Um elogio a reflexão

É sempre muito proveitoso ler boa filosofia, a despeito das inúmeras lendas acerca de sua complexidade e aparente inutilidade prática. Ademais, nunca é tarde para começar a pensar sobre si, a se aventurar nos reinos da própria alma, a se conhecer. Ou, como bem resumiu Epicuro:

Na juventude, não devemos hesitar em filosofar; na velhice, não devemos deixar de filosofar. Nunca é cedo nem tarde demais para cuidar da própria alma. Quem diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de filosofar, parece-se ao que diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de ser feliz.

Obviamente há que se ter em mente para que serve propriamente a filosofia. Em minha adolescência ela não foi ensinada no colégio, e portanto não servia para passar nas provas e tampouco no vestibular. Da mesma forma, o fato de alguém haver estudado filosofia não parece ser uma das prioridades das empresas na hora de analisar um currículo. Nesse sentido, é melhor aprender a programar, gerenciar ou até mesmo cozinhar. De fato, a filosofia não serve para passar em provas nem para se ter um bom salário.

No entanto, ela serve para se ter uma boa vida, uma vida com muito mais felicidades do que angústias, o que é fruto direto do contato e conhecimento de nossa própria alma. Não se deveria estudar filosofia somente para ter assuntos para conversar com este ou aquele intelectual de linguagem rebuscada, melhor seria evitar amizades deste tipo. A verdadeira filosofia não cria barreiras de linguagem entre as pessoas, todo verdadeiro filósofo é um apreciador da alma humana, pois é somente de lá que advém a sabedoria.

O Chefe Seattle, por exemplo, não sabia nada de física ou química, nem nunca leu nenhum clássico da literatura alemã ou russa. Mas todo filósofo saberá apreciar o seu quinhão de sabedoria, pois reconhecerá nela um pouco da água que flui da mesma fonte, na essência das almas, de todas as almas:

O Presidente em Washington diz que deseja comprar a nossa terra. Mas como pode comprar ou vender o céu, a terra? Essa ideia é estranha para nós. Cada parte dessa terra é sagrada para o meu povo. Cada agulha de pinheiro brilhante. Cada grão de areia da praia, cada névoa na floresta escura. Cada característica é sagrada na memória e na experiência do meu povo.

Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores são nossas irmãs. O urso, o veado, a grande águia são nossos irmãos. Cada reflexo na água cristalina dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. Sabemos que a terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida – ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo.

E foi necessário bem mais de um século para que o restante da humanidade se desse conta destas verdades. Ora, Epicuro e o Chefe Seattle nunca ouviram falar um do outro, mas certamente dariam excelentes amigos, pois ambos conheciam suas próprias almas de uma forma bem mais profunda do que a maioria de nós. A sabedoria, nesse sentido, é um dos nossos maiores tesouros, bem mais valiosa do que terras, petróleo, ou um cargo na diretoria de uma multinacional.

Amar a sabedoria, ser um filósofo, nesse sentido, é antes se preocupar em ser do que em ter. Antes se preocupar com as coisas naturais do que com as coisas superficiais. Mas no que exatamente a mera leitura dos clássicos poderá nos auxiliar? Em quase nada, se nos mantivermos apenas na leitura dos manuais de natação, sempre nos resguardando do mergulho. Por que deixar para amanhã a aventura que pode se iniciar neste momento?

Uma das máximas do estoicismo, por exemplo, é uma frase supreendentemente simples: “Preocupe-se apenas com aquilo que pode mudar”. Mas qual a utilidade em se ler e decorar tal máxima, quem sabe para passar nalguma prova estranha, ou talvez para recitá-la em meio a uma reunião de negócios, querendo passar a ideia de que é um intelectual?

Pois é, de nada adianta haver lido Epicteto ou Sêneca se você nunca exercitou esse amor a sabedoria, esse olhar para si, enfim, a reflexão. Somente pela reflexão em cima de tais palavras é que poderemos nos desligar um pouco das crises nos noticiários, e tratar de resolver as crises de nossa própria existência. Somente pela reflexão em cima de tais palavras é que podemos, quem sabe, sair de casa para dirigir nosso carro numa metrópole engarrafada tendo em mente que o trânsito estará lá, como sempre esteve, e não é xingando o motorista ao lado ou algum deus da fortuna que iremos chegar mais rapidamente ao nosso destino.

O nosso destino, afinal, sempre foi nossa própria alma. Viaje até a Índia, visite um vulcão na Islândia ou um cassino em Las Vegas, e não terá dado sequer um passo para além de sua alma, de sua essência. Há todo um mundo por lá – de fato, o único mundo que há.

E somos bombardeados constantemente por informações, anúncios, equações de lucros e perdas, número de mortos e feridos, placares de partidas e resultados de provas, e nada disso existe por si só, ou tem significado por si só: somos nós, em nós mesmos, quem interpretamos o mundo. Por que, então, se abster de mergulhar, por que viver a margem de nossa própria alma?

Seja na filosofia, na ciência, na religião ou até mesmo na poesia, a primeira coisa que o mergulhador aprende é que os manuais só nos servem para dar a coragem do primeiro mergulho, dos primeiros cem metros na trilha da floresta íntima, pois que o restante da aventura caberá somente a nós.

Neste caminho, entretanto, não temos somente a ajuda do relato daqueles que caminharam há séculos ou milênios atrás por essas mesmas trilhas, temos também a possibilidade de sermos auxiliados pelos que caminham ao mesmo tempo que nós. E a única coisa que eles lhe pedirão é que ajudem também aos que vêm atrás.

E é assim, é somente assim, de mãos dadas nesta jornada, que poderemos um dia alcançar a eternidade. Esta região onde residem todas as utopias e todas as promessas de um novo amanhã, de onde cintila a luz que não gera nem é gerada, e que existe e sempre existiu para ser refletida – um pensamento de cada vez.

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Crédito da imagem: Google Image Search (Epicuro)

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

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#epicuro #Filosofia

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Talismãs Taoistas

Os talismãs são recursos adotados pelos taoistas desde seus primórdios, chamados de Fu (符) ou Shenfu (神符). Consistem basicamente em uma composição de ideogramas convencionais, escrita arcaica, selos e carimbos, e desenhos diversos. A origem documentada dentro da tradição se encontra em algumas escrituras taoistas, como representações de sinais do Céu para trazer sua energia para a Terra ou relacionado às divindades taoistas. Seu uso é fundamental em rituais taoistas e em diversas artes mágicas. Um dos mitos chineses sobre suas origens afirma que uma gigantesca tartaruga negra saiu das águas do Rio Amarelo carregando um talismã em sua boca e o deixou em um altar diante do Imperador Amarelo (Huangdi), retornando ao rio.

Existem muitas formas de se fazer um talismã e muitas maneiras de empregá-lo. Em geral se utilizam tintas preta e vermelha sobre um papel amarelo. O talismã pode ser utilizado em uma cerimônia e queimado em seguida, pregado na parede para proteger o local ou expulsar espíritos nefastos, carregado pela pessoa para garantir proteção ou usado por um doente para recuperar a saúde. Também podem ser queimados e suas cinzas misturadas com água e bebido, especialmente para fins terapêuticos.

Fazer um talismã é complicado e demanda muito conhecimento por parte do praticante, chamado de Fulu (符籙). Cada utilização requer elementos específicos e cada tradição possui uma forma de fazê-lo. Existem inclusive linhagens especializadas nesse tipo de construção. A Tradição Lingbao (Tesouro Luminoso), por exemplo, foi formada ao redor da ciência dos talismãs. Vários de seus textos principais se referem a essa ferramenta: Lingbao wufu xu (Introdução aos Cinco Talismãs do Tesouro Luminoso), Wupian zhenwen (Escrita Perfeita em Cinco Tabuletas) e Wucheng fu (Cinco Talismãs de Correspondência).

Sua confecção está envolta em rituais especiais para garantir e reforçar a energia necessária e impregná-lo com a intenção adequada para cumprir seus objetivos e pode levar até 30 dias para ser executado devidamente. O Alquimista e médico taoista Ge Hong (283-343) [já mencionado anteriormente nesta coluna] compilou uma bibliografia taoista em uma de suas obras que lista 55 tipos de talismãs empregados em sua época.

Seus desenhos e formas geométricas e mesmo palavras escritas não se destinam a serem lidos pelos mortais, mas pelas divindades. Para isso se utilizam muito da “escrita de selo”, uma forma arcaica de escrita chinesa com caracteres curvilíneos e bastante artísticos.

Para fechar esse tema gostaria de comentar que a energia emitida por determinados desenhos e formas geométricas é bem estudada pela radiestesia há mais de cem anos. Descobriu-se que desenhos e formas geométricas emitem uma “onda de forma” específica e que possui características e atuações muito particulares. Esse tipo de pesquisa é a base dos chamados “gráficos radiestésicos”. Um dos mais poderosos emissores conhecidos pela radiestesia é o Bagua do Céu anterior.

É interessante notar também que esses desenhos dos talismãs chineses se parecem muito e tem função muito semelhante, quando feitos pelos médiuns taoistas, aos pontos riscados da Umbanda.

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Gilberto Antônio Silva é Parapsicólogo, Terapeuta e Jornalista. Como Taoista, atua amplamente na pesquisa e divulgação desta fantástica filosofia e cultura chinesa através de cursos, palestras e artigos. É autor de 14 livros, a maioria sobre cultura oriental e Taoismo. Sites: www.taoismo.org e www.laoshan.com.br

#Tao #taoísmo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/talism%C3%A3s-taoistas

Paralisia Progressiva

Este texto foi traduzido com a permissão de Ulric “Gestumblindi” Goding a Nicholaj Frisvold para publicação exclusiva aqui no TdC. Ulric é membro do Clan of Tubal Cain, publicado originalmente no site http://manofgoda.com sob o título “Progressive Stasis”.

Escrevo isto não como um mero seguidor de uma prática distinta em sua tecnologia, mas como um membro de um povo distinto em sua cultura. Os chifres são colocados, o garfo na mão. Hora de ser patife e bancar o advogado do diabo.

Todos os homens não são iguais.

Vomita-se uma utopia enjoativamente doce.

Balindo no rebanho crescente, as ovelhas permanecerão ovelhas e lobos agirão de acordo. Por mais que se queira do contrário, isto não pode mudar.

As ovelhas podem ser apaziguadas e convidadas ao covil, mas vão ser abatidas para o jantar quando a necessidade ou o desejo surgir.

A fixação de si, e qualquer posterior olhada para o próprio umbigo parece ter desarmado o “mundo ocidental”. Tentamos defender a correção política, durante todo o tempo em que vivemos sob uma política que falha a muitos. Assistimos ameaças fortalecerem enquanto brigamos para determinar qual ação é a certa. Devido à natureza “progressista” da sociedade ocidental, há tantas opiniões diferentes quanto há indivíduos; tanto que a progressão em direção à resolução vacila e fica estática. Força na identidade comum sempre terá a vantagem. No entanto, quantos neste “mundo saidinho” podem dizer que ‘adicionaram’ à comunidade? Não é uma coleção de indivíduos que compõe uma comunidade, mas uma coleção de unidades menores coesas, as famílias se preferir.

Mesmo que ser um ser humano seja um traço comum entre nós, não somos uma bolha homogênea. A constituição – não só a humanidade, mas também a multiplicidade de expressões de vida neste mundo – é heterogênea e deve ser acolhida como tal.

Será que estamos olhando para as tentativas de conversão, pregações de ‘profetas’ infindáveis, radical-isto, liberal-aquilo, abundantes manifestos que buscam casar o Ofício com humanismo secular? Se você não aceitar “isto”, então você não é “verdadeiramente” aquilo… De quem é a autoridade que dita que tal é o caso?

O “Tradicional” ou o Velho Ofício já teve seus dias?

As cosmovisões tradicionais são exclusivas em sua natureza, e tal é a natureza da besta, pergunte a qualquer antropólogo e tenho certeza que ele vai te dizer o mesmo. Uma pessoa está ou no limite social aceitável ou no (sub) cultural, e se fora deles então, a pessoa é, literalmente, uma “forasteira” por padrão.

Pessoalmente, posso percorrer a paisagem, compartilhar a companhia de outros, beneficiar-me da hospitalidade alheia, mas permaneço distinto deles. Sou obrigado à Lei do meu Povo, encontro o meu parentesco no Povo, devo a minha fidelidade à Dama e Magister do Clã. Outros têm suas próprias obrigações e limites que eu não compartilho, e por isso sou um “forasteiro” para eles e à sua raça, da mesma fora em que eles são para a minha.

Eu entendo que estas não são palavras confortáveis ​​em um mundo que demanda inclusão; no entanto, esta é a realidade para aqueles que aderem a um paradigma Tradicional.

As Nornes decidiram o meu fado nesta vida em minha primeira respiração, provavelmente muito antes disso. Se eu não nasci uma determinada cor, credo ou assim por diante e isto me impede a entrada para um sistema ou cultura nativa, então que assim seja, as Nornes falaram. O problema não reside na exclusividade, mas com a violência ou falta de tolerância demostrada tanto na manutenção da exclusividade, ou na execução da inclusão. Por exemplo, é “errado” se os povos nativos desejam manter suas práticas exclusivamente aos seus? Em minha opinião, não é. Ainda assim, o comportamento exclusivo pode ser debatido como racista? Vou deixar que cada um medite por si.

Parece ser um fenômeno moderno que as pessoas pensem que o mundo lhes deve algo, que pelo mero fato de termos nascido humanos, nós “temos o direito” a cultura ou subcultura de todo mundo. Bem, aqui eis aqui uma novidade para estas pessoas: o mundo não lhe deve nada. Somente através de suas ações você pode adquirir sua porção alocada na vida e não por simplesmente existir como um membro da humanidade.

A dura realidade da vida é que não nascemos iguais, intelectualmente ou fisicamente não desenvolvemos de forma homogênea, cada um tem seus próprios pontos fortes e fracos que podem beneficiar e prejudicar enquanto se percorre o caminho do nascimento à morte. Para aqueles que buscam consolo no Culto do Indivíduo, esta é uma perspectiva desconfortável.  Isto significaria que um é “melhor” equipado do que o outro em diferentes estações dentro da estrutura da sociedade. Para aqueles que aderem a uma visão de mundo tradicional, esta não é uma perspectiva desconfortável para ser substituída por uma inclusão liberal; esta é simplesmente a realidade comum, onde as peças díspares forjam um todo mais forte.

Por muito tempo as pessoas têm remado em um esgoto da Nova Era de “busca-de-si”, “autodesenvolvimento”, “eu”, “si”, “self”… Beneficiando a si mesmo como uma prioridade, a evolução material de raízes fundadas na escatologia egoísta que é “salvação pessoal”.

Eu olho ao redor, à “comunidade” do Ofício e vejo multidões de indivíduos que buscam “fazer um nome” para o seu próprio bem, para ser um movedor e agitador dentro da esfera da Arte. Mestres autoproclamados, Conselhos e Manifestos declarados que engrandecem os autores mais do fazem tirar as bundas para fora dos sofás e longe das telas.

Ouço com uma consistência desanimadora: “Meu relacionamento com os espíritos me dá …”, “eu vou fazer um trabalho para conseguir … “,” Eu vou comprar este livro de edição limitada com pele de cobra…” Que farsa; parece que nós, pessoas confortáveis do século XXI estamos brincando de Harry Potter para que possamos nos vangloriar para o outro avatar sem rosto na Internet. Aquilo que as pessoas estão brincando que a Arte seja é pouco mais do que chacoalhar os braços, ouvindo ecos vazios da própria conversa fiada e inflando egos enquanto nos gabamos para todos os que quiserem ouvir. Isto está longe do que me motiva à Arte.

Perdida em distração mesquinha, essa busca da construção de uma persona aceita pelos colegas tem feito mais dano do que benefício na construção de algo duradouro.

O Culto da Personalidade de fato é um veneno doce e doentio, assim como os edulcorantes em alimentos artificiais que você não pode sentir isso te matando. A preciosa visão de si de uma pessoa significa muito pouco, na melhor das hipóteses uma persona carismática possibilitará a difusão de ideias que podem beneficiar a comunidade, na pior das hipóteses uma persona carismática pode causar atrocidades tais como as sofridas durante a Segunda Guerra Mundial, bem como eras anteriores e posteriores. Persona é meramente uma ferramenta que permite a interação, que esperançosamente dá à pessoa os meios para beneficiar a sua comunidade. Um artesão não é definido por suas ferramentas, nem deveríamos ficar fascinados pela ferramenta que é o ego.

Robert Cochrane, um antepassado do meu Povo e fundador do Clan, tem sido sujeito a este culto à personalidade e desde seu falecimento muitos querem um pedaço dele, por assim dizer. Por favor, permita-me ser um tanto controverso por um momento…  Quem era ele do lado de fora de seu próprio povo não tem importância; sim, ele era dotado, ele também era atormentado. Tenho certeza de que há muitos que compartilham traços no mundo. O mais importante são as suas ideias, coisas que sobreviveram e foram reforçadas desde sua morte, ideias que deram inspiração a muitos, ideias que fortaleceram uma comunidade maior, em vez de beneficiar apenas a ilha solitária de si mesmo.

O Ofício é todo a respeito do relacionamento, pura e simplesmente. Sim, o self-ego nos dá um ponto de orientação inicial, como levamos a nossa bússola e viajamos através das vastas paisagens da existência humana e extra-humana. Mas serve apenas como uma orientação inicial. Relacionamentos não são unicamente focados em tomar, mas doação recíproca. O Ofício é uma expressão natural da cultura, tradicionalmente enraizada na troca de presentes que estreitava os laços dentro da comunidade (entre ambos, humanos e os Outros), e isto, por sua vez, dava melhores chances de sobrevivência contra a ameaça externa, seja na forma de fome ou violência. Deixe-me reiterar, no entanto, não é tanto a sobrevivência de si, mas a sobrevivência de um povo.

Se não formos vigilantes, o Culto da Individualidade trará a morte da Arte Tradicional. Não importa nem um pouco se alguém é gay, hétero, trans, negro, branco, amarelo; pró-isto ou anti-aquilo, isso é apenas mais entrincheiramento dentro de si. Abrace a heterogeneidade, mas nunca perca de vista que em vez de servir a si, busque servir ao seu povo, a sua comunidade, em primeiro lugar. E para aqueles que se professam Magister, Convocador, Homem de Preto, ou outros títulos, lembre-se que tais títulos devem lembrá-lo de que você carrega mais responsabilidade a serviço do seu povo, mantenha-os como um fardo de necessidade e não uma dádiva de status.

Seja qual forem os títulos, distinções ou orientações do self que são mantidos, eles logo desaparecem quando a lâmina é colocada no pescoço. Não é uma perda iminente da orientação ou cor que tememos nesta circunstância fatal, é a perda de vida que lamentamos.

Afinal…

“Ninguém encontra muita utilidade para um cadáver” (Hávamál)

Flags, Flax & Fodder,

Ulric “Gestumblindi” Goding

Níwe Dæg – Níwe Léoht – Níwe Hopan

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/paralisia-progressiva

A Confraria dos Espelhos

Somente a visão da entrada da gruta lhe causava arrepios. Fazia anos, ou talvez vidas e eras, que ele não retornava aquele lugar, e no entanto a relva em seu entorno e até mesmo as pequenas pedras ainda lhe pareciam estranhamente familiares. A verdade é que nunca seria capaz de realmente esquecer, pois que foi naquela pequena fenda de montanha que ele finalmente abandonou as sombras da Caverna, e conheceu o Sol. O mesmo local ainda lhe trazia, ao mesmo tempo, toda a tristeza e toda a alegria do mundo.

“Não importa, eu vim aqui realizar a minha missão” – pensou, e logo após penetrou na escuridão…

Como seus olhos já não estavam mais habituados a enxergar nas sombras, empunhava a sua espada, a mesma com a qual desferiu o golpe mortal no Guardião da Passagem, e alcançou a liberdade. Hoje ela não era mais um instrumento de morte, mas um artefato mágico – uma espada que gerava a sua própria luz. Apesar de tênue e azulada, era esta a luz que permitia que ele pudesse se guiar terra adentro, rumo ao coração das sombras, há muito abandonado, mas que hoje era novamente o seu destino.

De vez em quando encontrava um ou outro andarilho escalador, desgastado e solitário, a gemer e choramingar pelo caminho. Isso lhe trazia de volta as emoções de outrora, todas as dúvidas e sofrimentos, todos os temores e descompassos da alma, que acreditara terem se aniquilado, mas que em verdade sempre estiveram ainda lá, nos porões do inconsciente.

“Anjo! Anjo! Me diga quanto falta, por favor!” – gritou um coitado desesperado a tatear, quase cego, o chão da caverna.

“Tenha perseverança, confie em si mesmo… Não há nada a temer nem a duvidar, há luz e amor em todo lugar, sempre houve e sempre haverá. Mesmo eu consegui chegar ao Alto, tenho certeza de que um dia também conseguirá.” – lhe respondeu, tentando escolher as melhores palavras que lhe vinham a mente naquele momento.

“Mas quanto falta? Quanto falta? Ora, me ajude, me ajude! Me disseram que vocês nos ajudariam ao final da subida…”

“Exato meu amigo, e é esta a minha missão atual. Mas de nada adiantaria eu lhe carregar para o Alto se você ainda não tem olhos para enxergar na Claridade. Eu apenas lhe tornaria cego. Confie em mim, em breve sua jornada se tornará mais fácil e menos sofrida, e todos os paradoxos serão reconciliados!”

E abandonou, com o coração doído, aquele ser que mais parecia um reflexo dele mesmo, há muito tempo atrás… “E, de certa forma, talvez todos sejamos reflexos uns dos outros” – pensou consigo mesmo enquanto a escuridão o abraçava cada vez mais…

Foi quando o ar já estava denso e úmido, e quando as paredes de pedra não mais lhe permitiam descer, que ele encontrou o sinal na parede rochosa. Era ali que ele deveria esperar o sinal das trombetas. Era quase insuportável permanecer naquela escuridão abafada, e a cada respiração seus pulmões ardiam com o ar fétido de desejos desenfreados, como espectros que pairavam por todos os recantos daquele mundo subterrâneo. Mas devia esperar, iria esperar – era esta a sua grande missão!

No cinto trazia uma pequena bolsa de pano contendo a relíquia que os seus irmãos da Confraria lhe haviam confiado. Ao sinal das trombetas, tudo o que deveria fazer era retirar o objeto da bolsa e apontá-lo em direção ao pequeno facho de luz que ainda insistia em penetrar o subterrâneo e vencer toda aquela escuridão. Não era uma luz qualquer, mas de uma frequência que somente os olhos mais treinados conseguiam perceber. Todos os longos anos que passou aprendendo com seus mestres na Confraria talvez pudessem mesmo se resumir a uma espécie de “educação dos olhos” para enxergar aquela luz…

Então, repentinamente as trombetas ecoaram fundo por toda a Caverna, e enquanto os andarilhos perdidos tapavam os ouvidos para se protegerem daquele som ensurdecedor, ele soube que era o momento: retirou o pequeno espelho do cinto e, o colocando ante o facho solar, pôde enfim vislumbrar a todos os seus outros irmãos da Confraria dos Espelhos posicionados noutras partes da Caverna, cada um refletindo a luz um do outro, de modo a iluminar toda aquela escuridão – como há muitas eras não se via!

E, ainda que por um breve momento, todos os andarilhos e todos os escravos de Abaixo puderam vislumbrar todas as matizes de cor das pinturas ancestrais que salpicavam por todos os cantos e paredes, mas que antes lhes passavam desapercebidas. E assim todas as grandes histórias, todos os grandes heróis de outrora e todos os mitos eternos foram uma vez mais vislumbrados.

Era assim, exatamente assim, que os seus irmãos faziam para trazer mais agentes para a Confraria. Muitos eram convocados e muitos ouviam as trombetas e vislumbravam as antigas pinturas e os símbolos das rochas, mas somente alguns tomavam coragem para prosseguir até o Alto. Não importa: passo a passo, eles ainda tinham todo o tempo do mundo…

raph’14

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Crédito da foto: Stephen Alvarez/National Geographic Stock/Caters News

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#Contos #Espiritualidade

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Para ser feliz (parte 3)

« continuando da parte 2 | ler do início

Quando um rio é muito jovem, de modo que ainda corre por rochas sólidas, pouco desgastadas por sua passagem, em seu rumo ao mar há muitos trechos que, antes córregos pacatos, logo viram excitantes corredeiras, de água turbulenta, ideais para serem descidas por aventureiros em seus botes!

Imagine que você é um deles, em seu bote magnífico, quicando pela superfície enquanto mal há tempo de desviar dos pedregulhos maiores com seu remo. Enquanto tudo vai bem, o caminho é deveras divertido e cheio de adrenalina, e decerto não há muito tempo para se pensar e refletir sobre outra coisa que não aquela corredeira serpenteando morro abaixo. Mas, e se o seu bote é finalmente vencido pelas pedras pontiagudas no leito do rio? E se ele simplesmente fura, e você é obrigado a encostar na margem?

Há muitos que, nos dias atuais, correm para fazer pequenos remendos nos furos que, exatamente por terem sido feitos as pressas, logo logo estouram de novo, de modo que a tão sonhada descida até o mar, que era para ser uma grande brincadeira, logo se torna algo cruel e dolorido, e as pedras pontiagudas do rio passam a furar não somente o bote, como o próprio navegante desavisado.

Para prosseguir nessa corredeira que serpenteia pela vida, é preciso conhecer a arte de se remendar botes. Ou, como bem explicou meu amigo Caciano Camilo Compostela, um monge rosacruz:

Cuidado, a tristeza é uma esfinge estranha… Se você lhe decifra os enigmas ela te abençoa, caso não, lhe arranca a cabeça! Não tema, seu objetivo é lhe apontar o vazio, conduzir a reflexão e ao aprofundamento. Se no lugar do questionamento, meditação e reencontro, optar por tapar o buraco em romances imaginários, compras desnecessárias, diversões frívolas ou vícios alucinantes em vã tentativa de fugir de si mesmo, cuidado, pois ela lhe penetra mais fundo, se alastra, domina e consome.

Desnecessário dizer que a arte de se remendar botes também tem muito do estoicismo do qual vínhamos falando: ora, aqueles que não consertam seus botes são ainda mais afetados pelas corredeiras, de modo que, além de não conseguirem se guiar da melhor forma pelas águas turbulentas, geralmente são dilacerados por muitas das pedras pontiagudas no caminho.

Já aqueles que passam, quem sabe, a noitinha remendando seus botes, têm a divina oportunidade de contemplar as estrelas, e ver a neblina passar, e ouvir os primeiros pássaros a cantarolar para a manhã, e assim, observando ao mundo a sua volta, e percebendo a si mesmos como parte dele, acabam por reconhecer esta verdade: que o mundo inteiro, assim como os botes e seus navegantes, corre morro abaixo, rumo ao mar.

E assim, aquele que compreende e aceita tamanho fluxo incomensurável de vidas e seres, aceita também que há diversas formas de descer o rio, e diversos formatos de botes e remos, e inúmeras técnicas de remendo, e é impossível saber ao certo qual caminho é o mais rápido, em qual nos machucaremos menos, em qual seremos mais felizes…

Dizem os ocultistas que é nosso dever encontrar nossa verdadeira vontade, e alcançar a grande realização da vida. Mas para ser feliz não faz sentido pensar nesta vontade como algo extremamente oculto, precioso e único, que uma vez desvelado, nos conduzirá a alguma espécie de “iluminação instantânea”.

Não, meus irmãos, para ser feliz é preciso reconhecer que a verdadeira vontade é mais como esta corredeira que temos descido há tanto custo. Pode ser que as águas tenham sido turbulentas no início da queda, mas é certo que em algum momento mesmo este rio raivoso irá encontrar as grandes vias que rumam para o oceano há milênios, onde os pedregulhos já se verteram em areia, e onde o curso segue mais como uma procissão sagrada do que uma aventura esportiva.

Assim, é bem provável que nós todos já estejamos a navegar por tal vontade, embora muitos a contra gosto, seja porque não se dedicaram a arte de se remendar botes, seja porque um dia acreditaram piamente que o rio poderia ser parado, represado com dogmas e ideias fossilizadas, para que então pudessem subir no alto de alguma pedra e bradar:

É aqui, chegamos ao Paraíso, podem abandonar seus botes!

Mas a ânsia da vida por si mesma é como a corredeira que vence qualquer represa. Quando pensamos que enfim havíamos descoberto um paraíso, quando optamos por encostar nas margens e simplesmente descansar, logo ficou claro que aquele charco não era o mar, não era o oceano, mas tão somente um pântano de vontades que se dissociaram da verdade.

É por isso que os grandes profetas não são como viajantes cansados que já desistiram de brincar em seus botes, mas antes como aqueles que caminham sobre as águas, rompem todas as represas, fendem os maiores pedregulhos, e sorridentes, ainda nos dizem:

Dia virá em que farão tudo o que tenho feito, e ainda muito mais, pois sois navegantes divinos!

No fim, só há uma vontade, e todas as demais se tornam verdadeiras na medida em que a espelham, a refratam e refletem adiante: há esta corredeira morro abaixo, e há o mar para onde tudo corre – um está a buscar o outro, e não há nada que possa realmente ficar por muito tempo em seu caminho.

» Em seguida encerramos com quatro poetas convidados…

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Crédito da imagem: ki-rafting.com

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#Felicidade #Ocultismo #VerdadeiraVontade

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O Menino Jesus

Toda poesia de Alberto Caeiro

Num meio-dia de fim de Primavera

Tive um sonho como uma fotografia.

Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte

Tornado outra vez menino,

A correr e a rolar-se pela erva

E a arrancar flores para as deitar fora

E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.

Era nosso demais para fingir

De segunda pessoa da Trindade.

No céu era tudo falso, tudo em desacordo

Com flores e árvores e pedras.

No céu tinha que estar sempre sério

E de vez em quando de se tornar outra vez homem

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer

Com uma coroa toda à roda de espinhos

E os pés espetados por um prego com cabeça,

E até com um trapo à roda da cintura

Como os pretos nas ilustrações.

Nem sequer o deixavam ter pai e mãe

Como as outras crianças.

O seu pai era duas pessoas —

Um velho chamado José, que era carpinteiro,

E que não era pai dele;

E o outro pai era uma pomba estúpida,

A única pomba feia do mundo

Porque não era do mundo nem era pomba.

E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala

Em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que ele, que só nascera da mãe,

E nunca tivera pai para amar com respeito,

Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modelo às outras.

Depois fugiu para o Sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz ao braço direito,

Chapinha nas poças de água,

Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.

Atira pedras aos burros,

Rouba a fruta dos pomares

E foge a chorar e a gritar dos cães.

E, porque sabe que elas não gostam

E que toda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas

Que vão em ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me todas as coisas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.

Diz que ele é um velho estúpido e doente,

Sempre a escarrar no chão

E a dizer indecências.

A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.

E o Espírito Santo coça-se com o bico

E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada

Das coisas que criou —

“Se é que ele as criou, do que duvido.” —

“Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,

Mas os seres não cantam nada.

Se cantassem seriam cantores.

Os seres existem e mais nada,

E por isso se chamam seres.”

E depois, cansado de dizer mal de Deus,

O Menino Jesus adormece nos meus braços

E eu levo-o ao colo para casa.

……

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina

É esta minha quotidiana vida de poeta,

E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.

E que o meu mínimo olhar

Me enche de sensação,

E o mais pequeno som, seja do que for,

Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segredo comum

Que é o de saber por toda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.

A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.

O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro,

Mas vivemos juntos e dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas

No degrau da porta de casa,

Graves como convém a um deus e a um poeta,

E como se cada pedra

Fosse todo um universo

E fosse por isso um grande perigo para ela

Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens

E ele sorri, porque tudo é incrível.

Ri dos reis e dos que não são reis,

E tem pena de ouvir falar das guerras,

E dos comércios, e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos mares.

Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer

E que anda com a luz do Sol

A variar os montes e os vales

E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.

Levo-o ao colo para dentro de casa

E deito-o, despindo-o lentamente

E como seguindo um ritual muito limpo

E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com os meus sonhos.

Vira uns de pernas para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sozinho

Sorrindo para o meu sono.

……

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

……

Esta é a história do meu Menino Jesus.

Por que razão que se perceba

Não há-de ser ela mais verdadeira

Que tudo quanto os filósofos pensam

E tudo quanto as religiões ensinam?

s.d.

“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). – 32.

“O Guardador de Rebanhos”. 1ª publ. in Presença, nº 30. Coimbra: Jan.-Fev. 1931.

As Edições Textos para Reflexão voltam a publicar Fernando Pessoa, ou melhor, Mestre Caeiro. Em Toda poesia de Alberto Caeiro temos ao todo 3 livros – O Guardador de Rebanhos, O Pastor Amoroso e Poemas Inconjuntos –, além de diversos textos adicionais.

» Um livro digital já disponível para o Amazon Kindle e o Kobo

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#FernandoPessoa #Kindle #poesia #Jesus #Paganismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-menino-jesus

O Jardim de Epicuro

Há cerca de 2.300 anos caminhou sobre a antiga Grécia um pensador que alçou a felicidade ao centro da sua filosofia, e que segue em boa parte incompreendido até os dias atuais.

Epicuro nasceu em 341 a.C. na ilha de Samos, onde passou a infância e a juventude, tendo aprendido a filosofia platônica através do acadêmico Pânfilo. Com cerca de 18 anos, vai morar em Atenas, cidade natal de seu pai, a fim de cumprir os dois anos do treinamento militar obrigatório. Durante seu breve tempo de soldado, se torna amigo do futuro dramaturgo Menandro.

Tendo se mantido em Atenas, numa época em que tanto a Academia de Platão quanto o Liceu de Aristóteles ainda funcionavam em pleno vapor, encontrou oportunidade para continuar seus estudos. Após haver sido forçado a ir se juntar aos pais e outros colonos atenienses que haviam sido expulsos de Samos pelo sucessor de Alexandre Magno, vive por alguns anos na cidade de Colófon, na costa asiática.

Depois perambula por várias regiões da Grécia, quando já está colocando em prática a sua filosofia, e conquista pelo caminho diversos seguidores igualmente filósofos, como Pítocles, Heródoto e Meneceu, que o acompanham pelo resto da vida.

Em 306 a.C., finalmente regressa a Atenas, onde adquire uma ampla casa com um grande jardim, lá fundando a sua famosa escola, reconhecida pelos séculos como “O Jardim de Epicuro”. Tal escola, no entanto, era muito diferente da Academia ou do Liceu: nela, tanto mestres quanto discípulos costumavam conviver juntos a maior parte do tempo, não somente nas aulas de filosofia em si, mas também nos almoços e lanches, nas conversas e brincadeiras, e por vezes até mesmo na cama.

A doutrina de Epicuro, conhecida também como epicurismo, era basicamente centrada na importância do prazer e da felicidade no cotidiano da vida:

O prazer é o princípio e o fim da vida feliz. O homem que alega não estar ainda preparado para a filosofia ou afirma que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou se assemelha ao que diz que é jovem ou velho demais para ser feliz.

Obviamente, Epicuro foi tanto exaltado quanto apedrejado ao longo dos séculos, justamente pelo foco central que a felicidade tinha em sua filosofia. Mas, será que tanto os que o exaltaram quanto os que o demonizaram entenderam exatamente de que tipo de felicidade o pensador grego falava?

Epicuro considerava que a felicidade era sustentada em três pilares principais (desde que uma pessoa tivesse acesso aos bens mínimos para uma existência sadia, como moradia, alimentação e roupas):

A amizade

Quando fundou o seu Jardim em Atenas, Epicuro já convivia com um grupo inseparável de amigos, incluindo aí suas irmãs e esposas, embora não esteja tão claro se as mulheres participavam plenamente dos estudos filosóficos (algo já extremamente heterodoxo para a vida grega de então). Convivendo a maior parte das horas do dia ao lado de seus amigos e discípulos, Epicuro colocou em prática a parte mais essencial da sua filosofia:

De todas as coisas que nos oferecem a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade. Antes de comer ou beber qualquer coisa, reflita com mais atenção sobre sua companhia do que sobre o alimento em si, pois que alimentar-se sem a companhia de um amigo é o mesmo que viver como um leão ou um lobo.

A liberdade

Epicuro e seus amigos fizeram uma segunda inovação radical. Para que não precisassem trabalhar para pessoas de quem não gostavam ou se submeter aos seus caprichos, se afastaram do mundo comercial ateniense e formaram o que poderia ser hoje descrito como uma comunidade autossustentável, cultivando seus próprios alimentos e abraçando um modo de vida mais simples, em troca de sua quase total independência financeira do resto da cidade.

Assim, como nenhum de seus amigos tampouco se envolveu com os negócios ou a política ateniense, não havia entre eles nenhum senso de status, nenhuma necessidade real de exibir posses nem conquistas materiais ou políticas.

A reflexão

Tais epicuristas talvez tenham formado a primeira comunidade hippie do mundo, mas é preciso lembrar que eles se dedicavam a filosofia todos os dias, que a sua felicidade era também algo sempre em construção.

Todos os frequentadores do Jardim eram encorajados a refletir. Muitos de seus amigos eram escritores. Segundo Diógenes Laércio, somente Metrodoro, por exemplo, teria escrito doze obras, entre elas: Sobre o caminho que conduz à sabedoria. Todas se perderam, infelizmente, juntamente com a quase totalidade dos cerca de 300 livros atribuídos exclusivamente ao próprio Epicuro (algumas poucas cartas nos restaram, como a famosa Carta sobre a felicidade, a Meneceu).

São famosas as reflexões epicuristas acerca dos deuses e da morte, por exemplo. Da morte, disse Epicuro na Carta a Meneceu:

Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; e, ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui.

Quanto aos deuses, ele acreditava que eles viviam noutro mundo, onde desfrutavam da felicidade divina, e que pouco se interessavam pelo nosso. Não caberia aos homens, portanto, temer ou se angustiar com os desígnios divinos, mas tão somente tê-los como modelos de bem-aventurança, modelos para o auxílio da busca do homem pelo estado de felicidade, e não como motivo para angústias inúteis. Neste sentido, Epicuro se aproximava dos atomistas, e chegou muito perto do que hoje é compreendido como agnosticismo teísta.

Afinal, Epicuro foi hedonista?

Embora muitas vezes pareça que Epicuro buscava o prazer a qualquer custo, a realidade estava bem distante disso. Os epicuristas na verdade buscavam um estado de espírito definido como Ataraxia. Neste estado, nos encontramos sem inquietações ou preocupações, e nosso ânimo em geral estará sempre equilibrado.

Epicuro acreditava sim na felicidade que adivinha de se estar com amigos na mesa, mas não precisava ser num banquete. De fato, o mero consumo de queijo, para os epicuristas do Jardim, era algo para ser celebrado somente de tempos em tempos. Ter queijo à mesa, portanto, já era considerado um luxo. O mesmo se estende para todo o resto dos chamados “bens materiais”:

Com relação aos desejos, alguns são naturais e necessários; outros são naturais e desnecessários. E há aqueles que não são nem naturais nem necessários.

O que é natural e necessário para a felicidade:

Casa, comida e roupa; Amigos; Liberdade; Reflexão filosófica.

O que é natural, mas desnecessário para a felicidade:

Palacete; Terma privada; Banquetes; Empregados; Peixe e carne.

O que não é nem natural nem necessário para a felicidade:

Fama; Poder político; Status.

Seguindo a essência dos ensinamentos de Epicuro, podemos imaginar nossa felicidade como um copo onde é necessário haver alguma água, talvez até pouco menos da metade, para que tenhamos alguma felicidade. Esta água corresponde a termos moradia, alimentação adequada, e algumas roupas para o convívio social básico. Dali em diante, podemos aumentar nossa felicidade na medida em que enchemos o copo com alguns luxos a mais, como uma alimentação mais elaborada, uma casa mais espaçosa e bem decorada etc. O que Epicuro nos afirma, no entanto, é que de nada adianta continuarmos enchendo o copo: a água vai simplesmente transbordar, e a nossa felicidade continuará inalterada.

Assim, se associarmos a água deste copo às nossas riquezas materiais, nós veremos que a partir de certo limite, um limite bem menor do que costumamos imaginar, o mero acúmulo de dinheiro não nos garantirá mais felicidade alguma…

Se quisermos realmente ser felizes, é bom que saibamos que há algo que vale muito mais do que o dinheiro, algo que é realmente capaz de nos preencher de entusiasmo e alegria perenes: o amor – seguido da liberdade e da reflexão.

***

Bibliografia
Carta sobre a felicidade, a Meneceu, Epicuro (UNESP); As consolações da filosofia, Alain de Botton (Rocco); Epicuro e a felicidade, documentário de Alain de Botton para a BBC.

Crédito das imagens: [topo] Antal Strohmayer, O Jardim dos filósofos (1834); [ao longo] raph; Google Image Search.

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#epicuro #Felicidade #Filosofia #liberdade

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-jardim-de-epicuro

O espírito no tempo

» Parte 1 da série “Para ser um médium” ver a introdução

O homem, as gerações humanas, morrem no tempo. Mas o espírito não. O tempo é o campo de batalha e que os vencidos tombam para ressuscitar. Quem poderia deter a evolução do espírito no tempo? (J. Herculano Pires)

Ernesto Bozzano foi um pesquisador e intelectual italiano com grande interesse em antropologia, sociologia, evolução e as origens da mediunidade no palco obscuro da pré-história. Num de seus livros ele inicia suas exposições dizendo que “se consultarmos as obras dos mais eminentes antropólogos e sociólogos, notamos que todos concordam em reconhecer que a crença na sobrevivência do espírito humano se mostra universal”. Na época em que Bozzano publicou seus primeiros livros, no final do século XIX, falar abertamente sobre “espírito” ainda não era tão escandaloso na Academia. Os espiritualistas europeus daquela época, muitos influenciados pelas ideias expostas nos livros de Allan Kardec, eram igualmente grandes entusiastas da teoria de Darwin-Wallace… Mas, enquanto esta se ocupava exclusivamente da evolução física das espécies, alguns espiritualistas – dentre eles o próprio Wallace – se interessavam em tentar elucidar a evolução espiritual, particularmente em como o espírito humano havia evoluído através do tempo.

Se saltarmos diretamente para a época em que os primeiros hominídios surgiram no tempo, podemos nos aproveitar de uma bela, simples e elegante teoria proposta pelo arqueólogo Steven Mithen, conforme exposta em A pré-história da mente: Mithen acreditava que algumas potencialidades da mente eram suficientemente conectadas entre si para que pudessem ser agrupadas conceitualmente em módulos mentais… A inteligência geral foi herdada das outras espécies das quais os hominídios evoluíram, e é responsável pelos processos básicos de instinto e sobrevivência; A inteligência naturalista desenvolveu-se ao longo da persistente guerra da fome – o conhecimento do terreno em sua volta, a análise dos rastros de presas livres deixados no solo, o cuidado para evitar plantas venenosas, etc.; A inteligência técnica permitiu o manuseio de objetos e até mesmo a elaboração de ferramentas, como pedras pontiagudas que facilitam o corte da carne das presas abatidas; E, finalmente, a inteligência social evoluiu desde que nossos ancestrais reconheceram que caminhar pelo mundo em bandos era mais seguro do que enfrentar as caçadas sozinho.

Mithen acreditava que o que nos separava definitivamente dos outros hominídios de inteligência primitiva era a interseção entre tais módulos mentais, que parece ter ocorrido de forma mais abrangente no homo sapiens. Subitamente, os dentes de animais caçados, que antes eram descartados, se tornaram decoração de colares; Colares estes que também serviam para demonstrar para outros membros (e mulheres, quem sabe) da mesma tribo quão bons eram os caçadores que os ostentavam; Da mesma forma, as pegadas deixadas na terra pelas presas tornaram-se também símbolos que demonstravam o tamanho e a direção em que o animal se deslocou; E logo tanto símbolos naturais quanto animais quanto os próprios homens se fundiram em pictogramas pintados em cavernas profundas – registros da história de um povo que se reconheceu como povo; Talvez ao mesmo tempo, surgiram os mitos, as forças naturais tornadas meio-homem, meio-animal, meio-espírito, meio-deus – a religião ancestral surgia em meio ao animismo e ao xamanismo, juntamente com a consciência de nossa vida e nossa mortalidade.

A teoria de Mithen não têm absolutamente nada de espiritualista, como podemos ver, mas a sorte de sermos espiritualistas é que não precisamos ignorar as teorias daqueles que não creem em espíritos. Se alguns sentem-se escandalizados com a possibilidade do espírito ter surgido antes do homem, e ser formado por matéria fluida, parte dos 96% da matéria cósmica que não interage com a luz, e que vêm habitando corpos das mais variadas espécies, desde organismos unicelulares até os hominídios e animais com cérebro adequado para comportar um espírito em processo de individualização consciente, numa odisseia multimilenar que caminha lado a lado com a evolução descrita por Darwin e Wallace, deixem estar: lembremos que boa parte de nossa compreensão espiritual se baseia em experiências subjetivas, e que a matéria fluida, espiritual, ainda não foi detectada em laboratório.

Ainda assim, nos anais da pré-história humana, e das primeiras tribos e civilizações, permanece a dúvida objetiva: como podem tantas comunidades isoladas terem chegado a crenças tão parecidas? Em realidade, as crenças nem são tão próximas quanto às atividades místicas em si: a mediunidade, esta sim, conecta de forma definitiva todos os povos primitivos da Terra, sem exceção.

Define-se religião primal como um “sistema de crenças anterior às grandes religiões mundiais”. As religiões primais seguidas por povos tão distintos quanto os inuítes da América do Norte e os aborígenes australianos são variadas, mas com amplas similaridades. Os adeptos ainda hoje vivem quase sempre isolados e privados das comodidades modernas. Enfrentam rigores climáticos, escassez de comida e desastres naturais. Suas crenças lhes dão suporte para lidar com esses problemas. Seus milhares de espíritos ou divindades os ajudam a lidar com as forças naturais, e suas práticas religiosas variam desde experiências místicas e extáticas, normalmente guardadas aos médiuns ativos, até coisas bem mais práticas, como perguntar a um espírito qual a região próxima mais apropriada para a caçada de amanhã…

Muitos chamam tais médiuns ancestrais de xamãs, mas este é um termo surgido na Sibéria, e significa algo como “aquele que enxerga no escuro” na língua local. Mas sejam xamãs, ou pajés, babalorixás, iogues, curandeiros, feiticeiros, etc., todos são em essência médiuns, e suas práticas de comunicação com espíritos, sejam os seus próprios, sejam os de fora, são, estas sim, a grande prática universal que os conecta a todos, e assim conecta a humanidade como um todo, desde sua origem. Conforme disse o Chefe Seattle em sua carta ao presidente americano: “Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida – ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo.”

Como por vezes é complexo identificar como exatamente tantas sociedades primitivas chegaram a ideias e símbolos tão elaborados e “fora da realidade”, muitos antropólogos preferem deixar tudo a cargo das experiências psicodélicas induzidas por alucinógenos naturais. Por exemplo, há escritos do hinduísmo, que é reconhecidamente uma das religiões mais antigas do globo, que louvam a soma, uma planta alucinógena. No Brasil muitos já conhecem o Santo Daime, que é uma doutrina religiosa totalmente baseada nos costumes de povos da grande floresta amazônica, que consomem o chá de ayahuasca a fim de desencadearem experiências místicas… Esta explicação, porém, é incapaz de dar conta de todas as experiências mediúnicas, pois sabemos melhor do que ninguém que a mediunidade hoje pode ser praticada sem o consumo de qualquer tipo de substâncias alucinógenas, e, de fato, esta é a recomendação da grande maioria das doutrinas espiritualistas de hoje em dia. Não há a menor razão para crermos que na pré-história todos os médiuns usavam substâncias do tipo – na verdade, há razões para crer que eles eram minorias localizadas em algumas regiões do globo onde era possível extrair tais substâncias da natureza. Não haviam cogumelos alucinógenos em todas as partes do planeta.

Talvez a religião primal que mais intrigue os antropólogos materialistas seja a religião nativa do Japão que, a despeito do país ter se tornado um verdadeiro polo tecnológico e comportar provavelmente a sociedade mais moderna do mundo, continua plenamente ativa. O xintoísmo, ou “o caminho dos deuses”, foi o título dado à religião nativa do Japão aproximadamente em 720 d.C., poucas décadas após a chegada do budismo na ilha. A questão é que se trata de uma religião pré-histórica, que só foi nomeada em razão de diferencia-la do budismo, recém chegado. Antes o xintoísmo era apenas “a religião”. O xintoísmo reconhece diversos seres divinos chamados kami, supostamente infinitos, que preenchem tudo o que exibe poder ou força vital. Para os japoneses, a natureza é literalmente divina.

Como sabemos, a natureza não é somente divina, como potencialmente viva. Nos dias atuais, presos em nossas selvas de concreto, talvez tenhamos esquecido de como um pequeno galho partido é apenas a parte morta de uma árvore, mas que irá se decompor e formar novamente coisas vivas… Ou que mesmo uma pedra abriga tanto parte da matéria que forma nossos corpos, como parte da matéria que formará espíritos das eras vindouras, embora hoje estejam confortavelmente dormindo no ventre sagrado da Mãe Terra, esperando o chamado do Pai Céu…

Termos antigos, conhecimento antigo, intuição antiga. Certamente tinham uma compreensão precária, parcial, da natureza à volta. Mas, estariam todos eles errados em tudo o que perceberam? Talvez a essência daquilo que viram e sentiram em suas experiências mais sagradas seja exatamente aquilo que falte hoje no mundo moderno. Alguns japoneses o sabem, e também alguns xamãs em meio ao frio do norte, alguns aborígenes, alguns indígenas, alguns poetas, alguns médiuns… Talvez você possa ser um deles, talvez já o seja. Esta é a nossa história, a história do espírito no tempo. Caberá a você escrever os próximos capítulos.

» A seguir, loucura e normalidade…

***

Leitura recomendada: O espírito e o tempo, de J. Herculano Pires (Paidéia). Religiões, de Philip Wilkinson (Zahar, Guia Ilustrado).

***

Crédito das imagens: [topo] Edward S. Curtis/Corbis (indígena da ilha de Nunivak, no Alasca – EUA, com sua máscara cerimonial); [ao longo] Rainer Hackenberg/Corbis (um torii, símbolo xintoísta, em Kyoto – Japão)

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#Antropologia #Espiritismo #Mediunidade

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-esp%C3%ADrito-no-tempo

Resultados da Hospitalaria – Fev/Mar/Abril 2019

Neste primeiro trimestre foram feitos ao todo 80 Mapas, 42 Sigilos Pessoais e 30 Mapas Sephiroticos

Principais entidades assistidas:

– MSF – Médicos sem fronteiras

– GACC – Grupo de Assistência à Criança com Câncer

– LBV (Legião da Boa Vontade)

– APAE

– Casa menino Jesus

– GOAs

– UNICEF

– Casas André Luiz

Tivemos 38 doações de sangue 🙂

E continuamos com o projeto de Hospitalaria. Quem estiver a fim de participar, é só seguir as instruções e pegar seu Mapa Astral ou Sigilo Pessoal via o TdC. Também é possível conseguir os Mapas através do . Quem quiser se aprofundar nos estudos de Astrologia Hermética, pode fazer o curso de EAD (Ensino a Distância) de Astrologia no EADeptus.

#Hospitalaria

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/resultados-da-hospitalaria-fev-mar-abril-2019

As lições da ciência

Quando eu debatia em comunidades online onde haviam embates homéricos entre céticos e espiritualistas, acabava por confundir a ambos quando tocava em assuntos científicos. Para os últimos, a ciência geralmente não despertava muito interesse, pois raramente a analisavam sob o ponto de vista espiritual; Para os primeiros, era tão estranho que um espiritualista estivesse citando Carl Sagan e Richard Feynman, que alguns pensavam se tratar de um cientista “brincando” de ser espiritualista – um “místico fake”. Obviamente, eles estavam mesmo confusos…

Podem nunca haver lhe contado na escola, mas nem sempre a espiritualidade esteve dissociada da ciência. Porém, nesta ciência de hoje, interpretada apenas como um conhecimento estritamente objetivo da realidade detectável, apenas um método sem nenhuma relação com qualquer espécie de ideologia ou filosofia, restou muito pouco da ciência antiga, a filosofia da Natureza, o conhecimento da physis.

Os sábios antigos chamavam Natureza à realidade primeira e fundamental de todas as coisas, a essência em torno da qual gira tudo o que é transitório: “A noite segue o dia. As estações do ano sucedem-se uma à outra. As plantas e os animais nascem, crescem e morrem. Diante desse espetáculo cotidiano da natureza, o homem manifesta sentimentos variados – medo, resignação, incompreensão, admiração e perplexidade. E são precisamente esses sentimentos que acabam por levá-lo à filosofia. O espanto inicial traduz-se em perguntas intrigantes: O que é essa physis, que apresenta tantas variações? Ela possui uma ordem ou é um caos sem nexo?”.

Eis que os cientistas nem sempre foram chamados de doutores. Também já atenderam por naturalistas, filósofos, sábios, alquimistas, astrólogos, druidas, ocultistas, etc. Portanto, imaginar que a vivência da ciência moderna deveria estar totalmente desconexa da espiritualidade é, antes de tudo, uma ignorância da história do pensamento humano. Uma ignorância de tantos e tantos que vieram antes de nós, e fizeram as mesmas perguntas ao céu noturno salpicado de estrelas. E, como o Cosmos não respondeu de volta tal qual um deus lendário, foram obrigados a arregaçar suas mangas e buscar pelas respostas eles mesmos. É precisamente da atitude desses cientistas – os de outrora e os de hoje – que podemos tirar preciosas lições:

A Natureza fala por si

Talvez a qualidade mais notável de todo verdadeiro cientista seja esse tal contentamento, esta real aceitação, este estoicismo perante o que a physis realmente é, e não o que gostaríamos que fosse. Feynman dizia que a imaginação da Natureza é muito, muito maior do que a nossa: ela jamais nos deixará relaxar. Sempre haverá, para o real buscador, mais uma galáxia oculta atrás de um grande conglomerado, mais uma partícula oculta nalgum nível de energia ainda indetectável pelo nosso mais avançado instrumento, mais uma lei natural oculta de nossa mais simples e elegante equação, mais um tanto do Cosmos que jamais alcançamos com nossa luz: não fomos capazes de ver sua escuridão antes que a luz fosse acesa.

Nós podemos estar errados

Outra lição é esta, tão simples, e tão essencial: podemos, sim, estar errados, e geralmente estamos. Os atomistas acreditavam que a matéria era feita de pequenas partes dos elementos que sustentavam todo o Cosmos – Hoje sabemos que átomos e quarks não são formados pelo fogo, ou a água, ou a terra, ou o ar [1]… Mas foram dos erros passados que vieram novos acertos; acertos esses que podem também se comprovar como erros no futuro. O que importa, portanto, é que hoje conhecemos um pouco mais da physis do que ontem, e amanhã conheceremos ainda um pouco mais do que hoje. Mas, decerto não existe um conhecimento infalível, uma verdade derradeira, ou pelo menos ainda estamos num nível de consciência muito distante dela. Admitir que podemos estar errados é o melhor caminho para que prossigamos adiante no fluxo deste rio sagrado, sem jamais ficarmos uma vez mais aprisionados, represados pelo dogma.

O conhecimento é uma conquista

Ainda que a Verdade pudesse realmente nos ser revelada em antigos livros escritos sob inspiração divina, não significa que tivemos a capacidade de interpretá-la. Ainda que a inspiração tenha sido uma ponte direta para os segredos mais ocultos do Cosmos, e ainda que a informação escrita tenha passada ilesa por séculos de guerras de interesses e traduções de cada época, ainda assim tudo o que temos são palavras, linguagem, símbolos de gramática que já provaram serem incapazes de traduzir tudo o que é sentido e experimentado em uma verdadeira experiência mística – por isso muitos grandes sábios jamais escreveram coisa alguma, pois eles sabiam que cascas de sentimento não fariam jus à sacralidade da experiência.

O conhecimento, portanto, é e sempre foi uma conquista. E muitos cientistas têm nos auxiliado em conhecer a physis de fora, mas nenhum, absolutamente nenhum deles, poderá realizar por nós uma conquista que foi profetizada e ofertada pelo próprio Deus: mergulhar em si mesma, isto apenas a própria alma poderá realizar.

De pé sobre o ombro de gigantes

Foi o próprio Isaac Newton quem confessou que se havia visto mais longe do que os demais, foi por ter estado em pé sobre o ombro dos gigantes de outrora. A beleza da ciência é que, desde que não tenha sido queimado por bárbaros ou eclesiásticos coléricos, seu conhecimento armazenado, em livros e outros artefatos, por toda a história da humanidade, está ainda situado nos alicerces da torre pela qual podemos observar o Cosmos cada vez mais de perto… Ao contrário do que disseram os supersticiosos, nenhum deus raivoso desceu dos céus para nos punir por nossa ousadia: continuaremos a construir torres de Babel e abrir tantas quantas foram às caixas de Pandora encontradas. Foi graças a Prometeu, que roubou o fogo dos deuses, que chegamos onde chegamos: ele foi apenas o primeiro gigante, o primeiro titã.

Mas, ao contrário do que o mito possa te levar a pensar, os deuses não se chatearam conosco – aquilo foi pura encenação. Puro teatro, para que pudéssemos assim, uns auxiliando aos outros, numa colaboração digna dos maiores exércitos do Céu, marchar para cada vez mais perto da montanha sagrada… E, quando lá chegarmos, quem sabe não possamos acender a pira do salão de Zeus, e realizarmos por lá uma grande festa – na qual mesmo os gigantes estarão convidados.

Não há elite

Na ciência genuína, todos tem a oportunidade de colaborar: não importa onde nasceram, sua cor de pele, seu sexo – desde que possam pensar, podem auxiliar nossa ciência.

Apesar de ainda haverem os “donos da verdade”, aqueles ignorantes que pensam poder determinar quem pode ou não pode falar em nome da ciência, a verdade é que não há elite na physis: assim como somente os peixes podem nos falar do mar profundo, somente os pássaros podem nos falar do céu, e os morcegos da escuridão das cavernas. Apenas assim, juntos, podemos ter alguma esperança de conhecer a Natureza sob todos os pontos de vista.

Até onde a luz pode chegar

Muitas das ideias mais místicas que fomos capazes de um dia conceber hoje estão sendo melhor desenvolvidas, e comprovadas, na cosmologia, e não mais na religião. Sabemos hoje que tudo o que há neste universo surgiu de uma singularidade, um ponto, um grão de milho que, nos primeiros momentos, englobava todo o espaço-tempo – e não havia nada “do lado de fora”, pois o tecido do espaço-tempo é tudo o que há. Sabemos também que a velocidade da luz tem um limite, e que provavelmente nada no universo o possa ultrapassar… Há não ser o próprio tecido espaço-temporal, em seu berço de crescimento inflacionário, quando venceu a própria luz. Eis que, dessa forma, existem espaços deste universo que jamais poderão ser conhecidos, espaços onde nenhuma luz poderá um dia sair, ou chegar. Essa ideia de Infinito é suficientemente mística para você?

Poeira de estrelas

Ao observar o pequenino e pálido ponto azul, flutuando numa nuvem de gás sideral, parte de uma das fotos da sonda espacial Voyager I, Carl Sagan prontamente identificou: aquele ponto era a Terra, toda a Terra! Mas, a despeito da beleza de suas reflexões acerca desta imagem, há ainda algo mais belo e profundo sobre o que pensar: não apenas nosso planeta é apenas um grão de poeira na Via Láctea, nós mesmos somos formados por elementos pesados que só podem ser gerados nas fornalhas estelares. Nós somos, realmente, não somente os filhos das estrelas – nós somos formados por partes delas.

Atomicamente, somos formados pela mesma divina poeira que forma todas as outras substâncias cósmicas. Mergulhada no oceano, toda poeira é também uma parte do mar…

Conhecer a si mesmo

E foi exatamente aqui, este pequeno ponto azul em meio a escuridão infindável do oceano da noite, que despertamos pela primeira vez e dissemos: “nós aqui também existimos, também somos da raça dos deuses!”.

Não se sabe se existem outros como nós, mas provavelmente existem, e aos montes… Seja neste pequeno planeta, ou na infinidade de moradas da casa cósmica, nós parecemos ser um espécie de imagem espelhada, de semelhança, uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo.

E, nesta tal aventura do conhecimento, nesta tal jornada para sondarmos a inconcebível natureza da Natureza, podemos navegar tanto acima quanto abaixo – tanto faz, uma parte é apenas o espelho da outra.

raph’12

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[1] Pelo menos não da forma literal como tais elementos são compreendidos. Como símbolos, no entanto, foram, e ainda são, poderosos aliados para nossa compreensão da physis.

Crédito das imagens: [topo] APOD (telescópios em Atacama/Chile); [ao longo] APOD (lua cheia em Paris/França)

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

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#Ciência #Espiritualidade #natureza

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/as-li%C3%A7%C3%B5es-da-ci%C3%AAncia