[space failure][abort system]

…dou uns passos na rua e me apercebo que conectividade ocorre por toda a parte.  Diante das turmas – que outrora soavam como fenômeno primário e portanto exclusivamente adolescente – adquiro conhecimento que qualquer indivíduo de fato se aglomera em volta de suas suspeitas e conjecturas. Os grupos advindos desse efeito social movem-se ameboicamente esticando-se e contraindo à medida que os encontros se revelam no dia. Assim quando qualquer não-parte do conjunto se aprochega os sistemas ‘resistivos’ entram em cena, revelando muitas vezes que hoje comungamos espaços elétricos na malha da rede por que almejamos os páreas que revelarão nossos próprios anseios.

Estes páreas nem sempre de sangue regurgitam ocasionalmente aquilo que nos inspira e revela nuances particulares e somem por estarem muitas vezes numa outra extremidade conectiva regida por outros ventos e olhares. Um espelho exímio nem sempre visto deste modo, e muitas vezes esquecido ao passar a vista em qualquer outra coisa. Somos estranhos conhecidos por segundo, às vezes menos, atingindo-nos à medida da permissão do botão, que desliga.

Bem pudera existir esse botão na nossa pele.  Que com gesto tão simples, simplificasse a labuta diária e nos trouxesse paz. Pois o irmão ou amigo não se contenta com deslizes e apregoa-nos amargos. Assim não há pergunta sem resposta, ou intimidação sem o aparo da mão. É quando vemos que o Orkut idiotizou não nosso tempo, mas nossas ambições, adocicando o organismo do atrito das peles, do cuidado faminto de quem empurra, de quem abraça. Precisamos da dor pra retrair o braço ao perigo iminente e não conduzir o dedo ao botão que gela.

Perderemos contudo não nossa dinâmica de grupo, mas reconhecendo estes páreas seremos seduzidos pelo mundo ideal que nos afogará em mesmices de importância. Nos afogará em redundâncias agora mais amenas. Seremos inteligentes de nós mesmos e isso sim nos transformará em escravos da resposta de fibra-ótica que vai… e vai embora. Passa!;  ou seria pisca? Sumindo no tic-bin tac-nário.

Foi quando visualizei a rua entremanhada de linhas luminosas. Cada qual na sua porta, no seu provedor de acesso, seguindo seguro em sua criptografada expectativa se comunicando na medida dos bites. Zipa! Zipa! É mais seguro. E nos vestimos para o acaso emperdenido, amordaçado. Seria o efeito das telas de tubo a darem a sensação de irreal? Condizendo com o ‘ledi’ que alucina à sensação de que só abrimos uma janela de fato, …será que toca se eu apontar o dedo? E será se ele sente o dedo incidindo na pele. É bem provável que no futuro onde não precisemos de mais utilidades/inovações ao tocar a tela a tela sente por você tocando-nos, nos idiotizados. Curtindo as carícias reproduzidas justificaremos o hábito reafirmando aforismas quânticos implicados de espaço e tempo, e estado. Chega! Chega mais pro lado que minha tela está gangrenada, tenho de trocar de monitor.

Ridículo não é nem mesmo averiguar tamanha ezquisiotice, é advir do mundo diário que averigua: somos todos culpados, reclusos do medo de abraçar o outro ao lado e esmiuçar um sorriso envergonhado e desculpado. Vivemos emparedados pela “realidade aumentada” de nossos passos. Que caminha estranhamente pro mundo feito de plástico. “Não precisamos mesmo desta rinha triste que esfria”. Veremos ainda extinto o abraço, acreditaremos no smile apaixonado. E seremos felizes ou pelo menos teremos o status, opa… ‘estatos’ confirmando o retrato.

Mas temer não é meu forte. O curso destas anomalias reflexivas não passam de uma esquálida miragem. Já que não se vive o futuro, soframos loucamente antecipado para nos acordar deste possível estado… já que sempre dói mais quando se está no fato e não queremos esse contrato, não queremos tal herança, mesmo não sendo nós os que serão cobrados.

Tentemos assim não aceitar tamanha corrupção sistematizada, chamada à rede social idealizada, não aceitemos ser mecanizados somente, já que se tromba menos quando planejamos levemente. Não nos aceitemos somente, há um tanto de coisas boas nos estragos residuais destes atritos humanos e suados. A pele só pega bronze sob o sol… só no futuro seremos morenos pelos raios solares photoshopados que nos incidem homeopáticos… mostrando a mensagem: “Tenha um bom dia, seu tratamento começou, fique à vontade para navegar e interagir com seus ‘CONT -r- ATOS’, sempre sabendo que nossos sistemas geram amigos personalizados… o vizinho ideal. O quase-solar método de tratamento atualizado frequentemente promete os mais leves tons ao mais detalhado espectro de tez, tornando-o durante o tempo que desejar único e especial. Aproveite seu momento gold grátis e sinta o prazer de se ver mudando em instantes tão rápidos como esse advertising” E uma outra imagem nos avisa das implicações deste método revolucionário nos mostrando nas ad-senses um novo casaco magnético – agora você pode andar respondendo seu tuites sem medo de trombar em ninguém! “Deixe seu magnético casaco repelir transeuntes desavisados de seus olhares conectados”.  E por você possuir GOLD receberá por um mês a função atração recíproca, feita com a mais alta tecnologia de avaliação social – fakebook iogurte e tuíste – que lhe jogará nos braços da pessoa, já, amada! Adquira já@x.LOL;comassim?

Desliga! Desliga! Vai no mercado… no regaço, no recado e revoga o contrato. Precisamos de espaço, mas deste que significa ocupado… não digitalizado. E balança entre lá e cá… acreditemos que seremos sim inteligentes. Com aptidão suficiente pra perceber que acabou a energia, mas ainda enxergamos no escuro. No fundo no fundo sabemos que isso é pouco provável, não seremos tão otários… um simples arquivo no banco de dados.
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Djaysel Pessôa

S.O.Q.C.

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todas as incursões verborrágicas e ‘neológismicas’ foram advindas de uma intensão proposital e conspícua.

Seja livre para não entender.

*Imagem cedida pela eficácia casual de busca, de algum algoritmo alienígena do Google.

#hermetismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/space-failure-abort-system

Ser Falso Para agradar, ou Ser você mesmo?

Meus Caros Irmãos espalhados na superfície do Planeta,

Minhas Cordiais Saudações…

Hoje acordei com uma enorme vontade de escrever a respeito do nosso ser, ou, de não ser. O que eu quero dizer é que, quantas vezes por dia somos nós mesmos…Sem máscaras, sem hipocrisia, “Verdadeiro”, “Sincero”…

A sociedade diariamente cria um medo em nós mesmos: o medo de que alguém possa rir de você, o medo de perder algo, que percam o respeito por você, medo da rejeição… Porquê não permitimos que as pessoas sejam exatamente como elas são?

Você já reparou que quando você está acompanhado com alguém, você está mais preocupado com ele do que com você mesmo?

Já percebeu que quando você está sozinho você faz caretas, dança, canta, lê, viaja (pensa), quantas vezes você se torna uma criança? Mas se de repente você percebe que está sendo observado, volta a se render ao seu ego – sério, patético, sóbrio, exatamente como as pessoas esperam que você seja… Que pena, não é mesmo? Porquê temos medo deles? E eles de nós? Todo mundo tem medo de todo mundo. Todos se escondendo atrás de alguma coisa falsa. Incrível!

Você acha que agindo assim, você está vivendo? Ou estamos simplesmente representando?

Quando estamos representando, não estamos sendo desonestos e hipócritas, também com nós mesmos?

Bem, mas se por um acaso você em determinado momento deixar que sua felicidade se manifeste, através de uma dança, de um grito, de um amor, de uma atitude “não comum”… pronto! Você passa a ficar fora da sintonia com a multidão, ou passa a ser um maluco, pelo menos aos olhos das pessoas que estão te assistindo…

Mas já notaram que as pessoas que conseguem se destacar, permitiram que o seu “eu” se manifestasse? Sem ter vergonha ou medo.

Elas expressaram as suas maluquices, porque, mesmo que por alguns instantes, deixaram de ser miseráveis, não estavam ansiosas, sem medos, não se preocuparam com as trivialidades… Estavam simplesmente vivendo cada momento com totalidade e intensidade… Cheias de amor, fragrância, vida e riso.

Mas fique experto. Muitas pessoas que estão ao seu redor não aceitarão a idéia de que você alcançou alguma coisa, que na verdade elas perderam. E para que elas tirem a sua alegria, serão capazes das coisas mais horríveis, de modo que você possa voltar ao rebanho.

É preciso ter coragem. Dirão que você é maluco, que irá perder, que “isso ou aquilo”… Mas faça isso: Diga a elas que estão completamente certas; que você decidiu ser exatamente você mesmo: Loucura com alegria, com felicidade, com dança, com amor; diga que eles têm escolhido a sanidade com miséria, angústia, tristeza, falsidade e hipocrisia – Simplesmente nossas escolhas são diferentes – Não se sintam ofendidos, pois eu não me sinto ofendido com vocês…

É isso mesmo que vocês estão lendo. O que eu disse foi: Vivam na sua Luz completa e original! Abandone todas as suas falsidades!

Mas e a diplomacia?

Ora, ser diplomático significa ser outra pessoa. Quer melhor sinônimo para hipocrisia do que, diplomacia? Seja simplesmente você mesmo! Não seja desonesto com você mesmo. Você não merece!

Todas as pessoas no mundo querem ser verdadeiras, pois só por serem verdadeiras, isso já lhes traz muita alegria e uma abundância de felicidade. Por que alguém deveria ser falso? Você precisa ter coragem para chegar a um insight um pouco mais profundo: Por que você tem medo? O que o mundo pode fazer com você? As pessoas podem rir de você; isso fará bem para elas – rir é sempre medicinal, é saudável. As pessoas podem pensar que você é louco… Você não vai ficar louco só porque elas pensam que você está louco.

E se você é autêntico quanto à sua alegria, suas lágrimas, sua dança, o seu amor…– mais cedo ou mais tarde aparecerão pessoas que compreenderão você, que poderão começar a se juntar à sua caravana. Faça apenas aquilo que sente que estava vindo de seu coração.

A sua maior responsabilidade é com você mesmo, com o seu coração e não com as pessoas no mundo.

Perceba que as pessoas estão muito mais preocupadas com problemas delas, com o mundo delas.

Acredite, somente nos seus sentimentos originais, as suas experiências autênticas irão com você, mesmo depois da morte…Pois elas te pertencem…

Nem mesmo a morte poderá lhe tirar a dança, as suas lágrimas de alegria, a sua pureza, o seu silêncio, a sua serenidade, o seu amor, o seu êxtase. Aquilo que a morte não pode tirar de você é o único tesouro verdadeiro; e aquilo que pode ser tirado pelas outras pessoas não é um tesouro, é apenas tolice.

Só viver nem sempre é viver. Olhe para a sua vida. Você pode dizer que ela é uma benção? Você pode dizer que ela é um presente da existência? Você gostaria que essa vida lhe fosse dada repetidas vezes? Ela está tão vazia. Por causa de seu vazio, as suas preces são vazias. Você não consegue preencher suas preces com gratidão. Gratidão, por que? Você nada mais está fazendo senão representando papéis em uma novela, você não está sendo você mesmo.

Você é realmente você mesmo? Ou está apenas fingindo ser alguém que a multidão ao seu redor queria que você fosse?

Para mim, um buscador da verdade deveria começar por abandonar tudo o que é falso nele, porque o falso não pode buscar a verdade. O falso é a barreira entre você e a verdade. Se tudo o que é falso for abandonado, você não precisa buscar a verdade – a verdade virá até você. Na verdade, quando eu digo, ‘A verdade virá até você’, isto são apenas palavras. Quando tudo o que é falso é abandonado, você é a verdade.

Eu Sou,

Wagner Veneziani Costa

Bibiografia:

OSHO – The Hidden Splendor – Cap. 15

Visitem o fantástico Blog do Editor, da Madras.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/ser-falso-para-agradar-ou-ser-voc%C3%AA-mesmo

Lenda Urbana: Xuxa Bruxa

Shirlei Massapust

Desde o fim da oitava década do século XX até a início do século XXI eu cansei de ouvir narrativas de religiosos fundamentalistas, membros de denominações cristãs, as quais afirmavam que a modelo e atriz brasileira Maria da Graça “Xuxa” Menenguel teria feito um pacto com o Diabo. Em torno dessa invencionice surgiram lendas urbanas, inclusive aquela onde todas as bonecas da Mimo estriam sujeitas a possessão diabólica.

Xuxa tornou-se um alvo favorito da crítica fundamentalista por várias razões: Ela é mulher, sexo favorito das mitológicas investidas do diabo desde a tentação de Eva. É uma profissional bem-sucedida do invejado meio artístico. Alcançou fama e fortuna por mérito, mas de forma tão súbita quanto o Fausto da ficção de Goethe. Xuxa ditava moda e influenciava a educação das crianças. Dizem – não sei se é verdade – que ela hospedava o amigo Michael Jackson (1958-2009) quando ele vinha ao Brasil a passeio e ele retribuía o favor recebendo-a no rancho Neverland, em Santa Ynez, nos EUA.

Xuxa teve a má sorte de vincular sua imagem como garota propaganda da loteria Papatudo, um empreendimento da Interrunion que faliu sem quitar alguns prêmios. Seu primeiro programa, assim como o restante da programação da rede Globo de televisão, conforme exibida à época, foi severamente criticado no documentário Beyond Citizen Kane (1993), dirigido por Simon Hartog para o Channel Four da Inglaterra.[1]

Todas as narrativas sobre pactos diabólicos estão amparadas por evidências forjadas e fatos distorcidos. Por exemplo, após conversar com o músico e compositor estadunidense Steven Edward Duren, da banda W.A.S.P., o vocalista e baixista israelita Genne Simmons (Chaim Witz) deixou-se fotografar fantasiado de Satã, fazendo o ideograma “eu te amo” da linguagem de sinais (ASL). Com a diferença da posição do dedão, este é quase o mesmo ideograma para “chifes” popular entre roqueiros, que consiste em fechar as mãos levantando os dedos indicador e mindinho. Daí a paródia na foto que apareceu na capa do álbum Love Gun (1977), da banda Kiss.

A intenção de Genne Simmons foi usar sua imagem para denunciar os horrores da guerra. Porém pessoas ignorantes entenderam aquilo como um sinal identificador de cultistas do diabo. Daí em diante lendas urbanas rotulariam indiscriminadamente a todos os demais artistas que fizessem o mesmo sinal sem possuir deficiência auditiva. E Xuxa exibia tal sinal à plateia, com frequência, na intenção de incentivar o interesse do público infanto-juvenil por métodos de acessibilidade. No programa Xou da Xuxa (30/06/1986-31/12/1992), até o surfista Moderninho – marionete criada por Reinaldo Waisman – usava o “eu te amo”, em LIBRAS, como variante do hang loose, dizendo “Yeah Yeah”.

Lições de resistência à influência da melancolia

A coisa mais parecida com um pacto diabólico que os fãs da dita “Rainha dos Baixinhos” a viram fazer foi uma cena do filme Super Xuxa Contra o Baixo Astral (1988) onde o vilão Baixo Astral, interpretado por Guilherme Karan, anuncia que o cãozinho Xuxo morreu por falta de cuidado. Xuxa fica tão deprimida que se deixa convencer que também ela é “uma pessoa má”, assume um visual sombrio com maquilagem carregada, unhas pretas e dentes deformados. Então eles dançam trocando promessas de um eterno pesadelo até que, no fim, a farsa é revelada e tudo volta ao normal.

Xuxa quase aceitando a aliança proposta pelo Baixo Astral.

(Cena capturada do VHS e tratada no Photoshop com o efeito watercolor).

O roteiro de Super Xuxa Contra o Baixo Astral (1988) foi notoriamente inspirado a um nível antropofágico no filme Legend (1985), onde a Princesa Lili (Mia Sara) muda de aparência sob o encanto do antagonista Darkness (Tim Curry). Outro tema icônico de dança em filmes de Jim Henson é a cena de Sarah (Jennifer Connelly) na festa a fantasia, com Jareth (David Bowie), o rei dos goblins, em Labyrinth (1986).

Tudo isso é fantasia e a mera ficção não deveria ser misturada com realidade. Mas o que os narradores de teorias estapafúrdias fazem? Eles recortam cenas do filme onde Tim Curry parece interpretar um diabo vermelho com cornos enormes e montam vídeos de batalha espiritual como se o personagem cinematográfico fosse o verdadeiro Diabo. Quem faz a imitação diabólica, claro, nesta lógica, deve se pactuante confesso.

O que a Xuxa fala sobre passes e magia?

Pessoas ingênuas tendem a confundir Xuxa (apelido) com Xuxa (personagem), assim como confundem José Mojica (ator) com Zé do Caixão (personagem). Nós não podemos cometer esse erro. Durante a coreografia da música Tindolelê, composta por Cid Guerreiro em parceria com Dito, a apresentadora Maria da Graça Menenguel, interpretando sua personagem Xuxa, inequivocamente solicitava que a plateia do auditório simulasse um passe, gritando: “Levante a mão passando energia!”

O objetivo da personagem era transmitir o alto astral, pois a Xuxa contém duas personas. Sem jamais repetir uma roupa, a Xuxa feliz alterna as cores vívidas do arco-íris de energia, cujo significado holístico é revelado na melodia “Arco-íris”, escrita por Sullivan, Massadas e Ana Penido, para o álbum Xou da Xuxa 3 (1998).

Com o azul eu vou sentir tranquilidade
O laranja tem sabor de amizade
Com o verde eu tenho a esperança
Que existe em qualquer criança
E enfeitar o céu nas cores do amor
No amarelo um sorriso
Pra iluminar feito o sol tem o seu lugar
Brilha dentro da gente
Violeta mais uma cor que já vai chegar
O vermelho pra completar meu arco-íris no ar
Toda cor têm em si
Uma luz, uma certa magia
Toda cor têm em si
Emoções em forma de poesia

Francamente penso que tanta gente insiste em diferenciar “esoterismo” com “s” da palavra inexistente “exoterismo” com “x” por causa do jargão sui generis da Xuxa.

Quando está de alto astral a personagem tem medo das assombrações do Trem Fantasma (1990); mas a Xuxa de baixo astral é punk gótica, veste preto, controla os fantasmas e caveiras mirins que saem das tumbas em Tumbalacatumba (2008), ordenando que façam várias coisas, inclusive pintar as unhas de preto, igual a ela.

No fim das contas nem o maligno é tão malvado ou, se for, nunca logra êxito no que faz. O temível trem fantasma “parou”, as caveiras voltaram para a tumba, os maus conselhos sempre se voltavam contra a Bruxa Keka no programa Xuxa no Mundo da Imaginação (2002-2004). A energia positiva prevalece no clima esotérico de Xuxa e os Duendes (2001). Os detalhes sombrios se dispersam com o poder da alegria juvenil.

Xuxa beijou a cruz invertida?

Na campanha Criança Esperança 2005 a Xuxa apareceu vestindo figurino completamente preto para destacar a brancura da roupa da filha Sasha durante a primeira apresentação da nova atriz mirim na TV. Além da roupa, Xuxa estava usando uma joia com motivo abstrato composto por um aglomerado de contas pretas. No vídeo de alta qualidade captado pelas câmeras da Globo dava para ver que eram contas, mas em cenas capturadas por terceiros e transformadas em fotos com resolução reduzida o pingente ficou idêntico à Cruz de Pedro da simbologia católica e gnóstica.

Os teóricos do pacto foram à farra com esta ilusão óptica[2] porque, além do Papa, os góticos, os punks e outras tribos urbanas às vezes usam a legitima cruz invertida por razões religiosas ou meramente estéticas. Isso foi noticiado em vários lugares. Criaram até uma comunidade no Orkut chamada “Xuxa faz cruz Invertida na TV”.

Posteriormente, na comemoração dos vinte e cinco anos da TV Xuxa, a apresentadora estava usando um rosário comum com uma cruz latina e, quando pegou o pingente para beijar, de novo, a coisa ficou parecendo uma Cruz de Pedro.[3]

Então suponhamos que alguém resolvesse sair por aí usando e beijando uma Cruz de Pedro. Vamos falar desta cruz? Atualmente numerosos impressos de batalha espiritual sustentam que a cruz invertida representa ideologia adversa à doutrina cristã. Bandas de black metal costumam distorcer seu significado, a exemplo do que vemos na capa do álbum Profana la Cruz del Nazareno (2008) da banda Morbosidad. Entretanto, a própria igreja católica utiliza a Cruz de Pedro em seus padrões iconográficos.

Segundo Orígenes (256 d.C.) a inversão da cruz foi uma ideia de São Pedro que pediu aos captores romanos que pudesse ser martirizado desta forma, de cabeça para baixo (EUSEBIO. História Eclesiástica, III, 1.).[4] Um texto apócrifo reproduz seu discurso:

Eu vos suplico, carrascos, que me crucifiqueis assim, com a cabeça para baixo e não de outra maneira (…) porque o primeiro homem, da raça de quem eu tenho a semelhança, caiu com a cabeça para a frente, mostrando assim uma maneira de nascimento que não existia até então. (…) Assim, tendo ele sido puxado para baixo (…) estabeleceu toda esta disposição para todas as coisas, tendo dependurado para cima uma imagem da criação, pela qual fazia as coisas da mão esquerda serem tomadas pela mão direita e as da mão direita pela mão esquerda, mudando todas as marcas de sua natureza, de modo que ele pensou que as coisas que não eram justas fossem justas, e as coisas que na verdade eram más, fossem boas… E a figura que estais vendo de mim aqui dependurado é a representação daquele homem que foi o primeiro a nascer. (Os Atos de Pedro 37).[5]

Segundo a lenda, a intenção de Pedro era não ser confundido com Jesus e, uma vez condenado à morte, desejou imitar o nascimento dos bebês. No ano 1750 a igreja católica proibiu os atos de devoção extremados duma seita de flagelantes parisiense. As lesões corporais com consentimento das vítimas incluíam a crucificação comum e a crucificação invertida que “devia ter lugar com os pés para cima e a cabeça para baixo”.[6] A polícia pôs fim à seita quando foram reportados óbitos e incapacitações. A maioria dos flagelados eram mulheres (freiras e devotas) e os flagelantes homens (padres).

A lenda urbana do pacto da Xuxa

Dizer que inúmeros famosos e pessoas proeminentes na sociedade venceram na vida frequentando giras de Exu, fazendo despacho, etc., é um método da propagada pró e contra religiões de matrizes africanas no Brasil, desde a época em que a liberdade de culto ainda não era um direito constitucional. O jornalista João do Rio (1881-1921) ouviu narrativas de negros babalorixás acostumados a fazer feitiço de amarração com panos de seda, fios de cabelo louro e cartas escritas em inglês cursivo, fornecidas pela nata da sociedade carioca. Parece que todo mundo batucava escondido.

A polícia visita essas casas como consulente (…). Eu vi senhoras de alta posição saltando, às escondidas, de carros de praça, como nos folhetins de romances, para correr, tapando a cara com véus espessos, a essas casas; eu vi sessões em que mãos enluvadas tiravam das carteiras ricas notas (…). Um babaloxá da costa da Guiné guardou-me dois dias as suas ordens para acompanhá-lo aos lugares onde havia serviço, e eu o vi entrar misteriosamente em casas de Botafogo e da Tijuca, onde, durante o inverno, há recepções e conversationes às 5 da tarde como em Paris e nos palácios da Itália (…). Noutro dia, tílburis paravam à porta, cavalheiros saltavam, pelo corredor estreito desfilava um resumo da nossa sociedade, desde os homens de posição às prostitutas derrancadas, com escala pelas criadas particulares[7].

É uma lástima que tudo que dizem sobre os frequentadores de terreiros não seja sempre verdade, pois seria ótimo se todas as personalidades formadoras de opinião convocassem gente de todas as etnias e classes sociais a uma reunião onde impera a empatia, a igualdade e o respeito; onde a felicidade é encontrada num passe de mágica.

Desgraçadamente, ao invés de servir ao melhor propósito, tanto a propaganda quanto a crítica – da forma como é feita hoje – objetivam emprestar prestígio merecido ou forjado a um templo particular; ou ainda depreciar templos e religiões em conjunto.

Um dos primeiros “paquitos” que dançavam e cantavam na equipe da Xuxa foi o “Xand”, hoje Pastor Alexandre Canhodre, que estudou teologia na Igreja Renascer em Cristo. Em 2010 ele deu entrevista afirmando ter sido escolhido para aquela vaga de emprego não por mérito e boa aparência, mas pela graça do Diabo:

Aos 17 anos me surgiu a oportunidade de fazer o teste para o Xou da Xuxa (…). Fiquei quatro anos aproximadamente no programa (…). Eu (…) frequentava todos os centros de Umbanda, Candomblé, magia negra, missa negra e vodu. Fui convidado por uma comunidade da Ku Klux Kan, maçonaria; via óvnis e discos voadores (…). Tinha em casa imagens de todo o tipo: Desde Aparecida até do Tranca Ruas (…). Eu tinha mais de sessenta imagens e sempre andava com uma estátua do Tranca Ruas em minha bolsa, um Exu Caveira e Maria Padilha. Também vendi minha alma ao diabo, oferecendo comida e bebida aos santos e fazendo pactos com eles para conseguir minha projeção artística (…). Em 1992 (…) pedi minha rescisão de contrato (…). Quando me rendi a Jesus, queimei todas as lembranças da época que eu era paquito da Xuxa (…). Reneguei meu passado e renunciei.[8]

Será que o paquito diz a verdade quando afirma ter construído um congá com seis dezenas de imagens em sua própria casa? Será que ele convidava os colegas de trabalho para assistir festas de Exu, tomar passes e receber axé? Será que conseguiu convencer os colegas da necessidade de rogar a Exu para abrir caminhos, trazer saúde, dinheiro, prosperidade, etc.? Será que Cid Guerreiro, Dito e Ceinha fizeram a música Ilariê, gravada pela Xuxa em 1987, na intenção de remeter por cacofonia à saudação “laroiê” do idioma jeje-nagô? Nada disso foi confirmado por outros testemunhos.

Existe um método na loucura fundamentalista. Primeiro os narradores de lendas urbanas compilam e interpretam fatos conhecidos. Cada singularidade adere ao rótulo pré-concebido do “artista herege” e passa a servir para atacar a coletividade. O parecido se torna igual quando, por exemplo, o sinal de amor da linguagem dos surdos mudos vira a mano cornuta. Não existem limites para a interpolação.

Após identificar as marcas do diabo, os guerreiros de deus se inserem como protagonistas da estória. É por isso que existe a mulher chamada Xuxa, a personagem chamada Xuxa e uma entidade abstrata chamada Xuxa, tão mitológica quanto o Saci, a Mula Sem Cabeça e a Loira do Banheiro. Essa última é a Xuxa Bruxa, satânica, que fabrica bonecas assassinas e faz crianças sofrerem de epilepsia subliminar.

Xand afirmou ter levado CDs gravados por ele mesmo para um terreiro onde “consagrava ao diabo” antes de vender. Igualmente, antes dele, o Pastor evangélico Francisco José Vieira Guedes (1960-2018), alcunhado “Tio Chico”, já costumava pregar aos fiéis congregados na Igreja Evangélica Ministério Solar, em Belo Horizonte.

Em seu testemunho de fé, alegava ter sido o pai de santo de confiança do empresário e jornalista Roberto Pisani Marinho (1904-2003), proprietário do Grupo Globo de 1925 a 2003, e que toda programação gravada no Projac, no Rio de Janeiro, era enviada para um terreiro de Umbanda situado no subsolo duma rua paulista onde recebia a aprovação dos Orixás. Numa gravação de uma de suas pregações, ele fala do suposto pacto feito pela Xuxa:

Eu conheci a Xuxa através do primeiro pai de santo dela, de nome Tadeu de Oxosi (…). Ela era simplesmente modelo: Trabalhava na Rede Manchete (…). Ela disse: “Tio Chico, eu sou filha de santo do Tadeu. Quero ser rica e famosa e quero trabalhar na melhor emissora de televisão do mundo, a Rede Globo” (…). Orientei a Maria das Graças sobre o que teria que fazer (…). Ela fez dois pactos. O primeiro ela fez com Exu Mirim: Uma entidade que vem como menino, como criança (…). Ela não podia dizer o nome de Jesus. Senão seria quebrado o pacto. (Transcrição de um vídeo do YouTube).[9]

A missionária Elizabete Marinho repete e continua:

A palavra Xuxa significa Xuxieli, que significa “Rainha de pequenos demônios”. Xuxa fez pacto com Exu Mirim e Caboclo Ilariê. Quando ela canta essa música é um louvor a esse caboclo. Xuxa não pode falar de Jesus, senão quebra o pacto com Lúcifer, e ela vai perdendo os bens materiais. Ela pode falar Deus, pois existem vários deuses. Por isso, na música Lua de Cristal, ela diz: “Tudo que eu quiser o Cara Lá de Cima vai me dar…” (…) O pacto da Xuxa foi feito em sua própria casa. A boneca Xuxa pertence à bruxaria. Há alguns anos atrás uma dessas bonecas estrangulou uma criança. (…) O filme Xuxa e os Duendes (…) baseado em lendas e na crença de Xuxa Meneguel em tais contos, vem agradando o seu público alvo: Crianças em idade pré-escolar, promovendo a simpatia de todos por criaturas monstruosas e diabólicas. (…) A grande jogada de marketing talvez tenha ficado por conta das declarações de Maria da Graça: “Eu já vi duendes”, disse ela à imprensa durante a coletiva de lançamento do filme.[10]

Na verdade, Xuxieli é o nome fantasia de uma indústria de calçados de Novo Hamburgo. Não existe Caboclo Ilariê em Umbanda. A censura prévia da programação da Globo prezava pela garantia constitucional às liberdades lacas; por isso não enaltecia nenhuma crença em particular. Boneca da Xuxa estrangulando crianças?! É risível, mas Renata Gonçalves Pereira explica que a lenda nasceu em 1989, na cidade de Sorocaba, São Paulo, quando a mídia noticiou a captura duma boneca homicida que teria acabado acorrentada no Museu Sacro da Catedral Metropolitana de Nossa Senhora da Ponte.

Na verdade, existem duas versões da lenda, a primeira dizia que uma menina dormia com uma boneca da Xuxa na noite do dia das crianças. Então, o brinquedo teria assumido a forma de uma pessoa com garras, seios fartos e olhos demoníacos e matado a criança esganada.

No entanto, a segunda versão da lenda é mais elaborada, onde dizia que uma menina humilde via os anúncios da boneca na TV e insistia que queria ganhar uma. Porém, sua mãe estava desempregada e era pedinte na praça principal da cidade. Então, cansada de ouvir a insistência da menina, a mãe fala ironicamente que só compraria a boneca caso “o diabo mandasse o dinheiro”. E, assim, no outro dia, apareceu um montante com a quantia exata para comprar a boneca.

Dessa forma, a mãe cumpriu sua promessa e comprou o brinquedo, dando de presente para a filha no dia das crianças daquele ano. Mas, enquanto a menina dormia com a boneca, ela assumiu uma forma assustadora e acabou matando a menina. Por fim, a mãe levou a boneca até a igreja para que fosse exorcizada e destruída.

Na época, o caso foi noticiado com destaque em vários jornais, como o Cruzeiro do Sul, Diário de Sorocaba e O Estado de São Paulo. (…). Uma multidão foi até a igreja em novembro de 1989 para encontrar a tal boneca assassina. Pois, acreditavam que a boneca estivesse acorrentada no Museu Diocesano de Arte Sacra, nas galerias da igreja Catedral. (…) O monsenhor Mauro Vallini que era o pároco da matriz, precisou fechar as portas da igreja para minimizar o tumulto. Logo depois, procurou a imprensa e a polícia para avisar que toda aquela história era apenas um boato. Mas, as histórias não cessaram, pelo contrário, se espalhou pelo país e em Minas Gerais, uma criança teria achado uma faca dentro da boneca Xuxa. Então, atendendo uma ordem do brinquedo, ela pegou a faca e matou sua mãe.

Atualmente, o pároco da Catedral, Tadeus Rocha Moraes, disse (…) que não há nenhuma boneca guardada nas dependências da matriz. (…) Recentemente, a Netflix divulgou um vídeo em seu canal no Youtube, onde a boneca da Xuxa era uma enviada do Mundo Invertido dos anos 80. Em suma, a brincadeira recria um quarto de criança da época com outras referências ao período, onde o brinquedo está em um canto escuro do quarto. (…) Os olhos da boneca se acendem diabolicamente e com uma voz assustadora ela invoca o temível Demogorgon. (…) Inclusive, a própria Xuxa participa do vídeo da Netflix, fazendo uma rápida narração avisando sobre os novos episódios da série Stranger Things que já estavam disponíveis.[11]

A lenda urbana não morreu com o tempo e o brinquedo vintage continuou a fazer vítimas. Por exemplo, em 2007 uma crédula Vanessa escreveu numa rede social:

Eu amo bonecas, mas tem uma que eu odeio. A Xuxa é assassina! Quando eu nasci minha irmã tinha essa maldita e ela caiu na minha cabeça. Ela tentou me matar e olha que eu estava no colo da minha mãe… Fui parar no pronto socorro com a cabeça amassada graças a essa maldita! Fiquei internada em observação. Até hoje acho que minha cabeça é amassada! Mas não ficou nenhuma sequela grave.[12]

Outra versão sobre o pacto da Xuxa me foi narrada por volta de 2005 pelo Pastor Guilherme, da IURD, que afirmou sem provas que a pactuante teria se comprometido a mudar de orientação sexual perante Exu, incorporado no médium Renato Aragão. Ele insistiu com tremenda convicção, gesticulando como se tivesse um papel em suas mãos vazias, que havia obtido a escritura em nome da Xuxa da compra dum “barracão velho e imundo” onde Didi (Renato Aragão) atuaria como Pai de Santo.

Pesquisando descobri que, de fato, existe um Pai de Santo Didi atuando no Axê Opó Afonja – Ilê fundado por Eugênia Anna dos Santos em 1910, – mas este se chama Deoscoredes M. dos Santos e não possui nenhuma relação com o ator Renato Aragão.

Seu irmão, José Ribeiro de Souza, narrou sobre eventos intermediados pelo guia Tranca Ruas das Almas, baixado no Terreiro de Yansã Egun Nitá. Segundo afirma, o cantor Roberto Carlos e o Cabeleireiro Silvinho[13] visitaram aquele local para pedir axé, a atriz global Wilza Carla e a cantora Emilinha Borba foram curadas de doenças participando de giras, o detetive policial Fernando Gargaglione prendeu um fugitivo localizado por meios mediúnicos, etc.[14] A Xuxa, contudo, nunca esteve lá.

O que a atriz faz que a personagem não faz?

No início da sua vida profissional Maria da Graça Menenguel trabalhava como modelo ostentando todo tipo de figurinos ousados conforme os usos e costumes da indústria da moda. Algumas vezes os contratantes solicitavam que ela descobrisse os seios ou glúteos nas fotos publicadas em revistas femininas de alta tiragem. Isto não era e nem deveria ser motivo de vergonha ou reprovação social, pois o nu artístico é um trabalho perfeitamente digno para modelos profissionais.

De acordo com o Ricardo Setti, na Veja online, a Xuxa posou nua em cinco oportunidades na extinta revista Ele & Ela, da Bloch Editores. Depois, em 1982 tanto ela Xuxa quanto sua irmã Maruska posaram para a revista Playboy:

Não era tanto material como muita gente poderia imaginar. Xuxa, na verdade, protagonizou apenas um único ensaio para Playboy, publicado na edição de 7º aniversário, em agosto de 1982, e ao lado da irmã Maruska. As chamadas de capa falavam em “Segredo de família” e “As fotos que Pelé quase proibiu”. Fotos desse ensaio, algumas inéditas, seriam depois republicadas, em diferentes edições. A última de todas seria um pôster na edição de 10º aniversário, concessão que Mário obteve de Pelé no finzinho da reunião.[15]

Paralelamente ocorreu a estreia nos cinemas do filme Amor Estranho Amor (1982), dirigido pelo respeitado cineasta Walter Hugo Khouri, onde Xuxa atuou no papel da personagem coadjuvante Tamara, uma jovem apaixonada por um menino, mas que teve sua virgindade leiloada no início da vida como garota de programa. A fúria da critica se deve ao fato de a atriz ter coberto o ator mirim Marcelo Ribeiro de beijos técnicos.

Em 1986 ela assinou contrato de exclusividade com a Rede Globo e mudou completamente de vida. A celebridade só voltou a posar com os seios à mostra no ano 2000, durante o desfile do 9º Morumbi Fashion Brasil, onde alternou diversas peças da coleção de Lino Villaventura.

Poucos dias antes um fã arrematou uma revista com um nu artístico por R$ 2000,00, num leilão promovido pelo Raul Barbosa, e levou juntamente com outras peças pedindo-a que renegasse seu passado queimando tudo. Isso saiu nos jornais e a Xuxa reagiu com a corajosa atitude de desfilar novamente quatorze anos depois do seu último desfile, provando assim que não se envergonhava do seu primeiro emprego.

Detalhe: Nem a TV Globo se incomoda com provocações. Do contrário não teriam permitido a criação da personagem Cacilda, da Escolinha do Professor Raimundo, em 1990. Cacilda (Cláudia Jimenez) era uma versão ninfomaníaca da Xuxa que dizia “Comigo é assim: Beijinho-Beijinho, Pau-Pau”, parodiando o bordão da outra atriz “Beijinho-Beijinho, Tchau-Tchau”.

Falsos indícios de lesbianismo

A missionária Elizabete Marinho é uma das muitas pessoas que afirmam que a Xuxa não pode ter relação sexual com o sexo oposto por causa duma exigência do diabo: “Ela pode namorar, casar, mas não pode ter relação com o seu parceiro”[16].

Os pastores que apregoam a lenda urbana concordam unanimemente que o pacto da Xuxa foi assinado em 1986. Vejam a magnitude da falta de lógica de tal argumento: Suponhamos que esta vítima da propaganda fundamentalista fizesse tudo que eles dizem da forma depravada e exagerada como eles narram. Para que o diabo mitológico, o rei da luxúria, o maior apreciador de todos os pecados, tiraria uma joia da sacanagem do seu inverificável ofício de musa de filmes pornô?[17] Que interesse o diabo teria em impedir uma bela dama de atiçar a imaginação masculina posando nua? Por que mandaria observar o celibato e educar crianças? Isso não faz sentido. Parece até que o tinhoso quiz perder para o céu uma alma cujo lugar no inferno já estaria garantido.

Na Umbanda o Filho de Ogum não precisa mudar de sexo só porque este orixá é associado a São Jorge, que combate um Dragão, e o rótulo “Drag Queen” é aplicado aos travestis. Porém a Umbanda é uma religião livre de preconceitos contra gêneros diversos e preferências estéticas divergentes. Logo, um travesti ou homossexual que se interesse sinceramente pelo culto de Ogum poderá ser eventualmente reconhecido como um legítimo Filho de Ogum. Isso laça um nó na cabeça dos conservadores que inventam estórias mirabolantes sobre umbandistas obrigados a mudar de sexo.

A matéria prima para construção de novos boatos surgiu depois que a Xuxa rompeu o namoro com o ainda jovem, bonito e rico futebolista Edson Arantes do Nascimento, mais conhecido como Pelé.

Quem em sã consciência faria uma coisa dessas? Só uma mulher de princípios inabaláveis que prefere trabalhar por conta própria a viver na dependência do marido. Ou então uma lésbica! Criaturas invejosas que nunca perderiam a oportunidade de dar o golpe da barriga num futebolista rico e famoso se apressaram em procurar indícios de lesbianismo, deduzindo que a empresária Marlene Matos era o novo homem da atriz.

Ato contínuo, pessoas inescrupulosas inventaram que a música Sorvetão foi feita por quem achava a paquita Andréa Faria gostosa de lamber[18]. A narrativa do Tio Chico, gravada em junho do ano 2002, continua afirmando que a Xuxa fez sexo lésbico com a missionária Lanna Holder, com a nadadora Joanna Maranhão, mais as cantoras Simony e Ivete Sangalo[19]. Esta última se defendeu numa entrevista à revista Playboy:

Como é que vou dizer: “Minha gente, nunca transei com a Xuxa?” Eu tenho vergonha de ter de falar isso. Por mais que eu desminta, não vai ser suficiente para suprimir essa necessidade do boato que vende. São vários problemas que uma fofoca dessas traz. Primeiro porque ela é minha amiga. Segundo porque eu não sou lésbica. Mas se eu fosse isso teria de ser respeitado.[20]

A missionária Lanna Holder também respondeu na sua antiga página oficial:

É chegado ao meu conhecimento por meio de e-mails, como de telefonemas, o falso testemunho que o Pastor Francisco (ex-tio Chico), tem dado ao meu respeito pelos púlpitos do Brasil. (…) Assim venho por meio desta nota, desmentir o testemunho do Pastor Francisco (…) ao qual foi por mim procurado há cerca de três meses atrás para esclarecimentos, porém o mesmo negou com veemência que tenha feito tal afirmativa. Minha tristeza é saber que ele esteja usando de acontecimentos do passado (meados de 1999 a 2000), quando esteve na época pregando na igreja do meu ex-sogro e hospedado por um dia no meu apartamento em Guarulhos, para abusar com maldade do ocorrido, alegando que na ocasião eu tenha lhe dito que tive um envolvimento com a Xuxa!

É estarrecedor o fato de que se houverem verdades em suas palavras e testemunho, das quais eu passei a duvidar após este ocorrido, seja acrescentada esta mentira ao meu respeito. (…) Assim aos que me procurarem questionando o testemunho deste pastor, fique assim esclarecido: Eu nunca tive um caso com a Xuxa. (…) “A pessoa que diz mentiras a respeito dos outros é tão perigosa quanto uma espada, um porrete ou uma flecha afiada” (Pv 25:18).[21]

Os fundamentalistas procuraram menções esparsas de rituais para lésbicas e inventaram a participação de toda essa gente nessa bazofia. Quando Ayrton Senna morreu tragicamente disseram que o acidente aconteceu por causa do ciúme do demônio, pois a Xuxa o estava namorando. Quando ela teve uma filha biológica com Luciano Zsafir disseram que a Sasha nasceu por inseminação artificial e que o bebezinho morreria caçado pelo demônio ciumento.[22]  Mesmo com inúmeras provas em contrário os fundamentalistas são extremamente cruéis e inventivos quando defendem suas crenças difamantes e injuriosas.

Mensagens subliminares inexistentes

Na época dos discos de vinil tinha muita gente que brincava de produzir sons disformes girando discos em sentido anti-horário com o dedo na vitrola. A garotada rodava qualquer disco ao revés para imitar vozes de demônios nas festas de Dia das Bruxas, etc. O problema é que certas pessoas começaram a acreditar que realmente existiam mensagens satânicas escondidas nos ruídos da rotação irregular.

Os teóricos do pacto inventaram que muitos artistas escondiam mensagens de adoração ao diabo nos discos de vinil para que as crianças e jovens dependentes do sustento familiar conseguissem pedir objetos de culto idólatra para pais cristãos. Ou seja, os filhos dos temerosos nunca ganhariam de presente um álbum dos Menudos chamado explicitamente Los Fantasmas (1977), mas poderiam lograr êxito na obtenção dum exemplar de nome venturoso, a exemplo de Los Últimos Héroes (1989) cuja música Não se Reprima conteria a frase oculta “Satanás Vive” em seu reverso.

Alguns músicos reagiram à demanda gerada pela curiosidade de verificar a lenda urbana. Eles inseriram mensagens verdadeiras na rotação inversa de discos de vinil para os consumidores procurarem. Por exemplo, na música Ilusão de Ótica da banda Engenheiros do Hawaii existem perguntas: “Por que você está ouvindo isto ao contrário? O que você está procurando, hein?” Em Empty Spaces da banda Pink Floyd a voz de Roger Waters felicita o descobridor do efeito especial: “Congratulations! You have just discovered the secret message”. Na rotação normal de My Darling Nikki, do Prince, uma letra deprimente fala sobre um rapaz usado como brinquedo sexual duma rapariga rica. Já na rotação invertida um coral entoa um louvor gospel: “Hello! How are you? I’m fine, because I know the Lord is comming!” Tal foi o cúmulo do deboche da superstição alheia.

Xuxa afirma que nunca inseriu gravações ao contrário nos seus vinis e isto deve ser verdade. Contudo, as inversões funcionam como os desenhos do teste psicológico dos borrões de Rorschach onde os pacientes são convidados a procurar significados plurais em manchas pretas.[23] Dizem que o álbum 4º Xou da Xuxa (1989) foi recolhido, queimado e relançado porque encontraram uma mensagem subliminar no reverso de Tindolelê. Por sorte minha irmã comprou aquele álbum lendário produzido por Michael Sulivan e Paulo Massadas no primeiro dia de lançamento e nós ouvimos um minúsculo pedaço que parecia defeituoso na rotação normal. Dava para ouvir crianças gritando algo extremamente parecido com a palavra “Liberdade” no reverso, por coincidência.

Não escutei nada inteligível ouvindo as várias outras músicas que foram tocadas de traz para frente, gravadas e legendadas pelos fundamentalistas, exceto na versão de Meu Cãozinho Xuxo invertida e editada por Rafael Hezadoff.[24] Não sei como ele fez isto, mas fez. Outros inverteram a mesma música sem sucesso.

Os produtores de vídeos de batalha espiritual que denunciam músicas invertidas legendadas muitas vezes editam impiedosamente as imagens do incêndio no estúdio F do Projac, ocorrido em 11/01/2001 durante gravações do programa Xuxa Park, inserindo alegações estapafúrdias de que o Diabo foi evocado para receber sacrifícios humanos.

Vivificação de brinquedos consagrados ao diabo

Conforme exposto, a lenda do brinquedo assassino é subproduto do dogma da consagração ao diabo de todos os objetos relacionados aos programas televisivos. Tudo que fosse consagrado teria algum vicio redibitório de natureza preternatural: Discos de vinil tocariam louvores à Satã e mensagens subliminares. Os bonecos da indústria Mimo, dos personagens Xuxa e Fofão, trariam uma peça perigosa no pescoço que se transforma em punhal para ferir ou ser usado como arma por crianças consumidoras.

Os fatos por traz da lenda eram muito diferentes. Crianças poderiam aprender o mínimo sobre fantasia e motivos ufológicos assistindo ao Xou da Xuxa. Não há produto mais digno duma menção honrosa do que a Xuxa africana, única boneca de etnia negra distribuída em larga escala no Brasil naquele ano!

Detalhe duma ilustração na caixa da boneca.

Uma curiosidade saiu no jornal EXTRA, da franquia O GLOBO, numa ocasião especialíssima. No dia 21/05/2014, durante uma sessão plenária em que a CCJ discutia o projeto de Lei 7672/2010, proibindo o tratamento cruel ou degradante de crianças pelos pais e responsáveis, o deputado e radialista Francisco Eurico da Silva (PSB-PE), pastor da Igreja Evangélica Assembleia de Deus, levantou gritando e usou linguagem abusiva para acusar a convidada Maria da Graça Menenguel de violentar o ator mirim Marcelo Ribeiro durante a gravação do filme Amor Estranho Amor (1982).

Xuxa não pôde se defender da injúria porque convidados não são autorizados a falar. Quatro dias depois João Arruda e Renato Machado publicaram que “uma das lendas urbanas famosas nos anos 80 dava conta de que a boneca da Xuxa atacava crianças a facadas”. Isto os motivou a criar uma charge onde um personagem inspirado no músico Psirico, tocando Lepo Lepo, revela uma mensagem subliminar escondida na rotação invertida dum disco enquanto o Pastor Eurico é sacrificado: “O deputado que ofendeu Xuxa não perde por esperar! A boneca da Xuxa vai dar várias facadas nele!”[25]

1) Deputado Pastor Eurico fugindo duma boneca assassina numa charge de João Arruda e Renato Machado. 2) Uma boneca da coleção “XUXA: Volta ao Mundo”, produzida pela indústria brasileira MIMO. Esta boneca morena de cabelos pretos, da primeira série baseada na apresentadora branca e loira, teve cor e vestuário definido na intenção de homenagear os povos e costumes africanos.

Quando a Xuxa se defendeu aconteceram coincidências assustadoras

Se um piloto não houvesse usado a máquina que caiu na Baía de Guanabara dia 12 de agosto de 2010 antes do previsto, a Xuxa provavelmente teria morrido numa sexta feira 13, vítima da queda do jatinho táxi aéreo, de prefixo PT-LXO, da OceanAir, que havia fretado para ir ao Recife participar de um desfile.

Curiosamente, naquela época ela estava aguardando o julgamento duma ação movida contra a Editora Gráfica Universal, cobrando danos morais e materiais causados pela publicação dum artigo escrito pelo missionário Josué Yrion, com título “Pacto com o Mal?”, matéria de capa do jornal Folha Universal, edição 855, de 2008.[26]

E se a estória do pacto fosse verdadeira?

O Brasil é um Estado laico onde existe garantia constitucional à liberdade de culto. Comete ato ilícito quem injuria, difama ou calunia toda e qualquer pessoa que adquire figuras sincréticas de diabos vermelhos em lojas de artigos religiosos. Também não há lei que proíba brasileiros de serem homossexuais. Pelo contrário, homofobia é crime. É imputável quem injuria o homossexual ou difama quem não é homossexual afirmando falsamente que seja (assim como fizeram com a Xuxa).

Conclusão: Ainda que a Xuxa fosse bissexual ou lésbica (não é) e houvesse feito (não fez) um pacto às escondidas com intermédio do Tio Chico, ou do Alexandre Canhodre, ou do Didi, ou frequentasse terreiros, ou fizesse macumba por conta própria, se o público não a viu realizando estas atividades é como se chovesse canivete no deserto. E mesmo se ela tivesse feito tudo isso não teria cometido nenhum ato ilícito.

Quanto as bonecas da Mimo, eu tive quatro na minha coleção particular. Nunca as vi mexer e nunca sonhei com nenhuma elas, apesar de minha neuro-divergência. Como ouço vozes e tenho outras alucinações, sou sujeita a alterações espontâneas de consciência que apresentam uma perspectiva onde coisas podem dialogar e bonecos interagem. Porém, mesmo assim, as xuxinhas sempre se comportaram como objetos inanimados normais, não despertando em mim nenhum gatilho.

 

Notas

[1] Este filme foi banido do Brasil, graças a um processo judicial cuja causa foi ganha pela Globo, mas até hoje cópias caseiras são assistidas e debatidas nos meios universitário e acadêmico. Também acabou ovacionado pelo partido dos trabalhadores e sua base aliada (são eles os heróis do filme).

[2] Quando a Leilah Moreno ganhou o concurso de calouros do programa Raul Gil, em 2002, ela cantou pela última vez usando um enorme pingente de estrela de cinco pontas invertida (com duas pontas para cima). A escolha foi incomum, pois naquela ocasião ela ganhou o direito de gravar um álbum gospel (não era tema livre). A Record nada fez para impedir a exibição da bijuteria, nem os patrocinadores que arquivaram imagens da futura protagonista da série global Antônia (2006-2007) com isto, cantando uma música da banda Guns N’ Roses.

[3] XUXA DA UM BEIJO NA CRUZ INVERTIDA? Em: Unidos na Fé. Publicado em 07/12/2011 às 06:56h. URL: <http://www.unidosnafe.com.br/joomla1.5/latest/xuxa-da-um-beijo-na-cruz-invertida-um-descuido-ou-proposital>.

[4] O’GRADY, Joan. Satã. Trad. José Antonio Ceschim. São Paulo, Mercuryo, 1989, p 30.

[5] O’GRADY, Joan. Satã. Trad. José Antonio Ceschim. São Paulo, Mercuryo, 1989, p 28-29.

[6] DUMAS, François Ribadeau. Arquivos Secretos da Feitiçaria e da Magia Negra. Trad. M. Rodrigues Martins. Lisboa, Edições 70, 1971, p 174.

[7] BARRETO, Paulo. As Religiões do Rio. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1976, p 39-40.

[8] EPOCAESTADO BRASIL URL: <http://epocaestadobrasil.wordpress.com/2008/11/26/processo-xuxa-quer-r5-milhoes-da-band-e-r-3-milhoes-de-jornal-caso-venca-o-processo/>. Acessado em: 16/05/2013 às 15:49h.

[9] Nesta gravação Tio Chico continua afirmando que o primeiro pacto foi quebrado quando a cantora evangélica Aline Barros cantou a música Consagração no Xou da Xuxa. Então foi necessário realizar um “pacto de sangue” mais forte, “feio e escandaloso” que usou como ingrediente a menstruação da pactuante. Tal rito de sexo oral não pertence à Umbanda, mas existe um precedente no opúsculo De Arte Magica (1914) onde Edward Alexander Crowley acusa a atriz Mina Bergson (1865-1928) de praticar vampirismo bebendo e/ou dando de beber sangue uterino. Isto é amplamente citado nas obras norte-americanas de batalha espiritual, sobretudo na autobiografia do pastor Willian Schnoebelen, Lucifer Dethroned (1993), porque Kenneth Grant dedicou um capítulo de The Magical Revival (1972) àquele rito antes de se tornar chefe internacional da Ordo Templi Orientis (O.T.O.).

[10] MARINHO, Elizabete Venceslau. A Bela Face do Mal. Paraná, Deus é Fiel, p 38-39.

[11] PEREIRA, Renata Gonçalves. Boneca da Xuxa – Conheça a lenda urbana assustadora de 1989. Em: SEGREDOS DO MUNDO. Acessado em 16/05/2022, 18h37. URL: <https://segredosdomundo.r7.com/boneca-da-xuxa/>.

[12] Mensagens de Vanessa publicada na comunidade “Bonecas, objetos do mal?”, na rede social Orkut (atualmente desativada), publicada em 13/05/2007 e 14/05/2007.

[13] De acordo com José Ribeiro de Souza o cabeleireiro Silvinho participava do júri do programa do Chacrinha e precisava de sorte ou axé para ter seu próprio salão de beleza.

[14] SOUZA, José Ribeiro de & ROSA, Celso. Tranca Ruas das Almas. Rio de Janeiro, ECO, 1974, p 53-55.

[15] SETTI, Ricardo. Histórias Secretas de Playboy (4): O dia em que Pelé foi, pessoalmente, recolher todas as fotos de Xuxa nua. Em: VEJA. Acessado em: 16/05/2013 às 15:08h. URL: <http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/bytes-de-memoria/historias-secretas-de-playboy-5-o-dia-em-que-pele-foipessoalmente-recolher-todas-as-fotos-de-xuxa-nua/>.

[16] MARINHO, Elizabete Venceslau. A Bela Face do Mal. Paraná, Deus é Fiel, p 38.

[17] Os teóricos do pacto tentam forçar a confusão entre o Projac carioca e a Boca do Lixo paulista. Existem lendas restritas aos círculos de cinéfilos sobre fitas VHS de “clássicos pornôs” produzidos na Boca do Lixo onde a Xuxa seria vista praticando sexo anal, etc., com homens adultos e seu nome apareceria nos créditos finais. Dentre os que juram ter assistido os tais filmes “pesados”, ninguém divulga os títulos, certamente porque essas películas nunca existiram. Os mesmos cinéfilos costumam dizer que o anão Chumbinho – um ator de filmes pornô cujo nome real é desconhecido – fazia o papel do personagem Praga no Xou da Xuxa, apresentando como prova somente a baixa estatura do ator.

[18] A verdade é que a Andréa Faria foi ameaçada de demissão por causa do limite de peso estabelecido em contrato, mas nem assim parou de comer sorvetes.

[19] Na minha experiência percebi que as pessoas dão mais valor aos boatos e ínferas excentricidades do que aos fatos concretos. Durante do Festival de Verão de Salvador, em 2007, a produção da Ivete Sangalo escolheu um vestido branco muito curto para a cantora usar e ela fingiu estar possuída por uma entidade chamada “Piriguete Sangalo” no início do show. Os sensacionalistas se apressaram em editar o vídeo excluindo a parte onde a cantora explicou a brincadeira, deixando só a encenação dos movimentos frenéticos e voz alterada. Lembraram que a Ivete é “amiga da Xuxa” e colaram este vídeo com outros… Mas o que a Xuxa tinha a ver com isso? Ela nem estava presente naquele show da Ivete Sangalo.

[20] IVETE SANGALO NEGA TER FEITO SEXO COM XUXA. Em: Ego Notícias. Publicado em 06/11/2012. URL: <http://ego.globo.com/famosos/noticia/2012/11/revista-ivete-sangalo-nega-ter-feito-sexo-com-xuxa-nao-sou-lesbica.html>.

[21] LANNA HOLDER DESMENTE PASTOR FRANCISCO (EX-BRUXO TIO CHICO). Cópia em: O Verbo. Acessado em 16/05/2013 às 18:10h. URL: <http://www.overbo.com.br/lanna-holder-desmente-pastor-francisco-ex-bruxo-tio-chico/>.

[22] Anos atrás Tio Chico reagiu à comoção publica causada pela matéria de capa da Revista Contigo (nº 486, edição 1386, editada em 02/04/2002) intitulada “Sacha ameaçada de Sequestro: A agonia de Xuxa”. A gravação da pregação proferida em junho do ano 2002 afirma que as igrejas estavam fazendo de tudo pela conversão da Xuxa. Ele disse: “Pode esperar que ela vai se converter. Estou pedindo nas igrejas para interceder pela Maria das Graças Meneghel. Eu vou explicar por que. A Maria das Graças está numa situação muito difícil. Eu estive no Rio e falei com o Steve e com o pastor Marco lá em São João de Meriti. A Maria das Graças está indo, uma vez, na igreja Internacional da Graça de Deus do nosso amado irmão R. R. Soares. Ela vai, fica escondida no gabinete, não fica no salão junto com as pessoas. A segurança dela fica ali; porque o Diabo está ameaçando de matar a sua filha. (…) Então vamos orar pela Xuxa. (…) No segundo pacto que a Maria da Graça fez (…) não podia realizar o desejo de ser feliz e seu sonho: Casar. A Maria das Graças não pode coabitar. Não pode ter contato com homem. Aquela criança nasceu de inseminação artificial”.

[23] Também não é verdade que a cifra da tablatura de Tumbalacatumba copia o ritmo da bateria do início da musica I Don’t Wanna Stop de Ozzy Osbourne. Isso é pura lenda urbana.

[24] Na versão de Meu Cãozinho Xuxo invertida, distorcida e editada por Rafael Hezadoff a Xuxa parece choramingar as frases “Te levarei no mato”, “Isso é uma delícia” e “Meu anjo é o Diabo”.

[25] ARRUDA, João & MACHADO, Renato. Semana da Tia Lúcia: Fatos e Humor politicamente incorreto. Em: Jornal EXTRA. Domingo, 25 de maio de 2014, p 12.

[26] XUXA, IGREJA UNIVERSAL, DIABO E US$ 100 MILHÕES. Em: Espaço Vital – notícias jurídicas. Acessado em 16/05/2022, 17h53. URL: <https://www.espacovital.com.br/imprimir?id=26768&tipo=noticia>.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/lenda-urbana-xuxa-bruxa/

David Beth

David Beth, escritor e explorador esotérico, nasceu em Luanda, Angola, de pais alemães, em maio de 1974. Durante sua vida ele passou dezesseis anos na África, vivendo na Nigéria e no Quênia.

O clima único, metafísico e espiritualmente rico, especialmente na África Ocidental, teve uma grande influência sobre David desde cedo. Durante esses dezesseis anos, ele teve a sorte de encontrar pessoalmente muitos poderosos representantes das tradições espirituais e metafísicas locais, como Susanne Wenger, suma sacerdotisa de Osun e guardiã das florestas sagradas de Oshogbo. Durante seus anos na África, ele recebeu transmissões e palestras de vários tipos que ele infundiu em seu trabalho mágico e espiritual.

Um profundo interesse pela tradição esotérica ocidental levou-o a estudar vários sistemas de magia e realização espiritual e a receber iniciação neles.

Sua pesquisa esotérica eventualmente o levou à Gnose Voudon de Michael Bertiaux – com quem ele formou uma importante amizade pessoal e relacionamento esotérico – tanto na Ordem Voudon Gnostic quanto na Ordem La Couleuvre Noire (L.C.N.) da qual ele se tornou mestre e agora os serve como Soberano Grão-Mestre (SGM).

Ele também é um dedicado Bispo Gnóstico não dualista da Ecclesia Gnostica Aeterna (E.G.A) e Grande Comandante da Fraternitas Borealis (F.B.), duas organizações que operam de forma única com a Gnose Cósmica.

Sendo de certa forma uma personalidade nômade, David Beth já viveu em muitos lugares e países desde Hamburgo, na Alemanha até Los Angeles, nos Estados Unidos e Londres, na Grã-Bretanha. Ele tem viajado pelo mundo por prazer, aprendizagem, inspiração e um desejo geral de exploração.

Formado, ele usa seu aprendizado acadêmico e sua prática espiritual para pesquisar e desenvolver continuamente sistemas espirituais de realização,  além de escrever artigos e livros. David frequentemente dá conferências, palestras e realiza seminários e workshops ao redor do mundo.

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Fonte: https://www.labirintostellare.org/autori/david-beth/

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/david-beth/

Ego – O Falso Centro

Osho

“O primeiro ponto a ser compreendido é o ego.

Uma criança nasce sem qualquer conhecimento, sem qualquer consciência de seu próprio eu. E quando uma criança nasce, a primeira coisa da qual ela se torna consciente não é ela mesma; a primeira coisa da qual ela se torna consciente é o outro. Isso é natural, porque os olhos se abrem para fora, as mãos tocam os outros, os ouvidos escutam os outros, a língua saboreia a comida e o nariz cheira o exterior. Todos esses sentidos abrem-se para fora. O nascimento é isso.

Nascimento significa vir a esse mundo: o mundo exterior. Assim, quando uma criança nasce, ela nasce nesse mundo. Ela abre os olhos e vê os outros. O outro significa o tu.

Ela primeiro se torna consciente da mãe. Então, pouco a pouco, ela se torna consciente de seu próprio corpo. Esse também é o ‘outro’, também pertence ao mundo. Ela está com fome e passa a sentir o corpo; quando sua necessidade é satisfeita, ela esquece o corpo. É dessa maneira que a criança cresce.

Primeiro ela se torna consciente do você, do tu, do outro, e então, pouco a pouco, contrastando com você, com tu, ela se torna consciente de si mesma.

Essa consciência é uma consciência refletida. Ela não está consciente de quem ela é. Ela está simplesmente consciente da mãe e do que ela pensa a seu respeito. Se a mãe sorri, se a mãe aprecia a criança, se diz ‘você é bonita’, se ela a abraça e a beija, a criança sente-se bem a respeito de si mesma. Assim, um ego começa a nascer.

Através da apreciação, do amor, do cuidado, ela sente que é ela boa, ela sente que tem valor, ela sente que tem importância. Um centro está nascendo. Mas esse centro é um centro refletido. Ele não é o ser verdadeiro. A criança não sabe quem ela é; ela simplesmente sabe o que os outros pensa a seu respeito.

E esse é o ego: o reflexo, aquilo que os outros pensam. Se ninguém pensa que ela tem alguma utilidade, se ninguém a aprecia, se ninguém lhe sorri, então, também, um ego nasce – um ego doente, triste, rejeitado, como uma ferida, sentindo-se inferior, sem valor. Isso também é ego. Isso também é um reflexo.

Primeiro a mãe. A mãe, no início, significa o mundo. Depois os outros se juntarão à mãe, e o mundo irá crescendo. E quanto mais o mundo cresce, mais complexo o ego se torna, porque muitas opiniões dos outros são refletidas.

O ego é um fenômeno cumulativo, um subproduto do viver com os outros. Se uma criança vive totalmente sozinha, ela nunca chegará a desenvolver um ego. Mas isso não vai ajudar. Ela permanecerá como um animal. Isso não significa que ela virá a conhecer o seu verdadeiro eu, não.

O verdadeiro só pode ser conhecido através do falso, portanto, o ego é uma necessidade. Temos que passar por ele. Ele é uma disciplina. O verdadeiro só pode ser conhecido através da ilusão. Você não pode conhecer a verdade diretamente. Primeiro você tem que conhecer aquilo que não é verdadeiro. Primeiro você tem que encontrar o falso. Através desse encontro, você se torna capaz de conhecer a verdade. Se você conhece o falso como falso, a verdade nascerá em você.

O ego é uma necessidade; é uma necessidade social, é um subproduto social. A sociedade significa tudo o que está ao seu redor, não você, mas tudo aquilo que o rodeia. Tudo, menos você, é a sociedade. E todos refletem. Você irá à escola e o professor refletirá quem você é. Você fará amizade com as outras crianças e elas refletirão quem você é. Pouco a pouco, todos estarão adicionando algo ao seu ego, e todos estarão tentando modificá-lo, de modo que você não se torne um problema para a sociedade.

Eles não estão interessados em você. Eles estão interessados na sociedade. A sociedade está interessada nela mesma, e é assim que deveria ser. Eles não estão interessados no fato de que você deveria se tornar um conhecedor de si mesmo. Interessa-lhes que você se torne uma peça eficiente no mecanismo da sociedade. Você deveria ajustar-se ao padrão.

Assim, estão interessados em dar-lhe um ego que se ajuste à sociedade. Ensinam-lhe a moralidade. Moralidade significa dar-lhe um ego que se ajuste à sociedade. Se você for imoral, você será sempre um desajustado em um lugar ou outro…

Moralidade significa simplesmente que você deve se ajustar à sociedade. Se a sociedade estiver em guerra, a moralidade muda. Se a sociedade estiver em paz, existe uma moralidade diferente. A moralidade é uma política social. É diplomacia. E toda criança deve ser educada de tal forma que ela se ajuste à sociedade; e isso é tudo, porque a sociedade está interessada em membros eficientes. A sociedade não está interessada no fato de que você deveria chegar ao auto-conhecimento.

A sociedade cria um ego porque o ego pode ser controlado e manipulado. O eu nunca pode ser controlado e manipulado. Nunca se ouviu dizer que a sociedade estivesse controlando o eu – não é possível.

E a criança necessita de um centro; a criança está absolutamente inconsciente de seu próprio centro. A sociedade lhe dá um centro e a criança pouco a pouco fica convencida de que esse é o seu centro, o ego dado pela sociedade.

Uma criança volta para casa. Se ela foi o primeiro lugar de sua sala, a família inteira fica feliz. Você a abraça e beija; você a coloca sobre os ombros e começa a dançar e diz ‘que linda criança! você é um motivo de orgulho para nós.’ Você está dando um ego para ela, um ego sutil. E se a criança chega em casa abatida, fracassada, foi um fiasco na sala – ela não passou de ano ou tirou o último lugar, então ninguém a aprecia e a criança se sente rejeitada. Ela tentará com mais afinco na próxima vez, porque o centro se sente abalado.

O ego está sempre abalado, sempre à procura de alimento, de alguém que o aprecie. E é por isso que você está continuamente pedindo atenção.

Você obtém dos outros a idéia de quem você é.  Não é uma experiência direta.

É dos outros que você obtém a idéia de quem você é. Eles modelam o seu centro. Mas esse centro é falso, enquanto que o centro verdadeiro está dentro de você. O centro verdadeiro não é da conta de ninguém. Ninguém o modela. Você vem com ele. Você nasce com ele.

Assim, você tem dois centros. Um centro com o qual você vem, que lhe é dado pela própria existência. Esse é o eu. E o outro centro, que é criado pela sociedade – o ego. Esse é algo falso –  é um grande truque. Através do ego a sociedade está controlando você. Você tem que se comportar de uma certa maneira, porque somente assim a sociedade irá apreciá-lo. Você tem que caminhar de uma certa maneira; você tem que rir de uma certa maneira; você tem que seguir determinadas condutas, uma moralidade, um código. Somente assim a sociedade o apreciará, e se ela não o fizer, o seu ego ficará abalado. E quando o ego fica abalado, você já não sabe onde está, você já não sabe quem você é.

Os outros deram-lhe a idéia. E essa idéia é o ego. Tente entendê-lo o mais profundamente possível, porque ele tem que ser jogado fora. E a não ser que você o jogue fora, nunca será capaz de alcançar o eu. Por estar viciado no falso centro, você não pode se mover, e você não pode olhar para o eu. E lembre-se: vai haver um período intermediário, um intervalo, quando o ego estará se despedaçando, quando você não saberá quem você é, quando você não saberá para onde está indo; quando todos os limites se dissolverão. Você estará simplesmente confuso, um caos.

Devido a esse caos, você tem medo de perder o ego. Mas tem que ser assim. Temos que passar através do caos antes de atingir o centro verdadeiro. E se você for ousado, o período será curto. Se você for medroso e novamente cair no ego, e novamente começar a ajeitá-lo, então, o período pode ser muito, muito longo; muitas vidas podem ser desperdiçadas…

Até mesmo o fato de ser infeliz lhe dá a sensação de “eu sou”. Afastando-se do que é conhecido, o medo toma conta; você começa sentir medo da escuridão e do caos – porque a sociedade conseguiu clarear uma pequena parte de seu ser… É o mesmo que penetrar numa floresta. Você faz uma pequena clareira, você limpa um pedaço de terra, você faz um cercado, você faz uma pequena cabana; você faz um pequeno jardim, um gramado, e você sente-se bem. Além de sua cerca – a floresta, a selva. Mas aqui dentro tudo está bem: você planejou tudo.

Foi assim que aconteceu. A sociedade abriu uma pequena clareira em sua consciência. Ela limpou apenas uma pequena parte completamente, e cercou-a. Tudo está bem ali. Todas as suas universidades estão fazendo isso. Toda a cultura e todo o condicionamento visam apenas limpar uma parte, para que ali você possa se sentir em casa.

E então você passa a sentir medo. Além da cerca existe perigo.

Além da cerca você é, tal como você é dentro da cerca –  e sua mente consciente é apenas uma parte, um décimo de todo o seu ser. Nove décimos estão aguardando no escuro. E dentro desses nove décimos, em algum lugar, o seu centro verdadeiro está oculto.

Precisamos ser ousados, corajosos. Precisamos dar um passo para o desconhecido.

Por um certo tempo, todos os limite ficarão perdidos. Por um certo tempo, você vai se sentir atordoado. Por um certo tempo, você vai se sentir muito amedrontado e abalado, como se tivesse havido um terremoto.

Mas se você for corajoso e não voltar para trás, se você não voltar a cair no ego, mas for sempre em frente, existe um centro oculto dentro de você, um centro que você tem carregado por muitas vidas. Esse centro é a sua alma, o eu.

Uma vez que você se aproxime dele, tudo muda, tudo volta a se assentar novamente. Mas agora esse assentamento não é feito pela sociedade. Agora, tudo se torna um cosmos e não um caos, nasce uma nova ordem. Mas essa não é a ordem da sociedade – essa é a própria ordem da existência.

É o que Buda chama de Dhamma, Lao Tzu chama de Tao, Heráclito chama de Logos. Não é feita pelo homem. É a própria ordem da existência. Então, de repente tudo volta a ficar belo, e pela primeira vez, realmente belo, porque as coisas feitas pelo homem não podem ser belas. No máximo você pode esconder a feiúra delas, isso é tudo. Você pode enfeitá-las, mas elas nunca podem ser belas…

O ego tem uma certa qualidade: a de que ele está morto. Ele é de plástico. E é muito fácil obtê-lo, porque os outros o dão a você. Você não precisa procurar por ele; a busca não é necessária. Por isso, a menos que você se torne um buscador à procura do desconhecido, você ainda não terá se tornado um indivíduo. Você é simplesmente mais um na multidão. Você é apenas uma turba. Se você não tem um centro autêntico, como pode ser um indivíduo?

O ego não é individual. O ego é um fenômeno social – ele é a sociedade, não é você. Mas ele lhe dá um papel na sociedade, uma posição na sociedade. E se você ficar satisfeito com ele, você perderá toda a oportunidade de encontrar o eu. E por isso você é tão infeliz. Como você pode ser feliz com uma vida de plástico? Como você pode estar em êxtase ser bem-aventurado com uma vida falsa?  E esse ego cria muitos tormentos. O ego é o inferno. Sempre que você estiver sofrendo, tente simplesmente observar e analisar, e você descobrirá que, em algum lugar, o ego é a causa do sofrimento. E o ego segue encontrando motivos para sofrer…

E assim as pessoas se tornam dependentes, umas das outras. É uma profunda escravidão. O ego tem que ser um escravo. Ele depende dos outros. E somente uma pessoa que não tenha ego é, pela primeira vez, um mestre; ele deixa de ser um escravo.

Tente entender isso. E comece a procurar o ego – não nos outros, isso não é da sua conta, mas em você. Toda vez que se sentir infeliz, imediatamente feche os olhos e tente descobrir de onde a infelicidade está vindo, e você sempre descobrirá que o falso centro entrou em choque com alguém.

Você esperava algo e isso não aconteceu. Você espera algo e justamente o contrário aconteceu – seu ego fica estremecido, você fica infeliz. Simplesmente olhe, sempre que estiver infeliz, tente descobrir a razão.

As causas não estão fora de você.

A causa básica está dentro de você – mas você sempre olha para fora, você sempre pergunta: ‘Quem está me tornando infeliz?’ ‘Quem está causando a minha raiva?’ ‘Quem está causando a minha angústia?’

Se você olhar para fora, você não perceberá. Simplesmente feche os olhos e sempre olhe para dentro. A origem de toda a infelicidade, da raiva e da angústia, está oculta dentro de você, é o seu ego.

E se você encontrar a origem, será fácil ir além dela. Se você puder ver que é o seu próprio ego que lhe causa problemas, você vai preferir abandoná-lo – porque ninguém é capaz de carregar a origem da infelicidade, uma vez que a tenha entendido.

Mas lembre-se, não há necessidade de abandonar o ego. Você não o pode abandonar. E se você tentar abandoná-lo, simplesmente estará conseguindo um outro ego mais sutil, que diz: ‘tornei-me humilde’…

Todo o caminho em direção ao divino, ao supremo, tem que passar através desse território do ego. O falso tem que ser entendido como falso. A origem da miséria tem que ser entendida como a origem da miséria – então ela simplesmente desaparece. Quando você sabe que ele é o veneno, ele desaparece. Quando você sabe que ele é o fogo, ele desaparece. Quando você sabe que esse é o inferno, ele desaparece.

E então você nunca diz: ‘eu abandonei o ego’. Você simplesmente irá rir de toda essa história, dessa piada, pois você era o criador de toda essa infelicidade…

É difícil ver o próprio ego. É muito fácil ver o ego nos outros. Mas esse não é o ponto, você não os pode ajudar.

Tente ver o seu próprio ego. Simplesmente o observe.

Não tenha pressa em abandoná-lo, simplesmente o observe. Quanto mais você observa, mais capaz você se torna. De repente, um dia, você simplesmente percebe que ele desapareceu. E quando ele desaparece por si mesmo, somente então ele realmente desaparece. Porque não existe outra maneira. Você não pode abandoná-lo antes do tempo. Ele cai exatamente como uma folha seca.

Quando você tiver amadurecido através da compreensão, da consciência, e tiver sentido com totalidade que o ego é a causa de toda a sua infelicidade, um dia você simplesmente vê a folha seca caindo… e então o verdadeiro centro surge.

E esse centro verdadeiro é a alma, o eu, o deus, a verdade, ou como quiser chamá-lo. Você pode lhe dar qualquer nome, aquele que preferir.”

OSHO, Além das Fronteiras da Mente.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/ego-o-falso-centro/

Bhagwan Shree Rajneesh (Osho)

“Aposte todas as suas fichas. Seja um apostador!
Arrisque tudo, pois o momento seguinte não é uma certeza. Então, por que se importar com ele? Por que se preocupar?
Viva perigosamente, viva com prazer. Viva sem medo, viva sem culpa.
Viva sem nenhum medo do inferno ou sem ansiar o céu. Simplesmente viva.”
– Faça o Seu Coração Vibrar

Nasceu em 11 de dezembro de 1931, 1o filho de um mercador de tecidos. Passou os sete primeiros anos com os avós, que lhe davam total liberdade. Após a morte do avô foi viver com os pais. Sempre revelou um espírito rebelde e independente. Em 1946 experimentou seu primero satori. Com o tempo aprofundou suas experiências em meditação, sendo que a intensidade de sua busca espiritual chegou a afetar sua saúde física. Em 1953 atingiu o estado de “iluminação”.

Em 1956 graduou-se como 1o aluno da turma de Filosofia na Universidade de Jabalpur. Foi campeão de debates da Índia e ganhou a medalha de ouro no ano de sua graduação. Em 1957 lecionou no Sanskrit College e um ano depois tornou-se professor de Filosofia na Universidade de Jabalpúr.

Em 1966 passou a dedicar-se inteiramente à arte de ensinar a meditação ao homem moderno. Durante os anos 60 viajou toda a Índia como Acharya Rajneesh (professor), provocando a ira do establismment e encontrando-se com pessoas de todas as classes sociais. Ele desmascarava a hipocrisia do sistema e suas tentativas para impedir que o homem alcançasse seu direito mais fundamental: ser ele mesmo. Desafiava os líderes religiosos ortodoxos em debates públicos. Dirigia-se a audiências de milhares de pessoas, sensibilizando os corações de milhões. Lia muito: tudo o que pudesse ampliar sua compreensão sobre os sistemas de crenças e a psicologia do homem contemporâneo.

Em 1968 estabeleceu-se em Bombaim e organizou, regularmente, “campos de meditação”, quase sempre nas montanhas. Aí introduziu sua revolucionária Meditação Dinâmica, técnica que ajuda a parar a mente, ao permitir que ela tenha primeiramente uma catarse. Segundo ele, o homem moderno está tão sobrecarregado das antiquadas tradições do passado e das ansiedades da vida moderna, que precisa passar por um profundo processo de limpeza antes de poder descobrir a ausência de pensamento no relaxamento da meditação. A partir de 1970 começou a iniciar pessoas no Neo-Sannias, caminho de compromisso com a auto-exploração e a meditação, amparado pelo amor e orientação pessoal. Passou a ser chamado de Bhagwan, o abençoado. Sua fama espalhou-se pela Europa, América, Austrália e Japão.

No curso de seu trabalho. Osho falou sobre praticamente todos os aspectos do desenvolvimento da consciência humana. Destilou a essência do que é significativo para a busca espiritual do homem contemporâneo, com base não na compreensão intelectual, mas na sua própria experiência existencial.

A partir de 1974, em Puna, seus ensinamentos foram intensificados. Sua saúde tornava-se mais frágil. Foram criados grupos de terapia combinando o insight oriental da meditação com as técnicas ocidentais de psicoterapia. Em dois anos o ashram já tinha a reputação de melhor centro de crescimento e terapia do globo. Nos últimos anos da década de 70 o ashram transformara-se na meca dos buscadores modernos da verdade. As palestras de Osho abrangiam todas as grandes tradições religiosas do mundo. Sua vasta erudição na ciência e no pensamento ocidentais, a clareza de suas palavras e a profundidade de seus argumentos desfaziam o abismo entre o oriente e o ocidente, para seus ouvintes.

O 1o ministro indiano, Morarji Desai, obstruiu todas as tentativas de transferência do ashram para uma parte remota da Índia, onde seria experimentada a aplicação dos ensinamentos de Osho na construção de uma comunidade autosuficiente, onde viveriam em meditação, amor, criatividade e alegria. Isso não impediu que suas palestras, gravadas e transcritas em mais de 600 livros e traduzidas em mais de 30 idiomas, constituíssem hoje incontáveis volumes e atingissem inúmeros leitores.

Sua Filosofia

O pensamento de Rajneesh está exposto em mais de mil livros que podem elucidar sobre a sua filosofia.No seu trabalho, Osho falou praticamente sobre todos os aspectos do desenvolvimento da consciência humana. Seus discursos para discípulos e buscadores de todo o mundo foram publicados em mais de 650 títulos e traduzidos para mais de trinta línguas.

Segundo referem os seus admiradores, Osho não pretendia impor a sua visão pessoal nem estimular conflitos. Enfatizou, pelo contrário, a importância de se mergulhar no mais profundo silêncio, pois somente através da meditação se poderia atingir a verdade e o amor, guiada pela consciência individual, sem intermediários como sacerdotes, políticos, intelectuais ou ele mesmo. Transmitia, pois, uma mensagem otimista que apontava para um futuro onde a humanidade deixaria o plano da inconsciência e, por consequência, a destruição, o medo e o desamor, já que cada um seria o buda de si próprio, recordando aquilo que a consciência imediata esqueceu. Segundo esta visão, a humanidade parece-se a um conjunto de cegos guiados por outros cegos.

Todo o trabalho de Osho é de desconstrução e silêncio. Segundo Osho, todo o planeta (com raras exceções) está doente. Mas é uma doença autoimposta. Liberdade seria, em sua visão, o fundamento de um homem auto-realizado e digno. O silêncio, por sua vez seria a comunhão da criatura com sua essência divina e pura, sendo reencontrado pela meditação, onde o homem experimenta seu verdadeiro ser. Osho negava a existência de um Deus pessoal dizendo que a lógica do evolucionismo abriria grandes lacunas para tal entendimento. Em sua concepção, a ideia da existência de Deus deve ser rejeitada para o bem da humanidade.

Ao dizer, por exemplo, que “o orgasmo sexual oferece o primeiro vislumbre da meditação porque, nele, a mente para, o tempo para”, a mídia o apelidou de “guru do sexo”. Quando se descobriu a causa da aids, Osho determinou que seus discípulos fizessem o teste de HIV. Pioneiro, recomendou usar camisinha e luvas de látex na hora do sexo, coisas ridicularizadas na época. Para A. Racily, que conviveu com Osho, o guru queria apenas que o sexo não fosse renegado. Ela diz que nunca houve orgias na comunidade e que esses boatos vinham de quem queria se aproveitar da liberdade sexual.

Em 1980, um membro de uma tradicional seita hindu tentou assassinar Osho, durante uma palestra. Enquanto as religiões e igrejas oficiais faziam oposição a seu trabalho, ele já tinha mais de 250 mil discípulos em todo o mundo. Em maio de 1981 Osho parou de falar e iniciou uma fase de “comunhão silenciosa de coração a coração”, para que seu corpo, com graves problemas de coluna, descansasse.

Ida a América

Foi levado aos EUA pela eventual necessidade de uma cirurgia de emergência. Seus discípulos americanos compraram um rancho de 64 mil acres no deserto de Oregon Central, onde ele se recuperou rapidamente. Uma comuna modelo cresceu ao seu redor com uma velocidade alucinante, transformando o deserto num oásis verde, capaz de alimentar 5 mil habitantes. Nos festivais anuais de verão até 20 mil visitantes eram acomodados e alimentados na nova cidade de Rajneshpuram. Surgiram outras grandes comunas em todos os principais países do ocidente e no Japão. Osho solicitou residência permanente nos EUA, mas teve seu pedido recusado pelo governo americano; uma das razões alegadas foi seu voto público de silêncio. Cresciam as investidas do governo de Oregon e da maioria cristã do estado, contra a nova cidade.

Em 1984 Osho começou a falar em pequenos grupos em sua residência e em 1985 voltou a fazer discursos para milhares de buscadores. Sua secretária e diversos membros da direção da comuna partiram repentinamente e atos ilegais cometidos por eles vieram à tona. Osho convidou as autoridades para que procedessem as investigações necessárias. Assim elas aceleraram sua luta contra a comuna. Em outubro Osho foi preso em Carolina do Norte, sem mandato de prisão. Durante a audiência de sua fiança foi acorrentado. Sua viagem de volta a Oregon, onde seria julgado – normalmente um vôo de cinco horas, durou oito dias. Depois ele revelou que na penitenciária de Oklahoma foi registrado como David Washington e colocado numa cela com um prisioneiro que sofria de herpes infecciosa. Uma hora antes de ser libertado, uma bomba foi descoberta na cadeia de Portland, presídio de máxima segurança de Oregon, onde Osho estava detido. Todos saíram menos ele, que foi mantido mais uma hora dentro da cadeia. Em novembro confessou-se “culpado” em duas das 34 violações de imigração das quais era acusado, para evitar que sua vida corresse outros riscos nas garras do sistema judiciário americano. Foi multado em US$ 400 mil e obrigado a deixar os EUA, sem poder voltar por cinco anos.

Voou para a Índia, onde repousou nos Himalaias. Uma semana depois a comuna no Oregon resolveu dispersar-se. O procurador dos EUA, Charles Turner disse que a prioridade do governo era destruir a comuna; que não desejavam transformar Osho num mártir e que não havia evidência que o implicasse em crimes. Em dezembro sua nova secretária, sua assistente, seu médico particular e outros discípulos ocidentais que o acompanhavam foram expulsos da Índia e tiveram seus vistos cancelados. Osho juntou-se a eles no Nepal, onde retomou seus discursos diários.

Em fevereiro de 1986 Osho foi para a Grécia, mas o clero da igreja Ortodoxa ameaçou o governo de que haveria derramamento de sangue se ele não fosse expulso do país. Em março a polícia invadiu a casa de campo onde ele estava hospedado e, sem mandato de prisão, enviou-o a Atenas. Ele foi para a Suíça, onde seu visto de sete dias foi cancelado no momento de sua chegada. Foi então para a Suécia, onde foi acolhido da mesma forma. Na Inglaterra aconteceu o mesmo e na Irlanda conseguiu ficar alguns dias como turista. Antígua, Holanda Alemanha não permitiram sua entrada. Na Itália seu pedido de visto de turista não foi concedido até hoje. Tudo isso até 7 de março. No dia 19 o Uruguai o convidou. Ele foi para lá com seus companheiros, mas o país recebeu “informações” dos EUA de que eles estavam envolvidos em contrabando, tráfico de drogas e prostituição. Em maio, quando ia receber visto permanente, Washington ameaçou cancelar empréstimos no valor de US$ 6 bilhões, se Osho permanecesse no país. Em junho foi embora para a Jamaica, onde conseguiu visto de 10 dias, cancelado no dia seguinte à sua chegada. Foi para Lisboa e permaneceu escondido por duas semanas numa casa de campo. Ao todo 21 países o deportaram ou impediram sua entrada. Assim retornou à Índia em julho.

Ficou seis meses em Bombaim, onde retomou seus discursos diários, na casa de um amigo. Em janeiro de 1987 mudou-se para a casa do ashram em Puna, mas logo teve ordem de partida. Ao mesmo tempo, embaixadas indianas pelo mundo e os funcionários da emigração no aeroporto de Bombaim começaram a recusar a entrada de seus seguidores ocidentais. Em novembro, após uma enfermidade de sete semanas, foi diagnosticada uma deterioração geral de sua condição física, devido a envenenamento por tálio. Num discurso público, Osho declarou acreditar que o governo dos EUA o tenha envenenado durante os 12 dias em que esteve sob sua custódia, em setembro de 1985.

Osho deixou seu corpo em 19.01.1990. Poucas semanas antes, disse: “quero que as pessoas conheçam a si mesmas, que não sigam as expectativas dos outros. E a maneira é ir para dentro.”

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/bhagwan-shree-rajneesh-osho/

Mentindo Com Pixels

A imagem que você vê no noticiário da tv pode ser uma falsificação – uma montagem fabricada pelas novas tecnologias de manipulação de vídeo

No ano passado, Steven Livingston, professor de Comunicação Política na George Washington University, deixou atônitos os participantes de uma conferência sobre Geopolítica. Discutia-se o papel dos satélites nas transmissões de imagens. Ele não produziu provas de novas mobilizações militares ou pandemias globais. Em vez disso, mostrou um vídeo da patinadora Katarina Witt durante uma competição de patinação em 1998.

No clipe, Katarina desliza no gelo graciosamente por cerca de 20 segundos. Então vem o que talvez seja uma das mais inusitadas repetições de imagens jamais vistas. O fundo era o mesmo e os movimentos da câmera eram os mesmos. Na realidade, a imagem era idêntica ao original em todas as formas, exceto talvez na mais importante: Katarina tinha desaparecido, junto com todos os sinais dela. Em seu lugar estava exatamente aquilo que você esperaria se Katarina nunca tivesse estado ali – o gelo, as paredes do ringue e a multidão.

Grande coisa, você dirá. Afinal, há mais de meio século a equipe de Stálin, o ditador soviético, já eliminava das fotos personalidades malvistas pelo governo. E, dezessete anos atrás Woody Allen realizou um grande número de deformações da realidade no filme Zelig, onde ele aparece junto a figuras do passado como Adolf Hitler e os presidentes americanos Calvin Coolidge e Herbert Hoover. Também em filmes como Forrest Gump e Mera Coincidência, a distorção da realidade tornou-se lugar-comum.

O que diferencia a demonstração com Katarina Witt – e muito – é que a tecnologia usada para “excluir virtualmente” a patinadora pode agora ser aplicada em tempo real, ao vivo, mesmo enquanto a câmera grava a cena e no mesmo instante em que a transmite aos espectadores. Na fração de segundo entre os quadros de vídeo, qualquer pessoa ou objeto que se mova em primeiro plano pode ser retirado, e objetos que não se encontram ali podem ser inseridos e parecer reais. “Plasticidade de pixel”, eis o nome que Livingston deu a essa técnica. As implicações para as pessoas que compareceram à conferência sobre Geopolítica e imagens de satélite deram o que pensar: as fotos exibidas podem não ser necessariamente aquelas que a câmera eletrônica do satélite efetivamente gravou.
Mas a ramificação dessa nova tecnologia vai além das imagens de satélite. À medida que a manipulação ao vivo se torna mas prática, a credibilidade de todos os vídeos se tornará tão suspeita quanto fotos soviéticas da Guerra Fria. O problema tem sua origem na natureza do vídeo moderno. Ao vivo ou não, ele é composto de pixels e, como diz Liningsotn, pixels podem ser alterados.

Os exemplos mais conhecidos de manipulação de vídeo em tempo real até agora são as “inserções virtuais” em transmissões de esportes profissionais. Em 30 de janeiro deste ano, quase um sexto da humanidade em mais de 180 países assistiu a uma linha laranja repetidamente traçada sobre o campo de futebol americano, durante a transmissão do Super Bowl. A Princeton Video Imaging (PVI), em Lawerenceville, Nova Jersey, criou aquela linha, gravou-a num computador e a inseriu na transmissão ao vivo. Para ajudar a determinar onde inserir os pixels de cor laranja, diversas câmeras do jogo foram equipadas com sensores que rastreavam as posições espaciais das câmaras e os níveis de ampliação. Adicionada à ilusão de realidade estava a capacidade do sistema da PVI garantindo que os jogadores e os juízes ocultassem a linha virtual quando seus corpos a atravessassem.

Mesmo as transmissões de TV ao vivo já podem ser manipuladas com “inserção virtuais”

Nos Estados Unidos, durante a primavera e o verão passados, enquanto a PVI e rivais como a Sport-vision de New York colocavam no ar produtos de inserção virtual, incluindo anúncios simulados em paredes atrás dos batedores da liga principal de beisebol, uma equipe de engenheiros da Sarnoff Corporation, de Princeton, Nova Jersey, voou até o Centro Operacional da Coalizão Aliada, da OTAN, Vicenza, Itália. Sua missão: transformar sua tecnologia experimental de processamento de vídeo numa ferramenta experimental de processamento de vídeo numa ferramenta operacional para localizar rapidamente e converter em alvos os veículos militares sérvios em Kosovo. O projeto foi batizado de Tiger, sigla em inglês que corresponde a “fixação de alvos por georregistro de imagem”. “Nosso objetivo era poder disparar munição guiada com precisão através de veículos militares sérvios – basta marcar as coordenadas e a coisa vai:, explica Michaels Hansen, um jovem e agitado aficionado por equipamentos da Sarnoff que acha difícil acreditar que estava ajudando a fazer uma guerra no ano passado.

Se comparada ao trabalho da PVI, a tarefa técnica dos militares era mais difícil – e o que estava em jogo era muito maior. Em vez de alterar transmissões de futebol, a equipe Tiger manipulou a transmissão de vídeo ao vivo de um Predator, uma aeronave de reconhecimento não-tripulada voando a 450 metros de altura sobre os campos de batalha de Kosovo. Em lugar de sobrepor linhas virtuais ou anúncios em cenários esportivos, a tarefa era colocar em tempo real as imagens “georregistradas” de Kosovo sobre as cenas correspondentes transmitidas ao vivo da câmera de vídeo do Predator. As imagens do terreno tinham sido capturadas antes com fotografia aérea e armazenadas digitalmente. O sistema Tiger, que detectava automaticamente objetos em movimento contra o fundo, podia, quase de forma instantânea, fornecer aos oficiais encarregados da artilharia as coordenadas de qualquer equipamento sérvio no campo de visão do Predator. Esse foi um feito bastante técnico, uma vez que o Predator estava se movendo e seu ângulo de visão apresentava constante mudança. Mesmo assim, aquelas visões tinham que ser eletronicamente alinhadas e registradas com a imagem armazenada em menos de um trinta avos de segundo (para corresponder à taxa de quadros da gravação em vídeo).

Em princípio, a definição de alvos poderia ter sido direcionada diretamente às armas guiadas com precisão. “Não estávamos realmente fazendo aquilo na Força Aliada”, observa Hansen. “Estávamos apenas informando aos oficiais encarregados da pontaria exatamente onde estavam os alvos sérvios e eles, então, dirigiam aviões para atingir os alvos”. Dessa forma, os tomadores de decisão humanos poderiam evitar decisões errôneas tomadas por máquinas com defeitos. De acordo com a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada para a Defesa, a tecnologia Tiger foi usada de forma extensa nas últimas três semanas da operação Kosovo, durante as quais “80% a 90% dos alvos móveis foram atingidos”.

Até então, a manipulação de vídeo em tempo real estava ao alcance somente de organizações tecnologicamente sofisticadas como, por exemplo, redes de televisão e os militares. Mas os desenvolvedores da tecnologia dizem que ela está se tornando simples e barata o suficiente para se espalhar para todos os lados. E isto tem levado alguns observadores a pensar se a manipulação de vídeo em tempo real vai corroer a confiança do público nas imagens de televisão, mesmo quando transmitidas em telejornais. “A idéia de ver para crer pode perder a validade”, diz Norman Winarsky, vice-presidente corporativo para tecnologia de informação da Sarnoff. “Você pode não saber em que confiar.”

Uma forma grosseira de manipulação de vídeo já está acontecendo na comunidade de imagens por satélite. A publicação semanal Space News informou no início do ano que o governo da Índia libera imagens de seus satélites de sensoriamento remoto somente após as instalações de defesa terem sido “removidas”. Neste caso, não há manipulação em tempo real e é aberta, como um marcador de tinta de censor. Mas os pixels são flexíveis. É perfeitamente possível agora inserir conjuntos de pixels em imagens de satálite que os interpretadores de dados poderiam identificar como batalhões de tanques, ou aviões de guerra, ou locais de sepultamento, ou linhas de refugiados, ou vacas mortas que ativistas aleguem ser vítimas de um acidente biotécnico.

Uma fita de demonstração fornecida pela PVI reforça esse aspecto no prosaico cenário de um estacionamento num subúrbio. A cena parece comum, exceto por uma característica perturbadora: entre camionetas e minivans estão diversos tanques estacionados e um monstro armado rodando de maneira desconcertante. Imagine uma fita de tanques paquistaneses virtuais rodando pela fronteira da Índia entregue aos telejornais como autêntica, e você pode sentir o tipo de problema que imagens falsificadas podem provocar.
Fornecedores comerciais de serviços de inserção virtual estão concentrados demais em novas oportunidades de marketing para se preocupar muito com geopolítica. Eles têm os olhos voltados para mercados muito mais lucrativos. De repente, esses grandes espaços de programação entre comerciais – ou seja, o verdadeiro show – tornam-se disponíveis para bilhões de dólares de anúncios em horário nobre. A fita de demonstração da PVI, por exemplo, inclui uma cena em que uma caixa do Microsoft Windows aparece – virtualmente, é claro – na estante do estúdio de Frasier Crane. Esse tipo de colocação de produto poderia tornar-se mais e mais importante à medida que novas tecnologias de gravação em vídeo como, por exemplo, TiVo e RePlayTV, oferecerem aos espectadores mais poder para editar comerciais.

Dennis Wilkinson, especialista em marketing que adora esportes e se tornou CEO da PVI há cerca de um ano, não podia estar mais feliz com isso. Os olhos de Wilkinson brilham quando ele descreve o futuro (próximo) em que a tecnologia de inserção virtual levará os anúncios a extremos de personalização. Combinado com serviços de datamining (através dos quais gostos individuais e padrões de consumo dos navegadores podem ser rastreados e analisados), a inserção virtual abre a possibilidade de enviar anúncios personalizados de acordo com o alvo por linhas ou cabos telefônicos a usuários da Web ou espectadores da TV a cabo. Digamos que você gosta de Pepsi, mas seu vizinho ao lado gosta de Coca e seu vizinho do outro lado da rua gosta de Seven Up – o tipo de dados de fácil coleta por meio de registros de caixas de supermercado. Será possível ajustar a imagem de refrigerante no sinal da transmissão para atingir cada um de vocês com sua marca preferida.

A apenas 15 minutos de distância da PVI, Winarsky, da Sarnoff, também está radiante – não tanto com ganhar fatia de mercado, mas quanto ao poder transformador da tecnologia. A Sarnoff tem uma história distinta nesse campo: a empresa descende dos Laboratórios RCA, que iniciaram a inovação em tecnologia de televisão no início da década de 40 e trouxeram à luz grande quantidade de tecnologias de mídia. O tubo de TV em cores, as telas de cristal líquido e a televisão de alta definição vieram todos, pelo menos em parte, da RCA. A Sarnoff exibe cinco prêmios Emmy técnicos em sua recepção.

A capacidade de manipular dados de vídeo em tempo real, diz Winarsky, tem tanto potencial quanto alguns desses predecessores. “Agora que você pode alterar o vídeo em tempo real, você mudou o mundo”, diz. Isso pode soar pomposo, mas, após ver o vídeo de Katarina Witt, a conversa de Winarsky sobre “mudar o mundo” perde um pouco do tom de exagero.

Apagar pessoas ou abjetos no vídeo ao vivo, ou inserir pessoas previamente gravadas ou objetos em cenas ao vivo é somente o início de todos os truques que estão tornando possíveis. Muito de qualquer vídeo que tenha sido gravado está se tornando clipart que os produtores podem esculpir digitalmente na história que quiserem contar, diz Eric Haseltine, vice-presidente sênior de P&D da Walt Disney Imagineering em Glendale, Califórnia. Com tecnologias adicionais de manipulação de vídeo, os atores anteriormente gravados podem dizer e fazer coisas que eles efetivamente nunca fizeram ou disseram. “Você pode fazer com que atores mortos estrelem novos filmes inteiros”, diz Haseltine.

Filmagens contemporâneas, incluindo gravações de atores mortos, têm estado por aí por muitos anos. Mas o ilusionismo de Hollywood – que, por exemplo, inseriu John Wayne num comercial de TV – exigia um trabalho difícil de pós-produção quadro-a-quadro, feito por técnicos especializados. Existe agora uma grande diferença, diz Haseltine. “O que costumava levar 1 hora (por quadro de vídeo) agora pode ser feito em um sessenta avos de segundo”. Essa aceleração dramática significa que a manipulação pode ser feita em tempo real, instantaneamente, à medida que a câmera grava ou transmite. Não somente podem John Wayne, Fred Astaire ou Saddam Hussein ser virtualmente inseridos em anúncios pré-produzidos, como eles poderiam ser inseridos em, digamos, uma transmissão ao vivo de um show de TV.

A combinação de tempo real, inserção virtual com técnicas de pós-produção existentes e emergentes abre um mundo de oportunidades de manipulação. Consideremos a tecnologia Video Rewrite (regravação de vídeo), desenvolvida pela Interval Corporation e pela Universidade de Berkeley, e demonstrada pela primeira vês três anos atrás. Com apenas alguns minutos de vídeo de alguém falando, seu sistema captura e armazena um conjunto de fotos em vídeo, de modo que a área da boca da pessoa parece mover-se ao dizer diferentes conjuntos de sons. A partir da biblioteca resultante de “visemas” é possível retratar a pessoa como se ela dissesse qualquer coisa que os produtores sonhassem – incluindo expressões que o indivíduo nunca usaria, nem morto.

Num teste de aplicação, o cientista de computação Tim Bregler, agora na Universidade Stanford, e colegas digitalizaram 2 minutos de gravação de domínio público do presidente americano John F. Kennedy falando durante a crise dos mísseis cubanos, em 1962. Usando a biblioteca de “visemas”, os pesquisadores criaram “animações” da boca de Kennedy dizendo coisas que ele nunca disse, entre elas, “Eu nunca me encontrei com Forrest Gump”. Com tecnologia desse tipo, em princípios os ativistas poderão em futuro próximo ser capazes de orquestrar via Internet transmissões de seus adversários dizendo coisas que poderiam fazer a pessoa mais íntegra e honrada soar como o mais rematado dos cafajestes.

Haseltine acredita que as técnicas de manipulação de vídeo serão rapidamente levadas a seu extremo lógico: “Posso prever, com absoluta certeza”, diz ele, “que uma pessoa sentada diante de um computador poderá escrever o roteiro de um vídeo, desenhar as personagens, fazer a iluminação, o guarda-roupa, toda a atuação, diálogo e pós-produção, distribuir esse vídeo numa rede de banda larga, tudo isso num laptop – e os espectadores não notarão a diferença”.

Truques que hoje exigem um sistema de 80.000 dólares poderão em breve estar nas lojas, numa câmera de vídeo comercial
Até agora, as aplicações amplamente encontradas de manipulação de vídeo em tempo real ocorreram em áreas benignas como esportes e entretenimento. Já no ano passado, entretanto, a tecnologia começou a se difundir além desses locais, para aplicações que já provocaram uma certa preocupação. No outono passado, por exemplo, a CBS contratou a PVI para inserir virtualmente o logotipo familiar da rede em toda a cidade de New York, em edifícios, outdoors, fontes e outros locais – durante a transmissão do programa The Early Show da rede. O New York Times publicou uma reportagem de primeira página em janeiro questionando a ética jornalística existente em alterar a aparência de algo que está realmente ali.

A combinação de inserção virtual em tempo real, cibermarionetes, regravação de vídeo e outras tecnologias de manipulação de vídeo com uma infra-estrutura de mídia de massa que transmite instantaneamente vídeo de noticiário para o mundo inteiro tem preocupado alguns analistas. “Imagine se você é o governo de um país hipotético que deseja mais assistência financeira internacional”, diz Livingston, da George Washington University. “Você poderia enviar vídeos de uma área remota com pessoas morrendo de fome, e isto poderia nunca ter acontecido”, diz ele.

Haseltine concorda. “Estou surpreso que ainda não tenhamos visto vídeos falsos”, diz ele antes de voltar atrás um pouco: “Talvez tenhamos visto. Quem poderia saber?”

É exatamente o tipo de cenário exibido no filme Mera Coincidência, de 1988, no qual um assessor presidencial de primeiro nível conspira com um produtor de Hollywood para transmitir uma guerra montada virtualmente entre os Estados Unidos e a Albânia para desviar a atenção de um escândalo de corrupção presidencial. Haseltine e outros ficam imaginando quando a realidade imitará a arte imitando a realidade.

A importância da questão somente se intensificará à medida que a tecnologia se tornar mais acessível. O que agora exige uma máquina de 80.000 dólares do tamanho de um pequeno refrigerador logo será encontrado em placas do tamanho da palma da mão (e no limite, num único chip) que caberão num gravador de vídeo comercial, segundo Winarsky. “Isso estará disponível nas lojas de componentes eletrônicos”, diz ele. Um equipamento de consumo para inserção virtual provavelmente exigirá uma câmera de vídeo com uma placa ou chip especial para processamento de imagem. Esse hardware receberá sinais dos sensores de imagem eletrônica da câmera e os converterá numa forma que poderá ser analisada e manipulada num computador com software adequado – algo idêntico ao que se faz com o Adobe Photoshop e outros programas para “limpar” arquivos de imagem digital. Um usuário doméstico poderia, por exemplo, inserir parentes ausentes numa filmagem da última reunião de família, ou remover estranhos que prefiram não aparecer na cena – trazendo as revisões históricas no estilo soviético direto para o ambiente doméstico.

Nos EUA, especialistas já discutem os riscos do uso político das novas técnicas de vídeo

Combine-se a erosão potencial da confiança na autenticidade de reportagens ao vivo com o chamado “efeito CNN” e o cenário está montado para a falsificação mover o mundo de diferentes maneiras. Livingston descreve o efeito CNN como a capacidade da mídia de massa de ir além da mera reportagem sobre o que acontece, para influenciar verdadeiramente os tomadores de decisões quando examinarem questões militares, de assistência internacional e outros assuntos nacionais e internacionais. “O efeito CNN é real”, diz James Currie, professor de Ciência Política na National Defense University, em Fort McNair, Washington. “Todos os escritórios aonde você vai no Pentágono estão com uma TV ligada na CNN”. E isso significa, diz ele, que um governo, um grupo terrorista ou uma ONG poderia colocar eventos geopolíticos em movimento dentro de poucas horas, partindo de uma credibilidade conseguida graças à distribuição de um pedaço de vídeo bem trabalhado.

Com experiência como reservista do Exército, membro de uma equipe com privilégios de alta confidencialidade no Comitê de Inteligência do Senado, e como oficial de ligação legislativa para a Secretaria do Exército, Currie viu de perto as tomadas de decisões governamentais e políticas. Ele está convencido de que a manipulação de vídeo em tempo real estará, ou já está, nas mãos das comunidades militares e de inteligência. E, embora ainda não tenha evidências de que alguma organização tenha empregado técnicas de manipulação de vídeo, em tempo real ou não, para finalidade política ou militar, ele é capaz de divisar cenários de desinformação. Por exemplo, diz ele, pensa só no impacto de um vídeo fabricado que pareça amostrar Saddam Hussein “derramando uísque escocês num copo e bebendo um grande gole. Você poderia transmiti-lo na televisão do Oriente Médio e isso minaria totalmente a credibilidade dele junto a audiências islâmicas”.

Apesar de todas as reações emocionais, entretanto, alguns especialistas ainda não estão convencidos de que a manipulação de vídeo em tempo real representa uma verdadeira ameaça, não importando quão boa a tecnologia venha a se tornar. John Pike, analista da comunidade de inteligência da Federação de Cientistas Americanos, em Washington, D.C., diz que os riscos são simplesmente grandes demais para que governos ou organizações sérias sejam surpreendidas tentando enganar o público. E, para as organizações que estivessem dispostas a correr o risco de faze-lo, diz Pike, o pessoal que trabalha com notícias – sabendo aquilo que a tecnologia pode fazer – vai se tornar cada vez mais vigilante.

“Se alguma organização de direitos humanos aparecesse na CNN com um vídeo, particularmente uma organização com a qual eles não estejam familiarizados, acho que (a CNN) consideraria aquilo radioativo”, diz Pike. O mesmo vale para as organizações não-governamentais (ONGs). “Nenhum diretor responsável de uma organização séria autorizaria esse tipo de coisa. E eles demitiriam, no ato, qualquer pessoa surpreendida fazendo isso. A moeda corrente de ONGs políticas é “nós falamos a verdade”.

Mesmo pessoas mais ponderadas como Pike, entretanto, admitem que a mídia tem um calcanhar-de-aquiles: a Internet. “A questão não é tanto a capacidade de falsificar vídeos na CNN, mas conseguir coloca-los online”, diz ele. Isso ocorre porque a maior parte do conteúdo da Internet não é filtrado. “Isso poderia interferir no processo de produção de notícias, onde você não reproduziria o relatório original, mas relataria o que foi relatado”, diz Pike. Tal procedimento poderia resultar, em cascata, num efeito CNN. “Sem dúvida, esse tipo de experiência acabará acontecendo”, diz Pike.

O problema, afirma Livingston, é que apenas algumas experiências podem ser suficientes para levar as pessoas a questionar para sempre a autenticidade do vídeo. Isso poderia ter repercussões enormes sobre operações militares, de inteligência e de notícias. Uma conseqüência sociológica irônica poderia surgir: o retorno a uma dependência mais pesada de comunicação cara-a-cara, sem intermediários. Neste meio tempo, entretanto, haverá algumas interessantes torções e reviravoltas, à medida que os pixels se tornarem ainda mais flexíveis.

por Ivan Amato – Publicada originalmente na revista Info Exame No. 175 – Outubro/2000

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/mentindo-com-pixels/

Como o Tantra chegou na América

Por Mark A. Michaels e Patricia Johnson.

Em 1976, o Dr. Jonn Mumford (Swami Anandakapila Saraswati) proferiu uma série de palestras muito importantes e influentes no Gnosticon 5, uma conferência prolongada patrocinada pela Llewellyn Publications que reuniu especialistas de diversas áreas e disciplinas ocultas. Um conjunto gravado dessas palestras esteve disponível na Llewellyn por vários anos. Hoje, é praticamente impossível encontrar cópias, e o Dr. Mumford se contentou em deixar a informação definhar porque tinha dúvidas sobre se algum material mais explícito deveria alguma vez aparecer impresso.

Em 2004, minha esposa e sócia docente Patricia Johnson (Devi Veenanand) sugeriu que abordássemos o Dr. Mumford sobre a possibilidade de escrever um livro baseado em suas palestras Gnosticon. Ela sentiu que o material era valioso demais para que pudesse cair na obscuridade e que era importante assegurar que sua contribuição para o desenvolvimento do Tantra contemporâneo recebesse o reconhecimento que merece. Muito para nossa surpresa, ele concordou em nos apoiar neste empreendimento.

O Dr. Mumford tem um raro dom de colocar o autêntico tantra hindu, incluindo seus aspectos sexuais, dentro de uma estrutura conceitual que o torna acessível para os ocidentais. Ele consegue fazer isso sem enfatizar demais a sexualidade, diluindo os ensinamentos ou usando técnicas clichês da Nova Era, por mais atraentes que tais modificações possam ser para os buscadores ocidentais. Nós nos tornamos seus alunos porque estávamos buscando algo mais profundo e autêntico do que o que o popular Tantra americano tinha a oferecer, e foi exatamente isso que encontramos.

As palestras nas quais se baseia a Essência da Sexualidade Tântrica foram talvez a primeira discussão pública sobre o Tantra sexual entregue a uma audiência americana por um professor ocidental com treinamento indígena autêntico em um sistema baseado em linhagem. Parte do material que o Dr. Mumford apresentou na Gnosticon era quase inteiramente desconhecido fora da Índia na época, e seus ensinamentos inspiraram gerações sucessivas de professores de Tantra, quer eles percebessem ou não.

As palestras Gnosticon são de grande importância histórica no desenvolvimento do Tantra no Ocidente, e ajudaram a moldar o que é conhecido hoje como Neo-Tantra – termo cunhado no início do século XX, mas usado por Bhagwan Shree Rajneesh (Osho) para descrever sua abordagem, e agora aplicado de forma mais geral aos sistemas ocidentalizados de prática que enfatizam a sexualidade. Enquanto que alguns tradicionalistas têm uma visão obscura do Neo-Tantra, ele pode, no seu melhor, levar os praticantes a abordar a sexualidade com uma consciência mais profunda e um maior senso de reverência. As informações que o Dr. Mumford compartilhou em 1976, após a revolução sexual, talvez sejam ainda mais valiosas hoje do que eram então, dado o atual clima de repressão sexual nos Estados Unidos. Além de qualquer valor histórico ou significado cultural e político, o conteúdo das palestras é profundo e as técnicas são extraordinárias.

Embora o Dr. Mumford estivesse relutante em autorizar o relançamento destas informações e sua adaptação em forma de livro, sentimos que era importante empreender este projeto. Ao longo dos anos, seu importante trabalho tem sido deturpado, mal compreendido e apropriado sem reconhecimento; quisemos deixar o registro e honrá-lo como uma das figuras mais importantes do Tantra moderno. Somos profundamente gratos por ele nos encorajar a usar seu material e nos permitir a liberdade de tomar liberdades com ele. Somos também gratos por sua disposição de fornecer informações adicionais e elaboração sempre que necessário. Trabalhar neste livro nos deu a oportunidade de absorver os ensinamentos muito profundamente, e os leitores sérios terão uma experiência semelhante, se estudarem o material cuidadosamente.

Aqueles que estão familiarizados com o Neo-Tantra podem se surpreender ao descobrir que certas práticas enfatizadas por muitas escolas contemporâneas recebem pouca ou nenhuma atenção em nosso livro. Em 1976, o Dr. Mumford não se preocupou muito com orgasmos múltiplos masculinos ou ejaculação feminina, e estes tópicos só são mencionados de passagem. Tanto a ejaculação feminina quanto os orgasmos múltiplos masculinos são experiências maravilhosas e agradáveis – mas não são partes essenciais do repertório sexual; no entanto, não são uma preocupação central na sexualidade tântrica tradicional, nem o desenvolvimento da capacidade de experimentá-los faz de uma pessoa um Tantrika. Do ponto de vista clássico, o G-Spot é um ponto de partida para o Swadisthana Chakra, nada mais. Certamente não é a chave para a cura sexual, nem é nada de novo. É discutido tanto na literatura erótica indiana, como o Koka Shastra, como nos romances eróticos do século XVIII-Europa.

Embora tenhamos tomado algumas liberdades com as fitas originais e tenhamos às vezes incluído nossa própria perspectiva, todos sentimos que estamos transmitindo os ensinamentos essenciais que o Dr. Mumford apresentou em 1976. O conteúdo permanece tão relevante hoje como era há trinta anos; as técnicas são poderosas, prazerosas e eficazes. A sua prática deve produzir resultados interessantes e trazer-lhe muito prazer.

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Fonte:

MICHAELS, Mark A; JOHNSON, Patricia. Tantra Comes to America. The Lllewellyn’s Journal, 2006. Disponível em: <https://www.llewellyn.com/journal/article/1161>. Acesso em 9 de março de 2022.

COPYRIGHT (2006). Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/como-o-tantra-chegou-na-america/

A Guerra dos Roses

Movimentos harmoniosos, respiração controlada e um estado elevado de consciência. Esta é uma reportagem sobre ioga, mas não envolve nenhum desses elementos. Acusações, ressentimentos mal disfarçados, palavras como “seita” e “oportunismo” há de sobra. A rede de mais de 200 escolas ligadas a Luis Sergio de Rose, o Mestre De Rose, no Brasil, em Portugal e na Argentina está passando por dias turbulentos. Mais de 20 dos seus cerca de 500 professores a deixaram nos últimos três meses. Nem é um número expressivo, o que conta é o barulho que eles estão fazendo. Internamente, são tratados como “dissidentes” e recomenda-se “distância deles”.

Minha irmã freqüentou uma escola da rede durante mais ou menos um ano. Dei uma olhada nos livros que ela comprava, ouvia as descrições que ela fazia das aulas e, sinceramente, a coisa não me bateu. A matéria do NoMínimo só confirma essa primeira impressão. O que me incomodou mais era o evidente aspecto de culto à personalidade do tal Mestre de Rose, que lembrava muito a invasão de pseudo-gurus indianos que tomou de assalto os Estados Unidos a partir da década de 60, e dos quais a grande estrela era Rajneesh e sua nada espiritual coleção de Rolls-Royces – quando o fisco americano caiu de pau em cima dele, Rajneesh mudou o nome para Osho.

Mestre de Rose, aparentemente, não chega a tanto (embora os dissidentes insinuem práticas feias como espionar emails e celulares dos professores, para saber se eles mantêm contato com as personas non-gratas da escola), mas, para explicar porque os membros do grupo são proibidos de falar com os dissidentes, Rosana Ortega, diretora da unidade Berrini, adota um discurso que não deixa dúvidas sobre o caráter empresarial da Swasthi Yôga (ou como quer que seja o nome), que parece mais interessada em promover a marca e fidelizar o consumidor do que em levar os discípulos ao samadhi: “Na Coca-Cola, por exemplo, o funcionário é demitido se for flagrado bebendo Pepsi. O ator da Globo não pode dar entrevista ou negociar em outra emissora, porque ele representa a própria imagem da Globo. Os nossos instrutores também representam a nossa imagem.”

@MDD – Qualquer escola, fraternidade, ordem ou religião que fale uma imbecilidade dessas já merece total descrença. O verdadeiro buscador SEMPRE pode (e deve) procurar por todas as outras manifestações para que possa julgar e comparar os ensinamentos apresentados.

Quer dizer, suponho que quem estiver atrás da ioga apenas como uma forma alternativa de ginástica para aliviar o estresse pode até se beneficiar com as práticas ensinadas pelo Mestre de Rose – mas se você busca a ioga como um instrumento para o desenvolvimento espiritual e libertação da consciência, faria melhor em deixar Yôga – Mitos e Verdades de lado e partir logo para o real McCoy, os clássicos Yogasutras ou o inestimável Yoga – Imortalidade e Liberdade, de Mircea Eliade. Porque, pelo visto, a escola do Mestre de Rose está mais para Hare Krishna do que para Patanjali…

PS. Alguém poderá dizer que a prática não se aprende nos livros e que a única forma de aprender ioga é com um professor de carne e osso. Verdade. Mas qualquer cursinho introdutório de Hatha Yoga vai ensinar os asanas mais importantes. O resto é uma questão de concentração mental, que é mais fácil de obter no sacrossanto recesso de seu próprio quarto do que numa escola cheia de alunos, e de compreensão dos objetivos – e aqui, não existem professores melhores do que Patanjali e Mircea Eliade.

de: http://malprg.blogs.com/francoatirador/2004/08/a_guerra_dos_ro.html#more

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-guerra-dos-roses

Você é o Responsável

A mente ordinária sempre lança a responsabilidade em outro alguém. É sempre o outro que está lhe fazendo sofrer. Sua esposa está lhe causando sofrimento, seu marido está lhe fazendo sofrer, seus pais estão lhe fazendo sofrer, ou o destino, karma, Deus… Dê o nome que quiser!

As pessoas têm milhões de maneiras de se esquivar da responsabilidade. Mas no momento que você diz que outra pessoa – X,Y,Z – está lhe causando sofrimento, assim você não pode fazer nada para mudar isso. O que você pode fazer?

Afinal, como é que você pode ser feliz numa sociedade pobre? E como você pode ser feliz numa sociedade que é dominada pelos capitalistas? Ou como você pode ser feliz com uma sociedade que não lhe permite liberdade?

Desculpas e mais desculpas – desculpas apenas evitam um insight que “Sou responsável por mim mesmo. Ninguém mais é responsável por mim; O que quer que eu seja, sou minha própria criação”. Esse é o significado do sutra.

Conduza toda a culpa para um. E esse um é você.

Uma vez que esse insight se estabelece:

Sou responsável por minha vida; por todo meu sofrimento, pela minha dor, por tudo que aconteceu comigo e está acontecendo a mim – Eu escolhi esse caminho; essas são as sementes que eu semeei e agora estou colhendo a safra; sou responsável – uma vez que esse insight se torna um entendimento natural em você, então tudo mais é simples. Assim a vida começa a dar uma nova reviravolta. Começa a se mover numa nova dimensão. Porque uma vez que sei que sou responsável, também sei que posso abandonar isso a qualquer momento que decida fazê-lo. Ninguém pode me impedir de abandonar isso. Pode alguém lhe impedir abandonar sua miséria, de transformar sua miséria em felicidade? Ninguém. Mesmo que você esteja na prisão, acorrentado, preso, ninguém pode prender VOCÊ; sua alma ainda permanece livre. É claro, você fica numa situação muito limitada, mas mesmo nessa situação limitada você pode derramar lágrimas de desamparo ou pode cantar uma canção…

Atisha é realmente muito científico. Primeiro ele diz: Tome toda a responsabilidade sobre si mesmo. Segundamente ele diz: Seja grato a todos. Agora que ninguém mais é responsável pela sua miséria exceto você – se a miséria é toda seu próprio fazer, então o que resta?

Seja agradecido com todos.

Porque todo mundo está criando um espaço para você ser transformado – mesmo aqueles que acham que estão lhe obstruindo, mesmo aqueles que você pensa que são seus inimigos. Seus amigos, seus inimigos, boas e más pessoas, circunstâncias favoráveis, circunstâncias desfavoráveis – tudo isso junto está criando o contexto no qual você pode ser transformado e tornar-se um Buddha. Seja agradecido a todos – àqueles que lhe ajudaram, àqueles que lhe obstruíram, àqueles que foram indiferentes. Seja grato a todos, porque todos juntos estão criando o contexto no qual Buddhas nascem, no qual você pode se tornar um Buddha.

Osho; Extraído de: Book of Wisdom, Cap. 5

#Osho

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/voc%C3%AA-%C3%A9-o-respons%C3%A1vel