Enochiano

A Magia Enochiana é um poderoso sistema mágico (não uma Tradição, visto que é utilizado em algumas tradições como a Golden Dawn ou Astrum Argentum) que utiliza uma antiga linguagem apresentada pelo mago John Dee e pelo sensitivo Edward Kelly no século XVI. Utilizando-se de técnicas de meditação especiais, Kelly comunicou-se com formas de inteligência angélicas, enquanto Dee coordenava os experimentos e anotava os resultados de cada seção. Desta forma a linguagem Enochiana – base deste sistema mágico – foi descoberta (ou para ser mais exato, RE-descoberta, já que o mesmo princípio aparece também na kabbalah e no I-Ching). Posteriormente este sistema foi ampliado por Aleister Crowley pela revelação de suas correspondências planetárias e numéricas, o que possibilitou a criação da Gematria Enochiana.

#Enochiano

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/enochiano

Caim e Abel

Shirlei Massapust

Gênesis 4:8 informa:

“Caim se lançou sobre seu irmão Abel e o matou”. Antes ambos estavam no campo (בַּשּׂדֶה) onde Caim cultivava sua horta. Eles conversaram (אמֶר) a respeito do problema, mas não houve acordo. Seguindo a lógica da estória este lavrador certamente possuía um machado para abrir terreno, uma enxada e um arado para trabalhar o solo, uma foice para ceifar a colheita, etc. Tudo notoriamente útil para matar seu desafeto. Mas, considerando que não está escrito que Caim usou armas brancas, fica presumido que ele lutou com unhas e dentes.

Numa época em que havia várias teorias a respeito da motivação e da forma de execução do assassinato, R. ʿAzariah e outros rabinos defenderam a hipótese de que Caim observou atentamente enquanto Adão sacrificava um bezerro e, por isso, deduziu que um sacrifício humano deveria agradar mais a YHWH do que o sacrifício animal. Então perfurou a garganta de Abel. (Midrash Genesi Rabbah 22:8).[1] O Talmude ressalta que Caim não conseguiu tirar a vida até perfurar o esôfago e a traqueia (Sanhedrin 37 b).

Caim segurando um machado de lenhador. Desenhado em 1511 pelo ex-lenhador Dürer.

Num livro apócrifo grego Eva tem um sonho profético e vê o sangue de Abel escorrer na boca de Caim, que o bebia com sofreguidão, embora o irmão suplicasse para não sorvê-lo todo[2]. Lendo diretamente no grego encontramos enunciados exóticos, tipo o trecho onde Caim se transformou (γεγονὸς αὐτοῖς) enquanto brigava. Portanto optou-se por uma tradução aproximada:

2 1 Eva falou ao esposo Adão: 2 “Meu marido, esta noite sonhei ver o sangue de meu bom filho, Abel, escorrer da boca de Caim, seu irmão, que o bebia sem piedade. Ele pediu para deixar um pouco, 3 mas, ao invés de o escutar, continuou bebendo até o fim. Nem tudo ficou no estômago, pois acabou vomitando”.4 Adão respondeu a Eva: “Vamos sair e ver o que está acontecendo com eles, caso estejam brigando furiosamente”. 3 1 Ambos saíram e encontraram Abel morto pelas mãos de Caim.

John Levison consultou nove manuscritos e descobriu quatro formas textuais diferentes desta estória, sendo que a fonte material mais antiga teria sido escrita em Milão durante o século XVII:

A forma textual posterior, aqui chamada de “redação II”, apagou aquilo que não convinha aos interesses do escriba doutrinador: “The other text forms read infelicitously that the blood Cain drank he drank completely and let sit in his stomach. Text form II blunts the impact of this graphic detail. Manuscript R does so by omitting it entirely, while manuscript M abbreviates the wording”.[3]

Robert Henry Charles publicou uma versão crítica, informando que o Manuscrito D (Ambrosiana gr. C 237 Inf.) está corrompido a ponto de substituir o nome de Caim (Κάϊν) por Adiàphotos (‘Αδιάφωτον).[4] Contudo, outra fonte do século XVII confirma a tradição oral sobre mordidas: Na página 1431 do Quæstiones celeberrimæ in Genesim (1623), Mersenne menciona que “Abelem fuisse morsibus dilaceratum ad Cain”. Recentemente o teólogo Daniel Lifschitz opinou que “Caim matou seu irmão mordendo-o como uma serpente[5]”.

 Vampiro Caim em frenesi. The Book of Nod (1993).[6]

Armas com dentes ou informação oculta?

A mais enigmática entre as versões que dão uma arma branca a Caim é aquela conhecida por José Saramago onde o personagem mata Abel “a golpes de uma queixada de jumento que havia escondido antes num silvado”[7]. A cena foi esculpida em 1432, por Jan van Eyck, no altar da Catedral de Saint-Bavo, Ghent, Bélgica; encomendado pelo bispo local na intenção de educar os católicos em matéria de teologia por meio de imagens. Paralelamente, uma tímida iluminura colorida e anônima foi produzida na mesma época.

1) Detalhe da arte sacra no altar da Catedral de Saint-Bavo, Ghent, Bélgica, esculpido por Jan van Eyck (1432). 2) Iluminura anônima (séc. XV).

No quadro a óleo A Tentação de Santo Antônio (c. 1512-15), de autoria de Matthias Grünewald (1480-1528), integrante do acervo permanente do Musée d’Unterlinden, em Colmar, encontramos vários diabos espancando o idoso santo. A figura central, diabo que lhe puxa os poucos cabelos que a calvície ainda não derrubou, se prepara para acertá-lo com um maxilar de burro.[8]

A Tentação de Santo Antônio (c. 1512-15), de Matthias Grünewald.

O inconfundível objeto reaparece nas mãos de Caim em três gravuras assinadas por Lucas Van Leyden em 1520, 1524 e 1529[9]. O fato de um artista haver passado nove anos aperfeiçoando a cena da morte de Abel atingido pela estranha mandíbula, mirada na direção de seu pescoço, ao lado do altar de sacrifícios, demonstra que este tema específico era procurado e apreciado pelo público consumidor.

Conjunto de xilogravuras de Lucas Van Leyden datadas de 1520, 1524 e 1529. Todas trazem o mesmo tema: Caim matando Abel com uma mandíbula de equino.

Gravação de Mabuse (c 1527), impressos de Johann Sadeler (1576) e Jan Lievens (1640).

Lucas Van Leyden viajou pela Europa, vendendo panfletos. Em 1527 ele conheceu o pintor flamenco Mabuse (Jan Gossaert), em Middelbur, e parece tê-lo convencido a divulgar a nova versão da morte de Abel. Foi Mabuse quem teve a ideia de tampar o sexo de cada personagem com um chute de seu rival.

Na última versão de Van Leyden, aparentemente influenciada por Mabuse, só Abel chuta o sexo de Caim enquanto este tenta lhe acertar o pé no coração. Outros pintores adotaram a arma iconográfica, mas mantiveram os personagens com os pés no chão. Encontramos impressos assinados por Johann Sadeler em 1576 e Jan Lievens em 1640. É também este o tema dum rascunho de Rembrandt van Rijn (1606-1669).

Isto não parece com armas medievais tais como a Morgenstern e outras clavas com espetos que passam a impressão de serem porretes com dentes. Logo, é um padrão iconográfico onde Caim utiliza o recurso encontrado por Sansão na ocasião em que o herói foi possuído por Ruach YHWH (יהוה רוח), o espírito de deus, e matou mil homens (Juízes 15:15). Sansão e Caim ganharam טְרִיָּה לְחִי־חֲמוֺר יִּמְצָא — “uma novíssima mandíbula de equino[10]”. Mas, considerando que a melhor tradução de טְרִיָּה é “carne fresca”, por que YHWH teria a ideia estapafúrdia de usar um bife como porrete? Seria isto algum tipo de oferenda ritual?

Obviamente a mandíbula não era um porrete comum. Isto foi usado para fazer magia, pois antes de emprestar poderes para Sansão vencer sozinho uma guerra (Juízes 15:15) e fazer fluir água potável das rochas (Juízes 15:18-19), YHWH encantou o cajado de Aarão com poderes para vencer sozinho uma guerra transformando água em sangue (Êxodo 7:19), etc., e fazer fluir água potável das rochas (Êxodo 17:5). Na época do cerco de Ben-Hadade à capital de Israel a população foi obrigada a passar fome e uma cabeça de jumento chegou a valer oitenta peças de prata (II Reis 6:25).

Sobre a antiguidade do uso, possivelmente religioso, de mandíbulas de equinos, sabemos que uma delas foi encontrada junto aos restos mortais dum homem adulto, falecido na faixa etária dos 50 anos, hoje conhecido como Šamani Brno. Um fragmento de sua costela foi submetido ao teste de radiocarbono, o qual indicou a datação de 23.680 ± 200 anos RCYBP, ou uma idade provável entre 23.280 e 24.080 anos RCYBP.[11] Por isso Jill Cook estimou a idade do esqueleto e suas pertenças em 26.000 anos.[12] O túmulo Brno II estava localizado a quatro metros de profundidade na estrada Francouská, no cruzamento com a rua Předlácká, em Brno, na República Tcheca.

Nomes de poder

O nome de Caim (קין) vem de uma raiz que significa a criação dum produto artesanal. Por exemplo, a atividade do oleiro ao fazer um vaso de argila. Moisés Maimônides observou que os verbos criar (ברא) e fazer (עשו) são sinônimos (Gênese 2:4) em estreita relação com o verbo adquirir (קנה) – radical de Caim (קין) – porque YHWH se tornou adquirente do céu e da terra (Gênese 14:19 e 22). Então Caim ganhou um nome que significa “Criador” no sentido de artesão inventor, em homenagem a YHWH. Eva explicou a paródia quando o pariu: את־יהוה איש קניתי — “Eu gerei um homem de YHWH” (Gênese 4:1).

Uma das coisas a respeito das quais tu deverias conhecer e prestar atenção é o conhecimento manifesto pelo fato dos dois filhos de Adão serem chamados Caim e Abel; porque foi Caim quem matou Abel no campo. Ambos morreram apesar da trégua concedida ao agressor (Guia dos Perplexos II:30, folio 71b).[13]

YHWH nunca falou diretamente com Eva exceto na ocasião em que explicou a ela como nascem os bebês. Eva estava tão feliz que agradeceu pela punição da fecundidade sem a qual ela nunca sentiria as dores do parto, mas também nunca seria mãe (Gênese 3:16). O nome do segundo filho, Abel (הבל), significa luto. Não qualquer luto, mas as dramáticas demonstrações de pesar próprias dos orientais. Luto cheio de gritos e lagrimas, com pessoas rasgando as roupas e arrancando os cabelos.

Segundo o exemplo da narrativa bíblica, José fez luto por Jacó durante setenta dias, chorando com todo o Egito. Foi tão impressionante que deram ao lugar o nome de Abel Mesraim, ou seja, “Luto dos Egípcios” (Gênese 50:11).

Sacrifício dos primogênitos

Até hoje muitos tentaram e não conseguiram traduzir Gênese 4:7 de forma bela e elegante. O teólogo Domingos Zamagna chegou a sugerir que o problema está na corrupção do livro e não no leitor interessado em encontrar o espelho da sua ideologia. Daí a necessidade de oferecer ao leigo nada mais que a “tradução aproximada de um texto corrompido[14]”. Mesmo assim às vezes aparecem pessoas excêntricas afirmando não ter dificuldade em entender o que está escrito. Certa vez o ex seminarista Alphonse Louis Constant (1810-1875) pretendeu desvelar o segredo:

Caim foi o primeiro sacerdote do mundo. Todavia Abel exercera, antes de Caim, uma espécie de sacerdócio e fora o primeiro a derramar sangue. (…) Ele oferecia ao Senhor, diz a Bíblia, os primeiros animais de seu rebanho; Caim, pelo contrário, só oferecia frutas. Deus rejeitou as frutas e preferiu o sangue; mas ele não tornou Abel inviolável, porque o sangue dos animais é antes a expressão do que a realização do verdadeiro sacrifício. Foi então que o ambicioso Caim consagrou suas mãos no sangue de Abel; em seguida, construiu cidades e fez reis, pois se tomara sumo pontífice[15].

O contexto problematiza a exigência de YHWH de que todo filho primogênito, de sexo masculino, animal ou humano, fosse sacrificado em sua honra (Êxodo 34:19-20) ou substituído por um sacrifício expiatório (Gênese 22:13). Caim, que era lavrador, colheu frutos da terra e ofertou a YHWH, mas a comida vegetariana não despertou o interesse da divindade carnívora.

Logo depois Abel, que era pastor de ovelhas, sacrificou os filhos primogênitos do seu rebanho (Gênese 4:4). YHWH olhou para Abel e sua oferenda. Não olhou Caim e sua oferenda. Então a verdade se tornou óbvia. O irmão menor, Abel, possuía os requisitos necessários ao culto, mas Caim não tinha animais.

Caim começou a demonstrar sintomas de desespero porque ele próprio era um filho primogênito predestinado ao sacrifício. Ele tinha a obrigação de morrer ou comprar sua própria vida, mas a tentativa de resgatar a si mesmo falhou e ele já não sabia o que fazer. Na literatura paralela o agricultor recusa veementemente o suicídio e não economiza palavras para ofender YHWH, dizendo: “Eu pensava que o mundo havia sido criado para a bondade, mas vejo que as boas obras não produzem fruto algum. Deus governa o mundo usando arbitrariamente o seu poder[16]”.

Não existe justiça e nem há juízo. Não existe futuro nem vida eterna. Os bons não recebem nenhuma recompensa e para os maus não existe nenhuma punição (Midrash Aggadah 4,8)[17].

Ao contrário do personagem medieval que parece servir de válvula de escape para os incrédulos reprimidos dizerem tudo que pensam, culpando o vilão da estória, o herói bíblico nada fala e nada faz além de ficar nervoso e cabisbaixo. É neste momento que YHWH, olhando para Abel, fala pela primeira vez com Caim:

ךינפ ולפנ המלו ךל הרח המל ןיק לא הוהי רמאיו

Gênese 4:6

וב לשמת התאו ותקושת ךילאו ץבר תאטח חתפל ביטית אל םאו תאש ביטית םא אולה

Gênese 4:7

Primeiro a divindade questiona porque Caim está deprimido. Presumimos que, ao ouvir isso, o humano compreendeu outra premissa básica da antiga religião: Deus não olha nos olhos de quem vai viver porque ninguém pode continuar vivendo após ver sua face (Êxodo 33:20). YHWH não estava olhando somente para o altar repleto de carneiros assados. Deus olhava para “Abel e sua oferenda” (Gênese 4:4).

Pela antiga lei bíblica o primogênito era herdeiro universal do patriarca e os irmãos mais novos lhe deviam obediência. Caim “falou” com Abel, provavelmente tentando negociar a compra de um carneiro, mas este nada fez, notoriamente sabendo que ele herdaria tudo se o irmão morresse. Então, sem nenhum animal para sacrificar no seu lugar, Caim matou a única criatura disponível que, em tese, lhe era subordinada.

No fim de tudo Caim perdeu a memória e acordou dum estado de transe semelhante àquele que acometia Sansão quando este guerreava, possuído por YHWH, e depois não conseguia lembrar o fato de ter matado pessoas. Na versão apócrifa ele tem um acesso de vampirismo e acorda vomitando sangue.

Um texto corrompido?

Com certeza não há nada mais importante em Gênese 4 do que o conselho que YHWH deu a Caim. Seria uma lástima se Domingos Zamagna estivesse certo e o texto corrompido. Rabinos problematizaram a diferença de gêneros entre a palavra feminina chatath (תאטח) e o verbo masculino rovetz (ץבר) que a segue à semelhança de erro ortográfico[18]. Seria isto um indício de que ali termina uma frase e outra começa?

É fato que podemos traduzir tudo. Só não é possível forçar um significado politicamente correto perante as normas de conduta da nossa época. A redação presume um padrão estético onde as feridas são belas e o sangue é uma tinta sagrada.

Considere o costume de decorar a porta da tenda onde vive um primogênito com sangue pincelado com um ramo de manjerona (Origarum maru) para que YHWH não o matasse (Êxodo 12:22-23). Como Caim não tinha animais, e este era seu problema, ele teria a obrigação de usar seu próprio sangue. YHWH disse:

וב לשמת התאו ותקושת ךילאו ץבר תאטח חתפל ביטית אל םאו תאש ביטית םא אולה — Porque se [Caim] não fez uma bela ferida em si mesmo e se não embelezou a porta [pintando-a com sangue, então fará] matança expiatória. Curve-se para satisfazer tua paixão e então reine sobre si mesmo.

Talvez não seja inútil mencionar que o verbo reinar diz respeito à atividade do rei, melek (מלך), título homônimo homógrafo do interventor ou mōlek (מלך) que, de acordo com alguns historiadores, era um ser humano sacrificado no altar de YHWH.[19] Philo de Alexandria (20 a.C-50-d.C.) conheceu uma versão onde efetivamente “Caim se levantou e cometeu suicídio” (Philo. Quod det. Pol. § 14). Só que não é assim que acaba a estória que nós possuímos, baseado na compilação de Mōšeh bem’Āšēr.

A última frase dita a Caim, em Gênese 4:7, parafraseia palavras ditas a Eva, em Gênese 3:16, quando YHWH explica como acontece o coito, a gravidez, o parto e como se mantém a hierarquia duma estrutura familiar: “Ele [Adão] reinará sobre você [Eva]” (בך ימשל והוא). “Você [Caim] reinará sobre si mesmo” (וב לשמת התאו). Se Abel morresse Caim reinaria apenas sobre seus próprios filhos e descendentes. Não reinaria sobre Abel e seus descendentes, mas pelo menos continuaria vivo.

Nos discursos paralelos de YHWH, em Gênese 3:16 e 4:7, a palavra תְּשׁוּקָה com certeza descreve o sentimento de atração irresistível que resultou no doloroso parto de Eva, apaixonada pelo esposo (אישך), e, depois, na tremenda angústia do filho ansioso pela realização dum sacrifício expiatório (חַטַּאת).

A condenação de Caim ao ostracismo

Sansão era o tipo de médium que acordava desmemoriado no meio duma pilha de gente morta. Caim se fez de desmemoriado ou desentendido quando questionado por YHWH a respeito do que aconteceu com Abel.

4 9 E disse o Eterno a Caim: “Onde está Abel, teu irmão?” E disse: Não sei; acaso o guarda do meu irmão sou eu? 10 E disse: “Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão está clamando a Mim desde a terra. 11 E agora maldito és tu da terra, que abriu sua boca para receber o sangue do teu irmão, da tua mão. 12 Quando lavrares, o solo não dará mais a sua força para ti; fugitivo e vagabundo serás na terra”. 13 E disse Caim ao Eterno: “É tão grande o meu delito de não se poder suportar? 14 Eis que me expulsas hoje de sobre a face da terra, e da Tua presença não poderei me ocultar. E serei fugitivo e vagabundo na terra, e acontecerá que todo o que me encontrar matar-me-á”. 15 E disse o Eterno: “Por isso, quem matar a Caim, sete vezes será vingado”. E o Eterno pôs em Caim um sinal para que não o ferisse quem quer que o encontrasse. 16 E saiu Caim da presença do Eterno e habitou na terra de Nod, ao oriente do Édem[20].

Sangue está no plural, damēy āchiykhā (אָחִיךָ רְּמֵי). Se o texto não se referir a manchas espalhadas por várias partes do chão, então este sangue é dos animais sacrificados por Abel ou de Abel e seus sacrifícios. Isto era um problema para Caim. O corpo delito provava a morte que deveria ser punida por Adão ou por qualquer outro parente colateral de sexo masculino. Abel estava longe de ser um adversário tolo e fraco. A julgar pelo poder dos nomes sobre as personalidades míticas, não seria exagero dizer que ele era uma espécie de mestre das mentiras e dissimulações[21].

Nesta cosmogonia existem fantasmas e Abel se defende intercedendo por si mesmo junto aos seus sacrifícios, certamente clamando por um vingador de sangue para matar Caim[22]. Mas YHWH percebe que precisa ajudar afastando-o da família vingativa e abençoando-o com uma marca protetora. No final Caim foi condenado ao ostracismo (ארור  אתה מן־האדמה ) na terra (אדמה) de seu pai, Adão (אדם), para expiar a culpa coletiva. Depois que a terra, isto é, a humanidade, abriu a boca para beber sangue (אשר פצתה את־פיה לקחת את־דמי)alguém devia pagar por isso[23].

“O Sacrifício de Caim”, pintado por Amico Aspertini (c.1474-1552). Adão e Eva estão exaustos e famintos, junto a prato e jarro vazios, lembrando da expulsão dos campos do Éden. Caim segura um espelho, possivelmente imaginando a si mesmo sendo sacrificado nas chamas da churrasqueira do altar.

Pelo menos uma das numerosas versões judaicas deste mito termina com final feliz. Rabinos descreveram o dia em que Adão encontrou Caim no exílio e perguntou a respeito da conversa que este teve com YHWH: “Como você foi castigado?” Caim respondeu: “Prometi arrepender-me e foi-me dada anistia”. Adão se flagelou batendo no próprio rosto e disse: “Eu não sabia que o arrependimento tem tanto poder!” (Pĕsiḳta dĕ-Raḇ Kahăna 11:18)[24]. Porém era tarde para assumir a culpa pelo furto dos frutos proibidos. A sentença de Adão já havia transitado em julgado, condenando-o a viver duma dieta de cactos comestíveis (דרדר)[25], moyashi (תצמיח), centeio (לחם) e verdura (עשב) cultivada por ele mesmo com sofreguidão (Gn. 3:18-19).

A fábula do corvo

Uma das fábulas de Rumi (1207-1273) descreve Caim em dúvida sobre o que fazer para ocultar o cadáver de Abel. Neste momento ele viu um corvo vivo carregando um corvo morto pousar no solo e abrir uma cova para lhe ensinar, pois a ave carniceira estava inspirada por deus. Depois que o corvo vivo terminou de enterrar o corvo morto, Caim imitou-o e assim aprendeu a cavar sepulturas (Mathnawí IV:1300-1310)[26].

No Corão a história continua após um dos filhos de Adão matar o outro como sacrifício expiatório:

Deus enviou um corvo que se pôs a escavar a terra para ensinar-lhe como ocultar o cadáver do irmão. Disse: “Ai de mim! Sou, acaso, incapaz de ocultar o cadáver de meu irmão, se até este corvo é capaz de fazê-lo?” Contou-se depois entre os arrependidos. (Corão 5:31).[27]

Rabbi Louis Ginzberg (1873-1953) explicou que a variante judaica desta fábula é um comentário ao Salmo 147:9 onde YHWH alimenta os filhos do corvo (עֹרֵב בְנֵי) quando os pais lhes abandonam[28]. Fora de contexto, vale lembrar que na natureza os corvos não enterram os mortos. Eles eliminam cadáveres comendo a carniça.

Na Bíblia o profeta Balaão faz um trocadilho entre Caim (קין = qyn) e ninho (קנך = qen) comparando o rei em sua cidade fortificada a um pássaro no ninho. Provavelmente isto diz respeito a uma cidade redonda e côncava, sobre uma montanha, semelhante à Tel Dan. A cidade está segura, mas Caim tem um problema. O seu reino foi reivindicado como colônia pela Assíria e ele se rendeu sem organizar nenhuma campanha militar defensiva. Então Balaão, em nome de deus, mandou uma mensagem para Caim mandando-o parar de pagar impostos e atacar sem medo: “A tua morada está segura, Caim, e o teu ninho firme sobre o rochedo. Contudo, o ninho pertence a Beor. Até quando serás cativo de Assur?” (Números 24:21-24).

Espírito de Caim. Desenho de Collin de Plancy no Dictionnaire Infernal (1863).

O medo do Rei Caim era fundamentado, pois quando Ben-Hadade declarou guerra contra Israel, a situação na capital sitiada era tão calamitosa que a população precisou recorrer ao canibalismo dos primogênitos para sobreviver (II Reis 6:27-29).

A marca de Caim

Está escrito que YHWH pôs em Caim um sinal para impedir que ele fosse ferido por qualquer pessoa que o encontrasse e prometeu que se algum vingador de sangue vingasse a morte de Abel, matando-o, então outros sete vingadores seriam enviados para vingar a morte de Caim (Gênese 4:15). Noutras palavras, deu carta branca para Enoch, Irad, Mehuyael, Methushael, Lamech e Yaval chacinarem os culpados caso Caim sofresse retaliação.

Se eu fosse YHWH jamais escreveria “assassino” na testa de alguém que, em tese, deveria ser auxiliado e escondido. Eu faria em Caim a mesma tatuagem (קעקע) ou corte (תתגדו) tradicional que servia para fazer demonstrações públicas de luto e proteger contra atividade paranormal (Deuteronômio 14:1 e Levítico 19:28). Isto calaria o clamor do sangue de Abel e confundiria seus perseguidores porque a primeira coisa que alguém pensaria ao vê-lo seria: “Caim está de luto pela morte do irmão”.

Muitas tentativas de explicar a aparência da marca de Caim resultaram em conclusões diversas. O Targum Jonathan descreve o sinal na fronte com a forma de uma das letras do nome de deus.[29] Considerando que uma superstição dos tempos bíblicos incentiva os pais a iniciar nomes de bebês com Yod (י) ou Yod e He (יה) para proteger contra o mau-olhado e atividade paranormal, notadamente o Yod (י) seria a melhor opção[30]. Caim não fez uma bela ferida em si mesmo (תאש ביטית) conforme aconselhado desde o início (Gênese 4:7), mas acabou marcado (אות) igual a certos hindus que pintam o terceiro olho com sangue ao invés de usar pó. (Gênese 4:15)

 1) Imagem duma fábula onde Lamech, cego, prepara o arco para flechar Caim, apontado por Tubal Caim. (Ilustração de Lucas Van Leyden, de 1524). 2) Caim com chifres. (Arte digital © 2009, Kuroi Tsuki e DeviantArt)

Existem outras variantes da lenda. Certa vez compararam o versículo onde YHWH pôs a marca na fronte de Caim (Gênese 4:15) com aquele onde YHWH pôs uma figura de Lichtenberg ou chifres (קרן) na fronte de Moiséis (Êxodo 34:35) e deduziram que sempre que deus perambula por aí e se agrada de alguém, ele dá esse lindo par de chifres de presente para a pessoa. Resultado: Quando Caim clamou por proteção “cresceram-lhe chifres, para amedrontar os animais[31] que pudessem atacá-lo[32]”.

Claro que nem todo mundo entendeu a analogia ou encarou a coroa de chifres como um presente benéfico. Num livro apócrifo é dito que YHWH inflige sete punições “piores que a morte” sobre Caim: 1) Crescimento de chifres constrangedores. 2) Um decreto proibindo que qualquer outra pessoa o mate ou faça amizade com ele. 3) Capacidade de escutar o uivo do vento ecoando nos vales e montanhas como um pranto fúnebre pela morte de Abel. 4)  Insônia eterna. 5) Fome voraz e insaciável. 6) Ereção persistente ou priapismo[33]. 7) Insatisfação. (Adamschriften 35:43)[34].

A informação que a cultura moderna tem sobre a associação de Caim com o mito do vampiro vem principalmente dos livros de ficção The Book of Nod (1993) de autoria de Sam Chupp e Andrew Greenbery, e da sequência autorizada Revelations of the Dark Mother (1998), escrita por Phil Brucato e Rachelle Udell.[35]

Já vi brasileiros compartilhando cópias não autorizadas disto como se fossem livros de doutrina esotérica; mas na verdade ambos foram publicados pela editora White Wolf, distribuídos no Brasil pela livraria-editora Devir, como meros suplementos do jogo de interpretação Vampire Masquerade (1991) onde Mark Rein·Hagen define o personagem bíblico como sendo o primeiro vampiro amaldiçoado com a imortalidade.

Era das hipóteses ad hoc

Alguns religiosos incapazes de se conformar com a literalidade da redação duma estória que protege um assassino mitológico sugeriram que os sete protetores de Caim na verdade seriam sete gerações a serem contadas até o nascimento daquele que executaria a pena de morte porque na sua lei divina revista e anotada não deveria existir esse negócio de prescrição, perdão judicial, anistia, etc. Caim só precisava viver mais um pouco para ter um monte de filhinhos, netinhos, etc., todos ruinzinhos, necessários para servir de exemplo de maldição hereditária e morrer no dilúvio.

Na versão de Flávio Josefo, deus bizarramente decidiu despersonalizar o crime de Caim e aplicar em Lamech a pena pela morte de Abel. O sétimo herdeiro, Lamech, descobriu que estava condenado à pena de morte ao estudar religião e profecias. (Antiguidade Judaica. Livro I, capítulo 2, 2:65). Noutras versões Lamech mata o tataravô porque “Caim se arrependeu e confessou seu pecado”. (Crônicas de Jeraḥmeel 24:3). Shlomo Yitzhaki (1040-1105) opinou que Caim seria castigado “somente após sete gerações”. Meir Matzliah Melamed resumiu a revisão do mito:

Conta o Midrash que sendo Lamech cego, saía a caçar com seu filho Tubal Caim, que o guiava e indicava a presença de caça. O menino confundiu Caim com algum animal e foi assim que Lamech o matou com uma flechada. Ao perceber o seu erro, feriu a si próprio e um dos golpes atingiu a cabeça de filho, matando-o também. Por isso, suas mulheres o acusavam pelo duplo assassinato e Lamech se desculpou.[36]

De acordo com o folclorista Alan Unterman, o tataraneto de Caim disparou uma flecha “após ter sido erroneamente informado de que o chifrudo Caim era um animal selvagem”.[37] Essa lenda é interessante embora tenha sido mal formulada. Gênese 5:23-24 não cita os nomes das pessoas que Lamech matou. Seria relevante nomear caso fossem o tataravô e o filho do assassino. Sobretudo, se Tubal Caim fosse o menino morto em Gênese 5:23, ele não teria crescido para exercer uma profissão de adulto em Gênese 4:22. Também não está escrito na bíblia hebraica que Lamech era cego.

Interpretações cristãs

O Novo Testamento afirma que Abel e Zacarías morreram no altar (εκζητηθησεται). Isto era um problema grave e específico. (Lucas 11:50) Jesus fala de Abel como vivendo na “fundação do mundo” (Lucas 11:50). A palavra grega para “mundo” é Kósmos (κοσμου). O termo “fundação” verte a palavra grega ka•ta•bo•lé (καταβολης) e significa literalmente “lançamento (de semente) para baixo”. Noutra parte lemos que a semente (σπερμα) plantada na terra é literalmente o DNA próprio ou impróprio perante um rígido controle de qualidade eugênica. Todos os filhos de deus (τεκνα του θεου) são incapazes de errar (αμαρτανειν). Por outro lado, Caim nasceu incapaz de praticar a justiça (δικαιοσυνην) por pertencer à linhagem opressora (εκ του πονηρου ην) e ser “filho do diabo” (τεκνα του διαβολου). (1 João 3:9-12).

Abel (Αβελ) conhecia a verdade (πιστει) e ofereceu um sacrifício (θυσιαν) melhor que o de Caim (Καιν), sendo por isso rotulado pelo adjetivo dikaious (δικαιος) o qual define a “observância de um costume” e é comumente traduzido como “piedoso” e “justo”. Desta forma ele comprou um super poder: Mesmo depois de morto ainda fala. (Hebreus 11:4) Abel sofreu uma espécie de ressurreição espiritual temporária semelhante à de Jesus, diferente da de Lázaro e do filho da viúva de Naim.

Apócrifos gnósticos cristãos

Os apócrifos gnósticos trazem variantes onde Caim já nasce com o “coração duro” – cheio de ódio por tudo e todos – enquanto Abel é um religioso compulsivo de “coração manso”. Nestas fontes Caim e Abel decidiram casar com a mesma mulher ao mesmo tempo, quando tinham respectivamente quinze e doze anos.

Caim achava que Luluva era a mulher mais bela do mundo. Abel só queria casar com a irmã mais velha porque o pai mandou. Luluva nasceu com Caim e ele acreditava que, por isso, esta era sua esposa predestinada. Quando chegou aos seus ouvidos a fofoca de que os pais prendiam casá-lo com uma garota feia e dar Luluva em casamento para Abel, ele lembrou o antigo costume israelita de dar a viúva do irmão morto como esposa ao irmão vivo e formulou a dúvida: “Por que pretendeis tomar minha irmã e uni-la em matrimônio com meu irmão? Acaso estarei morto?” (Primeiro Livro de Adão e Eva 78:12)[38]. Então aconteceu o episódio da seleção dos sacrifícios e ele teve a certeza de que havia algo errado. Tudo termina com o afável Abel esperando pacientemente enquanto Caim procura paus e pedras para espancá-lo até a morte.

Uma vez enterrado, o corpo é cuspido pela terra falante que, zombando de Caim, se recusa a receber Abel. Deus demonstra misericórdia para com Caim e amaldiçoa “o solo que bebeu o sangue de teu irmão” (Primeiro Livro de Adão e Eva 79:22)[39]. Não muito longe dali, escondido na floresta, satanás bate palmas rindo muito de tudo isso.

Os perpétuos

O Livro da Gênese menciona a data da morte de todos os personagens exceto a de Caim e seus descendentes. Para complicar mais o caso, um regente chamado Caim aparece em vários pontos da bíblia hebraica, a exemplo de Números 24:22, sempre em datas impossíveis nas quais qualquer ser humano normal já teria morrido. Outras referências são tão ambíguas quanto o discurso do azarado Jó reclamando da vida: “Por que eu não fui abortado? Por que Caim não me ajudou?” (Jó 3:12).

Será que Caim fez jus ao efeito literal da antiga bênção “ó rei, viva para sempre” (Daniel 6:6)? Se a genealogia de Seth for levada a sério, ali qualquer um vivia oitocentos anos… Certa vez o jornalista Hyam Maccoby achou algo muito estranho:

There can be little doubt that the Cain of the Bible is derived from the Cain whom the Kenites regarded as their ancestor and the founder of their tribe. (…) The truth is that the line of Seth has no real existence at all, but is a shadow or reflection of the line of Cain. For it requires little enquiry to see that the two lines of Seth and Cain are really one line, and that the line of Seth was derived from the line of Cain and not vice versa. If we examine the names in both lists, we see that there is only one list with slight variations, for the names are basically the same in both lists[40].

Comparando as listas genealógicas, Hyam percebeu que tanto Caim quanto Seth tiveram um filho chamado Enoch (חנוך)[41] que, por sua vez, teve um descendente chamado Lamech (למך). Quatro nomes foram corrompidos de forma que Irad (עירד) virou Jared (ירד), Mehuyael (מחויאל) virou Mahalalel (מהללאל), Methushael (מתושאל) virou Mathuselaḥ (מתושלח), e o próprio Caim (קין) virou Cainã (קינן) que viveu novecentos e dez anos (Gênese 5:14).

É como se alguém tivesse tentado memorizar sem sucesso todos esses nomes corrompidos e embaralhados. Dois intrusos foram importados e adaptados. Seth é o deus egípcio que matou seu irmão Osíris. Uma duplicata de Caim. Noé foi o apelido que o autor da revisão deu ao herói babilônio Utnapishtim. (Se ele não conseguia memorizar nomes nacionais, imagine se tentasse transliterar o cuneiforme Utnapishtim! Isso parece Arnold Schwarzenegger. Ninguém lembra como se escreve).

“Outra semelhança é que cada lista termina com um trio de nomes, ainda que tais nomes não sejam idênticos[42]”. A bigamia de Lamech, a repartição igualitária de bens entre o par de filhos primogênitos com os irmãos mais novos e o reconhecimento do direito de herança de uma filha foi demais para a cabeça do revisor.

O orientalista escocês Willian Robertson Smith (1846-1894) propôs uma hipótese onde a marca de Caim seria uma espécie de distintivo que levavam sobre sua pessoa os membros da tribo e que lhes servia de proteção, ao indicar que seu portador pertencia a uma comunidade que não deixaria de vingar sua morte. J.G. Frazer refutou tal hipótese argumentando que “uma marca semelhante protegia igualmente a todos os membros da tribo, fossem ou não homicidas”.[43] Entretanto, Caim ensinou algo que seu tataraneto aprendeu muito bem: Pela lei da selva, manda quem pode e obedece quem tem juízo. Regras só atingem a quem não é capaz de contra-atacar represálias. Quando até os vingadores de sangue perdem não há vingança contra os sentenciados.

Lamech disse às suas mulheres:
“Ada e Sela, ouvi minha voz,
mulheres de Lamech, escutai minha palavra:
Eu matei um homem por uma ferida,
Uma criança por uma contusão.
É que Caim é vingado sete vezes,
mas Lamech, setenta e sete vezes!”[44]

Se alguém vingasse o sangue de Abel matando Caim sofreria vingança por parte do próprio deus ou dos descendentes de Caim. Devemos concluir que se alguém vingasse o sangue do homem ou do garoto morto por Lamech sofreria vingança de setenta e sete defensores do patriarca? Tudo isso parece um círculo vicioso.

Não sabemos se Lamech matou de forma dolosa, culposa ou em legítima defesa. Só porque tem um menino envolvido não significa que Lamech não corria perigo. Quem nunca viu um menor de idade assaltar um adulto ou idoso? Não é impossível que Lamech tenha matado duas pessoas porque teve filhos primogênitos com duas esposas diferentes e preferiu realizar sacrifícios expiatórios com humanos substitutos ao invés de oferecer animais ou dinheiro ao templo. Mas ele estava com tanto medo da represália que contratou setenta e sete guarda costas! É óbvio que os mortos pertenciam a clãs ou quadrilhas perigosas. É igualmente óbvio que Lamech tinha recursos para dispor de tantos protetores. Riqueza atrai cobiça.

O filho primogênito de Caim foi Enoch (חנוך). Caim edificou uma cidade que recebeu o nome deste filho (Gênese 4:17). Mais tarde, em Judá, outra cidade foi chamada Caim em honra ao mitológico herói nacional (Jos 15:1,48,57). M. Gaster traduziu isto dum manuscrito judaico do século XIV, do acervo da Bodleian Library:

Caim fecundou Qalmana, sua esposa, e Enosh nasceu. Ele construiu uma cidade e a chamou de Enoch, em homenagem ao seu filho. Ele costumava raptar e alojar pessoas ali. Ele construiu aquela cidade cercando-a com muralhas e trincheiras. Foi o primeiro a fortificar uma cidade deste jeito por medo de seus inimigos. Enoch foi a primeira entre todas as cidades. (…) Quando Caim terminou de construir a cidade de Enoch ela foi habitada por seus descendentes, que existiam no dobro do número daqueles que saíram do Egito. (Crônicas de Jeraḥmeel 24:1-3)[45].

O filho primogênito de Enoch foi Irad (עירד), o de Irad foi Mehuyael (מחויאל), o de Mehuyael foi Methushael (מתושאל) e o de Methushael foi o polêmico Lamech (למך). Lamech tomou para si duas mulheres: ‘Adah (עדה) e Ṣillah (צלה). Ada teve dois filhos chamados Yaval (יבל) e Yuval (יובל). O primogênito foi pai dos que viviam em tendas e tinham propriedades rurais naquela região, como era costume entre os criadores de rebanhos. O outro foi pai de todos os habitantes da cidade que tocavam musica usando um antigo instrumento de corda chamado Kinor (כנור) juntamente com os complexos instrumentos de sopro (עוגב) que antecederam o órgão hidráulico.

Zilah teve uma filha, Naamah (נעמה), que os comentários bíblicos afirmam ter sido uma excelente cantora. Ela devia cantar na banda da família da mesma forma que Michael Jackson iniciou a carreira cantando na banda Jackson Five. Mesmo assim sua ocupação principal era a tecelagem. Naamah inventou vários instrumentos usados para tecer e costurar seda, lã e outros tecidos. (Crônicas de Jeraḥmeel 24:8).[46]

O filho de Zilah foi Tubal Caim (תובל־קין), que trabalhava amolando as lâminas de cobre e ferro fabricadas por seus conterrâneos. (Gênese 4:17-22) Segundo Rashi, “Lotêsh Col Chorêsh” refere-se ao artesão que afia e lustra artefatos de cobre e ferro, um tipo de serralheiro e polidor dos nossos dias. O açacalador realiza ambas as atividades[47].

Desde então Caim passou a ser uma espécie de prenome ou sobrenome de alguns descendentes do pai hipônimo. O sogro de Moisés, Héber Caim, filho de Hobabe Caim, pertencia a esta família (Juízes 4:11). Hervé Masson compilou uma lenda de influência islâmica de data incerta que inclui Hiram Abi, o construtor do templo de Jerusalém, entre os descendentes de Tubal Caim[48]. Collin de Plancy afirma que ainda existiam cainitas no século II, mas estes procuravam fazer tudo que era errado, eram falsos, mal interpretados ou mal compreendidos[49].

Evolução dos trabalhos

Após o imenso trabalho de construir a primeira cidade, Caim se tornou rei. A julgar pelo cargo ostentado expressamente por Héber Caim, o título da nobreza cainita não era o dum Faraó ou Cezar qualquer, mas um impressionante kohen (כהן)[50] que reúne os poderes legislativo, executivo, judiciário e eclesiástico.

Em toda a Bíblia só mais um personagem foi kohen, além dos cainitas, e este era Melchizedek (Gênese 14:18) cujo conhecimento e poderio teria sido invejado por Jesus (Hebreus 7:17). A versão de Flávio Josefo sobre como Caim teria iniciado a vida urbana é diferente da que lemos no Gênese 4:16. Sendo o autor um apologista romano, a sua revisão do personagem segue o exemplo dos saques de Roma a outros povos:

(60) Após viajar por muitas terras, Caim, com sua esposa, construiu uma cidade chamada Nod. Lá ele fez sua morada e teve filhos. Consequentemente ele abandonou a penitência e aumentou sua maldade, porque só pensava em buscar tudo que fosse útil aos prazeres da carne – mesmo que implicasse no prejuízo de seus vizinhos. – (61) Ele aumentou os bens de família do seu clã adquirindo muitas riquezas por meio de rapina e violência. Tornou-se um grande líder de homens que seguiam rumos impiedosos ao exercer sua habilidade de obter prazeres e espólio por meio de assaltos. Também introduziu uma mudança na vida simples dos homens que viveram antes dele, pois inventou o cálculo de pesos e medidas. Considerando que todos viviam na inocência e generosidade enquanto desconheciam tais artes, ele mudou o mundo introduzindo os valores econômicos. (62) Primeiramente ele demarcou terras e fixou fronteiras. Então construiu uma cidade e fortificou com muralhas, compelindo sua família a ir junto com ele para lá. Chamou aquela cidade de Enoch em honra ao filho mais velho. (Antigudade Judaica. Livro I, capítulo 2, 2:60-62)[51].

Enquanto a bíblia hebraica informa apenas que Tubal Caim trabalhava polindo e amolando lâminas de ferro e cobre, produzidas na cidade, Flávio Josefo sugeriu que este personagem inventou a arte de produzir bronze. (Antiguidade Judaica. I, 2, 2:64)

Outros continuaram aumentando as habilidades de Tubal, alegando que ele descobriu a arte de juntar chumbo e ferro para temperar o ferro e fazer lâminas mais afiadas. Ele também inventou a pinça, o martelo, o machado e outros instrumentos de ferro. No fim Tubal já sabia trabalhar com estanho, prata e ouro. Ele forjava utensílios de guerra e foi artífice em todos os ramos da indústria siderúrgica. (Crônicas de Jeraḥmeel 24:8).

Tal como os gregos, romanos e outros povos do mundo antigo, os descendentes de Caim costumariam guerrear em busca de espólio, escravos e belas mulheres:

Ainda no tempo de vida de Adão, os descendentes de Caim se tornaram cada vez mais impiedosos. Morriam continuamente, um após o outro, mas o sucessor era sempre mais impiedoso que o antecessor. Eram insuportáveis na guerra e destemidos nos assaltos. Se algum deles era lento para matar pessoas, ainda era ousado em seu comportamento libertino, agindo injustamente e causando lesões corporais por lucro. (Antiguidade Judaica. Livro I, capítulo 2, 2:66)[52].

Tubal Caim usava produtos feitos por ele mesmo. “Sua força superava a de todos os homens. Ele era famoso pelo domínio das técnicas de artes bélicas, usadas na busca de tudo que favorecia os prazeres corporais”. (Antiguidade Judaica. I, 2, 2:64). Foi graças à descoberta da metalurgia ensinada por Tubal que os homens começaram a fazer estátuas para o culto religioso (Crônicas de Jeraḥmeel 24:8).[53]

Juntamente com seu poderoso clã, ao longo do tempo, o rei Caim construiu ou reformou mais seis cidades: Mauli, Leeth, Teze, Iesca, Celeth e Tebbath. Nesta época Caim e sua esposa Themech tiveram mais três filhos, Olad, Lizaph e Fosal, e duas filhas, Citha e Maac.[54] Diz-se que ele “foi progenitor de muitos povos”.[55]

Nos dias de Enoch os homens começaram a ser designados por títulos de juízes e príncipes, foram deificados e erigiram templos em sua homenagem. A prosperidade do reino de Caim durou até a conquista da capital cainita pelo Rei Reu, quando toda a classe governante foi deposta. (Crônicas de Jeraḥmeel 24:9).[56]

Em tempos de paz os cainitas continuavam trabalhando em busca de ascensão social. Yaval inventou trancas de porta em forma de χ para evitar a entrada de ladrões nas casas, fez cercas e estábulos para separar o rebanho bovino do ovino, e também dos bois castrados. (Crônicas de Jeraḥmeel 24:5). Depois de descobrir a ciência da música, Yuval escreveu-a sobre duas estelas[57], uma de mármore branco e outra de barro cozido, porque se a erosão destruísse a mais frágil ainda restaria uma cópia para transmitir seu conhecimento à posteridade (Crônicas de Jeraḥmeel 24:6-7).[58]

Caim rumando para construir a primeira cidade. Gravura de F. Cormon.

Conclusão

Caim é um personagem mitológico e literário que, tal como inúmeros outros, existe no mundo das ideias desde épocas imemoriais. A condenação de Caim ao ostracismo se assemelha parcialmente ao rito grego de purificação do ágos.

Explica-se: Todo homicida é amaldiçoado (enagés) por uma condição peculiar (ágos) capaz de contaminar outras pessoas ao seu redor. A comunidade da época arcaica sabia-se obrigada a “expulsar” o ágos e com ele o homicida que buscaria no exterior um local, um senhor protetor que aceitasse executar a sua purificação.

Até aí, o homicida não poderia ser recebido em casa, nem partilhar as refeições. O exemplo mítico é o matricida Orestes que fugiu para o estrangeiro. Locais diferentes com os seus rituais locais são associados à sua purificação: Em Tréizen, defronte do santuário de Apolo, havia uma “cabana de Orestes” que se dizia ter sido construída para não aceitar o homicida numa casa normal (Pausânias, 2, 31,8).

Um grupo de sacerdotes encontrava-se ali regularmente para uma refeição sacra[59]. Mas nem todos estavam felizes com isso. Por exemplo, Heráclito de Éfeso criticou a falta de lógica ou paradoxo do ritual:

Purificam-se manchando-se com outro sangue, como se alguém, entrando em lama, em lama se lavasse. E louco pareceria, se algum homem o notasse agindo assim. E também a estas estátuas eles dirigem suas preces, como alguém que falasse a casas, de nada sabendo o que são deuses e heróis (Heráclito, B 5).[60]

Quem pisa em lama não fica limpo tomando banho com mais lama. Por que a primeira morte haveria de ser expirada por outra(s) morte(s)? Talvez o objetivo não fosse purificar o amaldiçoado, mas fazê-lo passar por um rito de passagem. O homicida coloca a si próprio fora da comunidade. Sua reintegração a um nível diferente é, portanto, uma iniciação. Assim, a purificação de Hércules, antes da consagração em Elêusis, e a purificação de Orestes parecem ter paralelos estruturais.

De acordo com Walter Burket, “oferecer às potências da vingança que perseguem o homicida um sacrifício sucedâneo, parece ser uma ideia natural”. O essencial, porém, parece ser o fato de o indivíduo maculado pelo sangue entrar de novo em contacto com o sangue: Trata-se de uma repetição demonstrativa do derramamento de sangue durante a qual a sua consequência, a mácula visível, é eliminada de modo igualmente demonstrativo. Assim, o acontecimento não é recalcado, mas sim superado.

Comparável a este é o costume primitivo de o homicida beber o sangue da sua vítima e o expelir logo de seguida: Ele tem de aceitar o fato pelo contacto íntimo com o mesmo e simultaneamente livrar-se dele de modo efetivo.[61]

Noutras ocasiões o sangue é derramado com objetivo de purificação. Isto é comprovado, de modo mais detalhado, na purificação do local da assembleia popular e do teatro em Atenas: No início da reunião, funcionários especiais, peristíarchoi, transportam leitões ao redor do local, lhes cortam a garganta, polvilham os assentos com sangue, lhes cortam os testículos e deitam-nos fora.

Os mantineus purificam todo o seu território transportando animais sacrificados (sfágia) ao longo das fronteiras e aí os executando. Walter Burket sugeriu a existência de ritos paralelos na tradição do Velho Testamento e dos Persas.

A crueldade deliberada faz parte do “robustecimento” para a peleja. Contava-se então que quem recusasse o serviço militar era levado como vítima de sacrifício; uma forma particular da preparação da batalha pela sfágia. Isto também é um rito de passagem. Por isso, tanto a expiação do homicídio como a iniciação à guerra podem ser igualmente denominadas “purificações”.[62]

(57) God convicted Cain, as having been the murderer of his brother; and said, “I wonder at thee, that thou knowest not what is become of a man whom thou thyself has destroyed”. (58) God therefore did not inflict the punishment [of death] upon him, on account of his offering sacrifice, and thereby making supplication to him not to be extreme in his wrath to him; but he made him accursed, and thereatened his posterity in the seventh generation. He also cast him, together with his wife, out of that land. (Antiguidade Judaica. Livro I, capítulo 2, 1:57-58)[63].

Com o passar dos séculos o mito de Caim foi mudando e ganhando variantes. A influência helênica logrou transformar herói em vilão (Sabedoria 10:1-4). Existem várias versões da morte de Caim. A mais surreal é aquela em que acontece um abalo sísmico no momento em que ele tenta enterrar Abel num terreno lamacento, escorrega e afunda na cova como alguém que pisa em areia movediça, enquanto o cadáver de Abel torna a subir e fica boiando até ser descoberto.

Dizem que o corpo de Abel permaneceu incorrupto, em perfeito estado de conservação, durante setecentos e oitenta e oito anos. Um cão ficou do seu lado todo este tempo, espantando os corvos. Depois Abel foi enterrado[64]. O Testamento dos Vinte Patriarcas diz que Caim morreu no dilúvio (Benjamin 7:4) junto com todos os cainitas, a despeito do fato de Balaão haver falado a seu clã em data posterior (Números 24:22).

Até hoje o personagem continua a morrer e ser ressuscitado pela arte. Não existe folclore certo ou errado. Algumas estórias vieram antes das outras e isto é tudo. Caim tem múltiplas personalidades. Viverá para sempre no mundo das ideias desde que nós, os vivos, lembremos dele por toda a eternidade.

Na condição de personagem fictício, o mítico Caim pode virar vampiro, sem dúvida: “A tradição sustenta que Caim, o assassino bíblico de seu irmão Abel, é o senhor de toda a Família. Há muita controvérsia a este respeito dentro da comunidade dos vampiros, posto que não há nenhum membro que possa garantir com absoluta certeza já haver encontrado Caim. Certamente, aqueles de Segunda Geração saberiam, mas estes já não dizem nada”. (Mark Rein-Hagen. Vampiro: A Máscara)[65].

Notas:

[1] MIDRASH RABBAH: GENESIS. Trad. Rabbi Freedman & Maurice Simon. London, Soncino Press, 1961, Vol I, p 187-188.

[2] LIFSCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. Trd. Bertilo Brod. São Paulo, Paulinas, 1998, p 29.

[3] LEVISON, john R. Texts in Transition: The Greek Life of Adam and Eve. Georgia, Society of Biblical LKiterature, 2000, p 26.

[4] 2. 1 Εὔα τῷ κυρίῳ αὐτῆς Ἀδάμ· 2 κύριέ μου, ἴδον ἐγὼ κατ᾽ ὄναρ τῇ νυκτὶ ταύτῃ τὸ αἷμα τοῦ υἱοῦ μου Ἀμιλαβὲς τοῦ ἐπιλεγομένου Ἄβελ βαλλόμενον εἰς τὸ στόμα Κάϊν τοῦ ἀδελφοῦ αὐτοῦ, καὶ ἔπιεν αὐτὸ ἀνελεημόνως. παρεκάλει δὲ αὐτὸν συγχωρῆσαι αὐτῷ ὀλίγον ἐξ αὐτοῦ, 3 αὐτὸς δὲ οὐκ ἤκουσεν αὐτοῦ, ἀλλὰ ὅλον κατέπιεν αὐτό· καὶ οὐκ ἔμεινεν ἐπὶ τὴν κοιλίαν αὐτοῦ, ἀλλ᾽ ἐξῆλθεν ἐκ τοῦ στόματος αὐτοῦ. 4 εἶπεν δὲ Ἀδὰμ τῇ Εὔᾳ· ἀναστάντες πορευθῶμεν καὶ ἴδωμεν τί ἐστιν τὸ γεγονὸς αὐτοῖς,  μή ποτε πολεμεῖ ὁ ἐχθρός τι πρὸς αὐτούς. 3 1 Πορευθέντες δὲ ἀμφότεροι εὗρον πεφονευμένον τὸν Ἄβελ ἀπὸ χειρὸς Κάϊν τοῦ ἀδελφοῦ αὐτοῦ. (CHARLES, Robert Henry. The apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament in English. Oxford, 1913, Vol.II, σελ. 138).

[5] LIFSCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. Trad. Bertilo Brod. São Paulo, Paulinas, 1998, p 43.

[6] CHUPP, San & GREENBERG, Andrew. The Book of Nod. Georgia, White Wolf, 1993, p 37.

[7] SARAMAGO, José. Caim. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, p 34.

[8] The Temptation of Saint Anthony, ca. 1512-15. Em: Artsy. Acessado em 25/02/2017 as 19h13. URL: <https://www.artsy.net/artwork/matthias-grunewald-the-temptation-of-saint-anthony>

[9] Tais gravuras se encontram respectivamente nos acervos do Rijksmuseum, em Amsterdam, do Metropolitan Museum of Art, de New York, e na National Gallery of art, em Washington D.C. Lucas Van Leyden também recorreu à tradição oral a respeito da morte de Caim antes de pintá-lo, em 1524, sob a mira imprecisa do arco de Lamech (Referência M28417 do catálogo do Museum of Fine Arts, Boston). Em 1529 ele completou a primeira seqüência onde Adão e Eva encontram o cadáver de Abel.

[10] No hebraico bíblico não existia termo específico para diferenciar o cavalo (Equus caballus) ou jumento (Equus asinus) de seus filhos híbridos. Então חֲמוֺר tanto pode ser um jumento como um hibrido destas ou doutras espécies. Certa vez se tentou proibir a criação de eqüinos (Dt 17.16) e o sacrifício ritual de eqüinos (2 Rs 23:11), mas a população continuou usando estes animais para montaria e trabalhos no campo (Isaías 28:28, Jó 39:19-25).

[11] PETTITT, Paul B & TRINKAUS, Erik. Direct Radiocarbon Dating of the Brno 2 Gravettian Human Remains. Em:  Anthropologie XXXVIII/2. Brno, Anthropos institute (Moravian museum), 2000, p 149-150. URL: <http://puvodni.mzm.cz/Anthropologie/article.php?ID=1603>.

[12] COOK, Jill. Ice Age Art: The arrival of the modern mind. London, The British Museum Press, 2013, p 99-102.

[13] MAIMÔNIDES, Moisés. The Guide of The Perplexed: Vol II. Trd. Shlomo Pines. London, University of Chicago, 1963, p 357.

[14] ZAMAGNA, Domingos. Gênesis. Em: BÍBLIA DE JERUSALÉMA. São Paulo, Paulus, 1995, p 36, nota t.

[15] LEVI, Éliphas. A Ciência dos Espíritos. Trd. Setsuko Ono. SP, Pensamento, 1997, p 109.

[16] GINZBERG. The Tem Generations, notas 15 e 16. Em: LIFESCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. São Paulo, Paulinas, 1998, p 35.

[17] LIFESCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. SP, Paulinas, 1998, p 35.

[18] Midrash Genesi Rabbah 22,6 e Tifereth Tzion a Midrash Genesi Rabbah 22,6. Em: LIFESCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. SP, Paulinas, 1998, p 35.

[19] STAVRAKOPOULOU, Francesca. King Manasseh and Child Sacrifice: Biblical distortions of historical realities. New York, Walter de Gruyter, 2004, p 310-311.

[20] MELAMED, Meir Matzliah. Tora – A Lei de Moisés. São Paulo, Sêfer, 2001, p 10-11.

[21] A palavra que originou o nome de Abel aparece noutras partes da bíblia hebraica agregada à ruína (Isaías 49:4), falsidade (Salmo 31:7), frustração (Eclesiastes 4:4), aflição (Eclesiastes 4:8), decepção (Eclesiastes 4:16) e sofisma (Eclesiastes 6, 11). Hebēl (הבל) está sempre em “má companhia”. Jeremias, os Salmos e principalmente o Eclesiastes, como também Jó e Isaías, dão-nos o pior dos retratos de seu significado.

[22] A palavra hebraica go∙’él, que tem sido aplicada ao vingador de sangue, é um particípio de ga∙’ál, que significa, “reivindicar” ou “recuperar”. O termo aplicava-se ao parente masculino mais próximo, que tinha a obrigação de vingar o sangue daquele que fora morto. (Números 35:19,  Gênese 9:5 e Números 35:19-21, 31).

[23] Gênese 4:11 diz, para Caim, que “a terra abriu a boca para receber os sangues do irmão, das suas mãos” (מידך אחיך את־דמי לקחת את־פיה פצתה אשר אדמה). Isto é uma óbvia metáfora, pois אדמה é a forma feminina de אדם. A terra representa os outros familiares de Abel.

[24] BRAUDE, Willian G. Pĕsiḳta dĕ-Raḇ Kahăna. Philadelphia, The Jewish Publication Societh, 1975, p 499.

[25] Hoje chamado de sabra (צבר), o cacto Opuntia fícus-indica é um símbolo de Israel.

[26] NICHOLSON, Reynold A. The Mathnawí of Jalálu’ddin Rúmí: Translation of Books III and IV. Great Britain, Gibb Memorial Trust, 1990, p 344.

[27] ALCORÃO SAGRADO. Trd. Samir El Hayek. São Paulo, Cetro de Divulgação do Islam para América Latina, 1989, p 83.

[28] Na variante judaica compilada no Pirké do Rabbi Eliezer 21:5 (séc. XIII), foi Adão quem aprendeu com os corvos a sepultar Abel. (LIFSCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. Trd. Bertilo Brod. São Paulo, Paulinas, 1998, p 44). Collin de Plancy parece ter interpretado mal essas lendas ao afirmar que rabinos ensinam que Caim viu um corvo matar outro corvo esmagando entre duas pedras: “Les rabbins disent que, ne sachant comment s’y prende pour tuer son frère Abel, Caïn vit venir à lui le diable, qui lui donna une leçon de meurire em mettant un oiseau sur une pierre et en lui écrasant la tête avec une autre pierre”. (PLANCY, J. Collin. Dictionnaire Infernal. Paris, Société de Saint-Victor & Sagnier et Bray, 1853, p 109).

[29] LIFSCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. Trad. Bertilo Brod. São Paulo, Paulinas, 1998, p 55.

[30] Outra variante de influência cristã carece de lógica: “Um velho midrash descreve a marca de Caim como uma letra tatuada no seu braço. A proposta de identificação com a letra hebraica ṭēth, em textos medievais, talvez seja inspirada por Ezequiel 9:4-6 onde deus raspa uma marca nas sobrancelhas de alguns justos, em Jerusalém, que serão salvos. Caim não foi julgado digno deste emblema. Contudo o hieróglifo do tav, última letra do alfabeto fenício e do proto-hebraico, era uma cruz (U); e disto derivou a letra grega tau (Θ) que, de acordo com o Lis Consonantium, de Lucian de Samosata, inspirou a ideia da crucificação. Desde que o tav fora reservado para identificar os justos, o midrash substituiu a marca de Caim pela letra mais parecida com o tav tanto no som quanto na forma escrita; chamada ṭēth”. (GRAVES, Robert & PATAI, Raphael. Hebrew Myths. United States of America, Doubleday, 1963, p 96-97).

[31] Este comentário é relacionado à versão de Flávio Josefo que, apesar do contexto similar, não menciona que a marca de Caim eram chifres: “Ele estava com medo de ser atacado por animais selvagens enquanto perambulava pela floresta. Deus o tranquilizou para que não tivesse preocupações tão funestas e conseguisse andar pelo mundo sem temer emboscadas de animais selvagens”. (Antiguidade Judaica. Livro I, capítulo 2, 1:59. Em: WHISTON, Willian. The Works of Josephus. United States of America, Hendrickson, 1987, p 31).

[32] UNTERMAN, Alan. Dicionário Judaico de Lendas e Tradições. Trad. Paulo Geiger. RJ, Jorge Zahar, 1992, p 54-55.

[33] Literalmente “que o endurece feito folhas de álamo”, planta afrodisíaca que, segundo a superstição, assegurava a reprodução dos animais (Gênese 30:37-38).

[34] GRAVES, Robert & PATAI, Raphael. Hebrew Myths. United States of America, Doubleday, 1963, p 93.

[35]Este material afasta a ideia de deus, pondo na boca de Adão a ordem de ostracismo. Na crônica suplementar Caim não se transforma no momento pré-estabelecido pelo editor. Ele é desperto pela magia de Lilith que oferece sangue numa tigela. Neste ponto existe um erro aparente na grafia da palavra “magick” com “k”, que muito provavelmente é uma mensagem subliminar relativa aos ritos de fertilidade de Aleister Crowley. (CHUPP, San & GREENBERG, Andrew. The Book of Nod. Georgia, White Wolf, 1993, p 28).

[36] MELAMED, Meir Matzliah. Tora – A Lei de Moisés. São Paulo, Sêfer, 2001, p 10, nota 15 e p 12, nota 23.

[37] UNTERMAN, Alan. Dicionário Judaico de Lendas e Tradições. Trd. Paulo Geiger. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1992, p 54-55.

[38] TRICCA, Maria Helena de Oliveira. Apócrifos II: Os proscritos da Bíblia. São Paulo, Mercuryo, 1995, p 126-127.

[39] TRICCA, Maria Helena de Oliveira. Apócrifos II: Os proscritos da Bíblia. São Paulo, Mercuryo, 1995, p 131.

[40] MACCOBY, Hyam. The Sacred Executioner: Human sacrifice and the legacy of guilt. New York, Thames and Hudson, 1982, p 17-18.

[41] A segunda coluna teria sido truncada quando o nome de Enoch (חנוך), filho de Cain, foi corrompido para Enosh (אנוש), filho de Seth, e depois corrigido de volta para Enoch (חנוך), tataraneto de Seth, donde vem o defeito inicial do processo de interpolação. A seguir praticamente todo o resto foi truncado.

[42] MACCOBY, Hyam. The Sacred Executioner: Human sacrifice and the legacy of guilt. New York, Thames and Hudson, 1982, p 18.

[43] FRAZER, Sir James George. El Folklore em el Antiguo Testamento. Trad. Geraldo Novás. Madrid, Fondo de Cultura Económica, 1993, p 50.

[44] ZAMAGNA, Domingos. Gênesis. Em: A BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo, Paulus, 1995, p 36.

[45] THE CHRONICLES OF JERAḤMEEL. Trad. M. Gaster, Ph.D. London, Oriental Traslation Fund, 1899, p 50.

[46] THE CHRONICLES OF JERAḤMEEL. Trad. M. Gaster, Ph.D. London, Oriental Translation Fund, 1899, p 51.

[47] MELAMED, Meir Matzliah. Tora – A Lei de Moisés. São Paulo, Sêfer, 2001, p 11-12, nota 22.

[48] MASSON, Hervé. Dictionnaire Initiatique (1970). Em: COUSTÉ, Alberto. Biografia do Diabo. Trad. Luca Albuquerque. Rio de Janeiro, Rosa dos Tempos, 1997, p 161.

[49] Ele escreveu: “Il y a eu, dans le deuxième siècle, une secte d’hommes effroyables qui glorifiaient le crime et qu’on a appelés caïnites. Ces misérables avaient une grande vénération pour Caïn”. (PLANCY, J. Collin. Dictionnaire Infernal. Paris, Société de Saint-Victor & Sagnier et Bray, 1853, p 109).

[50] MACCOBY, Hyam. The Sacred Executioner: Human sacrifice and the legacy of guilt. New York, Thames and Hudson, 1982, p 14 e 16.

[51] WHISTON, Willian (trad. e org.) The Works of Josephus. United States of America, Hendrickson, 1987, p 31.

[52] WHISTON, Willian (trad. e org.) The Works of Josephus. United States of America, Hendrickson, 1987, p 31.

[53] THE CHRONICLES OF JERAḤMEEL. Trad. M. Gaster, Ph.D. London, Oriental Translation Fund, 1899, p 51.

[54] GRAVES, Robert & PATAI, Raphael. Hebrew Myths. United States of America, Doubleday, 1963, p 94.

[55] ROTH, Cecil. Enciclopédia Judaica A-D. Rio de Janeiro, Tradição, 1959, p 268, verbete CAIM.

[56] THE CHRONICLES OF JERAḤMEEL. Trad. M. Gaster, Ph.D. London, Oriental Translation Fund, 1899, p 51.

[57] Na versão de Flávio Josefo foi Seth e seus descendentes quem escreveu sobre ciências variadas nestas estelas a fim de evitar que o conhecimento fosse perdido (Antiguidade Judaica, Livro I, capítulo 2, 2:70-71).

[58] THE CHRONICLES OF JERAḤMEEL. Trad. M. Gaster, Ph.D. London, Oriental Translation Fund, 1899, p 51.

[59] Desde Ésquilo se imaginava que o próprio Apolo purificou Orestes em Delfos com o sacrifício de um porco. Pinturas sobre vasos fornecem uma ideia do procedimento, análogo à purificação das Preitides: O porco é segurado sobre a cabeça de quem vai ser purificado, o sangue tem de escorrer diretamente sobre a cabeça e pelas mãos. Naturalmente, o sangue é depois lavado e a pureza de novo adquirida torna-se então visível. (BURKET, Walter. Religião Grega na Época Clássica e Arcaica. Trad. M. J. Simões Loureiro. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1977, p 173-174).

[60] ARISTÓCRITO, Teosofia, 68; Orígenes, Contra Celso, VII, 62. Em: OS PRÉ-SOCRÁTICOS. São Paulo, Abril Cultural, 1978, p 79-80.

[61] BURKET, Walter. Religião Grega na Época Clássica e Arcaica. Trad. M. J. Simões Loureiro. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1977, p 174.

[62] BURKET, Walter. Religião Grega na Época Clássica e Arcaica. Trad. M. J. Simões Loureiro. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1977, p 174-175.

[63] WHISTON, Willian (trd. e org.) The Works of Josephus. United States of America, Hendrickson, 1987, p 31.

[64] GRAVES, Robert & PATAI, Raphael. Hebrew Myths. United States of America, Doubleday, 1963, p 93.

[65] REIN●HAGEN, Mark. Vampiro: A Máscara. Trad. Sylvio Gonçalves. São Paulo, Devir, 1994, p 52.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/caim-e-abel/

Aquisitores: A Breve História Secreta do Brasil

ATENÇÃO: O texto a seguir foi escrito com base em diversas pesquisas que por sua vez não possuem relação ente si nem em nenhum momento algum citam o nome Aquisitores. Para todos os efeitos este artigo deve ser entendido como devaneio literário ou  uma mera obra de ficção.

 

Varre Varre VassourinhaAlguma coisa está fora da ordem. Fora da Nova Ordem Mundial.”
– Caetano Veloso, Fora de Ordem

Cada país tem o Illuminati que merece. Se isso for verdade então o Brasil é um dos país mais desgraçados que existe.

Aquisitores é o nome dado ao braço brasileiro do Governo Oculto Global. O nome Aquisitores é uma referência ao único e principal interesse deste braço que é sua própria prosperidade financeira que só pode ser obtida através da atuação de seus membros na economia e na política do país. A grande diferença entre este grupo e as sociedades secretas internacionais é que aqui eles se desfizeram de qualquer traço ideológico, seja ele bem ou mal intencionado. Como mostrarei a seguir, o único interesse dos “Illuminati brasileiros” é o lucro. Maquinações políticas, culturais e religiosas são abandonadas em prol da fria lógica dos números. Os dois únicos objetivos dos Aquisitores é proteger a própria riqueza e ficar ainda mais ricos.

Embora seja verdade que os membros Aquisitores sejam formados pelas famílias mais ricas do Brasil, o inverso não é verdadeiro, nem todas as famílias ricas fazem parte do grupo; não basta ter dinheiro para adentrar na ordem. Uma pessoa ser rica não quer dizer que ela é Aquisitora. Já uma família que, apesar dos altos e baixos da economia consegue não apenas se manter rica, mas prosperar cada vez mais é outra história. Como as fortunas do país passam na forma de herança, na prática os mesmos sobrenomes compõem a cúpula da organização com o passar dos anos. Qualquer leitor que acompanha minimamente as notícias conhece alguns destes sobrenomes.

Teóricos conspiracionistas afirmam que o grupo, através de métodos diversos, controla as principais instituições de poder do país, como estabelecimentos de ensino, grupos religiosos, partidos políticos e associações de classe. Estas instituições contudo são um meio e não um fim para que consolidem cada vez mais fortemente seu poder económico no Brasil. Através de suas táticas eficientes, silenciam qualquer oposição, mesmo porque o conhecimento, por parte da população, da existência de tal grupo é quase nenhuma e se resume a pessoas que, por interesse ou curiosidade, pesquisam sobre conspirações e técnicas de dominação de massa. Sua esfera de influencia portanto, se adaptaria e mudaria conforme o tempo avança. Em uma época estariam diretamente vinculados à Maçonaria e o Alto Clero da Igreja Católica, tempos depois estariam puxando as cordinhas em Brasília e orquestrando o impacto cultural da Tropicália. Hoje sua força se extenderia principalmente as grandes redes de comunicação, grandes igrejas neo-pentecostais e, é claro, ao governo federal.

Mascaram-se como defensores da liberdade de pensamento, mas, na realidade, a única liberdade que defendem é a de sua própria ideologia de dominação. Na cultura popular brasileira, podemos interpretar certa músicas e filmes como referências aos Aquisitores como na música “Forças Ocultas” escrita por Marcelo Nova do grupo Camisa de Vênus e veladas em algumas músicas de cunho político de Cazuza, Chico Buarque e Marcelo D2. Existem ainda breves citações nos filmes de Lima Barreto gravados em companhia Vera Cruz, além de referências claras na série Os Seis do autor Hélio do Soveral.

Desfazendo alguns enganos

Como toda teoria da conspiração não é difícil existirem várias versões para um mesmo fato. Portanto, antes de explorarmos os indícios, vamos apresentar algumas coisas que ficaram claras em nossa investigação e desmistificar alguns boatos que nos parecem sem fundamento. Isso acontece parcialmente devido aos resultados obtidos por fontes e pesquisadores diferentes mas parcialmente também como uma maneira de encobrir o que realmente esta acontecendo em um plano mais elevado.

Aquisitores são maçons

Em primeiro lugar,  ao contrário do que alguns escritores colocam, (geralmente escritores do meio evangelico), não existe qualquer indício de que os Aquisitores sejam uma organização ao estílo maçonico. Embora, realmente possamos afirmar que alguns deles possam ser ou ter sido maçons, eles não são nem de perto uma organização iniciática. Em um momento histórico anterior houve uma forte influência maçônica, especialmente a partir do processo de Independência do pais, mas isso parece ter sido superado. Pessoalmente, não acho que este tipo de especulação mereça qualquer crédito.

Aquisitores são satanistas

Da mesma forma, algumas pessoas alegam que os Aquisitores nasceram dentro do corpo de jesuítas do Brasil Colonial, que seriam os responsáveis pela divulgação da obra conhecida como Monita Secreta. Essa teoria, sem qualquer fundamento, alega que por alguma razão, certos padres se desviaram e adotaram uma espécie de culto diabólico, sugerindo ainda que nos anos 1960 foi realizado um pacto demoníaco coletivo com algumas famílias importantes do país, especialmente na região nordeste. Se isso for verdade, e provavelmente NÃO É, este seria o maior pacto coletivo já realizado na América do Sul.


Os Grandes Partidos Políticos estão por trás dos Aquisitores

Dificilmente poderiamos aceitar tal afirmação. Os Aquisitores como veremos possuem uma natureza apolítica, sem ideologia e apartidária. É possível que utilizem ou mesmo criem alguns partidos políticos para seus próprios fins, entretanto sua esfera de poder é bem mais ampla. Os Grandes Partidos Políticos não estão por trás dos Aquisitores, mas os Aquisitores podem estar atrás de qualquer lugar.

Os Aquisitores nasceram em 1985

Outra grande bobagem que se diz é que os Aquisitores nasceram no final da Ditadura Militar, tendo inclusive dado fim a ela. A verdade mais provável parece ser que o grupo é bem mais antigo do que isso. Além disso não existe um único grupo Aquisitor, mas pelo menos dois grupos atuantes que podem receber esta nomenclatura. Estes dois grupos são em geral antagônicos, mas podem se unir caso vejam seu balanço de poder ameaçado. Exporei de forma clara a seguir evidências de que este grupo é muito mais antigo do que esta data.

 

O presidente que se matou

O suicídio do então presidente Getúlio Vargas é uma prova de que a grande conspiração de nosso país é bem anterior a 1985. Sua carta-testamento, endereçada ao povo brasileiro possui algumas pistas do que estava acontecendo na balança de poder do Brasil naquele momento. Este documento é forte e curto o bastante para podermos mencionar alguns excertos a seguir, os destaques em negrito são por conta do autor. Ao lado ilustra-se um fragmento do documento original, hoje em posse do Memorial Getúlio Vargas no Rio de Janeiro.

“Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.

Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.”

“E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte.

Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.

Assina Getúlio Vargas, 24 de agosto de 1954″

O documento na íntegra pode ser lido no site do Memorial em http://www0.rio.rj.gov.br/memorialgetuliovargas/conteudo/expo8.html . Ele possui uma carga emocional forte que não pode ser ignorada, mas não devemos deixar de pensar que tipo de poder poderia fazer o homem mais poderoso de um país tirar sua própria vida. Com seu suicídio iniciou-se um novo capitulo na história secreta no Brasil e aquilo que as escolas ensinam ser a Ditadura Militar é na verdade a gestação e parto da atual elite dominante de nosso país. Se você acha tudo isso estranho, considere a entrevista dada a Roberto Canázio, da Rádio Globo em 2007 onde a vedete Virginia Lane, com quem Getúlio se relacionava intimamente declara que ele não se suicidou. Foi sim, executado.

Confira aqui a entrevista: http://www.mortesubita.org/sociedades-secretas-e-conspiracoes/textos-conspiracionais/virginia_lane_getulio_vargas.wma

A entrevista foi ao vivo e pegou até o jornalista de surpresa. Questionada em outras ocasiões sobre o assunto tão bombástico ela declarou que foi proibida judicialmente de tocar nesse assunto outra vez. Segundo ela, Getúlio sabia que iria morrer por mãos alheias e deixou sua carta testamento preparada. Contudo é possível que até sua esta carta tenha sido forjada ou por seus assassinos ou por alguém com desejoso de vingança. Caso tudo isso seja verdade, provavelmente Getúlio não foi o primeiro presidente a ser morto pelas mãos dos Aquisitores.

Operação Condor

É importantíssimo lembrar que os Aquisitores não são reconhecidos como grupo por nenhum historiador sério, e não existe sequer um trabalho acadêmico que confirme sua existência. Um exemplo típico deste tipo de elocubração está nas suspeitas levantadas na estranhíssima renuncia de Jânio Quadros, o presidente que renunciou por não aguentar o peso das “Forças terríveis” como ele mesmo declarou em sua carta de renúncia e na instauração do Regime Militar em 1964. O mesmo ocorre com as suspeitas levantadas no inicio dos anos 90 sobre a morte de Juscelino Kubitschek ou a investigação iniciada em 2007 no Rio Grande do Sul sobre a morte de João Goulart, que oficialmente morreu de doença cardíaca.

Sobre a Morte dos Presidentes leia:

Todos estes eventos se relacionam com a chamada “Operação Condor”, uma série de ações arquitetada pelos Aquisitores para tomar o poder político. Esta operação seria controlada remotamente por sociedades estrangeiras e encabeçadas pela elite financeira nacional. O objetivo da Operação Condor seria então dar poder político a quem já tinha poder economico e criar assim um governo facilmente controlado pelas “forças terríveis” internacionais. Até o momento nenhuma dessas investigações apresentou qualquer prova palpável, mas a coincidência alimenta a curiosidade dos teóricos da conspiração: Jango, JK e Lacerda, os três grandes nomes da oposição ao regime militar morreram todos em espaço de meses entre o fim de 1976 e início de 1977. Um sozinho em sua fazenda, outro num acidente mal explicado de carro e o outro de uma doença aguda que o matou de um dia para o outro.

Numa carta dirigida, em agosto de 1975, ao Gen. João Batista Figueiredo – e divulgada pelo jornalista norte-americano Jack Anderson – o chefe da polícia secreta de Pinochet, Manuel Contreras, comunicou o “decisivo apoio” da ditadura chilena a um “Plano” de Figueiredo para “coordenar a ação contra certas autoridades eclesiásticas e políticas da América Latina”. Na carta a seu homólogo brasileiro, chefe do SNI de Geisel, Contreras citou o chileno Orlando Letelier (morto por uma bomba que mandou pelos ares o seu carro em Washington, em 21 de setembro de 1976, 30 dias depois de Juscelino) e JK como a indicá-los como candidatos à “vendetta” dos regimes militares do cone sul, ou seja, a “Operação Condor”.

Embora não cite os Aquisitores em nenhum momento o jornalista Élio Gaspari revelou em publicação recente declarações gravadas de Ernesto Geisel – considerado integrante da área castelista, “moderada”, do golpe – admitindo o assassinato como método de ação política. Gaspari revelou a gravação de conversas de Geisel com o general Dale Coutinho, seu futuro ministro do Exército, a um mês de sua posse na Presidência. ‘Esse negócio de matar é uma barbaridade, mas tem que ser’, afirma Geisel, em uma de várias demonstrações de que sabia da morte de opositores sob custódia do regime.

O Grupo de Roma x O Ramo de Ouro

Durante a ditadura militar o grupo se manteve relativamente coeso, principalmente porque ainda eram bastante submissos aos poderes internacionais, em especial o braço Estadunidense do governo oculto global, os Bilderburgers. Mas a partir de 1985, os membros brasileiros do Governo Oculto se organizaram em dois grupos inimigos e teoricamente independentes dos Illuminati. A partir de então, não faz mais sentido chamá-los de Illuminati, mas devemos dar uma palavra sobre esta “independência.”

A matemática é simples, um país desenvolvido economicamente não pode ser controlado, um pais onde a política é mais forte do que a economia pode ser facilmente manipulado, através de leis e impostos que não permitam o desenvolvimento e acúmulo de riquezas por qualquer um. Poder e dinheiro não conhecem fronteiras. Dizer que os Aquisitores são independentes dos Illuminati é algo bastante ingênuo. Dizer que eles nasceram do nada em 1985 é mais ingênuo ainda. Na verdade o que ocorreu é que depois da Ditadura Militar o cenário político mudou. Houve então uma espécie de troca. De um lado os “Aquisitores” teriam liberdade regional para explorar o povo financeiramente e em contra partida apoiariam o governo oculto global e sustentariam a construção da chamada Nova Ordem Mundial. Não existem conspirações locais, apenas consequências locais da Conspiração.

Na ausência de um poder superior que controlasse cada um de seus passos os grupos nacionais passaram a reinvidicar sua legitimidade e esta disputa se polarizou em dois grupos principais, cada um deles  considerando-se os únicos “Aquisitores” legítimos. Um desses grupos, e talvez o mais poderoso conhecido como “Ramo de Ouro” se estabeleceu inicialmente na  região de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, região que havia experimentado uma próspera fase na década de 70 e que conheceu, por conta disso, o  movimento metalúrgico e culminou na posterior eleição do insuspeito Presidente Lula. O segundo grupo fez base no Rio de Janeiro e é chamado de “Grupo de Roma” supostamente relacionado com o famoso Clube de Roma. Essa polarização explica, entre outras coisas, porque o foco midiático e econômico dificilmente sai do eixo São Paulo/Rio de Janeiro e também como grandes centros econômicos e políticos do passado, como Minas Gerais, sairam de cena tão rapidamente.

O Ramo de Ouro e o Grupo de Roma recebem cada um deles apoio de forças internacionais próprias. Estas forças por sua vez não são, nenhuma delas, o Governo Oculto Global, mas também são movimentados por este como tem sido desde o fim da Segunda Guerra Mundial.  Num primeiro momento parece difícil entender como grupos antagônicos dentro e fora do Brasil e que vivem brigando possam possuir uma mesma raiz de poder. Antes de prosseguirmos, permita-me leitor fazer uma breve citação do Dr. Walter K. Buhler sobre a questão: “Talvez alguns ainda se lembrem de que foi a elite de banqueiros, no fim da Primeira Guerra Mundial, que facilitou e depois mandou financiar a Revolução Comunista. A começar por Lenin que foi enviado da Suíça, em vagão lacrado da estrada de ferro, através da Alemanha para a Rússia”. O ápice de uma conspiração é fazer o povo apoiá-la como se fosse algo revolucionário. O objetivo do poder não é o controle, pessoas que pensam que são livres e que podem se rebelar são as mais produtivas, as mais facilmente exploradas.

Desde esta formação bipolar podemos ligar cada um dos os escândalos políticos que ocorreram no pais desde a ditadura militar a estes dois grupos de Roma e de Ouro e a seus jogos de poder. A briga entre os dois grupos de Aquisitores durou cerca de dez anos e quem pagou a conta foi a economia nacional. A rivalidade só foi amenizada  (mas não extinta) com a criação do chamado “Comando Delta”. Ao contrário do que muitos teóricos suspeitam, o Comando Delta não é uma sociedade secreta em si, mas uma espécie de “acordo de cavalheiros” onde os dois grupos de Aquisitores definem de tempos em tempos quem será o próximo presidente da nação, uma nova versão da antiga política do café com leite que já dominou o país.

O Comando Delta

O Comando Delta só veio oficialmente a tona quatro anos depois com a publicação em março de 2000 na Revista Caros Amigos de uma entrevista com o Presidente da Associação Brasileira dos Agentes da Polícia Federal, O Sr Francisco Carlos Garisto. Não é preciso dizer que em menos de uma semana a revista simplesmente desapareceu das bancas e dos estoques da editora. Sr. Garisto reforça que se trata de um acordo informal entre os grupos de poder que dominam o nosso país.

Nas palavras do próprio:

“O Comando Delta é a fábrica de presidentes, é o que comanda o sistema brasileiro, que fez a reunião para escolher o Fernando Henrique, que já deve estar fazendo reunião para convidar outro.””Uma vez dei uma entrevista na televisão e falei: “O Comando Delta acaba escolhendo um presidente aí”. Só falei isso, e a entrevistadora, na hora: “Quem é o Comando Delta?” Eu: “As pessoas ‘de bem’ do país, pessoas que comandam a economia, o mercado”. Rapaz, deu um bode desgraçado! Ela me ligou depois de dois dias e disse: “Garisto, o que tem de gente ligando querendo saber do Comando Delta”. Falei: “Isso é coisa do Chuck Norris, Comando Delta 2, 3, pára com isso! Tô fora, porque eles são muito fortes”.

“São unidos, ricos e inteligentes. Aquela operação toda feita no seqüestro do Diniz, organizado, bonitinho, vocês da mídia são os donos dela através do representante maior de vocês — daqui a pouco estou falando o nome, que já ganhou a segunda tartaruga agora. Ele ganhou a segunda tartaruga porque a outra morreu. (risos)”

Para direcionar melhor seus esforços e recursos desde a formação do Comando Delta, os dois grupos de Aquisitores negociam entre si, com antecedência quem serão os próximos Presidentes da república, bem como quem ficará em cargos decisivos como o Presidente do Congresso Nacional  e o Chefe da Casa Civil. Foi assim que em 1995 Fernando Henrique Cardoso foi eleito, segundo alguns teóricos da conspiração com verba da CIA. Não é coincidência que na mesma época iniciou-se a implantação das Urnas Eletrônicas.


Conclusão

Os Aquisitores hoje em dia não são uma sociedade secreta nos moldes tradicionais. Para começo de conversa eles mesmos estão dividos em dois grupos de poder e portanto são também vítimas do jogo sujo um do outro. Além disso, não se trata de um grupo preocupado em direcionar o futuro do nosso país para este ou aquele destino. Isso, eles deixam por conta de seus “Superiores” em troca de uma relativa liberdade para sugar nossas riquezas e recursos para seus próprios fins. Os Aquisitores são uma entidade cuja única razão de existir é garantir que os ricos continuem ricos. Se  considerarmos que o povo em geral vive na miséria, com um salário que é imoral, temos que dar a mão a palmatória. Eles estão fazendo um ótimo trabalho.

Alberto Grosheniark

Texto fascinante! Muito bem escrito e demonstra que o autor pesquisou bem e de fontes fidedignas! Gostaria de ler outros textos do autor na mesma linha!

Enquanto pobres não buscarem a educação libertadora a materia prima da morte serão sempre nós.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/aquisitores-a-breve-historia-secreta-do-brasil/

Feitiços de Envultamento

Shirlei Massapust

Tomei a liberdade de compilar alguns rituais bizarros somente para estudo folclórico-antropológico. Além de antiéticos, os crimes de perturbação de cerimônia funerária, violação de sepulturas, destruição e vilipêndio a cadáver estão todos tipificados do artigo 209 ao 212 do Código Penal Brasileiro.

Agulha Encantada

Fonte: Livro Vermelho e Negro de São Cipriano (versão de Murzin G Gemwy).

São Cipriano, propositalmente, tornava suas mágicas bem difíceis de preparar, a fim de evitar que caísse na mão de pessoas ignorantes ou mal intencionadas. Hoje, que o povo está mais evoluído, há mais instrução, pode-se publicar as fórmulas mágicas sem aqueles obstáculos propositais.

A mágica da agulha falava em passar uma agulha com um fio de linho galego por três vezes, pela pele da barriga de um defunto. No original grego São Cipriano fala “epiderme” (επιδερμίδα) significando “em cima da pele”. (…) Referia-se pois, São Cipriano à mortalha do defunto e não ao seu corpo. (…) Para fazer esta mágica deve-se oferecer para ajudar a costurar a mortalha ou a roupa de um defunto. Leve uma agulha virgem e use-a para isso. Enquanto costura a peça concentre-se nas seguintes palavras: “Fulano (o nome do morto) esta agulha na tua pele vou passar, para que fique com força de encantar”. Terminado leve a agulha para casa e guarde-a muito bem, pois servirá para muitas mágicas.[1]

Para que um morto nos livre de uma doença

Fonte: Livro do Touro Negro.

Aproximai-vos de um defunto que esteja para ser enterrado, e dizei: “Fulano (dizei o nome do morto), já que estás indo embora, leva contigo esta minha doença (dizei o nome da doença), para que eu dela fique livre, e nunca mais volte a sofrer dela nem de coisa parecida[2].

Trabalho aos pés de um morto para matar alguém

Fonte: O Livro de São Cipriano.

Deve-se dirigir a um cemitério em que esteja acontecendo um velório (…) sendo que de preferência o defunto seja amigo ou conhecido, mas se não o for que saiba-se o nome do mesmo. (…) Aproximando-se do defunto, o que deverá ser feito pelos pés do defunto, finge-se que se está arrumando as flores que por certo estarão cobrindo o cadáver, e com muito cuidado e concentração, mentaliza-se o nome da pessoa que se quer despachar para o “outro mundo” e, com um pedaço de papel branco em que já deverá ter sido escrito o nome completo dessa pessoa, enterra-se no meio das flores. Ao fazê-lo, como se falasse a si próprio, pede-se ao defunto que, ao partir para a eternidade leve com ele a tal pessoa. A seguir dever-se-á dirigir para o lado em que se encontra a cabeça do defunto e, curvando-se como se ao seu ouvido algo fosse dizer, pronuncia-se novamente o nome da pessoa que se quer despachar e pedir, mais uma vez, ao morto, que a leve desta para outra vida. (…) Ao sair dirigi-se imediatamente ao Cruzeiro das Almas e acende-se uma vela preta em homenagem a seu Omulu e pede-se ao mesmo que tome conta da pessoa que se quer despachar.[3]

Circunstância Despenalizadora (Consentimento do Ofendido)

Em 13/10/2012, o Programa do Pedro Augusto, na Rádio Tupi, noticiou uma ocorrência policial inusitada. Logo depois que a mãe de uma mulher chamada Jussara faleceu, a filha escreveu dezessete nomes de desafetos num papel, abriu a boca do cadáver e colocou a lista dentro. As pessoas cujos nomes estavam escritos no feitiço ficaram sabendo e tentaram roubar o cadáver durante o velório para retirar o papel. A polícia impediu e a falecida foi enterrada enquanto as pessoas medrosas tentavam inutilmente explicar para a polícia que colocar o nome de alguém na boca de um cadáver faz com que o inimigo morra… Isso é interessante porque se a mãe, sabendo que ia morrer, deu permissão para a filha fazer isso, não existe crime de vilipêndio a cadáver. É o mesmo caso da pessoa que doa o corpo para autópsia educativa em faculdades de medicina ou para finalidade artística (ao exemplo de certo amante das artes cênicas que só conseguiu realizar o sonho de ser artista de teatro depois da morte, doando o próprio crânio em testamento para fazer o papel do pai de Hamlet).

Diferentemente dos maus tratos a animais, inclusive sapos, que ganharam penalidades severas com o artigo 32 da Lei Federal nº. 9.605/98, o consentimento do moribundo por codicilo ou testamento pode fazer com que não haja crimes de perturbação de cerimônia funerária, violação de sepultura, destruição e vilipêndio a cadáver, todos tipificados do artigo 209 ao 212 do Código Penal Brasileiro. E como o crime de “tentativa de homicídio” não prevê pena para feitiço, logo não existe ato ilícito quando se enterra pessoa que deixa testamento ou codicilo autorizando rituais exóticos.

Outro trabalho ao pé de um morto

Fonte: Mandinga ensinada por Márcia Cristina Neves.

Pegue um boneco de pano ou de cera e o batize em uma cachoeira com o nome da pessoa a ser atingida. Vá ao cemitério, segure o boneco com a mão esquerda e vá espetando alfinetes e agulhas virgens no boneco. A cada parte do boneco que for espetada, deve-se dizer: Com este alfinete estou atingindo fulano na perna, na cabeça e assim por diante. Depois de espetar todas as partes do corpo, enfie uma agulha no coração do boneco e diga as mesmas palavras. A seguir, enterre o boneco aos pés de um defunto fresco e peça a este que o leve com ele.[4]

Trabalho para que todos os mortos persigam alguém

Fonte: Mandinga ensinada por Márcia Cristina Neves.

Obtenha uma amostra do cabelo da vítima, e coloque-a num pequeno caixão. Enterre-o num cemitério. Em três dias a pessoa morrerá.[5]

Exemplos de Casos Concretos

Fonte: Pesquisa de campo de Clarival do Prado Valladares.

O achado mais estranho nessas pesquisas ocorreu no velho cemitério, de cripta, no antigo Convento de São Francisco, de Vila Velha de Alagoas, hoje Deodoro. O cemitério em desuso, com entrada de alçapão pela Capela do Sacramento, consta de uma cripta de cerca de 4 X 6 m em correspondência às dimensões da capela, com carneiros construídos nas paredes laterais e lajes de campas. Sua coberta tem a altura máxima de 2,5 m. Fizemos a documentação fotográfica com um refletor que providencialmente nos serviu para o exame detalhado das inumeráveis inscrições de nomes de pessoas e datas recentes, até de 1965, em letras de imprensa e de uma mesma caligrafia, enchendo totalmente o forro abobadal da cripta. De maneira alguma aquelas inscrições, feitas a fumo de velas, contra o reboco, poderiam corresponder aos nomes dos sepultados. Praticamente todas as datas já estavam fora do seu uso, e nem há sinais nem notícias de sepultamento nestes últimos decênios. Encontramos urnas de restos mortais trasladados, violadas, com os ossos, cabelos e fragmentos de vestes, espalhados sobre um batente.

As freiras que dirigem o educandário instalado no antigo convento franciscano de Deodoro nada sabem informar porque é uma ocorrência antes da presença delas. Em nossa interpretação trata-se de prática de feitiçaria, com uma caligrafia idêntica para várias inscrições, cujos nomes não parecem ser de mortos, mas de indiciados do fetichismo. Nada mais podemos indicar sobre esses achados, ignorados pelas pessoas locais, senão a evidência das fotografias.

No velho Cemitério de N. S. do Rosário (1875), das ruínas de Iguaçu Velha, além da prática de macumba em torno do Cruzeiro, que tem ação votiva e de apelo nas viscitudes dos crentes, há os restos de um luxuoso e impotente jazigo de cerca de cinco metros de altura construído em base de alvenaria revestida de laje de mármore, pedestal e nicho em colunatas de mármore. Próximo deste jazigo encontram-se os restos da base de uma capela-jazigo cuja entrada foi fechada por parede de alvenaria e na qual, posteriormente, se fez uma abertura de 40 X 50 cm. Examinando o interior desta capela-jazigo, com o foco de uma lanterna, encontramos uma quantidade espantosa de objetos de uso pessoal (roupas, cartas, retratos, vidros, terços, etc.) e todas as paredes preenchidas com nomes e datas de pessoas riscadas a carvão, grafite, tinta, e também a fumo de vela. Há uma certa semelhança entre esta observação e aquela outra de Deodoro, de Alagoas. Nossa cautela está em diferenciar a prática ingênua da macumba, em termos de ação votiva e de apelo, com esta outra de caráter de feitiçaria demonológica capaz de atingir a criminalidade do vandalismo, do sacrifício e do infanticídio que não é tão desconhecido do próprio noticiário dos jornais brasileiros.[6]

Trabalho para matar alguém

Fonte: Mandinga compilada pela revista Homem Mito e Magia.

Em 1939, teria chegado mais uma receita, procedente de Illinois, Estados Unidos: “Uma maneira segura de matar um homem é colocar sua imagem sob uma cantoneira do telhado da casa de quem executa o feitiço, durante tempo chuvoso, e deixar que a água pingue sobre ela”.[7]

O Maléfico da Figura de Cera

Fonte: Mandinga ensinada por N. A. Monina.

Pegue um pedaço de cera virgem, amolece-o em água quente, modela então com ele uma figurinha, pensando intensamente nas pessoas que queres enfeitiçar: “Fulano de Tal, à tua semelhança faço esta efígie para que tu fiques amarrado a ela de tal maneira que teu corpo seja seu corpo e o seu seja lugar de todas as sensações”.

Se tens cabelos, algum dente ou aparas de unhas provenientes da pessoa que estás enfeitiçando, põe na figura e, se possuis roupas ou peças interiores usadas pela vítima, faze com elas um vestuário que o relembre quanto seja possível.

Disposta assim a figura, uma noite à hora de Saturno atravessa-a em todos os sentidos, com agulhas ou espinhos envenenados, cobre-a de injúrias e maldições em nome de Guland, imaginando firmemente que tens à tua frente a mesma pessoa de corpo e alma; joga por fim o boneco no fogo.

Se tudo isto fizeres como digo, pondo toda tua fé e força de vontade, não duvides de que, como a cera se derreterá e consumirá, assim se consumirá a pessoa sofrendo dores agudas em todas as partes correspondentes às feridas feitas na figura.

Eis a descrição do enfeitiçamento clássico, que se encontra com ligeiras variações na maioria dos antigos grimórios. Em alguns, à descrição copiada, acrescenta-se: “A figurinha de cera pode ser substituída por um sapo vivo” mas as imprecações são as mesmas. Outra prática requer que o sapo seja amarrado com cabelos da vítima e, depois de ter cuspido sobre ele, enterra-se sob a entrada da casa da pessoa enfeitiçada ou em outro sítio sobre o qual a pessoa tenha que passar com freqüência.[8]

Castigo de Amor

Fonte: Livro Vermelho e Negro de São Cipriano (versão de Murzin G Gemwy).

Para se castigar alguém que não cede às nossas solicitações amorosas, se for mulher, consiga um sapo e, segurando-o com a mão direita, estando inteiramente nua, passe-o pela barriga, até o sexo, por sete vezes, dizendo: “Sapo, sapinho, assim como eu te passo na minha vagina, assim também (fulano) não tenha sossego nem descanso, enquanto não me procurar para praticar aquilo que desejo, ficando sob meu poder, de corpo e alma”.

Pega-se linha de retroz verde, com uma agulha bem fina, e costura-se as pálpebras do sapo, com o máximo cuidado para não cegá-lo (se isso acontecer poderá cegar a pessoa a quem se destina a magia) dizendo: “Assim como este sapo deixará de ver, (fulano) também deixará de ver outras mulheres, tendo olhos só para mim”.

Guarda-se o sapo em uma gaiola onde se deverá alimentá-lo até ter conseguido tudo. Depois disso, com uma tesourinha de unha, corta-se a linha e solta-se o sapo em alguma lagoa.[9]

Como fazer uma mulher apaixonar-se por um homem

Fonte: Picatrix.

Faz-se a imagem de cada um deles com pó de pedra, misturado com goma e, depois, colocam-se as imagens, frente a frente, em um vaso com sete brotos; queima-se o vaso no forno, a seguir acende-se o fogo na lareira e põe-se um pedaço de gelo no fogo; quando o gelo derrete, tira-se o vaso e a feitiçaria está completa. O fogo derretendo o gelo representaria o amor aquecendo os corações do homem e da mulher.[10]

 Magia negra ou feitiçaria que se faz com dois bonecos para fazer mal a qualquer criatura

Fonte: Antigo Livro de São Cipriano (versão de N. A. Molina).

Fazei dois bonecos. Um deles significa a criatura a quem se vai fazer o feitiço, e o outro significa o que vai enfeitiçar. Depois que os ditos bonecos estejam prontos, deveis uni-los um ao outro, de maneira que fiquem muito abraçados. Depois de tudo isto pronto, atrai-lhes a ambos uma linha em volta do pescoço, como quem os Está a esganar, e depois de feita esta operação pregai-lhe cinco pregos, nas partes indicadas:

1° Na cabeça, que vare um e outro.

2º No peito, da mesma maneira.

3° No ventre, que vare de um lado ao outro.

4° Nas pernas, que vare de um ao outro lado.

5° Nos pés, de modo que lhes fure de um lado ao outro.

Há ainda uma condição é que os ditos pregos devem ser empregados com acompanhamento das seguintes invocações nos diferentes sítios em que se espetam:

1° prego — Fulano ou fulana, eu, fulano, te prego e te amarro e espeto o corpo, tal e qual como espeto, amarro e prego a tua figura.

2º prego — Fulano ou fulana, eu fulano, te juro debaixo do poder de Lúcifer e Satanás que, de hoje para o futuro, não hás de ter nem uma hora de saúde.

3° prego — Fulano ou fulana, eu fulano, te juro debaixo do poder da mágica malquerença, que não hás de hoje para o futuro, ter uma só hora de sossego.

4° prego — Fulano ou fulana, eu fulano, te juro debaixo do poder de Maria Padilha, que de hoje para o futuro ficarás possesso de todo o feitiço.

5° prego — Fulano ou fulana, eu fulano, te prego e amarro dos pés à cabeça, pelo poder da mágica feiticeira.

Desta forma a criatura enfeitiçada nunca mais pode ter uma hora de saúde.[11]

Exemplo de caso concreto

Fonte: Pesquisa de campo de Letícia Matheus e testemunho de Glória Perez.

 

Os ossos da atriz Daniella Peres, assassinada em 28 de dezembro de 1992, foram transferidos pela família para um lugar não revelado, depois que foi constatada a violação do túmulo da atriz, no Cemitério São João Batista, em Botafogo. De acordo com a novelista Glória Perez, mãe da vítima, o túmulo foi aberto na semana do Natal, e, dentro dele, havia flores do cruzeiro. Ao lado, foram encontrados dois bonecos amarrados e espetados com alfinetes. Na lápide, uma inscrição indicava a data do assassinado. — “Havia um detalhe impressionante, que nos remete à noite do crime: bem junto ao corpo dela, havia ossos de um animal grande serrados. As pontas da sapatilha que enfeita o túmulo também foram cuidadosamente serradas” — contou Glória, revoltada com o vandalismo. (…) Na época do assassinato da atriz Daniella Perez, a escritora Glória Perez acreditava que ela teria sido morta num ritual de magia negra. Próximo ao seu corpo foram achados ossos e na casa onde Guilherme e Paula moravam, em Copacabana, a polícia encontrou uma imagem de um preto velho. Uma ex-empregada confirmou que o casal praticava rituais. (…) A tese de que a atriz teria sido morta num ritual ganhou as páginas dos jornais, mas a polícia não levou a sério a hipótese de a jovem ter sido assassinada em meio a um espetáculo macabro. Ao ser encontrada, Daniella tinha 18 perfurações no corpo.[12]

Para livrar alguém da perseguição dos fantasmas

Fonte: Livro do Touro Negro.

Aquele que souber pintar ou desenhar poderá ver-se livre, muito facilmente, de algum fantasma que o perseguir. E é que, ao desenhar o fantasma, estará fazendo com que ele fique preso na tela ou no papel. E o que se desenhar ou pintar há de ser o mais possível semelhante ao fantasma que se vê, porque só assim ficará ele preso. E de outra maneira não ficará.[13]

Para livrar alguém da perseguição de vampiros

Fonte: Manual Prático do Vampirismo.

Os que se crêem perseguidos por vampiros devem pintar numa tela esses vampiros, ou desenhá-los num papel. Uma vez pintados ou desenhados, os vampiros ficam presos, e deixam de importunar os seres humanos. Quem tiver habilidade para pintar ou desenhar deve aproveitar essa habilidade para livrar-se dos vampiros que sugam o nosso sangue durante à noite.[14]

O Alfabeto Simpático

Fonte: Magia ensinada por Gérard Encause (1865-1916).

Este gênero de operação consiste em traçar algumas letras sobre o braço, por meio de uma agulha e em introduzir sangue de um amigo na incisão feita.

Esta operação deve ser praticada igualmente sobre o indivíduo com o qual se deve entrar em correspondência e, então, por muito afastado que esteja um do outro, podem ambos se comunicarem certos acontecimentos, dando o que avisa uma ligeira picada em certas letras de seu braço, e que será sentida imediatamente por aquele com quem se comunica.[15]

Feitiço contra distúrbio na produção de Oxitocina

Fonte: Wier, V. IX.

Para um homem que quer curar-se do amor infeliz que apaixonadamente devota a uma mulher, que ponha excremento mole dessa mulher no sapato, porque o seu cheiro fará diminuir nele progressivamente a chama![16]

Notas

[1] GEMWY, Murzim G. O Grande e Legítimo Livro Vermelho e Negro de São Cipriano. São Paulo, Edrel, p 77.

[2] BAKKATUYU, Sirih. Livro do Touro Negro. Rio de Janeiro, Ediouro, p 87.

[3] STAMM, Samuel. O Livro de São Cipriano. Rio de Janeiro, Rede Carioca, 2002, p 103.

[4] NEVES, Márcia Cristina A. Do Vodu à Macumba. São Paulo, Tríade, 1991, p 85.

[5] NEVES, Márcia Cristina A. Do Vodu à Macumba. São Paulo, Tríade, 1991, 72.

[6] VALLADARES, Clarival do Prado. Arte e Sociedade nos Cemitérios Brasileiros: Um estudo da arte cemiterial ocorrida no Brasil desde as sepulturas de igrejas e as catacumbas de ordens e confrarias até as necrópoles secularizadas. Vol I. Rio de Janeiro, Departamento de Imprensa Nacional, 1972, p 439-1440.

[7] A MAGIA DA IMITAÇÃO. Em: Homem, Mito & Magia. São Paulo, Três, 1973, p 44.

[8] LE DRAGON ROUGE. Em: N. A.MOLINA. Nostradamus, a Magia Branca e a Magia Negra. (2a edição). Rio de Janeiro, Espiritualista, p 122-124.

[9] GEMWY, Murzim G. O Grande e Legítimo Livro Vermelho e Negro de São Cipriano. São Paulo, Edrel, p 67.

[10] PICATRIX. Em: Homem, Mito & Magia. São Paulo, Três, 1973, p 45.

[11] N. A.MOLINA. Antigo Livro de São Cipriano: O gigante e verdadeiro Capa de Aço. (29a edição). Rio de Janeiro, Espiritualista, p 240-241.

[12] MATHEUS, Letícia. Túmulo de atriz é violado. Em: EXTRA, 2ª edição, 30/12/1999, p 12.

[13] BAKKATUYU, Sirih. Livro do Touro Negro. Rio de Janeiro, Ediouro, p 76.

[14] LIANO JR, Nelson e COELHO, Paulo. Manual Prático do Vampirismo. 1ª ed. Rio de Janeiro, ECO, 1986.

[15] PAPUS. Tratado Elementar de Magia Prática. Trd. E. P. São Paulo, Pensamento, 1978, p 401.

[16] DUMAS, François Ribadeau. Arquivos Secretos da Feitiçaria e da Magia Negra. Trd. M. Rodrigues Martins. Lisboa, Edições 70, 1971, p 126.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/feiticos-de-envultamento/

A Senda Infinita

Paulo Jacobina

Para se compreender o processo de transformação do Eu, sua passagem pelos planos, é preciso entender a sua jornada e, consequentemente, a sua origem e o seu destino. Religiões e doutrinas filosóficas pelo mundo inteiro abordam esta origem, cada uma à sua maneira, mas todas com um ponto em comum: o homem, o Eu, decorre de uma entidade superior, que é conhecida por muitos nomes, dependendo de onde se origina a doutrina. Deus, Rahim, Elohim, Brahman, Nhanderuvuçú são apenas alguns exemplos dos infinitos nomes dados pelo homem ao Absoluto, aquele que deu causa a tudo o que existe e ao que não existe. A questão do nome utilizado pouco importa, uma vez que, por ser inefável, o Absoluto não possui nome e, por isso, pode ser chamado por qualquer um sem deixar de ser o Absoluto. Isso porque, caso tivesse um nome, não seria possível chamá-lo por milhares de nomes, pois, assim, deixaria de ser o Absoluto[1].

Aqui, apenas por questões conceituais e buscando facilitar a compreensão, serão utilizados nomes como o Absoluto, o Todo e Aquele que É. Tal escolha se baseia, unicamente, na imanência que se busca ressaltar, de que o Absoluto é uno, eterno, imóvel, imutável e perfeito.

É uno, porque tudo o que existe, e o que não existe, nEle está contido, sem que Ele deixe de existir como um todo, nem que nada dEle se separe.

É eterno, porque não possui início, nem meio, nem fim.

É imóvel porque preenche o infinito e, por isso, não tem para onde se locomover, pois nada existe para além dEle, uma vez que não existe o “além do Absoluto”. Se existe além, lá o Absoluto também estará e também será o além, da mesma forma que o vazio e o nada inexistem, pois, para existirem teriam de ser desprovidos de tudo, inclusive do Absoluto, e o Absoluto se encontra em tudo o que existe e o que não existe.

É imutável, porque não se transforma e, assim, nunca está e sempre é. E, por não se transformar, é perfeito, pois não necessita de corrigir detalhes.

Compreender essas informações pode parecer difícil e isso é normal. Uma vez que o ser humano se encontra limitado pelo estado de consciência no qual se encontra, e a compreensão do Todo está muito além do estado de consciência no qual aqueles que aqui estão encarnados conseguem visualizar. É também fundamental destacar, que mesmo entre o que se tem consciência e o que se consegue expressar, há uma distância, posto que as palavras, os símbolos, as imagens, são limitadas face àquilo que se tem consciência.

Consciência não se restringe ao simples saber. Consiste em ter aquele conhecimento arraigado no seu âmago, ao ponto de ele estar intrinsicamente contido em sua conduta. Não há, sequer, necessidade de se pensar naquele comportamento, pois sobre ele não recaem dúvidas ou qualquer tipo de questionamento filosófico, físico, metafísico, religioso, abstrato…

Estar consciente de algo consiste em ter o comportamento fluido, natural e sem empecilho, por menor que seja, no sentido de se sublimar em direção ao Absoluto, cumprindo, assim, o que alguns conhecem por Dharma, o caminho pelo qual o Eu flui sem atritos, sendo verdadeiramente Eu.

Porém, como se dá a criação do Homem, estado transitório no qual o Eu, que estuda este material, se encontra? Novamente, doutrinas por todo o mundo contam a mesma história travestida de acordo com a realidade local ou o grau de compreensão que possuem.

Para alguns, a “vida” surgiu com o sopro da divindade. Para outros, de centelhas divinas. Há, ainda, os que defendem que a divindade primordial animou uma porção de matéria. O que poucas doutrinas deixam claro (até porque não visam explicar esse processo), é que existe um aparente lapso entre esse “sopro” e o “aparecimento” do Homem, do Eu: que o Homem, o Eu, assim como ele está hoje, não veio imediatamente da divindade primordial, mas percorreu um longo período de transformação até alcançar a sua atual condição.

De igual forma se percebe, ao analisar os homens, que estes também se encontram em estágios distintos, embora, ao se observar numa análise macro, ainda próximos uns dos outros.

Outro ponto que se constata é o de que todos os homens, por não serem perfeitos, ainda podem se transformar. Dessa forma, verifica-se que existe uma jornada iniciada no seio do Absoluto e que não fica estagnada, mas se desloca infinitamente até algum lugar. Mas, que lugar seria esse para o qual o homem se desloca? Mais uma vez, as doutrinas estão corretas ao afirmarem que o destino do Eu em sua jornada existencial é o retorno ao Absoluto. Então, a jornada tem o seu início no seio do Absoluto e, após percorrer toda a jornada existencial, retorna ao seio do Absoluto.

Assim com a dança de Shiva, o Absoluto parece se expandir em um processo de subdivisão[2] até o infinito, quando, após atingir o infinito, volta a se recolher, reunindo as partes que foram divididas inicialmente. Nesse processo de sístoles e diástoles[3], a existência é criada na origem primordial e caminha à infinitésima partícula, até retornar, percorrendo todos os planos de existência, passando, em certo ponto, pelos reinos mineral, vegetal, animal, hominal, angelical…

Contudo, tal como ondas num lago provocadas pelo contínuo e eterno estímulo inicial, o processo existencial jamais se esgota, pois, quando a primeira onda inicia o processo de retorno após atingir o infinito, uma nova onda a substitui chegando ao infinito. Por existirem infinitas ondas neste indo e vindo infinito, inexiste movimento aparente, embora ele ocorra, tal qual objeto que vibra em altíssima velocidade e, mesmo assim, parece estático para aquele que o observa[4].

Como todas as ondas são partes integrantes do Todo, ele se estende eternamente até o infinito, jamais se movendo, embora o movimento exista em seu interior[5]; jamais se limitando, embora a limitação exista em seu interior; jamais se transformando, embora a transformação exista em seu interior; e, por não se transformar, é perfeito, embora a imperfeição também exista em seu interior.

Dessa forma, a jornada existencial se inicia no seio do Absoluto e a Ele retorna ao término do seu processo transformador. Tal lugar pode ser considerado o centro do Absoluto e estar localizado nos confins da galáxia mais distante, na Terra, em Aldebarã, no Sol, em Sirius, em Alcione ou, até mesmo, no Eu. Pois, uma vez que se estabelece um ponto localizado no Absoluto, ele sempre será o Seu centro, uma vez que se encontra infinitamente equidistante a todas as direções do Absoluto.

O Ser, então, seria como um raio, que irradia do seio do Absoluto até o infinito, atravessando todas as ondas geradas pelo eterno e contínuo estímulo inicial. Esse raio, assim como o Absoluto, por conta do Princípio de Correspondência[6], também é imóvel, embora o movimento exista em seu interior; também é imutável, embora a transformação ocorra em seu interior; também é perfeito, embora a imperfeição exista dentro dele.

Entretanto, se o Ser é imóvel, o que se desloca na senda infinita não é o Ser propriamente dito, mas alguns de seus atributos[7]. E é um desses atributos que passa por um infindável processo de transformação nas esferas existenciais, nascendo quando se inicia o retorno do infinito em direção ao seio do Absoluto. Este atributo é o que costumeiramente chamamos de Consciência. Seu nascimento ocorre no retorno do infinito, pois, apenas então, tem início o processo restaurador, o de se reconectar as partes do Absoluto que ilusoriamente foram desconectadas: ali se dá o início da jornada de compreensão.

Da mesma forma que o Ser, pelo Princípio de Correspondência[8], a Consciência também é imóvel, embora em seu interior ocorra o movimento; também é imutável, embora exista transformação em seu interior; também é perfeita, embora a imperfeição exista dentro de si.

Contudo, se a Consciência também é imóvel, quem se desloca na senda infinita não é a Consciência em si, mas um de seus atributos, o Eu. É o Eu que se desloca pela Consciência, sendo impulsionado pelas ondas que se propagam em direção ao seio do Absoluto e sofrendo o impacto das ondas que se deslocam ao infinito. O impulso dado pelas ondas que rumam para o seio do Absoluto é a força motriz que inexoravelmente leva o Eu em direção ao Eu Superior, enquanto o impacto das ondas em direção ao infinito tem o efeito de gerar o atrito necessário para a depuração do Eu, fazendo com o que é mais bruto seja arrancado, permanecendo no Eu Inferior, e apenas aquilo que é sutil possa se deslocar na senda infinita, nas vicissitudes existenciais, para se transformar no Eu Superior, no processo que alguns chamam de reencarnação e outros conhecem como roda de Samsara.

Nesse processo de transformação, o Eu se desloca do Eu Inferior (aquele que acredita ser uma criatura individualizada e ainda apegada àquilo o que é bruto) e começa a se perceber parte integrante do Absoluto quando a ideia do eu desaparece e passa a ser suplantada pela ideia do nós, até chegar ao Eu Superior, onde habita um novo Eu, o Eu Coletivo, aquele que sabe o que é, o Eu que sabe que tudo o que existe também faz parte dele e que ele está intimamente associado a tudo o que existe, como uma única coisa, como parte integrante, indissociável e indelével do Absoluto.

Desta forma, o Eu é o atributo da Consciência que se encontra em processo de transformação, cada vez mais, tornando-se a Consciência, e, consequentemente, o Ser; percebendo-se, passo a passo, parte integrante do Absoluto; sutilizando-se, abandonando corpos mais brutos e mantendo os mais sutis.

Enquanto a Consciência nasce na volta do infinito, quando inicia o processo restaurador, outro atributo do Ser, faz o caminho inverso, nascendo no seio do Absoluto e infinitamente se subdividindo até os confins do infinito. A este atributo, que nasce no seio do Absoluto e se dirige até o infinito, pode ser dado o nome de Tecido Elementar[9].

Tal qual a sua contraparte[10], a Consciência, o Tecido Elementar, pelo Princípio de Correspondência, também é imóvel, embora em seu interior ocorra o movimento; também é imutável, embora exista transformação em seu interior; também é perfeito, embora a imperfeição exista dentro de si.

Por ser imóvel, não é o Tecido Elementar que se desloca na senda em direção ao infinito, mas um de seus atributos, o Agente Modelador, que se desloca do seio do Absoluto, impulsionado pelas ondas que se expandem até o infinito e sofrendo o atrito das ondas que se concentram em direção ao seio do Absoluto, brutalizando-se e dando forma aos planos de existência. Este atributo, que carrega dentro de si a capacidade de moldar os planos de existência, foi amplamente relatado ao longo da história humana e, no contato com os planos existenciais que o Homem costuma ter mais acesso, recebe, comumente, o nome de Elemental. Assim, o Eu e o Agente Modelador se deslocam em sentidos paralelamente opostos, mas unidos no processo existencial.

Ponto que merece destaque é o de que, assim como o próprio Absoluto, todos os seus Atributos e subatributos não são bons ou maus, mas neutros. É normal, para alguns, pensar que o deslocamento do Agente Modelador, brutalizando-se, o deixe mau, enquanto o deslocamento da Consciência, sutilizando-se, a deixe boa. Na verdade, tanto um, quanto o outro, apenas cumprem a sua função estabelecida no plano criador e, por isso, não podem ser rotulados como bom ou mau, melhor ou pior.

Essa falsa necessidade que o Homem possui, de criar dualidades e demais separatismos, decorre da influência exercida pelo Agente Modelador, que atua em tudo o que existe, inclusive na forma com que o Eu analisa tudo o que existe e o que não existe, subdividindo conforme foi programado, em essência, para ser. Tal atuação não se limita ao plano material, mas também se aplica ao espiritual, ao mental e a todos os demais, uma vez que tudo o que existe e o que não existe é moldado no Tecido Elementar e, consequentemente, sofre a ação de seus atributos, inclusive a do Agente Modelador, gerando o Princípio de Polaridade[11].

Por isso, não se pode catalogar algo como bom ou mau, pior ou melhor: apenas deve ser verificado se aquilo está cumprindo o seu propósito de ser. Se o Agente Modelador está sendo Agente Modelador, se a Consciência está sendo Consciência, se o Tecido Elementar está sendo Tecido Elementar, isso significa que tudo está em sintonia e, por isso, respondendo à determinação do Absoluto, pois é para isso que cada coisa serve: para ser ela mesma.

Os aparentes conflitos, no plano em que o Homem atualmente se encontra, decorrem do desejo do Homem em ser o que ele não nasceu para ser. Por exemplo, imagine que uma planta deseja abandonar o seu propósito: ao invés de realizar fotossíntese e servir de alimento e moradia para outros seres, ela deseje ser um leão, caçar gazelas para se alimentar e deixar de fazer o que ela foi destinada a ser. Não é necessária muita elucubração para se constatar que o mundo entraria em colapso. Porém, a planta não deseja nada além de ser planta, assim como o leão não deseja nada além de ser leão: tanto a planta, quanto o leão têm o seu desejo em sintonia com a Vontade do Absoluto, que é a de que eles sejam eles mesmos.

Assim como a planta existe para ser planta, o animal para ser animal e o mineral para ser mineral, o ser humano existe para ser humano, para que o seu desejo se confunda com a Vontade do Absoluto, que é a de que ele seja benevolente, piedoso, tenha compaixão, seja integralizador. Quando o homem respeita a sua essência, não há conflitos. Contudo, quando, ao fazer uso de seu Livre-Arbítrio, tenta fugir daquilo para o qual foi criado, os atritos acontecem e o conflito aparece.

Só há atrito onde há a separação do desejo e da Vontade. Onde a Vontade e o desejo estão unidos, inexiste atrito, existe o Dharma[12]. Dessa forma, pode-se acreditar erroneamente que o Livre-Arbítrio seria ruim, pois permite ao Homem ter um querer distinto da Vontade. Entretanto, assim como tudo o que existe e o que não existe, o Livre-Arbítrio também não é bom ou mau, ele é neutro e cumpre a função para a qual foi criado: permitir, pela experimentação, que o Eu encontre o caminho para o Eu Superior, ao compreender que tudo o que existe e o que não existe é apenas o Absoluto e nada mais. Por cumprir a função para a qual foi criado, o Livre-Arbítrio não é bom ou mau, ele apenas é o Livre-Arbítrio e, ao ser Aquele que É, ele é neutro.

Da mesma forma que o Livre-Arbítrio tem como essência permitir que o Eu escolha o caminho ao qual seguir, para, assim, encontrar o Dharma, o Karma existe, em sintonia com o Livre-Arbítrio, como forma de gerar a compreensão no Eu. Enquanto o Livre-Arbítrio permite a realização de uma escolha, o Karma é a escolha permitida pelo Livre-Arbítrio. É aquilo que, com base no estado de Consciência no qual se encontra, o Eu opta por fazer. É o agir. Ao agir, o Eu gera a Consequência, isto é, respostas às ações realizadas pelo Eu.

Assim como tudo o que existe e o que não existe, essas respostas, a Consequência, não são boas nem más, mas neutras, pois têm como função atuar em sintonia com o Karma e o Livre-Arbítrio, gerando o atrito necessário para que o Eu se desloque, por ressonância, na Consciência em direção ao Eu Superior. E, pelo fato de a Consequência cumprir a sua essência, ela é Aquele que É.

Aqui, deve ser destacado que a inação verdadeiramente inexiste. Só o que realmente existe é o agir, pois mesmo no que está parado, há, em seu interior, o movimento, da mesma forma que ocorre com o Absoluto, que está parado, mas, em seu interior existe o movimento[13]; e, onde há o movimento, há o agir, e o agir é o Karma.

Entretanto, como o movimento não está limitado a um único plano existencial, acontecendo em todos eles, o Karma também ocorre simultaneamente em todos os planos de existência, e como o Karma é agir, e o agir gera a Consequência, ele produz efeitos que reverberam em todos os planos de existência[14], em sincronicidade. Esses efeitos, pela aplicação do Princípio de Polaridade, tornam-se novas causas e, ressonando, propagam-se pela existência.

Como tudo o que existe e o que não existe se encontra em perfeita sintonia com a Vontade, aquilo que o Eu ilusoriamente entende como futuro, já está determinado, que é o momento no qual o Eu se torna o Eu Superior. Contudo, embora o destino se encontre determinado, o caminho percorrido pelo Eu é traçado pelo seu Karma, com base no Livre-Arbítrio. Porém, o Karma escolhido pouco importa para o resultado final, pois tudo se compensa sincronisticamente, de forma a permanecer na perfeita sintonia, no Princípio de Ritmo[15].

Como “o que está em cima é como o que está embaixo e o que está embaixo é como está em cima”, o Karma e a Consequência também são neutros, visto que atendem ao seu propósito e, assim, não são bons ou maus, mas são Aquele que É. Essa compreensão é importante para se constatar que nenhum caminho pelo o qual o Eu escolhe seguir é errado, pois tem como função primordial, como essência, gerar as condições necessárias para o deslocamento do Eu na Consciência. Toda escolha que o Eu faz, isto é, todo o Karma, é realizado com base no estado de consciência no qual o Eu se encontra e, portanto, o Eu sempre realizaria a mesma escolha baseada nos mesmos fatores e na condição na qual se encontra.

Apenas com o Karma e a Consequência, as condições são modificadas para gerar a ressonância necessária para impulsionar o Eu em direção ao Eu Superior. Desta forma, toda escolha realizada é a escolha certa, pois é feita no estado de Consciência na qual o Eu se encontra e o permite experimentar as sensações necessárias para o seu deslocamento na Consciência em direção ao Eu Superior.

Quando se compreende esse fato, o apego ao que é chamado de passado e a insegurança quanto ao que é chamado ilusoriamente de futuro desaparecem. O Eu se concentra no que é chamado de presente, afastando-se da ilusão da transitoriedade e fixando-se na perenidade, onde ele deixa de ser “Aquele que Está” e se revela Aquele que É.

Ao compreender a sua essência, o Eu deixa de se preocupar com a ilusão do que aconteceu e do que vai acontecer, pois ele sabe que apenas acontece o que tem de acontecer, pois essa é a sintonia perfeita, a contradança[16] na qual tudo o que existe e o que não existe se encontra; ele sabe que bom e mau apenas são polaridades da Consequência, assim como Luz e Trevas são polaridades da Consciência e, portanto, são ilusões criadas pelo Agente Modelador.

A percepção de que bom e mau são polaridades da Consequência é facilmente constatada quando o Eu faz uma análise das experiências às quais se submeteu. Quando ocorre a Consequência, o Eu, influenciado pelo Agente Modelador, tende a observar de um jeito pontual e, consequentemente, a cataloga como algo bom ou ruim. Contudo, caso o Eu visse a Consequência em sua real forma, ele compreenderia que ela não é boa ou má.

Um meio pelo o qual o Eu pode ver a real forma da Consequência é analisar um fato que já foi vivenciado. No momento no qual o fato foi vivenciado, o Eu o classifica como bom ou mau, porém, em momento posterior, quando o Eu já se deslocou na Consciência em direção ao Eu Superior, ao olhar para esse mesmo fato (já vivenciado), o vê de forma diferente, classificando-o, algumas vezes, de forma diversa da que fizera inicialmente. O fato em si não mudou, então como pode algo que permanece inalterado ter o seu significado modificado? Isto ocorre porque o observador mudou, o Eu que analisou o fato pela primeira vez não é o mesmo Eu que analisou o fato da última. Assim, ser bom ou mau não é uma característica do fato, da Consequência, do Karma ou de tudo o que existe e o que não existe, mas uma característica da forma com que o Eu os analisa.

Uma vez que a distinção entre bom e mau, melhor ou pior, existe na forma com que o Eu analisa aquilo que existe e o que não existe, e não nessas coisas em si, encontra-se a verdade por de trás do Princípio de Polaridade, o qual determina, conforme já se definiu acima, que “tudo é duplo; tudo tem polos; tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau, os extremos se tocam; todas as verdades são meias verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados”.

Sabendo que a polaridade está na forma de analisar o que existe e o que não existe, o Eu pode modificá-la ao seu bel-prazer, transformando o que é ruim em bom e o que é pior em melhor, ao aplicar o Princípio de Vibração[17] sob a influência do que se conhece no Hermetismo como Princípio de Mentalismo[18]. Assim, enxergar as coisas como boas ou más, melhores ou piores, torna-se uma escolha permitida pelo Livre-Arbítrio, e isto é o Karma.

Karma e Consequência são polos do Livre-Arbítrio, haja vista que de todo agir decorre uma consequência e a consequência se torna um novo agir, desencadeando uma nova consequência, isto é, um influencia e é influenciado pelo outro, pois, um, além de gerar o outro, também é gerado por este, uma vez que “tudo se manifesta por oscilações compensadas, sendo que a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda”[19], compensando-se em sincronicidade para permanecer em um estado de perfeito equilíbrio na divina contradança.

Ao compreender que o Karma e a Consequência são unos, o Eu também compreende que o tempo é uma ilusão provocada pelo fracionamento da Existência, através da ação do Agente Modelador, pois tudo o que existe e o que não existe, na verdade, apenas é, e, por isso, é Aquele que É.

Contudo, apesar de ser ilusório, o tempo, como todas as ilusões, existe para o Eu, uma vez que é um evento e, como tal, pode ser vivenciado. Tudo o que pode ser vivenciado pelo Eu existe para ele, pois tem a capacidade de gerar a energia necessária para que o Eu mude a sua vibração e, por ressonância, se desloque na Consciência em direção ao Eu Superior.

Esta é a distinção entre aquilo que não existe e aquilo que inexiste: enquanto aquilo que não existe, por ser ilusório, existe em algum plano de existência, mas não em todos; o que inexiste não existe em nenhum deles[20]. Apenas o Absoluto existe em todos os planos de existência, uma vez que ele é Aquele que É, enquanto todo o resto, por ser transitório, pode ou não existir dependendo do plano existencial observado. Desta forma, verifica-se que por ser Aquele que É, o Absoluto é o único que verdadeiramente existe, enquanto tudo o mais, por ser transitório, inconstante, é ilusório[21] e não existe verdadeiramente.

A Compreensão do que é permanente e daquilo que é transitório, auxilia o Eu a superar os ilusórios sofrimentos aos quais voluntariamente se submete. O sofrimento nasce do apego do Eu ao que é transitório, da sua vã tentativa de tornar imóvel aquilo o que é móvel, de deter o que não pode ser detido, de escapar da inexorabilidade do Dharma. Ao compreender o que é permanente, o que é transitório e o que isso significa, o Eu se desapega do que é mutável e se fixa no que é imóvel, tornando-se Aquele que É.

Assim como tudo o que existe e o que não existe, o mutável, também não é bom ou mau, mas neutro, pois apenas existe para cumprir a sua função, a de proporcionar as experiências necessárias para que o Eu se desloque por ressonância na Consciência. E, por ser aquilo que foi determinado em essência para ser, o mutável também é Aquele que É.

Notas:

[1] O mesmo se aplica a tudo o que existe e ao que não existe. O estabelecimento de nomes, como os que aqui são adotados, trata-se apenas de uma ferramenta que visa facilitar a compreensão e a absorção de conceitos, não um mecanismo de limitação que a imposição de um nome pode estabelecer.

[2] Processo decorrente da aplicação daquilo o que se conhece no Hermetismo por Princípio de Gênero: “o Gênero está em tudo; tudo tem o seu princípio masculino e o seu princípio feminino; o gênero se manifesta em todos os planos”.

[3] Segundo o que se conhece no hermetismo pelo Princípio de Ritmo: “tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação”.

[4] Segundo o que se conhece no hermetismo pelo Princípio de Vibração: “nada está parado, tudo se move, tudo vibra”.

[5] Princípio de Vibração, citado na Nota de Rodapé (“NR”) anterior.

[6] Segundo o que se conhece no hermetismo pelo Princípio da Correspondência, “o que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima”.

[7] Este processo de ser gerado e gerar (ou ser derivado e derivar) que será visto constantemente, só é possível por conta do Princípio de Gênero (“o Gênero está em tudo, tudo tem o seu princípio masculino e o seu princípio feminino; o gênero se manifesta em todos os planos”, vide NR nº. 2) no qual tudo tem o seu princípio masculino, isto é, fecundante, e o seu princípio feminino, isto é, fecundável.

[8] “o que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima”.

[9] Também conhecido por Fluido universal, elemento universal, fluido elementar.

[10] Segundo o que se conhece no hermetismo pelo Princípio de Polaridade: “tudo é Duplo; tudo tem polos; tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados”.

[11] “tudo é Duplo; tudo tem polos; tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados”.

[12] Pois o Dharma é o fluxo sutil decorrente da impulsão das ondas que retornam ao seio do Absoluto, sem colidir nem sofrer o impacto denso daquelas que se expandem até o infinito.

[13] Mesmo que o corpo físico possa parecer parado, dentro dele, o Corpo Energético estará vibrando, isto é, em movimento. Mesmo que o Corpo Energético possa parecer parado, dentro dele, o Corpo Emocional estará em vibração. Da mesma forma que se o Corpo Emocional parece sem movimento, dentro dele o corpo mental estará em movimento; e assim sucessivamente.

[14] Segundo o que se conhece no hermetismo pelo Princípio de Causalidade: “toda Causa tem seu Efeito; todo Efeito tem sua Causa; tudo acontece de acordo com a Lei; o Acaso é simplesmente um nome dado a uma Lei não reconhecida; há muitos planos de causalidade, porém nada escapa à Lei”.

[15] “Tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação.”

[16] É uma dança de ritmo rápido e compasso binário, composto de várias seções de oito compassos que se repetem.

[17] “Nada está parado; tudo se move; tudo vibra”.

[18] “O TODO é MENTE; o Universo é Mental”.

[19] Princípio de Ritmo.

[20] O “vazio”, por exemplo, verdadeiramente inexiste, visto que assumir a sua existência, significaria que, em algum lugar, o Absoluto não se encontra, o que, por si, O faria deixar de ser o Absoluto.

[21] Princípio de Mentalismo: “o TODO é MENTE; o Universo é Mental”.

~ Paulo Jacobina mantêm o canal Pedra de Afiar, voltado a filosofia e espiritualidade de uma forma prática e universalista.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-senda-infinita/

Eros, Psique e as Relações Amorosas

Pedimos licença do autor deste artigo e aos leitores para um detalhado relato do mito grego de Eros e Psique. Caso já esteja familiar com a narrativa, basta pular para a segunda parte deste artigo.

Psique era a mais nova de três filhas de um rei de Mileto e era extremamente bela. Sua beleza era tanta que pessoas de várias regiões iam admirá-la, assombrados, rendendo-lhe homenagens que só eram devidas à própria Afrodite.  Profundamente ofendida e enciumada, Afrodite enviou seu filho, Eros, para fazê-la apaixonar-se pelo homem mais feio e vil de toda a terra. Porém, ao ver sua beleza, Eros apaixonou-se profundamente.

O pai de Psique, suspeitando que, inadvertidamente, havia ofendido os deuses, resolveu consultar o oráculo de Apolo, pois suas outras filhas encontraram maridos e, no entanto, Psique permanecia sozinha. Através desse oráculo, o próprio Eros ordenou ao rei que enviasse sua filha ao topo de uma solitária montanha, onde seria desposada por uma terrível serpente. A jovem aterrorizada foi levada ao pé do monte e abandonada por seu pesarosos parentes e amigos. Conformada com seu destino, Psique foi tomada por um profundo sono, sendo, então, conduzida pela brisa gentil de Zéfiro a um lindo vale.

Quando acordou, caminhou por entre as flores, até chegar a um castelo magnífico. Notou que lá deveria ser a morada de um deus, tal a perfeição que podia ver em cada um dos seus detalhes. Tomando coragem, entrou no deslumbrante palácio, onde todos os seus desejos foram satisfeitos por ajudantes invisíveis, dos quais só podia ouvir a voz.

Chegando a escuridão, foi conduzida pelos criados a um quarto de dormir. Certa de ali encontraria finalmente o seu terrível esposo, começou a tremer quando sentiu que alguém entrara no quarto. No entanto, uma voz maravilhosa a acalmou. Logo em seguida, sentiu mãos humanas acariciarem seu corpo. A esse amante misterioso, ela se entregou.. Quando acordou, já havia chegado o dia e seu amante havia desaparecido. Porém essa mesma cena se repetiu por diversas noites.

Enquanto isso, suas irmãs continuavam a sua procura, mas seu esposo misterioso a alertou para não responder aos seus chamados. Psique sentindo-se solitária em seu castelo-prisão, implorava ao seu amante para deixá-la ver suas irmãs. Finalmente, ele aceitou, mas impôs a condição que, não importando o que suas irmãs dissessem, ela nunca tentaria conhecer sua verdadeira identidade.

Quando suas irmãs entraram no castelo e viram aquela abundância de beleza e maravilhas, foram tomadas de inveja. Notando que o esposo de Psique nunca aparecia, perguntaram maliciosamente sobre sua identidade. Embora advertida por seu esposo, Psique viu a dúvida e a curiosidade tomarem conta de seu ser, aguçadas pelos comentários de suas irmãs.

Seu esposo alertou-a que suas irmãs estavam tentando fazer com que ela olhasse seu rosto, mas se assim ela fizesse, ela nunca mais o veria novamente. Além disso, ele contou-lhe que ela estava grávida e se ela conseguisse manter o segredo ele seria divino, porém se ela falhasse, ele seria mortal.

Ao receber novamente suas irmãs, Psique contou-lhes que estava grávida, e que sua criança seria de origem divina. Suas irmãs ficaram ainda mais enciumadas com sua situação, pois além de todas aquelas riquezas, ela era a esposa de um lindo deus. Assim, trataram de convencer a jovem a olhar a identidade do esposo, pois se ele estava escondendo seu rosto era porque havia algo de errado com ele. Ele realmente deveria ser uma horrível serpente e não um deus maravilhoso.

Assustada com o que suas irmãs disseram, escondeu uma faca e uma lâmpada próximo a sua cama, decidida a conhecer a identidade de seu marido, e se ele fosse realmente um monstro terrível, matá-lo. Ela havia esquecido dos avisos de seu amante, de não dar ouvidos a suas irmãs.

A noite, quando Eros descansava ao seu lado, Psique tomou coragem e aproximou a lâmpada do rosto de seu marido, esperando ver uma horrenda criatura. Para sua surpresa, o que viu porém deixou-a maravilhada. Um jovem de extrema beleza estava repousando com tamanha quietude e doçura que ela pensou em tirar a própria vida por haver dele duvidado.

Enfeitiçada por sua beleza, demorou-se admirando o deus alado. Não percebeu que havia inclinado de tal maneira a lâmpada que uma gota de óleo quente caiu sobre o ombro direito de Eros, acordando-o.
Eros olhou-a assustado, e voou pela janela do quarto, dizendo:

– “Tola Psique! É assim que retribuis meu amor? Depois de haver desobedecido as ordens de minha mãe e te tornado minha esposa, tu me julgavas um monstro e estavas disposta a cortar minha cabeça? Vai. Volta para junto de tuas irmãs, cujos conselhos pareces preferir aos meus. Não lhe imponho outro castigo, além de deixar-te para sempre. O amor não pode conviver com a suspeita.”

Quando se recompôs, notou que o lindo castelo a sua volta desaparecera, e que se encontrava bem próxima da casa de seus pais. Psique ficou inconsolável. Tentou suicidar-se atirando-se em um rio próximo, mas suas águas a trouxeram gentilmente para sua margem. Foi então alertada por Pan para esquecer o que se passou e procurar novamente ganhar o amor de Eros.

Por sua vez, quando suas irmãs souberam do acontecido, fingiram pesar, mas partiram então para o topo da montanha, pensando em conquistar o amor de Eros. Lá chegando, chamaram o vento Zéfiro, para que as sustentasse no ar e as levasse até Eros. Mas, Zéfiro desta vez não as ergueram no céu, e elas caíram no despenhadeiro, morrendo.

Psique, resolvida a reconquistar a confiança de Eros, saiu a sua procura por todos os lugares da terra, dia e noite, até que chegou a um templo no alto de uma montanha. Com esperança de lá encontrar o amado, entrou no templo e viu uma grande bagunça de grãos de trigo e cevada, ancinhos e foices espalhados por todo o recinto. Convencida que não devia negligenciar o culto a nenhuma divindade, pôs-se a arrumar aquela desordem, colocando cada coisa em seu lugar. Deméter, para quem aquele templo era destinado, ficou profundamente grata e disse-lhe:

– “Ó Psique, embora não possa livrá-la da ira de Afrodite, posso ensiná-la a fazê-lo com suas próprias forças: vá ao seu templo e renda a ela as homenagens que ela, como deusa, merece.”

Afrodite, ao recebê-la em seu templo, não esconde sua raiva. Afinal, por aquela reles mortal seu filho havia desobedecido suas ordens e agora ele se encontrava em um leito, recuperando-se da ferida por ela causada. Como condição para o seu perdão, a deusa impôs uma série de tarefas que deveria realizar, tarefas tão difíceis que poderiam causar sua morte.

Primeiramente, deveria, antes do anoitecer, separar uma grande quantidade de grãos misturados de trigo, aveia, cevada, feijões e lentilhas. Psique ficou assustada diante de tanto trabalho, porém uma formiga que estava próxima, ficou comovida com a tristeza da jovem e convocou seu exército a isolar cada uma das qualidades de grão.

Como 2ª tarefa, Afrodite ordenou que fosse até as margens de um rio onde ovelhas de lã dourada pastavam e trouxesse um pouco da lã de cada carneiro. Psique estava disposta a cruzar o rio quando ouviu um junco dizer que não atravessasse as águas do rio até que os carneiros se pusessem a descansar sob o sol quente, quando ela poderia aproveitar e cortar sua lã. De outro modo, seria atacada e morta pelos carneiros. Assim feito, Psique esperou até o sol ficar bem alto no horizonte, atravessou o rio e levou a Afrodite uma grande quantidade de lã dourada.

Sua 3ª tarefa seria subir ao topo de uma alta montanha e trazer para Afrodite uma jarra cheia com um pouco da água escura que jorrava de seu cume. Dentre os perigos que Psique enfrentou, estava um dragão que guardava a fonte. Ela foi ajudada nessa tarefa por uma grande águia, que voou baixo próximo a fonte e encheu a jarra com a negra água.

Irada com o sucesso da jovem, Afrodite planejou uma última, porém fatal, tarefa. Psique deveria descer ao mundo inferior e pedir a Perséfone, que lhe desse um pouco de sua própria beleza, que deveria guardar em uma caixa. Desesperada, subiu ao topo de uma elevada torre e quis atirar-se, para assim poder alcançar o mundo subterrâneo. A torre porém murmurou instruções de como entrar em uma particular caverna para alcançar o reino de Hades. Ensinou-lhe ainda como driblar os diversos perigos da jornada, como passar pelo cão Cérbero e deu-lhe uma moeda para pagar a Caronte pela travessia do rio Estige, advertindo-a:
– “Quando Perséfone lhe der a caixa com sua beleza, toma o cuidado, maior que todas as outras coisas, de não olhar dentro da caixa, pois a beleza dos deuses não cabe a olhos mortais.”

Seguindo essas palavras, conseguiu chegar até Perséfone, que estava sentada imponente em seu trono e recebeu dela a caixa com o precioso tesouro. Tomada porém pela curiosidade em seu retorno, abriu a caixa para espiar. Ao invés de beleza havia apenas um sono terrível que dela se apossou.

Eros, curado de sua ferida, voou ao socorro de Psique e conseguiu colocar o sono novamente na caixa, salvando-a.

Lembrou-lhe novamente que sua curiosidade havia novamente sido sua grande falta, mas que agora podia apresentar-se à Afrodite e cumprir a tarefa.

Enquanto isso, Eros foi ao encontro de Zeus e implorou a ele que apaziguasse a ira de Afrodite e ratificasse o seu casamento com Psique. Atendendo seu pedido, o grande deus do Olimpo ordenou que Hermes conduzisse a jovem à assembléia dos deuses e a ela foi oferecida uma taça de ambrosia. Então com toda a cerimônia, Eros casou-se com Psique, e no devido tempo nasceu seu filho, chamado Voluptas (Prazer).

Eros, Psique e as Relações Amorosas

A Lenda de Eros e Psique trata-se de uma lenda riquíssima  em simbolismos que auxilia-nos a buscar um Equilíbrio Interno e Externo tratando-se de relações amorosas. Mostro,os simbolismos desta pormenorizadamente nos parágrafos a seguir.

No momento em que Psique, prostra-se ao sacrifício,nada mais é do que um simbolismo dos Sacrifícios que devemos empreender aos Deuses dentro de nós mesmos para por fim podermos alcançar algo sublime ou que consideremos sublime. Ou ainda,os momentos de Sacrifícios que devemos fazer na Vida,matando os conceitos anteriores e trazendo novos para Nossa Consciência Aquosa Sentimental.

O Monstro, trata-se da Dimensão Pessoal atingida com certo Tempo de Vida (normalmente na pós-puberdade), onde o individuo descobre que talvez não fosse tão perfeito quanto imaginava, e por tal cria um “Monstro” que nada mais é do que uma extensão de seus pensamentos. O Monstro é o próprio indivíduo com pensamentos pessimistas e oriundos da quebra do egocentrismo, o que causa muito magoamento e dor. O Monstro nada mais é do que algo manufaturado por si mesmo. Vide que o Monstro na Lenda de Eros e Psique poderia possuir correlação com Afrodite, portanto é um Monstro surgido quando o ser começa a ter contacto mais maturo com a Dimensão do Amor e do Enlace.

Na parcela da Lenda quando Psique adormece sobre o Rochedo Sacrificial representa o período letárgico que antecede a vinda do imaginário “Monstro“, onde o Tempo parece fugidio e vago como quando estamos a dormir. Um período de Trevas onde todos acontecimentos diários assemelham-se a Viagens Oníricas Fugidias ou a Escuridão Plena de quando como estamos de globos oculares vendados.

A entrada no Palácio Celestial de Eros e Encontro com o Mesmo (velado no caso), logo após a espera soporífica no rochedo,mostra o início de uma nova fase amorosa depois das Trevas da Espera e do Pessimismo. Onde tudo parece perfeito, mas na Verdade não passa de uma ilusão da Realidade presente em muitos inícios de enlaces amorosos. Todo pessimismo é gradualmente esquecido e um positivismo irreal toma seu lugar. Pois o ser Humano não consegue atingir um ponto de Equilíbrio entre Surreal e Concreto ou Pessimismo Extremista e Positivismo Ilusório, naquele momento.

As mulheres “invejosas” da Lenda, nada mais são do que os pensamentos temerários e inseguros que operam-se dentro do indivíduo numa relação,e muitas vezes feitos “em carne” através de pessoas no Macroscopo. Estes pensamentos e pessoas não são ruins necessariamente, pois na realidade são catalisadores da mudança necessária,estímulos para a pessoa repensar sua relação. Estes pensamentos são como Seth na Lenda Egípcia da Morte de Osíris,onde este (Seth) mata Osíris para permitir o nascimento de Hórus que acaba trazendo o Novo Aeon (metáfora muito similar ao desfecho do Mito que mostra que graças a esta “revelação” da real figura de Eros e posterior dor e peregrinação,conseguiu-se o fortalecimento do Amor e por fim o Batismo Supremo-Eterno sob a Égide de Afrodite ou Eu-Amor Elevado). Caso estes pensamentos temerários e inseguros não existissem, Psique viveria sempre num “Castelo de Ilusões”, e por sua vez numa Relação Superficial onde não conheceria todas as facetas de seu Amado e da Relação.

A Fúria de Eros ao saber da “traição” de sua Esposa,é a representação de que por vezes as palavras e os atos, mesmo feitos de Coração Puro, são catalisadores do Armageddon de uma Relação. E que, uma tentativa de um dos que integram uma relação Homem-Mulher de empreender uma Luminosidade sobre a mesma, geralmente pode ser mal-vista pelo parceiro (pois muitas vezes este parceiro,é na realidade um ser inseguro e que tem medo de mostrar sua real face e defeitos perante seu parceiro. E por tal não quer ver concretizada a possibilidade de obscuridade alquebrada,assim revolta-se e parte com o vínculo).

A queda de Psique na Terra e esmaecimento do “Castelo Celestial” nada mais é do que a amostra de que o “sonho” se foi e esta caiu na dura realidade e sem seu Amado. As provações de Psique pelo Mundo (servindo e fazendo tarefas quase impossíveis para Deusa Afrodite), são as tentativas do(a) amante de reaver a relação e seu amado.É a prova de que o real enamorado nunca desiste e sempre procura o restabelecimento dos vínculos(só que agora mais duradouros sob a Luz da Verdade e com bases sólidas).

A descida ao Submundo por Psique, é o reconhecimento de que uma relação não pode ser restabelecida sem a ajuda do outro. Esta adentra nas Trevas soturnas do Submundo de Hades (o Lado Melancólico Interno), entregando-se a uma Morte em Vida, por constatar que todo seu trabalho para reaver a relação era solitário (assim sendo:inútil).

Contudo todo esforço provou-se válido pois acabou por despertar os olhares de seu consorte (Eros na Lenda) para a Dor e as Provações de sua amada (e para a relação em si). Destarte, Eros, intercedeu com seu “Deus Autoritário e Paternalista Interno”(representado na Lenda por Zevs) permitindo que este (Eros) descesse as Trevas da melancolia de sua Amada resgatando-a para juntos viverem uma relação Aberta e Real, Duradoura para Toda Eternidade.

Beto Pataca

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/eros-psique-e-as-relacoes-amorosas/

Amy

O 58º espírito é Amy, ou Avnas. É um presidente, e aparece primeiramente na forma de uma chama flamejante e posteriormente assumindo forma humana, ensina astrologia e todas as ciências liberais; concede bons espíritos familiares e descobre tesouros. Governa 36 legiões.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/demonologia/amy/

As origens do culto de Cosme e Damião

Júlio Cesar Tavares Dias
juliocesartdias@hotmail.com

“Aqui queremos lembrar
Dois Dois a biografia
Pouco vamos encontrar
Porque pouco se escrevia
O que pude pesquisar
Só resolvi publicar
Porque muitos me pediam”
– Frei Urbano de Souza (1991, p. 7)

Nós compartilhamos o sentimento de Frei Urbano de Souza expresso nos seus versos de cordel que vêm à epígrafe deste artigo. No Brasil existe a prática de distribuir balas e doces como pagamento de promessas aos Santos Cosme e Damião, padroeiros das crianças. Em 2010, quando resolvemos escrever sobre este tema (Dias, 2010), frisávamos que o modo de distribuir o doce de Cosme e Damião vem sofrendo mudanças devido à recusa dos evangélicos em receber o doce. Mas, além do fato de que Cosme e Damião foram sincretizados no Brasil com os Ibeji e que os evangélicos rejeitavam o doce justamente por conta desse sincretismo, praticamente nada sabíamos sobre essa devoção e suas origens. Pesquisar as origens do culto desses santos é encarado por nós, então, como um desafio.

Celeno de Figueiredo (1953, p. 5), na introdução de sua obra, afirma que escrever sobre os santos gêmeos é um desejo da mocidade, não realizado há mais tempo, “em virtude da inegável escassez de literatura”. Acreditamos que, ainda hoje, embora passadas décadas desde o seu trabalho, há escassa biografia sobre esse tema em relação à força que essa devoção continua demonstrando no Brasil.

O culto aos santos

Como sabemos, nos inícios do cristianismo, o termo “santo” (que significa separado) era usado de forma geral para se referir aos cristãos. Para se verificar isso basta dar uma olhada rápida nas saudações das epístolas (BÍBLIA, 1993, 1 Coríntios 1: 2 e Efésios 1: 1, e. g.). Com o tempo, esse termo passou a designar as pessoas na comunidade cristã dignas de admiração por alguma virtude ou feito particular. O problema, como coloca Bárbara Lucas (1969, p. 417), ocorre porque “com o tempo, grande número de lendas […] começou a envolver alguns dos santos”, como resultado disso, “a Igreja decidiu que no futuro só se deveriam aceitar como santas as pessoas que fossem formalmente declaradas como tais pelo Papa. Dá-se a isso o nome de Canonização”. O processo visa constatar se o candidato possui uma “virtude verdadeiramente heroica” (Lucas, 1969, p. 418).

As honrarias católicas dos santos e o próprio processo de canonização, a nosso ver, devem-se muito a heroização que os romanos faziam de seus entes falecidos: “tais crenças eram largamente tributárias aos usos tradicionais por meio dos quais os pagãos honravam seus defuntos e especialmente aquêles que criam promovidos à heroização” (Danieloo; Marrou, 1966, p. 320, sic).

O culto dos mártires

Luiz Mott (1994, p. 4) propõe uma tipologia dos santos adorados no Brasil Colonial: “Mártires, Clérigos e Religiosos, Santas Mulheres, concluindo com uma relação dos que tiveram a má sorte de serem considerados Falsos Santos”. A devoção a Cosme e Damião se enquadra no culto aos mártires, pois “chama-se mártir quem derrama seu sangue pela causa de Cristo” (Martins, 1954, p. 5). Claro que não só no cristianismo existem mártires, o mártir cristão seria caracterizado por uma atitude especial ao enfrentar o martírio. Mondoni (2001, p. 56) procede à caracterização do mártir cristão:

[…] não procurava o perigo, mas quanto possível o evitava, […] enfrenta a morte não como cortejo triunfal, mas numa via solitária e em pleno abandono […]; sua fortaleza aparecia não do desejo do sofrimento, mas da serenidade com que ia ao encontro do fim inevitável.

Para o estudo da vida dos mártires, podemos contar com os seguintes documentos: Acta, Passio, Gesta (narrações posteriores às perseguições com justaposição de elementos históricos e lendários) (Mondoni, 2001, p. 56). São critérios para historicidade de um mártir: testemunho direto (Acta, Passio3), inscrição tumular com o qualificativo ‘mártir’, traços seguros de um antigo culto (basílica, cemiterial), menção nos antigos martirológios (Mondoni, 2001, p. 56-57).

Martirológio era, basicamente, “um fichário ou catálogo daqueles que com, com sangue, abonaram o testemunho de sua fé em Cristo. Os antigos martirológios constituíam uma espécie de calendário litúrgico” (Martins, 1954, p. 5). O Martirológio Romano consiste da junção dos vários martirológios regionais, sendo considerado definitivo o texto de Barônio, que depois foi muitas vezes revisto, corrigido e ampliado, tendo sido atualizado pela última vez em 1922, por ordem de Bento XV. Ele é um dos livros litúrgicos oficias da igreja, os quais são, a saber: Missal, Breviário, Ritual Pontifical, Cerimonial e Martirológio.

Claro que no Martirológio Romano “Alguns dados são passíveis de revisão histórica […]. A Santa Igreja desde muito procura escoimá-lo de erros e inexatidões históricas” (Martins, 1954, p. 6). Aliás, “A Igreja é a primeira a querer a verdade histórica. Mas convenhamos. Corrigir não é arrasar, sem mais nem menos, textos venerandos” (Martins, 1954, p. 7).

Foxe4 (2005, p. 13) lembra que ao fundar sua igreja Cristo deixou claro que haveria perseguição, mas que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela. Assim deve-se ler a história dos mártires como “proveito do leitor e da edificação da fé cristã” (Foxe, 2005, p. 14). Para esse autor:

As causas de tanta perseguição aos Cristãos por parte dos imperadores romanos foram principalmente estas: o medo e o ódio. Primeiro o medo, porque os imperadores e o senado, por ignorância cega, […] temiam e desconfiavam que ele (Cristo) pudesse subverter o seu império. Por isso buscaram todos os meios possíveis […] para extirpar totalmente o nome e a memória dos cristãos. Em segundo lugar, o ódio em parte porque este mundo […] sempre odiou e tratou com maldade o povo de Deus […] Em parte, porque os cristãos, tendo uma natureza e uma religião contrária às dos imperadores […] desprezavam os seus falsos deuses […] e muitas vezes detiveram o poder de Satanás que agia nos seus líderes […]. Por isso, Satanás […] instigou os príncipes romanos e os idólatras cegos a nutrir contra eles um ódio e despeito cada vez maiores (Foxe, 2005, p. 25)

O mais seguro documento acerca de um mártir são as atas: “Para nosso objeto é importante notar uma formalidade que não faltava em nenhum processo: as atas”5 (Bueno, 2003, p. 136, tradução livre). Convém-nos aqui esclarecer, portanto, de que se constitui esse documento:

“As atas dos mártires não são outra coisa que a transcrição exata, ou pouco menor, dos processos verbais redigidos pelos pagãos e conservados nos arquivos oficiais, transcrição que os cristãos recuperavam por diversos meios, por exemplo, a compra a os agentes do tribunal”6 (Bueno, 2003, p. 136, tradução livre).

Essas atas eram obtidas pelas comunidades cristãs através da compra. Mas uma ata, claro, como tudo que é valioso, “era objeto de engano e falsificação”7 (Bueno, 2003, p. 137, tradução livre).

Para Danieloo e Marrou (1966, p. 320), “não resta dúvida que já se conhecia [o culto aos mártires] […] desde o final do segundo século, e de alguma forma se oficializara na Igreja Cristã”, mas sublinham que no quarto século “O fato mais considerável é o desenvolvimento realmente exuberante do culto dos mártires”, desenvolvimento motivado pelo fim das grandes perseguições e pela paz constantiniana.

O arquétipo dos gêmeos

Divindades duplas, gêmeas ou não, aparecem na cultura e na literatura de muitos povos da Antiguidade: Castor e Polux entre os gregos, Osíris e Seth no Egito, Rômulo e Remo em Roma, Vishnu e Lakshmi, na Índia (cf. Araújo, 2010, p. 1); “estes seres costumam ser divindades benfeitoras” (Cirlot, 1984, p. 274). Aliás, “todos os heróis gêmeos da cultura indo-européia são benéficos” (Chevalier, 1997, p. 466). No Candomblé também existe o orixá Ibeji, “representado pelos gêmeos na África, sendo estes sagrados” (Cacciatore, 1988, p. 141), com quem Cosme e Damião foram sincretizados. Ibeji8 significa gêmeos, sendo o orixá Ibeji, o único permanentemente duplo.

Então, Cosme e Damião seriam mais uma manifestação do arquétipo dos gêmeos, presente “na maioria de tradições primitivas e de mitologias relativas às altas culturas” (Cirlot, 1984, p. 273), o que haveria permitido seu sincretismo com os Ibeji. Isso nos levaria a pensar o sincretismo, como fez Pedro Iwashita (1991), a partir de conceitos jungianos. Mais exatamente a partir da psicologia dos arquétipos. Isso significa que foi possível o sincretismo entre os santos e orixás, por serem equivalentes “para a experiência humana, no seu sentido profundo e existencial” (Iwashita, 1991, p. 247). Assim, perguntar pelas origens do culto de Cosme e Damião não significaria apenas estabelecer e fixar uma data, mas verificar a força desse arquétipo.

Para Cirlot (1984, p. 274), “O sentido simbólico mais geral dos gêmeos é que um significa a porção eterna do homem […], a alma; e o outro a porção mortal”. Isso faz muito sentido em relação a Cosme e Damião, pois se, como médicos, buscavam a cura do corpo, essas curas objetivavam a conversão, ou seja, a cura também da alma.

Essa recorrência da figura dos gêmeos em várias lendas e mitologias teria origem em personagens históricos que foram depois mitologizados? Acreditamos que possa ter tido origem em diversos personagens históricos em diversas culturas. Entendemos que a pergunta pela motivação dessa recorrência possa ser respondida não na perspectiva histórica, mas na esfera existencial. “Todas as culturas e mitologias testemunham um interesse particular pelo fenômeno dos gêmeos” (Chevalier, 1997, p. 465). O nascimento de gêmeos envolvia um mistério que causava espanto nos povos antigos.

A Vida de Cosme e Damião

Cosme e Damião são santos católicos que foram médicos9 e, por isso, são tidos como protetores das crianças. Eles teriam exercido a medicina sem nunca cobrar nada, por isso são chamados de “anargiros”, ou seja, que não são comprados por dinheiro. Conforme Figueiredo (1953, p. 7), teriam conhecido o cristianismo através de sua mãe Teódota, que os criou na fé cristã. Nos livros litúrgicos ocidentais10 sua festa foi fixada a 27 de setembro11. Uma reforma litúrgica no ano de 1969 moveu sua comemoração para o dia 26 de setembro, contudo o povo mantém a devoção no dia 27. O padre Michelino Roberto explica que “pelo calendário oficial da igreja, a festa é celebrada no dia 26. Mas o povo prefere 27, data da inauguração da basílica que o papa Félix IV mandou erguer para os dois em Roma, no ano 500” (Roberto, 2000). Na fala do padre Josevaldo, pároco da Igreja de Cosme e Damião na Liberdade, Salvador (BA), parece haver a necessidade de frisar a diferença das datas para combater o sincretismo com as religiões afro:

No candomblé, explica o padre, o dia de homenagear as crianças ou seja a falange de Ibejí é dia 27, enquanto que na igreja católica o dia de Cosme e Damião é 26. Mas, no imaginário popular ficou marcado mesmo o dia 27, explicou o padre. (Sodré, 2012).

São santos do século III cuja data de nascimento é incerta, como, aliás, vários outros aspectos de suas vidas. “Devemos, pois, contentar-nos com as poucas noticias que a seu respeito se extrahiram de varios autores de reconhecida probidade”, como lemos na obra Vidas de S. Cosme e Damião e S. Cesário, Médicos da Federação das Congregações Marianas de São Paulo (1935, p. 3, sic), na qual temos essa descrição de como eles procediam para ocorrer a cura: “começavam por fervorosa oração. Informando-se da natureza do mal, faziam sobre o enfermo o signal da cruz, e com isto, em geral, sem necessidade de remédios, […] o paciente via-se restituído a saúde” (Federação de…, 1935, p. 4, sic) . Essa obra, de cunho devocional, tem, na verdade, por pressuposto, que “As enfermidades do corpo vêm por castigo das desordens da alma”, assim, “Aplaque-se a ira de um Deus ofendido e recobrará saúde o enfermo” (Federação…, 1935, p. 6), e, assim, seu intento é o incentivo à prática da confissão.

Seus atos caridosos que eram motivo de conversões ao cristianismo “não passaram despercebidos aos inimigos da fé cristã” (Basacchi, 2003, p. 7). Denunciados pelo procônsul Lísias, acusados de serem “inimigos dos deuses”, foram mortos por ordem do imperador Diocleciano por não se curvarem diante dos deuses pagãos. Uma tradição diz que foram alvejados por dardos, mas miraculosamente os dardos se desviaram deles, por isso depois foram decapitados12. “O Passio descreve-os como sendo queimados, apedrejados, serrados, e finalmente decapitados13, mas isto é pura lenda14” (Cosmas…, 1967, p. 361, tradução livre). Outra tradição conta que eles foram atirados de sobre um despenhadeiro. “Seus restos mortais, segundo consta, encontram- se em Ciro na Síria, repousando numa basílica a eles consagrada. Da Síria o seu culto alcançou Roma e dali se espalhou por toda a Igreja do Ocidente” (Cosme…, 2013, s/p). Depois, no século VI, uma parte das Relíquias foi levada a Roma e está na igreja que adotou seus nomes. “Outra parte foi guardada no altar-mor da igreja de São Miguel, em Munique, na Baviera” (Encyclopedia…, 1997, p. 449).

Embora muitas lendas tenham sido agregadas a história de seu martírio, podemos acreditar que tenham realmente sofrido muitas torturas15, conforme afirma Foxe (2005, p. 26):

Os tiranos […] não se contentavam apenas com a morte […]. Tudo o que a crueldade da invenção do homem pudesse conceber para castigar o corpo humano era posto em prática contra os cristãos […] os seus corpos eram amontoados e junto a eles deixavam cães para guardá-los a fim de que ninguém pudesse vir dar-lhes sepultura.

Mas a ênfase dada nos relatos da igreja sobre a intensidade do sofrimento por que eles passaram mostra a clara intenção de impressionar os fiéis. No Martirológio Romano (Vaticano, 1954, p. 222), sobre o dia 27 de setembro, lê-se sobre eles:

Em Egéia, o natalício dos santos irmãos mártires Cosme e Damião, que, com o auxílio de Deus, aturaram muitos tormentos, grilhões, cárceres, águas, fogueiras, cruzes, pedras, e flechas, antes de serem degolados na perseguição de Diocleciano. Conta-se que, com eles, padeceram três irmãos seus: Ântimo, Leôncio e Euprébio.

Conforme Danieloo e Marrou (1966, p. 400, 401), “Nos anos que seguem ao Concílio de Éfeso16, desenvolve-se o culto, até então estritamente local dos Santos Cosme e Damião”. Assim, o desenvolvimento dessa devoção segue o grande crescimento do culto aos mártires, ocorrido com o fim das grandes perseguições.

Conforme a historiadora Ignez Aquiar o culto aos irmãos foi introduzido no catolicismo pelo papa São Félix que mandou trazer os corpos dos santos para Roma, colocando-os no cemitério da igreja de Santa Cecília, dando início à veneração dos santos na Itália e por toda a Europa. A fé dos devotos nos santos gêmeos era tanta, que apareceu uma relíquia curadora – o óleo de São Cosme e Damião, cuja distribuição nas igrejas católicas predominou até 1780. Como ritual para curar-se, […] o doente ia à igreja, expunha a parte afetada diante da imagem junto ao altar dos santos, uma rezadeira esfregava o óleo no local doente, rezando: Per intencessionem beati Cosmi, liberetabomni malo. Amém, destaca a pesquisadora. (Aquiar apud Pernambuco…, 2011, s/p).

O óleo também serviria para dar filhos a mulheres estéreis (Basacchi, 2003, p.8

O culto na Europa e a Basílica de Cosme e Damião em Roma

Ainda que seja difícil precisar uma data de início do culto, “Sabemos que o culto aos dois irmãos é muito antigo, pois no século V já existiam escritos sobre eles” (Basacchi, 2003, p. 8). Conforme o Dicionário Patrístico (Di Berardino, 2002, p. 347), “Teodoreto de Ciro (458 d. C.) é o primeiro a falar do culto dos santos ‘anárgiros’, culto prestado na cidade sede de seu episcopado”, conforme ele menciona em uma carta, havia, em 434, um local dedicado aos santos em Ciro, no norte da Síria (Harrold, 2007, 28). Harrold (2007, p. 26, tradução livre) considera que:

Sem nenhuma prova histórica dos verdadeiros santos denominados Cosme e Damião, as origens do culto são impossíveis de identificar com absoluta certeza, mas um quadro pode ser construído da evidência proveniente pelas notações litúrgicas, documentos históricos e os primeiros lugares de adoração e as coleções associadas de milagres. Além disso, o rápido alastramento do culto popular obscureceu suas origens17.

A primeira data disponível aos hagiógrafos é, portanto, uma omissão (Harrold, 2007, p. 27). Mas sabe-se que “os santos doutores eram certamente conhecidos bem o bastante no início do século quinto para um santuário ter sido construído em honra deles18” (Harrold, 2007, p. 28, tradução livre). A autora segue citando várias construções feitas aos gêmeos e, então, levanta uma hipótese:

[…] dentre estas primeiras dedicações é possível levantar a hipótese de um ponto geográfico inicial para o culto […] há alguma evidência apoiando a crença na existência da tumba dos dois na região de Ciro, no norte da Síria de uma data antiga”19 (Harrold, 2007, p. 30, tradução livre).

Daí, a “adoção dos santos em muitos lugares seguiu rapidamente. Por exemplo, por meados do século V, ao mínimo duas igrejas dedicadas aos SS. Cosme e Damião tinham sido erguidas em Constantinopla20” (Harrold, 2007, p. 28, tradução livre).

Porém, como se sabe, há uma basílica que o “papa Félix IV mandou construir em honra deles no Foro Romano […]. Da Síria o seu culto alcançou Roma e dali se espalhou por toda a Igreja do Ocidente”, sendo que com a “meta mais de turistas que de devotos, pelo esplêndido mosaico que lhe decora a abside” (Cosme…, 2013, s/p). Assim, a Basílica de SS. Cosme e Damião em Roma21 é importante para o estudo do desenvolvimento e expansão da devoção. Teodorico, o Grande, rei dos Ostrogodos e a sua filha Amalasunta, doou ao papa Félix IV, em 527 d. C., a biblioteca do Templo da Paz (Bibliotheca Pacis) e também uma parte do Templo de Rómulo. Félix IV uniu os dois edifícios e criou a basílica dedicada aos dois santos gregos Cosme e Damião, um contraste ao culto pagão a Castor e Pólux, outrora adorados num templo situado no Fórum Romano (Basilica…, s/d)22. A fundação da igreja está descrita no LiberPontificalis:

“Aqui ele erigiu a basílica dos Santos Cosme e Damião no lugar chamado Via Sacra, perto do templo da cidade de Roma”(apud Harrold, 2007, 34, tradução livre)23.

Como coloca Harrold (2007, p. 34, 35), não se sabe as razões exatas porque essa igreja foi construída nessa área, mas podem-se levantar algumas especulações. Aliás, a área em que foi construída a Basílica não era populosa. No começo do quinto século mostrava-se interesse pelos santos orientais (uma igreja à Santa Anastácia é dedicada também nessa época). Acreditamos que é bom o argumento de que a igreja intencionava competir e combater cultos pagãos de cura que ocorriam na mesma área. “A locação da igreja, no lado oposto do fórum para os centros devocionais dedicados a Dioscuri e Asclépio, pode ter intentado providenciar uma alternativa cristã a  estes lugares” 24 (Harrold, 2007, p. 35, tradução livre).

O culto de Cosme e Damião em Portugal

Augusto da Silva Carvalho, em 1928, escreveu O Culto de Cosme e Damião em Portugal e no Brasil – História das Sociedades Médicas Portuguesas. Segundo ele, a devoção a esses santos em Portugal está muito  ligada ao  fato das confrarias se constituírem naquele país principalmente reunindo pessoas de uma mesma profissão em volta de um santo protetor. A escolha pelos médicos dos santos Cosme e Damião como patronos entre tantos outros santos médicos (Carvalho faz uma longa lista) deve-se ao fato de que eles, além de terem sido médicos, foram santos. Por isso, para Carvalho, acompanhar essa devoção em Portugal termina por desembocar em falar da história das sociedades médicas.

Conforme Carvalho (1928, p. 3), “Nos séc. XII e XIII o culto dos dois santos espalhou-se pela Europa Central e Ocidental”. Como padroeiros dos médicos, nota-se que o prestígio da medicina e dos santos estão relacionados. Carvalho (1928, p. 7) nota que “Na Itália o culto dos dois irmãos foi muito extenso”, extensão relacionada “a alta consideração que na Itália tinham pelos médicos”. Assim, a manutenção do culto dos santos e crescimento por obra de confrarias não é algo peculiar ao país lusitano.

Por serem padroeiros dos médicos, um dos materiais para pesquisa dessa devoção em Portugal é um tanto inusitado: os livros de medicina. “Nos livros de medicina publicados em Portugal encontram-se muitas referências aos patronos dos médicos e algumas vezes até esses livros lhes foram dedicados” (Carvalho, 1928, p. 17). Contudo, estudar em Portugal esse culto a partir da devoção às relíquias não é tão promissor porque Portugal é “muito pobre em relíquias dos dois santos” (Carvalho, 1928, p. 15).

Conforme Carvalho (1928, p. 9), “Em Portugal o culto dos dois santos data dos primeiros tempos da monarquia, ou melhor, começou antes da constituição do nosso reino”. Vestígios disso são quadros, monumentos e documentos, incluindo testamentos onde o falecido deixava alguma imagem de santos para um herdeiro. Devoção realmente muito antiga, já em 568, numa freguesia de Azar ou Azere, “no actual concelho dos Arcos de Val houve um mosteiro de frades bentos dedicado a Cosme e Damião” (Carvalho, 1928, p. 21, sic). Em Portugal também “Foi uso em tempos dar a gémeos os nomes dos dois santos” (Carvalho, 1928, p. 17), uso que continua no Brasil. Parece mesmo que os pais portugueses destinavam os filhos à medicina desde o berço dando-lhes o nome desses santos, e “Algumas vezes os médicos e cirurgiões escolhiam para seus filhos os mesmos nomes” (Carvalho, 1928, p. 18), demonstrando não só sua devoção aos santos, mas o desejo de que os filhos seguissem na mesma devoção. Assim, uma família de médicos seria também uma família de devotos.

No entanto, a veneração dos patronos dos médicos não é encontrada somente nos grandes centros, onde haveria concentração tanto de médicos como dos cursos de medicina, mas também “nas mais humildes aldeias, em tôscas e pobres capelas, onde os oragos são representados por ingénuas imagens, em que os sapateiros de província consubstanciaram as lendas e tradições do povo humilde daqueles lugarejos” (Carvalho, 1928, p. 20, sic). Assim, outros profissionais responsáveis pela popularidade dos santos são os sapateiros, que se não têm o mesmo prestígio que os médicos estão mais próximos do povo das aldeias do que aqueles.

Carvalho segue em seu livro listando várias localidades, pequenas aldeias, com nomes dos gêmeos ou nomes derivados dos deles (Cosmode, por exemplo), assim, ele nos mostra que a toponomia e a antroponomia são estudos importantes para acompanhar a expansão da devoção, o que serve certamente também para o caso brasileiro. Aliás, “No Brasil ha várias localidades com o nome dos dois mártires” e “Nos nomes de homens tambêm se encontra vestígio do culto dos mesmos santos” (Carvalho, 1928, p. 54, sic).

A origem do culto de Cosme e Damião em Igarassu e no Brasil

Como sabemos o catolicismo brasileiro é santorial, a ponto de que em “certas casas mais devotas, podemos encontrar folhetos de cordel, quadros ou até imagens reproduzindo a figura de alguns destes santos mais populares” (Mott 1994, p. 3). E catolicismo santeiro brasileiro tem suas origens na religiosidade ibérica, pois “Portugal e Espanha costumavam disputar entre si para saber qual dos reinos ostentava o maior número de santos e beatos reconhecidos” (Mott, 1994, p. 4). Assim, é um tanto natural que a devoção aos santos gêmeos, trazida pelos portugueses, tenha se fixado e se expandido em solo brasileiro.

A Matriz dos Santos Cosme e Damião de Igarassu25, Pernambuco, de 1535, “considerada uma das principais relíquias da arte colonial brasileira” (Basacchi, 2003, p. 9), é a igreja mais antiga26 do Brasil ainda em atividade.

No dia 27 de setembro de 1530, dia dos Santos Cosme e Damião, com a expulsão dos índios, pelos portugueses, das terras margeantes ao Rio Igarassu, inicia-se o processo de ocupação de Pernambuco. A Construção da Vila de Igarassu é, assim, a marca original da cultura portuguesa nesta região do país. (Programa…, 1979, p. 15).

As despesas para sua edificação correram por conta do Capitão Afonso Gonçalves, que, em carta ao rei de Portugal, datada de 10 de maio de 1548, diz textualmente: “Senhor eu quisera os dízimos desta igreja para os gastar nela e em coisas necessárias para o culto divino e ornamentos, pois sou fundador dela e a fiz à minha custa própria” (Pereira da Costa, 1983, p. 248, 249).

A capela primitiva, provavelmente em taipa, ruiu por volta de 1590/94, segundo informação contida no livro “Primeira Visitação do Santo Ofício: Denunciações e Confissões de Pernambuco”. No mesmo sítio e obedecendo a um alvará real datado de 11 de novembro de 1595, foi construída entre 1595/97, uma nova capela, desta vez de pedra e cal. Hoje, após processo de restauração iniciado em 1958, a igreja recuperou suas características primitivas (Prefeitura de Igarassu, 2010, p. 9).

O professor C. Smith, titular da Cadeira de História da Arte na Universidade da Pensilvânia, nos informa: “A igreja paroquial dos Santos Cosme e Damião, fundada em 1535, foi ampliada no século XVIII por ter sido considerada como a mais antiga do Brasil e o dinheiro usado proveio dos cofres reais” (Biblioteca…, 2011, p. 14). Nos Anais Pernambucanos lemos acerca da conquista dessa terra e acerca dessa igreja:

Dêste porto dos marcos, escreve Jaboatão, saiu Duarte Coelho, e deixando esse braço do rio que cerca a ilha de Itamaracá pelo poente e buscando outra vez o mesmo rio para o sul pouco mais de uma légua, navegando por êle acima duas ao mesmo poente ou meio dia, deram fundo e saltaram em terra, não sem grande oposição do gentio, que no alto, à margem daquele porto tinha uma mui forte e abastada aldeia, que depois de larga resistência, combates e pelejas, foram vencidos e afugentados os seus habitadores. Foi a última vitória a vinte e sete de setembro, dia dos gloriosos mártires Santos Cosme e Damião, e a sua memória consagraram logo aquêle lugar, levantando nêle igreja sua e dando princípio a uma povoação, que depois passou a vila com os nomes dos santos mártires, e foi a primeira da capitania de Pernambuco. […] Aquela igreja, com a invocação dos referidos santos, já estava construída em 1548, como se vê de uma carta de Afonso Sanches, seu fundador, dirigida ao rei a 10 de maio daquele ano, e teve depois a categoria de matriz com a criação da paróquia de Igarassu, em época porém desconhecida; mas como se vê da Informação da Província do Brasil, do Padre José de Anchieta, escrita em 1585, já então estava ereta e canônicamente provida […].(Pereira da Costa, 1983, p. 170-176, sic).

Num dos painéis27 da igreja28 retratando a vitória sobre os índios caetés lê-se:

Vencidos os índios pelos Portuguezes em o dia dos Santos Cosme e Damião, em reconhecimento de tão grande benefício, no mesmo lugar da vitória, que he este de Iguaraçú, fundarão logo este templo, o primeiro que houve em Pernambuco, e o consagrarão aos gloriosos Santos, d’onde forão sempre continuas suas victorias e maravilhas, e debaixo da proteção dos mesmos Santos fundarão esta villa, que também foi a primeira que houve (Igreja…, 1729, s/p, sic).

Augusto da Silva Carvalho (1928), porém, no seu O Culto de S. Cosme e S. Damião em Portugal e no Brasil, não faz nenhuma referência a essa igreja, o que é uma grande falha em sua pesquisa, que a respeito do culto desses santos em Portugal é tão rica de detalhes. Uma das riquezas da obra de Carvalho, no entanto, sobre essa devoção no Brasil, é recuperar a memória da existência de confrarias dedicadas aos gêmeos. Conforme ele, as confrarias “constituíram-se e mantiveram-se durante muito tempo com a designação do santo patrono de cada profissão” (Carvalho, 1928, p. 1).

A escolha dos santos gêmeos para serem os patronos dos médicos no meio de tantos santos que também se dedicaram a medicina (entre os quais S. Lucas, evangelista) explica- se por serem eles mártires. Por extensão, se tornaram santos de todos profissionais da área da saúde. Interessante terem sido tomados também como padroeiros dos sapateiros. Jaime Sodré, em vídeo a TVE Bahia, explica que isso se deve a eles, como médicos, terem feito botas de funções ortopédicas (na azulejaria portuguesa do interior da capela do Convento de Santo Antônio em Igarassu, há a figura deles cuidando da perna de um homem usando desse artifício). Acreditamos que também se deva a associação feita entre Cosme e Damião e Crispim e Crispiniano29, mártires também do século III, patronos dos sapateiros devido a um trocadilho feito entre seus nomes e a palavra grega para sapatos (Di Berardino, 2002, p. 358).

Diferente de Portugal, no Brasil não perecia ter havido confrarias dedicadas a Cosme e Damião, já que o autor não encontrara memória30 delas na população que investigara; “no entanto existem documentos que provam sua existência” (Carvalho, 1928, p. 56). Trata-se dos documentos do Santo Ofício referentes a Manuel Mendes Morforte e Francisco de Siqueira Machado. O primeiro veio à baía em 1698, e lá se tornou irmão da Confraria de S. Cosme e S. Damião e mandou dourar o retábulo da capela desses santos. O segundo, cristão novo, natural do Rio de Janeiro, para provar sua crença na religião católica, lembra, durante o interrogatório, que quando no Rio de Janeiro estava quase extinta a irmandade dos gêmeos, ele que se esforçou para que ela se restabelecesse (Carvalho, 1928, p. 56,57). Em entrevista, o professor Jorge Barreto, diretor do Museu Histórico de Igarassu, afirmou-nos haver nas dependências do Museu, onde funciona o Departamento de Pesquisa Histórica, uma prestação de contas, datada de 1854, da Irmandade de São Cosme e Damião, já dando sinais de falência. Segundo ele, a Irmandade não alcançou a República31.

No Rio de Janeiro32 pareceria “haver uma devoção por estes santos na Igreja de Gonçalo Garcia e S. Jorge, sita na Praça da República. Mas noutros estados a devoção é mais viva e sobretudo na população portuguesa é conservada como grande amor” (Carvalho, 1928, p. 57). É na Bahia, contudo, onde a devoção é mais intensa, onde “não ha casa de gente do povo que não tenha as imagens dos santos, muito tóscas e ingénuas” (Carvalho, 1928, p. 58, sic). Em Salvador, a devoção aparece ligada ao candomblé, onde se distribui o caruru, iguaria feita de quiabo e camarão. Como explica o professor Jaime Sodré (apud Caruru…, 2012), por serem vistos como meninos nas religiões afro, Cosme e Damião têm uma ligação muito especial com os orixás, pois “não tem orixá que não vá ouvir o canto de um menino”. Na zona rural da Bahia, como mostra o documentário Bahia Singular e Plural (Cosme…, 2012), é comum a prática do “Lindro Amor”, quando homens e mulheres saem33 de casa em casa cantando, usando chapéus enfeitados com folhas de seda, e duas crianças à frente levando uma caixa enfeitada contendo a imagem dos santos e flores, para arrecadar donativos (dinheiro, mantimentos, velas…) para fazer a festa.

Como frisamos, a devoção foi trazida ao Brasil de Portugal, onde em muitas de suas localidades “os santos eram invocados para proteger os que faziam longas viagens”, como a devoção aqui chegou “pelos que os tinham como patronos dos navegantes […] o seu culto se radicou sobretudo na beira-mar” (Carvalho, 1928, p. 58). Devoção trazida pelos portugueses e que se espalhou pelo litoral, depois se interiorizou com o garimpo. Os negros eram a grande “máquina” produtiva do garimpo, e, reduzidos a “coisa”, tinham que – como forma de resistência cultural – “sincretizar seus orixás com os santos católicos que lhe foram impostos” (Araújo, 2010, p. 2). Sincretismo esse que perdurou até os dias de hoje, fazendo parte da religiosidade popular do povo brasileiro.

Conclusão

Como no início deste texto, gostaríamos de novamente lembrar a literatura de cordel do Frei Urbano de Souza (1991, p. 23):

É religiosidade
De roupagem popular
Espiritualidade
Com certeza aí está
Toda a criatividade
De nossa modernidade
Muito tem a escutar

O que achamos importante destacar, ao chegar agora ao final desse texto, é que a devoção a Cosme e Damião, tão antiga, como mostramos, no Brasil ainda permanece viva, principalmente na religiosidade popular.

Notas:

Notas:

1 Texto referente a uma comunicação apresentada na 2ª Semana de Ciência da Religião da UFJF realizada entre os dias 16 e 19 de setembro de 2013.

2 Doutorando em Ciência da Religião pela UFJF. Bolsista CNPq

3 Interessante que Acta e Passio sejam atribuídos como os “verdadeiros” nomes de Cosme e Damião.

4 Foxe escreve de dentro do seio protestante, assim, é claro que ele assume o pensamento de o protestantismo é o verdadeiro herdeiro da fé dos mártires, por isso, ele inclui no seu “livro dos mártires” nomes como os de William Tyndale, John Wyclif e John Huss.

5“Para nuestro objeto es importante notar uma formalidade que no faltaba em ningún processo: las actas”.

6 “Las actas de los mártires no son otra cosa que la transcripcion exacta, o poco menor, de los procesos verbales redactados por los paganos y conservados em los archivos oficiales, transcripción que los cristianos reprocuraban por diversos médios, por ejemplo, la compra a los agentes del tribunal”

7“era objeto de trampa e falsificación”

8 Conforme Cacciatore (1988, p. 141) o termo advém do iorubá: “ìbi” – parto; “èji” – dois. A Enciclopédia Barsa (Encyclopedia…, 1997, p. 449) informa que “No Rio Grande do Sul, os Ibejis são denominados Beifes”.

9 Conforme Figueiredo (1953, p. 8), eles se dedicaram a curar não apenas os homens, mas também os animais.

10 Estes são “O Liberorationum visigodo, dos inícios do séc. VIII, o sacramentário Leonino, o Gregoriano de Pádua, o Calendário de Nápoles” (Di Berardino, 2002, p. 347).

11 Já “O sinaxário de Constantinopla contém a 1º de julho três pares de santos homônimos”, ao passo que numa paixão grega sua data aparece como 25 de novembro (Di Berardino, 2002, p. 347).

12 Na imaginação do poeta Frei Urbano de Souza (1991, p. 18), eles morreram abraçados: “Eles então se abraçam/ No auge da santidade/ A Deus do céu adoraram/ Em espírito e em verdade”. Lembrando a clássica distinção aristotélica entre poesia e história, como poeta, ele tem o direito de cantar o que poderia ter sido, diferente do historiador, que tem o dever de contar o que foi.

13 Um dos milagres dos santos doutores teria sido que após serem decapitados, a cabeça deles voltou a se encaixar sobre o pescoço. Esse milagre seria para gente “não perder a cabeça”, ou seja, não perder o juízo.

14 “The Passio describes them as being burnt, stoned, sawed, and finally decapitated, but it is pure legend”

15 Harrold (2007, p. 26) propõe dividir o estudo sobre esses santos entre a tradição latina e bizantina, conforme Harrold (2007, p. 28), no Ocidente desenvolveram-se menos lendas do que na tradição do Oriente.

16 O Primeiro Concílio de Éfeso foi realizado em 431 na Igreja de Maria em Éfeso, na Ásia Menor. Foi convocado pelo imperador Teodósio II e debateu sobre os ensinamentos cristológicos e mariológicos.

17“With no historical proof of actual saints named Cosmas and Damian, the beginnings of the cult are impossible to identify with absolute certainty, but a picture can be built up from the evidence provided by liturgical notices, historical documents and the earliest locations of worship and associated collections of miracles. The rapid spread of the popular cult further obscured its origins”.

18 “doctor saints were certainly known well enough by the early fifth century for a sanctuary to have been built in their honour”

19 “From amongst these early dedications it is possible to hypothesize a geographic starting point for the cult (…) there is quite a bit of evidence supporting the belief in the existence of the tomb of the saints in the region of Cyrrhus in northern Syria from an early date”.

20“The adoption of the saints in many places quickly followed. For example by the mid fifth century at least two churches dedicated to SS. CosmasandDamianhadbeenbuilt in Constantinople.”

21                       Há                       várias                       imagens                          disponíveis         em:

<http://www.franciscanfriarstor.com/archive/theorder/Basilica/index.htm>. Acesso em 21 nov. 2014.

22 As pinturas e o texto desta página da internet são a reprodução permitida do livro The Basilica of Santi Cosma e Damiano e é propriedade da FranciscanFriars.

23″Hic fecit basilicam sanctorum Cosmae et Damiani in urbe Roma, in loco qui appellatur II Via Sacra, iuxta templum urbis Romae.”

24“The location of the church, on the opposite side of the forum to devotional centres dedicated to the Dioscuri and Asklepios, could have been intended to provide a Christian alternative to these places”

25 “A localidade que recebeu o nome de Igarassu, corruptela de Ygara-açu, barco grande, navio, canoa grande, originário dos índios, vem do fato, como escreve Teodoro Sampaio, de ser o porto, desde os primeiros anos da colônia, visitado por barcos que o atingiam com o percurso da maré” (Silva; Alheiros, 1986, p. 10).

26 Silva (2011) haverá de negar essa afirmação advogando em favor da Igreja de Nossa Senhora do Monte em Olinda.

25 “A localidade que recebeu o nome de Igarassu, corruptela de Ygara-açu, barco grande, navio, canoa grande, originário dos índios, vem do fato, como escreve Teodoro Sampaio, de ser o porto, desde os primeiros anos da colônia, visitado por barcos que o atingiam com o percurso da maré” (Silva; Alheiros, 1986, p. 10).

26 Silva (2011) haverá de negar essa afirmação advogando em favor da Igreja de Nossa Senhora do Monte em Olinda.

27 São quatro painéis, todos de 1729: o primeiro retrata vitória sobre os índios caetés, marco da fundação da cidade; o segundo, a construção da Igreja; o terceiro, a invasão e saque de Igarassu pelos holandeses, (ocorrida em 1632, os holandeses ao terem tentado saquear as telhas do telhado da Igreja de Cosme e Damião, teriam sido surpreendidos pela aparição dos santos numa nuvem e, pelo esplendor dos santos, caíram cegos); o quarto painel retrata a peste de febre amarela de 1685 (Igarassu, diferente das cidades suas vizinhas, esteve ilesa a esta peste, o painel retrata várias cidades sendo invadidas pela morte – retratada como tradicionalmente com um esqueleto com uma foice, enquanto em Igarassu os santos, postos nas fronteiras, barram a entrada da morte na cidade. Esses painéis foram transferidos para o Museu Pinacoteca de Igarassu, que funciona no Convento de Santo Antônio, em 1969, para fins de melhor preservação.

28 Não é acessível a todos viajar para Igarassu para conhecer essa igreja, mas é possível “visitar” seu interior         virtualmente   através    de              um                        vídeo                       disponível       em:

<http://www.youtube.com/watch?v=8szLsX1HV2M>. Acesso em 21 nov. 2014.

29 Na Bahia, Crispim e Crispiniano também foram sincretizados com os Ibêjis, por isso, no dia 25 de outubro, dia desses santos, ocorre comemorações como as feitas a Cosme e Damião, porém, com menor intensidade.

30 Seria o caso de perguntarmos quais forças operaram ou contribuíram para que operasse esse esquecimento. Quais razões e circunstâncias motivaram o apagamento das reminiscências?

31 Não pude ter acesso a esse documento porque quando estive em Igarassu (19/09/2013 – 28/09/2013) para minha pesquisa de campo, o acesso ao Departamento de Pesquisa Histórica estava suspenso devido às festividades dos santos. As visitas ao museu aumentam nessa época.

32 No Rio de Janeiro, como o policiamento é feito por duplas de soldados, essas duplas ganharam do povo a alcunha de “Cosme e Damião”, gesto que foi recebido com simpatia pelos policiais, assim “os santos gêmeos tornaram-se também patronos da Polícia Civil da Guanabara” (Basacchi, 2003, p. 9).

33 Já que São Cosme e Damião são vistos como crianças, é natural que eles gostem de passear. Uma das músicas de tradição do “Lindro Amor” chama a dona da casa: “Ô minha senhora/ abra essa porta/ porque São Cosme é tradição/ é coisa nossa”. Como a caixa é levada ao interior da residência ninguém fica sabendo o valor exato que a pessoa depositou, o que evita constrangimento.

Referências

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Disponível                                                                                                         em:

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Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/as-origens-do-culto-de-cosme-e-damiao/

A Transmissão da Cabalá

Por Aryeh Kaplan.

A palavra “Cabala” deriva da raiz hebraica “kabal”, que significa “receber”. O termo implica que é um certo tipo de sabedoria que é recebida.

A Mishná diz: “Moisés recebeu [kibel] a Torá no Sinai e [posteriormente] a transmitiu a Josué, Josué a transmitiu aos Anciãos. Os Anciãos a transmitiram aos Profetas. Os Profetas a transmitiram aos “Homens da Grande Assembleia”. ”

Moisés era o mestre de todos os profetas. Ele entendeu a Torá completamente. Nesse sentido, sua visão profética estava no nível de um vaso aberto que sempre poderia receber mais. Talvez o segredo de Moisés receber fosse, quanto mais ele transmitia, mais ele era capaz de receber. A Mishná diz assim, “Moisés ‘kibel’ Torá” porque ele era o paradigma da cabalá completa e total – receptividade à experiência profética.

A ideia da Cabalá, então, é tornar-se completamente infundida com a Torá e conectar-se com ela em todos os níveis possíveis. Sem a Cabalá, uma pessoa poderia entender a Torá em vários níveis. A única maneira de compreender cada nuance da Torá, no entanto, é através da sabedoria profética contida na Cabalá.

Podemos agora entender o que Moisés “transmitiu a Josué e Josué transmitiu aos Anciãos, etc.” De acordo com a Torá, D’us disse a Moshê que colocasse seu espírito sobre Josué (Nm 27:20). Em outras palavras, Moisés deveria investir Josué com seu próprio espírito de profecia. De acordo com um antigo Midrash, isso incluía os métodos e disciplinas necessários para adquirir profecia. Assim, Moisés transmitiu as chaves para entrar no estado profético a Josué. Essas chaves constituíam a tradição Cabalística.

Durante todo o período dos Profetas, a Cabala foi guardada pelos mestres profetas e transmitida a discípulos selecionados. Durante este tempo, o Santuário, e mais tarde o Primeiro Templo, serviu como ponto focal para toda a experiência profética. Quando o Templo estava prestes a ser destruído, o profeta Ezequiel teve uma visão que sinalizaria o fim de um período de mil anos de profecia. Esta visão é conhecida como Maaseh Merkava, a Disciplina (ou Funcionamento) da Carruagem. Embora se refira especificamente ao capítulo de abertura do livro de Ezequiel, o termo Maaseh Merkava também é uma denominação geral para toda a tradição Cabalística.

Na época da construção do Segundo Templo, as chaves da tradição da Cabala haviam sido confiadas aos últimos profetas do povo judeu, bem como aos seus maiores sábios. Juntos, eles constituíam os 120 Homens da Grande Assembleia. Foi este corpo de sábios que formulou a Mishna no Tractate Chagigah, afirmando: “O Maaseh Merkava pode ser ensinado apenas a estudantes individuais [um de cada vez], e eles devem ser sábios, compreendendo com seu próprio conhecimento.” Eles assim asseguraram a transmissão contínua da tradição da Cabala, restringindo suas práticas ao menor círculo possível de mestres. Fora desse círculo essas práticas permaneceriam quase totalmente desconhecidas. Essa política continuou até depois da destruição do Segundo Templo em 70 EC. Foi só então que as coisas começaram a mudar.

Após a revolta de Bar Kochba em 132-135 EC, as coisas pioraram drasticamente. Nessa época, os romanos se empenharam em arrancar os últimos vestígios da Torá do povo judeu. As perseguições de Adriano atingiram tal crescendo que todos os mestres da Torá foram condenados à morte. Este foi o tempo dos Dez Mártires, entre os quais estavam os transmissores finais da tradição Cabalística.

Como resultado dessas perseguições, a tradição oral do Sinai, em particular a tradição da Cabala, corria o risco de ser esquecida. Nesta época, Rabi Akiva (50-135 EC) recebeu sua tradição. Ele foi considerado o maior sábio de sua geração, um mestre da Torá revelada, bem como da oculta. Rabi Akiva possuía a tradição Merkava (Carruagem). Muitas fontes atribuem a Rabi Akiva a autoria do Sefer Yetzira (Livro da Formação), um dos textos cabalísticos mais antigos e obscuros. Assim como a grande maioria do Talmud traz a marca do rabino Akiva, o mesmo acontece com o Sefer Yetzira. Foi Rabi Akiva quem transmitiu esses ensinamentos de forma bem definida.

Neste momento, Rabi Nehunia ben Hakanah e seu discípulo, o Sumo Sacerdote Rabi Yishmael ben Elisha, escreveram o Sefer Bahir (Livro da Iluminação) e o Pirkey Hekhalot Rabatai (O Livro Maior das Câmaras Divinas). Esses dois sábios redigiram as tradições que receberam para preservá-las do esquecimento durante os tempos violentos em que viveram. Comentando a Mishná citada acima, Rashi (Rabi Shlomo Yitzchaki-Yarchi 1040-1105) afirma que um dos principais textos para o estudo de Maaseh Merkava foi o Pirkei Hekhalot Rabatai. Este texto contém exercícios meditativos reais, disciplinas e instruções para entrar no estado profético.

O Zohar (Livro do Esplendor), um dos principais pilares da Cabala, foi ensinado por Rabi Shimon bar Yochai por volta de 135 EC. tradições reveladas e ocultas. Durante os treze anos que Rabi Shimon passou escondido em uma caverna com seus discípulos, ele ensinou o que havia recebido de seus professores. Durante este tempo também, ele recebeu Inspiração Divina (Ruach HaKodesh) e mereceu a revelação do profeta Elias. Havia uma tradição de que se a Torá Oral fosse ameaçada a ponto de ser esquecida, era permitido colocá-la por escrito. Portanto, todos os mestres, Rabi Akiva, Rabi Nehunia, Rabi Yishmael e Rabi Shimon, abriram um precedente. Eles começaram a escrever partes da tradição oral. Apesar disso, no entanto, todos esses textos não receberam forma final por várias gerações depois desses professores. Esta seria a tarefa de seus discípulos.

Todos esses textos principais, o Yitzira, o Bahir, o Hekhalot Rabatai, o Zohar e as várias partes da Torá revelada, continham os ensinamentos básicos que foram transmitidos pelos profetas e sábios de Moisés. Chegou a hora de comprometer esses ensinamentos por escrito. Curiosamente, todas essas obras são obscuras a ponto de levantar a questão: o que foi ganho? O que foi escrito permaneceu, como a Torá em seu tempo, um livro fechado. As chaves deveriam permanecer orais. Apenas o suficiente havia sido escrito para garantir que apenas alguém familiarizado com a tradição entenderia. Todo esse corpus de escritos, desde a compreensão prática dos mandamentos até a mais sublime experiência da profecia, permaneceu um livro fechado. No entanto, a tradição da Cabala foi salva.

Mencionamos que um dos principais pilares da Cabala era o Zohar, da escola de Rabi Shimon bar Yochai. Foi sobre os ensinamentos do Zohar que os dois maiores cabalistas dos tempos modernos construíram seus sistemas inteiros: Rabi Moses Cordovero (falecido em 1570), conhecido como Ramak, e Rabi Isaac Luria (1534-1572), universalmente referido como o Ari, um acrônimo para “Elo-hi Rabi Yitzchak”, “O Divino Rabi Isaac”.

O Zohar é opaco. A principal relação entre os escritos do Ari (Kitvei Ari) e o Zohar é que sem os ensinamentos do Ari o Zohar não faz sentido algum. Você poderia estudar o Zohar, que é um texto muito poético, mas não pode detectar nenhum sistema ou estrutura. Uma vez que você conhece o Kitvei Ari, todo o Zohar se torna um livro aberto.

A principal obra do Kitvei Ari é o Etz Chaim (“Árvore da Vida”). Este trabalho expõe a fundamentação teórica da Cabala. Para quem domina o conteúdo desta obra, o resto é essencialmente revelado. Então, o Pri Etz Chaim (Fruto da Árvore da Vida) e Sha’ar HaKavanot mostram como aplicar os vários ensinamentos do Etz Chaim a todos os tipos de situações diárias; meditações quando você coloca tzitzit ou tefilin, quando você reza ou quando você come matsá. Eles também mostram como desenvolver técnicas meditativas baseadas nos ensinamentos do Ari.

Em seguida, vêm as obras conhecidas como Shemona Shearim (Oito Portais). O primeiro portal, Shaar HaHakdamot, (Portal das Introduções), cobre o mesmo fundamento teórico do Etz Chaim. O segundo é Shaar Maamarei Rashbi, o Portal dos Ensinamentos Zoharicos; o terceiro é Shaar Maamarei Chazal, o Portal dos Ensinamentos Talmúdicos, o quarto é Shaar HaPesukim, o Portal dos Versículos Bíblicos; o quinto é Shaar HaMitzvot, o Portal dos Mandamentos; o sexto é Shaar HaKavanot, o Portal das Meditações; o sétimo é Shaar Ruach HaKodesh, o Portal da Inspiração Divina, que é uma recapitulação geral e descreve como usar o sistema do Ari como uma disciplina meditativa. De muitas maneiras, o Shaar Ruach HaKodesh é a chave para todo o Kitvei Ari, porque todos os portais anteriores lidam com a teoria, enquanto o Shaar Ruach HaKodesh ensina como colocar isso em prática. O oitavo portal é Shaar HaGilgulim, o Portal das Reencarnações.

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Fonte:

The Transmission of Kabbalah – The study of Kabbala today is a tradition dating back to the most ancient of Jewish sages.

By Aryeh Kaplan.

https://www.chabad.org/kabbalah/article_cdo/aid/380324/jewish/The-Transmission-of-Kabbalah.htm

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cabala/a-transmissao-da-cabala/

Entendendo as Três Trilogias Tifonianas

O Nono Arco (The Ninth Arch), que inclui o Livro da Aranha (Book of the Spider – OKBISh), é o volume final de uma série de Trilogias que traçam o surgimento em tempos históricos de um antigo corpo de doutrina oculta conhecido como a Tradição Tifoniana. A fim de compreender plenamente seu propósito e conteúdo, o Nono Arco deve ser escaneado contra o pano de fundo maior sobre a qual é pintado. Tal abordagem facilitará a compreensão dos Oráculos de OKBISh e seus comentários.

Como uma ajuda adicional para focalizar características salientes da Tradição, a narrativa Against the Light, ‘Contra a Luz’ (Starfire Publishing, 1997) do autor deve servir como uma “nota de rodapé” útil e explicativa para as circunstâncias existentes na época em que o OKBISh foi “recebido”. Os Oráculos foram comunicados audivelmente, e ocasionalmente visualmente, a vários membros da New Isis Lodge, a Loja Nu-Ísis (1955-62) e em certos estágios do ritual mágico. A Corrente que gerou o material começou, esporadicamente, já em 1939, com o movimento inicial de uma transmissão que se desenvolveu ao longo dos anos no texto conhecido como Wisdom of S’lba, A Sabedoria de S’lba, (ver Outer Gateways, Portais Externos, Skoob Books Publishing, 1994). Em 1945, Wisdom of S’lba, – então em sua fase nascente – foi reconhecida por Aleister Crowley como uma comunicação autêntica. A partir dessa época, a Inteligência Informante passou a completar o Wisdom, e passou a produzir a série maciça de Oráculos apresentada em O Nono Arco. O modo de recepção foi descrito na Introdução. O método de documentação confirma além do sofisma a validade da cabala em série, como usada anteriormente nas análises de Wisdom. O padrão ricamente complexo de correspondências mágicas, em ambos os casos, provou ser de valor inigualável na determinação do contato genuíno com forças ocultas possuídas de Conhecimento e Presciência a respeito de eventos terrestres importantes. Que o padrão reflete o contato direto com uma Gnose Tifoniana indefinidamente antiga e sempre nova, é demonstrado pela aplicação de uma exegese cabalística incansável e rigorosa, como registrado nos comentários.

Para os leitores interessados em relações significativas entre os conceitos Numérico (físico) e Mágico-Místico (metafísico), O Nono Arco contém uma exaustiva enciclopédia da Tradição Tifoniana. Mas, além das considerações sobre gematria, os Oráculos de OKBISh esboçam Eventos que provavelmente passarão pelo planeta Terra dentro da vida de muitos leitores do livro; e – para indivíduos que são capazes de interpretar os Oráculos em termos relativos a seu próprio universo mágico – eles emitem avisos sobre os perigos que estão à frente daqueles despreparados para invocar o Sinal de Proteção contra a onda vindoura das Forças Exteriores dispostas a assumir o controle do planeta. Agora, na virada de um milênio, parece apropriado liberar este Conhecimento.

O lançamento de “O Nono Arco” foi realizado na noite de 21 de dezembro de 2002 na sala de eventos do The Plough Inn, Museum Street, Londres. O lançamento começou às 18h, e pouco depois foi servido um buffet de recepção. Michael Staley explicou que Kenneth não pôde comparecer ao lançamento, e assim, na ausência do tocador de órgão, as pessoas teriam que se contentar com o macaco naquela noite. Cópias da edição padrão de “O Nono Arco”, assinado por Kenneth e Steffi Grant especialmente para o lançamento, estavam à venda.

Às 19h15, Michael deu a primeira de duas palestras, uma breve visão geral do trabalho de Kenneth Grant antes de “O Nono Arco”. A palestra incluiu trechos de vários livros de Grant, e estes foram lidos por Caroline Wise.

O texto desta palestra, que foi bem recebido, está a seguir:

As Trilogias Tifonianas

por Michael Staley

As Trilogias Tifonianas consistem em nove volumes, distribuídos em trinta anos, desde o primeiro livro, O Renascer da Magia, em 1972, até o último livro, O Nono Arco, publicado agora em 2002. Embora cada volume seja completo em si mesmo, tomados em série, eles representam um corpo de trabalho em desenvolvimento.

Antes de considerar esta série com mais detalhes, precisamos saber algo de suas origens. Os anos formativos de Grant são os anos da New Isis Lodge, o grupo mágico que ele fundou no início dos anos 50, cujo corpo principal de trabalho durou de 1955 a 1962, e que se dissolveu alguns anos depois. Quando jovem, Grant se interessou apaixonadamente pelo ocultismo, e leu amplamente obras de mitologia, religião comparada, misticismo e magia. No decorrer de seus estudos, ele encontrou o trabalho de, entre outros, Aleister Crowley e Austin Osman Spare, e foi atraído por ambos. Em 1944 ele iniciou uma correspondência com Aleister Crowley, e viveu com Crowley por um curto período em 1945 como seu “chela” ou discípulo, cantando para seu jantar e atuando como secretário. Durante este tempo, Grant recebeu instruções orais de Crowley. Ele também recebeu o retrato de Lam de Crowley, ao qual ele se sentiu atraído ao vê-lo pela primeira vez no portfólio de Crowley, e que Crowley finalmente lhe deu em agradecimento pela ajuda durante uma noite particularmente ruim para sua saúde. Em 1991, Grant publicou um livro de memórias de sua associação com Crowley, intitulado Remembering Aleister Crowley (Relembrando Aleister Crowley). Trata-se de um livro de memórias afetuoso, mas que não se coíbe de retratar uma relação que às vezes era difícil. Crowley era velho, doente e frágil, e muitas vezes não era muito generoso. No entanto, Grant aprendeu muito com Crowley. Há uma tradição de “darshan”, de receber iniciação de estar na presença do guru; que assim como uma imagem diz mais do que qualquer quantidade de palavras, há uma compreensão e uma percepção que é passada de adepto para adepto que não tem preço.

Um pouco depois da morte de Crowley em 1947, Grant finalmente conheceu Austin Osman Spare. Este foi um relacionamento mais longo, que durou até a morte de Spare em 1956. E também, a julgar pelo relato publicado por Kenneth e Steffi em seu Zos Speaks! (Zos Fala!) em 1998, bem como pelo anterior Images & Oracles of Austin Osman Spare (Imagens e Oráculos de Austin Osman Spare), publicado em 1975, foi uma relação mais profunda, talvez menos formal. É minha impressão, como leitor da obra de Grant, que Spare teve o maior impacto sobre ele. O trabalho de Spare é certamente mais fugidio que o de Crowley, mas está de alguma forma mais próximo da fonte da consciência na imaginação cósmica. Um relato da relação entre os Grant e Spare é dado em Zos Speaks! Foi em grande parte devido aos apelos dos Grant que Spare reconstruiu muito do Alfabeto do Desejo e outros aspectos de seu sistema que ele havia esquecido em grande parte ao longo dos anos, e se comprometeu muito mais com o papel.

Durante o início dos anos 50, um círculo de ocultistas se agrupou em torno de Grant que formou o núcleo de um grupo de trabalho, a Loja Nu-Ísis. Vários dos membros haviam sido membros da O.T.O. sob Crowley – Kenneth e Steffi, e é claro; um peleiro e alquimista, David Curwen; e uma mulher a quem Grant se refere por seu nome mágico Clanda. O próprio Spare nunca foi membro da Loja Nu-Ísis, preferindo trabalhar sozinho. Ele apoiou os Grant em seus esforços, e projetou vários cenários para a Loja. Os Grants descreveram a Loja Nu-Ísis como uma célula dependente da O.T.O., e ela tinha uma estrutura de grau e um programa de trabalho que devia muito mais à Astrum Argenteum de Crowley do que à O.T.O. como era na época de Crowley. A relação com Curwen também foi fundamental para Grant obter uma cópia de um comentário de um adepto Kaula sobre um texto tântrico, o Anandalahari. Isto deu importantes insights sobre a magia sexual tântrica, aproximando a magia sexual de uma direção muito diferente da de Crowley. A abordagem de Crowley à magia sexual é basicamente solar-fálica, para não dizer que é falo-cêntrica. Ou seja, há grande ênfase na importância das energias sexuais masculinas, mas muito pouco nas energias femininas. Muitas vezes, a parceira feminina é apenas uma taça na qual o mago masculino derrama seu fogo de estrela. O texto Kaula abordou o assunto de uma perspectiva diferente, acentuando o papel dos kalas e como eles variam ao longo do ciclo menstrual.

Os Grants emitiram um Manifesto da Loja Nu-Isis em seu lançamento em 1955, no qual falavam da descoberta de um planeta além de Plutão, a Ísis transplutoniana, e o que ela poderia significar para a evolução da consciência neste planeta. Deixando de lado a questão de existir ou não um planeta neste sistema solar além de Plutão, é certamente óbvio que os Grant não estavam falando sobre a descoberta de um planeta físico. Tal descoberta teria sido mais relevante para uma revista astronômica. Se tivermos em mente que a primeira sephira, Plutão (Pluto), é atribuída a Plutão, então um planeta transplutoniano, seria o “Um Além de Dez”, o Grande Exterior. Grant o expressou assim alguns anos depois, em Aleister Crowley e o Deus Oculto:

“No Livro da Lei, a deusa Nuit exclama: “Meu número é onze, como todos os números deles que são de nós”, o que é uma alusão direta à A.’. A.’., a Astrum Argentum ou Ordem da Estrela de Prata, e seu sistema de Graus. Nuit é o Grande Exterior, representada fisicamente como “Espaço Infinito e as Estrelas Infinitas dali” – ou seja, Ísis. Nuit e Ísis são assim identificadas no Livro da Lei. Ísis é o espaço terrestre, iluminado pelas estrelas. Nuit é o espaço exterior, ou espaço infinito, a escuridão imortal que é a fonte oculta da Luz; Ela também é, em um sentido místico, o Espaço Interno e o Grande Interior.”

Ao longo dos anos de 1959 a 1963, os Grants produziram uma série de monografias, as Carfax Monographs (Monografias Carfax), cada uma sobre um tema diferente. Anos mais tarde, em 1989, estas foram publicadas em um único volume, como Hidden Lore (O Conhecimento Oculto).

Grant não publicou muito sobre os rituais mágicos da Loja Nu-Ísis até agora, mas uma série de anedotas resultantes do trabalho, o que Grant chama de “magicollages”, estão espalhadas por muitos dos nove volumes das Trilogias Tifonianas, principalmente em Hecate’s Fountain (A Fonte de Hécate), publicada há dez anos, em 1992. Há também vislumbres de Trabalhos da Loja na ficção de Grant.

O trabalho subsequente de Grant surge a partir do trabalho feito na Loja Nu-Ísis. Estes anos foram, portanto, extremamente formativos para ele. Antes da Loja Nu-Ísis ele teve um aprendizado extremamente amplo e profundo, assim como sua associação com Crowley e Spare. Entretanto, todas estas influências foram sintetizadas através do trabalho mágico da Loja Nu-Ísis. São as experiências obtidas através destes trabalhos, a iniciação, a percepção, que dão poder ao trabalho subsequente de Grant. É o poço sem o qual o trabalho de Grant teria secado. Sem ele, ele teria se tornado apenas mais um imitador do trabalho de outros – e Deus sabe que já temos o suficiente deles.

A Primeira Trilogia

Um artigo foi publicado por Grant no ‘International Times’ no final dos anos 60, sobre Crowley, no qual ele afirma ter escrito um estudo sobre o trabalho de Crowley e outros, chamado Aleister Crowley e o Deus Oculto. Posteriormente, ele o apresentou aos editores londrinos Frederick Muller, que expressaram seu interesse, mas sugeriram que, devido ao seu tamanho, ele deveria ser dividido em dois volumes. O primeiro volume foi publicado em 1972 como O Renascer da Magia.

O Renascer da Magia é um estudo e uma análise de uma variedade de tradições ocultas que sobreviveram durante muitos milhares de anos, e que agora estão revivendo em novas formas e novos vigor. Em particular a gênese e o desenvolvimento do Culto Draconiano através das Dinastias egípcias são traçados, e contra este cenário mais antigo são examinadas as manifestações mais modernas tais como Blavatsky, Crowley, a Golden Dawn (A Aurora Dourada), Dion Fortune e Austin Osman Spare. É demonstrado que embora sejam manifestações recentes, elas estão enraizadas na corrente mágica muito mais antiga que alimentou e sustentou todos os eflorescentes subsequentes. Incluído como uma placa no livro está uma reprodução do desenho de Lam de Crowley, a primeira vez que foi publicado desde sua publicação original no Blue Equinox (O Equinócio Azul) em 1919.

Isto foi sucedido em 1973 pelo segundo volume, Aleister Crowley e o Deus Oculto. Este é um estudo mais especificamente sobre o sistema de magia sexual de Crowley, amplificado por uma consideração do comentário Kaula referido acima. Há também um capítulo sobre “Nu-Isis and the Radiance Beyond Spare” (Nu-Ísis e a Radiância Além de Spare), no qual Grant se refere à  Loja Nu-Ísis e seu programa de trabalho.

Cults of the Shadow (Os Cultos da Sombra) foi publicado em 1975, e explorou aspectos obscuros do ocultismo que são frequentemente vistos negativamente como “magia negra”, o “caminho da mão esquerda”, etc. De particular destaque é um capítulo sobre o trabalho de Frater Achad e o Aeon de Maat, no qual Grant tem uma visão um tanto céptica das reivindicações de Frater Achad sobre o alvorecer do Aeon de Maat. Posteriormente, Grant veio a mudar sua visão. O livro também continha um par de capítulos sobre a obra de Michael Bertiaux (expoente do Voudon Gnóstico).

A Segunda Trilogia

A segunda Trilogia inicia com Nightside of Eden (O Lado Noturno do Éden), publicado em 1977. Esta é essencialmente uma exploração dos Túneis de Set, que se encontram sob os caminhos da Árvore da Vida. Esta obra foi baseada inicialmente em um breve e obscuro trabalho de Crowley, o Liber 231, publicado pela primeira vez em no Equinox. Este livro consiste em sigilos dos gênios das 22 escamas da Serpente, e os sigilos das 22 células das Qliphoth, e alguns oráculos obscuros. Esta obra evidentemente fascinou Grant, e a exploração destas células das Qliphoth forma a espinha dorsal da obra da Loja Nu-Ísis. Grant tem sido criticado em alguns setores por trabalhar com o que alguns consideram como os aspectos maléficos e avessos da magia. Entretanto, os aspectos mais obscuros da experiência são tão necessários para entender como os aspectos mais claros; é necessário entender ambos.

Em 1980 Grant publicou Outside the Circles of Time (Fora dos Círculos do Tempo), uma obra que cobre uma área extremamente ampla e expõe, para citar a sinopse da capa: “uma rede mais complexa do que jamais foi imaginada: uma rede não muito diferente da visão escura de H.P. Lovecraft das forças sinistras que se escondem na borda do universo”. O livro é mais famoso, talvez, por mostrar a obra de Sóror Andahadna (que mais tarde se tornou Nema, autora de A Magia de Maat), uma Sacerdotisa contemporânea de Maat cuja obra tinha paralelos com a obra de Frater Achad muitas décadas antes. Muitos Thelemitas têm problemas com o Aeon de Maat. No que lhes diz respeito, cada Aeon dura 2.000 anos; estamos no início do Aeon de Hórus, portanto, Maat ainda está longe. Eles farão eco da famosa réplica de Crowley ao jovem Grant: “Maat pode esperar!”. Entretanto, a seguinte passagem de Outside the Circles of Time coloca o assunto sob uma luz muito mais interessante:

“Mitos e lendas são do passado, mas Maat não deve ser pensada em termos de eras passadas ou futuras. Maat está presente agora para aqueles que, conhecendo os ‘alinhamentos sagrados’ e o ‘Portal da Intermediária’, experimentam a Palavra sempre vindo, sempre emanando, da Boca, nas formas sempre novas e sempre presentes que estão sendo geradas continuamente a partir do Atu ou Casa de Maat, o Ma-atu … “

Mas o livro é sobre muito mais. É uma tecelagem potente de uma série de fios aparentemente diversos em uma única, ampla e poderosa corrente. Embora os livros de Grant sejam todos diferentes de seus predecessores, Outside the Circles of Time parecia anunciar um salto para uma dimensão diferente.

Outside the Circles of Time foi o último livro publicado pela (Editora) Muller, e houve uma pausa de 12 anos até 1992, quando a Editora Skoob publicou a Hecate’s Fountain. Grant tinha originalmente concebido isto como um relato dos rituais da Loja Nu-Ísis. No entanto, como muitas vezes acontece, o trabalho tomou um impulso próprio e lançou uma flor bem diferente. O livro ainda era tecido em torno do trabalho da Loja. Entretanto, esta obra é ilustrada como relatos anedóticos de trabalhos específicos, ilustrando em particular o que Grant denomina de “tantra tangencial”, onde um trabalho mágico tem efeitos colaterais curiosos e às vezes alarmantes em desacordo com seu aparente propósito. Grant traça essas anomalias para uma interface catalítica que ele chama de “Zona Malva”, existente entre os domínios do sono sonhador e do sono sem sonhos. Na Zona Malva, há movimentos, verticilos e turbilhões que dão origem a tênues espectros, sonhos, e imagens que entram na consciência e são revestidas pela imaginação.

A Terceira Trilogia

A terceira Trilogia abre com Outer Gateways (Portais Exteriores), publicado pela Skoob em 1994. Este livro continua e amplia alguns dos temas de Hecate’s Fountain. Ele contém um longo relato das vertentes aparentemente contraditórias do Livro da Lei, explora a obra de Crowley em relação à Sunyavada, e tem algumas coisas notáveis a dizer sobre a gematria criativa. No entanto, o seu núcleo é sem dúvida Wisdom of S’lba e os vários capítulos de análise que se seguem. S’lba é uma bela, altamente carregada e rica transmissão recebida durante muitos anos por Kenneth Grant desde o final dos anos 30, a maior parte dela recebida durante os anos da Loja Nu-Ísis.

Há uma grande quantidade de mal-entendidos sobre a natureza das transmissões. Não se trata de simplesmente tirar ditados de uma entidade desencarnada. O contato com o que é chamado de planos internos é muito mais complexo e mais sutil do que isso. Tomemos por exemplo a seguinte nota introdutória de Grant:

“A série de versos intitulados coletivamente a Wisdom of S’lba … não foram escritos em nenhum momento ou lugar em particular, embora o estado de consciência em que foram recebidos fosse invariavelmente o mesmo. O processo foi iniciado já no ano de 1939, quando a Visão de Aossic se manifestou pela primeira vez da maneira descrita em Outside the Circles of Time (capítulo 8). A visão se desenvolveu esporadicamente durante todo o tempo da associação de Aossic com Aleister Crowley e Austin Osman Spare. Mas o aspecto dinâmico do Trabalho, ou seja, a integração da Visão em um todo coerente, ocorreu durante o período de existência da Loja Nu-Ísis.”

O próximo volume, Beyond the Mauve Zone (Além da Zona Malva), estava prestes a ir para a imprensa quando os editores de Grant, a Skoob Publishing, decidiram que não iriam publicar mais nada dele. Nenhuma razão para isto jamais foi dada. O resultado foi que mais alguns anos se passaram até sua eventual publicação, pela Starfire Publishing, em 1999. Beyond the Mauve Zone é, como seu nome sugere, uma consideração mais profunda daquela região entre o sono sem sonhos e o sonho que fecunda a imaginação, e em particular uma consideração de vários métodos de acesso à Zona Malva. Há três capítulos sobre o Ritual Kaula da Serpente de Fogo, dando muito mais material do comentário Kaula iniciado, obtido de David Curwen. Há também uma análise prolongada da Liber Pennae Praenumbra recebida por Sóror Andahadna (A futura Nema), e um relato do trabalho do sérvio Zivorad Mihajlovic Slavinski.

Olhando para estes primeiros oito volumes das Trilogias Tifonianas, podemos ver o quanto o trabalho de Grant mudou, e ainda assim se reintegrou com sua fonte. Por maiores e mais profundos que sejam os volumes anteriores, eles dão poucos indícios da gloriosa floração que é a terceira e última Trilogia. E é o último volume, O Nono Arco, para o qual nossa atenção se volta em seguida.

No entanto, para encerrar esta parte da palestra, há uma passagem de Outside the Circles of Time que sempre achei inspiradora. Ela expressa um conceito que é a essência de grande parte do trabalho de Grant, e o faz de uma forma excepcionalmente bela e intensamente comovente. São os dois parágrafos finais da Introdução a esse livro extraordinário:

“Um último ponto é aqui relevante, e eu o declaro sem desculpas. Não é meu propósito tentar provar nada; meu objetivo é construir um espelho mágico capaz de expressar algumas das imagens menos elusivas vistas como sombras de um futuro Aeon. Isto eu faço por meio de sugestão, evocação e por aqueles conceitos oblíquos e “intermediários” que Austin Spare definiu como “Neither-Neither (Nem-Nem)”. Quando isto é compreendido, a mente do leitor torna-se receptiva ao influxo de certos conceitos que podem, se recebidos sem distorções, fertilizar as dimensões desconhecidas de sua consciência. Para atingir este objetivo, uma nova forma de comunicação deve ser desenvolvida; a própria linguagem deve renascer, reviver e dar uma nova direção e um novo impulso. A imagem verdadeiramente criativa nasce da imaginação criativa, e este é – em última análise – um processo irracional que transcende a compreensão da lógica humana.”

 “É bem conhecido que cientistas e matemáticos desenvolveram uma linguagem críptica, uma linguagem tão esquiva, tão fugitiva e, no entanto, tão essencialmente cósmica que forma um modo de comunicação quase cabalístico, muitas vezes mal interpretada por seus próprios iniciados! Nossa posição não é tão desesperada, pois estamos lidando principalmente com o complexo corpo-mente em sua relação com o universo, e o corpo-aspecto está profundamente enraizado no solo do sentimento. Nossa mente pode não compreender, mas nas camadas mais profundas do subconsciente onde a humanidade compartilha um leito comum, há um reconhecimento instantâneo. Da mesma forma, um mago concebe sua cerimônia em harmonia com as forças que ele deseja invocar, portanto, um autor deve prestar considerável atenção à criação de uma atmosfera adequada para suas operações. As palavras são seus instrumentos mágicos, e suas vibrações não devem produzir um ruído meramente arbitrário, mas uma elaborada sinfonia de reverberações tonais que provocam uma série de ecos cada vez mais profundos na consciência de seus leitores. Não se pode enfatizar ou superestimar a importância desta forma sutil de alquimia, pois é nas nuances, e não necessariamente nos significados racionais das palavras e números empregados, que reside o mago. Além disso, é muito frequentemente na sugestão de certas palavras não utilizadas, ainda indicadas ou empregadas por outras palavras sem relação direta com elas, que se produzem as definições mais precisas. O edifício de uma construção real pode às vezes ser criado apenas por uma arquitetura de ausência, onde o edifício real é ao mesmo tempo revelado e escondido por uma estrutura alienígena assombrada por probabilidades. Estas são legiões, e é a faculdade criativa do leitor – desperto e ativo – que pode povoar a casa com almas. Portanto, este livro pode significar muitas coisas para muitos leitores, e diferentes coisas para todos; mas para nenhum pode significar nada, pois a casa é construída de tal maneira que nenhum eco pode ser perdido.”

…continua em Vislumbres do Novo Arco

 

Fonte: Glimpses Through the Ninth Arch.

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/entendendo-as-tres-trilogias-tifonianas/