Howard Phillips Lovecraf e os Mitos de Cthulhu

Resumo

O texto começa por dar algumas informações biográficas sobre Lovecraft, como alguns aspectos mais importantes da sua vida e da sua personalidade. Lovecraft foi um escritor de histórias de temática fantástica que viveu entre 1890 e 1937. É dado algum destaque a Lovecraft enquanto criança, porque se considera importante para a compreensão do seu carácter. Discutem-se diversas influências à sua obra assim como outros factores que o poderão ter marcado. Tenta-se seguidamente dar uma imagem geral dos Mitos de Cthulhu, que é a designação que se adopta para o conjunto de histórias desenvolvidas por este e outros autores que o seguiram. Fala-se sobre o “Círculo de Lovecraft”, conjunto de escritores que seguiram o seu estilo e trocavam grandes volumes de correspondência entre si. For fim aborda-se a questão dos Mitos de Cthulhu depois de Lovecraft e na actualidade.

Introdução

“As a foulness shall ye know Them. Their hand is at your throats, yet ye see Them not; and Their habitation is even one with your guarded thresold.”

– Necronomicon

 

O texto que se segue pretende dar uma ideia geral do trabalho literário de Howard Phillips Lovecraft e do contexto que envolveu esse mesmo trabalho. Criador de um estilo único de literatura, que mistura de uma forma inconfundível ficção científica e terror cósmico, Lovecraft deixou uma obra que ainda hoje em dia inspira muitos autores. Sem pretender deixar de fora os outros escritores que integravam o Círculo de Lovecraft nem tirar mérito ao seu trabalho, utilizo o nome do seu mentor em representação de todo o estilo que ele desenvolveu e que vários seguiram.

Utilizando palavras do próprio Lovecraft, as efabulações sobre temas mundanos e o lugar-comum não satisfazem as mentes mais criativas e sequiosas de novos estímulos. O trabalho de Lovecraft não serve para agradar às massas nem ao cidadão comum, mas apenas a um grupo mais restrito de admiradores que não se contentam com os enredos banais do dia-a-dia. Abdicando do lucro fácil que certamente teria atingido se utilizasse o seu génio na produção de romances comerciais, Lovecraft deixou-nos um legado espantoso de visões fantásticas e universos assombrosos.

Informação Biográfica

“A mais antiga e poderosa emoção da raça humana é o medo, e o mais antigo e poderoso medo é o medo do desconhecido.”

H. P. Lovecraft

Howard Phillips Lovecraft é conhecido na actualidade pelo trabalho que produziu no campo dos contos de ficção e terror. Escreveu durante o seu não muito longo tempo de vida cerca de 65 contos pequenos, 3 romances (um deles incompleto), dezenas de artigos e ensaios para revistas científicas e outras de ficção como Weird Tales, algumas centenas de poemas e sonetos e mais de 100 mil cartas. A sua vasta correspondência será discutida mais adiante na secção que trata do “Círculo de Lovecraft”.

Nasceu no ano de 1890 em Providence, Rhode Island, no seio de uma família abastada mas em clara decadência financeira. Desde cedo mostrou o seu interesse por ciência e pela ficção. Escreveu “The Little Glass Bottle”, o seu primeiro conto, com apenas 6 anos. Cerca de 5 anos mais tarde publicava e distribuia de porta em porta jornais científicos como “The Scientific Gazette” e “The Rhode Island Journal of Astronomy”. Atormentado desde muito cedo por sonhos estranhos e delirantes, tinha uma saúde frágil e problemas nervosos que o impediam de frequentar a escola regularmente. Continuou a escrever ficção ao longo de toda a sua infância e publicou o seu primeiro conto aos 15 anos. No fim da adolescência foi-lhe dito que não tinha talento, deixando de escrever por uns anos. Voltou à actividade com a publicação de “The Transition of Juan Romero” na revista Weird Tales.

Com a morte do seu pai e mais tarde da sua mãe em 1921 num sanatório, a família de Lovecraft atingiu a ruína financeira e viu-se obrigada a vender a maior parte dos seus bens, o que foi para ele um grande choque. Necessitando de ganhar dinheiro para a sua subsistência, Lovecraft viu-se confrontado com um dilema comum a muitos artistas: manter-se fiel à estética artística que persegue ou optar pela vulgaridade e lucro fácil. Tendo sido o seu trabalho sistematicamente rejeitado pelos principais editores, vê-se obrigado a escrever contos de má qualidade para escritores consagrados, segundo ideias por eles fornecidas. Este tipo de actividade era conhecida por ghost-writing. Um dos seus clientes foi Harry Houdini.

A sua ficção, demasiado avançada para a época, atraiu um grupo restrito mas fiel de admiradores, alguns deles escritores consagrados que o impeliam a continuar a escrever. Formou-se aquilo que viria a ser conhecido como Lovecraft Circle, um grupo de escritores de ficção que trocavam correspondência e escreviam dentro de um estilo definido à partida pelo próprio Lovecraft. Foi um dos elementos deste grupo, August Derleth, que mais se empenhou na publicação do trabalho de Lovecraft depois da sua morte, sendo um dos principais responsáveis pela divulgação que tem hoje em dia.

Lovecraft casou-se e foi viver com a sua esposa para Nova Iorque em 1924, mas terminou o casamento dois anos mais tarde, regressando a Providence. Aí viveu o resto da sua vida na companhia de duas tias. Terá, segundo a opinião de alguns críticos produzido os seus melhores trabalhos durante esta época. Tinha como hobbie viajar em busca de vestígios do mundo antigo, fazendo-o na medida em que a sua fraca condição financeira o permitia. Dizia quem o conheceu que era um indivíduo bastante estranho mas muito marcante. Possuidor de um espírito científico e filosófico, era extremamente hipocondríaco e comportava-se como sendo mais velho do que era na realidade. Morreu com 46 anos em 1937 vítima de um cancro súbito e violento, sem nunca conhecer o sucesso.

Sendo desde cedo um leitor ávido, Lovecraft sofreu a influência de muitos outros escritores na sua obra. O seu autor favorito era Edgar Allen Poe, que claramente imitou em “The Outsider”. Além dos escritores que constituíam o Lovecraft Circle, também Robert N. Chambers, Arthur Machen e o jornalista e autor de histórias fantásticas Ambrose Bierce o inspiraram no seu trabalho. Lord Dunsany foi claramente o autor que o influenciou a escrever histórias oníricas e a criar as suas “Dreamlands”, e Algenon Blackwood a recorrer às lendas do índios norte-americanos. Além das influências humanas, e talvez de forma ainda mais marcante, Lovecraft inspirava-se nos seu conhecimentos científicos, astronómicos e filosóficos, assim como nos seu sonhos. Algumas das suas criações mais fantásticas surgiram pela primeira vez na sua mente enquanto dormia.

Os Mitos de Cthulhu

“Todos os meus contos partem da fundamental premissa de que as leis, interesses e emoções humanas não possuem nenhuma validade ou significância na grande imensidão do universo.”

H. P. Lovecraft

August Derleth viria a designar o conjunto do trabalho produzido por Lovecraft e pelos escritores que seguiram o seu estilo como ele próprio por “Mitos de Cthulhu”. Cthulhu é uma criação do próprio Lovecraft de que falarei mais adiante, e que aparece naquele que é provavelmente o seu conto mais conhecido, “Call of Cthulhu”. Cada conto escrito por Lovecraft e seus seguidores constitui mais uma peça para enriquecer a imagem geral do que são os Mitos. A melhor forma de os conhecer é obviamente pela leitura desses mesmo contos, mas tentarei dar uma ideia geral.

É constante ao longo de todas as histórias a ideia de que a humanidade e o nosso planeta são uma “concha” de sanidade mental, imersa num universo completamente alienado, povoado por criaturas e raças poderosas, deuses estranhos e regido por leis completamente insondáveis e divergentes das leis naturais que conhecemos. Um homem exposto a esta realidade tem tendência a enlouquecer. A sanidade mental é vista como uma cortina que nos protege da realidade, permitindo que as sociedades humanas subsistam coma as conhecemos, alheias à estranheza do universo que as rodeia. A personagem principal nas histórias de Lovecraft é tipicamente um cientista, investigador ou professor universitário que se vê confrontado das mais diversas formas com esta terrível realidade.

Outra ideia de base importante é a de que a maioria dos cultos e religiões humanas das mais diversas épocas e regiões do globo, sendo aparentemente dispersas, representem imagens distorcidas e por vezes complementares da verdadeira natureza do cosmos. Segundo a Mitologia de Cthulhu, diversas raças e entidades superiores terão habitado a terra antes do Homem, e diversas o farão depois da Humanidade desaparecer. Algumas destas entidades superiores (como o próprio Cthulhu), dado o seu ciclo de vida inimaginavelmente longo, e a sua supremacia física e intelectual sobre o Homem, são facilmente confundíveis com Deuses. Cultos primitivos terão aparecido para adorar estes pseudo-Deuses. Muitas das histórias dos Mitos especulam sobre a subsistência desses cultos na actualidade, as suas actividades obscuras e as suas motivações incompreensíveis, criando um ambiente extremamente tenso e paranóico.

As histórias originais de Lovecraft têm na sua maioria como cenário os Estados Unidos dos anos 20 e início dos anos 30. Trata-se de uma época de grandes injustiças sociais, em que a classe baixa vivia na miséria e oprimida pela burguesia, enquanto que a classe alta usufruía de um estilo de vida luxuoso. A segregação racial era intensa e a lei seca encontrava-se em vigor, motivando o aparecimento de crime organizado em volta do tráfico de bebidas espirituosas. A terrível realidade dos Mitos de Cthulhu contrasta de uma forma bastante brutal e sugestiva com a futilidade dos interesses da classe alta.

Seguidamente irão ser descritos alguns elementos-chave dos Mitos. Não sendo uma lista de forma alguma exaustiva, pretende apenas dar uma ideia geral do ambiente. Nas descrições que se seguem, e por comodidade, factos completamente fictícios irão ser descritos como reais.

Deuses Exteriores

No panteão dos Mitos, os Deuses Exteriores ocupam o topo da hierarquia. De natureza claramente sobrenatural, governam o universo segundo princípios, desígnios e motivações incompreensíveis para a Humanidade. Tão pouco eles se parecem interessar por ela, sendo-lhes o seu destino indiferente. Não estão limitados pelo espaço ou pelo tempo, conseguindo visitar qualquer local e qualquer era. Percorrem também os diversos planos de existência, sem excluir as Dreamlands.

Azathoth

Origem do Nome: do árabe Izzu Tahuti, que significa “poder de Tahuti”, provavelmente uma alusão à divindade egípcia Thoth.

Azathoth é o “Sultão Demoníaco”, o mais importante dos Deuses Exteriores. Fisicamente é uma massa gigantesca e amorfa de caos nuclear, sendo incrivelmente poderoso mas completamente desprovido de inteligência. A sua “alma” é Nyarlathotep, o mensageiro dos Deuses. Azathoth passa a maior parte do tempo no centro do universo, dançando ao som de Deuses Menores flautistas. A maior parte das suas aparições em locais diferentes deste estão relacionadas com catástrofes gigantescas, como é o caso da destruição do quinto planeta do Sistema Solar, que é hoje a cintura de asteróides.

Nyarlathotep

Origem do Nome: do egípcio Ny Har Rut Hotep, que significa “não existe paz na passagem”.

Nyarlathothep é a alma e o mensageiro dos Deuses Exteriores. É o único deles que tem vindo a travar contactos com a Humanidade, mas os seus objectivos são imperscrutáveis. Possui um inteligência inimaginável e um sentido de humor mórbido. Consegue adoptar centenas de formas físicas distintas, podendo parecer um homem vulgar ou uma monstruosidade gigantesca. Especula-se que um faraó obscuro da IV Dinastia do Egipto Dinástico fosse Nyarlathotep “em pessoa”. A própria Esfinge será uma representação em tamanho natural de uma outra forma de Nyarlathotep.

Great Old Ones – Os Gandes Antigos

Muitas vezes confundidos com Deuses Menores, os Great Old Ones são provavelmente seres vivos incrivelmente poderosos, com ciclos de vida espantosamente longos. Especula-se sobre se pertencerão todos a uma ou várias raças cujos elementos se encontram dispersos pelo universo. A variedade do seu aspecto parece excluir a possibilidade de pertencerem todos à mesma raça. Os seus propósitos são mais compreensíveis do que os dos Deuses Exteriores, estando interessados em colonizar planetas. É frequente um Great Old One liderar um povo de uma raça menos poderosa. Na terra existem cultos dispersos a vários destes seres, principalmente Cthulhu.

Cthulhu

Origem do Nome: Deterioração pelos gregos da palavra árabe Khadhulu, que significa “aquele que abandona”. No Corão existe a seguinte passagem: 25:29 – “Para a Humanidade Satan é Khadulu”.

O mais conhecido dos Great Old Ones e das criações de Lovecraft, Cthulhu é um ser gigantesco e vagamente humanóide, com asas e tentáculos de polvo na boca. Chegou à terra milhões de anos antes do aparecimento do Homem e povoou-a com a sua raça de Deep Ones, seres humanóides anfíbios. Construiu a gigantesca cidade de R’lyeh algures onde é hoje o Oceano Pacífico. Daí comandou o seu império, até ao dia em que as estrelas atingiram um alinhamento que o obriga a entrar em letargia. Cthulhu dorme na sua cidade entretanto submersa por água, aguardando o dia em que a posição das estrelas lhe permita voltar à vida e de novo reinar sobre a Terra. Cthulhu é capaz de comunicar por sonhos enquanto dorme, influenciando alguns seres humanos mais sensíveis durante o sono. Diversos cultos tentam apressar o seu regresso, mas ele próprio não parece ter muita pressa. Especula-se que esta longa hibernação seja uma característica normal do seu estranho ciclo biológico.

Necronomicon

Constituindo uma verdadeira “Bíblia” dos Mitos, o Necronomicon foi originalmente escrito por Abd Al-Azrad, um árabe louco e visionário de cuja vida pouco se sabe, excepto que terá visitado alguns dos lugares mais desolados do globo terrestre. Escrito originalmente em árabe, o Necronomicon foi mais tarde traduzido para grego (onde ganhou o seu nome actual), latim e inglês. Na actualidade não existirão mais do que duas ou três cópias deste livro, supondo-se que uma delas se encontra no Museu Britânico. Revelando alguns dos mais terríveis segredos dos Mitos, a sua leitura provoca graves perdas de sanidade mental a quem o lê.

Arkham

“…The changeless, legend-haunted city of Arkham, with its clustering gambrel roofs that sway and sag over attics where witches hid from the King’s men in the dark olden days of province.”
H. P. Lovecraft

Trata-se de uma pequena cidade universitária perto de Boston, na Nova Inglaterra. Atravessada pelo rio Miskatonic, é nela que vivem muitos dos heróis das histórias de Lovecraft. Fundada por pioneiros ingleses da colonização do contiente americano, Arkham é assombrada pelas memórias do tempo das bruxas e dos ritos sombrios. Alguns dos sotãos desta cidade ocultam ainda hoje segredos terríveis.

Yuggoth

Ainda antes da descoberta oficial de Plutão, o último planeta do Sistema Solar, já Lovecraft escrevia sobre Yuggoth, um pequeno planeta sólido com a sua órbita exterior à de Neptuno. Yuggoth é a terra natal de uma raça de criaturas terríveis, os Fungos de Yuggoth, que são seres insectóides da dimensão de um homem com a capacidade de voar através do vácuo inter-planetário, e donos de uma tecnologia incrivelmente avançada. Os Fungos de Yuggoth vagueiam por todo o Sistema Solar, incluindo a Terra, com propósitos desconhecidos.

Existe bastante polémica sobre se os Mitos de Cthulhu podem ser considerados uma verdadeira mitologia, ou mesmo uma pseudo-mitologia. Tendo todas as características de uma qualquer outra mitologia, desde um panteão de Deuses a um conjunto de lendas (os contos de Lovecraft e outros), foram criados de uma forma perfeitamente artificial e intencional por um conjunto restrito de escritores. Não tiveram a sua génese nas tradições e crenças de uma civilização, como seria normal numa mitologia.

August Derleth, autêntico embaixador da obra de Lovecraft e defensor da ideia de considerar os Mitos de Cthulhu uma mitologia, tentou de certa forma a sua sistematização. Procurou determinar que contos de Lovecraft e outros pertenciam aos Mitos, e esclarecer aspectos focados de uma forma vaga e imprecisa nessas histórias. Chegou a pretender associar algumas entidades dos Mitos com os quatro elementos naturais: ar, água, terra e fogo.

Lin Carter, no seu ensaio “Deamon-Dreaded Lore”, considera que este tipo de sistematização é negativa na medida em que faz desaparecer o factor que considera mais importante nas histórias de Lovecraft: o medo do desconhecido e do incompreensível. Na sua opinião Lovecraft descreve de forma vaga muitos aspectos dos Mitos propositadamente, para criar uma aura de mistério e tensão. Os contos de Lovecraft abordam frequentemente o confronto de seres humanos com realidades e desígnios totalmente alienígenas, e que não para eles compreensíveis.

De forma um pouco marginal ao núcleo central do seu trabalho, e sob a influência de Lord Dunsany, Lovecraft escreveu algumas histórias oníricas, passadas numa dimensão de sonhos, as Dreamlands. A história central deste ciclo é “The Dream-Quest of the Unknown Kadath” e narra as aventuras de Randolph Carter, um homem que quando sonha se vê transportado para um outro plano de existência, semelhante a uma terra medieval povoada de criaturas fantásticas. As Dreamlands são aparentemente um lugar de paz e tranquilidade, habitado por criaturas próprias do imaginário infantil. Este sonho pode por vezes transformar-se em pesadelo, dando lugar aos mais horríveis monstros e criaturas. Embora de uma forma algo dispersa, Lovecraft estabelece algumas relações entre estas Dreamlands e o corpo central dos Mitos.

Existem alguns paralelismos que podem ser traçados entre a vida de Lovecraft e alguns aspectos dos Mitos. Desde muito pequeno que Lovecraft gostava de ler as “Mil e Uma Noites”, fascinando-o especialmente um personagem árabe misterioso. A analogia com o Necronomicon e Abd Al-Azrad é inevitável. A sua repulsa por peixe e comida marinha faz lembrar “The Shadow Over Innsmouth”, onde a decadente população da cidade pesqueira de Innsmouth tem estranhas relações com os Deep Ones, anfíbios humanóides que imitem um repugnante odor a peixe. Lovecraft é atormentado por sonhos desde pequeno, e a sua mais famosa criação, Cthulhu, tem a capacidade de influenciar os sonhos dos humanos. Além disto temos ainda um ciclo inteiro de histórias dedicadas às suas terras de sonhos, as Dreamlands. Os pais de Lovecraft morreram ambos internados no mesmo sanatório, e também as suas personagens sofrem vulgarmente de perturbações mentais, muitas vezes resultante dos seus contactos com os Mitos. Por fim, alguns atribuem a sua obsessão por raças alienígenas terríveis a uma acentuada xenofobia, defeito comum na época e local em que vivia. Tudo isto obviamente é discutível, e não passa de especulação…

O Círculo de Lovecraft

“Slumber, watcher, till the spheres,
Six and twenty thousand years
Have revolv’d, and I return
To the spot where now I burn.
Other stars anon shall rise
To the axis of the skies;
Stars that soothe and stars that bless
With a sweet forgetfulness:
Only when my round is o’er
Shall the past disturb thy door.”
-Polaris

H. P. Lovecraft

O trabalho de Lovecraft atraiu um grupo considerável de escritores, que se começaram a corresponder com ele e entre si. Nascia o Lovecraft Circle, “fundado” pelo próprio Lovecraft e dois escritores consagrados: Clark Ashton Smith e Robert E. Howard (criador de Conan – o Bárbaro). Jovens e talentosos escritores como August Derleth, Frank Belknap e Robert Bloch (que viria a escrever mais tarde o conto que inspirou o filme “Psycho”) juntam-se também ao círculo, e todos contribuem com o seu trabalho para enriquecer os Mitos de Cthulhu.

Os vários autores dos Mitos seguiam um acordo tácito de criar nas suas histórias um ou dois Deuses Exteriores, um Great Old One, um tomo arcano e uma cidade assombrada por cultos obscuros e lendas sombrias. Com pequenas variações, os diversos elementos do Círculo cumpriam as “regras do jogo” ao escrever para os Mitos de Cthulhu. A título de exemplo segue-se uma tabela com informação de alguns livros dos Mitos e o seu criador (assim como o seu autor imaginário).

Era muito frequente os membros do Circulo “brincarem” uns com os outros colocando referências a outros autores dos mitos de uma forma mais ou menos explícita nas suas histórias. Em 1935 Robert Bloch pediu autorização a Lovecraft para o utilizar como personagem principal num conto. Lovecraft concorda e Bloch torna-o o herói em “The Shambler >From the Stars”, matando-o no fim da história às mãos de um monstro alienígena. Lovecraft obtém a sua vingança “matando” Robert Blake, um alter-ego de Bloch em “The Haunter of The Dark”. O autor do tomo “Cultes des Goules” imaginado por Bloch, Comte D’Erlette, é uma alusão clara a August Derleth. O nome Klarkash-Ton, de alto-sacerdote da Atlântida num conto de Lovecraft, constitui uma paródia a Clark Ashton Smith. Vários outros exemplos poderiam ser citados…

Edmund Wilson criticou e ridicularizou mesmo Lovecraft por este usar muita adjectivação na sua escrita. Era considerado que um bom conto de ficção não deveria socorrer-se de muita adjectivação, mas que os próprios acontecimentos e descrições é que deviam sugestionar o leitor. Se uma visão é horrível, o próprio leitor deveria aperceber-se disso, nunca deveria explicitamente ser dito: “a visão é horrível”. O que é facto é que tanto Lovecraft como diversos dos seus seguidores mantiveram sempre o uso de adjectivação muito rica, o que se tornou uma característica distintiva dos contos dos Mitos. Em sua defesa Robert Price considera que estes adjectivos podem ter um efeito quase hipnótico no leitor, despertando a sua própria noção dos conceitos que encerram e inflamando a sua imaginação.

A morte de Lovecraft constituiu um choque para os elementos do Círculo, assim como uma surpresa, visto que este não lhes tinha dado qualquer indicação na sua correspondência de que estivesse doente. Este acontecimento causou uma quebra temporária no trabalho relacionado com os Mitos. Citando Robert Block, “o jogo tinha perdido toda a piada”. Nos anos 40 e 50, Robert Block, James Wade e August Derleth continuaram a escrever histórias dos Mitos. Em 1964 Ramsey Campbell, um jovem escritor britânico, dá a sua contribuição com o apoio de Derleth.Em 1971 ainda outro britânico, Brian Lumley, junta-se ao grupo. O Círculo de Lovecraft não morrera verdadeiramente com Lovecraft, subsistindo de uma forma dispersa até aos dias de hoje.

Lovecraft na Actualidade

“That is not dead which can eternal lie,
And with strange aeons death may die.”

-Necronomicon

Muitos escritores de ficção e terror da actualidade sofrem a influência de Lovecraft, como assume o conhecido autor Stephen King. Sendo hoje considerado um marco da literatura norte-americana, Lovecraft não conheceu qualquer sucesso no seu tempo de vida, e muito pouco nos anos seguintes. August Derleth esforçou-se até muito tempo depois da sua morte por divulgar a sua obra, com algum êxito. Não foi no entanto pela via literária que alcançou a notoriedade de que goza hoje em dia.

No início dos anos 80 apareceu um jogo de personagem (no estilo de Dungeons&Dragons), criado por Sandy Peterson e intitulado “Call of Cthulhu”. Indo buscar o nome a um dos contos mais famosos de Lovecraft, Call of Cthulhu obteve grande popularidade nos Estados Unidos, e mais tarde na França, na Inglaterra e em outros países da Europa. Este estilo de jogo, que é praticamente desconhecido em Portugal, goza de grande popularidade nos Estados Unidos.

Nas décadas de 50 e 60 foram feitas algumas versões cinematográficas de contos de Lovecraft, como “The Strange Case of Charles Dexter Ward” e “Herbert West – The Reanimator”. Não existe, no entanto, nenhuma adaptação mais recente, exceptuando eventualmente o filme “At the Mouth of Madness”. Este filme inspira-se claramente no trabalho de Lovecraft, sendo até a semelhança do seu título com “At the Mountains of Madness” disto indicadora, mas não assume essa influência.

Mais recentemente surgiram alguns jogos de computadores baseados nos Mitos de Cthulhu, como “Alone In The Dark”, “Shadow of the Comet” e “Prisioner of Ice”. Apareceu até um jogo de cartas intitulado “Mythos”. A empresa de entretenimento “Chaosium” está envolvida em quase todas estas iniciativas, incluindo o já mencionado Call of Cthulhu.

Existem três traduções de trabalhos de Lovecraft para português: “O Caso de Charles Dexter Ward” – “The Strange Case of Charles Dexter Ward”, “Nas Montanhas da Loucura” – “At the Mountains of Madness” e “Os Demónios de Randolph Carter”. Esta última é uma compilação de várias histórias do ciclo das Dreamlands, nomeadamente “The Quest for the Unknown Kadath”. Aconselha-se no entanto a leitura das versões em inglês, uma vez que como é normal, as traduções limitam bastante a riqueza inicial dos textos.

Bibliografia

Lovecraft, H. P., “At the Mountains of Madness”, Harper Collins, 1994

Lovecraft, H. P., “Dagon and Other Macabre Tales”, Harper Collins, 1994

Lovecraft, H. P., “The Haunter of the Dark and Other Tales”, Harper Collins, 1994

Petersen, S. e Willis, L., “Call of Cthulhu – horror roleplaying in the worlds of H. P. Lovecraft”, Chaosium, 1995

Bloch, R., “Mysteris of the Worm”, Chaosium, 1995

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/howard-phillips-lovecraf-e-os-mitos-de-cthulhu/

Katarsis e Miasmas

miasma

Miasma significa poluição, mas não no sentido que hoje lhe damos. Miasma é toda a sujidade associada ao mundano, a sujidade que este gera: quando corremos e transpiramos estamos a criar miasma, quando sangramos temos miasma, se caímos numa poça de lama geramos miasma.

Mas o miasma não se limita à sujidade física, incluindo também a sujidade espiritual, ética e mental. Assim, quando matamos algo de forma injusta criamos miasma, se ofendemos alguém também é miasma, se cometemos um crime aos Deuses fizemos miasma, os próprios pensamentos geram miasma.

Em suma, o miasma resulta da actividade humana. Situações especiais que geram miasma são o contacto com a morte, quer sejamos nós a matar ou morra alguém próximo de nós, um familiar ou amigo, e o sexo e nascimento. De realçar que nem o nascimento nem o sexo são considerados menos sagrados, mas quando acontecem as pessoas envolvidas ficam fisicamente sujas, pelo que é necessário um banho.

No caso do nascimento e da morte são também efectuados rituais especiais porque ambos representam as duas transições mais importantes da vida e, como tal, podem comportar forças que geram poluição.

De referir ainda que o miasma e as actividades que o geram não são consideradas negativas, profanas ou más, antes pelo contrário, há Deuses que estão directamente envolvidos nelas e muitos participam nelas e tanto o nascimento como a morte são simultaneamente as maiores geradoras de miasma e duas das coisas consideradas mais sagradas. O que se passa é que ir limpo a um ritual é uma espécie de etiqueta e os Deuses podem ficar ofendidos se desrespeitamos a etiqueta, porque isto mostra que os desrespeitamos a eles.

Finalmente, para as mulheres, a gravidez e a menstruação não são consideradas miasma, pelo que não há qualquer restrição nessas alturas – apenas se deve realizar a katarsis normal, incluindo um banho para remover a sujidade física que se acentua nessas ocasiões se não forem tomadas precauções.

Katarsis são todas as acções rituais que realizamos para nos livrarmos do miasma, quer seja porque vamos a um templo ou ritual e, portanto, não queremos desrespeitar os Deuses, quer porque apanhámos uma dose muito grande e queremos livrar-nos dela. Por vezes o miasma que temos é tão grande que é transmitido a outras pessoas, como acontece com os assassinos, e, por isso, devem realizar-se rituais para nos livrarmos dele.

Mas a katarsis não é apenas uma forma de remover a sujidade, ela também prepara a nossa mente e o nosso espírito, para além do corpo e do espaço, para um ritual, focando os nossos pensamentos e distinguindo a situação ritual de outras.

Ir a um ritual sem katarsis é um enorme desrespeito: seria como ir a um casamento sujo, ou a uma reunião de escritório com calções de banho e bikini. Tanto a sujidade como os calções de banho e o bikini não são negativos em si – é a sua presença em determinado contexto que os torna negativos, que os torna miasma. Realizarmos a katarsis, nestes exemplos, seria tomar banho e vestir roupas lavadas para o casamento e vestir algo formal para a reunião.

Por outro lado, se um dos noivo nos encontrar no dia a dia e nós formos mecânicos não se ofenderá da sujidade, do mesmo modo que um chefe que encontre o subordinado na praia não tomará por ofensa ele estar com fato de banho: até é provável que ele mesmo esteja.

Também os Deuses não se ofendem se no dia a dia os contactarmos com preces ou devoções espontâneas e tivermos miasma, mas em rituais a situação é mais distinta pelo que devem ser tomadas precauções.

Antes do Ritual

Limpeza da Pessoa

Antes de ir para o ritual devem-se efectuar acções específicas para se purificar a si mesmo, numa espécie de transição do mundano para o ritual. A principal acção é o banho, a limpeza física da pessoa através da água e, no caso moderno, dos sabonetes, champôs, géis de banho, perfumes, etc. Para festivais e grandes rituais é sempre necessário que a pessoa se arranje, tomando banho e perfumando-se e também vestindo roupas limpas ou especiais. Para devoções mais pequenas convém sempre lavar as mãos e a cara e os dentes, enquanto que para simples preces no momento não é necessário tomar qualquer destas atitudes.

Relativamente às roupas, estas podem ser especiais para nós, quer sejam roupas que só usamos em ocasiões especiais, ou mesmo exclusivas para os rituais, quer sejam gregas, latinas, ou modernas. Roupas normais também servem, desde que nos esmeremos para causar “boa impressão” é suficiente. O único requisito é que, tal como a pessoa, as roupas sejam limpas: não serve a roupa com que andámos no dia anterior, por exemplo.

Actualmente muitos helenistas gostam de acrescentar outras formas de preparação para o ritual que não eram praticadas na antiguidade, mas que preparam melhor a mente e acalmam o espírito, permitindo que nos foquemos apenas no ritual e nos Deuses. Refiro-me, é claro, a meditações. Estas são inteiramente opcionais, mas na minha opinião acrescentam muito valor e profundidade a um ritual.

Na antiguidade existiam muitas formas de katarsis, incluindo o jejum, total ou parcial, purificação pelo sangue, purificação pelo fogo, banhos no mar ou rios, purificação pelos cereais, entre outras, quer realizadas antes quer depois do ritual, mas não vou referir-me a elas mais neste artigo.

Limpeza do Espaço

A limpeza do espaço antes do ritual era efectuada pelo neokoros que mantinha o templo sempre limpo, literalmente, varrendo-o e esfregando-o. Antes de um grande ritual a divisão deve sempre ser meticulosamente limpa, mas para rituais normais basta a limpeza normal, não é preciso que a divisão esteja “um brinco”. Para além disso, existem técnicas de limpeza rituais, hoje praticadas pela pessoa que efectuará o ritual.

Várias horas antes efectua-se a fumigação com enxofre. Esta consiste em queimar enxofre e deixar que este encha o ar, purificando-o. Pode ser feita uma prece a Apolo, Deus da purificação. Pessoalmente, quase nunca uso enxofre porque os meus rituais são de manhã e não dá tempo para que o cheiro do enxofre desapareça completamente, isto para além de os fumos serem tóxicos e se entranharem, especialmente em sofás ou camas. Eu prefiro usar o incenso, deixando o quarto completamente às escuras com vários paus de incenso acesos para que o encham completamente, abandonando-o depois das acções rituais para que fique numa espécie de incubação, que é o método porque Apolo mais se manifesta. O quarto permanece assim, completamente fechado, sem que nada nem ninguém lá entre antes do ritual, e a luz só volta aquando do ritual, nomeadamente da segunda acção purificante antes do ritual, para que se possa ver o que se faz, quer seja através de luz solar, de lâmpadas ou de velas.

Antes dos convidados chegarem, ou antes de entrar no quarto com as oferendas para fazer o ritual, a pessoa entra carregando consigo o khernips, uma taça com água. Então acende-se a chama sagrada e prepara-se o khernips, tornando a água sagrada. As formas de o fazer são muito variadas, pois não se conhece a forma usada na antiguidade, e não estão no propósito deste artigo. Após acender a chama e se preparar o khernips, coloca-se este à entrada para que todos os participantes se limpem antes de entrar.

Em rituais solitários costumo sair com o khernips, após o ter usado para me limpar a mim e ao espaço ritual, em sentido oposto ao do ponteiro dos relógios, e salpico todas as oferendas, deixando depois o khernips fora do quarto e entrando com as oferendas. No caso de rituais colectivos é normal que o khernips seja salpicado sobre os outros pela pessoa que o preparou e também sobre as oferendas, sendo depois novamente depositado fora do local do ritual, já que absorveu todas as impurezas e miasma e convém que esteja fora do espaço e das pessoas agora sagrados.

Durante o Ritual

Limpeza da Pessoa

A limpeza da pessoa durante o ritual propriamente dita é efectuada por ela mesma antes de entrar no espaço sagrado e pelo sacerdote, que a salpica novamente com khernips. Depois a pessoa é que se deve esforçar por manter os pensamentos centrados no ritual e por dar o melhor de si.

Limpeza do Espaço

Quando as pessoas entram no espaço sagrado, percorrem-no no sentido oposto ao ponteiro dos relógios, às vezes sob a forma de uma dança, que demarca claramente o espaço sagrado. Depois dá-se a oferta inicial de grão, em que cada pessoa tira um pouco de grão do cesto onde a faca sacrificial se encontra escondida, e segurando o grão todos o atiram para o chão, ficando em completo silêncio. O efeito é demarcar claramente o começo do sagrado e é fantástico, principalmente se foi antecedido por música e depois só se ouve o salpicar dos grãos que gradualmente é substituído por silêncio.

Então, o ritual propriamente dito começa.

Depois do Ritual

Quando o ritual acaba o espaço fica cheio de grão no chão e com as ofertas. Caso seja numa floresta deixa-se a área e o ritual está concluído. Mas quando o ritual se dá em espaços do interior convém que o espaço seja limpo, algumas horas depois, para que os Deuses possam apreciar totalmente as ofertas antes de as retirarmos. As ofertas perecíveis e libações são deixadas numa floresta ou parque, sendo as ofertas enterradas. Quando não há hipótese de o fazer podem ser simplesmente deitadas fora, mas embrulhadas num saco em separado.

Outras ofertas podem ficar no local por mais tempo, como por exemplo flores, estátuas, jóias, entre outras.

Lista

E aqui fica uma pequena lista para verificar antes do ritual:

– Fumigação do Espaço

– Ocasião especial (morte e nascimento) = purificação especial (jejum, ritual, entre outros)

– Banho e roupas novas/especiais

– Outras formas de preparação: meditação

– Khernips e Chama Sagrada

– Circumbalação

– Purificação por cereais e silêncio

Está em Português de Portugal, mas é muito bom. Espero que não tenham problemas em entender.

#Rituais

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/katarsis-e-miasmas

A Preparação do Óleo de Antimónio

Rubellus Petrinus

No livro “Le Char Triomphal de l’Antimoine“, Retz, Paris, Basílio Valentim, descreve diversas preparações do antimónio e, entre elas, a do óleo de antimónio com vista à preparação da Pedra de Fogo.

A primeira operação para extrair o óleo de antimónio é pulverizar num pilão metálico de bronze ou de ferro, pelo menos um a dois quilos de estibina de boa qualidade que tenha uma grande percentagem de mineral.

Depois de reduzida a pó fino, passá-la por uma peneira de 60 linhas por cm. Deitar o mineral reduzido a pó fino num recipiente de vidro Pyrex e colocá-lo por cima de um fogão a gás de boca larga em banho de areia para o calcinar. Esta calcinação destina-se a remover o enxofre químico do antimónio e deverá ser feita com muita prudência com um grau de fogo adequado, mexendo frequentemente com uma colher de aço inoxidável com cabo longo como podereis na imagem. Se não mexerdes a matéria frequentemente formar-se-ão aglomerados do mineral com enxofre que tereis de moer novamente e voltar a calcinar.

Depois de bem calcinado o antimónio terá uma cor castanho claro e deixará de emanar o cheiro característico do enxofre químico. É uma operação demorada que requer muita paciência para ficar bem feita. Esta calcinação é a base de todo o trabalho, por isso, não tenhais pressa em executá-la.

Seguidamente, com este antimónio em pó bem calcinado como a Arte demanda procedereis à preparação do vidro de antimónio. Basílio Valentim nos textos antecedentes, indica que se deverá juntar ao pó de antimónio calcinado bórax.

Nós nunca o fizemos por este processo e utilizámos apenas o antimónio sem adição como ele refere no texto seguinte. Vimo-lo fazer na Filiação Solazaref e fizemo-lo nós também por diversas vezes em Portugal.

Deitar num bom cadinho de tamanho médio o antimónio devidamente calcinado até enchê-lo e depois colocar a tampa no cadinho. Colocá-lo num forno a gás por cima de um ladrilho refractário fazendo incidir a chama do maçarico no centro do cadinho.

De vez em quando, com uma tenaz, retirar a tampa do cadinho e verificar se o antimónio está fundindo. Quando estiver completamente fundido, com uma tenaz apropriada retirar a tampa e segurar o cadinho pelo meio retirando-o do forno.

 

Vazar cautelosamente o seu conteúdo por cima de uma chapa de cobre ou de uma pedra mármore. Depois de arrefecer, o vidro soltar-se-á facilmente da chapa de cobre ou da pedra mármore em placas as quais partireis em pequenos pedaços que guardareis num frasco de vidro de boca larga.

A cor do verdadeiro vidro de antimónio canónico feito sem adição de bórax é castanho avermelhado com pequenas manchas escuras como podereis observar na imagem. Colocando uma destas placas em frente de uma fonte de luz intensa como a do Sol é vermelho vivo por transparência.

Para fazer o óleo de antimónio é necessário moer o vidro num pilão de bronze ou de ferro tendo a precaução de colocar na face uma máscara apropriada para evitar respirar o pó fino que emana do pilão. Depois de moído é necessário passá-lo por uma peneira fina de pelo menos 60 linhas por cm.

Vejamos, agora, o que Basílio Valentim, nos diz na pg. 170, Capítulo VII, Da Maneira de Fazer o Óleo de Antimónio:

«Tomai do vidro de antimónio feito sem adição tanto quanto vos aprouvera; pulverizai-o subtilmente extraí-lhe a tintura com vinagre destilado e depois que tenhais tirado o vinagre e dulcificado o seu resíduo que é um extracto da tintura, com bom espírito de vinho e que tenhais extraído pela segunda vez, fechá-lo-eis bem num pelicano e fá-lo-eis circular durante um mês (quer dizer esta última extracção pelo espírito de vinho), depois desse tempo destilareis pura e simplesmente sem qualquer adição. E por esta simples destilação tereis um medicamento doce, agradável e admirável em forma de um belo óleo claro e vermelho com o qual se prepara a Pedra de Fogo. Este óleo é a verdadeira e melhor quintessência de antimónio que se pode obter, assim como eu já declarei no meu tratado anterior onde já fiz menção que havia quatro espécies de preparação ou de instrumentos para preparar a dita essência, e que a quinta preparação competia a Vulcano.»

Este texto descreve em linguagem espagírica própria da época como é preparado o óleo de antimónio a partir do seu vidro.

A primeira operação a executar é dissolver em “vinagre forte” (nós entendemos por vinagre forte o espírito de vinagre destilado do vinagre de vinho a 10º Baumé) o vidro de antimónio finamente moído. Esta operação apesar de parecer simples é necessário conhecer o “toque de mão” para a fazer eficientemente.

Para o efeito, devereis utilizar um circulador feito com um balão cónico ou esférico de 2 litros e outro de 500ml. como podereis ver na imagem em destaque no topo.

Deitar parte do vidro de antimónio finamente moído no balão e, por cima deste, o vinagre. Colocar o circulador num forno eléctrico à temperatura de cerca de 60ºC. Agitar circularmente o balão inferior para o pó de vidro se misturar bem com o espírito de vinagre.

Para facilitar a dissolução do vidro no espírito de vinagre agitar o circulador várias vezes ao dia. Quando a dissolução estiver bem saturada e de cor vermelha, agitar o balão inferior e retirai o superior. Deitar a dissolução num frasco de boca larga por meio de um funil com filtro. O pó de vidro não dissolvido ficará no filtro. Guardar o líquido tingido de vermelho num frasco de vidro escuro.

Retirar do filtro o pó de vidro e secá-lo à temperatura de 60ºC. numa cápsula de porcelana. Voltar a deitar este pó de vidro no circulador e, por cima, mais espírito de vinagre. Voltar a dissolver como antes para retirar toda a tintura do vidro.

Quando o vinagre não se tingir mais de cor vermelho intenso repetir a mesma operação mas não guardar o vinagre como antes se ele não tiver uma cor vermelha intensa. Neste caso retirar por filtragem o pó de vidro que separareis e adicionar-lhe outro pó de vidro recente.

Continuar com a mesma operação até retirar toda a tintura da vossa provisão de vidro de antimónio.

Seguidamente deitar toda a vossa provisão de vinagre tingido num alambique e destilar com fogo adequado à destilação do vinagre. Ter muita cautela quando a destilação se aproxima do fim. Retirar o caput do alambique com uma colher de madeira e secá-lo lentamente numa cápsula de porcelana entre 40-60ºC para lhe retirar toda a acrimónia.

Quando o pó que é um acetato estiver seco, colocá-lo num circulador (pelicano) e deitar por cima espírito de vinho soberanamente destilado a cerca de 98%. Deixar circular pelo menos um mês como o Mestre refere no texto.

Depois da circulação, o Mestre diz-nos: «…depois desse tempo destilareis pura e simplesmente sem qualquer adição. E por esta simples destilação tereis um medicamento doce, agradável e admirável em forma de um belo óleo claro e vermelho com o qual se prepara a Pedra de Fogo.»

Basílio Valentim não é bem explícito nesta parte do texto e dá-nos a entender que depois desta última destilação, já no final, sairá pelo bico do alambique “um medicamento doce e agradável”.

A tintura do antimónio mesmo depois de circulada com o espírito de vinho é tóxica e só perderá esta toxidade se passar pelo bico do alambique.

Infelizmente, por motivos alheios à nossa vontade, não pudemos fazer esta última destilação e, por isso, não vos poderemos confirmar o resultado final desta operação. Fá-la-emos quando tenhamos condições de preparar o vidro de antimónio necessário o que implica termos condições para trabalhar na via seca.

No entanto, aqui ficam descritas as principais operações que fizemos bem como o respectivo modus operandi com as imagens para aqueles que tiverem condições laboratoriais para o fazer.

Deitar parte do vidro de antimónio finamente moído no balão e, por cima deste, o vinagre. Colocar o circulador num forno eléctrico à temperatura de cerca de 60ºC. Agitar circularmente o balão inferior para o pó de vidro se misturar bem com o espírito de vinagre.

Para facilitar a dissolução do vidro no espírito de vinagre agitar o circulador várias vezes ao dia. Quando a dissolução estiver bem saturada e de cor vermelha, agitar o balão inferior e retirai o superior. Deitar a dissolução num frasco de boca larga por meio de um funil com filtro. O pó de vidro não dissolvido ficará no filtro. Guardar o líquido tingido de vermelho num frasco de vidro escuro.

Retirar do filtro o pó de vidro e secá-lo à temperatura de 60ºC. numa cápsula de porcelana. Voltar a deitar este pó de vidro no circulador e, por cima, mais espírito de vinagre. Voltar a dissolver como antes para retirar toda a tintura do vidro.

Quando o vinagre não se tingir mais de cor vermelho intenso repetir a mesma operação mas não guardar o vinagre como antes se ele não tiver uma cor vermelha intensa. Neste caso retirar por filtragem o pó de vidro que separareis e adicionar-lhe outro pó de vidro recente.

Continuar com a mesma operação até retirar toda a tintura da vossa provisão de vidro de antimónio.

Seguidamente deitar toda a vossa provisão de vinagre tingido num alambique e destilar com fogo adequado à destilação do vinagre. Ter muita cautela quando a destilação se aproxima do fim. Retirar o caput do alambique com uma colher de madeira e secá-lo lentamente numa cápsula de porcelana entre 40-60ºC para lhe retirar toda a acrimónia.

Quando o pó que é um acetato estiver seco, colocá-lo num circulador (pelicano) e deitar por cima espírito de vinho soberanamente destilado a cerca de 98%. Deixar circular pelo menos um mês como o Mestre refere no texto.

Depois da circulação, o Mestre diz-nos: «…depois desse tempo destilareis pura e simplesmente sem qualquer adição. E por esta simples destilação tereis um medicamento doce, agradável e admirável em forma de um belo óleo claro e vermelho com o qual se prepara a Pedra de Fogo.»

Basílio Valentim não é bem explícito nesta parte do texto e dá-nos a entender que depois desta última destilação, já no final, sairá pelo bico do alambique “um medicamento doce e agradável”.

A tintura do antimónio mesmo depois de circulada com o espírito de vinho é tóxica e só perderá esta toxidade se passar pelo bico do alambique.

Infelizmente, por motivos alheios à nossa vontade, não pudemos fazer esta última destilação e, por isso, não vos poderemos confirmar o resultado final desta operação. Fá-la-emos quando tenhamos condições de preparar o vidro de antimónio necessário o que implica termos condições para trabalhar na via seca.

No entanto, aqui ficam descritas as principais operações que fizemos bem como o respectivo modus operandi com as imagens para aqueles que tiverem condições laboratoriais para o fazer.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-preparacao-do-oleo-de-antimonio/

Cursos de Hermetismo do final de Ano

Cursos intermediários/avançados de Hermetismo (São Paulo).

15/11 – Runas e Magia Rúnica

16/11 – 72 Nomes de Deus

17/11 – Magia Prática

Informações e inscrições: marcelo@daemon.com.br

Cursos de Hermetismo em Lisboa/Portugal.

23/11 – Kabbalah

24/11 – Qlipoth, a Árvore da Morte

30/11 – Tarot (Arcanos Maiores)

01/12 – Tarot (Arcanos Menores)

Informações e inscrições: cptarot@gmail.com

Em Dezembro (São Paulo)

14/12 – Tarot (Arcanos Maiores)

15/12 – Tarot (Arcanos Menores)

Informações e inscrições: marcelo@daemon.com.br

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/cursos-de-hermetismo-do-final-de-ano

As Origens do Tarô

Tudo começou com o livro Tarô dos Boêmios (Paris, 1889) que seguramente é o primeiro na história do Tarot a abordar os arcanos, tanto sob a ótica da metafísica cabalística quanto dos jogos adivinhatórios numa única obra, pois os outros autores de sua época ou se reportavam a um ou a outro. O livro em questão foi escrito pelo médico espanhol, radicado na França, Gérard Anaclet Vincent Encausse (1865-1917), conhecido como Papus. Encontrei, com suas próprias palavras, toda sua vaidade e arrogância espiritual explicitada nas páginas 273/275 e depois no final da 309 da edição brasileira. Resumindo o conteúdo: Papus dizia que as mulheres eram todas burras o suficiente para não entenderem sua obra cheia de números, letras hebraicas e deduções abstratas, que pertencia aos homens da ciência, mas como era tradição delas jogarem cartas, ele escreveria algumas páginas para não se aborrecerem; esclarece às ignorantes leitoras que o homem tem a razão e a mulher a intuição. Pensei – Homens não jogavam cartas!? Por que ele exultou a cabala e desdenhou a cartomancia?

Tal fato foi uma luz no fim do túnel para começar o que desejava: entender um pouco do passado do Tarot. Como um detetive segui os passos de Papus para entender seu chovenismo; observei a bibliografia do Tarot dos Boêmios e percebi que de consistente e lógico sobre o estudo das cartas de Tarot, ele citava os autores de sua época até, no máximo, um século antes, precisamente, até 1775 sobre as idéias de Antoine Court de Gebelin. Comecei a ler algumas obras possíveis: Etteila (1787), Claude de Saint Martin (1790), Saint Yves d’Alveydre (1830), J.A.Vaillant (1850), Eliphas Lévi (1854), Estanislau Guaita (1886), Mac Gregor Mathers (1888), Piobb (1890), mas não cheguei a lugar nenhum porque observei que todos citavam uns aos outros e todos tinham como ponto de apoio Gebelin e Lévi. Até ai nenhuma novidade, pois todos os estudantes de Tarot já ouviram falar que eles escreveram uma vasta literatura sobre as origens do Tarot. Bem, então o melhor era começar pelo mais antigo.

Ao pesquisar Antoine Court de Gebelin (1725-1784) fiquei estarrecido com a descoberta que foi negligenciada, não sei se proposital, por ingenuidade ou falta de maiores informações dos ditos mestres ocultistas do século 19. Gebelin era filho do famoso pastor evangélico francês Antonie Court (1695-1760) que restaurou a Igreja reformada na França, fundou um importante seminário para a formação de pastores evangélicos, sendo um grande historiador de sua época. Gebelin seguiu os passos do pai, tornando-se um pastor e mais tarde, também influenciado pelo pai, interessou-se por mitologia, história e lingüística. Embora alguns livros o citem como ocultista, talvez, devido a sua obra sobre o Tarot, em sua biografia não encontrei qualquer referência a este respeito; em todo caso é mister esclarecer que ele não teve uma vida dedicada ao esoterismo. Tinha uma obsessão junto com o pai: descobrirem a língua primeva que dera origem a todas as outras e/ou explicaria as várias mitologias conhecidas; também acreditavam que esta língua seriam símbolos, talvez os hieróglifos egípcios.

Certo dia, como ele mesmo diz em sua obra (Le Mond Primitif…), inclusive citado no Tarot do Boêmios, página 231, foi convidado a conhecer um jogo de cartas que desconhecia e em menos de quinze minutos declarou ser um livro egípcio salvo das chamas, explicando, imediatamente, aos presentes, todas as alegorias das cartas. Escreveu, em sua obra, uma retórica do Tarot como sendo a chave dos símbolos da língua primeva e da mitologia; fez uma relação dos arcanos com as letras egípcias e hebraicas e, revelou que a tradução egípcia da palavra “tarot” é “tar” = caminho, estrada e “ot” = rei, real. Para tornar suas teorias pessoais mais contundentes, lançou mão de seu conhecimento em história, abordando a trajetória do Tarot (Tarot dos Boêmios, página 229 e 233), disse que ninguém antes dele desconfiou de sua ilustre origem porque as imagens eram muito comuns e por isso nenhum cientista dignou-se a estudá-las; também revelou que durante os primeiros séculos da Igreja os egípcios, que estavam muito próximos dos romanos (Era Copta, conversão absoluta do Egito ao Cristianismo – 313 a 631 d.C.), ensinaram-lhes o culto de Ísis e os jogos de cartas de seu cerimonial; assim, o jogo de Tarot ficou limitado à Itália e Alemanha (Santo Império Romano); posteriormente, chegou ao sul da França (Provença, Avignon, Marselha) e, ainda desconhecido, no norte (Paris, Lion).

A primeira vez que li sobre essa história, não atentei ao fato de que numa simples olhadela Gebelin descobre ser o Tarot um livro egípcio, que fora ensinado aos romanos pelos próprios egípcios e que ninguém antes dele sabia a respeito – se aceitarmos esta tese como verdadeira, como é possível os romanos (católicos) aprenderem uma devoção (culto de Ísis) considerada pagã aos moldes da época, passando de geração a geração durante mais de 1.500 anos (de 313 a 1775), incólume pela própria Santa Inquisição (1230/1834), sendo disseminada nas regiões que ele cita e absolutamente ninguém escreve ou fala nada a respeito de sua origem egípcia? Então, onde estaria a tradição egípcia do Tarot tão exultada pelos seus conterrâneos posteriores? No período por ele citado, a Itália teve renomados ocultistas, alquimistas, astrólogos, magistas, historiadores, filósofos, arqueólogos, enciclopedistas, todos formadores de opinião e de grande saber – o hermetismo, a gnose e a cabala eram amplamente disseminados -, e Gebelin chama-os de incapazes de observar o que ele, em sua enorme sapiência evangélica, descobriu literalmente em quinze minutos! Observe que Gebelin NÃO descobriu tal fato (a origem egípcia do Tarot) em algum livro perdido no tempo, em algum documento antigo, em alguma ordem esotérica ou revelado por alguma entidade espiritual! Então, tudo o que falamos a respeito da origem egípcia do Tarot surgiu numa simples visita a uma cartomante, numa tarde de sábado, que nem ela e nem a Europa sabiam nada a respeito? Eu me questionava.

Gebelin ficou rico e famoso com suas obras e, a partir de então, o Tarot se tornou uma febre parisiense, todos queriam aprender o jogo egípcio; as ciganas que eram considerados, na época, de origem egípcia, embarcaram na onda e começaram a ler cartas! Ele publicou um Tarot junto com sua obra, mas não se tem notícias de que tenha jogado ou ensinado, pois não se preocupou com jogos ou métodos em seu livro, somente com o Tarot enquanto revelação da escrita egípcia e com os símbolos das cartas como sendo a chave da mitologia. Bem, Gebelin sempre fora uma pessoa respeitada muito antes de falar sobre as origens do Tarot, era filho de um famoso pastor evangélico, historiador reconhecido e amigo pessoal de Benjamim Franklin (!). Com certeza merecia créditos; eu daria, se vivesse naquela época. Tenho que esclarecer mais um fato: Gebelin não escreveu Le Mond Primitif… para o ocultismo, foi em função de sua vaidade em buscar a mesma fama de seu pai que toda a sua obra é voltada em esclarecer a mitologia egípcia e romana e não propriamente o Tarot; embora os ocultistas o citem como tal depois de sua morte, ele era acima de tudo um evangélico! Suas obras e idéias percorreram o mundo da ciência, todos os arqueólogos queriam falar com ele, pois era uma febre francesa descobrir as chaves dos hieróglifos egípcios. Nenhum ocultista esteve com ele ou o citou em alguma obra até alguns anos após sua morte; somente uma pessoa que se tem notícia o procurou em vida para conversar sobre a origem egípcia e fins adivinhatórios: o francês Etteila, anagrama de seu verdadeiro nome Aliette.

Não encontrei muitas referências sobre a vida de Etteila, nome completo ou datas pessoais, além do que está exposto nas obras dos ocultistas do século 19; diziam que ele era um peruqueiro da corte francesa, professor de álgebra, amigo íntimo de Mlle Lenormand (famosa cartomante de Napoleão) e de Julia Orsini (outra famosa cartomante francesa) – não se tem notícias de que tivesse pertencido a alguma ordem ou fraternidade oculta; em todas as suas referências é tido como charlatão. Lévi e Papus revelam que ele se apropriou para benefício próprio das idéias da origem egípcia, da relação das letras hebraicas e egípcias feitas por Gebelin, criando seu próprio Tarot corrigido, compilando as obras de suas amigas, escrevendo onze livros. Instalou-se num dos mais luxuosos hotéis de Paris, Hotel de Crillon, e começou a atender e ensinar a nata parisiense! Voilá, cherry! Gebelin e Etteila devem ter falecido ricos e felizes; um sob a visão da fama científica e o outro do misticismo.

Vamos sair do contexto ocultista e voltar aos historiadores e arqueólogos que devem ter acreditado na figura respeitada, aos olhos parisienses, de Antoine Court de Gebelin, até que Jean-François Champollion (1790-1832) decifrasse os hieróglifos através da Pedra de Roseta. Champollion publicou em 1822 a relação legítima do alfabeto egípcio e seus fonemas; este trabalho lhe rendeu o disputado cargo de curador do departamento egípcio do Museu do Louvre, em Paris, em 1826. Após sua morte, foi publicado, em 1835, seu mais precioso trabalho onde revela toda a gramática e literatura egípcia jamais revelada em toda a história desde o seu desaparecimento na Era Copta. Descobre-se que tudo o que Gebelin escrevera a respeito do Tarot como língua primeva e codificação dos hieróglifos egípcios estava errado, em nada se sustentava perante as verdadeiras revelações da história do Egito – não existe a palavra tarot na língua egípcia (!), muito menos o que supostamente Gebelin disse ter traduzido (!); também, tudo o que ele decifrara de alguns hieróglifos estava absolutamente errado (!) – esta é a parte negligenciada pelos ocultistas, bem como a forma inconsistente da revelação de que precisou de quinze minutos para descobrir a própria origem das cartas de Tarot – Porque? Eu me perguntava frequentemente.

As respostas começaram a surgir quando reli as obras de Eliphas Lévi (1810-1875), pseudônimo de Alphonse Louis Constant, tido como padre por se instalar por algum tempo na ordem franciscana, em Paris, para ter acesso à vasta biblioteca sobre a cabala cristã, mas não era um padre oficializado na Igreja Católica Apostólica Romana, como se pressupõe – a roupa faz o monge, já diz o ditado popular. Um fato incontestável foi que Gebelin e Etteila mexeram com o imaginário popular e, consequentemente, dos esotéricos, pois fica muito claro nas obras de todos os ocultistas do final do século 18 e início do 19 que no âmbito tradicional do universo das ciências ocultas nunca se analisou ou questionou o Tarot – são palavras do próprio Gebelin e de todos posteriores a ele, sem exceção; este é sem dúvida um dos dados mais importantes a serem analisados no que tange à tão exultada expressão “tradição do Tarot”, pois tradição não é algo que se extingue e depois reparece.

Lévi, em seu primeiro livro (1854), Dogma e Ritual, páginas 405 a 421, e no segundo, História da Magia, páginas 76 e 242 a 252, execra as obras e a conduta de Etteila, contesta a origem egípcia de Gebelin e repudia a palavra tar=caminho e ot=real. Vai mais além, introduz o conceito de que Moisés escondeu nos símbolos do Tarot a verdadeira cabala e depois ensinou aos egípcios o jogo de carta; também, pela primeira vez, um ocultista, em toda a história da magia, faz uma acalentada tese de associações das letras hebraicas com os arcanos e diz que a palavra tarot é análoga a palavra sagrada IHVH ( h w h y ), sendo também uma variação das palavras Rota / Ot-tara / Hathor / Ator / Tora / Astaroth / Tika. Assim como no livro de Papus, numa segunda leitura, também encontrei críticas às mulheres na obra de Lévi, um pouco mais cruéis eu diria – desdenha Mlle Lenormand chamando-a de gorda, feia, ininteligível e louca, e duas outras cartomantes, Madame Bouche e Krudener, de prostitutas (coquetes ou Salomé à época) – História da Magia, paginas 346 e 347. Reparei que tanto Lévi quanto Papus condenavam as práticas femininas de cartomancia, achavam que elas usurpavam o poder do homem na ciência oculta… Indagava-me, por quê?

Bem, encontrei duas passagens em seu livro História da Magia, páginas 78 e 251, e uma no Dogma e Ritual, página 420, que me deixaram muito intrigado; pareceu-me que ele sabia da verdade sobre o passado do Tarot, mas não sei se foi por ingenuidade ou se proposital, preferiu não dar importância. Primeiro, ele diz que o Tarot mais antigo que se conhece é o Tarot de Gringonneur (1392) e que a Biblioteca Imperial tem uma vasta coleção de todas as épocas; segundo, ele contesta a origem dos ciganos revelada na obra de J.A.Vaillant – Les Rômes, historie vraie des vrais Bohémiens, 1853; a mesma obra que Papus faria sua apologia do Tarot mais tarde -; Vaillant diz que os ciganos eram egípcios e entraram na Europa no início do século 15, chegando à Paris em agosto de 1427; e Levi diz que ele estava errado pois os ciganos são originários da Índia, fato revelado historicamente à época. Temos três verdades absolutas: os ciganos são indianos, entraram no início do século 15, depois do surgimento do Tarot no fim do século 14. Surgem minhas questões: por que Lévi não questionou o porquê de tanto tempo sem que nenhum renomado ocultista falasse a respeito, visto que as cartas eram amplamente conhecidas? Por que Papus insistiu na idéia de que os ciganos eram egípcios, se já era de conhecimento publico sua origem indiana? Por que todos sustentaram a história egípcia de Gebelin, tanto na tradução da palavra Tarot quanto em sua origem, visto que, com a descoberta de Champollion, nada se descobriu em pergaminhos e papiros que as amparassem?

Antes de continuar é importante salientar que TODOS os conceitos que Lévi descreve sobre o Tarot NÃO são dele, pois Gebelin já havia feito a equiparação das letras hebraicas e o ocultista Claude de Saint Martin (1743-1803) publicou em 1792, na obra Table Natural du Rapports…, o restante que Lévi descreve para o Tarot; se você tiver paciência irá reparar em todos os escritos de Lévi que Saint Martin é constantemente citado. Outro dado impressionante, que também não havia percebido na primeira vez, é que absolutamente tudo o que Lévi e Papus escrevem sobre a cabala e os sistemas ritualísticos, podem ser encontrados nos seguintes livros da mesma época: Magus de Frances Barret (1801), A língua hebraica restituída de Fabre D`Olivet (1825) e A ciência cabalística de Lenan (1825). Vamos observar que da mesma forma que Gebelin, Lévi não se baseou em nenhum escrito antigo, lenda ou fraternidade oculta para estabelecer sua relação entre a cabala e o Tarot, foi a partir das idéias do próprio Gebelin e Saint Martin. Portanto, assim como Gebelin inventou a história egípcia, Lévi inventou a história hebraica, pois não há registros de nenhum ocultista – cabalista, magista, alquimista, gnóstico, hermetista – fraternidade ou ordem mística que tenha comentado, escrito ou usado o Tarot antes das obras deles. Para se entender o passado do Tarot ou o que escreveram sobre ele é mister observar os dados históricos; a crença e o misticismo pessoal, neste caso, somente levará à equívocos e discussões inúteis.

Contudo, verdade seja dita sobre as obras de Éliphas Lévi com relação aos textos de magia, cabala e filosofia: são perfeitos e maravilhosos; o que estou manifestando é a relação histórica do Tarot e a forma que entrou no ocultismo. A esta altura já tinha uma noção bem razoável que nem Gebelin e nem Lévi possuíam, ou seja, nada que sustentasse de forma verossímil o passado do Tarot como encontramos nas outras ciências: alquimia, hermetismo, astrologia, numerologia, i ching, magia, cabala. Está absolutamente claro o círculo vicioso de informações, um compilando do outro; talvez eles estivessem disputando quem seria o “pai da criança”. Mas tudo tem seu lado positivo, o interesse dos ocultistas pelo Tarot cresceu e, cada um ao seu modo contribuiu para a exploração inesgotável dos arcanos. Tudo é válido no âmbito de sua exploração simbólica, mas a consciência de seu surgimento é um passo importante para o seu futuro.

Eliphas Levi, por ter uma linguagem metafísica muito eloqüente e por sua dissertação dos conceitos cabalísticos em associação ao Tarot, chamou a atenção dos ocultistas ingleses, principalmente, Mac Gregor Mathers (1854-1918). Mac Gregor adota o sistema cabalístico de Lévi, mas faz correções segundo seu entendimento pessoal para aplicar, pela primeira vez na história da magia, o Tarot como forma de meditação e monografia para atingir os degraus de uma ordem esotérica: a Golden Dawn, 1888; esta fraternidade mudaria por completo a visão do Tarot no mundo (!) através de seus dissidentes no início do século 20 – Arthur Waite, Carl Zain, Israel Regardie, Aliester Crowley. No mesmo ano da fundação dessa ordem, ele lança um livro, The Tarot, its occult signification, com base no trabalho de Lévi, Guaita, Etteila, Gebelin, acrescentando correções que achou necessárias sobre a relação da cabala com o Tarot.

Voltemos a Papus – depois de estudar os autores citados até o momento, reli o Tarot dos Boêmios (já era a quinta vez!) e finalmente descobri que o livro é uma fonte arqueológica do Tarot! Tudo está absolutamente lá, só não vê quem não quer! Em cada título de seu livro há subtítulos se referindo a todos os demais. Dentre as obras de Tarot que ele possuía em sua biblioteca, Gebelin era o autor mais antigo e Mac Gregor o mais atual em sua época! Então, vamos observar a principal cadeia viciosa sobre as origens do Tarot: Gebelin (1775) – Etteila (1783) – Saint Martin (1792) – Vaillant (1853) – Lévi (1854) – Christian (1854) – d´Alveydre (1884) – Guaita (1886) – Mathers (1888) – Barlet (1889) – Papus (1889) e ponto final! Um se baseou no outro, cada qual colocou sua teoria, fez suas próprias correções e ninguém questionou nada – ingenuidade, manipulação, arrogância, vaidade, eloquência? Não saberia responder. A verdade dói, em mim também doeu. Eles tatearam no escuro para falarem sobre o Tarot; uma realidade bem cruel é que eles não sabiam absolutamente nada sobre o Tarot e suas origens, mas uma coisa eu achei interessante: por mais que fizessem a retórica cabalística e a verborréia para provar seus pontos de vistas, as explicações práticas sobre os jogos do Tarot terminavam nas cartilhas de Etteila e das cartomantes. Por que? Eu continuava a me indagar. Sinceramente, independente das falhas históricas grotescas que estou questionando em suas obras, eu os indicaria como os patronos do Tarot – Gebelin, Etteila, Lévi, Mac Gregor e Papus; foi graças a estes cinco personagens que o Tarot é o que é atualmente.

A esta altura, sentia-me como um órfão, abandonado de pai e mãe! Eu estava quase jogando para o alto minhas convicções de que o Tarot era sagrado, intocável pelo tempo, guardado a sete chaves por homens eruditos e que escondia toda ciência antiga; mas eu podia estar errado, eu queria acreditar em seu aspecto intocável pela profanidade! A forma como chegou a pseudo história egípcia, cigana ou hebraica do Tarot aos nossos ouvidos eu já havia descoberto: a idéia de Antonie Court de Gebelin foi ampliada por Etteila, Lévi e Mac Gregor; Papus fez uma amalgama de todos; chegou ao século 20 através das mãos dos dissidentes da Golden Dawn, que mantiveram as mesmas histórias, também acrescentando outras, todos corrigindo as imagens do Tarot, todos querendo os louros da vitória, e assim por diante… Mas e antes? Estaria, o Tarot, numa arca sagrada aos pés dos guardiões da verdade? Sendo escondido, noite após noite, do famigerado Santo Ofício?…

Durante anos bisbilhotei várias obras, referências históricas, museus, bibliotecas – tudo está detalhado em meu livro -, fiz uma mapa do tempo de tudo o que havia sobre o Tarot. Confesso que ri muito quando comecei a ver os verdadeiros fatos. É uma pena o século 19 ter sido desprovido do telefone, fax, computador, e-mail, internet, avião, pois não estaríamos dois séculos atrasados nos estudos do Tarot, inventando histórias e distorcendo a potencialidade do uso dos arcanos! Os dados históricos destronam qualquer idéia mais romântica a respeito do Tarot, mas em nada invalidam seu potencial; para continuar este manifesto do futuro do Tarot, vamos separar o que é o Tarot do que querem que o Tarot seja!

Minhas convicções sobre a “tradição” do Tarot começaram a ruir quando eu descobri que entre 1583 e 1811 na Espanha, e entre 1769 e 1832 em Portugal, houve estatais na produção de cartas de Tarot, produziam em média 250.000 pacotes por mês para consumo interno e envio para suas colônias ao redor do mundo! Para jogar adivinhação com o Tarot!? Não, para jogos lúdicos! Sim, o Tarot é usado até os dias atuais na Europa como uma jogatina, principalmente, na França, onde há campeonatos anuais; eu mesmo, já tive a oportunidade de observar um em 1998, em Avignon. O ofício de artesão de Tarot era uma profissão (!) em toda a Europa desde 1455 até o fim do século 19! As cartas pintadas à mão (valiosíssimas) constavam do espólio de famílias nobres, com clérigos! O Tarot teve altas tributações ficais em todos os países desde o século 16 até o início do século 20 – uma particularidade que achei fantástica (para acabar de vez com meu misticismo com o Tarot) foi que em 1751, o rei da França, Luiz XV, ordenou que todas as taxas provenientes do Tarot de todo território fosse para o fundo monetário da Academia Militar! E mais: os primeiros registros oficiais de cartomancia datam por volta de 1540 !!!!!

– Meu Deus!… Onde estava a Santa Inquisição que todos dizem ter persiguido o Tarot? Dormindo? O arcano 15, O Diabo, que possivelmente condenaria o Tarot aos olhos da Igreja, sempre esteve presente em todas as mesas da Europa, desde as primeiras cartas que se tem notícia no final do século 14 até os dias atuais! Como as cartomantes passaram incólumes pela fogueira? Por que Gebelin disse desconhecer as cartas de Tarot se havia alta produção de cartas em Paris e por toda Europa? Por que nenhum ocultista renomado da Europa anterior a Gebelin nunca prestou atenção na cartomancia ou nos símbolos das cartas? Por que??? Por que o Tarot não fazia parte do círculo ocultista?

Por fim soube que o Tarot não se chamava Tarot (!) e nem as cartas se chamavam de arcanos (!). – Onde está a tão exultada tradição milenar dita por Lévi e Papus sobre o nome “Tarot”? Foi a última coisa que me lembro perguntar sobre o passado do Tarot, antes de aterrissar meus pés no chão e ver que o Tarot ainda é um bebê se comparado à astrologia, numerologia, cabala, sem nenhum passado extraordinário… Os primeiros registros datam por volta de 1370/90, o que denominamos de Tarot era chamado de Ludus Cartarum (cartas lúdicas) ou Naibis; depois, por volta de 1440/1500, passou a se chamar Trunfos (mais usual à epoca), Tarocco ou Tarochino; por volta de 1550/1600 de Trunfos do Tarocco na Itália e Trunfos do Tarot na França, também outras variações chamadas de Minchiatte ou Florentino; somente por volta de 1850/1900 surge o termo Arcano do Tarot; e no século 20 cada país passa a nacionalizar a palavra: Tarocco (Itália); Taroc (países germânicos); Tarok (leste europeu); Tarot (língua portuguesa) e Tarot (na maioria dos países). Observe os espaços de datas, não são meses, são em média de um século. Imagine seu eu lhe dissesse que você iria casar daqui a cem anos? Sim, esse é o tempo de uma nominação para outra! Uma média de um século! Cadê a tradição? Onde está a base histórica de Gebelin e de todos os outros que o seguiram? A palavra “tarot” surge na França por volta de 1590/95 nos estatutos da Associação de Fabricantes de Cartas Parisienses!

As descobertas subsequentes não me aborreceram mais, muito pelo contrário: comecei a vibrar por ter certeza de que absolutamente ninguém sabe nada além do que está escrito (de certo ou errado) nos livros! Não tive nenhum trauma quando procurei referências dos grandes ocultistas renomados, formadores de opiniões, cátedras das ciências ocultas, e não encontrei nada que tivessem dito sobre o Tarot ou algo que se assemelhasse a ele. Para dizer a verdade, encontrei somente um único ocultista sem grande expressão que fez uma referência aos quatro elementos em relação ao Tarot – Guilleume de Postel (1510-1581) -, mas ninguém deu ouvidos a sua teoria até Lévi e Papus fazerem sua apologia do passado longínquo do Tarot e citá-lo como destaque. Em 400 anos de existência do Tarot, desde os primeiros registros oficiais até a história egípcia de Gebelin (~1370/~1770), somente uma única pessoa fez referências esotéricas!? Este fato corrobora ainda mais o desinteresse pela classe ocultista dos séculos 14 ao 18 pelo Tarot e sua cartomancia.

Porém, encontrei algo surpreendente fora dos círculos esotéricos sobre as cartas do Tarot: crônicas questionando o que seriam aquelas imagens enigmáticas, poesias líricas, óperas, romances, murais, quadros, uma vasta expressão artística a partir do século 15; assim, as cartas do Tarot estavam inseridas no contexto social, sendo conhecidas por todos! Repito: um fato muito curioso é que as cartilhas sobre a taromancia começaram a surgir por volta de 1530-50 e o Tarot começou a ser visto também como algo para predizer a sorte e o futuro. Por que nenhum renomado ocultista sequer comentou sobre isso – Basílio Valentin (1398-1450), Picco della Mirandola (1463-1494), Paracelso (1493-1541), Cornelius Agrippa (1486-1535), John Dee (1527-1608) -, principalmente, Robert Fludd (1574-1637) e Jacob Boehme (1575-1624) que resumiram todos os oráculos de sua época? Os aspectos de jogos lúdicos e adivinhatórios andaram lado a lado e, estes, paralelos com a astrologia, numerologia, cabala, mitologia, hermetismo, alquimia, magia até se juntarem nas obras de Gebelin, Levi. Mac Gregor e Papus. Outro dado curioso que percebi: somente mulheres jogavam o Tarot (ditas cartomantes)!… Comecei a pensar sobre a sociedade até o final do século 19 – era patriarcal e misógina! Será que houve uma descrença no sistema de cartas por causa do contexto feminino? Ou será que pelo fato do Tarot expressar símbolos comuns de sua época não teria nenhum valor ocultista? Neste caso, eu acredito que foram ambos os fatores!

Lembram como comecei minha pesquisa que durou dez anos (1987/97)? Sim, voltemos ao cavalo de Tróia: Gebelin, Lévi e Papus; eles me forneceram as peças de todo o quebra-cabeça. A partir da bizarra história egípcia sobre o Tarot criada por Gebelin, os ocultistas viram uma possibilidade de abarcarem as técnicas de cartomancia, sem caírem no ridículo de usarem “uma arte feminina nos vôos da imaginação”, como disse Papus, ou usaram a arte das “loucas e coquetes”, segundo Lévi. Como? Fizeram uma retórica metafísica impossível delas compreenderem – se reparar na história do ocultismo, da magia, da cabala e da alquimia observará que não há uma única mulher (eram todas consideradas bruxas, ignorantes e maldosas!) que anteceda a Helena Blavatsky (1831-1891)! Ela foi muito “macho” em peitar todos os ocultistas eruditos. Assim, não foi difícil começarem a estudar uma arte feminina, que estava ao lado de todos eles por tantos séculos, mas que nunca ousaram tocar por puro preconceito machista. Os homens (ocultistas eruditos ou não) sempre tiveram a mulher como burra e incapaz, um ser inferior; como eles iriam admitir que o poder feminino descobriria uma arte oracular que somente pertenciam às sábias mentes masculinas?

Afinal, nada melhor do que a imaginação e a intuição feminina para descobrir o significado simbólico das cartas ao invés da razão e da lógica dos eruditos que necessitavam de fórmulas complicadas para tudo. Para mim ficou muito claro o porquê da ausência do estudo do Tarot entre os renomados ocultistas até o século 18 e, principalmente, o porquê de tanto escárnio nas obras de Lévi e Papus sobre as cartomantes ou, no caso de Etteila, um homem que se atreveu a jogar cartas como elas, denegrindo a imagem do “macho esotérico que conjura demônios”… Coisas do século passado… Hoje, homens e mulheres jogam o Tarot; mas você deve ter percebido que ainda temos uma resistência em aceitar os jogos adivinhatórios e tentamos sempre lucubrá-lo com a mais alta metafísica – talvez seja o ranço herdado das obras de Levi, Papus, Mac Gregor e seus dissidentes.

Vamos falar a verdade? Não conheço um só estudante de Tarot, em qualquer lugar do mundo, que se diga “cabalista da tradição em busca do sagrado”, ou que diga “o Tarot é uma arte do autoconhecimento”, que não esteja diariamente se profanando, jogando o Tarot, querendo saber dos acontecimentos e das causas! Vamos ser honestos? No fundo todos querem aprender a abrir o Tarot como qualquer cartomante antiga! Pode falar que é orientação, autoconhecimento, espiritualidade, tradição, não importa, no fundo terminamos onde Etteila começou; aliás, aperfeiçoamos primorosamente as suas cartilhas e de todas as cartomantes! Assim como os ocultistas do século 19, também estamos nos escondendo atrás dos estudos da cabala, mitologia, astrologia, psicologia, para encontrarmos a dignidade e o direito de jogarmos cartas! Estaremos nos enganando, complicando uma arte que poderia ser simples?

Embora o Tarot fosse conhecido e utilizado há séculos na Itália, Alemanha, Suíça, Espanha e França, foi precisamente em Paris que ele criou sua própria luz espiritual, tanto no surgimento de seu nome (tarot), quanto em sua centrifugação com o ocultismo; observe que todos os autores que descrevemos são franceses e publicaram suas obras na Cidade Luz. Bem, no início do século 20, principalmente, depois da 1º Guerra Mundial, tudo mudou para a imagem feminina: elas conquistaram o direito de trabalhar, de votar, de viver sozinha, escolher sua família e, finalmente, começaram a desenhar o Tarot… ôps, esqueci de dizer, somente homens podiam ser artesãos de Tarot até o início do século 20. A primeira mulher a pintar um Tarot foi Pamela Smith que desenhou o Rider-Waite Tarot, publicado em 1910… Hoje elas tomam seu lugar glorioso no pódio das sibilas e pitonisas parisienses, italianas, americanas, espanholas, brasileiras… Avante mulheres tomem as rédeas do Tarot: ele pertence a vocês – agora posso usar a palavra – por tradição!

Quem sabe, talvez, se tivéssemos a humildade e a dignidade de admitir que o Tarot opera perfeitamente no mundo oracular e divino, mas não existe todo esse passado magnífico, mágico e tradicional que nos imputam ou em que queremos acreditar; ou ainda melhor, aceitar uma verdade tão clara e evidente: ele é um oráculo recente, jovem, aberto à exploração, ávido por uma estruturação, que nasceu há poucos séculos e depende de nós preservá-lo, estudá-lo, tomando o devido cuidado em não deformar seus símbolos por puro egocentrismo e perder essa arte maravilhosa, esse alfabeto mágico, que casualmente foi descoberto! Também por quem foi descoberto não saberemos, como não saberemos nada além do que existe de real e concreto a respeito dele; se os verdadeiros homens eruditos que se debruçavam na maravilhosa arte alquímica e hermética ou de toda espécie de filosofia oculta não sabiam, ou não procuraram saber e investigar as cartas do Tarot, nós que perdemos o elo simbólico e a visão filosófico-espiritual do mundo iremos descobrir? Nós que nos baseamos em todo o manancial de cultura simbólica desses eruditos medievais e renascentistas, que não revelaram nada, iremos desvendar? A resposta é um sonoro NÃO; o restante será apenas conjecturas insólitas e inverossímeis. O Tarot é como uma criança que precisa ser alimentada e educada, senão poderá se perder durante sua vida com tantos Tarots corrigidos que surgem e tantas informações desencontradas.

Em todo caso é compreensível o fato dos antigos ocultistas não aceitarem o Tarot no âmbito esotérico, não pelo seu aspecto de pertencer às mulheres, mas pela falta de conhecimento do conceito de “arquétipo” – padrão de comportamento que é intrínseco na vida humana, desenvolvido na metade do século 20! Hoje observamos o símbolo e não propriamente a imagem desenhada, tentamos nos transportar além de sua figura para atingir um sentido de significações. Assim, o Tarot se tornou um conjunto de modelo comportamental humano, adapta-se a qualquer sistema que se queira trabalhar ou estudar. Talvez algum iluminado, um sábio ocultista, realmente o tenha criado, pois sua estrutura não deixa dúvidas de que há elementos bem significativos de toda ciência oculta, porém acredito que não tenha sido inventado para a finalidade que utilizamos atualmente… Coisas do destino… Também observe que se aceitarmos a associação do Tarot-cabala que Levi desenvolveu, o sistema desenvolvido por Mac Gregor ou Waite estarão errados; se aceitarmos o sistema cabalístico de Crowley, o de Mac Gregor, Waite e Levi estarão errados; se aceitarmos o de Mac Gregor e Waite, o de Levi e Crowley, também, estarão errados – o mesmo ocorre com os trabalhos de Juliet S.Burk (mitologia grega), Clive Barret (mitologia nórdica), Falconnier (mitologia egípica), Anna Franklin (mitologia céltica), que se negam um ao outro em analogias! -. Quem está com a razão? Todos! Qualquer sistema se adapta ao Tarot porque ele é um conjunto arquetípico! Isto é que faz o Tarot tão rico em sua expressão e, talvez, confuso à primeira vista.

Tenho lutado para que todos desenvolvam uma elaboração estrutural do Tarot, sem ego pessoal ou assimilação de outras doutrinas, que escrevam ou conceituam mais do que apenas desenhar “seu próprio Tarot”, porque fica evidente sua deformação simbólica à medida que todos querem ter a “revelação mágica dos símbolos”; mas para tal, não podemos nos negar nada, nem que seja o absurdo de começarmos do nada, de inutilizarmos tudo, fazermos uma deliciosa fogueira exorcizando todo devaneio romântico do que foi aprendido sobre os arcanos e recomeçarmos fortes, verdadeiros, rumo a análises confiáveis e livres de dogmas pessoais. Se não partirmos da premissa básica que é o reconhecimento de seu verdadeiro passado, seja ele bom ou mau, mundano ou divino, falso ou real, lazer ou oracular, não será possível termos certeza do que temos nas mãos, nem a convicção do que poderemos fazer com o Tarot. Sei que formulei mais questionamentos, deixei muito mais perguntas do que evidenciei respostas. Também vamos ser práticos, as respostas do passado não existem, somente as do futuro: como vamos estruturar e conceituar definitivamente seus arcanos e, assim, garantir a continuidade do Tarot para futuras gerações?

Notas Importantes

1) Desenhe o Tarot que desejar, expresse sua criatividade, mas nunca deforme sua fonte original simbólica, nominativa, quantitativa e os atributos essenciais de cada carta;

2) Ao consultar tarot escreva e associe o Tarot com qualquer coisa em nosso universo, mas nunca se esqueça de que é do Tarot que está falando ou explicando – sempre deixe essa “outra associação” em segundo plano;

3) Tenha mais consciência do Tarot enquanto significado de seus arcanos e não do significado da cabala, astrologia, mitologia, numerologia, pois cada uma destas ciências tem sua própria história, estrutura e utilização; todas as associações feitas até hoje ainda são discutíveis;

4) Vamos descobrir novas estruturas, explicações e análises para o Tarot, de uma forma mais pura, mais direta, menos abstrata, como ocorre na astrologia ou numerologia: longe dos devaneios místicos;

5) Esqueça do passado tradicional do Tarot, ele não existe; pense em seu futuro!  O tarot on line e o tarot virtual são apenas um rascunho do que está por vir.

6) Diga não a tudo o que não comporte a significação dos 78 arcanos.

7) Tarot é Tarot.

Por Nei Naiff

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/as-origens-do-taro/

A Pedra Vermelha: Entrevista com o alquimista Rubellus Petrinus

por Duane Saari (Alchemy Journal – Outono de 2005)

Este Alquimista vive em Portugal, é um jovem de 74 anos, ainda trabalha no seu laboratório, escreveu recentemente um livro sobre espagíria e procura agora uma editora para transformar o seu manuscrito atual em um livro. Seu nome é Rubellus Petrinus, e ele concordou em dar uma entrevista por e-mail e telefone. Seus comentários seguem minhas perguntas ou solicitações, que estão em negrito. Ouça com atenção, então, uma voz da Arte.

Qual é o propósito de um nom de plume para um alquimista e por favor me diga por que você escolheu o nom de plume de Rubellus Petrinus?

É a tradição desde os tempos antigos da alquimia. Depois de uma visita ao alquimista espanhol Simón H., que trabalhou no caminho do cinábrio, lembrei-me que cinábrio em latim seria muito interessante como nom de plume: rubellus (vermelho) petrinus (rocha).

Você está disposto a compartilhar seu nome? Se assim for, qual é?

Você me pergunta se eu compartilho meu nome? Acho que não porque gosto dele – Rubello Petrinus.

Você nasceu em Bragança, Portugal. Passou por alguma experiência em sua infância, ou descobriu algo, que o fez se interessar por alquimia?

Na minha infância em Bragança, estudei e fiz um curso industrial. Também estudei eletrônica. Eu não conhecia nem a palavra alquimia mas lembro que, naquela época, não tinha minério de galena para fazer um detector para o meu receptor. Fiz com enxofre e chumbo em um tubo de vidro de comprimidos colocando fogo e, depois de derretido, cristalizei galena artificial.

Você foi para Angola em 1951…

Sim, fui para Angola porque no meu país era difícil arranjar um emprego estável na época da Grande Guerra e regressei a Portugal em 1975.

Por que você se tornou um alquimista?

Quando estive em Angola, li o livro de Jacques Bergier, Despertar dos Magicos.

O que você aprendeu sobre alquimia em O Despertar dos Mágicos?

Não aprendi nada de alquimia porque não era isso que Bergier estava ensinando. O livro despertou minha curiosidade sobre Fulcanelli e li todos os seus livros. Eles são muito complicados.

Se Fulcanelli e outros Mestres estivessem aqui hoje, falariam algo muito diferente sobre a alquimia agora ou praticariam novos procedimentos laboratoriais que não existiam no passado?

Sim, alguns alquimistas hoje trabalham com modernos equipamentos de laboratório e simplificam o trabalho de alquimia, mas esse equipamento ainda é muito caro e é preciso um grande conhecimento químico. Por isso, sugiro que as pessoas trabalhem com vidraria como a usada pelos antigos alquimistas e com seus materiais brutos também.

Você disse que a alquimia inclui a prática de procedimentos de laboratório e as descobertas que vêm desse trabalho. O que se aprende no laboratório que não pode ser aprendido ou descoberto por leitura?

Esta é uma questão muito interessante. Lê-se um livro de alquimia e o modus operandi. Se entendemos, tentamos com o material adequado, mas bruto e às vezes – na maioria das vezes – os resultados são bem diferentes dos o que o livro diz. Portanto, algumas vezes em um fórum as pessoas falam sobre alquimia sem ter experimentado. É possível alguém falar sobre algo que não fez?

Você nasceu em 25 de março e, astrologicamente, é Áries, que é um signo de fogo frequentemente associado à iniciação e aos começos. A astrologia tem um significado especial para o seu trabalho em alquimia?
Não acredito em Astrologia mas as influências astrais, sobretudo a luz polarizada da Lua na Primavera, são muito importantes no trabalho da alquimia.

Muitos dos Mestres parecem ter trabalhado sozinhos. Ao mesmo tempo, há relatos de alquimistas trabalhando juntos. Trabalhar com um grupo de colegas alquimistas é útil?

Sim, é útil se todas as pessoas do grupo entenderem sobre o que é uma conversa mais avançada.

O que foi a Associação Solazaref na França e por que ela foi tão importante para você?

Em Portugal, conheci um discípulo de Solazaref; portanto, fiquei curioso para conhecer pessoalmente a Associação. Quando viajei para a França, Solazaref era um grande mestre, mas não era muito acessível para iniciantes. Estando lá que vi, pela primeira vez, trabalhar a verdadeira alquimia, sobretudo, no caminho seco do antimônio. Atualmente, parece que a Associação não existe mais.

Onde estão localizados hoje os centros de estudo e trabalho alquímico?

Conheço muitos dos melhores alquimistas ao redor do mundo, mas não conheço nenhum centro. Parece que alguns lugares estão ensinando as partes mais fáceis da alquimia e alguns não ensinam a verdadeira alquimia, apenas a espagíria.

Por que um Mestre é necessário para aprender alquimia?

Porque há coisas que você lê nos livros de alquimia, mas não entende até que seja feito na prática. Por exemplo, o caminho seco do antimônio – que posso explicar passo a passo por escrito – sem ver o trabalho feito, será muito difícil para você fazer o trabalho corretamente.

Como alguém pode encontrar um Mestre para aprender e trabalhar hoje?

Esta não é uma tarefa fácil. Algumas pessoas irão compartilhar com você, mas elas trabalham sozinhas. A maioria das pessoas que trabalha com alquimia verdadeira normalmente não fala sobre disso nos fóruns ou, se fala, não é em linguagem simples. Eles falam apenas com
pessoas que têm o mesmo conhecimento de alquimia ou em fóruns muito especiais como o nosso fórum: El-alquimista que é apenas para alquimistas que trabalham. Mas este fórum é para falantes de português e espanhol. Criei uma rede internacional muito especial como o El-alquimista em inglês mas não funcionou então eu a encerrei.

Um Mestre pode trabalhar sozinho?

Sim, mas ele ou ela precisa de grande conhecimento alquímico e compreensão dos verdadeiros livros alquímicos dos grandes Mestres, experiência de laboratório, a vidraria adequada para o caminho úmido ou um forno adequado para o caminho seco. E, mesmo que seja assim, há muitos problemas que ele não conseguirá resolver sozinho.

Há muita discussão e algum debate sobre os primórdios da alquimia. Quais você acredita que foram as origens da alquimia?

Isso não é realmente conhecido. O povo árabe trabalhava na alquimia de acordo com Geber. Os chineses e os hindus fizeram o mesmo. Os árabes trabalhavam com antimônio e os demais com cinábrio. Por que é isso? Então, não sabemos exatamente as origens da alquimia.

Se não conhecemos a origem da alquimia, sabemos qual era o propósito da alquimia nos tempos antigos e qual é o seu propósito hoje?

Bem, antigamente a alquimia era a busca da transmutação do ouro ou da prata, mas atualmente meu propósito é a Medicina Universal. Se formos capazes de fazê-lo, isso seria muito mais valioso do que o ouro!
O tempo é importante, até mesmo necessário, na maioria dos procedimentos alquímicos.

A alquimia também está relacionada ao tempo expresso em épocas mais longas, como o ciclo de 25.920 anos do Grande Ano Solar?

Não sei exatamente porque, para mim, a radiação lunar e cósmica é mais importante na alquimia. Não é uma tarefa fácil entender a aplicação, da maneira correta, da radiação cósmica citada em Hermes Revelado por Ciliany.

Que contribuições são feitas pela alquimia para a sociedade hoje?

O melhor seria a Medicina Universal. Mas existem alguns medicamentos espagíricos que são muito importantes na medicina, sobretudo os vegetais porque alguns dos metálicos são muito perigosos e só um povo com grande experiência seria capaz de fazê-lo. A supervisão com um médico também vale para este tratamento.

Qual você acredita ser o maior mal-entendido sobre a alquimia?

Pode ser a má interpretação dos livros de alquimia porque alguns foram escritos por pessoas que não têm conhecimento suficiente de alquimia e os livros antigos não são fáceis de entender. Alguns desses novos livros parecem como se não fossem reais.

Fale-me do seu primeiro livro – Espagiria Alquimica.

Este livro foi publicado em espanhol e será de grande ajuda para iniciantes que desejam aprender alquimia porque a espagírica é o primeiro passo na alquimia. É um verdadeiro curso espagírico começando com fornos, vidrarias, espagírias vegetal e metálica – com muitas imagens coloridas. Pelo que sei dos vários livros espagíricos publicados até agora, escrevi um livro diferente do que já existia.

Qual é a mensagem do seu manuscrito recente: A Grande Obra Alquimica?

Tentei neste livro explicar simbolicamente e na prática o trabalho de três grandes alquimistas clássicos – Philalethes, Flamel e Basil Valentine. Ainda não alcancei esses caminhos porque não tenho as condições de laboratório e, com o método do amálgama, você precisa de muito ouro, que é muito caro agora. Para experimentar o caminho de Basil Valentine, é necessária uma retorta adequada e especial para destilar vitríolo, como a que vi na Associação Solazaref. Assim, o objetivo deste livro é mostrar às pessoas que as imagens simbólicas da alquimia estão de acordo com seu material e modus operandi. A editora com a qual trabalho há dois anos ainda não publicou o livro, então estou procurando outra editora.

O seu site (http://pwp.netcabo.pt/r.petrinus/) tem muita informação e muitos links sobre alquimia. O que você está tentando realizar com seu site?

Eu sei que a alquimia é muito difícil de entender então, no meu site, eu tento explicar em linguagem simples algumas coisas que nunca foram explicadas antes. Muitas pessoas me escreveram e me agradeceram por isso. No meu site,  você pode encontrar os melhores livros de alquimia, simbologia, vidraria e modus operandi. Editei-o em seis idiomas com a ajuda de bons amigos e irmãos da Arte. No fórum alquimista em Arquivos e Fotos há muita informação de alquimia com boas imagens. Lembro-me das dificuldades que tive e fico muito feliz em ajudar outros irmãos na Arte.

Qual é o significado da Madona Negra e Criança na página inicial do seu site e qual é a sua conexão com a Grande Obra?

Esta é uma observação muito interessante. Esta imagem tem origem espanhola. A Virgem Negra simboliza a primeira matéria do caminho seco que é: minério preto ou antimônio.

Quando a imagem da Concha do Peregrino em seu site é selecionada, três imagens de Santiago de Compostela são mostradas. Por que você tem essas imagens em seu site e como elas estão relacionadas à alquimia?

Estas imagens foram tiradas por mim em Santiago de Compostela quando viajei para esta cidade. Quem leu o livro de Flamel lembra-se da peregrinação que fez a Santiago de Compostela. Na Europa, existem alguns caminhos da França e Portugal para Santiago chamados Caminhos de Santiago. São Santiago é o padroeiro dos alquimistas e o símbolo da peregrinação é a Vieira.

Você declarou em seu site que não terminou a Grande Obra Alquímica. Você acredita que vai completá-lo?

Sinceramente não sei. Trabalhei profundamente em vários caminhos alquímicos com as matérias-primas adequadas e o resultado não foi o que os autores dos livros afirmam. Por quê? Não sei. Algumas pessoas me dizem que eu tomo o textos ao pé da letra e, portanto, os resultados não estão corretos, mas quando leio o que eles escreveram nos fóruns, vejo que eles não sabem mais do que eu. Alguns são grandes químicos (alquimistas), mas não vejo deles nenhum resultado sobre a Grande Obra. Depois de muitos anos de trabalho em alquimia, algumas vezes trabalhando com matérias perigosas como nitrato de amônio, etc, estou convencido de que o segredo é o “Alkahest” ou o dissolvente universal. eu tentei fazer seguindo Van Helmont, mas o resultado não foi o que ele afirma em seu texto e trabalhei com matérias-primas adequadas e vidraria adequada. Acho, e disse-o por vezes em vários fóruns, que a primeira questão a desvendar será algo simples um que podemos encontrar em qualquer lugar como barro de ferro. Mas o segredo principal será sempre o dissolvente ou o “Alkahest”.

Olhando para trás em sua vida, o que você faria de diferente em sua abordagem da Grande Obra?

Seria a mesma; embora na verdade eu tenha muito mais conhecimento de alquimia e prática de laboratório e conheça os melhores alquimistas modernos do mundo.

Há algo que você gostaria de dizer aos nossos leitores, muitos dos quais não são alquimistas praticantes, mas estão muito interessados ​​em aprender mais sobre a Arte?

Sim, se eles acreditam em alquimia, primeiro estudem espagíria e os livros antigos de química (espagíricos) como Lemery ou Glaser para entender a linguagem alquímica dos livros antigos que podem ser encontrados no fórum The-Alchemist e nos arquivos no meu site. Depois disso, adquira vidrarias e manta elétrica adequadas e trabalhe cuidadosamente comparando o simbolismo com a prática e os resultados no laboratório. Lembre-se, faça o trabalho antigo com
vidraria e matérias-primas – não sintéticas. Nunca execute nenhuma operação de laboratório se não tiver certeza do que acontecerá. A alquimia é como a química, mas também bem diferente. As reações são as mesmas e se não souber o que ele está fazendo, ele coloca sua vida e as pessoas próximas a você em perigo. Sugiro que todas as pessoas interessadas em alquimia se inscrevam em um fórum de alquimia e troquem informações sobre os procedimentos alquímicos que são
usando com as outras pessoas que têm mais experiência. Bom trabalho.

Obrigado, Rubelo Petrino.

Rubellus Petrinus pode ser contactado através do email: r.petrinus@netcabo.pt . Seu site está em http://pwp.netcabo.
pt/r.petrinus/

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-pedra-vermelha-entrevista-com-o-alquimista-rubellus-petrinus/

As origens do culto de Cosme e Damião

Júlio Cesar Tavares Dias
juliocesartdias@hotmail.com

“Aqui queremos lembrar
Dois Dois a biografia
Pouco vamos encontrar
Porque pouco se escrevia
O que pude pesquisar
Só resolvi publicar
Porque muitos me pediam”
– Frei Urbano de Souza (1991, p. 7)

Nós compartilhamos o sentimento de Frei Urbano de Souza expresso nos seus versos de cordel que vêm à epígrafe deste artigo. No Brasil existe a prática de distribuir balas e doces como pagamento de promessas aos Santos Cosme e Damião, padroeiros das crianças. Em 2010, quando resolvemos escrever sobre este tema (Dias, 2010), frisávamos que o modo de distribuir o doce de Cosme e Damião vem sofrendo mudanças devido à recusa dos evangélicos em receber o doce. Mas, além do fato de que Cosme e Damião foram sincretizados no Brasil com os Ibeji e que os evangélicos rejeitavam o doce justamente por conta desse sincretismo, praticamente nada sabíamos sobre essa devoção e suas origens. Pesquisar as origens do culto desses santos é encarado por nós, então, como um desafio.

Celeno de Figueiredo (1953, p. 5), na introdução de sua obra, afirma que escrever sobre os santos gêmeos é um desejo da mocidade, não realizado há mais tempo, “em virtude da inegável escassez de literatura”. Acreditamos que, ainda hoje, embora passadas décadas desde o seu trabalho, há escassa biografia sobre esse tema em relação à força que essa devoção continua demonstrando no Brasil.

O culto aos santos

Como sabemos, nos inícios do cristianismo, o termo “santo” (que significa separado) era usado de forma geral para se referir aos cristãos. Para se verificar isso basta dar uma olhada rápida nas saudações das epístolas (BÍBLIA, 1993, 1 Coríntios 1: 2 e Efésios 1: 1, e. g.). Com o tempo, esse termo passou a designar as pessoas na comunidade cristã dignas de admiração por alguma virtude ou feito particular. O problema, como coloca Bárbara Lucas (1969, p. 417), ocorre porque “com o tempo, grande número de lendas […] começou a envolver alguns dos santos”, como resultado disso, “a Igreja decidiu que no futuro só se deveriam aceitar como santas as pessoas que fossem formalmente declaradas como tais pelo Papa. Dá-se a isso o nome de Canonização”. O processo visa constatar se o candidato possui uma “virtude verdadeiramente heroica” (Lucas, 1969, p. 418).

As honrarias católicas dos santos e o próprio processo de canonização, a nosso ver, devem-se muito a heroização que os romanos faziam de seus entes falecidos: “tais crenças eram largamente tributárias aos usos tradicionais por meio dos quais os pagãos honravam seus defuntos e especialmente aquêles que criam promovidos à heroização” (Danieloo; Marrou, 1966, p. 320, sic).

O culto dos mártires

Luiz Mott (1994, p. 4) propõe uma tipologia dos santos adorados no Brasil Colonial: “Mártires, Clérigos e Religiosos, Santas Mulheres, concluindo com uma relação dos que tiveram a má sorte de serem considerados Falsos Santos”. A devoção a Cosme e Damião se enquadra no culto aos mártires, pois “chama-se mártir quem derrama seu sangue pela causa de Cristo” (Martins, 1954, p. 5). Claro que não só no cristianismo existem mártires, o mártir cristão seria caracterizado por uma atitude especial ao enfrentar o martírio. Mondoni (2001, p. 56) procede à caracterização do mártir cristão:

[…] não procurava o perigo, mas quanto possível o evitava, […] enfrenta a morte não como cortejo triunfal, mas numa via solitária e em pleno abandono […]; sua fortaleza aparecia não do desejo do sofrimento, mas da serenidade com que ia ao encontro do fim inevitável.

Para o estudo da vida dos mártires, podemos contar com os seguintes documentos: Acta, Passio, Gesta (narrações posteriores às perseguições com justaposição de elementos históricos e lendários) (Mondoni, 2001, p. 56). São critérios para historicidade de um mártir: testemunho direto (Acta, Passio3), inscrição tumular com o qualificativo ‘mártir’, traços seguros de um antigo culto (basílica, cemiterial), menção nos antigos martirológios (Mondoni, 2001, p. 56-57).

Martirológio era, basicamente, “um fichário ou catálogo daqueles que com, com sangue, abonaram o testemunho de sua fé em Cristo. Os antigos martirológios constituíam uma espécie de calendário litúrgico” (Martins, 1954, p. 5). O Martirológio Romano consiste da junção dos vários martirológios regionais, sendo considerado definitivo o texto de Barônio, que depois foi muitas vezes revisto, corrigido e ampliado, tendo sido atualizado pela última vez em 1922, por ordem de Bento XV. Ele é um dos livros litúrgicos oficias da igreja, os quais são, a saber: Missal, Breviário, Ritual Pontifical, Cerimonial e Martirológio.

Claro que no Martirológio Romano “Alguns dados são passíveis de revisão histórica […]. A Santa Igreja desde muito procura escoimá-lo de erros e inexatidões históricas” (Martins, 1954, p. 6). Aliás, “A Igreja é a primeira a querer a verdade histórica. Mas convenhamos. Corrigir não é arrasar, sem mais nem menos, textos venerandos” (Martins, 1954, p. 7).

Foxe4 (2005, p. 13) lembra que ao fundar sua igreja Cristo deixou claro que haveria perseguição, mas que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela. Assim deve-se ler a história dos mártires como “proveito do leitor e da edificação da fé cristã” (Foxe, 2005, p. 14). Para esse autor:

As causas de tanta perseguição aos Cristãos por parte dos imperadores romanos foram principalmente estas: o medo e o ódio. Primeiro o medo, porque os imperadores e o senado, por ignorância cega, […] temiam e desconfiavam que ele (Cristo) pudesse subverter o seu império. Por isso buscaram todos os meios possíveis […] para extirpar totalmente o nome e a memória dos cristãos. Em segundo lugar, o ódio em parte porque este mundo […] sempre odiou e tratou com maldade o povo de Deus […] Em parte, porque os cristãos, tendo uma natureza e uma religião contrária às dos imperadores […] desprezavam os seus falsos deuses […] e muitas vezes detiveram o poder de Satanás que agia nos seus líderes […]. Por isso, Satanás […] instigou os príncipes romanos e os idólatras cegos a nutrir contra eles um ódio e despeito cada vez maiores (Foxe, 2005, p. 25)

O mais seguro documento acerca de um mártir são as atas: “Para nosso objeto é importante notar uma formalidade que não faltava em nenhum processo: as atas”5 (Bueno, 2003, p. 136, tradução livre). Convém-nos aqui esclarecer, portanto, de que se constitui esse documento:

“As atas dos mártires não são outra coisa que a transcrição exata, ou pouco menor, dos processos verbais redigidos pelos pagãos e conservados nos arquivos oficiais, transcrição que os cristãos recuperavam por diversos meios, por exemplo, a compra a os agentes do tribunal”6 (Bueno, 2003, p. 136, tradução livre).

Essas atas eram obtidas pelas comunidades cristãs através da compra. Mas uma ata, claro, como tudo que é valioso, “era objeto de engano e falsificação”7 (Bueno, 2003, p. 137, tradução livre).

Para Danieloo e Marrou (1966, p. 320), “não resta dúvida que já se conhecia [o culto aos mártires] […] desde o final do segundo século, e de alguma forma se oficializara na Igreja Cristã”, mas sublinham que no quarto século “O fato mais considerável é o desenvolvimento realmente exuberante do culto dos mártires”, desenvolvimento motivado pelo fim das grandes perseguições e pela paz constantiniana.

O arquétipo dos gêmeos

Divindades duplas, gêmeas ou não, aparecem na cultura e na literatura de muitos povos da Antiguidade: Castor e Polux entre os gregos, Osíris e Seth no Egito, Rômulo e Remo em Roma, Vishnu e Lakshmi, na Índia (cf. Araújo, 2010, p. 1); “estes seres costumam ser divindades benfeitoras” (Cirlot, 1984, p. 274). Aliás, “todos os heróis gêmeos da cultura indo-européia são benéficos” (Chevalier, 1997, p. 466). No Candomblé também existe o orixá Ibeji, “representado pelos gêmeos na África, sendo estes sagrados” (Cacciatore, 1988, p. 141), com quem Cosme e Damião foram sincretizados. Ibeji8 significa gêmeos, sendo o orixá Ibeji, o único permanentemente duplo.

Então, Cosme e Damião seriam mais uma manifestação do arquétipo dos gêmeos, presente “na maioria de tradições primitivas e de mitologias relativas às altas culturas” (Cirlot, 1984, p. 273), o que haveria permitido seu sincretismo com os Ibeji. Isso nos levaria a pensar o sincretismo, como fez Pedro Iwashita (1991), a partir de conceitos jungianos. Mais exatamente a partir da psicologia dos arquétipos. Isso significa que foi possível o sincretismo entre os santos e orixás, por serem equivalentes “para a experiência humana, no seu sentido profundo e existencial” (Iwashita, 1991, p. 247). Assim, perguntar pelas origens do culto de Cosme e Damião não significaria apenas estabelecer e fixar uma data, mas verificar a força desse arquétipo.

Para Cirlot (1984, p. 274), “O sentido simbólico mais geral dos gêmeos é que um significa a porção eterna do homem […], a alma; e o outro a porção mortal”. Isso faz muito sentido em relação a Cosme e Damião, pois se, como médicos, buscavam a cura do corpo, essas curas objetivavam a conversão, ou seja, a cura também da alma.

Essa recorrência da figura dos gêmeos em várias lendas e mitologias teria origem em personagens históricos que foram depois mitologizados? Acreditamos que possa ter tido origem em diversos personagens históricos em diversas culturas. Entendemos que a pergunta pela motivação dessa recorrência possa ser respondida não na perspectiva histórica, mas na esfera existencial. “Todas as culturas e mitologias testemunham um interesse particular pelo fenômeno dos gêmeos” (Chevalier, 1997, p. 465). O nascimento de gêmeos envolvia um mistério que causava espanto nos povos antigos.

A Vida de Cosme e Damião

Cosme e Damião são santos católicos que foram médicos9 e, por isso, são tidos como protetores das crianças. Eles teriam exercido a medicina sem nunca cobrar nada, por isso são chamados de “anargiros”, ou seja, que não são comprados por dinheiro. Conforme Figueiredo (1953, p. 7), teriam conhecido o cristianismo através de sua mãe Teódota, que os criou na fé cristã. Nos livros litúrgicos ocidentais10 sua festa foi fixada a 27 de setembro11. Uma reforma litúrgica no ano de 1969 moveu sua comemoração para o dia 26 de setembro, contudo o povo mantém a devoção no dia 27. O padre Michelino Roberto explica que “pelo calendário oficial da igreja, a festa é celebrada no dia 26. Mas o povo prefere 27, data da inauguração da basílica que o papa Félix IV mandou erguer para os dois em Roma, no ano 500” (Roberto, 2000). Na fala do padre Josevaldo, pároco da Igreja de Cosme e Damião na Liberdade, Salvador (BA), parece haver a necessidade de frisar a diferença das datas para combater o sincretismo com as religiões afro:

No candomblé, explica o padre, o dia de homenagear as crianças ou seja a falange de Ibejí é dia 27, enquanto que na igreja católica o dia de Cosme e Damião é 26. Mas, no imaginário popular ficou marcado mesmo o dia 27, explicou o padre. (Sodré, 2012).

São santos do século III cuja data de nascimento é incerta, como, aliás, vários outros aspectos de suas vidas. “Devemos, pois, contentar-nos com as poucas noticias que a seu respeito se extrahiram de varios autores de reconhecida probidade”, como lemos na obra Vidas de S. Cosme e Damião e S. Cesário, Médicos da Federação das Congregações Marianas de São Paulo (1935, p. 3, sic), na qual temos essa descrição de como eles procediam para ocorrer a cura: “começavam por fervorosa oração. Informando-se da natureza do mal, faziam sobre o enfermo o signal da cruz, e com isto, em geral, sem necessidade de remédios, […] o paciente via-se restituído a saúde” (Federação de…, 1935, p. 4, sic) . Essa obra, de cunho devocional, tem, na verdade, por pressuposto, que “As enfermidades do corpo vêm por castigo das desordens da alma”, assim, “Aplaque-se a ira de um Deus ofendido e recobrará saúde o enfermo” (Federação…, 1935, p. 6), e, assim, seu intento é o incentivo à prática da confissão.

Seus atos caridosos que eram motivo de conversões ao cristianismo “não passaram despercebidos aos inimigos da fé cristã” (Basacchi, 2003, p. 7). Denunciados pelo procônsul Lísias, acusados de serem “inimigos dos deuses”, foram mortos por ordem do imperador Diocleciano por não se curvarem diante dos deuses pagãos. Uma tradição diz que foram alvejados por dardos, mas miraculosamente os dardos se desviaram deles, por isso depois foram decapitados12. “O Passio descreve-os como sendo queimados, apedrejados, serrados, e finalmente decapitados13, mas isto é pura lenda14” (Cosmas…, 1967, p. 361, tradução livre). Outra tradição conta que eles foram atirados de sobre um despenhadeiro. “Seus restos mortais, segundo consta, encontram- se em Ciro na Síria, repousando numa basílica a eles consagrada. Da Síria o seu culto alcançou Roma e dali se espalhou por toda a Igreja do Ocidente” (Cosme…, 2013, s/p). Depois, no século VI, uma parte das Relíquias foi levada a Roma e está na igreja que adotou seus nomes. “Outra parte foi guardada no altar-mor da igreja de São Miguel, em Munique, na Baviera” (Encyclopedia…, 1997, p. 449).

Embora muitas lendas tenham sido agregadas a história de seu martírio, podemos acreditar que tenham realmente sofrido muitas torturas15, conforme afirma Foxe (2005, p. 26):

Os tiranos […] não se contentavam apenas com a morte […]. Tudo o que a crueldade da invenção do homem pudesse conceber para castigar o corpo humano era posto em prática contra os cristãos […] os seus corpos eram amontoados e junto a eles deixavam cães para guardá-los a fim de que ninguém pudesse vir dar-lhes sepultura.

Mas a ênfase dada nos relatos da igreja sobre a intensidade do sofrimento por que eles passaram mostra a clara intenção de impressionar os fiéis. No Martirológio Romano (Vaticano, 1954, p. 222), sobre o dia 27 de setembro, lê-se sobre eles:

Em Egéia, o natalício dos santos irmãos mártires Cosme e Damião, que, com o auxílio de Deus, aturaram muitos tormentos, grilhões, cárceres, águas, fogueiras, cruzes, pedras, e flechas, antes de serem degolados na perseguição de Diocleciano. Conta-se que, com eles, padeceram três irmãos seus: Ântimo, Leôncio e Euprébio.

Conforme Danieloo e Marrou (1966, p. 400, 401), “Nos anos que seguem ao Concílio de Éfeso16, desenvolve-se o culto, até então estritamente local dos Santos Cosme e Damião”. Assim, o desenvolvimento dessa devoção segue o grande crescimento do culto aos mártires, ocorrido com o fim das grandes perseguições.

Conforme a historiadora Ignez Aquiar o culto aos irmãos foi introduzido no catolicismo pelo papa São Félix que mandou trazer os corpos dos santos para Roma, colocando-os no cemitério da igreja de Santa Cecília, dando início à veneração dos santos na Itália e por toda a Europa. A fé dos devotos nos santos gêmeos era tanta, que apareceu uma relíquia curadora – o óleo de São Cosme e Damião, cuja distribuição nas igrejas católicas predominou até 1780. Como ritual para curar-se, […] o doente ia à igreja, expunha a parte afetada diante da imagem junto ao altar dos santos, uma rezadeira esfregava o óleo no local doente, rezando: Per intencessionem beati Cosmi, liberetabomni malo. Amém, destaca a pesquisadora. (Aquiar apud Pernambuco…, 2011, s/p).

O óleo também serviria para dar filhos a mulheres estéreis (Basacchi, 2003, p.8

O culto na Europa e a Basílica de Cosme e Damião em Roma

Ainda que seja difícil precisar uma data de início do culto, “Sabemos que o culto aos dois irmãos é muito antigo, pois no século V já existiam escritos sobre eles” (Basacchi, 2003, p. 8). Conforme o Dicionário Patrístico (Di Berardino, 2002, p. 347), “Teodoreto de Ciro (458 d. C.) é o primeiro a falar do culto dos santos ‘anárgiros’, culto prestado na cidade sede de seu episcopado”, conforme ele menciona em uma carta, havia, em 434, um local dedicado aos santos em Ciro, no norte da Síria (Harrold, 2007, 28). Harrold (2007, p. 26, tradução livre) considera que:

Sem nenhuma prova histórica dos verdadeiros santos denominados Cosme e Damião, as origens do culto são impossíveis de identificar com absoluta certeza, mas um quadro pode ser construído da evidência proveniente pelas notações litúrgicas, documentos históricos e os primeiros lugares de adoração e as coleções associadas de milagres. Além disso, o rápido alastramento do culto popular obscureceu suas origens17.

A primeira data disponível aos hagiógrafos é, portanto, uma omissão (Harrold, 2007, p. 27). Mas sabe-se que “os santos doutores eram certamente conhecidos bem o bastante no início do século quinto para um santuário ter sido construído em honra deles18” (Harrold, 2007, p. 28, tradução livre). A autora segue citando várias construções feitas aos gêmeos e, então, levanta uma hipótese:

[…] dentre estas primeiras dedicações é possível levantar a hipótese de um ponto geográfico inicial para o culto […] há alguma evidência apoiando a crença na existência da tumba dos dois na região de Ciro, no norte da Síria de uma data antiga”19 (Harrold, 2007, p. 30, tradução livre).

Daí, a “adoção dos santos em muitos lugares seguiu rapidamente. Por exemplo, por meados do século V, ao mínimo duas igrejas dedicadas aos SS. Cosme e Damião tinham sido erguidas em Constantinopla20” (Harrold, 2007, p. 28, tradução livre).

Porém, como se sabe, há uma basílica que o “papa Félix IV mandou construir em honra deles no Foro Romano […]. Da Síria o seu culto alcançou Roma e dali se espalhou por toda a Igreja do Ocidente”, sendo que com a “meta mais de turistas que de devotos, pelo esplêndido mosaico que lhe decora a abside” (Cosme…, 2013, s/p). Assim, a Basílica de SS. Cosme e Damião em Roma21 é importante para o estudo do desenvolvimento e expansão da devoção. Teodorico, o Grande, rei dos Ostrogodos e a sua filha Amalasunta, doou ao papa Félix IV, em 527 d. C., a biblioteca do Templo da Paz (Bibliotheca Pacis) e também uma parte do Templo de Rómulo. Félix IV uniu os dois edifícios e criou a basílica dedicada aos dois santos gregos Cosme e Damião, um contraste ao culto pagão a Castor e Pólux, outrora adorados num templo situado no Fórum Romano (Basilica…, s/d)22. A fundação da igreja está descrita no LiberPontificalis:

“Aqui ele erigiu a basílica dos Santos Cosme e Damião no lugar chamado Via Sacra, perto do templo da cidade de Roma”(apud Harrold, 2007, 34, tradução livre)23.

Como coloca Harrold (2007, p. 34, 35), não se sabe as razões exatas porque essa igreja foi construída nessa área, mas podem-se levantar algumas especulações. Aliás, a área em que foi construída a Basílica não era populosa. No começo do quinto século mostrava-se interesse pelos santos orientais (uma igreja à Santa Anastácia é dedicada também nessa época). Acreditamos que é bom o argumento de que a igreja intencionava competir e combater cultos pagãos de cura que ocorriam na mesma área. “A locação da igreja, no lado oposto do fórum para os centros devocionais dedicados a Dioscuri e Asclépio, pode ter intentado providenciar uma alternativa cristã a  estes lugares” 24 (Harrold, 2007, p. 35, tradução livre).

O culto de Cosme e Damião em Portugal

Augusto da Silva Carvalho, em 1928, escreveu O Culto de Cosme e Damião em Portugal e no Brasil – História das Sociedades Médicas Portuguesas. Segundo ele, a devoção a esses santos em Portugal está muito  ligada ao  fato das confrarias se constituírem naquele país principalmente reunindo pessoas de uma mesma profissão em volta de um santo protetor. A escolha pelos médicos dos santos Cosme e Damião como patronos entre tantos outros santos médicos (Carvalho faz uma longa lista) deve-se ao fato de que eles, além de terem sido médicos, foram santos. Por isso, para Carvalho, acompanhar essa devoção em Portugal termina por desembocar em falar da história das sociedades médicas.

Conforme Carvalho (1928, p. 3), “Nos séc. XII e XIII o culto dos dois santos espalhou-se pela Europa Central e Ocidental”. Como padroeiros dos médicos, nota-se que o prestígio da medicina e dos santos estão relacionados. Carvalho (1928, p. 7) nota que “Na Itália o culto dos dois irmãos foi muito extenso”, extensão relacionada “a alta consideração que na Itália tinham pelos médicos”. Assim, a manutenção do culto dos santos e crescimento por obra de confrarias não é algo peculiar ao país lusitano.

Por serem padroeiros dos médicos, um dos materiais para pesquisa dessa devoção em Portugal é um tanto inusitado: os livros de medicina. “Nos livros de medicina publicados em Portugal encontram-se muitas referências aos patronos dos médicos e algumas vezes até esses livros lhes foram dedicados” (Carvalho, 1928, p. 17). Contudo, estudar em Portugal esse culto a partir da devoção às relíquias não é tão promissor porque Portugal é “muito pobre em relíquias dos dois santos” (Carvalho, 1928, p. 15).

Conforme Carvalho (1928, p. 9), “Em Portugal o culto dos dois santos data dos primeiros tempos da monarquia, ou melhor, começou antes da constituição do nosso reino”. Vestígios disso são quadros, monumentos e documentos, incluindo testamentos onde o falecido deixava alguma imagem de santos para um herdeiro. Devoção realmente muito antiga, já em 568, numa freguesia de Azar ou Azere, “no actual concelho dos Arcos de Val houve um mosteiro de frades bentos dedicado a Cosme e Damião” (Carvalho, 1928, p. 21, sic). Em Portugal também “Foi uso em tempos dar a gémeos os nomes dos dois santos” (Carvalho, 1928, p. 17), uso que continua no Brasil. Parece mesmo que os pais portugueses destinavam os filhos à medicina desde o berço dando-lhes o nome desses santos, e “Algumas vezes os médicos e cirurgiões escolhiam para seus filhos os mesmos nomes” (Carvalho, 1928, p. 18), demonstrando não só sua devoção aos santos, mas o desejo de que os filhos seguissem na mesma devoção. Assim, uma família de médicos seria também uma família de devotos.

No entanto, a veneração dos patronos dos médicos não é encontrada somente nos grandes centros, onde haveria concentração tanto de médicos como dos cursos de medicina, mas também “nas mais humildes aldeias, em tôscas e pobres capelas, onde os oragos são representados por ingénuas imagens, em que os sapateiros de província consubstanciaram as lendas e tradições do povo humilde daqueles lugarejos” (Carvalho, 1928, p. 20, sic). Assim, outros profissionais responsáveis pela popularidade dos santos são os sapateiros, que se não têm o mesmo prestígio que os médicos estão mais próximos do povo das aldeias do que aqueles.

Carvalho segue em seu livro listando várias localidades, pequenas aldeias, com nomes dos gêmeos ou nomes derivados dos deles (Cosmode, por exemplo), assim, ele nos mostra que a toponomia e a antroponomia são estudos importantes para acompanhar a expansão da devoção, o que serve certamente também para o caso brasileiro. Aliás, “No Brasil ha várias localidades com o nome dos dois mártires” e “Nos nomes de homens tambêm se encontra vestígio do culto dos mesmos santos” (Carvalho, 1928, p. 54, sic).

A origem do culto de Cosme e Damião em Igarassu e no Brasil

Como sabemos o catolicismo brasileiro é santorial, a ponto de que em “certas casas mais devotas, podemos encontrar folhetos de cordel, quadros ou até imagens reproduzindo a figura de alguns destes santos mais populares” (Mott 1994, p. 3). E catolicismo santeiro brasileiro tem suas origens na religiosidade ibérica, pois “Portugal e Espanha costumavam disputar entre si para saber qual dos reinos ostentava o maior número de santos e beatos reconhecidos” (Mott, 1994, p. 4). Assim, é um tanto natural que a devoção aos santos gêmeos, trazida pelos portugueses, tenha se fixado e se expandido em solo brasileiro.

A Matriz dos Santos Cosme e Damião de Igarassu25, Pernambuco, de 1535, “considerada uma das principais relíquias da arte colonial brasileira” (Basacchi, 2003, p. 9), é a igreja mais antiga26 do Brasil ainda em atividade.

No dia 27 de setembro de 1530, dia dos Santos Cosme e Damião, com a expulsão dos índios, pelos portugueses, das terras margeantes ao Rio Igarassu, inicia-se o processo de ocupação de Pernambuco. A Construção da Vila de Igarassu é, assim, a marca original da cultura portuguesa nesta região do país. (Programa…, 1979, p. 15).

As despesas para sua edificação correram por conta do Capitão Afonso Gonçalves, que, em carta ao rei de Portugal, datada de 10 de maio de 1548, diz textualmente: “Senhor eu quisera os dízimos desta igreja para os gastar nela e em coisas necessárias para o culto divino e ornamentos, pois sou fundador dela e a fiz à minha custa própria” (Pereira da Costa, 1983, p. 248, 249).

A capela primitiva, provavelmente em taipa, ruiu por volta de 1590/94, segundo informação contida no livro “Primeira Visitação do Santo Ofício: Denunciações e Confissões de Pernambuco”. No mesmo sítio e obedecendo a um alvará real datado de 11 de novembro de 1595, foi construída entre 1595/97, uma nova capela, desta vez de pedra e cal. Hoje, após processo de restauração iniciado em 1958, a igreja recuperou suas características primitivas (Prefeitura de Igarassu, 2010, p. 9).

O professor C. Smith, titular da Cadeira de História da Arte na Universidade da Pensilvânia, nos informa: “A igreja paroquial dos Santos Cosme e Damião, fundada em 1535, foi ampliada no século XVIII por ter sido considerada como a mais antiga do Brasil e o dinheiro usado proveio dos cofres reais” (Biblioteca…, 2011, p. 14). Nos Anais Pernambucanos lemos acerca da conquista dessa terra e acerca dessa igreja:

Dêste porto dos marcos, escreve Jaboatão, saiu Duarte Coelho, e deixando esse braço do rio que cerca a ilha de Itamaracá pelo poente e buscando outra vez o mesmo rio para o sul pouco mais de uma légua, navegando por êle acima duas ao mesmo poente ou meio dia, deram fundo e saltaram em terra, não sem grande oposição do gentio, que no alto, à margem daquele porto tinha uma mui forte e abastada aldeia, que depois de larga resistência, combates e pelejas, foram vencidos e afugentados os seus habitadores. Foi a última vitória a vinte e sete de setembro, dia dos gloriosos mártires Santos Cosme e Damião, e a sua memória consagraram logo aquêle lugar, levantando nêle igreja sua e dando princípio a uma povoação, que depois passou a vila com os nomes dos santos mártires, e foi a primeira da capitania de Pernambuco. […] Aquela igreja, com a invocação dos referidos santos, já estava construída em 1548, como se vê de uma carta de Afonso Sanches, seu fundador, dirigida ao rei a 10 de maio daquele ano, e teve depois a categoria de matriz com a criação da paróquia de Igarassu, em época porém desconhecida; mas como se vê da Informação da Província do Brasil, do Padre José de Anchieta, escrita em 1585, já então estava ereta e canônicamente provida […].(Pereira da Costa, 1983, p. 170-176, sic).

Num dos painéis27 da igreja28 retratando a vitória sobre os índios caetés lê-se:

Vencidos os índios pelos Portuguezes em o dia dos Santos Cosme e Damião, em reconhecimento de tão grande benefício, no mesmo lugar da vitória, que he este de Iguaraçú, fundarão logo este templo, o primeiro que houve em Pernambuco, e o consagrarão aos gloriosos Santos, d’onde forão sempre continuas suas victorias e maravilhas, e debaixo da proteção dos mesmos Santos fundarão esta villa, que também foi a primeira que houve (Igreja…, 1729, s/p, sic).

Augusto da Silva Carvalho (1928), porém, no seu O Culto de S. Cosme e S. Damião em Portugal e no Brasil, não faz nenhuma referência a essa igreja, o que é uma grande falha em sua pesquisa, que a respeito do culto desses santos em Portugal é tão rica de detalhes. Uma das riquezas da obra de Carvalho, no entanto, sobre essa devoção no Brasil, é recuperar a memória da existência de confrarias dedicadas aos gêmeos. Conforme ele, as confrarias “constituíram-se e mantiveram-se durante muito tempo com a designação do santo patrono de cada profissão” (Carvalho, 1928, p. 1).

A escolha dos santos gêmeos para serem os patronos dos médicos no meio de tantos santos que também se dedicaram a medicina (entre os quais S. Lucas, evangelista) explica- se por serem eles mártires. Por extensão, se tornaram santos de todos profissionais da área da saúde. Interessante terem sido tomados também como padroeiros dos sapateiros. Jaime Sodré, em vídeo a TVE Bahia, explica que isso se deve a eles, como médicos, terem feito botas de funções ortopédicas (na azulejaria portuguesa do interior da capela do Convento de Santo Antônio em Igarassu, há a figura deles cuidando da perna de um homem usando desse artifício). Acreditamos que também se deva a associação feita entre Cosme e Damião e Crispim e Crispiniano29, mártires também do século III, patronos dos sapateiros devido a um trocadilho feito entre seus nomes e a palavra grega para sapatos (Di Berardino, 2002, p. 358).

Diferente de Portugal, no Brasil não perecia ter havido confrarias dedicadas a Cosme e Damião, já que o autor não encontrara memória30 delas na população que investigara; “no entanto existem documentos que provam sua existência” (Carvalho, 1928, p. 56). Trata-se dos documentos do Santo Ofício referentes a Manuel Mendes Morforte e Francisco de Siqueira Machado. O primeiro veio à baía em 1698, e lá se tornou irmão da Confraria de S. Cosme e S. Damião e mandou dourar o retábulo da capela desses santos. O segundo, cristão novo, natural do Rio de Janeiro, para provar sua crença na religião católica, lembra, durante o interrogatório, que quando no Rio de Janeiro estava quase extinta a irmandade dos gêmeos, ele que se esforçou para que ela se restabelecesse (Carvalho, 1928, p. 56,57). Em entrevista, o professor Jorge Barreto, diretor do Museu Histórico de Igarassu, afirmou-nos haver nas dependências do Museu, onde funciona o Departamento de Pesquisa Histórica, uma prestação de contas, datada de 1854, da Irmandade de São Cosme e Damião, já dando sinais de falência. Segundo ele, a Irmandade não alcançou a República31.

No Rio de Janeiro32 pareceria “haver uma devoção por estes santos na Igreja de Gonçalo Garcia e S. Jorge, sita na Praça da República. Mas noutros estados a devoção é mais viva e sobretudo na população portuguesa é conservada como grande amor” (Carvalho, 1928, p. 57). É na Bahia, contudo, onde a devoção é mais intensa, onde “não ha casa de gente do povo que não tenha as imagens dos santos, muito tóscas e ingénuas” (Carvalho, 1928, p. 58, sic). Em Salvador, a devoção aparece ligada ao candomblé, onde se distribui o caruru, iguaria feita de quiabo e camarão. Como explica o professor Jaime Sodré (apud Caruru…, 2012), por serem vistos como meninos nas religiões afro, Cosme e Damião têm uma ligação muito especial com os orixás, pois “não tem orixá que não vá ouvir o canto de um menino”. Na zona rural da Bahia, como mostra o documentário Bahia Singular e Plural (Cosme…, 2012), é comum a prática do “Lindro Amor”, quando homens e mulheres saem33 de casa em casa cantando, usando chapéus enfeitados com folhas de seda, e duas crianças à frente levando uma caixa enfeitada contendo a imagem dos santos e flores, para arrecadar donativos (dinheiro, mantimentos, velas…) para fazer a festa.

Como frisamos, a devoção foi trazida ao Brasil de Portugal, onde em muitas de suas localidades “os santos eram invocados para proteger os que faziam longas viagens”, como a devoção aqui chegou “pelos que os tinham como patronos dos navegantes […] o seu culto se radicou sobretudo na beira-mar” (Carvalho, 1928, p. 58). Devoção trazida pelos portugueses e que se espalhou pelo litoral, depois se interiorizou com o garimpo. Os negros eram a grande “máquina” produtiva do garimpo, e, reduzidos a “coisa”, tinham que – como forma de resistência cultural – “sincretizar seus orixás com os santos católicos que lhe foram impostos” (Araújo, 2010, p. 2). Sincretismo esse que perdurou até os dias de hoje, fazendo parte da religiosidade popular do povo brasileiro.

Conclusão

Como no início deste texto, gostaríamos de novamente lembrar a literatura de cordel do Frei Urbano de Souza (1991, p. 23):

É religiosidade
De roupagem popular
Espiritualidade
Com certeza aí está
Toda a criatividade
De nossa modernidade
Muito tem a escutar

O que achamos importante destacar, ao chegar agora ao final desse texto, é que a devoção a Cosme e Damião, tão antiga, como mostramos, no Brasil ainda permanece viva, principalmente na religiosidade popular.

Notas:

Notas:

1 Texto referente a uma comunicação apresentada na 2ª Semana de Ciência da Religião da UFJF realizada entre os dias 16 e 19 de setembro de 2013.

2 Doutorando em Ciência da Religião pela UFJF. Bolsista CNPq

3 Interessante que Acta e Passio sejam atribuídos como os “verdadeiros” nomes de Cosme e Damião.

4 Foxe escreve de dentro do seio protestante, assim, é claro que ele assume o pensamento de o protestantismo é o verdadeiro herdeiro da fé dos mártires, por isso, ele inclui no seu “livro dos mártires” nomes como os de William Tyndale, John Wyclif e John Huss.

5“Para nuestro objeto es importante notar uma formalidade que no faltaba em ningún processo: las actas”.

6 “Las actas de los mártires no son otra cosa que la transcripcion exacta, o poco menor, de los procesos verbales redactados por los paganos y conservados em los archivos oficiales, transcripción que los cristianos reprocuraban por diversos médios, por ejemplo, la compra a los agentes del tribunal”

7“era objeto de trampa e falsificación”

8 Conforme Cacciatore (1988, p. 141) o termo advém do iorubá: “ìbi” – parto; “èji” – dois. A Enciclopédia Barsa (Encyclopedia…, 1997, p. 449) informa que “No Rio Grande do Sul, os Ibejis são denominados Beifes”.

9 Conforme Figueiredo (1953, p. 8), eles se dedicaram a curar não apenas os homens, mas também os animais.

10 Estes são “O Liberorationum visigodo, dos inícios do séc. VIII, o sacramentário Leonino, o Gregoriano de Pádua, o Calendário de Nápoles” (Di Berardino, 2002, p. 347).

11 Já “O sinaxário de Constantinopla contém a 1º de julho três pares de santos homônimos”, ao passo que numa paixão grega sua data aparece como 25 de novembro (Di Berardino, 2002, p. 347).

12 Na imaginação do poeta Frei Urbano de Souza (1991, p. 18), eles morreram abraçados: “Eles então se abraçam/ No auge da santidade/ A Deus do céu adoraram/ Em espírito e em verdade”. Lembrando a clássica distinção aristotélica entre poesia e história, como poeta, ele tem o direito de cantar o que poderia ter sido, diferente do historiador, que tem o dever de contar o que foi.

13 Um dos milagres dos santos doutores teria sido que após serem decapitados, a cabeça deles voltou a se encaixar sobre o pescoço. Esse milagre seria para gente “não perder a cabeça”, ou seja, não perder o juízo.

14 “The Passio describes them as being burnt, stoned, sawed, and finally decapitated, but it is pure legend”

15 Harrold (2007, p. 26) propõe dividir o estudo sobre esses santos entre a tradição latina e bizantina, conforme Harrold (2007, p. 28), no Ocidente desenvolveram-se menos lendas do que na tradição do Oriente.

16 O Primeiro Concílio de Éfeso foi realizado em 431 na Igreja de Maria em Éfeso, na Ásia Menor. Foi convocado pelo imperador Teodósio II e debateu sobre os ensinamentos cristológicos e mariológicos.

17“With no historical proof of actual saints named Cosmas and Damian, the beginnings of the cult are impossible to identify with absolute certainty, but a picture can be built up from the evidence provided by liturgical notices, historical documents and the earliest locations of worship and associated collections of miracles. The rapid spread of the popular cult further obscured its origins”.

18 “doctor saints were certainly known well enough by the early fifth century for a sanctuary to have been built in their honour”

19 “From amongst these early dedications it is possible to hypothesize a geographic starting point for the cult (…) there is quite a bit of evidence supporting the belief in the existence of the tomb of the saints in the region of Cyrrhus in northern Syria from an early date”.

20“The adoption of the saints in many places quickly followed. For example by the mid fifth century at least two churches dedicated to SS. CosmasandDamianhadbeenbuilt in Constantinople.”

21                       Há                       várias                       imagens                          disponíveis         em:

<http://www.franciscanfriarstor.com/archive/theorder/Basilica/index.htm>. Acesso em 21 nov. 2014.

22 As pinturas e o texto desta página da internet são a reprodução permitida do livro The Basilica of Santi Cosma e Damiano e é propriedade da FranciscanFriars.

23″Hic fecit basilicam sanctorum Cosmae et Damiani in urbe Roma, in loco qui appellatur II Via Sacra, iuxta templum urbis Romae.”

24“The location of the church, on the opposite side of the forum to devotional centres dedicated to the Dioscuri and Asklepios, could have been intended to provide a Christian alternative to these places”

25 “A localidade que recebeu o nome de Igarassu, corruptela de Ygara-açu, barco grande, navio, canoa grande, originário dos índios, vem do fato, como escreve Teodoro Sampaio, de ser o porto, desde os primeiros anos da colônia, visitado por barcos que o atingiam com o percurso da maré” (Silva; Alheiros, 1986, p. 10).

26 Silva (2011) haverá de negar essa afirmação advogando em favor da Igreja de Nossa Senhora do Monte em Olinda.

25 “A localidade que recebeu o nome de Igarassu, corruptela de Ygara-açu, barco grande, navio, canoa grande, originário dos índios, vem do fato, como escreve Teodoro Sampaio, de ser o porto, desde os primeiros anos da colônia, visitado por barcos que o atingiam com o percurso da maré” (Silva; Alheiros, 1986, p. 10).

26 Silva (2011) haverá de negar essa afirmação advogando em favor da Igreja de Nossa Senhora do Monte em Olinda.

27 São quatro painéis, todos de 1729: o primeiro retrata vitória sobre os índios caetés, marco da fundação da cidade; o segundo, a construção da Igreja; o terceiro, a invasão e saque de Igarassu pelos holandeses, (ocorrida em 1632, os holandeses ao terem tentado saquear as telhas do telhado da Igreja de Cosme e Damião, teriam sido surpreendidos pela aparição dos santos numa nuvem e, pelo esplendor dos santos, caíram cegos); o quarto painel retrata a peste de febre amarela de 1685 (Igarassu, diferente das cidades suas vizinhas, esteve ilesa a esta peste, o painel retrata várias cidades sendo invadidas pela morte – retratada como tradicionalmente com um esqueleto com uma foice, enquanto em Igarassu os santos, postos nas fronteiras, barram a entrada da morte na cidade. Esses painéis foram transferidos para o Museu Pinacoteca de Igarassu, que funciona no Convento de Santo Antônio, em 1969, para fins de melhor preservação.

28 Não é acessível a todos viajar para Igarassu para conhecer essa igreja, mas é possível “visitar” seu interior         virtualmente   através    de              um                        vídeo                       disponível       em:

<http://www.youtube.com/watch?v=8szLsX1HV2M>. Acesso em 21 nov. 2014.

29 Na Bahia, Crispim e Crispiniano também foram sincretizados com os Ibêjis, por isso, no dia 25 de outubro, dia desses santos, ocorre comemorações como as feitas a Cosme e Damião, porém, com menor intensidade.

30 Seria o caso de perguntarmos quais forças operaram ou contribuíram para que operasse esse esquecimento. Quais razões e circunstâncias motivaram o apagamento das reminiscências?

31 Não pude ter acesso a esse documento porque quando estive em Igarassu (19/09/2013 – 28/09/2013) para minha pesquisa de campo, o acesso ao Departamento de Pesquisa Histórica estava suspenso devido às festividades dos santos. As visitas ao museu aumentam nessa época.

32 No Rio de Janeiro, como o policiamento é feito por duplas de soldados, essas duplas ganharam do povo a alcunha de “Cosme e Damião”, gesto que foi recebido com simpatia pelos policiais, assim “os santos gêmeos tornaram-se também patronos da Polícia Civil da Guanabara” (Basacchi, 2003, p. 9).

33 Já que São Cosme e Damião são vistos como crianças, é natural que eles gostem de passear. Uma das músicas de tradição do “Lindro Amor” chama a dona da casa: “Ô minha senhora/ abra essa porta/ porque São Cosme é tradição/ é coisa nossa”. Como a caixa é levada ao interior da residência ninguém fica sabendo o valor exato que a pessoa depositou, o que evita constrangimento.

Referências

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Disponível                                                                                                         em:

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Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/as-origens-do-culto-de-cosme-e-damiao/

Aleister Crowley: o Homem Mais Perverso do Mundo

Por Mike Karn

Revista The Square, volume 43, n° 2, junho 2017, páginas 32-34.

Aleister Crowley é considerado uma das figuras mais notáveis e sinistras do século passado. Ele foi um renomado estudioso que usou seu incrível intelecto para se tornar um especialista e praticante do ocultismo e da magia negra. Tão grande era o seu domínio que, para muitas pessoas, ele se transformou na personificação absoluta do mal. Seus ritos, orgias e cerimônias profanas chocaram até mesmo os mais cínicos e despertaram curiosidade, fúria e ódio nas outras pessoas.

​Ele sempre insistiu que seu nome fosse pronunciado como “Crow-ly” – muitas vezes acrescentando, com um sorriso malicioso: “para rimar como holy [sagrado]!”. No entanto, provavelmente é difícil, para quem desconhece a reputação de Crowley, imaginar a controvérsia que seu nome incitou no público em geral – e o ódio e medo que sentiram.

​Crowley nasceu no auge da era vitoriana, em 1875, em Leamington, Warwickshire, Inglaterra. Proveniente de uma família próspera adepta da seita dos Irmãos de Plymouth, ele foi devidamente batizado como Edward Alexander Crowley. Foi criado para acreditar que Deus era todo-poderoso e que o livre-arbítrio não era uma opção. Seu pai, Edward, era de uma rica família quaker, e ele e sua esposa, Emily, eram fanáticos religiosos que se juntaram aos Irmãos de Plymouth na fundação da seita.

​Para Crowley, o Cristianismo assumiu proporções extremas e se tornou o inimigo. Em seu tormento, ele procurava ajuda e conforto em outras fontes – essa direção por fim levava ao inimigo natural: o demônio. Ele se rebelou totalmente contra a religião de sua família e posteriormente mudou seu nome para Aleister, para não partilhar do mesmo nome de seu pai, Edward.

​Crowley teve uma infância muito infeliz. Seu pai viajava pelo país pregando, enquanto sua mãe rezava, lamentava e atormentava o filho. O pior ainda estava por vir: seu pai faleceu quando ele tinha 11 anos de idade, e sua guarda foi concedida à mãe de seu irmão, que o tratava com crueldade. Isso só foi ultrapassado por um mestre sádico de uma escola dos Irmãos Plymouth, à qual foi confiado.

​Portanto, quando criança, Crowley rezou para o demônio em segredo, para se manter protegido de sua mãe, de seu tio, do mestre e dos garotos que o maltratavam na escola. Seus sentimentos em relação ao Cristianismo e à sua família eram de puro ódio, e ele não foi criado como uma criança normal. No início de sua adolescência, como seu comportamento comum era não aceitar a doutrina dos Irmãos Plymouth, a mãe de Crowley o amaldiçoou e passou a chamá-lo de “a besta”, cujo número era 666, conforme o Livro do Apocalipse no Novo Testamento da Bíblia. Em vez de ficar ofendido com isso, ele adotou o nome e agiu como se não houvesse mais nada a fazer a não ser aceitá-lo.

Crowley frequentou a Malvern College como uma criança oprimida e mentalmente perturbada. Uma escola pública não era lugar para um garoto tão tímido e estranho, e ele sofria agressões físicas e psicológicas, a ponto de ser retirado da escola e transferido para a Tonbridge School. Mas então houve uma transformação nele. Crowley tinha crescido e se tornou forte física e mentalmente. Ele passou por uma mudança completa, como se algo tivesse sido despertado dentro dele. Deixando de lado toda a sua insegurança, superou os intimidadores e se transformou em um deles.

Nessa época, ele começou a praticar alpinismo. O cabo de Beachy Head e as montanhas galesas foram os cenários de suas primeiras expedições, mas então ele começou a escalar penhascos que ninguém jamais havia ousado, e realmente obteve muitas experiências na escalada.

Em 1895, aos 20 anos de idade e denominando-se Aleister, foi para a Trinity College, em Cambridge, como graduando do curso de ciência moral. Ele também escreveu, estudou poesia e continuou a praticar alpinismo. Crowley era considerado um jovem com um futuro promissor, mas enveredou pelo ocultismo e por todas as formas de imoralidade. Ele vivia como um aristocrata privilegiado e mantinha uma vida sexual vigorosa, conduzida com prostitutas e mulheres que ele escolhia nos bares locais, mas isso posteriormente se estendeu a atividades homossexuais. Ele também começou a publicar poesia explicitamente sexual.

Quando frequentava a Trinity College, conheceu Allan Bennett. Os dois se interessaram pelo ocultismo e começaram a experimentar rituais mágicos. Ao que tudo indica, eles obtiveram resultados impressionantes, incluindo a manifestação de uma hoste de seres sobrenaturais e de atividades de espíritos.

Em 1898, Crowley e Bennett se juntaram à Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn) em Londres, que praticava magia ritualística, alquimia, astrologia, tarô e outras ciências ocultas. A ordem foi fundada em 1887 por três membros da Maçonaria: Samuel MacGregor Mathers, William Robert Woodman e dr. William Wynn Westcott. Todos eles também foram membros da Sociedade Rosacruciana.

A Golden Dawn afirma que sua origem remonta de documentos codificados na posse de Wynn Westcott, segundo os quais o grupo era uma ramificação da Ordem Rosacruz alemã. Eles conceberam cinco rituais nos moldes maçônicos, que foram expandidos por Mathers. Sua influência no desenvolvimento do ocultismo moderno ocidental foi profundo, e muitos grupos afirmam serem originados da Golden Dawn.

Um ano depois, um fundo em depósito que foi estabelecido após a morte de seu pai lhe foi liberado. Crowley se tornou um homem rico, sem ter que depender mais de sua família. Ele abandonou a universidade sem concluir o curso, adquiriu um apartamento em Londres e começou a se dedicar a seus estudos ocultistas. Crowley tinha uma aptidão natural para a magia e logo fez avanços, tornando-se um mago poderoso, assim como seu amigo Allan Bennett.

Crowley não apenas se aprofundou no ocultismo, mas também foi promovido rapidamente pelos graus da Golden Dawn. Em 1889, ele completou os estudos necessários para obter o grau de Adeptus Minor. Entretanto, por causa de suas atitudes e de seu comportamento homossexual, o líderes em Londres o consideraram inadequado para avançar na Segunda Ordem. Então, Crowley foi para a França, onde o líder da Golden Dawn em Paris, MacGregor Mathers, o iniciou na Segunda Ordem.

Posteriormente, em 1900, a Golden Dawn foi fragmentada. Mathers, em uma tentativa de se unir à Loja londrina e se tornar um líder incontestável da ordem, mandou Crowley para a Inglaterra como seu “enviado especial”. Crowley fez uma tentativa frustrada de obter novamente o controle das propriedades da ordem em nome de Mathers. Ele surgiu em uma reunião ritualística vestido de maneira excêntrica com traje escocês completo e um capuz preto. Pouco tempo depois, Mathers e Crowley foram expulsos da ordem.

Crowley era maçom. Registros apontam que ele foi para a França em 1903, onde foi iniciado na Maçonaria na Loja Anglo-Saxônica nº 343, em Paris. Essa era uma Loja principalmente para expatriados e para aqueles que não podiam se afiliar à Maçonaria na Inglaterra por causa dos altos padrões da Grande Loja Unida da Inglaterra (GLUI).

Crowley afirmou ter sido recomendado por um Past Grão-Capelão Provinciano de Oxfordshire. No entanto, não existem evidências documentadas disso, e Crowley certamente nunca foi iniciado na Maçonaria inglesa. Posteriormente, ele continuou tentando ser admitido em reuniões de Lojas em Londres, mas frequentemente era recusado, pois pertencia a uma Ordem Maçônica ilegítima.

Em seu livro The Confessions of Aleister Crowley, uma auto-hagiografia, Crowley se explica:

Eu mencionei ter obtido o 33° na Cidade do México. Isso não acrescenta muita importância ao meu conhecimento dos mistérios, mas ouvi falar que a Maçonaria era uma irmandade universal e esperava ser recebido em todo o mundo por todos os Irmãos. Fui surpreendido com um considerável choque nos meses seguintes, quando, tendo a chance de discutir o assunto com um apostador arruinado ou agente de apostas – não me lembro exatamente –, descobri que ele não me “reconhecia”! Havia uma diferença simples em um dos apertos de mão ou alguma outra formalidade totalmente sem sentido. Demonstrei um desprezo imenso por todo o ritual. Eu fui admitido ao ser iniciado na Loja Anglo-Saxônica nº 343, em Paris.

Retornei à Inglaterra um tempo depois, após passar meu posto na minha Loja, e, esperando me juntar ao Arco Real, dirigi-me a seu venerável Secretário. Apresentei minhas credenciais. “Ó Grande Arquiteto do Universo”, o velho homem irrompeu de raiva, “por que não queimais este impostor no fogo dos céus? Senhor, vá embora. Você não é um maçom!”.

Pensei que isso seria um pouco difícil de meu Reverendo Pai em Deus, o criador, e percebi que, obviamente, todos os ingleses e norte-americanos que visitam uma Loja na França correm o risco de expulsão ou detenção instantânea e irrevogável. Então, eu não disse nada, mas fui para outra sala no Freemasons’ Hall sem seu conhecimento, e tomei meu lugar como um Past Master em uma das Lojas mais antigas e importantes de Londres.

Em 1905, Crowley voltou a se dedicar ao alpinismo e tentou conquistar o Kangchenjunga, no Nepal, a terceira montanha mais alta no mundo. Houve grande controvérsia durante a tentativa frustrada, e Crowley foi acusado de crueldade por agredir seus carregadores e deixar outro homem morrer na montanha. Era evidente que ele não conseguia tolerar qualquer tipo de fraqueza nas outras pessoas, mas essa viagem acrescentou muitas outras histórias terríveis à sua reputação crescente como um homem perverso.

Em 1906, Crowley fez uma viagem com sua esposa e sua filha para a China e depois para o Vietnã, onde as abandonou. A criança faleceu posteriormente, e sua esposa recorreu ao consumo de álcool para aliviar a dor, chegando à loucura. Tempos depois, Crowley a internou em um sanatório, e eles por fim se divorciaram em 1909.

Em 1910, Crowley conheceu John Yarker. Yarker era maçom, costumava escrever sobre assuntos relacionados à Maçonaria e era membro da Loja Quatuor Coronati. Em 1871, ele esteve envolvido com a fundação de um Grande Conselho do Rito Antigo e Primitivo em Manchester, uma ordem que se separou da GLUI e criou uma conexão com o Rito Antigo e Aceito e com outros ritos egípcios. Isso não era considerado comum pela maioria das Grandes Lojas. Crowley se juntou à ordem, da qual mais tarde se tornou Grão-Administrador Geral e também Mestre Patriarca Geral.

Em 1913, Crowley visitou o Secretário da Loja Quatuor Coronati e o Grande Secretário do Freemasons’ Hall, buscando uma forma de se juntar à Loja inglesa. Ele então escreveu à Grande Loja solicitando seu direito de se juntar a Lojas inglesas e participar delas, baseado em sua associação à Loja francesa. Seu pedido foi negado, devido à irregularidade de sua Loja-Mãe. A Grande Loja não identificou Crowley como um membro da Maçonaria. Todas as suas afiliações estavam ligadas a órgãos irregulares, portanto lhe negaram reconhecimento.

Crowley estava escalando montanhas na Suíça quando a Primeira Guerra Mundial irrompeu e ele retornou para a Inglaterra. Estava impossibilitado de se juntar às forças armadas por causa de sua saúde debilitada, mas ofereceu seus serviços: sua escrita e sua inteligência. Supostamente, sua oferta foi rejeitada com desprezo pelo Serviço de Inteligência Britânico, e, para um homem como Crowley, isso resultou em seu ressentimento e apoio subsequente à Alemanha. Ele foi para os Estados Unidos, onde escreveu e publicou propaganda antibritânica, o que o tornou um traidor e desertor na Inglaterra.

Nos Estados Unidos, ele estudou com ocultistas norte-americanos, começou a pintar e escreveu muitos livros. Em 1919, enquanto vivia em Greenwich Village, conheceu Leah Hirsig, e os dois sentiram uma conexão imediata e instintiva. Em 1920, eles foram para a Sicília e criaram um templo em uma antiga fazenda. Eles tiveram uma filha e, sob a influência de ópio e cocaína, fundaram um novo culto religioso chamado Thelema. Com Crowley considerando-se um profeta da nova era, a famosa Abadia de Thelema foi fundada. Thelema era uma religião, e sua lei era: “Faze o que tu queres”. Rapidamente, circularam histórias sobre depravação. O povo italiano se ressentiu das atividades diabólicas de Crowley, e Benito Mussolini, o ditador italiano, determinou que ele fosse deportado. Como sempre, Crowley não negou as acusações feitas contra ele.

Crowley também foi membro da Ordo Templi Orientis (O.T.O.) e, em 1925, por fim assumiu liderança e revisou os ritos, estabelecendo rituais da ordem nos mesmos moldes da Maçonaria. A O.T.O. é uma sociedade secreta e, ao longo dos anos, ressurgiu diversas vezes. Atualmente, está em atividade em 25 países, com uma afiliação crescente de mais de 4 mil membros. Segundo consta, todos os homens e mulheres livres, com maioridade completa e bons precedentes, têm o direito de serem iniciados nos primeiros três graus dessa ordem.

Muitos livros ocultos foram escritos por Crowley, os quais, apesar de terem sido escritos com discernimento, são muitas vezes difíceis de serem acompanhados. Um deles é o sagrado Livro da Lei, que tem como princípio fundamental: “Faze o que tu queres há de ser o todo da lei”, que significa que todo homem e toda mulher deverão encontrar sua verdadeira vontade, seu propósito e seu sentido de vida, seguindo isso e nada mais. Dois de seus romances, The Diary of a Drug Fiend (1922) e Moonchild (1929), foram parcialmente baseados em sua vida pessoal e em suas alucinações egomaníacas. Acredita-se que Crowley tenha realizado muitas tentativas sem sucesso, com diferentes mulheres, de procriar uma “criança mágica”. Ele escreveu sobre essas tentativas em forma de ficção no livro Moonchild.

Crowley sempre atraiu um pequeno grupo de seguidores nos Estados Unidos e na Alemanha, talvez não mais de algumas centenas de pessoas por vez, e, por quatro anos, perambulou pela Alemanha e por Portugal, sendo financiado por seus seguidores fiéis. Ao retornar para a Inglaterra, em 1935, foi à falência após perder um processo judicial contra um jornal que o teria chamado de mago negro. A evidência contra ele era devastadora – e é de se imaginar que o caso só tenha sido levado à corte por mera publicidade!

Durante os anos seguintes, Crowley parou de viajar e permaneceu na Inglaterra, onde escreveu muitos outros livros. Ele passou seus últimos anos sozinho em uma pensão em Hastings, como um homem velho e debilitado, mal sobrevivendo por seu vício em heroína. Seu ato final foi amaldiçoar o médico que se negou a prescrever a quantidade de heroína que ele queria. Crowley morreu em 1º de dezembro de 1947, aos 72 anos de idade, e foi cremado em Brighton. Suas cinzas foram enviadas a seus seguidores nos Estados Unidos. O médico que ele amaldiçoou teria morrido em menos de 24 horas depois.

Sem arrependimentos e sem se curvar, ele partiu deste mundo com um desprezo final pela sociedade. Crowley havia preparado seu próprio funeral e, em vez do serviço religioso comum, criou seu último ritual com suas obras. Amigos leram Hymn to Pan e Collects and Anthems, de Gnostic Mass. Passagens selecionadas do Livro da Lei também foram lidas. Houve tantas reclamações por parte do público a respeito do serviço funerário que o Conselho de Brighton decidiu tomar providências para prevenir que um incidente como esse nunca mais acontecesse.

Provavelmente, Crowley foi o mago mais famoso de sua época, tornando-se ainda mais influente após sua morte do que quando estava vivo. Ele foi muitas vezes odiado em vida, mas certamente causou influência e impacto no desenvolvimento da nova era do ocultismo moderno. Seu conhecimento sobre magia e bruxaria era certamente profundo, e ele transmitiu esse conhecimento por meio de seus diversos livros. Na sociedade liberal dos dias de hoje, seus livros estão sendo procurados e reimpressos, e algumas pessoas parecem apreciar seu estranho intelecto. Sua impiedade persistente era um traço de sua personalidade e influenciou homens e mulheres, mas Crowley deixou para traz um rastro de devastação em se tratando das mulheres e dos homens em sua vida. Alcoolismo, vício em drogas, insanidade e suicídio surgiram em seu caminho. Portanto, Crowley era um mago negro perverso? Provavelmente sim, mas tão importante quanto isso era o fato de ele querer que todo mundo acreditasse nisso.

Há uma reviravolta na história, pois, quando Crowley morreu, foi encontrada uma carta da Inteligência Naval Britânica endereçada a ele, requerendo o prazer de sua companhia em uma recepção. A história então revelada é a de que ele teria sido recrutado pela Inteligência Britânica durante a Segunda Guerra Mundial, quando queriam explorar as informações de que nazistas de alto posto estavam envolvidos com astrologia e ocultismo. Agente britânico por muito tempo, Ian Fleming (que escreveu os romances de James Bond) disse que Crowley foi recrutado pela primeira vez para a investigação de Rudolf Hess. Fleming também revelou que foi Crowley quem sugeriu o símbolo de “V” de vitória usado por Churchill – o símbolo com os dois dedos sendo o oposto direto e destrutivo do símbolo solar da suástica.

Atualmente, poucas pessoas irão refutar a ideia de que Crowley teria sido um agente britânico durante a Primeira Guerra Mundial, trabalhando nos Estados Unidos e ajudando na campanha de desinformação, em vez de ter sido um traidor, como se acreditava.

Crowley foi chamado de “o homem mais perverso do mundo”. No entanto, talvez hoje em dia ele não fosse considerado assim. Ele possivelmente seria tratado como um excêntrico, com poucas pessoas se incomodando com seu comportamento – o que não seria de forma alguma apropriado para ele.

#Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/aleister-crowley-o-homem-mais-perverso-do-mundo

E Se Lovecraft Estivesse Certo?

Quando pensamos em Howard Philips Lovecraft, não tem como não nos perguntarmos, mesmo que aparentemente não passe de uma brincadeira ou tolice, “E se Lovecraft estivesse certo?”

Para aqueles que ainda não o conhecem de maneira resumida podemos dizer que Howard Philips Lovecraft foi um dos maiores, se não o maior de acordo com alguns, escritores de horror e ficção da história. Agora a diferença entre ele e outros escritores de horror é que por inúmeros motivos algumas pessoas começaram a acreditar que o que ele escrevia era real. Para entender isso basta ter em mente que como grande parte dos gênios, Lovecraft não foi reconhecido em sua época, ele escrevia para revistas de horror e ficção, ganhava com isso o suficiente para ter uma vida extremamente simples e modesta – ou seja tinha um pouco de comida, e não dormia na rua. Na época, além dos fãs que conquistava com seus contos acabou atraindo vários escritores que se maravilhavam com os mundos e criaturas descritos por sua pena, esses escritores acabaram expandindo esse universo, emprestando personagens, lugares e até escrevendo em parceria, e então Lovecraft morre, e anos depois ele se torna cult e seus contos viram livros e ele ganha um universo de fãs, e um universo de seguidores.

Mas como dissemos muita gente acabou acreditando que aquilo que ele escrevia era real, que as criaturas que enlouqueciam, e voavam, e matavam – às vezes tudo ao mesmo tempo – de fato estavam à espreita. Apesar de Lovecraft por mais de uma vez desmentir que seus tomos malditos e lugares sombrios existissem em seus sonhos, criou-se muita especulação de até onde esses sonhos seriam “apenas sonhos”. E assim criou-se o Mito de Cthulhu ou simplesmente o Mito.

Várias pessoas ao longo dos anos começaram a questionar até onde a ficção escrita por aquele jovem acanhado e problemático da Nova Inglaterra não teria seus reflexos sombrios na nossa realidade, desde céticos cínicos como LaVey que dedicou parte de seu Rituais Satânicos ao Mito, deixando um texto sugestivo na como introdução intitulado Metafísica Lovecraftiana:

“Os Innsmouth e Arkhams de Lovecraft possuem suas contra partes em pequenas vilas praianas e áreas costeiras abandonadas ao redor do mundo, e para localizá-los não precisamos de nada além de nossos sentidos. Aonde houver pessoas onde a terra firme sede lugar a água completando a transição para os mares e oceanos com medo e desejo mesclados em seus corações a promessa de Cthulhu existe.”

Até magos mais “crentes” ao redor do mundo que tendem a ter uma visão mais ligada ao sobrenatural como nos mostra Stephen Sennitt em seu texto Co-Herdeiros do Caos.

“H. P. Lovecraft através de seus sonhos pode ter tido acesso ao universo paralelo que o permitiu relatar profecias a cerca da destruição do nosso mundo através de forças advindas do Caos. As perguntas a cerca das datas relacionadas a esse terror cósmico foram feitas desde sua morte em 1937.”

E isso nos deixa em um lugar interessante. Até hoje quando pensamos em fenômenos estranhos os ligamos mais às pessoas que os viram do que ao próprio fenômeno. Três crianças presenciam a aparição de Nossa Senhora e o que vem à mente não é a questão: “O que a mãe de Cristo fazia em Portugal, descalça, no meio do mato?” e sim: “Mas só as crianças viram? Tinha mais gente? Crianças tem imaginação fértil! Cada um vê o que quer, o meu tio quando está lelé conversa com o Chacrinha!” e por ai a fora. Parece que fenômenos estranhos são sempre relatados por pessoas que por mais confiáveis acabam se mostrando abaladas, ou então registrados de maneira sinistra como fotos borradas, bolinhas de luz num zoom extremo de uma câmera sem resolução, ou algo que parece um mecânico vestindo uma roupa de macaco andando no meio da floresta. E terminamos, ou a maioria de nós, com a coisa resolvida da seguinte maneira: “É ver pra crer! Não sei se existe, nunca vi um! Se isso acontecesse iriam ter mais fotos ou registros, é tudo coisa de nego chapado!”

Mas ai voltamos à questão: e se Lovecraft estivesse certo? ou pior ainda: e se aqueles que falam que aquilo que Lovecraft escrevia é real estivessem certos?

Bem, vamos dar uma rápida viagem para descobrir como seria um mundo assim, só por diversão, como seriam as manchetes de jornal local e os registros históricos para os seguintes casos:

– Yog-Sothoth – a.k.a. “Yog-Sothoth conhece o portal. Yog-Sothoth é o portal. Yog-Sothoth é a chave e o guardião do portal. Passado, presente, futuro, todos são um em Yog-Sothoth. Ele sabe onde os Antigos se libertaram no passado e sabe onde se libertarão de novo no futuro. Sabe por onde eles cruzaram a terra e sabe onde eles ainda vivem, e porque ninguém pode percebê-los quando as cruzam hoje” –  resolvesse dar as caras enquanto você leva sua filha para a escola de manhã:

Dia 9 de dezembro de 2009:

ESPIRAL MISTERIOSA NO CÉU NA NORUEGA

ESPIRAL DE LUZ NA NORUEGA DEIXA A POPULAÇÃO SURPREENDIDA: NÃO HÁ EXPLICAÇÃO OFICIAL

MYSTERY AS SPIRAL BLUE LIGHT DISPLAY HOVERS ABOVE NORWAY
(MISTÉRIO QUANDO UMA LUZ AZUL EM ESPIRAL FLUTUA SOBRE NORUEGA)

Uma misteriosa espiral de luz pairou nos céus da Noruega na noite de 9 de Setembro, deixando centenas de residentes no norte do país intrigados.

Segundo reportagem do Daily Mail, das cidades de Trøndelag a Finnmark, moradores disseram ter presenciado as estranhas luzes, que acreditam ser um meteoro ou um teste de foguetes russo.

O fenômeno começou quando uma luz azul surgiu de trás de uma montanha, parou no meio do ar e começou a girar. Em segundos, uma espiral gigante teria se formado e coberto o céu.

Então, um feixe azul-esverdeado de luz saiu de seu centro, durando entre dez e 12 minutos antes de desaparecer completamente. A reportagem afirma que, segundos após o incidentes, o Instituto Meteorológico da Noruega foi inundado de telefonemas – e que muitos astrônomos não acreditam que as luzes estejam ligadas às auroras, fenômenos comuns na região.

O Controle Aéreo de Tromsø alegou que o acontecimento durou apenas dois minutos, mas admitiu que foi muito tempo para ser um fenômeno astronômico.

Em entrevista à imprensa norueguesa, o pesquisador do Observatório Geofísico de Tromso Truls Lynne Hansen disse ter certeza de que a luz foi causada por um lançamento de míssil – que, provavelmente, teria perdido o controle e explodido.

O porta-voz da Defesa Norueguesa Jon Espen Lien teria dito que os militares do país não sabiam do que se tratava, mas que era provavelmente um míssil russo.

No entanto, ainda segundo o Daily Mail, a Rússia negou ter feito qualquer teste de mísseis na região.

videos:

video 1

video 2

video 3

– Cthulhu – a.k.a. “Em sua morada em R’lyeh Cthulhu, morto, espera sonhando” “Não está morto aquele que pode eternamente jazer, embora, em estranhas eras, até a morte virá a morrer” – despertasse de sua soneca e tentasse, de novo, se libertar para tornar os seres humanos assim como os antigos, livres e selvagens, criaturas além do bem e do mal, se livrando de suas leis e morais, matando e exultantes de alegria:

Verão de 1997:

SOM SUBMARINO INTRIGA PESQUISADORES

Som submarino de frequência ultra-baixa extremamente poderosa detectado pelo National Oceanic and Atmospheric Administration várias vezes durante o verão de 1997. Sua origem continua sendo um mistério.

A localização de seu rastreamento foi de algo em torno de 50° S 100° W, a mesma localização dada por Lovecraft para a cidade submergida de R’lyeh.

Uma afirmação frequente é que ele corresponda ao perfil de áudio de uma criatura viva. Sendo que esta visão é defendida principalmente pelas pessoas da área da criptozoologia, não é popular entre os principais cientistas. Se o som veio de um animal, ele teria que ser várias vezes o tamanho do maior animal conhecido na Terra, a baleia-azul.

Há vários casos de sons desconhecidos registrados, assim o Bloop, como ficou conhecido, não é um fenômeno único.

Ouça o Bloop


– A cor que caiu do céu – a.k.a. “A cor indescritível e tóxica que veio do espaço, tornando a região que atingiu estéril e que enquanto não pode ser explicada por cientistas enlouquecia e matava a todos que entraram em contato com ela – realmente caísse do céu:

1947:

CIENTISTAS AINDA DEBATEM A NATUREZA DO EVENTO DE TUNGUSKA

2008:

QUEM OLHA ATUALMENTE PARA A PLANÍCIE DE TUNGUSKA ESTÁ LONGE DE IMAGINAR O QUE ALI SE PASSOU HÁ QUASE CEM ANOS.

O ano é 1908, e já são 7 horas da manhã. Um homem está sentado na varanda de uma agência dos correios em Vanara, na Sibéria. Ele não sabia, mas em poucos momentos ele seria atirado de sua cadeira e o calor que sentiria seria tão intenso que ele poderia jurar que suas roupas pegavam fogo. Ele estava sentado a 60km de distância do ponto de impacto. Hoje passados cem anos do acontecido, cientistas ainda debatem o ocorrido.

Quem olha atualmente para a planície de Tunguska, na Rússia, está longe de imaginar o que ali se passou há quase cem anos. No dia 30 de Junho de 1908 uma explosão de uma intensidade tremenda abalou a terra. Na época o fenómeno passou quase despercebido internacionalmente, talvez devido ao isolamento da região, situada em pleno coração da Sibéria. É provável que tenham sido feitas explorações no local mas a turbulência dos anos que se seguiram (a 1ª Guerra Mundial e a Revolução Russa, seguida de uma guerra civil) deve ter apagado todo e qualquer registo do acontecimento. Foi preciso esperar por 1920 para que uma expedição científica consistente fosse enviada a Tunguska, liderada pelo mineralogista russo Leonid Kulik. É a ele que devemos grande parte do conhecimento acerca deste fenómeno, ainda que nebuloso, de que dispomos atualmente.

A primeira expedição teve início em 1921 e, durante mais de uma década, outras se lhe seguiram. Kulik ouviu e registou os relatos dos habitantes da região. Referiam ter observado um rasto luminoso azul a cruzar o céu, um flash muito brilhante, um ruído de trovão e ondas de choque que abalaram a terra e partiram vidros. Durante as várias noites que se seguiram o céu brilhou e cintilou. Os testemunhos não coincidiam nem na sequência nem na duração dos acontecimentos.

Kulik tentou também delimitar toda a zona onde ocorreu o fenómeno, denunciada pela destruição de cerca de 80 milhões de árvores num raio de 50 Km tombadas radialmente a partir de um ponto central, de onde parecia provir a força que as deitou abaixo. Uma observação aérea revelou que possuía a forma de uma borboleta e que correspondia a uma área de 215 000 hectares literalmente arrasada. No entanto, não foi encontrado um único vestígio de uma cratera.

As observações feitas levaram Kulik a propor a teoria que permanece, ainda hoje, a mais consistente, pese embora as inúmeras especulações que têm surgido: a explosão de um meteorito ou de um asteróide a poucos quilómetros do solo. Imagens captadas recentemente dão conta de uma região que ainda não recuperou o seu aspecto normal mas as fotografias feitas pelas expedições de Kulik foram o único testemunho de um ambiente devastado e insólito como nunca até então se tinha visto no planeta.

Assista o documentário

– Durante os festivais pagãos sons cósmicos inundassem a terra ensurdecendo pessoas, enlouquecendo-as e fazendo-as participar de rituais para se comunicarem com os antigos em sonhos e alucinações, como os percebidos por Walter Gilman no conto: Sonhos na Casa da Bruxa.

Maio de 2009:

VOCÊ JÁ OUVIU O ‘HUM’?

Por décadas, centenas de pessoas ao redor do mundo tem sido vítimas de um zumbido elusivo conhecido como o ‘Hum’. Algumas delas culpam os encanamentos da linha de gás ou de energia, outros acham que tem problemas auditivos. Algumas outras ainda acham que isso é o resultado de forças sinistras em ação.

“É como uma tortura, às vezes você tem vontade de gritar”, afirma Katie Jacques, uma das pessoas atormentadas pelo Hum.

O elemento essencial que define o Hum é ser um som persistente, de baixa frequência, ouvido tanto dentro de prédios e casa quanto nas ruas e ao ar livre. Muitos dizem que sentem também vibrações que o acompanham e podem ser sentidas por todo o corpo. Equipamentos de proteção como plugs auriculares são inúteis para fazer o som sumir. O Hum é percebido com maior frequência e maior intensidade à noite. Além do fato de não poder ser ouvido por qualquer pessoa.

Os Hums já foram registrados em várias localidades ao redor do mundo e para completar não podem ser sempre gravados. E não se tem certeza de sua origem ou localização exatas.

Foi durante a década de 1990 que o fenômeno Hum começou a ser reportado nos Estados Unidos e se tornou conhecido do grande público, mas o mesmo fenômeno já havia sido registrado nas décadas de 1980 e 1970. Não se sabe até hoje se o Hum registrado nas décadas de 70 e 80 é o mesmo fenômeno do da década de 1990, mas no início desde século, durante a última década, o hum passou a ser registrado também em outros locais, como o Havai (que apesar de ser território americano está muito distante do continente), Canadá, Europa, Austrália e outras regiões do mundo.

Criaram-se muitas teorias sobre a sua origem, desde uma origem no próprio sistema nervoso da pessoa que o ouve, a um efeito acústico causado pelo formato das orelhas de algumas pessoas até ondas do oceano. Mas não existe ainda uma explicação final sobre o assunto.

Katie Jacques também diz que ela não tem mais um momento de paz e silêncio, e que dormir se tornou impossível.

“É pior à noite. Você não consegue se desligar do som, e eu fico ouvindo-o, como um som de fundo que não termina e não desliga, e eu não consigo dormir e fico me virando na cama, e quanto mais eu ouço, mais agitada eu fico.”

As pessoas que a visitam não escutam nada, mas para ela o som é constante, presente e agonizante:

“Ele tem um ritmo, fica mais alto e mais baixo. Quase se parece com um carro movido a dísel, que você ouve à distância, e dá vontade de ir lá pedir para a pessoa desligar o motor, mas isso não é possível”.

Katie fez inúmeros testes médicos e constatou que seu sistema auditivo está perfeito não sofre de nenhum mal que explique o ruído, como tinnitus, um som produzido pelo próprio organismo que segue a pessoa onde quer que ela vá. Assim como ocorre com outras vítimas do hum, katie apenas ouve o zumbido em um lugar específico, no caso dela a própria casa.

Apesar de morar no mesmo local por mais de 50 anos o hum só se manifestou recentemente, nos últimos 30 meses.

Ouça aqui uma simulação do Hum tornado auditível.


– Os Grandes Antigos – a.k.a. seres extraterrenos muito (MUITO) antigos, imbuídos de poderes e tamanho descomunais, adorados por cultos humanos dementes, além de por outras raças extra terrenas antigas. Foram aprisionados por seus inimigos, os Veneráveis antigos, alguns debaixo do mar, outros no interior da terra e outros em sistemas planetários distantes, além de muitos se encontrarem não nos espaços conhecidos, mas na região entre os espaços. – começassem a sinalizar para alguns de seus adoradores que pretendem retornar.

Agosto de 1977:

SINAL VINDO DO ESPAÇO SURPREENDE PESQUISADORES DO SETI.

Na noite de 15 de agosto de 1977 o astronômo Jerry Ehman, da Universidade de Ohio observava a saída dos dados que informavam a potência e a duração dos sinais recebidos pelo radiotelescópio Big Ear.

A maior parte dos sinais já eram de conhecidos objetos celestes naturais que produzem sinais de rádio como galáxias e satélites mas então repentinamente um pequeno sinal começou a crescer até atingir seu máximo e então decrescer e sumir. No total o sinal teve um tempo de duração de 72 segundos, mas o mais surpreendente era sua intensidade, era tão forte que o a agulha extrapolou os limites o papel de registro.

Completamente atônito, sem muito tempo para pensar em descrições cientificamente precisas, Ehman escreveu ao lado do código que representava, na impressão feita pelo computador, a intensidade do sinal:

“WOW !”

A imagem da impressão original, a região circulada indica o sinal “WOW”:

(os números são códigos que indicam a intensidade e outras características do sinal )

A radiação provinha da direção de Sagitário, e de uma faixa de freqüência em torno de 1.42 Giga Hertz (parte da conhecida como a “janela da água” em radioastronomia). Esta freqüência é exclusiva a radioastronomia, acordos internacionais não permitem que transmissões terrestres sejam feitas nesta frequência

A estrela mais próxima nessa direção está a uns 220 anos luz, assim se o sinal provinha dali, deve ter sido um acontecimento astronômico de enorme potência e jamais identificado pela ciência.

Mas uma caracteristica intrigante do sinal Wow o torna especialmente interessante: a maneira como este cresceu e diminui de intensidade ao longo dos 72 segundos.

E por que isto é interessante?

Pq a pesquisa do céu pela Universidade de Ohio manteve o telescópio fixo, deixando à rotação diária da terra a função de pesquisar os céus através do feixe estreito do telescópio. O “feixe”, claro, seria o alongado caminho do céu para o qual o telescópio seria sensivel – a direcção da qual o telescópio poderia receber sinais cósmicos. A sensibilidade era maior no centro do feixe, diminuindo para cada um dos lados. Assim, sempre que uma fonte de radio celestial passava, aumentava em aparência quando a rotação da Terra trazia essa fonte para o centro do feixe, chegava a um pico no centro, e depois diminuia gradualmente até desaparecer. Dado o tamanho do feixe deste telescópio a subida e diminuição do feixe deveria demorar 72 segundos.

E para o sinal Wow, demorou.

Agora contraste isto com aquilo que seria de esperar se o telescópio tivesse sido meramente inundado por um sinal interferente terrestre. A intensidade iria rapidamente ter valor máximo e passado algum tempo apenas se desligaria. Mesmo que a interferência fosse devido a um satélite terrestre, uma fonte que iria subir e descer gradualmente de intensidade, não seria de esperar que durasse precisamente 72 segundos.

Outra possibilidade é a de que alguém interessado em “entusiasmar” ou “enganar” os cientistas do Big Ear, forjando transmissões clandestinas na faixa da “janela d’agua”.

O grande problema com esta hipótese é a característica do sinal.

Como explicado acima uma antena de radiotelescópio possui um feixe de recepção que mais ou menos estreito conforme o diâmetro da antena. Assim a antena do radiotelscópio de Big Ear possui um “cone” de recepção de 8 minutos de arco ( 1 minuto de arco = 1/60 de grau , a lua cheia compreende ½ grau ou 30 minutos de arco no céu ), isto representa que o Big Ear capta sinais de uma área muito estreita do céu.

A sensibilidade deste cone de recepção aumenta conforme o sinal de rádio aproxima-se do centro do cone. Assim para uma fonte que esteja provindo do céu esteja fixa ( uma estrela por exemplo ) espera-se que o sinal comece fraco ao atingir a “borda” do cone a aumente sua potência ao centro, diminuindo sua força ao se aproximar da outra “borda” do feixe de recepção. Outro ponto a ser levado em conta é que a antena permanece fia apontada em uma direção do céu esperando que o movimento da Terra faça com que as fontes de rádio celestes ( estrelas, galáxias, etc ) passem na frente do feixe da antena.

O sinal WOW apresentou este “crescimento, potência máxima e diminuição” do sinal e além disso atravessou o feixe dentro do tempo estimado para que uma fonte fixa cruzasse o feixe devido ao movimento da Terra.

Assim ao que tudo indica o sinal realmente proveio de uma fonte fixa no céu.

O que é levantado ( pelo próprio observatório ) como hipótese alternativa a origem do sinal é que um sinal de rádio emitido na Terra coincidentemente refletiu na carcaça de algum satélite geoestacionário e foi captado pelo radiotelescópio. O problema é que nenhum satélite geoestacionário encontrava-se naquela posição do céu naquele momento.

Por estas razões, o sinal Wow é um forte e credível sinal candidato SETI já que ela definitivamente veio do céu e não de interferências terrestres.

Além do sinal WOW, até hoje foram captados 37 sinais que não foram explicados.

– Tsathoggua – a.k.a. “O ser que se assemelha a um Deus, mas achatado com um enorme ventre inchado e uma cabeça monstruosa que lembra mais um sapo do que um Deus, com o corpo todo coberto com uma imitação de pêlos curtos, dando uma sensação vaga de se parecer tanto com um morcego quanto com um bicho-preguiça. Ele permanece em sua caverna, e não sai dali nem quando afligido pela fome, mas aguarda em sua preguiça divina pelo sacrifício” – ou Atlach-Nacha – a.k.a. “A aranha gigante com cabeça humana, que vive em uma caverna profunda, onde tece uma enorme teia que une as Terras dos Sonhos e o mundo desperto, e que quando estiver terminada trará o fim ao nosso mundo” – resolverem sair de seu planeta Cykranos, conhecido por nós como Saturno, e vir dar um rolê pela terra, através de seus portais de geometria não euclidiana.

10 de Dezembro de 2009:

SONDA CASSINI CAPTA FIGURAS GEOMÉTRICAS EM HEXÁGONO DE SATURNO

A sonda Cassini da Nasa e da Agência Espacial Europeia (ESA) captou imagens de círculos concêntricos e outras formas geométricas que não tinham sido detectadas até agora no polo norte de Saturno, informou hoje o Laboratório de Propulsão a Jato (JPL, na sigla em inglês).

As figuras estão em um misterioso formato hexagonal no polo norte desse planeta e foram descobertas pela sonda Voyager da Nasa há 30 anos.

“Trata-se de uma das coisas mais estranhas que já vimos em todo o sistema solar”, indicou Kevin Baines, cientista em temas atmosféricos de JPL.

As imagens do hexágono, criado pelos feixes de luz que surgem do polo, revelam círculos concêntricos e outras formas geométricas que ainda não tinham sido detectadas.

O hexágono onde estão localizadas as figuras fica no polo norte de Saturno, a 77 graus de latitude, e seu diâmetro seria duas vezes o da Terra.

Acredita-se que os jatos que dão forma se deslocam cem metros por segundo.

“A longevidade do hexágono o transforma em algo especial, como as estranhas condições meteorológicas que dão origem à Grande Mancha Vermelha descoberta em Júpiter”, disse Kunio Sayanagi, cientista de Cassini no Instituto Tecnológico da Califórnia.

As câmeras de luz visível da sonda, que têm maior resolução que as registradas pela Voyager, registraram as imagens do hexágono em janeiro, quando o planeta chegava a seu equinócio.

Os cientistas do JPL combinaram 55 imagens para criar um mosaico.

Os cientistas querem descobrir agora o que provoca a formação do hexágono, de onde surge sua energia e por que se manteve durante tanto tempo.

– Sarcófagos – a.k.a. Criaturas carnívoras horrendas, com olhos vermelhos, que andam sobre duas patas, cobertas de pêlos, maiores do que um homem com uma aparência meio canina meio humanóide – saíssem dos subterrâneos para passear nas cidades de noite.

13 de fevereiro de 2009:

JOVEM DO RS AFIRMA TER SIDO ATACADA POR “LOBISOMEM”

Segundo descrição da vítima, criatura era parecida com cachorro grande. Polícia procura suspeito que teria usado fantasia para atacar mulher.

Moradores de São Sepé (RS) têm um motivo a mais para temer esta sexta-feira (13). Além do azar e dos estranhos acontecimentos atribuídos ao dia, um ‘lobisomem’ estaria à solta. Uma das possíveis vítimas, de 20 anos, registrou ocorrência na delegacia.

Segundo a Polícia Civil, Kelly Martins Becker afirma ter sido atacada, na noite de 28 de janeiro, por um bicho parecido com um cachorro grande, que ficava apoiado nas patas traseiras e andava como se fosse um homem. Ela chegou a fazer um rascunho para descrever a criatura.

De acordo com a ocorrência registrada, o agressor teria arranhado o rosto e os braços da vítima. A polícia informou que Kelly foi submetida a um exame de corpo de delito, no qual foram constatadas as escoriações.

A polícia afirma que irá investigar se alguém está usando uma fantasia de lobisomem para assustar a população. Nenhum suspeito foi detido até a manhã desta sexta-feira.

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Vítima de ‘lobisomem’ fez desenho do agressor (Foto: Lauro Alves/Diário de Sta. Maria/Ag. RBS)

Outros casos semelhantes ao de São Sepé foram registrados. Na zona rural de Tauá (CE), moradores procuraram a polícia em julho de 2008, assustados com aparições de um indivíduo “meio homem e meio lobo”, que estaria furtando ovelhas e arrombando residências.

Moradores da zona rural de Tauá (CE) estão assustados com a ação de um ‘lobisomem’ que está furtando ovelhas e arrombando residências na região. Dois casos foram registrados pela Polícia Civil da cidade na quarta-feira (9).

Apesar de ser lua nova na segunda-feira (7), uma mulher afirmou à polícia ter visto um indivíduo “meio homem e meio lobo”. Na terça-feira (8), um garoto de 12 anos também disse aos policiais que viu uma figura semelhante perto de sua casa.

Ambos os relatos indicam que a figura é “muito feia e exala cheiro de enxofre”. “Acredito que se trata de uma pessoa que usa uma máscara de lobisomem para assustar os moradores da região, que acreditam muito em folclore. São pessoas inocentes e ingênuas”, disse Marcos Sandro Lira, delegado regional de Tauá.

Ele confirmou ter registrado dois boletins de ocorrência sobre o caso. “Estamos investigando um possível grupo que está agindo dessa maneira para cometer crimes, mas nada que seja sobrenatural”, disse Lira.

Pastor distribui crucifixo para afugentar homem misterioso (Foto: Duda Pinto/Zero Hora/Ag. RBS)

Na época, a Polícia Civil investigou o caso, suspeitando de uma quadrilha que estaria usando fantasias para assustar os moradores e cometer crimes. O caso, apelidado de “o mistério da meia-noite”, passou a ser tratado com humor na cidade.

– Se “aquilo” que inspirou Abdul al Hazred – a.k.a. “o poeta árabe louco” – a escrever o Necronomicon – a.k.a. “o tomo maldito Al Azif, o som noturno dos gritos de demônios e zumbidos de insetos do deserto” – decidisse procurar outros escritores para ditar suas histórias:

no século XIII:

“As areias que cantam, às vezes enchem o ar com o som de todo tipo de instrumentos musicais, e também com o som de tambores e com a marcha de exércitos”

Marco Polo, que deixou o registro acima, assim como muitos viajantes junto com ele, registraram que os sons do deserto eram malignos e causados por espíritos cruéis e impuros. Esses espíritos criavam músicas mas também sons de berros, gritos de ajuda, que tentavam desviar nômades de seu caminho, e enchiam a noite de zumbidos e chiados que podiam durar mais de 15 minutos e eram ouvidos a mais de 10 quilómetros de distância.

Ouça o cantar e o zumbir dos demônios do deserto

– Se as anotações de Herbert West – a.k.a. “Reanimator, o brilhante, narcisista e obcecado cientista, cuja arrogância e falta de respeito pela vida (e pela morte) o levam a desenvolver uma solução especial, o “reagente” que pode trazer os mortos de volta para a vida” – caíssem nas mãos de outros cientistas:

Março de 1934:

CIÊNCIA: LAZARO, MORTO E VIVO

Robert E. Cornish foi uma criança prodígio, se graduando na Universidade da Califórnia com honras com a idade de dezoito anos, com vinte e dois anos recebeu seu doutorado. Em 1932 ele se interessou na idéia de que poderia devolver a vida aos mortos. Para isso desenvolveu um equipamento que bombeava sangue de volta no corpo daqueles que tivessem morrido recentemente, em 1933 ele tentou ressuscitar vítimas de ataques cardíacos, afogamento e eletrocussão com seu equipamento, mas não obteve nenhum sucesso. Cornish decidiu então aperfeiçoar seu método com animais e em 1934 e 1935 conseguiu trazer de volta da morte dois cachorros, batizados de Lázaro II e Lázaro III. Ele ligou os corpos em sua máquina, fazendo sangue circular pelo corpo enquanto injetava uma solução de epinefrina (adrenalina) e anti-coagulantes.

Em 1934 a revista LIFE fez uma matéria a respeito de suas experiências, nela o repórter descreve como o pequeno fox terrier, asfixiado até a morte, foi ligado na máquina do Dr. Cornish, em um laboratório do Campus da Universidade da Califórnia. Depois de seis minutos morto foi injetavo com uma solução salina saturada de oxigênio, adrenalina, heparina e um pouco de sangue canino sem nenhuma fibrina (a substância coagulante). O cão recebeu respiração artificial. Depois de alguns minutos as máquinas registraram uma pulsação fraca, as pernas do animal tiveram pequenas convulsões e o coração voltou a bater sozinho. Sua respiração a início fraca e hesitante se estabilizou. Lazaro II estava vivo.

Por oito horas e 13 minutos o cachorro permaneceu em um coma, gemendo e ganindo, como se estivesse sofrendo de pesadelos. Ansioso em acelerar a recuperação do animal o Dr. Cornish administrou uma solução com glicose. Um coagulo sanguíneo se formou e Lazaro II morreu novamente, desta vez de maneira definitiva.

O Dr. Cornish então selecionou outro animal, o matou e o ressuscitou da mesmo forma, mas desta vez não administrou a glicose, o animal acabou morrendo depois de cinco horas. “Se o segundo animal tivesse permanecido morto por apenas dois minutos ao invés de oito, eu acredito que ele conseguiria se recuperar. Nós tentaremos novos experimentos nos próximos dias.”

Alguns meses depois Cornish foi notícia dos jornais, quando os cães Lázaro IV e Lázaro V foram de fato trazidos de volta à vida. O cão Lázaro IV aprendeu a se arrastar, latir, sentar e consumia quase um quilo de carne por dia. O cachorro ficou cego depois de voltar da morte, e não consegue se erguer sozinho. Lázaro V, morto da mesma forma que seus predecessores, foi trazido de volta depois de 30 minutos que sua respiração havia parado. O Dr. Cornish disse que Lazaro V havia retornado à sua forma normal depois de quatro dias.

Agora, porque essas experiências pararam no passado? Se o bom doutor conseguiu trazer os cães de volta da morte, porque não ouvimos mais falar disso? Provavelmente porque simplesmente não procuramos mais. Este é o site do Centro Safar de Pesquisas de Ressurreição.

por Rev. Obito

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/e-se-lovecraft-estivesse-certo/

Video Game Desvenda os “Segredos Maçônicos”

Querem saber como é o Ritual de Abertura de uma Loja Maçónica? Como decorre uma Cerimónia de Iniciação? Mais: querem conhecer todo o Ritual de Iniciação? Incluindo Palavras de Passe e Sinais?

Querem?

Fiquem então sabendo que está disponível, para descarga gratuita para o vosso computador um pequeno e simples videojogo que desvenda tudo isso. Trata-se de um videojogo graficamente muito primário, que tem por objectivo fornecer informação sobre o que é a Maçonaria. E se fornece informação! Informa tudo, digo-vos eu! Garanto que tudo o que acima referi é facilmente sabido através do dito videojogo, sem especial dificuldade.

Há só dois senãos (há sempre senãos…).

O primeiro é que o videojogo está todo em inglês. Só quem dominar essa língua pode obter os conhecimentos assim desvendados.

O segundo é que esse videojogo foi elaborado por um maçon americano e mostra como abre uma Loja americana, como é feita uma Iniciação na América, quais são os sinais e palavras de passe em uso na Maçonaria Americana, tudo segundo o Ritual de Webb.

Mas garanto que todas as informações que são dadas são fidedignas e correctas! Algumas coisas são iguais ao que se faz no Rito Escocês Antigo e Aceite. Outras são semelhantes. Outras ainda são diferentes, mas facilmente reconhecíveis por um Maçon do REAA. Outras são diferentes.

Pessoalmente, acho o Ritual do Rito Escocês Antigo e Aceite muito mais rico e simbolicamente mais interessante. Acho a Cerimónia de Iniciação do Rito Escocês Antigo e Aceite, de longe, muito mais impressiva e marcante. Mas eu sou suspeito, confesso…

De qualquer forma, quem quer ter uma noção, certa em relação à Maçonaria Americana, e razoavelmente aproximada, em relação ao que praticamos em Portugal e no REAA, certamente que achará proveitoso jogar o jogo. Conseguirá perceber como se processam os Rituais de Abertura e de Iniciação no rito Webb e obterá várias informações, todas fidedignas e correctas, sobre a Maçonaria.

Um alerta: convém dispor de tempo…

E, depois de descarregar o jogo, convém abrir e ler primeiro o ficheiro “Read me” (leia-me). Ali se informa quais as teclas necessárias para movimentar o boneco e interagir com outros personagens e objectos. É muito simples…

O videojogo está disponível para descarregamento gratuito no blogue Excommunicate.net, para fazer a descarga do download file, basta usar este atalho. Os requisitos técnicos para poder usar o jogo são pouco exigentes e, certamente, ao alcance de todos, hoje em dia: Sistema Operativo Windows 2000, XP ou Vista, 128 Mb de memória RAM e processador com uma velocidade mínima de 450 Mhz. Atenção que, se vos suceder como ocorreu comigo, o programa de descarga não cria um ícone com um atalho para o jogo. É preciso ir à pasta onde foi guardado para o abrir. Se fizerem a descarga para a pasta fixada por defeito, encontrarão o jogo em Meu Computador/ Disco Local (C)/Arquivos de Programas/ASCII/RPG2000/Project1. Basta carregar no ícone RPG_RT.exe. A partir daí, o rato é inútil. Só teclado, meus caros… Divirtam-se e saibam um pouco mais!

Quem disse que a Maçonaria é secreta?

por Rui Bandeira

Postagem original feita no https://mortesubita.net/popmagic/video-game-desvenda-os-segredos-maconicos/