Enciclopédia de Mitologia

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A Enciclopédia de Mitologia é um trabalho que tenho desenvolvido desde 1998, reunindo histórias, personagens, deuses, objetos, locais e demônios de diversas mitologias ao redor do planeta. A partir do estudo comparado destas mitologias, cheguei em um banco de dados muito interessante sobre todas as principais mitologias e religiões do planeta.

A primeira edição da Enciclopédia possuía 640 páginas, tratava de 7.200 verbetes e tinha 994 ilustrações. Trazia elementos da mitologia grega, romana, egípcia, indiana, árabe, chinesa, japonesa, celta, nórdica, européia, polinésia, sul americana, norte-americana, azteca, maia, inca, goécia e bíblica. Seu lançamento foi feito na Bienal do Livro de 2008, no Stand da Daemon Editora.

De lá para cá, tivemos diversas re-impressões até chegarmos a 2018, quando completamos 10 anos do lançamento dela e o esgotamento da quarta edição. Com a qualidade que conseguimos atingir no Projeto “Kabbalah Hermética” veio a idéia de fazer a 5a edição inteiramente colorida, ampliada, incluindo árvores genealógicas dos principais deuses, índices separados por mitologia e muito mais.

Ao longo de 2018 fomos expandindo o projeto até chegar a 8.000 verbetes, e 1100 ilustrações, agora totalmente coloridas e com a descrição de cada obra de arte, artista e período, em um livro capa dura com a mesma qualidade gráfica do nosso projeto de Kabbalah Hermética!

Avise seus amigos, teremos a opção de apoio para Grupos, Lojas, Ordens e Covens com direito a ter o Brasão incluído nos agradecimentos do livro.

https://www.catarse.me/mitologia

#Mitologia

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‘Despertar dos Mágicos

Escrito por Louis Pawels, jornalista e escritor e Jacques Bergier, engenheiro químico e escritor, O Despertar dos Mágicos (Le Matin des magiciens) publicado pela primeira vez na França, em 1960, é considerado como um manifesto do realismo fantástico. O livro fala de ocorrências insólitas, dedicando muitas páginas ao trabalho de Charles Fort, incansável compilador de estranhezas do mundo; e apresenta a fantasia real dos grandes mistérios da Humanidade entre as verdades e os mitos de sociedades secretas, civilizações desaparecidas, ciências ocultas, religiões.

Investigando as sombras do terrível fenômeno nazista, os autores revelam as conexões entre a política nacional-socialista do partido de Hitler e o ocultismo mitológico que virou moda no Ocidente a partir da segunda metade do século XIX. O fantástico na realidade é aspecto metafísico interagindo com físico; o invisível em sua relação com o visível; a percepção que vai além dos sentidos; a comunicação sem barreiras de código, tempo e espaço. A realidade fantástica é alquimia, é telepatia, mediunidade; é, também, a decomposição do átomo em partículas.

O Despertar dos Mágicos é livro que introduz o público leigo no Universo do ocultismo, da magia, dos mistérios que a ciência não consegue explicar. A edição inglesa, publicada em 1963, The Morning of the Magicians, transformou o título em best-seller mundial. Entre as décadas de 1960 e 1970 foram vendidos mais de dois milhões de exemplares em diferentes idiomas. A edição espanhola saiu em 1962: El retorno de los brujos.  O sucesso do livro foi tão grande que, já em 1961, Bergier e alguns colaboradores começaram a editar uma revista mensal sobre os mesmos temas. Era a revista Planeta, cuja versão brasileira, muito conhecida, é pioneira na abordagem de assuntos misticos-esotéricos.

 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/despertar-dos-magicos/ […]

[…] Quando estive em Angola, li o livro de Jacques Bergier, Despertar dos Magicos. […]

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‘Asatru – O Paganismo Nordico

A menos de mil anos atrás os antigos sábios da Islândia tomaram uma decisão. Sob pressão política da Europa cristianizada e enfrentando a necessidade de comércio, a assembléia nacional declarou a Islândia como sendo um oficialmente um país cristão. Dentro de poucos séculos os últimos remanescentes do Paganismo Nórdico, acabaram morrendo. Contudo, a Islândia era um país tolerante e os mitos, estórias, e lendas da era pagã felizmente não foram queimados, e com isso, acenderam o fogo das crenças pagãs em gerações posteriores. Em 1972, depois de uma longa campanha feita pelo poeta e Godhi (Sacerdote) Sveinbjorn Beinteinsson, a Islândia novamente reconheceu o paganismo nórdico como uma religião legitima e legalizada.  

Hoje o paganismo nórdico, conhecido como Asatru (“lealdade aos Deuses” do nórdico antigo), é praticado em vários países além dos países escandinavos. O Asatru também faz parte do grupo das religiões neo-pagãs como o Druidismo, a Wicca, a Bruxaria Tradicional, a Stregheria, etc. Contudo, o Asatru permanece desconhecido pela maioria, até mesmo dentro da comunidade neo-pagã.  

O mais importante para se lembrar é que o Asatru é uma religião. Não é um sistema de magia ou uma “Prática New Age”. A palavra Asatru derivou-se do “As” (Aesir, família principal dos Deuses de Asgard) e “tru” (trutrue – verdade – confiança – lealdade). Ser Asatru é estar ligado com lealdade e confiança aos antigos arquétipos do norte da Europa, contudo, você pode pegar coisas de outras religiões e outros arquétipos e continuar sendo Asatru, basta você ter o panteão nórdico como o seu preferido e sua base nos princípios nórdicos. Outra coisa característica do Asatru é a condenação da conversão, como nas religiões missionárias tipo o cristianismo. Para o Asatru não existe “verdade absoluta”; cada pessoa é dona de si mesma e é capaz de escolher sua “verdade”, nenhuma religião é errada. Asatru valoriza seus ancestrais, valoriza o estudo do passado e das origens e valoriza a guerra com sabedoria. O Asatru não é universal e não considera seu caminho como sendo o correto para todos, o Asatru acredita que há espaço para todos os arquétipos no mundo e que todos eles tem o seu valor. Baseado nisso, clamar que Zeus é o mesmo Deus que Odin é loucura.  

Os Valores do Asatru  

Uma das funções básicas de qualquer religião é estabelecer um conjunto de valores nas quais os seus seguidores poderão basear suas ações. No Asatru não existe moralismo, nem caos desenfreado. Invés, de pré estabelecermos o que é certo ou errado, o que é bom ou mal, nós lidamos com conceitos filosóficos básicos que são baseados nas lendas dos Deuses.  

No Asatru o julgamento moral está dentro do coração e da mente humana. Nós como seres humanos com o presente da inteligência, somos sensatos e responsáveis o bastante para determinar o que é melhor para nós e agir adequadamente.  

As nove virtudes da nobreza da alma, dentro do Asatru são: Coragem, Verdade, Honra, Fidelidade, Disciplina, Hospitalidade, Força de Vontade, Autoconfiança e Perseverança. 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/paganismo/os-deuses-e-a-religiao-asatru/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/paganismo/os-deuses-e-a-religiao-asatru/

Quando Israel era menino, parte 1

Texto de Mircea Eliade em “História das crenças e das ideias religiosas, vol. I” (Ed. Zahar) – trechos das pgs. 162 a 165. Tradução de Roberto Cortes de Lacerda. Algumas das notas ao final são minhas.

A religião de Israel é acima de tudo a religião do Livro. Esse corpo de escrituras é constituído de textos de idade e orientação diversas, que representam, por certo, tradições orais bastante antigas, mas reinterpretadas, corrigidas, redigidas durante vários séculos e em diferentes meios [1]. Os autores modernos começam a história da religião de Israel por Abraão. Na verdade, segundo a tradição, ele é o escolhido de Deus para se tornar o ancestral do povo de Israel e tomar posse de Canaã. Mas os 11 primeiros capítulos do Gênese relatam os acontecimentos fabulosos que precederam a eleição de Abraão, desde a Criação até o dilúvio e a Torre de Babel. A redação desses capítulos é, como se sabe, mais recente que muitos outros textos do Pentateuco. Por outro lado, alguns autores – e dos mais notáveis – afirmaram que a cosmogonia e os mitos de origem (Criação do homem, origem da morte, etc.) desempenharam papel secundário na consciência religiosa de Israel. Em suma, os hebreus interessavam-se mais pela “história santa”, isto é, pelas suas relações com Deus, que pela história das origens.

[…] Isso pode ser verdadeiro a partir de determinada época e, sobretudo, para certa elite religiosa [2]. Mas não há razão para concluir que os antepassados dos israelitas fossem indiferentes às questões que apaixonavam todas as sociedades arcaicas. […] Ainda em nossos dias, depois de 2.500 anos de “reformas”, os acontecimentos referidos nos primeiros capítulos do Gênese continuam a alimentar a imaginação e o pensamento religioso dos herdeiros de Abraão.

Na abertura do Gênese, temos este passo célebre: “No princípio, Deus (Elohim) criou o Céu e a Terra. Ora, a Terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, e um vento de Deus pairava sobre as águas” (I:1-2) [3]. A imagem do oceano primordial sobre o qual paira um deus criador é muito arcaica [4]. Entretanto, o tema do deus sobrevoando o abismo aquático não é atestado na cosmogonia mesopotâmica, ainda que o mito relatado no Enuma elish fosse provavelmente familiar ao autor do texto bíblico. (De fato, o oceano primordial é designado, em hebraico, tehôm, termo etimologicamente solidário do babilônico tiamat [5]). A Criação propriamente dita, ou seja, a organização do “caos”, é efetuada pelo poder da palavra de Deus. Ele diz: “Haja luz”, e houve luz (I:3). E as etapas sucessivas da Criação são sempre realizadas pela palavra divina. O “caos” aquático não é personificado (cf. tiamat) e, por conseguinte, não é “vencido” num combate cosmogônico.

[…] O mundo é “bom” e o homem é uma imago dei; ele habita, tal como seu Criador e modelo, o paraíso. Entretanto, como o Gênese não tarda a salientar, a vida é penosa, apesar de ter sido abençoada por Deus, e os homens já não habitam o paraíso. Mas tudo isso é o resultado de uma série de erros e pecados dos antepassados. Foram eles que modificaram a condição humana. Deus não tem responsabilidade alguma nessa deterioração de sua obra-prima. Assim como para o pensamento indiano pós-upanixádico, o homem, mas exatamente a espécie humana, é o resultado de seus próprios atos [6].

O outro relato, javista [ver nota 1], é mais antigo e difere claramente do texto sacerdotal que acabamos de resumir. Já não se trata da Criação do Céu e da Terra, mas de um deserto que Deus (Javé) tornou fértil por meio de uma onda que subia do solo. Javé modelou o homem (âdâm) com a argila do solo e animou-o insuflando “em suas narinas um hálito de vida”. Pois Javé “plantou um jardim em Éden”, fez brotar todas as espécies de “árvores boas” e instalou o homem no jardim “para o cultivar e o guardar” [7]. Em seguida, Javé deu forma aos animais e às aves, levou-os a Adão e este lhes deu nomes. Finalmente, depois de tê-lo adormecido, Javé tirou uma de suas costelas e formou uma mulher, que recebeu o nome de Eva (em hebraico hawwâh, vocabulário etimologicamente solidário do termo que significa “vida”).

Os exegetas observaram que o relato javista, mais simples, não opõe o “caos” aquático ao mundo das “formas”, mas deserto e seca a vida e vegetação. Parece plausível que esse mito de origem tenha nascido numa zona desértica. Quanto à formação do primeiro homem com argila, o tema era conhecido na Suméria. Mitos análogos são atestados quase no mundo inteiro, desde o antigo Egito até as populações “primitivas”. A ideia básica parece a mesma: o homem formou-se de uma matéria-prima (terra, madeira, osso) e foi animado pelo hálito do Criador. Em muitos casos, tem a forma de seu autor. Em outras palavras, mediante sua “forma” e sua “vida”, o homem comparte, de algum modo, a condição do Criador. Só o seu corpo é que pertence à “matéria” [8].

A formação da mulher a partir de uma costela retirada de Adão pode ser interpretada como indicadora da androginia do homem primordial. Concepções similares são atestadas em outras tradições. […] O mito do andrógino ilustra uma crença bastante difundida: a perfeição humana, identificada no antepassado mítico, encerra uma unidade que é simultaneamente uma totalidade. […] É de salientar que a androginia humana tem por modelo a bissexualidade divina, concepção compartilhada por muitas culturas [9].

» Em seguida encerraremos com Caim, Abel, cultivadores e pastores…

***

[1] Nota do autor: […] As fontes dos cinco primeiros livros da tôrâh (Pentateuco) foram designadas pelos termos: javista, porque essa fonte, a mais antiga (séc. X ou IX a.C.), chama a Deus por Javé; eloísta (ligeiramente mais recente: utiliza o nome Elohim); e deuteronômica (quase que exclusiva do Deuteronômio).

[2] Não foi à toa, penso eu, que os primeiros livros da tôrâh eram conhecidos como “os livros da lei”. Eis o que nos diz Alan Dershowitz, professor de direito de Harvard, sobre o Gênese: “É sobre o mundo antes de haver lei. É sobre um Deus em aprendizagem, lutando para ser justo, sem regras (antecedentes). Deus não teve problemas em criar um universo físico, só precisou de seis dias. Ele teve mais dificuldade quando chegou à parte da justiça… O Gênese é sobre isso, sobre tentar fazer as coisas direito, com justiça”. Ou seja: a preocupação de uma suposta elite religiosa com a história somente a partir de Abraão, em detrimento dos mitos de criação, talvez se explique pelo fato de ser exatamente esta elite de legisladores quem debatia e elaborava as leis hebraicas.

[3] Somente este trecho traz inúmeros questionamentos. Por exemplo, o “vento de Deus” poderia ser traduzido (como normalmente o é, nas traduções modernas) como “espírito de Deus”. Ocorre que a palavra que se refere a “Deus” é usada duas vezes: Elohim seria tanto “Deus” quanto o “espírito de Deus”. No entanto, a palavra Elohim pode ser vista tanto no singular quanto no plural, quando normalmente se refere a “deuses” (por exemplo, em XXXV:2). Dessa forma, nada nos impediria de considerar uma tradução como: “No princípio, Deus criou o Céu e a Terra (…) as trevas cobriam o abismo, e os deuses pairavam sobre as águas”. Este tipo de interpretação indica que Deus já havia “tido filhos”, ou irradiado “outras criaturas” de si mesmo, ainda no princípio.

Mesmo aqui, ainda podemos alinhar a possível origem etimológica de “Elohim” ao deus “El”, o “pai dos deuses” das religiões e mitologia dos primeiros semitas a se estabelecerem em Canaã, pouco antes de 3 mil a.C. Até 1929, as informações sobre tais mitos eram fornecidas pelo Antigo Testamento e alguns escritores gregos. Ocorre que o AT trabalha exatamente para a “demonização” dos deuses pagãos, e deve ser visto com certa desconfiança neste contexto.

Mas felizmente, em 1929, uma grande quantidade de textos mitológicos foi descoberta em escavações em Ras Shamra, a antiga Ugarit, cidade portuária da costa Síria, que pode ter sido fundada ainda em 6 mil a.C. Embora a religião de Ugarit nunca tenha sido a religião de toda Canaã, é lá que se ouve falar, pela primeira vez, de El, o “pai dos deuses”, e de Baal, “o Senhor da Terra, que castra o pai e toma seu lugar como administrador do mundo”. Em XXXIII:20 ficamos sabendo que um dos nomes de Deus é exatamente “El”.

[4] Nota do autor: Em numerosas tradições, o Criador é imaginado sob a forma de um pássaro. Mas trata-se de um “endurecimento” do símbolo original: o espírito divino transcende a massa aquática, é livre para mover-se; portanto, “voa” como um pássaro.

[5] Ou seja, tanto o oceano primordial quanto a “serpente-dragão” (tiamat) representariam o caos. Coube a um “herói” mitológico, ou ao próprio Deus, “matar a serpente e a separar em dois”, ou separar os Céus da Terra, e criar todas as coisas a partir de um oceano disforme, um “caos primordial”.

Para outros temas “serpentuosos”, recomento lerem o artigo Serpentes.

[6] Segundo os upanixades, entretanto, a “culpa” não recai sobre o “pecado original” de um antepassado, mas é fruto dos erros dos próprios homens, quando em vidas passadas.

[7] O mito javista é ainda mais próximo do mito de criação do povo Bassari, da África Ocidental: “Unumbotte (Deus) fez um ser humano e seu nome era Homem, e depois fez muitos outros seres (Mulher, Serpente, Antílope, etc.). Então, deu-lhes sementes de todos os tipos e lhes disse: ‘Plantem todas essas sementes’…” – E nele também há o “fruto proibido” que, uma vez comido, faz com que Homem e Mulher sejam “expulsos do jardim”. Aqui também encontrarão maiores detalhes no artigo Serpentes.

[8] Dessa forma, as concepções de vida após a morte através da ressurreição de um “corpo incorruptível” não são somente uma abominação (ao menos em relação à quase totalidade da mitologia antiga), como um “ponto de vista” extremamente materialista em relação à espiritualidade em geral.

[9] Nota do autor: A bissexualidade divina é uma das múltiplas fórmulas da “unidade/totalidade” representada pela união dos pares de opostos: feminino/masculino, visível/invisível, Céu/Terra, luz/escuridão, mas também bondade/maldade, criação/destruição, etc. A meditação sobre esses pares de opostos levou, em diversas religiões, a conclusões audaciosas referentes tanto a condição paradoxal da divindade quanto à revalorização da condição humana.
Meu complemento: Isto tudo tem muito a ver com hermetismo, Parmênides, estoicismo, Plotino e Espinosa. Mas, saindo do conceito de “Uno” e focando apenas nas “dualidades” (particularmente: essência/forma, permanência/impermanência, eternidade/tempo, etc.), chegaremos nas grandes religiões orientais – taoismo, budismo, e algumas interpretações do hinduísmo.

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Crédito da foto: Damon Lynch

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

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#história #MirceaEliade #Mitologia #Religião

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A Cabalá e as Reencarnações

“Não é possível entender a Cabalá sem acreditar na eternidade da alma e suas reencarnações”
(Rabi Arieh Kaplan)

Com o nome de Transmigração de Almas (em hebraico Guilgul Neshamot), todos os praticantes do judaísmo, especialmente as correntes ortodoxas – como o hassidismo (aqueles caras que andam de casacos e chapéus pretos) – e cabalistas acreditam que, após a morte, a Alma reencarna numa nova forma física. O conceito da reencarnação consta nos livros Sefer-Há-Bahir (Livro da Iluminação) e no Zôhar (Livro do Esplendor). Ambos atribuem grande importância à doutrina da Reencarnação, usada para explicar que os justos sofrem porque pecaram em uma vida anterior. Nele, o renascimento é comparado a uma vinha que deve ser replantada para que possa produzir boas uvas.

A “Transmigração” emprestou um significado novo a muitos aspectos da vida do povo judeu, pois o marido morto voltava literalmente à vida no filho nascido de sua mulher e seu irmão, num casamento por Levirato. A morte de crianças pequenas era menos trágica, pois elas estariam sendo punidas por pecados anteriores e renasceriam para uma vida nova. Pessoas malvadas eram felizes neste mundo por terem praticado o bem em alguma existência prévia. Prosélitos do judaísmo eram almas judaicas que se haviam encarnado em corpos gentios ou pagãos. Ela também permitia o aperfeiçoamento gradual do indivíduo através de vidas diferentes.

O Zôhar afirma ainda que a redenção do mundo acontecerá quando cada indivíduo, através de “Transmigração das Almas” (Reencarnações), completar sua missão de unificação. Ele nos diz que o termo bíblico “gerações” pode muito bem ser substituído por “encarnações”.

Baseado nestes conceitos, os cabalistas desenvolveram a sua própria interpretação sobre a aliança que Deus fez com Abraão e sua semente. Deus disse: “Estabelecerei o meu concerto entre mim e ti, e a tua semente depois de ti, nas suas gerações, por concerto perpétuo. Acreditavam que Deus havia feito esta aliança com a semente de Abraão não apenas por uma vida, mas por milhares de encarnações”.

Para os que não acreditam na visão da Cabala, o Antigo Testamento apresenta várias referências sobre a Reencarnação, como por exemplo no Gênesis (Bereshit) , numa tradução fiel ao hebraico:

Quanto a ti, em paz irás para os teus pais, serás sepultado numa velhice feliz. É na quarta geração que eles voltarão para cá, porque até lá a falta (ou erro, ou delito) dos amorreus não terá sido pago (Gênesis 15:15-16)

Isso é o cumprimento da Lei do Karma e da reencarnação, como já havia falado Deus no livro de Êxodo:

Não te prostrarás diante deles e não o servirás porque Eu, Iahvéh teu Deus, sou um Deus zeloso, que visito a culpa dos pais sobre os filhos, na terceira e quarta geração dos que me odeiam, mas que também ajo, com benevolência ou misericórdia por milhares de (infinitas) gerações (encarnações) , sobre os que me amam e guardam os meus mandamentos (Êxodo 20:5-6)

Esta é uma tradução fiel ao hebraico, infelizmente não encontrada em algumas Bíblias, que traduzem erroneamente él kaná (Deus zeloso) por Deus ciumento e tornam o Velho Testamento objeto de incompreensão e chacota. Mas isso não é o pior. Vejam a tradução da mesma passagem feita pela Bíblia João Ferreira de Almeida:

Não te encurvarás diante delas, nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam, e uso de misericórdia com milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.

Todas as bíblias trocaram NA terceira geração… por ATÉ a terceira geração…, o que dá a falsa idéia de que Deus pune o mal dos pais nos filhos e netos, quando na verdade são os pais que reencarnam como netos, para pagar o que devem até o último ceitil. Óbvio que isso dos bisnetos não é uma regra (Até porque os pais geralmente estão vivos para serem avós). É antes de tudo um modo de dizer que o espírito vai ser recebido na mesma família, o que acontece com muita freqüência (dependendo, claro, da missão de vida de cada um). Famílias são núcleos problemáticos justamente porque é nelas que você vai pagar seus débitos com o passado, com pessoas que você prejudicou, enganou, matou. Pois se estes viessem como amigos, seria fácil evitá-los, e você nunca se harmonizaria com eles. É por isso que inimigos costumam vir na mesma família, e por isso Jesus deu tanta atenção ao irmão neste versículo:

Eu, porém, vos digo que todo aquele que se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo. e quem disser a seu irmão: Raca, será réu diante do sinédrio; e quem lhe disser: Tolo, será réu do fogo do inferno. Portanto, se estiveres apresentando a tua oferta no altar (forma de agradecimento a Deus) , e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai conciliar-te primeiro com teu irmão, e depois vem apresentar a tua oferta.
(Mateus 5:22-24)

Os atuais Rabinos também sabem muito sobre os tempos atuais e a situação dessa nossa geração. O Rabi Shamai Ende escreveu, na revista Chabad News de Dez 98: “O conceito de Guilgul (reencarnação) é originado no judaísmo, sendo que uma alma deve voltar várias vezes até cumprir todas as leis da Torah. Na verdade, cada alma tem dois tipos de missões nesse mundo. A primeira é a missão geral de cumprir todas as mitsvot da Torah. Além disso, cada alma tem uma missão específica. Caso não tenha cumprido a sua, a Alma deve retornar a este mundo para preencher tal lacuna. Somente pessoas especiais sabem exatamente qual é sua missão de vida.

Existem também encarnações punitivas para reparar alguma falha cometida numa vida anterior. Neste caso, a alma pode reencarnar até mesmo no corpo de um não-judeu, de animal ou planta.

Atualmente é um pouco diferente, por estarmos vivendo na última geração do exílio e na primeira da gueulá (redenção), conforme já anunciado pelo Rebe. Maimônides escreve Leis de Techuvá (Retorno ao Judaísmo) onde a Torah prometeu, no final do exílio, que o povo fará Techuvá e imediatamente será redimido. Assim, as almas dessa geração, que vivenciarão a futura redenção, não mais passarão por reencarnações, devendo retificar o quanto antes tudo o que deve ser feito para aproximar a vinda de Mashiach (Messias).”

O Rabino Yossef Benzecry da Sinagoga Beit Chabad, do Recife, confirma a crença na vida após a morte:

O Judaísmo não crê que a vida acabe com a morte. Pelo contrário, a morte, dentro da concepção judaica, é uma continuação desta Vida, se bem que num plano diferente: o plano da alma. Conseqüentemente, a morte conduz, necessariamente, à vida da alma. Segundo a doutrina judaica, é muito difícil fazer-se uma idéia de como é a Vida no Além-túmulo, por ser algo que ultrapassa todas as concepções do cérebro humano. Vivendo esta Vida, presos no solo do mundo, não temos qualquer oportunidade de imaginar o que se passa na outra, tornando-se muito difícil conceber algo que nunca provamos.

Exemplificando, seria a mesma coisa que tentar explicar a alguém o gosto de uma fruta desconhecida. Para tanto, ter-se-ia de usar artifícios de linguagem, como comparações com algo que se aproxime rio sabor da fruta, o que se tornaria complexo e difícil.

Passagens da Bíblia que as outras religiões deturpam para esconder a Reencarnação:

Salmo 19:8, em Hebraico transliterado: “Torát Iavéh temimáh mshibat nefésh. ‘edut Iavéh neemanoáh machkimat péti”.

Tradução: “O ensinamento de Deus é perfeito, faz o espírito voltar. O testemunho de Deus é verdadeiro, transforma o simples em sábio.”

No entanto, a tradução feita pelas seguintes bíblias alteram o sentido original da reencarnação:
– Bíblia Protestante da SBB (Sociedade Bíblica do Brasil): “A Lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma.”
– Bíblia Mensagem de Deus (Edições Loyola): “A lei do Senhor é sem defeito, ela conforta a alma.”
– Bíblia de Jerusalém (Edições Paulinas): “A lei de Iahvéh é perfeita, faz a vida voltar.”

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Salmo 23, em tradução do hebraico: “Adonai é meu pastor, nada me faltará. Em verdes pastagens me fará descansar. Para a tranqüilidade das águas me conduzirá. Fará meu espírito retornar, e me guiará por caminhos justos, por causa do seu nome. Ainda que eu caminhe pelo vale da morte, não temerei nenhum mal, pois tu estarás comigo. Teu bastão e teu cajado me confortarão. Diante de mim prepararás uma mesa, na presença dos meus provocadores. Tu ungirás minha cabeça com óleo; minha taça transbordará. Certamente, bondade e benevolência me seguirão, todos os dias da minha vida. E voltarei na casa de Adonai por longos anos.”

Na tradução feita pela Bíblia católica do Centro Bíblico Católico (Editora Ave Maria) a idéia de retorno é suprimida:

“O Senhor é o meu pastor, nada me faltará. Em verdes prados ele me faz repousar. Conduz-me junto às águas refrescantes, restaura as forças de minha alma. Pelos caminhos retos ele me leva, por amor do seu nome. Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estás comigo. Vosso bordão e vosso báculo são o meu amparo. Preparais para mim a mesa a vista dos meus inimigos. Derramais o perfume sobre minha cabeça, transborda a minha taça. A vossa bondade e misericórdia hão de seguir-me por todos os dias da minha vida. E habitarei na casa do Senhor por longos dias.”

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Ezequiel 37:11-14: “E disse a mim: Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel. Eis que dizem: Os nossos ossos estão secos e está perdida a nossa esperança. Por isso, profetiza e dize-lhes: Assim diz Adonai, o Senhor Deus: Eis que eu abro vossas sepulturas e vos farei sair delas, ó povo meu e vos reconduzirei à terra de Israel. Saberão que eu sou Iahvéh quando eu abrir os vossos túmulos e vos elevar de vossas sepulturas, ó povo meu. E dei sobre vós o meu espírito e revivereis e reporei a vós sobre a vossa terra. E eles saberão que eu sou Iahvéh, disse isto e fiz o oráculo de Iahvéh.”

OBS: Observe que Iahvéh (Deus) fecha o sentido de renascimento, mostrando que os ossos simbolizam o povo de Israel e que ele fará reencarnar a todos, retirando-os dos seus túmulos e fazendo-os voltar reencarnados à sua terra. Ele (Deus) não fala que os retiraria na ressureição do último dia, mas que os retiraria da sepultura, fazendo-os renascer e para voltar à terra de Israel, e não aos céus. Aqui não existe dúvida sobre a Reencarnação e esclarece sobre a inexistência de um último dia para a ressureição, pois Deus fala: “Reporei a vós sobre a vossa TERRA”, portanto, voltar à terra não é ressuscitar e sim reencarnar.

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Jó 8:8-9: “Pergunta às gerações passadas ou primeiras e medita a experiências dos antepassados. Porque somos de ontem, não sabemos nada. Nossos dias são uma sombra sobre a terra.”

Aqui está uma recomendação de que devemos buscar, no passado, em outras vidas, as causas do nosso sofrimento. Se não lembra de ter na presente vida corporal cometido faltas que justifiquem o seu sofrimento, pergunte às gerações passadas e lá estará com certeza a resposta ao seu questionamento, uma vez que a vida na matéria, impede-nos, como uma espessa sombra, a lembrança de vidas anteriores. Deus, em sua infinita misericórdia, apaga as nossas lembranças para afastar de nós o remorso pelo delito praticado no passado, para podermos evoluir e conviver em paz com nossos semelhantes.

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Eclesiastes 1:4: “Geração vai e geração vem e a terra sempre permanece”.

Explica o Rabino Akiba este versículo no livro “BAHIR” da seguinte maneira:

Um rei tinha escravos e ele os vestiu com roupagens de seda e cetim, de acordo com sua capacidade. O relacionamento se rompeu e ele os expulsou, os repeliu e tirou deles suas roupagens. Eles, então, seguiram seus próprios caminhos. O rei tomou as roupagens, as lavou bem, até não haver nelas uma única mancha. Colocou-as com seus comerciantes, comprou outros escravos e os vestiu com as mesmas roupagens.

Não sabia se os escravos eram bons ou não, mas eram (pelo menos) dignos das roupagens que ele já possuía, as quais já haviam sido usadas anteriormente. É o mesmo que Eclesiastes 12:6: “O pó retorna a terra como era, mas o espírito retorna a Deus, que o deu”.

Este exemplo do Rabino Akiba explica tudo: as roupas de seda e cetim com que o rei vestiu os escravos são os corpos sadios que Deus dá a cada um de nós dos quais muitos abusam. Então Deus os toma e deixa que cada um siga o seu próprio destino, escolhido pelo seu livre-arbítrio. Deus então escolhe outros corpos e neles coloca estes mesmos espíritos, através da Reencarnação, segundo a necessidade de evolução de cada um.

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O livro da Sabedoria é atribuído a Salomão, embora saibamos que se trata de uma ficção literária (foi escrito 900 anos depois da morte dele). O desconhecido autor deve ter escrito para os judeus que falavam grego e viviam fora da Palestina, provavelmente no Egito. Foi escrito entre os séculos IV e I antes de Cristo e só é aceito pelos católicos, como já vimos em capítulo anterior, no entanto, apresenta conceitos referentes ao Carma e à Reencarnação.

No capítulo 8:19 vemos: “Eu era um jovem de boas qualidades, coubera-me, por sorte, uma boa alma; ou antes, sendo bom, entrara num corpo sem mancha”.

Aqui está claro que o autor acreditava que a alma existe antes do corpo. Por ser boa, a alma entrou num corpo imaculado ou sem mancha como vemos no texto. E perguntamos: Se a alma nunca tivesse encarnado antes num corpo terreno, como e onde teria se tornado boa? O autor dá a entender que as atitudes de uma existência anterior acompanharam o espírito e se acumularam nas diversas existências pregressas.

Estes conceitos estão de acordo com a crença e os princípios judaicos que. falando de família, dizem : “Eu vim para uma família grande” (ani bá lamishpahá gadol) e não “eu sou de uma família grande”, como os ocidentais costumam dizer. A idéia é que eles escolheram a família ainda no mundo espiritual, como fala Deus em Jeremias 1:5: “Antes mesmo de te formar no ventre materno, eu te conheci; e antes que saísses do útero materno, eu te consagrei. Eu te constituí profeta para as nações pagãs.”

Se alguém tiver desconfiança quanto às traduções do original hebraico, sugiro consultar nas melhores livrarias a Torah (Velho Testamento) que contém o original e ao lado a tradução correta pro português.

Publicado originalmente no blog “Saindo da Matrix”, do Acid0

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-cabal%C3%A1-e-as-reencarna%C3%A7%C3%B5es

A Nuvem sobre o Santuário – Carta 2

Por Karl von Eckartshausen.

É necessário, meus caríssimos irmão no Senhor, dar-vos uma idéia pura da Igreja interior, desta “Comunidade Luminosa de Deus”, que está dispersada através do mundo; mas que é governada pela verdade e unida pelo espírito.

Esta comunidade da luz existe desde o primeiro dia da criação do mundo, e sua existência permanecerá até o último dia dos tempos.

Ela é a sociedade dos eleitos que distinguem a luz nas trevas, separando-a em sua essência.

Esta comunidade da luz possui uma escola na qual o próprio Espírito de Sabedoria instrui àqueles que têm sede de luz; e todos os mistérios de Deus e da natureza são conservados nesta escola pelos filhos da luz. O conhecimento perfeito de Deus, da natureza e da humanidade, são os objetos do ensinamento desta escola. É dela que todas as verdades vêm ao mundo; ela foi a escola dos profetas e de todos aqueles que procuram a sabedoria; e é somente nesta comunidade que se encontra a verdade e a explicação de todos os mistérios. Ela é a comunidade mais íntima e possui membros de todo o universo, eis as idéias que se podem ter dela. Em todos os tempos, o exterior tinha por base um interior do qual não era mais do que a expressão e o plano.

Assim é que, em todas as eras, existiu uma assembléia íntima, a sociedade dos eleitos, a sociedade daqueles mais capazes para a luz e que a procuravam; esta sociedade íntima era chamada o Santuário interior ou a Igreja interior.

Todos os símbolos, cerimônias e ritos que possui a Igreja exterior, correspondem à letra da qual o espírito e a verdade se acham na Igreja interior.

Portanto, a Igreja interior é uma sociedade cujos membros estão espalhados por todo o mundo, mas ligados intimamente pelo espírito do amor e da verdade, ocupada sempre na construção do grande templo para a regeneração da humanidade, pela qual o reino de Deus há de se manifestar. Esta sociedade reside na comunhão daqueles que estão mais aptos para receber a luz, ou dos eleitos.

Estes eleitos estão unidos pelo espírito e a verdade e o seu chefe é a própria Luz do Mundo, Jesus Cristo, o eleito da luz, o mediador único da espécie humana, o Caminho, a Verdade e a Vida; a luz primitiva, a sabedoria, o único “meio” pelo qual os homens podem retornar a Deus.

A Igreja interior nasceu logo após a queda do homem e recebeu de Deus, imediatamente, a revelação dos meios pelos quais a espécie humana caída seria reintegrada na sua dignidade, e libertada de sua miséria. Ela recebeu o depósito primitivo de todas as revelações e mistérios; ela recebeu a chave da verdadeira ciência, tanto divina como natural.

Mas quando os homens se multiplicaram, a fragilidade e fraqueza inerentes a espécie impuseram um culto exterior para ocultar a sociedade interior e encobrir pela letra o espírito e a verdade. Porque a coletividade, a multidão, o povo, não eram capazes de compreender os grandes mistérios interiores e constituiria um perigo demasiado grande confiar o mais santo aos incapazes, encobriram as verdades interiores nas cerimônias exteriores e sensíveis, para que o homem, pelo sensível e o exterior que é o símbolo do interior, se tornasse gradativamente capaz de aproximar-se mais das verdades internas do espírito.

Mas a essência sempre foi confiada àquele que, no seu tempo, tinha mais aptidões para receber a luz; e somente esse era o possuidor do depósito primitivo como Sumo sacerdote do Santuário.

Quando se tornou necessário que as verdades interiores fossem simbolizadas nas cerimônias exteriores, por causa da fraqueza dos homens que não eram capazes de suportar a vista da luz, o culto, exterior nasceu, mas ele foi sempre o tipo e o símbolo do interior, quer dizer, o símbolo da verdadeira homenagem feita a Deus “em espírito e verdade”.

A diferença entre o homem espiritual e o homem animal, ou entre o homem racional e o homem dos sentidos, obrigou as formas exterior e interior.

As verdades internas ou espirituais manifestaram-se envoltas em símbolos e cerimônias, para que o, homem animal ou dos sentidos pudesse despertar e ser conduzido pouco a pouco, às verdades interiores.

Portanto, o culto exterior é uma representação simbólica das verdades interiores, das verdadeiras relações do homem com Deus antes e após a queda, no estado de sua dignidade, de sua reconciliação e de sua mais perfeita união. Todos os símbolos do culto exterior estão construídos sobre estas três relações fundamentais.

O cuidado do exterior era a ocupação dos sacerdotes, e cada pai de família estava, nos tempos primitivos, encarregado deste ofício. As primícias dos frutos e as primeiras crias dos animais eram oferecidas a Deus; os primeiros simbolizando que tudo o que nos alimenta e nos conserva vem Dele; e os segundos simbolizando que o homem animal deve morrer para dar lugar ao homem espiritual e racional.

A adoração exterior de Deus não deveria jamais separar-se da adoração interior; mas como a fraqueza do homem leva-o facilmente a esquecer o espírito para agarrar-se à letra, o Espírito de Deus despertou sempre, entre todas as nações, naqueles que tinham as aptidões necessárias para a luz, e serviu-se deles, como seus agentes, para espalhar por todo o mundo a verdade e a luz, segundo a capacidade dos homens a fim de vivificar a letra morta pelo espírito e a verdade.

Por estes instrumentos divinos, as verdades interiores do santuário eram levadas às nações mais longínquas, e modificadas simbolicamente, segundo os hábitos, capacidade de cultura, clima e receptividade.

De maneira que os tipos exteriores de todas as religiões, seus cultos, suas cerimônias e seus livros santos, em geral, têm quase claramente por objeto as verdades interiores do santuário, pelas quais a humanidade será conduzida somente no devido tempo, à universalidade do conhecimento da verdade única.

Quanto mais o culto exterior de um povo permaneceu unido ao espírito das verdades interiores, mais a sua religião foi pura; quanto mais a letra simbólica se separou do espírito interior, mais a religião se tornou imperfeita, até a ponto de degenerar entre alguns, em politeísmo, quando a letra exterior perdeu completamente seu espírito interior e não restou mais de que o cerimonial exterior sem alma e sem vida.

Quando os germens das verdades mais importantes puderam ser levados aos povos pelos agentes de Deus, Ele escolheu um povo determinado para erigir um símbolo vivo, destinado a mostrar como Ele queria governar toda a espécie humana em seu estado atual, e conduzi-la à sua mais alta purificação e perfeição.

Deus próprio deu a seu povo a sua legislação exterior religiosa; e, como signo de sua verdade, entregou-lhe todos os símbolos e todas as cerimônias que continham a essência das verdades interiores e grandiosas do santuário.

Deus consagrou essa igreja exterior em Abraão, deu-lhe os mandamentos por Moisés, e assegurou-lhe sua mais alta perfeição pela dupla missão de Jesus Cristo, no princípio, vivendo pessoalmente na pobreza e no sofrimento, e depois pela comunhão de seu espírito na glória do ressuscitado.

Mas, como o próprio Deus deu os fundamentos da Igreja exterior, a totalidade dos símbolos do culto exterior formou a ciência do templo, ou dos sacerdotes daqueles tempos, e, todos os mistérios das verdades mais santas e interiores tornaram-se exteriores pela revelação.

O conhecimento científico deste simbolismo santo, era a ciência de religar Deus ao homem caído, e daí a religião recebeu seu nome como sendo a doutrina que liga o homem, separado e afastado de Deus, a Deus que é sua origem.

Vê-se facilmente por esta idéia pura do nome religião em geral, que a unidade da religião está no santuário íntimo, e que a multiplicidade das religiões exteriores não pode jamais alterar nem enfraquecer esta unidade que é a base de todo exterior.

A sabedoria do templo da antiga aliança era governada pelos sacerdotes e pelos profetas.

O exterior, a letra do símbolo, o hieróglifo; eram confiados aos sacerdotes.

Os profetas tinham a seu cuidado o interior, o espírito e a verdade, e sua função era a de conduzir sempre os sacerdotes da letra ao espírito, quando lhes acontecia esquecer o espírito e agarrar-se à letra.

A ciência dos sacerdotes era a do conhecimento dos símbolos exteriores.

A ciência dos profetas era a posse prática do espírito e da verdade destes símbolos. No exterior a letra; no interior o espírito vivificante.

Existia também, na antiga aliança, uma escola de sacerdotes e uma escola de profetas.

A dos sacerdotes ocupava-se dos emblemas e a dos profetas das verdades que estavam encerradas sob os emblemas. Os sacerdotes estavam de posse exterior da Arca, dos pães da proposição, do candelabro, do maná, da vara de Aarão, e os profetas estavam de posse das verdades interiores e espirituais que eram representadas exteriormente pelos símbolos dos quais vimos falar.

A Igreja exterior da antiga aliança era visível; a Igreja interior era sempre invisível, devia ser invisível, e entretanto governar tudo, porque somente a ela estavam confiados o poder e a força.

Quando o culto exterior abandonava o interior, caia, e Deus provava por uma continuidade das mais notáveis ocorrências, que a letra não pode subsistir sem o espírito; que ela somente é dada para conduzir ao espírito, tornando-se inútil e mesmo rejeitada de Deus, se abandona sua finalidade.

Assim como o espírito da natureza se espalha nas profundezas mais estéreis para vivificar, para conservar e para dar desenvolvimento a tudo que lhe é susceptível, assim também o espírito da luz se espalha no interior de todas as nações, para animar completamente a letra morta pelo espírito vivo.

É assim que encontramos um Jó entre os idólatras, um Melquisedeck entre as nações estrangeiras, um José entre os sacerdotes egípcios, e Moisés no país de Madian, como prova palpável de que a comunidade interior daqueles que são capazes de receber a luz, estava unida pelo espírito e pela verdade em todos os tempos e entre todas as nações.

A todos esses agentes de luz da comunidade interior e única, uniu-se o mais importante de todos os agentes, o próprio Jesus Cristo, no meio do tempo como um rei-sacerdote; segundo a ordem de Melquisedeck,

Os agentes divinos da antiga aliança não representaram senão as perfeições particulares de Deus; no decorrer dos tempos uma ação poderosa devia produzir-se que mostrasse de uma só vez o todo em Um. Um tipo universal apareceu acentuando a completa unidade, abrindo uma nova porta e destruindo a numerosa servidão humana. A lei do amor começou quando a imagem emanada da própria Sabedoria mostrou ao homem toda grandeza de seu ser, revigorou-o de todas as forças, assegurou-lhe sua imortalidade e elevou seu ser intelectual para tornar-se o verdadeiro templo do Espírito.

Este agente maior de todos, este Salvador do mundo, este regenerador universal fixou toda a sua atenção sobre esta verdade primitiva, pela qual o homem pôde conservar sua existência e recobrar a dignidade que possuía.

Em suas humilhações implantou a base da redenção dos homens e prometeu cumpri-la completamente por seu espírito. Ele mostrou também num perfeito esboço aos seus apóstolos tudo o que devia se passar um dia com seus eleitos.

Ele continuou a cadeia da comunidade interior da luz, entre seus eleitos, aos quais enviou o Espírito da Verdade, e confiou-lhes o depósito primitivo mais elevado de todas, as verdades divinas e naturais, em sinal de que eles não abandonariam jamais sua comunidade interior.

Quando a letra e o culto simbólico da Igreja exterior da antiga aliança, passaram em verdade pela encarnação do Salvador, e foram atestados em sua pessoa, novos símbolos se tornaram necessários para o exterior, que mostrassem segundo a letra, a realização futura ou integral da redenção.

Os símbolos e os ritos da igreja exterior Cristã foram dispostos segundo estas verdades invariáveis e fundamentais, e anunciaram coisas de uma força e importância que não se podem descrever, nem foram reveladas àqueles que conheciam o santuário intimo.

Este santuário interior permaneceu sempre invariável, ainda que o exterior da religião, ou seja, a letra recebesse no decorrer do tempo e circunstâncias, diferentes modificações, e se afastasse das verdades interiores, que são as que podem conservar o exterior ou a letra.

O pensamento profano de querer atualizar tudo o que é cristão, e de querer cristianizar tudo o que é político, modificou o edifício exterior, e cobriu com as trevas e a morte o que estava no interior, a luz e a vida. Daí nasceram as divisões e as heresias: o espírito sofístico queria explicar a letra embora já tivesse perdido o espírito da verdade.

A incredulidade levou a corrupção ao mais elevado grau; até se procurou atacar o edifício do cristianismo em suas primitivas bases, confundindo o interior santo, com o exterior que estava sujeito às fraquezas e à ignorância dos homens frágeis.

Assim nasceu o deísmo, que engendrou o materialismo e viu como uma fantasia toda união do homem com as forças superiores; e por fim nasceu, parte pelo entendimento e parte pelo coração, o ateísmo, último grau de decadência do homem.

No meio de tudo isto, a verdade permaneceu sempre inquebrantável no interior do santuário.

Fiéis ao Espírito da verdade que prometeu jamais abandonar a sua comunidade; os membros da Igreja interior viveram em silêncio e em atividade real e uniram a ciência do templo da primitiva aliança ao espírito do Grande Salvador dos homens, a espírito da aliança interior, esperando humildemente o grande momento no qual o Senhor os chamará, e reunirá sua comunidade para dar a toda letra morta a força exterior e a vida.

Esta comunidade interior da luz é o conjunto de todos aqueles que estão capacitados para receber a luz dos eleitos, e é conhecida sob o nome de “Comunhão dos santos”. O depósito primitivo de todas as forças e de todas as verdades foi confiado em todos os tempos a esta comunidade da luz; que só ela, como disse São Paulo, estava de posse da ciência dos Santos. Por ela os agentes de Deus foram formados em cada época, passaram cio interior, ao exterior, e comunicaram o espírito e a vida à letra morta, como já dissemos anteriormente.

Esta comunidade da luz foi em todos os tempos a verdadeira escola do Espírito de Deus; e, considerada como escola, tem sua Cátedra, seu Doutor; possui um livro no qual seus discípulos estudam as formas e os objetos dos ensinamentos, e finalmente um método de estudo.

Ela tem, também, seus graus pelos quais o espírito pode desenvolver-se sucessivamente e elevar-se sempre cada vez mais.

O primeiro grau, o menor, consiste no bem moral pelo qual a vontade simples, subordinada a Deus, é conduzida ao bem pelo móbil puro da vontade, quer dizer, Jesus Cristo, que ela recebeu pela fé. Os meios dos quais o espírito desta escola se serve são chamados inspirações.

O segundo grau consiste no assentimento intelectual, pelo qual a compreensão do homem de bem que está unido a Deus, é coroada com a sabedoria e a luz do conhecimento; e os meios pelos quais o espírito se serve para este grau são chamados iluminações interiores.

O terceiro grau enfim, e o mais elevado, é o completo despertar do nosso sensorium interno, pelo qual o homem interior alcança a visão objetiva das verdades metafísicas e reais. Este é o grau mais elevado onde a fé se transforma em visões claras e os meios pelos quais o espírito se serve para isso são as visões reais.

Eis os três graus da verdadeira escola de sabedoria interior, da comunidade interior da luz. O mesmo espírito que aperfeiçoa os homens para esta comunidade, distribui também os graus, pela coação do próprio candidato, devidamente preparado.

Esta escola da sabedoria foi em todos os tempos, a mais secreta e a mais oculta do mundo, porque ela estava invisível e submissa unicamente à direção divina.

Ela não esteve jamais exposta aos acidentes do tempo nem às fraquezas dos homens. Porque nela não houve em todos os tempos senão os mais capazes que foram escolhidos pelas suas qualidades, e o Espírito que os escolheu não podia errar.

Nessa escola se desenvolveram os germens de todas as ciências sublimes que foram primeiramente recebidas pelas escolas exteriores, e, aí revestiram-se de outras formas verdadeiras algumas vezes tornadas disformes.

Esta sociedade interior de sábios comunicou, segundo o tempo e as circunstâncias, às sociedades exteriores, seus hieróglifos simbólicos para tornar o homem exterior atento às grandes verdades do interior.

Porém todas as sociedades exteriores só subsistem enquanto esta sociedade interior lhes comunica seu espírito. No momento em que as sociedades exteriores queriam emancipar-se da sociedade interior e transformar o templo de sabedoria em um edifício político, a sociedade interior retirava-se e nelas ficava somente a letra sem o espírito.

Assim é que todas as escolas exteriores secretas da sabedoria foram somente véus hieroglíficos, a verdade mesma permaneceu sempre no santuário para que não pudesse ser jamais profanada.

Nesta sociedade interior o homem encontra a sabedoria, e com ela tudo; não a sabedoria do mundo que não é senão um conhecimento científico rodeando o invólucro exterior, sem jamais tocar o centro onde residem todas as forças; mas a verdadeira sabedoria, assim como os homens que a ela obedecem.

Todas as disputas, todas as controvérsias, todos os objetos da falsa prudência do mundo, todos os idiomas estrangeiros, as vãs dissertações, os germens inúteis das opiniões que propagam a semente da desunião, todos os erros, os cismas e os sistemas, dela estão banidos. Não se encontra ali nem calúnias nem maledicências; todo homem é honrado. A sátira, o espírito que gosta de se divertir a custa do próximo, são ali desconhecidos, e somente se conhece o amor.

A calúnia, este monstro não levanta jamais entre os amigos da sabedoria, sua cabeça de serpente, o respeito mútuo é ali observado rigorosamente; ali não se nota as faltas do próximo nem se lhe fazem criticas sobre defeitos. Caridosamente, conduz-se o viajante ao caminho da verdade, procura-se persuadir, tocar o coração que está em erro, deixando a punição do pecado a clarividência do Mestre da Luz. Alivia-se a necessidade, protege-se a fraqueza, rejubila-se da elevação e da dignidade que o homem adquire.

A felicidade que é o dom do destino não eleva ninguém sobre o próximo; somente se considera feliz aquele ao qual se apresenta a ocasião de fazer o bem a seu próximo, e todos estes homens, que um espírito de verdade une, formam a Igreja invisível, a sociedade do Reino interior sob um chefe único que é Deus.

Não se deve imaginar que esta comunidade representa qualquer sociedade secreta que se reúne em certos tempos, escolhendo seus chefes e membros e propondo-se a determinados fins. Todas as sociedades, quaisquer que sejam não vêm senão depois desta comunidade interior da sabedoria; ela não conhece quaisquer formalidades que são a obra dos homens. No reino das forças todas as formas exteriores desaparecem.

O Próprio Deus é o chefe sempre presente. O homem mais perfeito de seu tempo, o primeiro chefe, não conhece por si mesmo todos os membros; mas no instante em que para a finalidade de Deus se torna necessário esse conhecimento, ele os encontra certamente no mundo para agir em direção a essa finalidade.

Esta comunidade não tem absolutamente véus exteriores. Aquele que é escolhido para agir perante Deus é o primeiro, apresenta-se aos outros sem presunção, e é recebido por eles sem inveja.

Se é necessário que verdadeiros membros se unam, eles se encontram e se reconhecem sem dúvida alguma. Não pode existir nenhum disfarce, e nenhum gérmen de hipocrisia ou dissimulação sobre os traços característicos desta comunidade, porque são fora do comum. São arrancadas a máscara e a ilusão, e tudo aparece em sua verdadeira forma.

Nenhum membro pode escolher um outro; o consentimento de todos é requerido. Todos os homens são chamados; os chamados podem ser escolhidos, se eles se tornarem aptos para a entrada.

Cada qual pode procurar a entrada, e todo homem que está no interior pode ensinar ao outro a procurar a entrada. Mas enquanto não se estiver preparado não se alcança o interior.

Homens não preparados ocasionariam desordens na comunidade, e a desordem não é compatível com o interior. Este interior expulsa tudo aquilo que não é homogêneo.

A Prudência do mundo espreita em vão este Santuário interior; em vão a malícia procura penetrar os grandes mistérios que aí estão ocultos; tudo é hieróglifo indecifrável para aquele que não está prepara do; nada pode ver nem ler no interior.

Aquele que já está preparado junta-se à corrente, muitas vezes lá onde menos pensava e a um elo do qual nem supunha a existência.

Procurar alcançar a maturidade deve ser o esforço daquele que ama a sabedoria.

Nesta comunidade santa está o depósito original das ciências mais antigas do gênero humano com os mistérios primordiais de todas as ciências e técnicas conduzindo à maturidade.

Ela é a única e verdadeira comunidade da Luz em possessão da chave de todos os mistérios e conhecendo o íntimo da natureza e da criação. Ela une as suas forças às forças superiores e compõem-se de membros de mais de um mundo. Estes formam uma república que será um dia a mãe regente do universo inteiro.

#Martinismo #Ocultismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-nuvem-sobre-o-santu%C3%A1rio-carta-2

A jornada espiritual não é confortável

No período em que vivemos nós temos a ideia de que o objetivo da vida é obter o máximo de prazer e de conforto. E nós refletimos esses desejos também quando buscamos uma religião ou práticas espirituais.

Vivemos numa época individualista, materialista e utilitarista. O individualismo se manifesta quando buscamos uma religião cuja meta seja satisfazer apenas a nós mesmos, como indivíduos separados de todo o resto. Perdemos a noção de que fazemos parte de um todo e nossa busca não é mais tentar reconectar-se com as outras pessoas, com o divino ou com a natureza. Nós apenas identificamos que “eu” estou com um problema e “eu” preciso arrumar um jeito de resolver isso. Como se minha perda de conexão com Deus, com o mundo ao meu redor e com as outras pessoas não tivesse nenhuma relação com isso.

Quando percebemos que a realidade é muito maior do que a nossa pequena existência, a morte já não parece assim tão assustadora. Não parece tão terrível o pensamento de desaparecer, porque o mundo não gira ao meu redor. Se eu morrer, não estarei sozinho, porque muitos seres já morreram antes e muitos seres ficarão. Eles, de certa forma, são uma extensão de mim mesmo, porque eu não sou totalmente separado de todo o resto como acho que sou.

O materialismo se manifesta quando buscamos somente gratificação material numa prática espiritual. Atualmente é comum achar que somente a realidade que eu experimento com meus cinco sentidos tem existência, e que a mente é somente uma projeção do cérebro, como se fôssemos máquinas. Então, se tudo que existe é meu corpo físico e minhas emoções, a religião se torna apenas um veículo para aumentar o êxtase que sinto com meu corpo físico (prazer dos sentidos) e com minha mente (prazer emocional).

Com isso, a meta da jornada espiritual do materialista acaba se reduzindo a busca de prazeres. Você vai à igreja para sentir uma sensação de paz mental ou realiza uma meditação para sentir aquele êxtase obtido com os estados alterados de consciência. Se a religião servisse só para isso não seria muito diferente de usar drogas.

Por fim, o utilitarismo se manifesta quando optamos por realizar certa prática espiritual apenas na medida em que ela me é útil. “Para que serve isso?” você se pergunta. E somente passa a realizar as práticas que são convenientes para você. A espiritualidade já não é boa por si mesma, ela precisa “servir” para alguma coisa e esse objetivo precisa ser necessariamente material ou emocional, para satisfazer a máquina que é o ser humano.

Muita gente diz que o objetivo de ter uma religião é alcançar coisas como paz mental, alegria, ter disciplina ou simplesmente sentir-se bem. Mas se fosse assim, ela poderia ser substituída por qualquer outra coisa, como uma visita ao psicólogo, uma agenda, um sorvete ou sair com os amigos.

É verdade que você pode obter essas coisas ao longo de sua jornada espiritual, mas sugiro que as pense mais como subprodutos de sua prática e não como a meta em si. O foco principal de uma religião é o espírito, o transcendente.

Mas o que isso quer dizer? No mundo em que vivemos já não há espaço para o espírito, porque ele parece meio antiquado e não parece ter uma utilidade imediata como um lápis ou uma panela. Então, que tal deixá-lo de lado? Que tal reduzir a nossa vida somente ao essencial e abandonar tudo o que é supérfluo para a obtenção dos meus prazeres?

Muitos de nós sentem uma sensação de tédio ou vazio. Nossa vida está aparentemente completa. Nós estudamos, ou trabalhamos, temos amigos, pequenos lazeres. Mas a vida é apenas isso? Parece que falta alguma coisa. Parece que, em algum momento da sua vida, você deixou para trás algo absolutamente importante, ou nunca foi atrás disso de fato.

As religiões lidam com a porção espiritual de nossa existência. Não é algo que possa ser substituído por filosofia, que se ocupa da razão, ou por psicologia, que se ocupa da mente e emoções. No máximo, essas e outras áreas podem complementar as religiões, mas nunca substituí-las.

No budismo não se fala tanto em Deus ou em alma, mas a iluminação é tida como um “apagar”. Precisamos nos desapegar da nossa noção de “identidade” e nos desapegar de nossos desejos incessantes por prazeres do corpo e da mente. Algumas pessoas que praticam meditação o fazem porque buscam os prazeres que ela proporciona, mas a meta é deixar de lado até esse tipo de prazer. O budismo não existe para obter “paz mental” ou “conforto”. O primeiro passo é obter desenvolvimento moral (produzir bom karma e deixar de produzir mau karma). O passo seguinte é deixar de lado até o bom karma (não se identificar mais com as ações do corpo e da mente).

Mas isso é doloroso. Quando abandonamos até mesmo os prazeres obtidos na meditação, ficamos sem nada. E esse é exatamente o momento de travarmos nossa guerra contra Mara, que procura nos tentar novamente com as ilusões do mundo.

Jornadas similares são trilhadas em outras religiões. No cristianismo, muita gente passa a frequentar a igreja porque quer se sentir bem. No momento da missa, sentem um grande êxtase e passam a realizar práticas como orações porque gostam da sensação de conforto e segurança.

Ou seja, encaram a religião como se tivesse uma utilidade e essa utilidade fosse somente material: sinto boas sensações no corpo inteiro quando me ajoelho, e também sinto paz e felicidade. Sendo assim, a prática não é espiritual, mas uma busca de um êxtase dos sentidos, como relata São João da Cruz, que pode ser substituída por um banho de espuma ou uma massagem.

Acaba-se por acreditar em Deus porque se busca a salvação individual. Eis o individualismo: quero crer em Deus para salvar a mim mesmo e não porque busco reconectar-me com o divino para descobrir que meu pequeno eu não está sozinho no universo. E eu não devo buscar isso porque a solidão que sinto é insuportável, mas porque tenho uma busca pela verdade.

Claro que não é errado começar buscando uma religião tendo desejos como esses. No entanto, com o tempo, é desejável ocorrer algum amadurecimento espiritual para notarmos as coisas que realmente importam em nossa jornada.

Hoje em dia, as meditações budistas realizadas nos templos viraram sinônimo de um momento confortável de relaxamento para aliviar o estresse e a ansiedade. Da mesma forma, frequenta-se uma igreja não para adorar a Deus porque essa adoração é excelente, mas para que o padre me diga palavras de conforto e eu me sinta bem. Essa mudança de paradigma ficou muito clara com as mudanças ocorridas após o Concílio Vaticano II na década de 60. Antes nas missas o padre ficava de costas e a meta central não era deixar os frequentadores da missa satisfeitos, mas honrar a Deus e não resolver meus problemas psicológicos. Agora, o padre se volta para a frente, como se a utilidade da missa fosse mostrar que nós somos os protagonistas e não Deus.

O cristianismo de hoje é praticado de uma forma que C.S. Lewis chama de “cristianismo água com açúcar”: muitos acreditam em Deus, mas não no diabo. Mal se fala no diabo hoje em dia. As pessoas preferem o Deus mais reconfortante do Novo Testamento e criticam o Deus do Velho Testamento, porque não se sentem confortáveis com seus discursos e ações.

Com isso, estamos usando a religião para atender as nossas necessidades individuais: vou escolher somente os dogmas que me parecem bonitos, especialmente os mais confortáveis e fáceis, que confirmem minhas visões de mundo.

Então a religião não passa mais a ter um estudo e prática dedicado para que se tente compreender os dogmas mais difíceis. É muito mais fácil criticar as religiões e dizer que elas são antiquadas, preconceituosas e erradas do que admitir que talvez nós possamos estar errados.

Recentemente terminei de ler um livro sobre anjos do grande teólogo Peter Kreeft. E uma das perguntas contidas no livro reflete exatamente o mal de nosso tempo:

“De acordo com a angeologia, anjos supostamente formam uma hierarquia. Por quê? Isso não é apenas uma projeção das políticas monárquicas medievais?”

Kreeft inicia sua resposta com os seguintes dizeres:

“A noção alternativa de que anjos são iguais poderia também muito bem ser uma projeção das nossas políticas igualitárias modernas”

O que isso significa? Que preferimos achar que os pensamentos medievais são atrasados ou incorretos do que admitir que talvez nós estejamos cometendo o erro de interpretar uma religião antiga com os preconceitos existentes na nossa própria época.

Hoje o cristão não deseja entender o que é Deus. Deseja inventar em sua cabeça o Deus que é conveniente para ele.

Kreeft observa no mesmo livro que Rabbi Abraham Hescel objetou seriamente a noção de um Deus reconfortante. Hescel disse:

“Deus não é um tio. Deus não é bonzinho. Deus é um terremoto”

O termo “temor a Deus” é muito mal compreendido hoje e geralmente interpretado como respeito. Porém, a interpretação ideal do termo “awe” seria: “um sentimento de respeito reverente, misturado com medo ou espanto”.

Quando meditamos, nós sentimos medo. Até mesmo medo da morte. Quando nos entregamos a práticas místicas do cristianismo, também sentimos medo diante de Deus. E esse medo é essencial para a jornada, que São João da Cruz chama de “a noite escura da alma”.

É claro que queremos uma meditação confortável. É evidente que preferimos um Deus e um anjo que somente massageiam nosso ser. Mas não é assim que iremos avançar na jornada.

Para avançar, precisamos dos obstáculos e desafios. É necessário o mal, o diabo, a dor, o sofrimento. É preciso cair. É imprescindível sentir temor a Deus ou verdadeiro temor diante dos estados alterados de consciência, pois somente assim gera-se a concentração de acesso para ir adiante nos jhanas.

Tire os demônios do cristianismo, tire as práticas ascéticas e desconfortáveis das religiões indianas e você matará essas religiões.

Tente assistir a um filme em que todos os personagens são felizes e em que não há situações difíceis. Experimente jogar um jogo muito fácil e logo enjoará. Tente viver uma religião cor-de-rosa, na qual existem apenas inocentes querubins (e não anjos magníficos e assustadores, que também podem cair como nós) e meditações com chás e bolos. Talvez essa religião te satisfaça por um tempo. Você apenas cortou os galhos da árvore e não atingiu suas raízes. Siga uma religião que apenas te deixe confortável na maior parte do tempo, e, no momento que chegar a dor e a morte não terá maturidade para lidar com elas.

A jornada espiritual não é confortável. Mas ela também não é terrível. Na Idade Média se falava em excesso sobre o demônio, o que também pode ser um exagero. Mas atualmente não se fala nem em Deuses e nem em demônios, mas apenas no ser humano, como se não houvesse o espírito e o transcendente, e a religião fosse meramente uma metáfora para desenvolver a moralidade.

O primeiro passo para equilibrarmos nossa busca espiritual é ler seriamente e praticar seriamente. Não ler e praticar apenas o que nos agrada, mas ousar dar um passo adiante para sair da zona de conforto e aceitar que não sabemos de tudo. Ainda há muito a aprender.

E uma mensagem para os praticantes da Magia do Caos: investigue, experimente, ouse. Além de pragmática e divertida, a sua prática poderá se tornar repleta de espíritos, Deuses e desafios. Afinal, caoísmo não é fazer qualquer coisa, mas montar um laboratório de experimentos e permitir-se o aprendizado tanto da matéria quanto do espírito em sua jornada.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-jornada-espiritual-n%C3%A3o-%C3%A9-confort%C3%A1vel

Abraão

A contribuição de Abraão na história da cabala
Quando: cerca de 4000 anos atrás
 
Onde: Babilônia
 
Livro: Sefer Yetzirá
 
Importância: Primeira péssoa a perceber a existência de uma unidade divina

Conta a tradição que entre Adão e Noé e o mundo acabou em um dilúvio mostrando a estupenda capacidade humana de esquecer. Se não fosse assim bastaria um grande cabalista na história. Mas o caso foi que entre Noé e Abraão o conhecimento foi sendo passado de forma tímida, tanto porque a humanidade como um todo não estava interessada como pelas próprias formas de comunicação primitivas que pudessem existir. Nenhum fim do mundo.

Nascido e criado em uma sociedade onde era normal culturar muitos deuses. Abraão é tido como a primeira pessoa a defender o monoteísmo. Não no sentido simplório da maioria das pessoas de hoje, mas com a percepção de que a divindade é una e que todo o universo está intimamente interconectado e unificado com este nível superior da realidade.

Por sua boa intenção Abraão recebeu revelações que recuperaram  a sabedoria recebida por Adão e as levaram a um novo patamar.  Abraão é tido também na cabala como um símbolo do amor intenso e universal em contrapartida a Isaque, símbolo da justiça e da severidade e a Jacó representando o equilíbrio entre estas duas forças.

A Abraão também é atribuído o famoso Sefer Yetzirá, o Livro da Formação que trata da formação do mundo por meio dos números, das letras e das palavras.  Dificilmente chamaríamos de livro hoje em dia posto que se trata de poucas páginas com menos de cem palavras no total. E isso levanta uma questão intrigante: Como todos os mistérios do universo podem estar contidos em um texto tão pequeno? A resposta dos cabalistas é que trata-se de uma fórmula. Considera a famosa equação de  Einstein E=mc². Páginas e páginas de equações matemáticas foram usadas para chegar a esta fórmula simples. Só assim os segredos do espaço-tempo podem ser incluídos dentro de apenas cinco caracteres. É por esta razão que, apesar do livro ser diminuto muitas volumes já foram preenchidos por comentaristas e estudiosos explicando suas minuncias.

Outro ponto interessante do papel destacado de Abraão é que sua vida e obra surgiram muito antes das principais religiões que tem ele como patriarca. Abraão viveu na Babilônia e não podia ser muçulmano, cristão e particularmente não era judeu. O judaismo só nasceu tal como o conhecemos hoje após a destruição do segundo templo no Israel e a disperssão da nação da Judeia pelo mundo e a elevação da lei rabinica ao status de mandamentos religiosos.

 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/abraao/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/abraao/

A roda dos deuses (parte 1)

Há uma lenda bastante difundida entre as religiões ocidentais que afirma, basicamente, que o monoteísmo, a “descoberta” do Deus Único, foi uma concepção originária do judaísmo. Segundo esta lenda, existem no mundo algumas poucas religiões monoteístas, derivadas da crença hebraica, e outras tantas que creem na existência de vários deuses de origem paralela – o chamado politeísmo.

A verdade, no entanto, pode ser mais profunda… Joseph Campbell foi um estudioso de mitos e religiões em todo o globo, e em O poder do mito ele deixa muito claro o que acredita ser a principal diferença entre as grandes religiões ocidentais, e as orientais: Enquanto a oeste do canal de Suez, a maioria das pessoas identifica Deus com a fonte da Alma do Mundo, a leste de Suez, a associação que se faz é a da divindade como o veículo desta energia transcendente.

Por isso as religiões ocidentais tendem a identificar a Deus como um Grande Senhor que, sabe-se lá de onde, mantém a fonte da vida em constante afluência, enquanto que as religiões orientais tendem a ver esta divindade por toda a volta – ela seria o próprio fluido em movimento, a habitar a essência de todos os seres e de todas as coisas.

O curioso é que ambas as visões são complementares, e parecem ser apenas formas diferentes de se observar este grande mistério: “porque existe algo, e não nada?” Para resolver tal questão ancestral, a mente humana tem se aventurado a observar os recônditos mais distantes do Cosmos, e a mergulhar cada vez mais profundamente dentro de si mesma… Este grande conjunto de dualidades, de opostos, emanados de uma única fonte, mas que preenchem a tudo o que há, é precisamente isto a roda dos deuses. Reflitamos:

O Uno

Conta-nos o estudioso de mitologia e religiões, Mircea Eliade [1], que os poetas criadores do Rig Veda hindu já se questionavam, provavelmente muito tempo antes dos hebreus, acerca do problema do ser, ou do incrível fato de, afinal, algo existir: “O Uno respirava por impulso próprio, sem que houvesse inspiração ou expiração (…) Afora isso, nada mais existia”. Depois, segundo eles, através de um ato de desejo e vontade, a “semente primeira” dividiu-se em “alto” e em “baixo”, num princípio masculino e noutro feminino, e depois irradiou ou emanou de si mesma, como um pensamento, tudo o que há.

Desta forma, os milhares de deuses hindus são, eles mesmos, uma “criação secundária”. Daí nasce o grande questionamento de um desses poetas hindus anônimos e ancestrais: “Será que aquele que zela por este (mundo) no lugar mais alto do firmamento é o único a saber (da origem da “criação secundária”) – ou nem mesmo ele sabe?”.

Se é verdade que nem todas as interpretações dos Vedas chegaram a tal profundidade, não é verdade que nenhum sábio hindu tenha chegado a conclusões muito próximas dos hebreus – tudo o que há haveria de ter sido criado ou irradiado de uma só fonte, de um só Deus. Dessa forma, a ideia básica do monoteísmo está longe de ser uma criação do judaísmo, ou pelo menos, apenas do judaísmo.

Esta mesma conclusão está presente no Antigo Egito (particularmente no hermetismo), na filosofia de Parmênides (e alguns filósofos pré-socráticos que não a desenvolveram com a mesma profundidade), no estoicismo, no pensamento de Plotino e, mais recentemente, na monumental obra de Espinosa, a Ética.

Mas, e seria este Uno um ser pessoal, ou alguma espécie de energia inefável, de força ou lei oculta da Natureza? Disto não podemos saber, apenas apostar… Mas, ainda que apostemos na hipótese da energia inefável, ainda aqui teremos sido precedidos por Lao Tsé em muitos séculos: “O Caminho é vazio e inesgotável, profundo como um abismo. Não sei de quem possa ser filho, pois parece ser anterior ao Soberano do Céu” (Tao Te Ching, verso 4).

A Deusa Mãe

A adoração do aspecto feminino, fértil e vivificador da divindade data da pré-história (o que pode ser comprovado pelas inúmeras estatuetas de uma “grande mãe” encontradas pelos arqueólogos em vários pontos do mundo).

Quase 3 mil anos antes de Cristo, na grandiosa cidade de Uruk, na Suméria, o templo de Ishtar dominava a civilização da primeira grande cidade. Ishtar, entretanto, era apenas mais um nome dado a Grande Deusa, que era adorada então por muitas outras culturas na Terra. Nada se comparava ao poder da mulher. Toda a vida provinha dela e sem seu alimento nenhuma vida sobreviveria. A Mãe era a vida. A Terra era a Mãe. Deus era Mulher. O matriarcado dominou grande parte do período em que se cultuou a Deusa Mãe.

Certamente o advento da agricultura contribuiu ainda mais para que o mistério do nascimento ocupasse um ponto central das religiões antigas. A Terra era associada ao ventre e, como os vegetais, os homens nasciam do solo, e voltavam ao solo durante a morte. Provavelmente tais mitos tenham sido a fonte primária dos mitos de criação do homem a partir do solo, presentes não somente na mitologia hebraica como em alguns mitos africanos bastante similares.

Mas com o tempo, e o advento das primeiras cidades (com estoques de grãos), dos saqueadores de cidades, e dos exércitos que guardavam as cidades dos saqueadores, o mundo tornou-se mais bruto e violento, e o matriarcado foi sendo suprimido pelo patriarcado. A Deusa Mãe saía de cena…

O “deus do pai”

Ainda nos conta Mircea Eliade que a religião dos patriarcas hebreus, já desde Abraão, era muito próxima ao culto dos antepassados, prática comum tanto do paganismo como de doutrinas orientais, como o budismo e o xintoísmo. O “deus do pai” é primitivamente o deus do antepassado imediato, que os filhos reconhecem. É um deus dos nômades e pastores, que não está ligado a santuários fixos, mas acompanha e protege um grupo de homens. Ele “se compromete diante de seus fiéis por meio de promessas” – o que fica muito claro nas barganhas relatadas no Antigo Testamento (“faça isto por mim, que farei isto por você”) [2].

Mas ao penetrarem em Canaã, os patriarcas são confrontados com o culto do deus El (o Deus Criador nas culturas suméria e babilônica), e o “deus do pai” acaba por lhe ser identificado [3]. Dessa forma, obtém a dimensão cósmica que não podia ter como uma divindade de famílias e clãs.

O “deus do pai”, o deus dos patriarcas hebreus, torna-se o Deus Criador e, dessa forma, é também associado ao Uno, ao “único Deus”. Mas isto não foi “a origem do monoteísmo”, como dizem as lendas, mas tão somente um dentre muitos sincretismos religiosos similares, que ocorreram não somente em Canaã, como em diversas outras partes do mundo…

» Em seguida, a roda continua a girar com as entidades divinas e os avatares…

***

[1] Alguns dos trechos de livros sagrados nesta série de artigos foram retirados de seu livro, História das crenças e das ideias religiosas, vol I (Zahar).

[2] As barganhas religiosas, onde “se cobra a Deus por sua parte do trato”, existem até os dias de hoje. É surpreendente que certas igrejas, que teoricamente são protestantes, ainda hoje colaborem para esta prática de uma espiritualidade tão superficial.

[3] É por isso que o Deus hebreu ora é chamado de Javé, ora de Elohim. Javé seria o “deus do pai”, e Elohim seria sua associação a El.

Crédito da foto: Frederic Soltan/Corbis (O Templo do Sol de Konark, Orissa/Índia)

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

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#Hinduismo #Religiões #Mitologia #Judaismo #MirceaEliade #Paganismo

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O Evangelho do Agnóstico

» Parte final da série “Reflexões sobre a evangelização” ver parte 1 | ver parte 2

As bases filosóficas do agnosticismo foram assentadas no séc. XVIII por Kant e Hume. O termo, porém, foi cunhado pelo biólogo britânico Thomas Huxley em 1876 – ele definiu o agnóstico como aquele que acredita que a questão da existência de Deus não pode e talvez jamais possa ser resolvida.

“O Cosmos é tudo que existe, que existiu ou existirá” – Assim, com essa frase inesquecível, Carl Sagan inaugura o primeiro episódio da série de 13 documentários intitulada “Cosmos”, veiculados na TV americana em 1980, e depois no restante do mundo. Ao pretender explicar ciência e cosmologia para o público leigo, Sagan acabou criando um épico que abrange também muitas questões existenciais, história, mitologia, religião e espiritualidade em geral.

Em alguma costa rochosa, em alguma praia do globo, Sagan observa as ondas, os pássaros, o vento, e algum tempo depois nos traz outra pérola em sua narrativa: “Recentemente, aventuramo-nos um pouco pelo raso (do Cosmos), talvez com água a cobrir-nos o tornozelo, e essa água nos pareceu convidativa. Alguma parte de nosso ser nos diz que essa é a nossa origem. Desejamos muito retornar, e podemos fazê-lo, pois o Cosmos também está dentro de nós. Somos feitos de matéria estelar, somos uma forma do próprio Cosmos conhecer a si mesmo.”

Sagan era profundo conhecedor de religiões e mitologia, além de cientista e cético, mas não era nem ateu nem teísta ou deísta, era puramente agnóstico. Seu evangelho era constituído de uma obra de divulgação científica totalmente voltada para tal espanto, tal deslumbramento, tal amor pela natureza e todo o Cosmos a sua volta. Essa era a boa notícia de Carl…

Para muitos teístas, o fato de existirem pessoas que não creem em um Deus pessoal, ou que pelo menos não tem certeza de sua existência, parece causar um certo desconforto. Não é raro perceber, em qualquer pessoa ligada a doutrinas eclesiásticas, uma tendência a classificar ateus, agnósticos, céticos, e às vezes simplesmente todo e qualquer cientista, como “gente sem fé”, perdida, afastada de Deus, e até mesmo imoral.

Mas a verdade é que, a despeito do aparente consenso dos eclesiásticos, a moralidade, o amor, não são exclusividade daqueles que oram todos os dias a Deus, que frequentam missas, que consultam algum manual da Verdade Absoluta frequentemente. Para o religioso superficial, isto que digo não levanta muitas questões – “Ora, mas é exatamente assim: uns são bons, outros maus, crer em Deus não faz de ninguém um santo”. Sim, isso faz sentido, mas a questão é mais profunda…

Se Deus existe – e para teístas e deístas ele certamente existe –, porque ele “permite” que algumas de suas criaturas vivam sem sequer crer nele?

Em outro produto da obra de Sagan, o livro de ficção “Contato”, que também deu origem a um excelente filme homônimo, é descrito um contato com inteligências extra-terrestres de uma forma verossímel e científica. Existe também um conflito entre as crenças de cientistas e religiosos – em dado momento, a protagonista do primeiro contato (no livro são vários contatos ao longo das décadas, no filme há apenas um), uma cientista agnóstica, nos traz uma importante indagação:

“Se Deus quisesse nos mandar uma mensagem e escrituras antigas fossem a única forma que pudesse imaginar, ele poderia ter feito um trabalho melhor. E ele dificilmente teria que se confinar a escrituras. Por que não há um monstruoso crucifixo orbitando a Terra? Por que a superfície da Lua não é coberta com os Dez Mandamentos? Por que Deus deveria ser tão claro na Bíblia e tão obscuro no mundo?”

Ao contrário do que muitos eclesiásticos possam imaginar, esta mensagem não denota um pensamento que diminua de alguma forma a importância da Bíblia, mas antes um pensamento que aumenta enormemente a amplitude do que há de sagrado no mundo – o reino é todo o Cosmos. E não poderia ser de outra forma…

Podemos encontrar neste mundo ateus, agnósticos, teístas e deístas, sim isso tudo é verdade. Mas será muito difícil encontrar algum ser que negue a existência de um sistema que rege todo o universo. Seja a crença nas leis fundamentais da natureza, seja a crença nos desígnios divinos, seja um misto de ambos, todos creem em algum sistema, cuja função pode ainda ser um mistério – mas que há de ser buscado, há de ser resolvido passo a passo, por todos nós, juntos!

Sim, nós realmente somos a forma do Cosmos conhecer a si mesmo. E pouco importa, na prática, se tal Cosmos é um ser pessoal, uma força cósmica ou até mesmo um acaso miraculoso – pois no fim, conforme postularam Kant e Hume, não compreendemos ainda muito bem nenhum deles, não podemos ainda resolver tal questão. Será que poderemos um dia?

Para resolvê-la, talvez não bastem apenas orações e experiências místicas, apenas meditação e autoconhecimento, mas também o estudo meticuloso, prático, objetivo, material, profundamente mundano, da natureza a nossa volta. Há muitos gigantes da história da ciência que, buscando talvez um deus barbudo senhor dos exércitos, acabou esbarrando em verdades muito mais profundas. Talvez buscando um reino confinado a um pequeno pedaço de rocha na periferia da uma de bilhões de galáxias, acabou esbarrando no infinito.

E, se mesmo hoje existem seres que buscam aos mistérios de Deus sem sequer crer nele, que se aventuram pelas entranhas dos átomos e quarks, pelo reino bizarro da mecânica quântica, pelos códigos ocultos do DNA, pelos quasares e sóis distantes, pelas singularidades de seções inimagináveis do espaço-tempo, deixem que busquem, pois de uma coisa teremos sempre a certeza: é impossível estar “fora” de Deus.

Talvez o trabalho deles seja tão importante para o mundo quanto os mandamentos dos evangelhos. O importante é encarar as boas novas não como enigmas solucionados, mas como o início de um caminho, subjetivo e objetivo, interior e exterior, que preenche toda nossa existência.

Amai sim, o próximo, e toda a vida, como a ti mesmo. Mas amai a coletividade da vida, amai os átomos que nos conectam a tudo e a todos em uma teia sem fim, amai ao Cosmos acima de todas as coisas.

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Crédito das imagens: Divulgação (Cosmos de Carl Sagan).

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