Ordem DeMolay cabalística?

Como é possível nosso simples ritual se encaixar no diagrama que contêm os “segredos mais herméticos” da Tradição Ocidental? Da mesma maneira que nosso ritual é simples, a resposta também o é. O Ritual dos Trabalhos Secretos escrito por Frank A. Marshall em 1919 contêm os elementos básicos da Jornada do Herói, tal como decodificado e dissertado amplamente por Joseph Campbell. E da mesma forma, a Árvore da Vida estudada na Cabala Hermética, expressa os detalhes dessa Jornada Mitológica/Psicológica.

Uma coisa leva a outra sem muitos mistérios. E a analogia nos faz perceber a grandeza das entrelinhas dos rituais DeMolay. Basta não ter preconceitos e saber como se interpretar um ritual, como vimos nos textos anteriores. Vamos começar por partes, com a diferença de Cabala Judaica e Hermética.

Cabala Judaica e Hermética

Kabbalah, ou Cabala, é a sabedoria que investiga a natureza Divina.

Cabala Judaica lida com o Torá e as outras centenas de escritos, muitos deles velados a tradição judaica. Textos escritos em hebraico arcaico, e sem traduções possíveis em sua grande maioria. Não se limita ao estudo da Árvore da Vida, mas sim de todos os escritos da tradição judaica e a descoberta dos seus segredos através da Gematria (valor numérico das letras), Notaricon (são palavras cujas letras foram frases) e a Temura (permutação das letras por outras).

A Cabala Hermética abrange toda a tradição ocidental, lidando principalmente com o mais famoso esquema da Árvore da Vida (porém não é o único). A Cabala Hermética também lida com o alfabeto hebraico e com muitos dos conceitos absorvidos da Cabala Judica, mas sua ocupação não são os escritos da Tradição Judaica, e sim no que é relacionado ao Divino dentro do Homem e o caminho que devemos percorrer para alcançar esse Divino e seus métodos, como o Tarô, Astrologia, as Mitologias, e a própria atual psicologia está nesse sistema.

Outros autores já se ocuparam em esclarecer esses temas e sua extensa história, e nosso propósito aqui é somente uma apresentação.

Árvore da Vida

A Árvore da Vida é o símbolo que expressa as etapas da manifestação de Deus, da Sua Unidade até nós, e o caminho que temos que percorrer de volta. Suas esferas são chamadas de Sephiras e têm o número de 10, correspondem a Trinidade de Deus e aos 7 planetas, e seus caminhos são representados pelas 22 letras hebraicas. Toda Tradição Esotérica é se expressa nesse sistema de esferas e caminhos. Vide os textos e imagens sobre Kabbalah do Marcelo para exemplos.

Como disse no texto Conflito entre Religião e Fé DeMolay existe uma igualdade entre microcosmo e o macrocosmo. E a Árvore da Vida é o símbolo que representa todos os arquétipos da mente humana. Ou seja, é o próprio símbolo do homem e da sua mente. Mas para entender cada um desses detalhes é inviável por textos, afinal a Cabala é para ser vivenciada, e não somente especulada. Independente da sua crença, cristã, ateia, satanista ou shivaista, se você não é familiarizado com a Árvore da Vida, pode ter certeza que a estudando, estará estudando a Natureza Divina e como ela se manifesta em você dentro da sua própria crença. Em livros e em rituais encontraremos somente um guia para que alcancemos nossas próprias percepções da Árvore.

Por esse motivo a Árvore da Vida influenciou a antiga Sociedade da Rosa Cruz da Idade Média, passando dessa maneira aos ritos da Maçonaria Especulativa, às diversas Ordens rosacruzes e martinistas atuais. E claro, também a Ordem DeMolay através da sua Mãe.

Um outro dia num post mais específicos vamos contar como a Jornada do Herói, a Iniciação, e a Árvore da Vida e o Ritual DeMolay são unidos. Me cobrem após a conclusão do meu oitavo texto para o blog.

Relação com o DeMolay

Não é novidade para ninguém que já tenha prestado atenção numa Cerimônia de Posse que a Ordem DeMolay é baseada no ciclo solar, que representa a jornada da vida na Terra. Temos uma coisa importante ai: a comparação da jornada do sol com a jornada do homem. As above so below! O macrocosmo refletido no microcosmo. O mais importante princípio hermético, que já discutimos nos outros textos, na Ordem DeMolay. E isso não é tudo, vão revendo os rituais de Iniciação e Investidura de acordo com seus estudos ocultistas para terem certas surpresas. Pois muitas delas não poderemos revelar, daremos somente a chave para quem souber utilizar. E a principal acabou de ser dada.

Não é novidade para ninguém que os egípcios, os gregos e os romanos construíam seus templos para expressar a proporção divina (Número de Ouro). Mesma proporção existente no homem. Da mesma maneira que não é novidade que os Templários criaram suas catedrais também com a mesma proporção divina. Por acaso não é novidade que a rosacruz estuda os princípios divinos no homem e que os rituais visam o despertar espiritual do homem, que é o despertar da nossa Centelha Divina. Da mesma maneira que por acaso acontece na Maçonaria mas como a construção do Templo perfeito dentro de nós. Claro, na Ordem DeMolay não é diferente.

A rosa que floresce na cruz, o lapidar da pedra bruta, e a busca das virtudes que são a base para um homem de bem. Palavras diferentes para o mesmo objetivo: alcançar o Sol.

Oficiais DeMolay e Kabbalah

Não, não temos segredos da Cabala Hermética em nossos rituais. Mas por nossos rituais seguirem o princípio Universal, ele se encaixa na Árvore da Vida. Compare a Sala Capitular com seu esquema. Não é coincidência.

Keter: Unidade de Deus, o princípio, que tudo cria a todo momento, a sephira da qual tudo se manifesta. Oficial: Mester Conselheiro, o líder do Capítulo, aquele que deve tomar a iniciativa e guiar todos os trabalhos.

Hockmah: aonde a energia da Unidade cresce e acelera, criando o caos e as infinitas possibilidades de todos Universos. Oficial: Escrivão, aquele que tudo anota e tudo deve conhecer da administração.

Binah: dá ordem a criação, das infinitas possibilidades sintetiza uma para manifestar. Oficial: Orador, aquele que tem a palavra final nas reuniões, sintetizando todo acontecido da reunião numa lição que todos levarão para casa.

Daat: a esfera “vazia”, que nos separa de Deus (representa os mitos da queda do homem. Observe que aqui acontece a divisão entre Oriente e Ocidente). São os Preceptores que são representantes das virtudes que devemos adquirir para realizar novamente essa conexão.

Chesed: acontece a manifestação, é a esfera doadora de vida, benevolente. Oficial: Hospitaleiro, o responsável pelos projetos filantrópicos do Capítulo.

Geburah: é o rigor e a justiça Divina. Oficial: Tesoureiro, pois sem o seu rigor o Capítulo não tem dinheiro para comprar os materiais básicos e não pode trabalhar.

Tipheret: a harmonia e a beleza da criação, é a manifestação direta da força divina de Keter. Oficial: Porta Estandarte e Mordomos que carregam nossos baluartes, Orador, que faz as invocações e o Mestre de Cerimônias que transmite essas invocações a nós e para fora (observe que ele fica de pé nas orações, por que será?). Observe que aqui é tudo que representa a energia do Altar (e o próprio Altar) com nossos Três Baluartes e Sete Virtudes. Literalmente o coração do Capítulo, o nosso sanctum sanctorum. É também a esfera do Organista, pois ele é responsável pela harmonia vibratória da reunião, pois uma reunião sem harmonia não funciona.

Netzach: a manifestação dos sentimentos e das emoções. Oficial: Segundo Conselheiro, que é o responsável pela ritualística, que deve ser sentida no íntimo e não somente realizada com fórmulas vazias.

Hod: a manifestação da racionalidade. Oficial: Primeiro Conselheiro, que auxilia o Mestre Conselheiro e o Secretário a organizarem o Capítulo administrativamente.

Yesod: o fundamento da criação, a entrada para o “outro mundo”. Oficial: Diáconos, e não vou dizer porquê.

Malkulth: o mundo manifestado. Oficial: Sentinela, que nos protege do mundo profano durante as reuniões.

Não foi meu objetivo me aprofundar em nenhum tema, mas sim apresentar a quem não conhece ou não soube relacionar a Árvore da Vida a Ordem DeMolay. Para quem conhece Cabala sabe que o Sentinela é a manifestação do caminho de Shin para Malkulth, e não somente Malkulth, assim acontece com alguns outros oficiais. Não que eu quis ser incompleto, mas quis ser abrangente, pois são muitos DeMolays e Maçons não familiarizados com a ritualística.

Dúvidas, críticas, idéias, ou sugestões deixem nos comentários.

N.N.D.N.N.

Leonardo Cestari Lacerda

#Demolay #Kabbalah #VirtudeCardeal

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/ordem-demolay-cabal%C3%ADstica

Gato é registrado como hipnoterapeuta

Isso porque a hipnose é considerada “Ciência Ortodoxa” e um ramo sério da Psicologia agora… se as coisas são feitas nas coxas com o que a sociedade considera “medicina séria”, dá pra ver o estrago que fizeram com temas mais complexos como Astrologia, Ervas, Homeopatia, etc… Às vezes dá vontade de fechar as portas e deixar os conhecimentos herméticos trancados dentro das Ordens Invisiveis mesmo…

da BBC Brasil

Um apresentador de um programa da BBC conseguiu registrar seu próprio gato como hipnoterapeuta junto a três organizações que representam o setor no Reino Unido.

Chris Jackson, apresentador do programa Inside Out, descobriu que a regulamentação da atividade de hipnoterapia é tão falha no Reino Unido que ele resolveu registrar seu gato George usando um certificado falso.

Cada uma das três organizações que regulamentam a atividade no país aceitou como prova das credenciais do gato um certificado de uma organização fictícia, a Sociedade Autorizada de Terapeutas Avançados da Mente.

O gato George foi registrado na Diretoria Britânica de Programação em Neuro-Linguística (BBNLP, na sigla em inglês), a Associação Unida de Hipnoterapeutas (UFH) e a Associação de Clínicos Profissionais de Hipnoterapia (PHPA).

Depois da divulgação ao programa da BBC, a UFH admitiu o erro, acrescentando que desde então o problema já foi resolvido.

Um porta-voz da PHPA informou que a organização faz um grande esforço para garantir que cada credenciado seja um hipnoterapeuta qualificado.

Já a BBNLP afirmou que o objetivo da entidade é fornecer benefícios para seus integrantes, e não certificar as credenciais dos candidatos.

Chris Jackson teve a ideia de investigar a concessão de credenciamentos para hipnoterapeutas depois de uma denúncia semelhante feita por um psicólogo americano.

Steve Eichel suspeitou que organizações representantes do setor nos Estados Unidos não checavam as credenciais de seus membros.

“Senti que tinha que testar minha hipótese e resolvi obter certificados para meu gato nas mais importantes organizações de hipnose dos Estados Unidos. Foi um processo assustadoramente simples”, afirmou.

#Ceticismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/gato-%C3%A9-registrado-como-hipnoterapeuta

Teoria da Conspiração

Existem muito mais coisas no mundo do que são ensinadas em nossas escolas, na mídia, e divulgadas pelas Igrejas e pelo Estado. A maioria da humanidade vive em um transe hipnótico, acreditando estar na realidade ao invés de um triste e distorcido simulacro de realidade. As pessoas vivem um sonho coletivo na qual os valores estão invertidos, mentiras são tomadas como verdades e a tirania é aceita sem questionamento como sendo uma falsa segurança. As pessoas gostam desta ignorância e agarram-se com força à miséria que lhes dá identidade.

Felizmente, alguns nascem com um sistema espiritual imune, que mais cedo ou mais tarde lhes traz rejeição a este mundo ilusório criado desde seu nascimento através de condicionamento social. Elas começam sentindo que algo está errado; e começam a buscar respostas. Em pouco tempo, a busca pelo auto-conhecimento e experiências não explicáveis mostram a elas uma face da realidade que normalmente permanece oculta, começando assim sua jornada para a iluminação. Assim, cada passo em direção à iluminação é guiado pelo coração e não pela multidão, escolhendo o conhecimento ao invés da ignorância.

O Conhecimento é a chave para destravar todo o nosso potencial. Ele nos fornece a determinação, responsabilidade e o poder necessário para nos livrar das correntes da opressão. O Conhecimento é nosso grande protetor, pois ele nos fornece as ferramentas para lidar com os desafios da vida e, mais importante, as maneiras para evitarmos as armadilhas no caminho para a Iluminação. Quanto mais você trabalhar as verdades superiores e aplicar aquilo que você conhece, mais começará a operar sobre as leis superiores e transcenderá as limitações das leis inferiores.

#Pessoal

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/teoria-da-conspira%C3%A7%C3%A3o-1

Sobre Autoconhecimento e Liberdade

A todo o instante somos bombardeados com diversas informações. O mundo em que vivemos é o mundo do instante, tudo acontece no tempo do agora. Para que algo seja considerado como verdade, basta apenas criar-se uma hipótese, e a “verdade” está “materializada”.

Vemos isso acontecer diariamente ao nosso redor, seja na mídia, seja em nosso trabalho ou em nossos círculos de relacionamentos. Um fato levantado sobre a vida de alguém e o suficiente para que, em nossa mente, a hipótese do acontecido se materialize e, mesmo que involuntariamente, consideraremos tal hipótese quando cruzarmos com essa pessoa nos corredores da vida.

Mas, se tal fato realmente não aconteceu de verdade, como pode exercer tamanha influência em nossos pensamentos e, inclusive, na vida da “vítima” de tal boato?

Simplesmente porque, tal comentário, acabou de virar verdade, DE VERDADE!

Como assim? tá querendo me enlouquecer? Se você acabou de dizer que é boato, como tá querendo dizer agora que é verdade?

Calma que eu já explico!

Aposto que você já ouvi várias vezes, seja daquele seu amigo hippie ou daquela vizinha “esotérica” algo como “seja mais otimista” ou “pense positivo que vai dar tudo certo”, ou ainda “também, você só fica com esses pensamentos negativos, é por isso que coisas ruins acontecem”.

Já ouvi né? Pois é… E você, como uma pessoa instruída, estudada, culta, provavelmente ignorou essas “esquisitices”, com um pensamento ou frase como “isso é besteira, coisa de misticóide que não tem o que fazer”.

Pois é, se eu fosse você, reveria meus conceitos…

O que os seus amigos esquisitos estão dizendo tem tudo a ver com o que falamos no início deste texto: a capacidade mental que temos de alterar o estado das coisas.

Ok, você agora acha que eu faço parte da mesma turma dos esquisitos né? Então vou te dar um exemplo:

Você tem dois pacientes em uma UTI, ambos com a mesma doença, os mesmos sintomas, o mesmo tratamento, porém, um deles não tem mais nenhuma vontade de curar-se, e o outro, está certo de que sua recuperação será breve. Qual dos dois você acha que terá mais chance de ficar curado?

Se sua resposta foi o que quer ficar curado, você acertou!

Já existem hoje estudos que relacionam as significativas diferenças nos diagnósticos de pacientes que foram acompanhados através de técnicas de Terapia Motivacional do que aqueles que não receberam tal ajuda. Essa terapia, inclusive, é muito utilizada como auxílio no tratamento de pacientes com dependência química.

O que isso quer dizer? O que os Alquimistas de séculos atras já sabiam: Que a nossa mente é capaz de materializar o que quiser!

O que? Ta louco? Isso tá parecendo coisa daquele tal de O Segredo.

De certa forma, sim. O que eu estou querendo dizer é que, quando ficamos em dúvida se o boato sobre o colega de trabalho é verdade, CRIAMOS em nossa mente a ideia do ocorrido, e, a partir daí, passamos a considerá-lo como verdade (ou seja, a ideia se materializou). No caso do paciente, aquele que pensa positivo acaba focando seu corpo e mente no processo da cura, ou seja, MATERIALIZANDO a ideia de estar curado (e, dependendo da sua Força de Vontade, a própria cura).

Poderia também entrar em outras questões sobre o que é possível se criar com a capacidade mental, mas vamos deixar essa conversa para os próximos encontros…

Hmmm… Ok, até que tem fundamento… Prometo pensar nisso com mais calma. Mas o que diabos isso tem a ver com Autoconhecimento e Liberdade?

Ahá! Ta ficando espertinho ou apenas mudando de assunto? Mas vamos lá que isso é fácil.

Para conhecer você mesmo é necessário, além de mapear suas atitudes, conhecer também seus pensamentos. Para ter controle de suas ações e reações, é necessário que você domine o que acontece dentro de sua mente. Reconhecer os pensamentos e ideias que se repetem e ter a capacidade de controlar e eliminar aqueles que não pertencem a você faz parte deste processo.

Também falaremos melhor sobre isso no futuro, mas, por enquanto, reflita sobre o seguinte: quando você, por algum motivo específico, briga com uma pessoa no trabalho e, no dia seguinte, pede desculpas para essa pessoa, qual das duas atitudes te identifica melhor: a briga ou o ato de pedir desculpas? Qual dos dois indivíduos é você?

Quanto a liberdade… Se você não conhece nem a você mesmo, como acredita que é livre? Você acha que ser livre é apenas não estar em uma prisão? Acha que, por você poder fazer o que quer, é livre de verdade?

Quantas das ideias que estão em sua cabeça nesse momento são realmente suas? E quantas delas foram plantadas em você por outros? As ações que você realiza todos os dias, são de livre e espontânea vontade ou induzidas por alguma fator externo?

Não é possível ser livre enquanto você não conhece suas próprias atitudes, se você nem mesmo sabe se suas opiniões são realmente suas ou foram plantadas em você pelo status quo em que você está inserido.

Ser livre é ter o domínio sob o que você está fazendo, é agir por decisão própria. Mesmo que sua ação seja ceder ao propósito de outra pessoa, essa decisão deve partir inteiramente de você. Você deve estar decidido que quer isso, e não persuadido, ou seja, agir conforme sua Vontade.

Agora mesmo é que me embaralhou as ideias!!

Acalme-se, ainda teremos tempo (embora não muito) para decifrar estes mistérios que existem dentro de nossa própria cabeça. Convido você a tomar a pílula vermelha e ser meu companheiro nesta jornada do Autoconhecimento, para que um dia, quem sabe, possamos alcançar a tão sonhada Liberdade.

“Nenhum homem que não controla a própria vida pode ser considerado livre.” (Pitágoras)

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O blog Autoconhecimento e Liberdade busca auxiliar seus visitantes a encontrarem o caminho da espiritualidade dentro de seu próprio cotidiano, através de transformações em nosso comportamento e na maneira como encaramos nossos desafios.

Outros assuntos interessantes:

– Capitalismo x Espiritualidade (o panteísmo materialista)

– “O luxo da simplicidade” ou “a descoberta do paraíso”

#vontade #pensamento #liberdade #mente #Alquimia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/sobre-autoconhecimento-e-liberdade

Isso tudo está apenas na sua mente

» Parte final da série “Xamãs ancestrais”
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Xamã é um termo de origem tungúsica, que nessa língua siberiana quer dizer, na tradução literal, “aquele que enxerga no escuro”. Os xamãs são os portadores da função religiosa na tribo, que podem entrar em um estado extático, “voar” para outros mundos e ter acesso e contato com seus aliados (animais, vegetais e minerais), seres de outras dimensões e os espíritos ancestrais. Apesar de ter surgido na Sibéria, o termo “xamanismo” se aplica atualmente a práticas espiritualistas em vários pontos do mundo, tanto no espaço quanto no tempo.

Sigmund Freud, quase todos no Ocidente o sabem, foi o fundador da psicanálise. O que talvez muitos não saibam é que a própria psicanálise talvez deva sua origem a uma droga que nos dias atuais é ilegal em quase todo o mundo…

Entre as idades de 28 e 39, por onze anos, Freud utilizou regularmente a cocaína em sua forma de alcaloide, em pó (diluída em água). Como jovem neurologista, essa foi sua primeira tentativa experimental fora da prática médica tradicional. Ele estava buscando o reconhecimento público capaz de gerar a clientela que lhe traria fama e recursos financeiros permitindo, assim, que se casasse com sua noiva, de quem estava separado havia dois anos. Durante esse período, Freud publicou três artigos importantes e fez uma apresentação para a Sociedade Psiquiátrica de Viena sobre os usos terapêuticos da cocaína. Embora esse experimento não tenha atingido suas expectativas, e seus artigos sobre a cocaína nunca tivessem aparecido em seus escritos publicados, esses estudos fizeram de Freud, na verdade, um fundador da psicofarmacologia e, provavelmente, influenciaram seu trabalho com os sonhos e o inconsciente.

Freud acreditava que a cocaína era fundamental para curar as “doenças da alma”, mas com o tempo se apercebeu de seu seus perigos, quando verificou que seus pacientes, e ele mesmo, estavam ficando viciados na substância. Foi a partir dessa experiência, entretanto, que Freud se concentrou em alcançar novamente algumas daquelas reflexões e pensamentos de quando era influenciado pela cocaína, porém apenas com a própria mente, e a linguagem correta: a droga não era mais necessária, estava fundada a psicanálise.

Nos dias atuais, após meio século de uma Guerra as Drogas que parece ter gerado apenas mais e mais violência em todo o mundo, substâncias como a cocaína são demonizadas: não são tratadas apenas como um psicotrópico perigoso, mas como uma espécie de “pó do inferno”, algo que, uma vez consumido, nos condenará eternamente a carregar a alcunha de “drogados”, sem jamais, jamais, sermos capazes de dia sequer retornar ao que éramos antes. No fundo, sabemos que não é bem assim, mas, não obstante, essa é a crença generalizada, embutida em nossa mente pela mídia mundial, particularmente a americana, e da qual é realmente difícil escapar.

Longe de mim querer aqui relativizar o perigo da cocaína e outras drogas (já a cannabis, poderia muito bem ser legalizada). Na verdade, eu nem posso falar com tanta propriedade do assunto: nunca usei droga alguma além do álcool, ao menos nessa vida… Mas, talvez estejamos pegando pesado demais com a cocaína e outros psicotrópicos. Afinal, quem somos nós para julgar o que mesmo um papa recomendou com grande entusiasmo?

O Vin Tonique Mariani, ou Vin Mariani, era um vinho misturado com cocaína (também diluída em água), criação do químico francês Angelo Mariani, que era uma bebida bastante popular no fim do séc. XIX. Popular ao ponto de ter sido regularmente consumida por pelo menos dois papas da Igreja de Roma… O Papa Leo XIII chegou ao ponto de participar de uma campanha de publicidade da época, como “garoto propaganda” do grande Vin Mariani. Será que, por ser o papa, ele estaria livre do inferno ao consumir cocaína?

Gostemos ou não, o ser humano sempre teve, ao longo de toda a história, uma relação muito íntima com as drogas e todo o tipo de substância psicoativa… Como vimos anteriormente na série, é bem capaz de a própria pré-história, antes das civilizações e da escrita, já ter registrado práticas de consumo de drogas. Práticas essas que, bem controladas e devidamente classificadas como “sagradas”, podem mesmo ter dado origem a boa parte de nossa mitologia, magia, arte e religião.

Não eram, de fato, absolutamente todos os xamãs que usavam dessas substâncias. Na verdade, sabemos que muitos deles desenvolveram outros tipos de técnicas para alcançar seus estados de transe e consciência alterada, sua experiência mística. A lógica parece nos dizer que, entretanto, existe aqui uma proporção inversa em jogo: quanto mais consumimos substâncias psicoativas, mais facilmente conseguiremos alcançar os estados extáticos, porém mais árdua e complexa será nossa compreensão acerca do que efetivamente ocorre neles, na viagem para dentro de nós mesmos. Da mesma forma, quanto menos nos valemos de substâncias psicoativas, mais árdua e desgastante será nossa prática mental até que consigamos alcançar tais estados místicos “por nós mesmos”, apenas pelo uso da própria mente, mas por outro lado, tanto mais simples será nossa compreensão acerca do que ocorre dentro da mente. Freud parece, portanto, ter começado pelo primeiro método, e depois ter preferido o segundo. Talvez seja só isso mesmo: questão de preferência. Eu estou com Freud.

Ainda assim, há muitas questões que permanecem em aberto: porque, afinal, nossos ancestrais gastavam tanto tempo e energia nessas tentativas de adentrar “dimensões ocultas” dentro de suas próprias mentes? No que exatamente isso auxiliava em sua sobrevivência? Porque, afinal, tal prática estranha parece um dia ter sido comum em todas as partes do globo onde houvessem caçadores-coletores a caminhar pela terra, os pais e as mães de todos nós, os humanos…

Os signos da arte rupestre, com similaridades encontradas em sítios na Europa e na África, distantes não apenas no espaço, mas em milhares de anos no tempo, talvez nos deem alguma pista do que nossos xamãs ancestrais buscavam. Em seu extensivo estudo [1], Graham Hancock lista alguns dos pontos em comum: (a) As pessoas ou seres podem ser parte animal, parte homem, e podem se transformar plenamente em animais; (b) Certas pessoas ou seres são, às vezes, empaladas por lanças, flechas ou arpões quando estão se transformando em animais (os “homens feridos”); (c) Animais podem se transformar em outros animais ou aparecer como híbridos de duas ou mais espécies, e alguns podem ter a aparência distorcida, “fantástica”, inteiramente desconhecida do mundo natural (de qualquer época do planeta); (d) Há padrões geométricos, pontos, grades e zigue-zagues de linhas e “linhas-serpentes”, por toda parte; (e) A face da rocha onde a arte rupestre é encontrada é dinâmica e permeável, não como uma tela em branco, plana, a espera de ser decorada, mas muito mais como uma mescla em três dimensões entre a rocha e a arte, como se a arte também fosse, ali, um portal para uma outra dimensão, acessível apenas na contemplação daquele “local sagrado”.

Após ter encontrado tantas similaridades, Hancock partiu para uma tentativa ousada de explicar aquilo tudo, o que preenche boa parte de seu livro, e da qual não entraremos em maiores detalhes aqui [2]. Porém, talvez seja uma boa hora para refletirmos acerca do que os próprios xamãs afirmam que fazem em seu xamanismo, ou pelo menos daqueles xamãs que sobreviveram ao tempo. O importante é que seu relato é bastante similar ao que os xamãs san do século XIX disseram a Bleek e Lloyd [3]: (a) Entrar em contato com uma “realidade primordial”, espiritual, acessível através de alguma espécie de “sintonia mental” alcançada em certos estados extáticos; (b) Entrar em contato direto com ancestrais (já “mortos”, mas que vivem neste outro plano de existência), entidades, deuses, semi-deuses e seres “sobrenaturais” cujo conselho é informação inestimável para a sobrevivência da tribo; (c) Influência sobre o clima, particularmente na tentativa de produzir chuvas; (d) Influência e/ou identificação da movimentação de agrupamentos de animais que são caçados pela tribo nas redondezas; (e) Conhecimento de propriedades farmacológicas de ervas e plantas; e finalmente, talvez a mais importante: (f) Conhecimento e capacidade de cura de enfermidades físicas, psicológicas e/ou espirituais que afligem os membros da tribo.

Estariam os xamãs ancestrais totalmente certos, ou absolutamente equivocados, em todas essas práticas? Disso não temos como saber sem experimentar os mesmos estados extáticos… Mas, a lógica e o bom senso nos dizem: estavam mais certos que errados; Do contrário não estaríamos aqui para contar a história, não seríamos nós mesmos os seus descendentes, o seu presente para o mundo.

O Chefe Seattle, outro grande xamã, uma vez disse em sua carta ao presidente em Washington: “Sabemos que a terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida – ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo”. Mas, o que é afinal essa teia, esse tecido de realidade que parece habitar tanto o mundo lá fora quanto a nossa própria mente? É possível, afinal, influenciar e interagir com o mundo lá fora, através de alguma ponta de teia que puxamos ainda dentro de nossa mente?

O cético escandalizado com tal possibilidade vai prontamente nos responder: “Isso tudo está apenas na sua mente!”… Mas, afinal de contas, e o que não está?

Nossa consciência desperta, normal, a qual chamamos de racional, nada mais é do que um tipo especial de consciência. Ao redor e sobre ela, separada pela mais fina das telas, há formas potenciais de consciências muito diferentes. Podemos atravessar a vida sem nem sequer desconfiarmos de sua existência. Mas, aplique o estímulo necessário e, ao menor toque, elas estão lá, em toda a sua inteireza… Nenhum relato do universo em sua totalidade pode ser tão definitivo que deixe essas outras formas de consciência inteiramente menosprezadas… De qualquer maneira, elas proíbem um encerramento prematuro de nosso acerto de contas com a realidade (William James, Variedades da Experiência Religiosa)

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Leitura recomendada: Sobrenatural, de Graham Hancock (Nova Era).
[1] Maiores detalhes no livro recomendado acima.
[2] Hancock prossegue em um longo, extensivamente detalhado e devidamente documentado relato de similaridades entre as experiências do xamanismo, os relatos de abdução por OVNIs (inclusive muitos séculos antes do século XX) e os relatos de encontros com seres mitológicos e do “reino das fadas”… Trata-se, talvez, de um “passo maior do que as pernas”, mas nada disso invalida o que vinha sido demonstrado desde o início do livro, particularmente o que foi resumido nas duas primeiras partes desta série.
[3] Ver parte 2 desta série de artigos.

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Crédito das imagens: [topo] Wikipedia (Papa Leo XIII recomenda o Vin Mariani); [ao longo] Imagem criada a partir de imagem compartilhada no Facebook

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

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#Espiritualidade #Drogas #Freud #Psicologia #xamanismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/isso-tudo-est%C3%A1-apenas-na-sua-mente

Ser Gente Nunca Sai de Moda

A necessidade de andar na moda, a aflição inconsciente de estar em sintonia com o que se imagina ser moderno, revela uma busca por identificação e aceitação, uma vontade, em geral não percebida, de encontrar um lugar para se viver em paz. A moda nasce da necessidade cultural das pessoas de entender quem são e aonde caminham. Roupas, acessórios, carros, ideias enlatadas, maneiras de agir e falar tentam desesperadamente rotular o ser na tentativa de fazê-lo acreditar que pela casca se reconhece o valor da fruta. Em vão.

Perde-se a beleza de inventar a si próprio e a força de ser único. A moda traz consigo o perigo de projetar um suposto ideal que com certeza não somos.

O limite da forma estabelece fronteiras. Qualquer modelo pronto a ser usado rouba a originalidade do indivíduo, a beleza dos voos solos em altitudes inimagináveis, onde, só então, se defrontará com mundos e possibilidades apenas acessíveis a quem ousa ir além da normalidade e das permissões mundanas. O exercício da criatividade desenvolve as asas da liberdade.

Nada contra a indústria de consumo, como roupas, carros ou entretenimento que precisa produzir e vender para gerar riqueza e empregos que movimentam o planeta. Beleza e conforto, quando atingidos e usufruídos de maneira digna, são bem-vindos. Para ser feliz não é preciso ser um asceta no sentido original da palavra. Porém, há que se entender o limite de todas as coisas e o sentido da busca de cada um.

A moda costuma servir de referência para o sujeito se situar em determinado grupo social seja atrás de aceitação ou destaque. Um jeito ingênuo de imaginar quem é ou gostaria de ser, um lugar na tribo que admira, na tentativa de se impor e encontrar o seu canto no mundo. Em suma, a moda tenta acomodar nos porões da mente as mitológicas indagações de quem somos e para aonde vamos. Mas de que adianta um espelho se não se quer ver? De que serve mapa e bússola se não se sabe para aonde ir? Pode a forma ganhar mais importância do que a essência?

Inconscientemente a moda ilude o consciente, vendendo o que não pode entregar.

Ainda que não esteja claramente decodificado no entendimento de cada indivíduo, caminhamos, invariavelmente, em busca da plenitude do ser, onde, só então, conseguiremos encontrar toda a paz que precisamos e, em análise honesta, é o que importa. Entretanto, chegar até esse paraíso é a pergunta que não se cala.

Por ainda não terem decodificado o processo, muitos ainda procuram desesperadamente na moda signos de identificação, na ilusão de não se sentirem perdidos, como se a felicidade estivesse disponível na vitrine ou na prateleira das lojas ao alcance do cartão de crédito. É bem mais simples e confortável trabalhar a forma do que a essência. Porém, o resultado nunca será o mesmo. Trocar de vestido não cicatriza as feridas do coração; o brilho de uma jóia não ilumina os vãos escuros da tristeza; um belo e caro carro pode despertar admiração dos outros e te levar a um confortável passeio, mas as angústias mal resolvidas te acompanharão por toda a parte; o acesso as modernas tecnologias não te dão resposta às questões profundas da alma. Adiar o mergulho no autoconhecimento é ficar sentado na estação vendo passar o trem da plenitude. É necessário coragem de se ver e entender quem realmente é, encarar as próprias dores e frustrações, assumir as responsabilidades, lamber as feridas para curá-las. E, então, se transformar. A busca é árdua, mas o encontro é mágico. Extrair e vivenciar o que há de melhor em si, como diamante que precisa lapidar o cascalho até refletir perfeita luz, define a sua roupa.

Na medida que vamos nos conhecendo e transmutando sombras em luz, trocamos o paletó da inteligência, o vestido do coração, o guarda-roupa da alma. Saber quem somos é fundamental para entender os outros e o mundo. Se a vida oferece andrajos ou prêt-à-porter, lembre-se que somos os nossos próprios alfaiates. Cabe a cada um escolher os tecidos do amor, costurar com as linhas da compaixão, abotoar com sabedoria, vestir com a paciência da eternidade. Depois basta distribuir os lenços da alegria por onde passar, a qualquer um, sem distinção. Encontrar brilho na trajetória de todas as pessoas revela a luz que há em ti. A beleza de suas novas vestes vai encantar inimagináveis passarelas e todos desejarão estar por perto, desfilar ao seu lado, independente da cor da calça, do modelo do carro ou da marca do sapato. A elegância não está na grife, porém no estilo.

Não é o que se usa, mas um jeito de ser.

Ser gente nunca sai de moda.

Publicado originalmente em http://yoskhaz.com/pt/2015/06/26/ser-gente-nunca-sai-de-moda/

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/ser-gente-nunca-sai-de-moda

Autoconhecer é Autodestruir

“A melhor maneira de alcançar o autoconhecimento não é pela contemplação, mas pela ação.” – Goethe

Adentrar no universo do autoconhecimento parece ser algo fácil. “Basta comprar uns livros de auto-ajuda, acender alguns incensos, meditar por algumas horas por dia e está tudo certo” dizem alguns… Ledo engano, digo eu. Mergulhar no âmago de si mesmo é um processo árduo, e sou capaz de afirmar que em 99,99% das vezes é uma tarefa dolorosa, desanimadora, deprimente e, em muitos casos, dura pouquíssimo tempo.

Espera aí, você vem falando todo esse tempo sobre autoconhecimento e agora joga esse balde de água fria?

Muito pelo contrário! O que acontece é que muito se fala de autoconhecimento como se fosse uma coisa fácil de se fazer. Como se revirando o baú interior você só encontrasse boas lembranças, qualidades e oportunidades quando, na maioria das vezes, o que se encontra é justamente aquilo que você insiste em esconder: seus defeitos, pontos fracos, negativismos…

É claro que não é só isso. Autoconhecer-se é também saber quais são suas habilidades, especialidades e apender como utiliza-las a seu benefício. Conhecer as ferramentas que você possui e aprender a utilizá-las a seu favor. Mas essa é a parte ”fácil”, o complicado é retirar os esqueletos do armário e coloca-los para dançar.

Hmmm… Entendi. Então você quer dizer que é muito mais do que ler o mapa astral?

De longe! Astrologia é uma das ferramentas existentes para isso, pois escancara muito daquilo que acontece sem você perceber, mas o desafio é saber interpretar o mapa com isenção e de forma correta, sem se perder nos arquétipos e suas oitavas, e não assumir como seu um comportamento que pode ou não ser tendência no seu mapa.

Buscar o autoconhecimento apenas fora de si mesmo é um erro crasso. Acreditar que uma pessoa além de você mesmo pode lhe dar as respostas que você precisa é pura ilusão. É claro que a visão que os outros possuem de você pode lhe ajudar a refletir em como você se apresenta para o mundo, mas reconhecer sua essência e aprender a dosá-la, em sua grande maioria, é um processo solitário, que exige dedicação, resistência e perseverança, pois a estrada é longa e sinuosa.

O que costumamos ver daqueles que dizem trilhar este caminho é uma exaltação de suas virtudes, escondendo de si mesmo todos os vícios e distorções do seu caminho. Na luz tudo é mais claro e de fácil visualização, muito diferente da escuridão, onde os monstros interiores se escondem e nem todos são fáceis de encontrar. A facilidade de uma leitura superficial ao invés de um mergulho na lama põe muito a perder nesse processo de busca interior… Não é a toa que a preguiça é o primeiro dos 7 “Pecados Capitais”.

Não exagere no otimismo e na superficialidade. Não caia na ilusão de que “o inferno são os outros”, e você é um incompreendido trilhando um caminho de iluminação. Também não busques mestres além do que seus próprios erros e acertos. Não espere que os outros evidenciam seus pontos negativos, pois geralmente o que eles veem são a sua casca, aquilo que você mostra para eles, e quem gosta de mostrar uma casa mal arrumada?

Também não seja pessimista. Utilize suas virtudes a seu favor já na hora de chafurdar na lama e domar seus medos e vícios. Já que elas são mais evidentes, aproveite-as como isca para pescar os tubarões.

Não há segredo senão a busca pelo equilíbrio.

“Busco-me e não me encontro. Pertenço a horas crisântemos, nítidas em alongamentos de jarros. Deus fez da minha alma uma coisa decorativa.” – Fernando Pessoa

Namastê!

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/autoconhecer-%C3%A9-autodestruir

Bathin – um ritual moderno de demonologia

A demonologia de certa maneira perdeu parte de sua força nos dias de hoje. Talvez o problema seja que com o tempo a “razão” tenha reinvidicado parte do território que antes pertencia à magia. Talvez em um mundo onde Freddy Kruegers, Aliens & Predadores ou Pazuzus estejam a 5 reais de distância de qualuqer pessoa disposta a ir a uma locadora, homens com rabos de pássaro que realizam desejos não tenham mais aquele apelo de horror. Talvez em uma sociedade global onde o humor vem de programas que repetem de novo, de novo, de novo, de novo, de novo e de novo, de novo, de novo, a mesma piada – e o salário ó! – ninguém tenha entendido a piada que Crowley fez na sua introdução às Chaves Menores de Salomão quando disse que o trabalho de evocações demoníacas são meramente uma forma de auto-descoberta psicológica.

Mas não vamos nos prender a explicações que apenas se tornariam mais uma forma de masturbação intelectual, vamos nos atentar aos fatos. A demonologia de fato perdeu parte de sua força nos dias de hoje; mas não perdeu seu poder. E assim começa nossa breve jornada.

24 horas atrás recebi uma notícia interessante que poderia ser traduzida na língua horoscopal:

“Vênus está regendo seu signo. Peso das responsabilidades e limitações quanto aos seus objetivos podem deixar você bem exausto. O dia pode ser exaustivo no setor profissional, muita dedicação para poder segurar as coisas a seu favor. Uma viagem inesperada pode mudar sua rotina.”

Isso acabou se concretizando como tudo o que o horóscopo afirma. Dizem que os astrólogos de hoje fazem suas previsões de maneira tão vaga que tudo o que acontece num dia pode ser visto como a concretização de sua conversa com os astros. Algumas pessoas dizem que isso é o charlatanismo em sua forma mais descarada. Eu digo que se alguém descobre como descrever um evento de forma que ele possa se refletir em qualquer desdobramento que possa acontecer então essa pessoa está fazendo magia.

Há tempos estou trabalhando com demonologia e uma forma não de trazê-la para os dias de hoje, mas de usar o conhecimento contemporâneo para expandi-la e fazê-la crescer. A notícia da viagem me ajudou a colocar a coisa em prática. Veja, os meus problemas eram simples, em uma mão uma maneira de ver como usar na prática uma forma não medieval de demonologia, na outra precisava viajar para a terra do ouro e mel e crises econômicas e não tinha um visto americano no passaporte. Assim pensei, vamos unir a fome com a vontade de comer.

Diferente de outros textos onde lemos como desenhar coisas no chão, ficar pelados, gritar nomes e pedir coisas, vamos ver agora como colocar na prática um ritual de evocação de um demônio e como colher os resultados práticos e diretos.

Antes de prosseguirmos, vamos responder a pergunta daquela linda garota de mini-saia lá no meio da sala: mas por que usar demonologia para conseguir um visto americano?

Ótima pergunta, ótima saia, pode ficar mais à vontade na cadeira se desejar.

Quando o seu chefe vira para você e te diz que você está com uma viajem marcada para Providência, na Ilha de Rhodes, para resolver o que quer que a empresa onde você trabalha quer que seja resolvido, você não simplesmente diz: “escolha outra pessoa, eu não tenho visto!” você se lembra do que o horóscopo previu e pensa, hora da dedicação para segurar as coisas a meu favor! E sai da sala do chefe e entra no site: www.visto-eua.com.br para ver como agendar a sua entrevista para conseguir o visto. E lá descobre que o consulado de São Paulo tem uma espera de pelo menos 112 dias – a entrevista para o visto sairia no início de janeiro de 2012. O consulado de Recife tem uma fila de espera de pelo menos 92 dias, e por ai a fora. Assim a maneira “legal” de se conseguir um visto que possibilite minha viajem para daqui a 12 dias já foi por água a baixo. Vamos ver a maneira ilegal de se fazer isso. Depois de uma hora falando com os mais diversos despachantes “ponta-firme-esse-faz-milagres”, termino sabendo que mesmo que pagasse R$700,00 reais não conseguiria nada para antes da segunda quinzena de outubro. Bem, outubro é bem depois de setembro, então não me adianta. Então chegamos em um ponto interessante da história, a magia.

Bem, o que temos hoje quando falamos de magia? Wiccans que se reúnem em parques e continuam realizando os festivais e trabalhando com suas plantas. Eventualmente realizando esse ou aquele feitiço. Magistas do Caos que buscam fazer rituais tão confusos que nunca vão saber se obtiveram êxito, ou então se mobilizando em mind fucks coletivos de cunho anti-social. Satanistas tentando incrementar a própria vida com sua baixa-magia social. Terreiros de macumba. Trago a pessoa amada em 7 dias. Contato com Chorozon ou meses tentando descascar a árvore da vida para poder batizar as novas cascas que surgem. De fato a magia pode ser usada para o crescimento individual, trazer maturidade, auto-tranformação e sabedoria, e quem sabe uma trepada de vez em quando. Mas onde é que estão os feiticeiros? Onde está a magia para confundir caixas eletrônicos, para fazer luzes de farol de trânsito mudar? Onde estão os mestres que dançam não para trazer a chuva, mas para fazer sua banda favorita por acaso vir para a sua cidade para um show inesperado?

A magia é um modo de encarar o mundo, não uma fita isolante que fica numa gaveta esperando algo despedaçar para que possamos fazer um remendo. Então obviamente, se a solução dos homens não resolve, vamos ver o que podemos fazer apelando para o código fonte da realidade.

Em 1563 um livro foi publicado. Um livro muito interessante de fato, chamado de De Praestigiis Daemonum et Incantationibus ac Venificiis. Seu escritor foi um médico e psiquiatra, a seu modo, originário dos países baixos, o título do livro quer dizer Sobre a Ilusão de Demônios, Feitiços e Venenos. Na introdução do livro lemos em latim:

<tecla sap>
Meu objetivo não é apresentar para as pessoas as blasfêmias daqueles homens enfeitiçados que não tem vergonha de chamarem a si mesmos de magi, nem de expor suas curiosidades, suas decepções, vaidade, imposturas, delírios, sua capacidade de enganar a mente e suas mentiras óbvias mas, ao invés disso, mostrar que eles se mostram relutantes, quando são vistos sob a ofuscante luz do dia, em deixar suas mentes correrem em disparada alucinada, nesta época infame, onde o reino de Cristo é constantemente atacado pela tirania, imensa e impune, daqueles que abertamente realizam os sacramentos de Belial e que, não resta dúvida, em breve receberão sua recompensa justa.
</tecla sap>

O escritor de tal obra, Johann Weyer, havia sido um discípulo de Agrippa. E ele acreditava em magia, e ele acreditava no demônio, mas acreditava também, de forma discreta, que ele não era tão ruim quanto a igreja fazia o povo acreditar. Talvez aquilo fosse apenas uma forma de oferecer um inimigo tão grandioso que as pessoas não tivessem como enfrentar, uma forma de marketing medieval. Assim, dentro de seu livro sobre a ilusão dos demônios, acrescentou um trabalho entitulado Pseudomonarchia Daemonum (Liber officiorum spirituum) <tecla sap> Falsa Monarquia dos Demônios (Livro dos ofícios dos espíritos) </tecla sap> – e você achando que só Lovecraft bolava livros com nomes legais – neste texto, Wier listou e hierarquizou os nomes de diversos demônios acompanhando-os as horas apropriadas e os rituais para invocar-los.

Assim, diante de meu problema na mão esquerda e no da mão direita resolvi seguir o conselho de um dos grandes Reis ocultos deste mundo e bater palmas. Buscando minha biblioteca favorita achei o livro de Wier e passei a ler rapidamente suas páginas xerocadas fui fazendo nota mental dos poderes de cada um dos seres ali descritos. Dos 69 espíritos listados um me chamou a atenção:

Bathym, alibi Marthim Dux magnus & fortis: Visitur constitutione viri fortissimi cum cauda serpentina, equo pallido insidens. Virtutes herbarum & lapidum pretiosorum intelligit. Cursu velocissimo hominem de regione in regionem transfert. Huic triginta subsunt legiones.

Organizando o padre que vive em minha mente pude tirar que isso implicava algo aproximado de:

Bathym, um duque poderoso e forte: ele é visto como um homem de constituição forte, com cauda de serpente, cavalgando um cavalo branco. Ele compreende a virtude das ervas e pedras preciosas. E pode transportar um homem de maneira súbita de um pais para outro. Ele lidera 30 legiões do inferno.

Isso soou como música para meus ouvidos. Vejam, algo que muita gente não compreende é que demônios não são como botões dentro de uma caixa esperando que alguém abra a tampa, escolha o que acha mais adequado e então o costure num casaco enquanto usa um dedal de ferro para se proteger do ato de se trabalhar com ele. Borhs disse que o contrário de grandes verdades é verdade também. Assim se hoje grande parte das pessoas que se envolve com demonologia são pessoas sem cérebro nenhum, o inverso é real, demônios são cérebros sem pessoa nenhuma. Eles estão ao nosso redor o tempo todo.

Lembre-se que eu estava no escritório. Cada segundo vale uma eternidade de vidas. Não podia esperar para ir para casa e tentar chamar Bathym e ver o que negociar com ele, assim me concentrei na praticidade. Se eles estão ao nosso redor o tempo todo, basta conseguir entrar em contato com eles.

Um ritual de evocação mágica consiste de alguns pontos básicos:

1- Ir para um lugar onde ninguém interrompa a comunicação;
2- Entrar no estado de espírito correto de se contactar algo não físico;
3- Entrar no estado mental necessário para conseguir se comunicar com este algo;
4- Ter um assunto que seja interessante para ambos os lados;
5- Conseguir despachar essa coisa de forma que ela não fique puta com você, afinal quem está recebendo o chamado tem o número de que está chamando.

Bem, tendo já prática e experiência com rituais isso não é diferente de usar seu celular para ligar para alguém. Com isso em mente parti para o primeiro passo: descobrir quem é essa pessoa, e qual o número do “celular” dela.

PASSO 1

O livro de Weyer não foi o único a tratar de demônios de forma tão direta e clara então busquei a Goetia. O décimo espírito do Pseudomonarchia aparece também como o décimo oitavo espírito da clavícula de Salomão. A descrição do espírito é a mesma, mas traz uma informação extra:

“seu selo deve então ser feito e deve ser usado diante de você”

A versão de MacGregor Mathers e de Crowley da Goetia trazem duas versões mais modernas do selo e uma grafia diferente do nome do espírito, assim temos que Bathym também é chamado de Bathin, de Mathim e de Marthim. COmo essa informação é muito pouca para criar um programa mental que sirva para me conectar com o espírito resolvi apelar para o tarô. Bathym surge como o décimo e o décimo oitavo demônio dos dois maoires tratados de demonologia que sobrevivram ao tempo. Assim parti para os arcanos maiores:

A roda da Fortuna

Resumidamente a roda da fortuna está ligada à necessidade, ao acaso, mudança e a um objetivo. Esta é uma das cartas mais expressivas da sorte, fortuna e oportunidade. Mas não é necessariamente uma carta positiva, já que pode informar que adiante virá sorte mas não especifica se boa ou má. Tudo irá depender das suas decisões e atitudes, pois estas irão decidir para que lado penderá a balança, se para a boa sorte ou para a má sorte.

A Lua

A famosa luz no fim do túnel, mas não sem antes um monte de dores de cabeça. Uma carta ligada a guiar-se pelos seus instintos, sonhos utópicos, dificuldade em aceitar a realidade.

Não me lembro aonde, mas ainda descobri em algum lugar uma relação entre Bathym e o dez de espadas, já que estava no mundo do tarô parei para analisar a carta. Obviamente é uma carta de merda, mas isso para quem vive uma vida regular e tranquila, apesr de todo o mau agouro o dez de espadas representa a luz no fim do túnel também. Essa carta indica que o seu presente atingiu o tal ponto de mudança que lhe era tão necessário e tendo em mente que a realidade não gosta de mudanças, já que tudo busca permenecer na forma que é, parece que as coisas não podem piorar muito mais, o mundo parece que está virado contra si e parece que apenas lhe resta lamentar-se pelo seu infortúnio. Quando chegamos neste ponto em que não há nada a perder o melhor a fazer é parar de lutar contra a correnteza e se aproveitar dela

Lição de casa feita em quarenta minutos. Agora com o estado mental e de espírito necessários para se comunicar com o espírito decidi usar o sigilo da Goétia para contactá-lo. Como disse, a versão de Mathers/Crowley oferece duas opções, assim como Bathyn é o demônio 18 desta obra, escolhi o sigilo que tem o desenho de uma lua.

Como devemos usá-lo diante de nós o tempo todo, e como resolvi usar a analogia do telefone celular, desenhei ele nas costas da mão esquerda, a mão que uso para segurar o telefone quando trabalho, e me preparei para o passo 2, descobrir como encontrá-lo.

PASSO 2

Aproveitei a hora do almoço e sai para dar uma volta. Agora era o momento de esvaziar a mente de tudo e sintonizá-la em Bathin (grafia do nome no sigilo goético). Depois de caminhar, passei por acaso diante de uma agência de viagens de bairro, pequena e enfiada entre duas lojas. Na porta uma moto branca. Passei perto da vitrine e lá dentro um homem com botas de pele de cobra estava sentado atrás de uma mesinha de madeira. Ótimo sinal. Encostei as costas da mão contra o vidro e pressionei com força, apenas sentindo a psicologia do local se misturar com a de Bathin em minha mente. Quando tirei a mão do vidro havia um decalque fraco do sigilo no vidro. Ótimo sinal.

Voltei para o escritório.

É importante frisar que a partir do momento em que deixei minha mesa minha mente buscava a vacuidade, e me concentrava apenas nas sensações sugeridas pelas cartas do tarô. A agência de viagens é um símbolo de uma viajem rápida, onde você faz o mínimo e eles te levam de um lugar para o outro desde que se pague. Nada racional, apenas a loucura da magia queimando de um neurônio para outro.

Feito o contato e estabelecido uma linha entre mim e o espírito, voltei para o escritório para o passo 3, fazer a ligação.

PASSO 3

Em um ambiente de trabalho só há um lugar que você encontra paz: o banheiro. Mas o banheiro, logo depois do almoço é o local menos calmo de uma empresa.

Novo paralelo com a arte de evocação clássica. Assim que escolhe um local para o ritual, distante dos olhos profanos, você deve realizar um ritual de  banimento para limpar a área de energias contrárias à sua vontade. Resolvi isso com uma folha de papel e uma caneta hidrográfica preta. Sem mudar meu estado mental, desenhei os seguintes sigilos na folha:

BANHEIRO EM MANUTENÇÃO – DESCULPE O TRANSTORNO

e prendi com durez do lado de fora da porta, me trancando dentro.

PASSO 4

Momento de discar para o demônio.

Simplesmente precisei apagar a luz, me sentar no chão de pernas cruzadas, o melhor que pude no pouco espaço, e deixar a mente trabalhar. Ergui a mão até a orelha como se segurasse o celular e imaginei o tom de chamando.

Curiosamente ao invés de ouvir uma voz mental de alô, veio a impressão de deixe o recado após o sinal. Foi neste momento que expus o problema e pedi uma solução:

“Preciso de um visto americano em cinco dias úteis!”

PASSO 5

Agradeci a atenção e pedi para entrar em contato o mais rápido possível, desliguei o celular colocando a mão no bolso. Me levantei, lavei o rosto e sai do banheiro.

CONCLUSÃO

Como disse, o objetivo do texto é mostrar como a demonologia se aplica hoje de forma prática, nada de ficar imaginando como vem uma resposta ou analizar objetivamente fatos subjetivos.

Voltei para a minha mesa e comecei a pensar como a colocar em prática o visto, afinal trabalhar com Bathin aparentemente não me livraria de estress e dificuldades. Vinte minutos depois de me sentar alguém atrás de mim comenta: “é o alimento vivo da chama que ilumina”. Me voltei e pedi para ele repir que não estava prestantando atenção, ele repetiu: “O poeta é o alimento vivo da chama que ilumina”, e completou dizendo que era uma frase de Martí, um poeta cubano. Martí é próximo o suficiente, voltei a checar a previsão para o agendamento de visto. Curiosamente a data para as entrevistas em Recife de 3 meses sumiram e havia uma data para 2 dias. Marquei.

Passei o dia seguinte tentando descobrir como viajar para Recife para ir à entrevista e correndo com a papelada como responder formulários do site de visto, levantar coisas como imposto de renda e todo tipo de documento necessário.

Para alimentar o sigilo que estava em minha mão, perguntava para as pessoas se elas sabiam se era possível tirar o visto em outro estado em dois dias, as risadas delas eram o Big Mac de Bathin.

Como disse acima, a realidade reluta qualquer mudança, isso se traduz na lei da inércia: é necessário sempre mais força para iniciar uma mudança de estado (de parado para se movendo ou de movendo apra parado) do que para se manter esse novo estado. Assim não demorou duas horas para que as sereias começassem a surgir. Pessoas com despachantes milagrosos, ou conhecidos com esquemas. Sabe quando você decide mudar ou pede algo e milagrosamente algo acontece para te empurrar nesse direção, e então parece que outras portas aparecem, que ou te mostram que continuar na mesma é a melhor opção (decide mudar de emprego e recebe uma proposta de aumento neste) ou que esperar é melhor (quero um carro novo, surge um dinheiro do nada e de repente posso usar esse dinheiro em outras coisas e depois financiar um carro)? Isso é a realidade lutando para parmanecer no mesmo estado que se encontra. Muitas vezes é quase impossível resistir. Mas quando lidamos com demônios onde a maior parte do tempo você acha que está louco ou não tem garantia nenhuma de que a coisa vá funcionar, é melhor abraçar o abismo.

No fim do dia havia conseguido milhas de um conhecido para comprar uma passagem para Recife (para facilitar meu cartão precisaria de 10 dias para converter os pontos em milhas e liberá-las, eu precisava estar em recife em 36 horas úteis). Consegui levantar a papelada ontem. Achei meu antigo passaporte que havia desaparecido. Alimentei o sigilo com mais algumas dúzias de: “você vai perder a ciagem e o dinheiro” regado com molho de “se mete nessas loucuras a troco de nada, se fosse fácil assim todo mundo faria, você vai quebrar a cara”.

E assim, ontem à noite, acabando de preencher o formulário virtual que precisa ser preenchido com 48 horas de antecedência, parti para Recife. Hoje às 7:30 da manhã estava no consulado americano. O sigilo quase desbotado em minha mão me alertava do prazo de validade do acordo. Assim que a tinta sumisse de vez, a ligação seria cortada.

Durante a entrevista foram feitas dez perguntas simples. Mesmo morando em São Paulo pareceu não haver problemas de eu estar em Recife pedindo o visto. Depois de alguns minutos o homem com sotaque me falou que enviariam meu passaporte por Sedex para mim.

E assim aconteceu. Vida, magia, demonologia, rituais, resultados.

A demonologia tem poder até hoje, basta saber como se conectar com ela. Há sempre um preço a ser pago, mas nada tão dramático quanto uma alma ou uma vida. É tudo questão de se negociar.

Agora, claro, os correios entram em greve geral. E tenho que receber meu passaporte com o visto até o começo da semana que vem, quando vou embarcar.

Se Bathin deu resultado com o visto, vejamos com quem vou tentar trabalhar para conseguir contornar esse problema. Em breve talvez isso vire um segundo artigo.

Texto escrito 14-09-2011

Por LöN Plo

Postagem original feita no https://mortesubita.net/demonologia/bathin-um-ritual-moderno-de-demonologia/

Entre a esquerda e a direita

Com as manifestações de Junho de 2013, até hoje longe de terem sido compreendidas mesmo pelos mais proeminentes analistas políticos, tive a esperança de que o debate político tivesse uma nova “primavera” no Brasil, já que contamos com muitos jovens que mal viveram a época da Ditadura Militar, e talvez nunca tenham se dado conta do quão importante é um engajamento político genuíno – ainda que seja somente para arejar as ideias.

Por alguns meses, acreditei piamente que a Reforma Política voltaria ao centro do debate, e que o sistema de financiamento das eleições, que hoje são caríssimas, fosse discutido exaustivamente. Mas veio o segundo turno das eleições presidenciais deste ano como uma pá de cal em qualquer sonho que eu pudesse nutrir de um debate político mais construtivo e menos “desconstrutivo” (para usar um termo em voga entre os marqueteiros).

Foi então que me veio a mente a ideia de trazer de volta um formato de “debate” que utilizei aqui no Textos para Reflexão há alguns anos, quando convidei um ocultista (Marcelo Del Debbio) e um cético (Kentaro Mori) para falarem sobre espiritualidade e ciência. Desta feita, é claro, a minha ideia foi chamar dois debatedores para falar de Política – cada um representando um dos seus espectros ideológicos.

Nesta série, portanto, enviarei perguntas para que ambos os convidados respondam, sem que saibam previamente da resposta um do outro. Espero, com isso, poder demonstrar que o embate de ideias é não somente saudável, como extremamente necessário para a boa Política. Afinal, a política comprada pelos grandes corruptores não tem mais quase espaço para qualquer tipo de ideologia – é o que eu costumo chamar de Grande Negócio Eleitoral. E, também vale lembrar, o objetivo final do embate de ideias não é “exterminar” a opinião contrária – isto sim, seria uma Ditadura, quando alguém se presta a governar sem dar chance da oposição se manifestar.

Aqui ambos os convidados terão pleno espaço para a manifestação e, quem sabe até, algumas conclusões em comum. Bem, faltou somente apresentá-los:

Alfredo Carvalho é engenheiro civil e servidor público federal, com atuação em diversos empreendimentos de infraestrutura do país. Paralelamente, dedica-se ao estudo autodidata de temas em filosofia, religião, esoterismo e política, e é editor dos recém-criados Blog do Alfredo Carvalho e Editora Alta Cultura.

Igor Teo escreve para internet abordando temas como psicologia, espiritualismo e questões sociais. Academicamente, tem atuado tanto em pesquisa na área historiográfica, como em atendimento psicoterapêutico de orientação psicanalítica. É autor dos livros A terapêutica da palavra e Conhecendo a Psicanálise, publicados nas Edições Textos para Reflexão.

***

Antes de prosseguir, gostaria de deixar claro que não pretendo comentar nenhuma resposta da série, ao menos até o seu final (teremos 6 perguntas no total)… Depois pretendo publicar diversos artigos onde comentarei as respostas como um todo.

Vocês, no entanto, não têm porque se abster de comentar, e pensar, e divulgar. O debate político da vizinhança agradece!

Perguntas respondidas (6 de 6)

» O que são, afinal, a direita e a esquerda?

» Como trazer as ideologias de volta a política?

» Qual é a reforma fiscal ideal?

» Como blindar a democracia dos projetos de poder?

» É viável tornar o capitalismo sustentável?

» A quem interessa a polarização entre PT e PSDB?

Comentários gerais*

» Os comentários (parte 1)

» Os comentários (parte 2)

» Os comentários (parte 3)

» Os comentários (parte 4)

» Os comentários (parte 5)

» Os comentários (parte final)

(*) Obs.: Meus comentários não se referem a perguntas específicas da série, mas tratam de falar de todos os assuntos abordados, como um todo.

***

Crédito da foto [topo]: André Coelho/Agência O Globo (Manifestações de Junho de 2013, na capital do país)

#Economia #política

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/entre-a-esquerda-e-a-direita

A Mente dos Profetas

No livro O eu e o inconsciente Carl Gustav Jung analisa o delicado equilíbrio entre as partes que compõem a mente, o consciente e o inconsciente, e nos coloca diante de questões fantásticas pro campo da psicologia e metafísica, como a possibilidade da persona (a “máscara” da qual nos revestimos pra autar como indivíduo) ser um mero recorte (algo emprestado) da psique coletiva, o que nos faz meditar sobre o quanto somos indivíduos e o quanto somos produto do meio…

Mas, não foi por isso que resolvi fazer este post, e sim pra mostrar um trecho onde nosso querido Jung disseca um tipo psicológico muito em voga nos meios esotéricos (e esquisotéricos), e já falado aqui no blog: o profeta (ou ajudante de profeta).

Porquanto creia que é legal receber (e divulgar) comunicações de cunho espiritual, especialmente se forem pra nos alertar de coisas que possamos corrigir pro futuro, quando isso ganha contornos de culto, obsessão ou dogma, até mesmo com prejuízos para a própria pessoa, aí é caso pra psicólogo. Pessoas nesse caso (e seus seguidores) normalmente ficam revoltadas por achar que psicólogo é caso pra doido varrido, gente em camisa-de-força, e não se aplica pra os “gloriosos contatados” das orbes celestiais, mas vale sim, porque o tal contatado tem mente como qualquer pessoa, e está sujeito às influências do inconsciente – pessoal e coletivo – como qualquer outra pessoa!

É aí que entra o texto de Jung, que nos mostra que o inconsciente sempre tenta compensar (equilibrar) o conteúdo do consciente, geralmente (mas não necessariamente) com oposições. Quando há um desequilíbrio, causado por uma consciência falha, entra em ação a atividade automática do inconsciente, visando a geração de um novo equilíbrio. Mas Jung aponta que tal meta será alcançada sempre que a consciência for capaz de assimilar os conteúdos produzidos pelo inconsciente, isto é, quando puder compreendê-los e digeri-los. Se o inconsciente dominar a consciência, desenvol-ver-se-á um estado psicótico. No caso de não prevalecer nem processar-se uma compreensão adequada, o resultado será um conflito.

Assim, no capítulo IV (“Tentativas de libertar a individualidade da psique coletiva”) Jung nos fala que “se os conteúdos do inconsciente chegarem à consciência, como o indivíduo reagirá? Será dominado pelos conteúdos? Aceita-los-á credulamente? Rejeita-los-á? O primeiro caso significa paranóia ou esquizofrenia; o segundo torna o indivíduo um excêntrico, com certo gosto pela profecia, ou então pode fazê-lo retroceder a uma atitude infantil, apartando-se da sociedade humana; o terceiro significa a restauração regressiva da persona”. Mas é o segundo caso o que mais nos interessa:

Identificação com a psique coletiva

A segunda possibilidade seria a identificação com o inconsciente coletivo. Isto equivaleria a aceitar a inflação, exaltada agora como um sistema. Em outras palavras, o indivíduo poderia ser o feliz proprietário da grande verdade que o aguardava para ser descoberta, o senhor do conhecimento escatológico para a salvação das nações. Tal atitude não implica necessariamente a megalomania em sua forma direta, mas sim na forma atenuada e mais conhecida do reformador, dos profetas e mártires. As mentes fracas correm o risco de sucumbir a esta tentação, uma vez que geralmente se caracterizam por uma boa dose de ambição, amor-próprio e ingenuidade descabida. Abrir a passagem da psique coletiva significa uma renovação de vida para o indivíduo, quer seja agradável ou desagradável. Todos querem agarrar-se a esta renovação: uns, porque assim aumentam sua sensação de vida, outros porque vêem nisso a promessa de um maior conhecimento, ou então esperam descobrir a chave que transformará suas vidas. No entanto, os que não quiserem renunciar aos grandes tesouros enterrados na psique coletiva deverão lutar, de um modo ou de outro, a fim de manter a ligação recém-descoberta com os fundamentos originários da vida. A identificação parece ser o caminho mais curto, pois a dissolução da persona na psique coletiva é um convite direto para as bodas com o abismo, apagando-se toda memória nesse abraço. Este traço de misticismo é característico dos melhores indivíduos e é tão inato em cada qual como a “nostalgia da mãe”, nostalgia da fonte da qual proviemos.

(…)

Não pretendo negar, em geral, a existência de profetas autênticos mas, por cautela, começarei duvidando em cada caso individual; o assunto é sério demais para que se aceite, levianamente, alguém como um verdadeiro profeta. Se for este o caso, ele mesmo lutará contra toda pretensão inconsciente a esse papel. Portanto, se num abrir e fechar de olhos aparecer um profeta, seria melhor pensarmos num possível desequilíbrio psíquico.

Mas além da possibilidade de converter-se em profeta, há outra alegria sedutora, mais sutil e aparentemente mais legítima: a alegria de ser o discípulo de um profeta. Esta técnica é ideal para a maioria das pessoas. Suas vantagens são: o odium dignitatis, isto é, o da responsabilidade sobre-humana do profeta, que é substituído pelo otium indignitatis, que é muito mais suave. O discípulo é indigno; senta-se modestamente aos pés do “Mestre” e se protege contra os próprios pensamentos. A preguiça mental torna-se uma virtude; pelo menos, é possível aquecer-se ao sol de um ser semidivino. Pode desfrutar do arcaísmo e infantilismo de suas fantasias inconscientes sem esforço algum, pois toda a responsabilidade é deixada ao Mestre. Através da divinização do Mestre, o discípulo se exalta, aparentemente sem que o perceba. Além disso, não possui a grande verdade (que, naturalmente, não foi descoberta por ele), recebida diretamente das mãos do Mestre? É óbvio que os discípulos sempre se unem com solidariedade, não por laços afetivos, mas com o propósito de confirmar suas próprias convicções, sem esforço, engendrando uma atmosfera de unanimidade coletiva.

Há, porém, uma forma de identificação com a psique coletiva, que parece muito mais recomendável; alguém tem a honra de ser um profeta, assumindo desse modo uma perigosa responsabilidade. Outro indivíduo, por seu lado, é um simples discípulo, administrador do grande tesouro que o Mestre alcançou. Sente toda a dignidade e o peso de uma tal posição e considera uma obrigação solene, ou mesmo uma necessidade moral, denegrir todos os que pensem diferentemente; sua preocupação é fazer prosélitos e iluminar a humanidade, tal como se ele mesmo fosse o profeta. São estas as pessoas que, se ocultando atrás de uma persona aparentemente modesta, irrompem de repente na cena do mundo, inflacionadas pela identificação com o inconsciente coletivo. Tal como o profeta, é uma imagem primordial da psique coletiva, o discípulo do profeta também o é.

Em ambos os casos, a inflação provém do inconsciente coletivo e a independência da individualidade é lesada. Mas uma vez que nem todos possuem a força de uma individualidade independente, a fantasia do discípulo é talvez a mais conveniente. As gratificações da inflação decorrente representam, pelo menos, uma pequena compensação pela perda da liberdade espiritual. Nem devemos subestimar o fato de que a vida de um profeta, real ou imaginário, é cheia de tristezas, desapontamentos e privações; assim, pois, o bando de discípulos e a gritaria dos hosanna têm o valor de uma compensação. Tudo isto é humanamente tão compreensível, que quase deveria surpreender-nos se conduzisse a algo mais além.

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Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-mente-dos-profetas