A Superioridade Ilusória

Antes de pensar no seu chefe ou formar uma imagem mental daquele chato que sempre conta vantagem em tudo, saiba que superioridade ilusória não é a mesma coisa que complexo de superioridade.

A superioridade ilusória é uma viés cognitivo que faz com que as pessoas superestimem suas habilidades positivas e subestimem suas qualidades negativas, em relação aos outros.

Antes de prosseguirmos uma breve pausa lexicômica.

Ilusões positivas são descritas como as atitudes positivas absolutamente e totalmente irrealísticas que os humanos tem em relação a si mesmos. Existem hoje basicamente três categorias diferentes e bem abrangentes de ilusões positivas:

1- a avaliação exagerada de nossas próprias capacidades;
2- o otimismo irreal sobre o futuro;
3- a ilusão de controle.

Fim da pausa.

A superioridade ilusória é uma ilusão positiva que vem sendo estudada de forma extensiva dentro da psicologia social e costuma ser referida em termos leigos como o Efeito Acima da Média. O Efeito Acima da Média faz as pessoas terem uma imagem própria mais positiva e menos negativa do que a imagem que as pessoas que a cercam tem dela.

Mas e o que eu posso ter remotamente a ver com isso tudo?

Todo mundo, e eu digo TODO MUNDO MESMO, desenvolve opiniões baseadas em comparações. Se não houvesse algo com o que se comparar não saberíamos se uma coisa é redonda ou quadrada, doce ou salgada, não haveria como formar uma escala de bom e ruim e o mundo seria possivelmente um lugar ainda mais sem graça de se viver.

Muitas pessoas, e eu digo MUITAS PESSOAS MESMO, formam suas opiniões tomando como base comparações sociais. Essas comparações podem ser baseadas no seu desempenho acadêmico, nos seus ambientes de trabalho ou em seu ambiente social – ou seja em qualquer lugar que não seja debaixo da sua cama ou dentro do seu lavabo[1].

Paralelo a isso, durante a vida uma pessoa tem uma visão bem específica a respeito de sua popularidade, sua honestidade, sua confiança e outros atributos que possa julgar desejáveis.

Agora como esses dois fatores se combinam para termos nossa ilusão positiva?

[Todo mundo precisa de um comparativo] + a grande parte das pessoas faz comparativos sociais] x [cada um de nós tende a ser mais otimista do que pessimista a nosso próprio respeito] = nem fodendo eu vou fazer papel de idiota, só porque aquele cara é formado não quer dizer que eu seja pior do que ele!

Assim, observe uma pessoa sem diploma de medicina, tentando discutir um diagnótico com um médico. Ou alguém que não sabe nada de mecânica tentando discutir com um mecânico na oficina. Ou tende reparar nos argumentos que um possível cliente usa para diminuir ainda mais o orçamento que você pediu para fazer determinado trabalho. A idéia não é querer mostrar que o outro está errado, mas que você – ou a pessoa – está em pé de igualdade, mas tem uma visão mais clara. Acaba funcionando quase como um sistema imunológico mental.

Já foi registrado que pessoas com um QI mais baixo possuem um senso de Superioridade Ilusória muito forte. Mas por que isso acontece? Em um mundo que tem Darwin como um de seus pilares não deveria favorecer os mais preparados? Por que os menos preparados são os que geralmente tem uma sensação de superioridade mais forte?

Em 1999 Justin Kruger e David Dunning realizaram uma série de experimentos que mostraram que quando falamos de habilidades como compreensão de leitura, operação de veículos motorizados, e jogar xadrez ou tênis, a “ignorância, com mais freqüência do que o conhecimento, gera confiança”. Analisando os resultados de seus estudos, dada uma habilidade típica que humanos possam possuir em maior ou menor grau, eles propuseram quatro hipóteses interessantes:

1. Indivíduos incompetentes tendem a superestimar seu próprio nível de habilidade;

2. Indivíduos incompetentes não reconhecem habilidade genuína em outros;

3. Indivíduos incompetentes não reconhecem o grau extremo de sua inadequação;

4. Se treinados substancialmente para melhorar seu nível de habilidade, estes indivíduos serão capazes de reconhecer e admitir sua prévia falta de habilidade.

Isso pode ser resumido da seguinte forma, a não ser que uma pessoa sem nenhuma habilidade passe por um treinamento e condicionamento extensivo, ela permanecerá tomando más decisões e chegando a conclusões errôneas e como bônus, sua incompetência lhes impedirá de apreciar e aprender com seus erros.

Ok, agora parece que estamos falando do seu chefe, mas se atente à sutileza. Em um estudo realizado em 2006, tentaram determinar o grau de inacuidade das pessoas em relação às suas reais habilidades como motoristas, como resultado, os testes mostraram que os motoristas sempre se qualificavam superiores à concorrência em mais de 18 ítens que tinham relação com sua habilidade de dirigir, claro que eles não sabiam qual era a finalidade do teste, que foi apresentado como um teste para determinar a percepção que cada um tinha de perigos no trânsito.

Outro efeito da superioridade ilusória é se criar uma ilusão que envolve sua capacidade de jogar e apostar. Por alguma razão as pessoas pensam com frequência que podem levar uma vantagem sobre jogadores profissionais de poker, deixando de lado qualquer bom senso relacionado às estatísticas sobre perdas e experiência, e claro que quando os jogos terminam, a culpa sempre recai sobre alguma falha externa ou algo que sua expertize não previu.

Tenha sempre em mente que provavelmente você não é tão esperto ou esperta quanto seu cérebro diz que você é. A humildade afinal pode ser a melhor maneira de hackear seu cérebro e não ser enganado por ele.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-superioridade-ilusoria/

O Caminho do Excesso

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A noção de Caminho do Meio é passada mais notavelmente por Buddha e Aristóteles. Buddha enfatizou o Caminho do Meio no contexto de “Despertar”, dizendo que o caminho da moderação está entre os extremos da austeridade e da indulgência. Aristóteles enfatizou o que ele chama de Doutrina do “Meio termo”. Onde a “virtude” reside na metade dos extremos de qualquer ação moral: Virtude é o meio entre dois vícios.

Thelema, por outro lado, é o Caminho do Excesso. Nesse novo Aeon, nos aventuramos a encontrar ambos os extremos, em qualquer caso: Indulgência & austeridade, orgulho & humildade, bom &mal, alturas & profundidades; O livro da Lei nos dá esta formula de modo claro: “Mas excede! Excede! Esforça-se cada vez mais e se tu és verdadeiramente meu- e não duvide disto, e se tu és sempre jubiloso! Morte é a coroa de tudo! (II:71-72). A formula é dada ainda com mais detalhes no nosso livro sagrado “Liber Tzaddi vel Hamus Hermeticus”:

33. Eu vos revelo um grande mistério. Vós estais entre o abismo do alto e o abismo da profundeza

34. Em qualquer um destes vos aguarda uma Companhia; e aquela Companhia é Vós mesmos

35. Vós não podeis ter outra Companhia

36. Muitos se ergueram, sendo sábios. Eles disseram “Buscai a imagem brilhante no lugar sempre dourado, e uni-vos com Ela”

37. Muitos se ergueram, sendo tolos. Eles disseram “Descei até o sombriamente esplêndido mundo, e desposai-vos com aquela Criatura Cega do Lodo”.

38. Eu que estou além da sabedoria e da Tolice, me ergo e vos digo: realizai ambas as núpcias! Uni-vos com ambos.

39. Cuidado, cuidado, eu digo, a fim de que não busques a um e perdas o outro!

40. Meus adeptos se mantêm erguidos; sua cabeça acima dos céus, seus pés abaixo dos infernos.

Apenas escalando até as alturas e mergulhando nas profundezas nós conseguiremos entender esses Companheiros – isto é, nós iremos compreenderemos toda nossa altura e nossas profundezas ao invés de meramente permanecer no meio termo.

É possível imaginar o Caminho do meio ou a Doutrina do meio termo como uma Torre ou um pau de base pequena que voa facilmente quando um vento assopra. O caminho do Excesso é o oposto disso; nós construímos nossas base o mais largo possível,de forma a construir fundações mais resiliente para nossa pirâmides. Para cada crescida que nossa planta faz para o céu, nossas raízes fazem para o solo.

Agora passamos para o nosso Santo-Sátiro Nietzsche que revelou a psicologia insidiosa por trás destes Caminhos do Meio… Aquilo que eles chamam de moderação é na verdade “mediocridiade”.

“Eu passo pelo meio do povo e mantenho os olhos abertos: eles se tornam menores e menores ainda mais eles se tornam. Deve-se isto à sua doutrina da felicidade e virtude.

É que eles são moderados também em virtude, porque eles querem conforte, com conforto, contudo, uma virtude modesta é o que é compatível apenas.

Alguns deles querem, mas na maioria apenas é querida. Alguns são genuíno, mas a maioria deles é[composta por] maus atores

A virtude pra eles, é o que os faz modestos e domados; assim fizeram do lobo um cão e do próprio homem o melhor animal doméstico do homem .

“Nós colocamos a nossa cadeira no meio” — assim me confessa o seu semi sorriso — “tão distante dos gladiadores moribundos quanto dos suínos saciados”. Isto, porém, é mediocridade, embora chamem-na de moderado.

(assim disse Zarathstra “A verdade amesquinhadora)

O fato é esse: o homem “moderado” é o homem médio e, portanto o homem medíocre. Ele é nada especial, nada importante, nada demasiadamente radiante ou único. Essas doutrinas não geram Leões e lobos, mas sim animais domesticados. Por trás dessas virtudes há o desejo de mansidão, conforto e segurança. Essas pessoas não apenas temem os extremos em si próprios, criando uma ruptura e por consequência, uma restrição em seu íntimo ser, mas consequentemente, eles temem que o Extremo e o Excesso e seja expresso nos outros.

O Medo e o desejo por conforto seguro são antitéticos para uma forte e engenhosa Vontade, que possa ser autoassertiva, movida por amor, forte, bela, que saltita com risadas. Nosso profeta explica em seu comentário ao Livro da Lei essa mesma ideia:

“Progresso, como sua própria etimologia declara, significa Um passo a Frente, É o Gênio, O excêntrico, o Homem que se destaca de seus pares, que é o Salvador da Raça. Ainda que não seja sábio, possivelmente (em algum aspectos) exceder em certos aspectos, podemos ter certeza que aquele que excede não é de forma alguma medíocre”

E assim: concluímos com uma fala de William Blake que To Mega Therion cita em seu comentário para “Exceda!Exceda!” do Liber Al:

“A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria”

Amor é a Lei, Amor sob vontade

The Path of Excess in Thelema

#Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-caminho-do-excesso

Além da Caverna

Por Ken Wilber

Física e misticismo, física e misticismo, física e misticismo… Na década passada foram lançadas, literalmente, dúzias de livros de físicos, filósofos, psicólogos e teólogos com o objetivo de descrever ou explicar a extraordinária relação entre a física moderna, a mais dura das ciências, e o misticismo, a mais suave das religiões. A física e o misticismo estão rapidamente aproximando-se de uma notável visão comum de mundo, dizem alguns. São aproximações complementares para uma mesma realidade, afirmam outros. Não, nada têm em comum, anunciam os céticos; seus métodos, objetivos e resultados são diametralmente opostos. Em verdade, a física moderna vem sendo usada para apoiar ou refutar o determinismo, o livre-arbítrio, Deus, Espírito, a imortalidade, a causalidade, a predestinação, o Budismo, o Hinduísmo, o Cristianismo e o Taoísmo.

O fato é que cada geração tem usado a física para provar ou negar o Espírito – o que deve nos dizer algo a respeito. Platão declarou que toda a física era, usando suas próprias palavras, nada mais que uma “história plausível”, uma vez que ela dependia, em última análise, da evidência de sentidos fugidios e vagos, enquanto a verdade residia nas Formas transcendentais além da física (daí a “metafísica”). Por outro lado, Demócrito acreditava somente em “átomos e no vazio”, desde que, ele sentia, nada mais existia – uma noção tão desprezível para Platão, a ponto de levá-lo a expressar o mais forte desejo de que toda a obra de Demócrito fosse queimada imediatamente.

Quando a física newtoniana passou a reinar, os materialistas se agarraram a ela para provar que uma vez que o universo era, obviamente, uma máquina determinística, não havia espaço para livre-arbítrio, Deus, graça, intervenção divina, ou qualquer outra coisa que, mesmo vagamente, se assemelhasse ao Espírito. Este argumento, aparentemente impenetrável, não causou o menor impacto nos filósofos espiritualistas ou idealistas. Realmente, estes argumentavam, a segunda lei da termodinâmica – que, inequivocamente, anuncia que o universo está gastando a corda – significa somente uma coisa: se o universo está gastando a corda é porque, previamente, algo ou alguém deu corda no universo. A física newtoniana não refuta Deus; pelo contrário, afirmavam, ela prova a absoluta necessidade de um Divino Criador!

Ao entrar em cena a teoria da relatividade, repetiu-se o mesmo drama. O Cardeal O’Connell de Boston preveniu os bons católicos que a relatividade era “uma confusa especulação produzindo uma dúvida universal sobre Deus e Sua criação”; a teoria era uma “hedionda aparição do Ateísmo”. Por outro lado, o Rabino Goldstein anunciou, solenemente, que Einstein tinha conseguido nada menos que produzir “uma fórmula científica para o monoteísmo”. Similarmente, os trabalhos de James Jeans e Arthur Eddington foram saudados efusivamente nos púlpitos de toda a Inglaterra – a física moderna sustenta a Cristandade em todos os aspectos essenciais! O problema era que tanto Jeans quanto Eddington não concordavam com esse entendimento e muito menos concordavam entre si, o que inspirou o famoso chiste de Bertrand Russel de que “Sir Arthur Eddington deduz a religião do fato de que os átomos não obedecem às leis da matemática; Sir James Jeans a deduz do fato de que eles as obedecem”.

Hoje ouvimos falar da suposta relação entre a física moderna e o misticismo oriental. A teoria “bootstrap”, o teorema de Bell, a ordem implicada, o paradigma holográfico – supõe-se que tudo isto prova (ou refuta?) o misticismo oriental. Em todos os aspectos essenciais, repete-se a mesma história com personagens diferentes. Os prós e os contras apresentam seus argumentos, mas o que resta de verdadeiro e inalterado é que, simplesmente, o assunto em si é extremamente complexo.

No meio dessa confusão, então, parece ser uma boa idéia consultar os fundadores da física moderna sobre o que eles pensavam a respeito de ciência e religião. Qual é a relação, se existe alguma, entre a física moderna e o misticismo transcendental? A física dá suporte a temas como livre-arbítrio, criação, Espírito, alma? Quais são os respectivos papéis da ciência e da religião? A física trata mesmo da Realidade (com “R” maiúsculo) ou está necessariamente confinada a estudar as sombras na caverna?

#hermetismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/al%C3%A9m-da-caverna

A Sombra na vida cotidiana

CONNIE ZWEIG e JEREMIAH ABRAMS

Em 1886, mais de uma década antes de Freud sondar as profundezas da escuridão humana, Robert Louis Stevenson teve um sonho altamente revelador: um homem, perseguido por um crime, engolia um certo pó e passava por uma drástica mudança de caráter, tão drástica que ele se tornava irreconhecível. O amável e laborioso cientista Dr, Jekyll transformava-se no violento e implacável Mr. Hyde, cuja maldade ia assumindo proporções cada vez maiores à medida que o sonho se desenrolava.

Stevenson desenvolveu o sonho no seu famoso romance The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde [O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde]. Seu tema integrou-se de tal modo na cultura popular que pensamos nele quando ouvimos alguém dizer, “Eu não era eu mesmo”, ou “Ele parecia possuído por um demônio”, ou “Ela virou uma megera”. Como diz o analista junguiano John Sanford, quando uma história como essa nos toca tão a fundo e nos soa tão verdadeira, é porque ela contém uma qualidade arquetípica — ela fala a um ponto em nós que é universal.

Cada um de nós contém um Dr. Jekyll e um Mr. Hyde: uma persona agradável para o uso cotidiano e um eu oculto e noturna) que permanece amordaçado a maior parte do tempo. Emoções e comportamentos negativos — raiva, inveja, vergonha, falsidade, ressentimento, lascívia, cobiça, tendências suicidas e homicidas — ficam escondidos logo abaixo da superfície, mascarados pelo nosso eu mais apropriado às conveniências. Em seu conjunto, são conhecidos na psicologia como a sombra pessoal, que continua a ser um território indomado e inexplorado para a maioria de nós.

A apresentação da sombra

A sombra pessoal desenvolve-se naturalmente em todas as crianças. A medida que nos identificamos com as características ideais de personalidade (tais como polidez e generosidade) que são encorajadas pelo nosso ambiente, vamos formando aquilo que W. Brugh Joy chama o “eu das decisões de Ano Novo”. Ao mesmo tempo, vamos enterrando na sombra aquelas qualidades que não são adequadas à nossa autoimagem, como a rudeza e o egoísmo. O ego e a sombra, portanto, desenvolvem-se aos pares, criando-se mutuamente a partir da mesma experiência de vida.

Carl Jung viu em si mesmo a inseparabilidade do ego e da sombra, num sonho que descreve em sua autobiografia Memories, Dreams, Reflections [Memórias, Sonhos, Reflexões]: Era noite, em algum lugar desconhecido, e eu avançava com muita dificuldade contra uma forte tempestade. Havia um denso nevoeiro. Eu segurava e protegia com as mãos uma pequena luz que ameaçava extinguir-se a qualquer momento. Eu sentia que precisava mantê-la acesa, pois tudo dependia disso.

De súbito, tive a sensação de que estava sendo seguido. Olhei para trás e percebi uma gigantesca forma escura seguindo meus passos. Mas no mesmo instante tive consciência, apesar do meu terror, de que eu precisava atravessar a noite e o vento com a minha pequena luz, sem levar em conta perigo algum.

Ao acordar, percebi de imediato que havia sonhado com a minha própria sombra, projetada no nevoeiro pela pequena luz que eu carregava. Entendi que essa pequena luz era a minha consciência, a única luz que possuo. Embora infinitamente pequena e frágil em comparação com os poderes das trevas, ela ainda é uma luz, a minha única luz.

Muitas forças estão em jogo na formação da nossa sombra e, em última análise, determinam o que pode e o que não pode ser expresso. Pais, irmãos, professores, clérigos e amigos criam um ambiente complexo no qual aprendemos aquilo que representa comportamento gentil, conveniente e moral, e aquilo que é mesquinho, vergonhoso e pecaminoso.

A sombra age como um sistema imunológico psíquico, definindo o que é eu e o que é não-eu. Pessoas diferentes, em diferentes famílias e culturas, consideram de modos diversos aquilo que pertence ao ego e aquilo que pertence à sombra. Por exemplo, alguns permitem a expressão da raiva ou da agressividade; a maioria, não. Alguns permitem a sexualidade, a vulnerabilidade ou as emoções fortes; muitos, não. Alguns permitem a ambição financeira, a expressão artística ou o desenvolvimento intelectual; outros, não.

Todos os sentimentos e capacidades que são rejeitados pelo ego e na sombra contribuem para o poder oculto do lado escuro da natureza humana. No entanto, nem todos eles são aquilo que se considera traços negativos. De acordo com a analista junguiana Liliane FreyRohn, esse escuro tesouro inclui a nossa porção infantil, nossos apegos emocionais e sintomas neuróticos bem como nossos talentos e dons não-desenvolvidos. A sombra, diz ela, “mantém contato com as profundezas perdidas da alma, com a vida e a vitalidade — o superior, o universalmente humano, sim, mesmo o criativo podem ser percebidos ali”.

A rejeição da sombra

Não podemos olhar diretamente para esse domínio oculto, A sombra é, por natureza, difícil de ser apreendida. Ela é perigosa, desordenada e eternamente oculta, como se a luz da consciência pudesse roubar-lhe a vida.

O analista junguiano James Hillman, autor de diversas obras, diz: “O inconsciente não pode ser consciente; a Lua tem seu lado escuro, o Sol se põe e não pode iluminar o mundo todo ao mesmo tempo, e mesmo Deus tem duas mãos. A atenção e o foco exigem que algumas coisas fiquem fora do campo visual, permaneçam no escuro. Não se pode olhar em duas direções ao mesmo tempo.”

Por essa razão, em geral vemos a sombra indiretamente, nos traços e ações desagradáveis das outras pessoas, lá fora, onde é mais seguro observá-la. Quando reagimos de modo intenso a uma qualidade qualquer {preguiça, estupidez, sensualidade, espiritualidade, etc.) de uma pessoa ou grupo, e nos enchemos de grande aversão ou admiração — essa reação talvez seja a nossa sombra se revelando. Nós nos projetamos ao atribuir essa qualidade à outra pessoa, num esforço inconsciente de bani-la de nós mesmos, de evitar vê-la dentro de nós.

A analista junguiana Marie-Louise von Franz sugere que essa projeção é como disparar uma flecha mágica. Se o destinatário tem um “ponto fraco” onde receber a projeção, então ela se mantém, Se projetamos nossa raiva sobre um companheiro insatisfeito, ou nosso poder de sedução sobre um atraente estranho, ou nossos atributos espirituais sobre um guru, então atingimos o alvo e a projeção se mantém. Daí em diante, emissor e receptor estarão unidos numa misteriosa aliança, como apaixonar-se ou encontrar o herói (ou vilão) perfeito.

A sombra pessoal contém, portanto, todos os tipos de potencialidades nãodesenvolvidas e não-expressas. Ela é aquela parte do inconsciente que complementa o ego e representa as características que a personalidade consciente recusa-se a admitir e, portanto, negligencia, esquece e enterra… até redescobri-las em confrontos desagradáveis com os outros.

O encontro com a sombra

Embora não possamos fitá-la diretamente, a sombra surge na vida diária. Por exemplo, nós a encontramos em tiradas humorísticas (tais como piadas sujas ou brincadeiras tolas) que expressam nossas emoções ocultas, inferiores ou temidas. Analisando de perto aquilo que achamos engraçado (como alguém escorregando numa casca de banana ou se referindo a uma parte “proibida” do corpo), descobrimos que nossa sombra está ativa. John Sanford diz que é possível que as pessoas destituídas de senso de humor tenham uma sombra muito reprimida.

A psicanalista inglesa Molly Tuby sugere seis outras maneiras pelas quais, mesmo sem saber, encontramos a nossa sombra no dia-a-dia:

  • Em geral, é a sombra que ri das piadas.
  • Nos nossos sentimentos exagerados em relação aos outros (“Eu simplesmente não acredito que ele tenha feito isso!”, “Não consigo entender como ela é capaz de usar uma roupa dessas!”)
  • Na opinião negativo que recebemos daqueles que nos servem de espelhos (“Já é a terceira vez que você chega tarde sem me avisar.”)
  • Nas interações em que continuamente exercemos o mesmo efeito perturbador sobre diversas pessoas diferentes (“Eu e o Sam achamos que você não está sendo honesto com a gente.”)
  • Nos nossos atos impulsivos e não-intencionais (“Puxa, desculpe, eu não quis dizer isso!”)
  • Nas situações em que somos humilhados (“Estou tão envergonhada com o jeito que ele me trata.”)
  • Na nossa raiva exagerada em relação aos erros alheios (“Ela simplesmente não consegue fazer seu trabalho em tempo!”, “Cara, mas ele perdeu totalmente o controle do peso!”)
  • Em momentos como esses, quando somos dominados por fortes sentimentos de vergonha ou de raiva, ou quando descobrimos que nosso comportamento é inaceitável, é a sombra que está irrompendo de um modo inesperado.

E em geral ela retrocede com igual velocidade; pois encontrar a sombra pode ser uma experiência assustadora e chocante para a nossa autoimagem, Por essa razão, podemos mudar rapidamente para a negação, deixando de prestar atenção a fantasias homicidas, a pensamentos suicidas ou a embaraçosos sentimentos de inveja, que revelariam um pouco da nossa própria escuridão. O falecido psiquiatra R. D. Laing descreve de modo poético o reflexo de negação da nossa mente: O alcance do que pensamos e fazemos é limitado pelo que deixamos de notar. E por deixarmos de notar que deixamos de notar pouco podemos fazer para mudar, até que notemos como o deixar de notar forma nossos pensamentos e ações.

Se a negação permanecer, então, como diz Laing, talvez nem sequer notemos que deixamos de notar. Por exemplo, é comum encontrarmos a sombra na meia-idade, quando nossas mais profundas necessidades e valores tendem a mudar de direção, talvez até fazendo um giro de 180 graus, Isso exige a quebra de velhos hábitos e o cultivo de talentos adormecidos. Se não pararmos para ouvir atentamente o chamado e continuarmos a nos mover na mesma direção anterior, permaneceremos inconscientes daquilo que a meia-idade tem a nos ensinar.

A depressão também pode representar uma confrontação paralisante com o lado escuro, um equivalente moderno da “noite escura da alma” do místico. Nossa exigência interior para que desçamos ao mundo subterrâneo pode ser suplantada por considerações de ordem externa (como a necessidade de trabalhar por longas horas), pela interferência dos outros ou por drogas antidepressivas que amortecem a nossa sensação de desespero. Nesse caso, deixamos de apreender o propósito da nossa melancolia.

Encontrar a sombra pede uma desaceleração do ritmo da vida, pede que ouçamos as indicações do nosso corpo e nos concedamos tempo para estar a sós, a fim de podermos digerir as mensagens misteriosas do mundo oculto.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-sombra-na-vida-cotidiana/

Mapa Astral de H.G. Wells

Maçonaria e da Sociedade Fabiana.

Nascido num distrito (borough) da Grande Londres, na juventude foi, sem sucesso, aprendiz de negociante de panos – a sua experiência nesta ocupação veio mais tarde a ser usada como material para o romance Kipps. Em 1883 tornou-se professor na Midhurst Grammar School, até ganhar uma bolsa na Escola Normal de Ciências em Londres, para estudar biologia com T. H. Huxley.

Nos seus primeiros romances, descritos, ao tempo, como “romances científicos”, inventou uma série de temas que foram mais tarde aprofundados por outros escritores de ficção científica, e que entraram na cultura popular em trabalhos como A Máquina do Tempo, O Homem Invisível e A Guerra dos Mundos. Outros romances, de natureza não fantástica, foram bem recebidos, sendo exemplos a sátira à publicidade Edwardiana Tono-Bungay e Kipps.

Visionário, chegou a discutir em obras do início do século XX questões ainda atuais, como a ameaça de guerra nuclear, o advento de Estado Mundial e a Ética na manipulação de animais.

O mapa de H.G. Wells

Sol em Virgem-Libra (Dama de Espadas), Lua e Ascendente em Aquário e Caput Draconis em Libra. O Planeta mais forte do Mapa é Saturno (em Escorpião na casa 8, com 6 aspectações muito fortes). Possui também Júpiter em Capricórnio (indicativo de facilidade para lidar com Sistemas e hierarquias).

Com base nisso, podemos verificar que Wells era uma pessoa extremamene séria, metódica, voltada para o psicológico e com profunda capacidade de análise das camadas do subconsciente humano, além das correlações com a sociedade como um todo. Saturno em Escorpião é encontrado em muitos psiquiatras e estudiosos do comportamento humano. O Sol em Virgem/Libra é indicativo também de uma pessoa politizada, séria e que trabalha bem a mente e a maneira como se dirige às pessoas.

O Mercúrio em Virgem cético e metódico, muito encontrado em ateus e agnósticos, impulsiona sua maneira de pensar, ao mesmo tempo em que a lua e o ascendente o levam para romper barreiras e a consciência do Social e do grupo. A combinação entre Saturno e a Lua de H.G Wells (por “coincidência o Aspecto mais forte de todo o Mapa, com 0,28graus) faz com que ele ao mesmo tempo tenha uma profunda consciência da sociedade ao seu redor, e utilize este conhecimento para tentar reformulá-lá.

Marte (em Câncer) indica uma pessoa que luta com paixão, que se envolverá com as emoções em tudo o que se dispuser a fazer. Wells possui Marte em Trígono com Saturno, indicando cooperação entre estas energias.

#Astrologia #Biografias

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/mapa-astral-de-h-g-wells

A Sincronicidade

NOTA: Os números em colchetes referem-se à numeração original dos parágrafos e serve como referência para citação bibliográfica[1].

[959] Talvez fosse indicado começar minha exposição, definindo o conceito do qual ela trata. Mas eu gostaria mais de seguir o caminho inverso e dar-vos primeiramente uma breve descrição dos fatos que devem ser entendidos sob a noção de sincronicidade. Como nos mostra sua etimologia, esse termo tem alguma coisa a ver com o tempo ou, para sermos mais exatos, com uma espécie de simultaneidade. Em vez de simultaneidade, poderíamos usar também o conceito de coincidência significativa de dois ou mais acontecimentos, em que se trata de algo mais do que uma probabilidade de acasos. Casual é a ocorrência estatística — isto é, provável — de acontecimentos como a “duplicação de casos”, p. ex., conhecida nos hospitais. Grupos desta espécie podem ser constituídos de qualquer número de membros sem sair do âmbito da probabilidade e do racionalmente possível. Assim, pode ocorrer que alguém casualmente tenha a sua atenção despertada pelo número do bilhete do metro ou do trem. Chegando à casa, ele recebe um telefonema e a pessoa do outro lado da linha diz um número igual ao do bilhete. À noite ele compra um bilhete de entrada para o teatro, contendo esse mesmo número. Os três acontecimentos formam um grupo casual que, embora não seja freqüente, contudo não excede os limites da probabilidade. Eu gostaria de vos falar do seguinte grupo casual, tomado de minha experiência pessoal e constituído de não menos de seis termos:

[960] Na manhã do dia Iº de abril de 1949 eu transcrevera uma inscrição referente a uma figura que era metade homem, metade peixe. Ao almoço houve peixe. Alguém nos lembrou o costume do “Peixe de Abril” (primeiro de abril). De tarde, uma antiga paciente minha, que eu já não via por vários meses, me mostrou algumas figuras impressionantes de peixe. De noite, alguém me mostrou uma peça de bordado, representando um monstro marinho. Na manhã seguinte, bem cedo, eu vi uma outra antiga paciente, que veio me visitar pela primeira vez depois de dez anos. Na noite anterior ela sonhara com um grande peixe. Alguns meses depois, ao empregar esta série em um trabalho maior, e tendo encerrado justamente a sua redação, eu me dirigi a um local à beira do lago, em frente à minha casa, onde já estivera diversas vezes, naquela mesma manhã. Desta vez encontrei um peixe morto, mais ou menos de um pé de comprimento [cerca de 30 cm], sobre a amurada do Lago. Como ninguém pôde estar lá, não tenho idéia de como o peixe foi parar ali.

[961] Quando as coincidências se acumulam desta forma, é impossível que não fiquemos impressionados com isto, pois, quanto maior é o número dos termos de uma série desta espécie, e quanto mais extraordinário é o seu caráter, tanto menos provável ela se torna. Por certas razões que mencionei em outra parte e que não quero discutir aqui, admito que se trata de um grupo casual. Mas também devo reconhecer que é mais improvável do que, p. ex., uma mera duplicação.

[962] No caso do bilhete do metro, acima mencionado, eu disse que o observador percebeu “casualmente” o número e o gravou na memória, o que, ordinariamente, ele jamais fazia. Isto nos forneceu os elementos para concluir que se trata de uma série de acasos, mas ignoro o que o levou a fixar a sua atenção nos números. Parece-me que um fator de incerteza entra no julgamento de uma série desta natureza e reclama certa atenção. Observei coisa semelhante em outros casos, sem, contudo, ser capaz de tirar as conclusões que mereçam fé. Entretanto, às vezes é difícil evitar a impressão de que há uma espécie de precognição de acontecimentos futuros. Este sentimento se torna irresistível nos casos em que, como acontece mais ou menos freqüentemente, temos a impressão de encontrar-nos com um velho conhecido, mas para nosso desapontamento logo verificamos que se trata de um estranho. Então vamos até a esquina próxima e topamos com o próprio em pessoa. Casos desta natureza acontecem de todas as formas possíveis e com bastante freqüência, mas geralmente bem depressa nos esquecemos deles, passados os primeiros momentos de espanto.

[963] Ora, quanto mais se acumulam os detalhes previstos de um acontecimento, tanto mais clara é a impressão de que há uma precognição e por isto tanto mais improvável se torna o acaso. Lembro-me da história de um amigo estudante ao qual o pai prometera uma viagem à Espanha, se passasse satisfatoriamente nos exames finais. Este meu amigo sonhou então que estava andando em uma cidade espanhola. A rua conduzia a uma praça onde havia uma catedral gótica. Assim que chegou lá, dobrou a esquina, à direita, entrando noutra rua. Aí ele encontrou uma carruagem elegante, puxada por dois cavalos baios. Nesse momento ele despertou. Contou-nos ele o sonho enquanto estávamos sentados em torno de uma mesa de bar. Pouco depois, tendo sido bem sucedido nos exames, viajou à Espanha e aí, em uma das ruas, reconheceu a cidade de seu sonho. Encontrou a praça e viu a igreja, que correspondia exatamente à imagem que vira no sonho. Primeiramente, ele queria ir diretamente à igreja, mas se lembrou de que, no sonho, ele dobrava a esquina, à direita, entrando noutra rua. Estava curioso por verificar se seu sonho seria confirmado outra vez. Mal tinha dobrado a esquina, quando viu, na realidade, a carruagem com os dois cavalos baios.

[964] O sentimento do déjà-vu [sensação do já visto] se baseia, como tive oportunidade de verificar em numerosos casos, em uma precognição do sonho, mas vimos que esta precognição ocorre também no estado de vigília. Nestes casos, o puro acaso se torna extremamente improvável, porque a coincidência é conhecida de antemão. Deste modo, ela perde seu caráter casual não só psicológica e subjetivamente, mas também objetivamente, porque a acumulação dos detalhes coincidentes aumenta desmedidamente a improbabilidade (Dariex e Flammarion calcularam as probabilidades de 1:4 milhões a 1:800 milhões para mortes corretamente previstas). Por isto, em tais casos seria inadequado falar de “acasos”. Do contrário, trata-se de coincidências significativas. Comumente os casos deste gênero são explicados pela precognição, isto é, pelo conhecimento prévio. Também se fala de clarividência, de telepatia, etc, sem, contudo, saber-se explicar em que consistem estas faculdades ou que meio de transmissão elas empregam para tornar acontecimentos distantes no espaço e no tempo acessíveis à nossa percepção. Todas estas idéias são meros nomina [nomes]; não são conceitos científicos que possam ser considerados como afirmações de princípio. Até hoje ninguém conseguiu construir uma ponte causal entre os elementos constitutivos de uma coincidência significativa.

[965] Coube a J. B. Rhine o grande mérito de haver estabelecido bases confiáveis para o trabalho no vasto campo destes fenômenos, com seus experimentos sobre a ESP (extra-sensory-perception). Ele usou um baralho de 25 cartas, divididas em 5 grupos de 5, cada um dos quais com um desenho próprio (estrela, retângulo, círculo, cruz, duas linhas onduladas). A experiência era efetuada da seguinte maneira: em cada série de experimentos retiravam-se aleatoriamente as cartas do baralho, 800 vezes seguidas, mas de modo que o sujeito (ou pessoa testada) não pudesse ver as cartas que iam sendo retiradas. Sua tarefa era adivinhar o desenho de cada uma das cartas retiradas. A probabilidade de acerto é de 1:5. O resultado médio obtido com um número muito grande de cartas foi de 6,5 acertos. A probabilidade de um desvio casual de 1,5 é só de 1:250.000. Alguns indivíduos alcançaram o dobro ou mais de acertos. Uma vez, todas as 25 cartas foram adivinhadas corretamente em nova série, o que dá uma probabilidade de 1:289.023.223.876.953.125. A distância espacial entre o experimentador e a pessoa testada foi aumentada de uns poucos metros até 4.000 léguas, sem afetar o resultado.

[966] Uma segunda forma de experimentação consistia no seguinte: mandava-se o sujeito adivinhar previamente a carta que iria ser retirada no futuro próximo ou distante. A distância no tempo foi aumentada de alguns minutos até duas semanas. O resultado desta experiência apresentou uma probabilidade de 1:400.000.

[967] Numa terceira forma de experimentação o sujeito deveria procurar influenciar a movimentação de dados lançados por um mecanismo, escolhendo um determinado número. Os resultados deste experimento, dito psicocinético (PK, de psychokinesisj, foram tanto mais positivos, quanto maior era o número de dados que se usavam de cada vez.

[968] O experimento espacial mostra com bastante certeza que a psique pode eliminar o fator espaço até certo ponto. A experimentação com o tempo nos mostra que o fator tempo (pelo menos na dimensão do futuro) pode ser relativizado psiquicamente. A experimentação com os dados nos indica que os corpos em movimento podem ser influenciados também psiquicamente, como se pode prever a partir da relatividade psíquica do espaço e do tempo.

[969] O postulado da energia é inaplicável no experimento de Rhine. Isto exclui a idéia de transmissão de força. Também não se aplica a lei da causalidade, circunstância esta que eu indicara há trinta anos atrás. Com efeito, é impossível imaginar como um acontecimento futuro seja capaz de influir num outro acontecimento já no presente. Como atualmente é impossível qualquer explicação causal, forçoso é admitir, a título provisório, que houve acasos improváveis ou coincidências significativas de natureza acausal.

[970] Uma das condições deste resultado notável que é preciso levar em conta é o fato descoberto por Rhine: as primeiras séries de experiência apresentam sempre resultados melhores do que as posteriores. A diminuição dos números de acerto está ligada às disposições do sujeito da experimentação. As disposições iniciais de um sujeito crente e otimista ocasionam bons resultados. O ceticismo e a resistência produzem o contrário, isto é, criam disposições desfavoráveis no sujeito. Como o ponto de vista energético é praticamente inaplicável nestes experimentos, a única importância do fator afetivo reside no fato de ele ser uma das condições com base nas quais o fenômeno pode, mas não deve acontecer. Contudo, de acordo com os resultados obtidos por Rhine, podemos esperar 6,5 acertos em vez de apenas 5. Todavia, é impossível prever quando haverá acerto. Se isto fosse possível, estaríamos diante de uma lei, o que contraria totalmente a natureza do fenômeno, que tem as características de um acaso improvável cuja freqüência é mais ou menos provável e geralmente depende de algum estado afetivo.

[971] Esta observação, que foi sempre confirmada, nos mostra que o fator psíquico que modifica ou elimina os princípios da explicação física do mundo está ligado à afetividade do sujeito da experimentação. Embora a fenomenologia do experimento da ESP e da PK possam enriquecer-se notavelmente com outras experiências do tipo apresentado esquematicamente acima, contudo uma pesquisa mais profunda das bases teria necessariamente de se ocupar com a natureza da afetividade. Por isto, eu concentrei minha atenção sobre certas observações e experiências que, posso muito bem dizê-lo, se impuseram com freqüência no decurso de minha já longa atividade de médico. Elas se referem a coincidências significativas espontâneas de alto grau de improbabilidade e que conseqüentemente parecem inacreditáveis. Por isto, eu gostaria de vos descrever um caso desta natureza, para dar um exemplo que é característico de toda uma categoria de fenómenos. Pouco importa se vos recusais a acreditar em um único caso ou se tendes uma explicação qualquer para ele. Eu poderia também apresentar-vos uma série de histórias como esta que, em princípio, não são mais estranhas ou menos dignas de crédito do que os resultados irrefutáveis de Rhine, e não demoraríeis a ver que cada caso exige uma explicação própria. Mas a explicação causal, cientificamente possível, fracassa por causa da relativização psíquica do espaço e do tempo, que são duas condições absolutamente indispensáveis para que haja conexão entre a causa e o efeito.

[972] O exemplo que vos proponho é o de uma jovem paciente que se mostrava inacessível, psicologicamente falando, apesar das tentativas de parte a parte neste sentido. A dificuldade residia no fato de ela pretender saber sempre melhor as coisas do que os outros. Sua excelente formação lhe fornecia uma arma adequada para isto, a saber, um racionalismo cartesiano aguçadíssimo, acompanhado de uma concepção geometricamente impecável da realidade. Após algumas tentativas de atenuar o seu racionalismo com um pensamento mais humano, tive de me limitar à esperança de que algo inesperado e irracional acontecesse, algo que fosse capaz de despedaçar a retorta intelectual em que ela se encerrara. Assim, certo dia eu estava sentado diante dela, de costas para a janela, a fim de escutar a sua torrente de eloqüência. Na noite anterior ela havia tido um sonho impressionante no qual alguém lhe dava um escaravelho de ouro (uma jóia preciosa) de presente. Enquanto ela me contava o sonho, eu ouvi que alguma coisa batia de leve na janela, por trás de mim. Voltei-me e vi que se tratava de um inseto alado de certo tamanho, que se chocou com a vidraça, pelo lado de fora, evidentemente com a intenção de entrar no aposento escuro. Isto me pareceu estranho. Abri imediatamente a janela e apanhei o animalzinho em pleno vôo, no ar. Era um escarabeídeo, da espécie da Cetonia aurata, o besouro-rosa comum, cuja cor verde-dourada torna-o muito semelhante a um escaravelho de ouro. Estendi-lhe o besouro, dizendo-lhe: “Está aqui o seu escaravelho”. Este acontecimento abriu a brecha desejada no seu racionalismo, e com isto rompeu-se o gelo de sua resistência intelectual. O tratamento pôde então ser conduzido com êxito.

[973] Esta história destina-se apenas a servir de paradigma para os casos inumeráveis de coincidência significativa observados não somente por mim, mas por muitos outros e registrados parcialmente em grandes coleções. Elas incluem tudo o que figura sob os nomes de clarividência, telepatia, etc, desde a visão, significativamente atestada, do grande incêndio de Estocolmo, tida por Swedenborg, até os relatos mais recentes do marechal-do-ar Sir Victor Goddard a respeito do sonho de um oficial desconhecido, que previra o desastre subseqüente do avião de Goddard.

[974] Todos os fenômenos a que me referi podem ser agrupados em três categorias:

1. Coincidência de um estado psíquico do observador com um acontecimento objetivo externo e simultâneo, que corresponde ao estado ou conteúdo psíquico (p. ex., o escaravelho), onde não há nenhuma evidência de uma conexão causal entre o estado psíquico e o acontecimento externo e onde, considerando-se a relativização psíquica do espaço e do tempo, acima constatada, tal conexão é simplesmente inconcebível.

2. Coincidência de um estado psíquico com um acontecimento exterior correspondente (mais ou menos simultâneo), que tem lugar fora do campo de percepção do observador, ou seja, especialmente distante, e só se pode verificar posteriormente (como p. ex. o incêndio de Estocolmo).

3. Coincidência de um estado psíquico com um acontecimento futuro, portanto, distante no tempo e ainda não presente, e que só pode ser verificado também posteriormente.

[975] Nos casos dois e três, os acontecimentos coincidentes ainda não estão presentes no campo de percepção do observador, mas foram antecipados no tempo, na medida em que só podem ser verificados posteriormente. Por este motivo, digo que semelhantes acontecimentos são sincronísticos, o que não deve ser confundido com “sincrônicos”.

[976] Esta visão de conjunto deste vasto campo de observação seria incompleta, se não considerássemos aqui também os chamados métodos mânticos. O manticismo tem a pretensão, senão de produzir realmente acontecimentos sincronísticos, pelo menos de fazê-los servir a seus objetivos. Um exemplo bem ilustrativo neste sentido é o método oracular do I Ging que o Dr. Helmut Wilhelm descreveu detalhadamente neste encontro. O I Ging pressupõe que há uma correspondência sincronística entre o estado psíquico do interrogador e o hexagrama que responde. O hexagrama é formado, seja pela divisão puramente aleatória de 49 varinhas de milefólio, seja pelo lançamento igualmente aleatório de três moedas. O resultado deste método é incontestavelmente muito interessante, mas, até onde posso ver, não proporciona um instrumento adequado para uma determinação objetiva dos fatos, isto é, para avaliação estatística, porque o estado psíquico em questão é demasiadamente indeterminado e indefinível. O mesmo se pode dizer do experimento geomântico, que se baseia sobre princípios similares.

[977] Estamos numa situação um pouco mais favorável quando nos voltamos para o método astrológico, que pressupõe uma “coincidência significativa” de aspectos e posições planetárias com o caráter e o estado psíquico ocasional do interrogador. Ã luz das pesquisas astrofísicas recentes, a correspondência astrológica provavelmente não é um caso de sincronicidade mas, em sua maior parte, uma relação causal. Como o prof. KnolI demonstrou neste encontro, a irradiação dos prótons solares é de tal modo influenciada pelas conjunções, oposições e aspectos quartis dos aspectos que se pode prever o aparecimento de tempestades magnéticas com grande margem de probabilidade. Podem-se estabelecer relações entre a curva das perturbações magnéticas da terra e a taxa de mortalidade — relações que fortalecem a influência desfavorável Â, Ã e Å [aspectos quartis] e as influências favoráveis de dois aspectos trígonos e sextis. Assim é provável que se trate aqui de uma relação causal, isto é, de uma lei natural que exclua ou limite a sincronicidade. Ao mesmo tempo, porém, a qualificação zodiacal das casas, que desempenha um papel no horóscopo, cria uma complicação, dado que o Zodíaco astrológico coincide com o do calendário, mas não com as constelações do Zodíaco real ou astronômico. Estas constelações deslocaram-se consideravelmente de sua posição inicial em cerca de um mês platônico quase completo, em conseqüência da precessão dos equinócios desde a época do 0º  [ponto zero de Áries] (em começos de nossa era). Por isto, quem nascer hoje, em Aries, de acordo com o calendário astronômico, na realidade nasceu em Pisces. Seu nascimento teve lugar simplesmente em uma época que hoje (há cerca de 2.000 anos) se chama “Áries”. A Astrologia pressupõe que este tempo possui uma qualidade determinante. É possível que esta qualidade esteja ligada, como as perturbações magnéticas da Terra, às grandes flutuações sazonais às quais se acham sujeitas as irradiações dos prótons solares. Isto não exclui a possibilidade de as posições zodiacais representarem um fator causal.

[978] Embora a interpretação psicológica dos horóscopos seja uma matéria ainda muito incerta, contudo, atualmente há a perspectiva de uma possível explicação causal, em conformidade, portanto, com a lei natural. Por conseguinte, não há mais justificativa para descrever a Astrologia como um método mântico. Ela está em vias de se tornar uma ciência. Como, porém, ainda existem grandes áreas de incerteza, de há muito resolvi realizar um teste, para ver de que modo uma tradição astrológica se comportaria diante de uma investigação estatística. Para isto, foi preciso escolher um fato bem definido e indiscutível. Minha escolha recaiu no casamento. Desde a antiguidade a crença tradicional a respeito do casamento é que este é favorecido por uma conjunção entre o Sol e a Lua no horóscopo dos casais, isto é,  com uma órbita de 8º em um dos parceiros, e em  com  no outro parceiro. Uma segunda tradição, igualmente antiga, considera   também como uma característica do casamento. De importância são as conjunções dos ascendentes com os grandes luminares.

[979] Juntamente com minha colaboradora, a Dra. L. Frey-Rohn, primeiramente procedi à coleta de 180 casamentos, ou 360 horóscopos individuais, e comparamos os 50 aspectos astrológicos mais importantes neles contidos e que poderiam caracterizar um casamento, isto é, as  Â (conjunções) e  (oposições) entre  (Sol),  (Lua),  (Marte),  (Vênus), asc. e desc. O resultado obtido foi um máximo de 10% em   . Como me informou o Prof. Markus Fierz, que gentilmente se deu ao trabalho de calcular a probabilidade de meu resultado, meu número tem a probabilidade de cerca de 1:10.000. A opinião de vários físicos matemáticos consultados a respeito do significado deste número, é dividida: alguns acham-na considerável, outros acham-na questionável. Nosso número parece duvidoso, na medida em que a quantidade de 360 horóscopos é realmente muito pequena, do ponto de vista da Estatística.

[980] Enquanto analisávamos estatisticamente os aspectos dos 180 casamentos, esta nossa coleção se ampliava com novos horóscopos, e quando havíamos reunido mais 220 casamentos, esse novo “pacote” foi submetido a uma investigação em separado. Como da primeira vez, agora também o material era avaliado justamente da maneira como chegava. Não era selecionado segundo um determinado ponto de vista, e foi colhido nas mais diversas fontes. A avaliação do segundo “pacote” produziu um máximo de 10,9% para   . A probabilidade deste número é também aproximadamente de 1:10.000.

[981] Por fim, foram acrescentados mais 83 casamentos, a seguir estudados também separadamente. O resultado foi de um máximo de 9,6% para   ascendente. A probabilidade deste número é aproximadamente de 1:3.000.

[982] Um fato que logo nos chama atenção é que as conjunções são todas conjunções lunares, o que está de acordo com as expectativas astrológicas. Mas estranho é que aquilo que logo se destaca aqui são as três posições fundamentais do horóscopo, a saber:  (Sol),  (Lua) e o ascendente. A probabilidade de uma coincidência de    com    é de 1:100 milhões. A coincidência das três conjunções lunares com  (Sol),  (Lua) e o ascendente tem uma probabilidade de 1:3×10; em outros termos: a improbabilidade de um mero acaso para esta coincidência é tão grande, que nos vemos forçados a considerar a existência de um fator responsável por ela.  Como os três “pacotes” eram muito pequenos, as probabilidades respectivas de 1:10.000 e 1:3.000 dificilmente terão alguma importância teórica. Sua coincidência, porém, é tão improvável, que se torna impossível não admitir a presença de uma necessidade que produziu este resultado.

[963] Não se pode responsabilizar a possibilidade de uma conexão cientificamente válida entre os dados astrológicos e a irradiação dos prótons por este fato, pois as probabilidades individuais de 1:10.000 e 1:3.000 são demasiado grandes, para que se possa considerar nosso resultado, com um certo grau de certeza, como meramente casual. Além disto, os máximos tendem a se nivelar, quando aumenta o número de casamentos com a adição de novos pacotes. Seriam precisas centenas de milhares de horóscopos de casamentos para se determinar uma possível regularidade estatística de acontecimentos tais como as conjunções do Sol, da Lua e dos ascendentes, e, mesmo neste caso, o resultado seria ainda questionável. Entretanto, o fato de que aconteça algo de tão improvável quanto a coincidência das três conjunções clássicas só pode ser explicado ou como o resultado de uma fraude, intencional ou não, ou mais precisamente como uma coincidência significativa, isto é, como sincronicidade.

[964] Embora mais acima eu tenha sido levado a fazer reparos quanto ao caráter mântico da Astrologia, contudo, agora sou obrigado a reconhecer que ela tem este caráter, tendo em vista os resultados a que chegou meu experimento astrológico. O arranjo aleatório dos horóscopos matrimoniais colocados seguidamente uns sobre os outros na ordem que nos chegavam das diversas fontes, bem como a maneira igualmente aleatória com que foram divididos em três pacotes desiguais, correspondia às expectativas otimistas do pesquisador e produziram um quadro geral melhor do que se poderia desejar, do ponto de vista da hipótese astrológica. O êxito do experimento está inteiramente de acordo com os resultados da ESP de Rhine, que foram favoravelmente influenciados pelas expectativas, pela esperança e pela fé. Mas não havia uma expectativa definida com referência a qualquer resultado. A escolha de nossos 50 aspectos já é uma prova disto. Depois do resultado do primeiro pacote havia certa esperança de que a    se confirmasse. Mas esta expectativa frustrou-se. Na segunda vez, formamos um pacote maior com os horóscopos acrescentados antes, a fim de aumentar a certeza. Mas o resultado foi a    . Com o terceiro pacote havia apenas leve esperança de que a    se confirmasse, o que também, mais uma vez, não ocorreu.

[985] O que aconteceu aqui foi reconhecidamente uma curiosidade, aparentemente uma coincidência significativa singular. Se alguém se impressionasse com esta coincidência, poderíamos chamá-lo de pequeno milagre. Hoje, porém, temos de considerar a noção de milagre sob uma ótica diferente daquela a que estávamos habituado. Com efeito, os experimentos de Rhine nos mostraram, nesse meio tempo, que o espaço e o tempo, e conseqüentemente também a causalidade, são fatores que se podem eliminar e, portanto, os fenómenos acausais ou os chamados milagres, parecem possíveis. Todos os fenómenos naturais desta espécie são combinações singulares extremamente curiosas dos acasos, unidas entre si pelo sentido comum de suas partes o resultando em um todo inconfundível. Embora as coincidências significativas sejam infinitamente diversificadas quanto à sua fenomenologia, contudo, como fenómenos acausais, elas constituem um elemento que faz parte da imagem científica do mundo. A causalidade é a maneira pela qual concebemos a ligação entre dois acontecimentos sucessivos. A sincronicídade designa o paralelismo de espaço e de significado dos acontecimentos psíquicos e psicofísicos, que nosso conhecimento científico até hoje não foi capaz de reduzir a um princípio comum. O termo em si nada explica; expressa apenas a presença de coincidências significativas, que, em si, são acontecimentos casuais, mas tão improváveis, que temos de admitir que se baseiam em algum princípio ou em alguma propriedade do objeto empírico. Em princípio, é impossível descobrir uma conexão causal recíproca entre os acontecimentos paralelos, e é justamente isto que lhes confere o seu caráter casual. A única ligação reconhecível e demonstrável entre eles é o significado comum (ou uma equivalência). A antiga teoria da correspondência se baseava na experiência de tais conexões — teoria esta que atingiu o seu ponto culminante e também o seu fim temporário na idéia da harmonia preestabelecida de Leibniz, e foi a seguir substituída pela doutrina da causalidade. A sincronicidade é uma diferenciação moderna dos conceitos obsoletos de correspondência, simpatia e harmonia. Ela se baseia, não em pressupostos filosóficos, mas na experiência concreta e na experimentação.

[986] Os fenômenos sincronísticos são a prova da presença simultânea de equivalências significativas em processos heterogêneos sem ligação causal; em outros termos, eles provam que um conteúdo percebido pelo observador pode ser representado, ao mesmo tempo, por um acontecimento exterior, sem nenhuma conexão causal. Daí se conclui: ou que a psique não pode ser localizada espacialmente, ou que o espaço-é psiquicamente relativo. O mesmo vale para a determinação temporal da psique ou a relatividade do tempo. Não é preciso enfatizar que a constelação deste fato tem conseqüências de longo alcance.

[987] Infelizmente, no curto espaço de uma conferência não me é possível tratar do vasto problema da sincronicidade, senão de maneira um tanto corrida. Para aqueles dentre vós que desejam se informar mais detalhadamente sobre esta questão, comunico-vos que, muito em breve, aparecerá uma obra minha mais extensa, sob o título de Sincronicidade como Princípio de Conexões Acausais. Será publicada juntamente com a obra do Prof. W. Pauli, num volume denominado Naturerklärung und Psyche.

 

Notas:

[1] Publicado pela primeira vez no Eranos-Jahrbuch XX (1951). Tratava-se originariamente de uma conferência que o autor pronunciou perante o Círculo Eranos de 1951, em Ascona na Suíça.

[2] O material aqui recolhido provém de diversas fontes. Trata-se de horóscopos de pessoas casadas. Não se fez nenhuma seleção. Utilizamos indiscriminadamente todos os horóscopos de que pudemos lançar mão.

Tradução de Pe. Dom Mateus Ramalho Rocha, OSB. Petrópolis: Vozes, 2000, 10ª edição, volume VIII/3 das Obras Completas.

Carl Gustav Jung

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-sincronicidade/

A Mente e as Máquinas

Algumas pessoas parecem carregar consigo uma maldição de computador, frustradas que ficam por uma enxurrada de vírus, falta de energia e conflitos de software que aparecem e desaparecem sem explicação racional.

Elas culpam suas máquinas e sofrem o desprezo dos que as acusam de estar fazendo algo errado na operação do computador. Mas os investigadores em Universidade de Princeton podem ter uma explicação: estes usuários de PC, ao que parece, poderiam estar enviando vibrações ruins para a máquina.

“Há algumas pessoas que parecem ter uma afinidade natural com computadores e outras máquinas complexas, e há outras que parecem conseguir quebrar tudo, até mesmo sem tocar”, disse York Dobyns, coordenador de analíses da PEAR (Pesquisa de anomalias em engenharia de Princeton).

O laboratório tem estudado durante 26 anos um fenômeno que pode ter algo a ver com isto. Em incontáveis experiências, os investigadores testaram se as pessoas, através da consciência apenas, podem, de alguma maneira, afetar os dados resultantes dos mais diversos dispositivos – mecânicos e eletrônicos – que produzem dados aleatórios quando não há nenhum humano ao redor.

As experiências demonstram uma pequena – mas estatisticamente significante – anomalia: as pessoas estudadas parecem poder mudar o resultado das máquinas somente pensando nelas. “Analisando coletivamente todo o experimento, as chances de que isto tudo seja só uma flutuação estatística é ridiculamente pequena”, disse Dobyns. “Uma em um trilhão.”

Os fenômenos de percepção extra-sensorial, telecinese e telepatia já foram estudados cientificamente há algumas décadas, mas, apesar de ter registrado fenômenos intrigantes, nunca nada ficou provado. Afinal, esses fenômenos não podem ser reproduzidos em laboratório a todo momento.

No fim dos anos 70, o professor Robert Jahn, da Universidade de Princeton (a mesma onde lecionou Einstein) decidiu investigar se o poder da mente de um ser humano poderia interferir nas leituras normais de um Gerador Aleatório de Eventos, que é uma maquininha que gera aleatoriamente dois números – 1 e 0 – numa seqüência totalmente aleatória. As leis da probabilidade ditam que a máquina terá a tendência a gerar uma mesma quantidade de uns e zeros, o que forma um gráfico simbolizado por uma linha quase plana. Qualquer mudança nessa quantidade igual de números aparece como uma curva suavemente ascendente.

Assim, Robert pediu a estranhos na rua que concentrassem suas mentes no seu Gerador de eventos, a fim de que ele gerasse mais “uns” que “zeros”. Era uma idéia revolucionária ao seu tempo. Os resultados, atordoantes, nunca foram satisfatoriamente explicados. Repetidas vezes pessoas provaram que suas mentes podiam influenciar a máquina e produzir flutuações significativas no gráfico, “forçando” a máquina a produzir números desiguais de 0 e 1. De acordo com todas as leis sabidas de ciência, isto não devia ter acontecido – mas aconteceu. E continua acontecendo.

Atualmente, o Dr. Roger Nelson, também pesquisador da Universidade de Princeton, usa a internet para ligar dezenas de Geradores Aleatórios de Eventos do mundo inteiro ao seu computador. Dia a dia, eles geram milhões de dados, que geralmente aparecem no gráfico resultante como uma linha mais ou menos plana.

Mas, no dia 6 de setembro de 1997, algo bastante extraordinário aconteceu: a linha subiu repentinamente, enquanto os geradores ao redor do mundo registravam grandes desvios do padrão normal. Nesse dia um bilhão de pessoas assistiam pela TV o enterro da princesa Diana.

O Dr. Nelson ficou convencido de que os dois acontecimentos deviam estar relacionados de alguma forma. Então, em 1998, reuniram-se cientistas do mundo inteiro para analisar seus resultados. Eles, também desconcertados, resolveram estender e aprofundar o trabalho pioneiro do Prof. Jahn: nascia assim o Projeto Global de Consciência. Desde então o projeto expandiu imensamente, e hoje engloba 65 “Ovos” (como os geradores foram nomeados) funcionando em 41 países, com resultados ainda maiores: Durante a experiência, os Ovos “perceberam” uma série inteira de acontecimentos mundiais importantes, como o bombardeio da Iugoslávia pela OTAN, a tragédia no submarino Kursk e a controversa eleição de Bush nos EUA. Os Ovos também detectam regularmente as enormes celebrações globais, tal como a véspera de Ano Novo.

Mas o resultado mais enigmático aconteceu no dia 11 de setembro de 2001: Enquanto o mundo observava aterrorizado os ataques terroristas em Nova York, algo estranho acontecia aos Ovos. Não só eles registraram discrepâncias no momento dos ataques, como a característica curva ascendente começou quatro horas ANTES dos dois aviões baterem nas torres gêmeas. Além de funcionar como um “termômetro emocional” em escala global, estaria a máquina registrando que as pessoas sabiam no seu inconsciente que ia ocorrer um evento de forte impacto emocional com quatro horas de antecedência?

Teria sido isto apenas uma anomalia que deva ser descartada? Bem… no dia 25 de dezembro de 2004, as máquinas enlouqueceram outra vez. Vinte e quatro horas mais tarde um terremoto no fundo do Oceano Índico desencadeou o Tsunami que devastou o sudeste da Ásia e matou milhares de pessoas.

Podia então o Projeto Global de Consciência realmente prever o futuro?

SAVE THE CHEERLEADER. SAVE THE WORLD

No fundo do porão de uma biblioteca universitária empoeirada em Edinburgo existe uma pequena caixa preta, quase do tamanho de dois maços de cigarro juntos, que cospe para fora números aleatórios num córrego interminável. Seu interior contém basicamente um microchip não mais complexo que o de uma calculadora de bolso.

Mas, de acordo com uma faixa crescente de cientistas, esta caixa possui poderes extraordinários. Aparentemente o “olho” da máquina parece ser capaz de perscrutar no futuro e predizer acontecimentos mundiais importantes. Estaria a humanidade compartilhando uma única mente subconsciente que podemos acessar sem perceber?

“Estamos muito no começo do processo de tentar de compreender o que está acontecendo aqui. No momento nós estamos ainda tateando no escuro”, diz o Dr. Nelson.

Embora muitos considerarem os objetivos do projeto serem pouco mais que “ouro de tolo”, ainda assim ele atraiu uma lista de 75 cientistas respeitados de 41 nações diferentes. Os pesquisadores de Princeton trabalham ao lado de cientistas das universidades da Grã-Bretanha, Holanda, Suiça, Alemanha e outras. O projeto é também a investigação mais rigorosa e duradoura já feita no terreno do paranormal.

“Normalmente o fenômeno paranormal se evapora se o estudarmos por algum tempo” diz o pesquisador Dick Bierman, da Universidade de Amsterdã. “Mas isso não está acontecendo com o Projeto Global de Consciência. O efeito é real. A única dúvida é sobre o QUE ele representa.”

Os céticos bem corretamente assinalarão que sempre há algum acontecimento global que pode ser usado para “explicar” as vezes em que as máquinas-Ovo se comportam irregularmente. Afinal de contas, nosso mundo está pleno de guerras, desastres e ataques terroristas, assim como de celebrações globais ocasionais. Estariam os cientistas ansiosos demais por detectar padrões em seus dados?

O time por trás do projeto insiste que não. Eles reivindicam que, usando técnicas científicas e matemáticas de forma rigorosa é possível excluir qualquer conexão aleatória. “Nós estamos perfeitamente dispostos a descobrir que nós cometemos erros”, diz o Dr. Nelson. “Mas nós não pudemos achar nenhum e ninguém mais achou até agora. Nossos dados mostram claramente que as chances de obter estes resultados através da sorte são um milhão contra um. Isso é imensamente significante”. Mas muitos permanecem céticos. O professor Chris French, psicólogo da Faculdade de Ourives, em Londres, diz: “O Projeto de Consciência Global gerou alguns resultados muito intrigantes que não podem ser descartados prontamente. Eu estou envolvido em um trabalho semelhante para ver se nós chegamos aos mesmos resultados. Nós não conseguimos ainda, mas estamos só no começo. O jogo ainda está em aberto”.

Entretanto, por estranho que possa parecer, não há nada nas leis da física que impeça a possibilidade de se prever o futuro.

É possível – teoricamente – que o tempo não se mova apenas para frente, mas para trás também. E se o tempo tiver seus fluxos e refluxos, como as ondas do mar, é bem possível prever eventos grandiosos. Nós estaríamos, na verdade, nos “lembrando” de coisas que aconteceram em nosso futuro. “Há bastante evidência de que tempo pode correr para trás”, diz o professor Bierman, da Universidade de Amsterdã. “E se for possível isto acontecer na física, então pode acontecer em nossas mentes, também”. Em outras palavras, o prof. Bierman acredita que todos nós somos capazes de olhar o futuro através de algum mecanismo escondido em nossas mentes. E há um tentador conjunto de evidências para apoiar esta teoria.

Nos capítulos 4 e 5 do livro “O universo em uma casca de noz”, do matemático Stephen Hawking, ele discute a possibilidade de viajar no tempo, e após muita especulação e teorias, chega ao espaço-tempo curvo de Feynman, onde fala que “viagens no tempo estão realmente ocorrendo em escala microscópica, mas não as percebemos. Se aplicarmos a idéia de Feynman da soma de histórias a uma partícula, teremos de incluir histórias nas quais ela se desloca acima da velocidade da luz, chegando a voltar no tempo. Haverá histórias em que a partícula circulará sem parar em anéis fechados no tempo e no espaço. Seria como o filme O feitiço do tempo, em que um jornalista tem que viver o mesmo dia várias vezes. Não observamos diretamente as partículas correspondentes a estas histórias em anéis fechados, mas seus efeitos indiretos foram medidos em diversos experimentos. Um deles é um pequeno desvio na luz emitida pelos átomos de hidrogênio, causado pelo movimento de elétrons em anéis fechados”. Claro, isso acontece em escala microscópica, mas nada realmente impede que ocorra em maiores escalas e ainda não tenhamos como perceber… a não ser através de experiências polêmicas, como veremos logo abaixo.

O Dr. John Hartwell, enquanto trabalhava na Universidade de Utrecht, na Holanda, foi o primeiro a descobrir evidências de que as pessoas podem sentir o futuro. Em meados dos anos 70 ele ligou voluntários a um scanner de hospital que esquadrinha as ondas cerebrais. Ele começou lhes mostrando uma sucessão de desenhos de caricaturas – algumas delas provocantes. Quando os quadros foram mostrados, as máquinas registraram as ondas cerebrais de como eles reagiram fortemente às imagens diante deles. Isto era o esperado. Só que, em muitos casos, esses característicos padrões cerebrais aconteciam segundos antes das imagens serem mostradas, como se as pessoas pudessem sentir o que aconteceria com elas no futuro imediato.

Demoraria mais 15 anos até que outra pessoa levasse o trabalho do Dr. Hartwell adiante. Dean Radin, um pesquisador trabalhando na américa, conectou pessoas a uma máquina que media a resistência de suas peles à eletricidade. Sabe-se que esse nível flutua de acordo com nosso ânimo (tanto que este é o princípio por trás dos detectores de mentiras). Radin mediu o experimento de Hartwell com imagens enquanto media a resistência elétrica na pele. Novamente, as pessoas começavam a reagir alguns segundos antes delas serem expostas a imagens provocantes. Pra ele era claramente impossível, por isso decidiu repetir os experimentos várias vezes. E ele continuou a obter os mesmos resultados.

“Eu também não acreditei”, diz o professor Bierman. “Assim, eu também repeti a experiência e obtive os mesmos resultados. Fiquei chocado. Depois disto eu comecei a pensar mais profundamente sobre a natureza do tempo”. Para tornar a coisa ainda mais intrigante, diz o professor Bierman que outros laboratórios mais importantes obtiveram resultados semelhantes, mas que ainda não foram levados à público.

“Eles não querem ser ridicularizados. Então, eu estou tentando persuadi-los a soltarem seus resultados todos ao mesmo tempo. Isso ao menos espalharia o ridículo um pouco!” Entretanto, se o professor Bierman tiver razão, então as experiências não serão causa de risos. Elas poderiam ajudar a prover uma sólida base científica para fenômenos estranhos como o deja vu, intuição, sexto sentido e outras curiosidades que todos nós experimentamos de vez em quando.

Eles também podem abrir uma possibilidade ainda mais interessante – que um dia nós possamos aumentar nossos poderes psíquicos usando máquinas que façam um “ajuste fino” em nossa mente subconsciente. Da mesma maneira que nós construímos máquinas mecânicas para substituir o poder de músculo, poderíamos um dia construir um dispositivo para aumentar e interpretar nossas habilidades psíquicas escondidas. Dr Nelson é otimista – mas não a curto prazo. “Nós poderemos um dia – talvez – predizer que um evento mundial irá acontecer. Mas não saberemos exatamente O QUE irá acontecer nem QUANDO irá ocorrer”.

Mas, para o Dr. Nelson, mais importante do que essas supostas máquinas são as implicações do seu trabalho em termos de raça humana. O que suas experiências parecem demonstrar é que, enquanto todos nós podemos operar como indivíduos, nós também parecemos compartilhar algo muito, muito maior – uma consciência global. Alguns poderiam chamar isto de “a mente de Deus”.

#espiritualismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-mente-e-as-m%C3%A1quinas

Mapa Astral de Jerry Lee Lewis

Não tem como deixar passar o mapa de Jerry “the Killer” Lee Lewis.

Nascido em Ferriday, Louisiana, Jerry Lee Lewis demonstrou talento natural para o piano desde cedo. Apesar da pobreza, seus pais conseguiram um empréstimo para comprar um piano hipotecando a própria casa, e com um ano Jerry já desenvolvera seu próprio estilo de tocar. Assim como Elvis Presley, ele cresceu cantando música gospel nas igrejas pentecostais sulistas. Em 1950, ele entrou para o Southwestern Bible Institute em Texas, mas foi expulso por má-conduta (como por exemplo tocar versões rock and roll dos cânticos da igreja).

Deixando a música religiosa para trás, ele tornou-se parte do recém-surgido movimento rock and roll, lançando sua primeira gravação em 1954.Lewis desenvolveu um som misto de rhythm and blues, boogie-woogie, gospel e country. Dois anos depois, no estúdio da Sun Records em Memphis, Tennessee, o produtor e engenheiro-de-som Jack Clement gravou com Lewis pelo selo enquanto seu dono, Sam Phillips, viajava para a Flórida. Como consequência, Lewis juntou-se a Elvis Presley, Roy Orbison, Carl Perkins e Johnny Cash na lista de astros que começaram sua carreira no Sun Studios na mesma época.

Mapa Astral

O Mapa de Jerry Lee possui Sol em Libra, Lua em Libra-escorpião e Mercúrio em Escorpião-Libra (ambos praticamente na faixa de 50/50; Ascendente em Aquário, Vênus em Virgem; Marte em Sagitário; Júpiter em Escorpião; Saturno em Peixes e Caput Draconis em Capricórnio. Seu Planeta mais forte é Júpiter (5 Aspectações muito fortes).

Autodidata, a força do Mapa de Jerry lee está em saber lidar com códigos e símbolos, um impulso agressivo e expansivo para observar o mundo à sua volta, organizar e compor regras. Sol em Libra na Casa 8 indica a facilidade em entender o outro e utilizar esta capacidade em níveis psicológicos mais profundos (Casa 8); Tanto sua Lua quanto Mercúrio estão na combinação chamada de “Cavaleiro de Taças” (que reúne as habilidades escorpianas e librianas, intensificando ainda mais esta energia de observar os outros ao seu redor e aprofundar estas relações, embora Lewis infelizmente tenha trabalhado nas oitavas baixas desta combinação). Marte em Sagitário indica uma pessoa com muito pouca paciência, talvez arrogante, impetuosa e segura de si (é uma combinação encontrada por vezes em religiosos extremistas, professores donos da verdade e pessoas com fortes crenças pessoais). Júpiter em Escorpião potencializa este magnetismo pessoal e o Ascendente em Aquário conduz esta tendência para quebrar barreiras, tabus e paradigmas.

A Música de Jerry Lee Lewis (e sua vida extremamente conturbada) mostra muito desta combinação entre Marte e Júpiter no ímpeto de chocar as pessoas ao redor com suas atitudes, seja através da música, seja através da quebra de tabus.

Vênus em Virgem geralmente indica pessoas perfeccionistas. Um mapa como o dele poderia muito bem pertencer a algum matemático, filósofo, psicólogo ou outra pessoa que lidasse com códigos e/ou pessoas. O Espírito encarnado naquele tempo-espaço seguia a linha dos músicos e utilizou esta potencialidade dentro da música.

#Astrologia #Biografias

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A Senda Infinita

Paulo Jacobina

Para se compreender o processo de transformação do Eu, sua passagem pelos planos, é preciso entender a sua jornada e, consequentemente, a sua origem e o seu destino. Religiões e doutrinas filosóficas pelo mundo inteiro abordam esta origem, cada uma à sua maneira, mas todas com um ponto em comum: o homem, o Eu, decorre de uma entidade superior, que é conhecida por muitos nomes, dependendo de onde se origina a doutrina. Deus, Rahim, Elohim, Brahman, Nhanderuvuçú são apenas alguns exemplos dos infinitos nomes dados pelo homem ao Absoluto, aquele que deu causa a tudo o que existe e ao que não existe. A questão do nome utilizado pouco importa, uma vez que, por ser inefável, o Absoluto não possui nome e, por isso, pode ser chamado por qualquer um sem deixar de ser o Absoluto. Isso porque, caso tivesse um nome, não seria possível chamá-lo por milhares de nomes, pois, assim, deixaria de ser o Absoluto[1].

Aqui, apenas por questões conceituais e buscando facilitar a compreensão, serão utilizados nomes como o Absoluto, o Todo e Aquele que É. Tal escolha se baseia, unicamente, na imanência que se busca ressaltar, de que o Absoluto é uno, eterno, imóvel, imutável e perfeito.

É uno, porque tudo o que existe, e o que não existe, nEle está contido, sem que Ele deixe de existir como um todo, nem que nada dEle se separe.

É eterno, porque não possui início, nem meio, nem fim.

É imóvel porque preenche o infinito e, por isso, não tem para onde se locomover, pois nada existe para além dEle, uma vez que não existe o “além do Absoluto”. Se existe além, lá o Absoluto também estará e também será o além, da mesma forma que o vazio e o nada inexistem, pois, para existirem teriam de ser desprovidos de tudo, inclusive do Absoluto, e o Absoluto se encontra em tudo o que existe e o que não existe.

É imutável, porque não se transforma e, assim, nunca está e sempre é. E, por não se transformar, é perfeito, pois não necessita de corrigir detalhes.

Compreender essas informações pode parecer difícil e isso é normal. Uma vez que o ser humano se encontra limitado pelo estado de consciência no qual se encontra, e a compreensão do Todo está muito além do estado de consciência no qual aqueles que aqui estão encarnados conseguem visualizar. É também fundamental destacar, que mesmo entre o que se tem consciência e o que se consegue expressar, há uma distância, posto que as palavras, os símbolos, as imagens, são limitadas face àquilo que se tem consciência.

Consciência não se restringe ao simples saber. Consiste em ter aquele conhecimento arraigado no seu âmago, ao ponto de ele estar intrinsicamente contido em sua conduta. Não há, sequer, necessidade de se pensar naquele comportamento, pois sobre ele não recaem dúvidas ou qualquer tipo de questionamento filosófico, físico, metafísico, religioso, abstrato…

Estar consciente de algo consiste em ter o comportamento fluido, natural e sem empecilho, por menor que seja, no sentido de se sublimar em direção ao Absoluto, cumprindo, assim, o que alguns conhecem por Dharma, o caminho pelo qual o Eu flui sem atritos, sendo verdadeiramente Eu.

Porém, como se dá a criação do Homem, estado transitório no qual o Eu, que estuda este material, se encontra? Novamente, doutrinas por todo o mundo contam a mesma história travestida de acordo com a realidade local ou o grau de compreensão que possuem.

Para alguns, a “vida” surgiu com o sopro da divindade. Para outros, de centelhas divinas. Há, ainda, os que defendem que a divindade primordial animou uma porção de matéria. O que poucas doutrinas deixam claro (até porque não visam explicar esse processo), é que existe um aparente lapso entre esse “sopro” e o “aparecimento” do Homem, do Eu: que o Homem, o Eu, assim como ele está hoje, não veio imediatamente da divindade primordial, mas percorreu um longo período de transformação até alcançar a sua atual condição.

De igual forma se percebe, ao analisar os homens, que estes também se encontram em estágios distintos, embora, ao se observar numa análise macro, ainda próximos uns dos outros.

Outro ponto que se constata é o de que todos os homens, por não serem perfeitos, ainda podem se transformar. Dessa forma, verifica-se que existe uma jornada iniciada no seio do Absoluto e que não fica estagnada, mas se desloca infinitamente até algum lugar. Mas, que lugar seria esse para o qual o homem se desloca? Mais uma vez, as doutrinas estão corretas ao afirmarem que o destino do Eu em sua jornada existencial é o retorno ao Absoluto. Então, a jornada tem o seu início no seio do Absoluto e, após percorrer toda a jornada existencial, retorna ao seio do Absoluto.

Assim com a dança de Shiva, o Absoluto parece se expandir em um processo de subdivisão[2] até o infinito, quando, após atingir o infinito, volta a se recolher, reunindo as partes que foram divididas inicialmente. Nesse processo de sístoles e diástoles[3], a existência é criada na origem primordial e caminha à infinitésima partícula, até retornar, percorrendo todos os planos de existência, passando, em certo ponto, pelos reinos mineral, vegetal, animal, hominal, angelical…

Contudo, tal como ondas num lago provocadas pelo contínuo e eterno estímulo inicial, o processo existencial jamais se esgota, pois, quando a primeira onda inicia o processo de retorno após atingir o infinito, uma nova onda a substitui chegando ao infinito. Por existirem infinitas ondas neste indo e vindo infinito, inexiste movimento aparente, embora ele ocorra, tal qual objeto que vibra em altíssima velocidade e, mesmo assim, parece estático para aquele que o observa[4].

Como todas as ondas são partes integrantes do Todo, ele se estende eternamente até o infinito, jamais se movendo, embora o movimento exista em seu interior[5]; jamais se limitando, embora a limitação exista em seu interior; jamais se transformando, embora a transformação exista em seu interior; e, por não se transformar, é perfeito, embora a imperfeição também exista em seu interior.

Dessa forma, a jornada existencial se inicia no seio do Absoluto e a Ele retorna ao término do seu processo transformador. Tal lugar pode ser considerado o centro do Absoluto e estar localizado nos confins da galáxia mais distante, na Terra, em Aldebarã, no Sol, em Sirius, em Alcione ou, até mesmo, no Eu. Pois, uma vez que se estabelece um ponto localizado no Absoluto, ele sempre será o Seu centro, uma vez que se encontra infinitamente equidistante a todas as direções do Absoluto.

O Ser, então, seria como um raio, que irradia do seio do Absoluto até o infinito, atravessando todas as ondas geradas pelo eterno e contínuo estímulo inicial. Esse raio, assim como o Absoluto, por conta do Princípio de Correspondência[6], também é imóvel, embora o movimento exista em seu interior; também é imutável, embora a transformação ocorra em seu interior; também é perfeito, embora a imperfeição exista dentro dele.

Entretanto, se o Ser é imóvel, o que se desloca na senda infinita não é o Ser propriamente dito, mas alguns de seus atributos[7]. E é um desses atributos que passa por um infindável processo de transformação nas esferas existenciais, nascendo quando se inicia o retorno do infinito em direção ao seio do Absoluto. Este atributo é o que costumeiramente chamamos de Consciência. Seu nascimento ocorre no retorno do infinito, pois, apenas então, tem início o processo restaurador, o de se reconectar as partes do Absoluto que ilusoriamente foram desconectadas: ali se dá o início da jornada de compreensão.

Da mesma forma que o Ser, pelo Princípio de Correspondência[8], a Consciência também é imóvel, embora em seu interior ocorra o movimento; também é imutável, embora exista transformação em seu interior; também é perfeita, embora a imperfeição exista dentro de si.

Contudo, se a Consciência também é imóvel, quem se desloca na senda infinita não é a Consciência em si, mas um de seus atributos, o Eu. É o Eu que se desloca pela Consciência, sendo impulsionado pelas ondas que se propagam em direção ao seio do Absoluto e sofrendo o impacto das ondas que se deslocam ao infinito. O impulso dado pelas ondas que rumam para o seio do Absoluto é a força motriz que inexoravelmente leva o Eu em direção ao Eu Superior, enquanto o impacto das ondas em direção ao infinito tem o efeito de gerar o atrito necessário para a depuração do Eu, fazendo com o que é mais bruto seja arrancado, permanecendo no Eu Inferior, e apenas aquilo que é sutil possa se deslocar na senda infinita, nas vicissitudes existenciais, para se transformar no Eu Superior, no processo que alguns chamam de reencarnação e outros conhecem como roda de Samsara.

Nesse processo de transformação, o Eu se desloca do Eu Inferior (aquele que acredita ser uma criatura individualizada e ainda apegada àquilo o que é bruto) e começa a se perceber parte integrante do Absoluto quando a ideia do eu desaparece e passa a ser suplantada pela ideia do nós, até chegar ao Eu Superior, onde habita um novo Eu, o Eu Coletivo, aquele que sabe o que é, o Eu que sabe que tudo o que existe também faz parte dele e que ele está intimamente associado a tudo o que existe, como uma única coisa, como parte integrante, indissociável e indelével do Absoluto.

Desta forma, o Eu é o atributo da Consciência que se encontra em processo de transformação, cada vez mais, tornando-se a Consciência, e, consequentemente, o Ser; percebendo-se, passo a passo, parte integrante do Absoluto; sutilizando-se, abandonando corpos mais brutos e mantendo os mais sutis.

Enquanto a Consciência nasce na volta do infinito, quando inicia o processo restaurador, outro atributo do Ser, faz o caminho inverso, nascendo no seio do Absoluto e infinitamente se subdividindo até os confins do infinito. A este atributo, que nasce no seio do Absoluto e se dirige até o infinito, pode ser dado o nome de Tecido Elementar[9].

Tal qual a sua contraparte[10], a Consciência, o Tecido Elementar, pelo Princípio de Correspondência, também é imóvel, embora em seu interior ocorra o movimento; também é imutável, embora exista transformação em seu interior; também é perfeito, embora a imperfeição exista dentro de si.

Por ser imóvel, não é o Tecido Elementar que se desloca na senda em direção ao infinito, mas um de seus atributos, o Agente Modelador, que se desloca do seio do Absoluto, impulsionado pelas ondas que se expandem até o infinito e sofrendo o atrito das ondas que se concentram em direção ao seio do Absoluto, brutalizando-se e dando forma aos planos de existência. Este atributo, que carrega dentro de si a capacidade de moldar os planos de existência, foi amplamente relatado ao longo da história humana e, no contato com os planos existenciais que o Homem costuma ter mais acesso, recebe, comumente, o nome de Elemental. Assim, o Eu e o Agente Modelador se deslocam em sentidos paralelamente opostos, mas unidos no processo existencial.

Ponto que merece destaque é o de que, assim como o próprio Absoluto, todos os seus Atributos e subatributos não são bons ou maus, mas neutros. É normal, para alguns, pensar que o deslocamento do Agente Modelador, brutalizando-se, o deixe mau, enquanto o deslocamento da Consciência, sutilizando-se, a deixe boa. Na verdade, tanto um, quanto o outro, apenas cumprem a sua função estabelecida no plano criador e, por isso, não podem ser rotulados como bom ou mau, melhor ou pior.

Essa falsa necessidade que o Homem possui, de criar dualidades e demais separatismos, decorre da influência exercida pelo Agente Modelador, que atua em tudo o que existe, inclusive na forma com que o Eu analisa tudo o que existe e o que não existe, subdividindo conforme foi programado, em essência, para ser. Tal atuação não se limita ao plano material, mas também se aplica ao espiritual, ao mental e a todos os demais, uma vez que tudo o que existe e o que não existe é moldado no Tecido Elementar e, consequentemente, sofre a ação de seus atributos, inclusive a do Agente Modelador, gerando o Princípio de Polaridade[11].

Por isso, não se pode catalogar algo como bom ou mau, pior ou melhor: apenas deve ser verificado se aquilo está cumprindo o seu propósito de ser. Se o Agente Modelador está sendo Agente Modelador, se a Consciência está sendo Consciência, se o Tecido Elementar está sendo Tecido Elementar, isso significa que tudo está em sintonia e, por isso, respondendo à determinação do Absoluto, pois é para isso que cada coisa serve: para ser ela mesma.

Os aparentes conflitos, no plano em que o Homem atualmente se encontra, decorrem do desejo do Homem em ser o que ele não nasceu para ser. Por exemplo, imagine que uma planta deseja abandonar o seu propósito: ao invés de realizar fotossíntese e servir de alimento e moradia para outros seres, ela deseje ser um leão, caçar gazelas para se alimentar e deixar de fazer o que ela foi destinada a ser. Não é necessária muita elucubração para se constatar que o mundo entraria em colapso. Porém, a planta não deseja nada além de ser planta, assim como o leão não deseja nada além de ser leão: tanto a planta, quanto o leão têm o seu desejo em sintonia com a Vontade do Absoluto, que é a de que eles sejam eles mesmos.

Assim como a planta existe para ser planta, o animal para ser animal e o mineral para ser mineral, o ser humano existe para ser humano, para que o seu desejo se confunda com a Vontade do Absoluto, que é a de que ele seja benevolente, piedoso, tenha compaixão, seja integralizador. Quando o homem respeita a sua essência, não há conflitos. Contudo, quando, ao fazer uso de seu Livre-Arbítrio, tenta fugir daquilo para o qual foi criado, os atritos acontecem e o conflito aparece.

Só há atrito onde há a separação do desejo e da Vontade. Onde a Vontade e o desejo estão unidos, inexiste atrito, existe o Dharma[12]. Dessa forma, pode-se acreditar erroneamente que o Livre-Arbítrio seria ruim, pois permite ao Homem ter um querer distinto da Vontade. Entretanto, assim como tudo o que existe e o que não existe, o Livre-Arbítrio também não é bom ou mau, ele é neutro e cumpre a função para a qual foi criado: permitir, pela experimentação, que o Eu encontre o caminho para o Eu Superior, ao compreender que tudo o que existe e o que não existe é apenas o Absoluto e nada mais. Por cumprir a função para a qual foi criado, o Livre-Arbítrio não é bom ou mau, ele apenas é o Livre-Arbítrio e, ao ser Aquele que É, ele é neutro.

Da mesma forma que o Livre-Arbítrio tem como essência permitir que o Eu escolha o caminho ao qual seguir, para, assim, encontrar o Dharma, o Karma existe, em sintonia com o Livre-Arbítrio, como forma de gerar a compreensão no Eu. Enquanto o Livre-Arbítrio permite a realização de uma escolha, o Karma é a escolha permitida pelo Livre-Arbítrio. É aquilo que, com base no estado de Consciência no qual se encontra, o Eu opta por fazer. É o agir. Ao agir, o Eu gera a Consequência, isto é, respostas às ações realizadas pelo Eu.

Assim como tudo o que existe e o que não existe, essas respostas, a Consequência, não são boas nem más, mas neutras, pois têm como função atuar em sintonia com o Karma e o Livre-Arbítrio, gerando o atrito necessário para que o Eu se desloque, por ressonância, na Consciência em direção ao Eu Superior. E, pelo fato de a Consequência cumprir a sua essência, ela é Aquele que É.

Aqui, deve ser destacado que a inação verdadeiramente inexiste. Só o que realmente existe é o agir, pois mesmo no que está parado, há, em seu interior, o movimento, da mesma forma que ocorre com o Absoluto, que está parado, mas, em seu interior existe o movimento[13]; e, onde há o movimento, há o agir, e o agir é o Karma.

Entretanto, como o movimento não está limitado a um único plano existencial, acontecendo em todos eles, o Karma também ocorre simultaneamente em todos os planos de existência, e como o Karma é agir, e o agir gera a Consequência, ele produz efeitos que reverberam em todos os planos de existência[14], em sincronicidade. Esses efeitos, pela aplicação do Princípio de Polaridade, tornam-se novas causas e, ressonando, propagam-se pela existência.

Como tudo o que existe e o que não existe se encontra em perfeita sintonia com a Vontade, aquilo que o Eu ilusoriamente entende como futuro, já está determinado, que é o momento no qual o Eu se torna o Eu Superior. Contudo, embora o destino se encontre determinado, o caminho percorrido pelo Eu é traçado pelo seu Karma, com base no Livre-Arbítrio. Porém, o Karma escolhido pouco importa para o resultado final, pois tudo se compensa sincronisticamente, de forma a permanecer na perfeita sintonia, no Princípio de Ritmo[15].

Como “o que está em cima é como o que está embaixo e o que está embaixo é como está em cima”, o Karma e a Consequência também são neutros, visto que atendem ao seu propósito e, assim, não são bons ou maus, mas são Aquele que É. Essa compreensão é importante para se constatar que nenhum caminho pelo o qual o Eu escolhe seguir é errado, pois tem como função primordial, como essência, gerar as condições necessárias para o deslocamento do Eu na Consciência. Toda escolha que o Eu faz, isto é, todo o Karma, é realizado com base no estado de consciência no qual o Eu se encontra e, portanto, o Eu sempre realizaria a mesma escolha baseada nos mesmos fatores e na condição na qual se encontra.

Apenas com o Karma e a Consequência, as condições são modificadas para gerar a ressonância necessária para impulsionar o Eu em direção ao Eu Superior. Desta forma, toda escolha realizada é a escolha certa, pois é feita no estado de Consciência na qual o Eu se encontra e o permite experimentar as sensações necessárias para o seu deslocamento na Consciência em direção ao Eu Superior.

Quando se compreende esse fato, o apego ao que é chamado de passado e a insegurança quanto ao que é chamado ilusoriamente de futuro desaparecem. O Eu se concentra no que é chamado de presente, afastando-se da ilusão da transitoriedade e fixando-se na perenidade, onde ele deixa de ser “Aquele que Está” e se revela Aquele que É.

Ao compreender a sua essência, o Eu deixa de se preocupar com a ilusão do que aconteceu e do que vai acontecer, pois ele sabe que apenas acontece o que tem de acontecer, pois essa é a sintonia perfeita, a contradança[16] na qual tudo o que existe e o que não existe se encontra; ele sabe que bom e mau apenas são polaridades da Consequência, assim como Luz e Trevas são polaridades da Consciência e, portanto, são ilusões criadas pelo Agente Modelador.

A percepção de que bom e mau são polaridades da Consequência é facilmente constatada quando o Eu faz uma análise das experiências às quais se submeteu. Quando ocorre a Consequência, o Eu, influenciado pelo Agente Modelador, tende a observar de um jeito pontual e, consequentemente, a cataloga como algo bom ou ruim. Contudo, caso o Eu visse a Consequência em sua real forma, ele compreenderia que ela não é boa ou má.

Um meio pelo o qual o Eu pode ver a real forma da Consequência é analisar um fato que já foi vivenciado. No momento no qual o fato foi vivenciado, o Eu o classifica como bom ou mau, porém, em momento posterior, quando o Eu já se deslocou na Consciência em direção ao Eu Superior, ao olhar para esse mesmo fato (já vivenciado), o vê de forma diferente, classificando-o, algumas vezes, de forma diversa da que fizera inicialmente. O fato em si não mudou, então como pode algo que permanece inalterado ter o seu significado modificado? Isto ocorre porque o observador mudou, o Eu que analisou o fato pela primeira vez não é o mesmo Eu que analisou o fato da última. Assim, ser bom ou mau não é uma característica do fato, da Consequência, do Karma ou de tudo o que existe e o que não existe, mas uma característica da forma com que o Eu os analisa.

Uma vez que a distinção entre bom e mau, melhor ou pior, existe na forma com que o Eu analisa aquilo que existe e o que não existe, e não nessas coisas em si, encontra-se a verdade por de trás do Princípio de Polaridade, o qual determina, conforme já se definiu acima, que “tudo é duplo; tudo tem polos; tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau, os extremos se tocam; todas as verdades são meias verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados”.

Sabendo que a polaridade está na forma de analisar o que existe e o que não existe, o Eu pode modificá-la ao seu bel-prazer, transformando o que é ruim em bom e o que é pior em melhor, ao aplicar o Princípio de Vibração[17] sob a influência do que se conhece no Hermetismo como Princípio de Mentalismo[18]. Assim, enxergar as coisas como boas ou más, melhores ou piores, torna-se uma escolha permitida pelo Livre-Arbítrio, e isto é o Karma.

Karma e Consequência são polos do Livre-Arbítrio, haja vista que de todo agir decorre uma consequência e a consequência se torna um novo agir, desencadeando uma nova consequência, isto é, um influencia e é influenciado pelo outro, pois, um, além de gerar o outro, também é gerado por este, uma vez que “tudo se manifesta por oscilações compensadas, sendo que a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda”[19], compensando-se em sincronicidade para permanecer em um estado de perfeito equilíbrio na divina contradança.

Ao compreender que o Karma e a Consequência são unos, o Eu também compreende que o tempo é uma ilusão provocada pelo fracionamento da Existência, através da ação do Agente Modelador, pois tudo o que existe e o que não existe, na verdade, apenas é, e, por isso, é Aquele que É.

Contudo, apesar de ser ilusório, o tempo, como todas as ilusões, existe para o Eu, uma vez que é um evento e, como tal, pode ser vivenciado. Tudo o que pode ser vivenciado pelo Eu existe para ele, pois tem a capacidade de gerar a energia necessária para que o Eu mude a sua vibração e, por ressonância, se desloque na Consciência em direção ao Eu Superior.

Esta é a distinção entre aquilo que não existe e aquilo que inexiste: enquanto aquilo que não existe, por ser ilusório, existe em algum plano de existência, mas não em todos; o que inexiste não existe em nenhum deles[20]. Apenas o Absoluto existe em todos os planos de existência, uma vez que ele é Aquele que É, enquanto todo o resto, por ser transitório, pode ou não existir dependendo do plano existencial observado. Desta forma, verifica-se que por ser Aquele que É, o Absoluto é o único que verdadeiramente existe, enquanto tudo o mais, por ser transitório, inconstante, é ilusório[21] e não existe verdadeiramente.

A Compreensão do que é permanente e daquilo que é transitório, auxilia o Eu a superar os ilusórios sofrimentos aos quais voluntariamente se submete. O sofrimento nasce do apego do Eu ao que é transitório, da sua vã tentativa de tornar imóvel aquilo o que é móvel, de deter o que não pode ser detido, de escapar da inexorabilidade do Dharma. Ao compreender o que é permanente, o que é transitório e o que isso significa, o Eu se desapega do que é mutável e se fixa no que é imóvel, tornando-se Aquele que É.

Assim como tudo o que existe e o que não existe, o mutável, também não é bom ou mau, mas neutro, pois apenas existe para cumprir a sua função, a de proporcionar as experiências necessárias para que o Eu se desloque por ressonância na Consciência. E, por ser aquilo que foi determinado em essência para ser, o mutável também é Aquele que É.

Notas:

[1] O mesmo se aplica a tudo o que existe e ao que não existe. O estabelecimento de nomes, como os que aqui são adotados, trata-se apenas de uma ferramenta que visa facilitar a compreensão e a absorção de conceitos, não um mecanismo de limitação que a imposição de um nome pode estabelecer.

[2] Processo decorrente da aplicação daquilo o que se conhece no Hermetismo por Princípio de Gênero: “o Gênero está em tudo; tudo tem o seu princípio masculino e o seu princípio feminino; o gênero se manifesta em todos os planos”.

[3] Segundo o que se conhece no hermetismo pelo Princípio de Ritmo: “tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação”.

[4] Segundo o que se conhece no hermetismo pelo Princípio de Vibração: “nada está parado, tudo se move, tudo vibra”.

[5] Princípio de Vibração, citado na Nota de Rodapé (“NR”) anterior.

[6] Segundo o que se conhece no hermetismo pelo Princípio da Correspondência, “o que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima”.

[7] Este processo de ser gerado e gerar (ou ser derivado e derivar) que será visto constantemente, só é possível por conta do Princípio de Gênero (“o Gênero está em tudo, tudo tem o seu princípio masculino e o seu princípio feminino; o gênero se manifesta em todos os planos”, vide NR nº. 2) no qual tudo tem o seu princípio masculino, isto é, fecundante, e o seu princípio feminino, isto é, fecundável.

[8] “o que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima”.

[9] Também conhecido por Fluido universal, elemento universal, fluido elementar.

[10] Segundo o que se conhece no hermetismo pelo Princípio de Polaridade: “tudo é Duplo; tudo tem polos; tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados”.

[11] “tudo é Duplo; tudo tem polos; tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados”.

[12] Pois o Dharma é o fluxo sutil decorrente da impulsão das ondas que retornam ao seio do Absoluto, sem colidir nem sofrer o impacto denso daquelas que se expandem até o infinito.

[13] Mesmo que o corpo físico possa parecer parado, dentro dele, o Corpo Energético estará vibrando, isto é, em movimento. Mesmo que o Corpo Energético possa parecer parado, dentro dele, o Corpo Emocional estará em vibração. Da mesma forma que se o Corpo Emocional parece sem movimento, dentro dele o corpo mental estará em movimento; e assim sucessivamente.

[14] Segundo o que se conhece no hermetismo pelo Princípio de Causalidade: “toda Causa tem seu Efeito; todo Efeito tem sua Causa; tudo acontece de acordo com a Lei; o Acaso é simplesmente um nome dado a uma Lei não reconhecida; há muitos planos de causalidade, porém nada escapa à Lei”.

[15] “Tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação.”

[16] É uma dança de ritmo rápido e compasso binário, composto de várias seções de oito compassos que se repetem.

[17] “Nada está parado; tudo se move; tudo vibra”.

[18] “O TODO é MENTE; o Universo é Mental”.

[19] Princípio de Ritmo.

[20] O “vazio”, por exemplo, verdadeiramente inexiste, visto que assumir a sua existência, significaria que, em algum lugar, o Absoluto não se encontra, o que, por si, O faria deixar de ser o Absoluto.

[21] Princípio de Mentalismo: “o TODO é MENTE; o Universo é Mental”.

~ Paulo Jacobina mantêm o canal Pedra de Afiar, voltado a filosofia e espiritualidade de uma forma prática e universalista.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-senda-infinita/

A FRA e o Sol Central

A palavra “Sol” aqui não significa necessariamente a estrela que a Terra gira. Nestes termos, falamos em “Corpo de Consciência”. O corpo humano abriga uma consciência, que alguns designam como Eu. O planeta Terra tem uma massa maior do que um corpo humano, então a Terra abriga uma consciência maior do que um corpo humano, Gaia. Por sua vez, nossa estrela, no centro do nosso sistema solar, é ainda mais pesada e abriga uma consciência ainda maior, Logos Solar. O próximo nível de massividade é o “Sol Central”, na qual diversas tradições esotéricas falam que emana uma consciência maior ainda.

Escreve Helena Blavatsky que: “No oceano sem limites brilha o Sol Central, Espiritual e Invisível. O universo é seu corpo, espírito e alma; e TODAS AS COISAS são criadas de acordo com este modelo ideal”. Essa escada de consciência é também chamada de “Logos”. Heráclito estabeleceu o termo Logos como significando a fonte e a ordem fundamental do universo.

Tal “corpo de consciência” é referido como um Logos ou um Sol. A palavra “Sol” não deve, portanto, ser tomada literalmente. O Logos pode ser uma estrela, um buraco negro, uma constelação, ou qualquer outra coisa. Apesar de causar estranheza inicialmente, lembramos que nas Ciências Ocultas, escreve Papus, o emprego da analogia é o método característico do ocultismo. Essas correspondências unem todos os elementos do universo, assim o que está em cima é como o que está embaixo.

O Sol físico é definido por Blavatsky em sua obra “Ísis Sem Véu” como um símbolo vivo de uma fonte espiritual. Ideia que provem de um conceito pitagórico do Sol Central, na qual o nosso sol físico é apenas reflexo. Esse Sol espiritual é identificado com vários nomes, sendo a causa de diversas manifestações. Rudolf Steiner identificava que as radiações do Sol Oculto não provem de nenhum astro, mas da emanação de seres elevadíssimos, os Elohim ou Exusiai. A Sociedade de Thule também utilizou desse conceito, chamando de Sol Negro ou SS (Schwarze Sonne). Na maçonaria, o Grande Arquiteto do Universo é a outra referência ao ordenador oculto. Blavatsky é a principal fonte, ela lista algumas referências do Sol Central em outras culturas:

“o Caos dos antigos; o sagrado fogo de zoroastrino, ou o Âtas-Behrâm dos pârsîs; o fogo de Hermes; o fogo de Elmes dos antigos alemães; o relâmpago de Cibele; a tocha ardente de Apolo; a chama sobre o altar de Pan; o fogo inextinguível do templo de Acrópolis, e de Vesta; a chama ígnea do elmo de Plutão; as chispas brilhantes sobre os capacetes dos Dióscuros. Sobre a cabeça de Górgona, o elmo de Palas, e o caduceu de Mercúrio; o Ptah egípcio, ou Râ; o ZeusKataibates (o que desce); as línguas de fogo pentecostais; a sarça ardente de Moisés; a coluna de fogo do Êxodo, e a “lâmpada ardente” de Abraão; o fogo eterno do “poço sem fundo”; os vapores do oráculo de Delfos; a luz sideral dos Rosacruzes; o ÂKÂSA dos adeptos hindus; a luz astral de Éliphas Lévi; a aura nervosa e o fluido dos magnetizadores; o od de Raichenbach; o globo ígneo, ou o gato-meteoro de Babenet; o Psicode e a força extênica de Thury; a força psíquica de Sergeant E. W. e do St. Crookes; o magnetismo atmosférico de alguns naturalistas; galvanismo; e finalmente, eletricidade (…).”

Na FRA (Fraternitas Rosicruciana Antiqua) o Mestre Huiracocha também faz referência a uma fonte espiritual, que está por detrás do Sol: (…) “Cristo é a Luz do Sol. Não a física, mas apenas a espiritual, que está por detrás dela”. O Mestre Huiracocha identifica nosso Sol como um mediador, um caminho para o Sol Central. Ele explica que essa manifestação da luz é uma substância ou partícula emanada pelo Sol. Na qual o Sacerdote Gnóstico pode invocar o nome do Cristo e fazer que essa substância cristônica penetre no ritual da Eucaristia. A luz é uma substância ou matéria que provém do Sol e penetra em todas as coisas. Ele escreve em “Igreja Gnóstica” que:

“O Sol, por sua vez, depende de outro Sol Central. Ele por si mesmo, não é mais que um mediador que nos cria, nos faz evoluir constantemente e nos redime pela ação imperativa do Crestos Solar. Este Crestos, não é Maya, não é ilusão, nem sequer um símbolo. É algo de prático, real e evidente e tal como o Logos, tem a sua ressonância, o seu ritmo e o seu tom. Platão disse, que o Logos soa, e afirmou que o Sol tem o seu ritmo. Deste modo, o Crestos Cósmico, tem positividade efetiva e é uma substância, uma força, uma consciência atuante. A Matéria é, por essa ação, Luz materializada”.

Vemos nisso, como as emanações do Sol Central podem implicar perturbações no éter de nosso planeta. Influenciando a vida na Terra.

Kenneth Grant, no seu livro “O Renascer da Magia”, diz que de acordo com a tradição hermética nosso sol é apenas um reflexo do Sol maior: Sothis ou Sírius. O sol do nosso sistema solar, portanto, tem uma relação de filho (Hórus) com essa estrela. Relação que vem desde o Egito Antigo. Kenneth Grant interpreta à luz da Lei da Thelema que “a Estrela reside no poder mágico da essência geradora feminina, pois Canicula (Constelação do Cão Maior) é Sothis, que também é a alma de Ísis”.

Robert Temple em seu livro “O Mistério de Sírius” demonstra que os egípcios relacionavam Sírius com Ísis. Essa correspondência é largamente comprovada por diversos estudos. Na publicação da Royal Astronomical Society, o estudioso Chapman-Rietschi em seu artigo, “The Colour of Sirius in Ancient Times”, escreve que os primeiros egípcios relacionam o nascimento heliacal de Sopdet (Sírius) com o nascimento de Ísis. O nascer helíaco de Sopdet foi observado no Egito com a finalidade de estabelecer o calendário lunar.

Na Thelema, ao adorar ritualisticamente Nuit, seria também uma adoração a estrela Sírius. Remetendo ao simbolismo do Aeon de Ísis, na qual antecede aos Aeon de Osíris. Sírius se levanta quando o Sol se deita no ocaso. O poder por trás do Sol, conclui Kenneth Grant, é Sírius.

Concluímos, então, que o Mestre Huiracocha ao aceitar a Lei da Thelema na FRA estabeleceu uma ponte mágica entre esses dois Aeons: na Missa Gnóstica, invocando o Logos Solar; e nos rituais rosa-cruzes, o Sol Oculto de Sírius, o revelador de Nuit. Um aspecto Solar e outro Estelar: Sol e Sírius; Masculino e Feminino. Unindo as dualidades da nossa vida.

#FRA #rosacrucianismo #Rosacruz

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-fra-e-o-sol-central