Almas Vintage

Shirlei Massapust

Em mandarim yāo (妖) significa um monstro, geralmente de origem exógena, com corpo formado de ectoplasma modelável, como o ātman (आत्म) do hinduísmo. Este termo passou para o nihongo como prefixo de palavras tais como yōkai (妖怪) ou monstro misterioso, yōma (妖魔) ou monstro mágico, yōtō (妖刀) ou kataná monstruosa, etc. Menos frequentemente yāo pode designar um humano que se tornou feiticeiro ou até um fantasma. Geralmente os imaginamos com má aparência, embora a partícula ocorra também em termos venturosos como yōen (妖艶), que designa uma personagem encantadora, sensual. A palavra utilizada para traduzir o inglês faery (fada) é geralmente yāojing (妖精), em mandarim, yojeong (요정) em hangul e yōsei (妖精) em nihongo.

Um ponto leva a outro. Pelas sílabas de yōkai (妖怪) obtemos os sinônimos yōbutsu (妖物) e kaibutsu (怪物), designando poder de mutação; algo que nos leva em trilha semântica ao bakemono (化け物), um ser com poder de metamorfose, apto a assumir ao menos duas formas distintas. Outras combinações do superlativo honorífico o (お) com bake (化け, mudando, corrompendo)[1] e o substantivo mono (物, objeto) dão-nos as variantes sinônimas obake (お化け) e obakemono (お化け物).[2]

No Japão uma casa mal assombrada é uma bakemono-yashiki (化物屋敷). No folclore oriental o ser humano tem ki (氣), uma força vital que nos sustenta e se espalha pelo meio-ambiente do mesmo modo que deixamos fios de cabelo, células mortas, fragmentos de unhas, suor, etc., para traz. Enquanto nossos restos matérias atraem ácaros que produzem fezes, nossos restos de carga atraem yōkai que, por sua vez, recarregam o ambiente com rastros de sua potência mutagênica e vivificante.

Casas repletas de mobília antiga e objetos que nunca são renovados acumulam carga até as coisas entrarem num estado de existência animista[3] indicativo da corrupção ou mudança, chamado de tamashī (魂), reikon (靈魂), konpaku (魂魄) e hakurei (魄霊)[4] em diferentes épocas. Isto que hoje conhecemos por bakemono é um corpo material (objeto, animal ou pessoa) que prodigiosamente muda daquilo que era antes para algo que vem a ser. Um exemplo: No templo budista Mannenji, localizado em Iwamizawa, Hokkaido, existe uma boneca chamada Okiku (お菊人形), antiga e já bastante erodida.

A tradição oral revela que este item foi comprado por Eikichi Suzuki, um rapaz de dezessete anos, no ano 1918, em Tanuki-Koji, na ilha Sapporo. Eikichi Suzuki deu Okiku à sua irmã de três anos, chamada Kikuko ou Kiyoko. A menina amou o presente e não se separou da boneca até morrer de virose no ano seguinte. Após a cremação do corpo da menina, Okiku foi posta no oratório da família bem ao lado da urna funerária. Com o passar do tempo o corte de cabelo em estilo okappa, antes nos ombros, alongou visivelmente. A família interpretou a mudança como sinal de que a sombra da morta penetrou naquele objeto por osmose, vivificando-o.

Em 1938 a família Suzuki se mudou para Sakhalin e doou Okiku ao templo, onde permanece exposta até hoje, junto à urna contendo as cinzas da falecida. Todos os anos romeiros participam duma cerimônia em memória de Okiku. Dizem que os olhos da boneca causam sensação de vigilância real. Dizem que sua boca abriu e que cabelos continuam a crescer. Graças à boneca, este templo acabou virando atração turística.[5]

É triste quando o bonequeiro, ningyōshi (kanji 人形師, kana にんぎょうし), fabrica o boneco, ningyō (kanji 人形, kanaにんぎょう), com propósitos artísticos e o item acaba na fogueira porque alguém julgou aquele objeto como algo capaz de absorver a moléstia e curar uma criança adoentada quando posto no leito onde ela dorme.

No Japão as bonecas não são apenas brinquedos infantis e muitas vezes representam símbolo da história dos costumes do país. Elas são chamadas de ningyō e ao longo de toda a história do Japão foram sofrendo pequenas modificações. As primeiras referências de bonecos são os haniwa, estatuetas de barro encontradas em tumbas pré-históricas, onde o que menos contava era o apelo decorativo. No período Heian (794-1185) eram usados para afastar demônios.

Inicialmente as bonecas eram muito simples, moldadas em palha ou papel sendo que as primeiras serviam para afastar epidemias e eram colocadas nas fronteiras das antigas aldeias. E para purificar corpo e alma, se usavam bonecas feitas de papel que depois eram jogadas no rio para levar embora os maus fluídos. (…) Durante o fechamento do país para o mundo, no período Edo (1603-1868), o país desenvolveu uma cultura própria. Neste período as bonecas ainda carregavam uma forte superstição pois muitas pessoas as tinham como amuleto para afastar pragas de plantações ou para garantir um bom parto. Mas foi em meio a esta mentalidade que surgiram as karakuri, bonecas que tocavam instrumentos e dançavam através de um sistema simples de cordas retorcidas, roldanas e fios.[6]

Noutro artigo já mencionamos a lenda da yōtō (妖刀), espada de uso bélico que se apega à sua função social, tem sede de sangue e induz qualquer usuário a continuar matando mesmo em tempos de paz. Outros artefatos de uso militar também podem ganhar vida, conforme narrativas folclóricas e artísticas. O abumi-guchi (鐙口) é o estribo de hipismo, utilizado por um comandante militar, que com o tempo se transforma numa criatura peluda.[7] Certa vez Ozamu Tezuka preencheu uma página do gibi Dororo (どろろ) com um único quadro onde equinos sem cabeça, de pescoços flamejantes, galopam assustando o protagonista. Parecem com a mula-sem-cabeça do folclore brasileiro.

Não é normal num gibi que o desenhista gaste uma página inteira com apenas um quadro, especialmente contendo uma cena desprovida de pertinência temática com o roteiro. Na página seguinte o menino sonha com o passado, lembrando de como ele se tornou um órfão predestinado à vida de ladrão.[8] Seriam aqueles cavalos de guerra decapitados anunciadores de pesadelos?[9] Na esperança de obter mais informações procurei pela primeira versão animada de Dororo (どろろ; 1969) cuja música da abertura e encerramento é pausada pela recitação de poemas por uma voz feminina. Na primeira interrupção ela fala sobre as posses do samurai moeru yoroini (燃えるよろいに) ou “armadura flamejante” e moeru uma (燃える馬) ou “cavalo flamejante”:

赤い夕日に照り映えて

燃えるよろいに燃える馬

天下めざしてつきすすむ

 

No crepúsculo vermelho

Armadura em chamas, cavalo em chamas

Correndo veloz, galopando pelo mundo[10]

Na abertura do remake de Dororo (どろろ; 2019) vemos a cena do quadrinho onde vários cavalos sem cabeça galopam numa fração de segundo e não tornam a aparecer no seriado em si, assim como nunca vemos a cena da putrefação do cadáver do protagonista igualmente presente naquela amostragem.

Nossa energia impregna num animal doméstico mimado em excesso do mesmo modo que entra em objetos estimados. Por isso a forma primária dum bakemono pode ser um ser vivo, como o bakeneko (化け猫, gato metamorfo). Um animal selvagem que atinge idade avançada para muito além do normal também se transforma, como o bake-danuki (化け狸, tanuki metamorfo). Isso é o contrário das lendas ocidentais de homens que viram animais (lobisomem, capelobo, etc.) pois no caso nipônico é o gato, o tanuki, a raposa, etc., que vira gente temporariamente ou reencarna como gente.

Quando itens domésticos ganham vida e senciência eles ainda estão apegados aos velhos usos e atuam de modo obsessivo compulsivo. Sendo assim, na China uma zhǒu shén (箒 神), chamada no Japão de wawakigami (ははきがみ), é uma vassoura que, descontroladamente, varre sozinha as folhas que caem em dias de vento frio.[11]

Objetos domésticos de uso regular só se tornam agressivos quando passionais, podendo buscar vingança contra pessoas que os inutilizaram ou os jogaram no lixo. Por conta disso, alguns santuários oferecem o serviço de “consolar” objetos quebrados ou que não são mais usados.[12] Muitos países como a Tailândia, por exemplo, constroem templos para alguns objetos com fama ou origem sobrenatural.[13] No Japão cerimônias de consolação são realizadas em templos budistas e xintoístas. Por exemplo, existe o festival hari kuyō (針供養), celebrado em 8 de fevereiro na região de Kanto, mas em 8 de dezembro nas regiões de Kyoto e Kansai, onde as costureiras levam suas agulhas quebradas para agradecer os préstimos antes do descarte.[14] Assim elas não as furam.

Ningyō kuyō (人形供養) é um serviço de memorial para bonecas antigas, com presença de gueixas e monges, onde as famílias agradecem os préstimos dos objetos que cumpriram sua função social fazendo companhia e protegendo suas crianças, mas que perderam a utilidade e foram entregues à cremação. Isto ocorre desde sempre no templo zen-budista Hōkyō-ji (宝慶寺), em Kyoto, conhecido como Templo dos Bonecos devido ao seu acervo de peças imperiais coletadas e acumuladas durante séculos.[15] Posteriormente o mesmo costume foi introduzido no templo Kiyomizu Kannon-dō (清水観音堂), em Tokyo, e virou matéria da revista Superinteressante (agosto de 1992).

No Japão, até hoje as duas definições (boneca e ídolo) se misturam tanto quanto se misturavam entre romanos e gregos. Há pelo menos 900 anos, todo dia 3 de março, as meninas reverenciam a casa imperial reunindo suas bonecas prediletas numa grande festa. Uma a uma, todas as bonequinhas são visitadas, apresentadas às amigas e, durante o chá, têm o privilégio de serem servidas em primeiro lugar. (…) Para os japoneses, bonecas têm espírito. (…) Ainda hoje, muitos japoneses acreditam que, colocada no leito de uma criança doente, a boneca pode levar a moléstia embora. Se presenteadas no dia do casamento, são consideradas símbolo de prosperidade e felicidade conjugal para o jovem casal. Há pouco mais de vinte anos, o sindicato dos fabricantes e comerciantes de Tóquio aproveitou a deixa dessa crença para promover um grande lance comercial chamado ningyō kuyō. Tradução: “consolo da alma das bonecas”, ritual de cremação que se tornou tradicional na capital japonesa. Todo dia 25 de setembro, as mulheres estéreis que obtiveram a graça de ter um filho levam uma boneca para ser cremada no templo Kiyomizu-Kannon-dō. A ideia é que, queimando a boneca, seu espírito carregado do desejo de maternidade vai embora com a fumaça e a criança pode crescer em paz. Vai-se o espírito infantil, fica o comercial.[16]

Na antologia de poemas Ise monogatari (伊勢物語), seção 63, datada do século IX, lemos a palavra tsukumogami (つくも髪) referente aos cabelos brancos, kami (髪), duma idosa. Setecentos anos depois o autor-ilustrador do pergaminho Tsukumogami emaki (付喪神絵巻) explicou que o intraduzível prefixo tsukumo na palavra tsukumogami (desta vez 付喪神) também poderia ser escrito com o kanji 九十九, que significa um período de noventa e nove anos. Sendo assim uma ferramenta ou utensílio doméstico desenvolveria um espírito evoluído após a passagem de noventa e nove anos. Mas há um problema: A truncagem de kami (髪, cabelo) por kami (神, divindade) sugere que ele não entendia o sentido original de tsukumogami ou formulou um homônimo homófono.            Segundo o pergaminho do século XVI, à época as pessoas descartavam objetos antes de completarem o período chamado de susu-harai (煤払い). Conforme exposto, se demorassem mais a ferramenta “mudaria e adquiriria um espírito, e enganaria o coração das pessoas”. Tal ensinamento constaria no livro Onmyō Zakki (陰陽雑記), livro que também informaria sobre a coisa vivificada que assume aparência humana, tanto masculina quanto feminina, tanto idosa quanto jovem; bem como “a semelhança de chimi akki” (aparência de oni) e “a forma de korō yakan” (forma de animais), entre outras. Seu aspecto após a mutação é referido com palavras como youbutsu (妖物).[17]

Há dúvidas sobre se o susu-harai é, de fato, um período de exatos noventa e nove anos porque tsukumo (九十九) pode se referir literalmente a um número ou, menos precisamente, a uma hipérbole no sentido de muito tempo. A boneca Okiku só precisou de um ano para adquirir uma natureza espiritual pois isso representou um terço da vida de sua dona, que a amou com intensidade, agonizou e morreu com ela. No primeiro volume do romance gráfico Tokyo Babylon (東京BABYLON), do grupo CLAMP, editado pela Shinshokan, em 1990, uma personagem adoece e apresenta comportamentos estranhos após comprar uma jaqueta numa liquidação de roupas. Subaru descobre que a jaqueta ficou carregada de energia negativa por conta da competição da clientela por aquele objeto, ao ponto de aquilo necessitar de exorcismo.[18]

Papéis encantados

No Japão, em templos da religião xintó, são vendidos ofuda (御札), que são amuletos de papel produzidos por monges para atrair o amor, a saúde, a prosperidade financeira e até proteger contra mal olhado e fantasmagorias. Do mesmo modo, no taoísmo e noutras religiões chinesas, existe o jufu (呪符) ou gofu (護符), amuleto de papel ou madeira produzido para finalidades que mudam conforma a inscrição.

Os ofuda tem efeito imediato porque o monge xintó é competente para canalizar a energia dos kami (神) aos quais ele presta culto. Porém existem métodos para o leigo carregar papel com os eflúvios energéticos de origem humana, de modo voluntário ou involuntário. Hoje há todo um ritual construído em torno da tradição de confeccionar, expor e descartar o washi ningyō (和紙人形); um ningyō (人形) ou boneco feito de washi (和紙), tipo de papel artesanal feito a partir das cascas das árvores das amoreiras.

Livro de arte com fotografias de washi ningyō produzidos pela artesã japonesa Eika Ito.[19]

Dizem que o washi ningyō teria o poder de remover a dor quando posto no leito dum enfermo que dorme. Logo depois, o boneco descartável carregado pela energia da enfermidade deve ser cremado ou levado para longe e dissolvido em água.

Fotos: 1) washi ningyō produzidos pela fábrica Kyugetsu representando Shinzo Abe, o Primeiro Ministro do Japão, e Caroline Kennedy, Embaixatriz dos Estados Unidos no Japão. (Foto © 2014, The Japan Times). 2) Monges levando um barco cheio de bonecos para o rio.

Com o passar dos séculos este rito individual originou uma festa coletiva. Hina-ningyō (雛人形) é um washi ningyō introduzido no festival Hinamatsuri (雛祭り), o “Dia das Meninas”, realizado anualmente por japoneses e italianos descendentes de japoneses. Neste festival inúmeros bonecos são expostos sobre carpete vermelho.

Bonecos de papel ou palha representando a corte imperial, com roupinhas em estilo antigo, são levados para templos onde ficam expostos ao público desde meados de fevereiro até o dia três de março. Depois o excesso é cremado pelos monges. Contudo, muitos ainda chegam ao fim do procedimento onde as pequenas figuras humanas são postas para navegar à deriva em barquinhos de madeira, empurrados pela correnteza dos rios ou pelo movimento das ondas.  Estes se tornam hina-nagashi (雛流し), bonecos flutuantes, que levam as doenças e problemas com eles para longe.

No Brasil existe um costume parecido onde, no dia do Réveillon, os umbandistas pulam sete ondas na Praia de Copacabana e enviam oferendas para Iemanjá dentro de réplicas de barcos em miniatura que podem ou não conter uma imagem da santa.

No Japão até um maço de papel pode ser imbuído de poder mágico. Kyōrinrin ( 経凛々) é um bakemono resultado da transmutação de pergaminhos, livros, etc., que foram negligenciados e deixados sem leitura[20] por bastante tempo. Antigamente o papel branco era produzido com fibras da planta chamada asa (麻) ou o (苧), conhecida em botânica como Cannabis sativa. Havia grandes campos de plantações destinadas a este fim. Na ausência de nanquim a tinta era obtida de materiais biológicos, como gema de ovo e sangue animal. Segundo Aline Ribeiro, durante o shogunato de Tokugawa (1853-1867) os samurais eram submetidos a um rito de passagem:

A lealdade tinha certos rituais muito profundos, como um “contrato” firmado entre o guerreiro e seu daimyō. O documento era escrito com o sangue do próprio samurai, assinado e, logo em seguida, queimado. As cinzas eram dissolvidas em água e bebidas, fazendo com que se criasse um laço eterno entre a linhagem do samurai e a do senhor.[21]

Coisas estranhas acontecem quando um papel impregnado de energia aleatória não é cremado nem exposto aos elementos. Muitos acreditam que o shōji – tipo de porta deslizante feita de papel de arroz, – assim como as fechaduras e outras benfeitorias necessárias do lar, se transmutam em mokumokuren (目目連) e tendem a criar muitos olhos quando deteriorados e esburacados pelo tempo ou pela má conservação.[22]

A lanterna chōchin (提灯お), feita de bambu ou papel de seda, é um objeto de grande beleza, onipresente na decoração nipônica. O yóuzhǐ sǎn (油纸伞), um guarda chuva de papel em estilo chinês, é estruturalmente semelhante ao kasa (傘), o guarda-chuva comum, porém se trata dum item decorativo que os noivos carregam na cerimônia de casamento. Se alguém decidir guardar estes apetrechos perecíveis e descartáveis, em algumas décadas eles se tornarão os monstros folclóricos chōchin-obake (提灯お化け) e kasa-obake (傘おばけ)[23]. Assim como um gato doméstico muito mimado pode se tornar um bakeneko (化け猫), um tanuki eventualmente evolui para bake-danuki (化け狸) e outros animais da fauna local se convertem nas mais variadas fantasmagorias.

Um kasa-obake não precisa necessariamente evoluir de um yóuzhǐ sǎn, mas suponhamos que assim seja. Como todo bakemono ele é um objeto imbuído da força vital projetada por alguém que congelou sentimentos experimentados à época de sua posse. Quem não deseja mudar de atitude ou de opinião faria bem em ter um bakemono amigo. As emoções impregnadas na memorabilia nupcial carregariam e vivificariam o objeto de estimação que transmuta a haste de sua alma artificial num corpo sutil e abre as asas na forma do animal que lhe é mais semelhante: Um elegante morcego.

Este quiróptero etéreo promoveria a união do casal evocando a lembrança daqueles momentos felizes. Enquanto o objeto existisse, ele faria tudo para não deixar seus proprietários se separarem, brigarem ou pararem de desejar um ao outro. Contudo, se fosse jogado fora ou acabasse nas mãos de outrem, por herança ou mero acaso, tumultuaria a vida alheia tentando controlar sua vontade para realizar sua função social. Enfim, o novo dono viraria um mulherengo, um libertino, ou se apressaria a casar.

Ilustração de Hokusai representando um chōchin-obake (1826/1837) e detalhe de uma ilustração de Yoshitoshi (1839-1892) figurando um provável kasa-obake ou morcego associado ao guarda-chuva. Ele pode ser a alma do objeto porque, em nihongo, uma das palavras sinônimas tanto de quirópteros quanto de guarda-chuvas é kōmori (コウモリ ou こうもり), por causa dos dedos e estruturas que suportam tecidos esticados. Cesar Gordon observou que em mebêngôkre, o idioma dos indígenas Kayapó, os guarda-chuvas também são chamados de morcegos (njêp).[24]

No início não havia nenhuma padronização da aparência de objetos mutantes na arte nipônica. E nem seria lógico se houvesse; afinal, eles têm poder de mutação. Hoje, contudo, a variação na aparência depende do tipo de item que os originou, assim como as condições de como o objeto estava. [25] Imagens da lanterna chōchin-obake (提灯お化け), do guarda-chuva kasa-obake (傘おばけ), do chinelo de palha bakezōri (化け草履) e doutros objetos que viram obake muitas vezes os mostram fazendo careta, com língua de fora, certamente por influência do padrão iconográfico estabelecido na era Kanei (1848-1853) pelo bonequeiro Hikoshichi Nishijinya (西陣屋彦七), natural da cidade Kumamoto, criador do boneco mecânico obake no Kinta (おばけの金太).

Arte em de papel machê: 1) Cabeças vermelhas e outros brinquedos obake no Kinta que exibem as línguas na Loja de Bonecos Atsuga (厚賀人形店), em Kumamoto, Japão.[26] 2) Máscara “O Linguarudo” representando o diabo, produzia por Dionísio (1909-2007), em Niterói, RJ, Brasil.

Este brinquedo folclórico tem aspecto duma cabeça humana ou animal de papel machê, fixada sobre haste de bambu, com engrenagens internas que permitem mover os globos oculares, abrir a boca e mostrar a língua quando puxamos uma corda.[27] Os descendentes de Hikoshichi Nishijinya ainda fabricam o brinquedo e explicam que seu nome era Kinta, porém alguém se assustou com o movimento e supôs ser um obake.

Oposição entre valores morais e pecuniários

Uma antiga lenda diz que Bodhidharma () atingiu o nirvana meditando durante nove anos numa caverna. Durante esse exercício meditativo ele permanecia imóvel, observando fixamente o vazio numa posição chamada bìguān (壁觀) ou “olhar perene” até suas pupilas ficarem reduzidas ao tamanho mínimo. Depois que o fundador do zen-budismo na China se mumificou em vida, os chineses começaram a esculpir santos e brinquedos verdadeiros sem pupilas em sua homenagem, transmitindo a tradição aos japoneses que hoje fabricam o boneco-amuleto Darumá (だるま).

Diz a lenda que Bodhidharma meditou em uma caverna por 9 anos sem nem ao menos piscar. Sua persistência foi tão forte, que ele continuou sem parar mesmo depois de seus braços, pernas e pálpebras caírem. Essa lenda (…) é a origem do formato redondo do Darumá. Os Darumás possuem mais peso na parte inferior para que fiquem de pé, não importa quantas vezes sejam derrubados.[28]

Na tradição zen-budista japonesa o devoto compra o Darumá cego, pinta uma pupila no olho esquerdo e faz um desejo. Quando o Bodhidharma atende este desejo o devoto retribui concedendo a visão do olho direito, desenhando a pupila que falta. Esses são bonecos inarticulados, humildes, feitos de materiais baratos, geralmente vendidos em feiras e festivais religiosos, mas também em lojas de souvenir. Ao fim de um ano é preciso devolver o Darumá para qualquer templo, onde ele será queimado num ritual, liberando o seu espírito. Esse ritual pode ser individual ou coletivo. Em razão da enorme demanda, desde 1954 o templo budista Nishiarai Daishi (西新井大師) promove o festival Darumá kuyō (だるま供養) onde milhares de exemplares são queimados juntos.

No Japão, China e Coréia do Sul é comum encontrar bonequeiros e vidraceiros produtores de olhos para bonecos de Resina PU com opções de íris monocromática, sem pupilas, disponíveis inclusive em cores fantasia como salmão e vermelho vivo. A artesã chinesa Heise Jin Yao (黑色禁药) é uma entre os muitos comerciantes de olhos para BJD que parodiam a iconografia do Darumá. Porém seus bonecos não são santos conservadores e ninguém os queimaria em sã consciência, pois hoje cada um chega a valer mil dólares americanos. Eles são personagens fantásticos de novelas de temática BDSM. Um deles, Huika (毁卡), teve o nome inspirado por Huìkě (慧可), discípulo de Bodhidharma, segundo patriarca da escola de zen-budismo na China, historicamente conhecido por haver sido um nobre de pouca virtude, pouca sabedoria, coração raso e mente arrogante, descendente direto de Sidarta Gautama.

O filme de horror coreano The Doll Master (인형사; 2004), dirigido por Yong-ki Jeong, foi patrocinado pela Ai Dolls, atual Custom House. Imagine como seria se a indústria estadunidense Mattel, produtora da boneca Barbie, patrocinasse um filme protagonizado por uma Bárbie assassina. Foi exatamente isto que a Custom House fez com seus preciosos produtos! Estariam decretando a obsolescência e recomendando aos proprietários que cremem todos os modelos antigos, a serem substituídos pela nova coleção? No Brasil juristas formulariam hipóteses de crime contra a economia popular; pois, se não destruir, papões com mãos geladas puxarão seus pés para baixo da cama!

Verificamos que o filme The Doll Master retrata fielmente a antiquíssima crença oriental de que certos objetos inanimados podem prejudicar seus donos quando tratados de modo irregular. Ou seja, que “se você se apegar a um objeto e andar sempre com ele a coisa pode formar uma alma”, e que objetos inanimados “como uma rocha, uma boneca ou uma casa” pela qual alguém se apega desmesuradamente, obsessivamente, acabam carregados de sentimentos deletérios que eles reproduzem e irradiam.

Esta obra de ficção apresenta vários resultados para o que acontece quando objetos feitos de Resina PU desenvolvem alma por culpa de seus donos: Damian, um boneco articulado por elásticos internos (BJD), foi adotado e transportado pela mesma pessoa durante dezenove anos, sete meses e vinte e oito dias. Esta mulher tímida se tornou ouvidora de vozes e dialogava com a coisa. Virou uma excluída social. No mesmo filme uma designer de bonecos encontrou um manequim sentado sobre um túmulo. O espírito vingativo do manequim passou para o corpo da mulher e começou a perseguir todos os descendentes do assassino do seu criador. A artesã possessa disse:

Eu acredito que meu trabalho da vida aos objetos inanimados. (…) Você nunca possuiu coisas às quais era apegado? Você já ficou triste após perder aquelas coisas? Eu penso que quando os objetos perdem seus donos, eles ficam tristes também. Você sabia que quando algo está perdido, há algumas ocasiões em que parece que ele nunca desapareceu do seu local de origem? Eles retornam para os seus antigos donos.

Mina, outra BJD, ganhou alma quando sua dona sofreu um acidente. Com o tempo a menina enjoou da boneca e jogou fora, mas a boneca não enjoou da menina. Mina passou a perseguir sua dona, inconformada com o descarte e esquecimento. A boneca era capaz de projetar seu espírito em forma humana diante da antiga proprietária, fazendo-a acreditar que dialogava com uma menina de verdade enquanto os outros a viam falar sozinha. Por isso aquela mulher deixou de ser uma modelo desinibida e bem sucedida. Ela acabou igualmente rotulada como louca.

O exemplo da BJD Mina, de The Doll Master, é idêntico ao da pequena boneca de porcelana Mary, que aparece no episódio 11 do anime Histórias de Fantasmas (学校の怪談; Japão, 2000), Mary reencontrou o caminho de casa e voltou, querendo brincar, mas só achou a filha órfã da sua falecida dona, que era bastante madura e não gostava de bonecas. O brinquedo problemático assombrou a adolescente até ser entregue a um templo budista onde um monge explicou que o certo teria sido cremar os pertences da falecida junto ao corpo na data do óbito. Enfim, nestas obras de ficção as almas dos brinquedos amados sempre requerem mais amor e as dos brinquedos maltratados devolvem a violência às pessoas. Assim todos continuam absorvendo energia alheia.

Propaganda da microempresa sul-coreana HyperManiac, onde são comercializados personagens da designer de bonecos Ka-Hyun.

No sexto episódio da série Witch Hunter Robin (2002), criada por Sunrise e pelo diretor de animação Shūkō Murase, uma jovem bruxa diagnosticada com transtorno de personalidade múltipla transfere suas personalidades para várias bonecas até restar só uma delas em sua mente.  No seriado Another (アナザー; 2012) a filha duma bonequeira extrai um olho tomado pelo câncer e equipa um olho de vidro, um olho de boneca, que transmuta e lhe dá capacidade de ver o mundo sob a perspectiva de um bakemono.

No segundo episódio da primeira versão do seriado Vampire Princess Miyu (吸血姫美夕; 1988), de Narumi Kakinouchi e Toshiki Hirano, algumas pessoas foram transformadas em bonecos articulados por uma criatura de mesma espécie que lhes prometeu beleza eterna. A energia emitida pelos embonecados sustentava o bakemono, porém a Princesa Miyu nada obteve ao mordiscar um aparentemente saboroso menino de plástico. No meio de tudo um personagem coadjuvante se recusou a comprar um brinquedo para sua filha: “Você não acha que as bonecas japonesas são assombradas? O folclore diz que o cabelo das bonecas cresce, e outras coisas deste tipo”.

No desenho animado Dantalian no Shoka (ダンタリアンの書架), sexto capítulo Funsho kan (焚書官), que foi ao ar no Japão pelo canal TV Tokyo, em 19/08/2011, os personagens protagonistas descobrem que todos os coadjuvantes moradores duma cidade misteriosa são bonecos articulados transformados por meios mágicos em shikigami (式神) para servirem de receptáculo das almas dos mortos.[29]

Isto parece uma versão em roteiro de horror da história real da aldeia Nagoro, situada na ilha de Shikoku, Japão, onde a artesã Tsukimi Ayano (月見綾乃) enfeitou áreas públicas e prédios vazios com centenas de bonecos de pano forrados com palha, jornal, etc., para combater a solidão, de modo que sua arte ocupa hoje os lugares dos mortos e dos moradores abduzidos pelo êxodo rural. Esses bonecos são mantidos limpos e substituídos quando se deterioram. Quando a quantidade de falsas pessoas superou a população humana na proporção de dez para um, agências de turismo passaram a chamar Nagoro de Kakashi No Sato (かかしの里), a Vila dos Espantalhos.[30]

Bonecos para um vampiro

Na primeira vez em que assisti ao filme Higanjima (彼岸島; Japão, 2010) pensei que Miyabi (雅) fosse um baquemono tsukumogami pois este personagem, interpretado pelo ator e modelo fashion Louis Kurihara (栗原 類), têm uma presença estética bastante diferenciada da dos demais vampiros. O seu nome significa elegância, refinamento ou cortesania, podendo designar um metrossexual, um destruidor de corações. Enfim, ele parece um boneco e foi achado num templo repleto de bonecos. Além do mais, o jogo Ragnarök Online apresenta uma versão da futa-kuchi-onna (二口女) chamada Miyabi Ningyō (雅人形) vivendo num mapa que obviamente inspirou a criação do labirinto que aparece no capítulo 295 do primeiro romance gráfico da outra franquia.

Miyabi (Louis Kurihara) em Higanjima (彼岸島; Japão, 2010).

Porém tudo se explica no capítulo 39 do romance gráfico, com roteiro e desenho de Kōji Matsumoto (松本 光司).[31] Uma mutação genética ocorrida numa família nobre criou os vampiros. Miyabi foi aprisionado num frigorífico. Durante os cinquenta e sete anos em que esteve preso os ilhéus oraram e construíram ao seu redor. Fizeram um altar para oferendas de alimentos e prosseguiram com as benfeitorias até o local virar um templo ornamentado com estantes de bonecos representando vampiros. No exterior erigiram um torii[32], uma escadaria e tudo que um templo tem direito. Enfim, tentou-se de tudo para apaziguar o vampiro exceto deixa-lo escapar do confinamento.  Foi assim até que um turista desinformado e curioso cometeu o erro de abrir a prisão.

Às vezes os seres humanos imaginam que deuses abstratos precisam de olhos e corpos para representação. O mesmo acontece com fantasmas. Em Chihuahua, México, uma loja de roupas chamada La Popular se transformou em atração turística por ostentar a mesma manequim na vitrine desde 25 de março de 1930. Esta manequim com olhos de vidro está sempre vestida de noiva e foi chamada de Pascualita por parecer com Pascuala Esparza, filha da primeira proprietária da loja, que morreu envenenada pela picada duma aranha viúva negra bem no dia do seu casamento.

Desde o início as pessoas espalharam a lenda urbana de que Pascualita observa os clientes da loja e muda de posição à noite. No Japão, a desenhista Naoko Takeucki parodiou uma lenda urbana semelhante: Até 1992 existia uma loja de vestidos de noiva num shopping de Minami Aoyama, que, para chamar atenção, posava uma manequim prestes a pular da janela do terceiro andar. Muitos transeuntes se assustaram pensando ser uma suicida e contaram estórias. Na versão fictícia do quinto ato do romance gráfico Sailor Moon esta noiva manequim[33] foi animada pela yōma (妖魔) do corpo redivivo do avatar dum shitenōu (四天王) controlado por poderes das trevas e pulava da sacada à noite procurando noivos para extrair energia (精力) e, com isso, nutrir o Dark Kingdom[34].

O sepultamento da cultura

Na vida real enquanto milhares de pessoas comparecem ao Darumá kuyō, dispondo peças para consolação e cremação, e bastante gente leva washi ningyō ao festival Hinamatsuri, como deve ser, somente poucas dezenas participam do ningyō kuyō. E mesmo assim a maioria leva washi ningyō, evitando o desapego de bens duráveis e dispendiosos que são o verdadeiro foco desta bonita cerimônia religiosa.

Fica óbvio que japoneses têm dó de entregar qualquer item superior a bichos de pelúcia. Coisas boas são revendidas, pois a maioria entende que o ideal é cremar no templo aquilo que se faz pelo templo e para o templo. Ou então os próprios monges preservam brinquedos seletos para a não-cremação conforme critérios misteriosos.

Se o problema ainda não ficou claro observem o polêmico artesão chinês Ryo Yoshida (吉田 凌) cremando duas bonecas de terracota que ele mesmo esculpiu, numa ilustração da monografia Articulated Doll, Anatomy of the Ball-Jointed Maiden (2007). Tenha em mente que seis bonecas articuladas, em tamanho humano, esculpidas por Ryo Yoshida entre os anos 1986 e 1999 constam na exposição permanente 球体関節人形展・Dolls of Innocence, do Museu Nacional do Japão.[35] Estando o artista vivo e atuante, o valor mínimo para essa categoria de arte gira em torno do equivalente a quatro mil dólares americanos. Então são pelo menos oito mil dólares em obras de arte com qualidade de museu crepitando no fogo. (Pense no Coringa queimando dinheiro).

O que acontece quando monges pedem para cremar uma categoria de bonecos que custa vários salários mínimos? O homem médio obedece ou questiona? Um artista consagrado como Ryo Yoshida pode se dar ao luxo de capitalizar a religião vendendo livro e postais com foto do rito secular, porém os colecionadores guardam itens valiosos mesmo que sejam objetos agourentos. Geralmente, quando solicitado, o colecionador leva qualquer treco dizendo “este é meu boneco”, os monges educadamente fingem que foram enganados e os bonequeiros se divertem desconstruindo o dogma.

A ideia duma dimensão espiritual intrinsecamente relacionada à produção de bonecos aparece ludicamente sugerida nos nomes-fantasia de microempresas sul-coreanas e chinesas, surgidas no século XXI, fabricantes de peças em Resina PU, a exemplo da Loong Soul (龙魂人形社; alma de dragão), Immortality of Soul (imortalidade da alma), Resin Soul (alma de resina), Souldoll (boneca com alma), Angel Studio (fábrica de anjos), Illusion Spirit (espírito ilusório), etc. No catálogo da Souldoll o nome do modelo Kagel vem de kage (影, sombra) e ele existe nas versões humano e vampiro.

O ateliê chinês ★ANother Secret★ produz cabeças para montagem de bonecos e possui uma coleção chamada Hyakki Yakō (百鬼夜行) que leva o nome duma folclórica parada onde uma centena de yōkai percorre as ruas à noite, aterrorizando os humanos.

Esses bonecos orientais de Resina PU destinados ao nicho do hobby específico já não são tão enormes e dispendiosos quanto as peças de terracota e porcelana fria em escala 1/1, mas ainda são maiores que a escala 1/6 adotada perlo padrão ocidental, custando em média de trezentos a setecentos dólares, salvo casos excepcionais.

Por que os bonequeiros do século XXI descontroem e subvertem a religiosidade popular? Quem fabrica peças para consumo em território nacional e internacional são predominantemente mulheres vivendo em países onde a lei e os costumes estabelecem salário diferenciado para o sexo masculino, a fim de assegurar a posição hierárquica do homem como arrimo de família. A existência de artistas de sexo feminino ganhando mais do que o homem médio nas indústrias de publicação de mangás shoujo e josei, nas fábricas de bonecos, etc., quebra todos os tabus. Elas chefiam os seus negócios.

A classe conservadora se mostra hostil às mulheres trabalhadoras e seus iguais, que retribuem com deboche e – no caso das bonequeiras – chegam a utilizar o ônus do folclore como propaganda indireta ao promover produções de horror, como The Doll Master (2004) e Rozen Maiden – Träumend (2005). Afinal, já dizia o velho bordão: “falem mal, mas falem de mim”. Entretanto, não podemos descartar a possibilidade de às vezes estarmos importando objetos feitos por algumas pessoas que sinceramente acreditam na tradição local e tiveram a intenção de nos vender seus receptáculos de programação energética sujeitos ao ganho de vida artificial.

Resumo geral: fluxo e refluxo energético

A queima de artefatos não é uma realidade apagada no ocidente. No Brasil, nos Estados Unidos e noutros lugares onde organizações religiosas cristãs possuem grande influência no ambiente cultural, existe uma ostensiva propaganda de “batalha espiritual” ordenando o exorcismo de pessoas e a queima de determinados objetos passíveis de canalizar a possessão demoníaca (normalmente brinquedos, revistas em quadrinhos, filmes, discos de vinil, camisetas com estampa de banda musical, livros de biologia lecionando sobre os princípios da seleção natural e da ancestralidade comum, etc.).

Isso é diferente do que acontece no oriente porque o cristão queima os objetos proscritos com desdém, em nome Jesus, lutando contra o Diabo, enquanto o zen-budista crema com respeito. O bakemono do folclore nipônico não é um objeto possuído por anjo rebelde. Ele ficou impregnado de energia desprendida por um ou mais humanos e fixou-a como uma espécie de programação, passando então a reproduzi-la e irradiá-la. Ou seja, qualquer objeto pode adquirir o poder de congelar sentimentos havidos à época de seu uso. Por isso quando qualquer coisa absorve um malefício o prejuízo se torna parte da coisa e ela precisa ser destruída, mesmo que seja uma estátua de santo.

A sabedoria oriental aconselha a consolar e cremar, como se morto fosse, quase tudo que vira bakemono porque não é possível transformar tantas coisas em artigos de devoção. Se uma coisa dessas for doada para caridade ou jogada no lixo ela continuará amando e sofrendo, ficará ressentida e retornará ao usuário, podendo expressar desejo de vingança. Depois, em caso de morte do usuário, a herança buscará os herdeiros.

O ser humano exala grandes quantidades de energia durante momentos de angústia, stress, paixão, etc. A energia exalada por um estressado, por exemplo, ficaria impregnada na casa como a poeira que se acumula atrás dos móveis. Isso faria com que os objetos inanimados se transformassem em verdadeiros depósitos de stress. Visitas que sentassem num sofá estressado perderiam a alegria e ficariam estressadas em decorrência da contaminação. Nem o proprietário da coisa conseguiria melhorar e mudar de humor, pois ele continuaria a absorver e exalar o seu próprio baixo astral.

Todos nós conhecemos contos folclóricos sobre imóveis que influenciam novos habitantes porque, no passado, houve ali algum crime violento ou alguém morreu de doença grave, em intensa agonia. Antigos hospícios enlouquecem visitantes. Antigas prisões e cemitérios geralmente são mal assombrados. Museus também. Todavia nem todos as coisas são tão grandes ou carregam experiências tão intensas. A diferença entre uma boneca carregada, uma memorabilia nupcial e uma espada de guerra é que a boneca quer brincar, a memorabilia quer presenciar o amor e a espada quer matar.

Várias narrativas descrevem coisas dotadas de pouca inteligência, emotividade excessiva e inclinação ao cometimento de crimes passionais. Quem descarta algo que foi um dia muito amado deixa a coisa saudosa, indignada, ciumenta e enraivecida.  Um bakemono criado a partir dum objeto superestimado será intensamente passional. Quando um homem vive intensamente a paixão por uma companheira ele está feliz, mas quando o sentimento acaba e a mulher rejeitada demonstra um ciúme doentio, ela o persegue e o faz infeliz. Com bakemono é a mesma situação.

Um objeto dotado de espírito precisa ser consolado em sinal de agradecimento e, depois, diluído em água corrente ou cremado para que descanse em paz após a prestação de serviços. Depois que um item não descartável promove uma cura absorvendo um malefício por osmose, a energia negativa absorvida se torna parte da coisa e o objeto precisa receber limpeza espiritual para não causar um refluxo, um efeito reverso, contaminando o ambiente.

Quem não deseja mudar de atitude ou opinião não precisa cremar o bakemono. Ele é literalmente sua alma gêmea (a menos que esteja possuído por um yōkai). Tem gente que programa cristais para catalisar a energia canalizada pelo Eu superior na intenção de auxiliar a si mesmo a manter o foco no serviço ou num objetivo a ser alcançado. Tudo bem se você se apaixonar por um brinquedo, permanecer com ele durante setenta anos e alguém depositar isto no seu túmulo. Provavelmente vocês serão felizes para sempre. O problema não existirá até que você deixe de ter prazer na interação com algo que passou a lhe causar vergonha e incômodo, que te deixa infeliz e escraviza como um vício. Desse jeito este velho amigo pode paralisar a vida do dono.

Não importa se o folclore alerta sobre a possibilidade de o espírito do vampiro de brinquedo sair do baú à noite para penetrar nos seus sonhos e mordiscar seu pescoço. As vezes a carga mitológica só agrega valor ao item de estimação, assim como histórias de fantasmas incitam a curiosidade sobre prédios históricos. Certa vez, no programa Trato Feito, o proprietário duma estátua de cavalo forjada no velho oeste estadunidense ficou feliz por encontrar nela um furo porque no que diz respeito às antiguidades do velho oeste “buracos de bala sempre deixam a coisa interessante”.

Bibliografia recomendada:

AMBROSIUS, Mario. 球体関節人形展・Dolls of Innocence. Tokyo, Nippon Television Network Corporation, 2004. 152p.

ITO, Eika (伊藤 叡香). Washi ningyō o tsukuru和紙人形を創る」. Japão, MPC (エムピーシー), 01/06/2002. 140p

YOSHIDA, Ryo. Articulated Doll, Anatomy of the Ball-Jointed Maiden.解体人形 吉田良人形作品集」. Japão, Editions Treville, 2007. 152p.

Notas:

[1] O termo bake (化け), “transformando”, é a forma ren’yōkei (連用形), correspondente ao nosso gerúndio, do verbo bakeru (化ける), “transformar” ou “mudar”.

[2] Todos os catálogos virtuais de folclore escritos em idiomas ocidentais classificam o bakemono dentro da categoria ontológica yōkai (妖怪). Porém na série Natsume Yūjinchō (夏目友人) o protagonista explica que existem diferenças entre bakemono e yōkai. “Se você conseguir beber sem se embebedar, você deve ser um bakemono…”.

[3] O animismo é a cosmovisão em que entidades não humanas possuem uma essência espiritual.

[4] WIKTIONARY, verbete 「霊魂」. URL: <https://en.wiktionary.org/wiki/%E9%9C%8A%E9%AD%82>. Acessado em 19/04/2022 14h16.

[5] TRAVI, Mauricio. A misteriosa lenda da boneca japonesa Okiku. Em: DANJOU, publicado em 08/06/2018. URL: <https://www.danjou.com.br/post/2018/06/08/a-misteriosa-lenda-da-boneca-japonesa-okiku>.

[6] NINGYOO – BONECAS. © 2003 Aliança Cultural Brasil Japão de Joinville. Texto salvo do Geocities em outubro de 2009. Acessado em 28/04/2022 às 19h. <URL: http://www.oocities.org/br/japaojoinville/ningyoo.htm>.

[7] ABUMI-GUCHI. Em: Yōkai Wiki. Acessado em 14/05/2022. URL: <https://yokai.fandom.com/wiki/Abumi-Guchi>.

[8] TEZUKA, Osamu. 無残帖Cruel. Em: TEZUKA, Osamu. Dororo: Volume 2. São Paulo, New Pop, 2011, p 07.

[9] Talvez não seja inútil mencionar o MMORPG coreano Ragnarök Online onde os avatares do jogador combatem cavalos pegando fogo chamados “pesadelos sombrios”.

[10] DORORO WIKI, verbete Dororo no Uta. URL: <https://dororo.fandom.com/wiki/Dororo_no_Uta#English>. Acessado em 18/04/2022 16h02.

[11] TUZI. Tsukumogami: yōkai de objetos antigos. Publicado na Radio Hero em 18/03/2021, 01h23. URL: <https://radiojhero.com/tsukinousagi/2021/03/tsukumogami-yokai-de-objetos-antigos/>.

[12] PAN. O que são os Tsukumogami: Os Objetos Possuídos. Publicado no blog Suco de Manga em 31/10/2021. URL: <https://sucodemanga.com.br/saiba-o-que-sao-os-tsukumogami-os-objetos-possuidos/>.

[13] TUZI. Tsukumogami: yōkai de objetos antigos. Publicado na Radio Hero em 18/03/2021, 01h23. URL: <https://radiojhero.com/tsukinousagi/2021/03/tsukumogami-yokai-de-objetos-antigos/>.

[14] TSUKUMO-GAMI: OS ESPÍRITOS ZOMBETEIROS DE ANTIGOS ARTEFATOS JAPONESES. Publicado em Caçadores De Lendas, 06/2013. URL: <https://cacadoresdelendas.com.br/japao/tsukumo-gami-espirito-de-artefato/>.

[15] DAVE, Ronin. Japanese Doll Memorial with Geisha in Kyoto – Ningyo Kuyo 人形供養. Publicado no canal do autor no Youtube em 16/10/2015. URL: <https://www.youtube.com/watch?v=JwiDg7mMU5Q>.

[16] A MAGIA DAS BONECAS. Em: Super Interessante. Publicado em 31/07/1992, 22h00. Atualizado em 31/10/2016. URL: <Leia mais em: https://super.abril.com.br/historia/a-magia-das-bonecas/>.

[17] WIKIPEDIA, verbete Tsukumogami. URL: <https://en.wikipedia.org/wiki/Tsukumogami>. Acessado em 27/04/2022 17h06.

[18] PAN. O que são os Tsukumogami: Os Objetos Possuídos. Publicado no blog Suco de Manga em 31/10/2021. URL: <https://sucodemanga.com.br/saiba-o-que-sao-os-tsukumogami-os-objetos-possuidos/>.

[19] ITO, Eika (伊藤 叡香). Washi ningyō o tsukuru和紙人形を創る」. Japão, MPC (エムピーシー), 01/06/2002, p 30-31.

[20] Tsundoku (積ん読) é o hábito de comprar livros e deixá-los de lado sem ler.

[21] RIBEIRO, Aline. Guia Conhecer Fantástico Extra: Samurai & Ninja. São Paulo, OnLine, 2015, p 31.

[22] TUZI. Tsukumogami: yōkai de objetos antigos. Publicado em Rádio Hero, em 18/03/2021, 01h23. URL: <https://radiojhero.com/tsukinousagi/2021/03/tsukumogami-yokai-de-objetos-antigos/>.

[23] Um Kasa Obake (傘お化け) é também chamado Karakasa Obake (唐傘お化け) ou Karakasa Kozo (唐傘小僧).

[24] GORDON, Cesar. Economia selvagem: Ritual e mercadoria entre os índios Xikrin – Mebêngôkre. São Paulo SciELO – Editora UNESP, 2006, p 356-357.

[25] TSUKUMO-GAMI: OS ESPÍRITOS ZOMBETEIROS DE ANTIGOS ARTEFATOS JAPONESES. Publicado em Caçadores De Lendas, 06/2013. URL: <https://cacadoresdelendas.com.br/japao/tsukumo-gami-espirito-de-artefato/>.

[26] SHIRAISHI, Yuta (白石雄太). Kumamoto no kyōdo omocha “obakenokinta” (熊本の郷土玩具「おばけの金太」). Publicado em Story Nakagawa, 27/08/2019. URL: <https://story.nakagawa-masashichi.jp/104515>.

[27] OBAKE NO KINTA お化けの金太 KINTA THE GHOST. Publicado na Daruma Pedia, em 26/05/2015. URL: <https://darumapedianews.blogspot.com/2015/05/mingei-kyushu-obake-no-kinta.html>.

[28] NISISHIMA, Leandro. A surpreendente história do boneco Daruma. Em: GO! GO! NIHON, 12/01/2022. URL: <https://gogonihon.com/pt/blog/boneco-daruma/>

[29] ANIME REVIEW: DANTALIAN NO SHOKA – 6. Publicado no blog Population GO, no Tumblr, em 24/08/2011. URL: <https://populationgo.tumblr.com/post/9338032459/anime-review-dantalian-no-shoka-6>.

[30] CONHEÇA NAGORO, A VILA JAPONESA ONDE BONECOS SUBSTITUEM OS MORTOS. Publicado no portal de notícias Mega Curioso. Acessado em 18/05/2022. URL: <https://www.megacurioso.com.br/artes-cultura/114824-conheca-nagoro-a-vila-japonesa-onde-bonecos-substituem-os-mortos.htm>.

[31] Higanjima (彼岸島) foi originalmente publicada na antologia de quadrinhos Shukkan Young Magazine (週刊ヤングマガジン), pela editora Kōdansha (講談社), desde 04/04/2003 até 06/12/2010.

[32] Um torii (鳥居) é um portão tradicional japonês encontrado na entrada ou dentro de um santuário xintoísta, onde simbolicamente marca a transição do mundano para o sagrado.

[33] NAVOK, Jay e RUDRANATH, Sushil K. Warriors of Legend: Reflections of Japan in Sailor Moon. South Carolina, BookSurge, 2006, p 51

[34] TAKEUCHI, Naoko. コードネームはセーラーV— 1. Japão, Kodansha Comics, 1993, ato 5, p 172-173.

[35] AMBROSIUS, Mario. 球体関節人形展・Dolls of Innocence. Tokyo, Nippon Television Network Corporation, 2004, p 66-71.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/almas-vintage/

As Boas Novas

» Parte 1 da série “Reflexões sobre a evangelização”

Evangelizar: de “evangelista”, εúάγγελος em grego koiné (dialeto popular da antiguidade), que significa “boas novas” ou “boas notícias”. Evangelizar significa, portanto, trazer as boas novas ao conhecimento dos homens.

Nem todos concordarão com a definição dada acima para o verbo “evangelizar”. Para um termo tão essencial ao cristianismo, surpreende que seja tão complexo defini-lo – mesmo entre os próprios cristãos.

Há muitos religiosos (não apenas cristãos) que creem piamente que sua principal função enquanto pertencentes a um grupo doutrinário ou igreja seja precisamente repercutir aos quatro cantos do mundo tudo o que sua respectiva doutrina dita.

No caso particular de doutrinas que nos trazem mandamentos e preceitos morais, isso invariavelmente significa que, para tais religiosos, evangelizar significa não apenas trazer um consolo espiritual ou alguma boa notícia do reino de Deus, mas também ditar como as pessoas devem se portar em sociedade, normalmente afim de não caírem em “tentações e maus caminhos”, e alcançarem o Céu após a morte.

Eu costumo sempre lembrar que religião e igreja não são a mesma coisa. Religião (re-ligare) é a religação a Deus ou ao Cosmos, uma experiência profundamente subjetiva que é percebida e praticada pelos homens desde a pré-história – particularmente através do xamanismo. Igreja (ekklesia) significa uma comunidade dos escolhidos de Deus – um grupo ou elite de pessoas que teoricamente possuem alguma espécie de “conhecimento oculto” capaz de fazer com que os homens possam se elevar ao Céu ou alcançar o reino de Deus.

A definição de religião pressupõe um Deus universal, um ser cósmico que pode inclusive ser confundido ou interpretado como o próprio Cosmos em si, e para o qual cada um de nós se inclina a retornar, passo a passo, por seus próprios meios, seguindo um caminho pessoal, subjetivo, intransferível. Já a definição de igreja dá a entender que Deus está a eleger um grupo de escolhidos, destinados a alguma tarefa especial no mundo – e a todos os demais, aos que se afastaram de sua doutrina, geralmente não são esperadas boas notícias após a morte. No melhor dos casos, serão enviados a alguma espécie de “limbo” onde irão aguardar um julgamento que, teoricamente, pode ser “aliviado” pelas orações daqueles que estão no grupo de escolhidos, os eclesiásticos.

Dessa forma, embora todo membro de igreja seja religioso, nem todo religioso será um membro de igreja.

Mesmo os evangelhos, por exemplo, não foram somente aqueles quatro escolhidos pela “comissão” de Constantino para compor o Novo Testamento. Existiriam muitos outros, e, sobretudo, existiriam muitos seguidores destes outros textos, taxados de apócrifos (segundo alguns, “errado, falso, não autêntico”, segundo outros, “livro ou texto secreto, conhecimento oculto”). Estes que foram chamados por Constantino de gnósticos, e perseguidos e assassinados ou obrigados a se “converter” ao “cristianismo oficial”, na verdade sempre chamaram a si mesmos de cristãos, e praticavam sua religiosidade em pequenos grupos, em colinas, em cavernas, em qualquer lugar – pois compreendiam que o reino de Deus abrange todo e qualquer lugar, todo e qualquer tempo, e não necessitavam de apóstolos ou padres para lhes ensinar a direção.

Muitos evangelhos apócrifos foram escondidos em vasos e enterrados em cavernas na região onde viveu Jesus, pois do contrário teriam sido queimados como todos os outros condenados por Constantino. Mas ao longo dos séculos eles foram sendo desenterrados, na medida em que a igreja de Constantino vinha perdendo sua força e sua capacidade de ditar o que os homens deveriam ou não considerar como “autêntico”. Em Nag Hammadi foi achado um dos evangelhos mais profundos de que se tem notícia, o Evangelho de Tomé – nele Jesus nos dá uma pista de onde se encontra, afinal, o reino de Deus:

“Jesus disse: Se aqueles que vos guiam vos disserem: vê, o Reino está no céu, então os pássaros vos precederão. Se vos disserem: ele está no mar, então os peixes vos precederão. Mas o reino está dentro de vós e está fora de vós. Se vos reconhecerdes, então sereis reconhecidos e sabereis que sois filhos do Pai Vivo. Mas se vos não reconhecerdes, então estareis na pobreza, sereis a pobreza. (versículo 3)”.

Sem dúvida tal definição do reino é um tanto paradoxal. Ora, se ele já se encontra aqui e agora, dentre nós e a volta de tudo e de todos, como poderá algum padre, algum pastor, algum guru espiritual, algum evangelizador, nos apontar a correta direção?

Aparentemente, todas as direções são corretas. Porém, ao mesmo tempo, há que se ter olhos para vê-las. Não se trata, portanto, de buscar alguma espécie de grupo de escolhidos, alguma espécie de salvação do fim dos tempos, através do conhecimento de uma doutrina em específico, ou através deste ou daquele preceito moral… Não, jamais foi assim tão simples, jamais será tão fácil!

Gibran Khalil Gibran, o grande poeta do Líbano, dizia que “Nenhum homem poderá revelar-vos nada senão o que já está meio adormecido na aurora do vosso entendimento.” – Ora, é precisamente isso que nos ensinaram os grandes sábios de outrora, desde Lao Tsé a Sócrates; é precisamente isso que Jesus queria dizer com o “Mas se vos não reconhecerdes, então estareis na pobreza, sereis a pobreza”.

Estamos num mundo repleto de boas novas por todos os lados, debaixo de pedras e dentre os galhos partidos, além das nuvens e próximo a beirada dos rios e oceanos, muito além das estrelas mais longínquas e ao mesmo tempo tão próximo como nosso pensamento mais querido. Não nos cabe decorar ou recitar orações ou fórmulas mágicas para adentrar ao reino das boas novas, que estas são apenas muletas para aqueles que ainda não conseguem se erguer por si mesmos. Cabe-nos tão somente olhar para dentro, conhecer a nós mesmos, evangelizar ao nosso mais precioso inimigo.

E para aquele que conseguiu evangelizar a si próprio, aquele que alcançou tal nirvana da alma, não será sequer necessário buscar seguidores – eles mesmos o reconhecerão. Não será sequer necessário anunciar a boa nova, seu olhar já a trará como pérola misteriosa em oceano profundo. Não será sequer necessário fundar uma doutrina ou igreja, que esta já foi fundada desde o início dos tempos. A igreja é o próprio reino, a igreja é o Cosmos.

» A seguir, o pequeno manual para a conversão do infiel…

***

Crédito da imagem: Neil Guegan/Corbis

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

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#Espiritualidade #Cristianismo #Religiões #Gnosticismo #Bíblia #Jesus

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‘Ísis Sem Véu

Helena Blavatsky

Ísis Sem Véu (título original: Isis Unveiled) é uma das mais importantes obras de Helena Petrovna Blavatsky, uma das fundadoras da Sociedade Teosófica. O livro foi publicado em 29 de setembro de 1877, tendo sido a maior obra da autora até a publicação de A Doutrina Secreta em 1888, livro que complementou e expandiu as idéias que haviam sido apresentadas em “Ísis Sem Véu”.

A obra começou a ser escrita em Ithaca, EUA. Posteriormente, a autora retornou à cidade de Nova York, onde concluiu o livro. “Ísis Sem Véu” é uma extensa exposição das idéias da Teosofia, as quais Blavatsky foi uma das principais divulgadoras.

Segundo a própria Blavatsky, ela não foi a autora do livro, pois o mesmo foi escrito pelos Mahatmas, seus instrutores tibetanos, usando um processo chamado Tulku, que, segundo ela, não é um processo mediúnico.

O livro descreve a história, e desenvolvimento das ciências ocultas, a natureza e origem da magia, as raizes do cristianismo, e segundo a autora alega, os erros da teologia cristã e as falácias estabelecidas pela ciência ortodoxa.

Com mais de 1300 páginas, o livro demonstra um grande conhecimento de Blavatsky sobre os assuntos que a obra trata. Segundo o crítico inglês William Emmett Coleman, para escrever “Isis sem Véu”, Blavatsky precisaria ter estudado 1400 livros, o que seria impossível para alguém que viajava constantemente com uma pequena quantidade de livros em sua biblioteca pessoal.

Índice

VOLUME I – CIÊNCIA I


VOLUME II – CIÊNCIA II

VOLUME III – TEOLOGIA I

VOLUME IV – TEOLOGIA II

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/isis-sem-veu/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/isis-sem-veu/

A Metáfora, por Joseph Campbell

Joseph Campbell é foda! É meu autor favorito, cuja leitura considero obrigatória para qualquer pessoa que deseje ter um mínimo de conhecimentos sérios sobre ritualística e simbologia. E, sem estas duas ferramentas, é simplesmente impossível tornar-se um ocultista sério.

Deixe-me começar, explicando a historia de meu impulso para colocar a metáfora no centro de nossa exploração da espiritualidade ocidental.

Quando o primeiro volume do meu Historical Atlas of World Mythology:

The Way of Animal Powers foi publicado, os editores me enviaram numa turnê publicitária. É o pior tipo de turnê possível porque você tem de se encontrar, sem a menor vontade, com locutores de rádio e repórteres, eles próprios indispostos a ler o livro sobre o qual devem conversar com o entrevistado, para gerar visibilidade.

A primeira pergunta que me faziam era sempre:

“O que é um mito?”

É um bom começo para uma conversa inteligente.

Em uma cidade, porém, entrei numa estação de rádio para um programa de meia hora, ao vivo, em que o entrevistador era um jovem com ar de astuto e que imediatamente me alertou:

“Sou difícil, já vou lhe avisando. Sou um cético.”

A luz vermelha acendeu e ele começou, argumentativo:

“A palavra ‘mito’ significa ‘uma mentira’. Mito é uma mentira”.

Repliquei com a minha definição de mito.

“Não, mito não é uma mentira.

Uma mitologia completa é uma organização de imagens e narrativas simbólicas, metafóricas das possibilidades de experiência humana e da realização de determinada cultura em certo momento”.

“É uma mentira”, ele retrucou.

“É uma metáfora”.

“É uma mentira”.

Isso continuou por uns vinte minutos.

Quatro ou cinco minutos antes do fim do programa, percebi que o entrevistador não sabia o que era uma metáfora. Resolvi tratá-lo da mesma maneira como estava sendo tratado.

“Não”, eu disse.

“Eu lhe digo que algo é meta­fórico. Dê-me um exemplo de metáfora.”

Ele respondeu.

“Dê-me você um exemplo”.

Eu resisti.

“Não, agora eu estou fazendo a pergunta”.

Eu não tinha lecionado por trinta anos à toa.

“E eu quero que você me dê um exemplo de metáfora”.

O entrevistador ficou totalmente pasmo e chegou a dizer:

“Vamos chamar um professor.”

Finalmente, depois de um minuto e meio, ele se recompôs e disse:

“Vou tentar. Meu amigo John corre muito. Dizem que ele corre como um veado. Isso é uma metáfora”.

Enquanto se passavam os últimos segundos da entrevista, eu repliquei.

“Isso não é metáfora. A metáfora seria: John é um veado”.

Ele revidou: “Isso é uma mentira”.

“Não”, eu disse. “É uma metáfora”.

E o programa terminou.

O que esse incidente sugere sobre a nossa compreensão de metáfora?

Ele me fez refletir que metade da população mundial acha que as metáforas de suas tradições religiosas, por exemplo, são fatos.

E a outra metade afirma que não são fatos, de forma alguma.

O resultado é que temos indivíduos que se consideram fieis porque aceitam as metáforas como fatos, e outros se julgam ateus porque acham que as metáforas religiosas são mentiras.

#Mitologia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-met%C3%A1fora-por-joseph-campbell

100 álbuns satânicos mais importantes da história

Em 1976, na revista americana Rolling Stone, David Bowie chocou alguns liberais rockeiros ao afirmar:  “O Rock sempre foi a música do Diabo… Acredito que o Rock seja algo muito perigoso… Acho que nós artistas e grupos de rock somos apenas o meio de uma mensagem: algo muito mais obscuro do que nós mesmos.” Bem, se camaleão do rock com toda  militância de décadas na estrada do show business, tão obcecado por Aleister Crowley e pela Sociedade Thule que se mudou-se para Berlim para sentir na pele o legado esotérico da cidade, quem somos nós para duvidar?

Talvez o rock seja um dos pilares que consigam unir todos os adeptos do satanismo e fazer um satanista nazi-gótico cumprimentar o mais céticos dos satanistas filosóficos com o sinal da mão chifrada. Seja você um ateu ou um místico quando ouve o som da guitarra rasgando toda a argumentação dá lugar a simples postura, que afinal é a essência deste estilo de vida.

A música é tão poderosa como afirmação satânica que mesmo quem nunca leu nada a respeito é influenciado por ela. Anton LaVey levanta essa consideração na Bíblia Satânica ao lembrar que muitas igrejas hoje aderiram a trilha sonora do diabo e tem cultos baseados na expressão de emoções humanas e na gratificação pessoal, com grandes aplausos e musica sensual.

No Manual do Satanista, a relação entre o satanismo e o rock’n’roll não poderia estar mais clara: O rock é de fato um dos mais típicos frutos de nossa Era Satânica. Não é a toa que ele explodiu justamente na mesma década em que LaVey preparava as bases nas quais fundaria a Igreja de Satã. Tanto os livros de Crowley quanto as músicas de Little Richard e Rolling Stones são conseqüências de um mesmo momento histórico que exigia a morte de antigos valores e a manifestação de uma nova forma de se ver o mundo.

E para te ajudar a montar sua própria disco/cd/mp3teca satânica, Morte Súbita Inc. fornece o Top 100 discos mais satânicos de todos os tempos. Essa seleção foi escalada pelos sacerdotes do Templo de Satã, Rev. Morbitvs Vividvs, Rev. Obito e Rev. Legião como consultores principais e contou com o auxílio de diversos membros de outras organizações satânicas nacionais e da Church of Satan. Díficilmente agradará a todos os adeptos, mas agradar não é nossa intenção. Sigamos, portanto a listagem dos discos mais significativos do satanismo, com algumas letras e citações que comprovam a presença do espírito satânico na vida dos artistas e dos fãs destas respectivas bandas:

OBS: Nem todos os álbuns escolhidos são rock ou metal. As exceções serão discriminadas e jutificadas em cada resenha.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nosso objetivo e tornar esta uma lista definitiva, permanente e atualizada. Caso você seja um satanista e acredite que alguma banda está sobrando ou faltando entre em contato e mande sua justificativa. Sua proposta será avaliada e se fizer sentido será assimilada a nossa listagem.

Hail Satan!

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/musica-e-ocultismo/100-albuns-satanicos-mais-importantes-da-historia/

Breve conversa com uma das nereidas

Um conto sobre as almas e suas máscaras…

“Ora, faz o que bem quiser” – diz-me Lídia sempre que venho propor mais uma de nossas conversas a beira de seu lago. Não é sempre que consigo achá-la em casa, pois sua morada é distante – alguns séculos no passado – e somente podemos chegar até lá nos raros momentos em que há esta distinta paz na alma. Lídia é bela e gosta de conversar sobre tudo, menos sobre a acusação de que ela e as irmãs exigiram um sacrifício…

“Há de ser toda a Lei: que não fiquem inventando mitos sobre nós! Deixem-nos cuidar das águas, cuidem de sobreviver que nós cuidamos de viver” – é quando ela fala isso que consigo sentir que, apesar de meio-deusa, ela é ainda tão mortal quanto nós. Dizem que a linguagem é sempre uma ficção, e que nada que pode ser descrito por palavras corresponde à realidade. Ora, mas isso é óbvio, me surpreende que as pessoas creiam que mitos tratem da realidade em que sobrevivemos – não, eles tratam de heterônimos, de máscaras para as almas.

Pessoa também foi amigo de Lídia, mas se despediu lá pelo passado e não pôde mais se defender nem se explicar… Dizem que inventou tantos heterônimos que ele próprio era um desconhecido de si mesmo, uma mitologia feita pessoa. Dizem que tudo o que há de real em Pessoa é sua poesia, e isso basta. Ora, mas ele fica muito agradecido, só não entende como podem ter vasculhado toda sua obra e ter convenientemente esquecido de publicar exatamente à parte em que ele fala de si mesmo. Pessoa vivia uma vida oculta, apenas isso – “está tudo lá explicado” – ele dizia a Lídia…

A linguagem trata sempre de dois mundos, o transitório e exposto, e o oculto e permanente. O mundo oculto não possuí movimento algum, apenas essência, e por isso empresta seus mitos ao mundo transitório, onde cada grão se move e vibra em turbilhão, onde absolutamente tudo está catapultado rumo a imensidão. Todos os heterônimos de Pessoa falavam sobre isso, e eram todos mitos de um homem só, de uma só essência… Depois que se compreende, é simples.

Mas eu sempre trago a questão das disputas religiosas e anti-religiosas para Lídia. E ela sempre me diz mais ou menos assim: “deixem que se digladiem pelos seus espantalhos de mitos, nós aqui não temos nada a ver com isso… No fim, tudo se resume a questão da sobrevivência sobre a vivência. São como símios que precisam impor-se ante seu pequeno grupo, mas ocorre que ninguém poderá jamais domar o pensamento alheio; ao menos não o pensamento que se encontra livre, do tipo que ainda consegue enxergar a essência por detrás de todas essas máscaras…”

“O amor, o amor é o que importa, o que nos une a todos em uma teia de luz” – ela geralmente completa… E são nesses momentos que percebo que sua beleza não está na superfície, na menina de seus olhos, mas bem mais aprofundada, como pequenos cristais de calcário capazes de refletir ao Sol mesmo lá debaixo, por dentre todo o lodo de seu lago.

Eu tenho visitado e conhecido esses mitos, essas almas… Tudo o que há são almas – algumas puras em sua ignorância, outras que se comprazem na própria ignorância e insistem em caminhar em círculos; ainda outras que sofreram já o suficiente, deixando o rastro de seu sangue em diversos espinhos da floresta. E existem as bem-aventuradas, que evitam espinhos e sangue, e chegam tão mais depressa na margem do lago das nereidas.

O amor sob a vontade, a vida sobre a sobrevivência, o dar sobre o receber, o buscar sobre o encontrar, a máscara sob a alma – “não, não é necessária mais essa máscara, agora você já pode nos ver como sempre temos lhe visto” – este é mais ou menos o caminho que leva a casa de Lídia. Tenho passado boas temporadas por lá…

raph’10

***

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.

Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos

Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida

Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,

Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,

Mais longe que os deuses.

(trecho de poema de Ricardo Reis)

***

Nota: No meu conto eu faço um paralelo entre Lídia e o mito das nereidas, mas não tenho certeza se Pessoa tinha tal intenção. Em todo caso, não existe nenhuma nereida chamada Lídia, mas existe uma que se chama Ligea – há uma proximidade entre ambos os nomes.

Crédito da foto: Bernd Vogel/Corbis

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

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#Contos #FernandoPessoa #Mitologia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/breve-conversa-com-uma-das-nereidas

8 Lições de Alquimia

Por Mark Stavish

A sabedoria só é adquirida através da experiência e da reflexão sobre essa experiência, que tira as lições que ela tem a oferecer. Uma vida não refletida é uma vida vivida na sombra da realidade. Somente parando, olhando para trás, para onde começamos, o que fizemos, onde estamos no presente, e como chegamos aqui, podemos começar a nos chamar de sábios – e Sabedoria é o objetivo do esoterismo genuíno, não poder, fama ou títulos – Sabedoria é o fruto de experiências que são compreendidas.

Praticar a alquimia é bater às portas do Templo de Sofia, da Sabedoria, e rezar para entrar. Percebe-se rapidamente que não importa o quanto se bata, não há ninguém do outro lado para abrir a porta. Somos nós que devemos, individualmente e por nossa livre vontade e acordo, empurrar a porta e abri-la para nós mesmos. Uma vez lá dentro, encontramos alguns amigos peculiares e úteis esperando, mas somente uma vez que assumimos a responsabilidade de abrir a porta para nós mesmos.

Este artigo é um resumo de algumas experiências minhas e de outros alquimistas, que ocorreram durante nossos primeiros doze meses de prática de espagiricas ou alquimia de plantas. Esperamos que eles sejam úteis aos aspirantes a alquimistas e até mesmo aos estudantes de outras artes e ciências ocultas para entender o caminho que escolheram e seu potencial.

Lições Aprendidas

Muitos acharam o estudo da alquimia particularmente gratificante, primeiro por causa do tipo de retorno que se obtém por seu investimento de tempo, e segundo por causa da certeza dos resultados.

Jean Dubuis, o fundador da organização francesa cabalística e alquímica The Philosophers of Nature, afirmou freqüentemente durante seminários que “a alquimia é o único caminho que não mente”. Com isto ele quis dizer que em uma variedade de práticas esotéricas, e as chamadas práticas esotéricas, é fácil desculpar os fracassos ou a falta de resultados. Ouvimos estas desculpas o tempo todo: o incenso errado foi usado, os ciclos da lua estavam fora, o “humor” não estava certo, as associações erradas, planetas, deuses ou Elementos foram invocados. A lista é interminável.

Entretanto, na alquimia – até mesmo na alquimia vegetal, ou espagística como é chamada apropriadamente – tudo é uma experiência de aprendizado que aponta para como devemos abordar não apenas nossas operações alquímicas, mas também a própria vida. Como disse Frater Albertus, “toda manifestação é realizada pela utilização da vontade, que é outro termo para se estar vivo”.

Se temos manifestação, temos demonstrado que estamos verdadeiramente “vivos” em um nível que não só afeta e inclui o material, mas também o precede e o supercede. É o Ouroboros, a serpente que come sua cauda; o Alfa e o Ômega. Alquimia, meu amigo, não mente, e aqui estão algumas de suas lições.

  1. Lição um: Sou responsável pela minha própria Transformação. A alquimia ensina que eu e somente eu somos responsáveis por mim mesmo, minha vida, minha consciência e meu crescimento em sabedoria, ou “Transformação”, como é chamado. Enquanto outros podem tentar me ajudar no caminho, eu tenho que estar receptivo à sua assistência e ouvir a voz da experiência. No final dos tempos, quando estou diante do Eterno, minha resposta à pergunta “Quem é você?” deve ser nas palavras de Victor Hugo, “Eu sou a liberdade”. Livremente entrei no Caminho, livremente assumi seus desafios, e livremente compartilho com os outros o que aprendi.
  2. Lição dois: A natureza não se importa se eu sou estúpido. A natureza me ajudará se eu estiver atento ao que está acontecendo. Eu sou a serva da natureza e a ajudo em seu trabalho, me auxilia em meus empreendimentos – mas somente se eu estiver consciente. A natureza responde tanto às próprias ações quanto às próprias intenções. Ao contrário da magia ritual onde um erro pode ser cometido e a essência interior anula o passo em falso no ritual, um erro pode resultar em arruinar todo o trabalho até hoje. Trabalhar diretamente com elementos materiais significa ser responsável pelas leis materiais, bem como pelas leis psíquicas.
  3. Terceira lição: A energia vai onde sua verdadeira atenção está, não onde você pensa que ela está. Durante a destilação de um pouco de álcool de vinho tinto para uso na fabricação de uma tintura espagírica, um colega alquimista decidiu ir sentar-se do lado de fora e deixar o processo correr. Para passar o tempo, ele decidiu “mandar alguma energia” para uma pequena fábrica perto de onde ele estava sentado. Primeiro um pouco de Terra, sem resposta; depois Água, com apenas uma leve resposta; depois Ar, com melhores resultados; e finalmente Fogo, com grandes resultados (além de ouvir sua destilação explodir, enviando álcool em chamas por todo o seu teto). Um incidente semelhante ocorreu com outro praticante da Arte, com ele encontrando um líquido azul flamejante por todo o ventilador de teto em sua cozinha. Se você estiver trabalhando em um experimento alquímico, concentre-se nele até que ele esteja completo, ou até que essa parte do processo esteja concluída.Os pensamentos são coisas e afetam meu ambiente físico e psíquico. Como tal, eles não se limitam apenas a “eu”, mas também têm impacto sobre aqueles ao meu redor.
  4. Lição Quatro: Aprender a teoria antes da prática. A alquimia trabalha principalmente no elemento Terra, e como tal, não promete nada rapidamente. Na série de falsas promessas oferecidas por uma variedade de autores e sistemas, e até mesmo abusadores auto-intitulados da palavra “alquimia”, a Arte Real se mantém sozinha ao dizer que a Iluminação pode ser feita – mas a um preço. O maior preço é o tempo, pois as habilidades devem ser aprendidas, os preparativos devem ser feitos, as anotações devem ser tomadas e revisadas e as experiências devem ser catalogadas. A preparação é a chave para o sucesso em qualquer coisa, seja material ou psíquica. Um elemento chave disto foi memorizar a Tábua Esmeralda e aceitá-la como um esboço de todo o processo alquímico, independentemente de outros métodos tomados. É um pobre artesão que culpa suas ferramentas.
  5. Lição Cinco: Apresse-se lentamente. Constantemente na literatura alquímica há referências ao trabalho que está sendo feito lentamente e depois, pouco antes de ser concluído, para aumentar o calor sobre um determinado produto, mas fazê-lo com cuidado e diligência, para não queimar a matéria e assim destruir todos os esforços, assim como o sucesso está à vista. Diz-se muitas vezes que em qualquer projeto, oitenta por cento do trabalho ocorre durante as etapas finais, e na alquimia isto é claramente verdade. Devagar, devagar, mais devagar, é o melhor caminho a seguir, com atenção diária ao trabalho.
  6. Lição Seis: Devemos estar preparados antes de iniciar os trabalhos. A preparação é mais do que apenas um processo físico de garantir que o vidro esteja limpo, e que os materiais e equipamentos adequados estejam disponíveis e em ordem de trabalho, é também um processo interno. Para ter sucesso na alquimia – ou em qualquer prática oculta voltada para a manifestação material ou psíquica – os estudantes têm que estar prontos para aceitar e participar do processo. Isto significa fazer de si mesmo um recipiente perfeito, internalizando as etapas do processo. Primeiro intelectualmente através da memorização, e através disso, deixando-os operar internamente em nosso subconsciente para organizar e direcionar suas energias. Uma vez internalizado o trabalho em teoria, podemos começar a utilizá-lo na prática externa. A internalização do processo resulta na externalização do processo através de uma técnica bem sucedida. O diabo está nos detalhes. “Ler, Ler, Ler, Rezar, Trabalhar e Ler de novo”.
  7. Lição Sete: Está Concluído! O axioma hermético da Tábua Esmeralda diz: “Assim acima como abaixo”. A internalização é também a afirmação de Paracelsus de que só transmutamos fora o que primeiro transmutamos dentro. Devemos prestar atenção à ainda pequena voz interior – a voz de Hermes, de nosso Mestre Interior – pois ela responderá ao nosso trabalho e nos ensinará em nossos sonhos e meditações. As informações serão tanto práticas como teóricas ou simbólicas. Não é raro sentir de repente que um processo está completo quando se trabalha com a produção de pedras vegetais. Ou seja, há um conhecimento interior de que é hora de passar ao próximo passo. Às vezes isto acontece até verbalmente. Uma vez durante o processo, ouvi dizer “estou acabado” e soube que esta era minha sintonia com uma pedra de planta em que estava trabalhando para que eu soubesse que o processo estava completo, embora fosse no meio da tarde e eu estivesse preocupado com outra coisa tudo junto. Mesmo aqui, porém, este conhecimento interior foi verificado em relação à realidade. Será que a pedra da planta funcionou? Fez o que a pedra da planta deve fazer? A prova está nos resultados, não nos desejos, desejos ou crenças, mas na fria e dura evidência de uma operação que foi bem sucedida.
  8. (Lição Oito: Você não é um alquimista até que tenha tido pelo menos uma explosão).Nas palavras de Hermes: “O que tenho a dizer sobre a Operação do Sol está concluído”.

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Fonte: https://www.llewellyn.com/journal/article/1230.

COPYRIGHT (2006) Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/8-licoes-de-alquimia/

O que é ser Evangélico?

O evangélico é, ou deveria ser, conforme dizem os dicionários: “aquele que carrega o evangelho, a boa-nova, a mensagem de Cristo dentro de si”. Deveria entender que a “Boa-Nova” é a vida verdadeira, e a vida eterna, não é prometida, está aqui, está em nós, enquanto vivermos nossa vida na “ética do amor”, tal como ensinou o Mestre.

Consequentemente, o verdadeiro cristão, é também um evangélico. Desnecessário dizer que é impossível ser um autêntico evangélico, sem ser um autêntico cristão. Pois somente com a prática da vida “cristã” é que alguém pode se sentir “bem-aventurado”, “evangélico”, “filho de Deus”. O evangélico, deveria lutar, dia a dia, para viver sua vida conforme Cristo vivia, pois Cristo não “morreu” para salvar os homens, mas para demonstrar como se deve viver.

“O que legou à humanidade foi a prática: a sua atitude perante os juízes, perante as autoridades, perante os seus acusadores e perante toda a espécie de calúnias e de ultrajes – a sua atitude na cruz. Não resiste, não defende o seu direito, não dá nem um passo para afastar de si o fim, mas, pelo contrário, provoca-o. Suplica, sofre e ama com aqueles, por aqueles que o maltrataram”. (Nietzsche)

Portanto, o autêntico evangélico, não oferece resistência àquele que se mostra contrário a ele, nem por palavras, nem no seu coração. Não faz diferença entre estrangeiros e compatriotas, entre judeus e não judeus. Não se aborrece com ninguém, nem despreza ninguém. Porque ele sabe que Deus está em toda parte, transcendente a todas as coisas e imanente em todas elas, compreende que não existe no Universo um único indivíduo, separado do grande Todo, e embora cada indivíduo possua suas diferenças, essencialmente, cada um é igual a todos.

E por reconhecer que todos são filhos de um Pai único, não vê diferenças entre seus irmãos hinduístas, budistas, muçulmanos, umbandistas, taoístas, xintoístas, pois humildemente reconhece que esses e tantos outros, alguns já bem antes de Cristo vir a terra, participam de uma mesma busca: religar-se com o Divino, trazer para si o espírito Crístico.

Dessa forma, ele nunca fala mal dos seus irmãos, porque leva bem a sério aquela passagem que diz: “Quem fala mal de um irmão, e julga a seu irmão, fala mal da lei, e julga a lei; e, se tu julgas a lei, já não és observador da lei, mas juiz. (Tiago 4:11) E entende que essa Lei, é a ordem eterna inerente à própria natureza do universo, tomando em sua totalidade como causa e efeito. Essa Lei Universal, também pode ser chamada Deus, ou Divindade.

Um verdadeiro evangélico é sereno, paciente, não grita nem se desespera. Pensa com clareza, fala com inteligência, vive com simplicidade. Possui sempre mais do que julga merecer. O que ele possui – dinheiro ou posição social – nada significa para ele. Só lhe importa o que ele é. Porque busca “primeiro o reino de Deus, e a sua justiça” sabendo que todas as outras coisas que porventura precisar, lhe “serão acrescentadas”. (Mateus 6:33)

Tem mente de adulto e coração de criança, porque disse o mestre: “Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas”. (Mateus 19:14)

Quem carrega o evangelho dentro de si, entende que o “reino de Deus” não é algo que se espere, não vem dentro de “mil anos” – é uma experiência do coração, está em toda a parte e não está em parte alguma. Sabe também que a felicidade eterna não está prometida, nem ligada a condições, ela deve ser a única realidade!

Porque certa vez, sendo Jesus interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, ele respondeu: “O reino de Deus não vem com aparência exterior; nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Ei-lo ali! pois o reino de Deus está dentro de vós”. (Lucas 17:20-21)

Portanto, sabe o evangélico que o “Céu” é mais que um lugar, é um estado de perfeita harmonia do homem com a Lei Universal, é a consciência de Deus. E assim ele luta constantemente para trazer o “Reino de Deus” para o seu mundo e para o seu coração, porque todos os dias, no silêncio da sua alma, ele ora pedindo: “Venha a nós o teu Reino” (Mateus 6:9-13)

O evangélico é todo homem que tem a experiência mística “Eu e o Pai somos um”, e por isso ama a Deus “com toda a alma, com todo o coração, com toda a mente e com todas as forças” e com o transbordamento dessa experiência individual, pratica a ética do segundo mandamento, “amando seu semelhante como a si mesmo”.

Assim, por carregar o evangelho dentro de si, não se preocupa com templos e instituições cristãs, porque “o Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens” (Atos 17:24)  ele mesmo é o “templo de Deus” e sabe que o “Espírito de Deus” habita nele (I Coríntios 3:16). “É um tesouro oculto, que se deve transformar num tesouro manifesto.

O evangélico autêntico sabe que a volta de Cristo sobre nuvens de glória, será quando ele definitivamente religar-se com o seu “Eu Divino” e permitir a volta de Cristo dentro do seu coração. Por isso, está sempre disposto a aprender, mesmo com as crianças ou com os tolos. Abdicando sua opinião quando verifica seu erro, pois é um eterno buscador da verdade, e sabe que a mesma, está sempre em processo de confirmação.

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:32)

Por isso, apesar de ser um profundo admirador de Cristo, jamais me considerei cristão ou evangélico, é muita responsabilidade assumir tais títulos.

Fiquem em Paz.

#Cristianismo #Universalismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-que-%C3%A9-ser-evang%C3%A9lico

‘Caos: Panfletos do Anarco-Ontológico

Hankin Bey

Sobre o autor:
Hakim Bey mora num decadente hotel chinês onde os proprietários balançam a cabeça  de um lado para o outro enquanto lêem os jornais e escutam transmissões estridentes da Ópera de Pequim. O ventilador de teto gira como um dervixe indolente – suor pinga sobre a página – o cafetã do poeta está encardido, seus cinzeiros derramam cinzas no tapete – seus monólogos parecem desconexos e levemente sinistros – por trás das janelas fechadas, o gueto desaparece entre palmeiras, o ingênuo oceano azul, a filosofia do tropicalismo.

Sobre o livro:

O que este livro diz a você não é prosa. Pode ser pendurado no quadro de avisos, mas ainda está vivo e retorcendo-se. Não pretende seduzi-lo, a não ser que você seja de extrema juventude e beleza (anexe uma foto recente). Numa estrada em algum lugar a leste de Baltimore, você passa por um trailer Airs-tream, e enxerga uma grande placa plantada na grama: ESOTERISMO, com a imagem de uma rude mão negra sobre um fundo vermelho. Lá dentro, você encontra livros sobre sonhos e numerologia, panfletos sobre vodu e macumba, revistas de nudismo velhas e empoeiradas, um pilha de Boy’s Life, tratados sobre briga de espadas… e este livro, Caos. Como palavras ditas num sonho, portentosas, evanescentes, transformando-se em perfumes, pássaros, cores, música esquecida.

Este livro se mantém a distância por uma certa impassibilidade em sua superfície, quase que visível através de um vidro. Ele não abana o rabo e não grunhe, mas morde e estraga a mobília. Ele não tem um número ISBN e não o quer como discípulo, mas pode seqüestrar seus filhos.

Este livro é nervoso como o café ou a malária – ele cria, entre si e seus leitores, uma rede de desertores e outsiders – mas é tão cara-de-pau eliteral que praticamente se codifica – fuma a si próprio em estupor.

Uma máscara, uma automitologia, um mapa sem nome de lugar algum – hirto como uma pintura egípcia que, no entanto, logra acariciar o rosto de alguém e, de repente, encontra-se na rua, num corpo, envolvido em luz, andando, acordado, quase satisfeito.

— Nova York, 1o de maio a 4 de julho de 1984

Índice Caótico

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/caos-os-pan%ef%ac%82etos-do-anarquismo-ontologico/

Reflexões místicas com Joseph Campbell (parte 2)

Arte de Android Jones

Uma entrevista com Joseph Campbell, por Tom Collins
Originalmente publicada na revista The New Story (1985)

Tradução de Gabriel Fernandes Bonfim; Revisão de Rafael Arrais

« continuando da parte 1

2. O mito como a dinâmica da vida

[Tom] Para citar suas próprias palavras novamente, “Um mito é a dinâmica da vida. Você pode ou não conhecê-lo, e o mito que você pode estar respeitosamente adorando no domingo pode não ser aquele que realmente está trabalhando em seu coração, e nem aquele que está lá fora, de acordo com a visão dos eclesiásticos.”

[Joseph] Sim. Eu diria que é uma afirmação correta, então eu ainda diria isso hoje.

[Tom] Como você une essas duas dinâmicas?

[Joseph] Colocando a ênfase em sua própria dinâmica interna, e em seguida, filtrando e extraindo da sua herança de tradições aqueles aspectos que lhe dão suporte em sua própria vida interior. Isto significa não estar preso a esta, aquela, ou a qualquer outra tradição, mas estar aberto a uma comparação geral entre todas elas… Veja, eu me dedico bastante a estudos comparativos de mitologia. Eu acho que um dos problemas de hoje é que a sociedade se encaminhou para um relacionamento multicultural, que torna arcaico esses sistemas mitológicos presos a cultura – como a cristã, a judaica e a hinduísta.

Ou seja, ao conhecer o seu próprio sistema, que lhe impulsiona por dentro em suas vivências espirituais, e reconhecer estas imagens simbólicas que realmente lhe tocam a alma, você pode buscar ajuda para – poderíamos dizer – universalizar e solidificar esta mitologia pessoal em si mesmo; e então, você passa a estar apto a buscar mais ajuda nas outras mitologias da cultura humana.

Nota do revisor: este trecho é particularmente complexo, mas passa a ser mais compreensível ao estudarmos a teoria do Monomito de Campbell, segundo a qual todos os mitos da cultura humana são, em sua essência mais íntima, parte de uma mesma mitologia. Por isso ele crê que, não importa qual o sistema simbólico ou mitologia pessoal que adotemos, ele deve funcionar se for capaz de lhe tocar a alma – e, da mesma forma, se não lhe tocar a alma, provavelmente a sua vivência espiritual será comprometida. Por “buscar ajuda”, penso que ele queira se referir a algo como “buscar o aconselhamento dos que já estão mais avançados no caminho” (alguns chamam a estes de “mestres” ou “gurus espirituais”); mas também pode estar se referindo, simplesmente, ao estudo (intelectual) dos mitos.

[Tom] Quais são os propósitos do mito?

[Joseph] Há quatro deles. Um místico. Um cosmológico: o universo inteiro como agora o entendemos se torna, como era no início da criação, uma revelação da dimensão do mistério. O terceiro é sociológico: tomar conta da sociedade que nos cerca. Mas nós não sabemos o que esta sociedade é, ela mudou tão rapidamente. Meu Deus! Nos últimos 40 anos tem havido tal transformação nos costumes, que é impossível falar sobre eles. Finalmente, há o pedagógico, que é orientar um indivíduo através das inevitabilidades de uma vida. Mas, mesmo isto se tornou impossível, porque não sabemos mais o que é inevitável no decorrer de uma vida. Estas coisas estão mudando a todo momento.

Antigamente, havia apenas um número limitado de carreiras disponíveis para o homem. E para a mulher, o normal era ser uma dona de casa ou uma freira ou algo parecido. Agora, o panorama de possibilidades e possíveis vidas e como elas mudam de década para década tornou-se impossível de mitificar. O indivíduo segue sua vida sem preparação alguma. É como correr com a bola numa brecha aberta num campo de futebol americano – não há regras, e muitos podem vir lhe derrubar. Você precisa estar muito atento a sua volta até o final da corrida. Tudo o que você pode aprender é o que a sua essência íntima é, e tentar permanecer fiel a ela.

[Tom] Como você aprendeu isso?

[Joseph] Eu não sei. Algumas pessoas aprendem cedo; alguns nunca aprendem.

[Tom] Que tipo de mitologia nós temos hoje? Que tipo deveríamos ter?

[Joseph] Eu não vou dizer que tipo de mitologia nós temos, porque eu não acho que tenhamos uma mitologia funcionando de forma geral. Eu diria que nos termos dos aspectos sociológicos da mitologia (e talvez isto esteja além de nossa capacidade sentimental) deveríamos ver o todo – a sociedade global como a comunidade a ser estudada.

[Tom] Eu pensei que os mitos sempre fossem vinculados a um grupo ou lugar específico.

[Joseph] Isso mesmo. Mas quando você pode voar de Nova York a Tóquio em um dia, você não pode mais ficar limitado a um pequeno grupo de pessoas e se referir a elas como uma unidade, pois hoje os pensamentos e crenças também viajam rapidamente através do globo. O planeta é a sociedade. E, de fato, economicamente já funcionamos assim.

[Tom] Eu acho interessante que algumas pessoas começaram a combinar a sabedoria antiga com ideias modernas – pessoas como Jean Houston, Michael Harner, Joan Halifax e Elizabeth Cogburn.

[Joseph] Se faz sentido, o que isto me parece sugerir é que necessitamos harmonizar nossas vidas com a ordem da natureza.

[Tom] Muitas dessas pessoas também estão interessadas ​​na criação de rituais. Qual é o papel que os rituais desempenham na mitologia?

[Joseph] Um ritual é a encenação de um mito. E através dessa encenação o ritual traz à mente as implicações do ato da vida que você atualmente vivencia. Agora, as pessoas me perguntam, quais rituais nós temos atualmente? A minha resposta é: o que você tem feito? O que é importante em sua vida? O que é importante, eles dizem, é ter um jantar com seus amigos. Isto é um ritual.

Este é o sentido da peça A festa dos coquetéis de Thomas Stearns Eliot. A festa é um ritual. Dessa forma, tem uma função religiosa, e aquelas pessoas estão engajadas em um relacionamento humano. Essa é a ideia chinesa, a ideia de Confúcio, de que as relações humanas são a maneira de você experienciar o Tao. Perceba o que você está fazendo quando está dando uma festa. Você está realizando um ritual social. Você o está conduzindo quando se senta para comer uma refeição, você está consumando um ato da vida.

Quando você está comendo alguma coisa, isto é algo muito especial de se fazer. E você deveria ter esse pensamento tanto ao comer uma cenoura, como ao comer um animal, assim eu penso. Mas você não sabe o que está fazendo, a menos que você pense sobre isso. Isso é o que um ritual faz. Ele lhe dá uma oportunidade de perceber o que você está fazendo, para que possa compreender a sua relação com essa inevitável energia da vida em seus momentos de interação. Para isso que os rituais servem; você faz as coisas com intenção, e não apenas de maneira animalesca, vorazmente, sem ter consciência alguma do que está realizando.

Isso também é verdade para o sexo. As pessoas que apenas praticam sexo como um jogo divertido, ou algo emocionante como isto, não entendem o que estão fazendo. Então você não tem a sacramentalização. E a grande razão de o casamento ser sagrado, é que ele permite que você saiba o que diabos é correto e o que não é, e o que está acontecendo ali. Um macho e uma fêmea que se juntam, com a possibilidade de que uma outra vida surja desta interação – este é um grande ato.

» Na próxima parte da entrevista, a transcendência dos mitos…

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Crédito da imagem: Android Jones

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

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#Mitologia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/reflex%C3%B5es-m%C3%ADsticas-com-joseph-campbell-parte-2