Sobre a Alquimia presente na Alma Ancestral Brasileira

“É como se no Brasil desse para fazer uma obra Alquímica, em que você coloca na mesma panela um monte de ingredientes e você trabalha aquilo e no fim há uma metamorfose e surge uma coisa preciosa para fora”

Com esse pensamento e outras metáforas interessantes, Roberto Gambini apresenta nesta palestra sua perspectiva a cerca da essência do povo brasileiro, do sujeito à nação. O cientista social e analista junguiano entende que nosso país precisa tomar consciência da diversidade, da imensidão e da riqueza das terras brasileiras e deve resgatar a essência indígena. Pautada na coletividade, nossa cultura deve ser geradora de colaboração.

Estamos nos deslocando para o que éramos antes de sermos interrompidos, atualizando tudo que foi conquistado pela contemporaneidade. Esse retorno nos permitirá identificar nossa antiga meta: viver com simplicidade.

É nossa missão retomar uma energia que “brota da terra e conduz sem erro para sermos o que tínhamos que ter sido desde o começo”. Amparados pela simplicidade, devemos reaprender a viver com pouco. Saber ter vida interior, ou seja, uma subjetividade atuante, expressa e livre. Devemos “saber ver a beleza desde o pequeno até o infinito”.

O resgate da alma indígena e as concepções tribais de sociedade, que englobam a ausência de propriedade privada e papéis bem integrados socialmente se mostra a alternativa ao maior desafio do Brasil: a injustiça.

É impossível separar as problemáticas socioeconômicas das problemáticas psicológicas e culturais. Elas andam juntas e a transmutação deve ocorrer internamente assim como externamente.

Injustiça essa que não é de nossa natureza, uma vez que os povos indígenas traziam consigo a capacidade de comungar coletivamente a natureza. Desigualdade e exclusão são provenientes da sociedade de classes, pois apenas o modo de produção que permite que pouquíssimos tenham exacerbados privilégios, e uma massa enorme não tenha acesso aos bens elementares.

Considerando a perspectiva alquímica, existe um conceito chamado multiplicatio, ou multiplicação. Tudo vem e provém de um. Considerando essa máxima hermética, a multiplicatio diz respeito ao processo de aumentar a potência da pedra filosofal. Aquela que tudo toca e transforma em ouro é uma metáfora para nossa consciência mais elevada. Quando transcendemos a esfera do ego e equilibramos nossas polaridades, acessamos camadas mais profundas do Self.

Tal mergulho nas águas do inconsciente é transformador e, ao retornarmos ao mundo exterior, aqueles que foram tocados pela luz, acabam iluminando os outros também. A Multiplicatio é o processo alquímico em que permite que a luz seja disseminada, sendo luz, aqui entendida como discernimento, como consciência.

Para Gambini, quem se conscientiza, ganha uma força e dela se obtém o poder da multiplicação. Instruir as crianças, expô-las a uma mentalidade que valoriza nossos raízes seria uma opção para a mudança. Isto permitiria não só a construção de uma nova identidade social, mas comportaria a construção de uma história “que pode correr livre e sem ser distorcida”. Só assim seria possível resignificar em nosso imaginário nosso complexo de inferioridade, ou de vira-latas, como diria Nelson Rodrigues.

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Ricardo Assarice é Psicólogo, Reikiano, Mestrando em Ciências da Religião e Escritor. Para mais artigos, informações e eventos sobre psicologia e espiritualidade acesse www.antharez.com.br ou envie um e-mail para contato@antharez.com.br

Imagens:

“A Primeira Missa no Brasil” de Victor Meireles (1860)

Criança Patajó (esquerda), bebê moderno mexendo num iPad (centro) e indíos Kuikuros (direita)

Respectivamente: “Multiplicatio”, encontrado na Coleção Alquímica de Manuscritos de Manley Palmer Hall e “Multiplicatio”, encontrado em Philosophia Reformata, de Johann Daiel Mylius (1628)

#Alquimia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/sobre-a-alquimia-presente-na-alma-ancestral-brasileira

O Caminho Alquímico do Tao

Definir ou delimitar o conceito do Tao (ou Dao) da filosofia oriental, é no mínimo uma tarefa paradoxal, afinal ‘O tao que pode ser expressado, não é o tao absoluto’. É um conceito muito antigo, adotado como princípio fundamental do taoismo.

Tao (em chinês: 道; Wade-Giles: tao; pinyin: dao) significa, traduzindo literalmente, o caminho, mas é um conceito que só pode ser apreendido por intuição. O tao não é só um caminho físico e espiritual; é identificado com o absoluto que, por divisão, gerou os opostos/complementares Yin e Yang, a partir dos quais todas as “dez mil coisas” que existem no Universo foram criadas.

Quando pensamos numa substância única que dá forma a tudo que existe no Universo, lembramos do conceito alquímico da prima matéria, ou matéria prima. A prima materia é um conceito chave da Alquimia. Ela é como o nome sugere a matéria prima com a qual se realiza as operações e se extraem os elementos. Ela não está em tudo, ela é tudo.

“O termo prima matéria tem uma longa história, que remonta aos filósofos pré-socráticos. Esses antigos pensadores estavam presos a uma ideia arquetípica, que lhes dizia que o mundo é gerado de uma matéria única original, a chamada primeira matéria” (EDINGER, 2006, p.29)

Por esse motivo, a água, como símbolo, é associada à prima matéria, pois todos viemos da água (organismos unicelulares). A água também é um símbolo para o inconsciente, instância inicial que ‘gera’ a consciência. No entanto, a água é um símbolo alquímico ambíguo. Ao mesmo tempo em que representa um dos quatro elementos, representa todos os quatro indiferenciados. De novo, remontamos à filosofia oriental para facilitar e transcender nossa visão de mundo, como vemos neste vídeo de Bruce Lee:

E o que a Ciência pode aprender com esses conhecimentos milenares? Como é falado no vídeo, é preciso estar num ponto de equilíbrio entre instinto e controle, sendo que em demasia, este último pode te tornar um ‘homem mecânico’. Mas será que a comunidade científica acompanha este pensamento integral? No prefácio da segunda edição do livro “O Tao da Física”, Fritjof Capra diz o seguinte sobre os novos paradigmas científicos que se formavam a partir dentre outras coisas, da física quântica:

“A reacção da comunidade científica, previdentemente, tem sido mais cautelosa; mas, também aí, o interesse nas vastas implicações da física do século vinte tem aumentado. A relutância dos cientistas modernos em aceitar as profundas semelhanças entre os seus conceitos e os dos místicos não é surpreendente, já que o misticismo —pelo menos no Ocidente — tem sido tradicionalmente associado, de maneira errada, com coisas vagas, misteriosas, acientíficas. Esta atitude está, felizmente, a mudar. À medida que o pensamento oriental começou a interessar um número significativo de pessoas e a meditação deixou de ser ridícula ou suspeita, o misticismo tem sido tomado a sério mesmo na comunidade científica” (CAPRA, 1982, p.13)

Capra escreveu isso há 32 anos!!! Será mesmo que a visão de um mundo integrado estava tão próxima como o físico austríaco imaginara? De toda forma, estamos percebendo, mais agora do que nunca, que nossa sociedade está passando por um momento crítico. Vejamos nosso cenário político e a dicotomia batida de ‘petralha’ vs. ‘coxinha’. Ou então os casos absurdos, porém recorrentes, de estupros e violência contra a mulher, que expressam um evidente descompasso da energia masculina (yang) em relação a feminina (yin). As polaridades que nos dividem no coletivo, também nos dividem internamente, e o Casamento Alquímico, ou coniunctio oppositorum, parece uma metáfora pertinente para o trabalho que temos, individualmente e coletivamente, para executar.

“Estas discussões ajudaram-me muito na compreensão do abrangente enquadramento cultural, presente no grande interesse pelo misticismo oriental que surgiu no Ocidente nos últimos vinte anos. Agora entendo este interesse como integrante de uma tendência que visa contrariar um profundo desequilíbrio na nossa cultura—nos nossos pensamentos e sentimentos, valores e atitudes, e estruturas sociais e políticas. Achei a terminologia chinesa de yin e yang muito útil para descrever este desequilíbrio cultural. A nossa cultura tem consecutivamente favorecido valores e atitudes yang, ou masculinos, negligenciando as suas contrapartes complementares yin, ou femininas. Temos favorecido auto-asserções em lugar de integração, análise em lugar de síntese, conhecimento racional em lugar de sabedoria intuitiva, ciência em lugar de religião, competição em lugar de cooperação, expansão em lugar de conservação, e ‘ assim por diante. Este desenvolvimento unilateral chegou a um estado alarmante, a uma crise de dimensões sociais, ecológicas, morais e espirituais” (CAPRA, 1982, p.14)

Neste contexto, portanto, saudável é se atentar da responsabilidade em harmonizar-nos internamente, e seguir o fluxo natural da existência, em equilíbrio. A palavra Tao pode significar ‘caminho’, mas seu verdadeiro significado transcende a gramática, se tornando compreensível apenas em esferas abstratas. A arte, como sempre, pode nos ajudar. Como diria o poeta espanhol Antonio Machado:

Caminhante, são teus passos
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
faz-se o caminho ao andar.

Se você gostou desse conteúdo, você pode assistir ao filme ‘O Ponto de Mutação’, baseado no livro homônimo de Fritjof Capra, escrito após ‘O Tao da Física’. Mas se você gostou mesmo, participe do mini-curso de 4h sobre Alquimia Taoista, com prática de Tai Chi Chuan (气功 QiGong) que acontecerá em breve na Clínica Antharez. Dúvidas, críticas ou sugestões, nos comentários!

Referências Bibliográficas:

CAPRA, Fritjoc. O Tao da Física. Lisboa: Editorial Presença. 1975.

EDINGER, Edward. Anatomia da Psique: O Simbolismo Alquímico na Psicoterapia. São Paulo: Cultrix, 1990.

Ricardo Assarice é Psicólogo, Reikiano, Mestrando em Ciências da Religião e Escritor. Para mais artigos, informações e eventos sobre psicologia e espiritualidade acesse www.antharez.com.br ou envie um e-mail para contato@antharez.com.br

#Alquimia #Tao #taoísmo

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Os oito critérios para o controle da mente de Lifton

A seguinte transcrição, de Robert J. Lifton em seu The Future of Immortality and Other Essays for a Nucler Age (New York, Basic, 1987), é uma compreensiva explanação sobre os oito critérios, desenvolvidos por Lifton, que definem o controle da mente.

Mesmo que eles sejam mencionados em citações durante o texto, eu irei listá-los aqui para uma fácil identificação:

  • Controle ambiental
  • Manipulação mística” (ou espontaneidade planejada)
  • A demanda por pureza
  • O culto da confissão
  • Ciência sagrada
  • A sobrecarga da linguagem
  • Doutrina acima do indivíduo
  • Dispensa da existência

O ensaio de onde essa seleção é retirada chama-se “Cults: Religious Totalism and Civil Liberties.” Nele, Lifton estrutura seus comentários relacionando-os com o que ele chama de “Totalitarismo ideológico”, ambientado na expressiva reforma do pensamento chinês. Essa mudança veio ao conhecimento do autor através de seu contato com a Guerra da Coreia e suas consequências.

Controle Ambiental

A fenomenologia usada por mim, tempos atrás, para descrever o totalitarismo ideológico persiste em sua utilidade. Ainda que eu tenha escrito o livro que a descreve em 1960. Sua primeira característica é o “controle ambiental”, que é, essencialmente, o controle das comunicações inseridas no ambiente. Se o controle for extremamente intenso, ele se torna um controle internalizado – uma tentativa de administrar a comunicação interna dos indivíduos. Tal pretensão jamais é completamente alcançada, ainda que seja possível realizar grandes avanços nesse sentido. Em certas ocasiões, esse método foi chamado de “Visão do olho de Deus” – a convicção de que a realidade é uma exclusividade de determinado grupo. É evidente que esse tipo de processo cria conflitos no que diz respeito à anatomia individual: Em certos ambientes, a anatomia subjetiva se torna uma ameaça ao controle ambiental, quando desenvolvida ou realizada. O controle ambiental, quando inserido em ritos, tende a ser mantido e expresso de várias formas: processos de grupo, distanciamento de outras pessoas, pressão fisiológica, distanciamento geográfico, ausência de meios de transporte para outros locais e, em alguns casos, pressão psicológica. Com frequência, também ocorrem eventos, como seminários, aulas e encontros de grupo que costumam intensificar e aumentar o isolamento do grupo, tornando extremamente difícil – física e psicologicamente – para um indivíduo se desgarrar.

Esses ritos diferem-se entre si e criam padrões de totalitarismo, dependendo da sociedade em que estão inseridos. Por exemplo, os meios que foram usados para as reformas na China, estavam mais ou menos em acordo com o ethos social da época. Isso permitiu que indivíduos que estavam deixando-a ou movendo-se para dentro e para fora da própria China, ainda encontrassem reforços ideológico. Em contraste, seitas tendem a se tornar ilhas de totalitarismo, mesmo estando inseridas em sociedades completamente antagônicas e maiores que elas. Essa situação pode criar uma dinâmica própria; e na medida em que o controle ambiental for mantido, as necessidades são ampliadas devido a situação estrutural. Lideres de seitas muitas vezes devem aprofundar o seu controle e administrar condições ambientais mais sistematicamente, algumas vezes de modo mais enérgico, para manter a ilha de totalitarismo dentro do antagônico mundo externo.

A imposição de um intenso controle ambiental está intimamente ligado ao processo de mudança. (Isso explica parcialmente as súbitas mudanças da identidade que os jovens, que estivam inserido em alguma seita, são expostos abruptamente a influências alternativas.) É possível observar tais processos em jovens que sofrem uma drástica mudança em suas identidades primárias, sejam lá quais elas forem, e abraçam um sistema organizacional e um sistema de crenças adotados por determinadas seitas. Eu considero isso uma forma de duplicação: forma-se uma segunda identidade, que vive lado a lado com a primeira, porém distinguisse por ser completamente autômato. Obviamente, deve haver algum elemento conectivo entre as duas identidades – caso contrário, uma pessoa mediana não conseguiria viver – embora a automaticidade de cada uma delas seja impressionante. Quando o controle ambiental é intensificado, através de quaisquer meios de remoção, o indivíduo vindo do ambiente totalitarista tem algo de sua consciência anterior reafirmado. Essa dissociação pode ocorrer tanto voluntariamente quanto através da força (como, por exemplo, um membro da seita se movendo para o outro lado da mesa, para longe dos demais membros). As duas consciências existem simultânea e confusamente durante um tempo considerável. Talvez, esse período de transição seja o mais intenso, o mais psicologicamente doloroso e, potencialmente, o mais prejudicial.

Manipulação Mística

A segunda característica dos ambientes totalitaristas é a que eu chamo de “manipulação mística” ou “espontaneidade planejada”. É um processo sistemático que é planejado e administrado por cima (pela liderança) mas que parece ter surgido espontaneamente dentro do ambiente. O processo precisa aparentar não ser uma forma de manipulação, o que levanta questões filosóficas muito importantes. Alguns aspectos – como jejuar, cantar e se privar de sono – tem uma certa tradição e têm sido praticados por grupos religiosos através dos séculos. Existe um padrão, nesses grupos, onde afirma-se que determinado ser humano “escolhido” é o salvador ou a fonte de salvação. A manipulação mística pode ser continuada devido a esta qualidade especial, onde os líderes de tais cultos são vistos como mediadores para Deus. Os princípios centrados em Deus podem ser forçados e aclamados como únicos. Então, tal culto e suas crenças, se tornam o único e verdadeiro caminho para a salvação. Isso alicerceia a manipulação mística e, em muitos casos, justifica aqueles envolvidos com a sua promulgação, incluindo seus seguidores menos favorecidos.

Enquanto houver um líder, que se torna o centro da manipulação mística (ou a pessoa por quem o líder fala), haverá dois processos ocorrendo. O líder as vezes poderá ser mais real do que um deus abstrato e, portanto, mais atrativo para os membros da seita. Por outro lado, esse mesmo líder pode ser fonte de desilusão. Se acredita que Sun Myung Moon (fundador da Unification Church, cujo os membros são frequentemente referidos por “moonies”) possui ligações com a Agência Central de Inteligência da Coreia e essa informação é validada pelos membros da Unification Church. O relacionamento entre eles, cultistas e igreja, ficará prejudicado pela desilusão com o seu líder. Esse padrão não é tão literal quanto o de causa e efeito – mas, o que eu estou sugerindo, este modo de liderança possuí vantagens e desvantagens em termo de lealdade por parte dos seguidores.

Enquanto a manipulação mística direciona os membros de seitas para aquilo que chamo de psicologia do peão, ela também pode acarretar a legitimação da decepção (dos que não estão envolvidos no culto) – a “grande decepção” da Unification Church, embora existem padrões análogos em outros ambientes cultistas. Se um indivíduo não foi capaz de ver a luz, ele não se encontra no reino do culto. Ele está em um reino de trevas, logo, pode ser enganado para que se alcance propósitos maiores. Por exemplo: quando membros de determinadas seitas coletam fundos. Não seria errado da parte aqueles que fizeram a coleta abdicar suas afiliações com a seita quando lhes fosse pedido o dinheiro. Jovens tem sido a força motriz de determinados cultos sem ao menos serem notificados disso. O totalitarismo ideológico pode e irá, na maior parte das vezes, justificar a decepção.

Demanda por pureza

As próximas duas características do totalitarismo, a “demanda por pureza” e o “culto pela confissão” são familiares. A demanda por pureza pode criar uma qualidade maniqueísta nas seitas, assim como em grupos políticos e religiosos. Tal demanda clama pela separação radical entre os puros e os impuros, entre o bem e o mau, entre o dentro do ambiente e o dentro do indivíduo. A purificação absoluta é um processo contínuo. Com frequência, é institucionalizada tornando-se, através do processo de confissão, uma fonte de estimulação da culpa e da vergonha. Movimentos ideológicos, em quaisquer níveis de intensidade, tem um papel fundamental nos mecanismos de culpa e de vergonha. Tais mecanismos possibilitam uma intensa influência nos processos de mudanças que os indivíduos sofrem. Isto é feito através dos processos de confissão, que possuem uma estrutura própria. Sessões onde alguém confessa seus pecados são acompanhadas por determinados padrões de criticismo e de autocriticismo. Geralmente, esses padrões são transparecidos pelas dinâmicas dos grupos e através das atividades vistas como necessárias para o desenvolvimento de mudanças pessoais.

Culto da confissão

É possível se falar mais a respeito da ambiguidade e da complexidade desse processo. Camus observou que “autores de confissões escrevem especialmente para evitar a confissão, para não contar nada a respeito do que eles sabem. ” Talvez Camus tenha exagerado, mas ele está correto em sugerir que as confissões contêm uma diversificada mistura entre revelação e consentimento. Um jovem confessando vários pecados, cometidos em uma existência pré-seita ou pré-instituição, pode estar acreditando nos efeitos negativos de tais pecados e também tentando encobrir determinadas ideias e assuntos que ele está relutante em discutir. Confissões repetitivas são uma expressão de extrema arrogância feita em nome de uma aparente humildade. Novamente, Camus: “Eu pratico o ofício da penitência para se apto a me tornar juiz” e “quanto mais eu acuso a mim mesmo, mas eu tenho o direito de julgar você. ” Esse é o ponto central em qualquer processo de confissão, especialmente aqueles que ocorrem com grupos fechados.

Ciência sagrada

Os próximos três padrões que relaciono ao totalitarismo ideológico são “a ciência sagrada”, a “sobrecarga da linguagem” e o princípio da “doutrina acima do indivíduo. ” Esses padrões são praticamente autoexplicativos. Eu enfatizaria a ciência sagrada, pois, na atualidade, para que algo tenha validade é necessário que ele possua tanto características cientificas quanto espirituais para ele possa ter qualquer significado. A ciência sagrada oferece um segurança considerável aos jovens, já que a mesma tende a simplificar o mundo de modo magnifico. A Unification Church prossegue sendo um ótimo exemplo, embora não o único, da necessidade de se combinar o dogmático pensamento religioso com a ciência, incorporando as verdades que cercam o comportamento e a psicologia humana. No caso da Unification Church, essa pretensão de ser uma ciência humana abrangente é promovida através do envolvimento de proeminentes estudiosos (pagos com honrarias exorbitantes) em grandes simpósios que buscam enfatizar a unificação do pensamento; os participantes expressão seus pensamentos livremente, mais ainda assim, contribuem para a legitimação da áurea de intelectualidade de tais eventos.

Sobrecarga da linguagem

O termo “sobrecarga da linguagem” refere-se a busca de tornar literal da linguagem – fazendo, das palavras ou imagens, deus. Uma linguagem extremamente simplificada possuí um enorme apelo e um grande poder psicológico em seu processo de simplificação. Isso ocorre porque cada problema na vida de um indivíduo – e isso é extremamente complicado na vida dos jovens – pode ser reduzido a um único grupo de princípios que possuem coerência interna. O indivíduo pode alegar ser capaz de experimentar a verdade e senti-la. As repostas são acessíveis. Lionel Trilling chamou isso de “linguagem do não-pensamento”. Assim é chamada, devido aos clichês e as explicações simples dadas as reduzidas questões complexas que surgem.

Doutrina acima do indivíduo

O padrão da “doutrina acima do indivíduo” ocorre quando existe um conflito entre aquilo que um indivíduo está sentindo e aquilo que a doutrina ou dogma diz que ele deveria sentir. A mensagem internalizada em ambientes totalitaristas é que os indivíduos devem encontrar a verdade dentro dos dogmas dados e submeter suas experiências a essa verdade. Com frequência, o sentimento de contradição ou a submissão das experiências podem ser associados de modo imediato a culpa. Aquele que vive tais sentimentos é imediatamente condenado pelos demais (para que se possa manter o indivíduo dentro de uma doutrina) e rapidamente associa as mesmas sensações a culpa. O indivíduo é moldado para sentir o que dizem para ele sentir. A dúvida é a manifestação da maldade que existe dentro do indivíduo. Ainda assim, dúvidas, quando muito intensas, podem levar o indivíduo a se retirar. Essa é a grande dificuldade vivida pela maior parte das seitas; permitir filiação pode ser extremamente problemático.

Dispensa da existência

Finalmente, o oitavo, e talvez o mais geral e significativo dos princípios, é aquele que chamo de “dispensa da existência”. Esse princípio é usualmente usado como uma metáfora. Mas, se o indivíduo possui uma visão absoluta ou totalitária da verdade, aqueles que não foram capazes de enxergar a luz – não abraçaram a verdade, portanto, estão nas sombras – são atados pelo mal, tentados e não possuem o direto de existir. Existe uma dicotomia do “ser versus nada” aqui. Seres não legitimados devem ser afastados ou destruídos. Os indivíduos postos nessa segunda categoria de seres, que não tem o direito de existir, podem vir a experimentar psicologicamente um enorme medo de extinção interna ou até mesmo o colapso. Entretanto, quando um indivíduo é aceito, existe um gigantesco sentimento de honra por ele agora fazer parte de uma elite. Em condições mais violentas, a dispensa da existência, a abstenção do direto de existir, pode ser literal. Certas pessoas vão ser mortas devido suas crenças. Temos vários exemplos, como os que ocorreram na União Soviética e na Alemanha Nazista. No caso do suicídio em massa ocorrido no People’s Temple, localizado em Guyana, um único líder poderia presidir a dispensa da existência – ou da não existência –  literal, através do suicídio validado pela sua ideologia (autopsias posteriores mostraram que provavelmente houveram tantos assassinatos quanto suicídios). O impulso totalitarista de desenhar uma linha entre aqueles que tem o direto de viver e aqueles não devem viver – pensamento que ocorre em vários níveis – pode se tornar uma tentativa de resolver os problemas fundamentais da humanidade. E tais resolução, que envolvem totalitarismo e fundamentalismo, são potencialmente perigosas na Era Nuclear.

Eu devo dizer que, apensar desses problemas, nenhum desses processos é imutável. Um dos meus propósitos ao escrever sobre esses processos é contra-atacar a tendência cultural em negar que tais coisas existem. Outra razão é para desmistifica-los. Tornando-os compreensíveis, em termo do entendimento do comportamento humano.

Traduzido por Tauami de Paula

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/os-oito-criterios-para-o-controle-da-mente-de-lifton/

A Prima Materia – O Objetivo do Processo Alquímico

Prima materia, a matéria prima, é considerada como o objetivo do processo alquímico. A prima materia possui várias definições, sem que uma definição seja considerada proeminente.

Isso ocorre porque os alquimistas tinham definições pessoais de prima materia. Muitas definições até se contradiziam.

Elas variam de chumbo, ferro, ouro, mercúrio, sal, enxofre, vinagre, água, fogo, terra, água da vida, sangue, veneno, espírito, nuvens, céu, orvalho, sombra, mar, mãe, lua, dragão, Vênus , microcosmo e assim por diante. Não é de surpreender que o Ruland’s Lexicon (O Léxico de Ruland) dê cinquenta sinônimos e mais possam ser incluídos.

Além dessas definições, em parte químicas e mitológicas, existem as filosóficas que possuem significados mais profundos.

Por exemplo, no tratado de Komarios encontra-se a definição de “Hades”. Em Olimpiodoro, a terra negra continha os “malditos de Deus”.

O Consilium consigii diz que o pai do ouro e da prata, sua prima materia, é “o animal da terra e do mar”, ou “homem”, ou “parte do homem”, que é seu cabelo, sangue e assim por diante. Dorn, aluno de Paracelso, disse que a prima materia era “Adamica”, o que coincide com o limbus microcosmicus de Paracelso. Os materiais da pedra são nada menos que enxofre e mercúrio.

Os alquimistas supunham que o homem poderia completar o trabalho da prima materia porque possuía uma alma. Não é assim declarado, mas acreditado, que a alma vinha de Deus, portanto, o homem era capaz de fazer a obra de Deus – os alquimistas operam como Deus.

Outros trabalhos testemunham que a prima materia pode ser qualquer coisa e pode se tornar qualquer coisa. Mylius descreveu a prima materia como o elementium primordiale, o “sujeito puro e unidade das formas”. A prima materia é descrita no Rosarium como a “raiz de si mesma”. Portanto, porque se enraíza em si mesmo, é autônomo e não depende de nada.

Paracelso, em sua Philosophia ad Atheninses, declarou esta matéria única um segredo que não tem absolutamente nada a ver com os elementos. Ela preenche toda a regio aetherea e é a mãe dos elementos e de todas as coisas criadas.

A definição de Paracelso é estritamente baseada nas escrituras. Ele a descreveu como misteriosa, preparada por Deus de tal maneira que não haverá nada como ela novamente. Foi corrompida além da reparação, presumivelmente pela Queda de Adão, e não pode ser devolvida.

A descrição que Jung dá às obras de Paracelso e Dorn identifica claramente a razão ou razões pelas quais a alquimia da Idade Média assumiu uma atmosfera religiosa.

Não só Paracelso reconciliou seus pontos de vista profissionais com seu próprio cristianismo, mas ele os incutiu no pensamento alquímico.

Usando a Bíblia, Paracelso e outros, conectou a prima materia a Deus; “antes que Abraão fosse feito, eu sou”. (João 8:58) Visto que a prima materia é supostamente a pedra, isso também demonstrou que a pedra não tem começo nem fim.

Jung observou que muitos cristãos que ouvissem isso não acreditariam em seus ouvidos, mas foi claramente declarado no Liber Platonis quartorum: “Aquele de onde as coisas surgem é o Deus invisível e imóvel”.

Deve-se admitir que provavelmente apenas alguns filósofos pressionaram a essa conclusão extrema, mas mesmo seu aspecto torna suas alusões veladas mais transparentes. Embora a maior parte do pensamento alquímico pareça absurda em comparação com o pensamento científico moderno, não se deve esquecer que a Idade Média influenciou grandemente a cultura atual.

Deve-se lembrar que a diferença importante entre os alquimistas e os químicos era que os primeiros olhavam para trás enquanto os últimos olhavam para frente. Os alquimistas pensavam que aqueles antes deles, os antigos, tinham os segredos da arte; tudo o que eles precisavam fazer era descobrir esses segredos, o que, talvez, fosse parte de seu objetivo ou busca.

Para os futuros químicos, assim como outros cientistas, seu objetivo era descobrir segredos do futuro. Ao examinar essa diferença e comparação, vê-se prontamente que a maior parte da população mundial ainda está no caminho alquímico.

A maioria das pessoas se apega a crenças religiosas que, na melhor das hipóteses, lhes dão conforto superficial, assim como a pedra fez para os alquimistas. A maioria das pessoas são paracelsanas, rezam a Deus para curá-las quando estão doentes, mas vão ao médico para receitar remédios para curá-las. Paracelso procurou manter suas crenças religiosas, mas era inteligente o suficiente para iniciar a medicina moderna.

Pode-se dizer que o pensamento atual de que somos todos deuses porque temos o espírito de Deus dentro de nós mantido por alguns, principalmente os adoradores da natureza, possivelmente originou-se do pensamento alquímico.

O alquimista inglês Sir George Ripley (c. 1415-1490) escreveu: “Os filósofos dizem ao investigador que os pássaros nos trazem as lipas, todo homem as tem, está em todo lugar, em você, em mim, em tudo, em tempo e espaço.” “Ele se oferece de forma humilde [vili figura]. Dela brota nossa água eterna [aqua permanens].” Ripley disse que a prima materia é a água, o princípio material de todos os corpos, incluindo o mercúrio.

É o hyle, coisa, matéria, que Deus trouxe do caos. É a terra negra da qual Adão foi feito e que ele levou consigo do Paraíso. Como essa matéria prima continha água, também continha fogo, como se dizia que ambos estavam dentro da pedra filosofal; portanto, acredita-se que a pedra sempre existiu e também veio do Paraíso.

É por isso, pensa este autor, que Jung disse que a Idade Média influenciou a sociedade moderna. Talvez não no sentido alquímico porque a química moderna e outras ciências provaram ser mais eficazes, mas no sentido sócio-religioso, deve-se reiterar que a cultura ocidental ainda está em um caminho alquímico. A maioria das sociedades ocidentais procura aperfeiçoar-se através de uma religião que falhou por milhares de anos.

Os líderes religiosos se assemelham aos alquimistas ao pensar que aqueles antes deles tinham as respostas quando a história religiosa é prodigalizada com histórias de ladrões, mentirosos, assassinos, adultérios e assim por diante. A religião não mudou o comportamento humano e, graças ao Diabo, não precisa mudar.

Ainda que, alegoricamente falando, a maioria, se o mundo está no caminho alquímico, ainda não é tarde demais para seguir o exemplo de Paracelso; ele reconhecia tanto a natureza boa quanto a má e a usava para promover o bem. Ele reconheceu isso quando seus críticos disseram que seus remédios eram venenosos.

Sua resposta foi que todas as coisas são venenosas; é a dosagem que importa. Embora Jung tenha demonstrado as semelhanças entre alquimia e psicologia, ele nunca negou as armadilhas de cada uma, os pontos ruins que devem ser confrontados e trabalhados.

Nesse confronto não há resposta fácil ou bala mágica, nem prima materia ou pedra filosofal. É hora de reconhecer que o mundo é a pedra hermafrodita da qual o homem vive. O mundo é bom e mau, vida e morte; como o homem usa o mundo determinará o resultado tanto do mundo quanto do homem.

O homem pode continuar buscando a pedra da eterna salvação celestial para si mesmo, ou pode, como o químico, descobrir novas maneiras pelas quais todos possam viver em paz. A dosagem ou a pedra está nas ações da humanidade.

A.G.H.

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Fonte: Prima materia.
Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-prima-materia-o-objetivo-do-processo-alquimico/

Como se tornar um vampiro sem ser mordido

Crentes fanáticos e pais super-protetores podem começar a roer as unhas. Um novo estudo publicado pela Universidade de Buffalo em Nova Yorque descobriu recentemente que de fato nos “tornamos” vampiros ou magos a medida que lemos um livro sobre o assunto. Após a leitura de livros como os da Saga Crepúsculo de fato podemos nos sentir com os dentes um pouco mais afiados, pois a pesquisa revelou que a leitura satisfaz diversas necessidades humana de conexão uma vez que não apenas nos sentimos próximos aos personagens, mas psicologicamente falando , nos tornamos parte de seu mundo e derivamos benefícios emocionais desta experiência.

A pesquisa “Becoming a Vampire Without Being Bitten: The Narrative Collective Assimilation Hypothesis,” publicada no  Psychological Science, jornal acadêmico da universidade, atesta a hipótese de que ao absorver as narrativas não há diferença psicológica entre viver e se entregar a um livro, de modo que podemos nos tornar membros do grupo de personagens lá descritos.

Os autores Shira Gabriel, PhD e Ariana Young, são pesquisadores de psicologia social da Universidade de Buffalo e também descobriram que este senso de pertença que se desenvolve durante a leitura provoca o mesmo sentimento de satisfação e felicidade que alguém teria se de fato fizesse parte do mundo descrito.

“A conexão social é uma necessidade humana básica e sempre que nos sentimos conectados a outros nos sentimos bem em  geral e satisfeitos com nossas vidas. Nosso estudo demonstrou que a assimilação de uma narrativa permite que nos sintamos próximos a outros no conforto de nosso próprio espaço e segundo nossa própria conveniência.(…) Nossos dados mostram que isso gera um aumento da satisfação e do bom humor, que são duas das consequências diretas do sentimento de pertença.”, revelou Gabriel ao Psychological Science.

Para testar a hipótese Gabriel e Young requisitaram que 140 formados da Universidade de Buffalo lessem por 30 minutos/dia dois livros bastante populares: “Crepúsculo” e “Harry Potter e a Pedra Filosofal.” Depois os participantes responderam uma série de questionários que atestaram suas respostas conscientes e inconscientes as narrativas.

Os resultados foram claros, entrevistados que leram “Harry Potter” identificaram a si mesmos , tanto consciente como inconscientemente com magos ao passo que aqueles que leram “Crepúsculo” adquiriram a identificação psicológica dos vampiros.  Eles não apenas se sentiram conectados com os personagens, como era esperado, mas também adotaram padrões comportamentais, atitudes e traços de personalidade que consideraram realistas, deixando de lado a parte de sugar sangue e voar em vassouras.

O estudo sugere que os livros nos dão mais que uma oportunidade para submergir em um mundo de fantasia. Eles nos dão  também a chance de nos sentirmos pertencer a algo maior que nós e colher os frutos psicológicos de fazer parte de um reino amplo sem a necessidade de um encontro social de verdade.

É claro que quando entramos em uma narrativa, seja em um livro, filme ou série de TV, nós não nos tornamos Harry ou Bela, mas nos tornamos de fato parte de seus mundos. Isso nos faz sentir bem e pode de fato afetar nossa personalidade e comportamento. Já era um fato amplamente conhecido na psicologia que nós mudamos nosso comportamento quando estamos entre um grupo de amigos para nos tornar mais semelhantes a eles. Agora sabemos que isso também ocorre quando lemos um livro.

resenha do Psychological Science sobre vampirismo

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/como-se-tornar-um-vampiro-sem-ser-mordido/

A História de Anton Szandor LaVey

Por Magus Peter H. Gilmore © 2003.

Anton Szandor LaVey (1930-1997) foi o fundador da Church of Satan (Igreja de Satanás), a primeira igreja organizada nos tempos modernos a promulgar uma filosofia religiosa que defende Satanás como o símbolo da liberdade pessoal e do individualismo. Ao contrário dos fundadores de outras religiões, que reivindicavam uma “inspiração” exaltada entregue através de alguma entidade sobrenatural, LaVey prontamente reconheceu que usou suas próprias faculdades para sintetizar o Satanismo, com base em sua compreensão do animal humano e insights obtidos de filósofos anteriores que defendiam o materialismo e individualismo. Sobre seu papel de fundador, ele disse que “se ele mesmo não o fizesse, outra pessoa, talvez menos qualificada, teria feito”.

Nascido em Chicago em 1930, seus pais logo se mudaram para a Califórnia, o ponto de encontro mais ocidental para as manifestações mais brilhantes e sombrias do “Sonho Americano”. Era um ambiente fértil para a criança sensível que eventualmente amadureceria em um papel que a imprensa chamaria de “O Papa Negro (Black Pope)”. De sua avó do leste Europeu, o jovem LaVey aprendeu sobre as superstições que ainda existem naquela parte do mundo. Esses contos aguçaram seu apetite pelo outré (excêntrico), levando-o a se envolver na literatura sombria clássica, como Drácula e Frankenstein. Ele também se tornou um ávido leitor das revistas pulp, que primeiro publicaram contos agora considerados clássicos dos gêneros de terror e ficção científica. Mais tarde, ele fez amizade com autores seminais de Histórias Bizarras (Weird Tales), como Clark Ashton Smith, Robert Barbour Johnson e George Hass. Sua fantasia foi capturada por personagens fictícios encontrados nas obras de Jack London, em personagens de histórias em quadrinhos – como Ming, o Impiedoso (Ming, the Merciless), além de figuras históricas de um elenco diabólico como Cagliostro, Rasputin e Basil Zaharoff. Mais interessantes para ele do que a literatura oculta disponível, que ele descartou como sendo pouco mais do que magia branca hipócrita, eram livros de conhecimento obscuro aplicado, como Lições Práticas de Hipnotismo (Pratical Lesson in Hypnotism) do Dr. William Wesley Cook, Navios de Combate (Fighting Ships) de Jane e manuais para análise de caligrafia.

Suas habilidades musicais foram notadas cedo, e ele recebeu liberdade de seus pais para experimentar vários instrumentos. LaVey foi atraído principalmente pelos teclados por causa de seu alcance e versatilidade. Ele encontrou tempo para praticar e poderia facilmente reproduzir músicas ouvidas de ouvido sem recorrer aos fake books (partituras de jazz) ou às partituras em geral. Esse talento viria a ser uma de suas principais fontes de renda por muitos anos, principalmente seu calíope tocando durante seus dias de carnaval, e depois suas muitas passagens como organista em bares, salões e boates. Esses locais lhe deram a chance de estudar como várias linhas melódicas e progressões de acordes balançavam as emoções de seu público, desde os espectadores do carnaval e shows de fantasmas, até os indivíduos que buscavam consolo para as decepções em suas vidas em destilados e na fumaça. tabernas cheias para as quais a música de LaVey fornecia uma trilha sonora.

Seus interesses estranhos o marcavam como um estranho (outsider), e ele não aliviou isso sentindo qualquer compulsão de ser “um dos garotos”. Ele desprezava as aulas de ginástica e esportes de equipe e muitas vezes faltava às aulas para seguir seus próprios interesses. Ele era um ávido leitor e assistia a filmes como aqueles que mais tarde seriam rotulados de film noir, bem como o cinema expressionista Alemão, como M, O Gabinete do Dr. Caligari e os filmes do Dr. Mabuse. Seu modo de vestir chamativo também serviu para amplificar sua alienação do mainstream. Ele abandonou o ensino médio para andar com tipos de bandidos e gravitou para trabalhar no circo e carnavais, primeiro como um trabalhador nos bastidores do circo e garoto de gaiola e depois como músico. Sua curiosidade foi recompensada através de “aprender as cordas (a dominar as suas habilidades)” e trabalhar um ato com os grandes felinos, e depois ajudar nas maquinações dos shows de fantasmas. Ele se tornou bem versado nas muitas raquetes usadas para separar os caipiras de seu dinheiro, junto com a psicologia que leva as pessoas a tais atividades. Ele tocava música para os shows obscenos nas noites de Sábado, bem como para os protestantes revivalistas das tendas nas manhãs de Domingo, vendo muitas das mesmas pessoas participando de ambos. Tudo isso forneceu um fundo firme e terreno para sua visão de mundo cínica em evolução.

Quando a temporada de carnaval terminava, LaVey ganhava dinheiro tocando órgão em casas burlescas da área de Los Angeles, e ele relata que foi durante esse período que teve um breve caso com uma então desconhecida Marilyn Monroe. Voltando a São Francisco, LaVey trabalhou por um tempo como fotógrafo para o Departamento de Polícia e, durante a Guerra da Coreia, matriculou-se no San Francisco City College como especialista em criminologia para evitar o recrutamento. Tanto seus estudos quanto sua ocupação revelaram percepções sombrias sobre a natureza humana. Nessa época ele conheceu e se casou com Carole Lansing, que lhe deu sua primeira filha, Karla Maritza, em 1952. Alguns anos antes, LaVey havia explorado os escritos de Aleister Crowley, e em 1951 ele conheceu alguns dos Thelemitas de Berkeley. Ele não se impressionou, pois eles eram mais espirituais e menos “iníquos” do que ele supunha que deveriam ser para os discípulos do credo libertino de Crowley.

Durante a década de 1950, LaVey complementou sua renda como “investigador psíquico”, ajudando a investigar “ligações malucas e sem sentido (nut calls)” encaminhadas a ele por amigos no departamento de polícia. Essas experiências lhe provaram que muitas pessoas estavam inclinadas a buscar uma explicação sobrenatural para fenômenos que tinham causas mais prosaicas. Suas explicações racionais muitas vezes decepcionavam os reclamantes, então LaVey inventou causas mais exóticas para fazê-los se sentirem melhor, dando-lhe uma visão de como a religião geralmente funciona na vida das pessoas.

Em 1956, ele comprou uma casa Vitoriana na California Street, no distrito de Richmond, em São Francisco. Tinha a fama de ter sido uma pessoa barulhenta. Ele a pintou de preto; ela mais tarde se tornaria o lar da Igreja de Satanás. Após sua morte, a casa permaneceu desocupada até ser demolida pela imobiliária proprietária do imóvel em 17 de outubro de 2001.

LaVey conheceu e ficou fascinado por Diane Hegarty em 1959; ele então se divorciou de Carole em 1960. Hegarty e LaVey nunca se casaram, mas ela lhe deu sua segunda filha, Zeena Galatea em 1964 e foi sua companheira por muitos anos. Hegarty e LaVey mais tarde se separaram, e ela o processou por pensão e isso foi resolvido fora do tribunal. A última companheira de LaVey foi Blanche Barton, que deu à luz seu único filho, Satan Xerxes Carnacki LaVey em 1 de Novembro de 1993. De acordo com os desejos de LaVey, ela o sucedeu como chefe da Igreja após sua morte em 29 de outubro de 1997. Em 2001, ela passou essa posição para Peter H. Gilmore, um membro de longa data do Conselho dos Nove.

Por meio de sua “apresentação excêntrica em shows de destruição de fantasmas (ghost busting)” e de seus frequentes shows públicos como organista, incluindo tocar Wurlitzer no salão de coquetéis Lost Weekend, LaVey se tornou uma celebridade local e suas festas de fim de ano atraíram muitos notáveis de São Francisco. Entre os convidados estavam Carin de Plessin, chamada de “a Baronesa” por ter crescido no palácio real da Dinamarca, o antropólogo Michael Harner, Chester A. Arthur III (Neto do presidente dos EUA), Forrest J. Ackerman (mais tarde, o editor de Famous Monsters of Filmland e reconhecido especialista em ficção científica), o autor Fritz Leiber, o excêntrico local Dr. Cecil E. Nixon (criador do autômato musical Isis) e o cineasta underground Kenneth Anger. Dessa multidão, LaVey destilou o que chamou de “Círculo Mágico” de associados que compartilhavam seu interesse pelo bizarro, o lado oculto do que move o mundo. À medida que sua experiência crescia, LaVey começou a apresentar palestras nas noites de Sexta-feira sumarizando os frutos de sua pesquisa. Em 1965, LaVey foi destaque no The Brother Buzz Show, um programa infantil humorístico apresentado por marionetes. O foco estava no estilo de vida da “Família Addams” de LaVey – ganhando a vida como hipnotizador, investigador psíquico e organista, bem como em seu animal de estimação altamente incomum, Togare, um leão Núbio.

No processo de criação de suas palestras, LaVey foi levado a destilar uma filosofia única baseada em suas experiências de vida e pesquisas. Quando um membro de seu Círculo Mágico sugeriu que ele tinha a base para uma nova religião, LaVey concordou e decidiu fundar a Igreja de Satanás como o melhor meio de comunicar suas ideias. E assim, em 1966, na noite de véspera de maio – o tradicional Sabá (Sabbath) das Bruxas – LaVey declarou a fundação da Igreja de Satanás, bem como renumerando 1966 como o ano Um, Anno Satanas – o primeiro ano da Era de Satanás.

A atenção da imprensa logo se seguiu, particularmente com o casamento do jornalista Radical, John Raymond com a socialite de Nova York Judith Case em 1º de Fevereiro de 1967. O famoso fotógrafo Joe Rosenthal foi enviado pelo San Francisco Chronicle para capturar uma imagem, que foi impressa no Chronicle, bem como no Los Angeles Times e outros grandes jornais. LaVey começou a disseminação em massa de sua filosofia através do lançamento de um álbum, The Satanic Mass (A Missa Satânica, Murgenstrumm, 1968). O álbum apresentava um gráfico de capa chamado por LaVey como o “Sigilo de Baphomet”: a cabeça de bode em um pentagrama, circulada com a palavra hebraica “Leviathan (Leviatã)”, que desde então se tornou o símbolo onipresente do Satanismo em todo o mundo. Em destaque no álbum estava parte do rito de batismo escrito para Zeena, de três anos (realizado em 23 de Maio de 1967). Além da gravação real de um ritual Satânico, o lado dois do LP tinha LaVey lendo trechos da ainda não publicada The Satanic Bible (A Bíblia Satânica) sobre música de Beethoven, Wagner e Sousa. Suas palestras de Sexta-feira continuaram e ele instituiu uma série de “Oficinas de Bruxas (Witches’ Workshops)” para instruir as mulheres na arte de alcançar sua vontade através do glamour (sedução, atração, fascínio), do tempo feminino e da descoberta e exploração habilidosa dos fetiches dos homens.

No final de 1969, LaVey havia tomado monografias que havia escrito para explicar a filosofia e as práticas rituais da Igreja de Satanás e as fundiu com todas as suas influências filosóficas de Ayn Rand, Nietzsche, Mencken e London, juntamente com a sabedoria básica dos carnavalescos. Ele prefaciou esses ensaios e ritos com trechos retrabalhados de Might is Right (O Poder está Certo), de Ragnar Redbeard, e concluiu com versões “Satanizadas” das Chaves Enoquianas de John Dee para criar a Bíblia Satânica. Ela nunca saiu de impressão e continua a ser a principal fonte para o movimento Satânico contemporâneo.

A Bíblia Satânica foi seguida em 1971 por The Compleat Witch (A Bruxa Completa, relançado em 1989 como The Satanic Witch, A Bruxa Satânica), um manual que ensina a “Magia Menor” – as formas e meios de ler e manipular as pessoas e suas ações para o cumprimento dos objetivos desejados. The Satanic Rituals (Os Rituais Satânicos, 1972) foi impresso como um volume complementar para A Bíblia Satânica e contém rituais selecionados de uma tradição Satânica identificada por LaVey em várias culturas do mundo. Duas coleções de ensaios, que vão do humorístico e perspicaz ao sórdido, The Devil’s Notebook (O Caderno do Diabo, 1992) e Satan Speaks (Satanás Fala, 1998), completam seu cânone escrito.

Desde sua fundação, a Igreja de Satanás de LaVey atraiu muitas pessoas variadas que compartilhavam uma alienação das religiões convencionais, incluindo celebridades como Jayne Mansfield e Sammy Davis Jr., bem como estrelas do rock King Diamond e Marilyn Manson, que se tornaram, pelo menos por uma vez, membros de carteirinha. Ele contava entre seus associados Robert Fuest, diretor do filme “Dr. Phibes (O Abominável Dr. Phibes, 1971)”, no qual estrela o ator Vincent Price,  assim como do filme The Devil’s Rain (A Chuva do Diabo, 1975); Jacques Vallee, ufólogo e cientista da computação, que serviu de inspiração para o personagem Lacombe, interpretado por François Truffaut em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de Spielberg; e Aime Michel conhecido como espeleólogo e editor do Morning of the Magicians (O Despertar dos Mágicos).

A influência de LaVey foi espalhada por vários artigos na mídia de notícias em todo o mundo, revistas populares como Look, McCalls, Newsweek e Time, revistas masculinas e em talk shows como Joe Pyne, Phil Donahue e Johnny Carson. Essa publicidade deixou uma marca em romances como O Bebê de Rosemary (concluído por Ira Levin durante os primeiros dias da blitz de mídia de alto perfil da Igreja) e Our Lady of Darkness (Nossa Senhora das Trevas) de Leiber, e filmes como O Bebê de Rosemary (1968), The Devil’s Rain (A Chuva do Diabo, 1975), The Car (O Carro, a Máquina do Diabo, 1977), e muitos dos filmes posteriores “Devil Cult” (filmes cult com a temática do culto ao Diabo) dos anos 1970 até os anos 1990 que pegaram o simbolismo dos escritos de LaVey. Um documentário de longa-metragem, Satanis: The Devil’s Mass (Satanis, a Missa do Diabo, 1969) cobriu os rituais e a filosofia da Igreja, enquanto o próprio LaVey foi retratado no documentário de vídeo de Nick Bougas de 1993, Speak of the Devil (Falando no Diabo).

A musicalidade de LaVey é preservada em várias gravações, principalmente Strange Music (A Música Estranha, 1994) e Satan Takes a Holiday (Satanás Tira Férias, 1995), ambas originalmente lançadas pela Amarillo Records, agora disponíveis pela Reptilian Records. Isso reflete sua propensão para músicas da década de 1930 até a década de 1950, que variam de humorísticas a canções de maldição, bem como canções com temas do diabo. LaVey os processa em uma série de sintetizadores autoprogramados, imitando vários grupos instrumentais. Eles são impressionantes, pois não são gravações multipista, mas são feitas de uma só vez com os sons do conjunto instrumental completo criado através do uso simultâneo de vários sintetizadores tocados pelas mãos de LaVey, bem como pelos pés, em um pedal estilo órgão teclado conectado via midi.

Duas biografias foram escritas sobre LaVey: The Devil’s Avenger (O Vingador do Diabo, 1974) por Burton Wolfe e Secret Life of a Satanist (A Vida Secreta de um Satanista, 1990) pela Blanche Barton. A autenticidade de alguns dos acontecimentos narrados nessas obras tem sido contestada nos últimos anos, particularmente por detratores de LaVey, que o acusam de exagero autopromocional. LaVey era um showman habilidoso, um talento que ele nunca negou. No entanto, o número de incidentes detalhados em ambas as biografias que podem ser autenticados por meio de evidências fotográficas e documentais superam em muito os poucos itens em disputa. O fato é que LaVey seguiu um curso que o expôs às alturas e profundezas da humanidade, cheio de encontros com pessoas fascinantes; culminou com a fundação da Igreja de Satanás e levou a uma notória celebridade em escala mundial. A Igreja sobreviveu à sua morte e continua, por meio de seus escritos, a atrair continuamente novos membros que se veem refletidos na filosofia que ele chamou de Satanismo.

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Fonte: Anton Szandor LaVey, by Magus Peter H. Gilmore © 2003.

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/a-historia-de-anton-szandor-lavey/

Austin Osman Spare, H.R.Giger e Rosaleen Norton: Três Artistas Malditos

Se a arte visionaria brota dos íntimos refolhos assombrados da consciência, não nos surpreende que alguns artistas também sejam magos. Sua arte se torna uma espécie de invocação, um chamado uterino ‘as energias arquetipicas a “presenças” que povoam a imaginação. Para esses artistas, as imagens que conjuram provêem uma espécie de espiada ‘as profundas – e talvez mais ameaçadoras – realidades que se acotovelam alem dos limites de nossa consciência conhecida.  É mágico como artistas dessa estirpe  nos “relembram”  de potencialidades visionarias que filtram através do psíquico, como ecos do Grande Vazio. Os três artistas que vamos tratar aqui são exemplos exponenciais desses gênios criativos e excêntricos; artesãos visuais que, de alguma forma, conseguiram explorar estas realidades inomináveis, mantendo-se no contexto da cultura ocidental do século XX e, sobretudo, preservando a sua sanidade.  Os três podem ser considerados “marginais”, ou alternativos. E somente um, o suíço H.R.Giger, conseguiu atrair a si considerável notoriedade do establishment, alem de ser o único ainda vivo: Austin Osman Spare morreu abandonado em Londres em 1956 e Rosaleen Norton – a Bruxa de King Cross – deixou esta vida em um hospício de Sidney, Austrália, em 1979.  Mas o que especificamente nos desperta o interesse nestes três artistas? Penso que o trio consubstancia justamente o conceito de Arte como Magia, de artista como mago. Eles nos mostraram, através de suas imagens fantásticas, que o Universo realmente é algo misterioso, milagroso e ‘às vezes, aterrorizante, e que a nossa consciência existe e transita em vários níveis. O artista-mago é pois, por definição, um avatar de diversos mundos paralelos.

Austin Osman Spare

O visionário do transe britânico Austin Osman Spare (1886-1956) nos legou exemplos intrigantes da fusão  criativa da Magia com a Arte. Valendo-se de um sistema todo seu de encantamentos e civilizações (mandingas), ele era capaz de focar determinada e controladamente a sua consciência, que evocava energias primais poderosas de sua psique, na técnica que ele cunhou de ressurgencias atavistica.  Ele foi alem dos conhecidos rituais práticos da Magia, ao ponto de suas peças-de-arte representarem uma desapaixonada confrontação com o próprio Universo – ou, como ele próprio gostava de descrever o ato, “roubavam o fogo dos céus”.  Inspirado nos deuses egípcios clássicos e também em sua ligação intima com uma velha bruxa chamada apenas de Sra. Paterson – e com uma entidade dos círculos interiores apelidada de Águia Negra – Spare evoluiu rapidamente de uma arte figurativa conhecida para um estilo inspirado de surrealismo mágico.  Sua carreira iniciou-se de um modo impressionante, mas ortodoxo, quando ele conseguiu uma bolsa para estudar no famoso Colégio Real de Arte, com apenas 16 anos de idade.  Admirado por Augustus John, George Bernard Shaw e John Sargent, ele foi considerado um prodígio artístico e foi logo depois contratado para ilustrar uma porção de livros expressivos, inclusive “Atrás do Véu”, de Ethel Wheeler (1906) bem como um livro de aforismos intitulado “Lodo Queimado nas Estrelas” (1911).

No inicio dos anos 20 ele já era o co-editor de um excelente jornal literário ilustrado, O Golden Hind (Corça de Ouro), junto com Clifford Bax, que atingiu oito números quadrimestrais (1922-24), estampando artigos de verdadeiros papas da cultura de então, como Aldous Huxley, Alex Waugh e Havelock Ellis.  Os desenhos de Spare para o jornal eram em sua maioria de mulheres nuas e suntuosas, apenas levemente insinuando todo o mundo mágico que já começava a inspirá-lo. Se ele tivesse continuado no metier, trafegando meio aos círculos literários convencionais, certamente que se tornaria bem mais conhecido como artista – pelo menos ao nível de outro notado ilustrador, Edmund J.Sullivan, autor das imagens que embelezava O Rubaiyat de Omar Khayyam e cujo estilo gráfico assemelhava-se ao estilo inicial de Spare.  Mas Spare já estava decidido a auto-publicar seus escritos e desenhos, que lidavam com a exploração da consciência mágica. Na verdade, suas inclinações esotéricas  o encaminharam mesmo foi  para longe do mainstream cultural.  Sua cosmologia é complexa, mas instrutiva. Ele acreditava na Reencarnação e afirmava categoricamente que todas as suas pretéritas vidas, seja humana ou até animal, estiveram igualmente imersas na mente subconsciente.  O propósito místico do homem seria justamente rastrear todas essas existências até  ‘a sua fonte primal, e isto poderia ser feito num estado de transe, no qual estaria se sujeito a ser possuído pelos atavismos de algumas dessas vidas.  Ele chegou a nomear essa fonte primal e universal do ser como “Kia” e se referia ao corpo humano como “Zos”. Para ele, este era o veiculo ideal para a manifestação das energias espirituais e ocultas desse universo que, em assim não sendo, permaneceria “oculto”.  Considerava este nível mental como “a epítome de toda experiência e maravilhamento, encarnações passadas como homem, animal, passaro, vida vegetal…tudo o que existe, existiu ou existira´  Sua técnica para fazer aflorar essas imagens primais – a ressurgencia atavistica – envolvia focar sua vontade ferrenhamente em sigilos mágicos que ele própria criava – um simples anagrama gráfico composta por letras de uma sentença que manifestava uma vontade.  Atingido o ponto maximo da sigilizaçao, Spare então fechava seus olhos e concentrava-se tanto no sigilo quanto na vontade a ele associada. De acordo com seu amigo e colega ocultista Kenneth Grant, o efeito era dramático: quase que imediatamente ele percebia a “resposta interior”. Sentia então uma tremenda efusão de energia a percorrer o seu corpo, as vezes com a força até de uma ventania a dobrar uma vara de bambu. Com um esforço supremo, ele se mantinha firme e conseguia canalizar essa energia ao seu objetivo.  Spare visitou o Egito durante a Primeira Guerra e ficou sensivelmente impressionado pelo magnetismo imanado dos deuses clássicos ali representados por esculturas monumentais. Para ele, os egípcios da antiguidade já demonstravam um grande conhecimento da complexa mitologia da mente subconsciente: “Eles simbolizaram este conhecimento em um grande monumento, a Esfinge, a qual retrata pictograficamente o homem evoluindo de uma existência animal”.  Seus numerosos deuses, todos parcialmente animal, passaro, peixe…constatam a totalidade de seus conhecimentos da ordem evolucionaria, os complexos processos iniciados apenas num simples organismo”.

Para Spare, lembranças e até impressões de encarnações previas bem como todos os impulsos míticos, podiam ser despertados da mente subconsciente:” Todos os deuses já viveram na Terra, sendo nos próprios” – escreveu – ” e quando mortos, suas experiências, ou Karma, comandam nossas açoes em parte”.  O artista aprendeu sua técnica de atavismo ressurgente da Sra. Paterson, que por sua vez creditava uma ligação intima com o Culto das Bruxas de Salem.  Ele também começou a fazer “desenhos automáticos” em transe, através da mediunidade de uma manifestada presença que ele chamava de Águia Negra e que tomava a forma de um índio americano.. Afirmava que o via muitas vezes, e até que já vivia em um mundo perceptual em que  se misturavam a realidade circundante, as alucinações e o mundo do transe.  Certa vez, viajando num  ônibus de dois andares, ele afirmou se ver cercado de repente por um grupo de passageiros imaginários, uma turma de bruxas indo para um Sabbath.  A sua atração pela idosa Sra. Paterson era compreensível se levarmos em conta o contexto mágico da relação do casal. Para Spare, ela era capaz de transformar-se perceptualmente de uma encarquilhada feiticeira a uma atraente sereia. Sua concepção de mulher sem uma forma fixa, finita, lhe era de grande apelo – e a Deusa Universal era, acima de tudo, um aspecto central de sua cosmologia mágica. E não abria mão de sua crença de que essa deusa não podia ser limitada nem cultural nem miticamente e nem também nomeada como Astarte, Isis, Cybele, Kali, Nuit, já que, em assim procedendo, estaríamos desviando-nos do “caminho” e,  idealizar um conceito tão sagrado seria falso porquanto incompleto, irreal porquanto temporal.   Spare usou diversas técnicas para entrar em estados de transe; algumas vezes, a exaustão absoluta, como um meio para lhe “abrir o estado de vácuo total”; outras, o orgasmo, para atingir a mesma espécie de êxtase místico. Acreditava que a sigilizaçao, a mandinga, representando um ato de vontade consciente, podia ser plantada como uma semente na mente subconsciente durante estes estados de pico do êxtase, momentos especiais quando o ego e o espírito universal se fundem: “Nesse momento, o qual ocorre a geração do Grande Desejo “ – escreveu – “ a inspiração flui livremente da fonte do sexo da deusa primordial , que existe no coração da matéria…a inspiração vem sempre do grande momento do vazio”.  Diversos dos desenhos mágicos de Spare exibem a Dama Divina guiando o artista pelo labirintico mundo da magia. Um dos seus mais importantes e singulares trabalhos, “ A Ascençao do Ego do Êxtase ao Êxtase” – o qual foi incluso em sua obra-prima auto-publicada , “O Livro dos Prazeres”, em 1913 – mostra a Deusa dando as boas vindas ao próprio artista que, na ocasião,  era apropriadamente provido de asas brotadas de sua cabeça.  Seu ego, ou identidade pessoal, e´ mostrada emergindo na forma de uma encarnação primal animalesca e as duas formas transcendem a si mesmas conjuradas numa caveira atávica – união com Kia.  Em outro  trabalho igualmente importante , “Agora pela Realidade”, a Dama aparece novamente, levantando o véu que revela a misteriosa realidade alem. No primeiro plano, pululam toda forma de criatura – uma coruja, um rato do mato, um diabo com chifres – mas, claramente, a realidade esta´ alem, nas regiões inferiores reveladas pela Deusa.  Indubitavelmente, um dos principais intentos de Spare ao usar os seus transes era liberar energias as quais ele acreditava serem a fonte de genialidade. E ele próprio comentava “ êxtase, inspiração, intuição e sonho…cada estado destampa memórias latentes e as apresenta na imagética de suas respectivas linguagens”. O  gênio, de acordo com ele, era justamente  experimentar diretamente o “atavismo ressurgente” durante” o êxtase da Serpente de  Fogo do Kundalini.

Rosaleen Norton

Nascida na Nova Zelândia e criada na Austrália, a artista Rosaleen Norton (1917-1979) e´ uma das poucas a  fazerem par com Austin Spare. Boemia, excêntrica e extraordinariamente talentosa, ela marcou indelevelmente o folclore urbano de Sidnei como “ a Bruxa de Kings Cross”, por suas pinturas sobrenaturais, prenhas de satanismo e pornografia, numa presumida era de conservadorismo social moralistico, nos anos 50. Mas este era apenas um julgamento estreito que a cercou e que, infelizmente, a perseguiu durante toda a vida.  Seu pai foi um capitão da marinha mercante e primo do compositor Vanghan Williams, que emigrou com a família para a maior cidade da Austrália em 1925. Enquanto eles  comungavam de crenças religiosas ortodoxas, a jovem Rosaleen já fazia seus primeiros contatos com o mundo da magia.

Seu talento para o desenho se revelou precoce, pois aos 3 anos já rabiscava fantasmas com cabeças de animais e aos cinco jurou ter visto um dragão brilhante voando na cabeceira de sua cama.  Mais tarde, na escola secundaria, ilustrou “Dança Macabra” do conjunto Saint Saens, completo com vampiros, lobisomens e gárgulas.  Sua orientação pagã  foi logo notada pela direção da escola que não tardou em expulsá-la, sob a alegação de que “sua natureza depravada poderia corromper as outras garotas inocentes”.  Na adolescência, depois de curta temporada como escritora do Semanario Smith, Rosaleen estudou arte com o famoso escultor Rayner Hoff,  se tornou a primeira artista australiana de rua e começou a saltar de trabalho em trabalho – desenhista para uma industria de brinquedos, “assistente” em clubes noturnos, e até recepcionista e modelo. E foi nessa época que começou a se interessar e pesquisar Psicologia, Magia e Metafísica, indo fundo nas obras de Carl Gustav Jung, William James e ocultistas como Eliphas Levi, Madame Helena Blavatsky, Dion Fortune e Aleister Crowley.  Também descobriu técnicas para elevar a sua percepção artística: através da auto-hipnose, por exemplo, aprendeu a transferir voluntariamente a sua atenção para “planos interiores de excitamento místico”. Esses experimentos, como escreveu mais tarde, “produziram um numero de resultados peculiares e inesperados…e culminaram num período de percepção extra-sensorial  mesclado a uma prolongada serie de visões simbólicas”.  A seguir, algumas passagens de uma entrevista de Rosaleen ao psicologo L.J.Murphy, conduzida na Universidade de Melbourne em 1949, que  provê fascinante insight de sua exploração visionaria de estados alterados da consciência.

“Eu decidi experimentar o transe auto-induzido com o fito de atingir um estado anormal de consciência e poder manifestá-lo, representá-lo de alguma forma, de preferência, desenhando. Queria ir fundo nesses estados da mente subconsciente, explorá-la totalmente e se possível ir ainda mais alem. Tinha a sensação, mais intuitiva que intelectual , de que em algum lugar das profundezas do inconsciente, o individuo contem, em essência, todo o conhecimento acumulado da humanidade; da mesma forma que o nosso corpo manifesta o somatório de nossas experiências como raça, na forma de instintos e de reação automática a estímulos.  No sentido de” contatar” essa fonte hipotética do saber, decidi aplicar estímulos psíquicos ao subconsciente; estímulos que a razão consciente poderia rejeitar, mas que apelaria aos instintos enterrados há gerações, e os quais, eu esperava, causariam reflexos psíquicos automáticos (cultos religiosos usam rituais, incensos, musicas etc,como mesmo objetivo).   Conseqüentemente juntei uma variedade grande de “instrumentos” como folhas, vinho,  uma pata mumificada, etc…e um fogareiro , todas potentes estímulos a parte do inconsciente que eu desejava invocar. Deixei o quarto no escuro, foquei meus olhos na pata, esmaguei as folhas, bebi algum vinho e tentei exaurir minha mente de todo e qualquer pensamento. Assim foi o começo de tudo – e eu fiz varias outras experiências progressivamente bem sucedidas.  Seguindo uma corrente de curioso excitamento, meu cérebro ficou limpo de todo pensamento consciente e, de olhos fechados, comecei simplesmente a desenhar na folha de papel branco a minha frente…me senti liberada do mundo a minha volta, para um estado onde não havia tempo, experimentei uma considerável intensificação de minhas faculdades intelectuais, criativas e intuitivas, e comecei a ver coisas com muito mais clareza e encantamento do que no “meu normal”.

Quando eu próprio entrevistei Rosaleen Norton em 1977, ela me contou que seus visionários encontros com as criaturas mágicas que passaram a povoar as suas pinturas eram extremamente reais. Mesmo sendo entidades como Zeus, Júpiter e Pan, usualmente associados a mitos e lendas da mitologia, portanto bem “longínquos” da realidade da maioria das pessoas, para ela eles representavam forças sobrenaturais, passiveis inclusive de casualidades, não eram simplesmente uma projeção da mente subconsciente ou da imaginação criativa.  Rosaleen inclusive veio a ter uma especial reverencia ao Grande Deus Pan, ao qual ela considerava ” a totalidade de todo o ser , o verdadeiro Deus do Mundo e o Super-Deus do Equilíbrio da Natureza”. Haviam outros também, Lúcifer, Bafomet, Ecate e até  Júpiter, mas de acordo com ela, esses somente se manifestavam em suas visões de transe ao seu próprio bel prazer. “Não atendiam a qualquer invocação ou aceno de qualquer um”, explicou .  Também haviam as chamadas “forças menores”  na sua hierarquia do oculto, incluindo certo numero de demônios, seres espirituais e formas astrais. Algumas das entidades mágicas que apareciam em seus trabalhos artísticos parecem representar híbridos atávicos – metade humano, metade animal, quase sempre nus –  revelando os aspectos primevos da evolução espiritual da humanidade.

Certa vez, como Austin Spare, Rosaleen Norton começou a considerar sua arte como um veiculo para apresentar uma realidade alternativa e potencialmente muito mais impressionantes do que o mundo de aparências familiares. Numa de suas primeiras citações em seu diário oculto, ela chegou a marcar: “ Há sentidos, formas de arte, atividades e estados de consciência que não tem nenhum paralelo na experiência humana…verdadeiro cataclismo envolvente tanto do auto-conhecimento  como do conhecimento universal, presentes (quase sempre em forma alegórica) em todo e quaisquer aspectos concebíveis..metafísico, matemático, cientifico, simbólico…. Compõem um desconcertante espectro de experiências, cada uma completa em si própria, embora ainda assim interdependentes em significância com todas as outras facetas.  Uma experiência dessas poderia ser comparada a assistir e simultaneamente tomar parte de uma peça teatral em que todas as formas de arte estão presentes, a musica, o drama, os rituais cerimonialisticos, formas, sons e padrões, tudo formando um todo sinergistico  Grande parte da arte de Rosaleen foi influenciada pelas escolas cubistas e modernistas, mas detêm uma imagética visionaria muito forte e singular.  Suas imagens foram publicadas inicialmente em 1952, num volume controverso intitulado “A Arte de Rosaleen Norton”, de co-autoria do poeta Gavin Greenles.  Embora atualmente seus desenhos não pareçam tão “confrontacionais”, na época causaram furor nos meios tradicionais e tradicionalistas dos anos 50, já que seu editor, Wally Glover, chegou a ser convocado as barras da Lei e processado por tornar publico “imagens ofensivas a castidade e decência humanas”.  Examinado atualmente esta situação, fica claro que a admitida arte pagan de Rosaleen atingiu fundo toda a estreita e reacionária sensibilidade  judaica-crista de então  O que e´ indubitável e´que  seu melhor trabalho  emanava todo um poder arquétipo e próprio. Nos estudos esotéricos, por exemplo, um demônio furioso olha com lascívia a partir de uma realidade Qliptica, contrabalançado por uma forma de diamante de radiante brilho, enquanto que em Individualização, somos confrontados com um ser mítico resultado de uma fusão de elementos humano, animal e divino.  Similarmente, suas representações de Gebura´ – um vortex de poder dinâmico da Cabala – mostra um poderoso torso humano com uma cabeça alada de um falcão. Esse deus tem ainda um rabo de escorpião e patas  providas de garras, emanando uma agressividade crua e guerreira. Segura uma esfera em sua destra, que bem poderia ser o débil globo terrestre – envolvido pelo seu domínio.  Como Austin Spare, Rosaleen Norton foi uma adepta da exploração de estados alterados de consciência nos quais ela teria seus visionários encontros com deuses. Quando morreu em 1979, entrou para a lenda, embora por razoes errôneas. Em seus dias, perseguida por acusações de obscenidade – e também de “manipular massas negras” em seu abrigo da rua Kings Cross – Rosaleen Norton foi considerada uma marginal pagã e sua arte julgada bizarra e pornográfica.  Mas hoje podemos reavaliar seu trabalho sobre uma nova luz.  Sua imagistica nos parece querer escapar de nossos parcos limites, dar forma a realidades visionarias e arquetipicas que, para a maioria das pessoas, não pertencem a estados conscientes. Talvez foi esta a característica que fez sua arte tão chocante nos anos 50: ela ousou trazer a luz imagens vindas das camadas mais profundas do nosso psíquico, imagens que, para a maioria de nos, seria muito melhor que fossem reprimidas ou esquecidas.

H.R.Giger

hrgiger.jpgMais conhecido por ser o criador do Alien, O Oitavo Passageiro, Han-Ruedi Giger é nativo de Chur, na  Suíça, onde veio ao mundo em 1940.   Diferente de Spare e de Rosaleen,  não desenvolveu inicialmente sua arte visionaria a partir de um tradicional  conhecimento esotérico consciente.   Ao invés disso, as formas artísticas evocadas de sua psique e´ que o guiaram crescentemente em direção a realidade mágica.  As imagens conjuradas por Giger freqüentemente tomam forma sob uma iluminação nebulosa e etérea, levando o observador a cavernas de pesadelo ou espaços mágicos de onde não há nenhum meio tangível de se escapar.  Nos últimos anos, Giger vem se transformando num mago de grande intuição, com sua arte provendo  um assombrado testemunho das potentes energias que nascem do mais profundo da psique.

Quando criança, Giger costumava construir esqueletos de papelão, arame e gesso e tinha “um considerável mal gosto por e vermes e serpentes” – repugnância esta que até  hoje se manifesta em sua pintura. Depois, já aluno da Escola de Artes Aplicadas de Zurique, ele começou a ficar fascinado por imagens de tortura e terror – um fascínio estimulado pela precoce visão de fotografias tétricas do cadáver do Imperador da China, assassinado em 1904,   e ainda pelas lendas de Vlad, o Impalador – a figura histórica na qual Drácula, o Príncipe das Trevas, foi baseado  Mais tarde, o artista foi impressionado indelevelmente pelos textos macabros de H.P;Lovecraft, especialmente seu Mito de Cthulhu e o Necronomicon.  Parte desse apelo, como ele mesmo admite, e´ que o Necronomicon,  clamava ser “…um livro de magia  que ocasionaria grande sofrimento a humanidade se caísse em mãos erradas. Isso inclui a lenda de grandes deuses de nomes impronunciáveis, como Cthulhu e Yog-Sothoth,  adormecidos nas profundezas da terra e dos oceanos, esperando o alinhamento de certas estrelas para despertarem e tomarem posse de seus domínios, o nosso mundo”.  O amigo e mentor de Giger, Sergius Golowin, foi quem sugeriu mais tarde justamente o titulo de Giger´s Necronomicon ao seu primeiro livro de arte,  uma coleção de suas imagens visionarias e esotéricas, inicialmente publicado pela Basle, em 1977 – e depois com outras edições na Inglaterra.  Muitas das mais distintas pinturas de Giger retratam sua modelo principal, a linda atriz Li Tobler, com quem ele se encontrou em 1966, quando ela tinha 18 anos e vivia com outro homem. Giger foi morar no apartamento de sótão dela e se tornaram amantes. Ele recorda que ela “tinha enorme vitalidade e um grande apetite pela vida” e que ela também desejava “uma  vida curta, mas intensa”.  Li Tobler e´ o protótipo para as muitas mulheres torturadas, mas etéreas, que habitam suas pinturas, fazendo par atormentado a serpentes, agulhas e sufocantes cavernas-prisão formada por estruturas ósseas – já prenunciando seu estilo “biomecânico” que o tornou famoso mais tarde.  O próprio e belo corpo jovem e voluptuoso de Li serviu varias vezes de tela aos aerógrafos de Giger e existem diversas fotos mostrando a posando nua, como uma mulher misteriosa emergindo de um pesadelo que possuiu a sua alma.  Infelizmente, a vida de Li Tobler foi realmente curta. Atormentada por uma estressante vida de viagens com seu grupo de teatro por todo o pais e perturbada emocionalmente pela sucessão de outros amantes, ela interrompeu tragicamente sua vida numa segunda-feira de 1975, com um tiro de revolver.  Quando eu encontrei Giger em sua casa de Zurique  em 1984, para filmar uma seqüência ao documentário de TV “A Experiência do Oculto”, ficou claro para mim o quanto ele ainda estava assombrado por Li Tobler: a simultânea agonia e trabalho de viver com ela, contribuiu para impingir  uma dinâmica de medo e transcendência   em suas pinturas, como um legado perene da tumultuada relação que mantiveram.

Giger vive hoje numa atmosfera que evoca simultaneamente um senso de magia e de paranóia. A sala principal de escadarias em sua casa de dois andares e terraço, tem as paredes cobertas por telas impressionantes, exibindo  mulheres tipo Medusa, de peles fantasmagoricamente alvas, cabelos de serpente e com seres estranhos se enroscando em volta de seus voluptuosos corpos.  Garras, agulhas, metralhadoras, espinhas e outras estruturas ósseas também constituem o aspecto central da iconografia visual de Giger.  No meio da mesa monumental que ocupa o seu living, esta´ gravado um pentagrama, bruxuleantemente iluminados pela luz de velas compridas  de um conjunto de castiçais próximos.  Uma fileira de altíssimas estantes em um canto, revela um amontoado de crânios, caveiras e até autenticas cabeças encolhidas e mumificadas de uma tribo canibal.  Uma prateleira exibe o Oscar que premiou H.R. Giger  pelos efeitos especiais de Alien, num verdadeiro tributo a sua bizarra imaginação.  Escada acima e chegamos ao seu estúdio, verdadeiro caos de tintas, pinceis e trabalhos inacabados e descartados.  Aqui, ele experimenta suas técnicas de aerografia, espreiando tinta através de grades e peças de metal funcionando como mascaras –  para obter padrões repetidos de design, luz e sombra, e texturas, tonica de sua imagistica biomecanoide tão característica.  Ao final de uma comprida sala toda aberta existe uma enorme mesa negra, sustentada por pernas em bulbo, com tampo de impressionante polimento, quase um espelho. Modelada em plástico pesado, ela e´ ladeada por cadeiras altas, decoradas com caveiras e construídas para darem a impressão de vértebras distorcidas. Na cabeceira, a cadeira principal, cor cinza grafite, esta sim, construída de ossos verdadeiros.  Pairando sobre todo o cenário, um grande painel apresentando um demônio com chifres, um pentagrama prateado e muitas serpentes negras e hostis.  Indagado sobre suas “afiliações com o ocultismo” ele confirmou que, embora tenha estudado os escritos de Aleister Crowley, não pratica rituais nem se envolve com invocações de espíritos.  De toda forma ninguém poderia encontrar um templo para pratica de magia melhor que esta sala de Giger e os seres astrais que habitam suas pinturas compõem por si mesmos verdadeira legião de demônios.  Parece na verdade e´que Giger pratica a magia espontânea .  “Eu tento ir o mais próximo possível da minha imaginação” expressa o artista em seu inglês gaguejante. “Tenho alguma coisa na mente e tento trabalhar isto, numa espécie de exorcismo”.  E´ quando o débil véu que cobre sua mente e´ levemente descortinado que supitam as visões tempestuosas e impressionantes, como se os deuses da escuridão mais uma vez emergissem dos pesadelos de seu passado.

Conclusão

Como destacado desde o inicio, existe distintivos paralelismos entre Austin Osman Spare e Rosaleen Norton. Ambos foram influenciados por feitiçaria e tradições ocultas da magia oriental, ambos valeram-se de estados de transe e ambos acreditavam que o mundo dos deuses tem a sua própria intrínseca existência – servindo o artista apenas como veiculo de manifestação das energias arquetipicas, um canal inspirado. E e´ interessante que ambos empregaram técnicas de enfoque mental – usando mandingas e objetos físicos específicos para induzir o estado de transe. Como nas tradições de meditação oriental,  que utiliza um enfoque centralizado da mente e  da consciência numa intenção, como uma valorosa pratica para liberar energias psíquicas armazenadas.  H.R.Giger por sua vez,  nos prove com uma orientação de alguma forma diferente. Sua arte não deriva de estados transe  per si, mas flui de toda forma, de um tipo de exorcismo da alma.  Na Introdução a uma recente coleção de trabalhos de Giger publicada em 1991, o guru do LSD Timothy Leary confirmou o impacto da arte evocativa do pintor suíço: “ Giger, você retalha com navalha partes do meu cérebro e os molda, ainda pulsantes, sobre suas telas…Gostemos disto ou não, nos somos todos alienígenas insetóides encravados dentro de nossos corpos urbanóides. Seus cenários, seus slides microscópicos, são sinais para mutação”.

Nota: este é um trecho traduzido de  “Echoes from the Void: Writings about Magik, Visionary Art and the New Counsciousness”. Shadowplay zine – Austrália
Cortesia: www.alanmooresenhordocaos.hpg.com.br

Por Nevill Drury, Tradução: José Carlos Neves

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/austin-osman-spare-h-r-giger-e-rosaleen-norton-tres-artistas-malditos/

Dragões do Apocalipse

Há evidências mais do que suficientes que indicam que uma forma de vida réptil altamente evoluída está interagindo com seres humanos. A sua presença tem sido testemunhada em cada canto da Terra pelas mais diferentes pessoas. Agora que nós estabelecemos o fato de que eles estão aqui, a próxima pergunta que devemos fazer é: de onde eles estão vindo?

As teorias sobre a origem das formas de vida “alien” reptiliana parecem considerar três aspectos. Das evidências acumuladas, foi determinado que eles são ou:

a) Extraterrestres. (ET’s) Seres de outro planeta ou sistema estelar; ou

b) Intraterrestres (IT’s) Seres que são formas de vida terrestres (Terra) que evloluíram naturalmente e que residem em Cavernas intraterrenas, cidades subterrâneas, e bases subaquáticas; ou

c) Intradimensionais. (ID’s) outras entidades aliens existindo em níveis vibracionais (viajantes de tempo/espaço etc.).

Embora exista uma grande quantidade de dados apoiando cada teoria, este relatório só considerará os fatos básicos de cada uma. É importante compreender que, embora cada teoria pareça ser distinta, todas as três teorias poderiam ser, e provavelmente são, corretas.

REPTILIANOS – E.T.’s

Fontes seguras têm informado que alguns seres reptilianos extraterrestres poderiam ser considerados uma raça de invasores intergalácticos. Intrusos indesejados que vêm de uma região do espaço conhecida como Alfa Draconis. Os seus objetivos aparentes são: procurar novas formas de vida ao longo do universo; Conquistá-las por quaisquer meios necessários, e usar os espólios das invasões como recursos naturais para abastecer os seus objetivos continuamente.

Eles atravessam o universo até o destino planejado em uma nave-mãe que é um Planetóide/Asteróide dirigido. (Nota: Algumas pessoas teorizam que a nave-mãe reptiliana localiza e segue bem atrás de cometas que estão indo na mesma direção que ela, usando o campo gravitacional para puxar o planetóide pelo espaço. O corpo do cometa também age como uma proteção contra impactos de escombros estelares e previne que qualquer civilização observe o avanço da nave-mãe deles.)

Durante as suas longas viagens, a maioria da população ET reptiliana na nave-mãe vive em um estado de hibernação. Um grupo de reptilianos administra as operações diárias da espaçonave e mantém as câmaras de hibernação. Além disso, eles enviam naves de reconhecimento contendo soldados e cientistas ao sistema planetário que eles estão se aproximando, e estabelecem postos subterrâneos no planeta de interesse, como a…TERRA.

O exército ET reptiliano assegura a continuação do segredo da presença deles, faz abduções de várias formas de vida na superfície do planeta, e investiga os avanços tecnológicos dos habitantes da superfície. Os ET’s cientistas estudam as formas de vida do planeta, introduzem o seu código genético reptiliano em quaisquer das espécies que exibem características que eles querem manipular, e iniciam um programa de cruzamento genético.

Das bases subterrâneas, os ET’s do exército reptiliano preparam o palco para a invasão da nave-mãe, estabelecendo uma rede de híbridos humanos-reptilianos infiltrados dentro de vários níveis da cultura de superfície: complexos industriais militares, corpos de governo, grupos de UFO/paranormal, religiões, etc. Estes híbridos, alguns sem conhecimento das instruções de “Controle da mente” de sua genética reptiliana, representam os seus papéis subversivos como “agentes reptilianos”, preparando o cenário para uma invasão.

Apenas antes da aproximação planetária, a grande população reptiliana a bordo do planetóide desperta da sua hibernação e prepara-se para a batalha. Quando a invasão acontece, ela vem de cima e debaixo da superfície dos planetas.

Estranhas naves, pilotadas pelos reptilianos, pelos Grays e pelos agentes humano-reptilianos, descem das nuvens enquanto outras ascendem para os céus do mundo subterrâneo de cavernas e sub-cidades, subjugando as culturas da superfície de uma maneira completamente inesperada.

Depois que os habitantes da superfície descobrem a futilidade de lutar contra os seus invasores com armamento tecnologicamente inferior, uma rendição é negociada. Uma vez que a invasão está completa e os habitantes da superfície se rendem às exigências dos seus novos governantes, a nave-mãe reptiliana tira do planeta os seus recursos como água e informação genética (DNA), então, após transformar o planeta em uma nova “Base de Operações”, os ET’s reptilianos partem para a próxima “pérola” do espaço.

Como se não fosse assustador o bastante imaginar tais seres viajando pelo espaço, planejando invadir a Terra, existe outra possibilidade que apresenta os “extraterrestres” reptilianos, não como invasores, mas como nossos vizinhos.

REPTILIANOS – I.T.’s

Há outra percepção sobre a origem dos seres reptilianos, e ela é a de que eles são verdadeiros “Terráqueos”. Tendo evoluído dos dinossauros que escaparam dos desastres climáticos na superfície do planeta (provocado pelo impacto de um asteróide na Terra uns 65 milhões de anos atrás) entrando no mundo subterrâneo de cavernas. Depois de ter milhões de anos para se adaptar ao seu novo ambiente subterrâneo e evoluir para uma espécie altamente inteligente, é dito que eles se tornaram uma espécie tecnologicamente avançada que controla e manipula os humanos da superfície.

Durante os últimos cem anos, instituições científicas têm nos dito que todos os dinossauros foram extintos e que falar da sobrevivência deles era bobagem. Porém, a paleontologia moderna virou o jogo dos seus antecessores e agora abertamente declara que por causa de vários avanços em métodos de localização hereditários, eles acreditam que alguns dinossauros podem, de fato, ter sobrevivido ao impacto do asteróide 65 milhões de anos atrás e continuarem vivendo até hoje.

Depois de descobrir “fósseis vivos” (como pássaros, por exemplo) os paleontólogos estão reconsiderando a sua tão proclamada teoria de “extinção”. Que outros tipos de animais existem no planeta que escaparam do exame para herança sauriana? Da mesma maneira que os dinossauros podem ter evoluído para os pássaros, também poderiam haver outros dinossauros que sobreviveram e evoluíram? E, nesse caso, onde e como eles poderiam ter sobrevivido? A pergunta mais importante é: que curso levou a evolução física deles e o quanto inteligentes eles poderiam ter se tornado durante os 65 milhões de anos em que eles tiveram que se adaptar aos novos ambientes? Há muitas respostas a estas importantes perguntas as quais nós não nos dirigiremos neste relatório (mas que são completamente investigadas no livro). Nós vamos, porém, comentar brevemente sobre uma visão particular que a comunidade científica providenciou para a NASA durante a procura dessa agência espacial por vida extraterrestre.

(A nosso conhecimento, é o único relatório científico do tipo que existe.) Dale Russell, paleontólogo sênior da Universidade da Carolina Do norte, foi contratado pela NASA para extrapolar uma imagem de como a vida extraterrestre poderia se assemelhar. No relatório dele (Evolução Exponencial: Implicações para a Vida Extraterrestre Inteligente, Adv. Pesquisa espacial 1983), ele “evoluiu” o dinossauro Troodon de acordo com a evolução natural de seu próprio tipo de corpo e criou um modelo de um ser que ele chamou “Dino-sauroid”. Este modelo reptiliano de “Dino-sauroid” (que tinha uma semelhança bastante notável a um reptiliano-humano) foi apresentado então no relatório dele à NASA como um exemplo do que a vida ET poderia se parecer. Notavelmente, esta imagem é quase idêntica àquelas que são descritas por testemunhas.

Poderia a vida “extraterrestre” (como nós a percebemos) de fato ser os evoluídos e altamente inteligentes descendentes dos dinossauros? Esta hipótese de “ET’s” Reptilianos nascidos na Terra seguramente responderia ao longo argumento contra os discos voadores que diz que “Até mesmo à velocidade da luz, levaria milhões de anos para que uma espécie de ET’s voasse pelo espaço para chegar aqui!”. Desde que dinossauros evoluídos estariam morando no natural mundo subterrâneo da Terra, só levaria breves segundos para tal contato ser feito com os humanos da superfície. Se esse é o caso, então um dos principais argumentos dos céticos fica inválido! Desanimador o bastante como é considerar a possibilidade de que reptilianos estão vivendo aqui e agora na Terra conosco, uma terceira e até mesmo mais perturbadora teoria existe. Uma teoria que a humanidade tem considerado desde o seu amanhecer: os “Aliens” reptilianos ou deuses-serpentes podem ser moradores invisíveis da Terra. Seres que têm sido rotulados há muito tempo de anjos e demônios.

REPTILIANOS – I.D.’s

Como seres Intra ou Ultradimensionais, supõe-se que os reptilianos se originaram de uma dimensão de freqüência vizinha que nós conhecemos como o Reino dos Mortos (o local para o qual nossa matriz de alma vai quando “morre”), também chamado Devechan (a região Hindu do entre-mundo ou vida após a morte.)

Os átomos que formam os corpos físicos dos seres reptilianos intradimensionais estão girando a uma taxa diferente da nossa e a freqüência do giro está fora da percepção visual humana normal. Da mesma maneira que a matriz de freqüência de uma alma humana pode permanecer em nossa dimensão e ser percebida como um fantasma, os seres reptilianos habitam a mesma região de freqüência que os espíritos ou fantasmas, mas são capazes de materializar as suas formas na terceira “densa” dimensão para interagir fisicamente com humanos “vivos”.

Esta transferência da quarta para terceira dimensão e de volta, durante um tempo, não era fácil de ser feita por eles. (Algumas pessoas acreditam que os relatórios de “chuvas” de rãs, pedras, peixe etc. que foram registrados na segunda metade do século dezoito [Último escrito sobre isso pelo autor Charles Forte] eram as primeiras tentativas dos cientistas reptilianos para enviar formas de vida inanimadas e animadas pela barreira dimensional que dividiu os dois reinos de freqüência.)

Depois que o primeiro teste atmosférico atômico foi conduzido sobre o chão do deserto do Novo México no começo dos anos 40, o Pulso Eletromagnético resultante (EMP) abriu permanentemente a barreira dimensional naquela área. E, através desse recentemente formado portal dimensional, o complexo industrial militar-científico da raça dos reptilianos enviou as suas naves e começou a ocupar a terceira dimensão. (Toda detonação nuclear atmosférica sucessiva que aconteceu desde então pode ter criado outros “Portais de Entrada”) (Nota: também é atribuído a ordens Fraternais de mágicos praticantes ou padres [não simples ilusionistas] a iniciação de contato com seres reptilianos inanimados vivendo no seu natural estado “astral”, abrindo portais dimensionais com energia focalizada em forma de pensamento.)

Alguns seres Ultradimensionais são ditos serem capazes de residir nos níveis mais profundos do mundo subterrâneo por período indefinido porque a proteção de pedra profunda e a proximidade do centro da Terra requerem matéria densificada ao redor da concha de freqüência de um ser consciente. Esses reptilianos Intraterrenos não-físicos também são considerados Inteligências Astrais, Anjos Caídos ou Demônios do Submundo (Inferno).

Uma pergunta surge freqüentemente: os reptilianos Intradimensionais sempre foram desse “outro lado” ou não? Certamente é possível que eles tenham vivido em nossa terceira dimensão como seres de matéria física e que durante um conflito global (provavelmente com a raça Ancião ou Elohim) eles foram “mortos” na batalha e deslocados para a quarta dimensão, e estão tentando, desde então, voltar ao seu terceiro reino dimensional.

Também foi sugerido que desse estado astral, eles têm conseguido manipular os humanos em guerra e em situações de tensão e medo para extrair várias freqüências áuricas (emocionais) para os seus próprios propósitos. Através da altamente sugestiva consciência humana, esses negativamente carregados “sanguessugas” ou “vampiros psíquicos” reptilianos, orquestram e festejam situações de genocídio, conflito global, uso de droga (anfetaminas, cocaína, “remédios”, etc.), perversões sexuais e a matança por atacado da vida animal (gado, aves, suínos etc.) Este aspecto particular da não-fisicalidade reptiliana é bastante extenso e não será abordado completamente neste relatório. Outros assuntos relacionados (que são discutidos no livro) são: Psicologia da mente interna (arquétipos), evolução humana, vibrações de freqüência, percepções humanas, formas de pensamento e experiências de testemunhas (e muito mais).

CONCLUSÃO

Estas breves descrições de cada teoria sobre a origem dos “extraterrestres” reptilianos refletem as percepções atuais dentro da comunidade OVNI. Muitos investigadores têm observado evidências que apóiam cada uma dessas teorias, sugerindo que todas as três podem estar de fato corretas. Alguns reptilianos vêm de sistemas solares muito distantes, outros evoluíram aqui na Terra e têm permanecido escondidos no seu império subterrâneo, enquanto outros penetram pela barreira dimensional que separa a humanidade dos reinos astrais dos “mortos”. Se somente uma destas teorias for verdade, então a humanidade está na direção de uma revelação que só as imaginações mais selvagens poderiam conceber. Nós temos sido advertidos pelos Hebreus, Índios Americanos, Astecas e profetas Hindus que, no “Fim dos Dias”, nós encontraremos Dragões, Leviatãs e Deuses-Serpentes. Eles devem, nos somos ditos, chegar como os precursores do terror, morte, redenção e salvação. De onde eles virão é uma pergunta que tem iludido a melhor das mentes escolares que estudam as profecias. Porém, uma coisa nós sabemos com certeza:

Eles estão aqui.

por John Rhodes

Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/dragoes-do-apocalipse/

A Superioridade Ilusória

Antes de pensar no seu chefe ou formar uma imagem mental daquele chato que sempre conta vantagem em tudo, saiba que superioridade ilusória não é a mesma coisa que complexo de superioridade.

A superioridade ilusória é uma viés cognitivo que faz com que as pessoas superestimem suas habilidades positivas e subestimem suas qualidades negativas, em relação aos outros.

Antes de prosseguirmos uma breve pausa lexicômica.

Ilusões positivas são descritas como as atitudes positivas absolutamente e totalmente irrealísticas que os humanos tem em relação a si mesmos. Existem hoje basicamente três categorias diferentes e bem abrangentes de ilusões positivas:

1- a avaliação exagerada de nossas próprias capacidades;
2- o otimismo irreal sobre o futuro;
3- a ilusão de controle.

Fim da pausa.

A superioridade ilusória é uma ilusão positiva que vem sendo estudada de forma extensiva dentro da psicologia social e costuma ser referida em termos leigos como o Efeito Acima da Média. O Efeito Acima da Média faz as pessoas terem uma imagem própria mais positiva e menos negativa do que a imagem que as pessoas que a cercam tem dela.

Mas e o que eu posso ter remotamente a ver com isso tudo?

Todo mundo, e eu digo TODO MUNDO MESMO, desenvolve opiniões baseadas em comparações. Se não houvesse algo com o que se comparar não saberíamos se uma coisa é redonda ou quadrada, doce ou salgada, não haveria como formar uma escala de bom e ruim e o mundo seria possivelmente um lugar ainda mais sem graça de se viver.

Muitas pessoas, e eu digo MUITAS PESSOAS MESMO, formam suas opiniões tomando como base comparações sociais. Essas comparações podem ser baseadas no seu desempenho acadêmico, nos seus ambientes de trabalho ou em seu ambiente social – ou seja em qualquer lugar que não seja debaixo da sua cama ou dentro do seu lavabo[1].

Paralelo a isso, durante a vida uma pessoa tem uma visão bem específica a respeito de sua popularidade, sua honestidade, sua confiança e outros atributos que possa julgar desejáveis.

Agora como esses dois fatores se combinam para termos nossa ilusão positiva?

[Todo mundo precisa de um comparativo] + a grande parte das pessoas faz comparativos sociais] x [cada um de nós tende a ser mais otimista do que pessimista a nosso próprio respeito] = nem fodendo eu vou fazer papel de idiota, só porque aquele cara é formado não quer dizer que eu seja pior do que ele!

Assim, observe uma pessoa sem diploma de medicina, tentando discutir um diagnótico com um médico. Ou alguém que não sabe nada de mecânica tentando discutir com um mecânico na oficina. Ou tende reparar nos argumentos que um possível cliente usa para diminuir ainda mais o orçamento que você pediu para fazer determinado trabalho. A idéia não é querer mostrar que o outro está errado, mas que você – ou a pessoa – está em pé de igualdade, mas tem uma visão mais clara. Acaba funcionando quase como um sistema imunológico mental.

Já foi registrado que pessoas com um QI mais baixo possuem um senso de Superioridade Ilusória muito forte. Mas por que isso acontece? Em um mundo que tem Darwin como um de seus pilares não deveria favorecer os mais preparados? Por que os menos preparados são os que geralmente tem uma sensação de superioridade mais forte?

Em 1999 Justin Kruger e David Dunning realizaram uma série de experimentos que mostraram que quando falamos de habilidades como compreensão de leitura, operação de veículos motorizados, e jogar xadrez ou tênis, a “ignorância, com mais freqüência do que o conhecimento, gera confiança”. Analisando os resultados de seus estudos, dada uma habilidade típica que humanos possam possuir em maior ou menor grau, eles propuseram quatro hipóteses interessantes:

1. Indivíduos incompetentes tendem a superestimar seu próprio nível de habilidade;

2. Indivíduos incompetentes não reconhecem habilidade genuína em outros;

3. Indivíduos incompetentes não reconhecem o grau extremo de sua inadequação;

4. Se treinados substancialmente para melhorar seu nível de habilidade, estes indivíduos serão capazes de reconhecer e admitir sua prévia falta de habilidade.

Isso pode ser resumido da seguinte forma, a não ser que uma pessoa sem nenhuma habilidade passe por um treinamento e condicionamento extensivo, ela permanecerá tomando más decisões e chegando a conclusões errôneas e como bônus, sua incompetência lhes impedirá de apreciar e aprender com seus erros.

Ok, agora parece que estamos falando do seu chefe, mas se atente à sutileza. Em um estudo realizado em 2006, tentaram determinar o grau de inacuidade das pessoas em relação às suas reais habilidades como motoristas, como resultado, os testes mostraram que os motoristas sempre se qualificavam superiores à concorrência em mais de 18 ítens que tinham relação com sua habilidade de dirigir, claro que eles não sabiam qual era a finalidade do teste, que foi apresentado como um teste para determinar a percepção que cada um tinha de perigos no trânsito.

Outro efeito da superioridade ilusória é se criar uma ilusão que envolve sua capacidade de jogar e apostar. Por alguma razão as pessoas pensam com frequência que podem levar uma vantagem sobre jogadores profissionais de poker, deixando de lado qualquer bom senso relacionado às estatísticas sobre perdas e experiência, e claro que quando os jogos terminam, a culpa sempre recai sobre alguma falha externa ou algo que sua expertize não previu.

Tenha sempre em mente que provavelmente você não é tão esperto ou esperta quanto seu cérebro diz que você é. A humildade afinal pode ser a melhor maneira de hackear seu cérebro e não ser enganado por ele.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-superioridade-ilusoria/

O Caminho do Excesso

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A noção de Caminho do Meio é passada mais notavelmente por Buddha e Aristóteles. Buddha enfatizou o Caminho do Meio no contexto de “Despertar”, dizendo que o caminho da moderação está entre os extremos da austeridade e da indulgência. Aristóteles enfatizou o que ele chama de Doutrina do “Meio termo”. Onde a “virtude” reside na metade dos extremos de qualquer ação moral: Virtude é o meio entre dois vícios.

Thelema, por outro lado, é o Caminho do Excesso. Nesse novo Aeon, nos aventuramos a encontrar ambos os extremos, em qualquer caso: Indulgência & austeridade, orgulho & humildade, bom &mal, alturas & profundidades; O livro da Lei nos dá esta formula de modo claro: “Mas excede! Excede! Esforça-se cada vez mais e se tu és verdadeiramente meu- e não duvide disto, e se tu és sempre jubiloso! Morte é a coroa de tudo! (II:71-72). A formula é dada ainda com mais detalhes no nosso livro sagrado “Liber Tzaddi vel Hamus Hermeticus”:

33. Eu vos revelo um grande mistério. Vós estais entre o abismo do alto e o abismo da profundeza

34. Em qualquer um destes vos aguarda uma Companhia; e aquela Companhia é Vós mesmos

35. Vós não podeis ter outra Companhia

36. Muitos se ergueram, sendo sábios. Eles disseram “Buscai a imagem brilhante no lugar sempre dourado, e uni-vos com Ela”

37. Muitos se ergueram, sendo tolos. Eles disseram “Descei até o sombriamente esplêndido mundo, e desposai-vos com aquela Criatura Cega do Lodo”.

38. Eu que estou além da sabedoria e da Tolice, me ergo e vos digo: realizai ambas as núpcias! Uni-vos com ambos.

39. Cuidado, cuidado, eu digo, a fim de que não busques a um e perdas o outro!

40. Meus adeptos se mantêm erguidos; sua cabeça acima dos céus, seus pés abaixo dos infernos.

Apenas escalando até as alturas e mergulhando nas profundezas nós conseguiremos entender esses Companheiros – isto é, nós iremos compreenderemos toda nossa altura e nossas profundezas ao invés de meramente permanecer no meio termo.

É possível imaginar o Caminho do meio ou a Doutrina do meio termo como uma Torre ou um pau de base pequena que voa facilmente quando um vento assopra. O caminho do Excesso é o oposto disso; nós construímos nossas base o mais largo possível,de forma a construir fundações mais resiliente para nossa pirâmides. Para cada crescida que nossa planta faz para o céu, nossas raízes fazem para o solo.

Agora passamos para o nosso Santo-Sátiro Nietzsche que revelou a psicologia insidiosa por trás destes Caminhos do Meio… Aquilo que eles chamam de moderação é na verdade “mediocridiade”.

“Eu passo pelo meio do povo e mantenho os olhos abertos: eles se tornam menores e menores ainda mais eles se tornam. Deve-se isto à sua doutrina da felicidade e virtude.

É que eles são moderados também em virtude, porque eles querem conforte, com conforto, contudo, uma virtude modesta é o que é compatível apenas.

Alguns deles querem, mas na maioria apenas é querida. Alguns são genuíno, mas a maioria deles é[composta por] maus atores

A virtude pra eles, é o que os faz modestos e domados; assim fizeram do lobo um cão e do próprio homem o melhor animal doméstico do homem .

“Nós colocamos a nossa cadeira no meio” — assim me confessa o seu semi sorriso — “tão distante dos gladiadores moribundos quanto dos suínos saciados”. Isto, porém, é mediocridade, embora chamem-na de moderado.

(assim disse Zarathstra “A verdade amesquinhadora)

O fato é esse: o homem “moderado” é o homem médio e, portanto o homem medíocre. Ele é nada especial, nada importante, nada demasiadamente radiante ou único. Essas doutrinas não geram Leões e lobos, mas sim animais domesticados. Por trás dessas virtudes há o desejo de mansidão, conforto e segurança. Essas pessoas não apenas temem os extremos em si próprios, criando uma ruptura e por consequência, uma restrição em seu íntimo ser, mas consequentemente, eles temem que o Extremo e o Excesso e seja expresso nos outros.

O Medo e o desejo por conforto seguro são antitéticos para uma forte e engenhosa Vontade, que possa ser autoassertiva, movida por amor, forte, bela, que saltita com risadas. Nosso profeta explica em seu comentário ao Livro da Lei essa mesma ideia:

“Progresso, como sua própria etimologia declara, significa Um passo a Frente, É o Gênio, O excêntrico, o Homem que se destaca de seus pares, que é o Salvador da Raça. Ainda que não seja sábio, possivelmente (em algum aspectos) exceder em certos aspectos, podemos ter certeza que aquele que excede não é de forma alguma medíocre”

E assim: concluímos com uma fala de William Blake que To Mega Therion cita em seu comentário para “Exceda!Exceda!” do Liber Al:

“A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria”

Amor é a Lei, Amor sob vontade

The Path of Excess in Thelema

#Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-caminho-do-excesso