Mapa Astral de Lord Bulwer-Lytton

Edward George Earle Bulwer-Lytton, nasceu a 25 de Maio de 1803, na cidade de Londres. Oriundo de uma família da aristocracia cortesã, foi deixado aos cuidados da mãe quando o pai, chamado a capitanear as tropas de Lancashire contra a eminência de uma invasão napoleônica, acabou por falecer, malgrado o facto de não se ter concretizado qualquer confronto armado. O jovem Edward contava apenas quatro anos, e o fato de ser órfão de pai veio-lhe causar transtornos na escola em Fulham. Manifestando maus-tratos, foi transferido para Rottingdean, de onde saiu para receber a educação clássica (Retórica, Latim, Grego e História) em Ealing e a preparação da Matemática por um tutor privado da Universidade de Oxford. Aos dezessete anos viveu o seu primeiro grande amor.

Separado pela família da amada, que se apressou a casá-la com outro homem, Bulwer-Lytton verteu a sua dor em poemas de travo exótico e aventureiro. Ismael: An Oriental Tale, with Other Poems foi publicado em 1820 e elogiado por Sir Walter Scott. Seu interesse por magia e ocultismo lhe levou a conhecer Eliphas Levi, junto do qual realizaram grandes estudos e até mesmo, segundo relatos, a invocação do espírito do grande Apolônio de Tiana.

Em 1871 foi nomeado Imperator da SRIA (Societas Rosacruciana in Anglia), manteve contato com quase todos os grandes ocultistas de sua época e se diz que tomou parte da Sociedade Hermética de Luxor, uma sociedade que teve influência direta na política, cultura e espiritualismo no século XIX.

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O Mapa de Edward mostra Planetas espalhados, sem grandes concentrações em uma área específica. Seu sol está em gêmeos, assim como mercúrio, ambos na casa 11 (indicando facilidade em trabalhar com palavras, comunicação e facilidade extrema de fazer amizades e estar cercado de pessoas). Sua lua e ascendente estão em câncer-leão (arquétipo do Cavaleiro de Bastões, a pessoa que tem o potencial para aliar liderança com a paixão e a busca pelo espiritual) sendo a lua seu planeta mais forte (7 aspectações). Lua em câncer normalmente já indica vocação para poesia (aliada ao mercúrio em gêmeos, pode-se afirmar com boa base de certeza estar diante de um escritor/poeta, como de fato ele foi). A Aspectação mais forte é justamente esta conjunção lua-Ascendente em câncer-leão.

Uma combinação que encontramos muito em grandes “organizadores” é a junção de saturno e júpiter no signo de Virgem (no caso de Lytton, Júpiter com leve influência libriana também).

O Caput Draconis está em Aquário-Peixes (Rei de Taças) junto com Plutão em Peixes, somando a este mapa uma vocação para lidar com o espiritual e com fraternidades ligadas ao espiritual (e também às energias Aquarianas de romper barreiras, que foi exatamente o que a Societas Rosacriciana e a Sociedade Hermética de Luxor fizeram na Inglaterra no século XIX).

#Astrologia #Biografias

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/mapa-astral-de-lord-bulwer-lytton

A História Da Atlântida

Um Esboço Geográfico, Histórico e Etnológico

A amplitude do assunto que se nos apresenta será mais bem compreendida considerando-se a quantidade de informações que podem ser obtidas a respeito das várias nações que constituem nossa grande quinta raça ou raça árica.

Desde a época dos gregos e dos romanos tem-se escrito continuas obras* sobre os povos que, sucessivamente, ocuparam o palco da História. As instituições políticas, as crenças religiosas, os hábitos e costumes domésticos e sociais, tudo tem sido analisado e catalogado em inúmeras obras que, em muitas línguas, registram, para nosso benefício, a marcha do progresso.

Além do mais, é preciso lembrar que, da história dessa quinta raça, possuímos apenas um fragmento – o registro dos últimos descendentes da sub-raça céltica e das primeiras linhagens do nosso tronco teutônico.

Porém, as centenas de milhares de anos que decorreram desde a época em que os primeiros áricos deixaram sua terra natal, nas costas do mar asiático central, até a época dos gregos e dos romanos testemunharam a ascensão e queda de inúmeras civilizações. Da primeira sub-raça da nossa raça árica, que habitou a índia e colonizou o Egito em épocas pré-históricas, não sabemos praticamente nada, e o mesmo pode-se dizer dos povos caldeu, babilônico e assírio, que constituíram a segunda sub-raça – pois os fragmentos à nossa disposição, obtidos a partir de hieróglifos ou de inscrições cuneiformes, encontrados em tumbas egípcias e em placas babilônicas, decifrados recentemente, por certo não podem ser considerados como formadores da História. Os persas, que pertenceram à terceira sub-raça ou sub-raça iraniana, deixaram, é verdade, alguns poucos traços mais, mas das civilizações mais primitivas da quarta sub-raça, ou sub-raça céltica, não temos absolutamente nenhum registro. Somente com o surgimento dos últimos ramos deste tronco céltico, a saber, os povos grego e romano, é que chegamos aos períodos históricos.

A um período em branco do passado soma-se também um do futuro, pois das sete sub-raças necessárias para completar a história de uma grande raça-raiz, somente cinco, até agora, chegaram a existir. A nossa própria quinta sub-raça, ou sub-raça teutônica, já se desdobrou em muitas nações, mas ainda não completou seu curso, enquanto as sexta e sétima sub-raças, que se desenvolverão nos continentes da América do Norte e do Sul, terão milhares de anos de história a dar ao mundo.

Sintetizar, em poucas páginas, informações a respeito do progresso do mundo durante um período que, no mínimo, deve ter sido tão extenso quanto o acima referido é, por esse motivo, uma tentativa que, necessariamente, não pode ultrapassar os limites de um ligeiro esboço.

Um registro do progresso da Humanidade durante o período da quarta raça ou raça atlante deve abarcar a história de muitas nações, bem como registrar a ascensão e queda de muitas civilizações.

Além disso, durante o desenvolvimento da quarta raça, em mais de uma ocasião ocorreram catástrofes, numa escala que ainda não foi experimentada durante a existência da nossa atual quinta raça. A destruição da Atlântida foi motivada por uma série de catástrofés das mais variadas espécies, desde grandes cataclismos, onde territórios e populações inteiras pereceram, até os comparativamente insignificantes deslizamentos de terra, tais como os que ocorrem hoje em dia em nossas costas. Uma vez iniciada a destruição, pela primeira grande catástrofe, não houve mais intervalos entre os deslizamentos menores que, lenta porém incessantemente, continuaram a destruir o continente. Quatro grandes catástrofes sobressaem, em magnitude, a todas as outras. A primeira ocorreu durante o mioceno, cerca de 800.000 anos atrás. A segunda, de menor consequência, ocorreu há, aproximadamente, 200.000 anos. A terceira, há cerca de 80.000 anos, foi a mais descomunal e destruiu tudo o que restava do continente atlante, com exceção da ilha à qual Platão deu o nome de Posseidones e que, por sua vez, submergiu na quarta e última grande catástrofe, no ano de 9564 a.C.

As declarações dos mais antigos escritores e da pesquisa científica moderna igualmente confirmam a existência de um antigo continente, ocupando o local da Atlântida desaparecida.

Antes de passar ao exame do assunto em si, convém analisar rapidamente as fontes em geral reconhecidas por fornecerem dados corroborativos. Elas podem ser agrupadas nas cinco categorias seguintes:

Primeira Categoria

As provas das sondagens do fundo do mar. Segunda, a distribuição da fauna e da flora. Terceira, a similaridade de língua e do tipo etnológico. Quarta, a similaridade de crença, ritual e arquitetura religiosas. Quinta, os depoimentos dos antigos escritores, as tradições de raças primitivas e as antigas lendas a respeito do dilúvio.

Portanto, em primeiro lugar, temos as provas das sondagens do fundo do mar, que podem ser resumidas em poucas palavras. Graças principalmente às expedições das canhoneiras britânica e americana, a Challenger e a Dolphin (embora a Alemanha também tenha participado desta exploração científica), o fundo do Oceano Atlântico está agora totalmente mapeado, tendo-se constatado a existência de uma imensa cordilheira de grande altitude no médio Atlântico. Esta cordilheira estende-se para o sudoeste, mais ou menos a partir de 50°, latitude norte, em direção à costa da América do Sul; em seguida, para o sudeste, em direção à costa da África, mudando outra vez de direção, perto da ilha da Ascensão, seguindo então diretamente para o sul, rumo a Tristão da Cunha. A cordilheira ergue-se, de forma quase perpendicular, cerca de 2.743 m acima das profundezas do oceano, enquanto Açores, São Paulo, Ascensão e Tristão da Cunha formam os picos dessa terra que ainda continuam acima das águas. Para sondar as mais profundas regiões do Atlântico, foi necessário um prumo de 3.500 braças, ou seja, 6.400 m, mas as partes mais altas da cordilheira estão apenas a uns 200 m, ou pouco mais, abaixo da superfície.

As sondagens também demonstraram que a cordilheira está coberta de detritos vulcânicos, cujos vestígios foram encontrados de um lado a outro do oceano, até as costas americanas. Na verdade, o fato de que o fundo do oceano, particularmente perto dos Açores, foi palco de distúrbios vulcânicos numa escala gigantesca, e isso dentro de um período perfeitamente mensurável da era geológica, está conclusivamente provado pelas investigações realizadas durante as expedições acima citadas.

O sr. Starkie Gardner é da opinião que, durante o eoceno, as ilhas Britânicas faziam parte de uma imensa ilha ou continente, que estendia-se na direção do Atlântico, e “que uma grande extensão de terra existiu outrora onde hoje existe o mar, e que a Cornualha, as ilhas Scilly e Anglo-Normanda, a Irlanda e a Bretanha formam o que restou de seus cumes mais altos” (Pop. Sc. Review, julho de 1878).

Segunda Categoria

A comprovada existência, em continentes separados por vastos oceanos, de espécies idênticas ou similares de fauna e flora constitui o constante enigma dos biólogos e botânicos. Contudo, se existiu no passado uma ligação entre esses continentes, permitindo a natural migração desses animais e plantas, o enigma está decifrado. Atualmente, os fósseis de camelos são encontrados na índia, África, América do Sul e Kansas; no entanto, uma das hipóteses dos naturalistas, geralmente aceita, é a de que todas as espécies de animais e plantas originaram-se em apenas uma parte do globo e, deste centro, gradualmente invadiram as outras regiões. Sendo assim, como explicar a ocorrência desses fósseis, sem a existência de uma passagem por terra em alguma época remota? As descobertas nas camadas fósseis do Nebraska parecem também provar que o cavalo originou-se no hemisfério ocidental, pois essa é a única parte do mundo onde se tem descoberto fósseis demonstrativos das várias formas intermediárias, identificadas como precursoras do cavalo atual. Portanto, seria difícil explicar a presença do cavalo na Europa, exceto pela hipótese da existência de uma passagem por terra entre os dois continentes, já que não resta dúvida quanto à presença do cavalo, em estado selvagem, na Europa e na Ásia, antes de sua domesticação pelo homem, a qual poderia remontar praticamente à Idade da Pedra. O gado e o carneiro, como agora sabemos, possuem ancestrais igualmente remotos. Darwin descobre gado domesticado na Europa, pertencente à mais remota era da Idade da Pedra, e que, num período muito anterior, teria evoluído de formas selvagens, semelhantes ao búfalo da América. Fósseis do leão descobertos nas cavernas da Europa também foram encontrados na América do Norte.

Passando agora do reino animal ao vegetal, parece que a maior parte da flora européia, da época miocena – encontrada, principalmente, nas camadas fósseis da Suíça -, existe até hoje na América e, algumas espécies, na África. Contudo, deve-se ressaltar que, enquanto a maior incidência dessas espécies ocorra no leste americano, muitas delas não são encontradas na costa do Pacífico. Isso parece demonstrar que essas espécies penetraram no continente americano pelo lado do Atlântico. O professor Asa Gray afirma que dos 66 gêneros e das 155 espécies existentes na floresta a leste das Montanhas Rochosas, somente 31 gêneros e 78 espécies são encontradas a oeste dessas elevações.

Todavia, o maior de todos os problemas é a bananeira. O professor Kuntze, eminente botânico alemão, pergunta: “De que maneira esta planta” (nativa da Ásia tropical e da África), “que não poderia resistir a uma viagem através da zona temperada, foi transportada para a América?” Como ele assinala, a planta não tem sementes, não pode ser propagada através de chantões e tampouco possui um tubérculo que pudesse ser transportado facilmente. Sua raiz é semelhante a uma árvore. Para transportá-la, seria necessário um cuidado especial, e ela não resistiria a uma viagem longa. A única maneira pela qual ele pode explicar o aparecimento desta planta na América é supondo que ela deve ter sido transportada pelo homem civilizado, numa época em que as regiões polares possuíam um clima tropical! Ele acrescenta: “Uma planta cultivada que não possui sementes deve ter sido submetida a um processo de cultivo durante um período muito longo . . . talvez seja correio inferir que essas plantas foram cultivadas já no início do período diluviano.” Por que – pode-se perguntar – esta inferência não nos deveria remeter a tempos ainda mais remotos, e quando existia a necessária civilização para o cultivo da planta, ou condições climáticas e materiais para o seu transporte, a menos que houvesse, em alguma época, uma ligação entre o Velho Mundo e o Novo?

O professor Wallace, em sua deleitável obra Island Life, assim como outros autores, em obras muito importantes, formulou engenhosas hipóteses para explicar a identidade da flora e da fauna em terras bastante distantes entre si, e para o seu transporte através do oceano, mas nenhuma é convincente e todas apresentam diversas lacunas.

Sabe-se muito bem que o trigo, tal como o conhecemos, nunca existiu num estado verdadeiramente selvagem, e não há nenhuma evidência de que tenha se originado de espécies fósseis. Cinco variedades de trigo já foram cultivadas na Europa, na Idade da Pedra -uma delas, descoberta nos “povoados lacustres”, conhecida como trigo egípcio, fez Darwin argumentar que os lacustres “ou ainda mantinham relações comerciais com algum povo do sul, ou tinham originalmente vindos do sul como colonos”. Ele conclui que o trigo, a cevada, a aveia, etc. são provenientes de várias espécies hoje extintas, ou de tal modo alteradas que escapam à identificação; neste caso, afirma ele: “O homem deve ter cultivado cereais desde um período consideravelmente remoto.” Tanto as regiões em que essas espécies extintas floresceram, como a civilização que as cultivou por meio de inteligente seleção, foram ambas supridas pelo continente perdido, cujos colonizadores transportavam-nas para o leste e para o oeste.

Terceira Categoria

Da flora e da fauna, voltamo-nos agora para o homem:

Língua

O idioma basco mantém-se isolado entre as línguas européias, não tendo afinidade com nenhuma delas. De acordo com Farrar, “nunca houve alguma dúvida de que esta língua diferente, preservando sua identidade num recanto ocidental da Europa, entre dois poderosos reinos, assemelha-se, em sua estrutura, às línguas aborígines do vasto continente oposto (América), e apenas a estas” (Families of Speech, p. 132).

Ao que parece, os fenícios foram o primeiro povo do hemisfério oriental a usar o alfabeto fonético, sendo seus caracteres considerados simples sinais para os sons. É um fato curioso que, em data igualmente remota, encontremos um alfabeto fonético na América Central, entre os maias do Yucatán, cujas tradições atribuem a origem de sua civilização a uma terra situada do outro lado do mar, para leste. Lê Plongeon, a maior autoridade neste assunto, escreve: “Um terço desta língua (o maia) é puro grego. Quem levou o dialeto de Homero para a América? Ou quem levou para a Grécia o dos maias? O grego descende do sânscrito. O maia também? Ou seriam eles contemporâneos?” Mais surpreendente ainda é encontrar treze letras do alfabeto maia apresentando uma nítida relação com os sinais hieroglíficos egípcios, referentes às mesmas letras. E provável que a forma mais primitiva do alfabeto fosse hieroglífica, “a escrita dos deuses”, como os egípcios a chamavam, que, mais tarde, na Atlântida, desenvolveu-se em fonética. Seria natural admitir que os egípcios foram uma antiga colônia da Atlântida (como realmente foram) e que levaram consigo o tipo primitivo de escrita, que assim deixou seus traços em ambos os hemisférios, ao passo que os fenícios, que eram navegadores, obtiveram e assimilaram a forma posterior do alfabeto durante suas viagens comerciais aos povos do oeste. Há mais um detalhe que deve ser mencionado, a saber, a extraordinária semelhança entre muitas palavras da língua hebraica e palavras, que mantêm exatamente o mesmo significado, do idioma dos Chiapenecs – um ramo da raça maia, entre os mais antigos da América Central. A lista dessas palavras encontra-se em North Americans of Antiquity, p. 475.

A similaridade de língua entre os diversos povos selvagens das ilhas do Pacífico foi utilizada como argumento por escritores que tratam desta matéria. A existência de línguas semelhantes entre raças separadas por léguas de oceano, que, no período histórico, não possuíam nenhum meio de transporte para atravessá-las, é certamente um argumento a favor da descendência de uma única raça, que ocupava um único continente. Contudo, este argumento não pode ser utilizado aqui, pois o continente em questão não era a Atlântida, mas a ainda mais remota Lemúria.

Tipos Etnológicos

Dizem que a Atlântida, como veremos, foi habitada pelas raças vermelha, amarela, branca e negra. Está agora provado, pelas pesquisas de Lê Plongeon, de De Quatrefages, de Bancroft e outros, que populações negras do tipo negróide existiram, até mesmo em épocas recentes, na América. Muitos dos monumentos da América Central são decorados com rostos negros, e alguns dos ídolos encontrados destinaram-se, nitidamente, a representar negros, com crânios pequenos, cabelos curtos e crespos e lábios grossos. O Popul Vuh, discorrendo sobre a primeira pátria do povo guatemalteco, diz que “homens negros e brancos” viviam juntos nessa terra feliz, “em grande paz”, falando “uma só língua”. (Ver Bancroft, Native Roces, p. 547.) O Popul Vuh prossegue, relatando como o povo emigrou de sua pátria ancestral, como sua língua se alterou e como alguns se dirigiram para o leste, enquanto outros viajaram para o oeste (para a América Central).

O professor Retzius, em seu Smithsonian Report, considera que os primitivos dolicocéfalos da América são quase parentes dos guanchos das ilhas Canárias e dos habitantes do litoral atlântico da África, aos quais Latham chama de atlantidae-egípcios. O mesmo formato de crânio é encontrado nas ilhas Canárias, distantes da costa africana, e nas Pequenas Antilhas, afastadas da costa americana, embora, em ambas, a cor da pele seja pardo-avermelhada.

Os antigos egípcios descreviam a si mesmos como homens vermelhos, com um aspecto muito semelhante ao encontrado atualmente entre algumas tribos de índios americanos.

“Os antigos peruanos”, diz Short, “pelos numerosos exemplares de cabelos encontrados em suas tumbas, parecem ter sido uma raça ruiva.”

Um fato notável a respeito dos índios americanos, que constitui um enigma constante para os etnólogos, é a grande variação de cor e de compleição verificada entre eles. Da cor branca das tribos Me-nominee, Dacota, Mandan e Zuni, muitas das quais possuem cabelos ruivos e olhos azuis, até quase a negrura da raça negra dos Karos do Kansas e das já extintas tribos da Califórnia, as raças índias passam por todas as variações de vermelho-acastanhado, cobre, verde-oliva, canela e bronze. (Ver Short, North Amerícans of Antiquity, Win-chell, Pre-Adamites e, Catlin, Indians of North America’, ver também Atlantis, de Ignatius Donnelly, que coletou grande número de dados sobre este e outros assuntos.) Veremos dentro em pouco como a diversidade de compleição no continente americano é explicada pelos originais matizes da raça da Atlântida, o continente materno.

Quarta Categoria

No México e no Peru, nada parece ter surpreendido mais os primeiros aventureiros espanhóis do que a extraordinária similaridade entre as crenças religiosas, os rituais e os emblemas, estabelecidos no Novo Mundo, e aqueles do Velho Mundo. Os padres espanhóis viam essa similaridade como uma obra do demônio. O culto da cruz pelos nativos, bem como sua presença constante em todas as edificações e cerimônias religiosas, era a causa principal do seu assombro; na verdade, em parte alguma – nem mesmo na índia e no Egito – este símbolo era motivo de tanta veneração do que entre as tribos primitivas dos continentes americanos, embora o significado básico de seu culto fosse idêntico. No Ocidente, como no Oriente, a cruz era o símbolo da vida – às vezes, da vida física, mais amiúde, da vida eterna.

Do mesmo modo, em ambos os hemisférios os cultos do disco ou círculo solar e da serpente eram universais. Mais surpreendente ainda é a similaridade do significado da palavra “Deus” nas principais línguas do Oriente e do Ocidente. Compare o sânscrito “Dy-aus” ou “Dyauspitar”, o grego “Theos” e Zeus, o latino “Deus” e Júpiter, o celta “Dia” e “Ta”, pronunciado “Thyah” (aparentando afinidade com o egípcio Tau), o hebraico “Jah” ou “Yah” e, por fim, o mexicano “Teo” ou “Zeo”.

Os rituais de batismo foram praticados por todas as nações. Na Babilônia e no Egito, os candidatos à iniciação nos Mistérios eram, antes de tudo, balizados. Tertuliano, em seu De Baptismo, afirma que, aos balizados era prometido “a regeneração e o perdão de todos os perjúrios”. As nações escandinavas praticavam o batismo de crianças recém-nascidas; e se nos voltarmos para o México e o Peru, encontraremos o batismo de crianças como um cerimonial solene, consistindo de aspersão de água, do sinal da cruz e de orações para que o pecado fosse levado (lavado) pela água (ver Humboldt, Mexican Researches, e Prescott, México).

Além do batismo, as tribos do México, da América Central e do Peru assemelhavam-se às nações do Velho Mundo em seus rituais de confissão, absolvição, jejum e casamento, realizados por sacerdotes através da união das mãos. Elas praticavam até mesmo uma cerimônia semelhante à Eucaristia, na qual comiam bolos com a marca do Tau (uma forma egípcia de cruz). O povo chamava esses bolos de carne de seu Deus, o que os assemelha aos bolos sagrados do Egito e de outras nações orientais. Do mesmo modo que essas nações, os povos do Novo Mundo também possuíam ordens monásticas, masculinas e femininas, nas quais a quebra dos votos era punida com a morte. Tal como os egípcios, eles embalsamavam seus mortos, cultuavam o sol, a lua e os planetas, mas, além disso, adoravam uma Divindade “onipresente, conhecedora de todas as coisas… invisível, incorpórea, um Deus de completa perfeição” (ver Sa-hagun, Historia de Nueva Espana, livro VI).

Também tinham sua deusa virgem-mãe, a “Nossa Senhora”, cujo filho, o “Senhor da Luz”, era chamado “Salvador”, o que vem estabelecer uma correspondência exata com Isis, Béltis e muitas outras deusas-virgens do Oriente, com seus filhos divinos.

Seus rituais do sol e culto do fogo assemelhavam-se aos dos antigos celtas da Grã-Bretanha e da Irlanda – e, tal como estes últimos, denominavam-se “filhos do sol”. Uma arca, ou argha, era um dos símbolos sagrados universais, que encontramos tanto na índia, na Caldéia, na Assíria, no Egito e na Grécia, como entre os povos celtas. Lord Kingsborough, em sua obra Mexican Antiquities (vol. VIU, p. 250), afirma: “Assim como entre os hebreus a arca era uma espécie de templo portátil, onde, acreditava-se, a divindade estava continuamente presente, também entre os mexicanos, cheroquis e índios de Michoacán e Honduras, a arca era objeto da mais profunda veneração, considerada tão sagrada que só os sacerdotes podiam tocá-la.”

Quanto à arquitetura religiosa, descobrimos que, em ambas as margens do Atlântico, uma das mais antigas edificações sagradas é a pirâmide. Por mais obscuros que sejam os usos para os quais essas construções foram originalmente projetadas, uma coisa é certa: estavam estreitamente vinculadas a alguma idéia ou conjunto de idéias religiosas. A identidade do traçado entre as pirâmides do Egito e as do México e da América Central é por demais surpreendente para ser uma simples coincidência. De fato, algumas das pirâmides americanas – a maioria – terminam abruptamente, com um topo achatado; contudo, segundo Bancroft e outros, muitas das pirâmides encontradas em Yucatán, particularmente aquelas próximas a Palenque, possuem um topo pontiagudo, no mais genuíno estilo egípcio, ao passo que, por outro lado, temos algumas pirâmides egípcias em forma de escada e com o topo achatado. Cholula foi comparada aos grupos de Dachour, de Sakkara e à pirâmide escalonada de Mé-dourn. Semelhantes em orientação, em estrutura e mesmo nas galerias e câmaras internas, esses misteriosos monumentos do Oriente e do Ocidente atestam uma origem comum, a partir da qual seus construtores traçaram seus projetos.

As imensas ruínas de cidades e templos no México e Yucatán estranhamente também se assemelham às do Egito, sendo as ruínas de Teotihuacán freqüentemente comparadas às de Karnak. O “arco falso” – fiadas de pedras, levemente sobrepostas umas às outras – é encontrado, com a mesma forma, na América Central, nas mais antigas construções da Grécia e nas ruínas etruscas. Os maund builders, tanto dos continentes orientais como ocidentais, ergueram túmulos semelhantes para seus mortos, os quais foram depositados em esquifes de pedra também semelhantes. Ambos os continentes possuem seus enormes mounds da serpente; compare-se o do condado de Adams, em Ohio, com o primoroso mound da serpente descoberto em Argyllshire, ou com o exemplar menos perfeito de Avebury, em Wilts. Até mesmo a escultura e a decoração dos templos da América, do Egito e da índia têm muito em comum, enquanto algumas das decorações murais são absolutamente idênticas.

Quinta Categoria

Só resta agora resumir alguns depoimentos prestados pelos antigos e alguns dados extraídos das tradições de povos primitivos e das antigas lendas diluvianas.

Aelian, em sua Varia Historia (vol. Hl, cap. XVm) afirma que Teopompo (400 a.C.) registrou um encontro entre o rei da Frigia e Sileno, no qual este último referiu-se à existência de um grande continente do outro lado do Atlântico, maior que a Ásia, a Europa e a Líbia juntas.

Proclo cita um trecho de um antigo escritor que se refere às ilhas existentes no mar que ficava do outro lado das Colunas de Hércules (Estreito de Gibraltar), afirmando que os habitantes de uma dessas ilhas possuíam uma crença, que lhes fora legada por seus antepassados, a respeito de uma enorme ilha, chamada Atlântida, que, por um longo tempo, governou todas as ilhas do oceano Atlântico.

Marcelo menciona sete ilhas no Atlântico e afirma que seus habitantes conservam a lembrança de uma ilha muito maior, a Atlântida, “a qual, por longo tempo, exerceu domínio sobre as ilhas menores”.

Diodoro de Sicília relata que os fenícios descobriram “uma grande ilha no oceano Atlântico, além das Colunas de Hércules, a vários dias de viagem da costa africana”.

Contudo, a maior autoridade nesse assunto é Platão. No Timeu ele alude ao continente insulano, enquanto o Crítias ou Atlântico é nada menos que um relato detalhado da história, artes, usos e costumes do povo. No Timeu ele menciona “uma poderosa força bélica, partindo do mar Atlântico e alastrando-se com fúria hostil por toda a Europa e Ásia. Por esse tempo, o mar Atlântico era navegável e havia uma ilha antes da desembocadura que é chamada por vocês de Colunas de Hércules. Mas essa ilha era muito maior do que a Líbia e toda a Ásia juntas, e proporcionava fácil acesso às outras ilhas vizinhas. Além disso, era igualmente fácil passar daquelas ilhas para todos os continentes que se limitavam com o mar Atlântico”.

O Crítias fornece tantos dados valiosos que se torna difícil selecioná-los; o trecho abaixo, por exemplo, menciona as riquezas materiais do país: “Eles também tinham todas as coisas necessárias à subsistência, as quais, tanto numa cidade como em qualquer outro lugar, são tidas como benéficas aos propósitos da vida. Na verdade, em virtude de seu extenso império, supriam-se de muitas coisas provenientes dos países estrangeiros; mas a ilha fornecia-lhes a maior parte de tudo o que necessitavam. Em primeiro lugar, a ilha provia-os de minerais extraídos do solo em estado sólido, dos quais alguns eram fundidos; o oricalco, que hoje em dia raramente é mencionado, mas que outrora era muito conhecido, também era extraído do solo em muitas partes da ilha, sendo considerado o mais nobre dos metais, à exceção do ouro. Além disso, tudo quanto as florestas forneciam para os construtores, a ilha produzia em abundância. Havia, outrossim, suficientes pastagens para animais selvagens e domésticos, bem como um número prodigioso de elefantes. Havia pastagens para todos esses animais, que se alimentavam nos lagos, rios, montanhas e planícies. Do mesmo modo, havia alimento suficiente para as espécies maiores e mais vorazes de animais. Além disso, todos os tipos de odoríferos que a terra, atualmente, nutre, sejam raízes, gramíneas, bosques, sucos, resinas, flores ou frutos – isso tudo a ilha produzia, e fartamente.”

Os gauleses possuíam costumes da Atlântida, os quais foram compilados pelo historiador romano Timagenes, que viveu no século I a.C. Parece que três povos distintos habitaram a Gália. A princípio, populações indígenas (provavelmente os remanescentes de alguma raça lemuriana); em segundo lugar, os invasores provenientes da longínqua ilha de Atlântida e, em terceiro, os gauleses áricos (ver Pre-Adamites, p. 380).

Os toltecas do México reconstituíram seu próprio passado a partir de um marco inicial chamado Atlan ou Aztlan; os astecas também sustentaram ter se originado de Aztlan (ver Bancroft, Native Roces, vol. 5, pp. 221 e 321).

O Popul Vuh (p. 294) menciona uma visita que os três filhos do rei dos Quichés fizeram a uma terra “no leste, situada nas costas do mar de onde tinham vindo seus pais”, da qual trouxeram, entre outras coisas, “um sistema de escrita” (ver também Bancroft, vol. V, p. 553).

Entre os índios da América do Norte, há uma lenda muito popular, segundo a qual seus antepassados vieram de uma terra situada “na direção do nascer do sol”. Segundo o Major J. Lind, os índios de lowa e Dacota acreditavam que “todas as tribos de índios tinham sido, outrora, uma só tribo e que, juntas, haviam habitado uma ilha . situada na direção do nascer do sol”. Dali, elas atravessaram o mar “em enormes esquifes, nos quais os dacotas do passado flutuaram durante semanas, para finalmente alcançarem a terra firme”.

Os livros centro-americanos afirmam que uma parte do continente americano estendia-se para bem distante, oceano Atlântico adentro, e que essa região foi destruída por uma série de terríveis cataclismos, separados por longos intervalos. Três deles são freqüentemente mencionados (ver Baldwin, Anciení America, p. 176). Uma curiosa confirmação disso encontra-se numa lenda dos celtas da Grã-Bretanha, segundo a qual uma parte de seu país, que outrora estendia-se Atlântico adentro, foi destruída. Três catástrofes são mencionadas nas tradições galesas.

Diz-se que Quetzalcóatl, a divindade mexicana, veio do “oriente distante”. Ele é descrito como um homem branco, com uma enorme barba (os indígenas da América do Norte e do Sul são imberbes). Ele criou as letras e organizou o calendário mexicano. Depois de ensinar-lhes muitas artes e lições pacíficas, ele partiu para o leste, numa canoa feita de couro de serpente (ver Short, North Americans of Antiquity, pp. 268-271). A mesma história é contada a respeito de Zamna, o criador da civilização em Yucatán.

Resta apenas tratar da admirável uniformidade das lendas diluvianas em todas as partes do globo. Quer sejam antigas versões da história da Atlântida desaparecida e de sua submersão, ou eco de uma importante parábola cósmica outrora ensinada e mantida em reverência em algum centro comum, de onde se difundiram por todo o mundo, isso não nos diz respeito no momento. Por enquanto, basta-nos demonstrar a aceitação universal dessas lendas. Seria um desperdício inútil de tempo e espaço examinar, minuciosamente e uma a uma, essas lendas diluvianas. Basta dizer que na índia, na Caldéia, na Babilônia, na Média, na Grécia, na Escandinávia, na China, entre os hebreus e entre as tribos celtas da Grã-Bretanha, a lenda é absolutamente idêntica em seus pontos essenciais. E o que encontraremos, se nos voltarmos para o Ocidente? A mesma história, preservada em todos os detalhes pelos mexicanos (cada tribo tendo a sua versão), pelos povos da Guatemala, Honduras, Peru e por quase todas as tribos de índios norte-americanos. Seria ingênuo sugerir que a mera coincidência explicaria essa identidade fundamental.

O trecho abaixo transcrito, extraído da tradução de Lê Plongeon do célebre Manuscrito Troano, que pode ser visto no Museu Britânico, certamente proporcionará uma conclusão adequada a esta questão. O Manuscrito Troano parece ter sido escrito há cerca de 3.500 anos, entre os maias do Yucatán, e sua descrição da catástrofe que submergiu a ilha de Posseidones é a seguinte: “No ano 6 Kan, no II9 Muluc do mês Zac, ocorreram terríveis terremotos, que con- tinuaram, sem interrupção, até o 13- Chuen. A região das colinas de lodo, a terra de Mu, foi sacrificada: sendo erguida por duas vezes, desapareceu de súbito durante a noite, enquanto a bacia era continuamente sacudida por forças vulcânicas. Estas, confinadas, fizeram a terra afundar e erguer-se diversas vezes e em vários lugares. Por fim, a superfície cedeu e dez regiões foram violentamente separadas e dizimadas. Incapazes de resistir à força das convulsões, afundaram, com seus 64.000.000 de habitantes, 8.060 anos antes de este livro ser escrito.”

Hoje, porém, tem sido devotado espaço suficiente aos fragmentos de depoimentos – todos mais ou menos convincentes – que estão, até agora, em poder da Humanidade. Aos interessados em se dedicar a uma Unha especial de investigação, as várias obras acima mencionadas ou citadas poderão ser consultadas.

O assunto em questão agora poderá ser abordado. Os fatos aqui coletados, extraídos, como foram, de registros contemporâneos que, por sua vez, foram compilados e transmitidos através das épocas que teremos de abordar, não se baseiam em hipóteses ou conjecturas. O autor pode não ter alcançado uma compreensão exata dos fatos e, portanto, pode tê-los desfigurado parcialmente. Contudo, os registros originais poderão ser examinados por aqueles que se encontram devidamente qualificados, e os que estão dispostos a empreender o treinamento necessário poderão conseguir licença para examinar e conferir.

Todavia, ainda que todos os registros ocultos fossem acessíveis à nossa inspeção, é preciso compreender que um esboço que tenta resumir numas poucas páginas a história de raças e nações, cujo desenvolvimento se estende, pelo menos, durante centenas de milhares de anos, não poderia deixar de ser fragmentário. Entretanto, qualquer relato acerca desse assunto – ainda que desconexo – não deixa de ser algo inédito e, portanto, de amplo interesse para a Humanida- de em geral.

Entre os documentos acima mencionados, há mapas referentes a vários períodos da história da Humanidade, e a permissão de obter cópias – mais ou menos completas – de quatro desses mapas foi o grande privilégio do autor. Todos os quatro retraíam a Atlântida e as terras adjacentes em diferentes épocas da sua história. Essas épocas correspondem, aproximadamente, aos períodos que medeiam as catástrofes acima mencionadas e, a esses períodos assim representados pelos quatro mapas associar-se-ão, naturalmente, os registros da raça atlante.

Entretanto, antes de iniciar a história da raça, seriam úteis algumas observações a respeito da geografia das quatro diferentes épocas:


O primeiro mapa representa a superfície terrestre do globo há cerca de um milhão de anos, quando a raça atlante estava em seu apogeu e antes da ocorrência da primeira grande submersão, cerca de 800.000 anos atrás. O próprio continente da Atlântida, como se pode observar, estendia-se desde um ponto situado alguns graus a leste da Islândia até mais ou menos o local onde hoje fica o Rio de Janeiro, na América do Sul. Abrangendo o Texas e o golfo do México, os estados do sul e do leste da América, inclusive o Labrador, ele estendia-se através do oceano até as ilhas européias – Escócia e Irlanda e uma pequena porção do norte da Inglaterra, formando um de seus promontórios -, enquanto suas regiões equatoriais abrangiam o Brasil e toda a extensão do oceano, até a Costa do Ouro, na África. Os fragmentos dispersos de que, finalmente, se formaram os continentes da Europa, da África e da América, bem como os vestígios do ainda mais antigo e outrora extenso continente da Lemúria, também podem ser vistos nesse mapa. Os vestígios do ainda mais remoto continente hiperbóreo, que foi habitado pela segunda raça-raiz, também são visíveis e, tal como a Lemúria, em cor azul.

Como se pode observar pelo segundo mapa, a catástrofe de 800.000 anos atrás provocou grandes alterações na configuração terrestre do globo. O grande continente está agora despojado de suas regiões setentrionais, e sua porção remanescente encontra-se mais dilacerada ainda. O continente americano, agora em fase de crescimento, está separado de seu continente materno, por uma falha, a Atlântida, e esta já não abrange as terras ora existentes, mas ocupa a maior parte da depressão atlântica, desde mais ou menos 50° de latitude norte até uns poucos graus ao sul do equador. Os assentamentos e elevações da superfície terrestre em outras partes do globo também foram consideráveis – as ilhas Britânicas, por exemplo, agora fazem parte de uma imensa ilha, que também abrange a península escandinava, o norte da França, todos os mares intermediários e alguns mares circundantes. Pode-se constatar que as extensões dos vestígios da Lemúria sofreram mutilações ainda maiores, enquanto a Europa, a África e a América tiveram seus territórios acrescidos.

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O terceiro mapa mostra os efeitos da catástrofe ocorrida há mais ou menos 200.000 anos. Com exceção das fendas nos continentes atlante e americano e a submersão do Egito, pode-se observar como os assentamentos e as elevações da superfície terrestre nessa época foram relativamente insignificantes; na verdade, o fato de esta catástrofe nunca ter sido considerada como uma das maiores transparece no trecho acima transcrito do livro sagrado dos guatemaltecos -onde apenas três grandes catástrofes são mencionadas. Contudo, a ilha escandinava aparece, agora, unida ao continente. A Atlântida encontra-se agora dividida, formando duas ilhas, conhecidas pelos nomes de Ruta e Daitya.

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O caráter extraordinário da convulsão natural que ocorreu há cerca de 80.000 anos fica evidenciado pelo quarto mapa. Daitya, a menor e mais meridional das ilhas, já desapareceu quase totalmente, ao passo que, de Ruta, apenas resta uma ilha relativamente pequena, Posseidones. Este mapa foi compilado há cerca de 75.000 anos e, sem dúvida, representa razoavelmente a superfície terrestre do globo, desde esse período até a submersão definitiva de Posseidones, em 9564 a.C., embora, durante esse período, devam ter ocorrido pequenas alterações. Notar-se-á que os contornos da superfície terrestre começaram, então, a assumir, aproximadamente, a mesma aparência que possuem hoje, embora as ilhas Britânicas ainda estivessem unidas ao continente europeu, o mar Báltico não existisse e o deserto do Saara formasse uma parte do fundo do oceano.

Quando se aborda a formação de uma raça-raiz é indispensável alguma referência à temática bastante mística acerca dos Manus. No Relatório nº 26 da Loja Maçônica de Londres, fez-se uma referência ao trabalho realizado por esses Seres sublimes, que abrange não só o planejamento dos tipos de todo o Manvantara como também supervisiona a formação e educação de cada raça-raiz, sucessivamente. O seguinte trecho refere-se a esse plano: “Também há os Manus, cujo dever consiste em atuar de modo semelhante em cada raça-raiz de cada Planeta do Círculo, o Manu-Semente, planejando o aperfeiçoamento do tipo que cada sucessiva raça-raiz inaugura, e o Manu-Raiz, realmente encarnando entre a nova raça na qualidade de guia e mestre, a fim de dirigir o desenvolvimento e garantir o aperfeiçoamento.”

A maneira pela qual a necessária segregação das espécimes selecionadas é efetuada pelo Manu encarregado, bem como seu subsequente cuidado com a comunidade em desenvolvimento, pode ser abordada num futuro relatório. Uma informação bastante simples quanto ao modo de proceder será suficiente aos nossos propósitos.

Foi, naturalmente, de uma das sub-raças da terceira raça-raiz, que habitava o continente conhecido pelo nome de Lemúria, que se efetuou a segregação destinada a produzir a quarta raça-raiz.

A fim de acompanhar as principais etapas do processo histórico dessa raça, através dos quatro períodos representados pelos quatro mapas, convém dividir o assunto nos seguintes tópicos:

1. Origem e localização territorial das diferentes sub-raças.
2. As instituições políticas que, respectivamente, elas desenvolveram.
3. Suas migrações para outras partes do mundo.
4. As artes e ciências desenvolvidas.
5. Os usos e costumes adotados.
6. O desenvolvimento e o declínio de idéias religiosas.

Em primeiro lugar, portanto, uma lista dos nomes das diferentes sub-raças:

1. Rmoahal
2. Tlavatli
3. Tolteca
4. Turaniana primitiva
5. Semita original
6. Acadiana
7. Mongólica

Faz-se necessária uma explicação acerca do princípio pelo qual esses nomes são escolhidos. Nos casos em que os etnólogos atuais descobriram vestígios de uma dessas sub-raças, ou mesmo identificado pequena parte de uma delas, o nome que lhes deram é utilizado a bem da clareza; contudo, no caso das duas primeiras sub-raças, dificilmente foram deixados quaisquer vestígios para que a ciência deles se apoderasse e, desse modo, foram adotados os nomes pelos quais elas mesmas se designavam.

O período representado pelo Mapa nº l mostra como era a superfície terrestre do globo há cerca de um milhão de anos, mas a raça rmoahal surgiu há quatro ou cinco milhões de anos, no período em que grandes porções do vasto continente meridional da Lemúria ainda existiam, enquanto o continente da Atlântida não havia assumido as dimensões que, finalmente, atingiria. Foi num contraforte desta terra lemuriana que a raça rmoahal nasceu. Pode-se localizá-lo, aproximadamente, a 7° de latitude norte e 5° de longitude oeste, e uma consulta a qualquer atlas moderno revelará que sua localização coincide com a atual costa de Achanti. Era uma região quente e chuvosa, habitada por enormes animais antediluvianos, que viviam em pântanos juncosos e florestas tímidas. Os fósseis dessas plantas atualmente são encontrados nas jazidas de carvão. Os nnoahals eram uma raça morena – sendo sua pele da cor do mogno. Sua altura, naqueles tempos remotos, era de, aproximadamente, 3 a 3,5 m – na verdade, uma raça de gigantes – mas, ao longo dos séculos, sua estatura foi gradualmente diminuindo, tal como se deu com todas as outras raças, e, mais tarde, vamos encontrá-los reduzidos à estatura do “homem de Furfooz”. Por fim, migraram para as costas meridionais da Atlântida, onde travaram contínuos combates com as sexta e sétima sub-raças dos lemurianos, que então habitavam essa região. Em seguida, uma grande parte da tribo mudou-se para o norte, enquanto o restante estabeleceu-se no local e uniu-se aos aborígines lemurianos negros. Como consequência, não restou, neste período – o período do primeiro mapa -, nenhuma linhagem pura no sul e, como veremos, foi dessas raças morenas, que habitavam as regiões equatoriais e o extremo sul do continente, que os conquistadores toltecas subseqüentemente se abasteciam de escravos. Contudo, o restante da raça alcançou os promontórios do extremo nordeste, contíguos à Islândia, e, vivendo nessa região por incontáveis gerações, foi aos poucos assumindo uma coloração mais clara, até que, no final do período do primeiro mapa, deparamo-nos com um povo razoavelmente louro. Posteriormente, seus descendentes tornaram-se súditos, ao menos nominalmente, dos reis semitas.

O fato de terem habitado nessa região por inúmeras gerações não implica que aí se tenham estabelecido ininterruptamente, pois certos fatores os obrigavam, de tempos em tempos, a se dirigirem para o sul. Sem dúvida, o frio das épocas glaciais influiu de modo semelhante sobre as outras raças; contudo, a fim de evitar digressões, apenas algumas informações devem ser aqui incluídas.

Sem entrar na questão das diferentes rotações que a Terra executa, ou da variação de graus da deslocação de sua órbita, cuja combinação é, às vezes, considerada a causa das épocas glaciais, o fato é que – como já foi admitido por alguns astrônomos – uma curta época glacial ocorre, aproximadamente, a cada 30.000 anos. Além dessas, porém, houve duas ocasiões na história da Atlântida em que a grande extensão de gelo despovoou, não só as regiões setentrionais, como também, ao invadir a maior parte do continente, forçou todos os seres vivos a migrar para as terras equatoriais. A primeira delas ocorreu durante a época dos rmoahals, há cerca de 3.000.000 de anos, e a segunda, durante o domínio dos toltecas, cerca de 850.000 anos atrás.

No que se refere a todas as épocas glaciais, deve-se dizer que, embora os habitantes das terras setentrionais tenham sido forçados a migrar, durante o inverno, para o sul, afastando-se da zona de gelo, era nessa zona que ficavam os grandes povoados, para os quais podiam retomar no verão e onde, devido à caça, acampavam até que o frio do inverno os forçasse a se dirigir novamente para o sul.

O lugar de origem dos tlavatli, ou segunda sub-raça, foi uma ilha ao largo da costa ocidental da Atlântida. O local está assinalado no primeiro mapa com o algarismo 2. Dali eles se espalharam pela Atlântida propriamente dita, sobretudo através do centro do continente, deslocando-se, contudo, gradualmente para o norte, em direção à faixa litorânea voltada para o promontório da Groenlândia. Fisicamente, constituíam uma raça robusta e resistente, de cor vermelho- acastanhada, mas não tão altos quanto aos rmoahals, a quem impeliram mais ainda para o norte. Sempre foram um povo amante das montanhas, e seus principais povoados situavam-se nas regiões montanhosas do interior. Comparando-se os Mapas l e 4, verificar-se-á que sua localização era mais ou menos contínua à região que, mais tarde, tornou-se a ilha de Posseidones. Neste período do primeiro mapa, eles também ocuparam – como já foi mencionado – as costas setentrionais, enquanto uma mistura de raça tlavatli com a tolteca habitava as ilhas ocidentais, que, mais tarde, participaram da formação do continente americano.

A seguir, temos a raça tolteca, ou terceira sub-raça, que constituiu um desenvolvimento esplêndido. Governou todo o continente da Atlântida por milhares de anos, com grandes recursos materiais e muito brilho. Na verdade, esta raça era de tal modo dominante e dotada de vitalidade, que as uniões com as sub-raças vizinhas não conseguiram alterar-lhe o tipo, que ainda permaneceu essencialmente tolteca; e, centenas de milhares de anos mais tarde, encontramos uma de suas remotas linhagens governando, magnificamente, no México e Peru, muito., anos antes que seus degenerados descendentes fossem conquistados pelas mais ferozes tribos astecas do norte.

Essa raça também tinha uma pele vermelho-acastanhada, embora fosse mais vermelha, ou mais acobreada, que a dos tlavatli. Sua estatura também era elevada, medindo em torno de 2,5 m durante o período de seu domínio absoluto; contudo, assim como ocorreu com todas as raças, foi sofrendo uma redução, até atingir o tamanho médio de hoje em dia. O tipo foi um aperfeiçoamento das duas sub-raças anteriores, possuindo uma feição séria, bastante acentuada, bem parecida com a dos antigos gregos. O lugar aproximado de origem dessa raça pode ser observado no primeiro mapa, assinalado com o algarismo 3. Sua localização ficava perto da costa ocidental da Atlântida, a cerca de 30° de latitude norte, e, toda a região circunvizinha, incluindo a maior parte da costa ocidental do continente, foi habitada por uma raça tolteca pura. Contudo, como veremos ao tratarmos da organização política, seu território finalmente ampliou-se por todo o continente, e foi de sua grande capital, situada na costa oriental, que os imperadores toltecas estenderam seu domínio a quase todas as nações.

Essas três primeiras sub-raças são conhecidas como as “raças vermelhas” e, entre elas e as quatro seguintes, não houve, a princípio, muita mistura de sangue. Essas quatro, embora diferindo consideravelmente entre si, foram chamadas de “amarelas”, e esta cor pode caracterizar de maneira apropriada a tez dos turanianos e mongólicos, mas os semitas e acadianos eram brancos.

A turaniana, ou quarta sub-raça, originou-se no lado oriental do continente, ao sul da região montanhosa habitada pelo povo tlavatli. Esse local está assinalado, no Mapa n2 l, com o algarismo 4. Desde sua origem, os turanianos eram colonizadores e muitos deles migraram para as terras situadas a leste da Atlântida. Nunca foram uma raça completamente dominante no seu continente de origem, embora algumas de suas tribos e linhagens tenham se tornado razoa- velmente poderosas. As grandes regiões centrais do continente, situadas a oeste e ao sul da região montanhosa dos tlavatlis, constituíam seu habitat especial, embora não exclusivo, pois repartiam essas terras com os toltecas. As curiosas experiências políticas e sociais realizadas por essa sub-raça serão abordadas mais adiante.

Quanto à semita original, ou quinta sub-raça, os etnólogos têm estado um tanto confusos, como de fato é extremamente natural que estejam, considerando os dados por demais insuficientes que possuem para se orientar. Essa sub-raça surgiu na região montanhosa que formava a mais meridional das duas penínsulas nordésteas, as quais, como vimos, correspondem, atualmente, à Escócia, à Irlanda e a alguns dos mares adjacentes. No Mapa n- l, o local está assinalado com o algarismo 5. Nesta menos atraente porção do grande continente a raça se desenvolveu e floresceu, mantendo-se durante séculos independente dos agressivos reis sulistas, até que, aos poucos e em grupos, começaram a se espalhar em várias direções e a colonizar outras regiões. É preciso lembrar que, na época em que os semitas subiram ao poder, centenas de milhares de anos haviam transcorrido e o período do segundo mapa já havia sido atingido. Eram uma raça turbulenta e descontente, sempre em guerra com seus vizinhos, sobretudo com o império cada vez mais amplo dos acadianos.

O lugar de origem da sub-raça acadiana, ou sexta sub-raça, será encontrado no Mapa nº 2 (assinalado com o algarismo 6), pois foi após a grande catástrofe de 800.000 anos atrás que esta raça surgiu. O local ficava na região oriental da Atlântida, mais ou menos no centro da grande península, cuja extremidade sudeste estendia-se em direção ao velho continente. Pode-se localizá-lo aproximadamente a 42° de latitude norte e a 10° de longitude leste. Contudo, os acadianos não permaneceram por muito tempo em sua terra de origem, invadindo o continente da Atlântida, que, nessa época, já sofrera uma redução de suas dimensões. Eles travaram inúmeras batalhas terrestres e navais com os semitas, onde foi utilizado um grande número de frotas pelos dois combatentes. Por fim, há cerca de 100.000 anos, derrotaram definitivamente os semitas e, a partir de então, estabeleceram uma dinastia acadiana na antiga capital semita e, durante séculos, governaram o país com sabedoria. Tornaram-se grandes comerciantes, navegadores e colonizadores, estabelecendo muitos núcleos que serviam de pontos de ligação com terras distantes.

A sub-raça mongólica, ou sétima sub-raça, parece ter sido a única que não teve absolutamente nenhum contato com seu continente de origem. Originária das planícies da Tartária (local assinalado com o algarismo 7, no segundo mapa), a cerca de 63° de latitude norte e 140° de longitude leste, desenvolveu-se diretamente dos descendentes da raça turaniana, a quem suplantou paulatinamente por quase toda a Ásia. Essa sub-raça multiplicou-se de tal modo que, hoje em dia, a maior parte dos habitantes da Terra pertencem, tecnicamente, a ela, embora muitas de suas subdivisões estejam tão profundamente alteradas com o sangue de raças mais primitivas que mal se distinguem delas.

Instituições Políticas

Num resumo como este seria impossível descrever como cada sub-raça se subdividiu, posteriormente, em nações, cada qual com seu tipo e características distintos.

Tudo o que se pode tentar aqui é esboçar, em linhas gerais, a variedade de instituições políticas que se sucederam ao longo das grandes épocas da raça.

Embora reconhecendo que cada sub-raça, bem como cada raça-raiz, está destinada a permanecer, em alguns aspectos, num nível mais elevado do que aquela que a antecedeu, a natureza cíclica do desenvolvimento deve ser compreendida como um condutor da raça à semelhança do homem que, passando pela infância, juventude e atingindo a maturidade, retorna de novo à infância da velhice. Evolução significa, necessariamente, máximo progresso, ainda que o retrocesso de sua espiral ascendente pareça fazer da história da política ou da religião um relato não só do desenvolvimento e do progresso, mas também da degradação e da decadência.

Portanto, quando se afirma que a primeira sub-raça iniciou-se sob a mais perfeita forma de governo concebível, deve-se compreender que isso se deu antes em virtude das necessidades de sua infância do que dos méritos de sua maturidade. Os rmoahals eram incapazes de desenvolver um programa de governo fixo, e tampouco atingiram um nível de civilização tão elevado quanto o alcançado pelas sexta e sétima sub-raças lemurianas. Contudo, o Manu que efetuou a segregação encarnou, de fato, na raça e governou-a como rei. Até mesmo quando deixava de ter uma participação efetiva no governo da raça, governantes Adeptos ou Divinos, quando os tempos assim o exigiam, ainda garantiam o futuro da comunidade em sua tenra idade. Como é do conhecimento dos estudantes de Teosofia, nossa humanidade ainda não atingira o necessário estágio de desenvolvimento que lhe permitisse gerar Adeptos inteiramente iniciados. Portanto, os governantes acima mencionados, inclusive o próprio Manu, eram, necessariamente, fruto da evolução em outros sistemas de mundos.

O povo tlavatli mostrou alguns sinais de avanço na arte de governar. Suas várias tribos ou nações eram governadas por chefes ou reis que, geralmente, eram investidos de sua autoridade através da aclamação do povo. Naturalmente, os indivíduos mais vigorosos e os guerreiros mais destemidos eram, então, os escolhidos. Um império considerável finalmente se estabeleceu entre eles, onde um rei tornou-se o chefe nominal, embora sua suserania consistisse mais num título honorário do que numa autoridade real.

Foi a raça tolteca que desenvolveu o mais alto grau de civilização e organizou o mais poderoso império de todos os povos atlantes, estabelecendo pela primeira vez o princípio da sucessão hereditária. A princípio, a raça dividiu-se em vários e pequenos reinos independentes, que lutavam constantemente entre si, e todos em guerra com os rmoahals-lemurianos do sul. Estes últimos foram gradualmente conquistados e dominados – muitas de suas tribos foram escravizadas. Entretanto, cerca de um milhão de anos atrás, esses reinos independentes uniram- se numa grande federação e reconheceram um imperador como chefe. Naturalmente, isso se deu através de grandes guerras, mas resultou em paz e prosperidade para a raça.

Deve ser lembrado que a Humanidade sempre foi dotada, em sua grande maioria, de atributos psíquicos e, nessa época, os indivíduos mais desenvolvidos tinham se submetido ao aprendizado necessário nas escolas de ocultismo, tendo obtido vários estágios de iniciação – alguns, inclusive, haviam alcançado o grau de Adeptos. O segundo desses imperadores era um Adepto e, por milhares de anos, a dinastia Divina governou não só todos os reinos nos quais a Atlântida estava dividida, mas também as ilhas ocidentais e a porção meridional do território adjacente, situado a leste. Quando necessário, essa dinastia era fornecida pela Casa de Iniciados mas, por via de regra, o poder era legado de pai para filho, sendo todos mais ou menos qualificados; em alguns casos, o filho recebia um grau adicional das mãos do pai. Durante todo esse período, os governantes Iniciados mantiveram-se vinculados à Hierarquia Oculta que governa o mundo, submetendo-se às suas leis e atuando em harmonia com seus desígnios. Essa foi a idade de ouro da raça tolteca. O governo era justo e generoso; as artes e ciências eram cultivadas – na verdade, aqueles que trabalhavam nesses setores, guiados como foram pela ciência oculta, alcançaram resultados extraordinários; as crenças e rituais religiosos ainda eram relativamente puros – na verdade, a civilização da Atlântida alcançara, nessa época, seu apogeu.

Mais ou menos 100.000 anos após esta idade de ouro, iniciou-se a degeneração e o declínio da raça. Muitos dos reis tributários, e um grande número de sacerdotes e súditos, deixaram de usar suas faculdades e poderes de acordo com as leis estipuladas por seus governantes Divinos, cujos preceitos e conselhos eram agora desrespeitados. Seus vínculos com a Hierarquia Oculta se romperam. O engrandecimento pessoal, a obtenção de riqueza e poder, a humilhação e ruína de seus inimigos tornaram-se, cada vez mais, o alvo para o qual seus poderes ocultos estavam dirigidos: desse modo, afastados de seu emprego lícito e utilizados para a obtenção de todos os tipos de propósitos egoístas e malévolos, inevitavelmente esses poderes conduziram ao que devemos chamar de bruxaria.

Envolta como esta palavra está pelo ódio, cuja associação foi gradualmente produzida, durante séculos de superstição e ignorância, pela credulidade, por um lado, e pela impostura, por outro, consideremos por um momento seu significado real e as terríveis consequências que sua prática sempre acaba trazendo ao mundo.

Em parte por suas faculdades psíquicas, que ainda não tinham se extinguido nas profundezas da materialidade, para a qual a raça em seguida decaiu, e em parte por seus conhecimentos científicos, obtidos durante esse apogeu da civilização atlante, os membros mais intelectuais e vigorosos da raça foram aos poucos alcançando uma compreensão cada vez maior acerca da atuação das leis da Natureza, bem como um controle cada vez maior de algumas de suas forças ocultas. A profanação desse saber e seu emprego para fins egoístas é o que constitui a bruxaria. As terríveis consequências de tal profanação também estão suficientemente exemplificadas pelas horríveis catástrofes que se desencadearam sobre a raça. A partir do momento em que a magia negra foi posta em prática, ela estava destinada a se propagar em círculos cada vez mais amplos. Assim, uma vez afastado o guia espiritual supremo, o princípio kâmico, que era o quarto, atingiu naturalmente seu zênite durante a quarta raça-raiz, afirmando-se cada vez mais na Humanidade. A luxúria, a brutalidade e a ferocidade foram aumentando, e a natureza animal do homem foi assumindo seu aspecto mais abjeto. Desde os primórdios, o que dividiu a raça atlante em duas facções inimigas foi uma questão moral, e o que já havia começado na época dos rmoahals acentuou-se terrivelmente na era tolteca. A batalha de Armagedon é travada repetidas vezes em cada idade da história do mundo.

Deixando de se submeter ao sábio governo dos imperadores Iniciados, os seguidores da “magia negra” sublevaram-se e elegeram um imperador rival que, depois de muitas lutas e conflitos, expulsou o imperador branco de sua capital, a “Cidade dos Portais Dourados”, e assumiu o trono.

O imperador branco, expulso para o norte, reinstalou-se numa cidade fundada originalmente pelos tlavatli, na extremidade meridional da região montanhosa que, nessa época, era a sede de um dos reis tributários toltecas. Esse rei recebeu com alegria o imperador branco e colocou a cidade à sua disposição. Havia outros reis tributários que também permaneceram leais a ele, mas a maioria transferiu sua vassalagem ao novo imperador, que reinava na antiga capital. Entretanto, essa lealdade não durou muito tempo. Os reis tributáveis constantemente reivindicavam sua independência, e contínuas batalhas eram travadas em diferentes pontos do império, recorrendo-se largamente à prática de bruxaria a fim de suplementar os poderes de destruição que os exércitos possuíam.

Esses eventos ocorreram cerca de 50.000 anos antes da primeira grande catástrofe.

Dessa época em diante as coisas foram de mal a pior. Os bruxos usavam seus poderes de um modo cada vez mais arrojado, e um grupo cada vez maior de pessoas adquiria e praticava essa terrível “magia negra”.

Veio então a horrível punição, onde pereceram milhões e milhões de pessoas. A grande “Cidade dos Portais Dourados” tornara-se, nessa época, um perfeito antro de iniquidade. As ondas precipitaram-se sobre ela e exterminaram seus habitantes, e o imperador “negro” e sua dinastia caíram para sempre. O imperador do norte e os sacerdotes iniciados, de todas as partes do continente, há muito tempo estavam conscientes dos funestos dias que se aproximavam, e as páginas seguintes falarão das muitas migrações, lideradas pelos sacerdotes, que precederam esta catástrofe, bem como das que se deram em épocas posteriores.

O continente estava, então, bastante dilacerado. Mas a porção atual de território submerso de modo algum representava o dano provocado, pois os vagalhões varreram grandes extensões de terra, transformando-as em pântanos abandonados. Regiões inteiras tornaram-se estéreis, permanecendo desertas e sem plantações por muitas gerações.

Além disso, a população restante recebera uma terrível advertência. Levaram-na a sério e, durante certo tempo, a bruxaria foi menos freqüente entre eles. Passou-se um longo período, antes que se estabelecesse um novo governo eficaz. Por fim, depararemos com uma dinastia semita de bruxos entronizada na “Cidade dos Portais Dourados”, mas nenhuma autoridade tolteca destacou-se durante o período do segundo mapa. Ainda havia um número considerável de populações toltecas, mas pouco restava de seu puro sangue no continente de origem.

Entrementes, na ilha de Ruta, no período do terceiro mapa, uma dinastia tolteca novamente ascendeu ao poder e governou, através de seus reis tributários, uma grande porção da ilha. Essa dinastia devotava-se à magia negra. E importante salientar que essa prática tomou-se, durante todos os quatro períodos, cada vez mais predominante, até culminar na inevitável catástrofe que, em grande medida, purificou a terra do mal monstruoso. Deve-se também ter em mente que, até a destruição final, quando Posseidones desapareceu, um imperador ou rei Iniciado – ou ao menos alguém que conhecia a “boa lei” -, governou em alguma parte do continente insular, atuando sob a orientação da Hierarquia Oculta, a fim de refrear, onde fosse possível, os bruxos malignos e orientar e instruir a pequena minoria que ainda estava disposta a levar uma vida pura e saudável. Nos últimos dias, esse rei “branco” era, via de regra, eleito pelos sacerdotes – ou seja, pelos poucos que ainda seguiam a “boa lei”.

Pouco resta a ser dito sobre os toltecas. Em Posseidones, a população de toda a ilha era mais ou menos mesclada. Dois reinos e uma pequena república, localizada a oeste, dividiam a ilha entre si. A região norte era governada por um rei Iniciado. No sul, o princípio hereditário também fora substituído pela eleição popular. As dinastias raciais aristocráticas estavam acabando, mas reis de linhagem tolteca ocasionalmente subiam ao poder, tanto no norte quanto no sul, embora o reino setentrional fosse constantemente invadido pelo seu rival sulista, que conquistava para si uma parte cada vez maior de seu território.

Esta abordagem, até certo ponto minuciosa, da situação política na época dos toltecas, exime-nos de uma análise pormenorizada das principais características políticas das quatro sub-raças seguintes, já que nenhuma delas atingiu o apogeu alcançado pelos toltecas – na verdade, a degeneração da raça já havia começado.

Ao que tudo indica, foi a tendência inata da raça turaniana que a levou a desenvolver uma espécie de sistema feudal. Cada chefe era supremo em seu próprio território e o rei era apenas o primas inter pares. Os chefes que compunham o conselho de estado ocasionalmente assassinavam o rei, substituindo-o por um deles. Eram uma raça violenta e bárbara, bem como brutal e cruel. O fato de que, em alguns períodos de sua história, uma grande quantidade de mulheres participassem de suas guerras é indicativo dessas características.

Contudo, o fato mais interessante de sua história está na estranha experiência que empreenderam em sua vida social, que, não fosse por sua origem política, melhor se enquadraria na seção destinada aos “usos e costumes”. Os turanianos sofriam constantes derrotas nas batalhas travadas com seus vizinhos toltecas, muito mais numerosos; assim, tinham como meta principal o aumento da população. Para tanto promulgaram leis que retiravam de cada homem a responsabilidade de sustentar a família. O Estado cuidava e provia a subsistência das crianças, que eram consideradas propriedade sua. Isso contribuiu, sem dúvida, para o aumento do coeficiente de natalidade entre os turanianos, e a cerimônia do casamento passou a ser desprezada. Os laços da vida familiar e o sentimento de amor entre pais e filhos logicamente foram destruídos, o que levou o sistema a um verdadeiro fracasso total, sendo finalmente abandonado. Outras tentativas de encontrar soluções socialistas para problemas econômicos, que até hoje nos afligem, foram experimentadas e abandonadas por essa raça.

Os semitas originais, que eram uma raça belicosa, saqueadora e enérgica, sempre teve uma inclinação pela forma patriarcal de governo. Seus colonizadores, que geralmente levavam uma vida nômade, adotaram essa forma de governo de modo quase exclusivo, mas, como vimos, desenvolveram um considerável império durante o período do segundo mapa e invadiram a grande “Cidade dos Portais Dourados”. Entretanto, acabaram sendo obrigados a recuar diante do crescente poder dos acadianos.

Foi no período do terceiro mapa, cerca de 100.000 anos atrás, que os acadianos afinal derrotaram o poderio semita. Essa sexta sub-raça era um povo muito mais obediente às leis do que seus predecessores. Mercadores e navegadores, viviam em comunidades sedentárias e, naturalmente, criaram uma forma oligárquica de governo. Uma de suas características, da qual Esparta é o único exemplo recente, era o sistema dual de governo, onde dois reis governam a mesma cidade. Talvez em consequência de sua aptidão naval, o estudo das estrelas tomou-se uma atividade característica, tendo essa raça realizado grandes progressos na astronomia e na astrologia.

O povo mongólico foi um aperfeiçoamento de seus vizinhos ancestrais, originários do selvagem tronco turaniano. Nascidos, como eram, nas vastas estepes da Sibéria Oriental, nunca tiveram qualquer contato com o continente-mãe e, sem dúvida por causa de seu ambiente, tornaram-se um povo nômade. Mais psíquicos e mais religiosos do que os turanianos, de quem descendiam, a forma de governo para a qual tenderam exigia um suserano que exercesse o poder supremo, não só como governante territorial mas também como sumo sacerdote.

Emigrações

Três causas contribuíram para provocar as emigrações. A raça turaniana, como vimos, estava, desde sua origem, imbuída do espírito de colonização, o que ela levou a cabo numa escala considerável. Também os semitas e acadianos eram, até certo ponto, raças colonizadoras.

Com o passar do tempo, a população também tendia cada vez mais a ultrapassar os limites de subsistência. Por conseguinte, a miséria se instalava, de modo semelhante, entre os menos prósperos de cada raça, que se viram obrigados a procurar um meio de vida em países menos populosos. Deve-se ter em mente que, quando os atlantes atingiram seu apogeu na era tolteca, a proporção de habitantes por quilômetro quadrado no continente da Atlântida provavelmente era comparável, embora não excedesse, à que se verifica atualmente na Inglaterra e Bélgica. De qualquer modo, é claro que os espaços vagos disponíveis para colonização eram mais abundantes naquela época do que na nossa, embora a população total do mundo – que no momento [1986], não deve ser superior a 1,2 ou 1,5 bilhão de habitantes – atingisse naqueles dias a grande cifra de aproximadamente 2 bilhões de habitantes.

Por fim, havia as emigrações lideradas por sacerdotes, que ocorreram antes de cada catástrofe – e as quatro grandes catástrofes, acima mencionadas, não foram as únicas. Os reis e sacerdotes Iniciados que observavam a “boa lei” estavam, de antemão, cientes das calamidades iminentes. Portanto, cada um deles tornou-se um centro de advertência profética, acabando por liderar grupos de colonizadores. Deve-se observar aqui que, nos últimos dias, os governantes do país indignaram-se profundamente com essas emigrações lideradas pelos sacerdotes, as quais tendiam a empobrecer e despovoar seus reinos, e os emigrantes eram obrigados a embarcar secretamente durante a noite.

Acompanhando, mais ou menos, as rotas de emigração que, sucessivamente, foram seguidas por cada sub-raça, inevitavelmente acabaremos chegando às terras que seus respectivos descendentes hoje ocupam.

Quanto às emigrações mais antigas, temos de recuar até a época dos rmoahals. É preciso lembrar que apenas a porção da raça que habitava as costas nordésteas conservava seu sangue puro. Atacados em suas fronteiras meridionais e expulsos mais para o norte pelos guerreiros tlavatlis, começaram a penetrar no território vizinho, situado a leste, e no promontório da Groenlândia, que ficava mais próximo ainda. No período do segundo mapa, não havia mais nenhum rmoahal de sangue puro no já então reduzido continente-mãe, mas o promontório setentrional do continente, que se erguia a oeste, bem como o já mencionado cabo da Groenlândia e o litoral ocidental da grande ilha escandinava estavam ocupados por eles. Havia também uma colônia, na região situada ao norte do mar asiático central.

Naquele tempo, a Grã-Bretanha e a Picardia faziam parte da ilha escandinava, embora a própria ilha se tornasse, no período do terceiro mapa, parte do crescente continente europeu. Atualmente, é na França que os restos mortais desta raça têm sido encontrados, nos estratos quaternários, e o espécime braquicéfalo, de cabeça arredondada, conhecido como o “homem de Furfooz”, pode ser considerado como uma degeneração do tipo da raça em seu declínio.

Muitas vezes obrigados, devido às inclemências de uma época glacial, a se dirigirem para o sul, muitas vezes impelidos para o norte pela ganância de seus vizinhos mais poderosos, os remanescentes dessa raça, dispersos e degradados, podem ser encontrados hoje entre os atuais lapões, embora mesmo neste caso tenha havido uma mistura de sangue. Contudo, estes enfraquecidos e atrofiados espécimes da Humanidade são descendentes diretos da raça negra de gigantes que surgiu nas terras equatoriais da Lemúria, há quase cinco milhões de anos.

Os colonizadores tlavatlis parecem ter se espalhado por todas as direções. No período do segundo mapa, seus descendentes estavam instalados nas costas ocidentais do então crescente continente americano (Califórnia), bem como nas costas do extremo sul (Rio de Janeiro). Também podemos encontrá-los nas regiões litorâneas orientais da ilha escandinava, embora muitos deles se tivessem aventurado pelo oceano, contornando a costa da África e alcançando a índia, onde, num processo de miscigenação com a população indígena lemuriana, formaram a raça dravídica. Mais tarde, essa raça misturou-se, por sua vez, com a raça árica, ou quinta raça, de onde a complexidade tipológica encontrada hoje na índia. De fato, temos aqui um claro exemplo da dificuldade extrema de decidir qualquer questão de raça pela evidência meramente física, pois seria perfeitamente possível que egos da quinta raça encarnassem entre os brâmanes, egos da quarta raça entre as castas inferiores, e alguns retardatários da terceira raça entre as tribos montesas.

No período do quarto mapa, encontramos uma nação tlavatli ocupando as regiões meridionais da América do Sul, de onde se pode deduzir que os patagônios provavelmente tiveram uma remota ascendência tlavatli.

Restos mortais dessa raça, assim como dos rmoahals, têm sido encontrados nos estratos quaternários da Europa central, e o doli-cocéfalo “homem de Cro-Magnon”* pode ser considerado um típico espécime da raça em sua decadência, ao passo que os “povos lacustres” da Suíça constituíam um ramo ainda mais primitivo e não totalmente puro. Atualmente, os únicos povos que podem ser citados como espécimes de sangue razoavelmente puro dessa raça são algumas tribos pardas de índios da América do Sul. Os birmaneses e siameses também possuem sangue tlavatli nas veias, embora tenham se misturado com a estirpe mais nobre de uma das sub-raças ancas, cujo sangue é, portanto, dominante.

Chegamos, assim, aos toltecas. Eles emigraram sobretudo para o oeste. As costas próximas do continente americano estavam, no período do segundo mapa, povoadas por uma raça tolteca pura, enquanto a maioria dos que permaneceram no continente-mãe tinha o sangue muito misturado. Foi nos continentes da América do Norte e do Sul que essa raça se disseminou e floresceu; aí, milhares de anos mais tarde, os impérios do México e do Peru seriam fundados. A grandeza desses impérios é um assunto da História, ou ao menos da tradição, que tem à sua disposição inúmeras evidências, entre as quais as magníficas ruínas arquitetônicas. Pode-se notar aqui que, embora o império mexicano tenha sido, durante séculos, vasto e poderoso em todos os aspectos que nossa civilização atual considera como tal, ele nunca atingiu o apogeu alcançado pelos peruanos há cerca de 14.000 anos, sob o governo dos soberanos inças. No que diz respeito ao bem-estar geral do povo, à justiça e beneficência do governo, à divisão igualitária da posse da terra e à vida simples e religiosa dos habitantes, o império peruano daquela época poderia ser considerado como um eco tradicional, porém débil, da idade de ouro dos toltecas no continente-mãe da Atlântida.

O índio pele-vermelha típico da América do Norte ou do Sul, é o melhor representante atual do povo tolteca, mas naturalmente não se compara ao indivíduo altamente civilizado da raça em seu apogeu.

O Egito deve ser agora mencionado, e o estudo dessa matéria deve fornecer um importante esclarecimento a respeito de sua primitiva história. Embora o primeiro povoamento desse país não tenha sido, no sentido estrito da palavra, uma colônia, foi da raça tolteca que, posteriormente, foi aliciado o primeiro grande contingente de emigrantes, destinados a se misturarem com o povo aborígine e a dominá-lo.

Em primeiro lugar, houve a transferência de uma grande Loja de Iniciação, cerca de 400.000 anos atrás. A idade de ouro dos toltecas há muito terminara. A primeira grande catástrofe já ocorrera. A degradação moral do povo e a conseqüente prática das “magias negras” estavam se tornando mais acentuadas e se disseminavam por toda parte. Fazia-se necessário um ambiente mais puro para a Loja Branca. O Egito estava isolado e sua população era escassa. Por isso, foi escolhido. A colonização servia, assim, ao seu propósito e, não perturbada por condições adversas, a Loja de Iniciados realizou seu trabalho por, aproximadamente, 200.000 anos.

Cerca de 210.000 anos atrás, no tempo propício, a Loja Oculta fundou um império – a primeira “Dinastia Divina” do Egito – e principiou a ensinar o povo. Foi então que o primeiro grande grupo de colonizadores foi trazido da Atlântida e, em alguma época, durante os 10.000 anos que precederam a segunda catástrofe, as duas grandes pirâmides de Giseh foram construídas, em parte para proporcionar Salas de Iniciação permanentes, mas também para atuar como casa do tesouro e santuário de algum grande talismã de poder durante a submersão, que os Iniciados sabiam ser iminente. O Mapa nº 3 retrata o Egito nessa época, submerso. E ele assim permaneceu por um considerável período, mas quando tornou a emergir foi outra vez povoado pelos descendentes de muitos de seus antigos habitantes, que tinham se refugiado nas montanhas abissínias (que no Mapa D- 3 aparecem como uma ilha), bem como por novos grupos de colonos atlantes, vindos de várias regiões do mundo. Uma considerável imigração de acadianos ajudou, então, a alterar o tipo egípcio. Esta é a era da segunda “Dinastia Divina” do Egito – na qual os Adeptos Iniciados foram, novamente, os governantes do país.

A catástrofe de 80.000 anos atrás deixou, uma vez mais, o país submerso, mas dessa vez foi apenas uma onda temporária. Quando esta refluiu, a terceira “Dinastia Divina” – mencionada por Maneio — começou seu governo, e foi durante o reinado dos primeiros reis dessa dinastia que o grande templo de Karnak, e uma grande parte das mais antigas construções que ainda podem ser vistas no Egito, foram erigidas. Na verdade, excetuando-se as duas pirâmides, nenhuma outra construção no Egito é anterior à catástrofe de 80.000 anos atrás.

A submersão definitiva de Posseidones fez com que um outro vagalhão atingisse o Egito. Essa calamidade também foi apenas temporária, mas pôs fim às “Dinastias Divinas”, pois a Loja de Iniciados transferira suas sedes para outras terras.

Vários aspectos não mencionados aqui já foram tratados em Transaction of the London Lodge, “The Pyramids and Stonehenge”.

Os turanianos, que no período do primeiro mapa colonizaram as regiões setentrionais do território situado logo a leste da Atlântida, ocuparam, no período do segundo mapa, suas regiões litorâneas meridionais (que incluíam o Marrocos e a Argélia atuais). Também vamos encontrá-los vagando em direção ao oriente, povoando tanto as costas ocidentais como orientais do mar asiático central. Finalmente, seus grupos deslocaram-se ainda mais para o leste e, nos dias de hoje, o chinês do interior é o tipo que mais se aproxima dessa raça. Um curioso capricho do destino, a respeito de uma das ramificações ocidentais desta raça, deve ser mencionado. Apesar de dominados durante séculos pelos seus vizinhos toltecas, mais poderosos, estava reservado a um pequeno ramo do tronco turaniano a conquista e a ocupação do último grande império construído pelos toltecas, pois os brutais e pouco civilizados astecas possuíam o puro sangue turaniano.

Houve dois tipos de emigrações semitas: primeiro, as motivadas pelo impulso natural da raça; segundo, aquela emigração especial, efetuada sob direta orientação do Manu; pois, por mais estranho que possa parecer, o núcleo destinado a ser desenvolvido na nossa grande raça árica, ou quinta raça, não foi escolhido dentre os toltecas, mas sim, entre os dessa sub-raça violenta e anárquica, embora vigorosa e energética. A razão, sem dúvida alguma, repousa na característica manásica, com a qual o número 5 é sempre associado. A sub-raça desse número foi inevitavelmente desenvolvendo o poder e a inteligência de seu cérebro físico, embora à custa das percepções psíquicas; contudo, esse desenvolvimento do intelecto, em níveis infinitamente mais elevados, é ao mesmo tempo a glória e a meta prefixada de nossa quinta raça-raiz.

Analisando, em primeiro lugar, as emigrações naturais, constatamos que, no período do segundo mapa, enquanto ainda restavam nações poderosas no continente-mãe, os semitas espalharam-se tanto para o oeste como para o leste – a oeste, para as terras que hoje formam os Estados Unidos, explicando o porquê de o tipo semítico ser encontrado em algumas das raças índias; e a leste, para as costas setentrionais do continente vizinho, que formava tudo o que então havia da Europa, da África e da Ásia. O tipo dos egípcios antigos, bem como de outras nações adjacentes, foi, até certo ponto, alterado por essa linhagem semita original; contudo, com exceção dos judeus, os cabilas menos escuros das montanhas argelinas são, no momento, os únicos representantes da raça relativamente pura.

As tribos resultantes da segregação efetuada pelo Manu para a formação da nova raça-raiz finalmente encontraram seu caminho para as regiões litorâneas meridionais do mar asiático central, onde foi fundado o primeiro grande reino árico. Quando o Relatório acerca da origem de uma raça-raiz for escrito, verificar-se-á que muitos dos povos aos quais costumeiramente chamamos semíticos, na verdade são, quanto ao sangue, áricos. O mundo também será esclarecido a respeito do que consiste a reivindicação dos hebreus de serem considerados um “povo escolhido”. Em poucas palavras, pode-se afirmar que eles representam um vínculo anormal e artificial entre as quarta e quinta raças-raízes.

Os acadianos, apesar de se tornarem, finalmente, os governantes supremos no continente-mãe da Atlântida, originaram-se, como vimos no período do segundo mapa, no continente vizinho – seu habitat específico ficava na região ocupada pela bacia do Mediterrâneo, mais ou menos onde atualmente fica a ilha da Sardenha. A partir deste centro, avançaram para o oriente, ocupando as regiões que, posteriormente, formaram as costas do Levante, e chegaram até a Pérsia e a Arábia. Como já vimos, eles também ajudaram a povoar o Egito. Os antigos etruscos, os fenícios, incluindo os cartagineses e os sumério-acadianos, eram ramificações desta raça, embora os bascos de hoje, provavelmente, tenham uma porcentagem bem maior de sangue acadiano correndo em suas veias.

Uma referência aos antigos habitantes de nossas ilhas pode ser oportuna aqui, pois foi na primitiva era acadiana, cerca de 100.000 anos atrás, que a colônia dos Iniciados, que fundaram Stonehenge, desembarcaram nessas praias – sendo “essas praias”, naturalmente, as praias da parte escandinava do continente da Europa, como demonstra o Mapa nº 3. Parece que os sacerdotes iniciados e seus discípulos pertenciam a uma linhagem bastante antiga da raça acadiana – eram mais altos, mais bonitos e mais espertos do que os aborígines da região, que eram uma raça muito miscigenada e, em sua grande maioria, remanescentes degenerados dos rmoahals. Como os leitores do Transaction of the London Lodge, em “Pyramids and Stonehenge”, devem saber, a rude simplicidade de Stonehenge foi planejada para servir de protesto contra os ornamentos extravagantes e a exagerada decoração dos templos existentes na Atlântida, onde os habitantes prosseguiam com o degradante culto de suas próprias imagens.

Os mongóis, como vimos, nunca tiveram nenhum contato com o continente-mãe. Nascidos nas vastas planícies da Tartána, durante muito tempo suas emigrações se limitaram às grandes extensões dessas regiões; por mais de uma vez, porém, tribos de origem mongólica atravessaram o estreito de Bering, passando, assim, do norte da Ásia para a América. A última dessas emigrações – a dos k’i-tans, há uns 1.300 anos – deixou rastos, que alguns cientistas ocidentais puderam seguir. A presença de sangue mongol em algumas tribos de índios norte-americanos também foi admitida por vários etnólogos. Sabe-se que tanto os húngaros como os malaios são ramificações dessa raça, enobrecida, no primeiro caso, por uma estirpe de sangue árico, degradada, no segundo, pela miscigenação com os exaustos lemurianos. Contudo, o fato interessante sobre os mongóis é que seus últimos descendentes ainda estão em pleno vigor – na verdade, ainda não atingiram seu apogeu – e a nação japonesa ainda tem muita história a oferecer ao mundo.

* Os estudiosos de geologia e paleontologia devem saber que essas ciências consideram o “homem de Cro-Magnon” anterior ao “homem de Furfooz”, e considerando-se que essas duas raças seguiram lado a lado, por vastos períodos de tempo, pode muito bem ser possível que o esqueleto do indivíduo de “Cro-Magnon”, embora representativo da segunda raça, tenha se sedimentado nos estratos quaternários milhares de anos antes que o “homem de Furfooz” vivesse na Terra.

Artes e Ciências

Deve-se, antes de tudo, reconhecer que nossa própria raça árica tem, naturalmente, conquistado resultados muito maiores, em quase todos os campos de atividade, do que os atlantes. No entanto, mesmo onde eles fracassaram em alcançar o nosso nível, o relato de seus feitos serve para demonstrar o alto grau de desenvolvimento atingido pela sua civilização. Por outro lado, a qualidade de suas conquistas científicas, nas quais nos excederam, são de uma natureza tão deslumbrante que não podemos deixar de nos surpreender diante desse desenvolvimento desproporcional.

As artes e ciências, tal como praticadas pelas duas primeiras raças, eram, naturalmente, bastante rudimentares, mas não é nosso propósito seguir o progresso alcançado por cada sub-raça em separado. A história da raça atlante, bem como da raça árica, foi entremeada com períodos de progresso e de decadência. Às épocas de cultura seguiram-se períodos anárquicos, durante os quais todo o desenvolvimento artístico e científico se perdia, e esses períodos eram, por sua vez, sucedidos por civilizações que atingiam níveis ainda mais elevados. Naturalmente, serão desses períodos de cultura que tratarão as observações seguintes, entre os quais se distingue, sobretudo, a grande era tolteca.

A arquitetura, a escultura, a pintura e a música eram praticadas na Atlântida. A música, mesmo nos períodos de maior brilho, era rudimentar e os instrumentos bastante primitivos. Todas as raças atlantes gostavam das cores, e matizes brilhantes decoravam o interior e o exterior de suas casas. Contudo, a pintura, enquanto arte pura, nunca se firmou realmente, embora se ensinasse, nos últimos dias, algum tipo de desenho e pintura nas escolas. Por outro lado, a escultura, que também era ensinada nas escolas, era muito praticada e sua qualidade foi excepcional. Como veremos mais adiante, na seção destinada à “Religião”, tornou-se uma prática comum, desde que se tivesse recursos para tanto, colocar num dos templos uma imagem de si próprio. Essas imagens eram, algumas vezes, esculpidas em madeira ou numa pedra resistente e escura, semelhante ao basalto; entre os ricos, porém, tornou-se moda esculpir suas estátuas em metais preciosos, tais como o oricalco, o ouro ou a prata. Geralmente, conseguia-se uma imagem razoável do indivíduo e, em alguns casos, alcançava-se uma semelhança notável.

Contudo, a arquitetura era, sem dúvida, uma das artes mais praticadas. Suas construções consistiam em estruturas maciças, de proporções gigantescas. As moradias nas cidades não eram como as nossas, compactamente aglomeradas nas ruas, uma ao lado da outra. Do mesmo modo que suas casas rurais, algumas erguiam-se cercadas por jardins, outras separadas por lotes de terrenos comuns, mas todas eram estruturas isoladas. No caso dos edifícios mais importantes, quatro blocos circundavam um pátio central, no meio do qual geralmente erguia-se uma das fontes, cuja quantidade na “Cidade dos Portais Dourados” fez com que esta recebesse uma segunda denominação, a de “Cidade das Águas”. Não havia, como hoje, mercadorias expostas nas ruas para venda. Todas as transações de compra e venda eram efetuadas de modo particular, exceto em datas estabelecidas, quando se realizavam grandes feiras públicas nos espaços livres das cidades. Todavia, a principal característica da habitação tolteca era a torre que se erguia em um dos cantos ou no centro de um dos blocos. Uma escada espiral, construída do lado externo, conduzia aos andares superiores, e uma cúpula pontiaguda encimava a torre – esta parte mais elevada geralmente era usada como observatório. Como já foi mencionado, as casas eram decoradas com cores brilhantes. Algumas eram ornamentadas com esculturas, outras com afrescos ou desenhos decorativos. Os espaços das janelas eram preenchidos com algum artigo Manufaturado, semelhante ao vidro, mas menos transparente. Os interiores não eram guarnecidos com os elaborados detalhes de nossas habitações modernas, mas a vida era altamente civilizada em seu gênero.

Os templos eram edifícios enormes, assemelhando-se, mais do que quaisquer outros, às gigantescas construções egípcias, porém construídos num estilo ainda mais prodigioso. As colunas que sustentavam o teto raramente eram circulares, sendo, em sua maioria, quadradas. Na época da decadência, os corredores estavam rodeados por inúmeras capelas, onde se encontravam as estátuas dos habitantes mais importantes. Essas capelas laterais eram às vezes de um tamanho considerável, a fim de comportar toda uma comitiva de sacerdotes, que alguns homens especialmente importantes tinham a seu serviço para o culto cerimonial de sua imagem. Tal como as residências particulares, os templos nunca estavam completos sem as torres encimadas por domos, que naturalmente guardavam suas respectivas proporções em tamanho e magnificência. Elas eram utilizadas como observatórios astronômicos e para o culto do sol.

Os metais preciosos eram muito usados na decoração dos templos, cujos interiores eram freqüentemente não apenas marchetados mas chapeados de ouro. Valorizava-se altamente o ouro e a prata mas, como veremos mais adiante, ao abordarmos o assunto da moeda corrente, a finalidade do uso desses metais era artística e nada tinha que ver com o sistema monetário, embora a enorme quantidade então fabricada pelos químicos – ou devíamos hoje em dia chamá-los alquimistas -, deva tê-los afastado da categoria de metais preciosos. Esse poder de transmutação de metais não era universal, mas era tão largamente conhecido que se fabricavam enormes quantidades. Na verdade, a fabricação dos metais almejados pode ser considerada como um dos empreendimentos industriais daquela época, através dos quais os alquimistas ganhavam a vida. O ouro era bem mais admirado do que a prata e, conseqüentemente, fabricado numa escala muito maior.

Educação

Algumas palavras acerca do idioma introduzirá adequadamente um comentário a respeito da instrução ministrada nas escolas e nas faculdades da Atlântida. Durante o período do primeiro mapa, o tolteca era a língua universal, não apenas em todo o continente, mas também nas ilhas ocidentais e naquela porção do continente oriental que reconhecia o governo do imperador. Vestígios dos idiomas rmoahal e tlavatli sobreviviam, é verdade, em regiões remotas, assim como os idiomas celta e galês sobrevivem hoje entre nós, na Irlanda e no País de Gales. A língua tlavatli foi a base usada pelos turanianos, que introduziram tantas modificações que, com o tempo, criaram uma língua inteiramente diversa; por sua vez, os semitas e acadianos, adotando uma base tolteca, modificaram-na, cada um a seu modo, e criaram, assim, duas variações divergentes. Desse modo, nos últimos dias de Posseidones, havia várias línguas inteiramente distintas – embora todas pertencessem a um tipo aglutinante -, pois só na época da quinta raça é que os descendentes dos semitas e acadianos desenvolveram uma língua flexiva. Entretanto, através de todas as épocas, a língua tolteca manteve razoavelmente sua pureza, e o mesmo idioma falado na Atlântida, na época de seu esplendor, foi usado, com ligeiras alterações, milhares de anos mais tarde, no México e no Peru.

As escolas e faculdades da Atlântida, na grande era tolteca, bem como nos posteriores períodos de cultura, eram mantidas pelo Estado. Embora se exigisse que todas as crianças passassem pelas escolas primárias, a educação subsequente diferia bastante. As escolas primárias constituíam uma espécie de processo de seleção. As crianças que demonstrassem verdadeira aptidão para o estudo, juntamente com as crianças das classes dominantes, que naturalmente possuíam maiores habilidades, eram escolhidas para as escolas superiores, mais ou menos com doze anos de idade. A leitura e a escrita, consideradas como simples preliminares, já lhes tinham sido ensinadas nas escolas primárias.

Mas a leitura e a escrita não eram consideradas necessárias à maioria dos habitantes, que tinham de passar a vida cultivando a terra, ou então nos ofícios Manuais, cuja prática era requerida pela comunidade. Por essa razão, a grande maioria das crianças era imediatamente conduzida às escolas técnicas que melhor conviessem às suas diversas aptidões. Entre as escolas técnicas, as principais eram as agrícolas. Alguns ramos da mecânica também faziam parte da educação, ao passo que nas regiões mais afastadas e próximas do litoral incluíam-se a caça e a pesca. Desse modo, todas as crianças recebiam a educação ou treinamento que lhes fosse mais apropriado.

As crianças com aptidões superiores que, como vimos, tinham aprendido a ler e a escrever, recebiam uma educação mais elaborada. As propriedades das plantas e suas qualidades de cura constituíam um importante ramo de estudo. Nessa época não havia médicos reconhecidos como tais – todo homem Instruído sabia alguma coisa de medicina, bem como de cura magnética. Também ensinavam-se química, matemática e astronomia. O treinamento nessas matérias en- contra sua analogia entre nós, mas o objetivo para o qual os esforços dos professores se dirigiam era o desenvolvimento das faculdades psíquicas dos alunos e sua instrução acerca das forças ocultas da Natureza. As propriedades ocultas das plantas, dos metais e das pedras preciosas, bem como os processos alquímicos de transmutação, estavam incluídos nessa categoria. Com o passar do tempo, porém, isso tornou-se cada vez mais o poder individual, ao qual Bulwer Lytton dá o nome de vril, descrevendo exatamente sua ação em The Corning Roce, que as faculdades destinadas ao ensino superior dos jovens da Atlântida ocupavam-se particularmente em desenvolver. A mudança marcante, ocorrida por ocasião da decadência da raça, consistiu em que, em vez de o mérito e a aptidão serem considerados decisivos para a promoção aos mais altos graus de instrução, as classes dominantes, que se tomavam cada vez mais exclusivistas, apenas permitiam que seus próprios filhos se graduassem no mais alto nível de ensino, o que lhes proporcionava um grande poder.

Num império como o dos toltecas, era natural que a agricultura recebesse especial atenção. Não só os trabalhadores aprendiam seu ofício nas escolas técnicas, como também havia faculdades onde se ministrava, aos estudantes habilitados, o conhecimento necessário para levar a cabo experiências de cruzamentos de animais e de plantas.

Como os leitores de literatura teosófica devem saber, o trigo não tem sua origem neste planeta. Foi uma dádiva do Manu, que o trouxe de outro planeta, situado além de nosso sistema solar. Mas a aveia e alguns de nossos outros cereais são resultados dos cruzamentos entre o trigo e as ervas nativas da terra. Ora, as experiências que produziram esses resultados foram realizadas nas escolas agrícolas da Atlântida. Essas experiências foram, sem dúvida, orientadas por um conhecimento superior. Contudo, a mais notável façanha dos agricultores atlantes foi o desenvolvimento da pacobeira ou bananeira. No seu estado selvagem original, ela era um melão alongado, com pouquíssima polpa, porém repleta de sementes, como é o caso do melão. Naturalmente, só após séculos (se não milhares de anos) de continua seleção e eliminação que a atual planta sem sementes foi desenvolvida.

Entre os animais domesticados da era tolteca, havia uma espécie semelhante a uma anta muito pequena. Naturalmente, alimentava-se de raízes ou ervas; mas, como os porcos de hoje, com os quais se assemelhavam em vários aspectos, não era lá muito limpo e comia tudo o que aparecesse em seu caminho. Animais maiores, semelhantes ao gato, e ancestrais do cachorro, parecidos com um lobo, também podiam ser encontrados ao redor das habitações humanas. Parece que os carros toltecas eram puxados por animais um pouco parecidos com pequenos camelos. Os atuais lhamas peruanos provavelmente são seus descendentes. Os ancestrais do alce irlandês também vagavam pelas encostas dos morros, do mesmo modo que nosso gado montanhês, demasiado selvagem para permitir uma aproximação fácil mas, mesmo assim, sob o controle do homem.

Constantes experiências eram feitas relativas à criação e ao cruzamento de diferentes espécies de animais e, por mais curioso que nos possa parecer, o calor artificial era muito utilizado para estimular seu desenvolvimento a fim de que os resultados do cruzamento de raças e da hibridação pudessem ser verificados num espaço de tempo mais curto. Também foi adotado o uso de diferentes luzes coloridas nos compartimentos onde se realizavam essas experiências, a fim de se obter resultados variados.

Esse controle e moldagem das formas animais, sujeitos à vontade humana, leva-nos a um tema bastante surpreendente e muito misterioso. Já mencionamos o trabalho realizado pelos Manus. Pois bem, é na mente do Manu que se originam todos os aperfeiçoamentos no tipo e as potencialidades latentes em cada forma de vida. A fim de desenvolver minuciosamente os aperfeiçoamentos nas formas de vida animal, a ajuda e a cooperação do homem foram requeridas. As espécies anfíbias e os répteis, que então existiam em abundância, tinham quase completado seu curso e estavam prontas para adotar a forma de um tipo mais desenvolvido, pássaro ou mamífero. Essas formas constituíam a matéria-prima rudimentar que se encontrava à disposição do homem, e a argila estava pronta para assumir qualquer formato que as mãos do oleiro conseguissem moldar. As experiências acima mencionadas foram empreendidas principalmente com os animais que se encontravam num estágio intermediário; e, sem dúvida, os animais domesticados, tal como o cavalo, que hoje prestam tanto serviço ao homem, são o resultado dessas experiências, nas quais os homens daquela época aluaram em cooperação com o Manu e seus ministros. Todavia, não demorou para que essa cooperação se desfizesse. O egoísmo acabou prevalecendo, e a guerra e a discórdia puseram fim à Idade de Ouro dos toltecas. No momento em que os homens, em vez de trabalharem lealmente, com o mesmo objetivo, sob a orientação de seus reis Iniciados, começaram a se atacar mutuamente, os animais que, sob os cuidados do homem, poderiam assumir aos poucos formas cada vez mais úteis e domesticadas, abandonados à orientação de seus próprios instintos, acabaram seguindo o exemplo de seus monarcas e começaram a se atacar. Na verdade, alguns já haviam sido treinados e utilizados pelos homens em suas expedições de caça; assim, os animais semidomesticados semelhantes ao gato, acima mencionados, tornaram-se naturalmente os ancestrais do leopardo e do jaguar.

Um exemplo daquilo que algumas pessoas podem se sentir tentadas a considerar uma teoria fantástica, que embora não venha talvez elucidar a questão, chamará pelo menos a atenção para a moral encerrada neste suplemento ao nosso conhecimento quanto ao modo misterioso pelo qual se deu nossa evolução. Parece que o leão poderia ter uma natureza mais dócil e um aspecto menos feroz se os homens dessa época tivessem concluído a tarefa que lhes fora dado executar. Se ele está ou não destinado a, finalmente, “deitar-se com o cordeiro e a comer palha como o boi”, o destino que lhe estava reservado, tal como foi imaginado por Manu, ainda não tinha sido realizado, pois a imagem era a de um animal possante, porém domesticado – um animal forte, com a espinha dorsal em linha horizontal, olhos grandes e inteligentes, projetado para atuar como um servo muito possante do homem em trabalhos de tração.

A “Cidade dos Portais Dourados” e seus arredores devem ser descritos antes de passarmos à apreciação do maravilhoso sistema pelo qual seus habitantes se supriam de água. Situava-se, como já vimos, na costa oriental do continente, próxima do mar, e cerca de 15° ao norte do equador. Um campo lindamente arborizado, semelhante a um parque, circundava a cidade. Espalhadas por uma ampla área dessa região ficavam as casas de campo das classes mais abastadas. A oeste, estendia-se uma cadeia de montanhas, de onde vinha a água que abastecia a cidade. A própria cidade foi construída nas encostas de uma colina que se erguia cerca de 152 m acima da planície. No topo dessa colina ficava o palácio e os jardins do imperador, de cujo centro jorrava da terra um fluxo incessante de água, que, depois de abastecer o palácio e as fontes dos jardins, fluía em todas as direções, despencando em forma de cachoeiras e formando um canal ou fosso que circundava as terras adjacentes ao palácio, separando-as, assim, da cidade, que se estendia mais abaixo, em cada face da colina. A partir desse canal, quatro regos conduziam a água, passando pelas quatro zonas da cidade, até as cachoeiras que, por sua vez, formavam outro canal circundante, situado num nível mais baixo. Havia três desses canais dispostos em círculos concêntricos, entre os quais o mais exterior e inferior ainda se encontrava acima do nível da planície. Um quarto canal situado nesse nível mais inferior, porém com um traçado retangular, recebia os constantes fluxos de água e, por seu turno, despejava-os no mar. A cidade alcançava uma parte da planície, estendendo-se até a margem desse enorme fosso mais exterior, que a circundava e a defendia através de uma linha de pequenos canais, cuja extensão abrangia uns 200 km2.

Veremos, assim, que a cidade se dividia em três grandes zonas, cada uma cercada por seus canais. A zona mais alta, abaixo dos jardins do palácio, caracterizava-se por uma pista circular de corridas e amplos jardins públicos. A maioria das casas dos funcionários da corte também ficava nessa zona, onde havia ainda uma instituição da qual não temos paralelo nos tempos modernos. O termo “Casa dos Estrangeiros”, entre nós, dá uma impressão de desprezo e sugere um ambiente sórdido; tratava-se, porém, de um palácio que hospedava todos os estrangeiros que porventura chegassem à cidade, onde eram tratados, pelo tempo que desejassem ficar, como hóspedes do Governo. As casas separadas dos habitantes e os diversos templos espalhados pela cidade ocupavam as outras duas zonas. No período áureo da civilização tolteca, parece não ter havido uma pobreza propriamente dita – até mesmo os escravos que, em grande número, estavam à disposição de quase todas as famílias, alimentavam-se e vestiam-se muito bem – mas havia algumas famílias relativamente pobres, que moravam ao norte da zona mais baixa, bem como além dos limites do canal mais exterior, perto do mar. Os habitantes dessa região dedicavam-se, em sua grande maioria, à navegação, e suas casas, embora separadas, eram construídas mais perto umas das outras do que nas demais regiões.

Pode-se deduzir, do que foi dito acima, que os habitantes dispunham de um abundante estoque de água pura e limpa, que circulava incessantemente por toda a cidade, enquanto as zonas mais altas e o palácio do imperador eram protegidos por uma série de fossos, cada um num nível mais alto que o outro à medida que se aproximavam do centro.

Assim sendo, não é necessário um conhecimento profundo de mecânica para perceber quão estupendas devem ter sido as obras necessárias para fornecer esse abastecimento, pois a “Cidade dos Portais Dourados”, em seu período áureo, abrigava, dentro do espaço compreendido por seus quatro fossos circulares, mais de dois milhões de habitantes. Nenhum sistema semelhante de abastecimento de água foi alguma vez empreendido, quer na Grécia, em Roma, ou mesmo nos tempos modernos – de fato, é bastante duvidoso que nossos mais hábeis engenheiros, mesmo às custas de imensas fortunas, conseguissem produzir tal resultado.

Será interessante descrever algumas de suas principais características. O abastecimento era extraído de um lago situado entre as montanhas a oeste da cidade, numa altitude acima de 792 m. O aqueduto principal, que era de seção oval e media 15 m por 9 m, levava a água, através do subsolo, a um enorme reservatório em forma de coração, situado bem abaixo do palácio – na verdade, na própria base da colina onde se erguiam a cidade e o palácio. A partir desse reservatório, um poço perpendicular, com cerca de 152 m de altura, atravessava a rocha maciça e dava passagem à água, que jorrava nos jardins do palácio, de onde era distribuída por toda a cidade. Do reservatório central, também partiam diversos canos, destinados a fornecer água potável e a suprir as fontes públicas de vários setores da cidade. Naturalmente, também havia sistemas de comportas para controlar ou interromper o abastecimento das diferentes regiões.

Pelo acima mencionado, qualquer pessoa com algum conhecimento de mecânica deduzirá que a pressão no aqueduto subterrâneo e no reservatório central, de onde a água naturalmente subia até o pequeno lago nos jardins do palácio, devia ser enorme e, por conseguinte, o poder de resistência do material utilizado na sua construção era extraordinário.

Se o sistema de abastecimento de água na “Cidade dos Portais Dourados” era maravilhoso, deve-se admitir que os métodos atlantes de locomoção eram muito mais magníficos, pois era utilizado uma espécie de veículo-voador, embora não fosse um meio de transporte público que pudesse ser usado a qualquer hora. Os escravos, os servos e as classes inferiores, cujo trabalho era Manual, tinham de percorrer a pé as rotas que levavam à zona rural, ou fazer esse percurso em carroças primitivas, de rodas grossas, puxadas por estranhos animais. Os barcos aéreos podem ser considerados como os transportes particulares dessa época, ou melhor, os iates particulares, levando-se em conta o número relativo dos que os possuíam, pois a produção desses veículos deve ter sido sempre difícil e dispendiosa. Por via de regra, não eram planejados para acomodar muitas pessoas. Muitos deles eram construídos com apenas dois lugares; outros tinham espaço para seis ou oito passageiros. Nos últimos dias, quando a guerra e a discórdia puseram fim à Idade de Ouro, navios de guerra aéreos substituíram em grande escala os navios de guerra normais – à medida que o potencial de destruição daqueles revelou-se muito mais eficaz. Esses navios eram planejados para transportar o equivalente a cinqüenta combatentes e, em alguns casos, comportavam até cem homens.

O material com que esses barcos aéreos eram construídos era madeira ou metal. Os primeiros foram construídos de madeira – as tábuas utilizadas eram muitíssimo finas, mas a injeção de alguma substância, que, embora não lhes aumentasse materialmente o peso, fornecia-lhes uma resistência análoga à do couro, proporcionava a necessária combinação de leveza e rijeza. Quando o metal foi utilizado, geralmente era uma liga – dois metais brancos e um vermelho entravam nessa mistura. O resultado era um metal branco, semelhante ao alumínio, e até mesmo mais leve no peso. Sobre a estrutura básica do barco aéreo estendia-se uma folha grande desse metal, que, em seguida, era ajustada à forma e, onde necessário, soldada eletricamente. Contudo, quer fossem construídos de metal ou de madeira, a superfície exterior era aparentemente inconsútil e perfeitamente lisa; além disso, brilhavam no escuro, como se tivessem sido revestidos por uma tinta fosforescente.

Quanto à forma, assemelhavam-se a um barco, mas eram invariavelmente cobertos, pois, quando no auge da velocidade, não seria nada cômodo, mesmo que fosse seguro, permanecer no convés superior. Seu mecanismo de propulsão e de direção podia ser acionado em ambas as extremidades.

Mais curioso ainda, porém, é a energia que os impulsionava. A princípio, parece que o vril pessoal supria a força motriz – se era usado em combinação com algum dispositivo mecânico, pouco importa -, sendo substituído, mais tarde, por uma força que, embora gerada de um modo que desconhecemos, operava, não obstante, através de dispositivos mecânicos. Na verdade, essa força era de uma natureza etérica. Sem dúvida, os dispositivos mecânicos não eram exatamente idênticos em cada uma das embarcações. A seguinte descrição refere-se a um barco aéreo, no qual, em certa ocasião, três embaixadores do rei que governava a região setentrional de Posseidones viajaram até o palácio do reino meridional. Uma forte e pesada arca de metal, situada no centro do barco, era o gerador. Dali a força fluía através de dois grandes tubos flexíveis até as duas extremidades da embarcação, bem como através de oito tubos suplementares que, fixados nas amuradas, iam da proa até a popa. Estes tinham aberturas duplas, uma voltada para cima e a outra para baixo. Quando a viagem estava prestes a se iniciar, abriam-se as válvulas dos oito tubos da amurada que estavam voltadas para baixo – as demais válvulas permaneciam fechadas. Precipitando-se através dessas válvulas, a corrente chocava-se tão violentamente contra a terra, que impelia o barco para cima, enquanto o próprio ar continuava a fornecer o suporte necessário. Quando se alcançava uma altitude suficiente, acionava-se o tubo flexível dessa extremidade da embarcação voltada para a direção oposta à desejada, ao mesmo tempo que, pelo fechamento parcial das válvulas, reduzia-se a corrente que se precipitava através dos oito tubos verticais, até se obter o mínimo de corrente necessário à Manutenção da altitude alcançada. A grande intensidade da corrente, sendo agora dirigida através do amplo tubo voltado na direção da popa, com uma inclinação de aproximadamente 45°, além de ajudar a manter a altitude, também fornecia a grande força motriz que impulsionava a embarcação através do ar. A pilotagem se efetuava pela descarga da corrente ao longo desse tubo, pois a menor alteração do sentido dessa corrente provocava uma alteração imediata no rumo da embarcação. Mas não era necessário uma inspeção constante. No caso de uma viagem longa, o tubo podia ser fixado, de modo que não era preciso manejá-lo até que o percurso estivesse quase concluído. A velocidade máxima alcançada era de mais ou menos 160 km por hora; o percurso nunca era feito em linha reta, mas sempre em forma de longas ondulações, ora aproximando-se, ora afastando-se do solo. A altitude em que as embarcações faziam seu percurso era de apenas poucas centenas de metros – na verdade, quando altas montanhas surgiam na Unha de rota, era necessário mudar o curso e contorná-las. O ar mais rarefeito não fornecia o suporte necessário por muito tempo. Os morros de cerca de 300 m eram os mais altos que conseguiam transpor. O modo pelo qual se detinha a embarcação, quando esta chegava ao seu destino -o que também podia ser feito em pleno voo -, era através da liberação de uma quantidade da corrente pelo tubo que ficava na extremidade do barco voltada para o local de chegada; a corrente, chocando-se com o solo ou com o ar frontal, atuava como um freio, enquanto a força propulsora de trás era gradualmente reduzida pelo fechamento da válvula. Resta ainda explicar a razão da existência dos oito tubos, fixados nas amuradas, voltados para cima. Estavam mais relacionados com os combates aéreos. Tendo uma força tão poderosa à sua disposição, os navios de guerra, naturalmente, dirigiam a corrente uns contra os outros. Entretanto, isso podia destruir o equilíbrio do navio atingido e virá-lo de borco – sem dúvida, uma situação que permitia à embarcação inimiga desferir ataques com seu esporão. Havia também o perigo de ser precipitado ao solo, a menos que se providenciasse, imediatamente, o fechamento e a abertura das válvulas necessárias. Em qualquer posição que a embarcação se encontrasse, os tubos voltados para o solo eram, naturalmente, aqueles pelos quais a corrente deveria se precipitar, ao passo que os tubos voltados para cima deviam permanecer fechados. O modo pelo qual a embarcação virada de cabeça para baixo podia ser endireitada, retomando à posição original; era através do uso dos quatro tubos num dos lados da embarcação apontados para baixo, enquanto os outros quatro, do lado oposto, eram mantidos fechados.

Os atlantes também tinham embarcações marítimas que eram impulsionadas por uma energia análoga à acima mencionada, mas a força da corrente que, neste caso, demonstrou ser mais eficaz era menos densa do que a utilizada nos barcos aéreos.

Usos e Costumes

Houve, sem dúvida, tanta variedade nos usos e costumes dos atlantes, em diferentes épocas de sua história, quanto tem havido entre as várias nações que compõem a nossa raça árica. Não vamos acompanhar aqui a variação dos padrões durante o passar dos séculos. Os comentários que seguem procurarão abordar apenas as características principais que diferenciam seus hábitos dos nossos, e estes serão selecionados, na medida do possível, entre a grande era tolteca.

Com respeito ao casamento e ao relacionamento entre os dois sexos, já mencionamos as experiências realizadas pelos turanianos. Os costumes polígamos prevaleceram, em diferentes períodos, entre todas as sub-raças; na época dos toltecas, porém, embora a lei permitisse duas esposas, um grande número de homens tinha apenas uma. Tampouco as mulheres – como ocorre nos países onde atualmente prevalece a poligamia – eram consideradas inferiores, e não eram nem um pouco oprimidas. Sua posição social era perfeitamente igual à dos homens, embora a aptidão que muitas delas manifestavam para adquirir a energia vril, elevassem-nas à mesma categoria, e até acima, do outro sexo. Na verdade, essa igualdade era reconhecida desde a infância, e nas escolas ou faculdades os dois sexos não eram separados. Meninos e meninas aprendiam juntos. Além disso, essa era a regra, e não a exceção, para que a completa harmonia imperasse nas famílias duplas, e as mães ensinavam seus filhos a procurar amor e proteção nas outras esposas do pai, sem discriminação. Tampouco as mulheres eram impedidas de participar do governo. Às vezes participavam das assembléias administrativas e, ocasionalmente, eram escolhidas pelo imperador Adepto para representá-lo nas diversas províncias, como soberanas regionais.

O material de escrita dos atlantes consistia em finas lâminas de metal, com uma superfície branca semelhante à porcelana, sobre a qual eram escritas as palavras. Também tinham recursos para reproduzir o texto, colocando sobre a lâmina escrita uma outra chapa fina de metal previamente mergulhada em algum Líquido. Desse modo, o texto impresso na segunda chapa podia ser reproduzido à vontade em outras lâminas, e um grande número delas, agrupadas, formava um livro.

Em seguida, devemos citar um costume que difere consideravelmente do nosso no que concerne à escolha do alimento. Trata-se de um assunto desagradável, mas que não pode ser omitido. Geralmente a carne dos animais era posta de lado, embora devorassem as partes que nós nos abstemos de comer. Também bebiam o sangue -muitas vezes ainda quente do animal -, bem como preparavam vários cozidos com ele.

Entrementes, não se deve pensar que eles não tivessem alimentos mais leves e mais saborosos ao nosso paladar. Os mares e rios forneciam-lhes peixes, cuja carne comiam, embora muitas vezes num grau tão adiantado de decomposição que nos causaria náusea. Cultivavam em larga escala os mais diversos cereais, com os quais faziam pães e bolos. Também bebiam leite e comiam frutas e vegetais.

É verdade que uma pequena minoria dos habitantes jamais adotou os repulsivos costumes acima mencionados. Tal era o caso, por todo o império, dos reis e imperadores Adeptos, bem como dos sacerdotes iniciados. Estes tinham hábitos inteiramente vegetarianos, muito embora um grande número de conselheiros do imperador e de funcionários da corte apenas fingissem preferir essa alimentação mais pura, pois freqüentemente satisfaziam às escondidas seus gostos mais grosseiros.

As bebidas fortes não eram desconhecidas nessa época. Durante algum tempo, uma bebida alcoólica fermentada e muito forte esteve em voga. Mas era capaz de provocar em quem a ingerisse uma excitação tão perigosa que se promulgou uma lei proibindo, em absoluto, o seu consumo.

As armas de guerra e a caça diferiram consideravelmente, de acordo com a época. Em geral, as espadas e lanças, arcos e flechas foram suficientes aos rmoahals e aos tlavatlis. Os animais que caçavam, nesse período bastante remoto, eram os mamutes de pelos longos e lanosos, os elefantes e os hipopótamos. Também havia muitos marsupiais, bem como sobreviventes de tipos intermediários – alguns semi-répteis e semimamíferos, outros semi-répteis e semipássaros.

O uso de explosivos foi adotado numa época antiga e, em épocas posteriores, foi sendo aperfeiçoado. Parece que alguns eram feitos para explodir através do choque e outros depois de um certo intervalo de tempo mas, nos dois casos, a destruição da vida resultava, provavelmente, da liberação de algum gás venenoso, e não do impacto de projéteis. De fato, esses explosivos devem ter se tornado tão poderosos nos últimos tempos da Atlântida que temos notícias de companhias inteiras de homens destruídas em combate pelo gás nocivo produzido pela explosão de uma dessas bombas acima de suas cabeças, lançadas por alguma espécie de alavanca.

Vamos considerar agora o sistema monetário. Durante as três primeiras sub-raças, pelo menos, não se conhecia um sistema monetário oficial. Havia, é verdade, pequenas peças de metal ou de couro, estampadas, com um determinado valor, que eram usadas como fichas. Eram perfuradas no centro, amarradas juntas, de modo a formarem um cinto e geralmente usadas ao redor da cintura. Mas cada homem era, por assim dizer, o seu próprio cunhador e a ficha de metal ou de couro por ele fabricada e trocada com outro homem, pela aquisição de alguma mercadoria, significava apenas um reconhecimento pessoal da dívida, tal como existe, entre nós, a nota promissória. Nenhum homem estava autorizado a fabricar essas fichas em quantidade maior do que fosse capaz de compensar através da transferência dos bens em seu poder. As fichas não circulavam como moedas, embora o portador da ficha tivesse meios de avaliar, com exatidão, os recursos de seu devedor através da faculdade de clarividência que, em maior ou menor grau, todos possuíam; em caso de dúvida, essa faculdade era utilizada na apuração da veracidade dos fatos.

Contudo, é preciso registrar que, nos últimos dias de Posseidones, foi adotado um sistema semelhante à nossa circulação monetária, e a montanha tríplice, que podia ser avistada da grande capital meridional, era a imagem favorita na cunhagem oficial.

No entanto, o sistema fundiário é o assunto mais importante desta Seção. Entre os rmoahals e os tlavatlis, que viviam sobretudo da caça e da pesca, a questão da terra praticamente não existia, embora houvesse um sistema de cultivo aldeão na época dos tlavatlis.

Foi com o aumento da população e com o desenvolvimento da civilização, nos primeiros anos da era tolteca, que a terra, pela primeira vez, tornou-se algo pelo qual valia a pena lutar. Não é nosso propósito reconstituir o sistema ou descrever a pobreza do sistema predominante nos períodos turbulentos anteriores ao advento da Idade de Ouro. Mas os registros dessa época proporcionam matéria de reflexão do maior interesse e importância, não só aos economistas políticos, mas a todos os que estimam o bem-estar da raça.

Deve-se ter em mente que a população vinha aumentando de modo constante e que, sob o governo dos imperadores Adeptos, chegara à enorme cifra já citada; naqueles dias, porém, a pobreza e a miséria eram coisas jamais imaginadas e esse bem-estar social devia-se, sem dúvida, em parte ao sistema fundiário.

Não só a terra e seus produtos eram considerados propriedades do imperador, mas também todos os rebanhos e animais. O país dividia-se em diversas províncias ou regiões, e cada província tinha, à sua frente, um dos reis auxiliares, ou vice-reis nomeados pelo imperador. Cada vice-rei era responsável pelo governo e bem-estar de todos os habitantes sob o seu domínio. O cultivo da terra, a colheita dos produtos e a pastagem dos rebanhos eram de sua alçada, bem como a administração daquelas experiências agrícolas anteriormente mencionadas.

Cada vice-rei tinha à sua volta um conselho de consultores e coadjutores agrícolas, que, entre outras coisas, deviam ser versados em astronomia, pois, nessa época, esta não era uma ciência improdutiva. Estudava-se e tirava-se o maior proveito possível das influências ocultas sobre a vida vegetal e animal. Também o poder de produzir chuva à vontade não era, então, algo incomum, e os efeitos de uma era glacial em mais de uma ocasião foram parcialmente neutralizados nas regiões setentrionais do continente, através da ciência oculta. O dia apropriado para o início de cada atividade agrícola era, é claro, devidamente calculado e o trabalho era realizado por funcionários, cuja função consistia em supervisionar cada detalhe.

Os produtos colhidos em cada região ou reino eram, em geral, ali consumidos, embora, às vezes, os governantes organizassem trocas de alguns produtos.

Depois que se separava uma pequena porção para o imperador e para o governo central da “Cidade de Portais Dourados”, os produtos de toda a região ou reino eram divididos entre os habitantes -o vice-rei local e sua comitiva de funcionários recebiam naturalmente as maiores porções, mas o mais inferior dos trabalhadores agrícolas recebia o bastante para assegurar-lhe a subsistência e o bem-estar. Qualquer aumento da capacidade produtiva da terra ou de suas riquezas minerais era proporcionalmente dividido entre todos os interessados – desse modo, era do interesse geral tomar o fruto do trabalho coletivo tão lucrativo quanto possível.

Esse sistema foi bastante eficaz durante muito tempo. Contudo, à medida que o tempo passava, a negligência e o egoísmo foram se insinuando. Os que tinham o dever de supervisionar foram transferindo cada vez mais suas responsabilidades para seus funcionários subalternos e, com o tempo, tornou-se raro os imperadores interferirem ou interessarem-se por alguma atividade. Esse foi o início dos maus tempos. Os membros da classe dominante, que a princípio dedicavam todo o seu tempo aos devedores públicos, começaram a imaginar um modo de tornar suas vidas particulares mais agradáveis. A intemperança estava a caminho.

Um motivo em particular causou grande descontentamento entre as classes mais baixas. Já mencionamos o método pelo qual os jovens da nação eram selecionados para as escolas técnicas. Ora, era sempre a alguém da classe superior, cujas faculdades psíquicas tinham sido devidamente desenvolvidas, que cabia a seleção das crianças, a fim de que cada uma recebesse a devida instrução e, finalmente, se dedicasse à ocupação para a qual fosse mais qualificada. Mas quando os que eram dotados de visão clarividente, a única que tornava possível essa seleção, transferiram suas funções para subalternos destituídos desses atributos psíquicos, resultou que as crianças eram muitas vezes forçadas a rotinas injustas, e aquelas cuja aptidão se inclinava em determinada direção viam-se, freqüentemente, destinadas a uma ocupação que as desgostava e na qual, por conseguinte, raramente obtinham sucesso.

Foram muitos e variados os sistemas fundiários que se seguiram, em diferentes partes do império, à dissolução da grande dinastia tolteca. Mas não é necessário descrevê-los. Nos últimos dias de Posseidones, quase todos haviam sido substituídos pelo sistema de propriedade particular, que tão bem conhecemos.

Já nos referimos, no tópico “Emigrações”, ao sistema fundiário prevalecente no glorioso período da história peruana durante o poderio Inça, cerca de 14.000 anos atrás. Um pequeno resumo desse assunto pode ser interessante para demonstrar a fonte de onde sem dúvida derivaram as bases desse sistema, bem como para citar as variações adotadas neste sistema um tanto mais complexo.

Todos os direitos sobre a terra eram, em primeiro lugar, conferidos ao Inça, mas metade dela era cedida aos agricultores, que logicamente constituíam a maioria da população. A outra metade era dividida entre o Inça e os sacerdotes, que observavam o culto do sol.

Com a renda de suas terras, especialmente divididas, o Inça tinha de sustentar o exército, conservar as estradas de todo o império e manter todo o mecanismo de governo. Este era administrado por uma classe dirigente especial, em sua maioria composta por parentes do próprio Inça, representantes de uma civilização e de uma cultura bem superiores às da maior parte da população.

A quarta parte restante – “as terras do sol” – não só provia a subsistência dos sacerdotes, que dirigiam o culto público em todo o império, como também se destinava à educação do povo nas escolas e colégios; além disso, garantia o futuro de todas as pessoas doentes e fracas e de cada habitante (afora, é claro, a classe dirigente, para quem não havia interrupção de trabalho) que atingia a idade de quarenta e cinco anos, idade estipulada para a suspensão do árduo trabalho da vida e para o início do lazer e do divertimento.

Religião

O único assunto que ainda nos resta tratar é a evolução das idéias religiosas. Entre a aspiração espiritual de uma raça simples porém rude e o ritual degenerado de um povo intelectualmente culto, mas espiritualmente morto, existe um abismo que só o termo religião, usado no seu sentido mais amplo, pode transpor. Todavia, é o processo consecutivo de geração e degeneração que tem de ser investigado na história do povo atlante.

Deve-se ter em mente que o governo sob o qual surgiram os rmoahals foi descrito como o mais perfeito dos governos concebíveis, pois o próprio Manu atuou como rei. A lembrança desse governante divino foi, naturalmente, preservada nos anais da raça e, no devido tempo ele chegou a ser considerado um deus entre um povo que era, por natureza, psíquico e tinha, portanto, vislumbres daqueles estados de consciência que transcendem nosso estado de vigília habitual. Conservando esses atributos superiores, era muito natural que esse povo primitivo adotasse uma religião que, embora de modo algum representasse uma filosofia elevada, nada tinha de ignóbil. Mais tarde, essa fase de crença religiosa tomou-se uma espécie de culto aos antepassados.

Os tlavatlis, embora herdeiros da reverência e do culto tradicionais a Manu, foram ensinados pelos instrutores Adeptos sobre a existência de um Ser Supremo, cujo símbolo era reconhecido como o sol. Assim, desenvolveram uma espécie de culto ao sol, cuja pratica era celebrada no alto dos morros. Nesses locais, eles construíram enormes círculos de monolitos aprumados, que se destinavam a simbolizar o curso anual do sol, embora também fossem utilizados para observar o curso dos astros, sendo dispostos de tal modo que, para quem estivesse no altar-mor, o sol nasceria, no solstício de inverno, atrás de um desses monolitos e, no equinócio da primavera, atras de outro, e assim por diante, durante o ano todo. Esses círculos de pedra também eram usados em observações astronômicas ainda mais complexas, relacionadas com as mais distantes constelações.

Já vimos, no tópico referente às emigrações, como uma sub-ra-ça posterior – os acadianos – retornou a essa primitiva construção de monolitos, na edificação do Stonehenge.

Embora os tlavatlis fossem dotados de uma capacidade de desenvolvimento intelectual um tanto maior do que a da sub-raça anterior, seu culto ainda era de um tipo muito primitivo.

Na época dos toltecas, com a difusão mais ampla de conhecimentos e, mais particularmente, com o posterior estabelecimento de um sacerdócio iniciado e de um imperador Adepto, crescentes oportunidades foram oferecidas ao povo para a obtenção de uma concepção mais verdadeira do divino. A minoria que estava disposta a tirar total proveito do ensino oferecido, após ser posta à prova e apreciada, sem dúvida era admitida nas ordens dos sacerdotes, que então constituíam uma grande confraria oculta. Contudo, não estamos interessados aqui nesses poucos que sobrepujaram a grande maioria da humanidade e estavam dispostos a enveredar pelos caminhos das ciências ocultas; o tema geral do nosso estudo é, antes, as religiões praticadas pelos habitantes da Atlântida.

As classes inferiores da sociedade daquela época não tinham, é claro, o poder de se alçar às alturas filosóficas do pensamento – como, aliás, não o tem a grande maioria dos habitantes do mundo atual. A abordagem mais aproximada que um professor, por talentoso que fosse, poderia fazer, ao tentar transmitir qualquer idéia a respeito da inominável essência do Cosmos, presente em todas as coisas, era necessariamente comunicada na forma de símbolos e, como era de se esperar, o sol foi o primeiro símbolo adotado. Como ocorre também em nossos dias, o indivíduo mais culto e com inclinações espiritualistas veria através do símbolo e poderia, às vezes, divisar, com as asas da devoção, o Pai de nossos espíritos,

A razão e o centro do anseio de nossas almas,
Objeto e refúgio do fim da nossa jornada —

enquanto os mais vulgares não veriam outra coisa senão o símbolo, e o cultuariam, assim como a Madona esculpida ou a imagem de madeira do crucificado são hoje veneradas em toda a Europa católica.

A adoração do sol e do fogo tornaram-se então o culto, e para sua celebração construíram-se templos magníficos nos quatro cantos do continente da Atlântida, mais particularmente, porém, na grande “Cidade dos Portais Dourados” – o ofício era executado pela comitiva de sacerdotes mantida pelo Estado para esse fim.

Nessa época remota não se permitia nenhuma imagem da Divindade. O disco solar era considerado o único emblema apropriado de Deus e, como tal, era usado em todos os templos, onde em geral colocava-se um disco dourado de modo a captar os primeiros raios do sol nascente durante o equinócio da primavera ou o solstício de verão.

Um exemplo interessante da sobrevivência quase intata desse culto ao disco solar pode ser visto nas cerimônias xintoístas do Japão. Segundo essa doutrina, qualquer outra representação da Divindade é considerada ímpia, e até mesmo o espelho circular de metal polido fica oculto ao olhar do público, salvo por ocasião das cerimônias. Contudo, ao contrário das suntuosas decorações dos templos da Atlântida, os templos xintoístas caracterizam-se por uma total ausência de decoração – a uniformidade do requintado acabamento da singela carpintaria não é quebrada por nenhum entalhe, pintura ou adorno.

No entanto, o disco solar não permaneceu como o único emblema admissível da Divindade. A imagem de um homem – um homem arquetípico – foi, em épocas posteriores, colocada nos templos e adorada como a mais sublime representação do divino. De certo modo, isso poderia ser considerado um retorno ao culto rmoahal de Manu. Até então, a religião era relativamente pura e a confraria oculta da “Boa Lei” naturalmente fazia o possível para conservar no coração do povo o ardor pela vida espiritual.

Contudo, estava se aproximando a época maligna na qual não restaria nenhuma idéia altruística para salvar a raça das profundezas do egoísmo, onde estava fadada a submergir. A deterioração do conceito ético foi o prelúdio inevitável da perversão do espírito. As mãos de cada homem lutavam unicamente por ele próprio e seus conhecimentos serviam apenas a fins egoístas, até tornar-se uma crença estabelecida a de que, no universo, não havia nada que fosse maior ou superior aos próprios homens. Cada um era a sua própria “Lei, Senhor e Deus”, e o próprio culto nos templos deixou de ser o culto a algum ideal para tornar-se a mera adoração do homem, tal como ele era conhecido e visto. Como está escrito no Livro de Dzyan, “Então a

Quarta cresceu em orgulho. Dizia: nós somos os reis; somos os Deuses. . . . Construíram enormes cidades. Construíram-nas de terras e metais raros, e dos fogos vomitados, da pedra branca das montanhas e da pedra preta modelaram suas próprias imagens em seu tamanho e semelhança, e adoraram-nas.” Capelas foram dispostas nos templos, nas quais a estátua de cada homem, feitas de ouro ou prata, ou esculpida em pedra ou madeira, era venerada por ele próprio. Os homens mais ricos dispunham de séquitos inteiros de sacerdotes para o culto e a Manutenção de suas capelas, e faziam-se oferendas a essas estátuas, como se fossem deuses. A apoteose do eu não poderia ir mais longe.

É preciso lembrar que toda idéia religiosa verdadeira que alguma vez penetrou na mente do homem foi-lhe conscientemente sugerida pelos instrutores divinos ou pelos iniciados das Lojas ocultistas, os quais, ao longo de todos os períodos históricos, têm sido os guardiões dos mistérios divinos e das ocorrências dos estados supra-sensíveis de consciência.

Geralmente, só de um modo muito lento é que a humanidade se torna capaz de assimilar algumas dessas idéias divinas, ao passo que os crescimentos monstruosos e as terríveis distorções, exemplificadas por cada religião existente, têm sua origem na própria natureza mais inferior do homem. Na verdade, tem-se a impressão de que nem sempre ele esteve em condições de receber o conhecimento acerca dos simples símbolos sob os quais se ocultava a compreensão da Divindade, pois na época da hegemonia turaniana parte desse conhecimento foi erroneamente divulgada.

Vimos como a vida e a luz, enquanto atributos do sol, foram, em tempos remotos, usados como símbolo para despertar na mente das pessoas tudo o que elas fossem capazes de conceber acerca do grande Criador. Contudo, outros símbolos de maior profundidade e significado mais real eram conhecidos e guardados pelos sacerdotes. O conceito de uma Trindade na Unidade era um desses símbolos. As Trindades de significação mais sagrada nunca foram reveladas ao povo, mas a Trindade que personificava os poderes cósmicos do universo como Criador, Preservador e Destruidor tornou-se publicamente conhecida na época dos turanianos de um modo um tanto irregular. Essa idéia foi ainda mais materializada e degenerada pelos semitas, que a transformaram numa Trindade estritamente antropomórfica, consistindo de pai, mãe e filho.

É preciso mencionar ainda um outro fato bastante terrível que ocorreu na época dos turanianos. Com a prática da bruxaria, muitos dos habitantes, é claro, tornaram-se conscientes da existência de elementais poderosos – criaturas que tinham sido criadas ou ao menos animadas pelas próprias e poderosas vontades dos habitantes, as quais, à medida que eram direcionadas para fins maléficos, produziram naturalmente os elementais de poder e malignidade. Os sentimentos humanos de reverência e culto tinham degenerado tanto que os homens realmente começaram a adorar essas criações semiconscientes de seu próprio pensamento maligno. O ritual pelo qual se cultuava esses seres foi, desde o início, manchado de sangue e, sem dúvida, cada sacrifício oferecido em seus altares conferia vitalidade e persistência a essas criações vampirescas – a tal ponto que, mesmo hoje em dia, em várias partes do mundo, os elementais formados pela vontade poderosa desses antigos bruxos atlantes ainda continuam a exigir seu tributo de inocentes comunidades aldeãs.

Embora iniciado e largamente praticado pelos brutais turanianos, parece que esse ritual manchado de sangue nunca se difundiu entre as outras sub-raças; todavia, os sacrifícios humanos parecem não ter sido raros entre alguns ramos semitas.

No grande império tolteca do México, o culto do sol – praticado por seus antepassados – ainda era a religião nacional, embora as oferendas incruentas à sua Divindade benéfica, Quetzalcóatl, consistissem simplesmente de flores e frutos. Só com o advento dos astecas selvagens é que se acrescentou, ao inocente ritual mexicano, o sangue de sacrifícios humanos, que banhava os altares de seu deus da guerra, Huitzilopochtli, e a extração do coração das vítimas no cume do Teocáli pode ser vista como uma sobrevivência direta do culto aos elementais de seus ancestrais turanianos da Atlântida.

Pode-se observar então que, tal como em nossos dias, a vida religiosa do povo abrangia as mais variadas formas de crença e culto. Desde a pequena minoria que aspirava à iniciação e tinha contato com a mais elevada vida espiritual – que sabia que a boa vontade para com todos os homens, o controle do pensamento e a pureza de vida e ações eram as preliminares necessárias à obtenção dos mais elevados estados de consciência e dos mais amplos campos de visão -, inumeráveis estágios de decadência conduziram desde o culto mais ou menos irracional das energias cósmicas, ou dos deuses antropomórficos, até os ritos sangrentos do culto aos elementais, passando pelo ritual degenerado, porém de grande aceitação, no qual cada homem adorava sua própria imagem.

Não se deve esquecer que estamos tratando apenas da raça atlante, de modo que seria inoportuna qualquer referência relativa ao culto ainda mais infame do fetiche que então existiu – como ainda existe – entre os degradados representantes dos povos lemurianos.

Ao longo dos séculos, portanto, os vários rituais constituídos para celebrar essas diversas formas de culto continuaram existindo, até a submersão derradeira de Posseidones, quando um grande número de emigrantes atlantes já haviam estabelecido, em terras estrangeiras, os vários cultos do continente-mãe.

Reconstituir a ascensão e acompanhar minuciosamente o progresso das religiões antigas, que no período histórico floresceram em formas tão diversas e antagônicas, seria uma tarefa bastante difícil, mas o esclarecimento que isso traria às questões de importância transcendente poderá, algum dia, induzir à tentativa.

Concluindo, seria inútil tentar resumir o que já está por demais resumido. Antes, vamos esperar que o precedente possa servir como texto, a partir do qual seja possível desenvolver histórias acerca dos diversos ramos das várias sub-raças – histórias que possam, analiticamente, abordar as evoluções políticas e sociais que, aqui, foram expostas de modo bastante fragmentário.

Todavia, uma palavra ainda pode ser dita sobre essa evolução da raça – esse progresso que toda criação, com a humanidade à frente, está sempre destinada a alcançar, século a século, milênio a milênio, manvantara a manvantara e kalpa a kalpa.

A descida do espírito à matéria – esses dois pólos da substância eterna una – é o processo que abrange a primeira metade de cada ciclo. Ora, o período estudado nas páginas anteriores – o período durante o qual a raça atlante estava percorrendo sua trajetória – foi exatamente o ponto médio ou crítico deste manvantara atual.

O processo de evolução que se tem estabelecido em nossa atual quinta raça – isto é, o retorno da matéria ao espírito – manifestou-se, nessa época, em apenas uns poucos casos individuais isolados -precursores da ressurreição do espírito.

Mas o problema, que todos os que têm se dedicado de algum modo a esta matéria devem ter constatado estar ainda à espera de uma solução, está no surpreendente contraste verificado nas características da raça atlante. Ao lado de suas paixões brutais, de suas inclinações animais degradadas, estavam suas faculdades psíquicas, sua intuição divina.

A solução deste enigma aparentemente insolúvel repousa no fato de que a construção da ponte fora então apenas iniciada – a ponte do manas, ou mente, destinada a ligar, no indivíduo aperfeiçoado, as forças do animal, que se dirigem para o alto, ao espírito do Deus, que, num movimento crítico dirige-se para baixo. O atual reino animal revela um campo da natureza onde a construção dessa ponte ainda não se iniciou e, mesmo entre a humanidade nos tempos da Atlântida, a conexão era tão frágil que os atributos espirituais tinham pouco poder de controle sobre a natureza animal mais inferior. O tipo de mente que possuíam era capaz de acrescentar prazer à satisfação dos sentidos, mas não tinha o poder de vitalizar as faculdades espirituais ainda adormecidas que, no indivíduo aperfeiçoado, precisarão tornar-se o monarca absoluto. Nossa metáfora da ponte pode levar-nos um pouco mais além, se a considerarmos atualmente em processo de construção, porém destinada a permanecer incompleta, para a humanidade em geral, durante incontáveis milênios – na verdade, até que a Humanidade tenha completado mais um ciclo dos sete planetas e o grande Quinto Curso esteja a meio caminho de sua trajetória.

Embora tenha sido durante a segunda metade da terceira raça-raiz e o início da quarta que o Manasaputra desceu para dotar de mente a maior parte da Humanidade, que ainda estava sem a centelha, foi tão fraco o fogo que ardeu durante toda a era atlante que se pode dizer que foram poucos os que atingiram os poderes do pensamento abstraio. Por outro lado, os atlantes conseguiram um ótimo desempenho mental no campo da realidade concreta e, como vimos, foi nas atividades práticas do seu cotidiano, especialmente quando suas faculdades psíquicas eram direcionadas para os mesmos objetos, que eles alcançaram resultados notáveis e estupendos.

É preciso também lembrar que o Kama, o quarto princípio, alcançou sem dúvida o ápice do seu desenvolvimento durante a quarta raça. Isso explicaria os níveis de vulgaridade animal em que mergulharam, enquanto o ciclo, aproximando-se de seu nadir, inevitavelmente acentuou esse movimento decadente, de modo que há pouco para se surpreender quanto à perda gradual das faculdades psíquicas da raça e sua degradação rumo ao egoísmo e ao materialismo.

Tudo isso deve ser visto como parte do grande processo cíclico, em obediência à lei eterna.

Nós todos atravessamos aqueles péssimos dias, e as experiências que então acumulamos contribuíram para formar as qualidades que ora possuímos.

Contudo, um sol mais radiante brilha agora sobre a raça anca, mais do que aquele que iluminava a vereda de seus antepassados atlantes. Menos dominados pelas paixões dos sentidos, mais abertos à influência da mente, os homens da nossa raça obtiveram, e estão obtendo, um controle mais firme do conhecimento, um alcance intelectual mais amplo. Este arco ascendente do grande ciclo manvantárico naturalmente conduzirá um número cada vez maior de pessoas rumo à entrada do Caminho Oculto e emprestará um encanto cada vez maior às oportunidades transcendentes que ela oferece ao contínuo fortalecimento e purificação do caráter – fortalecimento e purificação não mais dirigidos pelo mero esforço espasmódico e constantemente interrompidos por atrações enganosas, mas orientados e vigiados, a cada passo, pelos Mestres da Sabedoria, de modo que a escalada, uma vez iniciada, não será mais hesitante e incerta, mas conduzirá direto à meta gloriosa.

Também as faculdades psíquicas, bem como a intuição divina, perdidas por um tempo, mas ainda heranças legítimas da raça, aguardam apenas o esforço individual para serem readquiridas, o que fornecerá ao caráter da espécie uma compreensão ainda mais profunda e poderes mais transcendentes. Desse modo, as ordens dos instrutores Adeptos – os Mestres da Sabedoria – sempre devem ser fortalecidas e renovadas, e mesmo entre nós, hoje, certamente estão alguns deles, indistinguíveis, salvo pelo imortal entusiasmo que os impulsiona, e que, antes que se estabeleça a próxima raça-raiz neste planeta, erguer-se-ão como Mestres da Sabedoria para ajudar a raça em seu progresso ascendente.

William Scott-Elliot

Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/a-historia-da-atlantida/

Fundamentos da Iniciação em Thelema

Tradução Mago Implacável

Revisão: Maga Patalógica

Introdução

Em Thelema, o termo “iniciação” é usado frequentemente e de maneiras diferentes. Este artigo destina-se a elucidar o significado básico e os fundamentos da iniciação, especialmente no contexto do sistema espiritual de Thelema.

Definição básica: “Iniciação” refere-se, essencialmente, ao caminho da progressão espiritual de cada indivíduo. O “caminho da iniciação” é sinônimo de outros termos, tais como “o caminho da realização” ou “a busca pela iluminação”. Às vezes é chamada de Grande Obra, “subida da Árvore da Vida” ou simplesmente “o Caminho”.

Ao longo do Caminho, chega-se a vários “graus” de iniciação que podem ser entendidos como certos níveis de insight de entendimento ou simplesmente como certas mudanças de consciência, que se move progressivamente da ignorância da visão rasa de si e do mundo para o ser “iniciado” ou para a visão iluminada. Estes “graus” de iniciação referem-se estritamente a um processo interno, e as cerimônias e “graus” de organizações temporais são somente um reflexo simbólico de iniciações interiores. Como Crowley escreveu: “[o] Mestre Therion adverte todos os Aspirantes à Sabedoria Sagrada e à Magia da Luz que a Iniciação não pode ser comprada ou mesmo outorgada; ela deve ser ganha por esforço pessoal” (carta a W. T. Smith de 1934 e.v.).

Isto leva a alguns princípios gerais da iniciação, que são verdadeiros em todas as formas de espiritualidade:

1) Iniciação só poderá vir do esforço e do trabalho do indivíduo.

2) A verdadeira Iniciação sempre se dá na forma da experiência direta do indivíduo.

3) Iniciação não pode ser outorgada por outrem, por meio de palavras, símbolos, rituais ou qualquer outra forma. O máximo que o outro pode fazer é ajudar a apontar o caminho e a evitar armadilhas comuns.

Iniciação de modo geral

A base da iniciação é explicada de maneira razoavelmente sucinta em um texto chamado Liber LXI vel Causae ou Liber Causae. Nele se lê:

“Em todos os sistemas de religião é encontrado um sistema de Iniciação, que pode ser definido como o processo pelo qual um homem vem a aprender sobre aquela Coroa desconhecida”.

Isto estabelece que todos os sistemas religiosos têm alguma forma ou outra de se aproximar da mesma Verdade. Todos eles contêm alguma forma de “ processo pelo qual um homem vem a aprender sobre aquela Coroa desconhecida”, que aqui é chamado de “Iniciação”. A “Coroa desconhecida” é uma referência Qabalística à primeira Sephirah da Árvore da Vida, Kether, que literalmente significa “Coroa” e representa a Unidade da Cabeça Deus que o homem pode alcançar. Alguns chamaram esta “Coroa desconhecida” com o termo “Deus”, alguns a chamam “libertação”, “unidade”, “Verdade” e incontáveis outros nomes. Em última análise, é “desconhecida” e sem nome porque está além das dualidades de conhecedor e conhecido, além das dualidades do sujeito e objeto da linguagem e, portanto, não pode ser nomeado com precisão. É, para usar a linguagem da Missa Gnóstica, sempre “além da fala e além da visão”. Iniciação é definida como o processo pelo qual alguém poderá aprender Isto. O Liber Causae continua:

“Embora ninguém possa comunicar o conhecimento ou o poder para realizar isto – que nós podemos chamar a Grande Obra – ainda é possível que os iniciados guiem outros’”.

Aqui nos é dito algo que foi citado anteriormente como um princípio geral de iniciação: Iniciação não pode ser outorgada por outrem, por meio de palavras, símbolos, rituais ou qualquer outra forma. O máximo que o outro pode fazer é ajudar a apontar o caminho e a evitar armadilhas comuns.”Ninguém pode comunicar” não significa que não há ninguém inteligente ou esclarecido o suficiente para comunicar esta Verdade, mas sim que é uma Verdade cuja natureza é simplesmente incomunicável em virtude de ser para além de todos os nomes, formas, sinais e símbolos.

Aqui também vemos o processo de “Iniciação” ser equiparado ao termo “Grande Obra”, como também foi mencionado anteriormente. Aprendemos também que os iniciados não podem transmitir “aquela Coroa desconhecida”, mas que eles podem guiar os outros em direção a ela. Liber Causae continua sobre o tema:

“Todo homem deve superar seus próprios obstáculos, expor suas próprias ilusões. Porém, outros podem ajudá-lo a fazer ambos, e capacitá-lo de forma a evitar muitos dos falsos caminhos, [que levam] a lugar algum, que tentam os pés cansados do peregrino não iniciado. Eles podem, além disso, assegurar que ele seja devidamente provado e testado, pois há muitos que pensam ser Mestres, sem sequer ter começado a trilhar o Caminho do Serviço que para lá conduz.”.

Aqui temos a afirmação de outro princípio geral de iniciação mencionado anteriormente: Iniciação só poderá vir do esforço e do trabalho do indivíduo. Aprendemos também que o caminho da iniciação deve envolver a superação de obstáculos e exposição de ilusões sobre a realidade. Como outro importante texto fundamental afirma, “Tu então que tens provas e problemas, regozija-te por causa deles, pois neles está a Força, e por meio deles é aberta uma trilha àquela Luz (…) Alegrai-vos, ó Iniciado, pois quão maior for a tua prova tão maior será o Triunfo”(Liber Librae).

Há uma reafirmação do fato de que iniciados podem ajudar a guiar os outros, a fim de capacitá-los a não cair em armadilhas comuns. Há também uma afirmação de que “há muitos que pensam ser Mestres” que não estão nem perto [disto], sendo “Mestres” um nome para aqueles que obtiveram sucesso em trilhar o Caminho. Aqueles que “pensam ser Mestres” inclui aqueles que podem pensar candidamente ter se realizado, mas apenas tiveram pequenos vislumbres da verdade, bem como aqueles que podem ser chamados de “charlatães” na medida em que, conscientemente, vampirizam candidatos genuínos, utilizando-se de mentiras e manipulação.

Uma coisa que é particularmente impressionante é a menção de que “o Caminho do Serviço” é o que “conduz a isso”, ou seja, É assim que ocorre o processo de tornar-se um Mestre. Existem várias maneiras de compreender o que quer dizer “o Caminho do Serviço”, e estas estão todas conectadas. Em primeiro lugar, existe o fato que já foi mencionado repetidamente: uma das funções do iniciado é servir de guia para os outros no Caminho. Em muitos sistemas, uma vez que seja confirmado que o iniciado está suficientemente avançado no entendimento (ou na “realização” ou qualquer outro termo similar), ele se torna um professor ou um guia para outros – há muitas tradições que envolvem a “transmissão” da sabedoria do guru ou Mestre para o discípulo, até o início na cadeia; o não iniciado.

Relacionado com este modo de entender “o Caminho do Serviço” é o fato de que, especialmente dentro de Thelema, há uma ênfase em “retornar ao mundo” uma vez que se tenha atingido este grau de entendimento. Isto é virtualmente idêntico ao voto bodhisattva no Budismo Mahayana quando alguém jura retornar do nirvana (libertação, realização, etc) ao samsara (o mundo mundano da ignorância), a fim de que todos os seres possam ser libertados. Há exemplos abundantes desta mesma ideia na tradição ocidental, geralmente envolvendo o simbolismo de alguém que atingiu a iluminação retornando de um lugar distante e/isolado; exemplos proeminentes incluem o retorno de uma montanha (por exemplo, Moisés, Maomé e Zaratustra de Nietzsche) bem como o retorno do deserto (por exemplo, Jesus). Isto é, tornar-se um Mestre está intimamente ligado com o Caminho do Serviço, pois não se torna um Mestre exclusivamente para iluminar a si mesmo, mas também para ajudar os outros a alcançar a Luz.

Finalmente, ligado a estes dois modos de compreender “o Caminho do Serviço” pode-se entender esse Serviço num sentido mais geral: ele requer uma redução do apego [que se tem] ao ego, à identidade pessoal ou ao senso de si, e não é possível se tornar um Mestre se há apego ao ego e aos seus objetivos ego-direcionados. Em todos os sistemas de realização, procura-se a “Coroa desconhecida” que está sempre além do sentido pessoal do eu e do “ego”; [ela] é, para usar a linguagem da Missa Gnóstica, “Tu que és eu para além de tudo o que eu sou.” Deve-se notar que em nenhuma dessas formas de compreender o Caminho do Serviço existe qualquer aparência de “servidão”, de humilhação diante dos outros ou autoimolação: é um Serviço de força, de alguém que transborda de Luz e assim outorga aos outros para que eles possam participar.

“Agora a Grande Obra é uma, a Iniciação é uma, e a Recompensa é uma, embora diversos sejam os símbolos com os quais o Inexprimível é revestido. “

Este é um ponto especialmente importante: essencialmente, a iniciação sempre leva ao Uno, a “aquela Coroa Desconhecida”, ao “Inexprimível”. Os místicos e iniciados sempre falaram da mesma “Grande Obra”, mas todos têm usado diferentes símbolos e linguagens para explicá-la. Num Livro Sagrado da Thelema está escrito: “sempre deverá existir a divisão na palavra. Pois as cores são muitas, mas a luz é uma só” (Liber LXV). Esta é uma bela imagem onde a Luz, o “Inexprimível” é sempre Um, mas ela entra através do prisma do mundo e cada indivíduo que fala sobre isso representa uma cor entre muitas. Deve haver sempre diversidade de expressão, mas são todas [as expressões] facetas que apontam para uma Luz. Uma ideia idêntica é expressa em outro Livro Sagrado de Thelema onde está escrito:

“Para você que ainda vagueia na Corte do Profano ainda não podemos revelar tudo; mas você vai entender facilmente que as religiões do mundo são apenas símbolos e véus da Verdade Absoluta. Assim também são as filosofias. Para o adepto, vendo todas estas coisas de cima, parece haver nada a escolher entre Buda e Maomé, entre o ateísmo e teísmo” (Liber X).

Os Mistérios no Novo Aeon

Entende-se que há uma única Luz, a “Verdade Absoluta”, “o Indizível” etcetera, e que a diversidade de expressões [representa] apenas diferentes modos para simbolizar e velar o Uno. Em Thelema, há um entendimento mais profundo de que há diferentes “fórmulas” de iniciação ou realização que são eficazes ao mesmo tempo, mas que precisam ser atualizadas para uma nova era ou “aeon”. Uma noção virtualmente idêntica é mantida na doutrina hindu dos “yugas” ou eras (por exemplo, o Kali Yuga), onde os requisitos para alcançar a libertação mudam a cada “yuga”. Este é o significado essencial por trás da ideia de que estamos em um “Novo Aeon”. Vamos olhar para esta ideia com mais profundidade:

No mundo do esoterismo ocidental ou “ocultismo”, há uma certa forma simbólica pela qual são explicados os “mistérios” do caminho da iniciação. Em geral, há uma série de rituais cerimoniais pelos quais cada candidato é submetido, simbolizando os estágios de iluminação e oferecendo orientação no Caminho. Mais importante, há um “Hierofante” (que significa literalmente “aquele que revela coisas sagradas”), cujo propósito é servir como o propagador dos Mistérios. Em última análise, este Hierofante representa ou reflete o Deus dentro de cada indivíduo, que é o verdadeiro Hierofante de todo iniciado.

Em uma tradição esotérica, a da Ordem Hermética da Golden Dawn, o Caminho foi simbolizado em vários psicodramas de variados “graus” de iniciação. O Hierofante sentava a Leste, o lugar do Sol nascente, enquanto outros oficiais sentavam em outros quadrantes. Este Hierofante não só revelava os mistérios como um “iniciador”, mas também representava a “fórmula” dos próprios mistérios. Neste sistema, o Hierofante era representado como Osíris, um deus que morto e ressuscitado em uma forma mais “divina”. Isto significa essencialmente que a realização foi conseguida via um processo de vida-morte-ressurreição, a “fórmula” de Osíris. Isto, é claro, inclui a fórmula representada pela morte e ressurreição de Cristo, que é vista como uma expressão da fórmula “Osíris” (juntamente com Attis, Adônis, Dionísio, etcetera).

Em algo chamado “Cerimônia do Equinócio”, os vários oficiais rotacionam ao redor da sala, assumindo novos postos e com um novo indivíduo se tornando o Hierofante. Da mesma forma, havia um “Equinócio dos Deuses”, em que os próprios deuses mudam de posições: Osíris já não mais representava a fórmula de iniciação. É por isso que a era ou Aeon onde sua fórmula estava ativa é chamada de “Aeon de Osíris” ou “Aeon do Deus Morto”. Agora, Hórus sentava no Leste como o Hierofante e uma nova fórmula foi posta em prática: “A palavra da lei é Thelema” (AL I:39). Este é o simbolismo trabalhado n’O Livro da Lei, onde está escrito: “Abolidos estão todos os rituais, todas as provações, todas as palavras e sinais. Ra-Hoor-Khuit tomou o seu assento ao Leste no Equinócio dos Deuses (…) Hoor em seu secreto nome e esplendor é o Senhor iniciado”(AL I:49). Em Thelema, é dito que este Equinócio dos Deuses tenha ocorrido no Equinócio da Primavera de 1904, com o novo Livro da Lei – uma nova Lei para um novo Aeon – tendo sido recebido alguns dias depois. Crowley comenta sobre este verso de O Livro da Lei:

“Este verso [Al 1:49] declara que a velha fórmula mágicka – a fórmula do Deus Morto Osíris-Adônis-Jesus-Marsyas-Dionisius-Attis-etcetera não é mais eficaz. Ela repousava na crença ignorante de que o Sol morria todos os dias, e todos os anos e que sua ressuscitação era um milagre. A fórmula do Novo Aeon reconhece Hórus, a Criança coroada e conquistadora, como Deus. Todos nós somos membros do Corpo Divino, o Sol; e o nosso Sistema é o Oceano do Espaço. Esta fórmula deve ser baseada nestes fatos. Nosso “Mal”, “Engano”, “Escuridão”, “Ilusão”, como queira chamar, é simplesmente um fenômeno de separação acidental e temporária. Se você está “andando no escuro”, não tente fazer o Sol nascer por auto sacrifício [isto é, a fórmula de Osíris], mas espere confiante no alvorecer, e enquanto isso desfrute dos prazeres noturnos. A alusão geral é ao Ritual de Equinócio da Golden Dawn”.

Muitos aspectos do caminho iniciático mudaram – ou ao invés disso, estão melhor compreendidas – no Novo Aeon. Um olhar mais profundo nos principais aspectos que mudaram é dado na série de artigos “Iniciação do Novo Aeon”. O que é notável em Thelema é o entendimento de que a Lei deste Aeon irá mudar novamente no futuro: Thelema é para este Aeon e uma nova Lei surgirá quando houver a próxima mudança, um outro “Equinócio dos Deuses”. É isto que é dito em outra parte do Livro da Lei:

Mas o vosso local santo ficará intocado através dos séculos: embora com fogo e espada ele seja queimado e destruído, ainda assim uma casa invisível lá permanecerá, e continuará até a queda do Grande Equinócio; quando Hrumachis se erguerá e aquele da dupla baqueta assumirá meu trono e lugar. Outro profeta se erguerá, e trará febre fresca dos céus; outra mulher despertará a lascívia e adoração da Cobra; outra alma de Deus e besta se mesclará no sacerdote englobado; outro sacrifício manchará a tumba; outro rei governará; e não mais serão derramadas bênçãos Ao Senhor místico com cabeça de Falcão!” (Al III:34).

Ocorrerá “a queda do Grande Equinócio” e, ao invés de Hórus, o deus “Hrumachis”se erguerá, e o novo deus – “aquele da dupla baqueta” – será instalado a Leste como o Hierofante com uma “fórmula” diferente para o novo Aeon. Crowley comenta: “Hrumachis é o Sol Nascente; ele, portanto, simboliza qualquer novo curso de eventos”. Portanto “Hrumachis se erguerá” é outro jeito de dizer que a luz de um novo Aeon surgirá. Crowley continua: “‘Aquele da dupla baqueta’ é ‘Thmaist em sua forma dual como Thmais e Thamait’, de quem os gregos derivaram sua Themis, deusa da Justiça”. Crowley se refere a Thmaist como um oficial das cerimônias da Golden Dawn; Thmaist é idêntica à deusa grega “Themis” e à egípcia “Maat”, ou simplesmente “Ma” ou todos os deuses da Justiça e do equilíbrio. Crowley continua: “Seguindo Hórus surgirá o Equinócio de Ma, a Deusa da Justiça, pode ser daqui cem anos ou dezenas de milhares de anos; pois a Computação do Tempo não está aqui como Lá (…) A Força irá preparar o Reino da Justiça. Nós deveremos começar já, julgo eu, a considerar essa Justiça como o Ideal cujo caminho devemos preparar, pela virtude de nossa Força e Fogo”

Sumário

A iniciação é o processo pelo qual chegamos à Luz Una, à “Coroa desconhecida” dentro de cada um de nós. Ela só pode ser alcançada através de nossos próprios esforços, embora outros iniciados e adeptos possam guiar-nos[,] apontar o caminho e ajudar a evitar armadilhas mais comuns. Há uma Luz única, ainda que ela seja expressa de diferentes formas; é a mesma Luz, independentemente de crença ou tradição. A antiga fórmula iniciatória de Osíris se tornou não mais eficaz com o despertar do Novo Aeon de Hórus, cuja palavra da Lei é Thelema. Mais detalhes sobre iniciação neste Novo Aeon pode ser explorado na série de artigos “Iniciação do Novo Aeon”. No futuro distante, o Aeon de Hórus também vai terminar e um novo deus, o da Justiça, se erguerá com a nova Lei.

Amor é a Lei; Lei sob Vontade

Publicado originalmente em https://iao131.com/2014/04/26/fundamentals-of-initiation-in-thelema/

#Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/fundamentos-da-inicia%C3%A7%C3%A3o-em-thelema

Uma introdução à Cabala, ao Tarô, à magia cerimonial e ao ocultismo em geral

As Edições Textos para Reflexão trazem o grande clássico das ciências ocultas em uma edição digital memorável.

Dogma e Ritual da Alta Magia, de Éliphas Lévi, é uma das obras mais célebres no meio ocultista, de modo que até o século atual continua sendo considerada uma das introduções mais confiáveis à Cabala, ao Tarô, à prática da magia cerimonial e ao ocultismo em geral. Nossa edição possui mais de 40 ilustrações do próprio autor, prefácio de Arthur Edward Waite (cocriador do Tarô de Waite-Smith), fontes hebraicas dinâmicas (elas acompanham o tamanho do texto em geral) e guia de leitura – tudo isso pelo preço de um café!

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Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/uma-introdu%C3%A7%C3%A3o-%C3%A0-cabala-ao-tar%C3%B4-%C3%A0-magia-cerimonial-e-ao-ocultismo-em-geral

(Não) Fique longe desses 13 livros!

Atenção! Os livros abaixo devem ser evitados por todos aqueles que quiserem ficar longe das artes negras:

1) Rumo aos portais da Magia (F.BUTTERSACK)

2) Dicionário dos conhecimentos ocultos (H.MIERS)

3) Magos, Poderes e Mistérios (W.MOUFANG)

4) Demonomania dos feiticeiros (JEAN BODIN)

5) Quarta dimensão e ocultismo (F.ZOELLNER)

6) A Incredulidade e Descrença nos Sortilégios (PIERRE DELANCRE)

7) A Deusa Cruel e seu Bobo (E.D’ESTIANI)

8) Filhos e Filhas do Diabo (A.STARANOV)

9) Governantes Invisíveis (S.HUTIN)

10) Culto a Satã e a Missa Negra (G.ZACHARIAS)

11) Aparições de Espíritos e Preságios (A.JAFFÉ)

12) Ensinamentos Secretos dos Livros dos Mortos do Tibete (D.LAUF)

13) Animal e Homem, Divindade e Demônio (K.SALZLE)

Mas sendo um leitor do Morte Súbita inc este certamente não é o seu caso. Então se você possuir traduções em português de boa qualidade dos livros acima citados entre em contato com a gente . Estamos interessados em publicá-los no portal mediante renumeração caso já estejam em domínio público. Além deles incluimos

  • Grimório Verum
  • Grande Grimorio
  • Livro Vermelho de Apin
  • Suk’Nazbot

Grande Queima de Livros de Magia

 

Famoso e um dos mais influentes líderes pentecostais nos Estados Unidos, Pat Robertson é conhecido pelo fundamentalismo religioso extremo com que conduz seu rebanho e o ódio que reserva a judeus e católicos americanos; mesmo algumas denominações pentecostais são chamadas de ninhos de anti-cristo pelo pregador.

Recentemente ele recomendou uma lista de livros raros e malditos relacionados a magia negra, demonologia e estudos do ocultismo, pedindo aos seus fiéis que os encontrassem: fosse em prateleiras de livrarias ou mesmo sites de leilões, que os adquirissem e os levassem para um templo no estado de Nebraska para que ele pudesse queimá-los. Talvez Robertson não saiba que todos os títulos por ele mencionados e muitos outros livros de magia raros, podem ser encontrados as pencas para download na Internet.

Mas “estranhamente”, um site com a lista de livros que Robertson sugeriu apareceu completa e com mais alguns outros títulos profanos e tão perigosos quanto a lista original. Com preços majorados em até 1000 por cento de seu valor original; era possível adquirí-los neste site, divulgado em um portal evangélico americano ligado a Robertson.

Obviamente como cordeirinhos, a leva de mais de seis mil livros ( todas cópias mal feitas e mal traduzidas ) foi comprado pelos fiéis e levaram para o pastor queimar, numa festa para jovens evangélicos, que mais parecia um tribunal da inquisição na Idade Média.

Mais tarde, uma rádio canadense voltada ao público católico na região de Alberta, descobriu que a gráfica que produziu as cópias é de propriedade de um líder do Clube 700 no Canadá. Além da picaretagem comercial visando seu próprio lucro e a fé alheia, o grupo desrespeitou leis autorais de vários livros da lista, que têm editoras americanas como donas dos direitos autorais.

Agora sabemos com quem certas seitas evangélicas brasileiras aprendem as suas vigarices. Menos mal. Será?

Paulie Hollefeld

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/demonologia/nao-fique-longe-desses-13-livros/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/demonologia/nao-fique-longe-desses-13-livros/

A Árvore da Vida: Um Clássico Mágico Renascido para o Século XXI

Por Llewellyn.

Numa época em que a magia era vista pela maioria como suspeita na melhor das hipóteses e perigosamente má na pior, Israel Regardie via a magia como uma disciplina científica precisa, bem como um modo de vida altamente espiritual. Aos 24 anos, ele assumiu a enorme tarefa de torná-la acessível a uma ampla audiência de ávidos buscadores espirituais. Regardie queria apontar os princípios fundamentais comuns a toda magia, independentemente de qualquer tradição específica ou caminho espiritual.

O resultado foi o livro A Árvore da Vida, que apresenta uma enorme quantidade de material diversificado em um todo notavelmente unificado. Desde o dia em que foi publicado pela primeira vez, este livro permaneceu em alta demanda por sua habilidosa combinação de sabedoria antiga e experiência mágica moderna.

Esta obra-prima agora foi meticulosamente editada por dois Adeptos Sênior da Ordem Hermética da Golden Dawn (Aurora Dourada) que trabalharam pessoalmente com Regardie. O material foi esclarecido com anotações, comentários e notas explicativas. Há uma nova introdução, glossário, bibliografia e índice e uma riqueza de novas ilustrações.

“A Árvore da Vida é um livro que seria difícil elogiar demais; será um dos clássicos do ocultismo.”

Essa foi a opinião de Dion Fortune, uma respeitada autoridade nos círculos esotéricos, cujo artigo “Cerimonial Magic Unveiled (Magia Cerimonial Revelada)”, impresso na edição de janeiro de 1933 da The Occult Review, foi uma enorme ajuda para a carreira mágica do jovem Israel Regardie – uma carreira tão bem sucedida e influente que Regardie mais tarde se tornaria conhecido como o homem que removeu o sigilo excessivo que velava o ocultismo moderno e tornou as práticas mágicas da Ordem Hermética da Golden Dawn acessíveis a todos os buscadores espirituais. Antes de sua morte em 1985, “Francis” Israel Regardie foi considerado por muitas pessoas como um dos principais zeladores da tradição da Golden Dawn, uma corrente de magia e disciplina espiritual que atraiu muitos ocultistas proeminentes do final do século XIX e início do século XX. incluindo o Dr. William W. Westcott, Samuel L. MacGregor Mathers, Arthur Edward Waite, William Butler Yeats e Aleister Crowley.

A Árvore da Vida é considerada por muitos como um dos textos mais abrangentes sobre magia já escritos. Ao mesmo tempo, é uma excelente introdução ao assunto. Crowley também tentou escrever livros mágicos que fossem fáceis de ler e fáceis de compreender, mas ele nunca foi realmente capaz de fazer isso. O texto de Regardie, por outro lado, é muitas vezes considerado indispensável para a compreensão dos escritos mais obscuros de Crowley. De acordo com Francis King e Isabel Sutherland em The Rebirth of Magic (O Renascimento da Magia):

“[Crowley] escreveu com grande clareza e simplicidade sobre ioga, mas seus escritos puramente mágicos são em grande parte incompreensíveis para o leitor não equipado com um conhecimento detalhado do sistema cabalístico de Mathers, os ritos da Golden Dawn e até mesmo os eventos da própria vida de Crowley.”

“O aluno teve sucesso onde o mestre falhou. Em 1932, Regardie publicou dois livros, A Árvore da Vida e Um Jardim de Romãs, que muitos consideram pequenas obras-primas ocultas.” Temos o prazer de apresentar esta nova edição comentada e ilustrada do texto clássico de Regardie, A Árvore da Vida. Os títulos dos capítulos foram adicionados por nós para conveniência do leitor. Todas as notas finais também são nossas. Embora as edições anteriores de A Árvore da Vida contivessem um pequeno número de ilustrações, muitas outras foram adicionadas a esta nova edição. Também incluímos uma bibliografia, um glossário abrangente e um índice.

A Árvore da Vida apresenta ao leitor uma extensa pesquisa das práticas da tradição mágica ocidental, bem como uma visão panorâmica da teoria por trás dessas práticas. Em sua introdução à segunda edição, Regardie escreveu que: “Este livro tem um significado especial para mim que nenhum de meus outros escritos jamais teve”. Concordamos plenamente com esta opinião, pois A Árvore da Vida também tem um significado especial para nós. De todos os seus livros, este texto em particular parece expressar aquela rara qualidade de escrita que passamos a valorizar da caneta de Regardie – seu desejo de tocar o leitor com inspiração, seu amor pela poesia mística e invocações sagradas, seu senso de a alegria na busca espiritual pela união com o divino e, acima de tudo, seu desejo altruísta de compartilhar com os outros o que descobriu. A Árvore da Vida é uma joia de livro que tornará o leitor mais rico em espírito.

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Fonte:

The Tree of Life: A Magical Classic Reborn for the 21st Century, by Lllewellyn.

https://www.llewellyn.com/journal/article/91

COPYRIGHT (2001) Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cabala/a-arvore-da-vida-um-classico-magico-renascido-para-o-seculo-xxi/

A Magia Maior e a Magia Menor no Satanismo

Magia Maior e Magia Menor (conhecida também como Alta e Baixa Magia ou coletivamente Magia Satânica), dentro do Satanismo LaVeyano, designa tipos de crenças com o termo maior magia aplicada à prática ritual significada como catarse psicodramática para focar as emoções para um propósito específico e magia menor aplicado à prática de manipulação por meio de psicologia aplicada e glamour (ou “astúcia e malícia”) para dobrar um indivíduo ou situação à sua vontade.

TEORIA E DEFINIÇÃO:

 “A magia branca é supostamente utilizada apenas para propósitos bons ou altruístas, e a magia negra, nos dizem, é usada apenas por razões egoístas ou “más”. O satanismo não traça tal linha divisória. Magia é magia, seja usada para ajudar ou atrapalhar. O satanista, sendo o mago, deve ter a habilidade de decidir o que é justo, e então aplicar os poderes da magia para atingir seus objetivos.” – Anton LaVey.

Delineado na Bíblia Satânica, LaVey definiu a magia como “a mudança em situações ou eventos de acordo com a vontade de alguém, que, usando métodos normalmente aceitos, seria imutável”. Esta definição incorpora dois tipos amplamente distintos de magia: maior e menor. De acordo com LaVey, um dos objetivos da magia ritual é “isolar a suprarrenal dissipada e outras energias emocionalmente induzidas, e convertê-la em uma força dinamicamente transmissível”. LaVey definiu magia menor como “astúcia e astúcia obtidas através de vários dispositivos e situações inventadas, que quando utilizadas, podem criar mudanças de acordo com a vontade de alguém”. Dentro deste sistema de magia, os termos feiticeiro e bruxa são mais comumente usados ​​e para se referir a praticantes masculinos e femininos, respectivamente.

LaVey defendia a visão de que havia uma realidade objetiva para a magia, e que ela dependia de forças naturais que ainda não haviam sido descobertas pela ciência. Em vez de caracterizá-los como sobrenaturais, LaVey expressou a visão de que eles faziam parte do mundo natural. Ele acreditava que o uso bem-sucedido da magia envolvia o mago manipular essas forças naturais usando a força de sua própria força de vontade. LaVey também escreveu sobre “o fator de equilíbrio”, insistindo que quaisquer objetivos mágicos deveriam ser realistas. LaVey recusou qualquer divisão entre magia negra e magia branca, atribuindo essa dicotomia puramente à “hipocrisia presunçosa e autoengano” daqueles que se autodenominavam “magos brancos”. Tal neutralidade se correlaciona com a visão filosófica de LaVey de um universo impessoal e, portanto, amoral.

LaVey explica suas razões para escrever A Bíblia Satânica em um pequeno prefácio. Ele fala com ceticismo sobre os volumes escritos por outros autores sobre o assunto da magia, descartando-os como “nada mais do que fraude hipócrita” e “volumes de desinformação e falsas profecias”. Ele reclama que outros autores não fazem mais do que confundir o assunto. Ele zomba daqueles que gastam grandes quantias de dinheiro em tentativas de seguir rituais e aprender sobre a magia compartilhada em outros livros de ocultismo. Ele também observa que muitos dos escritos existentes sobre magia e ideologia satânicas foram criados por autores do “caminho da mão direita”. Ele diz que a Bíblia Satânica contém verdade e fantasia, e declara: “O que você vê pode nem sempre agradar a você, mas você verá!” Muitas das ideias de LaVey sobre magia e ritual são descritas na Bíblia Satânica. LaVey explica que alguns dos rituais são simplesmente psicologia aplicada ou ciência, mas que alguns contêm partes sem base científica. Os Rituais Satânicos, publicado por LaVey em 1972, descreve os rituais com mais precisão. O terceiro livro da Bíblia Satânica descreve rituais e magia. De acordo com Joshua Gunn, estes são adaptados de livros de magia ritual, como Magick de Crowley: Teoria Elementar, mais conhecido como o Liber ABA.

A MAGIA MENOR

 “O significado antiquado de ‘glamour’ é bruxaria. O trunfo mais importante para a bruxa moderna é sua capacidade de ser sedutora, de utilizar o glamour. A palavra ‘fascinação’ tem uma origem similarmente oculta. Fascinação era o termo aplicado ao mau-olhado. Fixar o olhar de uma pessoa, em outras palavras, fascinar, era amaldiçoá-la com o mau-olhado. Portanto, se uma mulher tinha a capacidade de fascinar os homens, ela era considerada uma bruxa.” – Anton LaVey.

A Magia Menor, também conhecida como magia “cotidiana” ou “situacional”, é a prática de manipulação por meio da psicologia aplicada. LaVey escreveu que um conceito-chave na magia menor é o “comando para olhar”, que pode ser realizado utilizando elementos de “sexo, sentimento e admiração”, além da utilização de aparência, linguagem corporal, aromas, cores, padrões , e odor. LaVey escreveu que os termos “fascínio” e “glamour” têm origens no mundo da magia “coercitiva”. A palavra “fascinação” vem da palavra latina “fascinare”, que significa “lançar um feitiço sobre”. Este sistema encoraja uma forma de dramatização manipulativa, em que o praticante pode alterar vários elementos de sua aparência física para ajudá-lo a seduzir ou “enfeitiçar” um objeto de desejo.

LaVey desenvolveu “O Relógio Sintetizador”, cujo objetivo é dividir os humanos em grupos distintos de pessoas com base principalmente na forma do corpo e nos traços de personalidade. O sintetizador é modelado como um relógio, e baseado em conceitos de somatótipos. O relógio destina-se a ajudar uma bruxa a se identificar, posteriormente auxiliando na utilização da “atração de opostos” para “encantar” o objeto de desejo da bruxa, assumindo o papel oposto. Diz-se que a aplicação bem-sucedida da magia menor é construída sobre a compreensão de seu lugar no relógio. Ao encontrar sua posição no relógio, você é encorajado a adaptá-la como achar melhor e aperfeiçoar seu tipo harmonizando seu elemento para melhor sucesso. LaVey explica que, para controlar uma pessoa, é preciso primeiro atrair sua atenção. Ele dá três qualidades que podem ser empregadas para esse propósito: apelo sexual, sentimento (fofura ou inocência) e admiração. Ele também defende o uso de odor.

Dyrendal se referiu às técnicas de LaVey como “Erving Goffman conhece William Mortensen”. Extraindo insights da psicologia, biologia e sociologia, Petersen observou que a magia menor combina ocultismo e “ciências rejeitadas de análise corporal e temperamentos”.

  • No MorteSubita.net há uma seção dedicada a Baixa Magia com diversas informações a respeito.

A MAGIA MAIOR:

Da esquerda para a direita: Karla LaVey, Diane Hegarty e Anton LaVey ritualizando na Casa Negra, a sede original da Igreja de Satã.

A Magia Maior é um ritual realizado para concentrar a energia emocional de uma pessoa para um propósito específico. Esses ritos são baseados em três grandes temas psicoemotivos, incluindo compaixão (amor), destruição (ódio) e sexo (luxúria). Esses rituais são frequentemente considerados atos mágicos, com o satanismo de LaVey incentivando a prática da magia para ajudar os fins egoístas. Muito do ritual satânico é projetado para um indivíduo realizar sozinho; isso ocorre porque a concentração é vista como a chave para a realização de atos mágicos. O ritual é referido como uma “câmara de descompressão intelectual”, onde o ceticismo e a descrença são voluntariamente suspensos, permitindo assim que os magos expressem plenamente suas necessidades mentais e emocionais, não retendo nada em relação aos seus sentimentos e desejos mais profundos. LaVey listou os componentes-chave para um ritual bem-sucedido como: desejo, tempo, imaginação, direção e “O Fator de Equilíbrio” (consciência das próprias limitações). Os rituais LaVeyanos às vezes incluem blasfêmias anticristãs, que se destinam a ter um efeito libertador sobre os participantes. Em alguns dos rituais, uma mulher nua serve de altar; nestes casos, fica explícito que o próprio corpo da mulher se torna o altar, em vez de tê-la simplesmente deitada sobre um altar existente. Não há lugar para orgias sexuais no ritual LaVeyano. Nem animais nem sacrifícios humanos acontecem. As crianças são proibidas de participar desses rituais, com a única exceção sendo o Batismo Satânico, que é especificamente projetado para envolver bebês.

Detalhes para os vários rituais satânicos são explicados no Livro de Belial, e listas de objetos necessários (como roupas, altares e o símbolo de Baphomet) são fornecidas. LaVey descreveu uma série de rituais em seu livro, Os Rituais Satânicos; estas são “performances dramáticas” com instruções específicas sobre a roupa a ser usada, a música a ser usada e as ações a serem tomadas. Esta atenção aos detalhes na concepção dos rituais foi intencional, com sua pompa e teatralidade pretendendo envolver os sentidos e os sentidos estéticos dos participantes em vários níveis e aumentar a força de vontade dos participantes para fins mágicos. LaVey prescreveu que os participantes do sexo masculino devem usar túnicas pretas, enquanto as mulheres mais velhas devem usar preto, e outras mulheres devem se vestir de forma atraente para estimular os sentimentos sexuais entre muitos dos homens. Todos os participantes são instruídos a usar amuletos do pentagrama virado para cima ou da imagem de Baphomet. De acordo com as instruções de LaVey, no altar deve ser colocada uma imagem de Baphomet. Isso deve ser acompanhado por várias velas, todas, exceto uma, devem ser pretas. A única exceção é uma vela branca, usada em magia destrutiva, que é mantida à direita do altar. Também deve ser incluído um sino que é tocado nove vezes no início e no final da cerimônia, um cálice feito de tudo menos ouro, e que contém uma bebida alcoólica simbolizando o “Elixir da Vida”, uma espada que representa a agressão, uma falo modelo usado como aspersório, gongo e pergaminho no qual os pedidos a Satã devem ser escritos antes de serem queimados. Embora o álcool fosse consumido nos ritos da Igreja, a embriaguez era desaprovada e o consumo de drogas ilícitas era proibido.

O livro final da Bíblia Satânica enfatiza a importância da palavra falada e emoção para a magia eficaz. Uma “Invocação a Satã” bem como três invocações para os três tipos de ritual são dadas. A “Invocação a Satã” ordena que as forças das trevas concedam poder ao invocador e lista os nomes Infernais para uso na invocação. A “Invocação empregada para a conjuração da luxúria” é usada para atrair a atenção de outro. As versões masculina e feminina da invocação são fornecidas. A “Invocação empregada para a conjuração da destruição” comanda as forças das trevas para destruir o sujeito da invocação. A “Invocação empregada para a conjuração da compaixão” solicita proteção, saúde, força e a destruição de qualquer coisa que aflija o sujeito da invocação. O resto do Livro de Leviatã é composto pelas Chaves Enoquianas, que LaVey adaptou do trabalho original de Dee. Elas são dados em enoquiano e também traduzidas para o inglês. LaVey fornece uma breve introdução que credita Dee e explica um pouco da história por trás das Chaves Enoquianas e da linguagem. Ele sustenta que as traduções fornecidas são um “desenvernizamento” das traduções realizadas pela Ordem Hermética da Golden Dawn (Aurora Dourada) em 1800, mas outros acusam LaVey de simplesmente mudar as referências ao cristianismo com as de Satã.

Ao projetar esses rituais, LaVey baseou-se em uma variedade de fontes mais antigas, com o estudioso do satanismo Per Faxneld observando que LaVey “montou rituais de uma miscelânea de fontes históricas, literárias e esotéricas”. LaVey brincou abertamente com o uso da literatura e da cultura popular em outros rituais e cerimônias, apelando assim ao artifício, pompa e carisma. Por exemplo, ele publicou um esboço de um ritual que ele chamou de “Chamado a Cthulhu”, que se baseava nas histórias do deus alienígena Cthulhu, de autoria do escritor de terror americano H. P. Lovecraft. Neste rito, programado para acontecer à noite em um local isolado perto de um turbulento corpo de água, um celebrante assume o papel de Cthulhu e aparece diante dos satanistas reunidos, assinando um pacto entre eles na linguagem da ficção de Lovecraft “Old Ones (Os Antigos)”.

  • O Morte Súbita inc tem uma seção inteiramente dedicada a Baixa Magia

RITUAIS E RITOS CERIMONIAIS:

No Livro de Belial, ele discute três tipos de rituais: rituais de luxúria que trabalham para atrair outra pessoa, rituais de destruição para destruir outra pessoa e rituais de compaixão para melhorar a saúde, inteligência e sucesso. Rituais de luxúria são projetados para atrair o parceiro romântico ou sexual desejado e podem envolver a masturbação, com o orgasmo como objetivo. Rituais de destruição são projetados para prejudicar os outros e envolvem a aniquilação simbólica de um inimigo através do uso de sacrifício humano “vicário”, muitas vezes envolvendo uma efígie personalizada representando a vítima pretendida que é então submetida a fogo ritual, esmagamento ou outra representação de obliteração . Os rituais de compaixão são projetados com a intenção de ajudar as pessoas (incluindo a si mesmo), para evocar um sentimento de tristeza ou tristeza, e o choro é fortemente encorajado.

Nos Rituais Satânicos, LaVey faz uma distinção entre o ritual e a cerimônia, afirmando que os rituais “… são direcionados para um fim específico que o performer deseja”, e que as cerimônias são “… evento, aspecto da vida, personagem admirado, ou declaração de fé (…) um ritual serve para atingir, enquanto uma cerimônia serve para sustentar”. LaVey enfatizou que em sua tradição, os ritos satânicos vinham em duas formas, nenhuma das quais eram atos de adoração; em sua terminologia, os “rituais” tinham a intenção de provocar mudanças, enquanto as “cerimônias” celebravam uma ocasião particular.

Um batismo satânico é uma cerimônia para uma criança que se destina a ser um reconhecimento simbólico da criança como tendo nascido satanista e só deve ser realizada para menores de quatro anos, pois LaVey afirmou que além dessa idade, a criança já começou a ser influenciado por ideias “alienígenas”. Os batismos de adultos servem como uma declaração de “fé”, onde “falsidades, hipocrisia e vergonha do passado” são simbolicamente rejeitadas. Em 1967, LaVey realizou o primeiro batismo satânico registrado publicamente na história para sua filha mais nova, Zeena, que ganhou publicidade mundial e foi originalmente gravado no LP, The Satanic Mass (A Missa Satânica). Os Batismos Satânicos foram escritos por LaVey e publicados em Os Rituais Satânicos.

Em fevereiro de 1967, LaVey oficiou o primeiro casamento satânico, o casamento muito divulgado de Judith Case e o jornalista John Raymond. O primeiro funeral satânico foi para o mecânico-reparador naval dos EUA, de terceira classe e membro da Igreja de Satã, Edward Olsen. Foi realizado por LaVey a pedido da esposa de Olsen, completo com uma guarda de honra com capacete cromado. Ambas as cerimônias foram escritas por LaVey, mas nunca foram publicadas oficialmente até 2007, quando As Escrituras Satânicas lançou ao público uma versão adaptada delas pelo atual Sumo Sacerdote da Igreja, Peter H. Gilmore.

Junto com as cerimônias de casamento e funeral, As Escrituras Satânicas de Gilmore também publicou um rito menor de dedicação de objetos cerimoniais, que satiriza os rituais de ‘limpeza’ de outras religiões, e o Ragnarök Rite (Rito do Ragnarök), um ritual escrito por Gilmore na década de 1980 inspirado no o antigo mito nórdico do Ragnarök pretendia expurgar seus participantes da angústia e do ódio despertados após serem vítimas do fanatismo religioso.

A MISSA NEGRA:

LaVey também desenvolveu sua própria Missa Negra, que foi concebida como uma forma de descondicionamento para libertar o participante de quaisquer inibições que desenvolvessem ao viver na sociedade cristã. Ele observou que ao compor o rito da Missa Negra, ele se baseou no trabalho de Charles Baudelaire e Joris-Karl Huysmans.

SIMBOLISMO:

Os Quatro Príncipes Coroados do Inferno:

LaVey utilizou o simbolismo dos Quatro Príncipes Herdeiros do Inferno na Bíblia Satânica, com cada capítulo do livro sendo nomeado após cada Príncipe. O Livro de Satã: A Diatribe Infernal, O Livro de Lúcifer: A Iluminação, O Livro de Belial: Domínio da Terra, e O Livro do Leviatã: O Mar Furioso. Esta associação foi inspirada na hierarquia demoníaca do Livro da Magia Sagrada de Abra-Melin, o Mago.

  • Satã (hebraico) “O Senhor do Inferno”:

O adversário, representando a oposição, o elemento fogo, a direção do sul e o Sigilo de Baphomet durante o ritual.

  • Lúcifer (romano) “A Estrela da Manhã”:

O portador da luz, representando orgulho e iluminação, o elemento ar, a direção do leste e velas durante o ritual.

  • Belial (hebraico) “O Sem Mestre”:

A baixeza da terra, independência e autossuficiência, o elemento terra, a direção do norte e a espada durante o ritual.

  • Leviatã (hebraico) “A Serpente do Abismo”:

O grande dragão, representando o segredo primordial, o elemento água, a direção do oeste e o cálice durante o ritual.

Frases:

Hail Satan (Salve Satã)” uma saudação comum e termo ritual na Igreja de Satã, tanto em sua forma inglesa, Hail Satan, bem como na versão original em latim, Ave Satanas. Quando Ave Satanas é usado, muitas vezes é precedido pelo termo Rege Satanas (“Satã Reina”). (Rege Satanas pode ser ouvido no vídeo de um casamento amplamente divulgado da Igreja de Satã realizado por LaVey em 1º de fevereiro de 1967.) A combinação “Rege Satanas, Ave Satanas, Hail Satan!” é encontrado como uma saudação na correspondência inicial da Igreja de Satã, bem como em sua gravação de 1968, The Satanic Mass (A Missa Satânica) e, finalmente, em seu livro de 1969, A Bíblia Satânica. A frase é usada em algumas versões da Missa Negra, onde muitas vezes acompanha a frase Shemhamforash e é dita no final de cada oração. Este rito foi realizado pela Igreja de Satã aparecendo no documentário Satanis em 1969.

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Principais fontes:

Aquino, Michael (2002). The Church of Satan.

Barton, Blanche (1992). The Secret Life of a Satanist: The Authorized Biography of Anton Lavey. Feral House. p. 86. ISBN 978-0-922915-12-5.

Gilmore, Peter H. (2007). The Satanic Scriptures. Baltimore (MD): Scapegoat Publishing. pp. 131–182.

Gunn, Joshua (2005). “Prime-time Satanism: rumor-panic and the work of iconic topoi”. Visual Communication. 4 (1): 93–120. doi:10.1177/1470357205048939. S2CID 144737058.

LaVey, Anton (1969). The Satanic Bible. Avon.

LaVey, Anton, The Satanic Mass, LP (Murgenstrumm Records, 1968)

Melech, Aubrey (1985). La Messe Noire (PDF). London: Sui Anubis. p. 52. ISBN 0-947762-03-5.

Mortensen, William; Dunham, George (2014). The Command to Look: A Master Photographer’s Method for Controlling the Human Gaze. p. 203.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/a-magia-maior-e-a-magia-menor-no-satanismo/

2112, Rush

Esse disco talvez deveria estar entre os Top 10, mas talvez Rush ainda não tenha entre os satanistas brasileiros o devido valor que mereça. O primeiro motivo que por sí só bastaria para justificar este nobre lugar na lista dos álbuns máis satânicos de todos os tempos é que simplesmente a 2112 do Rush devemos a existência do Venom. Não acredita? Pois ouça/leia as palavras do senhor Conrad Lant, mais conhecido pela alcunha de Cronos:

“Eu tinha 14 anos de idade e estava mais ligado na onda punk, o que era natural naquela época, mas então eu vi aquela capa, aquele pentagrama sinistro, e quando ouvi o disco, era como se tivesse sido levado para uma outra dimensão, muito além da minha consciência, algo que para um garoto 14 anos, foi sublime. Foi meu primeiro contato com o Satanismo do qual pratico hoje, largamente inspirado em Ayn Rand.”

Depois dessa crianças, façam um favor a si mesmos: comprem, emprestem, baixem, roubem esse disco e ouçam até estarem completamente doutrinados pelas idéias genias da profeta do egoísmo materialista, nossa grande musa Ayn Rand.

Rush ( 2112 )

 

“I lie awake, staring out at the bleakness

of Megadon. City and sky become one, merging

into a single plane, a vast sea of unbroken

grey. The Twin Moons, just two pale orbs as

they trace their way across the steely sky.

I used to think I had a pretty good life here,

just plugging into my machine for the day,

then watching Templevision or reading a Temple

Paper in the evening. My friend Jon always

said it was nicer here than under the atmospheric

domes of the Outer Planets. We have had peace

since 2062, when the surviving planets were

banded together under the Red Star of the Solar

Federation. The less fortunate gave us a few new

moons. I believed what I was told. I thought it

was a good life, I thought I was happy.

Then I found something that changed it all…”

Anonymous, 2112

I. Overture 0:00

“And the meek shall inherit the earth.”

II. Temples of Syrinx

… “The massive grey walls of the Temples

rise from the heart of every Federation city.

I have always been awed by them, to think that

every single facet of every life is regulated

and directed from within! Our books, our music,

our work and play are all looked after by the

benevolent wisdom of the priests…”

We’ve taken care of everything

The words you hear the songs you sing

The pictures that give pleasure to your eyes.

It’s one for all and all for one

We work together common sons

Never need to wonder how or why.

We are the Priests of the Temples of Syrinx

Our great computers

Fill the hallowed halls

We are the Priests of the Temples of Syrinx

All the gifts of life

Are held within our walls

Look around this world we made

Equality our stock in trade

Come and join the Brotherhood of Man

Oh what a nice contented world!

Let the banners be unfurled

Hold the Red Star proudly high in hand.

We are the Priests, of the Temples of Syrinx

Our great computers

Fill the hallowed halls

We are the Priests, of the Temples of Syrinx

All the gifts of life

Are held within our walls

III. Discovery

… “Behind my beloved waterfall, in the

little room that was hidden beneath the cave,

I found it. I brushed away the dust of the years,

and picked it up, holding it reverently in my

hands. I had no idea what it might be, but it

was beautifulu201d…

… “I learned to lay my fingers across the wires,

and to turn the keys to make them sound differently.

As I struck the wires with my other hand, I produced

my first harmonious sounds, and soon my own music!

How different it could be from the music

of the Temples!

I can’t wait to tell the priests about it! …”

What can this strange device be?

When I touch it, it gives forth a sound

It’s got wires that vibrate and give music

What can this thing are that I found?

See how it sings like a sad heart

And joyously screams out its pain

Sounds that build high like a mountain

Or notes that fall gently like rain.

I can’t wait to share this new wonder

The people will all see its light

Let them all make their own music

The Priests praise my name on this night.

IV. Presentation

… “In the sudden silence as I finished playing,

I looked up to a circle of grim, expressionless faces.

Father Brown rose to his feet, and his somnolent voice

echoed throughout the silent Temple Hall.u201d…

… “Instead of the grateful joy that I expected,

they were words of quiet rejection! Instead of praise,

sullen dismissal. I watched in shock and horror as Father

Brown ground my precious instrument to splinters

beneath his feet…”

I know it’s most unusual

To come before you so

But I’ve found an ancient miracle

I thought that you should know

Listen to my music

And hear what it can do

There’s something here as strong as life

I know that it will reach you.

Yes, we know it’s nothing new

It’s just a waste of time

We have no need for ancient ways

The world is doing fine

Another toy will help destroy

The elder race of man

Forget about your silly whim

It doesn’t fit the plan.

I can’t believe you’re saying

These things just can’t be true

Our world could use this beauty

Just think what we might do.

Listen to my music

And hear what it can do

There’s something here as strong as life

I know that it will reach you.

Don’t annoy us further

We have our work to do.

Just think about the average

What use have they for you?

Another toy will help destroy

The elder race of man

Forget about your silly whim

It doesn’t fit the plan.

V. Oracle: The Dream

… “I guess it was a dream, but even now it all

seems so vivid to me. Clearly yet I see the

beckoning hand of the oracle as he stood at the

summit of the staircaseu201d…

… “I see still the incredible beauty of the

sculptured cities and the pure spirit of man revealed

in the lives and works of this world. I was overwhelmed

by both wonder and understanding as I saw a completely

different way to life, a way that had been crushed

by the Federation long ago. I saw now how meaningless

life had become with the loss of all these things…u201d

I wandered home though the silent streets

And fell into a fitful sleep

Escape to realms beyond the night

Dream can’t you show me the light?

I stand atop a spiral stair

An oracle confronts me there

He leads me on light years away

Through astral nights, galactic days

I see the works of gifted hands

That grace this strange and wondrous land

I see the hand of man arise

With hungry mind and open eyes

They left the planet long ago

The elder race still learn and grow

Their power grows with purpose strong

To claim the home where they belong

Home, to tear the Temples down…

Home, to change.

VI. Soliloquy

… “I have not left this cave for days now, it has

become my last refuge in my total despair. I have only

the music of the waterfall to comfort me now. I can

no longer live under the control of the Federation,

but there is no other place to go. My last hope is

that with my death I may pass into the world of my

dream, and know peace at last.”

The sleep is still in my eyes

The dream is still in my head

I heave a sigh and sadly smile

And lie a while in bed

I wish that it might come to pass

Not fade like all my dreams

Just think of what my life might be

In a world like I have seen

I don’t think I can carry on

Carry on this cold and empty life

Oh…no.

My spirits are low in the depths of despair

My lifeblood spills over.

VII. The Grand Finale

Attention all Planets of the Solar Federation

Attention all Planets of the Solar Federation

Attention all Planets of the Solar Federation

We have assumed control.

We have assumed control.

We have assumed control.

………………………………………………………………..

Tradução de 2112

“Eu deito acordado, olhando fixamente para a frieza de Megadon.

Cidade e céu tornam-se um, fundindo-se em um único plano, um vasto mar de contínuo cinza.

As Luas Gêmeas, apenas dois corpos pálidos enquanto traçam seus caminhos pelo céu de aço.

Eu pensava que eu tinha uma vida muito boa aqui, conectando em minha máquina durante o dia,

depois assistindo Templovisão ou lendo um Templo Jornal a noite.”

Meu amigo Jon sempre disse que era mais legal aqui

do que sob as cúpulas das atmosferas dos Planetas de Fora.

Temos tido paz desde 2062,

quando os planetas sobreviventes foram unidos sob a Estrela Vermelha da Federação Solar.

O menos afortunado nos deu algumas luas novas.

Eu acreditei no que me contaram.

Eu pensei que era uma boa vida, eu pensei que era feliz.

Então eu encontrei algo que mudou isto tudo…”

I. Abertura

“E os humildes devem herdar a terra…”

II. Templos de Siringe

… “As muralhas cinzas e maciças dos Templos erguem-se do coração de cada cidade da Federação.

Eu sempre fui amedrontado por elas, para pensar que cada atividade de cada vida é regulada e dirigida do seu interior!

Nossos livros, nossa música, nosso trabalho e diversão

são todos cuidados pela sabedoria benevolente dos sacerdotes…

Nós temos tomado conta de tudo

As palavras que vocês ouvem as canções que cantam

As imagens que dão satisfação aos seus olhos.

É um por todos e todos por um

Nós trabalhamos juntos, filhos da mesma terra

Nunca precisamos perguntar como ou por quê.

Nós somos os Sacerdotes dos Templos de Siringe

Nossos grandes computadores preenchem os salões sagrados.

Nós somos os Sacerdotes dos Templos de Siringe

Todas as dádivas de vida são mantidas dentro de nossas muralhas.

Olhe em volta para este mundo que fizemos

Igualdade é o nosso lema

Venha e junte-se a Fraternidade de Homens

Oh, que mundo lindo e feliz

Deixe as bandeiras se estenderem

Segure a Estrela Vermelha orgulhosamente ao alto.

Nós somos os Sacerdotes dos Templos de Siringe

Nossos grandes computadores preenchem os salões sagrados.

Nós somos os Sacerdotes dos Templos de Siringe

Todas as dádivas de vida são mantidas dentro de nossas muralhas.

III. Descobrimento

…”Atrás da minha querida cascata, no pequeno quarto que era escondido abaixo da gruta, eu o encontrei.

Eu esfreguei a sujeira de anos e o peguei, segurando com honra em minhas mãos.

Eu não tinha idéia do que poderia ser, mas era bonito”…

…”Eu aprendi a acomodar meus dedos pelas cordas e a girar as chaves para fazê-las soarem de forma diferente.

Conforme eu batia nas cordas com minha outra mão, eu produzi meu primeiro som harmônico, e logo minha própria música!

Quão diferente ela poderia ser das músicas dos Templos! Não posso esperar para contar aos sacerdotes sobre isto!…”

O que pode ser este estranho aparelho?

Quando eu o toco, ele emite um som

Ele tem cordas que vibram e geram música

O que pode ser esta coisa que encontrei?

Veja como ele canta como um coração triste

E alegremente grita seu sofrimento

Sons que se formam altos como uma montanha

Ou notas que caem suaves como chuva.

Não posso esperar para compartilhar esta nova maravilha

As pessoas todas verão a sua luz

Deixá-las todas fazerem suas próprias músicas

Os sacerdotes louvarão meu nome nesta noite.

IV. Apresentação

…”No silêncio repentino, assim que terminei de tocar, olhei para um círculo de repugnância, rostos sem expressões.

Padre Brown levantou-se e sua voz sonolenta ecoou pelo silencioso Salão do Templo.”…

…”Ao invés do alegre agradecimento que eu esperava, houve palavras de rejeição!

Ao invés de elogios, dispensa mau-humorada. Eu assisti chocado e horrorizado quando Padre Brown triturou meu precioso instrumento em pedaços sob seus pés…”

Eu sei que isto é muito incomum

Vir perante vocês assim

Mas eu encontrei uma maravilha antiga

Pensei que vocês deveriam conhecer

Ouçam minha música

E escutem o que ela pode fazer

Há algo aqui tão forte como a vida

Eu sei que ela tocará vocês.

Sim, nós conhecemos, não é nada de novo

É só perda de tempo

Nós não precisamos de coisas antigas

Nosso mundo está indo bem.

Outra ninharia ajudará a destruir

A raça antiga do homem

Esqueça sua fantasia boba

Ela não se encaixa no plano.

Não posso acreditar no que vocês estão dizendo

Estas coisas não podem ser verdade

Nosso mundo poderia usar esta beleza

Pense no que poderemos fazer.

Ouçam minha música

E escutem o que ela ela pode fazer

Há algo aqui tão forte como a vida

Eu sei que ela tocará vocês.

Não nos incomode mais!

Temos nosso trabalho à fazer.

Pense nos prejuízos

Que utilidade eles têm para você?

Outra ninharia ajudará a destruir

A raça antiga do homem

Esqueça sua fantasia boba

Ela não se encaixa no plano!

V. Oráculo: O Sonho

…”Eu acho que foi um sonho, mas mesmo agora tudo parece tão nítido para mim.

Claramente ainda vejo a mão do oráculo acenando quando parado no topo da escadaria”…

…”Ainda vejo a inacreditável beleza das cidades esculpidas e o espírito puro do homem manifestado nas vidas e atividades deste mundo.

Eu fui oprimido por ambos, desejo e juízo quando eu vi uma forma completamente diferente de viver, uma forma que foi arrasada pela Federação há muito tempo.

Eu vi agora quão insignificante a vida se tornou com a perda de todas estas coisas…”

Eu vaguei para casa por ruas em silêncio

E caí em um sono profundo

A saída para reinos além da noite

Sonho, você não pode me mostrar a luz?

Eu paro no alto de uma escada espiral

Um oráculo me encontra lá

Ele me guia por anos-luz distantes

Por noites astrais, dias galácticos

Vejo os trabalhos de mãos talentosas

Que encantam esta estranha e maravilhosa terra

Eu vejo a mão do homem levantar

Com a mente faminta e olhos abertos

Eles deixaram o planeta há muito tempo

A raça antiga ainda aprende e cresce

Sua força cresce com um forte propósito

De reivindicar o lar ao qual pertencem

Voltar para romper com os Templos…

Voltar para mudar!

VI. Solilóquio

…”Eu não deixo esta gruta faz dias, ela se tornou meu último abrigo no meu desânimo total.

Eu tenho apenas a música da queda d’água para confortar-me agora.

Não posso mais viver sob o controle da Federação, mas não há outro lugar para ir.

Minha última esperança é que com minha morte eu possa passar para o mundo do meu sonho, e conhecer a paz afinal.”

O sono ainda está em meus olhos

O sonho ainda está em minha cabeça

Eu suspiro e sorrio triste

E deito um instante na cama

Quisera que isto pudesse acontecer

Não sumir como todos meus sonhos…

Pense que minha vida poderia ser

Em um mundo como eu vi!

Não acho que posso suportar…

Suportar esta vida fria e vazia

Minhas vitalidades estão baixas nas profundezas do desânimo

Meu sangue…

…derrama…

VII. O Grande Final

Atenção todos Planetas da Federação Solar

Atenção todos Planetas da Federação Solar

Atenção todos Planetas da Federação Solar

Nós assumimos o controle.

Nós assumimos o controle.

Nós assumimos o controle.

Nº 81 – Os 100 álbuns satânicos mais importantes de todos os tempos

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/musica-e-ocultismo/2112-rush/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/musica-e-ocultismo/2112-rush/

A biologia na alquimia: correlações para uma educação alquímica

Marcelo Ribeiro dos Santos[1]

Carlos Eduardo Albuquerque Miranda[2]

Marcus Alexandre Finzi Corat[3]

I. INTRODUÇÃO

Alquimia. Permanece a grande dúvida fomentada por milênios de ocultamento proposital. Com que intenção? Pura burla? Piada milenar atravessando o tempo com comediantes pontuais extremamente meticulosos? A mentira para obter poder? Deter conhecimentos fictícios sobre a imortalidade e a riqueza infinita para melhor ascender sobre seus contemporâneos? Pouco provável. Alquimistas sempre foram renegados, vivendo à margem da sociedade, mesmo quando favorecidos por algum mecenato ambicioso. Alquimistas, ao que se sabe, tiveram vidas sacrificadas até que conseguissem a Pedra. Mesmo após a coroação de sua obra, não obtinham proveito próprio e viviam humildemente, como parecem sugerir os escritos sobre a vida de Nicolas Flamel. Mas obtinham realmente a Pedra? A Pedra dos Filósofos. A Pedra Filosofal, no caminho para a qual deviam realizar obrigatoriamente o Xir, El Ixir, o Elixir da Longa Vida. Fábulas?

Mas ao invés de especularmos sobre e de antemão descartarmos o conhecimento alquímico, talvez seja proveitoso deitar um olhar mais sereno e ordenado, fugindo dos extremos metafísicos dos realistas, que enxergam a alquimia como precursora da química, ou dos idealistas de verve Junguiana, que a consideram como simbolismo arquetípico de um processo interno de depuração e individuação psíquica. Não vamos aqui discorrer sobre estes dois caminhos já vastamente percorridos, mas sim propor uma análise baseada nos conceitos de Henri Bergson, filósofo Francês do final do século XIX que, apesar de reconhecido em seu tempo com um prêmio Nobel, tem sido sistematicamente relegado ao esquecimento pela Ciência contemporânea.

Utilizaremos aqui uma ferramenta conceitual já testada em outras investigações por nós efetuadas, a qual denominamos “Acordeom de Bergson” (Fig.1). Este apelido visa descrever as qualidades de expansão e contração da memória e as ressonâncias virtuais no objeto, descritas pelo esquema, que representa o que Bergson chama de “memória reflexiva”; aquela que utilizamos quando estamos atentos a um objeto desejando extrair dele, através de um circuito expansivo com nossa memória objetiva (A,B,C,D), as camadas virtuais presentes na memória intuitiva que nos permitam uma apreciação cada vez mais complexa voltada para a ação sobre o próprio objeto (O, B’,C’,D’). A profundidade de visão assim obtida nos permitirá uma versatilidade cada vez maior em nossas ações, ou esboços de ações, passíveis de serem executadas sobre o objeto percebido (BERGSON, 1991).

Figura 1 – o “Acordeom de Bergson”

 

Temos em vista que o objeto de nossa análise não é a Alquimia em si, tão diáfana e impalpável, mas sim os textos e imagens alquímicas que chegaram até nós. São com estes textos e imagens que desejamos fazer circuito, começando com um olhar de criança, que enxerga diferenças e semelhanças óbvias, para gradualmente expandirmos os níveis de complexidade de nossa memória à medida que se desvendam as camadas virtuais dadas nos próprios textos e imagens. Esperamos assim conseguir uma compreensão prática e útil do conhecimento alquímico, saindo da esfera da pura teorização estéril.

 

II. ALQUIMIA

A imediata associação que o pensamento comum nos traz sobre a Alquimia é o seu papel como precursora da química, para a qual contribuiu com diversos achados e técnicas. Esta contribuição pode de fato ter acontecido, porém quando nos deparamos com a materialidade dos textos e imagens que chegaram até nossos dias, nada vemos que nos remeta à química, exceto talvez a construção de misturas e reações entre elementos com o intuito de uma transformação ou produto final diferenciado, assim como, o nome de algumas substâncias principais tais como os Sais, o Enxofre e o Mercúrio. Estas três substâncias são recorrentes, porém também recorrente é a afirmação de que não correspondem às substâncias químicas reativas e vulgares que recebem estes nomes, mas sim, a estados ou “fases” separadas de uma mesma matéria inicial. Temos, portanto, o direito de desfocarmos nossos pensamentos da opinião comum materialista e caminharmos num sentido de análise filosófica metafísica nos levando não mais para o campo da química, mas agora, para as sinergias da alquimia para com as práticas biológicas de cultivo celular. Para delimitar nosso campo de análise, poderíamos começar por determinar o que a alquimia não é:

A atitude e o método do alquimista devem, portanto, ser totalmente distintos daqueles adotados pelo químico. A Alquimia não buscava tão-somente lidar com metais e suas inter-relações, nem mesmo tratar com as matérias das quais se interessava a química, mais ainda, não investigava assuntos que a química tornou de sua alçada. Não encontraremos em trabalhos alquímicos nenhum intento de estabelecer ou concluir catálogo ou tabela de substâncias conhecidas, nem mesmo o cuidado de estabelecer suas propriedades, nem mesmo a intenção de mostrar como uma classe de corpos passa a outra (FLAMEL, 1973).

Mas o que seria então a alquimia? Libertando-nos de preconceitos, podemos lançar mão de nossa ferramenta metodológica para desdobrarmos as camadas virtuais presentes em nosso objeto, atingindo níveis cada vez mais profundos de sua realidade. Ao aplicarmos nossa “memória reflexiva” em seus níveis mais primários, aqueles que detectam apenas diferenças e semelhanças entre objetos percebidos, podemos separar nosso material alquímico em dois grandes grupos: os textos e as imagens.

Vamos nos ater inicialmente aos textos: detectamos textos que se parecem com enredos teatrais, tendo como personagens as substâncias e processos alquímicos, com enredos descritivos e diálogos, os quais dramatizam o que parece ser a descrição de um processo e um protocolo de ação (ex: Zózimo de Panóplis, Maria a Profetiza, CALID apud ZALBIDEA et al., 1980)

Existem também textos semelhantes a receitas, ou protocolos experimentais, com descrições impessoais pormenorizadas dos passos a seguir (BACON apud ZALBIDEA et al., 1980). Outros textos são vinculados a imagens e funcionam como explicação detalhada e descrição destas (ex: Nicolau Flamel, BASÍLIO VALENTIM apud ZALBIDEA et al., 1980). Em todos os casos temos a impressão de estarmos diante de instruções genéricas sobre a consecução de um mesmo processo.

As imagens, quando analisadas em separado, nos apresentam a princípio uma profusão delirante de personagens míticos ou quiméricos, além de objetos e equipamentos os mais variados. Temos símbolos astrológicos em abundância e menções bíblicas. Mas quando abstraímos esta multidão pictórica e nos atemos à composição e ao ordenamento das figuras, vemos claramente os sinais inconfundíveis da Arte da Memória. Poderíamos dizer, modernamente, que há arquitetura gráfica, que distingue um arranjo qualquer de um arranjo que faz parte de um programa de educação visão-memória, historicamente agenciada e que tonar-se recorrente na cultural visual, moderna e contemporâneo (ALMEIDA, 1999; MIRANDA, 2001).

A Arte da Memória clássica e medieval trabalhava basicamente com imagens agentes imaginárias colocadas em construções e “nichos” de memória, que deveriam ser seriados e numerados, permitindo ao operador percorre-los a seu bel prazer, extraindo das figuras impactantes as lembranças de que necessitava (YATES, 2013). Um exemplo bastante explícito deste uso das imagens como arquitetura mental visando a rememoração do processo alquímico encontra-se no Arco pintado por encomenda de Nicolas Flamel e sua esposa Perrenelle na Igreja do Cemitério dos Inocentes, em Paris.

Figura 2 -Arco pintado por Nicolas Flamel no Cemitério dos Inocentes (FLAMEL, 1973)

Em outra linha de figuração alquímica temos o famoso “Mutus Liber” ou “Livro Mudo” (Sulat, 1667), que consiste de uma sequência de imagens com apenas algumas curtas frases de texto. O objetivo explícito desse livro é fornecer ao leitor instruções sobre o processo alquímico somente de modo figurativo, de tal maneira que leitores, em qualquer língua, possam compreender o processo.

O fato é que, quer levemos em conta os textos, as imagens ou ambos, sempre nos deparamos com uma espécie de “receita”, ou melhor, receitas diversas para a consecução de um mesmo processo. Temos alguns elementos básicos recorrentes na alquimia, que podem, no entanto, sofrer acréscimos ou variar em sua ordem de manipulação, aproximadamente da mesma maneira com que, para fazermos pão, precisamos ao menos de farinha, água e calor, porém com os inúmeros acréscimos de ingredientes e diferenças de receita, teremos pães de formatos e sabores variados, porém sempre reconhecíveis como pão.

Temos assim uma instância básica de memória reflexiva que, ao fazer circuito com os textos e imagens alquímicos, recria-os enquanto receitas ou protocolos variados para a obtenção dos mesmos fins: o Elixir da Longa Vida e a Pedra Filosofal, um visando à extensão da vida e a outra à transmutação de metais inferiores em ouro. As imagens relacionadas a estes protocolos compõem um processo educativo que se harmoniza, em alguns casos, com os preceitos da Arte da Memória clássica e medieval, em outros, com a imagética figurativa e didática mais próxima à de Comenius (MIRANDA, 2011). Mas teriam estas receitas tão variadas uma consistência funcional? Para determinar isso teríamos que continuar a utilizar nossa memória de diferenciação, porém agora a aplicando ao conteúdo dos textos e imagens e não mais à sua apresentação genérica. Daqui para frente, pretendemos discorrer sobre a nossa interpretação dos relatos e imagens encontrados nos textos alquímicos rumo à obtenção do elixir da vida e contextualizando-os à prática da cultura de células na biologia dos dias atuais, trazendo-a como fruto de uma memória ressonante. Vamos analisar, na sequência, os 5 conteúdos reconhecíveis como sendo recorrentes ou básicos do processo alquímico: o Fogo Alquímico, a Matéria Alquímica, os Elementos Alquímicos, os Procedimentos Alquímicos, o Elixir de Longa Vida e a Pedra Filosofal.

O Forno Alquímico

Esqueçam a imagem de fornos fumegantes cheios de metal incandescente. O forno principal descrito pelos alquimistas mal pode ser chamado de forno, pois seria mais bem definido como uma estufa. O mesmo tipo de forno é representado tanto nas figuras de Flamel (Fig.2, canto esquerdo e arco central) como minuciosamente desenhado no “Mutus Liber”, conforme demonstra a figura abaixo, que representa um desses “fornos” com uma detalhada visão interna de seu funcionamento.

Figura 3 – Forno Alquímico (ROOB, 1996)

Podemos ver que a fonte de calor é uma simples lamparina colocada na parte mais baixa da estrutura. Isto condiz com as inúmeras recomendações dos alquimistas reiterando que não se deve usar fogo de madeira e que a temperatura deve ser constante e relativamente baixa.

Se esse fogo não é medido na proporção que lhe é própria, diz Calid; se ele é ateado com a espada, diz Pitágoras, se inflamas teu vaso, diz Morienus, e fa-lo sentir o ardor do fogo, ele te trará um revés… Além disso, deves sustenta-los perpetuamente neste calor temperado, isto é, noite e dia… (FLAMEL, 1973)

Podemos ver também um cone sobre a lamparina, sob a estrutura oval onde está o frasco ou “ovo alquímico”, geralmente descrito como sendo de vidro ou cerâmica vitrificada. Este cone pode ser um repositório de matéria vegetal (palha) úmida sobre a qual deveria ficar o “ovo alquímico” (o frasco de vidro contendo a matéria), conforme atestam as diversas menções e figuras alquímicas de galinhas chocando em um ninho de palha. Note-se que o fogo não tem contato direto com a câmara oval acima, servindo apenas para manter aquecido o cone, favorecendo a fermentação da palha que irradia um calor brando e uniforme na câmara oval, exalando também gás carbônico. As duas chaminés laterais distribuem o ar quente pelos lados da estrutura além de levar para o exterior qualquer tipo de fumaça, que não atinge assim a câmara oval, a qual apresenta também uma chaminé para saída do ar quente.

Temos, portanto, o desenho detalhado de uma engenhosa estufa artesanal visando manter uma temperatura tépida constante, umidade e alto teor de gás carbônico em sua câmara principal, devido à lenta fermentação da palha úmida favorecida pelo calor da lamparina que aquece o cone. Este não é o único tipo de forno que aparece nos desenhos alquímicos, mas é claramente o principal deles.

A Matéria Inicial (Matéria-Prima)

O que constitui a Matéria-Prima da Obra? Aqui tocamos no grande arcano dos alquimistas, que se recusam a se referir diretamente a este segredo inviolável, usando sempre linguagem figurativa quando falavam sobre ele. Será mesmo? “Chamaram-lhe semente, que quando se transforma se torna em sangue e logo se coalha e se converte numa espécie de carne composta;…(CALID in ZALBIDEA et al., 1980)”.

Portanto, apesar dos protestos veementes de Flamel que diz não se tratar de sangue – “que é maldoso e vil” -, podemos estar bastante certos de que se trata aqui de matéria biológica relacionada ao sangue, provavelmente de origem humana, o que justificaria plenamente o grande segredo zelosamente mantido, visto que a Idade Média absolutamente não olhava com bons olhos a profanação cirúrgica do corpo humano, ainda que de cadáveres, considerando esta atividade correlata com a bruxaria. Certamente os alquimistas já tinham problemas suficientes…

Os Elementos Alquímicos

Todos os textos são unânimes em afirmar que a Obra é feita a partir da separação e recombinação de elementos extraídos de uma mesma matéria: “O nosso magistério vem primeiramente de uma raiz, que logo se expande e reparte em várias coisas e depois torna-se numa só coisa (CALID apud ZALBIDEA et al., 1980)”.

Perante este fato, fica claro que os três elementos básicos sempre recorrentes na linguagem alquímica, o Mercúrio, o Enxofre (ou Latão) e os Sais, são nada mais que designações de estados ou frações da matéria básica. Os próprios alquimistas repetem incessantemente que não se trata dos elementos químicos vulgares conhecidos com estes nomes.

Filósofos escondem altas lembranças
Que não se dirigem a crianças;
Quando citamos metais vulgares,
Só por figuras disciplinares:
Pois eles sabem que esses metais
São todos mortos (disso falar não mais)
Que jamais retomarão
Substância e vida, antes repousarão[…] (FLAMEL, 1973).

O Mercúrio é descrito como sendo translúcido e branco como a lua, além de líquido e volátil. O Enxofre, algumas vezes designado como Latão, é amarelo alaranjado como o sol e de natureza oleosa ou gelatinosa, através de sua calcinação obtém-se os Sais ou cinzas de natureza seca e em forma de pó. A separação e mistura repetida dessas substâncias oriundas da mesma Matéria viva tem o intuito de potencializar a vitalidade desta, até a consecução do Elixir, considerado a primeira etapa da Obra.

Os Procedimentos Alquímicos

Elaboramos uma listagem comentada dos procedimentos básicos descritos nos textos alquímicos:

Decantação: deposição da parte sólida de um composto por ação da gravidade.

Calcinação: secagem dos elementos através do calor.

Dissolução: solubilização de elementos coagulados.

Separação: separação de elementos por filtragem ou decantação.

Conjunção: reunião de elementos.

Putrefação: coagulação de uma camada negra sobre o Mercúrio, ou meio líquido.

Coagulação: solidificação da matéria líquida.

Umidificação: Saturação das matérias secas com líquido.

Sublimação: extração por destilação ou volatilização.

Exaltação: aumento do poder ou vitalidade do Elixir ou da Pedra Filosofal.

Multiplicação: aumento vegetativo na quantidade do Elixir ou da Pedra Filosofal.

Projeção: transmutação de metais.

O Elixir da Longa Vida e a Pedra Filosofal

A consecução da Obra é a obtenção de um objeto descrito como sendo de textura macia e coloração vermelha, que pode ser usado como panaceia universal, prolongando indefinidamente a vida, ou pode ser utilizado para transmutar metais inferiores em ouro e prata, caso em que é chamado de Pedra Filosofal. No caso da transmutação em metais devia-se deixar este fermento vermelho ou purpúreo incubado durante certo tempo com pó de ouro, após o que adquiriria a propriedade de transmutar chumbo ou mercúrio metálico no mais nobre dos metais. Obtendo assim a imortalidade relativa e a riqueza infinita, o alquimista dá o devido valor à vida, desprezando a mesquinhez e utilizando as bênçãos recebidas para anonimamente auxiliar e curar ao próximo. Percebe-se assim a consistência material e espiritual deste sistema extremamente detalhado de obtenção da felicidade humana.

Não temos de maneira alguma a pretensão de haver esgotado nesta breve resenha toda a riqueza de materiais e procedimentos descritos pelos inúmeros textos e imagens remanescentes, no entanto, o delineamento que fizemos nos fornece uma visão orgânica e genérica do fenômeno que estamos analisando. Poderíamos resumir esta visão genérica como: um conjunto de textos e imagens que esboçam uma receita ou protocolo que é efetuado em estufas, com calor brando e constante, a partir de uma matéria inicial relacionada com o sangue a qual é separada em seus componentes líquido e sólido, os quais são recombinados de diversas maneiras para que se obtenha uma matéria final extremamente vitalizada e capaz de curar e rejuvenescer pessoas e transmutar metais. Tendo assim um bom esboço de nosso objeto, podemos agora expandir nossa memória reflexiva buscando sistemas semelhantes ao que esboçamos. Assim, imediatamente nos ocorre a semelhança surpreendente com um sistema de textos e imagens atuais que conhecemos bem: os protocolos de cultivo de células tronco de medula-óssea.

De acordo com nossa metodologia, podemos agora compor estes dois sistemas em um circuito ressonante, pois verificamos que o cultivo de células-tronco de medula óssea possui todas as características que esboçamos em nosso resumo, visto que é um processo realizado em estufas a partir de um tecido semelhante a sangue espesso, que se encontra no interior dos ossos: a medula óssea. Atualmente utilizam-se meios de cultura comerciais especialmente formulados, porém o “soro” ou plasma sanguíneo; a fração líquida e translúcida do sangue; poderia perfeitamente ser usado como um meio de cultivo natural, desde que previamente preparado para isso através de processos semelhantes àqueles descritos na alquimia.

A utilização de frações purificadas de células mononucleares[1] de medula óssea já demonstrou sua eficácia terapêutica em diversos trabalhos científicos, havendo indícios de rejuvenescimento em animais experimentais (SANTOS, 2010), além da cura de paralisias por sequelas neuronais até então incuráveis (BRITO et al., 2010). Para aqueles que pesquisam nesta área, fica claro que a utilização desta terapêutica só não se generaliza devido às idiossincrasias socioeconômicas de nossa era.

Quanto à transmutação dos metais, sabemos que a utilização de culturas de bactérias e fungos unicelulares para a aceleração da transmutação de metais – por exemplo, o Manganês (Mg) em Ferro (Fe) (VYSOTSKII; KORNILOVA, 2011) – já é uma tecnologia incorporada à ciência das fusões a frio, uma das promessas tecnológicas para a geração de energia limpa. Será então assim tão absurdo pensar que as células-tronco poderiam, mediante certos protocolos de cultivo que desconhecemos, transmutar metais inferiores em ouro?

Mas será que poderíamos realmente conectar o processo alquímico com um protocolo de extração e purificação de células-tronco de medula óssea? Para ilustrar nossa hipótese, faremos uma narração do “Mutus Liber” ou “Livro Mudo” que se compõe de uma série de imagens sem texto as quais intencionam descrever figurativamente o processo alquímico. Nossa narração deverá formular um protocolo de extração artesanal, purificação e cultivo de células-tronco de medula óssea que terá que se adequar consistentemente às imagens alquímicas descritas. Vamos ao nosso experimento.

 

III. O “LIVRO MUDO” FALA

O “Mutus Liber” nos apresenta uma sequência de imagens que fogem bastante à regra da maior parte das imagens alquímicas. Enquanto estas se enquadram nitidamente nos cânones da Arte da Memória clássica e medieval (ver Fig.2) com suas imagens agentes exóticas e surpreendentes que visam despertar correlações mnemônicas, o “Mutus Liber” nos parece mais próximo das pretensões pedagógicas de um sistema contemporâneo a ele, elaborado por Jean Amos Comenius também em meados do século XVII para a educação escolar. Comenius, apesar de nitidamente influenciado pela Arte da Memória medieval, utiliza as figuras como suportes realistas de comentários didáticos. No entanto estas figuras são compostas de maneira a serem independentes do comentário (MIRANDA, 2011).

O “Mutus Liber” nos coloca perante um conjunto de equipamentos e uma sequência ordenada de atos realizados por um casal de personagens que cumprem uma determinada tarefa. O simbolismo aparece também, porém com uma função totalmente secundária e quase “hieroglífica”, ou nominativa, em relação ao conjunto das imagens, que se preocupam mais em figurar minuciosamente um protocolo de ação.

Realizaremos comentários didáticos, ao modo de Comenius, visando complementar as figuras para testar nossa hipótese de que a alquimia, conforme descrita pelos textos e imagens que conhecemos, pode funcionar como uma educação do cultivo artesanal de células-tronco. Para contextualizar nossos comentários, deveremos ter em mente que todo o processo deveria ser feito sem o auxílio da tecnologia que temos hoje, tais como microscópios, estufas elétricas com termostato e meios de cultura comerciais previamente formulados, portanto, teremos que nos orientar, como aparentemente faziam os alquimistas, pela coloração e formato das culturas de células. Além disso, deveremos ter uma etapa de síntese artesanal de um meio de cultivo realisticamente eficiente. Obviamente, utilizaremos nossos conhecimentos e linguagem atuais sobre cultivo de células, de modo a podermos perfazer o circuito que desejamos entre imagem e memória reflexiva.

Outra dimensão que deve ser levada em consideração é a atitude emocional e religiosa dos operadores, que aparentemente tinham uma preocupação com o momento astrológico das atividades e consideravam a oração continua como parte do processo: “Ora lege lege lege relege labora et invenies”[1]. No entanto, não nos ateremos aos fatores afetivo-religiosos em nosso protocolo, buscando apenas coerência técnica entre um protocolo de cultivo viável e as imagens do “Mutus Liber” (ROOB A., 1996)[2].

Deixaremos de fora a capa e a primeira prancha, que não parecem estar envolvidas com a descrição técnica. Destacamos em seu significado apenas o despertar para uma visão mais ampla da realidade. Começaremos nosso protocolo, portanto, a partir da prancha 2:

Prancha 2

Prancha 3

Prancha 2-) acima, temos a matéria inicial representada sob a forma de duas crianças e um homem adulto no interior do balão de vidro ou “ovo alquímico”. Veremos adiante que essa representação figura concretamente as fontes iniciais da obra, que provém de corpos humanos. Abaixo vemos um homem e uma mulher, ele em posição de oração e ela como que testando a temperatura que sai pela chaminé do forno que é na verdade uma estufa, sobre a qual já comentamos. Podemos pensar que a maior sensibilidade tátil e a excelente discriminação de cores das mulheres podem ser fatores indispensáveis na falta de termômetros e microscópios, sendo uma recomendação tradicional que a obra seja efetuada por um casal. Veremos que a mulher está com uma roupa diferente a cada imagem sucessiva e que é ela quem realiza as manipulações, ficando o homem mais como um auxiliar braçal. Esta troca de roupas pode nos sugerir a higiene perfeita, tanto do corpo dos operadores quanto dos objetos utilizados, necessária para o cultivo celular, sem a qual teríamos necessariamente contaminações na cultura. Esta necessidade de higiene e de uma matéria inicial limpa e saudável é destacada no início da Obra por diversos alquimistas.

Tal como o médico que purga as entranhas e limpa as sujeiras por meio dos medicamentos, do mesmo modo os nossos corpos devem ser purgados e limpos de todas as impurezas a fim de que, na nossa geração, o que é perfeito possa produzir operações perfeitas[…] (BASÍLIO VALENTIN apud ZALBIDEA et al., 1980)

 

Prancha 4

 Prancha 5

Nas pranchas com vários quadros (4, 5 e 6), estes serão nomeados como a,b,c,d,e,f. A leitura será feita de cima para baixo e da esquerda para a direita, conforme a escrita ocidental.

Prancha 4-) A formulação do meio de cultura ou Mercúrio dos Filósofos: a) A água de orvalho é despejada no jarro de destilação. b) A água de orvalho é destilada desprezando-se a parte inicial, a “cabeça do corvo”, que conterá uma mancha enegrecida com as substâncias voláteis diluídas no orvalho. Apenas a parte secundária deverá ser destilada e aproveitada. c) O sangue coletado dos operadores é aquecido até que se volatilize toda a parte líquida (Mercúrio volátil) restando apenas a parte sólida calcinada, seca sem queimar (Enxofre sólido). A seguir, repõe-se o líquido com a água de orvalho destilada, obtendo-se um meio de cultura esterilizado pelo calor e com todos os nutrientes necessários, porém sem células vivas: o Mercúrio Filosofal. Este meio de cultura é colocado em uma garrafa de cultivo juntamente com quatro pedaços da “Matéria Inicial”, cuja origem nos é mostrada no quadro seguinte. d) Aqui é mostrada claramente a origem da “Matéria Inicial” dos alquimistas. Trata-se das quatro extremidades do fêmur (epífises) de uma criança recém-morta, colocadas em uma garrafa por um homem de aspecto selvagem com o crescente do Islã no peito (ossos de crianças pagãs?). As extremidades do fêmur de bebês ou de fetos abortados seriam fontes abundantes de medula óssea e, portanto, das chamadas células-tronco pluripotentes, aquelas que ainda são totalmente indiferenciadas. Estas células seriam extremamente vigorosas, ainda possuindo longos telômeros[4] devido à sua juventude, e muito adequadas à terapia celular visando rejuvenescimento e regeneração. Se ao leitor essa correlação entre a figura e a utilização de ossos de bebês parece forçada, então talvez uma figura mais explícita o convença.  Trata-se de uma ilustração do tratado alquímico “Aurora Consurgens”, do século XIV.

Figura 4 – mulher parindo. “Aurora Consurgens” (ROOB, 1996, p.80)

Vemos na figura 4 a representação nua e crua de uma mulher (uma freira?) que acaba de parir ou abortar, oferecendo seu bebê ou feto em uma pequena trouxa para o signo de Leão, cujo astro, o Sol, é símbolo do ouro alquímico. Temos, porém, a mais explícita das declarações em um compêndio anônimo de textos medievais alquímicos publicado no século XVII:

Considero o grão metálico como a medula dos ossos…Nos ossos há também medulas de diferentes espécies, a melhor está no tubo dos ossos, e a outra, menos perfeita, está nas suas extremidades…esta porém está a caminho da perfeição da melhor medula; pois este osso esponjoso é coberto por uma cartilagem, e essa cartilagem é acompanhada de glândulas mucilaginosas, nas quais se coze e prepara a sinóvia, que, sob certos aspectos pode ser vista como uma matéria prima das cartilagens e da medula (anônimo, 2006).

Admirável rebuscamento e meticulosidade na descrição da medula óssea da diáfise dos ossos, contendo células medulares prontas, diferenciadas (“…e a outra, menos perfeita, com células-tronco indiferenciadas, está em suas extremidades…esta porém está a caminho da perfeição da melhor medula;…”) em uma época em que o estudo da anatomia em cadáveres era crime que levava à fogueira!

Nicolas Flamel também é bastante explícito quanto à origem da Obra:

Foram estas as coisas que me obrigaram a pôr essas figuras dessa maneira e num lugar como um cemitério, já que se alguém obtiver o bem inestimável da conquista de este rico velo, que pense como eu, que não se deve manter enterrado o talento de Deus comprando terras e propriedades, que são as vaidades deste mundo, mas que deve socorrer os seus irmãos, recordando-se de que este conhecimento foi adquirido com base nos ossos dos mortos… (FLAMEL apud ZALBIDEA et al., 1980)[5]

Olhando-se a questão deste ângulo, compreende-se o grande interesse de Flamel por um cemitério de crianças e suas doações generosas ao Cemitério dos Inocentes adquirem uma conotação não tão inocente. e) Em uma estufa de gás carbônico artesanal, realiza-se o cultivo da medula óssea de cada uma das cabeças de fêmur, pois há lugar na estufa para quatro frascos de cultivo. Inicialmente deve-se remover toda a medula por meios mecânicos, utilizando-se qualquer instrumento pontiagudo esterilizado no fogo, e colocar o tecido semelhante a sangue espesso em solução no meio nutriente previamente preparado com o precipitado de sangue, plasma e a água destilada. Guardam-se os ossos já limpos de medula para sua utilização em fase posterior (Prancha 5, quadro f). O meio de cultura deve ser trocado constantemente e após algum tempo as células terão formado duas populações: uma, aderente, no fundo do frasco; as chamadas células estromais ou fibroblastóides; e outra população de células não aderentes, as células precursoras de células sanguíneas, ou hematopoiéticas. Quando as células aderentes atingirem confluência, ou seja, quando cobrirem todo o fundo do frasco, é o momento de coletá-las e fazer o repique em baixa densidade, para obter as unidades formadoras de colônias fibroblastóides (CFU-F), que são identificadas como colônias circulares de células no fundo do frasco de cultivo (Kern et al., 2006).

Prancha 5-) a) Um passo interessante se delineia aqui, pois trata-se da preparação de um meio de cultura feito com as células sobrenadantes do cultivo acima descrito. Primeiramente despeja-se o líquido sobrenadante dos quatro frascos de cultivo em outro frasco, repondo-se o meio nutriente novo para as células aderentes. b) Coloca-se o meio retirado com as células em suspensão no destilador. c) O meio é destilado em alta temperatura até aparecer um coágulo de células. d) Após a esterilização e coagulação, repõe-se a fase líquida coletada no destilador e separa-se o meio esterilizado, fase líquida e sólida reunidas, em outro frasco. e) Este meio é entregue ao personagem solar, significando que só será utilizado na segunda parte da Obra: a transmutação biológica de metais em ouro. f) As quatro cabeças de fêmur limpas que haviam sido separadas anteriormente, serão fervidas em água para retirada do colágeno, que será utilizado como substrato na próxima fase.

Prancha 6

Prancha 7

Prancha 6-) a) Verte-se o colágeno dissolvido com as epífises em uma bandeja. Este colágeno formará um substrato macio no fundo do frasco de cultivo, favorecendo a quiescência (não diferenciação) das células tronco (WINER et al., 2009). b) O meio de cultura novo contendo colágeno é filtrado em lã; esterilizada por fervura; sobre um funil, para retirar eventuais fragmentos de osso. c) O meio é esterilizado em alta temperatura. d) O meio de cultivo esterilizado contendo substrato de adesão (colágeno gel) é cuidadosamente colocado em um frasco de cultivo em que são também colocadas as colônias de células aderentes (CFU-F) do cultivo anterior. e) Este frasco de cultivo, contendo as células aderentes dos quatro frascos do cultivo anterior, deverá ter seu meio de cultura periodicamente trocado, realizando-se a lavagem das células que estarão aderidas no substrato de colágeno até que se perceba uma população de células fibroblastóides sobreposta por uma colônia de células-tronco que iniciam o processo de osteogênese, ou diferenciação em células ósseas, indicando a presença de células-tronco pluripotentes na cultura (a criança clara com a mão na boca do adulto vermelho) que deverão com o tempo atingir confluência na camada superior (branqueamento, o adulto e a criança brancos após serem lavados com meio de cultura). Também periodicamente deverá ser feito o repique das células quando estas atingem confluência, o que é figurado como a espada cortante na mão do homem, voltada para o frasco de cultivo. O repique consiste na fragmentação da cultura em novos frascos contendo meio com colágeno, evitando-se a superpopulação e o início da diferenciação “in vitro” das células-tronco.

Prancha 7-) Acima, vê-se aqui a ampola de vidro contendo as células prontas para uso, provavelmente diluídas em solução fisiológica salina, simbolizadas pelo deus Mercúrio. As dez serpentes do caduceu de Mercúrio podem ser lidas como dez doses de células derivadas do processo descrito, utilizando-se as quatro extremidades do fêmur de uma criança. Abaixo, o balão de vidro fechado contendo as células-tronco é mantido na estufa padrão, com calor constante e atmosfera saturada de gás carbônico, devendo o casal de operadores vigiar constantemente a uniformidade, a adequação da temperatura e a vitalidade da cultura, que deverá ser descartada se apresentar sinais de deterioração.

Terminamos aqui a primeira etapa da Obra: a confecção do Elixir da Longa Vida. As mesmas células serão utilizadas na segunda etapa.

É importante esclarecer que este esboço de protocolo tem apenas o detalhamento necessário para que o discurso do cultivo contemporâneo de células se componha harmoniosamente com as imagens. Um protocolo real deverá ter uma miríade de ajustes e detalhes que só poderiam ser determinados com a prática, não sendo nosso objetivo aqui estabelecer se este esboço que propusemos poderia ou não obter sucesso em um cultivo real.

A Transmutação Alquímica dos Metais

A comunidade acadêmica relutou muito em reconhecer a validade dos experimentos de C. L. Kervran e George Ohsawa, que foram os primeiros cientistas a demonstrar experimentalmente que sistemas vivos realizavam rotineiramente, como parte de suas funções fisiológicas, a transmutação de elementos (KERVRAN, 2011). Seus experimentos foram repetidos e, apesar de alguns deles terem sido descartados em face de novos fatos científicos que os invalidavam, outros demonstraram resultados consistentes, tais como os experimentos envolvendo a criação de Cálcio (Ca) por plantas a partir da transmutação do Potássio (K) (KERVRAN, 1982). Porém, Kervran e os cientistas que seguiram sua linha de trabalho trabalhavam com medidas em organismos multicelulares, plantas ou animais, e não com cultivo celular. O impulso neste sentido veio dos experimentos de fusão a frio, fenômeno que envolve a transmutação de elementos em níveis baixos de radioatividade e calor. Este campo de estudos foi ofuscado pelo campo do conhecimento de fusões de altíssima radiação, concretizado nos estudos que redundaram na bomba atômica. O campo muito mais pacífico das fusões a frio ficou durante muito tempo restrito a pequenos grupos de pesquisa com poucas verbas e equipamentos e, no entanto, passos importantes foram dados nos sentido de aperfeiçoar esta tecnologia para a produção limpa de energia (NAGEL, 2011).

Um ramo de estudos das fusões a frio envolve as transmutações biológicas efetivadas por culturas de micro-organismos unicelulares tais como leveduras e bactérias, as quais tem a capacidade de potencializar tremendamente a transmutação de metais pesados em elementos mais leves, sendo muito úteis na inativação de resíduos radioativos. Um experimento bastante impressionante neste sentido é o que demonstra rigorosamente a transmutação de Manganês em Ferro por uma cultura mista de bactérias (VYSOTSKII; KORNILOVA, 2011). Visto que tanto bactérias, que são procariontes (sem núcleo organizado), quanto as leveduras, organismos eucariontes (com núcleo organizado), podem realizar a transmutação nuclear de metais, não vemos razão para pensar que poderia ser diferente com células animais cultivadas. Porém, o experimento simplesmente não foi feito e, portanto, tentar seguir aqui o “Mutus Liber” seria puro exercício de imaginação, ao contrário do primeiro protocolo que apresentamos, embasado em conhecimentos práticos e reais.

 

IV. CONCLUSÃO

Estaríamos forçando a realidade se disséssemos que todas as imagens e textos alquímicos encaixam-se na hipótese aventada neste trabalho. Existe toda uma linha de entendimento sobre a alquimia, a partir do séc. XVII, que trabalha com as chamadas “quintessências” de elementos minerais vegetais e animais. Esta corrente inicia-se com Paracelso e acaba por resultar nos trabalhos que criaram a homeopatia e os florais, já no séc. XIX. Os textos clássicos mais antigos, porém, encaixam-se quase que invariavelmente na abordagem que descrevemos. Ainda assim, não estamos preocupados se desvendamos neste trabalho a verdade histórica. Em realidade, a verdade histórica nos interessa muito pouco, visto que ela não poderá nunca ser absolutamente comprovada. O passado permanece em nossa memória e é nela que devemos procurar os recursos para esclarecer nossas ações presentes. Interessa-nos, portanto, não a verdade, mas sim a conectividade fecunda que um conhecimento histórico pode estabelecer com nossas escolhas.

Na medida em que podemos formar circuitos criativos e funcionais com os objetos que o passado distante nos legou, isso nos basta. O circuito aqui experimentado demonstra-se harmonioso e plausível: assim como o cultivo celular pode esclarecer e dar coerência às imagens e textos alquímicos, estes podem atuar como uma didática do cultivo celular artesanal, sugerindo técnicas e procedimentos que ainda não foram experimentados pela ciência atual, deflagrando um ciclo virtuoso que só pode trazer avanços para o saber científico.

Dentre as possíveis ramificações futuras deste trabalho poderíamos destacar: os experimentos com meios de cultura artesanais feitos a partir de plasma e sangue, a construção de estufas de cultivo de células que dispensem o uso de energia elétrica e a elaboração de protocolos práticos de cultivo passíveis de serem executados com mínima infraestrutura. A experimentação com transmutação de elementos em cultivo de células tronco é também uma vertente muito interessante ainda inexplorada pela ciência oficial. É necessário enfatizar que, a abordagem interdisciplinar que utilizamos, demonstra ser um instrumento poderoso para estabelecer correlações fecundas entre assuntos aparentemente distantes, possibilitando sua aplicação em outras esferas de conhecimento além das que aqui abordamos.

 

Bibliografia

ALMEIDA, M. J. Cinema, Arte da Cidade. Pro-Posições (Unicamp), Campinas-SP, v. 10, n.1, p. 158-162, 1999.

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BRITO, H. ET AL. Tratamento de sequelas neurológicas em cães, causadas por infecção pelo vírus da cinomose, através do transplante alogênico de células mononucleares de medula óssea. Medvep, Curitiba, v. 8, n. 24, p. 26-29, 2010.

FLAMEL, N. O Livro das Figuras Hieroglíficas. São Paulo: Ed. Três, 1973.

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NAGEL, D. J. Hot and Cold Fusion for Energy Generation. Journal of Condensed Matter Nuclear Science, São Francisco (USA), 4, p. 1–16, 2011.

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SANTOS, M. R. Injeção de Células Mononucleares de Medula-óssea em Camundongos Idosos. Dissertação (Mestrado em Fisiopatologia Médica) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2010.

YATES, F. A Arte da Memória. 2ª ed. Campinas: Editora Unicamp, 2013.

VYSOTSKII, V. I.; KORNILOVA, A. A. Low-energy Nuclear Reactions and Transmutation of Stable and Radioactive Isotopes in Growing Biological Systems. Journal of Condensed Matter Nuclear Science, San Francisco (USA), 4, p. 146–160, 2011.

WINER, J. P.; et al. Bone Marrow-Derived Human Mesenchymal Stem Cells Become Quiescent on Soft Substrates but Remain Responsive to Chemical or Mechanical Stimuli. Tissue Engineering, Pensylvannia (USA), v. 15, n. 1, p. 147-154, 2009.

ZALBIDEA, V.; et al. Selecção de textos: Alquimia e Ocultismo. 1ª ed. Lisboa: Edições 70, 1980.

 

Recebido em: 15/10/2018

Aceito em: 15/11/2018


[1] Biólogo, Mestre em Fisiopatologia Médica e Doutor em Educação. Laboratório OLHO – FE/Unicamp E-mail: jorgeodragao@yahoo.com.

[2] Graduado em Educação, Mestre em Educação e Doutor em Educação. Laboratório OLHO – FE/Unicamp E-mail: ceamiranda@gmail.com.

[3] Biólogo, Doutor em Clínica Médica. CEMIB/Unicamp  E-mail: marcus@cemib.unicamp.br.

[4] Conjunto de células precursoras semi-diferenciadas e células-tronco indiferenciadas.

[5] “Ora, lê, lê, lê, relê, trabalha e encontrarás”. Frase final do “Mutus Liber” (Roob A, 1996).

[6] As Pranchas de 2 a 7 são da versão do “Mutus Liber” contida no Hermetische Museum (Roob, 1996, pp.380-384).

[7] No Hemisfério Norte.

[8] Os telômeros podem ser definidos como uma proteção física contra mutações nas extremidades do DNA cromossômico. A diminuição gradativa dos telômeros é característica do envelhecimento.

[9] Flamel se refere às figuras alquímicas pintadas no arco da Igreja dos Inocentes, doado por ele.

Fonte:
ClimaCom – Inter/Transdisciplinaridade, ANO 05 – N13 – ISSN 2359-470

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-biologia-na-alquimia-correlacoes-para-uma-educacao-alquimica/

Referencias Hermeticas em Promethea – Parte 1

por Octavio Aragão

“Nomeio a palavra ‘memória’ e reconheço o que nomeio. Onde o reconheço senão na própria memória? Mas então está ela presente a si mesma, pela sua imagem, e não por si própria?“
Santo Agostinho, Confissões

Um golem para Mr. Moore
Há um bom motivo para que os cânticos religiosos e as rezas sejam entoadas em voz alta. Segundo a cabala [1], energias cósmicas entrariam em movimento assim que certos sons fossem proferidos por voz humana, transformando a realidade em massa moldável e nossa vontade em espátula capaz de formatar o continuum.

Alan Moore tomou uma decisão radical no momento em que completou 40 anos: optou por estudar esoterismo, mais especificamente a magia das palavras, em lugar de sofrer uma crise de meia-idade.Para quem acompanha o trabalho do roteirista de Northampton, tais influências ficam claras em algumas das HQs produzidas nos últimos 10 anos para o mercado norte-americano, mais especificamente a mini Judgement Day, de 1997, para a Awesome Entertainment, Glory, lançada incompleta pela Avatar Press em 2001, e Promethea, publicada pelo selo America’s Best Comics, da DC, onde o escritor aproveita o imaginário dos super-heróis para fundamentar uma série de conceitos que mergulham fundo em referências místicas, cruzando técnica narrativa e um certo didatismo cabalístico numa mistura nem sempre agradável ao grande público, acostumado ao imediatismo maniqueísta dos vilões monomaníacos e dos protagonistas bidimensionais.

Apesar de nutrir alguma simpatia sociológica pelos colantes coloridos e de já ter feito um bom dinheiro graças a eles, Moore mantém um saudável pé atrás quando se vê obrigado a atuar no mercado estadunidense. Não é de se estranhar, já que, aparentemente, o autor havia dado sua última palavra ao gênero com a muito falada série Watchmen, sem contar com as anteriores Miracleman, V For Vendetta e Captain Britain, mas pode-se dizer que Moore recebeu uma proposta faustiana, ao ser convidado pelo polêmico Rob Liefeld, – ilustrador americano de qualidades dúbias em termos de desenho e narrativa mas dono de disposição empreendedora digna de nota – para construir do zero todo um universo ficcional para o selo Extreme, da editora Image Comics.

A Extreme era um golem de papel [2] e a proposta, no mínimo, constrangedora. Apenas alguém sem auto-crítica poderia convidar um dos maiores roteiristas dos quadrinhos do mundo para assumir uma editora cheia de personagens derivativos como Supreme, claramente uma cópia do Superman, da DC Comics, e Badrock, um homem de pedra baseado no Coisa, da Marvel, onde Liefeld trabalhou durante muito tempo e tornou-se um jovem astro. Moore, porém, gosta de golens, principalmente quando permitem que ele escreva a palavra Emeth [3] na testa do monstro e sopre vida em suas narinas.

O deus da mentira e o livro de todas as histórias
Moore assumiu Supreme a partir do número 41 e transformou a série num sucesso de crítica, com indicações ao prêmio Eisner e comentários elogiosos de seus pares, como Neil Gaiman, se referindo às hqs de super-heróis:

“(…) existem as narrativas mais ou menos pulp que são feitas a toque de caixa por profissionais que estão dando o melhor de si, ou não. (…) Mas há preciosas exceções – Supreme, de Alan Moore, um exercício de reescritura dos 50 anos do Superman visando torná-lo em algo que valha a pena.”[4]

Com tanta repercussão positiva, Rob Liefeld ignorou as baixas vendas da série e oficializou o convite a Moore para que esse assumisse todos os títulos da editora, rebatizada como Awesome Entertainment, com uma minissérie de abertura. A idéia do desenhista era uma mega saga que reunisse todos os personagens da antiga Extreme, coalhada de mortes e cenas de impacto, sob o nome de Judgement Day. É sempre bom lembrar que na época a dupla formada por Mark Waid, texto, e Alex Ross, arte, havia acabado de anunciar outra série mais ou menos no mesmo formato para a DC batizada de Kingdom Come. Não é difícil imaginar de onde Liefeld tirou a idéia para seu gotterdamerung[5] particular… Moore, como era de se esperar, odiou e acrescentou que, se fosse obrigado a escrever uma cópia de Crise nas Infinitas Terras, romperia o contrato com a Awesome. Porém, se tivesse liberdade para desenvolver o conceito embutido no título Judgement Day, poderia pensar em alguma coisa. Liefeld, num rasgo de bom-senso, deu carta branca ao escritor e este desenvolveu um script retratando uma espécie de julgamento de O. J. Simpson versão super-herói.

O plot era o seguinte: no início dos tempos, o deus Hermes[6] concebeu um tomo que tornaria real tudo aquilo que se escrevesse em suas páginas. O livro indestrutível passou de mãos em mãos através dos séculos, sendo sempre manipulado por seus portadores- vilões ou heróis – que visavam lucro pessoal. Uma das características interessantes do volume era que a realidade poderia ser alterada retroativamente caso se arrancasse páginas ou se apagasse escritos anteriores e, usando esse truque como recurso narrativo, Moore emprestou uma profundidade insuspeita aos personagens bidimensionais de Liefeld, tornando-os maquiavélicos, conspiradores, egoistas e icônicos, sendo capazes de assassinar uns aos outros para deter a posse do livro. Além disso, criou toda uma mitologia para formatar o universo, povoando-o com bárbaros celtas, cavaleiros andantes, caubóis renegados, selvagens a la Tarzan e soldados da Segunda Guerra Mundial.

Mas o tempero principal de Judgement Day era a utilização de preceitos de Cabala inseridos na história. Ao apresentar Hermes, deus grego da comunicação, do verbo e, não coincidentemente, dos ladrões e das mentiras, como o principal narrador da saga, Moore abriu a caixa de Trismegisto[7] aos fãs de quadrinhos, fazendo uma ponte insuspeita entre magia e técnica literária. Hermes serve como contraponto e encarnação da própria história, a Cabala personificada, verbo feito personagem, com carne de papel e pele de nankim. É sempre bom lembrar que, em grego, hermes significa “intérprete” e daí deriva a ciência da hermenêutica, além da denominação do hermetismo, raiz de todo ocultismo.

O Hermes de Moore é sedutor, melífluo, enganador. Uma entidade feita de ouro e para quem as leis da física se dobram, podendo estar representado em movimentos variados dentro de um mesmo requadro. O deus se expressa em estrofes e, num tom apocalítico, dissemina os preceitos cabalísticos enquanto introduz a mini-série:

“Frantic we Thumb our Memories, Stage by Stage,
For some Clue Overlooked Upon the Way
Yet Read on, Line by Line, Page after Page,
To our Denouement; to our Judgement Day.

Spellbound, Forget Amidst the Laughs and Thrills
That Words may Change a World…

…and Language Kills.” [8]

Essa, porém, não será a última vez que Alan Moore utilizará Hermes como seu porta-voz. Ainda há muitas histórias a contar.

continua…

Notas
1. Cabala ou Qabalah é a tradição mística do Judaísmo emersa por volta do anoem Provence, França, que busca ordenar o universo por meio de múltiplas combinações de números e letras, como uma “receita” para a Criação. Graças ao Sepher Yetsirah, Livro da Criação, séculos II e IV, alcançou grande prestígio entre os estudiosos, postulando o princípio que a letra, emanação do poder divino, é também a assinatura das coisas e as combinações entre várias letras remeteriam à estrutura do cosmo.

2. “A palavra golem figura pela primeira vez no Livro dos Salmos, Salmo 139, versículo 16. Interpreta-se em geral esse salmo como sendo as palavras do homem que agradece a Deus por havê-lo criado e que rememora para si as diferentes fases de sua criação : ‘Meu golem, Teus olhos o viam’. O termo golem toma aqui simplesmente o significado de ’embrião’, que é o significado que tem em hebraico. Mas pode-se também conceber que é Adão quem fala(o que não tardou em ser feito pelos exegetas) e que ele revive os episódios correspondentes do Gênesis. Nesse caso, o golem recebe uma carga de determinações suplementares. Ele é uma massa de terra inerte do corpo de Adão antes de lhe ser insuflado o pneuma divino, a terra ainda não habitada pelo espírito e que aguarda ser vivificada pelo soprovital.” MATIERE, Catherine. Golem, in Dicionário de Mitos Literários; BRUNEL, Pierre (org). Rio de Janeiro, RJ: Livraria José Olympio Editora S.A., 1998 – 2ª edição, p. 407/408

3. “Jeremias e seu filho Ben Sira, com a ajuda do Livro da Criação, puseram no mundo um Golem e sobre sua fronte estava escrito: emeth, “verdade”, como o nome que Deus pronunciou diante da criatura para mostrar que sua criação estava consumada. Mas o Golem apagou a primeira letra (aleph), para mostrar que somente Deus é verdade, e morreu.”
——-op. cit., p. 408

4. GAIMAN, Neil. Introduction, in Kurt Busiek’s Astro City: Confession. USA: Image Comics, 1907. 1ª edição, p. 10/11.

5. Gotterdamerung, o Crepúsculo dos Deuses, é, entre outras coisas, a última parte da tetralogia wagneriana O Anel dos Nibelungos, e conta como os deuses nórdicos – Wotan, Freya, Brunhilde, Sigfried, Logé – encontram seu trágico fim, enredados numa trama de mentiras e traições.

6. “(…) não há necessidade de resumir aqui as histórias de que o Hermes grego, o Mercúrio latino, é o protagonista, o herói ou o figurante. Basta lembrarmos algumas passagens que põem em destaque certos traços constantes (…). Dois dentre eles ressaltam de um fato conjunto: por um lado, sua função de guia, ligada à sua mobilidade; por outro, seu domínio do discurso e da interpretação, garantia de um certo tipo de saber”.
FAIVRE, Antoine. Hermes, in Dicionário de Mitos Literários; BRUNEL, Pierre (org). Rio de Janeiro, RJ: Livraria José Olympio Editora S.A., 1998 – 2ª edição, p. 452

7. Hermes Trismegisto, que significa “três vezes grande”, teria sido o nome de um mortal, filho de Agatodêmon, descendente de Thot, a divindade egípcia do conhecimento. Veremos mais tarde que ambas divindades podem ser percebidas como duas vertentes do mesmo mito, mas outras genealogias são consideráveis. Santo Agostinho, por exemplo, afirma ser o Trismegisto o tataraneto de um contemporâneo de Moisés em A Cidade de Deus, e Brunetto Latini coloca-o lado a lado com Moisés, Sólon, Licurgo, Numa Pompílio e o rei grego Foromeu como um dos principais legisladores da antiguidade.

8. MOORE, Alan. Judgement Day Sourcebook. USA: Awesome Entertainment, 1997 – 1ª edição, p. 8

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Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/referencias-hermeticas-em-promethea-parte-1