaram minérios (especialmente os de chumbo, o cinabre que contém enxofre e mercúrio, o stibine um raro mineral sulfuroso, a galena que é magnética), cinzas, fezes, barro, sangue, cabelos. A maioria deles emprega a própria terra, recolhida em local preservado. A terra estaria impregnada de energia cósmica, com a água que contém.

Esta matéria não está somente no reino do psiquismo, como afirmava Jung, ela tem também sua expressão no reino material através de um mineral que possui propriedades vegetativas. Descobrir a matéria-prima não é o principal, mas sim erguê-la a um ponto privilegiado para as operações subseqüentes. Esta abordagem só será conseguida quando o alquimista deixa de lado a fronteira fictícia entre os elementos constitutivos de sua personalidade (física e espiritual) e o universo.

Ela normalmente é relacionada ao caos da gênese, a base de todo o processo, que tanto é material como imaterial. Para descobrir a matéria-prima mineral o operador e o objeto, observador e o observado, devem estar unidos. Isto significa se abstrair da visão lógica e desenvolver uma visão intuitiva. Esta visão pode aparecer após um longo período de reflexão sobre os impasses insolúveis da alquimia, após um estímulo externo como o barulho do vento, das ondas do mar, do trovão e outros. Caso contrário ela permanecerá escondida por uma roupagem ou uma casca como o ovo.
O orvalho:

O orvalho normalmente é utilizado para umedecer (banhar e nutrir) a matéria-prima. Como se condensa lentamente e desce da atmosfera está impregnado da energia cósmica. A melhor época de recolher o orvalho vai do equinócio de primavera ao solstício de verão, pois possui uma maior energia. Normalmente é recolhido com lençóis estendidos sobre vegetação rasteira sem, no entanto, tocá-la.

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