Hecate – Druidas, Oráculos e Allan Kardec

Publicada no S&H dia 20/jun/2008,

“Três deveres de um druida:
– curar a si mesmo;
– curar a comunidade;
– curar a Terra.
Pois se assim não fizer, não poderá ser chamado de druida”.
(Tríades da Ilha da Bretanha)

Durante nossas matérias anteriores, falamos sobre Matrix, o Plano Astral e as diversas maneiras de se interagir com a esfera de Yesod, o estado de consciência representado pelo Mundo Subterrâneo nas antigas mitologias. Falamos sobre os Psychopompos (os famosos “condutores de almas”) das mitologias antigas e o que eles realmente representam e finalmente fizemos cinco anotações em nossos cadernos, que passaremos a decifrar nesta coluna.
Semana passada falamos sobre Thanatos, deus dos mortos, e sua relação com o Astral. Continuando a linha de raciocínio, falaremos hoje sobre Hecate, a deusa tríplice, representação da mediunidade.

Hecate
Hecate (ou Hécate) é uma divindade grega, filha dos titãs Perses e Astéria. A origem de seu nome se deve à palavra egípcia Hekat que significaria “Todo o poder”.
Em sua versão original, Hecate está associada a Ártemis (irmã gêmea de Apolo, o Sol, representando a luz da lua cheia) e a Perséfone (filha de Zeus e Demeter, personificação do sagrado feminino e das faculdades associadas à sensualidade feminina). Juntas, as três simbolizavam as 4 fases da Lua. Enquanto Ártemis representava a lua cheia e o fulgor feminino (girl power), Perséfone, em suas duas caracterizações (a doce Coré e a sombria Perséfone) representava respectivamente as fases Crescente e Minguante da lua e, finalmente, Hecate representava a Lua Nova, ou sombria.

Ok… pausa para explicar a lenda de Perséfone:
Na mitologia grega, Perséfone ou Coré (correspondente à deusa romana Proserpina e Cora). Era filha de Zeus e da deusa Deméter, da agricultura, tendo nascido antes do casamento de seu pai com Hera.
Quando os sinais de sua grande beleza e feminilidade começaram a brilhar, em sua adolescência, chamou a atenção do deus Hades (Demeter representa Malkuth, o Plano Material, Hades representa Yesod, o Plano Astral, Perséfone a feminilidade relacionada com a intuição feminina, que transita entre estas duas esferas) que a pediu em casamento.
Zeus, sem sequer consultar Deméter, aquiesceu ao pedido de seu irmão. Hades, impaciente, emergiu da terra e raptou-a levando-a para seus domínios (o Mundo Subterrâneo), desposando-a e fazendo dela sua rainha.
Sua mãe, ficando inconsolável, acabou por se descuidar de suas tarefas: as terras tornaram-se estéreis e houve escassez de alimentos. Deméter, junto com Hermes, foi buscá-la ao mundo dos mortos (ou segundo fontes posteriores, Zeus ordenou que Hades devolvesse a sua filha). Como, entretanto, Perséfone tinha comido algo (uma semente de romã, a mesma fruta que coincidentemente era cultivada nos jardins do Templo de Salomão) concluiu-se que não tinha rejeitado inteiramente Hades. Assim, estabeleceu-se um acordo: ela passaria metade do ano junto a seus pais, quando seria Coré, a eterna adolescente, e o restante com Hades, quando se tornaria a sombria Perséfone. Este mito justifica ao mesmo tempo o ciclo anual das colheitas e as duas representações da lua e seus aspectos na magia cerimonial.

Voltando a Hecate:
Hecate é venerada como “a mais próxima de nós”, pois se acreditava que, nas noites de lua nova, ela aparecia com sua horrível matilha de cachorros fantasmas diante dos viajantes que por ali cruzavam. Ela enviava aos humanos os terrores noturnos e aparições de fantasmas espectros. Também era considerada a deusa da magia e da noite, mas em suas vertentes mais terríveis e obscuras. Era associada a Ártemis, mas havia a diferença de que Ártemis representava a luz lunar e o esplendor da noite. Também era associada à deusa Perséfone, a rainha dos infernos, lugar onde Hécate vivia.
Dada a relação entre os feitiços e a obscuridade, os magos e bruxas da Antiga Grécia lhe faziam oferendas com cachorros e cordeiros negros no final de cada lua nova. Era representada com três corpos e três cabeças, ou um corpo e três cabeças. Levava sobre a testa o crescente lunar (tiara chamada de pollos), uma ou duas tochas nas mãos e com serpentes enroladas em seu pescoço. Como já estudamos em matérias anteriores, Tochas simbolizam o FOGO, sinal da sabedoria divina, e cobras representam o despertar da Kundalini, o fogo sagrado dentro de cada um.

Deusas Tríplices
Com a associação clara entre o feminino e a Lua, existiam muitas deusas tríplices, que carregavam consigo certas atribuições e que agiam como se fossem uma única entidade. Entre elas podemos destacar as Moiras, as Erínias e as Parcas, assim como as Norms (nórdicas), Bridghit (três deusas com o mesmo nome) e Morrigan (que com suas irmãs Badb e Macha faziam as vezes das Fúrias celtas).
Dos cultos egípcios e gregos, a representação do Sagrado Feminino na forma de “deusas tríplices” espalhou-se pela Europa. Os celtas possuíam a representação da mulher associada a três deusas chamadas Bridgith (Ou Brigid, ou Brígida, ou posteriormente Santa Brígida na Igreja Católica).
A Deusa Tríplice representa os mesmos aspectos gregos do feminino: donzela, mãe e anciã. Bridgit era filha de Dagda (e, portanto, meia irmã de Cermait, Aengus, Midir e Bodb Derg – um dia no futuro eu falo sobre eles… é uma história muito interessante) e suas sacerdotisas estavam associadas à chama sagrada, da mesma maneira que as Virgens Vestais gregas e egípcias. Suas 19 sacerdotisas permaneciam no Templo de Kildare, cercadas por um fosso natural que nenhum homem poderia cruzar. O Templo de Kildare foi uma das principais fontes usadas na criação da lenda de Avalon. Morrigan, por sua vez, foi a deusa utilizada como base para a criação de Morgana, meia irmã do mítico Rei Arthur (falaremos sobre isso mais para a frente).

As deusas e as Incorporações
Retornando no tempo até os cultos de Astarte, era extremamente comum (para não dizer mandatório) que a principal sacerdotisa de cada culto, em determinado momento do ritual, incorporasse a Deusa. Quando digo “incorporar”, quero dizer EXATAMENTE da maneira como vemos diariamente em centros espíritas, Kardecistas e templos de Umbanda/Candomblé.
A sacerdotisa possuía todos os atributos e características necessárias (além de um treinamento espiritual, emocional e mental) para deixar seu corpo limpo e preparado; entrava em transe ritualístico profundo e utilizava sua condição de médium para incorporar a deusa, que conversava com seus seguidores dando-lhes informações e conselhos.
Isto faz nossa segunda ligação com os Psycopompos e seus profundos significados esotéricos: Hecate representa esta conexão entre os médiuns e o Plano Astral.

Os druidas
Druidas (e druidesas) eram pessoas encarregadas das tarefas de aconselhamento, ensino, jurídicas e filosóficas dentro da sociedade celta. A palavra Druida significa “Aquele que tem conhecimento do Carvalho”.
O carvalho, nesta acepção, por ser uma das mais antigas e destacadas árvores de uma floresta, representa simbolicamente todas as demais. Ou seja, quem tem o conhecimento do carvalho possui o saber de todas as árvores. Está intimamente ligado ao título de “Aquele que trabalha com a madeira” vindo dos tempos do Rei Salomão e da Arca e, para quem não caiu a ficha ainda, o mesmo título de “Mestre Carpinteiro” dos antigos Essênios. A ritualística druida é muito parecida com o cristianismo primitivo da doutrina Cátara.

É importante dissociar as palavras “Druida” de “Celta” porque muita gente faz confusão. Celta é o nome do povo, enquanto Druida é o nome dado a uma casta de sacerdotes especiais que viviam entre os celtas e agiam como conselheiros destes. É a mesma relação entre “judeus” e “rabinos”.

Origens da Távola Redonda e o Elemento Terra.

Druidas e Mediunidade
A conexão entre Druidas e Mediunidade vem do Xamanismo (que é uma das origens de toda a magia celta) e das incorporações dos xamãs com os Espíritos dos Antigos (ou Espíritos Ancestrais). Da mesma maneira que os xamãs incorporam os espíritos ancestrais, os grandes sacerdotes druidas não apenas incorporavam os Deuses em seus rituais, mas também estudavam estas interações entre o Plano Material e o Plano Espiritual.

Com o advento da Igreja católica, estas práticas ficaram cada vez mais secretas e mais restritas, sob pena de fogueira; e muitos dos conhecimentos ocultistas da antiguidade tiveram de se refugiar nas Ordens Secretas, especialmente sob a proteção Templária e Rosacruz. O Sagrado feminino, a intuição e a mediunidade foram esmagados e permaneceram em dormência até o Renascimento. Neste período (que falaremos em detalhes na seqüência “Queima Ele, Jesus”), qualquer manifestação de mediunidade era vista como “coisa do demônio” e passível de fogueiras e exorcismos. Existem diversos casos na literatura medieval que retratam casos de mediunidade como sendo tratados como “possessão demoníaca” e afins. O mundo permanecia (passado?) em uma Idade das Trevas.

Dos druidas aos maçons
Nascia em Lyon a 3 de Outubro de 1804 Hippolyte Léon Denizard Rivail, um professor, pedagogo e escritor francês que se notabilizou como o codificador do chamado “Espiritismo”, denominado “Doutrina Espírita”.
Nascido numa antiga família de orientação católica com tradição na magistratura e na advocacia, desde cedo manifestou propensão para o estudo das ciências e da filosofia.
Fez os seus estudos na Escola de Pestalozzi, no Castelo de Zahringenem, em Yverdun, na Suíça (país protestante), tornando-se um dos seus mais distintos discípulos e ativo propagador de seu método, que tão grande influência teve na reforma do ensino na França e na Alemanha. Aos quatorze anos de idade já ensinava aos seus colegas menos adiantados.
Concluídos os seus estudos, o jovem Rivail retornou ao seu país natal. Profundo conhecedor da língua alemã, traduzia para este idioma diferentes obras de educação e de moral, com destaque para as obras de François Fénelon, pelas quais manifestava particular atração.
Era membro de diversas ordens, entre as quais da Academia Real de Arras, que, em concurso promovido em 1831, premiou-lhe uma memória com o tema “Qual o sistema de estudos mais de harmonia com as necessidades da época?”.
existe uma grande suspeita que Leon Denizard tenha feito parte da Maçonaria, pertencente à Grande Loja da França. Se não foi iniciado, passou sua vida inteira cercado por amigos membros desta sublime ordem. Deve ter conhecido as teorias básicas de Astrologia (pelo contato e estudo com Camille Flammarion, um dos maiores astrônomos franceses de todos os tempos, fundador em 1887 da Sociedade Astronômica da França). Camille Flamarion era tão seu amigo que fez o discurso durante o enterro de Kardec. Para os espíritas que acompanham a coluna terem uma idéia da importância de Flamarion para o espiritismo, procurem nos textos da Gênese, uma das obras básicas do Kardecismo, o texto “Uranografia Geral – Estudo do Espaço e Tempo”, pelo médium CF. CF são as iniciais de Camille Flamarion.

Cético e estudioso, Léon teve contato com os estudos a respeito das “mesas girantes” em 1855, paralelamente a cientistas e ocultistas como Sir William Crookes (membro do Royal College of Chemistry, pai da Espectrologia), Alfred Russel Wallace (um dos precursores da teoria da evolução das espécies), John Willian Strutt (prêmio Nobel da física de 1904), Michael Faraday (físico, que apesar de não ser ocultista também estudou estes fenômenos), Oliver Lodge (membro da Royal Society, inventor do telégrafo sem fio), entre muitos outros. Interessante notar que as pessoas que estudavam seriamente estes fenômenos eram cientistas importantíssimos, ganhadores do Nobel de Física e outros pesquisadores voltados para áreas da física e da química.

Os tipos de mediunidade:
Como o irmão Denizard já teve todo o trabalho de compilar e codificar os tipos de mediunidade de uma forma majestosa, o tio Marcelo fará apenas a referência aos seus textos.
Começamos os estudos através da Manifestação dos Espíritos sobre a Matéria, através da vontade (Thelema) dos seres espirituais, combinados com a energia plasmada do médium, rompem a barreira entre os campos vibracionais e permitem manifestações no Plano Material. A partir disto, surgem as famosas “mesas girantes” que são uma manifestação grosseira desta força, suficiente apenas para erguer as mesas no ar e fazê-las girar. A partir das manifestações grosseiras (que também são a origem de barulhos em casas ditas “mal assombradas” e outros fenômenos), surgem os estudos a respeito de Manifestações Inteligentes (ou seja, pancadas rítmicas, respondendo a perguntas como “sim” ou “não”, barulhos indicando princípios rudimentares de comunicação entre Planos e assim por diante). Neste sentido, ele também estudou a criação de ruídos, movimentos e suspensões e aumento e diminuição do peso dos corpos.
Na segunda etapa, estudaram as manifestações físicas espontâneas, ou seja, a criação de ruídos mais específicos, arremessos de objetos e fenômenos de transporte, bem como as manifestações visuais, aparições e aparições dos espíritos de pessoas vivas. Estudaram também os lugares assombrados, linguagem dos sinais, tiptologia alfabética, escrita direta e pneumatofonia.
Na área da psicografia, estudaram a psicografia indireta, através de cestas e pranchetas, e a psicografia direta, através dos médiuns.
O capítulo XIV do seu “Livro dos Médiuns” trata especificamente sobre as mediunidades, listando as 72 mediunidades diferentes, entre elas os médiuns de efeitos físicos, elétricos, sensitivos, audientes, falantes, videntes, sonambúlicos, curadores, pneumatógrafos, etc. Entre os médiuns escreventes temos os médiuns mecânicos, intuitivos, semimecânicos, inspirados e de pressentimento e assim por diante. Recomendo que vocês leiam os dois livros básicos (Livro dos Espíritos e Livro dos Médiuns).
Léon adotou o pseudônimo de Allan Kardec, uma de suas encarnações passadas como druida, e é considerado o fundador do Espiritismo, uma das filosofias que eu considero mais sérias.

Termino a matéria citando o professor Waldo Vieira e um livro fantástico chamado 700 Experimentos de Conscienciologia (1994) onde, com o auxílio de laboratórios, foram feitas diversas experiências dentro do método científico para comprovar e estudar os fenômenos parapsicológicos. Hoje o IIPC é um dos institutos mais sérios no estudo destes fenômenos de forma científica e laica.

No Brasil, o espiritismo acabou adotando um pouco do viés religioso e cristão ao invés de sua proposição original científica. Infelizmente o sincretismo religioso, os misticóides da dita “Nova Era”, os charlatões e as chamas violetas da vida transformaram a palavra “espiritismo” em uma mixórdia tão grande que os espíritas originais precisam se denominar “Kardecistas” para evitar confusões, tamanha a quantidade de loucuras que inventaram por ai.

Enquanto isso, neste curral chamado Brasil, os coletores de dízimos fazem a festa com suas charlatanices de desencapetamento, exorcismos da madrugada, óleos de Jerusalém, água do Rio Jordão e afins, deixando a ciência e o ocultismo sério como pequenos oásis neste imenso mar de créu.

Perdidos no meio de assuntos religiosos e esotéricos que não têm nenhuma idéia a respeito, as Igrejas caça-níqueis seguem por ai Vandalizando Templos de Umbanda e de outras religiões “Em nome de Jesus”.

Como este assunto é muito extenso, queria que vocês postassem suas dúvidas na parte de comentários, como fizemos semana passada. Estava olhando com calma as perguntas novamente… acho que nunca fui tão sabatinado em toda a minha vida. E as dúvidas estavam de alto nível !!! Parabéns para o pessoal e queria agradecer aos colegas que ajudaram nas respostas

MacBeth!

#Kabbalah

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/hecate-druidas-or%C3%A1culos-e-allan-kardec

O Panteão Taoista

   por Guilherme Korte

O Taoismo teve início no século II baseado nas religiões indígenas, e sua ideologia deriva de antigas tradições, incluindo Huang-Lao, uma tradição cultural batizada depois de Hunag Di, O Imperador Amarelo, e Lao Tzu, e seguida por seus fiéis durante a dinastia Han do oeste (206 a.C. – 24 d.C.).

Durante as dinastias Tang (618 – 907) e Song (960-1279), devido ao apoio de seus imperadores, o Taoismo entrou em um período de pleno desenvolvimento e se converteu em uma importante religião na China, somente menor que o Budismo. Lao Tzu, o fundador da escola de Taoismo, no começo da dinastia Qin, é venerado como seu fundador, e a idéia do Caminho (Dao ou Tao), que se preconiza no livro “Tao te Ching”, é a base da religião. Crendo que o Caminho é a origem do universo e criador de todos os seres vivos. Os taoistas adoram toda a vida no universo e todas as coisas criadas pela natureza. Também crêem que o homem pode alcançar a imortalidade e converter-se em um ser celeste (“xian”) mediante a prática da austeridade.

No século 12, o Taoismo dividiu-se em duas seitas: O taoismo Chuan-chen e o Taoismo Cheng-I. Os seguidores do Taoismo Chuan-chen abandonam suas famílias e vivem em templos. Tornam-se vegetarianos e praticam a austeridade tendo em vista a imortalidade. Outros, seguidores do Taoismo Cheng-I, viveram perto de suas famílias e não deixaram de comer carne e como ideal, ajudavam outras pessoas a conseguir fortuna e evitar seus males.

De acordo com o Taoismo, os deuses atuam como administradores e controlam cada coisa no Universo. Entre muitos deuses venerados pelos taoistas, estão o Deus de Origem Primitiva, o Deus da Pedra Sagrada, e o Deus do Caminho da Energia (Lao Tzu)

Muitos dos templos taoistas foram construídos em montanhas donde, segundo a tradição, nasceram os seres celestiais ou se transformaram em imortais, os antigos taoistas que haviam praticado a austeridade física, mental e espiritual.

Os Três Puros

Dentre os imortais se destacam Fu Xing, Lu Xing e Shou Xing, os 3 deuses que representam respectivamente a prosperidade, sucesso e longevidade.

Fu Xing: O deus da felicidade, da sorte e das oportunidades. Acredita-se que tenha sido um personagem histórico do século VI chamado Yang Chang, que foi deificado em Daoxian, na província de Hunan, da qual era governador. Após sua morte, por ser muito bem quisto pela população, erigiu-se um templo em sua homenagem. Sua figura aparece muitas vezes nas portas, para trazer a felicidade e a sorte. Apresenta-se em geral com um chapéu de abas largas e portando um pergaminho enrolado. Muitas vezes aparece carregando uma ou mais crianças, símbolo de felicidade na China Antiga.

Lu Xing: Conhecido como o deus da prosperidade, que traz a felicidade na forma de aumentos salariais ou promoções. O personagem histórico ligado a ele é um estudioso do século II a.C. chamado Shi Fen. Ele era um alto funcionário imperial e predileto do próprio imperador, o que colocou sua família em um alto nível social e financeiro. Aparece geralmente vestido com trajes nobres e pode carregar um lingote de ouro.

Shou Xing: Também chamado de Nanji Laoren (“Velho Homem do Polo Sul”). Muito reverenciado como o deus da longevidade. Em geral carrega um pêssego, pois a palavra “pêssego” em chinês tem o mesmo som de “longevidade” – “shou”. É retratado muitas vezes acompanhado de uma garça ou tartaruga, símbolos de longevidade. Traz um cajado feito de madeira de pessegueiro (o fruto da imortalidade) e uma cabaça, que está cheia com o elixir da imortalidade. Muitas vezes é denominado como “Shou Xi”, onde “xi” significa “felicidade” e passa a representar a “longevidade feliz”. É o símbolo de nosso site principal, Longevidade.

Os Oito Imortais

Os Oito Imortais são outro grupo destes lendários xian. Estes são frequentemente chamados por invocações taistas em busca de proteção ou para destruição do mal. A maioria deles teria nascido na dinastia Tang ou Song e além de serem reverenciados pelos taoístas também são um elemento popular na cultura secular chinesa. Dizem que vivem em um grupo de cinco ilhas no Mar de Bohai, que inclui o Monte Penglai. Os Oito Imortais são:

  • He Xiangu (He Xiangu), geralmente vista como a única mulher do grupo, muitas vezes retratada segurando uma flor de lótus.
  • Cao Guojiu (赵国ujiu), relacionado a um imperador da dinastia Song antes de se tornar um imortal.
  • Li Tieguai (李馬國), considerado mentalmente ébrio e associado à medicina e aliviando o sofrimento dos doentes e necessitados, identificado por sua muleta de ferro e garrafa de cabaça.
  • Lan Caihe, um imortal de gênero ambíguo considerado o patrono dos floristas e dos jardineiros.
  • Lü Dongbin, um estudioso e poeta considerado o líder dos Oito Imortais.
  • Han Xiangzi, um flautista e patrono das artes e inspirações.
  • Zhang Guolao, um fangshi associado à velhice, sabedoria e longevidade.
  • Zhongli Quan, associado à morte e ao poder de criar prata e ouro e portanto a prosperidade muitas vezes representado segurando um leque.

Em resumo o panteão taoista é composto por seres humanos que se tornaram imortais seguindo o Tao. Existem muitos outros, como o famoso Kuan Ti (ou Guan Yu), cujas façanhas e qualidades morais foram celebradas no Romance dos Três Reinos.

Taoismo Hoje

Atualmente existem mais de 1600 templos taoistas aonde vivem 25 mil sacerdotes. A Organização Taoista da China, estabelecida em 1957, em Beijing, é uma organização nacional, com Ming Zhiting como presidente. Para levar adiante e divulgar a cultura taoista, a associação publicou dezenas de obras clássicas taoistas e compilou mais de 30 livros sobre o Taoismo e uma série de livro sobre a cultura taoista. Publicam ainda uma revista bimestral, “O Taoismo da China”, distribuída no interior e enviada ao exterior. A Academia Chinesa de Taoismo, fundada em 1990, oferece cursos aos jovens interessados sobre as investigações e estudos taoistas. Milhares de estudantes graduaram na academia desde seu estabelecimento. Os taoistas chineses sempre mantêm estreitos contatos com os taoistas em todas as partes do mundo. A Associação Taoista da China, também é membro da União de Proteção Religiosa e Ambiental.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/o-panteao-taoista/

Gustav Holst e “Os Planetas”

Esta alusão ao mapa astral tem tudo a ver com a vida e a obra do compositor inglês. Ele mesmo era um entusiasta do assunto e chegou a confeccionar diversos mapas para seus amigos. Sua principal obra, Os Planetas, é resultado dos seus estudos místicos e astrológicos.

Influências Musicais

O Crepúsculo dos Deuses, a quarta ópera da tetralogia O anel dos Nibelungos, de Richard Wagner, impressionou os ouvidos de Holst. Mais tarde, sentiu-se elevado ao “reino dos céus” ao ouvir a Missa em Si menor de Johann Sebastian Bach. As influências de Arnold Shoenberg, Stravinsky, Richard Strauss, Debussy, e sua amizade com o compositor Ralph Vaughan Williams, encerram o arco musical dentro do qual Holst se desenvolveu como compositor.

Apesar da sua formação no Royal College of Music, Holst foi um grande autodidata. Evitava sistemas acadêmicos e estruturas musicais pré-concebidas. Não dava tanto crédito aos livros, mas no lema “aprenda fazendo”. Seguiu seu próprio caminho, e como num laboratório alquímico, realizou inúmeras experiências buscando constantemente as notas certas para suas obras.

Espiritualidade

Holst acreditava nas forças supra-humanas, foi muito influenciado pelas religiões orientais, especialmente nas doutrinas do dharma e reencarnação. Trabalhou na composição de diversos hinos para coral e orquestra sob inspiração de um dos escritos religiosos mais antigos do mundo, o Rig Veda. Escrito na linguagem sânscrita, é um verdadeiro compêndio de hinos, rituais e oferendas às divindades.

Como um bom virgiano, era perfeccionista e tinha o dom para dedicar-se em trabalhos cansativos e minuciosos. Portanto, não satisfeito com as traduções do Rig Veda decidiu aprender sânscrito e traduziu as palavras conforme sua interpretação.

Além dos Choral Hymns, compôs uma ópera chamada Sita, inspirada no épico indiano Ramayana, levou sete anos para sua conclusão, sem jamais encená-la! No caso de Holst, esse dom analítico e a capacidade para empenhar-se em grandes trabalhos, coincidem exatamente com as características de quem possui a lua em virgem no mapa astral.

Com base nos evangelhos apócrifos, escreveu The Hymn of Jesus (Parte I, Parte II, Parte III) Com seu rigor habitual, aprendeu o grego para ler os originais. Além do empenho para conservar o espírito do texto original, combinou em sua música o canto gregoriano, ritmos irregulares, harmonia colorida e uma orquestração grandiosa.

A astrologia e “Os Planetas”

“Os planetas” não se trata de uma obra ortodoxa, sua estrutura não obedece aos padrões convencionais. Não é uma sinfonia, nem poema sinfônico, nem fantasia. Mas sim, uma série de perfis sonoros dos planetas. Nas palavras de Holst: “as sete influências do destino e componentes de nosso espírito.“

Além das referências astrológicas, esta obra nos remete ao conceito de música das esferas, amplamente pesquisada por Pitágoras, Kepler, Kircher, dentre outros. Visto que Holst dedicou sete anos de sua vida nesta obra, vale a pena dedicar alguns minutos para ouvi-la e compreende-la.

Os Planetas

I. Marte, O Portador da Guerra

As cordas, percutidas com a parte de madeira do arco apresentam o motivo marcial onde a música irrompe em ondas orquestrais com intensidade crescente. Este clima bélico e enérgico da música caracteriza o perfil astrológico de Marte: coragem, poder, pioneirismo e o instinto lutador para enfrentar os desafios com bravura. Se estas energias não forem devidamente controladas seu resultado é desastroso: violência, assassinato e todos os subprodutos do defeito relacionado a Marte, a Ira.

Marte, O Portador da Guerra foi composto no início de 1914, antes do começo da Primeira Guerra Mundial. Seus sons militares soaram como uma premonição do conflito mundial que estava por vir.

II. Venus, O Portador da Paz

Fornece uma espécie de resposta para Marte. Contrasta pela placidez e pelo andamento lento. As harpas, madeiras e a celesta realçam a delicadeza desta obra, que nos passa a sensação de harmonia, equilíbrio e paz.

Alan Leo descreve este contraste entre Marte e Venus da seguinte forma: “Marte é o representante da alma animal no homem e Venus da alma humana, em certo sentido, um é o complemento do outro. Mercúrio o mensageiro alado dos deuses voa entre os dois como memória e é, portanto, a alma espiritual humana.”

III. Mercúrio, O Mensageiro Alado

De forma alegre, uma extensa e contínua linha melódica passeia pelos diversos naipes orquestrais transmitindo de instrumento para instrumento a mensagem vinda de outros mundos. Mercúrio, o mensageiro alado dos deuses representa a consciência humana, o intelecto, a aptidão para nos comunicarmos e a nossa busca pelo saber.

IV. Júpiter, O Portador da Jovialidade

Com base numa linha de acompanhamento na região aguda dos violinos, as trompas apresentam o tema enérgico do movimento, é o impulso para a introspecção a nível intelectual, filosófico e religioso, um dos aspectos de Júpiter. Em suma, Júpiter representa a “mente superior” no homem, não como razão pura, mas como sabedoria inata.

V. Saturno, O Portador da Velhice

Começa sombrio, segue com uma marcha nos metais e retorna à serenidade no final. Harpas e flautas estabelecem um padrão de acompanhamento sobre o qual cordas e outros instrumentos de madeira apresentarão breves fragmentos melódicos.

Saturno no horóscopo mostra onde podem ser encontrados os maiores desafios e onde podem ser aprendidas as lições mais difíceis. Segundo alguns biógrafos, Saturno é também a representação do sofrimento de Holst, que devido a sérios problemas na articulação de seu braço, teve que abandonar o piano e o violino.

Alan Leo descreve Saturno como sendo um dos responsáveis por todos os casos de degradação, degenerescência, humilhação e vergonha. Nos aspectos positivos representa a verdadeira humildade, perseverança, sacrifício, entrega e serenidade.

VI. Urano, O Mágico

É um scherzo com uma melodia ágil no fagote que se desenvolve em uma intrincada teia orquestral. O início da música representa o impulso para ser único, para chocar e surpreender. Mais a frente, o som pesado dos metais nos remetem aos acontecimentos repentinos e imprevisíveis. O grandioso tutti representa o que talvez seja a maior influência de Urano: o despertar da consciência.

Em seu livro Art of Synthesis, Alan Leo chama o capítulo sobre Urano de “Uranus, the awakener”. Este, representa a originalidade de pensamento, a independência de espírito, o gênio criador, as avançadas formas de pensamento, a intuição e a capacidade de trazer conhecimento através da consciência desperta adquirida nas esferas internas do ser.

VII. Netuno, O Místico

Aqui Holst explora o pianissimo com enorme habilidade. Harmonias misteriosas e um coral de vozes femininas fazem parecer “música de outro mundo”. Esta obra nos transmite claramente a representação astrológica de netuno: as influências não materiais, os sonhos, o espiritualismo, a teosofia, a dedicação pelo misticismo e a abertura para o divino.

Ele também é o responsável pelo gosto por artes ocultas, habilidades para o mesmerismo, telepatia e sonhos lúcidos. O planeta é muito musical e conduz à composição inspirada em melodias ouvidas em sonhos. Pelo teor, esta obra pode tranquilamente servir como música de fundo para breves meditações.

Epílogo

Holst utilizou-se da música tanto para o seu trabalho profano como para a construção da “grande obra”. Ao mesmo tempo em que compunha melodias “mundanas” para manter-se financeiramente estável, dedicava-se a trabalhos chamados “sérios”, sem qualquer sentimento de incoerência. O único inconveniente é que a maioria de suas obras ficaram ofuscadas devido ao grande sucesso de Os Planetas.

Em maio de 1933, Holst foi internado às pressas devido a uma hemorragia causada por uma úlcera no duodeno. Outro dado curioso é que fisicamente o signo de virgem, possui relações com o aparelho digestivo e há quem diga que os intestinos são o ponto fraco físico dos virgianos. Coincidência ou não, logo após uma cirurgia a fim de erradicar a úlcera no duodeno, Holst não resistiu e deixou este mundo no dia 25 de maio de 1934 aos 59 anos.

Curiosidades

Marte, O Portador da Guerra é amplamente utilizado no cinema, principalmente em filmes que envolvem grandes batalhas. Além disso, é a maior referência musical para os compositores “hollywoodianos” em suas obras bélicas.

Em 2006, a banda inglesa Iron Maiden utilizou a música de Marte para abertura dos seus shows na turnê A Matter of Life and Death.

O tema central de Júpiter tornou-se um hino patriótico inglês.

O ritmo brincalhão de Urano é muito semelhante ao da obra O aprendiz de Feiticeiro de Paul Dukas, do qual Holst certamente recebeu influências.

Referências

Holst Biography, Ian Lace.
Astrologia, Wikipedia de Ocultismo
Art of Synthesis, Alan Leo.
Música Clássica, John Burrows.
Grandes Compositores, João M. Coelho.

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#Arte #Astrologia #Música

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/gustav-holst-e-os-planetas

O Mapa Astral de Friedrich Nietzsche

Nietzsche, sem dúvida considera o Cristianismo e o Budismo como “as duas religiões da decadência”, embora ele afirme haver uma grande diferença nessas duas concepções. O budismo para Nietzsche “é cem vezes mais realista que o cristianismo” (O anticristo). Religiões que aspiram ao Nada, cujos valores dissolveram a mesquinhez histórica. Não obstante, também se auto-intitula ateu.

Para Nietzsche o homem é individualidade irredutível, à qual os limites e imposições de uma razão que tolhe a vida permanecem estranhos a ela mesma, à semelhança de máscaras de que pode e deve libertar-se. Em Nietzsche, diferentemente de Kant, o mundo não tem ordem, estrutura, forma e inteligência. Nele as coisas “dançam nos pés do acaso” e somente a arte pode transfigurar a desordem do mundo em beleza e fazer aceitável tudo aquilo que há de problemático e terrível na vida.

Nietzsche passou os últimos 11 anos da sua vida sob observação psiquiátrica, inicialmente num manicômio em Jena, depois em casa de sua mãe em Naumburg e finalmente na casa chamada Villa Silberblick em Weimar, onde, após a morte de sua mãe, foi cuidado por sua irmã. Como diria o Datena, “Falta de Deus no coração”.

O Mapa de Nietzche possui Sol em Libra; Lua, Ascendente e Caput Draconis em Sagitário (por “enorme coincidência” justamente as energias mais voltadas para a filosofia e academia). Uma pessoa com facilidade para se comunicar e entender os outros e cujo mapa é voltado para Filosofia. A inclinação para observar o mundo ao redor e tirar conclusões é extremamente marcante no Mapa de Nietzche (Stellium de Lua, Ascendente e Caput Draconis com menos de 2 graus entre eles). Some a isso Marte e Mercúrio em Virgem-Libra (Rainha de Espadas, a energia mais fria e cínica do zodíaco, manifestada nele na forma de pensar e de lutar/gastar energia) e Saturno em Capricórnio-Aquário (Cavaleiro de Espadas, a pessoa que consegue enxergar as regras do mundo ao redor e quebrá-las influenciano o planeta ranzinza).

Uma Aspectação importante a ser destacada neste Mapa é a Oposição de Urano (seu Planeta mais forte com nada menos do que 9 Aspectações) em Peixe-Áries (Rainha de Bastões, que indica energia relacionada com conselheiros filosóficos) com Marte (em Virgem-Libra, a energia cínica que falei acima).

Resumindo o Mapa: o tio Bigodudo era mesmo um filósofo osso duro de roer mas, no final da vida seu ceticismo e ateísmo exagerados entraram em conflito com seu Júpiter em Peixes (facilidade para entrar em contato com o Astral). Os biografos de sua vida dizem que ele se tornou esquizofrênico por conta da Sífilis, embora esta avaliação seja controversa… é possível que um ateu de pedra como ele tenha simplesmente ficado louco com as coisas que via e ouvia como médium, já que não acreditava em nada espiritual…

#Astrologia #Biografias

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-mapa-astral-de-friedrich-nietzsche

Angel Tech: Guia de um xamã moderno para seleção de realidades

Perder-me na seção de religiões da minha livraria favorita costumava ser puro prazer cerebral… um prazer incomparável. Isso foi antes da invasão dos livros da Nova Era e de auto-aperfeiçoamento que, nos últimos anos, inundaram as estantes e empurraram para fora as gemas clássicas e mais obscuras da tecnologia psíquica. Você não pode mais encontrar os paradigmas cristalinos do Ensino Superior sem esbarrar em mais bobagens de palavras da moda. Ironicamente, devido à popularidade vertiginosa da Metafísica em geral, uma diluição generalizada de informações espirituais genuínas passou para a seção de história e filosofia. Talvez seja um sinal dos tempos, quem sabe? Não sei e, francamente, não quero saber. Metafísica para os Milhões não é minha praia.

Balançando em meio ao rio lamacento da literatura oculta está Angel Tech: A Modern Shaman’s Guide to Reality Selection (Angel Tech: Guia de um xamã moderno para seleção de realidade), de Antero Alli ,um residente de Boulder, Colorado, com um prefácio de Robert Anton Wilson, famoso por Cosmic Trigger. “Seleção de realidade”, hmmm… isso me chamou a atenção. Não é exatamente um livro de auto-ajuda ou um tratado metafísico, Angel Tech é (em suas próprias palavras), “um manual de sobrevivência para anjos caídos que acabaram com suas respostas congeladas aos pesadelos ao nosso redor”. Várias frases depois, ele nos instrui a: “voar mais alto, plantar os dois pés firmemente no chão… chão”. O título também é um pouco enganador, porque Angel Tech não é sobre anjos em si; pelo menos não do tipo pintado por artistas e descrito na Bíblia. Para citar mais uma vez o texto, “Um anjo é um ser de Luz. Tech vem de techne, significando arte ou habilidade. Angel Tech é a Arte de Ser Luz… Somos, em essência, seres de luz.”

Alli assumiu a responsabilidade de redefinir a terminologia comum, bem como criar palavras próprias para descrever sua jornada psíquica. Esta jornada atravessa a Lei das Oitavas e Harmônicos traduzidos na visão evolutiva das funções da Inteligência Única. Seu destino é a incrível tarefa de Aumento de Inteligência. O formato da lei dos oitos é tão antigo quanto as Escolas de Mistério Sufi e vigoroso o suficiente para atrair o próprio Gurdjieff. Mais recentemente, o guru patife Timothy Leary pegou e escreveu sua obra, Exo Psychology (também esgotada), um dos livros de origem da Angel Tech. O que diferencia a Angel Tech de outras interpretações desse sistema óctuplo é seu brilho cômico e algumas ilustrações histericamente perversas. Também visivelmente ausente é o tipo de dogma que quase sempre acompanha assuntos como este. (O autor nos lembra constantemente que o livro é um mapa e não o território em si, e que nós, leitores, devemos fazer nossos próprios mapas tão rápido quanto absorvemos informações para minimizar a constipação psíquica.)

Este livro não é para todos. Considere a seção intitulada Mecânica do Karma, que é “um curso de estudo mais adequado para robôs auto-realizados”. Quem vai admitir a seu papel de robô? Gurdjieff e sua espécie certamente o fizeram, mas não sem muito trabalho. Mais adiante nesta seção há outro chamado Problemas Mecânicos que, com detalhes meticulosos, explora os sintomas, causas e ajustes necessários para “robôs enlouquecidos”… em termos leigos, o processo de consertar pessoas quebradas. Apesar da leitura bastante densa nesta seção, Alli conseguiu me atrair com seu humor, que às vezes é implacável. Para o neófito não iniciado, Fred Mertz (lembra-se, do programa I love Lucy?) ressuscitou ao status espiritual de Bodhisattva com o propósito de transmitir sua compaixão através do “meio neuroeletrônico da televisão nas reprises…” Se Fred Mertz é um Avatar da Nova Era, então eu sou o papa. E em algum universo paralelo, provavelmente sou mesmo.

Angel Tech não é uma leitura fácil. Suas 380 páginas descrevem uma abordagem abrangente para reprogramar sua mente. O único outro autor que conheço que apresentou uma visão tão lúcida desta digna tarefa é o Dr. John Lilly (Simulations of God, Center of the Cyclone, etc.). Mais uma coisa surpreendentemente perdida da Angel Tech são os endossos pró-drogas que proliferam em livros de predecessores como Leary, Wilson e Lilly. A fórmula de Alli para Brain Change vem diretamente do próprio biocomputador humano. Técnicas para flexionar os músculos psíquicos são abundantes na Angel Tech. Os tópicos de pesquisa incluem Arrebatamento, Carisma, Ritual, Desenhando um Tarô, Alquimia, Sincronicidade, Astrologia, Rituais do Sonho e Fator X… se ao menos eles tivessem nos ensinado essas coisas quando fomos para a escola. E ao longo de tudo isso, uma corrente sublinhada chamada “aterramento” conecta o que é psíquico à terra. Só isso, na minha opinião, já vale o preço do ingresso.

Às vezes, este livro fica no limite entre a redundância e a repetição instrutiva com a esperança de levar seu ponto para casa. Esse ponto parece ser a autorresponsabilidade e a necessidade de se definir ou ser definido pelos outros. Alli dá como certo que os leitores já entendem que eles criam sua própria realidade, então não há muita escolaridade sobre isso.  É, talvez, por esta razão que o público da Angel Tech permanecerá limitado àqueles que atualmente projetam seu próprio programa. Desta forma, a Angel Tech é até elitista. Ele se recusa a tentar alcançar todo mundo. No entanto, as pessoas que tocarão serão mais ricas devido à falta de compromisso de Alli. Não é um livro totalmente inacessível, mas é baseado em uma suposição bastante radical. Ele falha em reconhecer a divisão entre os Eus Inferiores e Superiores que a maioria dos livros metafísicos quase divinizam. Meu palpite é que Alli é uma espécie de anarquista que encontrou seu caminho no sistema. Sua paixão por aniquilar a hierarquia com o propósito de desmistificar as comunicações é difícil de ignorar.

O que eu achei a parte mais atraente de Angel Tech foi que a seção chamada Capela Perigosa, que poderia ter sido expandida e reescrita como outro livro. Para aqueles familiarizados com o Cosmic Trigger de Robert Anton Wilson, a menção da Capela Perigosa deve tocar os sinos do inferno. De acordo com Alli, a Capela é um “lugar para onde as almas vão depois de serem catapultadas para fora de seus corpos, tateando sem rumo pela outra metade… enquanto seus corpos permanecem vivos, no automático, andando pelo planeta” (parafraseado). Esta seção do livro explora o processo de “Iniciação como resposta criativa ao choque do desconhecido”. É apresentado dramaticamente como Oito Sermões contados a uma congregação de almas perdidas por um padre que lembra vagamente os Sermões dos Mortos no final do livro de Carl Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões. Os títulos dos sermões incluem: Paixões Fatais, Suicídio e Livre Arbítrio, Céu e Inferno, A Crucificação… entre outros. A Capela Perigosa não é um lugar bonito para se estar e Alli olha através de seus vitrais, sombriamente.

Angel Tech é o livro um de uma trilogia chamada Manual de Referência de Operadores de Campo. Os outros dois livros, All Rites Reversed e The Akashic Record Player, serão lançados. Até lá, recomendo esta viagem irreverente e alucinante de um livro, Angel Tech, e espero mais de Alli.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/angel-tech-guia-de-um-xama-moderno-para-selecao-de-realidades/

As Origens de Lilith

 

Lilith (em hebraico: לִילִית, romanizado: Līlīṯ) é uma figura feminina na mitologia mesopotâmica e judaica, alternativamente a primeira esposa de Adão e supostamente a demônio primordial. Lilith é citada como tendo sido “banida” do Jardim do Éden por não obedecer e obedecer a Adão. Ela é mencionada no hebraico bíblico no Livro de Isaías, e na Antiguidade Tardia na mitologia mandeana e nas fontes da mitologia judaica a partir de 500 EC. Lilith aparece em historiolas (encantamentos que incorporam uma pequena história mítica) em vários conceitos e localidades que dão descrições parciais dela. Ela é mencionada no Talmude Babilônico (Eruvin 100b, Niddah 24b, Shabat 151b, Baba Bathra 73ª), no Livro de Adão e Eva como a primeira esposa de Adão, e no Zohar, Levítico 19a como “uma mulher ardente e quente que primeiro coabitou com o homem”.

O nome Lilith deriva de lilû, lilîtu e (w)ardat lilî. A palavra acadiana lilu está relacionada à palavra hebraica lilith em Isaías 34:14, que é considerada um pássaro noturno por alguns estudiosos modernos, como Judit M. Blair. Na antiga religião da Mesopotâmia, encontrada em textos cuneiformes da Suméria, Assíria e Babilônia, Lilith significa um espírito ou demônio.

A Lilith bíblica inspirou a autora e a primeira teóloga feminista judia Judith Plaskow a escrever, ‘The Coming of Lilith (A Vinda de Lilith)’ examinando o domínio patriarcal no judaísmo e no cristianismo, e a escrita de ‘Which Lilith (Qual Lilith)’ explorando as diversas identidades desse personagem por feministas, incluindo Enid Dame.

Lilith continua a servir como fonte de material na cultura popular de hoje, cultura ocidental, literatura, ocultismo, fantasia e horror, muitas vezes retratada como uma mulher lutando pela igualdade e pela justiça.

A HISTÓRIA DE LILITH:

No folclore judaico, como no satírico Alfabeto de Sirach (c. 700–1000 d.C.), Lilith aparece como a primeira esposa de Adão, que foi criada na mesma época e do mesmo barro que Adão. Compare esse relato com Gênesis 1:27, em que isso contrasta com Eva, que foi criada de uma das costelas de Adão). A lenda de Lilith desenvolveu-se extensivamente durante a Idade Média, na tradição da Aggadah, do Zohar e do misticismo judaico. Por exemplo, nos escritos do século 11 de Isaac on Jacob ha-Cohen, Lilith deixou Adão depois que ela se recusou a se tornar subserviente a ele e depois não retornou ao Jardim do Éden depois de se casar com o arcanjo Samael.

As interpretações de Lilith encontradas em materiais judaicos posteriores são abundantes, mas pouca informação sobreviveu sobre a visão suméria, acadiana, assíria e babilônica dessa classe de demônios. Embora os pesquisadores quase universalmente concordem que existe uma conexão, estudos recentes contestaram a relevância de duas fontes anteriormente usadas para conectar a lilith judaica a uma lilītu acadiana – o apêndice de Gilgamesh e os amuletos de Arslan Tash. (veja abaixo a discussão dessas duas fontes problemáticas). Em contraste, alguns estudiosos, como Lowell K. Handy, sustentam a opinião de que, embora Lilith deriva da demonologia mesopotâmica, a evidência da Lilith hebraica estar presente nas fontes frequentemente citadas – o fragmento sumério de Gilgamesh e o encantamento sumério de Arshlan-Tash sendo duas de tais evidencias – é escassa, se estiver presente.

Em textos de língua hebraica, o termo lilith ou lilit (traduzido como “criaturas da noite”, “monstro da noite”, “bruxa da noite” ou “coruja”) ocorre pela primeira vez em uma lista de animais em Isaías 34. A referência a Lilith em Isaías 34:14, não aparece na maioria das traduções comuns da Bíblia, como a KJV (Versão do Rei James) e a NIV (Nova Versão Internacional). Comentaristas e intérpretes muitas vezes imaginam a figura de Lilith como um perigoso demônio da noite, que é sexualmente libertina e que rouba bebês na escuridão. Nos Manuscritos do Mar Morto 4Q510-511, o termo ocorre pela primeira vez em uma lista de monstros. Inscrições mágicas judaicas em tigelas e amuletos do século VI Dc identificam Lilith como um demônio feminino e fornecem as primeiras representações visuais dela.

ETIMOLOGIA DA PALAVRA LILITH:

Na língua acadiana da Assíria e Babilônia, os termos lili e līlītu significam espíritos. Alguns usos de līlītu estão listados no Dicionário Assírio do Instituto Oriental da Universidade de Chicago (CAD, 1956, L.190), em Akkadisches Handwörterbuch de Wolfram on Soden (Ahw, p. 553), e Reallexikon der Assyriologie (RLA, página 47).

Os demônios femininos sumérios lili não têm relação etimológica com o acadiano lilu, “noite”.

Archibald Sayce (1882) considerou que o lilit hebraico (ou lilith) לילית e o anterior līlītu acadiano são derivados do proto-semítico. Charles Fossey (1902) traduz literalmente para “ser/demônio da noite feminino”, embora existam inscrições cuneiformes da Mesopotâmia onde Līlīt e Līlītu se referem a espíritos do vento portadores de doenças.

LILITH NA MITOLOGIA MESOPOTÂMICA:

Lilu:

Um lilu ou lilû é uma palavra acadiana masculina para um espírito ou demônio.

História:

Jo Ann Scurlock e Burton R. Andersen (2005) veem a origem do lilu no tratamento de doenças mentais.

Na Literatura Suméria e Acadiana:

Na literatura acadiana ocorre hlilu. Na literatura suméria ocorre lili. A datação de textos específicos acadianos, sumérios e babilônicos que mencionam lilu (masculino), lilitu (feminino) e lili (feminino) é casual. Em estudos mais antigos, como The Devils and Evil Spirits of Babylonia (Os Diabos e Espíritos Malignos da Babilônia, 1904), de R. Campbell Thompson, raramente são dadas referências de texto específicas. Uma exceção é K156 que menciona um ardat lili. Heinrich Zimmern (1917) identificou provisoriamente vardat lilitu KAT3, 459 como amante de lilu.

Uma inscrição cuneiforme lista lilû ao lado de outros seres perversos da mitologia e folclore da Mesopotâmia:

Os perversos Utukku que matam o homem vivo na planície.

Os perversos Alû que cobrem (o homem) como uma roupa.

Os perversos Edimmu, os perversos Gallû, que amarram o corpo.

Os Lamme (Lamashtu), os Lammea (Labasu), que causam doenças no corpo.

Os Lilû que vagueiam na planície.

Eles chegaram perto de um homem sofredor do lado de fora.

Eles provocaram uma doença dolorosa em seu corpo.

— Stephen Herbert Langdon 1864.

Na Lista de Reis Sumérios:

Na Lista de Reis Sumérios, diz-se que o pai de Gilgamesh é um lilu.

O ‘Espírito na Árvore’ no Ciclo Gilgamesh:

A Tabuinha XII, datada de c. 600 Ac, é uma tradução acadiana assíria posterior da última parte do sumeriano Epopeia de Gilgamesh. Ele descreve um ‘espírito na árvore’ referido a um ki-sikil-lil-la-ke.

Traduções sugeridas para a Tabuinha XII ‘espírito na árvore’ incluem ki-sikil como “lugar sagrado”, lil como “espírito” e lil-la-ke como “espírito da água”. Mas também simplesmente “coruja”, já que a pequena constrói uma casa no tronco da árvore.

O ki-sikil-lil-la-ke está associado a uma serpente e a um pássaro zu. Kramer traduz o zu como “coruja”, mas na maioria das vezes é traduzido como “águia”, “abutre” ou “ave de rapina”. Em Gilgamesh, Enkidu e Netherworld, uma árvore huluppu cresce no jardim de Inanna em Uruk, cuja madeira ela planeja usar para construir um novo trono. Depois de dez anos de crescimento, ela vem para colhê-lo e encontra uma serpente vivendo em sua base, um pássaro Zu criando filhotes em sua copa, e que um ki-sikil-lil-la-ke fez uma casa em seu tronco. Diz-se que Gilgamesh matou a cobra, e então o pássaro zu voou para as montanhas com seus filhotes, enquanto o ki-sikil-lil-la-ke com medo destrói sua casa e foge para a floresta.

Relação de Lilu com a Lilith Hebraica e com as Lilin:

É contestado se, se é que a palavra acadiana lilu ou seus cognatos estão relacionados com a palavra hebraica lilith em Isaías 34:14, que é considerada um pássaro noturno por alguns estudiosos modernos, como Judit M. Blair. O conceito babilônico de lilu pode estar mais fortemente relacionado ao conceito talmúdico posterior de Lilith (feminino) e lilin (feminino).

Samuel Noah Kramer (1932, publicado em 1938) traduziu ki-sikil-lil-la-ke como Lilith na “Tabuinha XII” da Epopeia de Gilgamesh. A identificação de ki-sikil-lil-la-ke como Lilith é indicada no Dictionary of Deities e Demons in the Bible (Dicionário de Divindades e Demônios na Bíblia, 1999). De acordo com uma nova fonte da Antiguidade Tardia, Lilith aparece em uma história de magia mandaica onde ela é considerada como representando os galhos de uma árvore com outras figuras demoníacas que formam outras partes da árvore, embora isso também possa incluir vários “Liliths”.

Uma conexão entre o ki-sikil-lil-la-ke em Gilgamesh e a Lilith judaica foi rejeitada por motivos textuais por Sergio Ribichini (1978).

A Mulher com Pés de Pássaro no Burney Relief (Relevo de Burney):

 

O Relevo de Burney, Babilônia (1800-1750 a.C.).

A tradução de Kramer do fragmento de Gilgamesh foi usada por Henri Frankfort (1937) e Emil Kraeling (1937) para apoiar a identificação de uma mulher com asas e pés de pássaro no disputado Burney Relief relacionado a Lilith. Frankfort e Kraeling identificaram a figura no relevo com Lilith. Pesquisas modernas identificaram a figura como uma das principais deusas dos panteões mesopotâmicos, provavelmente Ereshkigal, a deusa do submundo mesopotâmico, mais isso é assunto para um outro artigo.

Os Amuletos Arslan Tash:

Os amuletos Arslan Tash são placas de calcário descobertas em 1933 em Arslan Tash, cuja autenticidade é contestada. William F. Albright, Theodor H. Gaster e outros aceitaram os amuletos como uma fonte pré-judaica que mostra que o nome Lilith já existia no século VII a.C., mas Torczyner (1947) identificou os amuletos como uma fonte judaica posterior.

LILITH NA BÍBLIA HEBRAICA:

A palavra lilit (ou lilith) aparece apenas uma vez na Bíblia hebraica, em uma profecia sobre o destino de Edom, enquanto os outros sete termos da lista aparecem mais de uma vez e, portanto, são mais bem documentados. A leitura de estudiosos e tradutores é muitas vezes guiada por uma decisão sobre a lista completa de oito criaturas como um todo. [Veja Os animais mencionados na Bíblia, por Henry Chichester Hart, 1888, e fontes mais modernas; também entradas Brown Driver Briggs Hebrew Lexicon para tsiyyim, ‘iyyim, sayir, liylith, qippowz e dayah.] ​​Citando Isaías 34 (NAB):

(12) Seus nobres não existirão mais, nem reis serão proclamados ali; todos os seus príncipes se foram.

(13) Seus castelos serão cobertos de espinhos, suas fortalezas de cardos e sarças. Ela se tornará uma morada para chacais e um refúgio para avestruzes.

(14) Os gatos selvagens se encontrarão com as feras do deserto, os sátiros chamarão uns aos outros; Ali a Lilith descansará e encontrará para si um lugar para descansar.

(15) Ali a coruja aninha e põe ovos, choca-os e recolhe-os à sua sombra; Ali se reunirão os abutres, nenhum faltará ao seu companheiro.

(16) Olhem no livro do Senhor e leiam: Nenhum destes faltará, porque a boca do Senhor o ordenou, e o seu espírito os reunirá ali.

(17) É Ele quem lança a sorte para eles, e com Suas mãos Ele marca suas partes dela; Eles a possuirão para sempre, e habitarão ali de geração em geração.

Lilith no Texto Hebraico Massorético:

No Texto Massorético:

Hebraico:

u-pagšu ṣiyyim et-ʾiyyim, w-saʿir ʿal-rēʿēhu yiqra; ʾak-šam hirgiʿa lilit, u-maṣʾa lah manoaḥ

34:14 “E encontrarão gatos selvagens com chacais

o bode que ele chama de seu companheiro

lilit (lilith) ela descansa e ela encontra descanso [מנוח, manoaḥ, usado para pássaros como a pomba de Noé, Gen.8:9 e também humanos como o povo de Israel, Deut.28:65; Noemi, Rute 3:1.]

34:15 ali ela aninhará a grande coruja, e ela põe (ovos), e ela choca, e ela ajunta sob sua sombra: falcões [abutres, milhafres] também eles se reúnem, cada um com seu companheiro.

Nos Manuscritos do Mar Morto, entre os 19 fragmentos de Isaías encontrados em Qumran, o Grande Rolo de Isaías (1Q1Isa) em 34:14 apresenta a criatura no plural liliyyot (ou liliyyoth).

Eberhard Schrader (1875) e Moritz Abraham Levy (1855) sugerem que Lilith era um demônio da noite, conhecido também pelos exilados judeus na Babilônia. A visão de Schrader e Levy é, portanto, parcialmente dependente de uma datação posterior de Deutero-Isaías no século VI a.C., e a presença de judeus na Babilônia, que coincidiria com as possíveis referências ao Līlītu na demonologia babilônica. No entanto, essa visão é contestada por algumas pesquisas modernas, como Judit M. Blair (2009), que considera que o contexto indica animais impuros.

Lilith na Septuaginta, a Tradução Grega da Bíblia:

A Septuaginta traduz tanto a referência a Lilith quanto a palavra para chacais ou “animais selvagens da ilha” dentro do mesmo verso para o grego como onokentauros, aparentemente assumindo-os como referindo-se às mesmas criaturas e omitindo “gatos selvagens / animais selvagens do deserto” (assim, em vez dos gatos selvagens ou bestas do deserto se encontrarem com os chacais ou bestas da ilha, a cabra ou “sátiro” chorando “para seu companheiro” e lilith ou “coruja” descansando “lá”, é a cabra ou “sátiro” , traduzido como daimonia “demônios”, e os chacais ou bestas da ilha “onocentauros” se encontrando e gritando “um para o outro” e o último descansando ali, na tradução). Isaías 34:14: καὶ συναντήσουσιν δαιμόνια ὀνοκενταύροις καὶ βοήσουσιν ἕτερος πρὸς τὸν ἕτερον ἐκεῖ ἀναπαύσονται ὀνοκένταυροι εὗρον γὰρ αὑτοῖς ἀνάπαυσιν  Tradução: E os daemons encontrarão com os onocentauros, e eles irão gritar um ao outro: ali descansarão os onocentauros, tendo encontrado para si [um lugar de] descanso.]

Lilith na Vulgata, a Tradução Latina da Bíblia:

A Vulgata do início do século V traduziu a mesma palavra como lâmia, ou seja, lâmia.

et ocorrerent daemonia onocentauris et pilosus clamabit alter ad alterum ibi cubavit lamia et invenit sibi requiem

— Isaías (Isaías Propheta) 34.14, Vulgata.

A tradução é: “E demônios se encontrarão com monstros, e um peludo clamará ao outro; ali a lâmia se deitou e encontrou descanso para si mesma”.

Lilith nas Traduções da Bíblia para o Inglês:

A Bíblia de Wycliffe (1395) preserva a tradução latina lamia:

Is 34:15 Lamya viverá ali, e ali descansa para si mesma.

A Bíblia dos Bispos de Matthew Parker (1568) do latim:

Is 34:14 ali a Lâmia se deitará e terá o seu alojamento.

A Bíblia Douay-Rheims (1582/1610) também preserva a tradução latina lamia:

Is 34:14 E demônios e monstros se encontrarão, e os peludos clamarão uns aos outros; ali a lâmia se deitou, e encontrou descanso para si.

A Bíblia de Genebra de William Whittingham (1587) do hebraico:

Is 34:14 e ali descansará a coruja, e achará para si uma morada sossegada.

Em seguida, a versão King James (Versão do Rei James, 1611):

Isaías 34:14 As feras do deserto também se encontrarão com as feras da ilha, e o sátiro clamará ao seu companheiro; a coruja noturna também descansará ali, e achará para si um lugar de descanso.

A tradução “coruja noturna (screech owl)” da versão King James é, junto com a “coruja” (yanšup, provavelmente uma ave aquática) em 34:11 e a “grande coruja” (qippoz, propriamente uma cobra) de 34:15, uma tente traduzir a passagem escolhendo animais adequados para palavras hebraicas difíceis de traduzir.

Traduções posteriores incluem:

  • A coruja da noite (Young, 1898).
  • O espectro noturno (Rotherham, Emphasized Bible, 1902).
  • O monstro da noite (ASV, 1901; JPS 1917, Good News Translation, 1992; NASB, 1995).
  • Os vampiros (Moffatt Translation, 1922; Knox Bible, 1950).
  • A bruxa da noite (Versão Padrão Revisada, 1947).
  • Lilith (Bíblia de Jerusalém, 1966).
  • (a) lilith (New American Bible, 1970).
  • Lilith (Nova Versão Padrão Revisada, 1989).
  • (a) demônio da noite Lilith, maligna e voraz (A Mensagem (Bíblia), Peterson, 1993).
  • A criatura da noite (New International Version, 1978; New King James Version, 1982; New Living Translation, 1996, Today’s New International Version).
  • As aves noturnas (Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, 1984).
  • O pássaro noturno (versão padrão em inglês, 2001).
  • O pássaro noturno (NASB, 2020).
  • Os animais noturnos (New English Translation (NET Bible)).

LILITH NA TRADIÇÃO JUDAICA:

As principais fontes na tradição judaica sobre Lilith em ordem cronológica incluem:

  1. 40–10 a.C. Os Manuscritos do Mar Morto – Canções para um Sábio (4Q510–511).
  2. 200 A Mishná – não mencionada.
  3. 500 A Gemara do Talmude.
  4. 700-1000 O Alfabeto de Ben-Sira.
  5. 900 Midrash Abkir.
  6. 1260 O Tratado sobre a Emanação Esquerda, Espanha.
  7. 1280 O Zohar, Espanha.

Lilith nos Manuscritos do Mar Morto:

 

Reprodução fotográfica do Grande Rolo de Isaías, que contém uma referência ao plural lilyyot.

Os Manuscritos do Mar Morto contêm uma referência indiscutível à Lilith em Songs of the Sage (As Canções do Sábio, 4Q510-511) fragmento 1:

E eu, o Instrutor, proclamo Seu glorioso esplendor para assustar e aterrorizar todos os espíritos dos anjos destruidores, espíritos dos bastardos, demônios, Lilith, uivadores e habitantes do deserto… e aqueles que caem sobre os homens sem aviso prévio para desviá-los de um espírito de entendimento e para tornar seu coração e seu… desolados durante o presente domínio da maldade e tempo predeterminado de humilhações para os filhos da luz, pela culpa dos séculos dos que foram feridos pela iniquidade – não para a destruição eterna, mas para uma era de humilhação por transgressão.

Tal como acontece com o texto massorético de Isaías 34:14, e, portanto, diferente do plural liliyyot (ou liliyyoth) no rolo de Isaías 34:14, lilit em 4Q510 é singular, este texto litúrgico adverte contra a presença de malevolência sobrenatural e assume familiaridade com Lilith; distinta do texto bíblico, no entanto, esta passagem não funciona sob nenhuma agenda sociopolítica, mas serve na mesma capacidade de Um Exorcismo (4Q560) e Canções para Dispersar Demônios (11Q11). O texto é assim, para uma comunidade “profundamente envolvida no domínio da demonologia”, um hino de exorcismo.

Joseph M. Baumgarten (1991) identificou a mulher sem nome de A Sedutora (4Q184) como relacionada ao demônio feminino. No entanto, John J. Collins considera essa identificação como “intrigante”, mas é “seguro dizer” que (4Q184) é baseado na mulher estranha do Livro de Provérbios, capítulos 2, 5, 7, 9:

Sua casa afunda até a morte,

E seu caminho leva às sombras.

Todos que vão até ela não podem voltar

E reencontrar os caminhos da vida.

— Provérbios 2:18–19.

As suas portas são portas da morte, e desde a entrada da casa

Ela parte em direção ao Sheol.

Nenhum dos que ali entram jamais voltará,

E todos os que a possuem descerão ao Poço.

— 4Q184.

Lilith na Literatura Rabínica Primitiva:

Lilith não ocorre na Mishná. Existem cinco referências a Lilith no Talmude Babilônico na Gemara em três tratados separados da Mishná:

  • “Rav Judah citando Samuel decidiu: Se um aborto tivesse a semelhança de Lilith, sua mãe é impura por causa do nascimento, pois é uma criança, mesmo que tenha asas.” (Talmude Babilônico no Tratado Nidda 24b).
  • “[Explicando sobre as maldições da feminilidade] Em um Baraitha foi ensinado: As mulheres crescem cabelos compridos como Lilith, sentam ao urinar como uma fera e servem de travesseiro para o marido.” (Talmude Babilônico no Tratado Eruvin 100b).
  • “Para gira, ele deve pegar uma flecha de Lilith e colocá-la com a ponta para cima e derramar água sobre ela e beber. Alternativamente, ele pode pegar a água que um cachorro bebeu à noite, mas deve tomar cuidado para que não tenha sido exposta.” (Talmude Babilônico, tratado Gittin 69b). Neste caso em particular, a “flecha de Lilith” é provavelmente um fragmento de meteorito ou fulgurita, coloquialmente conhecido como “relâmpago petrificado” e tratado como medicamento antipirético.
  • “Rabbah disse: Eu vi como Hormin, filho de Lilith, estava correndo no parapeito da muralha de Mahuza, e um cavaleiro, galopando abaixo a cavalo não podia alcançá-lo. Uma vez eles selaram para ele duas mulas que estavam em duas pontes do rio Rognag; e ele pulou de uma para a outra, para trás e para frente, segurando em suas mãos duas taças de vinho, derramando alternadamente de uma para outra, e nem uma gota caiu no chão.” (Talmude Babilônico, tratado Bava Bathra 73a-b). Hormin que é mencionado aqui como o filho de Lilith é provavelmente o resultado de um erro de escriba da palavra “Hormiz” atestado em alguns dos manuscritos talmúdicos. A própria palavra, por sua vez, parece ser uma distorção de Ormuzd, a divindade da luz e da bondade no Zend Avesta, o livro sagrado do Zoroastrismo. Se assim for, é um tanto irônico que Ormuzd se torne aqui o filho de um demônio noturno.
  • “R. Hanina disse: Não se pode dormir em uma casa sozinho [em uma casa solitária], e quem dorme em uma casa sozinho é capturado por Lilith.” (Talmude Babilônico no Tratado de Shabat 151b).

A afirmação acima de Hanina pode estar relacionada à crença de que as emissões noturnas engendraram o nascimento de demônios:

  • “R. Jeremiah b. Eleazar declarou ainda: Em todos aqueles anos [130 anos após sua expulsão do Jardim do Éden] durante os quais Adão estava sob a proscrição, ele gerou fantasmas e demônios masculinos e demônios femininos [ou demônios noturnos], pois isso é dito nas Escrituras: E Adão viveu cento e trinta anos e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem, do que se segue que até aquele momento ele não gerou conforme a sua própria imagem… sua morte foi ordenada como punição ele passou cento e trinta anos em jejum, desvinculou-se de sua esposa por cento e trinta anos, e vestiu roupas de figo em seu corpo por cento e trinta anos. – Essa declaração [de R. Jeremiah] foi feito em referência ao sêmen que ele emitiu acidentalmente.” (Talmude Babilônico no Tratado Eruvin 18b).

A coleção Midrash Rabbah contém duas referências a Lilith. A primeira está presente em Gênesis Rabá 22:7 e 18:4: de acordo com Rabi Hiyya Deus passou a criar uma segunda Eva para Adão, depois que Lilith teve que retornar ao pó. No entanto, para ser exato, as referidas passagens não empregam a palavra hebraica lilith em si e, em vez disso, falam da “primeira Eva” (Heb. Chavvah ha-Rishonah, analogamente à frase Adam ha-Rishon, ou seja, o primeiro Adão). Embora na literatura e no folclore hebraico medieval, especialmente aquele refletido sobre os amuletos protetores de vários tipos, Chavvah ha-Rishonah fosse identificada com Lilith, deve-se ter cuidado ao transpor essa equalização para a Antiguidade Tardia.

A segunda menção de Lilith, desta vez explícita, está presente em Números Rabá 16:25. O midrash desenvolve a história da súplica de Moisés depois que Deus expressa raiva pelo mau relato dos espiões. Moisés responde a uma ameaça de Deus de que Ele destruirá o povo israelita. Moisés implora diante de Deus, que Deus não deve ser como Lilith que mata seus próprios filhos. Moisés disse:

[Deus,] não faça isso [ou seja, destruir o povo israelita], para que as nações do mundo não o considerem um Ser cruel e digam: ‘A Geração do Dilúvio veio e Ele os destruiu, a Geração da Separação veio e Ele os destruiu, os sodomitas e os egípcios vieram e Ele os destruiu, e também estes, a quem chamou de Meu filho, Meu primogênito (Êxodo IV, 22), Ele agora está destruindo! Como aquela Lilith que, quando não encontra mais nada, se volta contra seus próprios filhos, porque o Senhor não foi capaz de trazer este povo para a terra… Ele os matou’ (Núm. XIV, 16)!

Lilith nas Tigelas de Encantamento:

Uma tigela de encantamento com uma inscrição aramaica ao redor de um demônio, de Nippur, Mesopotâmia, entre o sexto e o sétimo século.

Uma Lilith individual, junto com Bagdana “rei dos lilits”, é um dos demônios a aparecer com destaque em feitiços de proteção nas oitenta tigelas de encantamentos ocultos judaicos sobreviventes da Babilonia, sob o Império Sassânida (séculos 4 a 6 d.C.) com influência da cultura iraniana. Essas tigelas eram enterradas de cabeça para baixo abaixo da estrutura da casa ou no terreno da casa, a fim de prender o demônio ou demônio. Quase todas as casas tinham essas tigelas protetoras contra demônios e demônios femininos.

O centro do interior da tigela retrata Lilith, ou a forma masculina, Lilit. Ao redor da imagem está a escrita em forma de espiral; a escrita geralmente começa no centro e segue até a borda. A escrita é mais comumente uma escritura ou referências ao Talmude. As taças de encantamento que foram analisadas estão inscritas nas seguintes línguas: aramaico judaico babilônico, siríaco, mandaico, persa médio e árabe. Algumas taças são escritas em uma escrita falsa que não tem significado.

A tigela de encantamento corretamente redigida era capaz de afastar Lilith ou Lilit da casa. Lilith tinha o poder de se transformar nas características físicas de uma mulher, seduzir seu marido e conceber um filho. No entanto, Lilith (feminina) se tornaria odiosa em relação aos filhos nascidos do marido e da esposa e tentaria matá-los. Da mesma forma, Lilit (masculino) se transformaria nas características físicas do marido, seduziria a esposa, daria à luz um filho. Tornar-se-ia evidente que a criança não foi gerada pelo marido, e a criança seria desprezada. Lilit iria se vingar da família matando os filhos nascidos do marido e da esposa.

As principais características da representação de Lilith ou Lilit incluem o seguinte. A figura é frequentemente representada com braços e pernas acorrentados, indicando o controle da família sobre o(s) demônio(s). O(s) demônio(s) é(são) representado(s) em posição frontal com toda a face à mostra. Os olhos são muito grandes, assim como as mãos (se retratadas). O(s) demônio(s) é totalmente estático.

Uma tigela contém a seguinte inscrição encomendada a um ocultista judeu para proteger uma mulher chamada Rashnoi e seu marido de Lilith:

Vós liliths, lili masculino e lilith feminina, bruxa e ghool, eu vos conjuro pelo Forte de Abraão, pela Rocha de Isaque, pelo Shaddai de Jacó, por Yah Ha-Shem por Yah seu memorial, para se afastarem deste Rashnoi b. M. e de Geyonai b. M. seu marido. [Aqui está] seu divórcio e mandado e carta de separação, enviados por meio de santos anjos. Amém, Amém, Selá, Aleluia! (imagem)

— Trecho da tradução em Aramaic Incantation Texts from Nippur (Textos de Encantamentos Aramaicos de Nippur), por James Alan Montgomery 2011, p. 156.

Lilith no Alfabeto de Ben Sira:

 

 

Lilith, ilustração por Carl Poellath, de 1886 ou anterior.

O pseudepigráfico Alfabeto de Ben Sira dos séculos VIII a X é considerado a forma mais antiga da história de Lilith como a primeira esposa de Adão. Não se sabe se esta tradição em particular é mais antiga. Os estudiosos tendem a datar o alfabeto entre os séculos 8 e 10 d.C. O trabalho tem sido caracterizado por alguns estudiosos como satírico, mas Ginzberg concluiu que foi feito com seriedade.

No texto, um amuleto é inscrito com os nomes de três anjos (Senoy, Sansenoy e Semangelof) e colocado no pescoço dos meninos recém-nascidos para protegê-los dos lilin até a circuncisão. Os amuletos usados ​​contra Lilith que se pensava derivar desta tradição são, de fato, datados como sendo muito mais antigos. O conceito de Eva ter uma antecessora não é exclusivo do Alfabeto, e não é um conceito novo, como pode ser encontrado em Gênesis Rabbá. No entanto, a ideia de que Lilith foi a antecessora pode ser exclusiva do Alfabeto.

A ideia no texto de que Adão teve uma esposa antes de Eva pode ter se desenvolvido a partir de uma interpretação do Livro de Gênesis e seus relatos de criação dual; enquanto Gênesis 2:22 descreve a criação de Eva por Deus da costela de Adão, uma passagem anterior, Gênesis 1:27, já indica que uma mulher havia sido feita: “Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” O texto do alfabeto coloca a criação de Lilith após as palavras de Deus em Gênesis 2:18 que “não é bom que o homem esteja só”; neste texto, Deus forma Lilith do barro do qual ele fez Adão, mas ela e Adão brigam. Lilith afirma que, como ela e Adão foram criados da mesma forma, eles eram iguais e ela se recusa a se submeter a ele:

Depois que Deus criou Adão, que estava sozinho, Ele disse: “Não é bom que o homem esteja só”. Ele então criou uma mulher para Adão, da terra, como Ele mesmo havia criado Adão, e a chamou de Lilith. Adão e Lilith imediatamente começaram a brigar. Ela disse: “Eu não vou deitar embaixo”, e ele disse: “Eu não vou ficar embaixo de você, mas apenas em cima. Pois você só serve para estar na posição inferior, enquanto eu sou o superior”. Lilith respondeu: “Somos iguais um ao outro, pois ambos fomos criados da terra”. Mas eles não ouviriam um ao outro. Quando Lilith viu isso, ela pronunciou o Nome Inefável e fugiu voando para o ar.

Adão ficou em oração diante de seu Criador: “Soberano do universo!” ele disse, “a mulher que você me deu fugiu.” Imediatamente, o Santo, bendito seja Ele, enviou esses três anjos Senoy, Sansenoy e Semangelof, para trazê-la de volta.

Disse o Santo a Adão: “Se ela concordar em voltar, o que foi feito é bom. Se não, ela deve permitir que cem de seus filhos morram todos os dias.” Os anjos deixaram Deus e perseguiram Lilith, a quem alcançaram no meio do mar, nas águas impetuosas onde os egípcios estavam destinados a se afogar (ou seja, o Mar Vermelho). Disseram-lhe a palavra de Deus, mas ela não quis voltar. Os anjos disseram: “Nós a afogaremos no mar”.

“Deixem-me!’ ela disse. “Eu fui criada apenas para causar doenças às crianças. Se a criança for do sexo masculino, eu tenho domínio sobre ele por oito dias após seu nascimento, e se for do sexo feminino, por vinte dias.”

Quando os anjos ouviram as palavras de Lilith, eles insistiram que ela voltasse. Mas ela jurou a eles pelo nome do Deus vivo e eterno: “Sempre que eu vir você ou seus nomes ou suas formas em um amuleto, não terei poder sobre aquela criança”. Ela também concordou em que cem de seus filhos morressem todos os dias. Assim, todos os dias, cem demônios perecem e, pela mesma razão, escrevemos os nomes dos anjos nos amuletos das crianças. Quando Lilith vê seus nomes, ela se lembra de seu juramento e a criança se recupera.

O pano de fundo e o propósito do Alfabeto de Ben-Sira não são claros. É uma coleção de histórias sobre heróis da Bíblia e do Talmude, e pode ter sido uma coleção de contos folclóricos, uma refutação de movimentos cristãos, caraítas ou outros movimentos separatistas; seu conteúdo parece tão ofensivo aos judeus contemporâneos que chegou a ser sugerido que poderia ser uma sátira antijudaica, embora, em qualquer caso, o texto tenha sido aceito pelos místicos judeus da Alemanha medieval.

O Alfabeto de Ben-Sira é a fonte sobrevivente mais antiga da história, e a concepção de que Lilith foi a primeira esposa de Adão só se tornou amplamente conhecida com o Lexicon Talmudicum do século XVII do estudioso alemão Johannes Buxtorf.

Nesta tradição popular que surgiu no início da Idade Média, Lilith, um demônio feminino dominante, tornou-se identificada com Asmodeus, o Rei dos Demônios, como sua rainha. Asmodeus já era bem conhecido nessa época por causa das lendas sobre ele no Talmude. Assim, a fusão de Lilith e Asmodeus era inevitável. O segundo mito de Lilith cresceu para incluir lendas sobre outro mundo e, segundo alguns relatos, este outro mundo existia lado a lado com este, Yenne Velt é a palavra em iídiche para este descrito “Outro Mundo”. Neste caso, acreditava-se que Asmodeus e Lilith procriavam infinitamente descendentes demoníacos e espalhavam o caos a cada passo.

Duas características primárias são vistas nessas lendas sobre Lilith: Lilith como a encarnação da luxúria, fazendo com que os homens sejam desencaminhados, e Lilith como uma bruxa assassina de crianças, que estrangula neonatos indefesos. Esses dois aspectos da lenda de Lilith pareciam ter evoluído separadamente; dificilmente há um conto em que ela englobe os dois papéis. Mas o aspecto do papel de bruxa que Lilith desempenha amplia seu arquétipo do lado destrutivo da bruxaria. Tais histórias são comumente encontradas no folclore judaico.

Lilith e a Influência das Tradições Rabínicas:

 

 

Adão agarra uma criança na presença da sequestradora Lilith. Fresco por Filippino Lippi, Basílica de Santa Maria Novella, Florença.

Embora a imagem de Lilith do Alfabeto de Ben Sira não tenha precedentes, alguns elementos em seu retrato podem ser rastreados até as tradições talmúdicas e midráshicas que surgiram em torno de Eva.

Em primeiro lugar, a própria introdução de Lilith na história da criação repousa no mito rabínico, motivado pelos dois relatos separados da criação em Gênesis 1:1-2:25, de que havia duas mulheres originais. Uma maneira de resolver a aparente discrepância entre esses dois relatos era supor que deve ter havido alguma outra primeira mulher, além daquela posteriormente identificada com Eva. Os rabinos, notando a exclamação de Adão, “desta vez (zot hapa’am) [esta é] osso do meu osso e carne da minha carne” (Gênesis 2:23), tomaram como uma insinuação de que já deve ter havido um ” primeira vez”. De acordo com Gênesis Rabbá 18:4, Adão ficou enojado ao ver a primeira mulher cheia de “poeira e sangue”, e Deus teve que lhe fornecer outra. A criação subsequente é realizada com as devidas precauções: Adão é feito dormir, para não testemunhar o processo em si (Sinédrio 39a), e Eva é adornada com joias finas (Gênesis Rabbá 18:1) e trazida a Adão pelos anjos Gabriel e Miguel (ibid. 18:3). No entanto, em nenhum lugar os rabinos especificam o que aconteceu com a primeira mulher, deixando o assunto aberto para mais especulações. Esta é a lacuna na qual a tradição posterior de Lilith poderia se encaixar.

Em segundo lugar, esta nova mulher ainda é recebida com duras alegações rabínicas. Novamente jogando com a frase hebraica zot hapa’am, Adão, de acordo com o mesmo midrash, declara: “é ela [zot] que está destinada a tocar o sino [zog] e falar [em contenda] contra mim, como você lê: ‘um sino de ouro [pa’amon] e uma romã’ [Êxodo 28:34] … é ela quem me perturbará [mefa’amtani] a noite toda” (Gênesis Rabbá 18:4). A primeira mulher também se torna objeto de acusações atribuídas ao rabino Josué de Siknin, segundo o qual Eva, apesar dos esforços divinos, acabou sendo “egoísta, sedutora, bisbilhoteira, fofoqueira, propensa ao ciúme, desonesta e farrista” (Gênesis Rabá 18:2). Um conjunto semelhante de acusações aparece em Gênesis Rabbá 17:8, segundo o qual a criação de Eva da costela de Adão e não da terra a torna inferior a Adão e nunca satisfeita com nada.

Terceiro, e apesar da concisão do texto bíblico a esse respeito, as iniquidades eróticas atribuídas à Eva constituem uma categoria separada de suas deficiências. Diz-se em Gênesis 3:16 que “seu desejo será para o seu marido”, ela é acusada pelos rabinos de ter um desejo sexual superdesenvolvido (Gênesis Rabbá 20:7) e constantemente seduzir Adão (Gênesis Rabbá 23:5). No entanto, em termos de popularidade e disseminação textual, o motivo de Eva copulando com a serpente primitiva tem prioridade sobre suas outras transgressões sexuais. Apesar do caráter pitoresco bastante inquietante desse relato, ele é transmitido em vários lugares: Gênesis Rabá 18:6 e BT Sotah 9b, Shabat 145b–146a e 156a, Yevamot 103b e Avodah Zarah 22b.

Lilith na Cabala:

 

 

A Queda do Homem, por Cornelis van Haarlem (1592), mostrando a serpente no Jardim do Éden como uma mulher.

O misticismo cabalístico tentou estabelecer uma relação mais exata entre Lilith e Deus. Com suas características principais bem desenvolvidas no final do período talmúdico, após seis séculos decorridos entre os textos de encantamento aramaico que mencionam Lilith e os primeiros escritos cabalísticos espanhóis no século XIII, ela reaparece, e sua história de vida torna-se conhecida em maiores detalhes mitológicos. Sua criação é descrita em muitas versões alternativas.

Uma versão menciona sua criação como anterior à de Adão, no quinto dia, porque as “criaturas viventes” com cujos enxames Deus encheu as águas incluíam Lilith. Uma versão semelhante, relacionada às primeiras passagens talmúdicas, relata como Lilith foi moldada com a mesma substância que Adão, pouco antes. Uma terceira versão alternativa afirma que Deus originalmente criou Adão e Lilith de uma maneira que a criatura feminina estava contida no homem. A alma de Lilith estava alojada nas profundezas do Grande Abismo. Quando Deus a chamou, ela se juntou a Adão. Depois que o corpo de Adão foi criado, mil almas do lado esquerdo (mal) tentaram se unir a ele. No entanto, Deus as expulsou. Adão foi deixado deitado como um corpo sem alma. Então uma nuvem desceu e Deus ordenou que a terra produzisse uma alma vivente. Este Deus soprou em Adão, que começou a ganhar vida e sua mulher foi anexada ao seu lado. Deus separou a mulher do lado de Adão. O lado feminino era Lilith, então ela voou para as Cidades do Mar e atacou a humanidade.

Ainda outra versão afirma que Lilith emergiu como uma entidade divina que nasceu espontaneamente, seja do Grande Abismo Superno ou do poder de um aspecto de Deus (o Gevurah de Din). Esse aspecto de Deus era negativo e punitivo, assim como um de seus dez atributos (Sefirot), em sua manifestação mais baixa tem afinidade com o reino do mal e é a partir disso que Lilith se fundiu com Samael.

Uma história alternativa liga Lilith com a criação de luminares. A “primeira luz”, que é a luz da Misericórdia (uma das Sefirot), apareceu no primeiro dia da criação quando Deus disse: “Haja luz”. Esta luz ficou escondida e a Santidade ficou cercada por uma casca do mal. “Uma casca (klippa) foi criada ao redor do cérebro” e essa casca se espalhou e trouxe outra casca, que era Lilith.

Lilith na Cabala Luriânica:

Nos ensinamentos do rabino Isaac Luria, diz-se que existem muitas Liliths. Manasseh Matlub Sithon disse que “muitos Liliths e demônios estão no exterior, e sobem e descem”.

A maior delas é a esposa de Adam Qadmon, um ser que Deus usou como avatar para criar o Universo em todas as suas dez ou mais dimensões, daí um multiverso.

Outra Lilith, mais demoníaca, conhecida como a mulher da prostituição, é encontrada no livro do Zohar 1:5a. Ela é a contraparte feminina de Samael (Satanás).

A Lilith com a qual a maioria está familiarizada é a esposa de Adão no alfabeto de Ben Sira (8 a 10 séculos EC), conhecido como Adam haRishon, “o primeiro homem”, entre os cabalistas.

Existem visões mistas de Lilith no Zohar. Em um relato ela é a contraparte de Samael e uma mãe de demônios. Em outro ela é vista seduzindo os anjos caídos como Naamah; os anjos Azza e Azazael depois de desafiarem a Shekhinah (a presença feminina de Deus) sobre a criação do homem. Isto é mencionado no livro do Zohar 1:19a-b, 23a-b, 27a-b respectivamente. Quando Lilith e Naamah (outro aspecto de Lilith) estavam com Adão em sua separação de 130 anos de Eva após a queda, elas tiveram filhas nascidas de sua união. Estas foram as nashiym, as liliyot(F), os espíritos liloth que foram os que seduziram os Vigilantes. Essas filhas, juntamente com Lilith e Naamah, são restauradas a Adão através da Sabedoria de Salomão, o aspecto da Shekhinah (referida como as duas prostitutas e as Nashiym nos capítulos 4 e 5 do Zohar, o Livro da Ocultação, o Sifri D Tsri-nita).

De acordo com a tradução do rabino Isaac Luria, Isaías 34:14-15 significa “O gato selvagem se encontrará com os chacais, E o sátiro clamará ao seu companheiro, Sim, Lilith descansará lá E encontrará para ela um lugar de descanso”. A partir dessas passagens, o rabino Isaac Luria acreditava que Lilith seria restaurada a Adão através do casamento de Lia com Jacó – Jacó era Adão, Lia era Lilith e Raquel era Eva. Esta deve ser entendida como uma das muitas interpretações sobre o Zohar e de Lilith.

Lilith no Midrash Abkir:

A primeira fonte medieval a retratar Adão e Lilith na íntegra foi o Midrash A.B.K.I.R. (c. século 10), que foi seguido pelo Zohar e outros escritos cabalísticos. Diz-se que Adão é perfeito até que reconheça ou seu pecado ou o fratricídio de Caim, que é a causa de trazer a morte ao mundo. Ele então se separa da santa Eva, dorme sozinho e jejua por 130 anos. Durante este tempo “Pizna”, um nome alternativo para Lilith ou uma filha dela, deseja sua beleza e o seduz contra sua vontade. Ela dá à luz multidões de djinns e demônios, o primeiro deles sendo chamado de Agrimas. No entanto, eles são derrotados por Matusalém, que mata milhares deles com uma espada sagrada e força Agrimas a dar-lhe os nomes dos restantes, após o que os lança longe para o mar e as montanhas.

Lilith no Tratado sobre a Emanação Esquerda:

A escrita mística de dois irmãos Jacob e Isaac Hacohen, o Tratado sobre a Emanação Esquerda, que antecede o Zohar em algumas décadas, afirma que Samael e Lilith têm a forma de um ser andrógino, de dupla face, nascido da emanação do Trono da Glória e correspondendo no reino espiritual a Adão e Eva, que também nasceram como hermafroditas. Os dois casais andróginos gêmeos se pareciam e ambos “eram como a imagem do Acima”; isto é, que eles são reproduzidos em uma forma visível de uma divindade andrógina.

  1. Em resposta à sua pergunta sobre Lilith, explicarei a você a essência do assunto. Sobre este ponto há uma tradição recebida dos antigos Sábios que fizeram uso do Conhecimento Secreto dos Palácios Menores, que é a manipulação de demônios e uma escada pela qual se ascende aos níveis proféticos. Nesta tradição fica claro que Samael e Lilith nasceram como um só, semelhante à forma de Adão e Eva que também nasceram como um só, refletindo o que está acima. Este é o relato de Lilith que foi recebido pelos Sábios no Conhecimento Secreto dos Palácios.

Outra versão que também era corrente entre os círculos cabalísticos na Idade Média estabelece Lilith como a primeira das quatro esposas de Samael: Lilith, Naamah, Eisheth e Agrat bat Mahlat. Cada uma delas é mãe de demônios e tem suas próprias hostes e espíritos imundos em grande número, para não dizer inumeráveis. O casamento do arcanjo Samael e Lilith foi arranjado pelo “Dragão Cego”, que é a contrapartida do “dragão que está no mar”. O Dragão Cego atua como intermediário entre Lilith e Samael:

O Dragão Cego monta (isto é, tem relações sexuais com) Lilith, a Pecadora – que ela seja extirpada rapidamente em nossos dias, Amém! – E este Dragão Cego traz a união entre Samael e Lilith. E assim como o Dragão que está no mar (Isaías 27:1) não tem olhos, assim também o Dragão Cego que está em cima, em aparência de forma espiritual, não tem olhos, ou seja, não tem cores… (Patai 81:458) Samael é chamado de Serpente Inclinada, e Lilith é chamada de Serpente Tortuosa.

O casamento de Samael e Lilith é conhecido como o “Anjo Satanás” ou o “Outro Deus”, mas não foi permitido que durasse. Para evitar que os filhos demoníacos de Lilith e Samael, os Lilin, enchessem o mundo, Deus castrou Samael. Em muitos livros cabalísticos do século XVII, isso parece ser uma reinterpretação de um antigo mito talmúdico onde Deus castrou o Leviatã masculino e matou o Leviatã feminino para impedí-los de acasalar e, assim, destruir a Terra com seus descendentes. Com Lilith sendo incapaz de fornicar com Samael, ela procurou acasalar com homens que experimentam emissões noturnas de sêmen. Um texto da Cabala do século 15 ou 16 afirma que Deus “esfriou” a Leviatã feminina, o que significa que ele tornou Lilith infértil e que ela é uma mera fornicação.

O Tratado da Emanação Esquerda também diz que existem duas Liliths, sendo a menor casada com o grande demônio Asmodeus.

A Lilith Matrona é a companheira de Samael. Ambos nasceram na mesma hora à imagem de Adão e Eva, entrelaçados um no outro. Asmodeus o grande rei dos demônios tem como companheira a Lilith Menor (mais jovem), filha do rei cujo nome é Qafsefoni. O nome de sua companheira (de Qafsefoni) é Mehetabel filha de Matred, e sua filha é Lilith (Menor).

Outra passagem acusa Lilith de ser uma serpente tentadora de Eva.

E a Serpente, a Mulher da Prostituição, incitou e seduziu Eva através das cascas de Luz que em si é santidade. E a Serpente seduziu a Santa Eva, e o suficiente é dito para quem entende. E toda essa ruína aconteceu porque Adão, o primeiro homem, se juntou a Eva enquanto ela estava em sua impureza menstrual – esta é a sujeira e a semente impura da Serpente que montou Eva (isto é, teve relações sexuais com ela) antes que Adão a montasse (isto é, tivesse relações sexuais com ela). Eis que aqui está diante de você: por causa dos pecados de Adão, o primeiro homem, todas as coisas mencionadas vieram a existir. Pois a Lilith Maligna, quando ela viu a grandeza de sua corrupção, tornou-se forte em suas cascas, e veio a Adão (isto é, teve relações sexuais com ele) contra sua vontade, e ficou quente com ele (ou seja, ficou grávida dele) e deu-lhe muitos demônios e espíritos e Lilin. (Patai 81:455f).

Lilith no Zohar:

As referências à Lilith no Zohar incluem o seguinte:

Ela vagueia à noite, e vai por todo o mundo e faz esporte com os homens e faz com que eles emitam sementes. Em todo lugar onde um homem dorme sozinho em uma casa, ela o visita e o agarra e se apega a ele e tem seu desejo dele, e carrega dele. E ela também o aflige com doença, e ele não sabe disso, e tudo isso acontece quando a lua está minguante.

Esta passagem pode estar relacionada à menção de Lilith no Talmude, Shabbath 151b (veja acima), e também ao Talmude, Eruvin 18b onde as emissões noturnas estão conectadas com a geração de demônios.

De acordo com Rapahel Patai, fontes mais antigas afirmam claramente que após a estada de Lilith no Mar Vermelho, mencionada também em Legends of the Jews (As Lendas dos Judeus, de Louis Ginzberg), ela retornou a Adão e gerou filhos dele, forçando-se sobre ele (ou seja, tendo relações sexuais com ele). Antes de fazer isso, ela se apega a Caim e lhe dá numerosos espíritos e demônios. No Zohar, no entanto, diz-se que Lilith conseguiu gerar descendentes de Adão mesmo durante sua curta experiência sexual. Lilith deixa Adão no Éden, pois ela não é uma companheira adequada para ele. Gershom Scholem propõe que o autor do Zohar, o Rabi Moisés de Leon, estava ciente tanto da tradição folclórica de Lilith quanto de outra versão conflitante, possivelmente mais antiga.

O Zohar acrescenta ainda que dois espíritos femininos em vez de um, Lilith e Naamah, desejaram Adão e o seduziram. O objetivo dessas uniões eram (a geração de) demônios e espíritos chamados de “as pragas da humanidade”, e a explicação usual adicionada era que foi através do próprio pecado de Adão que Lilith o subjugou a ter relações sexuais com ela contra sua vontade.

Lilith nos Amuletos Mágicos Hebraicos do Século XVII:

 

 

Amuleto hebraico medieval destinado a proteger uma mãe e seu filho de Lilith,

Uma cópia da tradução de Jean de Pauly do Zohar na Biblioteca Ritman contém uma folha hebraica impressa do final do século XVII inserida para uso em amuletos mágicos onde o profeta Elias confronta Lilith.

A folha contém dois textos dentro das bordas, que são amuletos, um para um homem (‘lazakhar’), o outro para uma mulher (‘lanekevah’). As invocações mencionam Adão, Eva e Lilith, ‘Chavah Rishonah’ (a primeira Eva, que é idêntica a Lilith), também demônios ou anjos: Sanoy, Sansinoy, Smangeluf, Shmari’el (o guardião) e Hasdi’el (o misericordioso). Algumas linhas no idioma iídiche são seguidas pelo diálogo entre o profeta Elias e Lilith quando ele a encontrou com seu exército de demônios para matar a mãe e levar seu filho recém-nascido que desejavam (‘beber seu sangue, chupar seus ossos e comer sua carne’), provavelmente no episódio da Viúva de Sarepta (1 Reis 17:8-24). Lilith diz a Elias que perderá seu poder se alguém usar seus nomes secretos, que ela revela no final: lilith, abitu, abizu, hakash, avers hikpodu, ayalu, matrota

Em outros amuletos, provavelmente informados pelo Alfabeto de Ben-Sira, ela é a primeira esposa de Adão. (Yalqut Reubeni, Zohar 1:34b, 3:19)

A porção do dicionário de Charles Richardson da Encyclopædia Metropolitana acrescenta à sua discussão etimológica da palavra lullaby (canção de ninar) “uma nota manuscrita escrita em uma cópia da Etymologicon Linguæ Anglicanæ de 1671, de Stephen Skinner, que afirma que a palavra lullaby (canção de ninar) se origina de Lillu abi abi, um encantamento hebraico que significa “Vá embora, Lilith!” recitado por mães judias no berço de uma criança. Richardson não endossou a teoria e os lexicógrafos modernos a consideram como uma etimologia falsa.

LILITH NA MITOLOGIA GRECO-ROMANA:

 

 

Lâmia (primeira versão), por John William Waterhouse, 1905.

No livro da Vulgata Latina de Isaías 34:14, Lilith é traduzida como lâmia.

De acordo com Augustine Calmet, Lilith tem conexões com visões iniciais sobre vampiros e feitiçaria:

Alguns eruditos pensaram ter descoberto alguns vestígios de vampirismo na mais remota antiguidade; mas tudo o que dizem sobre isso não chega nem perto do que está relacionado aos vampiros. As lâmias, as strigas, os feiticeiros que eles acusavam de sugar o sangue de pessoas vivas e assim causar sua morte, os magos que diziam causar a morte de crianças recém-nascidas por encantos e feitiços malignos, nada mais são do que o que entendemos pelo nome de vampiros; mesmo que se admita que essas lâmias e strigas realmente existiram, o que não acreditamos que possa ser bem provado. Admito que esses termos [lâmia e striga] são encontrados nas versões da Sagrada Escritura. Por exemplo, Isaías, descrevendo a condição à qual Babilônia deveria ser reduzida após sua ruína, diz que ela se tornará a morada de sátiros, lâmias e strigas (em hebraico, lilith). Este último termo, segundo os hebreus, significa a mesma coisa, como os gregos expressam por strix e lâmias, que são feiticeiras ou magos, que procuram matar os recém-nascidos. De onde vem que os judeus estão acostumados a escrever nos quatro cantos da câmara de uma mulher que acabou de dar à luz: “Adão, Eva, saia daqui, lilith”. … Os antigos gregos conheciam essas feiticeiras perigosas pelo nome de lâmias, e acreditavam que devoravam crianças ou sugavam todo o seu sangue até morrerem.

De acordo com Siegmund Hurwitz, a Lilith talmúdica está ligada à Lâmia grega, que, de acordo com Hurwitz, também governava uma classe de demônios-lâmias que roubavam crianças. Lâmia tinha o título de “assassina de crianças” e era temida por sua malevolência, como Lilith. Ela tem diferentes origens conflitantes e é descrita como tendo um corpo humano da cintura para cima e um corpo serpentino da cintura para baixo. Uma fonte afirma simplesmente que ela é filha da deusa Hécate, outra, que Lâmia foi posteriormente amaldiçoada pela deusa Hera para ter filhos natimortos por causa de sua associação sexual com Zeus; alternativamente, Hera matou todos os filhos de Lâmia (exceto Cila) com raiva por Lâmia ter dormido com seu marido, Zeus. A dor fez com que Lâmia se transformasse em um monstro que se vingava das mães roubando seus filhos e os devorando. Lâmia tinha um apetite sexual vicioso que combinava com seu apetite canibal por crianças. Ela era notória por ser um espírito vampírico e adorava sugar o sangue dos homens. Seu dom era a “marca de uma Sibila”, um dom da segunda visão. Zeus disse ter lhe dado o dom da visão. No entanto, ela foi “amaldiçoada” para nunca ser capaz de fechar os olhos para que ela ficasse para sempre obcecada por seus filhos mortos. Com pena de Lâmia, Zeus deu a ela a capacidade de remover e recolocar os olhos das órbitas.

LILITH NO MANDEÍSMO:

Nas escrituras mandeanas, como Ginza Rabba e Qolasta, as liliths são mencionadas como habitantes do Mundo das Trevas.

LILITH NA CULTURA ÁRABE:

O escritor ocultista Ahmad al-Buni (d. 1225), em seu Sol do Grande Conhecimento (árabe: الكبرى المعارف شمس), menciona um demônio chamado “a mãe dos filhos” (الصبيان  ام), um termo também usado para “colocar em um lugar”. Tradições folclóricas registradas por volta de 1953 falam sobre um gênio chamado Qarinah, que foi rejeitada por Adão e acasalou com Iblis (O “Satã” do Islã). Ela deu à luz uma série de demônios e ficou conhecida como a mãe deles. Para se vingar de Adão, ela persegue crianças humanas. Como tal, ela mataria o bebê de uma mãe grávida no útero, causaria impotência aos homens ou atacava crianças pequenas com doenças. De acordo com as práticas ocultas da feitiçaria árabe, ela estaria sujeita ao rei demônio Murrah al-Abyad, que parece ser outro nome para Iblis usado em escritos mágicos. Histórias sobre Qarinah e Lilith se fundiram no início do Islã.

LILITH NA LITERATURA OCIDENTAL:

Lilith na Literatura Alemã:

 

 

Fausto e Lilith, por Richard Westall (1831).

A primeira aparição de Lilith na literatura do período romântico (1789-1832) foi na obra de Goethe de 1808, Fausto: A Primeira Parte de uma Tragédia.

Fausto:

Quem é aquela ali?

Mefistófeles:

Dê uma boa olhada.

Lilith.

Fausto:

Lilith? Quem é aquela?

Mefistófeles:

A esposa de Adão, sua primeira. Cuidado com ela.

O único orgulho de sua beleza é seu cabelo perigoso.

Quando Lilith enrola em torno de jovens

Ela não os solta tão cedo.

—  Tradução de Greenberg de 1992, linhas 4206–4211.

Depois que Mefistófeles oferece esse aviso a Fausto, ele, ironicamente, encoraja Fausto a dançar com Lilith, “a Bruxa Bonita”. Lilith e Fausto travam um breve diálogo, onde Lilith conta os dias passados ​​no Éden.

Fausto: [dançando com a jovem bruxa]

Um lindo sonho que sonhei um dia

Eu vi uma macieira de folhas verdes,

Duas maçãs balançavam em um caule,

Tão tentadoras! Subi para elas.

A Bruxa Bonita (Lilith):

Desde os dias do Éden

Maçãs têm sido o desejo do homem.

Como estou feliz em pensar, senhor,

Maçãs também crescem no meu jardim.

—  Tradução de Greenberg de 1992, linhas 4216 – 4223.

Lilith na Literatura Inglesa:

 

 

Lady Lilith por Dante Gabriel Rossetti (1866-1868, 1872-1873).

A Irmandade Pré-Rafaelita, que se desenvolveu por volta de 1848, foi muito influenciada pelo trabalho de Goethe sobre o tema de Lilith. Em 1863, Dante Gabriel Rossetti, da Irmandade, começou a pintar o que mais tarde seria sua primeira versão de Lady Lilith, uma pintura que ele esperava ser sua “melhor imagem até agora”. Os símbolos que aparecem na pintura aludem à fama de “femme fatale” da Lilith romântica: papoulas (morte e frio) e rosas brancas (paixão estéril). Acompanhando sua pintura Lady Lilith de 1866, Rossetti escreveu um soneto intitulado Lilith, que foi publicado pela primeira vez no panfleto-revisão de Swinburne (1868), Notes on the Royal Academy Exhibition.

Da primeira esposa de Adão, Lilith, conta-se

(A bruxa que ele amava antes da dádiva de Eva,)

Que, antes da serpente, sua doce língua pudesse enganar,

E seu cabelo encantado foi o primeiro ouro.

E ela ainda está sentada, jovem enquanto a terra é velha,

E, sutilmente contemplativa de si mesma,

Atrai homens para observar a teia brilhante que ela pode tecer,

Até que o coração, o corpo e a vida estejam em seu poder.

A rosa e a papoula são sua flor; Para onde

Ele não é encontrado, ó Lilith, a quem derramou perfume

E os beijos suaves e o sono suave aprisionarão?

Eis! Como os olhos daquele jovem queimaram nos seus, assim foi

Teu feitiço através dele, e deixou seu pescoço reto dobrado

E em volta de seu coração um cabelo dourado estrangulado.

— Collected Works, 216.

O poema e a imagem apareceram juntos ao lado da pintura de Rossetti, Sibylla Palmifera e do soneto Soul’s Beauty (A Beleza da Alma). Em 1881, o soneto de Lilith foi renomeado “Body’s Beauty (A Beleza do Corpo)” para contrastá-lo com a Soul’s Beauty (A Beleza da Alma). Os dois foram colocados sequencialmente na coleção The House of Life (A Casa da Vida, sonetos número 77 e 78).

Rossetti escreveu em 1870:

Lady [Lilith] … representa uma Lilith Moderna penteando seus abundantes cabelos dourados e olhando para si mesma no espelho com aquela auto-absorção por cujo estranho fascínio tais naturezas atraem outros para dentro de seu próprio círculo.

— Rossetti, W. M. ii.850, ênfase de D. G. Rossetti.

Isso está de acordo com a tradição folclórica judaica, que associa Lilith tanto com cabelos longos (um símbolo do perigoso poder sedutor feminino na cultura judaica), quanto com o poder de possuir mulheres entrando nelas através de espelhos.

O poeta vitoriano Robert Browning reimaginou Lilith em seu poema “Adão, Lilith e Eva”. Publicado pela primeira vez em 1883, o poema usa os mitos tradicionais em torno da tríade de Adão, Eva e Lilith. Browning retrata Lilith e Eva como sendo amigáveis ​​e cúmplices uma com a outra, enquanto se sentam juntas em ambos os lados de Adão. Sob a ameaça de morte, Eva admite que nunca amou Adão, enquanto Lilith confessa que sempre o amou:

Como o pior dos venenos deixou meus lábios,

Eu pensei: ‘Se, apesar dessa mentira, ele se despir

A máscara da minha alma com um beijo – eu rastejo

Sua escrava — alma, corpo e tudo!

— Browning 1098.

Browning concentrou-se nos atributos emocionais de Lilith, em vez das de suas antigas predecessores demoníacas.

O autor escocês George MacDonald também escreveu um romance de fantasia intitulado Lilith, publicado pela primeira vez em 1895. MacDonald empregou o personagem de Lilith a serviço de um drama espiritual sobre pecado e redenção, no qual Lilith encontra uma salvação duramente conquistada. Muitas das características tradicionais da mitologia de Lilith estão presentes na descrição do autor: longos cabelos escuros, pele pálida, ódio e medo de crianças e bebês e uma obsessão por se olhar no espelho. A Lilith de MacDonald também tem qualidades vampíricas: ela morde as pessoas e suga seu sangue para se sustentar.

O poeta e estudioso australiano Christopher John Brennan (1870–1932), incluiu uma seção intitulada “Lilith” em sua obra principal “Poems: 1913” (Sydney: G. B. Philip and Son, 1914). A seção “Lilith” contém treze poemas explorando o mito de Lilith e é central para o significado da coleção como um todo.

A história de 1940 de C. L. Moore, Fruit of Knowledge (O Fruto do Conhecimento), é escrita do ponto de vista de Lilith. É uma releitura da Queda do Homem como um triângulo amoroso entre Lilith, Adão e Eva – com Eva comendo o fruto proibido sendo nesta versão o resultado de manipulações equivocadas da ciumenta Lilith, que esperava que sua rival fosse desacreditada e destruída por Deus e assim recuperar o amor de Adão.

A coleção Full Blood (Plena de Sangue) de 2011 do poeta britânico John Siddique tem um conjunto de 11 poemas chamado The Tree of Life (A Árvore da Vida), que apresenta Lilith como o aspecto feminino divino de Deus. Vários dos poemas apresentam Lilith diretamente, incluindo a peça Unwritten (Não-Escrita), que lida com o problema espiritual do feminino sendo removido pelos escribas da Bíblia.

Lilith também é mencionada no livro As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, de C.S.Lewis. O personagem Sr. Castor atribui a ascendência do principal antagonista, Jadis, a Feiticeira Branca, à Lilith.

Lilith é um poema de Vladimir Nabokov, escrito em 1928. Muitos o conectaram à Lolita, mas Nabokov nega veementemente: “Leitores inteligentes se absterão de examinar essa fantasia impessoal em busca de qualquer ligação com minha ficção posterior”.

LILITH NO ESOTERISMO OCIDENTAL E NO OCULTISMO MODERNO:

A representação de Lilith no Romantismo continua a ser popular entre os Wiccanos e em outros Ocultismos modernos. Existem algumas ordens mágicas dedicadas à subcorrente de Lilith, apresentando iniciações especificamente relacionadas aos arcanos da “primeira mãe”. Duas organizações que usam iniciações e magias associadas à Lilith são a Ordo Antichristianus Illuminati e a Order of Phosphorus. Lilith aparece como uma súcubo em De Arte Magica de Aleister Crowley. Lilith também foi um dos nomes do meio da primeira filha de Crowley, Nuit Ma Ahathoor Hecate Sappho Jezebel Lilith Crowley (1904–1906), e Lilith às vezes é identificada com Babalon nos escritos thelêmicos. Muitos dos primeiros escritores ocultistas que contribuíram para a Wicca moderna expressaram uma reverência especial por Lilith. Charles Leland, no apêndice do livro Aradia, ou o Evangelho das Bruxas, associou Aradia à Lilith: Aradia, diz Leland, é Herodias, que era considerada no folclore da stregheria como associada à Diana como a líder das bruxas. Leland observa ainda que Herodias é um nome que vem do oeste da Ásia, onde denotava uma forma primitiva de Lilith.

Gerald Gardner afirmou que havia adoração histórica contínua de Lilith até os dias atuais, e que seu nome às vezes é dado à deusa sendo personificada no coven pela sacerdotisa. Esta ideia foi ainda atestada por Doreen Valiente, que a citou como uma deusa que preside a Bruxaria: “a personificação dos sonhos eróticos, o desejo reprimido por prazeres”.

Em alguns conceitos contemporâneos, Lilith é vista como a personificação da Deusa, uma designação que se acredita ser compartilhada com o que essas religiões acreditam serem suas contrapartes: Inanna, Ishtar, Asherah (Aserá), Anath, Anahita e Ísis. De acordo com uma visão, Lilith era originalmente uma deusa mãe suméria, babilônica ou hebraica do parto, das crianças, das mulheres e da sexualidade.

Raymond Buckland afirma que Lilith é uma deusa da lua escura a par com a deusa hindu Kali.

Muitos satanistas teístas modernos consideram Lilith como uma deusa. Ela é considerada uma deusa da independência por aqueles satanistas e muitas vezes é adorada por mulheres, mas as mulheres não são as únicas pessoas que a adoram. Lilith é popular entre os satanistas teístas por causa de sua associação com Satanás ou Satã. Alguns satanistas acreditam que ela é a esposa de Satanás e, portanto, pensam nela como uma figura materna. Outros baseiam sua reverência por ela em sua história como súcubo e a elogiam como uma deusa do sexo. Uma abordagem diferente para uma Lilith satânica afirma que ela já foi uma deusa da fertilidade e da agricultura.

A tradição de mistério ocidental associa Lilith com as Qliphoth da Cabala. Samael Aun Weor em seu livro, A Pistis Sophia Desvelada escreve que os homossexuais são os “sequazes de Lilith”. Da mesma forma, as mulheres que se submetem ao aborto voluntário e as que apoiam essa prática são “vistas na esfera de Lilith”. Dion Fortune escreve em sua Autodefesa Psíquica que: “A Virgem Maria é refletida em Lilith”, e que Lilith é a fonte de “sonhos luxuriosos”.

Devido ao fato do tema de Lilith no Esoterismo Ocidental e no Ocultismo Moderno ser bastante amplo e diverso, o mesmo será abordado em outros artigos.

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Fontes:

  • Charles Fossey, La Magie Assyrienne, Paris: 1902.
  • Siegmund Hurwitz, LilithSwitzerland: Daminon Press, 1992. Jerusalem Bible. New York: Doubleday, 1966.
  • Samuel Noah Kramer, Gilgamesh and the Huluppu-Tree: A reconstructed Sumerian Text.(Kramer’s Translation of the Gilgamesh Prologue), Assyriological Studies of the Oriental Institute of the University of Chicago 10, Chicago: 1938.
  • Raphael Patai, Adam ve-Adama, tr. as Man and Earth; Jerusalem: The Hebrew Press Association, 1941–1942.
  • Patai, Raphael(1990) [1967]. “Lilith”. The Hebrew Goddess. Raphael Patai Series in Jewish Folklore and Anthropology (3rd Enlarged ed.). Detroit: Wayne State University Press. pp. 221–251. ISBN 9780814322710OCLC 20692501.
  • Archibald Sayce, Hibbert Lectures on Babylonian Religion
  • Schwartz, Howard, Lilith’s Cave: Jewish tales of the supernatural, San Francisco: Harper & Row, 1988.
  • Campbell Thompson, Semitic Magic, its Origin and Development, London: 1908.
  • Augustin Calmet, (1751) Treatise on the Apparitions of Spirits and on Vampires or Revenantsof Hungary, Moravia, et al. The Complete Volumes I & II. 2016. ISBN 978-1-5331-4568-0.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cabala/as-origens-de-lilith/

Sinfonia Universal

Toda a matéria de um universo de 156 bilhões de anos-luz de extensão, reunidos em um ponto menor que a cabeça de um alfinete, é uma arte que apenas um nobre arquiteto seria capaz de conceber.

Após a inspiração, o Grande Maestro do Universo deu início ao seu canto celeste, o verbo criador. Dançam as galáxias, a melodia do Grande Maestro. Melodia inaudível aos ouvidos humanos.

Quem sabe o Universo seja como uma imensa orquestra sinfônica onde cada aglomerado de galáxias corresponde a um naipe da grande orquestra celeste, mas, a música das esferas não se enquadra em nossas vãs concepções de harmonia.

Comparar o universo com uma orquestra não significa que tudo funcione dentro de uma harmonia previsível. Os conceitos de harmonia criados pelos humanos servem apenas aos humanos. Nada compreendemos da harmonia celeste, não entendemos nada sobre a perfeição, somos imperfeitos, inacabados, dissonantes.

Em nossa visão racionalista, o universo é composto por muitas dissonâncias e arritmias.  A sinfonia do cosmos está mais próxima da música atonal do século XX do que uma sinfonia do período clássico.

Mergulhados na escuridão cósmica, ansiamos compreender o caos indefinível. Assim nascem as religiões, filosofias e ciências, o homem tentando trazer ordem ao que não é possível ser ordenado, incontáveis nomes ao inominável, tentando imaginar o que é inimaginável.

O Grande Maestro está no Todo, mas ele é maior que o Todo.

Da sua expiração e do seu canto surgem todas as coisas, da sua inspiração para retomar o fôlego, tudo volta lá onde antes estava.

Estrelas explodem e se fundem: da sua poeira nascem os homens.

E do Uno nasce o Verso.

#Universalismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/sinfonia-universal

Anotações sobre o Liber C vel Agape

O Livro sobre a Revelação do Santo Graal, onde se discorre sobre o Vinho do Sabat

Amor é a lei, amor sob querer.
O Sol é o Vinho, a Lua é a Taça.
Vertido seja o Sol na Lua.
Hafis

“Inverte o círculo três vezes
e cerra temerosamente os olhos:
ser-lhe-á concedido do mel do orvalho
e do leite do paraíso.”
Sal Philosophorum

“De um lado Baco, o Criador de ambos os sexos, do outro lado um tigre em pleno salto, devorando os cachos de uma vinha em forma de gente, cujas mãos recebem do mesmo Baco uma outra videira. Esta gravura representa a vinha entre os atributos criativo e destruidor de Deus: um deles dá o fruto, o outro imediatamente o devora. No pescoço do tigre enrola-se uma guirlanda de hera, o que mostra que o destruidor e o criador são Um. A hera (como também outras trepadeiras sempre-verdes) simboliza a Juventude e a Virginalidade perenes.”

Criatio in Principio

De tua mão, ó Senhor, provém todo o Bem: de ti provém toda a Misericórdia e a Bênção! Os sinais da Natureza são indicados por teus dedos, contudo só quem aprendeu em tua escola é capaz de decifrá-los. E como os servos miram as mãos de seu Senhor e as criadas as de suas amas, assim nossos olhos te seguem, pois tu sozinho és nossa ajuda. Ó Senhor Nosso Deus, quem não louvar-te-ia? A ti, o Senhor do Universo! Tudo provém de Ti, Tu és Tudo, a ti tudo retorna! Tu sozinho és os Senhor e não existe outro além de ti! Quem não honrar-te-ia, ó Senhor do Universo, a quem ninguém se iguala, que tem morada exterior no céu e interna em nossos corações? Ó Deus, imensamente grande e indizivelmente pequeno, estás em todas as coisas e todas as coisas estão em ti. Ó Natureza! Tu mesma derivaste do Nada! Como deveria eu chamá-la? Em mim mesmo não existe mais que eu mesmo: Sou em Ti o Nada verdadeiro! Vive, pois, em mim e conduze-me ao Ser em Ti”.

Instrução do O.H.O. a Baphomet

Merlin [Reuss] pela graça do Deus que é três em um, e pelo consentimento do Mestre do Oculto, conferem o Serviço à Humanidade e entre vós como Chefe Externo da Ordem, exaltado O.H.O, a Baphomet [Crowley] Summus Sanctissimus Xº O.T.O. da Irlanda, Iona e Bretão no Santuário da Gnosis, Grão-Mestre dos Cavaleiros do Espírito Santo, o mais alto comandante e Poderoso Soberano da Ordem Sagrada do Templo, etc., Saudações e Paz em todos os nomes santos e misteriosos do mais verdadeiro e sempiterno Deus, e em Palavra e em Espírito Santo.

Ouve tu, ó mais-que-santo, Irmão-Mor e mais iluminado, minha palavra, e acata meu conselho e meu sermão.

Encerra minha palavra em teu coração e sela teus lábios!

Revela isto somente a quem o merecer: e manifesta-o apenas àqueles que crêem.

Há algum dentre vós mui distintos Senhores Cavaleiros [Sir] que são soberanos grão-general-inspetores e que minha palavra compreenda? Há alguém em Konistorium [Conselho da Ordem] que compreenda a O.T.O. verdadeiramente?

Procurai e vede: revelai a mais íntima vontade de cada cavaleiro e ungí-a com um juramento. Testai-a ademais ao extremo e conduzi-a à derradeira prova.

Iniciai-a então secretamente no mais alto mistério: deixa-o então participar do último dos Mistérios.

Pois somente neste Arcano e neste apenas jaz a Divindade, sim, aquele que o possuir já não será um homem, mas DEUS.

Ex conventu
Ettae
die Mariae
Sacrificatae An VIII [1912]

Salutatio

Baphomet, sob a Graça do Deus Uno e Tripartido e sob o beneplácito e a nomeação da O.H.O. e do Mestre Secreto: Rex Summus Sanctissimus Xº O.T.O. da Irlanda, Iona e o Bretão no Santuário da Gnosis, Grão-Mestre dos Cavaleiros do Espírito Santo, Lugar-Tenente Comandante [Komtur] da Sagrada Ordem do Templo, aos mui distintos senhores Cavaleiros [no âmbito de] um Grande Soberano e Inspetor-Geral do Antigo e Presumido Rito de 95º do Real Ritual de Memphis inteiramente iniciado nosso Augusto IXº, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, um Deus, IAO, eterno, indivisível, Todo-Poderoso, Onisciente e Onipresente.

Graças a Deus e à graça de Nosso Senhor Jesus Cristo e a presença do Espírito Sagrado esteja convosco, hoje e até o final dos dias. Amém.

Aqui se segue agora o secretíssimo dos Secretos, a chave de toda Magia, sob a amorosa bondade do O.H.O. me é revelado sob vossa Instrução e Proveito.

Lege. Judica. Tace.

De Natura Arcani

“Sou o A e o O, o Princípio e o Fim. Eu, a quem
tem sede darei de graça da fonte
da Água da Vida. Vencedor tudo isto herdará
e eu lhe serei Deus e ele me será filho”
Apocalipse, 21:6-7

“Ex henos ta hanta genesthai, kei eis t’auton analuesthai.”
Plato, Phaedr.

Achega-te a mim, para que eu te possa descortinar a mais imensa das maravilhas. Sabei, nosso início é em Deus, e nosso fim é em Deus: isto constitui-se assim na Grande Obra, para a conquista da Divindade.

Compadecido e com afetuoso amor descortinou ele os campos da antigüidade para o caminho da [para tanto necessária] prontidão contida. Os gnósticos e os maniqueístas têm-no preservado [o caminho da prontidão] em todas as suas arqui-secretas congregações, tal como o aprenderam dos grandes magos egípcios: tampouco aos crísticos era estranho este mistério, nem aos adoradores de MITHRAS. O mistério jaz oculto na Fábula de Samsão; e nosso Senhor Jesus Cristo proferiu-o pela boca dos Amados Discípulos.

Este foi o mais oculto dos mistérios dos Senhores Templários e os irmãos Rosa-Cruzes o conservaram em seu Colégio do Espírito Santo. Diretamente deles e de seus seguidores os Irmãos Herméticos da Luz. Nós o recebemos e agora o transmitimos.

Sabei que o mistério consiste num determinado Rito, numa Alta Missa que se faz celebrar no Templo do Sagrado Espírito. Não sois vós então Reis e Sacerdotes de Deus, Mui Elevados Senhores Cavaleiros e meus amados e iluminados irmãos [IXº – XIº]?

Este é o verdadeiro sacramento [do Esperma e do Glúten] através do qual vós ides tomar parte no corpo e no sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo – não em sua morte mas em sua Ressurreição. Através disto vos tornais crianças da Luz, Veículos do Espírito Santo, totalmente puros, cavaleiros do Santo-Gral, Majestosos Cavaleiros da Ordem Sumamente Sagrada dos Kadosch. Através disto obtende vós GNOSIS; através disto tornai-vos Membros do Santuário [da O.T.O.].

Abençoados aqueles que recebem esta oferenda e assim adquirem direito à Árvore da Vida, podendo penetrar na cidade pelo portal adentro.

Pois cães e magos e prostitutas e assassinos e idólatras estão sem [este sacramento] e também todos aqueles que amam a mentira.

E o Espírito e a Noiva dizem: Vinde! E deixai que aquele que ouve diga: Vinde! E deixai que o sedento diga: Vinde! E quem ainda quiser, deve graciosamente tomar da Água da Vida .

De Alechemis

Nossos iluminados irmãos os Alquimistas eram sábios na Sabedoria de Deus e hábeis nas habilidades humanas – eles se consagravam extensivamente à magia material para encontrar a medicina dos metais, do Aço dos Sábios, a Tintura Alva e a Vermelha, o Elixir da Vida.

Pois (assim dizem eles) com a prosperidade vem o ócio, através da saúde, energia e com uma vida longa um tempo a mais: tudo isso queremos consagrar à execução da Grande Obra.

Eles possuíam verdadeiramente esse segredo, que a Tradição não perdeu com o passar dos séculos.

Ó tu que lá no alto estás com Deus!

Ó tu Eleito dos Homens!

Ó tu sobre quem caiu a Misericórdia de Cristo!

A ti desvelamos o indizível e insondável Mistério. Passamos a confiar-lhe o Arcanum Arcanorum, o ocultíssimo Tesouro dos Sábios. Sem ele, tudo se torna frio, inerte, morto. Com ele tudo é fogo, força, espírito, criação. Esta é a porta para todas as portas do Reino dos Céus! Este é o Cetro do Rei, que lá habita.

A posse e o correto uso desse mistério possibilita centuplicadas forças. Sim, verdadeiramente cêntuplo é o ganho. Pois este mistério foi passado diretamente por Jove ele-mesmo, cuja letra PK é: as iniciais de nosso Athanor e de nosso Curcurbite , como são em grego denominadas.

E verdadeiramente nomeio dessas forças apenas sete, a Eleusis da Glória, a Estrela sobre o Firmamento dos Irmãos da Hermética Luz.

Lua: A primeira delas é a construção dessa, que é não-nascida, e deveras transforma-se num prodígio.

Vênus: A segunda é a Harmonia e a Maestria desta, que simultaneamente e com amparo ajuda – desde sempre tua gêmea e consorte.

Marte: O terceiro traz juventude, beleza e força, com os quais tu nunca envelhecerás.

Saturno: O quarto traz o prolongamento da vida.

Mercúrio: O quinto é a obtenção do Altíssimo, a Magia da Luz.

Júpiter: O sexto te protege e te auxilia a estabelecer-te no mundo dos negócios. Ele o conduz a um alto nível e à honra.

Sol: Através do sétimo recebes toda Luz e reconheces o terreno, pois tu compreendes tanto a alma terrena quanto a alma espiritual do homem.

Não é esta propriedade mais valiosa do que toda a imundície da Terra?

Não é uma pérola mais cara do que todos os tesouros marinhos?

Não compensa, por este objetivo, despires-te de toda a indumentária? Um preço, que para alcançá-lo nenhum esforço é cansativo demais, nenhum movimento excessivamente exaustivo, nenhum sacrifício demasiadamente grande. E que de tuas mãos jorrem bênçãos, sim, verdadeiramente e Amém, seja tua cornucópia elevada para todo o sempre.

Tu esforçaste-te para tanto e o conseguiste! Ei-la aqui, ei-la aqui, não menos, aqui nesta hora em que te corôo, aqui no Santuário da Gnosis, Elevado, Iluminado e agora três vezes Sagrado Irmão da O.T.O..

De Natura

Aprende primeiramente o que concerne à natureza. O fundamento da vida mineral é matéria [Hyle] e é escuridão.

O fundamento da vida das plantas á a clorofila e é verde.

O fundamento da vida animal é o sangue e é vermelho.

O fundamento da vida divina é Luz, cujo mais suave brilho vai além do violeta.

Portanto ninguém [na O.T.O.] tem permissão de usar seja o que for de violeta exceção feita aos OHO e seus substitutos diretos Mais Sabios Soberanos Grande Mestre Geral, o Mais Potente Soberano Grande Comandante da Grande Loja e Soberano Geral Comandante o mais elevado e santo Regente Xº de cada país.

De Nomine Dei

[Encontra-se aqui o Hexagrama como foi desenhado por Eliphas Levi, o fundo contudo não está tão escuro]

Eu vos conjuro, Altos Senhores Cavaleiros e Plenamente Iluminados Irmãos [IXº] compreendai que este Mistério depende de um mais alto do início ao fim .

Ele não está representado de maneira que nosso entendimento possa compreendê-lo: e ainda que nossos corações dissolvam-se em Amor, nós não o alcançamos, pois ele, assim como o Sol é a alma, que por sua vez o reflete, ainda assim não o contém.

Agora é Ele o Pai, que gera a Palavra, que transforma, e o Espírito, que recebe: assim é também o Espírito que do pai emana, a Essência, que une o Pai ao Filho: e este Mistério está oculto em muitos nomes secretos, que agora lhes serão descortinados, vós Mui Elevados Senhores. Cavaleiros e Totalmente Iluminados Irmãos de nossa Antiga Ordem.

Aprendei portanto esta nossa terceira divisa de nosso Mais Alto Conselho, a significação mística. DEUS EST HOMO, i.é., Deus é Homem. O que significa também: ASSIM ACIMA COMO ABAIXO: ASSIM FORA COMO DENTRO. Não existe parte alguma do homem que não seja de DEUS: e não existe parte alguma de DEUS que não tenha sua correspondência na Humanidade.

E aprendei isto: nunca alcançarás Deus: pois tudo o que compreendes é tua própria criação como d’Ele Próprio. Tu O conheces, pois és Ele. Portanto há três no Céu, que disso prestam testemunho: o Pai, a Palavra e o Espírito: e estes Três são Um. E há deles Três na Terra, que disto dão testemunho: o Espírito, a Água e o Sangue: e esses Três são Um.

Neste três-em-um IAO o Pai é o I, o Espírito o A e O a Palavra: e aí A é o Espírito, M a água e Sh o Sangue: tudo isso perfaz 358: MS-hlCh, o Messias, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que por Sua morte liberou o Espirito, a Água e o Sangue – como testemunhou o Santo João em seu Evangelho. Deste modo Jesus Cristo é o Alpha e o Omega, o Símbolo da União de Deus com a Humanidade.

E aqui reside a segunda tríplice-unidade: DEUS, DEUS-Humanidade, Humanidade. E a este DEUS-Humanidade nossos antigos irmãos deram muitos nomes.

E mesmo tendo o Cristianismo profanado completamente o nome de Jesus Cristo, foi Ele preservado por nossos verdadeiros irmãos Rosa-Cruzes: e o que d’Ele se diz nos Evangelhos, nas Epístolas e no Apocalipse é verdadeiro, desde que interpretado à luz do Discípulo da Pedra [o sábio].

Portanto nossa salvação reside no DEUS-Humanidade: n’Ele somos ambos, DEUS e homens. O Testemunho disto foi traído e a quantidade dada maculada – assim como está escrito: “Não atireis vossas pérolas aos porcos, para que a vós não retornem, destruindo-vos!”

Por esta falha na guarda dos Mistérios foram os Adeptos perseguidos por 2000 anos. Atentai, Reverendíssimos Senhores Cavaleiros, que por vosso erro a verdade não se perca. Não confieis em estranhos: procurem por um herdeiro [do Mistério].

De Arcano Fratum Amussis

Dele é Nosso Senhor o Pai-Filho, Criador, Mantenedor e Destruidor, Um, Altíssimo, Plenipotente, Dispensador da Vida e da Morte, Imperador e Vice-Rei dos Céus: e na Terra temos Seu Representante, a Imagem Sagrada [Eidolon] na área aliada, da qual somente falamos de maneira encoberta, pois Ele está acima de tudo, do que é e do que há de existir, sagrado e oculto, o Archote no qual Prometeu nos trouxe o fogo celestial.

E tanto a Imagem quanto o Filho do Pai Supremo suportam morte e ressurreição: e os símbolos se correspondem: e as festas tanto de uma quanto da outra têm sido comemoradas através dos tempos pelos que crêem. E a massa néscia acabou por confundir ambos esses rituais na qual os ritos e processos de um e de outro se confundem; e assim passou a imperar a incompreensão e a ignorância. Portanto, tem-se festejado na Páscoa a crucificação e a cópula e, nove meses depois o nascimento da criança, que viveu 33 anos, o que significa uma geração humana inteira, tendo sido então crucificado. Isto se dá simultaneamente com o declínio do Sol pelo Equador e seu ressurgimento, e se renova com a batalha diária de morte que o Sol perfaz. E agora podem nossos Irmãos possuidores da verdadeira chave de todas as religiões [compreender que] todos os cultos representam quer os mistérios do Lingam e da Yoni, ou os do Sol, Lua e Terra, que em si mesmos encerram todos os ritos, criando novas crenças e novas festas, regendo o mundo de direito e por direito sob a égide do Altissimo e Sacríssimo Rei Xº, que se constitue em seu Pai e Deus.

Este é portanto o mistério dos velhos hierofantes, ou seja, o de que os homens podem unificar neste culto o Sol no Céu e o Falo sobre a terra, pois tais Mistérios iluminam e são verdadeiros, e não há quem o possa negar. Ou seja, o que está escrito: “Paz na Terra e Alegria aos Homens”!

E este é o mistério final e verdadeiro da maçonaria: não é este Sol o Construtor Todo Poderoso de todos os mundos, o Pai do Universo, a Representação do Macrocosmos? E não é este Falo o Todo Poderoso Construtor deste outro universo humano, o pai dos homens, a representação do Microcosmos? Não é esta uma Verdade que foi confirmada pela boca de duas testemunhas? Estai, portanto, vigilantes, preservai o Deus de realeza que habita em vós na imundície, conservai-o puro diante de vosso Senhor, que é a verdadeira Luz, Vida, Amor e Liberdade.

Cuidem, portanto, para que nessas preleções nenhuma palavra seja dita a mais: e que vós através de profunda e contínua leitura dos textos iluminai vossas almas.

Finalmente, sede verdadeiramente iniciados maçons: agora finalmente sois merecedores de executar o ritual adequadamente e com probidade – sede vós os portadores da Luz, Vida, Liberdade e Amor a todos os homens livres, maiores de idade e de boa reputação, e concedei a eles o acesso a esta Loja.

De Sactissime Trinitate

A mais-que-sagrada Tri-Unicidade, Una e Indivisível, encontra-se oculta:

Por nossos Irmãos egípcios arianos no trigrama AUM

por nossos Irmãos egípcios no trigrama AuMN

por nossos Irmãos árabes no trigrama ALL

(o L se dobra para denotar a natureza dupla do Logos)

por nossos Irmãos gnósticos no trigrama IAO

por nossos Irmãos hebreus no trigrama IHV e AMN

por nossos Irmãos chineses no trigrama TAO e em seu símbolo

por nossos Irmãos rosa-cruzes no trigrama INR e em seu símbolo

por nossos Irmãos da Arca Real na tríplice palavra de seu grau

por nossos Irmãos maçons pela palavra tríplice de seu Grau de Mestre

por nossos Irmãos cristãos no trigrama IHS e por nós mesmos à nossa própria maneira e modo de muitas formas secretas e sabidamente pelo trigrama O.T.O..

Vós conheceis ainda muitas outras designações d’Ele: todas contudo significam Um: e embora Ele seja Tudo, esteja em Tudo, sobre Tudo e sobre Todos, existe ali um aspecto que todas as descrições enfatizam, qual seja o de que ele é Um com nossa Natureza, tanto em carne como também em espírito.

De Meditatione

Por ser ele Tudo e por através dele estarem todas as coisas ordenadas, apesar da completa confusão, a diversidade sobrepujou a Unicidade, o Uno.

E aqui jaz a razão: nenhum homem sozinho é a representação completa e proporcional de Deus, como também nenhuma mulher sozinha o é. Pensai exatamente acerca destas palavras e percebei o que elas não dizem.

Quando nossos irmãos na China fecham um contrato eles costumam rasgá-lo ao meio e cada parceiro recebe uma metade, de tal forma que apenas juntando-se as duas partes a coisa fica inteira. Da mesma maneira dão-se as coisas em relação ao Reino dos Céus.

Esta é portanto a introdução. Até que não contenhais a outra metade na parte posterior de sua cabeça, não o compreenderás.

Esta é portanto a Obra do Criador, que dividiu, para poder reunir novamente.

Foi a Grande Obra perpetrada em Nosso Senhor Jesus Cristo.

Segue-se aqui o Liber 333 [Crowley], Capitulo 36.

A Safira Estrela

Que o Adepto esteja munido de sua Cruz Mágica (e provido de sua Rosa Mística).

No centro [do círculo mágico] que dê os sinais L.V.X.; ou, caso os conheça, e [se quiser e ousar, e puder manter silêncio sobre eles] os de N.O.X., sendo eles os sinais de: Jovem, Homem, Donzela, Mulher. Omita o sinal de “Ísis Regozijando”.

Que vá em direção ao Leste, faça o Hexagrama Sagrado e diga: “PAI E MÃE, DEUS UNO ARARITA”.

Que gire em direção ao Sul, faça o Hexagrama Sagrado e diga: “MÃE E FILHO, DEUS UNO ARARITA”.

Que gire em direção ao Oeste, faça o Hexagrama Sagrado e diga: “FILHO E FILHA, DEUS UNO ARARITA”.

Que gire em direção ao Norte, faça o Hexagrama Sagrado e diga: “FILHA E PAI, DEUS UNO ARARITA”.

Que retorne ao Centro, e então Ao Centro de Tudo (fazendo a Rosa-Cruz como deve conhecer) dizendo: “ARARITA ARARITA ARARITA.”

(Então os Sinais serão os de Set triunfante e de Baphomet. Set também aparecerá no Círculo. Que beberá desse Sacramento e o comunique.)

Que então diga: “TUDO EM DOIS: DOIS EM UM: UM NO NADA. O QUE FAZEM QUATRO OU TUDO OU DOIS OU UM OU NADA.

GLÓRIA AO PAI E MÃE E FILHO E FILHA E ESPÍRITO SANTO EXTERNO E ESPÍRITO SANTO INTERNO QUE FOI É E SERÁ ATÉ O FIM DO MUNDO SEIS EM UM PELOS NOMES DE SETE EM UM ARARITA.”

Que então ele repita os sinais L.V.X. mas de não os N.O.X.: pois não é ele que ascenderá diante de Ísis Regozijando.

De Tota Symbola Dei

Te proteja, caríssimo Irmão, que não te confundas e te atoles no raciocínio sobre a Unidade: pois o Primeiro Princípio aparece em sua forma contrária. Pois é Ele teu Pai e tua Mãe, apesar de que o modo pelo qual o apreendes possa se ter alterado. Agora macho e fêmea estão opostos, embora n’Ele não exista nenhuma antinomia.

Estuda pois o símbolo inteiro e, ainda que o gires e o revires, ele não se altera. Vai de abismo em abismo! O encontrarás sempre como Nada e sempre como Muitos e sempre como Um e sempre como Tudo.

Como já o dissemos, o símbolo inteiro é tríplice. Freqüentemente, porém, homens sábios e santos o representaram com Dois-em-Um, o terceiro tornado invisível. Exemplos são: o ponto no círculo, Lingam e Yoni, a Rosa e a Cruz, o círculo subdividido dos chineses, a cruz no círculo ou o diamante [cruz no quadrado], a torre e a nave da igreja, a cruz tríplice e eneavada em diamantes invisíveis, diante dos quais os membros de nosso Superior Conselho antepõem suas assinaturas, entre outros.

E cada um desses símbolos testemunha a Grande Obra: o êxtase de reunificar-se com o Todo. Pensa portanto em:

1. DEUS e Humanidade como Humanidade-Deus.
2. Sujeito e Objeto em Samadhi.
3. Macho e Fêmea como Humanidade.
4. Círculo e Quadrado em k (pi) ou: como queiras: TUDO É UM.

[Segue-se aqui a Ilustração de Baphomet e do Microcosmos por Vitruvius.]

Alter Tractatus De Trinitate

Lavado em puro vinho e consagrado pelo fumo da cozinha da Luz aparece tiritante em puro júbilo diante da Arca, enquanto o véu do Mistério-Todo-Sagrado é rasgado pela espada do Grande Mestre do Todo Altíssimo.

Vê a sacramentada Tri-Unicidade, Una e Indivisível, IAO. Uma é a Tri-Unicidade Toda-Consagrada: e três suas pessoas ou máscaras. Um é seu Espírito, Um é sua Especificidade, sua Mutabilidade. Ararita! Ela é o Sêmen, que através de todas as alterações permanece o mesmo, se conserva o mesmo, protegido e Todo-Abrangente, IAO SABAO.

Agora é o Pai Um, vertical [ereto], Uno, Eterno.

E o Filho é Um, na similitude com o Pai, e contudo duplo em sua natureza de Deus-Homem. E reside aqui um Mistério: pois por ele ser Palavra, é Espírito que emana do Pai e cria os mundos.

E o Espírito é Um, Não-Nascido, mas permanentemente Existente, o Sêmen, do qual Pai e Filho em Verdade são meros Guardiões e Veículos. E a natureza do Espírito é Liberdade e, como o vento, Ele vai onde quer e a quem lhe compraza, fecundando os mundos.

E assim como o Filho é duplo, é duplo o Espírito: pois é ele ambos, macho e fêmea. Pois a pomba é o pássaro de Vênus: nosso então Irmão Marcus Valerius Martialis, grande conferencista do Império Romano na Antigüidade, encobriu o Falo Sagrado nesse quadro. Ele é a Mãe. Ele é o Regaço. Ele é o esperma que fecunda o óvulo; não, Ele é a coisa fecundada, auto-pulsante, que não é esperma nem útero, mas o casamento desses dois, a Tintura Perfeita, a Medicina dos Metais, a Pedra dos Sábios, o Remédio Universal, o Elixir da Vida.

É ele a Pomba que, em seu retorno à Arca de Noé, trouxe em seu bico um ramo de oliveira. É ele a Águia de Júpiter, o Cisne de Brahman.

Esta duplicidade causou intermináveis mal-entendidos na compreensão usual. Pois não fica aí entendido que o homem é o guardião da vida divina e a mulher apenas sua transitória ajudante: o depositário de Deus mas não o próprio Deus. E assim blasfema quem quer que cultue a falsa Tri-Unicidade de Pai-Mãe-Filho; bocarras cegas que cospem veneno: que pereçam no Dia do Conosco-Estai!

Além do mais, é o Espírito Santo a Unidade na Tri-Unicidade, o Pai e o Filho que são os guardiões da Quintessência mesma, herdeiros da Quintessência, [guardiões] do próprio âmago quintessencial, não são contudo a Quintessência ela-mesma. E esta é Divina [ocorre no céu]: na Terra unem-se contudo o Filho Pai e Espírito como Homem e Mulher, Deus e Homem. Este Mistério não será compreendido enquanto [fazendo uso] dos instrumentos divinos o homem não se aperceba e aperfeiçoe-se nisso, da maneira como foi aqui revelado, Altíssimos e Iluminados Irmãos.

De Una Substancia

[Aqui se encontra a Tábua Esmeraldina de Hermes Trimegistos]

Deus é Espírito e Verdade é Una: e Uno é Deus em matéria e ilusão. Ó Irmão! Ó Iluminados e Excelsos Senhores Cavaleiros, guardai isto tão energicamente quanto o punho da espada na hora do perigo!

Una é a Essência Divina e Una é a Essência Humana.

Mas assim com Deus é apenas Um, pois ele é três em Um, assim também é Uno o Homem, sendo ele dois em Um.

Assim como a Essência de Deus jaz n’Ele mesmo, da mesma forma ocorre também com a Essência Humana.

Mas em virtude de não ser o homem ele-mesmo, mas apenas uma parte de si-mesmo, essa essência (Divina) não se encontra nele de forma plena. Ela só pode ser encontrada plenamente sem ele, e pode ser obtida “per se” através da pureza do Sacramento Eucarístico.

De Cena Suprema

[Título Original: “De Sacrificia Eucharistico”]

Ler João IV:13-16, 31-32, VI:27, 48-58: VIII: 38,1. Epístola de Paulo aos Coríntios X: 1-4, 16-17 e 23-30:XIII:3.

O sacramento se celebra em duas etapas: pão (o feminino) e vinho (o masculino).

O pão é solido, branco, o fruto da Terra, o alimento do Homem, o Corpo de Cristo, a
Tintura Branca.

O vinho é fluido, vermelho, o fruto da videira, Fonte da Humanidade, o Sangue de Cristo, a Tintura Vermelha.

Este bi-partido sacramento é mortal: nele a Grande Obra não se consuma. A vida não está nem no pão nem no vinho: e ainda que eles possam ser o corpo e o sangue de Cristo, não são o próprio Deus, pois o Deus pregado na cruz não é o rei ressurrecto.

E, portanto, mui excelsos Senhores Cavaleiros e plenamente Iluminados Irmãos, eu vos conclamo a que cheguem à compreensão de que este sacramento de morte pouca serventia tem.

Deveis participar da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo em sua ressurreição: e só então a essência do sacramento do Elixir da Vida tornar-se-á autêntica.

Pois há de haver um e não dois, quer seja masculino ou feminino, sólido ou líquido. Ele conterá todas as possibilidades e sem isso nada será possível.

É o fogo prometéico no bem lubrificado Candeeiro de Vesta, a Kneph do Sacerdote de Memphis, o Disco Solar nos braços de Kephras: e a serpente que se enrodilha em volta do ovo.

Perguntai a nossos Irmãos, os alquimistas, e aos adeptos da Rosa e da Cruz. A primeira resposta: nada mais é do que o Leão com seu sangue coagulado e com o glúten da Águia Branca: é o oceano, que o Sol e a Lua banham. A outra: é o orvalho sobre a Rosa, aquele que oculta a Cruz. Perguntai aos antigos: sua resposta é que o mais velho dos deuses é Saturno. Tomai todo cuidado para que nisto não haja engano.

De Quintessencia

[Representação da Carta do Tarot “A Temperança”]

Abençoado seja aquele que a nós desvelou o Arcano dos Arcanos: é ele a Pedra Dissolvida: é o Elixir da Vida, o Remédio Universal, a Tintura, o Ouro do qual se pode beber.

Toma um Athanor e um Curcurbite e deixa preparado um Flaconete para este vinho do Espírito Sagrado.

Além disto, necessitarás de uma chama para a destilação. No Athanor está teu Leão, no Curcurbite a águia. Utiliza a princípio somente pouca chama, aumenta em seguida para chama total, até que o Leão apareça. Despeja teu destilado imediatamente no Flaconete que de antemão foi preparado.

De Modo Sacrifici Parandi

Estando agora tudo esclarecido diante de vós, mui augustos Senhores Cavaleiros e Iluminados Irmãos, não ide em atropelo ao Sacramento. Pois é esta Festa Sagrada. é o casamento da alma com Nosso Senhor Jesus Cristo: e deves estar adornado, como está escrito, pois a Filha do Rei é puro esplendor: Sua Vestimenta é de ouro fundido.

Assegura-te de ter cumprido a primeira regra de castidade: pois virginal deves comparecer diante de teu Senhor.

Em segundo lugar é preciso que jejues por sete horas antes de adorar, na Festa, a Tri-Unicidade Divina.

Terceiramente que compareças ao teu “Um” ornado de uma vestimenta multicolorida, que recebeste quando de tua iniciação.

E então, adentre tua Capela Secreta, passa uma hora em oração/adoração diante do Altar, eleva-te em amor a Deus e louva-o em Estrofes.

Efetua então o sacrifício da Missa.

Tendo o elixir sido preparado em silêncio e solenemente, consome-o sem demora. [Acontece agora a decantação da Gnosis sobre a Magia]. E durante todo o tempo mantém tua Vontade inquebrantável, totalmente concentrada sobre a finalidade estabelecida da operação. Além do que confia em Deus, que Ele com sua força conduza teus desejos correspondentemente.

Este é o mais antigo caminho, mas também o mais perigoso, pois há risco de profanação, o que amaldiçoaria teu comer e teu beber.

Reflete também no fato de que necessitas de experiência e de um condutor nas práticas, caso queiras criar/extrair o supra-sumo desta Obra. Quando semeias na ignorância das estações do ano, do clima e do solo, poucas sementes germinarão; o sábio agricultor, ao contrário, auferirá o rendimento ideal. Considera, portanto, que a Eucaristia é de tal tipo que algum resultado [de toda maneira] advirá, pois a Graça de Deus não é passível de ser contida ou manipulada. Se exercitares diariamente, te aprimorarás. E se estiveres na Obra com Espírito e Energia, atingirás a mais alta perfeição e levarás a termo a Grande Obra, antes da Terra ter completado seu segundo giro sobre si mesma. Assim isto deve ser.

[Segue aqui a Décima-Segunda Chave de Basil Valentinus]

[O manuscrito original contém agora as seguintes passagens]

In Fine

A matéria do Sacramento é a Quintessência da Vida de Deus, Deus é Homem. Prepara-te pela castidade, pelo jejum, pela vontade, pela vigília e pela adoração. Veste a túnica de tua iniciação e inflama-te diante do Altar.

Prepara o Elixir de Sangue do Leão Vermelho e do Glúten da Águia Branca. Consome o Elixir tão logo ele esteja pronto.

Exercita-te freqüentemente, pelo menos a cada mudança de Lua ou a cada dia do Senhor.

[Nota: O texto acima foi riscado por Aleister Crowley no manuscrito e falta em todas as cópias].

De Cantu

Este Elixir é o Germe da Vida. E apesar de ser a coisa mais poderosa e refulgente que existe no Universo, como a verdadeira representação de nosso Pai, o Sol, ao mesmo tempo ele é também a coisa mais delicada e mais sensível. Durante o preparo e a consumação permanece com tua espada flamejante para guardar seus portões: venera e inclui aí também a Luz do Todo-Poderoso e o poder das forças de tua operação.

E isto podes fazer adequadamente. Primeiro de tudo, deixa que tua Obra aconteça no Círculo Mágico. Depois, deixa que as forças (conforme indicadas) manifestem-se por invocações e sentenças. Por último, para iniciar a Obra propriamente dita e por toda sua duração, apenas uma invocação deve acompanhar o progresso da Obra:

Para uma Obra de Magia Sexual:

Tu Venus orta Mari Venias tu filia Patris,
Exaudi penis carmina blanda, precor,
Ne sit culpa nates nobis futuisse viriles,
Sed calaet cunnus semper amore meo.

Faze assim sempre com as palavras com as quais teu gênio poético te inspirar.

Contra Segnitatem

(Um sermão do Grão-Mestre da Ordem dos Templários em sua Igreja em Cambridge)

Lembrai-vos da promessa de vossa autoridade, Senhores Cavaleiros, Irmãos e Camaradas. Não desperdiceis vosso tempo com mulheres e torneios de cavalgadas! Pelas oito colunas que sustentam esta sagrada casa, isto não está direito! Verdadeiramente nossa Lei é Alegria, com toda virtude não negamos nossa humanidade, mas errais quando não vêde por detrás de vossos esportes o juramento ao Todo Poderoso. Não é este o cerne da verdade? O âmago da prova?

Portanto, ainda que sejais galantes ou façais torneios de cavalgadas (como o Santo Paulo, o bravo cavaleiro, quis dizer em sua carta) fazei tudo pela Glória de Deus. Mesmo quando fordes acometidos pelo poderio do demônio, sede homens, lutai fervorosamente pela graça de nosso Senhor Jesus Cristo e pensai em sua crucificação entre dois ladrões (como não pensar então na lança que o transpassou?) ali onde ele entregou seu espírito ao Pai, seja por trato ou por sofrimento.

Não digamos “Non nobis domine, non nobis!”? E ainda: “Accendant in nobis Dominus ignem sui amoris et flamman aeternae caritatis.” O que significa, Tua é a Pureza, não minha: e esta é a descida e a morada interior do Espírito Santo.

Não, verdadeiramente Deus est Homo, Deus est in Homine, Homo est Deus, quem creant Elohim. Assim sois cada um de vós masculino e feminino. Fazei, portanto, num o bem, no outro o mal, para que assim a inspiração se aposse de vós, sobre a qual vos asfixiais e morreis no instante de cruzar o portal e descerrar a arca.

Pois está o Espírito do Senhor comigo e eu profetizo.

Se vos não penitenciardes, vossa Ordem vos será arrancada pelo Senhor pela raiz. Eu, o Senhor, rir-me-ei por causa de vossa penúria, e me comprazerei em virtude de vosso medo. Sereis objetos do escárnio dos maus e as mulheres vos insultarão. Pelo grande nome de Baphomet eu vos admoesto a retornar com toda pressa ao Senhor, para que a misericórdia do Leão e da serpente convosco esteja, em nome de MEITHRAS ABRAXAS IAO SABAO.

Ide, pois, Senhores Cavaleiros, uni-vos, Damas e Cavalheiros, mas não deixeis que se obscureça vosso intelecto, não aprisioneis vossa Sabedoria. Conservai a indescritível coroa em sua beleza e de cada lado dela a maravilha que aguarda a todo aquele que segue com verdade seu juramento, que permanece puro, apesar de todas as tentações da vida, assim como a regra prescreve. E a bênção de Deus esteja convosco em Nome do Pai + Filho + Espírito Santo + Amen.

Tractatus De Re Maxima Occulta In Palacio Regis

Reflitai agora ainda que, no jogo cambiante dos opostos o homem é ativo e a mulher passiva, apesar de o homem representar a Alegria e a mulher a Força. É este o Paradoxo Hermético: e aquele que tiver ouvidos que ouvem, que ouça.

Portanto existe [exatamente] uma Arte Mágica que conduz à Vida e uma outra, que conduz à Morte. A primeira termina, a segunda retorna a si mesma. É, portanto, a segunda perfeita, o verdadeiro Ritual do Altíssimo a ser executado para a Missa, até mesmo para nossos sagrados e iluminados Irmãos.

Como Forma prolongada ela faz brotar [a arte mágica] o demônio e suas manifestações impuras, tal como consta “Demon est Deus inversus”. E, embora ela seja, ainda que limitada e não possa ser transmitida vida após vida, a mais alta de todas das ferramentas de clemência, assim como o vinho para a água ela se comporta em relação às outras [artes mágicas]. A seu modo, o que ela faz é elevar a Alma Humana. E quem adquirir maestria sobre isto, achará seu poderio austero. Este era o Segredo das forças de nosso Grão-Mestre Gaius Julius Caesar, de nosso irmão Richard Wagner que foi eminência no Canto em Bayern e de tantos que se tornaram famosos dentro e fora de nossa Ordem, atingindo o tamanho e o brilho dos astros celestes. Esta [arte magica] sobretudo é mais luzidia por conter em si a verdadeira Luz mais que as outras. Aquele que, portanto, for capaz de inverter o turbilhão da matéria é maior que aquele que ali trabalha. Amaldiçoado seja, portanto, e mais uma vez amaldiçoado seja aquele cujas forças se deixam solapar, que seja para sempre destroçado no abismo!

Despertai, meus senhores, sêde vigilantes, intransigentes, perseverantes e estai alertas: pois aqueles que procuram destruir-vos estão à porta!

Mas disso tudo nada está escrito aqui: este é o Livro do Caminho Estreito, que conduz à Vida.

De Lege

Amor é a Lei, amor sob querer.

Não tem então Agape o mesmo valor numérico que Thelema?

A palavra de pecado é restrição.

Faze o que queres há de ser o todo da lei.

Consta também: Também, tomai vossa fartura e desejo de amor como quiserdes, quando, onde e com quem quiserdes! Mas sempre para mim. Teus sejam o êxtase e a alegria da Terra: para mim! Sempre para mim!

Eu vos exorto, distintos Senhores poderosos e Príncipes Soberanos Plenos da Rosa e da Cruz, Senhores Cavaleiros Companheiros do Santo Gral, compreendai estas palavras para vossa nobre castidade e impoluta humanidade!

Vêde! Eu anunciei a Lei; eu a promulguei para vós. Coloquei-a simbolicamente diante de vós, troquei convosco a Palavra.

Vencedores do pecado e da preocupação, partícipes do Cálice das Bênçãos, Adeptos do mais alto dos Ritos, guardiães do Inefável Santuário, [livres] Cidadãos da Cidade da Verdade, Santos do Tabernáculo Perpétuo! Vos tenho revelado sobre a Eucaristia da Ressurreição.

Indiquei-vos o caminho.

Vos promulguei a Verdade.

Vos presenteei com a Vida.

Filhos dos Céus e Filhas da Terra, Crianças de Deus e Herdeiros da Imortalidade. O banquete encontra-se pronto nos palácios de meu Pai.

Irmãos da Luz, Vida, Amor e Liberdade, consagrados Senhores Cavaleiros da Ordem Kadosch, batei com vosso castão à porta do Reinado de Mais Sagrado, da Sacríssima Arca, pois temos vigiado através de todas as catástrofes, reino sobre reino, dos dias de Henochs até hoje – batei e vos abrirá e adentrareis e provareis do MANNA que vem de Deus.

Valedictio

E agora, mui distintos senhores cavaleiros e iluminados Irmãos, saúde e alegria de viver!

Eu vos saúdo secretamente, assim como “adequado” é: troco [convosco] o símbolo: eu sussurro a palavra, tal como a recebi: e de nenhuma outra maneira ou modo. Beijo três vezes o punho da espada.

Conclamo sobre vós a Benção do Deus Tri-Uno em seu nome mais secreto e oculto de Potentade, Oniciência e Onipresença: em nome do Pai + do Filho + do Espírito Santo + tomo eu minha despedida de vós.

Que a verdade do Deus Pungente e Altíssimo esteja convosco!

A Graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja convosco!

Que desperte em vós o âmago do Espírito Santo!

Agora e para sempre assim seja, Amen!

Emitido por minha mão e com meu selo Baphomet Rex Summus Sanctissimus O.T.O. M.W.S.G.M.G. M.P.S.G.Cr de F. e I. G.B. e I., neste décimo dia de Dezembro de 1912 era vulgatis An VIII Sol no grau décimo-oitavo de Sagitário. Ano da Verdadeira Luz 000’000’000 no Zênite de Londres.

(Fornecido ao preço de 33 guinéis na Irmandade dos Totalmente Iluminados IXº , Associados do Santuário da Gnosis).

Anotações por Peter R-Köenig

Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/anotacoes-sobre-o-liber-c-vel-agape/

A loucura assassina do teísmo

Um ano após os atentados terroristas de 11/9, eu escrevi o texto abaixo que foi incluído em meu livro, “As Escrituras Satânica”. Acho que minhas palavras ainda soam verdadeiras.

“Hoje, o prefeito Bloomberg, de Nova York determinou que a observação do memorial primário não inclua a representação religiosa, e isso é uma pequena medida ou progresso. Enquanto ” A Torre da Liberdade” ainda está subindo no sul de Manhattan , em todo o mundo podemos facilmente observar a violência promulgada por aqueles que têm fé sobre- abundante em alguma autoridade sobrenatural que os leva a matar outros que não compartilham de suas ilusões .

Para mim, esta data serve como um momento de chamar a atenção para as atrocidades cometidas sob a influência da crença teísta. Enquanto os horrores medonhos da Inquisição espanhola são agora mais forragem para filmes de terror, até mesmo as mutilações grotescas que aparecem no recente gênero de “tortura pornô “, os filmes não podem aproximar as abominações sistemáticas perpetradas contra pessoas que tinham feito nada por aqueles que as exterminaram tendo como motivação ” a vontade de Deus “. Esses crimes não devem ser ignorados, nem esquecidos. A história humana, em muitos aspectos, é uma turnê mundial dentro de um abbatoire (abatedouro público N.T.) inspirado na religião. Essa é a natureza essencial dos templos dedicados a adoração à deidade, que se manifestam como pirâmides do Novo Mundo sobre qual corações vivos foram arrancados dos baús de vítimas contra a vontade, para ornamentar catedrais do Velho Mundo, catedrais da Europa muitas vezes adornadas com imagens de sofrimento e condenação, enaltecendo o ícone principal de um homem açoitado e sangrento, testa rasgada pelos espinhos, crucificado em um dispositivo de execução romano antigo. Os séculos de morte, dor e degradação comemorados aí devem servir como um aviso para qualquer um que celebre sua vida, para que entenda que essas crenças são um veneno virulento.

Para as pessoas sensatas que abraçam a sua existência e compartilham a alegria com aqueles que ama, é necessário que tenham o dever de identificar os adversários que impedem a sua busca da felicidade. É a única maneira de mantê-los sob controle, expondo-os como os monstros invejosos que são. Para você que está corrompido pela loucura do teísmo, independentemente de qualquer Deus ou Diabo que você acredite, você é uma ameaça para todos que valorizam a razão e um inimigo da filosofia racional do satanismo consubstanciado na Igreja de Satanás. Secularistas colegas, peço em nome de suas memórias que sejam longas e vivas, de modo que ambas as posturas intelectuais e emocionais não irão tolerar a peste de tais crenças e as consequências inevitáveis ​​provocadas por seus seguidores lunáticos.

A fé mata. A prova é escrita com sangue em toda as crônicas da civilização humana.

“No primeiro aniversário do 11/9 “

 Por Magus Peter H. Gilmore

Hoje é um dia de recordação. Muitas pessoas estão relembrando os parentes e amigos que foram assassinados por terroristas há um ano atrás em ataques ao Pentágono e ao World Trade Center. Satanistas compreendem e lamentam profundamente seus pesares, pois a perda imerecida da vida é uma parte trágica da existência humana que pode tocar a todos nós. Nossos corações estão com eles.

No entanto, também nos lembramos de algo de maior importância. Entendemos que a origem deste dia de luto é a convicção, realizada por fanáticos fundamentalistas, que qualquer ato de violência contra aqueles que não compartilham sua devoção é defendida por seu Deus. Os acontecimentos de 11/9 são prova absoluta do perigo de tais sistemas de crenças espirituais, que mantêm que apenas algumas pessoas têm uma conexão direta com a divindade, e que qualquer um que não concorde com a sua “verdade” é visto como menos humano, uma ameaça à sua “fé” que sobrenaturalmente sanciona seu extermínio.

Enquanto o hipócrita de muitas religiões espirituais entrará em seus espaços sagrados hoje, agradecendo ao seu Deus ou deuses por atos de heroísmo realizados pelos indivíduos valentes em resposta a essa tragédia, as pessoas presunçosamente se esquecem de que o seu Deus não fez nada para impedir esses desastres humanos iniciados. Responsabilidade por aquilo que julgam ser bom é atribuído à sua divindade, enquanto que a responsabilidade pelo que é considerado mal deve, em sua visão limitada, ser originário de outros países e, provavelmente, daqueles que têm crenças diferentes. Eles vão deixar de ver que tal perspectiva é partilhada pelos terroristas. Mais importante do que isso, essas pessoas também vão deixar de recordar que, ao longo dos séculos, muito mais pessoas têm sido abatidos pelos seguidores de religiões, incluindo espirituais que foram mortos pelos terroristas islâmicos em 11 de setembro de 2001. Há sangue nas mãos dos antepassados ​​de quem reza em seus santuários, hoje, e isso é um fato que deve ser apreciado, tanto quanto nós. Milhões de pessoas já morreram por causa de adoradores fanáticos que se recusaram a permitir que outros valores diferentes dos seus possam ter validade como para aqueles que os possuem.

Nós satanistas, bem como outros que compreendem a importância de manter uma sociedade secular que permita a diversidade de crença e não-crença, vamos lembrar essa triste verdade hoje. Fanáticos fundamentalistas, independentemente de qual divindade que eles adoram, são a maior ameaça à liberdade humana em nossa civilização. 11 de setembro deve ser apoiado como um memorial em todo o mundo para suas vítimas do passado e do presente. Lembre-se deste dia de fúria. Não abaixe a cabeça em gesto de oração, mas erga seu queixo em desafio. Ouça o clangor de bronze do sino funerário. Quebre a complacência, em memória do que aconteceu. Não vamos perdoar, nem devemos esquecer.

Por Magus Peter H. Gilmore. Tradução: Nathalia Claro.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/a-loucura-assassina-do-teismo/

Lenda Urbana: Xuxa Bruxa

Shirlei Massapust

Desde o fim da oitava década do século XX até a início do século XXI eu cansei de ouvir narrativas de religiosos fundamentalistas, membros de denominações cristãs, as quais afirmavam que a modelo e atriz brasileira Maria da Graça “Xuxa” Menenguel teria feito um pacto com o Diabo. Em torno dessa invencionice surgiram lendas urbanas, inclusive aquela onde todas as bonecas da Mimo estriam sujeitas a possessão diabólica.

Xuxa tornou-se um alvo favorito da crítica fundamentalista por várias razões: Ela é mulher, sexo favorito das mitológicas investidas do diabo desde a tentação de Eva. É uma profissional bem-sucedida do invejado meio artístico. Alcançou fama e fortuna por mérito, mas de forma tão súbita quanto o Fausto da ficção de Goethe. Xuxa ditava moda e influenciava a educação das crianças. Dizem – não sei se é verdade – que ela hospedava o amigo Michael Jackson (1958-2009) quando ele vinha ao Brasil a passeio e ele retribuía o favor recebendo-a no rancho Neverland, em Santa Ynez, nos EUA.

Xuxa teve a má sorte de vincular sua imagem como garota propaganda da loteria Papatudo, um empreendimento da Interrunion que faliu sem quitar alguns prêmios. Seu primeiro programa, assim como o restante da programação da rede Globo de televisão, conforme exibida à época, foi severamente criticado no documentário Beyond Citizen Kane (1993), dirigido por Simon Hartog para o Channel Four da Inglaterra.[1]

Todas as narrativas sobre pactos diabólicos estão amparadas por evidências forjadas e fatos distorcidos. Por exemplo, após conversar com o músico e compositor estadunidense Steven Edward Duren, da banda W.A.S.P., o vocalista e baixista israelita Genne Simmons (Chaim Witz) deixou-se fotografar fantasiado de Satã, fazendo o ideograma “eu te amo” da linguagem de sinais (ASL). Com a diferença da posição do dedão, este é quase o mesmo ideograma para “chifes” popular entre roqueiros, que consiste em fechar as mãos levantando os dedos indicador e mindinho. Daí a paródia na foto que apareceu na capa do álbum Love Gun (1977), da banda Kiss.

A intenção de Genne Simmons foi usar sua imagem para denunciar os horrores da guerra. Porém pessoas ignorantes entenderam aquilo como um sinal identificador de cultistas do diabo. Daí em diante lendas urbanas rotulariam indiscriminadamente a todos os demais artistas que fizessem o mesmo sinal sem possuir deficiência auditiva. E Xuxa exibia tal sinal à plateia, com frequência, na intenção de incentivar o interesse do público infanto-juvenil por métodos de acessibilidade. No programa Xou da Xuxa (30/06/1986-31/12/1992), até o surfista Moderninho – marionete criada por Reinaldo Waisman – usava o “eu te amo”, em LIBRAS, como variante do hang loose, dizendo “Yeah Yeah”.

Lições de resistência à influência da melancolia

A coisa mais parecida com um pacto diabólico que os fãs da dita “Rainha dos Baixinhos” a viram fazer foi uma cena do filme Super Xuxa Contra o Baixo Astral (1988) onde o vilão Baixo Astral, interpretado por Guilherme Karan, anuncia que o cãozinho Xuxo morreu por falta de cuidado. Xuxa fica tão deprimida que se deixa convencer que também ela é “uma pessoa má”, assume um visual sombrio com maquilagem carregada, unhas pretas e dentes deformados. Então eles dançam trocando promessas de um eterno pesadelo até que, no fim, a farsa é revelada e tudo volta ao normal.

Xuxa quase aceitando a aliança proposta pelo Baixo Astral.

(Cena capturada do VHS e tratada no Photoshop com o efeito watercolor).

O roteiro de Super Xuxa Contra o Baixo Astral (1988) foi notoriamente inspirado a um nível antropofágico no filme Legend (1985), onde a Princesa Lili (Mia Sara) muda de aparência sob o encanto do antagonista Darkness (Tim Curry). Outro tema icônico de dança em filmes de Jim Henson é a cena de Sarah (Jennifer Connelly) na festa a fantasia, com Jareth (David Bowie), o rei dos goblins, em Labyrinth (1986).

Tudo isso é fantasia e a mera ficção não deveria ser misturada com realidade. Mas o que os narradores de teorias estapafúrdias fazem? Eles recortam cenas do filme onde Tim Curry parece interpretar um diabo vermelho com cornos enormes e montam vídeos de batalha espiritual como se o personagem cinematográfico fosse o verdadeiro Diabo. Quem faz a imitação diabólica, claro, nesta lógica, deve se pactuante confesso.

O que a Xuxa fala sobre passes e magia?

Pessoas ingênuas tendem a confundir Xuxa (apelido) com Xuxa (personagem), assim como confundem José Mojica (ator) com Zé do Caixão (personagem). Nós não podemos cometer esse erro. Durante a coreografia da música Tindolelê, composta por Cid Guerreiro em parceria com Dito, a apresentadora Maria da Graça Menenguel, interpretando sua personagem Xuxa, inequivocamente solicitava que a plateia do auditório simulasse um passe, gritando: “Levante a mão passando energia!”

O objetivo da personagem era transmitir o alto astral, pois a Xuxa contém duas personas. Sem jamais repetir uma roupa, a Xuxa feliz alterna as cores vívidas do arco-íris de energia, cujo significado holístico é revelado na melodia “Arco-íris”, escrita por Sullivan, Massadas e Ana Penido, para o álbum Xou da Xuxa 3 (1998).

Com o azul eu vou sentir tranquilidade
O laranja tem sabor de amizade
Com o verde eu tenho a esperança
Que existe em qualquer criança
E enfeitar o céu nas cores do amor
No amarelo um sorriso
Pra iluminar feito o sol tem o seu lugar
Brilha dentro da gente
Violeta mais uma cor que já vai chegar
O vermelho pra completar meu arco-íris no ar
Toda cor têm em si
Uma luz, uma certa magia
Toda cor têm em si
Emoções em forma de poesia

Francamente penso que tanta gente insiste em diferenciar “esoterismo” com “s” da palavra inexistente “exoterismo” com “x” por causa do jargão sui generis da Xuxa.

Quando está de alto astral a personagem tem medo das assombrações do Trem Fantasma (1990); mas a Xuxa de baixo astral é punk gótica, veste preto, controla os fantasmas e caveiras mirins que saem das tumbas em Tumbalacatumba (2008), ordenando que façam várias coisas, inclusive pintar as unhas de preto, igual a ela.

No fim das contas nem o maligno é tão malvado ou, se for, nunca logra êxito no que faz. O temível trem fantasma “parou”, as caveiras voltaram para a tumba, os maus conselhos sempre se voltavam contra a Bruxa Keka no programa Xuxa no Mundo da Imaginação (2002-2004). A energia positiva prevalece no clima esotérico de Xuxa e os Duendes (2001). Os detalhes sombrios se dispersam com o poder da alegria juvenil.

Xuxa beijou a cruz invertida?

Na campanha Criança Esperança 2005 a Xuxa apareceu vestindo figurino completamente preto para destacar a brancura da roupa da filha Sasha durante a primeira apresentação da nova atriz mirim na TV. Além da roupa, Xuxa estava usando uma joia com motivo abstrato composto por um aglomerado de contas pretas. No vídeo de alta qualidade captado pelas câmeras da Globo dava para ver que eram contas, mas em cenas capturadas por terceiros e transformadas em fotos com resolução reduzida o pingente ficou idêntico à Cruz de Pedro da simbologia católica e gnóstica.

Os teóricos do pacto foram à farra com esta ilusão óptica[2] porque, além do Papa, os góticos, os punks e outras tribos urbanas às vezes usam a legitima cruz invertida por razões religiosas ou meramente estéticas. Isso foi noticiado em vários lugares. Criaram até uma comunidade no Orkut chamada “Xuxa faz cruz Invertida na TV”.

Posteriormente, na comemoração dos vinte e cinco anos da TV Xuxa, a apresentadora estava usando um rosário comum com uma cruz latina e, quando pegou o pingente para beijar, de novo, a coisa ficou parecendo uma Cruz de Pedro.[3]

Então suponhamos que alguém resolvesse sair por aí usando e beijando uma Cruz de Pedro. Vamos falar desta cruz? Atualmente numerosos impressos de batalha espiritual sustentam que a cruz invertida representa ideologia adversa à doutrina cristã. Bandas de black metal costumam distorcer seu significado, a exemplo do que vemos na capa do álbum Profana la Cruz del Nazareno (2008) da banda Morbosidad. Entretanto, a própria igreja católica utiliza a Cruz de Pedro em seus padrões iconográficos.

Segundo Orígenes (256 d.C.) a inversão da cruz foi uma ideia de São Pedro que pediu aos captores romanos que pudesse ser martirizado desta forma, de cabeça para baixo (EUSEBIO. História Eclesiástica, III, 1.).[4] Um texto apócrifo reproduz seu discurso:

Eu vos suplico, carrascos, que me crucifiqueis assim, com a cabeça para baixo e não de outra maneira (…) porque o primeiro homem, da raça de quem eu tenho a semelhança, caiu com a cabeça para a frente, mostrando assim uma maneira de nascimento que não existia até então. (…) Assim, tendo ele sido puxado para baixo (…) estabeleceu toda esta disposição para todas as coisas, tendo dependurado para cima uma imagem da criação, pela qual fazia as coisas da mão esquerda serem tomadas pela mão direita e as da mão direita pela mão esquerda, mudando todas as marcas de sua natureza, de modo que ele pensou que as coisas que não eram justas fossem justas, e as coisas que na verdade eram más, fossem boas… E a figura que estais vendo de mim aqui dependurado é a representação daquele homem que foi o primeiro a nascer. (Os Atos de Pedro 37).[5]

Segundo a lenda, a intenção de Pedro era não ser confundido com Jesus e, uma vez condenado à morte, desejou imitar o nascimento dos bebês. No ano 1750 a igreja católica proibiu os atos de devoção extremados duma seita de flagelantes parisiense. As lesões corporais com consentimento das vítimas incluíam a crucificação comum e a crucificação invertida que “devia ter lugar com os pés para cima e a cabeça para baixo”.[6] A polícia pôs fim à seita quando foram reportados óbitos e incapacitações. A maioria dos flagelados eram mulheres (freiras e devotas) e os flagelantes homens (padres).

A lenda urbana do pacto da Xuxa

Dizer que inúmeros famosos e pessoas proeminentes na sociedade venceram na vida frequentando giras de Exu, fazendo despacho, etc., é um método da propagada pró e contra religiões de matrizes africanas no Brasil, desde a época em que a liberdade de culto ainda não era um direito constitucional. O jornalista João do Rio (1881-1921) ouviu narrativas de negros babalorixás acostumados a fazer feitiço de amarração com panos de seda, fios de cabelo louro e cartas escritas em inglês cursivo, fornecidas pela nata da sociedade carioca. Parece que todo mundo batucava escondido.

A polícia visita essas casas como consulente (…). Eu vi senhoras de alta posição saltando, às escondidas, de carros de praça, como nos folhetins de romances, para correr, tapando a cara com véus espessos, a essas casas; eu vi sessões em que mãos enluvadas tiravam das carteiras ricas notas (…). Um babaloxá da costa da Guiné guardou-me dois dias as suas ordens para acompanhá-lo aos lugares onde havia serviço, e eu o vi entrar misteriosamente em casas de Botafogo e da Tijuca, onde, durante o inverno, há recepções e conversationes às 5 da tarde como em Paris e nos palácios da Itália (…). Noutro dia, tílburis paravam à porta, cavalheiros saltavam, pelo corredor estreito desfilava um resumo da nossa sociedade, desde os homens de posição às prostitutas derrancadas, com escala pelas criadas particulares[7].

É uma lástima que tudo que dizem sobre os frequentadores de terreiros não seja sempre verdade, pois seria ótimo se todas as personalidades formadoras de opinião convocassem gente de todas as etnias e classes sociais a uma reunião onde impera a empatia, a igualdade e o respeito; onde a felicidade é encontrada num passe de mágica.

Desgraçadamente, ao invés de servir ao melhor propósito, tanto a propaganda quanto a crítica – da forma como é feita hoje – objetivam emprestar prestígio merecido ou forjado a um templo particular; ou ainda depreciar templos e religiões em conjunto.

Um dos primeiros “paquitos” que dançavam e cantavam na equipe da Xuxa foi o “Xand”, hoje Pastor Alexandre Canhodre, que estudou teologia na Igreja Renascer em Cristo. Em 2010 ele deu entrevista afirmando ter sido escolhido para aquela vaga de emprego não por mérito e boa aparência, mas pela graça do Diabo:

Aos 17 anos me surgiu a oportunidade de fazer o teste para o Xou da Xuxa (…). Fiquei quatro anos aproximadamente no programa (…). Eu (…) frequentava todos os centros de Umbanda, Candomblé, magia negra, missa negra e vodu. Fui convidado por uma comunidade da Ku Klux Kan, maçonaria; via óvnis e discos voadores (…). Tinha em casa imagens de todo o tipo: Desde Aparecida até do Tranca Ruas (…). Eu tinha mais de sessenta imagens e sempre andava com uma estátua do Tranca Ruas em minha bolsa, um Exu Caveira e Maria Padilha. Também vendi minha alma ao diabo, oferecendo comida e bebida aos santos e fazendo pactos com eles para conseguir minha projeção artística (…). Em 1992 (…) pedi minha rescisão de contrato (…). Quando me rendi a Jesus, queimei todas as lembranças da época que eu era paquito da Xuxa (…). Reneguei meu passado e renunciei.[8]

Será que o paquito diz a verdade quando afirma ter construído um congá com seis dezenas de imagens em sua própria casa? Será que ele convidava os colegas de trabalho para assistir festas de Exu, tomar passes e receber axé? Será que conseguiu convencer os colegas da necessidade de rogar a Exu para abrir caminhos, trazer saúde, dinheiro, prosperidade, etc.? Será que Cid Guerreiro, Dito e Ceinha fizeram a música Ilariê, gravada pela Xuxa em 1987, na intenção de remeter por cacofonia à saudação “laroiê” do idioma jeje-nagô? Nada disso foi confirmado por outros testemunhos.

Existe um método na loucura fundamentalista. Primeiro os narradores de lendas urbanas compilam e interpretam fatos conhecidos. Cada singularidade adere ao rótulo pré-concebido do “artista herege” e passa a servir para atacar a coletividade. O parecido se torna igual quando, por exemplo, o sinal de amor da linguagem dos surdos mudos vira a mano cornuta. Não existem limites para a interpolação.

Após identificar as marcas do diabo, os guerreiros de deus se inserem como protagonistas da estória. É por isso que existe a mulher chamada Xuxa, a personagem chamada Xuxa e uma entidade abstrata chamada Xuxa, tão mitológica quanto o Saci, a Mula Sem Cabeça e a Loira do Banheiro. Essa última é a Xuxa Bruxa, satânica, que fabrica bonecas assassinas e faz crianças sofrerem de epilepsia subliminar.

Xand afirmou ter levado CDs gravados por ele mesmo para um terreiro onde “consagrava ao diabo” antes de vender. Igualmente, antes dele, o Pastor evangélico Francisco José Vieira Guedes (1960-2018), alcunhado “Tio Chico”, já costumava pregar aos fiéis congregados na Igreja Evangélica Ministério Solar, em Belo Horizonte.

Em seu testemunho de fé, alegava ter sido o pai de santo de confiança do empresário e jornalista Roberto Pisani Marinho (1904-2003), proprietário do Grupo Globo de 1925 a 2003, e que toda programação gravada no Projac, no Rio de Janeiro, era enviada para um terreiro de Umbanda situado no subsolo duma rua paulista onde recebia a aprovação dos Orixás. Numa gravação de uma de suas pregações, ele fala do suposto pacto feito pela Xuxa:

Eu conheci a Xuxa através do primeiro pai de santo dela, de nome Tadeu de Oxosi (…). Ela era simplesmente modelo: Trabalhava na Rede Manchete (…). Ela disse: “Tio Chico, eu sou filha de santo do Tadeu. Quero ser rica e famosa e quero trabalhar na melhor emissora de televisão do mundo, a Rede Globo” (…). Orientei a Maria das Graças sobre o que teria que fazer (…). Ela fez dois pactos. O primeiro ela fez com Exu Mirim: Uma entidade que vem como menino, como criança (…). Ela não podia dizer o nome de Jesus. Senão seria quebrado o pacto. (Transcrição de um vídeo do YouTube).[9]

A missionária Elizabete Marinho repete e continua:

A palavra Xuxa significa Xuxieli, que significa “Rainha de pequenos demônios”. Xuxa fez pacto com Exu Mirim e Caboclo Ilariê. Quando ela canta essa música é um louvor a esse caboclo. Xuxa não pode falar de Jesus, senão quebra o pacto com Lúcifer, e ela vai perdendo os bens materiais. Ela pode falar Deus, pois existem vários deuses. Por isso, na música Lua de Cristal, ela diz: “Tudo que eu quiser o Cara Lá de Cima vai me dar…” (…) O pacto da Xuxa foi feito em sua própria casa. A boneca Xuxa pertence à bruxaria. Há alguns anos atrás uma dessas bonecas estrangulou uma criança. (…) O filme Xuxa e os Duendes (…) baseado em lendas e na crença de Xuxa Meneguel em tais contos, vem agradando o seu público alvo: Crianças em idade pré-escolar, promovendo a simpatia de todos por criaturas monstruosas e diabólicas. (…) A grande jogada de marketing talvez tenha ficado por conta das declarações de Maria da Graça: “Eu já vi duendes”, disse ela à imprensa durante a coletiva de lançamento do filme.[10]

Na verdade, Xuxieli é o nome fantasia de uma indústria de calçados de Novo Hamburgo. Não existe Caboclo Ilariê em Umbanda. A censura prévia da programação da Globo prezava pela garantia constitucional às liberdades lacas; por isso não enaltecia nenhuma crença em particular. Boneca da Xuxa estrangulando crianças?! É risível, mas Renata Gonçalves Pereira explica que a lenda nasceu em 1989, na cidade de Sorocaba, São Paulo, quando a mídia noticiou a captura duma boneca homicida que teria acabado acorrentada no Museu Sacro da Catedral Metropolitana de Nossa Senhora da Ponte.

Na verdade, existem duas versões da lenda, a primeira dizia que uma menina dormia com uma boneca da Xuxa na noite do dia das crianças. Então, o brinquedo teria assumido a forma de uma pessoa com garras, seios fartos e olhos demoníacos e matado a criança esganada.

No entanto, a segunda versão da lenda é mais elaborada, onde dizia que uma menina humilde via os anúncios da boneca na TV e insistia que queria ganhar uma. Porém, sua mãe estava desempregada e era pedinte na praça principal da cidade. Então, cansada de ouvir a insistência da menina, a mãe fala ironicamente que só compraria a boneca caso “o diabo mandasse o dinheiro”. E, assim, no outro dia, apareceu um montante com a quantia exata para comprar a boneca.

Dessa forma, a mãe cumpriu sua promessa e comprou o brinquedo, dando de presente para a filha no dia das crianças daquele ano. Mas, enquanto a menina dormia com a boneca, ela assumiu uma forma assustadora e acabou matando a menina. Por fim, a mãe levou a boneca até a igreja para que fosse exorcizada e destruída.

Na época, o caso foi noticiado com destaque em vários jornais, como o Cruzeiro do Sul, Diário de Sorocaba e O Estado de São Paulo. (…). Uma multidão foi até a igreja em novembro de 1989 para encontrar a tal boneca assassina. Pois, acreditavam que a boneca estivesse acorrentada no Museu Diocesano de Arte Sacra, nas galerias da igreja Catedral. (…) O monsenhor Mauro Vallini que era o pároco da matriz, precisou fechar as portas da igreja para minimizar o tumulto. Logo depois, procurou a imprensa e a polícia para avisar que toda aquela história era apenas um boato. Mas, as histórias não cessaram, pelo contrário, se espalhou pelo país e em Minas Gerais, uma criança teria achado uma faca dentro da boneca Xuxa. Então, atendendo uma ordem do brinquedo, ela pegou a faca e matou sua mãe.

Atualmente, o pároco da Catedral, Tadeus Rocha Moraes, disse (…) que não há nenhuma boneca guardada nas dependências da matriz. (…) Recentemente, a Netflix divulgou um vídeo em seu canal no Youtube, onde a boneca da Xuxa era uma enviada do Mundo Invertido dos anos 80. Em suma, a brincadeira recria um quarto de criança da época com outras referências ao período, onde o brinquedo está em um canto escuro do quarto. (…) Os olhos da boneca se acendem diabolicamente e com uma voz assustadora ela invoca o temível Demogorgon. (…) Inclusive, a própria Xuxa participa do vídeo da Netflix, fazendo uma rápida narração avisando sobre os novos episódios da série Stranger Things que já estavam disponíveis.[11]

A lenda urbana não morreu com o tempo e o brinquedo vintage continuou a fazer vítimas. Por exemplo, em 2007 uma crédula Vanessa escreveu numa rede social:

Eu amo bonecas, mas tem uma que eu odeio. A Xuxa é assassina! Quando eu nasci minha irmã tinha essa maldita e ela caiu na minha cabeça. Ela tentou me matar e olha que eu estava no colo da minha mãe… Fui parar no pronto socorro com a cabeça amassada graças a essa maldita! Fiquei internada em observação. Até hoje acho que minha cabeça é amassada! Mas não ficou nenhuma sequela grave.[12]

Outra versão sobre o pacto da Xuxa me foi narrada por volta de 2005 pelo Pastor Guilherme, da IURD, que afirmou sem provas que a pactuante teria se comprometido a mudar de orientação sexual perante Exu, incorporado no médium Renato Aragão. Ele insistiu com tremenda convicção, gesticulando como se tivesse um papel em suas mãos vazias, que havia obtido a escritura em nome da Xuxa da compra dum “barracão velho e imundo” onde Didi (Renato Aragão) atuaria como Pai de Santo.

Pesquisando descobri que, de fato, existe um Pai de Santo Didi atuando no Axê Opó Afonja – Ilê fundado por Eugênia Anna dos Santos em 1910, – mas este se chama Deoscoredes M. dos Santos e não possui nenhuma relação com o ator Renato Aragão.

Seu irmão, José Ribeiro de Souza, narrou sobre eventos intermediados pelo guia Tranca Ruas das Almas, baixado no Terreiro de Yansã Egun Nitá. Segundo afirma, o cantor Roberto Carlos e o Cabeleireiro Silvinho[13] visitaram aquele local para pedir axé, a atriz global Wilza Carla e a cantora Emilinha Borba foram curadas de doenças participando de giras, o detetive policial Fernando Gargaglione prendeu um fugitivo localizado por meios mediúnicos, etc.[14] A Xuxa, contudo, nunca esteve lá.

O que a atriz faz que a personagem não faz?

No início da sua vida profissional Maria da Graça Menenguel trabalhava como modelo ostentando todo tipo de figurinos ousados conforme os usos e costumes da indústria da moda. Algumas vezes os contratantes solicitavam que ela descobrisse os seios ou glúteos nas fotos publicadas em revistas femininas de alta tiragem. Isto não era e nem deveria ser motivo de vergonha ou reprovação social, pois o nu artístico é um trabalho perfeitamente digno para modelos profissionais.

De acordo com o Ricardo Setti, na Veja online, a Xuxa posou nua em cinco oportunidades na extinta revista Ele & Ela, da Bloch Editores. Depois, em 1982 tanto ela Xuxa quanto sua irmã Maruska posaram para a revista Playboy:

Não era tanto material como muita gente poderia imaginar. Xuxa, na verdade, protagonizou apenas um único ensaio para Playboy, publicado na edição de 7º aniversário, em agosto de 1982, e ao lado da irmã Maruska. As chamadas de capa falavam em “Segredo de família” e “As fotos que Pelé quase proibiu”. Fotos desse ensaio, algumas inéditas, seriam depois republicadas, em diferentes edições. A última de todas seria um pôster na edição de 10º aniversário, concessão que Mário obteve de Pelé no finzinho da reunião.[15]

Paralelamente ocorreu a estreia nos cinemas do filme Amor Estranho Amor (1982), dirigido pelo respeitado cineasta Walter Hugo Khouri, onde Xuxa atuou no papel da personagem coadjuvante Tamara, uma jovem apaixonada por um menino, mas que teve sua virgindade leiloada no início da vida como garota de programa. A fúria da critica se deve ao fato de a atriz ter coberto o ator mirim Marcelo Ribeiro de beijos técnicos.

Em 1986 ela assinou contrato de exclusividade com a Rede Globo e mudou completamente de vida. A celebridade só voltou a posar com os seios à mostra no ano 2000, durante o desfile do 9º Morumbi Fashion Brasil, onde alternou diversas peças da coleção de Lino Villaventura.

Poucos dias antes um fã arrematou uma revista com um nu artístico por R$ 2000,00, num leilão promovido pelo Raul Barbosa, e levou juntamente com outras peças pedindo-a que renegasse seu passado queimando tudo. Isso saiu nos jornais e a Xuxa reagiu com a corajosa atitude de desfilar novamente quatorze anos depois do seu último desfile, provando assim que não se envergonhava do seu primeiro emprego.

Detalhe: Nem a TV Globo se incomoda com provocações. Do contrário não teriam permitido a criação da personagem Cacilda, da Escolinha do Professor Raimundo, em 1990. Cacilda (Cláudia Jimenez) era uma versão ninfomaníaca da Xuxa que dizia “Comigo é assim: Beijinho-Beijinho, Pau-Pau”, parodiando o bordão da outra atriz “Beijinho-Beijinho, Tchau-Tchau”.

Falsos indícios de lesbianismo

A missionária Elizabete Marinho é uma das muitas pessoas que afirmam que a Xuxa não pode ter relação sexual com o sexo oposto por causa duma exigência do diabo: “Ela pode namorar, casar, mas não pode ter relação com o seu parceiro”[16].

Os pastores que apregoam a lenda urbana concordam unanimemente que o pacto da Xuxa foi assinado em 1986. Vejam a magnitude da falta de lógica de tal argumento: Suponhamos que esta vítima da propaganda fundamentalista fizesse tudo que eles dizem da forma depravada e exagerada como eles narram. Para que o diabo mitológico, o rei da luxúria, o maior apreciador de todos os pecados, tiraria uma joia da sacanagem do seu inverificável ofício de musa de filmes pornô?[17] Que interesse o diabo teria em impedir uma bela dama de atiçar a imaginação masculina posando nua? Por que mandaria observar o celibato e educar crianças? Isso não faz sentido. Parece até que o tinhoso quiz perder para o céu uma alma cujo lugar no inferno já estaria garantido.

Na Umbanda o Filho de Ogum não precisa mudar de sexo só porque este orixá é associado a São Jorge, que combate um Dragão, e o rótulo “Drag Queen” é aplicado aos travestis. Porém a Umbanda é uma religião livre de preconceitos contra gêneros diversos e preferências estéticas divergentes. Logo, um travesti ou homossexual que se interesse sinceramente pelo culto de Ogum poderá ser eventualmente reconhecido como um legítimo Filho de Ogum. Isso laça um nó na cabeça dos conservadores que inventam estórias mirabolantes sobre umbandistas obrigados a mudar de sexo.

A matéria prima para construção de novos boatos surgiu depois que a Xuxa rompeu o namoro com o ainda jovem, bonito e rico futebolista Edson Arantes do Nascimento, mais conhecido como Pelé.

Quem em sã consciência faria uma coisa dessas? Só uma mulher de princípios inabaláveis que prefere trabalhar por conta própria a viver na dependência do marido. Ou então uma lésbica! Criaturas invejosas que nunca perderiam a oportunidade de dar o golpe da barriga num futebolista rico e famoso se apressaram em procurar indícios de lesbianismo, deduzindo que a empresária Marlene Matos era o novo homem da atriz.

Ato contínuo, pessoas inescrupulosas inventaram que a música Sorvetão foi feita por quem achava a paquita Andréa Faria gostosa de lamber[18]. A narrativa do Tio Chico, gravada em junho do ano 2002, continua afirmando que a Xuxa fez sexo lésbico com a missionária Lanna Holder, com a nadadora Joanna Maranhão, mais as cantoras Simony e Ivete Sangalo[19]. Esta última se defendeu numa entrevista à revista Playboy:

Como é que vou dizer: “Minha gente, nunca transei com a Xuxa?” Eu tenho vergonha de ter de falar isso. Por mais que eu desminta, não vai ser suficiente para suprimir essa necessidade do boato que vende. São vários problemas que uma fofoca dessas traz. Primeiro porque ela é minha amiga. Segundo porque eu não sou lésbica. Mas se eu fosse isso teria de ser respeitado.[20]

A missionária Lanna Holder também respondeu na sua antiga página oficial:

É chegado ao meu conhecimento por meio de e-mails, como de telefonemas, o falso testemunho que o Pastor Francisco (ex-tio Chico), tem dado ao meu respeito pelos púlpitos do Brasil. (…) Assim venho por meio desta nota, desmentir o testemunho do Pastor Francisco (…) ao qual foi por mim procurado há cerca de três meses atrás para esclarecimentos, porém o mesmo negou com veemência que tenha feito tal afirmativa. Minha tristeza é saber que ele esteja usando de acontecimentos do passado (meados de 1999 a 2000), quando esteve na época pregando na igreja do meu ex-sogro e hospedado por um dia no meu apartamento em Guarulhos, para abusar com maldade do ocorrido, alegando que na ocasião eu tenha lhe dito que tive um envolvimento com a Xuxa!

É estarrecedor o fato de que se houverem verdades em suas palavras e testemunho, das quais eu passei a duvidar após este ocorrido, seja acrescentada esta mentira ao meu respeito. (…) Assim aos que me procurarem questionando o testemunho deste pastor, fique assim esclarecido: Eu nunca tive um caso com a Xuxa. (…) “A pessoa que diz mentiras a respeito dos outros é tão perigosa quanto uma espada, um porrete ou uma flecha afiada” (Pv 25:18).[21]

Os fundamentalistas procuraram menções esparsas de rituais para lésbicas e inventaram a participação de toda essa gente nessa bazofia. Quando Ayrton Senna morreu tragicamente disseram que o acidente aconteceu por causa do ciúme do demônio, pois a Xuxa o estava namorando. Quando ela teve uma filha biológica com Luciano Zsafir disseram que a Sasha nasceu por inseminação artificial e que o bebezinho morreria caçado pelo demônio ciumento.[22]  Mesmo com inúmeras provas em contrário os fundamentalistas são extremamente cruéis e inventivos quando defendem suas crenças difamantes e injuriosas.

Mensagens subliminares inexistentes

Na época dos discos de vinil tinha muita gente que brincava de produzir sons disformes girando discos em sentido anti-horário com o dedo na vitrola. A garotada rodava qualquer disco ao revés para imitar vozes de demônios nas festas de Dia das Bruxas, etc. O problema é que certas pessoas começaram a acreditar que realmente existiam mensagens satânicas escondidas nos ruídos da rotação irregular.

Os teóricos do pacto inventaram que muitos artistas escondiam mensagens de adoração ao diabo nos discos de vinil para que as crianças e jovens dependentes do sustento familiar conseguissem pedir objetos de culto idólatra para pais cristãos. Ou seja, os filhos dos temerosos nunca ganhariam de presente um álbum dos Menudos chamado explicitamente Los Fantasmas (1977), mas poderiam lograr êxito na obtenção dum exemplar de nome venturoso, a exemplo de Los Últimos Héroes (1989) cuja música Não se Reprima conteria a frase oculta “Satanás Vive” em seu reverso.

Alguns músicos reagiram à demanda gerada pela curiosidade de verificar a lenda urbana. Eles inseriram mensagens verdadeiras na rotação inversa de discos de vinil para os consumidores procurarem. Por exemplo, na música Ilusão de Ótica da banda Engenheiros do Hawaii existem perguntas: “Por que você está ouvindo isto ao contrário? O que você está procurando, hein?” Em Empty Spaces da banda Pink Floyd a voz de Roger Waters felicita o descobridor do efeito especial: “Congratulations! You have just discovered the secret message”. Na rotação normal de My Darling Nikki, do Prince, uma letra deprimente fala sobre um rapaz usado como brinquedo sexual duma rapariga rica. Já na rotação invertida um coral entoa um louvor gospel: “Hello! How are you? I’m fine, because I know the Lord is comming!” Tal foi o cúmulo do deboche da superstição alheia.

Xuxa afirma que nunca inseriu gravações ao contrário nos seus vinis e isto deve ser verdade. Contudo, as inversões funcionam como os desenhos do teste psicológico dos borrões de Rorschach onde os pacientes são convidados a procurar significados plurais em manchas pretas.[23] Dizem que o álbum 4º Xou da Xuxa (1989) foi recolhido, queimado e relançado porque encontraram uma mensagem subliminar no reverso de Tindolelê. Por sorte minha irmã comprou aquele álbum lendário produzido por Michael Sulivan e Paulo Massadas no primeiro dia de lançamento e nós ouvimos um minúsculo pedaço que parecia defeituoso na rotação normal. Dava para ouvir crianças gritando algo extremamente parecido com a palavra “Liberdade” no reverso, por coincidência.

Não escutei nada inteligível ouvindo as várias outras músicas que foram tocadas de traz para frente, gravadas e legendadas pelos fundamentalistas, exceto na versão de Meu Cãozinho Xuxo invertida e editada por Rafael Hezadoff.[24] Não sei como ele fez isto, mas fez. Outros inverteram a mesma música sem sucesso.

Os produtores de vídeos de batalha espiritual que denunciam músicas invertidas legendadas muitas vezes editam impiedosamente as imagens do incêndio no estúdio F do Projac, ocorrido em 11/01/2001 durante gravações do programa Xuxa Park, inserindo alegações estapafúrdias de que o Diabo foi evocado para receber sacrifícios humanos.

Vivificação de brinquedos consagrados ao diabo

Conforme exposto, a lenda do brinquedo assassino é subproduto do dogma da consagração ao diabo de todos os objetos relacionados aos programas televisivos. Tudo que fosse consagrado teria algum vicio redibitório de natureza preternatural: Discos de vinil tocariam louvores à Satã e mensagens subliminares. Os bonecos da indústria Mimo, dos personagens Xuxa e Fofão, trariam uma peça perigosa no pescoço que se transforma em punhal para ferir ou ser usado como arma por crianças consumidoras.

Os fatos por traz da lenda eram muito diferentes. Crianças poderiam aprender o mínimo sobre fantasia e motivos ufológicos assistindo ao Xou da Xuxa. Não há produto mais digno duma menção honrosa do que a Xuxa africana, única boneca de etnia negra distribuída em larga escala no Brasil naquele ano!

Detalhe duma ilustração na caixa da boneca.

Uma curiosidade saiu no jornal EXTRA, da franquia O GLOBO, numa ocasião especialíssima. No dia 21/05/2014, durante uma sessão plenária em que a CCJ discutia o projeto de Lei 7672/2010, proibindo o tratamento cruel ou degradante de crianças pelos pais e responsáveis, o deputado e radialista Francisco Eurico da Silva (PSB-PE), pastor da Igreja Evangélica Assembleia de Deus, levantou gritando e usou linguagem abusiva para acusar a convidada Maria da Graça Menenguel de violentar o ator mirim Marcelo Ribeiro durante a gravação do filme Amor Estranho Amor (1982).

Xuxa não pôde se defender da injúria porque convidados não são autorizados a falar. Quatro dias depois João Arruda e Renato Machado publicaram que “uma das lendas urbanas famosas nos anos 80 dava conta de que a boneca da Xuxa atacava crianças a facadas”. Isto os motivou a criar uma charge onde um personagem inspirado no músico Psirico, tocando Lepo Lepo, revela uma mensagem subliminar escondida na rotação invertida dum disco enquanto o Pastor Eurico é sacrificado: “O deputado que ofendeu Xuxa não perde por esperar! A boneca da Xuxa vai dar várias facadas nele!”[25]

1) Deputado Pastor Eurico fugindo duma boneca assassina numa charge de João Arruda e Renato Machado. 2) Uma boneca da coleção “XUXA: Volta ao Mundo”, produzida pela indústria brasileira MIMO. Esta boneca morena de cabelos pretos, da primeira série baseada na apresentadora branca e loira, teve cor e vestuário definido na intenção de homenagear os povos e costumes africanos.

Quando a Xuxa se defendeu aconteceram coincidências assustadoras

Se um piloto não houvesse usado a máquina que caiu na Baía de Guanabara dia 12 de agosto de 2010 antes do previsto, a Xuxa provavelmente teria morrido numa sexta feira 13, vítima da queda do jatinho táxi aéreo, de prefixo PT-LXO, da OceanAir, que havia fretado para ir ao Recife participar de um desfile.

Curiosamente, naquela época ela estava aguardando o julgamento duma ação movida contra a Editora Gráfica Universal, cobrando danos morais e materiais causados pela publicação dum artigo escrito pelo missionário Josué Yrion, com título “Pacto com o Mal?”, matéria de capa do jornal Folha Universal, edição 855, de 2008.[26]

E se a estória do pacto fosse verdadeira?

O Brasil é um Estado laico onde existe garantia constitucional à liberdade de culto. Comete ato ilícito quem injuria, difama ou calunia toda e qualquer pessoa que adquire figuras sincréticas de diabos vermelhos em lojas de artigos religiosos. Também não há lei que proíba brasileiros de serem homossexuais. Pelo contrário, homofobia é crime. É imputável quem injuria o homossexual ou difama quem não é homossexual afirmando falsamente que seja (assim como fizeram com a Xuxa).

Conclusão: Ainda que a Xuxa fosse bissexual ou lésbica (não é) e houvesse feito (não fez) um pacto às escondidas com intermédio do Tio Chico, ou do Alexandre Canhodre, ou do Didi, ou frequentasse terreiros, ou fizesse macumba por conta própria, se o público não a viu realizando estas atividades é como se chovesse canivete no deserto. E mesmo se ela tivesse feito tudo isso não teria cometido nenhum ato ilícito.

Quanto as bonecas da Mimo, eu tive quatro na minha coleção particular. Nunca as vi mexer e nunca sonhei com nenhuma elas, apesar de minha neuro-divergência. Como ouço vozes e tenho outras alucinações, sou sujeita a alterações espontâneas de consciência que apresentam uma perspectiva onde coisas podem dialogar e bonecos interagem. Porém, mesmo assim, as xuxinhas sempre se comportaram como objetos inanimados normais, não despertando em mim nenhum gatilho.

 

Notas

[1] Este filme foi banido do Brasil, graças a um processo judicial cuja causa foi ganha pela Globo, mas até hoje cópias caseiras são assistidas e debatidas nos meios universitário e acadêmico. Também acabou ovacionado pelo partido dos trabalhadores e sua base aliada (são eles os heróis do filme).

[2] Quando a Leilah Moreno ganhou o concurso de calouros do programa Raul Gil, em 2002, ela cantou pela última vez usando um enorme pingente de estrela de cinco pontas invertida (com duas pontas para cima). A escolha foi incomum, pois naquela ocasião ela ganhou o direito de gravar um álbum gospel (não era tema livre). A Record nada fez para impedir a exibição da bijuteria, nem os patrocinadores que arquivaram imagens da futura protagonista da série global Antônia (2006-2007) com isto, cantando uma música da banda Guns N’ Roses.

[3] XUXA DA UM BEIJO NA CRUZ INVERTIDA? Em: Unidos na Fé. Publicado em 07/12/2011 às 06:56h. URL: <http://www.unidosnafe.com.br/joomla1.5/latest/xuxa-da-um-beijo-na-cruz-invertida-um-descuido-ou-proposital>.

[4] O’GRADY, Joan. Satã. Trad. José Antonio Ceschim. São Paulo, Mercuryo, 1989, p 30.

[5] O’GRADY, Joan. Satã. Trad. José Antonio Ceschim. São Paulo, Mercuryo, 1989, p 28-29.

[6] DUMAS, François Ribadeau. Arquivos Secretos da Feitiçaria e da Magia Negra. Trad. M. Rodrigues Martins. Lisboa, Edições 70, 1971, p 174.

[7] BARRETO, Paulo. As Religiões do Rio. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1976, p 39-40.

[8] EPOCAESTADO BRASIL URL: <http://epocaestadobrasil.wordpress.com/2008/11/26/processo-xuxa-quer-r5-milhoes-da-band-e-r-3-milhoes-de-jornal-caso-venca-o-processo/>. Acessado em: 16/05/2013 às 15:49h.

[9] Nesta gravação Tio Chico continua afirmando que o primeiro pacto foi quebrado quando a cantora evangélica Aline Barros cantou a música Consagração no Xou da Xuxa. Então foi necessário realizar um “pacto de sangue” mais forte, “feio e escandaloso” que usou como ingrediente a menstruação da pactuante. Tal rito de sexo oral não pertence à Umbanda, mas existe um precedente no opúsculo De Arte Magica (1914) onde Edward Alexander Crowley acusa a atriz Mina Bergson (1865-1928) de praticar vampirismo bebendo e/ou dando de beber sangue uterino. Isto é amplamente citado nas obras norte-americanas de batalha espiritual, sobretudo na autobiografia do pastor Willian Schnoebelen, Lucifer Dethroned (1993), porque Kenneth Grant dedicou um capítulo de The Magical Revival (1972) àquele rito antes de se tornar chefe internacional da Ordo Templi Orientis (O.T.O.).

[10] MARINHO, Elizabete Venceslau. A Bela Face do Mal. Paraná, Deus é Fiel, p 38-39.

[11] PEREIRA, Renata Gonçalves. Boneca da Xuxa – Conheça a lenda urbana assustadora de 1989. Em: SEGREDOS DO MUNDO. Acessado em 16/05/2022, 18h37. URL: <https://segredosdomundo.r7.com/boneca-da-xuxa/>.

[12] Mensagens de Vanessa publicada na comunidade “Bonecas, objetos do mal?”, na rede social Orkut (atualmente desativada), publicada em 13/05/2007 e 14/05/2007.

[13] De acordo com José Ribeiro de Souza o cabeleireiro Silvinho participava do júri do programa do Chacrinha e precisava de sorte ou axé para ter seu próprio salão de beleza.

[14] SOUZA, José Ribeiro de & ROSA, Celso. Tranca Ruas das Almas. Rio de Janeiro, ECO, 1974, p 53-55.

[15] SETTI, Ricardo. Histórias Secretas de Playboy (4): O dia em que Pelé foi, pessoalmente, recolher todas as fotos de Xuxa nua. Em: VEJA. Acessado em: 16/05/2013 às 15:08h. URL: <http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/bytes-de-memoria/historias-secretas-de-playboy-5-o-dia-em-que-pele-foipessoalmente-recolher-todas-as-fotos-de-xuxa-nua/>.

[16] MARINHO, Elizabete Venceslau. A Bela Face do Mal. Paraná, Deus é Fiel, p 38.

[17] Os teóricos do pacto tentam forçar a confusão entre o Projac carioca e a Boca do Lixo paulista. Existem lendas restritas aos círculos de cinéfilos sobre fitas VHS de “clássicos pornôs” produzidos na Boca do Lixo onde a Xuxa seria vista praticando sexo anal, etc., com homens adultos e seu nome apareceria nos créditos finais. Dentre os que juram ter assistido os tais filmes “pesados”, ninguém divulga os títulos, certamente porque essas películas nunca existiram. Os mesmos cinéfilos costumam dizer que o anão Chumbinho – um ator de filmes pornô cujo nome real é desconhecido – fazia o papel do personagem Praga no Xou da Xuxa, apresentando como prova somente a baixa estatura do ator.

[18] A verdade é que a Andréa Faria foi ameaçada de demissão por causa do limite de peso estabelecido em contrato, mas nem assim parou de comer sorvetes.

[19] Na minha experiência percebi que as pessoas dão mais valor aos boatos e ínferas excentricidades do que aos fatos concretos. Durante do Festival de Verão de Salvador, em 2007, a produção da Ivete Sangalo escolheu um vestido branco muito curto para a cantora usar e ela fingiu estar possuída por uma entidade chamada “Piriguete Sangalo” no início do show. Os sensacionalistas se apressaram em editar o vídeo excluindo a parte onde a cantora explicou a brincadeira, deixando só a encenação dos movimentos frenéticos e voz alterada. Lembraram que a Ivete é “amiga da Xuxa” e colaram este vídeo com outros… Mas o que a Xuxa tinha a ver com isso? Ela nem estava presente naquele show da Ivete Sangalo.

[20] IVETE SANGALO NEGA TER FEITO SEXO COM XUXA. Em: Ego Notícias. Publicado em 06/11/2012. URL: <http://ego.globo.com/famosos/noticia/2012/11/revista-ivete-sangalo-nega-ter-feito-sexo-com-xuxa-nao-sou-lesbica.html>.

[21] LANNA HOLDER DESMENTE PASTOR FRANCISCO (EX-BRUXO TIO CHICO). Cópia em: O Verbo. Acessado em 16/05/2013 às 18:10h. URL: <http://www.overbo.com.br/lanna-holder-desmente-pastor-francisco-ex-bruxo-tio-chico/>.

[22] Anos atrás Tio Chico reagiu à comoção publica causada pela matéria de capa da Revista Contigo (nº 486, edição 1386, editada em 02/04/2002) intitulada “Sacha ameaçada de Sequestro: A agonia de Xuxa”. A gravação da pregação proferida em junho do ano 2002 afirma que as igrejas estavam fazendo de tudo pela conversão da Xuxa. Ele disse: “Pode esperar que ela vai se converter. Estou pedindo nas igrejas para interceder pela Maria das Graças Meneghel. Eu vou explicar por que. A Maria das Graças está numa situação muito difícil. Eu estive no Rio e falei com o Steve e com o pastor Marco lá em São João de Meriti. A Maria das Graças está indo, uma vez, na igreja Internacional da Graça de Deus do nosso amado irmão R. R. Soares. Ela vai, fica escondida no gabinete, não fica no salão junto com as pessoas. A segurança dela fica ali; porque o Diabo está ameaçando de matar a sua filha. (…) Então vamos orar pela Xuxa. (…) No segundo pacto que a Maria da Graça fez (…) não podia realizar o desejo de ser feliz e seu sonho: Casar. A Maria das Graças não pode coabitar. Não pode ter contato com homem. Aquela criança nasceu de inseminação artificial”.

[23] Também não é verdade que a cifra da tablatura de Tumbalacatumba copia o ritmo da bateria do início da musica I Don’t Wanna Stop de Ozzy Osbourne. Isso é pura lenda urbana.

[24] Na versão de Meu Cãozinho Xuxo invertida, distorcida e editada por Rafael Hezadoff a Xuxa parece choramingar as frases “Te levarei no mato”, “Isso é uma delícia” e “Meu anjo é o Diabo”.

[25] ARRUDA, João & MACHADO, Renato. Semana da Tia Lúcia: Fatos e Humor politicamente incorreto. Em: Jornal EXTRA. Domingo, 25 de maio de 2014, p 12.

[26] XUXA, IGREJA UNIVERSAL, DIABO E US$ 100 MILHÕES. Em: Espaço Vital – notícias jurídicas. Acessado em 16/05/2022, 17h53. URL: <https://www.espacovital.com.br/imprimir?id=26768&tipo=noticia>.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/lenda-urbana-xuxa-bruxa/