Poesia, Música e Magia. Do Liber 333 ao Tarot de Thoth – Johann Heyss

Bate-Papo Mayhem #100 – gravado dia 10/11/2020 (Terça) Marcelo Del Debbio bate papo com Johann Heyss – Poesia, Música e Magia. Do Liber 333 ao Tarot de Thoth

Os bate-Papos são gravados ao vivo todas as 3as, 5as e sábados com a participação dos membros do Projeto Mayhem, que assistem ao vivo e fazem perguntas aos entrevistados. Além disto, temos grupos fechados no Facebook e Telegram para debater os assuntos tratados aqui.

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#Batepapo #Thelema

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O Caminho do Darma, como nos ditou o Buda

As Edições Textos para Reflexão desta vez trazem a você o livro mais lido e traduzido do budismo, Dhammapada: O Caminho do Darma.

Segundo a tradição, ele teria sido composto pelas anotações dos discípulos que chegaram a conviver com o Buda. Ou seja, se trata do que nos foi ditado pelo próprio Buda. Monges budistas da vertente teravada registraram o Cânone Páli algumas centenas de anos após a morte do Buda. O Dhammapada é uma parte do Sutta Pitaka, que por sua vez é uma parte do Cânone Páli. Trata-se de uma coleção de 423 versos que nos demonstram como viver uma vida que conduza à iluminação. Quem consegue viver uma vida neste caminho, segue o seu Darma.

Disponível em e-book e versão impressa :

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À seguir, trazemos um trecho do Prefácio (por Rafael Arrais, tradutor da obra):

Uma criança é um Buda que não sabe que é um Buda. E um Buda é uma criança que sabe que é um Buda. (Satyaprem)

Enquanto vivia sua juventude em meio ao luxo do palácio de sua família, o príncipe Sidarta era mesmo puro, puro como a criança que tem a sorte de viver uma infância de belezas. Diz-se que seu pai, o governante de Kapilavastu (um reinado que se situava ao sul de onde hoje existe o Nepal), tentou proteger o filho de qualquer tipo de sofrimento humano, e o criou dentro dos limites do próprio palácio, sem que tivesse contato com o que havia fora dele.

Quando fez 16 anos, Sidarta Gautama se casou com uma prima da mesma idade e com ela teve um filho. Até os 29 anos, o príncipe viveu uma vida sem grandes incidentes, tendo a sua mão todo o conforto material de que poderia necessitar, embora se diga que nada disto jamais o seduziu. Talvez faltasse algo naquela vida de contos de fada, afinal…

Inquieto em meio a uma vida de perfeições palacianas, aos 29 anos Sidarta resolve sair de seu palácio (sem o conhecimento do pai), acompanhado somente por um cocheiro, que pilotava a sua luxuosa carruagem. Diz-se que ele fez quatro viagens curtas para além das muradas palacianas, finalmente tendo contato direto com o mundo lá fora:

Na primeira viagem, avistou um homem velho e decrépito, apoiado num cajado. Seu cocheiro prontamente lhe explicou que envelhecer era o destino de todas as pessoas.

Na segunda viagem, avistou um homem doente e cambaleante, ardendo em febre. Seu cocheiro complementou que muitas doenças eram inevitáveis na vida.

Na terceira viagem, avistou um corpo já em decomposição, sendo conduzido a um cemitério local. Seu cocheiro explicou que ninguém poderia escapar para sempre da morte.

Desolado e deprimido, em sua quarta viagem o príncipe finalmente avista um monge mendicante calmo e sereno, mesmo conhecendo a velhice, a doença e a morte, como todos os demais que viviam fora dos palácios. Essa visão o consola e, ao mesmo tempo, estabelece um novo sentido para a sua vida: chega de palácios artificiais, chega de infância, Sidarta desejava ser adulto em meio ao sofrimento do mundo.

Numa noite, enquanto todos no palácio dormiam, saiu novamente acompanhado de seu amigo cocheiro, cada um montando um cavalo. Desta vez, a viagem seria bem mais longa…

A alguns quilômetros de distância de Kapilavastu, Sidarta parou, cortou os próprios cabelos com sua espada, trocou as roupas luxuosas pelos trajes simples de um caçador, e se despediu do amigo, que retornou ao reino com ambos os cavalos.

Transformado em monge andarilho sob a alcunha de Gautama (o nome da sua família), dirigiu-se para Vaisali, onde um mestre bramânico indiano, Arada Kalama, ensinava um sistema filosófico que ficou conhecido como sanquia. Aprendendo-o rapidamente, mas julgando-o insuficiente, ele deixa o mestre e se dirige a Rajagarra, capital do reino Mágada, ao sul do rio Ganges. Lá conhece o rei Bimbisara, que, seduzido pelo seu já vasto conhecimento, lhe oferece a metade do próprio reinado, mas o monge Gautama gentilmente recusa a oferta, e logo se torna discípulo de outro mestre, chamado Udraka.

Após apenas um ano, domina com facilidade as técnicas e a filosofia do yoga ensinado por Udraka, e parte rumo à cidade de Gaya acompanhado por cinco discípulos, que já o tinham como mestre. Gautama se estabelece num local aprazível nas proximidades de Gaya, e lá se submete, durante alguns anos, à ascese mais severa. Chegou a se alimentar com um único grão de milho por dia.

Meditando imóvel, magro como um esqueleto coberto de parcas camadas de pele, eventualmente recebeu o título de sakyamuni (“asceta entre os Sakya”, o clã dos Gautama). Ao atingir o extremo limite da mortificação, finalmente compreendeu a inutilidade da ascese total como meio de libertação do sofrimento do mundo, e decidiu encerrar aquela prática.

Diz-se que uma mulher piedosa, ao ver o seu estado deplorável, lhe ofereceu um pote de arroz cozido. Para a imensa surpresa de seus discípulos, que naquela altura o veneravam, o monge Gautama aceita a oferta e devora o alimento. Consternados, seus cinco discípulos o abandonam a própria sorte…

Milagrosamente restaurado pelo arroz, Sidarta dirige-se a um bosque próximo, escolhe uma árvore (que eventualmente foi chamada de bodhi-druma, sânscrito para “a árvore do despertar”) e se senta ao pé de suas raízes, decidido a se levantar somente após haver obtido o “despertar”, ou seja, uma forma de se livrar definitivamente do sofrimento da existência.

Diz-se que, durante as sete semanas em que permaneceu aos pés da árvore, Sidarta foi tentado e atormentado inúmeras vezes pela entidade conhecida como Mara, que reinava sobre a morte. Ora, Sidarta ameaçava ensinar aos homens e mulheres a se libertarem definitivamente do ciclo de nascimentos, mortes e renascimentos, portanto era natural que Mara quisesse impedi-lo.

Em suas reflexões internas, Sidarta avançava rapidamente, estava a um passo de se tornar Buda, “o desperto”. O último recurso de Mara foi lhe oferecer a passagem imediata para o Nirvana, o estado além da vida onde o príncipe se encontraria livre, para sempre, dos ciclos de mortes e renascimentos. Sidarta lhe respondeu que só aceitaria entrar no Nirvana após ter estabelecido naquele mundo uma comunidade instruída e bem organizada, que soubesse ensinar o caminho da libertação…

Assim, após sete semanas aos pés da árvore do despertar, o príncipe Sidarta Gautama venceu definitivamente a tentação de Mara, e se ergueu como o Buda, o primeiro desperto, o primeiro ser que conheceu o caminho para a libertação do sofrimento.

Aos 35 anos, o Buda iniciou sua peregrinação pelos vilarejos, pequenas cidades e grandes reinados dos arredores da região onde atingiu a iluminação. A pé, carregando pouco mais que a roupa do corpo, acompanhado por dezenas de discípulos (dentre os quais, aqueles cinco que lhe haviam abandonado), o Buda passou 45 anos ensinando as chamadas quatro nobres verdades que conduziam ao Darma, o caminho para a iluminação: a existência do sofrimento; a origem do sofrimento; a interrupção do sofrimento; e o caminho que nos leva à cessação do sofrimento.

A criança havia perdido sua pureza, e conhecido as dores da vida adulta. Mas, ao contrário de tantos outros, o adulto havia encontrado um meio para se libertar definitivamente de todo o sofrimento, e alcançar novamente a pureza infantil, mesmo tendo conhecido a dor. Sidarta era novamente como uma criança, mas era também um Buda que sabia que era um Buda.

Aos 80 anos, depois de padecer de uma forte diarreia em decorrência, provavelmente, de haver ingerido carne de porco estragada, o Buda se despediu deste mundo e pôde finalmente alcançar o Nirvana. Diz-se que isto se deu no nordeste da Índia, na cidade de Kushinagar. A data provável é o ano de 483 a.C.

Assim viveu e morreu, quiçá pela última vez, Sidarta Gautama, o Buda, o homem que trouxe o budismo a este mundo.

#Budismo #Darma #eBooks #espiritualismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-caminho-do-darma-como-nos-ditou-o-buda

A Liga Extraordinária

Olá amigos , devido a pedidos fiz um texto analisando uma HQ e apontando algumas coisas interessantes.

Escolhi a Liga Extraordinária , no original “The League of Extraordinary Gentlemen” de Alan Moore e Kevin O’Neill.

Um dos motivos é pelos quadrinhos ser pouco conhecidos mesmo existindo um filme , que aliás é totalmente diferente da obra em si , algo que é bem normal nesses casos quando uma HQ vira filme.

Fiquei em dúvida se deveria apontar as partes que tem relação com a literatura , já que a HQ tem ligação com clássicos da literatura britânica , mas resolvi não me apegar nessa parte para não deixar o texto muito grande.

Pensei muito em como fazer o texto , achei interessante usar o sistema Página/Quadrinho.

Então por exemplo : 50/04 quer dizer : Página 50/Quadrinho 04

Infelizmente não coloquei as imagens de cada cena , pois assim eu seria obrigado a colocar muitas e é preferível que vocês as vejam na própria obra.

Então vamos lá!

Antes de mais nada o nome original é : The League of Extraordinary Gentlemen.

Somando todas as letras temos 33 , esse número é considerado um número mestre , e ainda se somarmos temos 3+3= 6.

A história começa na página 7 , o número perfeito.

PS: Não vou me aprofundar no significado dos números , pois essa num é minha especialidade mais vocês podem encontrar facilmente o que eles significam.

Página 8 – Estátua de Atena segurando um caduceu.

Página 17/3 – Nautilus é o nome de um cefalópode que tem uma concha com a proporção áurea.A concha está na testa do capitão.

Página 21/01 – Shiva no Timão.

Página 30 – Um detalhe interessante é que na história Edward é um Símio , diferente da obra “O médico e o monstro” , possivelmente uma comparação com o lado instintivo do ser humano .Update : relação com Alan Poe, Os assassinatos da Rua Morgue.

Página 37/10 – Aparentemente estão jogando xadrez , um jogo da qual para alguns tem relação com ocultismo , um dos jogos preferidos de Crowley. As peças parecem Leviathan e Poseidon.

Página 38 – OXO é um jogo da velha programado Alexander S. Douglas como uma tese de doutorado, demonstrando a interação humano-máquina.

O Colégio Correcional é um local “carregado” de imagens e arquétipos relacionados a sexualidade , isso para de certo modo simbolizar como esses locais são realmente.

Página 42/05 – Centauro fêmea e um casal fazendo sexo.

Página 43 – Fauno, criatura que tem muita ligação com o sexo.

Página 44/02 – Ninfa e o Falo.

Página 50/02 – Hórus.

Página 51/04 – Sr. Bond cita o ano 1886 e se vocês verem os 2 pregos da parede junto com suas sombras formam o número 14.

1886 = 1+8+8+6=23=2+3= 5

14 = 1+4 = 5

Página 53 – 1787

1+7+8+7= 23 = 2+3 = 5

Página 54 – Entre as nuvens podemos ver o rosto de um velho chinês , nada mito complicado de se ver.

Página 56 – Quatermain cortando um queijo (mais lembra a espada apontada para o triângulo? , vocês decidem).

Também algumas inscrições na mesa , a qualidade da versão não permite que eu consiga ler…)

Página 79/5 e 6 – Deuses Hindus.

Página 101 /3 e 4 – Busto de um faraó , símbolo da Maçonaria , o número 5 aparece algumas vezes.

Página 110/1 – Mais alguns símbolos da maçonaria , e no topo do prédio a justiça fazendo o símbolo do silêncio.

Página 115/1 – Outros símbolos e duas estátuas egípcias.

Página 115/2 – Estátuas da personificação da Morte.

Vou encerrando por aqui , quero dizer que se vocês lerem com atenção vão encontrar muitas outras coisas interessantes.

O objetivo não é dar tudo desvendado mas dar o prazer de que vocês mesmo possam fazer e ver que não é complicado achar referências ocultistas em alguns quadrinhos.

Por isso mesmo coloquei uma quantidade um pouco baixa de referências para ver se alguém se anima em ler!

Também deixei uma e outra coisa fora por alguns motivos , algumas estavam aparecendo demais como o esquadro e compasso então não apontei todas vezes que aparece, em outros casos achei que poderiam ser apenas impressão minha e preferi não arriscar.

Peço perdão por essa postagem estar meio desorganizada , foi a primeira experiência em fazer um texto desse modo.

#AlanMoore #HQ

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-liga-extraordin%C3%A1ria

21 Milhões de Conspiradores e o Primeiro Ciclo!

21-milhoes

Acabamos de chegar à marca de 21 milhões de Pageviews neste blog… Nada mal para um blog de hermetismo e espiritualismo no país das olimpíadas … Como de costume, para quem gosta dos números ou estava procurando pelos links de tudo o que fazemos, ao todo, nesta caminhada desde 7/5/2008, foram exatos 3.000 posts publicados e 48.500 comentários. Temos 4.787 followers no twitter , 20k subscribers no Facebook e até mesmo uma Conta no Instagram onde publico pequenas dicas de magia prática.

Post sobre como tudo começou.

Nosso Projeto de Hospitalaria está funcionando perfeitamente e passamos de 5 mil mapas astrais, 3 mil sigilos e 1.200 Mapas Sephiroticos (aproximadamente 14.500 cestas básicas ou equivalente distribuídas em 8 anos).

O Primeiro Ciclo do Blog está para ser finalizado, com a publicação de um dos mais importantes livros de Kabbalah Hermética em língua portuguesa. E fechando este ciclo, informo que em algum tempo estarei encerrando o Mayhem para dar início a outro fórum mais fechado de discussões. O Projeto Mayhem nasceu com o TdC e era um fórum aberto onde qualquer um poderia se inscrever e conversar sobre Hermetismo. Para esta segunda etapa do Blog, teremos um fórum mais restrito, para quem já tem uma base de conhecimentos no assunto. Deixaremos o Grupo do Facebook para assuntos mais gerais.

Ao longo destes sete anos (incluindo o TdC S&H que completou 8 anos em 7/Agosto/15), perdi a conta de quantas pessoas conseguimos iniciar nos estudos da Kabbalah, Astrologia, Tarot, Runas e Magia Prática, sem contar os leitores que se filiaram à FRA, AMORC, Lectorium, OKRC, CALEN, AA, SCA, CIH, Demolay, Eubiose, Circulo Egregore, Casa do filósofo, Pró-Vida, Sirius-Gaia, Gnose, Martinismo ou Maçonaria graças ao blog.

O Raph Arrais editou o Grande Computador Celeste que contém os 70 primeiros textos do TdC, distribuido em pdf gratuito ou versão impressa, e o PH gravou comigo um Curso Básico gratuito de Exercícios Herméticos. Não tem desculpa para não começar a estudar e praticar!

Fazemos anualmente uma das maiores correntes de meditação no Sefirat Ha Omer aqui no Brasil, três Encontros do Blog, ajudamos em quatro Simpósios Brasileiros de Hermetismo (o V Simpósio ja confirmado para 2016) e temos conseguido organizar cursos presenciais pelo menos uma vez por mês. No início de 2015 começamos o primeiro Curso de Kabbalah em Ensino à Distância, logo em seguida, com o resultado do primeiro curso, gravamos o curso de Astrologia Hermética, Geomancia e o Curso Completo de Tarot, levando os estudos de Hermetismo a quem mora longe dos grandes centros urbanos.

E, como se não bastasse, reimprimimos o Tarot da Kabbalah Hermetica, feito em parceria por mim e pelo talentoso artista Rodrigo Grola, a nova impressão da Enciclopédia de Mitologia e os Posteres do Lamen e da Árvore da Vida.

Emplacamos um cardgame de protesto Pequenas Igrejas, Grandes Negócios! que foi notícia até na Playboy, Folha e Gizmodo e três Livros de Hermetismo para crianças, As Aventuras de Lilith, “As Aventuras de Isis” e “As Aventuras de Hércules”.

E agora iniciamos um novo ciclo, com mais novidades…

Sucesso é a Única Possibilidade!

#Blogosfera

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/21-milh%C3%B5es-de-conspiradores-e-o-primeiro-ciclo

Após a Caçada

» Parte 2 da série “A ciência da inspiração” ver parte 1

Mente: 1. Conjunto das idéias e convicções de uma pessoa, concepção, imaginação, intelecto; 2. Capacidade de raciocinar ou aprender, inteligência.

Retornemos aproximadamente 200 mil anos no tempo, e observemos uma pequena comunidade de caçadores-coletores nas planícies africanas, berço de todos nós, os humanos. São ainda hominídios, humanos arcaicos, mas já possuem seus módulos mentais relativamente desenvolvidos: a inteligência geral foi herdada das outras espécies das quais evoluíram, e é responsável pelos processos básicos de instinto e sobrevivência; A inteligência naturalista desenvolveu-se ao longo da persistente guerra da fome – o conhecimento do terreno em sua volta, a análise dos rastros de presas livres deixados no solo, o cuidado para evitar plantas venenosas, etc; A inteligência técnica permitiu o manuseio de objetos e até mesmo a elaboração de ferramentas, como pedras pontiagudas que facilitam o corte da carne das presas abatidas; E, finalmente, a inteligência social evoluiu desde que reconheceram que caminhar pelo mundo em bandos era mais seguro do que enfrentar as caçadas sozinho.

Tais hominídios acabaram de retornar de uma boa caçada, e estão aproveitando o pouco tempo que resta de luz do sol no final da tarde… Alguns estão retalhando as carcaças para que a comida possa ser compartilhada; As mulheres e anciãos estão descansando, conversando, ou ensinando as crianças algumas regras básicas da vida em sociedade tribal; Já aqueles mais hábeis com os cinzéis estão afiando as pontas das lanças utilizadas na última caçada, ou ainda criando novas… Todas mais ou menos no mesmo formato, projeto de algum gênio primordial que se espalhou e manteve-se inalterado por dezenas de milhares de anos. Não havia muita criatividade, não havia muita inspiração, praticamente não existia a arte, nem a religião…

Avancemos então para cerca de apenas 50 mil anos atrás. No tempo da evolução das espécies terrestres apenas um piscar de olhos de meros 150 mil anos… Ainda estamos nas mesmas planícies do continente mãe, só que agora observando o retorno da caçada – igualmente bem sucedida – de uma comunidade de homo sapiens, humanos como nós, nossos avôs e avós ancestrais. Percebemos que eles continuam cortando as carcaças recém-abatidas (embora com instrumentos mais anatômicos e afiados, ainda de pedra), continuam fabricando novos instrumentos e afiando os desgastados, e as mulheres e anciãos continuam dando instruções básicas de vida social para os infantes. O que mudou, afinal?

Para os arqueólogos, os registros do solo dizem que mudou muita coisa, embora para os leigos talvez essa mudança passasse desapercebida. Ocorre que, na tribo de hominídios, cada grupo realizava sua tarefa em uma área em separado da aldeia; Já nos homo sapiens, todos faziam as atividades uns próximos aos outros, geralmente em torno da fogueira… Nessas longas noites de conversas e atividades após a caçada, muito do que somos hoje tornou-se possível.

Segundo o arqueólogo (sim, arqueólogo mesmo) Steven Mithen em “A pré-história da mente”, foi essa intercessão entre os módulos da mente primitiva que catapultou nossa inteligência a patamares inimagináveis para os humanos ancestrais. Subitamente, os dentes de animais caçados, que antes eram descartados, se tornaram decoração de colares; Colares estes que também serviam para demonstrar para outros membros (e mulheres, quem sabe) da mesma tribo quão bons eram os caçadores que os ostentavam; Da mesma forma, as pegadas deixadas na terra pelas presas tornaram-se também símbolos que demonstravam o tamanho e a direção em que o animal se deslocou; E logo tanto símbolos naturais quanto animais quanto os próprios homens se fundiram em pictogramas pintados em cavernas profundas – registros da história de um povo que se reconheceu como povo; Talvez ao mesmo tempo, surgiram os mitos, as forças naturais tornadas meio-homem, meio-animal, meio-espírito, meio-deus – a religião ancestral surgia em meio ao animismo e ao xamanismo, juntamente com a consciência de nossa vida e nossa mortalidade.

Esta é apenas uma teoria de Mithen, mas acredito que seja muito bem fundamentada. Essa união de módulos mentais, essa divina fluidez cognitiva, faz-se representar até os dias de hoje… Já se parou para perguntar por que a maioria das pessoas passa cerca de 2/3 de seu tempo de convívio com qualquer outra pessoa falando sobre relacionamentos com outras pessoas, ou os relacionamentos de famosos, ou quem morreu e quem nasceu? Ou porque revistas com fotos imensas de modelos de beleza que não possuem muito espaço para texto vendem que nem água? Ou simplesmente porque apreciamos tanto uma boa fofoca? Ora, Mithen sabe: porque nossa fluidez cognitiva nasceu de nosso convívio social ancestral – nada mais justo que dediquemos tanto tempo a ela ainda nos dias atuais. Ou pelo menos, se ainda nos identificamos com nosso lado animal…

Nós trocamos idéias, trocamos palavras, trocamos símbolos uns com os outros constantemente. Nosso maior dom não é a visão ou a audição ou nem mesmo a racionalidade, mas antes de tudo, a capacidade de interpretar símbolos. Um dom sim, mas que muitas vezes pode se tornar também uma maldição – principalmente quando mal fazemos idéia da extensão de tal capacidade.

A criatividade é a capacidade de reformular o que conhecemos, em geral sob a luz de uma informação nova, e de desenvolver um conceito ou uma idéia original. A fim de ser criativa, uma pessoa precisa ser crítica, seletiva e inteligente.

O processo criativo transcorre, segundo a ciência, da seguinte forma: nossos cérebros são bombardeados de forma contínua com estímulos, sendo que a maior parte é ignorada. Essa “exclusão” garante que usemos as informações mais relevantes para direcionar nossos pensamentos. A abertura de nossas mentes para informações novas promove o arranque do processo criativo. Para isso, o cérebro desativa a atenção aguda, identificada por eletrencefalograma como ondas beta (estado de alerta) e permite o aparecimento de ondas alfa, amplas e lentas (estado de relaxamento mental e ociosidade). Desse modo, os estímulos, que de outra forma poderiam ser ignorados, tornam-se conscientes e ressoam com as memórias, gerando novos pensamentos e idéias que podem ser tanto originais quanto úteis. Pois é, deve ser por isso que as pessoas têm a maioria das boas idéias no cafezinho, e não durante um dia estressante de trânsito e trabalho nas grandes cidades…

Os artistas que dominaram suas disciplinas têm uma base de conhecimento que sustenta melhorias e mudanças a partir da repetição e/ou reorganização dos padrões simbólicos que eles já dominam. Tal habilidade permite que esses processos rodem na inconsciência, liberando a consciência para a absorção e reconhecimento de estímulos inteiramente novos. Pessoas assim possuem uma alta capacidade de retornar a um estado de alerta mental quando reconhecem uma nova idéia, pois de forma recorrente as submetem a uma avaliação crítica rigorosa – “será que isto combina ou acrescenta algo a minha arte?”. Os estímulos, os símbolos que sobrevivem a esse segundo processo de pensamento criativo tendem a ser valiosos e, portanto, julgados como genuinamente originais.

Sejamos então todos artistas de nossa própria vida, pois que ela sempre será nossa obra mais importante. Após a longa caçada, após tantas noites de conversas em fogueiras amedontrados e extasiados com a imensidão da noite a volta, de alguma forma fomos guiados por essa vasta natureza a uma certa fluidez de pensamento. Em todos esses dias de homens, aprendemos passo a passo a compartilhar símbolos, idéias, pensamentos, e emoções… Nem sempre temos sido bem sucedidos em reconhecer tudo isso que há de sagrado em torno e mesmo dentro de nós – seja no mecanismo, seja no sentido. Mas o que importa é que podemos aprender com nossos erros, e melhorar um pouco, um pensamento de cada vez.

Idéias, idéias são tudo o que há além da natureza que aqui já estava quando chegamos. Idéias são tudo o que iremos deixar em retribuição. Reconheçamos então quais são as idéias que nos levarão a frente, e quais são âncoras disfarçadas de pipas, prontas a nos deixar fixados no mesmo lugar por mais uma vida inteira.

Sejamos caçadores então, e façamos de nossa caça uma verdadeira arte: cacemos não para sobreviver simplesmente, mas para viver, viver plenamente, viver em harmonia, conectados com a infinita teia da vida a nossa volta. Cacemos idéias que se escondem além da galáxia mais distante e no menor pedaço de átomo que fomos capazes de enxergar. Cacemos o horizonte à frente, cacemos os mecanismos e o sentido desse turbilhão universal, cacemos a nós mesmos, cacemos ao amor. Enfim, cacemos pela enorme felicidade e a enorme paz que essa caçada nos proporciona.

» Na continuação, metáforas, poesia e o grande programador cósmico…

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Crédito das imagens: [topo] Becoming Human; [ao longo] Werner Backhaus/dpa/Corbis

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

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#Arte #Evolução #Ciência #Criatividade #Psicologia #Antropologia

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