04/10 – Dia de São Francisco de Assis

São Francisco nasceu em 1182 em Assis, Itália. Filho de um comerciante rico, ele teve tempo e dinheiro para gastar com leituras e hospedar banquetes para os jovem nobres, que o proclamaram “O Rei de Banquetes”. Jovem e bonito, ansiou por uma vida de aventuras como cavaleiro. Assim, aos 20 anos entrou na guerra entre Assis e Perugia. Ao partir, jurou voltar consagrado cavaleiro. Foi ferido e feito prisioneiro. Passou um ano em um calabouço, onde contraiu malária. Resgatado por seu pai, voltou a Assis mais reflexivo. Ainda assim, o desejo de lutar pela “justiça” através das armas não o abandonou. Quando soube das vitórias militares do Conde Walter de Brienne voltou a querer ser um cavaleiro. A caminho de juntar-se a Brienne, Francisco parou em Spoleto e ouviu as notícias da morte de seu futuro ex-líder. Tomado pela depressão, sua malária retornou.

Uma noite, uma voz misteriosa perguntou a ele: “Quem você pensa que pode melhor recompensar você, o Mestre ou o empregado?” Francisco Respondeu, “O Mestre.” A voz continuou, “Então por que você deixa o Mestre pelo empregado?” Francisco percebeu que o empregado era o Conde Walter. Ele deixou Spoleto seguro de que Deus havia falado com ele. Durante os próximos dois anos Francisco sentiu uma força interna que o estava preparando para uma mudança. A visão de leprosos causava uma convulsão na alma sensível de Francisco. Um dia, enquanto montava seu cavalo, ele encontrou um leproso. Seu primeiro impulso era o de lançar uma moeda e esporear seu cavalo pra sair dali o mais rápido possível. Ao invés disso, Francisco desmontou, abraçou e beijou o leproso, dando-lhe uma bolsa de moedas. Muito depois, em seu leito morte, ele recordou o encontro como o momento de coroamento de sua conversão: “O que antes parecia amargo pra mim se converteu em doçura de alma e corpo”.

Passou a evitar a vida de banquetes e esportes ao lado de suas companhias habituais, que, em tom de brincadeira, perguntavam se ele estava pensando em casar. Ele respondeu “sim, com a mais formosa dama que vocês já viram”. Mais tarde saberíamos que ele se referia à Madonna Povertà – a Senhora Pobreza – como costumava dizer. Ele passou muito tempo em locais solitários, pedindo a Deus por Iluminação.

Após uma peregrinação à Roma, onde clamava pelos pobres nas portas das Igrejas, São Francisco volta a Assis e ora ante a imagem do Cristo Crucificado nas ruínas da Igreja de São Damião. No que pareceu-lhe ouvir claramente: “Francisco, Francisco, vai e repara minha casa, que, como podes ver, está em ruínas” Pensando tratar-se do velho templo onde se achava, agiu de pronto, vendendo o cavalo e os tecidos de seu pai, que tinha em mãos. Seu pai, indignado com o novo gênero de vida adotado por Francisco, após ameaças e castigos, queixou-se ao bispo Dom Guido III e, diante dele, pediu a Francisco que lhe devolvesse o dinheiro gasto. A resposta foi uma renúncia total à vultosa herança: tirou, ali mesmo na Igreja, as próprias vestes, e exclamou: “… doravante não direi mais pai Bernardone, mas Pai nosso que estás no céu…”

Ele se tornou um mendigo, e com o dinheiro dos viajantes ajudou a reconstruir mais três pequenas igrejas abandonadas: a de São Pedro, a de Porziuncola e a de Santa Maria dos Anjos, sua preferida (e lugar onde morreu).

Por essa época ouve um sermão que mudou sua vida. Era sobre Mateus 10:9, no qual Cristo fala aos seus seguidores que eles deveriam ir adiante e proclamar que o Reino de Céu estava neles, que não deveriam levar nenhum dinheiro com eles, nem mesmo uma bengala ou sapatos para a estrada. Assim, Francisco foi inspirado por esse sermão a se dedicar completamente a uma vida de pobreza. Suas humildes túnicas amarradas por um simples cordão levam até hoje três nós, são seus votos de: Pobreza, Obediência e Castidade. Começa a atrair outras pessoas com seus sermões, e em 1209 já são 11 companheiros de jornada. Frascisco recusa o título de padre, e a comunidade se dá o nome de Fratres minores (irmãos menores, em Latim). Eles vivem uma vida simples e alegre perto de Assis, sempre com muitas canções, embora fossem bastante sérios em suas pregações. Viviam em cabanas de taipa; suas igrejas eram modestas e pequenas; dormiam no chão. Não tinham cadeiras ou mesas, e possuíam poucos livros.

AS ORDENS

Em 1209 Francisco foi com seus 11 novos irmãos à Roma, buscar a permissão do Papa Inocêncio III para fundar uma ordem religiosa. O biógrafo Frei Boa Ventura conta que o Papa não quis aprovar logo a regra de vida proposta por Francisco, porque parecia estranha e por demais penosa às forças humanas no parecer de alguns cardeais. Mas o cardeal João de São Paulo, bispo de Sabina, intercedeu e disse a Francisco: “Meu filho, faze uma oração fervorosa a Cristo para que por teu intermédio nos mostre a sua vontade. Assim que a tivermos conhecido com maior clareza, poderemos aceder com mais segurança aos teus pedidos”.

Francisco o fez, e com suas humildes súplicas obteve do Senhor que lhe revelasse o que deveria falar ao Pontífice e que este sentisse em seu íntimo os efeitos da inspiração divina. Contou então ao Pontífice a parábola de um rei muito rico que, feliz, desposara uma bela senhora pobre e dela tivera vários filhos com a mesma fisionomia do rei, pai deles, e que por isso forem educados em seu palácio. E acrescentou: “Não há nada a temer que morram de fome os filhos e herdeiros do Rei dos céus, os quais, nascidos por virtude do Espírito Santo, à imagem de Cristo Rei, de uma mãe pobre, serão gerados pelo espírito da pobreza numa religião sumamente pobre. Pois se o Rei dos céus promete a seus seguidores a posse de um reino eterno, quanto mais seguros podemos estar de que lhes dará também todas aquelas coisas que comumente não nega nem aos bons nem aos maus!” O Papa ficou maravilhado e já não duvidava de que Cristo havia falado pela boca daquele homem. Especialmente porque tivera, pouco tempo antes, um sonho onde a basílica do Latrão estava prestes a ruir e um homem pobre, pequeno e de aspecto desprezível, a segurava nos ombros para não cair. Ainda assim, o Papa aprova as regras só verbalmente (um ano depois a aprovaria no papel). Surge assim a Fraternidade dos Irmãos Menores, a Primeira Ordem.

No Domingo de Ramos de 1212, uma nobre senhora, chamada Clara de Favarone (hoje conhecida por Santa Clara ou Clara de Assis), foi procurar Francisco para abraçar a vida de pobreza. Alguns dias depois, Inês, sua irmã, segue-lhe o caminho. Surge a Fraternidade das Pobres Damas, a Segunda Ordem. Aqueles que eram casados ou tinham suas ocupações no mundo e não podiam ser frades ou irmãs religiosas, mas queriam seguir os ideais de Francisco, não ficaram na mão: por volta de 1220, Francisco deu início à Ordem Terceira Secular para homens e mulheres, casados ou não, que continuavam em suas atividades na sociedade, vivendo o Evangelho.

NO ORIENTE

A parábola que Francisco contou ao Papa para convencê-lo a reconhecer a Ordem guarda uma fantástica semelhança com a história do Islã, pois Abraão (o patriarca do judaísmo) tinha duas esposas: Sarah e Hagar. Sarah deu a luz a Isaac, e Hagar a Ismael (futuro patriarca do povo árabe, não apenas dos islâmicos). Sarah, enciumada, pediu o banimento de Hagar e seu filho, e Abraão a mandou da Palestina para o deserto Árabe, crendo que Deus cuidaria deles. Quando acabaram as provisões (água especialmente), Hagar correu enlouquecida pelo deserto, até que Deus milagrosamente fez um poço (o Zam-Zam, que existe até hoje) e com ele se sustentaram. Uma cidade (Meca) se desenvolveu neste local, e hoje ela é O local sagrado para todo o povo árabe. A semelhança aqui é que os sufis podem ser considerados, por isso, os filhos pobres de Abraão.

A atmosfera e organização da Ordem franciscana é mais parecida com os Dervixes (Ordem sufi) que qualquer outra coisa. Além dos contos sobre Francisco serem muito parecidos com os dos professores sufis, todos os tipos de pontos coincidem. Como os sufis, os franciscanos não se preocupam com sua salvação pessoal (considerado uma vaidade). Francisco iniciava suas pregações com a frase “Que a paz de Deus esteja com você”, que ele disse ter recebido de Deus, mas que era (obviamente) uma saudação árabe. Até a roupa, com seu capote coberto e mangas largas, é a mesma dos dervixes de Marrocos e da Espanha, por onde Francisco se aventurou em 1212, plena época das cruzadas, dedicando-se a tentar converter os Sarracenos pela não-violência. O próprio nome da Ordem, “Fraternidade dos Irmãos Menores”, pressupõe haver os Irmãos maiores, e os únicos com esse nome na época eram os “Grandes Irmãos”, uma Ordem sufi fundada por Najmuddin Kubra, “o Grande”. As conexões impressionam. Uma das maiores características deste grande sufi era sua misteriosa influência sobre os animais; Desenhos o mostram cercado de pássaros; Ele amansou um cachorro feroz apenas olhando para ele (exatamente como Francisco fez com um lobo). Todas essas histórias eram conhecidas no ocidente 60 anos antes de Fracisco nascer.

Por tudo isso, não é de se espantar que, em Damietta, no Egito, de alguma forma Francisco e seus companheiros tenham conseguido cruzar a linha de batalha onde os Cruzados lutavam com os Árabes e se encontrar pessoalmente com o sultão Malik el-Kamil. E ser bem recebido. Diz-se que Francisco desafiou os líderes religiosos muçulmanos a um teste de fé através do fogo, mas eles recusaram. Então Francisco propôs entrar no fogo primeiro e, se ele saísse de lá incólume, o sultão teria que reconhecer o Cristo como o verdadeiro Deus. O sultão não aceitou, mas ficou tão impressionado com a fé deste homem que permitiu aos franciscanos acesso livre aos locais sagrados para os cristãos, como a sagrada sepultura. Deu um salvo-conduto para que eles pudessem trafegar e até mesmo PREGAR em terras árabes, e ainda pediu para que ele o visitasse novamente.

Entretanto, Francisco de Assis não teve sucesso convertendo o sultão, e as últimas palavras de Malik para Francisco foram: “Reze para que Deus me revele qual Lei e fé é a mais agradável para Ele”. Francisco recusou todos os ricos presentes oferecidos pelo sultão e voltou aos exércitos cristãos. No entanto, essa viagem parece ter causado uma transformação (conversão) maior em Francisco de Assis do que no sultão, como se ele tivesse encontrado no Oriente (e no sufismo) suas raízes. Tanto é que, ao retornar aos Cruzados, tentou dissuadi-los de atacar os Sarracenos. Ele gastou alguns meses peregrinando na Terra santa, até que ele foi chamado urgentemente por notícias de mudanças que tinham acontecido na Ordem que ele tinha fundado.

DE VOLTA PRA CASA

A Ordem Franciscana tinha crescido com o passar dos anos. Em 1219 houve uma grande expansão para a Alemanha, Hungria, Espanha, Marrocos e França. Durante sua ausência, vigários modificam algumas regras da Ordem e no mesmo ano Francisco se demite da direção da mesma. Com o crescimento – quase 5.000 frades em 1221 – uma nova regra foi escrita por São Francisco em 29 de novembro de 1223 que foi aprovada pelo Papa Honório. É a que vigora até hoje.

Por volta de 1220 Francisco celebra o Natal na cidade de Greccio (perto de Assis) com uma novidade: O presépio. Ele usou animais de verdade para recriar a cena do nascimento de Jesus, de forma que as pessoas podiam experimentar sua fé fazendo uso dos sentidos, especialmente a visão.

A Ordem tinha passado para as mãos de Pietro Cattini. Entretanto, um ano depois o irmão Cattini morreu e foi enterrado em Porziuncola. Quando numerosos milagres foram atribuídos ao falecido, várias pessoas começaram a peregrinar para Porziuncola, perturbando o dia-a-dia dos frades franciscanos. Francisco, então, rezou a Pietro, pedindo que ele parasse com os milagres, obedecendo em morte do mesmo jeito que ele obedecia em vida. Os milagres então cessaram.

COM OS ANIMAIS

A proximidade de Francisco com a natureza sempre foi a faceta mais conhecida deste santo. Seu amor universalista abrangia toda a Criação, e simbolizava pra muitos um retorno a um estado de inocência, como Adão e Eva no Jardim do Éden. Entretanto, esta não foi uma característica apenas de Francisco, havendo casos semelhantes de santos ingleses e irlandeses. Muitas histórias com animais cercam a vida de Francisco de Assis. Elas estão contadas no Fioretti (pequenas flores, em italiano), uma coleção póstuma de contos populares sobre este santo. Certa vez ele viajava com seus irmãos e eis que viram ao lado da estrada árvores lotadas de passarinhos. Francisco disse a seus companheiros: “aguarde por mim enquanto eu vou pregar aos meus irmãos pássaros”. Os pássaros o cercaram, atraídos por sua voz, e nenhum deles voou. Francisco falou a eles:

“Meus irmãos pássaros, vocês devem muito a Deus, por isso devem sempre e em todo lugar dar seu louvor a Ele; porque Ele lhe deu liberdade para voar pelo céu e Ele o vestiu. Vocês nem semeiam nem colhem, e Deus os alimenta e lhes dá rios e fontes para sua sede, montanhas e vales para abrigo e árvores altas para seus ninhos. E embora vocês nem saibam como tecer, Deus os veste e a suas crianças, pois o Criador os ama grandemente e o abençoa abundantemente. Então, semprem busquem louvar a Deus.”

Outra lenda do Fioretti nos fala que na cidade de Gubbio, onde Francisco viveu durante algum tempo, havia um lobo “terrível e feroz, que devorava homens e animais”. Francisco teve compaixão pela população local e foi para as colinas achar o lobo. Logo, o medo do animal fez todos os seus companheiros fugirem, mas Francisco continuou e, quando achou o lobo, fez o sinal da cruz e ordenou ao animal para vir até ele e não ferir ninguém. Milagrosamente, o lobo fechou suas mandíbulas e se colocou aos pés de Francisco. “Irmão lobo, você prejudica a muitos nestas paragens e faz um grande mal” disse Francisco. “Todas estas pessoas o acusam e o amaldiçoam. Mas, irmão lobo, eu gostaria de fazer a paz entre você e essas pessoas”. Então Francisco conduziu o lobo para a cidade e, cercado pelos cidadãos assustados, fez um pacto entre eles e o lobo. Porque o lobo tinha “feito o mal pela fome”, a obrigação da população era alimentar o lobo regularmente e, em retorno, o lobo já não os atacaria ou aos rebanhos deles. Desta maneira Gubbio ficou livre da ameaça do predador.

Também se conta que, quando Francisco agradeceu ao seu burrinho por tê-lo carregado e ajudado durante a vida, o burrinho chorou.

ÚLTIMOS ANOS

Enquanto rezava no Monte La Verna, em 1224, durante um jejum na quaresma, Francisco teve a visão de um Seraph, um anjo de seis asas numa cruz. Este anjo deu a ele um “presente”: as cinco chagas de Cristo (relativas às marcas feitas pelos pregos na cruz). Foi o primeiro caso de stigmata (estigma) registrado na história. Entretanto, Francisco manteve segredo e o caso só ficou conhecido dos próprios franciscanos dois anos depois, após sua morte, quando uma testemunha resolveu contar.

Logo após receber as chagas, Francisco ficou muito doente, e no ano seguinte ficou cego. Sofreu muito com as formas primitivas de cirurgias e tratamentos medievais, mas foi por esta época que ele escreveu seus mais belos textos – sendo considerado por muitos o primeiro poeta italiano – deixando registrado seu amor universal em lindos versos (assim como os sufis o fazem), como o O cântico do Sol (também conhecido como “Cântico das criaturas”), escrito em companhia de sua alma gêmea, Clara, em São Damião, por volta de 1224/1225, quando já sofria muitas dores e estava quase cego. A estrofe que fala da paz foi acrescentada um mês depois, a fim de reconciliar o bispo e o prefeito de Assis, que estavam em discórdia. Francisco defendia que o povo devia poder rezar a Deus em sua própria língua, por isso ele escreveu sempre no dialeto da Umbria, ao invés de Latim.

Agradeço a Sergio Scabia pela oportunidade de ler o Cântico numa tradução quase literal, sem o floreio encontrado nas versões em português:

O Cântico do Sol

Altíssimo, todo-poderoso bom Senhor

Seus são os louros, a gloria, a honra e todas as bênçãos

Somente a Ti são reservadas

e homem algum é digno de te mencionar

Louvado seja, meu Senhor, com todas suas criaturas

principalmente com o senhor irmão sol,

que é dia e ilumina por isso.

E ele é belo irradiando imenso esplendor;

de ti, traz o significado.

Louvado seja, meu Senhor, pelas irmãs lua e estrelas,

que no céu criaste claras, preciosas e belas

Louvado seja, meu Senhor, pelo irmão vento

e pelo ar e as nuvens e o céu azul e para qualquer tempo,

pelos quais às tuas criaturas fornece alimento.

Louvado seja, meu Senhor, pela irmã água,

a qual é muito útil e humilde e preciosa e pura.

Louvado seja, meu Senhor, pelo irmão fogo,

pelo qual iluminas as noites,

e ele é belo, brincalhão, robusto e forte.

Louvado seja, meu Senhor, pela irmã nossa mãe terra,

que nos sustenta e governa,

e produz diversos frutos, com flores coloridas e grama.

Louvado seja, meu Senhor, por aqueles que perdoam pelo seu amor,

e suportam infinitas tribulações.

Abençoados os que as suportarão em paz,

que por ti, Altíssimo, serão coroados.

Louvado seja, meu Senhor, pela irmã morte corporal,

à qual nenhum homem vivo pode escapar

Ai dos que morrerão em pecado mortal;

abençoados aqueles que se encontrarão nas tuas santíssimas vontades,

que a segunda morte não lhes fará mal

Louvem e abençoem o meu Senhor,

e agradeçam e sirvam-no com grande humildade

Uma oração que sempre me impressionou pela beleza e singeleza foi a Oração da Paz, atribuída a São Francisco de Assis e comumente denominada de “Oração de São Francisco”. Na verdade trata-se de uma oração anônima, escrita em 1912, tendo aparecido inicialmente num boletim paroquial na Normandia (França), e em menos de dois anos foi impressa em Roma numa folha onde, no verso, estava impresso uma figura de São Francisco; por isto e pelo fato de que o texto reflete muito bem o franciscanismo, esta oração começou a ser divulgada como se fosse de autoria do santo.

Senhor,

Fazei de mim um instrumento de vossa paz!

Onde houver ódio, que eu leve o amor,

Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.

Onde houver discórdia, que eu leve a união.

Onde houver dúvida, que eu leve a fé.

Onde houver erro, que eu leve a verdade.

Onde houver desespero, que eu leve a esperança.

Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.

Onde houver trevas, que eu leve a luz!

Ó Mestre,

fazei que eu procure mais.

Consolar, que ser consolado.

Compreender, que ser compreendido.

Amar, que ser amado.

Pois é dando, que se recebe.

Perdoando, que se é perdoado e

é morrendo, que se vive para a vida eterna!

Francisco morreu ouvindo o Evangelho de João, onde se narra a Páscoa do Senhor. Isso foi em 03 de outubro de 1226, num sábado, aos 45 anos. Foi sepultado no dia seguinte, na Igreja de São Jorge, na cidade de Assis. Em 1230 seus ossos foram levados para a nova Basílica construída para ele, a Basílica de São Francisco, hoje aos cuidados dos Frades Menores Conventuais.

São Francisco de Assis foi canonizado em 1228 por Gregório IX e seu dia é comemorado em 04 de outubro.

Na tradição teosófica, Francisco de Assis é o Mestre Kuthumi, da Grande Fraternidade Branca, e na linha espírita, é a reencarnação de João Evangelista (enquanto Clara fora Joana de Cusa).

#Religião

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/04-10-dia-de-s%C3%A3o-francisco-de-assis

‘As Portas da Percepção (Aldous Huxley)

Escrito em 1954 por Aldous Huxley, As Portas da Percepção é o relato da experiência do escritor com a mescalina.  A obra já foi chamada de “A Bíblia psicodélica” e foi escrita como resultado das experiências de Huxley com  alucinógenos. O resultado são idéias e estudos que anda hoje são considerados revolucionários e “perigosos demais para as pessoas comuns”.

O autor assume que a realidade é muito mais vasta do que o que é normalmente visto e sentido pelas pessoas. O cérebro humano filtra o universo de modo a não permitir a passagem de todas as impressões e imagens que existem efetivamente. Se isso acontecesse, o processamento de tal quantidade de informação seria algo entre o maravilhoso e o insuportável, podendo gerar místicos ou loucos depedendo do background em que a pessoa vive.

O livro trás ainda uma crítica pesada à religião contemporânea, e traduz as religiões estitucionalisadas como um obstáculo que mais afasta o religioso do sagrado do que o une as pessoa a este princípio transcedente. A obra culmina no desenvolvimento de uma filosofia sobre a formação de uma religião peiotista.

No original o texto não possui divisões por capítulos, a divisão aqui apresentada serve apenas para facilitar a leitura do volume. O título vem de uma famosa citação do poeta inglês, William Blake: “Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito.”

Capítulos:

 

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/as-portas-da-percepcao-aldous-huxley/

Reflexões místicas com Joseph Campbell (parte 1)

Joseph Campbell

Uma entrevista com Joseph Campbell, por Tom Collins
Originalmente publicada na revista The New Story (1985)

Tradução de Rafael Arrais

Joseph Campbell talvez seja o acadêmico mais proeminente no estudo da mitologia. Entre os seus diversos livros podemos destacar O herói de mil faces, As máscaras de Deus (série) e o célebre O poder do mito. O entrevistador, Tom Collins, é um escritor e editor de Los Angeles, que já trabalhou com Steven Spielberg.

1. A importância dos mitos

[Tom] O que os mitos fazem por nós? Por que a mitologia é tão importante?

[Joseph] Ela lhe põe em contato com um plano de referência que vai além da sua mente e adentra profundamente o seu próprio ser, até as vísceras. O mistério definitivo do ser e do não ser transcende todas as categorias de pensamento e conhecimento. Ainda assim, isto que transcende toda a linguagem é a própria essência do seu ser; então você está descansando sobre ela, e sabe disso.

A função dos símbolos da mitologia é nos levar a uma espécie de insight, “Aha! Sim, eu sei o que é isto, isto sou eu mesmo”. É disto que se trata a mitologia, e através dessa vivência você se sente em contato com o centro do seu próprio ser, cada vez mais, e todo o tempo. E tudo o que você faz dali em diante pode ser relacionado com tal grau de verdade. No entanto, falar sobre isso como “a verdade” por ser um pouco enganoso, pois quando pensamos na “verdade”, pensamos em algo que pode ser conceitualizado. E tal vivência vai além disso.

[Tom] Heinrich Zimmer disse, “As melhores verdades não podem ser ditas…”

[Joseph] “E as segundas melhores são mal interpretadas.”

[Tom] E então você adicionou alguma coisa ali…

[Joseph] As terceiras melhores fazem parte da conversação usual – ciência, história, sociologia.

[Tom] Por que nos confundimos com estas verdades?

[Joseph] Porque as imagens que precisam ser usadas para falar sobre o que não pode ser dito, as imagens simbólicas, são compreendidas e interpretadas não de forma simbólica, mas de forma empírica, como fatos concretos. É algo natural, mas é também todo o problema com as religiões do Ocidente. Todos os símbolos mitológicos são interpretados como se fossem referências históricas. Eles não são. E acaso fossem, e daí, o que viria a seguir?

[Tom] Vamos tomar cuidado aqui. O que você está chamando de símbolo?

[Joseph] Eu estou chamando de símbolo um signo que aponta para algo além dele mesmo, para um campo de significado e vivência que se encontra unificado com a consciência do observador. O que você está aprendendo na mitologia diz respeito ao sentido de você ser uma parte do ser que preenche o mundo.

Se um mito não lhe toca e não fala sobre você, mas sobre algo lá fora, então ele é um mito superficial; ou que foi interpretado superficialmente. Há esta frase maravilhosa que eu anotei de Karlfried Graf Durkheim, “transparência para o transcendente”. Se uma doutrina bloqueia a transcendência, e lhe corta o acesso à divindade para lhe manter preso ao seu eu mundano, ela lhe transforma num devoto, num adorador, e não lhe encaminha a abrir o mistério que há dentro do seu próprio ser.

[Tom] Você já chamou a isto de “a patologia da teologia”.

[Joseph] É como ainda chamaria hoje.

[Tom] Walter Huston Clark diz que a igreja é como uma vacinação contra a coisa real.

[Joseph] C. G. Jung diz que a religião é uma defesa contra a experiência de Deus. Eu digo que as nossas religiões [igrejas] o são.

[Tom] O que fazer então, se a experiência não é encontrada na religião [igreja]?

[Joseph] Você a encontra no misticismo, e entra em contato com místicos que leem tais formas simbólicas simbolicamente. Místicos são pessoas que não são teólogos; teólogos são pessoas que interpretam o vocabulário das escrituras como se elas se referissem a fatos sobrenaturais.

Há uma pletora de místicos na tradição cristã, mas nós não ouvimos muito sobre eles. Ainda assim, de vez em quando alguns esbarram no misticismo. Mestre Eckhart foi uma pessoa assim. Thomas Merton também experienciou o misticismo, assim como Dante Alighieri e Dionísio, o Aeropagita. João da Cruz alternou momentos de contato com o misticismo com momentos de recaída mundana.

Eu penso que James Joyce é pleno de misticismo, e Thomas Mann também o alcançou na escrita, embora não tão profundamente quanto Joyce. É estranho como, desde a morte de Mann, o misticismo tenha desaparecido da literatura.

» Na próxima parte da entrevista, o mito como a dinâmica da vida…

***

Crédito da imagem: Google Image Search/Divulgação (Joseph Campbell)

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

» Comprar livro impresso, PDF, ou versão para Amazon Kindle

***

» Ver todos os posts da coluna Textos para Reflexão no TdC

» Veja também nossa página no Facebook

#Mitologia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/reflex%C3%B5es-m%C3%ADsticas-com-joseph-campbell-parte-1

Dhikr e Darshan

O único pecado praticado pela humanidade é o esquecimento, 7,2 bilhões de pessoas e poucas delas realmente tem alguma ideia do que é viver como um humano de fato. Nossa sociedade estimula uma rotina totalmente contrária a natureza humana, nós que buscamos internamente as respostas para as dúvidas universais (Quem sou? Da onde Eu vim? Para onde Eu vou? Qual o sentido da vida? Entre outros) rapidamente percebemos que o estilo de vida moderno dificulta a resposta dessas perguntas e até nos oferece respostas muito rasas.

Por que o mundo moderno falha ao responder essas perguntas?

Falha, pois ao indicar respostas no mundo externo, mostra que seus valores são temporais e for a de nosso controle, fala sobre uma realidade material e isso é uma grande mentira. Mentira essa que nos aprisiona.

O que é Dhikr?

Dhikr é um termo da tradição Sufi, porém esse conceito foi muito bem exposto pelos platonistas de forma de direta e todas as tradições mistico-religiosas de uma forma ou de outra tem alguma doutrina que pode ser chamada de Dhikr. Dhikr é praticar conscientemente a lembrança da nossa natureza divina até que isso se torne nosso estado de vigília.

No contexto religioso Dhikr é lembrar o nome de Deus sempre, os muçulmanos eles tem dois mantras principais para isso “La Ilaha Illallah” (Não há divindade além de Allah, ou numa tradução mais livre, Não há divindade além de Deus) e quando o praticante começa a ter as experiências extáticas esse mantra é substituído por “Allah”, onde o nome do Senhor será repetido sempre. Tais técnicas advém da crença de que os anjos vivem num estado eterno de adoração a Deus e que a encarnação na Terra tem como objetivo fazer os humanos lembrarem de Deus.

No contexto místico o foco da lembrança é despertar a consciência na Alma, que é o local adequado para um humano. De acordo com a tradição grega a Alma é pura e incorruptível, contudo é de sua natureza corrigir tudo que é inferior e isso que nos levou ao esquecimento dela, pois a natureza da matéria (com seus apegos, desejos, etc) dificulta a comunicação com estados superiores de consciência.

Agora, vamos falar sobre Darshan.

É compreensível a onda crescente de ateísmo, por diversos fatores, entre eles gostaria destacar a falta de uma conexão com o divino. Muitas pessoas vão para as suas congregações, missas, cultos, etc. contudo poucos apresentam sinais de terem vidas diferentes das pessoas que não fazem o mesmo e o fato é que poucas estão tendo experiências válidas. Talvez a pista para o porquê disso ocorrer esteja no meu post anterior.

Diferentemente da nossa situação, as culturas mais antigas guardam registros de fatos extraordinários ocorridos com os devotos sinceros e hoje pretendo lançar luz sobre uma doutrina interessante. Darshan é o nome na filosofia Indiana para “visão”, visão de algo que abençoe aquele que vê. O termo é extremamente vago, contudo meu interesse aqui é falar sobre Teofania (Theophaneia, em grego significa aparição de deus).

Certa vez ouvi falar de um sábio que disse “Até que você tenha uma experiência direta com Deus, a melhor escolha é ser um agnóstico, afinal você não tem certeza da existência ou da inexistência de algo divino”. É razoável dizer que essa postura é uma postura equilibrada, porém o paradoxo mora em que é, de certo modo, difícil ter uma experiência poderosa como uma Teofania sem estar aberto para isso. Por aberto eu me refiro a sinceridade e entrega completa.

Dito isso, é correto supor que uma experiência de tamanha magnitude não pode ser colocada em palavras, contudo Darshan sempre é acompanhado de uma mudança de vida que tem como raiz a mudança mental (metanoia) profunda que ocorre. Afinal é naturalmente inevitável uma transformação quando o véu cai.

Texto de Aurílio Santos, um dos autores do blog O Alvorecer.

#Religiões

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/dhikr-e-darshan

Reflexões místicas com Joseph Campbell (parte 3)

Uma entrevista com Joseph Campbell, por Tom Collins
Originalmente publicada na revista The New Story (1985)

Tradução de Gabriel Fernandes Bonfim; Revisão de Rafael Arrais

« continuando da parte 2

3. A transcendência dos mitos

[Tom] O que o termo “transcendente” significa, na frase de Durkheim, “transparência para o transcendente”?

[Joseph] O significado simples do termo é aquilo que vai além de todos os conceitos e conceituações, ou aquilo que está além de toda conceituação.

[Tom] De onde vem esta experiência?

[Joseph] A sua vida é a sua experiência de energias transcendentes, porque você não sabe de onde sua vida vem, mas você pode experimentá-la. Estamos experimentando estas energias bem aqui, apenas por estarmos sentados nelas, sentindo-as borbulhar.

[Tom] Você está usando o “transcendente” como um outro termo para Deus?

[Joseph] Se você quiser personificar o termo. Brahman é a maneira sânscrita de falar sobre isso. Manitou é a forma dos Algonquin, Orinda a dos Iroquois, Owacan é a dos Sioux.

[Tom] Javé?

[Joseph] Javé é a personificação. Ele é isto que está além da conceituação.

[Tom] Não podemos falar o nome, no entanto…

[Joseph] Bem, assim deveria ser, mas sabemos tudo sobre ele, ou ele nos contou tudo sobre si mesmo e como devemos nos comportar. O conceito básico da mitologia é a transcendência da personificação. A personificação é uma concessão à consciência humana, de modo que possamos falar sobre essas coisas.

[Tom] Você quer dizer que, se o infinito se revela para você, sua pequena mente responde dizendo, “Deus falou comigo”, porque ela só pode entender o que aconteceu em seus termos limitados?

[Joseph] Isso mesmo.

[Tom] Eu percebo que você não é um grande amante da Bíblia.

[Joseph] Nem um pouco! É o livro mais excessivamente anunciado do mundo. É muito pretensioso para ser reivindicado como a palavra de Deus, ou ser aceito como tal e perpetuar essa mitologia tribal, justificando todos os tipos de violência a pessoas que não são membros da tribo.

O que eu vejo de mais lamentável no uso que fazem da Bíblia é que, apesar dela tratar de uma mitologia tribal circunscrita a um determinado local do mundo, e de lidar com um determinado povo em um determinado momento, os cristãos ampliaram isto para serem incluídos. Em seguida, tal interpretação coloca esta sociedade contra todas as outras, ao passo que a condição do mundo de hoje é que esta sociedade em particular, que é apresentada na Bíblia, não é nem mesmo a mais importante. Essa coisa é como um peso morto. Ela está nos puxando de volta, porque ela pertence a um período antigo. Não conseguimos nos soltar e nos mover para uma teologia moderna.

Uma das grandes promessas da mitologia é a que o leva a se perguntar: Com qual grupo social eu me identifico? E quanto ao planeta? Agora, afirmar que os membros deste grupo social em particular são a elite do mundo de Deus é uma boa maneira de manter tal grupo unido, mas olhe para as consequências! Acho que o que poderia ser chamado de chauvinismo santificado da Bíblia é uma das maldições do planeta nos dias atuais.

Nota do tradutor: “chauvinismo” é o termo dado a todo tipo de opinião exacerbada, tendenciosa ou agressiva em favor de um país, grupo ou ideia.

[Tom] Há muito material interessante no Antigo Testamento, não é? Por exemplo, ele diz que Deus criou tudo, exceto a água.

[Joseph] Você colocou o dedo na ferida. A água é a deusa, consegue ver? O que acontece no Antigo Testamento é que o princípio masculino permanece personificado e o princípio feminino é reduzido a um elemento. O primeiro verso diz que quando Deus criou, o sopro de Deus pairava sobre as águas. E a água é a deusa.

[Tom] Eu suponho que você não acredite em um real e literal “sete dias da criação”.

[Joseph] Claro que não. Isso não tem nada a ver com a história evolutiva real como agora a entendo.

[Tom] Como você reconcilia esses dois relatos?

[Joseph] Por que alguém deveria se preocupar com isso? Mais do que, por exemplo, em procurar reconciliar a história dos índios Navajos?

[Tom] Eu me lembro de ouvir uma palestra maravilhosa do falecido Louis Leakey em que ele insistiu que não havia conflito entre o relato de Gênesis sobre a criação e o que ele havia descoberto.

[Joseph] Bem, ele pode não ter lido com o cuidado devido. Há dois relatos bíblicos sobre a criação no mesmo Gênesis, um no primeiro capítulo e um no segundo, e eles são muito contrários um ao outro.

Já era tempo de havermos parado com esta ideia de, “Ó, nós temos de acreditar na Bíblia”. Eu teria ido logo trabalhar com a questão dos Navajo, onde eles se elevam através de quatro mundos. Um é vermelho, outro amarelo…

[Tom] Mas se você jogar fora a Bíblia como historia, não é também jogá-la fora como um imperativo moral?

[Joseph] Sim. Eu não acho que a Bíblia seja o imperativo moral de ninguém, a não ser que você queira ser um judeu tradicional. Isso é o que a Bíblia lhe diz.

[Tom] Ela não lhe diz como ser uma boa pessoa?

[Joseph] Não.

[Tom] Muitas pessoas pensam assim.

[Joseph] Basta lê-la. Talvez ela lhe dê algumas dicas, mas a Bíblia também lhe diz para matar todos na terra de Canaã, até mesmo os ratos.

[Tom] Como foi a passagem que você citou para justificar as ideias de exclusividade [dos judeus]?

[Joseph] “Não há Deus em todo o mundo senão em Israel”. Isso deixa todos de fora, exceto os judeus. Esta é uma das interpretações mais chauvinistas da moralidade.

Um dos grandes textos está em Êxodo, quando os judeus são instruídos a matar os cordeiros e colocar o sangue em sua porta para que o anjo da morte não mate nenhum dos seus filhos, e em seu lugar ele deve matar os filhos dos egípcios. E na noite anterior eles saem para pedir aos seus amigos egípcios que lhe emprestem as suas joias, e assim por diante. Então, na noite seguinte, eles fogem com as joias, e o texto diz que assim eles espoliaram os egípcios. Você chama a isto de boa ética?

[Tom] Qual é o enredo de algo como Caim e Abel?

[Joseph] Há um diálogo sumério muito interessante que apareceu cerca de 1.500 anos antes da história de Caim e Abel. Trata-se de um pastor e um agricultor competindo pelo favor da deusa. A deusa escolhe dar preferencia ao agricultor e a sua oferta. Bem, os judeus chegam nesta região, e eles não são agricultores, eles são pastores. E eles não têm uma deusa, eles têm um deus. Então, eles viraram a coisa toda de cabeça para baixo, e fazem Deus favorecer o pastor contra o agricultor.

O interessante é que por todo o Antigo Testamento, é o irmão mais novo que derruba o irmão mais velho em favor de Deus. Acontece diversas vezes. Isto é simplesmente em função do fato de que os judeus chegam aquela região como “o irmão mais novo”. Eles vêm como bárbaros beduínos do deserto, e chegam em áreas agrícolas altamente sofisticadas; e eles estão declarando que, embora os outros sejam os mais velhos – como Caim o era, o fundador das cidades e todas estas coisas –, eles são os preferidos de Deus. É apenas uma outra forma de chauvinismo santificado.

Você consegue entender o ponto de vista das religiões exclusivistas, não consegue? – “Você adora a Deus da sua maneira, eu vou adorar a Deus na maneira dele.”

» Em seguida, na parte final da entrevista, a modernidade e a carência de mitos…

***

Crédito da imagem: Android Jones

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). 

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

» Comprar livro impresso, PDF, ou versão para Amazon Kindle

#Mitologia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/reflex%C3%B5es-m%C3%ADsticas-com-joseph-campbell-parte-3

A Cura Sexual Através da Magia Sexual

Por Christopher Penczak

Sexo. É um dos mistérios espirituais. Não se pode realmente explicá-lo. Você tem que vivenciá-lo diretamente, como todos os mistérios de expansão de consciência das tradições orientais e ocidentais. Tantas histórias de criação têm o universo nascendo através do amor do casal divino. Mas ao contrário dos estados profundos da meditação iogue e dos rituais cabalísticos em línguas secretas, a maioria das pessoas comuns têm a chance de explorar os mistérios do sexo, e encontrar seu poder curativo e transformador. Todos nós o buscamos. Embora seja um impulso primordial, em um nível superior, também buscamos experiências sexuais para explorar os mistérios da divindade.

Através da atividade sexual, estimulamos os centros de energia do corpo e podemos experimentar uma profunda sensação de consciência alterada. Você encontra a sexualidade na yoga tântrica oriental e nas práticas taoístas, na magia cerimonial ocidental e no Grande Rito Wiccano. Você vê dicas de uma tradição de magia sexual nos mistérios de Ísis e Osíris, o Canto de Salomão, e, alguns especulariam, os mistérios gnósticos de Cristo e Maria Madalena. A ideia de união e cura através da sexualidade é universal.

Mesmo que não saibamos nada sobre energia, meditação, ou ritual, ativamos a corrente sexual e experimentamos estes estados de ser. O sexo é muito poderoso e por causa disso, muitas emoções, sentimentos e expectativas se envolvem em nossa sexualidade, tornando-a uma de nossas maiores forças e alegrias, mas também criando alguns de nossos maiores problemas. Ter uma compreensão dos componentes esotéricos da sexualidade pode influenciar profundamente nosso desenvolvimento espiritual, cura e atitudes em relação à sexualidade, transformando-nos.

De todas as tradições da sexualidade sagrada, a palavra mais fortemente ligada à prática é tantra. O tantra é um sistema esotérico oriental, enraizado nas religiões da Índia, e inclui uma variedade de práticas, incluindo aquelas associadas à sexualidade sagrada, mas seria negligente pensar que o tantra é apenas sobre sexualidade. Alguns traduzem a palavra tantra para significar ou “tear” ou “texto”, referindo-se a uma tradição maior. Embora grande parte desta tradição tenha tradicionalmente permanecido escondida de olhos abertos, ela felizmente veio à tona e foi disponibilizada ao público. Qualquer pessoa que deseje encontrar mais informações sobre a sexualidade espiritual pode fazê-lo com bastante facilidade.

O mais famoso destes manuais sexuais é o amplamente conhecido Kama Sutra. Um texto da Índia, a mais famosa tradução de Sir Richard Francis Burton apareceu em 1883. O Kama Sutra causou muita agitação por causa de seus diagramas que detalham várias posições sexuais, mas em geral, a maioria do livro não é sobre sexo, mas cobre tópicos de relacionamentos, casamento e como ser um bom cidadão, no contexto da cultura indiana na época em que foi escrito.

Os místicos modernos levaram seus próprios empreendimentos para a sexualidade sagrada e escreveram sobre suas experiências e ensinamentos. Eles estão se baseando em fontes tântricas tradicionais, assim como as da alquimia taoísta quando se aproximam dela a partir de uma visão oriental. As tradições mágicas ocidentais analisam o papel da alquimia ocidental, e a imagem do casamento divino, em suas práticas rituais. Elas se expandiram sobre as explorações do moderno renascimento ocultista que combinou teorias e ensinamentos tanto do Oriente como do Ocidente.

Um dos clássicos modernos a partir do qual se pode olhar a magia sexual de uma perspectiva ocidental é a Magia Sexual Moderna de Donald Michael Kraig. Como seu predecessor, Modern Magick, este texto fornece um manual minucioso e detalhado nas artes da magia sexual ocidental. Kraig traça a história a partir de uma variedade de tradições e inovadores, e cobre a prática real da magia sexual usando terminologia e um estilo que são fáceis de entender. Kraig tem uma extensa preparação para quem procura explorar a magia sexual. Uma de suas sugestões envolve o uso do Exercício de Kegel:

Este exercício, cujo nome vem de seu inventor, tonifica os músculos usados durante o ato sexual. Uma maneira fácil de aprender este exercício é parar o fluxo quando você urina. Permitir que o fluxo seja retomado e interrompido novamente. É esta contração e relaxamento que compreende o exercício. Certifique-se de que você não está apenas contraindo o esfíncter anal. Repita o exercício várias vezes. Você pode praticar este exercício em quase qualquer momento e em qualquer lugar. Trabalhe até fazer isso pelo menos cem vezes por dia.

– Modern Sex Magick, p. 72.

Os exercícios de Kegel podem ajudar uma mulher a ser orgástica, e também ajudar com alguns problemas em torno do fluxo urinário e incontinência. A construção deste músculo ajuda a preparar um para os rituais de magia sexual.

O contato sexual com entidades espirituais nos coloca em contato com a divindade aparentemente intangível, mas descobrimos através da sexualidade que a divindade também está dentro dela. Através de experiências sexuais individuais, duplas ou grupais, encontramos o divino dentro dos participantes, vendo os deuses dentro da humanidade, e encontramos nossa própria centelha divina interior. Ao encontrar esta centelha, temos epifanias e revelações espirituais que transformam nossas vidas.

Para uma visão mais ortodoxa sobre o assunto a partir de uma perspectiva taoísta oriental, temos a Yoga Taoísta & Energia Sexual de Eric Steven Yudelove. Este é um curso de 14 semanas apresentado pelo autor para incorporar a yoga taoísta, Chi Kung, alquimia taoísta e kung fu sexual em um sistema transformacional. Os iniciantes e os experientes nestas artes serão beneficiados com o livro.

O primeiro exercício na Semana Um do curso é chamado de Respiração Capilar. Envolve a retirada de energia excedente para dentro do corpo. O cabelo é um depósito de energia excedente.

Isto pode não parecer um exercício sexual, mas muitos dos exercícios preliminares de uma tradição devem ser dominados para se passar para as práticas mais exóticas. As tradições orientais estão focalizadas nos centros energéticos e refinando a energia que passa por esses centros, na vida diária e durante a interação sexual. O poder da energia sexual que passa por esses caminhos nos cura em vários níveis, aumentando nossa vitalidade, ajudando o sistema imunológico, curando doenças e, finalmente, expandindo a consciência.

Aqueles que procuram instruções mais diretas nas tradições tântricas podem se beneficiar do CD Yoga Nidra: Meditação Tântrica e Visualização pelo Dr. John Mumford e Jasmine Riddle. O Dr. Mumford é um renomado especialista em artes orientais e instrutor experiente em seus mistérios. Yoga Nidra é uma técnica de desenvolvimento que lhe permite progredir para um estado refinado de sono psíquico. Os elementos gêmeos que a yoga tântrica utiliza são a sensação e a visualização do corpo. Dr. Mumford e Jasmine Riddle guiam você através de estágios de desenvolvimento, movendo sua consciência através de diferentes partes de seu corpo. O componente de visualização permite que você entre em contato com seus centros psíquicos, ou chakras. Como exemplo, o Enigma nos guia através da sintonia sensacional em cada mão, concentrando-se individualmente em cada dedo. Nós nos movemos pela ponta, o prego, a primeira articulação seguida do nó, a segunda articulação seguida do nó, a terceira articulação seguida do nó, e terminamos com a almofada na palma de sua mão.

Depois de guiá-lo pelos centros de consciência de seu corpo com consciência sensacional, as visualizações avançam em direção aos diferentes sentidos. Luz, calor, frio e alegria são sentidos, seguidos por exercícios de chakra que se movem da base para a coroa e para trás novamente. Acompanhada de música meditativa, a voz suave de Jasmine Riddle dá uma sensação relaxante que o acompanhará ao longo de sua viagem. Em última análise, você pode alcançar um estado de movimento consciente através das sensações corporais usando exercícios de visualização que culminam em uma perspectiva iluminada.

***

Fonte: https://www.llewellyn.com/journal/article/1037

COPYRIGHT (2006) Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

***

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/a-cura-sexual-atraves-da-magia-sexual/

A cultura do Caos

A ficção de Lovecraft expressa um “primitivismo futuro” que encontra sua expressão esotérica mais intensa na Magia do Caos, um estilo contemporâneo eclético de ocultismo sinistro que deriva da Thelema, do Satanismo, de Austin Osman Spare e da metafísica do Oriente, bases para a construção de um sistema mágico completamente pós-moderno.

Para os magos do caos de hoje, não existe uma “tradição”. Os símbolos e mitos de inúmeras seitas, ordens e religiões, são tratados como construtos, ficções úteis, “jogos”. Os trabalhos mágicos não dependem da “realidade” da magia e sim da vontade e experiência do mago. Reconhecendo a possibilidade de que podemos estar à deriva em cosmos mecânico sem sentido em que a vontade humana e a imaginação são falhas vagamente cômicas (o “indiferentismo cósmico”, como o próprio Lovecraft professop), o mago aceita sua falta de fundamentos e abraça o vazio caótico criativo que é ele mesmo.
Assim como acontece com os cultos e grimórios ficcionais de Lovecraft, os magos do caos se recusam a aceitar qualquer forma de hierarquia, simbolismo e vieses monoteístas do esoterismo tradicional. Como a maioria dos magos do caos, o ocultista britânico Peter Carroll gravita em direção às Trevas, não porque ele deseja uma simples inversão satânica do cristianismo, mas porque ele busca pelo núcleo amoral e xamânico da experiência mágica – um núcleo que Lovecraft evoca com suas orgias de ritmos, tambores, cantos guturais e cornetas estridentes. Ao mesmo tempo, os magos do Caos, como Carroll, também sondam a ciência estranha da física quântica, teoria da complexidade e prometeísmo eletrônico. Alguns magos negros acabam sendo consumidos pelas forças atávicas que liberaram ou se tornam viciados na imagem do anti-herói satânico. Mas o mago mais sofisticado adota um modo equilibrado de existencialismo gnóstico que questiona todos os construtos, enquanto rejeita tanto o conforto frio da razão e do ceticismo quanto o suicídio nihilista, um xamã pragmático e empírico que consegue entrar em sintonia tanto com o materialismo cabeça dura de Lovecraft quanto com seus horrores.

O primeiro ocultista que realmente pôs em prática essas noções foi Aleister Crowley, que destruiu os receptáculos da tradição oculta ao mesmo tempo em que, criativamente, extendia o reino sombrio da magia para o século XX. Com sua imagem extravagenta, textos malandros e sua famosa Lei de Thelema (“Faze o que tu queres deverá ser o todo da lei”), Crowley questionou as certezas esotéricas de revelações “verdadeiras” e linhagens “legítimas” e foi o primeiro mago que deu para o antinomionismo oculto um toque decididamente nietzschiano.
Irrestrita, esta vontade oculta de potência pode facilmente se degenerar em um elitismo impiedoso, e as dimensões fascistas e racistas do ocultismo do século XX e do próprio Lovecraft não deve ser esquecido. Mas esta vontade criativa e auto geradora é expressa de forma mais exuberante como uma Vontade de Arte.
De muitas maneiras, o ocultismo fin de siècle, que explodiu durante o tempo de Crowley foi um esoterismo essencialmente estético. Um bom número de magos do século XIX que nos inspiram hoje são os grandes poetas, pintores e escritores do Simbolismo e Romantismo Decadente, muitos deles curiosos ou adeptos do Satanismo, do Rosacrucianismo e das sociedades herméticas. A Ordem Hermética da Aurora Dourada foi infundida com pretensões artísticas. Arthur Machen membro da Golden Dawn e escritor de literatura fantástica foi um das mais fortes influências de Lovecraft.
Mas foi Austin Osman Spare quem dissolveu de forma definitiva a fronteira entre a arte e a magia. Apesar de trabalhar de forma independente dos surrealistas, Spare também baseou sua arte nas erupções sinistras e autônomas de material do “subconsciente”, embora em um contexto mais abertamente teúrgico. Os magos do caos de hoje tem em Spare sua maior influência e seus ritos Lovecraftianos expressam essa dissolução que é simultaneamente criativa e niilista.

por Shub-Nigger, A Puta dos Mil Bodes

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/a-cultura-do-caos/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/a-cultura-do-caos/

10 sintomas de que seu cristianismo está doente

O Novo Testamento está cheio de passagens que nos monstram que a fé pode descambar em fanatismo. Veja por exemplo que Cristo nos alerta para um sem número de pessoas que se julgam cristãs por seus atos, mas trazem os corações vazios.

Em Mateus 7:22-23 lemos: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.” e em Lucas 6:42 temos o sábio conselho: “Como podes dizer a teu irmão: Irmão, deixa-me tirar o argueiro que está no teu olho, não atentando tu mesmo na trave que está no teu olho? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás bem para tirar o argueiro que está no olho de teu irmão.”

Estes são apenas alguns dos inúmeros alertas que recebemos da Bíblia de que o Cristianismo real não se encontra neste ou naquele Templo, Igreja ou seita  e sim na maneira como vivemos as leis trazidas por Cristo para nós. Não como a fé fanática contra a qual Joçao nos alerta em I Jo 4:1, mas como está em seu evangelho Jo 4.24: Em verdade e em espírito.

Por isso, se você apresenta um ou mais de um dos seguintes sintomas, acautela-te:

10 – Você vigorosamente nega e desdenha a existência de milhares de deuses de outras religiões, mas sente-se ultrajado quando alguém faz pouco da existência do seu.

9 – Você se sente ofendido, diminuido e desumanisado quando os cientistas dizem que as pessoas evoluíram de outras formas de vida e que teríamos parentesco direto com outros simeos, mas não vê problema com uma interpretação da bíblia que diz que fomos feitos da lama e que para a lama voltaremos.

8 – Você rí dos politeístas, mas não tem problemas em acreditar em uma Trindade Divina.

7 – Você fica indignado quando ouve as atrocidades atribuídas a Allah no Alcorão, mas sequer pisca quando ouve sobre como os cristãos mataram na história ou com os episódios de de atrocidades descritos no antigo testamento.

6 – Você ri da crença hindu de deuses humanóides, da visão Nórdica de Valhalla e da narrativa grega de deuses dormindo com mulheres, mas não tem problemas em acreditar que o Espírito Santo engravidou uma virgem e que ela deu a luz a um homem-deus que foi morto, ressuscitou e subiu aos céus por sua causa.

5 – Você não perde a chance de expor pequenas falhas em cada novo processo ou teoria científica desenvolvidos ou de desdenhar o método que usam para datar evidências da antigüidade, mas não acha nada errado acreditar nas datas deixadas por homens de tribos da Idade do Bronze que afirmavam que o mundo surgiu poucas gerações antes deles.

4 – Você acredita que toda a população deste planeta com exceção daqueles que compartilham a mesma crença que você – e é claro, excluindo as seitas rivais – passarão a eternidade em um Inferno de sofrimento infinito. E ainda considera sua religião a mais “tolerante”, “amorosa” e “humilde” de todas.

3 – Enquanto a ciência moderna, a história, a geologia, a biologia e a física falham em convencê-lo de qualquer coisa, um sujeito rolando no chão e falando em “línguas” que ninguém compreende basta como evidência para provar que o cristianismo e tudo o que ele defende é verdadeiro.

2 – Você define 0.01% como um “alto índice de sucesso” quando se trata de respostas a orações. Uma forte evidência de que rezar funciona e de que além de te ouvir pacientemente, Deus também intervém a seu favor graças a suas preces. E atribui os 99.99% fracasso restantes à Inefabilidade de divina.

1 – Seus conhecimentos sobre a Bíblia, metafísica cristã e história da igreja são muito mais esparcos do que o de muitos ateístas, agnósticos e céticos, e mesmo assim considera-se um Cristão.


Sentindo-se freak? Conheça Jesus Freak: o Guia de Campo para o Pecador Pós-Moderno


 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/10-sintomas-de-que-seu-cristianismo-esta-doente/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/10-sintomas-de-que-seu-cristianismo-esta-doente/

A Nuvem sobre o Santuário – Carta 1

Por Karl von Eckartshausen.

O nosso século é de preferência a qualquer outro o mais notável para o observador imparcial e sereno. Por toda parte existe fermentação tanto na alma como no coração do homem; encontra-se a cada passo o combate da luz e das trevas, de idéias mortas e idéias vivas, da vontade morta e inerte com a força viva e ativa; se vê por todo lado enfim, a guerra entre o homem animal e o homem espiritual que desperta.

Homem natural renuncia às tuas últimas forças; até teu próprio combate revela a tua natureza superior que repousa em teu seio. Presentes a tua dignidade, tu a sentes mesmo; porém tudo é ainda obscuro ao teu redor e a lâmpada da tua pálida razão não é suficiente para iluminar os objetos aos quais deverias aspirar.

Diz-se que vivemos no século das luzes e seria mais justo dizer que vivemos no século do crepúsculo: aqui e ali, o raio luminoso penetra através da nuvem das trevas, mas ele não ilumina ainda com toda a sua pureza nossa razão e nosso coração. Os homens não estão de acordo sobre as suas concepções: sábios disputam; e onde há disputa, não existe a luz nem se conhece a verdade.

Os objetos mais importantes para a humanidade são ainda indeterminados. Não se está de acordo nem sobre o princípio da razão, nem sobre o princípio da moralidade ou do móbil da vontade. Isto prova que mau grado estejamos na grande época das luzes, ainda não sabemos bem o que ela representa em nosso cérebro e em nosso coração.

Seria possível que nós soubéssemos tudo isto mais cedo, se não imaginássemos que temos já a flama do conhecimento em nossas mãos, ou se pudéssemos lançar um olhar sobre a nossa fraqueza e reconhecer que ainda nos falta uma luz mais elevada.

Nós vivemos nos tempos da idolatria da razão, depositamos uma tocha sobre o altar, proclamamos em altas vozes que a aurora está despontando e que por toda parte o dia aparece realmente, e deste modo o mundo se eleva cada vez mais da obscuridade à luz e a perfeição, pelas artes, as ciências, gosto refinado ou mesmo por uma perfeita compreensão da religião.

Pobres homens! até onde haveis exaltado a felicidade dos homens?

Existiu jamais um século que tivesse custado tantas vítimas como o presente? Existiu jamais um século no qual a imoralidade e o egoísmo tenham predominado mais do que neste? Conhece-se a árvore pelos seus frutos.

Insensatos!… Com o vosso falso raciocínio… onde obtivesses a luz com a qual quereis esclarecer os outros? Será que todas as vossas idéias não são tiradas dos sentidos, que não vos dão qualquer verdade mas somente os fenômenos externos?

Tudo aquilo que dá o conhecimento no tempo e no espaço não é relativo? Tudo aquilo que nós podemos chamar verdadeiro, não é apenas uma verdade relativa?… Não se pode achar a verdade absoluta na esfera dos fenômenos externos.

Assim sendo, vosso raciocínio não possui a “Essencialidade” mas somente a aparência da verdade e da Luz; assim é que, quanto mais esta aparência aumenta e se expande, mais a “Essência da luz” decresce no interior, e o homem se perde na aparência e tateia para atingir as fantásticas imagens despidas de realidade.

A filosofia do nosso século eleva a fraca razão natural a objetividade independente; atribuindo-lhe mesmo um poder legislativo, isentando-a de uma autoridade superior. Torna-a autônoma e a diviniza, suprimindo entre Deus e ela toda relação, toda comunicação, e esta razão deificada, que não tem outra lei que a sua própria, deve governar os homens e torná-los felizes!… As trevas devem expandir a luz!… A pobreza deve dar a riqueza!… E a morte deve dar a vida!…

A verdade conduz os homens à felicidade… Podeis vós dá-la?

O que, vós chamais verdade é uma forma de concepção vazia de substância cujo conhecimento foi adquirido externamente, pelos sentidos; o entendimento coordena-os por uma síntese das relações observadas em ciência ou em opiniões. Vós não tendes absolutamente verdade material, o princípio espiritual e material é para vós um Número.

Retirais das Escrituras e da tradição a verdade moral, teórica e prática; mas como a individualidade é o princípio de vossa razão, e o egoísmo é o móbil da vossa vontade, não vedes a vossa luz interior, a lei moral que governa todas as coisas, ou a rechaçais com a vossa vontade. É até lá que as luzes atuais foram conduzidas. A individualidade sob o manto da hipocrisia filosófica, é a filha da corrupção.

Quem pode afirmar que o sol está em pleno meio dia, se nenhum raio luminoso alegra a terra e nenhum calor vivifica as plantas? Se a sabedoria não melhora os homens e o amor não os torna mais felizes, bem pouca coisa se fez ainda para o todo.

Oh! se somente o homem natural ou o homem dos sentidos pudesse perceber que o principio de sua razão e o móbil de sua vontade, são somente a individualidade, e que por isto mesmo, ele devia ser extremamente miserável, procuraria um princípio mais elevado no seu interior, e aproximar-se-ia da única fonte que pode saciar a todos, porque ela é a “Sabedoria na sua própria essência”.

J.C. é a Sabedoria, a Verdade e o Amor. Como Sabedoria Ele é o princípio da razão, a fonte do conhecimento, a mais pura. Como Amor Ele é o princípio da moralidade, o móbil essencial e puro da vontade.

O Amor e a Sabedoria engendram o Espírito da Verdade, a luz interior, esta luz ilumina em nós os objetos sobrenaturais e os torna objetivos.

É inconcebível observar até que ponto o homem cai no erro quando ele abandona as verdades simples da fé, e a elas opõe a sua própria opinião.

Nosso século procura definir cerebralmente o princípio da razão e da moralidade, ou do móbil da vontade; se os senhores sábios estivessem atentos, veriam que estas coisas encontrariam melhor resposta no coração do homem, mais simples, que em todos os seus brilhantes raciocínios.

O cristão prático encontra este móbil da vontade, princípio de toda imoralidade, objetiva e realmente no seu coração e este móbil se exprime na seguinte fórmula:

“Ama a Deus sobre todas as coisas e ao teu próximo como a ti mesmo”.

O amor de Deus e do próximo é, o móbil da vontade do cristão; e a essência do próprio amor é Jesus Cristo em nós.

Assim é que o princípio da razão é a sabedoria em nós; e, a essência da sabedoria, a sabedoria em sua substância é ainda J.C. – a Luz do Mundo. Assim encontramos nele o principio da razão e da moralidade.

Tudo o que eu digo aqui não é, uma extravagância hiperfísica, é a realidade, a verdade absoluta que cada um pode comprovar experimentalmente desde que recebe em si o princípio da razão e da moralidade, J.C. como sendo a Sabedoria e o Amor essenciais.

Mas a visão do homem dos sentidos é profundamente inapta para captar a base absoluta de tudo aquilo que é verdadeiro o transcendental. Mesmo a razão que nós queremos elevar hoje sobre o trono como legisladora, é tão somente a razão dos sentidos, cuja luz difere da luz transcendental, como a fosforescência do fogo-fátuo difere do esplendor do sol.

A verdade absoluta não existe para o homem dos sentidos mas somente para o homem interior e espiritual que possui um sensorium próprio; ou, para dizer mais precisamente, que possui sentido interior para perceber a verdade absoluta do mundo transcendental; um sentido espiritual que percebe os objetos espirituais tão naturalmente em objetividade, como o sentido exterior percebe os objetos exteriores.

Este sentido interior do homem espiritual, este sensorium de um mundo metafísico não é, infelizmente ainda conhecido de todos, é um mistério do reino de Deus.

A incredulidade atual para todas as coisas onde a razão dos nossos sentidos não encontra ponto de objetividade sensível, é a causa que nos faz desconhecer as verdades, as mais importantes para o homem.

Mas, como poderia ser de outra forma? Para ver é necessário ter olhos; para ouvir, ouvidos. Todo objeto sensível requer seu sentido. Assim é que o objeto transcendental requer também seu sensorium, – e este mesmo sensorium está fechado para a maioria dos homens. Desta forma o homem dos sentidos julga o mundo metafísico como o cego julga as cores, e como o surdo julga o som.

Existe um princípio objetivo e substancial da razão e um móbil objetivo e substancial da vontade. Estes dois conjuntos formam o novo princípio da vida cuja imoralidade, é essencialmente inerente. Esta substância pura da razão e da vontade reunidas é o divino e o humano em nós; J.-C. a Luz do mundo que deve entrar em relação direta conosco para ser realmente conhecida.

Este conhecimento real é a fé viva onde tudo se passa em espírito e em verdade.

Assim, deve existir necessariamente para essa comunicação um sensorium organizado e espiritual, um órgão espiritual e interior, susceptível de receber essa luz, mas que está fechado na maioria dos homens pela espessura dos sentidos.

Esse órgão interior é o sentido intuitivo do mundo transcendental, e antes que esse sentido de intuição seja aberto em nós, não podemos ter nenhuma certeza objetiva da verdade mais elevada. Este órgão foi fechado por conseqüência da queda, que atirou o homem no mundo dos sentidos.

A matéria grosseira que envolve esse sensorium interior é uma catarata, ou véu que cobre a visão interior, tornando a visão exterior inapta à visão do mundo espiritual. Esta mesma natureza ensurdece nosso ouvido interior, de maneira que não ouvimos mais os sons do mundo metafísico; ela paralisa nossa língua interior, de maneira que nós não podemos mais nem mesmo balbuciar as palavras de força do espírito que pronunciávamos outrora pelas quais nós governávamos a natureza exterior e os elementos.

A abertura desse sensorium espiritual é o mistério do Novo Homem, o mistério da Regeneração e da união a mais íntimo do homem com Deus; é a meta mais elevada da religião aqui em baixo, desta religião cuja finalidade mais sublime é de unir os homens a Deus em Espírito e Verdade.

Podemos facilmente perceber por meio disto, porque a religião tende sempre à sujeição do homem material. Ela age assim porque quer tornar o homem espiritual dominante, afim de que o homem espiritual ou verdadeiramente racional governe o homem dos sentidos.

O filósofo sente também esta verdade; seu erro somente consiste em não conhecer o Verdadeiro princípio da razão e querer colocar em seu lugar a sua individualidade, sua razão dos sentidos.

Como o homem possui em seu interior um órgão espiritual e um sensorium para receber o principio real da razão ou a Sabedoria divina, e o móbil real da vontade, ou o Amor divino, ele possui também no seu exterior, um sensorium físico e material para receber “a aparência” da, luz e da verdade. Como a natureza exterior não possui a verdade absoluta, mas somente a verdade relativa do mundo fenomenal, assim também a razão humana não pode mais adquirir verdades inteligíveis, mas somente a aparência do fenômeno que apenas excita nela, para móbil de sua vontade, a concupiscência, no que consiste a corrupção do homem sensorial e a degradação da natureza.

O sensorium externo do homem é composto de matéria corruptível, enquanto que o sensorium interior tem por substrato fundamental, substância incorruptível, transcendental e metafísica.

O primeiro é causa de nossa depravação e nossa mortalidade; o segundo é o princípio de nossa incorruptibilidade e imortalidade.

Nos domínios da natureza material e corruptível, a mortalidade esconde a imortalidade e a causa de nosso estado miserável é a matéria corruptível e perecível. Para que o homem seja libertado desta angústia, é necessário que o princípio imortal e incorruptível que está em seu íntimo se exteriorize e absorva o princípio corruptível, a fim de que o invólucro dos sentidos seja destruído e que o homem possa aparecer na sua pureza original.

Este invólucro da natureza sensível é uma substância essencialmente corruptível, que se encontra em nosso sangue, forma as ligações da carne e escraviza nosso espírito imortal a essa carne mortal.

É possível romper mais ou menos esse envoltório em cada homem e em conseqüência conceder a seu espírito, uma liberdade mais ampla, para que ele chegue a um conhecimento mais preciso do mundo transcendental.

Há três graus sucessivos de abertura em nosso sensorium espiritual.

O primeiro apenas nos eleva ao plano moral e o mundo transcendental, aí age em nós por impulsos interiores, chamados inspirações.

O segundo grau, mais elevado, abre nosso sensorium para a recepção do espiritual e do intelectual, e o mundo metafísico age em nós por iluminações interiores.

O terceiro é mais alto grau – o mais raramente alcançado – desperta o homem interior por completo. Ele nos revela o Reino do Espírito e nos torna susceptíveis de experimentar objetivamente as realidades metafísicas e transcendentais; daí todas as visões são explicadas fundamentalmente. Assim sendo, nós temos no interior, o sentido e a objetividade, como no exterior. Somente os objetos e os sentidos são diferentes. No exterior, existe o móbil animal e sensual que age sobre nós, e a matéria corruptível dos sentidos sofre a ação. No interior, é a substância indivisível e metafísica que se introduz em nós, e o ser incorruptível e imortal do nosso espírito recebe suas influências. Mas, em geral, no interior, as coisas se passam tão naturalmente como no exterior; a lei é por toda parte a mesma.

Portanto, como o espírito, ou nosso homem interior tem um senso completamente diferente e uma outra objetividade do homem natural, não devemos de maneira alguma surpreender-nos que ele fique um enigma para os sábios do nosso século, que não conhecem estes sentidos, e não tiveram jamais a percepção objetiva do mundo transcendental e espiritual. Eis aí porque eles medem o sobrenatural com a medida dos sentidos, confundem a matéria corruptível com a substância incorruptível, e seus julgamentos são necessariamente falsos sobre um assunto para a percepção do qual eles não possuem nem sentidos nem objetividade, e, por conseguinte, nem verdade relativa nem verdade absoluta. No que concerne as verdades que anunciamos aqui, temos que agradecer infinitamente à filosofia de Kant.

Kant incontestavelmente provou que a razão em seu estado natural, não sabe absolutamente nada do sobrenatural, do espiritual e do transcendental, e que ela nada pode conhecer, nem analiticamente, nem sinteticamente, e que assim sendo, ela não pode provar nem a possibilidade nem a realidade dos espíritas, das almas e de Deus.

Isto é uma grande verdade, elevada e benéfica para os nossos tempos; é verdade que São Paulo já a havia estabelecido (primeira epístola aos Coríntios Cap. I, V. 2-24); mas a filosofia pagã dos sábios cristãos soube ignorá-la até Kant.

O benefício desta, verdade é duplo. Primeiramente ela põe limites intransponíveis ao sentimento, ao fanatismo e à extravagância da razão carnal.

Em seguida põe na mais resplandecente luz a necessidade e a divindade da Revelação. O que prova que a nossa razão humana, em seu estado obtuso não tem nenhuma fonte objetiva para o sobrenatural sem a revelação; nenhuma fonte para instruir-se de Deus, do mundo espiritual, da alma e da sua imortalidade; de onde se segue que seria absolutamente impossível sem revelação, saber ou conjeturar nada sobre essas coisas.

Por isto nós somos devedores a Kant por ter provado nos nossos dias aos filósofos, corno já o havia sido desde muito tempo em escola mais elevada da comunidade da Luz, que “SEM REVELAÇÃO, NENHUM CONHECIMENTO DE DEUS E NENHUMA DOUTRINA SOBRE A ALMA SERIAM POSSÍVEIS”.

Por onde, é claro que uma revelação universal deve servir de base fundamental a todas as religiões de mundo.

Assim, segundo Kant está provado que o mundo inteligível é inteiramente inacessível à razão natural, e que Deus habita uma luz na qual nenhuma especulação da razão limitada pode penetrar.

Desta forma o homem dos sentidos ou homem natural não tem nenhuma objetividade do transcendental; daí, à revelação de verdades mais elevadas lhe é necessária e por isto também a fé na revelação, porque a fé lhe dá os meios de abrir seu sensorium interior, pelo qual as verdades inacessíveis ao homem natural lhe podem ser perceptíveis.

É perfeitamente plausível que com os novos sentidos possamos adquirir novas realidades. Estas realidades existem já, mas nós não as distinguimos porque nos falta o órgão da receptividade.

É assim que, embora as cores existam, o cego não as vê; o som também existe, mas o surdo não o escuta. Não devemos procurar a falta no objeto perceptível mas no órgão receptor.

Com o desenvolvimento de um novo órgão nós temos uma nova percepção, novas objetividades.

O mundo espiritual não existe para nós porque o órgão que o torna objetivo em nós não está desenvolvido. Com o desenvolvimento deste novo órgão, a cortina levanta-se imediatamente, o véu impenetrável até o momento, é rasgado, a nuvem à frente do santuário é dissipada, um novo mundo surge num relance para nós; as vendas tombam dos olhos e nós somos, no mesmo instante, transportados da legião dos fenômenos para a da verdade.

Só Deus é Substância, Verdade absoluta, Ele só é aquele que É, e nós somos aquilo que Ele nos fez.

Para Ele, tudo existe na unidade; para nós, tudo existe na multiplicidade.

Muitos homens não têm a menor idéia deste despertar do sensorium interior como também não a têm para o “objeto” verdadeiro e interior da “Vida do Espírito”, que não conhecem; nem sequer pressentem de nenhuma maneira.

Daí, ser-lhes impossível saber que se pode perceber o espiritual e o transcendental e que se pode ser levado ao sobrenatural até à visão.

A verdadeira edificação do templo consiste unicamente em destruir a miserável cabana adâmica e construir a templo da divindade; isto é, em outros termos, desenvolver em nós o sensorium interior ou órgão que recebe Deus; depois deste desenvolvimento, o principio metafísico e incorruptível reina sobre o princípio terrestre e o homem começa a viver, não mais no princípio do amor próprio, mas no Espírito e na Verdade de que ele é o templo.

A lei moral passa então a ser amor ao próximo e, o mais puro, enquanto que, ela não é para o homem natural exterior dos sentidos, senão uma simples forma de pensamento; e o homem espiritual regenerado no espírito, vê tudo no ser, do qual o homem natural tem somente formas vazias do pensamento, o som vazio, os símbolos e a letra, que são todos imagens mortas, sem o espírito interior.

O fim mais elevado da religião é a união a mais íntima do homem com Deus, e esta união já é possível mesmo aqui em baixo, mas ela não o é senão pela abertura de nosso sensorium interior e espiritual que torna nosso coração susceptível de receber Deus.

Aí estão os grandes mistérios dos quais a nossa filosofia não duvida, e cuja chave não pode ser encontrada entre os sábios de escola.

Contudo sempre existiu uma escola mais elevada, à qual este depósito de toda ciência foi confiado, e esta escola era a comunidade interior e luminosa do Senhor, a sociedade dos Eleitos que se propagou, sem interrupção, desde o primeiro dia da criação até aos tempos presentes; seus membros, é verdade, estão dispersas pelo mundo, mas eles estiveram sempre unidos por um espírito e por urna verdade, e não tiveram jamais senão um só conhecimento, uma única fonte de verdade, um senhor, um doutor e um mestre, em que reside substancialmente a plenitude Universal de Deus, e que os iniciou, Ele só, nos mistérios elevados da natureza e do Mundo Espiritual.

Esta comunidade da luz foi denominada em todos os tempos a Igreja invisível e interior, ou a comunidade, a mais antiga, da qual nós vos falaremos mais detalhadamente na próxima carta.

#Martinismo #Ocultismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-nuvem-sobre-o-santu%C3%A1rio-carta-1

A Arte da Conjuração: Hodu, Trabalho com Raízes, e Conjuração para o Século 21.

Por Stephanie Rose Bird

História do Hodu:

Era uma vez, éramos africanos, envolvidos em um léxico único de crenças, tradições, histórias e costumes destinados a ajudar a nos integrar em um ambiente repleto de plantas, animais, elementos e uma gama complexa de espíritos. Com o advento da escravidão, aqueles que permaneceram mais tempo cortaram a ligação física com a Pátria Mãe, mas como sementes retiradas de uma flor pelo vento, encontramos um terreno fértil em terras distantes. As sementes recém semeadas tomaram mais força em climas ensolarados que lembram a nossa Pátria.

Separados fisicamente, permanecemos unidos como irmãos e irmãs em espírito. Os vários híbridos de religiões tradicionais africanas continuam a prosperar no litoral do Brasil, República Dominicana e Cuba na forma de Candomblé, Shango, Lucumi, Umbanda e Santeria. Na Louisiana e no Haiti, nossa espiritualidade próspera sob a forma de Vodoun. No sul dos Estados Unidos, o Hodu criou raízes no Alabama, Mississippi, Geórgia, Flórida, Carolina do Norte e Carolina do Sul. O Hodu foi estabelecido durante a escravidão, utilizando os tipos de plantas disponíveis nos Estados Unidos. Nosso conhecimento do herbalismo africano foi aprimorado através da generosidade de tribos nativas americanas como os Cherokee, Chickasaw, Chocktaw e Seminole, que compreenderam intimamente nosso sofrimento. Muitos índios negros foram o resultado deste intercâmbio. A prova disso está em nossas receitas, em nossa aparência e, é claro, no Hodu.

Com a imigração e as migrações de escravos libertados na América do Norte e do Sul, as religiões de base africana se espalharam dos centros culturais mais antigos da Bahia, Brasil; Havana, Cuba; e Yorubalândia, África Ocidental. Nos estabelecemos em centros industriais dinâmicos como Nova Iorque, Miami, Los Angeles e Chicago. Algumas de nossas práticas tradicionais foram transformadas em sistemas que incorporaram o catolicismo. Por exemplo, o elaborado sistema de santos, sacerdotes e sacerdotisas, deidades e cerimônias honradas pelos católicos está integrado em Santeria dos países de língua espanhola e Vodoun em áreas predominantemente de língua francesa. Santeria, Shango e Vodoun são misturas únicas de rituais religiosos, cerimônias, orações, invocações e bênçãos ocidentais e não ocidentais, mas também estão abertas para incluir o lado mais escuro do mundo, incluindo maldições, feitiços e banimentos.

Hodu e Candomblé são principalmente tradições curativas envolvidas com ervas, plantas, raízes, árvores, animais, ímãs, minerais e águas naturais combinadas com amuletos mágicos, cantos, cerimônias, rituais e objetos de poder feitos à mão, que capacitam o praticante a tomar o controle de seu próprio destino em vez de colocar o poder nas mãos de deidades ou líderes religiosos como sacerdotes ou sacerdotisas. Hodu e Candomblé são distintamente americanos (Norte e Sul); portanto, são multiculturais e refletem fortes laços entre vários grupos indígenas, o judaico-cristão das culturas dominantes, e o herbalismo mágico e medicinal da África Ocidental dos Iorubás, Fon, Ewe, e outros.

Como o Hodu é uma tradição americana amplamente praticada nas áreas onde meus ancestrais americanos mais antigos se estabeleceram e se misturaram com o povo Cherokee e Chickasaw, foi o principal africanismo que me foi transmitido. A palavra “Hodu”, no entanto, raramente foi falada pelos afro-americanos, embora tenha sido passada adiante. Esta eclética coleção de mantenedores das tradições hodu africanas sobreviveu à passagem intermediária e à escravidão através de canções, receitas e rituais. Popularmente chamado tanto de hodu quanto de vodu pelos desinformados, o termo é de origens misteriosas, muito provavelmente a criação da mídia como uma adulteração de Vodoun. A palavra “Hodu” não era falada em minha casa, mas seus princípios eram evidentes em minha criação. O termo é uma forma útil de dar forma às crenças folclóricas coloridas e específicas praticadas por uma ampla gama de crentes, incluindo o Gullah dos povos da Geórgia e das Carolinas, os negros nas principais áreas metropolitanas, os brancos dos Apalaches e outras áreas rurais, os imigrantes europeus e os grupos indígenas americanos, principalmente das regiões costeiras do sudeste.

Como não é uma religião, o Hodu sempre foi praticado por uma variedade de pessoas. Seu atrativo reside no fato de ser natural, não dogmático e prático. As principais preocupações incluem abençoar o lar e manter o ambiente doméstico funcionando sem problemas. Outras preocupações são ganhar um companheiro fiel que seja amoroso e não traia ou abandone seu cônjuge; saúde geral e felicidade; prever o futuro; controlar as pessoas quando necessário e libertar-se de um controle indesejado; usar os feitiços e os desenfeitiços para aliviar situações; atrair a sorte no emprego, carreira, escola, prosperidade, sorte e felicidade; preocupações comuns para a humanidade. É também um dos poucos caminhos que contém trabalho que se dirige especificamente aos gays, lésbicas e bissexuais diretamente.

“Cultivar um grande respeito pela natureza é o objetivo final de todos os costumes relativos à madeira sagrada”.

-Excerto de The Healing Drum de Yallo Diallo e Mitchell Hall

Este caminho leva da e para a África:

Paus, pedras, raízes e ossos são os ingredientes básicos encontrados no saco de mojo do Hodu. Para entender o conceito de Arte da Conjuração, vamos explorar as raízes africanas do Hodu. Até muito recentemente, a relação entre o Hodu e o folclore europeu, o misticismo e a magia, bem como suas semelhanças com a espiritualidade nativa americana, tem sido um foco principal de estudo. Quando comecei a explorar minha ascendência e herança, fiquei imediatamente impressionado com o quão muito africano é o Hodu. Como estudioso, achei o estudo do Hodu de uma perspectiva africana extremamente oblíquo, já que a pesquisa existente veio através de um filtro europeu. Para complicar ainda mais as coisas, não se pode pesquisar o Hodu buscando fontes sobre a magia africana ou afro-americana ou mesmo como espiritualidade alternativa; tais categorias não são culturalmente relativas.

Por sorte, pude usar minha formação como artista e professor de arte com interesses no folclore, algum trabalho de campo em antropologia cultural e uma paixão pela linguística para encontrar respostas. Ao examinar as palavras não-inglesas usadas em tesouros Hodu como a coleção de volumes finos de Anna Riva, encontrei pistas valiosas que me levaram não só à África Ocidental, mas a todo o caminho de volta ao Antigo Egito. As palavras em feitiços, óleos, pós e encantamentos incluem divindades egípcias (Sol Rá, Ísis, Osíris e Hathor). Egípcias sagradas ou misturas de ervas como Kyphi, Khus Khus (capim-limão), incenso e mirra são ingredientes frequentemente necessários para o Hodu. Pessoas lendárias do Oriente Médio e do Norte da África como a Rainha de Sabá e o Rei Salomão são homenageados com incenso com seus nomes. Muitos pós usam termos baseados na África Ocidental como Nyama, Ngama e Nganga e invocam os Sete Poderes da África (Ifa Orisha). Superstições sobre vassouras; a encruzilhada; reverência aos guerreiros, água, metalurgia e pedras estão implícitas no Hodu; cada uma delas é derivada principalmente da espiritualidade tradicional africana. Estas ligações foram apenas o início da minha mágica jornada.

O livro seminal que une a cultura africana com a das Américas é Flash of the Spirit de Robert Farris Thomas. Thomas fornece algumas das relações mais bem documentadas e bem ilustradas disponíveis. Construindo sobre os alicerces fornecidos por Flash of the Spirit, mergulhei em livros e catálogos dedicados à arte africana. Tive uma epifania enquanto explorava a escultura figurativa africana, encontrando a herança africana do Hodu bem preservada dentro do saco do mojo.

Antes que você possa apreciar o reservatório cultural que um saco mojo representa, é melhor entender alguns dos conceitos que ele encarna. O mojo bag é uma coleção de ashe. Ashe (Axé) é o poder invisível da natureza representado em todos os produtos naturais e objetos orgânicos. O povo Igala da Nigéria é um dos muitos grupos africanos que consideram qualquer tipo de vida vegetal como preenchida com poderes medicinais. O termo medicina é holístico, portanto não é apenas para tratar as queixas físicas, mas também as espirituais. Objetos de poder como escudos, máscaras, esculturas, amuletos e encantos são conglomerados de ashe. As máscaras da Sociedade Bamani Komo e as esculturas figurativas de Boli são incrustadas com penas e penas. Isto capta os poderes místicos tanto do pássaro quanto do porco-espinho. A incrustação é um tipo de alimento para um objeto de poder. O alimento sustenta a vida do objeto de poder. A alimentação consiste de pedras moídas ou ervas; folhas; penas; ossos; peles de animais, dentes; órgãos sexuais ou chifres; sangue de galinha; sêmen ou saliva.

Os povos Yaka, Kongo, Teke, Suku e Songhai embalam uma cavidade na barriga de suas esculturas com uma grande variedade ou materiais orgânicos: ossos, pelos, garras, sujeira de pegadas de animais; escamas, órgãos sexuais, excrementos de relâmpagos, unhas, peles de animais, e muito mais. Os povos Kongo, Suku e Yaka da África Central criam alguns excelentes exemplos destas esculturas. Estes grupos de pessoas preparam sachês feitos de conchas, cestas, panelas, garrafas ou latas de alimentos, sacos plásticos ou bolsas de couro. Estas bolsas de remédios são carregadas com materiais naturais e feitos pelo homem, como pólvora ou vidro.

As figuras do Kongo são chamadas de minkisi ou nkisi (plural). Os nkisi incorporam os elementos e são considerados como encantos movidos pela natureza. Eles ajudam as pessoas a curar e proporcionam um lugar seguro ou esconderijo para a alma. Às vezes, elas contêm conchas, penas, nozes, bagas, pedras, ossos, folhas, raízes ou galhos.

Os Bamana do Sudão Ocidental usam objetos de poder, como bolsas de remédios que estão imbuídos de ashe para tratar de vários males. Esses objetos são usados para expressar proezas como guerreiro, para combater o mal-estar sobrenatural e para frustrar as más intenções. As bolsas contêm bilongo (remédio) e um mooyo (alma).

O Kongo escravizado e a medicina angolana juntaram o conceito de bilongo e mooyo nas Américas como bolsas de mojo. Estas bolsas de mojo são preparadas por um especialista parecido com o Banganga (sacerdotes/sacerdotisas) chamados de rootworker (trabalhador de raízes) ou conjurador em Hodu. Os objetos dentro de cada bolsa guiam os espíritos para entender a razão pela qual sua ajuda é procurada.

Materiais com pegadas fortes como pegadas humanas ou animais sobreviveram à escravidão e continuam a ser usados em sacos mojo dentro do Hodu e Santeria também. Outros ingredientes de um saco mojo incluem objetos associados com os mortos: pregos de caixão, ossos moídos ou terra de cemitério. Os objetos, sejam pau, pedra, folha ou osso, têm um espírito correspondente e um remédio particular atribuído a eles. Os sacos mojo são considerados vivos, possuindo uma alma; assim, eles, como seus antepassados africanos, devem ser alimentados em dias específicos. O hoodoo americano alimenta seus mojos com ervas em pó, pó magnético, óleos de ervas, pó e sujeira da pista do pé, isoladamente ou combinados. O herbalismo africano chamado Daliluw é usado para atingir o equilíbrio correto dos ingredientes junto com a invocação de várias divindades. O Daliluw é realçado por rituais que ativam ou controlam a energia. Os sacos Mojo variam de acordo com a região, finalidade e até mesmo com o gênero que os cria. Eles são chamados alternativamente de mão, flanela, toby, gris-gris, ou Joe mow.

Aqui está uma receita para um saco mojo projetado para atrair prosperidade:

Um saco de dinheiro:

A [árvore] Alto João, a Raiz do Conquistador encarna o espírito de um heroico e destemido sobrevivente da escravidão. O Alto João Conquistador representa a coragem, força, bravura e o espírito de esperança.

Comece este trabalho na lua de cera em uma quinta-feira. Selecione cuidadosamente uma raiz do Alto João Conquistador que chame o seu espírito. Usando sua mão dominante (a mão mais poderosa), crie raízes em um copo de óleo de girassol. (Os girassóis possuem energia positiva por causa de sua intimidade com Sol Rá). Mexa em sete gotas de atar de rosas (óleo de fragrância de rosas substituto, se necessário). As rosas são plantas calmantes, curativas, que nos ajudam a receber bênçãos do universo. Feche bem a tampa. Rodar diariamente durante quatorze dias. Óleo com excesso de mancha. Colocar o Alto João perfumado, noz moscada, alguns cravos e um pequeno pau de canela dentro de um pedaço de flanela verde de quatro por seis polegadas. Mergulhe a agulha de costura na mistura de óleo de girassol e rosa. Coser flanela junto com fio de algodão verde. Saco de alimentação no início da lua de cera e na lua cheia.

Alimentos: polvilhar saco com uma mistura de hortelã-pimenta em pó, cal e manjericão (seco), areia magnética, e óleo essencial de sândalo. (Armazenar a mistura em recipiente de aço inoxidável quando não estiver em uso). Você também pode alimentar seu dinheiro com raiz de High John em pó para extrair prosperidade ou polvilhar com manjericão.

A Arte da Conjuração: A Arte do Hodu Contemporâneo
Agora que você entendeu um pouco da história da Hodu, gostaria de mergulhar na Arte da Conjuração. Meu trabalho enfatiza a ideia de trabalhar com a natureza e não apenas usar o que ela tem para nos oferecer. Uma maneira fácil de realizar isto é assegurar um equilíbrio adequado na relação de dar e receber:

– Usar mas não abusar, causar dor, ou destruir seus dons no processo

– Aproximar-se da Mãe Terra como ela existe hoje

– Evitar o uso excessivo ou a negligência da natureza, dos animais, do oceano e das plantas frágeis

Para conseguir a ajuda da Terra, trabalhe em estreita colaboração com ela:

– Ouça seus sussurros à noite, sob a luz da lua

– Ouça suas chamadas no início da manhã carregadas nas asas de pássaros e borboletas

– Observe seu suspiro e ondular com o refluxo e fluxo das correntes

– Procure seus conselhos quando trabalhar com ervas e raízes

– Tenha em mente que existem limitações aos dons terrenos quando se toca na fonte

– Abra seus olhos.

– Trabalhe com ela e não contra ela.

Isto é Hodu para o século 21 – chamo-lhe a Arte da Conjuração.

É fundamental que levemos em consideração a grande população de humanos que reside em nosso planeta e os efeitos desses números sobre as reservas da Mãe Terra. Precisamos ser donos até a natureza urbana de nossa existência. Além disso, devemos estar atentos aos recentes desenvolvimentos em nossa cultura. Para nos mantermos fiéis às origens do Hodu, tentaremos incorporar tanta tradição quanto for realisticamente viável. À medida que nos misturamos, buscamos um equilíbrio entre os caminhos antigos com a ética moderna e a tecnologia contemporânea. Nosso objetivo é honrar a Mãe Terra e nossos ancestrais enquanto trabalhamos nossas raízes de uma forma respeitosa.

Plantas em Risco:

A United Plant Savers é um grupo importante que mantém herboristas, jardineiros e outros informados sobre o estado frágil de certas plantas. É importante perceber que hoje em dia muitas plantas Hodu tradicionais estão em risco e algumas estão em perigo de extinção, inclusive:

– Uva-de-urso (Arctostaphylos uva-ursi), também chamado kinnickinnick;
– Acteia, ou cohosh negra (Cimicifuga racemosa);
– Sanguínea (Sanguinaria Canadensis), também chamada de raiz Rei ou Ele raiz;
– Cohosh Azul (Caulophyllum thalictroides);
– Cáscara Sagrada (Frangula purshiana), também chamada casca sagrada;
– Hidraste (Hydrastic canadensis); o gengibre é um substituto seguro;
– Selo de Salomão (Polygonatum biflorum);
– Trílio (Trillium spp.), Raiz da Índia e Raiz de Beth;
– Casca de carvalho-branco (Quercus alba);
– Sálvia branca (Salvia apiana), amplamente utilizada em bastões de borrão.

Animais:

Pode ser uma surpresa que certas plantas estejam em perigo ou em risco, mas há muito tempo sabemos que isso é verdade em relação aos animais e criaturas marinhas. Uma variedade de partes de animais: peles, dentes, ossos, chifres e garras têm sido úteis para o Hodu e caminhos similares da África. Vamos examinar alguns dos animais mais proeminentes usados de uma perspectiva africana para entender porque foram usados no Hodu e depois descobrir uma maneira de substituí-los na Arte da Conjuração.

Texugos: Os dentes dos texugos eram e em alguns casos ainda são usados em sacos mojo. O texugo é uma criatura fantástica – baixa à terra, hábil em cavar, e extremamente agressiva quando cruzada. Eles são simbólicos do espírito caçador/guerreiro, já que podem enfrentar animais tão ferozes quanto ursos ou cães. Existem cerca de quinze subespécies de texugo nas Américas. Na África Ocidental, há a espécie Mellivora capensis, também chamada de texugo de mel ou ratel. Esses caras têm uma aparência semelhante à doninha – eles têm pelo marrom ou preto com uma cobertura branca, amarelo-pálido ou cinza distinta no topo. Os texugos de mel são encontrados na floresta de Ituri, no norte do Zaire. Uma característica útil a ser considerada em relação a todas as espécies de texugos é que sua pele é tão dura que até mesmo uma pena de porco-espinho, uma picada de abelha africana ou uma mordida de cachorro mal consegue penetrar sua pele. Eles parecem ser completamente desprovidos de medo. Eles atacam animais como cavalos, antílopes, gado, até mesmo búfalos, embora não sejam maiores do que um guaxinim.

Aligátores e crocodilos: Os dentes de crocodilo têm sido um componente dos sacos de mojo. Os crocodilos estão em um grupo de répteis aparentados chamados Crocodylidae que povoam tanto as Américas quanto a África Ocidental na forma de O. t. tetraspis e O.t osborni, também chamados de Crocodilo Anão da África Ocidental e Crocodilo Anão do Congo. O jacaré americano e o Crocodilo Anão da África Ocidental são crocodilos que compartilham características chave admiradas por guerreiros africanos, caçadores e Hodus. Os crocodilos são resistentes, tenazes, astuciosos e difíceis de penetrar.

Guaxinins: Os guaxinins são omnívoros cujas espécies vivem na Europa, Ásia e Américas. Há muito folclore em torno do guaxinim no folclore indígena americano. O nome guaxinim deriva da palavra algonguina arachun, ou aquele que se arranha. Outras palavras nativas americanas para guaxinim indicam que eles são considerados bruxos, feiticeiros ou demônios. O guaxinim é outro sobrevivente astuto que admiramos. O pênis do guaxinim é procurado por amor e atrai magia.

Serpentes: Serpentes de vários tipos têm um papel de destaque no mito africano, na lenda e na vida cotidiana. As qualidades das cobras que são admiradas são sua habilidade de sobreviver na terra e na água; sua habilidade de se camuflar e se misturar calmamente em seu ambiente; sua habilidade de caçar e comer presas muito maiores e mais poderosas; e a potência de seu veneno.

Dr. Buzzard, um renomado Hodu, é lembrado como alguém que poderia implantar cobras e outros répteis em suas vítimas humanas com o poder de sua mente, um aperto de mão ou um golpe de pó. Esta é uma prática bem documentada na África. O antropólogo e autores Paul Stroller e Cheryl Olkes documentam a feitiçaria do veneno da cobra em seu livro, In Sorcery’s Shadow (University of Chicago Press, Chicago, Londres, 1987), centrado em torno da República do Níger.

O guizo da cascavel é um emblema das antigas Deusas Egípcias Hathor e Isis. Ísis usou seu sistro, um chocalho parecido com uma cascavel, para motivar deuses e humanos, a se tornarem ativos em vez de passivos. Ísis, ou Auset como era chamada no Egito, trouxe a cobra à existência. Os guizos de pele de cobra e cascavel são usados em várias fórmulas de Hodu, incluindo o infame pó de Gopher.

Histórias fascinantes, traços e mitologia à parte, meu conselho em utilizar animais para conjurar é trabalhar com os animais sem tirar suas vidas. Você pode encontrar uma pele de cobra, penas caídas, caveiras encontradas e jacarés, guaxinins e texugos mortos para utilizar suas várias partes. Você pode usar um escaravelho em cerimônias e rituais para capturar o poder das serpentes. Se você comer carne, colete e depois alveje (para higienizar) ossos e penas de suas refeições e use-os em sacos mojo.

Encontrar substitutos:

Outra coisa a fazer é usar substitutos artísticos. Estes incluem réplicas de brinquedos de plástico; moldes de metal de aranhas, escorpiões, cobras e tigres; e pequenas esculturas. Na África do Sul, há uma viva tradição de criar animais de poder a partir do barro. Eu gosto particularmente de usar as esculturas sul-africanas por magia, já que os africanos negros as tiram da Mãe Terra.

Tribos da África Ocidental, antigos khemetianos (egípcios) e vários caminhos espirituais africanos apoiam fortemente a noção de trabalhar com animais totêmicos. Em Wicca e Feitiçaria, trabalhar de perto com os animais está alinhado com o conceito do familiar.

Na Arte da Conjuração, sugiro que se abstenha de prejudicar todos os animais, inclusive os humanos.

Substitutos para ofertas de sangue animal e sacrifício ainda melhoram os truques (feitiços) se você os abençoar e os carregar com poder. Experimente qualquer um destes:

Pedras ou contas de cornalina, granadas ou pedras de rubi são representativas do sangue.

– Cidra de maçã, suco de arando, suco de romã ou suco de tomate é recomendado em vez de sangue real na Enciclopédia de Ervas Mágicas de Cunningham de Scott Cunningham (Llewellyn 1985).

– Os ossos fósseis oferecem outra rica possibilidade, mas minha preferida de todas é trabalhar com a generosa pureza dentro da força vital de vários animais. Eu acompanho e cuido de quatro animais dentro de casa e muitas criaturas selvagens no exterior – todos eles servem como companheiros espirituais e mensageiros.

Criaturas marinhas:

O Hodu gira em torno da veneração da água, dos espíritos da água e das divindades da água; consequentemente, olhamos para os rios, lagos, e especialmente para o mar em busca de ingredientes para o trabalho das raízes. Há duas criaturas marinhas das quais eu desmotivo o uso: o coral e as pérolas. Pérolas cultivadas são criadas e depois extraídas de criaturas vivas de forma violenta. O uso de pérolas pode fazer com que seus truques ou trabalhos sejam negativos e mau carma à sua maneira. Os corais estão vivos. Se você puder encontrar uma peça lavada na praia ou em um antiquário, isso pode trazer alguns benefícios à sua conjuração. Não é aconselhável comprar corais contemporâneos colhidos comercialmente, tendo em vista o estado ameaçado dos recifes mundiais de coral.

Os cauris, musgo irlandês, algas e especialmente o sal marinho são úteis para invocar a presença purificadora, protetora e amorosa do mar. As vacas são um instrumento tradicional de adivinhação na África. Elas têm sido úteis como moeda e na ornamentação – e por que não? Afinal de contas, eles são o símbolo da yoni.

Bastões, Pedras, Raízes e Ossos:

A esta altura, é claro que a Arte da Conjuração e seus ancestrais, Hodu, são construídos em torno da natureza. Estas tradições compartilham alguns pontos em comum com as mais europeias Bruxaria e Wicca. O praticante da Arte da Conjuração ou Hodu tem muito em comum com os Wiccanas, os Bruxas Verdes (Green Witches) e as Bruxas Solitárias (Hedge Witches). Todos nós empregamos a natureza, os elementos, o universo e o poder de dentro para provocar mudanças poderosas.

O título do meu livro inovador Sticks, Stones, Roots and Bones (Paus, Pedras, Raízes e Ossos). Este livro é uma compilação de canções, receitas, truques, trabalhos, rituais, feitiços, histórias, lembranças e folclore que se concentram em torno da cultura africana e americana. O livro dá mãos práticas sobre formas de denotar ritos de passagem e ciclos de vida usando o herbalismo mágico e as tradições africanas. Informações amplas, feitiços, encantamentos e amuletos são compartilhados para ajudar o leitor a lidar com as preocupações comuns e cotidianas.

O Hodu foi quase ridicularizado pela existência daqueles que não tinham a menor ideia do que haviam tropeçado. Ele continua a sofrer de mal-entendidos, um excesso de interpretações europeias, capitalismo e interesses comerciais. A elaboração das fórmulas e receitas requer um ingrediente essencial – o TLC (terno cuidado amoroso) para aproveitar as forças mágicas e as energias do universo. Sticks, Stones, Roots and Bones enfatiza uma abordagem prática, faça você mesmo; assim, as receitas são centrais.

Felizmente, Hodu e conjuração estão atualmente desfrutando de um renascimento.

Sou grato que os ancestrais e os espíritos da natureza me acharam um canal adequado para contribuir para a criação da Arte da Conjuração. Deixo-os com alguns projetos e inspirações, por isso arregacem as mangas e se empenhem!

Espírito de Renovação Sachê de Banho:

As clareiras e o combate à negatividade podem ter seu preço. Para combater a fadiga, tente este sachê revigorante. Ele renovará seus recursos espirituais e psíquicos.

1 colher de chá cada milefólio seco, camomila e hortelã-pimenta.
2 colheres de sopa de leite integral em pó
1/8 colher de chá de cada óleo essencial de lavanda, alecrim e agulha de pinheiro branco
3 colheres de sopa de gel de aloe vera (babosa)
Duas flores de calêndula (calendula officinalis)
1 colher de sopa de areia magnética

Coloque ervas secas e leite em um grande saquinho de chá. (Você também pode usar um pedaço de pano de queijaria preso com um elástico de borracha). Correr banho. Pendure o sachê sob a torneira. Mexa os óleos essenciais em gel de aloe vera. Despeje na banheira. Misturar. Colocar pétalas de calêndula na água enquanto se concentra em suas intenções. Polvilhe em areia magnética, imaginando que são grãos de energia.

Entre, relaxe, e aproveite!

Uma Tigela de Sujeira:

Um lembrete importante de nossa conexão com os antepassados e com a Mãe Terra é manter uma tigela de cristal ou metal cheia de terra em casa. Esta pode ser terra de cemitério coletada de um terreno de um membro amoroso da família, terra de um jardim fértil, ou simplesmente terra de vaso. Coloque a tigela cheia em seu altar pessoal sobre um pedaço de pano africano como pano de lama, pano de kente, ou índigo.

Um Amuleto da Prosperidade:

Pressione um trevo de cinco folhas (Trifolium spp.) entre dois livros pesados. Quando estiver liso e seco (cerca de uma semana), remover o trevo e laminá-lo. Recorte dois pedaços de papel parafinado com cerca de dois centímetros quadrados. Trevo de sanduíche entre os papéis. Ferro em baixo. Uma vez frio, coloque o trevo prensado em um medalhão e use-o todos os dias ou carregue-o na carteira prensado entre seu dinheiro de papel.

Poção do Amor:

Numa sexta-feira à noite da lua nova, coloque três cápsulas de cardamomo branco em suas mãos, sopre nelas, beije-as, diga a elas para lhe trazerem amor. Coloque cardamomo em duas taças de vinho tinto com algumas fatias de laranja. Ferva, não ferva (picar o dedo com uma agulha e adicionar algumas gotas de sangue à poção, se você ousar!) Beba isto com a pessoa desejada.

Amor, prosperidade, saúde, fertilidade, lembrança, sucesso, empoderamento, autoajuda e tudo o que você deseja pode ser alcançado através do emprego atencioso dos dons da Mãe Natureza: paus, pedras, raízes e ossos.

***

Fonte:

BIRD, Stephanie Rose. Conjure Craft: Hoodoo, Rootwork, and Conjuring for the 21st Century. The Lllewellyn’s Journal, 2003. Disponível em: <https://www.llewellyn.com/journal/article/504>. Acesso em 9 de março de 2022.

COPYRIGHT (2003). Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

***

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/a-arte-da-conjuracao-hodu-trabalho-com-raizes-e-conjuracao-para-o-seculo-21/