Aleister Crowley (12 de Outubro de 1875 – 1 de Dezembro de 1947), nascido Edward Alexander Crowley, foi um influente ocultista inglês, responsável pela fundação da doutrina Thelema. Ele é conhecido hoje em dia por seus escritos sobre magia, especialmente o Livro da Lei, o texto sagrado e central da Thelema, apesar de ter escrito sobre outros assuntos esotéricos como magia cerimonial e a cabala.
Libriano com Lua em Peixes, Ascendente em Leão e Caput Draconis em Áries. Uma pessoa que possui uma percepção dos outros e o íntimo em estreito contato com o Plano astral, que gosta de aparecer e de se mostrar e ao final de sua vida, terá se tornado um líder.
O gosto de Crowley pelo oculto vem da combinação forte de Júpiter em conjunção a Mercúrio (em Escorpião), que indica não apenas que a mente de Crowley procurava buscar o que há de mais profundo nos mistérios como seu facilitador natural também o impulsionava para tal. Mercúrio em Escorpião é a mente daqueles que desejam desvendar mistérios, encontrada tanto em céticos quanto em ocultistas.
O Planeta mais forte do Mapa de Crowley é Plutão (em Touro), que indica uma pessoa voltada para experimentar tudo o que a vida pode oferecer. Sua combinação com a Lua em Peixes (em sextil de 0,2 graus) faz com que ele canalize estas experiências para o Plano Astral e escapismo da realidade. Esta combinação é comum em viciados em jogos ou drogas (o caso do Crowley). Some-se esta energia com sua curiosidade e facilidade para buscar o que há de experiências mais profundas (Mercúrio e Júpiter em escorpião) e você tem um mapa de alguém que está disposto a testar todos os limites da experimentação.
Marte é o Planeta que mostra como a pessoa briga, planeja e executa suas ações. Marte em Capricórnio é o guerreiro-planejador-estratégico, muito encontrado em militares de carreira e também em jogadores de xadrez ou outros esportes que exijam calma, planejamento e disciplina (alpinismo, por exemplo).
Uma Aspectação interessante no Mapa de Crowley é a Oposição Urano em Leão (facilidade em exibir-se para os outros) e Saturno em Aquário (facilidade para organizar/controlar/estar responsável por grupos de pessoas). Com Sol e Vênus em Libra (diplomacia), fica fácil entendermos como Aleister conseguiu mesclar e utilizar todos estes recursos e se tornar “o homem mais perverso do mundo” segundo os jornais sensacionalistas…
Engraçado notar que, ao contrário de outros ocultistas como Arthur Waite (que tinha Marte/Vênus em Virgem) ou este que vos escreve (Marte/vênus em Virgem) que abordam o ocultismo de uma maneira mais enciclopédica (pesquisar, anotar, comparar, catalogar…) Crowley era um verdadeiro porra-louca, que precisava experimentar e testar tudo em sua própria pessoa para obter o conhecimento direto em primeira mão.
Acabou quebrado e falido, mas deixou seu legado para toda a posteridade.
dies Martis, Sol 4º in ♑ Luna 6º in ♈ Lua Crescente
Faz o que tu queres há de ser o todo da Lei!
“Deu B.O., a casa caiu, a polícia tá chegando
A mulher tá me ligando
Se esconder ela não acha
Fujo do flagrante, mando o check-in lá de casa”
Wesley Safadão, 2017
“Sentir que por detrás de toda e qualquer coisa que possa ser experienciada há algo além, que nossas mentes não conseguem compreender e cuja beleza sublime nos chega somente indiretamente e como uma pálida reflexão.”
Einstein apud Dawkins, God, a Delusion, página 5.
Neste último dia 24, véspera de Natal, após um longo período de trabalho bastante desgastante de quase um mês sem descanso de verdade, estávamos minha namorada e eu vendo Netflix e bebendo um carmenére reserva bem gostosinho. Lá pelas tantas, naquela pausa estratégica para fazer um xixizinho, já meio alegrão com o vinho, recebo uma daquelas perguntas que vêm da curiosidade espiritual legítima, mas que têm tudo para fazer deste Natal o último em que terei minhas bolas, caso responda de maneira menos que ideal. Decifra-me ou te DR, diz a minha esfinge exuberante, deitada em nossa cama.
Antes de desvelar a pergunta, aos prolegômenos dessa sinuca.
O filme que estávamos assistindo – muito bom, aliás! – era ‘Um Método Perigoso’, de David Cronenberg (2011). Nele temos o Lennon e o McCartney do Inconsciente, também conhecidos como Freud e Jung. Embora a visão Junguiana tenha se modificado posteriormente e evoluído para a Psicologia Analítica, naquele ponto da história os dois estão muito BFF e trabalhando juntos no desenvolvimento das idéias que comporão suas teorias posteriormente.
A trama da história concerne o relacionamento extraconjugal que o Jung safadão tem com a sua paciente Sabina Spielrein.
Após esse prólogo, vamos ao cerne do vuco-vuco.
A questão da minha parceira de vida dizia respeito à postura do tralha do Jung sob o ponto de vista de Thelema. Tendo estado ao meu lado tempo suficiente para entender que a visão Thelemita tende a esculhambar o rolê – e exemplos abundam para demonstrar como a Lei da Liberdade pode ser (mal)usada para justificar condutas babacas por aí, sua pergunta tinha um tanto de curiosidade intelectual sobre minhas baboseiras esquisotéricas e um tanto de cagaço quanto à perspectiva futura da manutenção do estado monogâmico de nosso relacionamento. Calma aí, vida… para quê essa pergunta essazora…
Sobrevivi ao polígrafo, com testículos e relacionamento incólumes, e voltei desse encontro com o ceifador para contar minha epifania.
Vi uma frase – em um grupo de Facebook chamado Memes Pagãos – que é engraçada porque é verdade na maior parte dos casos…
“Um adepto do xamanismo fumando maconha e um thelemita dando a bunda viajam em direções opostas a 80 km/h. Qual deles usa mais pretexto?”
A maior parte, não só de nós thelemitas, mas dos ocultistas em geral, não se preocupa com os aspectos cotidianos da sua prática mágicka – yama e niyama, para os patanjalétes de plantão; os caras usam thelema como desculpa para fazerem o que dá na telha e saírem esfregando o pinto em qualquer coisa que não consiga correr para longe rápido o suficiente.
Se o leitor tiver qualquer familiaridade com a visão thelêmica, poderá facilmente lembrar de exemplos do nosso querido Livro da Lei que parecem endossar essa visão libertina do conceito de thelemita.
I.22 “Nada ateis! Que não se faça diferença entre vós e uma coisa e qualquer outra coisa; pois disto resulta dor.”
I.41 “A palavra de Pecado é Restrição. Ó homem! Não recuseis tua esposa, se ela o quiser! Ó amante, se quereis, ide embora! Não há vínculo que possa unir o dividido senão o amor: tudo o mais é uma maldição. Maldito! Maldito seja pelos aeons! Inferno!”
I. 61” Vós devereis reunir bens e fartura de mulheres e especiarias;”
Além desses trechos, a própria biografia dos thelemitas mais conhecidos é notória por apresentar um balaio de putarias e os barracos oriundos delas, ao ponto de Thelema ser quase sinônimo de dedo no cu e gritaria.
Não obstante, preciso vestir agora meu balandrau de apologista da Lei da Liberdade, e gritar que essa não é a casa da mãe Joana, seus viado!
“1. O Homem tem o direito de viver pela sua própria lei;
de viver da maneira como quiser viver;
de trabalhar como quiser;
de brincar como quiser;
de morrer quando e como quiser.”
Liber OZ
A idéia de ‘faze o que tu queres’, imprescindível para o entendimento de Thelema, pretende que a vida seja bem vivida, e que possamos aproveitar do prazer da relação sexual (e todos os outros) sem culpas ou amarras, desde que isto não seja um empecilho para a consecução de nossa verdadeira vontade.
I.12. “Avançai, ó crianças, sob as estrelas, e tomai a vossa plenitude de amor.”
Neste sentido, a Lei de Thelema é a precursora do conceito de Hedonismo Responsável, presente na visão da Igreja de Satã, fundada por Anton La Vey em 1966 nos EUA.
Assim, a Lei de Thelema admite a possibilidade de relações sexuais como, com quem e quantos se quiser, sejam uma, duas, três ou cinquenta pessoas, e não propõe que isso seja necessariamente um impedimento para o desenvolvimento espiritual – desde que todos os envolvidos estejam de comum acordo e aceitem sua responsabilidade pelo ato.
Já nos diz o Liber OZ:
4. O Homem tem direito de amar como quiser;
“tomai vossa fartura e vontade de amor como quiserdes, quando, onde e com quem quiserdes” AL I 51
Até aí, todo mundo que sabe alguma coisa de Thelema meio que já entendeu, e parece que eu estou pregando para convertidos, reiterando a chancela à prática do oba-oba. Só que não.
Este é o momento que separa os meninos dos homens (para a tristeza dos padres católicos…), meus amigos, e que faz um thelemita guardar o pau dentro da cueca: assim como existe, no Liber Al, uma exortação à prática da liberdade e da plena realização da individualidade, existe também outra questão tão importante quanto – e quem sabe seja a mesma questão, inclusive.
II. 27 “Há grande perigo em mim; pois quem não compreende estas runas cometerá um grande erro. Ele cairá dentro da cova chamada Porque, e lá ele perecerá com os cães da Razão.”
Thelema é o entendimento de que a liberdade de ser você mesmo é um chamado a buscar ser somente a sua essência mais verdadeira e nada que não esteja ligado com sua Verdadeira Vontade. Aliás, o termo Ipsissimus, que é o grau mais alto em algumas ordens iniciáticas, é o superlativo latino do pronome demonstrativo ipse, e significa ‘próprio ou mesmo’. Dessa maneira, ipsissimus (enquanto definição semântica, e não necessariamente relacionada à uma ordem iniciática específica) significa tornar-se tão ‘você mesmo’ quanto é possível, e esta deveria ser a ambição de qualquer Thelemita.
II. 57 “Aquele que é correto permanecerá correto; aquele que é sujo permanecerá sujo.”
I. 52 “Se isto não estiver correto; se vós confundires as marcas do espaço, dizendo: Elas são uma; ou dizendo, Elas são muitas; se o ritual não for sempre para mim: então esperai pelos terríveis julgamentos de Ra Hoor Khuit!”
A maturidade da aplicação da Lei da Liberdade não é alcançada fazendo o que você quer fazer, pulando de capricho em capricho, de prazer em prazer. A maturidade do entendimento da Lei da Liberdade está em você tomar todas as diferentes partes de você e submetê-las a uma única vontade.
I.29 “Pois Eu estou dividida pela causa do amor, pela chance de união.”
Da mesma forma que em uma orquestra – em que todos os instrumentos tocam em harmonia e uníssono sob a batuta do maestro, assim também temos esta lição sintetizada sob os signos do arcano VII do Tarot de Thoth, a Carruagem, em que somente mediante o domínio das diferentes bestas-esfinges poderá o condutor da carruagem levar o veículo para a direção desejada. Antes disto, todas as bestas estão soltas e exercendo suas próprias tendências e inclinações, cada uma puxando para um lado diferente.
II. 49 “Eu sou único e conquistador.”
I.42 “Que aquele estado de multiplicidade, seja confinado e repugnado. Assim com todos vós; tu não tens direito a não ser fazer a tua vontade.”
Talvez esta questão pareça um tanto desconectada do questionamento da minha namorada, mas é agora que todas as coisas se juntam para uma apoteose orgástica. Espia só!
Como Thelemita, não pode existir postura contra ou à favor de monogamia, poliamor ou suruba à priori. São todas expressões válidas de individualidade.
Contudo, responder algo dessa natureza não teria livrado meu couro da inquisição, não é mesmo? Então o que fez a diferença aos 48 do segundo tempo e me garantiu ver o sol por mais um dia?
O que eu disse para minha namorada – e que realmente é o meu entendimento da visão thelêmica aplicada à questão dos relacionamentos sexuais e de qualquer outra natureza – é que eu não vejo o comportamento de Jung no filme como desejável pelo fato de ele agir com duas posturas completamente antagônicas por temer a consequência de seus atos.
Para os que não viram o filme e não conhecem a história do Dr. Jung, o que se passa é que ele tem um caso com sua paciente, mas diante de sua esposa assume falsamente o papel de marido de moral ilibada. Curiosamente, um dos conceitos Jungianos é a noção de Persona, que vem da palavra latina usada para as máscaras de teatro. Obviamente a conceituação dentro da teoria Jungiana de personalidade é completamente distinta da aproximação que eu realizei, mas é curioso observar como o Dr. Jung acaba por vestir uma máscara nesse exemplo.
Note que o uso de máscaras sociais implica uma incapacidade de manifestação de uma coerência de comportamento, o que é algo muitíssimo comum (e até necessário para a nossa sobrevivência social), mas que deve ser gradualmente abandonada pelo adepto, para que paulatinamente possa executar a grande obra, a construção do templo e a confecção da pedra filosofal, que são alegorias para a construção dessa versão coesa de si mesmo, tão si-mesmo quanto possível: Ipsissimus.
Está escrito em Mateus 5,37: ‘Seja, porém, o teu sim, sim! E o teu não, não! O que passar disso vem do Maligno.’ Longe de mim fazer o pastor, mas essa frase é muito foda e completamente alinhada com a perspectiva thelêmica.
Ainda sobre essa questão de unidade, um dos rituais básicos mais utilizados por praticantes de magia cerimonial é o Ritual Menor do Hexagrama, e lá utiliza-se uma palavra por repetidas vezes. ARARITA. Talvez até saibamos o que as letras representam ipsis verbis, mas a apreensão real do sentido a ser utilizado é algo muito mais sutil, que escapa à maioria dos praticantes.
“Todos em Dois. Dois em Um. Um em Nada.
Assim não são nem Quatro, nem Todos, nem Dois, nem Um e nem Nada.
Gloria ao Pai, à Mãe, ao Filho, à Filha, ao Espírito Santo Externo e ao Espírito Santo Interno
como era, é e há de ser pelos Séculos dos Séculos, Seis em Um pelo Nome Sétuplo,
ARARITA” – Liber XXXVI – Ritual da Safira Estrela
Daí nêgo faz o ritual todo dia (ou deveria) e não pára para considerar o que está fazendo e dizendo. ARARITA é um notaricon (uma sigla) que nos fala sobre a unidade do Todo; só que ao invés de buscar a união do microcosmo com o macrocosmo, o praticante deveria primeiramente buscar uma união consigo mesmo dentro dessa unidade coerente e alinhada com a sua Vontade, e colocar suas esfinges-bestas sob o domínio de sua Vontade, para que a porcaria da carruagem possa ir para algum lado, percebe?
III. 4” Escolhei vós uma ilha!”
III. 5 “Fortificai-a!”
III. 6“Adubai-a ao redor com engenharia de guerra!”
O que ocorre na maioria das vezes é uma cisão entre o sujeito quando está entre seus pares no templo e a sua versão profana, que trabalha e vai no shopping. O praticante de magia cerimonial acaba utilizando seu motto mágicko como um alter ego, no sentido literal do latim, que significa ‘outro eu’, sendo quase uma esquizofrenia esotérica.
O motto mágicko não pode ser usado como uma máscara, uma persona, um alter ego, para que se esconda e se separe o trabalho interno (templo) e o trabalho externo (mundo do cotidiano).
A razão de se utilizar o motto mágicko é justamente o contrário disso. O motto representa uma morte do eu anterior à iniciação, para que essa nova existência seja completamente vivida sob a intenção do motto, que é, portanto, não uma capa que oculta, mas um estandarte a ser alardeado em cada ato, pois, como diz o careca no primeiro teorema de Magick in Theory and Practise, ‘Todo ato intencional é um Ato Mágicko.’
III. 37 “Unidade revelada ao máximo!
Eu adoro o poder do Teu alento,
Deus supremo e terrível,
Que fizestes os deuses e a morte
Estremecerem perante a Ti:–
Eu, Eu te adoro!”
Para que haja a consecução da Grande Obra, a união do microcosmo com o macrocosmo, do 5 com o 6, é necessário o trabalho árduo de depuração do indesejável e junção e transmutação do que permanece. Solve et Coagula. Apenas quando houver esta coesão, ou, nas palavras do Silvio Santos do ocultismo, Samael Aun Weor, ‘um centro de gravidade interna permanente, é que o buscador pode começar a ponderar sobre o trabalho de integração com o macrocosmo.
“11. Também eu fundi unidas a Estrela Flamejante
e a Estrela de Seis Pontas na forja de minha alma, e vede!
Uma Nova Estrela 418 que se coloca acima de todas as demais.”
Liber Ararita, p. 2
“36. Muitos apareceram, sendo sábios. Eles disseram: “Buscai a Imagem resplandecente no lugar sempre dourado e uni-vos a Ela”.
37. Muitos apareceram, sendo tolos. Eles disseram: “Descei ao esplêndido mundo da escuridão, e desposai a Criatura Cega do Lodo”.
38. Eu, que estou além da Sabedoria e da Tolice, ergo-me e vos digo: Realizai ambos os casamentos! Uni-vos com ambos!
39. Cuidado, cuidado, digo Eu, para que vós não cortejeis uma e percais a outra!
40. Meus adeptos mantêm-se erguidos; suas cabeças acima dos céus, seus pés abaixo dos infernos.” – Liber Tzaddi
A base de Thelema é a Vontade (que, em grego, é exatamente “Thelema”). Os mandamentos “Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei” (Liber AL I: 40) e “Não existe lei além de ‘Faze o que tu queres’” (Liber AL III: 60) são muitas vezes distinguíveis do frequentemente mal compreendido e mal traduzido “Faça o que quiser”. Por que “Faze o que você tu queres” é diferente de “Faça o que der na telha?”(NT da tradução: esse é um jogo com as palavras Will e want, a partir daqui será escrito como “que der na telha”) e seriam eles semelhantes em alguns aspectos? Sobre este ponto, podemos examinar os aspectos positivos e negativos de Thelema/Vontade, conquanto positivo signifique afirmar e negativo signifique negar.
O aspecto negativo de “Faça o que tu queres”
O aspecto negativo de “Faça o que tu queres” e de Thelema /Vontade em geral se refere a esses princípios e sugestões aos quais podemos responder com um “Não” ou negativamente. A ideia principal para a qual Thelema diz “Não” é para a ideia de uma moralidade absoluta, vinculativa e qualquer tipo de declaração moral. Nesse sentido, “Faze o que tu queres” é quase idêntico a “Faça o que der na telha”, porque ambos negam os pronunciamentos que se parecem com “Você poderia/deveria fazer isso ou aquilo” e [que] são irrelevantes para nossas preocupações. Isto é explicado sucintamente por Crowley quando [ele] afirma:
– “A fórmula desta lei é: Faze o que tu queres. Seu aspecto moral é bastante simples em teoria. Faze o que tu queres não significa Faça o que desejas, embora implique este grau de emancipação, que não é mais possível dizer a priori que uma determinada ação é ‘errada’. Cada homem tem o direito – e um direito absoluto – de realizar sua Verdadeira Vontade.” Aleister Crowley, “O Método de Thelema”
Aqui Crowley afirma que “Faze o que tu queres” implica o mesmo grau de emancipação de “Faça o que der na telha”, na medida em que “não é mais possível dizer a priori que uma determinada ação é ‘errada’”. É o cerne do “aspecto negativo” de Thelema/Vontade – que não se pode argumentar contra uma determinada ação como ruim, má, não útil, impura, etc. Crowley afirma também:
“Não há ‘padrões de Direito’. A ética é um disparate. Cada Estrela deve seguir em sua órbita. Ao inferno com o “Princípio moral”, não existe tal coisa; isso é uma ilusão de rebanho, e faz dos homens gado.” Aleister Crowley, A lei é para todos, II: 28
Novamente, “não há ‘padrões de Direito’” ou “errado e “cada Estrela deve seguir em sua órbita”. O fato de não haver padrões objetivos e externos nos permite com segurança fazermos a nossa Vontade. Mas isso nos leva ao “aspecto positivo” de Thelema/Vontade: Qual é a nossa Vontade? Qual é exatamente a nossa “órbita” particular como uma estrela no Corpo do Espaço Infinito?
O aspecto positivo de “Faze o que tu queres”
Na medida em que a moral e o dogma são um fardo sobre o livre exercício da própria Vontade individual e única, eles são restrições, e “a palavra do Pecado é Restrição” (Liber AL I: 41). A isso podemos acrescentar os “cães da Razão” com suas perguntas de “Porquê” e “Porque” dado que a Vontade é supra-racional e não para ser limitado por eles [questionamentos de razão]. Mais uma vez, a questão premente uma vez descartadas as correntes de restrição em suas muitas formas é “Qual é a minha Vontade?” Isto se refere ao aspecto da Vontade para o qual podemos dizer “Sim”…
O comando mais sucinto neste “aspecto positivo” é aquele antigo aforismo e comando para “Conhece-te a ti mesmo”. É aqui que “Faze o que tu queres” se separa e é superior à simples noção de “Faça o que der na telha” ou “Faça o que quiser”. A maioria das pessoas nem sabe o que eles realmente querem – sua Vontade real – e isso requer um intenso e contínuo processo de exploração e introspecção. Tradicionalmente, isso é feito pelos métodos de Magia e Yoga em Thelema. Isso nos permite não só controlar o nosso corpo e mente, mas também explorar as regiões ocultas e expandir ao máximo a compreensão de nós mesmos . Como Crowley diz no ensaio “On Thelema”: “O valor de qualquer ser é determinado pela quantidade e qualidade daquelas partes do universo que tenha descoberto e que, portanto, compõem sua esfera de experiência. Ele cresce estendendo essa experiência, ampliando, por assim dizer, essa esfera”. Portanto, devemos usar a Magia, o Yoga e quaisquer métodos que temos Vontade para explorarmos a nós mesmos e, assim, manifestar nossas Vontades mais plena, livre, pura e perfeitamente.
Com estas considerações tanto dos aspectos negativos quanto dos positivos de Thelema/Vontade, podemos entender a proclamação do Mestre Therion quando ele diz:
“A partir [destas considerações] deve ter ficado claro que “Faze o que tu queres” não significa “Faça o que você desejar”. Ela é a apoteose da Liberdade; mas é também o vínculo mais restrito possível. Faze o que tu queres — e então não faça nada mais. Não permita que nada te desvie daquela tarefa austera e santa. A Liberdade é absoluta para fazer a tua vontade; mas busque fazer qualquer outra coisa, e instantaneamente os obstáculos surgirão. Todo ato que não esteja dentro do curso definido daquela órbita é errático, um impedimento. Vontade não pode ser duas, mas só uma” – Aleister Crowley, Liber II:The Message of the Master Therion
Amor é a Lei Amor sob vontade
Link original: https://iao131.com/2010/07/14/the-positive-and-negative-aspects-of-the-will-in-thelema/
Aleister Crowley não escreveu o Livro da Lei – ele foi o escriba sob a direção da inteligência ‘praeter-human’ Aiwass. Que a qabbalah numérica que foi revelada nos artigos anteriores não poderiam ter sido inventadas por qualquer inteligência humana, evidencia-se por si só; contudo, aqueles que duvidam precisam de uma prova que é irrefutável para agir em suas almas escuras.
O Livro da Lei fornece uma prova tão estonteante, tão clara, tão devastadoramente simples que ninguém pode negar que é verdade. Uma chave foi deixada por Crowley, sob a direção de Aiwass, para que “tu obtivesse a ordem e o valor do Alfabeto Inglês” (I.55)
A instrução está no capítulo 3 v. 47 “This book shall be translated into all tongues but always with the original in the writing of the beast; for in the chance shape of the letters and their position to one another; in these are mysteries no beast shall divine.” A imagem que consta na folha deste verso é um facsimile do Livro da Lei – Folha 16 do Capítulo 3 do caderno de notas de Crowley, no qual ele recebeu o Liber Al. O restante do verso 47 é escrito sobre uma grade padrão com uma linha oblíqua desenhada sobre ela e um símbolo rosa cruz (um círculo com uma cruz dentro), perto do fim da linha.
O segredo desta página nunca fora revelado antes. Há letras escritas no topo da página, e parecia ser óbvio continuar com o alfabeto na maneira indicada, mas a pista está nos números na vertical, ao lado. A está escrito ao invés de 1, o que sugere que B é 2, C 3, e assim por diante. Preencha todos os espaços na grade, desta maneira, repetindo o alfabeto quando chegar no Z. Para continuar até o próximo passo, a instrução está escrita na página, pois aqueles que têm olhos vejam “então esta linha desenhada é uma chave”.
A linha desenhada é uma linha diagonal, cortando a página. Se alguma pessoa ler em qualquer diagonal nestes quadrados, ela irá encontrar a ordem do Alfabeto Ingles a ser usado na Qabbalah Inglesa. Qualquer diagonal que for lida, a ordem das letras é obtida (fig 3). Há apenas uma ordem em que todas as letras nesta ordem de 1 – 26 e assim temos o Alfabeto Qabbalistico Inglês. Assim: A L W H S D O Z K V G R C 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 N Y J U F Q B M X I T E P 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26
A Ordem e Valor do Alfabeto Inglês
Um outro método de se obter a Qabbalah Inglesa usando a chave de 11 foi explicado no Volume 5, número 1. Até mesmo nesta página, há uma referência a isso… “então esta linha desenhada é uma chave… e ABRAHADABRA”. Abrahadabra é uma palavra com 11 letras, enfatizando a natureza do número 11 da chave. Há um outro mistério. Estude o próximo texto desta página – a frase “whence I say not” (quando eu disser não), ocorre em relação à descoberta da chave.
A mente inconsciente ignora o conceito de ‘not’ pois ela não pode ater qualidades negativas. Este fator é bem conhecido pelos propagandistas (tome cuidado!) e reportagens do tipo: “Mr. Brown Não é um homossexual”. Uma vez que o conceito foi estabelecido, mesmo com uma negativa, a positiva é o que resta.
A linha desenhada e o símbolo rosa cruz portam uma semelhança muito grande à área onde a chave foi revelada. A linha desenhada está na realidade em uma onda permanente, o círculo quadrdo está em uma área chamada “Rosy Cross”. Ninguém sabe porque esta área é chamada RosyCross, pois nada existe lá para justificar o nome.
A localização da descoberta da chave está na posição “whence” [quando] no manuscrito! Então esta página do Liber Al não só diz que há uma chave escondida, como a revela, mas também mostra onde será descoberta. Esta prova é irrefutável, está lá, preto no branco para que todos vejam.
Os deuses que prepararam o Livro da Lei dirigiram a sua formação na Língua Inglesa, e deixaram uma chave para seu significado oculto, aqui, agora entre todos nós.
Do what thou wilt shall be the whole of the Law.
Love is the law, love under will.
No início, o Criador moldou o mundo através de uma série de palavras divinas. Estas palavras foram então escritas em letras de fogo sobre uma série de tábuas celestiais chamadas de Livro do Discurso de Deus. Esse Livro contém a linguagem celestial da criação, as chaves das portas do céu e todo o conhecimento e sabedoria do universo – passado, presente e futuro. Ele aparece em muitas formas diferentes nas religiões ao redor do mundo – chamadas, em várias ocasiões, de Tábuas Celestiais, Tábuas do Destino, Livro dos Segredos de Deus, Livro da Vida, Livro do Cordeiro, Livro do Toth, Registros Akáshicos e até mesmo Livro T (ou Tarô).
No Jardim do Paraíso, Adão falava fluentemente a linguagem celestial registrada no Livro. Com ela, ele manteve uma conversa familiar com Deus e anjos e também deu nomes verdadeiros a todas as coisas criadas. Entretanto, quando Adão perdeu seu lugar no Paraíso, ele também perdeu seu conhecimento da língua sagrada – ele não podia mais falar facilmente com os anjos. Entretanto, para poder se comunicar com sua família, ele criou uma linguagem humana primordial baseada em suas melhores (ainda que imperfeitas) memórias do discurso celestial.
Sete gerações mais tarde, o profeta Enoque estabeleceu um novo diálogo com os anjos. As criaturas sagradas o consideraram digno de visitar os céus, de ver os coros dos anjos, o Trono de Deus e as tábuas celestiais. Deles, Enoque transcreveu 366 livros terrenos de sabedoria, com os quais esperava restaurar a humanidade à sua antiga glória. Mas, infelizmente, a sabedoria de Enoque logo se perdeu no Grande Dilúvio que destruiu o mundo.
A linguagem reconstruída de Adão persistiu (através da linha de Noé) até a Confusão de Línguas na Torre de Babel. Lá, a língua humana primordial foi dividida em várias línguas diferentes para que os construtores da Torre não pudessem mais se comunicar uns com os outros ou completar o projeto. (Esta é a explicação bíblica para as várias línguas do mundo.) De todas as línguas antigas, a que permaneceu mais próxima da original de Adão foi a que conhecemos hoje como hebraico bíblico. Nenhum conhecimento ou memória da língua celestial dos anjos sobreviveu.
(Ao considerar este mito, observe que ele se concentra em cada ponto do Antigo Testamento onde a língua é o assunto central. Ainda mais importante, ele destaca aqueles casos em que a língua desempenha um papel direto na capacidade – ou inabilidade – do homem de se comunicar com Deus e com as criaturas celestes).
A Magia Enoquiana do Dr. John Dee – O Mito Encontra a História
O estado “bíblico” (ou seja, pós-Babel) da linguagem terrestre durou bem até o século XVI. Entretanto, muitos estudiosos haviam abordado o tema da linguagem celestial, e até mesmo algumas tentativas de reconstruí-la. No entanto, tais tentativas eram geralmente simples deduções do hebraico bíblico escrito com caracteres astrológicos. Foram dados nomes como “Celestial” e “Malachim” (que eram e ainda são usados em talismãs), mas eles eram apenas sombras fracas da linguagem divina da criação. (Para mais informações sobre este assunto, veja meu artigo anterior no Llewellyn Journal, “The Quest for the Divine Language, A Busca Pela Língua Divina”).
Então, no final dos anos 1500, um novo par de profetas – Dr. John Dee e seu “vidente” Edward Kelley- despertaram um grande interesse tanto nos anjos quanto em sua língua perdida. Trabalhando, a princípio, a partir de vários grimórios salomônicos, estes homens estabeleceram contato com os mesmos anjos com os quais Enoque havia falado uma vez. Eles revelaram muitos segredos mágicos aos dois homens, como convocar os anjos dos planetas e das estrelas, descobrir os segredos das nações estrangeiras e visitar espiritualmente os reinos celestiais, como Enoque.
Mais importante ainda, Dee também pediu aos anjos que revelassem o Livro perdido de Enoque, o qual ele quis dizer um texto bíblico apócrifo que preserva a história da vida e da obra de Enoque. (Hoje, este texto é chamado 1 Enoque ou o Livro Etíope de Enoque. Embora tenha sido perdido no tempo de Dee, foi redescoberto no século XVII. Agora você pode encontrá-lo online em muitos lugares e de graça). Os anjos concordaram com o pedido de Dee; no entanto, o que eles trouxeram não era de todo o texto bíblico. Em vez disso, eles revelaram as tábuas celestes – o Livro do Discurso de Deus – do qual Enoque uma vez tinha copiado. Para Edward Kelley o Livro apareceu como um grande livro de quarenta e nove folhas, escrito em sangue (assumimos o sangue do Cordeiro, como mencionado no Livro do Apocalipse) e contendo os quarenta e nove discursos que Deus havia usado para criar o mundo. Os anjos disseram a Dee e Kelley como usar o Livro para abrir as portas do céu, receber revelações diretamente de Deus e falar com os anjos em sua própria língua nativa.
Embora Dee nunca o tenha chamado assim, historiadores posteriores se referiam ao material de Dee como “Magia Enoquiana”, devido ao seu relacionamento com o profeta bíblico Enoque. Este complexo sistema de magia permaneceu em grande parte escondido nos periódicos de Dee por centenas de anos.
Magia Enoquiana da Golden Dawn (ou Neo-Enoquiana)
Quando a Ordem da Golden Dawn (Aurora Dourada) foi formada no final dos anos 1800, eles estavam interessados em incluir o material de Dee em seu currículo de nível superior. Entretanto, eles conheciam apenas alguns dos periódicos de Dee e, portanto, apenas uma parte do sistema mágico de Dee. Eles erroneamente assumiram que tinham encontrado um esboço rudimentar de um sistema incompleto de magia de anjos e, portanto, aplicaram o que tinham ao seu próprio sistema de magia Rosacruz ao estilo de alojamento. O resultado foi um sistema enoquiano que parece semelhante, mas na verdade é muito diferente do sistema original de Dee. Chamei esta recensão do material da Dee de “Neo-Enoquiano”.
A Ordem não conhecia originalmente a magia planetária de Dee, nem tinha acesso ao aspecto mais importante de seu sistema – o Livro do Discurso de Deus. Eles tinham seus sistemas para espiar vários locais ao redor do mundo e para convocar os anjos das estrelas. Eles também tinham uma série de 48 invocações na linguagem angélica (muitas vezes chamadas de Chaves ou Chamados) que se destinavam a acessar os poderes do Livro celestial, mas não sabiam o verdadeiro propósito das 48 Chaves.
Entretanto, era o sistema de Dee para convocar os anjos das estrelas que formava a espinha dorsal da magia enoquiana da Golden Dawn. Isto foi derivado de um conjunto de quatro grandes quadrados de palavras (chamados “Sentinelas”) que continham os nomes de Deus e dezenas de anjos designados para os quatro quartos do universo. Entretanto, a Golden Dawn usou um arranjo diferente de torres de vigia nas quatro direções cardeais do que Dee havia usado, e eles conceberam um método diferente de decifrar nomes das quatro palavras-quadrado-quadrado – resultando em uma hierarquia de anjos muito maior do que Dee havia pretendido. (A maior parte disto foi esboçada em um documento intitulado Livro H, que provavelmente foi escrito por um dos primeiros fundadores da Ordem).
A Golden Dawn também interpretou os anjos das Torres de Vigia como criaturas dos quatro Elementos: Fogo, Água, Ar e Terra. (Dee nunca associou suas Sentinelas aos Elementos, em vez disso, atribuindo-os apenas às quatro direções cardeais e listando as funções dos anjos como sendo principalmente de natureza alquímica). Finalmente, porque eles não conheciam o Livro do Discurso de Deus e seu sistema mágico, a Golden Dawn assumiu que as Chaves Angélicas deveriam ser usadas para convocar os anjos listados nas Sentinelas. Portanto, eles dividiram as Chaves e as aplicaram aos vários grupos de anjos encontrados ao longo das praças.
Estas coisas – a diferente disposição das Sentinelas nos aposentos, a nova maneira de decifrar os nomes, a aplicação dos quatro Elementos às Sentinelas e o uso das Chaves Angélicas para convocar os anjos das Sentinelas – são as mesmas coisas que fazem da Golden Dawn Neo-Enoquiana uma tradição completamente diferente da original de Dee. Além disso, a Ordem concebeu um sistema profundamente complexo para aplicar suas próprias correspondências a cada praça da Torre de Vigia, juntamente com seus próprios rituais de trabalho com os anjos.
Durante os próximos cem anos, a Alvorada Dourada teria o maior impacto no renascimento do ocultismo moderno e, assim, seu sistema Neo-Enoquiano se tornaria o padrão comum. Cada pedaço deste sistema é exclusivo da tradição da Golden Dawn, embora muitos estudantes modernos acreditem erroneamente que parte dele se originou com Dee. Eles não sabem que existe um sistema de magia maior – e até mesmo completo – encontrado em toda a coleção de periódicos espirituais de Dee. Mesmo aqueles que estão conscientes de que existe mais material de Dee, muitas vezes não entendem as diferenças fundamentais entre a magia de Dee e o que foi posteriormente ensinado pela Golden Dawn.
O Renascimento de Dee
No final dos anos 90, o advento da Internet trouxe uma nova era de pesquisa e comunicação entre os estudiosos. Até aquele momento, o material de Dee tinha sido considerado muito obscuro e difícil de entender. Poucos tiveram a coragem de enfrentar o material sozinhos. Agora, porém, os estudiosos de Dee e praticantes do enoquiano de todo o mundo podiam finalmente reunir seus recursos. Ao longo de cerca de uma década, os diários de Dee foram totalmente examinados e seu obscuro sistema mágico finalmente se uniu novamente. Finalmente, o estudo purista de Dee do enoquiano veio a existir mais de cem anos após a recensão da Golden Dawn ter se tornado padrão.
Hoje, não é raro ver a Magia Enoquiana de Dee ser discutida ao lado da Magia Enoquiana da Golden Dawn como se fossem a mesma coisa. De fato, algumas misturas estão ocorrendo – quase sempre por parte dos magos da Golden Dawn – que tomam emprestados mais elementos dos diários de Dee (como suas ferramentas angélicas de convocação) e aplicando-os a seus rituais Neo-Enoquianos. Você provavelmente não encontrará tais magos mudando as direções ou associações dos Elementais das Torres de Vigia de volta aos originais de Dee, nem é provável que eles removam as Chaves Angélicas de suas invocações da Torre de Vigia. Tais mudanças removeriam o sistema enoquiano da cosmologia da Golden Dawn que tais praticantes adotaram.
Os puristas de Dee, por outro lado, são muito menos propensos a adotar qualquer aspecto do material Enoquiano da Golden Dawn em seu estudo ou prática da magia. Novamente, adotar tais mudanças seria remover o sistema da cosmologia renascentista que eles conhecem. Eles seguem o que está delineado nos diários de Dee, bem como o que está descrito nos grimórios que Dee consultou em seu trabalho (como o Arbatel da Magia, os Três Livros de Filosofia Oculta de Agrippa, o Lemegeton, etc.).
O erro habitual dos puristas de Dee não está em entender mal a magia (ou entendê-la apenas em parte), mas em assumir que a versão da Golden Dawn está de alguma forma “errada”. Embora seja verdade que o sistema Neo-Enoquiano foi criado a partir de uma visão incompleta do material de Dee, isso não o torna inerentemente incorreto. Pelo menos, não mais que o material egípcio da Golden Dawn está incorreto, ou sua Cabala, ou sua Alquimia, etc. Em todos estes casos, a Ordem adotou aspectos de sistemas mais antigos em sua própria estrutura única, criando algo novo no processo. Nenhum deles é puro exemplo dos originais, mas todos eles se encaixam no contexto maior da própria tradição Golden Dawn. O sistema Neo-Enoquiano é “correto” de dentro da Golden Dawn (e aqueles que seguiram seus passos, como Thelema, Wicca, e outros).
Mas, então, o sistema dos puristas de Dee também é correto, pois é um reflexo preciso do que o próprio homem registrou. Nos últimos vinte anos, muito trabalho tem sido feito para decifrar e restaurar o sistema de Dee. Muito esforço foi feito para compreender a linguagem angélica, o Livro do Discurso de Deus, as várias hierarquias de anjos e os métodos mágicos que Dee registrou.
Este novo material só está começando a chegar à comunidade ocultista através de fóruns, blogs e livros publicados. E os estudantes só agora estão começando a tomar consciência das diferenças entre as duas tradições da magia enoquiana (ou, na verdade, que existem de fato duas tradições diferentes). Pela primeira vez em mais de cem anos, material genuinamente novo (ainda mais antigo) enoquiano está se tornando disponível para os estudantes, com mais no horizonte. Sem dúvida, este é um momento emocionante no âmbito do estudo e da prática enoquiana.
Zorge, [Amigavelmente, na língua enoquiana]
Aaron Leitch.
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Fonte: LEITCH, Aaron. What is Enochian Magick? (The Two Mystical Traditions of Enoch the Prophet). The Lllewellyn’s Journal, 2012. Disponível em: <https://www.llewellyn.com/journal/article/2321>. Acesso em 9 de março de 2022.
Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.
Por Kenneth Grant, O Lado Noturno do Éden, Capítulo Onze.
A PALAVRA do Aeon de Maat que os iniciados afirmam ter sido recebida enquanto em comunicação com inteligências extraterrestres,392 é IPSOS, significando ‘a mesma boca’. No segundo capítulo de AL (verso 76) surge uma cifra críptica que contém um grupo de letras possuindo o valor de IPSOS. De fato, duas grafias diferentes de Ipsos resultam em números equivalentes a um grupo de letras em AL. O criptograma em AL é RPSTOVAL, que tem o valor cabalístico de 696 ou 456 conforme ou a letra ‘S’ é lida como um shin ou como um samekh. Similarmente, IPSOS = 696 ou 456 conforme se o primeiro ‘s’ é tomado como um shin ou um samekh. IPSOS é portanto o equivalente cabalístico de RPSTOVAL. O significado deste grupo de letras não é conhecido, mas Ipsos a boca, o órgão da Palavra de Expressão (saída_?), de Alimentação, Sucção, Beberagem, etc., é o órgão não apenas de expressão mas também de recepção da Palavra.
A fórmula RPSTOVAL compartilha com IPSOS, pois a fórmula da Torre393 é aquela do Falo em erupção, e a ejaculação394 da Palavra do Aeon de Maat, a Palavra que se estende até ‘o fim da terra’.395 A terra está sob o domínio do Príncipe do Ar (i.e. Shaitan), mas os espaços além estão sob o domínio do Senhor do Aethyr, cujo símbolo é o abutre.
Nenhuma fórmula pode ser cósmica que não seja essencialmente microcósmica, pois uma contém a outra. É portanto sugerido que a fórmula de RPSTOVAL é aquela de um processo especificamente fisiológico que envolve a boca (útero) em sua fase mais recôndita.
A boca enquanto Maat, a Verdade, a Palavra; Mat, a Mãe; Maut, o Abutre; e Mort, o Morto,396 está implícita no simbolismo da Torre. A erupção ou expressão da Torre (falo) é a saída (?) da Palavra para dentro dos espaços além da terra que são um com os aethyrs397 representada por el Mato, o Louco, o Mat ou O Louco, e Le Mort, o Morto.
O Caminho do Louco (décimo primeiro caminho) é a extensão secreta do Caminho da Torre (Atu XVI) e uma compreensão iniciática deste simbolismo apresenta uma chave para a fórmula do Aeon de Maat que está resumido pelo número 27 (11 + 16), o número do Caminho do Morto e do Atu XVI, A Torre.398 É significativo que o Caminho da Torre seja de fato o 27o Caminho. Este número é atribuído ao Liber Trigrammaton, um Livro Santo, embora ainda não compreendido, recebido por Crowley de Aiwass. Crowley suspeitava que ele continha o segredo da cabala ‘Inglesa’, e em seus Comentários sobre o AL ele tentou equacionar os trigramas com as letras do alfabeto Inglês de modo a descobrir a cabala Inglesa tal como ele estava ordenado a cumprir no AL.399 Mas as equações estavam longe de serem convincentes, mesmo para ele mesmo. O que ele parecia não compreender era que a cabala que ele buscava pertencia a uma dimensão completamente diferente, e que a boca que iria comunicar esta cabala era a boca cujas emanações são os próprios kalas. Portanto, como eu sugeri em Cultos da Sombra (capítulo 7) com relação à palavra RPSTOVAL, com igual probabilidade pode a palavra IPSOS ocultar uma fórmula de kalas psicossexuais que podem ser compreendidos com relação a uma interpretação tantrica da polaridade sexual.
A interação da vagina e do falo (i.e. a boca e a torre) está resumida sob a fórmula eroto-oral conhecida na linguagem popular como o soixante-neuf (69). Mas o assunto é um pouco mais recôndito do que aquele geralmente implicado por esta prática. Os números 6 e 9 denotam o sol e a lua, Tiphareth e Yesod, e, em termos dos 32 kalas o 6 e o 9 se referem àqueles de Leo400 e Pisces401 A enumeração total resulta 109, o número de NDNH, uma palavra Hebraica significando ‘vagina’402. Deduzindo a cifra, 109 se torna 19, que é o ‘glifo feminino’.403 109 mostra portanto o ovo ou esfera – 0 – do Vazio, o ain do infinito em sua forma feminina. O significado mágico deste simbolismo está colocado numa categoria mais ampla sob o número 69: a radiante energia (relâmpago) solar-fálica do Anjo404 correndo veloz para dentro da boca, cálice ou útero da Lua para misturar-se com o qoph kala.405 A bebida resultante é o vinum sabbati, o Vinho do Sabá das Feiticeiras que pode ser destilado, segundo os antigos grimórios, ‘quando o finial(???) da Torre está oscurecido (ou velado) pela asa do abutre’.
Diz-se que um grito peculiar é emitido da boca do abutre. Em O Coração do Mestre,406 Crowley observa que este grito ou palavra é Mu. Seu número, 46, é a ‘chave dos mistérios’, pois ele é o número de Adam / Adão (Man / Homem). Mu é a semente masculina,407 mas ela é também a água (i.e. sangue) da qual o homem foi moldado. 408 O abutre é um pássaro de sangue e seu grito penetrante é expressado no momento de retalhar(?)409 que acompanha o ato de manifestação: ‘Pois estou dividida por causa do amor, para a chance de união’. (AL. I. 29).
O número 46 também implica o véu divisor (Paroketh), previamente explicado. MAH, 46, é o hebraico para 100, o número de qoph e portanto da ‘parte de trás da cabeça’, o assento das energias sexuais no homem. O cem implica na totalização ou realização de um ciclo de tempo.410 O pleno significado do simbolismo é portanto que quando o abutre abre suas asas para receber o golpe fálico no silêncio e discrição da nuvem,411 seu grito penetrante de êxtase, hriliu412, é MU (46).413
Neste estágio é necessário fazer uma digressão aparentemente irrelevante caso a total importância do simbolismo da Torre deva ser entendida.
Numa construção dilapidada anteriormente situada no local atualmente ocupado pelo Centre Point414 ocorreu, em 1949 um rito mágico curioso. Ele aconteceu por instigação de Gerald Gardner.415 O aposento no qual o rito ocorreu estava alugado naquela ocasião por uma ‘bruxa’ a qual eu chamarei de Sra. South. Ela era realmente uma cafetina(?) e prostituta que temperava suas atividades com um sabor ‘oculto’ calculado para apelar à um certo tipo de clientela. Acompanhado por minha esposa e Gerald Gardner, nós três nos dirigimos ao apartamento da Sra. South após passarmos uma tarde com Gardner em seu apartamento em Ridgemount Terrace afastado da Tottenham Court Road. O rito exigia cinco pessoas e só poderia começar após a chegada de uma jovem senhora a quem a Sra. South estava aguardando para aquele propósito. Supunha-se que a jovem senhora era – como a própria Sra.South – bem versada nos aspectos mais profundos da feitiçaria. Eu não vou negar o fato de que sua feitiçaria provou ser genuína, mas que ela sabia menos ainda sobre a arte do que a Sra.South eu também não vou negar.
Gardner explicou que o propósito do rito era demonstrar sua habilidade em ‘trazer para baixo o poder’. Ele pretendia elevar uma corrente de energia mágica com o propósito de contatar certas inteligências extraterrestres com as quais eu estava, naquela ocasião,416 em rapport quase constante. O rito deveria consistir na circunvolução de nós cinco ao redor de um grande sigilo gravado em papel pergaminho que foi especialmente consagrado. O sigilo foi desenhado para meu uso por Austin Osman Spare que também estava, naquele tempo, ocupado em contatar extraterrestres. O sigilo seria mais tarde consumido na chama de uma vela disposta sobre um altar no quadrante norte do apartamento. À parte deste equipamento mágico, o aposento da Sra.South continha apenas duas ou três estantes de livros sobre feitiçaria e o ‘oculto’ em geral; eles foram sem dúvida importados por ela para emprestar um ar de autenticidade à suas buscas mais usuais.
Se o rito teria sido eficaz ou não fica aberto para questionamento. Ele foi interrompido antes da invocação inicial ter sido concluída. Esta consistia de uma circunvolução horária ao redor do altar com rapidez crescente em círculos que iam diminuindo. A campainha da porta da frente tocou subitamente nas profundezas da construção no restante deserta, primeiramente fraca, então de forma penetrante e insistentemente. O determinado visitante provou ser o proprietário de uma livraria ‘oculta’ situada numa distância não muito grande do apartamento da Sra.South. Contudo ao saber que eu estava no alto da escadaria o visitante decidiu não subir.417 Ele saiu e então meteu-se na vaga névoa de Novembro que mais tarde naquela noite se desenvolveu em um bom fog (nevoeiro) Londrino à moda antiga.
O objetivo deste relato é ilustrar um fato curioso característico da estranha maneira na qual a magia(k) freqüentemente funciona. O sigilo que deveria ter formado o foco da Operação aquela noite era o de um espírito particularmente potente, que teria sido indubitavelmente descrito por Gardner e a Sra. South como essencialmente ‘fálico’. Este fato é importante, pois logo após a cerimônia abortada a Sra. South morreu sob circunstâncias misteriosas; o casamento do dono da livraria se desintegrou violentamente e ele também morreu logo após. O próprio Gerald Gardner não demorou em seguir o exemplo(?). Mas o alto edifício mais tarde erguido sobre o local que estes magos frequentavam é no meu entender um monumento adequado à futilidade daquela Operação noturna.
Fui induzido à lembrar de fazer este relato sobre um rito mágico que deu errado devido à uma declaração feita por Ithell Colquhoun que reconhece na Torre do Correio um monumento à magia de MacGregor Mathers, algumas de cujas atividades foram concentradas naquela região de Londres.418 A premissa pode ser absurda, mas deve ser lembrado que os surrealistas, dos quais Ithell Colqhoun era um, penetraram muitos mistérios mágicos que escaparam aos praticantes e investigadores mais prosaicos. Os casos de Centre Point e a Torre do Correio (ambas formas da Torre Mágica discutida no presente capítulo) conduzem logicamente ao simbolismo da Torre que penetra os Trabalhos de vários ocultistas contemporâneos que operam independentemente uns dos outros.
Durante os últimos anos recentes o presente escritor tem recebido cartas de pessoas e grupos mágicos de todo o mundo, e talvez não seja surpreendente – em vista da natureza comum de nossas pesquisas – que certos símbolos dominantes devam recorrer. Por exemplo, o Liber Pennae Praenumbra que foi recentemente recebido por Adeptos em Ohio, EUA, está permeado com os símbolos mostrados no vívido delinear de Allen Holub de O Abutre na Torre do Silêncio (vide ilustração 8): O Abutre de Maat, a Abelha de Sekhet, a Torre do Silêncio, e a Serpente cujas espirais formam a palavra IPSOS.
Um outro grupo independente de Adeptos em Nova Iorque, conduzido por Soror Tanith da O.T.O., também recebeu símbolos idênticos, dos quais a Torre do Silêncio e a Abelha de Sekhet são os predominantes. A transmissão à Soror Tanith foi emitida por uma entidade extraterrestre conhecida como LAM que foi anteriormente contatada por Crowley em 1919.419
O líder do Culto da Serpente Negra, Michael Bertiaux, também contatou LAM enquanto operava com a Corrente Bön-Pa Tibetana nos anos sessenta.420 Em todas estas invocações e operações mágicas, o simbolismo acima descrito tem sido predominante, o que sugere que em todos os três locais (i.e. Ohio, Nova Iorque e Chicago) uma idêntica energia oculta, entidade ou raio, está irradiando vibrações em conformidade com os símbolos de Mu ou Maat e podem portanto proceder daquele aeon futuro. Isso tende à confirmar a teoria de Frater Achad de que existe uma sobreposição provocada por uma ‘curvatura no tempo’ que está manifestando seu enrolar espiral conforme a antiga sabedoria,421 onde era simbolizada pelo abutre com o pescoço em espiral e pelo pescoço torto cujas peculiaridades físicas fizeram dele um totem ou símbolo senciente similarmente apto.
Outro totem, menos facilmente explicável, é a hiena. Como o abutre, a hiena é uma ‘besta de sangue’, mas apenas isso não responde por seu uso como um glifo zoomórfico na Tradição Draconiana. Segundo a antiga sabedoria a hiena só pode enxergar à direita ou à esquerda girando(?) ao redor de todo o seu corpo; i.e. ele não consegue virar sua cabeça. Ele é portanto de igual valência, simbolicamente, como o pescoço torto. Como um totem do abismo, a atribuição da hiena é por si evidente à respeito de esta povoar as criptas e tumbas do antigo Egito e se alimentar dos mortos. O simbolismo do deserto também se aplica. Na Índia o abutre e a hiena estão entre as bestas associadas com os ritos de Kali. O elemento tântrico do rito está então implícito.
Existem similaridades próximas entre os ritos Afro-Egípcios de Shaitan celebrados na Suméria e Acádia, e os posteriores ritos tântricos Indianos de Kali. O sabor distintamente mongol desses ritos observados por estudiosos422 é evidente no ethos(?) peculiar que permeia muito da literatura conectada aos Kaulas, que usam o bode, o porco, o abutre, a serpente, a aranha, o morcego, e outras bestas tipicamente Tifonianas em suas cerimônias sacrificiais. Existem também uma confraternidade secreta na América do Sul atualmente que mantém entre os devotos de seu círculo interno aqueles que atravessaram os Portais Intermediários(?) na forma-deus do morcego. Este é o zoótipo da besta de sangue vampira que está ligada ao simbolismo do abutre e da hiena. O morcego se pendura de ponta cabeça para dormir após se alimentar; a hiena é retromingent423; e o abutre, cujo pescoço torto sugere uma forma de ‘visão’ para trás, são determinativos ocultos daquela retroversão dos sentidos que torna possível o salto por cima do abismo. Este salto é um mergulho para trás através do vazio tempo-espaço de Daäth com o resultado de que o fundo salta fora do mundo do Adepto que o ensaia. Sax Rohmer, que foi uma vez um membro da Golden Dawn,424 faz uma alusão de passagem à este culto em seu romance Asa de Morcego (Batwing), e embora ele prejudique o efeito de sua estória ao recorrer ao truque literário vulgar de uma solução mecanicista, ele não obstante se refere à um culto real quando ele diz:
Enquanto que serpentes e escorpiões tem sido sempre reconhecidos como sagrados por cultuadores do Voodoo, o real emblema de sua religião impura é o morcego, especialmente o morcego vampiro da América do Sul.425
Rohmer, como H.P.Lovecraft, tinha experiência direta e contínua dos planos internos, e ambos estabeleceram contato com entidades não-espaciais. Além do mais, estes dois escritores recuaram – em seus romances e em suas correspondências privadas respectivamente – do atual confronto com entidades que são facilmente reconhecíveis como os enviados de Choronzon-Shugal. As máscaras destas entidades adquiriram uma qualidade de tal clareza forçada que nem Rohmer nem Lovecraft eram capazes de encarar o que jaz abaixo. Ainda assim o repúdio insuperável inspirado por tais contatos ocultavam potencial mágico, comprimido e explosivo, o que tornou estes dois escritores mestres em seus respectivos ramos de ocultismo criativo.
Não há dúvidas que escritores como Sax Rohmer, H.P.Lovecraft, Arthur Machen, Algernon Blackwood, Charles Williams, Dion Fortune, etc., trouxeram influências poderosas para serem ostentadas sobre o cenário ocultista através de seus vários esboços das Qliphoth. A fórmula do abismo, por exemplo, tem sido incomparavelmente expressa em alegoria pelo simbolismo do salto mortal psicológico descrito por Charles Williams (em Descida ao Inferno) que usa as linhas assombrosas:
O Mago Zoroastro, meu filho morto,
Encontrou sua própria imagem caminhando no jardim.
como um tema para sua estória.
O ato de girar ou virar para trás é a fórmula implícita na antiga simbologia da bruxaria.426
Os familiares das bruxas, não menos que as formas-deuses assumidas pelos sacerdotes egípcios, foram adotadas de modo à transformar os praticantes, não nos animais em questão, mas em um estado de consciência que eles representavam no bestiário psicológico de poderes atávicos latentes no subconsciente. A fórmula é resumida por Austin Spare em seu sistema de feitiçaria sexual e ressurgência atávica que são os temas do Zoz Kia Cultus.427 Ithell Colquhoun situa corretamente este culto em seu arranjo contemporâneo como um ramo da O.T.O. e da ‘Feitiçaria Tradicional’,428 mas o Zoz Kia Cultus comporta um outro fio que se origina de influências mais antigas que qualquer uma que possa ser atribuída meramente à ‘feitiçaria tradicional’, o que quer que aquele termo possa significar. Estas influências emanam de cultos tais como aqueles que Lovecraft contatou na Nova Inglaterra via Feitiçaria de Salem que – por sua vez – tinha contato com correntes vastamente antigas que se manifestaram no complexo astral Ameríndio como as entidades ‘eldritch’(?) descritas por Lovecraft em seus contos de horror.
Tais também eram as entidades que Spare contatou através de ‘Black Eagle’.429 Black Eagle induziu em Spare a extrema vertigem que iniciou um pouco de sua mais fina obra. Spare ‘visualizou’ esta sensação de vertigem criativa num quadro entitulado Tragédia do Trapézio (ilustração 15) cujo tema ele repetiu em várias pinturas. A fórmula é essencial à sua feitiçaria.
O trapézio ou balanço era o vahana430 de Radha e Krishna, cujo jogo amoroso está associado à vertigem induzida pelo balançar das emoções e do cair (loucamente) em amor. Com Spare, contudo, o êxtase alcança sua apoteose através de uma sensação catastrófica de opressão esmagadora, de ser empurrado para baixo e mergulhar no abismo.
O balanço é idêntico ao berço que desempenha papel tão proeminente nos mistérios do Culto de Krishna Gopal.431 Porém muito antes de pré datar os ritos da criança negra, Krishna, haviam os ritos da criança negra Set, ou Harpocrates, o bebê dentro do ovo negro do Akasha.432 O Aeon da Criança433 é o Aeon do Bebê do Abismo, sendo que um de seus símbolos é o berço que simboliza o balanço ou travessia para o Aeon de Maat (Mu). Mu, 46, a Chave dos Mistérios, é também o número de MV (água, i.e. sangue) que é tipificado pelo abutre, a hiena, e outras ‘bestas de sangue’. Em termos mágicos, a sensação induzida no trapezista mergulhador é resumida por Spare numa fórmula pictórica à qual ele não deu nenhum nome particular, mas que pode ser descrita como a Fórmula da Vertigem Criativa. No seu quadro do trapezista a executante é feminina pois ela representa a personificação humana da Serpente de Fogo despertada. É o pé,434 e não a mão que é escolhido para instigar os meios da queda.
No Zoz Kia Cultus Spare exaltou a Mão e o Olho como os principais instrumentos de reificação. Isto quer dizer que ele exaltava uma fórmula mágica similar àquela que caracteriza o oitavo grau da O.T.O.435 Ainda assim ele percebeu que a suprema fórmula eficaz na transição do abismo é aquela que envolve não a mão, mas o ‘pé’. O pé está sob ou embaixo da mão e assim, simbolicamente, a mão ‘esquerda’ tipificada pela Mulher Escarlate, de cujos pés a poeira é o pó vermelho celebrado pelos Siddhas Tamil.436 A poeira vermelha, ou poeira do fogo, é a emanação nuclear da Serpente de Fogo em seu veloz deslocamento para cima, e ela conduz à iluminação em um sentido cósmico. Mas é necessário um processo adicional para admitir o Adepto às zonas do Não-Ser representadas pelo outro lado da Árvore da Vida que aterroriza o não-iniciado como sendo a Árvore da Morte.
Além do Abismo, sexualidade ou polaridade perdem todo o sentido. Isto explica porque, segundo a doutrina da Golden Dawn, os Adeptos além do Grau de 7o=4437 não eram mais encarnados. Por não existir nenhuma terminologia adequada (na Tradição Ocidental) para este estado de ocorrência podemos não mais do que nos referirmos, por meio de analogia, aos Mahapurusas da Tradição Hindu. Mahapurusas são seres não humanos que aparecem para os Adeptos no caminho espiritual. Um exemplo recente bem documentado de tal manifestação ocorreu na vida de Pagal Haranath.438 Ele era considerado como sendo uma encarnação de Krishna e uma reencarnação de Sri Caitanya, o bhakta439 do século 15 que inspirou os habitantes de Bengala pela intensidade e fervor de sua devoção à Krishna (Deus). À Pagal Haranath um Mahapurusa apareceu como uma forma radiante com luz gigantesca. O único paralelo ocidental (de anos recentes) que vem à mente é o relato muito citado do encontro de MacGregor Mathers com os ‘Chefes Secretos’ que ocorreu no Bois de Boulogne.440
Aleister Crowley em contradição à MacGregor Mathers, sustentava que os Adeptos de suprema realização algumas vezes permanecem de fato na carne; quer dizer, a experiência conhecida como ‘cruzar o abismo’ não comporta necessariamente a morte física. Isto é, naturalmente, bem conhecido no oriente, onde, em nosso próprio tempo, tem havido exemplos excepcionais tais como Sri Ramakrishna Paramahamsa, Sri Ramana Maharshi, Sri Sai Baba (de Shirdi), Sri Anandamayi Ma e Sri Anusaya Devi,441 para mencionar apenas uns poucos.
Tem sido refutado [o fato de] que Crowley não cruzou o Abismo com sucesso.442 Seja como for, certos iniciados ocidentais indubitavelmente conseguiram fazer esta travessia e isso está evidente em seus escritos. Embora um caso de opinião – e isto é aqui declarado como tal, e não mais – o mais importante dos Adeptos Ocidentais nesta categoria é aquele que escreve sob o pseudônimo de Wei Wu Wei. Seus livros devem ser elogiados como as excursões mais ricas, mais sutis e mais vivamente potentes para dentro do Vazio da Consciência Sem Forma, ainda assim reduzidas em palavras.
Notas:
392 Vide Página 116, nota 36.
393 Associada com a fórmula de IPSOS; vide Figura 8.
394 Via o meatus, uma boca inferior.
395 Maat = 442 = APMI ARTz = ‘o fim da terra’.
396 i.e. o subconsciente (Amenta).
397 IPSOS grafado como 760 é equivalente à ‘Empyreum’, o empíreo.
398 Em alguns maços de Taro este atu é conhecido como A Torre Destruída.
399 Tu obterás a ordem & valor do alfabeto Inglês; tu encontrarás novos símbolos aos quais as atribuirá’. (AL. II. 55).
400 O kala do Sol, atribuído à letra Teth, significando um ‘leão-serpente’.
401 O kala da Lua, atribuído à letra Qoph, significando ‘a parte de trás da cabeça’.
402 O número 109 é também aquele de OGVL, ‘círculo’, ‘esfera’; BQZ, ‘relâmpago’; e AHP, ‘Ar’.
403 Vide 777 Revisado: Significado dos [Números] Primos de 11 a 97.
404 Tiphareth; a Esfera do Santo Anjo Guardião.
405 Vide Diagrama 1, Cultos da Sombra.
406 Reeditado em 1974 pela 93 Publishing, Montreal.
407 Compare a palavra egípcia mai.
408 A-DM ou Adam foi feito da ‘terra vermelha’ (i.e. DM, sangue).
409 HBDLH (retalhando_?) = 46.
410 Compare com a palavra egípcia meh, ‘encher’, ‘cheio’, ‘completar’.
411 Paroketh também significa ‘uma nuvem’; uma referência à invisibilidade tradicionalmente assumida pelo deus masculino ao impregnar a virgem.
412 Em sua cópia pessoal do Liber XV (A Missa Gnóstica), Crowley explica hriliu como o ‘êxtase metafísico’ que acompanha o orgasmo sexual.
413 É interessante observar juntamente com o significado da palavra IPSOS, que Frater Achad chegou muito próximo à uma interpretação similar de sua própria fórmula do Aeon de Maat, a saber: Ma-Ion. Numa carta datada de 7 de Junho de 1948, ele escreve: ‘Por gentileza observe que em Sânscrito Ma = Not (Não). Na mesma linguagem ela também significa: ‘Mouth’ (‘Boca’).
414 Londres WC1.
415 O autor de dois livros sobre Feitiçaria que atraiu alguma atenção no tempo de sua publicação nos anos 50.
416 O incidente ocorreu durante o estágio formativo de uma loja da O.T.O. que eu havia fundado para o propósito de canalizar influências mágicas específicas desde uma fonte transplutoniana simbolizada por Nu-Isis.
417 Minha associação com Aleister Crowley não era desconhecida à ele.
418 Vide a Espada da Sabedoria: MacGregor Mathers e a Golden Dawn, por Ithell Colquhoun, Nevile Spearman, 1975. A Srta.Colqhoun observa que W.B.Yeats e outros foram iniciados na Rua Fitzroy, e comenta: ‘Hoje a Torre do Correio ofuscando a rua poderia, eu suponho, ser vista como uma projeção do poder de Hermes, aqui substituindo o de Isis- Urania’.(p.50).
419 Crowley também estava em Nova Iorque na ocasião em que ele estabeleceu contato com esta entidade. Uma gravura de LAM desenhada por Crowley aparece em O Renascer da Magia, ilustração 5. O desenho foi exibido originalmente em Greenwich Village em 1919 e publicada em O Equinócio Azul.
420 Vide Cultos da Sombra, capítulo 10.
421 Zoroastro (circa 1100 A.C.) estava bem consciente da misteriosa dobra do tempo que exercitou o talento de alguns dos mais perspicazes pensadores modernos. Ele descreveu Deus como tendo uma ‘força espiral’ e associou o hiato de tempo com a progressão dos aeons que retornavam à sua fonte de origem, assim reativando os atavismos primais da consciência primeva.
422 Vide Estudos sobre os Tantras , de Prabodh Chandra Bagchi.
423 Nota do Tradutor: Micção realizada ao contrário.
424 Segundo Cay Van Ash & Elizabeth Sax Rohmer. Vide Mestre da Vileza , capítulo 4. Ohio Popular Press, 1972.
425 Asa de Morcego, p.92.
426 Esta fórmula é equivalente ao nivritti marga hindu ou ‘caminho do retorno’, ou inversão dos sentidos à sua fonte em pura consciência. Ela é tipificada nos tantras como viparita maithuna, simbolizada pela união sexual de ponta cabeça.
427 Vide Imagens & Oráculos de Austin Osman Spare, Parte II.
428 Espada da Sabedoria (Colquhoun), capítulo 16.
429 Para uma imagem desta entidade, vide O Renascer da Magia, ilustração 12.
430 Este termo em Sanscrito denota um ‘veículo’ ou foco de força.
431 Culto da Criança Krishna.
432 Akasha, significando ‘Espírito’ou ‘Aethyr’(Éter), é o quinto elemento.
433 i.e. o Aeon de Hórus. Hórus ou Har significa a ‘criança’.
434 O simbolismo dos pés da deusa é explicado em Aleister Crowley & o Deus Oculto , capítulo 10.
435 A fórmula é aplicada por meio de auto-erotismo manual.
436 Vide A Religião e Filosofia de Tevaram, de D.Rangaswamy.
437 O Grau imediatamente precedente ao Abismo.
438 Sri Pagal Haranath, o ‘Louco’ ou ‘Doido’, viveu na Bengala Ocidental de 1865 a 19 27. Um relato da visita está contido em Shri Haranath: Seu Papel & Preceitos, de Vithaldas Nathabhai Mehta. Bombay, 1954. Tais manifestações ocorrendo nos tempos primitivos poderiam ter dado início ao conceito dos NPhLIM ou Gigantes. Vide capítulo 9, supra.
439 Devoto de Deus.
440 Citado em Aleister Crowley & o Deus Oculto, capítulo 1.
441 Os dois últimos Sábios estão, felizmente, ainda encarnados e na extensão do que sei, estão disponíveis para
darshan.
442 Frater Achad. Vide Cultos da Sombra, capítulo 8.
Lord Ahriman poderia ser chamado sem medo de errarmos de o pai do satanismo no Brasil. Ele foi o fundador da Igreja de Lúcifer, IDL a primeira organização satânica a se erguer do lado de baixo da linha do equador. Também guarda o mérito de ter trazido para os trópicos a primeira cópia da Bíblia Satânica e o de ter sido o mestre primeiro de toda uma geração de satanistas, entre eles Bastard Obito, Betopataca e Morbitvs Vividvs, que vos escreve este prefácio.
Sua maior façanha, entretanto foi ele mesmo. Poucas pessoas foram aquelas que eu verdadeiramente admirei e respeitei já que em geral os seres humanos não possuem muito a chance de erguerem-se do lamaçal de mediocridade em que foram colocados. A maioria dos que admirei foi de uma maneira distante, pois ou estavam mortos a séculos ou separados pela barreiras da distância. Mas neste hall da fama de pessoas admiráveis tive o prazer de conhecer Lord Ahriman.
Minha própria descoberta do satanismo foi causada diretamente pela fundação da IDL, onde eu e outros irmãos vivemos momentos únicos de saber e sabor, afinal este homem além de versado em filosofia e ocultismo foi também um grande cozinheiro. Infelizmente com esta obra o leitor não poderá provar nenhum macarrão a putanesca, mas poderá ter a mesma sensação de conversar e aprender com o autor, que tivemos naquela época.
Um livro no fundo é sempre isso. Um portal de invocação, com o qual podemos nos encontrar com pessoas que viveram em outras épocas e lugares. Não há melhor forma de invocar um ser do mundo dos mortos do que folhear páginas escritas por ele e manter no silêncio de nossa mente um diálogo interno como se ele estivesse bem ali na nossa frente.
O Satanomicon foi escrito entre Fevereiro de 2000 e Setembro de 2001 e trata de diversos pontos importantes sobre o modo de vida satanista. Ele reúne e apresenta aos que se aventurarem na sua leitura as mesmas sementes que fertilizaram o que já poderíamos chamar de um pensamento genuinamente satânico e independente latino-americano.
A herança de Aleister Crowley na magia, é uma das jóias do ocultismo moderno.
O legado de experiências magicas documentadas, assim como de material sobre o mesmo é um fato inquestionável. Crowley foi tudo que o ocultismo moderno quer ser – pioneiro, caótico e (r)evolucionário. Porém, nem tudo são flores.
Qualquer pessoa que tenha lido sobre Aleister Crowley, já percebeu certos fatores desconcertantes. O uso de drogas pesadas não é o suficiente para surpreender ninguém, já que no inicio do próprio uso, Crowley acreditava que uma Vontade Forte dominaria, não seria dominado – erro qual ele passou boa parte da vida lutando contra – o Diary of Dope Fiend, descreve bem todo esse momento. Logicamente, algo mais idiossincrático que o próprio Criador da Thelema (ou receptor, como os mais evangélicos denominam), a busca nessa pequena dissertação é apenas uma – mostrar, de uma perspectiva largamente inflada por ceticismo.
Vale lembrar que isso não justifica seus escritos, muito menos os invalida. O objetivo é apenas mostrar um lado que exige, uma leitura atenciosa de suas obras e que quase sempre os estudantes insistem em negar ou distorcer (e olhe que de distorção, ele foi realmente um mestre – e alguns discípulos estão indo bem) para adequar sua visão, digamos inocente, para não usar outro termo pejorativo, de quem foi.
Os escritos e o legado mágicko foi real. E a sujeira, teoricamente, apagada com o tempo. Um das coisas mais estranhas do Ocultismo Moderno são os “Thelemitas que não gostam de Crowley” que justificando isso através das más ações do bad boy tentam, de forma simplória, separar o Eu-Mágicko do Eu-Ego.
Para isso, basta lembrar que em Magical Diaries of the Beast, no dia 22 de Outubro de 1920, Crowley disse;
“Eu sou a Besta… Eu sou a Thelema.”
To Mega Hupokrisis 666
“Hipocrisia é uma virtude que nos permite pregar o bem mesmo quando praticamos o mal .” -Tamosauskas
Qualquer um que revirar fundo atrás de “Thelema”, vai encontrar o nome “sir Francis Dashwood”. Não somente “Thelema”, como tambem o lema “Faça o que quiser”, em seu HellFire Club. Para não ser pré-julgado, vamos revirar um pouco de história – o sir Francis Dashwood nasceu em dezembro de 1708, seu pai faleceu quando ele possuía 15 anos, assim dando á ele o titulo de Baron e as terras de seu pai. Ele atuou como uma espécie de sumo sacerdote nas missas do Hellfire Club. No livro de Horace Wapole, Memórias de George III, descreve Dashwood e sua busca por notoriedade; “Ele possuía reputação pela Europa por causa de suas aventuras. Ele vagava … de tribunal para tribunal em busca de notoriedade. Na Rússia, ele se disfarçou de Charles XII e nesse caráter inadequado aspirava ser o amante da Czarina Anne. Na Itália, seus ultrajes sobre religião e moralidade levou à sua expulsão dos domínios da Igreja.” Na tradução da biografia feita por R.C. Zarco para a Morte Súbita Inc., podemos ler o seguinte;
” ‘O infame Hell Fire Club de West Wicombe, organizou missas negras celebradas sobre os corpos desnudos de garotas recrutadas entre os locais camponeses.Era costumeiro aos que participavam de tais ritos,sorverem um pouco de vinho consagrado do umbigo destas garotas.A decoração interna do clube era alguma cousa incrível até mesmo para esta era degenerada;por exemplo,uma lanterna padrão consistia de um enorme morcego artificial completado com um pênis erecto.Essencialmente,as cerimônias eram criadas para servirem de paródia ao ritual orthodoxo da Igreja Católica Apostólica-Romana,mas aqui os participantes variavam suas atividades entre a luxúria e a cantoria de um lascívio hino.Lindas mulheres,totalmente nuas abaixo de robes de freiras,submetiam-se jubilosamente aos cuidados da gangue selvagem, que também tinha o incesto como uma de suas práticas correntes.É pouca surpresa que muitos dos participantes homens já eram impotentes quando atingiam trinta anos de idade.’ Este vívido relato das horas de lazer de Sir Francis Dashwood e seus amigos pode ser achado no ‘O Mundo Negro das Bruxas’,publicado em 1962,por Eric Maple. (texto integral aqui )
Cremos que por aqui, algumas leves semelhanças foram notadas – o ultraje a religião de Crowley, assim como sua expulsão (ainda que por motivos teoricamente “diferentes”) da Italia. Mas vamos continuar, Dashwood, tem muito mais para nos fornecer. Vamos um pouco mais fundo.
Sir Francis Dashwood, seguiu as ideias de um homem mais pervertido que ele. Seus nome, François Rebelais, foi o primeiro a usar a palavra Thelema e a própria em um dos seus primeiros escritos, (chamado ‘Gargantua and Patagruel’) descreve algo um pouco peculiar – através da critica a sociedade em que vivia, ele escreve sobre a Abbey of Thelema. Um local aonde você poderia ( e deveria ) fazer o que quiser. Nas palavras do livro, “Os habitantes da abadia eram governados apenas por sua própria vontade e prazer, a única regra é “Faça o que tu queres”. Rabelais acreditava que os homens que são livres, bem nascidos e criados têm honra, que intrinsecamente leva a ações virtuosas. Quando restritos, os seus nobres naturezas transformar em vez de remover sua servidão, porque os homens desejam que eles são negados”.
Comparando ao Liber Al Vel Legis;
I:40. Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.
I:41. A palavra de Pecado é Restrição
Logicamente que, tantas “semelhanças” não iriam passar batido. Os thelemitas modernos aceitam Rebelais como um Santo. Exatamente essa palavra. No Liber XV, em sua missa gnóstica podemos ler o seguinte;
DIÁCONO
Senhor de Vida e Alegria, que és o poder do homem, que és a essência de todo verdadeiro deus que está sobre a face da Terra, conhecimento contínuo de geração a geração, tu adorado por nós em brejos e nas florestas, em montanhas e nas cavernas, abertamente nos mercados e secretamente nas câmaras de nossos lares, em templos de ouro e marfim e mármore, assim como nestes outros templos de nossos corpos, nós dignamente comemoramos aqueles ilustres que te adoraram na antiguidade e manifestaram tua glória diante dos homens, Laio–Tse e Siddartha e Krishna e Tahuti, Moshe, Dionysius, Mohammed e To Mega Thérion, com estes também, Hermes, Pan, Priapus, Osíris e Melchizedek, Khem, e Amoun e Menthu, Héracles, Orpheus e Odysseus; com Vergilius, Catullus, Martialis, Rabelais (…)
Ó Filhos do Leão e da Serpente! Nós dignamente comemoramos todos os Teus Santos, aqueles dignos que foram e são e serão.
O Liber XV – Ecclesiæ Gnosticæ Catholicæ Canon Missæ e o Agape Vel Liber C Vel Azoth Crowley usavam o Cristianismo como uma metáfora para sua maior forma de magicka. O Liber XV, além de um grimório e ritual, continha nas entre linhas todos os segredos da Thelema. O mais incrível de observar é que, praticamente todos os escritos de Crowley continham magia sexual velada. “Semelhança” ou não, Crowley “repetia os mesmos rituais” do Sir Francis Dashwood. A menos que Dashwood tenha avançado no tempo, já que ele nasceu 1708 e Crowley e em 1875, Crowley claramente se “inspirou” no Sir Francis. Hellfire Club, ficou extremamente conhecido pela Inglaterra por seus rituais e políticos importantes da época participavam das loucuras de Dashwood. (A Abadia de Thelema da Sicília, tambem e rendeu a expulsão de Crowley da Itália).
Não há como negar que Crowley deve ter absorvido de lá. Muita coisa. Tanto que no livro Antecedents of Thelema(1926), Crowley cita Dashwood. E o Biografo do Crowley, Lawrence Soutin, em seu livro Do What Thou Wilt: A Life of Aleister Crowley, tambem.
A parte interessante, é que Crowley materializou completamente as ideias de Rebelais e assim como Dashwood em suas missas satânicas, Crowley parecia disfarçar sua adoração ao demônio. O próprio Aiwaz (ou Aiwass, Aiwas ) ele alegava ser uma deidade suméria chamada Shaitan (?). Mas Crowley nunca alegou adorar demônio algum e era totalmente contra praticas de magia negra. Ele utilizava essas metáforas mais obscuras para resguardar seus segredos mágicos, como podem ver no segredo do oitavo grau, velado no texto “Dos Casamentos Secretos dos Deuses com os Homens” . Sobre ser um mago negro, escreveu um texto sobre ao qual, copiarei um pequeno trecho;
“Eu tenho sido acusado de ser um “mago negro”. Nenhuma afirmação mais tola do que essa já feita foi sobre mim. Desprezo a coisa de tal forma que mal posso acreditar na existência de pessoas tão corrompidas e idiotas para praticá-la.” (Link do texto integral aqui)
Mais adiante, em um texto chamado, Sobre Magia Negra, Crowley afirma;
O ritual supremo é o alcance do conhecimento e conversação com o santo anjo Guardião. É a elevação completa do Homem em linha reta vertical.Qualquer desvio desta linha tende a se tornar magia negra. Qualquer outra operação é Magia Negra.
O que parece uma linha de conduta, na verdade demonstra uma grande, grande hipocrisia. Crowley foi um grande hipócrita, não somente nesse ponto. De inicio, vamos começar por um dos diários mais conhecidos dele – Magical Diaries of Aleister Crowley, 1923 – Stephen Skinner, ele enumera em uma pequena lista o numero de operações do Crowley. Entre operações de sabedoria, força magica, adquirir compreensão dos mistérios dos graus, encontramos, uma das praticas mais comuns de magia “negra” – Fascínio. E essa pratica não é feita aleatoriamente. São 22 registros sobre. E não precisa ir muito fundo para encontrar, logo na introdução essa lista é apresentada. A Magia de Amor, de Fascínio, é uma das praticas intituladas negras, já que, está restringindo a vontade de outrem.
Vamos de novo, aquela frase inicial –I:41. A palavra de Pecado é Restrição
Pois bem, seria cômico, se não trágico saber que em seu Liber Librae, Crowley relatava o seguinte;
20. Então, irás tu gradualmente desenvolver os poderes de tua alma, e encontrar te a comandar os Espíritos dos elementos. Por que esteves a convocar os Gnomos para alcovitar tua avarice, tu não irias mais comandá-los, mas eles te comandariam. Abusarias dos puros seres dos bosques e das montanhas para encher teus cofres e satisfazer tua fome de Deus? Rebaixarias os Espíritos do Fogo Vivo para servir a tua ira e ódio? Violarias a pureza das Almas das Águas para alcovitar teu desejo de devassidão? Forçarias os Espíritos da Brisa Noturna para servir a tua loucura e capricho? Saiba que com tais desejos tu podes apenas atrair o Fraco, não o Forte, e naquele caso o Fraco terá poder sobre ti.
No livro do Stephen Skinner as operações são baseadas em magia sexual. Ele nunca usaria nenhum elemental para satisfazer seus desejos por ouro. Será? No livro Magical Diaries of The Beast 666, do John Symonds e Kenneth Grant – Aleister, oferta o exilir para ICZHHCL em troca de favores dos gnomos. Sim, ele contradiz completamente o que falou no Liber Librae acima. Segue o trecho;
“Objetivo; dinheiro. Eu evoquei ICZHHCL com o objetivo de nos proporcionar favores dos gnomos. Eu ofertei parte do elixir á ele.”(Pág.15)
Observe que a hipocrisia é um assunto comum em seus escritos. No Livro Magick Book 4, encontramos trechos que podem ser chamados de ápice da hipocrisia Crowleyana. Veja á seguir;
“O primeiro grande perigo é a vaidade. Devemos estar sempre de sobreaviso quando a “lembranças” de que fomos Cleópatra ou Shakespeare.” (Memória Magicka Liber ABA Magick Book 4)
Perdoem-me minha incapacidade de relacionar uma pessoa que escreve essa frase e em seguida alega ser Edward Kelley, Papa Alexandre VI, Ankh F Khonsu, Eliphas Levi, Alessandro Cagliostro e Ge Xuan. Pesquisando cada um envolvido, você percebe que de fato, esse “grande perigo” da vaidade, foi o que o Crowley caiu. Ele dava fatos simplórios de que tem lembranças da vida de cada um, como uma tentativa de justificar tal hipocrisia alarmante. Do mesmo modo que alegava não poder usar dos gnomos para encher seu bolso e usava. Da mesma forma que, alega que o abuso da fórmula homossexual XI° é uma abominação. Mas, no livro Magical Records of the Beast, lá estava ele praticando essa fórmula a torto e direito e inclusive com desconhecidos que ele encontrava em banho turco.
É interessante notar que dessa fórmula, pulamos para outro lado obscuro de Crowley.
O Machismo 666
A ideia de que a Thelema não é machista nem sexista se inicia no Liber Al Vel Legis, aonde cita “Todo homem e toda mulher é uma estrela”. Nos comentários do livro da lei e em alguns outros escritos, encontramos referências maravilhosas sobre o poder da mulher e sua importância. Visto que Thelema, teoricamente é um Culto á Nuit/Babalon e que sua fórmula mágicka, a união heterossexual e consequente os fluidos sexuais resultantes do mesmo, são a fonte de toda vida.
Esse progresso sobre a visão do feminino, tem levado diversas mulheres a estudar e se dedicar a Lei de Thelema. Assim como a Bruxaria de Gardner, um culto a Yoni, nos remete ao prazer inconsciente aonde o homem e a mulher acabam igualando-se. Claro que assim como na Bruxaria, varias vertentes destacaram-se abrigando um femismo ao invés de feminismo. Na Thelema, como já dito, prevaleceria um culto igualitário, aonde homem e mulher, independente de sua posição ou orientação sexual, seriam ambos uma força divina. Isso aniquilava todo machismo bíblico e para a época machista em que Crowley vivia, era uma revolução.
No entanto, quando começamos a nos aprofundar em estudos de seus materiais, vemos que eles possuem classes – os de classe A, foram recebidos pelo ‘Profeta” (Crowley) e não devem ser mudados em nada, nem estilo nem palavra/letra, pois contem mistérios do Eon e da Magia dentro de seus versos.
Os de classe B, são obras “iluminadas”, como diz o site da A.A. . Os das outras classes não vem ao caso. Vamos focar numa dessas “Obras Iluminadas” – O Liber 111 Aleph.
Quero que antes de mais nada, leia alguns trechos do Liber Aleph que separei para vocês.
(E consulte a pagina, caso deseje – baixe o livro aqui)
Pag.133
DE VERITATE QUEM FEMINAE NON DICERE LICET
Da Verdade que não pode ser contada a uma Mulher
MEU Filho Eu te peço: não importa quão sejas provocado a faze-lo, nunca digas a Verdade a uma Mulher. Pois isto é o que está escrito: Não atires tuas Pérolas aos Porcos, para que eles não se voltem contra ti e te despedacem. Vê, na Natureza da Mulher não há Verdade, nem Percepção da Verdade, nem Possibilidade de Verdade, apenas se tu lhes confias esta Jóia, elas imediatamente a usam para tua Perda e Destruição.
Pag.134
DE NATURA FEMINAE
Da Natureza da Mulher
A NATUREZA da Mulher, ó meu Filho, é como tu aprendeste em Nossa santíssima Cabala e Ela é o Vestimento em Sexo do Homem, a Imagem Mágica da Vontade de Amar dele.
Pag.169
DE FORMULA FEMINEA
Da Fórmula da Mulher
Portanto, em Magia, se bem que a Mulher exceda todos os Homens em toda Qualidade que lhe é útil para Consecução, entretanto ela Nada é naquela Obra, tal como um Homem sem mãos na Oficina de um Carpinteiro, pois ela não possui o Organismo que poderia fazer Uso desta Oportunidade.
Pag.170
VERBA MAGISTRI SUI DE FEMINA
As Palavras do seu Mestre relativas à Mulher
(…)Allan Bennett, de forma que ele me recebeu como seu Discípulo em Magia. E ele foi insistente comigo neste Assunto e veemente, adjurando seus Deuses que isto (que Eu mesmo aqui acima te declarei) era a Verdade sobre a Natureza da Mulher (acima). (…) Eu me curvo humildemente diante de Allan Bennett, e me arrependo de minha insolência, pois o que ele disse era pura Verdade.
Pag.171
DE VIA PROPRIA FEMINIS
Do Apropriado Caminho para a Mulher
É REALMENTE fácil para uma Mulher obter as Experiências da Magia, de certo Tipo, como Visões, Trances e outras tais porém, estas coisas não tomam Posse dela, para transformá-la, como acontece com os Homens, mas apenas passam como Imagens sobre um Espelho. Assim, pois, uma Mulher nunca progride em Magia, mas permanece a mesma, reta ou erradamente organizada de acordo com a Força que A move. Aqui portanto está o Limite da Aspiração dela em Magia:permanecer alegre e obediente sob o Homem(…)
Isso me soa bem contraditório com a inicial afirmação thelêmica de que todo homem e mulher é uma estrela. Afirmar que uma mulher não vai longe em magia, que deve permanecer obediente ao homem e que sem o homem ela é nada, é ao meu ver um absurdo. (Ou um conhecimento iluminado, dependendo do quanto você for evangélico)
Para quem não se satisfez com tais alardes, vamos adiante atrás de mais indícios. Dentro do Confessions, a auto biografia de Crowley, editado pelo John Symonds e Kenneth Grant, encontramos as seguintes frases;
A Monogamia é um erro pois deixa o excesso de mulheres insatisfeita.
Devido ao tamanho do Confessions, quase ninguém que lê percebe essas falácias. Mas a parte mais interessante disso tudo, é que, devido a inclinação homossexual dele, ele negava o poder feminino e usava-o como uma extensão do Falo. O poder da Mulher, de seu corpo e fluidos, foi amplamente explorado por Kenneth Grant em sua OTO Typhonian. Até então Crowley não alarmava tanto sobre os fluidos femininos, exceto um, ao qual ele fez inúmeras experiências para atrair dinheiro – o elixir rubeus.
“III; 24. O melhor sangue é o da lua”
Sangue lunar ou sangue da Lua, é a menstruação. Crowley construía seus bolos de Luz consagrando-os com sêmen e menstruo, para então come-lo. Ou misturando-os (fluidos e menstruo) em uma taça com alguma bebida, o adepto deveria então mentalizar o seu desejo e então beber até a ultima gota, como Crowley diz sobre o Elixir dentro do De Ars Magica. Com exceção desse fluído, nos trechos acima fica claro o papel da mulher para Crowley.
Victor Neuburg
“Meu instinto homossexual me dá a ideia de admiração estética. Se um homem come uma mulher, ele a admira esteticamente. Quando um homem me come, eu sei que ele faz isso porque sou lindo”
– Aleister Crowley (Magical Diaries of Aleister Crowley, Stephen Skinner – pag. 35)
Crowley afirmava claramente na introdução do seu diário de 1916 “Estou inclinado a acreditar que o grau XI° é superior ao grau IX°… Oh como o Olho de Hórus é superior á Boca de Ísis”. As duas metáforas principais do grau XI° da OTO são; o Olho de Hórus ( ânus ) e o Olho que Chora ( pênis). No Cap.61 do Liber 333, temos uma das referências mais notáveis (e claras) disso;
“Tu, Garoto Safado, tu abriste o olho de Hórus ao Olho Cego que chora!”
O vício do Crowley por pênis é evidente. Ele foi passivo em suas relações sexuais com homens. De sua assinatura, aos sinais ritualísticos e rituais, todo poder do Crowley se baseia numa evidência. O poder do Sol, o falo, o gerador da vida. Além de seu affair durante os estudos da faculdade, Crowley teve outro homem-parceiro-discípulo-affair o sr. Victor Benjamin Neuburg.
Segundo o livro de Francis King, Magical World of Aleister Crowley, Crowley e C.G. Jones foram inicialmente os dois únicos membros da A.A., até que eles adquiriram dois discípulos, Capitão J.F.C. Fuller, um jovem oficial da infantaria que eventualmente se tornou major-general, um expert em tanque de guerra e amigo pessoal de Adolf Hitler e Victor Neuburg, um jovem poeta que foi um judeu ortodoxo mas se tornou agnóstico.
Os dois últimos foram amigos na graduação em Cambridge. Através da sugestão de Fuller, Crowley conheceu Victor, entrando no quarto dele em Cambridge e se apresentou. Nessa época, Neuburg achou em Crowley tudo que procurava em poesia e principalmente em magia e logo então se tornou probacionista da A.A. O relacionamento dos dois aos poucos ganhou aspectos problemáticos. Crowley era um sado-maso e demonstrava isso nas humilhações que fazia com Neuburg e nas que obrigava Neuburg fazer com ele. Em nome do aniquilamento do ego.
Na pagina 47 desse mesmo livro, um aspecto obscuro de Crowley é revelado – o racismo. O trecho é transcrito a seguir em uma tradução livre.
Uma noite, por exemplo, Crowley foi até o quarto de Victor e começou a bater na bunda dele com urtiga (urtiga dioica). Em outra ocasião, ele começou a fazer comentarios agressivos anti-semitas. Isso teve um impacto muito maior que a violência física.
“Meu nobre guru foi desnecessariamente grosso e brutal. Eu não sei o porquê. Ele provavelmente não sabe. Ele aparentemente fez isso somente para se divertir e passar o tempo.Seja como for, eu não vou mais insistir nisso. Ele tem sido brutal comigo na prerrogativa de eu pertencer a uma raça inferior. É o limite da maldade desprezar o homem por sua raça. Não há desculpas para isso. É mesquinho abusar da posição de guru (…) Se não fosse pelo meu voto, eu não viveria mais na mesma casa que ele. Minha família e raça foram perpetuamente insultados.”
Além de sexo casual em honra a Pã, Victor fez parte dos trabalhos mais importantes de Crowley – A evocação e domínio de Choronzon, a viagem pelos Aethrys Enochianos, as publicações do Equinox e o Liber CDXV, Opus Lutetianum – A Operação de Paris – trabalho ao qual, Crowley modificou sua visão de Deuses, descrito em Magick Book 4, de “Forças da Natureza” para “Espíritos Reais” – isso é, passiveis de aparição, comunicação E possessão, como foi relatado nesse Liber.
Uma curiosidade interessante é que no Magick Teoria e Prática, Crowley relata que foi até o apartamento de uma Circe e traçando o simbolo de Saturno em sua porta, em 24 horas ela atirou em si mesma. O fato é, que essa “Circe” na verdade era uma mulher pelo qual Victor estava apaixonado. Transcrevo e traduzo a pagina 91 do livro Magical World of Aleister Crowley, do Francis King ;
“‘Ione de Forest “era o nome artístico adotado por Joan Hayes, uma ex-aluna da Academia Real de Arte Dramática (…) Ela tinha tomado parte nos ritos de Elêusis, sem ter qualquer interesse prévio, conhecimento do ocultismo em geral ou magia em particular. Ela tinha simplesmente respondeu a um anúncio no palco e de lá
passou a dançar como várias deusas sob a direção de Crowley.Neuburg foi fascinado por ela desde o primeiro momento e sentiu uma afeição por ela que assim que ela apareceu. Crowley desaprovou alegando que ela era uma “Circe”, que pode enfeitiçar Neuburg e leva-lo para longe caminho mágico. Crowley ficou muito aliviado quando ela não se casou com Neuburg mas sim com um velho amigo dele chamado Wilfred Merton. Seis meses após o casamento Joan deixou o marido e passou a residir em um estúdio em Chelsea. Ao mesmo tempo, ou talvez um pouco antes, ela se tornou amante Neuburg o dois alugaram uma casa em Essex que eles usavam nos fins de semana e Crowley ficou furioso. Dois meses depois, ela atirou em si mesma. Não há razão clara para este suicídio(…) Neuburg estava certo de que Crowley tinha colocado um feitiço sobre ela, como a ‘Circe’.”
Duas coisas ficam evidentes nesse texto – Crowley matou a mulher de Victor, provavelmente porque era apaixonado pelo o mesmo. E que em seu livro, mentiu dizendo que ela se matou em 24 horas, sendo que na verdade foi dois meses. Como todas as pessoas que passaram pela vida de Crowley após romper laços com o mesmo e ser amaldiçoado, Neuburg passou o restante de sua vida em um estado de infertilidade mental. Vide tanto o livro do Francis King, como The Magical Dilemma of Victor Neuburg, de Joan Oliver Fuller.
Fetiche e Feitiçaria – ‘Leah Sublime’ e os rituais da Puta e da Besta
“Na minha missa, fezes são hóstia, que Eu consumo com reverência e adoração”
-Aleister Crowley em seu diário, Magical Record of the Beast 666, pág.202
A palavra fetiche, vem do francês, fetiche que por sua vez é entendido como feitiço. Isso foi o que Crowley fez com cada discípulo – ele os encantava, enfeitiçava, levava eles para as profundezas de seus fetiches sexuais, mascarando em uma causa nobre, aquilo que chamamos de Iluminação – Um dos propósitos de toda magia – o ato de transcender os limites do próprio ego, ou destruí-lo em prol a uma causa – seja essa palavra entendida como você desejar – e os rituais de Crowley com Neuburg eram repletos disso. A humilhação pode ser uma forma de inflamar ou subjugar o ego, e quando a Besta dizia destruir a si próprio, ela estava se referindo a se entregar aos abominações (ou prazeres, você escolhe tambem) que a perversão (ou a magia, ou sexo, escolha a palavra apropriada) pode proporcionar.
Leah Hirsig – conheceu Crowley através da sua irmã, Alma Hirsig, na primavera de 1918, sua irmã já tinha conversado algumas vezes com a Besta, porém, quando a Besta viu a Leah, ele se apaixonou, perdidamente. Leah não saia dos seus pensamentos e tudo que queria, era ela para si – que devido ao seu interesse em ocultismo, rapidamente aceitou o convite de ser sua Mulher Escarlate e participar das cerimônias de Thelema. O Fetiche, charme, encanto da Besta rapidamente levava as mulheres se entregarem as suas paixões. Ainda que elas fossem… Animalescas.
Leah usou o nome de Alostrael – O Útero de Deus – e com esse nome desenvolveu papel fundamental na corrente 93, junto com Crowley ela estabilizou o Colégio do Espirito Santo – vulgo Abadia de Thelema – ela largou todas as suas coisas e se entregou numa viagem com a Besta para a Sicília. Ela viveu na Abadia em uma mistura de liberdade total junto com delicada ritualística a Besta dava aos seus discípulos, – ela acompanhou Crowley em sua (auto) graduação de Ipsissimus e em uma péssima situação financeira.
“Durante um ano de subserviência á sua mulher escarlate, Leah Rising, Crowley obedecia ela comendo suas fezes em um prato de prata, como um símbolo de sua devoção á Grande Puta. Para selar esse ritual, ela queimava o peito da Besta com cigarro” – está escrito no livro Demons of Flesh – Nicolas Scherek e Zeena Scherek – Já no Magical Record of the Beast 666 do Kenneth Grant, vemos a descrição completa do ritual.
A coprofagia foi um instrumento de iluminação Crowleyana – a mistura de sêmen, sangue e detritos (fezes) era uma forma de oferenda aos espíritos demoníacos. Oferecer merda á espíritos não é algo tão incomum assim, por mais estranho que pareça ser – qualquer demonologista sério já deve ter lido obra prima de demonologia Dictionnaire Infernal de Jacques Auguste Simon Collin de Plancy, publicado no ano de 1818. Deixo duas versões para conferir – link1 e link2 . Nesta obra ele descreve que “Alguns rabinos, fazem seu culto á ele (Belfegor) em seus banheiros, ofertando á ele os resíduos de sua digestão”.
Curiosidades á parte, vamos focar em Leah. Leah prosseguia com todas as loucuras de Crowley – a Besta, não se satisfazia com orgias, heroína e coprofagia – Uma de suas estudantes Mary Butts, deparou-se com algo inusitado (ou não). Transcrevo agora do livro Demons of Flesh, da Zeena (LaVey) Shreck e Nicolas Scherek;
“Quando uma das alunas de Crowley, Mary Butts – nome eminentemente adequado para abordagem singular da Besta – chegou para a tutela Abadia de Thelema, seu Mestre saudou-a ofertando fezes de bode em um prato. Não podemos ter certeza e Crowley a presenteou com esta refeição como uma verdadeira prova de seu compromisso com a Grande Obra ou simplesmente como uma indulgência do seu humor. Butts foi logo um testemunhar um dos rituais menos bem sucedidos de Crowley, uma tentativa de induzir um bode simbolizando a cabra lendária de Mendes para copular com corpo de sua Mulher Escarlate, Leah Hirsig. Apesar de todos os esforços para persuadir o bode para executar sua função sagrada, o animal permaneceu indiferente ao fascínio de Babalon. Caindo em um de seus ataques freqüentes de raiva, um exasperado Crowley cortou a garganta do bode.”
No livro do Francis King, o mesmo fato é recontado;
“E Leah nua deveria copular com um Bode que iria ser sacrificado por Crowley, no momento do orgasmo. Infelizmente o bode recusou-se a executar. Apesar disso, ainda foi sacrificado, o sangue jorrou sobre o dorso branco de Leah. Leah ficou bastante surpresa ao ver que as coisas não ocorreram como planejado. Pingando sangue, ela virou-se para Mary Butts e perguntou o que ela deveria fazer agora. ‘Eu tomaria um banho, se fosse você’, respondeu Mary. ”
Crowley transgredia todas as regras e sua loucura o levava a bestialidade, seu humor (ou sadismo) contagiava á todos que o cercava, não é de todo errado que todas as pessoas que passaram pela vida de Aleister, acabaram de uma forma ou outra, com um fim trágico – o uso desregrado de heroína (entre outras drogas) fez com que duas de suas estudantes da época, Mary Butts e Cecil Maitland deixarem a abadia com sérios problemas de saúde – o vício em heroína. Enquanto Leah ainda se mantinha sob custódia e obediência á Crowley, praticamente cega. Na época, um outro discípulo, chamado Frederick Russel (Frater Genesthai) se mostrou com certa aptidão para o misticismo sexual do Master Therion. Enquanto Alostrael (Leah) masturbava o Genesthai para uma ereção, Crowley esperava á mesma ardentemente para então, sentar no falo de Genesthai. A descrição foi dada tanto no livro de Kenneth Grant como o do Francis King.
Leah, acompanhou Crowley nos piores momentos de sua vida – além de fazer rituais ao Sol ou invocações a nomes de Deus, Anjos ou fumar haxixe e fazer sexo com estranhos – a filha dela e do Crowley, morreu alguns dias após nascer, acompanhou diversas cerimônias fracassadas, a falta de dinheiro que o levou a publicar o Diary of Dope Fiend – ao qual um jornalista, James Douglas, começou a fazer criticas pesadas e acusando ele até de canibalismo. Crowley que visitava sazonalmente a Itália, foi expulso de lá pelo governo Italiano.
Em setembro de 1924 Crowley apontou uma nova mulher escarlate – Dorothy Olsen. Mesmo perdendo seu status, passou algum tempo como secretaria, auxiliando rituais e mais adiante, quando rompeu laços, devido sua falta de dinheiro, findou sua vida trabalhando como prostituta.
Notas do autor, bibliografia e a poesia “Sublime Leah”
“Crowley é bom porque foi ruim, seria melhor se fosse pior.” – Kayque Girão
Falar de Aleister Crowley é, algo sempre incompleto.
Por mais que se queira, uma vida não pode ser resumida em um pequeno texto ou livro. Quando eu comecei esse texto, meu intento profundo era revelar um lado ao qual muitos adoradores negam – o lado humano. Cheio de fraquezas, falhas, com falta de dinheiro, vícios e hipocrisia. Assim como qualquer pessoa no mundo, com seus altos e baixos, Crowley nos dá a partir desse mal exemplo de muitos outros, sua essência – faça a sua vontade – ainda que por muitas vezes, ele restrinja seus discípulos com a promessa de elevação espiritual – talvez até seu anjo (Aiwaz/s/ss, Shaitan) não exista, seja fruto de uma imaginação doentia, o legado, como disse inicialmente é incomparável.
Talvez amanhã ou quem saiba daqui alguns anos (ou décadas, séculos) nasça outro messias. De fato Crowley foi um homem além de seu mundo ou talvez infantil (ou ousado) demais para não aceitar o mundo e querer criar um mundo próprio.
Eu demorei cerca de um mês e meio (re)lendo a bibliografia á seguir e então comentando seus erros – uma atitude vulgar, eu assumo, no entanto, creio ter sido necessária.
Necessário para perdemos a idealização de que a magia é fonte de todos os prazeres e juventude eterna. Necessário para observarmos que mesmo o maior mago de todos os tempos, como assim foi nomeado, vivenciou momentos ruins. Necessário para observarmos que a magia pode tanto nos elevar como nos rebaixar. Necessário para que possamos mensurar nossos atos com o conhecimento obtido e entendamos de que nada serve esse conhecimento, se não for compartilhado.
Por nota final, deixo a bibliografia que usei e uma poesia traduzida pelo Pythio. Quero manifestar profunda gratidão pelo apoio, ajuda e companheirismo do mesmo.
Bibliografia
Gargantua and Patagruel, François Rebelais Liber Al Vel Legis, Aleister Crowley Liber 333, Aleister Crowley Liber Aleph, Aleister Crowley Confessions, Aleister Crowley Magical World of Aleister Crowley, Francis King The Magical Record of the Beast 666, John Symonds and Kenneth Grant Demons of Flesh, Zeena and Nicolas Schrek Liber XV – Ecclesiæ Gnosticæ Catholicæ Canon Missæ, Aleister Crowley Liber Agape Vel Liber C Vel Azoth, Aleister Crowley Do What Thou Wilt: A Life of Aleister Crowley, Lawrence Soutin Magick without Tears, Aleister Crowley Magick Book 4, Aleister Crowley The Magical Dilemma of Victor Neuburg, Joan Oliver Fuller Dictionnaire Infernal, Jacques Auguste Simon Collin de Plancy
Sublime Leah
Sublime Leah,
Deusa em cima de mim!
Serpente de um lodaçal!
Alostrael, ame-me!
Nosso mestre, o demônio.
Prospere a orgia.
Pise com seu pé
Em meu coração até que doa!
Pise sobre ele, ponha
O unta com sua imundície
Sobre meu amor, sobre minha vergonha
Rabisque seu nome!
Monte sua besta
Minha Vadia Soberana.
Com as suas coxas todas umedecidas
Com o suor de sua sarna
Cuspa em mim, escarlate
Boca de minha prostituta!
Agora de sua ampla
Boceta crua, o abismo
Envie a maré nascente
De seu quente mijo
Em minha boca, oh minha prostituta
Deixe-o escorrer, deixe-o escorrer!
Sua mão, Oh imunda
Sua mão que tem desperdiçado
Seu amor, ato obsceno
Massas negras, que degustaram
Sua alma, é sua mão
Sinta meu caralho erguer.
Você cavalga como uma égua
E peida enquanto você cavalga
Por úmidos cabelos pixaim
Você jorra como uma baleia.
Encharca o estrume
E mija como esgoto!
Desça a mim rápido
Com seus dentes em meus lábios
Com suas mãos em meu cacete
Com pegada fervente
Minha vida é saborear –
Como seu hálito fede!
Sua vida multiplica o lascivo
De garotinha a Madura
Puta usada que já mastigou
Sua própria pilha de estrume
Suas mãos foram as chaves para –
E agora você me refresca também!
Esfregue todo o muco
De sua boceta em mim Leah
Boceta, deixe-me chupar
Toda essa gonorreia gosmenta!
Boceta! Sem fim
Amém! Até você cansar!
Puta você me acolheu
Toda sujeira e doença
Em seu cu peludo
Afrouxe o buraco com queijinho
Com sua menstruação e varíola
Você que mastiga os cacetes!
Esfregue toda sua gonorreia em mim!
Envenene a flecha.
Ponha pra fora toda sua varíola
Me dê sua medula
Puta, você me tem completamente
Eu amo sua podridão!
Mais uma vez, me bata!
Leah, um espasmo
Grite enquanto me bate
Lodo do Abismo,
Me sufoque com o líquido
O chorume do seu ventre sujo.
Esfaqueie sua demoníaca
Sorriso ao meu cérebro
Encharque-me em conhaque
Buceta e cocaína
Espalhe em mim! Sente
na minha boca Leah e cague!
Cague em mim vadia
Cremosa coalhada
que goteja de suas entranhas
Merda gordurosa
Leve suas fezes
até a ponta da minha língua!
Bata em mim, Leah!
Me sufoque em suas coxas
borradas de diarreia
Em meus olhos.
Esfregue toda merda
Do abismo sem fim.
Vire-a mim, mastigue-a
Junto comigo, Leah, vadia!
Vomite-a, cuspa-a
E lamba-a outra vez
Nos podemos gerar luxúria
Bêbados em nojeira.
Derrame toda suas tripas
Sua burra, minha amante!
Sua vadia pederasta
Eu sei aonde leva-la!
Aí ela vai, descendo
mexendo em sua bunda prostituída!
Kenneth Grant (1924-2011) foi um dos mais notáveis magistas do século XX. Bem conhecido como o último estudante de Aleister Crowley em meados dos anos 1940, ele passou a desenvolver sua própria interpretação de Thelema e levou a Grande Obra através de portais Yuggothianos e em direção de novas dimensões inteiramente estelares. No entanto, apesar de sua sólida obra, ele frequentemente recebeu críticas e (sinto eu, injustamente) ganhou uma reputação de ser incompreensível ou coisa pior. Este equívoco tem manchado a percepção de seus escritos, e talvez tenha contribuído para que se tenha deles uma compreensão mais lenta do que merecem, como um corpo altamente perspicaz de trabalho que forma um complexo e entrelaçado comentário sobre numerosos assuntos esotéricos.
Pelo final de sua longa carreira de escritor, Kenneth Grant havia escrito uma prateleira inteira de livros, mais notavelmente as Trilogias Tifonianas, que construiu sobre a radiação de background oculto deixado para trás por ordens como a Ordem Hermética da Aurora Dourada e luminares como Aleister Crowley, Jack Parsons e Dion Fortune. Estendendo sua Gnose Tifoniana, ele permitiu que conceitos como o tráfico com entidades, gnose sexual e uma inteira tradição do lado noturno1 para infiltrar-se em seus romances que eram muitas vezes trabalhos mais curtos apresentando uma conexão sideral2 à sua própria pessoa, criando assim uma estranha simetria onde Kenneth Grant caminhava dentro de sua própria ficção, e os seres e energias, e de fato o sentido de outro que ele evocou sangrar de volta de sua prosa em nossa realidade. Como muitos de seus leitores notarão, há uma qualidade sonhadora, desconcertante na ficção Grantiana onde a fronteira entre fato e fantasia se dissolve em uma constrangedora narrativa onde alguém é capturado entre as associações e o firmamento da história.
Isso tudo é parte de sua magia, e uma das razões por que seus livros são frequentemente descritos não tanto como sendo sobre magia, mas como objetos mágicos em seu próprio direito. Este é o real valor deles, como Grant envolveu magia na própria estrutura linguística de seu texto, tornando isto um ponto de partida para outras realidades. Eu tenho certamente encontrado isto por mim mesmo, e lendo seu trabalho tarde da noite, sou muitas vezes levado a um sentido de devaneio que se transforma facilmente em estados mais profundos de consciência meditativa. Na verdade, muitas vezes as TrilogiasTifonianas parecem transmutar e refletir aos leitores exatamente o que estes precisam ler naquele momento em particular para promover o seu desenvolvimento mágico.
Kenneth Grant não escreveu para iniciantes, e ninguém encontrará rituais estabelecidos, tais como o Ritual Menor do Pentagrama ou do Pilar do Meio dentro de seus livros, antes é esperado a ponderar sobre as informações e considerações dadas e designadas pelo seu próprio caminho através dos mistérios que ele tão tentadoramente desvenda. Seu estilo de escrita é único, e muito diferente da precisão de fórmulas que encontramos com Aleister Crowley. Grant consolidou os Thelemitas de forma que muitos sentem que essa consolidação depreciou o espírito daquilo que Crowley tentava atingir. No entanto, em contraste com isso, muitas pessoas sentem que Kenneth Grant, seguindo suas próprias estrelas (não aquelas de Aleister Crowley) abriu novas portas para a compreensão, exploração e mistério. Além disso, alguns dos trabalhos de Grant são notavelmente prescientes quanto aos efeitos sobre a consciência humana a partir do universo em geral. Por exemplo seu comentário sobre OVNIs em Outer Gateways3 referentes e construidos sobre ideias sugeridas por Arthur Machen, em The Great God Pan4 e John Keel em livros tais como The Mothman Prophecies5, e descreve um modelo de componentes não práticos de OVNIs a partir da perspectiva esotérica, uma visão que só recentemente está realmente se tornando mais proeminente.
Transmissões Telepáticas de Yuggoth
H.P. Lovecraft e seu gatinho, Sam Perkins
Uma das áreas mais problemáticas dentro do corpo de escritos de Grant é a que se conecta ao mito de Cthulhu de H.P. Lovecraft. Sabemos que de fato que HP Lovecraft produziu este mito, semeando-o tanto com entidades encontradas em mitologia (como Dagon), quanto com aquelas que ele inventou (como Yog-Sothoth ou Hastur o indescritível). Além disso Lovecraft era um materialista ardente, que em suas cartas frequentemente comentava que tudo foi inventado, usando nomes como o Necronomicon ou AbdulAlhazred simplesmente porque ele gostava do som dessas palavra. Finalmente, uma varredura da literatura mostra que não há referências confiáveis ao Necronomicon ou a composição das entidades antes das histórias de Lovecraft serem publicadas.
A fim de adicionar autenticidade a suas histórias Lovecraft criou uma história ficcional do Necronomicon que referenciou personagens históricos reais como John Dee e Olaus Wormius, um esquema que ‘se tornou viral’ conforme outros autores continuaram adicionando ao mito em anos subsequentes. É notável que, ainda recentemente, depois do assunto ter sido desmerecido à morte e excelentes livros sobre o assunto, como Os Arquivos Necronomicon6 apareceram – que claramente apresentam de forma bem referenciados os fatos do caso – ainda existem pessoas que aceitam a literal verdade da confecção blasfema de H.P. Lovecraft.
Como, então, devemos unificar estes fatos com o conhecimento que Kenneth Grant mencionou o Necronomicon ao longo de sua obra desde o início? Grant era um verdadeiro estudioso e muito bom leitor, como a lista de referências no final de seus livros testemunham, assim podemos estar certos de que ele estava ciente da mundana não-história do Necronomicon e que – no nosso nível, pelo menos – é tudo ficção. Na verdade ele reconhece que Lovecraft inventou o Necronomicon no capítulo inicial de Outer Gateways. Nas palavras de Grant:
“Uma série de textos arcanos que reivindicam proveniência não-terrestre são de importância suprema na esfera do ocultismo criativo. Talvez o mais misterioso e, certamente, o mais sinistro seja o Necronomicon, a primeira menção em que aparece é na ficção do escritor HP Lovecraft da Nova Inglaterra. Disse ter sido escrito por um árabe louco chamado Al Hazred, o Necronomicon de fato existe em um plano acessível para aqueles que, conscientemente, como Crowley, ou inconscientemente, como Lovecraft, conseguiram penetrar. ”
Este parágrafo sucintamente resume tudo o que Kenneth Grant tem a dizer sobre o Necronomicon. Ele deixa claro que H.P. Lovecraft produziu, e igualmente claro que ele acredita que o trabalho de Lovecraft tenha sido entusiasmado* a partir de um nível mais profundo de realidade. Na verdade, o Necronomicon, como um grimório primordial; é uma fonte de inspiração atravessando toda a obra inicial de Grant, começando com O Renascer da Magia7 onde Grant enumera uma série de correspondências entre a coletânea dos Mitos de Lovecraft e Thelema.
Desde então Grant contribuiu para o número de conexões usando gematria8 com nomes e palavras encontradas em outras tradições, sobretudo em OLivro da Lei de Aleister Crowley. Isso incluiu a conexão de palavras que têm uma semelhança linguística ou gemátrica a terminologia encontrada no Mito como “Set-Hulu” ou “Tutulu” – uma palavra ouvida por Crowley, enquanto em vidência dos Æthyrs Enoquianos no deserto do Saara em 1909, com o poeta Victor Neuberg9 – o que Grant relaciona com Cthulhu. Ao longo dos volumes posteriores, Grant faz referências ao Necronomicon da mesma maneira que faz referências a outras fontes tradicionais, tais como Gnóstica, Hebraica e Sânscrita. Este tema continua durante todas as Trilogias, porém, sinto que atinge seu clímax no erudito “Hecate’s Fountain” onde Grant fala de rituais para invocar Cthulhu e é aqui que encontramos a comparação mencionada entre OLivro da Lei e o Necronomicon.
Mas, voltando à questão de saber se o mito é literalmente real, podemos melhor responder comparando-o a outras antigas tradições “aceitas” da humanidade. Todos os mitos, religiões e práticas espirituais começam com um místico contato com o inefável e a construção de um elo. Então talvez nós precisemos olhar para o próprio H.P. Lovecraft. Apesar de um materialista e cético externamente, Grant sugere que Lovecraft pode ter sido um vidente inconsciente que poderia perceber padrões mais profundos da realidade, apesar de ser leigo à sua verdadeira natureza, ele, então, foge com medo. Certamente um monte de contos de Lovecraft originado em sonhos, e alguns contos foram quase exatas recontagens de seus sonhos, o que mostra que sua origem não era de sua consciência regular do lado diurno, mas no mínimo uma fonte inconsciente separada do seu materialismo em vigília. No entanto, mesmo que Lovecraft tenha conscientemente produzido o mito, isso não quebra a validade de conexão de Kenneth Grant a ele. Grant reconheceu os padrões familiares místicos que Cthulhu e os Grandes Antigos se enquadram e teceu a sua prática em torno disto. Todos os mitos e religiões começaram de forma semelhante, e, neste sentido o mito é tão real e válido como qualquer outra mitologia e religião, apesar do nosso inconsciente coletivo reprimido.
Talvez possamos entender mais essa ideia se considerarmos um contador de histórias de ficção que está criando um novo personagem serial killer para um romance. Ele usaria certos padrões e arquétipos em sua criação do personagem com sua origem no comportamento de reais assassinos em série. Tal qual nosso serial killer virtual é um símbolo para o espírito de assassinatos em série que está subjacente à loucura em todos os que encontramos (ou esperemos que não) em nosso mundo. Assim, em certo sentido, um ficcional Hannibal Lector, devidamente realizado, é tão real como Jack, o Estripador, e Ted Bundy.**
Dando uma caminhada no Lado Noturno
A partir daqui talvez pudéssemos perguntar por que alguém iria querer encontrar entidades do lado nortuno como Cthulhu. Acredito que o trabalho de Grant ganhou uma reputação injusta ganhou por ser excessivamnete sombria, e que talvez essa reputação se deve aos ocultistas “nova era”*** sem entender que o Universo (e nós mesmos por extensão) é composto por ambas, luz e trevas. É vital explorar essas energias cuidadosamente (e com segurança), uma vez que em certo nível elas estão aí fora e são desagradáveis, mas elas também estão dentro de nós e são potenciais. Lembre-se da ideias de Freud sobre a necessidade de se expressar, e então assimilar as repressões; em um sentido mágico isto é o por que se enfrenta a escuridão, para vir à luz renascido como uma energia saudável ao invés de deixá-la como uma sombria bomba de tempo reprimida pronta para explodir. Muito trabalhos de Grant aqui são realmente uma visão perspicaz no conceito Teosófico do Habitante do Umbral – e ocultistas sérios não trabalham com o lado sombrio para prejudicar, mas sim para regenerar suas próprias repressões mais escuras na luz de um amor próprio.
O mais alto grau em ocultismo, de acordo com a Ordem Hermética da Aurora Dourada, é “Ipsissimus”, que significa “alguém auto-completo em si mesmo”: alguém que tem curado e absorvido todas as suas fraturas, suas peças quebradas, todos os seus demônios pessoais em um ser perfeito no conhecimento de sua (unificada) verdadeira vontade. Isto é mais potente e cura muito mais do que meditar sobre golfinhos e unicórnios, e eu sinto que entender “sombrio” como sendo arrepiante e assustador é perder totalmente as ideias nos escritos de Kenneth Grant, que na realidade mostra ser ele um dos mais sensatos ocultistas por aí. A esse respeito, os mitos servem perfeitamente como um veículo para essas ideias.
Aleister Crowley encontra Drácula e a Múmia
O estranho, a ficção sobrenatural, foi muito importante para Kenneth Grant, e seu uso do mito Lovecraftiano mostra claramente que ele viu isto como um recipiente capaz de transmitir profundas ideias esotéricas. Muitos ocultistas testemunham que a novela oculta muitas vezes serve como uma melhor transportadora de ideias que o livro de ocultismo, e Grant mesmo abraçou este conceito. Por exemplo, a novela Gamaliel10 de Grant, mostra claramente como ele entendeu o conceito oculto de vampirismo, ao contrário do um tanto estereotipado Europeu Oriental em um ‘dinner jacket’ e um sorriso de Bela Lugosi. Grant (em The Magical Revival) delineia o vampirismo de volta ao Egito antigo, fazendo referência as práticas de magia negra projetadas para manter a parte terrestre da alma (o ka) a serviço de um necromante (utilizando este sujeitado ka como um familiar), embora a prática original fosse para proteger as tumbas dos mortos. Este é um tema também explorado por Dion Fortune em The Demon Lover11, não obstante Fortune se aproxima de forma ligeiramente diferente, dado que o seu “vampiro” fictício não foi devidamente morto em primeiro lugar!
Nas Trilogias Tifonianas vemos o vampirismo exposto como uma transação de energia com um nível mais profundo que pode levar a uma diminuição de vitalidade, de vida e do ser, com ambos, o hospedeiro e o vampiro, trocando alguma coisa – geralmente resultando na persistência do vampiro e a diminuição do hospedeiro.
Sobek-neferu-re (Sobek É a Beleza de Rá)
Tanto Aleister Crowley quanto Austin Osman Spare mergulharam seus dedos no assunto do Vampirismo em seus escritos; Grant, no entanto, pulou na piscina, de roupa e tudo. Na verdade, o assunto é central para um tema encontrado em todo o trabalho de Grant, a ideia de “gnose estelar”. Um dos tópicos históricos que Grant explora é o da Rainha SobekNoferu, que historicamente governou o Egito durante quatro anos, no final da XIIº Dinastia, direcionando o Egito para o fim do período do Médio Reinado. Sabemos muito pouco sobre a SobekNoferu histórica, no entanto o seu nome (que significa “Amada de Sobek”) sugere uma ligação com o deus Egípcio crocodilo Sobek.
Esta conexão faz parte do mito original da tradição Tifoniana, que olha para a antiguidade e para as práticas religiosas iniciais conectando a humanidade com nossas Deusas. Dion Fortune em Sacerdotisa da Lua12 aludiu a uma tradição semelhante, e a ideia de civilizações anteriores ao Egito na região do Nilo é ainda algo considerado hoje controverso através da investigação de pessoas como John Anthony West e Robert Schoch**** e seus revisados encontros da Grande Esfinge. Grant viu SobekNoferu como uma restauradora que trouxe esta tradição a partir da mais remota antiguidade para a antiguidade mais próxima:
“O oráculo é ThERA13, Rainha das Sete Estrelas que reinou na XIII Dinastia como Rainha Sebek-nefer-Ra. Foi ela que trouxe de um passado indefinidamente mais antigo, anterior mesmo ao Egito, a original Gnose Tifoniana.”14
A interpretação da Joia das Sete Estrelas de Bram Stoker pela “Casa de Horror Hammer”***** em Sangue no Sarcófago da Múmia exala pura elegância Cinquentista com a seminua Valerie Leon como a (des)mumificada e ainda vital e altamente sexy cadáver de Tera15 sobrevivendo através dos séculos para reviver nos tempos modernos; uma pegada mais moderna e ocultista sobre o conto de Bram Stoker, e mais fiel ao legado sideral de Grant e Austin Osman Spare e, talvez ,capturando alguns dos ambientes de Nu-Isis em que Kenneth Grant estava mergulhado na década de 1960. Na minha opinião este é o filme mais Tifoniano já feito; embora ligeiramente menos preciso (em um nível arqueológico) do que outros filmes de história16, mas pode facilmente deslizar para uma situação de assistir ao filme, onde o erudito Kenneth Grant sai das sombras para explicar a narrativa (na verdade, ele praticamente o faz nos primeiros volumes de suas Trilogias).
Eu acho que parte da importância para Kenneth Grant em relação a Rainha Sobek-Nefer-Ra é que ela é do sexo feminino. Aleister Crowley, enquanto brilhante em seu caminho, era um iconoclasta que moveu adiante o ocultismo nos difíceis anos de formação do século XX. No entanto, ele era basicamente um cavalheiro Vitoriano, com, sinto eu, algumas tendências misóginas que persistiram em seu ensino. É claro a partir de seus escritos que ele via suas mulheres escarlates como subserviente ao seu trabalho e que todas elas tinham funções dentro de seu caminho. De fato uma das razões pelas quais eu não acho que Aleister Crowley teve muita influência sobre Gerald Gardner durante a formação do movimento Wicca é que Crowley certamente não era do tipo de se submeter a uma Sacerdotisa; tudo o que há a partir de Gardner.
Kenneth Grant, porém, é muito mais equilibrado em seus escritos, e evitando as armadilhas de Crowley e Gardner, dá mérito igual a ambos os mistérios, masculino e feminino, em sua obra, reconhecendo que ambos os sexos adicionam em seus próprios caminhos para a iniciação e o avanço da corrente mágica. No trabalho de Kenneth Grant lemos sobre esoterismo tanto numa perspectiva masculina quanto numa perspectiva feminina e temas importantes como Kalas são introduzidos e desenvolvidos.
Experiências estranhas movem inteiramente o trabalho de Kenneth Grant como parte de um entrelace mais profundo com conexões providas dessas ocorrências. Estas muitas vezes começam como estranhos eventos que são descritos e, depois, desenvolvidos em livros posteriores, muitas vezes crescendo de forma tangencial, como Grant atribui essas manifestações de diferentes conceitos.
Uma vez que tal fio diz respeito à estátua de Mefistófeles (carinhosamente apelidado de “Mephi” por Grant) que primeiro encontramos mencionado em Hecates’s Fountain como uma estátua que Kenneth comprou no empório de Busche, em Chancery Lane, um estabelecimento que parece ter florescido antes da Segunda Guerra Mundial. Esta estátua parece ter tido uma vida própria, aparentemente seguindo Grant até em casa em vez de ser adquirido de forma mais tradicional, com Grant achando um pouco mais tarde, e ao tentar devolver a estátua descobre que o empório tinha fechado17. Um pouco mais tarde, em Hecate’s Fountain18 descobrimos que Mephi encontra seu caminho em um rito de Oolak (um dos Grandes Antigos do sistema de Grant) da Nu-Isis e serve para aterrar os poderes levantados no rito. Mephi em seguida, aparece misteriosamente na Novela Against the Light como uma ilustração na capa, bem como sendo referido no livro em que Grant nos dá um relato da compra da estátua. Tudo isso pode soar um pouco estranho e improvável, no entanto coisas estranhas como esta acontecem aos ocultistas, e alguns objetos entusiasmados com presença parecem, muitas vezes, ter uma finalidade própria. Eu sinto que os relatos de Mephi, em todos os livros de Kenneth Grant, representam estranhos acontecimentos que realmente ocorreram enquanto ele era dono da estátua.
Minha novela favorita de Kenneth Grant é Against the Light, a qual eu sinto ser uma joia absoluta (é importante notar que o “Contra”- Against no original – do título significa próximo a, como se com um amante, e certamente não oposto ou sugerindo diabólica magia negra). Against the Light é tecido através de fios do próprio passado de Grant; como é observado ele menciona o negociante em Charing Cross Road, em Londres, de quem obteve a sua estátua de Mefistófeles; há referências ao (talvez fictício) Grimório Grantino, personagens fictícios de vários contos estranhos, como Helen Vaughan e uma constante indefinição de ficção e realidade. Isso tudo é para o bem, uma vez que nos deixa todos querendo saber o que realmente é a realidade. Talvez a verdade seja que é tudo ficção; tudo verdade. Talvez nossas próprias vidas sejam tudo ficção, tudo verdade. A nebulosidade limítrofe é onde o magista, o artista e o poeta tudo aguenta dentro de suas próprias cadências – e é claro que Grant era tudo isso, e perfeitamente confortável nesta zona de penumbra.
O notável escritor e mago Alan Moore escreveu uma divertida e erudita crítica19 deste livro, que eu entendo Kenneth Grant ter gostado muito. Em sua crítica Moore descreve o valor e o poder dos romances de Grant como emergindo de seu lugar único entre fato e ficção. Aqui, emoldurado em ficção, vemos magia despejar em nossa dimensão infundindo tudo o que toca. Grant é simultaneamente, extremamente brincalhão ainda que mortalmente sério. Oolak (mencionado acima) é uma forma de Conde Orlok de Nosferatu20. Mais uma vez, como a conexão Lovecraftiana através da qual Grant explorou o vampirismo em ritual desses nódulos ficcionais podem servir como entradas para as energias que sustentam a sua existência. Grant dá algumas dicas em seu trabalho sobre exatamente como ele trabalhava, e para entender mais disso, precisamos ler as entrelinhas e nos envolver em alguma especulação. Nós lemos alguns relatos fantásticos nos livros, como o seguinte de Hecate’s Fountain, o que dá o maior número de relatos das práticas que a loja Nu-Isis executou. Mais maravilhosamente lemos na página 53 da edição da Skoob:
“O salão estava preparado para exibir a vastidão nevada daquele abominável platô situação em regiões astrais que coincidem terrestrialmente com certas regiões da Ásia Central não precisamente especificado por Al Hazred. As paredes e o chão eram brancos, e brancos eram os sete caixões arrumados sobre cavaletes diante de um altar deslumbrantemente branco onde montes de neve brilhavam e traçou sobre as pistas de gelo suaves de três pirâmides … “21
Claramente precisamos ler descrições como esta com um olhar atento e perceber que Grant não está falando de alguma decoração em um quarto de hóspedes no andar de cima! Embora possa ter havido alguma decoração física no local de trabalho (dado os talentos artísticos de Kenneth e Steffi Grant), é duvidoso que um espaço para trabalho mágico seja tão grande. Um outro indício, porém, é sugerida a seguinte relato:
“O salão da loja foi preparado para a realização de um tipo de feitiçaria licantrópica e necromântica associada com dois específicos túneis de Set. Imagine, portanto, uma miniatura completa da versão mais complexa das cavernas de Dashwood com – em lugar das várias grutas providas para flerte sensual – uma série de celas em forma de concha, como vórtices petrificados, projetados com o único propósito de atrair em suas circunvoluções as energias ocultas de Yuggoth, e focalizando através delas os kalas de Nu Isis, representados por uma gigantesca vesica em forma de prisma. A decoração era sobrenatural ao extremo, as iluminações engenhosamente arranjadas a conferir um sinistro e cambiante jogo de luz e sombra combinados com audíveis imagens sugestivas de águas impetuosas e assobios de ventos astrais; uma atmosfera completamente estranha criada por poucos toques hábeis e de suprema qualidade artística.”22
Observe o uso de palavras e frases como imagine e ventos astrais. Tal terminologia é sugestiva de que essas configurações foram imaginadas na mente dos participantes do trabalho. Isso não é tão estranho quanto seria de se esperar, uma vez que as habilidades em visualização são cruciais para trabalho oculto, e está dentro dos olhos mentais em que o fenômeno é visto. Estamos todos familiarizados com a ideia de um palácio da memória, onde um edifício é visualmente perpetrado de memória como uma coleção de pontos de ancoragem que prendem objetos específicos em seu locus. Exatamente a mesma coisa está acontecendo aqui e Grant, enquanto escrevendo de uma forma evocativa, está, acredito eu, descrevendo como os participantes da Loja Nu-Isis começariam seu trabalho através da criação de um “espaço visual” interno como um local mental, pronto para contactar as entidades que estavam sujeitas ao ritual em andamento.
Um dos temas mais notáveis no corpo de trabalho de Kenneth Grant é seu reconhecimento do trabalho de outros ocultistas, como eles se prolongam na corrente do trabalho mágico que ele descreve. O mais notável destes superstars foi, naturalmente, o artista ocultista Austin Osman Spare, que era um amigo próximo de Kenneth e Steffi Grant até sua morte em 1956. Vale bem a pena obter uma cópia do Zos Speaks23 de Grant, que detalha a comunicação entre ele e Spare, bem como a publicação do grimório de Spare, The Book of Zos vel Thanatos. Muitas vezes se tem observado que sem Kenneth Grant continuamente a defender seu trabalho, haveria o perigo de que Spare tivesse sido esquecido atualmente. Certamente Spare, por ser um pouco recluso, tinha desaparecido da ribalta pública na época em que conheceu Kenneth Grant e seu retorno à proeminência só começou realmente em 1975, quando o livro de Grant, Images and Oracles of Austin Osman Spare24foi publicado. Percorremos um longo caminho desde as imagens monocromáticas encontradas neste livro quase quarentão, até os lindamente talismãnicos livros que as modernas editoras, como Starfire e Fulgur produzem hoje, em que podemos ver a arte gloriosa de Austin Spare pródigamente reproduzidas em cor de total alta definição.
Outro ocultista notável trazido a destaque pelo trabalho de Grant é Michael Bertiaux, cuja obra está recentemente experimentando um renascimento graças à reimpressão de seu famosíssimo obscuro e anteriormente inconseguível Voudon Gnostic Workbook25. Temos também Nema (mencionada nas Trilogias como Soror Andahadna), cuja peça canalizada Liber Pennae Praenumbra lindamente evoca o melhor de Thelema, falando de um universo mágico muito maior do que nós, cheio de mistério e maravilha.
Em livros posteriores de Grant nós até mesmo vemos referência ao falecido Andrew D. Chumbley, cuja reinicialização da bruxaria tradicional em seu Azoëtia26 remete a alguns dos temas desenvolvidos por Austin Spare em “The Witches Sabbath”. Há muitas outras referências a ocultistas emergentes no trabalho de Grant, e não pode haver a mínima dúvida que seu apoio ajudou a trazer esses escritores à atenção de ocultistas e, em alguns casos, de um público mais amplo.
Os escritos de Kenneth Grant tem sido publicados desde a década de 1960, e até sua morte recente, tinha havido sempre um novo livro para aguardar ansiosamente. Alan Moore nota em sua crítica de Against the Light27 “por que a maioria dos ocultistas que eu conheço, inclusive eu, têm mais ou menos tudo que Grant já tenha publicado descansando em suas prateleiras?” Apesar de sua morte, sua influência continua a crescer e estamos já vendo trabalhos de escritores enriquecidos pelas Trilogias Tifonianas movendo-se no lado diurno – por exemplo, o grupo experimental britânico English Heretic produziu um álbum chamado Tales of Nu-Isis Lodgee28que divertidamente coreografa os relatos em Hecate’s Fountain em música e a ficção fantástica encontrada na literatura e no cinema, como o filme original A Múmia29, Fungos de Yuggoth de Lovecraft30 e Invasores de Corpos31 que inspirou Grant.
Infelizmente o último título publicado foi o Grist to Whose Mill32, o qual, ironicamente, foi o primeiro romance de Kenneth Grant, escrito no início de 1950, que só agora emergiu da escuridão à luz para publicação. É triste que não veremos mais os maravilhosos e mágicos livros de Kenneth Grant embora a sua obra deva viver e crescer em nossos corações, mentes e almas.
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NOTAS:
(*)N.R. Perichoresis (pericorese) ou Interpenetração é um termo que surgiu na teologia cristã que aparece pela primeira vez em Gregório de Nazianzo. Do grego peri (“à volta”) e chorein (“conter”). Kenneth Grant em Hecate’s Fountain (pp. 17, cap.2), define o termo de maneira mais precisa como interpenetração de dimensões.
1Pertencente de informações, contatos e conceitos que se originam de “outro lugar” e entra na esfera da consciência humana através da inconsciência.
2A palavra sideral é usada aqui para descrever como uma perspectiva particular é necessária quando se olha para alguns dos conceitos e caracteristicas que Grant descreve.
4Arthur Machen, The Great God Pan, John Lane, 1984. Em língua portuguesa – O Grande Deus Pã, Editora Saída de Emergência, 2007
5John Keel, The Mothman Prophecies, Panther Books, 1975
6Daniel Harms and John Wisdom Gonce, The Necronomicon Files, Red Wheel/Weiser, 2003
*N.T. – Entusiasmo (do grego en + theos, literalmente ’em Deus’) originalmente significava inspiração ou possessão por uma entidade divina.
7Kenneth Grant, The Magical Revival, Muller, 1972. No Brasil, Renascer da Magia – as Bases Metafísicas da Magia Sexual, Editora Madras, 1999.
8Tecnicamente falando, gematria é o processo de atribuir números a palavras significativas e depois observar as palavras com o mesmo número para encontrar conexões significativas. Kenneth Grant expande isso com a gematria criativa que leva ainda mais longe as coisas, como veremos mais tarde.
9É interessante esta sugestão que a palavra possa ser Enoquiana em natureza.
**N.T. – Theodore Robert Cowell, mais conhecido como Ted Bundy foi um dos mais temíveis assassinos em série da história dos EUA durante a década de 1970.
***N.T.- Fluffy-bunny no original; “Coelhinho felpudo”, ou Fluffbunny, é uma expressão pejorativa usada, inicialmente na Wicca e, posteriormente no Neopaganismo e Ocultismo em geral, para se referir aos ‘adeptos’ considerados superficiais ou caprichosos. Ele são aqueles que não gostam de elementos mais sombrios e enfatizam a bondade, luz, ecletismo, e elementos retirados do movimento da ‘Nova Era’, ou os que seguem o neo paganismo e/ou o ocultismo como um modismo.
10Kenneth Grant, Gamaliel: The diary of a Vampire & Dance, Doll Dance, Starfire, 2003.
11Embora a ideia de um vampiro como um fantasma faminto de força vital seja muito importante e surja frequentemente no folclore e no ocultismo. No Brasil foi lançado como Paixão Diabólica – Editora Pensamento. 1988.
12Dion Fortune, Moon Magic, Red Wheel/Weiser, 2003. No Brasil, Sacerdotisa da Lua – Editora Pensamento. 1994.
****N.T. – John Anthony West é um egiptologo americano, autor, professor, guia e um pioneiro na hipótese em geologia de erosão hídrica da Esfinge. Robert M. Schoch é professor associado de Ciências Naturais da Faculdade de Estudos Gerais da Universidade de Boston. Ph.D. em geologia e geofísica pela Universidade de Yale, ele é mais conhecido por seu argumento de que a Grande Esfinge de Gizé é muito mais antiga do que convencionalmente se pensa e que, possivelmente, algum tipo de catástrofe foi responsável por exterminar evidências de uma civilização muito mais antiga.
13Tera. Ver de Bram Stoker – Jewel of the Seven Stars. No Brasil – A Joia das Sete Estrelas, Europa-América,1997 .
14Kenneth Grant, The Ninth Arch, Starfire Publishing, 2002, pp386
*****N.T. – Hammer Film Productions é uma companhia cinematográfica britânica especializada em filmes de terror.
15.Em Stoker ela é chamada Tera como um trocadilho com Margaret, a protagonista do conto. Tera é, claro, as últimas quatro letras de Marg(aret).
16Como Reencarnação (Awakening – 1980) e A Lenda da Múmia (Legend of the Mummy – 1997).
17Encontramos com este conto ecos do conto de Aleister Crowley The Dream Circean que é em si mesmo uma releitura de um antigo conto sobre uma pessoa que visitando e sendo entretida dentro de uma casa, apenas para descobrir um pouco mais tarde que tinha sido abordada por anos.
18Kenneth Grant, Hecate’s Fountain, Skoob, 1992
19Alan Moore, Beyond our Ken, publicado na revista KAOS 14, Londres, Kaos-BabalonPress, 2002, p155- 162
20Produzido por Enrico Dieckmann e estrelado por Max Schreck, Nosferatu, 1922.
Paolo Sammut é pesquisador e está sediado no Reino Unido. É interessado primeiramente em assuntos esotéricos e paranormal. Suas principais áreas de foco incluem Magia Cerimonial especialmente Enoquiana e a tradição Tifoniana, Alquimia Espagíria, Investigador psíquico e pesquisador de Paranormalidade. Ele mora em Somerset com uma confraria de gatos e sua mulher escarlate – ela própria uma feiticeira de nenhuma capacidade média.
O que é magia? Esta é uma questão que, mesmo em círculos esotéricos, levanta muita discussão. Vários autores e filósofos em todas as épocas teceram variadas interpretações a respeito do assunto. Entretanto, os elementos-chave de todas as definições existentes parecem concordar em apenas um ponto: Magia (ou Magick) envolve o uso da mente humana para causar uma alteração: Mudança no mundo, mudança do próprio indivíduo, mudança para com os outros. Aleister Crowley definiu mágica como “a Arte ou Ciência de causar uma mudança. Para que esta ocorra em conformidade com a Vontade”. Doreen Valiente define magia como “a ciência do controle das forças secretas da natureza”. Scott Cunningham chama a magia de “o movimento de energias naturais para criar uma mudança necessária”. Mas é Margot Adler que tem a definição que considero ser a mais interessante de todas. Ela diz:
“Magia é uma palavra conveniente para toda uma coleção de técnicas, todas as quais envolvem o uso da mente. Neste caso, veremos que todas estas técnicas envolvem a mobilização da confiança, vontade e emoção, direcionadas a partir do reconhecimento da necessidade, do uso das faculdades da imaginação, principalmente através da habilidade de visualizar, a fim de entender como outros seres funcionam na natureza para que possamos usar este conhecimento de forma a atingir os fins necessitados”.
Magia, portanto, é um instrumento da mente e, como tal é mental por natureza. Magia é um meio através do qual a vontade (Thelema), a emoção (Emotionem) e a imaginação (Imaginatio) criam uma mudança verdadeira no mundo físico. Como, porém, pode um instrumento mental e não físico criar uma alteração no mundo físico e corpóreo? A resposta está na Verdade de que o universo em si mesmo é Mental por natureza e que a mente é a chave para abrir os poderes do Cosmo.
“Substância” pode ser definida como aquilo que está por dentro de todas as manifestações exteriores. Atrás de toda aparência exterior neste mundo e em todos os outros mundos, deve existir uma realidade substancial. Um imenso Panteão de deuses e deusas mostra-nos como o homem tentar dar nome a esta realidade substancial.
Como John Barnes afirmou certa vez, “O Todo é a Realidade Substancial que está escondida em todas as manifestações de vida. O Todo é a Grande Avó -Avô que criou a si mesmo, que sempre existiu e que irá existir para sempre”
Uma das chaves para entender como o Universo funciona nos foi dada por Hermes-Toth, também conhecido como Hermes Trismegistus. Algumas pessoas o consideram um deus, outras um grande iniciado, e algumas ainda acreditam que este nome represente uma das primeiras Ordens Iniciáticas do Antigo Egito e Grécia, cujos trabalhos de seus Iniciados perduram até os dias de hoje, através da ciência conhecida como Hermetismo. A seguir, falarei um pouco sobre quem foi esta figura e o que ele nos deixou de legado.
Toth
Toth (ou Thoth) é considerada uma das divindades mais importantes do Egito. Também chamado de “O escriba dos Deuses”, ele é geralmente descrito como tendo a cabeça de um Íbis.
Sua contraparte feminina era Maat, deusa da Justiça, e seu principal templo ficava em Khemennu (que os gregos chamavam de Hermopolis e os árabes de Eshmunen). Mas Toth também tinha templos iniciáticos em Abydos, Hesert, Urit, Per-Ab, Rekhui, Ta-ur, Sep, Hat, Pselket, Tamsis, Antcha-Mutet, Bah, Amen-heri-ab e Ta-kens. Nestes templos, seus discípulos aprendiam as bases do que chamamos de “Livro de Toth”, ou como é conhecido pelos profanos, o Tarot. As 78 lâminas, também chamada “Espelho da Alma”, são capazes de reproduzir simbolicamente todos os fluxos de energia que permeiam uma situação (as pessoas acreditam que o Tarot serve para “prever o futuro” mas isto não é verdade. Seu uso principal é para autoconhecimento). Falarei mais sobre Tarot em posts futuros.
Ele era considerado o coração e a língua de Rá, assim como a vontade de Rá traduzida para a fala (o Verbo). Dentro do Panteão Egípcio, ele possuía diversas funções muito importantes (entre elas, ensinar a escrita, magia, ciência, astrologia e ajudar no julgamento dos mortos).
Toth também é responsável pelo governo dos Planetas e das estações. È chamado de “Senhor das palavras Sagradas” pois foi ele quem inventou os hieroglifos e os números. Por ter sido o primeiro magista, Toth possuía mais poder até mesmo do que Osíris ou Rá.
Em algumas representações, podemos vê-lo com a crescente lunar sobre sua cabeça e sua figura carregando uma palheta e cinzel. Toth possuía duas esposas, Seshat e Nehmauit. Seu festival principal acontecia no décimo nono dia do mês de Toth, alguns poucos dias após a lua cheia do começo do ano.
Toth é considerado deus da Magia, escrita, invenções, profecia, música, tarot, conhecimento, ciências, medidas, matemática, fala, oráculos, julgamento, desenhos, arquitetura, gramática, teologia, hinos, aprendizado, livros, registros Akashicos, paz e orações.
Hermes
Hermes também é tido como uma das mais importantes divindades gregas do Panteão Olímpico. Considerado o mais jovem dos deuses, ele é o protetor de todos os viajantes e ladrões, é o mensageiro dos deuses, responsável por levar a palavra dos deuses até os mortais (qualquer semelhança com Prometeu ou Lúcifer NÃO é mera coincidência); Hermes é o deus da eloqüência, ao lado de Apolo, é o Deus dos diplomatas e da diplomacia (que era chamada de Hermeneus pelos gregos) e é o deus dos mistérios e interpretações (da onde vem a palavra Hermenêutica). Além disto, era um dos únicos deuses que tinha permissão para descer ao Hades e partir quando desejasse. Todos os outros (incluindo Zeus) estavam sujeitos às leis de Hades.
Hermes tinha vários símbolos, mas os mais tradicionais eram as sandálias com asas, o caduceu (que curiosamente representa a Kundalini, duas serpentes enroscadas em um cajado) e a tartaruga (de cujo casco ele criou a primeira Lira).
Como inventor de diversos tipos de corrida e também das lutas, Hermes era considerado o patrono dos atletas. Finalmente, era tido como o inventor do Fogo (em alguns textos anteriores a Prometeu) e considerado um deus pregador de peças, que adorava aprontar com seus irmãos (isto desde seu nascimento, quando a primeira coisa que fez quando aprendeu a andar foi roubar os bois de Apolo e esconde-los). Hermes era patrono dos alquimistas, magos e filósofos.
Mercúrio
Para os romanos, Mercúrio surgiu da fusão do deus Turms (Etrusco) com as características de Hermes grego, em aproximadamente 400 AC. Mercúrio tornou-se assim o deus do comércio (em muitos países o símbolo do Caduceu é usado para indicar administração e não medicina), das estradas e das relações de diplomacia. Mercúrio não era tão popular entre os romanos como Hermes era entre os gregos, sendo considerado um deus menor dentro do Panteão romano.
Mercúrio era patrono do comércio, transportes, sucesso, magia, viagens, apostas, atletas, eloqüência, mercadores e mensageiros.
Hermes Trimegistus
Hermes Trismegistus é a tradução em latim e significa “Hermes, o três vezes grande”.
Trata-se do nome dado pelos neoplatônicos, místicos e alquimistas ao deus egípcio Toth ou Tehuti, identificado com o deus grego Hermes. Ambos eram os deuses da escrita e da magia nas respectivas culturas.
Toth simbolizava a lógica organizada do universo. Era relacionado aos ciclos lunares, cujas fases expressam a harmonia do universo. Referido nos escritos egípcios como “duas vezes grande”, era o deus do verbo e da sabedoria, sendo naturalmente identificado com Hermes. Na atmosfera sincrética do Império Romano, deu-se ao deus grego Hermes o epíteto do deus egípcio Toth.
Como “escriba e mensageiro dos deuses”, no Egito Helenístico, Hermes era tido como o autor de um conjunto de textos sagrados, ditos “herméticos”, contendo ensinamentos sobre artes, ciências e religião e filosofia – o Corpus Hermeticum – cujo propósito seria a deificação da humanidade através do conhecimento de Deus. É pouco provável que todos esses livros tenham sido escritos por uma única pessoa, mas representam o saber acumulada pelos egípcios ao longo do tempo, atribuído ao grande deus da sabedoria.
Segundo Clemente de Alexandria, eram 42 livros subdivididos em seis conjuntos. O primeiro tratava da educação dos sacerdotes; o segundo, dos rituais do templo; o terceiro, de geologia, geografia, botânica e agricultura; o quarto, de astronomia e astrologia, matemática e arquitetura; o quinto continha os hinos em louvor aos deuses e um guia de ação política para os reis; o sexto era um texto médico.
Também é creditado a Hermes Trismegistus, “O Livro dos Mortos” ou “O Livro da Saída da Luz” e o mais famoso texto alquímico – a “Tábua de Esmeralda”.
Os Escritos Herméticos
Os escritos Herméticos são uma coleção de 18 obras Gregas. Estes escritos contêm os aspectos teórico e filosófico do Hermetismo em seu aspecto teosófico. O período bizantino é marcado por uma outra coleção de obras herméticas, que também são relacionadas ao Hermes Trismegistus e contêm uma tradição hermética popular a qual é composta essencialmente por escritos relacionados a astrologia, magia e Alquimia. Esta versão popular encontra sustentação ou base nos diálogos Hermeticos, apesar dele se distanciar da magia.
A prática da magia entretanto não está distante das praticas realizadas no antigo Egito, a qual em uma última análise é a fonte de todos os diálogos herméticos, pois o Hermetismo lá floresceu e, portanto estabelece uma conexão entre as duas tradições Hermeticas: filosófica e magia.
Os ensinos de Hermes-Toth chegaram à atualidade baseados em escassos documentos que constituem o “Kabalion“, “A Tábua da Esmeralda“, “Pistis Sophia“, “Corpus Hermeticum“, e alguns outros papiros. Naturalmente que o acervo de ensinamentos de Toth estão contidos em muitos outros documentos que foram preservados e mantidos sob a guarda de Ordens Iniciáticas. Tratam-se de documentos originais e cópias que foram preservados do incêndio da Biblioteca de Alexandria. Entre os documentos preservados existem aqueles que deram base ao desenvolvimento da Alquimia.
As sete Leis Herméticas
As sete principais leis herméticas se baseiam nos princípios incluídos no livro Kabalion que reúne os ensinamentos básicos da Lei que rege todas as coisas manifestadas. A palavra Kabalion, na língua hebraica significa tradição ou preceito manifestado por um ente de cima. Esta palavra tem a mesma raiz da palavra Kabbalah, que em hebraico, significa recepção. De acordo com Hermes Trismegistus:
Lei do Mentalismo
O universo é mental ou Mente. Isso significa que todo universo fenomenal é simplesmente uma criação mental do TODO… Que o universo tem sua existência na Mente do TODO.
Uma outra maneira de dizer isso é: “tudo existe na mente do Deus e da Deusa que nos ‘pensa’ para que possamos existir. Toda a criação principiou como uma idéia da mente divina que continuaria a viver, a mover-se e a ter seu ser na divina consciência.”
“O Universo e toda a matéria são consciência do processo de evolução.”
Minha opinião é que toda a matéria são como os neurônios de uma grande mente, o universo consciente, que “pensa”.
Todo o conhecimento flui e reflui de nossa mente, já que estamos ligados a uma mente divina que contem todo o conhecimento.
É claro que não estamos conscientes de “todo o conhecimento” em qualquer momento dado, por que seria uma tarefa exorbitante manuseá-lo e processa-lo e ficaríamos loucos no processo.
Os cinco sentidos do cérebro humano atuam tanto como filtros como fontes de informação. Eles bloqueiam uma considerável soma de informação caso contrário seriamos esmagados por informações que nos bombardeiam minuto a minuto como sons, cheiros e até idéias, não seriamos capazes de nos concentrarmos nas tarefas especificas em mãos. Mas sob condições corretas de consciência podemos moderar, ou até desligar o processo de filtração, com a consciência alterada, o conhecimento universal (Registros Akáshicos) torna-se acessível.
Lei da Correspondência
“Aquilo que está em cima é como aquilo que está embaixo.”
Essa lei é importante porque nos lembra que vivemos em mais que um mundo.
Vivemos nas coordenadas do espaço físico, mas também vivemos em um mundo sem espaço e nem tempo.
A perspectiva da Terra normalmente nos impede de enxergar outros domínios acima e abaixo de nós. A nossa atenção está tão concentrada no microcosmo que não nos percebemos o imenso macrocosmo à nossa volta. O principio de correspondência diz-nos que o que é verdadeiro no macrocosmo é também verdadeiro no microcosmo e vice-versa.
Portanto podemos aprender as grandes verdades do cosmo observando como elas se manifestam em nossas próprias vidas.
Por isso estudamos o universo: para aprender mais sobre nós mesmos.
Na menor partícula existe toda a informação do Universo.
A Lei da Correspondência, em conjunto com a Lei da Causa e Efeito, é a explicação para o funcionamento perfeito do Tarot e da Astrologia, bem como de todos os outros oráculos.
Lei da Vibração
“Nada está parado, tudo se move, tudo vibra”
No universo todo movimento é vibratório. O todo se manifesta por esse princípio. Todas as coisas se movimentam e vibram com seu próprio regime de vibração. Nada está em repouso. Das galáxias às partículas sub-atômicas, tudo é movimento.
Todos os objetos materiais são feitos de átomos e a enorme variedade de estruturas moleculares não é rígida ou imóvel, mas oscila de acordo com as temperaturas e com harmonia. A matéria não é passiva ou inerte, como nos pode parecer a nível material, mas cheia de movimento.
A Lei da Vibração rege toda a comunicação entre espíritos e matéria, bem como a conjuração de elementais, devas, exús, orixás, anjos enochianos e qualquer outro tipo de serviçal astral. Também rege os princípios de atração e repulsão entre indivíduos, a harmonia e as egrégoras.
Lei da Polaridade
“Tudo é duplo, tudo tem dois pólos, tudo tem o seu oposto. O igual e o desigual são a mesma coisa. Os extremos se tocam. Todas as verdades são meias-verdades. Todos os paradoxos podem ser reconciliados”
A polaridade revela a dualidade, os opostos representando a chave de poder no sistema hermético. Mais do que isso, os opostos são apenas extremos da mesma coisa. Tudo se torna idêntico em natureza. O pólo positivo + e o negativo – da corrente elétrica são uma mera convenção.
O claro e o escuro também são manifestações da luz. A escala musical do som, o duro versus o flexível, o doce versus o amargo. Amor e o ódio são simplesmente manifestações de uma mesma coisa, diferentes graus de um sentimento.
Lei do Ritmo
“Tudo tem fluxo e refluxo, tudo tem suas marés, tudo sobe e desce, o ritmo é a compensação”
Pode se dizer que o princípio é manifestado pela criação e pela destruição. É o ritmo da ascensão e da queda, da conversão da energia cinética para potencial e da potencial para cinética. Os opostos se movem em círculos.
É a expansão até chegar o ponto máximo, e depois que atingir sua maior força, se torna massa inerte, recomeçando novamente um novo ciclo, dessa vez no sentido inverso. A lei do ritmo assegura que cada ciclo busque sua complementação.
Lei do Gênero
“O Gênero está em tudo: tudo tem seus princípios Masculino e Feminino, o gênero se manifesta em todos os planos da criação”
Os princípios de atração e repulsão não existem por si só, mas somente um dependendo do outro. Tudo tem um componente masculino e um feminino independente do gênero físico. É semelhante ao principio com o principio animas animus que Carl Jung e seus seguidores popularizaram, ou seja que cada pessoa contém aspectos masculinos e femininos, independente do seu gênero físico, nenhum ser humano é 100% homem ou mulher, e isso é até astrologicamente explicado, uma vez que todos somos influenciados por todos os signos (uns mais, outros menos), e metade do zodíaco é feminino, enquanto que a outra metade é obviamente masculina (Esse é mais um argumento que suporta a igualdade entre Deus/Hochma e Deusa/Binah dentro das Esferas da Kabbalah).
Em todas as coisas existe uma energia receptiva feminina e uma energia projetiva masculina, a que os chineses chamavam de Yin e Yang.
Lei de Causa e Efeito
“Toda causa tem seu efeito, todo o efeito tem sua causa, existem muitos planos de causalidade mas nenhum escapa à Lei”
Nada acontece por acaso, pois não existe o acaso, já que acaso é simplesmente um termo dado a um fenômeno existente e do qual não conhecemos e a origem, ou seja, não reconhecemos nele a Lei à qual se aplica.
Esse princípio é um dos mais polêmicos, pois também implica no fato de sermos responsáveis por todos os nossos atos e é muito mais cômodo deixar os acontecimentos ao “acaso” ou ao “divino”. Também é conhecido como Lei do Karma.
Hermes/Toth na Kabbalah
A Árvore da Vida representa um mapa dos estados de consciência humanos. Vamos falar mais detalhadamente sobre isso em posts futuros, mas vou fazer a referência agora e vocês podem retornar e ler novamente este texto mais tarde, ok?
Em razão de sua eloqüência e inteligência privilegiada, Mercúrio está associado na Kabbalah à oitava esfera (sephira), chamada Hod (explendor). Hod representa a razão pura, a lógica, a matemática, o ceticismo e os desertos dos códigos rígidos e cartesianos, em contraste com Netzach (Vênus) que representa a Emoção Pura.
Hod está associado ao Planeta Mercúrio, ao metal mercúrio, ao incenso de sândalo, Mastic e Storax, à cânfora, lavanda, lírios, marjoran e mirtila e ao caduceu. Seu elemento é o Ar.
Hod influencia os Caminhos Shin (31), a Inteligência Perpétua, conectando a Razão ao Plano Material, servindo de filtro entre as idéias que permeiam o mundo material e o que pode ser aproveitada delas (este é literalmente o caminho do despertar dos céticos), Resh (30), o Sol, que conecta a Razão ao Plano Astral, perfazendo a segunda trilha que um mago deve percorrer na consciência, usando a razão de maneira questionadora no Plano Astral, Peh (27), a Torre, o caminho turbulento que conecta a esfera da Razão Pura à esfera da Emoção Pura. Imaginar este estado de consciência é como colocar um fanático cético com um fanático religioso para discutir. Mais cedo ou mais tarde, a estrutura vai rachar ao meio. Da conexão entre Hod e Tiferet (Sol) há o Caminho 26, Ayin, o Diabo, o caminho da iluminação através da razão ou através do Caminho da Esquerda, como vocês já devem ter ouvido falar por aí. O famoso “Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei” e finalmente, o caminho 23, Mem, que liga a Razão às planícies de provação de Marte/Geburah, simbolizando a estagnação do Enforcado.
[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/a-espada-de-damocles-dentro-das-calcas/ […]