Manifesto Contra o Trabalho

1. O domínio do trabalho morto 

Um defunto domina a sociedade – o defunto do trabalho. Todos os poderes ao redor do globo uniram-se para a defesa deste domínio: o Papa e o Banco Mundial, Tony Blair e Jörg Haider, sindicatos e empresários, ecologistas alemães e socialistas franceses. Todos eles só conhecem um lema: trabalho, trabalho, trabalho !

Os que ainda não desaprenderam a pensar reconhecem facilmente que esta postura é infundada. Pois a sociedade dominada pelo trabalho não passa por uma simples crise passageira, mas alcançou seu limite absoluto. A produção de riqueza desvincula-se cada vez mais, na seqüência da revolução microeletrônica, do uso de força de trabalho humano – numa escala que há poucas décadas só poderia ser imaginada como ficção científica. Ninguém poderá afirmar seriamente que este processo pode ser freado ou, até mesmo, invertido. A venda da mercadoria força de trabalho será no século XXI tão promissora quanto a venda de carruagens de correio no século XX. Quem, nesta sociedade, não consegue vender sua força de trabalho é considerado “supérfluo” e está sendo jogado no aterro sanitário social.

Quem não trabalha, não deve comer ! Este fundamento cínico vale ainda hoje – e agora mais do que nunca, porque tornou-se desesperançosamente obsoleto. É um absurdo: a sociedade nunca foi tanto sociedade do trabalho como nesta época em que o trabalho se faz supérfluo. Exatamente na sua fase terminal, o trabalho revela, claramente, seu poder totalitário, que não tolera outro deus ao seu lado. Até nos poros do cotidiano e nos íntimos da psique, o trabalho determina o pensar e o agir. Não se poupa nenhum esforço para prorrogar artificialmente a vida do deus-trabalho. O grito paranóico por “emprego” justifica até mesmo acelerar a destruição dos fundamentos naturais, já há muito tempo reconhecida. Os últimos impedimentos para a comercialização generalizada de todas as relações sociais podem ser eliminados sem crítica, quando é colocada em perspectiva a criação de alguns poucos e miseráveis “postos de trabalho”. E a frase, seria melhor ter “qualquer” trabalho do que nenhum, tornou-se a confissão de fé exigida de modo geral.

Quanto mais fica claro que a sociedade do trabalho chegou a seu fim definitivo, tanto mais violentamente este fim é reprimido na consciência da opinião pública. Os métodos desta repressão psicológica, mesmo sendo muito diferentes, têm um denominador comum: o fato mundial de o trabalho ter demonstrado seu fim em si mesmo irracional, que tornou-se obsoleto. Este fato vem redefinindo-se com obstinação em um sistema maníaco de fracasso pessoal ou coletivo, tanto de indivíduos quanto de empresas ou “localizações”. A barreira objetiva ao trabalho deve aparecer como um problema subjetivo daqueles que caíram fora do sistema.

Para uns, o desemprego é produto de exigências exageradas, falta de disponibilidade, aplicação e flexibilidade dos desempregados, enquanto outros acusam os “seus” executivos e políticos de incapacidade, corrupção, ganância ou traição do interesse local. Mas enfim, todos concordam com o ex-presidente alemão Roman Herzog: precisa-se de um “arranque”, como se o problema fosse semelhante ao de motivação de um time de futebol ou de uma seita política. Todos têm, “de alguma maneira”, que puxar a carroça, mesmo se ela não existir, e colocar toda energia para arregaçar as mangas, mesmo que não exista nada a ser feito ou somente algo sem sentido. As entrelinhas dessa mensagem infeliz deixam muito claro: quem não encontra a misericórdia do deus-trabalho tem a sua própria culpa e pode ser excluído, ou até mesmo descartado, com boa consciência.

A mesma lei do sacrifício humano vale em escala mundial. Um país após o outro é triturado sob as rodas do totalitarismo econômico, o que comprova sempre a mesma coisa: não atendeu às assim chamadas leis do mercado. Quem não se “adapta” incondicionalmente ao percurso cego da concorrência total, não levando em consideração qualquer dano, está sendo penalizado pela lógica da rentabilidade. Os portadores de esperança de hoje são o ferro-velho econômico de amanhã. Os psicóticos econômicos dominantes não se deixam perturbar em suas explicações bizarras do mundo. Aproximadamente três quartos da população mundial já foram declarados como lixo social. Uma “localização” após a outra cai no abismo. Depois dos desastrosos países “em desenvolvimento” do Hemisfério Sul e do departamento do capitalismo de Estado da sociedade mundial de trabalho no Leste, também os discípulos exemplares da economia de mercado no Sudoeste Asiático desapareceram no orco do colapso. Também na Europa se espalha há muito tempo o pânico social. Os cavaleiros da triste figura da política e do gerenciamento continuam em sua cruzada ainda mais ferrenhamente em nome do deus-trabalho.

“Cada um deve poder viver de seu trabalho: é o princípio posto. Assim, o poder-viver é determinado pelo trabalho e não há nenhuma lei onde esta condição não foi realizada.”
(Johann Gottlieb Fichte – Fundamentos do Direito Natural segundo os Princípios da Doutrina-da-Ciência, 1797)


2. A Sociedade Neoliberal de Apartheid

Uma sociedade centralizada na abstrata irracionalidade do trabalho desenvolve, obrigatoriamente, a tendência ao apartheid social quando o êxito da venda da mercadoria força de trabalho deixa de ser a regra e passa a exceção. Todas as facções do campo de trabalho, trespassando todos os partidos, já aceitaram dissimuladamente essa lógica e ainda a reforçam. Eles não brigam mais sobre se cada vez mais pessoas são empurradas para o abismo e excluídas da participação social, mas apenas sobre como impor a seleção.

A facção neoliberal deixa, confiantemente, o negócio sujo e social-darwinista na “mão invisível” do mercado. Neste sentido, estão sendo desmontadas as redes sócio-estatais para marginalizar, de preferência sem ruído, todos aqueles que não conseguem se manter na concorrência. Só estão sendo reconhecidos como seres humanos os que pertencem à irmandade dos ganhadores globais com seus sorrisos cínicos. Todos os recursos do planeta estão sendo usurpados sem hesitação para a máquina capitalista do fim em si mesmo. Se esses recursos não são mobilizados de uma maneira rentável eles ficam em “pousio”, mesmo quando, ao lado, grandes populações morrem de fome.

O incômodo do “lixo humano” fica sob a competência da polícia, das seitas religiosas de salvação, da máfia e dos sopões para pobres. Nos Estados Unidos e na maioria dos países da Europa Central, já existem mais pessoas na prisão do que na média das ditaduras militares. Na América Latina, estão sendo assassinadas diariamente mais crianças de rua e outros pobres pelo esquadrão da morte da economia de mercado do que oposicionistas nos tempos da pior repressão política. Aos excluídos só resta uma função social: a de ser um exemplo aterrorizante. O destino deles deve incentivar a todos os que ainda fazem parte da corrida de “peregrinação para a Jerusalém” da sociedade do trabalho na luta pelos últimos lugares. Este exemplo deve ainda incitar às massas de perdedores a manterem-se em movimento apressado, para que não tenham a idéia de se revoltarem contra as vergonhosas imposições.

Mas, mesmo pagando o preço da auto-resignação, o admirável mundo novo da economia de mercado totalitária deixou para a maioria das pessoas apenas um lugar, como homens submersos numa economia submersa. Submissos aos ganhadores bem remunerados da globalização, eles têm de ganhar sua vida como trabalhadores ultra baratos e escravos democratas na “sociedade de prestação de serviços”. Os novos “pobres que trabalham” têm o direito de engraxar o sapato dos businessmen da sociedade do trabalho ou de vendê-los hambúrguer contaminado, ou então, de vigiar o seu shopping center. Quem deixou seu cérebro na chapeleira da entrada até pode sonhar com uma ascensão ao posto de milionário prestador de serviços.

Nos países anglo-saxônicos, este mundo de horror já é realidade para milhões, no Terceiro Mundo e na Europa do Leste, nem se fala; e o continente do Euro mostra-se decidido a superar, rapidamente, esse atraso. As gazetas econômicas não fazem mais nenhum segredo sobre como imaginam o futuro ideal do trabalho: as crianças do Terceiro Mundo, que limpam os pára-brisas dos automóveis nos cruzamentos poluídos, são o modelo brilhante da “iniciativa privada”, que deveria servir de exemplo para os desempregados do deserto europeu da prestação de serviço. “O modelo para o futuro é o indivíduo como empresário de sua força de trabalho e de sua própria previdência social”, escreve a “Comissão para o Futuro dos Estados Livres da Baviera e da Saxônia”. E ainda: “a demanda por serviços pessoais simples é tanto maior quanto menos custam, isto é, quanto menos ganham os prestadores de serviço”. Num mundo em que ainda existisse auto-estima humana, uma frase deste tipo deveria provocar uma revolta social. Porém, num mundo de animais de trabalho domesticados, ela apenas provoca um resignado balançar de cabeça.

“O gatuno destruiu o trabalho e, apesar disso, tirou o salário de um trabalhador; agora, deve trabalhar sem salário, mas, mesmo no cárcere, deve pressentir a benção do êxito e do ganho(…) Ele deve ser educado para o trabalho moral enquanto um ato pessoal livre, através do trabalho forçado.”
(Wilhelm Heinrich Riehl – O trabalho alemão, 1861)

3. O Apartheid do Neo-Estado Social

As facções antineoliberais do campo de trabalho social podem não gostar muito desta perspectiva, mas exatamente para elas está definitivamente confirmado que um ser humano sem trabalho não é um ser humano. Fixados nostalgicamente no período pós-guerra fordista de trabalho em massa, eles não pensam em outra coisa a não ser em revitalizar os tempos passados da sociedade do trabalho. O Estado deveria endireitar o que o mercado não consegue mais. A aparente normalidade da sociedade do trabalho deve ser simulada através de “programas de ocupação”, trabalhos comunitários obrigatórios para pessoas que recebem auxílio social, subvenções de localizações, endividamento estatal e outras medidas públicas. Este estatismo de trabalho, agora requentado e hesitante, não tem a menor chance, mas continua como o ponto de referência ideológico para amplas camadas populacionais ameaçadas pela queda. Exatamente nesta total ausência de esperança, a práxis que resulta disso é tudo menos emancipatória.

A metamorfose ideológica do “trabalho escasso” em primeiro direito da cidadania exclui necessariamente todos os não-cidadãos. A lógica de seleção social não está sendo posta em questão, mas só redefinida de uma outra maneira: a luta pela sobrevivência individual deve ser amenizada por critérios étnico-nacionalistas. “Roda-Viva do trabalho nacional só para nativos” clama a alma popular que, no seu amor perverso pelo trabalho, encontra mais uma vez a comunidade nacional. O populismo de direita não esconde essa conclusão necessária. Na sociedade de concorrência, sua crítica leva apenas à limpeza étnica das áreas que encolhem em termos de riqueza capitalista.
Em oposição a isso, o nacionalismo moderado de cunho social-democrata ou verde permite aos antigos imigrantes de trabalho, quando estes se comportam de maneira adequada e inofensiva, tornarem-se cidadãos locais. Mas, a acentuada e reforçada rejeição de refugiados do Leste e do Sul pode, assim, ser legitimada de uma forma mais populista e silenciosa – o que fica obviamente sempre escondido por trás de um palavrório de humanidade e civilidade. A caça aos “ilegais”, que pretendem postos de trabalho nacionais, não deve deixar, se possível, nenhuma mancha indigna de sangue e de fogo em solo europeu. Para isso existe a polícia, a fiscalização militar de fronteira e os países tampões da “Schengenlândia”, que resolvem tudo conforme o direito e a lei e, de preferência, longe das câmeras de televisão.

A simulação estatal de trabalho é, por princípio, violenta e repressiva. Ela significa a manutenção da vontade de domínio incondicional do deus-trabalho, com todos os meios disponíveis, mesmo após sua morte. Este fanatismo burocrático de trabalho não deixa em paz nem aos que caíram fora – os sem-trabalho e sem-chances – nem todos aqueles que com boas razões rejeitam o trabalho, nos seus já horrivelmente apertados nichos do demolido Estado Social. Eles estão sendo arrastados para os holofotes do interrogatório estatal por assistentes sociais e funcionários da distribuição do trabalho e sendo obrigados a prestar reverência pública perante o trono do defunto-rei.

Se na justiça normalmente regera o fundamento “em dúvida, a favor do réu”, agora isso se inverteu. Se os que caíram fora futuramente não quiserem viver de ar ou de caridade cristã, precisam aceitar qualquer trabalho sujo ou de escravo e qualquer programa de “ocupação”, mesmo sendo o mais absurdo, para demonstrar a sua disposição incondicional para com o trabalho. Se aquilo que eles devem fazer tem ou não algum sentido, ou é o maior absurdo, de modo algum interessa. O que importa é que eles fiquem em movimento permanente para que nunca esqueçam a lei que sua existência tem que realizar.

Outrora, os homens trabalhavam para ganhar dinheiro. Hoje, o Estado não poupa gastos e custos para que centenas de milhares de pessoas simulem trabalhos em estranhas “oficinas de treinamento” ou “empresas de ocupação”, para que fiquem em forma para “postos de trabalho regulares” que nunca ocuparão. Inventam-se cada vez mais novas e mais estúpidas “medidas” só para manter a aparência da Roda-Viva do trabalho social que-gira-em-falso funcionando ad infinitum. Quanto menos sentido tem a coerção do trabalho, mais brutalmente insere-se nos cérebros humanos que não haverá mais nenhum pãozinho de graça.

Neste sentido, o “New Labour” e todos os seus imitadores demonstram-se, em todo o mundo, compatíveis inteiramente com o modelo neoliberal de seleção social. Pela simulação de “ocupação” e pelo fingimento de um futuro positivo da sociedade do trabalho, cria-se a legitimação moral para tratar de uma maneira mais dura os desempregados e os recusadores de trabalho. Ao mesmo tempo, a coerção estatal de trabalho, as subvenções salariais e os trabalhos assim chamados “cívicos e honoríficos” reduzem cada vez mais os custos de trabalho.

Desta maneira, incentiva-se maciçamente o setor canceroso de salários baixos e trabalhos miseráveis.

A assim chamada política ativa do trabalho, segundo o modelo do “New Labour”, não poupa nem mesmo doentes crônicos e mães solteiras com crianças pequenas. Quem recebe auxílio estatal só se livra do estrangulamento institucional quando pendura a plaquinha prateada no dedão do pé. O único sentido desta impertinência está em evitar-se o máximo possível que pessoas façam qualquer solicitação ao Estado e, ao mesmo tempo, demonstrar aos que caíram fora que, diante de tais instrumentos terríveis de tortura, qualquer trabalho miserável parece agradável.

Oficialmente, o Estado paternalista só chicoteia por amor, com intenção de educar severamente os seus filhos que foram denunciados como “preguiçosos”, em nome de seu próprio progresso. Na realidade, essas medidas “pedagógicas” só têm como objetivo afastar os fregueses de sua porta. Qual seria o sentido de obrigar os desempregados a trabalharem na colheita de aspargos? O sentido é afastar os trabalhadores sazonais poloneses que só aceitam os salários de fome dadas as relações cambiais, que os transformam em um pagamento aceitável. Mas, aos trabalhadores forçados essa medida é inútil e tampouco abre qualquer “perspectiva” profissional. E mesmo para os produtores de aspargos, os acadêmicos mal-humorados e os trabalhadores qualificados que lhes são enviados só significam um estorvo. Mas, se após a jornada de doze horas nos campos alemães, de repente aparecer como uma luz mais agradável a idéia maluca de ter, por desespero, um carrinho de cachorro-quente, então a “ajuda para a flexibilização” demonstrou seu efeito neobritânico desejável.

“Qualquer emprego é melhor do que nenhum.”
(Bill Clinton, 1998)

“Nenhum emprego é tão duro como nenhum.”
(Lema de uma exposição de cartazes da Divisão de Coordenação Federal da Iniciativa dos Desempregados da Alemanha, 1998)

“Trabalho civil deve ser gratificado e não remunerado… mas quem atua no trabalho civil também perde a mácula do desemprego e da recepção de auxílio social.”
(Ulrich Beck – A alma da democracia, 1997)

4. O agravamento e o desmentido da religião do trabalho

O novo fanatismo do trabalho, com o qual esta sociedade reage perante a morte de seu deus, é a continuação lógica e a etapa final de uma longa história. Desde os dias da Reforma, todas as forças basilares da modernização ocidental pregaram a santidade do trabalho. Principalmente durante os últimos 150 anos, todas as teorias sociais e correntes políticas estavam possuídas, por assim dizer, pela idéia do trabalho. Socialistas e conservadores, democratas e fascistas combateram-se até a última gota de sangue, mas, apesar de toda a animosidade, sempre levaram, em conjunto, sacrifícios ao altar do deus-trabalho. “Afastai os ociosos”, dizia o Hino Internacional do Trabalho – e “o trabalho liberta”, diziam aterrorizantemente os portões de Auschwitz. As democracias pluralistas do pós-guerra juraram ainda mais a favor da ditadura eterna do trabalho. Mesmo a Constituição do Estado da Baviera, arquicatólico, ensina aos seus cidadãos partindo do sentido da tradição luterana: “o trabalho é a fonte do bem-estar do povo e está sob proteção especial do Estado”. No final do século XX, quase todas as diferenças ideológicas desapareceram. Sobrou o dogma impiedoso, segundo o qual, o trabalho é a determinação natural do homem.

Hoje, a própria realidade da sociedade do trabalho desmente este dogma. Os sacerdotes da religião do trabalho sempre pregaram que o homem, por sua suposta natureza, seria um “animal laborans“. Somente tornar-se-ia ser humano na medida em que submetesse, como Prometeu, a matéria natural à sua vontade, realizando-se através de seus produtos. Este mito de explorador do mundo e demiurgo que tem sua vocação desde sempre foi um escárnio em relação ao caráter do processo moderno de trabalho, embora na época dos capitalistas-inventores, do tipo Siemens ou Edison e seus empregados qualificados, tinha ainda um substrato real. Hoje, este gesto é totalmente absurdo.

Quem hoje ainda se pergunta pelo conteúdo, sentido ou fim de seu trabalho vira louco – ou um fator de perturbação do funcionamento do fim em si da máquina social. O “homo faber“, antigamente orgulhoso de seu trabalho e com seu jeito limitado levando a sério o que fazia, hoje é tão fora de moda quanto a máquina de escrever mecânica. A Roda tem que girar de qualquer jeito, e basta. Para a invenção de sentido são responsáveis os departamentos de publicidade e exércitos inteiros de animadores e psicólogas de empresa, consultores de imagem e traficantes de drogas. Onde se balbucia continuamente um blablablá sobre motivação e criatividade, disso nada sobrou, a não ser auto-engano. Por isso, contam hoje as habilidades de auto-sugestão, auto-representação e simulação de competência como as virtudes mais importantes de executivos e trabalhadoras especializadas, estrelas da mídia e contabilistas, professoras e guardas de estacionamento.

Também a afirmação de que o trabalho seria uma necessidade eterna, imposta ao homem pela natureza, tornou-se, na crise da sociedade do trabalho, ridícula. Há séculos está sendo rezado que o deus-trabalho precisaria ser adorado porque as necessidades não poderiam ser satisfeitas por si próprias, isto é, sem o suor da contribuição humana. E o fim de todo este empreendimento de trabalho seria a satisfação de necessidades. Se isto fosse verdade, a crítica ao trabalho teria tanto sentido quanto a crítica da lei da gravidade. Pois, como uma “lei natural” efetivamente real pode entrar em crise ou desaparecer? Os oradores do campo de trabalho social – da socialite engolidora de caviar, neoliberal e maníaca por eficiência até o sindicalista barriga-de-chope – entram, com a sua pseudo-natureza do trabalho, em dificuldade de argumentação. Afinal, como eles querem nos explicar que hoje três quartos da humanidade estejam afundando no estado de calamidade e miséria somente porque o sistema social de trabalho não precisa mais de seu trabalho?

Não é mais a maldição do velho testamento – “comerás teu pão com o suor da tua face” – que pesa sobre os que caíram fora, mas uma nova e implacável condenação: “tu não comerás porque o teu suor é supérfluo e invendível”. E será isto uma lei natural? Não é nada mais que o princípio social irracional que aparece como coerção natural porque destruiu, ao longo dos séculos, todas as outras formas de relação social ou as submeteu e se impôs como absoluto. É a “lei natural” de uma sociedade que se considera muito “racional”, mas que, em verdade, apenas segue a racionalidade funcional de seu deus-trabalho, a cujas “coerções objetivas” está disposta a sacrificar o último resto de humanidade.

“Trabalho está, por mais baixo e mamonístico que seja, sempre em relação com a natureza. Só o desejo de executar trabalho já conduz cada vez mais à verdade e às leis e prescrições da natureza, que são a verdade.”
(Thomas Carlyle – Trabalhar e não desesperar, 1843)

5. Trabalho é um princípio coercitivo social

Trabalho não é, de modo algum, idêntico ao fato de que os homens transformam a natureza e se relacionam através de suas atividades. Enquanto houver homens, eles construirão casas, produzirão vestimentas, alimentos, tanto quanto outras coisas, criarão filhos, escreverão livros, discutirão, farão hortas, música etc. Isto é banal e se entende por si mesmo. O que não é óbvio é que a atividade humana em si, o puro “gasto de força de trabalho”, sem levar em consideração qualquer conteúdo e independente das necessidades e da vontade dos envolvidos, torne-se um princípio abstrato, que domina as relações sociais.

Nas antigas sociedades agrárias existiam as mais diversas formas de domínio e de relações de dependência pessoal, mas nenhuma ditadura do abstractum trabalho. As atividades na transformação da natureza e na relação social não eram, de forma alguma, autodeterminadas, mas também não eram subordinadas a um “gasto de força de trabalho” abstrato: ao contrário, integradas num conjunto de complexo mecanismo de normas prescritivas religiosas, tradições sociais e culturais com compromissos mútuos. Cada atividade tinha o seu tempo particular e seu lugar particular; não existia uma forma de atividade abstrata e geral.

Somente o moderno sistema produtor de mercadorias criou, com seu fim em si mesmo da metamorfose permanente de energia humana em dinheiro, uma esfera particular, “dissociada” de todas as outras relações e abstraída de qualquer conteúdo, a esfera do assim chamado trabalho – uma esfera da atividade dependente incondicional, desconectada e robótica, separada do restante contexto social e obedecendo a uma abstrata racionalidade funcional de “economia empresarial”, para além das necessidades. Nesta esfera separada da vida, o tempo deixa de ser tempo vivido e vivenciado; torna-se simples matéria-prima que precisa ser otimizada: “tempo é dinheiro”. Cada segundo é calculado, cada ida ao banheiro torna-se um transtorno, cada conversa é um crime contra o fim autonomizado da produção. Onde se trabalha, somente pode ser gasto energia abstrata. A vida se realiza em outro lugar, ou não se realiza, porque o ritmo do tempo de trabalho reina sobre tudo. As crianças já estão sendo domadas pelo relógio para terem algum dia “capacidade de eficiência”. As férias também só servem para a reprodução da “força de trabalho”. E mesmo na hora da refeição, na festa e no amor o ponteiro dos segundos toca no fundo da cabeça.

Na esfera do trabalho não conta o que se faz, mas que se faça algo enquanto tal, pois o trabalho é justamente um fim em si mesmo, na medida em que é o suporte da valorização do capital-dinheiro – o aumento infinito de dinheiro por si só. Trabalho é a forma de atividade deste fim em si mesmo absurdo. Só por isso, e não por razões objetivas, todos os produtos são produzidos como mercadorias. Pois somente nesta forma eles representam o abstractum dinheiro, cujo conteúdo é o abstractum trabalho. Nisto consiste o mecanismo da Roda-Viva social autonomizada, no qual a humanidade moderna está presa.

E por isso, o conteúdo da produção é indiferente tanto quanto a utilização dos produtos e as conseqüências sociais e naturais. Se casas são construídas ou campos minados produzidos, se  livros são impressos, se tomates transgênicos são criados, se pessoas adoecem, se o ar está poluído ou se “apenas” o bom gosto é prejudicado – tudo isso não interessa. O que interessa, de qualquer modo, é que a mercadoria possa ser transformada em dinheiro e dinheiro em novo trabalho. Que a mercadoria exija um uso concreto, e que seja ele mesmo destrutivo, não interessa à racionalidade da economia empresarial, para ela o produto só é portador de trabalho pretérito, de “trabalho morto”.

A acumulação de “trabalho morto” como capital, representado na forma-dinheiro, é o único “sentido” que o sistema produtor de mercadorias conhece. “Trabalho morto”? Uma loucura metafísica! Sim, mas uma metafísica que se tornou realidade palpável, uma loucura “objetivada” que prende a sociedade com mão férrea. No eterno comprar e vender os homens não intercambiam enquanto seres sociais conscientes, mas apenas executam como autômatos sociais o fim em si mesmo pré-posto a eles.

“O trabalhador só se sente consigo mesmo fora do trabalho, enquanto que no trabalho se sente fora de si. Ele está em casa quando não trabalha, quando trabalha não está em casa. Seu trabalho, por isso, não é voluntário, mas constrangido, é trabalho forçado. Por isso, não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio de satisfazer necessidades exteriores a ele mesmo. A estranheza do trabalho revela sua forma pura no fato de que, desde que não exista nenhuma coerção física ou outra qualquer, foge-se dele como se fosse uma peste.”
(Karl Marx – Manuscritos Econômico-Filosóficos, 1844)

6. Trabalho e capital são os dois lados da mesma moeda

A esquerda política sempre adorou entusiasticamente o trabalho. Ela não só elevou o trabalho à essência do homem, mas também mistificou-o como pretenso contra-princípio do capital. O escândalo não era o trabalho, mas apenas a sua exploração pelo capital. Por isso, o programa de todos os “partidos de trabalhadores” foi sempre “libertar o trabalho” e não “libertar do trabalho”. A oposição social entre capital e trabalho é apenas uma oposição de interesses diferenciados (é verdade que de poderes muito diferenciados) internamente ao fim em si mesmo capitalista. A luta de classes era a forma de execução desses interesses antagônicos no seio do fundamento social comum do sistema produtor de mercadorias. Ela pertencia à dinâmica interna da valorização do capital. Se se tratava de luta por salários, por direitos, por condições de trabalho ou por postos de trabalho: o pressuposto cego continuava sempre sendo a Roda-Viva dominante com seus princípios irracionais.

Tanto do ponto de vista do trabalho quanto do capital, pouco importa o conteúdo qualitativo da produção. O que interessa é apenas a possibilidade de vender de forma otimizada a força de trabalho. Não se trata da determinação em conjunto sobre o sentido e o fim da própria atividade. Se houve algum dia a esperança de poder realizar uma tal autodeterminação da produção dentro das formas do sistema produtor de mercadorias, hoje as “forças de trabalho” já perderam, e há tempos, esta ilusão. Hoje interessa apenas o “posto de trabalho”, a “ocupação” – já esses conceitos comprovam o caráter de fim em si mesmo de todo esse empreendimento e a menoridade dos envolvidos.

O que, para que e com que conseqüências se produz, no fundo não interessa, nem ao vendedor da mercadoria força de trabalho, nem ao comprador. Os trabalhadores das usinas nucleares e das indústrias químicas protestam ainda mais veementemente quando se pretende desativar as suas bombas-relógio. E os “ocupados” da Volkswagen, Ford e Toyota são os defensores mais fanáticos do programa suicida automobilístico. Não só porque eles precisam obrigatoriamente se vender só para “poder” viver, mas porque eles se identificam realmente com a sua existência limitada. Para sociólogos, sindicalistas, sacerdotes e outros teólogos profissionais da “questão social”, este fato é a comprovação do valor ético-moral do trabalho. Trabalho forma a personalidade. É verdade. Isto é, a personalidade de zumbis da produção de mercadorias, que não conseguem mais imaginar a vida fora de sua Roda-Viva calorosamente amada, para a qual eles próprios se preparam diariamente.

Como tampouco era a classe trabalhadora, enquanto tal, a contradição antagônica ao capital e o sujeito da emancipação humana, tampouco também, por outro lado, os capitalistas e executivos dirigem a sociedade seguindo a maldade de uma vontade subjetiva de explorador. Nenhuma casta dominante viveu, em toda a história, uma vida tão miserável e não livre como os acossados executivos da Microsoft, Daimler-Chrysler ou Sony.

Qualquer senhorio medieval teria desprezado profundamente essas pessoas. Pois, enquanto ele podia se dedicar ao ócio e gastar mais ou menos em orgias a sua riqueza, as elites da sociedade do trabalho não podem se permitir nenhum intervalo. Mesmo fora da Roda-Viva, eles não sabem outra coisa para fazer consigo mesmos que infantilizarem-se. Ócio, gozo no reconhecimento, prazer sensual lhes são tão estranhos quanto o seu material humano. Eles mesmos são servos do deus-trabalho, meras elites funcionais do fim em si mesmo social irracional.
O deus dominante sabe impor sua vontade sem sujeito através da “coerção silenciosa” da concorrência, ao qual precisam se curvar também os poderosos, justamente mais ainda quando são os executivos de centenas de fábricas e transferem somas milionárias pelo globo. Se eles não fizerem isso, são colocados de lado do mesmo modo brutal como as “forças de trabalho” supérfluas. Mas é justamente sua menoridade que faz com que os funcionários do capital sejam tão incomensuravelmente perigosos, e não a sua vontade subjetiva de exploração. Eles têm menos direito de perguntar pelo sentido e pelas conseqüências de suas atividades infatigáveis, sentimentos e considerações não podem permitir a si mesmos. Por isso, eles falam de realismo quando devastam o mundo, fazem as cidades cada vez mais feias e deixam os homens empobrecerem no meio da riqueza.

“O trabalho tem cada vez mais a boa consciência ao seu lado: atualmente a inclinação para a alegria chama-se ‘necessidade de recreação’ e começa a ter vergonha de si mesma. ‘Deve-se fazer isto pela saúde’ – assim se diz quando se é surpreendido num passeio pelo campo. Pois logo poder-se-á chegar ao ponto em que a gente não mais ceda a uma inclinação para a vita contemplativa (isto é, a um passeio com pensamentos e amigos) sem má consciência e desprezo de si.”
(Friedrich Nietzsche – Ócio e Ociosidade, 1882)

7. Trabalho é domínio patriarcal

Mesmo que a lógica do trabalho e da sua metamorfose em matéria-dinheiro insista, nem todas as esferas sociais e atividades necessárias deixam-se embutir sob pressão na esfera do tempo abstrato. Por isso, surgiu junto com a esfera “separada” do trabalho, de certa forma como seu avesso, também a esfera privada doméstica, da família e da intimidade.

Nesta esfera definida como “feminina” restam as numerosas e repetidas atividades da vida cotidiana que não podem ser, a não ser excepcionalmente, transformadas em dinheiro: da faxina à cozinha, passando pela educação das crianças e a assistência aos idosos até o “trabalho de amor” da dona de casa típica ideal, que reconstrói seu marido trabalhador esgotado e que permite-lhe “encher seu tanque com sentimentos”. A esfera da intimidade, como avesso do trabalho, é declarada pela ideologia burguesa da família como o refúgio da “vida verdadeira” – mesmo se na realidade ela é, antes, um inferno da intimidade. Trata-se justamente não de uma esfera de vida melhor e verdadeira, mas de uma forma de existência tão reduzida quanto limitada, só com os sinais invertidos. Essa esfera é ela própria um produto do trabalho, cindida dele, mas só existente em relação a ele. Sem o espaço social cindido das formas de atividade “femininas”, a sociedade do trabalho nunca poderia ter funcionado. Este espaço é seu pressuposto silencioso e ao mesmo tempo seu resultado específico.

Isto vale também para os estereótipos sexuais que foram generalizados no decorrer do desenvolvimento do sistema produtor de mercadorias. Não é por acaso que se fortaleceu o preconceito em massa da imagem da mulher dirigida irracional e emocionalmente, natural e impulsiva, juntamente com a imagem do homem trabalhador, produtor de cultura, racional e autocontrolado. E também não é por acaso que o auto-adestramento do homem branco para as impertinências do trabalho e para sua administração humana estatal foi acompanhado por seculares e enfurecidas “caças às bruxas”. Simultaneamente a estas, inicia-se a apropriação do mundo pelas ciências naturais desde já contaminadas em suas raízes pelo fim em si mesmo da sociedade do trabalho e pelas atribuições de gênero. Dessa maneira, o homem branco, para poder “funcionar” sem atrito, expulsou de si mesmo todos os sentimentos e necessidades emocionais que, no reino do trabalho, só contam como fatores de perturbação.

No século XX, em especial nas democracias fordistas do pós-guerra, as mulheres foram cada vez mais integradas no sistema de trabalho, mas o resultado disso foi apenas a esquizo consciência feminina. Pois, de um lado, o avanço das mulheres na esfera de trabalho não poderia trazer nenhuma libertação, mas apenas o ajuste ao deus-trabalho, como entre os homens. De outro lado, continuou a existir ilesa a estrutura de “cisão”, e assim também as esferas das atividades ditas “femininas”, externas ao trabalho oficial. As mulheres foram submetidas, desta maneira, à carga dupla e, ao mesmo tempo, expostas a imperativos sociais totalmente antagônicos. Dentro da esfera do trabalho elas ficaram até hoje, na sua grande maioria, em posições mal pagas e subalternas.

Disso, nenhuma luta inerente ao sistema, por cotas femininas de carreira e oportunidades, pode mudar alguma coisa. A visão burguesa miserável de “unificação da profissão e família” deixa totalmente intocada a separação de esferas do sistema produtor de mercadorias, e com isso também a estrutura de “cisão” de gênero. Para a maioria das mulheres esta perspectiva não é vivenciável, para a minoria daquelas que “ganham melhor” ela torna-se uma posição pérfida de ganhador no apartheid social, na medida em que pode-se delegar o trabalho doméstico e a criação dos filhos a empregadas mal pagas (e “obviamente” femininas).

Na sociedade como um todo, a sagrada esfera burguesa da assim chamada vida privada e de família está, na verdade, sendo cada vez mais minada e degradada, porque a usurpação da sociedade do trabalho exige da pessoa inteira o sacrifício completo, a mobilidade e a adaptação temporal. O patriarcado não é abolido, mas passa por um asselvajamento na crise inconfessa da sociedade do trabalho. Na mesma medida em que o sistema produtor de mercadorias entra em colapso, as mulheres tornam-se responsáveis pela sobrevivência em todos os níveis, enquanto o mundo “masculino” prolonga simulativamente as categorias da sociedade do trabalho.

“A humanidade teve que se submeter a terríveis provações até que se formasse o eu, o caráter idêntico, determinado e viril do homem, e toda infância ainda é de certa forma a repetição disso”.
(Max Horkheimer & Theodor W. Adorno – Dialética do Esclarecimento )

8. Trabalho é a atividade da menoridade

Não só de fato, mas também conceitualmente, deixa-se demonstrar a identidade entre trabalho e menoridade. Até há poucos séculos, os homens tinham consciência do nexo entre trabalho e coerção social. Na maioria das línguas européias, o termo “trabalho” relaciona-se originalmente apenas com a atividade de uma pessoa juridicamente menor, do dependente, do servo ou do escravo. Nos países de língua germânica, a palavra “Arbeit” significa trabalho árduo de uma criança órfã e, por isso, serva. No latim, “laborare” significava algo como o “balançar do corpo sob uma carga pesada”, e em geral é usado para designar o sofrimento e o mau trato do escravo. As palavras românicas “travail”, “trabajo” etc. derivam-se do latim, “tripalium”, uma espécie de canga utilizada para a tortura e o castigo de escravos e outros não livres. A expressão idiomática alemã – “canga do trabalho” (”Joch der Arbeit”) – ainda faz lembrar este sentido.

“Trabalho”, por conseguinte, pela sua origem etimológica, não é sinônimo de uma atividade humana autodeterminada, mas aponta para um destino social infeliz. É a atividade daqueles que perderam sua liberdade. A ampliação do trabalho a todos os membros da sociedade é, por isso, nada mais que a generalização da dependência servil, e sua adoração moderna apenas a elevação quase religiosa deste estado.

Esta relação pôde ser reprimida com êxito e a impertinência social interiorizada, porque a generalização do trabalho foi acompanhada pela sua “objetivação” por meio do moderno sistema produtor de mercadorias: a maioria das pessoas não está mais sob o chicote de um senhor pessoal. A dependência social tornou-se uma relação abstrata do sistema e, justamente por isso, total. Ela pode ser sentida em todos os lugares, mas não é palpável. Quando cada um tornou-se servo, tornou-se ao mesmo tempo senhor, o seu próprio traficante de escravo e feitor. Todos obedecem ao deus invisível do sistema, o “Grande Irmão” da valorização do capital, que os subjugou sob o “tripalium”.

9. A história sangrenta da imposição do trabalho

A história da modernidade é a história da imposição do trabalho que deixou seu rastro amplo de devastação e horror em todo o planeta. Nunca a impertinência de gastar a maior parte de sua energia vital para um fim em si mesmo determinado externamente foi tão interiorizada como hoje. Vários séculos de violência aberta em grande escala foram precisos para torturar os homens a fim de fazê-los prestar serviço incondicional ao deus-trabalho.

O início, ao contrário do que se diz comumente, não foi a ampliação das relações de mercado com um conseqüente “crescimento do bem-estar”, mas sim a fome insaciável por dinheiro dos aparelhos do Estado absolutista, para financiar as primeiras máquinas militares modernas. Somente pelo interesse desses aparelhos, que pela primeira vez na história sufocaram toda uma sociedade burocraticamente, acelerou-se o desenvolvimento do capital mercantil e financeiro urbano, ultrapassando as formas comerciais tradicionais. Somente desta maneira, o dinheiro tornou-se o motivo social central e o abstractum trabalho uma exigência social central, sem levar em consideração as necessidades.

Não foi voluntariamente que a maioria dos homens passou a uma produção para mercados anônimos e assim a uma economia monetária generalizada, mas antes porque a fome absolutista por dinheiro monetarizou os impostos, aumentando-os simultaneamente de forma exorbitante. Não se precisava “ganhar dinheiro” para si mesmo, mas sim para o militarizado Estado de armas de fogo do início da modernidade, para sua logística e sua burocracia. Assim, e não de outra forma, nasceu o fim em si mesmo absurdo da valorização do capital e do trabalho.

Não demorou muito para que os impostos monetários e as taxas não fossem mais suficientes. Os burocratas absolutistas e os administradores do capital financeiro começaram a organizar coercitivamente os homens diretamente como material de uma máquina social para a transformação de trabalho em dinheiro. O modo tradicional de vida e de existência da população foi destruído; não porque esta população estava se “desenvolvendo” voluntariamente e de maneira autodeterminada, mas porque ela precisava servir como material humano para uma máquina de valorização já acionada. Os homens foram expulsos de suas roças à força de armas para dar lugar à criação de ovinos para as manufaturas de lã. Direitos antigos como a liberdade de caça, pesca e coleta de lenha nas florestas foram extintos. E quando as massas pauperizadas perambularam mendigando e roubando pelo território, foram, então, internadas em casas de trabalho e manufaturas para serem maltratadas com máquinas de tortura de trabalho e para adquirirem a pauladas uma consciência de escravos, a fim de se tornarem animais de trabalho obedientes.

Mas, também a transformação por etapas de seus vassalos em material do deus-trabalho fazedor de dinheiro não foi suficiente para os Estados absolutistas monstruosos. Eles ampliaram suas pretensões também a outros continentes. A colonização interna da Europa foi acompanhada pela colonização externa, primeiro nas duas Américas e em partes da África. Ali, os feitores do trabalho perderam definitivamente seus pudores. Em campanhas militares de roubo, destruição e extermínio sem precedentes, eles assaltaram os mundos recentemente “descobertos” – lá as vítimas nem eram consideradas seres humanos. Em sua aurora, o Poder europeu antropófago da sociedade do trabalho definiu as culturas estrangeiras subjugadas como “selvagens” e antropófagas.

Com isso, foi criada a lei de legitimação para eliminá-los ou escravizá-los aos milhões. A escravidão em sentido literal, que nas economias coloniais de plantation de matérias-primas ultrapassou em dimensões a escravidão antiga, faz parte dos crimes fundadores do sistema produtor de mercadorias. Ali foi utilizado em grande estilo, pela primeira vez, a “destruição através do trabalho”. Isso foi a segunda fundação da sociedade do trabalho. Com os “selvagens”, o homem branco, que já era marcado pelo autodisciplinamento, podia liberar o ódio de si próprio reprimido e seu complexo de inferioridade. Os “selvagens” pareciam-lhe com a “mulher”, isto é, semi-seres entre o homem e o animal, primitivos e naturais. Immanuel Kant supunha, com precisão lógica, que o babuíno saberia falar se quisesse, só não falava porque temia ser recrutado para o trabalho.

Este raciocínio grotesco joga uma luz reveladora sobre o Iluminismo. O ethos repressivo do trabalho da modernidade, que se baseou, em sua versão protestante original, na misericórdia divina e, a partir do Iluminismo, na lei natural, foi mascarado como “missão civilizatória”. Cultura, neste sentido, é submissão voluntária ao trabalho; e trabalho é masculino, branco e “ocidental”. O contrário, o não-humano, a natureza disforme e sem culura, é feminino, de cor e “exótico”, portanto, a ser colocado sob coerção. Numa palavra: o “universalismo” da sociedade do trabalho já é totalmente racista desde sua raiz. O abstractum trabalho universal só pode se autodefinir pelo distanciamento de tudo o que não está fundido a ele.

Não foram os pacíficos comerciantes das antigas rotas mercantis – de onde nasceu a burguesia moderna que, finalmente, herdou o absolutismo – que formaram o húmus social do “empresariado” moderno, mas sim os condottieri das ordas mercenárias do início da modernidade, os administradores do trabalho e das cadeias, os parceiros da coleta de impostos, os feitores de escravos e os agiotas. As revoluções burguesas do século XVIII e XIX não têm nenhuma relação com a emancipação; elas apenas reorganizaram as relações de poder internamente ao sistema de coerção criado, separaram as instituições da sociedade do trabalho dos interesses dinásticos ultrapassados e avançaram a sua objetivação e despersonalização. Foi a gloriosa Revolução Francesa que declarou com pathos específico o dever ao trabalho e introduziu, numa “lei de eliminação da mendicância”, novas prisões de trabalho.

Isto foi exatamente o contrário daquilo que pretendiam os movimentos sociais rebeldes, que cintilaram à margem das revoluções burguesas sem a elas se integrarem. Já muito antes, houve formas autônomas de resistência e rejeição com as quais a historiografia oficial da sociedade do trabalho e da modernização não soube como lidar.

Os produtores das antigas sociedades agrárias, que nunca concordaram completamente sem atritos com as relações de poder feudais, não queriam, de modo algum, conformar-se como “classe trabalhadora” de um sistema externo. Das guerras camponesas do século XV e XVI, até os levantes posteriormente denunciados como Ludditas, ou destruidores de máquinas, e a revolta dos tecelões da Silésia de 1844, ocorre uma seqüência de lutas encarniçadas de resistência contra o trabalho. A imposição da sociedade do trabalho e uma guerra civil – às vezes aberta, às vezes latente – no decorrer dos séculos, foram idênticas.

As antigas sociedades agrárias eram tudo menos paradisíacas. Mas a coerção monstruosa da invasão da sociedade do trabalho foi vivenciada, pela maioria, como piora e como “período de desespero”. Com efeito, apesar do estreitamento das relações, os homens ainda tinham algo a perder. O que, na falsa consciência do mundo moderno aparece inventado como uma calamitosa Idade Média de escuridão e praga foi, na realidade, o terror de sua própria história. Nas culturas pré e não-capitalistas, dentro e fora da Europa, o tempo de atividade de produção diária ou anual era muito mais reduzido do que hoje, para os “ocupados” modernos em fábricas e escritórios. Aquela produção estava longe de ser intensificada como na sociedade do trabalho, pois estava permeada por uma nítida cultura de ócio e de “lentidão” relativa. Excetuando-se catástrofes naturais, as necessidades básicas materiais estavam muito mais asseguradas do que em muitos períodos da modernização, e melhor também do que nas horríveis favelas do atual mundo em crise. Além disso, o poder não entrava tanto nos poros como nas sociedades do trabalho totalmente burocratizadas.

Por isso, a resistência contra o trabalho só poderia ser quebrada militarmente. Até hoje, os ideólogos da sociedade do trabalho dissimulam, afirmando que a cultura dos produtores pré-modernos não era “desenvolvida”, e que ela teria se afogado em seu próprio sangue. Os atuais esclarecidos democratas do trabalho responsabilizam por essas monstruosidades, preferencialmente, as “condições pré-democráticas” de um passado soterrado, com o qual eles não teriam nada a ver. Eles não querem admitir que a história terrorista originária da modernidade revela também a essência da atual sociedade do trabalho. A administração burocrática do trabalho e a integração estatal dos homens nas democracias industriais nunca puderam negar suas origens absolutistas e coloniais. Sob a forma de objetivação de uma relação impessoal do sistema, cresceu a administração repressiva dos homens em nome do deus-trabalho, penetrando em todas as esferas da vida.

Exatamente hoje, na agonia do trabalho, sente-se novamente a mão férrea burocrática, como nos primórdios da sociedade do trabalho. A administração do trabalho revela-se como o sistema de coerção que sempre fora, na medida em que organiza o apartheid social e procura eliminar, em vão, a crise através da democrática escravidão estatal. De modo semelhante, o absurdo colonial regressa na administração econômica coercitiva dos países seqüencialmente já arruinados da periferia através do Fundo Monetário Internacional. Após a morte de seu deus, a sociedade do trabalho relembra, em todos os aspectos, os métodos de seus crimes de fundação, que, mesmo assim, não a salvarão.

“O bárbaro é preguiçoso e diferencia-se do homem culto na medida em que fica mergulhado em seu embrutecimento, pois a formação prática consiste justamente no hábito e na necessidade de ocupação.”
(Georg W.F. Hegel – Princípios da Filosofia do Direito, 1821)

“No fundo agora se sente […], que um tal trabalho é a melhor polícia, pois detém qualquer um e sabe impedir fortemente o desenvolvimento da razão, da voluptuosidade e do desejo de independência. Pois ele faz despender extraordinariamente muita força de nervos, e despoja esta força da reflexão, da meditação, do sonhar, do inquietar-se, do amar e do odiar.”
(Friedrich Nietzsche – Os apologistas do trabalho, 1881)


10. O movimento dos trabalhadores era um movimento a favor do trabalho.

O movimento clássico dos trabalhadores, que viveu a sua ascensão somente muito tempo depois do declínio das antigas revoltas sociais, não lutou mais contra a impertinência do trabalho, mas desenvolveu uma verdadeira hiperidentificação com o aparentemente inevitável. Ele só visava a “direitos” e melhoramentos internos à sociedade do trabalho, cujas coerções já tinha amplamente interiorizado. Em vez de criticar radicalmente a transformação de energia em dinheiro como fim em si irracional, ele mesmo assumiu “o ponto de vista do trabalho” e compreendeu a valorização como um fato positivo e neutro.

Desta maneira, o movimento dos trabalhadores assumiu a herança do absolutismo, do protestantismo e do Iluminismo burguês. A infelicidade do trabalho tornou-se orgulho falso do trabalho, redefinindo como “direito humano”, o seu próprio adestramento enquanto material humano do deus moderno. Os hilotas domesticados do trabalho invertem ideologicamente, por assim dizer, a espada contra si, e desenvolvem um empenho missionário para, de um lado, reclamar o “direito ao trabalho” e de outro, reivindicar o “dever de trabalho para todos”. A burguesia não foi combatida como suporte funcional da sociedade do trabalho, mas ao contrário, insultada como parasitária exatamente em nome do trabalho. Todos os membros da sociedade, sem exceção, deveriam ser recrutados coercivamente nos “exércitos de trabalho”.

O próprio movimento dos trabalhadores tornou-se, assim, o marca-passo da sociedade do trabalho capitalista. Era ele que impunha os últimos degraus de objetivação contra os suportes funcionais burgueses limitados do século XIX e do início do século XX no processo de desenvolvimento do trabalho; de modo semelhante ao que a burguesia havia herdado do absolutismo um século antes. Isso só foi possível porque os partidos de trabalhadores e sindicatos relacionavam-se, no percurso de sua divinização do trabalho, também positivamente com o aparelho do Estado e com as instituições repressivas da administração do trabalho, que, afinal, eles não queriam suprimir, mas sim, numa certa “marcha através das instituições”, ocupar. Deste modo, assumiram, como anteriormente fizera a burguesia, as tradições burocráticas da administração de homens na sociedade do trabalho que vem desde o absolutismo.

Mas a ideologia de uma generalização social do trabalho exigia também uma nova relação política. Em lugar da divisão de estamentos com “direitos” políticos diferenciados (por exemplo, direito eleitoral censitário), na sociedade do trabalho apenas parcialmente imposta foi necessário que aparecesse a igualdade democrática geral do “Estado de trabalho” consumado. E os descompassos no percurso da máquina de valorização, a partir do momento em que esta determinasse toda a vida social, precisavam ser equilibrados por um “Estado Social”. Também para isso, o movimento dos trabalhadores forneceu o paradigma. Sob o nome de “social-democracia”, tornar-se-ia o maior movimento civil na história que, todavia, não poderia senão cavar sua própria cova. Pois na democracia tudo se torna negociável, menos as coerções da sociedade do trabalho que são axiomaticamente pressupostas. O que pode ser debatido são apenas as modalidades e os percursos destas coerções, sempre há apenas uma escolha entre Omo e Minerva em pó, entre peste e cólera, entre burrice e descaramento, entre Kohl e Schröder.

A democracia da sociedade do trabalho é o sistema de dominação mais pérfido da história – é um sistema de auto-opressão. Por isso, esta democracia nunca organiza a livre autodeterminação dos membros da sociedade sobre os recursos coletivos, mas sempre apenas a forma jurídica das mônadas de trabalho socialmente separadas entre si, que levam, na concorrência, sua pele ao mercado de trabalho. Democracia é o oposto de liberdade. E assim, os seres humanos de trabalho democráticos dividem-se, necessariamente, em administradores e administrados, empresários e empreendidos, elites funcionais e material humano. Os partidos políticos, em particular os partidos de trabalhadores, refletem fielmente essa relação na sua própria estrutura. Condutor e conduzidos, VIPs e o povão, militantes e simpatizantes apontam para uma relação que não tem mais nada a ver com um debate aberto e tomadas de decisão. É parte integral desta lógica sistêmica que as próprias elites só possam ser funcionárias dependentes do deus-trabalho e de suas orientações cegas.

No mínimo desde o nazismo, todos os partidos são partidos de trabalhadores e, ao mesmo tempo, partidos do capital. Nas “sociedades em desenvolvimento” do Leste e do Sul, o movimento dos trabalhadores transformou-se num partido de terrorismo estatal de modernização retardatária; no Ocidente, num sistema de “partidos populares” com programas facilmente substituíveis e figuras representativas na mídia. A luta de classes está no fim porque a sociedade do trabalho também está. As classes se mostram como categorias sociais funcionais do mesmo sistema fetichista, na mesma medida em que este sistema vai esmorecendo. Se sociais-democratas, verdes e ex-comunistas destacam-se na administração da crise desenvolvendo programas de repressão especialmente infames, mostram-se, com isto, como os legítimos herdeiros do movimento dos trabalhadores, que nunca quis nada além de trabalho a qualquer preço.

“Conduzir o cetro, deve o trabalho,
servo só deve ser quem no ócio insistir;
Governar o mundo, deve o trabalho,
pois só por ele pode o mundo existir.”
(Friedrich Stampfer, 1903)

11. A crise do trabalho

Após a Segunda Guerra Mundial, por um curto momento histórico pôde parecer que a sociedade do trabalho nas indústrias fordistas tivesse se consolidado num sistema de “prosperidade eterna”, no qual a insuportabilidade do fim em si coercitivo tivesse sido pacificada duradouramente pelo consumo de massas e pelo Estado Social. Apesar desta idéia sempre ter sido uma idéia hilótica e democrática, que só se referiria a uma pequena minoria da população mundial, nos centros ela também necessariamente fracassou. Na terceira revolução industrial da microeletrônica, a sociedade mundial do trabalho alcança seu limite histórico absoluto.

Que este limite seria alcançado mais cedo ou mais tarde, era logicamente previsível. Pois o sistema produtor de mercadorias sofre, desde seu nascimento, de uma autocontradição incurável. De um lado, ele vive do fato de sugar maciçamente energia humana através do gasto de trabalho para sua maquinaria: quanto mais, melhor. De outro lado, contudo, impõe, pela lei da concorrência empresarial, um aumento de produtividade, no qual a força de trabalho humano é substituída por capital objetivado cientificizado.

Esta autocontradição já foi a causa profunda de todas as crises anteriores, entre elas a desastrosa crise econômica mundial de 1929-33. Porém, estas crises podiam sempre ser superadas por um mecanismo de compensação: num nível cada vez mais elevado de produtividade, foram absorvidas em termos absolutos – após um certo tempo de incubação e através da ampliação de mercados integradora de novas camadas de consumidores – maiores quantidades de trabalho do que aquele anteriormente racionalizado. Reduziu-se o dispêndio de força de trabalho por produto, mas foram produzidos em termos absolutos mais produtos, de modo que a redução pôde ser sobrecompensada. Enquanto as inovações de produtos superaram as inovações de processos, a autocontradição do sistema pôde ser traduzida em um movimento de expansão.

O exemplo histórico de destaque é o automóvel: através da esteira e outras técnicas de racionalização da “ciência do trabalho” (primeiramente na fábrica de Henry Ford, em Detroit), reduziu-se o tempo de trabalho para cada automóvel em uma fração. Simultaneamente, o trabalho intensificou-se de maneira gigantesca, isto é, no mesmo intervalo de tempo foi absorvido material humano de forma multiplicada. Principalmente o automóvel, até então um produto de luxo para a alta sociedade, pôde ser incluído no consumo de massa por seu conseqüente barateamento.

Desta maneira, apesar da racionalização da produção em linha, a fome insaciável do deus-trabalho por energia humana foi satisfeita em nível superior. Ao mesmo tempo, o automóvel é um exemplo central para o caráter destrutivo do modo de produção e consumo altamente desenvolvido da sociedade do trabalho. No interesse de produção em massa de automóveis e de transporte individual em massa, a paisagem é asfaltada, impermeabilizada e torna-se feia, o meio ambiente é empestado e aceita-se, de maneira resignada, que nas estradas mundiais, ano após ano, seja desencadeada uma terceira guerra mundial não declarada com milhões de mortos e mutilados.

Na terceira revolução industrial da microeletrônica finda, o até então vigente, mecanismo de compensação pela expansão. É verdade que, obviamente, através da microeletrônica muitos produtos também são barateados e novos são criados (principalmente na esfera da mídia). Mas, pela primeira vez, a velocidade de inovação do processo ultrapassa a velocidade de inovação do produto. Pela primeira vez, mais trabalho é racionalizado do que o que pode ser reabsorvido pela expansão dos mercados. Na continuação lógica da racionalização, a robótica eletrônica substitui a energia humana, ou as novas tecnologias de comunicação tornam o trabalho supérfluo. Setores inteiros e níveis da construção civil, da produção, do marketing, do armazenamento, da distribuição e mesmo do gerenciamento caem fora. Pela primeira vez o deus-trabalho submete-se, involuntariamente, a uma ração de fome permanente. Com isso, provoca sua própria morte.

Uma vez que a sociedade democrática do trabalho é um sistema com o fim em si mesmo amadurecido e auto-reflexivo, não é possível dentro das suas formas uma alteração para uma redução da jornada geral. A racionalidade empresarial exige que massas cada vez maiores tornem-se “desempregadas” permanentemente e, assim, sejam cortadas da reprodução de sua vida imanente ao sistema. De outro lado, um número cada vez mais reduzido de “ocupados” são submetidos a uma caça cada vez maior de trabalho e eficiência. Mesmo nos centros capitalistas, no meio da riqueza voltam a pobreza e a fome, meios de produção e áreas agrícolas intactos ficam maciçamente em “pousio”, habitações e prédios públicos ficam maciçamente vazios, enquanto o número dos sem-teto cresce incessantemente.

Capitalismo torna-se um espetáculo global para minorias. Em seu desespero, o deus-trabalho, agonizante, tornou-se canibal de si mesmo. Em busca de sobras para alimentar o trabalho, o capital dinamita os limites da economia nacional e se globaliza numa concorrência nômade de repressão. Regiões mundiais inteiras são cortadas dos fluxos globais de capital e mercadorias. Numa onda de fusões e “integrações não amigáveis” sem precedentes históricos, os trustes se preparam para a última batalha da economia empresarial. Os Estados e Nações desorganizados implodem, as populações empurradas para a loucura da concorrência pela sobrevivência assaltam-se em guerras étnicas de bandos.

“O princípio moral básico é o direito do homem ao seu trabalho (…) a meu ver, não há nada mais detestável que uma vida ociosa. Nenhum de nós tem direito a isto. A civilização não tem lugar para ociosos.”
(Henry Ford)

“O próprio capital é a contradição em processo, pois tende a reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, enquanto põe, por outro lado, o tempo de trabalho como única medida e fonte de riqueza. (…) Assim, por um lado, evoca para a vida todos os poderes da ciência e da natureza, assim como da combinação e do intercâmbio social, para fazer com que a criação da riqueza seja (relativamente) independente do tempo de trabalho empregado nela. Por outro lado, pretende medir estas gigantescas forças sociais, assim criadas, pelo tempo de trabalho, e as conter nos limites exigidos para manter, como valor, o valor já criado.”
(Karl Marx – “Grundrisse” , 1857/58)

12. O fim da política

Necessariamente, a crise do trabalho tem como conseqüência a crise do Estado e, portanto, a da política. Por princípio, o Estado moderno deve a sua carreira ao fato de que o sistema produtor de mercadorias necessita de uma instância superior que lhe garanta, no quadro da concorrência, os fundamentos jurídicos normais e os pressupostos da valorização – sob inclusão de um aparelho de repressão para o caso de o material humano insubordinar-se contra o sistema. Na sua forma amadurecida de democracia de massa, o Estado no século XX precisava assumir, de forma crescente, tarefas sócio-econômicas: a isso não só pertence a rede social, mas também a saúde e a educação, a rede de transporte e comunicação, infra-estruturas de todos os tipos que são indispensáveis ao funcionamento da sociedade do trabalho industrial e que não podem ser propriamente organizadas como processo de valorização industrial. Pois as infra-estruturas precisam estar, permanentemente, à disposição no âmbito da sociedade total e cobrindo todo o território. Portanto, não podem seguir as conjunturas do mercado de oferta e demanda.

Como o Estado não é uma unidade de valorização autônoma, ele próprio não transforma trabalho em dinheiro, precisa retirar dinheiro do processo real da valorização. Esgotada a valorização esgotam-se também as finanças do Estado. O suposto soberano social apresenta-se totalmente dependente frente à economia cega e fetichizada da sociedade do trabalho. Ele pode legislar o quanto quiser; quando as forças produtivas ultrapassam o sistema de trabalho, o direito estatal positivo, o qual sempre só pode relacionar-se com sujeitos do trabalho, se esvai.

Com o crescente desemprego de massas, resseca-se a renda estatal proveniente dos impostos sobre os rendimentos do trabalho. As redes sociais se rompem logo que se alcança uma massa crítica de “supérfluos”, que apenas podem ser alimentados de modo capitalista através da redistribuição de outros rendimentos monetários. Na crise, com o processo acelerado de concentração do capital, que ultrapassa as fronteiras das economias nacionais, caem fora também as rendas estatais provenientes dos impostos sobre os lucros das empresas. Os trustes transnacionais obrigam os Estados que concorrem por investimentos a fazer dumping fiscal, social e ecológico.

É exatamente este desenvolvimento que permite o Estado democrático transformar-se em mero administrador de crises. Quanto mais ele se aproxima da calamidade financeira, tanto mais se reduz ao seu núcleo repressivo. As infra-estruturas se reduzem às necessidades do capital transnacional. Como antigamente nos territórios coloniais, a logística se limita, crescentemente, a alguns centros econômicos, enquanto o resto fica abandonado. O que dá para ser privatizado é privatizado, mesmo que cada vez mais pessoas fiquem excluídas dos serviços de provimento mais elementares. Onde a valorização do capital concentra-se em um número cada vez mais reduzido de ilhas do mercado mundial, não interessa mais o provimento cobrindo todo o território.

Enquanto não atinge diretamente esferas relevantes para a economia, não interessa se trens andam e as cartas chegam. A educação torna-se um privilégio dos vencedores da globalização. A cultura intelectual, artística e teórica é remetida aos critérios de mercado e padece aos poucos. A saúde não é financiável e se divide em um sistema de classes. Primeiro devagar e disfarçadamente, depois abertamente, vale a lei da eutanásia social: porque você é pobre e “supérfluo”, tem de morrer antes.

Enquanto todos os conhecimentos, habilidades e meios da medicina, educação e cultura estão à disposição em excesso como infra-estrutura geral, ficam reclusos conforme a lei irracional da sociedade do trabalho, objetivada como “restrição financeira”, desmobilizados e jogados no ferro-velho – assim como os meios de produção industriais e agrários que não são mais representáveis de forma rentável. O Estado democrático, transformado num sistema de apartheid, não tem mais nada a oferecer aos seus ex-cidadãos de trabalho além da simulação repressiva do trabalho, sob formas de trabalho coercitivo e barato, com redução de todos os benefícios. Num momento mais avançado, o Estado desmorona totalmente. O aparelho de Estado asselvaja-se sob a forma de uma cleptocracia corrupta, os militares sob a de um bando bélico mafioso e a polícia sob a de assaltante de estradas.
Este desenvolvimento não pode ser parado através de qualquer política do mundo e ainda menos ser revertido. Pois política é em sua essência uma ação relacionada ao Estado que torna-se, sob as condições de desestatização, sem objeto. A fórmula da democracia esquerdista da “configuração política” torna-se, dia após dia, mais ridícula. Fora a repressão infinita, a destruição da civilização e o auxílio ao “terror da economia”, não há mais nada a “configurar”. Como o fim em si mesmo da sociedade do trabalho é o pressuposto axiomático da democracia política, não pode haver nenhuma regulação política democrática para a crise do trabalho. O fim do trabalho torna-se o fim da política.

13. A simulação cassino-capitalista da sociedade do trabalho

A consciência social dominante engana-se, sistematicamente, sobre a verdadeira situação da sociedade do trabalho. As regiões de colapso são ideologicamente excomungadas, as estatísticas do mercado de trabalho são descaradamente falsificadas, as formas de pauperização são dissimuladas pela mídia. Simulação é, sobretudo, a característica central do capitalismo em crise. Isto vale também para a própria economia. Se pelo menos nos países centrais ocidentais até agora parecia que o capital seria capaz de acumular mesmo sem trabalho, e que a forma pura do dinheiro sem substância poderia garantir a contínua valorização do valor, então esta aparência deve-se a um processo de simulação nos mercados financeiros. Como reflexo da simulação do trabalho através de medidas coercitivas da administração democrática do trabalho, formou-se uma simulação da valorização do capital através da desconexão especulativa do sistema creditício e dos mercados acionários da economia real.

A utilização de trabalho presente é substituída pela usurpação da utilização de trabalho futuro, o qual nunca realizar-se-á. Trata-se, de certo modo, de uma acumulação de capital num fictício “futuro do subjuntivo (composto)”. O capital-dinheiro, que não pode mais ser reinvestido de forma rentável na economia real e que, por isso, não pode absorver mais trabalho, precisa se desviar, reforçadamente, para os mercados financeiros.

Já o impulso fordista da valorização, nos tempos do “milagre econômico” após a Segunda Guerra, não era totalmente auto-sustentável. Muito além de suas receitas fiscais, o Estado tomava crédito em quantidades até então desconhecidas, pois as condições estruturais da sociedade do trabalho não eram mais financiáveis de outra maneira. O Estado penhorou todas as suas receitas reais futuras. Desta maneira surgiu, de um lado, uma possibilidade de investimento capitalístico financeiro para o capital-dinheiro “excedente” – emprestava-se ao Estado com juros. O Estado pagava os juros com novos empréstimos e reenviava o dinheiro emprestado imediatamente para o circuito econômico. De outro lado, ele financiava, então, os custos sociais e os investimentos de infra-estrutura, criando uma demanda artificial, no sentido capitalista, pois sem a cobertura de nenhum dispêndio produtivo de trabalho. O boom fordista foi, assim, prolongado além de seu próprio alcance, na medida em que a sociedade do trabalho sangrava o seu próprio futuro.

Este momento simulativo do processo de valorização, aparentemente ainda intacto, já alcançou seus limites junto com o endividamento estatal. Não só no Terceiro Mundo, mas também nos centros, as “crises da dívida” estatais não permitiram mais a expansão deste procedimento. Este foi o fundamento objetivo para a caminhada vitoriosa da desregulação neoliberal que, conforme sua ideologia, seria acompanhada de uma redução drástica da cota estatal no produto social. Na verdade, desregulamentação e redução das obrigações do Estado são compensadas pelos custos da crise, mesmo que seja em forma de custos estatais de repressão e simulação. Em muitos Estados, a cota estatal até aumenta.

Mas a acumulação subseqüente do capital não pode mais ser simulada através do endividamento estatal. Por isso, transfere-se, desde os anos 80, a criação complementar do capital fictício para os mercados de ações. Ali, há tempos, não se trata mais de dividendos, da participação nos ganhos da produção real, mas antes, de ganhos de cotação, por aumento especulativo do valor dos títulos de propriedade em escalas astronômicas. A relação entre a economia real e o movimento especulativo do mercado financeiro virou-se de cabeça para baixo. O aumento especulativo da cotação não antecipa mais a expansão da economia real, mas ao contrário, a alta da criação fictícia de valor simula uma acumulação real que já não existe mais.

O deus-trabalho está clinicamente morto, mas recebe respiração artificial através da expansão aparentemente autonomizada dos mercados financeiros. Há tempos, empresas industriais têm ganhos que já não resultam da produção e da venda de produtos reais – o que já se tornou um negócio deficitário – mas sim, da participação feita por um departamento financeiro “esperto” na especulação de ações e divisas. Os orçamentos públicos demonstram entradas que não resultam de impostos ou tomadas de créditos, mas da participação aplicada da administração financeira nos mercados de cassino. Os orçamentos privados, nos quais as entradas reais de salários reduziram-se dramaticamente, conseguem manter ainda um consumo elevado através dos empréstimos dos ganhos nos mercados acionários. Cria-se, assim, uma nova forma de demanda artificial que, por sua vez, tem como conseqüência uma produção real e uma receita estatal real “sem chão para os pés”.

Desta maneira, a crise econômica mundial está sendo adiada pelo processo especulativo; mas, como o aumento fictício do valor dos títulos de propriedade só pode ser antecipação de utilização ou futuro dispêndio real de trabalho (em escala astronômica correspondente) – o que nunca mais será feito – então, o embuste objetivado será desmascarado, necessariamente, após um certo tempo de encubação. O colapso dos “emerging markets” na Ásia, na América Latina e no Leste Europeu forneceu apenas o primeiro gostinho. É apenas uma questão de tempo para que entrem em colapso os mercados financeiros dos centros capitalistas dos EUA, UE e Japão.

Este contexto é percebido de uma forma totalmente distorcida na consciência fetichizada da sociedade do trabalho e, principalmente, na dos “críticos do capitalismo” tradicionais da esquerda e da direita. Fixados no fantasma do trabalho, que foi enobrecido enquanto condição existencial suprahistórica e positiva, confundem, sistematicamente, causa e efeito. O adiamento temporário da crise, pela expansão especulativa dos mercados financeiros, aparece, assim, de forma invertida, como suposta causa da crise. Os “especuladores malvados”, assim chamados na hora do pânico, arruinariam toda a sociedade do trabalho porque gastam o “bom dinheiro” que “existe de sobra” no cassino, ao invés de investirem de uma maneira sólida e bem comportada em maravilhosos “postos de trabalho”, a fim de que uma humanidade louca por trabalho pudesse ter o seu “pleno emprego”.

Simplesmente não entra nestas cabeças que, de modo algum, a especulação fez os investimentos reais pararem, mas estes já se tornaram não rentáveis em decorrência da terceira revolução industrial, e o decolar especulativo é apenas um sintoma disso. O dinheiro que aparentemente circula em quantidades infinitas já não é, mesmo no sentido capitalista, um “bom dinheiro”, mas apenas “ar quente” com o qual a bolha especulativa foi levantada.

Cada tentativa de estourar esta bolha, via qualquer projeto de medida fiscal (imposto Tobin etc.) para dirigir o capital-dinheiro novamente para as Rodas pretensamente “corretas” e reais da sociedade do trabalho, só pode levá-la a estourar mais rapidamente.

Em vez de compreenderem que nós todos tornaremo-nos, incessantemente, não rentáveis, e que por isso, precisam ser atacados tanto o próprio critério da rentabilidade quanto os fundamentos da sociedade do trabalho, preferem satanizar os “especuladores”. Esta imagem barata de inimigo, cultivam em uníssono radicais da direita e autônomos da esquerda, funcionários sindicalistas pequenos burgueses e nostálgicos keynesianos, teólogos sociais e apresentadores de talk shows, enfim, todos os apóstolos do “trabalho honrado”. Poucos estão conscientes de que se está apenas a um pequeno passo deste ponto até a remobilização da loucura anti-semita. Apelar ao capital real “produtivo” e “de sangue nacional” contra o capital-dinheiro “judaico”, internacional e “usurário” – esta ameaça ser a última palavra da “esquerda dos postos de trabalho”, intelectualmente perdida. De qualquer maneira, esta já é a última palavra da “direita dos postos de trabalho”, desde sempre racista, anti-semita e antiamericana.

“Tão logo o trabalho, na sua forma imediata, tiver deixado de ser a grande fonte de riqueza, o tempo de trabalho deixa, e tem de deixar, de ser a sua medida, e, por isso, o valor de troca (a medida) do valor de uso.(…) Em virtude disso, a produção fundada no valor de troca desmorona e o próprio processo de produção material imediato se despoja da forma do carecimento e da oposição.”
(Karl Marx – “Grundrisse”, 1857/58)

14. Trabalho não se deixa redefinir

Após séculos de adestramento, o homem moderno simplesmente não consegue imaginar uma vida além do trabalho. Como princípio imperial, o trabalho domina não só a esfera da economia no sentido estrito, mas permeia toda a existência social até os poros do cotidiano e da existência privada. O “tempo livre”, que por sua própria semântica já é um termo de presídio, serve, há tempos, para “trabalhar” mercadorias e, assim, garantir a venda necessária.

Mas, mesmo além do dever interiorizado do consumo de mercadorias como fim em si mesmo, a sombra do trabalho põe-se sobre o indivíduo moderno também fora do escritório e da fábrica. Tão somente por levantar-se da poltrona da TV e tornar-se ativo, qualquer ação efetuada transforma-se em algo semelhante ao trabalho. O jogger substitui o relógio de ponto pelo cronômetro. Nas academias reluzentes, a Roda-Viva vivencia o seu renascimento pós-moderno, e os motoristas nas férias fazem tantos e tantos quilômetros como se fossem alcançar a cota anual de um caminhoneiro. E mesmo o trepar se orienta pelas normas DIN (ISO 9000) da pesquisa sexual e pelos padrões de concorrência das fanfarronices dos talk shows.

Se o rei Midas ao menos ainda vivenciava como maldição o fato de que tudo em que tocava virava ouro, o seu companheiro de sofrimento moderno já ultrapassou esse estado. O homem do trabalho nem nota mais que, pela adaptação ao padrão do trabalho, cada atividade perde sua qualidade sensível específica e torna-se indiferente. Ao contrário, ele dá sentido, razão de existência e significado social a alguma atividade somente através desta adaptação à indiferença do mundo da mercadoria. Com um sentimento como o luto, o sujeito do trabalho não sabe o que fazer; todavia, a transformação do luto em “trabalho de luto” faz desse corpo estranho emocional algo conhecido, através do qual se pode intercambiar com seus semelhantes. Até mesmo sonhar torna-se “trabalho de sonho”, o conflito com a pessoa amada torna-se “trabalho de relação” e o trato de crianças é desrealizado e indiferenciado como “trabalho de educação”. Sempre que o homem moderno insiste em fazer algo com “seriedade”, tem na ponta da língua a palavra “trabalho”.

O imperialismo do trabalho tem seus reflexos na linguagem cotidiana. Não só temos o hábito de inflacionar a palavra “trabalho”, mas a usamos em dois níveis de significância totalmente diferentes. Faz tempo que o “trabalho” não significa mais (como seria adequado) a forma de atividade capitalista da Roda do fim em si mesmo, antes este conceito torna-se, escondendo seus rastros, sinônimo de qualquer atividade com objetivo.

A falta de foco conceitual prepara o solo para uma crítica à sociedade do trabalho tão corriqueira e de meia-tigela que opera exatamente de modo oposto, isto é, toma como ponto de partida uma interpretação positiva do imperialismo do trabalho. Por incrível que pareça, a sociedade do trabalho é acusada de ainda não dominar suficientemente a vida com a sua forma de atividade, porque, pretensamente, ela definiria o conceito de trabalho de modo “muito estreito”, isto é, excomungando moralmente o “trabalho para si mesmo” ou o trabalho enquanto “auto-ajuda não-remunerada” (trabalho doméstico, ajuda da vizinhança etc.). Ela aceita, como “efetivo”, apenas o trabalho-emprego, conforme a dinâmica do mercado. Uma reavaliação e uma ampliação do conceito de trabalho deveria eliminar esta fixação unilateral e as hierarquizações ligadas a ela.

Este pensamento não trata da emancipação das coerções dominantes, mas somente de uma correção semântica. A ilimitada crise da sociedade do trabalho deveria ser solucionada pela consciência social através da elevação “efetiva” das formas de atividade, até então inferiores e laterais à esfera da produção capitalista, ao estado do nobre trabalho. Mas a inferioridade destas atividades não é somente resultado de uma determinada maneira ideológica de perceber, mas pertence à estrutura fundamental do sistema capitalista e não pode ser superada por redefinições morais simpáticas.

Numa sociedade dominada pela produção de mercadorias com o fim em si mesmo, só vale como riqueza propriamente dita o que é representável na forma monetária. O conceito de trabalho, assim determinado, brilha de modo imperial sobre todas as outras esferas, mas apenas negativamente, à medida que revela estas esferas como dependentes de si. Assim, as esferas externas à produção de mercadorias ficam necessariamente na sombra da esfera da produção capitalista, porque não são absorvidas pela lógica abstrata empresarial de economia de tempo – mesmo, e exatamente, quando elas são necessárias para a vida, como no caso da esfera de atuação cindida e definida como feminina, doméstica privada, de dedicação pessoal etc.

Ao invés de sua crítica radical, uma ampliação moralizante do conceito de trabalho não só vela o imperialismo social real da economia produtora de mercadorias, mas integra-se também perfeitamente nas estratégias autoritárias da administração estatal da crise. A reivindicação feita desde os anos 70 para que o “trabalho doméstico” e as atividades do “terceiro setor” também devessem ser reconhecidos socialmente como trabalhos válidos, especula, desde o primeiro momento, uma remuneração estatal em dinheiro. O Estado em crise inverte a espada e mobiliza o ímpeto moral desta reivindicação no sentido do afamado “princípio de subsídio”, exatamente contra as suas expectativas materiais.

O cântico dos cânticos da “função honorífica” e do “trabalho voluntário” não trata da permissão de mexer nas panelas financeiras quase vazias do Estado, mas torna-se álibi para a recuada do Estado aos programas, agora em marcha, de trabalho coercitivo e para a tentativa sórdida de passar o peso da crise, principalmente, para as mulheres. As instituições sociais oficiais abandonam a sua responsabilidade social com o apelo tão amigável quanto gratuito a “nós todos”, faça o favor, para combater, por iniciativa privada, tanto a própria miséria quanto a dos outros, sem fazer nenhuma reivindicação material. Assim, mal entendido como programa de emancipação, o malabarismo definidor do santificado conceito de trabalho abre as portas à tentativa estatal de suprimir o trabalho assalariado através da eliminação do salário com a simultânea manutenção do trabalho na terra queimada da economia de mercado. Comprova-se, assim, involuntariamente, que a emancipação social não pode ter como conteúdo a revalorização do trabalho, mas unicamente a consciente desvalorização do trabalho.

“Ao lado dos serviços materiais, também os serviços pessoais e simples podem elevar o bem-estar imaterial. Assim, pode-se elevar o bem-estar de um cliente quando um prestador de serviço retira-lhe trabalho que ele próprio teria de fazer. Ao mesmo tempo, eleva-se o bem-estar dos prestadores de serviço quando o seu sentimento de auto-estima se eleva através da atividade. Exercer um serviço simples e relacionado a uma pessoa é melhor à psique que estar desempregado.”
(Relatório da Comissão para Questões do Futuro dos Estados Livres da Baviera e da Saxônia, 1997)

“Preserve o conhecimento comprovado no trabalho, pois a própria natureza confirma este conhecimento, diz sim a ele. No fundo, você não tem outro conhecimento a não ser aquele que foi adquirido através do trabalho, o resto é uma hipótese do saber.”
(Thomas Carlyle – Trabalhar e não desesperar, 1843).

15. A crise da luta de interesses

Mesmo que a crise fundamental do trabalho seja reprimida ou transformada em tabu, ela cunha todos os conflitos sociais atuais. A transição de uma sociedade de integração de massas para uma ordem de seleção e apartheid não levou a uma nova rodada da velha luta de classes entre capital e trabalho, mas a uma crise categorial da própria luta de interesses imanente ao sistema. Já na época da prosperidade, após a Segunda Guerra Mundial, a antiga ênfase da luta de classes empalideceu. Mas não porque o sujeito revolucionário “em si” foi “integrado” ao questionável bem-estar através de manipulações e corrupção, mas ao contrário, porque veio à tona, no estado de desenvolvimento fordista, a identidade lógica de capital e trabalho enquanto categorias sociais funcionais de uma forma fetichista social comum. O desejo imanente ao sistema de vender a mercadoria força de trabalho em melhores condições possíveis perdeu qualquer momento transcendente.

Se, até os anos 70, tratava-se ainda da luta pela participação de camadas mais amplas possíveis da população nos frutos venenosos da sociedade do trabalho, este impulso foi apagado sob as novas condições de crise da terceira revolução industrial. Somente enquanto a sociedade do trabalho expandiu-se foi possível desencadear a luta de interesses de suas categorias sociais funcionais em grande escala. Porém, na mesma medida em que a base comum desapareceu, os interesses imanentes ao sistema não puderam mais ser reunidos ao nível da sociedade geral. Inicia-se uma dessolidarização generalizada. Os assalariados desertam dos sindicatos, as executivas desertam das confederações empresariais. Cada um por si e o deus-sistema capitalista contra todos: a individualização sempre suplicada é nada mais do que um sintoma de crise da sociedade do trabalho.

Enquanto interesses ainda podiam ser agregados, o mesmo só se dava em escala microeconômica. Pois, na mesma medida em que, ironicamente, a permissão para embutir a própria vida no âmbito econômico empresarial desdobrou-se de libertação social em quase um privilégio, as representações de interesse da mercadoria força de trabalho degeneraram numa política inescrupulosa de lobbies de segmentos sociais cada vez menores. Quem aceita a lógica do trabalho tem, agora, de aceitar a lógica do apartheid. Ainda trata-se, somente, de assegurar a venalidade de sua própria pele para uma clientela restrita, às custas de todos os outros. Há tempos, empregados e membros de conselhos das empresas não encontram mais seus verdadeiros adversários entre os executivos de sua empresa, mas entre os assalariados de empresas e de “localizações” concorrentes, tanto faz se na cidade vizinha ou no Extremo Oriente. E, quando se coloca a questão: quem será sacrificado no próximo impulso da racionalização econômica empresarial, também o departamento vizinho e o colega imediato tornam-se inimigos.

A dessolidarização radical atinge não apenas o conflito empresarial e sindical. Mas, justamente quando na crise da sociedade do trabalho todas as categorias funcionais insistem ainda mais fanaticamente na sua lógica inerente, isto é, que todo o bem-estar humano só possa ser o mero produto residual da valorização rentável, então o princípio de São Floriano domina todos os conflitos de interesse. Todos os lobbies conhecem as regras do jogo e agem conforme tais regras. Cada dólar que a outra clientela recebe, é um dólar perdido para a sua própria clientela. Cada ruptura do outro lado da rede social aumenta a chance de prolongar o seu próprio prazo para a forca. O aposentado torna-se o adversário natural do contribuinte, o doente o inimigo de todos os assegurados e o imigrante objeto de ódio de todos os nativos enfurecidos.

A pretensão de querer utilizar a luta de interesses imanentes ao sistema como alavanca de emancipação social esgota-se irreversivelmente. Assim, a esquerda clássica está no seu fim. O renascimento de uma crítica radical do capitalismo pressupõe a ruptura categorial com o trabalho. Unicamente quando se põe um novo objetivo da emancipação social além do trabalho e de suas categorias fetichistas derivadas (valor, mercadoria, dinheiro, Estado, forma jurídica, nação, democracia etc.), é possível uma ressolidarização a um nível mais elevado e na escala da sociedade como um todo. Somente nesta perspectiva podem ser reagregadas lutas defensivas imanentes ao sistema contra a lógica da lobbização e da individualização; agora, contudo, não mais na relação positiva, mas na relação negadora estratégica das categorias dominantes.

Até agora, a esquerda tenta fugir desta ruptura categorial com a sociedade do trabalho. Ela rebaixa as coerções do sistema a meras ideologias e a lógica da crise a um mero projeto político dos “dominantes”. Em lugar da ruptura categorial, aparece a nostalgia social-democrata e keynesiana. Não se pretende uma nova universalidade concreta da formação social além do trabalho abstrato e da forma-dinheiro, bem ao contrário, a esquerda tenta manter forçosamente a antiga universalidade abstrata dos interesses imanentes ao sistema. Essas tentativas continuam abstratas e não conseguem mais integrar nenhum movimento social de massas porque passam despercebidas nas relações reais de crise.

Em particular, isto vale para a reivindicação de renda mínima ou de dinheiro para subsistência. Em vez de ligar as lutas sociais concretas defensivas contra determinadas medidas do regime de apartheid com um programa geral contra o trabalho, esta reivindicação pretende construir uma falsa universalidade de crítica social, que se mantém em todos os aspectos abstrata, desamparada e imanente ao sistema. A concorrência social de crise não pode ser superada assim. De uma maneira ignorante, continua-se a pressupor o funcionamento eterno da sociedade global do trabalho, pois, de onde deveria provir o dinheiro para financiar a renda mínima garantida pelo Estado senão dos processos de valorização com bom êxito? Quem conta com este “dividendo social” (o termo já explica tudo) precisa apostar, ao mesmo tempo, e disfarçadamente, na posição privilegiada de “seu próprio país” na concorrência global, pois só a vitória na guerra global dos mercados poderia garantir provisoriamente o alimento de alguns milhões de “supérfluos” na mesa capitalista – obviamente excluindo todas as pessoas sem carteira de identidade nacional.

Os reformistas “amadores” da reivindicação de renda mínima ignoram a configuração capitalista da forma-dinheiro em todos os aspectos. No fundo, entre os sujeitos do trabalho e os sujeitos do consumo de mercadorias capitalistas, eles apenas querem salvar este último. Em vez de pôr em questão o modo de vida capitalista em geral, o mundo continuaria, apesar da crise do trabalho, a ser enterrado debaixo de uma avalanche de latas fedorentas, de horrorosos blocos de concreto e do lixo de mercadorias inferiores, para que aos homens reste a última e triste liberdade que eles ainda podem imaginar: a liberdade de escolha ante às prateleiras do supermercado.

Mas mesmo esta perspectiva triste e limitada é totalmente ilusória. Seus protagonistas esquerdistas e analfabetos teóricos esqueceram que o consumo capitalista de mercadorias nunca serve simplesmente para a satisfação de necessidades, mas tem sempre apenas uma função no movimento de valorização. Quando a força de trabalho não pode mais ser vendida, mesmo as necessidades mais elementares são consideradas pretensões luxuosas e desavergonhadas, que deveriam ser reduzidas ao mínimo. E, justamente por isso, o programa de renda mínima funciona como veículo, isto é, como instrumento da redução de custos estatais e como versão miserável da transferência social, que substitui os seguros sociais em colapso. Neste sentido, o guru do neoliberalismo Milton Friedman originalmente desenvolveu a concepção da renda mínima antes que a esquerda desarmada a descobrisse como a pretensa âncora de salvação. E com este conteúdo ela será realidade – ou não.

“Foi comprovado que, conforme as leis inevitáveis da natureza humana, alguns homens estão expostos à necessidade. Estes, são as pessoas infelizes que, na grande loteria da vida, tiraram a má sorte.”
(Thomas Robert Malthus)

16. A superação do trabalho

A ruptura categorial com o trabalho não encontra nenhum campo social pronto e objetivamente determinado, como no caso da luta de interesses limitada e imanente ao sistema. Trata-se da ruptura com uma falsa normatividade objetivada de uma “segunda natureza”, portanto não da repetição de uma execução quase automática, mas de uma conscientização negadora – recusa e rebelião sem qualquer “lei da história” como apoio. O ponto de partida não pode ser algum novo princípio abstrato geral, mas apenas o nojo perante a própria existência enquanto sujeito do trabalho e da concorrência, e a rejeição categórica do dever de continuar “funcionando” num nível cada vez mais miserável.

Apesar de sua predominância absoluta, o trabalho nunca conseguiu apagar totalmente a repugnância contra as coerções impostas por ele. Ao lado de todos os fundamentalismos regressivos e de todos os desvarios de concorrência da seleção social, existe também um potencial de protesto e resistência. O mal-estar no capitalismo está maciçamente presente, mas é reprimido para o subsolo sócio-psíquico. Não se apela a este mal-estar. Por isso, precisa-se de um novo espaço livre intelectual para poder tornar pensável o impensável. O monopólio de interpretação do mundo pelo campo do trabalho precisa ser rompido. A crítica teórica do trabalho ganha, assim, um papel de catalisador. Ela tem o dever de atacar, frontalmente, as proibições dominantes do pensar; e expressar, aberta e claramente, aquilo que ninguém ousa saber, mas que muitos sentem: a sociedade do trabalho está definitivamente no seu fim. E não há a menor razão para lamentar sua agonia.

Somente a crítica do trabalho formulada expressamente e um debate teórico correspondente podem criar aquela nova contra-esfera pública, que é um pressuposto indispensável para construir um movimento de prática social contra o trabalho. As disputas internas ao campo de trabalho esgotaram-se e tornaram-se cada vez mais absurdas. É, portanto, mais urgente, redefinir as linhas de conflitos sociais nas quais uma união contra o trabalho possa ser formada.

Precisam ser esboçadas em linhas gerais quais são as diretrizes possíveis para um mundo além do trabalho. O programa contra o trabalho não se alimenta de um cânon de princípios positivos, mas a partir da força da negação. Se a imposição do trabalho foi acompanhada por uma longa expropriação do homem das condições de sua própria vida, então a negação da sociedade do trabalho só pode consistir em que os homens se reapropriem da sua relação social num nível histórico superior. Por isso, os inimigos do trabalho almejam a formação de uniões mundiais de indivíduos livremente associados, para que arranquem da máquina de trabalho e valorização que-gira-em-falso os meios de produção e existência, tomando-os em suas próprias mãos. Somente na luta contra a monopolização de todos os recursos sociais e potenciais de riqueza pelas forças alienadoras do mercado e Estado, podem ser ocupados os espaços sociais de emancipação.

Também a propriedade privada precisa ser atacada de um modo diferente e novo. Para a esquerda tradicional, a propriedade privada não era a forma jurídica do sistema produtor de mercadorias, mas apenas um poder de “disposição” ominoso e subjetivo dos capitalistas sobre os recursos. Assim, pode aparecer a idéia absurda de querer superar a propriedade privada no terreno da produção de mercadorias. Então, como oposição à propriedade privada aparecia, em regra, a propriedade estatal (”estatização”). Mas o Estado não é outra coisa senão a associação coercitiva exterior ou a universalidade abstrata de produtores de mercadorias socialmente atomizados, a propriedade estatal é apenas uma forma derivada da propriedade privada, tanto faz se com, ou sem, o adjetivo socialista.

Na crise da sociedade do trabalho, tanto a propriedade privada quanto a propriedade estatal ficam obsoletas porque as duas formas de propriedade pressupõem do mesmo modo o processo de valorização. É por isso que os correspondentes meios materiais ficam crescentemente em “pousio” ou trancados. De maneira ciumenta, funcionários estatais, empresariais e jurídicos vigiam para que isto continue assim e para que os meios de produção antes apodreçam do que sejam utilizados para um outro fim. A conquista dos meios de produção por associações livres contra a administração coercitiva estatal e jurídica só pode significar que esses meios de produção não sejam mais mobilizados sob a forma da produção de mercadorias para mercados anônimos.

Em lugar da produção de mercadorias entra a discussão direta, o acordo e a decisão conjunta dos membros da sociedade sobre o uso sensato de recursos. A identidade institucional social entre produtores e consumidores, impensável sobre o ditado do fim em si mesmo capitalista, será construída. As instituições alienadas pelo mercado e pelo Estado serão substituídas pelo sistema em rede de conselhos, nos quais as livres associações, da escala dos bairros até a mundial, determinam o fluxo de recursos conforme pontos de vista da razão sensível social e ecológica.

Não é mais o fim em si mesmo do trabalho e da “ocupação” que determina a vida, mas a organização da utilização sensata de possibilidades comuns, que não serão dirigidas por uma “mão invisível” automática, mas por uma ação social consciente. A riqueza produzida é apropriada diretamente segundo as necessidades, não segundo o “poder de compra”. Junto com o trabalho, desaparece a universalidade abstrata do dinheiro, tal como aquela do Estado.

Em lugar de nações separadas, uma sociedade mundial que não necessita mais de fronteiras e na qual todas as pessoas podem se deslocar livremente e exigir em qualquer lugar o direito de permanência universal.

A crítica do trabalho é uma declaração de guerra contra a ordem dominante, sem a coexistência pacífica de nichos com as suas respectivas coerções. O lema da emancipação social só pode ser: tomemos o que necessitamos! Não nos arrastemos mais de joelhos sob o jugo dos mercados de trabalho e da administração democrática da crise! O pressuposto disso é o controle feito por novas formas sociais de organização (associações livres, conselhos) sobre as condições de reprodução de toda a sociedade. Esta pretensão diferencia os princípios dos inimigos do trabalho de todos os dos políticos de nichos e de todos os dos espíritos mesquinhos de um socialismo de colônias de pequenas hortas.

O domínio do trabalho cinde o indivíduo humano. Separa o sujeito econômico do cidadão, o animal de trabalho do homem de tempo livre, a esfera pública abstrata da esfera privada abstrata, a masculinidade produzida da feminilidade produzida, opondo, assim, ao indivíduo isolado, sua própria relação social como um poder estranho e dominador. Os inimigos do trabalho almejam a superação dessa esquizofrenia através da apropriação concreta da relação social por homens conscientes, atuando auto-reflexivamente.

“O ‘trabalho’ é, em sua essência, a atividade não livre, não humana, não social, determinada pela propriedade privada e que cria a propriedade privada. A superação da propriedade privada se efetivará somente quando ela for concebida como superação do ‘trabalho’.”
(Karl Marx – Sobre o livro “O sistema Nacional da economia política” de Friedrich List, 1845)

17. Um programa de abolições contra os amantes do trabalho

Os inimigos do trabalho serão acusados de não serem outra coisa que fantasistas. A história teria comprovado que uma sociedade que não se baseia nos princípios do trabalho, da coerção da produção, da concorrência de mercado e do egoísmo individual, não poderia funcionar. Vocês, apologistas do status quo, querem afirmar que a produção de mercadorias capitalistas trouxe, realmente, para a maioria dos homens, uma vida minimamente aceitável? Vocês dizem “funcionar”, quando justamente o crescimento saltitante de forças produtivas expulsa milhões de pessoas da humanidade, que podem então ficar felizes em sobreviver nos lixões? Quando outros milhões suportam a vida corrida sob o ditado do trabalho no isolamento, na solidão, no doping sem prazer do espírito e adoecendo física e psiquicamente? Quando o mundo se transforma num deserto só para fazer do dinheiro mais dinheiro? Pois bem, este é realmente o modo como vosso sistema grandioso de trabalho “funciona”.

Estes resultados, não queremos alcançar!

Vossa auto-satisfação se baseia na vossa ignorância e na fraqueza de vossa memória. A única justificativa que encontram para vossos crimes atuais e futuros é a situação do mundo que se baseia em vossos crimes passados.

Vocês esqueceram e reprimiram quantos massacres estatais foram necessários para impor, com torturas, a “lei natural” da vossa mentira nos cérebros dos homens, tanto que seria quase uma felicidade ser “ocupado”, determinado externamente, e deixado que se sugasse a energia de vida para o fim em si mesmo abstrato de vosso deus-sistema.

Precisavam ser exterminadas todas as instituições da auto-organização e da cooperação autodeterminada das antigas sociedades agrárias, até que a humanidade fosse capaz de interiorizar o domínio do trabalho e do egoísmo. Talvez tenha sido feito um trabalho perfeito. Não somos otimistas exagerados. Não sabemos se existe ainda uma libertação desta existência condicionada. Fica em aberto a questão se o declínio do trabalho leva à superação da mania do trabalho ou ao fim da civilização.

Vocês argumentarão que com a superação da propriedade privada e da coerção de ganhar dinheiro, todas as atividades acabam e que se iniciará então uma preguiça generalizada. Vocês confessam portanto que todo vosso sistema “natural” se baseia em pura coerção? E que, por isso, vocês teimam em ser a preguiça um pecado mortal contra o espírito do deus-trabalho? Os inimigos do trabalho não têm nada contra a preguiça. Um dos seus objetivos principais é a reconstrução da cultura do ócio, que antigamente todas as sociedades conheciam e que foi destruída para impor uma produção infatigável e vazia de sentido. Por isso, os inimigos do trabalho irão paralisar, sem compensação, em primeiro lugar, os inúmeros ramos de produção que apenas servem para manter, sem levar em consideração quaisquer danos, o louco fim em si mesmo do sistema produtor de mercadorias.

Não falamos apenas das áreas de trabalho claramente inimigas públicas, como a indústria automobilística, a de armamentos e a de energia nuclear, mas também a da produção de múltiplas próteses de sentido e objetos ridículos de entretenimento que devem enganar e fingir para o homem do trabalho uma substituição para sua vida desperdiçada. Também terá de desaparecer o número monstruoso de atividades que só aparecem porque as massas de produtos precisam ser comprimidas para passar pelo buraco da agulha da forma-dinheiro e da mediação do mercado.

Ou vocês acham que serão ainda necessários contabilistas e calculadores de custo, especialistas de marketing e vendedores, representantes e autores de textos de publicidade quando as coisas forem sendo produzidas conforme a necessidade, ou quando todos simplesmente tomarem o que for preciso? Por que então ainda existir funcionários de secretaria de finanças e policiais, assistentes sociais e administradores de pobreza, quando não houver mais nenhuma propriedade privada a ser protegida, quando não for preciso administrar nenhuma miséria social e quando não for preciso domar ninguém para a coerção alienada do sistema?

Já estamos ouvindo o grito: quantos empregos! Sim senhor. Calculem com calma quanto tempo de vida a humanidade se rouba diariamente só para acumular “trabalho morto”, administrar pessoas e azeitar o sistema dominante. Quanto tempo nós todos poderíamos deitar ao sol, em vez de se esfolar para coisas cujo caráter grotesco, repressivo e destruidor já se encheu bibliotecas inteiras. Mas não tenham medo. De forma alguma acabarão todas as atividades quando a coerção do trabalho desaparecer. Porém, toda a atividade muda seu caráter quando não está mais fixada na esfera de tempos de fluxo abstratos, esvaziada de sentido e com fim em si, podendo seguir, ao contrário o seu próprio ritmo, individualmente variado e integrado em contextos de vida pessoais; quando em grandes formas de organização os homens por si mesmos determinarem o curso, em vez de serem determinados pelo ditado da valorização empresarial. Por que deixar-se apressar pelas reivindicações insolentes de uma concorrência imposta? É o caso de redescobrir a lentidão.

Obviamente, também não desaparecerão as atividades domésticas e de assistência que a sociedade do trabalho tornou invisível, cindiu e definiu como “femininas”. Cozinhar é tão pouco automatizável quanto trocar fraldas de bebê. Quando, junto com o trabalho, a separação das esferas sociais for superada, estas atividades necessárias podem aparecer sob organização social consciente, ultrapassando qualquer definição sexual. Elas perdem seu caráter repressivo quando pessoas não mais subsumem-se entre si, e quando são realizadas segundo as necessidades de homens e mulheres da mesma forma.

Não estamos dizendo que qualquer atividade torna-se, deste modo, prazer. Algumas mais, outras menos. Obviamente há sempre algo necessário a ser feito. Mas a quem isso poderia assustar se a vida não será devorada por isso? E haverá sempre muito o que possa ser feito por decisão livre. Pois a atividade, assim como o ócio, é uma necessidade. Nem mesmo o trabalho conseguiu apagar totalmente esta necessidade, apenas a instrumentalizou e a sugou vampirescamente.

Os inimigos do trabalho não são fanáticos de um ativismo cego, nem de um nada fazer também cego. Ócio, atividades necessárias e atividades livremente escolhidas devem ser colocados numa relação com sentido que se oriente nas necessidades e nos contextos de vida. Uma vez despojadas das coerções objetivas capitalistas do trabalho, as forças produtivas modernas podem ampliar, enormemente, o tempo livre disponível para todos. Por que passar, dia após dia, tantas horas em fábricas e escritórios se autômatos de todos os tipos podem assumir uma grande parte destas atividades? Para que deixar suar centenas de corpos humanos quando algumas poucas ceifadoras resolvem? Para que gastar o espírito com uma rotina que o computador, sem nenhum problema, executa?

Todavia, para esses fins só podem ser utilizados a mínima parte da técnica na sua forma capitalista dada. A grande parte dos agregados técnicos precisa ser totalmente transformada porque foi construída segundo os padrões limitados da rentabilidade abstrata. Por outro lado, muitas possibilidades técnicas não foram ainda nem desenvolvidas pela mesma razão. Apesar da energia solar poder ser produzida em qualquer canto, a sociedade do trabalho põe no mundo usinas nucleares centralizadas e de alta periculosidade. E apesar de serem conhecidos métodos não agressivos na produção agrária, o cálculo abstrato do dinheiro joga milhares de venenos na água, destrói os solos e empesta o ar. Só por razões empresariais, materiais de construção e alimentos estão sendo transportados três vezes em volta do globo, apesar de poderem ser produzidos sem grandes custos localmente. Uma grande parte da técnica capitalista é tão vazia de sentido e supérflua quanto o dispêndio de energia humana relacionada a ela.

Não estamos dizendo-lhes nada de novo. Mas mesmo assim, vocês sabem que nunca tirarão as conseqüências disto tudo, pois recusam qualquer decisão consciente sobre a aplicação sensata de meios de produção, transporte e comunicação e sobre quais deles são maléficos ou simplesmente supérfluos. Quanto mais apressados vocês rezam seu mantra da liberdade democrática, tanto mais aferradamente rejeitam a liberdade de decisão social mais elementar, porque querem continuar servindo ao defunto dominante do trabalho e às suas pseudo “leis naturais”.

“Que o trabalho, não somente nas condições atuais, mas em geral, na medida em que sua finalidade é a simples ampliação da riqueza, quer dizer, que o trabalho por si só seja prejudicial e nefasto – isto sucede, sem que o economista nacional o saiba (Adam Smith), de suas próprias exposições.”
(Karl Marx – Manuscritos Econômico-Filosóficos, 1844)

18. A luta contra o trabalho é antipolítica.

A superação do trabalho é tudo menos uma utopia nas nuvens. A sociedade mundial não pode continuar na sua forma atual por mais cinqüenta ou cem anos. O fato de os inimigos do trabalho tratarem de um deus-trabalho clinicamente morto não quer dizer que sua tarefa torna-se necessariamente mais fácil. Quanto mais a crise da sociedade do trabalho se agrava e quanto mais falham todas as tentativas de consertá-la, tanto mais cresce o abismo entre o isolamento de mônadas sociais abandonadas e as reivindicações de um movimento de apropriação da sociedade como um todo. O crescente asselvajamento das relações sociais em grandes partes do mundo demonstra que a velha consciência do trabalho e da concorrência continuam num nível cada vez mais baixo. A descivilização por etapas parece, apesar de todos os impulsos de mal-estar no capitalismo, a forma do percurso natural da crise.

Justamente, face a perspectivas tão negativas, seria fatal colocar a crítica prática do trabalho ao cabo de um programa amplo em relação à sociedade como um todo e se limitar a construir uma economia precária de sobrevivência nas ruínas da sociedade do trabalho. A crítica do trabalho só tem uma chance quando luta contra a corrente da dessocialização, ao invés de se deixar levar por ela. Os padrões civilizatórios não podem ser mais defendidos com a política democrática, mas apenas contra ela.

Quem almeja a apropriação emancipatória e a transformação de todo o contexto social, dificilmente pode ignorar a instância que até então organizou as condições gerais deste contexto. É impossível se revoltar contra a apropriação das próprias potencialidades sociais sem o confronto com o Estado. Pois o Estado não administra apenas cerca de metade da riqueza social, mas assegura também a subordinação coercitiva de todos os potenciais sociais sob o mandamento da valorização. Se tampouco os inimigos do trabalho podem ignorar o Estado e a política, tampouco podem fazer Estado e política com eles.

Quando o fim do trabalho é o fim da política, um movimento político para a superação do trabalho seria uma contradição em si. Os inimigos do trabalho dirigem reivindicações ao Estado, mas não formam nenhum partido político, nem nunca formarão. A finalidade da política só pode ser a conquista do aparelho do Estado para dar continuidade à sociedade do trabalho. Os inimigos do trabalho, por isso, não querem ocupar os painéis de controle do poder, mas sim desligá-los. A sua luta não é política, mas sim antipolítica.

Na modernidade, Estado e política são inseparavelmente ligados ao sistema coercitivo do trabalho e, por isso, precisam desaparecer junto com ele. O palavreado sobre um renascimento da política é apenas a tentativa de reduzir a crítica do terror econômico a uma ação positiva referente ao Estado. Auto-organização e autodeterminação, porém, são simplesmente o oposto exato de Estado e política. A conquista de espaços livres sócio-econômicos e culturais não se realiza no desvio político, na via oficial, nem no extravio, mas através da constituição de uma contra-sociedade.

Liberdade quer dizer não se deixar embutir pelo mercado, nem se deixar administrar pelo Estado, mas organizar as relações sociais sob direção própria – sem a interferência de aparelhos alienados. Neste sentido, interessa aos inimigos do trabalho encontrar novas formas de movimentos sociais e ocupar pontos estratégicos para a reprodução da vida, para além do trabalho. Trata-se de juntar as formas de uma práxis de oposição social, com a recusa ofensiva do trabalho.

Os poderes dominantes podem declarar-nos loucos porque arriscamos a ruptura com seu sistema coercitivo irracional. Não temos nada a perder senão a perspectiva da catástrofe para a qual eles nos conduzem. Temos a ganhar um mundo além do trabalho.

Proletários de todo mundo, ponham fim nisso!

“Nossa vida é o assassinato pelo trabalho, durante sessenta anos ficamos enforcados e estrebuchando na corda, mas não a cortamos.”
(Georg Büchner – A Morte de Danton, 1835).


Publicado nos Cadernos do Labur – nº 2 (Laboratório de Geografia Urbana/Departamento de Geografia/Universidade de São Paulo. Contatos: Krisis na internet – www.magnet.at/krisis ; e-mail: ntrenkle@aol.com ; Grupo Krisis-Labur-São Paulo: labur@edu.usp.br

Grupo Krisis – Tradução de Heinz Dieter Heidemann com colaboração de Cláudio Roberto Duarte

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/manifesto-contra-o-trabalho/

A Corrente Anticósmica 218

As bases da Corrente 218 firmam se originalmente nos mitos sumérios contidos no poema épico Enuma Elish escrito há mais de 3000 anos. No mito babilônio, Tiamat, um monstruoso dragão feminino, é a mãe de tudo aquilo que existe e de todos os deuses. Ela é a personificação da água salgada, das águas do Caos. Tiamat tem originalmente Apsu como consorte. Apsu é a personificação do abismo primordial da água doce do mundo inferior. Da união de Tiamat e Apsu surgiram os primeiros deuses.

O comportamento dos primeiros deuses irritava o casal primordial e Tiamat e Apsu planejaram matar a própria descendência. Ea (deus das águas doces; patrono da magia e da sabedoria; dizia-se que era onisciente.) , deus da quarta geração após Tiamat e Apsu, descobriu os planos e engendrou um plano para matar Apsu.

Ea aguardou Apsu adormecer e o matou. Tiamat foi tomada por fúria violenta ao saber da morte de seu esposo, tomou seu filho Kingu (Tiamat e Kingu são chamados Dragões do Caos.) como novo consorte e criou um exército de onze demônios para vingar a morte de Apsu. Tiamat pretendia que seu filho e esposo se tornasse Senhor dos Deuses, deu a ele as Tábuas do Destino e o colocou à frente de sua armada.

Foi Marduk, filho de Ea e Damkina, quem enfrentou e venceu Tiamat e Kingu ( Segundo o mito babilônio, Marduk criou a humanidade com o sangue de Kingu.). A vitória sobre os dragões do Caos conferiu a Marduk “poderes supremos”.

Marduk representa os poderes cósmicos que são combatidos pela Corrente 218 que, por sua vez, é representada pelos deuses anticósmicos e pelos onze poderes criados por Tiamat, ou seja, por Azerate.

Cosmos e Logos, Um Esboço de Definição

O cosmos nos é apresentado como a totalidade de um universo “ordenado”. Descrevem-no como o espaço universal, composto de matéria e energia, regulado por certas leis.

À suposta lei universal e fixa, regedora da “harmonia”, Heráclito de Éfeso chamou “Logos”. “Logos” também significa Palavra, Verbo e Razão.

O evangelista João se referiu ao Cristo como sendo o Logos. “Adaptado”, o vocábulo passou a ser uma forma de sinônimo para Deus e para seu filho.

Para os filhos do Logos morto o universo está sob a lei de uma pretensa força criadora onipotente, responsável pela manutência da “harmonia”: o funesto e confuso “demiurgo”. O Logos Morto, a pretensa força criadora do “demiurgo”, os conceitos arcaicos, tolos e estagnados resumem a corrente cósmica, a Grande Ilusão de Maya.

Nesse contexto, encontramos Marduk, o “demiurgo” associado a Javé.

Da Não Percepção ou da Percepção Ilusória

O homem ordinário (não) “percebe” o universo ao seu redor através de sentidos comuns, sendo ele mesmo parte do cosmos. O homem ordinário não percebe nada além de ilusão. No estado de dormência há uma espécie de sensação de equilíbrio (falso‐), um caminho com o qual se conformar, uma senda que se segue guiado por outrem, por algo. Um “ir” junto aos “muitos”, um caminhar entre os vários. Um não ver aquilo que é. Um não‐ser. Um enaltecer da ilusão. Um doloroso sonho cósmico. O indivíduo tem o Eu (Ego) plasmado, modelado pelas restrições impostas pelas correntes cósmicas, por Maya. O indivíduo comum É algo que não É.

Da Dominação do Pão e do Circo

Servilismo. Subserviência. Alienação. Prostração. Cega sujeição à vontade alheia e aos interesses manipuladores daquilo que o próprio homem ordinário criou e que não controla. Alheação. Incapacidade. O rebanho oprimido sob o jugo se deleita no que é franca e deliberada mentira, ilusão. Os muitos são os Vermes.

Da Caosofia

O vazio informe e a vacuidade ilimitada a que se referiu Hesíodo, a desordem e a confusão dos platônicos. Estado indefinido de não‐ordem que antecedeu a pretensa obra do “demiurgo”. Caos, o estado original do que está além e sob o abismo. Propiciar o Caos é incitar, impelir e impulsionar Transformação. Somente a transformação é contínua. O cosmos é tridimensional, linear, causal, previsível. O caos é multidimensional, não linear, é acausal e imprevisível. No cosmos jazem forças. No caos, energia dinâmica explode mundos e possibilidades sem fim. O cosmos precisou ser criado. O caos é causado por si, em si. Caos é potencial ilimitado em destruição (transformação) e criação. Nele estão todas as coisas manifestas e não‐manifestas.


   Azerate

Divindade – Fórmula – Conceito

Azerate é formado pelos 11 demônios criados por Tiamat para ajudá‐la a vingar a morte de Apsu.

Azerate é o nome da Divindade amorfa e anticósmica originária da reunião dos Onze Arquidemônios das Qliphoth. É o Deus Híbrido formado pela totalidade dos aspectos de Nahema, Lilith, Adramelek, Baal, Belfegor, Asmodeus, Astaroth, Lucifuge Rofocale, Beelzebub e Moloch.

Azerate alude aos onze príncipes de Edom que reinaram ao sul do Mar Morto antes das guerras judaicoromanas. É a fórmula de consecução mágicka que opera a destruição dos véus da Ilusão que aprisiona e aliena.

Azerate é a união das onze potências da Árvore do Conhecimento que destroem a mentira sobre o Universo criado.

Azerate é a chave para as dimensões de poder além dos limites da consciência.

Azerate é o Dragão Negro de 11 Cabeças que vomita fogo, morte, destruição e terror.

218 é o número místico de Azerate e da Corrente Anticósmica.

Aleph = 1
Zayin = 7
Resh = 200
Aleph = 1
Teth = 9

1+7+200+1+9=218
218
2+1+8=11
1+2+3+4+5+6+7+8+9+10+11=66

Azerate evoca e manifesta o conceito maldito e banido do Onze sobre o Dez.

O Onze, aquele que sucede o Ciclo Eterno, aquele que traz destruição, antítese e embate ao cosmos.

Azerate é o Onze que é Sessenta e Seis.

66 é o número místico das Qliphoth e da Grande Obra.

Σ(1‐11) =66

Azerate é o duplo 109, a dupla Esfera da Iluminação.

Proposições Básicas da Corrente Anticósmica

Destruir os véus da Ilusão, trazer a condição de Caos ao universo manifesto. A implosão impele e impulsiona dolorosa Transformação e Renascimento em Nox.

Fazer ruir estruturas decrépitas nas quais se fundamentam as idéias dos opositores da Vida.

Desfazer laços e cortar amarras que impedem o avanço e a evolução do indivíduo.

Proporcionar desafio ao indivíduo que, por vocação, aprende e faz guerra contra os agentes alienadores em todos os aspectos.

Trazer ao Universo manifesto as forças que combatem eternamente para que elas possam destruí‐lo tal como o conhecemos.

Trazer Morte ao Universo, propiciar Dissolução do Ego plasmado sobre os moldes da restrição imposta por padrões hipócritas, vazios e mentirosos.

A Corrente 218, Algumas Características Mais

Podemos dizer que a Corrente 218 é anticósmica, caótica, luciferiana e satânica.

É uma corrente por ser caracterizada pelo movimento acelerado das forças que a compõe.

É anticósmica por estar alinhada à Destruição dos conceitos estagnados de cosmos e logos tal como os

conhecemos e por buscar a Dissolução da dispersão do Ego que concorre contra a verdadeira vontade.

É Caótica por não se apegar a conceitos estagnados, superficiais e submissos; por enfatizar que o processo verdadeiro de aprendizado e de evolução do indivíduo se dá através da própria experiência, do contato direto com as forças inerentes à corrente; por estar alinhada com muitas das idéias do que se costuma rotular como magia do CAOS; por ter como uma de suas proposições básicas trazer o CAOS ao Universo manifesto e Destruí-lo como Ilusão, como Maya.

Luciferiana por propiciar ao indivíduo a possibilidade de evolução através do Conhecimento (Luz, Gnose Luciferiana).

Satânica por ser uma força de embate contra valores idiotas, hipócritas, ultrapassados, dominadores e alienadores.

O motor da Corrente é a força dinâmica de Azerate como Divindade, Conceito, Chave e Fórmula de consecução mágicka.

A fundamentação da corrente se dá a partir de um vasto sincretismo de ramos e vertentes do Caminho da Mão Esquerda. Tal sincretismo busca sintetizar a essência de cada aspecto que compõe a heterogeneidade e aplicá-la na consecução das proposições fundamentais. Dentre as diversas tradições que coadunam forças que se combinam na Corrente 218 citamos: a magia do Caos, o Satanismo (Tradicional e Moderno), o Luciferianismo
(Tradicional e Moderno), a tradição Draconiana, a tradição Tifoniana, a Bruxaria Sabática, a Qabalah Qliphótica, Thelema, o Tantra, a Quimbanda, o Vodu e cultos ligados à Morte.

Atualmente o Templo da Luz Negra na Suécia é o maior expoente relacionado à corrente anticósmica. O Templo é a evolução do trabalho iniciado pela Ordem Misantrópica Luciferiana (MLO). Seus principais trabalhos literários publicados são Liber Azerate, Liber Falxifer – The Book of the Left‐Handed Reaper e Quimbanda – Vägen till det Vänstra Riket. O Templo planeja lançar Liber Azerate em inglês durante o ano de 2010.

Uma das principais manifestações artísticas relacionadas à Corrente 218 é o singular álbum Reinkaos, último trabalho da banda Dissection.

Algumas Divindades Anticósmicas

Kali e Shiva

Deuses hindus que conduzem à liberação removendo a ilusão do Ego. Kali é a toda‐consumidora do tempo (Kal), Deusa que traz Morte à falsa consciência, pois está além de Maya.

Kali é uma das variadas formas de Devi, Mãe compassiva que traz liberação (moksha) aos seus filhos. Seus devotos adoram‐na com amor incondicional. É conhecida e adorada por vários nomes: Kalikamata, Kali Ma, Bhavatarini, Dakshineshvara, Kalaratri, Kottavei, Kalighat e Negra Mãe Divina. Kali Ma é a dissolução e a destruição. Foi graças a ela que os deuses, feitos Shiva, puderam destruir Raktabija, pois Kali consumiu todo o sangue que jorrava dos ferimentos de Raktabija e ele não pôde mais se reproduzir.

Shiva é o Deus da destruição e regeneração, fogo consumidor da transformação, cujo olhar relampeja e destrói violentamente. É um dos Três formadores da Trimurti hindu. Shiva é chamado o Destruidor. Shiva e Kali costumam ser adorados em crematórios a céu aberto, pois aludem à transitoriedade da vida material. O Lingam está para Shiva como a Yoni está para Kali: na destruição estão os elementos da geração.

Apsu

Deus primevo sumero-acadiano das águas doces do submundo. Primeiro consorte de Tiamat.

Tiamat

Deusa Dragão senhora do Caos e das águas salgadas. Deusa das águas abissais e do oceano primevo. Na mitologia sumeriana é chamada Nammu. É provavelmente uma das divindades mais antigas do panteão sumeriano.

Kingu

Deus Dragão, filho de Tiamat. Seu sangue foi utilizado para criar a humanidade segundo o mito babilônio. Tiamat o tomou como esposo após a morte de Apsu.

Lúcifer

Insígnia máxima da não-servidão, da rebeldia, do conhecimento aplicado e esclarecido. Beleza sem mácula. Portador do Archote, da Luz que guia “seus filhos” no tortuoso caminho da liberação.

Lilith
Negra Mãe Divina, Rainha da Noite e das Bestas da Escuridão, personificação da plena

Pharzhuph

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/a-corrente-anticosmica-218/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/a-corrente-anticosmica-218/

Arcano 7 – Carro – Chet

Dois cavalos arrastam uma espécie de caixa, montada sobre duas rodas e coberta por um dossel, onde se encontra um homem coroado, que traz um cetro em sua mão direita. Na parte frontal do carro (a única visível), em boa parte dos tarôs clássicos, há um escudo com duas letras, que variam com as editoras das lâminas.

Mais do que de cavalos, poderíamos falar de dois corpos dianteiros, fundidos ao carro. Os dois animais olham para a esquerda, mas a sua disposição é tal que parecem andar cada um para o seu lado. O cavalo da esquerda levanta a pata direita, e o da direita, a pata esquerda. O dossel repousa sobre quatro colunas.

O homem, que tem uma coroa do tipo das de marquês, tem a mão esquerda sobre um cinto amarelo, na altura da cintura, e na mão direita traz um cetro que termina por um ornamento esférico encimado por um cone. O peito do personagem está coberto por uma couraça. Cada um dos seus ombros está protegido por uma meia-lua, com rostos de expressão diferente.

Os cabelos do personagem são amarelos, e seu olhar dirige-se ligeiramente para a esquerda, no mesmo sentido que o de seus cavalos.

Cinco plantas brotam do solo. Não aparecem rédeas ou qualquer outro meio de guiar o carro.

Significados simbólicos
Contemplação ativa, repouso. Vitória, triunfo.

O setenário sagrado, a realeza, o sacerdócio.

Magistério. Superioridade. Realização.

Interpretações usuais na cartomancias
Êxito legítimo, avanço merecido. Talento, dons, capacidade, aptidões postas em marcha. Tato para governar, diplomacia, direção competente.

Conciliação dos antagonismos, condução de forças divergentes. Progresso, mobilidade, viagens por terra.

Mental: As coisas se realizam, mas falta ainda montar as peças de conjunto.

Emocional: Afeto manifestado; protetor, serviçal.

Físico: Grande atividade, rapidez nas ações. Boa saúde, força, atividade intensa. Do ponto de vista do dinheiro: gastos ou ganhos, movimento de fundos.

Significa também notícia inesperada, conquista. Pode ser interpretado também como difusão da obra ou atividades do consulente através de palavras e, segundo sua localização na tiragem, significa elogios ou calúnias.

Sentido negativo: Ambições injustificadas, vanglória, megalomania. Falta de talento e de consideração. Governo ilegítimo, situação usurpada, ditadura. Oportunismo perigoso. Preocupações, cansaço, atividade febril e sem repouso. Perda de controle.

História e iconografia
O desfile dos heróis triunfantes de pé sobre seus carros de guerra é um costume pelo menos tão antigo quanto os próprios carros de guerra. Court de Gébelin – e com ele os que acreditam numa origem egípcia do Tarô – imagina que o Arcano VII nada mais é que a reapresentação do Osíris triunfal, e que os cavalos são uma herança vulgar da Esfinge.

Mais coerente, contudo, é relacioná-lo às apoteoses lendárias que comoveram a Idade Média, época em que se localiza sua iconografia.

Pode também lembrar um conto do ciclo mítico de Alexandre, o Grande, amplamente reproduzido desde a Antiguidade até o Renascimento.

Levado até o Oriente pela sucessão de seus triunfos, Alexandre teria chegado até o fim do mundo. Quis então saber se era verdade que a Terra e o Céu se tocavam num ponto comum. Para isto seduziu com ardis – é preciso recordar que a astúcia é também prerrogativa dos heróis – dois pássaros gigantes que existiam na região; prendeu-os e acomodou entre eles uma cesta.

Com uma lança na mão, em cujo extremo havia atravessado um pedaço de carne de cavalo, o conquistador subiu ao seu carro improvisado. Com a promessa de comida que oscilava ante seus olhos, os Grifos começaram a mover-se e alçaram vôo. Os heróis não podem, contudo, sobrepor-se aos deuses: na metade do caminho

Alexandre recebeu um emissário dos deuses, um enfurecido Homem Pássaro que insistiu para que ele desistisse de seu projeto. Muito a contragosto, Alexandre aceitou a censura e atirou a lança para a Terra, para onde desceram os Grifos, impacientes e vorazes.

Essa lenda, nascida certamente no Oriente, foi introduzida na Europa no fim do século II. Estendeu-se em seguida por todo o Ocidente cristão e era conhecida desde a baixa Idade Média. Numerosas ilustrações e várias esculturas que a representam chegaram até nós. A Crônica Mundial, de Rudolph von Ems (século XIII) a reproduz em uma detalhada miniatura; em São Marcos de Veneza está o relevo talvez mais significativo para rastrear as fontes inspiradoras do Arcano VII: a cesta de Alexandre é ali uma caixa semelhante à de O Carro; aparecem também as rodas esboçadas.

Durante a Idade Média, a arte dos imagiers parece ter-se servido desta lenda como uma alegoria do orgulho.

Por sua amplitude simbólica e pela beleza da sua composição, O Carro figura entre os arcanos de maior prestígio do Tarô. É, também, um dos que oferecem maiores lacunas de interpretação.

Relacionado em princípio com Zain (sétima letra do alfabeto hebreu, que corresponde ao nosso Z), denuncia uma mobilidade e inquietude que tem a ver com todo deslocamento ou ação ziguezagueante, veloz.

Há autores que relacionam as rodas do Carro aos torvelinhos de fogo da visão de Ezequiel.

Quando se traduz a lâmina pela palavra carro – protótipo dos sistemas de troca – representa o que é móvel, transferível, interpretável. Nesse caso, seu aspecto oracular é associado às mudanças provocadas pela palavra: elogios, calúnias, difusão da obra, boas ou más notícias; e, por extensão, aos sistemas de intercâmbio em geral (economian movimento de fundos).

Aponta-se aqui a questão das relações entre esta mobilidade e o dinamismo mercurial do Prestidigitador, já que esses arcanos se encontram no início e no fechamento do primeiro setenário do Tarô.

Talvez esta analogia possa ser levada mais longe, e não parece impossível que a figura toda seja uma ilustração desta passagem bíblica. Em Ezequiel (I, 4-28), com efeito, aparecem não só as rodas, o carro e os animais, mas também “sobre o trono, no alto, uma figura semelhante a um homem que se erguia sobre ele. E o que dele aparecia, da cintura para cima, era como o fulgor de um metal resplandecente”, o que é uma descrição bastante aproximada do personagem do Arcano VII. Nessa mesma passagem podem-se encontrar também analogias válidas para o simbolismo geral do Arcano XXI (O Mundo).

Há quem veja ainda, nos animais presos, uma anfisbena (serpente de duas cabeças), ou poderes antagônicos que é necessário subjugar para prosseguir – “como no caduceu se equilibram as duas serpentes contrárias”. O veículo representaria o simbolismo do Antimônio (ou a Alma Intelectual dos alquimistas), mencionado como Currus Triumphalis num tratado de Basílio Valentin (Amsterdã, 1671).

A totalidade do arcano sugere, para Wirth, a idéia do corpo sutil da alma, graças ao qual o espírito pode se manifestar no campo do material. Esta idéia de um halo ou dupla transubstancial que não pode ser relacionada a nenhum dos três aspectos do homem (corpo –> alma –> espírito), mas que tende a relacioná-los entre si, gozou de um vasto prestígio esotérico: é o corpo sideral de Paracelso (ou astral, na linguagem teosófica), como também o “corpo aromático”, de Fourier, ou o Kama rupa do budismo soteriológico.

Finalmente, permanece em aberto a explicação para as letras inscritas no escudo: S e M (no Tarô da editora Grimaud). Alguns supõem que se referem a Sua Majestade; outros, que falam dos dois princípios alquímicos, Sulfur e Mercurius). Não é este o único ponto obscuro do arcano que Éliphas Lévy chamou “o mais belo e mais completo de todos que compõem a chave do Tarô”.

Por Constantino K. Riemma
http://www.clubedotaro.com.br/

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/arcano-7-carro-chet

Gematria Enoquiana

Embora pareça uma aproximação óbvia hoje, a gematria enoquiana só foi desenvolvida no século XX por um dos magos mais célebres desta época: Aleister Crowley. Sendo um explorador por natureza Crowley foi bastante inovador em suas experiências enoquianas. Seu livro A Voz e a Visão formam uma das bases do renascimento moderno deste sistema.

A teoria da gematria é que cada letra possui um equivalente numerico. Adicionando os valores das letras que formam uma palavra ou frase temos o equivalente numérico daquela palavra ou frase também. Palavras e frases com o mesmo equivalente numérico possuem relações diretas ou correspondência. Estas correspondências não são sempre óbvias, pois estão ocultas, escondidas no código fonte que escreve a realidade. A Gematria pode ser usada também para computar os valores entre o nome de pessoas por exemplo. Estudando as correspondëncias destes nomes você pode mais sobre suas verdadeiras naturezas e suas relações.  Computando os valores numericos das frases e palavras uma infinidade de conhecimentos se tornam disponíveis, tornando a gematria uma excelente fonte de pesquisa e aprendizado para os magos, especialmente quando acompanhados de algum dicionário de palavras enoquianas.

De acordo com as informações extraidas da Obra de Crowley, notadamente, Voz e Visão e Liber 777 podemos montar uma tabela estrutural que serve de chave para a gematria enoquiana:

Letra    Gematria
A           6
B           5
C,K        300
D          4, 31
E          10
F           3
G          8
H          1
I,J,Y      60
L          8
M         90
N          50
O          30
P          9
Q         40
R         100
S         7
T         9 ,3
U,V,W  70
X          400
Z          9,3

Salta aos olhos que as letras T e Z possuem valores duplos de 9 e 3, nestes casos o 9 é o valor primário e o 3 o valor secundário ou alternativo. O mesmo ocorre com a letra D, onde 4 é o valor principal e 31 o valor alternativo.

Digamos que você quer conhecer a verdadeira face de alguma entidade enoquiana. Vamos pegar o exemplo do Primeiro Superior da Água, LSRAHPM. Usando os valores da tabela computamos o valor de 211 (8+7+100+6+1+9+90). Consultando um dicionário enoquiano de gematria ou nossas próprias anotações de estudo podemos constatar por exemplo que 211 é também a correspondência para “Chamas Ardentes”. Uma relação curiosa para quem cai no engano de pensar em água como o elemento terreno, mas que descreve bem a personalidade deste Superior como sabem os exploradores.

Caso vocë queira se aventurar neste campo da magia enoquiana, saiba que este é trabalho para uma vida. Muito mais recompensador do que comprar e usar um dicionário pronto, é tomar conhecimento destas pesquisas feitas por outros ocultistas e começar a por si só fazer sua investigações. Comece calculando o valor dos nomes da Tábua da União e em seguida os Nome Santos e dos Reis das demais tábuas e siga dai… Estas são referências importantes que você vai usar muitas vezes.

Por Angellita Obelieniute

Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/gematria-enoquiana/

A Nova Aurora do Alquimista

Cambridge, 1936 : lord Rutherford, o maior físico experimental de seu tempo, que descobriu e realizou a transmutação dos elementos, dá os últimos retoques ao manuscrito que publicará no ano seguinte, nas edições da Universidade de Cambridge. É o cômputo geral de todas as suas descobertas. Dá o título: The Newer Alchemy (A Mais Recente Alquimia).

Marrakech, 1949 : na praça Djema el Fna, um velho árabe, usando turbante verde dos hadj, está atarefado perto do forno que aquece uma bola de vidro hermeticamente fechada. A seu lado, o professor Holmyard (Oxford) segue a experiência com atenção e respeito; por fim, diz:

— Mestre, agradeço por me deixar ver o que podia ser visto por um profano sobre a muito santa alquimia.

Paris, 1967: o editor Jean-Jacques Pauvert reimprime o Livre Muet de l’Alchimie (Mutus Liber). Na primeira página lê-se: “Primeira impressão integral da edição original de La Rochelle, 1677. Introdução e comentários por Eugène Cànseliet, F. C. H., discípulo de Fulcanelli”. Ontem, hoje, em todos os países, os homens não deixaram de estudar a alquimia. Mas que alquimia, e para quê?

Há quem veja na alquimia uma idéia ultrapassada, uma espécie de pré-química ingênua do tempo em que os conhecimentos eram raros e confusos. Essa foi a atitude do nacionalismo clássico no século 19. Pré-química ingênua? Seria mais ou menos tão exato como dizer que a Paixão de Cristo foi a primeira forma ingênua do Grand Guignol. Não. A alquimia é outra coisa. Uma grande coisa. Sem entrar em detalhes, ten-taremos esclarecer seu sentido, que é também seu objetivo.

Todos nós acreditamos saber o que é a matéria. Por toda parte ela nos envolve. Impõe-se a nós. Mas, que é matéria? O drama é que no mais das vezes os filósofos ignoram tudo sobre a ciência, e por muito tempo não viram na matéria senão uma coisa morta, sem propriedades suscetíveis de interessá-los. Enquanto isso, a ciência progredia a passos de gigante e depois do começo do século começou a descobrir os segredos — pelo menos alguns deles — da matéria. Teria sido necessário criar uma nova filosofia, mas isso não foi feito. Um homem — Lenine — teria podido realizar essa tarefa capital, se tivesse vivido mais tempo e não tivesse outras coisas para fazer.

Em Materialismo e Empiriocriticismo escreveu que a matéria era inesgotável e que nem uma eternidade de pesquisas científicas chegaria a revelar todos os segredos. As pesquisas atuais confirmam essa asserção. Fred Hoyle, em Frontières de 1’Astronomie, disse que a matéria é o domínio mais fascinante, mais milagroso, mais extraordinário sobre o qual o pensamento humano pode se exercitar. E que nossa medíocre vida terrestre é bem pouca coisa ao lado do que se passa na matéria universal, tanto no seio das es-trelas, nas regiões longínquas do cosmo, como no grande vazio que separa as estrelas das estrelas, as galáxias das galáxias e talvez as metagaláxias ou universos de outros universos.

Sim, teria chegado o tempo de conceber uma nova filosofia, materialismo verdadeiro ao lado do qual o materialismo ingênuo do século 19 seria apenas caricatura. Porque nós vemos — como escrevia o grande sábio e grande alquimista Isaac Newton — que até agora nada fizemos senão “apanhar algumas pedras na praia”. Para além, encontra-se um imenso oceano de saber.

Ora, esse oceano foi explorado e alguns homens traçaram o mapa dos continentes desconhecidos da ciência que aí se encontram. É esse saber, ao lado do qual nossa ciência é bem pouca coisa, que se chama alquimia.

De onde provêm esses conhecimentos? Não se sabe, e o adágio afirma: — “Aqueles que sabem não falam, aqueles que falam não sabem”. Darei simplesmente minha opinião nacionalista: a alquimia é o resíduo da ciência e da tecnologia pertencentes á uma civilização desaparecida. Não creio absoluta-mente em outras hipóteses: revelação divina, extraterrestre, que trouxe aos homens o fogo, o arco, o martelo, a alquimia etc.

Penso que a civilização desaparecida desencadeou forças fantásticas que perturbaram os continentes, derreteram os gelos e destruíram aquele mundo altamente evoluído. Traços de cultura teriam, contudo, subsistido por muito tempo, explicando certa permanência de conhecimentos até nossa própria civilização. Assim Newton certamente teve contato com os últimos mantenedores dos grandes segredos.

Newton foi o último mágico.

Este aspecto pouco conhecido de sua vida foi especialmente estudado pelo célebre economista e filósofo inglês John Maynard Kaynes, que escreveu:

“Newton não foi o primeiro nacionalista. Foi o último mágico, o último sobrevivente da época da Suméria e da Babilônia, o último grande espírito que olhou o mundo visível e invisível com os mesmos olhos que começaram a reunir nossa herança intelectual há pouco menos de 10 mil anos. Por que chamei-o mágico? Porque ele via o universo inteiro como um enigma, como um segredo que pode ser compreendido, aplicando o pensamento puro a certas provas. Ele pensava que os indícios que podem conduzir à solução do enigma estavam parcialmente no céu e na constituição dos elementos (por essa razão, ele é erroneamente tomado por experimentador cientifico), mas também em certos documentos e certas tradições que percorreram os tempos, sem interrupção, como uma corrente que nunca foi partida desde as primeiras revelações enigmáticas feitas na Babilônia”.

Depois de Newton, houve uma espécie de brecha no conhecimento. A orientação da pesquisa científica mudou e, em particular a partir dessa época, a idéia de que o conhecimento implica em perigo, como acreditavam fundamentalmente os alquimistas, foi completamente negligenciado.

Hoje retorna-se a essa atitude. Inúmeros sábios acreditam que a difusão de certos conhecimentos pode pôr em perigo toda a humanidade. Assim, no Science Journal, revista científica das mais influentes de nossa época, de dezembro de 1967, o editorialista Gordon Rattray Taylor cita uma carta do dr. E. Orowan :

“A grande maioria da população da Terra considera a ciência e a tecnologia como perigo mortal crescente para sua vida. Sentem-se impotentes, à mercê de uma minoria, como se, numa mesa de operações, estivessem entre as mãos, não de pessoas que curam, mas de irresponsáveis levados pela curiosidade ou o que é ainda pior — pelo desejo de prestígio e promoção … Seria bom os sábios entenderem que estão em vias de dançar sobre um depósito de pólvora”. E Gordon Rattray Taylor acrescenta : “A desculpa habitual dos sábios, segundo a qual ninguém é obrigado a aplicar as descobertas científicas senão o desejar, não é mais válida . . . Os sábios chocam-se a responsabilidades inquietantes, que deverão enfrentar cada vez mais”.

Vê-se, pois, reaparecerem no mundo científico contemporâneo as velhas idéias dos alquimistas: ciência e moral são associadas e o segredo é às vezes uma necessidade.

Mas, em seu tempo, como poderiam os alquimistas saber que a ciência podia conduzir à ruína? Não se sabe; contudo, a idéia desse perigo parece ter sempre sido de seu conhecimento. A alquimia é, em todo caso, muito antiga; já existia na China, 4 500 anos antes de Cristo. Célebre texto, muito mais recente deve datar mais ou menos do século 12 —, A Mesa de Esmeralda, retoma os grandes princípios dessa “ciência” merece ser citado por extenso:

“Ë verdade, sem mentira, certo e muito verdadeiro: o que está embaixo é como o que está em cima, e o que está em cima é comoque está embaixo, para realizar os milagres de uma só coisa.E assim como todas as coisas provieram e provêm do Um, assim todas as coisas nasceram da coisa única, por adaptação. O Sol é o pai, a Lua é a mãe, o vento a carregou em seu ventre, a Terra é a nutriz. O Thelema (telesma, perfeição) de todo o mundo está aí.Seu poder não tem limites sobre a Terra. Tu separarás a terra do fogo, o sutil do espesso, cuidadosamente, com grande habilidade. Ele sobe da terra para o céu, e torna a descer para a terra e reúne a força das coisas superiores e inferiores. Terás assim toda a glória do mundo, eis por que toda a obscuridade se afastará de ti : é a força forte de toda força, pois ela vencerá toda coisa sutil e penetrará toda coisa sólida. Assim o mundo foi criado.Eis a origem de admiráveis adaptações aqui indicadas. Foi assim que fui chamado Hermes Trismegista, possuindo as três partes da filosofia universal. O que eu disse da operação do Sol está completo”.

Este texto é importante, mesmo se à primeira vista parece obscuro, porque expõe a teoria da unidade cósmica, ao mesmo tempo que a “receita” da obra filosofal. O autor parece saber que as estrelas tiram sua energia da transmutação dos elementos. O que chama “operação do Sol” é a própria base da construção da bomba 3 F (fissãofusão-fissão), que ameaça destruir a humanidade hoje. Ora, se podemos realmente fabricar tais bombas por meios relativa-mente simples, é preferível que a “receita” permaneça secreta. Os alquimistas são desconfiados. Nossos sábios, enfim, encontram-se com eles nesse ponto.

Mas pode-se dizer que os alquimistas escreviam muito. É verdade: há milhares, centenas de milhares de livros de alquimia. É assim que se preservam os segredos? Na minha opinião, os livros de alquimia não contêm qualquer segredo diretamente transmissível. Formam apenas a “biblioteca do alquimista”, e aí uma iniciação seria inutilmente procurada. Quer dizer, esses livros não são úteis e compreensíveis senão àqueles que já conhecem a alquimia. Um exemplo esclarece a idéia. Quem quer que se ocupe atualmente de energia atomica aplicada possui em sua biblioteca o livro fundamental de John R. Lamarsh , Introduction to Nuclear Reactor Theory (Addison-Wesley Publishing Company Inc.). Mas o livro básico não pode ser compreendido senão por aqueles que já conhecem a matemática; foi feito para leitores especializados. Em nenhum lugar se apresenta como tratado, retomando os princípios básicos. Somente os atomistas podem tirar proveito. Assim também, somente os alquimistas podem compreender e utilizar os livros de alquimia.

É a pedra filosofal a alegoria da radioatividade?

Mas então como pode alguém tornar-se alquimista?

Como se chega a esse conhecimento? Como aí chegaram os alquimistas se não há livros de iniciação?

Aqui só posso emitir minha opinião pessoal. Não sou um iniciado, não faço parte de qualquer sociedade secreta, mas estudei a alquimia durante perto de 40 anos. Fiz alguns contatos, procedi a algumas experiências. No total, que sei?

Como já disse, minha convicção profunda é de que, antes de nós, em nosso planeta existia uma civilização muito adiantada, que desapareceu. Os mapas de Piri Reis são alguns dos últimos vestígios, a alquimia é um outro. Não temos senão indícios e algum pouco mais para nos guiar.

Essa civilização havia se elevado a nível muito alto e devia certamente possuir conhecimentos, sobre a estrutura da matéria, mais adiantados que os nossos. Essa é a opinião de Frederick Soddy, Prêmio Nobel, grande físico atómico, que descobriu os isótopos e lhes deu o nome. Em seu livro O Rádio, Interpretação e Ensinamento da Radioatividade, escreveu:

“É interessante refletir, por exemplo, sobre a notável lenda da pedra filosofal, uma das crenças mais antigas e universais; por mais longe que acompanhemos seus traços no passado, nunca encontraremos a verdadeira fonte. Atribui-se à pedra filosofal o poder não só de efetuar a transmutação dos me-tais, mas também de agir como elixir da vida. Ora, qualquer que seja a origem dessa associação de idéias aparentemente despida de qualquer sentido, ela se mostra, na realidade, como expressão muito correta e apenas alegórica de nossa atual maneira de ver. Não é necessário grande esforço de imaginação para se chegar a ver na energia a própria vida do universo físico: e hoje sabemos que é graças à transmutação que surgiram as primeiras fontes da vida física do universo.Não é, então, simples coincidência, esta antiga aproximação do poder de transmutação e o elixir da vida? Prefiro crer que seria antes um eco vindo de uma das inúmeras idades quando, nos tempos pré-históricos, antes de nós, os homens seguiram a mesma estrada por onde hoje caminhamos. Mas esse passado é provavelmente tão longínquo que os átomos seus contemporâneos tiveram tempo de desintegrar-se totalmente”.

Antigamente a ciência levou a imenso desastre E o grande sábio (com quem mais de uma vez falei sobre alquimia) prossegue: “Deixemos ainda um instante nossa imaginação vagar livremente por essas regiões ideais. Suponhamos que seja verdadeira essa hipótese que a nós se apresente por si própria, e que podemos confiar no tênue fundamento constituído pelas tradições e superstições transmitidas até nós através dos tempos pré-históricos. Não poderíamos neles ver justificativa para a crença de que homens de alguma raça extinta e esquecida alcançaram não só os conhecimentos recentemente por nós adquiridos, mas ainda capacidades que ainda não possuímos?”

Por meu lado, compartilho a opinião de Soddy, de que uma civilização muito evoluída existiu antes dos tempos históricos. Mas, que pode ter acontecido para que esse mundo desaparecesse sem nos deixar a totalidade de sua herança? Creio que em certo momento essa ciência levou a um imenso desastre. Deve ter havido um conflito, no qual foram utilizadas armas muito mais poderosas que nossas melhores bombas atômicas: armas cujo efeito fizeram deslizar os continentes, rasgando-os na face da Terra, deslocando os pólos magnéticos, modificando as cinturas de radiação que protegem do vento solar, suprimindo a camada de ozone que antepara os raios ultra-violeta, enfim, perturbando o campo gravitacional da Terra.

Todos os estudos atuais parecem com efeito mostrar que, em dado momento, produziram-se importantes modificações ou perturbações das leis naturais que conhecemos. É mesmo provável que até o fim do século 20 possamos datar a grande catástrofe com a margem de alguns ,mil anos. Provavelmente será colocada a uns 100 mil anos.

Por mais grave que tenha sido a catástrofe, por mais graves que fossem seus efeitos em todos os sentidos, alguns homens devem ter sobrevivido, que possuíam fragmentos do saber antigo: conhecimentos positivos, a idéia de que a ciência era perigosa, lendas também. O “pecado original” da religião cristã seria assim explicado.

Depois passaram dezenas de milhares de anos, as geleiras invadiram uma parte do mundo, depois, por sua vez, recuaram. As civilizações que conhecemos começaram a formar-se. Há 10 mil anos ainda existiam guardas do segredo, quer dizer, detentores da tradição. A alquimia na fonte, e desde então, não cessou de fazer sonhar os homens. São inúmeros os que tentaram reencontrar o grande segredo, que quiseram “fabricar o ouro”.

Mas a lenda apagou o famoso segredo. Muitas fábulas identificaram a alquimia com a fabricação do ouro, quando parece que os verdadeiros iniciados não faziam muito caso desse metal. Para eles, o ferro era muito mais importante. Entre os sábios que estudaram a questão, o historiador francês de origem romena, Mircea Eliade, foi um dos raros a notá-lo. Em seu livro Forgerons et A lchimistes chamou a atenção para a importância do ferro nas operações de alquimia. Contudo não sabia, na época em que escreveu, o que logo iria ser demonstrado pela astrofísica e pela química destes últimos anos: que o ferro é uma espécie de eixo à volta do qual gira o mundo.

O ferro, sabemos agora, é com efeito o único elemento do qual não se pode tirar qualquer energia: nem por fissão, nem por fusão. Em termos técnicos está no zero da ausência de massa. O que quer dizer que se pode obter energia dos elementos mais leves que ele, adicionando-os por fusão: assim funciona o Sol… ou a bomba de hidrogênio. E pode-se obter energia de ele-mentos mais pesados que o ferro, decompondo-o por fissão: é o caso da pilha de urânio ou da bomba A. Mas do próprio ferro, que é zero, nada se pode tirar. Ele está na origem da alavanca do universo. Um alquimista alemão escreveu: “Eisen trãgt das Geheiminis des Magnetismus und das Geheiminis des Blutes”. Quer dizer: “O ferro é portador do mistério do magnetismo e do mistério do sangue”.

O ferro é portador de um terceiro mistério, o da alquimia, e não é sem motivo que se fala da pirita de ferro na elaboração da pedra filosofal. Pode-se compreender o interesse que os alquimistas demonstravam pelo ferro, pelo cálculo cabalístico que há em Les Noces Chimiques (1616) : A = 1, L= 12, C=3, H = 8, I=9, M= 13, I = 9, A = 1, total = 56. Ora, 56 é precisamente o peso atômico do principal isótopo de ferro. Poderíamos objetar que o autor de Noces Chimiques devia provavelmente ignorar os pesos atômicos. Nem por isso deixa de ser uma coincidência bastante curiosa, que, se em lugar de indicar que a alquimia = o ferro, o autor tivesse desejado indicar que a alquimia = o ouro, ser-lhe-ia fácil encontrar no arsenal das metáforas de seu tempo uma imagem para fazê-lo compreender.

Mais curioso ainda é notar que o ferro é indiscutivelmente um elemento capital do universo. Qualquer livro de ciência elementar ensina que assim é: o ferro contém magnetismo, é um elemento essencial da hemoglobina, quer dizer, da vida, e constitui material básico do cosmo. É encontrado por toda parte. La Table d’Emeraude diz muito justamente: “O que está no alto é como o que está em-baixo”. Quer dizer, o universo não foi construído ao acaso, feito aos pedaços. É altamente organizado e obedece a leis que podem ser encontradas tanto no exame de uma gota de orvalho, de um grão de areia, como no corpo humano. Essa é a grande lição da alquimia. E isso os homens já sabiam há 10 mil anos, antes dos zigurates e das pirâmides.

Em todas as civilizações encontramos homens que conservaram vestígios do segredo. Mas, à medida que o tempo passou, o segredo diluiu-se, misturado de misticismo, associado a diversas religiões. Alguns sub-produtos foram, contudo, entregues aos homens: a porcelana, a pólvora, os ácidos, os gases. A eletricidade era conhecida no século 2 antes de Cristo, pelos alquimistas de Bagdá. Os da China produziram o alumínio no século 2 por método absolutamente desconhecido. E Newton pôde escrever em carta datada de 1676: “Existem outros segredos além da transmutação dos metais, e os grandes mestres são os únicos a compreendê-los”.

O grande público, como os príncipes, não se interessou senão por uma possibilidade: a dissociação da matéria em elementos muito pequenos que chamaremos partículas elementares, depois sua reconstituição para a fabricação do ouro. Essa operação de dissociação tem, na tradição, o nome de “preparação das trevas”. Foi ao estudá-la que, na China, descobriram a pólvora para canhão. Os livros asseguram, naturalmente, que a invenção deve-se a certo monge chamado Berthold Schwartz. Mas é um gracejo: schwartz quer dizer preto em alemão, e é certamente o símbolo da “preparação das trevas”. Preto também (ou azul-preto) é ainda a cor do gás eletrônico, estrutura quase imaterial que é a própria base dos metais e confere suas propriedades. Podemos observá-lo dissolvendo um metal no amoníaco líquido, a muito baixa temperatura. Vê-se a cor azul-preto que é comum a todos os metais, e qualquer um pode assistir hoje à “preparação das trevas”.

Em alquimia a fase seguinte consiste em juntar alguns grãos de ourio para se obter certa quantidade desse metal . A operação é chamada “sementeira”. Quanto ao catalisador que serviu para dissociar a matéria em subelementos, sabemos que os alquimistas chamam-no pedra filosofal. Pode ser obtido pela pirita de ferro, e já emiti a hipótese de que se tratava do elemento 310, de número atômico 136. A teoria dos números mágicos mostra que esse elemento deve ser estável.

Mas, à medida que se espalhava o boato de que era possível fabricar ouro à vontade, os príncipes deram caça aos alquimistas. Logo começaram a ser torturados e mortos. Barbárie das épocas recuadas, diriam. Não estou certo. O mundo vibra de novo pelo ouro. A libra foi desvalorizada, o dólar vascila, por toda parte as Bolsas vêem importantes negociações em torno do precioso metal. Se aparecesse um homem asseverando poder fabricar ouro, posso apostar que em breve encontrariam seu corpo em alguma floresta ou no fundo de um lago. Os interesses em jogo são por demais importantes.

Então, qual pode ser o destino do alquimista? Sob os governos atuais, como sob os faraós ou os imperadores da China, o alquimista é, foi, permanecerá, um homem só. Quer isto dizer que existem hoje (ou existiram) sociedades secretas de alquimia? Para responder à pergunta, precisamos lembrar em algumas palavras a história dos rosa+cruzes.Quando se fala nos rosa+cruzes, é preciso, para começar, citar suas origens. Com efeito, há dois séculos que se delira a esse respeito. Por meu lado, referir-me-ei ao livro de Arthur Edward Waite, The Brother-hood of the Rosy Cross, edição de 1966 (University Books, New York).

Waite, que morreu em 1940, publicou seu livro pela primeira vez em 1924. Cético feroz, atacou com bastante violência aqueles que se diziam representantes dos rosa-cruzes em sua época. Mas sua obra foi e continua apreciada pelos especialistas, graças à seriedade da informação e à fidelidade das referências. Cito-o por minha vez com a maior exatidão. Segundo Waite, nos séculos 16 e 17 houve um surgimento de avisos, panfletos e livros anunciando que detentores dos segredos dos alquimistas estavam prontos a admitir novos membros e a compartilhar de seus conhecimentos. Esses homens davam-se o nome de rosa+cruzes. Pretendiam vir de Damasco, de Fez e de “certa cidade oculta” (Waite, p. 37). Nada prova que esses indivíduos pertencessem a uma sociedade secreta, mas Waite salientou certos fatos perturbadores, mostrando que não eram simples escroques.

Esses desconhecidos demonstravam gran-de interesse por certas estrelas, principalmente pelas novas das constelações da Serpente e do Cisne (pp. 17, 42, 149). Na época, ninguém havia manifestado a idéia sacrílega (os astros eram tidos como eternos) de que as estrelas pudessem explodir. Certamente a nova da Serpente foi observada em 1604, e a do Cisne, em 1602, mas foi a ciência de hoje que, ao analisar tais explosões, descobriu as fontes de rádio no céu e os quásars. Ora, os rosa+cruzes sustentaram formalmente que essas estrelas novas eram uma das chaves da alquimia. Isto autoriza a pensar que possuíam conhecimentos mais avançados que os dos sábios oficiais de seu tempo.

Os rosa+cruzes pretendiam possuir dois instrumentos excepcionais (p. 261). O “cosmoloterentes” que permitia .destruir qualquer fortaleza com um só golpe, e a “astroniquita”, com a qual podiam ver as estrelas através das nuvens. Esses “instrumentos” são hoje nossos conhecidos. O primeiro é o explosivo nuclear; o segundo, um aparelho que utiliza a luz polarizada, como a pedra mágica dos vikings. Como os rosa+cruzes possuíam esses conhecimentos?

Os rosa+cruzes haviam construído uma miniatura da Terra, reproduzindo com exatidão todos os movimentos do nosso globo (p. 135). Isto não era inteiramente novo: fragmento de mecanismo .semelhante foi encontrado em uma ânfora do século 2, ao largo da ilha Anticitara, e o professor Dereck J. Solla Price, que o reconstituiu, escreveu no Scientific American que a perfeição da invenção era espantosa e abalava as nossas idéias sobre as tecnologias do passado. Mas tanto no século 2 como nos séculos 17 e 18, de onde provinha o conhecimento dos rosa+cruzes sobre os movimentos da Terra?

A 28 de maio de 1776, os rosa+cruzes fizeram uma demonstração de transmutação da água por efeito de radiação. Para isso utilizaram água que cristalizou a temperatura ordinária, formando cristais semelhantes a flores, que emitiam luz insustentável. Como esse alótropo do gelo pôde ser obtido?

No final somos levados a pensar que o saber dos rosa+cruzes vinha do passado. . . uma vez que não podia vir do futuro. Que saber era esse? Seus possuidores sempre afirmaram que o essencial de tais conheci-mentos residia na alquimia, uma alquimia tomada, bem entendido, no sentido lato, da qual a transmutação dos metais não era senão um aspecto:

Nos séculos 16 e 17 parece ter havido o renascimento desse antigo saber. As lendas sobre os rosa-cruzes dizem que possuíram até lâmpadas de luz fria que ficavam acesas sem interrupção, e registros mecânicos da música e da voz humana. Estes últimos pontos são, contudo, contestados, notadamente por Waite. Segundo um manifesto de 1623, Instruction à la France sur la Vérité de l’Histoire des Frères de la Rose-Croix (Instrução à França Sobre a Verdade da História dos Irmãos da Rosa-Cruz), esse ressurgimento visava ao recrutamento: queriam aumentar o número de iniciados. Depois veio de novo o silêncio, com uma exceção: sempre segundo Waite, no século 18 entraram em contato com Leibniz, que teve que passar por um exame e foi nomeado secretário de um grupo de estudos ocultos, em Nuremberg. Fontenelle conta o fato em Eloges des Académiciens.

Enfim, é preciso atribuir aos rosa+cruzes o impulso que permitiu criar duas companhias muito importantes: a Sociedade Real de Ciências, da Inglaterra. . . e a franco-maçonaria. Mas afastamo-nos do assunto.Ainda mais importante — pelo menos para a história da alquimia — parece ter sido a publicação em 1677 do Livre Muet de l’Alchimie, espécie de estenograma ou tábua de logaritmos para uso daqueles que realizaram a grande obra da alquimia. A obra estava assinada Altus, pseudônimo que não foi desvendado. E. Canseliet, no prefácio que acaba de dar à reedição do livro, aproxima o autor a Joseph Duchene, que desde 1609 compreendeu que havia azoto no nitrato pois, afirmava,
“Há um espírito no sal de pedra que é da natureza do ar e que, contudo, não pode manter a chama, sendo-lhe antes contrária”.

O misterioso Altus, representando Duchêne ou outros sábios desconhecidos, foi, de qualquer maneira, violentamente atacado pelos racionalistas da época. O Journal des Savants, da segunda-feira, 26 de agosto de 1677, menciona nestes termos a publicação do Mutus Liber:”O autor da obra é um desses homens que cavam a quimera para precipitar-se na indigência. Teimando na descoberta da pedra filosofal, possuem ciência bastante para se arruinar, e não bastante, como é preciso, para ver os limites do espírito humano que jamais atingirá a transmutação dos metais”. Contudo, para os alquimistas modernos o Mutus Liber continua precioso. Como todos os outros livros que tratam da grande obra, este não é um conjunto de receitas. É apenas um conjunto de sinais destinados àqueles que já sabem. Esses sinais foram, aliás, espalhados por toda parte pelos alquimistas, principalmente nas catedrais. Hoje continuam a escrever secretamente, um pouco por toda parte. Eis por que, nos anos 20, Pierre Dujols, o famoso livreiro especializa-do em ciências ocultas, podia afirmar: “Os reis reinam, mas não governam, segundo célebre aforismo. E parece, às vezes, que há ainda nos bastidores alguma eminência cinzenta que puxa os cordéis. As famosas águas-furtadas do templo talvez não este-jam destruídas como se supõe. E poderia ser escrito um livro surpreendente sobre a filigrana das notas de dinheiro e das siglas das moedas”. Quer dizer, nossa sociedade, como a do passado e como a natureza toda, é uma vasta mensagem que pode ser decifrada.

O Mutus Liber é uma arte dessa mensagem, uma espécie de memorando para os inicia-dos de ontem e de amanhã. O aviso ao leitor, que o precede, afirma claramente: “E também o mais belo livro jamais impresso sobre o assunto, pelo que dizem os sábios, contendo coisas que nunca foram ditas por ninguém. E preciso ser verdadeiro filho da arte para conhecê-lo. Aí está, caro leitor, aquilo que acreditei dever dizer-lhe”.

O livro não é inteligível por completo senão para os filhos da arte, assim como os dia-gr amas de circuitos de um aparelho de televisão só são compreensíveis às pessoas familiarizadas com eletrônica. Quer dizer que ninguém jamais escreverá um livro sobre alquimia ao alcance do comum dos mortais? No prefácio do Mutus Liber, Canseliet responde desta forma:

“Pediram-me muitas vezes e continuam pedindo para escrever um livro elementar que exponha simples e claramente em que consiste a alquimia.Não desejaria ser descortês, mas parece que muitos dos que nos fazem o pedido não leram os livros de Fulcanelli, Deux Logis Alchimiques, Les Douze Clés de la Philosophie e, recentemente, o nosso Alchimie, que ainda pode ser interrogado sobre a natureza, os meios e o fim da antiga ciência de Hermes. E preciso compenetrar-se plenamente, e não esquecermos jamais que a alquimia é, antes de tudo, a disciplina esotérica por excelência, que exige, por base, um estado de alma e de consciência onde o desapego seja igual ao constante desejo de amar e de conhecer. Amoroso da ciência! É a expressão familiar muitas vezes utilizada pelos mais antigos autores e que designa da mesma forma o filósofo, o alquimista e especialmente o artista”.
Canseliet esclarece aqui esta profunda e terrível verdade: a manipulação da matéria pela alquimia, resíduo de uma civilização mais adiantada que a nossa, distingue-se de nossas ciências e técnicas, da mesma maneira que a arte se distingue da decoração mecânica feita por meio de moldes. Há a mesma diferença entre a alquimia e nossa ciência atual, que entre a Gioconda e um papel pintado. . . E por isso que não se deve esperar ver um dia a alquimia industrializada. Não seria possível. Não seria útil.

Historicamente vê-se que os alquimistas entregam ao público, de vez em quando, algumas parcelas de seu saber, ajudando o progresso científico e técnico. A próxima parcela, que nos será assim atirada como alimento, penso que será a manipulação da matéria: não mais a simples transmutação (agora conhecemos o segredo), mas a receita de substâncias novas que não constam de nenhuma tábua periódica dos elementos.

Partindo do ferro, sabemos que Fulcanelli havia obtido metaelementos que não cor-respondiam a nada conhecido pelos químicos. Nossos sábios agora fabricam alguns desses metaelementos: o positrônio, os átomos muônicos etc. São, infelizmente, corpos instáveis, de vida muito curta. Alguns gramas de metaelemento estável fariam progredir nossa ciência de um século. No dia apropriado, tenho certeza, um alquimista nos fará essa revelação.

Enquanto esperamos, não poderíamos pelo menos fabricar ouro? Já dissemos o quanto seria perigoso, impossível mesmo, através das vias da alquimia promovidas à categoria de técnica industrial. Uma operação de alquimia, por definição, não é reproduzível. É uma obra de arte e um pintor não pode pintar duas vezes o mesmo quadro.

Mas àqueles que conservam a paixão pelo ouro, posso assinar a técnica descoberta já há 30 anos, por André Helbronner e eu próprio ( Jacques Bergier ). Podemos seguramente fabricar ouro, partindo do boro e do tungstênio.

A reação é escrita: 5 B 11 + 74 W 186 = 79 Au 197.

Estou persuadido de que, com a técnica moderna do plasma, esse método poderia ser industrializado e o ouro seria produzido por aproximadamente 60% de seu preço de custo ordinário. Seriam necessários, evidentemente, meios consideráveis para montar uma indústria, mas um governo poderia tomar essa iniciativa. Os Estados Unidos, talvez, se seu problema de reservas metálicas se agravasse. . .

Mas tudo isso não passa de alquimia, e a lição que ela nos dá hoje ainda é de outra natureza. Há mais e melhor a fazer do que ouro. Neste mundo cruel, onde a morte ronda a todos, resta ao homem encontrar as fontes da vida. A atitude da alquimia é sempre um exemplo. Ela pode ser um guia, tornar-se uma esperança.

Dia virá, talvez, em que os homens chegarão à plena consciência da alquimia, quer dizer, não apenas a uma ciência, mas a uma ética. Sempre que se pretendeu separar esses dois fatores do progresso humano, a humanidade caminhou com um pé só. Lindos pulos, às vezes, mas também escorregões!

Sim, um dia, talvez. . . A humanidade fará sem dúvida a grande mutação predita por Stapledon ou Teilhard de Chardin. Então a alquimia progredirá a descoberto. Terá conseguido sua última vitória.

 

Extraido de um texto de Jacques Bergier – 1974


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[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-nova-aurora-do-alquimista/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-nova-aurora-do-alquimista/

Arcano 7 – Chet – Carro

Dois cavalos arrastam uma espécie de caixa, montada sobre duas rodas e coberta por um dossel, onde se encontra um homem coroado, que traz um cetro em sua mão direita. Na parte frontal do carro (a única visível), em boa parte dos tarôs clássicos, há um escudo com duas letras, que variam com as editoras das lâminas.

Mais do que de cavalos, poderíamos falar de dois corpos dianteiros, fundidos ao carro. Os dois animais olham para a esquerda, mas a sua disposição é tal que parecem andar cada um para o seu lado. O cavalo da esquerda levanta a pata direita, e o da direita, a pata esquerda. O dossel repousa sobre quatro colunas.

O homem, que tem uma coroa do tipo das de marquês, tem a mão esquerda sobre um cinto amarelo, na altura da cintura, e na mão direita traz um cetro que termina por um ornamento esférico encimado por um cone. O peito do personagem está coberto por uma couraça. Cada um dos seus ombros está protegido por uma meia-lua, com rostos de expressão diferente.

Os cabelos do personagem são amarelos, e seu olhar dirige-se ligeiramente para a esquerda, no mesmo sentido que o de seus cavalos.

Cinco plantas brotam do solo. Não aparecem rédeas ou qualquer outro meio de guiar o carro.

Significados simbólicos

Contemplação ativa, repouso. Vitória, triunfo.

O setenário sagrado, a realeza, o sacerdócio.

Magistério. Superioridade. Realização.

Interpretações usuais na cartomancias

Êxito legítimo, avanço merecido. Talento, dons, capacidade, aptidões postas em marcha. Tato para governar, diplomacia, direção competente.

Conciliação dos antagonismos, condução de forças divergentes. Progresso, mobilidade, viagens por terra.

Mental: As coisas se realizam, mas falta ainda montar as peças de conjunto.

Emocional: Afeto manifestado; protetor, serviçal.

Físico: Grande atividade, rapidez nas ações. Boa saúde, força, atividade intensa. Do ponto de vista do dinheiro: gastos ou ganhos, movimento de fundos.

Significa também notícia inesperada, conquista. Pode ser interpretado também como difusão da obra ou atividades do consulente através de palavras e, segundo sua localização na tiragem, significa elogios ou calúnias.

Sentido negativo: Ambições injustificadas, vanglória, megalomania. Falta de talento e de consideração. Governo ilegítimo, situação usurpada, ditadura. Oportunismo perigoso. Preocupações, cansaço, atividade febril e sem repouso. Perda de controle.

História e iconografia

O desfile dos heróis triunfantes de pé sobre seus carros de guerra é um costume pelo menos tão antigo quanto os próprios carros de guerra. Court de Gébelin – e com ele os que acreditam numa origem egípcia do Tarô – imagina que o Arcano VII nada mais é que a reapresentação do Osíris triunfal, e que os cavalos são uma herança vulgar da Esfinge.

Mais coerente, contudo, é relacioná-lo às apoteoses lendárias que comoveram a Idade Média, época em que se localiza sua iconografia.

Pode também lembrar um conto do ciclo mítico de Alexandre, o Grande, amplamente reproduzido desde a Antiguidade até o Renascimento.

Levado até o Oriente pela sucessão de seus triunfos, Alexandre teria chegado até o fim do mundo. Quis então saber se era verdade que a Terra e o Céu se tocavam num ponto comum. Para isto seduziu com ardis – é preciso recordar que a astúcia é também prerrogativa dos heróis – dois pássaros gigantes que existiam na região; prendeu-os e acomodou entre eles uma cesta.

Com uma lança na mão, em cujo extremo havia atravessado um pedaço de carne de cavalo, o conquistador subiu ao seu carro improvisado. Com a promessa de comida que oscilava ante seus olhos, os Grifos começaram a mover-se e alçaram vôo. Os heróis não podem, contudo, sobrepor-se aos deuses: na metade do caminho Alexandre recebeu um emissário dos deuses, um enfurecido Homem Pássaro que insistiu para que ele desistisse de seu projeto. Muito a contragosto, Alexandre aceitou a censura e atirou a lança para a Terra, para onde desceram os Grifos, impacientes e vorazes.

Essa lenda, nascida certamente no Oriente, foi introduzida na Europa no fim do século II. Estendeu-se em seguida por todo o Ocidente cristão e era conhecida desde a baixa Idade Média. Numerosas ilustrações e várias esculturas que a representam chegaram até nós. A Crônica Mundial, de Rudolph von Ems (século XIII) a reproduz em uma detalhada miniatura; em São Marcos de Veneza está o relevo talvez mais significativo para rastrear as fontes inspiradoras do Arcano VII: a cesta de Alexandre é ali uma caixa semelhante à de O Carro; aparecem também as rodas esboçadas.

Durante a Idade Média, a arte dos imagiers parece ter-se servido desta lenda como uma alegoria do orgulho.

Por sua amplitude simbólica e pela beleza da sua composição, O Carro figura entre os arcanos de maior prestígio do Tarô. É, também, um dos que oferecem maiores lacunas de interpretação.

Relacionado em princípio com Zain (sétima letra do alfabeto hebreu, que corresponde ao nosso Z), denuncia uma mobilidade e inquietude que tem a ver com todo deslocamento ou ação ziguezagueante, veloz.

Há autores que relacionam as rodas do Carro aos torvelinhos de fogo da visão de Ezequiel.

Quando se traduz a lâmina pela palavra carro – protótipo dos sistemas de troca – representa o que é móvel, transferível, interpretável. Nesse caso, seu aspecto oracular é associado às mudanças provocadas pela palavra: elogios, calúnias, difusão da obra, boas ou más notícias; e, por extensão, aos sistemas de intercâmbio em geral (economian movimento de fundos).

Aponta-se aqui a questão das relações entre esta mobilidade e o dinamismo mercurial do Prestidigitador, já que esses arcanos se encontram no início e no fechamento do primeiro setenário do Tarô.

Talvez esta analogia possa ser levada mais longe, e não parece impossível que a figura toda seja uma ilustração desta passagem bíblica. Em Ezequiel (I, 4-28), com efeito, aparecem não só as rodas, o carro e os animais, mas também “sobre o trono, no alto, uma figura semelhante a um homem que se erguia sobre ele. E o que dele aparecia, da cintura para cima, era como o fulgor de um metal resplandecente”, o que é uma descrição bastante aproximada do personagem do Arcano VII. Nessa mesma passagem podem-se encontrar também analogias válidas para o simbolismo geral do Arcano XXI (O Mundo).

Há quem veja ainda, nos animais presos, uma anfisbena (serpente de duas cabeças), ou poderes antagônicos que é necessário subjugar para prosseguir – “como no caduceu se equilibram as duas serpentes contrárias”. O veículo representaria o simbolismo do Antimônio (ou a Alma Intelectual dos alquimistas), mencionado como Currus Triumphalis num tratado de Basílio Valentin (Amsterdã, 1671).

A totalidade do arcano sugere, para Wirth, a idéia do corpo sutil da alma, graças ao qual o espírito pode se manifestar no campo do material. Esta idéia de um halo ou dupla transubstancial que não pode ser relacionada a nenhum dos três aspectos do homem (corpo –> alma –> espírito), mas que tende a relacioná-los entre si, gozou de um vasto prestígio esotérico: é o corpo sideral de Paracelso (ou astral, na linguagem teosófica), como também o “corpo aromático”, de Fourier, ou o Kama rupa do budismo soteriológico.

Finalmente, permanece em aberto a explicação para as letras inscritas no escudo: S e M (no Tarô da editora Grimaud). Alguns supõem que se referem a Sua Majestade; outros, que falam dos dois princípios alquímicos, Sulfur e Mercurius). Não é este o único ponto obscuro do arcano que Éliphas Lévy chamou “o mais belo e mais completo de todos que compõem a chave do Tarô”.

Por Constantino K. Riemma
http://www.clubedotaro.com.br/

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/arcano-7-chet-carro

Anatomia do Corpo de Deus – Introdução

Por Frater Achad.

Em 14 de abril, tendo acabado de terminar o manuscrito do meu tratado sobre O Renascimento Egípcio ou o Filho Prometido, no qual meu esforço foi demonstrar que A Ordem Restabelecida dos Caminhos da Árvore da Vida Cabalística estava provavelmente correta, pois indicando a tradição universal simbolizada pelas chaves de Hermes, fui recompensado pela descoberta de uma possibilidade surpreendente no que diz respeito ao desenho da Árvore da Vida.

Foi entre 8h30 e 9h30 na noite da mesma data, quando a árvore começou a crescer e provou ser a verdadeira anatomia de Ra- Hoor- Khuit, o Prometido, entre os dois Infinitos.

Esta nova revelação me deixou estranhamente silenciosa; parecia maravilhosa demais para ser verdade, mas provou ser – como estou escrevendo estes dias depois – uma possibilidade ainda maior, a mais extraordinária de todas revelada a mim naquela noite, depois de discutir o assunto com W.R.

Por enquanto não pretendo escrever sobre a descoberta em si, apenas preparar um pequeno ensaio sobre a cabala usando uma luz mais esclarecedora que eu mesmo acabo de receber. Isto servirá como uma introdução à explicação mais completa de todo o assunto que, a fim de torná-lo mais compreensível para meus leitores, exigirá uma série de diagramas mostrando os diferentes níveis de seu desenvolvimento.

Comecemos pelo início. Como foi dito na Cabala, os Cabalistas postularam AIN ou NOTHING (NADA) como o Zero do qual, de uma forma misteriosa, o Universo surgiu. Em seguida, de acordo com eles, AIN SUPH, ou Espaço Ilimitado, tornou-se a natureza de AIN, e esta concepção foi seguida por AIN SUPH AUR ou a Luz Ilimitada do Caos.

Foi somente quando a luz sem limites foi concentrada em um centro que surgiu a Primeira Ideia Positiva, que se chamou Kether e foi atribuída ao número um.

A partir desta surgiu sucessivamente as outras emanações numéricas ou Sephiroth de duas a dez, e assim a escala decimal de números foi completada. Diz-se que o número dez representa o retorno de um a zero e assim completa o ciclo de manifestação.

Estas ideias podem ser encontradas descritas com mais detalhes na Cabala e em outros escritos, mas eu gostaria de adotar uma abordagem um pouco diferente, que será desenvolvida com mais detalhes mais adiante neste livro.

A mente limitada do homem não pode compreender o infinito exceto de uma certa maneira mística e espiritual, mas, através da Luz do Espírito, faremos nosso melhor para compreender este grande mistério da Origem.

Aceitemos o termo AIN como representando aquilo que nada é conhecido, nem pode ser conhecido, exceto através das manifestações positivas que dele derivam. Quando tentamos imaginar AIN SUPH – espaço limitado – nossa mente tende a acelerar, e apenas recuar na profundidade da grande profundidade; no entanto, temos que admitir a possibilidade da extensão infinita do espaço. Em minha opinião, isto se deve ao fato de que só somos capazes de estender a substância material fina da mente até um certo limite, depois de alcançarmos o nada para nós mesmos, a menos que consigamos desenvolver o poder de impulsionar ainda mais nossa limitação e assim estender a substância real de nosso ser.

Se a vida é a substância da luz, então a vida tem que ser considerada como a substância mais sutil em nossa composição; e daí se concluiria que quanto mais a substância se estender, maior será a iluminação, mais distante será nosso campo de visão, e mais ampla será nossa esfera de consciência.

Com estas ideias em mente, vamos tentar obter uma compreensão mais completa do processo primordial, que ainda está acontecendo aqui e agora.

Quando o AIN SUPH AUR se concentrou em um único elemento, ele reduziu a luz à substância da luz, que é a vida. Em outras palavras, a luz concentrada tornou-se uma força ou energia de poder inconcebível no centro de Kether. Este ser puro, ou esta substância viva, devido a sua reação a partir do centro invisível, tende a se estender até o infinito. Isto nos dá uma ideia da substância sempre em expansão do universo, ocupando cada vez mais o espaço ilimitado do AIN SUPH, enquanto o impulso primordial centralizador ainda continua a se apertar sobre o Infinitamente Pequeno, ou o AIN.

Kether, então, é a junção entre esses dois infinitos, mas em particular representa a concentração de luz em um ponto em seu caminho para o infinitamente pequeno, enquanto Malkuth, a décima Sephira e a Esfera dos Elementos – que os Cabalistas dizem ser uma só com Kether – é a substância que está em contínua expansão e, por assim dizer, preenchendo gradualmente o nada de AIN SUPH. Assim, devemos considerar Kether como a luz e Malkuth como a substância, enquanto toda a esfera é composta de substância viva. Isto representa o universo macrocósmico, mas está até se tornando cada vez maior, e recuando, por assim dizer, para o vazio do caos.

O homem, feito à imagem e semelhança de Deus e do universo, tem as mesmas infinitas possibilidades de crescer em consciência, pois a força do espírito estende a substância de sua mente para campos cada vez mais amplos de pensamento.

O universo inteiro, entretanto, é o resultado do pensamento de Deus, e progride de acordo com a ordem pura da razão, como indicado na Cabala.

Todos as Sephiroth e os Caminhos têm seu lugar, de acordo com esta ordem, dentro da esfera da substância, e representam múltiplas possibilidades de ação da força vital sobre a substância e as várias manifestações de substância sob a influência da força vital.

Em outras palavras, sem o universo manifestado está o corpo infinito de Nuit; no centro de tudo está o Infinitamente Pequeno e a essência da vida não-expandida, ou Hadit. A contração e expansão do Hadit em Nuit são forças constantes. O universo finito, ou Ra-Hoor-Khuit, O Filho Prometido, é delimitado pela circunferência sempre crescente que fica exatamente entre o Infinitamente Grande e o Infinitamente Pequeno.

Kether e Malkuth juntos – espírito e matéria – representam esta esfera universal, enquanto Tiphereth, a esfera central da árvore da vida, deve sempre corresponder a Ra-Hoor-Khuit dentro deles; uma esfera a meio caminho entre o centro e a circunferência.

Na natureza podemos considerar as representações finitas desses dois infinitos como o menor átomo da matéria conhecido como centro, o Universo Estelar mais expandido como circunferência, e o Sol Central como criança.

No homem encontramos estas possibilidades, infinitas e finitas. O verdadeiro centro de seu ser é Hadit, cujo representante é a pequena centelha da Pura Luz Espiritual; a substância de seu corpo mental é limitada apenas pelos limites do universo, e estes nunca recuam ao infinito. Seu corpo físico é, entretanto, bastante pequeno, enquanto seu coração, que regula a vida daquele corpo, é, em um sentido místico, capaz de compreender a luz em extensão do sol de seu ser, que é sua alma.

O homem é assim composto de corpo, alma e espírito, e a alma é o mediador entre o espírito e a matéria.

O universo é composto por Malkuth e Kether, com Tiphereth como mediador entre eles, enquanto, ainda num sentido mais amplo, Nuit e Hadit, os dois infinitos, juntamente com o universo manifesto da vida de Ra-Hoor-Khuit, podem ser considerados como seus filhos, a criança coroada e senhor do Aeon.

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Fonte:

Introduction.

Anatomy of the Body of God, by Frater Achad.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/anatomia-do-corpo-de-deus-introducao/

Philip K. Dick e Gnosticismo

Por Larissa Douglass, Oxford University

A Scanner Darkly, recente filme baseado na sombria visão de futuro de Philip K. Dick, aborda a discrepância entre a experiênciasubjetiva ou pessoal e a experiência objetiva. Esta última forma de experiência seria fornecida por meio de câmeras que observam processos.
Essa discrepância é uma característica de uma série de histórias e romances de Philip K. Dick, jogando com a noção de que os meios que utilizamos para aprimorar a compreensão da realidade também podem minar e obscurecê-la. Essa confusa realidade subjetiva é, então, associada a um exterior, uma perspectiva objetiva (por meio de scanners: um espelho, uma câmera ou outro meio de vigilância ou dispositivo de gravação) que relaciona-se com a “verdadeira” realidade. O choque resultante aguarda o espectador quando é revelada a discrepância existente entre a narrativa do protagonista e a que aparentemente é a real. O uso de câmeras como um “terceiro olho” tem sido cada vez mais empregado em filmes recentes para revelar uma desconexão entre a percepção dramática dos personagens e acontecimentos reais. Em última análise, que a perspectiva objetiva deve ser colocada em dúvida.

Philip K. Dick, autor

Embora a narrativa subjetiva de Scanner Darkly e em outro romance, The Three Stigmata of Palmer Eldricht, tenha origem no vício por drogas, em outras histórias Dick oferece cifras alternadas num jogo simultâneo de expansão e distorção da percepção. Quando apressentadas em conflito com uma narrativa objetiva, força a consciência humana a níveis cada vez mais altos de vigília do espaço e tempo. Por exemplo, Dick utilizou:

• Robôs em Do Androids Dream of Eletric Sheep? (que deu origem ao filme Blade Runner) para comparar a relatividade humana sobre o “real” e “falsos” seres humanos;
• Colonização de outros planetas, isolamento e doença terminal na história “Chains of Air, Web of Aether”;
• Precognição confundida com autismo ou esquizofrenia em “Martian Time-Slip e a história “A World of Talent”;
• Sono criogênico de humanos em máquinas sencientes e espaçonaves em “Divine Invasion” e na estória “I Hope I Shall Arrive Soon”.

Gnosticismo

Não importa o expediente utilizado, essas estórias, especialmente a última de Philip K. Dick, “Valis”, inspiram-se em no moderno renascimento da antiga heresia cristã do Gnosticismo. Ela pode ser definida mais simplesmente pela Catholic Encyclopedia como “a doutrina da salvação através do conhecimento”. A única verdadeira religião gnóstica que sobreviveu diretamente da Antiguidade tardia é a seita Mandean no Iraque (ou madianitas Mandaeism). Mais ligações tênues são rastreadas na Idade Média, Renascimento e na história do Iluminismo. Um sentido de continuidade histórica foi reforçada pela descoberta arqueológica do século em torno de 1945 de cerca de quatro textos gnósticos em Nag-Hammadi, no Egito.

Com esse pano de fundo, o moderno gnosticismo popular refere-se,a grosso modo, as idéias que incluem:

• Alienação espiritual no mundo material
• Um conhecimento especial, “gnosis”, que pode despertar os seres humanos do estado atual, a falta de consciência semelhante ao sono;
• Uma separação entre os aspectos divinos da existência espiritual e a realidade material, caracterizado por qualidades femininas e masculinas;
• E uma hierarquia de expansão do entendimento através desse conhecimento especial, que pode finalmente curar a cisão entre divindades masculinas e femininas.

Literatura Comparada e Lingüística

Da obra de Dick se originou um mix de novelas, pulp fiction, música popular, vídeo games, animação e filmes cujas referências baseiam-se em muitas idéias gnósticas. Os filmes mais conhecidos incluem a trilogia de Matrix, Dark City (Cidade das Sombras), Vanilla Sky e eXinsteZ e novelas que incluem O Código Da Vinci de Dan Brown. Autores como Umberto Eco e Jorge Luis Borges trouxeram este tema para as fronteiras da literatura comparada e lingüística.
Gnosticismo (Variantes modernas)

Tais exemplos contemporâneos têm raízes culturais no século XIX e no fin-de-siècle, com os aficionados mais notáveis como o psicólogo Carl Jung e o ocultista Aleister Crowley. Crowley se refere ao Gnosticismo, Alquimia, Maçonaria e Cabala para formar suas teorias ocultas, que por sua vez influenciaram L. Ron Hubbard, o fundador da Igreja da Cientologia. Mais provocativo, o cientista político Eric Voegelin, em sua obra “Science, Politics and Gnosticism” (1958), sugeriu que as ideologias do comunismo e do nazismo eram gnósticas, com efeito, heresias cristãs. O escritor Tobias Churton alegou que as idéias gnósticas foram sendo reveladas no campo da física quântica. E com focos sobre o “real” e o “artificial”, e os do sexo masculino e feminino, o gnosticismo pode ter uma influência sobre as teorias pós-modernas e feministas. Assim, o gnosticismo demonstra ser uma gama sincrética de “espiritismo”, Nova Era “,de teorias de conspiração e investigação séria. Tais idéias manifestando-se em tantos campos diferentes sugere que a era moderna tem testemunhado um ressurgimento dessa heresia na cultura ocidental e política.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/popmagic/philip-k-dick-e-gonosticismo/

BDSM e Magia Sexual

Em um curto espaço de tempo, os flagelantes da Peste Negra, terrível epidemia que varreu a Europa entre os anos de 1347 e 1350, transformaram-se de exemplo de temor a Deus a pervertidos morais. Só os membros da realeza e do clero, encontravam abrigo em castelos, palácios ou residências nas montanhas.

Onde a epidemia raramente chegava; aqueles homens misteriosos, munidos apenas de túnicas e capuzes negros, e seus inseparáveis chicotes, despertavam admiração e respeito, mas também a imaginação libidinosa das recatadas senhoras nas cidades e vilarejos por onde passavam. Da noite para o dia, o clero ( principalmente o alemão ) começou a enxergar um significado paralelo, nas andanças daqueles homens e do tipo de reação que causavam naqueles que presenciavam suas auto-flagelações em praça pública.

“Não há nada de santo nesse ato, apenas uma cruel perversão sensual que choca e oprime a imaginação destes pobres desesperados com a Peste; que vêem nestes homens, exemplos inócuos a serem seguidos.” disse historicamente Helmut Schaff, um frade alemão responsável por monitorar e vigiar os deslocamentos dos flagelantes no norte e noroeste do país. Logo surgiriam as denúncias.

Como os flagelantes viviam da caridade daqueles que davam alimento e abrigo entre um canto e outro, não faltavam línguas venenosas, especialmente de vizinhas vingativas (algo que se repetiria na caçada às bruxas ) – nas paróquias, furtivamente estas senhoras de respeito, vinham confessar seus pecados antes de entregar a alma a Deus via Peste Negra, mas também aproveitavam a ocasião para denunciar as rivais.

Testemunhos como estes podem ser encontrados em atas religiosas da Idade Média: “Um flagelante passou a noite abrigado na casa de V… acordei de madrugada ouvindo gritos e barulho de chicotadas. Vi pela janela que o flagelante era chicoteado por V… e depois copulavam. Tudo acompanhado por preces, cânticos e incensos do Diabo ( o que quer que isso possa significar ).”

Friederich von Spee, autor de Cautio Criminalis, o livro que denunciava os crimes dos inquisidores alemães, deu seu depoimento sobre o caso:

“Pura covardia. Sem precedentes na história do cristianismo. Basta que apareça algo que coloque em risco a pretensa autoridade espiritual do alto clero, e logo surge algo para minar as legítimas demonstrações de fé dos homens não consagrados pela Igreja.”

A epidemia arrefeceu e com ela o número de flagelantes; mas a identidade sadomasoquista; semeava as origens que dariam os frutos proibidos nas palavras de Sade e Masoch. Von Spee poderia ter razão quanto as calúnias provocadas pelo clero contra a maioria dos flagelantes, mas não poderia ignorar jamais, a atmosfera sensual, alimentada por eles. Durante as procissões, as mulheres eram ampla maioria na “platéia”. Elas fantasiavam com aquelas cenas: num ambiente onde quase sempre eram dominadas, maltratadas, submissas e sofredoras – a relação fé, espiritualidade, sensualidade e blasfêmia, travavam uma batalha inglória nas mentes e nos corações que esperavam a chegada da morte a qualquer minuto.

Basta lembrar que durante o pico da epidemia, o clero perdeu qualquer autoridade espiritual sobre os fiéis, os mais diversos tabus sexuais eram quebrados sem nenhuma cerimônia. Portanto, castigá-los e depois consolá-los com carícias mais íntimas e acolhedoras era algo extremamente excitante para aquelas mulheres; como atesta este relato atribuído a esposa de um Barão de Marselha; que fazia parte da compilação de material erótico relacionado ao período da Peste na França, de propriedade de Rétif de la Bretonne, inimigo número um do Marquês de Sade, de quem fez uma bem sucedida paródia de Justine e os Infortúnios da Virtude:

Eis o relato:

“A noite escura, mais escura das noites. Esta noite é a noite deles. Quão adorável é este homem. Com sua face crua e lisa, protegida pelo negro capuz. Por que escondê-lo ? Protegê-la das minhas mãos ? Minhas carícias ? Talvez uma pequena punição. Para tu ou para mim (…) Confesse menino ! Venha confessar seus pecados para mim ! Te darei alimento, proteção e o que mais precisar (…)” O texto é atribuído a esposa de um rico barão francês da cidade de Marselha.

Lamentavelmente, Bretonne morreu enquanto preparava aquela que certamente seria mais uma das tacadas de mestre que ajudariam a pôr ainda mais lenha no forno do governo e do clero francês.  Da Idade Média e Renascimento para cá, pouca coisa mudou. Fingimos vivenciar a liberação sexual que se manifestou nas décadas de 20 e 30, principalmente na Europa e na década de 60 nos Estados Unidos. Nestes períodos, surgiram os Spankin’ Clubs. Um deles funcionava adjacente a Igreja de Satã na Califórnia.

Locais freqüentados por satanistas que também faziam uso das práticas sadomasoquistas mescladas a práticas de magia sexual, embora elas ainda não fizessem parte de termos litúrgicos. Foi em locais como este que gente como Zeena Galatea LaVey, que adotou o sobrenome do marido Nikolas Schreck após romper com o pai, ajudaram a desenvolver as práticas BDSM misturadas com rituais satanistas e ocultistas em geral.

ENTREVISTA COM ZEENA SCHRECK

COMO VOCÊ ENCAROU O BLOQUEIO DO SITE ?

(Antigo WWW.SADELICIOUS.ORG, voltado para práticas sadomasoquistas mescladas com magia sexual.)

Como mais um ato covarde do fundamentalismo cristão americano. Eles são piores que os muçulmanos. Se pudessem, e temo que um dia poderão, pois trabalham incessantemente para isso, vão decepar os clitóris das mulheres americanas para que não sintam prazer. Eu nunca estive tão horrorizada na minha vida.

O SITE NÃO ERA ABERTO AO PÚBLICO, SÓ SE TINHA ACESSO MEDIANTE A UMA SENHA. QUANTOS ASSOCIADOS VOCÊS TINHAM ? QUANTOS DELES ERAM MEMBROS DA WEREWOLF ORDER ?

Não era um site para curiosos. Era necessário um convite formal. Era para pessoas interessadas em desenvolver sua espiritualidade com o auxílio de atividades BDSM. Tínhamos 17 mil acessos diários onde as pessoas trocavam experiências, davam seus depoimentos. Eu nunca fui membro do site mas apresentava aos membros da Werewolf a idéia para aqueles interessados em integrarem-se ao que eu chamo de “Left Hand Path Sex.” Todos os vídeos alí eram reais, experiências sadomasoquistas mediadas por um sacerdote satanista do Templo de Set.

VOCÊ CONCORDA QUE A MULHER PODE TER MELHORES RESULTADOS VIA BDSM DO QUE O HOMEM ? DESENVOLVER EXPERIÊNCIAS MAIS ENRIQUECEDORES ?

Acho que a mulher consegue ver além da prática do sexo em relações sadomasoquistas. Não resta dúvida que o limiar entre prazer e dor, amor e espiritualidade caminham de mãos dadas. Para os homens, especialmente no início das práticas, eles têm enormes dificuldades em se concentrar em questões espirituais, desperdiçam força e energia. Mas quando superam essa barreira, tornam-se grandes mestres, como o sadomasoquismo exige. É imperiosa a necessidade de alertar que a prática de BDSM mesclada a rituais satanistas, despendem uma grande quantidade de energia que se não for bem aproveitada, pode acarretar sérios danos tanto a pessoa submissa quanto aquele que submete. É uma forma de magia como qualquer outra.

A ALGOLAGNIA É A PRÁTICA DE SE TRANSFORMAR DOR EM PRAZER SEXUAL. COMO SE DÁ A TRANSFORMAÇÃO DO PRAZER SEXUAL EM  ENERGIA ESPIRITUAL ?

Pegamos o exemplo dos flagelantes: não há como duvidar que a experiência deles difundia uma experiência transcendental mediante a punição do corpo. O que é o uso do cilício pela Opus Dei senão uma experiência mágico-sexual ? Uma forma de extrair energia e libertar e concentrar energia ? Eu já vi muitos depoimentos de ex-membros da Opus Dei que afirmam liberar energia sexual pelo uso do cilício. A diferença é que ela não era reaproveitada por eles, diferente de nós que reutilizamos essa energia na forma de ritos e feitiços.

DÊ NOS UM EXEMPLO INICIAL. PARA AQUELES QUE DESEJAM PRATICAR O BDSM MEDIANTE AS PRÁTICAS SATANISTAS.

Não é necessário ser um satanista para praticar. É simples. Para começar você deve escolher: você inicialmente quer desenvolver uma relação espiritual ou física ? Suas necessidades mais urgentes no momento concernem à alma ou ao seu corpo ? Se é uma questão espiritual ? Opte pela submissão. Comece pela sua presença numa Missa Negra com seu altar particular, só então tome parte em rituais adjuntos ao BDSM. Se a operação é voltada para o lado físico e material, assuma a posição dominante.


O BRANDING TÊM LUGAR NAS MISSAS NEGRAS BDSM ?

É tudo uma questão de escolha. Boa parte dos membros do Templo de Set passaram pela experiência do Branding em práticas de sodomia principalmente; mas creio que só seja indicado para pessoas já acostumadas com práticas sadomasoquistas. Mas não tenho nenhuma dúvida que seja das práticas mais corajosas e que se assemelham as Satanistas. Embora eu já tenha dito que a maioria dos praticantes de BDSM não sejam Satanistas. Temos Wiccans, Pagãos tradicionais, até mesmo Cristãos.


PARTICIPEI DE ALGUMAS MISSAS NEGRAS BDSM E FIQUEI IMPRESSIONADO COM A NATURALIDADE COM QUE ELAS FLUEM. PARECEM TER SIDO INVENTADAS HÁ MILÊNIOS. O QUÊ VOCÊ ACHA ?

Elas foram criadas com os flagelantes da peste negra. Mediante o medo da morte, as pessoas se libertavam por meio da sexualidade reprimida. Se ainda hoje somos reprimidos sexualmente, imagine naquela época. Eu acho maravilhosa a transformação do prazer sexual em força espiritual. É como se eu tivesse caminhado por dias debaixo de um sol impiedoso e subitamente encontrasse uma cachoeira de águas cristalinas na qual eu pudesse me refrescar. Não é uma boa analogia eu sei ( risos ) mas é o melhor que encontrei no momento ( gargalhadas gerais )


O KAMA SUTRA E O TANTRISMO TERIAM LUGAR NAS MISSAS BDSM ?

Sim sempre. Os caminhos do ocultismo são muito ecléticos.


QUANTAS PESSOAS EM MÉDIA PARTICIPAM DAS MISSAS NEGRAS BDSM ?

Isso depende do número de seguidores de um culto. A liturgia é basicamente a mesma, com a única diferença da inserção de práticas SM nos rituais. O mais comum é a prática restrita a casais. E também é mais indicado para os iniciantes. Dando início a dois, no próprio lar, até se acostumar com as práticas.

EXISTEM PESSOAS QUE BUSCAM SIMPLESMENTE A ORGIA PURA NAS PRÁTICAS ASSOCIADAS ENTRE BDSM E MISSAS NEGRAS ?

Sim e não vejo nada de errado nisso. É uma forma de se libertar. Mas se a pessoa passa a não se interessar pelo lado mágico da história, fica bastante complicado prosseguir. A idéia de juntar as práticas do sadomasoquismo com a magia negra sexual, têm por objetivo principal confrontar as forças do ser humano. Por exemplo: quando você se encontra numa posição submissa, você é capaz de identificar e reconhecer a energia que você está dispersando. É possível capturá-la, analisá-la, saber se ela serve ou não para algum propósito mágico. Nesse caso é importante ter um dominante que te ajude a pressurizar essa energia.

VOCÊ LEU OS CONTOS ERÓTICOS DO RÉTIF BRETONNE SOBRE OS FLAGELANTES DA PESTE NEGRA?

Muitas vezes. Excitação a todo vapor. Tive muitos orgasmos naquelas páginas abençoadas. (risos)

VOCÊ JÁ LANÇOU FEITIÇOS ENQUANTO PRATICAVA OS RITUAIS DE BDSM ?

Claro. Essa é a idéia. Faço isso o tempo todo. Você têm nestes momentos toda a concentração de energia mental necessária para criar e lançar feitiços, sejam eles de amor ou ódio. Também é possível capturar energia de seu parceiro e usá-la em seus feitiços. Isso deve ser feito de comum acordo. Mas pode-se roubar energia sexual por meio de um parceiro de quem você queira se vingar por exemplo. O sexo pode e deve ser usado como plataforma de lançamento de feitiços ou maldições, é quando sua energia está mais crua e forte, apta a ser capturada.


ÍNCUBOS E SÚCUBOS SEXUAIS EXISTEM OU SÃO APENAS METÁFORAS ? QUAL A APLICAÇÃO DELES NO BDSM ?

É muito subjetivo. Incubos e Sucubos são termos criados pela igreja católica como forma de categorizar a sexualidade humana. No BDSM, Incubos e Súcubos têm aplicações semelhantes ao do Dominate e do Subsmisso. O importante na prática sexual mesclada as missas negras ou rituais de magia, é entender que o uso do BDSM é altamente recomendado quando têm-se a intenção de fornecer ou receber a maior quantidade possível de energia sexual para ser empregada em rituais de magia. Pode-se facilmente resumir as práticas de BDSM e magia a isso: transformação de energia sexual em feitiços de magia, seja ela negra ou branca.

Texto Paulie Hollefeld

 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/bdsm-e-magia-sexual/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/bdsm-e-magia-sexual/

Curso de Projeciologia – Viagem Astral

Este curso é promovido pela Fundação Cultural e Educacional Aun Weor, instituição de utilidade pública sem fins lucrativos cuja finalidade é levar à sociedade conhecimentos há muito esquecidos e que, só agora, recentemente, têm voltado ao panorama mundial.

Ainda que o homem tenha construído máquinas voadoras, foguetes para leva-lo ao espaço, computadores e uma medicina capaz de até mesmo transplantar corações, paradoxalmente podemos observar a multiplicação dos sofrimentos humanos causados pelas doenças, pela violência e pela quebra dos princípios básicos sociais e morais.

Dessa forma fez-se necessário trazer à luz conhecimentos ancestrais, outrora herméticos, mas que, devido à condição humana, precisam ser colocados a fim de mostrar ao homem que a resposta para todos seus dramas, sejam eles quais forem, tem origem em um só ponto, ou seja, nos afastamos de nós mesmos para procurar a felicidade externamente, onde nunca poderemos encontrá-la.

Por isso elaboramos um curso que visa levar as pessoas a se projetarem para fora de seu corpo material, já que nesta condição cada um poderá por si mesmo entender melhor a situação atual do homem e seu estado de evolução.

Com empenho e dedicação, o estudante poderá travar contato com outra realidade, acendendo em seu interior uma ansiedade de caráter espiritual que o impulsionará na busca de novos (ou antigos) valores.

Além de cursos rápidos a FUNDASAW oferece cursos de longa duração, visando ao estudo e aprofundamento nas doutrinas esotéricas através do conhecimento teórico e, principalmente, prático em tudo aquilo que é ensinado, pois somente a experiência direta das realidades supra-sensiveis pode nos livrar das terríveis dúvidas que assolam nossa mente.

Seja bem-vindo e esperamos que este Curso lhe seja bastante proveitoso.

Daniel Ruffini

INTRODUÇÃO

As viagens fora do corpo têm sido uma constante na história da humanidade. Muitos homens do saber as têm descrito conforme seus campos de experiência, e outros, por uma razão qualquer, a ignoraram completamente. Aqueles empenhados em desenvolver um estudo científico e acadêmico ortodoxo fecharam seus olhos para não se incomodarem com assuntos impalpáveis e quase impossíveis de serem medidos através de aparelhos; por outro lado, um novo ramo da ciência moderna, ainda precariamente estabelecido e intitulado Parapsicologia, catalogou as experiências fora do corpo dentro da vastíssima gama de fenômenos paranormais como Projeciologia; muitas linhas psiquiátricas e psicológicas, sem terem onde encaixar estes estados de consciência inexplicáveis para seus estudos acadêmicos, simplesmente a definiram como distúrbios psíquicos ou alucinações. Finalmente, os místicos e religiosos de todas as doutrinas e religiões do mundo nos relatam serem tais experiências uma ponte entre o divino e o eterno.

Afinal, onde devemos nos enquadrar para podermos ter maior compreensão desses estudos?

A resposta para essa pergunta é simples de ser dada, mas, ao mesmo tempo, extremamente complexa de ser obtida, haja vista a demanda de tempo e de esforços que cada pessoa terá que dispor para chegar à resposta por si mesma, e não através de opiniões emitidas por pessoas que nem sequer tiveram a bem-aventurança de ver com outros olhos e ouvir com outros ouvidos (metafísicos). Oral! Não devemos seguir nenhuma das direções isoladamente, mas sim empreendê-las holisticamente, ou seja, integralmente. Sem dúvida não será um trabalho fácil, mas o risco de dogmatismo, em qualquer área, também será afastado. Por isso faz-se necessário conhecermos todas as visões: a psicológica, a cientifica, a paracientifica, a mística e a religiosa, pois todas elas, isoladamente, são apenas fragmentos da verdade; no entanto, numa visão superior do conjunto, complementam-se umas às outras em suas limitações e impropriedades.

Sabemos que os primeiros passos serão confusos, pois muitas informações se chocarão umas com as outras, mas será deste caos que haverá de nascer a compreensão das realidades que constatam a multiplicidade dimensional presente em todo o universo.

Não podemos trilhar por você os caminhos capazes de o levarem à vivência de outra realidade além desta já conhecida, mas podemos lhe indicar para onde deve caminhar e até mesmo como deve fazê-lo; a caminhada, por si mesma, ficará por sua conta. Ainda que devamos buscar a compreensão deste conhecimento através do holismo, conforme citamos, somos obrigados a afirmar que, ainda sim, para iniciarmos este labor, precisamos ter em mãos algo prático, real, o qual nos será a prova da existência de possibilidades múltiplas em nosso interior.

Por isso, somos enfáticos em afirmar a necessidade de vivenciarmos diretamente a realidade de estar “acordado” do outro lado, pelo menos num primeiro estágio, para então, mais adiante, ocupar-nos de desenvolver completamente o sentido integral, o qual nos levará ao nosso completo autodomínio nas diferentes dimensões descobertas.

Vivenciar, expandir e dominar são três estágios diferentes para o iniciante. Neste curso tratamos apenas de possibilitar as primeiras vivências, dando-lhe pequenas pinceladas possíveis de serem expandidas, caso você se eleve até elas. Já o terceiro estágio não pode lhe ser oferecido por ninguém, a não ser por você a si mesmo.

Por último, de todo o abordado neste curso, aquilo que realmente terá validade será a parte prática. É ilusão e auto-engano perder seu tempo apenas virando páginas e decorando frases, ou mesmo ouvindo atentamente as palavras do instrutor. Sem dúvida é importante o conhecimento teórico das possibilidades a serem encontradas, mesmo porque é o caminho holistico que nos interessa, mas é somente a prática com afinco que ativará os centros responsáveis em tirar da letargia seus potenciais mais interiores. Enfim, somente as práticas constantes poderão lhe proporcionar as experiências fora do corpo.

O HOMEM METAFÍSICO

Matéria é energia em estado condensado e energia é matéria em estado radiante. Deste postulado podemos deduzir o universo em suas inumeráveis formas, do macrocosmo ao microcosmo, como variações do estado vibracional da matéria. O homem (microcosmo) não será diferente. Tal qual as ondas sonoras, luminosas e demais ondas ultra-sensíveis (energias variando em seu estado de radiação), o homem também é formado de diferentes categorias de energias, cada qual ocupando uma determinada gama que o alimenta e serve de meio de expressão. Assim sendo, os alimentos sólidos pertencem à matéria cuja gama vibracional é densa e serve para preservar o corpo físico e suas funções biológicas. Todavia, existem outros “alimentos energéticos” tão ou até mais importantes que os tradicionalmente conhecidos, logicamente servindo para nutrir outros corpos conforme o grau vibracional correspondente.

Logo, as emoções e os pensamentos também são matéria, só que radiantes, cuja função é alimentar, como falamos, outros corpos: o emocional e o mental. O corpo emocional (corpo astral) e o corpo mental não possuem o designativo corpo por acaso. Eles realmente têm a forma de nossa parte física, variando em perfeição dependendo do nível evolutivo de cada um, e podem ser usados como veículos para deslocarmos nossa consciência desperta, tal como fazemos quando esta consciência está sendo transportada pelo corpo físico, tendo o cérebro como instrumento de manifestação neste mundo de três dimensões.

Quando falamos em experiências fora do corpo estamos a nos referir à possibilidade de projeção da consciência através desses dois veículos, o emocional e o mental. Além desses dois existem outros veículos altamente refinados chamados de Causal, Búdico e Átmico, impossíveis de serem acessados pelas pessoas comuns.

Se colocarmos numa linguagem mais simples, podemos afirmar, ainda que de forma grosseira estarem todos esses corpos dentro da conhecida separação do homem em corpo (parte física), Alma (emocional e mental) e Espírito (Causal, Búdico e Átmico).

Não podemos deixar de citar a existência do que muitos chamam de corpo vital, etérico ou energético. Na verdade não é propriamente um corpo, pois permeia a matéria física, conduzindo as energias mais básicas para alimentar a vida orgânica e vegetativa, usando para isso cerca de 72.000 canais energéticos (etéricos) chamados de nadis. Hoje em dia, o que muitos chamam de AURA não passa da parte visível do corpo etéreo.

AS DIMENSÕES DA NATUREZA

Cada veículo de manifestação da consciência está vinculado a urna diferente dimensão. Como sabemos, a ciência cada vez mais admite a existência de universos paralelos presentes em todos os lugares ao mesmo tempo, ocupando espaços em mundos diferentes, sem interferência aparente sobre o homem. Por exemplo: você que agora está lendo esta frase está situado num determinado lugar (não importa qual), num determinado momento de tempo (não importa quando), onde existem, simultaneamente, diversas camadas de energia se interpenetrando. Essas energias são as diferentes dimensões da natureza, os diferentes planos existentes, aos quais somente podemos ter acesso (por enquanto) através de percepções ultra-sensoriais e desdobramentos da consciência nos respectivos planos. No ambiente em que você se encontra, mesmo que não possa ver, há uma infinidade de ondas energéticas diferentes (ondas de televisão, de rádio, raios cósmicos, etc.), ou seja, podemos traçar paralelos com as diferentes dimensões, elas estão lá (ou aqui), à espera de serem sintonizadas e captadas, e o que é melhor, o receptor é você, basta ajustar-se adequadamente.

O mesmo principio serve para os corpos sutis do homem: estão aqui e agora, só não os captamos com clareza devido a nossa pobreza de percepções. Somos capazes apenas de perceber aquilo que nos oferecem nossos sentidos, muitas vezes degenerados. As percepções já entram no campo da metafísica, e é neste campo que estamos interessados.

Dessa forma, habitamos com nossa parte física o mundo das três dimensões, o piano físico. Ao mesmo tempo coexistem em nós, apenas recebendo as percepções mais grosseiras, o corpo emocional numa dimensão superior e o corpo mental numa outra ainda mais refinada. Lembramos que a palavra superior refere-se á dimensão cuja vibração é mais sutil que outra, não querendo dizer com isso que uma está sobre a outra, como camadas de terra ou areia. Todas estão presentes aqui e agora.

O processo de projetar-se conscientemente para fora do corpo nos coloca diretamente em contato com as diferentes dimensões, ou seja, se nos projetamos com o corpo emocional estaremos tendo acesso à quarta dimensão; com o corpo mental teremos acesso à quinta dimensão.

A projeção com cada corpo dependerá do desenvolvimento do estudante, por isso é mais comum a projeção com o corpo emocional e, partindo do domínio deste, poderemos acessar a projeção com o corpo mais sutil e mais difícil, o mental.

VEÍCULOS DE DESDOBRAMENTO ASTRAL

Cada corpo é um veículo para a manifestação da consciência. Os corpos, nos planos correspondentes, possuem forma idêntica ao corpo físico. Entretanto, essas formas podem variar muito, desaparecendo inclusive a aparência semelhante ao físico, para dar lugar a uma luz opaca e sem vida nos casos de pessoas de baixa evolução espiritual, ou formas brilhantes e bastantes luminosos nos casos de pessoas evoluídas interiormente.

Por serem exatamente aquilo que temos cultivado para nós em vida, esses corpos refletem o estado interior de cada ser humano. As pessoas acostumadas a se alimentarem” de emoções inferiores e pensamentos distorcidos, dificilmente terão corpos suficientemente capazes de servir de veículo para a consciência, pois estes já estão deveras desvirtuados e não servirão para tal fim. Assim é fácil de entender o porquê da dificuldade existente em conseguir a projeção para fora do corpo.

Cada veículo absorve energias afins a sua gama de variação: o emocional se “alimenta” de emoções e o mental de pensamentos. Logo, o cultivo das emoções e pensamentos superiores será de fundamental importância para o êxito da projeção. As pessoas simples do campo, as pessoas que levam uma vida contemplativa ou que ainda não foram intoxicadas pelas impressões deturpadas pelos meios de comunicação e pelos preconceitos sociais e morais, geralmente têm maior facilidade em projetar-se, pois suas emoções e pensamentos mantêm-se puros e espontâneos.

Aqui chamamos a atenção do estudante realmente interessado. Há necessidade de aprofundamento em todos os setores necessários para o crescimento espiritual, diríamos melhor, há necessidade de uma verdadeira regeneração nas formas de pensar, sentir e agir. Como falamos no inicio, se não houver um desenvolvimento holístico do ser, tão logo comece seu aprendizado você ficará estagnado pelos primeiros obstáculos a serem encontrados. Quando falamos em regeneração, falamos em autoconhecimento, somente isto basta para que as portas em sua jornada sejam abertas.

PORTAS DIMENSIONAIS

Os chakras são as verdadeiras portas dimensionais que podem nos conduzir a outros universos. Esses centros ou vórtices de energias quando estimulados ou desenvolvidos em alto grau, alteram toda vibração atômica do corpo, projetando nossa consciência desperta através de outros veículos mais sutis. Por isso podemos afirmar que as portas para outras dimensões se abrem, onde quer que estejamos.

Mesmo que não possamos nos projetar para o “outro lado” por algum motivo, fazendo uso das faculdades extrafisicas podemos ver, ouvir e sentir coisas que estão além de nossos cinco sentidos.

Os chakras são em número de sete e estão distribuídos ao longo da espinha dorsal. Estão baseadas sobre órgãos muito importantes, quase todas glândulas endócrinas (secreções interna) do organismo: o chakra superior, situado no topo da cabeça, tem seu fundamento na glândula pineal ou epífase; o frontal fica no entrecenho sobre a glândula pituitária ou hipófise; o da garganta está ligado às glândulas tireóide e paratireóides; o do coração não fica exatamente sobre uma glândula, mas tem seu fundamento no coração e na timo; o chakra do plexo solar (umbigo) está vinculado ao fígado e ao baço principalmente; o chakra prostático fica na próstata no homem e no útero na mulher; por último o chakra fundamental baseado nas glândulas sexuais (testículos e ovários).

Nesses estudos precisaremos trabalhar com os chakras através de práticas especiais, principalmente com alguns deles, como veremos na parte prática do Curso.

É importante citar que os chakras tão comumente conhecidos na literatura esotérica estão relacionados somente ao corpo etérico ou energético. No entanto, cada corpo ou veículo superior possui seus chakras correspondentes. Se ainda formos mais longe podemos afirmar ser cada átomo ou molécula de nosso corpo um pequenino chakra ou vórtice de energia.

CORDÃO DE PRATA OU ANTAKARANA

Quando há a projeção para fora do corpo denso em outra dimensão, continua existindo um elo entre a consciência projetada num corpo mais sutil e seu veículo físico. Esse elo é conhecido corno cordão de prata ou cordão de ouro.

Como estamos abordando a projeção em dois veículos diferentes, geralmente usa-se o nome cordão de prata para o primeiro (emocional) e cordão de ouro para o segundo (mental).

Este fio de vida somente será rompido no momento da morte, e isso nunca ocorrerá devido á projeção. Ao mesmo tempo, este elo serve de proteção ao corpo físico abandonado momentaneamente, para não ocorrer o que muitas pessoas acreditam ser possível: a tomada do corpo físico por outras entidades quando não estamos de posse dele.

Cada cordão está ligado ao seu corpo pelo chakra correspondente, isto é, saindo do corpo denso temos o cordão de prata pelo plexo solar e o cordão de ouro pelo topo superior da cabeça, ambos conectados á parte de trás da cabeça nos veículos mais sutis.

Na verdade cada cordão é parte integrante do próprio veículo, desprendendo-se e sendo alongado no momento da projeção. Quando do retorno dos corpos eles são reabsorvidos normalmente.

Não é tão comum tomarmos contato com esses cordões e, inclusive, é possível nos projetarmos durante anos sem ao menos vê-los, já que nas experiências fora do corpo raramente iremos nos preocupar com eles. Eles estão lá e cumprem sua finalidade, isso é o que importa: conduzem do corpo fisico-etérico parte da energia necessária para ficarmos acordados “do outro lado”, e trazem, das dimensões onde a consciência se encontra desdobrada, as energias mais sutis e espirituais para engrandecer e sublimar o veiculo mais denso.

OS SONHOS

Devemos dar ênfase ao estudo dos sonhos. Muitas linhas psicológicas baseadas nas idéias de seus precursores, principalmente direcionados pelos estudos de um dos maiores psicólogos modernos (C.G. Jung), já fazem uso constante da análise dos sonhos. Sem exceções, todas as religiões do mundo, sejam elas primitivas ou não, sempre foram enfáticas ao afirmarem que o sonho reintegra o homem (micro) ao Cosmos (macro).

Tal qual somos hoje, o sonho nos proporciona um mergulho às memórias ancestrais e arquetípicas que cada homem, povo, raça ou humanidade traz dentro de si. O sonho nos leva ao inconsciente, e é no inconsciente que encontraremos as respostas para solucionarmos os grandes problemas e obstáculos que nós mesmos, via de regra inconscientemente, criamos.

Se não somos melhores do que somos hoje, se não somos felizes, se não conseguimos materializar nossos planos devido a nossas próprias fraquezas ou, aparentemente, devido às fraquezas e obstáculos do mundo e das pessoas que nos cercam, é porque não conhecemos nossos potenciais psíquicos mais profundos; é porque a origem de nossas ansiedades, traumas e bloqueios ficou perdida no passado imemorial, seja na infância inconsciente ou seja num passado mais distante ainda que se perde na esteira do tempo…

Por isso devemos, num primeiro passo, mergulhar em nós mesmos através dos sonhos. Posteriormente, as experiências conscientes fora do corpo nos proporcionarão meios mais eficazes e profundos, algo palpável para expandirmos aquilo que demos inicio através de nossos sonhos.

Não há uma só pessoa que não sonhe toda noite; aliás, é comum termos vários sonhos durante o período de sono. O problema é não nos lembrarmos deles, e isso ocorre por falta de preparo e exercício ou, o que é pior, por falta de interesse. No passado foram construídos grandes e belos templos para onde os reis e sacerdotes, governantes dos maiores impérios da humanidade, dirigia-se a fim de sonharem e, através de seus sonhos, liderarem povos e nações para as conquistas sociais e políticas que os aguardavam. Esperavam eles as indicações que sempre lhes vinham através dos sonhos, haja vista a ponte que os ligava à divindade. O homem se embruteceu e se materializou, perdeu-se nas maravilhas da tecnologia e começou a procurar fora de si as respostas para seu sofrimento. Assim afastou-se de Deus. Logo, é hora de recultivarmos a semente original da humanidade. Sem perdermos a visão do futuro, podemos reconquistar a sabedoria do passado.

OS TIPOS DE SONHOS

Desde o momento que nos deitamos para dormir, até levantarmos para o novo dia, o sono se passa em diversas fases. Primeiramente passamos pelo estado de transição da vigília para o sono leve; logo após entramos no sono profundo que pode ser interrompido algumas vezes; por último passamos do estado de sono profundo para o sono leve e entramos novamente no estado de vigília.

O sonho, genericamente falando, não passa de projeção para fora do corpo denso, onde nossa consciência usa os veículos ou corpos num profundo sono hipnótico. Logicamente existem outros tipos de sonhos variando até mesmo conforme o estágio do sono indicado linhas atrás, Vamos dividi-los em 03 (três):

1. O sonho de número 1 é o sonho leve. Não houve o desdobramento da consciência propriamente dito. O veículo astral ainda está em coincidência com o veículo físico. Este tipo caracteriza o estágio vigília-sono, sono leve e sono-vigília.

Ainda que não seja projeção, este estado é deveras importante, pois é o limiar ou a porta entre os mundos. Ora vemos imagens existentes do outro lado, ora percebemos as nossas projeções mentais provenientes dos reflexos passados. Aprender a distinguir essas imagens será de muita utilidade, já que, como nos sonhos, nelas encontraremos valiosos subsídios simbólicos.

2. No segundo caso o sonho é característico da projeção inconsciente, ou seja, estando fora do corpo o projetor se perde nas imagens externalizadas pela sua própria mente, ou as confunde completamente com os locais e seres existentes na dimensão onde se encontra. O homem já entrou no estágio de sono profundo e não sabe o que ocorre, bem como das possibilidades inerentes a si mesmo.

A maioria da humanidade experimenta diariamente esse estado de inconsciência. Pode-se tirar grande proveito das coisas que se passam. O passado, o presente e o futuro se unem completamente. Muitas mensagens nos são passadas. Se soubermos decodificar a linguagem simbólica contida nessas mensagens e imagens, teremos grande material de estudo e uma ótima oportunidade de começar a compreender melhor nossa própria vida.

3. O último tipo de sonho é ainda mais profundo que o segundo e também está ligado ao mesmo estágio de sono anterior. Nesses casos a pessoa começa a se fazer consciente de si mesma. Faz perguntas como essas: Onde estou? O que está acontecendo? Será isto realidade ou fantasia? Será que estou sonhando?

Quando entramos nesse estágio estamos a um passo de “despertarmos” nossa consciência numa dimensão superior. Muitos segredos nos podem ser revelados nessas condições, por isso devemos estar atentos aos acontecimentos ocorridos durante essa experiência. E difícil, mas não raro, encontrarmos pessoas que vivem esta situação.

Os sonhos, em verdade, são como válvulas de escape para nossa personalidade. Durante o dia vivemos muitas situações onde nosso desejo animal (depositado nas regiões inferiores do inconsciente) se vê aflorado. As máscaras que formam a personalidade impedem que eles dominem completamente nossos pensamentos e nossa parte motora. E, quando isso não ocorre, aparecem os casos de homicídio, estupro, etc. Todavia, ao dormirmos, nossas máscaras caem completamente e passamos a ser conduzidos pelo inconsciente. Somos projetados em outras dimensões e ali externalizamos e revivemos o produto mórbido de nossos desejos, já que nessas regiões a lei e a moral humana não imperam, e sim a verdadeira lei espiritual se faz presente.

Por conseguinte, acabamos por nos ver cometendo os atos mais absurdos, aqueles que acreditávamos (ou não queríamos aceitar) sermos incapazes de fazer. Por isso os sonhos nos mostrarão o que realmente somos, sem máscaras, mentiras e ilusões. Logo, aquelas pessoas que juram fidelidade ao seu cônjuge, se vêem adulterando constantemente. Aquelas que se dizem passivas e amorosas, se vêem matando e odiando como nunca imaginaram ou aceitaram.

Recomendamos aos estudantes o hábito de anotarem diariamente seus sonhos. Primeiramente isso forçará o trabalho com a memória onírica um tanto “enferrujada”. Posteriormente, o aluno terá, depois de certo tempo, vasto material de auto-estudo.

Para lembrarmos dos sonhos com mais facilidade existem algumas dicas importantes, as quais servem também para o desdobramento consciente propriamente dito:

a) Nunca devemos dormir de estômago cheio. A última refeição deve ser feita com 3 horas de antecedência. A fome antes de dormir também deve ser evitada, e se for este o caso, devemos ingerir alimentação bem leve.

b)Tanto o frio como o calor são prejudiciais. A temperatura deve estar agradável. O ambiente limpo e arejado. Faça um relaxamento antes de dormir, nada deve apertá-lo ou incomodá-lo.

c) Devemos despertar lentamente e nunca bruscamente. Ao se acordar é importante mantermos total imobilidade e permanecermos de olhos fechados. Relembraremos todos os sonhos possíveis, recriando-os mentalmente até fixa-los. Levantaremos de forma lenta e escreveremos tudo que nos lembrarmos. Não deixe nada para depois, você pode esquecê-los.

d) Se o problema é a falta de memória onírica, recomendamos, além das seqüências ‘a”, “b” e principalmente “c”, o mantra RAOM – GAOM? que é feito da seguinte maneira: RRRRAAAA0000MMMM GGGGAAAA0000MMMM mentalmente junto com o exercício “c”. Um desjejum com frutas ácidas e amêndoas moídas misturadas com mel de abelha possui propriedades que facilitam a lembrança dos sonhos.

AS LINGUAGENS E FORMAS DE SE TRANSMITIR E RECEBER O ENSINAMENTO

Existem, a saber, três linguagens ou formas diferentes para transmitir e receber conhecimentos.

A primeira delas é a linguagem comumente usada em nosso mundo regido pelos princípios Newtonianos ou mecânicos, ou seja, a didática.

Através da didática trocamos experiências e levamos informações através dos meios de comunicações para todo globo. A didática é o meio racional e lógico expresso pela linearidade da mente humana para passar todos os tipos de conhecimentos básicos. Para isso, acaba por abranger diversos setores de nossa sociedade e é aplicada desde os ensinos da pré-escola ao cursos mais avançados de pós-graduação nas universidades ou centros acadêmicos superiores.

A segunda linguagem é o Simbolismo Universal, presente em toda natureza, atuando nas dimensões mais elevadas e nas mais densas. Tem, inclusive, vias de manifestação dentro do próprio homem. Isto quer dizer que o simbolismo não somente serve de instrumento para descobrir os mistérios mais ocultos da natureza, como também nos guiará seguramente através da psique coletiva e individual.

Ainda que os meios de comunicação também façam uso da segunda linguagem, nem de longe se aproximam do verdadeiro significado da mesma, sendo ainda quase que invariavelmente distorcida em seu principio e conteúdo. Obviamente a mente humana desconhece e é incapaz de compreender os valores superiores da linguagem dos símbolos, já que estes pertencem à consciência e visam ter acesso á Alma de cada homem. Logo, o simbolismo, tal qual conhecemos hoje em sua parte externa, foi deturpado para atingir e alienar os sentidos e desejos facilmente manifestados pela fraqueza humana.

O Simbolismo também é expresso através da Dialética Superior ou, como diziam os antigos sábios pitagóricos, através de Matemática e da Música contidas nas Esferas Ascendentes.

A terceira e última linguagem é chamada de lniciática.

Se a humanidade no sentido geral já desconhece inteiramente a segunda linguagem, será muito raro encontrarmos homens despertos cuja altivez espiritual elevou suas consciências até esta terceira e mais sublime forma de passar e adquirir conhecimentos superiores. Esta está reservada aos grandes Mestres e Avataras.

O SIMBOLISMO DOS SONHOS

A linguagem simbólica deve ser estuda e compreendida pelas pessoas que realmente visam a sabedoria do ser. Mais especificamente, é deveras importante para os projetores iniciantes e avançados conhecerem profundamente a linguagem dos símbolos, pois ser’ a através dela que poderão subtrair maior número de informações nas experiências e chegar a compreender os grandes mistérios inacessíveis à razão e à palavra.

No verdadeiro esoterismo é impossível abordar os mais delicados e profundos estudos ligados à consciência e ao despertar do homem sem tal conhecimento.

Em conformidade com o principio da sicronicidade descrito por Jung, e da interação mútua entre todas as coisas, onde as partes se interagem com o todo e não pode haver perfeita compreensão das partes nem do todo sem a visão holística e abrangente das complementações, o homem se relaciona da mesma forma com o Universo e com a natureza. Em outras palavras, não se compreende o homem se não se compreende a natureza e seus símbolos; não se compreende o universo se não o interagimos com a própria natureza e com o homem.

Nos estudos sobre os sonhos e também nas projeções fora do corpo, bem como em grande parte das experiências extrasensoriais, sejam elas quais forem, necessariamente entraremos em contato com a linguagem simbólica.

Na medida em que nos aprofundamos na interpretação correta, percebemos a existência de diferentes graus de compreensão sobre o mesmo simbolismo. Isto quer dizer que cada homem compreende e interpreta um determinado símbolo de acordo com seu próprio nível de ser (espiritualidade). Por isso Jesus, o Cristo, difundiu seu ensinamento através de parábolas. Das mesmas palavras havia (e há) diversas interpretações: ao sábio as palavras traduzem sabedoria; ao homem grosseiro as palavras lhe parecem simples comparações; sendo que as crianças entendem como brincadeiras ou belas histórias.

Para se chegar à compreensão do Simbolismo Universal é necessário, num primeiro estágio, estudar profundamente as doutrinas que são os instrumentos para a veiculação dos símbolos. Assim é possível recebermos cátedras maravilhosas e inimagináveis onde só víamos figuras geométricas, letras e números aparentemente sem importância. Logo, não é possível compreender a Astrologia sem o estudo da Alquimia e da Magia. Não se admite cabalistas que não conheçam profundamente os Arcanos do Tarô e a interação destes também com a Astrologia. Também torna-se difícil e até mesmo inaceitável falarmos profundamente em experiências fora do corpo sem abordarmos as doutrinas citadas, pois são justamente esses entendimentos que nos possibilitam a compreensão em escalas superiores daquilo que vivemos fora do corpo físico.

Num caso mais preciso, ligado principalmente aos sonhos e às projeções conscientes, é preponderante, em determinado momento do desenvolvimento, perceber a profunda ligação entre os sonhos e as projeções com nossos processos psicológicos inconscientes. Somente dai poderão surgir então as projeções interiores, onde entraremos em contato com os deuses atômicos e siderais presentes no micro-universo que somos nós. Esta intraprojeção será descrita em capitulo à parte.

A INTERPRETAÇÃO DAS EXPERIÊNCIAS

Na Idade Média os textos alquímicos sempre estavam a se referir ao Mercúrio dos Sábios e á Pedra Filosofal. Será que estavam eles querendo falar de objetos e materiais físicos? Obviamente que não.

Esses exemplos e muitos outros estão espalhados por toda nossa civilização. Nas experiências fora do corpo e também nos sonhos constantemente entraremos em contato com a simbologia. O problema é como interpreta-la.

Antes de tudo, para a correta interpretação de nossas vivências, é necessário começarmos a desabrochar uma intuição aguçada. Muitas vezes compreendemos o que está ocorrendo pelo simples sentir. Não há palavras, não há pensamentos e nem há emoções. Você simplesmente sabe, como se alguma coisa tivesse nascido do mais profundo e enigmático vazio. A mente e as emoções só compartilharão mais tarde dessa descoberta.

Isto pode acontecer em qualquer lugar, a qualquer momento, no mundo físico e mais ainda quando fora dele.

Para desabrochar a intuição fazem-se necessários a auto-atenção constante e uma seqüência de práticas esotéricas para o despertar dos chakras (assuntos abordados em tópicos posteriores).

A Lei das analogias dos contrários, dos acontecimentos paralelos e das comparações terá validade de acordo com cada pessoa. E assim vem a importância do estudante tornar-se seu próprio instrutor, familiarizando-se com os símbolos e relações existentes consigo mesmo.

As imagens e os símbolos religiosos ligados à cultura individual, bem como tudo que lhe foi passado na infância pelos pais e’ pela sociedade, são fundamentais. As experiências também estarão ligadas às crenças espirituais ou até mesmo às descrenças e ao ceticismo. Cada um terá como símbolo para sua compreensão aquilo que vem não plantando e colhendo durante a vida.

Quem nada plantou nada pode colher.

Logo, o estudante deverá, algumas vezes, compreender um símbolo pelo que ele lhe traz de recordações. E este símbolo poderá vir na figura de um animal, de um homem, de um objeto ou de uma ocorrência passada.

Em outras ocasiões será necessário buscar na Simbologia Universal a resposta para o sonho ou experiência consciente fora do corpo. Nos casos dos números e figuras matemáticas, bem sabemos a relação entre o divino e o humano através deles, pois como já dizia Euclides, “Deus geometriza”.

Como a interpretação dos números está ligada diretamente à Caballa e aos Arcanos do Tarô, colocaremos resumidamente a seguir o simbolismo numérico:

1. Espada, vontade, poder…

2. Ciência oculta; favorável…

3. Produção material e espiritual…

4. Mando, progresso, êxito e misericórdia.

5. Carma, Marte, guerra…

6. Vitória, boa sorte…

7. Guerras, lutas, expiação, amarguras, dor, porém finalmente o triunfo.

8. Sofrimentos, provas, dor…

9. Solidão, sofrimentos…

10. Bons negócios, mudanças…

11. A Lei favorece. Que não haja temor! … Marte.

12. Provas e dor. O amor e o sexo (Alquimia) tiram-nos da dor.

13. Transformações. Indica mudança total.

14. Longa vida, estabilidade, sem mudanças.

15. Fracasso amoroso. Anuncia perigos.

16. Castigo, queda terrível. Evite-se esta data.

17. Significa esperança e espera.

18. Os inimigos ocultos surgem em qualquer momento. Enfermidades, não fazer negócios…

19. Êxitos, boa sorte, A Pedra Filosofal…

20. Mudanças favoráveis. Aproveite-as para acabar com suas debilidades.

21. Desmoralização total para o mal. Antítese, inimigos.

22. Triunfo. Tudo sai bem. Poder, força, boa sorte…

A partir do número 23 (inclusive) somam-se os algarismos para que possamos encontrar a simbologia dentro dos 22 Arcanos Maiores do Tarô.

A seguir colocamos algumas interpretações oníricas ligadas ao símbolos que podem muito bem ser vividas em experiências fora do corpo (sonho ou projeção). Todavia, não devemos traduzi-las ao pé da letra, mesmo porque há que se ter afinidade com o mundo contido nesses símbolos. Mesmo assim, é fácil observarmos idéias valorosas implícitas em cada interpretação. A intuição pode e deve sempre falar mais alto do que qualquer informação proveniente do exterior.

Estes símbolos serão melhor interpretados pelas pessoas que tomam conhecimento da linguagem universal do Gnosticismo.

Aborto: Graves decepções. Ver um aborto: enfermidade séria.

Afogado: Ver um afogado: herança, avanço hierárquico no trabalho seja interior ou exterior.

Água que sai da pedra: Energia sexual.

Águia: Representa o Espírito. O avanço espiritual é indicado pela altura em que voa a águia. Vôo rápido: êxito na vida. Vôo lento: estancado na senda. Águia retida: fracasso, resultados nulos.

Árvore partida: Alguém vai ser atingido, mas poderá depois se recuperar.

Árvore arrancada: Alguém (nós mesmos) vai ser atingido e sem possibilidade de recuperação.

Banho em égua suja: Enfermidades, doenças, dor, tragédia. Deve-se ter muito cuidado.

Banho em éguas puras: Saúde, harmonia, tudo favorece.

Banho em piscina: (Ver água).

Barco, canoa: Necessidade de trabalhar na Alquimia.

Beijo: Benefícios e satisfações. Beijar a um morto conhecido: muitos anos de vida. O sonhador é beijado na testa: matrimônio, se for solteiro; felicidade, se for casado. O sonhador é beijado na boca: imprudência no amor.

Bicicleta: Equilíbrio espiritual, tolerância.

Burro: A mente.

Cachorro que ataca: Ataque de um amigo; se morde, haverá danos.

Cachorro manso: Amizade sincera, amigos que ajudarão a sair de dificuldades.

Carro: Observar como se dirige; de modo análogo dirigimos nosso corpo físico.

Carruagem: Também significa o corpo físico.

Casa: O nosso corpo físico ou a nossa condição interior.

Casamento: Se duas pessoas se vêem casando e vestidas de noivos é sinal de desencarnação.

Castelo: Vitórias e conquistas espirituais em vidas anteriores.

Cavalo: Corpo físico, também significa luxúria. Queda do cavalo significa abandono do caminho de evolução espiritual.

Cavalo desdentado: Má espiritualidade; o íntimo não pode governar o corpo físico.

Chacal ou lobo: Justiça, Lei Divina. Se ataca, a Lei está contra ou há karma para pagar.

Chapéu: Viagem e se deve partir.

Chuva: Lágrimas, sofrimento.

Cordeiro, ovelha. Símbolo do Cristo.

Cores:

Amarelo: avanço, conhecimento, progresso.

Azul: amor, satisfação, saúde.

Branco: pureza.

Cinza: temor, angústia, medo.

Escarlate: tragédias, violência, ira.

Laranja: criatividade, iniciativa.

Negra: negativo, diabólico, hostil

Preto: solenidade, seriedade, negativo, fracassos..

Rosa: bons sentimentos.

Verde: penetração, esperança, segredos desvelados.

Vermelho: força, algumas vezes paixão.

Corpo enredado: Calúnias, difamações, fofocas.

Coruja: Forças negativas, magos negros, ataques de tenebrosos.

Criança: Nossa parte espiritual e consciência.

Cruz: Transmutação.

Datas: Devem ser anotadas e interpretadas conforme a Cabala. Anunciam acontecimentos importantes. Ver também números.

Defecar: Eliminar defeitos.

Dente: Os dentes superiores referem-se á família. Os dentes inferiores referem-se aos amigos. Dentes sadios riquezas, poder, saúde e importância em aumento. Dentes sujos: vergonha na família Dentes cariados: morte de um parente. Dente novo: nascimento. Dentes que caem: enfermidade ou morte – tragédia espiritual.

Escada: Caminho iniciático (espiritual), deve-se seguir.

Escorpião: Larvas astrais que precisam ser eliminadas.

Escova: Há necessidade de se limpar psicologicamente.

Espinho: Vontade superior, sofrimento voluntário.

Estar na beira de um abismo: Pode-se cair espiritualmente.

Estar na cadeia: Karma a pagar.

Exército: Se contra, a Lei em ação; se a favor, tudo ajuda.

Flores: Atributos da Alma, qualidades, virtudes.

Fogo: Paixão, trevas, ódio, falta de calma. Renovação.

Gato que ataca: Traição de pessoas queridas (familiares).

Insetos: Larvas astrais, há necessidade de limpeza.

Jardim: Felicidade espiritual.

Látego (chicote): Representa a vontade.

Livro: Quando se recebe um livro de um Mestre, sinal de que nada se sabe nos mundos internos, ignorância espiritual. Necessidade de aprender, estudar.

Leão que ataca: Justiça, Lei em ação, karma. Se o leão é manso, a Lei está a favor.

Machado: Destruição.

Mar tormentoso: Não há domínio sobre as paixões.

Mar manso: Castidade, pureza, perfeito domínio sobre paixões sexuais.

Montanhas: A meta espiritual, o caminho, o plano astral.

Morte de um filho: Provas.

Mula: Involução, está se indo muito mal espiritualmente.

Nuvens: Mente opaca, fechada, presa a idéias fixas e dogmas.

Ouro: Resultados espirituais acumulados.

Ovos: Símbolo da vida e de nascimentos (espirituais).

Pavão: Orgulho, soberba.

Pedras: Contradições. Às vezes necessidade de melhoria interna.

Peixes (pesca): Peixes mortos: doença, problemas; Peixes vivos: vitalidade.

Pomba, pombinha: Pureza, castidade, símbolo do Espírito Santo.

Relógio: O tempo; é chegado o momento.

Sapatos: Viagens. Um só sapato, o caminho espiritual não está bem.

Semente: Nascimentos.

Sonhar que está morto: Morte do EGO, aniquilação budista.

Serpente que ataca: Mulher que nos seduzirá (ou vice-versa), perda de energia, traição.

Serpente mansa: Domínio sobre paixões sexuais, forças acumuladas, favorabilidade.

Tartaruga: Lentidão, preguiça, atraso, etc.

Tempestade: Destruição.

Tigres: Traição.

Tigres trabalhando: Mestres trabalhando a favor do estudante.

Tocha: Fogo sexual transmutado em energia.

Torre: Ver uma torre forte e sólida diante de uma tormenta: sairá vitorioso de uma dura prova. Torre rachada ou destruída: catástrofe, desgraça.

Touro: Inimigos. Às vezes representa a ira; outras vezes paciência e trabalho.

Tudo doce: Amarguras.

Vaca: Símbolo da natureza e da Mãe Divina. Ver-se morto: Mudança favorável, morte de um defeito, renascimento.

Ver-se nu: Amargura, dor, tragédias. Ver-se em trajes íntimos tem o mesmo significado.

Vestido de trapos: Espiritualmente muito mal.

Voar: Indica certo tipo de consciência desperta. Se interpreta o que se vê e o que se sente quando se está voando. Geralmente é um bom sintoma. Avanço espiritual.

POR QUE NÃO TEMOS CONSCIENCIA DESPERTA DURANTE O SONO?

Por que não temos experiências fora do corpo conscientemente? Existem muitos motivos, mas os principais nós podemos relacioná-los para que você, dentro de seu aprendizado, possa superá-los:

a) O primeiro deles e o mais importante é o fato de sermos extremamente mecânicos. Não temos consciência de nós mesmos durante o transcorrer normal dos dias. Quando acordamos ligamos o piloto automático” e passamos a nos conduzir como máquinas, robôs na forma de agir, sentir e pensar.

Quantas vezes durante o dia paramos para nos auto-recordarmos? Somos completamente condicionados pelos fatores externos, e isso ocorre em todos os sentidos, ou seja, não somos nunca nós mesmos, apesar de acreditarmos sinceramente no contrário. Podemos dizer, sem errar, algo que pode nos parecer absurdo, mas você verá que analisando cuidadosamente é realmente verdade: não só dormimos á noite, dormimos da mesma forma durante o dia. Não colocamos atenção em quase nada que fazemos; nossa mente perdeu a capacidade de concentrar-se; nossos pensamentos são dispersivos e pulam de segundo a segundo mudando seu foco de atenção; nossas emoções oscilam constantemente de acordo com as atitudes das pessoas e da situação em que estamos. Poderíamos citar dezenas de exemplos para ilustrar o que estamos afirmando, mas acreditamos ser bastante o já acima colocado.

Muito bem, mas o que tem a ver isso com projeção inconsciente?!

Os sonhos são os reflexos daquilo que acontece durante o dia, só que nas dimensões superiores não há limite de tempo e de espaço, como veremos mais adiante, e por isso mesmo tudo que fizemos no transcorrer do dia, seja ontem, na semana passada ou no ano passado, volta a se repetir como antes, mecanicamente.

Há, porém, uma profunda e significativa diferença: no mundo físico, devido à densidade da matéria, nossas emoções e pensamentos giram em torno de nós mesmos. Ficamos abstraídos, perdidos em nossas ilusões, agindo, como dissemos, como autômatos condicionados pelo meio. Estamos perdidos em pensamentos ou ocupados com nossas emoções e, num instante, acontece algo (alguém chama nosso nome, por exemplo) e nos tira de nossos devaneios e fantasias para, daqui a alguns segundos ou minutos, voltarmos a outras elucubrações até que a história volte a se repetir.

Nos mundos superiores o processo é diferente: quando começamos nossas elucubrações e devaneios, a substância astral ou mental, por ser de extrema sutileza, toma forma e se materializa. Na verdade cristaliza nossos pensamentos e emoções, independente de que tipo sejam , e ficamos presos nas imagens externalizadas, gerando, por sua vez, outras imagens sobre as anteriores, criando assim uma verdadeira bola de neve que somente acaba quando acordamos. Ninguém nos tirará das ilusões criadas por nós mesmos, como ocorre no plano físico. Ficaremos presos dentro de nosso mecanismo emocional e mental. Não viveremos o real, aquilo que lá existe, e sim a ilusão formada por nós ou por entidades que lá habitam.

b) O segundo grande problema é a capacidade de fabricação de energia psíquica e a conservação da mesma. A energia psíquica é a que nos mantém despertos nas outras dimensões, é o somatório de todas as energias produzidas pelo correto funcionamento dos chakras, bem como as captadas durante o transcorrer normal do dia.

Por que estamos sempre esgotados ao final de um simples dia de trabalho?

Aqui precisamos falar novamente sobre a mecanicidade e a falta de consciência em que vivemos. As energias produzidas pelo metabolismo através da ingestão de alimentos físicos, não é suficiente para nos manter conscientes fora do corpo físico. Ainda porque nossa constante identificação emocional e mental com as coisas do dia-a-dia esgotam completamente a reserva energética que por ventura possa existir. Dai faz-se necessário tomarmos uma atitude mais contemplativa, onde a auto-observação constante será o gerador e acumulador de energias para o desdobramento consciente. Mesmo assim, quase sempre é necessário uma série de práticas de conteúdo energético antes de efetuarmos o desdobramento. Essas práticas visam ao acúmulo das energias e podem ser respiratórias, de meditação, vocalização de mantras para ativar os chakras necessários e outras. Abordaremos esse assunto com maiores detalhes ao final deste Curso.

Essa dificuldade (captar e manter energias) é inversamente proporcional a capacidade que podemos adquirir de permanecer constantemente atentos e ‘despertos durante o dia. Isto é, quanto mais autoconscientes de nossos atos, emoções e pensamentos, menor será a dificuldade para a aquisição e reserva de energia psíquica. Somente com muito esforço e dedicação, através de um estudo mais abrangente de cunho holístico (integral) chegaremos a despertar para essa possibilidade.

c) Sem dúvida outro grande obstáculo, talvez o primeiro deles, é a preguiça. Esse tipo de conhecimento não pode ser comprado em lojas ou adquirido em livros. Por isso a primeira seleção é feita naturalmente através da falta de persistência e dedicação de cada pessoa. Sivananda, um grande mestre do Oriente, certa vez afirmou: “Somente os fortes chegam a Deus’’ O cultivo da força de vontade é fator essencial. Sem ela é melhor nem dar início a este processo, estancaremos no primeiro obstáculo encontrado, e a preguiça quase sempre estará se escondendo atrás de suas diversas facetas.

d) Outro obstáculo importante a ser vencido é o medo. O medo, corno a preguiça, se manifesta de várias formas. Muitas vezes não nos apercebemos dele, mas ele está ali, arrumando desculpas e aliando-se á preguiça para nos afastar logo nas primeiras etapas. Não há por que ter medo. Nunca estamos sozinhos onde quer que estejamos. Geralmente tememos o desconhecido e, neste campo, o que mais encontraremos é o desconhecido.

Não devemos esquecer que o homem é a morada de Deus. Por acaso você daria ao seu filho alguma coisa que ele pudesse se machucar? Da mesma forma o Pai que está em oculto também não o faria, a não ser que você já estivesse pronto para cuidar de si mesmo sozinho. Mesmo assim Ele estaria atento, observando seu aprendizado.

O medo será vencido na medida que o combatermos e verificarmos o quanto era infundada nossa atitude.

e) A ansiedade é o último tem de nossa pequena lista. Cabe ressaltar a existência de outros bloqueios, mas quase todos giram em torno dos colocados nesse tópico.

A ansiedade gera desequilíbrio emocional, fácil de observar pela taquicardia (o coração pulsa rapidamente). Se houver desequilíbrio de qualquer espécie já não é possível o desdobramento consciente, isto porque há perda de energia e bloqueios na circulação da mesma.

Para se vencer a ansiedade recomendamos a prática constante dos exercícios descritos no final deste Curso. De acordo com o avanço dentro de cada exercício o estudante será capaz de dominá-la perfeitamente.

O QUE HÁ DO OUTRO LADO?

Na verdade são infinitas as formas de vida e os lugares existentes Impossível descrever tudo que existe ou aquilo que você encontrará. Tudo dependerá muito de você mesmo, pois as experiências estão sempre relacionadas a cada ser humano. Queremos dizer que as pessoas têm acesso somente aquilo a que merecem. Há que se ter crédito, caso contrário, nada conseguiremos.

De qualquer forma vamos enumerar algumas possibilidades, as mais comuns, possíveis de serem vividas por qualquer um que se aventure a investigar a realidade da existência de vida além da matéria física.

CAEM AS BARREIRAS DO TEMPO E DO ESPAÇO

O tempo e o espaço nada significam nas dimensões superiores ao plano físico. Ainda que existam, são totalmente diferentes. Logo, 01 (um) minuto lá pode equivaler a O 1 (uma) hora neste plano ou vice-versa.

Quanto mais sutil for a dimensão, menor significado terão essas duas barreiras, ao ponto de chegarmos ao limiar da eternidade.

Em conseqüência dessa quebra de conceitos tradicionais, poderemos acessar tanto ao passado como ter vislumbres do futuro, ainda que muitas vezes nem percebamos isso.

Como dissemos, não basta querer para conseguir, há que merecer.

Como é comum ocorrer em toda natureza, os fatos sempre acontecem naturalmente, sem grandes festas ou exageros, tal qual um por do sol, belo! simples e resplendoroso. Nós, infelizmente, distorcermos os fatos c fantasiamos situações comuns tornando-as inexistentes, e acabamos por não perceber as verdades mais profundas por estarmos impregnados de conceitos e preconceitos irreais.

Quando menos esperamos nos vemos em ambientes e épocas passadas, com roupas antigas, vivendo cenas as quais nunca antes presenciamos. Se não estivermos atentos, ou se mantivermos em nossa mente idéias e conceitos já pré-estabelecidos, provavelmente não seremos capazes de compreender o real significado daquele momento. Muitas vezes apenas vemos os acontecimentos, como se estivéssemos à janela de nossa casa observando as pessoas e os carros passarem. Como dissemos, devido à nossa falta de atenção, podemos até mesmo receber cátedras completas e nem nos darmos conta.

O futuro se apresenta de mesma forma: podemos ver claramente situações futuras ou conversar com pessoas que nos dão informações acerca dele, mas isso não quer dizer que tudo irá acontecer, pois o futuro não passa de uma série de possibilidades que podem ser modificadas. Tudo dependerá do nível de compreensão e, principalmente, da intuição e percepção do estudante.


COMO É O MUNDO ASTRAL?

Existem, nos mundos superiores, cidades e templos desconhecidos a este mundo em que vivemos. Cadeias de montanhas, mares, lagos… enfim, ao que vemos neste plano físico podemos somar outros tantos lugares, onde a maioria deles não podem ser encontrados na terceira dimensão.

Como existem outras dimensões além da nossa, existirão também sete subdimensões para cada uma delas. Por exemplo: o plano astral, sendo mais sutil que o físico, ainda se subdivide em outros graus de matéria interior a ele mesmo, sem, no entanto, sair desse plano para passar para o acima (mental). As paisagens encontradas no mundo físico fazem parte também dos planos astral e mental; todavia, não existem nas subdimensões mais sutis desses dois planos. Novamente daremos um exemplo para que fique claro esta afirmação: uma cadeira ou uma cidade, no mundo físico, têm sua contrapartida astral e mental nas primeiras subdivisões dessas dimensões (1º, 2º, 3º e 4º). No entanto, nas últimas subdivisões de cada dimensão (5º, 6º e 7º) deixam de existir, somente estando presente suas vibrações por demais sutis.

Por isso, voltando aos ambientes, numa projeção no plano astral, se for efetuada dentro de nossa casa e numa subdimensão inferior, poderemos encontrar tudo aquilo que há normalmente dentro dela. Algumas vezes encontraremos até mesmo objetos inexistentes ou que ainda ali estarão no futuro. Lembremos a quebra da barreira tempo e espaço.

Algumas vezes podemos também, numa projeção dentro de nossa própria casa, não encontrar nada do esperado. Nos vemos em outro lugar totalmente diferente, numa situação exótica ou simplesmente incomum. Nesse caso a projeção se fez numa subdimensào superior do plano astral, sem que percebêssemos este fato.

Geralmente as projeções iniciais sempre se dão nas primeiras subdimensões da dimensão astral. Inclusive, para ter acesso à dimensão mental e mesmo às subdimensões superiores do plano astral, é necessário muito domínio de si e do corpo astral. Além disso, precisaremos méritos para tal.

Não é tão difícil o desdobramento, existem inclusive pessoas materialistas ou de índole inferior que o executam; entretanto essas pessoas ficarão restritas às dimensões e subdimensões inferiores do plano astral e mental, quando não ac limbo, como iremos explicar no tópico mais adiante.

Numa experiência fora do corpo, respeitando os requisitos necessários poderemos visitar cidades perdidas ou Templos de Mistérios. As maiores c verdadeiras Escolas Esotéricas existem nas dimensões superiores. O que temos hoje neste mundo é um pálido reflexo dessas Escolas. Aprende diretamente com os Mestres, ou entrar em contato com o Mestre Interno que cada um possui não é utopia nem demagogia, ainda que muitos assim pensem.

Deixar de teorizar sobre civilizações antigas e sim estudar suas cidades costumes, além de conversar com as pessoas que lá viviam e ainda vivem, é outra possibilidade.

Se uma cidade desaparece, sua contrapartida astral mental continua existindo, a não ser que seja construída outra no plano físico onde antes estivera a antiga.

FORMAS DE VIDA

As formas de vida são tão variadas que vão desde as criaturas mais inferiores geradas pela mente humana, até os mais elevados Devas (deuses da natureza), cada qual ocupando a dimensão de acordo com suas vibrações Aqueles que possuem vibrações elevadas em conseqüência da espiritualidade vivem nas dimensões mais sutis e nas subdimensões intermediárias superiores de cada plano. Já as criaturas de baixa evolução, tanto as criada pelo homem (elementares) como os invólucros grosseiros dos mortos que ainda não se desprenderam da matéria, habitam as subdimensões inferiores a região chamada de limbo.

Como cada experiência fora do corpo estará de acordo com nosso nível de vibração, ou seja, nos projetaremos para a dimensão ou subdimensão à que temos afinidade, poderemos estar sujeitos a entrar em contato com cada um desses seres.

Nada acontece por acaso, e qualquer experiência é direcionada para nosso aprendizado, ainda que sejam desagradáveis num primeiro instante.

Aliás, não devemos nos preocupar, pois nada ou ninguém poderá nos fazer mal, mesmo porque é raro os seres mais inferiores se preocuparem com iniciantes.

Há alguns casos esporádicos onde nos veremos em situações diferentes do normal, mas isso sempre ocorrerá pré-definidamente, com finalidades muito especiais de aprendizado.

Em outras ocasiões poderemos nos assustar com os elementais (espíritos da natureza), pois eles são como as crianças, estão além do bem e do mal e só querem brincar e se divertir conosco.

De conformidade com o abordado acima, sempre é importante efetuarmos uma constante higiene mental, principalmente antes de deitarmos para sonhar ou para tentar a projeção consciente, pois o estado psíquico ou físico é que será responsável pela boa ou má experiência. Se, durante o dia, entrarmos em graves desentendimentos, tendo como fruto dessas desarmonizações, explosões emocionais e mentais, quase certamente numa projeção consciente nos veremos em subdimensões densas. Ainda que seja desagradável estar em locais inferiores, presenciando o sofrimento dos habitantes dessas paragens teremos nessa experiência grande material de crescimento.

Um mal-estar causado por indigestão, ou mesmo deitar-se de estômago cheio pode provocar efeito semelhante, projetando-nos para locais mais densos.


OS ELEMENTARES

Elementares são formas de vida criadas pelo homem; na maioria das vezes sem intenções de fazê-lo, ou seja, inconscientemente. São chamados também de formas-pensamento.

Cada pensamento ou desejo ganha forma e se materializa nas dimensões e subdimensões correspondentes. Assim, um pensamento ou uma emoção sublime se cristaliza através de cores radiantes, ondas sonoras harmônicas e formas de beleza estética. Logicamente isso ocorrerá conforme a intensidade e a persistência de cada desejo e pensamento. Algumas vezes, nos pensamentos mais rápidos, surgem apenas formas luminosas também rápidas que logo se apagam. Outras vezes, as emoções e os pensamentos são tão intensos que perduram e acabam por fazer parte da aura humana.

O caso contrário também ocorre. Emoções e pensamentos negativos criam cores e sons feios e desarmônicos. Quando são intensos e constantes, materializam-se em formas de bestas e animais medonhos, permanecendo em volta da pessoa que a criou durante anos ou até mesmo por toda vida. Em outros casos essas formas-pensamento passam a não só obsidiar seu criador, mas sim todas as pessoas que estejam em seu raio de alcance. Muitas vezes sobrevivem durante anos e anos após a morte daquele que a gerou, pois seu alimento pode ser tirado de qualquer pessoa cuja afinidade vibracional se compatibilize com a de seu criador.

As pessoas cujo hábito de drogar-se é constante, acabam por criar meios artificiais para contato com esses e outros seres ainda piores, isso quando não acessam regiões proibidas ao homem comum. Forçam sua passagem para o mundo tenebroso e acabam sintonizando cada vez mais suas próprias vibrações com as vibrações rudimentares desses planos. Entram em contato com criaturas que realmente existem, quando não, partes obscuras de si mesmos. Os incubos e súcubos citados com freqüência nas histórias da Idade Média, são justamente essas formas obsessoras geradas pelo mau uso da energia sexual. Essas criaturas, algumas vezes horríveis e outras vezes aparentemente formosas, provinham dos recendidos mais escondidos do subconsciente, e eram engendradas pelo desejo sexual reprimido e distorcido por isso eram tão fortes ao ponto de se materializarem no mundo físico.

Existem formas de proteção simples que cada projetor deve saber, caso se veja em situações negativas e precise enfrentar formas-pensamento. A maioria dessas situações são facilmente contornáveis. Novamente realçamos a necessidade de tirar aprendizado de fatos como esses.

Assim sendo, colocamos 05 (cinco) precauções que todo projetor deve ter ciência:

1. A primeira precaução é não ter medo. O medo lhes alimenta e dá força.

2. Em caso de se deparar com qualquer entidade aparentemente negativa mantenha-se em estado passivo, como observador, procurando emitir-lhe pensamentos de amor e harmonia. Somente isto já seria suficiente para afastar essas criaturas, ou simplesmente fazer você mesmo se translada para outra subdimensão mais sutil, onde as formas-pensamento não podem incomodar.

3. Você pode transladar-se tanto das dimensões e subdimensões mais elevadas para as menos elevadas e também o contrário, da de menos vibração para a de maior; as formas-pensamento somente no sentido “de cima para baixo’.

4. Nunca parta para a agressão, pois isso fere o principio de que somente  pode se combater o ódio com amor. Mesmo porque você acabará por se identificar completamente, esquecendo-se de si mesmo e caindo no som hipnótico. E necessário manter-se atento e autoconsciente todo o tempo pois o risco de mecanizar-se novamente, adormecendo a consciência, maior que no mundo físico.

5. Existem certas frases mágicas, chamadas conjurações, cuja função é exatamente afastar as entidades nocivas do plano astral ou mental. Daremos algumas delas, mas elas devem ser decoradas e usadas com fé, imaginação e vontade, se é que você quer fazê-las funcionar. A oração possui um poder gigantesco e, muitas vezes, tem o mesmo efeito das conjurações.

a) KLIM, KRISHNAYA, GOVINDAYA, GOPIJANA, VALLABHAYA, SW(JAHA)

b) HELION, MELION, TETRAGRAMATON

o) EM NOME DO CRISTO, PELO PODER DO CRISTO, PELA FORÇA DO CRISTO, EU TE CONJURO … (dizer o que está conjurando)

d) EM NOME DE MICHAEL QUE JEHOVAH TE MANDE E TE AFASTE DAQUI, CHAVAJOTH. EM NOME DE GABRIEL QCIE ADONAI TE MANDE E TE AFASTE DAQUI, BAEL. EM NOME DE RAPHAEL DESAPARECE ANTE ELIEL, SANGABIEL. POR SAMAEL SABAOTH E EM NOME DO ELOHIM GIBOR, AFASTA-TE, ANDRAMELECK. POR ZACARIEL ET SECHELMELECH, OBEDECE ANTE ELVAH, SANAGABRIL. PELO NOME DIVINO E HUMANO DE SADAI E PELO SIGNO DO PENTAGRAMA QUE TENHO NA MINHA MAO DIREITA, EM NOME DO ANJO ANAEL E PELO PODER DE ADÃO E DE EVA, QUE SÃO JOTCHAVAH, RETIRA-TE LILITH; DEIXA-NOS EM PAZ, NAHEMAH. PELOS SANTOS ELOHIM E EM NOME DOS CIËNIOS CASHIEL, SEHALTIEL, APHIEL E ZARAHIEL, E AO MANDATO DE ORIFIEL, AFASTA-TE DE NÓS MOLOCH. NÓS NÃO TE DAREMOS NOSSOS FILHOS PARA QUE OS DEVORES. AMÉM. AMÉM. AMÉM.

O MUNDO DOS MORTOS

Numa subdimensão intermediária do plano astral existe uma região que alguns povos antigos chamavam de limbo ou orco. Na terminologia cristã chama-se purgatório.

Esta região pode ser comparada a um cone de penumbra intermediando a luz e as trevas. A Luz aqui é representada pelas dimensões superiores do mundo astral ou mesmo do mundo mental. As trevas, por sua vez, representam as regiões submersas ao planeta terra, onde a densidade da matéria chega a ser superior a existente no plano físico. Parece impossível conceber dimensões inferiores à terceira dimensão na qual vivemos, no entanto essas regiões existem e são conhecidas em todas as religiões como ‘infernos”. No Oriente a religião hindu a chama de avitchi.

É interessante traçarmos paralelo com a astrofísica, pois esta tem descoberto estrelas minúsculas, muito menores que o nosso sol, cuja densidade atômica equivale a densidade de diversos sistemas solares ou até mesmo galáxias.

Isto prova como é possível existirem mundos imensos comprimidos em espaços fisicamente pequenos, o que corresponde a constante descrição, pelas religiões de todo mundo, dessas regiões abismais. Aliás, como já vimos, o espaço físico praticamente inexiste quando falamos em dimensões.

Não podemos deixar de citar a profunda relação existente entre os mundos externos e internos ao homem. Assim descreve a grande Lei Oculta: “como é em cima é em baixo, e o que está dentro é igual ao que está fora”, logo, o homem possui em si mesmo a parte abismal da natureza, e podemos encontrá-la nas regiões infraconscientes da mente. Lembremos como as vibrações afins se atraem mutuamente. Por isso, aqui abrimos pequena lacuna para alguns questionamentos:

De onde mais poderia vir tamanha crueldade quando vimos os crimes mais infames provocados pelo homem? De onde poderia ter saído a música inferna e as pinturas que representam figuras grotescas e totalmente sem harmonia e estética? Se refletirmos um pouco compreenderemos como a natureza anima e infraconsciente tem se apoderado quase que completamente da humanidade no sentido geral. A inversão total dos valores mais sagrados e tradicionais da humanidade deixaram a mercê os instintos. Em outras palavras, o homen perdeu o controle sobre si mesmo, as portas de seus infernos foram abertas Assim, mais do que nunca, este curso insiste na necessidade de mudança radical em cada individuo. Recuperar os valores arquetipicos faz parte de grande aventura do homem quando pretende vencer as barreiras que o separam dos universos paralelos. É ilusão acreditar que, tal como estamos podemos ter acesso à sabedoria sagrada contida nesses mundos.

Dando continuidade ao exposto nos parágrafos anteriores, dentro das experiências fora do corpo, essas regiões inferiores somente podem sei acessadas pelo projetor em casos muito especiais, quando ele necessite aprender e é conduzido por seres inteligentes através de seus umbrais Temos na literatura de todos os tempos grandes exemplos que o mundo até hoje não chegou a compreender. Obras julgadas infantilmente como ficção pelos cépticos e materialistas: A Divina Comédia de Dante; os relatos da descida de Orfeu aos infernos; da mesma forma Hermes e (Ullisses tiveram que descer á morada de Plutão (regente do mundo subterrâneo); Hércules ac executar parte de seus doze trabalhos (principalmente a luta com Cérbero Guardião dos infernos na mitologia) e, enfim, tantos outros relatos antiqüíssimos e até mais recentes espalhados pelo mundo com roupagem religiosas, míticas, mitológicas, etc.

Já a região intermediária, aqui chamada de cone de sombra, é o limite para projetor comum. Ali ele se deparará com os invólucros dos mortos, como aqueles que morreram e ainda não sabem. Essas pessoas mortas ainda estão presas ao mundo pelo apego e pelo desejo de perpetuar as sensações físicas pela dor dos parentes e amigos que em vida choram, também desejando presença constante do morto neste mundo novamente; pelas sessões mediúnicas que levam ao morto tudo aquilo que tinha em vida, cedendo corpo humanos através de médiuns ou abrindo canais de comunicação com eles. Por essas e outras razões tais desencarnados permanecem perambulando a solta pelo limbo, atraídos e presos ao plano físico.

Quando nos projetarmos certamente poderemos entrar em contato com essas pessoas. Veremos que o corpo astral do desencarnado, sede do desejo inconsciente após a morte, vaga como um sonâmbulo pelo mundo astral, repetindo todas as atividades feitas durante a vida. Permanece revivendo seus sofrimentos e ampliando suas angústias, ansiando os prazeres antigos que os sentidos ofereciam e externalizando, como num pesadelo, suas cobiças e ambições. Poderemos tentar ajudar essas pessoas, mas pouco conseguiremos fazer, pois somente elas terão que se livrar dos fantasmas gerados pelo passado.

Poderemos ser vitimas de obsessões nessas regiões, assim como pode ocorrer com os elementares. Essas criaturas precisam de luz, de vida e amor. Uma pessoa projetada, ainda mais se estiver consciente, traz um campo energético considerável que atrai esses invólucros autômatos. Não o fazem por mal, muitas vezes, mas sim por necessidade. Em tais situações basta tomarmos as atitudes citadas no tópico sobre elementares.

Na medida do desprendimento das emoções e apegos baixos, o invólucro astral mais denso começa a se desfazer, e essas pessoas mortas vão como que tirando as roupas mais pesadas para poderem transcender as subdimensões, chegando a realizarem o mesmo processo na dimensão mental. Assim, a certa altura, podemos entrar em contato com a essência divina que o ser humano carrega dentro de si, já livre de seu passado e apenas aguardando novo corpo para retornar. Quando falamos em essência divina não estamos nos referindo á personalidade, mas sim àquilo que já existia e sempre existiu num homem antes mesmo dele nascer. Poderíamos, por exemplo, entrar em contato com a essência de uma criança que está por vir e saber, diretamente dela, o que aqui veio fazer, qual sua missão e até mesmo quais foram suas existências passadas.

A essência humana é o verdadeiro ser imortal, é o fragmento divino que devemos despertar em nós, a fim de fazê-la fluir perfeitamente através dos valores transitórios da personalidade.

UBIQÜIDADE E ESTADO DE JINAS (4ª DIMENSÃO)

Este tópico foi incluído à parte, pois não podemos deixar de citar dois casos especiais relacionados, de certa forma, com as experiências fora do corpo.

O primeiro deles é o dom da ubiqüidade, ou seja, a capacidade que uma pessoa tem de deslocar-se, ao mesmo tempo, para dois ou mais locais diferentes com o corpo projetado. Este fenômeno é raro mais pode ser encontrado em algumas literaturas.

Na medida que o projetor aprende a dominar seus corpos sutis e a usar o poder da Vontade nas projeções, bem como na medida que ele cria para si corpos mais poderosos através da Alquimia, ele se vê livre das técnicas e pode projetar-se quando quiser e aonde estiver, mesmo que seu corpo físico não esteja repousando sobre uma cama ou cadeira. Isto quer dizer que é possível continuar trabalhando, estudando ou dando uma conferência e, ao mesmo tempo, estar projetado em outro lugar com o corpo sutil tendo uma entrevista com alguém sem que as demais percebam este fato. O próximo passo é adquirir a ubiqüidade, já que obteve total controle sobre os demais corpos Neste caso pode-se estar em diversos locais diferentes ao mesmo tempo, realizando também diversas tarefas sem ligações umas com as outras.

Logicamente estamos falando de pessoas muito desenvolvidas? verdadeiros super-homens dentro do esoterismo. Esta possibilidade, para ser exercida com total domínio, somente pode existir quando se chega ao estado de polividência ou elevado nível de consciência.

Tão fabuloso ou mais que a ubiqüidade é o estado Jinas. Colocar-se em Jinas é colocar o corpo físico na quarta coordenada (quarta dimensão).

Este fenômeno, também conhecido por Nagualismo ou Licantropia, foi muito usado pelos feiticeiros (Naguais) dos povos antigos da América Central (Astecas, Toltecas, Zapotecas, Maias, etc.).

Ainda hoje existem pessoas que dominam as técnicas do estado Jinas. Podemos encontrar referências nas obras de Carlos Castaffleda, antropólogo que travou contato com essa cultura. Isto só para citar obras e autores mais conhecidos e contemporâneos. Em Jinas é possível até mesmo mudar a forma física do corpo, dando a ele aspecto animal ou de outra criatura qualquer. Muitas lendas tenebrosas advém dos relatos de pessoas que viram essas transformações (lobisomem, por exemplo).

Em Jinas também é possível deslocar o corpo físico para qualquer lugar do planeta – sobrevoar rios e mares, atravessar rocha sólida e ainda caminhar sobre as águas, como fez o Mestre Jesus.

PROJEÇÃO INTERIOR

Quando falamos em experiências fora do corpo somente imaginamos o desdobramento da consciência para o mundo circundante (externo). Mais importante ainda é saber da possibilidade em projetar-se para dentro de si mesmo. Isso pode ocorrer de duas formas:

1. A projeção é efetuada dentro de nosso sistema vegetativo, ou seja, podemos ver o interior de nosso corpo. As veias, as funções vegetativas tais como o coração, o fígado e outros se tornam translúcidos para nós. Passamos, muitas vezes, a fazer parte desse sistema, como se fôssemos ele próprio, detectando possíveis doenças ainda não manifestadas.

2. O outro tipo é muito mais intrigante, pois a projeção ocorre dentro do universo psíquico que possuímos: nossos pensamentos, emoções e fantasias ganham vida e são materializados tal como são. O macro-universo e o micro-universo se fundem nesses momentos, por isso podemos entrar em contato com a divindade que existe dentro de cada ser humano. A frase Evangélica: “O homem é a imagem e semelhança de Deus” expressa muito bem o que acabamos de falar, e é essa divindade que buscamos. A essência a que nos referíamos no último tópico não passa de um fragmento da presença de Deus no homem.

Os arquétipos representam a perfeição de todos os valores sublimes cultuados pela humanidade. Tais arquétipos também se manifestam individualmente, por isso o Deus interior também manifestar-se-á através das imagens e símbolos por nós considerados perfeitos: o budista verá Buda, o cristão verá Cristo, o hinduísta verá Krishna. Na verdade, todos serão a mesma centelha divina manifestado na sua multiplicidade de formas.

Todavia, apesar de possuir a centelha divina, o homem a mantém imanifestada, pois a imperfeição humana não pode coexistir com a perfeição divina. Dai possuir em seu interior a semente do mal, a qual gerou uma série de artifícios para afastar o homem da pureza original. Assim, o orgulho, a vaidade, a luxúria, o ódio e outros também terão suas manifestações nas infradimensões do inconsciente humano, e serão vasculhados e encarados cara-a-cara nas projeções interiores.

Uma árvore, para lançar seus galhos o mais alto possível, deve projetar suas raízes no lodo mais profundo e sombrio da terra. Teremos que descer ao lodo mais profundo de nossa “terra psicológica” para projetarmos nossos galhos e nossos frutos acima das nuvens.

Quando nos deparamos com essas criaturas, que na verdade fazem parte de nós mesmos, veremos nossas imperfeições materializadas de acordo com a densidade correspondente a cada uma delas. Teremos que nos enfrentar diante de um espelho, e a visão, muitas vezes, não nos agradará nem um pouco.

O COMPORTAMENTO DURANTE A VIAGEM ASTRAL

Como comportar-se do outro lado? Em conformidade com nossas atitudes e comportamento é que poderemos tirar maior ou menor proveito das experiências realizadas.

Após a projeção consciente, seja através de qualquer técnica, deveremos tornar algumas atitudes importantes para nos manter conscientes durante maior tempo possível. Nossa consciência permanecerá “desperta” de acordo com a quantidade de energia psíquica armazenada anteriormente, e de acordo com a capacidade de não identificação com os acontecimentos em nossa volta. Isto, pois, a identificação leva a perda de energia, e esta a adormecimento e ao sono. Assim, uma experiência que pode começar lúcida acaba se tornando um sonho, podendo acontecer também o contrário como iremos colocar mais adiante.

Para permanecermos despertos será importante sempre a posição passiva, ou seja, contemplativa. O bom observador não julga, não analisa, não interfere apenas observa. Caso faça o contrário com certeza interferirá no: acontecimentos, inclusive externalizando e cristalizando pensamentos 4 emoções sem perceber, e estes colocarão em risco a autenticidade & experiência.

A percepção deve ser ampliada juntamente com a intuição, pois ambas terão papel fundamental na vida de todo projetor, inclusive não só durante a experiências fora do corpo, e sim também no estado de vigília. Para ias seremos obrigados, mais uma vez, frisar o estudo holístico de si mesmo, pois será necessário tomar contato com outras disciplinas esotéricas para obter que somente a Projeciologia não pode nos oferecer. De qualquer forma, num experiência fora do corpo, percebe-se certos poderes latentes com mais clareza, e podemos dizer até mesmo que fazemos uso deles naturalmente mas não adequadamente.

Para o projetor iniciante não é fácil dominar o veiculo recém descoberto. Não temos controle sobre ele e somos facilmente desviados de nosso objetivo pelas circunstâncias e maravilhas que encontramos numa experiência. Aprender a usar a Vontade superior como condição de deslocamento será importante, pois é justamente essa Vontade aliada ao autodomínio que nos conduzirá pelas dimensões e subdimensões.

É interessante traçarmos nossos objetivos antes de efetuarmos a projeção para não acontecer o acima citado, nos perdermos no emaranhado de coisas novas encontradas. Se anteriormente à projeção já sabemos o que queremos, após nos vermos do outro lado, fixaremos nossa idéia no objetivo e poderemos fazer da idéia motivo de meditação e profunda reflexão. O resto a própria natureza se encarregará de fazê-lo, pois somente o fato de nos concentrarmos naquilo desejado já acarreta um deslocamento dentro do tempo e do espaço.

Ainda assim não é tão fácil como parece. A verdade é que somos débeis e fracos, falta-nos atenção, concentração, persistência … por isso é importante ter humildade e solicitar à Divindade interior (alguns chamam de mestre interno) que nos transporte para o local desejado se assim merecermos. Devemos ter em mente que, em última análise, tudo, absolutamente tudo está nas mãos de Deus.

Se não tivermos traçado nenhum piano anterior ao desdobramento, poderemos simplesmente aguardar que os fatos ocorram, ou sair caminhando pelo local onde estivermos a fim de estudarmos detalhadamente tudo que houver no ambiente.

Além de caminharmos podemos nos deslocar da forma a qual nos agradar melhor. Podemos caminhar, flutuar, voar ou qualquer outra maneira de locomoção mais original, quanto menos esforços fizermos melhor, menos energias gastaremos.

A atenção deve estar sempre voltada para si mesmo (interiorizada) ao mesmo tempo que examinamos o local ou os seres com quem estivermos.

Nas projeções efetuadas nas subdimensões mais densas de cada plano nos depararemos com os objetos e obstáculos existentes no plano físico. Eles podem ser simplesmente atravessados com nosso corpo astral, isto é, podemos atravessar paredes, portas e coisas desse tipo, isso se não tivermos medo e dúvidas, porque nesses casos externalizaremos uma angústia imperceptível para nós, mas suficiente para bloquear essa possibilidade.

EXERCÍCIOS PREPARATÓRIOS

É impossível padronizarmos qualquer prática, técnica, exercício ou experiência. Cada pessoa deve encontrar aquela que lhe proporcione maior facilidade de projeção. No entanto existem alguns pontos básicos de onde podemos partir, e o resultado dependerá da dedicação exclusiva de cada estudante.

Recomendamos o cumprimento da seqüência abaixo para surgir o efeito desejado.

a) Os exercícios devem ser efetuados antes de dormir ou de manhã bem cedo Temos observado que pela manhã os resultados são melhores. Todavia estudante poderá adaptar seus horários conforme sua necessidade.

b) Exercícios de mantras, concentração e meditação para ativar os chakras e acelerar a vibração dos corpos mais sutis. Os chakras responsáveis pelo desdobramento são o superior, frontal, cardíaco e do plexo solar. A mantralização deve ser feita durante dez minutos para cada chakra, oi podemos estipular um número especifico (30 vezes para cada um, por exemplo).

• Para o chakra superior e frontal o mantra “1” (concentrando-se entre a sobrancelhas).

• Para o chakra cardíaco o mantra “0” (concentrando-se no coração).

• Para o chakra do plexo solar o mantra “1” (concentrando-se dois dedo acima do umbigo).

Aprender o correto uso da meditação, aliado ao poder da imaginação, será de grande valor para a ativação dos chakras e circulação das energias a fim d uma total harmonização. Podemos fazer os mantras na posição deitado em decúbito dorsal ou sentado. O importante é manter a coluna reta.

c) Ao deitarmos, o relaxamento completo sempre é recomendável, ainda mais se iremos tentar a projeção consciente. A música serve de estimulo ao relaxamento, no entanto somente músicas adequadas podem ser usadas: música sacra, erudita, new age ou especial para relaxamentos. Deve ser agradável e induzir introspeção. (Este item pode ser suprimido se desejar).

d) Exercício respiratório para oxigenação e energização. Quanto mais tenta e profunda for a respiração maior será o estado de interiorização do estudante. Esses exercícios respiratórios devem ser efetuados após o exercício ‘b”, durante o tempo necessário para se atingir o estado de completa concentração e relaxamento (20 minutos, por exemplo). Após o exercício a respiração pode normalizar-se.

e) É imprescindível a autopercepção constante, concentração e imobilidade completa.


TÉCNICAS

Os exercícios do tópico anterior são os pontos primários e qualquer pessoa que esteja se iniciando na Projeciologia deve passar por eles sem suprimir nenhuma das partes. A partir daqui entra a experiência individual de cada estudante. Mas, ainda assim, existem algumas técnicas possíveis de serem passadas.

Lembramos a necessidade de experimentar todas para descobrir a que mais se adaptará ao seu biótipo.

Na verdade existem muitas técnicas diferentes, mas elas giram todas em torno dos pontos abordados a seguir.

Qualquer técnica, para ser eficaz, deverá ser experimentada após o estudante ter seguido as dicas e exercícios abordados no item 13, e ainda sim durante o período de 30 dias consecutivos, no mínimo. Algumas pessoas conseguem êxito em poucas semanas, outras podem necessitar de meses.

a) Imaginação gradativa: o estudante usará o poder da imaginação aliada à concentração e à vontade para se induzir a um estado de projeção. Criará na sua tela mental o processo de desdobramento.

Primeiro sentirá torpor em todo corpo, depois sentirá seu corpo astral e sua consciência, nele centralizada, desligar-se lentamente do corpo físico. Depois se imaginará subindo e deslocando-se através das regiões superiores ac físico.

Este processo deverá ser feito muito lentamente, etapa por etapa, tantas vezes quanto necessário. É bom deixar claro que a projeção é algo distinto de imaginação, fácil de ser separado. Mesmo assim, no inicio, o estudante poderá ter dúvidas, mesmo porque, não possuindo energia suficiente pan estar completamente ‘desperto’ no plano astral, sua experiência poderá se confundir com o sonho lúcido, até adaptar-se à nova realidade. No entanto isso não é regra geral.

b) Meditação transitória: nutra técnica que será usada ao término dos exercícios de preparação é a meditação transitória.

Após os exercícios iniciais, o estudante deitar-se-á em decúbito dorsal, braços esticados (posição esta padrão para todas as técnicas) e relaxado.

Entrará em meditação profunda, contemplando sua mente e seus pensamentos. Não julgará e nem se identificará corri as idéias, apenas deve aguardar a hora em que o sono começa a se apoderar do corpo.

Quando perceber que chegou o limiar entre vigília e sonho, quando começar a observar na tela mental imagens desconexas, ele simplesmente usará sua vontade e levantará.

Terá saído de seu leito corri o corpo astral, por isso deverá se afastar da cama para não retornar ao corpo físico devido a forte atração exercida pelo cordão de prata. Após distanciar-se alguns metros, poderá começar a exploração do ambiente.

Para o estudante se certificar que está fora do corpo pode dar um pulo ou puxar seu dedo indicador, se sair voando no primeiro caso, ou se seu dedo esticar, não deve se espantar, pois está desdobrado. Caso não o esteja, deverá reiniciar o processo.

Na tentativa de levantar-se do leito no momento de transição vigília-sono, se sentir seu corpo pesado, poderá rolar ou engatinhar, o importante é afastar-se do leito conscientemente.

c) A técnica da pineal: pineal é uma glândula situada aproximadamente no centro de nosso crânio. Juntamente com a glândula pituitária rege todas as demais do corpo. Nos corpos sutis existem os chakras superior e frontal, ambos ativados com o mantra “1”.

Após os exercícios iniciais, tomaremos a posição padrão de meditação e nos manteremos concentrados o tempo inteiro na região do entrecenho, colocando, se possível, a ponta da língua na região superior do céu da boca para estimular esta glândula e este chakra. A partir daí é só aguardar e manter a consciência desperta o tempo todo, deixando que o sono se aproxime, mas sem sucumbir à sua força adormecendo completamente.

A estimulação dos chakras aumentará a freqüência vibratória do corpo astral, projetando-o para fora da matéria densa. Pode-se adaptar esta técnica à técnica da meditação transitória (“b”).

d) A projeção no corpo mental: para a projeção no corpo mental será necessário, quase sempre, completo domínio do corpo astral, haja vista ser o processo idêntico ao necessário para projetar-se no corpo astral. Todavia esta técnica se torna difícil devido a necessidade de realizá-la no plano astral, quando o estudante já está de posse deste veículo.

Neste caso o projetor deixará seu corpo astral repousando e se projetará com o corpo mental exatamente como fez para sair com o veículo anterior na técnica da meditação transitória.

e) Despertar no sonho: neste caso não temos propriamente uma técnica, mas sim conseqüência do processo de autopercepção diária abordado em alguns tópicos desse Curso.

Durante o sonho começaremos a nos dar conta que algo anormal está acontecendo (estamos conversando com uma lebre, por exemplo). Este fato será o catalisador para pararmos o que estivermos realizando e começarmos a simplesmente observar o local onde estamos, como estamos e o que estamos fazendo.

“Despertaremos” no astral e deixaremos de sonhar, tornando as rédeas dos acontecimentos e nos direcionando de acordo com a nossa vontade (se a tivermos).

Podemos usar três dicas durante o dia (quando em estado de vigília) para facilitar este fato:

A primeira delas é nos perguntarmos constantemente sobre o que estamos fazendo.

Nesses instantes focalizaremos atenção plena sobre nós e os acontecimentos ocorrendo em nossa volta. Em outras palavras, nos lembraremos de nós mesmos.

A segunda e a terceira das dicas nós faremos em qualquer local ou momento: pararemos nossas obrigações momentâneas, puxaremos nosso dedo indicador e daremos dois “pulinhos”. Como vimos, nossos atos diários são repetidos nos sonhos, se estivermos atento, estes pequenos fatos serão suficientes para nos darmos conta que estávamos sonhando.

Cuidado apenas para não mecanizar também esses atos. E necessário fazê-los atentamente, pois caso contrário o estudante também o repetirá no astral de forma mecânica, perdendo completamente a finalidade e não resultando em consciência desperta.

Finalizaremos as técnicas com dois manhas que são, por excelência, os mantras da projeção astral. Eles deverão ser feitos diariamente até obtermos resultados.

primeiro é o Mantra FARAON:

FFFAPAAAA-RRRRRAAAAA00000NNNNN. Deve ser pronunciado na medida que vem o sono e o adormecimento. Nesses momentos o estudante se concentrará nas pirâmides do Egito para que as forças elementais possam sacar a pessoa conscientemente fora de seu corpo.

O outro Mantra é conhecido como som do grilo, pois se parece com o silvo agudo deste pequenino inseto, O Mantra é a letra S, pronunciado assim:

SSSSSSSSSSSS. A concentração e a vontade aumentará a vibração que este som provoca em nosso corpo até que o mantra se confundirá com o próprio som do deslocamento do corpo astral.

Fundação Aun Weor

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/curso-de-projeciologia-viagem-astral/