Os Corvos de Wotan, parte 1

A chamada tradição oral é a preservação de histórias, lendas, usos e costumes através da fala. Origina-se do primórdio da história humana, quando ainda não havia a escrita e os materiais que pudessem manter e circular os registros históricos. Na atualidade própria das classes iletradas, a tradição oral tem sido, contudo, muito valorizada pelos eruditos que se dedicam ao seu estudo e compilação (as baladas da Edda Poética, por exemplo), ao considerarem que é na tradição oral que se fundamenta a identidade cultural mais profunda de um povo. Supõe-se, por exemplo, que a Ilíada e a Odisseia de Homero foram inicialmente, assim como as Eddas, longos poemas recitados de memória.

Joseph Campbell gostava de dizer que “o mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre”. Esse aparente paradoxo pode ser reconciliado se entendermos a tradição oral, mãe da mitologia, como a melhor forma com a qual o espírito humano pôde passar adiante suas experiências no contato com a essência das coisas, com o que há de eterno no mundo. Dessa forma, todas as variantes de um mesmo mito são, no fundo, uma mesma história. E toda mitologia é, no fundo, uma mesma mitologia, uma mitologia do espírito humano.

Mas hoje não vivemos mais em tribos e aldeias, e nem todos necessitam decorar tais histórias antigas. Além disso, não são os xamãs nem os anciãos quem nos passam os mitos, mas alguns poucos textos sagrados de outrora, que até hoje inspiram inúmeras variações na mente dos contadores de histórias modernos – a quem conhecemos, principalmente, como artistas. Existem mitos sendo recontados em todos os cantos: nos livros de vampiros adolescentes, nos filmes de Hollywood, nas séries de TV de fantasia, e até mesmo num gibi.

O deus que usarei como exemplo de referência neste artigo é hoje um conhecido personagem de histórias em quadrinhos da Marvel. Se você já leu algum gibi, ou viu algum filme recente, de seu filho, certamente o conhece: Odin (ou Wotan, ou Wôdan, variantes hoje menos conhecidas, mas que vieram do original germânico), é o Senhor de Asgard e pai de Thor, o heroico deus do trovão. Você pode achar que não há nada de muito profundo a se falar sobre um velho deus-herói-caçador aposentado que hoje se limita a governar uma cidade mítica, e talvez tivesse razão se considerarmos apenas a forma extremamente diluída deste mito que nos chegou aos dias atuais como um mero personagem de quadrinhos… Mas, não que eu esteja condenando Stan Lee e Jack Kirby, pelo contrário: apesar de terem “diluído” o mito, eles fizeram por ele bem mais do que o cristianismo, que por muitos séculos demonizou o grande deus dos povos nórdicos europeus, a fim de substituí-lo por sua versão bíblica.

Mas, o que exatamente eu quero dizer pelo mito de Odin, será que me refiro a uma entidade sobrenatural real? Bem, com todo o respeito à Freternidade de Odin [1], não é exatamente isso que quero dizer… É óbvio que não existe, na natureza terrestre pelo menos, um homem caolho a cavalgar os céus montado num cavalo de oito patas; mas, por outro lado, a iconografia de Odin é toda ela um imenso conjunto de símbolos, símbolos estes que existem e sempre existirão, ao menos enquanto existirem mentes com vontade de pensar sobre eles.

Os símbolos nada mais são do que imensas quantidades de informação reduzidas a uma única imagem ou história fantástica ou ícone que funcionam como uma chave mental para o acesso dessas informações e sensações, desde que a pessoa saiba, em seu pensamento, como usar esta chave de uma forma consciente. Você pode perfeitamente substituir a imagem (o símbolo) de Odin por uma série de palavras (formadas por conjuntos de símbolos – as letras do alfabeto) a formar uma extensa lista: sabedoria, fúria, excitação, guerra, caçada, mente, magia, poesia, escrita rúnica, etc. É claro que, dependendo da interpretação de cada pessoa, e de cada tradição folclórica, essa lista pode variar imensamente, mas não absolutamente. Odin é um conjunto de símbolos, ele serve para que acessemos tais ideias em nosso pensamento, sentimento e intuição, de forma simplificada e cada vez mais potente (o hábito faz o monge).

O grande problema do “uso dos mitos” é quando os entendemos como seres literais (e não metáforas), dispostos a barganhar conosco em troca de “favores espirituais”, “boa sorte”, “boa saúde”, etc. Isso é um problema porque, exatamente, a grande vantagem dos mitos é poder ativar a nossa vontade para que nós mesmos busquemos tais objetivos, que nós mesmos nos tornemos heróis a vivenciar a grande aventura da vida, que nós mesmos nos tornemos, enfim, deuses (“sois deuses, farão tudo o que faço e ainda muito mais” – disse o grande rabi da Galileia [2]).

Mas, retornando a Odin: é verdade que o que sabemos hoje sobre o seu mito é extensivamente baseado na Edda Poética, um grandioso conjunto de poemas vindos diretamente dos mitos dos povos nórdicos antigos da Europa, e que foi preservado no Codex Regius (“Livro Real”), um códice islandês que provavelmente foi escrito em cerca de 1270 d.C., mas que só se tornou “conhecido na modernidade” quando um bispo o encontrou na Islândia e o enviou como presente ao então rei da Dinamarca, em 1662. A Edda então permaneceu na Biblioteca Real de Copenhagen até 1971, quando foi escoltada por militares por terra e mar (um acidente aéreo poderia a danificar permanentemente), de volta a capital da Islândia, Reykjavík. Lá ela permanece até hoje, como uma legítima relíquia que guardou praticamente sozinha aos séculos da cultura de um povo, e impediu que seus mitos de diluíssem até não mais existirem.

O que os versos da Edda nos trazem, entretanto, são baladas e cânticos bardos de épocas ainda muito mais remotas… Diz-se que Odin já era conhecido desde os primórdios da língua protogermânica, que durou de 500 a.C. há 500 d.C., e que formou a base de diversos idiomas atuais, como o inglês, o escocês, o alemão, o dinamarquês, o norueguês e o islandês, dentre outras. De fato, Odin é tido como o grande responsável por trazer aos homens o conhecimento das runas, a base da escrita germânica antiga, do mundo espiritual (falaremos mais sobre isso na sequência). Ora, como as runas mais antigas encontradas datam dos séculos I e II d.C., podemos dizer que o mito de Odin era tão antigo quanto elas… Mas, talvez seja ainda muito mais antigo do que isso. Porém, como teremos certeza?

Certeza nós jamais teremos, pois a história não é somente uma mera reconstrução moderna dos tempos de outrora: mas uma reconstrução criada primordialmente pelos povos e países vencedores das guerras e dos embates dentre crenças religiosas… O Odin que conhecemos hoje é um Odin sobrevivente aos séculos de domínio romano e cristão, e é mesmo quase um milagre que ele tenha sobrevivido. Apesar das extensivas campanhas de demonização feitas pelos ditos cristãos, o mito mostrou-se persistente: Odin ainda cavalga pelos céus, pelas películas de cinema e pelas histórias em quadrinhos.

Dito isso, é preciso deixar claro que a própria natureza do mito é a de se transformar continuamente, preservando-se apenas sua essência, aquilo que está fora do tempo, e sobrevive exatamente por nos tocar a alma, por ser eterno… Portanto, e interpretação que mais conta é a atual; e, além disso: é a nossa interpretação. Porque os mitos que nos são despejados como dogmas pré-estabelecidos por pretensas figuras de autoridade não são muito mais do que propaganda enganosa. O que nos importa, o que sempre importou, é identificar a essência, a verdade guardada em inúmeras metáforas, percebida sabe-se lá por qual ancestral selvagem em meio ao inverno europeu, e que, espantosamente, ainda está aqui, ainda nos toca a alma, ainda é capaz de nos elevar a estados de consciência que nem sabíamos que existiam.

O que falarei a seguir, portanto, é da minha interpretação do mito de Odin. Baseada num estudo das inúmeras histórias que ainda se contam dele, é claro; mas, não obstante, minha interpretação. Sinta-se a vontade para questioná-la, interpretá-la, vivenciá-la, pois é isso o que os mitos nos pedem…

» Na próxima parte: Odin, seus lobos e seus disfarces…

***

[1] Sociedade secreta neopagã que até os dias atuais celebra os ritos antigos relacionados à Odin e a outros elementos da mitologia nórdica. Segundo eles, “Odin não é um arquétipo psicológico ou uma metáfora para referência as forças naturais, mas uma entidade real”. Eles também são “politeístas a fundo”, e ao contrário de outros politeístas que na realidade compreendem aos deuses como emanações de um único Deus Primordial (o que no caso faria de Odin o Deus, e Thor, por exemplo, um de seus Arcanjos ou Profetas, se formos fazer uma [má] comparação com o catolicismo), para eles não há nenhuma lógica em crer que uma única entidade emana toda a realidade conhecida de si própria. Bem, provavelmente eles nunca leram Espinosa… Por outro lado, existe sempre a possibilidade de terem inventado essa história com o propósito de afastar curiosos indesejados.

[2] João 10:34; João 14:12 (NT).

***

Crédito da imagem: Action figure por Randy Bowen (para a Marvel Comics)

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#HQ #Mitologia #Odin #Paganismo

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O homem que esquecia (parte 2)

continuando da parte 1

Com o tempo, as anotações no Caderno de Oliver deram resultado: afora o fato de que ele gastava cada vez mais tempo lendo-o todas as manhãs, sua vida conjugal parecia bem mais normal agora… Para Maria e as gêmeas, era quase como ter o marido e o pai de volta, após uma breve pausa para leitura. No final das contas, Maria acabou tendo ciúmes das estrelas: é que Oliver esquecia da esposa, mas jamais esquecia das posições das estrelas.

Após chegar as mil páginas, Oliver teve de contratar um biógrafo para poder resumir sua própria história conjugal, senão só lhe restaria tempo de trabalhar a noite – teria de gastar todo o dia lendo sobre sua vida com as três Marias… Deu certo, mesmo quando suas filhas já estavam chegando na época do vestibular, o biógrafo conseguia resumir tudo em umas 500 páginas. A vida parecia mais superficial, mas funcionava, e sobrava o tempo necessário para continuar observando estrelas…

Maria Cristina queria ser cineasta, e Maria Luísa jornalista. Ainda que os pais tenham insistido, nenhuma das duas quis fazer documentários ou artigos sobre ciência… Elas achavam que esse negócio de ser cientista que tinha deixado o pai daquele jeito meio esquisito – embora o amassem como o melhor pai do mundo. O pai que retomava sua paternidade a cada nascer do sol.

Era uma vida feliz, novamente. Mas quiseram os deuses da fortuna que a história de Oliver e das três Marias se complicasse uma vez mais… Não se sabe se foi pelo estresse da situação conjugal, mas após o acidente de Oliver, Maria havia voltado a fumar – coisa que havia feito brevemente na adolescência, mas desde o acidente tinha retornado com força total: três maços por dia. Ela chamava-os de as três Marias também. O resultado foi câncer no pulmão, descoberto fora de hora. Que coisa, uma bióloga que não se cuidou… Acontece.

Quando visitava a esposa no leito do hospital, Oliver não se conformava com sua sorte: “Meu Deus, para que descobrir que tenho uma família tão linda todas as manhãs, se a noite percebo que estou prestes a perdê-la?”. Maria havia desenvolvido uma grande sabedoria através dos anos, e sempre respondia seu amado da mesma forma: “Não chore. Pior seria você não ter sobrevivido e suas filhas não terem crescido com um pai tão maravilhoso ao lado. Se estou assim não é culpa de Deus ou da sorte, mas do câncer que eu mesmo procurei sem saber… Em todo caso, é melhor amar e perder, amar e esquecer, do que nunca haver sequer amado!”

A beleza dos discursos de Maria só foi aumentando na medida em que se aproximava de sua hora… Mas para Oliver era sempre um único discurso. Não havia tempo para elaborar a perda: ele percebeu que em verdade perdia a quase todos que amava todas as noites. Era difícil se conformar…

Quando Maria finalmente se foi, Oliver pediu às filhas que lhe levassem para a cidade nas montanhas onde viviam dois de seus irmãos… Ele queria descansar de todo aquele sofrimento. Para seu biógrafo, fez um pedido especial: queria uma versão do Caderno do Amor onde não houvesse encontrado Maria. Nem encontrado nem perdido. Queria que as filhas fossem adotivas… Disse que queria ler assim sua vida, apenas durante as férias que ia passar nas montanhas. Suas filhas concordaram, em todo caso já estavam atarefadas demais na faculdade para dar suporte ao pai.

Vivendo nas montanhas Oliver parecia vivo e cheio de si novamente. Sempre perguntava das filhas, mas continuava fascinado pelas estrelas. Observava sempre as três Marias e se perguntava se não havia conhecido uma terceira Maria…

Como seus irmãos não consideravam suas questões, terminou por admitir: “Bem, são só estrelas mesmo.”

» continua na parte final

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Crédito da foto: viedeia

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#Contos

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Eros Vendado

Dizem que foi sua prometida quem desesperou-se ao ver-se privada de sua beleza, mas os mitos não contaram esta outra história acerca de Eros:

O deus estava arrependido da brutalidade com que tratou Psiquê quando esta, pensando que o amado fosse um monstro, retirou suas vendas enquanto dormia, e pôde enfim admirar toda a sua beleza… Assim, desde então, Eros andava enlouquecido em meio ao Elísio, coberto de vergonha…

Como estava vendado, e se recusava a ver toda a beleza a sua volta, tornou-se amargo, temeroso do contato íntimo com qualquer um que lhe cruzasse o caminho: “vão retirar minha venda, vão ver minha beleza, mas somente Psiquê é digna de me ver!” – pensava consigo mesmo, angustiado.

Zeus, que tudo via e sabia, encarregou seu mensageiro, Hermes, de tentar convencer Eros a retornar a razão…

Então, cortando os céus feito um corcel alado, o mensageiro seguia o rastro de sangue que Eros deixara pelos caminhos do Elísio… Pobres animais, homens e semideuses, todos alvejados pelas flechas venenosas do Eros Vendado. As mesmas que antes traziam o amor, agora traziam a agonia.

Retirando a flecha negra do peito de um velho mercador de frutas que agonizava na estrada, Hermes lhe indagou acerca de seu encontro com Eros:

“Tudo o que fiz foi lhe oferecer uma de minhas maças, eu juro! Mais parecia um mendigo andarilho, pobre e esfomeado… Não sabia se tratar de um deus, por isso achei que fosse apreciar uma de minhas maças… Ofereci-lhe o alimento de coração, não pretendia ganhar nada em troca. Mas o deus estava louco, e zombou de minha caridade, alvejando-me em seguida… Nossa, como doem essas flechas negras…”

Restaurado, o mercador apontou a direção na qual o deus enlouquecido seguiu, e, tão rápido quanto um pensamento, Hermes estava lá, frente a frente com o Eros Vendado:

“Irmão, nosso pai deseja lhe ver…”

“E eu… Eu desejo ver meu pai… Mas como saberei se você é mesmo meu irmão? Como saberei se não é mais um truque da Beleza para que eu jamais veja minha amada novamente? Saia daqui!” – bradou o deus descontrolado, mas ainda muito preciso com seu arco que, sabe-se lá como, estava perfeitamente posicionado na direção de Hermes, ainda que Eros nada pudesse enxergar.

“Irmão, se você não me vê agora, como poderia ver sua amada, ainda que ela estivesse ao meu lado?” – respondeu Hermes ainda muito calmo, embora uma flecha negra e peçonhenta estivesse endereçada a sua fronte.

“Quem é você para falar dela? Maldito!” – atirou a flecha com tamanha precisão que, não fosse pelo elmo alado de seu irmão, o alvo teria sido atingido.

Hermes agachou-se e retirou a flecha do elmo que caíra ao solo. Então, com agilidade divina, o deus mensageiro rolou pelo chão e, antes que seu irmão pudesse atirar outra flecha, cravou-a bem no peito esquerdo, através do coração.

Ali morrera o Eros Vendado. Mas, como os deuses não permanecem mortos por muito tempo, Hermes tratou de levá-lo até a fonte d’água mais próxima e, o tendo lavado e desvendado, deixou-o ali na margem, bem morto, e esgueirou-se para detrás de um arbusto…

Quando finalmente ressuscitou, Eros parecia desnorteado, mas não louco… Na verdade, era como se tivesse acordado de um longo sono de loucura, e aparentemente recuperado sua sanidade novamente. A primeira coisa que fez foi lavar o rosto no espelho d’água. Foi quando Hermes se reapresentou, ele precisava ter certeza:

“Veja seu rosto no espelho, irmão, e diga-me: qual é o mais belo dos deuses?”

Eros procedeu conforme instruído e, virando-se para Hermes, com a face feita ainda mais bela, com pingos d’água a escorrer em torno dos largos olhos, refletindo ao sol, disse-lhe:

“Ninguém… E todos… Todos os deuses são belos; e mais bela ainda é a humanidade, por tê-los imaginado…”

Então, Hermes sorriu: a missão estava cumprida, o Amor havia retornado a sanidade.

raph’12

***

Lá onde nasce o verdadeiro amor

morre o “eu”, esse tenebroso déspota.

Tu o deixas expirar no negro da noite

e livre respiras à luz da manhã.

(Jalal ud-Din Rumi)

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Crédito da foto: BürgerJ (escultura Eros Bendato, de Igor Mitoraj)

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#amor #Espiritualidade #Mitologia

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A Revolução da Alma

» Parte final da série “Todas as guerras do mundo” ver parte 1 | ver parte 2 | ver parte 3

Até que a filosofia que sustenta uma raça superior e outra inferior seja finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada, haverá guerra, eu digo: guerra…
Guerra no leste, guerra no oeste, guerra no norte, guerra no sul, guerra, guerra, rumores de guerra…
(War, Bob Marley – composição de Allen Cole e Carlie Barrett)

Em 3 de junho de 1989, tanques e soldados do exército chinês invadiram a Praça da Paz Celestial, na capital, Pequim. Lá estavam cerca de 100 mil manifestantes que protestavam pacificamente há quase 2 meses, criticando a corrupção e a repressão da liberdade individual vindas de um governo que se dizia comunista [1]. Haviam entre eles muitos intelectuais, professores, estudantes e trabalhadores insatisfeitos com o rumo geral da política chinesa. Mas o Partido Comunista já havia perdido a paciência com eles; Como haviam ignorado as ordens para que as manifestações fossem encerradas, a ala do Partido mais propensa à violência aprovou a ordem para que fosse iniciado o massacre. Na Praça da Paz Celestial, na noite de 3 de junho de 1989, o exército chinês matou 2.600 manifestantes e feriu outros 10 mil [2].

No dia 4 os protestos se intensificaram muito, principalmente por parte dos jovens estudantes. Há essa altura os jornalistas de todo o mundo já estavam se hospedando nos hotéis próximos a Praça, visto que era uma área nobre da capital, e preparavam os flashes para o próximo massacre… Talvez por conta dessa exposição indesejada na mídia mundial, a ala violenta do Partido Comunista recuou, e o que se viu naquele dia foram tanques passeando em torno da Praça, enquanto os jovens prosseguiam com seu protesto ainda pacífico.

No dia 5, ante as manobras de dezenas de tanques pela avenida em torno da Praça, um homem solitário surgiu no meio da rua, impávido ante o avanço de uma coluna de vários tanques enfileirados, enquanto outros civis mais precavidos fugiam desesperadamente do avanço militar… Quando o primeiro tanque da fileira chegou próximo dele, foi obrigado a desviar para não o atropelar. Mas o homem se moveu de lado, brecando o tanque. Ele parecia querer conversar…

Subiu na máquina e trocou algumas palavras com seu piloto, até que duas pessoas (que todos esperam que fossem seus amigos) surgiram na cena e convenceram o homem a desistir de papear com aqueles soldados, que os haviam massacrado dois dias antes. Esta cena foi filmada e fotografada por jornalistas de todo o mundo, e o homem, até hoje um desconhecido, se tornou um mito: o Rebelde Desconhecido… Até hoje tampouco se sabe se ele teria ou não sobrevivido. Especula-se que, mesmo um ano após o incidente, quando às manifestações já havia terminado há meses, o próprio governo chinês ainda procurava pelo homem desconhecido. Aquela altura, seria um grande benefício para o Partido Comunista mostrar aquele mito vivo e intacto, provando para o mundo que ele não havia sido preso, torturado, ou morto (como tantos milhares de civis).

Hoje, entretanto, a China é um outro país, e embora esteja evoluindo lentamente para uma sociedade mais aberta e um governo menos repressor, o mito do Rebelde Desconhecido perdura. Assim se dá com os mitos: eles existem sempre, e sobrevivem ao nascer e ao findar dos impérios. Quem seria aquele chinês corajoso? Um jovem estudante, ou um professor? O que ele teria tentado dizer ao piloto do tanque? “Parem, vocês estão dizimando nosso futuro, nossa liberdade, nossa dignidade” – teria sido algo assim?

Talvez a única coisa que possamos afirmar em relação ao Rebelde Desconhecido é que ele era alguém que havia descoberto como pensar por si mesmo. Um real revolucionário: aquele que travou todas as guerras do mundo no interior, e realizou a revolução na própria alma.

Falávamos a pouco do Deus Bom e do Deus Mal do zoroastrismo. Estes são também mitos, propostos pelo profeta Zoroastro. Dissemos também que se tratava de um conceito infantil e superficial… Mas, será que isso foi mesmo culpa de Zoroastro, ou daqueles que vieram muito depois e, não sabendo interpretar sua mitologia, tomaram-na de forma literal, e a adaptaram para seus próprios interesses?

Ora, será mesmo que uma religião sobreviveu por tantos séculos baseada num conceito superficial, ou são os seus detratores que jamais se interessaram em compreender o que diabos é exatamente um mito, uma interpretação simbólica, uma metáfora? Não quero transformar esta série num tratado sobre mitologia [3], mas vamos considerar aqui, de forma bastante breve, uma outra visão para os deuses do zoroastrismo:

Aúra-Masda, o Deus Bom, não era invenção de Zoroastro, mas uma divindade já existente na cultura indo-iraniana, com muitas semelhanças a deuses ainda bem mais antigos da Índia Védica. Aúra-Masda, ou o Senhor Sábio, era um mito associado ao sol e ao fogo. Através de sua luminosidade, as trevas da ignorância poderiam ser vencidas. Era precisamente através do fogo e suas chamas mensageiras que os homens poderiam se comunicar com o Senhor Sábio.

Já seu irmão, Arimã, o Deus Mal, era o senhor da devassidão e da corrupção, o lado negro da alma de todos os homens, que os atraia para o mau pensamento e o mau governo de sua própria existência. Ora, é precisamente este que foi associado a Lúcifer. Porém, há uma característica essencial do mito que não foi transferida para o cristianismo: Arimã não está no mundo lá fora, mas dentro da alma de cada um de nós. Arimã não nos “seduz” para o mal, mas é antes a própria presença das trevas da ignorância que ainda pairam dentro de nosso coração, impedindo que vejamos a luminosidade do bem.

Percebem a enormidade da diferença? Não se trata mais de deuses criadores do mundo ou do Cosmos, mas de aspectos da própria alma, da mente humana, e de sua longa caminhada em direção à luminosidade, a extinção das trevas da ignorância; Enfim: a evolução da consciência. Zoroastro não estava preocupado com a origem das coisas, do porque existe algo e não nada, mas sim com a origem da ignorância humana, e de como proceder para que os homens reformem a si mesmos, e se tornem melhores e mais sábios. Mas a luz de Zoroastro, quando chegou aos homens da Igreja, foi corrompida em algo menor. Tal qual Lúcifer caiu dos céus, os eclesiásticos também caíram nas trevas da ignorância, e houve mesmo aqueles demônios que um dia acreditaram que Deus pediu guerras santas e conversões sob as torturas mais bárbaras – e os demônios da Igreja diziam falar em nome de Deus.

Mas como falar em nome de um aspecto apenas nosso, uma luz que habita dentro de cada alma, e que em cada uma delas é uma luz distinta, como a íris dos olhos? Somente Deus pode falar por si, mas quando o faz, fala direto a alma daqueles que souberam lhe escutar… Os outros todos que acreditam falar em nome dele devem tomar muito cuidado, pois estes sim terão muito a explicar no Juízo Final. Este sim, terão dificuldades em espantar Lúcifer.

O rabi da Galileia disse que veio trazer a espada, e não a paz. E ele tinha razão: necessitamos de uma espada para batalhar na guerra da alma, para nos livrar dos preconceitos, dos apegos, das zonas de conforto, da estagnação. Como é possível estar em paz com tanta violência, tantas guerras e sofrimento pelo mundo afora? Com a luz do amor voltada para o sistema inteiro, e não para um pequeno grupo, uma pequena região, uma pequena parte do tempo. Quem com ferro fere, com ferro será ferido – disse ele também: a solução não é o olho por olho nem o dente por dente, a solução não é guerrear no mundo lá fora, nem propriamente enfrentar exército com exército, e bomba com bomba. Bastam algumas bombas atômicas explodirem a mais, e todos estarão cegos e desdentados: hoje ao menos sabemos disso.

A solução é a revolução da alma, para que possamos oferecer a outra face ante toda a violência: a face da tolerância, da sobriedade, da espiritualidade. Nenhum soldado jamais será, afinal, tão corajoso, tão heroico, tão mítico, quanto o Rebelde Desconhecido, que não estava mais preocupado consigo mesmo, mas com o rumo que sua pátria iria tomar, continuassem os tanques e os outros soldados dizimando aqueles que lutavam, sem armas que não o próprio pensamento, na guerra pela paz.

E a paz só virá, efetivamente, após a espada, após a guerra que se dá internamente, após a revolução da alma. Só mudando a si mesmo que o homem pode mudar o que está a sua volta. Se o pensamento não muda, o que vemos é o que temos visto pelo mundo afora: um Império substituindo ao outro, e um opressor sentando no trono sangrento de outro opressor. Enquanto o homem não muda a si mesmo, o que vemos é apenas escuridão e ranger de dentes.

Até este precoce despertar da consciência humana, a Natureza nos guiou, através da “guerra da fome e da morte”, por seus caminhos multimilenares: ora presa, ora predador. Lutamos em muitas guerras, e muitas foram com unhas e dentes, e paus e pedras. Fomos alvejados e esquartejados, transpassados e devorados, e decerto por muito tempo pagamos ao olho por um outro olho, e ao dente por um outro dente. Um dia, porém, alguns de nos se cansam deste jogo, e decidem se voltar para a luz, e não mais para a escuridão… Agradecem ao sistema por tê-los feito chegar aonde chegaram, mas agora tratam de viver, não mais sobreviver. E amar, não mais assassinar.

Eis que todo incêndio um dia começou pequeno. Eis que os ventos das asas do Grande Dragão, Arimã, se antes conseguiam extinguir a chama de uma vela, hoje mal conseguem abalar a fogueira que arde no coração daquele que deu os primeiros passos no caminho em direção à luz. Agora, as pedras não mais se chocam para se destruírem e arrancarem lascas umas das outras, mas para produzir ainda mais faíscas de luz, para que o fogo aumente, e aumente, sempre adiante… A ignorância alheia não mais ameaça a nossa convicção. Não há ninguém para ser convertido, há apenas seres para serem amados – e por todos os cantos.

Há seres no leste e no oeste, ao norte e ao sul, acima e abaixo, há vida e beleza, há pensamentos de luz por toda a parte. Há amor por toda a parte. Não há mais nada a temer, nem a duvidar. Então, quando todas as guerras do mundo ficam para trás, nos recônditos da alma que deixou de ser pequena, apenas se é. A paz foi finalmente alcançada, a fera foi domesticada: Arimã, quem diria, também é nosso amigo.

Neste céu de liberdade, Pai, deixe meu país acordar (Tagore)

***

[1] O comunismo de Marx, descrito em sua filosofia, foi algo um tanto distante do comunismo do mundo real. Como alguém já disse: “amo Marx, mas odeio os marxistas”.

[2] Segundo a Cruz Vermelha chinesa.

[3] Para tal, recomendo consultaram a série Os corvos de Wotan.

Crédito das imagens: [topo] Alguns fotógrafos corajosos; [ao longo] Anônimo (encontradas no Facebook, sem crédito dos autores)

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O mito da caverna comentado, parte 2

Texto de Platão em “A República”. Os comentários ao final são meus.

continuando da parte 1

Sócrates – E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?

Glauco – Com toda a certeza.

Sócrates – E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?

Glauco – Não o conseguirá, pelo menos de início.

Sócrates – Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz [5].

Glauco – Sem dúvida.

Sócrates – Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.

Glauco – Necessariamente.

Sócrates – Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna [6].

Glauco – É evidente que chegará a essa conclusão.

Sócrates – Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?

Glauco – Sim, com certeza, Sócrates.

Sócrates – E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia? [7]

Glauco – Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.

Sócrates – Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?

Glauco – Por certo que sim.

Sócrates – E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? [8] E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?

Glauco – Sem nenhuma dúvida.

Sócrates – Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível [9], não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Deus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.

Glauco – Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la [10].

(Platão, A República, v. II p. 105 a 109)

***
[5] Na metáfora Sócrates discorre sobre o processo de evolução do conhecimento, e como ele necessita ocorrer passo a passo, gradativamente.
[6] Buscar o que sustenta a Criação, ou “porque existe algo e não nada”, é o estágio primordial da evolução do conhecimento – onde ela também pode ser confundida, não sem razão, com uma evolução espiritual. Não importa o que dizem os materialistas atuais, foi buscando a Deus que os grandes cientistas comporam suas equações e os grandes filósofos pautaram sua lógica. Qual Deus buscavam eles, entretanto, é algo próprio de cada um deles…
[7] Lembremos que não se trata de mudar de uma realidade para outra, e sim de retroceder a uma vida de ignorância. Ainda que quisesse, entretanto, já não mais conseguiria. Quem vê a luz uma vez e a compreende, jamais voltará a enxergar sombras.
[8] Aquele que compreende a essência das coisas – que sai da caverna – se torna um ser modificado. O que antes lhe interessava na vida dentro da caverna, não lhe interessa mais… Dessa forma, mesmo seus familiares e amigos mais próximos vão estranhar seu comportamento.

É isso precisamente o que ocorre com todos aqueles que “se iniciam” nos estudos mais profundos em filosofia, religião ou ciência. Um físico não conseguirá mais ignorar o baile de partículas do Cosmos, um budista não conseguirá mais ignorar o que compreende em suas meditações, e um filósofo não conseguirá mais viver sem o eterno exercício dos questionamentos existenciais… E todos esses serão agora “estranhos no ninho”, “excêntricos”, “loucos”, “nerds”, etc.
Isso não quer dizer que todo louco seja sábio. Muitas vezes, é apenas louco mesmo. Eis que os sábios são ainda muito poucos, e esta é a razão do mundo ser como é. Tolstói já dizia: “Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo”.
[9] O “mundo inteligível” não é um céu localizado fisicamente em algum lugar. Nem a “subida da alma” é uma elevação a esse céu mítico. O céu está na consciência de cada um, assim como a ascenção da alma corresponde a ascenção do conhecimento de si mesmo e da essência das coisas. Repito: não é o mundo que muda, somos nós!
[10] Platão nunca afirmou que compreendeu totalmente Sócrates. Eu não afirmo que compreendi totalmente este mito. Da mesma forma, Krishna, Lao Tsé, Buda, Jesus e tantos outros sábios jamais foram compreendidos totalmente, exceto pelos seres de igual estatura espiritual – muito provavelmente não estamos ainda entre eles.

***

Crédito da foto: Diana Oliveros

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#Filosofia #Mitologia #Platão #Sócrates

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-mito-da-caverna-comentado-parte-2

Questões Infernais

A palavra inferno, que hoje conhecemos, origina-se da palavra latina pré-cristã inferus, que significava “lugares baixos”; foi dela que surgiu o termo infernus. Na Bíblia latina, a palavra é usada para representar o termo hebraico Seol e os termos gregos Hades e Geena, sem distinção. A maioria das traduções ao português seguem o latim, e elas não fazem distinção do original hebraico ou grego.

Geena, do grego, se refere a um lago de fogo. Já o Seol hebraico e o grego Hades parecem se referir a uma mesma ideia, muito anterior à própria Bíblia: um reino dos mortos (que ficava abaixo da terra, daí a conexão com infernus).

Segundo a mitologia grega, os deuses olímpicos saíram vitoriosos da batalha travada contra os titãs (a titanomaquia), e Zeus, Poseidon e Hades partilharam entre si o universo; Zeus ficou com os céus, Poseidon ficou com os oceanos e Hades ficou com o mundo dos mortos, que leva o nome deste deus (além disso, todos eles partilharam a terra igualmente, daí a ideia de que poderiam influenciar os vivos).

A influência de Hades no reino dos vivos é quase que estritamente negativa e maléfica, vinculada à pragas, doenças, destruições e guerras, mas também é tida como influência de desafios, afinal nas tradições antigas, para seguirem o “caminho do herói”, testes e provações físicas e psicológicas eram necessárias… Da mesma forma, o reino de Hades, o reino dos mortos, não é um conceito que poderia ser associado somente ao que o cristianismo passou a compreender por inferno.

No Hades as almas eram julgadas por três juízes [1], com responsabilidades específicas: Minos tinha o voto decisivo; Éaco julgava as almas europeias; e Radamanto julgava as almas asiáticas. Nem mesmo Hades interferia no julgamento deles, a não ser em raras ocasiões. Este tipo de julgamento moral se assemelha a concepção cristã do julgamento do final dos tempos, mas o que ocorre com as almas boas? Elas saem do Hades?

Aí é que está: não saem, pois o próprio Hades é um reino com o seu céu e o seu inferno. O céu é conhecido na mitologia grega como Campos Elíseos; o inferno, como Tártaro. Ambos ficam no reino dos mortos, no Hades. Dessa forma, apesar de a mitologia bíblica haver bebido da fonte da mitologia antiga, há algumas contradições importantes… O exegeta bíblico poderá dizer que o cristianismo é uma espécie de refinamento das ideias pagãs anteriores, mas será que isto se sustenta?

Por “refinamento”, quero dizer “interpretação mais espiritualmente aprofundada”. Porém, ocorre que, apesar de tanto a mitologia bíblica quanto a grega concordarem que os mortos são julgados pelas suas obras, o julgamento do deus bíblico me parece mais autoritário e implacável. Dependendo da interpretação, mesmo um ladrão de galinhas pode ser condenado ao inferno. Outro problema é a gradação de penas: na mitologia bíblica, o ladrão de galinhas e o assassino parecem destinados a receber a mesma pena (arder eternamente num lago de fogo); na mitologia pagã, pelo contrário, as penas são dadas de acordo com as faltas, como ocorre num tribunal de justiça terrena. Eu, sinceramente, não vejo refinamento algum nesta exegese bíblica.

Há, em todo caso, uma primeira questão infernal que se aplica ao inferno bíblico: Os bons, aqueles que chegarão ao céu, não ficariam tristes por saber que boa parte de seus familiares e amigos estarão condenados a arder num lago de fogo por toda a eternidade?

Ora, segundo a mitologia grega, no Hades os julgamentos ocorrem após a morte, e não após um juízo final. Ainda assim, a questão persiste… Mas no caso pagão, há muitas interpretações alternativas que dizem que o condenado ao Tártaro pode eventualmente cumprir sua pena e assim se elevar aos Elíseos; Ainda outras teorias, mais antigas, simplesmente afirmam que após o cumprimento da pena no Tártaro o condenado estaria apto a reencarnar na terra. Enfim, no paganismo não haviam dogmas infalíveis, e os mitos eram constantemente reinterpretados.

Mas no mito bíblico nada disso ocorre. Há um julgamento final, e depois cada grupo irá para o seu canto, por toda a eternidade… Ora, de fato, ainda que o inferno cristão não fosse um local de sofrimento eterno, o simples fato de familiares e amigos serem separados pela eternidade inteira seria um motivo de sofrimento… Eterno?

Como se não bastasse esta, há uma segunda questão infernal ainda mais complexa. Segundo a bíblia, o governante do inferno é um anjo que, por haver se corrompido e escolhido o caminho do mal, tornou-se ele próprio o supremo representante do mal – o anjo caído. Eis a questão: Seria este anjo incapaz de arrepender-se, por toda a eternidade? Um anjo, quando cai, e se corrompe, não tem nenhuma, nenhuma oportunidade de se arrepender, de remediar sua situação? Haveria justiça divina nesta ideia?

Se não houvesse o livre-arbítrio, todos seríamos fantoches nas mãos de Deus. Portanto, é preciso a liberdade para que um ser exista enquanto ser, e não enquanto autômato [2]. Dessa forma, se o anjo caído, Lúcifer, não tiver a liberdade para decidir se arrepender, isto significa que ele é mero fantoche nas mãos do deus bíblico – o que equivale a dizer que tudo o que Lúcifer faz seria, no fundo, decidido pelo Mestre dos Fantoches. Eu não sei quanto a vocês, mas acho esta uma ideia absurda.

O exegeta bíblico poderá responder a tais questões infernais de forma superficial, quem sabe: (a) Ao chegar no céu, Deus apaga da memória dos escolhidos todas as lembranças daqueles que foram para o inferno, e dessa forma não sentirão saudades nem sofrerão pelo que ocorre a eles; e (b) Lúcifer simplesmente não se arrependeu, e talvez jamais se arrependa, por isso ainda existe o mal no mundo. Pois bem, vocês acham, honestamente, que tais respostas vagas resolvem essas questões?

Os pensadores contemporâneos têm concepções bem mais profundas e interessantes do mito do céu e inferno. Sejam cristãos, não cristãos, agnósticos, existencialistas, espiritualistas, estudiosos de mitologia, não importa muito, pois este é um mito que toca a humanidade inteira [3]: Não poderíamos interpretar o céu e o inferno como estados da consciência humana?

Seguindo esta bela reflexão, devemos considerar que cada um constrói o seu próprio céu e inferno em sua própria consciência. Portanto, aquele que encontrou Deus dentro de si [4], mesmo no deserto mais árido e seco, estará ainda num Oceano de Amor em sua própria consciência, dentro da alma, que carrega consigo para todo lugar.

E, assim, chegando neste céu, não titubeará nem por um segundo em descer ao inferno [5] para convidar quem lá está a se aventurar neste vasto Oceano. A questão, no entanto, é que apenas um convite não basta: é preciso mergulhar. Somente o ser em si poderá decidir por abandonar os dogmas antigos, e dar este verdadeiro salto de fé no desconhecido, na imensidão da própria alma… Então, quem sabe, alcance o céu. Então, quem sabe, seja salvo – salvo da ignorância.

Mergulhe suave. Os mensageiros orientam!

***
[1] Os juízes não são deuses e sim mortos que devido à sua forte personalidade e seu senso de justiça tornaram-se juízes. Em algumas versões Hades seria o presidente do tribunal dos mortos.
[2] Fôssemos criados “já perfeitos”, não somente não haveria mérito algum de nossa parte em “sermos perfeitos”, como na prática seríamos autômatos, robôs “programados para a perfeição” por algum deus estranho. Isto é, seja lá o que for esta “perfeição”…
[3] A concepção de alguns ditos cristãos que afirma que somente aqueles que aceitam Nosso Senhor Jesus Cristo serão salvos é tão absurda que nem a incluí neste artigo. Para início de conversa, isto seria condenar todos que viveram antes do Cristo, e todos que jamais ouviram falar do Cristo, automaticamente ao inferno. Isto dá um montão de inocentes condenados!
[4] Ou “o amor”, ou “a iluminação”, ou “a vida”, ou “o Cosmos”, ou “o Verdadeiro Eu”, etc.
[5] Como Sartre já disse: “o inferno são os outros”.

Crédito da imagem: John Springer Collection/CORBIS (cena do filme Dante’s Inferno)

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#Bíblia #Cristianismo #Mitologia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/quest%C3%B5es-infernais

Natureza Imperfeita

» Parte 1 da série “Reflexões sobre a perfeição”

A perfeição é um estado de completude e ausência de falhas. Normalmente atribuímos a perfeição a um Criador, um Ser Perfeito ou as Leis da Natureza.

Ante a grandiosa perplexidade que a observação profunda da natureza nos imprime a alma, somos inexoravelmente levados a crer que o Cosmos – tudo o que há, que foi ou que será – é perfeito. Apesar de ser muitas vezes complexo para nós definir tal perfeição, quase sempre a associamos com a beleza, a simetria, a homogeneidade das formas naturais.

Na geometria a perfeição parece estar associada ao círculo: um espaço onde todos os pontos estão à mesma distância do centro, e conseqüentemente não temos nenhum ponto em posição privilegiada em relação aos demais. Essa igualdade nos parece sublime, e muitas vezes a tentamos traduzir para a realidade, tanto que muitos símbolos e signos da geometria sagrada se baseiam ou contém o círculo… Entretanto, ainda temos o ponto central do círculo – este está em posição privilegiada, na medida em que está a mesma distância de todos os demais. O centro é necessário para que os outros pontos se sintam em igualdade. Retire o centro e teremos novamente uma guerra em busca do ponto de superioridade. É mais simples supor que Deus está no centro. A mente de Deus, o motor inicial do Cosmos, a essência da natureza – aí está a perfeição!

Porém, quando aplicamos essa noção ao espaço-tempo, não temos o resultado que esperaríamos. Segundo a cosmologia, é impossível definir um “centro espacial” do universo. Certamente segundo a teoria do Big Bang, toda a matéria e energia cósmica foi catapultada de um mesmo “ponto inicial”, mas o espaço-tempo cresceu por igual em todas as direções. É como se o próprio centro crescesse ele mesmo, e não os pontos que estavam a sua volta… Nenhum ponto do universo está “em torno de algum centro”, pois que todo o espaço-tempo é ele mesmo um único ponto original que simplesmente cresceu rumo ao infinito. Não há nada fora nem além do universo – e, se é que há, haverá de ser o que o criou.

Costuma-se imaginar que a natureza é perfeita. Perfeita, simplesmente porque é o que havia já aqui muito antes de nós chegarmos (ou pelo menos, muito antes de nossa lembrança de estarmos conscientes da chegada). Como imaginar uma natureza imperfeita? Como imaginar falhas no projeto da criação? A ciência tem descoberto algumas…

Por exemplo: a grama é verde por causa do pigmento clorofila, que absorve as regiões azuis e vermelhas do espectro eletromagnético da luz solar. Por causa dessas absorções a luz que a grama reflete nos parece verde. Entretanto, as regiões verdes e amarelas do espectro da luz solar são as mais energéticas. Portanto, se formos pensar em perfeição no sentido de funcionalidade, a fotossíntese das plantas traria muito mais energia química caso a clorofila absorve-se as regiões verdes e amarelas do espectro, ao invés de absorver as regiões azuis e vermelhas. Seria isso um “erro de design” da natureza?

Não paremos por aqui. Se a grama parece ter “escolhido a cor errada”, mesmo o tão aclamado “projeto homo sapiens” parece ter os seus erros… Soluços, por exemplo, que variam de um aborrecimento passageiro a uma doença que pode durar meses ou, em raríssimos casos, anos. O soluço é provocado por um espasmo de músculos na garganta e no peito. O som característico é produzido quando inspiramos ar repentinamente enquanto a epiglote, uma aba de tecido macio localizada no fundo da garganta, se fecha. Todos esses movimentos são involuntários; soluçamos sem nem pensar no assunto. Os soluços revelam pelo menos duas camadas da nossa história evolutiva: uma parte compartilhada com os peixes e outra com os anfíbios, de acordo com uma teoria bem fundamentada [1].

Herdamos dos peixes os nervos principais usados na respiração. Um desses conjuntos de nervos (frênico) estende-se da base do crânio ao tórax e ao diafragma. Esse caminho sinuoso cria alguns problemas; qualquer coisa que interrompa o trajeto desses nervos pode interferir na respiração. Uma simples irritação pode deflagrar os soluços. Um projeto arquitetônico mais radical do homo sapiens teria colocado o início dos nervos frênicos em local mais próximo do diafragma e não do pescoço.

Já o soluço em si parece ter vindo do passado em comum com os anfíbios. Quando usam a respiração braquial, eles enfrentam um grande problema – precisam bombear água para a boca e garganta e depois para as brânquias, mas essa água não pode entrar nos pulmões. Como conseguem isso? Enquanto inspiram, eles fecham a glote, impedindo que a água escoe pelas vias respiratórias. Pode-se dizer que eles respiram com as brânquias usando uma forma estendida de soluço. Remexendo em nossa história evolutiva, vemos que uma boa parte dela se deu em oceanos, córregos e savanas – e não em cidades, igrejas ou academias.

Para muitos religiosos, essa “ousadia” em se criticar a natureza suscita um senso de ingratidão, de falta de respeito… Provavelmente são os mesmos que criticam qualquer tentativa dos biólogos e geneticistas de “intervir” na natureza – clonando, modificando, até mesmo adicionando informações a obra divina.

Louis Pasteur dizia que “uma pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima”. Eu gostaria de estender essa citação a religião: “um pouco de religião nos esconde a Deus. Muito, nos mostra-O em todo o Seu esplendor”… Para tentar lhes demonstrar o que eu quero dizer com isso, é preciso primeiro falar sobre o paradoxo da perfeição…

» Na continuação, as imperfeições que geraram o Cosmos, e uma visão mais aprofundada do que é realmente a perfeição.

***
[1] Para saber mais consultar “A história de quando éramos peixes”, de Neil Shubin (Ed. Campus).

Crédito da foto: James L. Amos/Corbis

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#Filosofia #Geometria #natureza #perfeição

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O mito da caverna comentado, parte 1

Texto de Platão em “A República”. Os comentários ao final são meus.

Trata-se de um diálogo metafórico onde as falas na primeira pessoa são de Sócrates, e seus interlocutores, Glauco e Adimanto, são os irmãos mais novos de Platão. No diálogo, é dada ênfase ao processo de conhecimento, mostrando a visão de mundo do ignorante, que vive de senso comum, e do filósofo, na sua eterna busca da verdade [1].

Sócrates – Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres [2] armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.

Glauco – Estou vendo.

Sócrates – Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.

Glauco – Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.

Sócrates – Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?

Glauco – Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?

Sócrates – E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?

Glauco – Sem dúvida.

Sócrates – Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?

Glauco – É bem possível.

Sócrates – E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?

Glauco – Sim, por Zeus!

Sócrates – Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados? [3]

Glauco – Assim terá de ser.

Sócrates – Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora? [4]

Glauco – Muito mais verdadeiras.

» continua na parte 2

***

[1] Essa introdução ao texto foi transcrita da Wikipedia.

[2] Bonecos de pano ou marionetes. A metáfora fala sobre um teatro de bonecos e sobre os prisioneiros da caverna que crêem piamente que tal teatro corresponde a realidade.

[3] Há aqui um conceito importantíssimo para a compreensão do mito – algo que normalmente escapa as análises superficiais. Decerto vocês já ouviram críticos de Platão afirmando que sua filosofia nos deixa alienados da realidade física, nos convencendo de que existe uma mítica “realidade superior”, normalmente chamada de “mundo das idéias”.

Dizem esses que foi “culpa de Platão” toda essa alienação do mundo físico que encontrou ressonância no cristianismo… Ora, eu não vou nem questionar aqui o cristianismo, mas me parece que aqueles que acreditam que Platão nos aliena do mundo físico estão bastante equivocados em sua interpretação.

Vamos lembrar que Sócrates, o grande sábio que inspirou quase todos os textos de Platão, dava pouca importância à sociedade hipócrita de sua época (não tanto diferente da de hoje), mas não ao mundo físico e a natureza em si. Tanto que participava de rituais em celebração as estações e a época de colheita. Freqüentemente temos trechos de livros de Platão onde Sócrates conversa com seus discípulos em agradáveis passeios pela área rural. Não me parece, honestamente, que Sócrates era um alienado da realidade.

Repare que o mito não fala em duas realidades opostas, e sim em um plano de observação onde as coisas são vistas com clareza, e um outro plano onde as mesmas coisas são vistas sem tanta clareza (onde vemos apenas sombras das coisas em si). Ou seja: é a mesma realidade, e são as mesmas coisas, o que muda é tão somente nossa visão – consciência, conhecimento, compreensão – delas.

Sócrates não nos pedia para ignorar o mundo físico, mas sim para não considerar apenas a aparência superficial das coisas, e nos esforçar para buscar uma compreensão mais elaborada de sua essência. Dessa forma, assim como Jesus, Sócrates viveu sim neste mundo, embora soubesse que sua essência não pertencia a ele.

Eu particularmente acho que Nikos Kazantzakis (ateu) resumiu muito bem a questão em um diálogo de Jesus de “A Última Tentação de Cristo”: “Eu vi o mundo dos homens, e vi também o mundo espiritual. Me perdoa Pai, pois não sei qual é o mais bonito”.

O grande sábio carrega seu céu e seu “mundo das idéias” consigo, de modo que o mundo é o mesmo, mas sua visão dele é muito mais profunda e maravilhosa.

[4] Aí está o principal motivo porque a evolução do conhecimento deve se realizar passo a passo. De nada adiantaria transportar um selvagem canibal para uma academia de física – não se produziriam grandes cientistas na tentativa. Porque para o selvagem a academia seria um inferno, ainda que não tivesse mais que caçar seus alimentos. Na natureza as coisas seguem o seu próprio ritmo, e é importante que respeitemos o tempo de cada um.

Não se trata de “jogar pérolas aos porcos”, mas sim de ensinar os porcos a apreciar a casca da ostra, para que um dia possam apreciar também sua pérola… Passo a passo, mas sempre à frente.

***

Crédito da foto: Zep10

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#Filosofia #Mitologia #Platão #Sócrates

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-mito-da-caverna-comentado-parte-1

Espelho de Circe

Por todos os anos de trabalho do TdC e na senda ocultista se fez necessária uma voz e uma força que falasse para todos com o poder feminino. Em tempos e meios tão masculinos, campos para o surgimento de olhares surpreendentes como dessas mulheres é um bálsamo de que há propósitos além das ondas ordinárias da vida comum.

E na última sexta feira 13 de lua cheia o Espelho de Circe nasce como uma proposta de integração, espaço acolhedor e trabalho coletivo. Pretende falar abertamente para todas as idades e orientações, também ao abordar temas rejeitados por serem tabus ou difíceis ou considerados menos importantes, o lugar que se torna esse trabalho é de criatividade e coletividade.

Uma inspiração que trata a Arte em seus recônditos mais deliciosos; no coração e no fortalecimento do indivíduo para alcançar outras reconciliações no micro e macro da criação. Com conhecimentos profundos passados na melhor forma de tradição oral e abertos ao florescimento individual e da comunidade que o cerca, Espelho de Circe sai do lugar comum e se torna um “mundo entre mundos” de beleza e liberdade.

A diversidade dos colaboradores, suas percepções diversas, suas inclinações pessoais, como escolhem se comunicar com todos é além de deslumbrante, é um alento surpreendente ao nos lembrar que a diversidade e inclusão existem e acontecem pelas mãos de todos nós, todos os dias.

Divinamente iguais. Humanamente diferentes. Totalmente livres. Não é apenas um mote, mas estabelece um novo patamar de simplicidade e genialidade nos caminhos mágicos, humanos e de liberdade das prisões concienciais antes limitadoras.

Para seguir o trabalho dessa gente espetacular acompanhe no site Espelho de Circe: https://www.espelhodecirce.org.br, pelo Facebook Espelho de Circe e pelo instagram:
@espelhodecirce

Atravesse o espelho.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/espelho-de-circe

Hipátia e Sinésio (parte 1)

A Filósofa,

Eu lhe saúdo, e lhe peço que saúde seus fortunados amigos por mim, majestosa Mestra. Há tempos venho lhe reclamando por não ser digno de uma resposta, mas hoje sei que não sou vítima do seu desprezo por nenhum erro de minha parte, mas porque sou desafortunado em muitas coisas, em tantas quanto um homem pode ser.

Se apenas eu pudesse receber novamente suas cartas e saber como todos estão passando – tenho certeza que estão felizes e desfrutando de boa fortuna – eu ficaria aliviado, neste caso, da metade dos meus próprios problemas, ao me alegrar pela sua felicidade. Mas hoje o seu silêncio é mais uma adição as minhas tristezas.

Eu perdi meus filhos, meus amigos, e a boa vontade de todos. A maior de todas as perdas, no entanto, é a ausência do seu espírito divino. Eu tive esperança de que isto sempre permanecesse em mim: a capacidade de vencer tanto os caprichos da fortuna quanto as voltas sombrias do destino.

A carta acima [1] foi escrita por Sinésio de Cirene no ano 413 d.C. Provavelmente seria tratada como um relato de pouca importância histórica, fruto do fim de vida amargo de um filósofo do século V, não fosse pela sua célebre destinatária, a qual o escritor lamenta profundamente a ausência: a “filósofa” em questão era exaltada como um “espírito divino” não somente por Sinésio, como por praticamente todos os seus discípulos. Ela era Hipátia de Alexandria, a mulher mais sábia de seu século, cuja luz e a lenda ainda irradiam até a era moderna.

Eis como Sócrates Escolástico, um historiador de sua época, a descreveu em sua obra Historia ecclesiastica [2]:

Havia uma mulher em Alexandria chamada Hipátia, filha do filósofo Théon, que galgou tantas realizações na literatura e na ciência, que ultrapassou em muito os filósofos de seu tempo. Tendo sido versada nos ensinamentos de Platão e Plotino, ela explicava os princípios da filosofia para os seus ouvintes, muitos dos quais viajavam enormes distância para serem instruídos por ela. Por conta de seu autocontrole e serenidade, frutos do cultivo de sua mente, ela aparecia muitas vezes em público na presença dos magistrados da cidade, e não se sentia envergonhada em participar das assembleias dos homens. Pois todos os homens que tinham notícia de sua extraordinária dignidade e virtude eram seus admiradores.

Apesar de haver sido uma das mentes mais brilhantes de seu tempo, Hipátia é mais conhecida pela maneira brutal com que foi assassinada; assim como pela forma com que as lendas em torno do ocorrido alimentaram a curiosidade tanto de pagãos quanto de cristãos, tanto de adeptos da ciência e da racionalidade quanto de homens e mulheres de fé. Antes de sabermos como ela morreu, no entanto, talvez seja mais proveitoso saber como viveu…

Residiu a vida toda em Alexandria, tendo sido descendente de uma família de relativa nobreza e destaque na sociedade da época. Seu pai, Théon, era um cientista muito conhecido, membro do Museu (ou Templo das Musas, onde também residia a célebre Biblioteca da Alexandria [3]), escritor e filósofo com especial interesse no hermetismo. Apesar do que dizem as lendas, era o pai de Hipátia o amante do paganismo (ao menos publicamente), e não ela, que ficou conhecida em seu tempo bem mais pela sua vasta erudição em ciências matemáticas e astronômicas, assim como em filosofia, do que por algum conhecimento particular dos rituais pagãos.

A sua vida privada, no entanto, era bem mais envolta em mistérios… Apesar de não nos restar nenhuma obra escrita de Hipátia que não seja relacionada à ciência [4], felizmente algumas cartas de Sinésio sobreviveram aos séculos, e nos confirmam em parte o que muitos estudiosos da sua vida intuíram.

Hipátia formou um círculo intelectual composto por discípulos que eram como que “alunos particulares”, alguns deles por muitos anos, outros ainda (como o próprio Sinésio) que a trataram como mestra até o fim da vida. Tais alunos vinham da própria Alexandria, de outras regiões do Egito, da Síria, de Cirene e Constantinopla. Pertenciam a famílias ricas e influentes; com o tempo, vieram a ocupar posições de comando na hierarquia do Estado ou na ordem eclesiástica do cristianismo nascente.

Em torno de sua mestra, esses discípulos formavam uma comunidade cujos fundamentos eram o sistema de pensamento platônico e os laços profundos de amizade. Aos conhecimentos transmitidos pelo “espírito divino” de Hipátia, davam o nome de “mistérios”. Tais conhecimentos, estes sim, eram mantidos inteiramente secretos, e jamais transmitidos a qualquer um que não fosse iniciado nos assuntos divinos e cósmicos.

Ainda que pouco saibamos atualmente sobre o que Hipátia e o seu círculo de discípulos estudavam em segredo, é certo que, entre os seus textos sagrados, contavam-se os Oráculos Caldaicos. Esses textos do hermetismo eram caros tanto ao pai de Hipátia, que os lecionou a própria filha em casa, quanto a Sinésio, que em suas obras demonstra estar plenamente familiarizado com a sua temática.

Seja como for, fato é que se Hipátia foi uma pagã no âmbito privado, jamais demonstrou, na esfera pública, nenhum interesse particular por frequentar templos dos deuses gregos ou participar de seus rituais. Ao que tudo indica, Hipátia foi muito mais uma mística do que uma adepta do ritualismo religioso.

Suas lições públicas incluíam, além da filosofia platônica, preciosas instruções da matemática e astronomia. As suas conferências tinham lugar tanto em sua própria casa, quando aberta ao público, como nas salas de leitura alexandrinas. Em ambos os casos, não era incomum ser acompanhada por multidões de admiradores e curiosos.

Ocasionalmente também era chamada a intervir nos assuntos da polis, atuando como conselheira dos assuntos municipais. A filha de Théon detinha uma grande autoridade moral, e todos os historiadores da época concordam em descrevê-la como um modelo de coragem ética, retidão, sinceridade, dedicação cívica e elevação intelectual.

Apesar de provavelmente ter sido belíssima em sua juventude, também sempre foi uma reconhecida adepta da sophrosyne, uma espécie de “estado de espírito” que, de acordo com o conceito grego antigo, incluía o bom senso e a moderação, a sanidade moral, o autocontrole e o autoconhecimento. Isso também se refletiu em sua vida sexual: Hipátia se conservou virgem por toda a vida, e não há sequer um relato consistente de quaisquer casos amorosos que tenha tido, seja com homens ou com mulheres. Aos que a questionavam sobre “quando afinal iria se casar”, ela respondia que “já era casada com a Verdade” [5].

E há quem tenha dito que o brutal assassinato de Hipátia tenha marcado o fim do helenismo e o início da hegemonia cristã. Tais lendas quase sempre mostram uma Hipátia jovem e bela sendo morta por uma multidão de fanáticos… Como ocorre muitas vezes em lendas históricas, o relato em si passa consideravelmente distante da verdade: Hipátia não poderia haver sido uma mestra tão jovem, a lecionar para homens bem mais velhos, e discursar para multidões.

Já sobre a questão entre o helenismo e o cristianismo, como já dissemos, Hipátia tampouco tinha qualquer predileção por um ou por outro – a ela interessava somente a Verdade. Tanto que um dos seus discípulos mais fiéis, e também um dos homens que mais a amou, um dia tornou-se bispo, e o seu nome era Sinésio de Cirene, o Bispo Filósofo.

» Na próxima parte, a triste e trágica morte da mulher mais sábia de Alexandria…

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[1] Fonte original (em inglês): Livius.org. A tradução é de Rafael Arrais.
[2] Fonte original (em inglês): Wikipedia. A tradução é de Rafael Arrais.
[3] Na Grécia antiga o museu era um templo das musas, divindades que presidiam a poesia, a música, a oratória, a história, a tragédia, a comédia, a dança e a astronomia. Esses templos, bem como os de outras divindades, recebiam muitas oferendas em objetos preciosos ou exóticos, que podiam ser exibidos ao público mediante o pagamento de uma pequena taxa. Dos museus da Antiguidade, o mais famoso foi o criado em Alexandria por Ptolomeu Sóter em torno do século III a.C., que continha estátuas de filósofos, objetos astronômicos e um jardim botânico, embora a instituição fosse primariamente uma academia de filosofia, e mais tarde incorporasse uma enorme coleção de obras escritas, dando origem a célebre Biblioteca de Alexandria.
[4] E mesmo essas são, em teoria, somente edições de célebres matemáticos e astrônomos da época. Devido à dificuldade em se atribuir autoria feminina a quaisquer obras da época, fica impossível confirmar o quanto dessas “edições” não se tratavam, na realidade, de “adições”.
[5] Segundo a enciclopédia bizantina Suda, ela foi esposa de “Isidoro, o Filósofo” (aparentemente Isidoro de Alexandria); porém, Isidoro só nasceu muito depois da morte de Hipátia, e não se conhece nenhum outro filósofo com este nome que seja seu contemporâneo. A Suda também afirmou que “ela permaneceu virgem” e que rejeitou o candidato mostrando lençóis manchados de sangue afirmando que eles demonstravam que não havia “nada de belo” no desejo carnal – um exemplo de fonte cristã fazendo uso de Hipátia como símbolo de virtude.

Bibliografia
Hipátia de Alexandria, Maria Dzielska (Relógio D’Água); Wikipedia; Livius.org

Crédito da imagem: Wikipedia (pintura de Charles William Mitchell [1885], provavelmente baseada nas lendas que chegavam a ver Hipátia como espécie de “heroína erótica da razão”).

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

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Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/hip%C3%A1tia-e-sin%C3%A9sio-parte-1