Carlos Castañeda

Para entender o fenômeno místico e esotérico mundial das últimas quatro décadas é necessário conhecer Carlos Castañeda, um dos autores mais misteriosos e impactantes dos últimos tempos. Sua obra compreende uma série de ensinamentos mágicos e psicológicos, envolvidos nos relatos de suas experiências vividas com don Juan Matus, um índio Yaqui mexicano.

Lançados no final da década de 1960, os escritos de Castañeda logo se tornaram uma referência para espiritualistas e antropólogos, o mesmo ocorrendo com sua figura pessoal. Muitos de seus leitores queriam reviver as experiências fantásticas narradas nos livros, ou mesmo travar conhecimento pessoal com Castañeda, quando não com o próprio don Juan.

Este interesse era motivado também pelas sombras que cercavam – e ainda cercam – sua estranha biografia. Alguns afirmam que Castañeda nasceu no Peru em 1925, naturalizado-se norte-americano em 1957.

Mas há quem diga que Carlos Cesar Salvador Arana Castañeda na verdade nasceu no Brasil, na cidade de Mairiporã, no ano de 1935. A única certeza é que estudou antropologia nos Estados Unidos e aprendeu os segredos naguais no México, onde se tornou discípulo do bruxo don Juan Matus.

Sua naturalidade parece ser assunto que jamais será elucidado. No entanto, um fato curioso depõe contra sua nacionalidade peruana. Curiosamente, seus quatro primeiros livros teriam sido escritos em espanhol, mas foi necessária a contratação de um tradutor para a publicação das edições naquela que seria sua língua natural. Portanto, até mesmo uma foto que pretenda ilustrar a imagem real de Castañeda pode ser equivocada.

Publicou doze livros, os quais foram traduzidos para cerca de vinte idiomas e venderam aproximadamente dez milhões de cópias. Castañeda se converteu em um ícone do espiritualismo a partir da década de 70, e foi assunto de uma matéria de capa da revista Time, em março de 1973, cuja imagem ilustra este texto. Seus ensinamentos atraíram uma legião de seguidores, mas também críticos severos, que questionam a veracidade de seus relatos.

Seus três primeiros livros – A Erva do Diabo, Uma Estranha Realidade e Viagem à Ixtlan – foram escritos enquanto Castañeda ainda era aluno de Antropologia na Universidade da Califórnia. O conteúdo destas obras descreve os ensinamentos que recebeu de Don Juan, e serviu para que alcançasse sua graduação e seu doutorado nesta mesma instituição.

Castañeda narra os acontecimentos que o levaram a conhecer o bruxo Don Juan Matus no ano de 1960, com quem teve diversas experiências a respeito de realidades alternativas e de possibilidades adormecidas do ser humano. Don Juan é tratado como um autêntico Nagual, um homem que possui certos conhecimentos que o colocam na posição de líder de um grupo de sábios.

Através da narrativa de Castañeda é possível conhecer os variados poderes de um Nagual. Vivendo constantemente entre aquilo que chamamos realidade convencional e uma realidade alternativa – ou Estranha Realidade – um Nagual é capaz de assumir a forma física de um animal, através do emprego de elementos mágicos e ritualísticos de antigas civilizações do continente americano.

Quando encerrou sua aprendizagem com don Juan, num episódio narrado em seu querto livro, Porta para o Infinito, no qual apresenta completo domínio da ciência Jinas ao se atirar de um penhasco, Castañeda se retirou para uma casa em Los Angeles, onde reuniu um pequeno grupo de aprendizes, entre os quais se encontravam as “três bruxas”, suas discípulas mais próximas, cujos nomes fictícios são Florinda Donner-Grau, Taisha Abelar e Carol Tiggs.

Na década de 1990 deu início à divulgação da Tensegridade, uma série de movimentos que promovem mudanças físicas, energéticas e psicológicas, cujo objetivo seria conduzir o praticante a mais altos estados de consciência. Castañeda afirmava que tais exercícios faziam parte da antiga sabedoria dos Xamãs Toltecas, transmitida através de uma tradição composta por 25 gerações de sábios.

Também nesta época fundou uma instituição chamada Cleargreen, cujos objetivos seriam promover a Tensegridade através de seminários, além de cuidas das publicações do autor. Castañeda morreu em abril de 1998, devido à um câncer hepático. A obscuridade que o circundou durante toda a vida o acompanhou também durante a morte, que se tornou pública apenas em junho do mesmo ano.

Texto de Giordano Cimadon

 

1925 – 1998

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/carlos-castaneda/

Os 10 Mandamentos dos Trambiqueiros

Morbitvs Vividvs

Nem sempre as vítimas merecem a nossa simpatia. Acontece que, por vezes, a infâmia roça o artístico e é-nos muito mais simpática do que a vítima. É legítima a prática da infâmia quando ela é só amoral e se abate sobre o idiota útil.” – Manuel S. Fonseca em ‘O Conde Lustig’

Veja esta imagem a direita. Este senhor ao lado, com cara respeitável é um dos maiores golpistas de todos os tempos. Um charlatão, um picareta, um enganador que entrou para a história. O “Conde” Victor Lustig foi um dos mais famosos e bem sucedidos trambiqueiros do século XX. Nascido em Bohemia, em local hoje conhecido como república Checa.

Antes de morrer Victor Lustig era procurado por cerca de 45 agências de inteligências policiais ao redor do mundo. Ele possuía pelo menos 25 identidades falsas (incluindo algumas famílias) e falava 5 linguas diferentes.

Um de seus golpes mais célebres é o golpe da “caixa de dinheiro”. Uma impressora primitiva que ele apresentava aos criminosos de cada cidade por onde passava com a qual conseguia imprimir em seis horas uma nota de cem dólares. Os clientes chegavam a pagar 30 mil dólares por esse milagre da falsificação. E de fato nas próximas duas horas a máquina soltava mais duas notas de cem. Doze horas eram o bastante para o Conde já estar bem longe e os criminosos perceberem que a máquina era apenas uma enganação. As vítimas, é claro, nunca procuravam a polícia.

Sua biografia é repleta de outras façanhas do gênero, entre elas a de conseguir se passar por um oficial do governo francês e literalmente vender a Torre Eiffel a um homem de negócios. Este golpe deu tão certo que ele vendeu a Torre Eiffel cinco vezes na mesma semana. Outro golpe digno de nota foi o de ter enganado ninguém menos que o poderoso Al Capone, em um golpe de alguns milhares de dólares.

 

Os 10 Mandamentos do Trapaceiro

No livro ‘Fakes, Frauds & Other Malarkey’ de Marc Manus encontramos os dez mandamentos deixados por Victor aos poucos amigos que acumulou durante a vida:

1. Seja um bom ouvinte (ouça suas vítimas falarem mais do que você).

2. Nunca pareça entediado.

3. Espere para a outra pessoa revelar suas opiniões políticas, e então concorde com ela.

4. Deixe a outra pessoa revelar sua visão religiosa, e então mostre ter a mesma.

5. Tenha uma linguagem implicitamente sexual. Mas não faça avanços a não ser que a pessoa demonstre forte interesse.

6. Nunca fale sobre doenças, ao menos que alguma preocupação especial seja demonstrada.

7. Nunca questione diretamente sobre assuntos pessoais. (eles lhe dirão tudo uma hora ou outra)

8. Nunca se vanglorie. Apenas deixe sua importância ser silencionamente evidente.

9. Nunca esteja desarrumado.

10. Nunca fique bêbado.

Influência no Satanismo

Como satanista acho difícil ler estes conselhos do Conde e não lembrar de alguns dos escritos básicos de LaVey, em especial das ‘Onze Regras Satânicas da Terra’ e dos ‘Nove Pecados Satânicos.’ O primeiro ponto lembra a versão laveyana de “Não dê opiniões a menos que alguém os peça.”. O sexto mandamento remete ao “Não conte seus problemas aos outros a menos que você esteja certo de que os outros querem ouvi-los.”. Enfim, esta quase tudo ai, mas a influência geral que permeia tudo é muito maior do que qualquer comparação que possa ser pontuada. É verdade que o Conde sugere uma hipocrisia maior, dizendo que devemos moldar nossas opiniões políticas e religiosas segundo o nosso meio, enquanto LaVey era enfático em suas posições. Contudo devemos lembrar que LaVey ganhava dinheiro com seu satanismo e Victor fez sua fortuna graças a sua hipocrisia.

Sabemos que LaVey também gostava de um trambique e que trabalhou um bom tempo como fotógrafo policial, sendo culto como era acho muito difiícil ele nunca ter ouvido falar de Victor Lustig. Aposto ainda, mas não posso provar, que ele foi uma grande influência ao pai do satanismo moderno· Não acho contudo que LaVey tenha plagiado o Conde com o é costume acusa-lo quando encontramos uma referência mais antiga do que sua obra. Acho sim que foi uma parte importante da formação de sua ética pessoal e que ferve no mesmo caldeirão onde ele jogou Ayn Rand, Nietzsche, Jung e tantos outros.

Isso tudo são apenas conjecturas. O que temos de prático aqui é que estes 10 mandamentos podem ser um reforço ou um anexo interessante a prática do satanismo, especialmente na questão da Baixa Magia e manipulação interpessoal. Aos que querem tirar proveito da vida neste mundo digo aquilo que o Rev. Obito sempre diz ao ganhar no poker: “Se você for um bom trapaceiro, não precisa ser bom em mais nada.”

O Mandamento Zero

Dito isso, pode ser proveitoso aprender ainda com os erros de Lustig. Apesar de ser um gênio do crime ele foi preso em 1935 em Nova Yorque por ter cometido o maior erro que um homem pode cometer: confiar demais em alguém. Uma de suas amantes Billy May, que sabia de seus golpes ficou com ciúme de um outro relacionamento que ele cultivava e usou toda informação que tinha para traí-lo. Ela combinou com a polícia federal americana uma cilada que resultou em sua prisão. Ele andava sempre com uma maleta contendo apenas roupas caras e limpas, mas em sua carteira havia uma chave. Lustig se recusou a responder de onde era a chave mas Billy Man sabia que ela abria um armário público da estação Times Square de metrô. No armário havia 51 mil dólares em notas falsas e as placas modelos para falsificação. O Conde foi preso e após uma fuga bem sucedida 27 dias depois ele foi recapturado e transferido para a ilha prisão de Alcatraz onde morreu em 1947.

Isso nos leva a pensar que os 10 mandamentos dos charlatões deveria possuir um mandamento de número zero: “Não confie em ninguém”.

Morbitvs Vividvs é autor de Lex Satanicus: O Manual do Satanista e outros livros sobre satanismo.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/os-10-mandamentos-dos-trambiqueiros/

Deus como Consciência-Sem-Um-Objeto

by John C. Lilly

Nos últimos dois anos, conheci um homem e seu trabalho que contrariaram minhas próprias simulações e por quem fui influenciado para além de quaisquer influências anteriores. Em 1936, Franklin Merrell-Wolff escreveu um diário que mais tarde foi publicado como Pathways Through to Space (Pathways Through to Space). Em 1970 ele escreveu outro livro chamado The Philosophy of Consciousness- Without-an-Object (A Filosofia da consciência-sem-objeto). Ao estudar suas obras e a crônica de sua experiência pessoal, cheguei a alguns lugares novos para mim.

Wolff passou pelo treinamento do Vedanta, pela filosofia de Shankara; ele conhecia a filosofia de Kant e outros do mundo ocidental; e ele passou vinte e cinco anos trabalhando para alcançar um estado de Nirvana, Iluminação, Samadhi e assim por diante. Em 1936 ele conseguiu essa transformação e com sucesso variável a manteve nos anos seguintes. Ele é um homem incrivelmente pacífico agora em seus oitenta anos. Ao conhecê-lo, senti a influência de sua transformação, de seus reconhecimentos, de uma espécie de corrente fluindo através de mim. Senti uma paz que não senti em minhas próprias buscas; um certo tipo peculiar de contentamento altamente indiferente ocorreu e, no entanto, o estado estava além do contentamento, além da felicidade humana usual, além da bem-aventurança, além do prazer. Este é o estado que ele chama de estado de “Alta Indiferença”. Ele experimentou isso em seu terceiro nível de reconhecimento, além do Nirvana, além da Bem Aventurança no Pathways Through to Space. Suas percepções neste estado são relatadas em The Philosophy of Consciousness.

Em seu capítulo “Aforismos sobre a consciência-sem-objeto”, Merrell-Wolff expressa suas descobertas em uma série de frases semelhantes a sutras. A primeira é: “A consciência-sem-um-objeto é”. A culminação da série é que a Consciência-sem-objeto é ESPAÇO. Esta é provavelmente a maneira mais abstrata e ainda mais satisfatória de olhar para o universo que encontrei em qualquer lugar. Se alguém persegue esse tipo de pensamento e sentimento e entra nos espaços introceptivos, o universo se origina em um solo, um substrato da Consciência-Sem-objeto: o tecido básico do universo além do espaço, além do tempo, além da topologia, além a matéria, além da energia, é a Consciência. Consciência sem forma, sem reificação, sem realização.

Em certo sentido, Merrell-Wolff está dizendo que o Criador das estrelas é a Consciência-Sem-objeto. Ele não dá dicas de como os objetos são criados a partir da Consciência-Sem-objeto. Ele não dá dicas de como uma consciência individual é formada a partir da Consciência-Sem-objeto. Os detalhes desses processos não eram seu principal interesse. Seu interesse principal aparentemente era chegar a um conjunto básico de suposições sobre as quais tudo o mais pudesse ser construído. Nesse sentido, ele é como Einstein, trazendo o fator da relatividade para o universo a partir dos absolutos de Newton.

Se somos uma manifestação da Consciência-Sem-objeto, e se, como diz Wolff, podemos voltar à Consciência-Sem-objeto, então minha visão bastante pessimista de que somos apenas animais barulhentos estava errada. Se houver alguma maneira de trabalharmos nossas origens fora do fundamento básico do universo, ignorando nossas idéias de que o processo evolutivo nos gera gerando nossos cérebros – se houver algum contato, alguma conexão entre nós e a Consciência-Sem-Objetos e o Vazio, e se pudermos fazer esse contato, essa conexão conhecida por nós mesmos individualmente, como afirma Wolff, então é possível que haja muito mais esperança e otimismo do que eu jamais acreditei no passado. Se o que ele diz for verdade, temos um potencial muito além do que imaginei que poderíamos ter. Se o que ele diz é verdade, podemos ser e realizar nosso ser como parte do Criador das estrelas.

Pode ser que Wolff, como todos nós, esteja supervalorizando suas próprias abstrações. Pode ser que ele esteja gerando, isto é, auto-metaprogramação, estados de sua própria mente e de outros nos quais os ideais da raça são reificados como objetos de pensamento, como programas, como realidades, como estados de consciência. Pode ser que isso seja tudo o que podemos fazer. Se isso é tudo o que podemos fazer, talvez seja melhor fazê-lo e ver se há algo além disso ao fazê-lo.

Se, entrando em um estado de Alta Indiferença, de Nirvana, Samadhi ou Satori, podemos funcionar como um exemplo pedagógico para os outros e pode ser que, se um número suficientemente grande de nós compartilhar esse conjunto particular de metaprogramas, possamos ser capazes de sobreviver aos nossos próprios espaços dicotômicos alternativos de iras e disputas. Se a ira justificada for uma programação que não colabora com a sobrevivência da espécie humana, então pode ser que a Alta Indiferença seja uma alternativa razoável.

Estabelecer uma hierarquia de estados de consciência com Alta Indiferença no topo, Nirvana em seguida, Satori em seguida, Samadhi em seguida e Ananda na base é um jogo interessante, especialmente quando se torna capaz de se mover por todos esses espaços e permanecer um tempo suficiente em cada um para conhecê-lo.

Isso pode ser um jogo melhor do que matar nossos vizinhos porque eles não acreditam em nossas simulações de Deus. Pelo menos aqueles que defendem esses estados afirmam que esses estados estão acima de qualquer outra aspiração humana; que uma vez que alguém os tenha experimentado, ele é quase impróprio para a ira, para o orgulho, para a arrogância, para o poder sobre os outros, para a pressão do grupo exercida sobre si mesmo ou sobre os outros. Torna-se apto apenas para ensinar esses estados àqueles que estão prontos para aprendê-los. O voto de bodhisattva não é mais necessário para aqueles que tiveram experiência direta. A pessoa se torna o bodhisattva sem o voto. A pessoa se torna Buda sem ser Buda.

A pessoa se contenta com as necessidades mínimas de sobrevivência em sua viagem ao planeta;  reduz o uso de artigos desnecessários – máquinas, aparelhos e dispositivos. Ele não precisa mais de filmes, televisão, lava-louças ou outros luxos. Já não precisa de muito do que a maioria das pessoas valoriza acima de tudo. Não precisa mais da emoção da guerra. Não é mais necessário ser escravo de pensamentos ou ações destrutivas. A pessoa não precisa mais se organizar.

A história do Diabo de Krishnamurti é pertinente aqui. Laura Huxley me forneceu uma cópia dele. O Diabo estava andando pela rua com um amigo, e eles viram um homem pegar algo, olhar com atenção e colocar no bolso. O amigo disse ao Diabo: “O que é isso?” O Diabo disse: “Ele encontrou um pouco da verdade”. O amigo disse: “Isso não é ruim para o seu negócio?” O Diabo disse: “Não, vou providenciar para que ele tente organizá-la.”

Portanto, não nos convém organizar nem os métodos nem os estados que Wolff descreve tão bem. É melhor não tentar inventar grupos, técnicas, igrejas, lugares ou outras formas de organização humana para encorajar, fomentar ou impor a outros esses estados. Se esses estados vão fazer alguma coisa com a humanidade, eles devem “rastejar por contágio”, por assim dizer, de um indivíduo para o outro.

Deus como consciência-sem-objeto, se real, será percebido e introceptado por mais e mais de nós à medida que nos voltamos para as realidades internas dentro de cada um de nós. Se Deus como Consciência-Sem-objeto habita cada um de nós, eventualmente veremos isso. Nós nos tornaremos universalmente conscientes. Perceberemos a consciência como estando em toda parte e eterna. Perceberemos que a Consciência-Sem-objeto em cada um de nós é preconceituosa e tendenciosa porque está ligada a um cérebro humano.

REFERÊNCIA
1. Merrell-Wolif, Franklin, Pathways Through to Space e The Philosophy of Consciousness-Without-an-Object, ambos New York: Julian-Press, 1973.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/deus-como-consciencia-sem-um-objeto/

Carmilla: 150 anos da primeira e mais importante vampira de todos os tempos

Lord A

Ah meus nobres Amigos e Amigas, Carmilla simplesmente é a Primeira Vampira a realmente conquistar espaço, visibilidade, abrir portas, inspirar e influenciar todo universo das “Vamps”. Antes dela as outras eram quase todas jovens espectrais, fantasmagóricas e diluídas em névoas. Nem todas, mas enfim. Carmilla chega com tudo desde a publicação até conquistar seu lugar na indústria cinematográfica e na cultura pop. Nada mal para uma vampira que celebra 150 anos neste ano de 2022. Um século e meio de classe, charme, prestígio, irreverência e dignidade. Isso é histórico e pontual. Além de encantador – inclusive foi uma inspiração ou melhor uma influência para o clássico Drácula de Bram Stoker (que celebra 125 anos em 2022). Nada mal!

Funeral, Ilustração de Michael Fitzgerald para Carmilla em The Dark Blue (Janeiro de 1872)

Carmilla é uma vampira criada pelo escritor irlandês Sheridan Le Fannu (1814-1873) e que foi publicada em meados de 1871-1872 pouco tempo antes de sua morte. Sensual, homoafetiva e sufocante perseguia suas vítimas como a face sombria de um amor venusiano e naturalmente libriano. Um tema que certamente combina com a apreciação dos livros Sob Tuas Asas (E-book, disponível aqui) e também do maravilhoso Canticles of Lilith de Nicholaj e Katy DeMattos Frisvold (2021, Troy Books, Inglaterra – logo postamos review por aqui no portal).

A inspiração e influência de Carmilla, pela tradição, recai na obra proscrita Christabel escrita por volta de 1797, de Samuel Taylor Coleridge (1772-1834), onde havia a vampira Geraldine. Infelizmente, a vampira Geraldine só veio a conquistar seus leitores em 1816 graças ao sucesso de uma outra obra, no caso “The Vampyre” de John Polidori. Já contamos essa história aqui. Aqui no Brasil Christabel ganhou um filme incrível nas mãos do cineasta Alex Levy- Heller, falamos do filme aqui e a entrevista pode ser assistida aqui.

Ingrid Pitt

A performance mais emblemática de Carmilla nos filmes certamente foi da atriz Ingrid Pitt nos filmes da Hammer: The Vampire Lovers (1970), Countess Dracula (1971). Na Hammer Films a personagem ainda apareceu em mais dois filmes: Lust for a Vampire (Yutte Stensgaard) e Twins of Evil (Katya Wyeth) formando a chamada trilogia Karnstein.

A encarnação mais recente de Carmilla nos cinemas foi no filme Styria (do diretor Mauricio Chernovetzky, falamos do filme e entrevistamos o cineasta aqui), no seriado de mistério Carmilla, canadense (2014) ou ainda na animação Castlevania da Netflix (2016) dá indícios de sua plasticidade e versatilidade por um olhar mais objetivo.

As derivações da personagem Carmilla em incontáveis outros meios são ainda mais amplas diante de um foco subjetivo. Carmilla permanece adorável e sufocante e emblemática no imaginário vamp.

A DEUSA SOMBRIA E A VAMPIRA

Carmilla encarna muitíssimo bem uma das muitas facetas da Deusa sombria, do gelo, do húmido alquímico e do elemento Ying – bem como da vastidão que reúne a terra e a morte e não sabemos onde começa uma e termina a outra – um diálogo que o mundo além da Comunidade Vamp no hemisfério norte ou sul ainda não está preparado para ter. A Vampira e a Bruxa são a maneira desencantada como a Deusa ou ainda a Natureza e a sua face sombria são retratadas nos tempos de desencantamento contemporâneo.

O desencanto tem lá seus totens e tabus (um não vive sem o outro) que delimitam o que a turma do RH chama de “zona de conforto” ou a tal da “bolha” como dizem os mais descolados. Ambas repletas de malabarismos semânticos para preservarem a todos do contraste e do indomável que é a natureza e ainda mais a “natureza humana”. A parte mais brega de ambos situa a “pessoa como a própria fonte de valor para si mesma” (aquele tal do só acredito em mim mesmo, só que valores são constructos sociais, históricos, coletivos mais ou menos como o que forma o dólar ou qualquer outra noção de dinheiro, por exemplo) mas esse assunto fica para outra noite.

Há um constelar para o selvagem e a natureza, incluindo a implacável “natureza humana” que assim como o mal é um tema suculento e infinitamente mais denso do que a “psicologização” da magia; ou “politização da magia” que nada mais são do que atestados da prática de marketing pessoal na ampla maioria de casos.

Há uma atmosfera e um tempo para tudo, inclusive para aquilo que o mundo não gosta muito de pensar e de falar a respeito como morte, viver verdadeiramente, sensualidade, sexo e afins. Há um tônus, um repertório e um lugar ou quem sabe um “não-lugar”, algo imaterial. Há quem fale de anti- matéria e afins neste sentido. Focalize na gravitas, na gravidade de como aborda sua intimidade e o que sente com estes tópicos – e constará que há algo. Eis as portas e janelas previamente mencionadas.

Eu já disse antes que todo totem é um tabu as pessoas preferem alucinar e delirar – falando sem parar de suas certezas absolutas, ideias fixas e convicções – aí cada um oculta o própria temor de se ver exposto como pode na vida como ela é. Todo mundo tem algo estranho. Habilidade é espreitar essa estranheza e estranhamento pessoal e ganhar intimidade com o que estiver lá. Já os mais barulhentos e ruidosos principalmente são sempre os mais convictos e os primeiros a correrem disso tudo como protestantes luteranos do passado. Restando demonizar o que não é dos prados da razão.

Sobre totens e tabús quem mais fala é quem menos pratica aquilo que fala – isso é válido quando falamos de sexo por exemplo. Quando falamos de morte, então! O povo fantasia até repartição pública no pós vida, para o que permanece como aposta e hipótese. É um tal deles fazerem o sagrado e os outros como uma extensão deles mesmos para escaparem deles… que olha vou te dizer!

Numa visão mais clara os pecados medievais nada mais são que as tais dissonâncias, danos e vícios de cognição ou parasitismos para falarmos em termos de vampirismo. Quanto a essa história temos conteúdos fascinantes no Amphiteatrvm Campus Strigoi, para nossos assinantes lá no catarse. Lidarmos com a chamada “cognição” é lidarmos com a hostilidade do nosso ego que nos faz oscilar entre o pontual ou natural e o temor por alguma consequência de exclusão social na vida sob a luz do sol. Isso não é algo fácil.

A Deusa Negra no passado e ainda a Bruxa andando pelos limiares entre o jardim e a floresta escura; a Vampira espreitando e caçando nos castelos em meio as intrigas palacianas são marcadores e variáveis deste repertório ancestral contido na Deusa Negra – que espreitamos, buscamos entender e nos transformarmos ou nos refinarmos em suas constelações, alquimias e vastidão – diante do Gelo, da Húmidade Alquímica, do Ying e do Negativo. Falei muito disso (de processos e resultados) de maneira velada nas edições #553 e #554 da Vox Vampyrica Podcast lá no Spotify.

HAVIAM VAMPS ANTES DE CARMILLA?

Naturalmente houveram outros contos, prosas e romances de vampiras bem legais, eu costumo contar a Christabel (escrita em 1797 circa, publicada só em 1816) e a Deusa pagã do Rhyme of Anciet Mariner (1797–1798) como as primeiras aparições dessa figura de poder na modernidade, mas certamente poderíamos encontrar algo anterior a elas. Neste caso teríamos a “Noiva de Coríntio” do Johann Wolfgang Von Goethe (1797) balada sobre uma noiva virgem que morreu e volta pelo sangue do ex-noivo e saciar seus desejos. Nada mal! Goethe o célebre autor de Fausto se baseia numa passagem do “Livro dos Milagres” do grego Flégon de Trales (Século II). A noiva poderia ser a mais antiga pelo peso do nome do autor e por também ser de 1797. Ainda assim ela pode se contentar com ser a primeira vamp da literatura germânica. Christabel era inglesa.

A noiva era uma imagem subjetiva demais para um contexto vamp e acaba por esbarrar na primeira personagem de traços vampíricos mais proeminentes da literatura alemã que figura em “Feitiço de Amor” (1812), um conto maravilhoso de Ludwig Tieck. Inglaterra continua liderando a parada.

Se focalizarmos a Inglaterra teremos teremos a personagem Oneiza, um cadáver feminino possuído por um demônio que figura no poema “Thalaba, O Destruidor”(1801) de Robert Southey. Foi públicada antes de Christabel, poderia levar o título, mas nossa Christabel data de 1797.

De volta a alemanha teremos a personagem Aurelia que aparece na obra “Vampirismus” (1821) de E.T.A Hoffman, uma vampira subjetiva, mais parecendo uma morta-viva que se alimenta de cadáveres. Adiante encontraremos a rediviva Brunhilde do conto “Deixe os Mortos Repousar” (1823) novamente uma dose de necromancia na parada, onde o viúvo reanima a falecida e se arrepende amargamente.

Seguimos para a França onde conheceremos a vampira Clarimonde, da obra “A Morte Apaixonada” de Théophile Gautier. Um prato delicioso para quem aprecia sonho lúcido e amantes astrais. Um jovem padre recém ordenado irá responder o que é mais amaldiçoado, se é o desejo realizado ou não realizado. Clarimonde é espectral, uma amante morta-viva.

Mas dentro dessa chave espectral o romance Senhorita Christine (1936) de Mírcea Elíade, é mais apimentado e deliciosamente diabólico. E infelizmente esta descendente de Carmilla ainda é desconhecida além dos pórticos da Rede Vamp.

E QUANTO A FIGURAS MITOLÓGICAS VAMPIRESCAS?

Algumas pessoas mencionarão as Lâmias, as Empusae e mesmo a soberana Lilith e outras figuras poderosas da mitologia de naturezas e tons librianos e venusianos. As vezes escorpianos ou leoninos também. Não estão errados na associação delas com o arquétipo “Vamp”. Apenas, quem sabe, na conclusão desencantada que oferecem nos blogs e vídeos ao tecerem comentários sobre estes temas reduzindo tudo a disputas de poder, classes e afins.

“Os deuses e deusas não são ou nunca foram pessoas como a gente” – sempre frisou meu nobre amigo Hermínio Portela quando conversamos sobre estes temas (assista a entrevista dele aqui). Os mitos, os relatos e as histórias sobre seus relacionamentos, assédios, estupros e guerras falam de algo simbólico e de natureza cósmica de intersecções e embates de forças e pulsões também expressas na natureza. Mas não exatamente do que tais palavras representam na vida comum.

O significado de uma “inteligência não-humana” e além dessa “abstração chamada humanidade que acredita apenas em si” é bastante autoexplicativo e óbvio. É não-humano e além do atendimento de qualquer expectativa social e não passivo de nenhum tipo de controle por nada que tenha nascido. Mais claro que isso, poderemos cegar alguém e tornar este artigo incompreensível.

Basicamente, é apenas a sua dissonância cognitiva (danos ou vícios) que lhe dão a impressão de que entende tais forças e os seus malabarismos ou fantasmas semânticos que podem acabar por lhe manterem sobre o cabresto das mesmas – que apenas intensificam o que você já tem na sua têmpera e mistura – ou “Destino” – e quando estes passam da sua justa medida, complica. E sobre isso não falarei mais hoje.

É muito fácil associar Deusas e Deuses Sombrios com a figura vampírica inventada entre os séculos 16 e 18 pelo cristianismo, porque a mesma foi criada para isso. Uma generalização tão ou mais brega do que apresentador televisivo chamar cartas de Yugi Oh de cartas do demônio.

É preciso uma certa sofisticação para interpretar o tema das deusas negras por um viés astrológico hermético ou clássico – e mesmo arremeter tais figuras para um tom mais histórico empregado com dignidade por Robert Graves ou ainda Carlos Ginzbourg. No caso de Lilith e outras deidades tempestivas penso que Robert Patai e ainda Maria de Naglowska são interessantíssimos.

Acho mais sofisticado pensarmos nos mitos do passado associados a vampiros como versões cristianizadas dos relatos sobre guildas de profissões marginais, ritos de fertilidade da terra e outras expressões de tons xamânicos da antiguidade. É sempre interessante lembrar que a maior parte desses relatos são feitas por padres e monges – que não entendiam muito bem o que viam e ainda estavam obrigados a tornarem aquilo depreciativo por conta da vaidade intelectual e também institucional.

Lá no cerne de tudo isso, no coração do redemoinho há ainda a questão dos mortos e dos redivivos associados ao vampirismo quando a Hungria retomou algumas terras dos otomanos. Os mortos tomados por uma força sombria ou demoníaca, ou ainda a serviço das mesmas e suas estranhas agendas. Não é um tema tão estranho assim quando olhado de maneira distanciada do sensacionalismo e do desencantamento. Quantas vezes o culto e a veneração dos mortos ou ancestrais não era encabeçada por um guardião ou deidade no passado, não é mesmo?

Poderíamos ainda falar de algo semelhante ao zumbi haitiano, uma pessoa torturada e embebida em estranhas drogas, processos químicos e ritualística para pensar ter morrido e agora vivendo como escravo de alguém. Mas isso fica para a obra “A Serpente e o Arco Íris” de Wade Davis, um antropólogo e etnobotânico da National Geographic Society.

Mas nunca deixará de ser interessante a encruzilhada presente nos grimórios europeus, nos black books escandinavos e nos terreiros das américas – deidades de diversos povos, personagens folclóricos, santos, demônios e figuras bíblicas engajam e fazem acontecer o que é necessário e o destino se cumprir. Este tema é desenvolvido no meu primeiro livro Mistérios Vampyricos (Madras Editora, 2014) e no Deus é um Dragão (Penumbra Livros 2019).

VAMPIRAS NO BRASIL

Retornando para o viés literário. Aqui no Brasil temos uma rica tradição de mais de 170 anos de produção cultural e literária vampírica. Falamos dela na obra “Despertar Vamp”, disponível aqui. por exemplo nos anos 60 em diante temos as criações fantásticas de Rubens Francisco Lucchetti; as “vamps também figuram em nossos quadrinhos nas personagens como Mirza ou Nádia e em nomes de desenhistas como Eugênio Collonese, Rodolfo Zalla e muitos outros desde os anos sessenta e setenta.

No final da década de noventa temos as vampiras criadas nas obras de Martha Argel. Outro destaque são as vampiras da autora Giulia Moon recentemente reunidas há pouco tempo na fantástica antologia Flores Mortais. Isso sem mencionarmos a midiática Liz Vamp interpretada pela escritora Liz Marins. Só para pincelarmos alguns nomes indispensáveis.

Pensando cronológicamente a primeira grande vampira brasileira chama-se Branca, é do texto Octávio e Branca A Maldição Materna, escrito por João Cardoso de Menezes e Souza, publicado lá na segunda metade dos 1800´s. Acredita-se que a obra tenha sido escrito por volta de 1846 e publicada em 1849. A jovem ainda que espectral e fantasmagórica, tal como muitas outras damas da escuridão que mencionamos hoje, já inseria os Vamps na literatura brasileira – quase na mesma época que Carmilla foi publicada no velho mundo.

VENHA CELBRAR OS 150 ANOS DE CARMILLA COM A GENTE EM 13.08.2022

Concluindo, se a atmosfera emblemática das mansões dos filmes da Hammer e da Universal, bem como a adaptação de Entrevista com o Vampiro de Neil Jordan (1994) ou mesmo o charme vitoriano de Drácula de Bram Stoker (de Francis Ford Coppola) lhe encantam e atraem – seja pela atmosfera e o charme ou por outras razões, garanta seu ingresso para 13/08/22 – Carmilla Noite de Gala Sombria – são poucos convites…

Fonte: https://redevampyrica.com/

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/carmilla-150-anos-da-primeira-e-mais-importante-vampira-de-todos-os-tempos/

A Maçonaria e a Revolução Filipina

Texto do ir.’. Tales de Azevedo

Os pilares filosóficos e progressistas da maçonaria fizeram com que, durante os séculos, esta se aproximasse por demais dos grandes movimentos sociais que alteraram os rumos da história.

Se essa aproximação, por vezes, não acontecia pela instituição em si, acontecia na forma da preparação dos seus atores, oriundos desta ordem.

Em diversos processos de independências, de diferentes países, maçons de diferentes grupos contribuíram em maior ou menor grau para a realização do processo, da forma mais acertada o possível. Algumas vezes haviam disputas entre os irmãos sobre o modo de operação ao qual o processo deveria ocorre (vide o caso brasileiro, na disputa entre os grupos de Bonifácio e de Gonçalves Ledo). Essas contendas entretanto, serviram mais para balizar o caráter plural e progressista da ordem do que para mostrar uma falha entre seus membros.

É certo que poucas vezes a instituição maçônica soube se desdobrar de uma maneira tão complexa e articulada como a que ocorreu na última década do século XIX, nas Filipinas. Na época, esse país se encontrava em um processo de assentamento de uma cultura e identidade nacional, assim como vivia sobre ação de diversos grupos reformistas que buscavam melhores condições nas relações coloniais com a Espanha, país colonizador das ilhas.

Alguns anos antes, as autoridades espanholas observavam com receio um movimento iniciado por um jovem, chamado José Protasio Rizal Mercado y Alonso Realonda. Formado em medicina na Espanha, José Rizal trabalhava exaustivamente nas Filipinas, não apenas no exercício de sua profissão de salvar vidas, mas também como um missionário à frente da difícil tarefa de formar uma identidade para o povo Filipino.

Antes da chegada dos espanhóis, as Filipinas nada mais eram do que um aglomerado de mais de 7000 ilhas, divididas em diversos reinos e povos. A união sob uma única bandeira era artificial, criada pelo dominador europeu. Nem mesmo a língua se fazia como um elo comum, pois o espanhol era pouco falado entre os populares, que se utilizavam de diversos dialetos existentes nas ilhas. Dentro do regime colonial não havia o indivíduo “filipino”, apenas o “índio”, cidadão de segunda categoria.

As práticas coloniais eram de constante degradação para com o “índio”. Dentre as leis publicadas nos códigos das ilhas, haviam aquelas que obrigavam ao “índio” a retirar o seu chapéu toda a vez que cruzasse com um espanhol na rua. Da mesma maneira, era terminantemente proibido ao “índio” se sentar na mesma mesa que um europeu, ainda que seja dentro de sua propriedade. No mais, todos os nomes e sobrenomes precisavam ser escolhidos dentro de uma códex elaborado pelo governador, não sendo de livre escolha do indivíduo.

Rizal procurou criar, através de obras artísticas, comícios, jornais, criação de centros sociais e culturais, o senso de coletividade entre todos as pessoas, de modo a acabar com a ideia de inferioridade então existente. Sob as palavras de Rizal, os populares deixavam de ser “índios” e passavam a ser “filipinos”.

Tal o poder de suas palavras, que em 1892, ao fundar uma associação chamada “A Liga Filipina”, o governador geral das ilhas ordenou que o mesmo fosse exilado imediatamente. Tal busca de Rizal era reflexo do conhecimento por ele recebido no seio da família maçônica. Sim, Rizal foi maçom, iniciado na Loja La Solidariedad, em Madri, em 1890.

A maçonaria como instituição, chegou as ilhas filipinas em 1856, com a fundação da Loja La Primera Luz Filipina, filiada ao Grande Oriente Lusitano. Com o passar dos anos, novas lojas foram criadas, dentre as principais Balagtas nr 149, Taliba nr 165, Pilar nr 203 e Bagong Buhay nr 291. Essas, porém optaram por se filiar ao Grande Oriente Espanhol.

Anos ainda haveriam de se passar, antes que fosse fundado um Grande Oriente nas Filipinas. De qualquer maneira, a escolha pelo Grande Oriente Espanhol, ao invés do Lusitano, se devia principalmente à questões tanto do sistema colonial, quanto ao fato de a presença de maçons filipinos na Espanha era comum; inclusive haviam lojas exclusivas de filipinos, sendo as principais as lojas Revolucion, em Barcelona, e La Solidaridad, em Madri.

A expulsão de Rizal ocorreu então no dia 7 de julho de 1892. Naquela mesma noite, alguns homens, entre eles Andres Bonifacio, Valentim Diaz, Teodoro Plata e Ladislao Diwa, se reuniram em uma casa na avenida Claro M Recto, para dar início a uma audaciosa organização, que tinha por objetivo livrar as ilhas do laço colonial. Essa associação recebeu o nome de Kataastaasan Kagalang-galang na Katipunan nang manga Anak nang Bayan, que significava Suprema e Venerável Associação dos Filhos do Povo, mais comumente chamada de Katipunan, que significava simplesmente Associação. Todos os homens reunidos na fundação do Katipunan possuiam uma coisa em comum: todos eram maçons, pertencentes as lojas existentes nas Filipinas, principalmente a Taliba.

Na Espanha, muitos maçons de origem filipina, já haviam sido acusados de tramar contra a coroa, principalmente os pertencentes a Loja Revolução – fato negado a exaustão pelos irmãos desa oficina. De qualquer maneira, o governo desconfiado obrigou o fechamento da loja alguns anos após sua fundação.

Assim, para que os planos pudessem ser elaborados sem o risco de interferência pelo governo, os fundadores optaram por manter a estrutura maçônica oculta dentro do Katipunan, dividindo os associados em 3 graus, que se reuniriam em grupos, subordinados a um órgão chamado Supremo Conselho do Katipunan, ou Kataastaasang Sanggunian.

O ingresso de novos membros ao Katipunan ocorria por indicação de um dos associados. Após sindicância, o iniciado passava por um ritual, baseado nos ritos de iniciação maçônicos. Estando ao final apto, este então recebia o primeiro grau da associação, chamado Katipon. Os associados a esse grau utilizavam um capuz negro nas reuniões, com um triângulo branco que trazia as letras Z. Ll. B.. O Katipunan se utilizava de um alfabeto próprio, criado para impedir que estranhos tivessem acesso aos documentos do Katipunan. Assim, tais letras convertidas para o Alfabeto latino eram iguais a A ng. B, que eram a sigra de Anak ng Bayan, ou Filho do Povo, que era por sua vez a palavra passe desse grau.

Ao ser admitido no segundo grau do Katipunan, o associado recebia o título de Kawal, ou soldado, passando então a utilizar um capuz verde, que trazia um triângulo de linhas brancas, com as letras Z, Ll. B. Em cada um dos vértices. O Kawal também portava uma fita no pescoço, com uma medalha, que trazia encrustado a letra K, no antigo alfabeto tagalog, posto à frente de uma espada cruzada com uma bandeira. A palavra passe desse grau era Gom-Bur-Za, que era uma abreviação para Gomez, Burgos e Zamora, homens que haviam sido executados anos antes pela coroa espanhola, ao lutar nos primeiros movimentos pela independência.

O último grau recebia o nome de Bayani, ou patriota. O associado desse grau usava um capuz vermelho, com faixas de cor vermelha, simbolizando a coragem e a esperança. A parte frontal da máscara possuía bordas brancas, que formavam um triângulo com a letra K preenchendo o mesmo, tendo Z Ll B como base, formando o seguinte desenho. A palavra passe desse grau era Rizal.

Havia um único toque no Katipunan, utilizado para quando os membros se encontravam em locais públicos. Ele era feito pondo a mão direita sobre o peito, para em seguida se apertar as mãos, pressionando a base do polegar com um dos dedos.

O Supremo Conselho havia ditado 10 leis, aos quais todos os membros do Katipunan deveriam obrigatoriamente seguir. Essas leis expunham principios como amar a Deus, a terra e a fraternidade entre os irmãos; guardar segredo sobre o KKK (uma das siglas utilizadas pelo Katipunan) e manter constante alerta sobre sua responsabilidade pessoal.

Além das regras, havia uma cartilha com 13 itens, com virtudes ao qual todo membro do Katipunan deveria trabalhar para disseminar entre o povo. Essa cartilha pregava lições para evitar o preconceito e a discriminação entre homens e mulheres da sociedade filipina, assim como a valorização do país e da luta ao qual o Katipunan se punha a lutar.

A bandeira do associação trazia o Sol, juntamente com o olho que tudo vê. Anos mais tarde, durante a confecção da bandeira do estado filipino, a bandeira do Katipunan viria a servir como base. Embora o olho tenha sido retirado, a o sol foi mantido, estando até hoje no símbolo máximo daquele país.

Um detalhe curioso, é que no século XIX, a existência de lojas maçônicas mistas era comumente aceito pelo Grande Oriente Espanhol. Muitas mulheres espanholas e filipinas, como Romualda Lanuza, Josefa Rizal, Marina Dizon, Sixta Fajardo entre outras, chegaram a ser iniciadas em Lojas regulares. Como tradicionalmente, as antigas sociedades das ilhas, não distinguiam cargos e poderes entre os sexos, nada mais natural que o Katipunan acabasse por se tornar uma sociedade mista.

Durante alguns anos, o Katipunan agiu em segredo, promovendo valoroso golpes contra a coroa espanhola. Sua decadência ocorreu em 1896, quando uma das associadas, Honoria Potiño, falhou ao guardar seu segredo, deixando que seu irmão Teodoro descobrisse sobre a sociedade. Este então denunciou a mesma ao governador geral, que passou a agir rapidamente contra o Katipunan.

A coroa passou então a atacar os cabeças da sociedade. O próprio Rizal foi feito prisioneiro e trazido de volta das Filipinas para ser executado. Diante desse cenário, os membros do Katipunan passaram então a trabalhar executar o mais rápido possível todos os planos que haviam sido arquitetados durante os anos anteriores.

A estrutura da sociedade estava tão bem assentada, que mesmo com a morte de diversos líderes, os planos continuavam a transcorrer normalmente, trazendo muitos problemas para o governo espanhol – que nessa época se encontrava em guerra contra os Estados Unidos, devido a existência das colônias espanholas na América. Assim em 1898, a Espanha, após sucessivas baixas contra o Katipunan, se deu por vencida e abandonou as Filipinas. O povo, e os antigos membros da sociedade puderam então respirar aliviados por alguns meses. Ficou ao cargo do general Emilio Agnaldo, a tarefa de organizar a administração do país, agora livre as amarras espanholas. Agnaldo também era maçom, membro da loja Pila nr 203.

Infelizmente aqueles meses de paz não durariam muito tempo. Ao final daquele ano, antes que o novo governo pudesse vir a trabalhar em busca de reconhecimento internacional da sua independência, os Estados Unidos invadiram as ilhas, tomando-as como espólio da guerra contra a Espanha. Começaria então uma nova guerra, que se prolongaria até 1906, com a derrota dos nativos, e o assentamento das Filipinas enquanto protetorado americano. Em 1908, um outro maçom Manuel Quezon, da loja Sinukuan nr 272, se destacaria no meio político nacional, se tornando um ícone nas relações entre Estados Unidos e Filipinas, em um processo que resultaria na independência total do país ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Referência Bibliográfica

History Of The Filipino People. Teodoro A Agoncillo

Understading The Filipino. Tomas Andres e Pilas Ilada.

Filipino Martial Culture. Mark Wiley

Endereços na Internet

A Formação da Nação Filipina

http://www.cavtemplarios.com.br/livro4.htm

Filipino Masons.

http://filipinomasons.blogspot.com/2007_08_01_archive.html

Famous Filipino Masons.

http://www.glphils.org/famous-masons

The Legacy Of Freemasons In the Phillipines History.

http://www.pinoyfraternity.com/index.php?showtopic=926

Publicado originalmente em:

http://kali-rio.blogspot.com:80/2011/06/katipunam-maconaria-e-revolucao.html

#Maçonaria

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-ma%C3%A7onaria-e-a-revolu%C3%A7%C3%A3o-filipina

Contemplando o invisível

Por Gilberto Antônio Silva

Vivemos em um mundo cada vez mais materialista e cientificista. Qualquer coisa que sobressaia da atividade normal (ou reconhecida como tal) automaticamente é rejeitada e atacada. Apenas o que é visível, mensurável, demonstrável e “cientificamente comprovado” pode ser aceito. Mas sabemos que o Universo não se limita a isso.

Já tive oportunidade de mencionar anteriormente que a filosofia oriental é, em grande parte, ignorada pelo Ocidente, que acredita que se trata de meras superstições, crenças religiosas ou pensamentos irracionais (como se isso fosse possível). Apenas a filosofia ocidental, baseada na objetividade e na análise intelectual minuciosa de cada fragmento de pensamento ou ideia, é realmente uma “filosofia”.

Ocorre que a filosofia oriental possui esse mesmo enfoque racional, porém acrescido de uma dimensão subjetiva que não existe no pensamento ocidental moderno. Para os chineses, em especial, mesmo que algo não seja visível ou mensurável, ainda pode ser sentido, percebido e interpretado, portanto é real. Basta que aquilo faça algum sentido, em um sistema que Lin Yutang chama de “Espírito do Razoável”. É uma espécie de “bom senso chinês”, onde uma coisa é aceita se fizer sentido, independente de algum tipo de comprovação material. A reencarnação explicaria várias coisas sobre a vida humana na Terra, portanto é algo válido. Possessão por um Demônio das Águas seria real? Uma criança começa a manifestar atitudes estranhas e alheias à sua personalidade, junto com conhecimentos que não deveria ter e força sobre-humana, sendo que depois da sessão de exorcismo feita por um sacerdote taoista, ela volta ao seu normal. Por que isso não seria real?

Esse tipo de atitude perante o invisível, ao que não é testável nem mensurável, alarga em muito nossos horizontes. Repentinamente o Universo se expande para muito além do visível e palpável, até dimensões infinitas. Logo, perceber e acreditar no invisível enriquece nossa vida. Um aluno me perguntou um dia se isso não poderia ser apenas uma ilusão. Claro, o nosso próprio mundo sensorial poderia ser todo ele uma grande ilusão, como atestam hinduístas, budistas e taoistas. O que diferencia o pensamento oriental do ocidental é que no Taoismo e seus primos próximos você pode experimentar o invisível. Isso deixa de ser uma mera crença vazia para se tornar uma realidade palpável. Para isso existem meditações, rituais sagrados, livros enigmáticos que precisam de mais do que a mera intelectualidade para serem decifrados, mas uma imersão completa do corpo e da alma no contexto definido. Além das tradições orientais como o Taoismo, isso também é verdade para a Magia, a Umbanda, o Xamanismo e todas as doutrinas e escolas de pensamento esotéricas. Estamos todos juntos, mergulhados em um universo extremamente mais vasto do que aquele da ciência ocidental.

Não existe espiritualidade sem uma relação próxima com o invisível. Na medida em que seu progresso espiritual aflora, sua sensibilidade se amplia e sua consciência começa a reconhecer o invisível. Não existe outro caminho. Uma pessoa que se diz espiritualista e tem toda sorte de ceticismos tóxicos e negações vazias é, na verdade, uma mentirosa.

Espero que não esteja achando que eu estimulo algum tipo de credulidade cega. De modo algum. Eu mesmo tenho um ceticismo saudável graças à Parapsicologia. Mas devemos manter uma atitude chinesa e não duvidar de algo se aquilo fizer algum sentido. Se quiser mais comprovações pessoais, basta praticar. Absolutamente TUDO o que é dito sobre o Mundo Invisível pode ser experimentado. Claro que com muita dedicação, persistência e orientação adequada, o que nem todo mundo está disposto a fazer. É mais fácil e rápido rejeitar. Acho que isso é a cereja do “bolo esotérico”: você pode comprovar tudo o que é dito por experiência própria, desde que mantenha a mente aberta. Algumas experiências não são recomendáveis, mas podem ser feitas. Então não estamos falando sobre ilusão, crenças religiosas ou dogmas, mas sobre a realidade. Uma realidade maior do que se percebe no cotidiano, mas que afeta decisivamente nossas vidas, quer você creia ou não. Na verdade, os “descrentes” não fazem mais do que barulho, pois o Universo segue seu caminho, eterno e insondável.

No caso particular do Taoismo percebemos que Laozi já chuta o balde no primeiro capítulo do Tao Te Ching afirmando que “O Tao que pode ser expresso não é o Tao constante” e que “O Tao é o nome do inominável”. Pronto, se sua intenção é usar o puro raciocínio objetivo já pode se considerar derrotado, pois o intelecto puro não pode abranger o Tao. Ele transcende esse aspecto puramente mental e precisa ser experimentado pessoalmente.

A Tradição Taoista é extremamente rica em considerações sobre o mundo invisível. Isso é parte de nossa herança e de nossa força. E se você deseja realmente conhecer o Universo em toda a sua profundidade, deve se preparar para contemplar o invisível.

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Gilberto Antônio Silva é Parapsicólogo, Terapeuta e Jornalista. Como Taoista, é um dos mais importantes pesquisadores e divulgadores no Brasil dessa fantástica cultura chinesa através de cursos, palestras e artigos. É autor de 14 livros, a maioria sobre cultura oriental e Taoismo. Sites: www.taoismo.org e www.laoshan.com.br

#Tao #taoísmo

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A Filosofia do Templo da Chama Ascendente

O CAMINHO DO DRAGÃO:

O Caminho Draconiano é baseado na magia auto-iniciativa do Lado Noturno. Ele contém o mistério da transição iniciática da alma de um ser mortal para a forma de Deus encarnada através da morte espiritual e renascimento no Ventre do Dragão e na lareira do Fogo Draconiano. Através do trabalho sucessivo e da comunhão com os Deuses e Espíritos da Corrente, a consciência se expande e a alma desenvolve seu potencial para receber, manter e ancorar esta energia. Cada passo no Caminho revela novos segredos, novas possibilidades, novos mistérios a serem perseguidos. No Caminho do Dragão, o Iniciado é continuamente desafiado e testado. À medida que as chaves para a transmutação da alma são reveladas e os portais para os poderes esquecidos são desbloqueados, a mente é gradualmente sintonizada com as energias da Corrente e a alma é forjada no Fogo Draconiano, para que possa entender e aproveitar esse poder. O Iniciado do Caminho Draconiano é um emissário e uma manifestação viva do Dragão, um mensageiro dos Deuses primordiais.

Este é o trabalho de auto-capacitação e ascensão da alma. Ajuda na compreensão da Gnose de Lúcifer e Suas manifestações no mundo. Ela prepara o corpo, a mente e a alma para a quantidade de poder e conhecimento que serão liberados durante o trabalho com essas forças primordiais. Eleva a alma além de todas as expectativas. O Caminho do Dragão abrirá as portas para os poderes que você deseja alcançar e para muitos mais. Através do trabalho sucessivo, sua alma se integrará totalmente com a Corrente e você se tornará uma manifestação viva do Dragão, o Deus Encarnado. Uma vez abertos, esses portais estarão para sempre conectados à sua alma. Este é um caminho para a origem da Corrente, a fonte de todo poder e todo conhecimento, a descida ao Vazio para enfrentar o Dragão e se tornar uma manifestação da força draconiana primordial.

O Caminho Draconiano é individual e diferente para cada viajante. Você está convidado a entrar em contato conosco e participar de nossos projetos abertos e do Curso Introdutório que preparará seu corpo e mente para o fluxo da Corrente e para a abertura dos portões da alma para a força do Dragão. Nosso Trabalho é abrir as portas da alma para o Fogo transformador do Portador da Luz, as Chamas do Dragão. Quando isso for feito, você será guiado pelo próprio Lúcifer, Lilith, a Rainha da Noite, e pelos Deuses e Espíritos da Corrente. No entanto, se você quiser continuar seu trabalho de auto-iniciação participando de nossos projetos internos, você também receberá assistência do Templo e terá a oportunidade de conversar com Iniciados mais avançados no Caminho, compartilhando e trocando sua experiência em sucessivos níveis de sua ascensão pessoal.

Templo da Chama Ascendente é um templo de Lúcifer. Ele é o símbolo e o patrono da Era do Despertar. Ele permanece como o portão e o guia para o Caminho da Auto-Deificação, iluminação, liberdade do espírito, despertar da alma do sono da ignorância. Ele é a fonte de toda iluminação e um dos deuses draconianos primitivos. Ele é o Iniciador da Chama Ascendente (Desejo Humano de Transcendência que potencializa a ascensão espiritual) e o Deus patrono do Templo que foi fundado para trazer a Corrente do Portador da Luz e a Gnose do Vazio. Esta é a Gnose do Dragão que ao longo dos tempos foi esquecida, perdida, mal interpretada e distorcida, e agora está sendo trazida de volta ao mundo na forma da Corrente Draconiana primordial que está sendo aterrada através de indivíduos capazes de receber e canalizando esse conhecimento.

OS DEUSES DRACONIANOS E O CAMINHO DO LADO NOTURNO:

Deuses e Espíritos Draconianos são nossos aliados e guias no Caminho. Eles revelam e abrem os Portões da Alma e os Caminhos do Lado Noturno através do processo iniciático individual, para que o Homem possa se tornar Deus Encarnado. A Obra iniciática do Templo está, portanto, centrada em abrir a consciência para a natureza de seu poder e preparar a alma para a comunhão com suas energias primordiais.

O Dragão do Vazio é Leviathan, a Serpente Primal enrolada ao redor do Universo, segurando-o em um abraço atemporal. O próprio Vazio é o Ventre do Dragão, vomitando mundos e devorando-os em um ciclo interminável de morte e renascimento. É a força primordial existente fora das estruturas da Criação, sem nome e indefinida, pois não tem forma e todas as formas ao mesmo tempo, sua forma e nome diferem dependendo de uma tradição mágica e sistema iniciático. O Dragão existe fora da Árvore Cósmica, que é o Pilar da Ascensão Espiritual. A Árvore, tanto em seu aspecto brilhante quanto na negatividade do lado escuro, é uma manifestação da consciência humana, projeção da mente consciente e interior, de acordo com o antigo princípio “Como acima é abaixo”: Tudo o que existe Dentro também existe Fora. O homem é Deus em potencial, manifestação do Dragão, parte dessa força eterna e atemporal que permeia toda a Criação e se expande além, no Infinito. O propósito da jornada iniciática através do Pilar da Ascensão é perceber e compreender este potencial e, consequentemente, transformá-lo em Divindade. Vista como a “emanação da Divindade”, a Árvore constitui a percepção humana da consciência deificada. A conclusão do Caminho é o coroamento do processo de Auto-Deificação. A Árvore também é uma manifestação do Dragão, pois a força Draconiana é a fonte de toda a Criação. Mas o Dragão é mais do que a Árvore em si. E para alcançar a própria fonte desse poder primordial, o Homem tem que dar um passo além da Árvore, no Vazio, o Ventre do Dragão. Enquanto trabalhamos com determinados caminhos e zonas da Árvore Cósmica, às vezes temos vislumbres dessa força atemporal, e podemos encontrar portas para o Útero do Dragão no Abismo Cabalístico, mas o verdadeiro Portal para o Vazio existe no reino de Thaumiel, dentro do Trono de Lúcifer, onde o Homem se torna Deus completando a Ascensão através do Pilar da Elevação da Alma. O último passo da humanidade para a Divindade é o passo além da Árvore, na liberação final da ilusão do mundo manifestado.

O Trono de Lúcifer existe em Thaumiel, o último reino antes de entrar no Vazio. Portanto, Ele é o Portão e o Símbolo da Alma Deificada, o Deus patrono do Caminho. Ele é a força solar e iluminadora que tem alimentado a evolução da consciência humana desde o nascimento da humanidade. Ele é Força, Fogo e Fúria. Ele capacita e eleva a alma através de Seu Pilar de Ascensão de fogo. Sua contraparte feminina na magia iniciática draconiana é Lilith. Ela é Paixão, Desejo e Sedução. Ela seduz as almas e as atrai da Luz para o Lado Noturno, o lado avesso da Árvore, desperta a Luxúria e a Fome por conhecimento e poder que só crescem a cada passo no Caminho, e acende a centelha da Divindade que progressivamente se torna a Chama Ascendente de Lúcifer. É o Fogo da Transformação, a própria essência da Divindade. Ambos constituem o Arquétipo do Adversário: O Diabo e o Salvador.

PORTANTO, OS FUNDAMENTOS DA MAGIA DRACONIANA DENTRO DO TEMPLO ESTÃO CENTRADOS NESSES TRÊS ARQUÉTIPOS PODEROSOS: LÚCIFER – O SENHOR DAS CHAMAS, FORÇA DA EVOLUÇÃO E ASCENSÃO; LILITH – O FOGO DRACONIANO DA TRANSFORMAÇÃO, PRINCÍPIO DA PAIXÃO E DESEJO; E LEVIATÃ – O DRAGÃO DO VAZIO, FONTE PRIMORDIAL DE TODA MANIFESTAÇÃO.

A Corrente de Lilith é uma parte do Trabalho iniciado em 2002 pelo grupo ritual draconiano anteriormente conhecido como Loja Magan e continuou ativamente ao longo da década seguinte. O propósito do Trabalho foi o Re-Despertar do Dragão, a força primordial Dentro e Fora, auxiliando nas iniciações e introduzindo potenciais Iniciados na Tradição Draconiana. Em 2012, esta tarefa foi assumida pelo Templo da Chama Ascendente e estendida pela conjugação da Corrente Draconiana de Lilith com a Corrente Adversarial de Lúcifer e Deuses Draconianos das Qliphoth. A Obra central do Templo é introduzir o aspirante a Iniciado no Caminho Draconiano e na magia Qlifótica e auxiliar no processo iniciático no Caminho do Dragão.

OUTROS ARQUÉTIPOS USADOS DENTRO DO TEMPLO:

HÉCATE: A professora de feitiçaria e a guia para o “submundo” pessoal, as profundezas da psique.

ARACHNE: A Deusa Aranha da Atlântida e a rainha dos labirintos Qliphóthicos sob a Árvore Cósmica.

BELIAL: O intermediário entre os espíritos do Lado Noturno e o mago, a porta de entrada para o poder de Goetia.

SET: O Arquétipo do Adversário, o Deus da Tempestade e da Mudança, o princípio da transformação dinâmica.

O OBJETIVO DO TRABALHO:

O objetivo do Trabalho com a Corrente Draconiana é abrir os portões da alma e despertar a consciência, para que o Iniciado possa contemplar o Infinito e viajar ao Coração do Vazio para abrir o Olho de Lúcifer, o Olho do Dragão, e ilumine o Caminho que conduz à Divindade. O Trabalho iniciático do Templo o ajudará a recuperar a consciência primordial e o poder draconiano primordial que detém o potencial de toda criação e toda destruição. Nosso Curso Introdutório irá prepará-lo para a Iniciação na Corrente Draconiana e para o trabalho adicional no Caminho da Auto-Deificação e projetos mais avançados inspirados na Tradição Draconiana e Magia Atlante. Nossos projetos e trabalhos individuais irão ensiná-lo a manifestar sua Vontade no mundo e formar manifestações de seu Desejo a partir de energias primordiais do Vazio.

Para viajar ao Ventre do Dragão e não ser consumido pela imensidão do Vazio, você precisa fortalecer sua alma invocando e se tornando a Chama Ascendente de Lúcifer. Isso prepara sua consciência para o Trabalho com a Corrente. O propósito do Templo é auxiliar o Iniciado neste processo e preparar sua alma para o fluxo do poder transformador do Dragão e a visão do Vazio no processo de transformação iniciática através das energias dos Deuses primordiais.

Isso pode parecer abstrato no início, mas a Iniciação Draconiana é uma experiência íntima e pessoal e é diferente para cada Iniciado. A Mudança sempre se manifesta nas áreas mais pessoais de sua vida. A cerimônia de Iniciação será conduzida por outro Iniciado Draconiano e abrirá os portais internos de sua mente para a Gnose da Corrente. A auto-iniciação também é possível e igualmente válida como uma iniciação presencial e nós o ajudaremos e orientaremos tanto nos preparativos quanto nos procedimentos de iniciação. Então você estará livre para perseguir sua própria Visão e receberá mais orientação dos Deuses e Espíritos do Caminho, que atuarão como iniciadores e aliados em estágios específicos de sua Ascensão. Uma vez que os portais sejam abertos, a Corrente fluirá através de sua consciência, aprimorando suas habilidades mágicas e transformando sua vida.

Há apenas uma Iniciação feita pelo Templo – preparação e iniciação na Corrente Draconiana. Este é o Objetivo Primário do Templo. Assim que você alinhar sua alma com a Corrente, Deuses e Espíritos irão guiá-lo e inspirá-lo. O Caminho Draconiano faz parte da tradição do Caminho da Mão Esquerda, que é em sua essência solitária e pessoal. O núcleo principal da Obra é feito individualmente, como uma comunhão solitária e pessoal com os Deuses e Espíritos da Corrente. No entanto, compartilhar e discutir o Trabalho com outras pessoas também oferece uma oportunidade de aprender e progredir mais rápido e evitar certos erros na prática mágica.

O QUE ACONTECE DEPOIS DA INICIAÇÃO?

Após a Iniciação você tem duas opções:

1) Você é bem-vindo para ficar e trabalhar conosco – para explorar e fortalecer a Corrente de Lúcifer, ou para iniciar o processo de ascensão pessoal no Caminho do Dragão de acordo com nossos projetos internos que o introduzirão na auto-iniciação draconiana magia e ensiná-lo a projetar e desenvolver seus próprios rituais, meditações e todos os aspectos necessários do Trabalho.

2) Você pode seguir caminhos separados e trabalhar com a Corrente como um praticante solitário.

O INICIADO DRACONIANO:

Ser um Mago Draconiano é viver sua vida de acordo com o Caminho. Não é algo que você faz no seu tempo livre, de vez em quando, em eventos sociais ou como meio de recreação. É a vida, vivendo o Caminho e estando ciente de sua Visão e Desejo em cada momento da existência. Trilhar o Caminho é uma escolha para toda a vida. Cabe a você optar por permanecer um diletante, sempre procurando desculpas para pular a prática diária, atrasar ou desistir da busca de sua Visão, deixar de lado o trabalho com a magia do Caminho quando não a encontrar conveniente, ou se você foca sua vida, tempo e energia na verdadeira evolução espiritual. Não é nada fácil. A maioria de nós tem emprego e família, todos nós lutamos com problemas ocasionais de saúde ou problemas financeiros, etc. Mas a chave para ter sucesso no Caminho é encontrar o equilíbrio entre sua vida mundana e espiritual e não deixar que essas coisas atrapalhem. Isso pode significar que você terá que reorganizar toda a sua vida para se adequar ao Caminho, e se você não estiver pronto para tal mudança, provavelmente não terá sucesso além do nível básico de avanço mágico. Esteja ciente disso quando der seus primeiros passos no Caminho do Dragão. Mesmo que essa mudança não seja necessária desde o início, ela se tornará uma necessidade em etapas posteriores de sua evolução pessoal. Como você faz isso, depende exclusivamente de você. Mas uma vez que você esteja no caminho certo, quando você deixar sua alma voar nas asas do Dragão e ascender com a Chama de Lúcifer, todas as coisas começarão a se encaixar, trazendo-lhe mais saúde, prosperidade, amor, emoção e alegria. inspiração do que você já teve em sua vida. Este é um processo difícil, muitas vezes doloroso e traumático, mas também emocionante e recompensador.

Não há restrições para que ninguém tenha sucesso na ascensão espiritual. A maioria dos magos falha em seu Caminho iniciático quando escolhe existência passiva, preguiça e auto-piedade em vez de desafio, paixão e experiência; segurança sobre o risco; o limitado sobre o infinito; o mundano sobre o espiritual; o sono da alma e a ignorância irracional sobre o despertar e a iluminação. Você terá que encontrar novas maneiras de interagir com o mundo, as antigas serão quebradas no processo. Mas, novamente, este é um caminho para poucos, não para muitos.

Você não precisa de experiência prévia ou habilidades mágicas avançadas, mas precisa de potencial e vontade para desenvolver ambos. Você precisa ser dedicado e apaixonado pelo seu trabalho mágico. É importante ter cuidado, mas é ainda mais importante deixar-se conduzir pelo Desejo, manter o coração aberto para novas experiências, novas missões a perseguir, novos mistérios a descobrir. Sem ele, você NÃO terá sucesso no Caminho do Dragão. Ser cuidadoso não deve, no entanto, ser confundido com medo, relutância ou ceticismo em trilhar o Caminho. Você precisa ser capaz de deixar ir, deixar-se consumir pelo Fogo de Lúcifer e inflamar seu Caminho através da Escuridão do Vazio. Abrace a nova experiência e divirta-se. Aproxime-se com antecipação e excitação, não com medo, ceticismo ou nervosismo. O Caminho Draconiano é duro e difícil, mas também é uma bela aventura espiritual. É extático, desafiador e inspirador em todos os níveis possíveis de existência. Deixe sua alma voar através de mundos e dimensões em êxtase extático. Não perca a emoção e o entusiasmo concentrando-se apenas em treinos duros e exigentes, deixe-se fascinar e inspirar por cada mudança no mundo que ocorre por sua Vontade, por cada manifestação de seu Desejo. Não tenha medo de ser autoconfiante em seu trabalho, mas, novamente, não confunda autoconfiança com arrogância e auto-ilusão. É uma armadilha fácil de cair no Caminho da Mão Esquerda, que está em sua essência centrado no desenvolvimento de uma poderosa autoconsciência.

A magia draconiana tem tudo a ver com Trabalho: praticar, treinar, desenvolver, moldar, polir, aperfeiçoar, experimentar, descer às profundezas mais escuras do Inferno e subir até o Sol para derrubar as ilusões do mundo e alcançar poderes que podem parecer imaginários e míticos para o Ignorante, mas para o Iniciado eles podem ser ferramentas reais e tangíveis, se ao menos aprendermos como aproveitá-los e controlá-los. Não existe um mago draconiano teórico ou passivo. A magia draconiana é sobre invocar, canalizar e absorver o poder e manifestá-lo no mundo. Trata-se de reconhecer fraquezas e inibições e transformá-las em veículo de ascensão pessoal. Não há lugar para filosofias vazias que apenas estimulam o ego, mas não são fundamentadas na experiência real.

Além disso, todos os métodos e ferramentas de prática são bons se ajudarem em seu avanço espiritual, se puderem lhe dar acesso ao poder genuíno. Sacrifício, feitiçaria sexual, oferendas de sangue, instrumentos de dor e prazer, intoxicação, etc. fazem parte da Obra, em menor ou maior extensão. Alguns deles serão ensinados pelo Templo e empregados em certos projetos mágicos, outros serão deixados à escolha individual dos praticantes. VOCÊ NUNCA SERÁ FORÇADO A NADA COM O QUAL NÃO SE SINTA CONFORTÁVEL. O que é recomendado, no entanto, é não rejeitar nenhum desses métodos, pois eles podem ser úteis ou até necessários em etapas posteriores do seu Caminho. Você não será forçado a nada no decorrer do Trabalho, mas será constantemente desafiado a questionar seus valores e princípios, superar inibições e transformar seus medos e hesitações em força e ferramentas de poder.

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Fonte:

Philosopy of Temple of Ascending Flame.

http://ascendingflame.com/philosophy.html

Temple of Ascending Flame © 2012-2021

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/a-filosofia-do-templo-da-chama-ascendente/

A Sombra na vida cotidiana

CONNIE ZWEIG e JEREMIAH ABRAMS

Em 1886, mais de uma década antes de Freud sondar as profundezas da escuridão humana, Robert Louis Stevenson teve um sonho altamente revelador: um homem, perseguido por um crime, engolia um certo pó e passava por uma drástica mudança de caráter, tão drástica que ele se tornava irreconhecível. O amável e laborioso cientista Dr, Jekyll transformava-se no violento e implacável Mr. Hyde, cuja maldade ia assumindo proporções cada vez maiores à medida que o sonho se desenrolava.

Stevenson desenvolveu o sonho no seu famoso romance The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde [O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde]. Seu tema integrou-se de tal modo na cultura popular que pensamos nele quando ouvimos alguém dizer, “Eu não era eu mesmo”, ou “Ele parecia possuído por um demônio”, ou “Ela virou uma megera”. Como diz o analista junguiano John Sanford, quando uma história como essa nos toca tão a fundo e nos soa tão verdadeira, é porque ela contém uma qualidade arquetípica — ela fala a um ponto em nós que é universal.

Cada um de nós contém um Dr. Jekyll e um Mr. Hyde: uma persona agradável para o uso cotidiano e um eu oculto e noturna) que permanece amordaçado a maior parte do tempo. Emoções e comportamentos negativos — raiva, inveja, vergonha, falsidade, ressentimento, lascívia, cobiça, tendências suicidas e homicidas — ficam escondidos logo abaixo da superfície, mascarados pelo nosso eu mais apropriado às conveniências. Em seu conjunto, são conhecidos na psicologia como a sombra pessoal, que continua a ser um território indomado e inexplorado para a maioria de nós.

A apresentação da sombra

A sombra pessoal desenvolve-se naturalmente em todas as crianças. A medida que nos identificamos com as características ideais de personalidade (tais como polidez e generosidade) que são encorajadas pelo nosso ambiente, vamos formando aquilo que W. Brugh Joy chama o “eu das decisões de Ano Novo”. Ao mesmo tempo, vamos enterrando na sombra aquelas qualidades que não são adequadas à nossa autoimagem, como a rudeza e o egoísmo. O ego e a sombra, portanto, desenvolvem-se aos pares, criando-se mutuamente a partir da mesma experiência de vida.

Carl Jung viu em si mesmo a inseparabilidade do ego e da sombra, num sonho que descreve em sua autobiografia Memories, Dreams, Reflections [Memórias, Sonhos, Reflexões]: Era noite, em algum lugar desconhecido, e eu avançava com muita dificuldade contra uma forte tempestade. Havia um denso nevoeiro. Eu segurava e protegia com as mãos uma pequena luz que ameaçava extinguir-se a qualquer momento. Eu sentia que precisava mantê-la acesa, pois tudo dependia disso.

De súbito, tive a sensação de que estava sendo seguido. Olhei para trás e percebi uma gigantesca forma escura seguindo meus passos. Mas no mesmo instante tive consciência, apesar do meu terror, de que eu precisava atravessar a noite e o vento com a minha pequena luz, sem levar em conta perigo algum.

Ao acordar, percebi de imediato que havia sonhado com a minha própria sombra, projetada no nevoeiro pela pequena luz que eu carregava. Entendi que essa pequena luz era a minha consciência, a única luz que possuo. Embora infinitamente pequena e frágil em comparação com os poderes das trevas, ela ainda é uma luz, a minha única luz.

Muitas forças estão em jogo na formação da nossa sombra e, em última análise, determinam o que pode e o que não pode ser expresso. Pais, irmãos, professores, clérigos e amigos criam um ambiente complexo no qual aprendemos aquilo que representa comportamento gentil, conveniente e moral, e aquilo que é mesquinho, vergonhoso e pecaminoso.

A sombra age como um sistema imunológico psíquico, definindo o que é eu e o que é não-eu. Pessoas diferentes, em diferentes famílias e culturas, consideram de modos diversos aquilo que pertence ao ego e aquilo que pertence à sombra. Por exemplo, alguns permitem a expressão da raiva ou da agressividade; a maioria, não. Alguns permitem a sexualidade, a vulnerabilidade ou as emoções fortes; muitos, não. Alguns permitem a ambição financeira, a expressão artística ou o desenvolvimento intelectual; outros, não.

Todos os sentimentos e capacidades que são rejeitados pelo ego e na sombra contribuem para o poder oculto do lado escuro da natureza humana. No entanto, nem todos eles são aquilo que se considera traços negativos. De acordo com a analista junguiana Liliane FreyRohn, esse escuro tesouro inclui a nossa porção infantil, nossos apegos emocionais e sintomas neuróticos bem como nossos talentos e dons não-desenvolvidos. A sombra, diz ela, “mantém contato com as profundezas perdidas da alma, com a vida e a vitalidade — o superior, o universalmente humano, sim, mesmo o criativo podem ser percebidos ali”.

A rejeição da sombra

Não podemos olhar diretamente para esse domínio oculto, A sombra é, por natureza, difícil de ser apreendida. Ela é perigosa, desordenada e eternamente oculta, como se a luz da consciência pudesse roubar-lhe a vida.

O analista junguiano James Hillman, autor de diversas obras, diz: “O inconsciente não pode ser consciente; a Lua tem seu lado escuro, o Sol se põe e não pode iluminar o mundo todo ao mesmo tempo, e mesmo Deus tem duas mãos. A atenção e o foco exigem que algumas coisas fiquem fora do campo visual, permaneçam no escuro. Não se pode olhar em duas direções ao mesmo tempo.”

Por essa razão, em geral vemos a sombra indiretamente, nos traços e ações desagradáveis das outras pessoas, lá fora, onde é mais seguro observá-la. Quando reagimos de modo intenso a uma qualidade qualquer {preguiça, estupidez, sensualidade, espiritualidade, etc.) de uma pessoa ou grupo, e nos enchemos de grande aversão ou admiração — essa reação talvez seja a nossa sombra se revelando. Nós nos projetamos ao atribuir essa qualidade à outra pessoa, num esforço inconsciente de bani-la de nós mesmos, de evitar vê-la dentro de nós.

A analista junguiana Marie-Louise von Franz sugere que essa projeção é como disparar uma flecha mágica. Se o destinatário tem um “ponto fraco” onde receber a projeção, então ela se mantém, Se projetamos nossa raiva sobre um companheiro insatisfeito, ou nosso poder de sedução sobre um atraente estranho, ou nossos atributos espirituais sobre um guru, então atingimos o alvo e a projeção se mantém. Daí em diante, emissor e receptor estarão unidos numa misteriosa aliança, como apaixonar-se ou encontrar o herói (ou vilão) perfeito.

A sombra pessoal contém, portanto, todos os tipos de potencialidades nãodesenvolvidas e não-expressas. Ela é aquela parte do inconsciente que complementa o ego e representa as características que a personalidade consciente recusa-se a admitir e, portanto, negligencia, esquece e enterra… até redescobri-las em confrontos desagradáveis com os outros.

O encontro com a sombra

Embora não possamos fitá-la diretamente, a sombra surge na vida diária. Por exemplo, nós a encontramos em tiradas humorísticas (tais como piadas sujas ou brincadeiras tolas) que expressam nossas emoções ocultas, inferiores ou temidas. Analisando de perto aquilo que achamos engraçado (como alguém escorregando numa casca de banana ou se referindo a uma parte “proibida” do corpo), descobrimos que nossa sombra está ativa. John Sanford diz que é possível que as pessoas destituídas de senso de humor tenham uma sombra muito reprimida.

A psicanalista inglesa Molly Tuby sugere seis outras maneiras pelas quais, mesmo sem saber, encontramos a nossa sombra no dia-a-dia:

  • Em geral, é a sombra que ri das piadas.
  • Nos nossos sentimentos exagerados em relação aos outros (“Eu simplesmente não acredito que ele tenha feito isso!”, “Não consigo entender como ela é capaz de usar uma roupa dessas!”)
  • Na opinião negativo que recebemos daqueles que nos servem de espelhos (“Já é a terceira vez que você chega tarde sem me avisar.”)
  • Nas interações em que continuamente exercemos o mesmo efeito perturbador sobre diversas pessoas diferentes (“Eu e o Sam achamos que você não está sendo honesto com a gente.”)
  • Nos nossos atos impulsivos e não-intencionais (“Puxa, desculpe, eu não quis dizer isso!”)
  • Nas situações em que somos humilhados (“Estou tão envergonhada com o jeito que ele me trata.”)
  • Na nossa raiva exagerada em relação aos erros alheios (“Ela simplesmente não consegue fazer seu trabalho em tempo!”, “Cara, mas ele perdeu totalmente o controle do peso!”)
  • Em momentos como esses, quando somos dominados por fortes sentimentos de vergonha ou de raiva, ou quando descobrimos que nosso comportamento é inaceitável, é a sombra que está irrompendo de um modo inesperado.

E em geral ela retrocede com igual velocidade; pois encontrar a sombra pode ser uma experiência assustadora e chocante para a nossa autoimagem, Por essa razão, podemos mudar rapidamente para a negação, deixando de prestar atenção a fantasias homicidas, a pensamentos suicidas ou a embaraçosos sentimentos de inveja, que revelariam um pouco da nossa própria escuridão. O falecido psiquiatra R. D. Laing descreve de modo poético o reflexo de negação da nossa mente: O alcance do que pensamos e fazemos é limitado pelo que deixamos de notar. E por deixarmos de notar que deixamos de notar pouco podemos fazer para mudar, até que notemos como o deixar de notar forma nossos pensamentos e ações.

Se a negação permanecer, então, como diz Laing, talvez nem sequer notemos que deixamos de notar. Por exemplo, é comum encontrarmos a sombra na meia-idade, quando nossas mais profundas necessidades e valores tendem a mudar de direção, talvez até fazendo um giro de 180 graus, Isso exige a quebra de velhos hábitos e o cultivo de talentos adormecidos. Se não pararmos para ouvir atentamente o chamado e continuarmos a nos mover na mesma direção anterior, permaneceremos inconscientes daquilo que a meia-idade tem a nos ensinar.

A depressão também pode representar uma confrontação paralisante com o lado escuro, um equivalente moderno da “noite escura da alma” do místico. Nossa exigência interior para que desçamos ao mundo subterrâneo pode ser suplantada por considerações de ordem externa (como a necessidade de trabalhar por longas horas), pela interferência dos outros ou por drogas antidepressivas que amortecem a nossa sensação de desespero. Nesse caso, deixamos de apreender o propósito da nossa melancolia.

Encontrar a sombra pede uma desaceleração do ritmo da vida, pede que ouçamos as indicações do nosso corpo e nos concedamos tempo para estar a sós, a fim de podermos digerir as mensagens misteriosas do mundo oculto.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-sombra-na-vida-cotidiana/

H.P. Lovecraft e suas Tendências Xamanistas

Os sonhos de Lovecraft desempenharam um papel importante em sua ficção. HPL transformou vários de seus sonhos em histórias. Por exemplo,  “O Depoimento de Randolph Carter”  recontou um dos sonhos de HPL. Nesse sonho, ele fez o papel de Randolph Carter, enquanto seu amigo, Samuel Loveman, fez o papel de Harley Warren.

 Após a morte de Lovecraft, o grito de Lovecraft para a ficção foi tão grande que Bernard Austin Dwyer, um discípulo de HPL, publicou um dos relatos dos sonhos do autor como  “O Clerigo Maligno”.

Além das histórias que eram supostamente seus sonhos, os sonhos também tinham lugar proeminente como dispositivos de enredo nas narrativas de HPL.

Às vezes, Howard colocava seu sonho dentro de uma história. Em outros casos, o sonho contado era uma releitura do esboço de um sonho real em um conto. Por exemplo, em  “O chamado de Cthulhu” , o sonho de Henry Anthony Wilcox com um monólito feito em barro fresco, esculpido em baixo-relevo, é levado para um professor da Universidade para sua interpretação, representando em substância, senão em detalhes, uma parte de um sonho de Lovecraft.

No entanto, não se deve saltar para a conclusão de que todos os contos da ficção de Lovecraft vieram de seus sonhos. Em Lovecraft, o autor WH Pugmire observou:

Lovecraft produziu um mundo que fundiu prontamente com os muitos mundos de seus sonhos e fantasias, mas seus sonhos não eram, ao contrário de uma crença que se espalhou entre seus leitores, completamente traduzidos na ficção”.

Não importa o quão as imagens de seus sonhos eram fantásticas, eles eram difíceis de serem encaixados em um enredo coerente com um clímax.

Neste artigo, vamos explorar três questões que cercam os sonhos de Lovecraft:

1) Será que os sonhos fantásticos de Lovecraft provam, já que alguns ocultistas afirmam, que ele era um ocultista no armário? 

2) Quais os fatores que permitiram HPL acessar as fabulosas ilhas do sonhos (“dreamscapes”, referidos em seus contos), e que não estão disponível para dormentes comuns?

3) O que Timothy Leary, os nativos americanos, a Medicina Popular e os sonhos de Lovecraft têm em comum?

  • O fantástico mundo dos sonhos e as reivindicações do Ocultismo de Lovecraft.

Com base na fabulosa vida dos sonhos de Lovecraft e sua utilização do lendário  Necronomicon , alguns entusiastas ocultistas pintam Lovecraft como um ocultista de armário ou um feiticeiro secreto.

No entanto, ao longo da vida, Howard argumentou contra a aceitação da magia e do sobrenatural.O Ateísmo e materialismo de HP Lovecraft foram exaustivamente documentados. Por exemplo, Lovecraft proclamou:

“Tudo o que eu digo é que eu acho estupidamente improvável que qualquer coisa como uma “vontade fundamental cósmica”, um mundo espiritual, ou uma sobrevivência eterna da personalidade, possam existir. Essas suposições são as mais absurdas e injustificadas de todas as suposições que podem ser feitas sobre o universo, e eu não posso fingir que eu não considero-nas como insignificantes. Em teoria, eu sou agnóstico, mas enquanto aguardo o surgimento de evidências radicais que devem ser classificadas, de forma prática e provisoriamente, eu me mantenho como um ateu “. [H.P. Lovecraft’s Letter to Robert E. Howard, August 16, 1932]

Apesar do ateísmo declarado de Lovecraft, alguns ocultistas ainda implicam que Howard viveu uma vida dupla – e seu lado oculto é o de um praticante da alta magia.

Com certeza, algumas das opiniões de Lovecraft evoluíram ao longo do tempo. Por exemplo, as relações de HPL com os judeus – Seu casamento com Sonia Greene (uma mulher judia) e sua amizade ao longo da vida com Samuel Loveman – desafiou elementos de seu viés racial. Esse amolecimento pode ser refletido na maneira diferente que ele via estrangeiros como em sua descrição empática dos Antigos  em  “Nas Montanhas da Loucura”  (1931):

“Não tinham sido sequer selvagens… pois, na verdade, o que tinham feito? Aquele horrível despertar no frio de uma época desconhecida… talvez um ataque dos quadrúpedes peludos, que latiam com frenesi, e uma defesa atônita contra eles e contra os igualmente frenéticos símios brancos com estranhos envoltórios e equipamentos… Pobre Lake, pobre Gedney…. e pobres Antigos! Cientistas até o fim… o que haviam feito que não faríamos em seu lugar? Deus, que inteligência, que persistência! Com que denodo haviam enfrentado o inacreditável, da mesma forma como aquelesparentes e ancestrais esculpidos haviam enfrentado coisas só um pouco menos inacreditáveis! Radiados, vegetais, monstruosidades, progênie das estrelas… não importa o que tivessem sido, eram homens!”.

Surge a pergunta: “Ao longo dos anos, teria o severo ateísmo de Lovecraft se atenuado da mesma forma?”

  • Será que o uso de Lovecraft do Necronomicon provaria seu Ocultismo?

Uma lenda urbana sugere que a iniciação esotérica de Lovecraft veio através de sua esposa, Sonia Greene.

Sra. Greene supostamente teve um caso antes com um assistente notório, Aleister Crowley:

“Em 1918, Crowley estava em Nova York. Como sempre, ele estava tentando estabelecer sua reputação literária, e estava contribuindo para a Feira Internacional da Vaidade. Sonia Greene era uma emigrante judia enérgica e ambiciosa, com ambições literárias, e ela se juntou a um jantar e palestra em um clube chamado ‘Walker’s Sunrise Club’; foi lá que ela encontrou pela primeira vez Crowley, que havia sido convidado para dar uma palestra sobre poesia moderna … Crowley não perdeu tempo na medida em que se preocupava com mulheres; eles se encontraram de forma irregular por alguns meses “. [The Necronomicon Anti-FAQ, “Why did the novelist H.P. Lovecraft claim to have invented the Necronomicon?” by Colin Low, 1995].

Fora a suposta conexão entre Greene-Crowley, Lovecraft adquiriu conhecimento do temido livro. Alguns ocultistas cibernautas que acreditam que “se está na internet, deve ser verdade”, acabam espalhando esta idéia.

Mais tarde, a fonte da lenda “Crowley-Greene-Lovecraft-Necronomicon” desmentiu a história:

“Apesar de muitas tentativas de mostrar que o  Necronomicon é nada mais do que invenção literária de Lovecraft, um grupo de autores proeminentes e ocultistas alegou fornecer a confirmação da parte da reivindicação de Lovecraft … essa explicação [onde Lovecraft adquiriu o  Necronomicon ] (promovido pela autor em um momento prolongado de maldade), que a mulher de Lovecraft Sonia Greene associada com o ocultista famoso e poeta Aleister Crowley durante sua residência em Nova York, em 1918, é completamente plausível e coerente com ambos os personagens, mas inteiramente falsa “.

Ainda assim, os teóricos do Necronomicon inventam outros meios para provar a existência do Grimório da temida fábula. Para ser justo, Lovecraftianos gostam de especular se o  Necronomicon  teve sua base na realidade.

Um escritor comparou o Necronomicon de Lovecraft com a sacada de mestre de Orsons Wells:

“O Necronomicon de Lovecraft  é equivalente a transmissão de rádio Orson Wells de “Guerra dos Mundos” em 1938, onde todos acreditaram ser uma invasão alienígena real. Como o próprio Lovecraft escreveu: “Nenhuma história estranha pode realmente produzir terror se não for planejada com todo o cuidado e verisimilitude de uma farsa real ‘”[Dr. John Dee, the Necronomicon & the Cleansing of the World – A Gnostic Trail”, by Colin Low, 2000].

Assim, a existência muito debatida do ficcional Necronomicon fornece nenhuma evidência da noção igualmente fictícia que Lovecraft se envolveu com o ocultismo.

  • Ainda assim, o Ateísmo impede a crença no sobrenatural?

Algumas pessoas, no mesmo passo que são ateus estridentes em relação aos deuses tradicionais, começam a crer em uma infinidade de crenças New Age.

O Sistema New Age muitas vezes favorece o subjetivo sobre o objetivo. A experiência supera evidências. Se algo parece verdadeiro, é, mesmo que você não possa descobrir isso. A intuição substitui intelecto. O que se sente verdadeiro torna-se um fato funcional.

A velha declaração de Arquivo X que a “Verdade está lá fora”, em vez de estar entre suas orelhas, simboliza essa ética.

Em contraste com o dualismo metafísico, Lovecraft manteve-se intratável sobre o tema do paranormal ao longo de sua vida. Quando ele veio para o sobrenatural com o uso de ocultismo em suas histórias, HPL declarou:

“Não. Eu nunca li ou usei o jargão de” ocultismo ” na escrita formal … O “estranho” é mais eficaz, pois ele evita as superstições vulgares e fórmulas populares de culto. Eu sou … um materialista absoluto … não ponho um pingo de credibilidade em qualquer forma de sobrenaturalismo, espiritualismo, transcendentalismo, psicose, ou imortalidade. Pode ser, porém, que eu pudesse obter os germes de algumas boas idéias do tamborilar atual da orla lunática psíquica; E eu tenho frequentemente pensado de obter alguma idéia do lixo vendido em uma loja ocultista de livros na 46th St. O problema é que isso custa muito no meu estado atual. Quanto custou o folheto que você acabou de ler? Se qualquer um desses cultos de “crack cerebral” tem livretos gratuitos e “literatura” com uma matéria descritiva sugestiva, eu não me importaria de ter o meu nome em suas listas de ‘otário’. A idéia de que a magia negra existe em segredo hoje, ou que os ritos antigos infernais ainda sobrevivem na obscuridade, é a que eu tenho trabalhado… “[H.P. Lovecraft’s Letter to Clark Ashton Smith, October 9, 1925].

No máximo, Howard usou referências a livros como o  Necronomicon e seu panteão de Antigos como adereços para suspender a descrença a quem lesse sua ficção.

É preciso ter cuidado em tirar conclusões precipitadas. Por exemplo, só porque alguém conhece o  Necronomicon não faz dessa pessoa um ocultista.

  • O Xamanismo “acidental”:

Em seguida, eu gostaria de explorar as facetas do estilo de vida de Lovecraft que espelham as práticas ascéticas de um xamã. Como HPL seguiu disciplinas de um xamã, ele inconscientemente despertou os motivos inconscientes para que visões xamânicas tradicionais surgissem.

A palavra “acidental” é de primordial importância em nossa discussão. Como já observamos, Lovecraft não tinha mais espaço para o xamanismo do que para qualquer prática espiritual em sua sã consciência em vigília. E eu sinto que qualquer artigo sobre Lovecraft deva respeitar suas crenças declaradas.

No entanto, algumas excentricidades do estilo de vida de HPL fornecem terreno fértil para os seus sonhos xamânicos. Essas tendências são:

1) A privação do sono. 

2) Jejum. 

3) O celibato. 

4) Isolamento.

  • 1#Tendência Xamânica: A privação do sono.

Primeiro, Lovecraft era um insone completo.

Em tenra idade, HPL experimentou os terrores noturnos, uma série de pesadelos vívidos especialmente quando uma pessoa acorda rapidamente do sono profundo em um estado apavorado. O jovem Howard teria sido perseguido por aquilo que ele chamou de “Night Gaunts” – criaturas enormes aladas como morcegos sem rosto – que agarravam-lhe pelo estômago, levantando-o a alturas vertiginosas, em seguida, soltando-o sobre a terra abaixo. HPL tomou medidas para evitar o sono, desde que o sono representou a porta de entrada para as bestas escuras de seu inconsciente.

Na idade adulta, Lovecraft era conhecido por ficar sem dormir em muitas de suas viagens para se encontrar com seus correspondentes. Às vezes HPL passou três dias sem dormir. Para ser justo com Lovecraft, ele passou longo tempo sem noites de sono para maximizar o tempo e tirar o máximo proveito de suas viagens. Suas excursões para descobrir a arquitetura de antiquário foram uma das paixões de HPL. Os passeios pela arquitetura em êxtase muitas vezes deixava-o com os pés doloridos.

Um biógrafo observou: “Embora todas as suas queixas sobre a falta de energia, Lovecraft, quando passeava, ultrapassava a resistencia de seus companheiros” [Lovecraft: A Biography, by L. Sprague de Camp, 1976, p. 385.]

Hart Crane, um conhecido de Lovecraft, escreveu sobre a capacidade de HPL em ficar sem dormir, em uma carta para sua mãe no dia 14 de setembro de 1924:

“… Howard Lovecraft, (o homem que visitou Sam em Cleveland num verão quando Galpin também estava lá) manteve Sam perambulando ao redor das favelas e ruas do cais até as quatro da manhã à procura de exemplares da arquitetura colonial, até que Sam me disse que ele gemeu com fadiga e implorou para que fossem para o metrô! [Ibid., p. 237].

Edgar Hoffman Price também lembrou que um dos passeios sem dormir de Lovecraft:

No ano seguinte, [1933], HPL e eu nos encontramos em Providence, em 66 College Street. Sra. Gamwell, foi, então, no hospital, de modo que não havia ninguém para nos convencer a manter-lo em sãs horas. Minha lembrança é que desta vez, estávamos em viagem por 34 horas … “[ Ibid., p. 403].

Lovecraft reforçou a sua capacidade de ficar sem dormir com café. Ele bebeu grandes quantidades de Java – café cujos grãos são produzidos na ilha de Java na Indonésia – atado com grandes quantidades de açúcar – até quatro colheres por xícara.

Um detalhe auxiliar a práticas de sono de Lovecraft era que ele dormia durante o dia e ficou acordado até tarde da noite.

Os ritmos circadianos em humanos regulam a temperatura do núcleo do corpo, a atividade das ondas cerebrais, a produção de hormônios, a regeneração celular, secreções endócrinas e outras atividades biológicas. Um dos ritmos circadianos é modulado em ciclos de 24 horas de luz solar e trevas.

O rompimento de padrões de sono leva à interrupção do sono REM – o período do sono em que ocorrem os sonhos. Quando os sonhos são negados em uma tomada inconsciente, eles buscam expressões conscientes. Assim, as alucinações podem ocorrer.

Que efeito teve um curto-circuito dos ritmos circadianos sobre Lovecraft? Talvez a pergunta deva ser: “Onde termina o sonho do sono, e o sonhar acordado começa?”

  • #2 Tendência Xamânica: O jejum.

Em segundo lugar, Lovecraft praticou uma severa medida de jejum.

HPL foi, em grande parte, indiferente aos alimentos em geral. Ele não era tentado pelos gourmets, e se gabava de quão pouco custava-lhe comer.

Exceto para os dois anos em que ele viveu com Sonia Green, onde o peso de Lovecraft inchou de seu ideal aristocrático, HPL mal comia o suficiente para se manter vivo.

A idiossincrasia de alimentos não promovia sua saúde. A desnutrição causada pela dieta espartana de Howard, levou a um colapso em seu sistema imunológico que promoveu o câncer oportunista que depois o matou.

Mas Howard acreditava que seu cérebro funcionava melhor quando era um pouco desnutrido. Ele experimentou sua dieta frugal para aumentar a freqüência e a intensidade de seus sonhos misteriosos.

  • #3 Tendência Xamânica: O celibato .

Em terceiro lugar, Lovecraft praticou o celibato sexual. Os benefícios ascéticos de celibato em tradições esotéricas e religiosas são discutíveis. Além do casamento de Howard com Sonia Greene, a partir de minha leitura de vários biógrafos, Lovecraft viveu os costumes sexualmente repressivos engendrados por uma forte ética vitoriana.

Mais que o reconhecimento, a sexualidade de Lovecraft parece ser como a mancha de tinta de Rorschach – o que cada pessoa vê depende da orientação que pretende encontrar.

Em um nível prático, como muitos intelectuais: “Lovecraft focou suas atenções e esforços em atividades mentais, em vez de físicos, e, simplesmente, não tinha fortes interesses sexuais em tudo” [“H.P. Lovecraft Misconceptions”, by Donovan K. Loucks,http://www.hplovecraft.com/, May 14,  2011].

Da mesma forma, a abstinência de Lovecraft de beber e fumar também permitiu-lhe uma perseguição indivisada ou não diluída de seus interesses acadêmicos.

  • #4 Tendência Xamânica: Isolamento.

Em quarto lugar, Lovecraft ironicamente às vezes se comparou a um asceta ou eremita. Mais uma vez, HPL não viu seu ascetismo surgir a partir de uma noção religiosa ou espiritual.

No entanto, períodos de isolamento físicos e psicológicos foram marcantes na vida de Lovecraft.

Em algum nível, Lovecraft sentiu como se estivesse fora de passo com a vida. Ele sentiu-se um estranho em seu próprio mundo. Às vezes, HPL vivia como um eremita. Entre 1908-1914, Howard se retirou da vida social, devido a um colapso nervoso relatado. Em casos contrários, apesar do estereótipo, Howard envolvia-se socialmente, através de seu grande círculo de amigos literáriose e suas freqüentes viagens para visitá-los.

Apesar de seu compromisso com a vida, Lovecraft muitas vezes sentiu-se estranho, devido às suas limitações financeiras, a incapacidade de mudar as circunstâncias, a sua predisposição para a depressão, entre outros fatores. HPL falou de seus sentimentos na terceira pessoa, que muitas vezes é um sinal de sentimento distanciado da vida:

No entanto, posso garantir-vos que este ponto de vista é associado a uma das mais simples  e, mais discretamente, antiquada personalidade a se aposentar um dia: a do velho eremita e asceta que ainda não conhece o tempo contemporâneo que lhe cerca com festas e atividades joviais, e que durante o próximo inverno, provavelmente, não irá resistir as suas sentenças consecutivas: salvo por duas tias idosas!” [H.P. Lovecraft’s Letter to August Derleth: November 21, 1930].

  • O Efeito Sinérgico do Ascetismo acidental de Lovecraft

Quais são os efeitos que as práticas xamânicas acidentais de Lovecraft induzem?

Um dos resultados da privação de sono prolongada inclui vários tipos de psicoses. Lovecraft ficou muitas vezes em dias sem dormir. Um estudo relata que um total de 80% das pessoas, que passaram longas crises de insônia, também sofrem alucinações visuais [Can Sleep Deprivation Cause Hallucinations? Seeing Things May Occur with Extreme Sleep Loss” By Brandon Peters, M.D., About.com, September 01, 2011.]

O comportamento alcança seu limite quando uma pessoa experimenta um estado de sonho ou alucinação que parece tão real quanto se o evento realmente ocorresse.

Lovecraft afirmou que seus sonhos eram tão genuínos que ao acordar, a impressão de sua “verdade” o atormentava:

Eu tenho relacionado isso em detalhes, porque me impressionou muito vividamente. Isto não é um romance sobre reencarnação de Co [abreviação para Ira A. Cole] , você vai ver que esse sonho não tem clímax ou ponto, mas era muito real … Neste ponto você me perguntará de onde vêm estas histórias! Eu respondo de acordo com o seu pragmatismo que o sonho era tão real quanto a minha presença nesta mesa, com a caneta na mão! Se a verdade ou a falsidade de nossas crenças e impressões são imateriais, então eu sou, ou era, na verdade, e, indiscutivelmente, um espírito sem carroçaria pairando sobre uma cidade muito singular, muito silenciosa, e muito antiga em algum lugar entre cinzentas colinas mortas. Eu pensei que estava na hora, então o que mais importa? Você acha que eu era tão verdadeiro em espírito como estou agora como HP Lovecraft? Eu não “[H.P. Lovecraft’s Letter to Maurice W. Moe, May 15, 1918].

Para recapitular, os elementos do estilo de vida de Lovecraft incluíram:

1) Perturbação Ritmo circadiano porque HPL dormia de dia e percorriam as ruas de noite. 

2) Uma auto-imposta privação de sono que durou três dias, muitas vezes ao mesmo tempo. 

3) Jejum que lhe abstia de clareza mental e valorizava seu sonho. 

4) A abnegação em áreas – sexo, fumo e bebida forte – que se concentravam suas energias na criatividade.

5) Os períodos de isolamento físico e emocional que fomentaram o sentimento de separatividade.

Como Lovecraft viveu esses fatores, o lado esquerdo do cérebro intelectual agitou acidentalmente os motivos inconscientes para as visões xamânicas tradicionais surgirem.

HPL descreveu a escala de suas visões imaginativas:

“… Como meros fios, essas fantasias misturadas não valem a pena; mas sendo sonhos de boa-fé, eles são bastante pitorescos. Dá uma sensação de experiência estranha, fantástica, sobrenaturalde ter visto estas coisas estranhas, aparentemente, com o olho visual. Eu sonhei assim desde que eu era velho o suficiente para lembrar dos sonhos, e provavelmente serei até eu descer ao Averno … Na verdade, eu viajei para lugares estranhos que não estão sobre a terra ou em qualquer planeta conhecido. Tenho sido um piloto de cometas, e um irmão para as nebulosas … “[H.P. Lovecraft’s Letter to Rheinhart Kleiner, May 21, 1920]

  • Sonhos Caleidoscópicos e Visões Psicodélicas:

O que os xamãs modernos, como Timothy Leary e xamãs mais velhos, como os nativos americanos, têm em comum?

Ambos usaram drogas para lançar chaves químicas em seus cérebros que levaram-lhes em suas viagens vibrantes e visões. Dr. Leary usou LSD, enquanto algumas pessoas costumavam se dirgir até a Medicina mescalina. Quando numa dessas viagens psicodélicas foi utilizado o elemento químico certo, LSD, o que se procede é algo assim:

“… Altera profundamente e expande a consciência, soltando ou apagando completamente os filtros normais e telas entre sua mente consciente e o mundo exterior. Com estes filtros para baixo, mais informações correm para dentro. Você sente mais, pensa mais. Você se torna consciente das coisas normalmente filtradas por sua mente – visuais, auditivas, sensoriais e emocionais. Os intrincados detalhes em superfícies, a riqueza de som, o brilho das cores, e a complexidade de seus próprios processos mentais são todos trazidos para o primeiro plano de sua consciência. Em doses mais elevadas, a pressa de informação torna-se uma inundação e os seus sentidos, na verdade, começam a se fundir e se sobrepõem … até que você pode ver sons ou cheirar cores “. [LSD Effects”, The GoodDrugsGuide.Com]

LSD também altera o sentido do tempo e da percepção visual:

Efeitos primários do LSD são visuais. As cores parecem mais fortes e as luzes parecem mais brilhantes. Os objetos que são estáveis podem parecer se mover ou ter um halo de luz em torno deles. Às vezes, os objetos têm trilhas de luz provenientes deles ou parecem menores ou maiores do que realmente são. Usuários de LSD muitas vezes veem padrões, formas, cores e texturas. Às vezes parece que o tempo está correndo para trás, ou se movendo muito rapidamente ou lentamente. Em ocasiões muito raras … tropeços podem causar sinestesia – uma confusão de sensações entre diferentes tipos de estímulos. Algumas pessoas descreveram isso como ver cores quando ouvem sons específicos “[How LSD Works”, by Shanna Freeman,]

Eu nunca usei uma droga psicodélica, então eu não posso descrever um LSD ou mescalina a partir da experiência pessoal. É por isso que eu incluí descrições de como um agente alucinógeno afeta a percepção e as sensações de uma pessoa.

O que eu proponho é o seguinte: Como Lovecraft praticou os estilos de vida com traços de xamanismo acidental, ele tropeçou nas mesmas chaves químicas do cérebro que outros precisariam usar alucinógenos para ativar.

O resultado foi que os sonhos e a imaginação de Lovecraft expressavam a mesma experiência de outro mundo de alguém que usou drogas psicodélicas. Tristan Eldritch primeiro comparou os escritos de Lovecraft para experiências psicodélicas. No entanto, a pesquisa não explorou o estilo de vida ascético de Lovecraft como contribuindo para a psicodélica magnitude de sonhos e prosa de HPL.

Além da semelhança em experiências fantasmagóricas, gostaria de salientar a percepção de distorção de tempo que Lovecraft procurou esteticamente e a perturbação de tempo em uma viagem alucinógena.

Lovecraft procurou êxtases estéticos:

“… Que … invariavelmente implica uma derrota total das leis de tempo, espaço, matéria e energia, ou melhor, uma independência individual dessas leis da minha parte, em que eu possa navegar através dos universos variados de espaço-tempo como um invisível vapor que possa perturbar … nenhum deles, no entanto, é superior aos seus limites e formas locais de organização material “[H.P. Lovecraft’s Letter to August Derleth, December 25, 1930]

Observe que Lovecraft buscava um estado de ser, que incluiu um senso de independência das leis da época. A descrição de HPL corresponde à distorção de tempo que faz parte de uma experiência psicodélica:

… Às vezes parece que o tempo está correndo para trás, ou se movendo muito rápido ou devagar …”[ “How LSD Works,” by Shanna Freeman]

  • Houve uma predisposição genética para as “Dreamscapes” de Lovecraft?

Antes de prosseguir, gostaria de afirmar que Lovecraft também poderia ter sido geneticamente predisposto ao mundo fantástico dos sonhos.

Existem semelhanças entre as alucinações visuais e sensoriais de esquizofrenia e paisagens oníricas vívidas de Lovecraft.

Eu acredito que a ligação genética poderia ter sido materna. Embora o pai de Lovecraft morreu em uma instituição mental, sua loucura foi, provavelmente, devido a complicações de uma doença – sífilis. Por outro lado, Susie Lovecraft, em seus últimos anos, experimentou alucinações visuais envolvendo figuras sombrias. As alucinações pareciam ser de natureza orgânica.

Lovecraft experimentou surtos de doença mental, embora ele pensasse ser em grande parte depressão bipolar. No entanto, o racismo irracional do HPL, apesar de sua racionalidade, ocorreu de forma delirante e orgânica.

Da mesma forma, quando as telas genéticas habituais – aquelas que diminuem os estímulos conscientes recebidos para uma realidade gerenciável – são defeituosas, experiências sensoriais de uma pessoa assumem o caráter de viagens psicodélicas.

Telas de Howard, por falta de uma melhor metáfora, podem ter sido poucas e com defeitos. Isso não significa que as faculdades do HPL eram deficientes cada momento de cada dia. Mas elas eram suficientemente menores, e ainda mais enfraquecidas por suas tendências ascéticas, por transformar seus sonhos em titânicas visões ciclópicas de outros mundos e outras épocas.

Essa facilidade imperfeitamente semelhante permitiu Vincent Van Gogh ver cores brilhantes em torno de cenas naturais prosaicas que os outros não vêem, e despejou-as em suas telas assombrando os admiradores. Talvez Lovecraft viu coisas em seus sonhos e nas vigílias de suas crises de imaginação, devido a uma disfunção similar de algumas de suas acuidades mentais.

  • Para queimar a mente do leitor com uma grandeza cósmica

Eu acredito que existia uma constelação de fatores – tanto comportamentais e orgânicos – predispostos em Lovecraft para acessar mundos de sombras imaginativas. Lovecraft, assim como outros grandes artistas, era um indivíduo único na história. De nenhuma maneira podemos traçar todos os fatores ilusórios que vieram a ser concretizadas nos momentos criativos quando HPL escreveu grandes nomes como “Nas Montanhas da Loucura”.

Espero que tenhamos sugerido algumas razões para Lovecraft ter produzido os contos impressionistas que queimavam a mente do leitor com sua grandeza cósmica.

 

 

Por: John de laughter em LovecraftZine. Tradução: Nathalia Claro

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/h-p-lovecraft-e-suas-tendencias-xamanistas/