A República de Platão, (Fragmentos 588A-589B) – Nag Hammadi

“Já que chegamos a este ponto em uma discussão, vamos retomar as primeiras coisas que nos foram ditas. E descobriremos que ele diz: ‘Bom é aquele que foi completamente injustiçado’. Ele é glorificado justamente”. Não foi assim que ele foi censurado?”.

“Esta é certamente a maneira adequada”.

E eu disse: “Agora, então, falamos porque ele disse que aquele que faz injustiça e aquele que faz justiça, cada um tem uma força”.

“Como então?”

“Ele disse: ‘Uma imagem que não tem semelhança é a racionalidade da alma’, para que aquele que disse estas coisas entenda. Ele […] ou não? Nós […] somos para mim. Mas todos […] que lhes disseram […] governante, estes agora se tornaram criaturas naturais – até mesmo a Quimera e o Cérbero e todos os demais que foram mencionados. Todos eles desceram e descartaram formas e imagens. E todos eles se tornaram uma única imagem. Foi dito: ‘Trabalhem agora! Certamente é uma imagem única que se tornou a imagem de uma besta complexa com muitas cabeças. Alguns dias, de fato, é como a imagem de uma fera selvagem. Então ela é capaz de lançar fora a primeira imagem. E todas estas formas duras e difíceis emanam dela com esforço, uma vez que estas são formadas agora com arrogância. E também todas as outras que são como elas são formadas agora através da palavra. Por enquanto, é uma imagem única. Pois a imagem do leão é uma coisa e a imagem do homem é outra. […] única […] é a […] de […] aderir. E isso […] é muito mais complexo que o primeiro. E o segundo é pequeno”.

“Ele foi formado”.

“Agora então, junte-os uns aos outros e faça deles um só – pois eles são três – para que cresçam juntos, e todos estejam em uma única imagem fora da imagem do homem como ele, que não consegue ver as coisas dentro dele. Mas o que está fora apenas é o que ele vê. E é aparente em que criatura está sua imagem e que ele foi formado em uma imagem humana.

“E falei com ele que disse que há lucro em fazer injustiça para o homem”. Aquele que faz injustiça realmente não lucra nem se beneficia. Mas o que é lucrativo para ele é o seguinte: que ele jogue abaixo toda imagem da besta má e a espezinhe junto com as imagens do leão. Mas o homem está em fraqueza a este respeito. E todas as coisas que ele faz são fracas. Como resultado, ele é atraído para o lugar onde passa tempo com elas. […]. E ele […] para ele em[…]. Mas ele provoca […] inimizade […]. E, com a luta, eles se devoram uns aos outros entre si. Sim, todas essas coisas ele disse a todos que elogiam a prática da injustiça”.

“Então não é lucrativo para aquele que fala com justiça?”

“E se ele faz estas coisas e fala nelas, dentro do homem elas se apoderam firmemente”. Portanto, ele se esforça especialmente para cuidar delas e as nutre como o fazendeiro alimenta seus produtos diariamente. E os animais selvagens impedem o seu crescimento.

***

Fonte:

<http://gnosis.org/naghamm/plato.html>.

***

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

⬅️ Voltar para a Biblioteca de Nag Hammadi

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-republica-de-platao-fragmentos-588a-589b-nag-hammadi/

A Paráfrase de Sem

SOBRE O NÃO-CONCEBIDO:

A paráfrase sobre o espírito não-concebido; o que Derdekeas me revelou, Sem, de acordo com a vontade da majestade.

SEM TEM UMA VISÃO:

Meu pensamento, que estava em meu corpo, me arrancou da minha raça. Ele me levou até o topo do mundo, que está próximo à luz que brilhava sobre toda a região. Não vi nenhuma semelhança com a terra, mas havia luz.  E meu pensamento se separou do corpo de escuridão como se estivesse dormindo.

DERDEKEAS FALA A SEM SOBRE OS PODERES DO UNIVERSO:

Ouvi uma voz que me dizia: “Sem, como você é de um poder não misturado e é o primeiro ser sobre a terra, ouça e entenda o que lhe direi primeiro a respeito dos grandes poderes que existiam no início antes de eu aparecer. Havia luz e escuridão, e havia espírito entre elas.  Como sua raiz caiu no esquecimento – o que era o espírito não concebido – eu lhe revelo a verdade sobre os poderes.  A luz era pensada, cheia de atenção e razão; eles estavam unidos em uma só forma. E a escuridão era o vento nas águas. Ele possuía a mente envolta em fogo caótico. E o espírito entre eles era uma luz suave e humilde. Estas são as três raízes. Elas reinavam cada uma em si mesmas, sozinhas. E se cobriam mutuamente, cada uma com seu poder.

“Mas a luz, como possuía grande poder, conhecia a humilhação das trevas e sua desordem, ou seja, que a raiz não era reta”. A tortuosidade da escuridão era a falta de percepção, ou seja, a ilusão de que não há ninguém acima dele. E enquanto ele foi capaz de conter seu mal, ele estava coberto pela água. E ele se agitava. E o espírito se assustou com o som.  Ele se elevou até seu posto, e viu uma grande e escura água. E ele ficou enjoado. O pensamento do espírito olhou para baixo; ele viu a luz infinita. Mas ele foi negligenciado pela raiz pútrida. E, pela vontade da grande luz, a água escura se separou. A escuridão surgiu envolta em ignorância vil, e isto foi para que a mente pudesse se separar dele, porque ele se orgulhava disso.

A ESCURIDÃO VÊ O ESPÍRITO:

“Quando as trevas se agitaram, a luz do espírito lhe apareceu. Quando ele a viu, ficou espantado. Ele não sabia que outro poder estava acima dele. E quando viu que sua semelhança era escura em comparação com o espírito, sentiu-se magoado. E em sua dor ele levantou, acima da altura dos membros da escuridão, sua mente, que era o olho da amargura do mal. Ele fez com que sua mente tomasse forma em um membro das porções do espírito, pensando que, olhando para baixo para seu mal, ele seria capaz de igualar o espírito.  Mas ele não era capaz, pois queria fazer uma coisa impossível, e isso não aconteceu. Mas para que a mente das trevas, que é o olho da amargura do mal, não fosse destruída, já que ele foi feito parcialmente semelhante, ele se levantou e brilhou com uma luz ardente sobre todo o Hades, para que a igualdade da luz impecável pudesse se tornar aparente. Pois o espírito se beneficiou de toda forma de escuridão, pois ele apareceu em sua majestade.

“E a luz exaltada e infinita apareceu, pois ele estava muito alegre. Ele desejava revelar-se ao espírito. E a semelhança da luz exaltada apareceu para o espírito não percebido. Eu apareci.  Eu sou o filho da luz incorruptível e infinita. Eu apareci à semelhança do espírito, pois sou o raio da luz universal. E sua aparência para mim era para que a mente das trevas não permanecesse no Hades. Pois a escuridão se fez semelhante a sua mente em uma porção dos membros. Quando eu, ó Sem, apareci à semelhança, para que as trevas se tornassem escuras para si mesmo, de acordo com a vontade da majestade, e para que as trevas se tornassem desprovidas de todos os aspectos do poder que possuía, a mente atraiu o fogo caótico, com o qual estava coberta, do meio das trevas e da água. E da escuridão a água se tornou uma nuvem, e da nuvem o ventre tomou forma.  O fogo caótico, que era um desvio, foi para lá.

A ESCURIDÃO EJACULA A MENTE PARA DENTRO DO ÚTERO DA NATUREZA:

“E quando a escuridão viu o útero, ele se tornou incasto. E quando ela despertou a água, ela esfregou o útero. Sua mente se dissolveu até as profundezas da natureza. Misturou-se com o poder da amargura da escuridão. E o olho do útero rompeu com a maldade, para que ela não voltasse a trazer a mente à tona. Pois era uma semente da natureza a partir da raiz escura. E quando a natureza tinha tomado para si a mente por meio do poder das trevas, todas as semelhanças tomaram forma nela. E quando as trevas haviam adquirido a semelhança da mente, ela se assemelhava ao espírito. Pois a natureza se levantou para expulsá-la; ela era impotente contra ela, já que não tinha uma forma da escuridão. Pois ela a trouxe à tona na nuvem. E a nuvem brilhava. Uma mente aparecia nela como um fogo assustador e nocivo. A mente colidiu contra o espírito não concebido, pois possuía uma semelhança dele, a fim de que a natureza pudesse se esvaziar do fogo caótico.

E imediatamente a natureza foi dividida em quatro partes. Elas se tornaram nuvens que variavam em sua aparência. Eram chamadas de hímen, pós-parto, poder e água.  E o hímen, o pós-nascimento e o poder eram fogos caóticos. E a mente foi tirada do meio da escuridão e da água – já que a mente estava no meio da natureza e do poder das trevas – para que as águas nocivas não se apegassem a ela. Por causa disso, a natureza foi dividida, de acordo com minha vontade, para que a mente pudesse retornar ao seu poder, que a raiz escura, misturada com a mente, havia tirado dela. E a raiz escura apareceu no ventre. Na divisão da natureza, a raiz escura separou-se do poder escuro, que ela possuía da mente. A mente foi para o meio do poder – esta era a região do meio da natureza.

A LUZ DO ESPÍRITO ESTÁ NOS CONFINS DA NATUREZA:

“O espírito de luz, quando a mente o sobrecarregou, ficou espantado. E a força de seu assombro o tirou do fardo. E ele voltou ao seu calor. Ele acendeu a luz do espírito. E quando a natureza se afastou do poder da luz do espírito, o fardo voltou. E o assombro da luz novamente lançou fora o fardo. Ela se agarrou à nuvem do hímen.  E todas as nuvens das trevas gritaram, elas que haviam se separado do Hades, por causa do poder alienígena.

“Este é o espírito de luz que entrou nelas”. E pela vontade da majestade o espírito olhou para a luz infinita, para que sua luz possa ser piedosa e a semelhança possa ser trazida para cima do Hades. E quando o espírito tinha olhado, eu fluí para fora – eu, o filho da majestade – como uma onda de luz e como um redemoinho do espírito imortal. E eu soprei da nuvem do hímen sobre o espanto do espírito não percebido. A nuvem separou e lançou luz sobre as nuvens. Estas se separaram para que o espírito pudesse retornar. Por causa disso, a mente tomou forma. Seu descanso foi despedaçado. Pois o hímen da natureza era uma nuvem que não podia ser agarrada; é um grande fogo. Da mesma forma, o resplendor da natureza é a nuvem do silêncio; é um fogo augusto. E o poder que se misturou com a mente – foi também uma nuvem da natureza que se uniu à escuridão que havia despertado a natureza para o descaso. E a água escura era uma nuvem assustadora. E a raiz da natureza, que estava abaixo, era tortuosa, pois era pesada e prejudicial. A raiz estava cega para a luz amarrada, o que era insondável porque tinha muitas aparências.

DERDEKEAS APELA EM NOME DO ESPÍRITO:

“Tive piedade da luz do espírito que a mente tinha recebido”. Voltei à minha posição para rezar à luz exaltada e infinita para que o poder do espírito pudesse aumentar ali e pudesse ser preenchido sem impurezas escuras. E reverentemente eu disse: “Você é a raiz da luz”. Sua forma oculta apareceu, ó exaltada, infinita. Que todo o poder do espírito se espalhe e que seja preenchido com sua luz, ó luz infinita. Então não poderá unir-se ao espírito não concebido, e o poder do espanto não poderá misturar-se com a natureza. De acordo com a vontade da majestade, minha oração foi aceita.

“E a voz da palavra foi ouvida dizendo através da majestade do espírito não-concebido, ‘Vejam, o poder foi completado’. Aquele que foi revelado por mim apareceu no espírito”.

“Novamente eu aparecerei”. Eu sou Derdekeas, o filho da luz incorruptível e infinita.

“A luz do espírito infinito desceu à natureza fraca por um curto período de tempo até que toda a impureza da natureza se tornou nula, e para que a escuridão da natureza pudesse ser exposta. Vesti meu traje, que é o traje da luz da majestade – que eu sou”.  Vim na aparência do espírito para considerar toda a luz, que estava nas profundezas das trevas, segundo a vontade da majestade, a fim de que o espírito, por meio da palavra, pudesse ser preenchido com sua luz independentemente do poder da luz infinita. E, segundo meu desejo, o espírito surgiu por seu próprio poder. Sua grandeza lhe foi concedida para que pudesse ser preenchido com toda sua luz e se afastar de toda a carga da escuridão. Pois o que estava por trás era um fogo escuro que soprava e pressionava o espírito. E o espírito se regozijou porque ele estava protegido da água assustadora. Mas sua luz não era igual à majestade. O que lhe foi concedido pela luz infinita foi dado para que em todos os seus membros ele pudesse aparecer como uma única imagem de luz. E quando o espírito se levantava sobre a água, sua semelhança escura se tornava aparente. E o espírito honrou a luz exaltada: “Certamente só tu és o infinito, porque estás acima de tudo o que não é concebido, pois me protegeste das trevas”. E a teu desejo eu me levantei acima do poder das trevas”.

“E para que nada se escondesse de ti, Sem, surgiu o pensamento, que o espírito da grandeza havia contemplado, já que as trevas não eram capazes de conter seu mal. Mas quando o pensamento apareceu, as três raízes ficaram conhecidas como eram desde o início. Se as trevas tivessem sido capazes de conter seu mal, a mente não teria se separado dele, e outro poder não teria surgido.

DERDEKEAS ILUMINA A LUZ DO ESPÍRITO:

“Mas desde o momento em que parecia que eu era visto, o filho da majestade, para que a luz do espírito não se desvanecesse, e que a natureza não reinasse sobre ela, porque ela me olhava fixamente.

“E pela vontade da grandeza minha igualdade foi revelada, que o que é do poder poderia se tornar aparente. Você é o grande poder que surgiu, e eu sou a luz perfeita que está acima do espírito e das trevas, aquele que envergonha as trevas pelo coito da fricção impura”. Pois através da divisão da natureza a majestade desejava ser coberta de honra até o auge do pensamento do espírito. E o espírito recebeu o descanso em seu poder. Pois a imagem da luz é inseparável do espírito inconcebível. E os legisladores não o nomearam depois de todas as nuvens da natureza, nem é possível nomeá-lo. Pois cada semelhança em que a natureza se dividiu é um poder do fogo caótico, que é a semente material. Aquele que tomou para si o poder das trevas o aprisionou no meio de seus membros. E pela vontade da majestade, para que a mente e toda a luz do espírito pudessem ser protegidas de toda carga e do trabalho da natureza, uma voz saiu do espírito para a nuvem do hímen. E a luz do espanto começou a se alegrar com a voz que lhe foi concedida. E o grande espírito da luz estava na nuvem do hímen. Ele honrou a luz infinita e a semelhança universal, que eu sou, o filho da majestade, dizendo: ‘Anasses Duses, tu és a luz infinita que foi dada pela vontade da majestade para estabelecer cada luz do espírito sobre o lugar, e para separar a mente da escuridão’. Pois não era correto que a luz do espírito permanecesse no Hades. Pois, conforme vosso desejo, o espírito surgiu para contemplar vossa grandeza”.

DERDEKEAS PERTURBA OS PODERES DA NATUREZA:

“Porque eu te disse estas coisas, Sem, para que saibas que a minha semelhança, o filho da majestade, é do meu pensamento infinito, pois sou para ele uma semelhança universal que não mente, e estou acima de toda verdade e sou a origem da palavra. Sua aparência está em minha bela veste de luz, que é a voz do pensamento imensurável. Nós somos aquela única e única luz que surgiu. Ele apareceu em outra raiz, a fim de que o poder do espírito pudesse ser elevado da natureza débil. Pois pela vontade da grande luz eu saí do espírito exaltado até a nuvem do hímen sem a minha veste universal.

“E a palavra me tomou para si, do espírito, na primeira nuvem do hímen da natureza”. E eu me vesti com isto, do qual a majestade e o espírito inconcebível me fizeram digno”. E a tríplice unidade de minha veste apareceu na nuvem, pela vontade da majestade, em uma única forma. E minha semelhança foi coberta com a luz da minha veste. E a nuvem foi perturbada, e não foi capaz de tolerar minha semelhança. Ela derramou o primeiro poder, que havia tirado do espírito – o que brilhou sobre ele desde o início, antes que eu aparecesse na palavra ao espírito. A nuvem não teria sido capaz de tolerar os dois. E a luz que saía da nuvem passou pelo silêncio até chegar à região do meio. E pela vontade da majestade, a luz se misturou com ele, ou seja, o espírito que existe no silêncio, que havia sido separado do espírito da luz. Ela foi separada da luz pela nuvem do silêncio. A nuvem foi perturbada. Foi ele quem deu descanso à chama do fogo. Ele humilhou o ventre escuro para que ela não revelasse outras sementes da escuridão. Ele os manteve de volta na região central da natureza em sua posição, que era na nuvem. Ficaram perturbados porque não sabiam onde estavam. Pois ainda não possuíam a compreensão universal do espírito.

“E quando rezei para a majestade, para a luz infinita, para que o poder caótico do espírito pudesse ir e vir, e o ventre escuro pudesse ser estéril, e que minha semelhança pudesse aparecer na nuvem do hímen, como se eu estivesse envolto na luz do espírito que me precedeu, e pela vontade da majestade e através da oração, eu vim na nuvem para que através da minha veste – que era do poder do espírito – o pleroma da palavra pudesse trazer poder aos membros que o possuíam na escuridão. Pois por causa deles eu apareci neste lugar insignificante. Pois sou um ajudante de todos que receberam um nome. Quando apareci na nuvem, a luz do espírito começou a se salvar da água assustadora e das nuvens de fogo que haviam sido separadas da natureza escura. E eu lhes dei a honra eterna de não se envolverem novamente na fricção impura.

“E a luz que estava no hímen foi perturbada pelo meu poder, e passou pela minha região do meio. Estava repleta do pensamento universal. E, através da palavra da luz do espírito, voltou ao seu descanso. Recebeu forma em sua raiz e brilhou sem deficiência. E a luz que tinha surgido com ela do silêncio foi para a região do meio e voltou ao lugar. E a nuvem resplandeceu. E dela saiu um fogo insaciável. E a porção que se separava do espanto se revestia de esquecimento.  Ela foi enganada pelo fogo das trevas. E o choque de seu assombro lançou fora o fardo da nuvem. Era o mal, pois era impuro. E o fogo se misturou com a água para que as águas pudessem se tornar prejudiciais.

“A natureza, que havia sido perturbada, surgiu imediatamente das águas ociosas. Pois sua ascensão era vergonhosa. E a natureza tomou para si o poder do fogo. Ela se tornou forte por causa da luz do espírito que estava na natureza. Sua semelhança apareceu na água na forma de uma besta assustadora com muitos rostos, que está torturada abaixo. Uma luz desceu ao caos cheia de névoa e poeira, a fim de prejudicar a natureza. E a luz do espanto na região do meio veio a ela depois que ele lançou fora o fardo da escuridão.  Ele se regozijou quando o espírito se levantou. Pois ele olhou das nuvens para as águas escuras sobre a luz que estava nas profundezas da natureza.

“Então eu parecia ter a oportunidade de descer para o mundo inferior, para a luz do espírito que estava sobrecarregado, para protegê-lo do mal do fardo”. E, através de seu olhar para a região escura, a luz mais uma vez veio à tona, para que o ventre pudesse novamente subir da água. O ventre veio à tona por minha vontade. Guiadamente, o olho se abriu. E a luz, que tinha aparecido na região do meio e que se tinha separado do espanto, descansou e brilhou sobre ela. E o ventre viu coisas que ela não tinha visto antes, e ela se alegrou alegremente com a luz, embora esta que apareceu na região do meio, em sua maldade, não seja dela. Quando a luz brilhou sobre ela, e o ventre viu coisas que ela não tinha visto, e ela foi levada até a água, ela pensou que tinha alcançado o poder da luz. E ela não sabia que sua raiz estava ociosa pela semelhança da luz, e que era para a raiz que ele havia corrido.

A LUZ REZA POR MISERICÓRDIA:

“A luz estava espantada, a que estava na região do meio e que estava no começo e no fim. Por isso, seu pensamento olhava diretamente para a luz exaltada. E ele chamou e disse: “Senhor, tem piedade de mim, pois minha luz e meu esforço se desviaram”. Pois se vossa bondade não me estabelece, eu não sei onde estou”. E quando a majestade o ouviu, ele teve piedade dele.

“E eu apareci na nuvem do hímen, em silêncio, sem minha santa vestimenta”. Com minha vontade honrei minha veste, que tem três formas na nuvem do hímen. E a luz que estava no silêncio, aquela do poder regozijante, me conteve. Eu a usei.  E suas duas partes apareceram em uma única forma. Suas outras partes não apareceram por causa do fogo. Tornei-me incapaz de falar na nuvem do hímen, pois seu fogo era assustador, levantando-se sem diminuir. E para que minha grandeza e a palavra aparecessem, coloquei igualmente minha outra veste na nuvem do silêncio. Entrei na região do meio e coloquei a luz que estava nela, que estava afundada no esquecimento e que estava separada do espírito de espanto, pois ele havia lançado fora o fardo. A meu desejo, nada de mortal lhe apareceu, mas todas elas eram coisas imortais que o espírito lhe concedeu. E ele disse na mente da luz: “AI EIS AI OU FAR DOU IA EI OU, eu vim em grande descanso para que ele possa dar descanso à minha luz em sua raiz, e possa tirá-la da natureza nociva”.

DERDEKEAS TRAZ UMA ROUPA ARDENTE E FAZ SEXO COM A NATUREZA:

“Então, por vontade da majestade, eu tirei minha roupa de luz. Coloquei outra veste de fogo, que não tem forma, que é da mente do poder, que foi separada, e que foi preparada para mim, de acordo com minha vontade, na região do meio.  Pois a região do meio a cobriu com um poder escuro para que eu pudesse vir e vesti-la. Eu desci ao caos para salvar dela toda a luz. Pois sem o poder da escuridão eu não poderia me opor à natureza. Quando cheguei à natureza, ela não podia tolerar meu poder. Mas eu me apoiei em seu olhar fixo, que era uma luz do espírito. Pois ela havia sido preparada para mim como uma vestimenta e descansada pelo espírito. Através de mim, ele abriu seus olhos para o Hades. Ele concedeu à natureza sua voz por um tempo.

“E minha veste de fogo, segundo a vontade da majestade, desceu ao que é forte, e à porção impura da natureza que o poder das trevas estava cobrindo. E minha vestimenta esfregou a natureza em sua cobertura.  E a sua feminilidade impura era forte. E o útero irado surgiu e secou a mente, assemelhando-se a um peixe que tem uma gota de fogo e um poder de fogo. E, quando a natureza se livrou da mente, ela ficou perturbada e chorou.  Quando ela se machucou e em suas lágrimas, ela lançou fora o poder do espírito e permaneceu como eu estou. Coloquei a luz do espírito e descansei com minha roupa por causa da visão do peixe. E que os feitos da natureza poderiam ser condenados, já que ela é cega, de acordo com o número dos ventos fugazes, saíram dela múltiplos animais.  Todos eles surgiram no Hades, em busca da luz da mente que tomou forma. Eles não foram capazes de se opor a ela. Eu me regozijei com a ignorância deles.

DERDEKEAS ENGANA A NATUREZA, E A CRIAÇÃO COMEÇA:

“Eles me encontraram, o filho da majestade, em frente ao útero que tem muitas formas. Coloquei sobre a besta e lhe fiz um grande pedido para que o céu e a terra pudessem vir à existência, para que toda a luz pudesse se levantar.  Pois de nenhuma outra forma o poder do espírito poderia ser salvo da escravidão, exceto que eu lhe aparecesse em forma animal. Portanto, ela foi graciosa comigo como se eu fosse seu filho. E por causa do meu pedido, a natureza surgiu, pois ela possui o poder do espírito e a escuridão e o fogo. Pois ela havia tirado suas formas. Quando ela a jogou fora, ela soprou sobre a água.  O céu foi criado. E da espuma do céu surgiu a terra. E a meu desejo, ela produziu todo tipo de alimento de acordo com o número dos animais. E trouxe o orvalho dos ventos por causa de você e daqueles que serão concebidos pela segunda vez sobre a terra. Pois a terra possuía um poder de fogo caótico. Por isso, ela produziu cada semente. E quando o céu e a terra foram criados, minha veste de fogo surgiu no meio da nuvem da natureza e brilhou sobre o mundo inteiro até que a natureza se tornou seca. A escuridão que era a vestimenta da terra foi lançada nas águas nocivas. A região do meio foi limpa da escuridão. Mas o ventre se entristeceu por causa do que havia acontecido. Ela percebeu, em suas partes, a água como um espelho. Quando ela a percebeu, ela se perguntou como ela havia surgido. Portanto, ela permaneceu viúva. Também se espantou que não estivesse nela. Pois as formas ainda possuíam um poder de fogo e de luz. O poder permaneceu, que poderia estar na natureza até que todos os poderes lhe fossem tirados. Pois assim como a luz do espírito foi completada em três nuvens, é necessário também que o poder que está no Hades seja completado no momento designado. Pois, por causa da graça da majestade, eu saí da água para ela pela segunda vez. Pois meu rosto a agradou. Seu rosto também estava contente.

DERDEKEAS ORDENA À NATUREZA QUE DÊ À LUZ:

“E eu lhe disse: ‘Que a semente e o poder venham de vós sobre a terra’.  E ela obedeceu à vontade do espírito para que ela pudesse ser levada a nada. E quando suas formas voltaram, eles esfregaram a língua uns com os outros e copularam; produziram ventos e demônios e o poder que vem do fogo e da escuridão e do espírito.  Mas a forma que permaneceu sozinha expulsou a besta de si mesma. Ela não teve relações sexuais, mas foi ela quem se esfregou sozinha. E ela trouxe um vento que possuía um poder do fogo, da escuridão e do espírito.

“E para que os demônios também pudessem ficar desprovidos do poder que possuíam através das relações sexuais impuras, um ventre estava com os ventos que se assemelhavam à água. E um pênis impuro estava com os demônios de acordo com o exemplo da escuridão, e na forma como ele esfregou com o ventre desde o início”. E após as formas da natureza terem estado juntas, elas se separaram umas das outras. Eles se livraram do poder, ficando espantados com o engano que lhes havia acontecido. Eles sofreram com um luto eterno. Cobriram-se com seu poder.

“E quando os envergonhei, levantei-me com minha veste no poder – que está acima da besta, o que é uma luz – para que eu pudesse tornar a natureza desolada. A mente que tinha aparecido na natureza das trevas, e que era o olho das trevas, ao meu desejo reinou sobre os ventos e os demônios.  E eu lhe dei uma semelhança de fogo, luz e atenção, e uma quota-parte de razão sem astúcia. Portanto, ele foi dado da grandeza para ser forte em seu poder, independente do poder, independente da luz do espírito e do coito das trevas, para que, no final dos tempos, quando a natureza for destruída, ele possa descansar no lugar de honra. Pois ele será encontrado fiel, pois odiou o descaso da natureza com a escuridão. O forte poder da mente surgiu da mente e do espírito não-concebido. Mas os ventos, que são demônios da água e do fogo e das trevas e da luz, tiveram relações sexuais até a perdição. E através deste coito os ventos receberam em seu ventre espuma do pênis dos demônios. Eles conceberam um poder em seu ventre. Desde a respiração, os ventres dos ventos se cingiram até chegar o momento do nascimento. Eles desceram para a água. E o poder foi dado, através da respiração que causa o nascimento, no meio da fricção. E cada forma do nascimento recebeu forma nele. Quando os tempos do nascimento estavam próximos, todos os ventos eram colhidos da água que está perto da terra. Eles deram à luz todos os tipos de desencanto. E o lugar para onde apenas o vento ia era permeado pela falta de castidade. Dele saíram as esposas estéreis e os maridos estéreis. Pois assim como elas nascem, assim elas suportam.

OS DEMÔNIOS TRAZEM A INUNDAÇÃO E A TORRE DE BABEL:

“Por sua causa, a imagem do espírito apareceu na terra e na água”. Pois você é como a luz. Vocês possuem uma parte dos ventos e dos demônios e um pensamento da luz do poder do espanto. Pois tudo o que ele trouxe do ventre sobre a terra não foi uma coisa boa para ela, mas foi seu gemido e sua dor, por causa da imagem que em você apareceu do espírito. Pois você está exaltado em seu coração. E é uma bênção, Sem, se uma porção é dada a alguém e ele se afasta da alma para ir ao pensamento da luz. Pois a alma é um fardo para as trevas, e aqueles que sabem de onde veio a raiz da alma poderão apalpar atrás da natureza também. Pois a alma é uma obra de descortesia e um objeto de desprezo para o pensamento da luz. Pois eu sou aquele que revelou sobre tudo o que não é percebido.

“E para que o pecado da natureza pudesse ser preenchido, eu fiz o ventre, que foi perturbado, agradado – a sabedoria cega – que eu poderia ser capaz de trazê-lo a nada.  E, a meu desejo, ele conspirou com a água das trevas e também com as trevas, para que ferissem todas as formas de seu coração. Pois pela vontade da luz do espírito eles o cercaram; eles o amarraram na fé. E para que sua mente se tornasse ociosa, ele enviou um demônio, para que o plano de sua maldade fosse proclamado. E ele causou uma inundação, e destruiu sua raça, para tirar a luz e tirar-lhe a fé. Mas eu proclamei rapidamente pela boca do demônio que uma torre chegava até a partícula de luz, que ficou nos demônios e em sua raça – que era água – que o demônio poderia ser protegido do caos turbulento. E o ventre planejou estas coisas de acordo com minha vontade, para que ela pudesse derramar completamente. Uma torre veio a ser através dos demônios.  A escuridão foi perturbada por sua perda. Ele afrouxou os músculos do útero. E o demônio que ia entrar na torre foi protegido para que as raças pudessem continuar e pudessem adquirir coerência através dele. Pois ele possui o poder de todas as formas.

“Voltai doravante, ó Sem, e regozijai-vos muito sobre vossa raça e vossa fé, pois sem corpo e sem necessidade está protegida de todo corpo de trevas, dando testemunho das coisas santas da grandeza que lhes foram reveladas em seu pensamento pela minha vontade. E descansarão no espírito não concebido, sem luto. Mas vós, Sem, por causa disso, permanecestes no corpo fora da nuvem de luz, para que permanecêsseis com fé.  E a fé virá até você. Seu pensamento será tomado e dado a você com a consciência da luz. Eu lhe disse estas coisas para o benefício de sua raça, a partir da nuvem de luz. E da mesma forma, o que eu vos direi a respeito de tudo, eu vos revelarei completamente, para que o reveleis àqueles que estarão sobre a terra pela segunda vez.

UMA PERTURBAÇÃO DESFAZ O PODER DA NATUREZA:

“Ó Sem, a perturbação que ocorreu em meu desejo aconteceu para que a natureza pudesse ficar vazia.  Pois a cólera da escuridão diminuiu. Ó Sem, a boca da escuridão estava fechada. Já não aparece nela a luz que brilhava para o mundo, de acordo com minha vontade. E quando a natureza disse que seu desejo tinha sido realizado, então toda forma foi engolfada pelas águas na ignorância orgulhosa. A natureza transformou sua vagina escura e lançou dela o poder do fogo, que estava nela desde o início, através da fricção da escuridão. Ela se levantou e brilhou sobre o mundo inteiro ao invés do justo. E todas as suas formas enviaram um poder como uma chama de fogo para o céu, como uma ajuda à luz corrompida, que se elevou a si mesma. Pois eles eram membros do fogo caótico. E ela não sabia que havia se machucado. Quando ela lançava o poder, o poder que possuía, ela o lançava para fora dos genitais. O demônio, que é um enganador, despertou o ventre em todas as suas formas.

“E na sua ignorância, como se estivesse fazendo uma grande coisa, ela concedeu aos demônios e aos ventos uma estrela cada um. Pois sem vento e sem estrela nada acontece sobre a terra. Pois cada poder é preenchido por eles depois que são libertados das trevas e do fogo e do poder e da luz. Pois no lugar onde suas trevas e seu fogo se misturaram entre si, animais foram trazidos à luz. E no lugar das trevas e do fogo, e do poder da mente, e da luz, os seres humanos vieram à existência. Sendo do espírito, o pensamento da luz, meu olho, não existe em todas as pessoas. Pois antes que a inundação viesse dos ventos e dos demônios, a chuva vinha para as pessoas. Mas então, para que o poder que está na torre pudesse ser trazido e descansar sobre a terra, a natureza, que tinha sido perturbada, quis prejudicar a semente que estará sobre a terra depois do dilúvio. Foram-lhes enviados demônios, e um desvio dos ventos, e um fardo dos anjos, e um medo do profeta, uma condenação da fala, para que eu possa ensinar-lhes, ó Sem, de que cegueira sua raça é protegida. Quando eu vos tiver revelado tudo o que foi dito, então o justo brilhará sobre o mundo com a minha veste. E a noite e o dia serão separados.  Pois eu me apressarei a descer ao mundo para levar a luz daquele lugar, aquele que a fé possui. E eu irei aparecer àqueles que vão adquirir o pensamento da luz do espírito. Pois por causa deles apareceu minha majestade.

SODOMA, CIDADE DA GNOSE, É INJUSTAMENTE QUEIMADA:

“Quando ele tiver aparecido, ó Sem, sobre a terra, no lugar que se chamará Sodoma, então salvaguarde o discernimento que eu lhe darei”.  Pois aqueles cujo coração era puro se congregarão a vós, por causa da palavra que revelareis”. Pois quando aparecerdes no mundo, a natureza escura tremerá contra vós, juntamente com os ventos e um demônio, para que destruam o discernimento. Mas vós, proclamai rapidamente aos sodomitas vosso ensinamento universal, pois eles são vossos membros. Pois o demônio da forma humana se separará daquele lugar por minha vontade, uma vez que ele é ignorante. Ele guardará este enunciado. Mas os Sodomitas, segundo a vontade da majestade, darão testemunho do testemunho universal. Descansarão com a consciência pura no lugar de seu repouso, que é o espírito inconcebível. E como estas coisas acontecerão, Sodoma será queimado injustamente por uma natureza básica. Pois o mal não cessará, para que Vossa Majestade possa revelar esse lugar.

“Então o demônio partirá com fé. E então ele aparecerá nas quatro regiões do mundo. E quando a fé aparecer na última semelhança, então sua aparência se tornará manifesta. Pois o primogênito é o demônio que apareceu na união da natureza com muitas faces, para que a fé apareça nele.  Pois quando ele aparecer no mundo, surgirão paixões malignas, terremotos, guerras, fomes e blasfêmias. Pois por causa dele, o mundo inteiro será perturbado. Ele buscará o poder da fé e da luz; ele não o encontrará. Pois naquele momento o outro demônio aparecerá no rio para batizar com um batismo imperfeito e para perturbar o mundo com uma escravidão da água.  Mas é necessário que eu apareça nos membros do pensamento de fé para revelar as grandes coisas do meu poder. Vou separá-lo do demônio, que é Soldas.  E a luz que ele possui do espírito misturar-me-ei com minha veste invencível, bem como com aquele que revelarei nas trevas para vosso bem e para o bem de vossa raça, que será protegido das trevas malignas.

A LITANIA:

“Sabe, ó Sem,

que sem Elorchaios e Amoias

e Strofaias e Chelkeak

e Chelkea e Elaios,

ninguém poderá passar por aqui

esta região perversa.

Pois este é o meu testemunho,

que através dela eu tenho sido vitorioso

a região malvada.

E eu tomei a luz do espírito

da água assustadora.

Para quando os dias designados do demônio…

aquele que batizará erroneamente…

chegar perto, então eu aparecerei

no batismo do demônio

para revelar com a boca da fé

um testemunho para aqueles que lhe pertencem.

Testemunho de vocês, centelha, insaciável,

Osei, o eleito da luz, o olho do céu,

e a fé, a primeira e a última,

e Sofia, e Safaia, e Safaina,

e a centelha justa,

e a luz impura.

E você, ao leste, ao oeste, ao norte e ao sul,

ar superior e ar inferior,

e todos os poderes e autoridades,

você está na criação.

E você, Moluchtha e Soch,

são de todos os trabalhos

e todo esforço impuro da natureza.

“Então, eu irei através do demônio até a água”. E redemoinhos de água e chamas de fogo se erguerão contra mim. Então eu subirei da água, tendo acendido a luz da fé e o fogo insaciável, para que, com minha ajuda, o poder do espírito possa atravessar, ela que foi lançada no mundo pelos ventos, pelos demônios e pelas estrelas”. E neles serão preenchidos todos os inquebrantáveis.

“Finalmente, ó Sem, considera-te agradável no pensamento da luz. Não deixe que seu pensamento tenha relação com o fogo e o corpo de escuridão, que foi uma obra impura”. Estas coisas que eu te ensino estão certas.

A PARÁFRASE:

“Esta é a paráfrase: pois você não se lembrou que é do firmamento que sua raça tem sido protegida. Elorchaios é o nome da grande luz, o lugar de onde eu vim, a palavra que não tem igual. E a semelhança é a minha honrosa vestimenta. E Derdekeas é o nome de sua palavra na voz da luz. E Strofaia é o olhar abençoado, que é o espírito. E Chelkeach é minha veste, que veio do espanto, que estava na nuvem do hímen que apareceu como uma nuvem com três formas. E Chelkea é minha veste que tem duas formas, aquele que estava na nuvem do silêncio. E Chelke é a minha veste que lhe foi dada de cada região; foi dada de uma única forma da grandeza, e ele estava na nuvem da região do meio. E a estrela da luz que foi mencionada é minha veste invencível, que usei no Hades; esta, a estrela da luz, é a misericórdia que supera o pensamento e o testemunho daqueles que dão testemunho. E o testemunho foi mencionado: o primeiro e o último, a fé, a mente do vento das trevas. E Sofaia e Safaina estão na nuvem daqueles que foram separados do fogo caótico. E a centelha justa é a nuvem de luz que brilhou no meio de vocês. Pois na nuvem de luz, minha roupa descerá ao caos. Mas a luz impura, um poder, apareceu na escuridão e pertence à natureza escura. E o ar superior e o ar inferior, e os poderes e as autoridades, os demônios e as estrelas, estes possuíam uma partícula de fogo e uma luz do espírito. E Moluchthas é um vento, pois sem ele nada é trazido sobre a terra. Ele tem a semelhança de uma serpente e de um unicórnio. Suas protuberâncias são múltiplas asas. E o restante é o ventre que foi perturbado.

A BÊNÇÃO DE SEM E DO POVO DE ESPÍRITO:

“Você é abençoado, Sem, pois sua raça foi protegida do vento negro, que é de muitas caras”. E eles darão testemunho do testemunho universal e da fricção impura da natureza”. E eles se tornarão mais elevados de espírito, lembrando-se da luz.

“Ó Sem, ninguém que usa o corpo será capaz de completar estas coisas”. Mas através da lembrança, ele será capaz de compreendê-las, para que, quando sua mente se separar do corpo, estas coisas possam então ser-lhe reveladas”. Elas foram reveladas à sua raça. Ó Sem, é difícil para alguém que usa um corpo completar estas coisas, como eu disse a você. E é um pequeno número que as completará, aqueles que possuem a partícula da mente e o pensamento da luz do espírito. Eles vão manter sua mente longe da fricção impura. Para muitos na raça da natureza, buscarão a segurança do poder. Não a encontrarão, nem serão capazes de fazer a vontade da fé. Pois eles são a semente da escuridão universal. Eles serão encontrados em muito sofrimento. Os ventos e os demônios os odiarão. E a escravidão do corpo é severa. Pois onde os ventos, e as estrelas, e os demônios são expulsos do poder do espírito, aí vem sobre eles o arrependimento e o testemunho, e a misericórdia os conduzirá ao espírito inconcebível. E aqueles que estão arrependidos encontrarão descanso na consumação e na fé, no lugar do hímen. Esta é a fé que encherá o lugar que foi deixado vazio. Mas aqueles que não participam do espírito de luz e da fé dissolver-se-ão na escuridão, o lugar onde não veio o arrependimento.

“Fui eu quem abriu os portões eternos que estavam fechados desde o início. Aos que anseiam pelo melhor da vida, e aos que são dignos de descanso, ele os revelou. Eu concedi percepção àqueles que percebem. Eu lhes revelei todos os pensamentos e os ensinamentos dos justos. E não me tornei inimigo deles de modo algum. Mas quando eu tinha suportado a ira do mundo, eu saí vitorioso. Não havia nenhum deles que me conhecesse. As portas de fogo e a fumaça sem fim se abriram contra mim. Todos os ventos se levantaram contra mim. Os trovões e os relâmpagos por um tempo se levantarão contra mim. E eles trarão sua ira sobre mim. E por minha causa, em relação à carne, eles governarão sobre eles de acordo com sua raça.

O BATISMO IMPURO LEVA À ESCRAVIDÃO:

“E muitos que vestem carne errante descerão às águas prejudiciais através dos ventos e dos demônios. E eles estão presos pela água.  E a água se curará com um remédio fútil”. Ela desviará, e ligará o mundo. E aqueles que fazem a vontade da natureza … duas vezes no dia da água e das formas da natureza. E não lhes será concedida, quando a fé os perturbar para tomar para si o justo.

“Ó Sem, é necessário que o pensamento seja chamado pela palavra para que a escravidão do poder do espírito possa ser salva da água assustadora”. E é uma bênção se for concedido a alguém contemplar o que é exaltado e conhecer o tempo exaltado e a escravidão”. Pois a água é um corpo insignificante. E as pessoas não são libertadas porque estão presas na água, assim como desde o início a luz do espírito estava presa.

“Ó Sem, eles são enganados por diversos demônios, pensando que através do batismo com a imundícia da água, que é escura, fraca, ociosa e perturbadora, a água tirará os pecados. E eles não sabem que da água para a água há escravidão, erro, desconchavo, inveja, assassinato, adultério, falso testemunho, heresias, roubos, cobiças, balbucios, ira, amargura. . . . Portanto, há muitas mortes que sobrecarregam seus pensamentos. Pois eu o predigo àqueles que têm compreensão. Eles se absterão do batismo impuro. E aqueles que têm compreensão da luz do espírito não terão relações com a fricção impura. E seu coração não desmaiará, nem amaldiçoará, nem honrará a água. Onde está a maldição, há a deficiência. E a cegueira é onde está a honra. Pois se eles se misturam com os maus, tornam-se vazios na água escura. Onde a água foi mencionada, há a natureza, o juramento, a mentira e a perda. Pois somente no espírito não concebido, onde a luz exaltada descansou, a água não foi mencionada, nem pode ser mencionada.

“Pois esta é minha aparência: quando tiver completado os tempos que me são atribuídos sobre a terra, então lançarei de mim minha veste de fogo”. E minha inigualável vestimenta brilhará sobre mim, e todas as minhas outras vestimentas que eu colocarei em todas as nuvens que foram do assombro do espírito. Pois o ar rasgará minha vestimenta. Minha roupa brilhará, e dividirá todas as nuvens até a raiz da luz. O descanso é a mente e minha vestimenta. E minhas roupas restantes, as da esquerda e as da direita, brilharão nas costas a fim de que a imagem da luz possa aparecer. Pois no último dia minhas peças de vestuário que coloco nas três nuvens descansarão em sua raiz, ou seja, no espírito não concebido, já que não têm culpa, através da divisão das nuvens.

Portanto, eu apareci, sem culpa, por causa das nuvens, porque elas são desiguais, para que a maldade da natureza pudesse acabar. Pois ela desejava, naquele momento, me enganar. Ela estava prestes a deter Soldas, que é a chama escura, que foi colocada no alto, na árvore do erro, para que ela pudesse me prender. Ela cuidava de sua fé, sendo vaidosa.

REBOUEL É DECAPITADA:

“E naquela época a luz estava prestes a se separar da escuridão, e uma voz foi ouvida no mundo, dizendo: ‘Bênçãos no olho que te viu e a mente que apoiou tua majestade a meu desejo’.  Será dita pela exaltada, ‘Bênçãos sobre Rebouel entre todas as raças de pessoas, pois só você viu’.  E ela escutará. E eles decapitarão a mulher que tem a percepção, a qual você revelará sobre a terra. E de acordo com minha vontade, ela dará testemunho, e cessará de todo esforço vaidoso da natureza e do caos. Pois a mulher que eles decapitarão naquele momento é o suporte do poder do demônio que batizará a semente das trevas com severidade, para que a semente possa se misturar com a desconstrução. Ele gera uma mulher. Ela foi chamada de Rebouel.

“Veja, ó Sem, como todas as coisas que eu lhe disse foram cumpridas. . . . E as coisas que te faltam, segundo a minha vontade, aparecer-te-ão naquele lugar sobre a terra, para que as reveles como elas são. Não deixe que seu pensamento tenha relações com o corpo. Pois eu vos disse estas coisas, pela voz do fogo, pois entrei no meio das nuvens. E falei de acordo com a língua de cada um. Esta é a minha língua que falei com vocês.  E ela será tirada de vocês. E você falará com a voz do mundo sobre a terra.  E ela vos aparecerá com essa aparência e voz, e tudo o que eu vos disse. A partir de agora proceda com fé para brilhar nas profundezas do mundo”.

SEM RETORNA DE SUA EXTASIANTE JORNADA:

E eu, Sem, acordei como se fosse de um sono profundo. Eu me maravilhei quando recebi o poder da luz e todo o seu pensamento. E prossegui com fé para brilhar comigo. E o justo nos seguiu com minha vestimenta invencível. E tudo o que ele me havia dito que aconteceria sobre a terra aconteceu. A natureza foi entregue à fé, para que a fé a derrubasse e para que a natureza pudesse permanecer na escuridão. Ela produziu um movimento de viragem enquanto vagueava noite e dia, não descansando com as almas. Estas coisas completaram seus atos.

Então me regozijei com o pensamento da luz. Saí da escuridão e caminhei na fé onde as formas da natureza estão, até o topo da terra, até as coisas que estão preparadas. Sua fé está sobre a terra o dia inteiro. Por toda noite e dia ela envolve a natureza para tomar para si a justa. Pois a natureza está sobrecarregada, e ela está perturbada. Pois ninguém será capaz de abrir as formas do ventre, a não ser a mente sozinha a quem foi confiada sua semelhança. Porque assustadora é sua semelhança com as duas formas da natureza, a que é cega.

Mas aqueles que têm uma consciência livre se afastam do balbuciar da natureza. Pois darão testemunho do testemunho universal; despirão o fardo das trevas; porão a palavra da luz; e não serão mantidos de volta no lugar insignificante. E o que eles possuem do poder da mente, eles darão à fé. Eles serão aceitos sem pesar. E o fogo caótico que eles possuem deixarão na região central da natureza. E serão recebidos por minhas vestes, que estão nas nuvens. São eles que guiam seus membros. Eles descansarão no espírito sem sofrimento. E por causa disso, o termo de fé designado apareceu sobre a terra por um curto período de tempo, até que a escuridão lhe seja tirada, e seu testemunho seja revelado que foi revelado por mim. Eles, que provarão ser de sua raiz, despojarão as trevas e o fogo caótico. Eles colocarão a luz da mente e darão testemunho. Por tudo o que eu disse deve acontecer.

A DESOLAÇÃO FINAL:

Depois que eu deixar de estar sobre a terra e me retirar para o meu descanso, um grande e maligno erro virá sobre o mundo, e muitos males de acordo com o número das formas da natureza. Os tempos malignos virão.  E quando a era da natureza se aproximar da destruição, a escuridão virá sobre a terra. O número será pequeno. E um demônio surgirá do poder que tem uma semelhança de fogo. Ele dividirá o céu, e descansará nas profundezas do oriente. Pois o mundo inteiro tremerá. E o mundo enganado será lançado em confusão. Muitos lugares serão inundados por causa da inveja dos ventos e dos demônios que têm um nome que não faz sentido: Forbea, Chloerga. Eles são os que governam o mundo com seus ensinamentos. E eles desviam muitos corações por causa de sua desordem e seu descaso. Muitos lugares serão aspergidos de sangue. E cinco raças sozinhas comerão seus filhos. As regiões do sul receberão a palavra da luz. Mas eles que são do erro do mundo e do oriente. . . .  Um demônio surgirá da barriga da serpente. Ele estava escondido em um lugar desolado. Ele realizará muitas maravilhas. Muitos o abominarão. Um vento sairá de sua boca com uma semelhança feminina. Seu nome será chamado Abalfe. Ele reinará sobre o mundo do leste para o oeste.

Então a natureza terá uma última oportunidade. E as estrelas cessarão do céu. A boca do erro será aberta para que a escuridão maligna possa se tornar ociosa e silenciosa. E no último dia as formas da natureza serão destruídas com os ventos e todos os seus demônios; eles se tornarão um nódulo escuro, assim como eram desde o início.  E as águas doces que foram sobrecarregadas pelos demônios perecerão. Pois para onde o poder do espírito foi, existem as minhas águas doces. As outras obras da natureza não serão manifestadas. Elas se misturarão com as infinitas águas das trevas. E todas as suas formas cessarão a partir da região média.

SEM ASCENDE, EM MENTE, E RECITA A LITANIA:

Eu, Sem, já completei estas coisas. E minha mente começou a se separar do corpo de escuridão.  Meu tempo foi completado. E minha mente colocou sobre o testemunho imortal. E eu disse,

“Declaro seu testemunho,

que vocês me revelaram:

Elorchaios,

e você, Amoiaias,

e você, Sederkeas,

e sua inocência, Strofaias,

e você, Chelkeak,

e você, Chelkea,

e Chelke e Elaios,

você é o testemunho imortal.

Eu testemunho a vocês,

centelha, a insaciável,

que é um olho do céu e uma voz de luz,

e Sofaia, e Safaia, e Safaina,

e a centelha justa,

e a fé, a primeira e a última,

e o ar superior e o ar inferior,

e todos os poderes e autoridades que estão no mundo.

E você, luz impura,

e você também, leste e oeste, e sul e norte,

vocês são as zonas do mundo habitado.

E você também, Moluchtha e Essoch,

você é a raiz do mal

e todo trabalho e esforço impuro da natureza”.

Estas são as coisas que eu completei enquanto testemunhava. Eu sou Sem. No dia em que eu deveria sair do corpo, quando meu pensamento permaneceu no corpo, acordei como se fosse de um sono profundo. E quando me levantei como que do peso do meu corpo, eu disse: “Assim como a natureza envelheceu, assim é também no dia dos seres humanos”. Bênçãos sobre aqueles que sabiam, quando dormiam, em que poder descansava seu pensamento”.

E quando as Plêiades se separaram, eu vi nuvens, que eu vou passar. Pois a nuvem do espírito é como um berilo puro. E a nuvem do hímen é como uma esmeralda brilhante. E a nuvem do silêncio é como um florescente amaranto. E a nuvem da região do meio é como um jacinto puro.

“E quando o justo apareceu na natureza, então, quando a natureza estava zangada, ela se sentiu ferida, e concedeu à Morfaia de visitar o céu. O justo visita durante doze períodos para poder visitá-los durante um período, para que seu tempo seja completado rapidamente e a natureza se torne ociosa.

IDE EM GRAÇA E FÉ:

“Bênçãos para aqueles que se guardam contra a herança da morte, que é a água pesada da escuridão”. Pois não será possível conquistá-las em poucos momentos, já que elas se apressam a sair do erro do mundo”. E se forem conquistados, serão afastados deles e atormentados na escuridão até o momento de sua consumação.  Quando a consumação tiver chegado e a natureza tiver sido destruída, então seus pensamentos se separarão da escuridão. A natureza os sobrecarregou por um curto período de tempo. E eles estarão na luz inefável do espírito inconcebível, sem uma forma. E assim é a mente, como eu disse desde o início.

“Doravante, ó Sem, ide em graça e continua na fé sobre a terra”. Pois cada poder de luz e fogo será completado por mim por causa de ti”. Pois sem ti não serão revelados até que fales deles abertamente. Quando deixardes de estar sobre a terra, eles serão dados aos dignos. E, além desta proclamação, que falem de vocês sobre a terra, pois eles tomarão a terra despreocupada e agradável.

***

Fonte:

<http://www.gnosis.org/naghamm/para_shem-barnstone.html>.

***

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

 

⬅️ Voltar para a Biblioteca de Nag Hammadi

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-parafrase-de-sem/

A oração de Graças da Biblioteca de Nag Hamadi

Esta a oração que eles falaram:

“Nós damos graças a Ti! Toda alma e coração se eleva a Ti, nome imperturbável, honrado com o nome ‘Deus’ e louvado com o nome ‘Pai’, pois para todos e tudo vem a bondade e afeição paterna, o amor, e qualquer ensinamento que seja doce e claro, dando-nos mente, fala, e conhecimento: mente, para que possamos entender Você, fala, para que possamos expor Você, conhecimento, para que possamos conhecer Você. Nós nos regozijamos, tendo sido iluminados por Seu conhecimento. Nós nos regozijamos porque Você nos mostrou a Si mesmo. Nós nos regozijamos porque enquanto estávamos no corpo, Você nos fez divinos através de Seu conhecimento.

“A ação de graças do homem que chega a Ti é uma coisa: que nós Te conhecemos. Nós Te conhecemos, luz intelectual. Vida de vida, nós Te conhecemos. Ventre de toda criatura, nós Te conhecemos. natureza do Pai, nós Te conhecemos. Permanência eterna do Pai que gerou, assim adoramos a Tua bondade. Há uma petição que pedimos: sejamos preservados no conhecimento. E há uma proteção que desejamos: que nós não tropeçar neste tipo de vida.”

Quando eles disseram essas coisas na oração, eles se abraçaram e foram comer sua comida sagrada, que não tem sangue.

Nota do Escriba

Copiei este discurso dele. Na verdade, muitos vieram a mim. Não os copiei porque pensei que tinham vindo até você. Além disso, hesito em copiá-los porque, talvez, eles (já) tenham vindo até você, e o assunto pode ser um fardo para você. Já que os discursos daquele, que me chegaram, são numerosos…

⬅️ Voltar para a Biblioteca de Nag Hammadi

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-oracao-de-gracas-da-biblioteca-de-nag-hamadi/

À Luz da Gnose

Por Tau Malachi

Muitas pessoas escrevem e me perguntam o que eu penso dos acontecimentos do mundo de hoje e dos tempos em que vivemos e, especificamente, perguntam sobre a visão gnóstica dos acontecimentos mundiais e os ensinamentos do gnosticismo sobre a segunda vinda de Cristo; daí a visão que os gnósticos têm do Livro do Apocalipse. Se olharmos para as tradições sábias do mundo, descobriremos que muitos profetas e sábios falaram sobre os tempos em que vivemos – ambos indicando os grandes desafios de nosso tempo e a esperança espiritual que está neles. O mesmo se aplica ao gnosticismo cristão. Adeptos e mestres gnósticos falam destes tempos como uma encruzilhada para a humanidade, e talvez até algo como uma crise evolutiva para nossa espécie e nosso mundo.

Nas tradições orientais, estes tempos têm sido chamados de Kali Yuga, que significa “idade das trevas”, e observando os eventos que estão acontecendo no mundo e as tendências que estamos colocando em movimento por nossas reações, não podemos deixar de nos perguntar que tipo de futuro estamos invocando, nem se pode discutir exatamente com aqueles que sentem estes tempos como sombrios e perversos. Contudo, de uma perspectiva cristã gnóstica, na verdade, estes são tempos poderosos e preciosos nos quais estamos vivendo – como pode haver grande escuridão se movendo no mundo, assim também há um potencial para maior luz.

É bem verdade que muitas coisas parecem muito incertas quando entramos no século XXI, e pode bem haver um potencial de escuridão e horror muito maior do que testemunhamos no século passado, com duas grandes guerras mundiais e o uso da bomba atômica. Ao mesmo tempo, no entanto, existe igualmente o potencial de grande beleza e luz para emergir. No mundo material, segundo o gnosticismo, uma luz maior só se torna possível ao lado do movimento das grandes trevas, e o potencial para um bem maior é naturalmente o potencial para um mal maior. Se quisermos ter uma visão disto, de acordo com os gnósticos cristãos, tudo o que precisamos fazer é olhar para os tempos da revelação de Cristo há cerca de dois mil anos. Os tempos tumultuosos em torno dos acontecimentos do Evangelho e as trevas que se moviam no mundo eram completamente integrais à revelação divina – como era então, assim é agora.

Vivemos em tempos tumultuosos e incertos, mas estes são tempos poderosos e preciosos para estarmos vivos. Há um renascimento gnóstico em curso, à medida que mais e mais pessoas procuram as raízes espirituais e místicas mais profundas de sua própria tradição ocidental, e há um renascimento de interesse em todas as formas de espiritualidade interior e mística. No meio da escuridão atual, parece haver um impulso em direção a uma evolução ativa e consciente – um impulso buscando dar à luz uma Nova Consciência na humanidade e no mundo. Esta, em essência, é a visão cristã gnóstica do que está acontecendo hoje – é semelhante às dores de parto no processo de dar à luz a Consciência Cristo.

Quando perguntado o que os gnósticos acreditam sobre “o Juízo”, e se eu acredito que estamos entrando nos tempos do Juízo, em geral minha resposta é: “Sim, eu acredito”. Acredito que vivemos em um tempo no qual devemos escolher invocar e incorporar a verdade e a luz, e no qual devemos fazer julgamentos sábios para nosso futuro – um tempo no qual devemos lutar para incorporar uma Consciência Superior, e buscar uma nova orientação e motivação para a vida humana e a sociedade. O gnosticismo nos ensina que somos cocriadores da realidade que experimentamos. Em vez de viver com medo e reação, ou focalizar um cenário de desgraça e desgraça, o gnosticismo cristão propõe que devemos escolher responder conscientemente focalizando-nos em uma nova visão da humanidade e do mundo – uma visão revelada na experiência gnóstica do Cristo Ressuscitado.

Isto não significa sugerir que devemos fechar os olhos para a dor e o sofrimento no mundo, nem viver em negação do que está acontecendo, como se a escuridão e o mal, e todos os nossos problemas, desaparecessem por ignorá-los – não implica que coloquemos óculos cor de rosa e digamos: “Tudo está bem”. Ao contrário, está falando de um otimismo de olhos abertos e de uma resposta consciente. Em vez de viver em reação e ir junto com o rebanho inconscientemente, o gnosticismo propõe que nos tornemos agentes conscientes para um bem maior no mundo, em nome da vontade divina e do reino divino.

Talvez um dos maiores perigos que enfrentamos, o maior engano da condição não iluminada, é a ideia de que nós, como indivíduos, somos impotentes para fazer a diferença no mundo ou impotentes para provocar qualquer mudança real. Nada poderia estar mais longe da verdade! Se cedermos a isso, nos tornaremos parte do problema, ao invés da solução. Uma mudança maior só pode ser trazida por coletivos maiores de pessoas trabalhando juntas em harmonia, como um só coração e uma só mente, unidos em seu foco em um ideal nobre ou propósito superior. Entretanto, tais coletivos são formados por indivíduos e são fortalecidos pelos indivíduos que os compõem. A verdade é que o que cada um de nós escolhe fazer importa, e há um incrível poder de luz em cada ser humano – para o melhor ou para o pior, somos mestres de nosso próprio destino, de acordo com os ensinamentos do Cristianismo Gnóstico.

Isto reflete a compreensão gnóstica da segunda vinda, pois a primeira vinda, na pessoa de Jesus Cristo, é a revelação do potencial divino em nós, e a segunda vinda é a atualização e realização de nosso potencial divino – uma evolução para a Consciência Cristo. O Cristos não é algo isolado para Jesus no Cristianismo Gnóstico, mas é a verdade e a luz dentro de cada um de nós. Muito naturalmente, para que esta verdade e esta luz sejam realizadas e encarnadas em nós, devemos trabalhar ativamente para trazê-la de dentro de nós – esta é a mensagem do Gnosticismo.

Em meu livro, Gnose Viva, compartilho ensinamentos e práticas essenciais que qualquer um pode aprender e usar para a geração de uma Nova e Superior Consciência-práticas que podem trazer uma mudança radical em sua própria vida e no mundo ao seu redor. Contudo, aqui neste artigo, eu gostaria de compartilhar abertamente a essência mais íntima da espiritualidade cristã gnóstica.

A Teoria da Relatividade de Einstein se baseia em uma conclusão básica: que a luz é a constante subjacente ao universo material, sendo a velocidade da luz um movimento chave que não muda em todo o nosso universo. Ironicamente, a mesma ideia fundamental está no coração do gnosticismo cristão, assim como de outras tradições místicas ao redor do mundo – a metáfora mais comum para Cristo e Deus é “luz” e, em essência, o gnosticismo é uma espiritualidade “iluminista”, focalizando a invocação da Luz Divina através de várias formas de oração, mediação e ritual sagrado. Essencialmente, nós nos imaginamos trabalhando com a Luz, na Luz e como a Luz. De todas as maneiras possíveis, procuramos nos lembrar da presença da Luz (Cristo) e do poder da Luz (Espírito Santo) em nós, e permitir que a Luz Divina brilhe com, dentro e através de nós. É claro, você também pode fazer isso!

Ao despertar pela manhã, procure lembrar-se da Luz; ao longo do dia, aqui e ali, dedique tempo para lembrar e visualizar a Luz; antes de ir dormir à noite, lembre-se da Luz. A seguir, um exemplo de uma maneira simples de fazer isso, que é utilizada pelos iniciados gnósticos:

Tome um momento e concentre-se interiormente – imagine-se de pé em um pilar de brilho branco, brilhando com tons de luz do arco-íris, e imagine a imagem de um sol dourado em seu coração. Depois, imagine seu ambiente cheio de luz, e todos e tudo cheio de luz – tudo na Luz Divina. Se desejar, você poderia acrescentar o canto do nome Yeshua Messiah (hebraico para “Jesus Cristo”) a esta prática, mas a visualização e a intenção consciente de invocar a Luz Divina é suficiente. Embora muito simples, esta é uma prática espiritual extremamente profunda e poderosa, que pode trazer uma mudança radical em sua consciência – o que pode começar como um voo da fantasia pode abrir sua consciência para novas dimensões e a experiência da Consciência Superior.

Outro exemplo simples é o seguinte:

Quando você respira, imagine que está respirando luz; quando está comendo ou bebendo, imagine a substância do alimento e da bebida como luz. (Isto representa uma compreensão esotérica da Santa Eucaristia entre os gnósticos). De maneira semelhante, de todas as maneiras possíveis que você possa imaginar, tudo de acordo com o Espírito Criativo e Luminoso em você, lembre-se e imagine a si mesmo e aos outros na Luz e como a Luz – tudo na Luz Divina.

A sugestão desta prática espiritual essencial aparece na Bíblia? De fato, ela aparece! Talvez um dos dizeres mais famosos do Mestre Jesus sobre o tema da Luz, e certamente um de seus dizeres mais sugestivos desta prática, seja encontrado no Sermão da Montanha, seguindo sua enunciação das Bem-aventuranças:

“Vós sois a luz do mundo”. Uma cidade construída sobre uma colina não pode ser escondida. Ninguém depois de acender uma lâmpada a coloca debaixo de uma cesta de alqueire, mas em um candelabro, e ela dá luz a todos na casa. Da mesma forma, que vossa luz brilhe diante dos outros, para que possam ver vossas boas obras e dar glória a vosso Pai que está nos céus” (Evangelho de São Mateus 5:14-16).

Da mesma forma, no mesmo evangelho é registrado outro ditado de Jesus que pode ser tomado como uma alusão à prática de lembrar e visualizar a luz:

“Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregando fardos pesados, e eu vos darei descanso”. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, pois sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossa alma”. Pois meu jugo é fácil, e meu fardo é leve” (11:28-30).

Ditos semelhantes aparecem também em outros evangelhos, e são muito comuns nas Escrituras Gnósticas – se lermos sobre a transfiguração, ou sobre a ressurreição e ascensão, o que diremos de Cristo? O Cristo é Luz, Vida, Amor e Liberdade – o Espírito da Verdade que nos liberta! Como as práticas espirituais dadas na Gnose Viva, a prática de lembrar e visualizar a Luz Divina pode ser usada por qualquer pessoa, independentemente de estarem ou não inclinados ao Caminho Gnóstico – é essencial e universal a sabedoria espiritual encontrada no Gnosticismo, assim como em outras tradições místicas do mundo. Talvez, mais do que nunca, precisemos tirar proveito da sabedoria espiritual disponível para nós e integrar essa sabedoria em nossa vida diária, buscando encarnar o Espírito da Verdade. Embora, de fato, vivamos em tempos desafiadores, há um movimento crescente em direção à aurora de uma Nova e Superior Consciência entre nós; cada um de nós pode fazer a diferença se estivermos dispostos à vida espiritual e à prática, dispostos a cultivar nossa humanidade e a descobrir a divindade inata dentro dela. É simplesmente uma questão de lembrar e ser quem e o que somos mais verdadeiramente – filhos da Luz.

(As referências bíblicas usadas neste artigo são extraídas da versão da Bíblia Sagrada da NRS).

***

Fonte:

MALACHI, Tau. In the Light of Gnosis. The Lllewellyn’s Journal, 2005. Disponível em: <https://www.llewellyn.com/journal/article/966>. Acesso em 9 de março de 2022.

COPYRIGHT (2005). Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

***

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-luz-da-gnose/

A Interpretação do Conhecimento (Nah Hamadi)

(faltam 13 linhas)
… eles passaram a acreditar por meio de sinais e maravilhas e fabricações. A semelhança que veio a ser através deles o seguiu, mas através de reprovações e humilhações antes de receberem a apreensão de uma visão que fugiram sem ter ouvido que o Cristo tinha sido crucificado. Mas nossa geração está fugindo, pois ainda nem sequer acredita que o Cristo está vivo. Para que nossa fé seja santa (e) pura, não confiando em si mesma ativamente, mas mantendo-se plantada nEle, não diga: “De onde vem a paciência para medir a fé?”, pois cada um é persuadido pelas coisas em que acredita. Se ele os desacredita, então ele não seria capaz de ser persuadido. Mas é uma grande coisa para um homem que tem fé, já que ele não está na incredulidade, que é o mundo.

Agora o mundo é o lugar da infidelidade e o lugar da morte. E a morte existe como … (faltam 14 linhas)… semelhança e eles não acreditarão. Uma coisa santa é a fé para ver a semelhança. O oposto é a infiel à semelhança. As coisas que ele lhes concederá os apoiará. Era impossível para eles alcançarem a imperecibilidade […] tornar-se-ão […] soltos […] aqueles que foram enviados […]. Pois aquele que está angustiado não acreditará. Ele é incapaz de trazer uma grande igreja, já que ela é reunida a partir de uma pequena reunião.

Ele se tornou uma emanação do vestígio. Pois também dizem sobre a semelhança que ele é apreendido por meio de seu rastro. A estrutura é apreendida por meio da semelhança, mas Deus apreende por meio de seus membros. Ele os conhecia antes de serem gerados, e eles o conhecerão. E aquele que gerou cada um desde o primeiro, residirá neles. Ele governará sobre eles. Pois é necessário para cada um … (faltam 25 linhas)… o Salvador se retirou, pois é apropriado. De fato, não ignorante, mas carnal, é a palavra que o tomou como marido. E é ele que existe como imagem, já que aquele (masc.) também existe, assim como aquele (fem.) que nos fez nascer. E ela fez com que ele soubesse que ela é o Ventre. Esta é uma maravilha dela que ela nos faz transcender a paciência. Mas esta é a maravilha: ele ama aquele que foi o primeiro a permitir uma virgem […]. É próprio […] dela […] até a morte […] desejo de praticar […]. (faltam 23 linhas)Portanto, ela se rendeu a ele em seu caminho. Ele foi o primeiro a fixar nosso olhar nesta virgem que está fixada na cruz que está naqueles lugares. E vemos que é sua água que a autoridade suprema concedeu àquele em quem há um sinal. Esta é a água da imortalidade que as grandes potências lhe concederão enquanto ele estiver abaixo, à semelhança de seu jovem filho. Ela não parou por causa dele. Ela […] o […] ele se tornou […] na palavra […] que aparece ao […]. Ele não […]. (13 linhas faltando)… em […] através de […] veio desses lugares. Alguns caíram no caminho. Outros caíram nas rochas. E ainda outros ele semeou nos espinhos. E ainda outros ele deu de beber […] e a sombra. Eis […] ele […] E esta é a realidade eterna antes que as almas saiam daqueles que estão sendo mortos.

Mas ele estava sendo perseguido naquele lugar pelo rastro produzido pelo Salvador. E ele foi crucificado e morreu – não sua própria morte, pois ele não merecia de modo algum morrer por causa da igreja dos mortais. E ele foi pregado para que eles pudessem mantê-lo na Igreja. Ele lhe respondeu com humilhações, pois desta forma havia suportado o sofrimento que havia sofrido. Pois Jesus é para nós uma semelhança, por causa de … (faltam 14 linhas)… esta […] toda a estrutura e […] a grande amargura do mundo […] nós com os […] ladrões […] os escravos […] até Jericó […] eles receberam […]. Pois […] até aqueles que vão esperar enquanto todo o defeito os prende até a realidade final que é sua porção, já que ele nos derrubou, tendo nos amarrado em redes de carne. Como o corpo é uma morada temporária que os governantes e as autoridades têm como morada, o homem dentro dele, após ter sido aprisionado na fabricação, caiu em sofrimento. E depois de tê-lo obrigado a servi-los, eles o constrangeram a servir as energias. Dividiram a Igreja de modo a herdar … (faltando 9 linhas)… poder para […] e […] e […] ter tocado […] antes de […] é a beleza que […] vai querer […] e estar com [… […] lutar uns com os outros […] como outros […] virgens […] para destruir […] feridas […] mas ela […] gosta de […] a […] desde que eles tinham golpeado […] imperecíveis. Esta […] que ele permanece […] virgem. A […] sua beleza […] sua fidelidade […] e portanto […] ela. Ele apressou […] ele não atendeu […] eles desprezam […]. Pois quando a Mãe tinha [… (5 linhas faltando)… a Mãe […] seu inimigo […] o ensinamento […] da força […] da natureza […] eis que uma donzela […] é incapaz […] primeiro […] o oposto […]. Mas como ele […] não foi capaz […] ele se tornou […] matou-o […] vivo […] ele a considerou […] melhor do que a vida […] pois ele sabe que se […] o mundo o criou […] para criá-lo […] a partir de […] sobre as regiões […] aqueles que eles governam […]. Mas […] ele o emitiu […] ele habita nele […] o Pai de Todos […] seja mais para ela […] ele. Ele […] ele … (faltam 8 linhas)… como […] em […] ele as tem […] elas […] cada uma será digna […] levá-lo e […] o professor deve se esconder como se ele fosse um deus que abraçaria suas obras e as destruiria. Pois ele também falou com a Igreja e se fez seu mestre da imortalidade, e destruiu o professor arrogante, ensinando-a a morrer.

E esse professor fez uma escola viva, pois esse professor tem outra escola: enquanto nos ensina sobre os escritos mortos, ele, por outro lado, estava nos fazendo sair do excesso do mundo; através deles nos ensinavam sobre nossa morte.

Agora este é o seu ensinamento: não chame um pai sobre a terra. Seu Pai, que está no céu, é um só. Vós sois a luz do mundo. Eles são meus irmãos e meus companheiros que fazem a vontade do Pai. Para que serve se você ganha o mundo e perde a sua alma? Pois quando estávamos no escuro, costumávamos chamar muitos de “pai”, já que ignorávamos o verdadeiro Pai. E esta é a grande concepção de todos os pecados … (faltam 8 linhas)… prazer. Somos como […] ele a […] alma […] homens que […] o lugar de morada.

O que é agora a fé estabelecida pelo mestre que o libertou da grande ignorância e da escuridão do olho ignorante? Ele o lembrou das coisas boas de seu Pai e da raça. Pois ele lhe disse: “Agora o mundo não é teu, que não estimes a forma que está nele como vantajosa; antes (como) desvantajosa e (como) um castigo”. Receba agora o ensinamento daquele que foi censurado – uma vantagem e um lucro para a alma – e receba sua forma. É a forma que existe na presença do Pai, a palavra e a altura, que o faz conhecer antes de ter sido desviado enquanto estava em (a) carne da condenação.

Da mesma forma eu me tornei muito pequeno, para que através da minha humildade eu pudesse levá-lo até a grande altura, de onde você tinha caído. Você foi levado a este poço. Se agora você acredita em mim, sou eu que o levarei para cima, através desta forma que você vê. Serei eu quem te levará sobre meus ombros. Entra pela costela de onde vieste e esconde-te das feras. O fardo que você carrega agora não é seu. Sempre que você (fêmea) for … (faltam 14 linhas)… de sua glória […] desde a primeira. De ser contado com a fêmea, o sono trouxe o trabalho de parto e o sábado, que é o mundo. Pois de ser contado com o Pai, o sono trouxe o sábado e o êxodo do mundo dos animais. Pois o mundo é das bestas e é uma besta. Portanto, aquele que está perdido foi contado para o astuto, e aquele que é das bestas que surgiram. Eles colocaram sobre ele uma roupa de condenação, pois a fêmea não tinha outra roupa para vestir sua semente, exceto aquela que ela trouxe no sábado. Pois nenhuma besta existe no Éon. Pois o Pai não guarda o sábado, mas (ao contrário) aciona o Filho, e através do Filho ele continuou a se munir dos Éons. O Pai tem elementos racionais vivos dos quais ele veste meus membros como vestes. O homem … (faltam 11 linhas)… este é o nome. O […] ele se emitiu a si mesmo e ele emitiu o reprovado. Aquele que foi reprovado mudou (seu) nome e, junto com aquele que seria como a reprovação, ele apareceu como carne. E o humilhado não tem equipamento. Ele não tem necessidade da glória que não é sua; ele tem sua própria glória com o nome, que é o Filho. Agora ele veio para que pudéssemos nos tornar gloriosos através do humilhado que habita nos lugares da humilhação. E através dele que foi censurado, recebemos o perdão dos pecados. E por aquele que foi censurado e por aquele que foi redimido, recebemos a graça.

Mas quem redimiu aquele que foi repreendido? É a emanação do nome. Pois assim como a carne tem necessidade de um nome, também a carne é um Éon que a Sabedoria emitiu. Ela recebeu a majestade que está descendo, para que o Éon possa entrar naquele que foi censurado, para que possamos escapar da desgraça da carcaça e ser regenerado na carne e no sangue de … (faltam 8 linhas)… destino. Ele […] e os Éons […] aceitaram o Filho embora ele fosse um mistério completo […] cada um de seus membros […] graça. Quando ele gritou, ele foi separado da Igreja como porções da escuridão da Mãe, enquanto seus pés lhe deram traços, e estes queimaram o caminho da ascensão ao Pai.

Mas qual é o caminho e a maneira (em) como ela (fêmea) se tornou sua cabeça? Bem, ela (fême.) fez a morada para trazer a luz àqueles que habitam dentro dele, para que pudessem ver a Igreja ascendente. Pois a Cabeça se levantou do poço; estava dobrada sobre a cruz e olhou para baixo para Tártaros, para que os de baixo pudessem olhar para cima. Assim, por exemplo, quando alguém olha para alguém, então o rosto daquele que olhou para baixo olha para cima; assim também uma vez que a Cabeça olhou da altura para seus membros, nossos membros foram para cima, onde estava a Cabeça. E ela, a cruz, estava sendo pregada para os membros, e apenas para que eles pudessem … (7 linhas faltando)… têm […] porque eram como […] escravos. A consumação é assim: Aquele que ela indicou será completado por aquele que indicou. E as sementes que restarem durarão até que o Todo seja separado e tome forma.

E assim o decreto será cumprido, pois assim como a mulher que for honrada até a morte tem a vantagem do tempo, assim também ela dará à luz. E esta descendência receberá o corpo designado para ela, e se tornará perfeita. Ele tem uma natureza generosa, uma vez que o Filho de Deus habita nele. E sempre que ele adquire o Todo, o que quer que ele possua < será dissolvido> no fogo porque desprezava e ultrajava muito o Pai.

Além disso, quando o grande Filho foi enviado após seus pequenos irmãos, ele espalhou o Édito do Pai e o proclamou, opondo-se ao Todo. E ele removeu o velho vínculo da dívida, o da condenação. E este é o édito que foi: Aqueles que se fizeram escravos se tornaram condenados em Adão. Eles foram trazidos da morte, receberam perdão por seus pecados e foram redimidos por … (faltam 9 linhas)… já que somos dignos […] e […] mas eu digo […] e estes […]. Pois […] é digno de […] a Deus. E o Pai […] o Cristo se afastou de tudo isso, pois ama seus membros com todo o seu coração. Aquele que é invejoso põe seus membros uns contra os outros. Se não tiver ciúmes, não será afastado de (os) outros membros e do bem que ele vê.

Ao ter um irmão que nos considera como ele também é, glorifica-se aquele que nos dá graça. Além disso, é conveniente para cada um de nós desfrutar do dom que recebeu de Deus, e que não tenhamos ciúmes, pois sabemos que aquele que tem ciúmes é um obstáculo em seu (próprio) caminho, pois destrói somente a si mesmo com o dom e desconhece a Deus. Ele deve se alegrar e se alegrar e participar da graça e da generosidade. Será que alguém tem um dom profético? Compartilhe-o sem hesitar. Não se aproxime de seu irmão com inveja nem … (faltam 8 linhas)… escolhidos como […] vazios enquanto escapam […] caídos de seu […] ignoram que […] desta forma eles […] os têm […] em […] para que possam refletir forçosamente sobre as coisas que você quer que eles pensem quando pensam em você. Agora seu irmão também tem sua graça: Não se menospreze, mas alegre-se e agradeça espiritualmente, e reze por isso, para que você possa compartilhar a graça que habita dentro dele. Portanto, não o considere estrangeiro para você, mas (como) aquele que é seu, a quem cada um de seus <-colegas> membros recebeu. Ao amar o Chefe que os possui, você também possui aquele de quem é que essas efusões de dons existem entre seus irmãos.

Mas será que alguém está fazendo progressos na Palavra? Não se deixe impedir por isso; não diga: ”Por que ele fala enquanto eu não falo”, pois o que ele diz é (também) seu, e o que discerne a Palavra e o que fala é o mesmo poder. A Palavra … (faltam 13 linhas)… apenas um olho ou uma mão, embora sejam um só corpo. Aqueles que pertencem a todos nós, servem à Cabeça juntos. E cada um dos membros a considera como um membro. Todos eles não podem tornar-se inteiramente um pé ou inteiramente um olho ou inteiramente uma mão, pois estes membros não viverão sozinhos; ao contrário, estão mortos. Sabemos que eles estão sendo mortos. Então, por que você ama os membros que ainda estão mortos, ao invés daqueles que vivem? Como você sabe que alguém ignora os irmãos? Pois você é ignorante quando os odeia e tem ciúmes deles, pois não receberá a graça que habita dentro deles, não estando disposto a reconciliá-los com a generosidade da Cabeça. Você deve agradecer por nossos membros e pedir que também a você seja concedida a graça que lhes foi dada. Pois a Palavra é rica, generosa e bondosa. Aqui ele dá presentes a seus homens sem ciúmes, de acordo com … (faltam 11 linhas)… apareceram em cada um dos membros […] ele mesmo […] já que eles não brigam entre si por causa de suas diferenças. Ao contrário, trabalhando uns com os outros, eles trabalharão uns com os outros, e se um deles sofrer, eles sofrerão com ele, e quando cada um deles for salvo, eles serão salvos juntos.

Além disso, se eles esperarem pelo êxodo da harmonia (terrena), eles virão para o Éon. Se estiverem aptos a participar da (verdadeira) harmonia, quanto mais aqueles que derivam da unidade única? Eles devem ser reconciliados uns com os outros. Não acuse sua cabeça porque ela não o nomeou como um olho, mas sim como um dedo. E não tenha ciúmes daquilo que foi colocado na classe de um olho, de uma mão ou de um pé, mas esteja grato por não existir fora do Corpo. Pelo contrário, você tem a mesma cabeça por conta da qual o olho existe, assim como a mão e o pé e o resto das partes. Por que você despreza aquele que é nomeado como […] desejava […] caluniou […] não abraça […] corpo não misturado […] escolhido […] dissolve […] da descendência de Éon […] por mais que nos arrancou de <os> Éons que existem naquele lugar. Alguns existem na Igreja visível – aqueles que existem na Igreja dos homens – e unanimemente proclamam uns aos outros o Pleroma de seu éon. E alguns existem para a morte na Igreja em cujo nome eles vão – ela para quem eles são a morte – enquanto outros são para a vida. Portanto, eles são amantes da vida em abundância. E cada um dos demais resiste por sua própria raiz. Ele dá frutos que são como ele, já que as raízes têm uma conexão entre si e seus frutos são indivisíveis, o melhor de cada um. Eles os possuem, existindo para eles e uns para os outros. Assim, sejamos como as raízes, pois somos iguais […] que Éon […] aqueles que não são nossos […] acima do […] o agarram […] desde […] sua alma. Ele vai […] nós lhe demos […] a ele. Se você o purificar, ele permanecerá em mim. Se a encerrares, ela pertence ao Diabo. Mesmo se você matar suas forças que estão ativas, ela estará com você. Pois se a alma está morta, ainda assim ela foi decretada (por) os governantes e autoridades.

O que, agora, você pensa como espírito? Ou por que eles perseguem homens desse tipo até a morte? Eles não estão satisfeitos em estar com a alma e procurá-la? Pois cada lugar é excluído deles pelos homens de Deus enquanto eles existirem em carne e osso. E quando não podem vê-los, já que eles (os homens de Deus) vivem pelo espírito, destroem o que aparece, como se assim pudessem encontrá-los. Mas qual é o lucro para eles? Eles são insensatamente loucos! Eles rasgam o que os rodeia! Escavam a terra! […] ele […] esconde […] existe […] purifica […] porém […] depois que Deus […] nos agarra […] mas nós caminhamos […]. Pois se os pecados são muitos, tanto mais agora é o ciúme da Igreja do Salvador. Pois cada um era capaz de ambas (tipos) de transgressão, a de um adepto, e a de uma pessoa comum. É ainda uma única capacidade que eles possuem. E quanto a nós, somos adeptos da Palavra. Se pecamos contra ela, pecamos mais do que os gentios. Mas se superarmos cada pecado, receberemos a coroa da vitória, mesmo quando nossa Cabeça foi glorificada pelo Pai.

***

Fonte:

http://gnosis.org/naghamm/intpr.html.

***

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

 

⬅️ Voltar para a Biblioteca de Nag Hammadi

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-interpretacao-do-conhecimento-nah-hamadi/

A Infância de Cristo segundo Bartolomeu

Depois que Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitou de entre os mortos, acercou-se dele Bartolomeu e abordou-o desta maneira:

– Desvela-nos, Senhor, os mistérios dos céus.

Jesus respondeu-lhe:

– Se não me despojar deste corpo carnal não os poderei desvelar.

Bartolomeu, pois, acercando-se do Senhor, disse-lhe:

-Tenho algo a dizer-lhe, Senhor.

Jesus, por sua vez, respondeu:

– Já sei o que me vais dizer. Dize-me, pois, o que quiseres. Pergunta e eu te darei a razão.

Bartolomeu, então, falou:

– Quando ias no caminho da cruz, eu te segui de longe. E te vi a ti, dependurado no lenho, e os anjos que, descendo dos céus, te adoraram. Ao sobrevirem às trevas e eu estava a tudo contemplando. Eu vi como desapareceste da cruz e só pude ouvir os lamentos e o ranger de dentes que se produziram subitamente das entranhas da terra. Dize-me, Senhor, onde foste depois da cruz.

Jesus, então, respondeu desta forma:

– Feliz de ti, Bartolomeu, meu amado, porque te foi dado contemplar este mistério. Agora podes perguntar-me qualquer coisa que a ti ocorra, porque tudo dar-te-ei eu a conhecer. Quando desapareci da cruz, desci aos Infernos para dali tirar Adão e a todos que com ele se encontravam, cedendo às suplicas do arcanjo Gabriel.

Então disse Bartolomeu:

– E o que significa aquela voz que se ouviu?

Responde-lhe Jesus:

– Era a voz do Tártaro que dizia a Belial: a meu modo de ver, Deus se fez presente aqui. Quando desci, pois, com meus anjos ao Inferno para romper os ferrolhos e as portas de bronze, dizia ele ao Diabo: parece-me que é como se Deus tivesse vindo a terra. E os anjos dirigiram seus clamores às potestades, dizendo: levantai, ó príncipes, as portas e fazei correr as cortinas eternas, porque o Reino da Glória vai descer a terra. E o Inferno disse: quem é esse Rei da Glória que vem do céu a nós? Mas quando já havia descido quinhentos passos, o Inferno encheu-se de turbação e disse: parece-me que é Deus que baixa a terra, pois ouço a voz do Altíssimo e não o posso agüentar. E o Diabo respondeu: não percas o ânimo, Inferno; recobra teu vigor, que Deus não desce a terra. Quando voltei a baixar outros quinhentos passos, os anjos e potestades exclamaram: alçai as portas ao vosso Reino e elevai as cortinas eternas, pois es que está para entrar o Rei da Glória. Disse de novo o Inferno: ai de mim! Já sinto o sopro de Deus. E disse o Diabo ao Inferno: para que me assustas, Inferno? Se somente é um profeta que tem algo semelhante com Deus … Apanhemo-lo e levemo-lo à presença desses que crêem que está subindo ao céu. Mas replicou o Inferno: e quem é entre os profetas? Informa-me. É, por acaso, Enoch, o escritor mui verdadeiro? Mas Deus não lhe permite baixar a terra antes de seis mil anos. Acaso te referes a Elias, o vingador? Mas este não poderá descer até o final do mundo. Que farei? Para nossa perdição, é chegado o fim de tudo, pois aqui tenho escrito em minha mão o número dos anos. Belial disse ao Tártaro: não te perturbes. Assegura bem teus poderes e reforça os ferrolhos. Acredita-me, Deus não baixa a terra. Responde o Inferno: não posso ouvir tuas belas palavras. Sinto que se me arrebenta o ventre e minhas entranhas enchem-se de aflição. Outra coisa não pode ser: Deus apresentou-se aqui. Ai de mim! Aonde irei esconder-me de seu rosto, da sua força do grande Rei? Deixa-me que me esconda em tuas entranhas, pois fui criado antes de ti. Naquele preciso momento, entrei. Eu o flagelei e o atei com correntes que não se rompem. Depois fiz sair a todos os Patriarcas e voltei novamente para a cruz.

– Dize-me, Senhor – disse-lhe Bartolomeu. – Quem era aquele homem de talhe gigantesco a quem os anjos levavam em suas mãos?

Jesus respondeu:

– Aquele era Adão, o primeiro homem que foi criado, a quem fiz descer do céu à terra. E eu lhe disse: por ti e por teus descendentes fui pregado na cruz. Ele, ao ouvir isso, deu um suspiro e disse: assim, rendo-me a ti, Senhor.

De novo disse Bartolomeu:

– Vi também os anjos que subiam diante de Adão e que entoavam hinos, mas um destes, o mais esbelto de todos, não queria subir. Tinha em suas mãos uma espada de fogo e fazia sinais somente a ti. Os demais rogavam que ele subisse ao céu, mas ele não queria. Quando, porém, tu o mandaste subir, vi uma chama que saia de suas mãos e que chegava à cidade de Jerusalém.

Disse Jesus:

– Era um dos anjos encarregados de vingar o trono de Deus. E estava suplicando a mim. A chama que viste sair de suas mãos feriu o edifício da sinagoga dos judeus para dar testemunho de mim, por terem eles me sacrificado.

Quando falou isso, disse aos apóstolos:

– Esperai-me neste lugar, porque hoje se oferece um sacrifício no paraíso e ali hei de estar para recebê-los.

Falou Bartolomeu:

– Qual é o sacrifício que se oferece hoje no paraíso?

Jesus respondeu:

– As almas dos justos, que saíram do corpo, vão entrar hoje no Éden e, se eu não estiver lá presente, não poderão entrar.

Bartolomeu continuou:

– Quantas almas saem diariamente deste mundo?

Disse-lhe Jesus:

– Trinta mil.-

Insistiu Bartolomeu:

– Senhor, quando te encontravas entre nós ensinando-nos tua palavra, recebia sacrifícios no paraíso?

Respondeu-lhe Jesus:

– Em verdade te digo eu, meu amado, que, quando me encontrava entre vós ensinando-vos a palavra, estava simultaneamente sentado junto de meu Pai.

Disse-lhe Bartolomeu:

– Quantas almas nascem diariamente no mundo?

Responde-lhe Jesus:

– Uma só a mais do que as que saem do mundo.

Dizendo isto, deu-lhes a paz e desapareceu no meio deles.

Excerto do apócrifo de São Bartolomeu

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-infancia-de-cristo-segundo-bartolomeu/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-infancia-de-cristo-segundo-bartolomeu/

A História de José, O Carpinteiro

Esta é a história da morte de José, conforme foi narrada pelo Senhor Jesus a seus apóstolos. Escrita no Egito, por volta do século IV, chegou até os tempos atuais apenas em uma versão copta e uma outra árabe, com algumas poucas diferenças.

Neste texto, o Senhor Jesus conta a história de José, o carpinteiro, cujo ofício era o de manufaturar arados e cangas. Fala de seus sentimentos, quando da aproximação da morte, avisado que foi por um anjo.

A narração da agonia e da morte de José é enriquecida por detalhes interessantes, como o da aproximação da morte, juntamente com seu séquito, inclusive com a presença do diabo.

Alguns detalhes importantes são apresentados, como o nome dos filhos e a idade de José, quando de seu casamento com Maria, enquanto que outros, como episódios da infância de Cristo, confirmam o que é apresentado nos Evangelhos de Pedro, Tiago e Tomé, sobre a Infância do Salvador. Importante alusão, no final do texto, é feita ao Anticristo, cuja vinda convulsionará todas as nações.

Quando nosso Salvador contou a vida de José, o Carpinteiro, a nós, os apóstolos, reunidos no monte das Oliveiras, nós escrevemos sua palavras e depois guardamo-las na biblioteca de Jerusalém. Além disso, deixamos consignado que o dia no qual o santo ancião separou-se do seu corpo: foi do dia 26 de Epep[1] , na paz do Senhor. Amém.

Jesus Fala a Seus Apóstolos

Estava um dia nosso bom Salvador no monte das Oliveiras, com os discípulos a sua volta e dirigiu-se a eles com estas palavras:

– Meus queridos irmãos, filhos de meu amado Pai, escolhidos por Ele entre todos do mundo! Bem sabeis o que tantas vezes vos repeti: é necessário que eu seja crucificado e que experimente a morte, que ressuscite de entre os mortos e que vos transmita a mensagem do Evangelho para que vós, de vossa parte, o pregueis por todo o mundo.

Eu farei descer sobre vós uma força do alto, a qual vos impregnará com o Espírito Santo, para que vós, finalmente, pregueis para todas as pessoas desta maneira: fazei penitência! Porque vale mais um copo de água na vida vindoura do que todas as riquezas deste mundo. Vale mais pôr somente o pé na casa de meu Pai que toda a riqueza deste mundo.

Mais ainda: vale mais uma hora de regozijo para os justos que mil anos para os pecadores, durante os quais hão de chorar e lamentar, sem que ninguém preste atenção nem console seus gemidos. Quando, pois, meus queridos amigos, chegue a hora de ir-vos, pregai, que meu Pai exigirá contas com balança justa e equilibrada e examinará até as palavras inúteis que possais haver dito.

Assim como ninguém pode escapar à mão da morte, da mesma maneira ninguém pode subtrair-se de seus próprios atos, sejam eles bons ou maus. Além disso, vos tenho dito muitas vezes, e repito agora, que nenhum forte poderá salvar-se por sua própria força e nenhum rico, pelo tamanho da sua riqueza. E agora, escutai, que narrar-vos-ei a vida de meu pai José, o abençoado ancião carpinteiro.

Viuvez de José

Havia um homem chamado José, que veio de Belém, essa vila judia que é a cidade do rei Davi. Impunha-se pela sua sabedoria e pelo seu ofício de carpinteiro. Este homem, José, uniu-se em santo matrimônio com uma mulher que lhe deu filhos e filhas: quatro homens e duas mulheres, cujos nomes eram: Judas, Josetos, Tiago e Simão. Suas filhas chamavam-se Lísia e Lídia.

A esposa de José morreu, como está determinado que aconteça a todo o homem, deixando seu filho Tiago ainda menino de pouca idade. José era um homem justo e dava graças a Deus em todos os seus atos. Costumava viajar para fora da cidade com freqüência para exercer o ofício de carpinteiro, em companhia de dois de seus filhos mais velhos, já que vivia do trabalho de suas mãos, conforme o que estabelecia a lei de Moisés.

Esse homem justo, de quem estou falando, é José, meu pai segundo a carne, com quem se casou na qualidade de consorte, minha mãe, Maria.

Maria no Templo 

Enquanto meu pai José permanecia viúvo, minha mãe, a boa bendita entre as mulheres, vivia por sua parte no templo, servindo a Deus em toda a santidade.
Havia já completado doze anos. Passara os seus três primeiros anos na casa de seus pais e os nove restantes no templo do senhor.

Ao ver que a santa donzela levava uma vida simples e plena de temos a Deus, os sacerdotes conservaram entre si e disseram:

– Busquemos um homem de bem e celebremos o casamento com ele, até que chegue o momento de seu matrimônio. Que não seja por descuido nosso que lhe sobrevenha o período da sua purificação no templo, nem que venhamos a incorrer em um pecado grave.

Bodas de Maria e José

Convocaram, então, as tribos de Judá e escolheram entre elas doze homens, correspondendo ao número das doze tribos. A sorte recaiu sobre o bom velho José, meu pai, segundo a carne.

Disseram os sacerdotes a minha mãe, a Virgem:

– Vai com José e permanece submissa a ele, até que chegue a hora de celebrar teu matrimônio.
José levou Maria, minha mãe, para sua casa. Ela encontrou o pequeno Tiago na triste condição de órfão e o cobriu de carinhos e cuidados. Esta foi a razão pela qual a chamaram Maria, a mãe de Tiago.

Depois de tê-la acomodado em sua casa, José partiu para o local onde exercia o ofício de carpinteiro. Minha mãe Maria viveu dois anos em sua casa, até que chegou o feliz momento.

A ENCARNAÇÃO 

No décimo quarto ano de idade, Eu, Jesus, vossa vida, vim habitar nela por meu próprio desejo. Aos três meses de gravidez o solícito José voltou de suas ocupações. Ao encontrar minha mãe grávida, preso à turbação e ao medo, pensou secretamente em abandoná-la.

Foi tão grande o desgosto, que não quis comer nem beber naquele dia.

Visão de José

Eis, porém, que durante a noite, mandado por meu Pai, Gabriel, o arcanjo da alegria, apareceu-lhe numa visão e lhe disse:

– José, filho de Davi, não tenhas cuidado em admitir Maria, tua esposa, em tua companhia. Saberás que o que foi concebido em seu ventre é fruto do Espírito Santo. Dará, então, à luz um filho, a quem tu porás o nome de Jesus. Ele apascentará os povos com o cajado de ferro.

Dito isso, o anjo desapareceu. José, voltando do sono, cumpriu o que lhe havia sido ordenado, admitindo Maria consigo.

Viagem a Belém 

Então o imperador Augusto fez proclamar que todos deveriam comparecer ao recenseamento, cada um conforme seu lugar de origem. Também o bom velho se pôs a caminho e levou Maria, minha virgem mãe, até a sua cidade de Belém.
Como o parto já estava próximo, ele fez o escriba anotar seu nome da seguinte maneira:

– José, filho de Davi, Maria, sua esposa, e seu filho Jesus, da tribo de Judá.
Maria, minha mãe, trouxe-me ao mundo quando retornava de Belém, perto do túmulo de Raquel, a mulher do patriarca Jacó, a mãe de José e Benjamim.

Fuga para o Egito 

Satanás deu um conselho a Herodes, o Grande, pai de Arqueleu, aquele que fez decapitar meu querido parente João. Ele me procurou para tirar-me a vida, porque pensava que meu reino era deste mundo. Meu Pai manifestou isso a José, numa visão, e este pôs-se imediatamente em fuga levado consigo a mim e a minha mãe, em cujos braços eu ia deitado.

Salomé também nos acompanhava. Descemos até o Egito e ali permanecemos por um ano, até que o corpo de Herodes foi presa da corrupção, como castigo justo pelo sangue dos inocentes que ele havia derramado e dos quais já nem se lembrava.

Retorno à Galiléia

Quando o iníquo Herodes deixou de existir, voltamos a Israel e fomos viver em uma vila da Galiléia chamada Nazaré. Meu pai José, o bendito ancião, continuava exercendo o ofício de carpinteiro, graças a que podíamos viver.

Jamais poder-se-á dizer que ele comeu seu pão de graça, mais sim que se conduzia de acordo com o prescrito na lei de Moisés.

Velhice de José

Depois de tanto tempo, seu corpo não se mostrava doente, nem tinha a vista fraca, nem havia sequer um só dente estragado em sua boca.

Nunca lhe faltou a sensatez e a prudência e sempre conservou intacto o seu sadio juízo, mesmo já sendo um venerável ancião de cento e onze anos.

Obediência de Jesus

Seus dois filhos Josetos e Simão casaram-se e foram viver em seus próprios lares. Da mesma forma, suas duas filhas casaram-se, como é natural entre os homens, e José ficou com o seu pequeno filho Tiago.

Eu, da minha parte, desde que minha mãe trouxe-me a este mundo, estive sempre submisso a ele como um menino e fiz o que é natural entre os homens, exceto pecar.

Chamava Maria de minha mãe e José de meu pai. Obedecia-os em tudo o que me pediam, sem ter jamais me permitido replicar-lhes com uma palavra, mas sim mostrar-lhes sempre um grande carinho.

Frente à Morte

Chegou, porém, para meu pai José, a hora de abandonar este mundo, que é a sorte de todo homem mortal.

Quando seu corpo adoeceu, veio um de Deus anjo anunciar-lhe:

– Tua morte dar-se-á neste ano.

Sentindo sua alma cheia de turbação, ele fez uma viagem até Jerusalém, entrou no templo do Senhor, humilhou-se diante do altar e orou desta maneira:

ORAÇÃO de José

– Ó Deus, pai de toda misericórdia e Deus de toda carne, Senhor da minha alma, de meu corpo e do meu espírito! Se é que já se cumpriram todos os dias da vida que me deste neste mundo, rogo-te, Senhor Deus, que envies o arcanjo Micael para que fique do meu lado, até que minha desditada alma saia do corpo sem dor nem turbação. Porque a morte é para todos causa de dor e turbação, quer se trate de um homem, de um animal doméstico ou selvagem, ou ainda de um verme ou um pássaro.

Em uma palavra, é muito dolorosa para todas as criaturas que vivem sob o céu e que alentam um sopro de espírito para suportar o transe de ver sua alma separada do corpo. Agora, meu Senhor, faz com que o teu anjo fique do lado da minha alma e do meu corpo e que esta recíproca separação se consuma sem dor. Não permitas que aquele anjo que me foi dado no dia em que saí de teu seio volte seu rosto irado para mim ao longo deste caminho que empreendi até vós, mas sim que ele se mostre amável e pacífico.

Não permitas que aqueles cujas faces mudam dificultem a minha ida até vós. Não consintas que minha alma caia em mãos do cérbero e não me confundas em teu formidável tribunal. Não permitas que as ondas deste rio de fogo, nas quais serão envolvidas todas as almas antes de ver a glória de teu rosto, voltem-se furiosas contra mim. Ó Deus, que julgais a todos na Verdade e na Justiça, oxalá tua misericórdia sirva-me agora de consolo, já que sois a fonte de todos os bens e a ti se deve toda a glória pela eternidade das eternidades! Amém.

Doença de José

Aconteceu que, ao voltar a sua residência habitual de Nazaré, viu-se atacado pela doença que havia de levá-lo ao túmulo. Esta apresentou-se de forma mais alarmante do que em qualquer outra ocasião de sua vida, desde o dia em que nasceu.

Eis aqui, resumida, a vida de meu querido pai José: ao chegar aos quarenta anos, contraiu matrimônio, no qual viveu outros quarenta e nove.

Depois que sua mulher morreu, passou somente um ano. Minha mãe logo passou dois anos em sua casa, depois que os sacerdotes confiaram-na com estas palavras:

– Guarda-a até o tempo em que se celebre vosso matrimônio.

Ao começar o terceiro ano de sua permanência ali – tinha nessa época quinze anos de idade – trouxe-me ao mundo de um modo misterioso, que ninguém entre toda a criação pode conhecer, com exceção de mim, de meu Pai e do Espírito Santo, que formamos uma unidade.

O Início do Fim

A vida de meu pai José, o abençoado ancião, compreendeu cento e onze anos, conforme determinara meu bom Pai. O dia em que se separou do corpo foi no dia 26 do mês de Epep.

O ouro acentuado de sua carne começou a desfazer-se e a prata da sua inteligência e razão sofreu alterações. Esqueceu-se de comer e de beber e a destreza no desempenho de seu ofício passou a declinar.

Aconteceu que, ao amanhecer do dia 26 de Epep, enquanto estava em seu leito, foi tomado de uma grande agitação. Gemeu forte, bateu palmas três vezes e, fora de si, pôs-se a gritar dizendo:

Lamentos de José

– Ai, miserável de mim! Ai do dia em que minha mãe trouxe-me ao mundo! Ai do seio materno do qual recebi o germe da vida! Ai dos peitos que me amamentaram! Ai do regaço em que me reclinei! Ai das mãos que me sustentaram até o dia em que cresci e comecei a pecar! Ai de minha língua e de meus lábios que proferiram injúrias, enganos, infâmias e calúnias! Ai dos meus olhos, que viram o escândalo! Ai dos meus ouvidos que escutaram conversações frívolas! Ai das minhas mãos que subtraíram coisas que não lhes pertenciam!

Ai do meu estômago e do meu ventre que ambicionaram o que não era deles! Quando alguma coisa lhes era apresentada, devoravam-na com mais avidez do que poderia fazê-lo o próprio fogo! Ai dos meus pés que fizeram um mau serviço ao meu corpo, já que o levaram por maus caminhos! Ao do meu corpo todo que deixou a minha alma reduzida a um deserto, afastando-a de Deus que a criou! Que farei agora? Não encontro saída em parte alguma! Em verdade é que pobres dos homens que são pecadores! Esta é a angústia que se apoderou de meu pai Jacob em sua agonia, a qual veio hoje a ter comigo, infeliz. Mas, ó Senhor, meu Deus, que és o mediador de minha alma e de meu corpo e de meu espírito, cumpre em mim a tua divina vontade.

Jesus Consola seu Pai

Quando terminou de dizer estas palavras, entrei no local onde ele se encontrava e, ao vê-lo agitado de corpo e de alma, disse-lhe:

– Salve, José, meu querido pai, ancião bom e abençoado.

Ele respondeu, ainda tomado por um medo mortal:

– Salve mil vezes, querido filho. Ao ouvir tua voz, minha alma recupera sua tranqüilidade. Jesus, meu Senhor! Jesus, meu verdadeiro rei, meu salvador bom e misericordioso! Jesus, meu libertador! Jesus, meu guia! Jesus, meu protetor! Jesus, em cuja bondade encontra-se tudo! Jesus, cujo nome é suave e forte na boca de todos! Jesus, olho que vê e ouvido que ouve verdadeiramente: escuta-me hoje, teu servidor, quando elevo meus rogos e verto meus lamentos diante de ti.

Em verdade tu és Deus. Tu és o Senhor, conforme tem-me repetido muitas vezes o anjo, sobretudo naquele dia em que suspeitas humanas se aninharam em meu coração, ao observar os sinais de gravidez da Virgem sem mácula e eu havia decidido abandoná-la. Mas, quando eu estava pensando nisto, um anjo apareceu-me em sonhos e me disse: José, filho de Davi, não tenhas receio em receber Maria como esposa, pois o que há de dar à luz é fruto do Espírito Santo. Não guardes suspeita alguma a respeito de sua gravidez. Ela trará ao mundo um filho e tu dar-lhe-ás o nome de Jesus. Tu és Jesus Cristo, o salvador da minha alma, de meu corpo e de meu espírito. Não me condenes, teu servo e obra de tuas mãos.

Eu não sabia nem conhecia o mistério de teu maravilhoso nascimento e jamais havia ouvido que uma mulher pudesse conceber sem a obra de um homem e que uma virgem pudesse dar à luz sem romper o selo de sua virgindade. Ó, meu Senhor! Se não tivesse conhecido a lei desse mistério, não teria acreditado em ti, nem em teu santo nascimento, nem rendido honras a Maria, a Virgem, que te trouxe a este mundo. Recordo ainda aquele dia em que um menino morreu, por causa da mordida de uma serpente. Seus familiares vieram a ti, com intenção de entregar-te a Herodes.

Mas tua misericórdia alcançou a pobre vítima e devolveste-lhe a vida para dissipar aquela calúnia que te faziam, como causador da sua morte. Pelo que houve uma grande alegria na casa do defunto. Então eu te peguei pela orelha e disse-te: não sejas imprudente, meu filho. E tu me ameaçaste desta maneira: se não fosses meu pai, segundo a carne, dar-te-ia a entender que é isso o que acabas de fazer. Sim, pois, ó meu Senhor e Deus, esta é a razão pela qual vieste em tom de juízo e pela qual permitiste que recaíssem sobre mim estes terríveis presságios.

Suplico-te que não me coloques diante do teu tribunal para lutar comigo. Eis que eu sou teu servo e filho de tua escrava. Se houveres por bem romper meus grilhões, oferecer-te-ei um santo sacrifício, que não será outro senão a confissão da tua divina glória, de que tu és Jesus Cristo, filho verdadeiro de Deus e, por outro lado, filho verdadeiro do homem.

AFLIÇÃO de Maria

Quando meu pai disse essas palavras, eu não pude conter as lágrimas e pus-me a chorar, vendo como a morte vinha apoderando-se dele pouco a pouco e ouvindo, sobretudo, as palavras cheias de amargura que saíam da sua boca.

Naquele momento, meus queridos irmãos, veio-me ao pensamento a morte na cruz que haveria de sofrer pela vida de todo mundo. Então Maria, minha querida mãe, cujo nome é doce para todos os que me amam, levantou-se e disse-me, tendo seu coração inundado na amargura:

– Ai de mim, filho querido! Está à morte o bom e abençoado ancião José, teu pai querido e adorado?

Eu lhe respondi:

– Minha mãe querida, quem entre o humanos ver-se-á livre da necessidade de ter de encarar a morte? Esta é dona de toda a humanidade, mãe bendita! E mesmo tu hás de morrer como todos os outros homens. Nem tua morte nem a de meu pai José, porém, podem chamar-se propriamente morte, mas vida eterna ininterrupta. Também eu hei de passar por este transe por causa da carne mortal com a qual estou revestido. Agora, mãe querida, levanta-te e vai até onde está o abençoado ancião José para que possas ver o lugar que o aguarda lá no alto.

As Dores de José

Levantou-se, entrou no local onde ele se encontrava e pôde apreciar os sinais evidentes da morte que já se refletiam nele. Eu, meus queridos, postei-me em sua cabeceira e minha mãe aos seus pés. Ele fixava seus olhos no meu rosto, sem poder sequer dirigir-me uma palavra, já que a morte apoderava-se dele pouco a pouco.

Elevou, então, seu olhar até o alto e deixou escapar um forte gemido. Eu segurei suas mãos e seus pés durante um longo tempo e ele me olhava, suplicando-me que não o abandonasse nas mãos dos seus inimigos.

Eu coloquei minha mão sobre seu peito e notei que sua alma já havia subido até a sua garganta para deixar seu corpo, mas ainda não havia chegado o momento supremo da morte. Caso contrário, não teria podido agüentar mais.

Não obstante, as lágrimas, a comoção e o abatimento que sempre a precedem já faziam presentes.

A Agonia

Quando minha mãe querida viu-me apalpar o seu corpo, quis ela, de sua parte apalpar, os pés e notou que o alento havia fugido juntamente com o calor.

Dirigiu-se a mim e disse-me ingenuamente:

– Obrigada, filho querido, pois desde o momento em que puseste tua mão sobre seu corpo, a febre o abandonou. Vê, seus membros estão frios como o gelo.

Eu chamei os seus filhos e filhas e lhes disse:

– Falai agora com o vosso pai, que este é o momento de fazê-lo, antes que sua boca deixe de falar e seu corpo fique hirto.

Seus filhos e filhas falaram com ele, mas sua vida estava minada por aquela doença mortal que provocaria sua saída deste mundo. Então,

Lísia, filha de José, levantou-se para dizer aos seus irmãos:

– Juro, queridos irmãos, que esta é a mesma doença que derrubou a nossa mãe e que não voltou a aparecer por aqui até agora. O mesmo acontece com o nosso pai José, para que não voltemos a vê-lo senão na eternidade.

Então os filhos de José irromperam em lamentos. Maria, minha mãe, e eu, de nossa parte, unimo-nos ao seu pranto pois, efetivamente, já havia chegado a hora da morte.

A Morte Chega

Pus-me a olhar para o sul e vi a morte dirigir-se a nossa casa. Vinha seguida de Amenti, que é seu satélite, e do Diabo, a quem acompanhava uma multidão de esbirros vestidos de fogo, cujas bocas vomitavam fumaça e enxofre.

Ao levantar os olhos, meu pai deparou-se com aquele cortejo que o olhava com rosto colérico e raivoso, do mesmo modo que costuma olhar todas as almas que saem do corpo, particularmente aquelas que são pecadoras e que considera como propriedade sua.

Diante da visão desse espetáculo, os olhos do bom velho anuviaram-se de lágrimas. Foi neste momento em que meu pai exalou sua alma com um grande suspiro, enquanto procurava encontrar um lugar onde se esconder e salvar-se. Quando observei o suspiro de meu pai, provocado pela visão daquelas forças até então desconhecidas para ele, levantei-me rapidamente e expulsei o Diabo e todo seu cortejo. Eles fugiram envergonhados e confusos. Ninguém entre os presentes, nem mesmo minha própria mãe Maria, apercebeu-se da presença daqueles terríveis esquadrões que saem à caça de almas humanas.

Quando a morte percebeu que eu havia expulsado e mandado embora as potestades infernais, para que não pudessem espalhar armadilhas, encheu-se de pavor. Levantei-me apressadamente e dirigi esta oração a meu Pai, o Deus de toda misericórdia:

ORAÇÃO de Jesus

– Meu Pai misericordioso, Pai da verdade, olho que vê e ouvido que ouve, escuta-me, que eu sou teu filho querido! Peço-te por meu pai José, a obra de vossas mãos. Envia-me um grande corpo de anjos, juntamente com Micael, o administrador dos bens, e com Gabriel, o bom mensageiro da luz, para que acompanhem a alma de meu pai José até que se tenha livrado do sétimo éon tenebroso, de forma que não se veja forçado a empreender esses caminhos infernais, terríveis para o viajante por estarem infestados de gênios malignos e saqueadores e por ter de atravessar esse lugar espantoso por onde corre um rio de fogo igual às ondas do mar. Sede, além disso, piedoso para com a alma de meu pai José, quando ela vier repousar em vossas mãos, pois é este o momento em que mais necessita da tua misericórdia.

Eu vos digo, veneráveis irmãos e abençoados apóstolos, que todo homem que, chegando a discernir entre o bem e o mal, tenha consumido seu tempo seguindo a fascinação dos seus olhos, quando chegue a hora de sua morte e tenha de libertar o passo para comparecer diante do tribunal terrível e fazer sua própria defesa, ver-se-á necessitado da piedade de meu bom Pai.

Continuemos, porém, relatando o desenlace de meu pai, o abençoado ancião.

José Expira

Quando eu disse amém, Maria, minha mãe, respondeu na língua falada pelos habitantes do céu. No mesmo instante Micael, Gabriel e anjos, em coro, vindos do céu, voaram sobre o corpo de meu pai José.

Em seguida, intensificaram-se os lamentos próprios da morte e soube, então, que havia chegado o momento desolador. Sofria meu pai dores parecidas com as de uma mulher no parto, enquanto que a febre o castigava da mesma maneira que um forte furacão ou um imenso fogo devasta um espesso bosque.

A morte, cheia de medo, não ousava lançar-se sobre o corpo de meu pai para separá-lo da alma, pois seu olhar havia dado comigo, que estava sentado a sua cabeceira, com as mãos sobre suas têmporas.

Quando me apercebi de que a morte tinha medo de entrar por minha causa, levantei-me, dirigi meus passos até o lado de fora da porta e encontrei-a só e amedrontada, em atitude de espera.

Eu lhe disse:

– Ó tu, que vens do Meio-dia, entra rapidamente e cumpre o que ordenou-te meu Pai. Porém, guarda José como a menina dos teus olhos, posto que é meu pai segundo a carne e compartilhou a dor comigo, durante os anos da minha infância, quanto teve de fugir de um lado para outro por causa das maquinações de Herodes e ensinou-me como costumam fazer os pais para o proveito dos seus filhos.

Então Abbadão entrou, tomou a alma de meu pai José e separou-a do corpo no mesmo instante em que o sol fazia sua aparição no horizonte, no dia 26 do mês de Epep, em paz.

A vida de meu pai compreendeu cento e onze anos. Micael e Gabriel pegaram cada qual em um extremo de um pano de seda e nele depositaram a alma de meu querido pai José depois de tê-la beijado reverentemente.

Enquanto isso, nenhum dos que rodeavam José havia percebido a sua morte, nem sequer minha mãe Maria. Eu confiei a alma do meu querido pai José a Micael e Gabriel, para que a guardassem contra os raptores que saqueiam pelo caminho e encarreguei os espíritos incorpóreos de continuarem cantando canções até que, finalmente, depositaram-no junto a meu Pai no céu.

Luto na Casa de José

Inclinei-me sobre o corpo inerte de meu pai. Cerrei seus olhos, fechei sua boca e levantei-me para contemplá-lo. Depois disse à Virgem:

– Ó Maria, minha mãe, onde estão os objetos de artesanato feitos por ele desde sua infância até hoje? Neste momento todos eles passaram, como se ele não tivesse sequer vindo a este mundo.

Quando seus filhos e filhas ouviram-me dizer isto a Maria, minha mãe virginal, perguntaram-me com vozes fortes e lamentos:

– Será que nosso pai morreu sem que nós nos apercebêssemos?

Eu lhes disse:

– Efetivamente, morreu, mas sua morte não é morte, porém vida eterna. Grandes coisas esperam nosso querido pai José. Desde o momento em que sua alma sai do seu corpo, desapareceu para ele toda espécie de dor. Ele se pôs a caminho do reino eterno. Deixou atrás de si o peso da carne, com todo este mundo de dor e de preocupações, e foi para o lugar de repouso que tem meu Pai nesses céus que nunca serão destruídos.

Ao dizer a meus irmãos que o nosso pai José, o abençoado ancião, havia finalmente morrido, eles se levantaram, rasgaram suas vestes e o choraram durante um longo tempo.

Luto em Nazaré

Quando os habitantes de Nazaré e de toda a Galiléia inteiraram-se da triste nova, acudiram em massa ao lugar onde nos encontrávamos. De acordo com a lei dos judeus, passaram todo o dia dando sinais de luto até que chegou a nona hora.

Despedi, então todos, derramei água sobre o corpo de meu pai José, ungi-o com bálsamo e dirigi ao meu Pai amado, que está nos céus, uma oração celestial que havia escrito com meus próprios dedos, antes de encarnar-me nas entranhas da Virgem Maria.

Ao dizer amém, veio uma multidão de anjos. Mandei que dois deles estendessem um manto para depositar nele o corpo de meu pai José para que o amortalhassem.

BÊNÇÃO de Jesus

Pus minhas mãos sobre o seu corpo e disse:

– Não serás vítima da fetidez da morte. Que teus ouvidos não sofram corrupção. Que não emane podridão de teu corpo. Que não se perca na terra a tua mortalha nem a tua carne, mas que fiquem intactas, aderidas ao teu corpo até o dia do convite dos dois mil anos. Que não envelheçam, querido pai, esses cabelos que tantas vezes acariciei com minhas mãos. E que a boa sorte esteja contigo. Aquele que se preocupar em levar uma oferenda ao teu santuário no dia de tua comemoração, eu o abençoarei com afluxos de dons celestiais. Assim mesmo, a todo aquele que der pão a um pobre em teu nome, não permitirei que se veja agoniado pela necessidade de quaisquer bens deste mundo, durante todos os dias de sua vida.

Conceder-te-ei que possas convidar ao banquete dos mil anos a todos aqueles que no dia de tua comemoração ponham um copo de vinho na mão de um forasteiro, de uma viúva ou de um órfão. Hei de dar-te de presente, enquanto vivam neste mundo, a todos os que se dediquem a escrever o livro da tua saída deste mundo e a consignar todas as palavras que hoje saíram de minha boca. Quando abandonarem este mundo, farei com que desapareça o livro no qual estão escritos seus pecados e que não sofram nenhum tormento, além da inevitável morte e do rio de fogo que está diante do meu Pai, para purificar toda a espécie de almas. Se acontecer que um pobre, não podendo fazer nada do que foi dito, ponha o nome de José em um de seus filhos em tua honra, farei com que naquela casa não entre a fome nem a peste, pois o teu nome habita ali de verdade.

A Caminho do Túmulo

Os anciãos da cidade apresentaram-se na casa enlutada, acompanhados daqueles que procediam ao sepultamento à maneira judia. Encontraram o cadáver já preparado para o enterro. A mortalha se havia aderido fortemente ao seu corpo, como se houvessem atado com grampos de ferro e não puderam encontrar sua abertura, quando removeram o cadáver.

Em seguida, passou-se a conduzir o morto até seu túmulo. Quando chegaram até ele e estavam já preparados para abrir sua entrada e colocá-lo junto aos restos de seu pai, veio-me à mente a lembrança do dia em que me levou até o Egito e das grandes preocupações que assumiu por mim.

Não pude deixar de atirar-me sobre o seu corpo e chorar por um longo tempo, dizendo:

EXCLAMAÇÕES de Jesus

– Ó morte, de quantas lágrimas e lamentos és causa! Esse poder, porém, vem d’Aquele que tem sob o seu domínio todo o universo. Por isso tal reprovação não vai tanto contra a morte senão contra Adão e Eva. A morte não atua nunca sem uma prévia ordem de meu Pai.

Existem aqueles que viveram mais de novecentos anos e outros ainda muito mais tempo. Entretanto, nenhum deles disse: eu vi a morte ou a morte vinha de tempos em tempos atormentar-me. Senão que ela traz uma só vez a dor e, ainda assim, é meu bom Pai quem a envia. Quando vem em busca do homem, ela sabe que tal resolução provém do céu. Se a sentença vem carregada de raiva, a morte também se manifesta colérica para cumprir sua incumbência, pegando a alma do homem e entregando-a ao seu Senhor.

A morte não tem atribuições para atirar o homem ao inferno nem para introduzí-lo no reino celestial. A morte cumpre de fato a missão de Deus, ao contrário de Adão, que ao não submeter-se à vontade divina, cometeu uma transgressão. Ele irritou meu Pai contra si, por haver preferido dar ouvidos a sua mulher, antes de obedecer à sua missão.

Assim, todo ser vivo ficou implacavelmente condenado à morte.

Se Adão não houvesse sido desobediente, meu Pai não o teria castigado com esta terrível sina. O que impede agora que eu faça uma oração ao meu bom Pai para que envie um grande carro luminoso para elevar José, a fim de que não prove das amarguras da morte e que o transporte ao lugar de repouso, na mesma carne que trouxe ao mundo, para que ali viva com seus anjos incorpóreos? A transgressão de Adão foi a causa de sobreviverem esses grandes males sobre a humanidade, juntamente com o irremediável da morte. Embora eu mesmo carregue também esta carne concebida na dor, devo provar com ela da morte para que possa apiedar-me das criaturas que formei.

O Enterro

Enquanto dizia essas coisas, abraçado ao corpo de meu pai José e chorando sobre ele, abriram a entrada do sepulcro e depositaram o cadáver junto ao de seu pai Jacob. Sua vida foi de cento e onze anos, sem que ao fim de tanto tempo um só dente tivesse estragado em sua boca ou sem que seus olhos se tornassem fracos, senão que todo o seu aspecto assemelhava-se ao de um afetuoso menino.

Nunca esteve doente, senão que trabalhou continuamente em seu ofício de carpinteiro, até o dia que sobreveio a doença que haveria de levá-lo ao sepulcro.

CONTESTAÇÃO dos Apóstolos

Quando nós, os apóstolos, ouvimos tais coisas dos lábios de nosso Salvador, pusemo-nos em pé, cheios de prazer e passamos a adorar suas mãos e seus pés, dizendo com o êxtase da alegria:

– Damos-te graças, nosso Senhor e Salvador, por te haveres dignado a presentear-nos com essas palavras saídas de teus lábios. Mas não deixamos de admirar, ó bom Salvador, pois não entendemos como, havendo concedido a imortalidade a Elias e a Enoch, já que estão desfrutando dos bens na mesma carne com que nasceram, sem que tenham sido vítimas da corrupção, e agora, tratando-se do bendito ancião José, o Carpinteiro, a quem concedeste a grande honra de chamá-lo teu pai e de obedecê-lo em todas as coisas, a nós mesmos nos encarregaste:

quando fordes revestidos da mesma força, recebereis a voz de meu Pai, isto é, o Espírito Paráclito, e sereis enviados para pregar o evangelho e pregai também ao querido pai José. E ainda: consignai estas palavras de vida no testamento de sua partida deste mundo e lê as palavras deste testamento nos dias solenes e festivos e quem não tiver aprendido a ler corretamente, não deve ler este testamento nos dias festivos.

Finalmente, quem suprimir o adicionar algo a estas palavras, de maneira a fazer-me embusteiro, será réu de minha vingança. Admira-nos, repetimos, aquele que, havendo chamado teu pai segundo a carne, desde o dia em que nasceste em Belém, não lhe tenhas concedido a imortalidade para viver eternamente.

Resposta de Jesus

Nosso Salvador respondeu, dizendo-nos:

– A sentença pronunciada por meu Pai contra Adão não deixará de ser cumprida, já que este não foi obediente aos mandamentos. Quando meu Pai destina a alguém ser justo, este vem a ser imediatamente o seu eleito. Se um homem ofende a Deus por amar as obras do demônio, acaso ignora que um dia virá a cair em suas mãos se seguir impenitente, mesmo se lhe concederem longos dias de vida?

Se, ao contrário, alguém vive muito tempo, fazendo sempre boas obras, serão exatamente elas que o farão velho. Quando Deus vê que alguém segue o caminho da perdição, costuma conceder-lhe um curto prazo de vida e o faz desaparecer na metade dos seus dias. Quanto aos demais, hão de ter o exato cumprimento das profecias ditadas por meu Pai acerca da humanidade e todas as coisas hão de suceder de acordo com elas. Haveis citado o caso de Enoch e Elias. Eles, dizeis, continuam vivendo e conservam a carne que trouxeram a este mundo. Por que, então, em se tratando de meu pai, não lhe permiti conservar seu corpo?

Então eu digo que, mesmo que houvesse chegado a ter mais de dez mil anos, sempre incorreria na mesma necessidade de morrer.

Mais ainda, eu asseguro que sempre que Enoch e Elias pensam na morte, desejariam já havê-la sofrido a verem-se assim, livres da necessidade que lhes é imposta, já que deverão morrer num dia de turbação, de medo, de gritos, de perdição e de aflição. Pois haveis de saber que o Anticristo há de matar esses homens e de derramar seu sangue na terra como água de um copo por causa das incriminações que lhe imputarão, quando os acusarem.

Epílogo

Nós respondemos, dizendo:

– Nosso Senhor e Deus, quem são esses dois homens, dos quais disseste que o filho da perdição matará por um copo de água?

Jesus, nosso Salvador e nossa vida, respondeu:

– Enoch e Elias.

Ao ouvir essas palavras da boca de nosso Salvador, se nos encheu o coração de prazer e de alegria. Por isso lhe rendemos homenagens e graças como nosso Senhor, nosso Deus e nosso Salvador, Jesus Cristo, por meio de quem vão para o Pai toda a glória e toda a honra juntamente com Ele e com o Espírito Santo vivificador, agora, por todo o tempo e pela eternidade das eternidades.

Narrada por Jesus a seus apóstolos

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-historia-de-jose-o-carpinteiro/

A Hipóstase dos Arcontes

(A Realidade dos Regentes)

A respeito da realidade das autoridades, (inspirado) pelo Espírito do Pai da verdade, o grande apóstolo – se referindo às “autoridades da escuridão” – nos disse que “nossa disputa não é contra os seres de carne e sangue; mais propriamente, as autoridades do universo e os espíritos da perversidade.” Eu te enviei isto porque você indaga sobre a realidade das autoridades.

O chefe deles é cego; devido ao poder dele e sua ignorância e sua arrogância ele disse, com o poder dele, “Eu é que sou Deus; não há outro além de mim.” Quando ele disse isto, ele pecou contra a totalidade. E esta declaração chegou até a incorruptibilidade; então houve uma voz que partiu da incorruptibilidade, dizendo, “Você está enganado, Samael” – que é, “deus dos cegos.”

A presunção dele o cegou. E, tendo expelido seu poder – ou seja, a blasfêmia que ele havia dito – ele prosseguiu até o Caos e o Abismo, que é a mãe dele, instigado pela Pistis Sofia. E ela estabeleceu cada um da prole dele de acordo com o poder deles – segundo o padrão dos reinos que estão acima dos céus, pois, a partir do universo invisível, o universo visível foi inventado.

Assim que a incorruptibilidade olhou para baixo na região das águas, sua imagem apareceu nas águas; e as autoridades da escuridão se apaixonaram por ela. Mas eles não puderam se apropriar daquela imagem que havia aparecido para eles nas águas, por causa da fraqueza deles – já que seres que meramente possuem uma alma não podem se apropriar daqueles que possuem um Espírito – pois eles eram do reino inferior, enquanto ela era de cima. Esta é a razão pela qual a “incorruptibilidade olhou para baixo na região (etc.)”: para que, pela vontade do Pai, ela possa trazer a totalidade para a união com a luz.

Os regentes planejaram e disseram, “Venham, vamos criar um homem com o solo da terra.” Eles modelaram a criatura deles como sendo completamente da terra. Agora os regentes são andróginos, seus corpos são iguais aos que eles criaram para a humanidade deles, tendo características de macho e de fêmea, mas com o rosto de um animal. Então quando eles haviam tomado um pouco de solo da terra, eles modelaram o homem deles segundo o corpo deles, e segundo o semblante de Deus que havia aparecido para eles nas águas. Eles disseram, “Venham, vamos dominar ele por meio da forma que nós modelamos, para que ele veja sua aparência neste corpo, se sinta atraído e venha habitar nele, e nós possamos capturá-lo com a forma que nós modelamos” – não compreendendo a força de Deus, por causa da impotência deles. O chefe deles soprou no rosto dele; e o homem obteve uma alma (e permaneceu) no chão muitos dias. Mas eles não puderam fazê-lo se erguer por causa da impotência deles. Como vendavais eles persistiram soprando, tentando capturar aquela imagem que apareceu para eles nas águas. E eles não conheciam a identidade daquele poder.

Agora todas estas coisas decorreram pela vontade do Pai da totalidade. Posteriormente, o Espírito viu o homem dotado de alma no chão. E o Espírito veio adiante da Terra de Adamantina; ele desceu e veio habitar dentro dele, e aquele homem se tornou uma alma viva, e chamou-se Adão. Já que ele foi visto se movendo sobre o chão, uma voz partiu da incorruptibilidade para o auxílio de Adão; e os regentes reuniram todos os animais da terra e todos os pássaros do céu e os trouxeram para Adão, para ver como ele iria chamá-los, para que ele desse um nome a cada um dos pássaros e a todos os animais.

Eles pegaram Adão e colocaram ele no jardim, para que ele o cultivasse e vigiasse. E os regentes emitiram um comando a ele, dizendo, “Você comerá de toda árvore no jardim; mas da árvore do reconhecimento do bem e do mal não coma, nem a toque; pois no dia que você comer dela, com morte você morrerá.”

Eles estavam mentindo quando falaram isto. Eles não entendem o que disseram para ele; pelo contrário, pela vontade do Pai, eles disseram isto de modo que ele de fato coma, e para que Adão não os considerasse do mesmo jeito que um homem de natureza totalmente material consideraria.

Os regentes se consultaram uns com os outros e disseram, “Venham, vamos causar que um sono profundo caia sobre Adão.” E ele dormiu. – Agora o sono profundo que eles “causaram que caísse sobre ele, e ele dormiu” é a Ignorância. – Eles abriram a lateral dele que era como uma mulher viva. E eles montaram a lateral dele com um pouco de carne no lugar dela, e Adão ficou dotado apenas de alma.

E a mulher dotada de Espírito veio até ele e falou com ele, dizendo, “Levante-se, Adão.” E quando ele a viu, ele disse, “Foi você quem me deu vida; você será chamada ‘mãe dos vivos’. – Pois ela que é a minha mãe. Ela que é a obstetra, a mulher, e ela que deu à luz.”

Então as autoridades vieram até o Adão deles. E quando eles viram a contraparte feminina dele falando com ele, eles ficaram agitados com grande agitação; e eles se apaixonaram por ela. Eles disseram uns aos outros, “Venham, vamos espalhar nossa semente nela,” e eles a perseguiram. E ela riu deles pela tolice e cegueira deles; e nas garras deles ela se tornou uma árvore, e deixou diante deles o reflexo indistinto dela aparentando a si mesma; e eles o violaram de forma imunda. – E eles violaram o sinal da voz dela, de modo que, por meio da forma que eles modelaram, junto com a própria imagem deles, eles se tornaram propensos à condenação.

Então o princípio espiritual feminino entrou na águia, que é o instrutor; e ele os ensinou, dizendo, “O que ele disse para você? Foi, ‘Você comerá de toda árvore no jardim; mas – da árvore do reconhecimento do bem e do mal não coma’?”

A mulher carnal disse, “Ele disse não somente, ‘Não coma’, mas até ‘Não a toque; pois no dia que você comer dela, com morte você morrerá.’”
E a águia, o instrutor, disse, “Com morte vocês não irão morrer; pois foi por ciúmes que ele disse isto a vocês. Pelo contrário, seus olhos se abrirão e vocês se tornarão como deuses, reconhecendo o mal e o bem.” E o princípio instrutor feminino foi removido da águia, e ela o abandonou, uma coisa meramente da terra.

E a mulher carnal pegou da árvore e comeu; e ela deu ao marido dela também; e estes seres que possuíam apenas uma alma, comeram, e então eles ficaram sóbrios do esquecimento. Eles perceberam a imperfeição e a falta de sabedoria dos seus criadores; e reconheceram que eles mesmos estavam despidos do elemento espiritual, então eles pegaram folhas de figueira e amarraram em seus quadris.

Então o regente chefe (que é a serpente) veio; e ele disse, “Adão! Onde você está?” – porque ele não entendeu o que tinha acontecido. E Adão disse, “Eu ouvi a sua voz e tive medo porque eu estava nu, e eu me escondi.”

O regente disse, “Por que você se escondeu, a menos que é porque você comeu da única árvore que eu ordenei que você não comesse? E você comeu!”

Adão disse, “A mulher que você me deu, ela me ofereceu e eu comi.” E o regente arrogante amaldiçoou a mulher.

A mulher disse, “Foi a águia que me induziu e eu comi.” Eles se voltaram para a águia e amaldiçoaram o reflexo indistinto dela, […] impotentes, não compreendendo que era uma forma que eles mesmos haviam modelado. Desde aquele dia, a águia ficou sob a maldição das autoridades, até que o regente todo-poderoso viesse, aquela maldição caiu sobre a águia.

Eles se voltaram para o Adão deles, e o tomaram e expulsaram do jardim junto com sua esposa; pois eles não possuem bênção, já que eles também estão sob a maldição. Além do mais, ele jogou a humanidade em grande distração e em uma vida de dificuldades, para que a humanidade deles possa estar ocupada com afazeres mundanos, e não possa ter a oportunidade de se dedicar ao Espírito sagrado.

Agora em seguida, ela gerou Caim, o filho deles, e Caim cultivava a terra. Logo após isso ele reconheceu sua esposa, engravidando novamente, ela gerou Abel; e Abel era um pastor de ovelhas. Agora Caim apresentou das colheitas do campo dele, mas Abel apresentou uma oferenda dentre suas ovelhas. Então Sabaoth, que é chamado Senhor das Forças, olhou sobre as oferendas votivas de Abel; mas ele não aceitou as oferendas votivas de Caim. E o Caim carnal perseguiu Abel, seu irmão.

E Sabaoth disse para Caim, “Onde está Abel, teu irmão?”

Ele respondeu dizendo, “Eu sou, então, zelador do meu irmão?”

Então Sabaoth disse para Caim, “Escute! A voz do sangue do teu irmão está clamando para mim! Você pecou com tua boca. Isto retornará para ti: qualquer um que matar Caim soltará sete vinganças, e você existirá gemendo e tremendo sobre a terra.”

E Adão reconheceu sua contraparte feminina Eva, e ela ficou grávida, e gerou Seth para Adão. E ela disse, “Eu gerei um homem através de Deus, no lugar de Abel.” Novamente Eva engravidou, e ela gerou Norea. E ela disse, “Ele gerou em mim uma virgem como uma assistência para muitas gerações da humanidade.” Ela é a virgem a quem as forças não corromperam.

Então eles começaram a se multiplicar e aperfeiçoar. Os regentes se consultaram uns com os outros e disseram, “Venham, vamos causar um dilúvio com nossas mãos e eliminar toda carne, desde homem até animal.” Mas quando o Senhor das Forças soube da decisão deles, ele disse para Noé, “Construa para vocês uma arca com madeira que não apodreça e se escondam nela – você e os meus filhos, e os anjos do céu, e os animais deles, do pequeno ao grande – e coloque-a sobre o Monte Senhor.”

Então Orea veio até ele, querendo embarcar na arca. E quando ele não a deixou, ela soprou sobre a arca e ocasionou que ela fosse consumida pelo fogo. Novamente ele fez a arca, por uma segunda vez.

Os regentes foram conhecê-la, pretendendo corrompê-la. O chefe supremo deles disse a ela, “A sua mãe Eva foi criada por nós.” Mas Norea virou-se para eles e disse, “São vocês os regentes da escuridão; vocês estão amaldiçoados. E vocês não conheceram a minha mãe; pelo contrário, vocês conheceram a contraparte feminina de vocês. Pois eu não sou descendente de vocês; pelo contrário, é do aeon superior que eu venho.”

O regente arrogante levantou-se contra ela com toda a sua força, e sua aparência era como um enorme dragão preto; e ele disse a ela presunçosamente, “Você deve servir a nós, como a sua mãe Eva também serviu; pois me foi dada autoridade sobre todo este universo!”
Mas Norea virou-se, com o poder da sua fé; e numa voz alta ela exclamou para o alto para o sagrado, o Deus da totalidade, “Resgate-me dos regentes da injustiça e me salve das garras deles – depressa!”

O grande anjo eterno desceu do Oitavo Céu e disse a ela, “Por que você está exclamando a Deus? Por que você age com tanta audácia para com o Espírito sagrado?”

Norea disse, “Quem é você?” Os regentes da injustiça haviam se afastado dela.

Ele disse, “Eu que sou Eleleth, sagacidade, o grande anjo que fica na presença do Espírito sagrado. Eu fui enviado para falar com você e salvá-la das garras dos malfeitores. E eu irei te ensinar sobre a sua raiz.”

(Aparentemente Norea falando agora) Agora quanto a esse anjo, eu não posso expressar o poder dele: sua aparência é como ouro fino e seu traje é como neve. Não, deveras, minha boca não se porta a falar do poder e da aparência do rosto dele!

Eleleth, o grande anjo, falou comigo. “Sou eu,” ele disse, “que sou compreensão. Eu sou um dos quatro doadores de luz, que ficam na presença do grande Espírito invisível. Você acha que estes regentes têm algum poder sobre ti? Nenhum deles pode prevalecer contra a raiz da verdade; pois foi por ela que ele apareceu nos últimos tempos; e estas autoridades serão restringidas. E estas autoridades não podem te corromper nem corromper aquela geração, pois sua residência é na incorruptibilidade, onde o Espírito virgem habita, que é superior às autoridades do Caos e ao universo deles.”

Mas eu disse, “Senhor, me ensine sobre a capacidade destas autoridades – como eles surgiram, e por qual tipo de gênesis, e de que material, e quem criou eles e a força deles?”

E o grande anjo Eleleth, compreensão, falou para mim: “Dentro de domínios ilimitados habita a incorruptibilidade. Sofia, que é chamada Pistis, quis criar algo sozinha, sem o cônjuge dela; e o produto dela foi a abóbada celeste. Ela é um véu que existe entre os grandes aeons superiores e os domínios inferiores. Então uma nuvem surgiu abaixo do véu; e essa nuvem gerou matéria; e a matéria foi expelida e dispersada. E o que ela havia criado foi parido pela nuvem como um feto abortado. E aquilo assumiu uma forma plástica modelada através da matéria, e se tornou uma besta arrogante parecendo um leão. E era andrógino, como eu já havia dito, e ignorante, porque foi da matéria que ele derivou.

Quando ele abriu os olhos, ele viu uma vasta quantidade de água sem limite; e ele se tornou arrogante, dizendo, “Eu é que sou Deus, e não há outro além de mim”. Quando ele disse isto, ele pecou contra a totalidade. E uma voz partiu do alto, do reino de poder absoluto, dizendo “Você está enganado, Samael” – que é, ‘deus dos cegos’.

E ele disse, “Se outra coisa existe antes de mim, que se torne visível para mim!” E imediatamente Sofia esticou o dedo dela e introduziu luz no universo; e ela brilhou até as profundezas do Caos. Então ela recolheu a sua luz; e mais uma vez a escuridão encobriu todo o universo.

Este regente, sendo andrógino, criou para si um vasto reino, um tamanho inimaginável. E ele contemplou criando filhos de si próprio, e criou para ele mesmo sete filhos, andróginos assim como o pai deles. E ele disse à prole dele, “Eu é que sou o Deus da totalidade.”

E Zoe (Vida), a filha de Pistis Sofia, exclamou e disse a ele, “Você está enganado, Saclas!” – cujo nome alternativo é Yaldabaoth. Ela soprou no rosto dele, e a respiração dela se tornou um anjo de fogo para ele; e o anjo prendeu Yaldabaoth e o lançou abaixo dentro do Tártaro, no fundo do abismo.

Agora quando o filho dele Sabaoth viu a força daquele anjo, ele se arrependeu e condenou o pai dele e a mãe dele, a matéria. Ele a repugnou, mas ele cantou canções de louvor para cima para Sofia e a filha dela Zoe. E Sofia e Zoe o ergueram e lhe deram o comando do sétimo céu, para que ele pudesse reger sobre o universo, entre os reinos eternos e o Caos. E ele é chamado ‘Senhor das Forças, Sabaoth’, já que ele está acima das forças do Caos, pois Sofia o estabeleceu.

E quando estes eventos aconteceram, ele fez para si próprio uma mansão enorme, e uma congregação de deuses para governarem sobre os mundos das pessoas, e muitos infinitos anjos para atuarem como ministros, e também harpas e liras. E Sofia pegou a filha dela Zoe e a fez sentar à direita dele, para ensiná-lo sobre as coisas que existem no Oitavo Céu; e o anjo da ira ela colocou à esquerda dele. Desde aquele dia, a direita dele tem sido chamada ‘vida’, e a esquerda veio a representar a injustiça, para o domínio de poder absoluto acima. Foi antes da sua época que eles surgiram.

Agora quando Yaldabaoth viu ele (Sabaoth) neste grande esplendor e nesta altura, ele o invejou; e a inveja se tornou um produto andrógino, e esta foi a origem da inveja. E inveja produziu morte; e morte produziu a prole dele, e deu para cada um deles o comando de seu céu; e todos os céus do Caos se tornaram repletos de suas multidões. Mas foi pela vontade do Pai da totalidade que eles todos surgiram – segundo o padrão de todas as coisas superiores – para que a quantia do Caos fosse alcançada.

“Assim, eu te ensinei sobre o padrão dos regentes; e a matéria na qual ele foi expressado; e o pai deles; e o universo deles.”

Mas eu disse, “Senhor, eu também sou da matéria deles?””

Você, junto com seus descendentes, são do Pai Imortal, de cima, da luz imperecível é que almas deles são provenientes. Por isso as autoridades não podem se aproximar deles, por causa do Espírito da verdade que está presente dentro deles; e todos que se instruíram sobre estas coisas existem como imortais no meio da humanidade mortal. Mesmo assim, esses fatos não serão conhecidos agora. Pelo contrário, após três gerações é que isto será reconhecido, e esta sabedoria os libertou da escravidão e do erro das autoridades.”

Então eu disse, “Senhor, quanto mais irá demorar?”

Ele me disse, “Até o momento em que o homem verdadeiro, dentro de uma forma modelada, revele a existência do Espírito da verdade, que o Pai enviou.

Então ele ensinará a eles sobre tudo, e ele os ungirá com a unção da vida, dada a ele pela geração sobre a qual não há regente.

Então eles serão libertados do pensamento cego, e eles irão pisar sobre a morte com os pés, pois ela pertence às autoridades, e eles subirão até a luz ilimitada, que é onde os eleitos pertencem.

Então as autoridades irão abandonar suas eras, e os anjos deles prantearão sobre a destruição deles, e os demônios deles irão lamentar suas mortes.

Então todas as crianças da Luz serão verdadeiramente familiarizadas com a verdade e com a raiz deles, e com o Pai da totalidade e o Espírito sagrado. Eles todos dirão com uma única voz, “A verdade do Pai é justa, e o filho preside sobre a totalidade”, e todos louvarão nos aeons dos aeons eternos, “Sagrado – sagrado – sagrado! Amém!’”

A Realidade dos Regentes.

***

Fonte:

A Hipóstase dos Arcontes. Biblioteca de Nag Hammadi. Tradução por: http://misteriosantigos.50webs.com. Mistérios Antigos, 2014. Disponível em:<https://web.archive.org/web/20200224151504/http://misteriosantigos.50webs.com/hipostase-dos-arcontes.html>. Acesso em 16 de março de 2022.

***

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

 

⬅️ Voltar para a Biblioteca de Nag Hammadi

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-hipostase-dos-arcontes/

A Exposição Valentiana

[…] entrar na abundância […] aqueles que […] falarei meu mistério para aqueles que são meus e para aqueles que serão meus. Além disso, são estes que conheceram aquele que é o Pai, isto é, a Raiz do Todo, o Inefável que habita na Mônada. Ele mora sozinho em silêncio, e o silêncio é tranqüilidade, pois, afinal, ele era uma Mônada e ninguém antes dele. Ele mora na Díade e no Par, e seu Par é o Silêncio. E ele possuía o Todo habitando dentro dele. E quanto à Intenção e Persistência, Amor e Permanência, eles são de fato não gerados.

Deus saiu: o Filho, Mente do Todo, isto é, é da Raiz do Todo que também brota seu Pensamento, pois ele tinha este (o Filho) em Mente. Pois em nome do Todo, ele recebeu um Pensamento estranho, pois não havia nada diante dele. Daquele lugar é ele quem moveu […] uma fonte jorrando. Agora esta é a Raiz do Todo e da Mônada sem ninguém antes dele. Agora a segunda fonte existe em silêncio e fala com ele a sós. E o quarto, portanto, é aquele que se restringiu no quarto: enquanto morava no trecentésimo sexto, ele primeiro se apresentou, e no segundo ele revelou sua vontade, e no quarto ele se espalhou.

Enquanto essas coisas são devidas à Raiz do Todo, vamos entrar, de nossa parte, em sua revelação e sua bondade e sua descendência e o Todo, isto é, o Filho, o Pai do Todo, e a Mente do Espírito; pois ele estava possuindo este antes […]. Ele é uma mola. Ele é aquele que aparece no Silêncio, e ele é a Mente do Todo morando secundariamente com a Vida. Pois ele é o projetor do Todo e a própria hipóstase do Pai, ou seja, ele é o Pensamento e sua descida abaixo.

Quando quis, o Primeiro Pai se revelou nele. Já que, afinal, por causa dele a revelação está disponível para o Todo, eu, de minha parte, chamo o Todo de ‘o desejo do Todo’. E ele teve tal pensamento sobre o Todo – eu, de minha parte, chamo o pensamento de ‘Monogenes’. Pois agora Deus trouxe a Verdade, aquela que glorifica a Raiz do Todo. Assim foi ele quem se revelou em Monogenes, e nele revelou o Inefável […] a Verdade. Eles o viram morando na Mônada e na Díade e na Tétrade. Ele primeiro trouxe Monogenes e Limit. E o Limite é o separador do Todo e a confirmação do Todo, pois são […] as cem […]. Ele é a Mente […] o Filho. Ele é completamente inefável para o Todo, e ele é a confirmação e a hipóstase do Todo, o véu silencioso, o verdadeiro Sumo Sacerdote, aquele que tem autoridade para entrar nos Santos dos Santos, revelando a glória dos Aeons e trazendo adiante a abundância para <fragrance>. O Oriente […] que está Nele. Ele é aquele que se revelou como o santuário primordial e o tesouro do Todo. E ele abrangeu o Todo, aquele que é superior ao Todo. Estes, por sua vez, enviaram Cristo para estabelecê-la, assim como foram estabelecidos antes de sua descida. E dizem a respeito dele: […] Ele não é manifesto, mas invisível para aqueles que permanecem no Limite. E ele possui quatro poderes: um separador e um confirmador, um provedor de forma e um produtor de substância. Certamente só nós discerniríamos suas presenças e o tempo e os lugares que as semelhanças confirmaram porque eles têm […] desses lugares […] o Amor […] é emanado […] todo o Pleroma […]. A persistência perdura sempre, e também […] pelo tempo […] mais […] ou seja, a prova do seu grande amor.

Então, por que um separador, um confirmador, um produtor de substâncias e um provedor de formulários, como outros disseram? Pois dizem a respeito do Limite que ele tem dois poderes, um separador e um confirmador, pois separa a Profundidade dos Aeons, para que […]. Estes, então […] de Profundidade […]. Pois […] é a forma […] o Pai da Verdade […] dizer que Cristo […] o Espírito […] Monogenes […] tem [… ].

É algo grande e necessário que busquemos com mais diligência e perseverança as escrituras e aqueles que proclamam os conceitos. Pois sobre isso os antigos dizem, “eles foram proclamados por Deus”. Então, deixe-nos conhecer sua riqueza insondável! Ele queria […] servidão. Ele não se tornou […] da vida deles […]. Eles olham firmemente para seu livro de conhecimento e consideram a aparência um do outro.

Essa Tétrade projetou a Tétrade que é aquela que consiste em Palavra e Vida e Homem e Igreja. Agora o Incriado projetou a Palavra e a Vida. A Palavra é para a glória do Inefável, enquanto a Vida é para a glória do Silêncio, e o Homem é para a sua própria glória, enquanto a Igreja é para a glória da Verdade. Esta, então, é a Tétrade gerada de acordo com a semelhança do Incriado (Tétrade). E a Tétrade é gerada […] a Década da Palavra e da Vida, e a Dodecádia do Homem, e a Igreja tornou-se uma Triacontada. Além disso, é aquele da Triacontad dos Aeons que dá frutos da Triacontrad. Eles entram juntos, mas o

Vocês saem sozinhos, fugindo dos Aeons e dos Incontáveis. E os Incontáveis, uma vez que olharam para ele, glorificaram a Mente, pois ele é um Incontentável que existe no Pleroma.

Mas a Década da Palavra e da Vida gerou décadas para fazer o Pleroma se tornar cem, e o Dodecad do Homem e da Igreja gerou e fez a Triacontad para fazer com que os trezentos e sessenta se tornassem o Pleroma do ano. E o ano do Senhor […perfeito…] perfeito […] segundo […] Limite e […] Limite […] a grandeza que […] meu bem […] ele. A vida […] sofre […] pela cara […] na presença do Pleroma […] que ele queria […]. E ele queria sair do Trigésimo – sendo um szygy do Homem e da Igreja, ou seja, Sophia – para superar a Triacontad e trazer o Pleroma […] seu […] mas […] e ela [. ..] o Todos […] mas […] quem […] o Todo […]. Ele fez […] os pensamentos e […] o Pleroma através da Palavra […] sua carne. Estes, então, são os Aeons que são como eles. Depois que a Palavra entrou nela, exatamente como eu disse antes, também aquele que vem para estar com o Incontido trouxe à luz […] antes que eles […] saíssem […] escondê-lo de [… ] a sizígia e […] o movimento e o […] projeto do Cristo […] e as sementes […] da cruz desde […] as marcas da ferida do prego [. ..] perfeição. Como é uma forma perfeita que deveria ascender ao Pleroma, ele não quis consentir com o sofrimento, mas foi detido […] por Limite, isto é, pela sizígia, pois a correção dela não ocorrer por meio de qualquer um, exceto seu próprio Filho, cujo único é a plenitude da divindade. Ele desejou dentro de si mesmo corporalmente deixar os poderes e desceu. E essas coisas (paixões) Sophia sofreu depois que seu filho ascendeu dela, pois ela sabia que ela morava em uma […] unidade e restauração. Eles foram parados […] os irmãos […] estes. Um […] não fez […]. Eu me tornei […]. Quem são eles de fato? O […], por um lado, parou ela […], por outro lado, […]. com a […] ela. Estes, aliás, são aqueles que me olhavam, estes que, […] estes que consideraram […] a morte. Eles foram impedidos […] e ela se arrependeu e implorou ao Pai da verdade, dizendo: “Concedido que eu renunciei a minha consorte. Portanto, estou além da confirmação também. Eu mereço as coisas (paixões) que sofro. Eu morava no Pleroma produzindo os Aeons e dando frutos com meu consorte” E ela sabia o que ela era e o que havia acontecido com ela.

Então ambos sofreram; disseram que ela ri porque ficou sozinha e imitou o Incontido, enquanto ele disse que ela ri porque se separou do consorte. […] De fato, Jesus e Sofia revelaram a criatura. Como, afinal, as sementes de Sofia são incompletas e sem forma, Jesus inventou uma criatura desse tipo e a fez das sementes enquanto Sofia trabalhava com ele. Pois uma vez que são sementes e sem forma, ele desceu e produziu aquele pleroma de éons que estão naquele lugar, já que mesmo os incriados daqueles Aeons são do padrão do Pleroma e do Pai incontido. O Incriado produziu o padrão do incriado, pois é do incriado que o Pai traz à forma. Mas a criatura é uma sombra de coisas pré-existentes. Além disso, esse Jesus criou a criatura, e trabalhou a partir das paixões que cercavam as sementes. E ele os separou uns dos outros, e as melhores paixões ele introduziu no espírito e as piores no carnal.

Agora, primeiro entre todas essas paixões […] nem ele, pois, afinal, Pronoia fez com que a correção projetasse sombras e imagens daqueles que existem desde o início e daqueles que são e daqueles que serão . Esta, então, é a dispensação de crer em Jesus por causa daquele que inscreveu o Todo com semelhanças, imagens e sombras.

Depois que Jesus deu à luz, ele gerou para todos aqueles do Pleroma e da sizígia, isto é, os anjos. Pois simultaneamente com o acordo do Pleroma seu consorte projetou os anjos, pois ele permanece na vontade do Pai. Pois esta é a vontade do Pai: não permitir que nada aconteça no Pleroma além de uma sizígia. Novamente, a vontade do Pai é: sempre produzir e dar frutos. Que ela sofresse, então, não era a vontade do Pai, pois ela mora em si mesma sozinha, sem seu consorte. Deixe-nos […] outro […] o Segundo […] o filho de outro […] é a Tétrade do mundo. E essa Tétrade deu frutos como se o Pleroma do mundo fosse uma Hebdomad. E entrou imagens e semelhanças e anjos e arcanjos, divindades e ministros.

Quando todas essas coisas aconteceram por Pronoia […] de Jesus que […] as sementes de Monogenes […]. Na verdade, eles são espirituais e carnais, os celestiais e os terrenos. Ele os fez um lugar desse tipo e uma escola deste tipo para a doutrina e para a forma.

Além disso, o Demiurgo começou a criar o homem à sua imagem, por um lado, e, por outro, à semelhança daqueles que existem desde o início. Era esse tipo de morada que ela usava para as sementes, a saber […separar…] Deus. Quando eles […] em favor do homem, pois de fato o Diabo é um dos seres divinos. Ele se retirou e apoderou-se de toda a praça dos portões e expulsou sua própria raiz daquele lugar no corpo e carcaças de carne, pois está envolvido pelo homem de Deus. E Adão o semeou. Portanto, ele adquiriu filhos que irritavam uns aos outros. E Caim matou seu irmão Abel, pois o Demiurgo soprou neles seu espírito. E ali ocorreu a luta com a apostasia dos anjos e da humanidade, os da direita com os da esquerda, os do céu com os da terra, os espíritos com os carnais e o diabo contra Deus. Por isso os anjos cobiçaram as filhas dos homens e desceram à carne para que Deus causasse um dilúvio. E ele quase lamentou ter criado o mundo […] a consorte e Sophia e seu Filho e os anjos e as sementes. Mas a sizígia é a completa, e Sofia e Jesus e os anjos e as sementes são imagens do Pleroma. Além disso, o Demiurgo lançou uma sombra sobre a sizígia e o Pleroma e Jesus e Sophia e os anjos e as sementes. O completo glorifica Sophia; a imagem glorifica a Verdade. E a glória das sementes e de Jesus são as de Silêncio e Monogenes. E os anjos dos machos e os seminais das fêmeas são todos Pleromas. Além disso, sempre que Sophia recebe seu consorte e Jesus recebe o Cristo e as sementes e os anjos, então o Pleroma receberá Sophia com alegria, e o Todo virá a estar em unidade e reconciliação. Pois por isso os Aeons foram aumentados; pois eles sabiam que se mudassem, eles não mudariam.

⬅️ Voltar para a Biblioteca de Nag Hammadi

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-exposicao-valentiana/

A Evolução da Bíblia: da boca de Deus até as cabeceiras dos motéis

Nota desta segunda edição, corrigida e ampliada.

O objetivo desta revisão foi o de deixar o texto mais completo. Corrigir erros. Deixar a leitura mais fluída. O texto que você tem em mãos nasceu de um projeto desenvolvido pela Morte Súbita Inc. em parceria com o Jesus Freak para se criar um texto que desenvolvesse não apenas a história da Bíblia de sua origem aos dias de hoje, mas uma pesquisa com bases em achados arqueológicos e estudos modernos sobre como ela se desenvolveu através da história.

Para dar corpo a este texto resolvemos criar uma forma diferente de organizar os tópicos a serem pesquisados e desenvolvidos. No ano de 2008 pegamos crianças de escolas religiosas e deixamos que elas fizessem perguntas sobre a Bíblia, que pudessem matar a curiosidade que tivessem sobre determinados assuntos. Então organizamos as perguntas e fomos respondendo.

O texto acabou ficando longo e foi colocado no ar assim que as perguntas haviam sido respondidas, mas algumas informações acabaram ficando de fora, então o organizador deste texto resolveu acrescentar alguns dados. Além disso por ter sido originado de perguntas feitas por pessoas diferentes, num processo aleatório o texto acabou ficando meio “truncado” quando se passava de um tópico para o outro, surgiu então a idéia de tentar, mudando a ordem de algumas perguntas e rearrumando a informação das respostas, dar um pouco mais de ritmo para sua leitura.

Depois de algumas reuniões os membros do projeto acharam interessante também expor a forma como o texto foi formado nem que fosse apenas como um adendo divertido, mas com o tempo perceberam que as curiosidades das crianças eram interessantes pois mostravam que muitas questões que pessoas podem ter já em idade adulta são as mesmas que surgem em suas mentes quando ainda são crianças e seja por falta de material de pesquisa, de liberdade em casa, na escola ou no templo/igreja que frequenta, seja por pura preguiça de ir atrás de uma resposta permanecem por anos. É engraçado notar como a “inocência” da infância vira a “ignorância” adulta. Assim as perguntas, que no dia em que foram sendo feitas já eram respondidas, foram aqui reorganizadas e o texto adaptado a elas de forma a não ficar repetitivo ou com assuntos parecendo apenas soltos. Assim a entrevista original foi, com alguma liberdade, refeita aqui mas mantendo o espírito das questões originais.

E por fim, o texto foi montado em blocos separados e reunidos alguns foram revisados, outros não, então aproveitamos para revisar e corrigir vários dos erros que passaram desapercebidos na primeira edição deste texto. Se você já o leu e desejar relê-lo encontrará novas informações e um formato um pouco diferente das que já existiam. Se está lendo a primeira vez então tem a sorte de já ter em mãos um texto melhorado e mais amplo em suas respostas.

Introdução

Por séculos, a Bíblia tem sido, no ocidente, a autoridade máxima sobre diversos assuntos. A Palavra Divina capturada em papel, a vontade de Deus nua e crua. Argumente com algum religioso abrahâmico[1] que a Bíblia pode ter sido um bom livro, mas que mexeram tanto nela que do original só resta o nome e você consegue presenciar uma experiência em miniatura da formação de tornados bem na sua frente.

De fato, argumentar qualquer coisa sobre o que foi feito ou não com a Bíblia acaba se tornando um exercício de especulação ou simplesmente do bom e velho cinismo. De um lado uns a defendem com unhas e dentes, de outro atiram paus e pedras sem mirar nem ver onde acertam. Para ambos os lados a conversa se torna um simples ato de gritar e se fazer ouvir e ambos saem tão convencidos de suas certezas quanto quando começaram.

Então ao invés de assumir qualquer um dos lados – “sim, é possível uma entidade supra humana inspirar outros de forma que registrem suas impressões em papel” ou “grande parte do que existe na Bíblia não passava de folclore, poesia e leis de uma época, que foram divinizadas como forma de se controlar um povo” – vamos simplesmente fazer uma listagem de fatos sobre ela para nos entreter e nos ajudar a tirar nossas conclusões.

Antes de mais nada é importante deixar claro que a própria Bíblia, historicamente, teve um propósito muito diferente do que tem hoje em dia. Quando foi criada, seu objetivo era o de garantir que o povo fosse fiel a Deus e a si mesmo. Nos primórdios das formações de nações ou sociedades era muito dificil que um mesmo povo tivesse um mesmo consenso sobre um único assunto e a inexistência de “universidades” ou centros de estudo oficiais sobre um determinado assunto acabava criando muito disse que disse e visões pessoais sobre este assunto. E dai surge a vontade desse povo espalhado de ter a certeza não apenas de estar adorando ou sendo gratos a Deus da maneira correta, mas de também terem a mesma visão sobre Deus. Deus teria sido o responsável por tudo o que existia? Havia algo antes de Deus? Deus era Pai, Mãe ou ambos ou nenhum? Se aquele era o povo escolhido porque tanta perseguição e miséria? Deus era o responsável pelas coisas boas e más? O que esperar d’Ele? Para responder a isso começaram a ser reunidos pedaços de textos, tradições orais, histórias sobre o povo e então foram organizados e colocados em pergaminhos e tábuas, não como forma de instituir uma palavra de Deus, mas apenas como uma tentativa individual de estarem sendo fiéis à própria crença. E assim ocorre o nascimento deste livro que até hoje tem grande influência sobre o mundo, seja positivo ou negativo, não como uma rótulo mas como uma preocupação de que essa fidelidade fosse transmitida a outros e a futuras gerações. Apenas eras após seu surgimento o povo encontrou nela a expressão da vontade e a presença real de uma Palavra Santa.

Não podemos negar a influência que esse poder descoberto com o tempo deu para aqueles que foram proclamados ou se proclamaram a si mesmos os herdeiros do direito de interpretar o seu conteúdo. Mas o objetivo deste texto não é apontar dedos ou simplesmente mostrar como um registro de uma vontade se tornou uma ferramenta e sim acompanhar o desenvolvimento do livro baseado em fatos concretos que temos à disposição hoje em mãos.

Como este texto foi organizado? Foram reunidas 17 crianças com idades entre 8 e 14 anos, frequentadoras de colégios religiosos, católicos e protestantes, e a cada uma foi dada a oportunidade de escrever em uma folha de papel 3 perguntas que teriam sobre a Bíblia. Estas perguntas então foram organizadas de forma cronológica, algumas foram mudadas levemente de forma a terem uma resposta mais ampla e outras ainda foram fundidas pois eram perguntas semelhantes feitas apenas utilizandon-se palavras diferentes. O resultado desta entrevista é o texto que se segue.

1- O que é a Bíblia

Bíblia (do grego βίβλια, plural de βίβλιον, transl. bíblion, “rolo” ou “livro”) é o texto religioso central do judaísmo e do cristianismo.

2- A Bíblia sempre foi a Bíblia? Ela é o livro mais antigo do mundo?

Respondendo a primeira questão:

Na verdade não. No início era conhecida como Tanakh ou Tanach (em hebraico תנ״ך), pelos Judeus. O seu conteúdo é equivalente ao do Antigo Testamento, mas seus textos estão organizados de forma diferente e são apresentados em outra ordem.

O nome Tanakh é formado pelas sílabas iniciais dos três livros que a formam:

– A Torá (תורה), também chamado חומש (Chumash, isto é “Os cinco”) refere-se aos cinco livros conhecidos como Pentateuco, o mais importante dos livros do judaísmo.

– Neviim (נביאים) “Profetas”

– Kethuvim (כתובים) “os Escritos”

O Tanach é às vezes chamado de Mikrá (מקרא)

É importante ter em mente que a Bíblia como existe hoje é um livro cristão, ou seja, surgiu como algo que avoluiu do judaísmo. O ponto mais importante disso é que para o judaísmo os textos sagrados são aqueles que ficaram conhecidos para os não judeus como o Antigo Testamento. O Novo Testamento é uma coleção de textos, ou livros, exclusivamente cristãos, surgiram depois do advento do cristianismo. Muitos estudiosos e religiosos hoje inclusive estão trocando os termos Antigo e Novo Testamento por Primeiro e Segundo Testamento para não tornar irrelevante ou ultrapassado os textos judaicos, que fazem parte da primeira parte da Bíblia. Com o tempo o cristianismo, na sua vontade de se tornar uma religião independente do judaísmo, acabou atacando suas raízes se tornando muitas vezes anti-semita e este é um sentimento que aos poucos alguns cristãos vem tentando corrigir.

Quanto à segunda questão podemos dividí-la em duas para responder melhor:

2.1 A Bíblia é o livro mais antigo existente?

e

2.2 A Bíblia é o livro religioso mais antigo existente?

Em ambos os casos a resposta é não. O livro mais antigo que se tem notícias hoje é o I-Ching. Apesar das várias lendas que circulam a respeito de sua criação em algum momento da antiguidade os trigramas e hexagramas que formaram o seu conteúdo foram compilados tábuas de bambu entre os anos 3000 e 2000 antes da era Cristã (a.C. ou a.e.C.).

No caso de o livro religioso mais antigo ou mesmo o texto religioso mais antigo temos que ter em mente que o Judaísmo, a religião que começou a compilar e escrever os primeiros textos da Bíblia, não é a religião mais antiga, desde os primóridos da raça humana as pessoas tinham religiões, as mais antigas sendo classificadas como xamanismo, mas mesmo as mais modernas como o zoroastrismo ou o hinduísmo são bem mais antigas e já tinham seus textos sagrados respectivos.

3- E a Tanakh sempre foi a Tanakh? Ela é a versão mais antiga da Bíblia?

O nome Tanakh, ou seja a divisão refletida pelo acrônimo Tanakh está registrada em documentos do período do Segundo Templo (515 a.C. a 70 depois da era Cristã, ou d.C.) e na literatura rabínica (A Mishná e a Tosefta – compiladas a partir de materiais anteriores ao ano 200 d.C. – são as primeiras obras existentes da literatura rabínica, e a literatura rabínica já era desenvolvida por rabinos, ou seja por líderes religiosos, portanto o judaísmo já existia como religião estabelecida nesta época). Durante aquele período, entretando, o acrônimo Tanakh não era usado, sendo que o termo apropriado era Mikra (“Leitura”). Este termo continua sendo usado em nossos dias, junto com Tanakh, em referência as escrituras hebraicas.

No hebraico moderno, o uso do termo Mikra dá um tom mais formal do que o termo Tanakh.

De acordo com a tradição judaica, o Tanakh consiste de vinte e quatro livros. A Torah possui cinco livros, o Nevi’im oito livros e o Ketuvim onze.

Então o registro mais antigo dos textos já organizados na forma que temos hoje no Antigo Testamento data do século VI a.C.

4 – Mas espere ai. A Bíblia não vem desde a antiguidade? Mesmo não sendo o livro mais antigo ela não tem milhares e milhares de anos de idade?

Então, ai as coisas começam a ficam interessantes. Quando falamos da Bíblia temos que separar a tradição oral e o documento escrito. A tradição oral judaica é muito antiga, mas no que diz respeito a material sólido existente, letras registradas no papel (ou pergaminho ou papiro ou metal) o que temos é um pouco mais recente.

Para entender vamos recorrer à tradição que cerca a Bíblia. A primeira pessoa que supostamente começou a colocar o texto no papel. De acordo com a própria Bíblia, foi Moisés. Mas muita coisa que está escrita nela aconteceu muito antes de Moisés, e ai já temos o primeiro impacto que a tradição oral tem no texto. Muita coisa lá foi passada de pessoa para pessoa, algumas provavelmente já escritas e registradas, mas tudo foi juntado e compilado depois de Moisés.

O primeiro registro bíblico da passagem de uma tradição oral para uma escrita, ou seja a primeira vez que a própria Bíblia cita a escrita da tradição do povo, surge no livro do Êxodo quando Deus diz para Moisés que se prepare para receber “as tábuas de pedra, a lei e os mandamentos que escrevi para os ensinar” (Ex 24:12). Então antes da lei e dos mandamentos de Deus não havia um livro religioso oficial dos Judeus. E mesmo assim na Torá fica claro que não estão presentes todos os comandos e leis de Deus, ou seja muito da tradiçào oral não foi registrada como um texto sagrado. Um exemplo claro é o Shabat. Apesar de estar presente nos Dez Mandamento – tradição escrita – não existem detalhes de como fazer isso. Deus fala a Moisés que guarde o Shabat: “Santificai o dia de sábado, como ordenei a vossos pais” (Jeremias 17:22), mas não existe um relato dessas ordenanças, pelos textos contidos na Bíblia não existem as instruções de como guardar o sábado, mais para frente no texto existem amostras do que se podia fazer ou não, mas quando o texto foi registrado apenas se guardou o “santificar o sábado”. Outro exemplo está em Deuteronômio quando Deus diz para Moisés que “poderás degolar do teu gado e do teu rebanho … como te ordenei” (Deuteronomio 12:21) mas não existe um registro escrito na própria Bíblia que explique de que maneira isto deveria ser feito.

Assim vamos que mesmo que tenha surgido um registro escrito das leis muita coisa ficou de fora dele ainda, era uma tradição oral que foi mantida até muito depois.

E essa ausência de registros faz parte da cultura religiosa, como já afirmou o Rabino Aryeh Kaplan, “Visto que a Torá Escrita mostra-se primariamente incompleta a menos que complementada pela tradição oral…”.

Assim vemos que mesmo com a escrita a tradição oral sempre foi muito forte, e permanece assim até hoje.

5 – Mas não foi Moisés que escreveu a Torá? Essa parte não é tão antiga quanto ele? Qual o texto mais antigo da Tanakh?

De acordo com os cálculos de Jerónimo de Stridon, Moisés teria vivido entre 1592 a.C. e 1472 a.C., então se foi ele mesmo que escreveu a Torá ela teria que datar desta época. Mas embora a tradição reze que o pentateuco, os cinco livros de Moisés (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) sejam os livros mais antigos, como evidência, o pedaço de documento mais antigo encontrado até hoje datam de 100 a.C.

Em 1947 foram encontrados em uma caverna de Q’umran os textos bíblicos mais antigos. O livro bíblico mais antigo que se tem notícias hoje de existir é o Livro de Isaías, um rolo de pergaminho de 7 metros datado do ano 100 a.C.. O Livro de Isaías, com mais de dois mil anos de idade, é uma prova única da autenticidade da tradição da Sagrada Escritura, pois o seu texto concorda com a redação das Bíblias atuais.

Ou trocando a ordem, o Livro de Isaías que temos hoje nas Bíblias é o mesmo que usavam em 100 a.C.

Antes desta descoberta os manuscritos mais antigos existentes datavam principalmente do século III e IV.

Além deste, o documento mais antigo com um trecho apenas da Bíblia é uma passagem de um dos livros de Samuel, escrito em torno de 225 a.C. então como evidência real o trecho bíblico mais antigo nos chegou direto do século III a.C. e o livro bíblico mais antigo do século I a.C.

Agora isso não significa que esses textos tenham surgido nessa época. As descobertas de Q’umran mostram bem que um documento existente não prova que tenha sido o primeiro, graças ao manuscritos encontrados vimos que documentos com mais de 700 anos de idade surgiram daqueles que eram os textos mais antigos. Pergaminhos podem ser resistentes mas eles se perdem e assim evidências valiosas dos txtos se perdem com eles. E isto pode ser um problema.

Já que os textos em parte se baseavam em uma tradição oral, como podemos ter certeza de que o que foi registrado era ainda uma descrição fiel dos ocorridos, ou uma cópia exata dos fatos?

Antes de mais nada vamos imaginar que os escritores originais acreditavam em Deus e acreditavam que estavam registrando a Sua Vontade e a história de Seu povo. Imaginem o zelo de uma pessoa que deseja registrar um texto que está chegando a ela diretamente do criador. E mais, ela ainda tem o peso de ter que passar isso de forma que não existam erros ou dúvidas para as gerações presentes e futuras. Voltando para a Torá esse zelo aparece na passagem em que antes de morrer Moisés revisa a tradição passada por Deus que não havia sido registrada para esclarecer qualquer ponto que pudesse dar margens à dúvida ou interpretação: “Além do Jordão, na terra de Moab, começou Moisés a explicar esta Lei” (Deuteronômio 1:5). Mas veja que não existem registros ainda destas explicações, a preocupação não era registrar, mas passar adiante.

Ainda existe outro ponto interessante que é a resistência do próprio Deus de se registrar tudo o que se passasse. Sem querer ser leviano, era algo como: Passei os registros que impostavam ser registrados, agora obedeçam, não percam tempo escrevendo qualquer coisa que Eu diga!

Em Eclesiastes 12:12 lemos: “Escuta ainda, filho meu: escrever livros é tarefa sem fim, e muito estudo esgota a carne”. Ou em Oséias 8:12: “Se tivesse escrito a maioria de minha Torá, [Israel] seria contado igual a estranhos”, onde vemos a tradição como algo que deveria permanecer dentre o povo e não ser acessível ou passada para estranhos.

Assim temos uma relutância entre começar um registro da Vontade Divina, gravando-a para o futuro. Mas esse registro aconteceu, ao menos em parte. Para ver qual o impacto disso na acuidade do registro vamos fazer um exercício: imagine que Deus passou uma importante lei para o seu bisavô, que por sua vez a passou para seu pai, seu pai para você e você decide registrá-la para que não se perca. Você tem como saber que está registrando exatamente o que foi passado para seu antepassado não tão distante?

Claro que podemos afirmar que se algo é repetido diariamente ele permanece íntegro. Mas temos casos quotidianos que mostram que não é bem assim que a coisa funciona. Uma expressão muito conhecida hoje é “cor de burro quando foge”, mas ela acaba sendo aplicada em inúmeras situações que implicariam significados diversos. Estudando a origem da frase vemos que ela não se referia a uma mudança na coloração do asinino quando ele bate em retirada, e sim a um ditado que originalmente era: “corro de burro quando foge”. Um burro é um animal dócil, quando ele se irrita e sai correndo se torna um animal perigoso, a expressão significaria algo como: “quando a situação fica preta eu não perco tempo: dou no pé!”.

Vemos ai um caso de tradição oral que perde o sentido com o tempo e o uso. Um exemplo de outra tradição oral que não perde o sentido simplesmente mas muda de sentido completamente quando registrada é a famosa: “Quem tem boca, vai a Roma”. Se consultarmos o Dicionário de Máximas, Adágios e Provérbios, de Jayme Rebelo Hespanha (1936), a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (1948), o Grande Dicionário da Língua Portuguesa de António de Morais Silva (1949 a 1959), o Livro dos Provérbios Portugueses, da Editorial Presença (1999) e Dicionário de Provérbios, Adágios, Ditados, Máximas, Aforismos e Frases Feitas, da Porto Editora (2000) podemos atestar que este provérbio está registrado há muito tempo já, desde 1936 pelo menos, e que ainda existem variantes dele: «Quem tem língua vai a Roma»; «Quem língua tem a Roma vai e de Roma vem»; «Quem tem língua a Roma vai e vem».

Em cima disso existem estudos sobre o significado dele, como por exemplo:

” A frase «Quem tem boca vai a Roma» traduz a notoriedade da Cidade Eterna, mas também a verdade de que quem sabe perguntar consegue chegar seja onde for (literal e figuradamente), consegue obter os conhecimentos de que precisa para se orientar. As palavras-chave aqui são três: boca, vai e Roma. A boca significa a capacidade de falar, de perguntar, de comunicar; o verbo ir tem que ver com o percurso, a caminhada, significando passar de um lugar a outro, deslocar-se, mas também evoluir, progredir; Roma fora, aquando do Império Romano, a capital, a cidade mais importante do mundo conhecido dos europeus, mas uma cidade que ficava longe, sob o ponto de vista dos mais remotos territórios que constituíam o vasto império, e, por outro lado, esta é a cidade cabeça da Igreja Católica, traduz a própria Igreja, o seu governo, o papado, significando para os católicos o que de melhor existe e que se procura alcançar. Chegar a Roma poderá ser difícil, mas quem tem a capacidade de falar ultrapassará os obstáculos e alcançará o que pretende: conseguirá chegar longe, até conseguirá chegar a Roma.

Roma entrou no adagiário por causa da sua importância, do seu valor, do seu mérito, e não por aspectos negativos: «Roma locuta est» (= «Roma falou»: se Roma falou, o que ela disse deve ser seguido pelos católicos); «Roma locuta, causa finita» (= «Roma falou, a causa acabou»); «Roma e Pavia não se fizeram num dia»; «Em Roma, sê romano»; «Todos os caminhos vão dar a Roma», «O que vai aqui não vai em Roma».”

Agora se passarmos algum tempo lendo livros protestantes encontramos uma versão diferente deste adágio dizendo: Quem tem boca vaia (do verbo vaiar) Roma. Vamos nos lembrar agora que os protestantes se tornaram protestantes por protestar contra a Santa Sé Católica, personificada por Roma, como vimos no estudo acima. A origem do adágio não tinha como objetivo mostrar que com vontade chegamos ou conseguimos o que quisermos mas como crítica contra a corrupção do Clero.

Existe algum debate sobre qual o adágio original, mas isso serve apenas para mostrar como a tradição oral pode sofrer mutações nos significados de seus ensinamentos e como depois de registrados eles se tornam uma base que pode ser falha. Imagine que existisse no Novo Testamento uma passagem dizendo como Jesus, durante a Santa Ceia havia dito aos apóstolos que quem tem boca vai a Roma. E imagine que recentemente se encontrasse um pergaminho datado do século I com a mesma passagem contendo a variante “vaia Roma”. Como poderíamos ter certeza do que o Messias disse naquela noite?

Claro que nesses dois casos podemos dizer que são expressões populares que não podem ser comparadas a um ensinamento religioso passado por Deus aos Homens, mas podemos ver um outro caso onde algo semelhante ocorre.

Elvis Aaron Presley foi um homem admirado por muitos, em alguns casos essa admiração beirava a histeria e a mania. Ele nasceu em 1935 e morreu em 1977, mas se tornou febre só após os anos 1950 quando começa a sua carreira profissional.

O interessante de pensarmos em Elvis, é que este período em que virou uma febra cheio de fãs é bem recente, dos anos 1950 para os dias de hoje não transcorreram nem 60 anos. E em parte deste período ele esteve vivo ainda. No auge de sua carreira as pessoas desejavam por cada detalhe sobre sua vida que pudessem por as mãos e assim a mídia supria essas pessoas com tudo que pudesse imaginar, relatos de conhecidos e do próprio Elvis, entrevistas registradas, filmes, etc… Uma das manias de Elvis que ficou registrada era seu gosto por um sanduíche que ficou conhecido como Sanduíche de Elvis. É raro encontrar um fã que não tenha ouvido falar dele e muitos já o experimentaram, mas ai existe um problema interessante: não existe uma receita oficial aceita. As maiores biografias do Rei registram essa iguaria, dando também a receita, mas as receitas são diferentes.

O sanduíche era simples, Elvis morreu há pouco mais de 30 anos, três décadas, haviam cozinheiros, amigos, familiares, mas parece que cada um se lembra do sanduíche de maneira diferente. Alguns diziam que consistia de pão de forma, bananas fritas, manteiga de amendoim e bacon. Outros que não havia bacon, existem aqueles que dizem que havia sorvete, outros geléia.

Isto pode parecer uma comparação boba, mas não é. Se em três décadas uma simples receita de sanduíche se perde, por ficar apenas no boca a boca, imagine textos passados por Deus que ficaram no boca a boca por séculos antes de serem registrados?

Um último exemplo é talvez mais simples. Pare agora para cantar o hino nacional do Brasil. Então escreva numa folha de papel. Depois pare 5 pessoas na rua, de forma aleatória e peça para elas cantarem, anote a letra ou grave, e depois compare com a sua, veja se o hino que é cantado em escolas, jogos de futebol e pronunciamentos da república é passado oralmente da mesma forma por todas as pessoas.

Então embora a tradição oral seja tão antiga quanto um povo, essa tradição pode muitas vezes mudar desde quando foi formulada e repassada a primeira vez até finalmente ser registrada.

Portanto mesmo que Moisés tenha começado a registrar os textos da Bíblia não temos como saber o quanto eles se aproximam da tradição original que os criou. Assim temos que nos ater ainda aos textos mais antigos encontrados e compará-los com os textos que temos hoje para se ter uma idéia de a quanto tempo um texto como o que temos hoje é usado.

6 – Deixando a tradição oral de lado então, quando foi que os textos que compõe a Tanakh foram escritos originalmente?

Como vimos, a Tanakh é composta por três divisões: Torá, Neviim e Kethuvim.

A tradição judaica mais antiga defende que a Torá existe desde antes da criação do mundo e foi usada como um plano mestre do Criador para construir o mundo a humanidade e principalmente o povo judeu. No entanto, a Torá como conhecemos teria sido entregue por Deus a Moisés (que como vimos teria vivido entre 1592 a.C. e 1472 a.C.), quando o povo de Israel, após sair do cativeiro no Egito, peregrinou em direção à terra de Canaã.

Então aqui, culturalmente, teríamos uma primeira data. Apesar do mundo – de acordo com a Bíblia – ter sido criado milênios antes do cativeiro – precisamente 6000 antes de Cristo, de acordo com a tradição da época – ela teria sida recebida pelos humanos através de Moisés. Então – culturalmente – até o livro do Êxodo a Tanakh não circulava por ai. Portanto a Bíblia mais antiga, ainda culturalmente falando, deveria datar do séc. XVI a.C. A ênfase no culturalmente é: de acordo com o senso comum esta seria uma data, apesar da falta de evidências físicas para provar ou desmentir essa data.

Então, existem os que defendem que , ainda que a essência da Torá tenha sido trazida por Moisés, a compilação do texto final foi executada por outras pessoas, já que os textos tratam de assuntos que incluem a morte do próprio Moisés, tornando difícil para ele escrever sobre isso.

De acordo com Jan Astruc, pioneiro na sistematização do estudo do desenvolvimento da Torá, a mesma é constituída por três fontes básicas, denominadas jeovista, eloísta e código sacerdotal, e mais algumas outras fontes além destas três. Deixando claro que, quando se fala destas fontes, ele não se refere a autores isolados mas sim a escolas literárias.

Um estudo sobre a história do antigo povo de Israel mostra que, apesar de tudo, não havia uma unidade de doutrina e desconhecia-se uma lei escrita até os dias de Josias (16º rei de Judá, reinou durante o período de 640 a.C. a 609 a.C.). As fontes jeovista e eloísta teriam sua forma plenamente desenvolvida no período dos reinos divididos entre Judá e Israel (onde surgiria também a versão conhecida como Pentateuco Samaritano). O livro de Deuteronômio só viria a surgir no reinado de Josias (621 a.C.). A Torá como conhecemos viria a ser terminada nos tempos de Esdras, onde as diversas versões seriam finalmente fundidas. Vemos então o início de práticas que eram desconhecidas da maioria dos antigos israelitas, e que só seriam aceitas como mandamentos na época do Segundo Templo (de 515 a.C. a 70 d.C.) como a Brit milá, Pessach e Sucót por exemplo.

Então datar a Tanakh se torna complicado, pois apesar de ter condições de existir desde o século XVI a.C. – a época de Moisés – culturalmente o povo Judeu só teria condições de ter o livro nas mãos da forma que temos hoje depois do século VI a.C.

7 – E quando juntaram todos esses textos em um único volume?

Aproximadamente no século VI d.C. um grupo de escribas judeus recebeu a missão de reunir os textos inspirados por Deus que eram utilizados pela comunidade hebraica em um único escrito. Este grupo foi batizado de Escola de Massorá – o termo “massorá” provém do hebraico “mesorah” (מסורה ou מסורת) e indica “tradição”.

Os “massoretas” escreveram a Bíblia de Massorá, examinando e comparando todos os manuscritos bíblicos conhecidos à época. O resultado deste trabalho ficou conhecido posteriormente como o “Texto Massorético”.

Então na nossa linha do tempo a versão original do texto do Antigo Testamento da Bíblia, a Tanakh, se conclui finalmente no século VI d.C. 2200 anos depois de Moisés, aproximadamente.

8 – E então a Tanakh virou a Bíblia? O Antigo Testamento só ficou pronto depois de Cristo, depois do Novo Testamento?

Não, nada disso. O Texto Massorético foi extremamente importante porque deu uma unidade que não existia ainda nos textos judaicos. Apesar de ter sido escrito e compilado apenas no século VI, haviam já outras versões do Antigo Testamento circulando e muitas pessoas dão a elas mais importância do que a do Texto Massorético.

As outras versões existentes antes eram o Pentateuco Samaritano, que vimos lá atrás, e a Septuaginta.

9 – Preciso perguntar?

Não, não precisa.

O Pentateuco samaritano ou Torá samaritana é o nome que se dá à Torá usada pelos judeus samaritanos.

Os Samaritanos são um pequeno grupo étnico-religioso aparentado aos judeus que habita nas cidades de Holon e Nablus situadas em Israel e na Cisjordânia respectivamente. Designam-se a si próprios como Shamerim o que significa “os observantes” (da Lei). Os samaritanos recusam o restante dos livros do Tanakh, aceitando apenas sua Torá como livro inspirado.

O Pentateuco samaritano está escrito no alfabeto Samaritano, que é diferente do hebraico e era a forma de escrita usada antes do cativeiro babilônico (cerca de 597-586 a.C). Além da linguagem diferente existem outras discrepâncias entre o Texto Massorético e a Torá Samaritana. Um exemplo é que na versão Samaritanda dos 10 mandamentos Deus comanda o povo que construa o altar no Monte Gerizim.

Agora temos que ter em mente que o Pentateuco Samaritano ficou conhecido mundialmente quando Pietro della Valle trouxe de Damasco em 1616 uma cópia do texto.

Mesmo assim essa versão do Texto Samaritano não é absoluta. Em Q’umran foram encontrados fragmentos de textos da Torá que combinam com o Texto Massorético e são diferentes do texto samaritano, como por exemplo não trazer nenhuma referência ao Monte Gerizim. Ou seja existem diferentes versões deste texto.

Já a Versão dos Setenta, ou Septuaginta Grega, é como ficou conhecida a tradução grega do Antigo Testamento, elaborada entre os séculos IV e II a.C., feita em Alexandria, no Egito. O seu nome surgiu da lenda que dizia que essa tradução foi o resultado milagroso do trabalho de 70 (em alguns casos se citam 72) eruditos judeus que pretende exprimir que não só o texto, mas também a tradução, havia sido inspirada por Deus. De acordo com a dita lenda, cada sábio foi confinado a um aposento e não poderia ter contato com nenhum dos outros, para que não influenciassem um na tradução do outro, no final todas as traduções eram idênticas – vale notar que não existe hoje registro ou evidências arqueológicas dessas 70 ou 72 traduções originais. A Septuaginta Grega é a mais antiga versão do Antigo Testamento que conhecemos. A sua grande importância provém também do fato de ter sido essa a versão da Bíblia utilizada entre os cristãos desde que surgiram e a que é citada em grande parte do Novo Testamento. Então é importante ter em mente que grande parte das menções que o Novo Testamento faz do Antigo Testamento são tiradas não do texto original, mas da tradução que fizeram do original para o grego.

Da Septuaginta Grega fazem parte, além da Bíblia Hebraica, a Tanakh, os Livros Deuterocanônicos (aceitos como canônicos apenas pela Igreja Católica) e alguns escritos apócrifos (não aceitos como inspirados por Deus por nenhuma das religiões cristãs ocidentais).

10 – E finalmente temos a Bíblia…

Ainda não.

Preste atenção que até o momento todas essas versões que vimos do Texto da Lei, dos livros dos Profetas e dos Escritos eram usadas por Judeus. Não haviam cristãos ainda no mundo, mesmo o texto massorético do século VI d.C. ainda diz respeito aos judeus, foi compilado por judeus para os judeus. E para entender o surgimento do que os cristãos chamam de Bíblia temos que entender o que era o cristianismo, e não estamos falando de Jesus.

Os Judeus sempre se dividiram em vários grupos e todos eles, em um determinado momento, esperavam a vinda do Messias para unir o povo sob a Lei de Deus e trazer consigo um período de paz. O advento do Cristianismo foi a divulgação que de esse Messias teria finalmente chegado, na figura de Jesus, e então através de Cristo o povo teria uma nova aliança com Deus.

Mas a importância histórica disso não foi a maneira como o povo enxergava Cristo – se era ou não o messias judeu – e sim a mudança que ele trouxe para a fé judaica. Os primeiros cristãos, ou seja, as primeiras pessoas que pregavam a filosofia de Cristo e que a seguiam, eram todos judeus, a briga começou quando alguns deles começaram a defender que, como a mensagem de Cristo era para todos, os gentios – não judeus – poderiam compartilhar a mesma fé, deixando de lado alguns costumes judaicos, como por exemplo a circuncisão. Veja que a circuncisão foi usada por Abrahão para mostrar que estava a serviço de Deus, desde então todo Judeu deveria ser circuncidado; imagine o que era então para muitos dos cristãos judeus, terem que aceitar que pessoas que não faziam parte da crença judaica e que não obedeciam a certos costumes judeus fossem aceitas em seu grupo, um grupo formado por judeus que seguiam o messias do judaismo.

Isso criou a necessidade de um material para divulgar a crença judaica – não havia novo testamento ainda – para os novos convertidos, que não eram judeus, para eles se familiarizarem com as leis e a vontade divina, com o seu Deus, etc. Apesar do Judaísmo não ser a religião mais antiga, até hoje muitos afirmam que ela foi a religião monoteísta mais antiga, então os novos convertidos ao judaísmo cristão tinham que conhecer essa filosofia e essa religião antes de qualquer coisa já que Jesus não pregava uma nova religião, Jesus pregava o judaísmo, com algumas mudanças.

Quando o cristianismo começou a se espalhar pelo Império Romano, ou seja, quando o judaísmo começou a crescer e a divuldar a mensagem de que o Messias havia chegado e trazido com ele novas Leis de Deus, surgiu um novo público para a fé, não apenas os gentios que viviam na região do oriente médio, mas também os romanos, e assim nasceu uma nova necessidade de se traduzir os escritos sagrados para os cristãos que não liam nem grego nem hebraico.

Essa tradução surgiu no século I e foram realizadas por tradutores informais. Ficou conhecida como a Vetus Latina. Podemos dizer que ela foi a primeira versão da Tanakh para cristãos e mesmo assim não era carregada debaixo do braço para cima e para baixo; era usada como forma de catequese, para se criar uma base comum para todos: “se querem se beneficiar da salvação e das boas novas trazidas pelo Messias, estes textos são o mínimo que vocês tem que conhecer!” foi nesta época que a Tanakh começou a ser compartilhada com não judeus e deixou de ser um texto exclusivo da religião judaica. Um ponto importante para se ter em mente aqui é grande parte dos novos convertidos eram analfabetos, os textos eram lidos para eles, que absorviam a mensagem e tentavam viver de acordo com ela, em encontros grupais a mensagem era repetida e dúvidas tiradas. Ninguém levava para casa a cópia de um texto para ficar lendo.

11 – Então a primeira Bíblia Cristã surgiu no século I?

Não da forma como temos a Bíblia hoje. A Vetus Latina não era uma bíblia ainda. Como dissemos ela foi feita por tradutores informais, isso significa que pedaços dos textos antigos, tanto os judaicos quanto os gregos eram traduzidos de acordo com a necessidade. Assim ela não era uma Bíblia Latina. Ela era mais uma gambiarra para poder mostrar ao povo que não estava familiarizado com os textos Judeus a religião e então ter um texto que eles pudessem compreender e usar como base quando se convertessem. E mesmo assim suas primeiras versões não traziam os textos conhecidos como o Novo Testamento. Eles só surgiram nos séculos seguintes. E ainda não era um livro fechado, eram traduções avulsas de pedaços separados da Tanakh, muitas vezes nem eram os livros inteiros, mas os fragmentos que pareciam ser importantes, que foram sendo distribuídos e usados e só com o tempo foi crescendo e recebendo os livros que temos hoje do Novo Testamento.

Os textos da Vetus Latina chegaram até nós através de vários códices.

Os códices (ou codex, da palavra em latim que significa “livro”, “bloco de madeira”) eram os manuscritos gravados em madeira, em geral do período da era antiga tardia até a Idade Média. Manuscritos do Novo Mundo foram escritos por volta do século XVI.

O códice é um avanço do rolo de pergaminho e gradativamente substituiu este último como suporte da escrita. O códice, por sua vez, foi substituído pelo livro impresso.

Os códices mais conhecidos da Vetus Latina são:

Códice Bobienus (K) – séc. IV. É um manuscrito africano em Unçais. Contém fragmentos dos Evangelhos de Marcos e Mateus;

Códice Vercellensis (a) – Séc. IV. Texto em Unçais. Contém todos os quatro Evangelhos;

Códice Bezae (q) – Séc. V. É um manuscrito bilingüe, com o Grego no verso e o Latim na frente. Contém os quatro Evangelhos, Atos e 3 João;

Códice Monacensis 13 (q) – Séc. VI-VII. Texto em Unçais. Contém os quatro Evangelhos;

Palimpsest 53 (s) – Séc. VI. Conhecido também como Bobiensis ou Vindobonensis. Texto em meio unçal. Contém fragmentos dos Atos e as 14 Cartas Católicas.

Os textos da Vetus Latina organizados como um único livro foram encontrados em manuscritos tardios, datados do séc. XIII. Muitas das versões nem chegaram a ser  consideradas autorizadas como traduções bíblicas que poderiam ser usadas por toda igreja – veja que nesta época já havia uma igreja cristã regulamentando que textos podiam e não podiam ser usados. A estas traduções precedentes, muitos estudiosos adicionam freqüentemente citações das passagens bíblicas que aparecem nos escritos dos Pais da igreja Latina.

Mas para se ter uma idéia da bagunça que era, mesmo com a boa vontade dos primeiros tradutores era inevitável que diferentes traduções acabassem ficando diferentes entre si. Depois de comparar a leitura de Lucas 24,4-5 nos manuscritos da Vetus Latina, Bruce Metzger contou “não menos que 27 variações!”. Agora imaginem os pais da igreja com esses textos uns diferentes dos outros pregando o cristianismo sem uma base ainda para qual era a versão correta do texto.

Os livros bíblicos reunidos no conjunto de manuscritos disponíveis da Vetus Latina são:

VETUS TESTAMENTUM
Genesis
Exodus
Leviticus
Numeri
Deuteronomium
Josue
Judicum (Juízes)
Ruth
1-4 Regum (1 e 2 Reis (1 e 2 Samuel) e 3 e 4 Reis (1 e 2 Reis))
1-2 Paralipomenon (Paralipômenos ou Crônicas)
Esdras
Nehemias
3-4 Esdras
Tobit
Judith
Hester
Job
Psalmi (Salmos)
Proverbia
Ecclesiastes
Canticum Canticorum
Sapientia (Sabedoria de Salomão)
Sirach, Ecclesiasticus (Sabedoria de Sirac ou Eclesiástico).
Esaias (Isaías)
Jeremias (Lamentationes, Baruch)
Daniel
XII Prophetae (Doze Profetas)
I-II Macchabaeorum (1 e 2 Macabeus).

NOVUM TESTAMENTUM
Matthaeus
Marcus
Lucas
Johannes
Actus Apostolorum
Ad Romanos
Ad Corinthios I
Ad Corinthios II
Galatas
Ad Ephesios
Ad Philippenses
Colossenses
Ad Thessalonicenses
Timotheum
Ad Titum
Philemonem
Hebraeos
Epistulae Catholicae (1 e 2 Pedro; 1, 2 e 3 João; Tiago e Judas)
Apocalypsis Johannes

Mas esses livros foram surgindo com o tempo assim no século I a maioria destes textos ainda não existia e eles ainda não estavam juntos em um único livros. Muitas comunidades usavam apenas alguns deles. Se você pegar uma bíblia moderna vai ver que alguns desses textos antigos nem constam mais hoje como livros canônicos.

12 – E a Bíblia que existe hoje veio da Vetus Latina?

Não.

Como vimos, o texto “definitivo” – entre aspas porque ainda não é aceito por todo como unânime – do judaísmo, surgiu no século VI d.C., a versão destinada para cristãos ainda levou mais algum tempo para surgir.

No século IV d.C. Dâmaso (hoje conhecido como São Dâmaso ou ainda como Papa Dâmaso I) pediu que Jerônimo (conhecido como São Jerônimo, o padroeiro dos bibliotecários e das secretárias), criasse uma versão autorizada da Bíblia na língua latina. A idéia era parar com a enormidade de textos avulsos que surgiam, traduzidos por pessoas diferentes conforme a necessidade individual e criassem um texto padrão, que pudesse ser usado por todos, e assim eles saberiam que um cristão da África havia recebido exatamente a mesma doutrina de um cristão da Espanha, por exemplo, acabando assim com variações de um mesmo texto.

Jerônimo então reviu a Septuaginta grega e os textos da Vetus Latina e decidiu que a melhor coisa a fazer era jogar tudo for a e começar a criar o texto oficial da Bíblia Cristã a partir do zero. Este trabalho ele batiza de Vulgata. O nome vem da frase “versio vulgata”, isto é “versão dos vulgares”, e foi escrito em um latim cotidiano, que era a forma antiga de se dizer: “escrito em um latim atual e popular”.

Até então a igreja[2] usava textos na língua grega, foi inclusive nesta língua que se escreveu todo o Novo Testamento, incluindo a Carta aos Romanos, de Paulo, bem como muitos escritos cristãos nos séculos seguintes.

A Vulgata foi produzida para ser mais exata e mais fácil de compreender do que suas predecessoras. Foi a primeira, e por séculos a única, versão da Bíblia que possuiu os textos do Velho Testamento traduzidos diretamente do hebraico e não da versão grega (a Septuaginta). No Novo Testamento, Jerônimo selecionou e revisou textos. Ele inicialmente não considerou canônicos os sete livros, chamados por católicos e ortodoxos, de deuterocanônicos. Porém, trabalhos posteriores mostram sua mudança de conceito, pelo menos a respeito dos livros de Judite, Sabedoria de Salomão e o Eclesiástico (ou Sabedoria de Sirac), conforme atestamos em suas últimas cartas a Rufino.

13 – Perai, Jerônimo não considerou como canônico alguns livros? Mas quem decidia o que era canônico ou não? E o que é canônico?

Vamos começar de trás para frente.

Um cânone ou cânon normalmente se caracteriza como um conjunto de regras (ou, frequentemente, como um conjunto de modelos) sobre um determinado assunto, em geral ligado ao mundo das artes e da arquitetura. A canonização é a sistematização deste conjunto de modelos. Cânone, em hebraico é qenéh e no grego kanóni, têm o significado de “régua” ou “cana (de medir)”, no sentido de um catálogo.

O Cânone Bíblico designa o inventário ou lista de escritos ou livros considerados pelas religiões cristãs como tendo evidências de Inspiração Divina.

Quanto a quem decidia se um livro era canônico ou não é uma história interessante. Vamos responder juntamente com as próximas questões.

14 – Bom, então com a criação da Vulgata nós temos uma Bíblia, ou ainda não?

Glória aos Céus! Agora sim.

A Vulgata se tornou a primeira versão fechada da Bíblia, com todos os textos que temos hoje. Mesmo assim ela ainda passou por alguns ajustes que levaram mais alguns séculos. Finalmente entre os anos de 1545 e 1563 a igreja católica realizou seu 19º concílio ecumênico, também conhecido como o Concílio de Trento. Ele foi convocado pelo Papa Paulo III para assegurar a unidade da fé (sagrada escritura histórica) e a disciplina eclesiástica. O concílio tem este nome em referência à cidade de Trento, onde transcorreu, e nele foi estabelecido um texto único para a Vulgata, a partir de vários manuscritos existentes, e oficializado como a Bíblia oficial da Igreja. Esta Bíblia ficou conhecida como Vulgata Clementina.

Após o Concílio Vaticano II, por determinação de Paulo VI, foi realizada uma revisão da Vulgata, sobretudo para uso litúrgico. Esta revisão, terminada em 1975, e promulgada pelo Papa João Paulo II em 25 de abril de 1979, é denominada Nova Vulgata, estabelecendo esta como a nova Bíblia oficial da Igreja Católica.

15 – Mas a Bíblia só passou a existir desta forma no século XVI, ou no século XX?

Não extamente. Existem alguns fatos que devem ser levados em consideração quando falamos de o texto final e definitivo da Bíblia. Existe um processo por trás que durou séculos e que está em andamento até hoje.

Por exemplo, se levarmos em conta os textos sagrados em si, a Bíblia levou 1600 anos para ser escrita. Já que teoricamente ela começou a ser registrada na época de Moisés (cerca de 1500 a.C.) e terminou com o evangelho de João (cerca de 96 d.C.). Essa é a datação cultural dos textos.

Mesmo assim na época do evangelho de João, no final do século I d.C.,  não havia unidade nos textos. Para se ter idéia, os textos só passaram a ser conhecidos como Bíblia com Jerônimo (cerca de 347d.C. – 419/420 d.C.), que chamou pela primeira vez ao conjunto dos livros do Antigo Testamento e Novo Testamento de “Biblioteca Divina”. “Bíblia”, inclusive, é uma palavra que não aparece na Bíblia. Ela vem do termo grego biblos, por causa da cidade fenícia de Biblos, um importante centro produtor de rolos de papiro usados para fazer livros. Com o tempo, a palavra biblos passou a significar “livro”. Biblia é a forma plural (“livros”).

Então a primeira Bíblia oficial foi organizada, compilada e preparada pela igreja católica nos séculos IV e V d.C. como já vimos.

Mas antes de Jerônimo por a mão na massa tiveram que decidir quais dos textos existentes fariam parte da Bíblia, afinal além dos textos que temos hoje haviam dezenas, mesmo centenas de outros que circulavam na época.

E agora voltamos à pergunta 13: quem decidia que livros fariam parte da Bíblia?

Sempre houve uma preocupação muito grande de se ter as informações corretas sobre Deus e sobre as maneiras corretas de seguir suas leis e mandamentos, de honrá-lo e adorá-lo. Como dissemos lá na introdução, a Bíblia nasceu de uma necessidade dos povos de se manterem fiéis à fé, não como livro de regras a ser instituído a todos os povos. No início queriam apenas juntar os textos que julgavam pertinentes e sinceros em relação à fé. Assim durante a história muitos estudiosos, religiosos se reuniram e estudaram para analisar que textos eram de fato textos enviados por Deus ou eram textos sérios e quais seriam invenções ou simplesmente opiniões de outros religiosos e escritores.

Hoje muitas pessoas acreditam que o primeiro trabalho sério de se decidir quais seriam os textos aceitos pelos cristãos e que fariam parte da Bíblia foi o Concilio de Nicéia, realizado em 325 d.C., vinte e dois anos antes de Jerônimos começar seu trabalho. Embora algumas obras afirmem que no Concílio de Nicéia discutiu-se quais evangelhos fariam parte da Bíblia, quando pegamos os documentos que existem hoje sobre esta reunião não há menção de que esse assunto estivesse em pauta, nem nas informações dos historiadores do Concílio, nem nas Atas do Concílio que chegaram a nós em três fragmentos: o Símbolo dos apóstolos, os cânones, e o decreto senoidal.

No ano de 150 d.C. Marcião, um cristão muito influente na época, propôs uma lista dos livros que deveriam fazer parte do conjunto de livros religiosos do cristianismo. Nesta lista ele considerou apenas o Evangelho de Lucas e as cartas paulinas como textos inspirados. Essa lista ficou conhecida como o Cânone de Marcião.

No ano de 1740 foi publicado o Cânone Muratori – também conhecido por fragmento muratoriano ou fragmento de Muratori – descoberto na Biblioteca Ambrosiana de Milão por Ludovico Antonio Muratori (1672 – 1750). Apesar de ser consensual datar o manuscrito como sendo do século VII, ele é cópia de um texto mais antigo, datado como tendo sido escrito por volta do ano 170, já que nele existem menções ao Pastor de Hermas e ao papado de Pio I, morto em 157.

Na lista figuram os nomes dos livros que o autor, desconhecido até os dias de hoje, considerava admissíveis junto com alguns comentários. A lista está escrita em latim e encontra-se incompleta, daí ser chamada de fragmento.

Os livros canônicos mencionados no Cânone Muratori são aproximadamente os mesmos que se encontram hoje na Bíblia com algumas variações. O Cânone de Muraori aceita quatro evangelhos, dos quais dois são o Evangelho de Lucas e o Evangelho de João, não se conhecendo os outros dois, pois falta o princípio do manuscrito, onde estariam os nomes dos dois primeiros. A lista segue com os Atos dos Apóstolos e com 13 epístolas de Paulo de Tarso (não menciona a Epístola aos Hebreus). O autor considera falsificações as epístolas supostamente escritas por Paulo aos laodiceanos e a escrita aos alexandrinos. Nele só se mencionam duas epístolas de João, sem as descrever. Figura também no fragmento o Apocalipse de Pedro, ainda que com certas reservas (“o qual alguns dos nossos não permitem que seja lido na Igreja”).

O Livro da Sabedoria do Antigo Testamento também é citado como sendo canônico.

No Cânone de Muratori está escrito:

“…aos quais esteve presente e assim o fez. O terceiro livro do Evangelho é o de Lucas. Este Lucas ‘médico que depois da ascensão de Cristo foi levado por Paulo em suas viagens’ escreveu sob seu nome as coisas que ouviu, uma vez que não chegou a conhecer o Senhor pessoalmente, e assim, a medida que tomava conhecimento, começou sua narrativa a partir do nascimento de João. O quarto Evangelho é o de João, um dos discípulos.

Questionado por seus condiscípulos e bispos, disse: ‘Andai comigo durante três dias a partir de hoje e que cada um de nós conte aos demais aquilo que lhe for revelado’. Naquela mesma noite foi revelado a André, um dos apóstolos, que, de conformidade com todos, João escrevera em seu nome.

Assim, ainda que pareça que ensinem coisas distintas nestes distintos Evangelhos, a fé dos fiéis não difere, já que o mesmo Espírito inspira para que todos se contentem sobre o nascimento, paixão e ressurreição [de Cristo], assim como sua permanência com os discípulos e sobre suas duas vindas ´ depreciada e humilde na primeira (que já ocorreu) e gloriosa, com magnífico poder, na segunda (que ainda ocorrerá).

Portanto, o que há de estranho que João freqüentemente afirme cada coisa em suas epístolas dizendo: ‘O que vimos com nossos olhos e ouvimos com nossos ouvidos e nossas mãos tocaram, isto o escrevemos’? Com isso, professa ser testemunha, não apenas do que viu e ouviu, mas também escritor de todas as maravilhas do Senhor.

Os Atos foram escritos em um só livro. Lucas narra ao bom Teófilo aquilo que se sucedeu em sua presença, ainda que fale bem por alto da paixão de Pedro e da viagem que Paulo realizou de Roma até a Espanha.

Quanto às epístolas de Paulo, por causa do lugar ou pela ocasião em que foram escritas elas mesmas o dizem àqueles que querem entender: em primeiro lugar, a dos Coríntios, proibindo a heresia do cisma; depois, a dos Gálatas, que trata da circuncisão; aos Romanos escreveu mais extensamente, demonstrando que as Escrituras têm como princípio o próprio Cristo.

Não precisamos discutir sobre cada uma delas, já que o mesmo bem – aventurado apóstolo Paulo escreveu somente a sete igrejas, como fizera o seu predecessor João, nesta ordem: a primeira, aos Coríntios; a segunda, aos Efésios; a terceira, aos Filipenses; a quarta, aos Colossenses; a quinta, aos Gálatas; a sexta, aos Tessalonicenses; e a sétima, aos Romanos.

E, ainda que escreva duas vezes aos Coríntios e aos Tessalonicenses, para sua correção, reconhece – se que existe apenas uma Igreja difundida por toda a terra, pois da mesma forma João, no Apocalipse, ainda que escreva a sete igrejas, está falando para todas. Além disso, são tidas como sagradas uma [epístola] a Filemon, uma a Tito e duas a Timóteo; ainda que sejam filhas de um afeto e amor pessoal, servem à honra da Igreja Católica e à ordenação da disciplina eclesiástica. Correm também uma carta aos Laodicenses e outra aos Alexandrinos, atribuídas [falsamente] a Paulo, mas que servem para favorecer a heresia de Marcião, e muitos outros escritos que não podem ser recebidos pela Igreja Católica porque não convém misturar o fel com o mel.

Entre os escritos católicos, se contam uma epístola de Judas e duas do referido João, além da Sabedoria escrita por amigos de Salomão em honra do mesmo. Quanto aos apocalipses, recebemos dois: o de João e o de Pedro; mas, quanto a este último, alguns dos nossos não querem que seja lido na Igreja. Recentemente, em nossos dias, Hermas escreveu em Roma ‘O Pastor’, sendo que o seu irmão, Pio, ocupa a cátedra de Bispo da Igreja de Roma.

É, então, conveniente que seja lido, ainda que não publicamente ao povo da Igreja, nem aos Profetas ´ cujo número já está completo , nem aos Apóstolos ´ por ter terminado o seu tempo. De Arsênio, Valentino e Melcíades não recebemos absolutamente nada; estes também escreveram um novo livro de Salmos para Marcião, juntamente com Basíledes da Ásia…”

Então já na época haviam dúvidas a que textos eram de fato inspirados pelo Espírito de Deus e quais eram criações – sinceras ou não – de homens.

E como faziam para decidir?

Até hoje existem pessoas que tem um certo recentimento desses primeiros cristãos, que dizem que uma pessoa não teria como decidir que texto seria inspirado por Deus, diretamente ou via Espirito Santo, ainda mais porque os textos já existiam e estavam circulando, não haveria um modo seguro de se saber se o autor estava cumprindo a Vontade Deus ou simplesmente escrevendo o que achava ser correto. E assim se cria uma visão de que o caso foi resolvido através de puro dogmatismo e abuso de autoridade.

Existem estudiosos que citam Irineu (205 d.C.) afirmando que:

“O evangelho é a coluna da igreja, a igreja está espalhada por todo o mundo, o mundo tem quatro regiões, e convém, portanto, que haja também quatro Evangelhos… O Evangelho é o sopro do vento divino da vida para os homens, e pois, como há quatro ventos cardiais, daí a necessidade de quatro Evangelhos… O Verbo criador do Universo reina e brilha sobre os querubins, os querubins têm quatro formas, e eis porque o Verbo nos obsequiou com quatro Evangelhos.”

Ainda existem outras lendas e histórias de como se escolheram os textos como conta a obra Libelus Synddicus, de um autor anônimo: “estando os bispos em oração, os Evangelhos inspirados foram por si colocar-se em um altar…”

Outras lendas contam como todos os textos existentes foram colocados sobre um altar e aqueles que não eram inspirados caíram ou como uma pomba atravessou o vitral da igreja, durante o concilio de Nicéia e pousou no ombro de cada bispo e cochichou ao seu ouvido quais eram os livros inspirados.

Bem, como vimos o Concilio de Nicéia tem uma fama enorme em relação à escolha de que livros eram ou não inspirados, mas não existe um registro do evento que fale sobre o assunto, e já haviam listas, como o cânone Muratori onde os livros já eram escolhidos.

Isso sem contar que muitas destas afirmações mostram um certo descontentamento com a Instituição da Igreja Católica mas deixa de lado um pequeno detalhe: os livros sagrados judaicos da Bíblia, o Antigo Testamento, também foram criados a partir de livros aceitos e não aceitos, eles também foram peneirados. O mesmo trabalho de catalogação de um cânone oficial foi realizado pelos judeus, então este processo de identificar quais livros eram sagrados para fazer parte ou não da Bíblia não foi um trabalho unicamente cristão.

Em relação à Bíblia sabemos hoje que o bispo de Alexandria Anastásio, no ano de 367, propôs uma lista de livros inspirados. Essa lista foi posteriormente defendida no Concilio de Hipona, em 398, e a lista de Anastásio acabou sendo aprovada pelos bispos. Isso 50 anos depois de Jerônimo ter começado seu trabalho de criar a Vulgata.

E para se criar o concenso de que livros seriam aceitos foram criados uma série de critérios que deveriam ser observados, não apenas em ralação a textos cristãos mas a textos judaicos também. Nesta época a igreja já começava a se organizar e mesmo havendo vários grupos que possuíam textos próprios a idéia era começar a criar um corpo oficial de textos, literalmente um cânon. Assim os critérios adotados foram:

a) O livro deveria conferir identidade religiosa ao povo judeu e cristão.
b) O livro não poderia ser escrito em grego – isso em relação aos livros do Antigo Testamento.
c) Ainda em relação ao Antigo Testamento, o livro deveria ter sido escrito durante a época que vai de Moisés a Esdras.
d) Deveria ter sido catalogado na lista de Flávio Josefo, o historiador judeu.
e) O livro não deveria “manchar a mão”.

E finalmente dois critérios que refletiam muito bem o período histórico onde já haviam sinais do surgimento da igreja:

f) O livro não poderia ter origem em grupos de oposição ao pensamento dominante.
g) Deveria ser usado por muitas comunidades. Quanto maior fosse a aceitação de um livro, maior era a indicação que era um livro inspirado.

Se um texto passasse por esse crivo ele finalmente deveria ser reconhecido como

h) inspirado pelo Espírito Santo.

Assim para um texto passar pelo crivo religioso e ser aceito ele deveria primar pela consciência de que o povo judeu era o povo eleito, mantendo vivo essa fé como símbolo da indentidade nacional, também deveria professar a fé em Jesus crucificado, morto e principalmente ressuscitado. Se o texto fazia parte do Antigo Testamento deveria ter sido escrito originalmente em hebraico (com pequenas excessões onde o original se apresentava em aramaico) e deveria ter sido compilado até o século V a.C. na época de Esdras. Ele teria que ter estado presente nos escritos de Flávio Josefo e não poderia ter origem em grupos considerados subversivos. Por exemplo no Antigo Testamento temos o caso dos dois livros dos Macabeus, que era um dos grupos de judeus que lutava contra o império romano e desejava reestabelecer o judaísmo, eles eram inimigos dos Fariseus, que eram aqueles judeus que formavam o grupo religioso judaico que conduzia a religião judaica e que foi responsável pela criação do cânone judaico de Jâmnia. Assim os textos sobre os Macabeus não foram considerados inspirados pelos Judeus. Já no Novo Testamento os textos de origens gnósticas, que iam contra os grupos cristãos que estavam se tornando dominantes, foram descartados como fraudes. Deveria ser considerado um Best-Seller da época e aprovado por aquelas que eram consideradas as pessoas mais religiosas e ligadas a Deus.

Uma curiosidade sobre o critério e) é que nunca ficou muito claro o que os judeus queriam dizer com “manchar as mãos”. Se acreditavam que um livro impuro fosse uma aberração tão grande que mancharia aquele que o tocasse ou se havia o costume de algumas pessoas alterarem textos antigos escrevendo passagens novas e a tinta fresca seria a responsável pela mácula na mão daquele que o lesse.

Assim com o tempo os livros foram sendo aceitos e descartados da compilação final que existe hoje.

Além disso a Bíblia sempre foi apresentada como um longo texto corrido, ela foi dividida em capítulos apenas no século XIII d.C. (entre 1234 e 1242), pelo teólogo Stephen Langhton, então Bispo de Canterbury, na Inglaterra, e professor da Universidade de Paris, na França. Foi apenas nos séculos IX e X d.C. que estudiosos Judeus dividiram o Antigo Testamento em versículos. O Novo Testamento recebeu a divisão em versículos no ano de 1551, o responsável foi  um impressor francês chamado Robert d´Etiénne.

Até boa parte do século XVI, as Bíblias eram publicadas somente com os capítulos. Foi assim, por exemplo, com a Bíblia que Lutero traduziu para o Alemão, por volta de 1530. A primeira Bíblia a ser publicada incluindo integralmente a divisão de capítulos e versículos foi a Bíblia de Genebra, lançada em 1560, na Suíça.

E mesmo assim nem todas as Bíblias traziam os mesmos textos.

16 – Como assim? Com todo esse trabalho de escolher textos que eram ou não inspirados existiam Bíblias diferentes?

Sim.

Apesar da antiguidade dos livros bíblicos, os manuscritos mais antigos que possuímos datam a maior parte dos séculos III e IV d.C.. Tais manuscritos são o resultado do trabalho de copistas (escribas) que, durante séculos, foram fazendo cópias dos textos, de modo a serem transmitidos às gerações seguintes. Por causa desse processo manual e artesanal o texto bíblico, obviamente, está sujeito a erros e modificações, involuntários ou voluntários, dos copistas. E isso acaba se traduzindo na coexistência, para um mesmo trecho bíblico, de várias versões que, embora não afetem grandemente o conteúdo, suscitam diversas leituras e interpretações dum mesmo texto.

Por causa disso criou-se o que ficou conhecido como Crítica Textual, que é o trabalho desenvolvido por especialistas que se dedicam a comparar as diversas versões e a selecioná-las. O resultado deste trabalho são os Textos-Padrão.

Ou seja, existe um esforço para se descobrir quais as formas originais dos textos que temos hoje, e quais deles estariam mais próximos da forma como foram concebidos originalmente.

A grande fonte hebraica para o Antigo Testamento é o Texto Massorético, que como já vimos, foi fechada no século VI d.C.

Esses processos de cópia e produções de Bíblias combinados com as várias igrejas que se formaram depois do surgimento do cristianismo serviram para que várias versões da Bíblia sobrevivessem até os dias de hoje, cada uma com características próprias.

17 – Mas com o estabelecimento do cristianismo não houve um consenso sobre que textos fariam parte da Bíblia e que versões de cada texto era aceita?

Infelizmente não.

E para isso vamos voltar ao conceito de Cânone Bíblico e um pouco antes para o conceito de “cânone” judaico.

Segundo a literatura judaica Esdras, na qualidade de escriba e sacerdote, presidiu um conselho formado por 120 membros chamado Grande Sinagoga, que teria selecionado e preservado os rolos sagrados. Alguns acreditam que foi ai que o Cânone das Escrituras do Antigo Testamento foi fixado (Esdras 7:10,14). Entretanto esta tese é desacreditada pela crítica moderna. Os estudiosos concordam que foi essa mesma entidade que reorganizou a vida religiosa nacional dos repatriados e, mais tarde, deu origem ao Supremo Tribunal Judaico, denominado Sinédrio.

Curiosamente os Saduceus e os Samaritanos só aceitavam como canônicos os cinco livros de Moisés. Por esta razão, os especialistas especulam que Esdras tenha reunido apenas o Pentateuco, isto é, os cinco livros de Moisés.

O prólogo da versão grega do Eclesiástico, datado em 130 a.C. parece já confirmar a suspeita dos estudiosos modernos. Com efeito nele lemos: “Pela Lei, pelos Profetas e por outros escritores que os sucederam, recebemos inúmeros ensinamentos importantes (…) Foi assim que após entregar-se particularmente ao estudo atento da Lei, dos Profetas e dos outros Escritos, transmitidos por nossos antepassados […]”.

Nota-se que o cânon indicado neste escrito considera canônicos livros posteriores ao tempo dos profetas.

O Cânone Hebraico de 39 livros, só foi realmente fixado no Concílio de Jâmnia – criado para procurar um rumo para o judaísmo, após a destruição do Templo de Jerusalém, no ano 70 d.C – em 90 d.C.. Mesmo assim estudiosos como Leonard Rost garantem que tais decisões demoraram muito para serem aceitas e até hoje não tiveram aceitação em algumas comunidades judaicas como é o caso dos judeus do Egito.

Neste concílio os participantes decidiram considerar como textos canônicos do judaísmo apenas os que existiam em língua hebraica e que remontassem ao tempo do profeta Esdras, rejeitando todos os outros livros e demais escritos, considerando-os como apócrifos, ou seja, não tendo evidências de inspiração por Deus e fonte de fé. Houve muitos debates acerca da aprovação de certos livros, como Ester e Cântico dos Cânticos, conforme registro da Mishiná.

Apesar da crítica moderna afirmar que vários livros que constam no Cânon Hebraico são posteriores ao tempo de Esdras (como é o caso do Livro de Daniel), os estudiosos explicam que os Fariseus não dispunham do método científico que existe hoje para se datar uma obra, ou mesmo para se atribuir a ela um autor. De qualquer forma, os critérios por eles adotados excluíram os livros deuterocanônicos do Cânon Hebraico.

Para não confundir: o Concilio de Jâmnia (ano 90 d.C.) decidiu quais os livros que fariam parte do cânon. Os Massoretas, século VI, decidiram qual a forma correta dos textos que haviam sido selecionados.

Já do lado dos cristãos, temos que ter em mente que no início não havia uma igreja organizada como hoje e desde o tempo de Jesus, entre seus discípulos, sempre existiram controvérsias doutrinárias e disciplinares, como se vê em At 15, 1-5. Havia grupos em Roma, no Oriente e norte da África que, sob influência helenística, zoroastrista e de convicções pessoais, queriam adaptar a doutrina de Jesus às suas idéias. Tais foram os grupos dissidentes ou heréticos fundados por Donato, a gnose de Marcião (o “Primogênito de Satanás”), Montanus, Nestório, Paulo de Samósata e Valentinus entre outros. Os escritos de Tertuliano contra os heréticos e o “Contra as heresias” de Ireneu foram respostas às heresias. O Concílio de Nicéia foi convocado pelo imperador Constantino devido a disputas em torno da natureza de Jesus “não criado, consubstancial ao Pai”. Na Santíssima Trindade, as três pessoas têm a mesma natureza, ou seja, a divina.

Então apesar do Antigo Testamento já ter uma aceitação mais ou menos geral de que textos eram inspirados e quais não eram, o Novo Testamento ainda não possuía unidade. Mesmo com tentativas como a do Cânone Muratori, 170 d.C., o Novo Testamento ainda era um Deus nos Acuda, já que as pessoas ainda não tinham nem muita certeza sobre o que era o Cristianismo.

A partir de 325, algumas verdades do Cristianismo foram estabelecidas como dogma através de cânones promulgados por vários concílios, como o de Nicéia.

Desde Jesus Cristo (Jo 17,21) passando por todos os apóstolos, especialmente Paulo, existe um impulso para estabelecer unidade no cristianismo. A primeira forma de demonstração desse impulso foi a manutenção da unidade em torno de Pedro. Se há um só Deus, que se revelou em Jesus Cristo, que fundou Sua única Igreja (Mt 16,18) e se Jesus Cristo mesmo diz que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida, não podem existir outras verdades verdadeiras. Uma das linhas que foi condenada como heresia eram as que divergiam da afirmação de que Cristo era totalmente divino e totalmente humano e que as três pessoas da Trindade são iguais e eternas. Este dogma (Um só Deus em Três Pessoas = Três pessoas e uma só natureza divina assim como existem bilhões de pessoas e uma só natureza humana) só foi estabelecido depois que Ário, um celebrado professor do cristianismo – e também mártir – o desafiou.

E assim, muitos textos que poderiam fazer parte da Bíblia foram banidos, por serem considerados heréticos.

Assim não apenas os textos finais foram escolhidos, mas também a forma que o cristianismo dominante teria também. Escolhendo-se textos que mostrassem certos aspectos de jesus e descartassem outros.

E ai voltamos ao cíclo vicioso da falta de gráficas, porque uma vez definidos os textos que fariam parte da Bíblia Cristã, eles estavam sujeitos à manipulação por parte dos copistas (seja essa manipulação causada por erro sincero ou pela maldade no coração do homem).

E como vimos, mesmo com a tentativa de Jerônimo de criar um texto único, muitos textos e livros ainda não haviam sido aprovados mesmo cinco décadas depois que ele começou o trabalho. Assim haviam algumas variantes dos mesmos textos.

Haviam também grupos que não estando ligados à igreja continuavam a usar textos próprios ou versões próprias de textos existentes, assim quando era o momento de se apontar que versão era a original não haviam uma base para se ter certeza.

18 – Então além do Antigos Testamento, e dos livros do Novo Testamento, haviam outros livros e textos religiosos circulando por ai?

Sim, tecnicamente esses livros receberam dois nomes: Deuterocanônicos e Apócrifos.

O termo “deuterocanônico” é formado pela raiz grega deutero (segundo) e canônico (que faz parte do Cânon, isto é do conjunto de livros considerados inspirados e normativos por uma religião ou igreja). Assim, o termo é aplicado a livros e partes de livros bíblicos que só num segundo tempo foram considerados como canônicos.

O adjetivo “deuterocanônico” é originalmente aplicado a estes textos pelos cristãos, que depois de um tempo passaram a encará-los como inspirados e fazendo parte integrante da Bíblia.

O fato de muitas pessoas, cristãs ou não, não os considerarem inspirados, eles ainda são obras muito importantes tanto para a fé cristã quanto para historiadores. Hoje eles são considerados patrimônios históricos da fé, pois refletem e fizeram parte das crenças cristãs ao longo da história.

São deuterocanônicos os seguintes livros bíblicos:

– Tobias
– Judite
– I Macabeus e II Macabeus
– Sabedoria
– Eclesiástico (também chamado Sirácide ou Ben Sirá )
– Baruc

Fora os livros deuterocanônicos podemos também encontrar fragmentos deuterocanônicas dentro de livros canônicos como:

– adições em Ester.
– adições em Daniel – especificamente os episódios da Casta Susana e de Bel e o dragão.

Estes livros eram já conhecidos pelos cristãos, que os citavam e utilizavam. Os estudiosos encontraram citações destes livros nas obras de Ireneu, Justino, Agostinho, Jerônimo, Basílio Magno, Ambrósio e muitos outros. E ainda haviam aqueles que julgavam esses textos como sendo somente eclesiásticos, isto é, não eram canônicos porém também não eram contrários à Fé. Foi o caso de Melitão, Rufino, Atanásio e outros. Como podemos ver o assunto não era pacífico, e houve bastante discórdia sobre o tema.

Jerônimo inicialmente negou a canonicidade dos deuterocanônicos. Porém, os estudiosos encontraram uma mudança posterior de sua opinião em suas cartas escritas a Rufino e a Paulino, Bispo de Nola.

Mas no fim das contas esta discórdia parece ter sido resolvida ou então não influenciou o parecer comum da igreja antiga.

Nenhum Concílio da igreja primitiva recusou a canonicidade destes livros, muito pelo contrário. Foram declarados canônicos nos Concílios regionais de Roma (382 d.C, dando origem ao Cânon Damaseno), Hipona I (cânon 36, 393 d.C), Cartago III (cânon 47, 397 d.C), IV (cânon 24, 417 d.C), Trullo (cânon 2, 692).

Um documento conhecido como Decreto Gelasiano (496 d.C) também confirma a canonicidade dos deuterocanônicos.

Mas isso não significa que todos os cristãos, fossem apenas seguidores da fé ou os sacerdotes de comunidades, aceitassem isso. Com a formação de uma igreja se destacando de outros grupos menores essa aceitação acontecia entre os cristãos católicos apostólicos romanos.

A aceitação comum dos deuterocanônicos como livros sagrados fica ainda mais clara ao encontrarmos os textos presentes nas primeiras versões Bíblicas, como a Vetus Latina e a Vulgata. Na época, no Oriente, a Septuaginta foi adotada como a versão oficial do Antigo Testamento.

Os livros deuterocanônicos foram escritos entre Malaquias e Mateus, ou seja, numa época em que segundo o historiador judeu Flávio Josefo, cessara por completo a revelação divina. Entretanto segundo os Evangelhos a revelação do Antigo Testamento durou até João Batista (cf. Mt 11,12-13 e Lc 16,16). Essa já começava a se mostrar a futura divisão que aconteceria entre o judaismo e o recém criado cristianismo.

Os textos deuterocanônicos chegaram até nós apenas em grego (alguns escritos originalmente nessa língua, outros traduzidos duma versão hebraica, que se perdeu), fazendo parte da Septuaginta. Tais textos não se encontram na Tanakh.

É importante dizer que também no Novo Testamento existem livros deuterocanônicos. São eles:

– Tiago
– Hebreus
– Apocalipse
– 2 Pedro
– 2 e 3 João.

Assim como os livros deuterocanônicos do Antigo Testamento, estes também tiveram sua canonicidade contestada por muitos séculos.

E mesmo depois deste tempo todo ainda não havia consenso. Martinho Lutero, o reformista da Igreja Católica e pai do Protestantismo, chegou até mesmo não considerar canônicos Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse, que na sua tradução da Bíblia para o Alemão deixou-os num apêndice sem numeração de páginas. Depois os demais reformadores decidiram que estes livros deveriam voltar à Bíblia, pela larga utilização nas comunidades cristãs, mas não fizeram o mesmo com os deuterocanônicos do AT.

No início do séc. XV, um grupo dissidente da Igreja Copta (também chamados de Monofisistas), conhecidos como Jacobitas questionaram muitos dos concensos cristãos da época, inclusive o Cânon Alexandrino. Em 1441, O Concílio Ecumênico de Florença, através da Bula Cantate Domino (4/2/1442) reafirma o caráter canônico do Cânon Alexandrino.

Com a Reforma Protestante, Lutero volta a questionar o caráter canônico dos Deuterocanônicos negando inclusive seu caráter eclesiástico, pois para ele estes livros eram contrários à Fé. Em 1545, é convocado o Concílio de Trento, que novamente afirma o caráter canônico do Cânon Alexandrino.

No início não houve consenso entre os Protestantes sobre o Cânon do Antigo Testamento. O Rei Jaime I da Inglaterra, responsável pela famosa tradução KJV (King James Version), defendia que os Deuterocanônicos deveriam continuar constando nas Bíblias Protestantes. Praticamente na mesma época surgiu uma tradução conhecida como Bíblia de Geneva ou Genebra, que caracterizava os Deuterocanônicos como apócrifos.

Somente após a “Confissão de fé de Westminster” (séc. XVII), protestantes ingleses que eram influenciados pelo calvinismo e puritanismo removeram das suas listas os livros deuterocanônicos, passando a adotar como lista de composição do Antigo Testamento o Cânon Hebraico conforme instituído no Concílio de Jâmnia. Princípios desta confissão foram espalhando-se por várias denominações e seu conteúdo funcionou como resposta ao concílio de Trento. Então novamente os textos do Antigo Testamento que não eram aprovados pelos Judeus foram retirados da Sagrada Escritura.

Até hoje existem muitos cristãos protestantes que chamam os deuterocanônicos de apócrifod, alegando que os textos trazem muitos erros, como por exemplo erros geográficos, e por acreditar que muitos fatos narrados neles não se concretizaram, eles chegam mesmo e remover os textos de suas Bíblias e dizem que não são textos inspirados. Outro argumento apontado é de que foram escritos no período intertestamentário (período de 400 anos compreendidos entre o novo e o velho testamento), ou seja em um período que segundo os teólogos reformadores Deus não teria levantado nenhum profeta. Este período também ficou conhecido como “silêncio profético”, e isso faz com que não reconheçam estes livros como fazendo parte da palavra de Deus.

Então se formos tentar colocar ordem nesta bagunça:

Os deuterocanônicos já faziam parte da vida dos judeus através Septuaginta, dos judeus cristãos através da Vetus Latina e da Vulgata. A primeira Bíblia impressa da história, conhecida como a Bíblia de Gutenberg (1450-1455) também já continha os livros deuterocanônicos do Antigo Testamento. Eles estavam presentes mesmo nas primeiras versões protestantes como a KJV (King James Version).

Já os Apócrifos, do grego Apokruphoi, secreto, separado ou excluído, eram conhecidos como Livros Pseudo-canônicos. O termo “apócrifo” foi cunhado por Jerônimo, no quinto século, para designar basicamente antigos documentos judaicos escritos no período entre o último livro das escrituras judaicas, Malaquias, e a vinda de Jesus Cristo. São livros considerados não  inspirados e portanto não entraram no Cânon.

No cristianismo ocidental atual existem vários livros considerados apócrifos; nos sínodos realizados ao longo da história esses livros foram banidos do canon, outros obtiveram uma reconsideração e retornaram à condição de Sagrados.

O número dos livros apócrifos é maior que o da Bíblia canônica. É possível contabilizar 113 deles, 52 em relação ao Antigo Testamento e 61 em relação ao Novo. A tradição conservou outras listas dos livros apócrifos, nas quais constam um número maior ou menor de livros. A seguir, alguns desses escritos segundo suas categorias.

Evangelhos:

– de Maria Madalena
– de Tomé
– Filipe
– Árabe da Infância de Jesus
– do Pseudo-Tomé
– de Tiago
– Morte e Assunção de Maria
– Judas Iscariotes

Atos:

– de Pedro
– Tecla e Paulo
– Dos doze apóstolos
– de Pilatos

Epístolas:

– de Pilatos a Herodes
– de Pilatos a Tibério
– dos apóstolos
– de Pedro a Filipe
– Paulo aos Laodicenses
– Terceira epístola aos Coríntios
– de Aristeu

Apocalipses:

– de Tiago
– de João
– de Estevão
– de Pedro
– de Elias
– de Esdras
– de Baruc
– de Sofonias

Testamentos:

– de Abraão
– de Isaac
– de Jacó
– dos 12 Patriarcas
– de Moisés
– de Salomão
– de Jó

Outros:

– A filha de Pedro
– Descida de Cristo aos Infernos
– Declaração de José de Arimatéia
– Vida de Adão e Eva
– Jubileus
– 1,2 e 3 Henoque
– Salmos de Salomão
– Oráculos Sibilinos

E isso para citar alguns. E todos esses textos de uma forma ou de outra passaram por aquele crivo do qual falamos anteriormente sendo banidos para sempre ou então ficando em cima do muro, aparecendo e sendo retirados e voltando a aparecer nas escrituras.

19 – Mas a Bíblia é uma zona!

Sim, mas só se você parar para pensar a respeito.

Vamos tentar criar aqui duas linhas do tempo, a primeira a cultural que representa como a Bíblia teria sido desenvolvida de acordo com a história que ela mesma conta:

A Bíblia como a que você compra hoje em uma loja foi escrita por um período de 1500/1600 anos, por cerca de 40 pessoas diferentes com profissões, origens culturais e classes sociais diferentes. Para quase todos os Judeus e Cristãos ela é a Palavra de Deus, ou seja, muito mais do que simplesmente um livro.

Ela teria sido escrita da época de Moisés entre 1592 a.C. e 1472 a.C. aproximadamente, até o último livro, o Apocalipse de São João, datado de cerca de 96 d.C., tendo passado por um período sem registros inspirados por Deus, o “silêncio profético”, que separou a época do Antigo Testamento (Judeus) do Novo Testamento (Cristãos), esse período foi de aproximadamente 400 anos.

Então lá pelo ano de 96 d.C. a Bíblia com textos de mais de 1600 anos de tradição estaria, em tese, pronta para circular e ser reproduzida integralmente até os dias de hoje para se chegar na sua mão.

Agora uma pausa para os cínicos de plantãos ou aqueles simplesmente confusos até agora antes de nos aventurarmos a montar nossa segunda linha do tempo, a criada a partir de registros e evidências históricas, arqueológicas e culturais. Nós estamos passando por uma revisão ortográfica que está definindo a nova regra da escrita da língua portuguesa. Um exemplo é a palavra Bem-Vindo sendo atualizada para Benvindo.

Se no ano de 2500 fossem realizar um estudo de capachos de portas para se publicar um desses livros de mesa de centro que algumas pessoas gostam tanto, eles teriam várias fotos de capachos dizendo SEJA BEM-VINDO anteriores a 2009 e várias fotos com capachos dizendo SEJA BENVINDO posteriores a esta data. Mesmo hoje em dia com a midia que temos e a pressão social de aceitar mudanças, podemos apostar que pelos próximos anos ainda serão produzidos muitos capachos com os dizeres BEM-VINDO, ou seja a forma que o texto foi escrito no capacho não é indicativo de que ele date de antes de 2009 ou depois de 2009.

Vamos dizer que lá pelo ano de 2050 surjam os puristas que defendem que se as pessoas cultas se reunem e decidem que BENVINDO é a melhor forma de se escrever algo então é porque deve ser seguido, pode ser que surja uma lei do INMETRO que defina que os capachos só poderão chegar no mercado caso tenham a grafia correta do termo. Ai podemos chamar esta manifestação de o primeiro Concílio de BENVINDO.

Acontece que isso acaba influenciando os maiores centros comerciais, cidades afastadas ou fabricantes de capacho que não ligam para a lei podem continuar com a sua grafia errada e assim teríamos os primeiros hereges – sejam conscientes (eu não vou comprar uma máquina nova que imprima a palavra nova), sejam os inocentes (mudou a palavra? eu não sabia).

Agora temos que levar em conta também outro fator, os capachos que tinham a grafia BENVINDO antes da mudança da norma ortográfica, ou seja, aqueles que já estavam errados antes do errado virar certo.

Só ai já teríamos problemas, 400 anos depois, de datar um capacho, simplesmente pela grafia de uma palavra, ele poderia ser anterior à data do Concílio de BENVINDO, poderia ser posterior, poderia ser um erro mais antigo ou poderia ser um capacho com a escrita antiga “gambiarrado” para apresentar a nova sem ter que mudar as máquinas, com um M deformado e o espaço entre as palavras coberto por um desenhinho qualquer.

Como isso se aplica à Bíblia?

Só porque um texto foi tomado como correto no século VI d.C. não significa que ele já não existisse 1600 anos antes, assim como um texto que começou a aparecer em determinado século não existisse com uma circulação muito mais restrita antes. Da mesma forma dois textos diferentes não querem dizer automaticamente manipulação maldosa. O fato de não termos hoje em mãos um original não significa que ele nunca tenha existido, e um texto que só se tornou oficial em um ano X não era sem valor antes. Pense que a palavra e o conceito Bem-Vindo existiam antes da correção ortográfica e provavelmente antes de inventarem a escrita e a registrarem pela primeira vez.

Vamos ver então como fica a história da Bíblia em termos de registros históricos:

640 a.C – Data em que se criou uma unidade doutrinária necessária para o reconhecimento da lei escrita.

287 – 247 a.C. – Criação da Septuaginta

225 a.C. – Trecho bíblico mais antigo: passagem de um dos livros de Samuel.

100 a.C. – O texto mais antigo conhecido da Bíblia: Livro de Isaías

0-100 d.C. – Vetus Latina & suposta época da composição do Novo Testamento

90 d.C. – Concilio de Jâmnia decidiu quais os livros que fariam parte do cânon judaico (Antigo Testamento)

125 d.C. – Texto mais antigo do Novo Testamento: fragmentos do evangelho de João, incluindo a pergunta de Pilatos a Jesus: “Você é o rei dos judeus?”

325 d.C. – Canonização do Novo Testamento

404 d.C. – Jerônimo completa a Vulgata.

500-600 d.C. – Texto Massorético (Antigo Testamento)

500 d.C. – A Bíblia começa a ser traduzida para mais de 500 línguas diferentes.

600 d.C. – Cria-se a Lei que determina que a Bíblia apenas pode ser copiada e distribuída em Latim.

995 d.C. – Surgem novas traduções anglo saxônicas da Bíblia do Novo Testamento.

1384 d.C. – Wycliffe se torna a primeira pessoa a se criar uma versão completa da Bíblia em Inglês (era uma versão manuscrita).

1455 d.C. – Gutenberg cria a primeira Máquina de Impressão e a partir de então as bíblias podem ser produzidas em massa. Até então todas as versões eram manuscritas.

1560 d.C. – Bíblia de Genebra

1611 d.C. – Surgimento da versão da Bíblia do Rei James.

1753 d.C. – Primeira publicação de uma Bíblia em Português.

1844 d.C. – Sociedade Bíblica Internacional traduz a Bíblia para os últimos idiomas vivos que restavam.

1885 d.C. – Os livros considerados apócrifos são removidos das versões impressas das Bíblias Protestantes.

1898 d.C. – Os Gideões Internacionais levam a Bíblia para as prisões, escolas e favelas, hoje qualquer quarto de hotel ou motel americano possui uma versão desta Bíblia.

1993 d.C. – Biblegateway.com é o primeiro site a colocar a Bíblia na internet com ferramenta de busca e diversas traduções sincronisadas.

20 – Mas existem muitas diferenças entre as Bíblias que circulam por ai hoje?

Novamente a resposta é positiva, e não apenas entre as Bíblias mas entre as Bíblias e os textos originais.

Tenha em mente que este texto não tem como objetivo julgar se a Bíblia é um livro sagrado ou uma arma de manipulação popular e sim estudar fatos que estejam relacionados com ela.

Como já vimos, mesmo os textos em hebraico da Tanakh possuem algumas diferenças, como no caso do pentateuco samaritano e outros que existiam. A que se devem estas diferenças? Não há como dizer.

Um grande ressentimento moderno contra a Igreja Católica afirma que todos foram causados como forma de garantir que a igreja tivesse poder e riquezas, e mesmo que este seja o caso em alguns momentos, não existe como provar isso – não que houve ou não manipulação, mas que ela foi realizada com este ou aquele objetivo específico. Muitas pessoas dizem que a igreja adotou o celibato dos padres, por exemplo, como forma de impedir que eles tivessem família e assim suas posses acumuladas em vida retornassem à igreja. Mas será que isto é verdade? Se pensarmos que tanto o judaísmo quanto o cristianismo sempre possuíram grupos ascetas, que renunciavam a existência mundana em prol da vida espiritual, chegando a casos extremos como monges que se flagelavam, castrações e outras, podemos ver que muitos dos primeiros cristãos eram adeptos do celibato, assim como vários grupos dentro do judaísmo como os Essênios, por exemplo, e que quando a igreja foi fundada e o cristianismo foi adotado como religião oficial de Roma o celibato já era um costume que mesmo que não obrigatório, era muito comum, não apenas para aqueles que pregavam o cristianismo mas também para aqueles que o tinham como religião pessoal. Então mesmo que afirmemos que a igreja tomou proveito disto não podemos afirmar com certeza que ela oficializou e incentivou este hábito motivada simplesmente pela cobiça assim como não temos como negar que este hábito também foi muito lucrativo para ela.

Assim, não vamos apontar dedos tentando imaginar que diferenças bíblicas foram criadas por quem e por que motivos, mas vamos apontar algumas delas para mostrar que mesmo que a Bíblia seja tomada como um livro absoluto, os textos impressos em suas páginas não o são.

Vamos começar levantando algumas mudanças que já ocorreram nas origens de seus textos.

Originalmente foram utilizados três idiomas diferentes na escrita dos diversos livros da Bíblia: o hebraico, o grego e o aramaico. Em hebraico foi escrito todo o Antigo Testamento, com excepção dos livros chamados deuterocanônicos e de alguns capítulos do livro de Daniel, que foram redigidos em aramaico. Em grego, além dos já referidos livros deuterocanônicos do Antigo Testamento, foram escritos praticamente todos os livros do Novo Testamento. Segundo a tradição cristã, o Evangelho de Mateus teria sido primeiramente escrito em hebraico, visto que a forma de escrever tinha como objetivo alcançar os judeus.

O hebraico utilizado na Bíblia não é todo igual. Encontramos em alguns livros o hebraico clássico (por ex. livros de Samuel e Reis), em outros um hebraico mais rudimentar e em outros ainda, nomeadamente os últimos a serem escritos, um hebraico elaborado, com termos novos e influência de outras línguas circunvizinhas. O grego do Novo Testamento, apesar das diferenças de estilo entre os livros, corresponde ao chamado grego koiné (isto é, o grego “comum” ou “vulgar”, por oposição ao grego clássico), o segundo idioma mais falado no Império Romano.

Precisamos então nos lembrar de que a Tanakh foi traduzida do hebraico (as diferentes formas de hebraico que foram compiladas por séculos) para o grego na criação da Septuaginta, termos primitivos, rebuscados, simples e de uso diário foram passados para uma forma corrente de grego, um mesmo estilo de grego do princípio ao fim e então essa versão assim como a hebraica foram traduzidas para o latim da Vetus Latina. Com Jerônimo a Septuaginta é deixada de lado e ele pega todos os textos antigos – com suas variantes linguísticas – e são novamentes traduzidos para um latim de um único estilo, mas isso não fez com que as versões da Vetus Latina fossem recolhidas do mercado, elas existiam de forma paralela e quando o cristianismo se espalha surgem novas traduções para línguas locais, essas traduções não vinham de um único documento oficial, mas dos textos que cada um tinha em mãos. Então enquanto uma versão Romena pudesse vir do Latim de Jerônimo, uma versão alemã poderia vir do grego da Septuaginta e um texto espanhol ter vindo de um dos muitos livros da Vetus.

Embora a mensagem geral destes textos fossem a mesma muitas coisas surgiam, eram adaptadas ou simplesmente mudavam.

Vejam um exemplo: pegando-se o texto da Tanakh de Oséias que usamos na questão quatro:

Oséias 8:12: “Se tivesse escrito a maioria de minha Torá, [Israel] seria contado igual a estranhos”

Vamos comparar com uma tradução atual da versão Almeida da Bíblia Corrigida e Revisada Fiel de 1994:

Oséias 8:12: “Escrevi-lhe as grandezas da minha lei, porém essas são estimadas como coisa estranha”

Com a versão da Sociedade Bíblica Britânica:

Oséias 8:12: “Embora eu lhe escreva a minha lei em miríades de preceitos, estes são tidos como coisa estranha”

Dentre as versões cristãs não existe muita diferença no significado, mas veja a diferença entre a passagem judaica e a passagem cristã. Numa o recado é para o povo escolhido, na outra o recado é para todos os não cristãos, independentes da origem do cristão em questão. Não há porque segregar o conhecimento apenas aos judeus, mas ele deve ser aberto aos que acreditam e aos que não acreditam.

Qual das duas versões você acha que deve ser mantida hoje? E quando for pensar nisso, pense que esta é a Palavra de Deus, e por isso deveria ser passada adiante de forma mais fiel o possível.

Outro caso que acontece não é apenas mudar o público alvo de determinada passagem, mas de se criar novas figuras na história. Vamos prestar atenção em uma que talvez tenha se tornado a mais célebre de todas: o diabo!

O Diabo se tornou, acidentalmente ou não, uma das figuras centrais da religião hoje em dia, mas ele não esteve sempre presente na Bíblia.

Um dos nomes atribuídos ao diabo é Lúcifer, mas este nome não existe nos textos originais. A primeira vez que este nome é citado é no livro de Isaías quando Deus protege seu povo destruindo o orgulho de seu inimigo. Em Isaías 14:13 surge a frase: “Como caíste do céu, ó Lúcifer, filho da alva!”. No original a expressão utilizada não era o nome Lúcifer e sim helel bem shahar, que significa aquele que brilha. Quando traduziram esta passagem para o grego o termo foi traduzido por um que era conhecido dos gregos: eosphorus; e então para o latim Lucifer. Agora Lucifer era a tradução literal para “aquele que brilha” – lux, lucis = luz; ferre = carregar; Lucifer = o portador da luz. Ao mesmo tempo este era o título dado ao planeta Vênus, a estrela da manhã, que brilhava em pleno dia. Desta forma, apenas por causa de traduções o termo helel – aquele que brilha – se torna eosphorus grego – o portador do archote – pois era o termo mais próximo de aquele que brilha, e então para Lucifer em latim que era o termo mais próximo nesta linguagem, só que lúcifer é o nome da estrela da manhã, Vênus, a estrela da alvorada.

Entretanto o nome de “Estrela d’alva”, ou Lúcifer, foi interpretado como sendo o nome de Satanás antes de sua queda do Paraíso. Segundo esta interpretação Lúcifer e seus anjos caíram por sua própria escolha, o motivo teria sido o orgulho, representado pela tentativa de se equipararem a Deus. Desejavam colocar sua própria vontade no lugar da vontade de Deus. E isto era considerado como a base do pecado em todos os níveis. Aos poucos, estas idéias começaram a se transformar na base dos ensinamentos tradicionais sobre o Diabo.

Mas se este trecho não fala do Diabo, fala do que? De acordo com os textos originais podemos supor que trata-se de uma interpretação errônea do seguinte trecho de Isaías que fala da “morte do rei da Babilônia” Nabucodonosor (Nebukadneççar em hebraico), que recebeu a maldição suprema da privação da sepultura:

«Como caíste do céu,
ó estrela dálva, filho da aurora!
Como foste atirado à terra,
vencedor da nações!
E, no entanto, dizias no teu coração:
‘Hei de subir até o céu,
acima das estrelas de Deus colocarei o meu trono,
estabelecer-me-ei na montanha da Assembléia,
nos confins do norte.
Subirei acima das nuvens, tornar-me-ei semelhante ao Altíssimo.’
E, contudo foste precipitado ao Xeol,
nas profundezas do abismo”.
Os que te vêem fitam os olhos em ti,
e te observam com toda atenção, perguntando:
“Porventura é este o homem que fazia tremer a terra,
que abalava reinos?”»
(Isaías 14, 12-15)

Isaías compara a queda do rei Nabucodonosor à Lúcifer! A queda do rei seria semelhante à queda da estrela da manhã – planeta Vênus no céu – ou seja, uma queda muito rápida.

E assim o diabo ganha o nome de Estrela da Manhã e Lúcifer, o que é irônico se pensarmos que este nome também é dado para Jesus no Apocalipse de São João 22:16: ” Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos testificar estas coisas a favor das igrejas. Eu sou a raiz e a geração de Davi, a resplandecente estrela da manhã.”

O mesmo podemos dizer sobre o nome Satã. Satã surge nos textos hebraicos originais como um adjetivo e não como um nome. Satã significa Adversário, mas não necessariamente o Adversário de Deus. Por exemplo a passagem 1Samuel 29:4, sobre o que pedem os príncipes filisteus a Davi, surge em algumas versões da Bíblia como: “Não se volte contra nós no combate”, mas no texto hebraico original está “Não se torne satã (inimigo) nosso no combate”. Davi aplica o termo satã aos homens que se opõem à vontade de Deus tentando o rei para que mate o benjaminita que o injuriou. Satã significa a oposição humana a Deus.

Outro exemplo é o livro de Jó 1:6, que se refere a um dos filhos de Deus que se apresenta diante do trono. O nome que lhe é dado é Satã. O nome comum representa o cargo de acusar e também a adversidade, a inimizade, a oposição que é permitida ou sancionada por Deus.

O próprio termo Diabo surge de uma tradução. O Livro da Sabedoria foi escrito em grego e não temos como saber qual seria a palavra escolhida pelo autor se o tivesse escrito em hebraico. O autor utiliza a palavra grega diábolos, termo usado na Septuaginta como tradução da palavra hebraica Satã: “É por inveja do Diabo que a morte entrou no mundo” (Sb 2,24).

Assim, no Antigo Testamento Satã não representa um ser que possamos considerar um demônio no sentido cultural cristão de um ser sobre-humano e perverso. O nome Satã, ou Satanás, no Antigo Testamento personifica a inimizade, dificuldade, contradição. A palavra satã, na sua forma verbal, stn em hebraico, aparece seis vezes no Antigo Testamento (Zc 3,1; Sl 38,21; Sl 71,13; Sl 109,4; Sl 120,29). Poderia ser traduzida por “satanizar”. A Septuaginta geralmente traduz o verbo stn por endiabállo, em grego; caluniar nas línguas vernáculas (e o substantivo satã, a Septuaginta geralmente o traduz por diábolos, que significa caluniador). A Bíblia de Jerusalém geralmente traduz por acusar.

E por causa dessas traduções se cria uma figura Mitológica do demônio.

Hoje é praticamente impossível se separar o Maligno do cristianismo, os protestantes são a prova viva disso. E agora essas traduções ajudam a incorporar novas culturas e hoje não apenas demônios, mas também encostos atormentam aqueles que escolhem trilhar o caminho apontado por Cristo.

Para não nos estendermos muito mais neste assunto vamos dar mais dois exemplos rápidos de como uma tradução pode mudar um texto original, seja de maneira sutil e inofensiva ou de uma forma mais agressiva.

Em Mateus 3:4 lemos que Jesus afirmou que: “E, outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.”

Apenas neste trecho encontramos dois problemas com tradutores do grego para outras línguas.

Apesar de ser uma mensagem clara de que a humildade, e não a cobiça, é o caminho que leva a Deus esta passagem ficou muito exagerada.

Por um lado temos a palavra camelo. Além do animal existia outro camelo que os gregos conheciam, que era uma corda muito grossa utilizada por pescadores. Assim poderíamos entender que é mais fácil se passar uma corda grossa por um buraco de agulha do que um rico entrar nos céus. Apesar de ser uma idéia que de cara exclui automaticamente os ricos, sejam quem forem ou seja lá qual foi o método de se conseguir suas riquezas entrar no céu, fica uma metáfora menos exagerada. Agora temos que ter em mente que muitos patriarcas tiveram muitos bens, assim como reis e juízes, e eles com certeza devem ter entrado no céu, um exemplo é Abrahão. Mesmo das pessoas que conviviam com Cristo haviam aquelas ricas, o próprio José de Arimatéia, que cedeu a tumba onde Cristo ressuscitou, era rico; apenas se imaginarmos que mesmo tendo vivido com Cristo, respeitado tanto o Homem quanto sua mensagem, ele tenha sido deixado de fora do reino dos céus, temos que concluir que essa passagem é muito extrema. Jesus estaria dizendo que a riqueza é um grande mal, não importa de onde ela veio?

Podemos responder isso com o segundo problema de tradução, a palavra agulha. A agulha além do utensilho de costura é o nome dado às pequenas portas das cidades fortificadas para passagem dos animais das caravanas, utilizadas à noite depois que é dado o toque de recolher. Eram também utilizadas nos tempos de guerra, através das quais podia-se fazer o transporte de armas e comida. Essas agulhas são muito presentes ainda hoje nas muralhas da cidade antiga de Jerusalém.

Camelos com carga eram proibidos de passar por essas portinholas para evitar o comercio e o barulho durante o sono dos cidadãos. Além disso existe outro costume interessante, pelas portas principais das cidades eram comum que se passassem em sua maioria os mais bem quistos, ilustres e visitantes nobres. Pela agulha passavam os trabalhadores, o proletariado e os mercadores. Era como o elevador social e o elevador de serviço nos prédios hoje em dia. Além disso, mesmo durante o dia era realmente difícil se passar um camelo por elas. Era necessário bater no camelo e fazê-lo abaixar e na maioria dos casos, tirar a carga dele para passá-lo. Os camelos de grande porte, raramente passavam. Mas mesmo assim alguns passavam.

Desta forma temos dois fatores culturais, a corda dos pescadores – camelo – e as portinholas nos muros – agulhas – que deveriam ser levadas em conta no momento de se traduzir um texto como este.

A idéia de um animal passando por um buraco de agulha nos mostra que Jesus disse que ninguém rico entraria no reinos dos Céus. Isso poderia ser usado para mostrar que uma pessoa que aceite Deus deve se livrar de seus bens materiais. Já uma tradução que levasse em conta os costumes gregos e judaicos poderia levar em conta que a riqueza não é o que impede alguém de entrar no reino dos céus, mas aquilo que foi o motivo da riqueza – o trabalho ou a cobiça?

Por si só, a tradução deste trecho tem uma interpretação que muda de forma sutil um conceito que pode, por um efeito de bola de neve mudar a mensagem original.

Outro caso interessante de tradução é a famosa passagem da crucificação em que Jesus pergunta a Deus porque foi abandonado.

Em Mateus 27:45 e em Marcos 15:34 está registrado que depois de crucificado, Jesus, quando se aproximava a nona hora bradou/exclamou em voz alta: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”

Esta é uma exclamação curiosa que confunde várias pessoas. Como Jesus na cruz poderia ter sido abandonado por Deus.

Algumas pessoas dizem que neste momento Cristo não estava perguntando a Deus porque havia sido abandonado e sim estava recitando os salmos, já que o Salmo 22:1 – Salmo de Davi para o músico-mor, sobre Aijelete Hashahar – se inicia com a frase: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”

Este é um caso interessante da Bíblia, já que o Novo Testamento foi escrito quase todo em grego, mas contém palavras e frases que foram transliteradas do hebraico diretamente para o grego. Então a palavra יקתנב שé transliterada para σαβαχθανι. Assim em Mateus temos: “Eli! Eli! lamma sabachthani” e em Marcos: “Eloi! Eloi! lamma sabachthani”. Em ambos os casos a palavra sabachthani tem o significado de abandonastes.

Agora eis o caso que surge quando olhamos para algumas outras bíblias, como a versão espanhola de Casiodoro de Reina, de 1569 impressa na América onde a palavra que Jesus usa é sabachtani e não sabachthani. Antes de prosseguir vamos nos lembrar do Texto Massorético e sua importância.

O alfabeto hebraico não possiu vogais. Por isso a letra Beth pode ter as cinco pronúncias Ba, Be, Bi, Bo e Bu dependendo da palavra em que encontra. É como se em português a palavra “Belo” fosse escrita Bl, apenas o B e o L. Se a pessoa está escrevendo sobre uma pessoa e lemos que a achavam Bl podemos deduzir que ela era considerada bela, mas e se pegamos apenas Bl e deixamos escrita no meio de uma folha de papel? Está escrito ali Belo, Bela, Bala, Balé, Bolo, Bula, etc? Não temos como saber. Por isso foram criados os sinais massoréricos, eram sinais utilizados pelos massoretas para saber se a letra B tinha som de Ba ou de Be. Os sinais massoréticos são uma série de pontos e traços que podem estar embaixo, no meio ou em cima de cada letra e o objetivo era registrar uma palavra da forma que havia sido pronunciada. Só ai temos um problema novamente, isso faz com que tradições antigas dependam da tradição oral.

Imagine agora a seguinte cena, um patriarca recebe de Deus a mensagem de que devemos nos amar uns aos outros. Essa tradição vai sendo transmitida oralmente, até o momento em que a colocam no papel, usando um alfabeto onde não existem diferenças claras entre a pronúncia das palavras. Agora imagine que dois judeus, um que conhece a tradição e outro que não conhece recebam a tarefa de pintar nos muros a mensagem de Deus, e dão para cada um uma parte da cidade para que espalhem o recado.

Um deles pega seu balde e tinta e sai escrevendo nos muros: Deus mandou que nos amássemos uns aos outros. O outro escreve nos muros: Deus mandou que nos amassemos uns aos outros. Você percebe a diferença que as duas mensagens possuem? De um lado da cidade as pessoas declarariam o amor, do outro sairiam se amassando.

E ai voltamos ao trecho da crucificação. Jesus dá o seu brado, estava cercado por Judeus, eles levam o recado adiante e o transmitem. Apesar dos evangelhos terem sido escritos originalmente em grego os termos eram judeus, tanto que as palavras de Cristo vem escritas no original e então lhe oferecem a tradução. Acontece que os manuscritos gregos trazem a transcrição: “Li’Li LMH ShBHhTh-NI”, ou seja “sabachthani”, que tem como tradução “glorificas”, e não “abandonastes”. E assim por um erro mínimo, a compreensão da pronuncia de uma palavra ao invés do brado “Deus! Deus! O quanto me glorificas!” temos “Deus! Deus! Por que me abandonastes?”.

Pensando nos dois brados, qual parece o mais lógico por ter sido dado por Jesus, que sabia que seria crucificado, que sabia que Judas o delataria, que pediu para Judas na última ceia para ir fazer o que devia, que quando surgiram os soldados romanos procurando por Cristo se adiantou a todos e disse “Sou eu!” mesmo antes de ter sido apontado por Judas, que quando teve várias chances de evitar seu destino na frente de cada juiz e governante romano que o interrogou permaneceu calado? Bem a realidade nem sempre segue o que julgamos ser lógico, mas temos ai outro exemplo de como uma simples tradução pode influenciar um texto que deveria ser um registro exato criando sentidos tão diferentes para uma mesma passagem.

Assim cada nova versão que surgia e era usada como base para novas cópias, sejam manuais ou impressas geravam bíblias com textos trazendo algumas diferenças, em uma Jesus se lamenta em outra exalta Deus. E muitas dessas diferenças estão presentes até hoje.

21 – Mas não existe hoje uma Bíblia que seja aceita como a mais fiel aos textos originais, tipo uma Bíblia aceita por todos como a mais correta?

Não, a palavra de Deus recebeu várias versões durante a sua publicação e não apenas isso, diferentes grupos cristãos tem diferentes Bíblias oficiais.

Para se ter uma idéia a igreja primitiva, formada pelos primeiros seguidores da mensagem de Cristo começou a apresentar mudanças na crença original desde o século V. Nos dias de hoje existem dezenas, se não centenas, de variações do cristianismo e cada um com diferenças fundamentais entre si.

Vamos olhar uma breve linha do tempo da igreja para entender um pouco essas variantes.

Com o Concílio de Efeso em 431 uma vertente se solidifica, os Noestorianos, que entre outras coisas acreditavam que Cristo era formado por duas pessoas distintas, uma humana e outra divina, dois entes completos e independentes. Essa doutrina surgiu na Antióquia e influenciou a Síria, ela foi proposta pelo monge Nestório por causa das disputas cristológicas que surgiram nos séculos III, IV e V. No Concílio de Éfeso criou-se uma disputa centrada fundamentalmente em torno do título com o qual se devia referir a Maria, se somente cristotokos (mãe de Cristo, a dizer, de Jesus humano e mortal), como defendiam os nestorianos, ou de theotokos (mãe de Deus, ou seja, também do Logos divino), como defendiam os partidários de Cirilo. Resolveu-se adotar como verdade de fé a doutrina proposta por Cirilo, concedendo a Maria o título de Mãe de Deus e os nestorianos foram considerados hereges.

Até hoje é possível encontrar nestorianos, que se propagaram pela Ásia Central, chegando até a China e que durante algum tempo influenciaram os mongóis. Atualmente subsistem as igrejas nestorianas (conhecidas, de uma forma geral, como Igreja Assíria do Oriente) na Índia e no Iraque, Irã, China e nos Estados Unidos, além de alguns outros lugares onde haja migrado comunidades cristãs dos países citados. A Igreja Assíria do Oriente teve um papel fundamental na conservação de antigos textos gregos que foram traduzidos para o siríaco (um ramo do arameu). Mais tarde foram traduzidos para o árabe e no século XIII para o latim. Além da Igreja Assíria do Oriente, existem atualmente várias denominações cristãs que são também fortemente influenciadas pelo nestorianismo. Exemplos destas denominações, que foram fundadas muito após a igreja Assíria, são os anabatistas, os cristadelfianos e os rosacrucianos.

Em 451 com o Concílio de Calcedônia surgiram as igrejas não-calcedonianas – também conhecidas como antigas igrejas orientais. Elas surgiram por se recusarar a aceitar a doutrina das “duas naturezas de Cristo” (ou união hipostática), decretada pelo Concílio de Calcedônia e aceitada pelos católicos e ortodoxos. São acusadas de serem monofisita apesar de se recusarem a aceitar esta classificação se descrevendo como miafisitas. Isto porque as Igrejas não-calcedonianas também acham que o monofisismo é herético.

Para equilibrar as doutrinas antitéticas do monofisismo e da união hipostática (ambas também não aceitas pelos ortodoxos orientais), estas Igrejas defendem que em Jesus há a parte humana e a parte divina, mas que estas duas partes se unem para formar uma única e unificada Natureza de Cristo. Eles acreditam que uma união completa e natural das Naturezas Divina e Humana em uma só Natureza é autoevidente, de maneira a alcançar a salvação divina da humanidade, em oposição à crença na união hipostática (onde as Naturezas Humana e Divina não estão misturadas, porém também não estão separadas) promovida pelas atuais Igrejas Católica e Ortodoxa, esta crença defendida pelos não-calcedonianos chama-se miafisismo.

Atualmente, existem cerca de 79 milhões de ortodoxos não-calcedonianos que são organizados em seis Igrejas nacionais autocéfalas e em várias Igrejas autônomas associadas às Igrejas autocéfalas:

– Igreja Apostólica Armênia;
– Igreja Ortodoxa Síria;
– Igreja Ortodoxa Copta ou Alexandrina (egípcia ou etíope);
– Igreja Ortodoxa Etíope;
– Igreja Ortodoxa Indiana;
– Igreja Ortodoxa Eritréia

Apesar de serem autocéfalas, isto é, independentes umas das outras, estas Igrejas estão ainda em comunhão total entre si, partilhando as mesmas crenças e doutrinas cristãs.

No século XI acontece aquilo que ficou conhecido como o Grande Cisma do Oriente, que causou a separação entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Católica Ortodoxa.

As tensões entre as duas igrejas datam no mínimo da divisão do Império Romano em oriental e ocidental e a transferência da capital da cidade de Roma para Constantinopla no século IV.

Uma diferença crescente de pontos de vista entre as duas igrejas foi causada pela ocupação do oeste pelos invasores bárbaros, enquanto o leste permaneceu herdeiro do mundo clássico. Enquanto a cultura ocidental se foi paulatinamente transformada pela influência de povos como os germanos, o Oriente permaneceu ligado à tradição da cristandade helenística. Era a chamada Igreja de tradição e rito grego. Isto foi exacerbado quando os papas passaram a apoiar o Sacro Império Romano no oeste, em detrimento do Império Bizantino no leste, especialmente no tempo de Carlos Magno. Havia também disputas doutrinárias e acordos sobre a natureza da autoridade papal.

A igreja de Constantinopla respeitou a posição de Roma como a capital original do império, além disso existia a oposição do Ocidente em relação ao cesaropapismo bizantino, isto é, a subordinação da igreja oriental a um chefe secular, como acontecia na igreja de Bizâncio.

Uma ruptura grave ocorreu de 456 a 867, tocada pelo patriarca Fócio que sabia que contribuía para aumentar o distanciamento entre gregos e latinos e usou a questão do filioque – uma expressão latina que significa “e do Filho”, que foi acrescentada pela igreja Católica Romana ao credo para explicitar que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho enquanto a Igreja Ortodoxa entende que o Espírito Santo procedeu apenas do Pai – como ponto de discórdia, condenando a sua inclusão no Credo da Cristandade ocidental e lançou contra ela a acusação de heresia. Além disso ela desconsidera a liderança papal.

Aqui vai uma lista das jurisdições que formam a igreja Ortodoxa:

– Patriarcado de Constantinopla
– Patriarcado de Alexandria
– Patriarcado de Antioquia
– Patriarcado de Jerusalém
– Patriarcado de Moscou
– Patriarcado da Geórgia
– Patriarcado da Sérvia
– Patriarcado da Roménia
– Patriarcado da Bulgária
– Igreja Ortodoxa de Chipre
– Igreja Ortodoxa Grega
– Igreja da Albânia
– Igreja da Sérvia
– Igreja Ortodoxa da Polónia
– Igreja das terras Checo-eslovacas
– Igreja Ortodoxa na América
– Igreja do Sinai
– Igreja da Finlândia
– Igreja da Ucrânia
– Igreja do Japão
– Igreja da China
– Igreja de Portugal

Já no século XVI acontece a Reforma Protestante, um movimento reformista cristão iniciado no século XVI por Martinho Lutero, que, através da publicação de suas 95 teses, protestou contra diversos pontos da doutrina da Igreja Católica, propondo uma reforma no catolicismo. Os princípios fundamentais da Reforma Protestante são conhecidos como os Cinco Solas:

1 – Sola fide: conhecida como Doutrina da justificação pela Fé, que afirma que é exclusivamente baseado na Graça de Deus, através somente da fé daquele que crê, por causa da obra redentora do Senhor Jesus Cristo, que são perdoadas as transgressões da Lei de Deus.

2 – Sola scriptura: significa “somente a escritura”, é o principio no qual a Bíblia tem primazia ante a Tradição legada pelo magistério quando os princípios doutrinários entre estas e aquelas forem conflitantes. Na Reforma, não se rejeita a Tradição, ela continua a ser usada como legitimadora para qualquer assunto omitido pela Bíblia.

3 – Solus Christus: a “salvação somente por Cristo”. Os protestantes caracterizavam os dogmas relativos ao Papa como representante de Cristo e chefe da Igreja sobre a terra, o conceito de mérito por obras e a idéia católica de um tesouro vindouro por causa das boas obras, como uma negação de que Cristo é o único mediador entre Deus e os homens.

4 – Sola gratia: “Somente a Graça”. A doutrina da salvação da Igreja Católica Romana seria uma mistura de confiança na graça de Deus e confiança no mérito de suas próprias obras, já a posição reformada é a de que a salvação é inteiramente condicionada a ação da graça de Deus, ou seja, só a graça através da regeneração unicamente promovida pelo Espírito Santo, em conjuto com a obra redentora de Jesus Cristo.

5 – Soli Deo gloria: “Glória somente a Deus”, é o princípio segundo o qual toda a glória é devida a Deus por si só, uma vez que salvação é efetuada exclusivamente através de sua vontade e ação. Não só o dom da expiação de Jesus na cruz, mas também o dom da fé, criada no coração do crente pelo Espírito Santo. Os reformadores acreditavam que os seres humanos – mesmo santos canonizados pela Igreja Católica Romana, os papas, e as autoridades eclesiástica – não eram dignos da glória que lhes foi atribuída.

Lutero foi apoiado por vários religiosos e governantes europeus provocando uma revolução religiosa, iniciada na Alemanha, e estendendo-se pela Suíça, França, Países Baixos, Reino Unido, Escandinávia e algumas partes do Leste europeu, principalmente os Países Bálticos e a Hungria. A resposta da Igreja Católica Romana foi o movimento conhecido como Contra-Reforma ou Reforma Católica, iniciada no Concílio de Trento.

O resultado da Reforma Protestante foi a divisão da chamada Igreja do Ocidente entre os católicos romanos e os reformados ou protestantes, originando o Protestantismo.

Foi por causa da reforma que surgiram outros grupos como:

– Os Anabatistas
– Pentecostais
– Adventistas
– Batistas
– Calvinistas
– Presbiterianos
– Congregacionalistas
– Puritanos Separatistas
– Metodistas
– Luteranos
– Pietistas
– Anglicanos

E cada uma com uma visão próprio da Mensagem de Deus e a meneira de utilizá-la. Por exemplo para os católicos a Bíblia é a fonte de fé, mas devia ser interpretada pelos padres da Igreja, a tradição Católica também é uma fonte de fé, assim como o Magistério da Igreja. Para os Calvinistas a Bíblia é a única fonte de fé e deve ser examinada por qualquer um livremente. Já para os Anglicanos a Bíblia é a fonte principal de fé mas deve ser interpretada pela Igreja (tradição) e então ela pode ser examinada livremente.

Além desses grupos principais cristãos durante a história surgiram outros grupos cristãos também:

Os Restauracionistas: que usam doutrinas surgidas após a Reforma Protestante cujas bases derrogam as de todas as outras tradições cristãs, basicamente tendo como ponto em comum apenas a crença em Jesus Cristo. A maioria deles não se considera propriamente “protestante” ou “evangélico” por possuirem grandes divergências teológicas. Nesta categoria estão enquadradas a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a Igreja Adventista do Sétimo Dia e as Testemunhas de Jeová, entre outras denominações. Quanto às Testemunhas de Jeová, embora afirmem ser cristãs, também não se consideram parte do protestantismo. As Testemunhas aceitam a Jesus como criatura, de natureza divina, seu líder e resgatador, rejeitando, no entanto a crença na Trindade e ensinando que Cristo é o filho do único Deus, Jeová, não crendo que Jesus é Deus.

O Cristianismo esotérico: que é a parte mística do cristianismo, e compreende as escolas cristãs de mistérios e sincretismo religioso. A este ramo pertence o Gnosticismo que é uma crença com raízes anteriores ao próprio cristianismo e que tem características da ciência egípcia e da filosofia grega. O Rosacrucianismo também se enquadra nessa vertente sendo uma ciência oculta cristã que ressalta as boas ações por meio da fraternidade.

O Espiritismo: que algumas vezes é contestado como sendo uma vertente do cristianismo. Os espíritas não acreditam que uma pessoa ou ser, como Jesus Cristo, pode redimir “os pecados” de uma outra, contudo para a maior parte dos adeptos do espiritismo a obra de Allan Kardec constitui uma nova forma de cristianismo, ou então um resgate do cristianismo primitivo, que não inclui os dogmas adicionados pela Igreja Católica em seus diversos Concílios. Inclusive, um dos seus livros fundantes é denominado de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Esse livro apresenta uma reinterpretação de aspectos da filosofia e moral cristã, crendo em parte na Bíblia Sagrada.

O Rastafarianismo: também conhecido como movimento rastafári ou Rastafar-I (rastafarai) é um movimento religioso que surgiu na Jamaica entre a classe trabalhadora e camponeses negros em meados dos anos 20, iniciado por uma interpretação da profecia bíblica.

Como vimos cada um desses grupos, apesar de terem crenças cristãs em comum, possuem muitas divergências em crenças fundamentais, como a natureza de Cristo, o poder dado por Cristo a seus apóstolos, a fundação de uma igreja, etc… e isso acaba afetando a maneira como interpretam a Bíblia, os livros da Bíblia que são aceitos como realmente inspirados por Deus e a maneira como passam a Bíblia adiante.

E isso chega a afetar inclusive os textos de livros da Bíblia que são aceitos por todos. Para se ter idéia, alguns grupos acreditam que a Bíblia deveria ser não apenas passada a diante, mas ser atualizada com termos novos e atuais, um bom exemplo disso é a Bíblia Viva, editada no Brasil pela Editora Mundo Cristão. Ela foi considerada uma das traduções mais bem sucedidas do século XX pela revista Christianity Today. Kenneth N. Taylor ao invés de traduzir palavra por palavra resolveu traduzir “conceito por conceito”. Para ele não fazia sentido um texto como: “A criança de peito brincará sobre a toca da áspide e o já desmamado meterá a mão na cova do basilisco” e assim temos o trecho nesta Bíblia hoje como: “Criancinhas brincarão perto de cobras e não serão picadas, mesmo que enfiem a mão nas suas covas”.

Assim, mesmo a Vulgata de Jerônimo, que já buscava unificar os textos sagrados, acaba sendo traduzida e adaptada para termos correntes e locais, assim em 500 d.C. já haviam mais de 500 traduções diferentes. E lembre-se ainda das versões da Vetus Latina e da Septuaginta que surgiam e eram usadas.

Assim cada grupo novo que surgia não apenas encorajava mudanças nos textos aceitos – os católicos tem em sua versão da Bíblia os Deuterocanônicos, os protestantes não, os gnósticos usam os textos apócrifos, alguns grupos, mesmo Cristãos, rejeitam o Novo Testamento, outros rejeitam o antigo Testamento já que Cristo veio trazer uma nova aliança e a antiga não era mais necessária.

Para se ter uma idéia do quanto essas traduções afetaram a Bíblia, Thomas Linacre depois de ler os evangelhos em grego e os comparar com a versão da Vulgata em 1490, disse: “Ou isto (o texto grego original) não é o Evangelho… ou nós não somos cristãos”. Mostrando a corrupção das traduções para o Latim. De novo, isso não se devia exatamente a um plano da igreja de manipular a Bíblia, mas à maneira com que a Bíblia atravessava as eras. Quando os antigos copistas reproduziam os livros, reescreveendo-os integralmente à mão eles deixavam notas de rodapé sempre que percebiam que haviam cometido algum erro, principalmente no caso de terem omitido uma palavra ou mesmo uma linha do texto original. Quando escribas de um período posterior começavam a copiar essas cópias muitas vezes deixavam essas notas de rodapé de lado, não corrigiam o texto do livro (seria um pecado enorme um mero copista incluir em uma reprodução algum texto que não estivesse no original) e também deixavam de lado as notas que apontavam os erros que eram percebidos durante o processo de reprodução.

A primeira versão em inglês da Bíblia foi feita por John Wycliffe em 1380, ele era um professor de Oxford, um estudioso e teólogo. Wycliffe era conhecido também por se opor aos ensinamentos da igreja, os quais ele acreditava serem exatamente o oposto daqueles pregados pela Bíblia. Com a ajuda de seus seguidores, chamados de Lollardes, e de seu assitente Purvey, associados a inúmeros copistas ele conseguiu produzir dúzias do manuscrito em inglês. Eles foram traduzidos direto das Vulgatas em latim, que eram as únicas fontes da Bíblia disponíveis na época. O Papa ficou tão furioso com essa ousadia que 44 anos após a morte de Wycliffe mandou desenterrar seus ossos, esmagá-los, então moê-los para atirar o que restasse deles no rio.

Ainda no século XV surge uma versão Hussita da Bíblia e em 1478 uma versão em catalã escrita com o dialeto de Valência. Todas elas versões proibidas pela igreja católica.

Em 1496 John Colet decide traduzir partes do Novo Testamento do Grego para o inglês para repassá-las a seus alunos e mais tarde para os freqüentadores da Catedral de São Paulo em Londres. Nesta época as pessoas tinham tamanha ânsia em ouvir a Palavra do Senhor em sua língua nativa – já que eram muito poucos os que entendiam Latim – que em seis meses o público que entrava na Igreja para ouvir a missa ultrapassava as 20.000 pessoas e um número igual se acotovelava do lado de fora tentando entrar, comparando com os dias de hoje apenas 200 pessoas costumam estar na igreja presente para o culto e a grande maioria é composta por turistas.

Em 1516 a Froben Press publicou uma versão em grego do Novo Testamento editado por Desiderius Erasmus, que reconstruiu o texto grego recombinando vários manuscritos bizantinos com traduções do texto da Vulgata, do latim para o grego novamente, quando os textos que tinha em mãos não estavam completos. Essa sua versão da Bíblia possuiu 4 edições posteriores. A publicação de Erasmus foi a primeira versão das escrituras que não derivava da Vulgata que surgia em mil anos e a primeira tradução dos originais a ser impressa. Além disso o alerta dado por sua versão do Novo Testamento era o de o quanto a Vulgata havia se afastado dos textos originais e daí a importância de uma versão da Bíblia que fosse traduzida do hebraico original e do grego original.

Em 1530 surge a primeira versão francesa, traduzida por Lefèvre d´Étaples e publicada na Antuérpia. Em 1531 aparece a Bíblia Froschauer, conhecida também como a Bíblia de Zurique, traduzida por Huldrych Zwingli, contendo mais de 200 ilustrações (as traduções de porções de textos Bíblicos traduzidos para o alemão mais antigas existentes hoje datam dos anos 311 a 380, e foram feitas direto do grego).

Com a reforma protestante começaram a surgir as principais diferenças de tradução e de apresentação da Bíblia. Lutero e companhia já defendiam a livre consulta há pelo menos 60 anos. Mas vale uma ressalva aqui. Inicialmente a proposta não era que qualquer pessoa pegasse o livro e fundasse sua própria igreja, mas sim tirar o poder da interpretação como sendo uma exclusividade do sacerdócio católico e passá-la também ao clero alemão. A idéia era que a Bíblia poderia ser compreendida por qualquer pessoa com estudo e não apenas pelos membros do clero romano. Seis décadas foram mais do que o suficiente para o primado de Pedro se organizar na chamada Contra Reforma.

O jogo de poder agora estava entre o Papa e as monarquias nacionais. Cada país possuía seu próprio intelectual protestante que fazia a parte de autoridade erudita enquanto os seus respectivos reis acumulavam o poder político. A sociedade passou por grandes mudanças e o mesmo aconteceu com nosso livro sagrado. Em 1560 muitos destes líderes protestantes estavam refugiados na Suíça se escondendo dos olhares severos dos inquisidores. Juntos, criaram a primeira “Bíblia de Estudos” que serviria de modelo para quase todas as bíblias impressas posteriormente.

Bíblia de Genebra foi a primeira edição onde a hoje consagrada divisão em versículos foi usada. Foi um salto de gigante na evolução pedagógica da Bíblia pois permitiu uma notação de referências precisas de onde encontrar esta ou aquela passagem. A partir dai o sermão da montanha não estaria “em algum lugar do livro de Matheus” mas sim precisamente em Mt 5:1 ~ 7:29. Além disso a Bíblia de Genebra trouxe outras inovações importantes como suas incontáveis notas de rodapé contendo a visão protestante dos textos antigos e a primeira lista de referências cruzadas de que se tem notícia. Com estas ferramenta novas relações puderam ser feitas entre os vários livros já pertencentes ao Canon, e isso fortaleceu o protestantismo como movimento social. O resultado disso foram Bíblias onde a tradução fidedigna deu lugar a uma cristalização do cristianismo dominante de hoje. Diversas palavras que sequer poderiam ter sido usadas na época em que os livros foram escritos foram adicionadas ao livro sagrado: homossexualismo, espiritismo e médiuns são alguns dos exemplos.

Este novo movimento de reformulações da Bíblia, não apenas traduzindo-as para as línguas nativas dos diferentes países, mas também de buscar traduções mais coerentes e fiéis aos textos originais deu origem a inúmeras novos livros. Uma versão polonesa conhecida como Bíblia Brzeska é publicada em 1563.

Após a Bíblia de Genebra houve a necessidade de uma nova versão da Bíblia, que não atacasse de maneira tão veemente a igreja enquanto instituição e assim publicaram a Bíblia dos Bispos (Bishop’s Bible), que apesar de ter tido alguma aceitação, nunca foi páreo para a Bíblia de Geneva em termos de aceitação popular.

Em 1584 tanto o Novo quanto o Antigo Testamento foram traduzidos para o Esloveno pelo teólogo protestante Jurij Dalmatin, tornando os Eslovenos a décima segunda nação a ter uma Bíblia completa em sua própria língua.

Com essas versões em inglês da Bíblia, a própria Igreja Católica desistiu, em 1582, da regra de só haverem Bíblias em latim e assim deram início à preparação de uma versão oficial da Bíblia aprovada pela igreja católica em Inglês – a primeira tradução oficial das Escrituras Sagradas, um projeto compatível com a criação da Vulgata por Jerônimo mais de mil anos antes. Assim, tendo como base o texto corrupto em latim, eles criaram a versão que ficou conhecida como O Novo Testamento de Rhemes. Seguido pela Publicação do Antigo Testamento de Douay. A Bíblia resultante ficou conhecida como a versão Doway/Rhemes.

Em 1589 o Dr. William Fulke, de Cambridge, publicou o livro conhecido como a Refutação de Fulke, no qual colocava em colunas paralelas passagens da Bíblia dos Bispos e da Versão Rhemes, para mostrar como a Bíblia Católica continha textos cujas traduções estavam erradas, baseadas num latim que por si só já continha muitos erros.

Neste período morre a Rainha Elizabeth da Inglaterra e James I ocupa seu lugar no trono. O clero protestante então declara ao rei o seu desejo de uma nova tradução da Bíblia para substituir a Bíblia dos Bispos, impressa em 1568. Eles sabiam que a Bíblia de Geneva havia consquistado o povo inglês, mas queriam uma versão da Bíblia que fosse tão bem construida, com o mesmo cuidado e esmero, mas sem as notas de rodapé controversas – como as que afirmavam que o papa era o anticristo e outras semelhantes – ou seja, queriam uma bíblia para o povo com referências para as escrituras mas apenas com significados de palavras e um guia de referências cruzadas, nada que atacasse a igreja e seus membros.

Assim surge a Bíblia do Rei James, impressa pela primeira vez em 1611, que ficou conhecida como “a tradução para acabar com todas as traduções”. A Bíblia do Rei James levou mais de duas décadas para se tornar mais popular do que a versão da Bíblia de Genebra e isso se tornou algo que pode ser visto como uma das grandes ironias da história, já que muitas igrejas protestantes de hoje fazem uso da Bíblia do Rei James afirmando que ela é a única tradução dos textos sagrados para inglês considerada legítima, mas ela nem é uma tradução protestante! Ela foi impressa para competir com a Bíblia protestante, a Bíblia de Geneva, e foi encomendada e desenvolvida por autoridades que não gostavam dos Protestantes, que os perseguiam e matavam-nos, a Igreja Anglicana.

E a partir do século XVII os jesuítas se tornam responsáveis pela tradução da Palavra em inúmeras línguas do Novo Mundo.

Agora voltando os olhos para nossa língua, os primeiros registros de trechos da Bíblia para o portugês remontam ao final do século XIII, um trabalho creditado a Dom Dinis. Mas o principal responsável pela tradução de toda a Bíblia para o português foi João Ferreira de Almeida que iniciou o trabalho em 1644, quando contava com 16 anos, e prosseguiu até sua morte, em 1691, tendo traduzido todo o Novo Testamento e grande parte do Antigo Testamento, as partes que faltaram foram posteriormente traduzidas pelo pastor presbiteriano Jacob Akker, tendo sido publicada pela primeira vez em 1753 depois de alguns tropeços. Já no ano 2000 a Sociedade Bíblica Internacional editou O Livro, uma tradução dos dialetos europeus e foi concluída a Nova Versão Internacional.

Estes três trabalhos de tradução para o português ilustram bem como a revisão e constante tradução, mesmo que de uma fonte original podem criar diferenças básicas num texto, vejamos o exemplo do trecho João 3:16:

Tradução João Ferreira de Almeida
Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

Tradução O Livro
Deus amou tanto o mundo que deu o seu único Filho para que todo aquele que nele crê não se perca espiritualmente, mas tenha a vida eterna.

Tradução NVI
Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.

Vale notar que tanto a tradução d’O Livro e da NVI foram realizadas pela mesma editora, a International Bible Society.

Outro exemplo é a versão da Bíblia das Testemunhas de Jeová, onde quase todas as palavras que se referem a Deus como Senhor, Deus, Criador, Pai, etc, foram substituídas pelo nome Jeová, foram mais de 7000 alterações no texto. A idéia é mostrar que se existem 7000 menções ao nome Jeová este é realmente o nome de Deus. O problema é que nos textos originais da Bíblia esse nome não aparece uma única vez, ele seria uma adaptação da palavra JHVH que surge na Tanakh, essa mesma palavra que quando provida de vogais também orgina outros nomes como Javé, Iavé, etc. Nem é preciso dizer que essa mudança é considerada por muitos como uma mutilação da Palavra de Deus, mas para os Testemunhas essa mudança é o texto correto e o aceito.

Assim podemos ver que de fato não existe uma versão aceita universal, uma tradução “correta” ou um concenso geral. Em determinadas épocas surgiam aqueles que pegavam para si o trabalho de traduzir, adaptar ou reorganizar os textos, e muitos desses trabalhos eram clandestinos e depois aceitos pelo público geral, por esse motivo acabaram se criando versões muito sólidas e muito difundidas, mas diferentes entre si.

22 – Mas então a Palavra de Deus é um samba do crioulo doido! Não é mais simples voltarem aos textos mais antigos e originais e tentarem chegar a um concenso, para que a Palavra seja universal e haja uma única Bíblia como os judeus e os cristãos originais queriam?

Veja, ai esbarramos no problema da Fé e da Crença. É indiscutível que todas essas pessoas citadas acima acreditavam e acreditam em Deus. Desde Judeus até Rastafaris, passando por Mórmons, Espíritas e muitos outros. E por mais cínicos que tentemos ser não podemos afirmar que todos os que se envolvem com a Bíblia apenas querem enriquecer e controlar as massas. Mas a coisa complica quando uma crença específica acha que a maneira dela é a única correta, a única verdade que leva a este Deus.

Hoje achamos que as inquisições caçavam bruxos e feiticeiras e que as guerras religiosas buscavam os pagãos e pessoas que cuspiam na cruz. Mas isto não é verdade, não completamente. Essa máquina de busca, apreensão e destruição era o resultado de diferentes grupos cristãos brigando entre si. Se um grupo achava que Cristo era um profeta, mas não era Deus encarnado, o pessoal que acreditava na história do Deus encarnado se ofendia e ia tirar satisfações. Invariavelmente o grupo mais forte falava mais alto e para se manter no caminho daquilo que julgavam ser a verdade estavam dispostos a exterminar quem julgassem estar trazendo a discórdia e a mentira para o próprio meio. Grupos Cristãos que tinham uma visão diferente do grupo principal e eram mais fracos (tinham menor número de seguidores e menos recursos para atacar ou se defender) eram chamados de hereges, recebiam a chance de abrir mão da própria crença e adotar uma nova. A maioria nem sonhava com isso, já que o Cristianismo ainda tem o diferencial de atrair pessoas com um gosto para se tornarem mártires, acreditando que morrer pela própria fé apenas consolida esta fé como sendo a mais real de todas. E assim grupos cristãos inteiros foram erradicados por outros grupos cristãos. Este é mais ou menos o resumo da história para a formação do que na Idade Média se tornou o Cristianismo aceito, ou heterogêneo e que depois com a reforma e as divisões da igreja voltou a ser um cristianismo plural.

E até hoje existe uma rixa acirrada entre os grupos existentes. Protestantes chutam santas católicas. Anglicanos criticam protestantes mas dizem que os católicos exageram na sua vontade de dominar o mundo. Católicos dizem que todos tem boa vontade mas estão errados. E no fundo o que parece é que se esquecem do Deus em que acreditam para discutir quem tem o melhor carro e o mapa correto para chegar no Paraíso.

E isso cria um impasse. Um grupo já com tradição não vai ceder sua crença para aceitar uma nova corrigida é o mesmo que assumir que por tanto tempo ele esteve meio que no caminho errado. E um católico dificilmente aceitaria se colocar no mesmo nível de um Testemunha de Jeová (seja lá qual for esse nível, se é que ele existe) e um protestante diria que só aceitaria uma mesma crença se os católicos parassem com essa besteira de Papa e de Santos e Nossa Senhora.

Assim dificilmente surgiria uma versão nova e original aceita por todos, ironicamente, talvez, uma versão assim seria aceita mais por céticos, estudiosos e simpatizantes do que pelos religiosos.

E isso porque não falamos de outro ponto interessante que dificulta a criação de uma versão única do texto.

Quando falamos em Jesuítas desbravando o mundo e levando a palavra de Cristo, muitos imaginam caravelas, índios e negros contrabandeados, fogueiras e colonizadores. Mas a verdade é que o processo de cristianização está a pleno vapor hoje em dia e parece que cada grupo cristão aceitou o desafio não apenas de levar a Palavra de Deus para todos, mas de levar a sua própria versão da Palavra de Deus.

Vejamos três exemplo que fogem da imagem que temos dos principais grupos cristãos – católicos e protestantes.

As Testemunhas de Jeová possuem adeptos em mais de 236 países e territórios autônomos, com mais de sete milhões e trezentos mil participantes. Segundo o anuário das Testemunhas de jeová de 2010 nos últimos dez anos mais de dois milhões e setecentos mil pessoas foram batizadas nesta crença em particular, uma média de cinco mil pessoas por dia. Além dessas pessoas, atire a primeira pedra aquele que nunca acordou num domingo de manhã com uma dupla de terno tocando a campainha com uma bíblia debaixo do braço, ou pelo menos que não conhece alguém que passou por isso.

E todas essas pessoas, junto com os simpatizantes da crença – que em 2009 foram contabilizados na casa dos dezoito milhões de pessoas – acabam aceitando a versão das Testemunhas da Bíblia.

Além deles existe uma organização, formada em 1899, conhecida como Gideons International (os Gideões Internacionais) que decidiram distribuir a Palavra para o mundo todo, para que todos tivessem acesso, a ideia original foi a de traduzir a bíblia para 80 línguas e atingir pelo menos 190 países, muitos deles já possuíam a bíblia em sua língua nativa, mas mesmo assim se fizeram novas traduções para se distribuir. Assim os Gideões começaram a distribuir bíblias de graça e com isso conseguiram, por exemplo, que nos Estados Unidos cada quarto de hotel ou motel tivesse uma bíblia em seu criado mudo – as pessoas que já assistiram Missão Impossível com Tom Cruise devem se lembrar do momento em que ele precisa de uma bíblia e simplesmente abre uma gaveta e lá está ela. Além disso eles tem o trabalho de distribuir suas versões da Bíblia em hospitais, asilos, prisões, exército e em escolas – que ironicamente são lugares onde as pessoas em sua maioria preferiam não estar.

Até o ano de 2007 mais de um bilhão e quintentos milhões de Biblías haviam sido distribuídas por eles. Cada uma, a versão dos Gideões do texto sagrado, antigamente a tradução da Bíblia do Rei James e hoje em dia a tradução da Nova Bíblia do Rei James.

Outro grupo são os Mórmons, também cohecidos como a Igreja de Jesus Cristo dos Últimos Dias, que surgiram na década de 1830. Em 2007 a igreja registrou o número de treze milhões e quinhentos mil de mebros ao redor do mundo, com mais de um milhão aqui no Brasil. Os Mórmons além da Bíblia seguem o livro conhecido como “O Livro de Mórmon, um outro testamento de Jesus Cristo”, que segundo a igreja, é um volume de escrituras sagradas com um propósito semelhante ao da Bíblia e da teologia e é considerado por seus membros como a pedra fundamental de sua religião. É uma história de comunicação de Deus com os antigos habitantes das Américas. A história começa 600 anos a.C, quando Deus ordenou que um profeta chamado Leí deixasse Jerusalém com sua família e rumassem todos para uma terra da Promessa: As Américas. Depois de Leí, o Senhor chamou outros profetas, como Néfi, Mosias, Helamã, entre outros. Mórmon foi um desses profetas.

A religião cresce e também há pregação, como os Testemunhas de Jeová.

Assim temos grupos espalhando milhões de versões da Palavra por ano, e isso cria um quadro onde de um lado existem pessoas já familiarizadas com a Bíblia – ou ao menos a versão aceita por sua crença – e de outro pessoas que não estão tão familiarizadas com a bíblia. E a base que a grande maioria das pessoas que entram em contato com todos esses evangelistas e catequisadores tem é de que:

1- Existe um Deus.

2- Essas pessoas estão distribuindo a Bíblia, que é a Palavra de Deus.

Dificilmente saberiam que aquela é uma das versões e que existem outras, muitas vezes com textos muito diferentes e significados que chegam a ser opostos uns aos outros.

Desta forma não só é dificil a aceitação de uma Biblia única como a cada dia mais e mais versões diferentes são divulgadas e com a sinceridade daquele que a distribui de ser a única Palavra correta.

E ainda existe uma questão interessante aqui: e quem pode julgar que versão está correta ou não? Da mesma forma que Deus e o Espírito Santo divulgaram a Palavra a primeira vez, como julgar que diferentes versões não foram inspiradas pela mesma fonte? Deus descansou no sétimo dia ou se aposentou da empresa que Ele criou e caiu fora dela? É difícil afirmar, se é que não é impossível. Assim se acreditamos que a Bíblia é de fato a Palavra, como podemos julgar qual delas é a correta ou mesmo se alguma delas pode ser apontada como uma versão errada?

23 – E essa loucura não vai acabar?

Vejamos. Por um lado temos cada dia mais acesso a informações que deveriam servir como base para corrigir erros históricos das coisas, a Bíblia seria uma delas. Com o material que existe hoje, desde os famosos textos do Mar Morto a grupos de arqueologia bíblica, deveriam haver meios de tornar a Bíblia em si mais factível, mais alinhada com fatos que já foram comprovados. Mas de novo isso provavelmente interessaria apenas a estudiosos e curiosos. Existem hoje cristãos que apresentam uma curiosidade digna da afirmação de Cristo: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” Mesmo assim são indivíduos e grupos pequenos, não tem o tamanho ou a influência necessária para se cria ruma nova versão das Escrituras ou talvez nem tenham a vontade de mudar as escrituras, apenas aprender os novos fatos.

Por outro lado cristãos e judeus tem um histórico de quando mais apanharem em nome da própria crença parece que mais certeza eles tem de estarem no caminho certo, então negar mesmo as evidências pode dar um ar de “não importam o que digam, minha crença é tão correta que eu não abro mão dela nem para o que aparenta ser o bom senso”.

Então não dá para dizer exatamente se essa zona vai continuar ou se a tendência é que todas essas pessoas comecem a buscar não apenas um livro impresso, mas a verdade comprovada por trás deste livro. Como dissemos no começo deste texto, originalmente o objetivo da Bíblia era que as pessoas se mantivessem fieis a Deus e seus Mandamentos e Leis, mas com o tempo a Bíblia se tornou um rótulo e hoje esse rótulo é defendido com unhas e dentes.

Mas acreditamos ser possível supor algumas probabilidades sobre o que seria o futuro da Bíblia.

Como vimos os grupos principais de Cristãos ainda esperam a segunda vinda de Cristo, alguns grupos não tão famosos acreditam que ele já voltou e existem aqueles que não acreditam que ele voltará. Assim, mesmo que existam por ai livros de novos profetas e novas palavras da segunda vinda de Cristo, no mainstream os profetas estão quietos há milênios e o Messias não retornou.

Umas das possibilidades é que surjam novos grupos cristãos e novas versões da Bíblia. Existem sempre aqueles que buscam os textos o mais próximos do original o possível. Bíblias multilingues com os originais em hebraico e grego são populares, o problema óbvio disso é que dificilmente a grande parte dos religiosos tem acesso a essas línguas e isso torna essas bíblias curiosidades. Existem versões ainda com quatro linguas e cinco linguas. Hebraico, Grego, Latim (inglês) e português. Mas de novo a grande maioria acaba contando apenas com a coluna em português (ou na sua língua natal) para ler o texto, já que hebraico e grego não possuem nem mesmo as mesmas letras que o alfabeto latino.

A tendência é que essas Bíblias acabem se aperfeiçoando trazendo pequenos glossários para tirar a dúvida de termos ambiguos ou mesmo apontando a direção certa em termos culturais e históricos de quando os textos foram escritos. Mas essas edições costumam ser caras, não dá para apostar que se tornem populares comparadas as bíblias distribuídas de graça.

Então a questão não se foca tanto na acuidade do texto em si, mas na popularidade daqueles que divulgam tais textos e na acessibilidade que eles tem, quanto mais baratos melhor, se estiverem disponíveis de graça, Amém. Existe a chance de surgirem grupos cristãos que tentem se aproximar mais das formas primitivas e originais dos textos e então trazê-los para o presente, mas eles só se tornariam maioria caso sua popularidade fosse maior do que a dos cristãos “concorrentes”. Então o futuro da Bíblia estaria ligado de novo a mensageiros e não à Palavra em si.

A internet talvez ajude a popularizar para um grupo grande novas versões e uma outra possibilidade é o surgimento de “meta” bíblias, ou seja, textos que sejam interpretados por indivíduos não ligados à igreja e assim vários interessados podem julgar que textos teriam mais coerência, mas de novo isso fugiria a uma unidade e acabaria estando preso à erudição de cada pessoa que poderia julgar que mesmo que tal versão fosse de alguém famoso ela tem passagens estranhas que são melhores ser deixadas de lado.

Talvez uma resposta que apontasse a uma direção certa seria a que o movimento Jesus Freak prega em seu manifesto, uma forma de cristianismo não presa em palavras, mas no exemplo deixado por Cristo, claro que isso não afetaria muito a Bíblia e suas variantes, apenas a relação de cada um com o texto.

Manifesto Jesus Freak

1 – Nós propomos que, seguindo o exemplo de Jesus Cristo, não nos deixemos limitar pela religião. Os primeiros inimigos de Cristo foram os altos sacerdotes do Templo. O primeiro amigo de Cristo foi um louco que gritava no deserto.

2 – Nós propomos que as Escrituras são a mais alta autoridade cristã. Portanto devemos nos esforçar para compreendê-las muito mais do que nos esforçamos para aceitar a forma que nossos ancestrais a compreenderam. O mundo dos homens muda a cada instante. O mundo de Deus permanece o mesmo para sempre.

3 – Nós propomos que cada cristão tenha o mesmo credo essencial de Paulo de Tarso, Francisco de Assis, Martinho Lutero, William J. Seymour, Martin Luther King e ainda assim sejam livres para expressar sua fé de sua própria maneira especial, assim como o fez cada um destes cinco homens.

4 – Nós propomos que ninguém tem o direito de dizer quem que uma pessoa não será salva em Cristo, uma vez que a hora cabe ao Pai e a salvação cabe ao Filho. Assim, ainda que o próximo viva em escândalo você não deve se escandalizar.

5 – Nós propomos que os livros de orações sejam deixados de lado por um tempo. Talvez seja difícil usufruir de nossa liberdade de expressão em um primeiro momento, mas seremos recompensados com uma relação mais intima e próxima com Deus. Por muito tempo temos usado de maneira pobre o nosso missal. É hora de orarmos mais e irmos menos à missa.

6 – Nós propomos que devemos nos preservar um pouco dos hinários e livros de salmos. Eles são lindíssimos, mas nossa mente precisa respirar e perceber que está vivendo em uma época nova e radiante. Devemos compor novas músicas com novas letras, que sejam atuais e de acordo com nossa época. Não existe nenhum problema em cantar as glórias antigas, mas há uma infinidade de glórias novas aguardando e clamando para serem cantadas.

7 – Nós propomos nos libertarmos da arquitetura do passado criando novos espaços para nossos cultos. Derrubemos as igrejas e templos para não haver mais a separação entre irmãs e irmãos, entre crentes e ateus, entre humanos e resto da criação. Chamemos de volta a todo aquele que expulsamos de nossas igrejas: os infieis e os piores pecadores! A Casa de Deus não é uma casa de desespero. Chamemos todos de volta, ainda que continuem pecando para sempre.

8 – Nós propomos que descubramos como os avanços tecnológicos de nossa época podem ser usados para a glória de Deus. “Frutificai e multiplicai-vos” nunca foi um desejo ligado única e exclusivamente ao sexo. “Eis que saiu o semeador a semear” nunca foi restrito as praças públicas. Deus nos presenteou com tecnologias que nossos antepassados sequer sonharam poder existir. Está na hora de aceitarmos essa graça e fazer bom uso dela. Vamos organizar oficinas e mostrar como a arte e a ciência podem fazer parte de nossas festas e nossos exercicios de contemplação.

9 – Nós propomos o uso do intercâmbio cultural para enriquecer nossa literatura litúrgica com materiais até então ignorados por nossos cultos tradicionais. Há uma abundância de sabedoria e beleza nos textos considerados apócrifos pela igreja medieval, nas escrituras sagradas de outras crenças e mesmo na poesia secular que podem e devem ser usados em nossa liturgia para atingirmos um propósito estético superior ao atual.

10 – Nós propomos que em um mundo dominado pela mídia onde o uso da imagem supera o do texto, os cristãos devam fazer uso das figuras mais fortes, corajosas e chocantes possíveis. O cinema, a televisão e mesmo intervenções urbanas devem ser usados. Não há lógica em mostrar o caminho, a verdade e a vida usando imagens piegas, meia luz e baixa resolução.

Notas:

[1] Abrahâmico faz referência a crenças que se originaram da revelação divina de Abrahão como o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo.
[2] Aqui Igreja tem a conotação de igreja primitiva, uma igreja não organizada, eram grupos de pessoas que seguiam a mesma crença mas sem uma instituição formada ainda.

Por Rev. Obito para o movimento Jesus Freak


Sentindo-se freak? Conheça Jesus Freak: o Guia de Campo para o Pecador Pós-Moderno


 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-evolucao-da-biblia-da-boca-de-deus-ate-as-cabeceiras-dos-moteis/