Princípios da Engenharia Mágica

Thiago Garcia Tamosauskas

Nomes podem ser trapaceiros. O Nacional Socialismo não é socialista, a República Democrática do Congo não é democrática e a República Federativa do Brasil não é federativa. Este não é um problema exclusivo da política: A Teoria da Relatividade trata de absolutos nada-relativos como a constante cosmológica e velocidade da luz e a teoria do caos, por sua vez encarrega-se, na verdade, de lidar com a ordem que surge em meio à complexidade. O mesmo pode ser dito da corrente conhecida como Magia do Caos, que ao contrário do que pode soar, na verdade é uma corrente ordenadora que consegue unificar os mais diferentes campos da prática mágica, muitos dos quais seriam paradoxais e contraditórios caso ela não existisse.

A magia, assim como outras expressões da natureza – como a música por exemplo – pode ser convertida em linguagem matemática para medir sua harmonia, seus padrões e assim ser estudada, observada e desenvolvida. É justamente isso que Peter J. Carroll propôs, em seu livro Liber Kaos, editado pela primeira vez em 1992. Carroll se utilizou da matemática formal para ordenar a mecânica mágica em uma série de equações. Não é minha intenção, repetir sua explicação e suas justificativa, nem mostrar o porquê e o como destas equações. Ele mesmo já fez um trabalho fenomenal na seção intitulada ‘Chaos Mathematics’, logo no primeiro capítulo da obra acima citada. Sendo assim irei apenas citar rapidamente as três equações básicas e fornecer uma rápida legenda para elas  na esperança de que o praticante perceba novas ramificações da prática mágica e vá imediatamente atrás da fonte original. Feito isso entrarei na real proposta deste artigo.

Pm = P + (1-P) M^(1/P)

A primeira equação calcula a Probabilidade de Sucesso Mágico (Pm).

Entre as centenas de definições existentes de magia uma das mais acuradas é a “Ciência de manipular as probabilidades”, isso porque ela abarca tanto a definição de Alta Magia como de Baixa Magia manipulativa e não se apega a termos de nenhum modelo mágico específico como Vontade, Espírito ou Destino.  Esta equação é uma das maneiras de se calcular a influência do processo mágico em aumentar a probabilidade de algum evento acontecer.

O bom resultado de qualquer operação mágica depende portanto de dois fatores: P, que é a chance de algo acontecer por simples chance e M, o fator que se cria pela operação mágica que aumentando a probabilidade deste algo acontecer. Esta probabilidade varia entre 0 (fracasso, impossibilidade) e 1 (sucesso, certeza). A equação a seguir demonstra como calcular M, segundo o paradigma proposto por Peter Carroll.

M = GL(1-A)(1-R)

Numa explicação rápida, podemos dizer que o fator mágico (M) é o produto do estado de Gnosis (G), pela Ligação com o alvo (L) descontada a ansiedade (A) e a resistência subconsciente ao processo todo (R). Resumindo de forma clara: Ansiedade é sua preocupação de que algo aconteça e Resistência é a voz  na sua cabeça dizendo que aquilo não vai acontecer. O fator M, após ser calculado deve ser incluído na primeira equação. Isso entretanto apenas para o caso de tentar-se aumentar a probabilidade de algum evento.

Existe também o caso de querer se utilizar de magia não para aumentar a probabilidade de algo ocorrer, mas o oposto, que a probabilidade de algo caia drasticamente. Um exemplo rápido disso é imaginar que um ritual que seria usado caso você deseje que um conhecido, por exemplo, não consiga arranjar um emprego. Neste caso, do segundo exemplo, você deve utilizar esta terceira fórmula:

Pm = P - PM^[1/(1-P)]

Como pode-se notar, trata-se apenas de uma inversão da primeira equação. Lembrando que o sinal ^ refere-se a exponenciação matemática. A probabilidade resultante nesta fórmula é portanto igual a probabilidade natural subtraída pelo produto de si mesma  com o fator M elevado a 1 dividido por 1 menos esta mesma probabilidade original.

Estas fórmulas, permitem uma série de conclusões interessantes e trazem boas e más notícias aos magistas. A primeira boa notícia é que o Fator de Equilíbrio que mencionei alguns anos atrás no Manual do Satanista é algo matematicamente óbvio e de extrema importância. Qualquer valor M entre 0.5 e 0.7 terá um grande resultado sobre probabilidades na mesma faixa numérica, mas pouco efeito em eventos altamente improváveis onde P é superior ou igual a 0.8. O magista deve portanto sempre tentar alimentar as chances naturais antes de se engajar magicamente. Por outro lado, se M chegar a 1, então mesmo eventos altamente improváveis tornar-se-ão possíveis.

Explicadas as três equações da magia, chegamos ao verdadeiro objetivo deste artigo e minha real contribuição a engenharia mágica iniciada acima.  Não basta apenas ter muita vontade de se trocar uma lâmpada se antes você não tiver uma lâmpada nova em mãos. Creio que Peter Carroll deixou uma grande lacuna em sua obra que pode e deve ser explorada para benefício de todos os praticantes. Trata-se da ausência de fatores bem definidos para as variáveis G, L, A e R. É necessária uma aproximação numérica para cada uma destas partes, pois sem isso as fórmulas não alcançam toda sua utilidade prática, permanecendo apenas no reino da pura especulação subjetiva.

É realmente muito difícil padronizar coisas tão sutis como o funcionamento da mente, contudo considero que graças a experiência pessoal, longas discussões com outros praticantes e muita revisão em cima dos conceitos consegui chegar a um resultado aceitável. As tabelas a seguir são uma pequena aproximação pragmática dos quatro fatores essenciais da equação M:

Fator L = Ligação

Esta primeira tabela é uma sugestão de padrão numérico para a sua ligação com o alvo de seu ato mágico. Ela por si mesma mostra porque rituais de iluminação costumam ser mais efetivos do que rituais de encantamento, pois o vinculo consigo mesmo é sempre mais garantido do que a ligação com terceiros. Eis a tabela do Fator L:

  • 0    Nenhuma forma de vinculo
  • 0.1  Vinculo abstrato/simbólico (símbolos, assinaturas, nomes)
  • 0.2  Vinculo material (sangue, cabelos, roupas, etc.. )
  • 0.3  Vinculo pictórico/representativo (fotos, desenhos )
  • 0.4  Constructo mental ordinário (imaginação não treinada, lembrança vaga que você associe com o alvo)
  • 0.5  Vinculo usando 3 sentidos ( em geral, visual e sonoro + olfativo ou tátil)
  • 0.6  Uso pleno dos cinco sentidos no vinculo
  • 0.7  Cinco sentidos + tempo (filme, teatro, psicodrama)
  • 0.8  Constructo mental elaborado (imaginação bem treinada e realista)
  • 0.9  Contato real com o alvo (entrar em contato com ele)
  • 1    Contato real e interativo com o alvo (entrar em contato e interagir com ele)

Note que os itens 0.9 e  1 são para contatos reais com o seu alvo. Para a maioria das pessoas isso representará uma proximidade espacial, mas não a diferença significativa entre uma mente completamente convencida de um contato físico e uma mente completamente convencida de um contato astral.

Fator A = Ansiedade

A segunda tabela é uma escala da preocupação com o ritual ou trabalho mágico funcionar. A Sigilização, esta grande contribuição do século XX a tradição mágica ,é uma maneira conhecida de reduzir a ansiedade, mas não é a única forma, como prova toda a história anterior do ocultismo. Idiomas bárbaros, pentáculos e chaves enoquianas são alguns dos exemplos comuns. Al;em disso, todo grau avançado de Gnosis reduz a Ansiedade na medida em que a mente fica tão envolvida e/ou satisfeita que não tem motivos para se preocupar e o ritual oblitera qualquer ânsia de resultados. Eis a tabela do Fator A:

  • 0    Não ligo se o resultado for negativo ou positivo.
  • 0.1  Não tenho necessidade, nem urgência. O fracasso é uma opção.
  • 0.2  Não tenho pressa, nem necessidade urgente de um resultado favorável
  • 0.3  Tenho necessidade de um resultado favorável, mas quase não perco tempo pensando nisso
  • 0.4  Tenho necessidade de um resultado favorável e penso nisso ocasionalmente
  • 0.5  Tenho necessidade de um resultado favorável e penso nisso freqüentemente
  • 0.6  Tenho necessidade de um resultado favorável e penso nisso o tempo todo.
  • 0.7  Tenho urgência. Esta é uma das mudanças importante para mim agora.
  • 0.8  De todas esta é a mudança mais relevante para mim atualmente.
  • 0.9  Esta e uma das mudanças mais importantes da minha vida
  • 1    Esta é a mudança mais importante de toda a minha vida

Fator R = Resistência subjetiva

A terceira tabela esquematiza a sua resistência psicológica a magia. A segunda palavra é importante porque lembra que não se trata de uma crença superficial que pode ser facilmente mudada, mas daquilo que interiormente é aceito como verdadeiro. Ela define em última instancia sua opinião sobre um ritual ou um trabalho mágico.

  • 0    Tudo é possível, indivíduos podem afetar até as leis da realidade.
  • 0.1  As leis da natureza podem ser temporariamente quebradas
  • 0.3  Existem leis cósmicas que fazem a magia funcionar
  • 0.2  Tudo é possível sob certas condições raras
  • 0.4  É possível. Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia
  • 0.5  A Magia é real mas está restrita à natureza e às suas leis. Funciona em alguns casos e em outros não.
  • 0.6  As leis da natureza as vezes de comportam de modo a parecer mágicas.
  • 0.7  Magia é apenas uma maneira de conseguir estar no lugar certo na hora certa.
  • 0.8  Magia tem um poder limitado a consciência individual ligado apenas a psicologia, neuro-linguistica, etc.
  • 0.9  Magia é um nome pomposo para auto-ilusão, placebo e sorte
  • 1    Magia não existe.

Fator G = Gnosis

A última variável é calculada de maneira diferente. Realizei alguns experimentos com algumas  escalas lineares para a Gnosis  e todas elas mostraram-se insatisfatórias e imprecisas. Este problema foi contornado pelo aperfeiçoamento da escala original que resultou na criação de uma quarta equação da magia:

G = S T

Gnosis é portanto, o produto do fator Spare (S) pelo Tempo (T). O conceito importante aqui é o fator S central. Ele se refere a Tabela Spare que desenvolvi, (em homenagem a Austin Spare) e que será relacionada abaixo.

O Tempo, T não é uma escala cronológica de segundos ou horas. Isso não faria sentido uma vez que o tempo linear é por si só ilusório e se torna cada vez mais irrelevante a medida que nos aprofundamos da realidade psíquica interior. Trata-se portanto da percepção subjetiva que a consciência tem da duração do estado de Gnosis.  De 0.1 a 0.3 são experiências rápidas e fugazes, como um espirro, um susto ou uma topada no pé. Valores T iguais a 0.4 a 0.6 são para experiências moderadas como auto-flagelação, os giros dervixes ou uma corrida em uma montanha russa. De 0.7 a 0.9 são experiências relativamente longas, como um transe xamânico, uma seção sado-masoquista ou um exorcismo neo-pentecostal. O fator 1.0 é reservado apenas a aquelas experiências onde a noção de tempo é completamente superada e o adepto experimenta a atemporalidade como no caso do Samadi yogui, das Experiências Culminantes de Abraham Maslow e das visões descritas no Apocalipse de João.

A Tabela Spare, por sua vez, não é uma escala progressiva mas sim a soma ponderada de diversos sintomas específicos. Cada um deles com seu valor. Ela foi criada com base no trabalho de Austin Spare e dos Círcuitos de Consciência de Timothy Leary e enriquecida com as experiências de minha prática mágica pessoal.  A unidade de medida do estase eu chamo de spare. A Tabela foi estrategicamente concebida de maneira a evitar trapaças evitando acúmulos desleais na contagem. Assim, qualquer soma superior a 1 spare é indício claro de que você está enganando a si mesmo na hora de estimar o fator.

A Tabela Spare

  • 0.1   Sensações intensas de Prazer/Dor física.
  • 0.1   Privação/Estase dos sentidos.
  • 0.1   Privação/Sobrecarga do organismo  (jejum, fastio, insônia, imobilidade, exaustão)
  • 0.1   Emoções atávicas, fortes ou significativas.
  • 0.1   Estímulos abstratos complexos (música, dança, matemática, teatro, etc…)
  • 0.1   Libertação socio-cultural. Entrega completa. (perda de auto-censura, alivio de normais cotidianas, quebra de tabus tribais)
  • 0.1   Memórias Simultâneas/Amnésia
  • 0.1   Consciência não-local. Transcedência da noção de espaço.
  • 0.1   Superação conceito de individualidade.
  • 0.2   Pensamento único extremamente concentrado
  • 0.2   Vacuidade. Ausência absoluta de pensamentos.

Para exemplificar a consulta da Tabela Spare: Um orgasmo de má qualidade acumularia o estado de vacuidade, 0.2 spares (sp), ao prazer físico 0.1 sp, a perda de auto-censura 0.1 sp e a emoção da luxúria 0.1 sp num total de 0.5 spares. Já um orgasmo tântrico acumularia ainda, o estase dos sentidos 0.1 sp, os estímulos sensórios complexos próprios do ritual 0.1 sp, a consciência expandida não-local resultante 0.1 sp e a superação do conceito do Eu ordinário 0.1. num total de 0.9 sp.

Aplicando a equação G=ST teríamos que uma seção tântrica longa de T=0.9 que atinja 0.9 spares resultaria em uma Gnosis na ordem de 0.8.

Fator P = Probabilidade

Agora, voltando às duas fórmulas, não adianta nada se ter todas os elementos mágicos calculados se não temos o fator P (a chance de algo acontecer por simples chance) na equação também. O fator P é a probabilidade natural de algo acorrer sem a influência do magista ainda, é a probabilidade simples que deve ser calculada antes de mais nada. Nossas duas fórmulas dependem deste fator como podemos ver:

Pm = P + (1-P) M^(1/P)
Pm = P - PM^[1/(1-P)]

Vamos ver então como chegar a este número agora. Para se calcular a probabilidade de qualquer evento acontecer podemos nos valer de três regras principais de cálculo. A primeira delas afirma que a probabilidade de dois eventos ocorrerem nunca pode ser maior do que a probabilidade de que cada evento ocorra individualmente. Essa é a primeira lei da probabilidade. Trocando em miúdos ela simplesmente afirma que em um caso onde temos dois eventos possíveis, evento A e evento B, a chance do evento A acontecer = chance que evento A e B ocorram + chance que evento A ocorra e evento B não ocorra.

Um exemplo mais visual para isso é: A chance de a primeira pessao entrar numa sala ser uma garota de vestido vermelho nunca pode ser maior do que a chance da primeira pessoa que entrar na sala seja uma garota. Que evento você acha que tem uma probabilidade maior de acontecer, qual acha mais provável:

  1. A) Que uma pessoa se forme em aconomia
  2. B) Que uma pessoa se forme em economia e vá trabalhar em um banco
  3. C) Que uma pessoa se forme em economia, vá trabalhar em um banco e depois de 3 anos seja promovida à vaga de gerente

Resposta certa: A

Em casos mais complexos a lei permanece. Por exemplo a probabilidade de um garoto ser destro é sempre maior do que a probabilidade dele ser destro e ter cabelos pretos e maior do que ele ser destro. Para isso basta calcular a probabilidade de um garoto ser destro (GD), a probabilidade dele ter cabelo preto(CP) e colocar na fórmula: (GD + CP) + (GD + Cabelo qualquer outra cor).

A segunda lei da probabilidade importante para chegarmos no fator P é a lei da combinação de probabilidades: Se dois eventos possíveis, A e B, forem independentes, a probabilidade de que A e B ocorram é igual ao produto de suas probabilidades individuais.

Hoje com o advento da compra de ingresso pela internet para assitir a filmes no cinema, suponha que um cinema exibindo o último filme comentado esteja quase lotado, tenha apenas mais uma cadeira disponível e dois ingressos tenham sido reservados pelo site do cinema. Suponha que, a partir da experiência, o atendente do cinema saiba que existe uma chance de 2/3 de alguém que reserva um ingresso apareça para ver o filme, ou seja de cada 3 pessoas que reservam ingressos 2 pelo menos aparecem para ver o filme. Então ele sabe que, caso essas últimas duas reservas que faltam ser preenchidas, se tiverem sido feitas por pessoas independentes, podem resultar em uma chance de 2/3 X 2/3 de terminar com um cliente puto porque reservou um lugar e quando chegou não tinha cadeiras, ou seja a chance do cliente 1 aparecer, multiplicada pela chance do cliente 2 aparecer, que é de aproximadamente 44%. Ao mesmo tempo existe uma chance de 1/3 (probabilidade da pessoa reservar e não aparecer) X 1/3 do filme começar com uma cadeira vazia apesar das reservas, ou seja: 11%.

E existem ainda casos onde aplicamos outra lei: se um evento pode ter diferentes resultados possíveis, A, B, C e assim por diante, a possibilidade de que A ou B ocorram é igual à soma das probabilidades individuais de A e B, e a soma das probabilidades de todos os resultados possíveis (A,B,C e assim por diante) é igual a 1 (ou seja 100%). Esta lei serve para calcular a probabilidade de que um dente dois eventos mutuamente excludentes, A ou B, ocorra. Como exemplo vamos voltar para o caso do cinema. Suponha que o atendente queira calcular a chance de que as duas pessoas que reservaram a cadeira apareçam ou que nenhuma delas apareça. Calculando com os números acima, e somando ao invés de multiplicar, terminamos com o resultado de 55% aproximadamente.

Essas três leis são basicamente tudo o que você precisa para poder chegar ao fator P e adicioná-lo à fórmula. Agora para isso você precisa saber a sutileza do que quer saber para descobrir que fórmula usar.

A seguir faremos uma sugestão de uma abordagem experimental para tudo o que foi explicado até agora. A Engenharia Mágica que propomos deve ser baseada em resultados práticos e acima de tudo mensuráveis.

Provas Experimentais

A prática mágica só se distingue da religião e das demais crenças na medida em que coloca a si mesmo a prova. Por enquanto tenha toda a teoria passada até agora apenas como uma hipótese a ser testada. Para isso vou propor um experimento simples para a utilização da formula sem que o adepto perca-se com números e possa por sua própria experiência pessoal cruzar a linha entre o mito e o método. Além disso este será exercício fundamental para você “afinar” a sua percepção sobre si mesmo e superar suas limitações enquanto magista.

Você vai precisa de papel e caneta, ou alguma outra forma de registro e dois dados de 6 lados cada.

O espaço amostral, ou seja o conjunto de todos os resultados possíveis do resultado de um lance de dois dados são:

[1-1], [1-2], [1-3], [1-4], [1-5], [1-6]

[2-1], [2-2], [2-3], [2-4], [2-5], [2-6]

[3-1], [3-2], [3-3], [3-4], [3-5], [3-6]

[4-1], [4-2], [4-3], [4-4], [4-5], [4-6]

[5-1], [5-2], [5-3], [5-4], [5-5], [5-6]

[6-1], [6-2], [6-3], [6-4], [6-5], [6-6]

Existem 36 resultados possíveis, logo a chance de qualquer combinação é de 1 para cada 36 jogadas ou 1/36, P = 0,027. Em outras palavras, sando o espaço amostral do resultado do jogo de dois dados, temos uma chance de 2,7% de saírem 2 números 6 em cada jogada.

Atire 200 vezes os dois dados e anote os resultados. Atire 500, 1000 vezes, lembre-se que quanto maior o número de resultados melhor você vai poder mensurar os seus atributos mágicos. Caso tenha a possibilidade, você pode simular rapidamente estas jogadas usando softwares próprios de sorteio, isso não influenciará em nada o resultado da experiência.

Depois de anotar todos os resultados, veja quantos duplos 6 você tirou. Tabule esta informaçao.

Realize então o sua prática mágica de preferência. Evoque espíritos antigos, assuma uma forma-deus, canalize as linhas Leis, faça pactos com demônios, etc. Exercite sua magia dentro de sua área de expertise desejando que os próximos resultados da experiência sejam apenas duplos 6. Se possivel passe uma semana realizando rituais ou se preparando antes das próximas jogadas e então faça o mesmo exercício de jogar os mesmos dados.

Anote todos os resultados e veja como a sua magia influencia a probabilidade natural dos resultados. Estes serão os dados de controle para o restante da experiência.

Na próxima semana, utilizando as fórmulas e tabelas fornecidas neste artigo tente melhorar o resultado matemático do seu fator M. Munido deste ajuste fino prepare-se mais uma semana e repita a experiência. Estas três semanas devem bastar para convencer o magista sobre o poder desta abordagem magica. Entretanto alguns praticantes podem desejar realizar este exercício por um tempo mais longo devido aos benefícios óbvios que ele fornece. Se este for o seu caso, aproveite para comparar os resultados com o passar das semanas, se possível mantendo alguma espécie de registro gráfico ou tabular.

Isso é interessante por vários motivos, por um lado você pode ter uma “prova” real de como pode influenciar a probabilidade natural de algo com o sua magia, e outro é ver porque você não influencia tanto quanto gostaria. Use os princípios ensinados neste artigo e afine os parâmetros de suas experiências. Depois da segunda amostragem realize outro tipo de ritual buscando variar os elementos fundamentais das fórmulas e repita o experimento, veja como isso afeta de forma diferente os resultados. Será que sua Gnose não é tão intensa quanto você acha que é? Será que é extremamente ansioso e não consegue relaxar depois? Será ainda que no fundo acredita que magia é besteira e só funciona com coisas que apresentem um resultado vago o bastante para poder ser atribuído ao acaso? Estas são perguntas que só você poderá responder e mestre ou guru nenhum no mundo poderão substituir.

Conclusão

Como conclusão resta dizer que estas ferramentas dadas acima servem não apenas para se calcular o quanto a interação mágica pode afetar a chance de algo ocorrer, mas também como forma de ver como o praticante deve evoluir ou se adaptar para que essa probabilidade mude. Identifique suas forças e fraquezas. Trabalhe com os pontos das tabelas para ver como aumentar a chance de sucesso vendo como sua crença e sua ansiedade, por exemplo, afetam os resultados de suas práticas trabalhando então de forma a mudar a balança a seu favor.

Da mesma forma este estudo pode ser usado como uma excelente arma de ataque mágico. Sabendo como funcionam essas engrenagens você pode afetar outros magistas usando os elementos da tabela de forma que afetem o sucesso de seus trabalhos. Aumentando a ansiedade de seus oponentes, fazendo com que o seu fator R aumente ou diminuindo a ligação dele/a com o alvo, etc… Essas informações são tão mais poderosas conforme a ignorância de seu oponente chegando a perfeição no caso de magos naturais que sequer sabem o que estão fazendo.

Eu estimulo meus irmão da prática mágica a explorar sutilezas dos métodos aqui ensinados. Isso é não apenas aceitável, mas bastante recomendado, inclusive tentando acrescentar ou mudar elementos de acordo com sua própria experiência. Devo destacar ainda que é necessária completa honestidade consigo mesmo na hora de avaliar cada um dos fatores. No caso de G devemos ser francos com o grau de alteração de consciência que realmente conseguimos atingir. Em L os graus 0.4 e 0.8 devem ser judiciosamente distinguidos, pois existe uma tendência entre os iniciantes de achar que suas imagens mentais fracas sejam como aquelas que uma mente treinada consegue projetar. Como distinguir? Tente fazer uma descrição de uma pessoa para alguém e então peça para a pessoa tentar adivinhar de quem você está falando. Em A e R, é necessário que escolhamos com sinceridade nossa posição, buscado aquilo que realmente pensamos e não aquilo que gostaríamos de pensar.

Uma nota se faz necessária quanto a possibilidade de drogas e substâncias químicas para melhorar o desempenho das variáveis que compõem o fator M. Não existem evidências de que nenhuma substância química possa ajudar no elemento R, isso porque trata-se da resistência subconsciênte. O uso de Álcool por exemplo, para esse fim se prova impróprio pois ele apenas aflora as mesmas crenças subjetivas. A variável A, de ansiedade pode ser melhorada pelo uso haxixe e de ansiolíticos em geral como os derivados da morfina. Por fim spares podem ser acumulados pelos uso de uma grande variedade de substâncias químicas, e notadamente o LSD, a Psilocibina e o Ayahuasca.

Agora devemos estar atentos quando formos inserir qualquer forma de consumo de drogas em rituais por um motivo simples: a banalização que se tornou o consumo deste tipo de substância.

Gregos e romanos antigos, e xamãs muito antes deles, era famosos de substâncias em seus rituais, de ópio a anticolnérgicos, passando por toda uma gama de cogumelos e outros vegetais ou substâncias biológicas excretadas por animais. E esse uso de drogas era feito de forma precisa e “sagrada”, ou seja, consciente. O uso de drogas, mesmo o álcool, em trabalhos mágicos tem 3 estágios claros. O primeiro é aquele em que a droga é necessária para se atingir certos níveis de percepção que apenas a mente não atinge sozinha sem muita prático, é o estágio da droga como auxiliar. Esse estágio pode evoluir para o uso da droga sempre que se deseja atingir aquele estágio, já que é mais fácil do que exercitar a mente, este é o estágio da droga como muleta. E finalmente existe o estágio onde você pode usar drogas para seus rituais da mesma forma que usa para escovar os dentes, assistir tv ou sair na rua que é o estágio “eu sou um drogado que gosta de fazer rituais”.

Acredito que o objetivo da magia é a evolução do praticante para um estágio onde apenas a própria vontade seja capaz de causar alterações na realidade sem o uso de muletas. Desta forma, até algum estudo provar o contrário afirmo que as substâncias químicas não constituem substitutos seguros para o treinamento mágico. É por este motivo que os treinamentos mentais e as práticas de iluminação constituem a parte inicial de qualquer tradição mágica competente. Ansiedade, Resistência, Ligação e os estados alterados de consciência da Gnosis são elementos que podem sem dúvida ser aprimorados com treino e persistência. É a alquimia interna que acaba servindo como exercícios para melhorar cada um destes fatores consideravelmente.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/principios-da-engenharia-magica/

Yesod – Bem-vindo ao Deserto do Real

Publicado no S&H dia 4/jun/2008,

Continuando nossa série sobre desmistificação de demônios, diabos, encostos e afins, precisamos neste momento ao mesmo tempo fazer uma parada e estabelecer uma conexão com a kabbalah. Sem explicar o que é o chamado “Plano Astral”, será muito difícil entrar em detalhes sobre como exatamente funciona a mecânica por trás dos Anjos, Demônios, Devas, Asuras, Elementais, Exus, Anjos Enochianos, Fantasmas e Gênios.
Da mesma maneira, estava devendo para vocês uma explicação gnóstica sobre o filme Matrix, então este período do tempo-espaço em relação à coluna me parece o ponto exato para comentar três coisas aparentemente distintas, mas ao mesmo tempo intrinsecamente conectadas: Yesod, o Plano Astral e Matrix.

Tome a pílula vermelha e siga o tio Marcelo para descobrir o quão funda é a Caverna de Platão.

Yesod
Para os que fizeram os exercícios do Sefira ha Omer já deve estar bastante clara qual é a função de Yesod dentro das emanações divinas. Yesod se situa abaixo de Tiferet e entre Netzach e Hod. É chamada de “Fundamento” ou “Fundação” e funciona como um reservatório onde todas as inteligências emanam seus atributos, que são misturados, equilibrados e preparados para a revelação material. É compilação das oito emanações e forma o Plano dos Pensamentos, Plano Astral, ou a Base da Realidade.
Malkuth é o plano físico puro, chamado de Plano Material, que nossos sentidos objetivos podem ver, ouvir, cheirar, tocar e provar, mas incapaz de perceber qualquer tipo de consciência além disto. Malkuth é o mundo criado das ilusões para nos manter em torpor ou, fazendo nossa comparação, Malkuth é a Matrix.

Em Malkuth vivem os adormecidos. Pessoas que acordam, tomam café, vão para suas baias em seus trabalhos, trabalham, almoçam, trabalham, vão para casa, jantam, assistem novela, assistem futebol, dormem e no dia seguinte acordam de novo… fazem isso durante a vida toda, aposentam-se e morrem, sem nunca terem realmente vivido. Suas almas estão presas em casulos sem imaginação, sugadas pelo sistema que mantém a ilusão funcionando, tal qual é retratado simbolicamente no filme.

Yesod representa os bastidores da realidade. O mundo real na qual são programados os acontecimentos que surgirão no mundo ilusório. Para fazer uma analogia, imaginemos que Malkuth seja um prédio comercial. Yesod será, então, toda a fundação: canos, fios, dutos de ar, fosso do elevador, esgotos, toda a parte elétrica e hidráulica que faz o prédio funcionar. Quando se aperta um interruptor na parede, a luz da sala acende. Os ignorantes chamam isso de “coincidência”, mas qualquer pessoa que tenha um conhecimento maior de ciência sabe que, por trás daquele interruptor correm fios elétricos escondidos na Fundação e que, quando se aperta um botão neste interruptor, uma série de conexões simples são acionadas, fazendo com que a eletricidade chegue até a lâmpada, acendendo-a.
Magia é compreender como os condutores de energia da realidade material funcionam e apertar os botões certos para que as lâmpadas certas se iluminem.

Yesod representa a Intuição; o sexto sentido; o despertar. Infelizmente, assim como Morpheus diz a Neo no começo do filme, ninguém vai conseguir explicar para você o que é o Plano Astral. Você precisa ter esta experiência sozinho para compreender. E a maioria das pessoas passa sua vida toda como gado, inconscientes da realidade ao seu redor, como baterias inertes de um sistema controlado por egrégoras que mantém as pessoas ocupadas demais rezando para deuses externos, com medo de falsos diabos e trabalhando como escravas para mantê-las no poder. As famosas “otoridades”. No filme, são representadas pelos Agentes da Matrix.

Uma das melhores cenas do filme ocorre logo no começo, quando Thomas (Tomé, escritor do principal livro apócrifo) Anderson (Andras [homem]+Son [filho], ou seja, “Filho do Homem”, em uma analogia a Jesus/Yeshua) está dormindo diante da tela e aparece o texto “Acorde, Neo”. Esta cena resume a fagulha que vai despertar dentro de cada um de nós em direção ao Cristo; a Princesa dos contos de fada; a espada presa dentro da pedra, a Branca de Neve adormecida em um caixão de vidro.
Minutos após despertar, um hacker diz a ele “você é meu salvador… meu Jesus Cristo”. Simbolicamente, isto representa que mesmo esta pequena fagulha de controle sobre a realidade é suficiente para despertar seguidores, de tão perdidas que as pessoas estão.
As referências ao caminho do Sábio na Kabbalah continuam: quando Neo chega a nave (que tem o Nome de Nabucodonosor, o rei da Babilônia que no Livro de Daniel teve um enigmático sonho que precisa ser interpretado) cujo número de série é “MARK III NR. 11” (Marcos, Capítulo 3, versículo 11: “E os espíritos imundos, quando o viam, prostravam-se diante dele e clamavam, dizendo: Tu és o Filho de Deus”). Neo passa pela morte e ressurreição e finalmente, no final do filme, chega a Tiferet, “o escolhido”.

Para os gnósticos, o Deus Supremo (Keter) é totalmente perfeito, e, por isso, estranho e misterioso, “inefável”, “inalcançável”, “imensurável luz, pura, santa e imaculada”(Apócrifo de João). Para este Deus existem outros seres menos divinos no Pleroma (similar ao Paraíso, uma divisão desse universo que não é a Terra), que é dotado de um sexo metafórico masculino (Hochma) ou feminino (Binah).
Pares desses seres são capazes de produzir descendência, que são, eles mesmos, emanações divinas perfeitas em si mesmas (a analogia no filme é a criação de múltiplas matrix pelos computadores). O problema surge quando um EON ou Ser chamado SOPHIA (Sabedoria em grego, representado no filme pela Oráculo), uma mulher, decide “levar adiante sua semelhança sem o consentimento do Espírito” – que gera uma descendência sem sua consorte (Apócrifo de João).

A antiga visão era a de que as mulheres oferecem a matéria na reprodução, e os homens, a forma. Por isso, o ato de Sophia produz uma descendência que é imperfeita ou até mesmo mal formada, e ela a afasta dos outros seres divinos do Pleroma, levando-a para outra região isolada do cosmos. Essas deformadas e ignorantes deidades, as vezes denominadas DEMIURGOS (o Arquiteto, no filme), que equivocadamente acreditam ser o único Deus.

Os gnósticos identificam o Demiurgo como o Deus Criador psicopata do Antigo Testamento, o qual decide criar os Arcontes (Anjos), o mundo material (Malkuth/Terra) e os seres humanos. Embora as tradições variem, o Demiurgo normalmente é enganado dentro do alento divino ou espírito de sua mãe Sophia que antigamente vivia nele, dentro do ser humano (especialmente Apócrifo de João, ecos do Gênese 2-3).
Para os gnósticos, somos pérolas no lodo, espíritos divinos (bom) aprisionados num corpo material (mau) e num mundo material (mau). O Paraíso é nosso verdadeiro lar, mas estamos exilados do Pleroma.
Felizmente, para o Gnóstico a salvação está disponível na forma de Gnose ou Conhecimento, dado pelo Redentor Gnóstico, que é o Cristo, a figura enviado pelo Altíssimo para libertar a espécie humana do Demiurgo, tal qual Neo é o “escolhido” para libertar as pessoas do jugo do Arquiteto.

Quando Neo é desconectado e desperta pela primeira vez em Nabucodonosor, em meio a um brilhante espaço branco iluminado (linguagem cinematográfica para indicar o despertar), seus olhos ardem, conforme explica Morpheus, porque ele nunca os havia usado antes. Tudo que Neo havia visto até aquele ponto o foi através do olho da mente, como num sonho, criado através de um software de simulação. Tal como um antigo Gnóstico, Morpheus explica que a respiração (prana, chi-kung, tai-chi, reiki) conduz Neo pelo programa de treinamento de artes marciais e que não há nada a fazer com seu corpo, a velocidade ou sua força, os quais são todos ilusórios. Mais ainda, eles dependem unicamente de sua mente, que é real.

Ainda outro paralelo com o Gnosticismo, ocorre na figura dos Agentes, como o Agente Smith e seu opositor, o equivalente gnóstico de Neo e todos os demais que tentam sair de MATRIX. A IA criou esses programas artificiais para funcionarem como “porteiros” – os Guardas das portas – que possuem todas as chaves. “Esses Agentes são parentes dos ciumentos Arcontes criados pelo Demiurgo para bloquearem a ascensão do Gnóstico quando tentam deixar o mundo material. Eles defendem as portas em sucessivos níveis ao paraíso (e.g. Apocalipse de Paulo, Divina Comédia de Dante, textos Babilônicos narrando os sete infernos, a estrela setenária dos alquimistas e assim por diante).

Sobre a questão do Samsara, até mesmo o título do filme evoca a visão budista de mundo. MATRIX é descrita por Morpheus como “uma prisão para a mente”. É uma “construção” dependente feita de projeções digitais interconectadas de bilhões de seres humanos (egrégoras) que desconhecem a natureza ilusória da realidade na qual vivem, e são completamente dependentes do “hardware” implantado em seus corpos reais e dos programas (softwares/mapas astrais) elaborados (para fazer a máquina funcionar), criados pelo Demiurgo. Essa “construção” é parecida com a idéia budista do SAMSARA, a qual ensina que o mundo, no qual vivemos nossas vidas diárias, é feito unicamente de percepções sensoriais formuladas por nossos próprios desejos.
O problema, então, pode ser examinado em termos budistas. Os humanos são aprisionados no ciclo da ilusão (Maya), e sua ignorância acerca do ciclo os mantém atados a ele, totalmente dependentes de suas próprias interações com o programa e com as ilusões da experiência sensorial que ele provê, bem como das projeções sensoriais dos demais. Essas projeções são consolidadas pelos enormes desejos humanos de acreditarem que o que eles percebem como real é real de fato (para eles). É o mundo dos materialistas, ateus e céticos.
Este desejo é tão forte que derruba Cypher, que não pode mais tolerar o “deserto do real”, e procura uma maneira de ser reinserido na Matrix. Tal como combina com o Agente Smith num restaurante fino, fumando um charuto com um copo grande de brandy, Cypher diz: “Eu sei que este bife não existe; eu sei que quando eu o levo a minha boca Matrix está dizendo ao meu cérebro que ele é suculento e delicioso. Depois de 9 anos você sabe o que está mais claro para mim? Que a ignorância é a felicidade!” (Ignorance is Bliss).
A contrapartida é a vida monástica dentro da nave: comem uma gororoba vegetariana, vestem-se com trapos, não possuem bens materiais e treinam um kung fu que beira o sobrenatural. Possuem a humildade de quem já se despojou dos bens materiais, tal qual os monges do monastério de Shaolin.
Em determinada parte do filme, Morpheus diz a Neo, “há uma diferença entre conhecer o caminho e percorrer o caminho”. E como Buda ensinou aos seus seguidores, “vocês, por vocês mesmos, devem fazer o esforço; só os Despertos são Mestres”.
Para quem já está no Caminho da Iluminação, Morpheus é somente um Guia. Em última instância, Neo precisará reconhecer a Verdade por ele mesmo.

Reinos Subterrâneos
Na Antiguidade, o estado de consciência de Yesod era representado por Hades, o Reino Subterrâneo. Como tal, podia ser acessado apenas pelos seres chamados Psychopompos (“Condutores das Almas”), que eram apenas cinco: Hermes, Hecate, Caronte, Morpheus e Thanatos. Cada um deles descreve exatamente os estados de consciência que habitam o Plano Astral.

Comecemos por Morpheus, o senhor dos sonhos e o nome do Personagem de Lawrence Fishburn como condutor de Neo (que representa nossa consciência crística que deve ser trabalhada até nos tornarmos “o Escolhido”). Morpheus é o senhor dos sonhos, indicando que uma das maneiras de acessarmos o Plano Astral é durante o sono, quando conseguimos atingir os estados de ondas teta e alfa, necessários para atingirmos a chamada superconsciência (ou meditação profunda, ou transe, dependendo para quem você pergunta). Anote ai no seu caderno: Sonhos.

A segunda Psychopompos é chamada de Hecate, deusa dos Templos Lunares. Ela representa os aspectos da consciência atingidos através do Ajna Chakra (o sexto chakra). Hecate representa as danças sagradas, o sexo mágico, o tantra, o despertar da kundalini, os oráculos (tarot, runas…) e todos os Templos que lidam com a energia lunar/feminina dentro da magia. Hecate também é conhecida como a “Deusa Tríplice” (Trinity).
Anote ai no seu caderno: Oráculos e Magia Sexual.

O terceiro deus condutor de almas é Caronte. Caronte é o barqueiro que conduz os viajantes até os Reinos de Hades. A lenda de Caronte deriva das histórias do Barco de Ísis e das antigas iniciações egípcias onde os sacerdotes e iniciados eram colocados em transe nas pirâmides e tinham sua alma liberta do corpo para que vissem a si mesmos deitados aos pés dos outros sacerdotes e tomassem consciência de que eram espíritos habitando temporariamente um corpo físico. Quando fazemos Viagens Astrais induzidas, a sensação de se desligar do corpo no momento em que saímos do Plano Material é muito semelhante ao deslizar que sentimos quando estamos dentro de um barco. Desta maneira, Caronte representa as Viagens Astrais Conscientes. Tanto a lenda de Orfeu quanto a de Hércules (e também Dionísio, Psique e Enéias) representam iniciados em cultos Dionísicos e o despertar da consciência. Os Barcos Espirituais (tanto de Caronte quanto de Ísis) estão representados na forma dos Hovercrafts. Anote no caderno: Viagens Astrais Conscientes.

Hermes representa o Templo Solar, a magia atuando sobre a Luz Astral. Hermes representa o mensageiro dos Deuses, aquele que domina o caduceu (kundalini) e trabalha com a imaginação de maneira racional. Ele representa os grandes magos e conjuradores, os grimórios que lidam com a conjuração de espíritos, o contato consciente entre os que estão no Plano Material e os que estão no Plano Astral. Assim como Salomão, Eliphas Levi e Crowley, Hermes representa todos os iniciados e médiuns capazes de estabelecer contatos entre o Plano Material e o Plano Espiritual.
Como veremos na próxima coluna, o Caduceu e os Chakras representam a porta de entrada e o controle sobre as energias que atuam sobre Yesod e o Plano Astral. Hermes aparece no filme Matrix na forma de “Mercúrio”, como o espelho que engloba Neo e o guia através da jornada que fará o despertar final.
Anote no seu caderno: Mediunidade, Imaginação e Vontade atuando sobre a Luz Astral.

Por fim, temos Thanatos, deus da morte. Irmão de Hypnos (o sono), Thanatos representava a morte e os espíritos dos mortos, que eram transportados por ele até o Reino Subterrâneo. O Reino dos Mortos. Thanatos está representado na máquina que descarta Neo nos esgotos assim que ele desperta e Thanatos o reconhece como não pertencente àquele local. Anote ai como o quinto item: Espíritos dos Mortos.

A partir destas alegorias, podemos compreender que o Plano Astral é habitado por diversas criaturas, objetos, egrégoras, seres e entidades que possuem uma complexa e intrincada estrutura de organização, a partir das quais explicaremos todas as lendas, contos e bases de muitas religiões e filosofias espiritualistas.

Homens e Espíritos
Começaremos nossa jornada da comunicação entre homens e espíritos pelo Xamanismo. Há mais de 40.000 anos as tribos mais antigas conseguiam entrar em contato com o Mundo Astral de diversas maneiras. Seus sacerdotes comunicavam-se com os espíritos dos antepassados em busca de conselhos e indicações enquanto dormiam ou durante rituais envolvendo ervas capazes de alterar o estado de consciência dos participantes no ritual. Os xamãs também eram capazes de entrar em contato com o Reino Espiritual através de oráculos e rituais de conjuração de seres que eles chamam de Elementais.
Nas religiões Aborígenes (Austrália) e Tribais (Africanas), os nativos possuem o mesmo nome para designar o “Reino dos Sonhos” e o “Reino dos Mortos”. Nestas religiões, os deuses e os espíritos iluminados conseguem se comunicar com os sacerdotes através da mediunidade deles (fazendo conexões entre seu corpo astral e os chakras dos médiuns, os espíritos conseguem agir através do corpo de um médium). Além dos espíritos, outras entidades astrais (chamadas de Devas pelos hindus, Orixás pelos africanos e Elementais pelos celtas) também são capazes de incorporar um médium capaz de recebê-los.
Na Babilônia, os cultos a Astarte envolviam danças sagradas, sexo sagrado e contato com os mortos através dos oráculos.
Entre os hindus, o tantra fazia a ponte entre o despertar da kundalini e a iluminação do ser humano através do sexo sagrado. Com a abertura e desenvolvimento dos chakras, os praticantes tornavam-se canais poderosos de conexão com o cósmico, despertando habilidades consideradas sobrehumanas.
Os Egípcios conheciam como ninguém os desdobramentos astrais, potencialidades dos chakras, telepatia e diversas outras habilidades que são preservadas até os dias de hoje dentro das Ordens Iniciáticas como a Rosacruz, Templários e Maçonaria.
Entre os gregos, as sacerdotisas de Hecate também eram conhecidas pelo nome de Ptionísia ou Oráculo (mais uma conexão com o filme Matrix) e conseguiam estabelecer um contato entre os vivos e os mortos para obter conselhos e previsões.
Do ponto de vista ocultista, praticamente não há diferença entre um oráculo grego da antiguidade e um centro espírita Kardecista, salvo pela ritualística. Os princípios e os mecanismos envolvidos são rigorosamente os mesmos.
O rei Salomão utiliza seu conhecimento sobre o astral para deixar um dos maiores legados ocultistas, o Ars Goetia, ou os 72 espíritos (falarei sobre eles mais adiante, quando retornarmos aos trilhos dos posts sobre demônios). Chamavam estes conhecimentos de Arte Real. Paralelamente, temos os judeus e seu vasto estudo sobre a kabbalah e os 72 nomes de Deus (chamados vulgarmente de “anjos cabalísticos”). Salomão compartilha estes conhecimentos com a rainha de Sheba, que os leva para os Reinos africanos e mistura este conhecimento com as religiões tribais, dando origem aos cultos africanos que muitos séculos mais tarde dariam origem indireta ao Candomblé, Umbanda, Santeria, Vodu e Quimbanda. (explicarei em detalhes cada um deles em posts futuros).

Da Grécia, os oráculos chegavam até praticamente todos os pontos do mundo conhecido. Rituais de magia que lidavam com o astral são descritos em diversos poemas e praticados por comandantes, soldados e sacerdotes iniciados.
Dos romanos e dos celtas, este conhecimento também chegou até a Europa, onde as bruxas utilizavam-se deste contato para conversar com os antepassados, conjurar elementais e adquirir conhecimento e iluminação. As belíssimas obras de arte deixadas por todos estes povos são um retrato claro da interação entre vivos e mortos, espíritos e sonhadores, deuses e mortais.
Os nórdicos possuíam lendas a respeito das Valkírias, dos Einherjar, das runas e de toda a estrutura de contato entre os vivos e os mortos. Suas lendas refletem um profundo conhecimento dos iniciados a respeito da Árvore da Vida. Um dos cursos que mais gosto de ministrar é justamente o de runas, pois cada uma das 24 pedras do Oráculo encerra uma lenda rica e profunda; desde a famosa “Ponte do arco Íris”, guardada por Heimdall, que representa o caminho de Tav na Árvore da Vida, até a própria estrutura da origem das runas, provenientes do sacrifício de Odin durante nove dias (nove esferas fora do mundo material na Kabbalah).

Semana que vem: Vampiros, Encostos, Espíritos do Mal e Poltergeists.

#Kabbalah

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/yesod-bem-vindo-ao-deserto-do-real

Adições Apócrifas ao Livro de Ester

Ester 1:1

1a. No segundo ano do reinado do rei Assuero, no primeiro dia do mês de Nisã, Mardoqueu teve um sonho. Mardoqueu era filho de Jair, filho de Semei, filho de Cis, da tribo de Benjamim.

1b. Ele era judeu que vivia na cidade de Susa, homem notável, ligado à corte do rei.

1c. Pertencia ao grupo dos exilados que Nabucodonosor, rei da Babilônia, tinha exilado de Jerusalém, junto com Jeconias, rei de Judá.

1d. O sonho foi assim: Gritos e tumulto, trovões e terremotos, agitação sobre a terra.

1e. Dois enormes dragões avançam, prontos para a luta. Lançam um grande rugido

1f. E, ao ouvi-lo, todas as nações se preparam para a guerra, para o combate contra o povo dos justos.

1g. É dia de treva e escuridão, caem sobre a terra angústia e aflição, tribulação e pavor.

1h. Todo o povo dos justos fica transtornado e, temendo desgraças, prepara-se para morrer e clama a Deus.

1i. E ao clamor do povo brota, como de uma pequena fonte, um grande rio de águas caudalosas.

1j. A luz e o sol se levantam: os oprimidos são exaltados e devoram os poderosos.

1l. Mardoqueu acordou do sonho e perguntou a si mesmo: “O que Deus está decidindo fazer?” Continuou a refletir nisso e ficou até à noite procurando decifrar de algum modo o significado.

1m. Mardoqueu morava na corte com Bagatã e Tares, dois funcionários do rei, guardas do palácio.

1n. Ouvindo a conversa deles e investigando seus planos, ficou sabendo que estavam preparando um atentado contra o rei Assuero. Mardoqueu informou o rei.

1o. E o rei interrogou os dois funcionários, que confessaram e foram condenados à morte.

1p. O rei mandou escrever uma crônica desses fatos, e também Mardoqueu, por conta própria, os deixou por escrito.

1q. Depois o rei colocou Mardoqueu como funcionário na corte e o recompensou com presentes.

1r. Todavia, Amã, filho de Amadates, o agagita, tinha muito prestígio diante do rei e buscava um modo de prejudicar Mardoqueu e seu povo, por causa dos dois funcionários do rei.

Ester 3:13

13a. Texto do decreto: “O Grande Rei Assuero, aos governadores das cento e vinte e sete províncias que vão da Índia até a Etiópia, e aos chefes de distrito, seus subordinados:

13b. Chefe de muitas nações e senhor de toda a terra, eu procuro não me embriagar com o orgulho do poder, mas governar com moderação e benevolência, a fim de que os meus súditos gozem sempre de uma vida sem sobressaltos. Oferecendo os benefícios da civilização e a livre circulação dentro de nossas fronteiras, procuro estabelecer a paz, tão desejada por todos.

13c. Consultei meus conselheiros sobre como poderia atingir esse fim. Entre eles está Amã, que se distingue por sua prudência, homem de dedicação sem igual, de fidelidade inabalável e comprovada, e cujas prerrogativas seguem imediatamente as do rei.

13d. Amã nos informou que entre todos os povos da terra há um povo hostil, com regime jurídico oposto ao de todas as nações, povo que despreza continuamente as ordens reais, a ponto de estorvar a política irrepreensível e reta que exercemos.

13e. Portanto, considerando que esse povo singular, inimigo de todos e completamente diferente por sua legislação, que é prejudicial aos nossos interesses, ele comete os piores crimes e chega a ameaçar a estabilidade de nosso reino:

13f. Ordenamos que no dia catorze do décimo segundo mês, que é Adar, do presente ano, todas as pessoas que forem nomeadas na carta de Amã, nosso chefe de governo, que é como nosso segundo pai, sejam completamente exterminadas com mulheres e crianças, pela espada de seus inimigos, sem piedade ou consideração alguma.

13g. Desse modo, lançando violentamente na sepultura, num só dia, esses inimigos de ontem e de hoje, nossa política poderá prosseguir no futuro com estabilidade e tranquilidade”.

Ester 4:8

8a. E lhe dizia: “Lembre-se de quando você era pobre e eu lhe dava de comer. Amã, a segunda pessoa do reino, pediu ao rei a nossa morte

8b. Invoque o Senhor, fale ao rei em nosso favor, e livre-nos da morte”.

Ester 4:17

17a. Então lembrando todas as façanhas do Senhor, Mardoqueu orou assim:

17b. “Senhor, Senhor, Rei Todo-poderoso, tudo está debaixo do teu poder, e não há quem se oponha à tua vontade de salvar Israel.

17c. Sim, tu fizeste o céu e a terra e todas as maravilhas que estão debaixo do firmamento. Tu és o Senhor de todas as coisas, e não há quem possa resistir a ti.

17d. Tu conheces tudo! Se eu me nego a prostrar-me diante do soberbo Amã, tu bem sabes, Senhor, que não é por arrogância, orgulho ou vaidade. Para salvar Israel, de boa vontade eu beijaria a sola dos pés dele!

17e. Fiz o que fiz para não colocar a honra de um homem acima da glória de Deus. Eu não me prostro na frente de ninguém, a não ser diante de ti, Senhor, e não faço isso por orgulho.

17f. Pois bem, Senhor Deus, Rei, Deus de Abraão, poupa o teu povo! Porque tramam a nossa morte e desejam aniquilar a tua antiga herança.

17g. Não desprezes a porção que para ti resgataste da terra do Egito.

17h. Ouve minha súplica, tem piedade da tua herança e transforma o nosso luto em alegria, para que vivamos celebrando o teu Nome, Senhor. Não deixes emudecer a boca dos que louvam a ti”.

17i. E todos os israelitas clamavam a Deus com todas as forças, porque a morte estava diante de seus olhos.

17j. Tomada de angústia mortal, a rainha Ester também procurou refúgio no Senhor. Deixou as roupas de luxo, vestiu-se com roupas de miséria e luto. Em lugar de perfumes finos, cobriu a cabeça com cinzas e poeiras. Desfigurou-se completamente, e com os cabelos desgrenhados cobriu o corpo, que antes tinha prazer de enfeitar. E suplicou assim ao Senhor, o Deus de Israel:

17l. “Meu Senhor, nosso Rei, tu és o Único! Protege-me, porque estou só e não tenho outro defensor além de ti, pois vou arriscar a minha vida.

17m. Desde a infância, aprendi com minha família que tu, Senhor, escolheste Israel entre todos os povos e nossos pais entre todos os seus antepassados, para ser tua herança perpétua. E cumpriste o que lhes havias prometido.

17n. Pecamos contra ti, e nos entregaste aos nossos inimigos, porque adoramos os deuses deles. Tu és justo, Senhor!

17o. Eles, porém, não se contentaram com a amargura da nossa escravidão. Comprometeram-se com seus ídolos e juraram anular a palavra saída dos teus lábios e fazer desaparecer a tua herança e emudecer as bocas que te louvam, para aniquilar teu altar e a glória de tua casa.

17p. Juraram abrir os lábios dos pagãos para que louvem seus ídolos vazios e adorem eternamente um rei de carne.

17q. Senhor, não entregues teu cetro a deuses que não existem. Que não caçoem de nossa ruína. Volta seus planos contra eles próprios, e que sirva de exemplo o primeiro que nos atacou.

17r. Lembra-te, Senhor, manifesta-te a nós no dia da nossa tribulação. Quanto a mim, dá-me coragem, Rei dos deuses e Senhor dos poderosos.

17s. Coloca na minha boca palavras certas, quando eu estiver diante do leão. Volta o coração dele para odiar o nosso inimigo, para que este pereça junto com todos os seus cúmplices.

17t. Salva-nos com a tua mão e vem para me auxiliar, pois estou sozinha. E fora de ti, Senhor, eu não tenho nada.

17u. Tu conheces todas as coisas, sabes que odeio a glória dos ímpios, e que o leito dos incircuncisos e de qualquer estrangeiro me causa horror.

17v. Tu conheces a minha angústia e sabes que eu detesto o sinal da minha grandeza, que me cinge a fronte quando apareço em público. Eu o detesto como trapo imundo, e não o uso fora das solenidades.

17x. Tua serva não comeu à mesa de Amã, nem apreciou o banquete do rei, nem bebeu o vinho das libações.

17y. Tua serva não se alegrou desde o dia em que mudou de condição até hoje, a não ser em ti, Senhor, Deus de Abraão.

17z. Ó Deus, mais forte que todos os poderosos, ouve a voz dos desesperados, liberta-nos da mão dos malfeitores, e livra-me do medo!”

Ester 5:1

1a. Vestida com esplendor, invocou o Deus que cuida de todos e que os salva. Tomou consigo duas escravas. Apoiava-se suavemente numa delas, com delicada elegância, enquanto a outra ia acompanhando e segurando a cauda do vestido.

1b. No auge da beleza, Ester caminhava ruborizada, com o rosto alegre, como se ardesse de amor. Seu coração, porém, estava angustiado.

1c. Ultrapassando todas as portas, Ester se encontrou na presença do rei. Ele estava sentado no trono real, vestido com todos os enfeites majestosos de suas aparições solenes, resplandecendo em ouro e pedras preciosas, e tinha aspecto terrível.

1d. Ele ergueu o rosto incendiado de glória, e olhou num acesso de cólera. A rainha esmoreceu, apoiou a cabeça na escrava que a seguia, ficou pálida e desmaiou.

1e. Deus, porém, tornou manso o coração do rei, que ansioso correu do trono e tomou Ester nos braços, até que ela se recuperasse, e a reconfortou com palavras tranquilizadoras:

1f. “O que foi, Ester? Eu sou seu esposo. Coragem! Você não vai morrer. Nossa ordem é só para os súditos. Aproxime- se”.

Ester 5:2

2a. Ester lhe disse: “Senhor, eu o vi como um anjo de Deus e fiquei com medo de tanto esplendor. O senhor é admirável e seu rosto é fascinante”.

2b. Enquanto falava, Ester desmaiou. O rei ficou perturbado e todos os cortesãos procuravam reanimá-la.

Ester 8:12

12a. Texto do decreto:

12b. “O grande rei Assuero, aos sátrapas das cento e vinte e sete províncias, que se estendem da Índia à Etiópia, e aos que são fiéis aos nossos interesses. Saudações.

12c. Muitos homens, quanto mais honrados pela suma generosidade dos benfeitores, mais se ensoberbecem e procuram não só prejudicar nossos súditos, mas, incapazes de frear a própria soberba, tramam armadilhas contra seus próprios benfeitores.

12d. Eles não só anulam a gratuidade no meio dos homens, mas, embriagados pelo elogio de quem ignora o bem, se orgulham de fugir de Deus, o qual tudo vê, e de sua justiça que odeia o mal.

12e. De fato, muitas vezes, aconteceu que um mau conselho dessas pessoas, a quem foi confiado o controle dos assuntos públicos, tornou muitos daqueles que detêm o poder corresponsáveis por ações sanguinárias reprováveis, provocando assim calamidades irremediáveis.

12f. Com falsos raciocínios cheios de maldade, eles enganaram toda a boa fé dos soberanos.

12g. É possível encontrar fatos semelhantes, não só nas antigas histórias a que aludimos, mas também examinando as ações hoje realizadas pela baixeza daqueles que injustamente detêm o poder.

12h. Para o futuro, será necessário assegurar, em favor de todos os homens, um reino pacífico e sem perturbações,

12i. fazendo mudanças oportunas e julgando com firmeza e equidade os casos que acontecem sob os nossos olhos.

12j. Tal é o caso de Amã, um macedônio, filho de Amadates, na verdade um estrangeiro ao nosso sangue e muito longe da nossa bondade. Amã foi acolhido por nós com hospitalidade,

12l. usufruiu da amizade que dedicamos a todos os povos e chegou até a ser chamado “nosso pai” e ser reverenciado por todos com a prostração, como aquele que detém o segundo lugar junto ao trono do rei.

12m. Contudo, incapaz de conter o seu orgulho, Amã tramou privar-nos do poder e da vida.

12n. Com falsos e sutis artifícios, ele pediu a pena de morte para Mardoqueu, o nosso salvador e benfeitor perpétuo, e também para Ester, nossa irrepreensível companheira no trono, junto com todo o seu povo.

12o. Desse modo, ele pensava em nos isolar e passar o poder dos persas para os macedônios.

12p. Nós, porém, achamos que os judeus, condenados ao extermínio por esse criminoso, não são malfeitores. Pelo contrário, eles vivem segundo leis justíssimas,

12q. são filhos do Deus Altíssimo, excelso e vivo, que, em nosso favor e de nossos antepassados, dirige o reino do modo mais florescente.

12r. Portanto, vocês farão bem se não obedecerem ao decreto enviado por Amã, filho de Amadates, porque seu autor foi enforcado diante das portas de Susa, com toda a sua família. Deus, Senhor de todos os acontecimentos, fez recair imediatamente sobre ele o castigo que merecia.

12s. Coloquem cópias desta carta em público, e permitam que os judeus continuem a seguir livremente seus costumes. Além disso, deem aos judeus apoio para se defenderem de todos aqueles que os atacarem no dia da perseguição, isto é, no dia treze do décimo segundo mês, chamado Adar.

12t. Porque Deus, Senhor de todas as coisas, transformou esse dia trágico em dia de alegria para o povo escolhido.

12u. Quanto a vocês, judeus, celebrem com toda a solenidade esse dia memorável, entre as festas de vocês. Assim, hoje e no futuro, seja ele uma lembrança da salvação para nós e para os amigos dos persas, e uma lembrança da destruição para os nossos inimigos.

12v. Toda cidade e província que não seguir estas disposições, será devastada a ferro e fogo. Nenhum homem viverá nela e até os animais e pássaros a evitarão”.

Ester 9:19

19a. Para os judeus das grandes cidades, o dia festivo é o dia quinze do mês de Adar, quando mandam presentes para seus vizinhos.

Ester 10:3

3a. Mardoqueu comentou: Essas coisas aconteceram por obra de Deus.

3b. Lembro-me do sonho que tive sobre esses fatos, e nenhum deles foi omitido:

3c. a pequena fonte que se torna rio, a luz que se levanta, o sol e a água abundante. O rio é Ester, que o rei desposou e constituiu rainha. 3d

3e. As nações, são aquelas que se coligaram para destruir o nome dos judeus.

3f. Meu povo é Israel, aqueles que invocaram a Deus e foram salvos. Sim, o Senhor salvou o seu povo, o Senhor nos libertou de todos esses males. Deus realizou sinais e prodígios, como nunca houve entre as nações.

3g. Por isso, ele estabeleceu duas sortes: uma para o povo de Deus, e outra para as nações.

3h. Essas duas sortes se realizaram na hora, no momento e no dia estabelecido do julgamento diante de Deus, e em todas as nações.

3i. Deus se lembrou do seu povo e fez justiça para a sua herança.

3j. Os dias catorze e quinze do mês de Adar serão celebrados com assembleia, alegria e contentamento diante de Deus, em Israel, seu povo por todas as gerações e para sempre”.

3l. No quarto ano de Ptolomeu e de Cleópatra, Dositeu, que se dizia sacerdote e levita, e seu filho Ptolomeu, trouxeram a presente carta sobre os “Purim”. Eles a consideraram autêntica e traduzida por Lisímaco, filho de Ptolomeu, que era da comunidade de Jerusalém.

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Fonte: http://mucheroni.br.tripod.com/catolicos/a_ester.htm

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/adicoes-apocrifas-ao-livro-de-ester/

Doppelgangers: mau agouro na certa

Será que existe um clone seu em algum lugar do mundo ? Uma pessoa pode estar em dois lugares ao mesmo tempo? Existem muitos casos intrigantes ao longo da história, de pessoas que afirmam ter deparado-se com aparições de si mesmo – seus doppelgangers – ou sofreram o fenômeno da bilocação/desdobramento, estar em dois locais distintos ao mesmo tempo.

Doppelganger” é um termo alemão para algo que dificilmente teríamos uma boa tradução para o português; uma sombra/espírito que se pensa poder acompanhar cada pessoa e que têm sua aparência exata, embora sua imagem não tenha reflexos. Tradicionalmente, diz-se que só o dono do doppelganger pode ver este auto-fantasma, e que ele pode ser um prenúncio de morte. Ocasionalmente, no entanto, um doppelganger pode ser visto por uma pessoa da família ou amigos, resultando em casos muito confusos.

O Caso de Emilie Sagée

Um dos mais fascinantes relatos de um doppelganger vem do escritor americano Robert Dale Owen, que ouviu a história de um Doppelganger por Julie von Güldenstubbe, a segunda filha do barão von Güldenstubbe. Em 1845, quando von Güldenstubbe contava 13 anos de idade, ela foi enviada ao Pensionato von Neuwelcke, um colégio exclusivo para meninas; perto de Wolmar no que é agora a Letônia. Um de seus professores era uma francesa de 32 anos chamada Emilie Sagée.

Embora a administração da escola estivesse muito contente com o desempenho de Sagée junto aos alunos, ela logo se tornaria objeto de rumores e especulações estranhas. Sagée, ao que parece, possuía um Doppelganger que a perseguia por todos os lugares. O caso deixou de ser tratado como insanidade quando os próprios alunos de Sagée puderam ver ambas ao mesmo tempo, o que não é o mais comum, já que alguns estudiosos têm a opinião de que somente o próprio dono pode vê-los.

Um dia, no meio da turma na sala de aula, enquanto Sagée estava escrevendo no quadro negro, seu Doppelganger apareceu precisamente ao lado dela; copiando cada movimento da professora tal como ela escrevia, com a exceção de que não detinha qualquer pedaço de giz entre os dedos. O evento foi testemunhado por 13 alunos na sala de aula. Um incidente semelhante foi relatado em um jantar na qual seu Doppelganger foi visto em pé atrás dela, mimetizando os movimentos de sua alimentação, embora não utiliza-se nenhum dos utensílios como garfos ou facas.

No entanto, o Doppelganger nem sempre retrata o eco dos seus movimentos. Em várias ocasiões, Sagée seria vista em uma parte da escola, quando era conhecido de que ela estava em outro lugar, no exato mesmo horário. O mais espantoso exemplo do caso Sagée teve lugar em plena vista de todo o corpo estudantil de 42 alunos em um dia no verão 1846. As meninas estavam todas acomodadas no hall da escola para suas aulas de costura e bordado. A medida que sentaram-se ao longo das mesas de trabalho, elas podiam ver claramente Sagée no jardim da escola colhendo flores.

Um outro professor foi supervisionar as crianças. Quando este professor deixou a sala para falar com a diretora, o Doppelganger de Sagée apareceu em sua cadeira – enquanto a verdadeira Sagée ainda podia ser vista no jardim. As alunas observaram que os movimentos de Sagée no jardim pareciam muito cansados enquanto o doppelganger continuava sentado e imóvel na mesa da professora. Duas meninas munidas de uma coragem incomum para suas idades abordaram o “fantasma” na tentativa de tocá-lo, mas sentiram uma estranha resistência do ar em torno dela; quando finalmente consegui “tocá-la”, o Doppelganger então desapareceu lentamente.

Sagée alegou nunca ter visto seu próprio Doppelganger, mas que sempre era tomada por um extremo cansaço, como se suas forças estivessem sendo drenadas para fora de seu corpo; ela empalidecia e sentia fome, apesar de jamais conseguir comer após essas aparições.

Famosos Doppelgangers

Temos muito relatos de Doppelgangers envolvendo figuras ilustres:

  • Guy de Maupassant, o romancista francês em um de seus contos, alegava ter sido assombrado pelo seu Doppelganger perto do fim de sua vida. Numa ocasião, ele disse que esta “cópia” sua entrou no quarto, tomou um assento frente ao dele e começou a ditar o que ele deveria escrever. Ele menciona esta experiência, em seu conto “Lui”.
  • John Donne, poeta Inglês do século XVI, cujo trabalho muitas vezes aflorou assuntos voltados para metafísica, foi visitado por um Doppelganger enquanto ele estava em Paris – e não o seu, mas o de sua mulher. Ela apareceu-lhe para mostrar um bebê recém-nascido. Sua esposa estava grávida na época, mas a aparição foi um sinal de grande tristeza. Ao mesmo momento que o Doppelganger apareceu, sua esposa havia dado à luz um filho nati-morto.
  • Percy Bysshe Shelley, ainda considerado um dos maiores poetas da língua Inglesa, encontrou seu doppelganger na Itália. O fantasma silenciosamente apontou em direção ao Mar Mediterrâneo. Pouco tempo depois, e pouco antes de seu trigésimo aniversário, em 1822, Shelley morreu em um acidente na pequena vela em que navegava – morrendo afogado no mesmo mar Mediterrâneo.
  • Rainha Elizabeth I da Inglaterra ficou chocada ao ver seu Doppelganger repousando em seu leito. A rainha morreu pouco tempo depois. A ocasião foi assunto dos jornais da época.
  • Em um caso que sugere que Doppelgangers podem ter algo a ver com o tempo ou dimensões extra-sensoriais, Johann Wolfgang von Goethe, o poeta alemão do século 18, encontrou seu Doppelganger enquanto cavalgava por uma estrada rumo a Drusenheim. Cavalgando em direção a ele estava seu Doppelganger, mas usando um terno cinza com reluzentes detalhes em ouro. Oito anos mais tarde, Goethe novamente viajava pela mesma estrada, mas no sentido oposto. Ele então percebeu que ele estava vestindo o mesmo terno cinza que tinha visto em seu Doppelganger oito anos antes e repetindo os mesmíssimos movimentos. Teria Goethe visto o seu próprio futuro?

Irmã Maria de Jesus

A Bilocação parece mesmo ser a outra face da moeda Doppelganger. Um dos mais espantosos casos ocorreu no século XV. Em 1622, ao Padre Alonzo de Benavides foi confiada a missão catequizadora de Isolita; no que é agora o estado americano do Novo México. Ele ficou perplexo ao encontrar índios Jamanos que, apesar de nunca antes terem se deparado com povos europeus; pareciam ter aprendido todos os rituais e liturgias Católicos Romanos, havia altares e cruzes; orações, todas em sua língua nativa.

Benavides escreveu para ambos Papa Urbano VII e Rei Felipe da Espanha para saber quem tinha estado lá antes dele, evidentemente, para trabalhar no sentido de converter os índios ao cristianismo. A resposta foi que ninguém tinha sido enviado anteriormente. Os índios, disseram-lhe, que tinham sido instruídos no cristianismo por uma bela jovem “vestida de azul” que viera entre eles há muitos anos e ensinou-lhes esta nova religião na sua própria língua.

Ela também disse-lhes que as pessoas de pele branca iriam em breve chegar às suas terras. “Ela veio aqui para baixo vindo das alturas”, disseram os Índios “, ela nos ensinou a nova religião, permanecendo entre nós por algum tempo, ela nos disse que viriam e para que vocês fossem bem recebidos por nós, em seguida, ela se foi para longe. Isso todos nós sabemos. disseram, referindo ao que Benavides tentava lhes ensinar.”

Quem foi essa misteriosa mulher em azul? Padre Benavides sabia que as freiras dos conventos das Pobres Clarissas usavam hábitos azuis e logo associou a elas esta possibilidade. Ele encontrou uma pintura de uma freira e mostrou-a para o Jamanos. “Esta é a mulher?” ele perguntou. O vestido era o mesmo, os índios disseram a ele, mas esta não era a mulher. A mulher na pintura era bastante bonita, mas a senhora em azul que os visitou era muito jovem e muito bela.

Quando o padre retornou para a Espanha, voltou determinado a resolver o mistério. Como poderiam os índios encontrar uma freira Clarissa quando elas fossem enclausuradas a partir do dia em que tiveram seus votos confirmados e isso até a sua morte, as freiras nunca deixaram seus conventos, muito menos viajaram a terras distantes em missões catequizadoras. Sua investigação o levou a Irmã Maria de Jesus em Agreda , na Espanha, que alegou ter convertido índios norte-americanos – sem sair de seu convento. A freira então com 29 anos de idade; disse que ela tinha visitado os índios “não com seu corpo material, mas na sua essência, espiritualmente.”

Irmã Maria de Jesus disse que ela caía regularmente  em um transe cataléptico, depois ela recordava de “sonhos”, na qual ela era levada para um lugar estranho e muito selvagem, onde ensinava o evangelho. Como prova da sua alegação, ela foi capaz de fornecer todas as descrições detalhadas dos índios Jamano, incluindo a sua aparência, roupas e costumes, nenhum dos quais ela poderia ter aprendido através de alguma investigação anterior, uma vez que haviam sido recentemente descobertos pelos europeus. Como é que ela havia aprendido a sua língua nativa? “Eu não aprendi”, respondeu ela. “Eu simplesmente falei com eles – e Deus deixou-nos compreender mutuamente.”

Outros casos

  • Santo Afonso Liguori foi bispo de Santa Agata de Goti em 1774, quando ele sofreu sua primeira bilocação. Enquanto estava em repouso em seu palácio perto de Nápoles, o bispo caiu em um transe e então apareceu no Vaticano, em Roma, na câmara mortuária do Papa Clemente XIV, que estava agonizando. O bispo amparava todos aqueles que visitavam o Pontífice e rezou com todos os presentes. Ele permaneceu até o Papa morrer, em seguida, “acordou” de volta em seu palácio, capaz de descrever o que ele tinha acabado vivenciar, para espanto de todos que confirmaram a história.
  • Em 1905, Sir Gilbert Parker, um membro do Parlamento britânico, estava participando de um debate na Câmara dos Comuns. Durante o debate, ele observou que Sir Frederick Carne Rasch esteve também presente, sentado no seu local habitual. No entanto, isto era impossível uma vez que Sir Frederick estava acometido de uma terrível gripe e, de acordo com sua governanta, permaneceu na cama durante todo o dia sem comparecer ao parlamento. Aparentemente, o Doppelganger de Sir Rasch estava determinado a ouvir o precioso debate que ali deveria ocorrer e que muito interessava ao futuro político.
  • Um caso recente aconteceu em Beslan, na Rússia em Agosto de 2004, uma menina de 11 anos de idade passou a questionar a mãe se ela tinha uma irmã gêmea. Frente as negativas maternas, a menina insistia em afirmar que via uma “cópia” sua, que a perseguia do outro lado da calçada, sempre que retornava da casa da avó, que vivia a três quadras de sua residência. A cópia segundo a menina, não falava com ela, mas imitava seus movimentos, às vezes sorrindo zombeteiramente para ela, o que assustava a menina. Ao ser levada a um médico, o doutor Viktor Gushniev, psiquiatra local afirmou que a menina sofria de um problema neurofisiológico e foi “devidamente” medicada. Seguindo a rota dos acontecimentos em que afirma-se peremptoriamente, que ao se deparar com seu Doppelganger é sinal de tragédia a vista, a menina foi uma das vítimas do massacre de Beslan, um atentado terrorista que deixou 331 pessoas mortas, em sua maioria crianças. Gushniev que tinha conhecimento sobre a teoria Doppelganger, recusou-se a falar com a revista semanal alemã Der Spiegel sobre o caso. Mais de três anos após o caso, ele ainda se recusa a falar e reage com severa fúria quando é abordado sobre Beslan.

Por: Paulie Hollefeld

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/doppelgangers-mau-agouro-na-certa/

O Sufismo

Escrito por Robert Graves, para o livro “Os Sufis”, de Idries Shah

Os sufis são uma antiga maçonaria espiritual cujas origens nunca foram traçadas nem datadas; nem eles mesmos se interessam muito por esse tipo de pesquisa, contentando-se em mostrar a ocorrência da sua maneira de pensar em diferentes regiões e períodos. Conquanto sejam, de ordinário, erroneamente tomados por uma seita muçulmana, os sufis sentem-se à vontade em todas as religiões: exatamente como os “pedreiros-livres e aceitos”, abrem diante de si, em sua loja, qualquer livro sagrado – seja a Bíblia, seja o Corão, seja a Torá – aceito pelo Estado temporal. Se chamam ao islamismo a “casca” do sufismo, é porque o sufismo, para eles, constitui o ensino secreto dentro de todas as religiões. Não obstante, segundo Ali el-Hujwiri, escritor sufista primitivo e autorizado, o próprio profeta Maomé disse: “Aquele que ouve a voz do povo sufista e não diz aamin (amém) é lembrado na presença de Deus como um dos insensatos”. Numerosas outras tradições o associam aos sufis, e foi em estilo sufista que ele ordenou a seus seguidores que respeitassem todos os “Povos do Livro”, referindo-se dessa maneira aos povos que respeitavam as próprias escrituras sagradas – expressão usada mais tarde para incluir os zoroastrianos.

Tampouco são os sufis uma seita, visto que não acatam nenhum dogma religioso, por mais insignificante que seja, nem se utilizam de nenhum local regular de culto. Não têm nenhuma cidade sagrada, nenhuma organização monástica, nenhum instrumento religioso. Não gostam sequer que lhes atribuam alguma designação genérica que possa constrangê-los à conformidade doutrinária. “Sufi” não passa de um apelido, como “quacre”, que eles aceitam com bom humor. Referem-se a si mesmos como “nós amigos” ou “gente como nós”, e reconhecem-se uns aos outros por certos talentos, hábitos ou qualidades de pensamento naturais. As escolas sufistas reuniram-se, com efeito, à volta de professores particulares, mas não há graduação, e elas existem apenas para a conveniência dos que trabalham com a intenção de aprimorar os estudos pela estreita associação com outros sufis. A assinatura sufista característica encontra-se numa literatura amplamente dispersa desde, pelo menos, o segundo milênio antes de Cristo, e se bem o impacto óbvio dos sufis sobre a civilização tenha ocorrido entre o oitavo e o décimo oitavo séculos, eles continuam ativos como sempre. O seu número chega a uns cinqüenta milhões. O que os torna um objeto tão difícil de discussão é que o seu reconhecimento mútuo não pode ser explicado em termos morais ou psicológicos comuns – quem quer que o compreenda é um sufi. Posto que se possa aguçar a percepção dessa qualidade secreta ou desse instinto pelo íntimo contato com sufis experientes, não existem graus hierárquicos entre eles, mas apenas o reconhecimento geral, tácito, da maior ou menor capacidade de um colega.

O sufismo adquiriu um sabor oriental por ter sido por tanto tempo protegido pelo islamismo, mas o sufi natural pode ser tão comum no Ocidente como no Oriente, e apresentar-se vestido de general, camponês, comerciante, advogado, mestre-escola, dona-de-casa, ou qualquer outra coisa. “Estar no mundo mas não ser dele”, livre da ambição, da cobiça, do orgulho intelectual, da cega obediência ao costume ou do respeitoso temor às pessoas de posição mais elevada – tal é o ideal do sufi.

Os sufis respeitam os rituais da religião na medida em que estes concorrem para a harmonia social, mas ampliam a base doutrinária da religião onde quer que seja possível e definem-lhe os mitos num sentido mais elevado – por exemplo, explicando os anjos como representações das faculdades superiores do homem. Oferecem ao devoto um “jardim secreto” para o cultivo da sua compreensão, mas nunca exigem dele que se torne monge, monja ou eremita, como acontece com os místicos mais convencionais; e mais tarde, afirmam-se iluminados pela experiência real – “quem prova, sabe” – e não pela discussão filosófica. A mais antiga teoria de evolução consciente que se conhece é de origem sufista, mas embora muito citada por darwinianos na grande controvérsia do século XIX, aplica-se mais ao indivíduo do que à raça. O lento progresso da criança até alcançar a virilidade ou a feminilidade figura apenas como fase do desenvolvimento de poderes mais espetaculares, cuja força dinâmica é o amor, e não o ascetismo nem o intelecto.

A iluminação chega com o amor – o amor no sentido poético da perfeita devoção a uma musa que, sejam quais forem as crueldades aparentes que possa cometer, ou por mais aparentemente irracional que seja o seu comportamento, sabe o que está fazendo. Raramente recompensa o poeta com sinais expressos do seu favor, mas confirma-lhe a devoção pelo seu efeito revivificante sobre ele. Assim, Ibn El-Arabi (1165-1240), um árabe espanhol de Múrcia, que os sufis denominam o seu poeta maior, escreveu no Tarju-man el-Ashwaq (o intérprete dos desejos):

“Se me inclino diante dela como é do meu dever E se ela nunca retribui a minha saudação Terei, acaso, um justo motivo de queixa? A mulher formosa a nada é obrigada”
Esse tema de amor foi, posteriormente, usado num culto extático da Virgem Maria, a qual, até o tempo das Cruzadas, ocupara uma posição sem importância na religião cristã. A maior veneração que ela recebe hoje vem precisamente das regiões da Europa que caíram de maneira mais acentuada sob a influência sufista.

Diz de si mesmo, Ibn El-Arabi:

“Sigo a religião do Amor.
Ora, às vezes, me chamam
Pastor de gazelas [divina sabedoria]Ora monge cristão,
Ora sábio persa.
Minha amada são três –
Três, e no entanto, apenas uma;
Muitas coisas, que parecem três,
Não são mais do que uma.
Não lhe dêem nome algum,
Como se tentassem limitar alguém
A cuja vista
Toda limitação se confunde”

Os poetas foram os principais divulgadores do pensamento sufista, ganharam a mesma reverência concedida aos ollamhs, ou poetas maiores, da primitiva Irlanda medieval, e usavam uma linguagem secreta semelhante, metafórica, constituída de criptogramas verbais. Escreve Nizami, o sufi persa: “Sob a linguagem do poeta jaz a chave do tesouro”. Essa linguagem era ao mesmo tempo uma proteção contra a vulgarização ou a institucionalização de um hábito de pensar apropriado apenas aos que o compreendiam, e contra acusações de heresia ou desobediência civil. Ibn El-Arabi, chamado às barras de um tribunal islâmico de inquisição em Alepo, para defender-se da acusação de não-conformismo, alegou que os seus poemas eram metafóricos, e sua mensagem básica consistia no aprimoramento do homem através do amor a Deus. Como precedente, indicava a incorporação, nas Escrituras judaicas, do Cântico erótico de Salomão, oficialmente interpretado pelos sábios fariseus como metáfora do amor de Deus a Israel, e pelas autoridades católicas como metáfora do amor de Deus à Igreja.

Em sua forma mais avançada, a linguagem secreta emprega raízes consonantais semíticas para ocultar e revelar certos significados; e os estudiosos ocidentais parecem não ter se dado conta de que até o conteúdo do popular “As mil e uma noites” é sufista, e que o seu título árabe, Alf layla wa layla, é uma frase codificada que lhe indica o conteúdo e a intenção principais: “Mãe de Lembranças”. Todavia, o que parece, à primeira vista, o ocultismo oriental é um antigo e familiar hábito de pensamento ocidental. A maioria dos escolares ingleses e franceses começam as lições de história com uma ilustração de seus antepassados druídicos arrancando o visco de um carvalho sagrado. Embora César tenha creditado aos druidas mistérios ancestrais e uma linguagem secreta – o arrancamento do visco parece uma cerimônia tão simples, já que o visco é também usado nas decorações de Natal -, que poucos leitores se detêm para pensar no que significa tudo aquilo. O ponto de vista atual, de que os druidas estavam, virtualmente, emasculando o carvalho, não tem sentido.

Ora, todas as outras árvores, plantas e ervas sagradas têm propriedades peculiares. A madeira do amieiro é impermeável à água, e suas folhas fornecem um corante vermelho; a bétula é o hospedeiro de cogumelos alucinógenos; o carvalho e o freixo atraem o relâmpago para um fogo sagrado; a raiz da mandrágora é antiespasmódica. A dedaleira fornece digitalina, que acelera os batimentos cardíacos; as papoulas são opiatos; a hera tem folhas tóxicas, e suas flores fornecem às abelhas o derradeiro mel do ano. Mas os frutos do visco, amplamente conhecidos pela sabedoria popular como “panacéia”, não têm propriedades medicinais, conquanto sejam vorazmente comidos pelos pombos selvagens e outros pássaros não-migrantes no inverno. As folhas são igualmente destituídas de valor; e a madeira, se bem que resistente, é pouco utilizada. Por que, então, o visco foi escolhido como a mais sagrada e curativa das plantas? A única resposta talvez seja a de que os druidas o usavam como emblema do seu modo peculiar de pensamento. Essa árvore não é uma árvore, mas se agarra igualmente a um carvalho, a uma macieira, a uma faia e até a um pinheiro, enverdece, alimenta-se dos ramos mais altos quando o resto da floresta parece adormecido, e a seu fruto se atribui o poder de curar todos os males espirituais. Amarrados à verga de uma porta, os ramos do visco são um convite a beijos súbitos e surpreendentes. O simbolismo será exato se pudermos equiparar o pensamento druídico ao pensamento sufista, que não é plantado como árvore, como se plantam as religiões, mas se auto-enxerta numa árvore já existente; permanece verde, embora a própria árvore esteja adormecida, tal como as religiões são mortas pelo formalismo; e a principal força motora do seu crescimento é o amor, não a paixão animal comum nem a afeição doméstica, mas um súbito e surpreendente reconhecimento do amor, tão raro e tão alto que do coração parecem brotar asas. Por estranho que pareça, a Sarça Ardente em que Deus apareceu a Moisés no deserto, supõem agora os estudiosos da Bíblia, era uma acácia glorificada pelas folhas vermelhas de um locanthus, o equivalente oriental do visco.

Talvez seja mais importante o fato de que toda a arte e a arquitetura islâmicas mais nobres são sufistas, e que a cura, sobretudo dos distúrbios psicossomáticos, é diariamente praticada pelos sufis hoje em dia como um dever natural de amor, conquanto só o façam depois de haverem estudado, pelo menos, doze anos. Os ollamhs, também curadores, estudavam doze anos em suas escolas das florestas. O médico sufista não pode aceitar nenhum pagamento mais valioso do que um punhado de cevada, nem impor sua própria vontade ao paciente, como faz a maioria dos psiquiatras modernos; mas, tendo-o submetido a uma hipnose profunda, ele o induz a diagnosticar o próprio mal e prescrever o tratamento. Em seguida, recomenda o que se há de fazer para impedir uma recorrência dos sintomas, visto que o pedido de cura há de provir diretamente do paciente e não da família nem dos que lhe querem bem.

Depois de conquistadas pelos sarracenos, a partir do século VIII d.C, a Espanha e a Sicília tornaram-se centros de civilização muçulmana renomados pela austeridade religiosa. Os letrados do norte, que acudiram a eles com a intenção de comprar obras árabes a fim de traduzi-las para o latim, não se interessavam, contudo, pela doutrina islâmica ortodoxa, mas apenas pela literatura sufista e por tratados científicos ocasionais. A origem dos cantos dos trovadores – a palavra não se relaciona com trobar, (encontrar), mas representa a raiz árabe TRB, que significa “tocador de alaúde” – é agora autorizadamente considerada sarracena. Apesar disso, o professor Guillaume assinala em “O legado do Islã” que a poesia, os romances, a música e a dança, todos especialidades sufistas, não eram mais bem recebidas pelas autoridades ortodoxas do Islã do que pelos bispos cristãos. Árabes, na verdade, embora fossem um veículo não só da religião muçulmana mas também do pensamento sufista, permaneceram independentes de ambos.

Em 1229 a ilha de Maiorca foi capturada pelo rei Jaime de Aragão aos sarracenos, que a haviam dominado por cinco séculos. Depois disso, ele escolheu por emblema um morcego, que ainda encima as armas de Palma, a nossa capital. Esse morcego emblemático me deixou perplexo por muito tempo, e a tradição local de que representa “vigilância” não me pareceu uma explicação suficiente, porque o morcego, no uso cristão, é uma criatura aziaga, associada à bruxaria. Lembrei-me, porém, de que Jaime I tomou Palma de assalto com a ajuda dos Templários e de dois ou três nobres mouros dissidentes, que viviam alhures na ilha; de que os Templários haviam educado Jaime em le bon saber, ou sabedoria; e de que, durante as Cruzadas, os Templários foram acusados de colaboração com os sufis sarracenos. Ocorreu-me, portanto, que “morcego” poderia ter outro significado em árabe, e ser um lembrete para os aliados mouros locais de Jaime, presumivelmente sufis, de que o rei lhes estudara as doutrinas.

Escrevi para Idries Shah Sayed, que me respondeu:
“A palavra árabe que designa o morcego é KHuFFaasH, proveniente da raiz KH-F-SH. Uma segunda acepção dessa raiz é derrubar, arruinar, calcar aos pés, provavelmente porque os morcegos freqüentam prédios em ruínas. O emblema de Jaime, desse modo, era um simples rébus que o proclamava “o Conquistador”, pois ele, na Espanha, era conhecido como “El rey Jaime, Rei Conquistador”. Mas essa não é a história toda. Na literatura sufista, sobretudo na poesia de amor de Ibn El-Arabi, de Múrcia, disseminada por toda a Espanha, “ruína” significa a mente arruinada pelo pensamento impenitente, que aguarda reedificação.
O outro único significado dessa raiz é “olhos fracos, que só enxergam à noite”. Isso pode significar muito mais do que ser cego como um morcego. Os sufis referem-se aos impenitentes dizendo-os cegos à verdadeira realidade; mas também a si mesmos dizendo-se cegos às coisas importantes para os impenitentes. Como o morcego, o sufi está cego para as “coisas do dia” – a luta familiar pela vida, que o homem comum considera importantíssima – e vela enquanto os outros dormem. Em outras palavras, ele mantém desperta a atenção espiritual, adormecida em outros. Que “a humanidade dorme num pesadelo de não-realização” é um lugar-comum da literatura sufista. Por conseguinte, a sua tradição de vigilância, corrente em Palma, como significado de morcego, não deve ser desprezada.”
A absorção no tema do amor conduz ao êxtase, sabem-no todos os sufis. Mas enquanto os místicos cristãos consideram o êxtase como a união com Deus e, portanto, o ponto culminante da consecução religiosa, os sufis, só lhe admitem o valor se ao devoto for facultado, depois do êxtase, voltar ao mundo e viver de forma que se harmonize com sua experiência.

Os sufis insistiram sempre na praticabilidade do seu ponto de vista. A metafísica, para eles, é inútil sem as ilustrações práticas do comportamento humano prudente, fornecidas pelas lendas e fábulas populares. Os cristãos se contentame em usar Jesus como o exemplar perfeito e final do comportamento humano. Os sufis, contudo, ao mesmo tempo que o reconhecem como profeta divinamente inspirado, citam o texto do quarto Evangelho: “Eu disse: Não está escrito na vossa Lei que sois deuses?” – o que significa que juizes e profetas estão autorizados a interpretar a lei de Deus – e sustenta que essa quase divindade deveria bastar a qualquer homem ou mulher, pois não há deus senão Deus. Da mesma forma, eles recusaram o lamaísmo do Tibete e as teorias indianas da divina encarnação; e posto que acusados pelos muçulmanos ortodoxos de terem sofrido a influência do cristianismo, aceitam o Natal apenas como parábola dos poderes latentes no homem, capazes de apartá-lo dos seus irmãos não-iluminados. De idêntica maneira, consideram metafóricas as tradições sobrenaturais do Corão, nas quais só acreditam literalmente os não-iluminados. O Paraíso, por exemplo, não foi, dizem eles, experimentado por nenhum homem vivo; suas huris (criaturas de luz) não oferecem analogia com nenhum ser humano e não se deviam imputar-lhes atributos físicos, como acontece na fábula vulgar.

Abundam exemplos, em toda a literatura européia, da dívida para com os sufis. A lenda de Guilherme Tell já se encontrava em “A conferência dos pássaros”, de Attar (séc. XII), muito antes do seu aparecimento na Suíça. E, embora dom Quixote pareça o mais espanhol de todos os espanhóis, o próprio Cervantes reconhece sua dívida para com uma fonte árabe. Essa imputação foi posta de lado, como quixotesca, por eruditos; mas as histórias de Cervantes seguem, não raro, as de Sidi Kishar, lendário mestre sufista às vezes equiparado a Nasrudin, incluindo o famoso incidente dos moinhos (aliás de água, e não de vento) tomados equivocadamente por gigantes. A palavra espanhola Quijada (verdadeiro nome do Quixote, de acordo com Cervantes) deriva da mesma raiz árabe KSHR de Kishar, e conserva o sentido de “caretas ameaçadoras”.

Os sufis muçulmanos tiveram a sorte de proteger-se das acusações de heresia graças aos esforços de El-Ghazali (1051-1111), conhecido na Europa por Algazel, que se tornou a mais alta autoridade doutrinária do islamismo e conciliou o mito religioso corânico com a filosofia racionalista, o que lhe valeu o título de “Prova do Islamismo”. Entretanto, eram freqüentemente vítimas de movimentos populares violentos em regiões menos esclarecidas, e viram-se obrigados a adotar senhas e apertos de mão secretos, além de outros artifícios para se defenderem.

Embora o frade franciscano Roger Bacon tenha sido encarado com respeitoso temor e suspeita por haver estudado as “artes negras”, a palavra “negra” não significa “má”. Trata-se de um jogo de duas raízes árabes, FHM e FHHM, que se pronunciam fecham e facham, uma das quais significa “negro” e a outra “sábio”. O mesmo jogo ocorre nas armas de Hugues de Payns (dos pagãos), nascido em 1070 ,que fundou a Ordem dos Cavaleiros Templários: a saber, três cabeças pretas, blasonadas como se tivessem sido cortadas em combate, mas que, na realidade, denotam cabeças de sabedoria.

“Os sufis são uma antiga maçonaria espiritual…” De fato, a própria maçonaria começou como sociedade sufista. Chegou à Inglaterra durante o reinado do rei Aethelstan (924-939) e foi introduzida na Escócia disfarçada como sendo um grupo de artesãos no princípio do século XIV, sem dúvida pelos Templários. A sua reformação, na Londres do início do século XVIII, por um grupo de sábios protestantes, que tomaram os termos sarracenos por hebraicos, obscureceu-lhes muitas tradições primitivas. Richard Burton, tradutor das “Mil e uma noites”, ao mesmo tempo maçom e sufi, foi o primeiro a indicar a estreita relação entre as duas sociedades, mas não era tão versado que compreendesse que a maçonaria começara como um grupo sufista. Idries Shah Sayed mostra-nos agora que foi uma metáfora para a “reedificação”, ou reconstrução, do homem espiritual a partir do seu estado de decadência; e que os três instrumentos de trabalho exibidos nas lojas maçônicas modernas representam três posturas de oração. “Buizz” ou “Boaz” e “Salomão, filho de Davi”, reverenciados pelos maçons como construtores do Templo de Salomão em Jerusalém, não eram súditos israelitas de Salomão nem aliados fenícios, como se supôs, senão arquitetos sufistas de Abdel-Malik, que construíram o Domo da Rocha sobre as ruínas do Templo de Salomão, e seus sucessores. Seus verdadeiros nomes incluíam Thuban abdel Faiz “Izz”, e seu “bisneto”, Maaruf, filho (discípulo) de Davi de Tay, cujo nome sufista em código era Salomão, por ser o “filho de Davi”. As medidas arquitetônicas escolhidas para esse templo, como também para o edifício da Caaba em Meca, eram equivalentes numéricos de certas raízes árabes transmissoras de mensagens sagradas, sendo que cada parte do edifício está relacionada com todas as outras, em proporções definidas.

De acordo com o princípio acadêmico inglês, o peixe não é o melhor professor de ictiologia, nem o anjo o melhor professor de angelologia. Daí que a maioria dos livros modernos e artigos mais apreciados a respeito do sufismo sejam escritos por professores de universidades européias e americanas com pendores para a história, que nunca mergulharam nas profundezas sufistas, nunca se entregaram às extáticas alturas sufistas e nem sequer compreendem o jogo poético de palavras pérseo-arábicas. Pedi a Idries Shah Sayed que remediasse a falta de informações públicas exatas, ainda que fosse apenas para tranqüilizar os sufis naturais do Ocidente, mostrando-lhes que não estão sós em seus hábitos peculiares de pensamento, e que as suas intuições podem ser depuradas pela experiência alheia. Ele consentiu, embora consciente de que teria pela frente uma tarefa muito difícil. Acontece que Idries Shah Sayed, descendente, pela linha masculina, do profeta Maomé, herdou os mistérios secretos dos califas, seus antecessores. É, de fato, um Grande Xeque da Tariqa (regra) sufista, mas como todos os sufis são iguais, por definição, e somente responsáveis perante si mesmos por suas consecuções espirituais, o título de “xeque” é enganoso. Não significa “chefe”, como também não significa o “chefe de fila”, velho termo do exército para indicar o soldado postado diante da companhia durante uma parada, como exemplo de exercitante militar.

A dificuldade que ele previu é que se deve presumir que os leitores deste livro tenham percepções fora do comum, imaginação poética, um vigoroso sentido de honra, e já ter tropeçado no segredo principal, o que é esperar muito. Tampouco deseja ele que o imaginem um missionário. Os mestres sufistas fazem o que podem para desencorajar os discípulos e não aceitam nenhum que chegue “de mãos vazias”, isto é, que careça do senso inato do mistério central. O discípulo aprende menos com o professor seguindo a tradição literária ou terapêutica do que vendo-o lidar com os problemas da vida cotidiana, e não deve aborrecê-lo com perguntas, mas aceitar, confiante, muita falta de lógica e muitos disparates aparentes que, no fim, acabarão por ter sentido. Boa parte dos principais paradoxos sufistas está em curso em forma de histórias cômicas, especialmente as que têm por objeto o Kboja (mestre-escola) Nasrudin, e ocorrem também nas fábulas de Esopo, que os sufis aceitam como um dos seus antepassados.

O bobo da corte dos reis espanhóis, com sua bengala de bexiga, suas roupas multicoloridas, sua crista de galo, seus guizos tilintantes, sua sabedoria singela e seu desrespeito total pela autoridade, é uma figura sufista. Seus gracejos eram aceitos pelos soberanos como se encerrassem uma sabedoria mais profunda do que os pareceres solenes dos conselheiros mais idosos. Quando Filipe II da Espanha estava intensificando sua perseguição aos judeus, decidiu que todo espanhol que tivesse sangue judeu deveria usar um chapéu de certo formato. Prevendo complicações, o bobo apareceu na mesma noite com três chapéus. “Para quem são eles, bobo?”, perguntou Filipe. “Um é para mim, tio, outro para ti e outro para o inquisidor-mor”. E como fosse verdade que numerosos fidalgos medievais espanhóis haviam contraído matrimônio com ricas herdeiras judias, Filipe, diante disso, desistiu do plano. De maneira muito semelhante, o bobo da corte de Carlos I, Charlie Armstrong (outrora ladrão de carneiros escocês), que o rei herdara do pai, tentou opor-se à política da Igreja arminiana do arcebispo Laud, que parecia destinada a redundar num choque armado com os puritanos. Desdenhoso, Carlos pedia a Charlie seu parecer sobre política religiosa, ao que o bobo lhe respondeu: “Entoe grandes louvores a Deus, tio, e pequenas laudes ao Diabo”. Laud, muito sensível à pequenez do seu tamanho, conseguiu que expulsassem Charlie Armstrong da corte (o que não trouxe sorte alguma ao amo).

#sufismo

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Anton Szandor LaVey

1930 – 1997

Pouco depois do seu nascimento, a família de Anton decide deixar Chicago e mudar-se para a baía de S. Francisco. Em criança, o jovem Anton adorava ler tudo o que tivesse a ver com o sobrenatural e o oculto – incluindo “Frankenstein” de Mary Shelly, “Dracula” de Bram Stoker, e a popular revista “Weird Tales”.

O interesse de Anton pelo lado obscuro da vida foi ainda mais alimentado pela sua avó Cigana, Luba Koltan, que lhe contou histórias e superstições sobre vampiros e magia negra que aprendeu na sua terra natal, Transilvânia.

Depois do começo da 2.ª Guerra Mundial, Anton fascinou-se com os manuais militares e os catálogos de armas. Rapidamente descobriu que se alguém assim o quisesse poderia comprar armas e munições suficientes para criar o seu próprio exército. Isto levou a que Anton percebesse que os fracos nunca podiam herdar a Terra, só os fortes sobreviveriam.

Anos mais tarde, em 1945, um dos tios de LaVey foi contratado para ser Engenheiro Civil no Exército, na Alemanha. Devido ao seu tio ter um visa extra Anton pôde viajar para a Alemanha com ele. Lá, pôde ver filmes de terror Nazis confiscados, dos quais tinha recebido a informação de que continham partes de rituais da Black Order of Satan, que fazia parte do Terceiro Reich (?).

Por esta altura, Anton já tinha descoberto outro dos seus muitos talentos: a música. Na prematura idade de cinco anos, os pais de Anton descobriram o seu talento quando ele numa loja de música tocou uma harmonia numa harpa. Mais tarde, aprendeu a tocar muitos instrumentos, incluindo o violino. Aos 10 anos aprendeu auto-didacticamente a tocar piano, e aos 15 já era o segundo oboísta na Orquestra Sinfónica de Ballet de San Francisco.

Em 1947, LaVey decidiu deixar a escola e juntar-se ao Circo Clyde Beatty. Lá, foi empregue como estivador e guarda de jaulas; a pessoa responsável por alimentar os grandes felinos. Anton rapidamente desenvolveu uma relação com os animais e começou a aprender todos os truques da matéria, como o uso do chicote, stick, revolver e cadeira. Não muito tempo depois, Anton tornou-se domador de oito Leões Nubianos e quatro Tigres de Benguela, numa jaula, todos juntos.

Uma noite, enquanto trabalhava no circo, o tocador de calliope habitual embebedou-se e não podia actuar. LaVey voluntariou-se para o seu lugar e foi um sucesso tão grande que se tornou no tocador de calliope oficial do Circo Beatty.

Quando a temporada do circo acabou em Outubro de 1947, LaVey viu-se desempregado. Seguindo o conselho de alguns dos seus colegas de circo, Anton decidiu procurar trabalho numa feira. Devido aos seus talentos musicais, rapidamente conseguiu emprego tanto a tocar calliope, como órgão Wurlitzer e até mesmo Hammond. Entretanto LaVey passou a tocar em shows de strip femininos nas noites de sábado e aos domingos de manhã, em tendas, para espectáculos religiosos. Foi aqui que ele descobriu em primeira mão a hipocrisia presente na Igreja Cristã. Anton foi citado muitas vezes dizendo que ao sábado à noite via os homens desejando as mulheres semi-nuas na feira, e na manhã seguinte via os mesmos homens na missa, com as suas famílias, pedindo a Deus que perdoassem os seus pecados libidinosos, vendo de novo no fim de semana seguinte as mesmas pessoas no show de strip.

Enquanto trabalhava na feira, Anton também aprendeu os segredos das videntes místicas, das leituras da palma da mão ciganas, das astrólogas, mágicos de palco, e hipnotizadores.

A temporada da feira rapidamente acabou, e LaVey, mais uma vez, viu-se desempregado. Encontrou depois, trabalho em casas burlescas e clubes nocturnos, como tocador de órgão, dentro e na periferia de Los Angeles. Uma noite, enquanto trabalhava no Clube Mayan, conheceu uma actriz que tinha conseguido trabalho como bailarina. Essa actriz era Marilyn Monroe, e ela e Anton vieram a viver um caso amoroso cheio de paixão. Apesar da relação apenas ter durado algumas semanas, deixou no LaVey de 18 anos uma marca muito forte. Anos mais tarde, uma das posses de Anton mais orgulhosas era um calendário de Marilyn nua, onde ela tinha assinado: “Caro Tony, Quantas vezes tu viste isto! Com amor, Marilyn”.

Após o fim da sua relação com Marilyn, Anton decidiu mudar-se para São Francisco. Lá, continuou a tocar orgão para vários shows de strip e reuniões só para homens. Também conseguiu trabalho como fotógrafo na Paramount Photo Sales, onde tirou fotografias a mulheres em várias fases de stripping.

Quando a Guerra Coreana começou, Anton reparou na possibilidade de ser arrastado para o exército. Por isso, em 1949, de modo a poder evitar este possível dilema, LaVey inscreveu-se na Faculdade de São Francisco, no curso de Criminologia, mesmo sem nunca sequer ter acabado o secundário.

Algum tempo depois LaVey conheceu Carole Lansing num parque de diversões na praia de San Francisco. Os pais de Carole de início estavam desconfiados das intensões de Anton, mas rapidamente se habituaram a ele e deram permissão para os dois se casarem.

Anton e Carole casam em 1951 e um ano depois nasce a primeira filha de LaVey, Karla Maritza LaVey.

De modo a poder sustentar a sua família, LaVey decidiu usar os seus talentos de fotografia e a sua educação em Criminologia para conseguir trabalho como fotógrafo na Polícia de São Francisco. Aqui, Anton está de novo exposto ao pior lado da natureza humana, tirando fotografias de assassinatos brutais, acidentes de automóveis, suicídios macabros, incendios, explosões, e outras coisas mais. Depois de um par de anos no terreno, foi dada a LaVey a responsabilidade adicional de tomar conta das “chamadas 800”, que era o código para as chamadas estranhas. Ele investigava de tudo, desde visões de OVNIs a relatos de fantasmas, casas assombradas, e tudo o resto que pertencesse ao sobrenatural. Nos anos seguintes Anton ganhou uma grande reputação como um dos primeiros “caça-fantasmas” da nação.

Em 1955, LaVey cansou-se da Polícia e decidiu deixá-la de modo a ter mais tempo para se concentrar nas Arte Negras. Tornou-se exorcista e hipnotizador, fortalecendo os seus ganhos tocando órgão. Mudou-se também com a sua família para um apartamento perto da praia. Foi nessa altura que Anton recebeu o seu primeiro animal de estimação – um leopardo negro de dez semanas, chamado Zoltan. LaVey costumava levar Zoltan a passear na praia, onde era certo o par excêntrico assustar os pedestres que ali passeavam.

LaVey começou também a receber a imprensa devido às suas práticas singulares e estranho animal de estimação. Ele atraiu muitas personalidades invulgares, juntamente com os seus amigos únicos que fez durante os seus anos de circo e feiras. Quando os rumores sobre o que estava exactamente a acontecer dentro das paredes da sua casa se começaram a espalhar, Anton decidiu mais uma vez que precisava de mudar-se. Na altura desejava uma casa grande longe dos seus vizinhos curiosos, que pudesse decorar e fazer à sua imagem. Anton conseguiu tal lugar na Rua California 6114, o lugar da infame “Black House”, onde LaVey morou até à sua morte em 1997.

Depois de se mudar para a sua nova casa, LaVey rapidamente encontrou um novo emprego tocando órgão Wurlitzer no clube Lost Weekend. Também foi contratado para tocar o maior órgão do mundo no Auditório Cívico de San Francisco. Devido à sua extrema perícia com o instrumento, Anton foi nomeado para organista oficial da cidade de São Francisco, tocando em várias convenções e muitos eventos culturais e desportivos.

Foi também por volta desta altura que LaVey começou a ganhar a reputação de ser o Mágico de Artes Negras de São Francisco. Juntamente com as quatro festas que LaVey fazia todos os anos (Ano Novo, Walpurgisnacht, Solstício de Verão, e Halloween), a Black House era também o lugar de encontro para as reuniões sociais informais que Anton criou. Formado por colegas do circo, amigos das feiras, antigos colegas da Polícia, excêntricos ricos, e iconoclastas literários, o “Círculo Mágico” (Magic Circle) de LaVey, como ele lhe chamava, levava a cabo debates e palestras sobre o Oculto, Magia, encantamentos, rituais, feitiçaria, lobisomens, vampiros, zombies, homúnculos, casas assombradas, PES (Percepção Extra Sensorial), teorias sexuais, e métodos de tortura. Anos mais tarde, LaVey abriu estas reuniões ao público, cobrando $2,50 por pessoa, a quem quisesse ouvir as suas palestras e tomar parte dos seus rituais formais. O Círculo Mágico foi o primeiro passo para o que hoje é a Church of Satan (Igreja de Satan).

Anton ainda tocava órgão várias noites por semana de modo a ganhar algum dinheiro extra. Numa noite de domingo, em 1959, enquanto LaVey tocava na Mori’s Point, uma jovem, linda, loura, de nome Diane Hegarty entrou no clube. Houve uma ligação imediata entre Diane e Anton, e durante os meses seguintes eles começaram a ver-se o maior número de vezes possíveis. No ano seguinte, 1960, Anton e Carole divorciaram-se; e em 1961 Diane não só se tornou na nova esposa de LaVey como também se tornou na anfitriã do Círculo Mágico. Em 1963 Diane deu à luz a segunda filha de Anton: Zeena Galatea LaVey.

Infelizmente, nessa altura, o seu companheiro de longa data Zoltan morreu atropelado por um carro. No entanto, pouco tempo depois Anton recebeu um novo animal de estimação: um leão nubiano que ele chamou de Togare. O Togare viveu na Casa Negra (Black House) por muitos anos com o resto da família LaVey. Foi durante essa altura que ele foi a atracção de um programa de televisão local chamado “The Brother Buzz Show”. Mas depois de muitas queixas e até petições de vizinhos, Anton foi forçado a doar Togare ao Zoo de S. Francisco.

Além do Círculo Mágico, LaVey também criou “Witches Workshops”, para ensinar às mulheres todos os métodos de feitiçaria, e a “The Order of the Trapezoid” (A Ordem do Trapezóide) que era um grupo de magos que, juntamente com o “Council of Nine” (Conselho dos Nove), veio a formar a administração da Church of Satan.

Na noite de Walpurgisnacht, 30 de Abril de 1966, Anton Szandor LaVey cerimoniosamente rapou a sua cabeça, na tradição dos Yezidi, como parte de um ritual que estabeleceu a primeira organização da religião satânica: a Church of Satan. LaVey também declarou o ano 1966 como sendo o I Ano Satanas – o primeiro ano do reino de Satan.

Apesar de terem existido muitos grupos “underground”, como o Hell Fire Club e o Abbey of Thelema, que praticavam os mesmos princípios de LaVey, o nascimento da Church of Satan, que foi a primeira religião organizada, dedicada às filosofias satânicas, foi pública e publicitada.

No espaço de um ano, a Church of Satan recebeu um reconhecimento a nível mundial, devido à cobertura mundial de muitos dos seus eventos. Muitos dos primeiros artigos sobre as “Missas Negras” semanais, apareciam em várias revistas dedicadas ao leitor masculino, devido à Church of Satan usar constantemente uma mulher nua como altar, nos seus rituais. No entanto, no dia 1 de Fevereiro de 1967 a Church of Satan apanhou o mundo de surpresa quando repórteres de todo o mundo juntaram-se em San Francisco para cobrirem o casamento satânico de John Raymond, um jornalista político, com Judith Case, a filha de um conhecido advogado de Nova York. Apesar de este não ser o primeiro casamento satânico a ser feito por Anton LaVey, a fama de John e Judith virem de uma boa família despertou interesse suficiente para o casamento se tornar no evento de San Francisco mais famoso de sempre, maior ainda que a inauguração da Golden Gate Bridge. Os artigos seguintes tornaram LaVey no “Papa Negro”.

Uns meses mais tarde, no dia 23 de Maio de 1967, LaVey achou que era tempo de mostrar ao mundo que o Satanismo não tinha nada a ver com sacrifícios de crianças, conduzindo o primeiro baptismo satânico da sua filha Zeena. Os jornalistas e fotógrafos começaram a fazer fila à porta da Black House tão cedo como 15 horas antes da cerimónia, de modo a conseguirem boas fotografias da menina de 3 anos que estava vestida num robe vermelho vivo completado com o seu medalhão com um Baphomet. Quando o ritual começou a jovem Zeena sentava-se sorridente enquanto o seu pai começava a recitar uma invocação poderosa que veio mais tarde a ser incluída no livro “Satanic Rituals”. Ela adorou toda a atenção que recebeu dos fotógrafos que estavam cativados pela ideia de tanta inocência ser dedicada a Satan.

Em Dezembro de 1967, a Sra. Edward Olsen abordou LaVey com o intuito de lhe perguntar se ele conduziria um funeral para o seu marido, um oficial Naval que tinha sido recentemente vítima de um acidente de automóvel. Apesar dos oficiais Navais terem algumas dúvidas sobre a ideia, acabaram por aceder ao pedido da Sra. Olsen. No funeral, soldados fardados alinharam com Satanistas de túnica negra; e quando o ritual acabou, os guardas Navais dispararam três salvas seguidos de gritos de “Hail Satan! Hail Edward!”. Depois deste evento, o Satanismo foi incluido no Chaplain’s Handbook das Forças Armadas, passando a ser uma religião reconhecida.

No Outono de 1966, a bomba loura de Hollywood, Jayne Mansfield ouviu reportagens desta nova Igreja dedicada a Satan e conheceu o Papa Negro em pessoa. Anton e Jayne entenderam-se imediatamente, e ela rapidamente tornou-se num membro activo e mais tarde numa Sacerdotisa da Church of Satan. No entanto, o namorado/advogado de Jayne, Sam Brody, apercebeu-se que ela estava a apaixonar-se por Anton LaVey. Brody passou então a causar o máximo de problemas possíveis a Jayne e Anton, o que levou LaVey a pôr uma poderosa maldição nele. LaVey avisou Jayne que ela estava em perigo constante sempre que estava com Brody.

Infelizmente Jayne não deu ouvidos a Anton, e a 19 de Junho de 1967, enquanto viajava para Nova Orleans com Sam Brody, o carro que conduziam acidentou-se contra um camião tanque, vitimando ambos. LaVey estava na altura em casa, em San Francisco, a recortar fotografias de uma revista quando reparou que no lado oposto de um recorte tinha cortado uma fotografia de Jayne ao longo do pescoço. Uns minutos depois recebeu uma chamada informando-o que Jayne tinha falecido quase completamente decapitada, num acidente de automóvel.

Esta não foi a única envolvência da Igreja com Hollywood. Em 1968 LaVey fez o papel de Demónio na obra-prima de Roman Polanski: “A Semente do Diabo” (Rosemary’s Baby). Além de actuar, LaVey foi conselheiro técnico e participou em eventos promocionais para o filme. Ao longo dos anos houve um número de membros ligados a Hollywood, como Sammy Davis Jr. e Marilyn Manson.

Em 1969 o número de membros já tinha crescido para 10 mil membros no mundo todo, e LaVey decidiu que estava na altura de publicar o seu maior, mais diabólico, e mais blasfemo trabalho de sempre: “The Satanic Bible” (A Bíblia Satânica). Este livro tornou-se no pilar da Church of Satan daí para a frente. Seguiram-se “The Compleat Witch” em 1970 (mais tarde revisto e re-editado sob o nome “The Satanic Witch”) e em 1972: “The Satanic Rituals”.

Nesta altura a Church of Satan já tinha estabelecido Grottos por todo o mundo e LaVey tentou fazer visitas papais a todos eles, conforme podia. Mas devido às constantes ameaças e agressões que recebia de terceiros, e problemas de segurança para si e para a sua família, LaVey achou que devia cortar com as relações públicas e por volta de 1970 todas as palestras e rituais públicos conduzidos por LaVey deixaram de existir. Depois, em 1972, todas as cerimónias semanais realizadas na Black House cessaram também. A organização e realização de actividades satânicas passou a ser responsabilidade dos Grottos, enquanto que o Grotto Central passou apenas a visionar, aprovar e guiar os membros activos da Church of Satan.

A Church of Satan passou por uma vasta reorganização. LaVey queria que a sua organização se tornasse num cabal “underground” em vez de um Clube de Pen Pal satânico. Mas ao por um alto nas actividades públicas, LaVey levou à alienação de pequeno número de apoiantes. Isto levou a um pequeno cismar em 1975, quando o nº 1 do Grotto de Louisville, KY, Michael Aquino, juntamente com os seus devotos, separaram-se da Church of Satan e formaram uma nova religião e organização chamada Temple of Set.

Enquanto o número de membros da Church of Satan continou a crescer durante os anos 70 e 80, LaVey continou um recluso virtual, raramente dando entrevistas ou aparecendo em público. Ele praticamente contactava com os amigos através do Boletim Informativo oficial da Church of Satan: “The Cloven Hoof”. Quando a “Cloven Hoof” deixou de ser publicada em 1988, outras revistas satânicas como “The Black Flame” pegaram no que a Cloven Hoof deixou.

Diane Hegarty administrou a Church of Satan, como Suma Sacerdotisa (High Priestess) desde 1966 até a sua separação de Anton em 1984. De 1985 a 1990, a filha mais nova de LaVey, Zeena, tomou o lugar da sua mãe como Suma Sacerdotisa. Quando Zeena deixou a sua posição e a Church of Satan em 1990, LaVey apontou Blanche Barton, a sua nova companheira e secretária, para a posição vaga.

Blanche subsequentemente escreveu e publicou dois livros em 1990. Um foi “The Church of Satan”, que detalhava a história da Church of Satan e o segundo foi “The Secret Life of a Satanist”, a biografia autorizada de Anton LaVey. Após a publicação dos livros de Blanche Barton, LaVey publicou então o seu primeiro livro no espaço de 20 anos: “The Devil’s Notebook”, uma colecção de textos e dissertações que tinha vindo a escrever desde os anos 70. No ano seguinte, em 1993, nasceu Satan Xerxes Carnacki LaVey, o primeiro filho varão de LaVey e de Blanche Barton.

Infelizmente, a 29 de Outubro de 1997, o grande líder da Church of Satan e Papa Negro, Anton Szandor LaVey perece devido a um edema pulmonar no Hospital de St. Mary, depois de anos de problemas cardíacos. Dias antes do seu falecimento, LaVey tinha acabado o seu trabalho para o livro “Satan Speaks!”. Foi publicado no ano seguinte, prefaciado por Marilyn Manson e com uma introdução por Blanche Barton.

Apesar de documentos perfeitamente legíveis e assinados à mão por Anton LaVey, indicando o seu filho Xerxes como sendo o seu herdeiro e Blanche Barton como sendo a High Priestess, Blanche acordou trabalhar em parceria com a filha mais velha de Anton, Karla, de modo a preservar o seu legado. Barton até chegou ao ponto de oferecer a Karla a posição de Co-High Priestess. Karla de início aceitou mas mais tarde proclamou ser a única líder da Church of Satan.

Este conflito tornou-se num processo jurídico que resultou num acordo entre Blanche Barton, Karla LaVey e Zeena (LaVey) Schreck, onde Blanche aceitou abdicar dos direitos únicos que Xerxes tinha sobre a herança de LaVey em troca da posição única na liderança da Church of Satan.

Fonte: Associação Portuguesa de Satanismo

 

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Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/anton-szandor-lavey/

Palestras de Março em Lojas Teosóficas

Loja Teosófica Unidade – FORTALEZA-CE

03.03 – Geometria Sagrada – O Lado Oculto da Teoria dos Fractais, de Sésio Santiago – 08:30

07.03 – O Vegetarianismo visto por dentro, de Gilson Azevedo – 19:00

10.03 – O Milagre do Nascimento, de Alessandra Mororó – 08:30

17.03 – Baghavad Gita: História e Simbologia, de Phillipe Gidon – 08:30

21.03 – O Lado Oculto da Pascoa, de Gerson Aragão – 19:20

24.03 – O Lado Oculto da Pascoa, de Gerson Aragão – 08:30

30.03 – Os Mistérios da Arqueologia, de Sésio Santiago – Livraria Saraiva Iguatemi – 20:00

Rua Rocha Lima, 331 (A) – Centro

Fortaleza – CE

www.lojateosoficaunidade.com.br

Reuniões às Quintas 19:20 e as Domingos a partir de 8:30

Loja Teosófica Raja Yoga

01.03 – Reflexões Teosóficas, de Jorge Carneiro

08.03 – O Espírito Santo e a Kundalini, de Ismael Morales de Jesus

15.03 – As Profecias Papais de São Malaquias, de Carlos Brasilio Conte

22.03 – A Influência dos Princípios Éticos do Yoga e do Budismo na Meditação, de Carlos Adriano.

RUA MITUTO MIZUMOTO 301- LIBERDADE-SP

LOJA RAJA YOGA – REUNIÕES AS 6AS. FEIRAS- 20 HS

FONE: 011- 32713106

Loja Teosófica São Paulo

03.03 – As Profecias Papais de São Malaquias, de Carlos Brasilio Conte

10.03 – Estudos do livro “Luz no Caminho”, de Celia Petean

17.03 – A História Oculta do Brasil, de Antonio Carlos Jorge

RUA EZEQUIEL FREIRE, 296 – SANTANA

REUNIÔES AOS DOMINGOS – 17h30

Lojas Rosacruzes, Teosóficas e Maçônicas que lêem o blog, Peço que me enviem seus cronogramas de Palestras e atividades para que eu possa divulgá-las no começo de cada mês (em todo o Brasil).

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/palestras-de-mar%C3%A7o-em-lojas-teos%C3%B3ficas

Aleister Crowley, Thelema e a História da O.T.O. – Carlos Raposo

Bate-Papo Mayhem #026 – Marcelo Del Debbio bate papo com Carlos Raposo – Aleister Crowley, Thelema e a História da O.T.O. Os bate-Papos são gravados ao vivo todas as 3as e 5as com a participação dos membros do Projeto Mayhem, que assistem ao vivo e fazem perguntas aos entrevistados.

Saiba mais sobre o Projeto Mayhem aqui:

#AleisterCrowley #OTO #Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/aleister-crowley-thelema-e-a-hist%C3%B3ria-da-o-t-o-carlos-raposo

A Medula da Alquimia

Contendo Três Livros, Elucidando a Prática

O Primeiro Livro

A Alquimia – que alguns chamam de Arte Dourada – trata-se não de uma fábula, como muitos quereriam, mas de uma verdadeira Ciência, como ficou por nós provado e por exemplos demonstrado na parte anterior deste tratado, Ciência esta cuja prática passaremos a elucidar nesta Segunda Parte, através da qual será possível obter grande provisão de prata e ouro. E para uma boa compreensão das nossas intenções considera correctamente, e com justeza pesa bem a razão da nossa Obra, caso contrário é mais certo que percas o teu tempo e dinheiro em vão, encontrando apenas esforço e despesa, tal como muitos já o fizeram.

De maneira que a Pedra que procuras, como já o dissemos e voltamos a afirmar é apenas ouro levado à máxima perfeição possível; pois embora se trate de um corpo firme e compacto é no entanto, através do engenho da Arte e operação da Natureza transformado num Espírito tingente que nunca se esgota que a Natureza, por si nunca teria conseguido produzir pois o ouro em si não possui o poder de se elevar a tal grau de perfeição antes se mantendo eternamente na sua constância.

Aquele que se presta a encontrar tal Essência deverá então, através da Arte, transformar o seu ouro em pó e fazer com que se converta numa água mineral, que então circulará com um bom fogo até que quando toda a humidade se seque esta seja fixada; a qual será com frequência embebida e fixada de modo a que o infante quede selado no ventre da sua mãe, e sendo alimentado até que se fortaleça e se torne suficientemente capaz de resistir aos seus robustos oponentes: então fermentando, deve por longo tempo residir em repetida negrura até que a Natureza apodreça e morra, que deves logo revificar, sublimar e exaltar, e de novo retornar à terra onde o deves deixar no calor o tempo necessário para que a negritude se transforme na mais pura brancura; o Rei, sendo então colocado sobre o seu Selo Real, brilhará como a chama faíscante e a pedra escondida a que chamamos enxofre. Isto tu deves multiplicar até que se transforme no elixir espiritual; que será então como juiz no Dia do Juízo Final, condenando ao fogo toda a escória que aderir à mais pura substância nos metais imperfeitos.

Donde que, sendo o nosso Sujeito o ouro, teremos que procurar o agente adequado para o abrir, o qual, se souberes procurar a variedade mais adequada, pouco trabalho terás a preparar; este será vil à vista e grandemente desprezado pelo seu aspecto exterior. Deste assunto poucos autores tratam e os que o fazem obscurecem esta chave o mais que podem, mas eu, querido leitor, serei de uma sinceridade como nunca viste; garanto-te no entanto que este não é trabalho para mentes opacas nem para aquele que desdenha trabalhar, pois a ociosidade é um verdadeiro obstáculo para esta Arte; mas se possuis uma mente tranquila e és trabalhador presta bem atenção ao que irei declarar, e que trata primeiramente daquilo que jaz escondido no nosso Agente ígneo.

A substância que tomamos primeiro em mãos é um mineral semelhante ao Mercúrio que coze na Terra um enxofre cru. Este é chamado de Filho de Saturno, parece de facto vil à vista mas o seu interior é glorioso. É cor de sable, com veios prateados misturados com o corpo cuja linha cintilante mancha o enxofre inato; é todo volátil e não fixo, no entanto, quando tomado na sua crueza nativa purgou o Sol de toda a sua superfluidade. A sua natureza é venenosa e muitos abusaram dele medicinalmente. Se pela Arte soltamos os seus elementos o seu interior aparece resplandecente, o qual então flui no fogo como um metal, embora nada exista de natureza metálica assim tão frágil.

Este é o nosso Dragão, que o Deus da guerra assaltou com uma armadura do aço mais robusto, mas em vão, pois logo uma Estrela nunca vista apareceu, de modo que quando Cadmus primeiramente sentiu esta força não conseguiu aguentar um tal poder, mas do seu corpo a sua Alma se separou. Oh força poderosa! Pois quando os Sábios a avistaram grandemente se surpreenderam e assim a chamaram o seu Leão Verde, cuja fúria com encantos esperaram com o tempo domar. Pelo que, deixando-o presa dos sócios de Cadmus, verificaram que pelo seu poder os derrotou e tendo a luta terminado, olhai, uma Estrela matutina foi vista a sair da Terra e após as carcaças terem sido removidas logo apareceu uma fonte corrente, onde se disse que a Besta saciou a sede até que o seu ventre estoirou. Mas pareceu-lhes deveras estranho que logo que este Dragão se tivesse aproximado da Fonte, as Águas se retirassem como que assustadas, pese embora o esforço de Vulcano em reconciliá-las. Então apareceram as Pombas de Diana com adornos ofuscantes, com cujas asas prateadas o ar se acalmou, no qual o Dragão dobrado para dentro perdeu a sua picadura. Então as Águas como uma inundação logo voltaram e engoliram a Besta, cuja cor se tornou negra como o carvão, e nisto o nosso Dragão fez com que a fonte exalasse um cheiro fétido onde ele morreu e que lhe serviu de sepultura. Mas com a ajuda de Vulcano este Dragão voltou à vida e recebeu dos Céus uma Alma, pelo que ambos se reconciliaram, aqueles que antes eram inimigos, sendo as suas almas agora unidas, deixaram os seus corpos e transformaram-se no verdadeiro banho das ninfas, e no nosso Leão Verde, pelo que nunca nada assim tinha sido visto antes.

Mas para não te manter mais em suspenso, iremos agora explicar claramente o significado destas alegorias, desatando estes nós cujo sentido obscuro poderá deixar perplexo o leitor.

Pelo que agora observa que o nosso Filho de Saturno deve ser unido a uma forma metálica e mercurial, pois é apenas azougue o agente que a nossa obra requer, mas o azougue comum não serve para a nossa Pedra; estando morto, presta-se no entanto a ser animado pelo sal da Natureza e verdadeiro enxofre que é o seu único cônjugue. Este sal, que se encontra no rebento de Saturno e é puro interiormente, tem o poder de penetrar o centro dos metais, e tem em abundância as qualidades necessárias para entrar no corpo do Sol, o qual divide em elementos e no qual reside após a dissolução. O Enxofre deves procurá-lo na casa de Aries, é este o fogo mágico dos sábios para aquecer o banho do Rei (que deves preparar numa semana). Este fogo está estreitamente escondido, mas podes revelá-lo numa hora e depois lavá-lo em chuva prateada.

Parecia deveras estranho que um metal suficientemente robusto e fixo para suportar o golpe atordoante de Vulcano e que não se abrandará em nenhum calor nem se misturará em fluxo com nenhum metal seja no entanto pela nossa Arte retrogradado neste penetrante licor mineral. Este trabalho real foi selado pelo Todo-Poderoso para ensinar os prudentes que o Infante Real é aqui nascido, a quem eles diligentemente procuram sendo pela Estrela guiados, mas os tolos procuram os nossos segredos em coisas sórdidas e sem sentido e o que encontram é apenas a própria ruína.

Esta substância tem uma natureza estrelada e completamente espiritual, sendo totalmente inclinada a fugir do fogo; a razão é que a alma de cada um é como um íman para o outro, e a isto nós chamamos a urina do velho Saturno. Este é o nosso aço, o nosso verdadeiro hermafrodita, a nossa Lua, assim chamada pelo seu brilho: este é o nosso ouro imaturo, que à vista é um corpo frágil e quebradiço, mas é domado por Vulcano e cuja alma se sabes misturar com Mercúrio nenhum segredo te será ocultado.

Não tenho necessidade de citar qualquer autor, pois eu vi e com as minhas mãos trabalhei este mistério, e por constantemente seguir a sabedoria da Natureza fui levado a tornar brando o corpo mais sólido e do corpo mais grosseiro fazer uma Terra tingente e fixa, que nunca se desvanecerá. E não sou o único que o diz, pois muitos outros o fizeram, cujos segredos aqui vos revelo. Artephius nomeou-o, mas o outro segredo não o revelou, antes disse que este deveria ser pedido a Deus, a não ser que o ensinasse um sábio Mestre.

Este é o enigma que tanto tem deixado perplexos os estudantes desta Arte. Assim Zeumon na Turba p.18, Ars Aurif: Vol.2, disse: A nossa Pedra é vil e no entanto é combinada com o mais precioso. É aquilo que é deitado à rua, nos caminhos, nas estrumeiras e nos lugares impuros que é a matéria que deveremos tomar como verdadeiro fundamento da nossa Arte. Ninguém pode viver sem ela, e há quem a aplique em usos sórdidos, o que demonstra que apenas com Marte ela pode ser associada. Em barcos ela flutua sobre os oceanos, e sem ela não há barco ou casa que possa ser construído, ou mercadoria que possa ser transportada; com ela aramos a nossa terra, ceifamos o nosso milho, vestimos, fervemos e cortamos a nossa carne, e com ela são ferrados os cavalos. Muitos mais usos ela tem os quais seria fastidioso enumerar e no entanto encontra-mo-la frequentemente num estado contemplativo sobre a terra, em velhos pregos sem cabeça, que pouco valem o achado, e que por isso como vil é estimado.

Para mais, Aries é conhecido da casa do robusto Marte, pelo qual todos os artistas dizem que deves começar a tua obra, o que pode ser mais claro? Dificilmente pode existir alguém tão ignorante que julgue que estas palavras ocultam ainda um outro significado, pois nunca até agora isto tinha sido tão claramente explicado. Belus na Turba, p.27, Ars Aurif: Vol.2, insta-nos a combinar o lutador com aquele que não deseja lutar; pelo qual a Marte o Deus da Guerra ele atribui Saturno em união, que se deliciava na paz e cujo reino não é necessário revelar uma vez que é de todos tão conhecido.

Repara na segunda figura do Rosarium Philosophorum Irne, p.212, Ars Aurif, Vol.2, na qual o Rei e a Rainha em vestes reais seguram entre ambos a nossa verdadeira Lunária que contém oito flores e no entanto não tem raiz. Entre ambos há um pássaro. Sob os seus pés o Sol e a Lua. O Rei tem na mão uma flor e a Rainha outra e o pássaro segura com o bico numa terceira, tendo também na cauda uma estrela que representa o nosso grande segredo, pois o pássaro alado representa Mercúrio combinado com a Terra Estrelada até que ambos se tornem voláteis e alados.

Assim parece que os antigos Sábios escolheram antes instruir o olho por imagens do que o ouvido por palavras. No entanto alguns dos seus discursos são tão simples que qualquer palerma poderá perceber o sentido que eles contêm, e para o mesmo propósito, sendo eu um filho da Arte, tenho na Cabala Sapientum a mesma explicação, para a qual remeto o leitor aplicado. Prosseguirei agora com o objectivo deste curso mostrando como obter esta Água, que tão poucos encontram, de onde retiramos a mais secreta semente do Sol, pelo que aplica-te diligentemente em aprender a obter esta Água, pois ela é o fundamento da nossa Quintessência.

Sabe então que todos os metais têm apenas uma matéria, que não é senão o Mercúrio; que como fundamento possibilitou primeiro a transmutação e por isto nós concluímos que a nossa muito secreta Água tem a mesma matéria que o vulgar Mercúrio. E se o Mercúrio bruto e todos os cinco metais imperfeitos se podem transformar em ouro, (sendo neste processo, e devido à sua crueza consumidos pelo fogo), a razão é então como todos os Sábios ensinam que todos os metais contêm em si o Mercúrio e todos são por conseguinte igualmente transmutáveis. Se o nosso Mercúrio, ao qual chamamos a nossa Água viva, for outro que não o ouro imaturo, então qualquer metal que seja pela Arte convertível em ouro deverá conter em si essa natureza, da mesma forma que pela Arte é feita o nosso Azougue.

Assim, se chumbo, estanho ou cobre fossem convertidos num verdadeiro Mercúrio, então poderia a Arte causar essas Águas, pois seriam já tão diferentes na forma que qualquer um deles se poderia enquadrar no nosso Mercúrio Filosófico. Mas para que precisaríamos disso se a natureza produz já uma Água ao alcance do artista, na qual através da Arte uma forma pode ser induzida de modo a comandar os nossos segredos? Atenta então bem para o que deverá ser o nosso Mercúrio que deseja ser o nosso mais secreto Menstruum, pois nós garantimos que ambos são Metálicos de peso e cor semelhante, e que ambos são fluídicos e voláteis sob o fogo mas, no nosso, deverá existir um Enxofre que não encontras no das minas, e este Enxofre purifica a matéria, torna-a ígnea e no entanto não deixa de ser uma Água. Pois a Água, que é o ventre, não tendo calor é totalmente inútil para a verdadeira geração, nem o nosso corpo será reduzido a um humor, nem produzirá a sua semente, enquanto não estiver sob a circulação do fogo, combinado pela Arte com um mercúrio que tenha em si Enxofre.

Este Enxofre deverá ter uma força, ou virtude, magnética, pelo que deverá ser ouro verdadeiro, embora imaturo, como também da mesma origem tanto a matéria como a forma, apenas com esta diferença, que é que enquanto o outro é fixo este deve ser volátil e alado, tendo o poder de abrir e soltar o primeiro. E só há um corpo na Terra suficientemente próximo do Mercúrio para o poder preparar para a nossa pedra secreta e para poder esconder o corpo sólido no seu ventre e este, como disse anteriormente, é o rebento de Saturno sobejamente conhecido por todos os magos, e que eu aqui te mostrei.

E embora alguns metais possam ser fixados com Azougue não penetram uns nos outros mais que à vista, e pelo calor podem facilmente ser separados, pois verás que eles nunca penetram o centro, nem são por isso melhorados. A razão é que o Enxofre que se encontra nos metais perfeitos encontra-se selado, ou nos outros partilha das fezes terrestres e impurezas que o Mercúrio abomina e com as quais nunca se unirá embora pareça à vista com eles se misturar. Se separares estas fezes encontrarás Mercúrio fluídico e um Enxofre cru que endureceram a humidade pela congelação bem como um Sal aluminoso mas todos eles são de natureza demasiado distante do ouro.

Mas o mineral que tanto estimamos, excepto as suas escórias (que são totalmente separáveis) contém um Mercúrio mais puro, que fará reviver os Corpos mortos de forma a que estes possam como todas as outras coisas gerar a sua espécie. Mas em si não contém nenhum Enxofre, embora, sendo quebradiço e negro com veios brilhantes esteja congelado num Enxofre ardente. Este Enxofre não tem nada de metálico, mas se correctamente separado segundo a Arte, as escórias sendo removidas, aparece uma noz de aspecto metálico (que poderás moer em pó) na qual se encontra fechada uma alma terna que se mostra como fumo sob um fogo suave, semelhante ao Azougue, levemente congelado, e que o fogo de facto evapora.

É isto que dá penetração à nossa Água e lhe permite penetrar até ao centro dos corpos, invertendo-os completamente e reduzindo-os à sua verdadeira matéria primeira e isto deseja ser reunido com um verdadeiro Enxofre, que deverá ser procurado na casa de Aries. Através deste mineral apenas e com a habilidade do artista, é Marte retrogradado num mineral; como por muitos foi já ensaiado. Esta é a nossa verdadeira Vénus, a esposa do coxo Vulcano, e que é amada por Marte.

Primeiramente então faz com que Marte abrace este mineral, de forma que ambos se libertem das suas características terrenas, e em pouco tempo a substância metálica deverá brilhar como os céus, e como prova do teu sucesso deverás seguramente nela encontrar a impressão do selo de um rei estrelado. Este é o selo real, a marca que o Todo-Poderoso afixa neste estranho corpo. Este é o fogo celestial, no qual ao fazer despertar uma centelha, grandes mudanças ocorrerão nos corpos, de tal modo que a negritude é feita brilhar como uma gema cintilante, com a qual como um diadema o nosso jovem rei é coroado. A isto adiciona Vénus na proporção adequada, cuja beleza é admirada por Marte e que é conhecida por lhe ter grande amor e desejo de com ele se unir, assim que logo é inclinada ao movimento, sendo ela afim do ouro, Marte e da brilhante Diana, com quem ele concilia o amor e a verdadeira união.

Mas Vulcano ficará cada vez mais ciumento e é com desgosto que o coxo cornudo sente os cornos adornarem-lhe a cabeça, e na esperança de os destruir atira a sua rede sobre os amantes apanhando a esposa e Marte durante o acto, exibindo-os desta forma aprisionados.

No entanto, que isto não seja tomado como mera Fábula. Primeiro observa como Cadmus é devorado pela nossa besta feroz a quem Cadmus depois de a ter intrepidamente perfurado fez merecer nome de campeão, pois esta Serpente (de poder inquestionável) ele com a sua lança mortal trespassou contra um carvalho, perante o qual todos sentiram temor. Observa também a Estrela, que na realidade é Solar, como se pode provar, pois o ouro unido intimamente com o filho de Saturno cujas fezes foram purgadas quando tudo o que era perfeito se abateu no fundo, depois de fundido e vertido, ao arrefecer nos mostra uma Estrela, assim como faz Marte. Mas Vénus fornece uma substância metálica que só por si é desprezível, mas que ao ser unida com Marte, como que dobrados numa rede, aparece como agradável à vista, como descreveram os poetas misteriosos de vista apurada, de forma velada mas no entanto suficientemente clara para o Sábio.

De forma que a alma de Saturno, e Marte, são através da nossa Arte e com a ajuda de Vulcano intimamente misturados, mas ambos são semelhantes e voláteis, não sendo divisíveis até que a alma de Marte seja fixada e então deixe Saturno, e então um ensaio revelará o mais puro ouro, e uma tintura da mais pura e verdadeira. Mas esta mediação deve ser feita através de Vénus, caso contrário nenhum artifício humano seria capaz de os separar, nem os poderia reduzir a pó. No entanto após a sua união serão reduzidos apenas pela associação de Vénus, da qual Diana produz neles a separação.

Alguns para preparar esta Água usam as Pombas de Diana, o que é um trabalho tedioso em que por cada vez que o artista acerta há sempre duas em que falha: mas a outra forma (que é a mais secreta) nós recomendámos a todos os que desejam ser verdadeiros artistas.

Pelo que deverás assegurar que o vapor mais subtil da Água seja longa e repetidamente circulado, até que as almas de cada (deixando a matéria grosseira) se unam e voem juntas para o alto; onde não as deves deixar residir durante muito tempo, para que não congelem, pois de contrário laboras em erro.

Assim tira do Filho do velho Saturno duas partes, de Cadmus uma parte e estas purifica com a ajuda de Vulcano até que (sendo liberta das suas fezes) a parte Metálica seja a mais pura; o que deves fazer em quatro reiterações, cujas operações perfeitas te serão ensinadas pela Estrela.

Faz com que AEneis seja igual ao seu amado, purgando-os com arte até que a rede de Vulcano os envolva a ambos, pelo que deves então molhá-los bem com a água e mantê-los em calor e humidade até se tornem perfurados e a suas Almas sejam ambas glorificadas. Este é o Orvalho celeste, que deve ser alimentado durante tanto tempo quanto seja requerido pela natureza, pelo menos três vezes, ou até sete, assim os guiando através das ondas e chamas como a razão ordenará, mas atenta para que a terna natureza não fuja pela força de um fogo demasiado forte.

Sabe também com certeza que o Mercúrio, com o qual a obra deve ser iniciada, deve ser líquido e branco, mas toma cuidado para que não seques a humidade em pó devido a um fogo muito forte, de modo que se mostre vermelho, pois nesse caso o teu esperma feminino estaria corrompido e falharias o teu desejado objectivo. Nem faças com que o Azougue se torne numa clara e transparente goma, óleo ou unguento, pois caso tenhas perdido a proporção certa nunca chegarás a uma verdadeira dissolução mas serás obrigado a suspender o teu trabalho já sem esperança, e a adiá-lo para outra altura, pois procedeste de forma contrária às regras da Arte.

Preocupa-te apenas então em aumentar um espírito que falta ao Azougue comum, sublimar o grosseiro no firmamento e separar as escórias segundo a Arte; o que reiterado sete vezes deves então desposar com o ouro até que quedem ambos perfeitamente combinados.

Assim através da Arte e com a ajuda da Natureza é a verdadeira Donzela preparada, a qual sendo separada das fezes se faz um rebento celeste que tornou macio o corpo sólido do Sol e ao ser separado em átomos se tornou negro e putrefacto, que depois no entanto revive e se torna volátil.

Mas se eu aqui revelasse todos os segredos do fabrico desta nossa Água seria desprezado por todos os verdadeiros artistas, pois apenas àqueles a quem Deus deseja ensinar estes devem ser comunicados, enquanto que outros devem permanecer perdidos num labirinto de erros. Mas aquele que com sofrimentos e orações dedicadamente procurar este segredo, sem nessa busca ser excitado por desejos de cobiça, mas procurar apenas o conhecimento com candura, resolverá certamente este mistério, sobre o qual ninguém em nenhuma altura falou tão claramente.

Há alguns que através da Arte sabem preparar um maravilhoso Licor, que os Adeptos chamaram Fogo do Inferno, e cujas virtudes são tão estranhas e poderosas que (pela sua força) são capazes de resolver qualquer composto na sua Matéria primeira, ou Água; isto numa suave dissolução de Azougue tão uniforme que como gotas de cristal possa ser dela separado sem que nada seja depositado no fundo do vaso nem a sua virtude de qualquer maneira enfraquecida. Pois sendo repetidamente destilada deixa para trás o Azougue que como verás se assemelha a um sal fixo, de odor lembrando o almíscar, ou aroma, e de sabor semelhante ao mel tal é a sua doçura, que podes pulverizar como ferrugem e que nenhum fogo pode consumir, isto no ensaio com Saturno aparece tão fixo como a mais pura Luna.

Esta substância ao ser coobada cinco ou seis vezes com a dita Água (com digestão prévia) aparecerá como que um Óleo, e pouco tempo depois destila como um Espírito, que pela adição de um pequeno sujeito pouco a pouco se separa em duas substâncias distintas, que estando prontas serão guardadas separadamente, sendo a primeira um Óleo ou Tintura solúvel em Licor; a outra (se a fazes ferver) é através da Arte redutível em Mercúrio, cujo Azougue é uma substância tão maravilhosa que não se encontra igual debaixo dos céus.

Esta nem com sais ou água forte poderá ser corroída em precipitado, ou por circulação frequente pelo fogo ser combinada, ou sublimada, ou seca em pó, nem tão pouco ser fixada mas para sempre se manterá volátil. O grande Elixir não conseguirá transmutar mas de facto dissolve e destrói; é de tal forma estranha que todos os artistas surpreende, pois nenhum tem poder ou mestria para a alterar: e através da forma mencionada, poderá ser produzida de todos os corpos Metálicos.

No entanto na nossa Arte isto não serve de nada, pois nós procuramos multiplicar o Enxofre que é uma Hematina Solar e cuja cauda é lunar; são estes os únicos planetas que consideramos no nosso céu terrestre, rejeitando todos os outros e todas as outras artes. Pois se Ouro, que pela natureza é feito puro e perfeito puder através deste nosso fogo secreto ou Água ser retrogradado em Mercúrio e Enxofre, sendo completo em substância, e que antes não podia ser separado pela força do fogo mas firmemente nele residia. Quem não vê que tal Mercúrio está distante da nossa obra? Pois nós procuramos aumentar uma Tintura e apenas o Enxofre, que como uma capa envolve o Mercúrio e é agradável à natureza Metálica e sem o qual a Água não poderá reclamar o nome de um metal.

Este Enxofre encontra-se mais ou menos em toda a coisa Metálica, mas em algumas uma certa escória inquina a substância pura, pelo que deve ser destruída pelo fogo, pois tudo o que é grosseiro e inútil neste é consumido. Mas dos metais o Sol e a Lua são revestidos tão intimamente por um puro Enxofre que suportam grandemente a maior força de Vulcano, e nenhum Artifício humano poderá alguma vez dividir este Enxofre da sua Água exceptuando o mencionado licor, cuja virtude é tão poderosa que reduzirá até o Sol e a Lua do seu estado fixo e os tornará voláteis. Não apenas ele, mas também o nosso admirável Fogo podem fazer o mesmo ao ouro, e de uma forma directa e gentil forçar a sua retrogradação, e no entanto sem dividir o Enxofre do seu centro, antes o vestindo com uma veste Mercurial para que ambos habitem combinadas numa Água Dourada.

Mas o mencionado Licor estranho ao dissolver destrói a homogeneidade Metálica, pois ao separá-los causa um desentendimento e desunião, de modo que nenhum pode desfrutar do outro e portanto o Mercúrio Central ao ser separado do Licor tingido mantém-se em baixo de forma que a Hematina que antes no ouro tinha o Pondus de um Metal se encontra agora tão alterada que se torna num Azougue mais leve, à vista como que um Óleo ou mesmo um Sal untuoso, que é uma nobre medicina para os enfermos.

E assim parece que tanto mais uma substância Metálica seja dissolvida nesta humidade tanto mais é transformada de uma natureza Metálica cujo Enxofre, pela força deste Licor poderá (embora contra-vontade) ser pelo menos trazido até uma Água elementar; tal é o poder que este Licor tem sobre qualquer matéria.

Com isto todos os Filósofos concordam, e todos concluem que o nosso Mercúrio é apenas um, que humidifica apenas aquilo que é homogéneo nos metais, e que é a mãe da nossa Pedra e cujo segredo, se já não ignoras, deves calar; pois ninguém alguma vez sobre isto escreveu mais claramente.

Fim do Primeiro Livro

Por Ireneu Filaleto, Londres 1654. Tradução de Paulo Cruz.


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[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-medula-da-alquimia/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-medula-da-alquimia/

O Caminho Sinistro – Parte 1

Preparação

Diante da crescente torrente de absurdos vistos na internet envolvendo o Caminho da Mão Esquerda (que prefiro chamar de Caminho Sinistro, por motivo fonético e abreviativo apenas, vide adiante), nasceu a necessidade de trazer luz ao tema. E não se trata de mero jogo de palavras, há uma errônea associação compulsória do caminho sinistro com as trevas e a malignidade que deve ser desfeita durante a nossa caminhada juntos.

Não tenhamos pressa, contudo. Vamos lidar aqui com temas e conceitos que se opõem ao status quo e elementos fortemente enraizados no inconsciente coletivo, e isto NÃO é sinônimo de lesar a integridade física, a humanidade, as leis básicas ou a propriedade, de si mesmo ou de outrem. Se você entende a associação a uma ordem ou culto sinistro como um facilitador para a prática de más ações, saiba que o Código Penal brasileiro prevê tal intenção em seu artigo 288. E se você tem inclinação criminal, peço encarecidamente que pare por aqui.

Uma coisa que talvez decepcione alguns de vocês é que eu não vou dar carteirada. Não vou me esconder atrás de um nome mágico de demônio milenar, nem apresentar cargos, graus iniciáticos e títulos, pois creio ser desnecessário nesse momento. Espero que você se contente, por hora, em saber que sou uma pessoa relativamente acessível, apesar de introvertido.

Bom, vamos ao que interessa.

Meta-Percepção

Antes de qualquer coisa pare e se pergunte por que você está aqui, lendo isso. O Ego destreinado tende a responder que está aqui “porque quer”, porque assim o decidiu baseado em uma escolha pessoal qualquer, e a estes eu surpreendo dizendo que estão aqui porque eu quero. Claramente não escolhi cada leitor deste artigo, mas escolhi ter leitores, escolhi transmitir um conhecimento, escolhi a forma, o conteúdo, o veículo, enfim, criei este instante, este continuum do qual você agora faz parte para, apenas posteriormente, existir algum exercício da sua vontade. Não se trata, neste caso, de um conflito de vontades, visto que elas não se contrapõem, mas curiosamente a minha se faz manifesta e predominante desde antes da existência da sua.

Essa diferença sutil em como percebemos as coisas e seus significados é a forma que escolhi para começar nossa caminhada, pois dela vai depender não só nossa compreensão como nosso sucesso no caminho sinistro. E eis aqui a primeira grande oportunidade de exercitar a semântica.

O Caminho Sinistro
Sinistrum, forma neutra do latim clássico, significando apenas… esquerdo. Oposto a destro. As sinonímias referentes a “impróprio”, “adverso”, “desafortunado”, “funesto” e congêneres são do período pós-clássico. É perfeitamente possível um caminho sinistro ser ensolarado, florido e cheio de vivacidade, como também é perfeitamente possível que seja desolado, pútrido e nefasto. Sinistro, neste caso, apenas alude ao fato dele se encontrar à esquerda de outro.

Mas porque estamos falando de esquerda mesmo?

O ocultismo moderno pegou emprestados os termos usados no Tantra indiano para caracterizar duas correntes doutrinárias: O Caminho da Mão Direita (Righ-Hand Path; RHP; Dakshinachara) refere-se a doutrinas e/ou grupos que seguem princípios éticos, morais e filosóficos mais rígidos e conservadores, com forte tendência ortodoxa e o Caminho da Mão Esquerda (Left-Hand Path; LHP; Vamachara) refere-se a doutrinas e/ou grupos com práticas heterodoxas em sua maioria, que reforçam e induzem o questionamento e a oposição moral, não adotando estruturas éticas e filosóficas complexas.

Contudo, perceba que é um erro grotesco presumir e associar de imediato o caminho destro ao bem e o caminho sinistro ao mal, cabendo aqui lembrar que a prática do bem ou do mal é uma escolha humana individual, independente do caminho trilhado.

Os Aghori

Muitas definições em pouco tempo, certo? Para bem entender o termo, vamos evoluir com ele in loco, com praticantes do Vamachara, o caminho sinistro tântrico.

Os Aghori são devotos de Kala Bhairava, uma manifestação de Shiva associada à aniquilação… do mal. Eles se submetem em sua rotina ritualística à necrofagia, coprofagia, urofagia, caminham entre cadáveres e fazem utensílios com ossos humanos, justificando tal comportamento como uma prática não-dual, o contato com o Advaita Vedanta, o verdadeiro Eu, transcendendo através dos tabus sociais. Apesar de não serem considerados “hindus” pelos indianos em geral, os Aghori têm curandeiros reconhecidos por seus poderes ditos milagrosos. Pense na prática Aghori como uma vacina, em que você se contamina com o que quer evitar e a diferença entre imunização e infecção está simplesmente na dose e na manipulação do agente.

Fatores Históricos

Note, caro leitor, não haver menção sobre o caminho sinistro em época anterior à adoção do termo pelos textos védico e simplesmente não há outros fatores que definam com firmeza a existência da corrente antes das definições tântricas.

Mas não teriam Ahriman ou Baal seus cultos bem antes disso? Por certo que sim, mas neste momento peço encarecidamente que, se ainda não entendeu o motivo da minha pergunta, volte a ler este artigo do início. Um culto a Ahriman pode ser extremamente organizado, ortodoxo, conservador e fundamentalista (nenhuma dessas características se opõe às da entidade e, na verdade, até fazem sentido no contexto histórico e social), classificando-o na corrente doutrinária da Mão Direita. Insisto que, na grande maioria das vezes, “bem” e “mal” são definições e escolhas humanas.

E o que isso quer dizer? Quer dizer que o Caminho Sinistro não é exatamente uma “tradição”. Pra ser bem franco, é um caminho ainda em exploração e formação. Não existem ordens medievais assumidamente sinistras, por exemplo. Faço pequena ressalva para stregheria, druidismo e semelhantes, de forte inclinação heterodoxa que ainda hoje vivem se escondendo por causa dos traumas da… bom, você sabe porque.

Existem pouquíssimas ordens e/ou cultos sinistros que transpuseram ou sequer se aproximaram do seu primeiro século de existência, como a controversa Ordem Tifoniana, antiga O.T.O. Tifoniana (T.O.T.O.), que tem como base o mesmo Thelema e graus iniciáticos de outras ordens Crowleyanas não-sinistras.

Portanto, atenção redobrada com o termo “tradição sinistra” e seus semelhantes, em geral eles não são literais e não são usados para nossa geração, mas embasam e fundamentam a credibilidade dos textos para gerações futuras, quando a tradição de fato existir. Ou não.

Fatores Antropológicos

O ser humano, especialmente o moderno, tem uma forte tendência ao oportunismo, e isso é lamentavelmente notável na área do ocultismo sinistro. O conceito de oposição moral acabou por fazer pessoas de moral intrínseca duvidosa aderirem às fileiras da corrente doutrinária (vide observação sobre crime em Preparação), e fatores psicológicos e sociais deram continuidade a essa prática transformando-a em uma espécie de tendência. Hoje não é completamente errado afirmar que o caminho sinistro é trilhado por outcasts, proscritos e misantropos.

As ordens muitas vezes abraçam alguma espécie de fundamentalismo injustificado, às vezes disfarçado, o que separa ainda mais seus probandos, neófitos e (sic) adeptos do convívio social saudável. Tenha em mente neste ponto, caro leitor, que a misantropia mística exige um nível de concentração, dedicação e domínio mental altíssimos, sendo totalmente contra-indicada para o caminho sinistro sem rígida supervisão.

De uma forma geral, as pessoas buscam o caminho sinistro pelos motivos errados, buscando os objetivos errados e são, invariavelmente, enganadas. Isso tem corroborado para a rápida degeneração da corrente original, desaparecimento das ordens sérias (p.e. O.T.O. Tifoniana deixar de usar o nome O.T.O., círculos internos de outras ordens se desassociarem, recrutamento cancelado, atividades públicas canceladas, etc…), multiplicação de pequenas ordens e cultos oportunistas, crescimento e migração de egrégoras nefastas e a invariável ridicularização geral dos praticantes.

Considerações

Por hora, caro leitor, eu o convido a ficar com a imagem dos Aghori na mente para reflexão. Um povo religiosamente proscrito? Sim. Com hábitos sanitários perigosos? Sem dúvida. Mas qual é o valor prático disso? Note que eu ainda não me atenho ao valor místico, mas o prático mesmo. Quanto sabe de anatomia um Aghori em relação a um hindu que nada faz além de orar? Qual tem melhor sistema imunológico? Qual tem medo do escuro? Qual é o real valor da contaminação física e moral a que se expõem os praticantes? E talvez a questão mais pertinente de todas: você se imagina um Aghori ou ficaria satisfeito em conhecer um curandeiro Aghori quando um familiar adoecesse?

Como este é o nosso primeiro contato, vou ser breve e deixar o que está aqui pra ser digerido e debatido. Procurei usar exemplos de fácil pesquisa para aqueles que queiram se aprofundar em quaisquer dos elementos abordados no artigo.

Gostaria de aproveitar o ensejo e agradecer ao Marcelo pelo espaço e pela oportunidade, e a você leitor pela companhia.

Até breve.

#LHP

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-caminho-sinistro-parte-1