O que Sócrates não disse

Para Cármides, Sócrates diz que se tornou um xamã durante a batalha de Potidéia, quando ainda era um jovem soldado grego [1]. Para a grande maioria dos estudiosos, entretanto, não é crível que Sócrates tenha passado por uma iniciação espiritual em meio à guerra. Tais coisas, supõe-se, não teriam como ocorrer nesse tipo de ambiente. Será mesmo?

No Banquete, Alcibíades relata, talvez, o êxtase socrático de maior duração, 24 horas ininterruptas de transe: Sócrates imóvel, insensível às exigências normais do corpo e a tudo o que ocorre em torno dele, totalmente ausente. Ora, mas Alcibíades era um companheiro de Sócrates na batalha da Potidéia, e tal relato se refere à experiência mística socrática bem no meio da guerra!

Dizem então, os estudiosos, que o xamanismo socrático é nada mais que uma metáfora: Sócrates é capaz de curar a alma pela palavra, assim como os xamãs curam por seus encantamentos. Na verdade, os estudiosos tem razão em dizer que Sócrates curava a alma pela palavra, mas isto não é somente uma metáfora: é a essência da magia. Sócrates era, portanto, um xamã, um feiticeiro, exatamente porque sabia “curar pela palavra”.

Nem tudo que o homem com olhos de touro experienciava em seus êxtases podia, no entanto, ser dito… Conta-nos Alcebíades que, após um dia em transe na Potidéia, Sócrates volta a “realidade normal”, faz uma prece ao sol, e depois age normalmente, como se absolutamente nada tivesse transcorrido. Essa maneira de retomar contato com a realidade ordinária denota o caráter místico da experiência. Mesmo o destinatário da oração, o sol, indica uma relação de Sócrates com a natureza e os elementos que não provém da religião grega clássica [2].

Esta iniciação xamãnica tampouco foi o único êxtase socrático. No caminho para a festa organizada por Agatão no Banquete, Sócrates estava a seguir com outro convidado, Aristodemos, mas durante o caminho “isola-se em seus pensamentos” e fica para trás. Aristodemos chega sozinho a casa de Agatão, que envia um criado para buscar Sócrates. O escravo o encontra de pé, sobre o pórtico da casa vizinha, mas o filósofo não responde aos seus chamados. Aristodemos explica que é inútil insistir: o fenômeno é habitual em Sócrates; isso se apodera dele em qualquer lugar, mas após um tempo ele acaba por retornar. Os outros não esperam por “seu retorno a esta realidade”, e quando Sócrates “chega”, já estão no meio da refeição.

Hoje em dia um sujeito como Sócrates seria taxado de “completamente lunático”, mas em sua época foi conhecido como um dos homens mais sábios de toda Grécia, ou pelo menos entre os seus seguidores e amigos, que como sabemos não foram poucos; e podemos contar dentre eles alguns dos maiores filósofos da história do Ocidente. Porque, afinal, seguiam aos ensinamentos, a “palavra xamãnica”, de um “homem louco”?

Pode-se questionar, claro, se o transe socrático se impunha à força, ou se Sócrates tinha como escapar dele. Não temos, é evidente, uma resposta precisa. Talvez Sócrates, sentindo vir o êxtase, não pudesse evitá-lo, talvez considerasse esse estado tão superior às convenções sociais que achava absurdo privar-se dele. Apesar disso, de acordo com os relatos dos livros de Platão, Sócrates não parece ter “o controle da situação”: é arrebatado sem ter desejado nem previsto, por vezes, literalmente, no meio da estrada.

É evidente que gostaríamos de saber o que vivenciava o sábio grego durante esses longos arrebatamentos, que visões lhe poderiam ser oferecidas, que conhecimento tiraria delas. Quando chegou ao banquete, Agatão lhe pediu para que ele tomasse o lugar a seu lado, e lhe contasse sobre “as descobertas” que acabara de fazer. Mas Sócrates esquiva-se, e encerra o incidente com uma ironia: “Basta estar perto de um sábio para participar de sua ciência, e vou pôr-me ao lado de ti, que acabas de obter tal sucesso com [a análise da] tragédia”. Agatão não se engana, sabe que nada mais vai saber acerca do “incidente”.

Em realidade, ninguém ousava insistir nestes questionamentos… Um pudor compreensível diante do inconcebível. Não se fala dessas experiências, pois estão ligadas ao incomunicável, ao que nem a “palavra mágica” de Sócrates era capaz de dar conta. Esse saber, a sophia, não passa de um espírito para o outro, é um conhecimento que não se transmite e do qual Sócrates jamais se refere diretamente.

O encantador ateniense teve a honestidade de não explorar seus êxtases para apresentar-se como detentor de saberes divinos, o que significa que jamais pretendeu transmitir uma revelação ou um conhecimento “superior”. Paradoxalmente, afirmam outros estudiosos, vê-se Sócrates sempre repetir que “nada sabe”.

Mas a verdadeira questão em jogo é: “nada sabe em relação ao que?”. Vemos no pensamento socrático inúmeras referências aos mitos antigos dos reinos das almas [3], embora ele certamente jamais afirme “ter alguma certeza em relação a isso”. Mesmo ao ser condenado a morte, se pergunta “se estaria em situação melhor ou pior do que aqueles que ficariam do lado de cá”. Mas se a morte não fosse nada, no entanto, ele nada teria de se preocupar, afinal… Sócrates, porém, parecia se lembrar, parecia saber de algo que poucos homens na história compreenderam. No relato de sua morte, todos os seus amigos próximos estavam aos prantos, e ele parecia tratar a ocasião como “algo trivial” ou, quem sabe, apenas mais um de seus êxtases a se aproximar – só que este seria mais longo.

Aquele que se julga “normal” não encontra outra alternativa que não julgar Sócrates como “um louco”, da mesma maneira que muitos céticos de hoje em dia julgam as práticas místicas “uma loucura coletiva”. Mas, afinal, o que seria exatamente esta loucura em que as pessoas podem “entrar e sair”, e depois disso seguirem com suas “vidas normais”, sem terem nenhum tipo de incapacidade mental relacionada à prática em si? Sócrates foi um soldado, serviu bem sua pátria, e depois tornou-se um sábio, um filósofo, e encantou aos jovens, e enfeitiçou ao pensamento ocidental, muito embora pudesse muito bem ser julgado, segundo os padrões da “normalidade”, um perfeito lunático!

Não é sua culpa que tenham se usado de seu pensamento para construírem dogmas. Sócrates, afinal, não deixou nada escrito [4], e tampouco afirmou que tinha certezas. Todo o seu pensamento é baseado nas suas próprias dúvidas, sobretudo na maior delas, aquela que se colocava frente a algo em que não quis acreditar por toda a vida: “Que era, realmente, o maior sábio da Grécia” [5]… Passou a vida buscando por alguém efetivamente sábio, mas se viu cada vez mais solitário na empreitada.

Houvesse Sócrates encontrado alguém que tivesse, como ele, subido por breves momentos no alto da caverna, e visto ao sol diretamente, talvez pudesse ter com quem falar acerca do indizível. Talvez não, pois afinal as palavras, estas cascas de sentimento, estas cascas de êxtases pregressos, talvez estas sejam mesmo incapazes de explicar a inconcebível natureza da Natureza. Aquele que acha que sabe, não sabe. Aquele que sabe que não sabe, este começou, finalmente, a saber…

“Medita agora e examina a fundo, gira teu pensamento em todas as direções, recolhido sobre ti mesmo. Depressa, se cais em um impasse, salta para outra ideia de teu espírito; e que o sono doce ao coração esteja ausente de teus olhos”. (Sócrates em As nuvens, de Aristófanes, 700-705)

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Bibliografia recomendada
Sócrates ou o despertar da consciência, de Jean-joël Duhot (Edições Loyola); Sócrates, o feiticeiro, de Nicolas Grimaldi (Edições Loyola).
[1] Em Cármides, de Platão.
[2] De fato, uma das acusações que levaram a sua pena de morte foi exatamente a de ateísmo: não seguir aos deuses locais, mas “à um outro deus desconhecido”.
[3] Ele também foi iniciado nos chamados Mistérios de Elêusis, embora muito pouco, ou quase nada para ser mais exato, nos tenha chegado acerca do significado oculto, esotérico, destes rituais.
[4] Há uma célebre e profundamente irônica crítica de Sócrates a escrita descrita no Fedro, de Platão.
[5] A pitonisa do Oráculo de Delfos uma vez lhe afirmou isso quando ele perguntou quem seria o homem mais sábio da Grécia. Ora, era ele mesmo!

Crédito das imagens: [topo] Wikipedia (Jacques-Louis David, A morte de Sócrates); [ao longo] Google Image Search

#Espiritualidade #Sócrates #xamanismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-que-s%C3%B3crates-n%C3%A3o-disse

Egrégoras

Egregora-Maconica

A utilização do Termo Egrégora pode gerar aos pesquisadores diferentes compreensões, mas afinal o que exatamente significa Egrégora?

Algumas definições são bastante enfáticas: “Palavra que se tornou popular entre os espiritualistas, significa a aura de um local onde há reuniões de grupo, e também a aura de um grupo de trabalho”

Outras definições são mais exóticas: “Egrégoras são entidades autônomas, semelhantes a uma classe de “devas” que se formam pela persistência e a intensidade das correntes mentais realizadas nos centros verdadeiramente espiritualistas; pois nos falsos tais criações psicomentais se transformam em autênticos monstros, que passam a perseguir seus próprios criadores, bem como os freqüentadores desses centros”.

Finalmente temos uma definição um pouco mais clássica: “Egrégora provém do grego egrégoroi e designa a força gerada pelo somatório de energias físicas, emocionais e mentais de duas ou mais pessoas, quando se reúnem com qualquer finalidade, A egrégora acumula a energia de várias freqüências Assim, quanto mais poderoso for o indivíduo, mais força estará emprestando a egrégora para que ela incorpore às dos demais”.

Na média temos que: Egrégora é a somatória de energias mentais, criadas por grupos ou agrupamentos, que se concentram em virtude da força vibratória gerada ser harmônica.

Se considerarmos esta como sendo uma definição mais ou menos válida, podemos tecer algumas conclusões.

Se a Egrégora é a somatória de energias, não há limites para que nível de freqüência seja a sua fonte criadora, assim pode existir em potencialidade Egrégoras com freqüências elevadas e egrégoras com freqüências vibratórias menos elevadas ou se preferirem “negativas”.

A existência de diferentes freqüências reforça a antiga lei da dualidade entre o positivo e o negativo, ou ainda entre o claro e o escuro e o bem e o mal, embora esta ultima definição careça de uma analise mais profunda.

Se for então verdadeiro que a somatória de forças vibratórias ressonantes se somam no Éter é provável que esta força criada seja capaz de prover seus geradores de potencialidades, esta hipótese se confirma pela manifestação material do que pode se chamar de energia construtiva (ou destrutiva) dos diversos grupos religiosos, esotéricos ou metafísicos.

Quer me parecer que o mais correto seria considerarmos a hipótese de que realmente possa existir uma Egrégora positiva construtiva, assim como pode haver uma egrégora negativa ou destruidora, até porque, se existe como conhecemos uma arvore da vida cuja existência representa o caminho da queda e da reintegração em ultima analise, também devemos considerar que para que esta arvore exista e permaneça ereta é necessário raízes ou uma outra arvore imersa na escuridão da terra. Em ultima analise o bem e o mal competem para o equilíbrio das forças. Alias o equilíbrio é o objetivo e não o caminho entre os extremos.

Talvez a pergunta mais enfática seja: qual é exatamente a fonte geradora desta energia potencial que anima e mantém uma Egrégora? Como fisicamente isto ocorre? Como as energias vibram em ressonância?

A resposta talvez esteja na Constância, na geração uniforme e linear da mesma e única energia. Como isto pode acontecer?

Possa aí estar depositada a tradição do ritual e das cerimônias Templárias das diferentes tradições, inclusive a Martinista. Tal qual um gerador ou dínamo, a permanência do eixo girando sempre no mesmo sentido, velocidade e harmonia é garantia da geração da energia elétrica que é o seu resultado.

O trabalho templário regular, constante, harmônico somado aos interesses superiores de seus praticantes é a fonte geradora de um nível vibratório elevado, alimentador constante de uma Egrégora capaz de gerar paz, evolução espiritual e conhecimento aos que dela usufruem.

Esta tese também responde a uma questão importante, diz a tradição Martinista que para trabalhar no caminho do equilíbrio não é permitido a “venda”, negociação ou pagamento de graus ou conhecimentos, ou seja, num grupo Martinista o dinheiro não pode e não deve ser uma preocupação, muito menos um objetivo, tais necessidades dentro de um Templo prejudicaria a própria energia potencialmente criadora.

Se os Martinista almejam um dia virem a ser os Soldados de Nosso Senhor, os Guardiões do Vaso Sagrado ou ainda os Sentinelas do Santo Sepulcro, certamente devem primeiro ser os combatentes fervorosos do Bem sobre o mal, das virtudes sobre os vícios, da riqueza espiritual sobre a mediocridade material.

Se isto não é possível em cada segundo de sua vida, uma vez que estamos invariavelmente imersos num mundo globalizado e repleto de necessidades sociais, que o seja pelo menos em espírito, na vontade, em seu Templo.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/egr%C3%A9goras

Brahma, Vishnu, Shiva, os Muçulmanos e o Zero

Retornando aos nossos posts históricos, estamos chegando às vésperas da Primeira Cruzada e das origens secretas dos Templários, Hospitalários e Teutônicos (e também das histórias do Rei Arthur, com suas dezenas de versões e adaptações, e a chegada do Tarot na Europa… sim, todos estes assuntos estão interligados e veremos isso em breve).
Hoje falaremos dos hindus, muçulmanos e da origem espiritual do número Zero.

Seja no oriente ou no ocidente, a imagem circular de uma mandala (ou diagrama sagrado) é uma das mais intensas e utilizadas formas presente na história da arte.
A Índia, o Tibete, o Islã e a Europa Medieval produziram círculos em abundância, assim como todas as culturas mais antigas, seja através da pintura, seja através das danças circulares.
A imensa maioria destes diagramas está baseado na divisão dos quatro quadrantes, com todas as partes internas inter relacionadas de uma maneira ou de outra. Estas obras de arte são de alguma maneira cosmológicas; representam um símbolo que é a própria estrutura do universo: o zero.
Para os antigos, a própria arte de edificar estava intimamente ligada com o ser humano e com sua percepção do macrocosmos e do microcosmos; os quatro elementos, as quatro estações, os doze signos atravessados pelo sol em seu percurso nos céus, os círculos de divindades que representam o próprio homem e seus múltiplos aspectos… mas o que mais impressiona nestes diagramas é a expressão da noção do Cosmos, ou seja, da realidade como algo organizado e completo dentro de si mesmo.
A geometria antiga dependia de alguns axiomas; ao contrário da geometria euclidiana e outras mais recentes, o ponto de partida do pensamento geométrico antigo não é uma rede de abstrações intelectuais, mas uma meditação dentro de uma unidade metafísica, seguida de uma tentativa de simbolizar através do visual a ordem pura que brotava através destas experiências divinas e incompreensíveis.

É esta aproximação com o divino que separa a geometria antiga (ou sagrada) da moderna (ou mundana). A geometria antiga começa pelo número um, enquanto a matemática moderna começa pelo número zero.
Antes de avançar até os muçulmanos, eu gostaria de falar mais um pouco sobre estes dois começos simbólicos: Um e Zero, porque eles proporcionam um exemplo fantástico de como os conceitos matemáticos nada mais são do que dinâmicas de pensamento, de estruturas e de ações.

Primeiramente, vamos considerar o zero, que é uma idéia relativamente recente na história do pensamento, apesar de estar tão integrado a nossos pensamentos que mal podemos conceber um mundo sem zero. As origens deste símbolo datam aproximadamente do século VIII depois de Cristo, quando aparecem os primeiros registros em textos matemáticos na Índia. É interessante notar que, paralelamente a estas anotações, florescia na Índia neste mesmo período uma Escola de Pensamento decorrente do hinduísmo (através de Shankhara) e do budismo (através do Navarana). Esta Escola tinha ênfase no objetivo de obter a transcendência através da meditação e escapar do Karma através da renúncia ao mundo material, até mesmo através da mortificação dos corpos físicos através do auto-flagelamento.
Este estado de Nirvana era atingido através do “nada”, um cancelamento total dos movimentos e dos pensamentos dentro da consciência concreta, um estado “zen”. Este aspecto de meditação era o objetivo máximo do desenvolvimento espiritual, a fusão com o “todo” e com o “nada” ao mesmo tempo.
Muitos consideram este período da historia indiana como um retrocesso, um declínio das tradições tântricas que pregavam a união e a harmonização do material e do espiritual.

Foi neste período da devoção ao “vazio” que o conceito do zero apareceu. O resultado disto foi uma manifestação tanto através de um nome específico quanto de um símbolo, tanto na matemática quanto na metafísica. Na matemática, ele acabou se tornando um número, com implicações que falarei mais adiante. Seu nome em sânscrito é “Sunya”, que significa “vazio”.

Até então, como as pessoas se viravam sem o zero?
Na Antiga babilônia, Egito, Grécia e Roma, eram utilizados símbolos que representavam quantidades, como por exemplo, I, V, X, L, C, D e M. Em valores como 1005 (MV) ou 203 (CCIII), não havia a necessidade de um zero pois os numerais eram formados por “caixinhas” que representavam uma determinada quantidade de elementos. V melancias eram 5 melancias… XII camelos eram 12 camelos e ninguém questionava os números. O conceito de “zero” camelos era marcado com um símbolo parecido com duas barras paralelas [ // ] mas existia apenas como resultado de contas, por exemplo XII – XII = // representando “todos os camelos foram vendidos”.
Mas anotar um carregamento vazio é muito diferente de tratar o zero como uma entidade tangível.
Aristóteles e outros matemáticos discutiram o conceito do zero filosoficamente, mas a matemática grega, fortificada pelas influências pitagóricas vindas do Egito, recusavam-se a incorporar o zero em seu sistema.

E chegamos aos muçulmanos…
Os árabes, que do século VI ao XIV funcionaram como os grandes transmissores do conhecimento do oriente para o ocidente, trouxeram com eles o conceito do zero, além de nove outros números que também haviam sido desenvolvidos na Índia. Os números, como os conhecemos, são baseados nos ângulos formados entre os traços, como na figura abaixo:

O responsável pela transformação dos números indianos em arábicos foi o matemático e alquimista Al-Khwrizmi, cujas obras serviram de base para os trabalhos do ocultista, astrólogo, alquimista e matemático chamado Al-Gorisma (da onde vem a palavra Algoritmo), que trouxe estes numerais para os acampamentos árabes na Espanha. Seus trabalhos foram traduzidos para o latim por volta do século XII. Gradualmente, este sistema “árabe” foi introduzido na Europa e começou a alavancar progressos na ciência e no pensamento filosófico. A mente menos mística e mais prática dos comerciantes árabes transformou o conceito espiritual do zero em algo que poderia ter aplicações práticas para facilitar os cálculos, especialmente envolvendo números grandes ou cheios de colunas vazias, como 155.521.972 ou 4.815.162.342 ou 2012, por exemplo.

Silvestre II (que foi papa de 999 a 1003), inventor do relógio mecânico, bem que tentou introduzir os algarismos na Europa, mas foi severamente reprimido e, após sua morte, seus sucessores papais consideravam o zero como sendo o “número do diabo” e mantiveram os números romanos como oficiais até meados do século XII. Apenas com a força dos comerciantes, que achavam o zero muito prático para fazer contas, é que seu uso foi definitivamente implementado na Europa.
As conseqüências para a ciência foram enormes, especialmente na aritmética. Até aquele momento, as adições de números necessariamente resultavam em números maiores que os originais. A partir do zero, chegava-se a operações como

3 + 0 = 3
3 – 0 = 3
30 = 3 x 10

Até que alguém chegou a 0 – 3 = -3… MENOS TRÊS ?!?!?
O que poderia significar aquilo? A lógica começava a quebrar. Matemáticos, rosacruzes e alquimistas se reuniram ao redor desta incrível curiosidade. Apesar de não fazer sentido no mundo real, estes “números negativos” tinham toda uma coerência dentro do sistema e despertaram uma nova gama de artifícios. Estes números eram chamados originalmente de “números espirituais”, pois não poderiam ser verificados materialmente, apesar de seus efeitos serem sentidos dentro da aritmética.
A matemática, que até então estava associada à forma e à geometria, passava a se tornar algo abstrato, mental. Originalmente, o impulso espiritual dos hindus não permitiu que o zero ficasse no início das contagens, então nos textos antigos, o zero é sempre colocado após o nove.

Somente no século XVI, quase na Era da Razão, é que o zero foi finalmente colocado antes do um.
A partir destes conceitos, foram desenvolvidos os números irracionais (como a raiz de dois, que até então era considerado um número mágico usado na geometria sagrada), logaritmos e finalmente os números imaginários (a raiz quadrada de um número negativo), números complexos (um número real adicionado a um número imaginário) e finalmente números literais (substituir números por letras).

Não apenas o zero se tornou indispensável para nossas vidas como seu uso transformou a maneira como vemos a natureza e nossas atitudes a respeito de nós mesmo. Originalmente, o zero representava o vazio (Sunya) mas foi traduzido para o latim como Chiffra (que significava “nada”), mas os conceitos intrínsecos do “vazio” hindu/zen é muito diferente do conceito materialista de “nada”. Naquele período, a palavra “Maya” em sânscrito passou de seu conceito original “véu que divide a realidade” para “ilusão” ou o aspecto ilusório do Plano Material. Durante o materialismo da matemática na Revolução Industrial, o zero tornou-se um objeto material e o Plano Espiritual tornou-se “ilusório”.
A mente racionalista começou a negar o conceito espiritual da unidade. A unidade perdeu sua posição para o zero e o advento do zero permitiu a extrapolação para as bases do ateísmo, ou “zero Deus”, a negação do espiritual.

A noção do zero também teve um efeito em nossos conceitos. Idéias como a finalidade da morte ou o medo da morte, e todas as filosofias baseadas na não-existência após a morte devem sua origem ao zero.

Al Mamum, Al-Hakim
Quando o assunto é história da arte, eu acabo me empolgando e sempre escrevo mais do que pensei a princípio… e acabei desviando do assunto…
Bem… a relação entre o início das cruzadas e a expansão dos conceitos matemáticos estão interligadas na figura dos estudiosos muçulmanos. Esta integração começa em 830 quando o califa Al-Mamum tem um sonho na qual Aristóteles conversa com ele e a partir disso, decide traduzir do grego para o árabe todos os livros de matemática e ciência que conseguissem pilhar na guerra contra os bizantinos.
Desta mistura de textos gregos, árabes e hindus, somado ao uso mais prático possível destas descobertas, que eram controle de estoques dos próprios exércitos muçulmanos… armas, comidas, saques, divisões, etc, etc, etc… sem contar a geometria, afinal de contas, os muçulmanos precisam rezar voltados para Meca, e alguém tem de calcular o ângulo correto durante as marchas dos soldados todos os dias… já parou para pensar nisso? E sem calculadoras…
Todos estes fatores fizeram com que os escribas e sábios acompanhassem a expansão do islã, chegando até a Espanha e até Jerusalém.

Como vimos nos posts anteriores, os muçulmanos tomam Jerusalém em 638, oito anos após a morte do profeta Maomé, com os exércitos do califa Omar. Jerusalém, naquele período, tornou-se um centro de estudos, pois era um ponto intermediário entre Alexandria e o oriente, servindo de passagem dos conhecimentos entre o oriente e o ocidente. Durante mais de 300 anos, a cidade tornou-se um movimentado centro de comércio e estudos.

Jerusalém é considerada a terceira cidade mais sagrada do Islamismo (atrás apenas de Meca e Medina) e neste período chegou a ter mais de 70.000 habitantes. Jerusalém estava atrás apenas de Alexandria e Bagdá em termos de estudos de matemática, astronomia, astrologia e geometria.

O começo do fim ocorre quando o califa Al-Hakim ordena a destruição dos templos e sinagogas não muçulmanos, a partir de 1009, quando ordena a destruição do Santo Sepulcro. A destruição dos outros templos cristãos acabou adiada por conta das revoltas sunitas e, ironicamente, das revoltas xiitas posteriores, que acabaram fazendo com que sua atenção ficasse voltada para as próprias mesquitas destas duas facções. Mas isto foi suficiente para acender uma “luz vermelha” nas Ordens protetoras da Arca da Aliança (ou assim diz a lenda).
Uma noite, em 1021, Al-Hakim saiu para passear nos jardins de seu palácio e desapareceu. No dia seguinte, foram encontrados apenas sua montaria e seu manto, com manchas de sangue. Seu desaparecimento nunca foi solucionado…

Curiosamente, a primeira decisão de seu sucessor, Al-Zahir, foi permitir aos monges que viviam próximos ao Santo sepulcro a reconstrução do que havia sido destruído em 1009. Seu governo durou até 1036, quando faleceu vítima de uma praga. Al-Mustansir, seu filho, tornou-se califa com a idade de 6 anos, sendo assessorado por 40 vizires até atingir a idade adulta. Al-Mustansir teve altos e baixos… no começo de seu reinado, os árabes tiveram um período de prosperidade e expansão, até 1065, quando uma seca terrível, seguida de pestes e fome assolou o Egito de 1065 a 1072, somada à guerra com os turcos e a derrota e perda de diversas cidades na região.
Com a morte de Mustansir e a tomada do poder por Al-Mustali (que muitos consideravam apenas um usurpador do verdadeiro califa, que seria Na-Nizar). Com os turcos ameaçando invadir Jerusalém a qualquer momento e a ameaça de destruição total dos templos, a guerra civil prestes a explodir e a expansão dos fatimidas pelos territórios bizantinos, a região da palestina tornou-se um problema.
A qualquer momento, algum habibs maluco iria tomar o poder e provavelmente mandar destruir todas as relíquias cristãs da cidade.
Estava na hora de fazer alguma coisa…

Semana que vem

Nove homens e um segredo…

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Para quem prefere ler textos mais esotéricos e menos históricos:
– O Bode na Maçonaria
– Biografias: Theodore Reuss, o verdadeiro fundador da OTO
– Inventário da Normalidade, um texto do Paulo Coelho.
– Paganalia
– Faça sua própria pirâmide dos Illuminati
– The Mindscape of Alan Moore
– Arcano 12 – O Enforcado
– Consagrando objetos Mágicos
– A Noite Negra da Alma (alquimia)
– Biografia: Karl Kellner, o fundador da OTO

#Hinduismo #Matemática

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/brahma-vishnu-shiva-os-mu%C3%A7ulmanos-e-o-zero

Magia e o Poder da Palavra

Texto muito bacana de K.G.Gomes, ou AbraxasImago.

Um dos grandes questionamentos do iniciante, ao meu ver, é o que “diacho” seria magia e do que ela serviria ao homem que tivesse domínio sobre ela.Isso por ser bastante comum os interessados nelas anteverem primeiramente seus benefícios em detrimento dos encargos impostos.

Pela etimologia da própria palavra sua origem é incerta. Os antigos persas tinham uma visão bem mística da magia,como algo dado ao homem como dons divinos.Muitos desses homens era tidos como “sábios” ou “magi”.Outra possível origem pode ter surgido com a palavra “imago”,que significa “ilusão” e “imagem”. Fazendo uma alusão ao já exposto como “imagem”,”ilusão”,”sábio” podemos arriscar em definir como a magia ser a arte dos sábios de criar coisas miraculosas.

Essa visão de prodígios por muito tempo foi levada pelas mais diversas culturas. Ninguém de fora da arte entendia seu funcionamento.Isso porquê as pessoas não conseguem entender a sua linguagem.

Em qualquer sistema de linguagem e tradução existe uma linguagem que o leigo não entende e a linguagem comum e acessível a sua compreensão, sendo esta separada por um hiato.Essa separação é que afasta o homem do entendimento total acerca daquilo que desconhece.A única maneira de fazê-lo entender algo é ensinando a ele essa linguagem por um sistema de tradução.

Parece viagem,mas a nossa gramática(por exemplo) na verdade é o resultado de séculos de desenvolvimento em cima de grimórios antigos.Sim, grimórios,que são livros de magia compilados ao longo de gerações por autores desconhecidos que atribuiam a autoria e popularidade em cima de autoridades míticas como Salomão,Abraão-O Judeu, Abramelin,etc.

Nesse grimórios o funcionamento de linguagem é o mesmo.Antes de chamar um demônio ou anjo à sua presença,o magista (termo moderninho para mago,mais bonito e menos galhofa) tinha de conhecer a sua hierarquia e função,como um ser vivo de algum filo do reino animalia ou mesmo um indivíduo autônomo que compunha algum dos setores de funcionamento de uma grande empresa ou corporação.

Sabendo a função e posicionamento o mago tinha de saber o seu símbolo arquetípico,uma imagem que codificasse tudo aquilo sobre a dita entidade e que penetrasse no seu subconsciente para acessá-la.Esse caráter de imagem é importante,note bem. A imagem é uma forma de linguagem,porque nela pode se concentrar diversos simbolismos e explicações complexas que levariam mais tempo e esforço de serem transpostas ao papel.

Bom,temos o nome do ser e o seu símbolo.Para ser feita a conexão o magista tem de iniciar uma chamada simples,algo como teclar os números corretos do telefone para poder ter um te-te-a-te-te com a entidade.Mas antes ele deveria estar prevenido de que autoridade investir sobre si e como tratar a entidade,o que falar sem vacilar e expor…em linguagem nada mais são do que pronomes de tratamento,artigos,substantivos…

…essa linguagem é que é fabuloso da magia.O uso da linguagem desconhecida ao grande público e sabida apenas pelo operador do prodígio não é para chamar atenção dos outros,mas do subconsciente do próprio homem.Apopantoskakodaimonos,abrahadabra e outras palavras são fórmulas especiais de acesso a certas áreas restritas do subconsciente que o indivíduo não conseguiria fazer sozinho com a própria consciência.

A arte e ciência entram justamente em comum da magia,porque há uma cosmologia e paradigmas próprios àquele que decide acessar portais ocultos pela realidade aparente das coisas. Pantáculos,círculos,velas,invocações teatrais,orações fervorosas,etc,são muito recorrentes porque existe a técnica e a arte que as desenvolve para acobertá-la daqueles que a querem perverter e não detém de sabedoria e tradução suficientes para entendê-la.Um erro nessa tradução ou não tem efeito ou,no pior dos casos,tem efeitos desastrosos sobre o magista ou sobre o curioso que apenas quer saber como é essa brincadeira,caindo numa puta de uma “bad trip”.

O primeiro passo para o entendimento é se conhecer.O auto-conhecimento é importante,porque a magia não somente mexe com a realidade objetiva que é externa a pessoa,mas com a subjetiva que é interna a este.Caso contrário,como esperas ter o “domínio” sobre uma entidade ou plano de existência se você mesmo não tem controle mínimo sobre sí?

O segundo passo seria conhecer o universo.Estudar todas as ciências-base,que são português,matemática,geografia,história,filosofia,teologia e ciências naturais(física,química e biologia) eram estudadas com afinco por todos os magos.Magia não é um estudo somente da metafísica,mas um aprendizado constante dos planos tangíveis e intangíveis.Paracelso,por exemplo,era químico,médico,filósofo e teólogo.Não à toa Paracelso(o “médico excelso”) é considerado o pai da química e medicina(tanto homeopática quanto alopática,por mais que os últimos e céticos o neguem),algo que o gabarita de forma inquestionável como apto para estudar magia.

O terceiro pode ser o estudo teórico desse conhecimento e a prática deste.Estudar hermetismo ou hermeticismo e praticar theurgia como os gregos antigamente faziam,ou ler cabala e recitar invocações de anjos ou confeccionar pantáculos diversos,ou mesmo rezar sobre a rosa na cruz e transmutar os elementos alquímicos que são inerentes ao seu próprio ser.

Isso se tratando de ciência,em arte não muda muito.O exemplo mais recorrente que me vem agora é o próprio Alan Moore.Ele é escritor, quadrinista,desenhista…e Mago!Ele é simplesmente foda!A frase que me tocou muito quanto a linguagem e que compartilho com vocês é que ele,ao atingir a casa dos 40 ou 50,poderia ter tido uma crise de meia-idade como todo mundo,mas resolveu pirar e se assumir como um mago…e de tanto dizer essas sandices ele se surpreendeu com a ironia do universo,pois a partir do momento que ele se assumiu como mago ele se tornou um.

Essa é a sutileza do caminho.

The mindscape of Alan Moore

(Obs:àqueles que como eu são jumentos em se tratando de inglês,no vídeo tem o recurso de tradutor de legendas fraquinho,mas que dá para se virar bastante,bastando configurar.)

Texto original do blog Lamparina Magicka, que vale ser colocado nos favoritos.

#MagiaPrática

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/magia-e-o-poder-da-palavra

Hipátia e Sinésio (parte 1)

A Filósofa,

Eu lhe saúdo, e lhe peço que saúde seus fortunados amigos por mim, majestosa Mestra. Há tempos venho lhe reclamando por não ser digno de uma resposta, mas hoje sei que não sou vítima do seu desprezo por nenhum erro de minha parte, mas porque sou desafortunado em muitas coisas, em tantas quanto um homem pode ser.

Se apenas eu pudesse receber novamente suas cartas e saber como todos estão passando – tenho certeza que estão felizes e desfrutando de boa fortuna – eu ficaria aliviado, neste caso, da metade dos meus próprios problemas, ao me alegrar pela sua felicidade. Mas hoje o seu silêncio é mais uma adição as minhas tristezas.

Eu perdi meus filhos, meus amigos, e a boa vontade de todos. A maior de todas as perdas, no entanto, é a ausência do seu espírito divino. Eu tive esperança de que isto sempre permanecesse em mim: a capacidade de vencer tanto os caprichos da fortuna quanto as voltas sombrias do destino.

A carta acima [1] foi escrita por Sinésio de Cirene no ano 413 d.C. Provavelmente seria tratada como um relato de pouca importância histórica, fruto do fim de vida amargo de um filósofo do século V, não fosse pela sua célebre destinatária, a qual o escritor lamenta profundamente a ausência: a “filósofa” em questão era exaltada como um “espírito divino” não somente por Sinésio, como por praticamente todos os seus discípulos. Ela era Hipátia de Alexandria, a mulher mais sábia de seu século, cuja luz e a lenda ainda irradiam até a era moderna.

Eis como Sócrates Escolástico, um historiador de sua época, a descreveu em sua obra Historia ecclesiastica [2]:

Havia uma mulher em Alexandria chamada Hipátia, filha do filósofo Théon, que galgou tantas realizações na literatura e na ciência, que ultrapassou em muito os filósofos de seu tempo. Tendo sido versada nos ensinamentos de Platão e Plotino, ela explicava os princípios da filosofia para os seus ouvintes, muitos dos quais viajavam enormes distância para serem instruídos por ela. Por conta de seu autocontrole e serenidade, frutos do cultivo de sua mente, ela aparecia muitas vezes em público na presença dos magistrados da cidade, e não se sentia envergonhada em participar das assembleias dos homens. Pois todos os homens que tinham notícia de sua extraordinária dignidade e virtude eram seus admiradores.

Apesar de haver sido uma das mentes mais brilhantes de seu tempo, Hipátia é mais conhecida pela maneira brutal com que foi assassinada; assim como pela forma com que as lendas em torno do ocorrido alimentaram a curiosidade tanto de pagãos quanto de cristãos, tanto de adeptos da ciência e da racionalidade quanto de homens e mulheres de fé. Antes de sabermos como ela morreu, no entanto, talvez seja mais proveitoso saber como viveu…

Residiu a vida toda em Alexandria, tendo sido descendente de uma família de relativa nobreza e destaque na sociedade da época. Seu pai, Théon, era um cientista muito conhecido, membro do Museu (ou Templo das Musas, onde também residia a célebre Biblioteca da Alexandria [3]), escritor e filósofo com especial interesse no hermetismo. Apesar do que dizem as lendas, era o pai de Hipátia o amante do paganismo (ao menos publicamente), e não ela, que ficou conhecida em seu tempo bem mais pela sua vasta erudição em ciências matemáticas e astronômicas, assim como em filosofia, do que por algum conhecimento particular dos rituais pagãos.

A sua vida privada, no entanto, era bem mais envolta em mistérios… Apesar de não nos restar nenhuma obra escrita de Hipátia que não seja relacionada à ciência [4], felizmente algumas cartas de Sinésio sobreviveram aos séculos, e nos confirmam em parte o que muitos estudiosos da sua vida intuíram.

Hipátia formou um círculo intelectual composto por discípulos que eram como que “alunos particulares”, alguns deles por muitos anos, outros ainda (como o próprio Sinésio) que a trataram como mestra até o fim da vida. Tais alunos vinham da própria Alexandria, de outras regiões do Egito, da Síria, de Cirene e Constantinopla. Pertenciam a famílias ricas e influentes; com o tempo, vieram a ocupar posições de comando na hierarquia do Estado ou na ordem eclesiástica do cristianismo nascente.

Em torno de sua mestra, esses discípulos formavam uma comunidade cujos fundamentos eram o sistema de pensamento platônico e os laços profundos de amizade. Aos conhecimentos transmitidos pelo “espírito divino” de Hipátia, davam o nome de “mistérios”. Tais conhecimentos, estes sim, eram mantidos inteiramente secretos, e jamais transmitidos a qualquer um que não fosse iniciado nos assuntos divinos e cósmicos.

Ainda que pouco saibamos atualmente sobre o que Hipátia e o seu círculo de discípulos estudavam em segredo, é certo que, entre os seus textos sagrados, contavam-se os Oráculos Caldaicos. Esses textos do hermetismo eram caros tanto ao pai de Hipátia, que os lecionou a própria filha em casa, quanto a Sinésio, que em suas obras demonstra estar plenamente familiarizado com a sua temática.

Seja como for, fato é que se Hipátia foi uma pagã no âmbito privado, jamais demonstrou, na esfera pública, nenhum interesse particular por frequentar templos dos deuses gregos ou participar de seus rituais. Ao que tudo indica, Hipátia foi muito mais uma mística do que uma adepta do ritualismo religioso.

Suas lições públicas incluíam, além da filosofia platônica, preciosas instruções da matemática e astronomia. As suas conferências tinham lugar tanto em sua própria casa, quando aberta ao público, como nas salas de leitura alexandrinas. Em ambos os casos, não era incomum ser acompanhada por multidões de admiradores e curiosos.

Ocasionalmente também era chamada a intervir nos assuntos da polis, atuando como conselheira dos assuntos municipais. A filha de Théon detinha uma grande autoridade moral, e todos os historiadores da época concordam em descrevê-la como um modelo de coragem ética, retidão, sinceridade, dedicação cívica e elevação intelectual.

Apesar de provavelmente ter sido belíssima em sua juventude, também sempre foi uma reconhecida adepta da sophrosyne, uma espécie de “estado de espírito” que, de acordo com o conceito grego antigo, incluía o bom senso e a moderação, a sanidade moral, o autocontrole e o autoconhecimento. Isso também se refletiu em sua vida sexual: Hipátia se conservou virgem por toda a vida, e não há sequer um relato consistente de quaisquer casos amorosos que tenha tido, seja com homens ou com mulheres. Aos que a questionavam sobre “quando afinal iria se casar”, ela respondia que “já era casada com a Verdade” [5].

E há quem tenha dito que o brutal assassinato de Hipátia tenha marcado o fim do helenismo e o início da hegemonia cristã. Tais lendas quase sempre mostram uma Hipátia jovem e bela sendo morta por uma multidão de fanáticos… Como ocorre muitas vezes em lendas históricas, o relato em si passa consideravelmente distante da verdade: Hipátia não poderia haver sido uma mestra tão jovem, a lecionar para homens bem mais velhos, e discursar para multidões.

Já sobre a questão entre o helenismo e o cristianismo, como já dissemos, Hipátia tampouco tinha qualquer predileção por um ou por outro – a ela interessava somente a Verdade. Tanto que um dos seus discípulos mais fiéis, e também um dos homens que mais a amou, um dia tornou-se bispo, e o seu nome era Sinésio de Cirene, o Bispo Filósofo.

» Na próxima parte, a triste e trágica morte da mulher mais sábia de Alexandria…

***
[1] Fonte original (em inglês): Livius.org. A tradução é de Rafael Arrais.
[2] Fonte original (em inglês): Wikipedia. A tradução é de Rafael Arrais.
[3] Na Grécia antiga o museu era um templo das musas, divindades que presidiam a poesia, a música, a oratória, a história, a tragédia, a comédia, a dança e a astronomia. Esses templos, bem como os de outras divindades, recebiam muitas oferendas em objetos preciosos ou exóticos, que podiam ser exibidos ao público mediante o pagamento de uma pequena taxa. Dos museus da Antiguidade, o mais famoso foi o criado em Alexandria por Ptolomeu Sóter em torno do século III a.C., que continha estátuas de filósofos, objetos astronômicos e um jardim botânico, embora a instituição fosse primariamente uma academia de filosofia, e mais tarde incorporasse uma enorme coleção de obras escritas, dando origem a célebre Biblioteca de Alexandria.
[4] E mesmo essas são, em teoria, somente edições de célebres matemáticos e astrônomos da época. Devido à dificuldade em se atribuir autoria feminina a quaisquer obras da época, fica impossível confirmar o quanto dessas “edições” não se tratavam, na realidade, de “adições”.
[5] Segundo a enciclopédia bizantina Suda, ela foi esposa de “Isidoro, o Filósofo” (aparentemente Isidoro de Alexandria); porém, Isidoro só nasceu muito depois da morte de Hipátia, e não se conhece nenhum outro filósofo com este nome que seja seu contemporâneo. A Suda também afirmou que “ela permaneceu virgem” e que rejeitou o candidato mostrando lençóis manchados de sangue afirmando que eles demonstravam que não havia “nada de belo” no desejo carnal – um exemplo de fonte cristã fazendo uso de Hipátia como símbolo de virtude.

Bibliografia
Hipátia de Alexandria, Maria Dzielska (Relógio D’Água); Wikipedia; Livius.org

Crédito da imagem: Wikipedia (pintura de Charles William Mitchell [1885], provavelmente baseada nas lendas que chegavam a ver Hipátia como espécie de “heroína erótica da razão”).

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#Filosofia #HipátiadeAlexandria #história

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Agora, sem as rodinhas!

Quando surgiu pela primeira vez na comunidade científica, a ideia de que todo o universo tivesse se originado de uma espécie de “átomo primordial” há bilhões de anos, e que vinha se expandindo desde então, pareceu tão absurda que um famoso astrônomo da época a chamou de Big Bang num programa de rádio da década de 1940.

A intenção de Fred Hoyle, o cientista britânico defensor da teoria do universo estacionário ou eterno, era ridicularizar a teoria do belga Georges Lamaître, aquele quem primeiro propôs a ideia de que o próprio espaço-tempo se encontrava em expansão. O fato de Lamaître, para além de físico e astrônomo, ser também um padre católico, certamente levou Hoyle a supor que ele estava se baseando mais nos dogmas do Gênesis do que em ciência genuína…

Mas hoje sabemos que a hipótese do Big Bang venceu a batalha contra o universo estacionário de Hoyle, e o que determinou a vitória foram os fatos: em 1966, já próximo da morte num leito de hospital, Lamaître foi comunicado que os astrônomos Arno Penzias e Robert Wilson haviam confirmado experimentalmente a existência da chamada radiação cósmica de fundo, uma espécie de “registro fóssil” em micro-ondas da época em que todo o universo era quente e denso, apenas cerca de 380 mil anos após o seu início.

Junto com outras evidências, como a de que as galáxias ainda hoje estão se afastando umas das outras, e a observação de uma imensa abundância de elementos leves no universo, hoje a teoria do Big Bang é de muito longe a hipótese mais aceita na comunidade científica, fazendo parte do chamado “modelo padrão”. Penzias e Wilson ganharam o Prêmio Nobel de Física de 1978 por sua descoberta. Se estivesse vivo, Lamaître certamente teria o seu Nobel garantido.

A ideia de um universo eterno, entretanto, era um conceito muito mais antigo do que o advento da própria astronomia moderna; um paradigma tão cristalizado na mente humana que eventualmente também se tornou quase que um dogma científico, ao ponto de ter tirado o sono até mesmo de Albert Einstein, que relutou o quanto pôde em admitir que o universo de fato se expandia. O célebre físico alemão chegou a dizer que este foi “o pior erro de sua carreira”.

Realmente não é fácil quebrar antigos paradigmas. Demócrito e outros filósofos atomistas da Grécia Antiga, por exemplo, acreditavam que os átomos eram eternos e imutáveis. Pitágoras e seus discípulos consideravam que todo o universo era ordenado por princípios imateriais eternos de harmonia e “verdades matemáticas”. Já Platão foi ainda mais longe, e generalizou a matemática transcendente pitagórica para uma visão mais ampla de Ideias arquetípicas e universais, que incluíam a Forma de cada objeto ou qualidade, como cavalos, seres humanos, cores e bondade. Segundo o grande filósofo grego, a própria realidade era composta por “sombras e reflexos das Formas transcendentais”.

Sempre foi complexo para a mente humana imaginar uma Natureza evolutiva, que não surgiu “pronta e acabada”, com todas as suas leis e variáveis imutáveis. E isso, é óbvio, se reflete também nas ideias científicas.

Ironicamente, o mesmo paradigma de universo estacionário com leis imutáveis gerou um baita problema para a visão ateísta do mundo… De acordo com o Princípio Antrópico, se as leis e constantes cosmológicas fossem ligeiramente diferentes após o Big Bang, não teria sido possível o surgimento de formas de vida baseadas em carbono, como nós aqui neste planetinha. Uma das respostas óbvias para tal enigma é que a própria Criação foi obra de alguma espécie de inteligência superior, ou seja, a ciência se vê forçada a retornar a hipótese de um Criador.

Para contornar esse “incômodo”, muitos cosmólogos preferem pensar que há inúmeros universos além do nosso, cada um deles com leis e constantes específicas. Nesses modelos de “multiverso”, o fato de calharmos de estarmos aqui, conscientes e maravilhados, se explica pela extraordinária sorte de fazermos parte de um dos bilhões e bilhões de universos que propiciou o surgimento da vida como a conhecemos. Segundo esses modelos, não faz o menor sentido reclamarmos de qualquer espécie de azar, pois a nossa sorte em estarmos aqui vivos é tão imensamente grande que equivale a uma chance estatística inferior a sermos atingidos por um raio a cada minuto durante toda a vida (e, nesse caso, também considerando as chances de sobrevivermos a todos eles).

Portanto, se as leis e constantes são imutáveis e tudo estava determinado desde o início dos tempos, tanto faz se calhamos de existir num dos universos que possibilitou a vida baseada em carbono, ou se este universo único foi criado conforme descrito no Gênesis, as chances estatísticas provavelmente se equivalem, e tudo passa a ser uma questão de “gosto pessoal” que defina qual aposta é menos absurda do que a outra.

No fundo, todas as teorias que postulam a existência de um multiverso possuem a crença comum na primazia da matemática sobre a realidade. Mesmo que existam muitos universos além do nosso, o que os sustenta, segundo tais ideias, são fórmulas matemáticas transcendentes, como por exemplo as que formam a espinha dorsal da teoria das cordas ou teoria M. Para resumir: tais teorias nada mais são do que uma espécie de pitagorismo ultrarradical.

Mas temos outra alterativa surpreendente, defendida pelo físico Rupert Sheldrake em seu monumental Ciência sem Dogmas. A opção ao pitagorismo é a evolução das regularidades da Natureza. Tais regularidades seriam mais semelhantes a hábitos adquiridos do que a leis imutáveis que estavam lá desde o início dos tempos, e ficariam mais fortes (ou “constantes”) pelo meio da repetição, da mesma forma que aprendemos a andar de bicicleta. Segundo Sheldrake, há um tipo de memória na Natureza, e o que acontece agora é influenciado direta ou indiretamente pelo que já ocorreu antes.

Hábitos ancestrais foram estabelecidos há bilhões de anos, e estão arraigados de tal forma na Natureza que se parecem mesmo com “leis imutáveis”. Dos fótons, prótons e elétrons surgiram as moléculas, depois as estrelas e as galáxias, então os planetas, os cristais, e ao menos aqui neste planetinha, as plantas e os seres humanos.

Entre as moléculas, por exemplo, a de hidrogênio é provavelmente a mais antiga – ela já existia antes da formação da primeira estrela. As “leis” e “constantes” associadas a esses padrões arcaicos de organização estão tão bem estabelecidas que atualmente já não apresentam nenhuma mudança detectável. Em contrapartida, algumas moléculas são novíssimas, como as centenas de compostos produzidos pela primeira vez por químicos de síntese em nosso próprio século. Nesse caso, os hábitos ainda estão se formando. O mesmo ocorre com novos padrões de comportamento em animais e novas habilidades humanas.

Se eliminarmos a biologia e nos mantivermos exclusivamente na física e na química, ainda assim esta teoria tem uma vantagem gritante se comparada às teorias que postulam um multiverso como forma de explicação ao Princípio Antrópico: ela fala de coisas que podem efetivamente serem observadas e testadas!

Na verdade, sabemos que os químicos que sintetizam novas substâncias muitas vezes têm grandes dificuldades de fazer com que elas se cristalizem. Às vezes leva muitos anos para os cristais surgirem pela primeira vez. Por exemplo, a turanose, um tipo de açúcar, durante décadas foi considerada um líquido, até que, na década de 1920, ocorreu a cristalização. Depois disso, esse açúcar formou cristais em todo o mundo [1].

O xilitol, álcool de açúcar usado como adoçante em gomas de mascar, foi preparado pela primeira vez em 1891 e considerado líquido até 1942, quando surgiram cristais pela primeira vez. O ponto de fusão desses cristais era de 61ºC. Depois de alguns anos surgiu outra forma de cristal, com ponto de fusão de 94ºC e, mais tarde, o primeiro tipo de cristal desapareceu da Natureza [2] (leia novamente este parágrafo se não compreendeu ainda o quão assombroso ele é)…

Nós tendemos a ver o universo sob o nosso ponto de vista, mas ironicamente postulamos que, ao contrário de nós mesmos, ele deveria ser como que um rio congelado, uma espécie de fórmula matemática supersimétrica, superelegante, transcendente e eternamente imutável. Dessa forma, tendemos a ver a Natureza como uma espécie de supercomputador programado desde o início dos tempos para obedecer às mesmas leis e constantes, sem a mísera variação. Entretanto, basta olhar a nossa volta, como uma árvore só pode existir após haver sido broto e, ainda antes, semente. Como os filhotes de passarinho devem ser alimentados por seus pais antes de criarem força nas asas e, eventualmente, se arremessarem aos céus. Como toda a metrópole tem o seu centro histórico e, dentro dele, o seu marco inicial.

Tudo evolui do simples para o complexo, e o grande destino da vida parece mesmo ser se organizar, de alguma forma extraordinária, em consciências capazes de observar o mundo – a Natureza vendo a si mesma, compreendendo a si mesma, se espantando consigo mesma.

E não podemos saber ainda, de fato, se há mesmo um Criador que pensou nisso tudo desde o início. Talvez, quem sabe, ele esteja aprendendo conosco. Talvez ele tenha preferido nos deixar livres para descobrir as coisas, tateando o Cosmos e evoluindo por nossa própria conta.

Como quando nossos pais nos levam ao parque para nos ensinar a andar de bicicleta. No começo, colocam rodinhas para que nos auxiliem a manter o equilíbrio. Talvez, quem sabe, todo o nosso passado mineral, vegetal e animal tenha sido como que um aprendizado com o auxílio das rodinhas…

Mas hoje, hoje despertamos, hoje somos seres conscientes encarando de volta a vastidão cósmica salpicada pelas mesmas fornalhas que fundiram os elementos de nosso corpo, habituadas há bilhões de anos a este caminho ancestral que vai do átomo primordial de Lamaître a um planetinha, quiçá bilhões e bilhões deles, plenos de vida, plenos de crianças a arriscar suas primeiras voltas de bicicleta.

Até o dia em que partiremos deste pequeno parquinho para os mundos e galáxias mais distantes, e quem sabe neste dia não poderemos olhar para o Alto e dizer:

“Olhem para nós! Agora, sem as rodinhas!”

***
[1] Crystals and Crystal Growing, por Allan Holden e Phyllis Singer (1961), pp. 80 e 81.
[2] Ibid., p. 81.

Crédito da imagem: Google Image Search/shutterstock

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#Ciência #Evolução #universo

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A Ordem dos Assassinos

Entre os finais do século XI e a metade do XIII, a terrível seita dos ismaelitas, minúscula no universo do Islã, trouxe temor e, por vezes, pânico à região do Oriente Médio.

Tratava-se da Ordem dos Assassinos, assim chamada porque os seus integrantes, antes de praticar os atentados, inalavam um estupefaciente, o Hashishiyun, o haxixe. Seus seguidores caracterizavam-se pela entregada total à missão que lhes era atribuída por seus superiores e por não demonstrarem medo nenhum frente à morte que fatalmente os aguardava após terem praticado suas ações terroristas.

O anúncio da ressurreição“Nada é verdade, tudo é permitido!” Hassan Sabbah.

No ano de 1166, na praça central da fortaleza de Alamut, no alto dos Montes Elburz, no norte do Irã, o Grão-Mestre dos nizarins (como a Ordem dos Assassinos chamava-se oficialmente), Hassan II, uma seita dissidente do Islã, exultava frente aos companheiros e seguidores que ocupavam todo o espaço à sua frente. Ele os convocara para um importante anúncio.

O profeta dos assassinos

Queria dizer-lhes que, enfim, aproximava-se o dia da Qiyamat al Qiyamat, a Ressurreição da Ressurreição, estando muito perto do momento em que, pondo fim àquela época, iniciada há muito tempo por Adão, o Imam oculto finalmente viria liderá-los na renovação de tudo. Dali em diante, assegurou, não haveria mais liturgia, pois a religião tornara-se puramente espiritual, sem templos ou culto. Que se preparassem, portanto, para os novos tempos, concentrando-se todos eles dentro da fortaleza de Alamut, um lugar inexpugnável para os seus inimigos, de onde só sairiam para realizar suas operações de assassinatos seletivos.

A seita, obediente aos extremos rigores do militarismo, havia sido fundada no ano de 1090 d.C., quando o missionário ismaelita Hassan Sabbah (1034-1124 d.C.), encarnação de Deus na Terra, retornara do Egito para a sua Pérsia nativa (ele nascera em Qom). Envolvido nas lutas pelo poder entre a casa real egípcia e de Bagdá, ele decidira fundar uma ordem secreta para enfrentar os seus adversários. Para tanto, se inspirou nos antigos rituais de iniciação adotados pelos gnósticos, com seu gosto pela ciência esotérica – a batanya – e pelo culto aos sinais secretos, só alcançados depois de muita disciplina e dedicação ao estudo. Em pouco tempo verificou-se que Hassan Sabbah, o xeque (título dos soberanos árabes) das montanhas, criou uma teologia totalitária, onde um só deus (Alá) se fazia representar por um só Imam (um líder espiritual), e por um só representante (o próprio Hassan), com autoridade de vida e morte sobre os seus seguidores. Tendo uma visão trágica do mundo, considerando-o perdidamente maculado pela heresia e pelo desacerto dos governantes, ele declarou guerra à religião oficial, o Islamismo sunita, e também às dinastias que reinavam na região, fossem as de raiz árabe ou turca seldjúcida. Líder de uma seita absolutamente minoritária, Hassan Sabbah percebeu que somente poderia impor-se naquelas circunstâncias por meio do terror. Em colocar seus inimigos em permanente pavor de virem a serem assassinados. Ao apoiar um dos governantes chamado Nizan, sua ordem denominou-se dos nizarins.

A estrutura da ordem

Consta que Hassan Sabbah além de um rigoroso exame de admissão dos iniciados, recolhia crianças abandonadas ou as comprava de casais miseráveis para fazer delas o seu exército de fiéis. Carentes de tudo, os jovens aspirantes nizarins viam-no com um deus-pai, dedicando-se integralmente à sua vontade, jamais ousando criticar uma ordem recebida sequer. Tratou também de cultivar uma soberba biblioteca, considerada uma das mais completas daquele tempo, não vendo nenhuma contradição entre harmonizar a alta cultura islâmica com a prática de assombrosos atentados terroristas. Ele gabava-se de ter à sua disposição 70 mil homens e mulheres espalhados por boa parte do Oriente Médio, capazes de executar qualquer missão por ele ordenada, mesmo que isso lhes custasse a vida. Sim porque seus alvos não eram gente comum, mas vizires, sultões, xeques, mulás, ulemás, cavaleiros cruzados, fosse quem fosse importante que, aos olhos do Grão-Mestre dos assassinos, criava impedimentos à sua política.

A mística

Hassan Sabbah apresentava-se com o Hojjat do Imam, aquele que falava e agia em lugar do Imam oculto, que assim se encontrava apenas aguardando o momento apropriado para aparecer. Era inerente à doutrina ismaelita, a crença messiânica segundo a qual, fatalmente, dar-se-ia a Grande Revelação. O salvador, que pairava sobre a sociedade sem mostrar-se, num determinado dia deixaria o mundo das sombras. Os seus seguidores, enquanto esse momento sagrado da Parusia não se dava, usariam os punhais para purificar o ambiente, afastando da paisagem as ervas daninhas e os frutos estragados que poderiam vir a ferir ou envenenar o ar do Imam revelado. Nada mais perfeito para ele do que a sua morada naquela fortaleza isolada do mundo, o Alamut, o ninho de águia, que logo seus inimigos deram a indicar como “o ninho da serpente”, dado o bote traiçoeiro das operações que ele ordenava (*).

(*) A fortaleza de Alamut ficava nos Montes Elburz, pertencente a uma cadeia de montanhas situadas ao Norte do Irã, na margem sul do Mar Cáspio. Área com escasso povoamento por causa da aridez geral.

O método dos assassinos

Apesar de andarem uniformizados na fortaleza de Alamut – trajes brancos com um cordão vermelho enlaçando-lhes a cintura (cores que os cavaleiros templários irão adotar) -, os fadavis, os devotos, quando recebiam uma missão, camuflavam-se. Preferiam misturar-se aos mendigos das cidades da Síria, da Mesopotâmia, do Egito e da Palestina para não despertarem a atenção. Em meio à multidão urbana, eles eram “adormecidos”, levando uma vida comum sem atrair suspeitas, até que um emissário lhes trazia a ordem para “despertar” e atacar. Geralmente eles aproximavam-se da sua vítima em número de três. Se por acaso dois punhais fracassem, haveria ainda um terceiro a completar o serviço. Atuavam esses “anjos da destruição” do Velho da Montanha, como muitos chamavam Hassn Sabbah, em qualquer lugar – nos mercados, nas ruas estreitas, dentro dos palácios e até mesmo no silêncio das mesquitas, lugar por eles escolhido em razão das vítimas estarem ali entregues à oração e com a guarda relaxada. Até o grande sultão Saladino, inimigo de morte deles, eles chegaram a assustar, deixando um punhal com um bilhete ameaçador em cima da sua alcova.

O uso da droga

Capturados, eles nada diziam. Viviam, como se dizia, num estado alheio as coisa do mundo, numa esfera especial amparada pela Lei Divina, mostrando absoluta indiferença pelo seu destino da terra. Seguiam para o cadafalso sem pestanejar, deixando aos executores a terrível sensação de impotência perante aquele fanatismo.

Esse comportamento autista é que contribuía para que acreditassem que eles inalavam haxixe antes de aplicarem as sentenças de morte, advindo daí, por corruptela, a palavra assassino. Alguns historiadores ponderam que a utilização de um estupefaciente tão poderoso como o haxixe não poderia excitar a violência nem a agressividade necessária para praticar um crime a sangue frio.

A droga teria ainda uma outra função. Acreditam, isso sim, que ela fosse usada por Hassan Sabbah nos rituais de iniciação da ordem como uma introdução à ideia do Paraíso, para que os aspirantes tivessem, experimentando a erva que lhes era oferecida num jardim das delícias, uma primeira prova das volúpias imateriais que guarda-los-iam no futuro, quando da sua morte em função da causa. Foi esse o sentido que o poeta Baudelaire captou com o seu Poème du Haschisch (Paraísos artificiais, 1858-60).

Aproximação com os cruzados

Hassan Sabbah e seus sucessores trataram de ocupar a maior parte dos fortes e fortins, numa linha que se estendia do Irã até a Palestina, passando pela Síria, para fazer com que a influência da ordem fosse sentida em todas as paragens e para que os punhais dos devotos provocassem medo em toda a parte. Odiados por turcos e árabes, por sunitas e xiitas, dos quais eram um ramo dissidente, foi inevitável que a Ordem dos Assassinos, num primeiro momento, se aproximasse dos cavaleiros cruzados, tão estranhos na região da terra Santa como eles mesmos se sentiam.

Não só isso. Seguramente foi aquela simbiose entre fé fanática e disciplina militar extremada que fascinou os primeiros nove cavaleiros cristãos, liderados por Hugo de Payens, decidiram-se por fundar a Ordem dos Cavaleiros do Templo, no ano de 1118. A dedicação integral e absoluta dos devotos, a abjuração de tudo, inclusive da vida, a cega obediência e o espírito de ordem monástico-guerreira que os tornavam membros de uma cavalaria espiritual, logo estreitou ainda mais o ideário dos cavaleiros cristãos com dos assassinos.

Assassinos e zelotes

Guardadas as devidas distâncias e motivações, há muita similitude no modus operandi dos assassinos a mando do Velho da Montanha, com as ações e atentados realizados pelos zelotes, militantes da causa judaica anti-romana. Aparecidos no século I a.C. eles reagiram à presença das águias imperiais na Palestina e na Judeia, praticando atentados seletivos, matando não só representantes da autoridade romana, mas fundamentalmente judeus que se mostravam dispostos a colaborar com eles.

Os zelotes tiveram um notável papel no levante antirromano e, seguramente, formavam a maioria dos fanáticos que se refugiaram na fortaleza de Massada, para lá resistirem até o fim, uns mil deles, sem se renderem às legiões do general Silva, que a ocupou no ano de 73 a. C. Por eles portarem ostensivamente suas adagas e facas em público, ameaçando meio mundo, os gregos os chamavam de Sicarii (do grego Sikarion = homem do punhal).

O historiador Arnold Toynbee determinou o comportamento dos povos invadidos daquela região em dois tipos. Chamou de herodianos (do rei Herodes, um monarca judeu colaboracionista), aqueles que não só aceitam o domínio estrangeiro como abertamente colaboram com o ocupante, enquanto que os zelotes eram justamente o contrário. Seriam os que rejeitavam qualquer aproximação ou acordo com os estrangeiros invasores. Os assassinos ismaelitas não se enquadram nessa classificação porque não estavam a serviço de uma causa nacionalista, mas sim de uma ordem religiosa sectária, que repudiara tanto a dinastia Fatímida do Egito quanto a Abássida de Bagdá.

Cavaleiros e poetas

Os templários não só adotaram uma série de preceitos e regulamentos tomados emprestados da Ordem dos Assassinos, como também fizeram suas as cores deles: o branco e o vermelho. Tão próximas foram estas relações que até Luís IX, rei da França, certa vez enviou uma missão diplomática a visitar o castelo de Jebel Nosairi, ocupado por um chefe local da Ordem dos Assassinos.

Frederico II, o Barbarossa, o imperador alemão que participou das cruzadas convidou vários ismaelitas para que o acompanhassem de volta à Europa, dando-lhes copa franca na sua corte.

A atração por sociedades secretas seduziu também aos poetas italianos do Dolce stil nuovo, como Guido Cavalcanti e Dante Alighieri, que, inspirando-se num livro da mística xiita intitulado “Jardim dos Fiéis do Amor” criaram a sua própria irmandade secreta, a dos Fedeli d´Amore.

Portanto, o gosto de muitos europeus por congregarem-se ao redor de lojas esotéricas, com rígidos rituais de iniciação e um ar secretíssimo, hábito tomado na época das cruzadas, provavelmente lhes foi instilado pelos feitos da Ordem dos Assassinos.

O fim da ordem

Protegidos por uma fortaleza tida como inexpugnável, que nenhuma força local poderia tomar de assalto, foi preciso esperar a invasão dos mongóis, no século XIII, para que finalmente o ninho da águia fosse destruído pelos poderosos invasores no ano de 1260, pondo fim a ameaça que a seita dos assassinos representava em todo o Oriente Médio. A legenda que deixaram foi difundida no Ocidente pelos cavaleiros cristãos e pelos monges escribas que os acompanharam, impressionados com a história terríveis a que os devotos estavam associados, símbolos vivos do que era possível fazer com um ser humano, tornado simples objeto maligno ao serviço do fanatismo.

#Islamismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-ordem-dos-assassinos

Curso de Tarot, Hermetismo e História da Arte

Este é um post sobre um Curso de Hermetismo já ministrado!

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Em Dezembro (Vila Mariana, São Paulo)

14/12 – Tarot (Arcanos Maiores)

15/12 – Tarot (Arcanos Menores)

No curso de Arcanos Maiores, utilizamos 18 tarots diferentes. Estudamos cada um dos 22 Caminhos da Árvore da Vida e sua correlação simbólica e imagética com cada Arcano do Tarot.

Começamos pelo Visconti-Sforza, do século XIII, que une a simbologia dos Trionfi renascentistas à estrutura da Árvore da Vida. Em seguida, o tradicional Tarot de Marselha (1560), o Tarocchi Bolognese (1780) e o Ancient Italian (século XIX) para conhecermos as variações das escolas de tarot renascentistas; o tarot de Papus (Boêmios, 1889), Oswald Wirth (1889) que trazem as primeiras interações do tarot com a Maçonaria e o rosacrucianismo; o tarot de Rider Waite (1909), Golden Dawn (1978), e Tarot de Thoth (Crowley) usados dentro de Ordens herméticas. Isto nos dá uma noção muito clara de como os Arcanos se desenvolveram ao longo da história da magia e quais são as principais escolas; suas diferenças e semelhanças.

Também estudamos o Tarot Mitológico, Sephiroth Tarot (cabalístico) e o Tarot Egípcio e mais quatro ou cinco tarots modernos que eu vario de curso para curso para exemplificar a visão de outras culturas (celta, africano, dos orixás, etc). Somente com esta visão de conjunto é possível compreender a magnitude do tarot e as maneiras como ele pode ser utilizado em rituais e no seu altar pessoal.

Informações e inscrições: marcelo@daemon.com.br

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/curso-de-tarot-hermetismo-e-hist%C3%B3ria-da-arte

Música: Origens e Concepções

Etimologia 

“Música” deriva do grego mousike por intermédio do latim musica. Formada no grego da palavra mousa, a Musa, que vem do egípcio, e da terminação grega ike. A palavra egípcia mas ou mous, significa geração, produção ou desenvolvimento a partir de um princípio. Ela é composta pela raiz ash, que expressa tudo o que gera, desenvolve ou se manifesta, cresce ou toma forma exterior. Ash significa, em muitas línguas, unidade, o ser único, Deus, e mous se aplica a tudo que é fecundo, formativo, gerador.

A terminação ike indica que uma coisa está relacionada a outra por semelhança, ou que tem dependência ou uma emanação dela. Possui ligação com a palavra celta aik, que significa igual, e que vem da raiz egípcia e hebraica ach, símbolo de identidade, igualdade e fraternidade. Normalmente traduzida por “irmão“, no hebraico Ach é composta por duas letras, o Aleph e o Kaph.

Magia 

Aqui tem início a minha grande viagem, na Kabbalah, estas letras representam o caminho 11 e o caminho 21, respectivamente. O 11º caminho é o da Inteligência Cintilante, é a vitória sobre os véus da ilusão que se desfazem pelo poder da Luz emanado de Kether. Tem como título “O Espírito Santo”, o que explica a visão de alguns autores quando dizem que a Música é uma graça divina dada pelo Espírito, vinda do céu para a Terra.

O caminho 21 é o da Inteligência Conciliatória e da Recompensa. A trajetória deste caminho se realiza por intermédio do misticismo da natureza e das artes, considerados em seus mais puros e mais elevados aspectos, fundados em uma fé natural cuja inspiração vem da beleza e harmonia do Logos refletidos no Universo.

No Tarot, os arcanos correspondentes a estes caminhos são: “O Louco” (Sopro divino, idéia de criação, criação divina) e “A Roda da Fortuna” (ciclo da vida, os quatro elementos: Fogo, Água, Terra e Ar) Numa interpretação quase literal e sem muita profundidade do Tarot (dentro do contexto musical) as duas cartas revelam uma idéia de criação divina a partir dos quatro elementos. Numa orquestra, ou num pequeno grupo musical, cada naipe de instrumentos pode facilmente representar cada um dos quatro elementos.

Neste caso, instrumentos musicais, como tambores, chocalhos, baquetas, e pandeiros representam o elemento Terra. Flautas, clarinetes, oboés, trompas, ficam com o elemento Ar. Violinos, violões, liras, harpas e outros instrumentos de corda representam o elemento Fogo. Por fim, instrumentos de percussão (normalmente fabricados de metal) como sinos, címbalos, triângulos, gongos, carrilhões e pratos (cymbal) estão associados ao elemento Água.

Nessa altura, nem preciso dizer que compositor/maestro = mago, aquele que domina a linguagem dos deuses através dos quatro elementos.

Concepções

Pasquale Bona, compositor e teórico musical italiano, define música como “a arte de manifestar os diversos afetos da nossa alma mediante o som.” Apesar de simples, não deixa de ser verdade. Robert Schuman, compositor alemão, vem a dizer: “Sou tocado por tudo que acontece no mundo… e então sinto vontade de expressar meus sentimentos na música.” Mas o inverso também ocorre, Claudio Monteverdi, compositor italiano do período barroco dizia que: “o objetivo de toda boa música é tocar a alma.”

Platão nos ensina que: “A música é um meio mais poderoso do que qualquer outro porque o ritmo e a harmonia têm a sua sede na alma. Ela enriquece esta última, confere-lhe a graça e ilumina aquele que recebe uma verdadeira educação.” 

Sou da opinião de que a música é a linguagem dos deuses revelada aos humanos, e sua finalidade esta diretamente ligada com nossa harmonização com a divindade. E isso não pode ser outra coisa a não ser uma forma ou um sistema de magia.

Não por acaso, Alan Moore inclui esta forma de magia em sua própria definição do que é a magia: “Magia é arte, e essa arte, seja a escrita, a música, a escultura ou qualquer outra forma é literalmente magia. A arte é como a magia, a ciência de manipular símbolos (notas musicais), para operar mudanças de consciência.” 

A partir desta postagem pretendo abordar a música nos seus aspectos mais elementares e ao mesmo tempo mais profundos, não apenas demonstrando as referências ocultistas contida nas obras dos grandes mestres, mas sua utilidade prática como magia.

Próximo post: A origem das notas musicais, melodia, harmonia e ritmo. 

Referências 

A Música e a Ciência se encontram – Leinig, C. E.

Música explicada como Ciência e Arte – Olivet, A. F.

Wikipedia de Ocultismo

#Arte #MagiaPrática #Música

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Daath e a Travessia do Abismo

Em Malkuth comeca o trabalho do despertar da centelha e elevação da mesma atraves dos Sephiroth.

Malkuth pode ser comparada ao mito de Persefone (ou Proserpina entre os romanos), onde a historia do mito narra a violação de Persefone por Hades obrigando-a a seu exílio sob a Terra, assim como também o mito dos gnósticos sobre a queda de Sophia.

Segundo Israel Regardie existem dois métodos básicos de consecução espiritual baseados no uso direto da Arvore da Vida: Um eh a meditação e o outro eh o Ritual. O objetivo de seguir esses dois processos, eh atingir o Coração da Arvore, o centro cristico nele mesmo – Tipheret, onde terah a visao e conversação do Sagrado Anjo Guardião. Os dois métodos acima referidos na verdade sao um. Assim trabalhando ele transcende o que ele pensa ser, ascendendo pelos sephiroth.

Esta subida realiza-se pela coluna do meio ou pilar do meio, isto eh, a coluna central da arvore formada por Malkuth, Yesod, Tiphareth, Daath, Kether.

No sistema oriental isto equivale ao canal Shushuma, por onde eleva-se Kundalini. O Sushuma eh o mais importante dos Nadis e consiste no eixo ou canal central que se situa ao longo da coluna, por onde circula energia neutra. Ele eh conhecido como o sustentador do universo e o “caminho da salvacao”.

Na tradicao Greco-Romana, o caduceu de Thot eh o simbolo do segredo, tanto quanto a Serpente de Bronze erguida por Moises no Egito.

Segundo Israel Regardie, esse metodo de elevacao da Kundalini, ou de conscientizacao da Essencia, se dah atraves da conciliacao das energies opostas na Arvore, essa conciliacao se efetua no pilar central, ou pilar do meio/equilibrio, e eh nesse equilibrio onde nasce o Filho em Tiphereth, ou seja, o dialogo com o Sagrado Anjo, o Self. Essa eh a meta e o objetivo de todo praticante de magia ou de todos aqueles que se dedicam ao auto-conhecimento, pois eh o proprio Anjo quem prepara o adepto para a proxima etapa, a travessia do abismo de Daath.

Daath eh uma sephira oculta, invisivel, que se encontra entre Tiphereth e Kether. Daath representa o abismo que separa a nossa percepcao dual da percepcao una. Acima do abismo de Daath nao ha dualidade, abaixo do abismo tudo eh dual.

Em Daath se encontra toda a hipertrofia de toda a ilusão do Universo e de todas as esferas abaixo dele que vao de Chesed a Malkuth. Eh Visudh Chakra, o Chakra do pescoço, que segundo os Hindus, eh onde sao gerados os pensamentos. Para os Budistas aqui eh onde habita Mara, o senhor da ilusão, ou Chorozon, o monturo de lixo do Universo de cuja travessia nasce o Magister Templi, segundo Crowley. Daath eh considerada uma “esfera que nao eh esfera”, pois sua funcao eh o desviar da atencao da verdade inexprimivel atraves do pensamento. Eh o deserto de Apep, o inimigo de Osiris que precisa ser derrotado por este ultimo para sua ressurreicao. Para os gregos era Hades, o deus do mundo ctônico, para os romanos era Plutão, o Senhor dos infernos. Aqui também estao os demônios da Goetia, os Qliphot, e os 50 nomes de Marduk.

Eh como se houvesse uma dobra na Criacao que criasse a divisao da realidade na ilusao do espaco e do tempo atraves daquilo que foi gerado em Binah, portanto Daath paira sobre o abismo na fronteira entre os mundos da criacao e da formacao.

Abaixo do abismo eh o plano da existência finita e condicionada. O abismo eh uma regiao de tensão permanente entre o Macrocosmo e o Microcosmo, sendo a sede das forcas dissolventes que o profano conhece como demônios. Isso eh referente na bíblia segundo o qual Cristo (o iniciado em Tipheret) deve primeiro “descer aos infernos” Qliphoticos antes de proceder aos ceus das Supernas.

Segundo Crowley, no Abismo todas as coisas existem, realmente, pelo menos em posse, porém não possuem nenhum significado possível; pois elas carecem do substrato da realidade espiritual. Elas são aparências sem Lei. Elas são, pois Ilusões Insanas. Choronzon é o Habitante do Abismo; ele é lá a obstrução final. Se ele for enfrentado com a preparação própria, então ele estará lá para destruir o ego, o que permitirá ao adepto mover-se para além do Abismo. Se não estiver preparado, então o desafortunado viajante será completamente disperso em aniquilação. “O nome do Habitante do Abismo é Choronzon, porém ele não é realmente um indivíduo.”

Para Jung a sombra tem um componente pessoal, formado pelos aspectos da psique individual que sao rejeitados e recalcados pelo ego, mas alem disso, o nucleo da sombra eh uma estrutura arquetipica que atrai esse material e o organiza segundo uma configuracao transpessoal, porque Daath eh a fronteira entre o eu pessoal, imerso no espaco tempo e o plano arquetipico da realidade. Eh a energia aprisionada na sombra que depois de assimilada e integrada pela consciencia, permite que a consciencia se libere do ego e vah em direcao ao nucleo da estrutura arquetipica da sombra, que corresponde ao Demiurgo dos gnosticos ou Choronzon. Essa estrutura arquetipica da sombra equivale a sombra coletica, ou sombra da Anima Mundi. Chorozon equivale ao sistema de aprisionamento que rege a sociedade, cultura e o coletivo, e que eh o nucleo arquetipico que organiza a formacao da sombra bem como do ego. Ele eh como os filtros que estao nos chacras limitando a percepcao da realidade da vida, essa estrutura que tambem eh condicionamento tambem eh equivalente ao Carma individual e coletivo.

Quando da descida da substancia que emana de Binah, para os mundos formativos atraves das sephiroth abaixo do abismo, estes perdem a conexao com a energia espiritual, como que se a cada revestimento de materia, sua forma original fosse diminuida, isso se chama Kenosis, onde o arquetipo diminiu a sua potencia, ateh ficar adormecido na forma da kundalini no corpo humano. Esses mesmos sephiroth isolados se tornam como cascas vazias da essencia espiritual, se tornam como os arcontes do Mito de Sofia. O despertar na base do corpo e a consequente subida eh como quebrar o estado de sistase ou amarras de cada chakra ou sephirah, recuperar a sua potencialidade original e assim a consciencia vai se desvencilhando da irrealidade do ego e do mundo como eh percebido. Na travessia do abismo de Daath, eh onde a consciencia transcende totalmente o ego e o nucleo arquetipico que gera e dah forma a sociedade e cultura como um todo, se unindo a sua Contra-parte Espiritual de acima do abismo, recuperando e preenchendo o Ser de sua plenitude/potencia original. A consciencia se une ao Self e recupera a substancia espiritual, transformando os arcontes em Eons.

Daath tambem eh “Conhecimento”, ou seja, a pura Gnose, e desta forma os demonios sao transformados em Deuses, recuperando a plenitude do Ser.

A Travessia do Abismo de Daath

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